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JORNAL

DE LETRAS,
ARTES E
IDEIAS
Ano XL * Número 1299 * De 15 a 28 de julho de 2020
* Portugal (Cont.) €3,30 * Quinzenário * Diretor José Carlos de Vasconcelos

AMÁLIA,
ETERNA
No centenário da que foi, e continua a ser,
uma “voz” de Portugal, textos de Fernando
Dacosta, Lídia Jorge, Manuel Alegre, Maria
do Rosário Pedreira, Miguel Carvalho,
Onésimo Teotónio Almeida, Tiago Torres
da Silva e Valter Hugo Mãe. Entrevista com
Rui Vieira Nery e reportagem de Manuel Halpern
PÁGINAS 6 A 17

TIAGO BRANDÃO RODRIGUES BALANÇO DE UM ANO LETIVO DIFERENTE


Texto do ministro da Educação
ILUSTRAÇÃO DE AFONSO CRUZ

JL/Educação

Pedro Eiras, uma descida ao inferno contemporâneo * Moita Macedo, o pintor que fazia versos
* O regresso da Agenda Cultural * As crónicas e colunas de Afonso Cruz, António Mega Ferreira, André Freire,
Carlos Fiolhais, Gonçalo M. Tavares, Guilherme d’Oliveira Martins, João Ramalho Santos,
Marco Lucchesi, Miguel Real, Patrícia Portela e Viriato Soromenho-Marques
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DESTAQUE 15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

›BREVE ENCONTRO‹

Carlos J. Pessoa
Manifesto teatral
anti-Trump

JAMES NEWITT “FOSSIL”, 2019 (VIDEO STILL). CORTESIA: O ARTISTA E CARPINTARIAS DE SÃO LÁZARO, 2020.
“Não!”, diz o Teatro da Garagem. À personagem Trump, à política
feita espetáculo, num “manifesto teatral”: Donald Trump e os
Bombons, escrito e encenado por Carlos J. Pessoa, que estreia a 23,
no Teatro Taborda, em Lisboa. Uma “tomada de posição”, como
adianta ao JL o dramaturgo e encenador, “porque é tempo de o
teatro entrar em cena”. E os atores e criadores teatrais são, garante,
“verdadeiros sismógrafos dos tempos que atravessam”.
Com as atrizes Ana Palma e Rita Monteiro e o músico Daniel
Cervantes ao vivo, é uma “pequena ópera de câmara”, com muita
“energia” e “entusiasmo”, no regresso da companhia ao palco,
depois de ter apresentado Mundo Novo online, para uma curta série
de representações, até 26, retomando a carreira em setembro.

JL: Este é um espetáculo de crítica política?


Carlos J. Pessoa: É um manifesto teatral. Vendo o que está a acon-
tecer na América, situação agravada com a pandemia, o racismo,
achamos importante tomar posição sobre a personagem Trump.
Fossil Carpintarias de S. Lázaro A memória e a linguagem,
Uma personagem teatral? numa recuperação pós-traumática, na curta-metragem Fossil,
Como ele próprio se criou e projeta. Esse é
o problema e que se agudizou de uma for- de James Newitt, artista visual e cineasta que vive atualmente
ma trágica. Até porque, com ele, a política entre Portugal e a Tasmânia (Hobart),
descambou completamente para o espe-
táculo. Em palco, vamos ter aparições do na exposição que vai inaugurar-se a 18,
Trump racista, sexista, bimbo quando vai marcando a reabertura das Carpintarias de
à Disney de Xangai e anda a correr atrás
do Pato Donald para pedir um autógrafo,
S. Lázaro, em Lisboa. Além da projeção em
ou quando quer comprar o Palácio de grande ecrã, no piso 0, do filme em estreia na
Versailles… Não se trata de uma questão
ideológica, mas da salvaguarda de valores fundamentais da vivência
Europa, protagonizado por Anton Skrzypiciel e Romeu Runa,
democrática que estão realmente ameaçados, porque há um delírio no andar inferior, apresenta-se uma instalação imersiva, que
patológico, uma prevalência da irracionalidade. procura reconstituir o ambiente das filmagens, que decorreram
Escreveu o texto durante o confinamento? naquele centro cultural. Fica até 29 de agosto.
Sim. Quando vi aquela conferência em que Trump veio com a
história da lixívia, achei que era a loucura. Neste momento, trata-se
de chamar os bois pelos nomes. Há tanta coisa em jogo que todos
temos que assumir as responsabilidades e a urgência de dizer que AS TROIANAS FINALISTAS APE FIAR EM PALMELA ESTREIAS
aquilo a que assistimos atualmente é perigoso. Trump não diz res- EM BRAGA ROMANCE PORTUGUESAS
peito apenas aos americanos, é uma questão de todos nós. Em tempos de pandemia,
A Companhia de Teatro de O Gesto que Fazemos para a arte faz-se nas ruas, com Na retoma pós-Covid, os fil-
Daí a ideia de um manifesto? Braga (CTB) estreia, a 17, Proteger a Cabeça, de Ana uma edição especial do FIAR, mes portugueses continuam
Acreditamos que o teatro tem um papel fundamental, porque é uma As Troianas, de Eurípedes, Margarida de Carvalho; Festival de Arte de Rua, que a estrear-se a bom ritmo. O
arte do aqui e agora, ao vivo, e fazemos questão de abrir o nosso no Theatro Circo, Braga. A Homens de Pó, de António decorre dias 25 e 26, em grande destaque é Patrick, a
teatro trazendo o que estamos a viver no mundo para o palco, por- encenação é de Rui Madeira. Tavares; A Visão das Plantas, Palmela. Numa edição que primeira longa realizada pelo
que é um tema crucial, precisamente uma batalha que diz respeito a O espetáculo é uma das de Djaimilia Pereira de homenageia a atriz Dolores ator Gonçalo Waddington,
todos. É um pequeno contributo da Garagem. produções que, este ano, Almeida; A Luz de Pequim, de Matos, diretora do FIAR, que tem feito um percurso
assinalam os 40 anos da CTB. de Francisco José Viegas; e falecida o ano passado, o notável por festivais de
Um teatro de intervenção? Adiado por causa da pande- Tríptico da Salvação, de Mário festival começa com um es- cinema. Um drama, com
Toda a minha vida defendi um teatro poético e não panfletário. Mas mia, chega agora ao palco Cláudio, são os finalistas do petáculo coletivo, intitulado Carla Maciel, Alba Baptista e
não conseguimos ser indiferentes ao que estamos a viver. Somos e o encenador e diretor da Grande Prémio de Romance Instalação FIAR. Segue-se, Adriano Carvalho, que chega
testemunhas da História. Refletimos também sobre o que nos pode companhia apela ao público: e Novela da APE. A definição também no dia 25, a música às salas dia 23. No dia 30, es-
salvar, sobre os valores da Revolução Francesa: liberdade, igualda- “Precisamos do seu sentido da short-list coube ao juri de Rini Luyks; a performan- treia-se Zé Pedro Rock'n'Roll,
de, fraternidade, a que acrescentámos um amor esquisito. E essa é a de Cidadania. Precisamos da constituído por José Manuel ce A Vila a Fiar, por Paula o documentário sobre o
frase-chave do espetáculo. sua parceria na Comunicação, de Vasconcelos, Ana Paula Moita (artista plástica) e carismático guitarrista dos
junto dos seus familiares e Arnaut, António Pedro Pita, Gonçalo Freire; o circo com Xutos & Pontapés, realizado
Como sentiu o regresso à encenação ‘ao vivo’? Amigos”, escreve na folha Cândido Oliveira Martins, Le Voyage du Balayeur; e o por Diogo Varela e Silva. E, já
Quando pisei outra vez o palco não fazia ideia do que iria encontrar. de sala. “É nossa obrigação Isabel Cristina Rodrigues e teatro com as peças Pele e A em agosto, é tempo de ver A
Era preciso sentir o que as tábuas iam dizer. voltarmos Todos ao Theatro. José Carlos Seabra Pereira. Interrupção. No dia 26, des- Impossibilidade de Estar Só,
Ousar abrir ‘novas fronteiras, Pode haver um vencedor taca-se o concerto Huesos de Sérgio Graciano (dia 6),
E o que disseram? neste novo tempo’ para sen- inédito (Tavares ou Almeida), del Niño; e os espetáculos Golpe de Sol, de Vicente Alves
Força, pujança, a apanhar as ondas da terra, do tempo, da História. tirmos melhor a importância um repetente (Viegas) ou de dança Elo e Novelo, de do Ó (13), Alice Nova Iorque
Pediam este teatro: duro, sem efeitos, centrado no ator. J da Cultura e da Arte nos triplo distinguido (Carvalho Leonor Keil; e Penélope, de e Outras Histórias, de Tiago
MARIA LEONOR NUNES tempos que vivemos”. ou Cláudio). Tiago Vieira. Durão (20), entre outros.
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De norte a sul, Amália, sempre


novas exposições no verão
Cartazes, fotografias, fanzines, flyers,
COMENTÁRIO
revistas, livros, em Velvet Nirvana, que José Carlos de Vasconcelos
inaugura-se a 18, no Pavilhão Branco,

A
Museu da Cidade, em Lisboa. É uma
exposição que resulta da coleção de
António Neto Alves, com curadoria de identificação de Amália com Portugal é uma
Miguel von Hafe Pérez, que percorre espécie de emanação do inconsciente coletivo:
três décadas de iconografia, entre o ela exemplarmente personifica não só o seu
aparecimento e o fim de duas bandas Povo - com todos os traços de fatalismo e de
rock, os Velvet Underground, em 1965, coragem com todos os traços que o caracteri-
e a morte de Kurt Cobain, dos Nirvana, zam, de melancolia e de vibração que o ani-
em 1994. Em evidência a palavra e a mam -, mas também (...) os seus amplos horizontes ora tocados
imagem e o modo como operam “sen- de bruma ora inundados de luz intensa", escreveu aqui o nosso
tido” “e “ruturas na comunicação”, ao sempre recordado David Mourão-Ferreira, colunista e colabora-
correr do tempo. dor JL desde o nº 1, num dossier que dedicamos ao fado, em 1990.
As Galerias Municipais de A ninguém melhor do que ele poderia eu pedir um texto sobre
Lisboa vão ainda inaugurar, a 25, na a "diva", de quem era amigo e para quem escreveu excelentes
Quadrum, a exposição Earthkeeping/ letras/ poemas. E, de facto, não conheço mais belo texto sobre
Earthshaking – Arte, Ecologia e Amália do que esse, em que se fundem o poeta e o ensaísta de
Femininos, com curadoria de Giulia exceção que David era, e no qual a considera "um heterónimo de
Lamoni & Vanessa Badagliacca, dá a ver Diálogos artísticos A partir da coleção Berardo Portugal".
um conjunto de obras e documentos Por isso, na impossibilidade de o reproduzir - por razões de
que aferem o papel pioneiro de artistas espaço, mas também porque já o fizemos na nossa edição de 20
dos anos 70 e 80 na abordagem das Projeto Travessa da Ermida, inaugu- de Coimbra. Com curadoria de Ana de outubro de 1999 -, creio impor-se recordá-lo aqui a abrir estas
temáticas da relação do humano com o ram, a 18, as exposições individuais de Anacleto, mostram-se imagens de linhas. Sublinhe-se, aliás, que essa edição, subsequente à morte
ambiente, da mulher com as forças da Sandra Baía e de Francisco Queirós. Bernard Plossu, Debbie Fleming da fadista, é uma daquelas que nos honra, em particular pela sua
Natureza ou da Natureza com a cultura. Entretanto, em Guimarães, no Caffery, José Maçãs de Carvalho, magnífica colaboração. Assim, sobre Amália escreveram especi-
Corpo Radial, da dupla Mariana Arquivo Municipal, pode ser vista uma Inês Gonçalves, José Afonso Furtado, almente para nós autores, como (os cinco primeiros infelizmente
Caló & Francisco Queimadela, com nova exposição de José de Guimarães, Daniel Blaufuks, Daniel Malhão, já desaparecidos) Agustina Bessa-Luís, José Fonseca e Costa,
curadoria de Susana Ventura, inaugu- Tímida Modernidade. E, em Vila Nova André Cepeda, Paulo Nozolino ou Lagoa Henriques, Ruben de Carvalho, Carlos Amaral Dias, Vasco
rar-se-á a 30, na Galeria da Boavista. de Famalicão, o Museu da Fundação Rui Chafes. No Espaço Projeto, o Wellencamp, Nuno Vieira de Almeida, Waldemar Bastos, Marina
E na galeria Av. da Índia apresenta-se Cupertino de Miranda exibe Só a CAV apresenta Cápsula, de Pedro Tavares Dias e José Bragança de Miranda - além de, com poema
Homo Kosmos (Cough Cough), de Tiago Imaginação Transforma, tomando a Henriques. E finalmente, na Galeria inéditos, Mário Cláudio e Yvete Centeno.
Borges e Yonamine, com curadoria de frase de Mário Cesariny como título, Diferença, em Lisboa, O Dois a dois, Diga-se, de passagem, que no seu testemunho o Fonseca
Tobi Maier. O Museu Coleção Berardo que reúne obras de 33 artistas ligados de Marta Wengorovius. Desenhos, e Costa - que conta a história do nascimento do admirável
vai, igualmente, reabrir hoje, 15, de alguma maneira ao surrealismo, objetos e exercícios sobre a dualidade "Gaivota", de Alain Oulman / Alexandre O'Neill, um dos maiores
ao público o Piso 2, com uma nova desde o início do séc. XX até hoje. Entre na natureza e o mundo. Não só pelas êxitos de Amália - o Fonseca e Costa, dizia, refere, o que cons-
apresentação da coleção Do Primeiro eles, Alexandre O’Neill, Areal, Vespeira, regras de segurança pandémicas, mas titui para mim dos momentos mais belos da relação e interação
Modernismo às Novas Vanguardas Cruzeiro Seixas, Gonçalo Duarte, Isabel por vontade da artista, a exposição é criadora entre dois artistas, e dos momentos mais comoventes da
do Século XX, através do projeto Meyrelles. Até 31 de outubro. para ver em par, em jeito dialogante. relação entre duas pessoas no ato de criar. "A mais bela sequência
Constelações III: Uma Coreografia de No CAV, Centro de Artes Visuais Quem não quiser ir sozinho, a galeria que jamais filmei, onde se desnuda a intimidade de um com-
Gestos Mínimos. Mais de 350 obras, de Coimbra, está patente Spectrum, fará o possível para encontrar "outro positor a ensinar uma canção a quem lhe dará voz", sublinha o
alguns nunca expostas. uma retrospetiva que assinala os 40 Um para que possam fazer a visita a cineasta sobre esses memoráveis menos de meia dúzia de minutos
Também em Belém, no âmbito do anos dos Encontros de Fotografia Dois." Até 30 de julho.J do ensaio do Soledad, que para felicidade de todos nós regis-
tou. "O mais precioso de tudo", lê-se no texto de Lídia Jorge em
que fala de ambos, Alain e Amália, como ela sabe. E como sabe
Manuel Alegre, ou como sabem, sobre a escrita para fado, Maria
Maria Beatriz trabalho. A esse olhar antológico deu o nome de Trabalho de
Casa que, para sim, nunca estava acabado. No seu atelier,
do Rosário Pedreira e Tiago Torres da Silva, ou... ou..., têm os lei-
tores muito que ler, com prazer e proveito, no Tema mais à frente,
(1940-2020) tudo renascida. Vida, memória e intervenção cívica. J sobre o qual não me vou nem poderia longar.

IMPORTARÁ APENAS DIZER QUE, apesar de lhe dedicarmos


dez páginas, necessariamente em breve voltaremos a Amália e ao
Na pintura, desenho, gravura, colagem, instalação,
fotografia ou azulejaria: foi sempre uma artista de multiplas
Festivais e cursos seu centenário. Desde logo com o que não coube neste nº, de que
destaco a pré-publicação de excertos de uma longa entrevista que
expressões, sempre em busca de uma linguagem que ex-
pressasse a poesia que encontrava no mundo ou que melhor
de música clássica um escritor da qualidade (e com a orientação política: comunista)
de Manuel da Fonseca fez à artista, em 1973, por encomenda do
evidenciasse as injustiças que também encontrava nele. editor Nelson de Matos: o projetado livro acabou por não sair, mas
Maria Betriz, um dos grandes nomes da arte portuguesa será publicado em setembro, numa parceria Nelson de Matos /
do século XX, há muito fixada em Amesterdão, morreu no Está a decorrer, até 25 de julho, o Festival ao Largo, no Porto Editora.
passado sábado, aos 80 anos, vítima de doença prolongada. Pátio do Palácio Nacional da Ajuda (ver Agenda Cultural), Passados quase 21 anos sobre a morte da artista, continuo a
Era discreta, avessa até aos holofotes dos grandes circui- e também já em curso, até 31, em vários espaços, o pensar e sentir o mesmo, e por isso só posso dizer ou escrever o
tos da arte, mas trabalhou continuadamente, explorando Festival Estoril Lisboa, que celebra Beethoven e o 30º mesmo que naquela nossa edição de outubro de 1999. Que, sobre
também os elementos criativos suscitados pelo inconscien- aniversário dos seus Cursos de Interpretação, numa ser uma fantástica intérprete, ninguém, como Amália, deu voz
te. Nasceu em Lisboa, em 1940, e desde cedo mostrou a sua programação em duas fases, sendo a segunda entre 13 de a Portugal; ou, pelo menos, a um certo Portugal - e a muito que
vocação artística. A ditadura do Estado Novo e as contes- novembro e 14 de dezembro. Outras iniciativas pedagógi- há de fado na alma do nosso povo. Ninguém, como ela, e como
tações académicas de 1961-62 em que se empenhou força- cas mantêm a sua programação, embora em formato mais Carlos Paredes com sua guitarra, exprimiram uma certa me-
ram-na a interromper o curso em Belas Artes e mais tarde, reduzido: no Centro Cultural de Belém, o Verão Clássico lancolia, uma certa tristeza, uma certa forma de sentir - tão
a sair de Portugal. Esteve primeiro em Londres, depois em - Academia Internacional de Música de Lisboa será entre portuguesas. E a saudade, uma saudade, porém, que (sobretudo
Paris, fixando-se finalmente em Amesterdão. Teve a sua 26 de julho e 4 de agosto; o Zêzere Arts Festival, com os em Paredes) não é só passado, mas também futuro.
primeira exposição individual nos anos 80, seguindo-se Cursos de Verão em Évora, de 25 de julho a 1 de agosto; e o E devia terminar, já agora, revelando uma das muitas coi-
várias apresentações na Holanda, em Portugal e em outros Festival de Música da Bendada, em edição online, de 20 a sas que quis fazer e não consegui - e que tem a ver com os dois,
países. Em 2016, duas grandes mostras, na Casa da Cerca 31 de julho, propondo masterclasses e concertos virtuais, Amália e Carlos, e com um terceiro, Zeca. Fica para uma próxima
e na Galeria Ratton, percorreram os grandes eixos do seu com a estreia absoluta de uma obra de Sérgio Azevedo. J oportunidade...J
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O 1º ANO – JL10 Helder Godinho (1947-2020)


João Abel, (sem) De Vergílio a Durand
adeus - e Vinicius

E
NUNO JÚDICE
ntão ainda não se sabia, mas o nº 10 do JL, de 7 a 21 de
julho de 1981, seria o último, não especial, com a capa Há momentos que nos trazem à memória dessa lógica profunda do mundo literário
desenhada por João Abel Manta, e profusamente ilus- um percurso longamente percorrido através a partir das estruturas do inconsciente
trado com desenhos seus feitos especialmente para o do trabalho e da amizade. A perda de Helder que ele organizou a partir da sua formação
efeito. De facto, só no nº 11 se anunciaria que o grande Godinho (morreu, de forma inesperada, a de antropólogo, indo mais longe do que a
artista estava de merecidas "férias", mas "voltaria em 3 de julho), um colega e amigo desde o 6º tipologia dos arquétipos de Jung e do mundo
breve" - só que, infelizmente, como eu temia, não voltou, da mesma ano do Liceu Camões, quando a opção pelas dos complexos culturais de Gaston Bachelard.
forma regular, embora voltasse sempre que lho solicitei, sobretudo em Literaturas Românicas nos juntou na turma B Foram inesquecíveis os encontros e as
edições especiais. Mas essa pequena história fica para outra ocasião, ao lado de Luís Miguel Cintra, Jorge Molder, viagens pelo Portugal mítico, de Tomar à
vejamos agora que o desenho da capa de João Abel temos frente a José Nuno Martins, João David Nunes, Victor Batalha, em que Gilbert Durand encontrou
frente Antero de Quental, em grande, e Alexandre Herculano, mais Oliveira, entre outros, e depois no curso da motivo para textos notáveis sobre a nossa
pequeno: o texto sobre os dois, a que a ilustração se reporta, é de Joel Faculdade de Letras de Lisboa. cultura, passando também, como é óbvio, pela
Serrão, acompanhado de um Foi no liceu que o Helder descobriu Vergílio gastronomia.
"quase inédito" de Antero. Ferreira nosso professor de grego cujas aulas Mas outros nomes, de que destaco Claude
A primeira matéria da edição, marcaram todos os alunos que beneficiaram Gilbert-Dubois e Joël Thomas, vieram também
porém, também com um exce- da abertura de horizontes e de análise que, aos nossos seminários dando um impulso
lente retrato de João Abel, é outro para lá da Grécia antiga, atingia toda a cultura decisivo aos estudos do imaginário que se
poeta, o "poeta parceiro" (de ocidental com especial incidência na filosofia traduziram em inúmeras teses de mestrado
muita da melhor "bossa nova"), e na literatura francesas do pós-guerra. e de doutoramento ao longo dos anos e à
como o nosso Irineu Garcia Proust, Bergson, Malraux, Camus, Sartre, criação de uma escola, centrada no Centro de
intitula o seu magnífico artigo/ prolongavam os autores do programa, e talvez Estudos sobre o Imaginário, de que o Helder
evocação, no 1º aniversário da sua nos lembremos mais das suas conversas, Godinho foi até à sua morte um permanente
morte, de Vinicius de Moraes, de como ele dizia, a propósito desses então orientador. Não serão muitos os professores
quem era amigo. Mais, foi num contemporâneos, do que dos clássicos; e a que conseguiram criar uma escola de
"selo" discográfica de Irineu, partir daí o fascínio pela sua obra levou-o pensamento e de investigação; e o Helder teve
"Festa", que saiu o primeiro LP a fazer uma tese, talvez a primeira, sobre o essa qualidade, prosseguindo esse trabalho
da "bossa nova", com música de autor. para lá da sua prematura jubilação, desiludido
Tom Jobim, letras de Vinicius e Terminado o curso perdemo-nos de vista com a evolução da carreira académica pós-
tendo como intérprete Elisete durante alguns anos até que, já depois do 25 Bolonha.
Cardoso (participação ainda de de Abril, o voltei Partilhámos
João Gilberto): Canção do amor a encontrar na durante anos
demais. Título do colunista da Faculdade de o mesmo
Zona Tórrida do JL, como ele Ciências Sociais gabinete; e
conta num texto, que antecipa- e Humanas da essa longa
mos, para a contracapa de da reedição do disco. Uma expressiva foto, de Universidade Nova convivência,
quarto de página, de Vinicius com Irineu, e outra do poeta com Tom e quando nela entrei em que também
Elisete, ilustram também essas quatro páginas que incluem ainda - aqui como assistente alternámos, por
na "casa" procuramos, embora muitas vezes não consigamos, sempre estagiário no vezes, como
mais -, uma crónica de Alexandre O'Neill - "Vinicius nunca mais!". ano de 1978. O coordenadores
E vem só nas pp. 16 e 17 a triste matéria sobre a primeira morte Helder já fazia do
de um grande escritor português, e em simultâneo um meu amigo parte do corpo Departamento,
próximo, que nestas colunas tivemos de registar - e só não foi capa docente e, quase revela como
porque tinha sido exatamente a capa, e tema, do nosso nº 8: Carlos naturalmente, o mundo
de Oliveira. De facto, apenas com 59 anos, o autor de Sobre o lado iniciámos um universitário,
esquerdo morreu, subitamente, no dia 1 de julho. E nesta edição es- trabalho comum tantas vezes
crevem sobre ele quatro destacados escritores, de diferentes gerações, que nasceu da Helder Godinho caracterizado
também seus amigos: Mário Dionísio, José Cardoso Pires, Fiama Hasse descoberta que ele por ambições
Pais Brandão e Gastão Cruz. Por sua vez, volto a fazer/escrever uma me proporcionou que levam a
coluna de abertura do jornal, falando do Carlos como escritor, como do que viria a ser ruturas mais
pessoa e como alguém, com quem à época eu tinha um convívio conhecido como mitocrítica através da leitura ou menos dramáticas, nunca nos atingiu.
assíduo, que sempre me incentivou nesta aventura do JL - se houver do livro de Gilbert Durand As estruturas Partilhei com ele, além do gabinete, uma
oportunidade, a isso voltarei noutra altura. antropológicas do imaginário, que ele viria a visão aberta da Universidade, não fechada
Entre outros destaques: "As ilusões da razão", de Sottomayor traduzir. em sectores disciplinares ou em grupos de
Cardia, e "Notas para uma teoria do silêncio como negação", por E foi o Helder que fez vir à nossa Faculdade conquista desse tão difuso e, afinal, inútil
Ana Haterly, dois textos da área da filosofia da autoria do ensaísta e o próprio Durand que ali, durante alguns poder que é o dos cargos e das hierarquias,
anterior ministro da Educação, e da poetisa e também ensaísta; "Os anos, fez seminários de orientação para mas procurando uma visão que possa renovar
novos hábitos do casal português", um estudo/reportagem do nosso professores e alunos que foram, sem dúvida, o conhecimento.
colaborador regular, ao tempo redator de O Jornal, Francisco Vale, momentos inesquecíveis de descoberta Helder Godinho manteve uma permanente
que lhe acrescenta as histórias de "três ligações perigosa": Lou Andres fidelidade aos seus modelos literários e
Salomé/ Nietzsche/ Rilke, Simone de Baeauvoir/ J. P. Sarte e Yoko científicos. A ele se deve muito do trabalho de
Ono/ John Lennon. E, no domínio dos exclusivos que então tínhamos edição definitiva da obra de Vergílio Ferreira,
em parceria com O Jornal, uma entrevista com Léo Ferré e a exposição e também nunca se desviou do projeto de
da obra gráfica de Picasso em Madrid. Gilbert Durand que moldou o seu pensamento,
Além de tudo isto, por exemplo, Luís Francisco Rebello escreve embora nos últimos anos tivesse confessado
sobre Saroyan, e entre as numerosa críticas (de cinema, livros, teatro, que precisava de alargar o seu horizonte.
música, fotografia, rádio, tv, rádio), Rui Mário Gonçalves dedica uma Helder Godinho manteve uma Com ele, sinto morrer um pouco daquilo
página à exposição de Costa Pinheiro sobre Fernando Pessoa, Maria de permanente fidelidade aos seus que foi uma experiência criativa do ensino e
Fátima Marinho escreve sobre a Poesia Toda, de Herberto Helder, Luís do pensamento universitário. Espero que a
Miguel Nava sobre as traduções de Eugénio de Andrade e Fernando
modelos literários e científicos. sua equipa prossiga a herança que nos deixou.
Pereira Marques sobre uma obra do general Loureiro dos Santos. As A ele se deve muito do trabalho Mas a perda de um amigo de toda a vida e das
crónicas são de Augusto Abelaira, Mário Cláudio, Alexandre Pinheiro- longas conversas, e por vezes dos silêncios
Torres - e no seu "O amador de poemas" David Mourão-Ferreira
de edição definitiva da obra de não menos falantes, é algo que aqui registo e
traduz e comenta Eustace Deschamps. J JCV Vergílio Ferreira lamento. J
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TUR
www.incm.pt
https://www.facebook.com/ImprensaNacional/
prelo.incm.pt
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QUE
SA Vigésimo livro do poeta portuense Daniel Maia-Pinto Rodrigues, a antologia Turquesa compreende
poemas publicados desde o seu primeiro livro, Vento (1983), a Já Passei Por Aqui (2015). Autor de
uma extensa obra que inclui para além da poesia, o romance e a novela, Daniel Maia-PInto Rodrigues
encontra-se representado em mais de trinta antologias literárias, publicadas pelas principais
editoras portuguesas. Com prefácio de Rui Lage, Turquesa é uma edição da Imprensa Nacional.
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TEMA 15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

O CENTENÁRIO DE AMÁLIA
No próximo dia 23 faz cem anos que nasceu Amália Rodrigues, que nos deixou a 6 de outubro 1999 - mas cuja voz e figura
continuam bem presentes, a serem uma espécie de ‘lenda’ e até símbolo nacional, além de ter marcado para sempre o fado
e a música popular portuguesa. Aqui a evocamos em crónicas e textos inéditos de Fernando Dacosta, Lídia Jorge, Manuel
Alegre, Maria do Rosário Pedreira, Miguel Carvalho, Onésimo Teotónio Almeida, Tiago Torres da Silva e Valter Hugo Mãe.
A abrir, uma visão do seu percurso com testemunhos de Bruno de Almeida, Diogo Varela e Silva, Frederico Santiago,
Jorge Fernando, Teresa Gentil e Tiago Baptista. E ainda uma entrevista com o musicólogo Rui Vieira Nery, coordenador
das comemorações do centenário da artista a quem David Mourão-Ferreira, um dos poetas que ela mais cantou,
em texto aqui no JL chamou “um heterónimo de Portugal” (ler com. de JCV na p. 3)

Alma, coração e saudade

A
MANUEL HALPERN
como se fossem velhos amigos e o
Eddie ofereceu-me a gravação.”
Amália e Eddie Fisher atuaram
vários vezes juntos, sobretudo em
clube, como La Vie en Rose, onde a
fadista passou temporadas, durante
a sua longa tournée pelos Estados
Unidos nos anos 50. “Ela cantou
com todos os grande e teve vários
convites para ficar nos Estados
Unidos, até mesmo como atriz,
Sem Amália não diz Bruno de Almeida. E revela: “
Anthony Quinn escreveu o guião de
haveria Ana Moura As Bodas de Sangue a pensar nela”.
Amália Rodrigues terá sido a nem Mariza. Isto significa que já naquela altura,
primeira portuguesa a aparecer na É como se o fado numa fase inicial da sua longuíssi-
televisão. Este é um entre os muitos ma carreira, era enorme, uma das
registos do livro de recordes da fosse Amália. Dizer maiores estrelas do seu tempo.
fadista. Tal aconteceu em 1953, nos eu canto fado, Se Amália era maior do que
Estados Unidos, quando participou Portugal, também seria maior do
no programa Coca-Cola Time, da é o mesmo que dizer que os Estados Unidos. Foi um
NBC, a convite de Eddie Fisher, um eu canto Amália ícone global, quando a globalização
dos mais famosos músicos ameri- ainda era um esboço exótico. E a
canos daquele tempo, com grandes Jorge Fernando sua personagem foi construída,
hits no repertório, como "Thinking sem dúvida, pelas suas viagens,
of you" e "Oh my pa-pa". Amália constante e ininterruptas, uma das
interpretou “Coimbra/April in "Amália aproximou mulheres mais viajadas dos seu
Portugal”, de José Galhardo e Raul os públicos. Pôs tempo, com longas temporadas
Ferrão, numa versão em que alterna em digressão. “É impressionan-
o inglês e o português. Na altura, a
analfabetos a recitar te, há anos em que o registo nos
televisão ainda era para muitos um Camões e eruditos indica que atuou quatro vezes em
objeto misterioso e futurista. Basta Portugal, tudo o resto era lá fora”,
pensar que a caixa que mudou o
a ouvir o Cochicho" diz o cineasta.
mundo não existiu em Portugal até Frederico Santiago E quando se diz lá fora é mes-
4 de setembro de 1956, data em que mo fora. À parte das constantes
CHARLES ICHAÏ

a RTP iniciou as emissões experi- temporadas em Paris, o sucesso


mentais. "Como se pode estrondoso em Itália, o tempo do
Quem descobriu a gravação foi encaixar no Brasil e dos Estados Unidos, Amália
Bruno de Almeida, o realizador que fez grande parte da América Latina,
mais pesquisou e filmou a fadista, Amália em Paris Uma caixa de 5 CD, com concertos de Amália em França acaba conservadorismo, com destaque para o México, atuou
com a série Estranha forma de Vida de ser lançada pela Valentim de Carvalho dizendo que Salazar nos países árabes, no Japão… Como
(1995) e o filme The Art of Amália dizia Camões, e se mais mun-
(1999), ainda hoje é o documentá- era como um pai e do houvera lá chegara. Bruno de
rio português mais visto em todo fazia falta ao país, Almeida, que teve os primeiros
o mundo. Bruno estava na mais conseguir a gravação. Só que esta o nobre propósito do documentário, contactos com fadista ainda em
intensa fase de pesquisa (recolheu estava ausente dos principais arqui- só que precisava de confirmar a pode-se falar da criança, por intermédio do seu tio
mais de 150 horas de filmagens de vos e estúdios. Até que o realizador autenticidade das intenções. Ainda mulher emancipada Rui Valentim de Carvalho, conta:
concertos que mais tarde entregou português se lembrou de procurar o fora do tempo dos telemóveis, a so- “Acompanhei a Amália em concer-
à Valentim de Carvalho), quando, próprio Fisher. “Conseguimos loca- lução foi engenhosa: ”Usei dois te-
e usá-la como tos fora de Portugal, já nos anos 90,
através de um velho projecionista, lizá-lo através de um agente", conta lefones. Liguei à Amália e encostei o símbolo para e era impressionante a quantidade
tomou conhecimento da existência ao JL. "Ele disse que tinha a grava- auscultador ao outro telefone, onde de seguidores. O Orson Welles era
do programa, O realizador e a sua ção em fita na cave.” O músico até estava a chamada com Eddie Fisher.
o feminismo" um fã incondicional. Quando o
equipa não olharam a meios para estava disposto a oferecer a fita para Eles falaram e riram-se muito, Teresa Gentil David Byrne soube que estava a
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fazer o filme, ofereceu-se logo para público das casas do fado era espe-
fazer uma introdução. Quando ia cial, com muita gente estrangeira
tocar ao Olympia vinham fãs de [refugiados da II Guerra Mundial],
todo o mundo.” musicalmente culta, o que lhe terá
dado a noção de ritmo de um espe-
A INVENTORA DE TRADIÇÕES táculo, importante quando se inicia
Onde quer que fosse, Amália trans- a carreira de um recitalista.” Teresa
portava consigo Portugal, assim Gentil explica parte do seu trabalho
como hoje, nos locais mais remotos e de como a cantora, intuitivamen-
do planeta, as pessoas, a outro te, foi desenvolvendo a técnica:
nível, conhecem e quase confun- “Podemos analisar a voz física atra-
dem o nosso país com Cristiano vés de espetrogramas, sonogramas,
Ronaldo. Mas obviamente, acima de analisar com faz o vibrato. E outras
tudo, por esse mundo fora Amália técnicas, por exemplo quando ela
transportava-se a si própria, com põe a cabeça para trás está, na ver-
toda a sua genuinidade e complexi- dade, a estrangular o aparelho, e a
dade. Ao ponto de, por vezes, não deixar a voz trancada no peito”.
sabermos se foi Amália que se iden-
tificou como ícone do país, se foi o O MUNDO A SEUS PÉS
país que se adaptou à imagem de Em 1945 faz as primeiras grava-
Amália. Ou, como diz Teresa Gentil, ções e uns anos, depois, sobretudo
etnomusicóloga que prepara uma quando filma Capas Negras, a sua
tese sobre a voz de Amália, “não é voz materializa-se nos ouvidos
ela que se encaixa numa matriz, a de um grande público. Daí foi um
matriz foi criada para se encaixar pequeno passo para o sucesso inter-
nela.” nacional. Primeiro no Brasil, onde
Uma coisa é certa, na história passou uma temporada e fez as mais
do fado, Amália representa uma importantes das suas primeiras
mudança de paradigma, introduziu gravações, e mais tarde em França:
elementos que hoje são confundidos “Quando se estreia em Paris, em

D.R.
com a tradição. Frederico Santiago, 1956, todo o mundo ficou doido
etnomusicólogo, cantor lírico e Amália no Rio de Janeiro Em 1944, a fadista fez uma temporada no Casino Copacabana por aquela mulher de negro, que se
responsável pela organização do vestia como se fosse uma mulher da
acervo da cantora na Valentim de Nazaré e também podia ser a Callas,
Carvalho, explica: “Tudo o que se com uma capacidade musical e
torna canónico as pessoas não acre- uma voz excecionais”, comenta
ditam que alguma vez não existiu.
Mas na verdade foi ela que inventou
tudo, desde o preto associado ao
fado até à ideia de o fado se tornar
Não desocultem a esfinge Frederico Santiago, que acabou de
organizar e compilar uma coletânea
de cinco disco que resume as largas
dezenas de concertos de Amália na
uma música de palco”. capital francesa.
O músico, Jorge Fernando, o Nas suas incursões ao estran-
mais significativo produtor da nova FERNANDO DACOSTA geiro, Amália sempre teve um
geração de fadistas, que acom- extraordinário sentido de palco,
panhou Amália à viola na última Os seres tocados pelo absoluto, como Amália, tornam-se pela sua complexidade inbiografáveis, não limitando o repertório ao fado,
fase da sua carreira, reforça ainda: não cabendo em datas, acontecimentos, hierarquias, capelas, famílias, rótulos, hipotecas. “Se eu antes alternando com outros estilos
“Nada ficou igual depois dela, não me compreendo”, advertia, “como podem os outros compreender-me?” Usava grandes óculos musicais. Havia franceses que
Amália mudou a própria filosofia do escuros “para não me verem por dentro”. afirmavam gostar muito do fado
fado, foi sempre buscar outras coi- Cumpliciá-la exigia subjetividada, pressentimento, golpe de asa. Por isso não frequentava do "Malhão", nem se apercebendo
sas, poetas, músicos, composições, biografias, não corrigia inverdades e maldades sobre si. que e tratava de um tema de música
numa busca incessante. A partir daí “O que vai ficar de mim é a lenda, não a realidade. Eu não digo o que penso pois os outros não o folclórica. E por onde quer que
o fado passou a ser acompanhado compreenderiam. A solidão interior é um dos meus terrores”. andasse, sempre soube incorporar
por viola baixo e duas guitarras. Mais do que uma fadista, Amália era uma cantora do fado, o húmus identitário do nosso povo. no seu repertório músicas locais,
Antes não era assim”. Das pessoas mais inteligentes de então, tinha na liberdade a sua bússola de afirmação, pairando fossem rancheiras mexicanas, co-
Esse impulso renovador, origi- entre águas, autónoma de direitas e esquerdas, ideologias e regimes, distante de poderosos plas espanholas, canções sicilianas
nal, personalizado surge logo desde e serventuários, intelectuais e chãos. Não é a vida de Amália que interessa ao futuro, é o mito ou clássicos da Broadway.
os primeiros momentos da carreira. criado à sua volta, mito que tocou zonas muito profundas do ser português. O grande sucesso em Paris foi
Ainda antes das primeiras grava- Três pilares o ergueram: a genialidade da voz (única no mundo), o talhe do vestuário catapultado pelo filme Amantes
ções, Amália era acusada pelos pu- (paramentos de uma trágica sacerdotisa), o apuramento dos poemas divulgados (culminando do Tejo (Henri Verneuil, 1955), em
ristas de cantar à espanhola. O que com Camões). Ao perceber que o fado era uma espécie de ópera em miniatura, ela troca que ela cantava “Barco Negro”,
não é de estranhar. A fadista nunca as casas típicas, os chailes, os aventais bairristas, de que não gostava, e encena-o como mais um extraordinário caso de
escondeu o seu gosto e a influência expressão musical superior, criando o seu próprio fado, elevado a recitais, a teatros, a transformação e inovação. Amália
que a música da Beira Baixa, região acompanhamentos de elites. “Camões deu-nos a língua, Pessoa o pensamento, Amália a voz”, ouvira o original no Brasil, um tema
das suas raízes, teve no seu canto. sintetizava Natália Correia que a considerava, com autores como David Mourão Ferreira e de um músico que assinava Caco
A etnomusicóloga Teresa Gentil, Miguel Torga, uma invulgar poetisa. Velho (Mateus Nunes), com o título
que se tem dedicado muito à pré- Numa primeira fase, ela não sabia que sabia; numa segunda, sabia que sabia; numa terceira "Mãe Preta". Amália adaptou-o
-história de Amália, isto é: à Amália sabia que os outros não sabiam que sabia. Isso e deu-lhe uma nova roupagem.
anterior às primeiras gravações, provocou-lhe uma angustiante inquietação que a “Barco Negro” nunca poderia ser
revela: “Em 1943 já era a grande voz condicionou toda a vida . considerado um fado, mas tornou-
da canção nacional. Antes de poder “Amália construiu uma espécie de belcanto em -se um dos fados mais conhecidos
ser ouvida em casa, pela rádio, já voz natural”, dirá, certeiro, Frederico Santiago que de Amália.
havia uma construção feita pelos descobriu nos arquivos da Valentim de Carvalho Como em todas as grande
media. Mas só em 1947 é que se tor- inéditos dela, em divulgação, que constituem a Não é sua vida que estrelas da época, a par do teatro,
na um fenómeno.“ Dessa constru- melhor homenagem que está a ser-lhe prestada, interessa ao futuro, o cinema tornou-se um veículo
ção, Teresa Gentil realça uma ideia dando-nos a sua essência – o seu mistério. fundamental para perpetuar a fama.
de ‘nostalgia’. As esfinges desocultam-se para melhor se ocultar. é o mito criado à sua Tiago Baptista, atualmente diretor
Frederico Santiago, por seu volta, mito que tocou do ANIM, que escreveu um tomo
lado, não tem dúvidas em afirmar *Fernando Dacosta é jornalista, ficcionista, dramaturgo, autor sobre Amália no cinema, diz: “O ci-
que esse período de casas de fado, de livros sobre várias personalidades,
zonas muito profundas nema consolida e ajuda a construir
anterior às gravações, foi essencial como Salazar e Amália, a Ressurreição do ser português a figura pública. Os filmes reforçam
para o desenvolvimento da ‘estrela a silhueta, A maneira como ela é
planetária’. “Teve uma sorte de filmada vai evoluindo, a par das
se ter estreado em 1939, quando o performances em palco, tem a ver
8 TEMA

