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25/05/2020 'Sleeping Giants', comércio e a liberdade de expressão - JOTA Info

DEMOCRACIA

‘Sleeping Giants’, comércio e a liberdade de expressão


Manifestações e boicotes contra políticas empresariais são protegidos pela Constituição no Brasil e nos EUA

CÁSSIO CASAGRANDE

25/05/2020 12:42
Atualizado em 25/05/2020 às 14:23

Piquete em frente a estabelecimentos comerciais pela associação civil “New Negro Alliance”, organizada em 1933. A
associação instituiu a campanha “Don’t Buy Where You Can’t Work” (não compre onde você não pode trabalhar).
Reprodução/YouTube

Na semana passada, a estreia da versão brasileira do movimento “Sleeping Giants”


causou rebuliço no Twitter, com mais de duzentas mil adesões à conta em poucos
dias. O terremoto na rede social repercutiu até no Palácio do Planalto, levando Carlos
Bolsonaro – o vereador carioca e assessor plenipotenciário do Presidente – a
intervir diretamente na política de propaganda do Banco do Brasil. Mas o que é,
a nal, o movimento “Sleeping Giants” e por que ele perturbou os atuais ocupantes
do poder? Há questões constitucionais de liberdade de comércio e liberdade de
expressão que envolvem sua atuação?

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A ideia do “Sleeping Giants” nasceu em 2016 nos Estados Unidos, quando o


publicitário Matt Rivitz percebeu que grandes corporações estavam divulgando suas
marcas em sites de extrema direita que produziam “fake news”.

Muitas dessas empresas, embora propalassem políticas de responsabilidade social


e valores pluralistas, acabavam veiculando suas publicidades em sites extremistas,
nos quais podiam ser lidas matérias com concepções políticas radicais e notícias
falsas que contrariavam claramente aqueles discursos empresariais de eulogia
democrática.

Isso acontece devido ao mecanismo de comercialização de publicidade adotado por


Google e Facebook, conhecido como “monetização da internet”. Os anunciantes,
através de agentes, remuneram essas “Big Techs” para que elas divulguem seus
banners nos sites com grande número de acessos, independentemente de seu
conteúdo, a partir de critérios demográ cos ou geográ cos. Na prática, isso se dá
através de algoritmos, que, como regra geral, não examinam o conteúdo das
páginas.

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As empresas anunciantes podem até estabelecer alguns vetos preventivos, como,


por exemplo, sobre sites pornográ cos, de modo que Google e Facebook ou seus
agentes “alterem” os algoritmos, programando-os para evitar a publicação naquele
tipo de página da internet.

Ocorre que raramente os anunciantes estabeleciam critérios outros que não a


pornogra a, e na prática muitas das mais valiosas marcas do planeta acabavam
indo parar em páginas muito acessadas de “mídia alternativa”, que não raro eram
meros veículos a serviço de extremistas ou grupos políticos radicais, ou
distribuidoras de “fake news” que in uenciam negativamente o debate público e as
eleições. E, quase sempre, essas grandes empresas se comportavam de forma
indiferente a isso, negando assim sua responsabilidade direta no nanciamento de
notícias falsas.

O genial Matt Rivitz mudou isso. Inconformado em ver empresas nanciarem, via
publicidade, o discurso extremista na internet, ele criou uma conta no Twitter
denominada “Sleeping Giants” e passou a alertar publicamente as grandes
corporações sobre a incompatibilidade de sua política empresarial com os valores
duvidosos e as misti cações fantasiosas produzidas por páginas de extremismo
político que recebiam sua publicidade. O nome da ação, “Gigantes Adormecidos”,
evidentemente remete ao fato de que as empresas titânicas dos EUA estavam
dormindo no ponto.

Assim, os milhares de seguidores do “Sleeping


Giants”, a partir desse alerta e na qualidade de
consumidores, também passaram a cobrar as
grandes corporações sobre sua política de
publicidade na internet, já que elas podem vetar
determinados sites para divulgação de sua
publicidade.

A estratégia deu grandes resultados. O primeiro site alvo da campanha foi o


tenebroso “Breitbart News”, o canal da internet montado pelo mago da extrema
direita norte-americana Steve Bannon, ex-assessor de Donald Trump e incentivador
de Eduardo Bolsonaro na montagem de uma “internacional” de partidos políticos
daquela tendência.

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A partir dos alertas do “Sleeping Giants”, 90% das grandes empresas que
anunciavam no “Breitbart News” pularam fora, por motivos óbvios, levando o site a
uma perda de aproximadamente 10 milhões de dólares em receitas de publicidade.
Embora inicialmente mantivesse sua identidade em sigilo, Matt Rivitz acabou sendo
descoberto como o grande mentor da iniciativa. Ele passou a receber dezenas de
ameaças de morte, algumas com conteúdo antissemita; felizmente, o criador da
ideia continua vivo e até o momento passa bem. Rivitz tem patrocinado a iniciativa
em vários outros países e na semana passada autorizou o uso da marca para
ativistas no Brasil.

O primeiro alvo do “Sleeping Giants”, versão brasileira, foi o site “Jornal da Cidade
Online”, de Mato Grosso do Sul, conhecido portal de notícias duvidosas e
questionáveis, de tendência de extrema direita. Muitas empresas retiraram os
anúncios daquele veículo desde o momento em que foram alertadas no Twitter. O
fato causou reação imediata no Palácio do Planalto, especialmente porque uma das
empresas que anunciou a suspensão da publicidade foi o Banco do Brasil, que
acabou recuando depois de críticas do vereador Carlos Bolsonaro.

