Você está na página 1de 224

ISSN: 1807 – 2674 (versão física); 2674 – 5666 (versão online)

REVISTA

42 de ECONOMIA POLÍTICA
e HISTÓRIA ECONÔMICA
Ano 15 – Número 42 – julho de 2019
Índice
05
O Capitalismo Regido Pelas Finanças e a Grande Recessão
Caio V. F. Vilella
16
Desafios Éticos Contemporâneos das economias de mercado
Alexandre Lyra Martins
36
O Processo de Concorrência Capitalista em Marx
João Daniel Poli
Luciano Costa Souza
51
O Banco de Compensações Internacionais (BIS) e a unificação monetária europeia
Maria de Fátima Silva do Carmo Previdelli
Fernando Roberto Freitas Almeida
Luiz Eduardo Simões de Souza
68
Integração Regional na América Latina: debatendo os fundamentos sócio
históricos da dependência estrutural e da unidade latino-americana
Mariana Davi Ferreira
Alexandre César Cunha Leite
Jaime Cesar Coelho
88
A inserção Externa da Argentina: uma análise a partir do comércio intra-industrial
com Brasil, Estados Unidos e China
Virginia Laura Fernandez
Marcelo Luiz Curado
109
Bases Históricas do Desenvolvimento Mexicano (1876 - 1940)
Eduardo Gonzales Silva
Ivan Colangelo Salomão
123
A Crise Asiática de 1997 e a Imunidade Taiwanesa: um estudo sobre a
estruturação do setor externo de Taiwan
Ben Lian Deng
135
O comércio de abastecimento de carnes verdes para o Rio de Janeiro no início do
século XIX: uma via para a acumulação mercantil
Pedro Henrique Pedreira Campos
154
A trajetória da economia capixaba entre 1985 e 2009
Heldo Siqueira da Silva Junior
Gustavo Rocha Bulgareli Ferreira
181
A Inserção Feminina no Mercado de Trabalho sob o Contexto Capitalista nas
Regiões Metropolitanas do Brasil do Período 2003 - 2014
Alana Paula de Araújo Aires
André Cutrim Carvalho
199
O Brasil e a necessidade de um New Deal
Cássio Silva Moreira

220
GALA, Paulo. Complexidade econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga
questão da riqueza das nações. Rio de Janeiro: Contraponto; Centro Internacional Celso
Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, 2017.

http://rephe01.googlepages.com
e-mail: editoriarephe@gmail.com
2

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Expediente
Número 42, Ano 15, julho de 2019.
Uma publicação semestral do GEEPHE – Grupo de Estudos de Economia Política e História Econômica.
http://rephe01.googlepages.com
e-mail: editoriarephe@gmail.com
ISSN: 1807 – 2674 (versão física); 2674 – 5666 (versão online).

Conselho Editorial:

Fernando Roberto de Freitas Almeida (UFF)


Frederico Katz (UFPE)
Glaudionor Gomes Barbosa (UFPE)
Haruf Salmen Espíndola (UNIVALE)
Jean Luiz Neves Abreu (UFU)
José Jobson de Andrade Arruda (USP)
Júlio Gomes da Silva Neto (UFAL)
Lincoln Secco (USP)
Luiz Eduardo Simões de Souza (UFMA)
Marcos Cordeiro Pires (UNESP)
Maria de Fátima Silva do Carmo Previdelli (UFMA)
Osvaldo Luis Angel Coggiola (USP)
Paulo Queiroz Marques (USP)
Pedro Cezar Dutra Fonseca (UFRGS)
Romyr Conde Garcia (UFMS)
Rubens Toledo Arakaki (UNICAMP)
Vera Lucia do Amaral Ferlini (USP)
Wilson do Nascimento Barbosa (USP)
Wilson Gomes de Almeida (UNICAMP)

Edição:
Maria de Fátima Silva do Carmo Previdelli

Autor Corporativo:
GEEPHE – Grupo de Estudos em Economia Política e História Econômica.

A REPHE – Revista de Economia Política e História Econômica – constitui mais um periódico acadêmico que visa
promover a exposição, o debate e a circulação de ideias referentes às áreas de história econômica e economia
política. A periodicidade da REPHE é semestral.

Este periódico é inteiramente diagramado em software livre.


3

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Editorial

O número 42 da Revista de Economia Política e História Econômica inicia


seu décimo quinto ano de publicação contínua, sempre em defesa da exposição,
debate e circulação de ideias em Economia Política e História Econômica.

Em consistência com a linha editorial adotada há alguns números, os doze


artigos e a resenha aqui presentes encontram-se organizados em três eixos
temáticos, a saber: (I) Economia Política Internacional, (II) História Econômica
Mundial Contemporânea, e (III) Estudos Aplicados em História Econômica do
Brasil.

Como sempre, agradecemos a colaboração e empenho de todas as


pessoas envolvidas na continuidade da publicação da REPHE, convidando à sua
leitura e reflexão.

Fátima Previdelli

Editora

Editorial

This 42th issue of the Journal of Political Economy and Economic History
begins its fifteenth year of continuous publication, always in defense of the
exposition, debate, and circulation of ideas in Political Economy and Economic
History.

Consistent with the editorial line adopted a few issues ago, the twelve articles and
reviews presented here are organized into three thematic axes, namely: (I)
International Political Economy, (II) Contemporary World Economic History, and
(III) Applied Studies in Economic History of Brazil.

As always, we appreciate the collaboration and commitment of all those


involved in continuing the publication, inviting its reading and reflection.

Fátima Previdelli

Editor
4

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Ficha Catalográfica
Revista de Economia Política e História Econômica / Grupo de
Estudos em Economia Política e História Econômica - Número
42, Ano 15, julho de 2019.

ISSN: 1807 - 2674 (versão física); 2674 – 5666 (versão online).

Semestral
5

O Capitalismo Regido Pelas Finanças e a


Grande Recessão1

Caio V. F. Vilella2

Resumo

As crises, recorrentes ao sistema capitalista, ganham força e intensidade com a preponderância das
finanças sobre as demais atividades, tornando-a capaz de alterar a lógica de funcionamento e a estratégia
dos agentes. Dessa forma, com as inovações financeiras, a finança é capaz de estender o movimento de
expansão do capital num período de boom, mas com o preço de gerar dívidas com montantes que
reduzem a eficiência do gasto governamental sobre a demanda agregada em períodos de crise. Ao passo
em que a dívida privada é transferida para dívida pública, a deflação dos ativos privados passa a ser
deflação dos títulos das dívidas públicas, colocando os países periféricos da zona do euro em um risco de
solvência após adotarem austeridade fiscal.

Palavras chave: Finance-led, Grande Recessão, Crise do Subprime, Crise do Euro.

Abstract
The crises of the capitalism became strongest and more frequently with the preponderance of finance over
other activities, making it capable of altering the operative logic of the system and the strategy of the
agents. Thus, with financial innovations, finance were able to extend the movement of capital expansion
in boom period, but with the price of generating debt with amounts that reduced the efficiency of
government spending on aggregate demand in crisis times. As private debt was transferred to public debt,
the deflation of private assets became deflation of government debt securities, putting peripheral eurozone
countries at risk of solvency after to get in fiscal austerity.

Palavras chave: Finance-led, Great Recession, Subprime Crisis, Euro Crisis.

Classificação JEL: F34; N20.

1
Artigo apresentado em 02/03/2018. Aprovado em 30/06/2018.

2
Mestre em economia pela Universidade Estadual de Campinas (IE/Unicamp). Doutorando em economia pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ).
6

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

1. INTRODUÇÃO

As crises são eventos recorrentes no capitalismo e tendem a ocorrer de forma a


eliminar o capital excedente e abrir espaço para um novo processo de expansão da acumulação.
Entretanto, desde 1936 com a publicação da Teoria Geral de Keynes, os economistas buscaram
minimizar os efeitos das crises com a expansão do gasto público visando ampliar a demanda
agregada e restabelecer o crescimento.
Com a eclosão da Grande Recessão em 2007, a eficácia dos gastos públicos para
socorrer a economia foi questionada. Assim, com a descrença da eficácia desses gastos, alguns
países passam a defender um regime de austeridade fiscal logo que a deflação dos ativos
financeiros privados foi estancada, restringindo a política econômica à uma política monetária
não discricionária. Os agentes privados com sua riqueza protegida, mudaram o foco das
políticas expansionistas que visavam o crescimento, para políticas austeras que visavam
controlar o déficit público, colocando a economia em uma segunda recessão.
O presente trabalho busca mostrar como um sistema econômico que tem as finanças
como centro motor cria uma instabilidade inerente mais acentuada, devido ao tamanho das
dívidas financeiras assumidas durante o período de boom. Logo, a hipótese a ser comprovada é
de que a política fiscal expansionista deve ser prolongada o suficiente para cobrir as dívidas
geradas pelas finanças, sendo que um regime austero não será capaz de absorver essas dívidas e
lançará a economia em uma segunda recessão.
Para isso, além dessa breve introdução, o trabalho está dividido em uma primeira
seção que trata de descrever o funcionamento de um sistema puxado pelas finanças. Uma
segunda seção que mostra como essa dinâmica acabou desencadeando em uma recessão gerada
no principal centro financeiro mundial, seguida de uma terceira seção que evidenciará a
incapacidade da austeridade fiscal em conter a crise, mergulhando a economia numa segunda
recessão. Finalmente, a última seção será a conclusiva do trabalho.

2. FINANÇAS NO CORE DO SISTEMA

A partir dos anos 1970 o processo de desregulamentação financeira se mostrou


hegemônico perante a estrutura vigente. Como apontam Mendonça e Deos (2009), os processos
das inovações financeiras, desregulação e liberalização ocorreram paralelamente e de forma
interligada. Permitindo respectivamente, a securitização dos passivos e criação de novos
instrumentos financeiros, ampliação da escala para atividades financeiras entre instituições
bancárias e não bancárias e por último, a integração entre mercados internacionais.
Assim, o capital começou a abrir caminho para se desvencilhar das amarras que o
ligavam ao setor produtivo. Pressões foram feitas no sentido da desregulamentação e
descompartimentalização dos mercados financeiros internacionais e desintermediação bancária,
com a intenção de permitir o protagonismo do capital portador de juros (aquele que é fruto de
uma valorização financeira, mas ainda tem sua origem ligada à produção) e posteriormente, sua
forma mais desenvolvida, o capital fictício (o qual tem sua origem ligada aos juros, sem passar
pela produção). Dessa forma, abriu-se caminho para valorização do capital na esfera financeira.
Onde desde então, as negociações financeiras vêm ganhando o papel central da economia
(GUTTMANN, 2016).
7

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

A dinâmica finance-led do capitalismo, descrita por Guttmman (2016), bem como o


processo de financeirização, assim chamado por Braga (1997) e Stockhammer (2012) partem da
ideia desenvolvida por Minsky (1975) tal qual “finance sets the pace for the economy”. Onde a
financeirização é um processo característico de um sistema finance-led cuja as finanças
dominam as decisões e estratégias reais da economia. Partindo das relações microeconômicas
para estudar a macroeconomia, se aproximando do que Guttman (2016) se refere como
“mesoeconomia”.
De um lado, o papel das finanças ampliou-se com a criação de holdings financeiras;
formadas por fusões e aquisições dos bancos comerciais com outras instituições financeiras,
como fundos de pensão e corretoras. Essas holdings passaram a exercer o papel de bancos de
investimentos e seguradoras, formando “Bancos Universais” (GUTTMANN, 2016)
responsáveis por gerir uma massa de riqueza de agentes privados, sem que necessariamente,
esses agentes saibam onde sua riqueza está sendo aplicada, dando origem ao processo que Braga
e Cintra (2004) se referem como “institucionalização da poupança”.
Enquanto que de outro lado, as decisões e estratégias reais da economia alteraram o
seu foco. Stockhammer (2012) aponta que o processo de financeirização faz com que os agentes
passassem a atuar como instituições financeiras, manipulando seus balanços como se estivessem
manipulando uma carteira de ativos. Mazzucato (2013), destaca que as empresas estariam muito
mais focadas em “extração de valor” do que “criação de valor”. Em outras palavras, ao invés de
investir, crescer e criar valor, passaram a voltar seus recursos para manipular seu valor de
mercado e extrair recursos financeiros.
Lazonick e O’Sullivan (2000) destacam que as empresas que antes retinham seus
lucros e os reinvestiam no sentido de ampliar a capacidade produtiva, ampliar o emprego e gerar
um ciclo virtuoso de crescimento calcado na produção, agora enfrentavam dificuldades de
manter essa estratégia de “reter e reinvestir”. Com o acirramento da competição e a crença,
dessas empresas, que o mercado seria mais eficiente do que elas próprias para alocar os
recursos, Lazonick e O’Sullivan (2000) afirmam que essas empresas tendem a abrir seu capital
para que as grandes holdings financeiras, responsáveis pela “institucionalização da poupança”,
passem a interferir nas decisões estratégicas. Agora as empresas buscam repartir boa parte dos
ganhos obtidos com os acionistas, ou até mesmo na recompra de suas ações, esperando
aumentar seu valor de mercado.
Lucros mais elevados não são revertidos em aumento do investimento, mas acabam
elevando a incerteza e a volatilidade do mercado financeiro (STOCKHAMMER, 2012). A
estratégia das empresas focou em valorizar-se no mercado financeiro e não em ampliar sua
capacidade produtiva. Fazendo com que o ritmo de crescimento das empresas e, portanto, o
ritmo da atividade econômica fosse ditado pelas finanças.
Os bancos, também devem ser incluídos nessa lógica capitalista que se insere a partir
dos anos 1970, com o acirramento da concorrência e a busca por resultados financeiros. Prates e
Farhi (2015) sugerem que a partir de um processo de desregulamentação implementado e um
histórico de baixas taxas de juros, em vez dos bancos aumentarem sua produtividade, passam a
buscar se alavancar até o limite permitido de seus balanços. Ao atingirem o ponto máximo de
alavancagem permitido, buscam novos tomadores que antes não tinham acesso ao crédito (como
no caso dos créditos de risco, conhecidos como subprime), utilizando-se de inovações
financeiras negociadas no mercado de balcão1 para burlarem a legislação e poder competir no
grande locus da competição que a praça financeira bancária tornou-se nos anos 2000.
Recapitulando, segundo Chesnais (1999), desde os anos 1970, tem início o processo
8

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

de mundialização financeira, que é completado com a desregulamentação e liberalização que


ganhou forças nos anos 1980, fazendo com que o crescimento dos ativos financeiros fosse maior
do que a formação bruta de capital fixo no período entre 1980 e 1992. Esse processo segue e
acaba por mudar a dinâmica do sistema, colocando as finanças no centro das decisões tanto de
empresas financeiras como de empresas não-financeiras.
3. A CRISE DO SUBPRIME: A PRIMEIRA RECESSÃO
Em um regime finance-led, o sistema financeiro assiste, de um lado, como apontado por
Farhi (2013) à disseminação dos derivativos aliado com a crença de que o mercado era capaz,
através dos preços, de calcular perfeitamente o risco que estava assumindo. Do outro lado, a
política de juros baixos praticadas pelo Federal Reserve (Fed) após o estouro da bolha de 2000
e os ataques terroristas de 2001, levaram os bancos a buscar novas formas de rentabilidade
financeira. Logo, um caminho encontrado foi o mercado hipotecário subprime.
Começando por essa segunda característica, os bancos aprenderam a trabalhar com seus
passivos, securitizando-os (GUTTMAN, 2016). A securitização era feita como uma forma de
burlar a regulação de Basileia e eliminar o limite de alavancagem sobre o capital próprio. Os
bancos tradicionais substituíram a velha estratégia de originar e reter pela estratégia de originar
e distribuir, onde os bancos fornecem crédito, mas repassam os riscos para outras instituições,
retirando-os de seus balanços.
Para tanto, contam com a contraparte exercida por grandes holdings financeiras para
retirar esses ativos de seus balanços, possibilitando uma alavancagem ainda maior. Para tal
tarefa surgem os SIV’s (Special Investment Vehicles), que geravam um descasamento de prazos,
trocando dívidas de longo prazo por dívidas de curto prazo, além de servirem como uma
sociedade de propósito específico criada pelos bancos para repassar esses ativos e retirá-los de
seus balanços. Na concepção desenvolvida por Prates e Farhi (2015), esse movimento deu
origem ao Shadow Banking System (SBS) - instituições altamente vulneráveis aos riscos, que
assumiam a contraparte das operações bancárias de expansão de crédito. Mas, por não serem
bancos, não contavam com o apoio nem a supervisão do banco central, nem as linhas de
redesconto e muito menos com supervisão de alavancagem.
A parte operacional começava pela emissão de crédito feita pelos bancos, que não
averiguavam a fundo a probabilidade do tomador continuar obtendo renda para honrar os
compromissos, uma vez que esse crédito logo seria assegurado por operações de crédito
estruturados feitas pelo SBS tais como o ABS (asset-baked securities), CDO (Collateralized
debt obligations) e o MBS (mortgage-baked securities) 3. Essas operações de crédito estruturado
eram montadas por agências de rating contratadas pelos bancos, de forma a diversificar o
máximo possível o risco. Dessa forma, dentro de uma mesma tranche, eram colocados seguros
de crédito fornecido para compra de carro, crédito pessoal, hipotecas, entre outros. A crença de
que esses ativos eram não correlacionados, levava os cálculos probabilidade, erroneamente,
anularem o risco desses créditos apresentarem default simultaneamente, descartando todo o
risco presente em cada uma dessas operações (AGLIETTA, 2008).
As estruturas de risco desses ativos garantiam uma remuneração “cascata”, em que as
tranches de menor risco recebiam uma remuneração menor, mas tinham prioridade no
recebimento, enquanto que as tranches de maior risco, chamadas de “lixo tóxico” seriam as
primeiras a sofrerem em caso de default (KREGEL, 2008).
Devido à origem em comum em crédito para o consumo de famílias de baixa renda,
esses créditos se mostraram altamente correlacionados e no momento em que os agentes
começaram a questionar o nível de alavancagem relativamente à renda, seja porque a dívida

3
Essas eram operações de crédito estruturado usados para repartir os riscos e tornar passivos ilíquidos de alto risco
em ativos líquidos prontos para serem negociados.
9

