Você está na página 1de 6

A gente é da hora1: Homens Negros e Masculinidade

Prefácio sobre homens negros: Não acredite na hype

Quando mulheres se juntam e falam sobre homens, as notícias quase sempre são
pessimistas. Quando se especifica o tópico e o foco passa a ser os homens negros, as notícias
são ainda piores. Apesar dos avanços dos direitos civis em nossa nação, o movimento feminista
e a liberdade sexual, quando se destaca os homens brancos a mensagem é, geralmente, que
estes continuam travados e que, enquanto, um grupo, ainda não estão envolvidos com seu
tempo. O influente jornalista negro Ellis Cose pouco ajuda a acabar com a imagem que se tem
da masculinidade negra em seu recente livro The Envy of the World: On Being a Black Man in
America (A inveja do Mundo: Sobre ser um homem negro na América). Ainda assim, seu livro
obteve larga atenção em comparação a outros trabalhos recentes focados na masculinidade
negra.
Identificando homens negros como “um grupo a parte” em seu prefácio, Cose afirma:

Muitos de nós estão perdidos nesta América do século vinte e um. Nós estamos
menos certos de nosso lugar no mundo do que estavam nossos predecessores,
por parte é por conta de nossas opções, nossas possibilidades de escolhas são
maiores que as deles. Então ficamos presos em um paradoxo. Nós sabemos,
admitindo abertamente ou não, que em diversos aspectos estamos melhores do
que eles jamais estariam. Este é um momento, afinal, em que um Afro
americano pode ser secretário de Estado e, possivelmente, até mesmo
presidente. As antigas barreiras que nos bloqueavam todos os passos finalmente
caíram – ou estão abertas o suficiente para permitir que alguns de nós passem.
Apesar de estar tudo estar nosso alcance, coletivamente e individualmente, para
alcançar um alto nível de sucesso que jamais foi imaginado por nossos
antepassados, muitos de nós estão condenados a falhar.

Enquanto Cose identifica diversas problemáticas, ele também não oferece nenhuma
visão de como os homens negros podem ter criado um novo e diferente auto-conceito.
O capítulo final, intitulado “Twelve Things You Must Know to Survive and Thrive in
America,” (Doze coisas que você precisa saber para sobreviver e progredir na America)
apresenta suas “novas regras mundiais,” sua chave de sucesso para sobrevivência, ou os
“mandamentos” de Cose, ou se você preferir “Duras verdades desta nova era”. Suas duras
verdades são, no máximo, conselhos de senso comum sobre como viver em um mundo com as
piores banalidades. O autor busca encorajar homens negros a pararem de reclamar, parar de
culpar outros por seus sofrimentos, parar de pedir ajuda e se afastarem de amigos tóxicos. A
dura verdade número 11 declara “Mesmo que você precise fingir, demonstre alguma fé em
você mesmo.” Cose concluiseu livro com a seguinte retratação “Este volume se preocupa

1
O título da obra vem do poema “We Real Cool” escrito por Gwendolyn Brooks, em 1960. A autora ganhou o
Pulitzer de poema com a obra “Annie Allen” em maio de 1950.
pouco como sistema, propositalmente, se preocupa pouco com a necessidade de grandes
mudanças sociais, e mais com o pessoal, com algumas coisas que você talvez queira considerar
enquanto descobre como viver sua vida”. The Envy of The World é uma análise dos problemas
do homem negro que desaponta exatamente porque Cose falha na tentativa de fazer conexões
pessoais, tudo o que está acontecendo no dia-a-dia dos homens negros, sobre política e os
movimentos progressistas por justiça social que oferecem estratégias teóricas e práticas que
podem ser usadas para melhorar o bem-estar emocional dos homens negros e aumentar suas
chances de viver de forma completa e bem vivida.
Apesar de ser extremamente apelativo quanto à masculinidade negra em seu último
capítulo, a linguagem utilizada por Cose em seu livro é a de um observador imparcial. O livro
parte de uma visão vaga sobre a masculinidade negra, o que indica que seus leitores não têm
ideia alguma sobre como é a experiência do homem negro. Mesmo a escolha do título, retirado
do romance Sula, escrito por Toni Morrison, insinua que o público masculino não-negro está
olhando através de suas lentes invejosas. O livro de Cose deixa claro a estes leitores, em
específico, que não há nenhuma necessidade de alimentar esta inveja. No romance, uma mulher
negra castiga um homem negro por ter sugerido que este não recebia atenção o bastante. Ela
diz:

Digo, não entendo porque tanto barulho sobre isso. Digo, todo mundo te ama.
Homens brancos amam você. Eles gastam tanto tempo se preocupando com seu
pênis que esquecem os próprios pênis...E as mulheres brancas? Elas te procuram
em todas as esquinas da face da terra, se tocam por você embaixo de suas
camas...Mulheres de cor não cuidam de sua saúde só para que fiquem sob seus
cuidados. Até mesmo as crianças, brancas e negras, garotos e garotas – ficam
tristes por você não gostar delas. E se isso não for o bastante, você se ama.
Ninguém no mundo se ama mais do que homens negros...Me parece que o
mundo tem inveja de você.

