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Discípulo missionário e exercício da cidadania:

- desafios em tempos de pandemia e instabilidade política1

Chamados a ser luz do mundo (cf. Mt 5, 14), os discípulos missionários se encontram


hoje diante de um grande desafio: Como dar testemunho do Evangelho em tempos
de pandemia, situação agravada pelo emaranhado político que hoje se apresenta?

Uma realidade particularmente desafiante. A polarização, intolerância e violência


psíquica e física dela decorrentes já estavam instaladas quando a pandemia do
coronavírus chegou e se alastrou. As redes sociais, desde a sua popularização, são
meios utilizados para ataques e desrespeito e pouco esclarecimento objetivo. Uma
verdadeira epidemia de notícias falsas, que prejudicam e desinformam, mais ainda,
promovem o ódio e a intolerância, se alastram sempre mais, principalmente aquelas
relacionadas com a política e a saúde. Com a chegada da pandemia, o esforço de
resolver o problema e usar os mesmos meios para disseminar informações objetivas
e úteis tiveram menos adesão do que as notícias falsas e tendenciosas. Isto se deve,
em grande parte, ao fato de os avanços tecnológicos, que permitiram informações em
tempo real e de amplo alcance, não ser acompanhado com um correspondente
crescimento do debate ético pautado, sobretudo, no valor da verdade e da dignidade
humana, por isso deixam um grande vácuo. As informações muitas vezes são aceitas
sem a devida análise crítica e discernimento. É neste vácuo que surge um verdadeiro
campo de ação livre e promissor para as notícias falsas, tendenciosas e bem
articuladas para convencer os seus interlocutores. Viver num mar de informações não
garante sabedoria de vida. Com razão, o filósofo Polonês Baumann (2016) adverte:
“Como E. O. Wilson, o grande biólogo, expressou de forma muito sucinta e correta:
‘Estamos nos afogando em informações e famintos por sabedoria.’ Não temos tempo
de transformar e reciclar fragmentos de informações variadas numa visão, em algo
que podemos chamar de sabedoria. A sabedoria nos mostra como prosseguir. Como
o grande filósofo Ludwig Wittgenstein dizia: ‘Compreender é saber como seguir
adiante.’ E é isso que estamos perdendo. Não sabemos como prosseguir” (Baumann,
2016). Poderíamos aqui acrescentar: só sabemos que, em muitos casos, não
passamos de escravos modernos de opinião alheia. Quando apetece, ela é absorvida

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Dr.ª Geni Maria Hoss, teóloga e bioeticista.
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e defendida com garra, se vai na contramão das próprias convicções, mesmo que
carecem de fundamentos sólidos.
Após à expansão da pandemia, muitos doentes e muitas mortes, o negacionismo da
pandemia e a incredulidade nas ciências persistem. Além disso, acentuou-se a
polarização orientando inevitavelmente as atenções para as turbulências políticas com
prejuízo ao cuidado necessário para administrar de forma responsável a pandemia do
coronavírus e assegurar comportamentos adequados para o bem comum. A urgência
da união dos cidadãos para reivindicar gestão pública responsável para o bem de
todos, tomada de decisões e providências ficou em segundo plano. O que aconteceu
de fato foi o acirramento dos ânimos e não foram poucos os que optaram por se
digladiar nas redes sociais. Isto, porque em ambientes polarizados só existem dois
extremos: os certos e os errados, sendo naturalmente errados os outros. Geralmente
ambos os lados se alimentam de convicções que carecem de argumentação e
acentuam as denúncias recíprocas. Infelizmente saem de cena os programas e
promessas políticas que levaram o eleitor a escolher o gestor público e focaliza-se em
comparação entre “inimigos”, não adversários. A pretensa “fundamentação” muitas
vezes não passa de comparação agressiva e desrespeitosa no intuito de demonstrar
que “o outro” fez e faz política pior que esta. Daí se explica uma narrativa permeada
de linguajar de baixo calão e destruidor da opinião alheia. Outro grande problema de
uma adesão radical sem senso crítico e discernimento é que os erros cometidos sejam
distorcidos em “verdades” para não precisar admitir a necessária autocrítica. Em
relação ao passado, isto implica em negação de momentos sombrios da história e, no
presente, acontece que a mesma atitude, ora é considerada “correta”, ora, “errada”,
dependendo apenas se se trata do polo defendido ou do polo “inimigo”. Há, portanto,
discrepâncias e incoerências, um contratestemunho evangélico, a serem superados,
colocando-se de novo no centro o cuidado da vida, o engajamento pelo bem comum,
diante de tantas ameaças e descasos que ora reina na sociedade.

