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Sonia Regina

de Mendonça

A
industrialização
brasileira

11!! impressão
Sumário

INTRODUÇÃO 6

1. A Era Colonial 8
É proibido instalar manufaturas 8
A indústria está a caminho 15

2. Construindo a grande indústria 19


Do café nasce a indústria 19
E surge a classe operária 26
Superexploração , miséria e doença 30
A classe operária organiza-se 35
A reação empresarial 40

3. Entra em cena o Estado 44


o Brasil e o mundo nos anos de 1930 44
Nacionalismo e desenvolvimento 49
Sociedade de massas: controle redobrado 54
Empresário e Estado na Era Vargas 59

4. Desenvolvimentismo e internacionalização 62
A industrialização na gangorra 62
A civilização do automóvel 67
Quem são as classes produtoras? 74
Indústria moderna, país dependente 76

5. Um modelo perverso 80
Os anos críticos 80
Depois da tempestade, vem o "milagre" 84
As classes trabalhadoras "pagam o pato" 94
O "milagre" se desfez " 97
6. Desnacionalização e desindustrialização 10S
Neoliberalismo e globalização avançam lOS
A desindustrialização brasileira............................................... 110
Desnacionalizando a economia....... .. 114
Desemprego e pobreza no Brasil do Real 119

CONSIDERAÇÕES FINAIS 127

GLOSSÁRIO 129

CRONOLOGIA 132

BIBLIOGRAFIA 135

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POLÊMICA

Introdução

Ninguém melhor do que nós, brasileiros do século XXI, sabe 6 que


é sentir na pele a vida confusa e agitada que marca o nosso dia-a-dia e o
das nossas famílias. Quem não vive a realidade do país, a cada início de
mês, fazendo contas e mais contas, apertando daqui e cortando dali,
para ver se a receita vai bastar para todas as necessidades, até mesmo em
conjunturas de inflação controlada?
Claro que a indignação com esse estado de coisas é geral e procura-
mos sempre o "bode expiatório" mais próximo para desabafar as nossas
insatisfações. Ora é esse ou aquele governante o escolhido como o judas
da situação; ora culpamos as várias greves que pipocam aqui e acolá; ora
ouvimos alguém dizer que a tal "campanha de privatização" das empresas
estatais é a causadora desse caos econômico que o país atravessa.
A situação é sombria. Assim é que, no "calor da hora" em que recebe-
mos cada nova conta de luz ou de telefone, só há espaço, dentro das nossas
casas, para um sentimento de revolta, ou mesmo de desesperança.
Mas o que poucas pessoas procuram fazer, em meio a essa confu-
são, é refletir sobre as razões do que está acontecendo. E não se trata
aqui apenas das razões recentes. Trata-se daquelas causas mais profun-
das, com origens mais distantes no tempo, e que podem nos ajudar a
entender o que está se passando no momento atual.
Uma dessas razões é, sem dúvida, a forma como se processou a in-
dustrialização brasileira e os rumos por ela tomados nos diferentes mo-
mentos da nossa história. Somente mergulhando nesse passado é que

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poderemos compreender alguns dos motivos de um presente tão difícil
como o nosso.
É a história dessa industrialização - as suas origens, fases e carac-
terísticas - que este livro conta. Mas não se tem aqui uma daquelas
histórias cheias de heróis e datas importantes. O que vamos descrever é
um longo processo, em que a ação dos grupos sociais - com as suas dis-
putas, as suas lutas e os seus acordos - foi determinante para definir os
passos dessa indústria, que só deslanchou em pleno século XX, com mais
de cem anos de atraso em relação à Europa e aos Estados Unidos.
Para se chegar até esse ponto, no entanto, é preciso "passear" pelo
túnel do tempo, passando pelo século XIX, quando no Brasil ainda havia
escravidão e monarquia, e recuando até o século XVI, quando começou
a exploração colonial.

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1. A Era Colonial

As LIMITAÇÕES IMPOSTAS PELA METRÓPOLE NOS PRIMÓRDIOS

DA AGROINDÚSTRIA AÇUCAREIRA NO NORDESTE RETARDARAM

O SURGIMENTO DAS MANUFATURAS, CONSOLIDANDO A COLÔNIA

BRASIL APENAS COMO FORNECEDORA DE MATÉRIAS-PRIMAS.

É proibido instalar manufaturas

Para se conhecer a história da industrialização brasileira, é preciso vol-


tar ao tempo da não-industrialização, por mais estranho que possa pare-
cer. E o tempo da não-industrialização foi aquele em que o Brasil ainda
era uma colônia de Portugal, presa a este país pelo pacto colonial.
De acordo com o pacto colonial, a metrópole portuguesa tinha to-
tal exclusividade para comercializar os poucos gêneros tropicais, de alto
valor no mercado europeu, que daqui eram extraídos, ou produzidos
em larga escala, tais como pau-brasil, açúcar, ouro ou drogas do sertão
(especiarias). A produção extensiva, no caso particular do açúcar, justi-
ficava-se pela necessidade de lucros cada vez maiores por parte da Co-
roa, que comandava os destinos do "país". O Brasil era, assim, uma colô-
nia de exploração.
Pela lógica do sistema colonial, todos os recursos disponíveis na colô-
nia, desde terras e dinheiro até mão-de-obra - africana, de preferência,

8
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Pequena moendo portátil.

por ser ela também uma mercadoria comercializável-, deveriam ser ca-
nalizados para a produção extensiva, da qual a chamada agroindústria açuca-
reira nordestina dos séculos XVI e XVII foi o principal exemplo.
Logo, todos os grandes senhores de engenho da colônia subme-
tiam-se ao monopólio exercido por Portugal, tal como acontecia com
os demais colonos ligados a outras atividades. O açúcar produzido só
podia ser vendido a comerciantes portugueses - ou outros autorizados
pela Coroa - pelo preço que lhes era imposto.
O outro lado do pacto colonial consistia no igual exclusivismo dos
negociantes lusitanos em venderem à colônia tudo aquilo de que os seus
habitantes necessitassem. E, conseqüentemente, esse "tudo" consistia em
artigos manufaturados que Portugal, sem condições de produzir, adqui-
ria de fornecedores europeus.
Assim, como colônia de exploração, o Brasil representava para a
Coroa portuguesa uma dupla fonte de lucros: os que ganhava, ao reven-
der na Europa toda a produção aqui comprada a baixos preços; e os que
obtinha, com a venda aos colonos, a preços altos, dos manufaturados

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POL~MICA

utilizados no seu dia-a-dia - ainda que para isso contasse com alguns
aliados, como os holandeses, que, entre os séculos XVI e XVII, em troca
do fornecimento de recursos a Portugal, tinham autorização para trans-
portar e redistribuir o açúcar no continente europeu.
Até que ocorresse a junção das duas Coroas - Portugal e Espanha
-, ante os problemas dinásticos sucessórios durante a chamada União
Ibérica (1580-1640), a Holanda foi a principal aliada de Portugal nessa
fase de consolidação da agroindústria açucare ira colonial. A partir desse
momento, no entanto, tal quadro seria revertido, já que a Holanda, em
luta com a Espanha, seria proibida de comercializar o açúcar brasileiro,
ao que reagiu de forma radical: as invasões holandesas do Nordeste
(Bahia e Pernambuco) foram o seu corolário. Entre 1624 e 1654, os
pólos açucareiros da Colônia Brasil viveriam sob domínio flamengo.
Descontentes com a cobrança dos empréstimos que lhes tinham sido
feitos pelos invasores - que, além do mais, não eram católicos -,
os senhores de engenho dariam início à luta contra o jugo holandês, con-
tando para tal com os demais habitantes da região, integrando assim
a Insurreição Pernambucana. Por volta de 1650, os flamengos estavam
derrotados e, com o fim da União Ibérica, em 1640, o monopólio portu-
guês restabeleceu-se na colônia.
Esta, por sua vez, teria as suas atividades econômicas ampliadas,
entre os séculos XVII e XVIII, com a exploração das especiarias (drogas
do sertão) obtidas na Floresta Amazônica, a expansão pastoril no inte-
rior nordestino e a mineração nas Gerais.
Em virtude da sua extrema importância como fator de sustentação da
Coroa portuguesa, que saíra depauperada da União Ibérica, a atividade mi-
neradora provocaria uma forte centralização administrativa na colônia, am-
pliando-se os mecanismos de controle da atividade extrativa e, por exten-
são, da própria população colonial da região. E para que servia tanto ouro?
Parte expressiva desse ouro revertia para Portugal sob a forma de
impostos, servindo não apenas para o sustento da Corte, como também
para saldar as inúmeras dívidas que o Reino português contraíra ao lon-
go do tempo. Assim, o ouro brasileiro não ficava somente em Portugal,

10
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

tornando-se importante para outros países da Europa, visto que, além da


quitação das dívidas, o Reino não produzia a maioria dos produtos manu-
faturados necessários à revenda na colônia. O Tratado de Methuen, nego-
ciado com a Inglaterra em 1703, é um bom exemplo desse mecanismo.
Por ele, a Inglaterra comprometia-se a comprar vinhos apenas de Portu-
gal, enquanto este, por seu turno, iria adquirir tecidos somente da Ingla-
terra. Como o Reino português adquiria mais tecidos do que vendia vi-
nhos - isso sem contar a desigualdade de preços das mercadorias troca-
das -, logo se veria endividado junto à Inglaterra.
Foi justamente nesse contexto do século XVIII que a Inglaterra come-
çou a afirmar-se como grande potência mundial da época, em face do seu
pioneirismo no desenvolvimento da Revolução Industrial, sobretudo a par-
tir de 1760. A instalação do sistema fabril, impulsionado, nessa primeira
fase, pelo aperfeiçoamento das máquinas de fiação e tecelagem e, num se-
gundo momento, pela substituição da energia hidráulica pelo vapor, garan-
tiria aos britânicos a primazia na difusão do capitalismo pelo mundo.

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Alvará de D, Maria I proibindo fábricas


e manufaturas no Brasil [Usboo, 17851,

11
POLÊMICA

Enquanto tal processo se verificava na Inglaterra, Portugal, a despei-


to do monopólio colonial, pouco a pouco se transformava em mero inter-
mediário comercial entre a colônia e a Europa, carente que era de ativida-
des manufatureiras expressivas e com sólidas raÍzes na produção agrária.
Já a Colônia Brasil, uma vez que a sua população crescia e começava a
diversificar as suas ocupações, seria alvo de uma severa política de restri-
ções econômicas por parte da metrópole, dentre as quais se destacou o
Alvará de 1785, mandando fechar as manufaturas - poucas - aqui exis-
tentes, tais como as de fabricação de tecidos e as de construção naval. A
rigor, é possível afirmar que durante o longo período colonial as ativida-
des "industriais" desenvolvidas no Brasil contavam com um caráter estri-
tamente acessório e secundário no conjunto da economia.
Mesmo assim, a proibição de manufaturas na Colônia Brasil teria
como principal beneficiária justamente a Inglaterra, que continuava a
fornecer produtos manufaturados a Portugal e, por essa razão, não pos-
suía qualquer interesse em que as áreas coloniais se industrializassem.
Pelo contrário, interessava-lhe tirar proveito do pacto colonial lusitano,
por intermédio do seu principal instrumento: o monopólio.
Mas se o sistema colonial funcionou com razoável eficiência até finais
do século XVIII, o mesmo não se pode dizer dos anos subseqüentes. Impli-
cado nas disputas européias que marcaram a chamada "era napoleônica", em
inícios do século XIX, Portugal se veria forçado a fazer uma opção política de
importantes conseqüências para a Colônia Brasil. Napoleão Bonaparte, im-
perador francês e senhor de quase toda a Europa Ocidental, ao impor o
Bloqueio Continental de 1806, interditando qualquer país europeu de co-
merciar com a sua grande rival, a Inglaterra, colocaria a Coroa lusitana numa
encruzilhada ante o confronto das duas potências. Contando com a agricul-
tura como a sua principal atividade econômica, Portugal viu-se impedido
de cumprir a ordem napoleônica, expondo-se à invasão francesa.
A solução para o impasse deu-se com a vinda, em 1808, da família
real portuguesa para o Brasil, mediante apoio da Inglaterra, que passa-
ria a comercializar livremente com a Colônia Brasil. A Corte, desse
momento em diante, trocava de lugar, passando de Lisboa para o Rio de

12
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Janeiro. E o Brasil, por sua vez, também se veria numa ambígua condi-
ção: a de colônia e de sede da Monarquia, ao mesmo tempo. Esse novo
quadro marcaria o início do fim da situação colonial brasileira.
É em meio a todas essas mudanças que podemos situar os antece-
dentes da história da indústria brasileira, pois, nesse momento, como
sede da Monarquia, a Colônia Brasil precisava ter a sua condição forço-
samente redefinida. Por um lado, porque seria preciso responder às no-
vas necessidades que a Corte trouxera consigo. Por outro, porque a pre-
sença da Corte em solo brasileiro dificultava, e muito, a manutenção do
tradicional monopólio, que tinha sido, até o momento, a chave da domi-
nação econômica e política de Portugal. Afinal, a Coroa estava aqui!
Diante da nova realidade, o príncipe regente D. João revogaria as
proibições do regime colonial no tocante à indústria pelo Alvará de 1 de 2

abril de 1808. Isso incentivaria alguns empreendimentos manufaturei-


ros - como a construção naval e a produção de cordames, velas e teci-
dos em geral-, num esforço tênue para imitar as manufaturas reais do
ministro francês Colbert, pelo fato de estarem elas sob a tutela do Esta-
do, que as fiscalizaria, sem, no entanto, tomá-Ias sob a sua direção.
Mas o destino dessas iniciativas "industrializantes" estava condenado ao
insucesso desde o seu nascimento. Isso porque, para consolidar a aliança
com a Inglaterra, premiando-a pelo seu apoio político, alguns acordos fo-
ram selados nessa época, a começar pela Carta Régia de 28 de janeiro de
1808, que redundou no que conhecemos como a abertura dos portos brasi-
leiros às"nações em paz e harmonia" com Portugal, excluindo-se a França, é
claro. A partir daí, estava extinto o monopólio comercial lusitano, bem
como o privilégio até então desfrutado pelos comerciantes do Reino, po-
dendo os negociantes brasileiros e de outras nacionalidades comerciar livre-
mente no Brasil. Certamente, seriam os pioneiros da Revolução Industrial
os que mais contribuiriam para o aumento do fluxo comercial com o Brasil,
invadindo o seu mercado com produtos manufaturados os mais diversos.
A preponderância inglesa no Brasil- bem como o destino das ma-
nufaturas brasileiras, é claro - foi selada mediante dois tratados, ambos
em 1810. Um deles, o de Aliança e Amizade, referia-se, no fundamental, a

13
POL~MICA

compromissos políticos entre os dois países. Já o outro, o de Comércio e


Nave8ação, garantia aos produtos ingleses o direito de entrar no Brasil
em condições mais vantajosas do que aqueles procedentes de outros
países, inclusive os de Portugal: enquanto os artigos vindos da Inglater-
ra pagariam apenas 15% ad valotetn nas alfândegas, os produtos portu-
gueses pagariam 16%, e os de outras nacionalidades, 24%. Semelhante
privilegio iria prolongar-se por alguns anos, com exclusividade.
Dessa forma, não fica difícil imaginar por que as tímidas iniciativas
"industrializantes" inauguradas por D. João se veriam sufocadas no seu
próprio nasce douro. Com técnicas ainda rudimentares e mão-de-obra
pouco especializada, as manufaturas brasileiras não tinham condições de
competir com os produtos ingleses, de melhor qualidade e preços bem
menores do que os aqui fabricados.
Mas a concorrência britânica não foi o único empecilho para o de-
senvolvimento da indústria no Brasil nesse período. O regime escravis-
ta, vigente desde primórdios da montagem do sistema colonial até a
Abolição, em 1888, seria outro poderoso obstáculo, posto que dificul-
tava o desenvolvimento da técnica, cerne da expansão industrial, bem
como o crescimento do número de consumidores ativos. Alem disso,
com uma população dispersa e predominantemente rural, com grau in-
cipiente de urbanização, só era possível configurar-se um mercado in-
terno restrito e altamente fragmentado, em nada estimulante para uma
efetiva industrialização.
Apesar desse quadro pouco favorável à industrialização, algumas
manufaturas conseguiram florescer, sobretudo no ramo dos tecidos. Foi
o caso da primeira tecelagem do Rio de Janeiro, criada em 1819; de
uma outra, em Minas Gerais, fundada no ano de 1824; além da "primei-
ra fábrica regular de fiação e tecidos de algodão fundada em Pernambu-
co logo depois da Independência", como assinalou um relatório apre-
sentado pela Comissão de Inquérito Industrial em 1882.
Na década de 1840, já havia um importante núcleo de indústrias
têxteis no país, situado na Bahia, em torno da fábrica Todos os Santos.
Esse núcleo, que empregava maquinaria importada e trabalhadores livres,

14
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

produzia anualmente 1 milhão de metros de tecidos diversos. No Rio


de Janeiro, nessa mesma década, a presença de "fábricas" - modernas
para a época - também é registrada, como, por exemplo, a do Anda-
raí Pequeno, com 22 operários livres e 459 fusos, e a de Santa Tereza,
no município fluminense de Parati, que produzia 500 mil metros de
tecidos por ano.
Como se pode perceber, até meados do século XIX, mesmo com O

fim do pacto colonial e após a independência política, o ritmo da cria-


ção das indústrias era ainda bastante lento. O regime escravocrata con-
tinuaria a ser um entrave à formação do mercado interno e ao desenvol-
vimento industrial.

A indústria está a caminho

Somente a partir de 1850 vai se observar um maior dinamismo no


desenvolvimento econômico do país em geral e das suas manufaturas,
em particular. O crescimento do número de indústrias dar-se-ia com
relativa rapidez.
Mas o que provocaria essas mudanças? A principal razão de todo
esse processo foi o fim do tráfico de africanos para o Brasil, estipulado
pela Lei Eusébio de Queirós, fruto das pressões britânicas, em 1850.
Com ela, inúmeros capitais, até então empatados na compra de escra-
vos, seriam desviados para outras atividades, tais como serviços urba-
nos, bancos e também a indústria.
Porém, o maior e mais duradouro impulso ao desenvolvimento
industrial do país viria da própria agricultura. Mais exatamente, de
uma nova atividade de exportação, que se expandia na Província do
Rio de Janeiro desde fins da primeira metade do século XIX - a
economia cafeeira. Com os altos lucros obtidos, os cafeicultores não
só reinvestiam na própria agricultura, como também aplicavam os
seus capitais em manufaturas ou no melhoramento dos serviços do
município da Corte, como os transportes, a iluminação e os servi-
ços portuários.

15
POLÊMICA

As indústrias - aspecto que mais nos interessa neste livro -


começariam a se diversificar pouco a pouco. Assim, se em 1850 o
país contava com apenas cinqüenta estabelecimentos industriais -
aí incluindo-se inúmeras unidades que não eram industriais no sen-
tido estrito do termo, como as salineiras, por exemplo -, entre
1860 e 1880 várias novas manufaturas seriam implantadas. Enquan-
to naquele primeiro ano, do total apontado, há referências a dez fá-
bricas do ramo alimentício, nove do têxtil e cinco do de pequena
metalurgia - sendo uma destas o estaleiro da Ponta da Areia, em
Niterói, pertencente ao famoso Barão de Mauá e que chegou a con-
centrar duzentos trabalhadores, entre escravos e assalariados -, nos
anos posteriores, os ramos industriais existentes no Império seriam
de muitos outros tipos.
Dentre esses novos ramos estabelecidos ao longo das décadas de
1850, 1860 e 1870, destacaram-se os do couro, dos calçados, das ma-
las, da chapelaria e do mobiliário, espalhados por todo o país. Tam-
bém no ramo gráfico, novas unidades seriam implantadas, sendo re-
gistrada a existência, em inícios da década de 1880, de 25 tipografias,
catorze litografias e dezenove oficinas de encadernação, todas no Rio
de Janeiro. O problema dessas novas empresas é que elas dependiam,
na sua grande maioria, de certas matérias-primas ou maquinarias im-
portadas, tal como no caso das fábricas de mobília: enquanto a madei-
ra empregada era quase que totalmente brasileira, os espelhos e as fer-
ragens, por exemplo, vinham de fora.
Para completar essa breve visão global da atividade industrial e
manufatureira verificada no Brasil da segunda metade do século XIX,
resta acrescentar ainda a existência de um enorme número de pequenas
fabriquetas de fundo de quintal, nas quais, com reduzido número de
máquinas, patrões e empregados trabalhavam lado a lado, como ocorria
nos ramos mecânico, da produção de massas alimentícias, de sabão etc.
Ao mesmo tempo, algumas mudanças importantes começaram,
pouco a pouco, a ocorrer nesse processo de diversificação da estru-
tura industrial brasileira. Foi o caso da utilização da máquina a vapor,

16
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

pela primeira vez, numa fábrica de tecidos situada em Itu (SP), no


ano de 1869.
Até fins do século XIX, a maior concentração do capital industrial
no Brasil deu-se na cidade do Rio de Janeiro, que só perderia tal posição
na segunda década do século XX, quando seria suplantada por São Pau-
lo. Quanto ao resto do país, no período compreendido entre 1850 e
1870, outros centros industriais merecem ser considerados, embora em
grau menor do que os dois pólos do Sudeste. Dentre eles, podemos ci-
tar o núcleo industrial de Salvador (BA), bem como o de Recife (PE) e
o de Blumenau (SC), todos eles do setor têxtil. Em Porto Alegre (RS),
por sua vez, as indústrias concentraram-se na produção de charutos, de
conservas e nos curtumes, com preponderância dos estabelecimentos
de pequeno porte. Todos esses ramos beneficiavam-se da proximidade
física dos pólos de fornecimento das suas matérias-primas essenciais, o
que barateava os custos da sua produção.
Deve-se esclarecer, no entanto, que muitas dessas unidades, cha-
madas por conveniência didática de "industriais", surgidas antes da im-
plantação da grande indústria propriamente dita - que se daria nas
décadas de 1880 e 1890 -, não passavam de pequenos empreendimen-
tos. Em sua maioria eram manufaturas, ou seja, estabelecimentos em
que o trabalho é desempenhado por grande número de operários (tal
corno na fábrica), mas com técnica de produção ainda pouco mecaniza-
da (no que se diferenciava da indústria).
Por falta de proteção tarifária, bem como por todas as dificuldades
já apontadas em relação aos obstáculos para a configuração de um efeti-
vo mercado interno, esses estabelecimentos (sobretudo os menores)
sofriam a brutal concorrência estrangeira, o que atrapalhava ainda mais
o seu crescimento.
Até a penúltima década do século XIX, a urbanização brasileira se-
ria ainda incipiente, e a industrialização, como vimos, não faria propri-
amente jus ao nome. Isso porque, quer pelo grande número de artesa-
natos e manufaturas, quer pelo pequeno vulto dos capitais investidos,
bem como pelo tipo de força motriz predominante, não podíamos ainda

17
POLÊMICA

falar de um predomínio da grande indústria fabril. Somente entre 1880


e 1900 é que esta última se faria presente na estrutura industrial brasi-
leira como uma realidade concreta, congregando, ao mesmo tempo,
grande número de trabalhadores, alta mecanização e investimentos de
capitais mais elevados.

Etiqueta para tecidos, registrada par 50-


muel, Irmãos & Cio. (Rio de Janeiro, 1888).

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2. Construindo a grande indústria

A ORIGEM DA INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA REMETE À EXPANSÃO

DA LAVOURA CAFEEIRA, SENDO MARCADA PELA PREPONDERÂNCIA

,
DOS RAMOS ALIMENTICIO "
E TEXTIL. AO MESMO TEMPO, A FORTE

PRESENÇA DE IMIGRANTES E DE EX-ESCRAVOS ENTRE O OPERARIADO

EMERGENTE SUBORDINOU-O À SUPEREXPLORAÇÃÓ, A PÉSSIMAS

CONDIÇÕES DE VIDA E À AUSÊNCIA DE DIREITOS TRABALHISTAS.

Do café nasce a indústria

O período compreendido entre 1880 e 1900 -correspondente


final do Império e início do regime republicano - foi aquele em que se
ao

verificou a consolidação da industrialização brasileira. Devemos enten-


der como industrialização, nesse momento, o começo de um processo
no qual a unidade fabril, altamente mecanizada, afirmou-se como pre-
dominante na nossa economia urbana.
Isso não aconteceu em todos os grandes centros do país. Po-
rém, foi um dado patente numa das suas regiões: o Sudeste. Basta
lembrar que as empresas paulistas e as fluminenses daquela época
que possuíam mais de cem trabalhadores e investimentos acima de
mil contos de r éis - que é um critério para caracterizarmos a gran-
de indústria - representavam, respectivamente, 85% e 75% de todo

19
POLÊMICA

Etiqueta para tecidos, registrada pela Companhia Petrapolitana (Ria


de Janeiro, 1888).

o capital industrial aplicado na área! Mas o que explica tal diferen-


ça? O que teria o Sudeste de tão especial?
Dentre os fatores dessa "especialidade", destacou-se a avassaladora
expansão da lavoura cafeeira ocorrida, a partir de 1870, na Província de
São Paulo, enquanto no Rio de Janeiro a cafeicultura ainda tinha desta-
que. A existência de abundantes terras virgens na região do chamado
Oeste Paulista, juntamente com a alta dos preços do café no exterior,
determinou uma verdadeira "corrida" para o interior paulista, fazendo
com que extensas regiões de matas logo se transformassem num mar de
cafezais. Em ·decorrência dessa expansão, um novo dinamismo acalen-
tou a nossa economia e a sociedade, que passaram a experimentar trans-
formações num ritmo nunca antes atingido.
Em função da nova "onda verde", uma ampla infra-estrutura de ser-
viços, transportes, casas comerciais e bancárias fez-se presente para sus-
tentar o crescimento da cafeicultura, A renovada economia cafeeira deu
vazão ao crescimento de uma rede de grandes estabelecimentos expor-
tadores e importadores estrangeiros (ingleses, sobretudo), os quais não
só controlavam a comercialização das safras de café, mas também tudo o
que vendiam e compravam das várias praças comerciais do país.

20
A I DUSTRIALlZAÇÃO BRASILEIRA

Com esse crescimento da rede de estabelecimentos, multiplicaram-se


também os serviços integrantes do setor tetciário * da economia do Sudeste,
numa escala muito maior do que aquela verificada no Rio de Janeiro em
meados do século XIX. Em conseqüência, a concentração populacíonal nas
cidades também se ampliou, determinando o surgimento de mercados lo-
cais bem maiores do que antes, com novos consumidores, o que não deixava
de ser um forte estímulo à multiplicação da grande indústria.
Outro aspecto importante do funcionamento da economia cafeeira
nesse período foi a presença marcante do capital estrangeiro nos seto-
res-chave da nossa economia, em particular no ferroviário e no bancá-
rio. No caso deste último, o predomínio do capital forâneo era muito
importante, já que os bancos eram responsáveis pelo financiamento dos
cafeicultores, que investiam mais e mais na formação ou ampliação das
suas fazendas.
O capital estrangeiro - britânico, sobretudo - passou também
a controlar uma atividade vital para a expansão cafeeira: o transporte
ferroviário, com o qual a penetração do café nas terras virgens do
interior e a chegada das novas safras aos portos de embarque poderiam
ser feitas de forma mais rápida. No ano de 1880, por exemplo, eram
onze as ferrovias inglesas existentes no Brasil. Esse número passaria
para 25, quinze anos depois, incluindo-se as redes implantadas
também no Nordeste. Mas o surto de ferrovias da época concentrou-
se mesmo no Sudeste, onde se localizavam 63% do total existente no
país, em 1899.
Diante de todos esses fatores, não é difícil entender por que o Su-
deste afirmou-se como pólo inicial da industrialização brasileira, e tor-
na-se clara a metáfora deste subtítulo: "Do café nasce a indústria".
Todas as características do funcionamento da atividade cafeeira
apontavam numa mesma direção: o complexo cafeeiro se diversificava e
urbanizava. Os centros de comercio da região - Rio de Janeiro,.San-
tos ou São Paulo - tornavam-se poderosos elos de ligação entre os

·As palavras assinaladas com asterisco ao longo do texto constam do Glossário, no final do livro.

