Você está na página 1de 6

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO PARANÁ

4ª CÂMARA CÍVEL - PROJUDI


RUA MAUÁ, 920 - ALTO DA GLORIA - Curitiba/PR - CEP: 80.030-901

Autos nº. 0000884-12.2016.8.16.0078

Apelação Cível n° 0000884-12.2016.8.16.0078


Vara Cível de Curiúva
Apelante(s): PAULO SÉRGIO MOREIRA
Apelado(s): MUNICÍPIO DE CURIÚVA
Relatora: Desembargadora Regina Helena Afonso de Oliveira Portes

APELAÇÃO CÍVEL - MANDADO DE SEGURANÇA - PRETENSÃO DE INCORPORAÇÃO, AOS


VENCIMENTOSDO SERVIDOR PÚBLICO TITULAR DE CARGOEFETIVO, DA GRATIFICAÇÃO
PELO DESEMPENHO DEFUNÇÃO DE DIREÇÃO, CHEFIA OUASSESSORAMENTO OU DOS
VALORESDECORRENTES DO EXERCÍCIO DE CARGO EMCOMISSÃO – IMPOSSIBILIDADE –
REVOGAÇÃO DA GRATIFICAÇÃO INCORPORADA - OBSERVÂNCIA DO DISPOSTO NA LEI
MUNICIPAL N° 1241/2013 – INEXISTÊNCIA DE DIREITO ADQUIRIDO A REGIME JURÍDICO
REMUNERATÓRIO - DIREITO LÍQUIDO E CERTO NÃO CONFIGURADO. RECURSO
CONHECIDO E NÃO PROVIDO.

VISTOS, relatados e discutidos estes autos de Apelação Cível nº 0000884-12.2016.8.16.0078, de Curiúva


– Vara Cível, em que é Apelante PAULO SÉRGIO MOREIRA e Apelado MUNICÍPIO DE CURIÚVA.

I - RELATÓRIO
Trata-se de recurso de Apelação interposto por PAULO SÉRGIO MOREIRA contra os termos da sentença
de mov. 71.1, proferida nos autos de Mandado de Segurança nº 0000884-12.2016.8.16.0078, que denegou
a segurança pleiteada, por ausência de ilegalidade ou abuso de poder.

Irresignado, o ora impetrante interpôs recurso de apelação (mov. 80.1), alegando que é servidor público
do Município de Curiúva/PR, admitido pelo concurso público nº 01/1990, e desde o ano de 1993, passou
a ocupar diversos cargos de comissão na municipalidade, totalizando 23 (vinte e três) anos exercendo
funções de chefia e assessoramento; que em análise do Estatuto dos Servidores Públicos Municipais de
Curiúva, Lei Municipal 684/1998, notadamente ao disposto no artigo 66, § 2º, se observa que é devida
uma gratificação aos servidores concursados em razão do exercício de funções de chefia e
assessoramento, o qual deve ser incorporado ao vencimento do apelante, na proporção de 1/10 (um
décimo) por ano de exercício, até o limite de 10 (dez) décimos; que o Juízo a quo incorre em equívoco em
sua interpretação, pois, embora a legislação pertinente à espécie não preveja em seu dispositivo legal a
função de cargo de comissão, contudo, prevê expressamente a função de chefia e de assessoramento, as
quais foram exercidas pelo apelante, conforme prova dos autos; que embora exista, em tese, a diferença
entre cargos comissionados e funções gratificadas, o Estatuto dos Servidores não faz essa diferenciação;
que a jurisprudência dominante do Supremo Tribunal Federal (STF) é no sentido de que os cargos em
comissão somente se justificam para o exercício de funções de direção, chefia e assessoramento, não se
prestando ao desempenho de atividades burocráticas, técnicas ou operacionais; que além de cargos em
comissão com funções de chefia e assessoramento, o apelante também ocupou cargos de funções
gratificada; que não houve a revogação expressa do disposto no artigo 66, § 2º, do Estatuto dos Servidores
pelo artigo 72, § 3º, da Lei Municipal 1.241/2013; que merece ter a gratificação que almeja incorporada a
seus vencimentos, pois se trata de direito adquirido.

