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Conrado Paulino da Rosa

A Justiça que Tarda, Falha: a Mediação como Nova


Alternativa no Tratamento dos Conflitos Familiares

Conrado Paulino da Rosa

RESUMO
Com o presente trabalho, procura-se verificar quais novas políticas poderiam ser adotadas pela
Administração Pública, na área da jurisdição, para o tratamento dos conflitos familiares. A pesquisa
também tem como objetivo: a uma, analisar o desenvolvimento da intervenção do Estado na vida dos
indivíduos, principalmente, nas relações intrafamiliares. A duas, investigar sobre a importância da
mediação como meio de tratamento dos conflitos familiares. A três, discutir a proposta de políticas
públicas em atendimento a razoável duração do processo, previsto no inciso LXXVIII do art. 5º da
Constituição Federal, e, também, como forma de resposta quantitativa e qualitativa aos conflitos
apresentados ao Judiciário.

PALAVRAS CHAVE
Jurisdição; Conflitos familiares; Mediação; Política pública.

ABSTRACT
This paper aims at verifying the new policies that could be used by public administration in the
jurisdiction area in order to deal with family conflicts. Besides, the research also aims at analyzing
the development of the intervention of the State in the individuals’ lives concerning intrafamilial
relationships. Furthermore, this paper proposes to investigate about the importance of mediation as
a means of family conflicts treatment. Lastly, the research also aims at discussing the public policies
proposition to speed up the process duration as it is seen at item LXXVIII of the 5th. article of the
Federal Constitution as a qualitative and quantitative response to the conflicts presented to the judiciary.

KEY WORDS
Jurisdiction; Family Conflicts; Mediation; Public Policies.

1 INTRODUÇÃO

Vivemos em uma sociedade permeada por um forte sentimento conflitivo. A partir da


abertura do acesso ao Poder Judiciário, iniciado na Constituição Federal de 1988, os cidadãos
cada vez mais buscam na Justiça a possibilidade de tratamento de todos os “males” da vida,
em vez de construir uma resolução pacífica de seus litígios.
Como resultado direto, temos a crescente falta de responsabilização social, bem como
um absurdo número de processos em tramitação no sistema judiciário. Conforme o último

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A Justiça que Tarda, Falha: a Mediação como Nova Alternativa no Tratamento dos Conflitos Familiares

levantamento realizado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Brasil tem uma carga
superior a noventa milhões de procedimentos em tramitação1.
Quando existe o rompimento do relacionamento afetivo, os integrantes da célula familiar
buscam a tutela jurisdicional do Estado para “resolver” o litígio, contudo, a má gestão desse
conflito pode ocasionar grandes danos psicológicos ao casal e a seus filhos.
Por outro lado, novas práticas de tratamento2 de controvérsias se apresentam como uma
nova alternativa aos litígios familiares. Neste texto, em especial, analisaremos a prática da
mediação como fio condutor do restabelecimento da comunicação entre as partes, sem a
imposição de regras, auxiliando-as a chegar a um reconhecimento recíproco que produza
uma nova percepção do conflito.

2 CARACTERÍSTICAS DOS CONFLITOS FAMILIARES

Como bem expressa Rodrigo da Cunha Pereira, quando “os restos de amor forem levados
ao judiciário”3, a belicosidade que se expressa nas causas da família torna-se cada vez mais
preocupante, pois a dor que gera nos filhos do casal que se separa não traduz apenas um
sofrimento momentâneo, mas tem a possibilidade de provocar prejuízos emocionais que
podem se estender pela vida toda4, sendo de fundamental importância a preservação da
saúde mental dos indivíduos que nela estão inseridos5.
A ruptura da sociedade conjugal trata-se de um fenômeno complexo, uma vez que

Toda a complexa tecelagem afetiva consciente e principalmente


inconsciente apresenta-se, então, sob forma do antigo e delicado bordado,
desenhado desde a escolha do cônjuge, na relação marido-mulher, no