Um chamado para transformar a realidade à luz dos valores evangélicos. Os


discípulos missionários iluminam esta realidade ao testemunharem o amor fraterno, a
verdade, a acolhida do outro e se engajarem efetivamente a fim de que a vida seja
colocada no centro. A melhor contribuição nos meios de comunicação onde se
disseminam ódios e mentiras é a propagação dos valores do Evangelhos, da
promoção da vida. A promoção da vida não se limita a cuidá-la em condições de risco
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de saúde, mas inclui todas as suas condicionantes como: alimentação, moradia,
saneamento básico, formação humana e profissional, etc. Isto tanto na oferta das
estruturas indispensáveis bem como renda necessária que garantam vida digna para
o cidadão e sua família. Só quem conhece e vive a sua fé na vida cotidiana está
suficientemente fortalecido para testemunhá-la em situações tão adversas como
conhecemos hoje na sociedade.
Para isso é importante que se entenda a missão de ser luz no mundo, marcando
presença significativa na vida da sociedade e política, a partir dos princípios e
diretrizes apresentadas no Compêndio da Doutrina Social da Igreja (CDSI)2. Em
primeiro lugar, é preciso lembrar que falar da DSI não é equivalente à defesa de
qualquer linha político-partidária. A política como organização e gestão do bem
comum diz respeito a todos. A distorção do papel da política ou sua compreensão
superficial leva a defesas calorosas de separação do inseparável. Cada cristão, a
quem se destina a Doutrina Social em primeiro lugar, está naturalmente inserido na
organização social e política como cidadão que é e, por isso, cabe-lhe iluminar estas
realidades e testemunhar nelas os valores do Evangelho. O CDSI apresenta a síntese
das diretrizes essenciais dos documentos sociais anteriores, a começar pela
conhecida Encíclica Rerum Novarum, 1891, do Papa Leão XIII. Aqui abordamos
somente alguns elementos essenciais relevantes para a situação da hora.

A consciência e discernimento: A consciência e liberdade são dimensões


fundamentais da pessoa. Sem elas, não se pode falar de respeito à dignidade da vida
humana. Ninguém tem autoridade sobre a consciência do outro. Na visão do Concílio
Vaticano II, apresentada na Constituição Pastoral Gaudium et Spes (GS), vemos que
“a consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra
a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser” (GS, 1965, n. 16).
Debates e aconselhamentos podem interpelar a pessoa e a incitar a busca pela
verdade, mas, em última análise, sempre orientada pela própria consciência. “Pela
fidelidade à voz da consciência, os cristãos estão unidos aos demais homens, no
dever de buscar a verdade e de nela resolver tantos problemas morais que surgem
na vida individual e social” (GS, 1965, n.16).

