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Guerra Cultural - Aula 01

Cultura
Universidade Católica do Salvador (UCSal)
26 pag.

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Guerra Cultural – História e Estratégias
OLAVO DE CARVALHO

Aula 1
20 de setembro de 2016

[versão provisória]
Para uso exclusivo dos alunos do Seminário de Filosofia.
O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.
Por favor, não cite nem divulgue este material.

Boa noite a todos, sejam bem-vindos.


Evidentemente a primeira coisa a fazer aqui é nos entendermos um pouco sobre os termos mesmos
que definem este curso, que são ‘cultura’ e ‘guerra’, e em seguida ‘história’ e ‘estratégias’.
Quando nós falamos de cultura, a providência inicial a tomar é assumir a consciência de que a
cultura não é um objeto sensível, ela não pode ser conhecida pelos sentidos. E, a única maneira de
se ter um vislumbre do que é uma cultura, é através de uma construção imaginativa por trás da qual
os fatos começam mais ou menos a se ordenar e adquirir uma figura. Essa obra imaginativa também
é um pouco difícil de se fazer, porque a construímos com elementos que recebemos da própria
cultura.
Então, em geral, o que nós temos é uma auto-imagem da cultura que se projeta através da nossa
própria imaginação e essa auto-imagem, certamente, não confere com a imagem dessa mesma
cultura tal como vista desde outras culturas. Portanto, a única maneira de nós chegarmos a
vislumbrar o que é uma cultura e chegarmos a ter um desenho apropriado da própria cultura onde
nós estamos, é justamente o processo que se chama desaculturação. É sairmos de dentro dessa
cultura, e observá-la desde outros pontos de vista.
A dificuldade aí é a seguinte: a cultura só chega ao nosso conhecimento através dos documentos
que atestam a sua existência – esses documentos podem ser livros, composições musicais, edifícios,
leis, instituições, etc., então, temos uma imensa documentação escrita e uma imensa documentação
plástica, por assim dizer. A unidade por trás de tudo isso não é, por sua vez, uma obra da cultura —
não é uma estátua, um livro, ela não é nada. É uma obra de imaginação humana que cada indivíduo
tem de construir por si.
Isso aí se torna muito difícil pelo seguinte aspecto: não existe aqui um negócio chamado
‘personalidade humana’ e ali um outro chamado ‘cultura’, de modo que eles possam se conhecer
como duas pessoas se conhecem na rua. A personalidade humana é inteiramente construída com
elementos vindos da própria cultura. Quer dizer, a cultura não está nos documentos, nos
monumentos, nas leis, etc., mas 99% dela está dentro de você. Ela é você de algum modo. É a sua
personalidade, os valores, símbolos, sentimentos, expectativas e temores nos quais o sujeito se
reconhece.
Então, o primeiro material que está a nossa disposição para chegarmos a uma compreensão do que é
cultura, e de como as culturas podem entrar em guerra, somos nós mesmos. É um processo de
autoanálise retrospectiva, uma espécie de psicanálise cognitiva que teremos de fazer com nós
mesmos.
Eu já toquei neste assunto em várias aulas e nunca é demais insistir na importância disto: nós
geralmente não estamos conscientes de quais foram as influências culturais que determinaram, não

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digo as nossas ideias somente, mas todo o nosso universo psíquico – aquilo que aparece em nossos
sonhos, os sentimentos mais íntimos que aparecem em nossa vida, os julgamentos que fazemos dos
acontecimentos do dia a dia, as reações que temos perante a conduta de outras pessoas, tudo isso
nós absorvemos da cultura. O máximo que se pode preservar de liberdade e de espaço para o
indivíduo humano [em relação ao seu universo psíquico], é o modo de ele arranjar isso caso ele
tenha esta consciência autobiográfica, ou seja, desde que ele saiba de onde ele saiu.
No caso da sociedade brasileira, isso se torna ainda mais difícil, pela inexistência de uma tradição
histórica autoconsciente. Isso se verifica, por exemplo, quando saímos do Brasil e passamos um
tempo aqui no EUA: podemos entrar em qualquer livraria americana e qual é o assunto que mais
tem nas prateleiras? História Americana. É impressionante, a história americana chega ao ponto de
ocupar 20 ou 30% do espaço de uma livraria, o resto é dividido entre mil outros assuntos. O passado
americano é contínua referência em todas as discussões. Não se vê uma única discussão pública
aqui que não apareça os personagens de Abraham Lincoln, Thomas Jefferson, George Washington,
Martin Luther King, e tantos outros. Isso quer dizer que a história, o passado americano, é um fator
presente na autoconsciência que os americanos têm de si mesmos, hoje. E isso, no Brasil, não
acontece.
Vejam, os meninos do nosso curso estão agora criando um filme sobre o José Bonifácio, isso é uma
medida de emergência, porque ninguém mais tem ideia de quem seja José Bonifácio. Quer dizer
que a nossa incultura – não digo apenas incultura, pois incultura seria a ausência da informação
especializada culta, é mais uma inconsciência histórica mesmo – [é tamanha que], em geral o
brasileiro não tem a menor ideia de quais são os fatores passados que estão pesando sobre sua
conduta e sobre a sua vida mais interior, no presente. Assim, é evidente que o pessoal acaba ficando
como cego em tiroteio, eles não sabem da onde vieram, não sabe para onde estão indo, não tem a
menor medida de comparação para avaliar o que esta acontecendo. Isso não apenas com relação a
história remota, mas também em relação a história muito recente.
Por exemplo, a toda hora, ainda hoje, ouvimos falar da ditadura militar. Por que isso ainda aparece?
Porque isso faz parte da memória de um determinado grupo, que fez toda a sua carreira, construiu
toda a sua existência política, em cima deste antimodelo, por assim dizer – nós temos aqui a
ditadura e aqui nós temos a democracia que somos nós –, graças ao interesse desse grupo esse dado
de memória se conserva.
Mas se voltarmos um pouquinho para trás, a história já desaparece. Por exemplo, quantas pessoas
são hoje capazes de imaginar o que era a atmosfera brasileira antes da transferência da capital para
Brasília? Isso se tornou uma coisa absolutamente impensável, as pessoas não têm ideia disso. Quer
dizer, a capital estar em Brasília já se tornou um dado da natureza, dá impressão que ela esteve em
Brasília desde a criação do mundo.
A perda dessa referência histórica é também a perda do verdadeiro senso da temporalidade. Vejam,
hoje em dia um sujeito toca uma música e dizem: “ah essa música é antiga” – antiga [para estes]
quer dizer que ela tem 5 anos. No meu tempo, penso assim, o que era uma música antiga? Era uma
música do tempo da primeira guerra – aquelas as meninas que dançavam charleston, que não foi
bem o tempo da primeira guerra, mas foi por volta de 1920. Então, antigo era aquilo que já não era
do tempo da minha mãe – aquilo que era velho no tempo da minha mãe, para mim passava a ser
antigo, era uma coisa que no mínimo tinha 50 anos – hoje não. Hoje as coisas se tornam antigas em
2, 3 ou 5 anos.
E eu vejo que este prazo vai diminuindo cada vez mais, isto é, o prazo de duração dos elementos na
memória vai se estreitando. E, isso torna impossível para as pessoas recomporem a história das suas
origens. Portanto, numa atmosfera dessas, se o sujeito falar de cultura, significa que ele está falando
quase de um fetiche. A ideia de cultura se tornou inimaginável, impensável. Ou seja, podemos
perceber elementos que chamamos de cultura.

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Por exemplo, todo mundo sabe que um disco ou uma novela da Globo tem algo a ver com a cultura,
já que existe um Ministério da Cultura que dá dinheiro para as pessoas fazerem shows, filmes etc.
Então, o que estamos chamando de cultura no Brasil são esses objetos materiais produzidos, bem
como os processos humanos pelos quais eles foram produzidos – é isso que se está se chamando de
cultura. Mas, isso não é a cultura. Isso são os testemunhos da cultura, são os rastros deixados pela
cultura.
Na verdade, a cultura em si mesmo, ela não está em nenhum objeto material. Ela está, por assim
dizer, no espírito que produziu tudo isso. E o quê que é espírito? Espírito é sobretudo intenção, é
uma vontade dirigida a algum fim. E é, portanto, também, uma seleção de prioridades.
Então, esta é uma das primeiras dificuldades que encontramos quando falamos de cultura, [a de
defini-la precisamente].
A segunda dificuldade, é a de que a noção de cultura está inevitavelmente ligada, pela força do
hábito e pela própria cultura, com a ideia de culturas nacionais. Então falamos de cultura brasileira,
de cultura argentina, cultura americana etc. E então a cultura passa a ser um segundo sinônimo de
nacionalidade. Quando o fato é que as fronteiras culturais não coincidem, de maneira alguma, com
as fronteiras geográficas nacionais.
Por exemplo, se falarmos em cultura americana: bom, a cultura americana está maciçamente
presente no Brasil. Se pegarmos toda a cultura brasileira, ela está dentro de uma área mental
abrangida pela cultura americana. É como se disséssemos que a cultura brasileira é uma subcultura
dentro da cultura americana – na verdade a cultura de inúmeros países é assim. E o fato de haver
nessa subcultura uma hostilidade para com a cultura dominante, não quer dizer absolutamente nada,
pois essa hostilidade também faz parte da própria cultura. Não encontraremos mais hostilidade ao
EUA em parte alguma mais do que no próprio EUA. Ou seja, o antiamericanismo é exportado desde
a América e formulado em termos americanos onde quer que possamos ouvir falar do assunto.
Dificilmente encontramos no mundo, algum americano que seja mais influente que, por exemplo, o
Noam Chomsky. Ou produtos de cultura americana que sejam mais populares do que os filmes de
Hollywood. E isso é um material quase que 100% antiamericano, de modo que o antiamericanismo,
que faz parte da cultura americana, é exportado também. E quando o indivíduo imagina que, ao
participar desse antiamericanismo, ele está de algum modo afirmando a sua cultura nacional, ele
está redondamente enganado. Ele está se tornando mais um membro do que aqui no EUA se chama
de cultura adversária – que faz parte da cultura geral, faz parte da cultura americana. A cultura
adversária é a cultura americana antiamericana, que hoje é dominante aqui pelo menos desde os
anos 60. A partir de 68 então, o antiamericanismo se torna uma instituição americana.
Se nos perguntarmos como isso aconteceu, veremos que a narrativa desse negócio é enormemente
complicada. Quando as pessoas pensam em guerra cultural, elas pensam sobretudo em um ataque
frontal direto através da propaganda, da informação, da contra-informação, da guerra psicológica
etc. Mas a propaganda é um elemento mínimo dentro deste conjunto. Se entendermos que a cultura
não é constituída das ideias que nós conscientemente temos, mas do conjunto dos sentimentos,
valores, sonhos, símbolos, etc., vemos que um ataque de uma cultura a outra, ou qualquer
interferência de uma cultura a outra, é uma operação enormemente complicada. E que seria
absolutamente impossível alguém conduzir [um ataque a outra cultura] através só do que hoje nós
chamamos de propaganda. [Na verdade], é preciso atuar em um milhão de fronts ao mesmo tempo.
A terceira dificuldade: para falarmos em guerra cultural, temos que perguntar qual é o agente dessa
guerra, quem é o personagem, quem está em guerra com quem. E aí vemos que em geral não
conseguimos sequer definir quem é esse agente.