21
POLÊMICA

cafeicultores brasileiros e os consumidores internacionais e funciona-


vam também como núcleos de concentração dos recursos materiais,
humanos e financeiros capazes de sustentar o desenvolvimento de uma
nova atividade: a grande indústria.
Dessa forma, surge como primeira caiacteristica da industrialização
brasileira, nessa fase inicial, a sua subordinação ao capital co[eeiro, A gran-
de indústria não só dependeu da diversificação desse complexo agrário-
exportador, como dele beneficiou-se em vários aspectos essenciais.
Em primeiro lugar, toda a infra-estrutura urbana e de transportes
desenvolvida em função da cafeicultura também favoreceu a industriali-
zação, quer pelos serviços já implantados - como o de energia elétri-
ca, por exemplo -, quer pela concentração de consumidores urbanos
em número considerável para a época.
Um segundo - e talvez mais importante - aspecto da subordina-
ção da indústria à cafeicultura foi o fato de que esta última proporcio-
nou um Brande fluxo de mão-de-obra do interior para as cidades. Esses
migrantes iriam engajar-se na dupla condição de trabalhadores urbanos
e consumidores industriais. Mas, para se entender melhor tal mecanis-
mo, é necessário recuar até inícios da década de 1870.
Nessa época, quando já se manifestava a crise do escravismo, os fazendei-
ros do Novo Oeste Paulista começaram a buscar alternativas para a falta de
braços na sua lavoura. Antevendo o fim do trabalho escravo, esses cafeiculto-
res conseguiram impor ao governo da Província de São Paulo o seu projeto
de imigração subvencionada pelo Estado, que foi responsável pela entrada
em massa de imigrantes - sobretudo italianos - em território paulista.
A introdução maciça de um novo tipo de mão-de-obra na lavoura
do café gerou, porém, uma conseqüência inesperada: a quantidade de
imigrantes destinados à cafeicultura excedia a oferta de empregos. So-
mente no período compreendido entre 1891 e 1910, 1.769.892 imi-
grantes vieram para o Brasil, integrando-se a uma população total de
22.042.800 habitantes. Além disso, os maus-tratos de muitos fazendei-
ros acostumados com o regime escravista desestimulavam a permanên-
cia dos imigrantes nas fazendas. Com isso, inúmeros deles dirigiam-se

22
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

às cidades em busca de melhores chances, constituindo-se num "esto-


que" de trabalho para a industrialização emergente.
A grande disponibilidade de trabalhadores em cidades como São
Paulo, por exemplo, permitiria aos industriais o pagamento de baixíssi-
mos salários. A Abolição, ao possibilitar a vinda de contingentes de li-
bertos (ex-escravos) do interior para as cidades, principalmente para a
Capital Federal, também fez crescer o número de trabalhadores pouco
qualificados e disponíveis para o trabalho urbano em geral.
É dessa oferta abundante de mão-de-obra que decorre uma sequtula
característica da industrialização brasileira na sua etapa inicial: o predomí-
nio das indústrias de bens de consumo correntes, tais como tecidos, vestuá-
rio, alimentos etc. Concentrando-se nas cidades maiores, os operários
de fábricas e os demais trabalhadores urbanos de baixa renda formavam
o principal mercado consumidor desse tipo de produto.
Um outro fator foi responsável pela predominância desse tipo de
produção industrial: as indústrias de bens de consumo correntes ade-
quavam-se à disponibilidade de capitais e de tecnologia então existentes
no país. A grande indústria brasileira desenvolveu-se, assim, nos seus
primórdios, voltada para o consumo popular.
Os dados apresentados pelo primeiro censo nacional de produção, rea-
lizado no país em 1920, demonstram como era a nossa estrutura industrial
no período: as indústrias alimentícias constituíam 30,7% do valor produzi-
do; as indústrias têxteis, 29,3%; as fábricas de bebidas e de cigarros, 6,3%;
e apenas 4,7% representavam as indústrias metalúrgicas e mecânicas.
Da observação desses números, extraímos uma terceira característi-
ca estrutural da nossa industrialização nessa época, que é, em parte, tam-
bém uma decorrência da segunda: a inexistência de indústrias pesadas no
Brasil. Como a presença desse tipo de empresa é condição indispensável
para o pleno desenvolvimento econômico de um país, fica fácil perce-
ber o ponto fraco da industrialização brasileira no período analisado,
isto é, a sua enorme dependência de tectioloqia importada. A produção de
"máquinas que produzem máquinas" ainda não constituía um ramo ex-
pressivo da nossa estrutura industrial.

23
POLÊMICA

Um terceiro aspecto da subordinação da indústria à cafeicultura refe-


re-se ao fato de que muitos dos primeiros industriais brasileiros eram os
próprios fazendeiros de café, interessados em investir os seus grandes
lucros em novos setores da economia. A maioria dessas fábricas eram im-
plantadas com os seus próprios capitais, mas, quando necessário, faziam-se
empréstimos com importadores ou bancos estrangeiros. Nesse caso, era co-
mum os financiadores tornarem-se sócios nos novos empreendimentos.
Dentre os principais industriais brasileiros do período, podemos ci-
tar: Antônio Prado (fábrica de vidros Santa Marina), o coronel Rodovalho
(fundador da primeira fábrica de cimento Portland no país, em 1897), o
coronel Anhaia (introdutor da primeira máquina a vapor em uma tecela-
gem, a fábrica São Luiz, em Itu), os Álvares Penteado (donos de curtumes
e tecelagens) e Eugênio de Oliveira (diretor da tecelagem Votorantim).
Os cafeicultores não foram, contudo, os únicos a investir em indús-
trias nessa época. Outros grupos também o fizeram, sobretudo donos de
bancos ou empresas estrangeiras, além de um considerável número de
imigrantes, que já chegavam da sua terra natal dotados de um razoável
volume de capitais. Vindos na qualidade de diretores de bancos e! ou ou-
tras empresas estrangeiras, esses imigrantes endinheirados não podem ser
confundidos com aqueles que vinham "para a lavoura", como mão-de-
obra, subsidiados pelas verbas do governo do Estado de São Paulo.
Ficaram famosos, desde a primeira década do século XX, investi-
dores como Francisco Matarazzo (proprietário de moinhos, tecelagens,
fábrica de botões), Alexandre Siciliano (máquinas agrícolas), Klabin (in-
dústria de papel) e Nicolau Scarpa (tecelagem), cujos sobrenomes até
hoje freqüentam os noticiários do país. No entanto, muitos autores cos-
tumam tomar esses nomes como exemplares da trajetória do que se
poderia chamar de se!f-made men, ou seja, homens que da pobreza da sua
condição de imigrante estrangeiro conseguiram subir na vida, tornan-
do-se empresários industriais. Nada mais falso do que isso, como o de-
monstram pesquisas mais recentes. Todos os nomes citados, insistimos,
já aportaram no Brasil como imigrantes com dinheiro, jamais tendo pas-
sado pela experiência do trabalho pesado na lavoura.

24
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Além desses imigrantes, ligados à industrialização paulista, outros


merecem destaque, como Domingos Bebiano, fundador da Companhia
América Fabril deTecidos, no Rio de Janeiro; Hermann Lundgren, dono
de fábricas têxteis em Pernambuco e fundador da famosa rede de lojas
Casas Perriambucanas; ou ainda o alemão Hering, de Santa Catarina,
também ligado à tecelagem e, posteriormente, à malharia.
Caracteriza-se assim, como um quarto aspecto básico das relações
entre café e indústria no Brasil, a paulatina diferenciação de uma nova
classe social que começava a despontar no país: a burguesia * industrial,
composta pelos proprietários do capital aplicado nas indústrias e que
viviam dos rendimentos por ele gerados.
Devido à íntima relação entre a atividade cafeeira e a industrial, a
formação dessa nova classe foi marcada, por um lado, pela duplícidade
dos papéis e das funções econômicas representados por um mesmo
agente social, como no caso, por exemplo, do cafeicultor que se trans-
formava em industrial. Por outro lado, a constituição da burguesia in-
dustrial brasileira também se caracterizou por Um grande entrosamen-
to entre famílias de cafeicultores e de empresários imigrantes, sobretu-
do por meio de casamentos.
Por ambos os processos, criava-se uma razoável afinidade entre os
interesses agrários e os industriais, afinidade essa que - mesmo em
conjunturas econômicas específicas que, simultaneamente, desfavoreci-
am a uns e beneficiavam a outros, como no caso da desvalorização da
moeda, favorável ao cafeicultor mas não ao industrial - impediu a
emergência de conflitos abertos entre ambos, principalmente quando
se tratava de discutir o protecionismo* à indústria ou a questão da taxa
cambial* .
O alto grau de concentração urbana, de capitais, de mão-de-obra e
de indústrias no Sudeste foi a principal razão do desenvolvimento de
um parque industrial nessa região, fato que não ocorria ainda no restan-
te do país. A disparidade do crescimento industrial entre o Centro-Sul e
as demais regiões já era uma realidade nessa época. Segundo o censo de
1920, a participação de alguns estados na produção total do Brasil era a

25
POL~MICA

seguinte: São Paulo, 31,5%; Distrito Federal/Rio de Janeiro, 28,2%;


Rio Grande do Sul, 11,1 %; Pernambuco, 6,8%; Minas Gerais, 5,6%;
Região Norte, 1,3%; Goiás e Mato Grosso, 0,4%.
Vale a pena destacar que, até o parque industrial paulista se afir-
mar, na década de 1920, o Rio de Janeiro foi o palco da concentração de
grandes indústrias na República Velha - período compreendido entre a
Proclamação da República e a Revolução de 1930 -, com ênfase nos
ramos de alimentos, bebidas, vestuário e, sobretudo, produtos têxteis.
Foi aí que primeiro surgiram grandes tecelagens, como a eia. Progresso
Industrial, a Aliança e a Confiança, algumas delas devido ao investimen-
to de empresários ligados à atividade bancária.

E surge a classe operária

Os primeiros operários brasileiros surgiram ainda em plena socieda-


de escravista. Muitas das nossas primeiras empresas industriais caracteri-
zavam-se pelo trabalho conjunto de operários livres e escravos. Somente

Oficina de ferraria e fundição da Escola de Aprendizes e Artífices da Estado da Espírita


Santo, 1910.

26
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

com a Abolição, tal quadro mudaria. Até lá, porém, essa coexistência atra-
palharia muito a afirmação do operariado como classe entre nós.
Esses primeiros operários originavam-se das camadas mais pobres
da população urbana, sendo muitos deles menores de idade, retirados
de asilos ou de casas de caridade diretamente para o regime das fábri-
cas. As condições de trabalho e de vida desses aprendizes não eram me-
lhores do que as de muitos escravos, formando um contingente signifi-
cativo de trabalhadores não-especializados. Adultos e crianças chegavam
a trabalhar até dezesseis horas por dia, sem folga semanal ou qualquer
outro direito.
Já os operários qualificados, necessários ao desenvolvimento indus-
trial, eram contratados quase sempre na Inglaterra e sofriam muitas di-
ficuldades de adaptação ao clima do país, além de saírem bem mais ca-
ros para os primeiros industriais, que eram obrigados a pagar-lhes salá-
rios maiores do que os que estavam acostumados a pagar.
A entrada em massa de imigrantes no Brasil, a partir de 1870-
1880, começou a alterar a composição do operariado brasileiro. Os
estrangeiros - italianos, portugueses, espanhóis - aos poucos se tor-
naram maioria nas fábricas do Rio de Janeiro e de São Paulo, situação
que se manteve mesmo após a Abolição. Somente nos centros indus-
triais menos dinâmicos, como aqueles situados na Bahia, em Pernam-
buco ou no Pará, predominou o emprego de mão-de-obra nacional na
indústria.
O crescimento da grande indústria, verificado na virada do século
XIX para o XX, pouco contribuiu para melhorar as condições de vida dos
operários. A superexploração do trabalho industrial não só se manteria,
como seria agravada, em função de um novo fato: a incorporação maciça
de mulheres e crianças no trabalho fabril. É bom lembrar que as crianças
recebiam salários ainda menores do que os trabalhadores adultos.
Outro fator que favorecia a superexploração do trabalhador industrial
era a ameaça do desemprego ou da diminuição temporária das frentes de
trabalho. Com a chegada de novos imigrantes às cidades, a oferta de mão-
de-obra aumentava, provocando demissões e desvalorização dos salários.

27
POLÊMICA

Hospedaria do Imigrante (Sãa Paulo, início do século XXI.

Nos períodos de crise econômica - como a de 1897 a 1900 ou aquela


ocorrida durante a pc. Guerra Mundial (1914-1918) -, a situação
piorava ainda mais, inexistindo qualquer garantia de estabilidade no
emprego.
Não devemos supor, entretanto, que o peso numérico e social
do proletariado* dessa época fosse considerável. No ano de 1900, o
total da população ocupada no Brasil era de 9.5 O 3.000 indivíduos,
dos quais apenas 321 mil trabalhavam na indústria. Em 1920, esse
número aumentaria, porém continuaria modesto; os empregados na
indústria eram apenas 1,3 milhão. Com isso, temos como caracterís-
ticas iniciais da formação do operariado no Brasil o seu peso numé-
rico e social relativamente baixo, bem como a sua grande divisão
interna na disputa por empregos, em que os homens eram preteri-
dos em favor das mulheres e das crianças, que representavam meno-
res gastos com a folha de pagamento.
Outra característica da formação do operariado brasileiro foi a sua
extrema dispersão espacial. Somente no Rio de Janeiro e em São Paulo
havia grandes concentrações operárias, como resultado do desenvolvi-

28
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

mento industrial aí verificado. Espalhada pelo país, era difícil à catego-


ria mobilizar-se em torno de causas comuns.
Também no tocante à sua composição étnica, a classe operária em for-
mação apresentou diversidades. Enquanto os estrangeiros representavam
68% da mão-de-obra empregada nas indústrias paulistas (1893) e 45,5%
nas fábricas do Rio de Janeiro, bem menores eram, em igual período, as
oportunidades de colocação para o trabalhador brasileiro na estrutura in-
dustrial, o que chegou a gerar alguns conflitos, como aquele registrado em
São Paulo contra os "italianinhos", no ano de 1896.
Em síntese, a classe operária brasileira caracterizou-se, na sua fase
de formação, não apenas por um pequeno peso numérico e social, mas
também por uma composição muito heterogênea. E não só devido à
questão étnica. O aspecto técnico da sua composição era igualInente
bem variado: o proletariado abrangia desde trabalhadores dos pequenos
artesanatos, sem nenhuma habilidade particular, até operários de fábri-
ca, com maior qualificação e experiência de trabalho.
Diante desse quadro, compreende-se as dificuldades enfrentadas
pelo operariado para organizar-se politicamente, com tantas diferenças

Tecelagem Votorantim [Sôo Paulo, início do século XX).

29
POL~MICA

a serem superadas. Isso iria interferir diretamente no seu cotidiano en-


quanto classe, uma vez que, mal organizadas, as suas reivindicações pou-
co ecoariam junto aos patrões ou ao próprio governo.

Superexp'loraçâo, miséria e doença

Pressionado pela abundante oferta da força de trabalho e pela di-


versidade da sua composição, o operariado brasileiro atravessou o perío-
do da República Velha (1889-1930) padecendo de péssimas condições
de vida e de trabalho. A começar pela violência exercida pelos chefes e
pelos mestres de fábrica contra os trabalhadores, sobretudo mulheres e
crianças.
Para aumentar a produtividade fabril, empregavam-se vários mé-
todos, desde castigos corporais até cobranças de multas; desde ameaças
de desemprego até o uso da brutalidade explícita. As condições de hi-
giene das fábricas também não deixavam de ser verdadeiros castigos,
pois muitas delas não possuíam sequer água potável ou mesmo janelas
para ventilação. No ramo da vidraria, por exemplo, o ar era infestado
pela poeira de vidro, enquanto o chão ficava cheio de cacos.
Nessas condições, eram comuns os casos de alcoolismo e de doen-
ças como a tuberculose ou a sífilis. Sem qualquer proteção oficial por
parte do Estado, o proletariado era matéria da competência exclusiva dos
empresàrios. Eram estes que determinavam, ao seu critério, o regime do
trabalho fabril. Sem contar com dispositivos previdenciários que a re-
gessem, tais como indenizações, aposentadorias ou pensões, a industria-
lização brasileira inaugurava, desde essa época, a sua tradição de recor-
dista em acidentes de trabalho, posição que continua a ocupar até os
dias atuais.
Mas o pior lado das condições de trabalho do proletariado eram as
extensas jornadas impostas pelos patrões. No setor têxtil, no qual predomi-
nava a grande indústria, era comum trabalhar-se até quinze horas diárias, o
que costumava repetir-se em outros setores industriais. O jornal operário
Avantil , em 1907, denunciava a situação vivida na indústria têxtil paulista:

30
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Grupo de operários da fábrica Bangu IRia de Janeiro, 18921

As fábricas de tecidos de São Paulo são verdadeiras galeras


que fazem vergonha à civilização brasileira. Nesses antros se ex-
plora, a sangue, centenas de meninos e meninas que arruínam
sua saúde para guardar poucos tostões que os patrões Ihes dão
como esmola e que vão acabar, quase sempre, nos bolsos de
seus pais sem coração que, quase piores que os ferozes industri-
ais, não se envergonham de fazer o papel de ai gozes para o san-
gue de seu próprio sangue. (In Hali & Pinheiro, A classe operária
no Brasil - Condições de vida e de trabalho, relações com os
empresários e Estado, São Paulo, Brasiliense, 1981, p. 47.)

Já as condições de vida do operariado na época consistiam num


misto de superexploração - dentro da fábrica - e de repressão poli-
cial e ideológica - fora dela. O proletário era visto como um marginal
ou agitador em potencial. Na melhor das hipóteses, era tomado como
um ignorante que dependia da benevolência dos seus patrões. Tanto num

31
POLÊMICA

caso como no outro, apontava-se para a necessidade de reprimi-Ia e


viBiá-ia em qualquer circunstância. Esse comportamento pode ser ex-
plicado por uma postura herdada do nosso passado escravista, que via
com preconceito o trabalho manual, tido como "aviltante" ou
"d esprezlve 1".
I

Por isso mesmo, os industriais estimularam a concentração BeoBréifica


do operariado em bairros ou vilas proletárias, de modo a facilitar o seu
controle. Dentre os bairros cariocas tipicamente operários, destacaram-
se Bangu, São Cristóvão, Gamboa, Laranjeiras e Gávea. Já em São Pau-
lo, tal concentração realizou-se no Bexiga, na Lapa, na Mooca e na Bar-
ra Funda. Mesmo os centros urbanos fora do Sudeste com alguma ativi-
dade industrial- como Recife, por exemplo - tinham os seus bairros
operários, como Jaboatão ou Afogados.
A criação desses bairros foi uma tentativa de controlar o proletari-
ado, impedindo-o de "contagiar" outros segmentos sociais. Ao mesmo
tempo, entretanto, tais bairros revelaram um aspecto altamente positi-
vo: o fortalecimento dos laços de solidariedade no próprio seio da clas-
se operária. De uma certa maneira, o tiro saíra pela culatra ...

Escola pertencente à Vila Operária Maria Zélío (São Paulo, início do século XX).

32
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Outro método de controle do operariado foi a iniciativa de alguns


empresários de construir vilas operárias junto às suas próprias fábricas. Foi
o caso da Vila Maria Zélia, erguida pelo industrial paulista Jorge Street ao
lado da sua indústria têxtil.
A vida dos trabalhadores nessas vilas era uma espécie de prolonga-
mento da rigorosa disciplina fabril, sem chance para uma efetiva liber-
dade para eles e suas famílias. Em troca de moradia, submetiam-se às
mais duras regras: o controle da entrada e saída das pessoas, a fixação de
horários para ir e vir, o policiamento dos costumes dos moradores, com a
proibição do alcoolismo e a vigilância dos namoros de portão (fechado às 21
horas) etc. Muitas vezes, o controle social se fazia sob a capa das ''boas ações"
dos empresários, que construíam escolas, creches, cinemas e até mesmo
igrejas no interior das vilas, demonstrando que até o lazer era vigiado.
Além dos bairros e das vilas operárias, as formas mais comuns de
habitação do proletariado eram asfavelas (no Rio de Janeiro) e os cortiços
(mais freqüentes em São Paulo), marcados por péssimas condições de
higiene e salubridade. Outro jornal operário, o Farifulla, da capital pau-
lista, fez, em 1913, um veemente protesto contra esse estado de coisas:

A cidade se veste, se enriquece, põe roupa nova no centro,


mas, ai de nós! Nos bairros populares é a mesma coisa de dez
anos atrás. (... ) Percorremos muitas ruas e constatamos de visu
que os cortiços não são raros entre nós e regurgitam de habitan-
tes, agora que a capital não tem casas suficientes para abrigar a
população pobre e o proletariado. Antigamente o aluguéis das
pequenas habitações era baixo. Agora não. Os aluguéis aumen-
taram o dobro e os cortiços têm, como sempre, a mesma popula-
ção heterogênea, sem a mais leve noção de respeito, sem a mí-
nima idéia de moral. .. (Ibid. p. 97.)

O nível de consumo dos proletários era determinado pelos baixos


salários recebidos, enfrentando eles inúmeras dificuldades. Era, no en-
tanto, nos períodos de crise - como durante a l' Guerra Mundial -

33
POLÊMICA

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'" Aspecto de um cortiço carioca em 1906.

que a situação piorava. Nesses momentos, o empresariado buscava di-


minuir as suas perdas por meio do achatamento salarial ou das demis-
sões em massa, tal como acontece ainda hoje. Estabelecia-se, então, um
círculo vicioso entre a alta do custo de vida, a queda do poder aquisitivo
dos trabalhadores e a sua pauperizaçâo crescente .
.Ao pauperismo associaram-se tanto o aparecimento de uma massa
urbana de desocupados, quanto a multiplicação de várias epidemias,
dentre elas as de tuberculose, peste bubônica e febre amarela. O avilta-
mento das condições de vida da classe operária brasileira atingiria um
clímax nos anos da Grande Guerra. Para tentar amenizar a situação, fo-
ram criadas asfeiras livres, que, ao propiciarem a venda direta de gêneros
de subsistência aos consumidores, sem intermediários, barateavam um
pouco certos itens da cesta básica da população.
Porém, expedientes como esse não conseguiram impedir aquilo
que os empresários mais temiam: os protestos operários e os seus movi-
mentos grevistas, cujo apogeu verificou-se, durante a República Velha,
entre 1917 e 1920.

34
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

A classe operária organiza-se

o grau de exploração que se abateu sobre o operariado brasileiro


desde as suas origens fez com que ele procurasse organizar coletivamente
os seus protestos e as suas ações, que, isolados, a nada levariam. Assim,
entre 1850 e 1880, surgiram as primeiras organizações proletárias no
país: as associações mutualistas. Sem qualquer caráter político, eram insti-
tuições voltadas para o auxílio mútuo entre os seus membros nos casos
de doenças, enterros, acidentes etc., a partir da iniciativa exclusiva dos
próprios trabalhadores.
O mutualismo, entretanto, não era um veículo de resistência à explora-
ção patronal. Para tanto, foram criadas, a partir de 1870, as ligas operárias,
bem mais politizadas que as associações anteriores e que dariam origem
aos primeiros sindicatos operários brasileiros em inícios do século XX.
O objetivo das ligas, diversamente das agremiações mutualistas, era
cobrar direitos, preconizando-se a greve como instrumento de ação. A partir
desse momento, as reivindicações proletárias iriam concentrar-se sobre três
pontos-chave: a redução da jornada de trabalho, o aumento salarial e a

Passeata de operários em greve (São Paulo, 1917).

35
POLÊMICA

melhoria das condições de trabalho. Ainda assim, as ligas foram ineficientes


para mobilizar a classe, uma vez que esbarravam em vários obstáculos, como
a presença de escravos no interior das empresas, a dispersão destas últimas
pelo território nacional e a pequena concentração industrial desse período.
Todos esses fatores dificultavam a militância política, tornando frágil esse
primeiro momento da organização do operariado.
Já o segundo momento apresentaria sinais distintos, sobretudo depois
de abolida a escravidão. Concentrada em torno dos sindicatos, esta nova fase
teve como principal característica a total desvinculação dos sindicatos de traba-
lhadores com relação ao Estado, qualidade que desapareceu da história da classe
operária brasileira a partir de 1937, vigorando até os nossos dias. Ao longo
desse período em que o movimento operário gozou de total liberdade asso-
ciativa - correspondendo à República Velha -, três correntes disputaram
entre si a liderança da classe: a socialista, a trabalhista e a anarco-sindicalista.
Vejamos no que consistiu a atuação de cada uma delas.
A presença do socialismo no movimento operário brasileiro da época
foi a história de um pequeno grupo, com escassa penetração nos meios
populares. Encabeçados por elementos intelectualizados de classe média, os
sindicatos socialistas estiveram muito mais preocupados em difundir as idéias
de Marx e Engels - figuras de proa do socialismo europeu - no Brasil.
Sua proposta de aliar os setores médios urbanos ao operariado,
como estratégia revolucionária, desfavorecia o seu poder de penetração
no movimento dos trabalhadores. Além do que, condenava a greve como
instrumento de luta, distanciando-se cada vez mais de um público pro-
letário, propriamente dito, como se pode depreender da leitura de um
trecho do seu jornal Avanti!, datado de 12 de outubro de 1901:

A formação de sindicatos - e tenham isto presente tam-


bém os industriais - é um remédio preventivo das greves, para
torná-Ias menos freqüentes, menos impulsivas, sempre mais ra-
zoáveis e pacíficas, pois a organização forte e compacta impõe,
por si só, muitas vezes mais do que cem greves. (In B. Fausto,
Trabalho urbano e conflito social, São Paulo, Ditei, 1976, p. 100.)

36
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Já a corrente denominada trabalhismo teve por principais caracterís-


ticas o fato de ser um movimento tipicamente carioca e de contar com
líderes dispostos a colaborar tanto com o empresariado quanto com o
Estado. Tal como no caso do socialismo, as lideranças trabalhistas também
eram integradas por elementos de classe média, em busca de aliança com
o proletariado. Mesmo assim, a corrente gozava de muito prestígio no
operariado do Rio de Janeiro, por inúmeras razões.
Em primeiro lugar, sendo a Capital Federal, a cidade contava com uma
base social bem diversificada, composta por grandes contingentes de profis-
sionais liberais e de funcionários públicos. Além disso, existia no Rio um
significativo núcleo de trabalhadores em segmentos vitais do setor de servi-
ços, sobretudo portuários, ferroviários e doqueiros. Como todos estes eram
operários de empresas públicas - o que significava serem brasileiros e elei-
tores -, tornaram-se um alvo cobiçado por certos políticos, interessados
na formação de partidos operários, com fins meramente "eleitoreiros". Até
1917-1920, o trabalhismo continuaria como a corrente de maior penetra-
ção no meio proletário carioca, sendo então superado pelo anarco-sindica-
lismo, tal como já ocorria em São Paulo há algum tempo.
O anarquismo é quase sempre associado à grande presença de imigran-
tes italianos no meio proletário e foi a corrente de maior prestígio entre a
classe operária brasileira da época. Diversamente das duas primeiras, os seus
líderes eram todos operários, voltados com exclusividade às reivindicações
da classe. Dentre os seus princípios básicos, destacavam-se: a negação da
autoridade do Estado; a ênfase na ação direta, em lugar da luta política; e a
escolha do sindicato como principal instrumento de organização da classe.
Em função deste último aspecto, convencionou-se chamar de anar-
co-suidicalismo a esta corrente que rejeitava tudo quanto se parecesse,
embora vagamente, com um partido que visasse à conquista do poder.
Para os anarco-sindicalistas, a única estratégia capaz de fazer nascer no
país um "novo mundo", mais livre e igualitário para a classe operária,
era a ação direta, entendida por eles como greve (geral ou parcial), boi-
cote, sabotagem ou manifestação pública de qualquer tipo. Como sinali-
zava o seu mais importante jornal, A Plebe, no ano de 1920:

37
POLÊMICA

o Brasil não pertence à população que o habita. O Brasil


pertence a algumas dúzias de sindicatos industriais e financeiros,
a algumas dezenas de fazendeiros e latifundiários ... Contra esses
nos revoltamos! Contra esses nos batemos nós! ... E O Brasil novo,
o Brasil de amanhã, terra de liberdade e bem-estar, (...) só se
tornará realidade concreta quando, sacudida pelo furacão reno-
vador, arremessar para o lixo da história todas essas castas mal-
ditas de parasitas e sugadores que a infestam ... (In Hall & Pinhei-
ro, A classe operária no Brasil. 1889-1930. O movimento operá-
rio, São Paulo, Alfa-Ômega, 1979, pp. 246-247.)

o sucesso do anarco-sindicalismo no movimento operário bra-


sileiro deveu-se também a outros fatores, sobretudo ao seu esforço
no sentido de organizar uma cultura operária própria, marcada pela
prática de várias atividades. Estas iam desde o lazer coletivo - com
piqueniques, passeios e bailes - até o teatro, além de festivais de
todos os tipos, inclusive os de poesia, todos eles com forte conotação
social:

Heroes do Novo Mundo, profetas da Anarquia.