AMÁLIA
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com o guarda roupa, as joias, estar sempre atribuiu o poema a Guerra


à frente dos guitarrista e não atrás.
A sua forma de cantar, atirando, de
olhos fechados e a atirar a cabeça
A minha segunda Amália Junqueiro (e assim vem recorren-
temente publicado em booklets
e afins). Contudo, sabe-se que o
para trás, obrigou, em Os Amantes verdadeiro autor de “As Penas”
do Tejo, a colocar-se a câmara mais MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA não foi Guerra Junqueiro, mas sim
alta para fazer um ligeiro picado.” E um poeta seu contemporâneo,
acrescenta: “Apesar de haver sem- Sou filha de uns pais bastante fora da caixa (que bem podiam ser retratados numa letra Fernando Caldeira (1841/1894)..
pre uma negociação entre a Amália de fado) e foi deles que herdei o amor à mais portuguesa das canções. Mas, para ser sin- Amália cantou Camões e ainda
como atriz, ela já tem algum poder cera, esse vínculo não passou tanto pela voz de Amália como por um certo pendor para a provocou os que a acusavam de
para negociar a maneira como é boémia que o meu pai tinha desde sempre e a minha mãe acompanhava com gosto. O que heresia, dizendo que Camões era
representada: funciona como uma eles realmente apreciavam eram umas noitadas com amigos em casas de fado; e, quando um grande fadista, com a coinci-
estrela. Estamos sempre a tentar começaram a levar-nos com eles, tinha eu cinco ou seis anos (eu disse que eram umas dência de adaptar um soneto, Com
descobrir os momentos em que a personagens atípicas), já Amália era uma estrela que fazia digressões no estrangeiro e que Voz, em que o grande poeta
Amália vem ao de cima e eclipsa a raramente entrava nesses sítios para dar um ar da sua graça. (Quando o fazia – e segundo usava a palavra fado, séculos antes
personagem que está interpretar.” ela própria revela na longa entrevista que deu a Vítor Pavão dos Santos – parece, aliás, que do género ter sido inventado. Mas
De resto, considera que os filmes as outras fadistas ficavam de trom- ao mesmo tempo Amália nunca
são “obras do seu tempo”. Embora bas, pois o público já não queria saber deixou de cantar os fados tradicio-
alguns, como Fado, História de uma de mais ninguém.) nais.
Cantadeira (Perdigão Queiroga, Mas, além disso, como as casas de Uma das maiores revoluções
1947) continuem a ser muito fado mais frequentadas pela minha de música e letra no contexto
procurados, até pela componente família eram a Parreirinha de Alfama português foi feita na inesperada
autobiográfica do papel que repre- e O Faia, a minha escola de fado não cumplicidade com Alain Oulman.
senta. Para Tiago Baptista o objeto passava pela diva, era outra: a de As óperas, como lhe chamavam
fílmico mais interessante será Argentina Santos (que começava a na época os céticos, por achar que
mesmo Ilhas Encantadas (Carlos noite de avental a fritar enguias e aquilo não era castiço, permiti-
Vilardebó, 1965): “A personagem acabava a guardar o dinheiro num ram enquadrar no âmbito do fado
não é uma fadista, não canta nem cofrezinho das Chaves do Areeiro); e, poesia de métrica mais livre. E
fala, é uma náufraga. Aqui podemos sobretudo, a de Lucília do Carmo e do Amália deu voz a tantos poetas, de
ver o seu trabalho de atriz. Tornou- seu filho Carlos que, sendo afilhado David Mourão-Ferreira a Alexandre
se uma obra importante do cinema de casamento dos meus pais e visita O'Neill, passando por Pedro
europeu.” lá de casa, foi o responsável por eu Homem de Melo, Luís de Macedo
hoje escrever letras para fado, coisa ou Manuel Alegre. Recentemente,
A VOZ DOS POETAS que nunca estivera nos meus planos, Frederico Santiago revelou que
Em Amália parece subsistir uma nem sequer na minha imaginação, Amália também cantou Gil Vicente.
contradição entre o ícone que mui- mas que acabou por resultar numa Fernando Pessoa é que nunca, afir-
tas vezes é usado para definir a tra- atividade que se prolongou até hoje e mava que não servia para o fado.
dição, com certos elementos morais que eu espero sinceramente que dure Tudo isto foi conseguido através
e conservadores, e a fadista que para sempre. do seu extremo bom gosto. Amália
foi tudo menos isso. Teresa Gentil Pode parecer estranho, sobretudo não facilitava. Quando algum poeta
explica: “Quanto mais complexo numa pessoa que ouvia fados desde tenra idade, mas foi afinal como letrista, passada lhe trazia uma palavra de que não
é um símbolo, mais arestas tem, já a fasquia dos 40 anos, que acabei por conhecer em profundidade o trabalho e o génio gostava, pedia que a alterasse ou,
para assim se tornar mais eficaz. Da de Amália. Se passo a vida a dizer aos potenciais escritores que me mandam originais no limite, cantava-a pronunciando
mesma forma que se pode encaixar de ficção para a editora que ninguém pode escrever bem sem antes ter lido muito, pois mal, para deixar claro que não era
no conservadorismo, da menina também para mim se tornou imprescindível ouvir e ler fados de todos os craques (fossem do seu agrado.
que dizia que Salazar era como um intérpretes ou letristas) para perceber como é que se fazia uma letra que não ficasse com Quando saiu o álbum do busto/
pai e fazia falta ao país, pode-se ar de quadra de manjerico. Asas Fechadas (1962), que hoje é
falar da mulher emancipada, que se E foi nessa altura que me cruzei inúmeras vezes, como não podia deixar de ser, com reconhecido como uma obra prima
separou do marido muito cedo, em essa artista absolutamente excecional que foi Amália Rodrigues, não só pelo talento que indiscutível, a polémica foi grande.
1940, e usá-la como símbolo para todos lhe reconhecemos (embora esse não fosse da sua responsabilidade, ela até dizia A alguns intelectuais parecia he-
o feminismo". E acrescenta: "Do que Foi Deus), mas sobretudo pelas qualidades extremamente difíceis de encontrar numa rético ouvir Camões em fado, para
ponto de vista político tanto can- mulher que, ainda por cima, quase não frequentara a escola: uma inteligência artística fora muitos cultores ou admiradores do
tava letras do Estado Novo e outras de série; uma intuição incrível para o que lhe ficava bem a todos os níveis (até nos vestidos fado tradicional Amália deixara de
tão subversivas que só passavam e nas joias, mas acima de tudo no repertório); uma coragem para inovar, fazendo de uma ser castiça.
por ser a Amália a cantá-las." arte que podia esfumar-se na mesmice uma arte sempre moderna; uma habilidade notável Não muito mais tarde, perdendo
Como diz Rui Vieira Nery (ver para ler (também no sentido de “compreender”) os versos alheios, desde o grande Camões Oulman - que, perseguido e preso
entrevista), musicólogo, grande es- até aos seus contemporâneos; uma perseverança (ou teimosia, se preferirem) mesmo pela polícia política teve de exilar-
pecialista em fado, “se há tradição quando toda a gente à sua volta tinha a opinião contrária); e, claro, uma capacidade de -se de Portugal -, cantou Frederico
que Amália representa é a tradição trabalho difícil de igualar. Valério e gravou discos de folclore:
de desafiar a tradição” E sempre Foi também por ler e ouvir muitos episódios da sua vida pessoal, sobretudo os que foi sempre dona do seu próprio
assim foi. A unanimidade em torno dizem respeito à sua infância em condições tremendamente difíceis (o trabalho infantil, o caminho, emancipada humana e
de Amália veio com o tempo, até viver longe dos pais e irmãos) mas sem nunca se entregar à desgraça e lutando sempre artisticamente. No final, acabava
porque ela sempre procurou novos para vencer as contrariedades, que aceitei o convite que a editora Carla Pinheiro, da Dom por conquistar todos. Ou, como
caminhos. Frederico Santiago Quixote, me dirigiu para elaborar uma biografia de Amália para crianças, com ilustrações explica Frederico Santiago, “apro-
explica: “Foi muito atacada por de João Fazenda, depois de o fado ter sido elevado a Património Imaterial da Humanidade. ximou os públicos, pôs analfabetos
tudo, que cantava de uma maneira Amália Rodrigues – que, como hoje acontece com Cristiano Ronaldo, foi toda a minha a recitar Camões e eruditos a ouvir
espanhola, depois pelos fados não infância uma espécie de cara de Portugal no estrangeiro – é, aliás, para qualquer criança, o Cochicho”.
tradicionais, por cantar folclore, um ótimo exemplo de como alguém cuja vida tinha tudo para correr mal chegou o mais Nada disto seria possível sem
por cantar poetas... Lutou sempre longe a que se pode chegar e com a máxima dignidade. Foi Deus? Talvez tenha sido, mas grande intuição e talento natural.
e nunca se sentou no seu êxito. No foi sobretudo Amália, ela própria. Contudo, Teresa Gentil recusa a
último concerto, em 1994, ainda Para escrever A Minha Primeira Amália, o título tese que tudo era inato: “A ideia
estreia coisas. Tinha cabeça de dessa biografia, tive de ler o que ainda não tinha lido de força da natureza devia ser
poeta, muito preocupada com a sobre a nossa maior intérprete de todos os tempos (e erradicada. Ninguém nasce assim,
palavra e com a beleza musical”. isso foi, digamos assim, “a minha segunda Amália”) ela trabalhou muito para ali chegar.
A relação de Amália com a poe- e fiquei a admirá-la ainda mais: como fadista e como E cantava quase todos os dias com
sia foi de resto uma das suas mais poetisa do fado, que também o é, e do melhor que há. Uma artista excecional público a assistir. O truque é a
valias. O primeiro poeta erudito Desde então, além de a ouvir, leio-a. E quem havia de não só pelo talento prática. A sensibilidade serve para
que cantou foi logo nos anos 40, dizer que eu aprenderia tanto com uma mulher que elevar a fasquia.”
por iniciativa própria. Encontrou praticamente não foi à escola? como pelas qualidades Jorge Fernando diz: “A sua
num recorte de jornal o poema “As extremamente difíceis alma era veículo de qualquer coisa
Penas” e trouxe as palavras para *Maria do Rosário Pedreira é editora, poeta, superior que chegava às pessoas.
o fado. A próprio Amália, por- ficcionista, autora de numerosas letras de fados
de encontrar numa Daí a divindade que lhe é atribuí-
ventura por imprecisão do jornal, e do livro A minha primeira Amália mulher da". E acrescenta: “ É muito difícil
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O outro nome
encontrar a argúcia e a inteligência tudes apontavam em sentido con-
na mesma pessoa. Ela tinha as duas trário. O seu carisma e determina-
coisas. Era perfeita”. ção fizeram parte também de uma
estratégia de sobrevivência. Teresa
SOZINHA ENTRE A GENTE

de Amália
Gentil afirma: “Há uma erotização à
A casa de Amália Rodrigues, na Rua volta da Amália, ela afirma-se num
de São Bento, convertida entre- mundo de homens e joga com isso.
tanto em museu, era espaço para Tem que controlar uma plateia e
tertúlias musicais, entre escri- revela-se dominadora. Havia peri-
tores, artistas, jornalistas, inte- gos em todo o lado. Deve ter sofrido
lectuais, que duravam pela noite muito com as questões de género.
fora. Mesmo músicos estrangeiros, Teve que desenvolver ferramentas TIAGO TORRES DA SILVA
quando estavam de passagem por de defesa impressionantes. Logo
Lisboa, faziam da casa de Amália desde o início, esteve sempre muito
uma paragem obrigatória, como segura de si, a controlar tudo.”
Vinicius de Morais, ele próprio
dado à tertúlia e a longos serões, INEVITÁVEL E INIMIITÁVEL
cheios de "água de beber" (como Musicalmente, Amália foi, sem
chamava ao whisky) e que inclusi- dúvida, uma grande revolucionária.
ve, escreveu para a Amália o fado Frederico Santiago, que desde 2014
brasileiro "Saudades do Brasil em prepara a edição crítica da obra,
Portugal". O cineasta Diogo Varela não tem dúvidas em dizer: “ Os
e Silva, sobrinho-neto de Amália portugueses não têm bem a noção
(neto de Celeste Rodrigues), que de que se trata de uma das maiores
viveu um ano em casa da tia-avó cantoras do séc XX no mundo”.
recorda, com entusiasmo, tais Bruno de Almeida sublinha: “As
serões. “Tinha 13 ou 14 anos, foi gravações não envelhecem. Há
uma experiência magnífica, com sempre qualquer coisa de con-
todos aqueles rituais, as tertúlias, temporâneo, de moderno, que
filmes, música, sempre… E revela: permanece lá”.
“Adorava anedotas. Pedia-me que Toda esta virtude, inovação,
eu lhas contasse para depois contar busca, torna-se particularmente
aos amigos.” desafiante para a nova geração. Por
Contudo, Diogo, que agora um lado, Amália abriu as portas do
prepara um filme sobre as coletivi- chamado circuito da World Music

LUÍS VASCONCELOS
dades de fado, enquanto estreia este para as novas fadistas, tornando
possível, ou pelo menos mais fácil,
os percursos de Mariza, Ana Moura,
Mísia, ou mesmo propostas tan-
genciais ao fado como Madredeus e
Dulce Pontes. Por outro lado, o que "Tudo se encontrava nesse lugar a que resolvemos chamar Amália pela ânsia que temos de nomear os milagres"
ela fez foi de tal forma heterogé-
neo e inovador que se torna difícil
O Orson Welles era um fã trazer algo de novo.
incondicional. Quando ia Frederico Santiago considera: Quem leia crónicas e críticas sobre os ombros e seguiu o seu caminho.
“Como ficaram as gravações, é o que se pensava do fado nas décadas E é por tudo isso que Amália
cantar ao Olympia vinham muito difícil não cair na imitação. de 20 e 30 do século passado, intui – se fez povo e o seu lamento. Se fez
fãs de todo o mundo É um caminho que não concordo: mesmo que pouco saiba do assun- As palavras de que coração e o seu grito. Se fez alma
quando aparecer uma coisa do nível to – que deve ter acontecido um e a sua prece. E por isso brincou
Bruno de Almeida da Amália, nunca irá lembrar a milagre muito grande para que, em o fado se socorria já com Almada Negreiros, dançou a
Amália.” Enfim, da mesma forma tão poucos anos, o Fado alcançasse o não lhe chegavam: Gota com Pedro Homem de Melo,
que Cristiano Ronaldo pouco lem- lugar que alcançou na vida de mui- naufragou com Cecília de Meireles,
bra Eusébio. tos de nós. Esse milagre aconteceu.
queria palavras que aprendeu a amar aves e flores com
mês em sala o seu documentário Já Jorge Fernando, que prepara Chamou-se Amália. E tudo mudou se inscrevessem na Sebastião da Gama.
Zé Pedro Rock’n’Roll, repara: “Vivia um grande concerto de homena- porque ela existiu. Poderíamos Amália nasceu pela mão dos poe-
com muita gente, mas muito sozi- gem à fadista, com nomes maiores olhar para Amália de muitos outros
sua tragédia, que a tas. Cresceu através das suas palavras.
nha nesse mar de gente. A sensação do novo fado, na Herdade Amália, ângulos, mas hoje, escolhi vê-la levassem mais longe Morreu de cada vez que as disse, de
que tenho é que as pessoas eram no Brejão, diz: “Todos nós nos sen- através das palavras que cantou, das cada vez que as cantou e também de
muito bajuladoras. Lembro-me de timos influenciados pela Amália. palavras que escreveu, das pala-
ou mais fundo ou mais cada vez que não as pôde cantar. E fez
estarmos a ver Fado História de uma A transversalidade do seu canto se vras que inspirou. Das palavras que adiante tudo isto com aquele olhar que era a
Cantadeira e de alguém lhe dizer torna mais Portugal e menos fado. passaram a ser fado por seu convite, um tempo sabedoria, e a outro intu-
‘está ainda melhor agora’. Eu, com É uma dimensão que vai além do por sua intuição, por sua natureza e ição; um olhar inclusivo onde nunca
o meu desbocamento dos 14 anos, fado. a porta de Amália tem que se angústia. esqueceu os maravilhosos poetas
perguntei: ‘E agora, o senhor vai abrir sem a imitar. Fugir à Amália Muito cedo, Amália sentiu que Amália andara sempre à procura. As populares que tanto a tinham emo-
pedir dinheiro emprestado à minha não possível, o fado é ela, inventou o seu canto não podia ter amarras. palavras de que o fado se socorria cionado nos primeiros tempos. Até
tia? Como é que é possível que ela tudo isto. Mas é caricatural quando E mostra-nos isso quando deci- já não lhe chegavam. Amália queria ao fim, cantou os versos de Linhares
esteja melhor agora do que quando há uma imitação.” de cantar “As penas”, que lê num palavras que se inscrevessem na sua Barbosa ou de Gabriel de Oliveira. E
tinha 20 anos? A minha tia ria-se.” Bruno de Almeida não tem dú- jornal qualquer, penas que estavam tragédia, palavras que a levassem emprestou a sua voz à maravilhosa
Na verdade, Amália atingiu vidas em afirmar: “Este novo fado erroneamente atribuídas a Guerra mais longe ou mais fundo ou mais poesia do folclore e das marchas de
um estatuto em que, simples- surgiu através dela, e o que segue Junqueiro. Torna a mostrar-nos nos adiante, não sei dizer bem. E, com que tanto gostava – “Quem quiser
mente, podia fazer tudo quanto a sua linha com mais perfeição é versos de Pedro Homem de Melo Alain como companheiro, deu voz beijinhos, pede-os/ quem não pede é
lhe apetecesse. Mas, mesmo em o Camané”. Aliás, não é por acaso que escolhe cantar em melodias aos versos de Camões, de Régio ou de porque é mudo/ vá à rua dos remédi-
momentos mais adversos, sempre que a família de Alain Oulman tradicionais: “Grande, grande era a O’Neill. E com Alain cantou a Alfama os/ que há remédio para tudo”.
se manteve firme no caminho que decidiu entregar ao fadista o que o cidade/ e ninguém me conhecia”. de Ary e a de David Mourão Ferreira. E por isso, sabia quando as pala-
queria seguir. E apesar do inigualá- luso-francês compôs para Amália e Mostra-nos isso com maior tristeza E, com a cumplicidade de Ary e vras não tinham a medida certa para
vel sucesso internacional, em raros ela nunca chegou a gravar. Camané na angústia dos versos que escreve, Natália, gravou um extraordinário o Fado; a medida certa para a sua voz.
períodos não teve que se defrontar tem vindo a gravá-las aos pou- rimados e metrificados para casarem disco a que sabiamente chamou E por isso, escolhia cantar uns versos
com ‘opositores’. cod. Jorge Fernando frisa: “Sem com as melodias que conhecia Cantigas d’Amigos, com versos do do incrível Alberto Janes porque uma
Politicamente, ficou durante Amália não haveria Ana Moura de Alfredo Marceneiro ou de José rei Dom Diniz e de outros poetas rima a tinha divertido: “Mas a verda-
demasiado tempo conotada com nem Mariza. É como se o fado António Sabrosa medievais. E os fadistas disseram que de nua, sem salamaleque,/ que tive
o Estado Novo, que se serviu dela fosse Amália. Dizer eu canto fado, A chegada de Alain Oullman com cantava letras "à Picasso"! E os inte- de aprender é que/ ai de mim se não
para expor o seu ideário, mesmo é o mesmo que dizer eu canto a joia rara que é “Vagamundo” de lectuais afirmaram que não era digna for eu”! Rima brilhante, rara, surpre-
quando grande parte das suas ati- Amália.“J Luis de Macedo evidencia isso de que de cantar Camões. Amália encolheu endente e muito, muito musical!
10 TEMA ↗

AMÁLIA
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Voz de todos nós


Este saber que era também senti-
mento fê-la pressentir cada palavra
que cantava como se sua fosse. Fê-la
ser o lugar onde mundos aparen-
temente inconciliáveis viviam na
mais insuspeita harmonia. Carecas
conviviam com gaivotas. Cochichos
assobiavam a Lianores. Caracóis eram MIGUEL CARVALHO
servidos à mesa de reis. E tudo era
grande naquela voz, mesmo que, na Saramago, no ano da morte de
génese pudesse não ser... qualquer Amália Rodrigues, levantou o
palavra... qualquer quadra por mais véu sobre apoios clandestinos
singela... qualquer soneto camonia- da cantora aos inimigos da
no... Tudo se encontrava nesse lugar ditadura, PCP à cabeça.
a que resolvemos chamar Amália Durante anos, livre da
pela ânsia que temos de nomear os pressão da atualidade, sem
milagres. saber se algum dia teria na mão
Amália - ou qualquer outro nome matéria, testemunhos e campo
que lhe queiramos chamar - depois para desbravar, fui recolhendo
de conviver tantos anos com as papéis, muitos papéis, e notas
palavras dos poetas - atreveu-se a de conversas sobre essa Amália
irromper pelo fado como grande le- clandestina, segredada na
trista. Já não timidamente como nos penumbra. O caminho, árduo,
tempos dos magníficos “Estranha levou-me ao pós-revolução e
forma de vida” e “Ai, esta pena de à consolidação da democracia,
mim”, mas assumindo a escrita de tornando-se para mim
álbuns inteiros e entregando os seus obrigatório perceber como
versos à mestria de Fontes Rocha e de Amália sobreviveu ao absurdo e
Carlos Gonçalves. Desta fase tardia, se resgatou em liberdade.
saíram clássicos como “Lágrima”, Mais do que vasculhar
“Grito”, “Ai Maria” ou o extraor- hemerotecas, arquivos ou
dinário “Lavava no rio lavava” que tecer cumplicidades com
tem três dos versos mais bonitos entrevistados, a dificuldade de
da história do Fado: “Já não temos retratar Amália é desmontar
fome, mãe/ mas já não temos tam- as narrativas emolduradas
bém/ o desejo de a não ter”. Só por ou incensadas sobre a
estes versos, Amália já se incluiria no mulher e artista de exceção.
restrito lote de poetas que entendeu a Por isso, atingir a possível
grandeza desta canção tão pobre, tão nitidez do seu perfil, para lá
coitadinha, tão grande, tão trágica, da carreira e do estrelato,
tão maior do que a vida! se revelou tão fascinante e
Os poetas de Amália não são só os desafiador como construir
que ela cantou. Todos os poetas que um puzzle gigante. Quando
vieram depois são poetas de Amália uma bolsa de investigação
na medida em que só puderam jornalística da Gulbenkian

D.R.
existir porque ela abriu um cofre tornou tudo isto possível, já
que nunca mais será fechado. E já Mário Soares, Amália e Eusébio A fadista foi condecorada pelo Presidente da República com a Grande Cruz Santiago Espada, eu corria contra o tempo, a
os fadistas que vieram depois dela no concerto no Coliseu de Lisboa comemorativo dos seus 50 anos de carreira, no dia 7 de março de 1990 tentar que testemunhos orais,
tiveram a coragem de cantar as pala- indispensáveis e lúcidos, não
vras que Amália escolhera e outras... se perdessem para sempre.
muitas outras... e Sophia chegou ao Infelizmente, alguns dos que
Fado... e Pessoa chegou ao Fado... e Noutras geografias, uma sobre Amália e a sua época mais contribuíram para este
Pascoaes chegou ao Fado... E todos personalidade como Amália e sinais claros de que as trabalho já não o viram. A
os poetas que virão depois de nós Rodrigues, transcendente, comemorações do centenário outros já não cheguei a tempo.
serão poetas de Amália. Porque tudo superlativa e controversa, do seu nascimento servirão Este olhar jornalístico
foi possível a partir dali. já teria sido objeto de 20 Não é apenas o para contagiar gerações sobre Amália e a sua carreira
E tudo foi possível porque Amália biografias, dúzias de filmes e com abordagens despidas de à luz de dois regimes, por
quis. E tudo é possível nestas umas quantas peças de teatro. legado artístico que preconceitos e visões redutoras. certo com imperfeições, não
palavras porque Amália existe em Mas, em Portugal, a voz maior pede muitos e outros No meu caso, Amália foi pretendeu, de todo, encerrar
todos os poetas que andem à procura da nossa História ainda aguarda um destino a que cheguei por capítulos, muito menos
de palavras para o Fado. Porque que a academia, o jornalismo
olhares. O perfil estradas secundárias. empreender mitologias que a
agora, todos podemos escrever e as artes se interessem pelo além fado também Tinha 13/14 anos quando, no protagonista dispensaria. É
com a liberdade que quisermos. A caudal inesgotável do seu gira-discos da tribo paterna, um contributo – a dada altura,
liberdade que ela empunhou nas percurso com perseverança,
o reclama “aterrou” um OVNI chamado também ele obsessão – para que
palavras de Manuel Alegre – “Hei- variedade e continuidade. "Fado Bailado", álbum em que Amália possa ser olhada sem
de passar nas cidades/ como o vento Não é apenas o legado o instrumentista Rão Kyao, preconceitos nem santificações,
nas areias/ e abrir todas as janelas/ artístico que pede muitos e sem precisar de jazzificar o esperando que noutros desperte
e abrir todas as cadeias” ou no fa- outros olhares. O perfil além fado ou afadistar o jazz, como a curiosidade e o desafio de
moso “Abandono” de David Mourão fado também o reclama e urge Nery, Ruben de Carvalho, Vasco assinalou Miguel Esteves mergulhar no seu percurso,
Ferreira que a censura não quis dei- que Amália se torne território Graça Moura, David Ferreira, Cardoso, homenageou a sua enquanto obra inacabada. A
xar passar: “Por teu livre pensamen- de persistente e renovada Frederico Santiago, Nuno intérprete de excelência. pluralidade, as costuras e a
to/ foram-te longe encerrar”. produção académica, literária e Vieira de Almeida, Ramiro Através do saxofone, Rão Kyao eternidade da sua estranha
Essa liberdade que foi voz, que artística, de preferência liberta Guiñazú, Jorge Muchagato, sobressaltou então almas duras forma de vida merecem-no. Ou
foi palco, que foi música, que foi de divinizações, sectarismos e Tiago Torres da Silva, Bruno de de ouvido para o género musical não fosse Amália voz de todos
palavra, que foi um olhar diverso e molduras. Almeida, Sara Pereira e poucos que, por conveniências várias nós. J
original sobre o mundo. Essa liber- Pensar Amália, investigá- mais), a cuja “militância” ainda e ilustrada ignorância, fora
dade que há-de sempre ser o outro la, discuti-la, divulgá-la, não agradecemos tudo (e, em conotado com a ditadura. * Miguel Carvalho, jornalista da
nome de Amália. J humanizá-la, resgatá-la ao alguns casos, até já vamos Dos vinis às leituras, dos Visão e colaborador do JL, é autor
esquecimento, aos arquivos tarde). cd aos filmes, fui absorvendo do livro, acabado de publicar pela
*Tiago Torres da Silva é escritor, dramatur- e estereótipos tem sido tarefa Há, felizmente, projetos lentamente o universo D. Quixote, Amália Rodrigues –
go, encenador e o autor do maior número de árdua de um pequeno núcleo de interessantes em curso (de amaliano, até finalmente surgir Ditadura e Revolução – A História
letras cantadas por artistas portugueses e devotos e investigadores (Vítor Teresa Gentil e Joana Filipa a luz que já não esperava: Secreta, a que se refere neste
brasileiros Pavão dos Santos, Rui Vieira Machado, por exemplo) essa acendeu-se quando José testemunho
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Uma carta de Paris


MANUEL ALEGRE
da própria língua uma música que ele musicou e cantou. Alguns
inconfundível. Ela sabia dizer fazem parte desta coletânea por,
cada palavra e, quando cantava, direta ou indiretamente, estarem
nem uma sílaba se perdia. relacionados com Amália.
Com Alain e com Amália Enfim, pretendo, com este
aprendi mais sobre poesia e sobre livrinho, prestar o meu tributo
fado, confirmei a importância ao Centenário de Amália. Reuni
da oralidade e constatei que os poemas meus que ela cantou,
não há grandes poetas que não os que sobre ela escrevi e aqueles
tenham dentro de si a estrutura que exprimem uma visão do fado
rítmica da língua. Eugénio de que, em grande parte, fiquei a
Andrade considerava Os Sonetos, dever a Alain Oulman e a Amália
de Camões, o livro mais atual da Rodrigues.J
poesia portuguesa. Amália canta
Camões como se fosse um poeta *Antecipação do texto inédito incluído no
de hoje. E, de certo modo, o seu livro As sílabas de Amália (D. Quixote) a
poeta. lançar no próximo dia 23
Alain Oulman musicou poemas
meus que já estavam editados.
Não sou um letrista e tenho pena,
porque não é fácil. Mas, num certo
sentido, todos os poemas podem
ser letras de fado. Nunca tinha
escrito para o fado de Lisboa.
Mas sempre pensei que “Trova do
amor lusíada”, publicada na Via
Latina em 1961, podia ser cantada
por Amália.
João Braga estimulou-me a
escrever sobre e para o fado.
D.R.

Assim nasceram vários poemas


Amália com Manuel Alegre e Rui Vieira Nery (ao centro) "Na sua voz, sentia pulsar a nossa raiz portuguesa
e o bater do coração do mundo"

Há mais de meio século, recebi 1970, seria editado em Março do me levou a casa de Amália em
em Argel uma carta vinda de mesmo ano. Foi o disco de Amália Paris, onde passámos um serão
Paris, assinada por Alain Oulman. Rodrigues com maior sucesso inesquecível.
Tinha musicado “Trova do vento e repercussão internacional: IX Durante o período de
que passa” (as quatro primeiras Prémio da Crítica Discográfica convalescença, assisti
estrofes) e pedia-me autorização Italiana; Palmarés do Grande ao nascimento de novas
Vem por este meio o Centro de Neurociências e Biologia ao
para ser gravada por Amália Prémio do Disco 1975, em França; composições, que viriam a abrigo do Decreto n.º 57/2016, de 29 de agosto, alterado pela
Rodrigues no seu próximo disco. Grande Prémio da Cidade de Paris. integrar um novo disco de
Fiquei surpreendido e Entretanto conheci Amália, Cantigas numa Língua lei 57/2017, publicitar a abertura de posições para investigador
emocionado. Eu estava no exílio, pessoalmente Alain Oulman, Antiga. Sugeri-lhe que musicasse
doutorado (m/f).
era locutor principal de A Voz da ficámos amigos e foi em casa Bernardim Ribeiro, o que ele
Liberdade, os meus primeiros dele que, em 1971, acompanhado fez com um fado a que chamou
livros tinham sido proibidos e pela Mafalda, fui convalescer “Mal aventurado”. E também
apreendidos em Portugal. É certo de uma pneumonia, depois do “Perdigão”, de Camões. O disco Local de trabalho: Centro de Neurociências e Biologia Celular
que os poemas continuavam internamento no Hospital Cochin. incluiria três fados com poemas
a ser recitados e cantados nas E foi ainda Alain Oulman que meus: “Meu amor é marinheiro”
associações estudantis e em (com estrofes de “Trova do amor A remuneração mensal a atribuir é a prevista nível 33 da tabela
agremiações culturais populares, lusíada”), “Abril” (num arranjo
sem o nome do autor ser que fizemos de “A rapariga do País
remuneratória única, aprovada pela Portaria n.º 1553-C/2008,
mencionado, a não ser à socapa. de Abril”) e “As facas”, do livro, 31 de dezembro, sendo de 2.134,73 Euros ilíquidos.
Mas nunca ninguém me tinha nesse tempo ainda não publicado,
pedido licença, como era natural. Coisa Amar.
Admirei a gentileza e a ousadia Com Alain e com Conversámos muito nesses Os candidatos apresentam os seus requerimentos e documentos
de Alain Oulman, também ele dias na sua casa do Marais, sobre
expulso de Portugal e, sobretudo, Amália aprendi mais poesia (Alain tinha uma intuição comprovativos, por carta registada dirigida ao Presidente do
a coragem de Amália em cantar sobre poesia e sobre rara), fado e, claro está, Amália. E
Júri indicando a referencia do anuncio para a morada: Centro
um poeta proibido. Ainda por também de Ary dos Santos, com
cima um poema com um título fado, confirmei quem cheguei a falar ao telefone de Neurociências e Biologia Celular, Departamento de Recursos
que, numa outra versão e pela voz a importância da por causa de uma palavra dele que
Humanos, Rua Larga, FMUC, 1º Piso, Universidade de Coimbra,
de Adriano Correia de Oliveira, Alain precisava de substituir.
era já um hino da resistência oralidade e constatei Amália era uma referência 3004-504 Coimbra, Portugal.
estudantil. E não só. que não há grandes para mim desde Coimbra. Os
Disse-lhe da minha alegria e seus discos acompanharam-me
honra em ser musicado por ele e poetas que não no exílio. Na sua voz, sentia AS DEMAIS CONDIÇÕES CONTRATUAIS PODEM SER CONSULTADAS EM:
cantado por Amália. tenham dentro de si pulsar a nossa raiz portuguesa e
• http://www.eracareers.pt/opportunities/index.aspx?
“Trova do vento que passa” o bater do coração do mundo. A
viria a fazer parte do disco Com
a estrutura rítmica sua maneira de cantar dava outra task=global&jobId=125067
Que Voz. Gravado em Janeiro de da língua dimensão a cada verso e fazia
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AMÁLIA
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Amália, amá-la
lo, confessou-me possuir uma coleção de
fados em CD. Volta e meia fecha-se numa
sala a ouvir e… a lacrimejar.
Não, o Eric não é anormal. Marido
de uma colega professora de Francês na
Brown, a Inge Wimmers, hoje aposenta-
da, especialista de renome em Proust, o
Eric trabalhou longos anos na elaboração
TIMES & TEMPOS de testes de Psicologia em Princeton.
Discorre doutamente sobre múltiplos tópi-
Onésimo Teotónio Almeida cos, desde Shakespeare ao futebol.

S
A MÚSICA NÃO NECESSITA DE RECOR-
RER a traduções do Google. Os acordes
de Zorba, de Mikis Theodorakis, ouvidos
im, mas com que por mim em jovem, ainda quase me põem
voz… posso eu os cabelos em pé. E, na minha época
vir teclar o quê? de detestar fado, a melodia, o ritmo, a
Se o JL aceitasse ágil graciosidade musical de “A casa da
textos não inédi- Mariquinhas” na voz da Amália varou-me.
tos, de bom grado (Mas aquilo era fado?)
substituiria estas Não me deixem divagar.
linhas pelas de Portanto, quando quiserem pregar que
uma açoriana do o fado é, como a saudade, um exclusivo
Pico, Margarida Silva, há décadas residen- português, deitem fora a tentação. As
te na Califórnia, que na morte da fadista emoções são universais, embora algu-
a homenageou com uma crónica urdida mas são mais comuns numa cultura do
apenas com títulos de fados interpre- que noutras. Contudo, não chego perto
tados por ela (“Uma casa portuguesa” da lógica de Millôr Fernandes: Bandido
ficou ao “Abandono” e já não “Cheira a habita todas as partes do mundo… Bem,
Lisboa”. Já não “Há festa na Mouraria” e a quase todas no Brasil. Quer dizer: de
“Madrugada de Alfama” perdeu a cor da modo nenhum mantemos o exclusivo
“Primavera” […] “Trago fados nos senti- nacional. No entanto, tradicionalmente
dos”, na boca “Amêndoa amarga”, “Ai esta especializámo-nos na expressão elabora-
pena de mim” dos “Martírios” que sofri. da dessa vertente, e uma voz sobrenatural
[…] “Lisboa, não sejas francesa” e canta como a de Amália (e outras do seu tempo,

CHARLES ICHAÏ
somente o “Fado português”). Mas prometi bem como da geração atual de fadis-
cumprir e é a isso que venho. tas), ajudam a torná-la atraente fora da
Como era de regra para os jovens da nossa língua por ser humana, demasiado
minha geração, desdenhei o fado por re- humana. E é essa a verdadeira dimensão
presentar o Portugal dos três F’s (incoe- Amália ao espelho "Quando na diáspora os portugueses são apanhados pelos acordes da guitarra, do património mundial que o fado hoje
rentemente, continuei sportinguista e a o salto é foguete" ostenta. Daí que Portugal esteja a ele
aplaudir o glorioso Benfica nas jornadas associado, como em tempos a Eusébio e
europeias), até começar a aprendê-lo - e agora a Ronaldo.
a saboreá-lo - na diáspora, no Primavera, Não se reduz a estes, claro. Todavia, cá
um restaurante português de Fall River, Ça va sans dire, o lisboeta tinha levado no longe, a identificação é imediata. E a
Massachusetts. Não escondo o gozo do o estrangeiro a uma casa de fados onde os emoção. É isso a saudade ou, pelo menos, é
meu partilhar em fotocópia, vezes sem presentes pagavam para… sofrer. Em am- o que em parte ela é. Quando na diáspora
conta, aquela deliciosa crónica “Casas de biente taciturno, melancólico e fatalista, os portugueses são apanhados pelos acor-
sofrer” do esquecido José Gomes Ferreira, os locais davam largas ao sentimento e ao
Uma voz sobrenatural como des da guitarra, o salto é foguete. E, no en-
no seu livro O Irreal Quotidiano. Quem se prazer masoquista de sentirem uma dor a de Amália ajuda a torná-la tanto, cada um de nós é mais, muito mais
lembra? Não fora a dita regra dos inéditos espiritual. Longe de mim participar em tal do que a saudade, o fado, ou a Amália (ou o
e seria outro clássico a merecer ressur- auto-suplício.
[à saudade] atraente fora da António dos Santos – aquele “Gaivotas em
reição, em vez das minhas monótonas nossa língua por ser humana, terra” ainda hoje me tem cativo). Todavia
elucubrações: OS ANOS DA DIÁSPORA ENCARRE- demasiado humana identifica-se imediatamente, embora só de
“Na semana passada, certo inglês, de GARAM-SE de me afinar, pois a música vez em quando, porque a vida é bem mais
passagem por Lisboa, quase me implo- tem segredos que a razão não entende. A larga.
rou, farto do Idêntico em toda a parte:- emoção pesa no relacionamento portu- Ao vivo, ouvi a diva Amália três vezes
Mostre-me qualquer coisa que não exista guês - e aí concedo razão a Teixeira de em espetáculos, sempre deste lado do
noutro país. Há? Meditei meio segundo Pascoaes. Não vem desse ponto a minha lugar). Lembra-me a Nini Andrade Silva, Rio Atlântico. Numa delas, pedi-lhe uma
e respondi, telegráfico:- Há. 'Cabarets'. discordância do poeta de Amarante. Esta criativa decoradora madeirense, contan- entrevista para um programa que há 40
[…] 'Cabarets' estranhos, ao contrário, de limitou-se sempre ao ter ele, num salto do de uma sua funcionária japonesa que anos mantenho no Portuguese Channel –
pernas para o ar, sem jazz nem pretos de nada somenos, atribuído à “melancolia detestava o toque corporal e não suportava TV, de New Bedford, Massachusetts. Foi
dentes brancos a soprarem gargalhadas do nosso verbo” um carácter ôntico. O os beijos dos meus compatriotas. Quando a minha única gravação fora do estúdio.
nos saxofones. […] Autênticas Casas de afeto entra na medula dos ossos lusitanos ela lhe lembrou que na França eram três, a Fui ter com a convidada ao seu quarto
Sofrer – onde se servem indigestões de (uma considerável parte, isto é; e em doses japonesa respondeu defensiva: E onde é o de hotel em Newport, Rhode Island.
mariscos e bebidas tristíssimas – cons- muito desiguais), que rejeita o discurso e terceiro? Quem era eu para fazê-la ir à estação?
truídas de propósito para pessoas com a postura seca, analítica, distante, fria. E no entanto os japoneses ouviam a Na conversa, só queria soltar-lhe a fala
fumos de luto nas mangas, que pretendem Basta atentar no que para aí se repete so- Amália e, sem entenderem patavina da para ouvi-la discorrer sobre o que lhe
chorar em público sem medo do ridícu- bre o grande António Sérgio, cujos ensaios letra, comoviam-se. Quando isso acon- aprouvesse. Contou-me algo para mim
lo. 'Cabarets' – válvulas-de-escape, em escritos com bisturí não aquecem a alma tecia no Olympia, de Paris, ainda havia desconhecido, que já estampei em escri-
suma…Venha comigo e verá.[…] No estrado nacional. quem jurasse poder explicar o entusias- to, mas autoplagio-me sem pedir autori-
alinhavam-se duas cadeiras à espera do Dois desconhecidos portugueses, sem mo da sala pelo facto de ela estar pejada zação. No início da sua carreira, quise-
viola e do guitarrista que entraram pouco importar a distância a que se encontram de portugas. Mas… no Japão? Impossível ram internacionalizá-la. Trouxeram-na
depois em ritmo de enterro. O cantor no globo, ao segundo email já terminam haver tantos capazes de abarrotarem um para Nova Iorque e submeteram-na a um
também não tardou a surgir no catafalco, a conversa com “um abraço”. Se forem auditório. E o Camané revelou-me idên- intenso regime de viagens e entrevis-
mancha negra dos cabelos até aos sapa- homens, porque se a troca é com alguém tica experiência na China. Aliás, aqui nos tas, país fora, para promoção dos seus
tos, solenidade de telegrama de pêsames, do outro o género é logo beijinhos. Não States fui eu mesmo testemunha do fe- discos. Inicialmente, Amália ainda foi na
lívido, suado, sinceramente infeliz, cara conheço nenhuma outra cultura tão pega- nómeno. O Eric Wimmers, que não sabe onda, embalada pelo entusiasmo. Cedo,
de serenata à meia-noite a noivas morta… josa de afeto (se me lembrarem os brasi- uma palavra de português, no Zeiterion porém, começou a fartar-se. Quando o
Houve um sussurro espectral. Os ouvintes leiros, direi que, nesse domínio, são mero Theater, em New Bedford, chorava de saco encheu, estacou: "Deu-me saudades
ajeitaram-se o melhor possível nos assen- apêndice – todavia de Sérgio Buarque de comoção a meu lado ao ouvi-lo. Nem das sardinhas de Lisboa e fui-me embora
tos para sofrerem com comodidade.” Holanda e da cordialidade falarei noutro procurou disfarçar. No final do espetácu- para Portugal!" J
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AMÁLIA
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Rui Vieira Nery


A tradição de desafiar a tradição
Amália será celebrada ao longo de um ano com um vasto conjunto de iniciativas que vão desde
concertos de homenagem a colóquios, passando por trabalhos académicos ou um espetáculo
de videomapping. O JL falou com o coordenar das comemorações do centenário,
que é também um dos maiores especialista em fado

Professorda Universidade Que é o que fizeram os grandes


Universidade Nova de Lisboa, nomes do fado do passado, como o
investigador do Instituto de Marceneiro e o Armadinho.
Etnomusicologia – Centro de
Estudos de Música e Dança e do Foi tudo à base de uma intuição?
Centro de Estudos de Teatro, diretor Para já, uma capacidade inata
do Programa Gulbenkian de Língua de criar coisas. Depois por uma
e Cultura Portuguesas, licencia- sensibilidade artística e poética
do em História pela Faculdade de muito requintada, o que é ainda
Letras de Lisboa e doutorado em mais extraordinário pensando
Musicologia pela Universidade do que veio de um meio popular,
Texas em Austin, Rui Vieira Nery, 63 com uma escolaridade reduzida.
anos, é uma das maiores referências Sempre foi muito curiosa pela
académicas do fado, tendo publicado mudança, pela transformação.
a obra essencial Para uma História do Uma intuição muito grande para
Fado. Ao seu conhecimento técnico ir guiando a sua carreira, mui-
e científico, junta-se a importante tas vezes contra as opiniões e os
experiência de campo que advém, conselho dos amigos. Apesar de
em parte, de ser filho de Raul Nery, cantar os poetas eruditos, nunca
um dos guitarrista que mais e deixou a poesia tradicional, os
melhor acompanhou Amália. Além versos do Linhares Barbosa,
disso é também o coordenador da cançonetas como “Ó Careca Tira
Comissão para as Comemorações a Boina”. Conseguia unificar essas
do Centenário de Amália Rodrigues, múltipla facetas, que até pare-
juntamente com a etnomusicóloga ciam contraditórias, através desse
Salwa El-Shawan Castelo-Branco talento abrangente e uma perso-
e a diretora do Museu do Fado, Sara nalidade artística esmagadora.
Rodrigues. Ao JL fala dos palnos das Havia muitas Amálias dentro da
comemorações, afetados pela pan- Amália, que não aparecem como
demia, mas também da forma como contradições, mas com o faces de
Amália mudou o (nosso) mundo. um poliedro que é a Amália.
D.R.

