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Pedagogia - Língua Portuguesa

Unidade 1
Linguagem, língua, fala e
gramática
1.1 Introdução
Esta é a primeira unidade da disciplina Língua Portuguesa e esperamos que você a inicie com
muita vontade de ampliar os seus conhecimentos sobre a língua portuguesa. Então, vamos lá!
O principal objetivo aqui é que você reflita sobre a importância da linguagem para a comu-
nicação humana e conheça os principais elementos que constituem o processo comunicativo.
Ao ler o texto, temos a certeza de que você aprenderá os conceitos fundamentais de lingua-
gem, língua, fala e de gramática, percebendo a relevância desses aspectos linguísticos para que
o processo comunicativo aconteça de maneira eficiente.
Nesta unidade, vamos estudar também as funções da linguagem que nos permitirão com-
preender como o emissor e o receptor se relacionam linguisticamente através de um canal que
permite a interpretação de uma mensagem.
Outro assunto de extrema relevância nesta unidade é a variação linguística. Há muito tem-
po, na escola, só se atribuía à língua as características de “certo” ou de “errado”. Hoje, com o co- GLOSSÁRIO
nhecimento das diversas formas de se falar, já se considera também o diferente, ou seja, há usos Hindu: natural ou habi-
da língua que são errados (aqueles que não estão de acordo com a organização que a língua nos tante da Índia.
Veda: conjunto de tex-
possibilita), mas há também usos que, apesar de não estarem de acordo com essa organização, tos sagrados da tradição
são apenas diferentes, não constituem erro. religiosa e filosófica da
Bem, de acordo com o que propomos aqui, esta primeira unidade abordará os conceitos bá- Índia.
sicos de Linguagem, Língua, Fala e Gramática e terá as seguintes subunidades: a.C: antes de Cristo.
1.2 Conceitos básicos Línguas naturais
(Inglês, Português,
1.3 O Processo de Comunicação Russo, Italiano, Chinês,
1.4 Funções da linguagem etc.): são sistemas de
1.5 Variação linguística signos linguísticos. Os
1.6 Níveis de fala signos linguísticos são
1.7 Linguagem oral e linguagem escrita os elementos de signi-
ficação (significante e
É importante que você tenha sempre à mão um bom dicionário e que não se esqueça de significado) nos quais
que as atividades sugeridas, os glossários que complementam o texto e os pontos de reflexão se baseiam as línguas.
apresentados são essenciais para que você compreenda satisfatoriamente o texto. Para você entender
melhor os conceitos de
Mãos à obra! Vamos começar a leitura. significante e signifi-
cado, acompanhe esta
exemplificação: O signi-
ficante é o suporte para

1.2 Conceitos básicos


a ideia, é a sequência de
sons que se combinam
nas palavras: flor, fleur,
fiori, flower, kukka (em
Português, Francês, Ita-
De acordo com Petter (2005), o interesse domínio individual, porque é propriedade ina- liano, Inglês e Finlandês,
pela linguagem é antigo e remonta ao séc. IV ta ao ser humano, e social, porque só existe em respectivamente), e
a.C., quando os hindus estudaram sua língua sociedade. Sendo assim, a linguagem é com- significado é a ideia, o
com o objetivo de evitar que os textos sagra- preendida como expressão do pensamento e conteúdo. Observe que
em todas as línguas do
dos, reunidos no Veda, sofressem modificações veículo de comunicação social e pode referir-se exemplo, o significado é
ao serem falados. à linguagem dos animais, à música, à dança, à o mesmo: “flor”, parte da
Atualmente, a linguística moderna define pintura, à mímica, etc., assinalando que cada planta.
a linguagem como manifestação de algo mais uma dessas linguagens tem suas especificida-
específico: a língua. A linguagem pertence ao des de manifestação.

