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Transição do amor no Cântico dos cânticos: dodim (amor inseguro, procura indeterminada, pelo

próprio interesse), ahaba (Quando encontra o bem amado, já procura ele por ele mesmo,
pensando no seu bem. Daria foneticamente no grego "agapa", de agape, como foi traduzido). A
monogamia está associada a ideia de um Deus monoteísta. Por isso o AT usa "adultério" para
idolatria.
O latino caritas não é sinônimo de amor: aos deuses, aos pais, à pátria, aos sábios se
professava caritas, porque é um afeto nobre; ao esposo, aos filhos, aos irmãos e
familiares se tinha amor, porque implica certa sensualidade. Por isso, tanto os gregos
como os latinos possuíam um termo para o, chamemo-lo assim, amor vertical (......,
dilectio, caritas) e outro para o amor horizontal (......., amare).
Conceito correto de Pessoa de Boecio: substância individual de natureza racional.
Personalismo é um equívoco metafísico, é liberal e niilista.
Canon 1013: Código Pio-Beneditino: fim primário do matrimônio é procriação e
educação da prole. Fim secundário: mútuo auxílio e remédio para a concupiscência.
Os personalistas, por exemplo, revoltados contra isso. Berdiaev diz q essa doutrina
remonta a De bono conjugali de Agostinho, texto q lembra, para Berdiaev, criação de
gado. Imputa falsamente a Agostinho uma doutrina maniqueísta.
A sexolatria atua apresenta o instintivo como algo espiritual
O mais alto se sustenta sobre o mais baixo, diz a Imitação de Cristo (influenciada pela
Devotio Moderna)
Hoje se reduz amor ao passional. Quando acaba um relacionamento as pessoas vão
expor razões concretas. É a soma de dois egoísmos.
Os romantismo é uma prolongação do racionalismo, pois o Iluminismo chega ao
paroxismo em autores como Rousseau. Preparada por d Renacimiento y la Reforma
protestante, precedida por el deísmo, el filosofismo y el enciclopedismo, la actitud
romántica se funda sobre la creenda
en la bondad natural dd hombre.
"Sentir como o ser sagrado se estremece no ser querido" (Victor Hugo, sobre a
experiência do amor)
Paixão é um ato afetivo, um movimento da alma, do apetite sensitivo (sempre ligado a
órgãos corporais), pela imaginação de um bem e do mal, uma imagem que afeta a minha
estrutura psicológica.

Divisão do apetite sensitivo – a sede das paixões – em duas potências: a potência


concupiscível e a irascível, que geram as diversas paixões de acordo com os atos e os
objetos próprios dessas potências (= o agradável e o doloroso). a potência concupiscível
gera as paixões que se referem ao bem ou ao mal em absoluto (considerados
simplesmente como tais) e a potência irascível gera outras que se referem ao bem
enquanto difícil de se alcançar ou ao mal enquanto difícil de se evitar. a direção do
movimento em relação ao objeto, ou seja, movimento de atração pelo bem ou de repulsa
do mal; deste modo temos uma oposição entre os dois termos, o que é característico
para as paixões da potência concupiscível. no que se refere à potência irascível, o objeto
traz consigo, além desta oposição entre o bem e o mal, uma outra oposição, que é a de
aproximação e distanciamento; por isso as paixões da irascível têm a característica da
dificuldade ou do esforço que o objeto suscita. os objetos aos quais se referem as
paixões podem ser considerados enquanto presentes (por exemplo, um bem já
alcançado, um mal já sofrido) ou ausentes (um bem alcançável ou não, um mal vencível
ou não, ou seja, um bem ou um mal futuro). as diferenças acidentais entre as paixões,
devidas às diferenças materiais no objeto mesmo ou a uma maior ou menor intensidade
no momento em que se dá a paixão.

As paixões são, portanto, operações do apetite sensitivo. O apetite sensitivo, diz


Tomás de Aquino, é uma inclinação conseqüente a uma apreensão sensível, assim como
o apetite natural é uma inclinação conseqüente à forma natural. Nele, porém, podem ser
distinguidas duas potências, o apetite concupiscível e o apetite irascível. Esta distinção
surge porque nos seres naturais que são passíveis de corrupção não é suficiente haver
apenas uma inclinação para a obtenção do que é conveniente e a fuga do que é nocivo,
mas deve haver também uma inclinação para resistir ao que é capaz de corromper a
coisa ou causar-lhe danos. Temos assim o apetite sensível que é uma inclinação que se
segue à apreensão sensível simplesmente considerada, segundo a qual o apreendente se
inclina à busca do que lhe é conveniente segundo o sentido e à fuga do que lhe é nocivo
segundo o sentido: este é o apetite concupiscível. Há também, porém, outro apetite que
é uma inclinação pela qual o animal resiste aos que tentam matá-lo ou lesá-lo: este é o
apetite irascível (25).

I. as paixões da faculdade concupiscível: elas têm como objeto o bem ou o mal tomados
em absoluto (ou simpliciter); o bem, como de fácil consecução e o mal como não árduo:
1. quanto ao bem:
a) amor (também chamado amor inicial): quando se dá a apreensão de um bem
presente; temos então um movimento de inclinação (conatural) da concupiscível àquele
bem;
b) desejo: o movimento voltado a um bem enquanto futuro;
c) alegria ou gáudio: a fruição do bem presente, ou seja a sua posse;
2. quanto ao mal:
a) ódio: quando se dá a apreensão de um mal presente; temos então um movimento de
repulsa (conatural) da concupiscível diante desse mal;
b) fuga: o movimento de distanciamento de um mal futuro;
c) tristeza: quando o mal (presente) já se encontra no sujeito;

II. as paixões da faculdade irascível: elas têm como objeto o bem ou o mal tomados
como árduos: o bem como de difícil consecução e o mal como difícil de repelir:
1. quanto ao bem:
a) esperança: quando o bem ausente (futuro) é de possível alcance;
b) desespero: quando o bem ausente (futuro) é impossível de ser alcançado;
2. quanto ao mal:
a) audácia: quando o mal ausente (futuro) se demonstra superável;
b) temor: quando o mal ausente (futuro) se demonstra insuperável;
c) ira: quando o sujeito já sofreu o mal (árduo).
Paixões: diferencia esencial de contenido de un mismo término, según se refiera a uma
afección pasional o emotiva, o a una afección volitiva o sentimental. A cada pasión
específica (amor, deseo, gozo, tristeza; esperança , odio, aversión, desesperanza,
temor, audacia, ira - otras muchas que son matizaciones accidentales de las anteriores:
placer, dolor, delectación, voluptuosidad, libídine, alegría, exultación, hilaridad,
jocundidad, amistad, celo, admiración, confianza, desconfianza, presunción, acidia,
dejadez, temeridad, turbación, inquietud, tedio, rencor, furor, afasia, misericordia,
envidia, indignación, vergüenza, sonrojo, horror, estupor, agonía2.) corresponde una
afección volitiva del mismo nombre, si bien a veces se matiza con otros términos más
específicos del psiquismo superior; v.gr., benevolencia o caridad en vez de amor,
intención en vez de deseo, etc.

As paixões, como movimentos do apetite irracional, são indiferentes moralmente.