Rasgae todas as leis, falae aos operários;
Havemos de acabar com toda a hipocrizia
E derribar de vez os miseros salários! (In Kocher & Lobo,
"Ouve meu grito". Antologia de poesia operária (1894-1923), Rio
de Janeiro, Marco Zero/UFRJ, 1991.)

Conforme já dito anteriormente, o período compreendido entre


1917 e 1920 correspondeu ao apogeu do movimento operário no país:
mais de duzentas greves ocorreram, apenas no eixo Rio-São Paulo, en-
volvendo a participação de cerca de 300 mil trabalhadores dos mais
diversos ramos industriais, todas elas com forte presença do anarco-
sindicalismo. Entretanto, após 1920, o movimento operário entraria em
franco declínio.

38
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Greve com repressão policial (São Paulo, 1920).

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outros A grêve dos tecelões Agitação em Votorantim manter
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nificio Rodolpho Crespi», feudo do Banco União, .igo •.a ar- si tuaçã
de que O referido explorador persiste rendado a outros argcn tarios. Con
trte,' o em não attender ás .reclamacões Precisando receber os seus sa- nreiud
Notícia sobre a greve geral de 1917, publicado no jornal A Plebe (São Paulo, outu-
bro de 1917)

A primeira razão para tanto foi a forte repressão policial e empresa-


rial imposta ao movimento. Ao mesmo tempo, ocorreram outras mobili-
zações políticas de enorme importância nessa década da nossa história,
dentre elas o tenentismo - rebelião armada dos oficiais do Exército de
baixa patente, descontentes com a sua condição como militares e com a
situação política do país em geral - e o primeiro grande "racha" entre

39
POLÊMICA

as oliqarouias" dominantes no país. A ordem republicana via-se questio-


nada de todos os lados: quer pelos militares (os tenentes), quer pelos
grandes proprietários rurais que eram excluídos da "dobradinha" São
Paulo-Minas Gerais, que, desde a Proclamação da República, revezara-
se na indicação dos presidentes do país.
Os anarco-sindicalistas, embora ainda presentes no meio operário
até 1935, seriam pouco a pouco obscurecidos. E para isso muito contri-
buiu a fundação, em 1922, do Partido Comunista Brasileiro (PCB); que
com aqueles disputou a primazia na liderança do movimento organiza-
do das classes trabalhadoras. Apesar de ser posto na ilegalidade no ano
da sua criação, o PCB continuou atuante, publicando um jornal de am-
plo alcance - o Movimento Operário - e ocupando, paulatinamente,
redutos que, até então, eram dos anarquistas. A recusa destes últimos
em constituir-se num partido político foi a principal razão do sucesso
comunista no meio operário.

A reação empresarial

Ao declínio do movimento operário após 1920 correspondeu oJor-


talecimento da burquesia industrial brasileira, empenhada, com muita de-
terminação, em organizar-se. Além de prestar apoio irrestrito à repres-
são policial ao proletariado, o empresariado passou a fortalecer as suas
principais entidades de classe, como o Centro dos Industriais de Fiação
e Tecelagem de São Paulo, o Centro dos Industriais de Fiação e Tecela-
gem de Algodão do Rio de Janeiro e o Centro Industrial do Brasil, den-
tre outros. Em 1928, a fundação do Centro das Indústrias do Estado de
São Paulo (Ciesp) - futura Fiesp, tão nossa conhecida até hoje - seria
o coroamento desse tipo de iniciativa, ao congregar representantes da
totalidade das indústrias paulistas da época.
Superado o período mais agitado das relações entre empresários e
trabalhadores, as lutas entre as duas classes passariam a desenvolver-se
de forma indireta, entre os anos de 1925 e 1928. Seu palco se deslocava
das ruas para a Câmara dos Deputados, que passou a elaborar projetos

40
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

de lei regulamentando o trabalho fabril. O objetivo dessas leis era ten-


tar evitar novos confrontos abertos, já que o patronato nem sequer res-
pondia às reivindicações do operariado. Surgiram, assim, as primeiras
normas trabalhistas do país, merecendo destaque: a Lei de Acidentes de
Trabalho (1919), a Lei de Férias (1926) e o Código do Menor (1929).
No entanto, embora tenha sido essa legislação aprovada pelo Con-
gresso Nacional, os empresários conseguiram transformá-Ia, na prática, em

NA HORAEMQUESOARO JUIZOflNAtDAS REIVINDlGAC EStlBERTARIA ; ,


CONSEGUIRMOS REBENTAR PARA SEMPRE'AS HUMILHANTESGAOEIAS QUE NOS'
OPPRIMEM··QUE ESTE SEMEADOR DE DESGRAÇAS COLHA O CASTIGO QUE MERECE
n._. .....•....~_ "':~.:::::~

Charge de Enrique Figueroo,


retratando Francisco
Matarazzo (Crítica, Rio de
Janeiro, 13 [on. 1929),

Conde Francisco Matarazzo.

41
POLÊMICA

letra morta. Para eles, o fato de a chamada "questão social" estar deixando
de ser uma "questão de polícia" - como tinha sido tratada até então -
para tornar-se uma "questão de política" não era visto com simpatia, pois
isso significava uma intromissão do Estado nas suas relações com os traba-
1hadores. A resposta do empresariado a tais leis foi a sua total desobediên-
cia, sem que fosse ele cobrado por parte das autoridades competentes. Bas-
ta ver o que a elite industrial brasileira pensava, por exemplo, quanto à lei
que concedia quinze dias de férias anuais remuneradas aos trabalhadores:

o empregado de escritório, durante suas férias, não modifi-


ca fundamentalmente o seu viver de todos os dias, pelo menos
do lado moral. (... ) Mas o mesmo não ocorreria com o proletaria-
do, isto é, com o homem do povo, cujas faculdades morais e
intelectuais não foram afinadas pela educação e pelo meio. (... )
Que fará um trabalhador braçal durante quinze dias de ócio, ten-
do tomado férias (... ) compelido por uma lei? Ele não tem o culto
ao lar (...) e procurará matar suas longas horas de inanição na
rua. (... ) O proletariado é, pois, um elemento da coletividade que
as férias estragarão. (M. Leme, A ideologia dos industriais brasi-
leiros. 1920-1945, Petrópolis, Vozes, 1978, p. 117.)

Outro exemplo do caráter autoritário do pensamento da burguesia


industrial brasileira estava na sua posição quanto ao Código do Menor, que
proibia a exploração dos menores de 14 anos nas fábricas, limitando a
sua jornada a seis horas diárias e acabando com o seu trabalho noturno:

Os menores de ambos os sexos, contando de 13 a 18 anos,


somam cerca de 60% de todo o operariado de uma fiação. (... )
Dependendo de tal forma do trabalho do menor, torna-se impos-
sível para os industriais (... ) a adoção da lei. (Ibid. p. 121.)

A oposição dos empresários à legislação trabalhista da década de 1920


é um bom indício do quanto a nossa produção industrial baseou-se, nessa

42
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

época, na exploração intensiva da mão-de-obra. Enquanto as leis se li-


mitassem a fixar e cobrar contribuições monetárias - como no caso da
de acidentes de trabalho -, o empresariado as toleraria. O que ele não
admitia era qualquer legislação que inteiferisse no ritmo do trabalho fa-
bril, diminuindo o seu grau de controle sobre esse trabalho.
Mas a atuação do empresariado industrial brasileiro ao longo da
República Velha não se restringiu à recusa da legislação social. Ela tam-
bém pautou-se, desde inícios do século XX, por uma grande campanha
em prol do protecionismo alfande8ário. Uma vez que consideravam muito
baixas as tarifas cobradas sobre os manufaturados importados, o que os
tornava mais baratos do que os produtos similares já produzidos no país,
os empresários passaram a reivindicar uma política tarifária realmente
protecionista às indústrias.
Para atingir os seus objetivos, eles dirigiram-se ao Estado, tido
como o único agente capaz de atender aos seus reclamos. A ele seriam
encaminhadas sucessivas propostas de revisão tarifária, sem que grandes
vitórias fossem alcançadas. E isto porque, nessa matéria, os seus inte-
resses divergiam daqueles dos grandes fazendeiros e importadores, que
se beneficiavam das baixas tarifas em vigor. A questão do protecionismo
alfandegário permaneceria um impasse na República Velha.
Não deixa de ser interessante, no entanto, chamar a atenção para a
contradição existente na atuação dos empresários brasileiros do perío-
do. Em suas relações com o operariado, eles assumiam uma postura con-
trária à intervenção do Estado; já no tocante à política tarifária, pleitea-
vam o intervencionismo deste último, colocando-se como "carentes da
ação pública".
Somente com a Revolução de 1930 tal impasse seria superado, medi-
ante a redefinição dos rumos da economia e da industrialização brasileiras.

43
3. Entra em cena o Estado

A PARTIR DE 1930, o ESTADO INVESTIU DIRETAMENTE NA PRODUÇÃO,

NA TENTATIVA DE CONSOLIDAR UM PARQUE INDUSTRIAL BASEADO

NO FORTALECIMENTO DO SETOR DE BENS DE PRODUÇÃO.

ESSA "INTERFERÊNCIA ESTATAL" TAMBÉM SE ESTENDEU SOBRE

OS TRABALHADORES URBANOS, QUE, DORAVANTE, TIVERAM

OS SEUS SINDICATOS ATRELADOS AO MINISTÉRIO DO TRABALHO.

o Brasil e o mundo nos anos de 1930

Após o termino da l ' Guerra Mundial, em 1918, a Europa encontra-


va-se arrasada. Sua supremacia sobre o resto do mundo viu-se também
profundamente abalada. Apesar de vitoriosa no conflito, a Inglaterra -
que tinha sido a principal exportadora de capitais e tecnologia para os
países do Ocidente, incluindo o Brasil - começava a dar sinais do seu
declínio.
Em face dessa nova situação, o jogo das forças econômicas e políticas
internacionais passou por grandes mudanças. Dentre elas, destacou-se o
surgimento de uma nova potência mundial: os Estados Unidos da Améri-
ca. Desde então, os Estados Unidos passaram a ocupar o lugar da Inglater-
ra como centro do capitalismo, a começar pela própria reconstrução eu-
ropéia, que foi financiada por capitais e recursos norte-americanos.

44
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Pouco a pouco, os capitais e a técnica ianques invadiriam os países


menos desenvolvidos, gerando uma dependência muito maior do que
aquela que tinham mantido com relação à Inglaterra. Logo, a partir do
pós-guerra, o Tio Sam consolidou a sua vertiginosa escalada internacional.
Claro que tudo isso tinha a ver com o Brasil. Antes de mais nada, é
bom recordar que, se a grande indústria fora implantada no país duran-
te a República Velha, a nossa economia não era, ainda, predominantemente
industrial. Muito pelo contrário. A grande fonte de reservas-ouro* da eco-
nomia brasileira (representadas pela libra e, agora, pelo dólar) continu-
ava a ser o café - era ele, ainda, o principal produto da nossa exporta-
ção, do qual dependia fortemente a nossa economia como um todo.
Assim, a nossa economia, a despeito da industrialização nascente,
continuava a depender dos bons preços do café no exterior para man-
ter-se em situação estável. Como a indústria, por sua vez, também de-
pendia da economia cafeeira, o ritmo do nosso desenvolvimento fabril
igualmente ficava ao sabor das flutuações do preço externo do produto.
Era esse, talvez, um dos pontos mais frágeis da industrialização brasileira,

45
POLÊMICA

vindo a influir decisivamente nas relações de dependência econômica


do Brasil diante dos Estados Unidos.
No ano de 1929, a nova grande potência internacional sofreu um
enorme abalo, conhecido como a Grande Depressão ou Crise de 29. Essa
crise consistiu na quebra da Bolsa de Nova York, devido à superprodu-
ção da indústria americana. Isso levou não só à desvalorização dos seus
produtos, como também do seu mercado financeiro e da sua moeda.
Devido à dependência econômica da maioria dos países ocidentais com
relação aos Estados Unidos, esta crise, que a princípio era só americana,
transformou-se numa crise mundial.
A economia brasileira também não escapou ilesa das conseqüências
da Grande Depressão. Por um lado, porque o nosso café, que já vinha
sendo produzido em excesso desde a década de 1910, perdia, com a crise
americana, o seu maior mercado consumidor, fazendo com que os seus
preços declinassem assustadoramente. Quem iria comprar um produto
supérfluo como o café, em meio a tantos desastres e falências? Por ou-
tro lado, porque os abundantes capitais americanos, que até aquele mo-
mento eram facilmente obtidos pelo Brasil, fecharam-se dentro das fron-
teiras do seu próprio país, buscando prioritariamente a recuperação da
própria economia norte-americana.
Para avaliar os efeitos da Crise de 29 sobre a cafeicultura e a eco-
nomia brasileira, basta dizer que o valor das nossas exportações dimi-
nuiu de 95 milhões de libras, em 1929, para 38 milhões, em 1931. En-
quanto isso, o preço do café caía, em 1931, para um terço do que fora
em 1929. A situação ficava ainda mais complicada devido aos próprios
mecanismos da superprodução cafeeira. Isso porque, como um cafezal
recém-plantado demora de quatro a cinco anos para começar a produzir
comercialmente, sabia-se que os novos pés - plantados em 1930, por
exemplo - somente iriam florar por volta de 1935. Era, portanto, ex-
tremamente difícil controlar a própria oferta brasileira, que se agigan-
tava, contribuindo para baixar cada vez mais os preços do produto.
Enquanto tudo isso acontecia, ameaçando diretamente o café e
os grandes cafeicultores (paulistas, sobretudo), um novo fato político

46
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

ocorreria no Brasil: a Revolução de 1930. Esta consistiu num movimen-


to encabeçado pelos políticos dos Estados da Federação brasileira que,
ao longo de toda a República Velha, viram-se permanentemente ex-
cluídos de uma maior participação no poder central. Além disso, o
fato de por quase toda a década de 1920 o governo federal ter dedica-
do boa parte dos seus recursos à proteção do café só fizera aumentar o
descontentamento desses grupos. Como, em fins dos anos de 1920, a
velha aliança política entre São Paulo e Minas Gerais - conhecida
como política do "café-com-leite" - chegara ao fim, a situação tor-
nou-se favorável a esses políticos descontentes que promoveram a re-
volução, tendo à sua frente o gaúcho Getúlio Vargas.
Mesmo após a Revolução de 1930, a cafeicultura de exportação
continuava a ser a principal atividade produtiva do país, dela dependen-
do diversos setores da nossa economia. Em conseqüência, a desvaloriza-
ção dos preços do produto no exterior permanecia como um dos nossos
principais problemas. As enormes safras colhidas em 1929 e 1930, sem
nenhuma possibilidade de venda a curto prazo, avolumavam-se nos por-
tos de embarque. Algo deveria ser feito para que a economia brasileira
não naufragasse.

47
POLÊMICA

Várias alternativas foram pensadas na época, porém nenhuma de-


las era otimista: ou se abandonava a safra de 1930 e 1931, deixando-a
apodrecer para não aumentar ainda mais a oferta, diminuindo, assim,
cada vez mais os preços (o que seria a ruína imediata dos produtores),
ou partia-se para a destruição dos estoques excedentes, de modo a ten-
tar valorizar o produto, encolhendo a sua oferta.
Essa última foi a solução escolhida pelo governo de Getúlio Vargas.
Entre 1931 e 1938, milhões de sacas de café foram queimadas, visando
conter a superoferta brasileira. Mas, concomitante a essa medida, ou-
tras também foram tomadas para não deixar os cafeicultores em total
desamparo. Criou-se o Departamento Nacional do Café (mais tarde cha-
mado Instituto Brasileiro do Café e extinto no governo Collor), que
controlava as safras e as suas saídas para o exterior, numa tentativa de
socorrer, igualmente, a todos os produtores de café.
Ao mesmo tempo, criaram-se mecanismos de contenção das des-
pesas em geral, dentre eles a suspensão do pagamento da dívida externa
brasileira. Tal decisão visava produzir uma certa sobra de recursos inter-
nos, para que a economia pudesse "respirar" um pouco. Isso foi necessá-
rio porque, em meio aos efeitos da Crise de 29, era difícil conseguir
empréstimos estrangeiros e, quando eram obtidos, esses empréstimos
representavam o pagamento de taxas de juros elevadíssimas.
Por outro lado, o Banco do Brasil passou a controlar a taxa cambial,
que, na República Velha, ficava ao sabor das especulações dos vários ban-
cos e das casas exportadoras. Com essa medida, nada do que fosse expor-
tado ou importado pelo país escapava do controle do Estado.
Ainda que todas essas providências não tenham provocado a recupe-
ração imediata da economia nacional - o que seria impossível em tão
pouco tempo -, pelo menos estavam criadas as bases para uma tímida
reabilitação econômica do país. O apoio à cafeicultura, por exemplo, per-
mitiu que se mantivesse o nível de empregos e de renda de todos os seto-
res ligados a ela, o que significou preservar o mercado consumidor interno.
Toda essa política, no entanto, apesar de voltada para o café, trouxe
uma novidade importante para a história da industrialização brasileira.

48
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Com os preços do café em baixa e as dificuldades de importar bens manu-


faturados (muito caros desde a Crise de 29), mas com o poder de consu-
mo interno preservado, inaugurou-se um período bastante favorável à
expansão da indústria brasileira. Pela primeira vez na nossa história, os
preços dos produtos industriais aqui fabricados eram mais vantajosos do
que os dos importados.

Nacionalismo e desenvolvimento

Diante da nova situação favorável, a indústria assumiria o papel de


personagem central da recuperação e expansão da economia brasileira.
Outros fatores, além dos apresentados, beneficiaram ainda mais essa
expansão. Um deles foi o pleno aproveitamento da capacidade das in-
dústrias já existentes, o que aumentou a produção. Outro foi a facilida-
de de se adquirir, no mercado mundial, equipamentos de segunda mão,
mais baratos e ainda perfeitamente utilizáveis - com a economia de
guerra na Europa, esses equipamentos eram subutilizados, podendo ser
comprados a preços compensadores.
Finalmente, vale a pena apontar um terceiro fator: o poder de pres-
são dos empresários industriais brasileiros mais organizados. Estes exi-
giram e conseguiram que o governo proibisse a importação de máqui-
nas para as indústrias já totalmente implantadas no país, como era o
caso das têxteis, por exemplo. Isso significava que, num quadro de difi-
culdades, buscava-se utilizar bem os poucos recursos existentes, favore-
cendo os setores de fato mais necessitados.
Esta última medida, aliás, mostrava uma nova tendência: o desejo
de diversificar os ramos industriais até então existentes; não era apenas o
crescimento do parque industrial já instalado que se pretendia agora.
Essa segunda etapa do processo de industrialização brasileira teve
como primeira característica a ocorrência de mudanças consideráveis na pró-
pria estrutura industrial, com o surgimento de novos setores produtivos.
No lugar dos tradicionais ramos de tecido, vestuário e produtos alimentí-
cios, cresceriam, doravante, setores como os de metalurgia, mecânica,

49
POLÊMICA

cimento, material elétrico e transportes, além das indústrias químicas e


farmacêuticas.
Uma série de bens industriais que até aquele momento eram im-
portados passariam, daí por diante, a ser produzidos internamente. A
esse processo damos o nome de substituição das importações. Esta seria a
"marca registrada" da história da industrialização brasileira até meados
da década de 1950.
A segunda característica da industrialização brasileira na chamada Era
Vargas (1930-1945) foi o crescimento do ritmo da expansão industrial no
período. Pela primeira vez na nossa história, o crescimento das indústrias
superou o da agricultura, como se pode perceber a partir do Quadro 1.

QUADRO 1.
MUDANÇAS ESTRUTURAIS NA ECONOMIA BRASILEIRA

I TAXAS ANUAIS DE CRESCIMENTO (%)

I Anos
I Agricultura
I Indústria

1920-1929
I 4,1
I 2,8

1933-1939
I 1,7
I 11,2

1939-1945
I 1,7
I 5,4

Fonte: Eli Diniz, Empresário, Estado e capitalismo no Brasil (1930·1945), Rio de


Janeiro, Paz e Terra, J 978, p. 67.

Para se ter uma idéia ainda mais concreta das transformações ocor-
ridas na estrutura industrial brasileira do período, basta citar que a subs-
tituição de importações nos setores básicos, isto é, na indústria pesada, já
fazia com que um ramo como o do cimento, por exemplo, atendesse,
em 1937, a quase 90% do consumo interno. Outros, como o do ferro-
gusa, abastecia o mercado nacional em 99% das suas necessidades, as-
sim como o do aço em lingotes e o dos laminados já preenchiam, res-
pectivamente, 75% e 14% do mesmo mercado.

50
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Ao mesmo tempo, o Estado de São Paulo consolidou-se como palco da


concentração industrial iniciada na Primeira República, o que podemos con-
siderar como a terceira característica da industrialização brasileira dessa fase.
Só nesse estado, a taxa anual de crescimento do conjunto das indústrias foi
de 14%, ao passo que setores como o metalúrgico e o químico-farmacêuti-
co chegaram a crescer, respectivamente, 24% e 30% ao ano.
Todas as mudanças até agora apresentadas não teriam sido possí-
veis, entretanto, sem a participação daquele que foi o elemento-chave
da industrialização brasileira do período: o Estado. Se o Brasil entrava
na década de 1930 deixando de ser, como se dizia à época, um "país
essencialmente agrícola", o Estado seria o principal agente dessa trans-
formação. Vejamos como isso se verificou.
Relembrando que a estrutura industrial brasileira praticamente se re-
sumia, até 1930, na existência de um setor produtivo de bens de consumo
correntes, a principal tarefa a ser realizada agora era implantar um setor
industrial que produzisse bens de produção*, isto é, um setor de indústrias de
base ou pesadas. Somente com a sua criação haveria chances de êxito para o
processo de substituição de importações, sem o país precisar importar do
Exterior tudo de que necessitasse em matéria de equipamentos ou maté-
rias-primas industrializadas (como chapas de aço, laminados etc.).
Mas como fazer para levar os empresários brasileiros a investirem
nessa área, em meio às dificuldades geradas pela Crise de 29? É bom
lembrar que asindústrias de base têm como característica o fato de pre-
cisarem de vultosos capitais para ser montadas. Além disso, elas só co-
meçam a gerar lucro num período bem mais longo do que as tradicio-
nais indústrias de consumo. Convém chamar a atenção para isso porque,
diante de tal situação, a burguesia industrial brasileira não tinha condi-
ções de aplicar os seus recursos nesse tipo de empreendimento.
Para tanto, o empresariado voltou-se para o Estado e dele exigiu uma
postura intervencionista naqueles setores industriais em que a iniciativa
privada fosse insuficiente. Assim sendo, a quarta e, talvez, principal carac-
teristica da industrialização brasileira no pós- 1930 foi a traniformação do
Estado em investidor industrial e investidor em indústrias pesadas.

51
POLÊMICA

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Getúlio Vargas inaugura o segundo olto-Iorno da


Companhia Siderúrgica Nacional (Volta Redonda,
Rio de Janeiro, 20 fev. 19541.

Dessa forma ampliou-se o parque industrial brasileiro. Além do


setor produtivo de bens de consumo correntes nas mãos dos empresá-
rios privados, passava a existir agora um setor de indústrias de base a
cargo do Estado, criando-se assim uma espécie de "divisão de trabalho"
entre a iniciativa pública e a particular. Datam desse período empresas
estatais da maior importância para o prosseguimento da nossa industri-
alização, tais como a Companhia Siderúrgica Nacional (1941), a Com-
panhia Vale do Rio Doce (1942), a Companhia Nacional de Álcalis
(1943) e a Fábrica Nacional de Motores (FNM), além de boa parte das
usinas hidrelétricas da época, cujo maior exemplo foi a Companhia Hi-
drelétrica do São Francisco (1945).
O Estado brasileiro passou a ter sob o seu controle o núcleo cen-
tral da industrialização do país, com o consentimento do empresariado
industrial. Ambos estavam empenhados naquilo que consideravam uma
postura nacionalista, por não dependerem tão estreitamente dos capitais
estrangeiros.

52
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

o próprio presidente Getúlio Vargas, em discurso proferido em


Belo Horizonte, logo no início do seu governo provisório, diria:

Mas o problema máximo, pode-se dizer básico, da nossa


economia, é o siderúrgico. Para o Brasil, a idade do ferro marca-
rá o período da sua opulência econômica. (... ) Completando, fi-
nalmente, o meu pensamento, no tocante à solução do magno
problema [exploração das jazidas de ferro], julgo oportuno insis-
tir num ponto: a necessidade de ser nacionalizada a exploração
das riquezas naturais do país, sobretudo a do ferro. (In EIi Diniz,
op. cit., p. 75.)

Mas, além de diversificar e ampliar o parque industrial brasileiro,


qual seria o papel das empresas produtivas estatais recém-inauguradas?
Produzir bens e serviços a baixos preços, de modo a fornecê-Ias aos empre-
sários privados, visando assim fortalecer a burguesia industrial e o pró-
prio capitalismo* no país.
Com todos esses esforços, a industrialização brasileira, embora te-
nha dado um "passo de gigante" nesse período (com a implantação de

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Visito do presidente Getúlio Vergas à fNM IDuque de Coxias, Rio de Janeiro, 30 abr. 19451.

53
POLÊMICA

indústrias pesadas pelo Estado), não conseguiu ver plenamente afirmados


todos os setores industriais necessários à sua autonomia - ela ainda de-
pendia da importação de muitos bens ligados à infra-estrutura fabril.
Isso porque o Estado não dispunha de capitais tão amplos para in-
vestir em todas as frentes da indústria de base, já que a sua principal
fonte de recursos era constituída de impostos. Por essa razão é que al-
guns autores, apesar de admitirem a grande transformação ocorrida na
estrutura industrial brasileira na Era Vargas, vêem como quinta caracte-
rística da industrialização do período o fato de ser ela uma industrializa-
ção testrinpida,
Para incentivar ainda mais o crescimento da indústria nacional
como um todo, o Estado desenvolveria outras linhas de atuação. Dentre
elas, destacaram-se a concessão de empréstimos aos empresários indus-
triais com juros menores do que aqueles cobrados aos empresários agrí-
colas e a penalização do setor agrário com novos tributos, visando de-
sestimular a superprodução do café. No entanto, talvez a mais impor-
tante dessas linhas de ação tenha sido o controle estatal da nova e crescente
classe operária. Tal fato geraria muitos ganhos - políticos e econômicos
- para a burguesia industrial brasileira.