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Por exemplo, quando se fala de guerra fria, pensamos em EUA e URSS, que são duas nações, e que
os agentes que empreendem essa guerra são seus respectivos governos. Mas pensem bem, se não
existisse, antes da URSS, um movimento comunista que havia começado por volta de 1840, e já
estava espalhado pelo mundo inteiro, como que a Rússia – que era um país relativamente isolado,
um país pobre e sem grande influência no mundo, nem influência cultural, nem política, nem coisa
nenhuma, embora fosse um país muito grande – poderia exercer uma influência sobre todo o
hemisfério ocidental? Seria absolutamente impossível. Desse modo, vemos que o agente efetivo da
guerra cultural empreendida pelo comunismo contra os EUA e outras potências ocidentais, não foi a
URSS de maneira alguma. Foi uma cultura muito mais ampla, que é a cultura do movimento
comunista.
Até hoje eu só conheci um estudioso do assunto que definiu o movimento comunista como uma
cultura, que fui eu mesmo. Está lá no meu artigo, “Do marxismo cultural”. E tão logo eu disse isso,
teve gente que ficou muito brava. Mas a própria braveza era uma prova do que eu estava dizendo.
Porque ela traduzia respostas padronizadas e previsíveis, que por sua vez são um acontecimento
cultural.
Quando as pessoas pensam, por exemplo, em guerra ideológica, elas estão tão distantes do que seja
efetivamente a guerra cultural – principalmente porque uma ideologia é um conjunto de ideias
evidentemente; é um discurso, e ali tem outro discurso, e lá tem outro discurso oposto, dois, três ou
quatro discursos em concorrência; e como em todo discurso a ideologia é uma totalidade racional
organizada, ela tem premissas, tem um desenvolvimento lógico, tem lá suas conclusões de ordem
teórica ou prática, de modo que uma ideologia pode ser discutida; e num confronto entre dois
discursos ideológicos, um pode levar vantagem sobre outro sobre vários aspectos.
Por exemplo, o mais comum: sabemos desde o advento da escola austríaca, que o argumento da
ineficiência econômica do socialismo é um aspecto forte do discurso anticomunista, e isso é um
assunto que pode ser levado para o terreno das provas e contraprovas. Dessa forma, por mais que
um dos lados esperneie, aquele que tiver a razão de fato, neste ponto acabará levando vantagem de
qualquer maneira – pelo menos sob este aspecto da persuasão racional. Mas podemos tirar uma
cultura de dentro da cabeça de um sujeito por persuasão racional? Não, não se pode tirar um índio
do Xingu, levar ele para o Alasca, e fazer ele se sentir um esquimó mediante argumentação
racional. Isso significa que, por exemplo, o sujeito está lá no partido comunista, é comunista desde
pai, mãe, avó, bisavó, etc., e querem tirá-lo disso mediante persuasão racional – isso é
absolutamente impossível. Temos aí um processo de desaculturação que pode levar uma vida
inteira, e que pode terminar em desastre. Isto é, o indivíduo perde sua cultura originária e não
consegue se integrar na outra. Ele fica uma pária, por assim dizer.
Ora, isso aconteceu no Brasil. A maioria dos meus alunos não estavam vivos na época, nem
existiam, mas nos anos sessenta, logo após o AI-5 e a derrota das guerrilhas, isso de fato teve um
impacto desaculturante sobre muitas pessoas. Porque elas tinham crescido dentro da atmosfera
comunista, contra o golpe militar, etc., e de repente todos os seus planos de vida foram por água
abaixo. Por consequência, o Brasil no qual eles esperavam viver não existia, e não ia existir por
muitas décadas pela frente, eles iam ter de se adaptar a um outro Brasil. O resultado foi uma fuga de
milhares de pessoas, que antes eram ideologicamente formadas, para as drogas, para a revolução
sexual etc.
Havia na época uma espécie de conflito, uma hostilidade, entre aqueles que representavam ainda o
espírito revolucionário antigo, comunista ortodoxo, por assim dizer, e o pessoal da Nova Era. É
muito interessante ler sobre esses aspectos, por exemplo, no livro do Luiz Carlos Maciel, que era,
por assim dizer, o teórico da Nova Era. O discurso dele era tão diferente do discurso comunista
anterior, que ficava até difícil entender como esse sujeito que proveio do meio comunista, se
transformou de tal maneira. Como as pessoas podiam repentinamente começar a achar que elas
fazendo sexo grupal, ingerindo maconha, tomando pico, etc., significaria alguma coisa na luta

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política pela derrubada da ditadura? Houve até um lema que o pessoal da Nova Era e da revolução
sexual espalhou na época que é “o sexo anal derruba o capital”. É evidente que não há a menor
relação entre uma coisa e outra, quem quiser experimentar, experimente para ver se a sua prática do
sexo anal, ativo ou passivo, afeta alguma coisa o mundo capital. Na verdade, não afetou. Por quê?
Porque a Nova Era inteirinha se transformou numa próspera indústria editorial, musical, teatral, etc.,
e reforçou um bocado o mundo do capital. Houve várias carreiras significativas nesse sentido. Por
exemplo, houve um sujeito chamado Henri Maspero que criou uma editora comunista na França,
que evidentemente era para derrubar o capitalismo – o capitalismo não caiu, mas o Maspero ficou
bilionário.
Então, essas coisas acontecem. Agora, imaginem como o indivíduo, que vai saindo de dentro de
uma cultura e entrando em outra sem nem perceber, reestrutura sua personalidade? Esse
evidentemente é um grande problema. E, se para as pessoas que estão envolvidas nesse processo
tudo isso é uma coisa que elas mesmas percebem mal ou as vezes nem percebem nada, podem ter
certeza que por trás do comando da guerra cultural tem alguém que compreende isso perfeitamente
bem, e sabe como produzir esses efeitos intencionalmente. Eu vejo que até hoje, por exemplo, as
ideias de Antonio Gramsci não foram bem compreendidas no Brasil. E vejam, Antonio Gramsci é
um pedacinho disso aí, porque se falarmos de cultura comunista, 20 ou 30 anos antes da revolução
soviética, já tínhamos uma enorme cultura comunista espalhada pelo mundo inteiro. E essa cultura
não tinha fronteira geográfica, ela se definia, por assim dizer, através de grupos e famílias.
É interessantíssimo observarmos no EUA, isto que eles chamam de red diapers (fraldas vermelhas),
que são garotos de família comunista, educados dentro de uma mentalidade comunista-stalinista
desde pequeno, e que se por acaso entrassem em conflito com essa cultura originária, eles
continuariam vivendo em função dela até o fim dos seus dias. Vejam, a biografia do David
Horowitz – que é um líder conservador, um jornalista de tremenda repercussão no EUA; mas que
era, no início de sua carreira, um dos teóricos dos Panteras Negras, era um adepto da revolução
violenta, etc., e acabou virando um conservador. Leia tudo o que o David Horowitz escreveu: é tudo
sobre comunismo, sobre o Panteras Negras etc. Ou seja, ele ainda vive da mesma cultura que ele
rejeitou.
Vejam também a experiência do Alexander Soljenítsin, que esteve preso na URSS. Ele escreveu
uma imensa narrativa sobre o gulag, onde ele também foi prisioneiro, pois todo mundo entregava
para ele depoimentos e testemunhos aos milhares, daí ele foi juntando isso tudo e depois compôs o
livro Arquipélago Gulag. Ele não tinha nenhum motivo para gostar da URSS, mas quando
finalmente ele foi exilado para a Suíça, durante um tempo ele se sentiu completamente perdido no
espaço. Ele dizia: “eu não posso sobreviver aqui, porque aqui ninguém fala russo; eu estou fora da
minha cultura nacional, e da cultura ideológica que me formou; eu só tenho o que dizer dentro dela,
portanto se eu saio daqui eu só posso falar para estas pessoas que conhecem essa cultura”.
Entendem? E é por isso mesmo que ele observou, depois quando veio fazer algumas conferências
no EUA, que o pessoal da AFL-CIO, que é a central sindical aqui, o compreendia muito melhor do
que os capitalistas, os políticos democráticos etc. Por quê? Porque eles tinham essas referências da
cultura revolucionária, eles emergiram de dentro dela.
Muitas vezes as pessoas se perguntam – elas veem a absurdidade as vezes de certas doutrinas, de
certas ideias comunistas – como é que as pessoas podem acreditar nisto? Ora, se tudo isso tivesse
chegado a elas sob a forma de um discurso ideológico, elas poderiam se despir desse discurso
ideológico facilmente. Mas e se chegou através de imagens, de gestos, de olhares, de sonhos, como
é que se tira isso de dentro de uma pessoa? É assim que certas mentiras óbvias propagadas por
certos movimentos ideológicos sobrevivem a todas as contestações e à prova cabal da sua falsidade.
Pois não se trata da adesão racional a uma doutrina, mas da participação emocional e imaginativa de
uma cultura.

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O indivíduo pode até ser levado a rejeitar certos aspectos da sua cultura. Por exemplo, um índio do
Xingu, se alguém falar para ele: “olha, você não deve enterrar os bebês que vocês não querem, isso
não está certo” – pode até ser que esse alguém o convença disso. Mas isso vai tirá-lo de dentro
daquela cultura? De maneira alguma. Porque toda cultura tem suas contradições internas, e tem uma
certa margem de conflito que faz parte dela. Portanto, ele pode se opor a esse aspecto em particular,
mas vai se opor nos termos da oposição que já estão previstos na sua cultura.
Se, com o que eu disse até agora, vocês entenderam que esse negócio de guerra ideológica não
existe, só existe guerra cultural, então entendem que o problema é muito maior do que parece à
primeira vista. E entendem sobretudo, que toda forma de argumentação racional é perfeitamente
impotente para lidar com isso. Porque não estamos falando de fenômenos da esfera puramente
ideológica de ideias, estamos falando de fenômenos da ordem psicológica profunda.
Suponha que um indivíduo chegasse a conclusão de que todo marxismo está errado – um indivíduo
proveniente deste meio –, com muita probabilidade, ele buscaria um novo discurso revolucionário
para substituir o marxismo – isso aconteceu, por exemplo, no caso dos teóricos da Nova Era, da
revolução sexual etc. Vejam, por exemplo, quando surge a ideia da revolução sexual com Wilhelm
Reich, na Alemanha na década de 20, ele foi imediatamente rechaçado pelo meio comunista.
Porque eles tinham sido educados na base de que a força determinante da história é o conflito entre
os interesses de classe, e de repente vem um sujeito e propõe que, o que existe por trás ou por baixo
desse conflito, é um conflito ainda mais básico, mais profundo, entre energias orgânicas. Reich via
o sexo não apenas como um desejo pessoal, mas como uma energia, uma espécie de força física,
que lutava para se expandir, se manifestar, mas que se encontrava travada por leis, normas,
regulamentos e hábitos opostos. Em suma: por um lado havia um sistema do prazer, e por outro
lado um sistema da repugnância – se aquilo que para um indivíduo era o máximo do prazer, o
suprassumo das delícias, para o outro, era o que havia de mais repugnante e horroroso. E a política
da repugnância predominava sobre política do prazer, portanto era preciso estourá-la de algum
modo para promover aquilo que ele chamava de energia orgônica – uma explosão de uma espécie
de energia que [ele achava que] ia mudar, não apenas a sociedade, mas o universo inteiro. Reich
dizia que o próprio advento de Cristo foi uma explosão de energia orgônica que estourou tudo, e ele
esperava que isso acontecesse de novo. Muito bem, Wilhelm Reich morreu louco, e hoje em dia
pouquíssimas pessoas se consideram discípulas dele. [00:30] Porém, a luta pela liberação da energia
sexual não continua igualzinha? Mais ainda, nós podemos perguntar: a liberação sexual pode criar
uma nova sociedade, ou ao contrário, ela precisa dessa mesma sociedade para poder continuar?
Por exemplo, eu pergunto: sem a indústria do show business, como poderia haver liberação sexual?
A indústria do show business evidentemente é um dos aspectos fundamentais da economia
capitalista – show business e mídia –, provavelmente é o setor mais próspero da economia. O
próprio fundamento econômico da possibilidade da sua “ideologia” depende da cultura antagônica
que você está querendo destruir. Aliás, vocês conhecem algum país que tenha se instalado o
socialismo por meio de uma revolução sexual? Nunca houve. Ao contrário, dentro da área
socialista, toda esta ideologia sexualista é geralmente repelida e perseguida, como é na Rússia hoje,
como foi no tempo de Stalin, e como é ainda em Cuba. E no entanto, vemos que tem inúmeras
pessoas no parlamento, nas universidades, na mídia, acreditando que a liberação sexual – a busca do
prazer – é um interesse humano que está intrinsecamente vinculado aos interesses dos pobres e
oprimidos. Ora, sabemos perfeitamente bem que uma vida de prazeres não é para os pobres e
oprimidos, eles não têm acesso a isso. Então o que é na realidade? É o interesse de uma pequena
parcela da sociedade, da classe média alta para cima, que se identifica simbolicamente com os
interesses da população pobre, que evidentemente não tem nada a ver.
Só por esse exemplo, podemos ver que a guerra cultural não se trava na esfera das ideologias, mas
se trava, por assim dizer, na esfera psicológica mais profunda – por ser uma coisa que tem mais a
ver com o inconsciente humano do que com qualquer outra coisa.