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O linguista Ferdinand de Saussure, consi- de estudo da gramática tradicional é contrária à


PARA SABER MAIS derado o pai da linguística moderna, separa a do linguista, pois a gramática tem como finali-
O homem é um “animal linguagem em língua e fala. Conforme Petter dade ditar normas e prescrever os fatos de lin-
político”. Assim afirma (2005), a língua, para Saussure, é “um sistema guagem.
Aristóteles na sua obra de signos” – um conjunto de unidades que se A gramática, conforme Petter (2005), não
Política, distinguin-
do o homem (único
relacionam dentro de um todo e é a parte social reconhece a diferença entre fala e escrita e con-
dotado de linguagem) da linguagem, exterior ao indivíduo; não pode sidera a escrita como modelo de correção para
dos outros animais ser modificada pelo falante e obedece às leis do a língua falada. A posição da gramática é nor-
(que possuem voz). contrato social estabelecido pelos membros da mativa ao dizer o que é a língua e como deve
Com a voz (“phone”), comunidade. A fala é um ato individual; resulta ser, isto é, a gramática dita regras para o uso
os animais exprimem
dor e prazer; mas, com
das combinações feitas pelo sujeito falante uti- considerado correto da língua.
a palavra (“logos”), o lizando o código da língua; expressa-se pelos Como falantes de uma língua, sabemos
homem exprime o bom atos de fonação necessários à produção dessas que a língua escrita não é modelo para a língua
e o mau, o justo e o combinações. falada, pois a diferença entre essas duas modali-
injusto. Ser um “animal Analisando o conceito de Saussure, con- dades da linguagem se deve à sua organização
político” significa, pois,
compartilhar valores
cluímos que a língua é ampla, coletiva e está à e ao uso social. Para o linguista, não há uso me-
com outros indivíduos, disposição de todos os falantes da comunidade. lhor ou pior, rico ou pobre, visto que seu objeti-
o que torna possível a A língua obedece a padrões criados pela pró- vo é descrever e não prescrever. De acordo com
vida social, cívica e polí- pria comunidade, logo, um falante não pode a linguística, as línguas naturais são simples-
tica dos homens. Exerça modificá-la. Ela serve a toda a comunidade e mente diferentes e, desde que atendam às ne-
sua cidadania através,
também, do uso da
não a um membro isolado. É a parte social da cessidades de comunicação entre seus falantes,
linguagem. linguagem. já estão exercendo sua função: COMUNICAR. Os
Ainda segundo Petter (2005), a fala, ao estudos sobre as línguas concluem que todas
contrário, é individual, representa o uso particu- elas possuem um sistema de comunicação es-
lar que se faz da língua. O falante tem a liberda- truturado, complexo e muito desenvolvido.
de de buscar na língua os recursos que ela ofe- Outros estudos sobre a linguagem a consi-
rece e combinar esses recursos, conforme suas deram também como atividade, como ação que
necessidades e intenções. Por isso que a fala é tem objetivo socialmente definido: o de estabe-
individual e tem caráter dinâmico, e a língua é lecer vínculos e compromissos anteriormente
coletiva e tem caráter mais fixo. inexistentes. A linguagem é responsável pela in-
Petter (2005, p. 15) argumenta, ainda, que teração entre os indivíduos, estabelecendo pac-
“[...] convém enfatizar que a Linguística detém- tos interindividuais e exigindo respostas em for-
-se somente na investigação científica da lin- ma de reações e comportamentos dos falantes.
guagem verbal humana”. Assim, a linguística Estudar, então, a língua é buscar detec-
tem como objeto de estudo a linguagem verbal tar os compromissos que se criam através da
em uso, ou seja, para o linguista interessa des- fala (ato individual) e buscar preencher as
crever e explicar os fatos de linguagem sem es- condições exigidas por uma situação de co-
tabelecer juízo de valor do uso. A perspectiva municação.

Figura 1: A língua se ►
concretiza pela fala.
Fonte: Disponível em:
https://www.facebook.
com/linguaportuguesa07,
acesso em 31 de mai.
2013.