Somente quando submissas ao influxo da razão e da vontade é que são sujeitos do bem
e do mal e a partir de então passam a ter uma relevância moral. Las pasiones del alma
pueden considerarse de dos maneras: una, en sí mismas; otra, en cuanto están sometidas
al imperio de la razón y de la voluntad. Si, pues, se consideran en sí mismas, es decir, en
cuanto son movimientos del apetito irracional, de este modo no hay en ellas bien o mal
moral, que depende de la razón, como se ha dicho anteriormente (q.18 a.5). Mas si se
consideran en cuanto están sometidas al imperio de la razón y de La voluntad, entonces
se da en ellas el bien o el mal moral, pues el apetito sensitivo se halla más próximo a la
misma razón y a la voluntad que los miembros exteriores, cuyos movimientos y actos,
sin embargo, son buenos o malos moralmente, en cuanto son voluntarios. Por
consiguiente,
con mucha mayor razón, también las mismas pasiones, en cuanto voluntarias, pueden
decirse buenas o malas
moralmente. Y se dicen voluntarias o porque son imperadas por la voluntad, o porque
no son impedidas por ella. (q. 24, a.1, sol)

Por lo cual es evidente que la razón de pasión se halla más propiamente en el acto del
apetito sensitivo que del intelectivo (La voluntad)
el objeto de La potencia concupiscible es el bien o el mal sensible tomado
absolutamente, que es lo deleitable o lo doloroso. Pero como es necesario que el alma
experimente a veces dificultad o lucha en conseguir tal bien o en evitar tal mal, por
cuanto ello supera en algún modo el fácil ejercicio de la potencia del animal, por eso el
mismo bien o mal, en cuanto tiene razón de arduo o difícil, es objeto del irascible.
Luego cualesquiera pasiones que miran absolutamente al bien o al mal pertenecen al
concupiscible, como son el gozo, la tristeza, el amor, y otras
semejantes. En cambio, cualesquiera pasiones que miran al bien o al mal bajo La razón
de arduo, en cuanto difícil de obtener o de evitar, pertenecen al irascible, como la
audacia, el temor, la esperanza y similares. (Q. 23, a. 1, resposta). El bien y el mal son el
objeto del concupiscible. Mas el bien es naturalmente antes que el mal,
porque el mal es privación.
Em Cristo as paixões são consequentes, enquanto que em nós elas são tanto
consequentes quanto antecedentes.

O amor é “princípio do movimento tendente para o fim amado” (I-II, q. 26, art. 1, sol).
´querer bem a alguém. “É a “afirmação afetiva ou comprazida [transigida, que realiza o
desejo do próximo] que um ser humano faz da existência de outro [do amado]” (JCC).
“amor, que não é senão a complacência no apetível, da qual resulta o movimento para
este, que é o desejo; e por último vem o repouso, que se chama alegria” (I-II, q.26, art.2,
sol). Agustín en XIV De civ. Dei7 que todas las pasiones son causadas por el amor, pues
el amor, ansiando poseer el objeto amado, es el deseo; mas poseyéndolo y disfrutando
de él es la alegría.

A determinação do amor como resposta da intimidade sublinha o sentido do realismo


clássico em contraposição ao idealismo moderno. O suposto ontológico do amor é a
realidade do outro. Se o sujeito amante fosse pura liberdade de criar ou fingir a
consistência do outro, careceria de sentido o amor como êxtase da intimidade.

Efeitos do amor: 1) união (amor é virtude unitiva). Dupla forma de união: real –
quando o amado está presente no amante – e afetiva (sem a qual n há amor). “sendo o
amor de duas espécies ― o de concupiscência e o de amizade, um e outro procede de
uma certa apreensão de unidade entre o amado e o amante”;
2) Mútua inerência: interpenetração, o amado está presente no amante. “no amor de
amizade, o amante está no amado, porque reputa como seus os bens e os males do
amigo, e como sua a vontade do amigo, de modo que se considere como afetado dos
mesmos bens e dos mesmos males que afetam o amigo. E por isso é próprio dos amigos
quererem as mesmas coisas, alegrarem-se e entristecerem-se com elas”
3) Êxtase. “O êxtase não é uma simples morte dos sentidos, mas uma vida mais intensa
no bem” (JCC). Saída das faculdades superiores do homem — inteligência e vontade —
para uma realidade boa extra-subjetiva. O Aquinate fala como teólogo ao dizer que há
êxtase quando “alguém é elevado pelo espírito divino a uma esfera sobrenatural, não se
misturando nisso os sentidos.
4) Zelo: provém da intensidade do amor. Ora, sendo o amor um certo movimento para o
amado com diz Agostinho, o amor intenso procura excluir tudo o a que repugna.
5) Ferida (S. Ambrósio também fala dessa “doce ferida” em De Virginitate): certa
vulnerabilidade, “o congelamento ou dureza do coração é disposição repugnante ao
amor”: (“Ni contigo ni sin ti/,
tienen mis males remédios/ contigo porque me matas /sin ti porque yo me muero”,
Emílio José).
Amor de concupisc; amor (chamado pelos medievais) de amizade ou benevolência (o
amor philia).

Tomás estuda n só as paixões, mas Tb as virtudes. E entre essas, a mais perfeita, a mais
sublime em ordem ao amor é a caridade (“amizade do homem para com Deus” (IIa -
IIae, q. 23, a. 1)).
Deus é a fonte do amor, e devemos amar as coisas por Ele. “Amo-te porque Deus está
em ti ou para que Deus esteja em ti” (Agostinho)

Tomás diz que as coisas são amáveis na medida em que têm ser. Quanto mais ser,
mais amáveis serão. Meu ser é metafisicamente mais digno que o de um cão, eu posso
atualizar várias potências que um cão não pode. Ora, Deus é o próprio ser subsistente,
logo...

“A causa de todos os nossos bens é o Senhor e o amor divino. Amar, propriamente, é


querer o bem a alguém. Portanto, por ser a vontade de Deus causa das coisas, e porque
Ele nos ama, sobrevêm-nos o bem.
O amor de Deus é causa do bem da natureza. Também o é do bem da graça: “Eu
amei-te com amor eterno; por isso te atrai” (Jr 31), isto é, pela graça.
Mas, que seja também o que dá o bem da graça, resulta de grande caridade.
Demonstra-se aqui ser máxima esta caridade de Deus, por quatro motivos:

1. Pela pessoa que ama, pois é Deus quem ama e o faz imensamente. Por isso
diz: Porque Deus amou.
2. Pela condição de quem é amado, pois é ao homem que se ama, mundano, carnal,
isto é, vivendo em pecado. “sendo nós inimigos, fomos reconciliados com Deus
pela morte de seu filho” (Rom 5, 10). Por isso diz: mundo.
3. Pela grandeza do dom, pois o amor prova-se pelo que se dá. Como diz Gregório,
a prova do amor é a revelação da obra. Ora, de Deus recebemos o maior dos
dons, pois deu seu filho Unigênito.
Seu filho, isto é, natural, consubstancial a si, não adotivo. Unigênito, para
demonstrar que Deus não dirigiu seu divino amor a múltiplos filhos, mas dirigiu-
o todo ao Filho que nos deu como prova de seu imenso amor.

4. Pela grandeza do fruto, pois por ele temos a vida eterna. Por isso diz: Para que
todo o que crê nele, não pereça, mas tenha a vida eterna, que conquistou para
nós morrendo na cruz.
Diz-se de alguém que pereceu porque foi impedido de alcançar o fim ao qual
estava ordenado. O homem está ordenado a vida eterna e, quando peca, desvia-
se deste mesmo fim. Enquanto vive, não perece de todo, pois pode restaurar;
quando morre em pecado, então perece de todo.

Com estas palavras, “tenha a vida eterna”, verifica-se a imensidão do amor


divino; pois, ao dar a vida eterna, da-se a si mesmo. Ora, a vida eterna nada mais
é do que o gozo de Deus. Dar-se a si mesmo é indício de grande amor.

(In Joan. 3)”

Três coisas são necessárias à salvação do homem, a saber:

 a ciência do que se há de crer,


 a ciência do que se há de desejar,
 e a ciência do que se há de operar.

A primeira nos é ensinada no Credo, onde nos é ensinada a ciência dos


artigos da fé. A segunda, no Pai Nosso. A terceira na Lei.
Sobre a ciência do que se há de operar, para tratar da qual encontramos
quatro leis:
1. lei da natureza (a luz da inteligência, pela qual conhecemos o que
devemos fazer e o que devemos operar)
2. lei da concupiscência (semeada pelo demônio sobre a natureza)
3. lei da Escritura, ou do temor (lei da Nat estava destruída pela lei da
conc, a lei da Escritura vem para restituir a obra da virtude e afastar
os vícios no homem
4. lei evangélica, ou do amor (a lei dada por Moisés afastava do mal
pelo temor, mas era insuficiente. Fazia servos, enquanto a lei do
amor nos faz livres; introduz não nos bens temporais, como a
primeira, mas nos celestiais; a primeira é pesada, enquanto a
segunda é leve.