1
Dados disponibilizados no Relatório “Justiça em Números”. Site do Conselho Nacional de Justiça. Disponível em: <www.cnj.jus.br>. Acesso
em: 20 nov. 2011.
2
Aqui, utilizar-se-á a expressão “tratamento” em vez de “resolução” de conflitos, justamente por entender que os conflitos sociais não são
“solucionados” pelo Judiciário no sentido de resolvê-los, suprimi-los, elucidá-los ou esclarecê-los. Isso porque “a supressão dos conflitos
é relativamente rara. Assim como relativamente rara é a plena resolução dos conflitos, isto é, a eliminação das causas, das tensões, dos
contrastes que os originaram (quase por definição, um conflito social não pode ser ‘resolvido’).” (BOBBIO, Norberto; PASQUINO, Gianfran-
co. Dicionário de política. Tradução de Carmem C. Varriale, Gaetano Lo Mônaco, João Ferreira, Luís Guerreiro Pinto Cascais e Renzo Dini.
12. ed. Brasília: Universidade de Brasília, 2004. p. 228). Nesse sentido, ver também BOLZAN DE MORAIS, José Luis; SPENGLER, Fabiana
Marion. Mediação e arbitragem: alternativas à jurisdição! 2. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. Por conseguinte, a expressão
“tratamento” torna-se mais adequada enquanto ato ou efeito de tratar ou medida terapêutica de discutir o conflito buscando uma resposta
satisfativa.
3
PEREIRA, Rodrigo da Cunha. A sexualidade vista pelos tribunais. 2. ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2001, p. XVI.
4
CEZAR-FERREIRA, Verônica A. da Motta. Família, separação e mediação: uma visão psicojurídica. São Paulo: Método, 2007, p. 49.
5
GROENINGA, Giselle Câmara. Mediação interdisciplinar – um novo paradigma. Revista Brasileira de Direito de Família, Porto Alegre, n. 40,
p. 158, fev.-mar. 2007.

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exercício da parentalidade, na inserção da família no social. O que é trazido


ao judiciário agora é o avesso do tecido, muitas vezes irremediavelmente
roto, desbotado, danificado, a pedir restauração. O ato de ruptura, que
culmina com a crise, está muito além da separação do casal. Certas
questões históricas advindas de necessidades ainda mais remotas nas
trajetórias dos hoje autor e réu representam a versão atualizada dos
impasses que determinam o conflito atual6.

A separação, especialmente numa família com filhos, não é uma crise tão simples de ser
superada. O ajuizamento da petição inicial toma a forma de uma autêntica “declaração de
guerra” – a partir de então só se fala em ganhar ou perder, o estresse e o sofrimento são
inevitáveis e marcas indeléveis7. Este sofrimento torna-se ainda mais acentuado quando a
prole é utilizada como verdadeiro “instrumento de batalha” em um momento em que, na
verdade, precisaria de mais carinho e atenção por parte de seus genitores do que em qualquer
outra etapa de sua vida.
As disputas familiares, por definição, envolvem relacionamentos que precisam perdurar. A
síndrome do perde-ganha dos tribunais provoca um verdadeiro desastre numa família que se
desfaz8. Uma das provas de ineficiência do sistema contencioso é o ajuizamento de inúmeras
e sucessivas demandas envolvendo a mesma entidade familiar, quando sua dissolução não
tiver como norte meios que verdadeiramente possam terminar com o conflito.
Quando o matrimônio chega ao fim, tornando-se impossível a convivência do casal, começa
uma complexa negociação. Negociam-se as perdas afetivas no mesmo rol das materiais. São
múltiplos os divórcios em uma única separação, o psíquico, o emocional, o físico, o financeiro,
das famílias primárias, dos amigos, dos filhos, este de gravidade extrema, quando se tornam
objeto de barganha do casal conjugal. Eles não são simultâneos e, na maioria das vezes,
ultrapassam o momento da legalização da separação. Estas pautas tóxicas, alimentadoras
e sustentadoras das disputas poderão ser exorcizadas e conduzir os litigantes à harmonia
mediante a utilização de métodos alternativos de resolução de conflitos (Alternative Disput
Resolution), sendo um deles a mediação9.
Esse sofrimento torna-se ainda mais acentuado quando os filhos do casal são usados como