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O CDSI foi publicado em 2005 pelo Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, com aval e aprovação do
Papa da época, João Paulo II.
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O primeiro ponto a considerar é a consciência inerente ao ser humano. Sim, há algo
que a pessoa traz em si e que a impele a tomar decisões e atribuir valores: “No
presente texto emerge ademais a importância dos valores morais, fundamentados na
lei natural inscrita na consciência de todo ser humano, que por isso está obrigado a
reconhecê-la e a respeitá-la” (CDSI, 2011, Intr. n. 3). Há necessidade de formação
da consciência, ou seja, é preciso aprender a conhecer, apreciar e iluminar com os
valores, sejam eles inerentes à pessoa ou aqueles que se reconhece no decorrer da
vida como algo bom para si próprio e sua relação com o outro, a fim de que se chegue
a decisões e ações coerentes. Só assim pode haver harmonia entre o que se acredita
e o que faz como algo bom. Para isso, é tarefa de todos promover o conhecimento e
debate a partir de diretrizes objetivas de forma que cada pessoa tenha suficiente
argumento para decidir de forma livre e responsável, segundo a sua consciência. Aqui
se percebe que qualquer julgamento arbitrário do outro está na contramão da
dignidade humana uma vez que não somos tutelas da consciência de ninguém. Não
significa proibição de apreciação, significa maior responsabilidade na promoção do
conhecimento e do debate, da abertura para as diferentes opiniões. Claro que o
assunto aqui é de pessoas adultas autônomas. Porém, isto também indica o quanto
se deve ser cuidadoso ao lidarmos com situações limite, seja na responsabilidade de
pais e educadores na formação da consciência dos filhos e educandos, seja em
situação condicionante como saúde psíquica e mental, incluindo aqui a demência de
algumas pessoas. Todos estes grupos merecem atenção especial, mas se deve ter
em vista que, na sua própria condição, devem ser motivados e encorajados a viver
sua liberdade e livre decisão.
No contexto do CDSI vale aqui ressaltar também a consciência coletiva. Existe uma
consciência de valores no núcleo familiar, em grupos de cooperação, a consciência
nacional e bem como consciência de humanidade. Quanto mais se expande, tanto
mais a consciência se concentra no essencial do ser humano. Por isso, a antiga e
sempre nova questão: Existe uma ética universal? Quais sãos os valores essenciais
globais?
A consciência bem formada é a base para o autêntico discernimento. Discernir não
significa a posse de certezas, mas da constante busca pela verdade. À luz da fé, nesta
busca recorremos ao Espírito Santo. Precisamos de uma luz que está além das
fronteiras da percepção e conhecimento humano. Isto evita a tentativa de “encapsular”
a verdade, limitando-a às próprias convicções. Neste sentido, diz o Papa Francisco a
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respeito do chamado do missionário. Ele “nunca se fecha, nunca se refugia nas
próprias seguranças, nunca opta pela rigidez auto-defensiva. Sabe que ele mesmo
deve crescer na compreensão do Evangelho e no discernimento das sendas do
Espírito, e assim não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de sujar-se
com a lama da estrada” (Papa Francisco, 2013, n. 45). O autêntico discernimento
permite que se dê testemunho nos ambientes que carecem de luz, ambientes em que
o ser humano é manipulado e instrumentalizado para fins adversos à sua dignidade.
Não é tarefa dos discípulos missionários jogar ódio para todos os lados sobre aquelas
pessoas, meios de comunicações e situações que lhe parecem conflitantes com seus
valores. Quando isto acontece, ele não entendeu sua missão. Debate se faz com
argumentos e, mais que isso, a sociedade precisa daqueles que são “luz do mundo”.

Os discípulos missionários no mundo da política. A natureza da política e da Igreja


é distinta quanto ao seu fim, mas ambos se concretizam nos mesmos espaços. O que
caracteriza um estado laico não é a supressão das organizações religiosas, mas o
respeito pelas diversas expressões de fé em seu território e a promoção do diálogo,
particularmente em questões humanitárias. “A Igreja e a comunidade política, embora
exprimindo-se ambas com estruturas organizativas visíveis, são de natureza diversa
quer pela sua configuração, quer pela finalidade que perseguem” (CDSI, 2011, n.
424). Se os fins da Igreja e da política são distintos, o mesmo não acontece em relação
aos discípulos missionários e os cidadãos. Os discípulos missionários são membros
da Igreja, são Igreja e são também cidadãos que constituem a sociedade. Por isso, “a
autonomia recíproca da Igreja e da comunidade política não comporta uma separação
tal que exclua a colaboração entre elas: ambas, embora a títulos diferentes, estão ao
serviço da vocação pessoal e social dos próprios homens” (CDSI, 2011, n. 425). Se
sobre um determinado assunto, um governo se propõe a um diálogo com a sociedade,
como parte integrante desta mesma sociedade está a Igreja, cuja voz pode vir por
parte de seus representantes, sobretudo, porém, através da presença significativa dos
discípulos missionários nas diversas realidades. Respeitados os espaços e as
finalidades de cada um, “a Igreja e a comunidade política podem executar ‘tanto mais
eficazmente, para o bem de todos, este serviço, quanto mais cultivarem entre si uma
sã cooperação, consideradas também as circunstâncias dos tempos e lugares” (CDSI,
2011, n. 425). À luz dos valores do Evangelho, a Igreja entende sua vocação no
mundo para além da manifestação da fé e devoção, assim como Jesus, ela vai ao
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encontro dos doentes, dos pobres, ela se empenha por condições de vida digna de
todos os seres humanos, entende-se como luz em todas as realidades humanas. Por
este motivo, ela reivindica “liberdade de associar-se para fins não só religiosos, mas
também educativos, culturais, sanitários e caritativos” (CDSI, 2011, n. 426).
A presença na sociedade, como dito acima, não se limita à sua atuação por vias
institucionais. São os discípulos missionários enviados para ser luz em todas as
realidades humanas que são especialmente chamados à transformar as estruturas
sociais. O âmbito da política entendido como espaço de gestão do bem comum e de
engajamento pelo bem de cada cidadão é bem por isso um espaço onde o discípulo
missionário cumpre seu dever cidadão. É importante aqui discernir entre política e
politicagem e, igualmente, entender que se trata das diversas formas de participação
política, muito além de uma pertença a um determinado partido. É neste sentido amplo
que se deve entender a missão do discípulo missionário sem, contudo, excluir a
participação político-partidária. Também estas estruturas precisam ser iluminadas e
interpeladas quanto aos seus fins em vista do bem comum.

