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A 13° Emenda: uma relação entre passado e presente de um ponto de vista estético

A ressalva de uma lei como permanência do passado

A 13° Emenda é um documentário da diretora norte americana Ava DuVernay


que trata da questão racial nos Estados unidos. O roteiro proposto pela diretora
intercambia passado e presente numa relação constante entre memória e história
envolvida por interesses políticos e ideológicos.

O título do documentário consiste numa referência direta a 13° Emenda da


Constituição, que versa sobre o fim da escravidão e através da qual a liberdade para todos
os cidadãos seria garantida. Essa mesma emenda possui uma ressalva em que fica
determinado que as pessoas que cometerem crimes perderão o gozo de tais garantias então
constituídas pela emenda. Segundo essa ressalva, as pessoas criminosas perdem o direito
à liberdade e tornam-se “escravas do Estado”.

"Emenda XIII

'Seção 1'

Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição,
nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo
qual o réu tenha sido devidamente condenado.

A maneira pela qual a ressalva desta emenda se apresenta antecipa os modos como
a história será construída politicamente pelas elites estadunidenses, ou seja, um modo
forjado através do qual, a população afrodescendente continuará sendo perseguida e
desapropriada dos seus direitos. A ressalva à 13° Emenda Constitucional foi um
prenúncio da manutenção do status quo remanescente do período da escravidão. Isso
significa dizer que a nova lei apenas mudou os modos pelos quais o Estado - que deveria
garantir a equidade de direitos entre todos os cidadãos - na representação do poder das
elites conservadoras, continuará exercendo sua ideologia racial.

É a partir deste cenário que a diretora desenvolve a narrativa do filme. Nesta


narrativa, ela irá articular o passado com o presente numa criativa montagem através da
qual a estética gráfica das cartelas de letreiros do cinema antigo é reinventada com a
estética musical do Hip Hop e do potencial estético da cultura afrodescendente
contemporânea.

Estética e memória

A proposta da estética do documentário de Ava DuVernay, é tão intensa quanto


os testemunhos reminiscentes apresentados pelos entrevistados. A autora procura
rememorar o passado da discriminação racial através de acontecimentos históricos
racistas para mostrar como isso se perpetua no presente, mas apenas adaptado aos
discursos modelados pelos modos políticos e ideológicos da contemporaneidade.

Pois bem, é a partir da articulação do passado com o presente que a estética do


filme é construída. No entanto, a apresentação imagética da montagem fílmica não se
constitui apenas como elemento decorativo, mas é a própria composição visual que
reforça essa relação de memória e presente nesse contexto político-ideológico da questão
racial. O ponto de partida da diretora é a inserção do filme dentro do filme, ou seja, a
citação do longa metragem “O Nascimento de uma Nação” de 1915 de David Griffith no
roteiro do próprio documentário.

Este longa de Griffith é um filme cheio de controvérsias se consideramos uma


análise a partir do olhar contemporâneo. Neste filme, o negro é representado não por
atores negros de fato, mas por brancos que são tingidos de tons escuros para simular uma
etnia e uma pseudo personalidade, visto que a sua representação é toscamente retratada
como a de um ser bestial, sem qualquer condições ou aptidões civilizatórias. É o retrato
cinematográfico de como a sociedade conservadora americana enxergava o papel do
negro, ou seja, uma discriminação aceita e velada, ainda que a 13° Emenda Constitucional
se propunha a garantir os direitos iguais entre todos os cidadãos.

A estratégia da montagem deste documentário foi capturar elementos gráficos


presentes nos filmes do cinema mudo e reconstruí-los à luz dos fatos abordados no filme
e também do ponto de vista da cultura afrodescendente americana. Precisamente, esses
elementos correspondem às cartelas de letreiros que eram utilizados no cinema mudo para
guiar o interlocutor nas histórias contadas nas narrativas fílmicas. No documentário em
questão, o filme de David Griffith não só é citado com inserções de fragmentos de suas
sequências, mas citado principalmente como um corpo estético do próprio documentário.
Do mesmo modo que os filmes mudos eram divididos em sequências intercaladas por
cartelas com letreiros informativos, assim também é o filme A 13° Emenda. Ou seja, o
documentário de DuVernay se apropria desse elemento e o reconstrói no seu filme. Mas
diferentemente de “O Nascimento de uma Nação”, o uso de tais elementos no
documentário é transgredido para enfatizar os problemas e a identidade de grupos sociais,
isto é, a questão do encarceramento e da identidade do negro afrodescendente americano.