Utilizando da agradável palavra “amor”, é possível fazer uma análise em que o que está
sendo descrito não é amor, mas desejo. Talvez, o que os homens negros estejam pedindo é que
o mundo entenda que inveja e desejo não tem nenhuma conexão com amor.
A verdade, infelizmente, é que há uma cultura de não amor para homens negros, eles
não são amados por homens brancos, mulheres brancas, mulheres negras, nem por crianças. A
maioria dos homens negros, especificamente, não amam a si mesmos. Como eles poderiam,
como poderiam esperar amor estando rodeados por tanta inveja, desejo e ódio? Homens negros
em uma sociedade capitalista, patriarcal, imperialista e branca são temidos, mas não são
amados. É obvio que parte disto vem da cultura de dominação, confundindo desejo e amor.
Através de vínculos sadomasoquistas, a cultura de dominação transforma o desejo, que é
desprezo, e o faz tomar a forma de carinho e amor. Se os homens negros fossem amados, eles
poderiam ter uma esperança de vida, não estariam presos, enjaulados ou confinados, poderiam
se imaginar além deste confinamento.
Estando de fato, ou não, dentro de uma prisão, praticamente todos os homens negros
nos Estados Unidos da América foi forçado, em algum momento de sua vida, a esconder seus
sentimentos. Impedidos de se expressar como queriam, tendo que reprimir e conter seu medo
de ser atacado, esquartejado e destruído. Homens negros vivem, constantemente, em uma
prisão mental, incapazes de achar o caminho para fora. Em uma sociedade patriarcal, todos os
homens aprendem que seu papel é o da restrição e do confinamento. Porém, quando raça e
classe são adicionadas ao debate, junto com o patriarcado, os homens negros enfrentam
imposições ainda piores da identidade masculina patriarcal.
Vistos como animais, brutos, naturalmente estupradores e assassinos, assim os homens
negros são representados, sem qualquer pudor. Poucas foram as alterações desse estereótipo.
Como consequência, estes homens se tornam vítimas desses estereótipos, que foram
construídos no século dezenove, mas persiste no imaginativo dos cidadãos desta nação ainda
nos dias de hoje. Os homens negros que fogem desta caracterização são raros, pois o preço da
visibilidade neste mundo contemporâneo de supremacia branca é que estes homens negros se
mantenham caracterizados no estereótipo. Dentro da construção da individualidade do homem
negro dentro de uma sociedade branca, capitalista e patriarcal, está a imagem de um bruto,
selvagem, insensível, primitivo e desprovido de inteligência.
Os estereótipos sobre a natureza da masculinidade negra se continuam a pré-determinar
as identidades que homens negros tentam construir para si mesmos. A subcultura de homens
negros que começaram a emergir como militantes antirracistas assustaram a América branca
racista. Enquanto os homens negros eram vistos como selvagens incapazes de emergir de sua
natureza animal, continuavam a ser vistos como uma ameaça facilmente contida. Foi o homem
negro buscando libertação das correntes do imperialismo branco, capitalista e patriarcal quem
teve que ser exterminado. Essa potencial rebeldia do homem negro revolucionário, líder do
povo, não podia ser admitida nem podia florescer.
Malcolm X, mais que qualquer outro homem negro que tenha alcançado poder nesta
nação, recusou fortemente que sua identidade fosse definida por um sistema racial, de gênero
e dominação das classes. Ele foi o exemplo que os jovens negros seguiram, nos anos sessenta,
enquanto batalhávamos para educar os nossos para que tivessem uma consciência crítica do
mundo. Nós prestamos bastante atenção às palavras de Malcolm, recebendo sua permissão para
que nos libertássemos, para que libertássemos o homem negro por todos os meios necessários.
Não há qualquer menção a Malcolm X nas discussões sobre a identidade do homem
negro de Ellis Cose. Os anos de luta do poder negro é marcado, para Cose, pelo assassinato de
Fred Hampton. Ele lembra “Para mim, a execução disse muito sobre o valor da vida homem
negro na América, como as pessoas justificam, facilmente, sua extinção. Mas também fala
muito sobre medo; medo da justificada ira dos jovens homens negros; medo do poder que
possuem; borbulhando dentro do sistema, dentro dos corações alienados daqueles que são
desprovidos”. Esta fala se encaixa bem à narrativa conservativa de Cose, ele esquece o debate
de homens negros que corajosamente decolonizaram suas mentes e construíram identidades na
resistência que transcenderam estereótipo. Estes homens negros, como W.E.B. DuBois e