Requer seja dado provimento ao recurso, a fim de reformar a r. sentença proferida pelo Juízo a quo e
conceder a segurança almejada, para assegurar ao impetrante, em definitivo, que a gratificação que lhe é
devida seja incorporada a seus vencimentos em razão de ter exercido funções de chefia e assessoramento

Não foram apresentadas contrarrazões.

É o relatório.

II - VOTO E SUA FUNDAMENTAÇÃO

Presentes os requisitos de admissibilidade, deve o recurso ser conhecido.

Trata-se de Mandado de Segurança, impetrado por PAULO SÉRGIO MOREIRA em face do então Chefe
do Poder Executivo Municipal de Curiúva, objetivando seja incorporada em seus vencimentos a
gratificação decorrente do longo período em que exerceu cargo comissionado na municipalidade.

Em sentença (mov. 71.1), a magistrada singular denegou a segurança ao fundamentando, em especial que:

“(...)
A guisa da então Lei nº. 684/1998, não se vislumbra qualquer menção à gratificação com
relação às funções exercidas através de livre nomeação para Cargos Comissionados.

(...)

Desta maneira, não há que se falar em revogação, ou não revogação do artigo 66 da


mencionada Lei, uma vez que a matéria em questão sequer foi regulamentada
anteriormente.

(...)

Ainda que se admitisse tal hipótese, na realidade, o que o impetrante pretende é o


reconhecimento do direito adquirido a um regime jurídico remuneratório que lhe seja
mais favorável, o que não se pode admitir.

(...)

Portanto, ausente ilegalidade ou abuso de poder, DENEGO a segurança.

Em apertada síntese, eis os contornos fáticos.”

Inconformado com o decidido, o impetrante interpôs o presente recurso de apelação.

A controvérsia recursal gira em torno da possibilidade de incorporação, em caráter definitivo, dos valores
referentes ao exercício de função gratificada ou cargo em comissão aos vencimentos do servidor público
efetivo, após seu exercício por determinado período de tempo.

Segundo consta da inicial, o impetrante afirmou que desde 1993 exerce cargos em comissão no
Município. Verificando a documentação acostada, conforme a CTPS (mov. 1.4) constata-se que foi
aprovado no Concurso Público Municipal nº 01/90, para o cargo de “Auxiliar de Contabilidade”. Assim, o
impetrante é servidor público, que exerceu funções de confiança durante todos esses anos, tanto é que em
várias portarias é apontado como integrante do “quadro pessoal de provimento efetivo” (mov. 1.9).

O artigo 66, §2º da Lei Municipal nº 684/1998 (Estatuto do Servidor Municipal), que fundamenta o
pedido inicial, assim dispõem:

Art. 66 - Ao servidor investido em função de direção, chefia ou assessoramento, criadas


por lei, é devida uma gratificação pelo seu exercício, observado o disposto no art. 39, § 4º
da Constituição Federal.

§ SEGUNDO – A gratificação prevista neste artigo, incorpora-se ao vencimento do


servidor efetivo do Quadro de Pessoal Permanente, na proporção de 1/10 (um décimo)
por ano de exercício na função de chefia, direção ou assessoramento, até o limite de 10
(dez) décimos.

Em tese, o impetrante sendo um servidor investido em função de confiança faria jus à gratificação
estabelecida no art. 66, §2º, da Lei nº Municipal nº 684/1998.

Contudo, a Lei Municipal n° 1241/2013 que disciplinou a reforma administrativa do Município de


Curiúva, revogou tacitamente o artigo supra, vez que estabeleceu matéria incompatível com o disposto no
art. 66, §2º, da Lei nº Municipal nº 684/1998.

Veja-se:

Art. 72. A nomeação para cargos de provimento em comissão dar-se-á mediante livre
escolha do Prefeito.

§ 3º Os vencimentos percebidos no período em que o servidor efetivo estiver


respondendo por cargo em comissão, não serão, em hipótese alguma, incorporados ao
salário do cargo efetivo.

Portanto, é possível extrair do referido dispositivo, que o servidor que estiver investido em função de
confiança, não terá incorporado ao seu salário os benefícios decorrentes do “cargo em comissão”.

