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ANOTAÇÕES SOBRE O LIVRO “O SIGNIFICADO DO CASAMENTO”

Timothy & Kathy Keller


O livro foi muito bem escrito. Os Keller escrevem com grande capacidade de interpretação
de nossa cultura destacando problemas e soluções para ajudar tanto pessoas casadas quanto
solteiras. O casal ilustra seus ensinos com uma vasta experiência e produz grande empatia com o
leitor, uma vez que demostra tanto acertos como erros em seu casamento.
A maioria dos capítulos aborda o casamento em si, mas um deles é dedicado exclusivamente
aos solteiros. Isso, todavia, não restringe seu público aos casados, pelo contrário, sua abordagem é
muito útil para solteiros também. E esse é um dos grandes propósitos dos Keller, alcançar solteiros
com a instrução sobre a escolha do cônjuge e ajudá-los a ter um casamento que glorifique a Deus.
Seus princípios são declaradamente bíblicos. Logo no início é afirmado que os princípios ali
expostos seriam extraídos do Antigo e Novo Testamentos, o que fazem com fidelidade.
Três aspectos, na visão desse estudante, poderiam ser diferentes. O primeiro é a exposição
do papel da mulher como submissa no capítulo 6. Minha impressão é que o capítulo não deixou
claro o que isso significa. No entanto, o apêndice do livro, falando sobre o processo de tomar
decisão e o papel de cada um dos cônjuges, essa questão fica um pouco mais clara. O segundo
aspecto é a posição sobre o divórcio e recasamento abordada no livro. Não há uma discussão
exaustiva sobre o assunto, mesmo porque não é o propósito do livro, mas há certas conclusões
com as quais esse estudante não concorda. Isso, no entanto, não tira o grande valor do livro. É
muito instrutivo, prático e Bíblico. O terceiro é a afirmação de que temer ao Senhor não é ter
medo, mas respeito e reverência. É importante lembrar que, embora esses conceitos estejam
corretos, eles não excluem o medo. O que é claramente demonstrado tanto no Antigo (“‫ ” ַפחַד‬Gn
31.42; Pv 28.14) quanto no Novo Testamento (“φοβέω” Mt 10.28 cf. o paralelismo).
Os princípios que considero mais importantes no livro são os seguintes:
1. O casamento é criação de Deus e deve ser vivido de acordo com os princípios e
propósitos que Ele estabeleceu. Nenhum conceito proveniente de culturas, psicologia,
experiência, etc. podem ser aplicados ao casamento caso contradigam ou distorçam o
que Seu criador estabeleceu para ele. E isso já está provado pelas experiências
registradas nas Escrituras ao longo das eras e diferentes culturas. Todos os conceitos
desviados dos princípios de Deus para o casamento promovem uma visão fantasiosa e
ilusória, ou seja, a atual visão hollywoodiana.
2. O casamento, quando conduzido com base nas diretrizes de Seu criador, reflete algo
muito maior, ou seja, o amor de Deus e Jesus Cristo por nós. Nesse sentido, o
casamento só funcionará bem se houver uma busca contínua de adequação ao amor
de Deus demonstrado na Pessoa de Cristo por nós. E isso começa primeiro em mim,
não no outro.
3. Um dos maiores inimigos do casamento é o egocentrismo, que concorre contra os
princípios e os propósitos de Deus estabelecidos para ele. E ele está presente em todos
os casamentos, com mais ou menos intensidade. Todos precisamos lidar com ele, pois
ele nos torna cegos às necessidades do outro, e hipersensíveis às nossas necessidades.
*
4. Embora as culturas cada vez mais estejam mudando o aspecto altruísta do casamento
e redefinindo-o como uma instituição com o propósito de produzir gratificação
individual, ele deve ser vivenciado para a felicidade do outro. Nesse sentido, ao buscar
a felicidade e o bem maior do outro, ambos os cônjuges desfrutam de uma intensa
felicidade.