4 efeitos da caridade:

1. A vida espiritual (Deus está presente naquele que ama, divinização,


transformação do amante no amado)
2. Observância dos Mandamentos (“O amor de Deus nunca é ocioso”, S.
Gregório)
3. Refúgio contra adversidades (nada lhe causa dano, tudo se faz útil)
4. Conduz à eterna Bem-aventurança (beatitude, felicidade)

Fim último do homem “é a beatitude perfeita (ou felicidade) que consiste na visão de
Deus (..) Atinge-se a visão divina pela imutabilidade da inteligência [fim das
inquirições] e da vontade [como está na posse do Sumo Bem, nada mais deseja]”
(Compêndio de Teologia, 165)

Entre os clássicos castelhanos — assim como em Santo Tomás e São Boaventura — era
freqüente designar como “íntimas” aquelas entidades que, por estarem no vértice dos
graus do ser, afetam profundamente com sua presença ou ação outros seres. Por
exemplo: Deus nas criaturas, o ser no ente, e o espírito na psique humana. Com respeito
ao primeiro, expressa-se assim Fray Luis de León: “Escusada coisa foi dar-lhe a Deus
nome, o qual está tão presente a todas as coisas, e tão lançado, como diríamos, em suas
entranhas, e tão infundido e tão íntimo como está seu ser delas mesmas” (De los
nombres de Cristo. De los nomes en general, 28.43. Para estas e outras citações de
autoridades, cf. R. J. Cuervo, Diccionario de construcción y régimen de la lengua
castellana, T. V, 731-734). Com respeito ao segundo, diz o Padre Granada: “E, porque
o ser das coisas é o mais íntimo que há nelas, segue-se que ele está mais dentro delas do
que elas estão dentro de si mesmas” (Orac. y Consider., 2. 2. § 3). (JCC)
Amor e bem se implicam mutuamente. Onde há uma classe de bens, há uma classe de
amor.
A primeira paixão, a principal e base para as demais, é o amor, “porque todas as
paixões da alma implicam movimento ou repouso relativamente a algum objeto”.

Intuição TC: teologia e antropologia se alimentam mutuamente. “O corpo, de fato, e só


ele, é capaz de tornar visível o que é invisível: o espiritual e o divino” (JPII, cat 19, 4.
20 fevereiro de 1980; “Pelo fato de o Verbo de Deus se ter feito carne, o corpo entrou,
eu diria, pela porta principal na teologia”. (cat 23, 4. 2 de abril de 80) O corpo fala sobre
realidades espirituais. Caro salutis est cardo)

Solidão originária (Gn 2, 18-23. Não é ruim, não é mera carência afetiva, mas um
“reconhecimento antropológico” de que minha alma possui caráter relacional e só pode
se saciar em Deus, um modo de saltar para o amor. O homem sentiu-se só mesmo
depois dos animais)

Gn 2,21: sono no hebraico (Tardemåh, sono profundo) = êxtase (“pôr pra fora”, sair de
si, que pode significar sono, mas também que o homem sai na direção de). «Torpor»
(tardemah) é o termo que aparece na Sagrada Escritura, quando durante o sono ou
diretamente depois dele hão-de dar-se acontecimentos extraordinários (cfr. Gén. 15, 12;
1 Sam. 26, 12; Is. 29, 10; Job 4, 13; 33, 15). Os Setenta traduzem tardemah por ekstasis
(êxtase).

Gn 1, 27: Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de


Deus, criou o homem e a mulher. (Relacionalidade essencial, personalismo)

Homo amans

Tomás: quatro significados análogos para o termo “paixão”: 1. no sentido ontológico:


paixão é a propriedade de uma coisa, por exemplo, como quando dizemos que os
transcendentais (unum, verum, bonum et pulchrum) são propriedades do ente (=
passiones entis) 5 ; 2. no sentido lógico (num sentido mais restrito): paixão é um dos
dez predicamentos, oposto ao da ação (como o ser queimado é o oposto de queimar)6 ;
3. ainda no sentido lógico: paixão é a terceira espécie do predicamento da qualidade
(passio et patibilis qualitas)7 , ou seja, a qualidade segundo a qual se realiza a alteração;
4. no sentido psicológico: as paixões são as formas especiais do predicamento chamado
“passio”, que se opõe à “actio”; nesta acepção elas são as modificações psicossomáticas
do apetite sensitivo sob o influxo do conhecimento sensível de um objeto; estas são
propriamente as paixões da alma. (f. I q.20 a.1 ad 1)

“Quando pois está presente e possuído este [o amado], causa o prazer ou fruição. ―
Quando ausente, causa duas paixões: uma, a tristeza pela ausência, manifestada
pelo langor, sendo, por isso, que Túlio5 dá principalmente à tristeza o nome de
ansiedade; outra, o desejo intenso de possuir o amado, manifestado pelo fervor”.

Há em nós potências sensitivas motoras, vegetativas (circulação sanguínea, aparelho


digestivo, etc.), “locutiva”, as principais e superiores da alma, que são inteligência
(potência imaterial pela qual podemos descobrir a essência de todos os entes, tem como
objeto formal a verdade. Ao expandir-se, depara naturalmente com a verdade. Mentir é
restringir esse movimento natural da Intelig, a mentira é contrária à natureza da intelig)
e vontade (tem como objeto formal o bem, ou seja, o objetivo dos atos da vontade é o
bem, quer o ser como bem. Toda vez que a vontade quer algo, o quer na forma
intelectiva de um bem. Um estuprador pratica um ato mau, mas o que o move é a
forma intelectiva de um bem – que, nesse caso, é só um bem aparente. É uma potência
que governa as demais potências da alma, embora segundo seus modos). O verdadeiro
amor é o êxtase da alma do amante na direção da pessoa amada sempre realizado por
essas duas potências. (Para amar, portanto, é preciso maturidade – n especificamente
cronológica). Nenhuma das duas pode ser coagida nos seus atos próprios: vontade, por
ex, é algo que não pode ser invadido: o torturador pode me fazer dizer algo, mas não
pode me forçar a querer algo.
O amor não é um sentimento, mas o sentimento que o amor verdadeiro traz consigo –
laetitia: alegria – é o efeito psicológico conseguinte à posse do bem-querer. A felicidade
é a posse habitual do bem. O verdadeiro amor, segundo Tomás, está unido à virtude (e
à verdade), não a mera adição de instantes gozosos (isso é uma felicidade apenas
psicológica). O tal estuprador, nesse sentido, não é feliz de fato (a inteligência percebe
que esse gozo específico agride a ordem natural ou espiritual). Claro que o gozo, seja
físico, seja espiritual, traz consigo deleite psicológico.

S. Francisco de Sales (Tratado do Amor de Deus, cap IV): “O amor, que é a primeira
complacência [disposição de agradar o outro] que sentimos pelo bem, como adiante
diremos, precede o desejo, porque desejamos só o que amamos. Precede a deleitação,
pois quem poderia regozijar-se no gozo de uma coisa que não amasse ? Precede a
esperança, porque só se espera o bem que se ama ; precede o ódio, porque não
aborrecemos o mal senão pelo amor que temos ao bem ; antes o mal não é mal senão
por ser oposto ao bem ; e acontece o mesmo, Teotimo, com todas as outras paixões ou
afectos, porque todos provêm do amor como da sua origem e da sua raiz. É por isso que
as paixões e afeições são boas ou más, viciosas ou virtuosas, conforme o amor donde
procedem é bom ou mau porque este derrama sobre elas por tal modo as suas
qualidades, que aparentam ser o próprio amor. Santo Agostinho reduziu a quatro todas
as paixões e afectos. ‘ O amor’ diz ele, que tende a possuir aquilo que ama, chama-se
desejo ; alcançando-o e possuindo-o, chama-se gozo: fugindo ao que lhe é oposto,
chama-se temor ; e, se este mal lhe sucede, e o sente, chama-se tristeza : e estas paixões
são más, se o amor é mau, boas, se ele é bom’.”