A propósito, não há falar em direito adquirido, como argumenta o impetrante.

Embora fizesse jus à gratificação enquanto vigente a Lei Municipal nº 684/1998, a partir do momento em
que ingressou no ordenamento jurídico uma nova Lei, que revogou tacitamente a anterior, o impetrante
deixou de ter direito à referida gratificação.

Nesse sentido cumpre destacar que: “O Supremo Tribunal Federal já pacificou entendimento de que
descabe alegar direito adquirido a regime jurídico. Precedentes. 2. Preservação dos valores já recebidos
em respeito ao princípio da boa-fé. Precedentes. 3. Agravo regimental parcialmente provido.” (AI-AgR
410.946/DF, Rel. Ellen Gracie, DJe 7.5.2010).

Em recente decisão, o E. Tribunal Regional Federal da 4ª Região, assim se posicionou:

ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PÚBLICO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. DELEGADO DA


POLÍCIA FEDERAL. AUSÊNCIA DE DIREITO ADQUIRIDO A REGIME JURÍDICO.
LEI N. 11.358/06. INSTITUIÇÃO DE SUBSÍDIO COMO FORMA DE REMUNERAÇÃO.
1. Este Tribunal possui jurisprudência firmada no sentido de não possuir o servidor público
direito adquirido a regime jurídico, tampouco a regime de vencimentos ou de proventos,
sendo possível à Administração promover alterações na composição remuneratória e nos
critérios de cálculo, como extinguir, reduzir ou criar vantagens ou gratificações, instituindo,
inclusive, o subsídio, desde que não haja diminuição no valor nominal percebido, em respeito
ao princípio constitucional da irredutibilidade de vencimentos 2. A Lei nº 11.358/2006 previu
que, para a carreira de Delegado Federal, os valores que antes eram recebidos a título de
gratificação, adicional, abono, prêmio, verba de representação ou outra espécie remuneratória,
passam a ser remunerados por meio de uma parcela única denominada de subsídio. (TRF-4 -
AC: 50556701320154047000 PR 5055670-13.2015.4.04.7000, Relator: ROGERIO
FAVRETO, Data de Julgamento: 29/01/2019, TERCEIRA TURMA

O STJ também já se manifestou acerca do direito adquirido:


PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA COLETIVO. LEI QUE
ALTERA A REMUNERAÇÃO DOS PROFESSORES DO ESTADO DE GOIÁS.
EXISTÊNCIA DE INCORPORAÇÃO DE GRATIFICAÇÃO. AUSÊNCIA DE
DIREITO LÍQUIDO E CERTO A REGIME REMUNERATÓRIO. PRECEDENTES
DO STJ.

1. Cuida-se, originariamente, de Mandado de Segurança Coletivo impetrado pelo


recorrente contra suposto ato coator do Secretário de Educação, Cultura e Esporte do
Estado de Goiás, sob o argumento de que os professores da rede pública estadual de
ensino percebiam, desde a edição da Lei 13.909/2001, gratificação de titularidade, que
variava entre os percentuais de 5% até 50%. 2. Contudo, essa gratificação foi revogada
pela Lei estadual 17.508/2011, que concebeu vencimentos inferiores ao piso nacional
para a efetivação de titularidade dos professores, instituído pela Lei 11.738/2008 (fl. 182,
e-STJ).

3. Consta dos autos que, não obstante tenha havido a extinção da gratificação de
titularidade, ocorreu a incorporação no vencimento-base do servidor de 30% do
vencimento, o que representou a observância ao disposto no art. 37, XV, da CF,
porquanto não teria representado redução dos vencimentos dos professores.

4. Os precedentes dos Tribunais de vértice são uniformes no sentido de que o servidor


público não possui direito adquirido a regime jurídico, tampouco a regime de
vencimentos ou de proventos, sendo possível à Administração promover alterações na
composição remuneratória e nos critérios de cálculo, como extinguir, reduzir ou criar
vantagens ou gratificações, instituindo, o subsídio, desde que não haja diminuição no
valor nominal global percebido, em respeito ao princípio constitucional da
irredutibilidade de vencimentos.