Sociedade de massas: controle redobrado

Dentre as mais importantes inovações do regime inaugurado pela


Revolução de 1930, destacou-se a regulamentação das relações de tra-
balho entre operários e industriais, fato que tinha sido ardentemente
evitado pela burguesia industrial brasileira. Agora, no entanto, com a
mudança do quadro político e o crescimento do proletariado devido à
expansão das indústrias em geral, uma legislação trabalhista se impunha
como necessária para controlar uma grande massa de trabalhadores.
Como disse o presidente Getúlio Vargas:

As leis sociais com que o atual governo, por iniciativa pró-


pria, tem procurado amparar as classes trabalhadoras, devem

54
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

constituir motivo de orgulho para os brasileiros. Tudo se fez sem


abalos e inquietação. Os beneficiados pelas nossas leis sociais,
vendo satisfeitas as suas mais justas aspirações, souberam res-
ponder ao amparo do Estado, repelindo todas as tentativas de
infiltração demagógica dos pregoeiros de teorias exóticas ...
(Getúlio Vargas, A nova política do Brasil, Rio de Janeiro, José
Olympio, 1938, p. 171, v. 5.)

Como se pode perceber, o fantasma da "anarquia" e das "teorias


exóticas" associado à classe operária permanecia como herança do perío-
do anterior. Mas o "exótico", agora, não era mais o anarquismo, e sim o
comunismo, que substituíra o primeiro entre as principais lideranças
trabalhadoras. O temor das agitações proletárias, sobretudo porque o
seu aumento numérico era evidente, mais uma vez faria com que Estado
e classes dominantes se aliassem para definir mecanismos de controle
da classe trabalhadora. Só que, dessa vez, tratava-se de um sistema e um
sistema com abranqência nacional e caráter unificado. Em troca de mais essa
ação interventora do Estado, o empresariado brasileiro aceitaria cum-
prir algumas leis trabalhistas.
Foi assim que se criou, ainda em 1930, o Ministério do Trabalho.
Os sindicatos, que, até então, tinham possuído vida e organização to-
talmente autônomas, passaram a ser regulados pelo Estado, por meio
de uma nova le8islação sindical. Ela estabelecia não apenas que toda
empresa tinha de contar com dois terços de empregados brasileiros,
mas também que o novo ministério teria representantes seus junto a
cada sindicato, federação ou confederação, tanto de trabalhadores
quanto de patrões. Essa era uma das formas de controle da organiza-
ção e mobilização da sociedade.
Tal medida foi importante, porque o reconhecimento dos sindi-
catos pelo Ministério do Trabalho era indispensável para que os seus
associados pudessem beneficiar-se da legislação social. Quem não fos-
se sindicalizado estaria à margem desses "privilégios". Assim, final-
mente, conseguiu-se regulamentar leis como a das férias, a da jornada

55
POLÊMICA

de trabalho de oito horas diárias, a do trabalho da mulher e do me-


nor etc. Até 1935-1937, a filiação aos sindicatos estatais, que eram
sindicatos únicos por categoria prcfissional (e não sindicatos plurais para
uma mesma categoria), era facultativa. Após aquela data, no entan-
to, o sindicato único tornou-se obrigatório para todos os trabalha-
dores. Isso foi facilitado porque, no ano de 1937, Getúlio Vargas
inaugurou no país um regime ditatorial conhecido como Estado Novo,
que durou de 1937 a 1945.
Como se vê, se o Estado com uma das suas mãos era benfazejo e
concedia leis de proteção social ao proletariado, com a outra cobrava o
seu preço. E este foi a total subordinação do operariado ao sindicato
unificado e estatizado (como continua sendo até hoje).
Mas, afinal, que relação existiu entre a sindicalização atrelada
ao Estado e o avanço da industrialização brasileira? A resposta a esta
questão pode ser dada a partir de dois pontos. Por um lado, porque
o Estado, ao controlar os trabalhadores por intermédio do Ministé-
rio do Trabalho, impedia o confronto direto entre empresários e
operários. Como até a fixação do valor dos salários passou a ser fei-
ta também pelo Estado, mediante a criação do salário mínimo, em
1940, não eram mais os patrões que decidi~m livremente o quanto
pagar aos seus empregados. Por outro lado, ao fixar o salário míni-
mo em níveis realmente biológicos - que só dariam para a reprodu-
ção física do trabalhador, isto é, para não deixar o trabalhador mor-
rer de fome -, a legislação conseguia reduzir ao máximo os gastos
do empresariado com a folha de pagamento dos seus operários. As-
sim, abria-se a possibilidade de um grande aumento das margens de
lucro desses industriais.
Para se ter uma idéia do papel do salário mínimo no desenvolvi-
mento da industrialização brasileira daí por diante, basta observar a
forma como ele foi calculado no ano da sua criação. Uma comissão
especialmente nomeada para esse fim, e composta por representantes
de empregados, patrões e funcionários do Estado, fixou o salário mí-
nimo em 200 mil-reis, quando a proposta dos empregados tinha sido

56
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

de 240 mil-reis e a dos patrões 160 mil-r éis. A palavra final certamen-
te coube ao presidente Getúlio Vargas.
É claro que existe um terceiro ponto a ser considerado nessa rela-
ção, mas trata-se de um fator político, e não econômico: a sindicaliza-
ção atrelada ao Estado, por força do papel controlador do sindicato, cri-
ava uma mão-de-obra mais "dócil", e menos "politizada", para o patro-
nato, facilitando em muito a sua exploração.
Diante disso tudo, não é difícil entender a importância da fixação
do salário mínimo para o crescimento industrial brasileiro, até porque,
uma vez criado, ele passou a servir de base para o cálculo de todos os
demais salários vigentes no país. Com isso, diminuía-se o nível geral de
todas as remunerações pagas por quaisquer empregadores de todos os
setores econômicos.
Em meio a esse quadro, e percebendo o objetivo pretendido pelo
Estado, a classe operária tentou reagir. Tal reação caracterizou-se pelo
esvaziamento dos sindicatos. Os trabalhadores buscavam fugir daquilo que
se transformara no maior instrumento do seu próprio controle. Para
conter essa tendência, que ameaçava tanto o projeto do Estado quanto a

57
POLÊMICA

sua maior beneficiária - a burguesia industrial -, foi criado, também


em 1940, o imposto sindical, até hoje vigente.
Pelo novo imposto, cada trabalhador, sindicalizado ou não, era
obrigado a pagar anualmente ao Estado o equivalente ao valor de um
dia de trabalho. Do total arrecadado, o governo distribuía a maior
parte entre os próprios sindicatos, dotando-os de recursos significa-
tivos que lhes permitiriam realizar tarefas de caráter assistencialista e
previdenciário, tais como serviços médicos e odontológicos, creches,
escolas etc. O objetivo era tornar o sindicato outra vez atraente para
uma ampla categoria social mal-remunerada, que via nessas novas
vantagens um meio de obter ganhos indiretos que complementas-
sem os seus baixos salários.
A vitória dessa "nova política social" do Estado, denominada corpo-
rativismo* - já que pregava a "colaboração entre as classes" por meio da
integração sindical -, estava garantida, ainda que em certos casos o
uso da violência se fizesse necessário.

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Desfile do trabalhador no Dia do Trabalho (Rio de Janeiro, 1Q moia


1942)

58
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Empresário e Estado na Era Vargas

Muito embora os grupos agrários não tenham ficado sem a assistência


econômica do Estado, como vimos no início deste capítulo, por certo não
foram eles os mais beneficiados pelas medidas tomadas pelo governo nesse
período. A grande contemplada foi, sem dúvida, a burguesia industrial bra-
sileira. Partilhando do mesmo discurso corporativista do Estado, como for-
ma de justificar o seu papel na construção de um "Brasil forte e grande", o
empresariado, que, na República Velha, recusara qualquer intervenção esta-
tal nos seus negócios, agora se aproximava cada vez mais do presidente.
Essa aproximação se deu não apenas porque o Estado atendera a
muitas das reivindicações da classe patronal, mas, principalmente, por-
que ele definiu um novo estilo de relação entre os grupos sociais e o po-
der público. Tal estilo baseou-se na criação de inúmeros órgãos e conse-
lhos, nos quais o empresariado atuaria de forma direta, iniciando cam-
panhas do seu próprio interesse.
A título de exemplo pode-se citar o Conselho Federal de Comér-
cio Exterior (CFCE), no qual empresários do peso de Roberto Simon-
sen - o maior líder industrial de todo o período - tinham assento e a
partir do qual desfraldariam as suas principais bandeiras de luta. Dentre
essas, duas merecem destaque: a luta pela criação de um banco de cré-
dito industrial e o combate ao livre comércio.
Quanto ao primeiro tema, a burguesia industrial seria em parte aten-
dida, mediante a criação da Carteira de Crédito Agrícola e Industrial
(Creai) do Banco do Brasil, no ano de 1937. Com os empréstimos de
médio e de longo prazos aí obtidos, os industriais brasileiros puderam
adquirir maquinarias e equipamentos, além de remodelar os já existentes.
Após algumas mudanças ao longo do período, a Creai chegou a atuar qua-
se como um banco de desenvolvimento industrial, financiando a implan-
tação de novos ramos industriais privados, como a metalurgia do alumínio
ou a produção de celulose. Exemplos de empresários assim contemplados
foram, no primeiro caso, o Grupo Votorantim (dirigido por José Ermírio
de Morais), e, no segundo, as Indústrias Klabin (de papel).

59
POLÊMICA

Baile comemorativo do aniversário de Getúlio Vorgas, organizada pelo DIP IRio de


Janeiro, 19 abro 1941).

No tocante à campanha contra o livre comércio, o empresariado


brasileiro voltava, no pós-30, a bater numa tecla já nossa velha conheci-
da: a defesa do protecionismo tarifário à indústria nacional. O retorno des-
sa campanha foi provocado pelo acordo comercial Brasil-Estados Uni-
dos, firmado pelo governo em 1935 e que previa a redução de tarifas
para uma série de produtos americanos a serem importados pelo país.
Isso significava uma ameaça para os empresários, além de um desestí-
mulo ao desenvolvimento da nossa indústria, por eles identificada com
o próprio interesse nacional. Em troca desse acordo, o governo norte-
americano daria aos produtos agrícolas brasileiros, tais como o café e a
borracha, direitos de livre entrada nos Estados Unidos.
Na campanha contra o acordo Brasil-Estados Unidos, os indus-
triais brasileiros não conseguiram sair vitoriosos, já que poderosos
grupos ligados ao governo - agrários, sobretudo - impediriam a
vitória. No entanto, como compensação por esse "fracasso", os indus-
triais brasileiros receberam do Estado alguns outros benefícios isola-
dos. Dentre eles, destacamos o Decreto-lei n- 300, de 24 de fevereiro

60
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

de 1938, que impedia a concessão de favores para a importação de


mercadorias ou matérias-primas que já contassem com similares na
produção nacional.
Assim, malgrado o caráter parcial das vitórias obtidas, não se pode
dizer que a burguesia industrial brasileira tivesse sido totalmente derro-
tada, sobretudo se se considerar tudo aquilo que ela obteve do novo
regime resultante da Revolução de 1930. O capitalismo brasileiro, me-
diante a implantação de um núcleo inicial de indústrias pesadas estatais
e a conquista de certos privilégios por parte do empresariado, caminha-
va a passos largos para a sua plena afirmação.

61
4. Desenvolvimentismo
e internacionalização

A GESTÃO JK REPRESENTOU A VITÓRIA DE UM PROJETO INDUSTRIAL

PAUTADO PELA ABERTURA AO CAPITAL ESTRANGEIRO. EM SEU GOVER-

NO, FOI ESTABELECIDO QUE A ECONOMIA CRESCERIA


..
"CINQUENTA

ANOS EM CINCO, " MESMO QUE ISTO VIESSE A SE DAR A CUSTA ,


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DE GRAVE INFLAÇAO E DA CONSOLIDAÇAO DA DEPENDENCIA DO PAIS.

A industrialização na gangorra

N
1937 ~
o ano de 1945, a ditadura do Estado N ovo ~ que vigorava desde
chegou ao seu fim. Getúlio Vargas foi deposto, dando início ao
período conhecido como redemocratização do país: o Brasil voltaria a ter
eleições, bem como um Congresso funcionando normalmente.
Mas por que a ditadura acabara? Em primeiro lugar, porque a en-
trada do Brasil, ao lado dos Aliados, na 2' Guerra Mundial (1939-1945),
visando combater o autoritarismo nazista, tornava contraditório o fato
de o país continuar sob uma ditadura. Em segundo lugar, porque a soci-
edade brasileira, cansada do regime em vigor, aproveitou essa chance
para se organizar contra ele, indo às ruas, produzindo manifestos, che-
gando até mesmo às greves, tão temidas quanto reprimidas.

62
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Finalmente - e isto é o que mais de perto nos interessa -, por-


que a política econômica nacionalista de Getúlio Vargas desagradava a
uma série de grupos desejosos de ver restabelecidos o livre comércio
internacional e o acesso mais fácil ao capital estrangeiro. Os setores
agrário-exportadores eram alguns desses grupos, ansiosos por se liber-
tar dos excessivos tributos cobrados pelo Estado.
Em suma: o clima de "festa" gerado pelo pós-guerra em todo o
mundo também contagiou o Brasil, invadido pela onda de neoliberalis-
mo* que varria o Ocidente. Nada de barreiras alfandegárias aos produ-
tos estrangeiros, nada de controles econômicos excessivos e, para os
mais radicais, nada do próprio intervencionismo estatal, que, até esse
momento, tinha garantido a nossa economia e a nossa industrialização.
O combate à presença do Estado na economia ganhou, nessa época, uma
grande força, num movimento parecido ao que hoje assistimos no pais.
É claro que toda essa liberdade de expressão só pôde ocorrer com
o fim do Estado N ovo, que resultou na restauração do sistema partidá-
rio no Brasil. Inaugurava-se, aí, um novo regime político, conhecido

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JK presto contas dos dois primeiros anos de governo (Rio de Janeiro, 30 maio 19581.

63
POLÊMICA

como populismo . Essa denominação se deve ao fato de que, entre 1945 e


1964, o sistema político brasileiro baseou-se na manipulação das massas
populares como principal fonte de votos - isto é, legitimidade política
- em todas as eleições.
Só que essa manipulação não era sinônimo de uma total passividade
das massas. Mesmo sendo integradas pelas classes trabalhadoras (em sua
maioria compostas de pessoas recém-saídas do campo e incorporadas ao
trabalho na cidade), elas também tinham as suas reivindicações. Sem a
manutenção do nível de empregos (o que significava manter o crescimen-
to econômico), sem salários que lhes permitissem continuar como consu-
midores urbanos e sem participação eleitoral garantida, as massas urbanas
poderiam colocar o regime populista contra a parede. É sempre bom lem-
brar que o crescimento da industrialização levava ao crescimento cada vez
maior da população urbana, o que, por sua vez, representava cada vez mais
votos.
Mas onde entra a política nesse momento? Que relação isso teria
com a história da industrialização do Brasil? A relação está em que no-
vos e múltiplos grupos de interesse econômico haviam se desenvolvido
no país e precisavam ser atendidos. E, para tanto, era necessário uma
boa dose de negociação política, pois o Brasil das décadas de 1940 e 1950
pouco tinha a ver com aquele do começo deste livro. Nesse novo mo-
mento, portanto, a própria economia passou a depender muito do jogo
político para seguir o seu rumo.
Em meio a uma situação tão delicada, os destinos da industrializa-
ção brasileira oscilariam como numa gangorra. De um lado, estavam as
forças político-econômicas partidárias do liberalismo. De outro, acha-
vam-se grupos, como os industriais, que eram adversários dessa doutri-
na, temerosos da concorrência estrangeira, caso o país abrisse as suas
barreiras alfandegárias. O período compreendido entre 1945 e 1954
ilustra bem essa oscilação.
A postura do primeiro presidente eleito no Brasil pós-1945 -
Eurico Gaspar Outra - é um bom exemplo da momentânea vitória das
forças liberais no país. Como o Brasil acumulara um vultoso saldo na

64
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

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Aquecimento de chapos para prensar os chassis dos carros DKW-Vemog (São Paulo,
década de 19501

sua balança comercial*, porque tinha realizado grandes exportações agrí-


colas durante os anos da guerra, o novo chefe do Estado inclinou-se fa-
voravelmente aos setores neoliberais. Assim, em vez de economizar es-
sas reservas-ouro para importar tecnologia para as indústrias de base,
ele optou por abrir as fronteiras do país às importações de bens de con-
sumo estrangeiros, que iam desde chicletes até meias de náilon.
Essa decisão, além de queimar as reservas brasileiras acumuladas,
implicou a necessidade de o governo emitir papel-moeda, desvalorizando
o cruzeiro e provocando uma crise inflacionária. Diante da corrosão dos
salários que toda inJ1ação* provoca, as mobilizações populares contra o
aumento do custo de vida voltaram a ocorrer no período. Logo, novas
ondas grevistas foram devidamente reprimidas pelo novo governo "de-
mocrático" .
A queima dos estoques de dólares do país implicou, por sua vez, a
estagnação momentânea da industrialização brasileira, pois não sobraram re-
cursos para importar tecnologia ou matérias-primas industriais. Ficava
assim demonstrado que a postura liberal não era adequada ao momento

65
POLÊMICA

que estava sendo vivido pela economia nacional. Ainda na gestão de Du-
tra, alguns controles estatais foram restabelecidos, sobretudo nas áreas
cambial e alfandegária.
Radicalmente diversa foi a postura adotada pelo presidente eleito
após Dutra - Getúlio Vargas voltava mais uma vez ao poder, só que
agora aclamado pelo voto popular. Getúlio impôs o retorno da sua tra-
dicional política econômica nacionalista, com a volta do intervencionismo
estatal e a recusa do capital estrangeiro, exceto quando muito necessá-
rio. São exemplos dessa postura a criação do primeiro banco público
voltado para o desenvolvimento industrial- o Banco Nacional de De-
senvolvimento Econômico (BNDE) - e da Petrobras.
Só que a manutenção desse nacionalismo mostrava-se cada vez mais
difícil, pois, na verdade, existiam duas propostas conflitantes de desen-
volvimento econômico para o país. Uma, defendida pelos grupos neoli-
berais, pregava a abertura ao capital estrangeiro como estratégia para
modernizar a indústria brasileira. A outra, defendida pelos nacionalistas
- integrados por setores da classe média, oficiais do Exército e inte-
lectuais -, pregava uma industrialização com base no capital essencial-
mente nacional (privado e estatal), fazendo restrições à entrada do capi-
tal estrangeiro no Brasil.
Nesse confronto, o projeto varguista foi derrotado. E isso devido às
próprias características da já analisada industrialização restrinpida. Se a ex-
pansão industrial brasileira dependia de reservas-ouro, e estas só eram
produzidas pela exportação de produtos agrários, era claro que a moder-
nização tecnológica do nosso parque industrial estaria sempre atrelada ao
comportamento das nossas exportações. A nova queda dos preços inter-
nacionais do café brasileiro, verificada no ano de 1953, foi a gota d'água
para a demonstração desse limite. Os grupos opositores ao projeto de
Getúlio Vargas precipitaram uma crise política sem precedentes no país,
culminando com o suicídio do presidente (24 de agosto de 1954).
Nesses termos, a abertura da economia brasileira ao capital estrangeiro
se colocou como solução para a crise do chamado "modelo" de industri-
alização nacionalista.

66
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

A civilização do automóvel

As grandes transformações por que passou a economia brasileira,


dessa época em diante, identificam-se com a figura do presidente Jusce-
lino Kubitschek, o JK (1956-1961). Em seu governo, a nossa indústria
deu uma guinada de 180 graus, se comparada às características do pe-
ríodo anterior. E isso devido a dois fatores: a opção por desenvolver um
novo setor industrial- o setor de bens de consumo duráveis - e a deci-
são de favorecer a livre participação do capital estrangeiro no país.
Assim, podemos apontar como primeira característica da industriali-
zação brasileira nesse período a decisão de se implantar o setor indus-
trial que faltava no país: o setor produtivo de bens de consumo durá-
veis, isto é, aquele que produz automóveis, eletrodomésticos e simila-
res. Com o seu estabelecimento, estaria dado o último passo para a cri-
ação do chamado tripé da industrialização brasileira. Esse tripé seria inte-
grado pelo setor produtivo de bens de consumo correntes (criado na
República Velha, como foi visto), pelo setor produtivo de bens de pro-
dução ou indústrias de base (implantado na Era Vargas) e pelo setor pro-
dutivo de bens de consumo duráveis (inaugurado no período JK).
Para o novo setor, passariam a dirigir-se todos os estímulos e bene-
fícios do Estado, ao contrário do que ocorrera no período anterior,
quando eles se voltavam para as indústrias de base.
Mas por que se escolheu, nesse momento, implantar no Brasil justa-
mente esse setor industrial? Em primeiro lugar, é preciso considerar que
a economia industrial brasileira, apesar de incompleta corno era até en-
tão, tinha gerado, como vimos no capítulo anterior, uma -grande margem
de lucros para os empresários já instalados. Havia no país grupos indus-
triais com recursos suficientes para diversificar os seus investimentos.
Em segundo lugar, também contribuíram para a mudança as trans-
formações por que passara o próprio mercado interno nacional ao lon-
go desse período. O grande crescimento urbano-industrial atraíra para
as cidades um número cada vez maior de novos habitantes vindos do
campo, que iam engrossar a massa dos trabalhadores urbanos. Por esse

67
POLÊMICA

motivo, ainda que a média dos salários fosse baixa, o poder total de con-
sumo da população havia crescido.
Além disso, crescera também o quadro dos profissionais especiali-
zados que ganhavam maiores salários, acompanhando o desenvolvimen-
to econômico da época. Em conseqüência, ampliava-se o número de
consumidores capazes de comprar os bens de consumo duráveis produ-
zidos pelo novo setor implantado: automóveis e uma variedade crescen-
te de eletrodomésticos, como liquidificadores, batedeiras, aspiradores

linha de montogem dos automó-


veis modeloJK, da FNM [Duque de
Caxias, Rio de Janeiro, 19601.

..
Linha de montagem dos automóveis Aero-Willys e Dauphine [Sôo Bernardo do Campo,
São Paulo, 19601.

68
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

de pó, enceradeiras etc. Tais consumidores pertenciam, sobretudo, à


classe média urbana, que crescia a olhos vistos.
Mas a guinada de 180 graus na economia brasileira também se de-
veu a outro fator: a situação internacional favorável. Uma vez que o
grande centro econômico mundial, os Estados Unidos, tinha acabado de
financiar a reconstrução européia após a 2' Guerra Mundial, ele buscou
novas frentes para investir os seus capitais. Descobriu, então, a América
Latina, em geral, e o Brasil, em particular. Assim, a facilidade na obten-
ção de capitais estrangeiros foi mais um condicionante das mudanças na
estrutura industrial brasileira.
Outra grande diferença quanto à industrialização da Era Vargas re-
sidiu nasformas definanciamento do novo "modelo". No período anterior,
o recurso ao capital estrangeiro fora restrito e, quando necessário, dava-
se sob a forma de empréstimos de governo a governo. Agora, a história
mudava. Os capitais externos seriam os grandes financiadores da mon-
tagem do setor produtivo de bens de consumo duráveis, por meio da
prática do investimento direto no país.
Assim, a segunda característica da industrialização brasileira nos anos
de 1950 foi o fato de as indústrias de bens de consumo duráveis serem
de propriedade do capital estrangeiro, isto é, empresas multinacionais*
diretamente instaladas no país. Tal foi o caso, sobretudo, das grandes
montadoras, como a Volkswagen, a Mercedes-Benz, a General Motors,
a Ford e outras que aqui vieram estabelecer-se com o apoio do Estado.
Essa foi a maneira escolhida pelo governo JK para superar a escas-
sez de recursos destinados à modernização da nossa indústria, sem de-
pender somente do Estado e das estatais. As conseqüências dessa opção
mostrar-se-iam, com o tempo, desastrosas para o país, pois, na verdade,
estava-se internacionalizando a economia brasileira. Mas a euforia mo-
dernizante que envolveu o desenvolvimento industrial do Brasil nos anos
JK foi intensa - ela pode ser ilustrada pelo lema adotado pelo presi-
dente: fazer o país crescer "cinqüenta anos em cinco".
No plano interno, a estratégia adotada pelo governo JK para criar
mais recursos foi a emissão sistemática de papel-moeda, ou seja, a iriflação.

69
POLÊMICA

Segundo os economistas, a inflação funcionava como uma espécie de "pou-


pança forçada", pois com ela todos os trabalhadores "apertavam os cin-
tos", deixando de consumir uma série de bens. Assim, o grosso dessas
emissões jogava a favor dos industriais, que teriam fartos financiamentos
junto ao governo.
Dessa forma, a industrialização brasileira parecia estar entrando no
"Primeiro Mundo", com um crescimento superveloz, que produzia cada
vez mais novos empregos. Este último fato, inclusive, serviu para disfar-
çar, por algum tempo, os efeitos da inflação. O Quadro 2 demonstra o
crescimento apontado.

QUADRO 2.
INDICES DE CRESCIMENTO DO PRODUTO REAL

I Ano
I Agricultura
I Indústria
I Transportes

1939
I 100
I 100
I 100

1949
I 99
I 130
I 124

1954
I 147
I 291
I 245

1959
I 181
I 505
I 304

Fonte: Otóvio lanni, Estado e planeiomento econômico no


-
Brasil, Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 1977, p. 157.

Mas não devemos pensar que a entrada do capital estrangeiro no


país, com todas as facilidades concedidas pelo Estado, fez-se de forma
desordenada e livre de controles. Pela primeira vez na história do Bra-
sil, o governo adotou uma experiência de planejamento econômico inte-
gral, visando, justamente, coordenar e controlar todos os setores eco-
nômicos, os seus investimentos e o seu crescimento.
A esse experimento deu-se o nome de Plano de Metas, o verdadeiro
fio condutor do desenvolvimento brasileiro nos anos JK. É bem verdade
que na Era Vargas algumas tentativas de planejamento econômico já ti-
nham sido experimentadas, porém sem grande sucesso. Agora seria di-
ferente: não se tratava de uma planificação voltada apenas para o setor

70
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

estatal. O Estado, por meio do novo plano, interferiria em tudo, con-


trolando em que, como e onde os capitais, públicos e privados, iriam
ser aplicados.
O Estado brasileiro adquiriu, assim, uma série de novas funções, o
que consistiu na terceira característica da industrialização no período. Ele
agora não seria apenas o proprietário de empresas produtivas, mas tam-
bém o banqueiro dos capitais privados (por intermédio dos órgãos pú-
blicos de crédito industrial), além do grande planejador da economia
como um todo.
O Plano de Metas estabelecia objetivos de dois tipos. A curto prazo,
buscava acelerar o desenvolvimento industrial do país, aumentando os in-
vestimentos e a sua lucratividade. A médio prazo, visava elevar o nível de
vida da população brasileira, na crença de que a miséria seria superada
pela criação de muitos empregos e de um "moderno modo de vida". Para
tanto, o plano dividiu-se em 31 metas, voltadas para quatro setores-chave
da economia: energia, transporte, indústrias de base e alimentação.
No primeiro setor, o da energia, definiu-se o tamanho do crescimento
desejado para ramos como os da energia elétrica, nuclear, do carvão e do
petróleo. No segundo (transportes), visou-se reequipar e construir estradas
de ferro e de rodagem, portos, barragens e o sistema de transportes aéreos.
No terceiro, previu-se o crescimento dos ramos menos desenvolvidos das
indústrias de base, tais como o de alumínio, metais não-ferrosos, cimento,
veículos motorizados, indústrias de maquinaria pesada e equipamentos elé-
tricos. No último setor, o da alimentação, buscava-se incentivar a produção
de trigo, de fertilizantes e a mecanização da agricultura, de modo a produ-
zir mais alimentos para a crescente população urbana.
A construção de Brasilia foi chamada de meta-síntese, pois a cidade sim-
bolizava um "novo Brasil", penetrado pela civilização do automóvel. Não
por acaso, uma das metas mais bem-sucedidas do plano foi a da constru-
ção de rodovias, quase todas elas abertas para ligar Brasília a vários pontos
do país. Claro que isso também coincidia com a prioridade dada pelo go-
verno à indústria automobilística multinacional. Afinal, para que servi-
riam novas estradas, senão para estimular a produção de automóveis?