Ato é ser ou operar. Potência é a possib de ser ou de operar. Hábito é uma virtude
operativa, uma qualidade, uma instância intermediária, é o que vai me predispor a
atualizar certas potências mais perfeitamente. Vício é o hábito contrário à natureza do
ente em questão.

O amor cumpre o destino, ao mesmo tempo extático e unitivo, marcado em sua origem
etimológica. Para uns deriva de “semelhante”, pois os que se amam são semelhantes;
para outros provém de “desejar vivamente”: amar implica um querer intenso e ardente;
e para outros de “ligar, conectar”, pois o próprio do amor é juntar os amantes.

Os Quatro Amores Lewis: Afeto (amar os inamaveis, os q n tem atrativos), amizade,


Eros e caridade, os quais Lewis relaciona com duas ideias fundamentais, que
acompanham o leitor durante todo o livro: o amor necessidade (aconchego da mãe ou de
um amigo. Diz a uma mulher: eu n consigo viver sem ela), o amor doação (o
desinteressado, de Deus para conosco. Tudo perdoa, tudo suporta.. o amor humano só é
doação por proximidade e semelhança com Deus. Deseja proporcionar felicidade,
proteção e conforto e se possível riqueza para a mulher) e amor apreciação (q se
maravilha em existir, q prefere perder uma mulher do q jamais tê-la visto). Os três
primeiros são naturais. O último, a caridade, que é divina, deve constituir os outros três.

Distingue, pues, Santo Tomás, en el primer artículo de la cuestión


22 y lugares paralelos, tres modos de padecer (pati): a) Cualquier clase
de recepción, sin excluir nada del sujeto pasivo, y en este sentido padece el
sentido y la inteligencia, al recibir las imágenes o ideas; b) cualquier movimiento
de alteración con adquisición de una cualidad conveniente y pérdida
o exclusión de otra inconveniente, y en este sentido padece el enfermo al
curarse o el triste al alegrarse; c) cualquier movimiento de alteración con
adquisición de una cualidad nociva y pérdida de la opuesta conveniente, y
en este sentido padece el que enferma, o se entristece o es contrariado en
su inclinación natural. Este tercer sentido es el más propio de la pasión en
el uso que hace Santo Tomás del término.
Natureza livro 2 Física: princípio intrínseco de movimento e repouso dos entes
Corpo é união de matéria e forma
Não conhecemos as coisas por intuição direta, mas por um esforço.
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Diz-se que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, porque a alma
humana é espiritual e racional, livre na sua ação, capaz de conhecer e de amar a Deus, e
de gozá-Lo eternamente, perfeições que refletem em nós um raio da infinita grandeza de
Deus.
56) Em que estado criou Deus os nossos primeiros pais Adão e Eva?
Deus criou Adão e Eva no estado de inocência e de graça (santificante, dons
preternaturais)

Agostinho bens materiais e espirituais.


Graça vem tanto de gratuito como de gratidão. É vida sobrenatural da alma. É a vida
eterna começada, certo começo dessa vida em nós, e por isso já merece levar seu nome.
Como na ordem natural o germe contido na noz n pode se tornar carvalho se não for da
mesma natureza que a dele, como uma criança não se tornaria homem se n tivesse
dentro de si oculta a alma racional, o progresso espiritual não seria possível sem a graça.
É, diz S. Tomás (II-II, q. 24, a. 3), o gérmen (semem gloriae. Quem crer em mim terá
vida eterna) que, desenvolvido, se converte em vida eterna.

“De dois modos podemos dizer que uma obra é grande. – Quanto ao modo de agir e
então a maior obra é a da criação, em que o ser foi feito do nada. – Ou quanto à
grandeza da obra. E neste sentido maior obra é a justificação do ímpio, que termina pelo
bem eterno da participação divina, do que a criação do céu e da terra, que termina no
bem da natureza mutável. Por isso, Agostinho, depois de ter dito, que maior obra é
fazer do ímpio um justo, que criar o céu e a terra, acrescenta: O céu e a terra
passarão; porém a salvação e a justificação dos predestinados permanecerão” (S. Th.. 1-
2. q. 113, a. 9).

“A natureza é uma capacidade passiva, uma mera potentia oboedientialis à elevação ao


estado sobrenatural. E a graça é um dom absolutamente gratuito que ajuda a natureza a
agir bem” [S.Theo. I-II, q.110, a.4].

Quanto ao tema da graça, houve duas “épocas” em S. Tomás: o Comentário às


Sentenças de Pedro Lombardo (quando tinha 20 e poucos anos). Na obra, ele segue os
passos dos antecessores na Patrística e Escolástica. Ele divide o tratado da graça em
dois, distantes um do outro. Será preciso a Suma Teol, obra da última maturidade de S.
Tomás, pra que ele reúna as duas partes num só Tratado, e na primeira parte da
segunda (I-II) parte da Suma (questões 109 a 114).

Deus não nos dá só a graça sobrenatural (que se ordena à vida eterna). Os homens e as
coisas não são como marionetes: Deus nos tirou do nada, mas deu a cada coisa e aos
homens suas naturezas próprias. Natureza é “o resultado (a produção, o efeito) de
certa arte divina que é intrínseca às criaturas e que as faz mover-se por si mesmas
a seu fim”. O cão busca alimentação e reprodução. Os vegetais buscam o nutrir e o
crescer (animais e vegetais n buscam racionalmente, sabemo-lo). Então não somos
marionetes de Deus (isso é fundamental quando o assunto é pecado, pois Deus nos fez,
mas nós é que pecamos).

Mas dependemos de Deus em vários sentidos: Deus é nosso Criador: tirou-nos do nada
e deu-nos ser. E faz-nos continuar: se estalasse o dedo, tudo voltaria ao nada. E sustenta
nossas ações.

A finalidade de todas as coisas (desde as partículas subatômicas até os homens) é Deus.

Adão e Eva podiam saber perfeitamente que Deus é e que é o Criador, mas não podiam
saber sobre a beatitude eterna após que Deus os elevasse. A graça é aquilo que Deus
cria para fazer que o homem alcance a vida eterna (Adão e Eva foram sim
cumulados de graça abundantíssima, mas não é a graça para tanto). A inabitação
de Deus no homem se dá mediante a graça.

Hoje, precisamos não só da graça em ordem à vida eterna, como também da graça
sanante, curativa, para limpar as feridas decorrentes do pecado original, para reordenar
a natureza (não tão bem quanto em Adão e Eva, mas para nos realinhar a Deus, à
beatitude). Mas Deus também nos dá a graça habitual, que nos permite ser habitual
viver longe do pecado mortal. Faz-nos habitualmente não pecar mortalmente e até faz,
se for abundante, permitir pecar muitas vezes (pq é impossível não pecar jamais
venialmente, é uma sequela do pecado original) venialmente. Não é que tudo o que o
homem faça sem a graça seja pecado mortal, mas ele n pode passar muito tempo sem
ela sem pecar mortamente, pq a natureza é decaída. E há a graça da perseverança
final. Ou seja, Deus dá pela graça habitual, se quisermos, a graça de não pecar
mortalmente até o fim da vida. Se pecarmos, a culpa é nossa.

Graça justificante, santificante, e a graça da boa morte ou perseverança final

Lutero: pecador é justo e injusto, já que justificado exteriormente, mas está na morte
espiritual.