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

subiu e/ou porque a renda caiu, reverteram sua posição financeira frente à incerteza manifestada
e os calotes começaram a ocorrer em todas as formas de crédito, trazendo todo o risco à tona.
As unidades altamente alavancadas, encontraram-se em uma situação de liquidez mais
vulnerável do que imaginavam. Nesse momento, todas foram ao mercado se desfazer de seus
títulos, derrubando os preços e gerando um grave problema de liquidez. Pelo fato de muitas
unidades enfrentarem problema de liquidez simultaneamente, o fluxo de pagamentos das
vívidas foi interrompido, causando um problema de solvência generalizado (MENDONÇA E
DEOS, 2009).
Com o decorrer desse processo de deflação dos ativos, o Banco Central americano é
chamado a intervir no mercado e socorrer as instituições com risco de solvência. O primeiro a
ser resgatado foi o Bear Stearns em maio de 2008. Porém, o ápice da crise veio com a falência
do Lehman Brothers, em setembro do mesmo ano, que não foi socorrido pelo Federal Reserve
(FED). Mostrando toda a descompartimentalização característica de um sistema finance-led, a
falência de um banco impulsiona a deflação dos ativos e coloca em risco a solvência de algumas
outras instituições que também possuíam os ativos deflacionados em seus balanços.
Dessa forma, o Governo americano foi obrigado a intervir na economia, injetando forte
liquidez para que o crédito voltasse a circular após ser paralisado com a falência do Lehman.
Apenas a redução na taxa de juros e na taxa de redesconto não foram suficientes, para evitar
problemas de liquidez o Fed teve que atuar imediatamente após a falência do Lehman
disponibilizando um fundo de US$ 800 bilhões para instituições bancárias afetadas (FARHI,
2012).
Porém, como já mencionado, um sistema finance-led é caracterizado por uma atuação
financeira mais intensa de empresas não financeiras. Não tardou até o tesouro ter que ampliar o
fundo para que pudesse alcançar quaisquer empresas em dificuldades afetadas pela crise que
começou no lado financeiro. Tal medida foi essencial para salvar empresas não-financeiras
como Chrysler e a General Motors (FARHI, 2012). Além de ampliar o alcance, foi necessário
ampliar o tamanho do socorro, transformando dívida privada em pública. Segundo Farhi (2013,
p.120): “Os planos de resgate dos EUA atingiram US$ 7,4 trilhões, incluindo o Troubled Asset
Relief Program (US$ 700 bilhões, gerido pelo Tesouro), segundo estimativas da Bloomberg”.
Uma vez estancada a deflação dos ativos e restabelecido os ganhos financeiros, ou seja,
dada a volta do “business as usual”, as atenções se voltam para o tamanho da dívida do Estado.
Os agentes privados começaram a questionar-se diante da capacidade do governo em honrar
seus compromissos. Devido ao “privilégio exorbitante” dos EUA em serem o emissor da moeda
chave do sistema, sua capacidade de pagar as dívidas raramente é questionada, com exceção de
um impasse jurídico em 2011 que foge ao escopo desta breve discussão 4. Assim, os ataques
especulativos contra as dívidas soberanas, que em última análise tem seus preços de mercado
representados pela expectativa do mercado na solvência do país, vão ocorrer em países
periféricos mais vulneráveis ao fluxo de capital que se mostra instabilizador, dada as
características já destacadas de um sistema marcado pela dinâmica finance-led.
4. A CRISE DO EURO: SEGUNDA RECESSÃO
Entre 2007 e 2009, a crise se deflagra pelo mundo. As lições da grande depressão
pareciam ter sido aprendidas e as políticas dos países do G20 foram expansionistas e visavam a
recuperação econômica na maior parte do mundo até 2010. Contudo, essa recuperação veio de
forma lenta e a passos vagarosos, enquanto que após estancada a deflação dos ativos, a situação
fiscal começou a aparecer no radar como algo a ser acompanhado de perto pelas autoridades.
O tamanho das finanças dentro dessa nova dinâmica capitalista reduziu a eficiência
marginal do Gasto Público. Uma injeção de bilhões de dólares de gasto público, talvez tivesse
impacto maior durante as crises anteriores, mas dentro da dinâmica finance-led, esse valor não
4
Para maiores informações, ver matéria do Valor de 02 de agosto de 2011 (disponível nas referências deste trabalho).
10

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

se mostrava nem perto de cobrir somente a posição que a seguradora AIG tinha assumido no
mercado de derivativos, onde o valor nocional girava em torno de US$2,7 trilhões (FARHI,
2012).
Dessa forma, a expansão do déficit público mostrou uma aceleração maior do que a
recuperação da economia, acendendo um sinal de alerta no radar das autoridades europeias.
Entre 2010 e 2012, os EUA continuavam a praticar sua política expansionista, comprando
títulos do tesouro e jogando moeda no mercado para garantir a liquidez, enquanto o Tesouro
gastava para retomar o nível baixo de desemprego. Por outro lado, a União Europeia começava
a questionar os níveis da dívida fiscal praticada por seus membros. Com isso, a austeridade
fiscal e o equilíbrio das contas públicas tomaram o lugar central que antes era dado à retomada
do crescimento. Essa preocupação fiscal acaba mergulhando a economia europeia em uma
segunda recessão.
Com a Alemanha optando por uma política anticíclica baseada em acordos sindicais de
arrocho salarial para dar competitividade à suas exportações, os demais países da zona do euro
assistem a uma deterioração sistêmica de seus termos de troca, uma vez que a Alemanha
consegue aumentar a competitividade de seus exportados através da redução dos custos do
trabalho.
Se de um lado a Alemanha registrou superávits em conta corrente, do outro, países da
periferia do euro fizeram a contraparte ao registrarem déficits sistêmicos em conta corrente. Se
os países tivessem uma moeda soberana estariam em uma crise cambial tal qual Rússia, México
e Brasil nos anos 1990. Mas, por fazerem parte da União Europeia, esses países não podiam
desvalorizar sua moeda relativamente ao país superavitário. A alternativa que resta, apesar de
não ser prontamente adotada pelos países, era fazer um ajuste interno reduzindo a atividade
econômica e impactando negativamente nas importações a fim de melhorar o saldo comercial
(FARHI, 2012). Dessa forma, o que seria uma crise cambial, se manifesta como uma crise de
solvência financeira depois da contração econômica.
No gráfico 1 é possível verificar que o gasto público, tomado como percentagem do PIB
que vinha crescendo gradativamente desde o início do século, acelerando no imediato pós-crise,
mas permanecendo estável, quando não decrescendo, após 2010:
11

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Gráfico 1 – Gasto Público como percentagem do PIB


200%
180%
160%
140%
120% Alemanha
Grécia
100%
Irlanda
80% Itália
60% Portugal
40% Espanha

20%
0%
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 0 1 2 3 4
0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 1 1 1 1
0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0
2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2

Fonte: OECD Elaboração própria


Entretanto, o controle do gasto público durante o período 2010-2012 não se mostra
condizente com o crescimento da dívida pública como percentagem do PIB, como aponta o
gráfico dois.
Gráfico 2 – Dívida Pública como percentagem do PIB

Fonte: OECD Elaboração própria


A Alemanha se mostra um caso isolado da União Europeia, por conta das políticas
adotadas já mencionadas acima que permitiram com que ela não experimentasse uma retração
do nível de emprego no imediato pós-crise.
A Irlanda, em partes também se mostra um caso particular por ter aprovado uma lei se
comprometendo a usar de política fiscal para resgatar os bancos em dificuldades, de tal forma
que o gasto público alcançou 65% do PIB em 2010 com o socorro aos bancos.
Os casos da Grécia, Itália, Portugal, Espanha e em um menor grau a Irlanda (formando
um grupo de países que ficou conhecido como GIIPS), são próximos um dos outros e típicos de
12

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

economias periféricas de um sistema caracterizado pela dinâmica finance-led e pelo processo de


financeirização.
Pelo fato do Banco Central Europeu não funcionar como emprestador de última
instância, foi criado um fundo de socorro às economias europeias com problemas de solvência
da dívida. Na prática, esse fundo concedia empréstimos para que as dívidas fossem roladas em
troca de um ajuste fiscal que fosse capaz de dominar a dívida pública. Entretanto, ao promover
o ajuste fiscal reduzia-se a atividade econômica e, consequentemente, a arrecadação,
aumentando o risco da dívida do país calculado pelas agências de rating. Com isso, o mercado
financeiro passa a exigir uma compensação com aumento dos juros pagos nos títulos,
aumentando assim, o fluxo de pagamento da dívida, provocando um déficit maior.
Nas figuras 1 e 2 a seguir, é possível ver a taxa de juros atreladas ao pagamento dos
títulos da dívida Grega e Italiana, respectivamente:
Figura 1 – Juros do título da dívida Grega

Fonte: http://www.tradingeconomics.com/greece/government-bond-yield
Figura 2 – Juros do título da dívida Italiana

Fonte: http://www.tradingeconomics.com/italy/government-bond-yield
É possível ver nitidamente o efeito das políticas austeras praticadas entre 2010 e 2012
na taxa de juros dos títulos gregos e italianos. As taxas de juros mais elevadas refletem um
aumento do risco da dívida pública desses países. A agência de classificação de risco Moody’s
atribuía uma nota A3 para os títulos gregos em abril de 2010, após anos de políticas austeras,
reavaliou sua classificação para C em março de 2012. Essa mesma agência rebaixou a nota do
título italiano de Aa2 em junho de 2011 para Baa2 em apenas 13 meses de políticas austeras.
13

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Por sua vez, os rebaixamentos da classificação de risco que em partes reflete o aumento
da taxa de juros destes títulos, também é responsável por reduzir o preço destes títulos no
mercado secundário.
Não obstante, ao se depararem com uma desvalorização dos títulos que estão em sua
carteira, os agentes internacionais vão ao mercado se desfazer desses títulos que estão
deflacionando para recompor sua carteira com títulos dos países centrais, considerados mais
seguros e líquidos.
Finalmente, não demorou até que essa corrida para se desfazer dos títulos públicos
desses países se generalizasse e acabasse deflacionando o ativo daquele país no mercado
internacional tal como um processo de deflação de ativos descrito por Fisher (1933), porém, em
vez de ser uma empresa, era um país que estava no alvo da especulação.

5. CONCLUSÃO
Portanto, a Grande Recessão pode ser dividida em uma primeira recessão gerada pelas
inovações financeiras que prometiam quantificar o risco de forma que o agente pudesse calcular,
diversificando-o na mão de diversos pequenos agentes, mas que na prática, acabaram
camuflando o risco e o concentrando na mão de grandes instituições que quando não eram
grandes demais para falir, se mostravam interconectadas demais para falir (AGLIETTA, 2008).
Seguida de uma segunda recessão, onde após a deflação dos ativos privados ser estancada, a
prioridade que era dada ao crescimento, passa para o controle da dívida pública, gerando um
ciclo vicioso de deflação dos ativos públicos e desconfiança dos agentes na capacidade dos
governos honrarem seus compromissos.
Finalmente, pode-se concluir que esse sistema econômico com as finanças dominando
as decisões e estratégia dos atores econômicos, levou à uma recessão puxada pelas inovações
financeiras que permitiram um nível de alavancagem tão alto que acabou reduzindo a eficiência
marginal do gasto público, obrigando o governo a fazer um esforço fiscal muito maior para
impulsionar o crescimento. Enquanto que os países que optaram por focar no controle da dívida
promovendo a austeridade fiscal, acabaram entrando em uma segunda recessão que ainda não
mostrou seu fim.
14

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

REFERÊNCIAS

AGLIETTA, Michel et al. Understanding the structured credit crisis. La Lettre du CEPII, n. 275,
2008.
BRAGA, José Carlos. Crise sistêmica da financeirização e a incerteza das mudanças. Estudos
Avançados, v. 23, n. 65, p. 89-102, 2009.

BRAGA, José Carlos. Economia política da dinâmica capitalista – Observações para uma proposta
de organização teórica. Estudos Econômicos, v.26 (número especial), p.83-133, 1996.

BRAGA, José Carlos. Financeirização global: o padrão sistêmico de riqueza do capitalismo


contemporâneo. In: Tavares, Maria da Conceição; Fiori, José Luis Poder e dinheiro: uma economia
política da globalização. Petrópolis: Vozes, p. 195-242, 1997.

BRAGA, José Carlos de S.; CINTRA, Marcos AM. Finanças Dolarizadas e Capital Financeiro:
Exasperação Sob Comando Americano. In: FIORI, J. L. O poder americano. Petrópolis: Editora
Vozes, p. 253-307, 2004.

CHESNAIS, François. A mundialização financeira: gênese, custos e riscos. São Paulo: Xamã, v. 107,
1999.

DOW JONES. Plano da dívida dos EUA gera temor de maior desaceleração global. Valor
Econômico, Nova York, 02 ago. 2011. Caderno Internacional Disponível em <
http://www.valor.com.br/internacional/970920/plano-da-divida-dos-eua-gera-temor-de-maior-
desaceleracao-global> Acesso em: 03 dez. 2016.

FARHI, Maryse. A Crise e as inovações financeiras. In: Aloísio Sérgio Barroso; Renildo Souza.
(Org.). A grande crise capitalista global 2007-2013: gênese, conexões e tendências. 1ed.São Paulo:
Editora Anita Garibaldi e a Fundação Maurício Grabois, p. 35-75, 2013.

FARHI, Maryse. A crise e os dilemas da política econômica. ENCONTRO INTERNACIONAL DA


ASSOCIAÇÃO KEYNESIANA BRASILEIRA, v. 5, 2012.
FISHER, Irving. The debt-deflation theory of great depressions. Econometrica: Journal of the
Econometric Society, p. 337-357, 1933.

GUTTMANN, Robert. Finance-Led Capitalism: Shadow Banking, Re-Regulation, and the Future of
Global Markets. Springer, 2016.

GUTTMANN, Robert. Uma Introdução ao Capitalismo Dirigido Pelas Finanças. Novos Estudos-
CEBRAP, n. 82, p. 11-33, 2008.

HELLEINER, Eric. States and the Reemergence of Global Finance: from Bretton Woods to the
1990s. Cornell University Press, 1996.

KEYNES, John Maynard. General Theory of Employment, Interest and Money. London: Macmillan,
1936.
KREGEL, J. Minsky's ‘Cushions of Safety', Systemic Risk and the Crisis in the Subprime Mortgage
Market. Finance & Bien Commun, V.31, N.2, p.51-59, 2008.

LAZONICK, William; O'SULLIVAN, Mary. Maximizing shareholder value: a new ideology for
corporate governance. Economy and society, v. 29, n. 1, p. 13-35, 2000.

MAZZUCATO, Mariana. Financing Innovation: Creative Destruction vs. Destructive Creation.


Industrial and Corporate Change, v.22, n.4, p. 851-867, 2013.
15

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

MENDONÇA, Ana Rosa Ribeiro de; DEOS, Simone de. Crisis in the financial regulation of finance-
led capitalism: a minskyan analysis. Revue de la Régulation, Paris, 2009.

MINSKY, Hyman P. John Maynard Keynes. New York: Columbia University Press, 1975.

PRATES, Daniela M.; FARHI, Maryse. The shadow banking system and the new phase of the
money manager capitalism. Journal of Post Keynesian Economics, v. 37, n. 4, p. 568-589, 2015.

STOCKHAMMER, Engelbert. Financialization, income distribution and the crisis. Investigación


económica, p. 39-70, 2012.
16

Desafios éticos contemporâneos das


economias de mercado1
Alexandre Lyra Martins2

Resumo

O objetivo deste trabalho é discutir os desafios éticos de natureza econômica aos quais as sociedades
ocidentais modernas se colocam ao escolher um projeto político de certa orientação econômica para o
governo. Para isso recorre-se às concepções éticas das escolas referenciais do pensamento econômico,
que, como regra, fundamentam os projetos políticos mais frequentemente nos governos das economias de
mercado. O trabalho constata que, apesar de uma confluência em alguns pontos, os desafios éticos se
distinguem, indo do aprofundamento dos valores do mercado ao encaminhamento de formas de
acompanhamento da gestão de grandes empresas.

Palavras-chave: Ética, Economia, Mercados, Empresas, Negócios.

Abstract
The objective of this paper is discuss the ethical economic challenges of the modern western societies,
which are placed when choosing a political project of some economic orientation to the government. In
order to do this, we have recourse to the ethical conceptions of the reference schools of economic thought,
which, as a rule, are the basis of the most present political projects in the governments of the market
economies. The work shows that, despite a confluence in some points, the ethical challenges are
distinguished, from the deepening of market values to the referral of ways of monitoring the management
of large companies.

Keywords: Ethics, Economics, Markets, Enterprises, Business.

Classificação JEL: K12; L21.

1
Artigo apresentado em 01/08/2018. Aprovado em 11/08/2018.

2
Doutor em Economia pela Universidade Técnica de Lisboa. Professor associado da Universidade Federal da Paraíba
(UFPB).
17

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

A ética econômica foi por muito tempo tema pouco abordado na discussão teórico-
científica de economia e na estrutura curricular acadêmica dos cursos de ciências econômicas no
Brasil e no mundo, porém a situação tem mudado. O nascimento da ciência econômica está
ligado às questões éticas, uma vez que Adam Smith escreveu uma obra teórica referencial sobre
o assunto, a Teoria dos sentimentos morais (adiante denominada TSM), que antecedeu e
forneceu alguns fundamentos para a construção de seu livro fundador da ciência econômica: A
riqueza das nações3. Depois disso, o paradigma neoclássico trilhou caminhos que, na maior
parte das vezes, relegou a ética a um segundo plano ou abandonou esse elemento da construção
teórica, contudo, mais recentemente os estudos sobre ética e economia nessa vertente foram
retomados, principalmente a partir da consagração do trabalho de Amartya Sen.