1.2.1 Importância da comunicação humana

Como você sabe, na sociedade em que vi- vida são fatores que se complementam e até
vemos é de fundamental importância que sai- se misturam, já que estamos a todo tempo nos
bamos nos comunicar de maneira clara e efi- comunicando, ora através da fala, ora da escri-
ciente. Comunicação, pensamento e a própria ta, de um gesto, de expressões faciais, sorrisos,

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da leitura de um texto, de um documento, de Infante (2005, p. 25) argumenta que “na


revistas e jornais, etc. origem de toda a atividade comunicativa do
É preciso ter em mente que só através ser humano está a linguagem, que é a capaci-
de uma comunicação clara, segura e objetiva dade de se comunicar através de um código”.
PARA SABER MAIS
é que podemos nos aprofundar nos níveis de Entre esses códigos comunicativos, o mais Para ampliar seus
conhecimento pessoal, tecnológico e social. utilizado pelos homens é a língua, que é “um conhecimentos sobre
esse assunto, assista
A comunicação é o centro de todas as ati- sistema de signos convencionais usados pe- ao vídeodocumentário
vidades humanas. Com certeza nada acontece los membros de uma comunidade". Em sínte- “Um buraco branco no
sem que haja prévia comunicação. Comunicar se: um grupo social combina entre si e utiliza tempo”, uma produção
bem não é só transmitir ou receber bem uma um conjunto organizado de elementos repre- de Peter Russel, com
informação. COMUNICACÃO é uma troca de sentativos – os signos linguísticos. Esses sím- base em uma obra
romântica. Duração: 27
CONHECIMENTOS E DE ENTENDIMENTO e nin- bolos são diferentes de um idioma para outro minutos. Veja sinopse
guém entende ninguém sem considerar além e foram escolhidos por acaso, variando de do vídeodocumentário
das palavras, sem considerar também as emo- acordo com cada cultura. O homem inventou no fim da unidade.
ções, o contexto e a situação em que se tenta a linguagem para exprimir seus sentimentos,
trocar conhecimentos, ideias ou qualquer ou- suas intenções e vontades, fazendo com que
tra mensagem, seja ela verbal (que utiliza pa- as pessoas interajam e convivam em socieda-
lavras) ou não verbal (que ocorre através de de.
gestos, cores, imagens, etc.).

1.2.2 O que é comunicar?

Segundo Martins e Zilberknop (2009, p. através de um código que pode ser convencio-
23), é impossível para o homem moderno vi- nado (linguagem humana) ou natural (sinais
ver sem se comunicar. A comunicação é uma fisiológicos: dor, febre, etc.).
“força de extraordinária vitalidade na obser- A comunicação deve acontecer de ma-
vação das relações humanas e no comporta- neira lógica, clara e coerente, pois ela é a base
mento individual [...]. Provado está que a co- das relações entre os homens que, a partir e
GLOSSÁRIO
municação é um processo social e, sem ela, a através dela, se tornam agentes, influenciam o
sociedade não existiria”. Sendo assim, a comu- meio em que vivem e afetam as pessoas que Léxico: conjunto de
vocábulos que formam
nicação entre os seres humanos é um proces- estão à sua volta, o seu ambiente físico e a si uma língua (vocabu-
so indispensável à sobrevivência do homem mesmos, produzindo reações. lário).
na sociedade. Para que uma mensagem seja transmiti- Sintaxe: estudo da
A comunicação, ainda de acordo com Mar- da com sucesso, é preciso que o falante esteja combinação lógica das
tins e Zilberknop (2009), se estabelece através atento a fatores como habilidade comunicativa, palavras em uma frase.
de diversos recursos, como a palavra, os gestos, atitude, nível de conhecimento do ouvinte e as
os movimentos, os símbolos, o silêncio, etc. No posições ocupadas dentro do sistema socio-
entanto, apesar de todos esses recursos, certa- cultural. Assim, ele deverá produzir uma men-
mente a palavra é o instrumento que tem sido sagem adequada ao contexto, ao grupo social
preferido pelo ser humano para expressar seu do receptor e ao momento em que ocorre a
pensamento, interagir com o outro e se fazer comunicação. Para uma mensagem que chame
compreender. a atenção do receptor, o falante deverá utilizar
Se você pensar um pouco, vai perceber signos que sejam do seu conhecimento e tam-
que comunicar é estabelecer uma relação com bém do conhecimento do receptor que ficará
alguma coisa ou alguém, transmitindo sinais interessado na informação.