“Um âmbito particular de discernimento dos fiéis leigos diz respeito as escolhas
dos instrumentos políticos, ou seja, a adesão a um partido e às outras
expressões da participação política. É preciso fazer uma escolha coerente com
os valores, tendo em conta as circunstâncias reais. Em todo o caso, qualquer
escolha deve ser radicada na caridade e voltada para a busca do bem comum”
(CDSI, 2011, n. 573).

A participação do discípulo missionário começa pelo desafio de uma votação bem


feita. Mais uma vez é preciso acentuar que esta acontece no “santuário da
consciência” de cada um e ninguém pode ser recriminado por suas escolhas. Muito
menos grupos eclesiais podem definir uma escolha coletiva. Mais importante que isso
são os debates objetivos e bem fundamentados que antecipam estas escolhas e o
controle social posterior às eleições. Sobre as escolhas, diz o CDSI:

“As instâncias da fé cristã dificilmente podem ser encontradas numa única


posição política: pretender que um partido ou uma corrente política
correspondam plenamente às exigências da fé e da vida cristã gera equívocos
perigosos. O cristão não pode encontrar um partido plenamente às exigências
éticas que nascem da fé e da pertença à Igreja: a sua adesão a uma corrente
política não será jamais ideológica, mas sempre crítica, a fim de que o partido
e o seu projeto político sejam estimulados a realizar formas sempre mais
atentas a obter o verdadeiro bem comum, inclusive os fins espirituais do
homem” (CDSI, 2011, n. 573).

Portanto, seja qual for a sua escolha, a posição do discípulo missionário será sempre
crítica. Não existe o político perfeito, não existe o partido perfeito. Cabe votar com
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responsabilidade evitando a polarização ao endeusar uns e demonizar outros,
valendo-se para isso de um linguajar agressivo e desrespeitoso. Porque aplausos
cegos costumam reforçar e prolongar erros. “Nós estamos tão habituados a insultar
os responsáveis. É inútil, e até chato, que os cristãos percam tempo a lamentar-se do
mundo, da sociedade, daquilo que está errado. As lamentações não mudam nada”.
(Papa Francisco, 2020). Também aqui vale lembrar os insultos que permeiam as redes
sociais. Insultar não é sinônimo de posicionamento crítico e muito menos tem alguma
utilidade para melhorar a situação. Expressar-se desta forma denuncia a falta de
critérios e diretrizes para garantir a presença significativa e iluminadora na sociedade.
O CDSI ensina:

“A distinção, de um lado, entre instâncias da fé e opções sociopolíticas e, de


outro lado, as opções de cada cristão e as realizadas pela comunidade cristã
enquanto tal, implica que a adesão a um partido ou corrente política seja
considerada uma decisão a título pessoal, legítima ao menos nos limites dos
partidos e posições não incompatíveis com a fé e os valores cristãos. A escolha
do partido, da corrente política, das pessoas a quem confiar a vida pública,
mesmo empenhando a consciência de cada um, não pode ser entendida como
uma escolha exclusivamente individual: É às comunidades cristãs que cabe
analisar, com objetividade, a situação própria do seu país e procurar iluminá-
la, com a luz das palavras inalteráveis do Evangelho; a elas cumpre, haurir
princípios de reflexão, normas para julgar e diretrizes para a ação, na doutrina
social da Igreja’” (CDSI, 2011, n. 574).