Sede perfeitos como o Pai (não como os anjos). A vida da graça não é só supra-humana,
mas também supra-angélica. Esta gracia, en efecto, no es, como algunos se figuran,
uma simple perfección accidental que, a semejanza de las virtudes infusas, se reciba
en nuestras potencias en orden a la operación; se recibe en la misma substancia del
alma (x Lutero), y es por tanto uma perfección substancial, o mejor dicho,
sobresubstancial, una segunda naturaleza que nos hace ser una nova creatura, y asi nos
transforma y nos diviniza”. (Arintero). Os que vivem a vida mística inconscientemente
são iniciantes, meros ascetas. O fim da coisa é a deificação ou teopoiésis, ponto capital
da vida cristã (Arintero).

Há dois tipos de graças: habitual ou santificante ou justificante ou sanante. Faz-nos


santos, nos diviniza e é infusa. Faz-nos participantes da natureza divina. Se infunde na
essência da alma que brota com potências sobrenaturais agindo sobre intelecto,
vontade, paixões com virtudes teologais e cardeais. Deus habita na alma. “É uma
qualidade infundida por Deus na alma pela qual o homem é adotado como filho de Deus
e se renova segundo o homem interior, fazendo-se partícipe da natureza divina, de sorte
que, renovando-se por meio do Espírito Santo, pode daí por diante viver bem e obedecer
os mandamentos de Deus” [S. Pio V, Denzinger, 1042]. Inteiramente gratuita [Trento
801]: Como uma criança dará algo a seu pai que já não tenha recebido dele?, diz Santa
Teresinha. A analogia de S. Tomás diz que meter a espada no fogo se faz fogo por
participação, sem perder sua essência – para n cairmos num panteísmo -, e isso de ser
fogo por participação se pode perder. Qualquer pecado mortal faz perder essa graça e n
só p pecado de infidelidade, diz Trento contra Lutero. É recuperada pelo sacramento da
penitência ou por contrição perfeita desejosa do sacramento. O da extrema-unção pode
também perdoar os pecados.
Que distingue a contrição perfeita da imperfeita, a chamada atrição, é que essa
última é o medo da perda do céu e temor do inferno. Ela basta para confessar-se, são
motivos sobrenaturais, implicam a fé. A perfeita é feita por amor a Deus, por caridade.”

E atual ou suficiente – tornada eficiente se a pessoa se converte -, inspiração que vem


para que eu evite o mal e faça o bem, é recebida até pelos que estão em pecado mortal,
para que se arrependam. Existe para todos. Não suprime o livre-arbítrio, e sim o
aperfeiçoa. É uma “ajuda sobrenatural de Deus pela qual o homem se faz apto para
operar segundo convém para obter a vida eterna. Não é um auxílio de Deus puramente
externo. Deus opera em nós, conosco e sem nós, porque nem tudo se faz só pela sola
gratia”. Ver Denzinger 141 Conc Efeso contra Nestorio. “A bondade de Deus para com
todos os homens, que quer que sejam méritos nossos o que são dons Seus”. “A graça
atual é absolutamente necessária à salvação, não se nos dá operarmos mais facilmente,
senão para poder operar sobrenaturalmente, ainda que não seja necessária para realizar
uma obra naturalmente boa” (Clemente XI, 1352, contra os jansenistas, que diziam,
entre outras coisas, que se pecamos mortalmente, toda obra feita por nós é má. Não.
Um pagão pode fazer uma obra de justiça, de prudência, etc. Essas obras não
valem para a salvação eterna, pela distância infinita que há entre a ordem da graça e a
da natureza. Ou seja, ele faz obras boas, mas não meritórias. Ou seja, não basta
ensinarmos só “valores” aos cidadãos. E isto é até contraditório, pois a natureza nos
diz para servir a Deus. O sofrimento de Gestas foi sem proveito espiritual. Ver Denz
832.

Há muitas classes de graças atuais, umas que iluminam o entendimento, outras movem a
vontade. Há graças excitantes, que impulsionam a praticar obras, outras cooperantes,
que ajudam enquanto se pratica algo, graças antecedentes, concomitantes e
subsequentes, que antecedem, acompanham ou seguem outra graça atual anterior.
Graças incipientes, que começam, e perficientes, que terminam. Previdentes, que
preparam o pecador para o arrependimento, e operantes, que fazem com que se
arrependa de fato. Elevantes, para levantar-se da culpa, medicinais, que sanam a alma
enferma. Externas, como uma boa leitura e um bom sermão, e internas, como a
inspiração do Espirito Santo. Suficientes, eficazes...).

Não podemos merecer nem a primeira graça da vida nem a última (predestinação. Diz o
Catecismo Maior, 275, que a oração pode alcançar-nos essa graça da persev final. Ou
seja, n podemos merecer, mas pedir). “Roga por nós agora (graça atual) e na hora de
nossa morte (da perseverança final)”. “Que alguns se salvem, é dom do que salva. Mas
que alguns se percam, é merecimento dos que se perdem” (Dz 318). Cristo morreu por
todos os homens (x jansenismo), não só pelos predestinados ou pelos fiéis, ainda que
nem todos recebam o fruto da redenção” (definições pós-tridentinas de Inocêncio X, Dz
1096, Clemente XI, 1382, Alexandre VIII 1294). Deus quer, por vontade antecedente
(graça suficiente), que todos se salvem. Pela vontade consequente (graça eficaz), quer
eficazmente salvar os eleitos. Atenção: Deus não quer igualmente a salvação de todos
os homens (x semipelagianismo. Este dizia também que o homem pode ter um começo
de fé e de boa vontade sem a graça, bem como perseverar até a morte sem ela. E diziam
ainda que a predestinação e a reprovação seguem a escolha humana, seja boa ou má.
Deus seria não o autor, mas apenas o espectador daquilo que distingue os eleitos de
outros homens. Foi condenado no II Sínodo de Orange, em 526).

O Concílio de Orange (França, 529 d.C., convocado contra os pelagianos. O


pelagianismo foi condenado a primeira vez nos Conc de Cartago e Mileto em 416)
definiu muitas coisas acerca da graça. Denzinger 179-80. O Segundo Concílio de
Orange (Dz 182) também se põe contra pelag e semipel)

Graça eficaz não violenta nossa liberdade (Trento, sess. 6, Canon 4 – Denzinger 814.
Cf. 797, 1094)

“Deus predestinou positivamente todas as boas obras, mas de nenhuma maneira as


más” (Trento, 816; ver Dz 321). “A predestinação é a presciência e a preparação dos
benefícios de Deus pelos quais são certíssimamente salvos todos os que são salvos” (S.
Agostinho, De dono perseverantiae, c. XIV).

Corresponder à graça nos dá mérito para conseguir nova graça.

S. Francisco chorou na carroça dois prisioneiros min. 31 nougué graça

S. Domingos se flagelava três vezes por noite em reparação de seus próprios pecados e
dos que pecadores que ele evangelizaria no outro dia; S. Vicente de Paulo aceita sofrer
para libertar um teólogo de suas dúvidas e das dele próprio. S. Vicente, que, por quatro
anos, tem tentações contra a fé.

Sofrer uma forte dor de cabeça durante três ou quatro horas pelos outros tem mais
mérito do que um grande sofrimento vivido por si mesmo.

Denzinger 904: Deus não pede o impossível (às vezes difícil, mas não impossível).

O voluntarismo: a santidade alcança-se não exatamente segundo a graça que dê Deus,


mas grandemente segundo o esforço próprio. Tem algo de semipelagianismo. (Ockham:
se Deus nos mandasse matar o próximo, isso seria um ato bom. Errado, pois Deus não
poderia mandar-nos cometer pecados contra Sua mesma natureza e, por conseguinte,
contra a nossa)

A "devotio moderna" -- que começa no século XIV -- é resultante da condenação por D.