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Ora, se vocês lerem a obra do próprio Antonio Gramsci – que eu não considero ser o que existe de
melhor sobre o assunto –, verão que ele estava consciente disto. Ele acreditava que era possível
derrubar o capitalismo através da destruição dos símbolos dominantes da cultura capitalista. Esses
símbolos, por sua vez, não tinham sido criados pela cultura capitalista, mas foram recebidos de uma
cultura anterior, a cultura católica. Portanto, ele via a Igreja Católica como o maior obstáculo ao
comunismo – isso mesmo em países que não eram católicos, como o EUA por exemplo, onde 99%
dos elementos culturais do protestantismo local tinham sido herdados da Igreja Católica; ou seja,
não eram tão diferentes assim, era a mesma bíblia, os mesmos dez mandamentos, o mesmo sermão
da montanha etc. – e, independentemente da modulação local pouco diferente – que Gramsci
chamava de americanismo, ou seja, uma ideologia americanista, que é diferente da ideologia
católica antiga, mas que é herdeira dela de algum modo – ele achava que através da destruição disso
podia-se criar um socialismo – isso jamais se verificou no mundo. E a coisa mais incrível é a
seguinte: embora não se tenha instaurado o socialismo em parte alguma por meio da revolução
gramsciana, essa continua sendo, por assim dizer, a proposta ideológica de maior sucesso no
mundo, especialmente no Brasil. O número de pessoas que participam dessa revolução cultural, e
que veem nela o próprio tecido de sua vida, é cada vez maior – e o raio do socialismo nunca vem,
ele continua sendo adiado ad aeternum.
Nas aulas que eu dei sobre mentalidade revolucionária, eu mostrei que esse adiamento faz parte da
própria dialética interna da revolução. Os objetivos proclamados da revolução não podem ser
atingidos – por um motivo muito simples, a revolução nega todos os valores existentes e se afirma a
si própria como um valor supremo que não pode ser julgado por nenhum dos outros. Desse modo, a
revolução só pode ser julgada por si mesma. Por isso mesmo, ela jamais pode se transformar num
estado de coisas estabelecido, porque esse estado de coisas será julgado de acordo com outros
interesses. Por exemplo, a população a qual o sujeito prometeu isto ou aquilo e não realizou, [e
assim sendo], ela o julga e o condena – isso não pode acontecer jamais.
Portanto, ninguém tem de se preocupar com o socialismo, pois este simplesmente não virá – como
nunca veio. O que haverá sempre será uma economia basicamente capitalista com uma sociedade
imbuída duma cultura antagônica ao capitalismo – isto é o que se tem no EUA, uma imensa
economia capitalista que investe maciçamente na cultura anticapitalista, à qual não tem jamais o
poder de destruí-la, mas tem o poder de transformar a sociedade num inferno – este é o processo
que nós estamos vivendo efetivamente.
Isso quer dizer que, os planejadores da guerra cultural comunista têm um grande controle da
situação cultural, sob certo aspecto. Mas o controle da situação cultural não tem nada a ver com o
advento do socialismo, esta situação pode continuar assim indefinidamente – e vai continuar. E se
perguntarem o porquê de as grandes fortunas, os grandes grupos megabilionários, investirem tanto
nas ideologias da esquerda, [verão que é precisamente] porque eles sabem disso. Ou seja, estes
grandes grupos sempre têm a seu serviço intelectuais e estudiosos profundíssimos, que sabem como
essas coisas funcionam, sabem qual é a margem de risco envolvida, e sabem que o risco de o
esquerdismo mundial criar um socialismo é zero. O que vai haver é uma intensificação de conflitos
perfeitamente planejados e controlados.
Por exemplo, a cultura do divórcio no EUA. Isto aparece também, evidentemente, de fontes
esquerdistas, que esperavam que através da destruição da família, eles pudessem destruir a
sociedade capitalista, mas não. A sociedade capitalista progride formidavelmente na base da
destruição das famílias, mesmo porque – como também já expliquei – não se trata da destruição das
famílias em geral, mas das famílias do povão, não das famílias da elite. Não se vê nenhuma dessas
grandes famílias tipo Rockefeller ou Rothschild dividida por conflitos sexuais, por exemplo – não
tem isso, isso é só para o povo.
Quanto mais se dissolve as famílias, mais as pessoas são reduzidas a átomos soltos, sem raízes em
valores próximos. Assim, as pessoas ficam como ovelhas desgarradas, e já que elas foram retiradas

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de seu círculo de referência mais próximo, são então facilmente integradas num círculo de
referência maior, que é criado pelas grandes empresas e pelo Estado. Por exemplo, o sujeito já não
participa do próprio universo familiar, ele já se sente totalmente estranho a seu pai, a sua mãe, etc.,
mas ele quer um novo computador da Apple, ele quer a previdência social lhe dando dinheiro. Ou
seja, ele precisa do Estado e das grandes empresas para cada vez mais coisas.
Se tornou comum, na sociedade capitalista avançada, a ideia de eliminar todos os controles locais e
parciais, e os substituir por controles gerais. Hoje existem edifícios inteiros onde não se pode dar
uma descarga na privada sem isso se referir a um computador central. Atualmente todas as
empresas de automóveis estão empenhadas no automóvel autodirigível, mas se o automóvel é
autodirigível ele só pode sê-lo mediante a conexão com um computador central. Isso quer dizer que,
a partir desse momento – que as empresas calculam que o processo estará completo em 2025 –
ninguém mais terá um carro onde ele próprio irá dirigir, todos terão carros autodirigíveis e todos
estarão conectados a um computador central; que funcionará exatamente como um GPS,
localizando onde o sujeito está, para onde ele está indo, e passando as instruções para o automóvel
conforme o endereço onde ele pretenda ir. Isto é, este computador saberá onde todo mundo está
indo, a que horas e fazendo o quê. Isso é um caso de controle estatal monstruoso. Implantado pelo
quê? Pelo socialismo? Não, pelo capitalismo.
E este é outro aspecto que complica as coisas: nós estamos em uma sociedade que é maciçamente
afetada pelos progressos da tecnologia – ela determina o curso de nossas vidas e esses progressos
são cada vez mais acelerados, mais imprevisíveis e mais incontroláveis. Por exemplo, uns anos
atrás, eu disse que em breve estariam instalando chips em todas as pessoas – evidentemente todo
mundo pensou que isso fosse teoria da conspiração, mas isso já está sendo feito; no Canadá e na
Austrália isso já começou. Ou seja, o sujeito tem meios de controle da conduta popular que nenhum
tirano da humanidade jamais imaginou – vejam se Genghis Khan, ou Átila, o Huno, ou Júlio César
poderiam pensar nisto? [Pensar] em controlar o que todo mundo está fazendo, saber o que eles estão
pensando, o que eles conversaram em casa, para onde eles vão... eles nunca sonharam com uma
coisa dessas. Napoleão Bonaparte nunca sonhou com isso. Até mesmo Lênin nunca sonhou com
uma coisa dessas. No entanto, isso está sendo construído, na nossa frente, por meios capitalistas.
Logo, a própria oposição entre capitalismo e socialismo já não expressa a realidade do que está se
passando. O que se tem efetivamente é uma guerra cultural. E nessa guerra cultural os inimigos não
se definem por linhas de diferenciação ideológicas, mas pela quantidade de controle que eles podem
ter em suas mãos. Existe muita pouca diferença entre um Estado socialista – nominalmente
socialista, como ainda é a China – e um Estado capitalista, onde as grandes empresas em associação
com o Estado, exercem esse controle sobre toda a população.
E se nos perguntarmos: qual é a guerra cultural que está realmente havendo? A guerra cultural é
entre uma cultura mundial de centralização e acumulação ilimitada de poder e todas as culturas que
ela vai abrangendo enquanto isso.
A única maneira de escaparmos um pouco de dentro dessa dominação – e não me venham com a
imagem da Matrix, porque esse filme é uma total falsificação, pois ele expressa um ideal de
dominação, e um ideal de dominação absoluta que é intrinsicamente impossível e que jamais será
realizado; porque o sujeito oferece para você uma coisa que parece uma banana, tem casca de
banana, gosto de banana, tem as propriedades nutritivas de uma banana, mas é uma banana
falsificada, tem de rir duma coisa dessas; se a banana falsificada tem todas as propriedades da
banana, sem faltar nenhuma, então ela é indiscernível da [própria] banana; um mundo falsificado
que imite o mundo real em 100% é obviamente impossível, sempre deverá haver uma área de
tensão. Quando um sujeito expressa a sua revolta cultural em termos de sair da Matrix, ele já entrou
na Matrix por isso mesmo. Ele aceitou esse símbolo Matrix, que é criado por quem? Pela
contracultura? Ou pela grande empresa de mídia e show business?

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Então, nós não podemos aceitar nenhum símbolo popular. Nós temos que nos ater à descrição
científica do estado de coisas, o mais objetivo possível. O que implica, evidentemente, um prévio
trabalho de autoexame profundo no qual possamos tomar consciência das forças culturais que
plasmaram a nossa personalidade inteira. A partir do momento que começamos a fazer isso, a nossa
liberdade, o nosso poder de dizer sim ou não, o nosso poder de escolha, começa a interferir um
pouco no conjunto, e temos então alguma margem de manobra. Ou seja, da criação da própria
personalidade o sujeito passa a ser uma das forças componentes, podendo assim, com um pouco de
esforço, até se tornar a principal – mas se livrar das influências externas ele não vai se livrar jamais,
e aliás, ele nem precisa.
Não se trata de nos tornarmos criaturas inteiramente criadas por si mesmas, para isso seria preciso
que nos criássemos a nós mesmos, precisaríamos gerar a nós mesmos, desde o momento da
fecundação e isso não é possível. Nós sempre nos conhecemos a nós mesmos quando já estamos
semi-prontos, feitos por outras pessoas, e o que podemos tentar, a partir desse momento, é fazer
uma certa escolha. A escolha por sua vez é baseada em valores. E de onde se tira esses valores? Em
geral é da própria cultura que nos formou. E só existe uma única maneira de superarmos isso: é
transcender os limites de nossa cultura, ampliando o seu horizonte, para abranger não só outras
culturas no sentido geográfico, mas no sentido temporal.
Ora, o chamado establishment já percebeu isso. E por que vocês acham que existem projetos como
este da educação brasileira de só ensinar para as pessoas a história a partir de um certo momento?
Só ensinar aquilo que tem função ativa na cultura de hoje? E apagar o resto? Bom, esse resto se
tornou tremendamente perigoso, pois se o sujeito começa a examinar a cultura atual com os olhos
de Platão, ele vai perceber um monte de coisas que, de outra maneira, não perceberia de jeito
nenhum. Então, aquilo que chamei de cronocentrismo, é hoje um dos elementos fundadores de todo
o poder. Eles limitam o círculo da história àquilo que pode ser formulado nos termos da cultura
dominante, e excluem o que não pode. Assim, a desaculturação cronológica é um elemento
fundamental da liberdade humana, e só se nos entregarmos a isso com muita seriedade e paixão é
que podemos enxergar algo além daquilo que as pessoas poderosas querem que nós enxerguemos.
Por isso que o sujeito ficar contra a cultura dominante não o liberta dela, não se trata de ficar contra
entre as várias culturas – é como se fosse uma disputa entre várias amebas, onde esta ameba engole
aquela outra, e aquela outra continua vivendo dentro desta, porém com uma certa identidade ainda
dentro dela, mas que está integrada dentro de um conjunto maior; como por exemplo, a cultura
brasileira está vinculada à cultura americana, e também à cultura comunista. E entre as várias
consciências também é a mesma coisa, não se trata do sujeito se opor a uma outra consciência, mas
dele a engolir e fazer com que ela seja uma parte da dele, e não ele uma parte da dela. É uma luta
entre horizontes de consciência, talvez não exista conceito melhor para descrever uma cultura do
que um horizonte de consciência coletivo, ou seja, é um conjunto de fatos e ideias que todo mundo
conhece, e que portanto serve como o vocabulário pelo qual as pessoas se entendem.
Se conseguirmos abranger o horizonte inteiro da cultura onde estamos, por exemplo, a cultura
brasileira – o que não é difícil, não é uma cultura relativamente limitada, e não é muito difícil sair
dela integrando elementos de outras –, de certo modo, para nós a guerra já está ganha. Porque a
guerra cultural visa a dominação das consciências e das personalidades, visa a forjar consciências e
personalidades que estejam de acordo com as necessidades do grupo dominante. Se o sujeito
enxerga algo que eles não queriam que ele enxergasse, então, ele já ganhou. Ele não precisa
derrubar o sistema. Pelo simples fato dele ter ampliado a sua consciência, ele cria possibilidades de
que outras pessoas ampliem também, ele vira uma força desaculturante. Eu sou uma força
desaculturante, e cada um de vocês podem ser uma também.
Aqui nesse nosso curso, assim como no COF, nós podemos dizer o seguinte: nós não estamos
lutando por uma cultura contra outra cultura, nós estamos lutando pela nossa consciência e para não
sermos submergidos, abrangidos ou fagocitados por outras culturas – é só isso que nós queremos. E

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fazendo isso nós estamos exercendo o privilégio máximo do ser humano que é o chamado livre-
arbítrio. Só podemos falar em livre-arbítrio a partir desse momento. O que é livre-arbítrio? É livre
escolha. Mas escolha entre quê e quê? Quais são os elementos? Qual é o leque de escolhas que
temos? Se o leque já nos foi dado pronto, escolha A ou B, já estamos “dentro do código”. Mas e se
quisermos escolher entre C, D, E, F, G, H...? E se tem um leque de escolhas que nem imaginamos?
Pronto, estamos livres! E, na medida que estamos livres, espalhamos esse espírito de liberdade
entorno. E fazemos com que inúmeras consciências comecem a se sobrepor a esta redoma, dentro
da qual a cultura atual as fecha. E isso é todo serviço que nós temos de fazer. Não há mais nada.
Notem bem, isso que estou dizendo não tem tradução política, não existe nenhuma corrente política
no mundo que represente isso. Ela pode em certos momentos, simbolicamente, falar em nome da
liberdade de consciência, etc., mas por si mesma, a atividade política é a luta por um poder. E,
evidentemente todo poder busca a sua própria concentração, qualquer um. O sujeito pode até dizer
assim: “eu sou contra a intervenção do Estado na economia, eu quero uma economia liberal”. A
economia liberal é um meio, também, dele ampliar o domínio que o Estado tem sobre as pessoas,
porque na medida que ele descarrega o Estado de certas funções econômicas, este assume outras
funções. Essas outras funções podem interferir em suas vidas muito mais do que a política
econômica centralizante.
Então, não se iludam, não há política liberal, conservadora, socialista, nazista, fascista, monarquista,
etc., não há nenhuma que coincida com a causa da liberdade humana, nenhuma. Notem bem,
Napoleão Bonaparte disse uma frase terrível: “a política é o destino concreto do nosso tempo”. O
que ele quis dizer? Que dali para diante tudo se transformaria em política, e a disputa de poder, a
conquista do poder, se tornaria a chave explicativa de tudo. O fato de se politizar tudo, já escravizou
todo mundo, porque qualquer iniciativa que se tenha no sentido da liberdade humana, será
reaproveitada dentro da luta de um grupo pela centralização de seu poder. E é exatamente disso que
nós temos que libertar as pessoas.
O nosso esforço é para que as consciências se desaculturem, não só sociologicamente, isto é, da sua
cultura local, mas se desaculturem cronologicamente. Vejam, o cronológico é uma coisa decisiva,
porque as fronteiras culturais geográficas vivem mudando – tem aqui um país, aí entra o exército
soviético por exemplo, e domina tudo, e daí automaticamente as pessoas aprendem a falar russo nas
escolas, e se cria uma segunda cultura em cima da cultura local, e a cultura de cima evidentemente
engole a de baixo, e portanto isso está sempre mudando. Mas o cronocentrismo, a limitação das
pessoas ao horizonte de consciência do presente, é o instrumento fundamental de dominação. É isto
que nós devemos estourar de qualquer maneira.
Esses são alguns dos critérios que nós temos que usar para tentar entender o fenômeno da guerra
cultural. Nós podemos usar alguns exemplos de guerras culturais mais antigas para vermos como
elas funcionaram, para depois chegarmos a situação presente. Em todos os casos veremos que a
participação de um sujeito em uma cultura contra outra, tem pouco ou nada a ver com convicção ou
crença. Tem mais a ver com hábitos de linguagem – quando falo em linguagem não é só linguagem
no sentido verbal, mas de linguagem pictórica, ou seja, o sujeito se acostuma com determinadas
formas e rejeita outras e assim por diante, e esta linguagem pictórica, por sua vez, entra até nos seus
sonhos, nas suas imagens, nos seus padrões de beleza e das imagens de felicidade que temos etc.
Logo, é nessa faixa profunda, do imaginário, que está a guerra cultural. Não na esfera da ideologia,
da crença e da religião.
Por exemplo, se pensarmos em uma religião: imaginem a religião cristã católica amputada de toda a
arte figurativa que ela criou, o que seria do catolicismo sem as imagens de Nosso Senhor, da
Virgem Maria, da Sagrada Família, sem a Capela Cistina, sem toda a arte, sem as catedrais góticas?
O quê que ela seria? Seria uma fórmula ideológica seca, vazia, que não teria jamais penetração
alguma nas consciências. Mesmo porquê, entre essas obras de arte existe uma que é fundamental,
que se chama a liturgia. A liturgia saiu de onde? Ela veio pronta? Não, ela é vagamente inspirada na