6
SOUZA, Ivone M. C. Coelho de. Mediação em Direito de Família - um recurso além da semântica. Revista Brasileira de Direito de Família,
Porto Alegre, n. 27, p. 32, dez.-jan. 2005.
7
RUIZ, Ivan Aparecido. A mediação e o direito de família. Revista de Arbitragem e Mediação, São Paulo, n. 6, p. 90, jul./set. 2005.
8
SERPA, Maria de Nazareth. Mediação de família. Belo Horizonte: Del Rey, 1998, p. 18.
9
GRISARD FILHO, Waldyr. O recurso da mediação nos conflitos de família. Revista Brasileira de Direito de Família, Porto Alegre, n. 14, p. 12,
jul.-set. 2002.

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meros instrumentos de agressão entre aqueles que um dia se uniram para construir uma
vida em comum e para concebê-los.10 Assim, verdadeiramente “cegos” pelos sentimentos
da ruptura do enlace conjugal, usam seu “tesouro” como arma para atingir o outro genitor.
Assim, a necessidade de um trabalho interdisciplinar, envolvendo profissionais de diversas
áreas, como advogados, psicólogos, assistentes sociais, entre outros, para tratar de conflitos
familiares, vem cada vez mais sendo enfatizada para proporcionar uma prestação de serviço
mais adequada e eficaz às famílias que estão em conflito.

3 A PROPOSTA DA MEDIAÇÃO

A mediação é um processo que pode dar uma importante contribuição para a resolução
pacífica das disputas. Surge como uma outra alternativa, substituindo o modelo conflitual
apresentado pelo Poder Judiciário11.
Muito mais do que um acordo, a mediação preconiza o potencial de transformação das
pessoas, pois representa a expressão de uma visão relacional, amparada na consideração e
no respeito às diferenças12. Isso se dá porque a mediação pode ser definida:

como a interferência em uma negociação ou em um conflito de uma terceira


parte aceitável, tendo um poder de decisão limitado ou não-autoritário, e
que ajuda as partes envolvidas a chegarem voluntariamente a um acordo,
mutuamente aceitável com relação às questões em disputa. Além de
lidar com questões fundamentais, a mediação pode também estabelecer
ou fortalecer relacionamentos de confiança e respeito entre as partes ou
encerrar relacionamentos de uma maneira que minimize os custos e os
danos psicológicos.13

10
BARBOSA, Águida Arruda; GROENINGA, Giselle; NAZARETH, Eliana Riberti. Mediação: além de um método, uma ferramenta para a com-
preensão das demandas judiciais no direito de família – a experiência brasileira. Revista Brasileira de Direito de Família, Porto Alegre, n. 7,
p. 31, out-dez 2000.
“A criança não foi casada com sua própria mãe nem com seu pai; não adianta transferir as broncas. Não há continuidade espontânea; ela é
sempre induzida. E não falo de palavras, e sim das caretas, do esgar, do repuxo das sobrancelhas. O filho capta o desprezo ou a indiferença
nos gestos. No telefonema seco e irritante. Nas piadas mórbidas. Até no silêncio e na omissão.” (CARPINEJAR, Fabrício. O amor esquece
de começar. 2. ed. São Paulo: Betrand, 2006, p. 22).
11
Nas palavras de Ivan Aparecido Ruiz: “Nem poderia ser diferente, pois, sendo o processo um método heterocompositivo, onde se verifica
a presença de um terceiro, do Estado-juiz, a solução do conflito de interesses é imposta por esse. Trata-se de um método adversarial. A
solução, neste caso, é dada por esse terceiro e, muitas vezes, não é a melhor solução, apesar de estar assentada no ordenamento jurídico.
É que nem sempre a solução proferida será justa e isenta de erro.” (RUIZ, Ivan Aparecido. A mediação e o direito de família. Revista de
Arbitragem e Mediação, São Paulo, n. 6, p. 75, jul./set. 2005).
12
BREITMANN, Stella Galbinski; STREY, Marlene Neves. Gênero e mediação familiar: Uma interface teórica. Revista Brasileira de Direito de
Família, Porto Alegre, n. 36, p. 55, jun./jul. 2006.
13
MOORE, Christopher W. O processo de mediação: estratégias práticas para a redução de conflitos. Tradução de Magda França Lopes. 2. ed.
Porto Alegre: Artmed, 1998, p. 28.