Portanto, nada de achismos e egoísmo, nada de olhares estreitos. É preciso abrir os


horizontes para o nível de todos os desafios do país e de toda população e evitar o
apenas o benefício próprio. Não se trata, portanto, de escolher alguém que plantou
uma árvore no nosso quintal, mas alguém que saiba cuidar de uma floresta.
Reforçando: A DSI chama atenção para diferentes formas de participação política. Ao
fazer isto, ela defende uma instância fundamental da democracia. Votação popular é
apenas uma de suas expressões. A participação dos cidadãos, de forma individual ou
organizada num coletivo, não é somente desejada, mas necessária para que haja
efetiva democracia.

“A participação na vida comunitária não é somente uma das maiores


aspirações do cidadão, chamado a exercitar livre e responsavelmente o próprio
papel cívico com e pelos outros, mas também uma das pilastras de todos os
ordenamentos democráticos, além de ser uma das maiores garantias de
permanência da democracia. O governo democrático, com efeito, é definido a
partir da atribuição por parte do povo de poderes e funções, que são
exercitados em seu nome, por sua conta e em seu favor; é evidente, portanto,
que toda democracia deve ser participativa. Isto implica que os vários sujeitos
da comunidade civil, em todos os seus níveis, sejam informados, ouvidos e

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envolvidos no exercício das funções que ela desempenha.” (CDSI, 2011, n.
190)

Há diversas formas de organização de participação e engajamento pelo bem comum


e, não em última análise, realizar experiências e capacitações para lideranças
políticas. A participação em movimentos, conselhos comunitários, de natureza diversa
como saúde, segurança... além de atuar onde o cidadão de fato precisa, é uma
excelente escola de formação de líderes. É nestes espaços que é possibilitado a cada
cidadão reivindicar seus direitos e também fazer o controle social daqueles que tem a
responsabilidade do bem comum nas mãos. A ausência e inércia do cidadão nestes
espaços permite que os políticos eleitos se desviem de seus programas de campanha
eleitoral, se envolvam em corrupção e fazem mau uso do dinheiro público, desviando
os impostos para benefício próprio. Outras instâncias de participação são os meios
virtuais como portal da transparência, as ouvidorias e também as assembleias de
bairro onde se delibera sobre as prioridades para o uso do dinheiro público. Nenhum
destes espaços pode ficar ocioso.

Participação política e lições da pandemia. No momento presente é inevitável não


tocar no assunto da pandemia. Uma pandemia é por si mesmo algo desconhecido e
implica em desafios antes nunca enfrentados. É por ser uma situação muito complexa
que ela deixa muitas lições. Seguem algumas:
⎯ Ou reagimos rapidamente, mesmo que de certa forma no escuro, ou permitimos
impactos ainda mais graves.
⎯ Teorias conspiratórias (diga-se, sem apresentar comprovação) e o negacionismo
são péssimo negócio e só atrapalham.
⎯ A verdade não gera pânico para pessoas que costumam orientar-se em princípios,
diretrizes bem fundamentadas, conhecimento de causa. O mesmo não acontece
com as fake News. Notícias falsas geralmente agradam ao ouvido, mas não
informam, apenas ajudam a nos alienar, além disso, podem tornar-nos escravos
de robôs.
⎯ Valorizar a ciência é urgente. Compreender que o tempo da ciência é incompatível
com a nossa ansiedade. Promessas de remédios rapidamente disponíveis são
promessas enganosas. A eficácia dos remédios é uma questão científica e não
política. Não há medicação universal, mesmo os medicamentos já existentes