71
POLÊMICA

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Detalhe do Palócio da Alvorada em construção !Bra-
silio. 1960).

Mas será que um plano tão ambicioso como esse teria sucesso? Pois
teve sim. Vejamos só alguns exemplos. A meta n" 8, que previa a constru-
ção de 10 mil quilômetros de rodovias, foi mais que ultrapassada, tendo-
se construido, no período, cerca de 20 mil quilômetros de novas estradas.
Em contraste, o tradicional e barato transporte ferroviário só ganhou na
gestão JK a ridícula cifra de 826 quilômetros de novos trilhos.
Também no setor energético houve grande sucesso do plano. A po-
tência das centrais elétricas, que em 1955 era de 3 milhões de quilowatts,
passou para quase 5 milhões, em 1961, enquanto estavam ainda em cons-
trução importantes centrais, como Furnas eTrês Marias. Bem maior foi o
crescimento da produção de petróleo: dos 2 milhões de barris por ano em
1955, ela saltou para 30 milhões de barris por ano, em 1960, significando
uma abundante fonte interna de combustíveis para o abastecimento dos
novos veicu '1" . Quanto a este u'1tímo
, 1os d"a era do automove . setor, os da-
dos são também chocantes: a meta prevista no plano era de chegar-se à
marca dos 100 mil veículos no ano de 1960. Entretanto, nesse ano, as
multinacionais instaladas no país produziram 321.150 automóveis!
Houve, porém, fracassos gritantes no Plano de Metas. E não é difícil
perceber em que ele falhou: justamente nas metas relativas à alimentação

72
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

e à educação, como sempre acontece ... Mas no que diz respeito à industriali-
zação, ela chegou mesmo a crescer "cinqüenta anos em cinco". Só que o preço
pago por tal vitória foi a prifunda desnacionalização da economia brasileira.
No entanto, isso não prejudicou os interesses dos industriais brasi-
leiros. Muito pelo contrário. O grande salto tecnológico dado pela pre-
sença das multinacionais no setor de bens de consumo duráveis, bem
como a rápida ampliação da sua capacidade produtiva, levou a reboque
as indústrias nacionais, que também se modernizaram.
As empresas estrangeiras estimularam o surgimento de um cintu-
rão de novas empresas brasileiras, que forneciam para as montadoras
aqueles itens de que elas necessitavam, como, por exemplo, peças com-
plementares à montagem de veículos. Os efeitos da presença das multi-
nacionais no Brasil se irradiaram por todos os setores industriais, até
mesmo aqueles sob controle do Estado.
Mas o Plano de Metas trouxe também para a economia brasileira
algumas conseqüências muito graves, que serão analisadas no final deste
capítulo. Agora, é outra a questão que nos interessa. Se todo esse cresci-
mento foi atingido com base no investimento estrangeiro, no aumento
da dívida externa do país e na inflação, uma pergunta fica no ar: como

JK inspeciono obras do hidrelétrico de Furnas IMinas Gerais, 19591.

73
POLÊMICA

poôd e a c Iasse operarIa, que carregou esse mo dI"


I •
e o nas costas, manter-
"

se relativamente tranqüila e sem agitações durante quase cinco anos?

Quem são as classes produtoras?

N o ano de 1955, sob o patrocínio do Ministério da Educação, foi


criado no Brasil o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), defi-
nido' logo no primeiro artigo do seu regulamento, como:

(...) um centro permanente de altos estudos políticos e so-


ciais, de nível pós-universitário, que tem por finalidade o estudo,
o ensino e a divulgação das ciências sociais (... ) especialmente
para o fim de aplicar os dados dessas ciências à análise e à
compreensão crítica da realidade brasileira (...) visando à pro-
moção do desenvolvimento nacional. (Caio Navarro de Toledo,
Iseb: Fábrica de Ideologias, São Paulo, Ática, 1978, p. 32.)

Inúmeros intelectuais de prestígio fizeram parte do Iseb, com o


propósito de estabelecer uma espécie de diagnóstico dos males do Bra-
sil e receitar os "remédios" para a sua superação. Na verdade, o papel do
Iseb era produzir um pensamento capaz de promover a mooilizaçào de
todas as classes e dos setores sociais em torno da causa da "moderniza-
ção" do país, convencendo a sociedade brasileira - sobretudo os traba-
lhadores - de que a política econômica da gestão JK era o verdadeiro
caminho para o desenvolvimento do Brasil. Esse conjunto de idéias foi
denominado nacional-desenvolvimentismo.
Para atingir o seu objetivo, isto é, fazer com que cada trabalhador
brasileiro acreditasse ser, como diziam os integrantes do Iseb, um "sol-
dado do desenvolvimento", o instituto prestaria todo o seu apoio a Jus-
celino, chegando mesmo alguns dos seus membros a se responsabilizar
pela redação dos discursos proferidos pelo presidente. Aliás, foi justa-
mente este último quem melhor encarnou as idéias desenvolvimentis-
tas, espalhando pelos quatro cantos do país a "fé" no desenvolvimento e

74
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

a crença de que os frutos da industrialização seriam igualmente dividi-


dos por toda a sociedade brasileira, elevando assim o seu nível de vida.
O ponto-chave das mensagens presidenciais ao longo do governo
JK era sempre fazer com que os seus ouvintes acreditassem que todos
eram igualmente importantes para o desenvolvimento do país, já que
todos faziam parte das chamadas "classes produtoras", quer como em-
pregados, quer como patrões. Mediante esse artifício, que, no discurso,
i8ualava a todos como cúmplices do nacional-desenvolvimentismo, o che-
fe do Executivo conseguiu levar avante os seus "cinqüenta anos em cin-
co", neutralizando as resistências populares contra a alta do custo de
vida ou mesmo contra a presença do capital estrangeiro no Brasil.
É bastante exemplificativo dessa postura incentivada pelos intelec-
tuais do Iseb um trecho do discurso proferido por Juscelino no Hotel Co-
pacabana Palace, no Rio de Janeiro, durante um banquete a ele oferecido
pelos industriais, em comemoração ao seu primeiro ano de governo:

Agradeço-vos, meus amigos das classes produtoras aqui


reunidos, por me terdes convidado para este encontro no dia de
hoje (... ) Sem falsear a naturalidade, posso dizer-vos que temos
- vós, empresários, homens da produção em campos dos mais
variados, e eu próprio - uma linguagem comum: podemos en-
tender-nos pois o objetivo nosso é um só, trabalharmos pela afir-
mação de um Brasil autônomo e poderoso (...) Se alguma coisa
há que não nos falta nesta terra, Deus louvado, é o que fazer, é
trabalho. Temos todos trabalho em excesso para desempenhar-
mos nossa tarefa. (Juscelino Kubitschek, Discursos, Rio de Ja-
neiro, Imprensa Nacional, 1958, p. 37.)

Como se vê, o termo "classes produtoras" era bem ambíguo: ele


tinha muito a esconder, nivelando a todos. Mas tinha, também, muito a
revelar, como no trecho do discurso de JK. Nele aparece quem o gover-
no considerava a verdadeira "classe produtora" do país: a burguesia in-
dustrial, grande beneficiária do desenvolvimentismo.

75
POLÊMICA

Mas nem só de idéias vive o homem. E, por certo, o trabalhador brasi-


leiro, ainda que "sócio" das esperanças divulgadas pelo presidente, não se con-
tentaria com isso. Para tanto, JK contou com duas outras estratégias, de modo
a levar avante, sem grandes contestações populares, o seu Plano de Metas.
Uma delas foi lembrar, a todo momento, o grande e rápido cresci-
mento do volume total de empregos que o plano promovera a curto
prazo, com centenas de novas empresas fundadas de uma só vez. A outra
- recordando que o sindicalismo atrelado ao Estado continuava a ser
uma realidade - foi fazer vista grossa para uma série de proibições que
a legislação sindical varguista, ainda em vigor, mantinha. Dentre elas,
podemos citar a infiltração de lideranças comunistas nos sindicatos, sem
qualquer repressão por parte do Estado.
Foi por meio de expedientes e negociações como essas, consolida-
das pelas idéias nacionais-desenvolvimentistas, que o presidente conse-
guiu levar avante, com o apoio das classes trabalhadoras, o seu Plano de
Meta. Só no final da sua gestão, quando a inflação atingiu níveis muito
elevados para a época, é que as agitações populares voltariam a ocorrer.
Mas esse foi o estopim de uma outra fase da nossa história, que será
contada no próximo capítulo.

Indústria moderna, país dependente

o Plano de Metas e a sua proposta de instalação do tripé da industria-


lização brasileira foram, no geral, bem-sucedidos. Entretanto, é preciso ana-
lisar o outro lado dessa moeda, ou seja, aquilo que essas transformações
trouxeram de problemático para a história econômica recente do país.
Dentre esses problemas, talvez o maior de todos tenha sido o apro-
fundamento da dívida externa brasileira. Mas de que modo isso se deu, já
que a alavanca da nova industrialização foi o investimento direto do ca-
pital estrangeiro no país? É que a presença desses capitais não se resu-
miu à montagem das grandes indústrias - estas eram empresas multi-
nacionais e, sendo assim, não passavam de filiais de grandes companhias
localizadas nos Estados Unidos e na Europa.

76
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Isso significava que tudo aquilo que elas ganhavam no Brasil - já


que vendiam os seus carros e eletrodomésticos no mercado interno brasi-
leiro, recebendo em cruzeiros - tinha de retornar para as suas matrizes,
no exterior, sob a forma de dólares. Mas já observamos que o governo JK
emitiu muito papel-moeda para financiar parte dessa industrialização, pro-
vocando a desvalorização do cruzeiro. E isso tinha muito a ver com as multi-
nacionais, visto que elas precisavam comprar, com o cruzeiro desvaloriza-
do, os dólares necessários para as suas remessas ao exterior. Nessa transa-
ção, elas perderiam parte do lucro obtido, pois gastariam muitos cruzei-
ros adquirindo menos dólares, o que não era vantagem alguma.
A solução encontrada para tal problema pelo governo foi simples.
Não tinha ele tomado uma série de empréstimos externos para finan-
ciar as empresas produtivas estatais e ainda emprestar aos empresários
privados? Então por que não obter ainda mais reservas-ouro para repas-
sá-Ias às multinacionais, de modo que estas comprassem os dólares de
que precisavam para remeter os seus lucros para o exterior? Foi assim
que teve origem o grande "buraco negro" da dívida externa brasileira,
quando, no final do governo JK, começou-se a tomar empréstimos es-
trangeiros sem finalidade produtiva.
Mas essa foi apenas uma das conseqüências nocivas do novo "mode-
lo" da industrialização brasileira. Outra delas foi o grande descompasso entre
o ritmo de crescimento dos três setores que compunham a nossa indústria. O tripé
da industrialização do pais, como já foi visto, era composto pelas empre-
sas produtoras de bens de consumo duráveis (a cargo do capital estrangei-
ro), pelas produtoras de bens de consumo correntes (a cargo do capital
nacional) e pelas indústrias de base (a cargo do Estado). É fácil perceber
qual delas cresceu com mais vigor e dinamismo no período. Por todas as
facilidades de acesso a capitais e tecnologias mais modernas, é claro que
foram as indústrias de bens de consumo duráveis - as multinacionais.
No entanto, para que o seu funcionamento continuasse ocorrendo
na mesma velocidade, essas empresas precisavam de muitos itens pro-
duzidos pelas indústrias pesadas, tais como chapas de aço, laminados
etc. E quem produzia esses itens no Brasil eram as empresas estatais. Só

77
POLtMICA

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(Revisto Coreto, Rio de Janeiro, 12
1(.• _ U .•••• "'TO 01 HUÁO nA$ltlIItO, !.tU OOUTO'
moro 19601.

que o Estado brasileiro não tinha recursos suficientes para fazer com
que as suas indústrias crescessem no mesmo ritmo das multinacionais.
Por isso, ocorreu um desequilibi io no crescimento dos três setores indus-
triais, o que era um problema difícil de ser contornado.
A saída encontrada, mais uma vez, foi prejudicial à economia brasi-
leira: as multinacionais passaram a importar tudo aquilo de que precisavam
para continuar crescendo velozmente, E isso acarretou dois outros pro-
blemas. Por um lado, apesar de a moderna indústria ter-se implantado no
Brasil, ela tornou-se ainda mais dependente do que antes das importa-
ções. Por outro, os saldos da balança comercial brasileira voltaram a ficar
negativos - afinal, vendíamos bens agrícolas e comprávamos bens de pro-
dução. Com saldos negativos, mais desvalorizada ficava a nossa moeda. E,
com a moeda em baixa, mais difícil era saldar a nossa dívida externa. Uma
espécie de bola-de-neve começava a envolver toda a economia nacional.

78
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

A terceira conseqüência nociva da industrialização brasileira do pe-


ríodo JK foi a grande concentração de renda que ela provocou. Um número
cada vez menor de pessoas passou a ganhar cada vez mais. E isso porque,
com a tecnologia moderna equipando as empresas fabris, o trabalho in-
dustrial tornou-se mais produtivo, gerando muito mais lucros para os
empresários. Só que esses lucros, originados da produtividade do traba-
lho, não eram distribuídos entre os trabalhadores. Nem pelos salários nem
pelo barateamento dos preços dos produtos em geral. A concentração da
renda e as desigualdades sociais cresceram muito nessa época.
Diante de tudo isso, devemos questionar o lado positivo do cresci-
mento industrial do período, já que foram acumuladas tantas conse-
qüências negativas para o país e para a sociedade. Era evidente, já no
final da gestão JK, que nuvens escuras começavam a pairar no horizonte
nacional. Mas o presidente, com toda a sua habilidade política e mar-
cante personalidade, conseguiu adiar a crise que estava embutida nesse
"modelo" de desenvolvimento. Só em inícios dos anos de 1960 é que ela
explodiria com toda a sua intensidade.

79
5. Um modelo perverso

O MODELO "
ECONOMICO '6 19
DO POS- 4- CONSOLIDOU

O CAPITALISMO INDUSTRIAL NO PAís. COMBATENDO A INFLAÇÃO

COM O BRUTAL ARROCHO SALARIAL, O REGIME MILITAR ABRIU

AINDA MAIS A ECONOMIA AO CAPITAL ESTRANGEIRO E ALARGOU

,
A NOSSA DIVIDA EXTERNA, GERANDO O "MILAGRE BRASILEIRO. "
SEU PREÇO FOI A SUPEREXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES

E A QUEDA DA SUA QUALIDADE DE VIDA.

Os anos críticos

O final do governo JK já apresentava


crise que seria adiada por muito pouco tempo -
os pri~eiros sinais de uma
em inícios da dé-
cada de 1960, logo após a renúncia do presidente Jânio Quadros
(1961) e a posse do novo presidente João Goulart, ela explodiria de
modo intenso.
Costuma-se chamar a esse período de "a crise brasileira de 1962-
1964", já que essa crise não foi apenas econômica, mas também política
e social. Do ponto de vista da economia, trata-se de uma fase em que
todos os problemas gerados pelo "modelo" nacional-desenvolvimentista
vieram à tona, promovendo uma grande diminuição do ritmo de crescimento

80
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

econômico do país. No setor industrial, sobretudo, os investimentos -


públicos e privados - caíram consideravelmente.
Mas qual a razão de tal declínio, se os "cinqüenta anos em cinco"
foram, conforme já visto, um sucesso em certas áreas? Justamente isto: o
volume de novos capitais e de novas indústrias inauguradas de uma só vez
tinha sido tão grande que dispensava, temporariamente, a necessidade de
novos investimentos. O maquinário implantado era novo e estava em ple-
na produtividade, havendo uma espécie de "indigestão" de capitais e tec-
nologia. Por isso, os investimentos industriais cessaram por algum tempo,
gerando uma recessão econômica comum nas economias capitalistas.
Claro que essa explicação, tão simples do ponto de vista econômi-
co, não era nada simples sob a ótica política e a social. Politicamente,
devemos levar em conta o que foi visto no capítulo anterior acerca do
populismo, lembrando sobretudo que ele não foi uma simples manipu-
lação das "massas ignorantes". Essas massas tinham reivindicações bási-
cas que precisavam ser atendidas - principalmente a manutenção do ní-
vel de empregos -, caso contrário, retirariam o seu apoio ao regime. Ora,
se a crise implicou a queda temporária de novos investimentos indus-
triais, por certo isso também significava a diminuição do número de novos

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Trecho do BR-080, ligando Brosilio a Mo-
nous (1970),

81
POLÊMICA

trabalhadores contratados, comprometendo assim o regime populista, que


dava sinais do seu esgotamento. 00 ponto de vista social, a crise de 1962-
1964 nada mais foi do que a conseqüência dessa situação que descrevemos.
Só que com uma agravante: uma vez que a emissão de moeda continuava a
ser a estratégia usada pelo governo para gerar recursos dentro do país, cres-
cia a inflação brasileira. Dessa forma, contando com menor volume de em-
pregos, alta de preços e do custo de vida em geral, as classes trabalhadoras
mergulhariam num profundo descontentamento. O desgaste dos salários
reais ilustra bem esse processo, como se percebe no Quadro 3.

QUADRO 3. ,
SALÁRIO MíNIMO REAL (GUANABARA E SÃO PAULO)

I ANO I GUANABARA SÁOPAULO l


I 1944
I 100,0 100,0

I 1951
I 53,6 53,0

I 1960
I 140,2 130,8

I 1961
I 161,6 146,2

I 1962
I 137,5 123,9

I 1963
I 128,6
I 114,5

f19641 124,9
I 116,3

-
Fonte: F. Oliveira, Crítica à rozõo duolista, Sõo Paulo, Cebrop, 1977, p. 41.

Diante desses fatos, não é difícil entender o que ocorreu no país


nos anos imediatamente anteriores ao golpe militar de 1964. A diminui-
ção da oferta de empregos e a desvalorização dos salários, provocada
pela inflação, levaram a uma intensa mobilização política popular, marcada
por sucessivas ondas grevistas de várias categorias profissionais, apro-
fundando as tensões sociais. Dessa vez, as classes trabalhadoras se recu-
savam a pagar o pato pelas "sobras" do modelo econômico juscelinista.
Enquanto as reivindicações dos trabalhadores foram consideradas jus-
tas por um certo grupo de militares de alta patente, chamados de "nacio-
nalistas", as massas contaram com o seu apoio nas greves. Entretanto, no

82
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Comício dos Reformas, realizado diante da Central da Brasil (Riode Janeiro, 13 mar. 1964).

momento em que as greves saíram das ruas e penetraram no interior do pró-


prio Exército - como no caso da greve dos sargentos, por exemplo -, a
coisa toda mudou. Afinal, era o princípio mais caro à corporação militar-
a hierarquia - que se via ameaçado. A partir do ano de 1963, o apoio militar
às greves de trabalhadores cessou e a sua postura, daí por diante, passou a
ser francamente repressiva. O clima golpista ganhava mais espaço no país.
E os donos do capital? Como reagiram a esse estado de coisas? Pre-
judicados pela crise econômica e ameaçados pela pressão popular, os
empresários de vários setores - industriais, comerciantes, banqueiros
etc. - alinharam-se com o Exército, em nome da ordem e da "seguran-
ça nacional". O próprio capital estrangeiro, temeroso da instabilidade
política vivida no país, passou a evitar o mercado brasileiro ou mesmo a
retirar-se daqui, agravando ainda mais a queda dos investimentos indus-
triais. Uma coisa estava clara: o capital estrangeiro só voltaria a investir
no Brasil depois que "a casa estivesse arrumada".
Assim, também para o empresariado, a solução militarista surgia
como a única capaz de instalar no país a ordem necessária à retomada do
crescimento econômico. Para os empresários, desde que as fontes de in-
vestimento (públicas e privadas) fossem restabelecidas, qualquer sacrifício
seria válido, mesmo que fosse o do regime democrático.

83
POLtMICA

o golpe de 1964 correspondeu, portanto, aos anseios da burguesia


brasileira e do capital estrangeiro aqui presente. Ele resultou da aliança
entre dois segmentos básicos da sociedade brasileira: militares e empre-
sários industriais. Ambos se diziam defensores da Doutrina da Segurança
Nacional, que logo taxaria de "comunistas" os movimentos dos trabalha-
dores em luta por melhores salários e novos empregos. Usando essa
"ameaça" como bandeira, os grupos que organizaram o golpe consegui-
riam o apoio de vários outros setores - as classes médias, sobretudo
-, financiando uma série de órgãos encarregados da propaganda gol-
pista, tal como o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (Ipes) e o Insti-
tuto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), por exemplo.
O movimento de 1964 veio, na verdade, para esmagar as forças
populares que, pela primeira vez na história do país, tinham consegui-
do, por um breve período, pressionar e obter algumas conquistas junto
ao governo. Daí por diante, entretanto, elas seriam excluídas - como
aliás ainda o são - da participação no Estado. Na época, o presidente
do Ipes, o empresário Glycon de Paiva, afirmou:

Fazer a revolução é uma coisa. Mas sustentá-Ia é- outra. O


perigo agora é que nós, que iniciamos essa revolta, poderíamos
relaxar. E isso não o faremos. (R. Dreifuss, 1964: Aconquista do
Estado, Petrópolis, Vozes, 1981, p. 469.)

Depois da tempestade, vem o "milagre"

Do ponto de vista da industrialização brasileira propriamente


dita, o golpe de 1964 não trouxe nenhuma mudança nos rumos por
ela tomados desde 1955. Muito pelo contrário: o papel da ditadura
militar foi o de consolidar o modelo econômico implantado nos anos de
1950, aperfeiçoando-o. Logo, a primeira característica da industriali-
zação brasileira dessa época foi a permanência das diretrizes estabe-
lecidas pelo Plano de Metas, mantendo-se o tripé inaugurado nos anos
de 1950 a pleno vapor.

84
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

A história da economia e da industrialização brasileiras do pós-


1964 pode ser dividida em três períodos: a) 1964-1967 - fase caracte-
rizada como de crise e recessão ; b) 1968-1974 - fase de retomada do
crescimento industrial, vulgarmente conhecida como "milagre econô-
mico brasileiro", em virtude das elevadas taxas de crescimento da nossa
economia; c) de 1974 até o presente - fase em que o "milagre" entrou
em total e completo declínio, sem que as várias saídas tentadas tenham
levado a grande sucesso. Vejamos brevemente em que consistiu cada uma
dessas fases e as suas principais características.
Uma vez "arrumada a casa"erri 1964 e ainda em meio à recessão econô-
mica, os governos militares passaram a perseguir dois grandes objetivos: a)
conseguir novos recursos, dentro e fora do Brasil, para retomar o crescimento in-
dustrial; b) estimular a concentração oliqopolista de empresas e de capitais no país,
concentração essa que, ruga-se de passagem, já se vinha processando desde a
era JK, só que de forma desordenada e caótica. Essa concentração, aliás,
seria a sequnda 8rande caraãetistica da industrialização brasileira recente.
Com relação ao primeiro objetivo, é preciso compreender que, se
o grande problema da crise de 1962 -1967 era a falta de capitais em vo-
lume suficiente para continuar mantendo o crescimento da estrutura
industrial brasileira, a política econômica do novo governo militar teria
de caminhar no sentido de criá-Ios. Só que esse esforço precisava ser
acompanhado de um simultâneo combate às altas taxas de inflação, origi-
nando assim uma situação que pode ser resumida na seguinte pergunta:
como criar recursos sem emitir dinheiro?
Para consegui-Io, o novo regime lançou mão de duas estratégias
básicas. Do ponto de vista externo, buscaram-se vários empréstimos estran-
8eiros, agora facilitados pelo golpe militar, que pusera fim na instabilida-
de política e na mobilização das classes trabalhadoras. Em pouco tempo,
o capital estrangeiro voltaria a dominar no país, impondo o seu ritmo à
expansão da indústria. A grande dívida externa brasileira, que tanto in-
terfere no nosso cotidiano atual, tem a sua origem nessa fase.
Já do ponto de vista da criação de recursos internos que acabassem com
a recessão industrial, o regime usou a velha fórmula do arrocho salarial, o

85
POLÊMICA

mais antigo "remédio" para superar as crises econômicas do capitalismo.


As perdas salariais das classes trabalhadoras, nesse período, foram altíssi-
mas: comparando-se o salário real vigente nos anos de 1964 e de 1967,
constata-se que ele caiu, em apenas três anos, do índice 92,5 para 72!
Cotejando essa queda com a rapidez com que subiam os preços e a produ-
tividade, constata-se que o arrocho salarial funcionou como uma espécie
de confisco, favorecendo o aumento da concentração da renda no país.
Para se ter uma idéia do grau dessa concentração, basta citar que, en-
quanto no ano de 1960, os 20% mais ricos da população brasileira eram
donos de 54% da renda nacional, em 1970 os mesmos 20% passaram a deter
62% dela. De forma inversa, os 50% mais pobres tiveram a sua participação
na renda nacional diminuída de 17,7%, em 1960, para 11,8%, em 1970.
Ao tomar a decisão de arrochar os salários de um amplo segmento
da sociedade (os trabalhadores), o governo militar tinha duas metas
muito claras. Por um lado, penalizar especificamente as classes traba-
lhadoras, coerentemente ao "modelo econômico" que se tinha adotado
e que devia privilegiar os consumidores de classe média, compradores
dos bens de consumo duráveis produzidos pelas multinacionais. Por ou-
tro, buscava-se manter os trabalhadores controlados e despolitizados:'
somente a fome deveria preocupá-Iosl

86
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Por um caminho ou por outro, o arrocho salarial acabava favore-


cendo diretamente a classe que engendrara o novo regime e sem a qual
este perderia a sua principal base de apoio: o empresariado industrial,
brindado com a possibilidade de grandes lucros, uma vez que tinha ga-
rantidas tanto a queda dos seus gastos com a folha de pagamentos quan-
to a existência de um mercado consumidor com salários maiores.
Com relação ao segundo grande objetivo apontado - promover a
concentração de empresas e de capitais no país -, o regime militar usou
como tática uma política de favorecimento intencional à grande empre-
sa, estrangeira sobretudo. Procurava-se, antes de mais nada, eliminar as
empresas de menor porte e de estrutura técnica considerada "pouco
moderna", de modo a gerar "sobras" - de maquinaria, de crédito, de
mercado etc. - que se destinavam a elevar a produção e o lucro de um
pequeno número de grandes empresas, sem necessidade de gastos vul-
tosos com tecnologia nova ou mesmo emitir moeda.
Na verdade, o que se fazia era racionalizar o uso dos recursos dis-
poníveis para a industrialização, mediante a eliminação dos competido-
res mais fracos, originando assim uma espécie de "saneamento" da eco-
nomia, justificado por um discurso e uma prática que transformavam a
ificiência econômica em sinônimo de grande empresa, estreitando ainda
mais a afinidade de interesses entre o Estado e o capital monopolista.
Existindo um menor número de empresas a competir pelos recur-
sos disponíveis, abria-se para as indústrias de grande porte uma série de
facilidades de crédito, capitais e tecnologia, além de uma fatia adicional
do mercado consumidor que, até então, tinha sido atendida pelas peque-
nas e médias empresas. Ademais, o expediente da concentração de empre-
sas e de capitais facilitava a absorção, pela grande empresa, do maquinário e
das matérias-primas estocadas pelas empresas menores falidas. Lembrando
que o período até 1967 ainda era de recessão, vemos que essa foi uma das
soluções - perversa, é evidente, mas típica do sistema capitalista - en-
contradas para gerar recursos para a industrialização sem emitir moeda.
Mas como o governo militar conseguiu provocar a falência das pe-
quenas e médias empresas? Da forma mais simples possível: criando novos

87
POLÊMICA

impostos, que iriam garrotear o pequeno empresário, tais como o Imposto sobre
a Produção Industrial (IPI) e o Imposto sobre a Circulação de Mercadorias
(ICM). Incapazes de arcar com o peso de novos tributos, já que produziam em
menor escala e com custos maiores do que as grandes unidades fabris, a pe-
quena e a média empresas acabavam cedendo espaço aos oligopólios*.
Ao mesmo tempo, o Estado também lançou mão do expediente do
tabelamento dos preços dos produtos industriais, sempre em nome do cita-
do "combate gradualista à inflação". Como esses preços foram fixados
tomando por base o desempenho das grandes empresas que atuavam
com alta tecnologia e, por isso mesmo, produziam mais e mais barato,
resultava que eles não davam para pagar sequer os gastos do pequeno
empresário, que se via, assim, obrigado a vender os seus produtos por
preços abaixo daquilo que tinham gasto na sua fabricação. Seu estrangu-
lamento e falência eram inevitáveis.
O resultado dessas estratégias foi não apenas o favorecimento da gran-
de empresa oligopolística, em geral, mas da empresa oligopolística estran-
geira, em particular, que aumentou o seu poder de controle sobre os seto-
res mais dinâmicos da indústria brasileira, como se verifica no Quadro 4 .