Do outro lado do arco teórico, esforços têm sido realizados no sentido de explicitar e
revelar elementos éticos na obra marxiana, que diferentemente de Smith, não mostra referências
diretas sobre a questão em seus textos, como atestam Cunha e Dias (2016) e Quiniou (2012).
Partindo da crítica aos clássicos4, os estudos sobre a ética em Marx se baseiam em dois livros
em que há alguns elementos relacionados: A ideologia alemã e o Para a crítica da economia
política. Na sequência cronológica, após Sen, Galbraith (2004) se destaca nos estudos
posteriores de Keynes desenvolvendo uma teoria ética inspirada na contribuição keynesiana,
investigando problemas éticos associados ao capitalismo do século XX. Essa retomada dos
estudos sobre a ética econômica fornece substrato para discussões diversas, e aqui, em
particular, se pretende discutir quais seriam os desafios éticos das economias mercantis nas
sociedades ocidentais no limiar do século XXI, a partir das referências teóricas econômicas
supracitadas, que fundamentam os projetos políticos que ascendem ao poder.

A liberdade está presente nos mercados e democracias modernas em algum grau e os


cidadãos escolhem representantes que irão gerir a vida social e econômica, revelando intenções
de aperfeiçoamento do convívio social que significam o aprofundamento de valores
referenciais, o que sempre representa um desafio perante a moral predominante e de grupos que
divergem desses valores. Esses avanços pretendidos podem ser relativamente pequenos, se as
pretensões estiverem próximas dos valores já praticados, como é o caso frequente em
economias mais desenvolvidas, homogêneas e bem resolvidas em relação a seus valores
(precisam de melhorias pontuais), ou podem representar um salto qualitativo significativo se
estiverem distantes dos valores praticados, situação comum em economias periféricas, quando
os projetos políticos geralmente se distanciam da realidade e exigem grandes mudanças
comportamentais e de hábito da população em geral.

As opções políticas são também alternativas de projetos econômicos para a sociedade,


que vão desde os mais liberais aos mais intervencionistas, tendo por referência as escolas de
pensamento econômico mais consagradas no meio acadêmico de economia, assim, inicialmente
são apresentados aqui, sinteticamente, os elementos éticos centrais das teorias clássica,
marxiana, neoclássica e pós keynesiana (a partir dos originais de seus autores fundadores e da
literatura especializada), para daí inferir os desafios éticos dos projetos políticos inspirados
nelas. Trata-se de uma discussão teórica em torno das diferenças das concepções éticas em
questão e sua repercussão, na forma de avanços pretendidos no padrão da moral econômica
predominante na sociedade. Além disso o trabalho investiga pontos de resistência das
sociedades de mercado, também decorrentes da moral predominante, em relação aos respectivos

3
Ainda que haja algum debate, tem prevalecido a tese da complementariedade entre essas duas obras
referenciais, como atestam Bianchi (1988, 104-106), Feijó (2007, 114) e Passos (2006).

4
Nesse caso, em particular, a Smith, devido à sua contribuição na área discutida.
18

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

paradigmas, que venham a obstacular a aceitação de projetos políticos a eles vinculados,


levando em conta a experiência histórica mais recente.

1. Os sentimentos, a simpatia e a razão.

Antes de ser reconhecido como o fundador da ciência econômica, Adam Smith já era
um filósofo moral relativamente reconhecido como tal. Acadêmico, discutiu ideias com outros
filósofos como Voltaire e Hume, se posicionando ao lado desses e de Locke na defesa da
sociedade constituída a partir da liberdade individual, em oposição a Hobbes, que acreditava
mais na força do caráter desagregador da liberdade, gerando uma sociedade cheia de conflitos
em torno dos interesses particulares, e que, por consequência, seu marco fundador deveria ser o
próprio Estado, a partir de leis que garantiriam a convivência social de diferentes interesses.
Tanto Smith se alinhava com esses pensadores que os princípios fundamentais do iluminismo 5
também são seus fundamentos, norte das ideias que veio a desenvolver sobre ética e,
posteriormente, sobre economia, tendo como um de seus principais pontos de partida a crítica à
fábula das abelhas, poema marco de Mandeville (2018), para os estudos posteriores na área, do
que pode ser denominado de egoísmo ético (Fonseca, 1993, 134).

A força da fábula das abelhas reside em boa parte na criatividade do autor e na forma
como executou bem sua inusitada ideia de uma fábula para falar da prosperidade da economia
mercantil ironicamente. Smith simpatizou com a estória das abelhas, porém detectou algo
equivocado na leitura da moral reinante. Para ele, o problema central de Mandeville foi associar
toda ação humana motivada pela vantagem econômica ao vício, à corrompção, sempre imbuída
de má fé, algo ligado aos pecados capitais; a ganância, a avareza, a gula, etc. Smith percebeu
que ele não teve o cuidado de qualificar as paixões, o que traria implicações distintas. A
ganância ou qualquer outro desejo humano pode ser levado para lados opostos, para direções
antagônicas no campo da moral, acarretando em consequências de igual rumo. Podem ser
negativas, se houver uma perda do controle ou se o que as mover for a má fé, e assim também
seriam seus frutos, improdutivos, resultando em prejuízo social de alguém ou de algum grupo,
por outro lado podem ser positivas, quando, mesmo não havendo uma boa intenção direta (a
vontade do produtor no mercado é beneficiar a si próprio), o indivíduo deixa um benefício às
pessoas, caracterizando uma boa intenção indireta, que gera reconhecimento social. A ganância
do produtor, portanto, é diferente da ganância do ladrão ou do fraudador, é positiva porque gera
empregos, bens e serviços para consumo das pessoas, configurando-se numa virtude, mas pode
ser negativa se no próprio ato de produzir, for desvirtuada, trapaceando a concorrência para
obter preços mais baixos (adotando qualquer recurso ilícito, como por exemplo, trabalho
escravo) ou mais altos (se o objetivo for suprimir a concorrência). Trata-se de mercados livres,
mas tendo a própria liberdade por referência, os jogadores têm limites relacionados a ela, assim,
só uma disputa leal seria eticamente justa e garantiria os resultados esperados pela sociedade
para essa forma de organizar a produção e a circulação de mercadorias. Já no âmbito do setor
público, quem se candidata a algum emprego deve estar compromissado com o interesse
coletivo e servir bem aos demandantes daquele serviço, com interesse financeiro restrito ao
salário que vai receber pelo cargo.

O provocador holandês (Mandeville) queria criticar uma certa neurose da sociedade


mercantil, que a ele parecia não se resolver em sua pequenez cotidiana, deixando de lado
valores maiores, relacionados à alma, para se entregar à busca desmesurada pelo ganho. Smith
porém, diz que na sua generalização esse autor não percebe que o coletivo aprova certas atitudes
e desaprova outras na procura pelo enriquecimento, e que há um critério claro nesse julgamento.
As pessoas comuns sabem diferenciar o que é o desejo geral; fruto do desejo puro e simples
(independente de seu conteúdo moral), do desejo moralmente condenável (porque nocivo a
alguém) e do desejo moralmente meritório, ou simplesmente o desejável; as ações individuais

5
Os fundamentos filosóficos do iluminismo são sintetizados e discutidos em Rouanet (1992).
19

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

mais específicas que geram benefícios para si e para a coletividade. As sociedades estabelecem
consensos em torno dos valores que consideram positivos, desejáveis, no caso da economia
mercantil, principalmente em torno do enriquecimento através da produção, ao mesmo tempo
em que rejeita a riqueza obtida por meios desvirtuados. Smith afirma que uma economia de
livre mercado é formada a partir da identidade com o outro, que é estabelecida com base nos
benefícios do convívio social e econômico alcançados a partir das inciativas individuais. Esta é
a ideia central da TSM: no convívio social são reforçados os laços sociais por meio das
afinidades morais entre os participantes, ou seja, através da simpatia, e esses são repassados às
gerações futuras por meio de reprodução de valores positivos dentro dos ambientes sociais e
familiares, onde a afinidade é natural como regra, já que a família é o esteio emocional e
econômico dos indivíduos.

As avaliações éticas cotidianas são realizadas através de mecanismos conscientes e


inconscientes de um ‘eu’ avaliador que convive dentro de cada um com o indivíduo
propriamente dito. Smith divide o indivíduo em dois e cria a figura teórica de um outro ser
crítico, correspondente à consciência moral, que ajuda a pessoa a tomar as decisões corretas,
pois funciona como um avaliador externo, que consegue julgar imparcialmente pessoas e
situações. Esse segundo eu é denominado juiz. Só um avaliador externo tem a distância
suficiente para realizar um julgamento imparcial, que é feito muitas vezes automaticamente,
porque é baseado nos valores mais caros e introjetados, mas o resultado do julgamento, a
decisão, é consciente, e explicita esses valores:

Fechando a TSM, aparecem os sentimentos como elemento central, a base das decisões
acerca do que é certo ou errado, em função do que as ações provocam no indivíduo: um bem-
estar ou mal-estar. O racional é mediado pelo sentimento (o hedonismo é uma das bases da
razão no iluminismo), a reação humana às próprias atitudes e às de terceiros passa pelas
conexões nervosas e cerebrais, mas a resposta decorre do padrão moral construído, formado a
partir do que se sente em relação a elas. Note-se que a razão humana é marco crucial da
construção iluminista, que anuncia a evolução do homem racional ao perceber que pode separar
o divino da vontade humana, inaugurando uma capacidade de discernimento que lhe permitirá
conviver com a liberdade, gerando desenvolvimento científico e social, mas ela é instrumento a
partir do qual os sentimentos fluem e definem os juízos morais 6.

Em síntese, pode-se dizer que, aplicando os princípios da TSM no mundo econômico, o


que sobressai é a ética do trabalho, da produção, aquela que gera o benefício esperado por todos
(bens e serviços), o retorno coletivo do esforço individual despendido. A economia de mercado
é baseada na socialização do trabalho, é a divisão do trabalho que permite os ganhos de
produção e produtividade que transformam a realidade econômica de até então. Esta categoria
acima de qualquer outra tem a simpatia das pessoas e, consequentemente, qualquer outro meio
de obter as coisas ou de procurar se manter diferente deve ser evitada pela sociedade. A
ideologia feudal é superada para construir o capitalismo, a ética paternalista cristã é substituída
pela ética protestante, que aceita o bem-estar material, admitindo o enriquecimento pelo
trabalho, por exemplo, e o próprio capital financeiro como algo desejável por possibilitar a
expansão dos negócios, democratizando o crescimento para agentes descapitalizados 7.

A ética do trabalho é o reconhecimento social a qualquer tipo de trabalho, ainda que


posteriormente na Riqueza das nações Smith vá fazer restrições pontuais a algumas categorias 8,
mas aqui se supera o reconhecimento específico para a aceitação de qualquer tipo de trabalho na

6
Cerqueira (2006) faz uma breve exposição acerca da discussão entre racionalistas e empiristas, reforçando o aspecto
deontológico da concepção smithiana, em que as percepções morais são definidas a partir dos sentimentos.

7
Papel que no capitalismo moderno do século XX várias vezes foi desvirtuado para proporcionar o enriquecimento
fraudulento de agentes financeiros em grandes crises.
20

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

formação do valor, incluindo aí a atividade empresarial, pois sem esta não teríamos a economia
de mercado nem a própria divisão do trabalho, de forma que seu papel é crucial para o
estabelecimento do novo paradigma de produção.

1.1. Ética clássica X liberdades do mercado

Por este paradigma, a sociedade e a economia liberais são fundadas no indivíduo que
defende o valor fundamental da liberdade e assim, prevalece a vontade da maioria que segue as
virtudes e condena os vícios, persegue os valores construtivos e deplora os destrutivos. As
pessoas são capazes de separar o mérito das ações e valorizar as ações virtuosas, as que geram
benefícios a terceiros, um parâmetro que tende a ser reproduzido, copiado, bem como a antipatia
a atitudes fraudulentas ou trapaceiras. Ainda que Smith tenha uma percepção histórica de sua
época, entretanto, ele enxerga apenas valores positivos na realidade, os quais procura explicar,
mas a capacidade de discernimento necessária dos agentes reflete isso, numa percepção parcial
do mercado. Tudo que é do mercado leva a melhoria, sua ausência resulta em privações
materiais, e daí o mercado precisa ser desenvolvido, por meio do exercício da liberdade, para se
alcançar maior produção e produtividade. Esta ausência de uma dimensão crítica, estreita e
diminui o desafio do paradigma, mas ele ainda existe.

O princípio da liberdade exige a prática da liberalidade, a maturidade para admitir a


diversidade, a possibilidade de parâmetros distintos e legítimos para o livre arbítrio, de modo a
não julgar comportamentos e atitudes heterodoxos que não afetem os demais por preconceitos
morais. O desafio fundamental da ética liberal clássica coloca, entretanto, é a garantia de uma
ampla liberdade ao mercado, o que significa remover restrições quaisquer à oferta e a demanda.
A história registra dois capítulos sobre esse ponto desde a origem da economia mercantil, sendo
o primeiro o término da escravidão, com elevada resistência nas sociedades de mercado em que
foi praticada. A força do conservadorismo, que aflora como uma característica humana
frequente em grupos sociais, particularmente por meio da questão religiosa, dificulta a
disseminação de novos valores e até revela uma contradição no interior do sistema e a doutrina
iluminista, pois muitas vezes há uma afronta aos princípios fundadores da separação e
superioridade da razão humana em relação à ‘motivação’ divina, no que diz respeito à
organização da sociedade9. Há uma solução mais geral em termos da adequação ao parâmetro
mercantil quando a reforma protestante é indicada como caminho para as economias de
mercado, a riqueza espiritual já pode ser acompanhada da riqueza material sem conflitos, porém
a moral religiosa continua a gerar tensões pontuais com seu espírito conservador continuando a
se manifestar nessa e em outras igrejas.

Em verdade, este primeiro desafio ético relacionado ao principio crucial da liberdade foi
resolvido de forma absoluta, uma vez que a escravidão histórica foi abolida como valor de
forma consensual, para, entretanto, ser substituída por sua relativização, a escravidão moderna,
modalidade praticada com alguma frequência por grandes grupos que cruzam fronteiras a
procura de economias frágeis dispostas a ofertarem trabalho em condições próximas à
escravidão, com sub remuneração, elevadas jornadas de trabalho e ambiente de trabalho
precário.

O segundo capítulo é a ameaça da liberdade por parte dos próprios homens de negócio.
Smith já atentava para o perigo das associações de produtores, que visam aumentar preço e
lucro por mecanismos de controle de mercado. O atentado à liberdade pode, portanto, partir dos
que, teoricamente, seriam os maiores interessados na defesa da liberdade como principal regra
do jogo econômico, quando incorrem em recaídas a protecionismos ou cartelizações. Smith vê
8
Trata-se da discussão sobre a produtividade dos tipos de trabalho, ponto em que havia divergências entre os
economistas clássicos e onde Malthus se destacou por perceber que serviços poderiam ser produtivos.

9
Conforme Buarque (2007, 22) e Rouanet (1992, 150).
21

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

que valores menores podem se sobrepor ao valor ético maior em nome da garantia de um lucro
maior ou da manutenção de costumes morais anacrônicos, e aqui volta o desafio ético maior do
mercado: insistir e aprofundar o ideal da liberdade perante as tentativas de reduzi-la, para que os
problemas econômicos da humanidade sejam resolvidos, senão, ao menos encaminhados. Este
capítulo também não foi resolvido plenamente com uma mudança geral da moral nesse sentido,
de forma que paira sobre o sistema a sombra de cartéis e mecanismos outros para aumentar
lucros superando a concorrência, que são encaminhados caso a caso, quando descobertos.

Do ponto de vista de suas dificuldades operacionais, o parâmetro smithiano não teria


desgaste frente à sociedade na contemporaneidade, uma vez que sempre esteve ladeado de uma
concepção ética10, tanto que foi retomado como referência por autores contemporâneos para
discussão da ética liberal11. O problema está na sua incompletude, uma vez que sua leitura ética
foi superada pelas crises econômicas do século XX, tornando necessário acrescentar elementos
para comtemplar uma agenda social ocidental pós grandes crises, incorporando nessa
atualização, sempre em termos mínimos (para manter a coerência do raciocínio), uma regulação
dos mercados, delineando e oficializando a moral econômica liberal predominante, e uma
concepção de desenvolvimento humano sustentável (tendo em vista a relevância recente do
tema), que, entretanto, ainda não foram construídas. É relevante lembrar que na normatização
do mercado baseado na concepção teórica smithiana, a ética do trabalho deve ser parâmetro
principal, posto o papel central que esta ocupa em sua construção de economia e sociedade.

2. Os valores segundo Marx

Se para os liberais a distribuição da renda é resolvida da melhor forma pelo mercado,


que, por seus mecanismos, aperfeiçoa a produção, distribuindo benefícios de forma desigual em
função do mérito produtivo de cada um, para Marx, essa desigualdade tem outras explicações,
que chegam à exploração dos trabalhadores e à apropriação indevida da riqueza pelos
capitalistas. Aqui, portanto, a questão ética central das economias de mercado é a concentração
da riqueza de forma ilegítima nas mãos de poucos, enquanto a maioria recebe apenas o
suficiente para a sobrevivência. Cabem inicialmente duas observações, uma primeira de ordem
histórica: a discussão é contextualizada historicamente no capitalismo, mas este não é o único
sistema a conviver com pobreza, só o comunismo primitivo não apresentaria esta característica,
o problema do capitalismo é ter exponenciado a produção (apropriada por poucos) e ao mesmo
tempo deixar os trabalhadores despossuídos de suas poucas posses. Depois cabe uma segunda
observação de ordem teórico-conceitual: discutir ética é discutir valores, o que parece
secundário ou incompatível com a metodologia materialista, porém, como adverte Quiniou
(2017), trata-se de um problema aparente, posta a importância que o próprio autor confere a
essas categorias, que pode ser constatada naquilo que o próprio Marx (1986, 25) denominou do
“resultado geral a que cheguei...”, que servirá de referência central para as colocações que
seguem nesta investigação.

A metodologia marxiana acarreta diferenças substanciais na investigação, inclusive na


definição do parâmetro da racionalidade. Nesta distinta concepção, é incorreto tomar um
indivíduo autônomo, soberano em suas decisões, como ponto de partida da investigação, pois
“Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social
que determina sua consciência” (Marx, 1986, 25). O homem imaginado pelos clássicos é senhor
de seus valores, tem livre arbítrio em suas escolhas, mas para Marx, a importância dos valores
individuais diminui e a eles se sobrepõem os valores sociais. Só dessa forma o conteúdo da
mercadoria se revela, conferindo outro significado à liberdade, na medida em que, por exemplo,

10
No qual as virtudes são a base da construção do projeto social, e as armadilhas da natureza humana são alertadas
para serem enfrentadas.