5. Recurso Ordinário não provido. (RMS 52.971/GO, Rel. Ministro HERMAN


BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 06/04/2017, DJe 25/04/2017 – sem
destaques no original)

Assim, a jurisprudência é pacífica no sentido de que a Administração pode se organizar internamente,


como por exemplo, extinguir gratificações ou promover alterações na remuneração, desde que observada
a irredutibilidade dos vencimentos de forma que o servidor não possui direito adquirido a regime jurídico.

Registre-se que o C. Órgão Especial, em recente julgado, declarou, por unanimidade de votos, a
inconstitucionalidade de lei municipal de conteúdo análogo ao objeto da presente ação:

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE.ALEGADA CONTINÊNCIA DA


AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE PELA AÇÃO CIVIL PÚBLICA Nº
003583-75.2016.8.16.0045. INEXISTÊNCIA DE IDENTIDADE ENTRE AS PARTES.
DECISÃO DA ADI QUE ENCERRA EFEITOS MAIS AMPLOS QUE OS DA
DECISÃO DA ACP. MÉRITO. ARTIGO 89, CAPUT E §§ 1º AO 6º, DA LEI
MUNICIPAL Nº 4451/2016, DE ARAPONGAS. INCORPORAÇÃO, AOS
VENCIMENTOS DO SERVIDOR PÚBLICO TITULAR DE CARGO EFETIVO, DA
GRATIFICAÇÃO PELO DESEMPENHO DE FUNÇÃO DE DIREÇÃO, CHEFIA OU
ASSESSORAMENTO OU DOS VALORES DECORRENTES DO EXERCÍCIO DE
CARGO EM COMISSÃO. VERBAS DE NATUREZA PRECÁRIA E TRANSITÓRIA,
DEVIDAS EM RAZÃO DO EFETIVO DESEMPENHO DO MISTER E
UNICAMENTE ENQUANTO PERDURAR SEU EXERCÍCIO.INCORPORAÇÃO
QUE MALFERE OS PRINCÍPIOS DA MORALIDADE ADMINISTRATIVA,
ISONOMIA E EFICIÊNCIA. VIOLAÇÃO AO DISPOSTO NOS ARTIGOS 1º, III, 27,
CAPUT E INCISO V, E 34, INCISO XIX, DA CONSTITUIÇÃO DO ESTADO DO
PARANÁ.INCONSTITUCIONALIDADE MATERIAL
VERIFICADA.PRECEDENTES DESTE C. ÓRGÃO ESPECIAL. AÇÃO JULGADA
PROCEDENTE. (TJPR - Órgão Especial - AI - 1602369-5 - Curitiba - Rel.:
Desembargadora Maria José de Toledo Marcondes Teixeira - Unânime - J. 07.08.2017)

Assim, entendo que não há violação a direito líquido e certo decorrente de alteração do sistema
remuneratório, pois não há direito adquirido à regime jurídico por parte dos servidores públicos.

Destarte, por fundamento diverso, a r. sentença deve ser mantida, em razão da inexistência de direito
líquido e certo.

Por fim, tendo em vista o disposto no artigo 25 da Lei nº 12.016/2009 e nas Súmulas 512, do excelso
Supremo Tribunal Federal, e 105, do egrégio Superior Tribunal de Justiça, resta incabível a condenação
do impetrante ao pagamento de honorários advocatícios.

Diante do exposto, voto no sentido de conhecer e negar provimento ao recurso.

III – DECISÃO

Ante o exposto, acordam os Desembargadores da 4ª Câmara Cível do


TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO PARANÁ, por unanimidade de votos, em conhecer e negar provimento
ao recurso de PAULO SÉRGIO MOREIRA.

O julgamento foi presidido pelo (a) Desembargadora Regina Helena


Afonso De Oliveira Portes (relatora), com voto, e dele participaram Desembargador Abraham Lincoln
Merheb Calixto e Desembargadora Maria Aparecida Blanco De Lima.

21 de fevereiro de 2020

Desembargadora Regina Helena Afonso de Oliveira Portes

Relatora