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Estatísticas de países que utilizam a mediação com regularidade apontam para um percen-
tual superior a oitenta por cento de casos bem sucedidos14. Constitui um método apropriado
para “transformar” os conflitos, não se limitando a “resolvê-los”, pelo que se pode afirmar
que a mediação familiar exerce uma função “curativa e profilática dos conflitos familiares”.15
Se isto ocorre, “a observância do acordo independe de qualquer força executiva, visto que,
tendo sido o conflito tratado pelas partes e por elas solucionado, o seu cumprimento é con-
seqüência natural”16.
Existem outras possibilidades de aplicabilidade da mediação familiar, além dos casos de
dissolução da relação conjugal, quais sejam: em caso de adoção e apoio para o momento
posterior a adoção; nos casos de guarda; entre pais e filhos; sobre a assistência a idosos e
em disputas sucessórias17.
Processo informal, particular e confidencial, a mediação estabelece a negociação conduzida
pelo mediador. Por sua vez, este levará os participantes a construírem seus próprios acordos,
mutuamente aceitos, de maneira que permita, de forma criativa, que os envolvidos no conflito
possam dar continuidade a um tipo de relacionamento construtivo, sem enfrentamentos,
evitando-se condutas hostis, agressivas ou vingativas18. Por isso, as partes do conflito preci-
sam resolver questões complexas instauradas muito além do aspecto unicamente legal. E a
mediação é uma forma de possibilitar momentos de comunicação entre o casal resolvendo
questões emocionais que possibilitem uma separação ou um divórcio baseado no bom senso,
e não na vingança pessoal.19
O objetivo é facilitar acordos duráveis que permitam salvaguardar a proteção dos processos
de crescimento e de individuação.20 As pessoas são levadas a agir cooperativamente, diante
de opções realistas, e não a fazer acusações desmedidas ou pleitos baseados unicamente

14
CEZAR-FERREIRA, Verônica A. da Motta. Família, separação e mediação: uma visão psicojurídica. São Paulo: Método, 2007, p. 165.
15
BARBOSA, Águida Arruda; GROENINGA, Giselle; NAZARETH, Eliana Riberti. Mediação: além de um método, uma ferramenta para a com-
preensão das demandas judiciais no direito de família – a experiência brasileira. Revista Brasileira de Direito de Família, Porto Alegre, n. 7,
p. 29, out./dez. 2000.
16
SALES, Lília Maia de Moraes Sales. Justiça e mediação de conflitos. Belo Horizonte: Del Rey, 2004.
17
PARKINSON, Lisa. Mediación familiar. Teoría y práctica: principios y estrategias operatives. Tradução de Ana María Sánchez Durán. Barcelona:
Gedisa, 2005, p. 289-294.
18
BREITMANN, Stella Galbinski; PORTO, Alice Costa. Mediação familiar: uma intervenção em busca da paz. Porto Alegre: Criação Humana,
2001 p. 52.
19
BRAGANHOLO, Beatriz Helena. Novo desafio do direito de família contemporâneo: mediação familiar. Revista do Centro de Estudos Judiciários
do Conselho da Justiça Federal, Brasília, n. 29, p. 73, jun. 2005.
20
BREITMANN, Stella Galbinski; PORTO, Alice Costa. Mediação familiar: uma intervenção em busca da paz. Porto Alegre: Criação Humana,
2001, p. 46.