JL: Qual é a filosofia das Amália acompanhada por Raul Nery (atrás, à guitarra portuguesa) "Ela tinha capacidades vocais que seriam extraordinárias Seria grande em qualquer área?
comemorações? em qualquer género" Sim, ela tinha capacidades vocais
Rui Vieira Nery: Não vamos esgotar que seriam extraordinárias em
o assunto Amália. As comemorações qualquer género, não tenho dú-
juntam duas dimensões. Há uma ce- vidas. Mas ela foi o que quis ser.
lebração festiva, que envolve vários É difícil encontrar uma figura que notável, que passa pela identifica- acolhimentos. Se há coisa que ca- Em todos os géneros que cultivou
tipos de público, incluindo estudan- concilie esta importância artística ção dos takes alternativos, o levan- racteriza a identidade portuguesa atingiu uma densidade e uma pro-
tes, amigos, etc. A outra dimensão é com a popularidade… tamento das gravações do espetá- é a capacidade de dialogar com fundidade que nos desperta para
o lastro que as comemoração podem Sim, é raro, e as comemorações culos ao vivo. Sabemos muito pouco outras culturas. A Amália foi um coisas importantes da condição
deixar. Ou seja, depois de acabar a tentam cruzar tudo isso. Há coisas sobre uma figura tão referencial. instrumento característico desta humana, que são comparáveis
festa o que pode ter ficado. Por isso, que têm a ver com a relação forma de ser português e, pela sua entre quaisquer grandes artistas
há uma parte que tem a ver com a pessoal. Há um concurso de filmes O que a Amália ainda significa? projeção nacional e internacional, de qualquer género. Ela gostava
inventariação de fontes, os arqui- artesanais feitos por alunos das Foi um ponto de cruzamento das teve um papel único a esse nível. muito de música erudita, tinha
vos, a criação de bases de dados, o escolas e vai tudo acabar com um linhas de pensamento, criação, uma admiração enorme por Maria
alargamento do material original espetáculo de videomapping no expressão artística. Reflete uma Há uma imagem de Amália ligada Callas. Portanto, era sensível a
que passa a estar disponível (vão sair Terreiro do Paço. Não quisemos capacidade de ligar coisas dife- a uma certa tradição que contrasta géneros que não cultivava.
mais discos, vão estar disponíveis os cair numa solução populista fácil, rentes que é muito portuguesa, no com o que ela realmente foi e com
filmes, os filmes caseiros do marido, muito menos encerrar num meio sentido em que somos um país de o que realmente fez.. A herança de Amália é um peso
César Seabra, foram digitalizados. intelectual e elitista que escondesse dispersão e, ao mesmo tempo, de A Amália foi tudo menos uma tra- para as novas fadistas?
Haverá a reedição de estudos que a dimensão popular de Amália. dicionalista. Talvez por ter entrado É uma vantagem e uma desvanta-
estavam fora de mercado e o apoio pela porta do cavalo. Quando se gem. Uma desvantagem se quise-
de novos estudos. Decorrerá um co- Em termos de arquivo, há muito estreia no Retiro da Severa, em rem produzir clones. Ela nunca foi
lóquio académico, mas também um por descobrir? 1939, só sabia três fados. Por isso clone de ninguém. Uma vantagem,
encontro com pessoas que estiveram O espólio não está ainda inventa- teve que adaptar a sua musicalida- um legado importante se servir de
próximas dela para cruzar memó- riado. É uma das coisas que vamos de, formada por uma quantidade ponto de partida para depois cada
rias. Esperamos que quando acabar fazer, juntamente com a Fundação Havia muitas Amálias de elementos dispersos. Em cada um encontrar o seu próprio cami-
a festa deixemos um contributo Amália Rodrigues. Mesmo a docu- dentro da Amália, que momento desafiou-se a si própria nho. Há muitos que o têm feito,
para o estudo mais aprofundado do mentação que está nos museus do e ao fado. Nunca ficou confortável depois há uns subprodutos que se
fenómeno Amália, que é algo muito teatro e do traje, ou na RTP, não está não aparecem como com cada uma das metas atingidas. tornam irrelevantes. A capacidade
importante para a cultura portu- tratada. A própria discografia da contradições, mas com E puxou consigo o fado e a música de criar novas, formas a partir da
guesa da segunda metade do séc. Amália ainda não está totalmente portuguesa por novas descobertas. referência, é o desafio. Amália con-
XX, e que continua a ser atuante nos estabilizada, só agora o Frederico o faces de um poliedro Amália representa a tradição de tinuará a ser una referência para a
nossos dias. Santiago está a fazer um trabalho que é a Amália não se deixar limitar pela tradição. totalidade da música portuguesa. J
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT TEMA 15 AMÁLIA

A equação universal
AUTOBIOGRAFIA IMAGINÁRIA
Valter Hugo Mãe

l
A voz de Amália não é a de pode nada contra a mais elementar verda-
Portugal ou de Lisboa, não é de: somos para morrer. Somos e deixare-
exatamente a de uma mulher mos de ser.
num tempo ou num contexto. Amália Rodrigues, espírito intuitivo
O que representa é essência ímpar, soube bem que a única verdade para
absoluta, algo que signifi- sempre, universal, dizendo respeito a todos
ca humanidade inteira, seu e a todos os tempos, era a da dor e perda, a
pressentimento de ânsia e contingente condição que nenhuma língua
inevitável ruína. Amália é o ou cultura poderão retirar da equação dos
timbre do mundo, todas as pessoas, com ou seres, da equação da fórmula humana.
sem os grandes poetas que tão bem soube Ainda que me orgulhe muito a ideia de ser
escolher, ela não se constrange ao país, o a de Amália a voz de Portugal é verda-
que representa é muito maior. Na ordem de que penso agora que isso a detém. O
de figuras como Uum Kulthum, Chavela orgulho por que nasça de nós, use a mesma
Vargas, Mohammad-Reza Shajarian, Maria língua, ame os mesmos poetas, não deve
Callas ou Billie Holiday, pode comover-se servir para que se meça ao tamanho do
com ser de uma cultura mas não se explica país, porque estou certo de que, à tragici-
por tal matriz, explica-se exatamente por dade de seu timbre, ao desarmante modo
a transcender, por estar muito além do como sente, a humanidade inteira se evo-
quanto uma língua ou costume possa en- ca, enunciada pela fortuna sem palavras
cerrar, o quanto possa aprisionar. Figuras que se escuta e entende sem que mais nada
assim são livres mesmo que se façam do se explique.

D.R.
que julgam mais endémico de seus lugares.
Elevam-se para depois de todo o inexpli- SÃO AGORA CEM ANOS DESSA CIÊNCIA "Espírito intuitivo ímpar, soube bem que a única verdade para sempre, universal, era a da dor e perda,
cado. Significam algo que não é do foro do HUMANA A que se deu o nome de Amália. a contingente condição humana"
dizível, independem do dizível, sua arte é Uma ciência que perdurará com suas clari-
imediata completude, opera sem prejuízo vidências e seus mistérios, propondo con-
no mais ínfimo instante de sua expressão, tínuas teses. Maravilha é isso, que sua arte
ao longe e ao desconhecido, depois de seus seja auscultação e representação natural mercê do que implica, porque estaremos com Caetano Veloso ou Elza Soares, com
dias, depois de suas mortes. do que mais nos define. Estaremos todos à inelutavelmente à mercê da nossa própria Leonard Cohen ou Kathleen Ferrier,
É pela frontalidade para com o trágico natureza. Elizabeth Schwarzkopf ou Beniamino
que uma voz se pode tornar tradução da Somos um país de memória débil. Gigli, Homayoun Shajarian ou Franco
essência. Estamos lúcidos apenas quando Talvez pela pequenez, pela grave falta de Corelli, Amália estará no seu espaço por
mantemos consciência do quanto periga- gente, capitalizamos tão pouco a memória direito: o centro do mundo. A genuína voz
mos e nos fazemos para a morte. Não há e acabamos por celebrar quase nada o que do mundo. Nada menos do que isso.
como, por isso, escapar ao pior e parece se conseguiu. Da órbita popular desapa- A magnífica geração de fadistas que
que é exatamente a coragem de o dizer que Amália é o timbre do recem quase todos, relegados para uma hoje existe em Portugal talvez se ensom-
aponta uma obra ao intemporal. Todas as ressonância de arquivo, uma espécie de bre por Amália, sobretudo por demorar
alegrias se tornam instrumentos de medir mundo, todas as pessoas, saudade que já ninguém quer ter. Também na validação máxima: a apreensão since-
a vontade de superação e, ainda assim, com ou sem os grandes o mundo haverá de ser o lugar de vida ra da visão trágica da vida. Um magní-
medirem sobretudo o prémio sarcástico da eterna de Amália. Acredito que o futuro fico feliz será jamais um génio. O génio
tragédia, da morte e até do esquecimento. poetas que tão bem estará mais bem preparado para usufruir urge na lucidez. A lucidez é saber da
Se salvamos a arte, ao menos a arte, tudo soube escolher, ela não se do que sua voz importa para a equa- morte, ser frontal no que compete sofrer.
indica que o façamos sobretudo porque ela ção universal da humanidade. Quando Como foi Amália. Viveu em permanente
avisa, uma e outra vez, acerca do deslum-
constrange ao país, o que assim for, como com Billie Holiday ou medo, nenhuma glória a salvou de se ter
bre que nos pretende redimir e que, afinal, representa é muito maior Mohammad-Reza Shajarian, como será lúcida.J

artistas convidados
land Cascais 2020
9 ª E D I Ç Ã O | Q U I N TA D O P I S Ã O | 1 8 J U L H O A 6 S E T E M B R O

FILIPE FEIJÃO
ILDA DAVID’
MANUEL ROSA
MARIA JOSÉ OLIVEIRA
TELMO SILVA

curadoria Patrocinador:

LUÍSA SOARES DE OLIVEIRA


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15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

EXPOSIÇÃO

JARDINS HISTÓRICOS
DE PORTUGAL
Memória & Futuro

18 de Junho de 2020 até 21 de Março 2021


Biblioteca Nacional de Portugal

ENTRADA LIVRE
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT TEMA 17 AMÁLIA

Amália e Alain Oulman


Um encontro na hora exata
No carreira e no percurso da artista, em particular nessa fase admirável em que começa a cantar Camões e outros grandes
poetas, há uma figura absolutamente decisiva, aliás autor das músicas em que a “diva” o(s) interpreta. É sobre ele,
e sua relação com a fadista, este texto inédito da escritora que tem por base o que escreveu para um concerto
de homenagem ao músico, na Cité Internationale de Paris, em outubro de 2019

LÍDIA JORGE
Por uma noite, este concerto é
uma homenagem à música de Alain,
aquele a quem chamavam Pitou,
aquele que em criança se deitava no Vamos ao encontro
chão lendo o dicionário Larousse.
Por isso também lhe chamavam da voz que não
Petit Larousse. Uma homenagem ao tem rival, a voz de
Pitou, ao Petit Larousse, ao jovem
que passava os dias a tocar piano, à Amália, com tudo
sua música, ao seu amor pela palavra o que possuímos
escrita e dita, aos perfeitos poemas
e aos livros perfeitos, à sua própria nas nossas mãos
vida. Mas por certo que não estaría- e dentro de nós
mos aqui, para esta homenagem, se
acaso Alain Oulman não se tivesse
mesmos, levados
cruzado com Amália Rodrigues. pela beleza das
Em 1962, Alain Oulman e
Amália encontraram-se na Praia
palavras e pela força
de Lisandro. Foi um encontro na da canção de Alain
hora exata. Alain, rapaz do mundo,
tinha-se envolvido profundamente
com o imaginário português. Mar,
barcos, marinheiros, despedidas,
adeuses, abandonos, amores reais e poetas trouxeste para dentro do
irreais, saudades, desejos, regres- repertório do fado? E entregaste à
sos e partidas que vinham desde voz da Diva? Acordaste-lhe dentro
as falésias da Idade Média e então do peito escondidas cordas vocais.
se casavam com a obscuridade da Combinações ignoradas. Coragens
ditadura portuguesa. Amália e Alain Oulman (imagens de ensaio captadas por Fonseca e Costa) "E assim entregou a música à sua voz como se fosse desconhecidas. Entregaste-lhe o
Alain era um estrangeiro, feito de ao mundo inteiro" Camões de "Erros meus, má for-
várias peças do mundo, que anco- tuna, amor ardente", "Lianor pela
rava nesse imaginário e, na Praia de verdura", e sobretudo os versos do
Lisandro, ia ao encontro da voz que mais belas canções do século XX. O Pitou, o Petit Larousse, e editor entregaste a tua arte por teu bem e soneto, "Com que voz chorarei meu
melhor o interpretava. Então, em Interpretar "Gaivota" é, desde en- da Ulmann-Levy, de Paris, entrou por teu mal. Viste que o amor por- triste fado/ que em tão triste paixão
Portugal, cantava-se muito a prisão tão, uma prova de arte poética para dentro do imaginário português e aí tuguês, com letras de noite fechada, me sepultou." E assim transformaste
por desejo imperioso de liberdade. todos os fadistas . Mas a voz original, permaneceu até hoje. tristes, tristes de morrer, continham o canto desse soneto na síntese de
Amália, pela mão de Alain, cantou os aquela para quem Alain compôs, Pitou, Pitou, diz-nos o que viste, afinal a alegria de viver que a arte de todos os fados.
versos de David Mourão- Ferreira que continua singular. A utilização Pitou, nas terras de Portugal, que lhe cantar alarga, como um rio que dá David Mourão-Ferreira inter-
falavam da falta de liberdade. O fado instrumental da voz de Amália é tão no mar. Onde está triste, lê-se voz, pretou Amália como o heteróni-
"Abandono", de 1962, é uma canção intensa que dispensa a lisibilidade onde está partida, há chegada, onde mo feminino de Portugal. Alain
que denuncia, convoca a pena e a das palavras. Aproxima-a da perícia se lê morte, há perícia, e onde se lê Oulman, que conhecia a batida do
revolta, chamando a plenos pulmões deslizante do jazz. Os glissements perícia, vê-se encanto. Esta tristeza mundo, ajudou a construir essa
pela liberdade. Com a música de murmurados, escorregando de síla- que ouvem, não é tristeza é só canto. face. Mas compôs para Amália como
Oulman, Amália aceitou cantá-los. ba em sílaba, criam efeitos de rutura É canto feito beleza. Beleza é o voo se ela fosse, mais do que a voz de
A sua letra e a sua música foram, são e fazem a revelação de um outro mais alto, não distingue entre ale- uma nação, apenas uma pessoa.
de vanguarda. Estão na frente, em sentido das palavras, mais original
Alain escreveu para gria e tristeza. Particular, única, integral. E assim
qualquer tempo e qualquer parte. do que a semântica - "Que perfeito Amália porque Alain bem o sabia, compôs para entregou a música à sua voz como se
Porque escrevia Alain para a voz coração/ No meu peito bateria/ Meu a sua voz era os versos de Régio, aqueles que fosse ao mundo inteiro. Para Amália,
de Amália? Por certo porque a voz amor na tua mão/ Nessa mão onde cantam a vida de um marinhei- Alain escreveu 22 composições,
de Amália era indescritível. Tinha cabia/Perfeito o meu coração". indescritível. Tinha ro embarcado, muito triste, uma distribuídas por oito álbuns. Faltou,
o timbre de uma vasilha de prata, a Agora é a nossa vez de irmos ao o timbre de uma lindeza - "E o céu o mar prolongava/ por fim, gravar o que sobejou de
ressonância de um oceano de água, encontro da voz que não tem rival, Na amurada dum veleiro/ No peito mais precioso de tudo, a "Soledad"
a profundidade e a extensão próprias com tudo o que possuímos nas nos- vasilha de prata, a de um marinheiro/ Que, estando que ambos, certa noite, no meio
de uma esfera. Se ela surgia na sas mãos e dentro de nós mesmos, ressonância de um triste, cantava/ …Ai que lindeza do estúdio, ensaiaram ao piano.
janela, desapareciam os vidros e os levados pela beleza das palavras tamanha!." Soledad, Soledad, é o que sentimos.
batentes. Desaparecia a casa e a rua. e pela força da canção de Alain. oceano de água, a Alain Oulman compreendeu o Alain Oulman, Pitou, Petit Larousse,
Só ela aparecia. A sua voz cantou Fazemo-lo sob a fantástica lem- profundidade sentido dessa tristeza de duas faces aquele que para si mesmo não dei-
o amor de todos os tempos. Alain brança de Amália, em homenagem que vão desembocar na beleza, a xou umas palavras, é preciso escre-
Oulman compôs uma canção que a Alain, a Pitou, ao Petit Larousse e a extensão de uma alegria da certeza. Porque a beleza é, ver-lhe, urgentemente, uma canção
haveria de se chamar "Gaivota", ain- de Lisboa, aquele que compôs para esfera. A sua voz porventura , a única certeza da vida. de graças. Escreveu para o mundo,
da sem ter letra. Alexandre O’Neill Amália, para um povo, uma nação, Diz-nos, então, o que vis- através de um povo, um andamento
ouviu a trilha da canção, amou-a, compôs para a Terra inteira, só para
cantou o amor te, Pitou, no povo de Portugal. e uma nação. Para si mesmo, não
e escreveu para esse fado uma das si mesmo não compôs uma canção. de todos os tempos Quantos livros leste tu? Quantos escreveu uma canção.J
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LETRAS 15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

Pedro Eiras
Uma descida ao Inferno
contemporâneo
A razão é “misteriosa”, mas deu por si a escrever poesia. E logo numa revisitação de A Divina Comédia, de Dante Alighieri:
“uma ousadia”, diz ao JL Pedro Eiras, ficcionista, ensaísta, crítico literário, dramaturgo e professor da Faculdade
de Letras do Porto, que agora se estreia como poeta com Inferno, primeiro volume da trilogia que
se completará com Purgatório e Paraíso. Um livro que é uma descida aos infernos contemporâneos

E
MARIA LEONOR NUNES
forma, embirro com a expressão muitos mais. Dizem que só os núme-
condição humana (riso)… ros valem, mas não. As letras não são
tão acessórias como nos querem fazer
Porquê? crer. É isso que digo muitas vezes aos
Costuma ser terrível, infernal. Claro meus alunos.
que há limites humanos, biológicos,
mas a expressão é uma desculpa para O PASSADO DENTRO
não sair do inferno. Por isso, luto DO PRESENTE
contra a ideia de condição humana No seu Inferno, foi uma travessia do
que usamos como uma prisão que mundo contemporâneo que procurou
inventamos para nós próprios. fazer?
Sim. Mas, de certa maneira, impõe-
Um álibi... -se. Do que poderia falar a não ser
É confortável pensar que se faz isto ou do mundo contemporâneo? Se o
“Escrever a partir das palavras dos aquilo porque se está limitado, mas é testemunho, então o poema tem que
outros” é uma “lei” natural da poesia, uma narrativa pobre, pouco corajo- falar sobre esse tempo.
seguida por Pedro Eiras, que acaba de sa. A haver uma condição humana,
publicar o primeiro livro de poemas, temos que ser nós a inventá-la e que Do político à justiça, passando pelo
Inferno, edição Assírio & Alvim. E seja bem porosa. algoritmo.
justamente escreveu sobre uma das E às vezes pelos aspetos mais peque-
obras de referência da Literatura Também fala de uma cegueira uni- ninos, pontuais e datados. O algorit-
universal, a Divina Comédia, de Dante versal no seu livro. mo, por exemplo, é algo quotidiano,
Alighieri, (1265-1321). Interessa ao Somos distraídos muito facilmente. com que lidamos sempre que estamos
poeta e escritor trabalhar o antigo no Ao mais pequeno pretexto. E tantos em frente a um computador ou usa-
contemporâneo, procurando ser uma ecrãs, legendas e sublegendas, redes, mos as redes sociais.
voz “colada ao presente e sempre no são mais razões para estarmos distraí-
desvio, no desequilíbrio, no perigo”, dos, até porque temos demasiada in- Omnipresente: um novo divino?
como adianta ao JL: “Sempre com o formação. E por isso somos incapazes O algoritmo substitui os velhos deu-
chão a fugir debaixo dos pés”. E uma de ver tudo o que está perto de nós. ses, a voz do destino... É importante,
escrita “afiada”, “lâmina de um só para mim, compreender como é que
golpe”, “incisivo e inteiro”. A literatura pode tornar-nos menos o mundo contemporâneo é também
Pedro Eiras nasceu em 1978, no cegos? muito antigo, sob uma nova másca-
Porto, onde vive. É professor de Sem dúvida. E não é só um modo de ra. Essa ideia de um tempo passado
Literatura da Faculdade de Letras dar a ver. A literatura não está apenas que está dentro do presente do texto
do Porto e tem desenvolvido, a par Pedro Eiras "A literatura não está apenas a descobrir o mundo, mas a inventá-lo" sempre a descobrir o mundo, mas a interessa-me muito. É também por
da carreira académica, uma obra inventá-lo. Há aquele ditado medo- isso que tantas vezes aparecem poetas
ensaística, em que se destacam títulos nho que diz que letras são tretas. É dentro do livro, de maneira explícita
como Esquecer Fausto, Tentações, Os uma rima falhada. Pelo contrário, vi- ou não. São muitas vozes, estrofes,
Ícones de Andrei, Constelações e Platão rio e o paraíso são aqui também. Se Jean-Paul Sartre, na peça À Porta vemos num mundo que foi inventado versos, personagens, ideias, que vou
no Rolls-Royce. Na ficção, estreou-se calhar, mesmo ao virar da esquina Fechada, dizia que “O Inferno são por escritas. Por Dante, Eliot, Kafka e buscar ao passado e tento dizer num
com Bach, em 2014, a que se seguiram ou do outro lado da parede. O inferno os outros”. idioma contemporâneo.
Cartas Reencontradas de Fernando é perfeitamente tangível. Podemos Tudo depende. Os outros também
Pessoa a Mário de Sá-Carneiro e A tocá-lo, atravessá-lo, mergulhar nele podem ser o paraíso. A frase às vezes Esses poetas que evoca são o seu guia
Cura. Como autor teatral publicou e depois também vir à tona. Há uma aparece como se fosse uma verdade no Inferno, como Virgílio guia Dante?
Um Forte Cheiro a Maçã, Uma Carta a lenda judaica de que falo no livro, de basilar no pensamento de Sartre, mas Sim. Dante faz, aliás, uma figuração
Cassandra, Um Punhado de Terra e Bela passagem, segundo a qual o paraíso é o ponto de vista de uma persona- de uma lei geral da poesia.
Dona. Revela-se agora na poesia com é exatamente este mundo, só que as gem. Dentro da humanidade existem Quando um poeta
Inferno, que inaugura a trilogia de raiz coisas têm que ser um pouco muda- danados, demónios e também aqueles escreve, está a Que lei?
dantiana. Seguir-se-ão Purgatório e das de posição. O inferno também é que reinventam as coisas. Quando um poeta escreve, está a
Paraíso. Que já está a escrever. Em ri- isso: as coisas deste mundo fora do reescrever. Dante reescrever. Dante reescreve Virgílio
gor, a reescrever, porque, diz ele, “não sítio. Quer dizer que o inferno e o paraíso reescreve Virgílio. 1500 anos depois, do mesmo modo
basta escrever, é preciso reescrever”. fazem parte da condição humana? que Virgílio reescreve Homero 700
E há muitas coisas fora do sítio hoje? E que é preciso fazer a travessia dos Virgílio reescreve anos mais tarde, em contas redondas.
Jornal de Letras: O inferno é mesmo Muitas. E, muitas vezes, por nossa infernos para uma existência melhor? Homero. É uma lei da É uma lei da homenagem, da cópia,
aqui e não sabemos? culpa. Deslocamos as coisas para o Gosto muito de travessia. É uma gran- da reciclagem, do plágio. É uma ilusão
Pedro Eiras: (riso) Sim, é. E não lugar errado e era preciso voltar a de palavra, está cheia de ressonâncias
cópia, da homenagem, pensar que se pode escrever do nada.
apenas o inferno, porque o purgató- pô-las no lugar certo. e memórias literárias. Da mesma da reciclagem Quando hoje alguém escreve um so-
David Rodrigues Ana Pina Isa Gomes
A educação pós-covid Repensar a Escola Uma escola de
em estudo da UNESCO p. 5 em tempo de pandemia p.3 e para todos p. 8

J educação
Nº 1299 * Ano XL * 15 a 28 de julho de 2020 * Diretor José Carlos de Vasconcelos

Ano letivo 2019/2020


Respostas à pandemia
e aprendizagens para o futuro
No momento em que está a chegar ao fim o presente ano letivo, o mais 'difícil' e conturbado de que há memória,
por força da Covid19, o ministro da Educação - 44 anos, doutorado em Bioquímica e investigador em Cambridge,
titular da pasta desde o início o início do governo anterior, em novembro de 2015 - faz aqui um seu balanço
e anuncia os propósitos para o ano letivo 2020/2021

N
TIAGO BRANDÃO RODRIGUES
a comunicar, acompanhar e ensinar adaptações nos exames do ensino se-
todos os alunos. cundário, entre as quais a necessidade
De forma complementar, em da sua realização apenas para efeitos
poucas semanas, desenvolvemos o de concurso geral de acesso ao ensino
#EstudoEmCasa, permitindo a trans- superior e nas disciplinas exigidas
missão diária, das 9h00 às 18h00, pelos cursos aos quais os jovens se
de conteúdos educativos originais e pretendem candidatar. Não há obvi-
adequados aos diferentes ciclos de amente soluções perfeitas e esta situ-
ensino e áreas curriculares, em canal ação teve até o condão de reacender
aberto de televisão, de forma a chegar um debate que nos parece necessário
a todas as casas. Conteúdos desenha- sobre o acesso ao ensino superior.
dos e apresentados por professores Contudo, afigurava-se extremamente
de diferentes escolas e que foram arriscado, irresponsável e injusto, nas
consensualmente reconhecidos como condições e calendários impostos pela
No momento em que termina o ano contributo importante para alunos pandemia, num momento em que a
letivo 2019/20, gostaria de tecer um e famílias continuarem a aprender, sociedade clamava por um mínimo de
elogio sentido, primeiro que tudo, ao mostrando aliás como as estratégias e estabilidade, mudar todas as regras à
grande brio, dedicação, sentido de recursos pedagógicos não têm deixado última hora e criar à pressa um siste-
responsabilidade e disponibilidade de- de evoluir, nos últimos anos, apesar ma radicalmente novo.
monstrados pelas nossas comunidades das limitações óbvias que este formato
educativas, ante as condições dramá- tem relativamente à interatividade que TODOS TEMOS A NOÇÃO de que este
LUÍS BARRA

ticas que vivemos, a partir de março, é crucial nos processos educativos. sistema não substitui o modelo pre-
resultantes do alastramento global da Tiago Brandão Rodrigues Logo que possível, retomámos ati- sencial, que tem características únicas
pandemia de COVID-19. Estas palavras vidades letivas no ensino secundário e virtuosas para o desenvolvimento ple-
vão dirigidas aos diretores, professores na educação pré-escolar, implemen- no e a aprendizagem, sobretudo (mas
e educadores, aos trabalhadores não tando um conjunto de medidas de não apenas), no caso das crianças.
docentes, alunos, famílias e a todos os de filhos de profissionais essenciais, proteção sanitária inéditas em todas Tratou-se de um recurso ante uma
que coadjuvam as atividades escolares. bem como alimentação diária a vários as escolas do país com oferta destes necessidade maior de salvaguarda da
Face à necessidade de confi- milhares de alunos que vivem em níveis de ensino, em colaboração com saúde pública.
namento de forma a salvaguardar condições mais vulneráveis. as autoridades de saúde e adequadas A análise dos impactos educativos
a saúde pública, as escolas não Simultaneamente, com o apoio da a cada idade. Na impossibilidade de deste período de emergência e de ca-
suspenderam as suas atividades um administração educativa, a generali- garantir estas soluções com mais de lamidade é fundamental, mas implica
dia sequer, mobilizando-se imediata- dade das escolas desenvolveu os seus um milhão de alunos nas escolas, também tempo e recurso a metodolo-
mente, buscando soluções adequadas, planos de ensino a distância, de forma Estamos a preparar um privilegiámos, por um lado, os alunos gias próprias. Conclusões taxativas são
conscientes da sua missão central na a assegurar as atividades de ensino diagnóstico nacional, que se encontravam em conclusão sempre demagógicas e, aliás, tremen-
sociedade como um todo e na vida de e aprendizagem, de acordo com os dos seus estudos e, muitos deles, em damente injustas para os diretores, os
cada uma das nossas crianças e jovens. seus contextos locais. Criaram-se permitindo aferir o preparação para o acesso ao ensino professores e educadores, os alunos e
Assim, no pico da pandemia no parcerias locais, regionais e nacio- que se aprendeu e o superior, bem como as crianças mais as famílias que se uniram e que traba-
país e num momento de enormes nais, envolvendo a administração, novas, uma vez que são aquelas em lharam, diariamente, com criatividade
incertezas quanto à sua evolução, as autarquias e a sociedade civil, que ficou por aprender que as atividades presenciais se afigu- e afinco, em condições muito difíceis,
um conjunto alargado de escolas, de forma a distribuir dezenas de durante estes meses de ram mais indispensáveis. para que o ensino e a aprendizagem se
cobrindo todo o território nacional, milhares de computadores a famílias Cancelámos as provas externas desenrolassem o melhor possível.
mantiveram-se abertas, de forma a em condições mais vulneráveis, bem
confinamento e ensino no ensino básico, adiámos e intro- Por isso, além do trabalho de
providenciar acolhimento a centenas como outras estratégias de continuar a distância duzimos igualmente um conjunto de consolidação das aprendizagens ao
2 EDUCAÇÃO

15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

OPINIÃO

Ensino a distância, solução


qual todas as escolas irão dedicar as
primeiras cinco semanas do próxi-
mo ano letivo, além do acréscimo de
recursos para o apoio tutorial específico
e para a educação inclusiva, o aumento
do crédito horário e os novos meios
para o desenvolvimento pessoal, social
e comunitário, estamos a preparar um
diagnóstico nacional, durante o primei-
possível mas excecional
ro período do ano letivo, que inclua os
vários ciclos de ensino e as várias áreas
curriculares, permitindo aferir o que INÊS CASTRO
efetivamente se aprendeu e o que ficou
por aprender, durante estes meses de O Ensino a Distância (E&D) foi dificuldade em aceder a meios digitais vida, incluindo o escolar com especial aluno-professor, em geral, tornou-se
confinamento e ensino a distância. implementado no ensino não superior, recorreram mais às sessões assíncro- destaque para os milhares de alunos mais cúmplice, empática, amistosa
É fundamental que essa análise te- após a suspensão das atividades esco- nas, deitando a mão a todos os recursos que não possuem equipamentos e e respeitosa. O mesmo sucedeu na
nha em conta um conjunto de fatores. lares, numa situação de emergência de que dispunham, sempre com a pre- redes digitais apropriados para o E&D. relação entre encarregados de educa-
Em primeiro lugar, as aprendizagens derivada da terrível pandemia que nos ocupação de chegar a todos: do email A desigualdade social sempre existiu. ção e docentes. A informalidade nos
ocorrem sempre em contextos espe- atinge. Sublinho situação de emergên- ao whatsapp e messenger, da fotografia Andava camuflada e, agora, está à contactos, que não significa menos
cíficos, sendo estes muito diferentes e cia porque o ensino remoto não só em- ao telemóvel e sms, do correio normal vista de todos. respeito, aprofundou a compreen-
assimétricos no nosso país, mas, neste pobrece o relacionamento de alunos e ao contacto presencial dos pais que Ao longo dos anos, a Escola são dos papéis dos intervenientes e
caso, todos inevitavelmente marcados professores cujo contacto é mediado recebiam e entregavam trabalhos. Pública, promotora do direito à estreitou a necessária colaboração.
pela pandemia. Em segundo lugar, as por uma pantalha, como também, a Educação e à equidade social, tem tido Esperamos que assim continue.
verdadeiras aprendizagens não são as meu ver, acarreta consequências ne- O PROGRAMA “ESTUDO EM a capacidade e a virtude de esbater a O E&D contribuiu para elevar os
que se memorizam para um teste e se fastas a nível da saúde física e mental CASA”, organizado pelo Ministério desigualdade e até de contribuir para o níveis de literacia de muitas famílias
esquecem no dia seguinte, mas as que de todos os envolvidos. da Educação e transmitido pela RTP funcionamento do tal “elevador” so- que se esforçaram para acompanhar
permitem efetivamente ganhos de co- Na escolaridade obrigatória, nada Memória, foi relevante no apoio às cial. Deverá prosseguir nesta via. Com as aprendizagens dos seus filhos,
nhecimento, competências e valores, poderá substituir o ensino presenci- crianças e alunos mais jovens e utili- atividades síncronas ou assíncronas, pedindo explicações aos professo-
que permanecem no tempo e se trans- al que é aquele que, com toda a sua zado pelos professores para abordarem importa sublinhar e realçar o enorme res e acompanhando o “Estudo em
põem no espaço. Em terceiro lugar, o carga emotiva e relacional, permite novos conteúdos ou reforçarem apren- esforço, dedicação, disponibilidade e Casa”. E é verdade que, por força do
que pretendemos hoje em educação é o verdadeiras aprendizagens quer a nível dizagens já realizadas. responsabilidade social das comunida- esforço conjunto de aluno, família,
desenvolvimento de um vasto conjunto cognitivo, transformando informação Compreende-se a atração que o des escolares (docentes, alunos, pais, professor, muitas crianças e jovens
de saberes e disposições – hoje, bem em saber e conhecimento, quer a nível mundo inesgotável da tecnologia e do funcionários não docentes, técnicos) motivaram-se e melhoraram os seus
sistematizados no Perfil dos Alunos relacional e social. Relembro que se digital exerce sobre as pessoas. Não na resposta a uma situação complexa desempenhos.
à Saída da Escolaridade Obrigatória recorreu ao E&D para evitar um gran- negamos, só porque sim, a utilização e desafiante. A grande maioria talvez O “Estudo em Casa” foi uma
– que vão muito além do domínio de afastamento dos alunos em relação de plataformas e meios digitais que tenha aumentado a sua consciência atividade bem concebida e re-
das regras básicas da gramática e da à Escola durante um tempo prolon- podem ser uma poderosa ferramenta social. É uma questão a aprofundar. presentou um ato de coragem, de
aritmética, dos reis e dos rios. gado, cuja duração se desconhecia, disponibilidade e de dever cívico
garantindo também o papel social da dos professores que nele estiveram
COM TODAS AS LACUNAS E TODOS Escola e a concretização do direito envolvidos. Teve uma repercussão
OS RISCOS que lhe possamos reconhe- à Educação, não deixando nenhum que ultrapassou os seus objetivos
cer e que estamos já a planear colmatar aluno para trás. iniciais. Foram muitos os adultos que
com estratégias para o próximo ano le- Desde o início, a Direção-Geral assistiram às sessões com o propó-
tivo, não devemos negligenciar aspetos de Educação definiu, com clareza, os sito de adquirirem novos saberes e/
que esta situação poderá ter potenciado objetivos das modalidades de E&D: ou atualizarem os já existentes. O
e que consideramos hoje fundamentais permitir a todas as crianças e jovens a) impacto na população portuguesa
na educação e formação dos cidadãos, manter contacto regular com os seus deverá ser estudado.
tais como o pensamento crítico e professores e colegas; b) consolidar as A experiência do Ensino a
criativo, a resolução de problemas, a aprendizagens já adquiridas; c) desen- Distância em situação de emergência
autonomia pessoal, a valorização do volver novas aprendizagens. merece ser avaliada e evidenciados
bem-estar, da saúde e do ambiente, a Rapidamente, as conversas, as os seus impactos positivos e nega-
literacia digital e para os media. opiniões e até as práticas resvalaram tivos. Chegou o tempo de preparar
Sem dúvida que esta contingência para uma das modalidades do E&D: as o futuro próximo com esperança e
apresentou igualmente novos riscos aulas síncronas. Em muitos casos, pro- realismo e com algumas preocu-
ao nível das desigualdades, tanto no curou-se transpor o ensino presencial pações. O regresso a uma possível
plano educativo como em todos os para plataformas digitais (onde alunos, normalidade e ao ensino presencial
outros planos da vida social. Contudo, pais e professores passaram horas), vai ser difícil e complexo. O tempo
DIANA TINOCO

orgulhamo-nos de ser o governo que remetendo para segundo plano a vai agravar todas as desigualdades
definiu as desigualdades, em termos existência de modalidades de trabalho sociais e, por isso, importa que o
gerais e especificamente na educação, pedagógico assíncronas. quadro de crise económica e social
enquanto o principal défice do país, Do meu ponto de vista, as sessões esteja sempre presente na tomada de
tendo alcançando em quatro anos, assíncronas contêm um potencial pe- decisões pedagógicas adequadas às
uma redução na casa dos 30% do in- dagógico interessante. Facilitam uma necessidades dos alunos e das suas
sucesso e do abandono escolares, colo- abordagem multinível do currículo de ensino e de aprendizagem mesmo Os professores superaram-se, famílias.
cando-nos pela primeira vez em linha e, por consequência, um trabalho em contexto de sala de aula, desde que reformataram-se, aprenderam tecno- A saúde mental de todos deve ser
com os nossos parceiros europeus. pedagógico diferenciado que responde se acautelem as questões da segurança logias digitais e, num tempo reduzido, preservada e acautelada já que se trata
Hiatos históricos, estruturais e melhor às dificuldades e necessidades digital e da proteção de dados pessoais. estavam em contacto com os seus de um importante aspeto do bem-es-
multidimensionais não se resolvem, dos alunos. Permitem uma aprendi- Mas, no E&D síncrono existiu alunos. Destaco o papel importantís- tar de cada um e de todos. A pandemia
obviamente, de um ano para o outro, zagem através de projetos curriculares um outro lado: o cansaço de alunos, simo desempenhado pelos professores e o confinamento provocaram os
mas este é um trabalho que iremos que mobilizam aprendizagens de professores e famílias, uma even- titulares de turma no 1º ciclo e pelos seus estragos quanto mais não seja
continuar a aprofundar, nos próximos diferentes disciplinas. Estimulam a tual reduzida eficácia pedagógica, diretores de turma na gestão dos pelo aumento dos níveis de stress e
anos. No plano especificamente educa- criatividade e desenvolvem a autono- a desigualdade no acesso a meios recursos, na coordenação do trabalho ansiedade. Haverá certamente outros
tivo, estamos dispostos, portanto, a um mia dos alunos quanto a métodos de digitais que envolve os equipamentos de todos os docentes e no contacto que dependem do contexto de vida de
processo simultâneo de, por um lado, estudo, de pesquisa e organização do e a rede que os suporta, as dificuldades com os alunos e famílias. Muitas vezes, cada pessoa.
garantir meios digitais que permitam a seu trabalho. de vária ordem das famílias, entre numa ação cirúrgica para que nenhum Com redobrados esforços de todos,
universalização do acesso às tecno- Dir-me-ão que nas sessões síncro- outros aspetos. Também não pode ser aluno se perdesse. a Escola Pública terá de continuar a
logias da informação e comunicação, nas, vulgo “aulas online”, também se escamoteado o seu papel invasivo da cumprir a sua missão: dar corpo ao
bem como à internet, e, por outro desenvolveram estas estratégias. Claro privacidade, no contexto do confina- O E&D EM SITUAÇÃO DE EMER- direito à Educação no âmbito de uma
lado, continuar a reforçar as escolas que sim! Desde que o método de en- mento motivado pela Covid19. GÊNCIA revelou situações interes- escola inclusiva em que todos atinjam
para garantir presencialmente mais sino não fosse expositivo e os esforços A pandemia que vivemos e a crise santes do ponto de vista do relaci- o sucesso escolar. J
oportunidades de aprendizagem e de não estivessem concentrados em “dar que se instalou desnudou e escanca- onamento social nas comunidades
sucesso educativo a cada aluno, tendo a matéria” e seguir o manual. rou a ferida gritante e perturbadora educativas. Muitas vezes, a adversi- *Inês Castro é diretora do Agrupamento de
em conta as suas condições de vida. J As escolas cujos alunos tiveram da desigualdade em muitos planos da dade aproxima as pessoas. A relação Escolas do Monte de Caparica
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT EDUCAÇÃO 3 ↗