11
Ver Fonseca (1993), Sen (1999), e Silva (2007).
22

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

na decisão de aquisição de uma mercadoria não importa se vai escolher entre a loja A ou B, mas
sim se o consumo é final ou produtivo, e que a mobilidade social é mais ideológica, pois é
mínima, do que real. Os valores individuais são aparência, são o que o sistema mostra, mas se
forem retiradas as máscaras para ver o que sustenta essas aparências, chega-se à essência,
determinações sociais maiores, muitas vezes imperceptíveis ao olhar do investigador liberal; ele
próprio investido de valores morais do sistema em que habita. Por esta perspectiva crítica, não é
possível compreender o homem dissociado de seu contexto histórico e social, determinante do
conjunto de valores mais significativos para compreensão do conjunto e do indivíduo.

De acordo com a concepção marxiana, a maior parte dos valores individuais,


notadamente os mais importantes, são valores da sociedade, gerados por um grupo social mais
específico, necessários para a integração social. No trecho do livro citado no parágrafo anterior,
Marx defende essa tese para complementar outra maior, a ideia de que na dinâmica entre a
superestrutura composta pelos valores sociais e a estrutura econômica que sustenta a primeira
fornecendo a produção material para a sociedade, o conjunto dos valores sociais guarda relação
direta com os valores econômicos e daí a classe social dominante na atividade produtiva
manipula os valores sociais para garantir a reprodução do sistema, qualquer que seja ele. Os
anseios e aspirações individuais e da população são, segundo Marx, guiados por meio da
ideologia dominante, que, no capitalismo, estimula o consumo, a ascensão econômica por meio
da livre iniciativa e outros valores que impulsionam o sistema. O livre arbítrio é embaçado por
um perfil de educação formal que apoia o sistema social e econômico em vigor e por uma rede
de informações dispersas na sociedade (mídia privada e mercado publicitário). O consumo das
coisas, por exemplo, não é uma decisão autônoma nem crítica, as pessoas são estimuladas a
adquirir o maior número de mercadorias na medida em que isso proporciona, de um lado, maior
lucratividade às empresas e, de outro, para além da satisfação e saciedade, maior status social e
econômico ao consumidor. A mudança no nível da qualidade das mercadorias ocorre quando
exaurem as possibilidades do nível anterior de renda, assim, o objetivo central do sistema, o de
expandir a acumulação de capital será sempre alimentado e o sistema se reproduz com firmeza.

As mercadorias aparecem no capitalismo com uma força maior que sua objetividade
confere, como algo mágico, porque o trabalhador foi separado dos meios de produção,
desapropriado, passando a atuar apenas parcialmente no processo de trabalho, num setor
específico da fábrica, isso quando trabalha numa fábrica, pois quando trabalha em outro setor da
economia seu distanciamento é ainda maior. A divisão do trabalho no capitalismo faz com que o
trabalhador não domine mais o ofício como um todo, não sendo capaz de compreender mais a
mercadoria como resultado de seu processo de trabalho, daí as mercadorias começam a exercer
um maior fascínio nos homens e esses fazem de tudo para tê-las como símbolo de status e
poder. O processo de trabalho já não importa mais, o que é valorizado é o fim, apenas o
resultado do processo, a posse dos objetos. De outro lado, a classe dominante é também
submissa ao capital e seu ímpeto inerente de acumular, não tem alternativas e termina
coisificada no processo, servindo obediente à lógica do capital sem possibilidade, por exemplo,
de alterar os parâmetros de exploração; que são dados pelo mercado. Resta apenas continuar
acumulando e consumindo coisas, contribuindo com o sistema, sem se importar com a distância
crescente com a classe que move o processo produtivo. Trata-se dos movimentos de coisificação
das pessoas e personificação das coisas decorrente do fetiche das mercadorias.

Disto se conclui que todos são submetidos à dinâmica do capital e, portanto, a ética
seria do sistema, do capital, e não do capitalista. Marx fala em interesses das classes, opostos,
mas o que foi começado pela iniciativa do capitalista, com o processo de acumulação, se perde
o controle e esse passa para o capital, tornando o capitalista passageiro, apenas representante da
ética do sistema, sua personificação. O lucro aparece como núcleo central do modo de produção
baseado na relação capital/trabalho, a relação de exploração que sustenta a produção de mais-
valia (o trabalho não remunerado apropriado pelo capitalista) e o questionamento ético principal
da economia política marxiana emerge: a distribuição de renda. Diferentemente dos clássicos,
23

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

por essa abordagem não seria possível reconhecer a legitimidade do lucro, uma vez que ele e o
capital são resultados, em última instância, de apropriação indevida de remuneração não paga
aos trabalhadores, acobertada por toda a complexa superestrutura. Nesse processo, todos são
servos do capital, porém, os capitalistas ficam com os bônus e o trabalhador com o ônus.

Os problemas começam aí e se desdobram em dimensões diversas. Se há a formação e


concentração da riqueza numa classe, como corolário se monta todo um aparato ideológico para
apresentar e enaltecer os valores do sistema, a alma da superestrutura que se ergue acima da
estrutura produtiva. O principal instrumento para isso é o Estado, aquele que, para os clássicos,
deveria ser neutro e zelar pelo interesse da liberdade e do público, intervindo em favor da
população e intermediando o conflito social. Marx coloca que o Estado é invadido pela classe
dominante, que elege governantes e representantes para elaborar e promulgar leis de seu
interesse, viabilizar contratos, obras, etc, e assim o capital constrói um mundo de produção real
de mercadorias e um mundo de ideias e valores em torno delas, reforçando a iniciativa privada e
o acúmulo de capital.

2.1. Superando a lógica do capital

Os problemas éticos da economia capitalista, de acordo com a visão marxista, decorrem


de sua própria lógica: o processo de exploração do trabalho pelo capital. Aquilo que começou
como vontade humana se deslocou para outra esfera em que as determinações seriam superiores
a essa. A lógica da acumulação de capital se impõe e resulta num comportamento desumano do
capitalista, se preocupando apenas com os resultados da empresa e não com o bem-estar dos
empregados e conservação da natureza. O processo histórico mostra a busca pela maior
exploração dos trabalhadores e seus mecanismos, seja por meio da extensão ou intensificação da
jornada de trabalho, ou pela eliminação gradativa do trabalhador da linha de produção,
diminuindo relativamente a parte que lhes cabe na renda final. A distribuição da produção seria
o problema ético maior do sistema e esta perspectiva crítica detém forte apelo porque diz
respeito a uma marginalização percebida por grande parte da sociedade, que se identifica com a
análise realizada. Os trabalhadores estão numa condição de fragilidade humana, precisam
sobreviver e assim, vendem sua capacidade de trabalho pelo preço de sua subsistência (em torno
disso), deixando o capitalista com o restante da remuneração recebida.

Adotar o paradigma marxista como paradigma implica em ter um desafio ético inicial e
anterior à própria consagração de em projeto político, que seria ultrapassar a superestrutura e a
disseminação generalizada dos valores da classe dominante, para alcançar a sociedade como um
todo e convencê-la da possibilidade de uma alternativa crítica ao sistema de mercado.
Convencida uma maioria da sociedade a adotar o referencial marxista, segue um desafio oposto
ao aprofundamento nos valores do sistema proposto por Smith, que seria justamente o de
superar a ética (de acumular) do capital, porém o encaminhamento dessa questão pode ter
direcionamentos diferentes. O entendimento histórico corrente seria a solução que o próprio
(jovem) Marx ajudou a elaborar: a construção de um sistema alternativo, o socialismo, com a
substituição de toda lógica do sistema de mercado, produtiva e de valores, por outra que
socialize a economia, via Estado, e prevaleça o coletivismo ao invés do individualismo. Ocorre
que as experiências de socialismo real baseadas nesse parâmetro fracassaram, manifestando a
falta de preparo humano (que implica em mudança e introjeção de valores), tecnológico e
político (em razão da guerra fria) para tal empreitada, no contexto histórico de referência. Tendo
em vista esta frustração histórica, uma segunda via de inspiração marxiana seria a superação
relativa da ética do capital com uma ética social que resguarde o interesse da população,
construindo uma agenda de convivência com o capital, controlando seu ímpeto acumulador, até
que sejam criadas as condições para uma eventual rediscussão acerca da transformação social e
econômica. Só o desenrolar do processo diz seu alcance, se as tensões vão aumentar ou se diluir
com o tempo, a depender da maior ou menor resistência e conscientização de ambas classes
acerca do processo histórico, das tendências da exploração, de exaustão de recursos, etc.
24

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

A evolução histórica tem mostrado (considerando apenas os fatos históricos e


desprezando a perspectiva de um novo sistema no futuro), que esta última alternativa (de uma
superação parcial da ética do capital) tem sido praticada de diferentes formas em alguns
governos de alguns países ocidentais, em particular nos mais desenvolvidos, onde a consciência
acerca dos problemas da ética capitalista é maior, até por mais experiência, mas necessita ser
mais aprofundada para caracterizar a supremacia dos interesses dos trabalhadores sobre os
interesses do capital. Independente disso, avanços históricos aconteceram em diversos lugares
devido a movimentos sociais e de trabalhadores, desde as primeiras ações no sentido de
reivindicar melhores salários, jornadas (menores) e condições de trabalho e Marx (1986) oferece
relatos diversos desses episódios. Essa atuação é coerente com o que seria de se esperar desses
segmentos sociais após a conscientização acerca da lógica do capital, e tem gradativamente
imposto limites concretos à exploração. Mais tarde, contudo, foram agregados outros pontos
adicionais de reivindicação (exploração racional dos recursos, recomposição na exploração das
florestas, saúde e educação pública, entre outros), que foram abraçados pela agenda neoliberal,
gerando alguma confusão na discussão em torno da identidade das concepções, porém a
diferença fundamental de um projeto de inspiração marxiana continua sendo o foco na relação
capital/trabalho e suas consequências, em virtude de sua leitura da dinâmica dialético/histórica
capitalista, que conduz a disparidades em favor do capital que precisam ser corrigidas, como
mostram os fatos históricos, e essas, num projeto político marxiano, seriam mediadas pelo
Estado e por governos representados efetivamente pela maioria trabalhadora. Do outro lado,
como está exposto na próxima seção, o paradigma neoclássico defende que essas distorções
devem ser resolvidas pelo mercado no longo prazo.

Hoje as sociedades capitalistas são bem mais regulamentadas, bem menos destrutivas,
muito diferente da época em que o capitalismo nasceu e sobre a qual Marx teorizou, pois a
sociedade já incorporou diversas conquistas que protegem a coletividade da vários abusos do
capital, mas as observações continuam válidas devido a contradições imanentes ao capital, há
muito por ser construído, tanto no campo dos valores (construção e disseminação do conceito de
desenvolvimento social sustentado), quanto no lado produtivo (especialmente na distribuição da
renda). Problemas éticos persistem e são mais frequentes em sociedades pobres, decorrente da
internacionalização da exploração da força de trabalho, por meio da qual os países
desenvolvidos aumentam a qualidade de vida e a proteção social às custas do aumento da
exploração da força de trabalho em países pobres 12.

Qualquer projeto contemporâneo de perspectiva marxiana tem resistência garantida por


uma parcela significativa da sociedade ocidental devido à quase unanimidade, por parte dos
antigos marxistas, em torno das experiências de socialismo real, e aí o problema não está só na
falta de um reconhecimento do fracasso econômico, mas sobretudo na dúvida acerca da
capacidade de um novo marxismo respeitar as instituições democráticas ocidentais, tendo em
vista o autoritarismo e as arbitrariedades presentes nas experiências socialistas passadas. Novos
projetos socialistas precisam se distanciar da tradição política marxiana e ressaltar a perspectiva
de convivência com o capital, enfatizando os ganhos das economias de mercado e atuando na
defesa de uma perspectiva de universalização dos direitos humanos e sociais.

3. Os neoclássicos e o problema das externalidades

A base da leitura neoclássica da ética é a filosofia utilitarista de Jeremy Bentham 13. De


acordo com o utilitarismo, as pessoas decidem por ações úteis, aquelas que vão gerar maior
bem-estar para o agente, seja esse benefício objetivo ou subjetivo. Trata-se de uma teoria que
segue o princípio hedonista, porém, como coloca Sen (1999, 46), uma discussão ética do
12
Essa é uma tese de cunho marxista assumida e desenvolvida pelos estruturalistas.
13
Como colocam Marin e Quintana (2011, 200), Bentham tem importância basilar para o desenvolvimento da
vertente neoclássica.
25

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

utilitarismo deve ir além, afinal não faria sentido falar de caráter ético em comparações de
estados de bem-estar individual. Sen (1999, 76) em sua crítica a esta concepção, afirma que a
dificuldade maior é a subjetividade da categoria central, mas, de forma geral, quando a
subjetividade impera, as escolhas individuais são soberanas (o que é bom para alguém pode não
ser assim classificado por outra pessoa) e os consensos sociais são resultados das buscas pelas
realizações individuais. A partir da liberdade de escolha e do respectivo livre arbítrio, mercados
sintetizam preferências individuais na concorrência perfeita, que geram ótimos de Pareto. Cada
mercado específico seria um todo bem resolvido em termos econômicos, mas isto não diz muito
acerca da questão ética, mesmo do ponto de vista neoclássico, principalmente por
desconsideração da variável externalidade.

Os homens podem ter preferências distintas, podendo exercer essas preferências apenas
num contexto de múltipla oferta. Só vai ser produzido o que o consumidor desejar, o que ele
enxergar que tem utilidade, fator determinante para a compra. Para a economia pura 14, portanto,
o mercado resolve os problemas econômicos da melhor forma possível, em regra a eficiência
econômica vem da motivação para produzir (proporcionando bem-estar à população) resultando
em ganhos; maior remuneração. O homo economicus é egoísta, mas esse egoísmo é construtivo,
produtivo, e revertido em produção boa e barata para a sociedade, que os consumidores vão
sancionar ao realizarem suas escolhas.

Essa concepção teórica sofre críticas de ordem epistemológicas e teleológicas acerca da


fragilidade de premissas como plena informação, equilíbrio espontâneo e concorrência
perfeita15. Amartya Sem, porém, acredita no enriquecimento desta abordagem relaxando o
individualismo metodológico, recuperando as paixões à análise (como fazia Smith) e
introduzindo elementos psicológicos, de forma a trazer de volta elementos éticos. Mesmo
deixando essas fragilidades de lado e desprezando maiores desenvolvimentos teóricos, porém, é
possível extrair dois aspectos éticos fundamentais na concepção neoclássica, relacionados às
chamadas ‘falhas de mercado’, que dizem respeito ao conteúdo de seu caráter liberal: a
produção de externalidade e o livre arbítrio.

Se não comporta falar em produção de desutilidade devido à racionalidade do


consumidor e a subjetividade do desejo, por outro lado, essa expressão faz sentido se forem
considerados os efeitos a posteriori da produção, quando o consumo pode ter repercussões em
terceiros. Nem todas escolhas são simples, algumas envolvem determinados produtos cujo
consumo não encerra suas consequências, o que significa invadir o direito à liberdade dos
outros, ferindo um princípio ético fundamental da economia de mercado e aí temos questões
éticas no ato econômico. Isto pode acontecer tanto do ponto de vista do consumo quanto da
oferta, na medida em que esta consome produtivamente. Esses casos corresponderiam a
exceções à regra de que o mercado proporciona produção ótima e o maior bem-estar, justamente
porque aqui estaria sendo produzido mal-estar a terceiros, que, porém, não são desprezíveis e
merecem discussão.

Ao falar de externalidades negativas, adentra-se numa discussão importante, a da


liberdade e seus limites. Os defensores radicais do livre mercado advogam a liberdade ideal,
total, e que os abusos são punidos pelo mercado, mas este mecanismo pode não ser suficiente
quando há consenso em torno dos excessos, porque as implicações podem ser muito sérias e
muitas vezes não recuperam uma situação anterior, ou seja, a liberdade necessariamente convive
com parâmetros éticos, ainda que mínimos. Esta é a perspectiva predominante entre os
neoclássicos, que aceitam correções para situações específicas no mercado em que há algum
risco a terceiros, como no caso do excesso de bebida alcoólica na condução veículos

14
Terminologia ampla que aglutina os seguidores do individualismo metodológico e a teoria do valor utilidade.

15
Ver Buarque (2007, 49 e 50).
26

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

automotores. Sempre há interações entre indivíduos na economia e o direito do outro de não ser
prejudicado deve ser resguardado, trata-se de princípio universal das modernas democracias
ocidentais e aceitando isso, os parâmetros éticos devem ser incorporados aos sistemas político e
econômico. Numa sociedade liberal as pessoas têm o direito de ter iniciativa e de ter sua
integridade preservada, e isso inclui o aspecto econômico, de forma que a sociedade deve
acordar quais são os limites das ações, afinal não se pode contar apenas com o bom senso de
todos. A história da humanidade e o estudo do homem mostram que sempre podem surgir
pessoas mal-intencionadas ou alteradas por efeitos danosos do consumo de alguma mercadoria
para prejudicar terceiros, de modo que há necessidade de se estabelecer regras de convívio para
a preservação da moral social, econômica e dos direitos individuais.

Outro elemento crucial para a discussão dos parâmetros éticos básicos neoclássicos é o
livre arbítrio, uma vez que o exercício da escolha só é absoluto quando as pessoas estão em
pleno gozo de suas faculdades mentais, portanto, situações ou mercadorias que eventualmente
corrompam a soberania na capacidade individual de escolha minam um princípio ético do
funcionamento do sistema. Nesta abordagem, em regra as mercadorias não afetam o consumidor
de nenhuma forma além de proporcionar a satisfação pretendida, contudo algumas mercadorias
podem afetar a capacidade de discernimento e esse poder deve ser evitado, num julgamento
ético coerente e decorrente dos pressupostos de uma perspectiva liberal.