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em seu posicionamento pessoal.21. Assim, “há um resultado terapêutico, sem que ela seja
uma terapia”22.
O processo de mediação familiar requer do mediador conhecimento de relações interpes-
soais, habilidade no manejo do conflito e em negociação e conhecimentos básicos de Direito
de Família. Isso se consegue com o trabalho interpessoal/interdisciplinar de um psicólogo (ou
de outro profissional da área da saúde mental) e de um advogado. Trabalhando em conjunto
e aplicando as técnicas específicas do processo de mediação, eles conduzirão as partes por
um caminho menos pedregoso, amaciando o solo por onde os litigantes deverão passar até
formalizarem legalmente o rompimento, mas isto não quer dizer que sempre os mediadores
tenham que trabalhar em duplas 23.
Seu papel é provocar, estimular, para ajudar os mediados a chegar ao lugar onde possam
reconhecer algo que já estava ali.24 O mediador não é um mágico ou feiticeiro, mas precisa
lançar o feitiço das palavras que orientem uma satisfação possível compreendida através de
sua sensibilidade para ver o outro além de si, em sua leitura do conflito.25
A ritualidade diferenciada entre a mediação e o processo se dá principalmente em duas
linhas: a primeira diz respeito ao fato de que o processo sempre trabalha com a lógica de
ganhador/perdedor. Num segundo momento, a ritualidade do processo tem por objetivo
(além de dizer quem ganha e quem perde a demanda) investigar a “verdade real dos fatos”,
enquanto a mediação pretende restabelecer a comunicação entre os conflitantes, trabalhando
com a lógica ganhador/ganhador.26
Para John Cooley, “o mediador tenta manter as partes que estão se divorciando ou divor-

21
CEZAR-FERREIRA, Verônica A. da Motta. Família, separação e mediação: uma visão psicojurídica. São Paulo: Método, 2007, p. 165.
22
BARBOSA, Águida Arruda; GROENINGA, Giselle; NAZARETH, Eliana Riberti. Mediação: além de um método, uma ferramenta para a com-
preensão das demandas judiciais no direito de família – a experiência brasileira. Revista Brasileira de Direito de Família, Porto Alegre, n. 7,
p. 37, out.-dez./2000.
23
BREITMANN, Stella Galbinski; PORTO, Alice Costa. Mediação familiar: uma intervenção em busca da paz. Porto Alegre: Criação Humana,
2001 p. 50.
24
WARAT, Luis Alberto. Surfando na pororoca: o ofício do mediador. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2004, p. 13.
“Aquele que é incapaz de abrir, completamente a porta do inferno será incapaz de abrir a porta do céu, que passa pelo inferno. O inferno
tem que ser criado primeiro. A função do mediador começa por aí. Ninguém pode criar o céu primeiro. Os mediadores que apostam
no céu se equivocam. Ninguém pode criar o céu para o outro, unicamente, pode estimular o inferno, para que o outro possa chegar ao
céu. Quem não passa pela raiva, o ciúme, a dor, não pode alcançar o amor. Nós temos que estar fervendo, só então podemos evaporar.
Deve usar toda a sua sabedoria para conseguir deixar o problema fervendo. Se deixar as partes mornas, será inútil o trabalho, pois elas
ficarão novamente frias. Para ficar mediado é necessário chegar ao ponto de ebulição, à transformação alquímica.” (WARAT, Luis Alberto.
Surfando na pororoca: o ofício do mediador. Florianópolis : Fundação Boiteux, 2004, p. 25).
25
RIBEIRO, Cláudio da Silva; NOGUEIRA, Leandro Gadelha Dourado. Mediação, psicologia e hermenêutica. Revista de Arbitragem e Mediação,
São Paulo, n. 10, p. 8, jul./set. 2006.
26
SPENGLER, Fabiana Marion. Tempo, direito e Constituição: reflexos na prestação jurisdicional do Estado. Porto Alegre: Livraria do Advogado,
2008, p. 68.