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devem ser comprovados. Como em todas as áreas, alguns são profissionais de
saúde, outros profissionais de saúde e cientistas: também os profissionais de
saúde precisam de informações e orientações comprovadas pelas ciências.
Aprender ciências na escola não é supérfluo. Entender um processo científico é
fundamental para se acreditar nela e não cair nas falácias do achismo.
⎯ As aulas de matemática sobre a curva exponencial foram importantes, sim. Uma
curva exponencial não é um traçado do destino invariável, mas uma informação
que nos permite tomar decisões que mudem o seu traçado no sentido positivo.
⎯ O egoísmo não é só prejudicial para a própria pessoa, mas para toda a
coletividade. Descuidar das orientações quanto ao distanciamento social e uso de
equipamentos de prevenção é brincar a própria vida e também da vida dos outros.
“Quem cumpre seus próprios deveres consigo próprio evita muitas maneiras de
prejudicar outras pessoas” (Jahr, 2013, p. 482). É preciso refletir sobre as
consequências das ações, no caso, de falta de cuidado, pois o arrependimento
pode vir tarde demais.
⎯ Cada pessoa é importante, a tragédia não precisa bater na própria porta para levar
a sério o cuidado pela vida.
⎯ É incoerente se apresentar como “defensor da vida” à luz dos valores do
Evangelho e não se cansar de banalizar a vida nas redes sociais ao incitar para o
desrespeito das orientações da Saúde. A defesa da vida é desde o início até o fim
natural.
⎯ A polarização, a intolerância, a falta de objetividade e conhecimento no debate
político acentuam a falta de respeito, julgamentos arbitrários, sentimentos de
superioridade em todas as linhas, batendo de frente com o valor evangélico do
amor ao próximo.
⎯ A pandemia jogou no ar todos os desafios que enfrentamos no momento: reforçou
a polarização, mostrou a falta de conhecimento da gestão pública, do sistema de
saúde deficitário e da falta de controle social para melhorá-lo.
⎯ A corrupção não dá tréguas, é um vício. Nem mesmo uma tragédia evita a sua
disseminação.
⎯ Não entendemos o suficiente a interdependência global, tanto pela expansão da
pandemia bem como pelas possibilidades de escolhas. Confrontamo-nos com a
dependência das tecnologias e insumos, particularmente no mundo da saúde.

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⎯ Etc.

Considerando-se que somos um país de muitos cristãos, de muitos discípulos


missionários, pode-se tomar como convite à reflexão a conclusão do Papa Francisco:

“Apesar de se notar uma maior participação de muitos nos ministérios laicais,


este compromisso não se reflete na penetração dos valores cristãos no mundo
social, político e econômico; limita-se muitas vezes às tarefas no seio da Igreja,
sem um empenhamento real pela aplicação do Evangelho na transformação
da sociedade. A formação dos leigos e a evangelização das categorias
profissionais e intelectuais constituem um importante desafio pastoral” (Papa
Francisco, 2013, n. 102).

Consideração: Levando em conta o momento presente somos convidados a


identificar, ao analisar os sinais dos tempos, os desafios para o presente e o futuro.
Somos chamados a iluminar os espaços de trevas com a luz do Evangelho. O mundo
virtual precisa de pessoas que testemunhem a verdade, o respeito, o amor fraterno.
A sociedade precisa de cidadãos que se engajem pelo bem comum, por um mundo
mais justo e solidário. As estruturas públicas de assistência à saúde precisam do
controle social dos cidadãos de modo que se supere a corrupção e,
consequentemente, se ofereçam melhores condições de assistência. Enfim,
assumamos o desafio pastoral apresentado pelo Papa Francisco

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Referências

Bauman, Zygmunt. "Estamos num estado de interregno. Vivemos na modernidade


líquida” (Entrevista GloboNews 2016). Disponível em:
https://www.conjur.com.br/2016-jan-01/zygmunt-bauman-neste-seculo-estamos-
num-estado-interregno, Acesso: 29 jun. 2020.

Constituição Pastoral Gaudium et Spes (1965). Disponível em:


http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-
ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html. Acessado: 25 jun 2020.

JAHR, Fritz. Ensaios em ética e bioética 1927-1947, In: PESSINI, Leo et al. Ética e
Bioética Clinica e Pluralismo – com ensaios originais de Fritz Jahr. São Paulo:
Centro Universitário São Camilo; Loyola, 2013. 455-501.

Papa Francisco. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (2013). Disponível em:


http://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-
francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html . Acessado: 20 jun
2020.
_____Homilia da Solenidade de São Pedro e São Paulo (29 jun 2020). Disponível
em: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2020/documents/papa-
francesco_20200629_omelia-pallio.html . Acesso em: 30 jun 2020.

Pontifício Conselho “Justiça e Paz”. Compêndio da Doutrina Social da Igreja. São


Paulo: Paulinas, 2011.

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