OPINIÃO

Re(pensar) a escola em tempos de pandemia


ANA PINA
Edgar Morin, num artigo recen- dade, só presente em quem gosta mui-
te recorre à expressão “Festival de to do seu trabalho, e reinventaram-se,
Incerteza” para caraterizar esta época improvisando soluções, com recursos
de pandemia, corolário dramático que muitos desconheciam até aí.
de um conjunto de outras incertezas Não foi o que queríamos para
criadas na pós-modernidade. Entre a Escola. Atrevo-me a dizer em
vários desafios, refere o sociólogo nome da maioria. Foi o possível. O
que esta crise “deveria, sobretudo, ato pedagógico reclama presença, é
abrir as nossas mentes (…) para o construído na relação. A linguagem
essencial: a importância do amor e não verbal, os olhares, os gestos,
da amizade para o desenvolvimento os silêncios, as expressões faciais
humano, para a comunidade e para são fundamentais nos processos de
a solidariedade (…) permitindo um interação social. Não há plataforma
novo renascimento da vida convivial ou aplicação que substitua isso. As
e amorosa, rumo a uma civilização na tecnologias não substituem a peda-
qual se desenvolve a poesia da vida, gogia. Podem ou não enriquecê-la,
onde o EU floresça num Nós.” consoante o uso que se fizer delas.
Situando-me nesta perspetiva, Mas o ensino a distância não pode ser
sempre considerei as crises como uma solução.
oportunidades de crescimento – pes-

JOSÉ CARLOS CARVALHO


soal, social, profissional e organiza- Os dois ou três meses de confi-
cional. Com isto não quero defender namento permitiram-nos tes-
que há um valor per se de uma crise. temunhar e refletir sobre vários
Apenas que, face a um buraco negro, assuntos. Destaco aqui três:
desconhecido e quase impenetrável a) A força da empatia em contexto
como este da pandemia, temos de ser escolar. Empatia dos professores, dos
resilientes, o que mobiliza a importân- A experiência da atual pandemia e as soluções encontradas para lhe responder irão servir de alavanca para a consolidação funcionários, dos pais e encarrega-
cia de nos focarmos e termos coragem de um novo paradigma educativo dos de educação e dos alunos. Todos
para avançar. Por mais incertos que conseguiram demonstrar possuir essa
sejam os caminhos. Por mais difícil que capacidade de se colocar no lugar do
seja planear e que tenhamos que nave- micos e do desemprego significativo nas últimas duas décadas, assistiu- exames e os rankings) e internacional outro e de ver pelos olhos dos outros;
gar à vista. Daí a importância funda- dos diplomados, (apesar do alarga- -se, no interior da Escola e por vezes (como os estudos PISA), no contexto b) A importância de Cuidar, por-
mental de desenvolver as capacidades mento do público escolar e da dura- em rede comunitária, a tentativas de uma escola heterogénea, hospi- que desmaterializada a escola sobre-
de flexibilidade e adaptabilidade. ção dos seus percursos escolares), do de flexibilização do currículo e de taleira, de todos e para todos, como viveram as histórias de vida pessoais a
No meu entender, a experiência crescimento das taxas de abandono reorganização da gramática escolar, o é, ou deve ser, a Escola Pública que todos procuraram atender e res-
da atual pandemia sanitária e as escolar e do avolumar das desigual- ensaiando-se soluções colaborativas portuguesa? ponder, com sensibilidade, procuran-
soluções encontradas pelas Escolas dades de acesso aos diferentes níveis para problemas sociais complexos, 2. Como conciliar a aposta nas do permitir que cada um seja “capitão
para responder ao confinamento de ensino, entre outros aspetos. Estas como o são aqueles que têm como fim pessoas e nos processos de formação da sua alma”. (W.E.Henley)
imposto irão servir de alavanca para a incertezas cruzavam três problemas a construção real (e não discursiva) pessoal e social, condições fun- c) A necessidade de, num regresso
consolidação de um novo paradigma essenciais: as alterações no mundo de uma sociedade equitativa, justa e damentais da humanidade, com a próximo, dar particular atenção à
educativo que já se vinha esboçando laboral, que fizeram renascer fenó- democrática. pressão sobre os resultados académi- promoção do Bem Estar, valência
timidamente, nos últimos anos. Um menos de vulnerabilidade de massa, cos dos alunos? muito trabalhada pela OCDE, no con-
paradigma assente numa educação a acentuação da crise urbana, com a Às Escolas colocaram-se múltiplos 3. Como pensar o global, no texto do programa Educação 2030.
integral da pessoa, que inclui múlti- concentração dos problemas sociais desafios, entre os quais, salientarei os quadro de uma ação local, contextu-
plas dimensões: a dimensão corporal em espaços específicos, criando os que mais me preocupam: alizada por protagonistas e histórias Para finalizar, não posso deixar
da pessoa, centro de uma ecologia apelidados “guetos”, que por vezes 1. Como compatibilizar práticas vividas num território específico e de registar a minha desilusão com a
integral, que inclui a preocupação assumem contornos étnicos. E, de inclusão escolar com instrumen- num país concreto? publicação, em junho, dos rankings
com o cuidado, a saúde, a segurança não menos importante, as próprias tos de regulação nacional (como os 4. Como integrar múltiplas das provas de exame de 2019, pois
e o crescimento humano; a dimen- alterações da escola, e das múltiplas visões, sentidos e modos de ação, que quem quis (e sempre) trabalhou essa
são cognitiva, que põe em relevo a expetativas, interesses e necessidades atualmente convivem diariamente informação, como (mais) um dado
aprendizagem académica, a habilida- que, com a progressiva massificação, na escola, num projeto comum mas informativo para análise do desem-
de da aprendizagem para a vida e para começaram a ser convocadas para o plural, que supere lógicas de domina- penho da escola, fê-lo em setembro
o desenvolvimento do emprego no interior dessa instituição, sem obter ção/subjugação, contribuindo para a de 2019, na organização deste ano
século XXI; a dimensão afetivo-emo- resposta e gerando mal-estar. construção de uma cidadania crítica, letivo agora terminado. Não consigo
cional, sustentada na promoção da Na verdade, o cenário e a história As tecnologias não ativa e respeitadora dos princípios e entender o sentido de oportunidade
resiliência e no desenvolvimento de mudavam mas a Escola permanecia valores democráticos consagrados na nem a intencionalidade da publicação
virtudes para resistir às dificuldades (e permanece) estruturada, no que à
substituem a pedagogia. constituição portuguesa? desses dados em vésperas de exames,
e para consolidar um autoconceito organização pedagógica diz respei- Podem ou não matrículas e da saída das orientações
positivo; a dimensão artística, assente to, assente num modelo tradicional enriquecê-la, consoante Chegadas a março de 2020, as superiores relativamente à organiza-
no incentivo da expressão pela arte; homogeneizador, que recorre à Escolas e as estruturas do Ministério ção do próximo ano letivo, particu-
a dimensão social e cívica, orientada unidade classe como unidade central, o uso que se fizer delas. da Educação foram confrontadas larmente depois do enorme esforço
para a participação na vida comuni- continuando a “ensinar-se muitos Mas o ensino a distância com a necessidade de, em 48 horas, (nem sempre bem-sucedido) das es-
tária, para a construção de compro- como se fossem um só” (Barroso), reorganizar todo o modelo de ensino, colas para tentar não deixar ninguém
missos e conexões interpessoais; e, orientando o trabalho para um aluno não pode ser uma solução com a principal preocupação de para trás e de uma quase revolução de
finalmente, a dimensão ético-moral/ médio que não é mais do que uma cuidar de todos, em especial dos mais paradigma educativo.
espiritual, que abre caminhos para o abstração, num contexto progressiva- vulneráveis, para os quais a ausência No mínimo, considero que a
questionamento do que somos e do mente marcado pela heterogeneidade No mínimo, considero que da escola poderia ter graves danos, publicação dos rankings nos exames
que devemos ser. da população escolar. a publicação dos rankings não só académicos como sociais e foi de mau gosto e desrespeitosa para
Antes da pandemia se instalar, Passados mais de 20 anos, a emocionais. com os professores e as Escolas.
e recuando aos anos 90 do século “Escola das Incertezas” foi sofrendo nos exames foi de mau Foi uma tarefa muito difícil, por
passado, já se falava da Escola das alterações. Entre visões ideológicas gosto e desrespeitosa vezes ingrata e muitas vezes fracassa- *Ana Pina é diretora da Escola Secundária
Incertezas (Canário), resultante de mais conservadoras e as visões mais da. Mas os professores, os funcioná- Fernão Mendes Pinto, em Almada, uma das
um contexto marcado pela crescente progressistas que pautaram as políti-
para com os professores rios, os psicólogos e outros técnicos cinco escolas portuguesas que participaram na
desvalorização dos diplomas acadé- cas públicas em matéria de educação e as Escolas demonstraram uma enorme generosi- reunião da OCDE sobre o futuro da educação
4 EDUCAÇÃO

15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

COLUNA

Agruras de um diretor de turma


A meio do processo, pessoal-
mente, desisti de alinhar com a
insanidade e como dou aulas de
História do 6º ano, comuniquei aos

em tempos estranhos
meus encarregados de educação
que não devolvessem os manuais e
ponto final. Se alguém perguntasse,
a culpa que me fosse atribuída que
tenho costas largas para a idiotice.
Poupei um par de mails desneces-
sários, graças a isso. Já quanto às
matrículas, não tive tanta sorte.

EDUCAÇÃO E MEMÓRIA
PORQUE FORAM DIAS INICIAIS
em que o “Portal das Matrículas”
era a grande ferramenta em tempos
Paulo Guinote de recurso a soluções não presenci-
ais. E os diretores de turma instaram
os encarregados de educação a
usarem o Portal. Quando? Quando
O cargo de diretor de turma é um níveis de transbordamento das saíssem as classificações. E an-
dos que, fora das estruturas for- funções do diretor de turma para a tes? Não deveria ser, porque não
mais de “liderança”, mais impor- esfera puramente administrativa. saberiam o ano em que se iriam
tância tem na relação das escolas Do preenchimento de inquéritos e matricular, mesmo se quase toda a
com as comunidades educativas relatórios à exigência que se trans- gente ia passar de ano. Mas houve
envolventes, porque o bom e velho mitisse a necessidade desse preen- quem tentasse e conseguisse e
“DT” funciona como uma espécie chimento a alunos, encarregados passasse palavra. E aquilo come-
de primeira linha de contacto com de educação e colegas. O diretor de çou a emperrar. E os encarregados
as famílias dos alunos. O tema tem turma como funcionário adminis- de educação a perguntarem como
sido estudado abundantemente trativo e simples operacional de preencher a parte em que existe a
pelas Ciências da Educação e é um uma cadeia hierárquica de controlo necessidade de apresentar compro-
dos poucos assuntos em que parece acima das suas atribuições como vativos e porque não se conseguia
existir uma espécie de consenso elemento unificador e estabilizador aceder em horário útil. E este diretor
que ultrapassa ferozes clivagens do seu grupo de alunos em tempos de turma, também encarregado de
ideológicas em outras matérias. de grande insegurança. educação, compreendia e partilha-
Como refere Marta Sofia Ferreira, A terminar o ano, a barragem va as agruras da plataforma que só
ele é informalmente uma espé- final de deveres em forma de parecia funcional com a lua cheia no
cie de “líder intermédio” e “para novos inquéritos e monitorizações alto do horizonte.
muitos encarregados de educação, e monitorizações de monitoriza- Mas não… o Portal das
o diretor de turma é considerado ções e grelhas para tudo registar Matrículas é que deveria ser usado
o rosto da escola, pois desem- de irrelevante e redundante. E os e os procedimentos respeitados,
LUCÍLIA MONTEIRO

penha a função de elo de ligação manuais para recolher, embora renovação ou não renovação. E os
entre a instituição e a família” se garantisse que as primeiras diretores de turma lá deram a cara
(O Diretor de Turma no Papel de semanas do próximo ano letivo de novo, por mail ou telefone, por
Líder Intermédio. Dissertação de serão para “recuperar as apren- causa da urgência, para que a coisa
Mestrado. Viseu: Universidade dizagens” não realizadas ou não se fizesse à distância, tido M@D
Católica, 2014, p. 66) devidamente consolidadas nestes (Matrícula a Distância). Por vezes,
Há quem reconheça que, em últimos meses. E as escolas fize- com recurso a tutoriais e tudo, que
muitos contextos e na ausência de inquiridos consideram que é exigi- ram escalas para a devolução dos os professores são gente engenhosa
outros recursos humanos especia- do ao DT o desempenho de vários manuais, escalonando pessoal e de rápida reação ao infortúnio.
lizados “as competências exercidas papéis sociais e funções de caráter não docente e docente, com os Não é bem o meu caso, mas sei
pelo diretor de turma extravasam burocrático”, o que coincide com diretores de turma à cabeça. E os quem assim seja.
nalguns pontos as competências a visão de Clara Boavista e Óscar
O cargo de diretor de diretores de turma comunicaram- Até que se tornou por demais
legalmente atribuídas” (Guilherme de Sousa que afirmam que “nesta turma é um dos que, -nas aos encarregados de educa- evidente que a dita ferramenta
Rodrigues, O Papel do Diretor de pesquisa fica claramente perce- ção, mesmo quando achavam que deve ter sido concebida para as
Turma na Autonomia: estudo de caso tível a ideia de que os principais
fora das estruturas não fazia sentido, mas era assim matrículas de um único ciclo e não
numa Escola Secundária. Dissertação fatores limitativos ao exercício da formais de “liderança”, que teria de ser. E veio a discussão de todos. E muita gente começou a
de Mestrado. Lisboa: Universidade atividade dos diretores de turma mais importância tem do Orçamento Suplementar e a pensar que o melhor era não per-
Aberta, 2011), porque “não há são o tempo reduzido de que estes aprovação da proposta para que os der horas e bater com a cabeça no
legislação para a dimensão humana docentes dispõem, o excesso de na relação das escolas manuais não fossem devolvidos. E teclado e fazer matrícula presenci-
do diretor de turma” (Fani Simões, burocracias com que são confron- com as comunidades os diretores de turma transmitiram al. E então surgiu uma informação
O papel do Diretor de Turma na vida tados no exercício das suas tarefas” essa informação aos encarregados da DGEstE a recomendar que para
dos alunos, Relatório de Mestrado: (“O Diretor de Turma: perfil e educativas envolventes de educação. “agilizar” o processo se deveriam
Porto: Faculdade de Letras da competências”, in Revista Lusófona Só que no Ministério da fazer no portal apenas as inscrições
Universidade do Porto, 206, p. 97). de Educação, 2013, nº 23, p. 91). Educação alguém falhou as aulas nos primeiros anos de ciclo e as
Mas, apesar dessa importância Serve esta sequência de refe- de História do 6º ano e achou que o transferências. E surgiu, quase em
do papel como mediador entre a rências para sublinhar que o papel realização de matrículas ou a reco- poder executivo pode atropelar as simultâneo, não sei se ovo, se gali-
escola e a família e do seu en- central do diretor de turma na lha de manuais escolares. decisões do legislativo e um senhor nha, a notícia de que o Portal teria
volvimento na vida escolar dos vida escolar e junto dos alunos tem diretor-qualquer-coisa mandou sido alvo de “ataques” informá-
alunos, grande parte do traba- sido descaracterizado e tomado EM TEMPOS DE ENSINO REMO- uma informação para as escolas ticos de “elevada complexidade”
lho do diretor de turma tem sido de assalto pela deriva hiperburo- TO, com todas as atribulações que a dizer que havia um despacho a (notícias a circular desde a tarde de
progressivamente dominado pela crática que nas últimas décadas marcaram os últimos meses, o cumprir e os manuais a receber. E dia 7 de julho).
dimensão burocrática que envolveu levou a que à influência e inter- papel de elo entre o que restou de as direções comunicaram isso aos E assim se voltou atrás e ao que
o exercício da docência nos seus venção eficaz junto dos alunos se vida escolar “normal” e os alunos diretores de turma e estes, mesmo deveria ter sido o alfa de tudo, a
mais diversos aspetos e isso é algo passasse a dar maior importância e respetivas famílias passou ainda contrariados, lá fizeram o papel de renovação automática do que o
reconhecido não apenas no terre- aos diretores de turma como uma mais pelos diretores de turma. Mas, pombos correios de novo para os bom senso recomendaria que fosse
no, mas pelas próprias investiga- espécie de burocratas a quem são infelizmente, foi vítima da tal deriva encarregados de educação. Até que automaticamente renovado, em
ções. Ana Rita Pacheco e Mariana atribuídas as mais diversas funções burocrática mais preocupada no seu veio de novo a indicação de que não especial nas presentes circunstân-
Amaral da Cunha e Paula Batista, de carácter administrativo que em papel como controlador do trabalho poderia ser, que os devolvidos já cias. Pelo caminho, o campo pejado
no seu trabalho "O Papel do Diretor outros tempos não faziam parte do alheio e registador aplicado das estavam, mas afinal não deveriam de encarregados de educação e
de Turma na dinâmica relacional seu “perfil de funções”, como seja atividades desenvolvidas do que ser devolvidos. Tudo isto em poucos diretores de turma esgotados, após
entre a escola e a família” conclu- a “monitorização” do trabalho dos em qualquer outro. Foram tempos dias, muitos mails e pouco siso da inglório combate pelo acesso ao
em que “os dados revelaram que os colegas de Conselho de Turma, a penosos em que se atingiram novos tutela. Santo Portal.J
Nº 283 * 15 a 28 de julho de 2020
Suplemento da edição nº 1299, ano XL,
do JL, Jornal de Letras, Ar tes e Ideias
com a colaboração do Camões, I.P.

Centenário
do Nascimento
de Amália
Rodrigues
Pág. 2

Camões e DGLAB criam


nova Linha de Apoio
à Tradução e Edição
Pág. 3
D.R.
2 CAMÕES

15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

Centenário do Nascimento de Amália Rodrigues (1920-2020)


As celebrações da maior figura do fado
na rede externa do Camões
No ano em que se assinala o Vieira Nery e que tem por base a
Centenário do Nascimento de programação dos organismos sob
Amália Rodrigues (1920-1999), tutela do Ministério da Cultura e
multiplicam-se as iniciativas que da Câmara Municipal de Lisboa. A
pretendem celebrar a maior figura festa foi inaugurada com um con-
do fado. Concertos, exposições, certo que reuniu 100 guitarristas,
projeções de filmes e conferências de várias gerações, nos Paços do
são alguns dos eventos de uma Concelho de Lisboa, num tributo
comemoração que está a acontecer ao legado da fadista.
não só em Portugal como também No que toca às celebrações do
um pouco por todo o mundo. Camões I.P., as atividades inicia-
No âmbito do Camões I.P., os ram-se no início do ano.
100 anos do nascimento de Amália O Camões - Centro Cultural
Rodrigues celebram-se assim mes- Português em Berlim exibiu a
mo - por todo o mundo -, estando exposição “Amália no Cinema”, da
previstas mais de 40 atividades autoria da Cinemateca Portuguesa
em cerca de 30 países de todos os – Museu do Cinema (entre 25 de
continentes, a decorrer em 2020 e fevereiro e 19 de abril de 2020, no
prolongando-se durante o ano de contexto do Festival Internacional
2021. de Cinema de Berlim, a Berlinale).
Já no próximo dia 23 de julho, Já em Espanha, esteve patente
na Residência da Embaixada na Sala de Exposições da Antiga
de Portugal em Roma (Itália), o Escola do Magistério de Cáceres a
Quarteto Ricardo J. Martins apre- exposição “Ecos do Fado na Arte
senta um concerto de homenagem Portuguesa” (em janeiro). Da
a Amália Rodrigues, com repertório responsabilidade da EGEAC/Museu
novo, criado especialmente para a do Fado e apresentada no quadro
ocasião. do programa da Candidatura do
Outro destaque é o Festival do Fado à Lista Representativa do
Fado, a maior mostra internacional Património Cultural Imaterial da
de fado, que prevê a realização de Humanidade (UNESCO), a mostra
iniciativas em Madrid, Barcelona propõe uma leitura integrada e
e Sevilha (Espanha), Buenos Aires multidisciplinar das representa-
(Argentina), Cidade do México ções do Fado na Arte Portuguesa
(México), Cidade do Panamá dos séculos XIX-XXI.
(Panamá), Montevidéu (Uruguai), Em França, na cidade de Saint-
Bogotá (Colômbia), Rabat Étienne, realizou-se a 8.ª edição
(Marrocos), Moscovo (Rússia), da Noite do Fado, um evento de
entre outras cidades. três noites que tem habitualmente
Na Argentina, a 7.ª edição lotação esgotada. E este ano não foi
do Festival do Fado, que estava excepção. Realizado nos passa-
agendada para o passado mês de dos dias 13, 14 e 15 de fevereiro
junho, foi adiada para 6 de outubro (antes da pandemia de covid-19),
deste ano e prevê-se que venha a Amália Rodrigues Os 100 anos do nascimento da fadista comemoram-se com mais de 40 atividades em cerca o certame contou no conjunto dos
ser realizada em streaming a partir de 30 países de todos os continentes três espetáculos com mais de 600
do Centro Cultural Kirchner de pessoas. A iniciativa é do Leitorado
Buenos Aires. Devido à pandemia na Universidade Jean Monnet,
de covid-19, o certame foi também sendo organizada em parceria com
adiado no Panamá, para dezembro imortalizada por Amália. (ACE) para 2020, uma iniciativa A FESTA JÁ COMEÇOU a Associação Cultural Portuguesa
de 2020, naquela que será a sua 4.ª Já nos Estados Unidos da conjunta do Ministério de Estado Não se sabe ao certo o dia em que de Saint-Étienne e o Instituto de
edição na capital do país. América, na cidade de Newark, e dos Negócios Estrangeiros e do nasceu Amália Rodrigues. Como Língua e Cultura Portuguesa de
Na rota dos festivais, sublinhe-se estão agendados dois espetáculos: Ministério da Cultura que tem ela própria contava, a família Lyon.
ainda o Festival de Fado em Santiago o concerto “Amália at 100”, com como objetivos a internacionali- registou-a, com atraso, a 23 de Mais recentemente, no passa-
do Chile e o 3.º Festival de Fado de Fábia Rebordão, Jorge Fernando zação da cultura portuguesa e a julho de 1920. Por isso costuma- do dia 12 de junho, nos Estados
Viena, na Áustria, com Camané e Gaspar Varela, no New Jersey projeção da imagem de Portugal va dizer que nascera “no tempo Unidos da América, a Missão de
& Mário Laginha, Mísia, Mafalda Performing Arts Centre (NJPAC), no mundo. O Plano Indicativo da das cerejas”, uma tirada poética Portugal na ONU, em colabora-
Arnauth e Maria Emília. Este no dia 20 de novembro; e o es- ACE 2020 foi apresentado no início que é também uma alusão às suas ção com o Consulado-Geral de
realizar-se-á em 2021, no Teatro am petáculo “Uma noite em casa da do ano (a 19 de fevereiro) pelo origens familiares no concelho do Portugal em Newark, apresentou o
Spittelberg. Amália”, no Sport Club Português Ministro de Estado e dos Negócios Fundão (embora a fadista tenha evento “Centenário do Nascimento
Além dos festivais, o legado da de Newark, a 31 de outubro. Estrangeiros, Augusto Santos Silva, nascido em Lisboa). Em todo o de Amália Rodrigues - Fado nas
diva do fado será celebrado também As comemorações do Centenário e pela Ministra da Cultura, Graça caso, Amália Rodrigues decidiu Nações Unidas”. Em parceria com
em inúmeros concertos pontuais do Nascimento de Amália Rodrigues Fonseca, que destacaram, como estabelecer como data de aniver- o Arte Institute, entidade dedicada
- da Dinamarca à Índia passando passarão ainda por Doha (Qatar), eixos programáticos, precisamente sário o primeiro dia do mês: 1 de à promoção da cultura portuguesa
por países como Japão, Marrocos, com exposições e concertos; e por a promoção internacional do fado julho. contemporânea, realizou-se um
Ucrânia, Polónia ou Cuba. Na capi- Maputo (Moçambique), com concer- - “tirando partido de 2020 ser o Foi precisamente nesse dia, a 1 evento virtual que incluiu dois
tal de Cuba, em Havana, o evento tos digitais. ano do Centenário do Nascimento de julho de 2020, que começaram, concertos (pré-gravados para a
“Fado por Vozes Cubanas” convi- Recorde-se que o Centenário do de Amália Rodrigues”, como em Portugal, as comemorações ofi- ocasião) de músicos portugueses
dará cantores cubanos, conhecidos Nascimento de Amália Rodrigues assinalou o ministro -, a par da ciais do Centenário do Nascimento radicados em Nova Iorque: o gui-
do grande público e sem ligação ocupa um lugar central no pro- promoção internacional da língua de Amália Rodrigues (2020-2021), tarrista Pedro Henriques da Silva e
habitual ao fado, a dar voz à canção grama de Ação Cultural Externa portuguesa. presidido pelo musicólogo Rui a cantora Sofia Ribeiro. J
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT CAMÕES 3 ↗

Na língua de Camões: Cátedras pelo mundo


Colômbia: Cátedra de Estudos Portugueses Fernando Pessoa
JERÓNIMO PIZARRO
A Cátedra de Estudos paços culturais; e conseguimos
Portugueses Fernando Pessoa, da que um autor, João Paulo Borges
qual já falei num número anterior Coelho, fizesse a longa viagem
(n.º 210, de 12 a 25 de novembro Moçambique-Colômbia.
de 2014, suplemento da edição n.º Em 2018 foram novamente
1151, ano XXXIV, do JL - Jornal muito os autores convidados.
de Letras, Artes e Ideias), foi Valter Hugo Mãe viajou a Cali.
criada em 2011 e tem procurado Lídia Jorge e Margarida Cardoso
multiplicar o conhecimento, na deixaram memórias saudosas na
Colômbia e não só, das múltiplas Cinemateca de Bogotá. Augusto
manifestações que conformam Santos Silva fez uma belíssima
a idiossincrasia portuguesa no conferência sobre Pessoa na
mundo (https://catedrapessoa. Universidad de los Andes.
uniandes.edu.co/). 2019 foi um ano musi-
No espaço de que disponho, cal (Maria João Pires, Teresa
e numa altura incerta que obri- Salgueiro, Ana Moura, Jaime
gará a redefinir muitos planos Reis), um ano de publicações
e em que ficaram pendura- importantes (Carolina Maria de
das algumas atividades - um Jesus, Adília Lopes) e de uma
colóquio internacional sobre colossal programação na FILBo
Ruy Belo, por exemplo, que ia 2019.
decorrer na primeira semana E chegou este parêntese de
de maio na Universidad de los 2020. A sensação de ser impos-
Andes, em paralelo com ativi- sível ter 10 ou 20 convidados em
dades na Feira Internacional certos eventos. A saudade por
do Livro de Bogotá, FILBo certas viagens. A vontade de vol-
2020 - talvez não seja desca- tar a criar pontes e conversas.
bido lembrar alguns eventos Neste contexto e para termi-
recentes pelas suas repercus- nar, devo ter uns 100 caracteres
sões e ainda propor uma maior ainda, pergunto-me por modos
integração das mais de 50 Cátedra Fernando Pessoa O diretor, Jerónimo Pizarro, com o leitor de Português Pedro Meneses; numa sessão de criar uma rede de redes, por
cátedras Camões no mundo, na Feira Internacional do Livro de Bogotá (2019); e com docentes da Cátedra de Estudos Portugueses unir via plataformas virtuais os
numa altura em que as novas vários «pontos» do Camões no
tecnologias permitem eventos e mundo. Durante alguns meses
publicações transnacionais. Leitorado ou «silla profesoral», res portugueses por Cartagena, blicação de uma tetralogia de ou anos talvez devamos publicar
Em 2015, José Tolentino que permitiu reforçar, com o Bogotá e Medellín, as memórias Gonçalo M. Tavares, El Reino, apenas no âmbito de uma gran-
Mendonça visitou a Colômbia apoio do Camões, I.P., a presença coloniais foram discutidas com que mais tarde a Planeta quis de biblioteca Camões e fazer
pela primeira vez. A 1 de maio da língua e da cultura portugue- Isabela Figueiredo, Dulce Maria também publicar; a Embaixada eventos que integrem outros
publicou em texto intitulado sas na minha Universidade. Foi Cardoso, João de Melo e Valter de Portugal na Colômbia come- centros. J
«Bogotá», no Expresso, sobre um reforço, em todos os sentidos, Hugo Mãe, entre outros. Lembro çou a oferecer cursos de inicia-
alguns alfarrabistas do cen- que ainda agradeço. um ano intenso e de discussões ção A1/A2; o Brasil e Portugal *Professor e titular da Cátedra de
tro da cidade: Torre de Babel e Em 2016, a programação cres- públicas muito fortes. uniram-se para celebrar a lín- Estudos Portugueses Fernando Pessoa
Merlín. Nesse ano, foi criado um ceu, passaram muitíssimos auto- Em 2017 celebramos a pu- gua portuguesa em diversos es- da Universidade dos Andes

Camões e DGLAB criam nova Linha de Apoio à Tradução e Edição


O Camões I.P. e a Direção-Geral do podendo cada editor submeter mais sas ou internacionais, Cátedras, de obras que se integrem no âmbito
Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas do que uma candidatura. Para além Centros de Língua Portuguesa, da LATE.
(DGLAB) assinaram um protoco- de propostas editoriais de iniciati- Centros Culturais ou Universidades, Iniciado no passado dia 2 de
lo que visa a criação de uma nova va das editoras, a LATE contempla em particular aqueles que tenham julho, o período para apresentação
Linha de Apoio à Tradução e Edição ainda uma modalidade de apoio à Protocolos de Colaboração com o de candidaturas prolonga-se até 17
(LATE). tradução e edição de Obras refe- Camões, I.P.”. Visa ainda “garantir de agosto de 2020, sendo validadas
A LATE pretende promover a renciais da Literatura Portuguesa, a representatividade de autores através do preenchimento do formu-
tradução e edição no estrangeiro de cuja lista - composta por 50 títulos e obras da literatura em língua lário e após a receção de uma men-
obras escritas em língua portuguesa, - foi elaborada por uma Comissão portuguesa nos mercados editoriais sagem eletrónica de confirmação.
por autores portugueses e por au- Técnica que integra representan- internacionais e articular a difusão As candidaturas deverão ser sub-
tores dos países africanos de língua tes da DGLAB, do Camões I.P., da de autores e obras da literatura em metidas para os e-mails do Camões,
portuguesa (Angola, Moçambique, Associação Portuguesa de Escritores língua portuguesa com as ações no I.P.: balcaounico.ae@camoes.mne.pt
Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, e da Associação Internacional de âmbito da participação em feiras e da DGLAB: internacional@dglab.
Guiné-Bissau) e de Timor-Leste, Lusitanistas. Nestes casos, para além internacionais do livro, festivais gov.pt ou, via postal, para: Camões,
através de apoios financeiros e de dos custos de tradução e edição, está literários e outros eventos interna- I.P – Av. da Liberdade, 270 – 1250-
bolsas para tradutores. prevista a aquisição de exemplares cimento e a divulgação interna- cionais”. 149 Lisboa Portugal e DGLAB – Torre
Este novo instrumento destina-se aos editores. cional do património bibliográfico Os destinatários diretos do apoio do Tombo, Alameda da Universidade
a editoras estrangeiras e nacionais Como pode ler-se no comuni- em língua portuguesa e dos seus são as editoras nacionais e estran- – 1649-010 Lisboa Portugal.
que apresentem candidaturas para a cado de imprensa (divulgado no autores”, assim como “proporcio- geiras que apresentem candidaturas O regulamento e toda a informa-
publicação de obras destinadas aos passado dia 2 de julho), a LATE tem nar um conjunto de recursos e de para a publicação, quer em formato ção estão disponíveis nas páginas do
mercados e públicos no estrangeiro, como objetivo “estimular o conhe- acervos para Bibliotecas portugue- impresso, quer em formato digital, Camões I.P. e da DGLAB. J
4 CAMÕES

15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

Concurso de Fotografia
“Portugal e Marrocos: 5.º Encontro da Rede de Ensino
Olhares Cruzados” Português no Estrangeiro
No passado 10 de Junho - Dia de Portugal, de Camões e das
Comunidades Portuguesas, a Embaixada de Portugal em Marrocos “Aprender e Ensinar em Tempos de
e o Camões - Centro Cultural Português em Rabat lançaram o Emergência” é o tema do 5.º Encontro
concurso de fotografia “Portugal e Marrocos: Olhares Cruzados”. da Rede de Ensino Português no
“Promover e divulgar, através da imagem fotográfica, os laços Estrangeiro (EPE), que decorre nos pró-
existentes entre Portugal e Marrocos, de natureza histórica, ximos dias 22 e 23 de julho, na Fundação
cultural, económica ou outra” é o objetivo do concurso, sublinhou,
Calouste Gulbenkian (FCG), em Lisboa,
ao encarte do Camões I.P., o Embaixador de Portugal em Rabat,
e online através da plataforma Microsoft
Bernardo Futscher Pereira.
Realizado com o apoio do Camões I.P., o concurso contempla Teams.
duas categorias de participação, cada uma com um prémio no valor O estado de emergência, causado
de 500€: a primeira é dedicada ao tema da memória, do património pela pandemia do novo coronavírus,
e da história de ambos os países; e a segunda abrange aspetos da marcou o ano letivo 2019/2020, im-
sua vida contemporânea, como economia, viagens, desporto ou pondo à rede EPE mudanças nas formas
gastronomia. de ensinar e aprender, caracterizadas
“A fotografia é uma arte democrática, com milhões de principalmente por uma migração
praticantes. Esperamos com esta iniciativa estimular, descobrir e para o ensino digital e à distância, cuja
promover novos talentos, quer portugueses quer marroquinos e, integração progressiva e sustentada se
deste modo, contribuir para um maior conhecimento recíproco dos perspetiva a médio e longo prazo. O
dois países”, declarou o Embaixador. 5.º Encontro dos Professores do EPE,
O concurso está aberto a cidadãos portugueses e marroquinos, que se realiza presencialmente e estará
ou residentes nos dois países, e os trabalhos podem ser submetidos aberto à participação online, pretende
até ao dia 30 de outubro de 2020. O vencedor será anunciado até
refletir sobre a mobilização da rede EPE
ao final deste ano. O regulamento e a ficha de inscrição estão
neste período particular, destacando e
disponíveis na página da Embaixada de Portugal em Marrocos: rabat.
embaixadadeportugal.mne.pt partilhando as melhores soluções en- Debate O encontro conta com intervenções do ministro Augusto Santos Silva e dos
contradas em cada contexto, e projetar secretários de Estado João Costa, João Sobrinho Teixeira, Berta Nunes e Teresa Ribeiro
os cenários para o próximo ano letivo,
Programa PROCULTURA otimizando as redes cooperativas insti-
tuídas entre as coordenações de ensino
de Ensino do Camões I.P., que se
debruçará sobre um conjunto de inicia-
Portuguesas, Berta Nunes, e da secretá-
ria de Estado dos Negócios Estrangeiros
Bolsas para artistas dos PALOP dos vários países e entre os docentes dos tivas ligadas a conteúdos digitais. e da Cooperação, Teresa Ribeiro.
e Timor-Leste vários níveis de ensino. Da parte da tarde, docentes das No dia 23, a reflexão continua online,
A sessão de abertura, no dia 22, Coordenações de Ensino fazem uma através da plataforma Microsoft Teams,
pela manhã, conta com intervenções apresentação focada em exemplos de com vários painéis dedicados à projeção
No âmbito do projeto da União Europeia PROCULTURA PALOP-TL, do ministro de Estado e dos Negócios boas práticas - analógicas, digitais e de cenários de ensino-aprendizagem
o Camões I.P. e a Fundação Calouste Gulbenkian vão atribuir bolsas Estrangeiros, Augusto Santos Silva; mistas - de apoio às aprendizagens dos para próximo ano letivo 2020/2021,
de viagem a artistas nacionais dos PALOP e/ou de Timor-Leste, e aí do secretário de Estado Adjunto e da alunos durante o período de pandemia. tendo em conta o contexto da pande-
residentes, nas áreas da Música e das Artes Cénicas (teatro, dança, Educação, João Costa; do Presidente Seguir-se-á um momento destinado à mia. Após a apresentação dos diversos
artes circenses, ópera e canto). do Camões I.P., Luís Faro Ramos; e apresentação de novidades editoriais, grupos de discussão, terá lugar um
O objetivo é apoiar a frequência de residências artísticas do administrador da FCG, Guilherme designadamente da editora Lidel e da painel com representantes da Direção-
na Europa, Brasil, Austrália ou países vizinhos dos PALOP e
d’Oliveira Martins. Porto Editora. Geral da Educação, da Universidade
Timor-Leste e, desta forma, apoiar também o desenvolvimento
Os trabalhos iniciam-se depois, Para o final da tarde está agenda- Aberta e do Camões I.P., que contribuirá
do seu trabalho em diálogo com outros contextos de criação
contemporânea, incentivar o seu reconhecimento e a sua circulação com uma comunicação de Neuza da uma intervenção do secretário de com comentários e recomendações.
internacional. Pedro, professora auxiliar do Instituto Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino O Presidente do Camões I.P., Luís
As candidaturas decorrem até 30 de setembro de 2020, para de Educação da Universidade de Superior, João Sobrinho Teixeira. Faro Ramos, fará a intervenção de en-
realização de residências artísticas em 2020 e 2021. O regulamento e Lisboa, seguida de uma apresentação, A sessão de encerramento do pri- cerramento do encontro. O programa
os formulários de candidatura estão disponíveis em: gulbenkian.pt/ a cargo de elementos da Direção de meiro dia conta com as intervenções da pode ser consultado em: https://
programas/parcerias-desenvolvimento/ Serviços de Língua e de Coordenações secretária de Estado das Comunidades tinyurl.com/encontroepe2020 J
Em 2019, foram selecionados 12 artistas de Angola, Cabo Verde
e Moçambique para a frequência de residências na África do Sul,
Brasil, Quénia e Portugal, com apoio do projeto.
PROCULTURA PALOP-TL é uma Ação do Programa Indicativo
Multianual PALOP-Timor-Leste e União Europeia, financiada pela UE,
E-Fórum da OEI das Línguas Portuguesa e Espanhola,
uma iniciativa da OEI que se realizou
cofinanciada e gerida pelo Camões I.P. e cofinanciada também pela Potencial do espanhol e do português na pela primeira vez em Lisboa nos dias
Fundação Calouste Gulbenkian, que tem como objetivo contribuir
para a criação de emprego em atividades geradoras de rendimento recuperação das economias pós-covid 21 e 22 de novembro de 2019. Nessa
altura, decidiu-se que seriam organi-
na economia cultural e criativa nos PALOP e em Timor-Leste.
zados fóruns temáticos com o obje-
“Potencial das línguas na recupe- O papel do espanhol e do tivo de aprofundar os eixos conside-
ração das economias: contributos português enquanto veículos de rados prioritários para a promoção
Publicação do espanhol e do português” foi recuperação económica no período das duas línguas. Devido à pandemia,
Circulador lança “Pandemia Cultural” o tema do e-Fórum promovi- pós-pandemia esteve no centro do o Fórum “Línguas e Economia”,
do pela Organização de Estados debate (cujo vídeo pode ser visto na previsto para o dia 5 de junho na
No âmbito do projeto da União Europeia PROCULTURA PALOP-TL, o Ibero-americanos para a Educação, íntegra na página da OEI). Na sua Fundação Calouste Gulbenkian em
Camões I.P. e a Fundação Calouste Gulbenkian vão atribuir bolsas de a Ciência e a Cultura (OEI), em intervenção, o Presidente do Camões Lisboa, foi adiado para 2021.J
viagem a artistas residentes nos PALOP e/ou de Timor-Leste, nas áreas colaboração com o Camões I.P. e o I.P., Luís Faro Ramos, sublinhou
da Música e das Artes Cénicas (teatro, dança, artes circenses, ópera e Instituto Cervantes, que se realizou a oportunidade que a pandemia
canto). no passado dia 2 de julho. O debate poderá trazer para a transmissão
Em Angola, com Alice Cruz, gerente do departamento de Áudio teve dois painéis, um em Lisboa dos valores e das culturas associadas
da Geração 80, produtora audiovisual baseada em Luanda. No
e o outro em Madrid, e contou às línguas portuguesa e espanhola,
Brasil, com Lia Rodrigues, coreógrafa e diretora da Lia Rodrigues
com a participação do Presidente naquilo que são trocas e partilhas
Companhia de Danças, no Rio de Janeiro. Em Cabo Verde, com
António Tavares, diretor artístico do Centro Cultural do Mindelo, no do Camões I.P., Luís Faro Ramos, políticas, sociais e culturais. “[Essas Camões, I.P.
Mindelo. Em Moçambique, com Eduardo Quive, diretor da Literatas - do diretor do Instituto Cervantes, trocas] são também muito impor- Av. da Liberdade, n.º 270
Revista de Artes e Letras de Moçambique, baseada em Maputo. E em Luís Garcia Montero, dos profes- tantes e às vezes mais lucrativas do 1250-149 Lisboa
Portugal, com a artista visual Mónica de Miranda, diretora artística sores Luís Reto e José Luís Garcia que transações meramente comer- TEL. 351+213 109 100
do Hangar - Centro de Investigações Artísticas, em Lisboa. Delgado, do secretário-geral da OEI, ciais ou investimentos financeiros FAX. 351+213 143 987
Realizada com o patrocínio do Camões I.P. e do Consulado Mariano Jabonero e da diretora da e, sobretudo, de maior duração no www.instituto-camoes.pt
Geral de Portugal em São Paulo e o apoio institucional da CPLP, a OEI Portugal, Ana Paula Laborinho, tempo”, afirmou. jlencarte@camoes.mne.pt
publicação está disponível na página do projeto (circulador.com.br), e com a moderação das jornalistas O e-Fórum, que contou também PRESIDENTE Luís Faro Ramos
onde pode também ser descarregada gratuitamente em formato de Estela Viana, em Madrid, e Maria com o apoio da CPLP, surge no segui- COORDENAÇÃO Vera Sousa
livro digital. Flor Pedroso, em Lisboa. mento da Conferência Internacional COLABORAÇÃO Carolina Freitas
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT EDUCAÇÃO 5 ↗

