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A emergência do patrimônio

imaterial
Memória e Patrimônio Cultural
Prof. Francisco San7ago Júnior
Decreto Lei 25, 30 novembro 1937
Art. 1º Constitue o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto
dos bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja
de interêsse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da
história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou
etnográfico, bibliográfico ou artístico.
1937: modelo monumental-arquitetôncio
• O que? Bens movéis e imovéis – indicaçação monumental.

• Seleção definida pela excepcionalidade do bem cultural.

• Fatos memoráveis da história do Brasil.

• Marcado por valores histórico, arqueológico, etnográfico,


bibliográfico e artístico.
Ar?go 216. Cons?tuição Federal 1988

Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material


e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de
referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos
formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:

I - as formas de expressão;

II - os modos de criar, fazer e viver;

III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas;


IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços
destinados às manifestações artístico-culturais;

V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico,


artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

§ 1º O Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e


protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários,
registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras
formas de acautelamento e preservação.
§ 2º Cabem à administração pública, na forma da lei, a gestão da
documentação governamental e as providências para franquear sua
consulta a quantos dela necessitem.

§ 3º A lei estabelecerá incenTvos para a produção e o conhecimento de


bens e valores culturais.

§ 4º Os danos e ameaças ao patrimônio cultural serão punidos, na


forma da lei.

§ 5º Ficam tombados todos os documentos e os síTos detentores de


reminiscências históricas dos anPgos quilombos.
Decreto Lei 3.511, 4 agosto 2000
Art. 1o Fica instituído o Registro de Bens Culturais de Natureza
Imaterial que constituem patrimônio cultural brasileiro.
§ 1o Esse registro se fará em um dos seguintes livros:
I - Livro de Registro dos Saberes, onde serão inscritos conhecimentos e
modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades;
II - Livro de Registro das Celebrações, onde serão inscritos rituais e
festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do
entretenimento e de outras práticas da vida social;
III - Livro de Registro das Formas de Expressão, onde serão inscritas
manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas;
IV - Livro de Registro dos Lugares, onde serão inscritos mercados, feiras,
santuários, praças e demais espaços onde se concentram e reproduzem
práticas culturais coletivas.

§ 2o A inscrição num dos livros de registro terá sempre como referência a


continuidade histórica do bem e sua relevância nacional para a memória, a
identidade e a formação da sociedade brasileira.

§ 3o Outros livros de registro poderão ser abertos para a inscrição de bens


culturais de natureza imaterial que constituam patrimônio cultural brasileiro
e não se enquadrem nos livros definidos no parágrafo primeiro deste artigo.
2000: modelo culturológico-antropológico
• O que: conhecimentos, rituais, festas, manifestações culturais,
mercados, feiras, santuários, praças.

• Modelo antropológico de bem patrimonial.

• Seleção definida pela autenticidade do bem cultural.

• Definido por uma mescla entre valor de memória, valor de


identidade e prática vigente numa comunidade.
Como foi possível pensar o
patrimônio de uma perspectiva
cultural?
«Virada cultural»
• Emergiu uma serie de preocupações com a cultura a partir dos anos
1950.

• Questões como experiencias raciais, etnicas e novos paises trouxeram


uma nova dimensão cultural ao debate público.

• Na historiografia surgiu a possibilidade de articular a cultura a partir


dos anos 1970: história social inglesa, nova história francesa,
microhistória italia.
Nova ideia de cultura
• A cultura, de objeto, passou a ser também o ponto de partida da
preocupação: olhar o mundo de uma perspectiva cultural!

• Quebrava-se a dicotomia entre cultura erudita (artes) e cultura


popular (folclore e subcultura).

• A historiografia começou a se preocupar com a invenção das


tradições e os lugares de memória.

• Os historiadores se aproximaram do patrimônio.


Antecedentes
• Tombamento do Engenho Velho, em Salvador, em 1984.

• Fábrica do Vinho do Caju, em João Pessoa, em 1986.

• Vesigios de Palmares, em 1986.

• (ADCT)Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos


que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade
definiTva, devendo o Estado emiTr-lhes os itulos respecTvos.
Assembléia Constituinte de 1988
• União de forças políJcas de esquerda, parJdos e grupos de intelectuais.

• Criar um conceito de patrimônio cultural que favorecesse o exercício da


cidadania, como resultado de lutas e reflexões desde os anos 1970.

• Consagrou-se a tese da diversidade cultural, ao considerar a importância


da contribuição dos “diversos grupos formadores da sociedade brasileira”

• Instaurou-se a necessidade de proteção e salvaguarda do patrimônio


cultural de natureza material e imaterial.
Fases do IPHAN

Primeira Fase (1937) Segunda fase (1967) Terceira fase


Rodrigo de Andrade Renato Soeiro Aloisio Magalhães

• SPHAN (1937) • DPHAN (1946) • FUNDAÇÃO PRO-


• DPHAN (1946) • IPHAN (1970) MEMÓRIA (1970)
E SPHAN (1980)
Anos 1970

IPHAN

Renato Soeiro (1967-1979)


Centro Nacional de
Referência Cultural

Aloisio Magalhães 1975


Centro Nacional de Referência Cultural
• Criado na forma de convênio na UnB.