Étienne Tempier da doutrina de Santo Tomás, e da consequente decadência da
Escolástica. Observação 3: a espiritualidade tradicional, por seu lado, tem as seguintes
três notas contrapostas às três da "devotio moderna": 1) O intelectual e o científico ou
teológico têm precedência sobre o volitivo, sobre a vontade. 2) Conquanto devamos
sempre cooperar com a graça segundo nosso livre-arbítrio, o grau de santidade
corresponde antes ao grau da graça recebida. E, como dizia São Paulo, as graças são
dadas desigualmente, segundo o desígnio libérrimo e sapientíssimo de Deus. 3) A
apostolicidade, que decorre do mandato de Cristo e da caridade. Por isso tantos santos
deram sua vida, por exemplo, para resgatar escravos, para ajudar a leprosos, etc. Aliás,
Nossa Senhora mandou-nos rezar: "Levai as almas todas para o céu". Observação final:
o Magistério nunca se posicionou quanto à "devotio moderna" em si, conquanto se
tenha posicionado firmemente, sim, contra as heresias que brotaram de algum modo
dela.

É de início e antes de tudo é a santidade da pessoa e as virtudes heróicas que fazem par
com a santidade. Os fatos miraculosos são secundários e ocasionais para atestar a
heroicidade sobrenatural de suas virtudes. O sobrenatural dos milagres e dos fatos
extraordinários não é evocado por si mesmo, mas somente para atestar a origem divina
das virtudes e manifestar a eminente graça santificante

A santidade consiste na graça santificante possuída a um grau extraordinário, um tal


grau de caridade divina que é acompanhada de virtudes infusas e adquiridas praticadas
até o heroísmo. Esse heroísmo das virtudes é como o termômetro da santidade: lá onde
tem santidade verdadeira, tem também virtude heróica, e lá onde as virtudes são
praticadas num grau heróico e onde nenhuma virtude faz falta, há santidade. Não sendo
a graça apreendida pelos sentidos, o julgamento sobre a santidade se fará a partir da
heroicidade das virtudes . Há então dois motivos que explicam porque a santidade – e,
logo, a canonização que a dá como exemplo – é coisa rara: há, de uma parte a
transcendência absoluta da graça em relação à natureza, e há, por outro lado, a
corrupção do pecado original. Acrescentamos um terceiro motivo. A santidade que é
reconhecida pela canonização toma o valor de um exemplo; ora o que é dado como
exemplo deve atrair a atenção e para isso apresentar alguma coisa de singular, de
extraordinário no sentido etimológico. A linguagem corrente consagrou, aliás, essa
verdade assimilando os dois vocábulos exemplar e único. Por isso a multiplicação dos
santos leva a diminuir sua exemplaridade: mesmo se os santos fossem numerosos, um
pequeno número dentre eles e não a maior parte deve fazer o objeto de uma
canonização. A santidade, fundamento de toda canonização, é um estado extraordinário
de vida sobrenatural extraordinária, nesse sentido que está bem além da via comum.

Purgativa, iluminativa e unitiva

Deus faz tudo por amor Dele, não meu (x humanismo). Se o amássemos, entenderíamos
quão bom é. É para manifestar a Sua glória (Rm 9). Ver Haurietis Aquas Pio XII.

Pio XII critica na Humani Generis a indistinção entre natureza e graça, feita pela Nova
Teologia

Na introdução de sua Exposição sobre o Credo, diz Santo Tomás que quatro são os bens
que a fé produz:
 1º: Pela fé a alma se une a Deus;
 2º: Pela fé é iniciada em nós a vida eterna;
 3º: Pela fé passamos a orientar toda a nossa vida;
 4º: Pela fé vencem-se as tentações.
Sem a fé, portanto, não é possível a alma unir-se a Deus nesta vida, daí dizer Santo
Agostino que “onde não existe o conhecimento da verdade eterna e imutável, a virtude é
falsa até mesmo nas pessoas retas” (em De Fide et Symbolo). Referem-se os dois Santos
Doutores, obviamente, à fé sobrenatural infusa por Deus na alma, e não a uma crença
subjetiva em qualquer coisa acerca da natureza divina — ainda que acertada. É essa fé
sobrenatural que impele a alma a dizer “sim” às verdades reveladas na Sagrada
Escritura, aceitando-as integralmente e sem o mais ínfimo questionamento, pois Deus
assim as revelou, para que crêssemos e nos salvássemos.

A vida eterna começa, aqui e agora, pela fé, ainda que na forma de uma semente que
promete germinar esplendidamente. Como dizia uma estupenda máxima
latina, gratia, inchoatio gloriæ (a Graça é o começo da Glória). Sem a graça, portanto, é
impossível sequer termos uma pálida noção do que seja a verdadeira felicidade
preparada para nós por Deus, desde a eternidade.
Também é fato que a fé, depois de assumida pelo cristão, passa a ser a balizadora de
toda a sua vida. Essa orientação se dá no sentido de dizermos “não” a tudo o que, direta
ou indiretamente, nos afaste da fé e, portanto, de Deus. Todos os bens assumem, pela
fé, o seu real valor numa escala perfeita que culmina em Deus mesmo. E se muitas
vezes caímos na tentação de escolher bens menores em detrimento daqueles que Deus
quer que escolhamos, o fato de estarmos no horizonte da fé nos propicia a clara visão do
erro — e, portanto, a oportunidade de o corrigirmos pelo arrependimento, que é
precondição para o sacramento da Penitência.

Por fim, só a fé pode fazer-nos vencer as tentações que advêm da carne, do mundo e do
demônio, e que muitas vezes têm como instrumentos os nossos hábitos viciosos. Se
Aristóteles dizia que o homem, depois de depravar-se, cai num abismo do qual não há
saída, decerto é porque não conhecia a fé — cuja fonte sobrenatural nos possibilita a
emenda dos piores hábitos que tenhamos adquirido, seduzidos pelo gozo na
prosperidade ou atemorizados por adversidades que, sem a fé, não podem ser
aquilatadas em seu real valor. Ah, quantas vezes deixamos alguns medos tolos desviar
toda a nossa vida

Depois que entrou em cena a gnosiologia aristotélico-tomista, a Igreja pôde fazer uma
distinção precisa entre essas duas ordens complementares: a fé tem a sua fonte na
iluminação da graça divina (lumem gratiæ); a razão, unicamente na abstração da
inteligência (devida fundamentalmente à lumen rationis naturalis). Para o homem,
portanto, dá-se o desenvolvimento da fé em um único sentido: artigos que noutro tempo
eram cridos implicitamente (por estar contidos em outros, mas não de forma evidente)
chegam, mais tarde, a ser expressos de forma explícita.

Até Cícero, a quem Agostinho nunca deixou de amar, terá a noção de virtude corrigida e
aprofundada pelos pressupostos da teologia cristã que a filosofia pagã jamais poderia
vislumbrar: as virtudes morais, malgrado serem habitus naturæ como afirmava o
estoico romano, necessitam da graça para alcançar a excelência, razão pela qual Cícero
não poderia mesmo saber o que é feito para “liberar e santificar a natureza dos mortais e
fazê-la feliz”9. Em resumo, só por Cristo, com Cristo e em Cristo pode a virtude
humana, hábito da natureza, não se corromper neste mundo e lograr a vida feliz de que o
Sermão da Montanha é, ao mesmo tempo, anúncio e prenúncio.
Deus não se glorificou a si mesmo criando o homem (pq o homem nada é), mas criou o
homem para que este possa glorificá-Lo (não que Ele necessite desta glória, mas é nosso
dever de criaturas).

Quem peca mortalmente, perde o estado de graça e a caridade. Ele conserva a fé, mas
sem forma (fé informe), porque a forma da fé é a caridade.

A Igreja defende a liberdade contra o fatalismo: mais recentemente, em Trento e frente


ao Jansenismo. Liberdade é um dom natural. É a faculdade de escolher os meios aptos
para alcançar um fim.

Cristo vem restaurar e acrescentar a dignidade antiga da natureza, socorrendo a vontade


do homem, dando-lhe uma graça e abrindo-lhe a Eternidade.

A alma reconhece que os bens deste mundo não são absolutamente necessários, mas
contingentes, porque perecem. Inteligência e vontade são faculdades da alma, e, se a
alma é livre dos elementos mortais, a liberdade encontra nela sólido fundamento.