Na ótica neoclássica não há os juízos de valor sociais de Smith, esses foram substituídos
pelo julgamento da utilidade das coisas, baseado na integridade do livre arbítrio e no respeito às
liberdades individuais, que devem ser lidas aqui de modo reverso: preservação da liberdade e
integridade de terceiros. A ética do trabalho smithiana é substituída pela ética da utilidade, as
pessoas devem ponderar o certo e errado do consumo de algo, o que pode gerar julgamento da
produção a partir da natureza do bem ou serviço produzido. A diferença fundamental é que o
julgamento neoclássico dos agentes é individual, mas como foi visto, os indivíduos têm de ter
autonomia para decidir, e não podem prejudicar a autonomia dos outros. Por fim, na economia
de mercado não haveria problema em produção monopolista ou oligopolista, ainda que não
sejam o ideal, desde que essas estruturas sejam as melhores e mais eficientes para os mercados,
uma vez que há os ganhos de escala e alguns mercados só comportam grandes ofertantes.

3.1. Os limites éticos da liberdade

De saída, volta o desafio de uma sociedade liberal, que é ressaltar a liberdade individual
como referência maior, porém, a nova abordagem, em virtude das diferenças metodológicas,
conceituais e instrumentais, tem elementos mais específicos para tratar. Silva (2007, 95) coloca
que o valor ético da liberdade no mercado é relativamente esquecido entre os economistas, mas
isso ocorre também dentro da vertente neoclássica, posto que aqui a discussão ética é deslocada
para a finalidade da atividade produtiva, a utilidade, caracterizando uma abordagem
consequencialista (Silva, 2007, 11). De acordo com esta abordagem o que importa para as
pessoas no mercado é a utilidade dos bens e serviços, mas não as ações em si, o julgamento
acerca do mérito dos resultado prevalece e a liberdade do mercado está a serviço das maiores
demandas da sociedade, quaisquer que sejam elas, seu valor é ser o fundamento das escolhas,
mas não se explora maiores discussões éticas em torno da liberdade, que é o que proponho a
seguir.

Os dois conceitos chave para um entendimento da ética neoclássica apontam para um


diferencial de um grupo de mercadorias que atentam contra os pilares liberais da vertente: as
externalidades negativas e o livre arbítrio. O desafio ético de uma sociedade inspirada nos
preceitos neoclássicos é o do convívio da liberdade econômica com o respeito à liberdade do
outro; tudo é permitido desde que a integridade do livre arbítrio de todos seja preservada.
Externalidades negativas são um problema recorrente nas economias de mercado desde sua
origem, com a revolução industrial, mas pouco ressaltados e estudados até recentemente,
27

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

quando a ameaça de exaustão de alguns recursos fez o paradigma do desenvolvimento


sustentado ascender e fazer perceber a dimensão efetiva do problema. Os problemas clássicos
históricos de poluição sob diversas formas, sendo a ambiental a mais comum, são exemplos
notórios de externalização de custos de maneira irresponsável pelas empresas, causando danos
diversos, dos menores aos irreparáveis, a grupos sociais ou populações inteiras. O tempo
mostrou que havia um problema ético neste comportamento economicamente racional.

Pesquisas científica de áreas diversas, por sua vez, contribuem e devem ser referência
no pacto social ao definir objetivamente os efeitos do consumo das mercadorias, e assim, por
exemplo, restringir o acesso das crianças e adolescentes a certos mercados pode ser considerada
uma política de fundo neoclássico, bem como a elevação da tributação em bebidas alcoólicas
por seu demérito devido ao seu potencial para gerar problemas e aumentar custos sociais
(relativos a agravamento nos acidentes de trânsito). De outro lado, essa perspectiva não vê
problemas éticos na desigualdade sócio econômica, uma vez que a alocação dos fatores busca a
eficiência tomando as condições materiais disponíveis e acredita que o aprofundamento do livre
mercado é que gerará melhorias de renda no médio, longo prazo. Para uma sociedade disposta a
tomar a vertente neoclássica como paradigma principal, portanto, o desafio para melhoria dos
salários é de longo prazo e depende do aprofundamento dos valores do mercado, sendo
impertinentes regulamentações em torno de salário mínimo, por exemplo, posto que deveria
predominar a liberdade dos agentes no mercado de trabalho e a consciência de que o mercado
encaminha a solução desse problema.

A discussão do livre arbítrio é um pouco mais complexa. O problema ético central da


economia aqui é o poder de vício químico que certas substâncias têm, sobre as quais o homem
não tem defesa, no caso, os entorpecentes ditos pesados. O consumidor dessas drogas em pouco
tempo não tem mais a liberdade necessária para decidir acerca de seu consumo, o que remete a
um questionamento ético, posto que o consumo gera uma situação excepcional de cercamento
do livre arbítrio que tem que ser tratada de forma diferenciada. Mas há um elemento
complicador, que é a disponibilidade de informação, e aqui volta o desafio inicial do
liberalismo, que, a rigor, defende o exercício de diversos comportamentos morais desde que não
afetem a liberdade e o direito do outro, de forma que, se o indivíduo tem liberdade e
informação, poderia tomar a decisão de consumir e se viciar; se lhe convier. Esta seria uma
decisão individual e existencial que não caberia intervenções, se for totalmente independente e
não afete ninguém. A sociedade liberal tem que ter maturidade para enfrentar situações como
essa ou como a eutanásia. Como não cumpriria ao Estado zelar pelo bem-estar individual, não
caberia intervenção neste campo, a não ser que haja outros envolvidos, além disso, muitas
mercadorias podem viciar porque o vício também tem um caráter psicológico, mas essas
também não seriam alvo de ressalvas, afinal o sistema econômico não pode se responsabilizar
por variáveis desta ordem. Essas mercadorias expõem a sociedade a seus limites na convivência
com os semelhantes e uma resposta consensual ainda não foi encontrada, mas sabe-se que a
proibição não poderia ser uma alternativa pelo parâmetro liberal, pois ela só gera mercados
paralelos mais perigosos e complexos16. O desafio aqui é zelar pela plena informação,
incorporando alertas diversos em campanhas publicitárias a administrar o problema marginal
dos viciados. Um caminho que tem sido adotado com resultados positivos (com algumas
ressalvas) é a denominada política de redução de danos, na qual o Estado administra a liberdade
do uso de drogas, se tornando responsável pelos viciados, oferecendo a droga com a necessária
submissão do cidadão a acompanhamento médico, do serviço social e psicológico. Esta via
reforça o desafio neoclássico, uma vez que a sociedade tem que superar preconceitos sociais
para encampar essa ação, que aqui é fundamentada no respeito a seus princípios liberais.

16
Entretanto esta via tem sido considerada, incoerentemente, pela força de ditames morais sociais conservadores de
segmentos expressivos da sociedade (as vezes ditos liberais), muitas vezes, novamente, influenciados por matizes
religiosas.
28

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Do ponto de vista histórico, o desafio ético neoclássico sofre resistência na


contemporaneidade devido às experiências recentes de crise (2001 e 2008), que mostraram os
efeitos perversos da desregulamentação acentuada após o fim do socialismo real (1990 em
diante). A ética neoliberal admite a regulamentação, contudo sua delimitação restrita está
associada às falhas de mercado e estabilidade monetária, e a desregulamentação tem
predominado em discursos políticos de vertentes inspiradas nos neoclássicos, justamente devido
ao enfraquecimento dos antagonistas ‘intervencionistas’. É preciso recolocar em pauta a
preocupação da vertente discutida com o bem-estar social e a consequente regulação necessária
em relação aos pontos previstos na concepção teórica, para se distinguir de concepções mais
radicais de livre mercado, e assim convencer o mundo ocidental que a regulação é parâmetro
básico para punir comportamentos antiéticos que redundam em crimes econômicos, e deixar
livre o mercado para os agentes que atuem dentro das regras do jogo.

4. Keynes, Galbraith e as causas éticas das crises

O marco histórico referencial para o surgimento da concepção keynesiana foram as


crises econômicas do princípio do século XX, crises novas por excelência, devido à sua
duração, profundidade e consequências. Essas crises forçaram a busca por uma nova ortodoxia,
pois o equilíbrio autorregulado dos neoclássicos não as explicava satisfatoriamente, assim, a
teoria keynesiana foi uma resposta teórica esperada ao desafio de compreender, dentro dos
limites da ortodoxia econômica, o impasse econômico instalado com as grandes crises. Dentro
desse novo marco teórico pode ser identificada também uma revisão ética, não do ponto de vista
das premissas teóricas ou por explanações específicas sobre o tema, mas pela revisão do papel
do Estado, que passa a ter responsabilidade social maior, constatado o problema da
instabilidade econômica do mercado, razão da elaboração do Estado do bem-estar social. Se até
então o Estado deveria se ater às funções clássicas de provimento de segurança e infraestrutura
além de praticar uma política monetária passiva, Keynes passa a defender que o interesse
público aumentou e agora seria papel do Estado expandir sua ação, aumentando os gastos
públicos via déficit para garantir retomada da atividade produtiva, assim o Estado deveria
também criar um colchão social para mitigar os efeitos das crises e avançar na construção de
uma economia que oferecesse proteção a segmentos menos favorecidos socialmente.

Posteriormente vieram desenvolvimentos das ideias keynesianas, e, entre essas, se


destaca no campo ético a contribuição de Galbraith (2004), que teorizou acerca da presença de
componentes éticos decisivos na origem das crises capitalistas. A análise de Keynes indica que
as crises são antecedidas por uma tendência à superprodução acompanhada de inchaço de
expectativas e da especulação financeira, projetando níveis irreais de crescimento elevado,
baseados em estimativas imprecisas de valorização dos ativos. Até o ponto em que Keynes
realizou seus estudos, não se identificava aspecto ético nessa explicação, entretanto, havia ali
fatores de conotação ética que posteriormente foram explorados por Galbraith.

Para explicar o comportamento típico dos indivíduos nas economias de mercado,


Galbraith resgata uma variável menosprezada por pensadores clássicos e neoclássicos, mas
ressaltada na leitura marxista: a agressividade. A busca por rendimentos maiores é legítima e
estimulada no mercado, ficando subentendido o respeito às suas regras. Ocorre que o mercado é
um poço de possibilidades e a procura pelo ganho faz com que agentes ajam para além dos
limites éticos acordados socialmente e da responsabilidade, aumentando o risco em atitudes que
na aparência podem não caracterizar ilícitos por se apresentarem como novas formas de
negócios, mas na essência são trapaças travestidas que se cercam de uma rede de má fé que se
encerra em manobras contábeis criativas (Galbraith, 2004, 16). O autor comentado cunha a
expressão provocativa fraude inocente (FI) para explicar de forma provocativa essas ações, pois
esses procedimentos são fraudulentos, ainda que os agentes ocultem sua verdadeira intenção e
natureza.
29

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

O problema está justamente nos estímulos inofensivos do mercado, que alimentam a


agressividade dos agentes e estimulam os desvios de conduta para obtenção do objetivo final de
enriquecer. É a clássica máxima antiética da desvirtuação/supressão dos meios para se atingir os
fins. A agressividade sempre esteve presente na história do capitalismo, são conhecidas histórias
de disputa desleal por concessões para a construção das primeiras estradas de ferro nos países
desenvolvidos, mas as grandes corporações só irão florescer ao longo do século XIX, fase de
consolidação do capitalismo oligopolista em que alguns fatores conjuntamente irão
proporcionar um crescimento significativo das empresas. Para o autor em pauta, é necessário
compreender as FI como atitudes de grandes grupos empresariais, as corporações, e no seu
devido contexto histórico. Informações históricas mostram que até o princípio do século XIX as
empresas detentoras de concessões públicas tinham suas ações limitadas por norma que
restringia sua ação à exploração de apenas uma concessão nos EUA, mas essas amarras foram
desfeitas junto com o fim da escravidão, com ações invocando, por analogia aos casos dos
escravos libertos, a liberdade de atuação das pessoas jurídicas. Era a primeira
desregulamentação, que ajuda a explicar a crise que se seguiu nas primeiras décadas do século
XX.

As grandes corporações são diferentes das médias e pequenas empresas por sua
projeção e importância para a economia. As médias e menores empresas são insignificantes do
ponto de vista macro (devido ao baixo volume comercializado ou produzido e contingente
empregado), já os grandes grupos tem elevado volume negociado e de funcionários contratados,
de forma que suas ações têm repercussão relevante na atividade produtiva e na geração de
empregos da economia. Todos são acossados pela concorrência, mas os pequenos e médios
empresários não incorrem em riscos elevados por suas limitações de capital econômico e
político, enquanto os grandes capitais são mais susceptíveis ao risco, o que é acentuado
decisivamente pela contratação de gestores profissionais específicos para aumentar seus
resultados. O porte significativo da grande empresa deveria solicitar prudência de seus
administradores, pois um grande navio não tem a agilidade dos pequenos barcos, suas manobras
demandam todo um planejamento, não se pode mudar planos rapidamente e uma decisão errada
pode arruinar todo um processo de acumulação anterior, mas essa que seria a postura ética
correta (e de acordo com a racionalidade econômica) foi suprimida nessas gestões agressivas
por um comportamento predatório que se disseminou em parte significativa das corporações nas
crise de 1929 e nas crises mundiais mais recentes da economia capitalista (já no século XXI).

Galbraith lista uma série de mecanismos adotados pelos gestores profissionais que
subsidiam a análise do problema, entre eles a contratação de especialistas em marketing e
psicologia para manipular propagandas, a criação de fundos de investimento para especular com
quase todo volume do capital (aplicando em empresas de alto risco), a realização de negócios de
risco elevado fadados ao fracasso com a posterior socialização de prejuízos por meio da criação
de empresas fantasmas, a especulação em torno do valor das ações da própria empresa em cima
de informações privilegiadas (compra na baixa, valorização especulativa com decisões
empresariais inconsequentes e venda subsequente na alta, antes da queda significativa de seu
valor), manipulação por meio da marcação a mercado (anunciar e lançar no balanço atual lucros
previstos para exercícios futuros decorrentes de investimentos irresponsáveis, prometidos ou
iniciados e posteriormente interrompidos), compra de auditoria externa (empresas cuja
importante função é analisar criticamente os balanços e demonstrações financeiras das
empresas, balizando o mercado, eram subornadas, por meio de gerentes e funcionários, para
emissão de relatórios fantasiosos favoráveis para encobrir prejuízos contábeis), e compra de
gestores de bancos para concessão de empréstimos inviáveis que capitalizariam a empresa, além
de outras ações pontuais17. Em suma, o sistema foi corrompido e desvirtuado em nome da

17
No caso da ENRON, empresa que atuava no ramo da energia, especulando com a geração de energia por meio da
exportação de energia elétrica entre Estados, causando escassez e apagões no Estado original, para elevar
substancialmente o preço da energia. Tendo isso se passado na Califórnia, foi apenas um capítulo de uma estória
30

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

liberdade e a favor de ganhos extraordinários sem base real e no centro do problema estão os
profissionais especializados do mercado, em particular do financeiro, que nesse processo
tiveram suas remunerações multiplicadas por atuações que resultaram em prejuízos à suas
empresas em particular e à economia como um todo devido à repercussão de suas ações. O
mercado de trabalho mudou e os diferenciais salariais, que deveriam acompanhar as respectivas
produção e produtividade, foi levado por uma irracionalidade sistêmica e danosa que a
desregulamentação proporcionou.

O início da crise de 2002 vem da década anterior, quando a economia americana entrou
numa fase denominada de exuberância irracional 18. Hoje já se sabe, por meio da revisão das
estatísticas, que a exuberância era artificial, que o Banco Central norte-americano (FED)
subsidiou o crescimento com juros baixos e os bancos emprestaram irresponsavelmente o
crédito fácil e barato, gerando a bolha especulativa no setor imobiliário que veio a estourar na
crise de 2008. A desproporção constante entre valores financeiros e mercado real também se
anunciou no nascente mercado virtual, inflado demais por manobras arriscadas, formando
prematuramente uma crise no novo mercado. Se as ações principais foram governamentais,
entretanto, é preciso lembrar que essas decorrem da pressão dos grandes grupos econômicos e
financeiros num contexto de liberalismo exacerbado, determinantes, em última instância, dessas
ações.

As duas crises da década de 1970 divergem do padrão por terem origem no controle e
manipulação do mercado de energia fóssil por suas grandes protagonistas, as empresas de
petróleo do oriente médio, mas as crises de 2002 e 2008 se adequam bem a esse perfil,
acompanhando a lógica de 1929, também antecedida de anos de crescimento significativo na
produção. Após o trauma de 1929, as economias e os agentes diminuíram as práticas
imprudentes e passaram praticamente 60 anos sem esse problema, que voltou depois do fracasso
do socialismo real e o retorno às ideias mais liberais. Em cima do crescimento real os segmentos
predatórios do setor financeiro agem e contaminam o ambiente com expedientes desvirtuados
para alimentar ganhos sempre mais elevados, e os mecanismos vão se sofisticando com o tempo
justamente para escapar da fiscalização do poder público, que vai assimilando e só mais tarde
elaborando novos parâmetros para o jogo nesse setor, para proteger a economia como um todo,
os funcionários das empresas e os aplicadores desavisados que têm baixo conhecimento sobre o
mercado financeiro e confiam em empresas de investimento, em empresas de auditoria externa e
agências de risco.

A crise de 2008 ficou marcada pela disseminação dos créditos do tipo subprime, que
eram empréstimos concedidos a tomadores que não tinham garantias suficientes para o
empréstimo corrente, a taxas de juro maiores. Encontrando-se a economia norte-americana
numa fase de alta liquidez, o mercado financeiro desvirtuou ainda mais o processo vendendo
papéis de alto risco por baixo risco (endossado novamente pelas auditorias externas e agora
pelas agências de risco), estimulando excessivamente o mercado imobiliário, até a hora em que
o ciclo se rompe com a inadimplência dos mutuários e a crise se instala.

exemplar de desrespeito a diversos protocolos éticos empresariais, permeada por relações estreitas com o poder (o
presidente da companhia era antigo amigo da família Bush), que culminou com o aproveitamento da situação de caos
energético durante o mandato de um governador democrata, viabilizando a candidatura de um republicano popular
(Arnold Schwarzenegger). Este que foi o maior caso de falência coorporativa norte-americano é relatado e discutido
em Stiglitz (2003, 255-279) e Swart e Watkins (2003).