5. O casamento é um dos instrumentos de Deus mais importantes para a transformação
do nosso interior e exterior.
6. O casamento exige uma grande disposição de aceitar o outro como ele é, mas ao
mesmo tempo buscar a adequação mútua aos princípios e propósitos da Palavra de
Deus. E isso inclui a mudança do coração de ambos conforme a imagem de Cristo. *
7. O processo de mudança mútua deve ser encarado como algo contínuo no casamento,
pois além do pecado continuar em ambos os cônjuges a vida toda, ao longo dos anos
ambos mudam e ajustes precisarão ser feitos com paciência, amabilidade, oração,
perseverança, etc. *
8. Os problemas que ocorrem em qualquer casamento não são causados pela pessoa que
vive ao nosso lado, mas por causa do pecado que habita em ambos os cônjuges. Assim,
os problemas serão superados apenas com a intervenção Daquele que transforma
corações à Sua própria imagem. O controle do Espírito Santo sobre a vida de cada um
dos cônjuges será o poder e a possibilidade para um casal desfrutar das bênçãos de
Deus para o casamento e para refletir Seu amor nesse mundo. É de particular nota o
fato que, antes de falar sobre o lar (casamento, filhos, etc.), Paulo fala sobre o controle
do Espírito Santo sobre o coração e as ações dos cristãos. *
9. O orgulho e a obstinação precisam dar lugar a humilhação exemplificada por Cristo ao
se tornar homem e morrer como um criminoso, apesar de ser Deus. A humilhação nos
leva a buscar o bem maior do outro antes do meu. Aceitar o menos prazeroso para
prover maior prazer ao outro. Servir ao outro e não buscar retribuição em troca.
Colocar as necessidades do outro antes das minhas. E isso tudo com contentamento
no lugar do ressentimento, indisposição ou frieza. *
10. Já que amor é doar a si mesmo de modo a buscar o bem maior do outro, como Jesus
demonstrou, então, o amor só pode ser medido pelo quanto de si mesmo a pessoa se
entrega a outra e está disposta a abrir mão de sua vida e sua satisfação em prol do
cônjuge. As perguntas norteadoras nesse sentido são descritas pelo casal Keller:
“Quanto você está disposto a perder por essa pessoa? Quanto de sua liberdade está
disposto a abrir mão? Quanto de seu tempo, emoções e recursos está disposto a
investir nessa pessoa?”. Além disso, o conceito de amor nos leva a entender que não é
preciso sentir sempre para expressar amor pelo cônjuge. *
11. O sentimento é oscilante ao longo dos anos. Momentos difíceis no relacionamento
têm a tendência de abafar os sentimentos. E, dependendo de sua intensidade,
transforma sentimentos de paixão, carinho, prazer, etc. em apatia, frieza, raiva, ira,
amargura e até ódio. Como dizem os autores: “Posso garantir, porém, que, tanto faz
com quem você se case, com certeza haverá momentos em que deixará de gostar
dessa pessoa. É impossível manter para sempre os sentimentos intensos de afeição e
prazer”. Isso pode assustar, mas é real. Pois, sentimentos sempre são efeitos, nunca
causa. Por isso, podem ir ou vir, podem apagar ou reacender, podem transforma-se
em bons ou maus. Dependem do que se faz para a outra pessoa e do que se cultiva no
coração em relação a ela. Como dizem Timothy e Kathy: “se sua definição de “amor”
enfatiza os sentimentos de afeto mais do que as ações abnegadas, você reduz sua
capacidade de manter e desenvolver relacionamentos fortes de amor. Em
contrapartida, se você enfatiza as ações de amor mais do que os sentimentos, confere
maior intensidade e estabilidade aos sentimentos. Esse é um dos segredos da vida,
bem como do casamento.” Pois, ações e pensamentos abnegados e humildes geram
sentimentos de amor. Ou seja, a decisão de amar produzirá o sentimento de amor.