Malcolm X, não viam sucesso ou falha em termos de saúde ou fama. Seus legados tiveram
pouco impacto aos homens negros da contemporaneidade pois estes entraram em combate
direto contra o sistema; eles não estavam tentando fazer este sistema funcionar para eles.
Individualmente, os homens negros radicais entenderam que o imperialismo dos
supremacistas brancos, o capitalismo e o patriarcado estão interligados ao sistema de
dominação que nunca empodera o homem negro completamente. Neste momento, este sistema
está simbolicamente linchando muitos homens negros, enforcando suas vidas ao tornar
impossível que aprendam o básico sobre leitura e escrita na infância; através, também, da
promoção de um sistema de livre iniciativa que funciona muito bem para poucos; a falta de
emprego generalizada e através da constante sedução psicológica fatal dos comportamentos
patriarcais masculinos. Qualquer um que alegue estar preocupado com o destino dos homens
negros nos Estados Unidos da América que não fala sobre a necessidade de radicalização de
suas consciências para combater o patriarcado para que possam sobreviver e florescer,
compactua com o atual sistema que mantém o homem negro no mesmo lugar, psicologicamente
aprisionado, excluído.
Hoje em dia deveria ser obvio, para qualquer escritor e pensador, falar que a primeira
ameaça genocida, a força que coloca em perigo a vida masculina negra, é o patriarcado
masculino. Por mais de trinta anos, um dos aspectos da minha visão político-ativista tem sido
trabalhar para educar a sociedade sobre os impactos do patriarcado e do sexismo nas vidas do
povo negro. Como uma voz das políticas voltadas ao feminismo, tenho constantemente
chamado atenção para que homens critiquem o patriarcado e se envolvam com a libertação
masculina. Em um ensaio escrito a mais de dez anos atrás, chamado “Reconstructing Black
Masculinity” (“Reconstruindo a masculinidade negra”), sugeri que “nós podemos acabar com
a ameaça que o patriarcado masculino impõe sobre os homens negros e podemos criar uma
vida sustentada sob a visão de reconstrução da masculinidade negra que possa proporcionar
aos homens negros uma forma de salvar suas vidas e de seus irmãos e irmãs em dificuldade”.
Apesar deste ensaio e outros ensaios similares de Michele Wallace, Gary Lemons, Essex
Hemphill e outros que falam sobre feminismo, não temos conseguido influenciar a
generalização que escrevem sobre masculinidade negra e continuam empurrando uma noção
de que todos os homens negros precisam, para sobreviver, precisam se tornar patriarcas
melhores.
O meio público se recusar a encarar a realidade da condição dos homens negros, jovens
e mais velhos, só piora com o conluio daqueles que expressão preocupação de forma
oportunista e joga todos os problemas sobre a masculinidade negra enquanto se recusam a
contar a verdade sobre como devemos mudar essa situação. Conservadores e radicais parecem
gostar de falar mais sobre as dificuldades do homem negro do que pensar em estratégias de
resistência que poderiam oferecer uma esperança e alternativas significativas. Nós, mulheres
negras e homens negros, que falamos constantemente, educamos para que haja consciência
crítica em diversas comunidades negras, sobre patriarcado e sexismo, raramente recebemos
atenção da sociedade quando discutimos a crise na masculinidade negra. Nossos escritos não
são mencionados em livros conservadores que tratam sobre a masculinidade negra.
No entanto, quando eu vou ensinar e lecionar em algumas comunidades negras, os
homens negros de todas as classes estão entre o público. Escutando estes homens, eu escuto e
compartilho suas preocupações sobre como homens negros estão perdendo o chão, como suas
dificuldades estão se agravando. Não importa o quanto nós chamemos a atenção para a crise
da masculinidade negra, continuamos sem resposta coletiva. Um sentimento de desespero
ameaça aniquilar nossa capacidade coletiva de criar uma intervenção positiva a favor do
homem negro. Existe um sentimento geral de desânimo entre os nossos, um sentimento de
“homens negros simplesmente não entendem”. Com certeza muitos homens que conheço não
parecem entender. Meu pai, aos 80 anos, se mantém comprometido com o pensamento e ações
patriarcais, isto o mantém isolado emocionalmente daqueles que ele ama. Apesar do seu
sexismo e seu constante abuso e violência ter acabado com seu casamento de mais de cinquenta
anos, ele mantém seu comprometimento com o patriarcalismo. Meu irmão, que conseguiu, em
sua infância, subverter a dominação patriarcal estando consciente de suas emoções, continua