1.3 O processo de comunicação


Segundo Martins e Zilberknop (2009, p. meio). O receptor interpretará a mensagem e,
15), “O ser humano tem necessidade imperiosa a partir daí, dará a resposta que demonstrará
de expressar seus sentimentos ou ideias.” Sen- se as informações foram captadas (feedback),
do assim, o Processo de comunicação consiste completando o processo de comunicação.
em um emissor (a pessoa que fala, o codifica- Ainda de acordo com Martins e Zilberk-
dor) emitir uma mensagem (informação ou si- nop (2009, p. 15), "comunicar envolve uma di-
nal) ao receptor (a pessoa que ouve ou decodi- nâmica que não pode dispensar as unidades
ficador), através de um canal (instrumento ou que englobam o processo e que, dissociadas,

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PARA SABER MAIS constituem os elementos mais importantes da descritos nos anos 1960, pelo formalista russo
Leia outros textos sobre comunicação". Toda vez que se estabelece uma Roman Jakobson. No esquema abaixo, observe
comunicação e reflita interação entre as pessoas ocorre uma situação esses componentes, conhecidos como elemen-
sobre a importância comunicativa. Todo o ato de comunicação ver- tos da comunicação (código, mensagem, refe-
deste aspecto para a bal envolve sempre seis componentes básicos, rente, emissor, receptor e canal).
vida humana. Pense no
estreito laço que liga a
comunicação à cultura e
anote suas conclusões.
Figura 2: Elementos da ►
Comunicação
Fonte: Disponível em
http://www.coladaweb.
com/portugues/a-lingua-
ATIVIDADE gem-e-os-processos-de-
Preste muita atenção -comunicacao acesso em
aos comerciais transmi- 15 mar. 2008.
tidos pelo rádio e pela
televisão e verifique se
eles atendem às condi-
ções apresentadas no
texto que você acabou
de ler. Eles chamam a
atenção do receptor?
Usam uma linguagem • CÓDIGO: pode ser definido como qualquer conjunto de símbolos usados na transmissão
adequada? Estão de e recepção de uma mensagem de maneira a ter significação para alguém, como as pala-
acordo com o canal vras de um idioma (língua).
onde são veiculados? • MENSAGEM: expressão de ideias (conteúdo transmitido por um emissor) através de uma
Levam em consideração forma determinada (tratamento) pelo emprego de um código.
o momento e a situação
em que o receptor está • REFERENTE: é o contexto em que estão insertos o emissor e o receptor. É também o con-
inserto? junto de atitudes e reações dos sujeitos envolvidos no processo de comunicação.
• EMISSOR ou EMITENTE: quem transmite uma ideia, emite; quem transforma a mensagem
em código (uma pessoa, uma empresa, uma emissora de televisão, estação de rádio, etc.).
DICA • RECEPTOR, RECEBEDOR ou DESTINATÁRIO: pessoa que recebe, decodifica a mensagem
O Filme "Nell", do (um indivíduo ou um grupo).
Diretor Michael Apted, é • CANAL: é o meio através do qual fazemos uma mensagem chegar a outra pessoa, uma es-
muito interessante para pécie de “veículo da mensagem”, como as ondas sonoras, na linguagem oral (fala), ou um
você analisar o impor-
bilhete, na linguagem escrita, por exemplo.
tante papel desempe-
nhado pela linguagem • É muito importante escolher o canal capaz de transmitir sua mensagem com maior quali-
na comunicação huma- dade e há elementos que podem impedir a eficiência comunicativa, como nos advertem
na. Nell é o nome da Martins e Zilberknop (2009):
jovem que é encontrada • RUÍDO: interferência indesejada na transmissão de uma mensagem (na fala pode ser um
em uma casa na flores-
barulho e na escrita, um rabisco ou uma letra ilegível, por exemplo).
ta, onde vivia com sua
mãe eremita. O médico • AMBIGUIDADE: refere-se à desorganização da mensagem (período fragmentado, ordem
que a encontra, após a inversa, inadequação vocabular, etc.).
morte da mãe, constata • REDUNDÂNCIA: consiste na repetição desnecessária de palavras ou termos.
que ela se expressa em
um dialeto próprio,
Em síntese:
evidenciando que até
aquele momento ela Em uma sala de aula (referente), se o professor (emissor) expõe oralmente (canal)
não havia tido contado um assunto (mensagem), e o aluno (receptor) ouve com atenção, ele consegue dar res-
com outras pessoas. posta (feedback) ao ser questionado. Mas, quando há barulho, por exemplo, conversa
Intrigado com a desco- paralela (ruído), a compreensão fica comprometida.
berta e ao mesmo tem-
po encantado com a
inocência e a pureza da Ao decodificar uma mensagem, você a está percebendo como um estímulo. Ao codificar
moça, ele tenta ajudá-la uma nova mensagem, você está dando uma resposta ao estímulo, mostrando como ele foi per-
a se integrar a socieda- cebido e interpretado por você. A comunicação compreende, na maioria das vezes, uma ação
de. Assista ao filme e e uma reação, pois a ação do emissor afeta a reação do receptor e a reação do receptor afeta a
tente relacioná-lo aos
subsequente reação do emissor, tornando o processo circular. Às vezes, quando são utilizados
conceitos estudados
sobre "Processos Comu- dois canais simultâneos, a qualidade da mensagem aumenta (ver e ouvir, por exemplo, é me-
nicativos" e "Funções da lhor do que só ver ou só ouvir), mas se o falante não souber utilizar bem esses canais, ele pode
Linguagem". prejudicar o sucesso da sua comunicação. Se um conferencista apresenta um trabalho usando
um data-show, por exemplo, e não consegue combinar sua fala com as transparências apre-
sentadas, ele pode tornar mais difícil a compreensão do conteúdo pelos expectadores.