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Santa Ceia. Mas e o resto todo? Quando vamos a missa, lá tem uma sequência de operações, se faz
uma prece inicial, uma confissão inicial, depois uma invocação ao senhor, depois uma série de
preces, depois três leituras, do antigo testamento, do novo testamento, com as cartas de São Paulo
apóstolo no meio, daí faz a consagração, a eucaristia etc. De onde surgiu isso? A liturgia é uma
criação literária da Idade Média. Um monte de gente colaborou para isso, e é uma tremenda obra de
arte. Se pensarmos bem, a liturgia católica é a suprema obra literária da Idade Média. Não tem nada
que supere isso, nada mesmo. Tudo o mais, inclusive as obras de arte individuais criadas por artistas
como Dante e outros tantos, vêm disso. Imagina ler a Divina Comédia fazendo de conta que não
existe a eucaristia: sumiu a Divina Comédia! Assim, a liturgia tem uma série de textos e uma série
de gestos, de atos, portanto, é como uma espécie de espetáculo teatral, que não é feita para a
assistirmos, mas para participarmos dela. Todos nós somos, de novo, atores no drama da paixão, da
ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Anunciamos a sua morte e proclamamos a sua
ressurreição. É no plural. Nós todos estamos fazendo isso, portanto, nós todos somos parte do
espetáculo. [01:00]
Este espetáculo tem uma importância tão central na história de todo o mundo cristão que, conforme
demonstrou Northrop Frye, no livro The Great Code, praticamente todos os enredos da literatura
universal aparecem disto aí. Então, é todo imaginário humano que está condicionado a esta liturgia.
Mas e se as pessoas não conhecem mais a liturgia? As pessoas não sabem mais de onde as coisas
saíram. Então, acontece aquele fenômeno descrito por Chesterton: ideias cristãs enlouquecidas
espalhadas uma aqui, outra ali, e que acabam se integrando em inúmeros contextos improvisados.
Hoje em dia é possível até usar argumentos ou pretextos cristãos para legitimar o casamento gay.
Porque se o sujeito não o aceita, então ele é malvado, ele está oprimindo os pobrezinhos etc. Tudo
isso é possível. E o quê que é isso? É um elemento cristão desconectado do seu conjunto e
enquadrado num outro conjunto improvisado, para fins políticos do momento. Isso acontece a todo
momento.
Nós só podemos nos libertar disso se nós conhecermos a história verdadeira. Isto é, se soubermos de
onde as coisas surgiram e quais os valores originários que as inspiraram. Isso também quer dizer
que podemos ler um bocado de coisas, adquirir um bocado de cultura, sem nunca perceber nada
disso, porque lemos tudo enquadrado na cultura contemporânea. Por exemplo, se pegarmos a obra
de Platão, este é um elemento curricular, ensinado em tal ou qual universidade, de acordo com os
intérpretes supostamente mais abalizados do momento – então nós sabemos tudo o que a cultura
contemporânea pensa sobre Platão, mas nunca ficamos sabendo o que Platão pensaria da cultura
contemporânea – isso é a mesma coisa que dizer: “você não está entendendo coisa nenhuma, você
está repetindo um discurso da sua cultura sobre a cultura de outra época”.
Neutralizar o efeito cronocêntrico é uma providência preliminar, sem a qual seremos sempre
escravos mentais. E esta libertação do cronocentrismo é não apenas possível, como muitas pessoas a
realizaram. Por exemplo, quando vemos a naturalidade com que grandes filósofos de uma época
absorvem a influência de outros de dois mil anos antes, a ponto de esta influência ser maior neles do
que a de qualquer elemento contemporâneo. Por exemplo, se lermos São Tomás de Aquino, existe
no meio social dele alguém que o influenciasse mais que Aristóteles? Que havia morrido muito
antes? Ninguém. Então, quer dizer que ele sai de sua cultura para observá-la com os olhos de
Aristóteles, e assim por diante. Isso acontece a todo o momento, essa libertação é possível e temos
inúmeros exemplos dela.
Se numa sociedade temos um número suficiente de pessoas com esse tipo de horizonte de
consciência, é claro que os sistemas de dominação encontrarão maior dificuldade para se implantar.
Porque eles terão que enfrentar, não apenas resistências pontuais de uma cultura ou de outra, mas a
sua própria contradição de algum modo, trazida à luz justamente por essas pessoas e, portanto, a
autoconfiança com que os representantes dessas correntes estão agindo ficará bastante enfraquecida.
Eu acredito que esta seja a função efetiva dos intelectuais do mundo moderno – a função do

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intelectual é desaculturar todo o mundo, tirar o sujeito da sua cultura provinciana e colocá-lo dentro
de uma cultura que podemos chamar de cultura humana, que é uma cultura de todas as épocas e de
todos os lugares.
É claro que esse processo de assimilação de outras culturas também pode ser integrado dentro de
um sistema de dominação presente. Por exemplo, todo o orientalismo usado como crítica da
civilização ocidental por forças interessadas em dominá-la. Se vocês assistirem uma montanha de
filmes de faroeste, verão em primeiro lugar que quase a totalidade deles é sempre a favor dos
índios, eles são sempre as vítimas dos malvados brancos – é claro que tem exceções, tem alguns que
não são; eu lembro um filme com Burt Lancaster, A Vingança de Ulzana, em que os índios são
representados da pior maneira possível, mas em geral não é isto que acontece. Portanto, o faroeste é
um gênero de promoção da cultura indígena contra a cultura cristã, supostamente dominante. E em
seguida este mesmo elemento cinematográfico é usado como prova da dominação cristã e branca
sobre os índios. Esta é uma inversão total. Mas por que ela é crível? Porque o cidadão comum, em
geral, se baseia somente naqueles elementos que chegaram ao seu conhecimento, ele não busca
outros para além disso.
Vejam, uma pesquisa que eu fiz outro dia: eu coloquei no Youtube “agressão travestis”, e vi
algumas centenas de vídeos disso. A quase totalidade deles eram de travestis batendo em pessoas,
homens e mulheres. Eu não via um travesti apanhando de ninguém, a não ser que fosse de outro
travesti. Então, pela amostragem que aparece no Youtube, vejo que não existe uma agressividade
contra o travesti, existe uma agressividade da comunidade dos travestis contra os outros. Eu não sei
qual o valor estatístico desta amostragem, mas alguma coisa ela significa. Seria preciso refazer esta
pesquisa com mais critério científico, pois o meu era só impressionista.
Do mesmo modo, a famosa violência contra a mulher. No EUA tem estatísticas suficientes para
provar que na maior parte dos casos de violência doméstica é a mulher que agride o homem, isso no
terreno dos fatos, mas e a imagem pública? É a de que a mulher é a vítima. E porque as pessoas
continuam acreditando nisso? É simples: elas não vão fazer pesquisa nenhuma. E uma pesquisa
estatística exposta sob uma forma científica tem menos poder de persuasão do que filmes, novelas
etc.
Este é outro ponto, a imagem que as pessoas fazem da realidade é determinada maciçamente pela
ficção, e não pela informação. Se perguntarem o que foi a Guerra do Vietnã [para as pessoas em
geral, verão que] elas formam a imagem delas por filmes como Apocalipse Now, entre outros. Não
por livros de História. A História só chega à população através da ficção. Inclusive, essa ficção é
transformada depois em conteúdo pedagógico. Em face disso, o poder das discussões ideológicas é
quase nulo. Pois vocês estão tentando falar com a consciência intelectual do indivíduo, é a ela que
vocês se dirigem. Ao passo que toda a imaginação dela já está moldada em sentido contrário e ela
não poderá abdicar dessa imaginação, mesmo que vocês a convençam. Vocês demonstram que isto
é de uma forma e não de outra, mas ela continua vendo da mesma maneira.
Estão entendendo como se faz guerra cultural? Não é com propaganda ideológica, não é com
doutrinação, é com o trabalho da imaginação. O poder da imaginação sobre o ser humano é tal que
ele domina a vontade em 100%, o sujeito só pode querer aquilo que ele imagina.
Supomos que o sujeito chega a um restaurante em um país estrangeiro, na Hungria, e pede um
cardápio. Daí o cara lhe mostra um cardápio em húngaro e pergunta o que ele quer ali, ele responde
que não tem a menor ideia, não consegue imaginar o que são aqueles pratos, não imagina a forma
deles, o gosto deles. Então, ele não pode escolher. Se o cara trouxer um cardápio com fotografias,
daí já melhorou. Ele vai escolher dentro do leque daquilo que ele imagina.
Então, vamos definir de uma vez por todas: a guerra cultural é uma guerra pela conquista da
imaginação. Não é da adesão política, não é da ideologia, não é nada disso. Nesse sentido, se

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querem entender como a coisa funciona, comecem a investigar pequenas mudanças nas esferas das
imagens.
Eu outro dia citei o caso das cédulas brasileiras: quando lhes tiraram os heróis nacionais, supondo
que fossem heróis de fato – mesmo que fossem falsos heróis, não tem importância, pois eram
considerados como reais – e colocaram imagens de bichos. O que era isso aí? Era a dissolução de
uma cultura nacionalista e a introdução de uma cultura ecológica. E isto tem muito mais
importância do que qualquer doutrinação feita nas escolas. Pois isso passa ao largo das convicções
políticas, passa ao largo das discussões ideológicas e se impregna diretamente na imaginação.
Como foi que a cultura animalista se espalhou pelo mundo? Foi através de doutrinação, de pregação
ideológica, ou de filmes como o do francês Jean-Jacques Annaud, O Urso, em que existe um pobre
ursinho, sua mãe morre, ele fica desgarrado, e no fim ele encontra um ursão, que o protege do
malvado caçador? Isto se tornou uma coisa tão natural para as pessoas que, sem jamais ter ouvido
um discurso animalista, todas elas o são. Porque esta é a imagem, é aí que se conquista as pessoas.
Do mesmo modo, no Estados Unidos: o John Howard Lawson, diretor da escola de roteiristas de
Hollywood, que era um homem da KGB, estava formando a mentalidade dos roteiristas nos anos 40
e 50, e instruía os camaradas dizendo o seguinte: “nós não vamos fazer filmes comunistas, vamos
fazer filmes comuns com o povo em geral, mas no meio vai ter uma mensagem comunista, porque
esta vai se impregnar no subconsciente das pessoas, não no consciente; não é que elas vão aderir,
elas vão simplesmente se acostumar à pensar assim.”
Isso remete às experiências do famoso psicólogo Otto Pötzl, que era o guru, protetor e amigo de
Victor Frankl, e ele fez uma pesquisa fundamental, em que ele projetava numa tela certas imagens –
que eram padrões de pontinhos – durante certo tempo, e no meio delas ele intercalava outras que
ficavam na tela por uma fração infinitesimal de segundo, ou seja, as pessoas não viam aquilo. No
dia seguinte ele entrevistava elas para ver de quais imagens elas recordavam: maciçamente elas
recordavam daquelas que não tinham visto. As outras todas tinham se apagado da memória, mas
aquela [que ficava intercalada] ficava guardada. Quer dizer, quanto menos perceptível é a
mensagem, mais profundamente ela se impregna, não na esfera das crenças evidentemente, mas na
esfera dos reflexos condicionados.
Isso é um exercício que vocês podem fazer: tentarem rastrear na formação do seu imaginário quais
destes elementos se impregnaram em vocês – é um trabalho difícil, porque é quase uma psicanálise.
Mas, se existe alguma coisa que vale a pena fazer, é isso. Pois é tremendamente libertador. “Quando
que eu aprendi a ser atraído por certas imagens em vez de outras?” Como uma coisa espontânea,
não porque ideologicamente eu gosto delas.
Do mesmo modo que isso acontece com as imagens, acontece com palavras. Palavras que são
usadas fora de qualquer contexto ideológico, mas que se tornam de uso corrente, portanto, se
tornam chaves interpretativas. Por exemplo, nós sabemos que nas discussões internacionais os
governos são julgados pelo seu respeito aos direitos humanos. Por exemplo, Cuba foi condenada
por desrespeitar os direitos humanos, mas daqui a pouco Cuba está na Comissão de Direitos
Humanos. Por que isso acontece? É simples, porque direitos humanos não é um conceito, é um
fetiche verbal, não corresponde efetivamente a nada. A própria noção de direito chega a nós,
esvaziada de seu efetivo conteúdo conceptual e transformada num valor – ter direitos é um valor, é
uma coisa boa. Pode ser bom. Mas me diga o que é? “Ah, não sei. Não sei o que é, mas é bom”. Na
verdade, toda essa conversa de direitos humanos é sempre um pretexto para ampliação do poder do
Estado. Já expliquei isso até no filme O Jardim das Aflições.
Palavras como estas: ‘direitos humanos’, ‘igualdade’ etc., se impregnam na imaginação fora de
qualquer conteúdo doutrinal e ideológico e se tornam chaves interpretativas que usamos no dia a
dia. Quantas vezes fizeram uma revisão disso aí? “Deixe-me rever estas imagens primordiais, para
ver se elas estão me instalando na realidade ou me levando para o mundo da lua.” As pessoas quase