Se a liberdade/vontade é um apetite obediente à razão (tem, portanto, um bem conforme


a razão). Como a razão e a vontade são fac imperfeitas, podem escolher um objeto mal
que tenha aparência de bem. A adesão a um objeto mau é indício de livre-arbítrio assim
“como a enfermidade é sinal de vida”. Deus é sumamente livre, de modo que o defeito
da liberdade não é essencial a ela, ou Deus não seria livre, já que Ele não pode pecar ou
errar. A possibilidade de pecar não é liberdade, mas escravidão, dirá Sto Tomás.

Sem a lei, sem o norte do Bem, a liberdade (livre-arbítrio) seria prejudicial ao homem.
A lei existe para proteger a liberdade, ou seja, para que ela não se aparte da reta razão.
A lei se apoia na autoridade. É ela que encarna o prêmio e o castigo. A lei natural é a
principal de todas as leis (ela é lei eterna gravada nos corações, nos seres racionais). Os
animais não tem lei propriamente dita, mas instinto, necessidade.

Em auxílio da lei está a graça, que ilumina a inteligência e impulsiona a vontade até o
bem moral, assegurando a liberdade natural.

A beatitude (felicidade) eterna é ver a essência de Deus (que é impossível ver aqui na
terra - aqui, só pode haver um vislumbre, como S. Paulo ou Sto Tomás talvez tenham
tido). Adão e Eva n podiam chegar à beatitude eterna por si mesmos, pela natureza que,
embora (no caso deles) voltada a Deus, é incapaz de chegar à beatitude. É preciso a
graça. Pelo Pecado Original, perdemos a graça, ou seja, perdemos o meio para alcançar
a vida eterna. Agora, precisamos da graça n só para nos voltarmos para a vida eterna
como precisamoa da graça sanante para reordenar nossa natureza (n tão bem como a
natureza de Adão e Eva, claro, pois a concupiscência permanece) a Deus. Esta graça da
justificação é a graça santificante ou justificante (cujo meio ordinário de conseguir são
os sacramentos). A graça habitual é aquela que nos mantém longe do pecado. Há tb a
graça da perseverança final. Podemos merecer a graça? Sim: correspondermos à graça
nos dá méritos para buscar nova graça.
O Batismo e o Crisma infundem em nós o “sensus fidei”. O Crisma nos dá, além do
mais, uma graça toda especial para nos assistir na militância pública em defesa de
Cristo, da sua verdade e da Igreja

Há preceitos negativos (n roubar, n matar, n praticar atos impuros), que são


universalmente válidos - não admitem exceções. Mas há Tb os preceitos positivos (amar
a Deus, sacrificar-se, honrar os pais, etc), que, por sua natureza de aplicação segundo
um contexto, não são bem determinados como os negativos. Se os negativos obrigam
sempre, alguns positivos também obrigam. Diz JPII na Veritatis Splendor: Por outro
lado, o facto de que apenas os mandamentos negativos obrigam sempre e em qualquer
circunstância, não significa que na vida moral as proibições sejam mais importantes que
o compromisso de praticar o bem indicado pelos mandamentos positivos. O motivo é
sobretudo o seguinte: o mandamento do amor de Deus e do próximo não tem, na sua
dinâmica positiva, qualquer limite superior, mas possui limite inferior, abaixo do qual se
viola o mandamento. é sempre possível que o homem, por coacção ou por outras
circunstâncias, seja impedido de levar a cabo determinadas acções boas; porém, nunca
pode ser impedido de não fazer certas acções, sobretudo se ele está disposto a morrer
antes que fazer o mal. À teoria do mal menor nós devemos contrapor a do bem melhor.

Ilusões e confusões na vida espiritual

27/07/2017

Baseado no livro “Ejercicios anuales – para uso de sacerdotes, religiosos y seglares


selectos, Pe. Pedro Pallas, S.J., Editorial Sal Terrae, Santander, 1961, pp. 434-444″.

Enumeramos e comentamos aqui brevemente uma série de ilusões e confusões na vida


espiritual. Umas são mais próprias de principiantes; outras, dos mais adiantados. Umas
tocam pontos mais doutrinários, ou de princípios; outras, pontos práticos ou de método.
Esses erros e desorientações podem acabar servindo como ocasiões de esclarecimentos
úteis para as almas que os têm, e a Providência acaba se aproveitando deles para
completar a formação ascética delas.

• Querer imitar em tudo aos santos. ― O principiante lê, se entusiasma e quer imitar
tudo o que lhe pareceu extraordinário na hagiografia; com isto, se sobrecarrega com
pesos insuportáveis. Assim aconteceu com Santo Inácio em Manresa, desejado fazer o
que São Francisco, São Domingos e todos os santos fizeram. É o erro de colocar a
santidade nas práticas exteriores, mais do que na perfeição dos desejos e na retidão das
intenções, e na aquisição da graça. É, também, confundir as diversas santidades às quais
Deus chama os diversos santos, com a santidade à qual Deus chama a todos.
• Confundir a virtude com os bons desejos. ― Um pouco de oração fervorosa, alguns
propósitos ardentes, algumas fortes compreensões sobre a brevidade da vida, a ilusão
dos prazeres, etc., algumas frases admiráveis que lhe vieram em mente na oração,
alguns planos de vida estabelecidos com precisão jurídica baseados em notas espirituais,
tudo isso faz o iniciante crer que levantou vôo definitivo até as alturas, de onde não
sairá jamais. Está sonhando. Para conseguir de verdade esses ideais que se forjou tão
facilmente, terá que lutar muito, e se vencer muitas vezes. Cairá. Deus queira que se
levante.

• Querer santificar-se com ímpeto. ― O principiante concebe um bom desejo e gostaria


de chegar até a perfeição com um só lance, ainda que seja às custas de grande esforço e
violência. Tem impaciência para subir, e não concebe uma ascensão lenta e constante.
Estas pessoas esquecem que a santificação é uma obra de toda a vida, que a meta final é
a santidade infinita de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nós procuramos imitar; e
ignoram que, para a santidade, faz falta conseguir hábitos estáveis, que supõe a prática
de muitos atos, e isso supõe tempo e ocasiões.

• Alarmar-se diante das tentações. ― Assim como se enganou crendo que era santo
somente com bons desejos, também se engana agora crendo-se muito pecador, por causa
das coisas espantosas que passam por sua cabeça, coisas que talvez nunca tinham
passado antes dele começar a levar uma vida espiritual. Julga essencial o que é
secundário. Crê que para ser santo é necessário fazer com que essas coisas jamais
venham a passar por sua mente. Não vê que, com a mais perfeita das vontades, é
possível ter horríveis tentações, que não tiram nem acrescentam nada de mérito ou
culpa, contanto que a vontade não as aceite.

• Desanimar-se diante das desolações. ― A pessoa que se converteu, ou até mesmo que
já pratica a religião há algum tempo, erroneamente concebeu a ilusão de que o
entusiasmo inicial nunca mais a deixaria. E, agora, desanima ao sentir desinteresse pela
virtude, pensando que tudo está perdido e não há nada mais que possa ser feito.
Confunde a devoção sensível com a virtude; não se dá conta de que a vontade deve
seguir sempre firme e sem medo pelo caminho do bem, pouco importa para que lado o
vento do sentimento sopre. Não se dá conta de que Deus está começando a tratá-lo
como a um adulto na vida espiritual, e não como a uma criança com mimos melosos. E
isso, mais do que indicar retrocesso na santidade, indica que se inicia uma etapa mais
madura e construtiva.