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Pedagogia - Língua Portuguesa

Sempre que comunicamos algo, pensamos no nosso receptor, em quem queremos atingir
com o que dizemos, assim, tanto o emissor cria expectativas sobre o receptor quanto o receptor
em relação ao emissor.
Quando duas pessoas interagem, põem-se no lugar uma da outra, procurando perceber o
mundo como a outra o percebe, tentando predizer a resposta da outra e esse processo possibili-
ta o ideal da comunicação que é a interação humana.

1.4 Funções da linguagem


Agora que você já trabalhou com os Processos Comunicativos e já conhece as noções da Te-
oria da Comunicação, vamos fazer algumas considerações sobre as Funções da Linguagem.
Leia a seguinte tira humorística:


A tira exemplifica uma situação de comunicação. Numa situação de comunicação há, pelo Figura 3: Tira
menos, duas pessoas interagindo por meio da linguagem: quem fala (locutor ou emissor) e aque- humorística
le com quem se fala (interlocutor ou receptor). Fonte: Disponível em
Tradicionalmente, o processo de comunicação verbal está baseado em seis elementos: o http://www.humorepia-
das.com.br/tag/hagar-e-
emissor, o receptor, a mensagem, o código, o canal e o referente. -helga/, acesso em 31 mai.
Tomando a tira como exemplo, vamos rever esses elementos: 2013.
• O emissor (locutor, remetente) é Helga, a esposa de Hagar.
• O receptor (interlocutor, destinatário) é Hagar.
• A mensagem é representada pelas falas de Helga; trata-se do aviso de que os construtores
do telhado acabaram de chegar.
• O código é a língua portuguesa (linguagem verbal) usada por Helga e Hagar.
• O canal (contato) é o som produzido pelo código (língua oral).
• O referente (contexto) é a situação ou contexto em que Helga e Hagar estão e é também o
assunto da mensagem, isto é, o conjunto de atitudes e reações do emissor e do receptor.
Repare que a casa está sem telhado e que o casal está esperando há algum tempo a chega- DICA
da dos construtores. O humor consiste justamente no fato de Hagar está sentado em uma Para reforçar seu
cadeira com água por todo lado. conhecimento sobre as
Toda mensagem tem uma finalidade, uma intenção predominante que orienta sua produção. A funções da linguagem,
acesse: www.portras-
mensagem pode ter a finalidade de informar, persuadir, provocar humor, emocionar, etc. Podemos dasletras.com.br
sintetizar que, na comunicação, sempre há uma intenção e, assim, podemos considerar algumas fun-
ções da linguagem a partir dessas finalidades, de acordo com os estudos de Jakobson (1977).
Veja, abaixo, a classificação das funções da linguagem predominante nos textos. Essas fun-
ções são: expressiva, conativa, referencial, fática, metalinguística e poética.