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ciadas centradas no futuro e as estimula no sentido de passar por vários estágios emocionais
na direção de uma resolução mutuamente benéfica para elas próprias e para quaisquer filhos
envolvidos”.27 Ele deve funcionar como um timoneiro, que orienta a direção do navio sem
interferir no seu curso28. O seu destino é o de ser “abandonado” pelos mediados que o subs-
tituem pela comunicação entre si, dispensando este “guarda de trânsito” da comunicação 29.
Desse modo o mediador não é um mágico ou feiticeiro, tampouco precisa ser um psicólogo
ou advogado, mas carece de conhecer leis, estabelecer um momento empático com as partes
e, sobretudo, na magia do ato da mediação, lançar o feitiço das palavras que orientem uma
satisfação possível compreendida através de sua sensibilidade para ver o outro além de si,
em sua leitura do conflito.30
A autonomização dos indivíduos pretende possibilitar o tratamento do conflito “pensado”
entre as partes e não decidido com base em modelos ou por meio de ideias clonadas. Nesse
contexto, uma decisão autônoma é democrática, tomada como espaço consensuado, mediado,
que, ao respeitar as diferenças, produz respostas aos conflitos. Assim, torna-se um trabalho
de reconstrução simbólica dos processos conflitivos, das diferenças, permitindo formar iden-
tidades culturais e integrando as partes do conflito num sentimento de pertinência comum,
apontando a responsabilidade de cada um, gerando deveres reparadores e transformadores.31
O objetivo é ajudar as partes a enxergar a separação sob outros prismas, principalmente
quando as situações envolvem a convivência com os(as) filhos(as)32. Mais, seu objetivo é
construir uma nova relação a partir daquele momento, com a atenção voltada ao futuro, e
não aos acontecimentos anteriores 33.
A mediação resgata a fala como meio de explicitação dos interesses ocultos, e, ao restabe-
lecer a arte do diálogo como uma prática fecunda de falar e ouvir, promove a consideração

27
COOLEY, John W. A advocacia na mediação. Tradução de René Loncan. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001, p. 47.
28
BRAGANHOLO, Beatriz Helena. Novo desafio do direito de família contemporâneo: mediação familiar. Revista do Centro de Estudos Judiciários
do Conselho da Justiça Federal, Brasília, n. 29, p. 74, jun. 2005.
29
GROENINGA, Giselle Câmara. Mediação interdisciplinar – um novo paradigma. Revista Brasileira de Direito de Família, Porto Alegre, n. 40,
p. 159, fev./mar. 2007.
30
RIBEIRO, Cláudio da Silva; NOGUEIRA, Leandro Gadelha Dourado. Mediação, psicologia e hermenêutica. Revista de Arbitragem e Mediação,
São Paulo, n. 10, p. 8, jul./set. 2006.
31
MORAIS, José Luis Bolsan de; SPENGLER, Fabiana Marion. Mediação e Arbitragem: alternativas à jurisdição. 2. ed. Porto Alegre: Livraria do
Advogado, 2008, p. 136.
32
BREITMANN, Stella Galbinski; STREY, Marlene Neves. Gênero e mediação familiar: Uma interface teórica. Revista Brasileira de Direito de
Família, Porto Alegre, n. 36, p. 62, jun-jul./2006.
33
Na explicação de Verônica A. da Motta Cezar-Ferreira, “Não é função do mediador levar as partes a um acordo, mas é função da mediação
cooperativa-transformativa propiciar espaço psicorrelacional para a construção de uma nova realidade pelas partes, realidade essa que
permitirá que cheguem a um consenso sobre a questão conflitiva”. (CEZAR-FERREIRA, Verônica A. da Motta. Família, separação e mediação:
uma visão psicojurídica. São Paulo: Método, 2007, p. 163).

