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Curto-circuito para a seletividade

Capítulo V

Sistemas de aterramento
Conceitos, sistemas não aterrados e solidamente aterrados

Por Cláudio Mardegan*

O objetivo deste tópico é auxiliar o(s) engenheiro(s) a decidir se Capacitância própria - Todos os equipamentos elétricos, como
aterra ou não um sistema ou a melhor forma de aterrar o sistema, cabos, motores, geradores, etc., são constituídos de condutores.
sob análise, e, para tanto, são necessários alguns conceitos. Estes condutores são isolados normalmente com papel, verniz,
entre outros, e, como são instalados sobre uma parte metálica,
Será revisto onde aterrar, a fonte ou carga, e ainda, neste tópico, forma-se o que chamamos de capacitância própria do equipamento.
serão tratados os seguintes tipos de aterramento de sistemas: Esta capacitância também é conhecida como capacitância parasita,
capacitância de charging ou capacitância de fuga.
 Sistema não aterrado
 Sistema solidamente aterrado Corrente de charging - É a corrente de fuga que circula pelas
capacitâncias próprias dos equipamentos. Em sistemas trifásicos
Conceitos básicos simétricos e equilibrados, essas correntes teoricamente se anulam
por estarem defasadas de 120 graus uma da outra.
(a) Definições
(b) Sobretensões transitórias (b) Representação ideal de uma isolação
(c) Onde aterrar? A fonte ou a carga? Pela definição de capacitância (dois condutores separados
por um dielétrico), pode-se concluir que praticamente todos os
(a) Definições equipamentos elétricos possuem uma capacitância própria. Na
Capacitância - Dois condutores separados por um dielétrico linha de transmissão, o cabo e a terra representam os condutores
formam uma capacitância. Exemplo: os condutores de uma e o ar representa o meio isolante. No cabo, o condutor e a massa
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linha de transmissão são condutores, a terra é condutora e o representam os condutores e o meio isolante é a própria isolação
ar é isolante, desta forma, tem-se um capacitor gigante. Veja do cabo. Nas máquinas girantes, os fios dos enrolamentos e a
Figura 1. carcaça da máquina representam os condutores e o esmalte do fio o
isolante. Assim, genericamente pode-se representar a isolação ideal
conforme Figura 2.
Como indicado na figura, consiste em uma resistência em paralelo
com uma capacitância. Quando se mede com um megôhmetro, se
está medindo apenas a resistência, visto que o megôhmetro possui
fonte de alimentação DC (em corrente contínua) e, desta forma, a
capacitância constitui-se um circuito aberto. Para fazer a medição
Figura 1 – Capacitância. dos dois elementos de circuito, faz-se necessário um instrumento
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(d) Comparação entre sistema solidamente aterrado e sistema 37


não aterrado sob falta à terra

Sistema solidamente aterrado sob falta à terra

A Figura 3(a) mostra o sistema solidamente aterrado, antes de


uma falta à terra.

Figura 2 - Representação ideal de uma isolação.

em corrente alternada (por exemplo, o medidor de fator de potência


de isolamento que mede a capacitância e tg δ).

(c) Onde aterrar? A fonte ou a carga?


Em primeiro lugar, quando se fala em aterrar um sistema é
necessário que exista um ponto neutro para que isto seja possível. Figura 3 A - Sistema solidamente aterrado (a) sem falta à terra e (b) sob
O ponto neutro pode ser da estrela de um transformador, da estrela falta à terra.

de um gerador ou do ziguezague de um autotransformador de Em que:


aterramento, um motor. Vft = Tensão fase-terra Vfn = Tensão fase-neutro
Nos primórdios dos aterramentos de sistema ainda havia esta
dúvida. Hoje, não mais. Deve-se aterrar, sempre, a fonte, pois se O sistema solidamente aterrado comporta-se como se o neutro
carga sair de operação o sistema passa a ser não aterrado. estivesse “amarrado” ao terra. Em condições normais ao se energizar
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38 o sistema, as capacitâncias próprias se carregam e o potencial do (e) Sobretensões transitórias