1.4.1 Função expressiva (ou emotiva)


De acordo Martins e Zilberknop (2009), a função expressiva ou emotiva está centrada no
emissor (remetente ou locutor) e expressa sua atitude, sua emoção, seu estado de espírito em
relação ao que fala. Exemplificando:

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BOX 1
PARA SABER MAiS Retrato
O estudo das funções Eu não tinha este rosto de hoje, Assim calmo, assim triste, assim magro,
da linguagem é muito Nem estes olhos tão vazios, Nem o lábio amargo.
importante para perce-
bermos as diferenças e
as semelhanças entre os Eu não tinha estas mãos sem força,
vários tipos de men- Tão paradas e frias e mortas;
sagem. Analisar como Eu não tinha este coração
essas funções se organi- Que nem se mostra.
zam nos textos alheios,
permite-nos perceber
as finalidades que orien- Eu não dei por esta mudança,
tam a elaboração desses Tão simples, tão certa, tão fácil:
textos. Aplicando o Em que espelho ficou perdida a minha face?
conhecimento de fun-
ções da linguagem nos
Fonte: Cecília Meireles, 1982
textos que produzimos,
poderemos planejar
o que escrevemos e Observe que o poema está centrado na expressão dos sentimentos, emoções e estado de
fortalecer a eficácia e alma do “eu lírico”. É um texto subjetivo, pessoal. Nele aparecem pronomes de primeira pessoa:
a expressividade das
“Eu não tinha”... “minha face”?
mensagens.
É comum, também, na função emotiva, a presença de interjeições e pontuação marcada por
exclamações e reticências.

1.4.2 Função conativa (apelativa)


A função conativa é aquela que está centrada no destinatário. Também chamada apelativa,
essa função estimula o receptor a tomar uma atitude, tentando persuadi-lo, tentando influenciar
seu comportamento.
Observe a presença da função conativa neste folheto:

Figura 4: Exemplo de ►
função conativa
Fonte: Disponível em
http://vacademica.wor-
dpress.com/2013/02/12/
economia-comportamen-
tal-2-quando-carros-sao-
-iguais-a-cigarros/, acesso
em 31 mai. 2013.

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Pedagogia - Língua Portuguesa

Você observou que a intenção principal é estimular o receptor a utilizar um serviço dife-
renciado de lavagem de carro? Para isso, o texto da propaganda emprega o verbo no imperati-
vo “Aguarde!”, que faz um apelo direto ao destinatário. Além disso, a mensagem tenta sensibili-
zá-lo quanto à questão do uso racional da água. Isso sinaliza que, se o receptor for uma pessoa
com consciência social, ele buscará o serviço oferecido.

1.4.3 Função referencial (denotativa)

Classificamos de referencial a função que tem por objetivo transmitir informações. Ela é
também chamada denotativa e está centrada no contexto.
A mensagem apresenta linguagem clara, direta, procurando traduzir a realidade objetiva-
mente. O anúncio a seguir, com conteúdo essencialmente informativo, exemplifica a função
referencial.