DOCUMENTO

Um estudo da UNESCO
A Educação Pós-Covid
DAVID RODRIGUES
A Comissão Internacional para os conectividade: escolas sem meios tem falado do aumento de desigual-
Futuros em Educação da UNESCO tecnológicos, sem acesso fiável às dades que esta pandemia causou na
acaba de publicar um importante redes de comunicação, equipamen- Educação. O documento evidencia
texto sobre a Educação intitulado tos obsoletos e, consequentemente, que as nossas sociedades não devem
A Educação num Mundo Pós-Covid: sem a possibilidade de aceder em pactuar com as desigualdades que
Nove ideias para políticas públicas. condições equitativas à informação foram evidenciadas pela crise e apela
Agora que estamos convictos e ao conhecimento. Este documento a compromissos renovados de coo-
que o primeiro embate já passou, enfatiza que este Direito deve-se peração internacional e multilateral,
está na altura de olhar de novo para alargar a todas as idades bem como a um reforço da solidari-
a Educação. Uma educação que edade global que tenha no seu centro
sempre teve revoluções, reformas, 3. Valorizar a profissão e a cola- o valor da empatia e uma valorização
tendências e mudanças e que acaba boração entre os docentes. É uma da nossa humanidade comum.
de atravessar mais uma prova que, se constatação mundial a rapidez e a
fosse feita com um banco, se chama- generosidade com que os profes- Sintetizando, são muito eviden-
ria talvez “prova de stress”. Estamos sores encararam a necessidade de tes as pontes que este documento
agora mais capazes de avaliar o que reconfigurarem a sua profissão. O lança para entendermos e para
precisa ser reforçado, o que deve contacto com os alunos, a avaliação, nos mobilizarmos em Portugal
ser descartado ou encorajado. Na as metodologias de ensino, o contato para a Educação Pós – COVID. No
verdade, o que fizemos durante estes individual, a programação do traba- momento que se este documento
meses de confinamento não nos lho do aluno, etc. todos estes fatores é publicado não podemos ainda
servirá de modelo para quando a foram incorporados e resolvidos no avaliar a duração, a dimensão e as

JOSÉ CARLOS CARVALHO


pandemia estiver debelada: foi uma melhor das possibilidades docentes. consequências que esta pandemia
“educação de emergência” que só Toda esta criatividade e resiliência nos poderá causar. À semelhança
faz sentido nas estritas fronteiras foram evidenciadas por uma classe do que se passou em todos os países
temporais da existência dos fatores profissional que se defronta com esta crise evidenciou um mundo
que a desencadearam. E a palavra dificuldades há muito identificadas complexo, frágil e incerto. São,
certa não será portanto “recuperar” (a falta de atratividade e o enve- pois, pouco úteis cenários futuristas
(isso levar-nos-ia a fazer o mesmo) lhecimento da profissão docente, sejam eles catastróficos ou idílicos.
mas sim “regenerar” (no sentido de a exiguidade de recursos, etc.). O "O Direito à Educação em 2020 não pode ser só o do acesso à escola, pressupõe É talvez mais prudente uma análise
voltar a gerar, a pensar as finalida- documento enfatiza que devem ser uma educação universal de qualidade" continuada do presente respon-
des e os meios que a nossa educação dadas aos docentes “autonomia e dendo a situações sempre novas em
precisa). flexibilidade para atuar de forma função dos valores que acreditamos.
Os nove pontos que o documento colaborativa”. Este documento chama sobretudo
realça são os seguintes: salienta que a justiça inter geraci- sas privadas. Recomenda-se que a atenção para a firmeza necessária
4. Promover a participação e onal e os princípios democráticos, sejam desenvolvidos programas em na defesa destes valores.
1. O compromisso de reforçar a os direitos dos alunos, jovens e deverão obrigar-nos a priorizar que todos os alunos e professores As políticas educativas não
Educação como um Bem Comum. crianças. Tem sido recorrente esta a participação dos alunos para a tenham não só acesso às tecnologias melhoram pela experiência não se
Ficou evidente nesta crise a impor- recomendação de ouvir e tomar em construção conjunta da mudança digitais como oportunidade de as legitimam a partir do somatório de
tância da Educação como um bem consideração “as vozes dos alunos”, desejada. produzir e de contextualizar o seu anos em que estão em vigor. Nas
público e que deve ser assegurado a consideradas estratégicas para a uso. políticas educativas (como aliás a
todos. Tal como se passou na saúde, sua motivação e decisivas para a 5. Proteger os espaços sociais pro- vida profissional) o que nos leva ao
ficou muito claro que a resposta a sua aprendizagem. A escuta dos porcionados pelas escolas durante 7. Necessidade de assegurar a litera- progresso, à melhoria e à inovação
uma crise com a dimensão da que alunos e das suas opiniões sobre os as transformações que se fazem na cia científica no currículo escolar. É é a capacidade de refletir, de avaliar
vivemos só podia ser eficazmente processos em que estão implicados Educação. Esta pandemia eviden- realçada a importância do currículo adequadamente onde se está e para
enfrentada através de estruturas – nomeadamente na conceção de ciou a importância dos espaços escolar fazer uma reflexão profun- onde se quer ir. Neste particular este
ativadas para todos e com uma oportunidades de aprendizagem da escola enquanto elementos da em particular lutando contra o documento representa, nas palavras
abrangência não só nacional, mas e na vida comunitária da escola - indispensáveis de socialização, de “negacionismo” científico, a falsa ou de Paulo Freire, um “inédito viável”.
internacional. Diríamos que a continua a ser vista como “uma interação. Foi cabalmente constata- má informação (as fake news) e pro- Inédito porque nunca o vivemos
pandemia exige uma panresposta. A inovação”, uma originalidade de do que a Educação é uma interação movendo o conhecimento científico. uma situação como esta, viável
Educação evidenciou o seu papel na algumas escolas quando deveria ser entre humanos que se relacionam porque está ao nosso alcance fazer
luta contra as desigualdades não só a regra em todas elas. O documento para aprender como vivemos em 8. Proteger o financiamento na- acontecer este inédito.
na aprendizagem, mas ao assegurar conjunto e para entender o mundo cional e internacional para o setor Esperamos ter motivado os
a saúde, a alimentação, a segurança em que vivem. É preciso apostar na da Educação. Prevê-se que esta leitores para lerem o documento
a todas as crianças. Diz o documen- diversidade de formas de “fazer a pandemia pode neutralizar décadas (na íntegra em: https://en.unesco.
to: “Na educação, como na saúde, só escola”, mas uma escola que deve de avanços neste campo e, por isso, org/news/education-post-covid-
estamos seguros quando todos estão ser preservada enquanto dimensão incitma-se os governos nacionais, as -world-nine-ideas-public-action)
seguros e progredimos quando todos espaciotemporal específica de vida organizações internacionais e todos que, como todos os documentos
progridem”. A pandemia exige coletiva, distinta de outros espaços os parceiros a fortalecer não só a internacionais, é fruto de equilíbrios
de aprendizagem. saúde pública e todos os serviços so- de ideias e conceitos provenientes
2. Alargar a definição do “Direito à uma panresposta. A ciais, mas que também se mobilizem de pessoas muito diferentes. Sendo
Educação” de forma a que ele abran- Educação evidenciou o 6. É necessário tornar disponíveis para proteger o financiamento da diferentes, são capazes num espírito
ja a importância da conectividade para professores e alunos tecnologias Educação Pública. de inclusão, de se harmonizarem
e o acesso ao conhecimento e à in- seu papel na luta contra livres e abertas. A Educação não à volta do essencial: conceber a
formação. O Direito à Educação em as desigualdades não só poderá progredir com conteúdos 9. É necessário aprofundar a Educação como um “(indispensável)
2020 não pode ser exclusivamente o construídos fora do espaço escolar solidariedade global e acabar com Bem Comum”. J
direito ao acesso à escola, pressu- na aprendizagem, mas e descontextualizados das relações os níveis atuais de desigualdade. A
põe a possibilidade de oferecer uma na saúde, alimentação humanas entre alunos e professores. COVID-19 evidenciou que as nossas * David Rodrigues é prof. catedrático (jubila-
do), presidente da Pró-Inclusão, Associação
educação universal de qualidade. Neste aspeto o documento salien- sociedades exploram desequilíbri-
Em Portugal a crise expôs grandes
e segurança de todas as ta que as plataformas digitais não os de poder e que o sistema global
Nacional de Docentes de Educação Especial,
Conselheiro Nacional de Educação, autor de
carências, por exemplo no acesso à crianças devem ser controladas por empre- explora as desigualdades. Muito se uma vastíssima obra escrita
6 EDUCAÇÃO

15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

PERSPETIVAS

Para uma educação de infância sustentável


INQUIETAÇÕES
PEDAGÓGICAS
Dedicamos estas páginas à educação de infância em tempos de pandemia. Além do texto introdutório bém demonstrar que há um modus
funcionandi na administração pública
de Teresa Vasconcelos, apresenta-se o exemplo de como uma instituição ligada à infância se organizou que se repete. Constataram-se muitas
para fazer educação à distância, acompanhada de uma breve descrição do que foi conseguido orientações de cima para baixo, ao
pormenor, cansativas e inúteis. Há
que ter confiança nos profissionais,
nos órgãos de gestão das escolas. A
APEI (Associação dos Profissionais de

Confinamento e educação de infância Educação de Infância), uma organiza-


ção com centenas de sócios, alertou a
opinião pública para que não estavam
a ser dadas orientações corretas para a
reabertura das creches e elaborou um
documento com propostas funda-
TERESA VASCONCELOS mentadas cientificamente. Aquando
da reabertura dos jardins-de-infância,
O confinamento levou-nos a foi o próprio Ministério da Educação
pensar num conjunto de problemas que pediu à APEI que elaborasse um
que se prendem com o estado da documento semelhante ao da creche
Educação de Infância no nosso país. para os jardins-de-infância. Esta
situação foi exemplar demonstrando
QUESTÕES ESTRUTURAIS a confiança no saber dos/as profissio-
A qualidade das instituições de aten- nais. Os professores são intelectuais do
dimento à Educação de Infância (0-6 currículo, não podemos esquecê-lo.
anos) no nosso país é desigual, inde- Estes meses confinados vieram
pendentemente de pertencerem ao mais uma vez demonstrar como é fun-
sistema público, privado ou solidário. damental que encontremos um modo
O confinamento demonstrou-nos de definir que a educação começa aos
como o atendimento às crianças dos 0 anos, permitindo que o Ministério
0 aos 3 anos ainda é deficitário, não da Educação tenha um papel efetivo
cobre as necessidades do país e das quanto às suas responsabilidades
famílias e, genericamente, não tem a educativas: mudar a Lei de Bases do
qualidade desejável para crianças tão Sistema Educativo? Encontrar um
pequeninas. A supervisão dos ser- artifício legislativo que permita que o
viços é limitada e quase inexistente Ministério da Educação assuma a sua
não permitindo que o sistema seja responsabilidade neste nível etário?
regulado. Não há qualquer regulação Mas a tutela pedagógica deve ser única
do Estado face ao financiamento das e incidir no Ministério da Educação.
instituições de solidariedade social Por outro lado tomámos ainda
que selecionam crianças de classe mais consciência de que é necessária
média em detrimento das que mais uma visão transversal da educação de
precisam. infância, articulando creche, jardim-
O desconfinamento das creches -de-infância e 1º ciclo, responsa-
após quase dois meses de encerra- bilizando famílias e comunidades
mento veio demonstrar como as auto- num jardim de infância, abandonam (e no regresso em setembro) que se es- podem ajudar as crianças a integrar (serviços sociais, saúde, habitação,
ridades de saúde e mesmo a sociedade a creche. Esta situação é grave se cutem as crianças e as experiências que essas experiências, dissolvendo os seus cultura, etc.) de modo a que se
civil desconheciam a sua organização atendermos a que se trata de crianças tiveram, criando um ambiente seguro medos, ajudando-as a fazer pesquisas encontrem respostas institucionais
e funcionamento, nomeadamente na dos 0 aos 3 anos com quem os pro- de atenção e escuta: que os educadores rigorosas sobre o que é o corona vírus, que respondam às necessidades de
sua componente educativa. Em alguns cessos de vinculação são delicados e perguntem quais foram as experiências desenhá-lo, pintá-lo, descrevê-lo, re- cada comunidade, as quais podem ser
casos demonstrou-se que o tempo devem ser consistentes. que as crianças viveram confinadas em presentá-lo através do jogo dramático, diferenciadas É necessária uma mo-
diário de permanência na creche era O confinamento e o correspon- casa, o que viram e ouviram, de que projetos mobilizadores...etc. Deverão dalidade cooperativa de forma a que
excessivo para algumas crianças. dente retorno à atividade nos jardins- têm medo? A partir daí os educadores ainda aprender as regras sanitárias de não se overlap[em] funções e tarefas,
-de-infâncias tornou ainda mais modo a protegerem a sua saúde e a dos de modo a que cada um possa intervir
QUESTÕES PEDAGÓGICAS saliente a necessidade de atividades outros. no seu âmbito de especialidade. O
Enquanto que para o atendimento da ao ar livre, não apenas por razões Explicar às crianças as opções papel da autarquia – nomeadamente
educação dos 3 aos 6 anos existem sanitárias mas, sobretudo por razões tomadas ensina o que é uma cidadania das juntas de freguesia, mais próximas
Orientações Curriculares desde 1997, pedagógicas. Confinadas às suas casas planetária. Em geral elas são pro- das comunidades - é aqui fundamen-
revistas em 2016, para as creches as famílias as crianças experimen- fundamente sensíveis a esta matéria. tal ajudando a enquadrar iniciativas
não existem quaisquer orientações taram as dificuldades de coabitação Por outro lado uma educação para a (“andaimar”) e estabelecendo a rela-
pedagógicas. Estas têm-se tornado e como as crianças mais pequenas Aproveitando o diversidade, para a tolerância e a paz, ção com a administração central.
cada vez mais necessárias dada a precisavam de muita atividade física e confinamento torna-se prioritária. Aproveitando este tempo de
importância de tornar mais evidente de ar livre. confinamento apelamos então a um
a componente educativa da creche Por outro lado os receios de um apelamos a um POLÍTICAS EDUCATIVAS desenvolvimento sustentável da edu-
onde exercem profissionalmente “perigoso vírus” podem criar ansi- desenvolvimento Face às desigualdades tornadas mais cação de infância que contribua para
educadores/as de infância altamen- edades e medos nas crianças. Estas evidentes durante o confinamento uma urgente coesão social. J
te qualificados/as e que não vêm devem ser enquadradas no regresso ao
sustentável da o governo deve fomentar a coesão
o seu trabalho reconhecido como jardim-de-infância. Ouviram muitas educação de infância social de modo a garantir melhores *Teresa Maria Vasconcelos é profª coordena-
docência. Esta situação origina um conversas, observaram imagens e nem condições para as crianças mais dora principal da Escola Superior de Educação
alto nível de turn-out das educadoras sempre perceberam o que se passava.
que contribua para uma desfavorecidas. do Instituto Politécnico de Lisboa, com traba-
que, logo que encontrem uma vaga Daí que seja importante, neste regresso urgente coesão social Este confinamento veio tam- lhos científicos publicados em vários países
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT EDUCAÇÃO 7 ↗

PERSPETIVAS

Projeto “Colorir o Covid” oportunidade a descrição do que faremos


no Centro de Atividades dos Tempos
Livres (CATL) e da valência do centro
• treino de competências e reforço de
comportamentos importantes para o
crescimento das crianças;
comunitário destinada a jovens em risco. • manutenção da rotina das crianças
e da sua orientação no tempo e no
SARA CERQUEIRA Creche e Jardim de Infância espaço;
No âmbito deste projeto, é esperado que • sentimento de pertença a um grupo,
Este projeto surgiu no Centro Social cada educadora de infância faça uma por parte dos pais e das crianças, no
e Paroquial da Paróquia da Ajuda adequação do seu trabalho ao contexto qual podem partilhar experiências e
(bairro da Pasteleira, Porto) como e às condicionantes existentes. Tendo dificuldades;
resposta ao contexto da COVID 19. No em conta o conhecimento de cada • apoio de profissionais que conhecem a
início de março começámos a ajustar criança, do grupo e do que é esperado criança e a família e que podem ajudar
as rotinas de trabalho na instituição alcançar até ao final do ano letivo, a a resolver ou minimizar dificuldades e
e a implementar medidas de conten- Educadora deverá refletir, planear, problemas (sessões de aconselhamento
ção e prevenção face a este vírus, no concretizar e avaliar o seu trabalho, parental);
âmbito do Plano de Contingência. No sendo que a sua participação neste • reforço da relação entre os vários
dia 16 encerrámos todas as respostas processo muda. Até meados de março, intervenientes (equipa de sala de ativi-
do Centro Social – incluindo a Casa de a educadora realizava o seu trabalho dades (educadora e auxiliar), crianças,
Acolhimento à Criança e ao Jovem em no contexto da sala, envolvendo os famílias).
Risco – sentindo que, pela primeira pais neste processo, mas no presente é A educadora deverá envolver a
vez, na nossa existência, estávamos a esperado que realize o seu trabalho, a auxiliar da sala neste trabalho, assim
contrariar a nossa razão de ser. partir de sua casa para o contexto fami- como os restantes elementos da equipa
O que é que temos sentido? Medo, liar de cada criança. A Educadora deve alargada do Centro (psicóloga, assistente
desorientação, insegurança, incapaci- envolver e ouvir os pais e as crianças social, educadora de ensino especial,
dade, tristeza, face a um problema cuja para o planeamento da semana, mas terapeutas). Os contactos telefónicos e o
resolução passa por nos isolarmos em são os dois últimos intervenientes que trabalho multidisciplinar são importan-
casa. A nossa história revela que não concretizam e partilham depois o que tes para dar resposta às especificidades
baixamos os braços e que continuamos foi pensado. de cada família e às características de
sempre a lutar para servir aqueles com a comunicação permanente com as que nos protege de uma doença, mas nos Do nosso ponto de vista, o maior cada criança.
quem trabalhamos e pelos quais existi- famílias com as quais trabalhamos para pode causar outras; desafio está relacionado com o domínio De considerar ainda o trabalho a
mos. Assim, decidimos transformar esta que sintam apoio, partilhem dúvidas e Imaginação – o que precisamos para das várias condicionantes que caracte- realizar pelo grupo dos 5 anos, ao nível
experiência em algo que nos vai fazer sentimentos e se sintam acompanhadas colocar este projeto em prática e o que rizam cada família. Mais do que nunca, do Projeto “Escola Cá em Casa”. Dada
crescer e nos vai aproximar, enquanto nas rotinas do dia-a-dia; as nossas crianças, jovens e famílias para este trabalho, a educadora terá que a avaliação das competências pré-aca-
casa e comunidade. Originalidade – através da internet, precisam para crescerem e se divertirem ter em conta as características, a história démicas e a transição para o 1º ciclo, a
Propomo-nos colorir, dar um sentido por telefone, por SMS ou outros meios em casa; e a cultura familiar de cada criança. “Escola passara a ser Lá em Casa”. Com
positivo a uma problemática que ameaça de comunicação, vamos continuar a Disponibilidade – é a nossa postura Deverá ser proposto aos pais a criação de a colaboração da psicóloga e de um ele-
tirar-nos o que temos de mais impor- trabalhar com as crianças, os jovens e perante os destinatários. Não estamos um grupo no WhatsApp ou Messenger, mento da equipa do centro de atividades
tante – a família, a saúde, o trabalho, suas famílias; teremos que ser originais presentes fisicamente, mas estamos através do qual será apresentada a pla- de tempos livres (CATL), a planificação
os amigos e os afetos (abraços, beijos, na passagem da mensagem, na presença, sempre disponíveis. nificação semanal. No nosso entender, a semanal deve incluir atividades deste
colo, dar as mãos). Utilizando o termo no trabalho de equipa e na procura de Para efeitos do trabalho que o grupo criação deste grupo apresenta as seguin- projeto. J
Covid escolhemos cinco princípios que novas respostas; “Inquietações Pedagógicas” nos pediu tes vantagens:
vão orientar a nossa ação enquanto não Vivências – vamos construir e parti- apenas vamos apresentar o trabalho • apoio aos pais para a ocupação do * Sara Cerqueira é assistente social e diretora
regressarmos ao Centro: lhar vivências. Somos seres sociais e pre- que nos propomos fazer na creche e no tempo dos seus filhos de modo lúdico e técnica e pedagógica do Centro Social Paroquial
Comunicação – vamos manter cisamos viver bem com este isolamento jardim-de-infância deixando para outra pedagógico; da Pasteleira, no Porto

Educação à distância no pré-escolar • Elaboração de uma planificação


semanal, com base no conhecimento
do grupo de crianças (necessidades,
em casa, evitando saídas propositadas
para a aquisição de materiais bem como
um acréscimo no orçamento familiar.

Um breve olhar sobre o todo… potencialidades, interesses) articuladas


com as necessidades e potencialidades
das famílias; • Envio da planificação
Assim, iremos sugerir materiais de
desperdício; ingredientes de cozinha,
objetos do quotidiano, etc., para a con-
semanal por email para as famílias; cretização das propostas diárias.
• Propostas diárias das atividades inte-
ISABEL LACERDA gradas na planificação semanal, com Avaliação:
texto explicativo e motivador, apelando • Registos diários de participação no
No âmbito do Projeto “Colorindo o grupos dos 3, 4 e 5 anos a participar. um grupo, num ambiente de confi- à sua concretização. • Acompanhar grupo; • Registos diários de outras
COVID 19”, passamos a realizar o nosso Desde que os contactos se iniciaram houve ança, no qual podem participar com a realização das atividades ao longo participações (mensagens individuais;
trabalho, a partir de casa, para as casas uma adesão massiva dos pais ao grupo. sugestões/ideias, partilhar experiênci- do dia, dando feedbacks positivos; • telefonemas) • Evidências da realização
de cada criança/família. as; • Escutar as famílias (em grupo, ou Contactos individuais por telefone ou das atividades (fotografias, vídeos)
As “Orientações Curriculares para a Objetivos: individualmente), servindo de apoio em mensagens privadas; • Reflexões semanais; • Feedback das
Educação de Infância”, emanadas do Mi- No desenvolvimento deste trabalho com momentos de angústia, dúvida, ansieda- famílias.
nistério da Educação, continuarão, sem o grupo, e de acordo com o Projeto, de ou outras dificuldades; • Valorizar o Prevê também uma Equipa, para: Finalmente, a partir de Maio, com as
dúvida, a estar presentes nesta fase, que definimos como prioridades: “reencontro” do grupo (constituído por • Criação de um grupo virtual no crianças de 5 anos que vão para o 1º ciclo
nos exigirá reinventarmos a nossa prá- • Dar continuidade ao trabalho previsto crianças, famílias e equipa), reforçando WhatsApp para contactos entre os do ensino básico, haverá, diariamente,
tica. Contudo, há que assumir que estarão nos diferentes projetos curriculares de interações positivas entre todos. educadores; • Contactos com outros um acompanhamento presencial nas ins-
em presença de uma forma diferente e sala, contemplando as diferentes áreas profissionais (assistente social; psicóloga; talações do Centro. A Educadora e duas,
diluída nas propostas que realizaremos. de conteúdo previstas nas Orientações Metodologias: educadora de intervenção precoce; etc.). no máximo três crianças, encontram-se
Não seria sensato, nem mesmo razoável, Curriculares do Ministério da Educação; Tendo em conta o contexto em que a para reforçar competências necessárias à
invadir a casa das famílias com lingua- • Apoiar os pais/famílias, a partir da par- instituição está integrada e as carac- Recursos: transição para o ciclo seguinte. J
gens desadequadas e tentar transformar tilha e de propostas de atividades lúdicas terísticas das famílias, a equipa do • Power point; • Fotografias/imagens;
as casas em escolas e as famílias em e pedagógicas para desenvolverem com pré-escolar optou por realizar este • Links (histórias; canções; experi- *Isabel Lacerda é educadora de infância e coor-
educadores. Há que apostar, sim, numa os filhos, no contexto de casa, ao longo trabalho “à distância” através da apli- ências; Jogos motores; danças, etc.) denadora pedagógica da valência pré-escolar do
parceria entre educador/famílias que de cada dia da semana. Sendo muito im- cação WhatsApp, por ser uma aplicação • Gravações de voz; • Vídeos casei- Centro Social Paroquial da Pasteleira, no Porto
permita dar continuidade ao crescimento portante estarmos disponíveis, “do lado usada e dominada pela maioria das ros; • Videochamadas (individuais e
das crianças nas diferentes áreas de de cá”, de forma a reforçar, a incentivar, famílias (sendo que anteriormente as grupais) • Contactos telefónicos ou por LINKS DAS INQUIETAÇÕES PEDAGÓGICAS
desenvolvimento num ambiente lúdico a sugerir e a responder às suas pergun- mesmas foram auscultadas sobre qual o mensagem individual; • Partilhas entre
pedagogicasinquietacoes@gmail.com
e prazeroso, com espaço para interação e tas; • Contribuir para a manutenção de meio informático digital que lhes seria a equipa técnica e partilhas interdisci-
inquietacoespedagogicasii.blogspot.pt
brincadeira entre todos. rotinas, necessárias à orientação das mais favorável). plinares;
Este trabalho inicia-se com a criação crianças no tempo e no espaço, à sua Para a realização das atividades www.facebook.com/InquietacoesPedagogicas
de três grupos, através do WhatsApp, estabilidade e estruturação emocional; Este trabalho prevê para as crianças e as propostas, a equipa privilegiará sempre www.youtube.com/user/inquietPedagogicas
sendo convidadas todas as famílias dos • Incentivar o espírito de pertença a famílias: recursos que as famílias possam ter
8 EDUCAÇÃO

15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

S
› AU TO R R E T R ATO DE PROFESSORA‹ temente bons. Falta-nos equilíbrio
e bom senso.
É no contexto do trabalho
realizado no Colégio Corte Real,
que surge o desafio do projeto
#estudoemcasa. No dia da pri-
meira emissão recebi mensagens,
imensos telefonemas, e-mails e até
mensagens de voz de miúdos que

Isa Gomes
nem conhecia. Foi um turbilhão de
sentimentos porque, por um lado,
foi extraordinário sentir o calor
dessas mensagens mas, por outro,
comecei a ter noção da exposição

Uma escola de todos


Sou a mais nova de três irmãs. a que estávamos sujeitos, e isso
Nasci no Montijo e vivo, desde assustou-me. Para mim, é muito
sempre, na Moita. Cresço com a constrangedor ver-me na tele-
pressão familiar de “seguir os es- visão e acho quase estranho. Mas

e para todos
tudos” e decido ser professora do foi importante ultrapassar essa
1.º Ciclo. Desde 2003 que me (re) estranheza e, quase numa lógica de
construo, como pessoa e profes- autoscopia, perceber o que poderia
sora, no contexto do Movimento melhorar para tentar conseguir
da Escola Moderna (MEM). "chegar" aos miúdos que estão do
Para mim as relações são im- outro lado da câmara. Não tem sido
portantes. Gosto de aprender com fácil… Não tenho comigo os alunos,
os que me rodeiam e de partilhar cimentos e na revisão das práticas. que os livros, assumem um papel os principais interlocutores no
o que já aprendi a fazer. Talvez seja Preciso deste espaço para respirar, extraordinário na nossa sala de meio deste processo. É complicado,
por isso que sou professora. aprender e crescer, sempre. aula. diria mesmo impossível, trabalhar
Um pouco como Antoine de Em 2014/2015, integrei a equipa A investigação mostra-nos que como fazemos diariamente nas
Saint-Exupéry, acredito que somos do colégio Corte Real, na Moita, só é significativo aquilo que se aulas, sempre a partir das conce-
fruto da interação com tudo o que para dar início ao 1.º ciclo do ensino integra naquilo que já sabemos. ções e interesses das crianças. No
nos rodeia. Sou um pouco de todos básico. Agarrei energicamente O meu trabalho de abordagem à caso das propostas para o 1.º e 2.º
que conheci, um pouco dos lugares o desafio de pôr em prática os escrita, sempre suportado pela anos de escolaridade, e de forma
aonde fui, um pouco das saudades pressupostos inerentes ao projeto matriz pedagógica do modelo do a tentar colmatar a ausência de
que deixei e sou muito das coisas de pedagógico, com os quais me iden- MEM e do trabalho desenvolvido interações, quisemos construir um
que gostei. tifico particularmente. Encontrei no grupo cooperativo que integro, contexto, um ponto de partida, que
Conheci o MEM durante a for- aqui um espaço em crescimento, parte sempre das conceções que nos ajudasse a construir propostas
mação inicial, na licenciatura em com um projeto pensado em função os miúdos trazem sobre o que é integradas, mas não forçadas, nas
Ensino Básico|1-º Ciclo, na ESE de das crianças e das suas necessida- ler e escrever. Os alunos dizem- diferentes áreas do currículo que
Setúbal. Rapidamente, comecei a des. Senti desde cedo que teria um -me sempre que querem aprender íamos assegurar: Educação Física,
frequentar os sábados de anima- contributo a dar a este projeto, cujo a ler e a escrever para ler livros Estudo do Meio, Hora da Leitura,
ção pedagógica e a procurar mais lema assenta também no reconhe- sozinhos, para contar histórias Matemática e Português.
informações sobre este modelo cimento e valorização da dife- à família, para escrever recados, Inspirados pela Hora da Lei-
pedagógico. Senti o calor de um rença e na premissa que nenhuma para tirar a carta ou para aprender tura, apostámos nos livros para
conjunto de professores que pensa criança é deixada para trás. coisas sobre um tema que adoram. nos darem o mote para cada aula,
incessantemente sobre educação Assim, a nossa abordagem Reconhecem, portanto, a escrita e e assim chegámos à ideia “uma
e sobre o trabalho com os alunos. constrói-se inevitavelmente, numa a leitura como atividades relevan- semana, um livro”. Tem sido um
A Ana, a Carmen, a Céu e o Pires perspetiva de aprendizagem, a tes para a vida. desafio muito exigente e que não
receberam-me como um par e partir dos interesses dos alunos e O nosso papel enquanto pro- seria fisicamente possível sem o
integrei, pouco tempo depois, a nunca apenas numa perspetiva de fessores passa por estimular e suporte de cada uma das equipas
Comissão Coordenadora do Núcleo ensino, em que só o professor tem alimentar a curiosidade e criati- que constituímos, por área. A
Regional de Setúbal. uma palavra a dizer e uma lição Isa Gomes, 39 anos, vidade que, espontaneamente, a gravação de cada aula é o resul-
Durante dez anos passei por a ensinar. Incondicionalmente, criança já tem. Embora bastante tado do esforço e, por vezes, até de
várias escolas públicas e trabalhei todo o trabalho de aprendizagem coordenadora do 1.º CEB protegida, visto ter sido a mais sacrifício, de todos os professores
em contextos escolares bastante desenvolve-se numa perspetiva de no Colégio Corte Real, na nova de três irmãs, fui uma criança envolvidos.
diversificados e desafiantes. diferenciação. que ainda brincou na rua e sinto- A experiência tem sido também
Foram tempos de muita aprendi- Adoro estar na sala de aula e Moita, foi a professora -me uma privilegiada por isso. As bastante gratificante e enrique-
zagem onde cresço, complemen- ajudar cada um na sua aprendiza- que deu a primeira aula brincadeiras inventadas, a resolu- cedora, principalmente para os
tarmente, como professora e como gem, no seu caminho, muitas vezes ção dos problemas que surgiam e a professores pivôs, que, de repente,
pessoa. Somos na sala o que somos a partir de um livro. A maternidade do projeto #estudo em interação com os outros permiti- se veem num universo completa-
fora, na relação e interação com despertou-me, ainda mais, para a casa, também chamada ram-me desenvolver capacidades mente fora da sua zona de conforto,
outros. riqueza da literatura infantil e para que não encontro na maioria dos tentando levar um pouco da “es-
No MEM, encontrei muito do o papel que os livros podem ter na
a nova telescola, meus alunos. cola” a quem está do outro lado da
que sinto que falta na maioria nossa vida. Ler e escrever pode ser durante nove semanas Sinto que, nos dias de hoje, os câmara. O grande desafio passa por
das escolas, espaço de reflexão e todo um mundo e tento construir papéis de cada um estão muito conseguir “chegar” aos miúdos,
partilha sobre o que fazemos. Isto esta consciência com os meus alu-
ministrada através da confusos e por vezes até mistura- passar efetivamente a mensagem,
acontece nos grupos cooperativos nos, e com os imensos contributos RTP Memória. Essa dos. Tudo e todos são alvo de ques- de forma natural, empática e com a
onde pomos em comum os nossos das aprendizagens que retiro da sua primeira aula teve tionamento e é muito fácil apontar dinamização possível.
desafios e dificuldades. Acima pós-graduação em Livro Infantil, dedos… Penso que darmos a nossa Foi compensador receber
de tudo é um espaço de autofor- que frequento atualmente. mais de 400 mil pessoa opinião é um direito conquistado respostas aos desafios lançados
mação cooperada, em que juntos A alfabetização fascina-me. a vê-la, e mostrou as que não podemos arriscar, fazem e perceber que os miúdos estão
cruzamos ideias, refletimos e, Embora esteja associada à aquisi- falta opiniões divergentes para nos realmente a praticar ou a aprender
intencionalmente, procuramos ção da leitura, para mim e dentro qualidades da licenciada colocarmos em causa e evoluirmos algo. Toda a experiência e envol-
respostas. da matriz pedagógica que me pela ESE de Setúbal, naquilo que somos e fazemos, mas vimento no processo é também
Nas palavras de Sérgio Niza baliza, alfabetização é bem mais. sem exageros e extrapolações. imensamente exigente e queremos
(2007)*, trata-se de uma comu- É a (co)construção de percursos que frequenta agora a Como professora, sinto-me muitas fazê-lo com o profissionalismo e
nidade onde cada um se assume diferenciados de aprendizagem pós-graduação em Livro vezes observada, quase impelida dedicação possíveis. Para mim, é
como formador e formando e se da leitura, em paralelo com a a provar o que sou e o que faço, importante deixar a mensagem de
obriga a pensar e a refletir criti- escrita. É nesta matriz, em que a Infantil na Universidade sendo que a prova são os resulta- que estamos TODOS a dar o nosso
camente os seus percursos pela escrita surge de forma contextua- Católica e integra o dos dos meus alunos. Não é esta a melhor, de coração! É um contri-
consciencialização partilhada na lizada e em interação dialógica, escola que quero construir. Sinto buto para minimizar o facto de não
resolução dos problemas da profis- partindo de uma necessidade de
Movimento Escola que facilmente caímos em exagero estarmos na escola, neste momento
são, na transformação dos conhe- comunicar com, e para os outros, Moderna e nada nem ninguém são suficien- tão difícil que atravessamos. J
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT LETRAS 19 PEDRO EIRAS

neto, já está em relação com Camões E contaminam-se? Apesar de só


ou Petrarca. Mesmo que nunca os te- agora escrever poesia, há um lastro
nha lido. Porque são formas herdadas poético noutros livros.
da História. Agrada-me muito a ideia de jogar
vários jogos: o romanesco, o teatral,
Estamos, segundo alguns, na ‘era do o poético. São ritmos, linguagens
remix’ mas talvez se possa mesmo e formas diferentes e o que me
pensar num ‘eterno remix’? interessa é chegar aos seus limites.
(riso) Dante como Virgílio remix, Contraditoriamente ou talvez não,
Virgílio remix igual a Divina comédia: dentro dessas formas tento também
por que não? De facto, toda a poesia é jogar o hibridismo. Há, de facto,
um jogo de montagem, colagem e re- páginas no romance A Cura que são
visitação. É algo que acontece muito, líricas e os diálogos são muito teatrais.
por exemplo, em Eliot, não por acaso No Inferno, há dois lugares em for-
um leitor de Dante. mato de cartas truncadas e esboços
de narrativas. E também comentários
E um dos poetas do seu Inferno. ensaísticos. Ou seja, há uma certa im-
Sim. Curiosamente, aquele meu livro pureza de que gosto igualmente.
de título impronunciável, com o
subtítulo Ensaio sobre os Mestres, é Qual o grande desafio que lhe pôs a
só de colagens, uma espécie de remix escrita da poesia?
levado ao extremo em que tento Talvez uma certa pressão do lirismo.
apagar-me, ficando apenas um rio de Espero não ter rompido completa-
textos exteriores, embora eu esteja lá mente com ele, mas também não ter
por trás a fazer a colagem. ficado refém. Inferno é um livro poé-
tico, não forçosamente lírico. Por ve-
No início de um poema de Inferno, zes é até de uma agressividade pouco
diz “Rodeia-te de citações/ como de lírica e contemplativa. Misterioso foi
assassinos”. também que, a partir de certa altura,
Bom, há muitas maneiras de citar, Inferno Numa gravura de Gustave Doré deixou de haver grandes dificuldades.
algumas preguiçosas e confortáveis, Não quer dizer que os poemas não
nesse caso formas de nos escudarmos. impliquem muito trabalho, sobretudo
Para mim, os livros, as bibliotecas não de revisão.
devem ser lugares de conforto. Temos fundo de si mesma, uma tragédia que Nova na sua escrita é a poesia. Como
de temer o livro, como se também não é muito trágica, uma comédia surgiu? É o essencial que busca em cada
pudesse ser um ‘assassino’ e não dar que não é muito cómica, uma epopeia De vez em quando, tentava escrever poema?
apenas a vida, mas a morte. que não é muito épica. Essa é uma Os livros, as bibliotecas, poesia e nada acontecia. Não valia a A reescrita é sempre muito cons-
obsessão para mim, porque as formas pena teimar, era difícil demais. E com ciente e clara. São precisos holofotes,
ESCRITORES DANADOS literárias ou são levadas até ao fim, ou também não devem ser pena minha, porque não era uma pe- microscópios, lupas, tudo o que for
No livro, também quis descer ao não interessam. E parece-me que há lugares de conforto. quena derrota, antes muito pesaroso. útil para esse trabalho técnico, para
inferno da literatura atual? hoje uma certa falta de coragem na que fique estritamente o necessário. É
Chamemos-lhe deformação profis- escrita. Temos de temer o livro. Mas nunca desistiu? ir ao osso, deixar ficar apenas o grão
sional (riso) … O certo é que quando É uma boa maneira de Tentei sempre. E de repente acon- e com um atrito absoluto. Mesmo
se lê e se escreve, se fala sobre livros Num outro poema, pergunta “prefe- teceu. E de novo não o sei explicar. assim, tenho a certeza de que quando
e se dá aulas sobre literatura, é quase res uma boa vida ou/ um bom verso”. nos ligarmos a ele A verdade é que os textos escolhem voltar a lê-los, ainda vou encontrar
inevitável não haver poemas que Quantas vezes pequenos problemas as suas formas. Quando uma ideia alguma coisa que se corte. Mishima
falam de poemas, livros sobre livros, permitem pequenas batotas, peque- surge como uma peça de teatro, não dizia que gostava de voltar aos textos
uma escrita acerca da escrita. Como nas soluções para uma boa vida? Eu Gosto de me meter em posso transformá-la num romance. para acrescentar sempre mais um
estamos no inferno, a tentativa é ver estou justamente interessado em pro- grandes sarilhos. Se não Da mesma forma, não consigo passar pouco. Eu sou o contrário. Gosto que
a componente infernal de tudo isso. E curar o bom verso e trata-se de criar de um romance para teatro. Os textos os textos fiquem mais afiados.
claro que existe. um caminho difícil. E como é que se
houver risco, não sei se nascem logo com um fôlego, uma
faz? É que também há técnicas para vale a pena escrever, respiração. E, desta vez, era poética. Começou entretanto a escrever
E a Literatura será “sustentável” além isso e portanto poderá ser fácil, o que Purgatório e Paraíso?
das viagens, dos encontros, das me- seria batota outra vez. É preciso uma
porque será apenas É um leitor fiel de Dante? Estou já a rever, nesse trabalho árduo
sas-redondas sobre a sustentabilidade invenção criativa, nunca confortável burocracia Honestamente, nem me conside- de cortar e reescrever...
da Literatura? e sempre arriscada. ro um leitor profundo de Dante.
(riso) Existe um mundo quantificado, Entrando neste jogo quase me obriga- Quem vai ser seu guia no Paraíso?
em que tudo é número e o número RESPIRAÇÃO POÉTICA va a esse trabalho, mas arriscava-me Beatriz?
é tempo e dinheiro. E o dinheiro, a Coragem não lhe faltou para empreen- Não gosto nada daquele discurso a querer escrever uma tese académi- O último poema de Inferno é um
fama e o poder nunca são demais. Há der esta revisitação da Divina Comédia. estereotipado do poeta arrebatado por ca. Não era de todo o que pretendia e agradecimento a um anjo por não
todo um catálogo de condenações, de Sentiu essa responsabilidade? uma qualquer coisa transcendental. forcei-me mesmo a não entrar pelo me ter guiado. Do mesmo modo
pecados dentro do judaico-cristia- Sim. É, em rigor, uma boa dose de Mas, se calhar, vou ter mesmo que caminho da investigação. que Dante encontrou Virgílio, eu
nismo. E este meu livro parte muito irresponsabilidade, mesmo várias arriscar o lugar-comum, porque a encontrei Dante, mas também tive de
da linguagem judaico-cristã, de juntas (riso).. A irresponsabilidade de verdade é que não sei muito bem por Qual foi então a sua preocupação? perder Dante. Os guias são todos os
resto, igualmente dantesca. Ou seja, é escrever poesia, de pegar em Dante, o que escolhi Dante. Às tantas, tenho Permanecer leve e hesitante. Ou seja, que escreveram antes de mim. É belo
também um catálogo dos condenados que evidentemente é um grande ris- de rever a frase, admito numa revisão tentar usar Dante de maneira que ele que haja muitas vozes dentro da nossa
literários, dos escritores danados. co. Mas depois de escrever, respondo um pouco presunçosa, será que foi não me esmagasse. voz. Que seja coletiva.J
por todos estes poemas. É uma ousa- Dante que me escolheu a mim… (Riso)
Que escritores vão para o inferno? dia, é. Só que isso é um denominador Realmente, é uma zona de penumbra, Dado o ‘peso ‘de Dante, sentiu que
O escritor que se vende, que está à comum dos meus livros. de obscuridade. E talvez nunca descu- era uma ameaça respeitável?
venda. bra o que me motiva. Mas sei que lidar (riso) Senti sobretudo que era preciso
Em que sentido? com uma cosmovisão judaico-cris- salvar a escrita desse risco.
Esse é o maior ‘pecado’ da literatura Escrever cartas de Pessoa, lutar tã, com questões éticas e religiosas,
contemporânea? contra Freud… Digamos que gosto incluindo os conceitos do bem e do JOGOS DE ESCRITAS
Não sei. É difícil dizer qual o maior de me meter em grandes sarilhos. mal, da culpa, da expiação e redenção, E como é que o ensaísta, o crítico, o
(riso). O livro vai desfiando uns quan- Se não houver risco, não sei se vale tudo isso não é novo para mim. professor foram convivendo com o
tos. Sem dúvida a mercantilização a pena escrever, porque será apenas poeta emergente?
é grave, mas podia também falar de burocracia. E eu não estou interessado Porquê? De facto está tudo ligado. De certa
uma literatura morna, postiça, que é em ser um burocrata da escrita. Porque praticamente tudo o que es- maneira, há páginas do Inferno que
algo que me perturba muito. crevo tem a ver com essa componen- estão próximas do discurso de certas
E o que o levou a querer revisitar a te. Nesse sentido, o território dantiano aulas, como há aulas que se aproxi- › Pedro Eiras
Morna, como? Divina Comédia? é, de certa maneira, obsessivo, um mam de peças de teatro. Aliás, tento INFERNO
Uma literatura que não admite ir ao É misterioso para mim: aconteceu. vocabulário habitual, livro após livro. que as várias facetas comuniquem. Assírio & Alvim, 120 pp, 14,40 euros
20 LETRAS↗