neutro é igual ao potencial do terra (a tensão fase-terra é igual à Em sistemas não aterrados podem ocorrer sobretensões
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tensão fase-neutro). transitórias onde a tensão chega a atingir valores entre cinco e oito
Já na Figura 3(b), a fase “a” vai para a terra (curto-circuito vezes a tensão normal.
fase-terra). Nesta situação, a ponta do fasor da fase “a” vai para o Este fenômeno ocorre quando há falta intermitente em sistema
potencial zero. A capacitância da fase “a” fica então curto-circuitada, não aterrado. É importante frisar que a maior parte das faltas se
visto que a tensão em suas duas extremidades é a mesma (nula). inicia de forma intermitente (fugas, descargas parciais e arcos).
Já quanto à tensão nas outras duas fases sãs do sistema (fases sem A Figura 4 seguinte mostra os fasores de tensão em
curto-circuito), os valores de tensão de antes da falta continuam os condições normais (sistema simétrico e equilibrado) em sistema
mesmos, ou seja, Vft = Vfn. não aterrado. Estes fasores giram a uma velocidade angular ω =
2 π f [rad/s]. Se ocorre uma falta franca à terra, na fase “a”, no
Sistema não aterrado sob falta à terra instante em que os vetores estão como na figura seguinte (a), a
A Figura 3(a) mostra o sistema não aterrado, antes de uma falta tensão, nas outras duas fases sãs, no mesmo instante aumentam
à terra. de √3. Isto significa que há um deslocamento do neutro em
O sistema não aterrado comporta-se como se o neutro não relação ao terra. Com isso, as capacitâncias próprias das fases
estivesse “amarrado” ao terra. Em condições normais ao se energizar “b” e “c” se carregam como se fossem um capacitor em cada
o sistema, as capacitâncias próprias se carregam e o potencial do fase.
neutro é praticamente igual ao potencial do terra (a tensão fase-terra Se a falta é removida, as capacitâncias tenderão a manter o
é igual à tensão fase-neutro). deslocamento dos fasores de tensão, como se fosse um deslocamento
Na Figura 3(b), o sistema está na iminência da falta à terra. DC.
Já na Figura 3(c), a fase “a” vai para a terra (curto-circuito fase-terra). Como os vetores de tensão giram após 1/2 ciclo, a posição
Nesta situação, a ponta do fasor da fase “a” vai para o potencial zero. A desses fasores estará como mostrado na figura anterior (c). Nessa
capacitância da fase “a” não fica curto-circuitada, visto que a tensão em condição, a tensão fase-terra já é de duas vezes a tensão de pico
suas duas extremidades é agora diferente de zero, pois, o neutro não está fase-terra. Se quando o fasor estiver como indicado no item (c ) e
“amarrado” ao terra. Como a capacitância da fase “a” está carregada e a a falta for restabelecida, o potencial da fase “a” será forçado para o
ponta do fasor da fase “a” tem que ir para o potencial zero, vai ocorrer um potencial da terra. Como o sistema possui uma reatância indutiva,
deslocamento de neutro. A tensão nas outras duas fases sãs do sistema haverá uma oscilação do potencial de fase entre +2 e -2 com uma
(fases sem curto-circuito), em relação ao terra, fica aumentada de √3, ou frequência entre 20 e 100 x ωN.
seja, Vft = √3.Vfn. Nesta nova condição, as capacitâncias das fases “b” e “c” O processo pode-se repetir continuamente e a tensão pode
ficam carregadas com o valor da tensão entre fases. chegar de 5 a 8 x Vn.
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Figura 3 B – Sistema solidamente aterrado (a) sem falta à terra e (b) na iminência da falta à terra e (c) sob falta à terra.
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Figura 4 – Sistema não aterrado sem falta e sob falta à terra.

Sistema não aterrado

Os primeiros sistemas eram não aterrados, pois, o sistema


trifásico a três fios era mais econômico, além de que quando a
primeira fase cai para a terra não circula corrente de falta à terra.
Esta sempre foi, então, a grande bandeira do sistema não
aterrado: a continuidade operacional.

Os sistemas não aterrados deveriam ser representados


idealmente como mostrado na Figura 5.

(a) Ideal

Figura 5 – Representação de um sistema não aterrado ideal.

Com base nessa definição poderia ser concluído que não


circula corrente para a terra, pois não existe caminho fechado
(loop) para ela.
Na prática, os sistemas não aterrados (isolados) estão
acoplados à terra através das capacitâncias próprias dos
equipamentos. Em sistemas de baixa tensão as duas fontes mais
significativas de capacitância para a terra são os cabos e os
motores.
Dessa forma, a representação real de um sistema não
aterrado pode ser visualizada na figura seguinte.
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40 (b) Sistema Não Aterrado Real Aumento da tensão nas duas fases sãs quando da ocorrência de
uma falta à terra
Curto-circuito para a seletividade

Nota: *Atualmente existem dispositivos que monitoram perma­


nentemente a isolação dos circuitos (p.ex. Vigilohm – Schneider).