..
QUADRO 4.
TAXAS ANUAIS MÉDIAS DO CRESCIMENTO DA
INDÚSTRIA BRASILEIRA - 1966-1973 (%)
SETORES
I INDÚSTRIAS
NACIONAIS
I PARTICIPAÇÃO
DAS MULTINACIONAIS

Minerais
não-metálicos I 11,3
I 59,72

I Metalurgia
I 10,3
I 26,50

I Mecânica
I 16,2
I 74,65

Mat. elétrico
I 14,7
I 76,16

Mat. transporte
I 14,7
I 96,44

Química
I 12,6
I 51,12

I
Fonte: G. Mantega & M. Moraes, Acumulação monopolisto e crises no Brasil, Rio de
Janeiro, Paz e Terra, 1979, p. 76.

88
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Enquanto o peso do capital estrangeiro consolidou-se na indús-


tria brasileira após 1964, o peso do capital local diminuiu sensivel-
mente, se comparado às estatais e às multinacionais. Como se perce-
be, ao buscar resolver um dos lados da falta de recursos para o cresci-
mento industrial no país, o governo militar acentuou, ainda mais, a
internacionalização da economia brasileira, fosse por ter provocado o "in-
chamento" da dívida externa, fosse por ter oferecido privilégios às
empresas estrangeiras já existentes e àquelas em fase de instalação no
país. Nas palavras de Roberto Campos, ministro do Planejamento da
gestão do marechal Castelo Branco:

Há dois motivos que explicam nossa desnacionalização


temporária. Primeiramente, a mudança de escala: quando se
passa da fundição artesanal para a grande indústria automobi-
lística, há exigências de capitais e qualidade que alteram a so-
brevivência das pequenas e médias empresas nacionais. (... ) Em
segundo lugar, a evolução rápida da tecnologia. (... ) Nesses ca-
sos, a escolha é entre mantermos um nacionalismo míope ou
absorvermos maciçamente capitais e técnica estrangeiros. Esta
última é a melhor. (Roberto Campos, Do outro lado da cerca, Rio
de Janeiro, IBGE, 1967, p. 65.)

Claro está que para os grandes empresários, nacionais e estrangei-


ros, todo esse processo era visto com satisfação, pois, além de terem os
seus lucros ampliados, também viam crescer o seu poder político no go-
verno. Afinal, numa economia fortemente oligopolizada - ou seja, com
poucos concorrentes -, seriam eles que, mais cedo ou mais tarde, pas-
sariam a impor os preços, chegando mesmo, em certas ocasiões, a enfren-
tar o governo, quando se vissem pressionados a diminuí-Ios. Enquanto
isso, a perda de prestígio e influência dos pequenos e médios empresá-
rios - todos eles, na sua grande maioria, autenticamente nacionais -
tornou-se uma realidade indisfarçável no pós-1964, a ponto de um gran-
de industrial paulista chegar a afirmar:

89
POL~MICA

o pequeno empresário ainda não pode, pela sua dificulda-


de de enfrentar o cliente, ser presidente de sindicato. Na direto-
ria dos sindicatos, só há e só deve haver grandes empresários.
(In Renato Boschi, Elites industriais e democracia, Rio de Janei-
ro, Graal, 1979, p. 169.)

Data também do período 1962-1967 a redefinição de algumas fun-


ções econômicas do Estado brasileiro, e isso em três direções; como
captador da chamada poupança interna nacional, como produtor indus-
trial e como uma espécie de "gerente" do mercado financeiro.
No primeiro caso, destacou-se a criação, pelo governo, dos meca-
nismos de poupança compulsória - tais como o Fundo de Garantia do
Tempo de Serviço (FGTS), o Programa de Integração Social (PIS) e o
Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (Pasep) -,
que arrecadavam, juntos, uma enorme massa de recursos centralizada
nas mãos do Estado. Com eles, o governo poderia não apenas voltar a
investir nas suas indústrias de base, como também emprestar às grandes
empresas, por meio de instituições como o BNDE, por exemplo. É bom
lembrar que, no quadro da recessão econômica, um dos papéis do Esta-
do era o de estimular os investimentos industriais, facilitando o acesso
ao dinheiro, o que ele fazia mediante a concessão de empréstimos com
longos prazos de pagamento e taxas de juros baixÍssimas. Mais uma vez,
os oligopólios ver-se-iam fortalecidos, sobretudo os estrangeiros.
No entanto, muitos dos empréstimos feitos pelo governo às gran-
des empresas estrangeiras não eram por elas aplicados diretamente na
produção. Eles iriam servir para que os lucros que elas tinham acumu-
lado e que estavam impossibilitados de voltar para as suas matrizes no
Exterior, devido à desvalorização do cruzeiro (lembra-se do Capítulo
4?), pudessem, agora, fazer a sua "viagem" sem grandes problemas, ou
seja, desnacionalizar mais ainda a nossa economia. Na verdade, o que
se vê a partir de 1964 é o Estado brasileiro se endividando para "ban-
car" a remessa de lucros das multinacionais instaladas no país desde
meados da década de 1950.

90
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Quanto à segunda função econômica do Estado (a de produtor in-


dustrial), vale a pena destacar que o seu papel de produtor nos ramos in-
dustriais mais estratégicos, tais como siderurgia, química básica e ener-
gia, ampliou-se muito, de modo a continuar fornecendo os seus produtos
e serviços para as grandes indústrias privadas, nacionais e estrangeiras.
Mas pode-se perguntar: com que recursos, além do FGTS, PIS, Pasep e
demais impostos cobrados da população como um todo? Com os recursos
obtidos pelo crescente endividamento externo, por um lado, e com a trans-
formação das empresas estatais em empresas lucrativas, por outro.
N o caso da dívida externa, é importante sinalizar que, entre 1964
e 1973, houve uma razoável fartura de capitais no mercado internacio-
nal, significando a possibilidade de o governo tomar empréstimos a ju-
ros baixos e longos prazos de pagamento. Se essa fartura foi positiva,
num primeiro momento, logo em seguida transformar-se-ia numa faca
de dois gumes, pois o Estado brasileiro entrou numa espiral de endivi-
damento que, já no início dos anos de 1970, daria mostras do seu peso
sobre a economia e a sociedade brasileiras.
Já no tocante à mudança do caráter das empresas estatais, é bom
dizer que, se até esse período, elas se destinavam a produzir bens e ser-
viços a baixíssimos preços, para serem vendidos às indústrias privadas,
nacionais e estrangeiras, desse momento em diante, devido à recessão,
que também as atingia, elas se viram obrigadas a tornar-se lucrativas.
Isso significou que muitas das empresas estatais tiveram de gerar os seus
recursos por si mesmas, passando a se auto financiar. Afinal, não era pre-
ciso combater a inflação? O Estado já não estava com gastos demais sob
a sua responsabilidade, como vimos, precisando cortar alguns deles? Não
foi por acaso que, justamente no pós-1964, os bens e serviços vendidos
pelas estatais, tais como energia elétrica, telecomunicações, derivados
do aço etc., triplicaram os seus preços, como forma de o Tesouro Naci-
onal economizar recursos.
A terceira, e talvez mais importante, nova função econômica do
Estado brasileiro no pós-1964 - transformar-se no 8erenciador do mer-
cado financeiro* do país - diz respeito à sua intervenção nesse setor,

91
POLÊMICA

mediante a emissão de Letras doTesouro Nacional (LTN) e Obrigações Re-


ajustáveis do Tesouro Nacional (ORTN). O que significou tal intervenção?
Decidido a conseguir os recursos necessários para a recuperação
do crescimento industrial do pais, o governo brasileiro achou por bem
criar uma nova espécie de papéis que, tal como as ações negociadas na
Bolsa de Valores, atraíssem muitos compradores. Só que as ações de uma
empresa costumam "dar filhotes", ou seja, gerar ganhos para quem as
comprou, de acordo com o aumento da sua produtividade e dos seus
lucros, já que são todas empresas produtivas.
O caso das LTNs e das ORTNs, no entanto, era completamente
diferente. O Estado precisava de dinheiro, sim, mas esses papéis não de-
rivavam de qualquer atividade produtiva - não eram ações de uma das suas
empresas, como a Petrobras ou a Vale do Rio Doce, por exemplo. Eram
apenas títulos da dívida pública que, em condições normais, seriam pou-
co procurados. Para estimular a sua venda, o governo precisava oferecer
alguma vantagem para atrair compradores, sendo criada, então, a corre-
ção monetária, que beneficiaria somente os papéis públicos. Com a nova
medida, atraiu-se o interesse de muitos e grandes investidores - prin-
cipalmente os bancos -, que se viam contemplados com a possibilida-
de de ganhos fartos, sem maior esforço.
O importante é frisar que a interferência do Estado no mercado fi-
nanceiro baseou-se em procedimentos bastante artificiais, já que era ele, e
não o movimento da produção, que estabelecia o quanto deveriam valori-
zar-se os seus próprios papéis. E essa valorização, por sua vez, era aumen-
tada segundo a sua necessidade de captar recursos. Não fica difícil perce-
ber o perigo que se achava embutido nessa forma de intervenção econô-
mica do Estado: ela abria brechas para a pura especulação, desde que, a par-
tir de um certo momento, fosse mais vantajoso, sobretudo para os em-
presários, aplicar em papéis do que investir na produção. O mercado fi-
nanceiro no Brasil, "agitado" por esse Estado-captador-de-recursos, che-
garia a render mais do que a própria atividade produtiva!
Esse mercado de papéis que, entre 1964 e 1973, firmava-se no país
acabaria, em bem pouco tempo, transformando-se numa autêntica ciranda

92
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

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Presidente Costa e Silva inaugura Estação de Telecomunicações em
Itaboraí, no Estado do Rio de Janeiro 128 fev. 1969).

financeira, raiz e cerne da atual espiral iriflacionária brasileira, cujos efeitos


nocivos tão bem conhecemos e cuja causa as autoridades governamentais
insistem em localizar, erroneamente, nos aumentos salariais, e não no
mercado financeiro.
Diante de todo esse conjunto de medidas, tomadas entre 1964 e 1967,
estavam criadas as condições para uma galopante expansão da indústria

93
POLÊMICA

brasileira - vulgo "milagre econômico". De 1968 até 1973-1974, o país


atingiria recordes de crescimento econômico, em torno de 9% a 10% ao
ano, o que era uma surpresa para os economistas ocidentais. Só resta chamar
atenção para o fato de que, com tantos mecanismos compulsórios e com
tanta espoliação sobre as classes trabalhadoras, milagre seria não ter havido
o "milagre", como disse certa vez o economista Francisco de Oliveira.

As classes trabalhadoras "pagam o pato"

Podemos afirmar, sem sombra de dúvida: o elemento-chave do


"milagre econômico brasileiro" - que, como vimos, nada teve de tão
milagroso assim - foi o arrocho salarial imposto à classe trabalhadora.
Entre 1968 e 1974, tal condição "carregou" o crescimento industrial nas
costas, diminuindo progressivamente o nível geral dos salários. É claro
que, com tamanha perda de poder aquisitivo, uma série de conseqüên-
cias nocivas abater-se-ia sobre os trabalhadores, valendo a pena mencio-
nar algumas delas.
O principal instrumento do arrocho foi a nova legislação salarial e
trabalhista surgida em 1965, logo após o golpe. Segundo ela, eram fixa-
dos limites ou "tetos" para os aumentos salariais, que variavam de acor-
do com os grupos sociais que se queria privilegiar ou desfavorecer. As
profissões ligadas à classe média, por exemplo - engenheiros, econo-
mistas, administradores de empresa etc. -, contaram com tetos mais
elevados, devido ao seu papel de principais consumidores dos bens de
consumo duráveis produzidos pelas multinacionais. Dessa forma, para
es t ar coeren t e com o "mede! "."
mo e o econormco que esco lh era man t er, o Es-
tado privilegiou os estratos de altas rendas.
O mesmo não se deu, entretanto, c,om a classe trabalhadora. Ela foi
prejudicada pela nova base de cálculo do salário mínimo, que passou a con-
siderar a média dos salários recebidos nos últimos dois anos, e não mais nos
últimos doze meses, como era comum até então. Com isso, aprofundou-se
a perda do seu poder de compra, além de intensificar a concentração de renda
no país, já que o governo comprimia mais os menores salários.

94
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Para enfrentar a sua dura realidade, a classe operária teve de buscar


novos expedientes a fim de completar o orçamento doméstico, sobretu-
do dois deles. Em primeiro lugar, deu-se a extensão da jornada de traba-
lho, com o aumento do número de horas extras. Entre 1968 e 1973, na
gestão do general Emílio Garrastazu Médici (outubro de 1969 a março
de 1974), 60% dos operários brasileiros trabalhavam cinqüenta horas
por semana, ao passo que cerca de 24% deles ultrapassaram esse limite,
atingindo a marca das sessenta horas de trabalho semanais. Com o acú-

mulo do cansaço e do esgotamento físico dos seus trabalhadores, o Bra-


sil entrou em cheio na lista dos recordistas mundiais em acidentes de
trabalho, subindo, na época, do "modesto" oitavo lugar para o terceiro.
A segunda saída buscada pela classe trabalhadora para completar a
sua renda mensal foi a intensificação do trabalho familiar, que jogou no
mercado uma enorme massa de mão-de-obra feminina e também infan-
til. O efeito perverso dessa alternativa foi rebaixar ainda mais os salá-
rios, já que a oferta de trabalhadores excedia a procura.
A política salarial e trabalhista responsável pelo "milagre" também
visava provocar a maior subordinação do trabalhador à fábrica, tentando
conter a sua capacidade de luta e de mobilização política. E isso por
meio de um expediente bem simples: além da repressão física, usada
pelo regime militar contra os principais líderes sindicais do período,
com direito a cassações de direitos políticos, prisões e torturas, o go-
verno desestimulou o regime da estabilidade no emprego. A capacidade de
resistência dos empregados de fábrica recebia, dessa forma, um rude
golpe, visto que poderiam ser despedidos a qualquer momento. Ao mes-
mo tempo, aumentava-se a margem de lucro dos empresários, já que a
medida propiciou um regime de alta rotatividade no emprego, facilitando
a contratação de novos trabalhadores, para igual função, com salários
cada vez menores. Para isso, passou a ser usado o FGTS.
Mas, e os sindicatos? Eles deixaram de existir no pós-1964? Não.
Apesar de estrangulados, eles continuaram ocupando a mesma posição
que nos períodos anteriores: atrelados ao Estado e recebendo a sua par-
cela do Imposto Sindical, de modo a prestar serviços assistenciais. Só

95
POLÊMICA

que havia uma diferença: como as decisões sobre política salarial foram
transferi das da Justiça do Trabalho para o Executivo Federal, os sindicatos
ficaram esvaziados do seu papel político de contestação. Assim, as classes
trabalhadoras estavam cercadas, politicamente, por todos os lados.
O que o governo não esperava é que o descontentamento de alguns
segmentos de trabalhadores das grandes empresas metalúrgicas de São
Paulo e de Minas Gerais fosse forte o suficiente para levá-los ao enfrenta-
mento aberto do regime autoritário, resultando em duas explosões gre-
vistas no ano de 1968: as greves de Contagem (MG) e Osasco (SP), vio-
lentamente reprimidas por questionarem o "modelo econômico" adotado.
Se a política salarial e trabalhista do pós-1964 em muito contribuiu
para o "milagre" econômico brasileiro, o outro lado da moeda foi a cres-
cente deterioração da qualidade de vida dos trabalhadores, que pode ser
medida por dois critérios: o já citado crescimento do número de acidentes de
trabalho e o aumento dos índices de mortalidade infantil, que, como sabe-
mos, decorrem, ambos, muito mais da desnutrição do que das condi-
ções de saúde propriamente ditas.

Presidente Emílio Garrostozu Médici


posso o tropa em revisto no Escola
de Guerra Naval (Rio de Janeiro, 20
__ ~~~_"""; --iI dez. 1972).

96
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Com tudo isso, já é possível começar a perceber por que o ano de


1974 marcaria o princípio do fim do "milagre": nesse ano, novos surtos
de greves operárias voltaram a ocorrer no país, por total incapacidade
dos trabalhadores de se manterem. A classe trabalhadora, que "pagara o
pato" do "milagre", dava sinais do seu esgotamento físico: epidemias,
mortalidade e mobilizações foram os seus sintomas. Tentar prolongar o
"milagre", à custa do arrocho salarial sobre o operariado, era uma técni-
ca que não mais funcionaria. Por volta de 1973-1974, uma nova voz no
país passaria, a plenos pulmões, a engrossar a crítica à política social
perversa do regime militar. Essa voz vinha do sindicato dos metalúrgi-
cos de São Bernardo do Campo (SP) e representava um importante seg-
mento da classe operária: os trabalhadores das indústrias automobilísti-
cas. Nascia aí o "novo sindicalismo".

o "milagre" se desfez
Passado o boom de crescimento econômico do período de 1968 a
1974, a indústria brasileira começaria a dar mostras de uma nova reces-
são. A "crise do petróleo" e o arrefecimento da economia mundial que
dela decorreu ajudariam a levantar o "véu de euforia" que acompanhara
o "milagre", pondo a nu o que nele havia de artificial e de desequilibra-
do, mas que pudera ser disfarçado enquanto houve abundância de capi-
tais no mercado internacional.
A chamada crise do "milagre brasileiro" caracterizou-se por duas
peculiaridades: por um lado, foi uma crise de endividamento externo,
e, por outro, uma crise da capacidade do Estado em continuar "bancan-
do" o ritmo do crescimento industrial brasileiro. Por que essas caracte-
rísticas teriam vindo à tona em 1973-1974?
Antes de mais nada, vale a pena lembrar o papel estratégico desem-
penhado pela grande empresa estrangeira na economia do país, o que im-
plicava, como vimos, uma constante remessa dos seus lucros para o exte-
rior, desnacionalizando a economia. Essa saída de capitais era, por sua vez,
compensada pela tomada de novos empréstimos externos pelo governo.

97

/
POLÊMICA

Os efeitos dessa verdadeira "armadilha", que dera vida ao "milagre", seriam


contornados enquanto houvesse fartura de recursos no mercado internaci-
onal. Caso contrário, esse "círculo vicioso" emperraria, estrangulando a eco-
nomia do país, o que ocorreu, de fato, com a crise do petróleo.
Afetando principalmente os países que mais dependiam das impor-
tações desse produto do Oriente Médio, a crise do petróleo jamais foi
nossa, mas sim do chamado Primeiro Mundo, sobretudo dos Estados
Unidos. No entanto, em função da nossa dependência aos capitais e à
tecnologia estrangeiros, o Brasil seria uma "vítima indireta" dessa crise,
já que o seu primeiro efeito foi diminuir a disponibilidade de capitais no
mercado mundial, fazendo com que aumentassem enormemente as ta-
xas de juros. Além disso, as economias centrais - elas, sim, vítimas de
um aumento de quase 400% no preço do petróleo - procuraram com-
pensar as suas perdas estocando equipamentos e outros produtos indus-
triais para vendê-los , depois, a preços bem mais elevados.
Esse duplo movimento das economias centrais, que visavam sair com
menos prejuízo da crise do petróleo, atingiria em cheio economias como
a nossa, quer pelo encarecimento das importações de itens industriais,
quer pelo encarecimento dos empréstimos externos. A grande ironia des-
se período foi que, justamente quando a economia industrial brasileira
mais precisava adquirir tecnologia nova -. para repor o desgaste dos equi-
pamentos instalados em fins da década de 1950 - e conseguir novos ca-
pitais para manter a "mágica" do "milagre", o "sinal verde',' dos preços in-
ternacionais ficava "vermelho", ajudando o "milagre" a "fazer água".
Para complicar mais um pouco a situação, o vertiginoso aumento
dos juros internacionais levou os bancos brasileiros a também elevarem
os seus, encarecendo a retirada de empréstimos, tanto dentro quanto
fora do país. Nascia, assim, uma situação favorável à imposição da cha-
mada "ditadura dos banqueiros", sem nos esquecermos de que muitos
deles - beneficiados pelas operações com os papéis do Estado no mer-
cado financeiro - ocupavam postos estratégicos no próprio governo,
como, por exemplo, os ministros Mário Henrique Simonsen (do Banco
Bozano-Simonsen) ou Olavo Setúbal (do Banco Itaú).

98
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Enquanto o Estado brasileiro conseguiu, mesmo em condições des-


favoráveis, continuar investindo nas suas empresas produtivas estratégi-
cas e repassando dinheiro às multinacionais, foi possível manter um cer-
to ritmo no crescimento da economia como um todo, ainda que a taxas
mais modestas do que aquelas da fase do "milagre": algo em torno dos
4,5% ao ano. No entanto, o preço pago pela manutenção dos investi-
mentos estatais seria altíssimo, uma vez que o Estado só poderia contar
com dois expedientes: tributar e fomentar a especulação.
No primeiro caso, estão os recursos obtidos a partir de uma brutal
elevação de todos os impostos pagos pela população. Só que, dessa vez,
devido à efetiva possibilidade de colapso da classe trabalhadora, a "téc-
nica" do arrocho salarial estava descartada, sendo escolhido um novo
"alvo" para o "apetite" do Estado: as classes médias, antigas "meninas dos
olhos" do "modelo econômico" consolidado após 1964.
Já no segundo caso mencionado (fomentar a especulação), o Estado,
empenhado em obter mais recursos para distribuir à indústria, aumentou,
de forma inusitada, não somente a quantidade de papéis emitidos - nossas
conhecidas LTNs e ORTNs -, como também a sua valorização, provocan-
do uma fuga de dinheiro dos investimentos produtivos para o mercado fi-
nanceiro. O importante é registrar que quanto mais o Estado lançava os
seus papéis no mercado, mais inflacionada ficavaa economia e mais desvalo-
rizada a nossa moeda, tornando cada vez mais difícil saldar a dívida externa
brasileira, a ser paga em dólar.
Mas esse círculo vicioso tinha limites, a começar pela ameaça de
perda da própria legitimidade política do regime militar, que, com a sua
política econômica, estava penalizando severamente todos os segmen-
tos subalternos da sociedade brasileira. Diante desse risco, o governo
deu por esgotada a sua capacidade de tributar, o que também significou
reduzir a sua capacidade de investir e "doar" capitais. O "milagre" se des-
fez e uma nova recessão, de proporções bem maiores do que aquela
ocorrida no início da década de 1960, pairava no ar.
Uma das tentativas para impedi-Ia foi o lançamento, durante a ges-
tão do general Ernesto Geisel (1974-1978), do 22 Plano Nacional de

99
POL~MICA

Desenvolvimento (2 PND). Conforme palavras do próprio presidente,


Q

ao apresentar o plano à nação:

As diretrizes da industrialização incluem, como pontos bá-


sicos, a ampliação da produção nacional de bens de capital,
fator básico para a auto-sustentação do desenvolvimento indus-
trial, a rápida expansão das indústrias produtoras de insumos
básicos (... ) e o fortalecimento e modernização das empre-
sas nacionais (... ). (Ernesto Geisel, Mensagem ao Congresso
Nacional, Brasflia, 1976, p. 41.)

Como se percebe do trecho anterior, o 22 PND estabelecia como


meta para a economia a substituição daquele que tinha sido, até então, o
"carro-chefe" da indústria brasileira: o setor de bens de consumo durá-
veis. Ele deveria ser "desbancado" pelo setor de bens de produção, a
cargo do Estado, já que a idéia era que este produzisse, no próprio país,
todos os bens e as matérias-primas da indústria pesada, tradicionalmen-
te importados do estrangeiro. Com as suas novas empresas, o Estado
pretendia diminuir os seus gastos com importações, o que, a médio pra-
zo, significaria sobrar recursos para o pagamento da dívida externa.
Se a idéia era boa, o difícil seria executá-Ia, pois o 22 PND parecia
ignorar a mudança de sinais ocorrida no contexto internacional ante o
choque do petróleo. Onde arranjar os recursos compatíveis com o por-
te das novas indústrias pesadas que se queria instalar? Isso não ia signifi-
car, de imediato, uma enorme importação de tecnologia sofisticada para
a montagem das novas empresas estatais previstas no plano? Nesse caso,
quais seriam os setores econômicos prejudicados e beneficiados por ele?
Q
Já agora, é bom saber que o 2 PND foi um grande fracasso, apesar de
todos os esforços a seu favor. Esse fracasso deveu-se a vários fatores. Em
primeiro lugar, o plano resultou na enorme ampliação da dívida externa
brasileira, por razões óbvias. Em seguida, como o seu objetivo eraJortalecer
o setor das indústrias pesadas estatais, relegando a segundo plano as indústrias
estrangeiras produtoras de bens de consumo duráveis, estas reagiriam com

100
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

grande insatisfação. Em terceiro lugar, o plano fracassou porque a "mágica"


que dera suporte ao "milagre" - fartos e baratos empréstimos externos -
não era viável nesse momento. O Estado brasileiro voltou-se, então, para os
próprios bancos públicos, de modo a conseguir financiamentos, provocan-
do a "gritaria" geral do poderoso grupo dos banqueiros privados. Finalmen-
te, o plano naufragou porque, ao prever a instalação de novos pólos indus-
triais - como os projetos Trombetas, Carajás, Jari etc., todos em regiões
muito distantes do Sudeste -, ele contrariava frontalmente o empresaria-
do mais poderoso do país.
Logo, além de fracassar economicamente, o 2º PND deixou um
saldo político gravíssimo para o país: ele conseguiu desagradar a todos
os segmentos da burguesia brasileira. E para expressar a sua insatisfa-
ção, os empresários de vários setores entraram numa verdadeira "guer-
ra" entre si e com o Estado: os bancos arrochavam o capital industrial,
com as suas taxas de juros elevadas; os industriais privados evitavam
comprar das estatais; os empresários estrangeiros subiam os preços dos
seus eletrodomésticos e carros sem nenhum controle ou critério. Por
fim, todos passaram a aplicar os seus capitais no mercado financeiro, em
vez de investir produtivamente. A especulação cresceu assustadoramen-
te e a espiral 'iriflacionária disparou em fins da década de 1970.
Em meio a interesses tão poderosos e conflitantes, o governo optou,
desde inícios da década de 1980, por uma política de contenção de gastos
e despesas, tendo à frente da sua equipe econômica o ministro Delfim
Netto. Ainda assim, ele não seria bem-sucedido, pois lhe faltava um dado
essencial: era preciso, diante das desavenças surgidas, redifinir o regime po-
lítico. Os grupos dominantes do país clamavam pela "abertura" como o
Q
"remédio" para a crise que se instalara após o fracasso do 2 PND.
N esse mesmo período, crescia o prestígio do "novo sindicalismo",
que, sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, opunha-se à interfe-
rência do Estado nos sindicatos e pregava o direito irrestrito à greve.
Entre 1978 e 1979, o mundo do trabalho foi sacudido por uma onda de
greves sem precedentes no país, concentradas (76%) no núcleo mais
moderno do parque industrial brasileiro, o ABC Paulista. A abertura

101
POLÊMICA

política era também uma reivindicação desse movimento, que se alas-


trou para outros setores, incluindo não só operários, mas também ban-
cários, profissionais liberais e pr fessores, todos em busca de uma nova
identidade coletiva para a categoria dos trabalhadores.
O fim do regime militar passou a ser encarado praticamente por
todos os setores da sociedade como a única saída possível para a crise da
economia brasileira, que entrou nos anos de 1980 estagnada e com in-
flação. Será que a mudança do regime resolveria o problema?
A chamada Nova República, instalada em março de 1985, com a
posse do presidente José Sarney, vice do presidente eleito Tancredo N e-
ves (que faleceu antes de ser empossado), surgia como uma promessa
de esperança para todos os brasileiros. Mas o terreno sobre o qual ela se
assentava era muito movediço: a sua tarefa seria conciliar as pressões pelo
aumento dos salários com a meta do combate à iriflação.
Nessas condições, a economia brasileira flutuou ao sabor dos ventos
da recessão, tendo o novo regime herdado da ditadura militar a falência

~'r': Sepultamento de Tancredo Neves


em São João Dei Rey (Minas Gerais,
24 obr. 1985)

102
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Manifestação pelo impeachment de Fernando Collor, em 1992.

econômica do Estado, a inflação e a ciranda financeira, sem grandes pers-


pectivas de investimentos produtivos a curto prazo.
Inúmeras soluções seriam tentadas para atacar de frente a inflação,
inaugurando o que se pode chamar de "era dos planos": Plano Cruzado
(1986), Plano Bresser (1987) e Plano Verão (1989). Todos eles, ainda
que por caminhos diferentes, visavam conseguir a estabilidade econô-
mica e tentar fazer
, a indústria voltar a crescer. Fosse congelando pre-
ços, fosse criando moeda nova no lugar do cruzeiro, todos eles foram
malsucedidos nas suas intenções: nenhum atacou o "miolo" da crise, isto
é, a especulação financeira e a concentração da renda. Por outro lado,
pelo menos os dois últimos planos acabaram praticando um congela-
mento de preços que foi apenas "para inglês ver", pois o único preço
realmente congelado foi o dos salários!
Em fins da década de 1980 a crise extrapolava os limites econômi-
cos: tornara-se uma crise de governabilidade, uma crise do próprio Esta-
do e das suas instituições, inclusive dos partidos políticos. A eleição do
presidente Fernando Collor de Mello em 1989 apresentou-se, segundo

103
POLÊMICA

'alguns autores, como a vitória de um "falso messias", cheio de promessas


de "modernização" e "salvação" da economia brasileira. O resultado do
seu mandato, no entanto, foi um desastre, em matéria econômica, já que a
sua equipe de economistas lançou mão de medidas que provocaram um
violento impacto social, com o seqüestro das cadernetas de poupança e
um enorme aperto monetário, por exemplo.
O chamado Plano Collor também contemplou outras estratégias,
sendo importante destacar o seu programa de maciça privatização das
empresas estatais, sob a alegação de que, além de "improdutivas", a sua
venda para o capital privado seria uma saída para diminuir as dívidas
públicas. Seria mesmo? Os episódios da nossa história recente, que le-
varam ao processo de impeachment do presidente (que renunciou antes),
parecem ter mostrado que não ...