LIVROS
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

Miguel Szymanski
cabo-verdiano, aparece morto em
Sintra, na Praia da Ursa. Portugal, país
internacionalmente insignificante (os
correspondentes dos grandes jornais e

Policial político
das cadeias internacionais de televisão
já não têm sede em Lisboa, noticiam a
partir a partir de Madrid, Barcelona e de
Paris, p. 136), é percecionado pela China
apenas como sua porta de entrada na
Europa. Adriana Zuzarte, um dos dois
grande amores de Marcelo, denunciou
esta invasão económica e política
chinesa no livro O Grande Pagode, teve
de refugiar-se e isolar-se na província

OS DIAS DA PROSA
e o editor foi levado à falência. A China
ia esmagando pela extorsão ou pela
violência todos os adversários que se
Miguel Real

O
opunham ao seu futuro domínio de
Portugal.
A delegação chinesa concentrou-
se no Hotel Ritz, Tiago Salvador,
Grande Pagode, sofridos no primeiro romance, ser bem-formado e sensível à justiça social. ambientalista radical da CliMax, filho
de Miguel impossível endireitar o país. Se o crítico Quando regressa, o governo de da ministra, novo amante de Adriana,
Szymanski pode ter opinião pessoal (necessária e Portugal, venal e sem recursos, prepara- prepara-se para sabotar a reunião do
(MS), agora eminentemente subjetiva), gostamos se para entregar a exploração da riqueza Governo com os potentados chineses, o
editado, mais do segundo Marcelo Silva – (minas, petróleo, gás…) e alguns bancos inspetor da PJ Matos Cristóvão investiga
constitui- mais lúcido, menos comprometido nas mãos dos chineses. Marcelo, devido a morte do motorista de Lúcia, agentes
se como a socialmente, mais melancólico à sua atividade política contestatária no norte-americanos seguem atentamente
continuação (princípio e final do romance), vivendo anterior romance, é vigiado pela SSR os passos de Marcelo, na Costa da
de Ouro, Prata aos tropeções do acaso, que lhe trazem – Serviço de Segurança da República. Caparica o iate de um bilionário chinês,
e Silva (2019), seu primeiro romance. sólidos problemas por solucionar, que Lúcia Salvador, ministra da Economia, retaguarda de todo o esquema sínico,
Ambos afirmados prima facie como constituem o todo do enredo de O Grande opõe-se à entrada da China nos negócios é alvo de um atentado gorado… Como
policiais, com polícias da Judiciária, Pagode. portugueses, espiões chineses raptam- evoluirá o romance? Conseguirão os
com assassinos e assassinados e de um Após seis meses ausente do nosso país, na, expõem-na publicamente em chineses tomar conta da economia
enredo de mistério na resolução do qual a acompanhar em Berlim os dias finais fotos comprometedoras, é demitida e portuguesa, corrompendo a generalidade
a personagem principal, o luso-alemão da tia Anne, sua educadora e protetora, substituída por um deputado passivo, de políticos e de instituições
Marcelo Silva, se torna um verdadeiro o detetive regressa a Portugal quase aclimatado aos novos interesses. O governamentais? Será assinado o
detetive, ainda que involuntário. Porém, anonimamente, vem visitar Margarida motorista da ministra, um mulato “Acordo alargado de cooperação
em ambos os livros é superada a natureza entre a República Popular da China
deste género literário por via de uma e a República Portuguesa para uma
conjuntura social e de uma conjunção de estratégia comum na prossecução da
características políticas que os elevam relações bilaterais com a incrementação
a uma outra dimensão representativa: da prosperidade dos dois países…” (p.
são romances de atualidade política e, 159)? Quem serão os “anjos-da-guarda”
para falar verdade, o autor é hoje, em que protegem a vida de Marcelo?
Portugal, o grande representante do Tanto o final como o princípio
romance de natureza política. Digamos obedecem a um registo melancólico
que MS se serve das três categorias – nova figuração do detetive. Mortos
clássicas do romance policial (crime, os dois amores da sua vida, Margarida
investigação sobre ele, descoberta do e Adriana, morta a tia Anne, doado o
assassino) para apresentar a sua visão seu violino, trazido de Berlim, a quem
sobre Portugal, especialmente sobre o dele podia cuidar, auxiliada Marília, a
peso determinante das elites no atual mulher do motorista assassinado, dada
estado desequilibrado do país. a notícia a Mãe Glória, de quem era
Miguel Szymanski reúne em filho, Marcelo Silva, à beira do Tejo, sem
Marcelo Silva as facetas do detetive e do família, sem amor, sem lugar definido
jornalista, o primeiro solucionando os na sua profissão, estende os olhos por
crimes, o segundo trazendo para a praça um futuro vazio – a melancolia nasce.
pública os aleijões sociais e denunciando Cumprira-se a profecia do princípio do
os seus responsáveis. É este o seu romance: “Os teus amores vão trair-te,
estatuto no panorama das personagens os mortos vão perseguir-te”. Mas eis
destacadas no atual romance português. que, perto do final, por um absoluto
Só tem um símile, mas mais policial e acaso, surge Jemima, doutorada por
menos político, até devido ao seu cargo Miguel Szymanski Oxford em História de Arte. Quem
na Polícia Judiciária, em Jaime Ramos, sabe se não será Jemima uma das mais
essa figura criada por Francisco José importantes personagens do próximo
Viegas que revolucionou o romance romance de Miguel Szymanski... J
policial português nos últimos 30 ao hospital, um dos seus grandes
anos. Finalmente, Jaime Ramos já não amores passados e personagem deveras
está só, tem agora Marcelo Silva como importante do primeiro romance. No
companheiro, porventura rival. regresso, não procura para viver o seu
Do primeiro para o segundo antigo Bairro Alto das notoriedades
romance, Marcelo Silva sofre uma noturnas, e vai viver para a Costa da
pequena revolução: em primeiro Caparica, Bairro de São Vicente, junto a Supera a natureza do
lugar, física, deixou de ser gordo e de um bairro pobre, de barracas, o Terroso,
se vestir desajeitadamente (t-shirts com uma população constituída por policial por via de uma
amarrotadas) para se tornar magro uma mistura de antigos retornados, conjuntura social e de uma
e trajar com elegância; em segundo pescadores pobres e imigrantes negros
lugar, psicológica, tornou-se menos das ex-colónias, onde conhece a preta conjunção de características
“justiceiro”, com necessidade imperiosa Mãe Glória. O bairro vai ser arrasado que o eleva à dimensão › Miguel Szymanski
de endireitar moralmente Portugal, e no seu terreno construídos hotéis
e mais melancólico, como se tivesse e residências de luxo. E começam os
de romance de atualidade O GRANDE PAGODE
constatado, após os casos de violência problemas para o cidadão moralmente política Suma, 218 pp., 16,50 euros
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT LETRAS 21 LIVROS

Submissões
BANDA DESENHADA
João Ramalho Santos

Num tempo em que já não há adaptar um romance protagonizado › Argumento e desenhos


paciência para vídeos inspiradores, por outros dois é certamente uma cu- de Fábio Moon e Gabriel Bá
gráficos mais ou menos achatados, riosidade. Mas os gémeos de Hatoum (adaptando Milton Hatoum)
especialistas instantâneos em ciência são tudo menos parceiros, na verdade DOIS IRMÃOS
onde antes só os havia em temas representam duas maneiras distin- G. Floy Studio. 232 pp., 22€
“verdadeiramente relevantes” (eco- tas de uma segunda geração vingar
nomia, política, cultura, futebol), num Brasil em crescimento, ceder ao › Argumento e desenhos
e um dilúvio bíblico de textos que hedonismo que aproveita o que existe de Renée Nault (adaptando
nos explicam quanto um vírus (que, e se deixa ir, ou assumir uma ideia Margaret Atwood)
francamente, se está nas tintas) de progresso, que tudo quer mudar A HISTÓRIA
muda tudo, incluindo o que não (explorando, subentende-se). E os DE UMA SERVA
muda; vale a pena continuar a ler irmãos Omar e Yaqub encarnam os Bertrand. 240 pp., 19,90€
coisas que nada têm a ver com isto. seus papéis de modo igualmente pro-
Porque, no fundo, têm; os bons livros fissional e destrutivo, submetendo-se
são independentes de pandemias. e fazendo desaparecer as suas origens lenta dissolução num Brasil mestiço, em lei, submetendo quem se cala (e da série). Ora, esse inferno era tanto
Alguns tão bons que não se contêm do Médio Oriente. Que, e Hatoum é representado pelo narrador. também quem fala). O traço e uso de mais assustador quanto um leitor o
num só formato, pedem outras for- muito claro nisto, também não eram Tal como Moon e Bá, também a espaços vazios e cor (nomeadamente tinha de imaginar, projetando (sem
mas de contar a sua história. particularmente recomendáveis. O autora canadiana Renée Nault segue o vermelho das capas das servas) grande dificuldade) o seu quotidiano
“Dois Irmãos”, romance de 2000 fascinante retrato de uma desagre- de perto a sua compatriota Margaret realça de forma excelente a asfixia num mundo que por vezes pare-
(Prémio Jabouti em 2001) do escritor gação familiar e social no caldo de Atwood, na adaptação de “A história criada por Atwood, paradoxalmente cia, mais que possível, próximo. Se
brasileiro de ascendência libanesa cultura da Manaus natal do autor é de uma serva” (Bertrand), na capa da criando um universo gráfico opres- há questões quando uma forma de
Milton Hatoum (n. 1952) surge numa posto em imagens de forma soberba qual é óbvia desde logo a subalter- sivo com um desenho de aparência arte se submete a outra, estas duas
excelente adaptação daqueles que no preto e branco angular de Moon nidade da BD em relação ao material frágil. Claro que, tal como a (muito adaptações também sublinham a
são dos maiores autores brasileiros e Bá, naquela que é uma adapta- de origem. Mas perdoa-se: este é um boa) série de TV, o “problema” desta vantagem dos grandes livros. Não nos
de banda desenhada, Gabriel Bá e ção mesmo muito fiel do romance. livro tanto mais atual quanto boçais (também muito boa) BD, é que con- deixam distrair com aquilo que é, de
Fábio Moon (G. Floy Studio). Que Sobretudo quanto à personalidade mentiras deixam de ser mera curio- cretiza o inferno incrivelmente lógico facto, apenas a maior distração das
dois irmãos gémeos tenham decidido e percurso das personagens, na sua sidade, para se irem transformando do original (prolongando-o, no caso nossas vidas. Mas só até agora.J

GULBENKIAN.PT
22 ↗
ARTES 15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

Moita Macedo
Um percurso original
no abstracionismo português
A obra do “muito interessante poeta-pintor ou pintor-poeta”, falecido em 1983, com apenas 52 anos, tem uma mostra
antológica no Centro Cultural de Cascais, aberta ao público até 8 de outubro. A exposição centra-se fundamentalmente,
como neste texto de um reconhecida especialista se assinala, na “produção de desenho e de pintura de caráter mais
ostensivamente abstrata e gestual” dos cerca de 14 anos finais da sua vida

A
FERNANDO ANTÓNIO BAPTISTA PEREIRA

A atividade artística de Moita


Macedo (José Albano Pontes
Santos Moita Morais de Macedo,
1930-1983), que a exposição
antológica do Centro Cultural de
Cascais (CCC) documenta, cen-
tra-se quase exclusivamente na
produção de desenho e de pintu-
ra de caráter mais ostensivamen-
te abstrata e gestual que realizou
nos cerca de 14 anos finais da
sua não muito longa existência.
Nessa fase da sua vida, o dese-
nho e a pintura que compulsi-
va e obsessivamente produziu
formalizam e manifestam outros,
mais ricos e distintos, universos
imaginários e processuais, que
foi definindo tanto no campo da
expressão plástica como no da
poesia. Infelizmente, nem na
exposição nem no catálogo, se dá
o devido relevo à indissociabi-
lidade entre pintura e escrita no
processo artístico de auto-reve-
lação deste muito interessante Moita Macedo “Exploração de um modo quase caligráfico de desenhar e pintar, unindo escrita e pintura”
poeta-pintor ou pintor-poeta, ao
contrário do que aconteceu na
exposição realizada, há três anos,
nesse lugar notável da Abstração valo de tempo de 14 anos. Graças por críticos ou historiadores escrita e a poesia, apesar de
em Portugal que é o Museu da à iniciativa de um dos seus de arte, como agora acontece esta só estar citada no catá-
Fundação Arpad Szenes - Vieira filhos, o destacado economista também. Uma imensa panóplia logo através de versos que se
da Silva. Paulo Macedo (ex diretor-geral Mesmo com as aludidas li- de recursos expressivos, tornaram clichés na referência
É importante recordar que do Ministério das Finanças e mitações, a exposição no CCC, ao poeta/pintor.
só vários anos depois da morte ministro da Saúde, atual presi- ‘interrompida’ pela pandemia da articulação entre No muito citado poema
do autor foi editado o funda- dente da Comissão Executiva da mas agora reaberta ao público, a mancha de cor e os traços “Definição” de uma plástica, o
mental da sua obra literária, Caixa Geral de Depósitos e da permite-nos revisitar algu- poeta/pintor Moita Macedo carac-
com prefácio de Urbano Tavares Culturgest), tem sido possível mas das principais variantes
soltos, aos automatismos terizou o seu ambivalente gesto
Rodrigues, e estudada, em vo- apresentar, em inúmeras expo- formais estruturantes da obra e à manipulação livre dos criador na pintura e na escrita
lumes dedicados à Pintura e ao sições de caráter antológico, em deste expressionista abstrato, através dos significativos versos:
Desenho, a vasta obra plástica diversos museus e galerias do em que o gesto informal se
instrumentos de desenho “E embebo de uma cor averme-
que realizou nesse curto inter- país, com catálogos prefaciados cruza intrinsecamente com a e pintura lhada/ o traço com que firo as
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT ARTES 23 EXPOSIÇÃO

Entre a pintura
e a literatura
Moita Macedo nasceu em Benfica do Ribatejo, Almeirim, em outubro de 1930,
e morreu em Lisboa, com apenas 52 anos, em maio de 1983. Autodidata, além
de pintor e desenhador foi poeta, homem de esquerda interveniente. Oriundo
de uma família tradicional, com um avô, médico, deputado na I República,
fez o serviço militar na antiga Índia Portuguesa, onde começou a trabalhar
artesanalmente com barro e marfim. Funcionário dos escritórios da Siderurgia
Nacional durante 24 anos, foi diretor das Atividades Culturais e do jornal do
seu Clube do Pessoal, para o qual desenhou ainda uma escultura em aço com
cinco toneladas. Na Cooperativa Gravura, então muito ativa e editando obras de
numerosos artistas, conheceu Almada Negreiros, em 1963, com ele fazendo as
primeiras experiências em gravura sobre o vidro. Começou a expor a partir de
1971 e dirigiu duas galerias de arte. Em 1980 co-organizou a exposição Viagem
ao Mundo da Linha, da Forma e da Cor. Colaborando na imprensa, só no ano
da sua morte publica, com outros três autores, o livro do poesia Cantares de
Amigo. Assim, a maioria dos seus poemas, entre a poesia popular e o primeiro
neorrealismo, só são editados postumamente ("Queria/ Que os meus poemas
fossem gritos/ Capazes de romperem alvoradas/ Que não fossem só letras/ Ou
escritos/ Mas tivessem as marcas das enxadas"). Após a sua morte são-lhe
feitas várias homenagens, e organizadas muitas exposições, algumas com
magníficos catálogos que também incluem poemas e outra documentação,
como as do Palácio da Bolsa do Porto (2015), no Museu Ibero-americano de Arte
Contemporânea, em Badajoz (2017), no Museu Arpad Szenes / Vieira da Silva,
em Lisboa (2018). O arqtº Souto Moura fez um projeto para uma praça que terá
o seu nome, em Sintra. TM
Moita Macedo "Se de mim/ só ficou o poema/ mesmo assim/ valeu a pena"

minhas telas.” Num outro poema, outro diário, o visual, em que se suportes, de que serão exemplo indissociavelmente, como já
em que se refere diretamente “retratou” no desenho e na pin- mais paradigmático os desenhos vimos, o artista se insere numa já
aos vários “Cristos” que dese- tura, como acontece no significa- sem título datados de 1970 e longa tradição europeia da auto-
nhou/pintou – “Sou um pintor de tivamente caligráfico “Reflexo de 1971 e os que, sem data, pela sua -mimese, que, como demonstrou
cristos/ Dos mais desajeitados/ mim mesmo”, de 1973, a contra- Uma exuberante proximidade estilística com o “A Frank Zöllner no seu ensaio de
Não sei pintar sorrisos/ Só rostos partida necessária dessas outras performatividade um Deus Egípcio”, de 1983, terão 1992, se consagrou no aforismo
macerados” –, desvelou, de um páginas em que se foi “dizendo” sido executados nos últimos platonizante surgido em Florença
modo cristalino, essa imanência em poesia. da execução anos de vida do autor. entre 1477 e 1479 Ogni Pittore
gestual presente tanto na escrita A nossa proposta de taxono- traduz-se sempre A maioria das peças presentes dipinge sé, nem sempre valoriza-
poética como na criação pictórica: mia dos universos temáticos que nesta exposição do CCC integra- do pelos grandes artistas como
“No todo são gestos/ Angústias a sua obra tocou, “pintando-o” e
numa multiplicidade -se, assim, no último grande Leonardo, mas intensamente de-
de facto/ Do homem verdade/ Do “escrevendo-o” (Desejos, Rostos, de efeitos na relação núcleo temático que descortiná- fendido pelo nosso Francisco de
nosso retrato.” Nus e Máscaras, os outros Eus mos na sua obra, que associa às Holanda no seu Da Pintura Antiga
Moita Macedo foi pintor de – “Tauromaquias”, “Cristos e
entre os materiais temáticas da “Evasão e Utopia” a (1548): “Por meu conselho o en-
poemas, assim como poeta de Calvários”, “Quixotes” – Evasão e os suportes procura mais intensamente vi- genho excelente e raro não deve
pinturas, tal como, de modo e Utopia, Libertação do Gesto vida por Moita Macedo nos cerca contrafazer ou emitar a nenhum
paradigmático, se definiu não Criador), que é vagamente desde- de 13 anos finais da sua vida: o outro mestre; senão emitar se
só nos agora já muito citados nhada no catálogo da exposição que o próprio artista descreveu antes a si mesmo e fazer por dar
versos “Pintei versos/ Escrevi do CCC, tem precisamente em nos textos teóricos que elaborou elle aos outros antes novo modo
quadros/ Movido pela ilusão/ De conta a indissociabilidade entre perfurando os seus suportes ou nesses anos como a “libertação do e nova maneira que emitar e do
ser pertença da terra/ Ventre, poesia e pintura nesse “dizer-se Miró queimando as suas telas. gesto criador”, em linha, de resto, que possão aprender”.
presente e razão”, mas também a si próprio” em que se revela e Mas é sempre gesto violento de com a libertação então vivida Para dar forma plástica a essa
noutros pequenos poemas. Em desvela, em palavras e imagens, uma escrita pictural perfor- pelo Povo Português no pós-25 de auto-mimese, Moita Macedo
primeiro lugar, ao sussurrar “Na a existência do autor. E, com mativa, usando e projetando Abril. recorreu a uma imensa panóplia
poesia a cor/ no quadro o verso”; efeito, no poema “Os Desenhos”, instrumentos de desenho e O traço comum a toda esta de recursos expressivos, desde
depois, ao afirmar, lapidarmente, ao afirmar que “O desenho fere e materiais de pintura (tintas e vertente da obra do pintor, se- a articulação entre a mancha de
“Libertar-me do limbo/ Só, co- dói/ É alegria mas rói/ Na cora- outras matérias) sobre variadas guramente a que lhe alcançará cor e os traços soltos, como uma
migo/ Quando pintando/ Idealizo gem da verdade/ Libertação dos superfícies, obtendo, em muitos maior reconhecimento no futuro, garatuja, aos automatismos e à
o verso/ Onde me digo.” sentidos/ Libertação dos vestidos/ casos, valores e até mesmo rele- enquanto percurso original no manipulação assaz livre dos ins-
Mas Moita Macedo foi tam- Corpo e sonho / Flor e lança…”, vos. A intrínseca performativi- Abstracionismo Português, como trumentos de desenho e pintura,
bém um pintor que desenhou anuncia, assim, numa curta mas dade do seu gesto pictural, que, se assinala (e bem) no catálogo numa deliberada interpenetração
abundantemente, muito mais do incisiva inscrição poética, os em rigor, se enraizara numa da mostra, pela incessante busca entre ambos, desde o jogo com a
que pintou sobre tela, cartão ou grandes tópicos estruturantes quotidiana prática do desenho, experimental de uma expres- cor do suporte, explorando o ne-
mesmo papel. Tal como escre- do seu processo de “libertação acabou por traduzir-se, de são de si, reside na exploração gativo, à estridência das manchas
veu inúmeros poemas, que, com do gesto criador”, que culmina- forma generalizada, no carácter de um modo quase caligráfico e pinceladas de cores, por vezes
inteira justeza, Urbano Tavares rá numa original prática de um indiscutivelmente matérico da de desenhar e de pintar, unindo isoladas e espessadas por outros
Rodrigues reconheceu como gestualismo expressionista, de grande maioria das composi- assim escrita e pintura, como materiais, redundando no relevo
“páginas de um diário”, os seus matriz caligráfica e informal, ções, nos desenhos a óleo ou a na milenar tradição chinesa, matérico, consumando, assim, na
desenhos, nos mais variados tendencialmente abstrato, que acrílico sobre papel colados so- topos igualmente abraçado na sua poética pictural, a “libertação
materiais (grafite, carvão, tinta- se materializa, finalmente, nos bre tela, ou, ainda, nos desenhos arte internacional a partir dos do gesto criador”! J
-da-china, óleo e acrílicos e até “quadros e versos” em que se monocromáticos realizados a anos 60 do século XX (Poesia
incorporando a colagem de outros escreveu/pintou. carvão, a tinta-da-china ou a Visual, Concretismo, entre outras *Fernando António Baptista Pereira,
elementos), suportes (papel, É claro que o desenho que acrílico sobre papel. De resto, tendências de cruzamento entre historiador, ensaísta e crítico de arte, pro-
cartão cartolinas) e em variadas “fere e dói” ou o “traço” com essa exuberante performati- palavra e imagem). gramador de várias grandes exposições,
escalas, usando com frequência que “fere as telas” é, uma vez vidade da execução traduz-se É extremamente interessante presidente da Faculdade de Belas-Artes
a cor, são, como tivemos ocasião mais, uma metáfora poética sempre numa multiplicidade verificar que, ao definir a sua da Universidade de Lisboa, de que também
de sublinhar na monografia que e não um ato literal e direto, interpelante de efeitos texturais obra como expressão de si, que foi presidente dos conselhos Científico e
lhes dedicámos em 2005, o seu como Lucio Fontana cortando ou na relação entre os materiais e os no seu caso é poética e pictural Pedagógico
24 ARTES ↗

ESPETÁCULOS / DISCOS
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

Um homem silvestre

DANÇA
Daniel Tércio

Em plena floresta de Monsanto, Embora seja divulgado originário do selvagem, o bosque


em Lisboa, Pedro Ramos como um solo, este trabalho é o espaço do silvestre, ou seja,
apresenta o primeiro capítulo da de Pedro Ramos, com o do corpo que se deixa tomar
obra Alento. As próximas sessões, título “IncorpOração: Estudo pelas coisas vivas, comportando

DAVID CACHOPO
perto do centro de interpretação Coreográfico Sobre um Espaço coisas apodrecidas e ligações
de Monsanto, acontecerão Vivo” torna-se assim um rizomáticas. O bosque deixa-se
nos dias 16, 17 e 18 de Julho acontecimento colectivo, em apropriar ao mesmo tempo que
pelas 16h30 [Entrada livre / que as presenças não humanas se apropria. É um lugar onde as
comparticipação por donativo]. (ou mais do que humanas) se raízes se movem. Alento, de Pedro Ramos Ao vivo, em Monsanto
Ele tem os pés cobertos por intensificam graças à contracena Nos finais da Idade Média
umas meias maleáveis tipo daquele corpo que se acomoda e no Renascimento abundava
luva, que desenham cada dedo aos troncos, se desenha com as a representação dos homens
e acompanham os movimentos ramagens, que vibra em cada silvestres, criaturas que para se dar a ver como uma forma próprio para comunicar com a
livres das articulações. Os pés leve brisa, que encara e segue os ficavam a meio caminho de monstruosa, nem ainda para realidade viva da floresta, com a
tornam-se mãos, o que ajuda a recortes do céu azul. uma transformação. Os homens se camuflar na folhagem, mas matéria, e com a complexidade
que o corpo se cole aos troncos Este é um capítulo da obra silvestres situavam-se assim antes para explorar uma zona de das estruturas vivas. Uma
das árvores. Ele conhece Alento, em que Pedro Ramos entre o monstro e o disfarce. Não ligação visceral do corpo com o linguagem que expressa,
cada árvore que o rodeia: há tem vindo a trabalhar na relação eram os anacoretas medievais, seu entorno natural. O seu estudo contempla e assinala nuances do
carvalhos, um sobreiro e uma entre a dança e a ecologia que escolhiam as paisagens áridas do selvagem resulta assim num sensível, da interioridade e da
azinheira. O espaço onde isto profunda, fazendo da Floresta para poder escutar a voz de Deus; processo de ressonâncias e de expansão da consciência.
acontece é quase uma clareira, de Monsanto um laboratório de eram sim aqueles que emergiam devires: devir-árvore, devir- Do lado do espectador, fica a
não demasiado grande, com pesquisa e prática artística. Uma dos restolhos aromáticas da criatura arborícola, devir-folha. possibilidade de sentir na lentidão
uma pequena elevação no vez mais, é aqui, nas imediações terra húmida, com raízes e No horizonte, Pedro Ramos da presença do Pedro a seiva que
centro, onde o corpo vai do centro de interpretação ramos atravessando a carne, adere à proposta de uma ética corre dentro de cada árvore. É
enraizar. Ele é Pedro Ramos e de Monsanto, que ele propõe emergências pagãs de uma outra selvagem. Perante um entorno possível adivinhar que no interior
com ele estão os outros actores: uma experiência única, uma era. vivo, o seu corpo entra em diálogo do seu sistema circulatório
as árvores, os arbustos, as folhas experiência silvestre. Na verdade, Pedro Ramos empático e reencontra significado ressoam as micro-criaturas do
caídas, as pedras, os insectos, Porque é que os bosques aproxima-se do silvestre, não na qualidade da sua ligação ao bosque e que em cada um dos seus
mas também os inúmeros ruídos sempre atraíram tanto a para se representar como uma dentro e ao fora. Neste capítulo de nervos vibram os mil ruídos de
do bosque. imaginação dos homens? Lugar criatura mítica, nem tão pouco Alento, ele cria um vocabulário um mundo vivo. J

JAZZ O disco começa com uma bossa nova, grande vontade duo, assumidamente mais despojado a diferença. E,
Porto Alegre, e ao Brasil retornam em de experimentar, (além de que Regina não era a única claro, também
Barron modo mais sereno em Until Then. centrada numa poetisa cantada). Todavia, é mais do os arranjos
Barron oferece o grosso das composi- voz feminina que óbvio que há uma continuação, instrumentais,
& Holland ções, entre as quais o enérgico Speed (aqui Ana Deus, com os mesmo protagonistas, e um que levam os
Without De- Trap, Dave Holland concorre com I nos outros Ana- lado experimental muito superior fados para outros
ception não é um Remember When e ainda Pass It On, bela Duarte), sem aos primeiros disco da banda. Desse sítios. Uma coisa
disco pretensio- nome de um dos seus discos de 2008, nunca perder um ponto de vista, mesmo sem ter can- se pode dizer:
so, ele é apenas a quem o trio oferece a abertura a um eixo pop. Os Três Tristes Tigres trazem ções mais orelhudas, este Mínima Luz ao contrário do que acontece com
o prazer da solo da bateria, e Mulgrew Miller, ainda a mais valia de um elemento é no seu conjunto o melhor disco dos outras fadistas, neste Amália de Cuca
música, apenas o Thelonious Monk e Duke Ellington secreto, ou pelo menos discreto, o Três Tristes Tigres, o mais ousado, Roseta não há uma tendência para a
encontro de dois são também chamados a contribuir. Já terceiro tigre, que é a poetisa Regina fora dos eixos, e também aquele que mimetização de Amália (o que não é
grandes músicos, não há pianistas assim. Como nunca Guimarães, que se revelou, através da mais apetece voltar a ouvir. fácil). Bom exemplo disso é “Lágri-
e o apenas é tudo. Kenny Barron será houve baixistas assim. E no entanto banda, como uma das mais fascinan- ma”, uma interpretação vistosa ao
o mais melodioso dos pianistas bop, tudo se passa como se nada se passas- tes letristas da música portuguesa, › Três Tristes Tigres seu estilo, mas com nuances que nos
mas há algo que faz a diferença nele, se. Sem deceção. daquelas que não faz cedências na MÍNIMA LUZ levam por outros caminhos. Os temas
que é o peso nos dedos. O ataque, intensidade poética quando escreve Ed. Autor escolhidos, de resto, parecem buscar
a forma como aborda as teclas, › Kenny Barron & Dave Holland Trio para músicas. Assim, na sua mais um equilíbrio entre quase inevitá-
denuncia-lhe de imediato a origem, WITHOUT DECEPTION recente formação, a banda é feita do veis como “Barco Negro”, “Estranha
bem longe da formação clássica da Dare2 Records trio Ana Deus, Alexandre Soares e Re- A Amália Forma de Vida”, “Ai Mouraria”, “Com
maioria dos pianistas da atualida- LEONEL SANTOS gina Guimarães. Estes três já haviam que Voz”, e outros fados, não esque-
de. Ao lado dele, Dave Holland é recentemente se reunido no ‘projeto’ da Cuca cidos, mas menos badalados. Cuca
um contrabaixista poderoso, mas POP Osso Vaidoso, uma das melhores O reportório de Amália Rodri- Roseta apropria-se de todos eles, sem
simultaneamente melódico, mas ele coisas que apareceu na música portu- gues já foi gravado e regravado por pudor, emprestando-lhes o seu ha-
é sempre intrusivo. O contrabaixo O tigre que ruge guesa nos últimos anos. incontáveis fadistas, levantando-se bitual colorido, em alguns momentos
canta como um saxofone, nota a nota, Os Três Triste Tigres demoraram Ora, desta forma, não se pode di- naturalmente a questão das redun- por excesso. No final, fica a saber a
mais do que um simples sideman. Os 22 anos para lançar um novo álbum zer que os Tigres tenham estado em dâncias. Contudo, a problemática da pouco. Aparentemente, do universo
dois conheceram-se há mais de trinta de originais e, quando finalmente o jejum durante estes 22 anos... Pelo reinterpretação é transversal ao fado imenso dos fados de Amália, apenas a
anos, reencontraram-se em 2014 para fizeram, a pandemia ia-lhes dando caminho reinventaram-se num novo na sua tradição. E a resposta é sempre dez a fadista descobriu a forma certa
fazer um disco em duo, The Art of cabo dos planos. Mas, enfim, final- projeto, transfigurando-se, mas a mesma: são as singularidades das de lhe dar voz.
Conversation, e juntaram-lhe agora o mente chegou o álbum... e valeu a mantendo una boa parte da sua es- interpretações que fazem a diferença.
versátil e proficiente Jonathan Blake, pena a espera. Se valeu. Mínima Luz é sência. As diferenças, contudo, entre Por isso, o que Cuca Roseta traz de › Cuca Roseta
com quem o pianista tem tocado. A um magnífico disco, na linha daquilo Osso Vaidoso e estes Tigres é também novo a tão badalado reportório? A AMÁLIA
arte e a alegria do diálogo, é o que que a banda construiu. Os Três Tristes clara. Mantém-se a qualidade poé- resposta é simples e redundante: Cuca Sony
percorre todo o disco, como dois ami- Tigres estão para os anos 90 como tica e os mesmos protagonistas, só Roseta. A sua interpretação caracte-
MANUEL HALPERN
gos que se conhecem e se apreciam. os Mler Ife Dada para os 80: há uma que Osso Vaidoso era um projeto em rística, para o bem ou para o mal, faz
Agenda Cultural
15 a 28 de julho 2020

Festival ao Largo 2020


Companhia Nac. de Bailado encerra, nos dias 23, 24 e 25 de julho, edição do festival que, este ano, decorre no Palácio Nac. da Ajuda

ALMADA Dario Fo. Interpretação de Mario Pirovano.