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A Justiça que Tarda, Falha: a Mediação como Nova Alternativa no Tratamento dos Conflitos Familiares

à diferença como ponto de partida para o exercício da convivência humana. Enquanto um


procedimento de resolução pacífica de conflitos, sua prática possibilita às pessoas identifi-
carem seus verdadeiros interesses em uma situação de conflito. 34

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Hoje, as demandas na sociedade são complexas e avançam com uma rapidez jamais ex-
perimentada. Soma-se a isso a facilitação do acesso à Justiça, sobretudo após a promulgação
da Carta Constitucional de 1988 – que garantiu o acesso da população ao Poder Judiciário
de forma ampla e gratuita a qualquer ameaça ou lesão a Direito. Temos experimentado uma
cultura da judicialização demasiada.
Atualmente, de forma antagônica, garantimos o acesso do cidadão à Justiça, mas não
garantimos sua saída. Assim, passam-se os anos (em algumas oportunidades, as décadas) e
o indivíduo fica sem qualquer resposta a sua postulação.
Tais fatores constituem em um desincentivo à busca da justiça. Uma decisão judicial,
por mais justa e correta que seja, muitas vezes pode tornar-se ineficaz quando chega tarde,
ou seja, quando é entregue ao jurisdicionado no momento em que não mais interessa nem
mesmo o reconhecimento e a declaração do direito pleiteado.
Devido à morosidade que experimentamos atualmente, se antes tínhamos como ditado
popular a célebre frase de “aos amigos, tudo; aos inimigos, a Lei”, passamos para o estágio
de “aos amigos, tudo; aos inimigos, o Poder Judiciário”.
Em um país em que se encontram, atualmente, em tramitação cerca de 90 milhões de
processos, que a cada ano somam-se mais 22 milhões, é imperiosa a criação de novas alter-
nativas para o tratamento dos litígios familiares, até como forma de concretização da “razo-
ável duração do processo”, inserida pela Emenda Constitucional n. 45/04, incluindo o inciso
LXXVIII ao art. 5º da Constituição Federal, e, também, como forma de resposta quantitativa
e qualitativa aos conflitos apresentados ao Judiciário.
Além disso, o uso da mediação poderá contribuir para que os fenômenos da reincidência
processual, morosidade e do custo elevado das ações judiciais sejam reduzidos, uma vez
que tal procedimento produz resultados qualitativamente duradouros em relação àqueles

ANDRADE, Cleide Rocha de. A mediação de conflitos familiares na Justiça: uma saída singular. Revista Brasileira de Direito de Família, Porto
34

Alegre, n. 38, p. 29, out./nov. 2006.

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estabelecidos por intermédio da imposição da sentença.


Por meio da prática da mediação nos conflitos familiares, conseguiremos chegar ao está-
gio em que as demandas familiares deixem de ser analisadas pelo Judiciário “como meras
abstrações jurídicas, olhando-se para os protagonistas dos processos judiciais como pessoas
com rostos e histórias que querem respostas qualitativas e céleres para suas demandas”.35
Toda a justiça que tarda, falha. Assim, é necessária uma nova tomada de atitude do Estado
e também de todos os profissionais que atuam na área jurídica para que possamos construir
uma sociedade que substitua a lógica do litígio pela ótica da cooperação.

REFERÊNCIAS

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CONRADO PAULINO DA ROSA


Advogado. Mediador Familiar. Mestre em Direito pela UNISC. Professor do Centro Univer-
sitário Ritter dos Reis (UNIRITTER) e da ESADE. Vice Presidente do Instituto Brasileiro de
Direito de Família (IBDFAM - Seção RS) na gestão 2012/2013.
E-mail: contato@conradopaulinoadv.com.br

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Conrado Paulino da Rosa

Submissão: 19/09/2011
Aprovação: 15/10/2011

ROSA, Conrado Paulino da. A Justiça que Tarda, Falha: a Mediação como Nova Alternativa
no Tratamento dos Conflitos Familiares. Revista da Faculdade de Direito UniRitter, Porto
Alegre, n. 11, p. 61-71, 2010.

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