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nunca fazem isso. O único lugar que está ensinando isso é no meu curso e, mesmo assim, não há
condições de eu ensinar sistematicamente, dar exercícios, etc., eu só menciono que a coisa existe e
os alunos que procurem aprender isso de alguma maneira.
Bem, estes são os conceitos básicos para o exame da guerra cultural. Nas próximas aulas eu vou
pegar alguns exemplos históricos dela, a começar por um que muita gente não vai gostar, que é a
guerra cultural empreendida pela reforma protestante contra a Igreja Católica. Que foi ao longo da
história a campanha difamatória mais longa, universal e bem-sucedida da história humana, porque
começa no meio do século XVI e se prolonga até hoje em modo crescente. Se vocês procurarem no
Youtube, o número de vídeos que falam das máquinas de tortura da Inquisição é uma coisa
monstruosa. Só que o seguinte: essas máquinas nunca existiram, nenhuma. No Brasil, formaram em
Belo Horizonte um museu da Inquisição, e estão lá, as máquinas de tortura. Mas meu Deus, como
elas foram parar em Belo Horizonte? É claro, alguém as fabricou, colocou lá e disse que eram
máquinas da Inquisição. Isso está amplamente disseminado – claro que tem alguns livros de história
que falam disso –, mas o principal não são livros de história, são romances.
No século XIX, no Estados Unidos, houve uma imensa literatura anti-inquisitorial de ficção, um
sucesso medonho. Eu acho que era o segundo assunto que as pessoas mais liam – o primeiro era
histórias de faroeste, histórias dos grandes pistoleiros, etc., o segundo era a Inquisição, de modo que
isso se impregna na imaginação americana de uma maneira terrível. O simples fato de levantarmos
a discussão provoca imediatamente reações indignadas, ou seja, é algo que não pode ser contestado,
não pode ser posto em dúvida. Se disserem que isso se arraigou como um dogma, digo: mas
nenhum dogma se arraiga dessa maneira, isso não é dogma, é imaginação. Por que se usa a palavra
dogma para designar tudo aquilo que é imposto tiranicamente? Porque o dogma é a forma pela qual
se expressa a doutrina da Igreja Católica. Então, tudo que é dogmático é ruim. Qual é a imagem da
coisa maligna? A Igreja Católica.
Isso dura desde o século XVI, e quanto mais a indústria cultural cresce, mais produtos desse tipo
aparecem. Chegou a um ponto em que a coisa é inabarcável, não há como enfrentá-la, já se
impregnou no destino da Igreja Católica e ela vai ter que aguentar isto até o fim dos dias. Mas é um
exemplo de guerra cultural – não digo que nós vamos fazer algo contra isso, não vejo nem o que
fazer, não é possível. Este modelo foi 100% copiado, primeiro pela campanha iluminista
anticatólica no século XVIII, e depois, pelos comunistas no século XX, sem tirar nem pôr, fizeram a
mesma coisa.
Uma vez, escrevi um artigo sobre um filme francês feito em cima do romance A Religiosa, do
Diderot, que contava a história de uma moça aprisionada contra a sua vontade em um mosteiro,
obrigada a ficar lá. Toda a pesquisa histórica mostra que, isso não apenas não aconteceu, mas que
era impossível acontecer. E pior, a pesquisa histórica revelou que o Diderot estava plenamente
consciente de que a coisa era uma mentira e que ele achava tudo isso muito engraçado – ele ter
enganado todo mundo. Teve até um tio da moça que escreveu desesperado para o Diderot: “você
sabe o que está acontecendo com a minha sobrinha?” E ele mantinha o tio na ilusão de que ela
estava lá aprisionada e tudo o mais. Só que acontece o seguinte: primeira coisa, a moça era a
porteira do mosteiro, ela tinha todas as chaves do mosteiro; segundo, quem quer que conheça algo
da vida monástica sabe que os mosteiros não estão interessados em aprisionar ninguém ali, ao
contrário, querem é expulsar todas as pessoas que estejam ali enganadas, iludidas, ou sem vocação
verdadeira; terceiro, em Paris, na época, havia quatro tribunais, aos quais qualquer noviço de
qualquer ordem poderia recorrer contra ela; quarto, a moça saiu, durante um tempo, do mosteiro
para ver se recebia uma herança de um tio, mas depois viu que não havia herança nenhuma e voltou
para o mosteiro e lá foi sacrificada pelos soldados da revolução francesa. Ela foi uma mártir.
Imaginem se uma mulher que está louca para se libertar do mosteiro vai morrer para defendê-lo
contra o invasor. Uma história 100% mentirosa e, no século XX – isso foi nos anos setenta, oitenta
– o sujeito faz um filme repetindo aquilo, faz um sucesso mundial e ainda ganha prêmios. Vejam

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até que ponto a imaginação popular está pronta para aceitar essas coisas. Por quê? Ela estudou algo
da história e se convenceu de que é assim? Não, simplesmente porque a imagem se tornou habitual.
Isso também nos indica outra coisa. Uma guerra cultural se prolonga nas seguintes: por exemplo,
todas as imagens que nós temos da revolução francesa, ou da queda da Bastilha. Primeiro, a queda
da Bastilha é o símbolo universal da libertação dos prisioneiros políticos. Quantos prisioneiros
políticos havia na Bastilha? Nenhum. Lá havia oito prisioneiros, uns por prostituição, outros por
jogo, outros por dívida – era só isto. Segundo, como foi a libertação da bastilha? Foi um combate
heroico contra as forças do governo? Não, estas não dispararam um tiro, simplesmente deixaram os
caras entrar. Do mesmo modo que na famosa Sierra Maestra. Quantos tiros os cubanos tiveram que
disparar no caminho dela até Havana? Nenhum. Porque o governo americano já havia expulsado o
Batista e mandado ele sair para abrir vaga para o Fidel Castro. E no entanto, essas lendas continuam
se impregnando. Onde as pessoas aprenderam isso? Nos livros de história? Não. Em filmes,
novelas, romances, peças de teatro, músicas etc. É nesse pano de fundo que se desenrola o essencial
da guerra cultural. Não na esfera da doutrinação e da propaganda.
Isso é fundamental para entendermos porque, por exemplo, a União Soviética, desde o início, deu
muito mais importância em conquistar, nos países ocidentais, a cabeça de artistas, gente do show
business, intelectuais, do que propriamente do proletariado. Isso foi instrução explícita de Stalin
para o partido comunista americano: “esqueçam o proletariado americano, vão lá e façam a cabeça
dos milionários e do pessoal do show business.”
No caso brasileiro, podemos acompanhar toda a formação do imaginário atual a partir da literatura e
do cinema dos anos 60. E, vocês vão ver que as crenças principais estão pré-formadas neste mundo
das imagens, de modo que, não é preciso propaganda alguma. O sujeito está vendo as coisas
daquela maneira. Está vendo, por quê? Porque ele viu na tela, meu Deus do céu. Aquilo que você
não é capaz de imaginar, não é capaz de pensar também.
O filósofo Alain dava o seguinte exemplo para ver até que ponto o nosso imaginário é dependente
daquilo que nós percebemos efetivamente: “abra a boca como quem vai dizer ‘A’ e tenta pensar o
som de ‘U’”. Difícil, não é? Abriu a boca para falar ‘A’ você vai ter que pensar ‘A’, meu filho. Agir
diretamente na esfera das percepções e do imaginário é o que interessa. A propaganda é só um
complemento. Ela explicita algo que já foi dado na esfera profunda da cultura.

***

Então vamos lá. Nós temos aqui trinta e tantas páginas de perguntas. Um absurdo. Eu vou ler o que
der.
Aluno: Este processo de corrosão da família, que mina a noção mais primária de união, de grupos
e valores, tem como objetivo secundário desestimular a união de pessoas de uma determinada
sociedade em torno de uma causa?
Olavo: Depende. Se a causa for a mesma propugnada pelos mesmos promotores desse processo,
então, você não apenas pode, mas deve aderir. Na verdade, é o seguinte, ao longo de toda a história,
vemos uma constante que é assim: um poder central se alia ao povo mais pobre para destruir os
poderes intermediários; naturalmente, o poder central se torna mais poderoso e controla cada vez
mais o conjunto; e o povo pobre que apostou nisso para ser beneficiado, é claro, termina se dando
muito mal – é sempre assim. Este processo nós acabamos de ver no Brasil, com bolsa família,
reforma agrária, etc. Prometem milhões de coisas, e alguns destes pobres, evidentemente, levam
alguma vantagem ínfima. Mas, o poder central sai muito fortalecido.

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Aluno: Quais os vários sentidos da palavra cultura? Em qual deles as aulas deste curso se insere?
Olavo: Eu estou tentando usá-la no sentido filosófico mais apropriado, que é aquele que abrange e
hierarquiza os vários sentidos secundários. Por exemplo: primeiro, temos o sentido historiográfico
geral que é associado à ideia de nacionalidade, uma unidade ética, por assim dizer; segundo, o
sentido legal como aquele consagrado na constituição brasileira, que é o conjunto dos elementos
materiais que dão testemunho do nosso modo de ser; terceiro, o sentido pedagógico, isto é, a cultura
como cultivo da inteligência humana, da consciência humana etc. Nós estamos usando todos estes
ao mesmo tempo.
Aluno: Os termos da linguagem popular como “homofobia”, “fascismo”, etc., podem se encaixar
nesta categoria de fetiches linguísticos?
Olavo: Mas sem a menor sombra de dúvida. Mas o que adiantaria você usar estes termos se você
não tivesse milhões de filmes antifascistas, novelas antifascistas, livros antifascistas? Toda a cultura
que surgiu [01:30] da segunda guerra mundial serviu eminentemente para camuflar o seguinte: qual
foi o resultado da guerra? Foi entregar a metade da Europa a uma ditadura muito pior do que a
alemã. Se você estudar direito a história vai ver que jamais o governo do Hitler chegou a ter sobre a
sociedade alemã o tipo de controle que o governo soviético dispunha na Rússia, absolutamente
nada.
Na Alemanha, por exemplo, existiam vários serviços secretos que operavam independentemente,
um boicotando o outro. Já na URSS, de vez em quando isso poderia dar um probleminha, entre a
KGB e o GRU, mas no total eles funcionavam de maneira perfeitamente harmônica. Isso quer dizer
que o controle totalitário na Alemanha foi um ideal que o Hitler tinha que jamais conseguiu realizar,
mas no caso da Rússia realmente eles criaram o maior totalitarismo da história – lá e na China.
A guerra foi planejada por Stalin para obter esse resultado – e obteve. Por isso eu considero o Stalin
o maior estrategista do século XX. Então, toda a cultura antifascista não passa de um subproduto da
propaganda soviética, mesmo porque o Stalin fazia propaganda antifascista na França e na
Inglaterra, e ao mesmo tempo em que estava ajudando a Alemanha a se rearmar, dando dinheiro,
assistência técnica etc. Ou seja, fomentando o crescimento do poder nazista que ele mesmo
combatia no exterior.
Aluno: Como o senhor se libertou da cultura comunista? Como o senhor a engoliu por assim dizer?
Olavo: Foi um processo muito demorado. Eu não achei que pelo simples fato de romper com o
comunismo eu estaria livre dele. Até porque ele era quase que 80% da minha formação. Na
juventude, quase tudo o que eu lia era marxista. E, eu achei que eu tinha que me recolher e
reexaminar tudo, ponto por ponto. Não só no sentido de julgar e saber quem tinha razão, porque já
estava na cara que eles não tinham razão, mas de ver o que fazer com o resíduo de atitudes pró-
comunistas que eu mesmo tinha, inclusive a lealdade que eu tinha para com o partido. A pessoa sai
do partido, mas continua, de certo modo, leal aos companheiros.
Mesmo muito tempo depois de eu ter me afastado dessa gente, eu os continuava ajudando – se
aparecia um perseguido pela ditadura, pedindo para se esconder dentro de minha casa, eu o
escondia. Escondia pessoas, escondia armas, escondia documentos... quer dizer, eu estava solidário
de algum modo. Para muito além de qualquer apego ideológico, eu tinha um apego sentimental que
não cedia. Há muitas pessoas que são próceres do conservadorismo e que se orgulham de ter não sei
quantos amigos comunistas, etc., mas eles não percebem o quanto isso os enfraquece. Na hora H
serão sempre manipulados, sem sombra de dúvidas. Eles fizeram apenas uma mudança de discurso
ideológico, mas não um exame aprofundado da própria consciência.
Aluno: Se o socialismo nunca chegará ao poder com essa ideia, então o que aconteceu na
Venezuela?