Figura 6 - Representação de um sistema não aterrado real.

As capacitâncias para a terra são distribuídas, porém, para a


maior parte das modelagens, pode-se representá-la como se fosse
uma única capacitância (parâmetros concentrados).
Figura 8 - Curto à terra em sistema não aterrado.
Embora a representação real do sistema não aterrado seja
conforme mostrado na figura anterior, as capacitâncias entre fases Sistemas solidamente aterrados
podem ser desconsideradas na análise de faltas à terra e, assim, a
representação seguinte pode ser aplicada. Este método de aterramento adveio das desvantagens do
sistema não aterrado (ocorrência de faltas múltiplas, sobretensões
(c) Sistema não aterrado real simplificado transitórias, aumento de tensão nas fases sãs quando da ocorrência
de faltas à terra, desligamento de vários circuitos até localizar a
falta).
Apresenta, além das vantagens supracitadas, a de poder ligar
cargas monofásicas.
O sistema solidamente aterrado é definido como o sistema que
apresenta o seu neutro conectado à terra através de um condutor,
sem a interposição de uma impedância intencional. Veja a Figura 9.

Figura 7 – Representação de um sistema não aterrado real simplificado.

Vantagens
 Manter as cargas alimentadas em caso de falta à terra
Não existem danos térmicos e dinâmicos devidos à corrente de
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falta
Não ocorrem afundamentos de tensão para a carga, em caso de
falta à terra.
Figura 9 – Representação de um sistema solidamente aterrado.
Desvantagens
Dificuldade de isolar a falta automaticamente
Dificuldade de localizar a falta
Sistema efetivamente aterrado
Possibilidade de ocorrência de sobretensões transitórias
Aumento do custo dos equipamentos (devem ter isolação entre
De acordo com o IEEE Std 142 “Green Book”, Capítulo 1,
fases ao invés de fase-terra)
item 1.56, um sistema é considerado efetivamente aterrado até
Risco de ocorrência de faltas múltiplas
quando:
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Chamando o valor da relação Zo/Z1 de K, o valor da sobretensão


será:

O “Green Book” complementa ainda que para um sistema ser


considerado como efetivamente aterrado:

Vantagens
 Isola a falta automaticamente
 Localiza-se a falta facilmente
 Não existe risco de sobretensões transitórias
 Isolação dos equipamentos pode ser fase-terra

Desvantagens
 Corrente de falta à terra elevada, podendo, inclusive, ser maior
que a corrente de curto-circuito trifásica
 Elevada energia dissipada durante as faltas pode ser elevada
 Solicitações térmicas e dinâmicas elevadas nos equipamentos

quando sob falta à terra


 Não mantém a carga ligada sob falta à terra
 As faltas por arco que não são prontamente eliminadas são
extremamente destrutivas
 Pode haver perda da chapa magnética de máquinas girantes, em
caso de falta à terra.
 Em caso de sistemas de média tensão, dificilmente se consegue
a proteção da blindagem dos cabos, na ocorrência de uma falta à
terra.
 Normalmente, está associada a danos elevados (e consequente
valores de MTTR maiores)
 Ocorrem afundamentos de tensão em caso de falta à terra.
 A falta à terra pode evoluir rapidamente para uma falta bifásica/
trifásica

*Cláudio Sérgio Mardegan é diretor da EngePower Engenharia e Comércio


Ltda. É engenheiro eletricista formado pela Unifei, especialista em proteção
de sistemas elétricos industriais e qualidade de energia, com experiência de
mais de 35 anos nesta área. É autor do livro “Proteção e Seletividade em
Sistemas Elétricos Industriais”, patrocinado pela Schneider, e coautor do
“Guia O Setor Elétrico de Normas Brasileiras”. É membro sênior do IEEE
e participa também dos Working Groups do IEEE que elaboram os “Color
Books”. É Chairman do Capítulo 6 do Buff Book, atual 3004 series (3004.6)
sobre Ground Fault Protection e também participa de Forensics.

Continua na Próxima edição


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