BOX 2
O MUNDO SEM PETRÓLEO

Em breve, os seres humanos terão de aprender a viver sem o petróleo. Não porque ele vá
acabar no futuro próximo – os especialistas garantem que as reservas mundiais são mais do
que suficientes para satisfazer as necessidades do planeta por até 75 anos. Mas porque con-
tinuar usando o combustível que move a economia mundial com essa voracidade faz mal à
saúde da Terra. [...]

Fonte: Almanaque – Superinteressante. São Paulo: Abril, 2003. Disponível em: http://duvidasredacao.blogspot.com.
br/2009/10/funcao-referencial-ou-denotativa.html, acesso em 2 jun. 2013.

Ao ler a reportagem, você percebe claramente seu objetivo: informar aos leitores do “Alma-
naque Superinteressante” sobre o motivo de o mundo precisar viver sem o petróleo. A lingua-
gem aponta para um significado único, não dando margem à dupla interpretação.
A função referencial aparece em seus livros de estudos, livros técnicos e científicos, bulas de
remédios, manuais de instruções, etc.

1.4.4 Função fática

A função fática encontra-se centrada no contato (canal) e nela predomina o cuidado de es-
tabelecer ou de manter a comunicação, isto é, manter o contato entre o emissor e o receptor.
Nas conversas telefônicas, o tradicional “alô” e os cumprimentos habituais são maneiras de
iniciar o contato com o recebedor. As frases-feitas, os clichês de abertura de diálogos: “Olá, como
vai?”, “Oi, tudo bem?”, têm também a finalidade de estabelecer contato.
A função fática está representada por palavras, frases, ou expressões que denotam a neces-
sidade ou o desejo de iniciar, manter ou cortar a comunicação.
Exemplificando:

Bom dia!
Oi, tudo bem?
Huin... Hum...
Alô, quem fala?
Hã, o quê?

A função fática está bastante evidente nas falas acima. Essas falas não têm necessariamente
um conteúdo informativo preciso, apenas pretendem criar condições para uma interação verbal.
Observe a tirinha abaixo:

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UAB/Unimontes - 1º Período

Figura 5: Função fática ►


Fonte: Disponível em:
http://helgacomh.blo-
gspot.com.br/2009/04/
hagar-o-horrivel-e-helga-
-e-claro.html, acesso em 3
jun. 2013.

A expressão "né", usada por Hagar, foi empregada apenas para manter a conexão entre o
casal. Temos, então, um exemplo de função fática.

1.4.5 Função metalinguística

A função metalinguística está centrada no próprio código, isto é, centrada na língua. O emis-
sor usa a língua (código) para dar alguma explicação, fazer ressalvas, apresentar uma definição,
um conceito, etc.
No fragmento a seguir, intitulado “Bisbilhotice”, de Luís Fernando Veríssimo, o autor define,
primeiramente, a palavra “bisbilhotar” para, depois, introduzir o tema propriamente dito: discus-
são sobre o uso de grampos em telefones de magistrados e políticos brasileiros.
Observe a função metalinguística bem marcada no primeiro parágrafo do artigo.

BOX 3
Bisbilhotice

“Bisbilhotar” vem, se não me falha o etimológico, do italiano “bisbigliare”, que não é bis-
bilhotar no nosso sentido, mas quase o seu oposto. Os sinônimos de “bisbigliare” no meu di-
cionário italiano são “mormorare”, “sussurrare”, “dire sottovoce”. Ou seja, o que se faz para evitar
a bisbilhotice dos outros. Um bisbilhoteiro brasileiro e um “bisbigliatore” italiano, conforme o
dicionário, não teriam diálogo, um tentando desesperadamente ouvir o que o outro murmura
ou sussurra.
O que aproximaria os dois seria o fato de que é tão difícil encontrar um italiano falando
baixo quanto um brasileiro. O sottovoce não pegou em nenhum dos dois povos. E o que sem-
pre agrava as crises brasileiras – como essa dos grampos, ou da bisbilhotice banalizada e oficia-
lizada – é que ninguém, do presidente ao gari, passando por ministros e comentaristas, se se-
gura na hora de dizer bobagens. Se ao menos as dissessem sottovoce, o dano seria menor. (...)