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Olavo: A Venezuela não é um regime inteiramente socialista ainda. A Venezuela tem um sistema
político socialista em cima de uma economia que permanece amplamente capitalista – como
sempre, como acontece na China e como aconteceu na própria URSS. Você estuda economia
soviética, e vai ver que 50% dela era economia privada, que era oficialmente ilegal, mas que existia
e que o governo tolerava. Eles sabiam que, se eles fechassem aquilo, iria toda a economia para o
brejo. Socialismo materialmente não existe. Ele é só um nome. Ele é um sistema político sem
sombra de dúvida – unipartidário, ditatorial etc. –, mas se não tiver um capitalismo em baixo, ele
não dura três semanas.
Vejam, economia e capitalismo são sinônimos, só existe economia capitalista. Economia socialista
é contradição de termos. Podemos chamar de economia socialista um meio a meio. Como na Suécia
por exemplo, mas isto é só o que existe. Só existe e corresponde exatamente a fórmula da economia
fascista, na qual o Estado não socializa todos os meios de produção, mas os mantêm sob controle.
Ou seja, o sujeito pode ser um capitalista, ser o dono da sua empresa. Mas, ele tem de produzir o
que o Estado quiser, vender pelo preço que o Estado quiser, para quem o Estado quiser, e assim por
diante. Em suma, era como dizia Hitler: “botar os capitalistas de joelhos” – isto é economia fascista.
O quê que existe na Suécia? É uma economia fascista. O que existe na China? Economia fascista.
Só existe dois tipos de economias: economia liberal e economia fascista, não tem mais alternativas,
o resto são só palavras.
Aluno: Você afirma que não existiram pessoas que viveram a vida monástica contra a sua própria
vontade?
Olavo: Claro que existiram, a família podia obrigar, alguém podia obrigar. Mas o próprio
monastério, jamais. A própria Igreja, jamais. Em hipótese alguma. Não existe nenhum caso
documentado, especialmente nesse caso da revolução francesa. O que aconteceu foi exatamente o
contrário. Todas as monjas daquele monastério morreram mártires da revolução, inclusive a famosa
personagem do Diderot.
Aluno: No que diz respeito ao resgate da memória dos nossos heróis do passado. É sempre um
desafio pensar na hipótese de descontruir a ideia progressista da luta de classes ao defender uma
vitória estratégica? Vejamos o caso da princesa Isabel, que libertou os escravos às custas da perca
do trono. Ou até mesmo da desmistificação do nome Florianópolis, referente ao capitão do Estado
de Santa Catarina.
Olavo: Vejam como são as coisas, uma vez fui fazer uma conferência na Assembleia Legislativa do
Rio de Janeiro, que antes tinha sido Câmara Federal, e eu entro lá e vejo um imenso retrato, no
salão nobre, do Floriano Peixoto. Disse: “olha, essa instituição homenageia o primeiro sujeito que a
fechou”. (risos) E de fato ninguém percebia isso. A ausência de consciência histórica no Brasil
chega a este ponto. Que de certo modo, chega até a uma consagração arquitetônica – “nós não
sabemos quem é esse cara, não sabemos o que ele fez, e nem queremos saber”.
Eu já observei aqui o seguinte: o Brasil surgiu graças a Dom João VI. Foi o sujeito que fundou o
país praticamente. E nunca se fez um filme em homenagem a ele. O único filme que se fez foi
contra ele, que é aquele filme da Carla Camurati. Bom, é claro que se pode fazer um filme de sátira
de um personagem que já é “badalado” para tudo quanto é lado, isso é inteiramente normal. Mas, se
o único filme que fizeram foi uma sátira, então tem algo de errado nessa cultura. A destruição da
identidade nacional faz parte da cultura nacional. E, tudo isso para ser substituída por uma segunda
espécie de nacionalismo, que é voltado apenas para o culto do território, tipo “o petróleo é nosso”.
Confirmando aquilo que dizia Hegel: “que a América Latina não tinha história, só tinha geografia”.
É uma espécie de patriotismo geográfico que é um absurdo. E que consiste apenas de anti-
americanismo.

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Existe uma certa cultura nacionalista, da parte do pessoal de esquerda, com ênfase apenas no anti-
imperialismo etc. – que não é um nacionalismo de verdade, evidentemente. Todo nacionalismo ou
patriotismo, é baseado na memória dos grandes feitos em comum – aquilo que nós fizemos juntos.
Por exemplo, nós lutamos a guerra do Paraguai e vencemos; nós fomos pra Itália na segunda guerra
e vencemos; nós fizemos isso, e mais aquilo, e mais aquilo outro, nós libertamos escravos. O sujeito
tem orgulho daquilo que os seus antepassados fizeram, isto é o nacionalismo. É um conjunto de
símbolos que expressa a solidariedade nacional. Aquilo que já dizia Santo Agostinho: a sociedade
se baseia no amor ao próximo. Se não temos amor àquelas pessoas, porque não são nossos parentes,
não são nossos antepassados, ou porque não temos uma história em comum com elas, então não
existe nacionalismo algum.
Aluno: Tenho uma pergunta que está relacionada ao seu papel no contexto maior da cultura.
Sabemos que o seu trabalho tem sido popularizado de uma forma bastante atípica para um filósofo.
Seu nome e até algumas ideias suas, ainda que forma bastante diluídas, estão na boca de pessoas
de todos os estratos sociais, nas camisetas, nos cartazes etc. A quê isso se deve? É correto dizer
que isso é fruto também dos vídeos, músicas e imagens?
Olavo: Sem sombra de dúvida. Não fui eu quem fez isso. Foram as pessoas quem fizeram, e fizeram
muito bem. Porque através disso, esses elementos ainda que não só diluídos, mas diminuídos e até
caricaturados, entram no universo da cultura e podem competir com imagens antagônicas. Podem
competir até com vantagem – como de fato vem acontecendo. Cinquenta anos de revolução cultural
comunista entraram em crise graças a isso.
Em parte, foi um efeito calculado. Quando eu escrevi O Imbecil Coletivo, eu calculava: “bem eu
preciso fazer uma linguagem que junte as explicações filosóficas mais elevadas aos modos de falar
da população, e que soem de certo modo naturais; não pode ter nenhum resíduo de pedantismo
universitário, porque isso afasta as pessoas, pois ele não quer que as pessoas se aproximem dele, o
pedante quer que o vejam a distância, como sendo um ‘monstro sagrado’”. E isso eu não queria, eu
queria fazer exatamente o contrário: “eu sou um zé mané como você, mas eu sou apenas um zé
mané que estudou; eu estou aqui para te ajudar, para te contar as coisas, não para me fazer de
gostosão na sua frente e te humilhar.” Então, esta linguagem funcionou, O Imbecil Coletivo foi um
sucesso imediato. E, evidentemente, os personagens do livro o detestavam. Mas, todo o resto
gostavam, ficavam rindo deles. E eu continuo aprimorando esse tipo de linguagem até hoje. Uma
linguagem que junta o mais refinado com o mais brega. E isso já se provou que funciona. Em parte,
foi um efeito calculado, mas eu não calculei que as pessoas fossem fazer camisetas, cartazes,
escrito: “Olavo tem razão”. De certo modo é um efeito dessa própria linguagem que se propaga
espontaneamente. Eu não tenho a ilusão de que essas massas todas vão entender os meandros todos
do meu pensamento. Mas também não é isso que interessa. Eu estou fazendo isso para ajudar certos
movimentos populares, das quais eu não participo de maneira alguma, mas que por pior que sejam,
é melhor do que essa roubalheira petista, não há comparação possível.
Aluno: Em relação a revolução francesa. Qual razão, em um contexto de guerra cultural, fez de
Napoleão uma figura semi-lendária?
Olavo: Napoleão se tornou uma figura lendária em vida. Por várias características peculiares:
primeiro, por ter sido um general mais jovem; segundo, por obter uma vitória atrás da outra;
terceiro, porque durante um tempo ele foi o provedor da França. A revolução destruiu toda a
economia. E da onde vinha o dinheiro? De onde Napoleão roubava. [Roubava] da Itália, da
Espanha, da Áustria, etc., e mandava para lá. Então a nação inteira dependia dele de algum modo.
Como é que o cara não vai virar um mito nessas circunstâncias? Agora, como todo governante
elevado a um padrão mítico, ele acaba sendo sacrificado num rito de bode expiatório no final. No
fim a culpa é toda de Napoleão Bonaparte.
Aluno: O inimigo americano já foram os japoneses, os alemães, e agora o islã.

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Olavo: Bom, nunca foi a URSS. Filmes anti-soviéticos nos EUA são uma raridade, porque os
agentes soviéticos controlavam o cinema – e controlam ainda. Agora o islã... eu disse a vocês que
existem três esquemas globalistas em competição: um russo-chinês, um islâmico e um ocidental. As
relações entre o esquema russo-chinês e o islâmico não estão muito boas. Está lá o Putin mandando
atacar o ISIS e essa coisa toda. As relações são ambíguas, as vezes se juntam, as vezes brigam.
Existe uma margem permitida de anti-islamismo na cultura americana – uma pequena margem –
que vai diminuindo dia após dia na medida em que os políticos americanos são todos comprados
pela Arábia Saudita, pelo Irã, etc., mas ainda tem o inimigo ideal. Os comunistas nunca foram o
inimigo ideal – nem mesmo durante a Guerra do Vietnã. Ao contrário, o inimigo ideal era o Estado
americano. Isso quer dizer que a chamada cultura adversária se tornou a cultura dominante aqui.
Aluna: Professor não consigo nem perguntar porque é tudo muito surpreendente... deixar
introjetar, amei!”
Olavo: Obrigado!
Aluno: Esse seria então o Anticristo profetizado nas escrituras sagradas?
Olavo: Eu digo uma coisa a vocês: eu considero que toda tentativa de tentar explicar a situação
atual por precedentes bíblicos, todas elas, são charlatanismo. Por quê? Precedentes bíblicos são
universais, eles se referem a tudo o que acontece – leiam o livro do Northrop Frye, vocês vão
entender isso. O que quer que aconteça tem um precedente bíblico por definição. Por quê? Meu
Deus do céu! Quem escreveu a bíblia? Quem escreveu a bíblia foi Deus. E ele não a escreveu para
os americanos do ano de 2016, nem para os italianos do século XII. Ele a escreveu para humanidade
inteira. Portanto, ali não tem precedentes. Tem arquétipos que são infinitamente repetidos, e vocês
sempre vão encontrar ali alguma semelhança.
O discurso profético está colocado acima da inteligência normal humana, ele não a substitui. O
procedimento tem de ser ao contrário: vocês têm de fazer possível para entender os fatos que estão
acontecendo, usando melhor a sua inteligência e invocando a proteção do Espírito Santo. Depois
que vocês entenderam mais ou menos, daí vocês percebem um precedente bíblico. Fazer o
contrário, procurar o precedente bíblico primeiro, isso é coisa de preguiçoso. Estão querendo que
Deus faça o serviço que Ele mandou vocês fazerem. O próprio Deus mandou buscar a verdade. Não
só a verdade nas coisas divinas, mas nas humanas também. Se não tem amor a verdade, não tem
amor a Deus.
Agora, vocês podem pegar uma versão estereotipada e pronta da verdade: “tem aqui a bíblia, aqui
está a verdade”. Sim, ela está, mas não no sentido que você está dizendo. Ela não é a verdade deste
fato ou daquele fato, é a verdade arquetípica de tudo o que acontece. Logo, aquilo está lá para
esclarecer a nossa inteligência. Não para substituir o serviço dela. O Anticristo está aí? Eu não sei, e
todo mundo que está falando também não sabe.
Notem bem, quando perguntaram para Jesus Cristo quando seria o fim do mundo, ele mesmo disse:
“eu não sei, só Deus Pai é quem sabe”. Quê que é Jesus Cristo? É o logos. Ele é a inteligência
divina. Quê que é Deus Pai? É a onipotência, é a vontade, é o poder divino. Jesus Cristo está
dizendo o seguinte: o fim do mundo é uma decisão, não uma decorrência lógica disto ou daquilo. É
uma decisão livre, que será tomado por Deus Pai quando ele bem entender, e sem Me dar a menor
satisfação. Portanto, não adianta querer prever isso aí. E se não se pode prever, também não se pode
prever em que capítulo da história estamos. Quer dizer, o fim do mundo pode levar dois dias, pode
levar vinte minutos, ou pode levar vinte séculos. Não tem uma cronologia definida ali. Tem um
arquétipo cíclico, que se aplica a quaisquer temporalidades humanas.
Então, para com este negócio. A Bíblia nunca vai nos dar a solução pronta dos problemas concretos
da temporalidade, ela não é isso. Ela é a moldura geral da existência humana. É a moldura geral no