18
Expressão cunhada inicialmente por Alan Greenspan para se referir à possibilidade de uma fase de elevado
crescimento coincidir com movimentos especulativos que a deixariam sem bases reais de sustentação, posteriormente
incorporada na literatura especializada para se referir à década de 1990, em particular nos EUA, que foi tema de
trabalhos diversos, como o de Stiglitz (2003), por exemplo.
31

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Um complemento a essas crises é o papel do governo. Em todo mundo ocidental, após


os estragos da grande recessão de 1929 veio a incorporação do paradigma keynesiano de
intervenção governamental e este aumentou significativamente a participação fiscal do Estado
na economia. Percentuais de cerca de 5% do PIB de carga tributária gradativamente foram
subindo até atingir índices entre 20 a 35% (ou mais) e isso levou as empresas a disputarem o
novo mercado governamental, buscando formas de entrar nele e de aumentar os gastos do
governo para aumentar as vendas. Galbraith destaca essa nova dinâmica na qual o Estado
passou a ser um jogador importante na economia, detendo grandes valores a serem gastos e
como resultado pode-se observar o crescimento, por exemplo, das contas desvinculadas nos
EUA, um equivalente aos fundos perdidos no Brasil, rubricas contábeis do governo destinadas a
gastos não definidos previamente para ajustes de contas, que no fim atendem a interesses do
mercado (no caso dos EUA, principalmente ao mercado armamentista 19).

4.1. Interesse privado X interesse público


A vertente keynesiana tem uma concepção de Estado mais abrangente que a neoclássica
em virtude de defender que o mercado tende ao desequilíbrio econômico, necessitando uma
interferência governamental para reencaminhar a economia aos trilhos. Apesar de integrar a
análise marginalista, sua interpretação diferenciada da realidade aponta para uma análise crítica
do comportamento dos agentes e de premissas teóricas, fazendo emergir um outro utilitarismo,
revelado em suas dimensões diversas, que levam a uma perspectiva disfuncional do sistema,
gerando as crises. A ética liberal leva às últimas consequências o utilitarismo, na medida em
que os resultados são exaltados e perseguidos à custa dos meios, mas na abordagem keynesiana,
diferentemente da crítica de Marx, há a possibilidade de correção interna, com a atuação dentro
do sistema, impondo o valor humano por mecanismos de controle governamental, então, por
ético ser, o contrato social clássico é superior às forças do mercado, que devem se curvar ao
homem. Ocorre que a ação governamental prevista vem acompanhada de pelo menos dois
desafios éticos em torno do aumento significativo do tamanho do Estado nesse processo. O
primeiro é convencer a sociedade em geral e a elite política em particular, da necessidade de
retomar a ordem econômica com uma menor intervenção do governo (ainda que não nos níveis
pré-crise 1929), dado o caráter anticíclico da ação proposta, para proporcionar o retorno da
saúde financeira do Estado e conferir sustentabilidade a suas intervenções. A história tem
mostrado quão forte são os apelos da concepção keynesiana, e quão baixa é a capacidade dos
projetos políticos em adotar esse complemento necessário para a coerência teórica, de forma
que os déficits governamentais se tornaram frequentes e aumentaram significativamente no
mundo ocidental, deixando os Estados nacionais em situação limítrofe neste item.
Um segundo desafio que também tem por pano de fundo um conflito entre o acordo
social nas modernas democracias ocidentais e a economia de mercado, diz respeito à
convivência crítica do Estado com os interesses do mercado dentro dele, pois, mesmo que passe
a ser fatia expressiva de negócios na economia, o norte de suas decisões deve ser o interesse
público, e a história tem mostrado episódios diversos em que o interesse privado predomina em
relação ao coletivo em ações e gastos governamentais. Fazer prevalecer o interesse coletivo
quando se trata de elevados mercados gerados pela demanda governamental tem sido difícil em
razão da lógica do sistema, e ainda mais em países periféricos em que o Estado adentra em áreas
industriais e faltam muitos itens básicos de infraestrutura e saúde pública.
O desenvolvimento teórico do aspecto ético realizado por Galbraith vai incorporar mais
uma dimensão ao conflito entre a moral corrente do mercado e um paradigma ético nele
inspirado, trazendo à tona, consequentemente, mais um desafio às sociedades que pretendem
considerar suas ponderações de fundo keynesiano. Segundo este pensador, ao longo do século
XX as corporações consolidaram seu papel central e mostraram seu poder construtivo e danoso
às economias em crises profundas no presente século, ressaltando a necessidade de aperfeiçoar

19
De acordo com Galbraith (2004, 52).
32

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

os instrumentos de regulação econômica e reforçar o caráter institucional destes, postas as


experiências recentes nas referidas crises de subserviência institucional, notadamente em
agências de regulação de mercados. Fica implícita a influência marxista aqui, sendo que a
propositura se alinha com a visão clássica e os princípios fundadores iluministas em defesa do
Estado ocidental moderno, na crença da superação, dentro de um contrato social baseado na
liberdade e na razão humana, das intercorrências morais que surgem no percurso histórico.
Os dois primeiros desafios são mais complexos porque os danos sociais ou não são
facilmente percebidos, como é o caso do alto endividamento, ou são exteriorizados, no caso da
presença dos interesses privados dentro dos governos 20, de forma que estes parecem ser desafios
menores nos países centrais, o que torna possível a convivência com eles e o adiamento de sua
resolução. Nos países pobres, porém, esses desafios aparecem de forma mais crua,
especialmente na invasão dos interesses privados no Estado por meio da corrupção, reflexo de
todo um processo histórico em que os conceitos de Estado e economia de mercado modernos
ainda estão longe de serem alcançados, as instituições são frágeis e o poder das elites é
expressivo. O terceiro desafio tem sido perseguido com alguns êxitos históricos após a grande
depressão, porém novos contextos históricos (principalmente a queda do socialismo real) fez
algumas sociedades retomarem a desregulamentação. O aprendizado no curto prazo tem se
demonstrado eficaz, porém o de longo prazo está por se consolidar.

NOTAS CONCLUSIVAS

Analisar os desafios éticos de cada vertente teórica implica considerar o contexto


histórico em que estavam inseridas, posto as correspondências entre as concepções de
sociedade, economia e seu tempo. A possibilidade de extrapolar seu contexto histórico e aplicar
essas concepções à contemporaneidade mostra uma robustez teórica que só confirma sua
posição nos quadros da história do pensamento econômico. Todas referências discutidas
mostram força em suas ideias ao serem cotejadas com a atualidade, e oferecem elementos para
construção de um parâmetro ético de projetos políticos e para compreensão dos desafios de sua
implantação. A atividade produtiva existe em função da sociedade e suas práticas devem se
submeter à concepção de organização de produção escolhido e desenvolvido nela. Todas
concepções, a seu modo, defendem a possibilidade de melhorar a experiência do mercado
através do exercício e aprofundamento de valores éticos econômicos referenciais específicos
que promovem um maior progresso social e econômico. Dependendo do paradigma que norteia
o projeto político social escolhido pela população, diferentes desafios éticos são colocados por
ele para o mercado.
A agenda de uma sociedade baseada numa concepção ética liberal pode incorporar
elementos teóricos smithianos ao enfoque neoclássico, o que vem sendo defendido por
pensadores como Amartya Sen. O ponto principal em ambas é a ênfase da liberdade como valor
fundamental, aqui pensado como resultado de práticas virtuosas e utilitaristas, o que parece
simples, mas não é, posto que o aprofundamento dos ideais liberais implica na aceitação de
desigualdades sociais (no curto-médio prazo) e o enfrentamento de vícios internos do mercado,
inicialmente já alertados por Smith (resistência a libertação da mão de obra escrava e acordos
empresariais para aumentar preços) que evoluíram para outras modalidades mais complexas nas
crises recentes do século XX (crimes diversos relacionados à especulação financeira). Ao
desafio maior seguem três desafios éticos mais específicos de economias baseadas em projetos
liberais, que estão relacionados à forma como lidar com a fabricação e comercialização de
mercadorias que 1. restringem a capacidade de discernimento dos indivíduos (no caso,
substâncias entorpecentes pesadas), 2. atentem contra a liberdade de terceiros (como é o caso
dos produtos da indústria tabagista e, por fim, 3. assimilar as grandes crises recentes e acatar
20
Os gastos militares defendem um modo de vida e afetam negativamente outras sociedades alternativas.
33

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

alguma regulamentação econômica, para preservar as boas práticas do mercado e punir agentes
predadores (os acontecimentos recentes contemplam e resgatam as preocupações de Smith).
A investigação mostrou que a discussão não se encerra aí, sendo necessário agregar dois
elementos que permeiam todo processo: o desenvolvimento científico de outras áreas de
conhecimento e a plena informação. O paradigma científico em áreas diversas é fundamental
para delinear o que é o direito à liberdade do outro (como no caso dos cigarros) e a plena
informação justificaria o direito ao consumo de mercadoria que danifique a pessoa, já que não
seria função do Estado zelar pelo bem-estar individual, sendo coerente a adoção de uma política
de redução de danos. No acordo social liberal cumpre ao Estado garantir a segurança, a justiça e
a correção das falhas de mercado, o que remete à discussão dessas, mas não deve intervir nas
escolhas individuais, nem nos preços dos mercados em geral, sendo possível se chegar
remunerações muito baixas em algumas conjunturas e estruturas econômicas.
A segunda grande referência, Marx, construiu uma teoria nova a partir da desconstrução
do referencial clássico, vislumbrando um problema ético maior na própria lógica de acumulação
capitalista, que, para alcançar seus objetivos, deixava de remunerar adequadamente os
trabalhadores. As agendas socialistas inicialmente optaram pela ruptura absoluta com o sistema,
entretanto, essa redundou em fracasso histórico, restando uma alternativa de ruptura parcial com
o mercado, acatando suas práticas, mas impondo parâmetros sociais mais rígidos no sentido de
proteger os cidadãos em geral da gana do capital, investindo em toda uma rede pública de
saúde, educação e proteção social. O desafio maior aqui é de adequação do projeto socialista à
contemporaneidade, incluindo dois itens em sua agenda: 1. respeito a instituições ocidentais, em
particular, a propriedade privada e a democracia, e 2. capacidade de gestão macroeconômica,
que envolve esforços pontuais da população (evitados no curto prazo resultam problemas
maiores de longo prazo). Em relação ao primeiro desafio, falta credibilidade nos projetos
políticos de inclinação marxiana em torno dessa atualização necessária do paradigma, devido ao
apego histórico desses às experiências socialistas recentes, o que precisa ser conquistado com
compromissos efetivos com uma nova agenda e em relação ao segundo desafio, fica o dilema de
compatibilizar políticas macroeconômicas que envolvem ajustes recessivos com políticas
salariais generosas ou reajustes em preços básicos na economia, uma vez que as melhoras nas
condições de trabalho e remuneração dos trabalhadores são seu diferencial principal em relação
a projetos liberais (que tem aceito os outros papéis do governo, mas não aceitam a intervenção
estatal nesse ponto).
Por sua tônica crítica em relação à economia de mercado, os projetos de cunho
marxiano, de outro lado, têm um desafio inicial e anterior de demover os valores individuais e
liberais do mercado em favor da justiça social e econômica, o que significa enfrentar toda uma
superestrutura e ideologia predominante para alcançar a sociedade e convencê-la da coerência
da perspectiva teórica, da fragilidade do livre arbítrio (o padrão de consumo é similar e
previsível) e do livre mercado (como são importantes as estruturas oligopólicas para o
capitalismo moderno), e da possibilidade de projetos políticos nela baseados.
A última perspectiva estudada, a keynesiana, possibilitou uma reinterpretação das crises
por dentro do sistema marginalista, apontando para uma expansão do papel do Estado nas
economias de mercado. A revisão desses parâmetros implicou na diminuição relativa do espaço
privado em benefício de uma demanda pública maior, dado o aumento do interesse coletivo na
produção de bens e serviços, no entanto, isto gerou um desafio ético crucial para as economias
de mercado contemporâneas inspiradas neste paradigma: assegurar a prevalência do interesse
público nas demandas do Estado, posto o maior mercado que este passou a representar (não
permitindo a determinação destes gastos pelo capital). Em economias que são baseadas na
liberdade há um segundo desafio relacionado que é de administrar a necessidade de maior
intervenção, posto que os governos resistem em reduzir os gastos depois do esforço para sair da
crise. As sociedades ocidentais historicamente têm perdido estes desafios éticos para a
comodidade do aumento de gastos públicos, pouco acompanhados e com baixa transparência,
34

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

porém estas práticas levadas ao limite explicitaram os dilemas econômicos reiteradamente


adiados e a necessidade de posicionamento acerca desse aditivo no contrato social liberal.
Por fim, e para complementar o estudo com uma interpretação ética pós-keynesiana,
Galbraith levantou elementos éticos na origem das crises recentes, aumentando sobremaneira a
dimensão do componente ético no mercado, remetendo para a necessidade de regulação mais
rigorosa no mercado e em especial no mercado financeiro, notadamente o setor mais propício a
excessos danosos à economia. Isto foi possível devido à sua observação das crises recentes nas
economias de mercado ter levado a componentes agressivos e predatórios no comportamento
dos agentes econômicos em situações de maior desregulamentação, resultando em multiplicação
das dimensões das crises e de seus efeitos.
Todas abordagens ressaltam a humanidade das construções sociais, os êxitos e os traços
falhos que caracterizam o ser e a capacidade de refletir e propor novos valores como referência
para seguir adiante e aperfeiçoar seu legado. A construção das economias de mercado nos
Estados modernos ocidentais tem revelado as possibilidades e limitações da natureza humana
nessa empreitada, que tem sido lidas e entendidas de formas diferentes por estudiosos em
função de suas metodologias e desenvolvimento da análise, cabendo às sociedades decidirem
por qual referências se pautar e que valores aprofundar e ressaltar no percurso histórico, que
vão do aprofundamento dos ideais liberais e da iniciativa privada, passando por uma
regulamentação mais forte, de cunho social, desses ideais, até uma concepção direcionada à
redistribuição de renda em favor dos trabalhadores. Todos com seus respectivos
desmembramentos e consequências.
35

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BIANCHI, Ana Maria. A pré-história da economia: de Maquiavel a Adam Smith. São Paulo: Hucitec,
1988.

BUARQUE, Cristovam. Da ética à ética. Brasília: Ed. do Senado Federal, 2007.


CERQUEIRA, Hugo E. A. Sobre a filosofia moral de Adam Smith. XXXIV ENCONTRO NACIONAL
DE ECONOMIA. Salvador, 2006. Disponível em <
www.anpec.org.br/encontro2006/artigos/A06A039.pdf> Acesso em 22/06/2018.
CUNHA, Leonam Lucas N. e. DIAS, Maria Cristina L. C. O significado das questões ético-morais para
Marx. SABERES, v.1, n.13, Mar. Natal, 2016. Disponível em <
file:///C:/Users/Alexandre%20Martins/AppData/Local/Packages/Microsoft.MicrosoftEdge_8wekyb3d8bb
we/TempState/Downloads/8779-24342-1-PB.pdf> . Acesso em 20/04/2018.

FEIJÓ, Ricardo. História do pensamento econômico. 2 ed. São Paulo: Atlas, 2007.
FONSECA, Eduardo G. Vícios privados, benefícios públicos: a ética na riqueza das nações. São Paulo:
Companhia das letras, 1993.
GALBRAITH, John K. A economia das fraudes inocentes. Companhia das letras: São Paulo, 2004.

MANDEVILLE, Bernard. A fábula das abelhas. Disponível em


https://projetophronesis.wordpress.com/2014/11/20/a-fabula-das-abelhas-de-bernard-mandeville/. Acesso
em 10/04/2018.

MARIN, Solange R. e QUINTANA, André M. Adam Smith e Francis Ysidro Edgeworth: uma crítica ao
utilitarismo. Nova Economia, Vol. 21, n 2. Maio-agosto. Belo Horizonte, 2011.

MARX, Karl. Para a crítica da economia política. São Paulo: Nova Cultural, 1986.

PASSOS, Eduardo Schimidt. “Das Adam Smith problem”: uma análise comparativa das obras a teoria dos
sentimentos morais e a riqueza das nações de Adam Smith. Monografia. UFSC. Florianópolis, 2006.

QUINIOU, Yvon. A moral em Marx. Crítica Marxista, n 34, Brasília: Editora brasiliense, 2012.
Disponível em
https://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/artigo272merged_document_256.pdf .
Acesso em 14/08/2017.

ROUANET, Sérgio P. Dilemas da moral iluminista. Ética. Org: Adauto Novaes. São Paulo: Companhia
das letras/secretaria municipal de cultura, 1992.

SEN. Amartya. Sobre ética e economia. São Paulo: Companhia das letras, 1999.

SILVA, Marcos Fernandes G. da. Ética e economia: impactos na política, no direito e nas organizações.
Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.

SMITH, Adam, Smith. A riqueza das nações. São Paulo: Nova cultural, 1985.

SMITH, Adam. Teoria dos sentimentos morais. São Paulo: Metalibri, 2006. Disponível em
www.ibiblio.org/ml/libri/s/SmithA_MoralSentiments_p.pdf Acesso em 10/07/2016.

STIGLITZ, Joseph E. Os exuberantes anos 90: uma nova interpretação da década mais próspera da
história. São Paulo: Companhia das letras, 2003.

SWARTZ, Mini, e WATKINS, Sherron. Power Failure - The Inside Story of the Collapse of Enron".
Doubleday, New York, 2003.
36

O Processo de Concorrência Capitalista em


Marx1

João Daniel Poli2


Luciano Souza Costa3

Resumo

Este artigo tem por objetivo analisar a dinâmica da concorrência capitalista em Marx. De modo geral, há
na literatura a uma análise equivocada por parte da ortodoxia da concorrência capitalista. Além disso,
existem algumas lacunas nas abordagens heterodoxas, especificamente na marxista. Porém nos últimos
anos o tema ressurgiu no Brasil através dos trabalhos de Maldonado Filho (1990), Herrlein Jr. (1997), e
Augusto (2012). Neste sentido, o artigo buscou mostrar que não é possível fazer uma análise da
concorrência, que é tida para Marx como um fenômeno aparente, sem compreendermos a essência do
capital (as leis de movimento do capital); como também buscou demonstrar que o processo de
concorrência capitalista enquanto fenômeno aparente determina não o valor, mas o preço da mercadoria
(preço de produção e preço de venda), e o mais importante à redistribuição da mais-valia entre os
capitalistas.