104
6. Desnacionalização
e desindustrialização

A POLÍTICA NEOLIBERAL PRATICADA NO BRASIL DOS ANOS

DE 1990 PRODUZIU A DESINDUSTRIALIZAÇÃO E A DESNACIONALIZAÇÃO

DA SUA ECONOMIA. EXTINGUINDO O SETOR PRODUTIVO ESTATAL

E FREANDO O CRESCIMENTO ECONÔMICO, A "ERA FHC" LEGOU


I I
AO PAIS TAXAS BRUTAIS DE DESEMPREGO, ALEM DO EMPOBRECIMENTO

DOS TRABALHADORES, PRIVADOS DE DIREITOS SOCIAIS BÁSICOS.

Neoliberalismo e globalização avançam

Em 1989, a maior parte dos brasileiros elegia um novo presidente


graças às suas promessas de "salvação" econômica do país. Legitimado
pelo voto, na primeira eleição direta desde 1960, Fernando Collor de
Mello deu início a reformas supostamente "modernizadoras" da econo-
mia, apresentadas como capazes de dar ao Brasil uma espécie de "passa-
porte" para o Primeiro Mundo. Tendo criado uma nova moeda, o cru-
zeiro, empreendeu um duro seqüestro do dinheiro existente nas contas
correntes e poupanças da população, acima do equivalente a US$ 1.000,
em nome do combate à inflação. Sua breve gestão revelou-se, no entan-
to, um completo fracasso diante do prometido.

105
POLÊMICA

Para além dos inúmeros escândalos que marcaram D governo Collor,


levando à abertura do processo de impeachment, importa reter o que esta-
va por trás das reformas iniciadas. Isto porque elas se constituíram no
reflexo de um programa bem mais amplo, que ganhara força no mundo
capitalista no decorrer dos anos de 1980: o neoliberalismo. Na visão dos
seus defensores, a economia deveria ser deixada ao sabor das "livres forças
do mercado", este sim convertido em "entidade suprema" do capitalismo,
em transformação desde a crise do petróleo da década de 1970.
O neoliberalismo pouco tinha de efetivamente novo. Ele surgiu logo
após o fim da 2ª Grande Guerra, em reação ao intervencionismo do Estado
do Bem-Estar* (Welfare State) vigente na Europa e nos EUA. Sua expansão,
entretanto, somente foi possível diante de uma grave conjuntura de crise, já
que o seu receituário pregava o combate às baixas taxas de crescimento ve-
rificadas desde 1974, como se vê no Quadro 5. Porém, o principal objetivo
do programa neoliberal era enfraquecer politicamente a classe trabalhado-
ra, minando os seus sindicatos. Isso facilitaria a superação de mais essa crise,

F - ---- -/.........
!

Bancos reabrindo após anúncio do


Plano Collor, que promoveu o seqües-
,j tro das cadernetas de poupança, pro-
rl. vocondo enormes filas.

106
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

por meio do rebaixamento dos salários, da precarização das relações de tra-


balho e da redução dos encargos trabalhistas das grandes empresas.

QUADROS.
CRESCIMENTO DA RENDA NOS PAíSES DESENVOLVIDOS
(TAXA MÉDIA ANUAL, EM PORCENTAGEM)

~O
PAíSES
1196001973119740197911980019971(B)/(A)
(A) (B)
I TAXA DE_
DESACELERAÇAO

I EUA
I 4,0 r-;-~~I 1,5

I Japão
I 10,6
I 3,7
I 3,4
~I 2,3

I Alemanha
I 5,3
I 2,4
I 2,0 fD.381 2,1

I França
I 5,7
I 3,1
I 1,9 fD.331 2,2

1 Reino Unido
I 3,2 j1.31 1,9
FI 1,5

Fonte: Reinaldo Gonçalves, G/oba/ização e desnacionalização, São Paulo, Paz e Terra, 1999, p. 32.

o receituário neoliberal baseia-se em três diretrizes centrais: o prin-


cípio da não-intervenção do Estado na economia (ou Estado-Mínimo), a
redução dos gastos públicos e a privatização de empresas estatais. Os
países pioneiros em adotá-Io foram os Estados Unidos, do presidente
Ronald Reagan, e a Inglaterra, de Margareth Tatcher. Deles partiu seve-
ra campanha em prol da desregulamentação do capitalismo em todo o
mundo. Em fins da década de 1980, o neoliberalismo ganhou novo im-
pulso diante da derrocada do socialismo real na União Soviética e no
Leste Europeu, o que redefiniu as relações de força internacionais, afir-
mando a supremacia de um pequeno conjunto de grandes potências co-
nhecido como a Tríade (EUA, Alemanha e Japão).
Segundo os teóricos da "cartilha" neoliberal, a sua adoção promove-
ria a rápida elevação das taxas de lucro e o aumento dos investimentos
produtivos privados. Na prática, entretanto, não foi o que se verificou. As
principais potências capitalistas conseguiram que os lucros se elevassem,
sem conseguir, porém, o mesmo para as taxas de investimento na produ-
ção. Como explicar esse sucesso apenas parcial do neoliberalismo? Como

107
POLÊMICA

é possível crescerem os lucros sem investimentos novos em igual propor-


ção? A resposta deve ser buscada junto a duas outras tendências marcantes
do capitalismo mundial a partir da década de 1980: a chamada reestrutura-
ção produtiva e a supervalorização do capital na eifera financeira. Vejamos como
se deram esses processos.
A primeira tendência, a reestruturação produtiva, partiu de um conjunto de
novas tecnologias em microeletrônica e em informática que automatizaram
a produção, dispensando mão-de-obra e reduzindo a massa global de salá-
rios. Um exemplo do impacto dessa reestruturação sobre o operariado é a
preponderância do trabalho em equipe, e não mais nas linhas de produção,
além da valorização do chamado "trabalhador polivalente", isto é, capaz de
operar, sozinho e ao mesmo tempo, diversas máquinas, o que aumentou
ainda mais o desemprego. Paralelamente, a aplicação dos microchips e da fi-
bra óptica no setor das comunicações, encurtou as distâncias, facilitando o
controle da economia mundial por alguns poucos grupos, já que a troca de
informações e o ritmo da produção e do comércio aceleraram-se.
Aproveitando-se dessa vantagem, um pequeno número de grandes
grupos econômicos descentralizou o seu processo produtivo, distribuin-
do as suas distintas etapas por vários países, segundo o critério da possibi-
lidade de pagamento de menores salários e menores preços de insumos
industriais. Com isso, implantou-se a jIexibilização do processo produtivo,
uma característica central dessa nova economia transnacionalizada, tam-
bém conhecida como globalização.
A flexibilização da produção não pode ser separada de igual processo
verificado nas relações de trabalho que a acompanham, uma vez que se alte-
raram drasticamente as condições de vida e emprego da classe trabalhadora
nos próprios países capitalistas centrais. Esta precarização do trabalho impli-
cou, sobretudo, a quebra dos contratos por tempo indeterminado que ti-
nham, até então, respaldado os direitos trabalhistas e a seguridade social.
Logo, verificou-se uma séria redução do operariado ocupado em tempo
integral, bem como a introdução de novas formas de contratação dos traba-
lhadores - sem qualquer direito social ou trabalhista -, tais como o tra-
balho em tempo parcial e o trabalho temporário. Surgiram também rela-

108
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

ções de trabalho baseadas, sobretudo, na terceirização* das tarefas, o que au-


mentou ainda mais a lucratividade empresarial.
Na economia transnacionalizada, a redução das barreiras nacionais
à entrada e saída de produtos, serviços e capitais foi indispensável para a
disseminação dos padrões flexíveis de trabalho por todo o mundo. Isso
porque as novas fornecedoras, situadas em distintos países, são obriga-
das a também adotar a flexibilização para concluir as suas encomendas
dentro dos prazos e com custos semelhantes aos das matrizes, sob pena
de "quebrarem". O discurso neoliberal refere-se a isso como uma con-
seqüência espontânea da "saudável competitividade" da globalização.
A segunda tendência do capitalismo ao longo dos anos de 1980 foi a cres-
cente jinanceirização da riqueza. Ela deriva do fato de que as empresas que
adotaram o binômio inovações tecnológicas/precarização do trabalho tive-
ram os seus custos de produção bastante reduzidos. Conseqüentemente,
ampliaram-se os excedentes de capital, favorecendo um deslocamento de
recursos da esfera produtiva para a esfera financeira. A nova "aposta" do capi-
tal passou a ser lucrar sem ter de, necessariamente, investir na produção.
Em função desta mudança, vivemos hoje num sistema econômico mun-
dial marcado pela permanente instabilidade, já que o lucro busca, cada vez
mais, especular com a diferença entre as taxas de câmbio e de juros nas diferentes
partes do globo. Essa situação, decorrente do caráter volátil do capital espe-
culativo, gera uma grande vulnerabilidade externa das economias nacionais.
Vulnerabilidade sobretudo porque os países periféricos têm uma baixa ca-
pacidade de resistência às manobras especulativas do capital financeiro, o
que compromete a sua capacidade de atrair novos recursos externos. Para
se ter uma idéia dessa financeirização da riqueza, basta saber que o volume
total dos fluxos de capitais em circulação no mundo passou de US$ 400·
bilhões, em 1987, para US$ 1,6 trilhão, em 1996!
Foi dentro deste contexto de redefinição dos padrões mundiais da
acumulação capitalista que se deu a alteração do sentido das políticas eco-
nômicas governamentais no Brasil, a partir dos anos de 1990. Logo, não
foi por acaso que o ideário neoliberal de agências internacionais como o
Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial penetrou junto às

109
POLÊMICA

elites brasileiras, levando-as a subjugar os interesses da nação ao processo


de financeirização do capital. O Plano Collor foi uma primeira - e fra-
cassada - tentativa de praticar o neoliberalismo no país. Já o Plano Real,
junto com a longa permanência de Fernando Henrique Cardoso (FHC)
na Presidência, teve enorme sucesso na sua implantação.

A desindustrialização brasileira

No ano de 1994, durante a gestão do presidente Itamar Franco, de


quem FHC era ministro da Fazenda, veio a público o Plano Real, que teve,
de fato, efeitos imediatos em conter a inflação e estabilizar os preços. Este
êxito baseou-se em dois pontos-chave. Por um lado, o plano uniformizou
todos os reajustes de preços, câmbio e salários mediante a aplicação de
um novo índice, a Unidade Real de Valor (URV). Por outro, criou uma
nova moeda para o país, o Real, que foi artificialmente equiparada ao dó-
lar, criando a paridade cambial. Isso significava dizer que, em todas as ope-
rações comerciais com o Exterior, um Real equivaleria a US$ 1.
Essa equivalência só foi possível à custa das reservas cambiais* do
governo, sangradas para sustentar uma moeda e uma taxa de câmbio
muito acima do seu valor real. Outro expediente adotado pelo Plano
Real foi a redução das tarifas aduaneiras para vários produtos, o que
ampliou significativamente o grau de abertura do nosso mercado inter-
no às mercadorias e aos capitais estrangeiros.
Resultado: o controle dos preços e da inflação obtido pelo pla-
no se deu à custa de um brutal aumento das importações do país, pois o
câmbio alto/moeda valorizada barateava os produtos estrangeiros.
Esse foi o momento do boom das lojas de importados a R$ 1,99, na
sua maioria de origem asiática, que ilustram a invasão do nosso mer-
cado pelas importações. Sua conseqüência foi o choque de preços,
uma vez que as atividades produtivas agrícolas e industriais nacio-
nais, já afetadas por quase uma década de estagnação, foram obriga-
das a baixar ainda mais os seus preços para enfrentar a concorrência
estrangeira. O resultado desse choque foi a queda das taxas de cres-

110
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

cimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país, como demonstra


o Quadro 6, particularmente entre 1995 e 1998.

QUADRO 6.
BRASIL: CRESCIMENTO ANUAL DO PIB
1994 - 2001 (%)

I ANOS
I %

1994
I 5,9

I 1995
1996
I
I
4,2
2,7

II 1997
1998
I
I
3,3

0,1

I 1999
I 0,8

I 2000 I 4,4

I 2001 I 1,5

Fonte: Dieese (www.dieese.org.br).

Dessa forma, a primeira "lição" da "cartilha" neoliberal foi aplicada


no Brasil por meio do Plano Real, que eliminou, rapidamente, as bar-
reiras protecionistas do nosso mercado interno. Diante disso, não seria
surpresa que, entre 1994 e 1996, a inflação brasileira caísse, em face da
pressão das importações sobre os produtores nacionais. Porém, os efei-
tos do Real sobre o conjunto das atividades produtivas do país foram
ainda mais danosos. Vejamos por quê.
Numa economia com a moeda valorizada, facilitava-se também a en-
trada em massa dos capitais estrangeiros. Para tornar o país mais atraente
para esses capitais, o Banco Central permitiu nova valorização do Real,
que chegou, em 1994, a valer mais do que o dólar, sendo este último
cotado a R$ 0,83! Isso seria exibido pelo governo como um sintoma da
"saúde" e da "recuperação" da economia brasileira. O reverso de uma políti-
ca como essa foi urna crise industrial e agrícola sem precedentes no Brasil. O
desempenho da indústria entre 1995 e 1997 foi muito modesto, crescendo
cerca de 2% ao ano, ou seja, um terço da média histórica brasileira!

111
POLÊMICA

Os efeitos desta "farra das importações" sobre a estrutura industrial


podem ser avaliados pelos investimentos nela realizados. Na década de
1990, essas inversões caíram para um índice ainda menor do que aquele
vigente durante a crise do "milagre" nos anos de 1970, passando de uma
participação de 4,5% no PIB, em 1970, para 3,3%, em 1997. Ao mesmo
tempo, a baixa dos preços industriais provocada pela avalanche de impor-
tados arruinou muitos empresários, sobrevivendo apenas os maiores, ti-
dos como mais "competitivos". E competitivos foram aqueles que aderi-
ram à "modernização" industrial, adotando os novos métodos de reorga-
nização produtiva, adquirindo tecnologias sofisticadas poupadoras de
mão-de-obra e precarizando as relações de trabalho.
Vejamos as características gerais da industrialização brasileira duran-
te a década de 1990, cujo impacto sobre o retrocesso do desenvolvimento
econômico do país foi enorme.
Dentre as transformações verificadas na economia brasileira da Era
FHC, destacou-se a sua lenta e progressiva desindustrialização. A indústria
\

de transformação como um todo cresceu a taxas medíocres, como se vê


no Quadro 7. Ele revela um aumento da produção industrial total de ape-
nas 0,2% entre 1989 e 1998, enquanto na década de 1980, erroneamente
chamada de "década perdida", esse valor atingiu a média de 0,9%.

Fábrica de tecidos do Rhodia, totalmente paralisado por falto de


investimentos produtivos.

112
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

"
QUADRO 7.
INDÚSTRIA DETRANSFORMAÇÃO (SETORES DE USO)
~ ~
I I
~p

ESTRUTURA DE MÉDIAS ANUAIS


VALOR ADICIONADO (%) DE CRESCIMENTO (%)

I I 1980 ·1989 11989 ·1998 I 1980 I 1989 I 1998

Bens de consumo
I I I I I
Não-duráveis
I 1,7
I 0,9
I 34,5
I 36,5
I 36,5

Duráveis
I 0,0
I 3,4
I 15,2
I 14,0
I 17,3

I Bens intermediários I 1,7


I 0,5
I 37,5
I 39,6
I 38,2

I Bens de capital
I -2,0 1-1,2 f12.81 9,8
1
8,0

I Total
I 0,9
I 0,2 Ff1õOf1õO
"i.

Fonte: Wilson Cano, Soberania e política econômica na América Latina, São Pau/o, Unesp, 2000, p. 275.

o único setor industrial que contou com avanço efetivo entre 1989
e 1998 foi o da produção de bens duráveis de consumo, que passou da
média anual de crescimento de 14,0%, em 1989, para 17,3%, em 1998.
Nos demais setores, a produção industrial reduziu-se, comparando-se
ambos os anos. Esses dados demonstram o retrocesso da industrializa-
ção brasileira, já que os únicos setores industriais capazes de alavancar o
desenvolvimento, isto é, a produção de bens de capital e de bens inter-
mediários, definharam drasticamente no período. Em matéria de cres-
cimento industrial, o Brasil da década de 1990 foi refém de uma "falsa
promessa" de chegada ao Primeiro Mundo.
E dizemos falsa, porque a política econômica da Era FHC gerou uma
armadilha para o crescimento da produção nacional, em que qualquer ten-
tativa de favorecer a indústria viu-se anulada pela abertura comercial e a
valorização do câmbio, facilitadoras das importações. Os poucos ramos in-
dustriais com desempenho dinâmico no país foram aqueles mais "invadidos"
por capitais estrangeiros, como, por exemplo, o de plásticos, a metalurgia,
o de farmácia e o de materiais elétrico e eletrônico. E aqui chegamos à se-
gunda característica que acompanhou o processo de desindustrialização do
país: a rápida e projanda desnacionalização da nossa economia.

113
POLÊMICA

lo.o de produtos importados ilustra o enorme obertura da economia brasileiro e sua


desnacionolizoção.

Desnacionalizando a economia

Já que a financeirização da economia tornou-se característica cen-


tral do capitalismo transnacionalizado, assistimos, nos anos de 1990, a
um "campeonato mundial" disputado entre os vários países para atrair
capitais. Visando captar recursos estrangeiros, os Estados nacionais ofe-
receram taxas de juros cada vez mais elevadas, sendo importante lem-
brar que esses recursos destinam-se, na sua maioria, a investimentos no
mercado financeiro, e não na produção.
Com o Brasil da Era FHC não seria diferente. Como o Plano Real
estabilizou os preços por meio da importação em massa e do câmbio
supervalorizado, a nossa dependência dos capitais externos tornou-se
estrutural. Ou seja: para manter o país atraente para os capitais especu-
lativos, passou a ser indispensável frear o crescimento da economia. Por
quê? Porque a retomada do crescimento levaria ao aumento da impor-
tação de máquinas, equipamentos e matérias-primas industriais que,
devido ao seu alto valor, desequilibrariam a nossa balança comercial.
Por extensão, desequilibrar-se-iam também as nossas contas externas,
pondo em risco o pagamento da dívida brasileira. Em situações de re-

114
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

cessão, ao contrário, esse déficit externo se reduz e o país fica "bem


visto" por especuladores e investidores estrangeiros.
Ao mesmo tempo, a pretexto de promover a modernização tecno-
lógica do setor industrial, muitas empresas estrangeiras foram estimu-
ladas a investir na produção brasileira, o que desnacionalizou ainda mais
a nossa economia. Para avaliar esse processo, observemos o Quadro 8.

QUADRO 8.
PARTICIPAÇÃO DAS EMPRESAS ESTRANGEIRAS NO
CONJUNTO DAS MAIORES EMPRESAS NO BRASIL: 1994-1997
(PARTICIPAÇÃO PERCENTUAL NAS VENDAS)

I SETOR
I 1994
I 1995
I 1996
I 1997

Alimentos
I 41 I 50 I 42 I 57
Auto-indústria 91
I 93 I 93 I 95
Bebidas 55 I 49 I 15 I 15
Comércio atacadista 23 I 25 I 35 I 34
Comércio varejista 18 I 23 I 17 I 25
Informática 69 I 78 I 79 I 81
Confecções 8 I 8 I 8 I Nd

Têxteis 7 I 12 I 15 I Nd

Eletroeletrônico 34 I 45 I 43 I 48
~
Construção I O
I O
I O
I 3
I
Farmacêutico 73
I 63 I 72
I 79
Higiene e limpeza 91
I 89
I 89
I 97
Mecânico 44
I 44
I 46
I 45
Mineração 6
I 7
I 7
I 12
Papel e celulose 16
I 16
I 18
I 18
Plásticos e borracha 58 I 49 I 49 I 62
Química/petroquímica 24
I 22 I 20
I 22
Serviços de transporte 2 I 2 I 4 I 2
!
Serviços públicos O
I O
I 3 I 7
Siderurgia/metalurgia Nd
I 21 I 25 I 24
Telecomunicações 32
I 33
I 34
I 36

.•
Fonte: Reinaldo Gonçalves, G/oba/ização e desnocionolizaçôo, São Paulo, Paz e Terra, 1999, p. 135.

115
POLÊMICA

o quadro demonstra que o capital estrangeiro preferiu investir, so-


bretudo, nos ramos industriais já organizados em grande escala, tais como
a indústria automobilística, a de eletroeletrônicos, a siderúrgica/meta-
lúrgica, a de plásticos/borracha e a de telecomunicações, que tiveram a
sua participação nas vendas majorada entre 1994 e 1997. Na gestão FHC,
constata-se um processo de desnacionalização profundo, baseado no en-
fraquecimento intencional das empresas privadas nacionais e das estatais.
Tudo isso não significa dizer que todos os grupos econômicos naci-
onais perderam durante o governo FHC. Muito pelo contrário. As ope-
rações privatizadoras das estatais geraram excelentes oportunidades de
investimento para alguns deles, quase sempre associados ao capital es-
trangeiro. Foi o caso da compra da Companhia Vale do Rio Doce envol-
vendo o grupo brasileiro Steinbruch, por intermédio de capitais em-
prestados pelo Nations Banks, por exemplo.
Resumindo: a desnacionalização da economia brasileira, em geral,
e da indústria, em particular, valeu-se de duas poderosas estratéqias na Era
FHC. A primeira consistiu nas fusões e aquisições de empresas, sendo
expressivo verificar que das 508 operações desse tipo registradas no país
entre 1993 e 1997,423 ocorreram no biênio 1995-1997, envolvendo
uma participação de empresas estrangeiras na ordem de 59%. Nesse

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Panorama geral da região da empresa Vale do Ria Dace, após sua
privatização.

116
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

processo, muitas empresas tradicionais de capital privado nacional fo-


ram compradas por grupos estrangeiros, conforme aponta o Quadro 9.

QUADRO 9.
EXEMPLOS DE GRANDES EMPRESAS BRASILEIRAS COMPRADAS
POR GRUPOS ESTRANGEIROS: 1994·1998
I EMPRESA ICOMPRADOR I PAís I SETOR fANõ;
Petroquímica União Union Carbide I EUA 1 Petroquímico 11994 I

Continental 2001 Bosch/Siemens I Alemanha 1 Eletrodoméstico 11994 I


Petroquímica Bahia Dow Chemical I EUA 1 Petroquímico 11995 '
Lacta Philip Morris I EUA 1 Alimentos
11995
Metal Leve Mahie/Cofap I Alemanha 1 Autopeças 11996
Arno Seb I França I Eletrodoméstico 11997
Cofap Mgneti Marelli ] Itália 1 Autopeças
11997
Agroceres Monsanto do Brasil I EUA I Alimentos /1997 I,
CST/Acesita Usinor I França I Siderurgia
1
1998

.-
Fonte: Adaptado de Reinaldo Gonçalves, Globalização e desnacionalizaçõo, São Paulo, Paz e Terra, 1999,
p.142.

A segunda estratégia desnacionalizadora baseou-se num vasto progra-


ma de privatização de empresas públicas, que, de início, concentrou-se
na venda de estatais dos ramos das telecomunicações, portos, ferrovias,
siderurgia, fertilizantes e transportes urbanos, após emendas constitu-
cionais que punham fim ao monopólio estatal. A partir de 1999, as pri-
vatizações voltaram-se preferencialmente para os serviços públicos, ten-
do como ícones a venda de bancos estaduais e das estatais geradoras e
distribuidoras de energia elétrica. Segundo dados do Banco Central, as
empresas de capital estrangeiro responderam por 28% dos capitais ob-
tidos com essas privatizações, dos quais a metade proveio dos EUA, da
Espanha e da Alemanha, dentre outros. O mais expressivo leilão de pri-
vatização ocorreu em julho de 1998, quando da venda do sistema Tele-
brás, incluindo todas as empresas de telecomunicações brasileiras.

117
POLÊMICA

Apesar de o governo afirmar que a privatização das estatais deveu-se


ao fato de serem "pouco lucrativas", além da necessidade de o Estado apu-
rar capitais para o pagamento da dívida externa do país, a realidade é que
a maioria dessas operações se fez com base em moedas podres*, em nada
contribuindo para tal pagamento. O reverso da medalha foi o reforço da
desnacionalização da nossa economia, como o ilustra o Quadro 10.