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sentido de que a estrutura da realidade está toda lá – isto é importante vocês entenderem –, é a
estrutura total da realidade. E o quê que não está na estrutura da realidade? Nada.
Aluno: Cultura pode ter o sentido antropológico, sociológico, de conjunto de ideais, valores e
costumes de determinado grupo humano. Pode também ter o sentido, etimológico de atividade,
como cultivo das potencias espirituais, anímicas e corporais do homem. O sentido em que o senhor
usou o termo não parece acomodar muito bem em nenhum deles, muito menos no segundo, poderia
nos situar a respeito das camadas do significado do termo?
Olavo: Sem dúvida, eu farei isso nas próximas aulas. Por hoje eu quis apenas dar uma ideia a vocês
do sentido mais ampliado que abrange tudo isso aqui, sem se identificar, sem se reduzir a nenhum
deles. Notem bem, isto é um preceito metodológico geral. Nenhum fenômeno pode ser
compreendido pelo ponto de vista especifico de nenhuma ciência, nenhum fato concreto pode ser
compreendido. Portanto, vocês precisam sempre de um ponto de vista mais integrado,
maximamente abrangente, que vá absorver a contribuição dessas várias ciências, mas sem se reduzir
a elas. Outra coisa, se você está fazendo uma investigação filosófica, ela tem de trazer em si o
princípio da sua própria inteligibilidade. Ela tem de antecipadamente formar os critérios
metodológicos, e os conceitos que serão usados, coisa que nenhuma ciência precisa fazer.
Por exemplo, a biologia pode criar os conceitos biológicos? Não pode, ela os recebe prontos. Há
uma série de preceitos metodológicos que antecedem essa ciência por assim dizer. Já expliquei para
vocês em aulas aqui, que nenhuma ciência estuda um fato concreto, só estuda recorte abstrativo. Na
medida em que se está tentando compreender um fenômeno real que está acontecendo, não só em
determinado setor da realidade, mas em todos eles, que vão desde a política, ao jornalismo, etc., até
o fundo da alma humana, é claro, que nenhuma ciência pode dar conta disso, nenhum dos conceitos
especializados de cultura pode. Nós vamos ter que criar, não digo um novo conceito, mas uma nova
estratégia, que permita articular todos esses elementos, em função de um objetivo nosso. Qual é o
nosso objetivo? É a desaculturação libertadora de algumas almas individuais. Isso é o máximo que
dá para fazer.
Auno: Em relação ao que os professores fazem na escola com crianças e adolescentes. Casamento
entre o mesmo sexo na festa junina, pedir trabalho sobre o golpe, entoar impeachment da Dilma,
indicação de sites unicamente de esquerda para consulta bibliográfica etc., não são doutrinação?
Olavo: Não. Isto aí não é doutrinação gente. Isso aí é ditadura, é um controle mental total. Porque
vejam, eles nem precisam fazer muito disso, basta eles excluírem tudo o que é contra isso. A
exclusão é muito mais importante do que a doutrinação. Quantas vezes é preciso ter contato com a
ideia do casamento gay para o sujeito aprová-lo? Uma só. Agora, não se pode ouvir nada contra.
Senão aquilo se transformará num problema, e a coisa é para ser transmitida como se não houvesse
problema algum, como se casamento gay fosse uma instituição universalmente reconhecida que só
loucos, tarados, fascistas, não aceitam. É dar a impressão de que a maioria é a minoria. Que o que
maioria da população pensa é apenas um facciosismo, é apenas um partidarismo, é um sectarismo
anormal. É dar a aura de anormalidade a coisas que não têm direito a presença.
A política de exclusão é muito mais decisiva do que qualquer doutrinação. A doutrinação é só um
“tiquinho”, a exclusão é tudo. Porque se o sujeito começa a doutrinar muito, isso pode se
transformar em objeto de discussão e questionamento – então não pode doutrinar demais. Tem de
passar as coisas como se fossem as coisas mais naturais do mundo. Eles não chegam assim: “ah,
somos a favor do casamento gay etc.” Isso seria doutrinação. Faz um casamento gay na festa junina
e pronto, acabou. Todo mundo aceita como uma coisa natural. A coisa não chega a ser um objeto de
discussão. Doutrinação é passar uma doutrina, uma ideologia – como se fazia antigamente, que se
tinha doutrinação comunista. Passava o manifesto comunista, passava o manual de
marxismo/leninismo da URSS e tentavam persuadir as pessoas da veracidade daquela doutrina,
automaticamente aquilo provocava a discussão. Tanto que a absorção dos antagonismos, a absorção

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das objeções fazia parte da própria doutrina. Metade do que os comunistas escreviam era para
refutar objeções, refutar o pensamento burguês etc. Havia a discussão, mas a discussão era
absorvida dentro da estrutura ideológica total. Mas hoje em dia não há mais isso – por isso que eu
digo, não há doutrinação, há um pouquinho de propaganda e um controle comportamental.
Aluno: Eu gostaria que o senhor comentasse alguma coisa sobre análise do discurso, e a análise
crítica do discurso, corrente muito disseminadas no curso de letras.
Olavo: Você sabe que o que eles chamam de análise do discurso não consiste em nada mais do que
repetir chavões anticapitalistas e anticatólicos – não é nada mais do que isso. Ademais, é incrível
que eles falem: “vamos analisar o discurso dominante.” Mas o único discurso dominante que tem é
o deles mesmos, não há um discurso antagônico. O discurso antagônico, o discurso anticomunista,
está proibido em todas as universidades brasileiras, ele simplesmente não entra lá. Só se pode ter no
máximo algum discurso não-comunista, que é, por assim dizer, paralelo, marginal. Não coincide
exatamente nas organizações principais da cultura, que são as universidades. Esse que é o discurso
dominante. Quem tem feito análise de discurso dominante? Eu.
Aluno: Já que a guerra cultural é um a guerra pela dominação imaginário, para vencê-la seria
necessária uma contra-guerra?
Olavo: Sem sombra de dúvida! Certa vez fiz um post no meu Instagram sobe o filme do Wagner
Moura sobre o Marighella, dizendo: “a esquerda sempre ganhará a guerra, pois enquanto eles
possuem duas armas – os livros produzidos em grande escala pelos autores esquerdistas e os filmes,
novelas etc. – nós só temos uma”. O problema é o seguinte, todo esse processo sempre começa da
seguinte maneira: com discussões entre intelectuais de alto nível, que visam a chegar a um
diagnóstico de situação, a uma explicação histórica do que está acontecendo, e delinear as
perspectivas de possibilidades de desenvolvimento da situação – é sempre assim que começa.
Começa na esfera de discussões filosóficas muito sérias, e de trabalhos científicos de grande porte.
A partir do momento que esse conjunto de discussões chegam a uma massa crítica, então começa a
se formar uma segunda camada de intelectuais – no sentido mais popular da coisa – midiáticos,
jornalistas, artistas de mídia, professores etc. Mas, enquanto não tiver o centro, a parte mais pesada
do negócio, não se consegue fazer esse segundo.
Vejam, tomem por exemplo as origens da teoria marxista, entre as primeiras obras de Karl Marx e a
Revolução Russa de 1917. Vocês verão que a massa de livros de grande porte é um negócio
absolutamente impressionante – são livros que a população jamais ia ler, era só entre intelectuais
mesmo. Mas é isso que forma a força, o empuxe, do movimento. É preciso de um arraigamento
intelectual muito sério, seja num sentido seja num outro.
No entanto, vemos por exemplo, que na primeira metade do século XX, houve um movimento
intelectual católico muito vigoroso que acabou no Concílio do Vaticano II. O Concílio chegou e
“estourou o balão”, acabou. Criou tanta dificuldade, que imediatamente o nível da produção
intelectual católica cai. E na hora que cai, se torna fácil para o pessoal da teologia da libertação
dominar todo o panorama. Vocês veem pessoas reclamando da teologia da libertação, mas vocês
não veem um diagnóstico sério sobre o que é mesmo a teologia da libertação. Eu procurei fazer um
artigo, que saiu na The Revenant, colocando a teologia da libertação no seu contexto histórico-
cultural-geral, não apenas no seu conteúdo doutrinal – o conteúdo doutrinal da teologia da
libertação é vagabundo mesmo, não é difícil desmantelar aquilo. Mas se é assim, por que ele
funciona? Ele funciona porque ele se baseia num aparato de guerra cultural que já existia antes – e é
só por isso que funciona. E esse aparato de guerra cultural por sua vez foi construído ao longo do
processo que foi antecedido por longas discussões intelectuais.
É isso que eu chamo de estado-maior – é um conjunto de intelectuais altamente preparado, capaz de
fazer diagnósticos de situações, de encontrar as explicações históricas e delinear o quadro de

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possibilidades, sem agir de maneira alguma, é só discussão, é só esforço intelectual. Com o tempo
vai consolidando uma série de conclusões, que são aproveitáveis na prática, e partir daí é que
começa a formar o primeiro círculo [02:00] da militância. Sendo que é preciso distinguir – na próxima
aula eu vou entrar melhor nesse negócio da militância – o que é o mero adepto do que é um
militante.
O adepto se consegue através de novelas, discursos, propaganda, etc., mas o militante não. Como se
faz o militante comunista? Através de propaganda que ele ouviu na escola? Não, os militantes são
arregimentados um por um, com o sentido de fazer o indivíduo se integrar numa totalidade secreta
ou discreta, que para ele representa o próprio futuro da humanidade, a matriz da história futura, que
está sendo elaborada ali por eles: a elite ultra-secreta que sabe coisas que o resto da humanidade não
sabe – é como se o sujeito entrasse numa sociedade secreta mesmo. E eles têm uma série de
procedimentos quase que ‘rituais’ para fazer o indivíduo se sentir integrado nisso.
No curso desse processo ele compromete tudo o que ele tem. Como se formou o PT? O PT usou a
fórmula do partido comunista. O PT nunca foi nada mais do que uma faixada do partido comunista
– o PT e demais partidos de esquerda. Os primeiros militantes do PT davam tudo ao partido,
pagavam para participar do partido – tem uma teoria aliás elaborada por um ex-militante comunista
que diz o seguinte: o indivíduo se identifica com o movimento não pelo o que ele recebe do
movimento, mas pelo o que dá a ele. No começo, o partido só exige sacrifícios e nada lhe promete
de bom. Eles dizem: “nós não veremos o socialismo, isso é para os nossos bisnetos, nós vamos
sacrificar tudo”. E daí essas pessoas no começo davam mensalmente dez, vinte, trinta, quarenta,
cinquenta por cento dos seus bens para o partido, além de trabalhar para ele de graça, e se sentiam
muito honrados com isso. É o sentimento de participação numa elite que é desconhecida do mundo,
mas que tem na sua mão a ‘semente da história’.
Aluna: Eu lembrei de uma observação que você fez recentemente sobre o sentido da meritocracia,
entra nessa capacidade de cada militante se doar, quanto mais ele...
Olavo: Olha, só num lugar do mundo existe meritocracia, no partido comunista. Quem disser que
capitalismo é meritocracia, isso é uma estupidez fora do comum. A maior característica do mercado
é que ele não é controlado, ele não responde a valores, ele responde a preferências arbitrárias do
consumidor. Por exemplo, a calcinha usada da Madonna pode valer mais do que um remédio que
vai salvar uma pessoa do câncer. Portanto, a pessoa sobe ou desce no capitalismo por sorte,
ninguém controla isso. Não existe meritocracia, se existisse meritocracia nós teríamos todos que nos
render ao Lula, ninguém subiu na vida mais do que ele – ou o Lulinha. No capitalismo existe sorte,
existe favores, existe a auto-ajuda mafiosa, existe tudo isso. Não tem como você dizer que existe
mérito.
Porém, dentro do partido comunista ninguém sobe por proteção, ninguém sobe por sorte. Ou o
sujeito faz o serviço direito, ou eles o põem para fora – imagina se num partido comunista o sujeito
dissesse que não poderia ir na passeata porque, por exemplo, a namorada dele não queria: ninguém
ousaria dizer uma coisa dessas, nunca. Ele está lá para dar a vida ao partido, para dar tudo. E as
pessoas consideravam isso a maior honra, isso era o sentido de suas vidas.
E esse pessoal da direita – liberal, conservador etc. – não forma militância, só forma público. E para
o público você promete coisas, são como um candidato oferecendo aos eleitores: “olha se eu for
eleito vou te dar iluminação elétrica, aposentaria, mais isso e mais isso etc.” Então a massa aprova
aquilo em vista da esperança de uma vantagem. O militante não espera vantagem alguma, ele espera
no máximo se vier o socialismo, que ele estará na elite. Mas, ele já está na elite agora, então ele não
vai ganhar grande coisa com isso. É o senso da participação, é o senso de um dever para com a
história. É como o comprometimento na vida monástica. Alguém entra na vida monástica para
ganhar dinheiro? Só se for o Leonardo Boff, os outros não.