Palavras-chave: Capitalismo, Concorrência, Marx.

Abstract
The main purpose of this article is to present and defend the thesis that Stuart Mill, following the tradition
of the sequence of the theories of the forms of government and state of Hobbes, Hume and Bentham,
constructs a theory of the forms of government and State that is a Between Hume's approach in which
state institutions are forged through a natural history of customs, tradition and jurisprudence, and, on the
other hand, the approaches of Hobbes and Bentham, for whom a theory of forms Of government and state
are constructions fruit of the human reason, constructed through a science of the artificial, that forges as
much technologies for the intervention in the nature as in the human political and social interactions. One
of these political and social technologies are the emergente proportional electoral system proposed by
Mill in order to compete with the majoritarian system to solve the problem of the interest conflict
brought up by the ascension of the popular classes.

Keywords: Capitalism, Competition, Marx.

Classificação JEL: B14; B24.

1
Artigo apresentado em 15/08/2018. Aprovado em 10/10/2018.

2
Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Economia – PGE, na Universidade Estadual do Oeste do Paraná.
Graduado em Ciências Econômicas pela mesma universidade. E-mail joaodpoli@gmail.com.

3
Professor Doutor do curso de Ciências Econômicas da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. E-mail
lucianosouzacosta@hotmail.com.
37

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

1. Introdução.
A concorrência é própria da natureza mercantil da sociedade burguesa, é um processo de
luta de todos contra todos em busca de uma fatia maior de lucro ou de mais-valia. Ao contrário
do caráter harmônico e do estado de calma da noção de equilíbrio, a concorrência é um processo
turbulento e conflituoso, uma verdadeira guerra de todos contra todos, no qual cada um, ao
buscar a realização de seu interesse, não garante o sucesso de sua reprodução como proprietário
privado. A concorrência se dá entre capitalistas do mesmo ramo e entre estes contra os
capitalistas de outros ramos de produção, por isso Marx afirmava que a concorrência é um
processo de luta generalizada.
O caráter social da produção capitalista se impõe para cada capital particular por meio da
concorrência, começando, primeiramente pelo reconhecimento das diferenças nos métodos
produtivos dos capitais e, consequentemente, na diversidade dos níveis de produtividade dos
capitais. Cada produtor decide de maneira individual e sem interferência de outros produtores
quais técnicas empregar na produção; com técnicas diferentes os capitais particulares utilizam
quantidades de trabalho diferente para produzir a mesma mercadoria, originando diferentes
valores individuais das mercadorias. Como as mercadorias são vendidas pelo valor de mercado
esta diferença entre os valores individuais das mercadorias gera uma redistribuição da mais-
valia, os capitais que produzem mercadorias abaixo do valor de mercado, se apropriam da
parcela de mais-valia gerada pelos trabalhadores cujos capitais fabricam mercadorias com valor
individual acima do valor de mercado. Os capitais que produzem mercadorias com valor
individual igual ao valor de mercado, somente realizam a mais-valia gerada pelos seus
trabalhadores. Na busca pela apropriação da mais-valia do concorrente, os capitais buscam
reduzir seus custos, fazendo assim o valor individual de sua mercadoria cair também; o meio
para que isso ocorra é a introdução de novos métodos de produção, métodos estes mais
produtivos, ou seja, os capitais sempre buscam a mais-valia extraordinária, não se contentando
em chegar ao nível médio de produtividade.
A disputa pela mais-valia não se restringe a concorrência dentro de um único ramo de
produção, ela se estende por toda a estrutura social de produção. Entre os ramos de produção
existem diferentes taxas média de produtividade e de lucro. Ramos com composição orgânica
maior que a média geram lucros menores que a média – o inverso também é verdadeiro -, essas
desigualdades nas taxas de lucro e produtividade geram uma disputa global pela mais-valia,
ramos de produção que tenham taxas de lucro abaixo da média sofrerão um êxodo de capitais
para ramos mais rentáveis, gerando assim uma tendência a equalização da taxa de lucro,
chegando ao nível médio de lucro. Porém a tendência à equalização das taxas de lucro é fictícia,
pois o processo concorrencial tende a eliminar as desigualdades entre os produtores recriando-
as, e diversos fatores impedem o movimento de equalização: o tempo de rotação nos diversos
ramos, as barreiras criadas para dificultar a mobilidade de capitais, as diferenças de
produtividade impedem que se estabeleça uma taxa uniforme de lucro; levando assim a uma
modificação na estrutura da taxa de lucro inter-ramos.

2. A essência do Capital: as leis de movimento do capital.

Para Marx, não é possível entender o processo de concorrência sem antes


compreendermos as leis de movimento do capital. Para Herrlein Jr (1997. p. 332), “não
surpreende, portanto, que o discurso teórico marxiano insista em afirmar as determinações da
essência, onde radica a gênese complicada dos fatos econômicos aparentes.” Dessa forma,
devemos voltar à essência do capital.
Marx inicia sua análise do capitalismo pela mercadoria, diferente de seus predecessores
como Smith e Ricardo que começaram pelo preço. Mas porque pela mercadoria? O próprio
Marx (2014. p.57) nos responde no início de O Capital, diz ele; “a riqueza das sociedades onde
rege a produção capitalista configura se em imensa acumulação de mercadorias, e a mercadoria,
isoladamente considerada, é a forma elementar dessa riqueza”. Tudo tende a se tornar
38

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

mercadoria em uma sociedade de produtores independentes, sempre existirá a necessidade de


encontrar algo que seja passível de venda.
Toda mercadoria é fruto do trabalho, seja qual for sua natureza ou sua especificidade, ela
veio do trabalho. Marx define o trabalho como o elemento que é comum a todas as mercadorias,
e que por isso, pode equipará-las. E por ter este elemento em comum elas podem ser trocadas
conforme a necessidade de quem a possuir e de quem deseja comprá-las, exemplo, se uma
caneta equivale à uma hora de trabalho, e um lápis equivale à meia hora de trabalho, o dono da
caneta poderá troca-la por dois lápis, se assim desejar. Para Marx a mercadoria tem um duplo
caráter, valor de uso e valor de troca. O valor de uso nada mais é que a utilidade da mercadoria
nos diz Marx (2014. p.58), “A utilidade de uma coisa faz dela valor de uso”. O valor de uso
independe da quantidade de trabalho embutido na mercadoria; ele é originado pelo trabalho
concreto, que é o trabalho especifico de cada trabalhador, ou seja, sua habilidade; por exemplo,
uma costureira tem a habilidade de dar forma ao tecido para que ele vire um terno; o valor de
uso só se realiza com o consumo. Valor de troca é a relação quantitativa entre diferentes valores
de uso, diferente do valor, o valor de troca se altera com o tempo (por meio da concorrência, que
veremos adiante), o valor de troca é originário do trabalho abstrato que nada mais é que o
dispêndio de força trabalho seja ela física ou mental. O valor de uma mercadoria não está em
seu valor de uso, mas sim no valor de troca, por isso Marx (2014. p. 59), “como valores de uso,
as mercadorias são, antes de qualquer coisa, de qualidades diferentes; como valores de troca, só
podem diferir na quantidade, portanto, nenhum átomo de valor de uso”.
O trabalho é o elemento criador de valor, e o valor de uma mercadoria é dada pela
quantidade de trabalho cristalizado nela. O trabalho tem sua magnitude definida pelo tempo,
horas trabalhadas em um dia, ou tempo de produção 4 de uma mercadoria, por exemplo, o tempo
de produção de uma caneta é de uma hora. Marx chama esse tempo de produção de tempo
socialmente necessário (tempo médio), refutando assim a ideia de que o indivíduo preguiçoso
possa ganhar mais pela caneta, pois demorou mais para produzi – lá, ao se confrontar com
outros comerciantes e com compradores no mercado só lhe pagariam por uma hora de trabalho,
pois todos têm conhecimento que este é o tempo socialmente necessário para a produção da
caneta.
Então podemos definir como valor da mercadoria a quantidade de trabalho que está
cristalizada nela, ou o tempo de trabalho socialmente necessário 5 para produzi – lá, e que o valor
da mercadoria não muda ao longo do tempo, ou seja, ele sempre será o mesmo; a caneta valerá
até seu total consumo ou sua destruição uma hora de trabalho. Diante dessas características do
processo de produção capitalista, que parece anárquico e sem regulação, Marx afirma que existe
sim uma lei que dá sentido à essa “bagunça”, para ele a sociedade capitalista é regulada pela lei
do valor. A lei do valor diz que mercadorias só podem ser trocadas por mercadorias
equivalentes. Com isso percebesse que a mercadoria só é trocada se for produzida em um tempo
próximo ou abaixo do tempo socialmente necessário, sendo assim para Marx esta lei funciona
como uma lei social que regula a troca de mercadorias em uma sociedade mercantil, como é a
sociedade capitalista. Segundo Marx (2014. p. 61), “O valor de uma mercadoria está para o
valor de qualquer outra, assim como o tempo de trabalho necessário à produção de uma está
para o tempo de trabalho necessário para a produção de outra”.
A força trabalho é uma mercadoria como qualquer outra tem seu valor definido pelo
tempo de trabalho socialmente necessário para sua produção e consequente reprodução. Então o
Valor da Força Trabalho nada mais é que o necessário para que o trabalhador possa comprar

4
Quanto mais tempo demorar para produzir uma mercadoria mais essa mercadoria custará.

5
Tempo médio para a produção de determinada mercadoria.
39

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

uma cesta de bens 6que garanta sua subsistência, e que também garanta sua reprodução, gerando
assim uma nova geração de trabalhadores.
O capitalista é movido pelo puro desejo da acumulação, ele quer produzir uma
mercadoria que tenha além de valor de uso, um valor mais elevado possível do que o conjunto
das mercadorias utilizadas na sua produção. Conforme Marx (2014. p. 249): “a mais-valia
produzida pelo capital desembolsado C no processo de produção ou aumento do valor do capital
desembolsado C patenteia-se, de início, no excedente do valor do produto sobre a soma dos
valores dos elementos que o constituíam”.
De acordo com Marx a fórmula do capital desdobrado é:
D – M (MP e FT)...... P.......M’ – D’
O capitalista possuidor do capital dinheiro (D) compra as mercadorias (M) necessárias
para a produção, que são meios de produção (MP) e força de trabalho (FT), com isso parte-se
para o processo produtivo (P), ao término do processo produtivo temos uma nova mercadoria
(M’), então se pode inferir que a mais-valia é criada no processo de produção da mercadoria, já
com seu novo valor criado pelo trabalho, após ser vendido o capitalista volta a ter capital
dinheiro em mãos (D’), porém agora acrescido da mais-valia, então a mais-valia é a diferença
entre D e D’, ao fim do processo nota-se que o processo de criação da mais-valia só se realiza
em sua totalidade quando a mercadoria é vendida, de nada adianta produzir uma mercadoria que
não será vendida. De forma resumida, a mais-valia é criada no processo produtivo, e se realiza
na circulação quando a mercadoria é vendida. Sobre isso Bittencourt (2008. p. 13) diz, “a mais-
valia é, portanto, fonte de lucro do capitalista. Assim, não poderia haver lucro sem tirar proveito
da força de trabalho, pois os lucros são baseados na exploração”.
Como é sabido, a mais-valia é gerada pelo capital variável (força de trabalho) durante o
processo produtivo. A relação entre a quantidade de capital variável e de mais-valia gerada
Marx chama de taxa de mais-valia; segundo Marx, esta mede o grau de exploração da força
trabalho7. Sobre a taxa de mais-valia, nos diz Marx (2014. p. 252):

Sua magnitude relativa, isto é, a proporção em que aumenta o valor do


capital variável, é evidentemente determinada pela relação entre a
mais-valia e o capital variável, expressando-se pela fórmula m/v. A
esse aumento relativo do valor do capital variável, a essa magnitude
relativa da mais-valia, chamo taxa de mais-valia.

Para Marx a mais-valia absoluta é um aumento da mais-valia gerada pela força de


trabalho aumentando a jornada de trabalho, mantendo-se constante o tempo de trabalho
socialmente necessário para a produção e reprodução da força trabalho. O aumento da jornada
de trabalho aumentará consequentemente a massa de mais-valia, usando o exemplo de um
sapateiro, que tem uma jornada de trabalho de 8 horas e utiliza 6 horas para produzir um par de
botas (que também é o tempo socialmente necessário para produção e reprodução da força de
trabalho); querendo o capitalista se apropriar de mais mais-valia o capitalista pode colocar o
trabalhador para trabalhar além da jornada de 8 horas, por exemplo, 12, 14, até 18 horas 8 se
achar necessário, aumentado sua produção diária para 3 pares de sapato, mantendo-se constante
o tempo de trabalho socialmente necessário para a subsistência do trabalhador, e com isso agora
6
“A fim de modificar a natureza humana, de modo que alcance habilidade e destreza em determinada
espécie de trabalho e se torne força de trabalho desenvolvida e específica, é mister educação ou treino que custa uma
soma maior ou menor de valores de mercadorias. Esta soma varia de acordo com o nível de qualificação da força
trabalho. Os custos de aprendizagem ínfimos para a força de trabalho comum, entram, portanto, no total dos valores
despendidos para sua produção. O valor da força trabalho reduz-se ao valor de uma soma determinada de meios de
subsistência. Varia, portanto, com o valor desses meios de subsistência, ou seja, com a magnitude do tempo de
trabalho exigido para sua produção.” (MARX, 2014. p. 202).

7
A taxa de mais valia é, por isso, a expressão do grau de exploração da força de trabalho pelo capital ou do
trabalhador pelo capitalista. (MARX, 2014. P. 254).
40

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

se apropriando de 12 horas de mais-valia e não somente mais de 2 horas como antes do aumento
da jornada de trabalho.
Para Marx o conceito de mais-valia relativa trata de um aumento da mais-valia gerada
pela força trabalho contraindo-se o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção e
reprodução da força trabalho. A contração do tempo de trabalho socialmente necessário se dá
por um aumento de produtividade, alterando-se o processo produtivo em si, no qual o
trabalhador produz mais no mesmo tempo de trabalho.
Para exemplificar utilizaremos uma jornada de 8 horas de trabalho, nela um sapateiro se
vale de 6 horas de trabalho para produzir uma bota e consequentemente receber o valor diário
para sua subsistência, se houver uma revolução tecnológica 9e o trabalhador passar a produzir
uma bota em 4 horas e seu tempo necessário para produzir e reproduzir sua força de trabalho
cair para 5 horas, o capitalista se apropriará de uma hora a mais de mais-valia gerada pelo
trabalhador.
Sobre esses conceitos, nos diz Marx (2014. p. 366):

Chamo de mais-valia absoluta a produzida pelo prolongamento do dia


de trabalho, e de mais-valia relativa a decorrente da contração do
tempo de trabalho socialmente necessário e da correspondente
alteração na relação quantitativa entre ambas as partes componentes
da jornada de trabalho.

3. A Aparência do Capital: a concorrência capitalista.


Existe uma lei capitalista que não foi apreendida pelos intérpretes da economia política,
segundo Marx (2013. p.52):

A lei fundamental da concorrência capitalista, até hoje não aprendida


pela economia política, a lei que regula a taxa geral de lucro e os
preços de produção determinados por essa taxa, baseia-se, conforme
veremos mais tarde, nessa diferença entre valor da mercadoria e preço
de custo, e na possibilidade daí resultante de vender a mercadoria
abaixo do valor, mas com lucro.

Na produção capitalista o valor da mercadoria (M) é expresso pela formula M= c+v+m,


sendo c o capital constante, v o capital variável e m a mais-valia gerada 10. Dividindo esta
formula em duas partes, teremos m que é a mais-valia gerada, e c+v que é o capital
desembolsado pelo capitalista, a qual Marx chama de preço de custo. Para exemplificar
suporemos que para se produzir uma caneta o capitalista desembolse $100 de capital constante,
e $ 50 de capital variável, gerando $ 50 de mais-valia; então M=100+50+50=200, o valor da
mercadoria é $ 200, já seu preço de custo é 100+50=150. Sobre preço de custo, diz nos Marx
(2013. p. 42), “Esta parte do valor, a qual ressarce o preço dos meios de produção consumidos e
o da força de trabalho aplicada repõem apenas o que a mercadoria custa ao próprio capitalista,
constituindo para ele preço de custo da mercadoria”. Para Hunt há uma grande diferença entre
essência e aparência no que se refere ao valor, diz ele “.... o trabalho abstrato (que se tornou
social mediante a venda e a compra da mercadoria) é a substância ou a essência do valor,
8
No início da Revolução Industrial os capitalistas colocavam os trabalhadores para jornadas de até 18 horas
consecutivas, logicamente se pudessem os colocariam para trabalhar até 24 horas por dia, porém eles precisavam de
tempo para se reproduzir e renovar os exércitos industriais dos capitalistas. Para mais informações sobre a jornada de
trabalho vide capitulo 7 de O Capital.

9
Por revolução tecnológica entende-se a implantação de novos métodos de produção, ou utilização de
maquinaria mais eficiente.