15, 16 e 17 de julho – 21h30
BRAGA E Estação Imagem 2020 Coimbra:
Chamam-Nos Para Casa
18 e 19 de julho – 15h Exposição de fotografia de Sarah Blesener.
Cine-Teatro da Academia Almadense  Fórum Arte Braga
T 37º Festival de Almada: O Criado até 27 de setembro (encerrado em agosto)
R. Capitão Leitão, 64. Tel.: 212 729 750 Av. Dr. Francisco Pires Gonçalves.
De Robin Maugham. Adaptação
T 37º Festival de Almada: 2ª A 6ª, DAS 10 H ÀS 18 H .
e encenação de André Murraças. Centro de Arte Contemp. de Coimbra
Instruções Para Abolir o Natal E Mesa dos Sonhos: Duas Coleções
25 e 26 de julho – 15h, 18h e 21h30 Lg. de Almedia, 11. Tel.: 239 840 754
De Michael Mackenzie. Encenação de Arte Contemporânea em Braga
3ª A 6 ª , DAS 10 H 00 ÀS 18 H 00; S ÁB . E D OM .,
de Isabel dos Santos. Interpretação até 31 de julho 10 H 00 ÀS 13 H 00 E DAS 14 H 00 ÀS 18 H 00
Teatro Municipal Joaquim Benite DAS
de Luís Vicente e Sara Mendes Vicente. E De que é Feita uma Coleção?
Av. Prof. Egas Moniz. Tel.: 212 739 360
16, 17 e 18 de julho – 21h30 Theatro Circo até 31 de janeiro 2021
19 de julho – 16h e 21h30
T 37º Festival de Almada: Mártir Av. da Liberdade, 697. Tel.: 253 203 800
De Marius von Mayenburg. Encenação de
T 37º Festival de Almada: M 7 Quintas Felizes: André Henriques Convento São Francisco
Rodrigo Francisco. Interpretação de Ana
Rebota Rebota y En Tu Cara Explota 16 de julho – 21h10 Av. da Guarda Inglesa 3. Tel.: 239 857 190
Cris, André Albuquerque, Inês de Castro, Ivo
Uma criação de Agnès Mateus e Quim Marçal, João Cabral, Pedro Walter, entre outros. T As Troianas T ODOS OS DIAS , DAS 15 H ÀS 20 H
Tarrida. Interpretação de Agnés Mateus. 5ª E 6ª, ÀS 21 H 30; S ÁB ., ÀS 16; D OM ., ÀS 19 H Encenação e dramaturgia de Rui Madeira. E Estação Imagem 2020
22, 23, 24, 25 de julho – 21h30 até 26 de julho 17 a 31 de julho – 21h30 Coimbra: Fim do Califado
26 de julho - 16h M 7 Quintas Felizes: Cachupa Psicadélica Exposição de fotografia de Ivor Prickett.
T 37º Festival de Almada: Future Lovers
De Celso Giménez. Interpretação de 23 de julho – 21h10 até 6 de setembro
Fórum Romeu Coreia Gonzalo Herrero, Itziar Manero, Manuel M 7 Quintas Felizes - R’B & Mr.SC
Pç. da Liberdade. 212 724 920 Egozkue, Pablo Díaz, Sara Toledo, Siro Ouro. 30 de julho – 21h10 Galeria Almedina
T 37º Festival de Almada: 17 e 18 de julho – 21h Arco de Almedina. Tel.: 239 840 754
As Artimanhas de Scapin
De Molière. Encenação de João Mota.
19 de julho – 16h CASCAIS 3ª
DAS
A 6 ª , DAS 10 H ÀS 18 H ; S ÁB . E D OM .,
10 H ÀS 13 H E DAS 14 H ÀS 18 H
T 37º Festival de Almada: Turismo
Interpretação de Carlos Paulo, Daniela Santos,
Texto e encenação de Tiago Correia. Casa das Histórias Paula Rego E Coimbra Colorida Tem Mais Encanto
Gonçalo Botelho, Hugo Franco, entre outros. Exposição de desenho de Né Barros.
Interpretação de André Júlio Teixeira, Av. da República, 300. Tel.: 214 826 970
16 e 17 de julho – 21h30 até 16 de agosto
Claudia Lázaro, Inês Curado, José Eduardo 3ª A D OM ., DAS 10 H ÀS 18 H
18 de julho – 18h
Silva, Paulo Lages, Romi Soares. E Paula Rego: Desenhar, Encenar, Pintar
19 de julho – 15h e 21h30 Mosteiro de Santa Clara-A-Velha
24, 25 e 26 de julho – 21h até 8 de novembro
T 37º Festival de Almada: A Criada Zerlina R. das Parreiras. Tel.: 239 801 160
A partir de Hermann Broch. Encenação 3ª A D OM . E F ERIADOS , DAS 10 H 00 ÀS 18 H 00
Centro Cultural de Cascais
de João Botelho. Interpretação de Luísa Cruz. AMARANTE Av. Rei Humberto II de Itália. Tel.: 214 848 900
E Estação Imagem 2020
22, 23 e 24 de julho – 21h30 3ª A D OM ., DAS 10 H ÀS 13 H E DAS 14 H ÀS 18 H Coimbra: Rusgas às Favelas
25 de julho – 18h Museu Mun. Amadeo de Souza-Cardoso Exposição de fotografia de Patrick Chauvel.
E Pintura Democrática. Coleção
26 de julho – 15h Alameda Teixeira de Pascoaes. Tel.: 255 420 282 até 16 de agosto
Luísa e Manuel Pedroso de Lima
3ª A DOM., DAS 10H00 ÀS 12H30 E DAS 14H00 ÀS 18H00
até 13 de setembro
Incrível Almadense E Fuck Art Let’s Eat Museu Municipal - Edifício Chiado
R. Cap. Leitão 1. Tel.: 218 227 722 E O Cuidado
Mostra que reúne 30 artistas desafiados R. Ferreira Borges, 85, Tel.: 239 840 754
Exposição de pintura de Patrícia de Herédia.
T 37º Festival de Almada: Johan a produzir trabalhos sobre a temática 3 ª A 6 ª , DAS 10 H 00 ÀS 18 H 00; S ÁB ., DAS
até 3 de outubro 10 H 00 ÀS 13 H 00 E 14 H 00 ÀS 18 H 00
Padan a La Descoverta de Le Americhe da ligação entre arte e gastronomia. DAS
E Moita Macedo. Uma Antologia E Estação Imagem 2020 Coimbra: Na Terra
De Dario Fo e Franca Rame. Encenação de até 31 de agosto
até 3 de novembro Exposição de fotografia de Ana Brígida.
E Enquanto Amanhã For Para Sempre até 9 de agosto
Exposição de pintura de José Augusto Castro.
até 8 de novembro Museu Municipal – Sala da Cidade
Pç. 8 de maio. Tel.: 239 857 500
COIMBRA 3ª A S ÁB ., DAS 13 H 00 ÀS 18 H 00
E Estação Imagem 2020
Casa Municipal da Cultura Coimbra: SOS Clima
R. Pedro Monteiro. Tel.: 239 702 630 até 26 de setembro
2ª A 6ª, DAS 9 H 00 ÀS 18 H 30
E Estação Imagem 2020 Coimbra:
Guardiões da Vida Selvagem
ESPINHO
Exposição de fotografia de Brent Stirton. Museu Municipal de Espinho
até 26 de setembro R. 41 / Av. João de Deus. Tel.: 227326 258
E Estação Imagem 2020 Coimbra: E Corpo, Abstração e
Hong Kong: A Luta Pela Liberdade Linguagem na Arte Portuguesa
Exposição de fotografia de Filipe Dana. Obras da SEC na Coleção de Serralves.
até 26 de setembro até 18 de julho

Centro Cultural Penedo da Saudade


Av. Dr. Marnoco e Sousa, 30. Tel.: 239 791 245 ESTARREJA
3ª À S ÁB ., DAS 14 H 00 ÀS 20 H 00
E Estação Imagem 2020 Cine-Teatro de Estarreja
Coimbra: A Caravana R. Visconde Valdemouro. Tel.: 234 811 300
Exposição de fotografia de Guillermo Arias. M Mafalda Veiga
Jogos de Espelhos, no Centro Português de Fotografia até 27 de setembro (encerrado em agosto) 18 de julho – 21h30
Agenda Cultural
A audiovisual » C colóquios / conferências » D dança » E exposições » M música » MD multidisciplinares » NC novo circo » P pedagogia » T teatro

Museu Nacional de Arte Antiga Palácio Nacional da Ajuda E Electric. A Virtual Reality Exhibition VILA NOVA
R. das Janelas Verdes. 213 912 800 Lg. da Ajuda. Tel.: 213 620 264 até 30 agosto
3ª A D OM ., DAS 10 H ÀS 18 H M Festival ao Largo 2020: E Olafur Eliasson - DE FAMALICÃO
E Guerreiros e Batalhas. Desenhos Petite Messe Solennelle O V/Nosso Futuro é Agora
Europeus dos Séculos XVI ao XIX Direção de João Paulo Santos. Interpretação do até 27 de setembro Casa das Artes de V. N. de Famalicão
até 19 de julho Coro do Teatro Nacional de São Carlos, Dora E Arthur Jafa Av. Carlos Bacelar. Tel.: 252 371 304
E Domingos António de Sequeira: Rodrigues, Maria Luísa de Freitas, entre outros. até 27 de setembro E Ana Paula Carvalho:
Estudo de Figura para A Morte de Camões Programa: G. Rossini, Petite Messe Solennelle. E A Vida Como Ela É. Lourdes de Quando Herdas a tua Infância
até 19 de julho 15 de julho – 21h30 Castro na Coleção de Serralves até 30 de setembro
E A Linha que Fecha Também Abre M Festival ao Largo 2020: Metropolis até 18 de outubro
até 26 de julho Orquestra Sinfónica Portuguesa e Filipe E Yoko Ono. O Jardim da Fundação Cupertino de Miranda
Raposo (piano) interpretam a partitura criada Aprendizagem da Liberdade Pç. D. Maria II. Tel.: 252 301 650
Museu Nacional de Etnologia por este para assinalar os 125 anos da estreia, E Só a Imaginação Transforma
até 15 de novembro
Av. Ilha da Madeira. Tel.: 213 041 160 em Portugal, do filme de Fritz Lang. até 31 de outubro
E A Floresta
3ª, DAS 14 H ÀS 18 H , 4 ª A D OM ., DAS 10 H ÀS 18 H 17 de julho – 21h30
até 31 de dezembro
E Lugares Encantados, M Festival ao Largo 2020:
Espaços de Património Franck, Mozart, Fauré
E Manoel de Oliveira V ILA N OVA DE F OZ C ÔA
até 25 de junho 2021
até 4 de outubro Interpretação do Coro do Teatro Nacional de
M Jazz no Parque: Cíntia Centro Cultural de V. N. de Foz Côa
E Vergílio Pereira: São Carlos, da Orquestra Sinfónica Portuguesa,
18 de julho – 18h Tel. (info): 279 760 400
Itinerários de um Etnógrafo Alexandra Bernardo e Luís Rodrigues.
Obras de C. Franck, W.A. Mozart e G. Fauré.
E Jorge Queiroz na Colecão E Percursos pela
até 3 de janeiro 2021 de Serralves: The Studio
18 de julho – 21h30 Arquitetura Popular do Douro
24 de julho a 20 de setembro Exposição de fotografia de António Menéres.
MNAC - Museu do Chiado M Festival ao Largo 2020:
Concerto de Câmara até 14 de setembro
R. Serpa Pinto, nº 4. Tel: 213 432 148
Pela Orquestra Sinfónica Portuguesa,
Galeria Municipal do Porto
3ª A D OM ., DAS 10 H ÀS 18 H
R. de Dom Manuel II. Tel.. 226 081 000 Museu do Côa
E Otelo e Desdémona. Nos Palcos da Paixão sob a direção musical de Joana Carneiro.
3ª A S ÁB ., DAS 10 H ÀS 18 H ; D OM ., DAS 14 H ÀS 18 H R. do Museu. Tel.: 279 768 260
até agosto Obras de W.A. Mozart, A. Dvorák, P.I.
Tchaikovski.
E Máscaras (Masks) E O Desenho, Força que Nasce do Silêncio
E Como Silenciar uma Poeta até 16 de agosto
19 de julho – 21h30 até 31 de julho
Exposição de Susana Mendes Silva.
até 30 de agosto M Festival ao Largo 2020: E O Douro à Tua Frente
E Biografia do Traço. Coleção Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras S. M AMEDE DE I NFESTA Exposição de pintura de Sobral Centeno.
até 31 de julho
de Desenho (1836-1920) Com a participação de Filipa Portela, Lilia
até 6 de setembro Donkova. Direção Musical de Nikolay Lalov. Casa-Museu Abel Salazar
E Pedro Gomes: Encontro às Cegas Obras de J. Sibelius, B. Britten, F. Martin.
20 de julho – 21h30
R. Dr. Abel Salazar, 488. Tel.: 229 039 827 VILA NOVA DE GAIA
até 6 de setembro S ÁB . E D OM ., DAS 17 H 00 ÀS 19 H 00
M Festival ao Largo 2020: E Mário Vitória: Obsessões e Resistências Casa-Museu Teixeira Lopes
Companhia Nacional de Bailado até 19 de setembro R. Cons. Veloso da Cruz, 714. Tel.: 223 742 904
Programa: Symphony of Sorrows, coreografia de 2ª A D OM ., ÀS 9H ÀS 12 H 30 E DAS 14 H ÀS 17 H 30
Museu Nacional da Música
Miguel Ramalho, Algo-Ritmo, coreografia de E Vieira da Silva. Um Olhar Singular
Estação do Metropolitano Alto dos
Xavier Carmo e Henriette Ventura, e Dom SACAVÉM até 26 de julho
Moinhos. R. João de Freitas Branco.
Quixote (excertos do I Ato), coreografia de
Tel.: 217 710 990 Museu de Cerâmica de Sacavém
Eric Volodine, segundo Alexander Gorski. Teatro de Vila Real
M Desconfinando no MNM 23, 24 e 25 de julho – 22h00 R. Álvaro Pedro Gomes. Tel.: 211 151 083
Atuações de Duarte Martins (Piano) 3ª A DOM., DAS 10H00 ÀS 13H00 E DAS 14H00 ÀS 18H00
Al. de Grasse. Tel.: 259 320 000
e Phillipe Marques (Piano) + KVAR. E Vivências Quotidianas do E Prémio Estação Imagem 2019 
São Roque até 30 de agosto
Reserva prévia pelo 217710990 ou e-mail Convento de Cristo Após a
R. de São Bento, 199 B. Tel.: 213 960 734
extensao.cultural@mnmusica.dgpc.pt. T Stand Down
2ª A 6ª, DAS 09H30 ÀS 20H; SÁB. DAS 10H00 ÀS 20H00 Extinção da Ordem Através da
17 de julho – 16h Criação de Ángel Fragua a
E Reis, Damas e Valetes – Cultura Material e Documental partir de dois contos de Félix Albo.
M Desconfinando no MNM até 31 de dezembro
O Imaginário de Costa Pinheiro 16 de julho – 22h
Atuações de Microduo + Maria João
até 29 de agosto M Lula Pena
Sousa e Ana Luísa Monteiro. Reserva
prévia pelo 217710990 ou e-mail SINES 18 de julho – 22h
extensao.cultural@mnmusica.dgpc.pt.
24 de julho – 16h
PORTO T Fábio Timor e Ricardo Tojal
23 de julho – 22h
Centro de Artes de Sines
M Desconfinando no MNM Centro Português de Fotografia R. Cândido dos Reis 33. Tel.: 269 860 080 M Tainá
Atuações de Yuri Marchese (guitarra) + Campo Mártires da Pátria. Tel.: 222 076 310 E Público/Privado – Doce Calma 25 de julho – 22h
Taissa Cunha (piano) + Avres Serva 3 ª A 6 ª , DAS 10 H ÀS 12 H 30 E DAS 14 H 00 ÀS 18 H 00; ou Violência Doméstica? M Safety Last (1923)
com Ana Paula Russo, Pedro Massarão S ÁB ., D OM . E F ERIADOS , DAS 15 H 00 ÀS 19 H 00 até 18 de outubro Concerto por Charlie Mancini, com exibição do
(violoncelo barroco) e Nuno Oliveira E Jogo de Espelhos filme protagonizado por Harold Lloyd em 1923.
(órgão positivo). Reserva prévia A cidade fragmentada e a fotografia fragmento 28 de julho – 22h
pelo 217710990 ou e-mail através da Coleção Nacional de Fotografia. VIANA DO ALENTEJO
extensao.cultural@mnmusica.dgpc.pt.
31 de julho – 16h
até 13 de setembro
Castelo de Viana do Alentejo
VISEU
E Mitos Adiados
2ª A 6ª, DAS 10 H ÀS 13 H E DAS 14 H ÀS 18 H
Exposição de fotografia de Carlos Cardoso. Quinta da Cruz - Centro
até 1 de novembro
E Cores e Formas
Exposição de pintura de Paulo Xavier da Silva. de Arte Contemporânea
Museu Nacional do Azulejo R. São Salvador, 3510. Tel.: 232 423 343
R. Madre de Deus, 4. Tel.: 218 100 340 até 28 de setembro
Culturgest Porto E Cabrita: I Dreamt
3ª A D OM ., DAS 9H ÀS 17 H Av. dos Aliados, 104. Tel.: 222 098 116
Your House Was a Line
E Jorge Colaço e a Azulejaria 4ª A D OM ., DAS 14 H 30 ÀS 18 H 30 VILA FRANCA DE XIRA até 26 de julho
Figurativa do seu Tempo E Elisa Strinna: Sol Cego
até 31 de outubro até 30 de agosto Museu do Neorrealismo
R. Alves Redol, 45. Tel.: 263 285 626
Museu Nacional do Traje Fundação de Serralves 3 ª A 6 ª , DAS 10 H 00 ÀS 19 H 00; S ÁB ., DAS
Lg. Júlio Castilho. Tel.: 217 567 620 15 H 00 ÀS 22 H 00; D OM ., DAS 11 H 00 ÀS 18 H 00 GABINETE DE ESTRATÉGIA,
R. D. João de Castro, 210. Tel.: 226 156 500
3ª, DAS 14 H ÀS 18 H ; 4 ª A D OM ., DAS 10 H ÀS 18 H 3 ª A 6 ª , DAS 10 H ÀS 13 H E DAS 14 H ÀS 17 H ; E Rui Filipe: Em Busca do Absoluto PLANEAMENTO E AVALIAÇÃO CULTURAIS
E Blood Red Luxury S ÁB ., DOM . E FERIADOS DAS 10 H ÀS 19 H até 25 de outubro Palácio Nacional da Ajuda. 1300-018 Lisboa
Exposição de Fotografias de Luis Godinho. E Orient Express – Viagem de Retorno E Cosmo/Política #6: Biblioteca Cosmos Tel.: 213 614 500 | Fax: 213 621 832
Julho até 19 de julho até 31 de janeiro 2021 relacoes.publicas@gepac.gov.pt
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

IDEIAS 25 ↗

O caminho de Fernando
“Sempre me interroguei como é que a Universidade veio de Lisboa para Coimbra. Agora já sei: os poucos mestres
e discípulos vieram a pé pelo caminho que Gonçalo Cadilhe descreve. Não se pode dizer que a Universidade estava parada”,
ironiza o prof. de Física, cientista, ensaísta e grande divulgador de Ciência, a propósito da viagem de uma semana,
a pé como se viu, que Fernando de Bulhões, o futuro Santo António, fez entre a capital do reino e a cidade em cuja
universidade veio ensinar - e que é comentada no novo livro daquele ‘escritor-caminhante’

C
CARLOS FIOLHAIS
anterior, num percurso que Cadilhe e está hoje em Coimbra. Andou,
refez (um ponto alto do seu livro, durante a Idade Média, entre Lisboa
em sentidos real e figurado, é a sua e Coimbra. Sempre me interroguei
passagem dos Alpes). como é que a Universidade veio de
Os últimos anos da vida de Lisboa para Coimbra. Agora já sei: os
António são bem conhecidos, pois poucos mestres e discípulos vieram
a sua fama de pregador e milagreiro a pé pelo caminho que Cadilhe
não parava de crescer (quem não co- descreve. Não se pode dizer que a
nheça a biografia leia Santo António, Universidade estava parada.
de Agustina Bessa-Luís, que acaba Numa longa viagem há tempo
de sair na Relógio d’Água). Morreu para observar, conversar, refletir. E
nas imediações de Pádua, a 13 de há surpresas. Destaco dois episó-
junho de 1231. É por isso que o poeta dios pícaros: o encontro matinal do
Pessoa, nascido em Lisboa nesse caminhante com dois bêbedos em
Corria o ano de 1212 quando Fernando mesmo dia do ano, foi batizado com Azinhaga do Ribatejo (eu diria que
de Bulhões, nascido em Lisboa 17 o nome de Fernando António. Santo na Idade Média os antepassados da-
anos antes, fez a primeira viagem da António tornou-se, rapidamente, no queles ébrios já bebiam) e o encontro
sua vida. Caminhou, como era uso na português mais global de todos os de um sofá à porta de um cemitério
época, de Lisboa até Coimbra, desde tempos (rivalizará, nesse título, ape- em Casais, Tomar (aí a morte bem
o Mosteiro de São Vicente de Fora nas com Fernão de Magalhães, cuja pode esperar sentada). Qual foi para
para o Mosteiro da Santa Cruz, os dois rota à volta do mundo Cadilhe tam- o autor a melhor etapa da sua via-
da Ordem dos Cónegos Regulares de bém seguiu, relatando-a num outro gem? Encontrou, quase no fim, de
Santa Cruz. Queria fugir do bulício da livro, Nos Passos de Magalhães). Fonte Coberta para Conímbriga, “o
capital, onde a proximidade da famí- troço mais arrebatador, emblemáti-
lia impedia o recolhimento que dese- O SÉCULO XIII, EM PLENA IDADE co e gratificante de toda a caminha-
java. Deixou de ler na boa biblioteca MÉDIA CRISTÃ, foi um período da.” Eu, que conheço essa parte do
dos crúzios em Lisboa para passar a extraordinário. Nele viveu um outro trajeto, não o posso desmentir.
ler noutra que não lhe ficava atrás (e português global, Pedro Julião A marcha do tempo é um ca-
que o jovem bibliotecário Alexandre ou Hispano, também de Lisboa, minho de avanço da velocidade.
Herculano, quando foram abolidas as que foi em 1276-77 o único papa Em 1798 a primeira mala-posta
ordens religiosas em 1834, carregou português, sob o nome de João demorou 40 horas de Lisboa a
para o Porto). Fernando tornar-se-ia XXI. Pedro Hispano terá tido como Coimbra. Quando, em 1884, o
António faz agora 800 anos, quando condiscípulos na Universidade de primeiro comboio chegou, vindo de
se mudou de Santa Cruz, na Baixa Paris grandes nomes da Igreja: São Santa Apolónia, a Coimbra B, levava
coimbrã, para um eremitério nos Tomás de Aquino, dominicano, e São mais de três horas de viagem. Hoje
arredores da urbe, cujo orago era Boaventura, franciscano. António, regresso de Lisboa a Coimbra pela A1
Santo Antão, que estava ocupado por tendo-se alimentado das bibliotecas em menos de duas horas e acho que
estranhos frades vindo de Itália, da monásticas portuguesas, também nunca mais chego a casa. Vivemos
nova ordem que tinha sido funda- foi um académico nas universidades com a fúria da velocidade.
da em 1209 por Francisco de Assis. de Bolonha, Toulouse e Montpellier. Em 1909, o italiano Marinetti
No sítio está hoje a Igreja de Santo Santo António Pintura de Tiepolo Os sermões que chegaram até nós glorificou no seu Manifesto Futurista
António dos Olivais, pois o nome são bastante eruditos. A universi- a “beleza da velocidade”: “Um
universal do então novo franciscano é dade é, de resto, um dos maiores automóvel de corrida com seu
Santo António. legados medievais: a primeira, entre cofre enfeitado com tubos grossos,
A sua viagem de Lisboa para ção, O caminho do pequeno António. saído em 2016 também no Clube de nós, foi criada em Lisboa em 1290, a semelhantes a serpentes de hálito
Coimbra terá demorado oito dias, Será talvez um exagero chamar Autor, no qual Cadilhe conta a revisi- pedido dos priores de São Vicente de explosivo... um automóvel rugidor,
cerca de 25 quilómetros por dia. “pequeno” ao “jovem” que fez a tação que empreendeu do percurso de Fora e de Santa Cruz, entre outros, que corre sobre a metralha, é mais
Oito séculos mais tarde o escri- viagem. Tendo falecido com 35 vida do santo. O frade, muito impres- belo que a Vitória de Samotrácia.”
tor-caminhante Gonçalo Cadilhe anos (acima da média da idade na sionado com o caso de seis francisca- Escreveu Álvaro de Campos, o
repetiu o trajeto, adivinhando o seu Idade Média), estava então a meio nos mortos em África (os “mártires engenheiro seduzido por Marinetti:
pormenor, na falta de relato direto. da sua vida: teria cerca de 40 anos de Marrocos”), decidiu percorrer “Numa velocidade crescente,
Deve ter ido em parte por aquilo que se quisermos colocá-lo nos tempos o caminho inverso ao da sua vinda insistente, violenta, Hup-la hup-la
é o Caminho Português de Santiago de hoje, em que a longevidade de Lisboa (o caminho de Fernando hup-la hup-la.” Alberto Caeiro, em
(Caminho Central), já então percor- ultrapassa os 80 anos. O título que tornou-se o caminho de António) e contraste, critica a pressa: “Não te-
rido, que passa por Santarém, Tomar ficou definitivo é forte, evoca Fausto, prosseguir para Sul, com a ânsia de (Santo) António, nho pressa. Pressa de quê?/ Não têm
e Alvaiázere. O resultado é o interes- não o de Goethe, mas o Bordalo Dias. converter o Magreb. Uma doença tendo-se alimentado das pressa o sol e a lua: estão certos./
santíssimo livro que acaba de sair no De facto, uma parte da viagem foi grave fê-lo, porém, voltar para trás. Ter pressa é crer que a gente passa
Clube de Autor com o título Por este feita literalmente por esse rio acima, Não voltou, porque uma tempestade bibliotecas monásticas adiante das pernas,/ Ou que, dando
reino acima e subtítulo No primeiro numa barcaça a subir o Tejo até violenta no Mediterrâneo levou-o até portuguesas, também um pulo, passa por cima da sombra.
trekking da História de Portugal (216 Valada do Ribatejo. à Sicília e daí, por essa Itália acima, Não; não sei ter pressa.”
pp., 16 euros). Li-o em menos tempo Eu já conhecia a prosa escorreita caminhou até Assis, onde conheceu
foi um académico e os Gonçalo Cadilhe, ao propor-nos
do que demora a ir a pé de Lisboa a do escritor da Figueira da Foz, autor o fundador da ordem que tinha feito sermões que chegaram este trekking que nos permite recuar
Vila Franca de Xira. de 13 outros livros de viagens. Em sua. Mais tarde faria uma longa via- à Idade Média, não faz mais do que
O livro de Cadilhe esteve para se particular, tinha lido Nos Passos de gem ao Sul de França, onde a heresia
até nós são bastante exaltar a beleza da lentidão, uma
chamar, revela o autor na introdu- Santo António. Uma viagem medieval, cátara se tinha espalhado no século eruditos beleza de que necessitamos.J
26 IDEIAS ↗

COLUNA
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

Chega: a direita radical,


frustrado por parte das elites sociais-demo-
cratas, e por isso este partido é apresentado
como um grito de revolta contra o status
quo partidário. São ainda analisadas as

plebeia e ultraliberal
eleições europeias de 2019 (em que o Chega
liderou uma lista conjunta, “Basta”, com o
PPM, o PPV e a Dem21), as legislativas de
2019 (quando André Ventura chega à AR),
as atribulações na legalização do Chega, a
sua construção organizacional e os casos
(positivos e negativos) do partido na arena
parlamentar e mediática, nomeadamente o
programa ultraliberal do partido, e o caso
do conselheiro António Sousa Lara (recipi-
ente de uma subvenção vitalícia por cargo
HETERODOXIAS POLÍTICAS
S político, tipo de subvenção essa combatida
ardentemente pelo partido).

E
André Freire Na segunda parte são analisadas “as
ideias” do Chega em termos de “identidade”,
“economia”, “família e educação”, “imi-
gração”, “Europa”. O partido é apresentado
ste texto é sobre como uma força de direita radical que se
o Chega, desde a quer a si própria como plebeia (p. 49), mas
rebelião interna no que, paradoxalmente, se apresenta de facto
PSD até ao partido com um programa político ultraliberal, pelo
de direita radical, menos quanto ao papel socioeconómico do
ultraliberal e alega- Estado, e simultaneamente com um grande
damente anti-sis- conservadorismo na esfera dos costumes e
tema. Tomo como estilos de vida (contra o aborto, mas sem cri-
ponto de partida o minalizar as mulheres; contra o casamento
livro de Ricardo Marchi (RM) A Nova Direita homossexual, mas reservando-lhes a união
Anti-Sistema. O Caso do Chega, (Edições 70, de facto; contra a eutanásia, porque não quer
2020, 208 pp., 14,90 euros). Começo por o Estado a imiscuir-se na vida das pessoas),
apresentar o autor, a estrutura do livro e as bem como da imigração (exigindo limita-
suas teses, bem como a relevância do estudo. ções à imigração, especialmente a de origem
Na segunda secção, apresento os pontos islâmica; exigindo assimilação dos imigran-
fortes. Termino com as maiores fragilidades tes às normas e costumes do país, opondo-se
da obra. terminantemente ao multiculturalismo).
Ultraliberal na economia (pretende desig-
A RELEVÂNCIA DA OBRA, A SUA ESTRU- nadamente privatizar extensamente todas as
TURA E O PERFIL DO AUTOR funções do Estado, exceto as de soberania),
Ponto prévio: qual a relevância do Partido mas só mesmo na arena doméstica, porque
Chega? O que nos ocorre primeiro é que no campo internacional pretende ser nacio-
a dimensão eleitoral (66442 votos ao ní- nalista e protecionista. A teorização sobre
vel nacional, 1,3%) e parlamentar (1/230 é o tipo de partido que o Chega representa
igual a 0,4%) do partido indicam uma força vem apenas nas conclusões, e mesmo aí sem
política a roçar a irrelevância, pelo menos do referências bibliográficas (são referidos Cas
ponto de vista estatístico. Seja como for, a Mudde e Piero Ignazi, mas nenhuma das suas
relevância do Chega (tal como da Iniciativa obras consta na bibliografia): um partido
Liberal - IL - e do Livre) é tripla. Por um lado, de direita radical e não de extrema-direita
acederam à representação parlamentar com Ricardo Marchi “Um estudo relevante, com vários pontos positivos, mas também com fragilidades” porque a radicalidade das suas propostas
uma lei eleitoral que os impedia de aceder pretende ser implementada respeitando as
aos debates com os grandes na TV: é obra. regras democráticas; um partido de nova
Por outro lado, e sobretudo para os casos do direita porque renega as direitas fascistas do
Chega e da IL, são partidos de grande radi- período de entre guerras.
calidade nas propostas, o que consubstancia pontifica como “ideólogo” Jorge Castela
uma notável inovação. Finalmente, sobretudo (advogado, com percursos na direita parti- OS PRINCIPAIS PONTOS FORTES
no caso do Chega, desde as legislativas de dária, nomeadamente na área do CDS-PP), PRIMEIRO: o livro está muito bem escrito,
2019 que as sondagens lhe dão a expectativa que acabará por sair em rota de colisão com o lê-se muito bem, e está muito bem docu-
de um forte crescimento, de 1,3% para cerca Será que a sua deriva anti- partido (nomeadamente no contexto das ir- mentado em matéria de fontes primárias e
de 5%-6% (pp. 123-124; sondagens compila- partidos e anti-classe política, regularidades na legalização do partido junto de imprensa escrita, pese embora a incom-
das pela Marktest, janeiro a junho de 2020). do TC: janeiro – abril de 2018), e a segunda preensível ausência de uma bibliografia
Estabelecida a relevância da obra, uma bem como a sua pressão sobre fase, que perdura até à atualidade, onde académica. SEGUNDO: é uma obra muito
nota sobre o autor. Doutorado em História elementos chave da ordem pontifica como “ideólogo” Diogo Pacheco do detalhada e bastante bem alicerçada no
Moderna e Contemporânea e licenciado Amorim (ex-CDS-PP e ex-PND), designada grande manancial de dados utilizados, sobre
em Ciência Política, RM é investigador de
constitucional portuguesa e como de “liberal-conservadorismo europe- o percurso político do Chega e do seu líder
pós-doutoramento do Centro de Estudos europeia não devem merecer- ísta” (p. 52 e p. 136). desde 2017 até à atualidade, sendo por isso,
Internacionais, do ISCTE-IUL, onde é tam- do meu ponto de vista, uma obra incon-
bém professor convidado. Tem vários livros
nos pelo menos uma cautela CURIOSA, DESIGNADAMENTE DO PONTO tornável para se compreender o Chega.
e artigos em revistas académicas sobre as di- crítica e problematizadora? DE VISTA do seu significado substantivo, é a TERCEIRO, finalmente, é de sublinhar a cada
reitas radicais, e tem participado em projetos asserção de RM de que as tensões ideológicas passo da análise uma certa tentativa de fazer
de pesquisa sobre este tema. É, portanto, um internas que sempre caracterizaram a curta uma apresentação tão analítica quanto pos-
estudioso com provas dadas neste domínio. vida do partido, foram sempre resolvidas em sível, simultaneamente descritiva, analítica
O estudo baseia-se em 22 entrevistas a e quando foi catapultado para a projeção favor de uma suposta ala social-democrata e crítica.
dirigentes do Chega, realizadas em 2019 e nacional devido a declarações “politicamente (onde pontificariam Ventura e Nuno Afonso,
2020, bem como no escrutínio de documen- incorretas” sobre a excessiva condescen- ambos ex-PSD): “O liberalismo de Castela AS PRINCIPAIS FRAGILIDADES PRIMEIRO:
tos do partido e de peças jornalísticas. Na dência com que seria tratada a comunidade aponta para uma redução do sector público, um desejo implícito de normalização do
primeira parte (134 do total das 206 páginas), cigana, e o seu alegado incumprimento das menos partilhada pelos fundadores vindos Chega. Um exemplo: na introdução Marchi
Marchi apresenta-nos o percurso pessoal leis e regras da República. da social-democracia” (p. 59). Recorde-se diz-nos que a Almedina se lhe pediu um tal
do líder do Chega, desde que liderou pelo Nesta parte, são ainda analisadas as di- que o Chega é apresentado como fruto de estudo, mas que simultaneamente lhe pediu
PSD uma coligação com o CDS-PP (depois ferentes fases da vida do partido, nomeada- um movimento de rebelião interna no PSD que não fosse nem uma obra apologética,
denunciada por este partido) e o PPM, à mente a fase “nacionalista liberal, conser- contra Rui Rio (2018), protagonizado por nem uma tentativa de demonizar o Chega.
Câmara de Loures, nas autárquicas de 2017, vadora, personalista e não europeísta”, onde Ventura, inicialmente apoiado, mas depois Todavia, o autor deixa escapar uma vontade
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT IDEIAS 27 CRÓNICA

A representação do mundo…
subjacente de normalizar o Chega: na intro-
dução, são apresentados sete traços “extre-
mamente positivos” do partido, mas nem
um único traço negativo (pp. 16-17). Será
que, por exemplo, a sua deriva anti-partidos
e anti-classe política, bem como a sua pres-
são sobre certos elementos chave da ordem
constitucional portuguesa e europeia (ver à
frente) não devem merecer-nos pelo menos
uma cautela crítica e problematizadora do
que de menos positivo pode vir por aí? A PAIXÃO DAS IDEIAS
Guilherme d’Oliveira Martins

A
SEGUNDO: Como já disse, o Chega assu-
me-se claramente como uma direita plebeia
na linha da direita bonapartista na tradição
francesa (o partido da ordem de Napoleão e
os oportunistas na III República, os movi- o reunir em livro um conjunto de cerca qu’en répondant: ‘Parce que c’était lui, parce que c’était moi’”. É uma
mentos anti-Dreyfus, as ligas do período de 40 crónicas radiofónicas, Lídia Jorge das mais belas referências à amizade na literatura de sempre. E Lídia e
entre guerras, o poujadismo, o gaulismo, (LJ) apresenta Em Todos os Sentidos (D. Pierre conversaram sobre isso. Falaram do “fruto da clarividência que
a Frente Nacional): “Três são os segmen- Quixote, 264 pp., 14,90 euros) reflexões sobressai nas grandes épocas de perda e de ameaça…” e no que acontece
tos que lhe interessam: a direita clássica do que prendem o leitor da primeira à última “quando um olhar inteligente abrange de relance o passado e o futuro,
mundo rural e das elites mais conservado- página num encadeamento notável, no percebendo que o tempo histórico se desloca por ondas de avanço e
ras; as bases populares do interior do país; qual se manifestam as qualidades há mui- recuo, e dessa inquietação surge uma proposta nova”.
os subúrbios das grandes cidades (p. 49).” to reconhecidas da autora. Começando Ainda no registo do ensaio, somos levados a um poema de Emily
Nesta linha e tendo em conta, por um lado, a pela designação de crónicas, devo dizer Dickinson, com tradução de Ana Luísa Amaral, na exposição sobre o
tradição da direita bonapartista e, por outro que muitas vezes estamos perante verdadeiros ensaios, género em que Cérebro, na Gulbenkian. “O poema de Emily Dickinson promete, além da
lado, os inúmeros estudos sobre as prefe- LJ há muito se evidencia. Basta lembrarmo-nos de Contrato Sentimental vastidão, uma fusão entre matéria e espírito, e um sentido”… “Mais vasto
rências dos portugueses ao longo do tempo (2009) para ficar claro como a romancista sabe muito bem lidar com o Cérebro – que o Céu - / Pois – lado a lado os põe - / E um facilmente
(esmagadoramente a favor da intervenção do a reflexão, não apenas na construção romanesca, mas também na conterá / O outro – e a Ti – também. / Mais fundo o cérebro que o mar - /
estado na sociedade e na economia, sobretu- consideração dos problemas mais relevantes da vida contemporânea e Pois – mede-os – Azul a Azul - / E aquele o outro absorverá / Tal como – o
do em matéria de Saúde e Educação) é muito na busca de um sentido ético, cívico e existencial para a humanidade. Balde – à Esponja - / Um peso igual, Cérebro e Deus - / Pois – Pesa-os –
curioso que Marchi não veja uma contradição Partindo do quotidiano, chegamos depressa à essência das coisas. Libra a Libra / E a distinção – se tal houver - / É como o som da sílaba”. A
insanável entre a vertigem plebeia do Chega e Se durante a crise financeira de 2008, a autora nos deixou conside- relação entre a Arte e a Ciência torna-se avassaladora, sendo biunívoca,
o ultra-liberalismo. Esta é a segunda grande rações extremamente pertinentes sobre as ilusões do curto prazo, sobre como a criatividade e o paradoxo dos pequenos robôs. E, num momento, a
fragilidade da obra. a idolatria dos bezerros de ouro e sobre a tentação de oscilarmos entre ensaísta, pronta a perceber a liberdade e a determinação, vê-se impedida
considerarmo-nos “heróis do mar” ou ser lixo de voltar atrás, ao princípio, pela lógica do espaço
TERCEIRO: do ponto de vista das regras no perverso julgamento das agências de rating, e do tempo…
básicas da produção cientifica nas ciên- encontramos a preocupação essencial de ir ao
cias sociais e políticas, este é um estudo encontro da compreensão de que o tem mais OS TEMAS SUCEDEM-SE. Numa tentativa de
esdrúxulo pois não há nem teoria, que valor não tem preço. E, ao contar uma história definição da Europa, partindo de um poema do
geralmente aparece nos capítulos iniciais, passada consigo, quando procurava desesperada- mexicano José Emílio Pacheco, diz-nos: “Talvez
nem bibliográfica académica; o esboço de mente uma capa para o modelo já desatualizado nós não amemos a Europa, mas se fosse neces-
teorização só aparece nas conclusões. O de telemóvel (com apenas três anos de idade), sário, ainda que soasse mal, talvez déssemos
estudo está demasiado colado aos factos e lá descobriu graças a uma balconista zelosa um a nossa vida para preservar alguns dos seus
à linguagem da luta política (por exemplo, utensílio de aspeto rebarbativo mas no essencial incunábulos, algumas das suas catedrais, algu-
os “temas fraturantes” são uma referência útil, ainda por cima com um inesperado desconto mas das suas sinfonias, ou o estado social que
constante). Sente-se naturalmente a falta por se estar num Black Friday… nos aproxima uns dos outros. Depois de tanta
de uma teorização inicial sobre a direita e as Mas porquê uma tal designação tão estranha? batalha sangrenta, tantas fronteiras de ferro,
direitas, as diferentes famílias e subfamílias, Ao que parece (num tempo de tantos pruridos e cidades vizinhas inimigas de morte, a proposta
o que as une e as distingue, como evoluíram más consciências) a explicação parece ser esta: de uma moeda única e de livre circulação de
ao longo do tempo, não só para se perceber na cidade do Cabo, na África do Sul, “diz quem, pessoas e bens é uma oferenda de paz que se
melhor onde podemos e devemos colocar o mostra as gaiolas da escravatura que antigamente, faz aos mortos”… E, falando do mais nobre dos
Chega, teorizações essas que depois deve- em certos dias de sexta-feira, antes do fim-de- conceitos de dignidade e de identidade, lemos
riam orientar e iluminar as análises empíri- -semana, os escravos mais franzinos, os mais o testemunho do encontro da jovem Lídia com
cas posteriores. velhos, os que não tinham dentes, eram vendi- o avô José Jorge Júnior. “A casa já cá não está,
dos ao desbarato…”. A explicação é bizarra, mas porque tudo se transformou num espaço raso
QUARTO: em muitos casos, o estudo dis convincente. O seu uso nos dias de hoje revela-se Lídia Jorge onde os tomilhos vão crescer, mas contrariando
tancia-se pouco da forma como o partido se absurdo, pois a expressão esclavagista não poderia o descampado aberto, onde nada ficou, eu vejo
apresenta a si próprio na arena pública, ou ser mais evidente, quando temos necessidade do a entrada da casa do Aroal como ela era, ouço
problematiza pouco ou nada determinadas mais elementar bom senso, em especial no respeito efetivo dos direitos uma voz e vejo a silhueta de um homem idoso sentado, de perfil, como
contradições insanáveis nas suas propostas. fundamentais, em lugar de ressentimentos e complexos. E LJ termina a re- se o ultimo encontro com o meu avô Jorge tivesse acontecido ontem. Foi
Que dizer, por exemplo, da combinação flexão, dizendo: “Enganemo-nos uns aos outros, compremos inutilidades há muito tempo”…
entre o ultraliberalismo na esfera doméstica sem fim. Mas, na dúvida, não lhe chamem Black Friday”… É a marca da memória que aí está bem expressa. Mas também no exem-
e o protecionismo na arena internacional? E plo sublime da Maria Inácia, que eu conheci bem de toda a vida, e que pôde
não será que uma tal proposta protecionista SE FALO DO TOM ENSAÍSTICO, não posso deixar de apontar um defender heroicamente o órgão de Boliqueime – num extraordinário paralelo
viola grosseiramente a ordem para-consti- verdadeiro ensaio testemunhal intitulado “Montaigne e o Amigo”, a com a memória de Leipzig, das igrejas de S. Nicolau e de S. Tomé… É verdade
tucional europeia das liberdades de movi- propósito da oferta que Pierre Léglise-Costa, um amigo comum, lhe que não era a memória de Bach a estar em causa, mas sim a opus 24 de 1789
mentos, empurrando-nos para sair da UE se fez e do avisado conselho que construída por António Xavier Machado e Cerveira, irmão de Machado de
fosse levada a sério? E será anti-sistema um deu a Lídia – “Relê o capítu- Castro… E que há de mais importante senão uma memória viva?
partido ultraliberal, quando uma tal abor- lo sobre a amizade, e lê este O encontro com Agustina neste conjunto de crónicas é fantástico, no
dagem exalta o sistema capitalista? O Chega livro, o do amigo desaparecido, sentido literal do termo. Não vou, obviamente, contar a peripécia, mas
pretende “acabar com a III República rumo a que Montaigne fez publicar”. posso dizer que é digna de um mistério romanesco, mais de Edgar A. Poe
uma IV República” através de um referendo Devo acrescentar que estava Reflexões que do que de Simenon – o pobre, coitado. Tudo começou numa viagem de
constitucional, mas não será que tal pro- em causa La Boétie, o au- prendem o leitor num comboio, e na descoberta por Agustina de um português, sem que LJ pu-
posta viola a ordem constitucional vigente, tor do magistral Discurso da desse suspeitar. Ninguém se parecia com a típica imagem de um português
democraticamente instituída, dado que tais Servidão Voluntária, que não encadeamento notável, emigrante. Mas, a verdade é que Agustina tinha toda a razão, era mesmo
referendos são proibidos pela CRP? E que di- teria chegado até nós se não pelas qualidades há um português, que ali apareceu com grande prosápia literária. A autora de
zer da limitação de direitos fundamentais de fosse Montaigne, não ape- Sibila identificara-o pelo mover dos lábios. Foi surpreendente o acerto…
determinadas categorias de pessoas em certo nas pela amizade, mas pelo muito reconhecidas de “Curiosamente, é um homem de compleição germânica, que já se levanta,
tipo de processos judiciais (p. 143)? Enfim, reconhecimento do génio do Lídia Jorge. Crónicas já se aproxima, curva-se na direção do nosso assento e começa a falar
um estudo importante, relevante, com vários seu amigo. “Si on me presse de português”. Nada devo dizer mais, porque o que se vai passar só é relevante
pontos positivos, mas também com fragilida- dire pourquoi je l’aimais, je sens
que muitas vezes são se for descoberto pelo leitor, na descrição minuciosa de Lídia Jorge e no
des fortes. J que cela ne se peut exprimer, verdadeiros ensaios carácter inimaginável de Maria Agustina…J
28 IDEIAS ↗