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“Eu estou aqui para dar a minha vida e isto é a maior honra, é um prêmio” – eles dizem. Este
sentido dessa arregimentação, de militância, o pessoal direitista brasileiro simplesmente não tem.
Eles querem seduzir as pessoas na base de: “não a economia capitalista é melhor, nós vamos todos
ganhar dinheiro.” Mas, com isso se faz público, eleitorado, não faz militância. Ao militante só se
promete sangue, suor, e lágrimas, e é por isso que militância funciona.
A vantagem da esquerda não é que ela dispõe desses dois meios [militância e público], é que ela
dispõe de militância – durante 50 anos eles formaram militância. E o pessoal direitista não começou
até agora, pois não sabe o que é militância – eles imaginam que militância é o sujeito que vai sair na
passeata com cartaz. Não, isso aí é público. Quê que é um militante? É por exemplo, o sujeito
treinado para no meio de uma assembleia lançar certas palavras de ordem em certo momento. Só ele
sabe que ele está agindo de maneira planejada, os outros não sabem. Os outros pensam que é tudo
espontâneo. Isso já é, por exemplo, um serviço de militante. A massa não é militante. Ela é
realmente massa de manobra.
Aluno: A guerra cultural não tem o grande poder de alavancar na formação da igreja cristã?
Olavo: Mas sem sombra de dúvida! O estado atual da Igreja Católica e das protestantes, é em
grande parte resultado da revolução cultural. Muito antes de que a teologia da libertação chegasse a
dominar a Igreja Católica, ela já havia dominado, aqui no EUA, o Conselho Mundial das Igrejas
que é conjunto das igrejas protestantes. Era a mais poderosa organização protestante do EUA – o
Conselho Nacional das Igrejas e o Conselho Mundial das Igrejas – eram órgãos comunistas, órgãos
de desinformação comunista. E isso a muito tempo atrás, nos anos 40 ela já tinha dominado. A
gente não percebe as coisas tão claramente nas igrejas protestantes porque elas são muitas. Mas, na
Igreja Católica é só olhar o que está acontecendo no Vaticano que já se entende tudo. Agora, nas
igrejas protestantes só se examinar uma por uma, e quando começar a examinar vão ficar
aterrorizados.
Aluno: Perguntas decisivas: porque o nosso cérebro guarda informação que nós não vimos como
prioridade?
Olavo: O exercício do Otto Pötzl [responde isso].
Aluno: E porque a imaginação tem mais influência do que a realidade?
Olavo: É muito simples, a realidade está permanentemente em fluxo, e a imaginação estabiliza e
repete. De modo que depois de algum tempo, só vê aquilo que se é capaz de imaginar. A
imaginação forma o quadro da percepção possível. O que não se enquadra na imaginação, passa
despercebido, são detalhes irrelevantes. O nosso cérebro funciona todo na base da abstração –
abstração quer dizer separação, portanto, seleção da atenção. O sujeito presta atenção em certas
coisas e essas certas coisas se gravam e outras não. Agora, por que o sujeito grava especificamente
aquela que ele não prestou atenção? Não é que ele não prestou atenção. Ele grava aquela que foi
passada subliminarmente, ou seja, abaixo do limiar da consciência. Então, é essa informação que
vai aparecer em seu sonho, ela não entra na consciência, ela vai direto no subconsciente. E, é por
isso que ela se impregna.
Aluno: A imagem criada do império brasileiro também foi fruto dessa destruição da sua imagem...
Olavo: Sem sombra de dúvida.
Aluno: ...baseada em filmes e romances? Digo isso porque eu mesmo olhava para o império com
receio até de começar a assistir as palestras dos membros da família real.
Olavo: É claro. Eles eram opressores, os malvados, daí veio a República e os libertou. Na verdade,
foi o contrário, o Império foi o regime mais liberal e mais humano que já teve no Brasil, e quando

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veio a República, foi uma ditadura atrás da outra – ela já começa com uma ditadura, meu Deus do
céu. Nós acabamos de falar no Floriano Peixoto. Querem saber quem é o Floriano Peixoto? Quem
fez um belo retrato do Floriano Peixoto foi o Lima Barreto, no livro Triste Fim de Policarpo
Quaresma. Policarpo Quaresma é um patriota, herói – herói semilouco, mas herói. E o grande
inimigo dele é o Floriano Peixoto.
Aluno: Como foi o seu processo de descomunização? Isto vale como regra geral?
Olavo: Eu não rompi com o comunismo, simplesmente me afastei dele porque fiquei em dúvida. E
fiquei em dúvida não de ordem política, mas de ordem moral. Porque o procedimento dos
camaradas... eu já contei episódio de um sujeito que por falhar com o partido comunista foi
excluído da profissão jornalística para sempre. Eu vi isso, fiquei muito impressionado e precisei ir
para casa para poder pensar. E durante mais de vinte anos eu não dei palpite nenhum em política.
Fiquei só estudando e fazendo esta rememoração crítica, não só das minhas convicções, mas de toda
a minha vida de algum modo.
Nesse período eu me abri a todas as influências igualmente, sem medo de me contaminar. Me abri,
assim como eu me abri ao comunismo, ao esoterismo, a Nova Era, ao islamismo, ao espiritismo, a
ufologia, a qualquer porcaria que aparecesse. Quem está na chuva é para se molhar. Um dia eu vou
estabilizar conclusões de tudo isso. As pessoas que nunca fizeram essa experiência, não tem história
cognitiva alguma, só tem a adesão e a repulsa. São inteiramente a psicologia do shudra – é só
buscar o prazer e evitar a dor –, elas imaginam que cada uma dessas experiências que eu passei foi
uma crença minha, que eu acreditava nisso. Eu nem acreditava, nem deixava de acreditar. Eu estava
ali experimentando – é a única maneira de aprender. Eu me abria mantendo o olho crítico, não o
olho de suspeita. Eu sempre dizia assim: “aonde houver o erro, o erro terá que se manifestar
claramente para mim pela sua própria iniciativa e não pela minha; eu não vou ficar fuçando o erro,
deixa que ele apareça, ele vai aparecer”.
É o que eu digo aos meus alunos: vocês têm que ter a tolerância para com o estado de dúvida, para
com um longo estado de dúvida. Até que vocês comecem a consolidar algumas conclusões ao longo
da experiência – que foi exatamente o que eu que eu fiz. Eu só comecei a publicar livros depois dos
48 anos. Agora o sujeito fala: “não, ele abjurou, ele tinha crença”. Não tinha crença nenhuma, não
abjurei de coisa nenhuma, eu estava simplesmente passando por ali e absorvendo. Mas essas
pessoas não são capazes de imaginar isso. Imaginem esse ‘pessoalzinho’ da montfaible: são pessoas
absolutamente imaturas e incultas, não tem a menor condição de...
Quê que é a trajetória do filósofo? Numa das próximas aulas do COF eu vou comentar um pouco a
história de vida do Schelling – que estou lendo, com grande paixão, a biografia intelectual dele pelo
Xavier Tilliette. E Schelling tinha isso – a definição que eu dou da filosofia que é “a [busca da]
unidade da consciência na unidade do conhecimento e vice-versa”, ela por si é um retrato da
biografia intelectual do Schelling. O objetivo inicial dele era chegar a unidade, a unidade do
conhecimento, da fé, do desejo, da crença, de tudo – esse era o ideal.
Mas, não se pode fechar esse absoluto numa forma inicial. Ttem de continuamente se abrir para
uma experiência que não para de se ampliar, e não para de dissolver os pretensos absolutos que
encontrou. Então, este processo de “abre e fecha, abre e fecha...” até que uma hora algo se
consolida, isto é a biografia intelectual de Schelling. No caso dele, as conclusões só vierem aquando
ele já era septuagenário. Mas, é possível ver que a vida dele foi inteiramente coerente com essa
busca e com esse desejo de chegar a uma unidade. Porém, sem se fechar a variedade, ao imprevisto,
etc., ou seja, é uma fidelidade exemplar a vocação filosófica.
Como é que isso foi interpretado pelos seus detratores? “Ah, ele é um cara instável, ele vive se
abjurando”. E ele dizia que não, não era bem isso – mas não adiantou. Foi só no século XX que ele
encontrou leitores capacitados. A partir dos anos vinte, trinta, que começa a aparecer novos estudos

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sobre o Schelling, e tendo já na mão toda a bibliografia, que antes não tinha, é que começa a
aparecer a unidade de fidelidade íntima do filósofo a sua vocação. Então hoje é que nós entendemos
a filosofia de Schelling, antes não.
Isso é um exemplo [da trajetória do filósofo]. E notem bem, Schelling escrevia muito mais do que
eu, ele era um escritor prolífico, uma coisa impressionante. Eu, a maior parte do que eu ensinei não
está nem escrito, está apenas gravado. Então, o sujeito refazer a bibliografia intelectual do Olavo é
um trabalho intelectual de altíssimo nível, não vem qualquer Júlio Soumzero, ou esse
‘pessoalzinho’ da montfaible – ah não brinca comigo pô! Quê que é isto?
O primeiro esboço de biografia intelectual está sendo escrito pelo Wagner Carelli – que não
pretende ser a bibliografia intelectual definitiva, mas apenas uma lambida no assunto. Por enquanto
o único capacitado a escrever minha bibliografia intelectual sou eu mesmo, mas eu não tenho tempo
de escrevê-la, então vai ficar assim mesmo. “A variedade do que eu estou falando o confunde?
Ótimo! Que isso seja um estímulo para buscar a unidade do meu pensamento, porque é isso que se
faz com um filosofo”. É o que diz o Eric Weil, se o sujeito vai estudar Aristóteles, ele tem de partir
do ponto de vista de que Aristóteles é um filósofo, e que um filósofo está sempre buscando a
coerência no meio da variedade. As vezes encontra, as vezes não. Mas é isso que ele está fazendo.
Aluno: A guerra cultural, no meu modo de ver, é uma guerra contra nós mesmos...
Olavo: Sem sobra de dúvida. Porque a cultura não é a cultura que está fora, é a que está dentro de
você, a que se impregnou em você. É essa que interessa.
Aluno: ...temos de entender o contexto no qual estamos inseridos para não nos deixarmos
influenciar, por que querem que vejamos e pensemos... e sim o que é verdade através de estudos e
fontes confiáveis.
Olavo: Exatamente, é esse o programa meu filho. Quer dizer, uma certa independência intelectual é
possível – mas é possível como resultado. Não porque o sujeito diz desde o início que pensa com
seus próprios miolos.
A pessoa pensa com seus próprios miolos quando ela já pensou com os miolos de todos os outros e
não encontrou solução [para um possível problema em questão]. O que eu fiz no caso do
Aristóteles, no caso dos “quatro discursos”? Eu procurei a solução daquilo, não encontrei. Falei:
“agora vou ter que pensar com meus próprios miolos, olha que porcaria” – se eu pudesse aprender
com alguém, eu teria aprendido. Como ninguém me ensinou, então eu mesmo vou ter que descobrir.
Só pensar com os próprios miolos só é justo quando é assim. Agora, se é por uma decisão da
pessoa: “eu quero pensar com meus próprios miolos” – é um palhaço! Tem de pensar com o melhor
que existe, pensar a verdade, não importa de onde veio. Ela que tem que ser a autora? Ela que tem
que ser o gostosona?
Aluno: Como restaurar o imaginário cristão?
Olavo: Alguns escritores de ficção fizeram um belíssimo trabalho na primeira metade do século
XX: Georges Bernanos, François Mauriac, poetas como Charles Péguy. Engraçado que até o
próprio Graham Grimm – no final ele escreveu umas besteiras, mas ele se esforçava para isso – e
Julian Grimm, certamente.
Então, lendo aquilo ali você vê que é isso que você tem de fazer. Você tem de mostrar a vida como
ela é, desde uma perspectiva cristã. Não se trata de você pregar o cristianismo. Você tem de mostrar
o que é de fato a dialética da alma cristã na realidade. Por exemplo, Georges Bernanos tem uma
técnica maravilhosa para fazer isso, ele está mostrando as coisas que estão acontecendo, e ao
mesmo tempo você já vê a repercussão eterna daquilo, no céu e no inferno, ao mesmo tempo. Isso

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aí ajuda você a vislumbrar o mundo com olhos cristãos, através do imaginário. Não tem nada de
doutrina ali. Do mesmo modo François Mauriac: as histórias dele são geralmente voltadas para o
mal, para o pecado, para essa coisa toda. Ele vai mostrando como o domínio do mal é quase
impossível de vencer, o mundo jaz no maligno, é isso que aparece em Mauriac. São livros
absolutamente maravilhosos, Mauriac é um técnico da construção do romance como raramente
existiu, você pode pegar sua inspiração ali. No Brasil existe alguma inspiração? Existe, sabe quem
começou a fazer isso? Foi o Ariano Suassuna, em O Auto da Compadecida e em A Pena e a Lei,
usando elementos do folclore nacional, colocando dentro de uma metafísica cristã. Ele começou
bem, depois se perdeu não sei porque.
Bom é isso gente, acho que já foi pergunta demais. Até a próxima aula na terça feira.
No sábado temos aula do normal do COF, sobre outro assunto. Já posso até enunciar, vai ser em
parte sobre o Schelling, e espero vocês na terça-feira que vem.
Desculpe o atraso, mas o atraso pode voltar a se repetir na terça-feira que vem, porque nós temos
que tomar todas as providências para criar um sistema de segurança quase invulnerável, porque o
que não falta é gente querendo estragar tudo.
Até a semana que vem e muito obrigado! [02:20:42]

Transcrição: Leonardo Yukio Afuso, Iara Bel Valpere, Daison Paz, Ricardo Furuta e Rahul Gusmão
Revisão: Rahul Gusmão

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