empenhado em entender o ideal de masculinidade patriarcal, prejudicando as ações positivas
em sua vida. Ele constantemente se sente confuso e desencorajado. E os homens negros que eu
amei, como parceiros, sofreram os malefícios da dependência parental e a negligência
emocional. Apesar de serem homens que trabalham duro, estarem financeiramente bem, sofrem
emocionalmente.
Todos os homens negros que amei se veem isolados, retirados de qualquer sentimento
de solidariedade. Veem a maioria das lideranças masculinas negras como hipócritas e
ineficazes, como oportunistas procurando alcançar o estrelato. Compartilham a ideia de
Michele Wallace que “Quando você vê uma liderança negra refletida na grande mídia, o que
você vê é uma equipe narcisista, os ridículos vagos e inadequados”. Quando o público pede a
morte dos líderes negros, eu digo que os visionários radicais entre nós estão tentando e são
capazes de nos liderar na direção da libertação, e que a maioria dessas pessoas são mulheres
negras. Continuar com o pensamento sexista sobre a natureza da liderança cria um ponto cego
que impede o povo negro de utilizar teorias e práticas de libertação, quando são oferecidas
pelas mulheres negras.
Percebendo isto, tenho tido a esperança, junto com outras colegas negras, que o
individuo negro que se importa com as dificuldades do homem negro e que buscam
compreender o pensamento feminista poderia fazer muito mais para alcançar um grupo de
homens negros. Este trabalho não tem sido comunicativo. Toda vez que encontro um irmão de
pensamento radical eu o encorajo a escrever, a compartilhar seus conhecimentos com outros.
Muitos indivíduos negros que trabalham no campo acadêmico que tenta acabar com a violência
contra mulheres e crianças especialistas em explicar a crise do homem negro e conseguem
encontrar caminhos para uma recuperação destes, mas não conseguem entender que podem
escrever. Não há nenhuma literatura anti-patriarcal falando diretamente para homens negros,
como eles podem se educar sobre consciência negra, se guiando para um caminho de libertação.
A ausência de trabalhos como este mantém a ideia de que homens negros não são
levados a sério. Muitas literaturas surgem com despertar da resistência feminina negra,
desafiando o sistema opressor que nos mantém exploradas e oprimidas enquanto grupo. Esta
literatura tem ajudado as mulheres negras a se empoderar. Como autora e leitora destes
trabalhos, eu sei que isto muda vidas para sempre.
Tenho pensando constantemente sobre porque nenhuma literatura de resistência tenha
surgido de homens negros, apesar de serem donos de revistas e editoras. A falha parece estar
na falta de coletividade na radicalização por uma parte desses homens (a maioria dos homens
negros poderosos na mídia são conservadores que apoiam o pensamento patriarcal). O carisma
individual das lideranças masculinas negras que possuem um pensamento radical
constantemente se tornam tão narcisistas sobre seu status único de homem negro diferente que
falham em compartilhar as boas notícias com outros homens negros. Ou permitem ser
cooptados – seduzidos – pela promessa de grandes recompensas econômicas e acesso ao poder
da grande mídia que se tornam menos raciais em suas mensagens.
Enquanto mulher negra que se importa com as dificuldades do homem negro, sinto que
não posso mais esperar que os homens negros tenham a iniciativa para espalhar a palavra.
Esperei por dez anos. O sofrimento do homem negro se intensificou, nesses anos. Escrevendo
este livro, espero contribuir com minha voz em um pequeno coral de vozes que falam em
benefício da libertação do homem negro. Mulheres negras não podem falar por homens negros.
Nós podemos falar com eles. E ao faze-lo, personificamos a prática da solidariedade, onde o
diálogo é o alicerce do verdadeiro amor.
Venho de uma infância em que meu amor pelo homem negro é marcado por um amor
que muito desejei, mas que só me desprezou. Por sorte, Daddy Gus, meu avô, me deu o amor
que meu coração precisava. Calma, carinho, gentileza, criatividade, um homem de silencio e
paz, que me permitiu uma perspectiva da masculinidade negra contrária a norma patriarcal. Ele
foi o primeiro homem negro radical da minha vida. Ele foi a base. Sempre me envolvendo em
diálogos, sempre auxiliando meu desejo por conhecimento e sempre me encorajando a falar o
que estivesse em minha mente, eu honro o compromisso entre nós, as lições sobre
masculinidade negra e a colaboração feminina criada de forma mútua. Ele me ensinou a
continuar dialogando com o homem negro, a continuar a obra do verdadeiro amor.