Muitos grupos de apoiadores do presidente Jair


Bolsonaro passaram a criticar o “Sleeping Giants
Brasil”, alegando que a conduta dos ativistas
importaria em uma forma de censura, ameaça à
liberdade de expressão ou de comércio. A alegação,
no entanto, não tem nenhuma base constitucional,
seja no Brasil ou nos EUA.

Não é coincidência, aliás, que esse tipo de ação política promovido pelo “Sleeping
Giants” tenha nascido nos Estados Unidos. Aquele país tem uma longa tradição de
campanhas civis e boicotes de consumidores contra políticas empresariais
controversas.

A própria Suprema Corte dos EUA já foi instada a se pronunciar quanto a eventuais
con itos entre liberdade de expressão e liberdade de comércio em ações de
movimentos associativos que incitavam o público a boicotar determinadas
empresas. E isso se deu mais precisamente no contexto da luta pelos direitos civis

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dos negros, na primeira metade do século XX, no caso New Negro Alliance v.
Sanitary Grossery Co, 303 U.S. 552 (1938).

A associação civil “New Negro Alliance” foi organizada em 1933 por três jovens
negros, o escritor e ativista John Aubrey Davis, o advogado Belford V. Lawson, Jr, e o
estudante universitário M. Franklin Thorne, os quais não se conformavam que
empresas de proprietários brancos, em bairros majoritariamente negros, recusavam-
se a contratar trabalhadores afrodescendentes. A associação política instituiu então
a campanha “Don’t Buy Where You Can’t Work” (não compre onde você não pode
trabalhar), tida na época como radical.

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Reprodução/YouTube

Seu método de atuação era a organização de boicotes e piquetes em frente a


estabelecimentos comerciais; esse movimento ocorreu durante o período da Grande
Depressão, no qual os comerciantes não podiam arriscar-se a perder clientes,
motivo pelo qual muitos acabavam revendo suas políticas raciais.

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Alguns empresários, no entanto, reagiram aos boicotes, alegando que eles eram
ilegais por interferirem na esfera privada da gestão de recursos humanos e na
liberdade de comércio.

Este foi o caso da empresa Sanitary Gorssery Co., de Washington D.C., um armazém
de secos e molhados. Eles sustentavam que a campanha da New Negro Alliance
estava provocando perda de clientela.

Em decisão de 6 a 2 (um dos juízes estava ausente),


a Suprema Corte entendeu que os boicotes e
piquetes eram constitucionais, pois de acordo com
as leis federais, “a disseminação de informação de
forma pací ca e ordeira por pessoas interessadas
em disputadas laborais relativas aos ‘termos e
condições de emprego’ em determinada indústria ou
estabelecimento ou lugar de negócios deve ser
considerada como legal”.

Assim, prosseguiu aquela corte constitucional em seu acórdão, “exceto em caso de


fraude, perturbação da paz, violência ou qualquer outra conduta ilegal, todos aqueles
que tenham um interesse direto nos referidos termos e condições de emprego
devem gozar da liberdade de propagandear e disseminar fatos e informações que
digam respeitos àqueles mesmos termos e condições de emprego, podendo
paci camente persuadir outros a consorciar-se em suas visões relativamente às
práticas de determinado empregador.”

Ou seja, a decisão fundamentou-se na Primeira Emenda, especialmente na parte que


assegura a liberdade de discurso e de associação. A opinião da Corte foi redigida
pelo Justice Owen J. Roberts.

Até hoje tem prevalecido na jurisprudência norte-americana essa concepção de que


ativistas podem expor publicamente críticas a empresas privadas, inclusive em
campanhas de boicotes a seus produtos. E o fundamento essencial é o livre
exercício da liberdade de expressão prevista na Primeira Emenda, como visto no
precedente acima. Ressalva-se apenas a possibilidade de penalização ou
indenização caso a conduta dos militantes recaia em violência ou difamação.
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No caso do “Sleeping Giants”, é curioso observar que os meios de comunicação


alternativos visados pelos ativistas também alegam que a sua própria liberdade de
expressão estaria sendo ferida à medida em que sua atividade é embaraçada pela
retirada da publicidade. A alegação é de difícil sustentação do ponto de vista
constitucional, já que este é um dos direitos fundamentais de e cácia
essencialmente “vertical”, ou seja, oponível ao Estado. Nos EUA, historicamente não
se assegura a invocação da Primeira Emenda em con itos entre particulares, com
raríssimas exceções.

No Brasil, ainda que se reconheça na doutrina e na jurisprudência do STF a e cácia


“horizontal” dos direitos fundamentais, di cilmente haveria possibilidade de um
questionamento constitucional à conduta do “Sleeping Giants”, na medida em que a
mera tentativa de persuasão por particulares junto a empresas para que essas
revejam sua política publicitária, sem recurso à força ou difamação, não
caracterizaria, em princípio, tentativa de “supressão do discurso”.

Situação muito diferente ocorreria, é claro, se a incitação para o corte de verba


publicitária em meios de comunicação, alternativos ou não, adviesse mediante
sugestão ou pressão de autoridades estatais, caso que se caracterizaria,
claramente, a tentativa de supressão do discurso pelo Estado. Hipótese que, de tão
absurda, concebemos apenas em tese, para ns didáticos.

CÁSSIO CASAGRANDE – Doutor em Ciência Política, Professor de Direito Constitucional da graduação e


mestrado (PPGDC) da Universidade Federal Fluminense - UFF. Procurador do Ministério Público do
Trabalho no Rio de Janeiro.

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