• Contava com matematicos, quimicos, fisicos, cientistas sociais,


biblioteconomistas, criticos literários.

• Fundado por Aloisio Magalhães.

• Locus de elaboração dos conceitos que foram incorporados na CF de


1988.
Projetos de pesquisa interdisciplinares
• Busca de referenciações sobre o caracterizava o produto brasileiro e
como ele se ligava a diferentes realidades.

• Compreendia tópicos de múltiplo interesse (economico e cultural).

• Reações a conceitos antigos dos folcloristas e etnograficos


convencionais.

• Não se interessava pelo que «restava», mas por manifestações


culturais vivas.
A ideia de Bem Cultural
• Retomava as manifestações populares, fazeres e saberes já tomados
por Mário de Andrade.

• Buscava-se mostrar como elas seriam capazes de gerar


desenvolvimento.

• Elaborou o conceito de bem cultural: patrimonio a espécie e bem


cultural é o gênero.

• Interessava-se por manifestaço


Anos 1980

IPHAN- Direção de Aloisio


SPHAN Magalhãaes (1979 – 1982)

Novo PRO-
formato SPHAN
MEMÓRIA
FUSÃO (IPHAN/CNRC)
• IPHAN e CNRC são fundidos em uma nova estrutura: orgão normaTvo
(SPHAN- Secretaria do Patrimônio Histórico e ArisTco Nacional) e
orgão execuTvo (Fundação Nacional Pro-Memória).

• Era preciso reintegrar os bens tombados à vida social e fazê-los


promover o desenvolvimento.

• O modelo seria das manifestações populares dinâmicas com


produtores e usuários.
Aloisio Magalhães em 1979:
«A aproximação que o CNRC deu ao conceito de bem cultural atinge
uma área de que o Patrimônio não estava cuidando. Ou seja: o bem
cultural móvel, as atividades do povo, as atividades artesanais, os
hábitos culturais da humanidade. O Patrimônio atuava de cima para
baixo, e, de certo modo, com uma concepção elitista (…) O CNRC
procurava trabalhar de baixo para cima. Pela propria razão de ser uma
atividade popular não tem consciencia de seu valor.»
Categorias importantes
• Bem cultural – o que é produzido de maneira espontânea na
sociedade.

• Memória – o que possui um lastro de passado

• Continuidade – não imutabilidade como quer a temporalidade


monumental.

• Referência cultural – relação de um grupo com um dado bem


cultural.
1990: ex?nção
• Parte da política neoliberal extingue o SPHAN/Pro-Memória.

• Surge o Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural (IBPC).

• Extinção do Conselho Consultivo do SPHAN.

• Inicio da gestão Lelia Coelho Frota (1990-1993).

• O Conselho Consultivo é reconstituído em 1992.


Anos 1990: reconstrução do IPHAN
• 1993: reconstrução do MinC.

• O IBPC é assumido por Glauco Campello.

• 1994: O IBPC volta a ser IPHAN, agora dentro do MinC.

• 1997: Carta de Fortaleza.

• 1998: Comissão do Grupo de Trabalho para elaboração de acautelamento


do Patrimônio Imaterial.
Referência cultural
• Refere-se aos sujeitos e não aos bens culturais.

• Trata-se do uso de bens por parte de um grupo para fins de


manutenção e identidade.

• Os produtores/consumidores foram incluídos no reconhecimento e


atribuição social cultural do valor patrimonial.
• Enquanto noção/conceito foi preciso quase 30 anos para sua
formulação

• Adveio de trocas entre museólogos, folcloristas, cienTstas sociais e


anTgos técnicos do CNRC.

• Ele evidencia a existência de lutas de representação em torno da


legiTmidade dos sujeitos na atribuição de valor patrimonial.
Quilombo: da arqueologia à referência
• Antes era concebido como algo do passado e a categoria patrimonial
para ele seria sítio arqueológico.

• Nos anos 1970 os Movimentos Negros trataram de comunidades que


vivem onde existiram quilombos.

• Historioadores e antropólogos começam a entender a existência de


continuidade territorial e cultural de comunidades negras.
Continuidade territorial

• Era um síTo no qual uma comunidade reorganizou a si mesma a


parTr dessa origem quilombola.

• Um lugar no qual se produziu diferenciação étnica mais ou menos


aceita.

• Surgiu o remanescente quilombola.


Artigo 216. Constituição Federal 1988
§ 5º Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de
reminiscências históricas dos antigos quilombos.

(ADCT)Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos


que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade
definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.
Decreto-Lei 4.887 20 novembro 2003
Art. 1o Os procedimentos administraTvos para a idenPficação, o
reconhecimento, a delimitação, a demarcação e a Ptulação da
propriedade definiPva das terras ocupadas por remanescentes das
comunidades dos quilombos, de que trata o art. 68 do Ato das
Disposições ConsTtucionais Transitórias, serão procedidos de acordo
com o estabelecido neste Decreto.
Art. 2o Consideram-se remanescentes das comunidades dos
quilombos, para os fins deste Decreto, os grupos étnico-raciais,
segundo critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria,
dotados de relações territoriais específicas, com presunção de
ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão
histórica sofrida.