É importante mencionar que toda a abordagem imagética do documentário se


constitui como uma maneira de articular as informações do passado racista com os
problemas do encarceramento da população negra no presente, ou seja, o uso da memória
para mostrar como as injustiças se perpetuam e são legitimadas pelos discursos dos
representantes do estado e pela indústria carcerária representante de uma elite
conservadora e excludente. Neste sentido, a relação de passado e presente estabelece um
meio pelo qual a narrativa dessas memórias deve evidenciar o caráter de testemunho com
vista a denunciar um passado que teima em se fazer presente. Paul Ricoeur mostra o
quanto a memória é importante ao mencionar a validade dos acontecimentos históricos
como um testemunho a ser enfatizado, registrado e contado para que o caráter de denúncia
não perca sua confiabilidade. Segundo ele:

O testemunho é, num sentido, uma extensão da memória, tomada na sua fase


narrativa. Mas só há testemunho quando a narrativa de um acontecimento é
publicitada: o indivíduo afirma a alguém que foi testemunha de alguma coisa
que teve lugar; a testemunha diz: “creiam ou não, em mim, eu estava lá”. O
outro recebe o seu testemunho, escreve-o e conserva-o. O testemunho é
reforçado pela promessa de testemunhar de novo, se necessário; o que implica
a fiabilidade da testemunha e dá ao testemunho a gravidade de um sermão.

Seguindo esse raciocínio, fica muito evidente como a montagem do documentário


de DuVernay é esteticamente articulado para que o poder de testemunho das memórias
seja validado e seu poder de denuncia cumpra seu papel. Para que esta relação de memória
e presente se articule de maneira coerente, a autora recorre aos procedimentos da
montagem do filme de David Griffith e constrói a montagem de seu filme dividindo-o em
diversos blocos narrativos e de entrevistas, onde cada parte aborda questões diferentes
sobre a questão do encarceramento e a perseguição a população negra, sempre
relacionando passado e presente.

Para que a estética da montagem do filme permitisse essa relação com o cinema
mudo, a autora adapta as cartelas informativas de outrora para criar as apresentações de
cada bloco narrado no filme. Desse modo, o que era apenas um guia de informação
narrativa nos filmes mudos, passa agora a ilustrar títulos e textos que fazem partem do
universo de denúncia sobre questões discriminatórias da relação do estado com a
população negra. Essas apresentações para o início de cada bloco de narrativas, são
desenvolvidas com textos garrafais animados sobre o fundo negro, onde se pode fazer
analogia às prisões, o que significa dizer que tais apresentações, além de narrar o tema a
ser abordado e fazer citações de diversos problemas inerentes ao contexto do filme,
imageticamente a composição desses elementos estão carregados de alegorias que dizem
respeito a condição social da população negra.

Por outro lado, os ângulos de filmagens de cada pessoa entrevistada foram


estrategicamente pensados para fazer analogias ao próprio tema do documentário. Ou
seja, além de narrar o conteúdo a ser discutido, a maneira como a imagem é capturada
consegue dizer com profundidade acerca as questões abordadas. Para cada entrevistado
apresentado, os ângulos de captura de suas imagens se alternam para visões frontais e de
perfis. A estratégia de narrativa visual desenvolvida pela diretora associa esses ângulos
de visão à maneira como os criminosos são fotografados ao serem encarcerados, ou seja,
são fotografias frontais e de perfis. Esse modo de filmar mostra claramente que aquilo
que é apresentado visualmente está o tempo todo dialogando como que está sendo narrado
verbalmente, e para que isto se traduza de modo imagético, a montagem cinematográfica
foi pensada para articular cada cena apresentada com o objetivo de fazer essa relação
entre a estética do filme e o que ele narra propriamente dito.