• Devoções, mais do que virtudes. ― Se sobrecarrega com terços, devoções, novenas,


medalhas, largas horas na igreja, hábitos… e mede com isso seu progresso na santidade;
enquanto isso, talvez, é incapaz de sofrer com paciência algum incômodo causado pelo
próximo, se entrega à falar mal dos outros, fomenta a vaidade, não sabe o que é
abnegação, e se deixa levar pelo egoísmo sem qualquer escrúpulo. Têm vícios cobertos
com um verniz piedoso, para que sejam menos visíveis e possam ser mais dificilmente
corrigidos. Este estado é propriamente o de uma desorientação ascética fundamental.
• Fanatismo nas devoções. ― Umas imagens famosas que visita, um número
incalculável de Ave-Marias que recita mecanicamente, alguns gestos devotos e uma
liturgia sui generis, devoção a algum santinho que, talvez, nem tenha valor histórico,
aquela festa tradicional que respeita impecavelmente, as procissões, os santuários, as
velas que acende, os quadros e santinhos de uso doméstico, e uma infinidade de práticas
que recebeu dos seus antepassados, mas que ele nem sabe o que significam. Eis, aqui, o
que ele considera como religiosidade. Enquanto isso, os Sacramentos, a fé, a instrução
religiosa e o estudo, a vida da graça, a caridade para com o próximo, a penitência…
tudo isso é esquecido como se fossem meros acidentes ascéticos. É puro fanatismo, age
como os selvagens, mas com temas católicos.

• Credulidade em coisas discutíveis. ― Mais do que os critérios expostos pelos Papas,


os Santos, e os autores aprovados, o que produz efeito nele são as aparições, visões,
êxtases, milagres e espetáculos religiosos, e vai sempre à caça de sensacionalismos
apocalípticos. Vibra de emoção diante da primeira revelação curiosa da devoção
histérica. O grande milagre que é a permanência da Igreja Católica o mundo, ao longo
dos séculos, com sua perfeição moral, sua caridade, seu apostolado, tudo isso lhe valem
bem pouco. Esquece como a Igreja vai bem devagar em admitir esses fenômenos
extraordinários da vida mística e, mesmo quando aprovados, o quão pouco se apoia
neles para a vida cristã fundamental.

• Atenção em reformar o próximo. ― Quando se formou algumas poucas ideias sobre a


vida espiritual e o apostolado, e concebeu alguns sonhos muito belos, sente o prurido de
se meter a reformar o mundo, a família, as pessoas, a nação, a ordem religiosa, a
diocese! Vê tudo imperfeito, e se sente iluminado para corrigir tudo radicalmente; só
não vê seus defeitos próprios. Critica tudo, e gostaria de resolver tudo com uma
canetada, pronunciando decretos reais. Esquece que este mundo é um vale de lágrimas,
ainda quando aspiramos ao que possa haver de melhor, e que a vida do homem sobre a
terra é um combate.

• Guiar-se por sua cabeça. ― Ignora muitas coisas, mas sobretudo ignora sua própria
estreiteza de conhecimento. Uns poucos princípios práticos que ele formou à sua
maneira, com maior ou menor solidez, já servem para resolver tudo. Nunca consulta
ninguém; ele já sabe para onde vai e é inútil que se lhe explique, porque não o
compreenderiam. Conhece as coisas um pouquinho, não sabe nada, nem confia nos
outros, e nem tem ciência suficiente para acertar. Além do que, em nossos próprios
assuntos, somos sempre muito maus conselheiros para nós mesmos.

• Amigo das novidades. ― É partidário do último livro de meditações editado,


sobretudo se a tipografia e a cor são atrativos. Entusiasma-se pelo mais moderno
sistema ascético e de apostolado, sem olhar seu valor intrínseco. O novo pelo novo. Os
livros, os diretores, os métodos melhores são aqueles que não estão ao seu alcance;
aquilo que não está na sua mão, não vale nada. Sempre pensando no que poderia ter ou
fazer, nunca aproveita o que tem à sua disposição. No fundo é a superficialidade de
critério, é a vaidade e a extravagância.
• Reduzir tudo à boa vontade. ― As tantas regras, as normas, os diversos modos de
rezar, os exercícios, exames, retiros, devoções, penitências, promessas, planos… lhe
parecem complicações demasiadas. E encontrou a solução na frase de Santo Agostinho:
“Ama et fac quod vis ― Ama e faz o que queres”. Cumprir os mandamentos, ser boa
pessoa e tudo mais como lhe convém. Mas é claro que, no fim, deixando as devoções
com que se fomenta a devoção essencial, que é a caridade, acaba-se sem devoção e sem
devoções; apaga-se o fogo, do qual foram tiradas as brasas que o alimentavam.

• Vocação de incompreendido. ― Nasceu para fazer as coisas sozinho. Foi passando de


confessionário em confessionário, para encontrar no padre um homem compreensivo, e
a experiência lhe disse que ninguém o pode compreender. Na verdade, não busca a
direção de nenhum outro, senão daquele que põe um selo oficial nas opiniões que
expõe. É o egoísmo transformado em sistema, que já não se contenta com os fatos, mas
que se estende até a mentalidade.

• Sentir-se privilegiado. ― Algumas horas devotas de oração, umas ideias belas e


fecundas que lhe inspiraram, umas instruções luminosas que percebeu que vinham do
céu, e até algumas vozes claras do Senhor, produzem em si o complexo de iluminado e
se sente um Enviado de Deus para transmitir uma mensagem ao mundo. As hierarquias
que hão de julgar suas concepções não estão a altura disto, e não compreendem a
grandeza da mensagem, pois são todos terrenos. Ninguém tem direito de discutir o que
Jesus lhe disse. Na mensagem divina que recebeu não está dito expressamente que foi
dispensado da obediência aos sucessores de Pedro e dos Apóstolos, mas supõe que de
fato sim, e assim se faz um heresiarca.

• Pensar que seu sistema é único. ― Com sua experiência pessoal, foi se forjando, para
si mesmo, seu sistema de vida espiritual, seu acervo de critérios, seus modos de rezar,
de exames, de trabalhar, de converter, de aconselhar, de ler, de estudar, de lutar, etc… e
está persuadido de que isto é o melhor. Esquece que o Espírito Santo pode levar à
santidade por vários caminhos, e que cada homem, segundo sua maneira de ser,
emprega melhor uns que outros sistemas. Empenha-se em fazer com que todo mundo
passe por seu caminho. Isto é um impasse mental ascético e muita autossuficiência.

• Pessimismo apostólico. ― Seja por desenganos pelos quais passou em seus projetos,
seja para justificar uma atitude preguiçosa e cômoda, exaltou tanto a intervenção da
Providência que aos homens apostólicos já não resta mais nada a fazer. Não tem motivo
para se cansar; Deus é bom e acerta tudo na última hora, usando de alguns recursos que
sempre produzem seus efeitos. Já não se vê, segundo esta teoria, que papel a Igreja, os
sacramentos, a pregação, o sacerdócio, etc., ocupam no mundo, ainda que instituídos
por Cristo.

• Confundir zelo com nervosismo. ― Tem uma grande necessidade de mover-se, de


chamar a atenção, de fundar novas obras, de desenvolver atividades, de reformar, de
mandar, de intrometer-se em tudo. Chama isso de zelo, bem das almas, glória divina,
propagação da fé, extensão do reino de Deus, melhoria da sociedade…, mas no fundo é
nervosismo desatado, sem tom nem som, que da tiros aos ventos, sem ordem em seus
trabalhos, sem plano a distância, sem hierarquia de valores. Não faz o que lhe pedem,
mas tem que mover-se seja como seja, gastando o tempo em atividades efêmeras e
ineficazes.

• Confundir humildade com timidez. ― O tímido diz que não serve para nada, que se
contenta com um cantinho qualquer, que não nasceu para as alturas, que não quer subir
nada, que cede seus diretos com muito gosto, que teme a petulância, que são muitas
complicações para ele, que prefere um ofício mais discreto e humilde. Até com os
gestos parece esquivar-se das grandezas e perigos que o espantem. Pode ser também
comodidade em não buscar responsabilidades que requerem esforço e desgaste; e com
tanto falar de humildade, no fundo teme os possíveis fracassos e humilhações em seus
possíveis projetos.

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