QUADRO 10.
DISTRIBUiÇÃO DAS 100 MAIORES EMPRESAS POR TIPO DE PROPRIEDADE
(ANOS SELECIONADOS)

I 1990 I 1995 I 1998


Tipo de
Propriedade I Número I % ~a
receita
I Número I % d.a
receita
I Número I % d.a
receita

Estrangeira I 27,0 ~r;;-~I 34,0 ~


Compartilhada
I 5,0 ~I 15,0
I 10,0 I 23,0 I 19,0

Estatal
I 38,0 f44.01 23,0
I 30,0
I 12,0 f21,O
Familiar
I 27,0 f23.01 26,0 1 17,0 I 26,0 f17,O
Dispersa
I 1,0 fD.Ol 3,0
I 2,0
I 4,0 f3.O
Cooperativas
I 2,0 f"2.Ol 2,0
I 2,0
I 1,0 ro.o
Fonte: Ricardo Carneiro, Desenvolvimento em crise: Q economia brasileira no último quarto do século XX,
São Paulo, Unesp/IE-Unicamp, 2002, p. 340.

A primeira informação de destaque no quadro refere-se ao cresci-


mento do papel das empresas estrangeiras no país, tanto em termos nu-
méricos quanto em termos da sua participação na receita do setor in-
dustrial que "pula" de 26%, em 1990, para 40%, no ano de 1998. A
segunda informação revela o vulto da privatização das estatais no Brasil.
Se em 1990 elas geravam 44% das receitas do setor industrial, em 1998
participaram com apenas 21%, ou seja, menos da metade.
Em síntese: para garantir os lucros dos investidores estrangeiros
mantendo a nossa moeda sobrevalorizada e a taxa de juros alta, a políti-
ca econômica da gestão FHC "pisou no freio" do crescimento econômi-
co brasileiro, reduzindo igualmente as possibilidades de emprego no

118
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Manifestação popular realizada no Rio de Janeiro, em 29 de abril de 1997, contra o


leilão que iria privatizar a Vale do Rio Doce.

país. Essa política de desindustrialização e desnacionalização revela o


compromisso de uma equipe que governou, sobretudo, contra os traba-
lhadores. A eles somente foi oferecido, e apenas na primeira fase do Pla-
no Real (1994-1998), o controle da inflação e dos preços.

Desemprego e pobreza no Brasil do Real

Ainda durante o seu primeiro mandato, Fernando Henrique afir-


mou em público que os trabalhadores brasileiros pouco qualificados
eram "inempregáveis". Este neologismo pode ser interpretado de inú-
meras maneiras. É possível deduzir que o presidente estava admitindo
a existência de uma enorme massa de trabalhadores sem qualquer con-
dição de emprego no Brasil diante da sua política econômica recessi-
va. Mas "inempregáveis" também poderia significar que o desemprego
era um problema "deles", isto é, dos próprios trabalhadores, e não do
governo, mesmo que após 1998, quando toda a crise agravou-se, se
tenha pedido novos "sacrifícios" aos segmentos sociais empobrecidos e
desassistidos.

119
POLÊMICA

Esse agravamento da crise no ano de 1998 consistiu na explosão do


que alguns autores chamam de "bombas de efeito retardado do Real". A
primeira dessas "bombas" foi a crise cambial. Isto porque o governo,
logo após a segunda vitória de FHC nas urnas, assinou novo acordo com
o FMI, comprometendo-se a manter a abertura da economia, o que per-
mitiu a evasão de mais de US$ 50 bilhões das reservas de divisas brasi-
leiras, aumentando assim a dívida externa. A segunda "bomba" foi a pro-
moção, um pouco tardia, da desvalorização cambial, o que elevou tanto
a taxa de juros quanto o tamanho da dívida do país.
O acordo também obrigava o governo a promover novos ajustes
fiscais, isto e, mais cortes nos gastos públicos, sobretudo os destinados à
área social, como saúde, educação e previdência. Seu resultado foi a re-
tração ainda maior das atividades produtivas, fazendo crescer o fantas-
ma do desemprego, como pode ser avaliado a partir do Quadro 11.

QUADRO 11.
TAXAS DE DESEMPREGO EM CINCO ÁREAS METROPOLITANAS

Áreas
Metropolitanas

Brasília
r:-r:FFr:r::r:
1995

~~~~~~~
1996 1999 2000 2001

Belo Horizonte f11.1 [12.8 [13.4[15.9f17.2~ f1ã.1


Porto Alegre f1D.9f12.9f13.5[15.9f19.6J17.1f15.4
Salvador 1-1-~1f28.6f28,2f26.9
São Paulo F f14.8 f16.Of18.3 f19.7 f18.6 f17.7

Fontes: Até o ano de 1999, Paul Singer, "Evolução da economia e vinculação internacional", in Ignacy Sachs
e outros, Brasil: um século de transFormações, São Paulo, Cia. das letras, 2001 f p. 118. Para os anos de
2000 e 2001, Dieese.

Vale destacar que a equipe econômica de FHC, logo após a sua


"consagração" eleitoral em 1998, ignorou a gravidade das taxas de de-
semprego e da desestruturação do mercado de trabalho. Mediante a afir-
mação da "inempregabilidade" feita pelo presidente, a culpa do desem-
prego era atribuída ao próprio mercado de trabalho, que não enfrentava

120
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

como deveria as causas da sua própria desestruturação! Pouco importa-


va à equipe econômica subordinada ao FMI buscar alternativas para a
crise socioeconômica decorrente do fechamento das indústrias "pouco
competitivas". Mas com a tardia desvalorização cambial, somou-se ao
desemprego o aumento do custo de vida, como indica o Quadro 12.

QUADRO 12.
VALOR DA CESTA BÁSICA POR CAPITAIS - 2000-2003
I
I Capital
2000 I
Valor da cesta básica (R$)
2001 I 2002 I 2003

São Paulo 119,54


I 128,60
I 158,73
I 185,40

Porto Alegre 114,39


I 131,12
I 164,05
I 184,64
Rio de Janeiro 113,27
I 126,20
I 146,59
I 173,20
Brasília 112,01
I 127,09
I 147,93
I 170,14

Belo Horizonte 111,12


I 121,02
I 150,94
I 167,94

Belém 102,09
I 110,33
I 136,60
I 162,28

Recife 98,37
I 98,91
I 124,81
I 147,50
Goiânia 93,28
I 106,16
I 137,51
I 151,08 I
Salvador 86,71
I 96,57
I 126,99
I 147,14

Fonte: Dieese.
!
Mesmo sabendo que o desemprego continua sendo talvez a mais
grave conseqüência social do "ajuste" neoliberal da economia brasileira,
não é demais recordar que o governo FHC preferiu enfatizar um outro
efeito - ainda que temporário - da sua política econômica. Trata-se
da relativa melhora do poder de compra por parte de alguns segmentos
mais pobres da população, que, devido à queda da inflação, entre 1994 e
1997, passaram a "comer mais frango". Mas isso se. referiu apenas ao
período inicial do Plano Real.
Não resta dúvida de que a estabilização de preços, naquele mo-
mento, melhorou de alguma forma a situação das camadas sociais com
menor renda. No entanto, como já vimos, a crise da atividade produtiva

121
POLÊMICA

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Flagrante da fila de quase 4 mil pessoas que se inscreveram para disputar voga de
gari no Rio de Janeiro, em 1999.

Pane/aço realizado no Rio de Janeiro por petroleiros contra os dirigentes da Petros,


fundo de pensão da Petrobras, em 2002.

brasileira tornou -se crônica em meados da década de 1990, destruindo


centenas de milhares de empregos, quase todos formais. O que isso es-
tava indicando? Que os postos de trabalho perdidos ainda eram baseados
em contratos de trabalho estáveis, o que lançou no desemprego e, sobre-
tudo, no subemprego, milhões de brasileiros que se viram transformados
em "ex-assalariados". A alternativa, para muitos, foi reinserirem-se na pro-

122
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

dução na qualidade de "terciarizados", termo que engloba várias situações


de trabalho precário. O avanço da precarização do trabalho no Brasil en-
trava "pela porta da frente", por meio da política econômica da Era FHC,
como pode ser visto no gráfico .

DISTRIBUiÇÃO DOS OCUPADOS POR POSiÇÃO (OCUPAÇÃO TOTAL


REGiÕES METROPOLITANAS - 1994

1994
Conta própria
Assalariados
Empregadores c/carteira

1998
Conta própria
Assalariados
cl carteira
Empregadores

Fonte: Jorge Mottoso, 'Produção e emprego: renascer dos cinzas', in Ivo lesbaupin (org.), O desmonte do
noção: balanço do governo FHC, Petrópolis, Vozes, 1999, p. 130.

O gráfico revela, de imediato, a diminuição do total de assalari-


ados com carteira de trabalho assinada, que caiu de 50% para 46%
do conjunto da População Economicamente Ativa (PEA) * . Revela, ainda,
o aumento do número de postos de trabalho informais, isto é, de
trabalhadores sem carteira ou qualquer tipo de direito trabalhista.
Em verdade, o rompimento das cadeias produtivas e a redução da

123
POLÊMICA

produção industrial provocados pela avalanche de importações ex-


plicam o desempenho negativo do emprego formal no país.
Por sua vez, mesmo que o gráfico evidencie o aumento do número
de trabalhadores estabelecidos por conta própria, crescem mais os sem
carteira, demonstrando estar ocorrendo no Brasil um processo de desassa-
lariamento, por meio da ampliação do trabalho informal, precarizado e
sem contribuição à Previdência Social, isto é, sem direitos sociais bási-
cos, como o acesso à aposentadoria ou ao seguro saúde.
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) realizada
em 1989 revelou que os assalariados com registro em carteira corres-
pondiam a apenas 42% da PEA, percentual que, no ano de 1996, já
havia diminuído para 33%. Enquanto o emprego formal declinava, o
percentual de desempregados subia, saltando de 3% para 7,25% da ocu-
pação total no mesmo período. O Brasil passou do 11" lugar no rankin8
mundial de desemprego, em 1989, para o quarto lugar, no ano de 1998!
Ao mesmo tempo, é importante lembrar que, em situações de grave
crise como essa, a atuação das entidades sindicais é diretamente afetada,
por várias razões. Por um lado, porque a recessão da produção e a queda
do crescimento econômico limitam o poder político dos sindicatos, já que
as suas bases sociais encontram-se "pulverizadas" em inúmeras relações de
trabalho precarizadas, sem possibilidade de sindicalização por categoria.
Por outro, porque os sindicatos são tolhidos pela redução dos espaços de
negociação que a queda do emprego formal e a precarização do trabalho
provocam. Num contexto como esse, é também reduzida a eficácia da
greve como instrumento de pressão dos trabalhadores, sendo desmobili-
zadas, politicamente, as classes trabalhadoras.
Mas os efeitos sociais da política econômica desindustrializante e re-
cessiva da gestão FHC não pararam por aí. Isto porque o Planalto com-
prometeu-se com o FMI a limitar a folha de pagamento dos governos fe-
deral, estadual e municipal em 60%, causando uma elevação ainda maior
das taxas de desemprego nacionais. Outro dado importante refere-se ao
tipo de trabalhador mais atingido pelo desemprego. Num primeiro mo-
mento, pensamos que apenas os brasileiros com menor escolaridade e

124
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

menores salários foram os mais afetados. No entanto, não foi apenas isso
que ocorreu entre 1995 e 1998, tendo se verificado o crescimento do
desemprego também na classe média urbana do país, classe esta que igual-
mente empobreceu.
Outro processo derivado da política econômica desassalarizante da
Era FHC foi a brutal concentração da renda por ela produzida. Em fins da
década de 1990, o próprio governo divulgou resultados de uma pesquisa
demonstrando que a renda média dos 10% mais ricos do país era trinta
vezes maior que a renda dos 40% mais pobres. Além disso, em 1999, 25%
dos trabalhadores ocupados no Brasil, isto é, 14,5 milhões de um conjun-
to de 60 milhões, ganhavam apenas até um salário mínimo. O quadro se
agrava ao compararmos o valor real do salário mínimo de hoje com o seu
valor quando foi implantado, em 1940: para poder comprar o mesmo que
no passado, o salário mínimo atual deveria ser de R$ 661,00, bem distan-
te dos R$ 240,00 hoje em vigor.
A aposta numa política econômica recessiva e voltada para assegu-
rar o grau de confiabilidade dos investidores estrangeiros no Brasil pro-
vocou a deterioração do tecido social como um todo. O governo FHC
caracterizou-se pela enorme negligência com a questão social, já que o
corte de gastos faz parte do "enxugamento" da máquina do Estado im-
posto pelo neoliberalismo. O projeto político praticado pelo governo
nos últimos oito anos teve como alvo central o conjunto dos direitos soci-
ais, encarados como "gorduras a serem queimadas".
Dessas "gorduras", destacaram -se as áreas da educação e da saúde.
No primeiro caso, constatamos a sua redução por meio da evolução ne-
gativa do orçamento destinado à educação e à cultura, que caiu de R$
14 bilhões, em 1995, para R$ 11 bilhões, em 1998. Quanto à área da
saúde, o quadro não é menos grave, com a sua dotação reduzida de R$
19.962 bilhões, em 1995, para R$ 19.101 bilhões, em 1998. Aparente-
mente, trata-se de corte pequeno. Porém, vale lembrar que em 1998 foi
criado um novo imposto, cujo produto seria destinado ao setor: a Con-
tribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Para onde
teria ido essa arrecadação?

125
POLÊMICA

Todos os indicadores revelam que, em matéria de políticas sociais e


trabalhistas, o governo do presidente Fernando Henrique foi um grande
desastre, baseado no binômio Estado-Mínimo para o trabalhador e Esta-
do-Máximo para o capital. Um dos maiores sintomas desse desastre,
hoje, é a violência. Mas, enquanto as autoridades públicas das grandes
metrópoles continuarem a buscar saídas "cinematográficas" para com-
batê-Ia, sem enfrentar as suas raizes mais profundas - justamente a
política econômica recessiva e desnacionalizante -, pouco se poderá
fazer para reverter o problema.
Essa é a herança legada pela Era FHC ao novo governo recém-em-
possado em janeiro de 2003.

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Flagrante de pessoos buscando restos de comida em lixôo locollzodo em São Gonçalo,
Rio de Janeiro.

126
Considerações finais

Se em inícios dos anos de 1980 acreditava-se que a abertura políti-


ca era a solução para a crise econômica do país, pois ela propiciaria a
retomada do crescimento industrial, hoje nos lembramos desse tempo
com alguma nostalgia.
Enquanto lá se esperava que o fortalecimento das indústrias de
base, a cargo do Estado, fosse diminuir o já elevado grau de internacio-
nalização da economia brasileira, hoje, em pleno século XXI, temos de
admitir que a atual crise econômica é muito mais dramática e profunda
do que qualquer outra antes dela. E, o que é ainda pior, temos de admi-
tir também se tratar de uma crise crônica, alimentada pela política eco-
nômica de um governo mais do que legitimado - eleito e reeleito -
nas urnas, "coroado" pela democracia, que passou a contar com um dos
mais renomados intelectuais brasileiros à frente do Estado.
Pois foi justamente esse governo que legou ao futuro do país uma
das suas mais pesadas e danosas heranças. Assumindo de forma explícita
o projeto de subordinação do Brasil às diretrizes do neoliberalismo e
dos grupos econômicos transnacionais, FHC conseguiu realizar aquilo
que nenhum outro governante havia conseguido: reverter a industriali-
zação brasileira, desnacionalizando a nossa economia numa profundida-
de e extensão jamais vistas.
Acatando a cartilha neoliberal, que prega a redução do Estado em
todas as suas frentes de ação, bem como o fim das barreiras protecionis-
tas ao mercado nacional e a submissão do país ao FMI para mantê-Io
"atraente" para a especulação financeira, a Era FHC não nos legou uma
crise apenas econômica. Legou-nos bem mais que isso.

127
POL~MICA

Legou-nos uma sociedade esgarçada por desigualdades socioeco-


nômicas profundas, em que a pobreza e a exclusão social grassaram de
modo inédito. Legou-nos também a difícil tarefa de tentar reverter o
quadro dessa completa submissão, que resultou na transformação do
Brasil de oitava economia do mundo em um dos maiores "paraísos fis-
cais" do planeta, onde a especulação é premiada e o investimento pro-
dutivo é punido pelas mesmas taxas de juros mirabolantes.
A longa gestão presidencial de oito anos deixou ainda outras heranças:
uma situação calamitosa de desassalariamento e precarização das relações
de trabalho, associada a uma taxa de desemprego espantosa. Deixou-nos
uma "nação desmontada", onde os direitos sociais não são reconhecidos en-
quanto tais, mas sim rebatizados como "custos" ou "privilégios" a serem com-
batidos. Legou-nos ainda o enfraquecimento das entidades organizativas dos
trabalhadores, fragilizadas politicamente pelo desemprego e pela redução
do emprego formal. Legou, em suma, à grande parte da população brasilei-
ra, a desesperança e a falta de perspectivas futuras.
E tudo isso para manter os privilégios do capital financeiro, volátil
e antiprodutivo, que, no bojo da avalanche neoliberal, impera como
nunca na nossa economia, sem compromissos com a igualdade social ou
mesmo com a produção.
Hoje, diferentemente da época em que este livro foi escrito pela
primeira vez (1994), nem sequer contamos com um setor produtivo
estatal no qual possamos investir as nossas expectativas de retomada do
crescimento econômico. Ele não mais existe.
O que está em jogo, hoje, é a exclusão das maiorias: exclusão do
mercado, do emprego, da cidadania, da sobrevivência. É contra ela que
precisamos dirigir a nossa capacidade de reação e reorganização. O com-
bate ao apartheid social é a meta a ser perseguida por todos que se recu-
sam a tomar posse desse legado sombrio. E o primeiro passo para tal
enfrentamento reside no conhecimento crítico da realidade, para o qual
julgamos ter podido contribuir com este trabalho.

128
Glossário

Balança comercial: Conta das importações e exportações de


mercadorias de um país. Da diferença entre ambas, resultam saldos po-
sitivos ou negativos.
Bens de produção: Bens que servem para produzir outros bens,
isto é, máquinas, equipamentos, material de transporte e instalações de uma
indústria. Alguns autores usam a expressão bens de capital como sinônimo.
Burguesia: Classe social composta pelos donos do capital e que
vivem dos rendimentos por ele gerados. Pertencem a ela os industriais,
banqueiros, empresários agrícolas e donos de empresas de serviços.
Capitalismo: Regime econômico baseado em relações de produ-
ção caracterizadas pela venda da força de trabalho dos indivíduos des-
possuídos da propriedade dos meios de produção.
Corporativismo: Tipo de associação por atividade profissional.
Foi característico da política adotada pelo fascismo europeu, na qual os
trabalhadores eram organizados por meio da subordinação ao Estado,
de cima para baixo, não sendo admitida a sua autonomia.
Estado do Bem-Estar (Welfare State): Sistema constituído
após a 2' Guerra Mundial e assentado na forte participação estatal na
ampliação do emprego industrial e na promoção de benefícios sociais,
visando proporcionar aos cidadãos padrões de vida mínimos.
Inflação: Aumento persistente dos preços, do qual resulta uma
perda contínua do poder aquisitivo da moeda de um país.
Mercado financeiro: Conjunto formado pelo mercado monetá-
rio e pelo mercado de capitais. Compreende todas as transações com

129
POLÊMICA

moedas e títulos e as instituições que as promovem: bancos, fundos de


investimento, bolsas de valores etc.
Moedas podres: Títulos públicos desvalorizados, dentre os quais
se destacam os cruzados novos retidos no Banco Central e os títulos da
dívida agrária e da dívida externa já vencidos.
Multinacionais: Empresas típicas do capitalismo nos países
altamente industrializados. Trata-se de companhias que con duz.ern as
suas atividades em escala internacional como se não existissem fron-
teiras nacionais, tendo um núcleo diretor altamente centralizado e
corporativo.
Neoliberalismo: Doutrina econômica que procura adaptar o li-
beralismo tradicionalás condições do capitalismo moderno. Prega que
a vida econômica é regi da por uma "ordem natural", cujas molas são as
decisões individuais e o mecanismo dos preços.
Oligarquia: Governo de poucas pessoas, vinculadas a um mesmo
partido, grupo ou família.
Oligopólio:Tipo de estrutura de mercado, nas economias capita-
listas, em que poucas empresas, de grande porte, detêm o controle da
maior parcela do mercado. Essa concentração da propriedade em
poucas empresas pode ocorrer por fusão entre elas, incorporação ou
mesmo eliminação das pequenas empresas.
População Economicamente Ativa (PEA):As pessoas econo-
micamente ativas compõem -se das pessoas ocupadas (que tinham traba-
lho) e desocupadas em um determinado período.
Proletariado: Classe social existente no regime capitalista,
integrada por aqueles que, sem ser donos de qualquer meio de pro-
dução, vivem da venda da sua força de trabalho, sobretudo para os
empresários fabris.
Protecionismo: Sistema de tarifas ou cotas para restringir o flu-
xo das importações.
Reservas cambiais: Reservas monetárias sob a guarda does)
Banco(s) Central(is), derivadas de superávits comerciais de um país e
usadas para lastrear o câmbio.

130
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Reservas-ouro: Parte das reservas monetárias de um país guar-


dada na forma de ouro, para fazer frente às necessidades de pagamentos
de contas internacionais.
Setor terciário: É o setor das atividades produtivas que abrange
os serviços em geral - comércio, armazenagem, transportes, sistema
bancário, telecomunicações, fornecimento de energia etc. -, além da
atividade da administração pública.
Taxa cambial: Taxa que regula a relação de troca entre moedas
de países diferentes. Até o século passado, a maior parte das moedas
tinha o seu valor determinado por certa quantia de ouro que elas repre-
sentavam. Atualmente, não há mais o lastro metálico para servir de rela-
ção na troca entre as moedas, e as taxas cambiais são determinadas, em
geral, pela política econômica vigente, gerando, assim, uma questão
cambial, que é produto do tratamento distinto que os diversos governos
dão a taxa de câmbio.
Terceirização: Processo pelo qual as empresas externalizam par-
te das suas atividades produtivas, transferindo-as para outras empresas
ou trabalhadores por meio da subcontratação mais barata de serviços ou
mesmo de etapas da produção.

131
Cronologia

1500 - Chegada dos portugueses na América.


1532 - Chegada de Martim Afonso de Souza, efetivando as primeiras planta-
ções de açúcar na atual região de São Paulo. Na segunda metade do século
XVI, Bahia e Pernambuco passaram a ser responsáveis pelas principais plan-
tações e conseqüente instalação das bases de urna agroindústria açucareira.
1703 - Assinatura do Tratado de Methuen entre portugueses e ingleses,
estabelecendo que a Inglaterra comprometia-se a comprar vinhos ape-
nas de Portugal, enquanto este somente adquiriria tecidos ingleses.
1785 - Publicação do alvará que proibia a fabricação de manufaturas na co-
lônia, obrigando o fechamento dos estabelecimentos produtores de te-
cidos e de construção naval existentes.
1808 - Vinda da família real portuguesa para o Rio de Janeiro; revogação
do alvará que proibia a fabricação de manufaturados; "abertura dos por-
tos" às nações amigas; assinatura de novo tratado com a Inglaterra, pri-
vilegiando-a no comércio com o Brasil.
1819 - Criada a primeira tecelagem no Rio de Janeiro.
1822 - Criação da primeira fábrica de fiação e tecidos de algodão em Per-
nambuco.
1844 - Tarifa Alves Branco estabelece um certo protecionismo mediante
aumento de taxas alfandegárias.
1846 - Visconde de Mauá instalou o Estaleiro da Ponta da Areia, inauguran-
do a indústria naval brasileira.
1850 - Lei Eusébio de Queirós proíbe o tráfico de africanos para o Brasil,
favorecendo o remanejamento de capitais utilizados na compra de es-
cravos para outros setores.

132
A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

1869 - Utilização, pela primeira vez, de máquina a vapor numa tecelagem


em Itu (SP).
1889 - Entra em operação a primeira usina hidrelétrica de maior porte no
Brasil, em Juiz de Fora (MG).
1897 - Fundada a primeira fábrica de cimento Portland no Brasil.
1900 - A população ocupada no Brasil era de 9.503.000 trabalhadores, sen-
do apenas 321.000 alocados na indústria.
1901 - Instalação da Usina Henry Borden pela São Paulo Light S.A.
1906 - Fundação da Confederação Operária Brasileira (COB) por iniciativa
de sindicatos do Rio de Janeiro, de São Paulo, da Bahia, do Rio Grande
do Sul e de Pernambuco.
1918 - Criação da Cia. Santista de Papel S.A., em Cubatão (SP).
1928 - Fundação do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, futura Fiesp.
1930 - Criação do Ministério do Trabalho.
1937 - Criada a Carteira de Crédito Agrícola e Industrial (Creai) do Banco
do Brasil.
194-0 - Estabelecimento do salário mínimo e do imposto sindical.
1941 - Fundação da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda (R])
1942 - Criação da Companhia Vale do Rio Doce e da Fábrica Nacional de
Motores (FNM).
1943 - Criada a Companhia Nacional de Álcalis (Rio de Janeiro).
1945 - Criação da Companhia Hidrelétrica do São Francisco.
1952 - Criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE),
hoje BNDES.
1953 - Cubatão recebia a primeira grande refinaria de petróleo do Brasil.
1957 - Criação de Fumas, administrada indiretamente pelo governo federal.
1972 - O presidente Emílio Garrastazu Médici inaugura a rodovia Transa-
mazôrrica.

1974 - Os presidentes do Brasil e Paraguai assinam a ata constituindo a Hi-


drelétrica de Itaipu.
1975 - O Brasil fecha acordo nuclear com a Alemanha.
1978 - Os metalúrgicos da Saab-Scania de São Bernardo do Campo (ABC
Paulista) iniciam a primeira greve de trabalhadores do país, após o AI-5.

133
POLÊMICA

1978 - O presidente Ernesto Geisel revoga o AI-S.


1980 - É aprovado o manifesto de criação do Partido dos Trabalhadores
(PT) e Luiz Inácio Lula da Silva é eleito o seu presidente.
1984 - Comício pelas Diretas-Já reúne 1,3 milhão de pessoas em São Paulo.
1986 - O presidente José Sarney lança o Plano Cruzado.
1987 - O PT lança Luiz Inácio Lula da Silva candidato a presidente.
1988 - O Exército invade a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em
Volta Redonda (RJ), que está em greve, e três operários são mortos.
1989 - O presidente José Sarney lança o Plano Verão.
1989 - Primeiras eleições diretas para presidente após 29 anos; disputando o
segundo turno estão Fernando Collor de Mello 'e Luiz lnácio Lula da Silva.
1989 - Fernando Collor de MeIlo, do Partido da Reconstrução Nacional
(PRN), vence a eleição presidencial com 53,03% dos votos contra
46,97% de Luiz Inácio Lula da Silva.
1990 - Anúncio de pacote econômico e confisco, por dezoito meses, dos
saldos de conta corrente e poupança e demais investimentos superiores
a CR$ 50.000.
1991 - Iniciado plano de privatização das estatais.
1994 - O Real torna-se a nova moeda nacional.
1995 - Fernando Henrique Cardoso toma posse como presidente.
1997 - Privatização da Companhia Vale do Rio Doce.
1998 - Fernando Henrique Cardoso se reelege presidente no primeiro tur-
no, com 54,27% dos votos válidos.
2002 - Luiz Inácio Lula da Silva é eleito presidente da República no segun-
do turno.
2003 - Posse do presidente Luiz lnácio Lula da Silva.

134
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136
POL&MiCJl

A industrialização
brasileira
Este livro analisa os condicionantes
internos e externos do processo de in-
dustrialização no Brasil, desde o apareci-
mento das primeiras ma-nufaturas, após
a vinda da Corte portuguesa para o país,
até os dias de hoje.
Neste trabalho são abordadas ques-
tões extremamente atuais que envolvem
a economia brasileira, tais como o neoli-
beralismo, a globalização, a política de
privatizações, a desindustrialização e a
destituição de direitos sociais nos anos
1990. Tudo isso sempre enfatizando a ar-
ticulação entre o papel do Estado e as
empresas privadas - nacionais e es-
trangeiras - na história recente do país.
Para chegar até aí, entretanto, é preci-
so um "passeio" no tempo, passando
pelo século XIX, quando no Brasil ainda
havia escravidão e monarquia, e recuan-
do até o século XVI, quando -começou a
exploração colonial.

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