Nesse sentido, o casal Keller afirma: “Realize as ações de amor, apesar da ausência de
sentimentos. Talvez você não se sinta carinhoso, solidário e desejoso para agradar,
mas em suas ações deve ser carinhoso, compreensivo, disposto a perdoar e a ajudar. E,
se o fizer, com o passar do tempo essas fases de “estiagem” não apenas passarão, mas
serão menos frequentes e profundas, e você se tornará mais constante em seus
sentimentos.” *
12. Embora cada cônjuge seja um instrumento de Deus para fazer o outro ver suas
imperfeições e ajudá-lo a lidar com elas, é de suma importância não manter um foco
excessivo nos erros e pecados do outro. Cada cônjuge precisa ser capaz de enxergar as
virtudes do outro e desejar que elas se desenvolvam cada vez mais rumo à imagem de
Cristo. *
13. A aliança do casamento é feita diante de Deus independentemente de a pessoa ter a
intenção ou não, fazer os votos com consciência da presença de Deus ou não. Deus, o
criador do casamento sempre está presente nos pactos que ali são feitos, quer sejam
eles vazios de significado ou não. A aliança também é aquilo que o preservará o
casamento em tempos dificuldades, quando os relacionamentos se estremecem e
quando os sentimentos abafados por desavenças. Não é o amor que preserva o
casamento, mas o casamento que preserva o amor. *
14. Uma vez que o casamento é composto por dois pecadores que fazem uma aliança
diante de Deus, o perdão é essencial para a boa convivência, para romper as barreiras
criadas por desavenças e preservar a proximidade do casal. O conceito de perdão, no
entanto, precisa ser correto. Isto é, perdoar é estar disposto a deixar o ofensor livre de
sua culpa e nunca mais imputar ou cobrar dele qualquer dívida por aquela ofensa.
Deve ser incondicional, como Jesus fez conosco. Morreu para nos perdoar e nunca
mais nos condenará por qualquer uma de nossas ofensas. A graça e a misericórdia de
Deus nos alcançou e precisa fluir também de nós para nosso cônjuge. *
15. O cultivo contínuo da amizade é essencial para o casamento uma vez que Deus criou o
casamento porque o homem estava só e isso não era bom. Assim, o casamento que
não cultiva amizade profunda não cumpre esse propósito de Deus. Amizade, no
entanto, não é estar juntos apenas. Como definem Timothy e Kathy, “a amizade cristã
não consiste apenas em ir a apresentações musicais juntos ou gostar dos mesmos
eventos esportivos. É uma união profunda que se desenvolve à medida que duas
pessoas caminham para o mesmo destino, ajudando uma à outra em meio aos perigos
e desafios ao longo da jornada”. Isso requer abrir o coração, formar convicções juntos,
orar juntos, buscar a adequação ao caráter de Cristo juntos, etc. A palavra chave aqui é
“juntos”, mas juntos sempre em direção a Cristo. Cônjuges devem se tornar melhores
amigos. A amizade entre marido e esposa deve suplantar todas as outras amizades.
16. Os papeis de cada cônjuge devem ser cumpridos independentemente de um deles
cumprir seu papel. Da mesma forma que Deus não condicionou o papel de Cristo à
fidelidade da igreja, Ele nunca condicionou um papel de um cônjuge ao outro. Cada
um é responsável por cumprir sua função dentro do casamento. Somos capazes de
mudar apenas a nós mesmos, nunca o outro. Podemos e devemos ser instrumentos
nas mãos de Deus, mas Ele é que dá o crescimento, Ele é que transforma.
17. O sexo, como todas as outras áreas do casamento, não foi instituído para alguém
buscar seu próprio prazer. O objetivo do sexo é promover o prazer do outro e, ao
promover o prazer do outro, ambos terão além de prazer a grande alegria em perceber
o prazer do cônjuge. É também uma exclusiva e completa entrega mútua que afirma o
pertencimento de um para com o outro.