Fonte: Veríssimo. Hoje em Dia. 7 set. 2008. p.8 – PLURAL

Os dicionários são obras de caráter metalinguístico. Neles usa-se a língua (código linguísti-
co) para definir a própria língua.

1.4.6 Função poética

A função poética enfatiza a mensagem. Se, ao ler um texto, você perceber que o objetivo da
mensagem é mostrar um trabalho de elaboração da linguagem, então você está diante da fun-
ção poética.
Anúncios publicitários (e políticos) recorrem frequentemente à função poética da lingua-
gem. Neles é comum um trabalho com o signo linguístico (rimas, jogo de palavras, neologismos,
aliterações, assonâncias) com o objetivo de provocar algum efeito de sentido no receptor.
A função poética não abrange somente a poesia, embora, na poesia, a função poética seja
predominante e, em outras formas de expressão linguística, ela seja acessória.
Veja os exemplos de função poética no texto a seguir:

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Pedagogia - Língua Portuguesa

BOX 4
O meu tempo e o teu, amada,
Transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
Amar é o sumo da vida.

Fonte: In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Amar se aprende amando. São Paulo: Record, 1990)

Nos versos de Drummond, o trabalho com a linguagem (criação das rimas: amada/nada;
medida/vida) produz efeito melódico.
A função poética não ocorre somente na poesia. Ela também pode ser encontrada em pro-
vérbios, textos em prosa, ditados, anúncios publicitários, etc. Observe a propaganda do medica-
mento Doril, que além do texto construído em rima, apresenta todo um trabalho com o tamanho
e diferença das letras.

◄ Figura 6: Exemplo de
função poética
Fonte: Disponível
em: http://redacao-
nocafe.wordpress.
com/2012/02/09/funcao-
-poetica-a-beleza-do-
-texto/, acesso em 2 jun.
2013..

No texto da propaganda, percebe-se o jogo de palavras entre “doril” e “sumiu” para referir-
-se a eficiência do no produto anunciado (medicamento para dor). Houve, portanto, um trabalho
intencional de linguagem.

1.5 Variações linguísticas GLOSSÁRIO


Aliteração: repetição
Após o estudo dos conceitos de língua, linguagem, fala, gramática e das funções da lingua- da mesma consoante
gem, será mais fácil e proveitoso trabalhar com as variações linguísticas, pois são conteúdos inti- no interior de um ou
mamente relacionados. mais versos. “Quem com
A língua é um valioso instrumento de ação social e seu uso, conforme seja adequado ou ferro fere, com ferro será
ferido.” (provérbio)
não, pode facilitar ou comprometer nosso relacionamento com as demais pessoas. Assonância: repeti-
Além disso, o uso individual da língua apresenta valores que vão além de nossa intenção de ção da mesma vogal
transmitir informações, ideias e pontos de vista. no interior de um ou
A escolha que fazemos das palavras, certas expressões que empregamos, nossas preferên- mais versos. Nos versos
cias por determinadas construções frasais têm o poder de revelar, de “denunciar” quem realmen- abaixo, há assonância
das vogais a e o nasais.
te somos, quais são nossas crenças, em que região do país nascemos, que nível social e de estu- “E bamboleando em
dos possuímos, qual é nossa profissão, entre muitos outros aspectos. ronda dançam bandos
Isso ocorre porque a língua é um sistema dinâmico, extremamente flexível, que se modela tontos e bambos de
com naturalidade a diversos fatores que envolvem o falante, como religião, classe social, região pirilampos”. (Versos de
geográfica, sexo, idade e a própria evolução histórica da língua e, ainda, o grau de formalidade/ Guilherme de Almeida)
informalidade do contexto em que se dá a situação de fala ou escrita.

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