CRÓNICA
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

As máscaras do mal
Na crise global do ambiente

ECOLOGIA
Viriato Soromenho-Marques

N
o nosso ensaio a desprezada maioria feminina, ou sobre
publicado na minorias de todo o tipo, foram justificadas
anterior edição em nome da expansão do cristianismo,
do JL analisá- ou como dores de parto passageiras da
mos a conceção apoteótica construção de uma civilização
de “banali- global, que, depois de assaltar os céus,
dade do mal”, tomaria nas suas mãos o leme sobre o seu
proposta por destino.
Hannah Arendt,
a partir do seu estudo do caso do líder nazi, A DESOBEDIÊNCIA ÉTICA Infelizmente, o
Adolf Eichmann, julgado e executado em leme da emancipação moderna partiu-se e
Israel (1962) pelo seu papel no Holocausto. o barco onde habitam quase 8 mil milhões
Nesta breve reflexão tentaremos seguir de criaturas está à deriva, sem rumo nem
duas pistas principais que nos poderão aju- cartas de marear. O mundo contemporâneo
dar a perceber até que ponto esse conceito liquidou a política como espaço de delibe-
de banalidade do mal pode ser útil para ração e entregou-se a um fatalismo muito
compreender a estrutura moral da crise pior do que aquele que na tragédia grega
global do ambiente. era atribuído ao capricho dos deuses. Hoje
o destino é o comboio sem travões de uma
OS OLHOS VENDADOS DA sociedade que se atrelou aos automatismos
MODERNIDADE Não existe ato (i)moral da economia mundial de mercado. Nem
sem a consciência da linha divisória entre sequer temos o coro trágico para nos avisar.
o bem e o mal. Do humanismo renascen- Estamos sozinhos, dentro de uma espécie
tista ao niilismo oitocentista, culminando de máquina do juízo final. Se a deixar-
no neodarwinismo e nas outras grandes mos funcionar a todo o vapor, poderemos
narrativas histórico-políticas do século almoçar e jantar, mas estaremos a tornar
XX, muitas foram as efabulações moder- inevitável o colapso ambiental e climático
nas que contribuíram para tornar cada vez Poluição junto ao rio global, num horizonte que se irá acumulan-
menos óbvia essa barreira, enfraquecendo do ao longo das décadas, até se transformar
a espontaneidade do imperativo categórico numa realidade hostil e inabitável. Se a
da ética kantiana, a única que na minha quisermos reformar, ou travar o seu curso,
leitura poderá mais decisivamente contri- trada e bacias hidrográficas contaminadas A modernidade produziu não ape- corremos o risco de descarrilar o siste-
buir para uma reconstrução da problemá- dificilmente deixará de sentir um sobres- nas modelos de neutralização moral, que ma inteiro, transformado a inércia numa
tica ética nestes tempos de atribulada crise salto, mesmo que de curta duração. O mes- excluíram grande parte do mundo ma- implosão caótica de estilhaços cortantes. É
existencial contemporânea. mo se passa na crueldade organizada que terial objeto da intervenção humana da a esta situação aparentemente aporética que
O princípio da universalidade presen- preside ao uso de animais para a alimen- necessidade da esfera do consideração e do Naomi Klein chamou o calabouço planetá-
te na ética kantiana, isto é, a necessidade tação humana. A generalização das visitas juízo éticos, como construiu narrativas que rio em que o neoliberalismo sequestrou a
de agir moralmente como se a máxima da aos matadouros, mesmo nos países mais valorizaram moralmente toda a espécie de história humana. É isso, também, a “eco-
nossa ação pudesse constituir-se como uma desenvolvidos, faria mais pela diminuição crimes e abusos. A situação de catástrofe nomia que mata”, na corajosa expressão do
lei universal para um mundo possível, foi dos vários malefícios das dietas carnívoras ambiental em que estamos mergulhados Papa Francisco.
sendo reduzida por sucessivas reduções e do que milhares de páginas favoráveis ao hoje até ao pescoço foi justificada pela ban- Não surpreende que a ética se tenha
restrições. Desde logo, a rutura ontológica vegetarianismo. da sonora da emancipação humana. Pela fragmentado em muitas deontologias
em que se fundamenta a tecnociência mo- glorificação do engenho tecnológico, do ta- particulares, pois um horizonte unifica-
derna. A separação cartesiana entre a coisa lento empreendedor. A mais densa e tóxica dor há muito se perdeu ou deixou de ser
pensante (res cogitans) e coisa extensa (res poluição, era amaciada como o preço suave credível. Antes de perdermos a capacidade
extensa) que vai dispensar-nos completa- da riqueza cada mais volumosa, ou como o de deliberação moral, perdemos a liber-
mente de qualquer reserva moral no modo cadinho da formação de uma classe operá- dade de que essa deliberação depende. A
como nos comportamentos com a Natureza, ria que iria, num ato messiânico, concluir a liberdade que consiste na convicção de que
incluindo os animais. história abolindo a exploração das classes e a nossa ação individual, conjugada com
Muitos modernos não foram tão longe instalando a justiça universal. todas as outras, pode fazer a diferença no
como Descartes – recordem-se os textos Mas a ocultação do mal não foi exerci- desenho e orientação do futuro, Na era da
educativos de Condorcet sobre o valor A situação de catástrofe da apenas sobre a Terra, sobre as paisa- crise global do ambiente, a banalidade do
moral da gentileza para com os animais ambiental em que estamos gens, a diversidade biológica, ou as forças mal manifesta-se mais pela demissão do
- na indiferença pelo sofrimento dos telúricas da água e do ar. A modernidade que pela cumplicidade ativa. Na verti-
animais (considerados máquinas sem mergulhados foi justificada foi também uma máquina de narrati- gem do comboio sem freio onde estamos
consciência), mas o mundo em que vive- pela banda sonora da vas justificativas da exclusão, violência, embarcados, paralisa-nos o mal difuso que
mos é cartesiano. dominação e extermínio de outros seres nos transforma em vítimas impotentes.
Quem sobrevoe os campos canadia- emancipação humana, pela humanos. A escravidão, os massacres de Por isso mesmo, cada vez mais o difícil
nos, russos ou brasileiros onde se devora a glorificação do engenho povos inteiros nas campanhas coloniais, caminho da recuperação da dignidade que
paisagem para extrair areias betuminosas, a criação de uma nova servidão da gleba só a liberdade permite será, cada vez mais
níquel ou ouro, dizimando florestas mile-
tecnológico, do talento nas cidades da Revolução Industrial, e frequentemente, um ato de desobediência
nares e deixando um rasto de terra esven- empreendedor tantas outras formas de segregação sobre económica, civil e política. J
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT DEBATE-PAPO 29 ↗

Diálogos improváveis
Não seriam amigos, talvez, se parti-
lhassem o mesmo corte temporal.
Ainda que fossem vizinhos, o apelo do
mundo seria diverso para atender às suas
demandas inegociáveis.
Tornaram-se próximos, apenas e tão
somente, porque distantes, e através
da leitura, formidável máquina do

RUMOR DE FUNDO tempo, que rompe barreiras de todos


os géneros e promove a cultura da boa
vizinhança.
Marco Lucchesi

S
Duas almas inquietas em busca de paz.
A ira sinaliza uma disfunção, cujo re-
médio consiste na prática do adiamento,
na resposta temperada, nunca irrefle-
éneca foi um A morte de Séneca de Rubens tida. Bela, a ideia de escala, na ofensa
dileto amigo de "Séneca e Montaigne se aproximam, individual dentro de uma dimensão que
Montaigne. Foi na medida exata em que se ultrapassa o indivíduo e rompe, em pers-
distanciam. Irredutíveis. A música
sem saber que petiva, os atributos da cólera e demais
de fundo empresta-lhes um tom
seria. Amigo no familiar, mas o canto de cada qual vicissitudes.
campo ideal, das possui um timbre inconfundível" O diálogo entre Séneca e Montaigne
afinidades eleti- possui uma série de modos complexos.
vas. Como Dante e Ambos se aproximam, na medida exata
Virgílio, Goethe e em que se distanciam. Irredutíveis. A
Hafez. A espessura do logos vence a dis- música de fundo empresta-lhes um tom
tância de séculos. Amizade de mão única, familiar, mas o canto de cada qual possui
improvável. E, no entanto, ocorrida, à um timbre inconfundível.
revelia. Séneca me acompanhou na juventu-
Montaigne é um asceta dos livros, viajante de, quando mal sabia modular as in-
imóvel, a percorrer o mapa-mundi de sua bi- Séneca é um anfíbio, tensidades que me feriam. E segue vivo
blioteca, solitário, entre as vozes do passado e entre o mundo e a para mim: jamais abandonei as Cartas
do presente, com a bússola, inquieta e febril, a Lucílio, manancial de beleza viril e
que aponta para o não-saber. solidão, entre o espaço mansidão.
Séneca é um anfíbio, entre o mundo e a de poder e a oficina do Nos dias que correm a voz de Séneca é
solidão, entre o espaço de poder e a oficina um antídoto eficaz contra a ignorância e
do pensamento, a cidade e a natureza, ditan-
pensamento, a cidade a barbárie. O tratado da ira abre espaço
do cartas e tratados memoráveis. Sua morte e a natureza, ditando para uma refundação, desde o famoso
encerra um gesto filosófico maior, prova adágio, de que o bem e o belo se conver-
cabal de rigor estoico e adesão a princípios
cartas e tratados tem. E que sua alta condição ilumine as
graves. memoráveis dissonâncias da ordem mundial.J

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A viagem a Granada PROPRIETÁRIA/EDITORA: TRUST IN NEWS, UNIPESSOAL LDA.


SEDE: Rua da Fonte da Caspolima – Quinta da Fonte,
Edifício Fernão de Magalhães, nº8, 2770-190 Paço de Arcos
NIPC: 514674520
GERÊNCIA DA TRUST IN NEWS: Luís Delgado,
Filipe Passadouro e Cláudia Serra Campos.
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PROPRIETÁRIA: 10.000,00 euros

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PRINCIPAL ACIONISTA: Luís Delgado (100%)

J
PUBLISHER: Mafalda Anjos

António Mega Ferreira


JORNAL
DE LETRAS,

A
ARTES E
IDEIAS
À Catarina e ao João Paulo, que me levaram a Granada palácios nasridas, consagrando um domínio e afirmando um poder DIRETOR: José Carlos de Vasconcelos

invencível.
palavra Granada entrou na minha A Alhambra, tal como a conhecemos, é obra da última dinastia
REDATORES E COLABORADORES PERMANENTES: Maria Leonor Nunes,
vida nos anos finais da década de árabe de Granada, a que governou durante 250 anos o reino que Manuel Halpern, Luís Ricardo Duarte, Afonso Cruz, Agripina Carriço
1950, sob a forma de uma grava- tinha a cidade por capital. No apogeu, havia dentro dos seus muros Vieira, André Freire, André Pinto, António Carlos Cortez, António
Mega Ferreira, Boaventura de Sousa Santos, Bruno Bénard-Guedes,
ção de 45 r.p.m do cantor norte- seis palácios, uma mesquita, um quartel, um zoo e um aviário – e o Carlos Reis, Daniel Tércio, Eduardo Lourenço, Eugénio Lisboa, Fernando
Guimarães, Guilherme d’Oliveira Martins, Gonçalo M. Tavares, Helder
americano Mario Lanza, que era complexo podia acomodar umas quarenta mil almas. O segredo da Macedo, Helena Simões, Jacinto Rego de Almeida, João Ramalho Santos,
então considerado o maior tenor do resistência dos nasridas ao assédio contínuo e infatigável das tropas Lídia Jorge, Manuela Paraíso, Maria Alzira Seixo, Maria Emília Brederode
Santos, Maria José Rau, Maria João Fernandes, Maria Augusta Gonçalves,
mundo, absoluto então como agora dos reis de Castela e Aragão reside no facto de o reino de Granada, Miguel Real, Miguel Sanches Neto, Onésimo Teotónio de Almeida,
muito contestável. De forma pujante, próspero e ligado ao mar pelos portos de Málaga e Almería, se ter Paulo Guinote, Patrícia Portela, Tiago Patrício, Valter Hugo Mãe
e Viriato Soromenho-Marques
heroica, quase estentórica, Lanza mantido estável sob o domínio daquela dinastia, cujos reis, nego- OUTROS COLABORADORES: A. Campos Matos, Álvaro Laborinho Lúcio,
dava voz às palavras e à música que o inspiradíssimo mexicano ciando aqui, submetendo-se ali, vencendo escaramuças acolá, de- André Pinto, António Cândido Franco, António Pedro Pita, Arnaldo
Saraiva, Carlos Fiolhais, Fernando J. B. Martinho, Gastão Cruz, Graça
Agustin Lara trouxera ao mundo em 1932. O disco tornara-se um monstraram uma resiliência notável, também porque a sua capital Morais, Hélia Correia, Inês Pedrosa, Irene Ramalho Santos, João Abel
Manta, João Caraça, João Medina, José Augusto Cardoso Bernardes,
sucesso retumbante em todo o mundo a que chegava a produção se tornou porto de abrigo das populações que fugiam à Reconquista José-Augusto França, José Luís Peixoto, José Gomes André, José Manuel
discográfica americana. cristã nos territórios que tinham pertencido ao al-Andalus. Ali Castanheira, José Manuel Mendes, Laura Castro, Leonor Xavier, Luís Reis
Torgal, Manuel Alegre, Marcello Duarte Mathias, Margarida Fonseca
Por causa disso, e das narrativas meio fabulosas sobre o fascínio viveram árabes, judeus e cristãos em delicado equilíbrio. Santos, Maria Fernanda Abreu, Maria Helena Serôdio, Miguel Carvalho,
da Alhambra (pronunciar alambra), a chacina dos Abencerragens, Deve vir daí, dessa entranhada mescla senão de sangues pelo Mário Avelar, Mário Cláudio, Mário de Carvalho, Miguel Carvalho, Nélida
Piñon, Nuno Júdice, Ondjaki, Pilar del Rio, Ramón Villares, Ricardo Araújo
a ruína de Boabdil e o fim do último reino árabe na Península menos de visões do mundo, uma certa tolerância mediterrânica, em Pereira, Rocha de Sousa, Rogério Miguel Puga, Sérgio Rodrigues, Sofia
Ibérica, durante décadas alimentei o projeto de ir a Granada. tudo contrária à rispidez castelhana dos conquistadores da cidade. Soromenho, Teolinda Gersão, Teresa Toldy

Adulei sucessivos grupos de Passeando por Granada, e por PAGINAÇÃO: Patrícia Pereira

amigos, pensando vencê-los pela poucos que sejam os vestígios des- SECRETÁRIA: Teresa Rodrigues

sugestão de umas delícias árabes sa época gloriosa, intui-se a conta- CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO: Gesco

REDAÇÃO, ADMINISTRAÇÃO E SERVIÇOS COMERCIAIS: Rua da Fonte da


que, no entanto, há mais de cinco minação entre tradições, hábitos e Caspolima – Quinta da Fonte, Edifício Fernão de Magalhães, 8
séculos foram engolidas pela orto- maneiras que emprestam à cidade 2770-190 Paço de Arcos - Tel.: 218 705 000 Fax: 218 705 001
email: jl@jornaldeletras.pt. Delegação Norte: Rua Roberto Ivens, 288
doxia cristã. Mas, por isto ou por uma respiração simultaneamente 4450-247 Matosinhos - Tel.:220 993 810
aquilo, o projeto foi sendo adiado. antiga e elegante (por grotesco e MARKETING: Marta Silva Carvalho (diretora) - mscarvalho@trustinnews.
No íntimo, fizera já meu, adap- deslocado que seja o horrendo gru- pt e Marta Pessanha (Gestora de Marca) - mpessanha@trustinnews.pt
PUBLICIDADE: Vânia Delgado (Diretora Comercial) vdelgado@trustinnews.
tado à cidade almejada, o lamento po escultórico de Isabel a Católica pt; Maria João Costa (Diretora Coordenadora de Publicidade) mjcosta@
de Federico Garcia Lorca em dois com Colombo), como se tudo ali trustinnews.pt; Elsa Tomé (Gestora de Marca) etome@trustinnews.
pt; Mariana Jesus (Gestora de Marca) mjesus@trustinnews.pt; Daniela
versos célebres: “Aunque sepa estivesse com naturalidade desde Pereira (Gestora de Marcas) dpereira@trustinnews.pt; Carolina
los caminos/ yo nunca llegaré sempre, à maneira das águas dos Alcoforado (Gestora de Marcas) calcoforado@trustinnews.pt; Mónica
Ferreira (Gestor de Marcas) mferreira@trustinnews.pt; Elisabete
a Cordoba”. Lorca era natural ribeiros e das fontes, dos pomares Anacleto (Assistente Comercial) eanacleto@visao.pt; Florbela Figueiras
de Granada e de lá partiu numa infindáveis e dos olivais a perder (Assistente Comercial) ffigueiras@visao.pt; Rita Roseiro (Publicidade)
- rroseiro@trustinnews.pt DELEGAÇÃO PORTO: Margarida Vasconcelos
noite do verão de 1936, levado de vista que povoam a várzea de (Gestora marca) mvasconcelos@trustinnews.pt; Rita Gencsi (Assistente
Comercial) rgencsi@trustinnews.pt PARCERIAS E NOVOS NEGÓCIOS: Pedro
por um bando de infames que Granada, Alhambra Granada, por ali fora, até perto do Oliveira (Diretor) poliveira@trustinnews.pt
lhe cobiçavam o prestígio tanto mar. É percorrer para cima e para BRANDED CONTENT: Rita Ibérico Nogueira (Directora)
rnogueira@trustinnews.pt
quanto odiavam as suas simpatias baixo a Carrera del Darro, que TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO: João Mendes (Diretor)
políticas. A narrativa da sua vida bordeja o curso estreito do rio, com Telf Lisboa – 21 870 5000
e morte muito acrescentou, na minha sensibilidade, ao mito da o perfil da Alhambra lá mais para cima, e por portas travessas vis- Telf. Porto – 22 099 0052
cidade enfeitiçada cantada pelo poeta, na declinação de jatos de lumbram-se cintilações que projetam o mistério por nós imaginado PRODUÇÃO, CIRCULAÇÃO E ASSINATURAS: Vasco Fernandez (Diretor),
Pedro Guilhermino (Coordenador de Produção), Nuno Carvalho, Nuno
água, perfumes florais e espelhos deformantes, que tanto figuram de um tempo que nos foi alheio e, no entanto, é também nosso. A Gonçalves e Paulo Duarte (Produtores), Isabel Anton (Coordenadora
na sua obra de juventude. presença tutelar e álgida dos cumes brancos da Serra Nevada, à vista de Circulação), Helena Matoso (Coordenadora de Assinaturas)

Há semanas, finalmente, antes da pandemia, mãos amigas desarmada, impõe um toque de requintado hibridismo ao cenário SERVIÇO DE APOIO AO ASSINANTE. Tel.: 21 870 50 50
(Dias úteis das 9h às 19h)
levaram-me a Granada. E bem pode dizer-se que me levaram nas construído pela mão humana. IMPRESSÃO: Lisgráfica – Casal de Sta. Leopoldina – 2745 Queluz de
suas asas, tão difícil me foi fisicamente vencer os obstáculos que Em junho de 1924, o poeta Juan Ramón Jimenez chegou a Baixo. Distribuição: VASP MLP, Media Logistics Park, Quinta do
Grajal. Venda Seca, 2739-511 Agualva-Cacém Tel.: 214 337 000.
Granada coloca ao visitante. Granada de comboio, vindo de Madrid na companhia dos irmãos Pontos de Venda: contactcenter@vasp.pt – Tel.: 808 206 545,
Por causa disso, a visita à Alhambra fez-se, a duras penas, pela Federico e Francisco Garcia Lorca, que o tinham convidado para Fax: 808 206 133
TIRAGEM MÉDIA: 7 100 exemplares
Calle Real em direção aos palácios nasridas e àquele que, invejoso passar uns dias com a família. Juan Ramón era andaluz, mas do
Registo na ERC com o nº 107 766
da beleza construída e acumulada pelos reis de Granada, Carlos V ocidente, da província de Huelva. Talvez nunca tivesse vindo a Depósito Legal nº 127961/98 – ISSN nº 0872-3540
fez erguer nas suas pro- Granada, ou nunca a tivesse visto com olhos de ver. Guiado pela fa- Estatuto editorial disponível em www.visao.sapo.pt/informacaopermanente
ximidades. Do exterior, mília Lorca, pela mão de Federico, do irmão Francisco e da irmã mais A Trust in News não é responsável pelo conteúdo dos anúncios
nem pela exatidão das características e propriedade dos produtos
o edifício parece apenas nova, Isabelita, Juan Ramón foi por Granada como por dentro de um e/ou bens anunciados. A respetiva veracidade e conformidade com a
marcar uma presença e sonho, lavrando pequenas joias poéticas que deixou em cadernos, realidade, são da integral e exclusiva responsabilidade dos anunciantes
e agências ou empresas publicitárias. Interdita a reprodução, mesmo
uma conquista; lá dentro, Com o perfil da bilhetes-postais, pedaços de papel: são os Olvidos de Granada, reco- parcial de textos, fotografias ou ilustrações sob qualquer
meios, e para quaisquer fins, inclusive comerciais.
no esplendoroso pátio lha por ele imaginada mas publicada já depois da sua morte, talvez o
circular, assenta-se o cen- Alhambra lá mais para mais belo canto de um forasteiro à beleza indizível da cidade.
PORTE PAGO

tro do mundo e o núcleo cima,vislumbram-se O centro nevrálgico deste livrinho propriamente inqualificável
irradiador da ambição é o extraordinário poema “Generalife”, escrito durante a perma-
do imperador. E, vista de cintilações que nência em Granada ou logo a seguir, que Juan Ramón dedicou a Assine o Ligue já 21 870 5050
Dias úteis: 9h às 19h

longe, da colina fronteira projetam o mistério Isabelita Lorca. Aí fala de água, de lágrimas e de canto (“hablan las
à muralha principal que aguas y lloran,/ lloran las almas y cantan”), como se a Alhambra
bordeja o complexo da por nós imaginado de tivesse a consistência líquida dos sonhos, que são a forma imaterial
Alhambra, a mole imensa um tempo que nos foi que toma o seu assombro com a cidade do jovem amigo Federico
da construção ergue- (“Granada me ha cojido el corazón”). Mas a essência de Granada
-se por detrás e acima da
alheio e, no entanto, apreendera-a Juan Ramón logo no momento em que lá entrou, no
cércea dos maravilhosos é também nosso princípio do verão de 1924: “Rumores en la sombra, agua, aire.” J
15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT DEBATE-PAPO 31 ↗

ZDB e Gulbenkian salvam uma cidade HOMEM DO LEME


Manuel Halpern

Nós nunca ficámos em casa O luto


de Celestino

Q
NA HORA DE COMER O TREINADOR uando Celestino se apercebeu que a
sua mulher, 20 anos mais nova e 20
Patrícia Portela

E
anos mais bela, fugira com um comer-
ciante de móveis de Avignon, logo encetou um
plano parar poder voltar à terra sem a alcunha
de bode, que é como por lá chamavam a todos
stou há duas semanas em montagens aqueles cujo cônjuge procurava satisfação
nos Jardins da Fundação Calouste alhures. Não tencionava matá-la, não era o
Gulbenkian. É a primeira vez, em dez seu género, não queria aparecer com a cara
anos de casa, que me medem a tem- escancarada no matutino, antes bode que boi.
peratura, a primeira vez em meses que Aliás, toda a gente sabia que ela é que era uma
saio do tele-trabalho e revejo os meus mulher de armas e munições, ele um homem
colegas de produção, a primeira vez que alvo, de cartuchos vazios, longas introspe-
uso máscara durante 12 horas por dia, ções e silêncios carregados de culpas antigas e
para escrever a um computador, para angústias inabaláveis.
montar um projetor de luz, para afinar uma guitarra, para subir Enfim, aquilo nada tinha para dar certo. Mas
um elevador até à cantina, para descer de um escadote ou ir até para Celestino até dava, gostava da companhia e
aos quartos de banho. É a primeira vez que percorro sete hectares todos os dias congratulava-se do insólito feito de
de jardim e um parque de estacionamento para sair por uma ele, canastrão e quase reumático, ter conseguido
porta diferente daquela por onde entro todos os dias às nove por atrair uma mulher 20 anos mais nova e 20 anos
razões de higiene; e apenas para ir buscar uma tesoura, um clip, o mais bela. Era coisa de fazer espantar amigos
telemóvel sempre esquecido. É a primeira vez que não fico até às e vizinhança, que amaldiçoavam a relação de
tantas na conversa e na conclusão de cada detalhe no trabalho. Festival nos jardins da Gulbenkian, em foto de Vera Marmelo imoralidade apenas para disfarçar a inveja.
Não me perco num copo de fim de dia, num jantar inespe- "Por um dia, Lisboa tem aquele brilho que sempre teve" Celestino precisava de fazer o luto, como
rado na única tasca aberta depois de um dia interminável, no se fosse viúvo, para mais tarde, quem sabe,
aperfeiçoamento constante de cada obra de arte que se constrói, encontrar companheira, por ventura 20 anos
de cada cenário que se ergue, ou na gralha de cada folha de sala nhuma notícia, nenhum anúncio, nenhum obstáculo, nenhuma mais velha e 20 anos mais feia, que não se
que desta vez não se vai imprimir. Há horas de entrada, horas de descoberta, nenhum discurso parece aligeirar? deixasse seduzir por forasteiros.
saída, novos regulamentos para abrir e fechar certas portas. É a Encetou o plano com rigor. Atirou alguns
primeira vez que luto contra hábitos corriqueiros para manter EIS SE NÃO QUANDO SURGE, INDISCUTÍVEL, A RESPOSTA. pertences, como o anel de casamento e uma
outros prioritários, e isso parece-me difícil. É a primeira vez que Um casal, de mãos dadas, passa à nossa frente do outro lado do carteira com documentos plastificados, ao rio,
me surpreendo quando finalmente vejo finalmente a cara de uma passeio e entra na Gulbenkian. Ao fundo, estaciona um carro simulando a tragédia, participou a ocorrência
produtora que conheci sempre de máscara. Sem uma palavra, de onde saem mais dois amigos. Chega uma família, com dois e deixou que as autoridades tratassem do resto.
dá-me um bilhete para ir ver Norberto Lobo no anfiteatro ao ar miúdos. No restaurante entra um dos músicos que veio a correr Através do computador que ela havia deixado
livre. comprar cigarros nas máquinas, ao balcão um velho amigo que na secretária na avidez da fuga, apagou as suas
Os Jardins de Verão 2020 abriram na Gulbenkian, com a o veio ver saúda-o enquanto bebe uma mini. A pouco e pouco contas nas redes sociais. E, no seu próprio face-
curadoria de Naxo Checa e Marta Furtado, da Galeria Zé dos os reencontros multiplicam-se e não é preciso que alguém tire a book, publicou um enorme e sentido lamento,
Bois. Ainda pelos jardins, reencontro um amigo de longa data máscara para perceber a felicidade. A cidade está viva e sai à rua que lhe reverteu condolências variadas e mani-
e dou-lhe um abraço sem me dar conta, para logo a seguir lhe porque nós nunca ficámos em casa. festações de choque e apreço.
pedir desculpa. Passamos a tarde sentados na relva, aplaudindo Dividimos a conta, dirigimo-nos para o anfiteatro ao ar livre do Quando chegou à terra, relatando o episódio
a obra À Margem, de Paulo Morais, que atravessa inesperada- Centro de Arte Moderna. Percorremos o caminho indicado com aos amigos mais linguarudos, fez a aldeia saber
mente o lago, fazendo piqueniques com pepinos, pão e amen- placas e baias e assistentes de sala e seguranças até à nossa fila. da sua desgraça, que não era outra, senão a de
doins, ouvindo o ensaio geral dos músicos. Por um dia, Lisboa Conhecemo-nos todos, fomos nós que montámos os caminhos de- um homem subitamente só, pois a sua mulher,
tem aquele brilho que sempre teve. Até me esqueci que há dias senhados especialmente para este Jardim de Verão, para que tudo 20 anos mais nova e 20 anos mais bela, fora
que não sinto as pernas, e que não durmo mais de três horas possa decorrer com a maior das levezas e a maior das seguranças. ceifada pelas intempéries da vida. Mais cedo
seguidas há meses. ou mais tarde a vida derrapa para aqueles que
Atravesso a rua com o meu amigo até ao restaurante Paco. A CIDADE CONTINUA CALMA, mas o anfiteatro está cheio. descobrem o caminho da felicidade.
Ficamos a fazer tempo na esplanada. Comemos as primeiras Sento-me na última fila, onde fica a régie, atrás de um casal "Nunca encontraram o corpo", explicou ele
sardinhas dos santos num primeiro jantar fora desde o carna- separado por uma cadeira de segurança e unido num aperto de ao padre e, do alto da sua tristeza, convenceu-
val. Nesta cidade aconteceu de tudo um pouco nestas últimas mãos. A noite está à temperatura certa. E o concerto, pontualíssi- -o a fazer um enterro, de caixão vazio, porque,
semanas. Voltou a anunciar-se o fecho dos estabelecimentos mo na sua teimosa coragem e virtude, começa, aquecendo tudo o nestas coisas da alma e da crença, mais valem
às 8pm, as estações de serviço deixaram de vender cigarros ou resto. A cidade ilumina-se e torna ao que sempre foi: um lugar de os símbolos do que os factos. Uma cerimónia
bebidas depois dessa hora, o El País anunciou o pior para Lisboa, liberdade, possibilidade e criação ad aeternum, apesar de todas as bonita e solene. Toda a aldeia se comovia com
uma guerra turística europeia decretou quarentena obrigatória restrições. Apesar de todos os agoiros. o infortúnio do homem, que não era bode nem
a quem visitasse Portugal, depois só Lisboa, depois só a quem O Jardim de Verão 2020 confirma o que a arte sempre é: o oxi- era boi, apenas um desencontrado da vida. Os
visitasse algumas freguesias, Bolsonaro escarneceu de quem tem génio da sabedoria, o segredo da vida social, o combustível para amigos casamenteiros trataram de descobrir
medo do contágio, dizendo estar ótimo apesar de ter COVID19, a beleza e o estandarte de todas as alternativas. Fossem todos os pretendentes que desocupassem tamanha
emigrantes regressam a casa e emocionam-se no reencontro com lugares como este, e todos nós nos poderíamos encontrar com infelicidade. Contudo, Celestino permanecia
os familiares, outros recebem a notícia de mais uma morte que saúde, com trabalho e com direito à revolução. inerte na sua casmurrice. Todos os dias, num
não puderam velar, amigos em terras distantes telefonam-me a Obrigada ZDB! Obrigada Gulbenkian, por serem o nosso lugar ritual mais religioso que a própria religião,
perguntar se estamos todos bem por aqui. de resistência, e por nos relembrarem que uma cidade continua a levava um ramo cuidado de flores que largava,
A noite cai e não há ninguém na rua. Não há um ruído. Não ser, mesmo que mascarada, o espaço de ensaio de todos os outros como que orando, na sua campa, sob o olhar
há movimento no coração desta capital sem movida. Pergunto- que ainda queremos ocupar. Para quem ainda não passou por este atento do povo, que comentava em surdina,
me se vale a pena todo o esforço, se vale a pena tanta energia de pulmão da cidade este verão, tem até dia 19 de julho para o fazer! aquela tão excessiva e mórbida rotina de afeto.
tanta gente - seguranças, jardineiros, produtores, equipas de E eu? Por cá estarei, a subir a um escadote todos os dias antes de Para Celestino, tudo aquilo fazia sentido. Ela
limpeza e manutenção, músicos, artistas plásticos, cozinheiros, vocês chegarem.J partira e ele precisava de fazer o luto. Com o
administradores, curadores, programadores – para três semanas tempo, as visitas passaram a ser mais curtas e
de concertos e arte ao ar livre, que, até aqui, não tínhamos bem a * Crónica ficcionada a partir da montagem dos Jardins De Verão 2020, dedicada a menos frequentes. Tudo se encaminhava para a
certeza se poderiam acontecer. Porque não desistimos e ficamos uma imensa equipa que vi pôr este jardim de pé, com um especial carinho por todos almejada superação do adeus. Até que...
em casa? O que nos faz mover com tanta convicção, quando ne- aqueles que não assinam por baixo tudo o que não poderia acontecer sem eles! Até que um dia ela voltou. J
32 ↗
J 15 a 28 de julho de 2020 JORNALDELETRAS.PT

DIÁRIO
Super-herodizar Herodes Gonçalo M. Tavaress

Da Grécia
PARALAXE e do Oriente
Afonso Cruz

H
Algumas descobertas.
Mimnermo (século VII a. C):
“Que eu morra, quando estas coisas
enrich Von Kleist, no ensaio On the neidade e naturalidade nos gestos, estas, segundo Zeami, não já não me interessarem: o amor secreto, as
marionette theatre, considera as poderiam ser desregradas. Há uma contenção na graça, o que suaves ofertas e a cama, que são flores da
marionetas mais graciosas do parece uma contradição, mas de facto, quando regressamos juventude sedutoras para homens e mulhe-
que os humanos, pela entre- à belíssima imagem de Weil, de cair para cima, imaginamos res.”
ga à gravidade (os seus membros uma voo suave e não exatamente a queda da gravidade que A velhice como decadência, em pouco
funcionam como pêndulos), sendo conhecemos todos os dias. Não é um trambolhão de graça tempo “morrer é melhor do que estar vivo”.
por isso mais “verdadeiras”, pois os (mesmo quando é para cima). Do mesmo modo, também as Forças para um lado e para o outro, e depois
seus movimentos correspondem à marionetas de Kleist são contidas: os seus membros agem o desequilíbrio definitivo.
sua natureza, sem quaisquer hesita- como pêndulos, mas não como martelos. Zeami alertava A beleza que passa e a tragédia que não
ções. Se a delicadeza e a agilidade que Kleist vê nas marionetas para esse limite da graça, que nunca é extremada, receando passa: “Não há ninguém a quem Zeus não dê
se deve à correspondência da sua natureza com os movimentos que o espírito recém-adquirido pela postura se manifestasse muitas tristezas.” (Poesia Grega de Hesíodo
efetuados, devido à entrega à exageradamente, arruinando a a Teócrito, tradução de Frederico Lourenço,
gravidade, Simone Weil dá-nos verosimilhança da actuação. Quetzal.)
uma perspetiva simultaneamen- Zeami chamou a essa conten- Ainda Íbico (século VI a.C.), fragmentos.
te coincidente com a de Kleist – ção“ sete décimos”: “Quando Sobre o discurso:
no sentido da entrega – e oposta, movemos o nosso espírito até aos “Mas nenhum homem mortal consegui-
uma vez que inverte a direção da dez décimos, é preciso mo- ria…dizer tudo.”
gravidade. Weil, em A gravidade vermos o nosso corpo aos sete Nem as Musas o conseguiriam, escreve.

2
e a graça, diz que não há nada décimos. Há, portanto, mais
mais comum ou fácil do que a sentimento interior que movi- Os fragmentos e as citações como
queda. Caímos desde sempre. A mento corporal. Depois de ter aquilo que salva as frases do naufrá-
queda não exige aprendizagem. praticado intensamente os exer- gio.
A verticalidade sim. Weil aponta cícios, de maneira fiel ao mestre, Sem citações, muitos textos clássicos
então para uma espécie de queda é preciso ter um pouco de con- estariam perdidos por completo.
para cima, que aconteceria tenção nos gestos, por exemplo, Os muitos fragmentos que Aristóteles
moralmente. Se uma pessoa for no modo de estender as mãos, salvou.
boa, adquire a levidade da graça, ou de movimentar os pés; o jogo Citação e fragmento como recuperação.
que, tal como a queda, não exige exterior não deve ultrapassar O resto e a ruína apontam com o dedo
qualquer esforço, acontecendo, o jogo interior. Não se aplica para o edifício inteiro; ou pelo menos para a
porém, no sentido oposto ao da apenas aos gestos da dança. Se o sua sombra.

3
queda. A virtude seria a gravida- ator controla os seus movimen-
de de sentido contrário: a graça, tos corporais mais do que os dos Quase sempre assim, os poetas chine-
a queda para cima. seus sentimentos, a sua interpre- ses clássicos: entre a cidade e o campo
ILUSTRAÇÃO DE AFONSO CRUZ

A possibilidade da leveza tação será interessante, porque não há qualquer hesitação.


advém da naturalidade essencial: a sua emoção dará encanto à sua “Jovem, e já o mundo me desiludia tanto
possuindo certas características, expressão, fundada numa base pois o que eu amava mesmo eram as mon-
nomeadamente virtudes, a leve- sólida de movimentos corporais tanhas.”
za ou elevação será um processo contidos.” Poesia e Prosa, Tao Yuanming, Assírio e
tão comum e inexorável como a A contenção evita a cari- Alvim, tradução Manuel Afonso Costa.

4
queda. Zeami (mestre do teatro catura e, por consequência, a
Nô) aconselha, para representar, inverosimilhança. Qualquer “o pico do monte Fuji quase escon-
fazer com que certas caracte- narrativa, de facto, sustenta- dido por trás das folhas acabadas de
rísticas se tornem uma segunda -se na verosimilhança, por nascer.”
natureza, garantindo assim uma graça espontânea, em que a mais autónoma da realidade que seja. A peça mais fantástica Yosa Buson, haikus. Os quatro rostos do
coluna endógena se revela externamente. O corpo precede o tem umas regras intrínsecas, uma espécie de contacto com mundo, AA, tradução Joaquim M. Palma.
ato. Em Estética Teatral. Textos de Platão a Brecht, de Monique o fruidor, que garante a coerência dentro desse contexto. O minúsculo a tapar a montanha.
Borie, lemos: “O ator deve captar a natureza física da sua perso- Edgar Allan Poe escreveu um texto crítico sobre Nathaniel E o velho tapado pelo novo.
nagem antes de imitar os seus gestos. É preciso adaptar o aspeto Hawthorne, dizendo o seguinte:“Its vital injury, however, is Uma síntese possível.J
aos diversos tipos físicos do Nô. Para interpretar um velho, é rendered to the most vitally important point in fiction—that of
necessário que o vosso earnestness or verisimilitude” (que é uma definição do conceito
corpo esteja curvado, que de suspensão da descrença, criado por Coleridge, que tinha
as pernas tremam, que uma variante mais bela – também usada e criada pelo mesmo
os gestos com as mãos autor – " fé poética”).
sejam fracos. É preciso Shakespeare descrevia assim esta questão: “Peço-vos, dizei
primeiro encarnar a per- o discurso como o pronunciei diante de vós, ligeira e natural-
sonagem fisicamente. A Se uma pessoa for boa, mente; mas se o declamardes, como o faz a maioria dos nossos
dança, os gestos e o canto atores, preferiria ter o pregoeiro público a dizer os meus versos.
vêm depois, em relação adquire a levidade da Nem serrem demasiado o ar com as vossas mãos, assim, mas
com a condição física.” graça, que, tal como usai de tudo delicadamente; porque mesmo no meio da torren-
Zeami ao acon- te, da tempestade e, como poderei dizer, do furacão da paixão,
selhar uma postura a queda, não exige devereis adquirir e gerar uma temperança que lhe possa dar
como origem do gesto, qualquer esforço. suavidade. Oh, ofende-me até à alma ouvir um sujeito ruidoso Yosa Buson
haveria de preceder de peruca na cabeça destroçar uma paixão em farrapos, em
William James em A virtude seria a verdadeiros andrajos, rasgar os ouvidos dos espectadores na
algum séculos. Contudo, gravidade de sentido plateia os quais, na maioria, são incapazes de mais do que pan-
depois de adquiridas tominas inexplicáveis e barulho. Mandaria chicotear um sujeito
as características que
contrário: a graça, a desses por exagerar as viragos, e super-herodizar Herodes! Por
assegurariam esponta- queda para cima favor, evitem isso". J