10
Por usualidade, utilizaremos sempre neste trabalho uma taxa de mais-valia de 100%.
41

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

enquanto o preço é a manifestação empírica dessa substância ou essência dentro de condições


históricas da produção de mercadorias capitalistas.”, ou seja, o preço é a aparência do valor.
O salário é a forma aparente que dissimula o valor da força trabalho. Na sociedade
burguesa, o salário aparece como uma questão metamórfica de uma quantidade de dinheiro que
paga um quantidade de trabalho. Porém essa relação simplista esconde a verdadeira relação
entre o valor da força trabalho e o valor pago ao trabalhador. Supõe-se uma jornada de trabalho
de 8 horas, sendo que para essa jornada o capitalista deveria pagar ao trabalhador $ 6, porém o
capitalista paga somente $ 3 ao trabalhador, pois $ 3 é o que o trabalhador necessita para sua
reprodução. Então podemos afirmar que o capitalista paga somente metade das horas
trabalhadas, porém se apropria do total produzida na jornada de trabalho completa. É essa
relação que o salário dissimula, a um observador de fora do processo lhe parece que o capitalista
paga pela totalidade do tempo trabalhado, porém não é isso que ocorre. Para Marx (2014. p.
627), “a forma salário apaga, portanto, todo vestígio da divisão da jornada de trabalho em
trabalho necessário e trabalho excedente, em trabalho pago e trabalho não pago. Todo trabalho
aparece como trabalho pago”. Marx classifica como as duas formas principais do salário, o por
tempo e o por peça. O salário por tempo segundo Marx é a forma aparente do valor diário,
semanal, mensal, etc. dá força de trabalho; a unidade de medida desta forma de salário é o preço
da hora do trabalho, que por sua vez é definido pela razão entre o valor diário da força trabalho
pelo número de horas da jornada média do trabalho. O salário por peça é segundo Marx “...
apenas uma forma modificada do salário por tempo.”, o salário por peça é definido pela razão
entre uma jornada de trabalho média por capacidade de produção média do trabalhador. O
salário por peça se transfigura em um instrumento de exploração por parte do capitalista, pois se
o trabalhador não possui a capacidade média de produção, ele não consegue produzir a
quantidade média durante a jornada de trabalho, e, consequentemente, é despedido. Outra
particularidade peculiar do salário por peça é que ele tende a desenvolver nos trabalhadores um
sentimento de liberdade e de concorrência entre os próprios trabalhadores; os trabalhadores
estendem sua jornada para que possam produzir mais, utilizam até o esgotamento seus atributos
físicos para que possam produzir o mínimo necessário para não serem mandados embora.
Evidentemente o capitalista se beneficia de todo esse processo, sendo o salário por peça a forma
mais adequada de salário ao modo capitalista. Sobre esses conceitos de salário, de acordo com
Marx (2014. p. 647), “no salário por tempo, o trabalho se mede diretamente por sua duração; no
salário por peça pela quantidade de produtos em que o trabalho se materializa num dado espaço
de tempo”.
O lucro realiza-se no momento da venda da mercadoria. A mercadoria que for vendida
por um preço entre seu valor e seu preço de custo estará realizando o lucro. Utilizando a
formula do valor da mercadoria M= c+v+m, podemos expressa lá em preço da mercadoria =
preço de custo + lucro (M= c+v+l). Conforme Marx (2013. p. 51), “O lucro, tal como o vemos
agora, é, portanto, o mesmo que a mais-valia, em forma dissimulada, que deriva
necessariamente do modo capitalista de produção.”. Utilizando o exemplo da caneta, que se
utiliza de $ 100 de capital constante e $ 50 de capital variável, gerando uma mais-valia de $ 50,
constituindo seu valor em $ 200 e seu preço de custo em $ 150. Vendendo o capitalista está
mercadoria por $ 190, 180, 170, ou 160 estará tendo lucro de $ 40, 30, 20, ou 10, mas, porém
estará perdendo mais-valia gerada em $ 10, 20, 30, 40. O capitalista só se apropriará do total de
mais valia gerada se o preço de venda de sua mercadoria for igual ao valor dessa mercadoria. A
taxa de lucro é representada pela formula l’ = m/C, onde m é a mais-valia gerada e C é o capital
total adiantado (c+v). No exemplo acima, supõe-se que o capitalista vendeu sua mercadoria por
$ 180, apropriando-se de $ 30 de mais-valia, então sua taxa de lucro é l’ = 30/150 = 20%. Nota-
se que o lucro aparece sempre como um valor menor que a mais-valia, a motivação dessa
situação será entendida a frente.
Há ainda para Marx o preço de produção e preço de venda. Para Marx o preço de
produção era expresso pela formula P=c+v+l’(c+v), onde c é capital constante, v é capital
variável e l’ é a taxa de lucro; sendo a taxa de lucro representada pela razão entre a taxa de mais-
valia (m/v) e a composição orgânica do capital (c/v), na formula l’= (m/v)/(c/v)+1. Conforme
42

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Marx (2013. p. 2010): “O preço de produção da mercadoria é, portanto, igual ao preço de custo
mais o lucro que percentualmente se lhe acrescenta correspondente à taxa geral de lucro, ou
igual ao preço de custo mais o lucro médio”. O preço de venda da mercadoria irá depender das
relações que se estabeleçam no mercado na hora da venda. A oferta e a demanda irão fazer com
que o preço de venda varie entre seu valor e seu preço de custo, obviamente que, o capitalista
sempre quer vender sua mercadoria pelo valor dela, porém nem sempre isso é possível, veremos
na sessão a seguir que o capitalista tem muitas opções de vender sua mercadoria abaixo de seu
valor, porém com lucro. Para uma melhor compreensão, tem-se o preço de produção, o valor, e
o preço de custos constantes, porém o preço de venda das mercadorias é influenciado pelas
forças de oferta e demanda, e varia de acordo com essa influência. Ora o preço de venda pode
estar acima do preço de produção, objetivando uma boa acumulação de mais-valia, ora ele pode
somente fazer o preço de custo da mercadoria produzida. Nenhuma força econômica garante
que o preço de venda tenha uma tendência uniforme ao longo de uma série econômica.
Conforme já dito, as empresas que se apropriam de mais mais-valia tendem a suportar melhor,
ou por mais tempo estas oscilações do preço de venda, as empresas que absorvem menos mais-
valia, ou que até mesmo perdem mais-valia tendem a não suportar este processo, sendo forçadas
a fechar as portas, ou serem absorvidas pelas empresas mais eficientes.
A seguir apresenta-se no Quadro 1 as fórmulas do valor, preço de custo, preço de
produção e preço de venda. O valor que é c + v+ m; preço de custo que é c +v; o preço de
produção que é c +v +l’; e o preço de venda que é c + v + l’, porém a taxa de lucro do preço de
venda depende das relações entre oferta e demanda do mercado.

Quadro 1 – Valor e preço em Marx.


VALOR E PREÇOS FORMULAS
Valor c+v+m
Preço de custo c+v
Preço de produção c+v+l’(c+v)
Preço de venda c+v+l’, a taxa de lucro varia com a oferta e
demanda.
Fonte: Elaboração dos autores.
Nota: c- capital constante, v- capital variável, m- mais-valia, l’ taxa de lucro.

Após abordar as partes da essência do capital, que é de fato o capital e as relações


capitalistas, e também a parte da aparência, que dissimula a essência, e aparece na sua
superfície, como uma casca, escondendo a realidade do capital; seguir-se-á agora para o
processo de concorrência11 segundo a teoria marxiana. Como nos diz Herrlein Jr. (1997. p. 229)
“Se é verdade que Marx não fez uma “consideração especial da concorrência” isso não significa
que esse autor tenha se limitado ao plano teórico do “capital em geral”, como frequentemente se
supõe”. É por meio da concorrência que as leis gerais do capital se materializam, é também na
concorrência que os capitais de forma inconsciente realizam as características mais primitivas
do capitalismo, tais como a exploração da mão de obra, e a busca incessante pela apropriação da
mais-valia. Conforme Herrlein Jr (1997. p. 335) “A concorrência expressa, como necessidade
externa, real e positiva, o que corresponde à natureza interna do capital. É o processo através do
quais vários capitais tornam obrigatórios os determinantes inerentes do capital, uns sobres os
outros e sobre o conjunto de seu movimento”.
A primeira etapa que aparece no processo concorrencial é a concorrência intra-ramos; A
concorrência intra-ramos é a concorrência que ocorre dentro de um mesmo ramo de produção.
O processo de produção é anárquico, ou seja, no sistema capitalista não existe a delimitação de
um horizonte para aonde a produção da sociedade deve caminhar, os capitalistas decidem por si
11
Tudo na concorrência e, por conseguinte, na consciência dos seus agentes se configura invertido. (MARX,
2013. p. 296).
43

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

só o quanto e como produzir, levando assim a uma produção sem planejamento. O processo
decorre das diferentes composições orgânicas dos capitais que compõe esse ramo, essa
diferença leva a diferentes quantidades de trabalho empregadas na produção, gerando diferentes
quantidades de mais-valia, e consequentemente diferentes valores. De acordo com Augusto
(2012. p. 15), “com métodos produtivos, dispares, os diversos capitais particulares despendem
quantidades de trabalho desiguais para produzir a mesma mercadoria, originando, assim,
diferença no valor individual das mercadorias”. O quadro 2, nos mostra essa relação, cada
capital individual, dentro de seu ramo, e cada qual com sua composição orgânica de capital,
estabelece sua taxa de mais-valia (nesta análise é 100%) e, consequentemente, sua mais-valia;
após isso, somando a mais-valia com o capital investido (preço de custo) teremos o valor de seu
produto e, consequentemente, sua taxa de lucro. No Quadro 2 são apresentadas as diferentes
composições orgânicas dos capitais e a formação do valor das mercadorias.

Quadro 2 - Composição orgânica os capitais e formação do valor.


Capitais Taxa de Mais-valia Valor do Taxa de lucro
mais-valia produto
I 80c+20v 100% 20 120 20%
II 70c+30v 100% 30 130 30%
III 60c+40v 100% 40 140 40%
IV 85c+15v 100% 15 115 15%
V 95c+5v 100% 5 105 5%
Fonte: (MARX, 2013. p. 208.)

Após esse processo, os capitais irão se defrontar uns com os outros, para que se forme
uma taxa média de lucro, porém esse processo não ocorre mais dentro do seu ramo, os capitais
que se defrontam são de todos os ramos da economia, e a partir daí passamos a parte da
concorrência inter-ramos. De acordo com Herrlein Jr. (1997. p. 337), “A concorrência pela
apropriação do valor não se limita a mercados isolados, é um processo generalizado pelas
relações econômicas entre os próprios capitalistas, entre estes e os consumidores individuais e
entre estes últimos”. A concorrência inter-ramos é a concorrência que ocorre entre os diferentes
ramos de produção. Como na concorrência intra-ramos, o processo decorre das diferentes
composições orgânicas de capitais, firmas ou capital (dinheiro) tendem a migrar para setores
com taxa média de lucro maior, até que as taxas média de lucro se equalizem, começando todo o
processo novamente. Diz-nos Augusto (2012. p. 17), “A disputa pela mais-valia, no entanto,
estende-se por toda a estrutura social de produção não se restringindo aos diferentes ramos da
divisão social do trabalho”. Para que a concorrência inter-ramos se realize em sua plenitude é
necessário que se tenha mobilidade de capital. Existem limitações para que pátios industriais se
convertam para outro ramo de produção, ou até mesmo para uma nova tecnologia, esse processo
tem um grande dispêndio de tempo, porém com o advento do mercado financeiro surge uma
nova modalidade que é a migração de capital dinheiro para outro ramo. Segundo Maldonado
(1990. p. 4): “a mobilidade de capital se constitui em um fator central do processo de
equalização das taxas de lucros setorial. Se a mobilidade for bastante limitada não haverá
nenhum mecanismo eficaz que tenderá a equalizar a taxa de lucro entre indústrias”. No Quadro
3 são apresentados a formação da taxa média geral de lucro, e os preços de custos das
mercadorias.
44

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Quadro 3 - Formação da taxa média geral de lucro e preço de custo.


Capitais Taxa de Mais- Taxa de Desgaste Valor das Preço de
mais- valia lucro de c mercador custo
valia ias
I 80c+20v 100% 20 20% 50 90 70
II 70c+30v 100% 30 30% 51 111 81
III 60c+40v 100% 40 40% 51 131 91
IV 85c+15v 100% 15 15% 40 70 55
V 95c+5v 100% 5 5% 10 20 15
Soma 390c+110 --- 110 --- --- --- ---
v
Média 78c+22v --- 22 22% --- --- ---
Fonte: (MARX, 2013. p. 209).

Cada um desses cinco diferentes capitais tem uma composição orgânica de capital
diferente, porém todos eles geram uma mais-valia de 100%. A soma dos cinco capitais é igual a
500, é a soma da mais-valia gerada é de 110; para encontrarmos a taxa média de lucro temos
que, primeiramente encontrar a composição orgânica média desses capitais, então se o total do
capital é 500, e sua mais-valia gerada é 110, temos que o capital variável é 110 (pois temos uma
mais-valia de 100%), e portanto subtraindo 110 de 500, temos 390 como capital variável,
resumindo 500 = 390c + 110v; dividindo essa equação por 5 ( número de capitais) para obter-se a
500=390 c +110 v
média aritmética, ter-se-á = 100 = 78c + 22v. Então a composição média
5
desses cinco capitais é 78 de capital constante mais 22 de capital variável, que gerará uma mais-
valia também de 22, e uma taxa média de lucro de 22% 12.
Depois da formação do valor da mercadoria, dos preços de custos e da definição da taxa
média de lucro do mercado as firmas se voltam novamente ao seu ramo e formem seus preços
das mercadorias13 (preços de produção), e retornem a olhar todos os ramos para a repartição da
mais-valia igualmente entre os capitais, e seus respectivos ramos, e com isso obter-se-á o desvio
do preço em relação ao valor de cada mercadoria. De acordo com Herrlein Jr (1997. p. 344):

Ao considerar que a concorrência entre os capitais empregados nas


diferentes esferas da produção implica à tendência a equalização da
taxa de lucro entre tais esferas, Marx determina teoricamente a taxa
geral de lucro incorporando o fato “prático” de que os capitalistas, a
despeito da singular composição orgânica dos capitais, buscam a
mesma mais-valia (lucro) como proporção do capital total, enquanto a
produzem em função do capital variável. Isso só é possível na medida
em que as mercadorias não são compradas/vendidas por preços
proporcionais a seus valores, o que indica a eficácia própria das
determinações da concorrência. As mercadorias agora são produto do
capital, e, sob condições da concorrência, os capitais fixam seus
preços com referência a um lucro médio.
12
“Assim, a taxa geral de lucro é determinada por dois fatores: (1) pela composição orgânica dos capitais nos
diferentes ramos, portanto pelas diferentes taxa de lucros dos vários ramos; (2) pela repartição do capital total da
sociedade nesses diferentes ramos, portanto pela magnitude relativa do capital aplicado em cada ramo particular e,
por isso, a uma taxa particular de lucro.” (MARX, 2013. p. 216).

13
“O preço de produção da mercadoria é, portanto, igual ao preço de custo mais o lucro que percentualmente
se lhe acrescenta correspondente à taxa geral de lucro, ou igual ao preço de custo mais o lucro média.” (MARX,
2013. p. 210).
45

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

No Quadro 4 são apresentados os preços de produção e a respectiva repartição da mais-


valia entre os capitais.

Quadro 4 – Preços de produção e repartição da mais-valia.


Capitais Mais- Valor das Preço de Preço das Taxa de Desvio
valia mercadorias custo mercadorias lucro do preço
(em
relação
ao valor)
I 80c+20v 20 90 70 92 22% +2
II 70c+30v 30 111 81 103 22% -8
III 60c+40v 40 131 91 113 22% -18
IV 85c+15v 15 70 55 77 22% +7
V 95c+5v 5 20 15 37 22% +17
Fonte: (MARX, 2013. p. 210)

Neste quadro pode se notar algumas características do processo de concorrência 14: 1)


capitais mais intensivos em capital variável geram mais mais-valia que os capitais intensivos em
capital constante, porém sem apropriam de menos mais-valia, ou até mesmo, perdem a que
geraram; 2) capitais mais intensivos em capital constante geram menos mais-valia, porém sem
apropriam de mais mais-valia, até mesmo, daquele que não foi produzida por eles.

Em virtude da diversa composição orgânica dos capitais investidos em


diferentes ramos de produção, em virtude de capitais de igual
magnitude mobilizarem quantidades muito diferentes de trabalho, de
conformidade com a diversa porcentagem que o capital variável
representa num capital global de grandeza dada, apropriam-se esses
capitais de quantidades muito diversas de trabalho excedente, ou seja,
produzem quantidades muito diferentes de mais-valia. Por isso,
originalmente diferem muito as taxas de lucro reinantes nos diferentes
ramos de produção. As taxas diferentes de lucros, por força da
concorrência, igualam-se numa taxa geral de lucro, que é a média de
todas elas. O lucro que, de acordo com essa taxa geral, corresponde a
capital de grandeza dada, qualquer que seja a composição orgânica,
chama-se de lucro médio. (MARX, 2013. p. 210-211).

Esses dois fatos ocorrem logicamente porque quanto mais capital variável uma firma tiver
em sua composição orgânica, mais mais-valia ela gerará, porém em contra partida, por ter
menos aparatos tecnológicos, ou mesmo uma tecnologia mais obsoleta que a firma mais
intensiva em capital, ela consequentemente produzirá menos e seus preços serão menos
competitivos, sendo assim, quando as mercadorias produzidas pelas duas firmas se
confrontarem no mercado, a mercadoria da firma mais intensiva em capital se realizará mais
vezes e/ou mais facilmente que a da firma menos intensiva em capital, gerando assim o
processo de transferência de mais-valia 15, se uma mercadoria tem mais-valia de mais a outra tem
14
”A concorrência reparte o capital da sociedade entre os diferentes ramos de produção, de maneira tal que os
preços de produção em cada ramo se constituem segundo o modelo dos preços de produção nos ramos de composição
média....” (MARX, 2013. p.229).

15
“Os capitalistas dos diferentes ramos, ao venderem as mercadorias, recobram os valores de capital
consumidos para produzi-las, mas a mais-valia (ou lucro) que colhem não é gerada no próprio ramo com a respectiva
produção de mercadorias, e sim a que cabe a parte da alíquota do capital global, uma repartição uniforme da mais-
valia (ou lucro) global produzida, em dado espaço de tempo, pelo capital global da sociedade em todos os ramos.”
46

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

mais-valia de menos, através da concorrência se dá a transferência de mais-valia. Todo esse


processo leva a algo que é inerente ao processo capitalista de produção, que é a centralização do
capital, as firmas menos intensivas em capital não conseguem concorrer por muito tempo com
as firmas mais intensivas em capital, ao cabo essas firmas menos intensivas em capital são
forçadas a fechar às portas, ou são absorvidas pelas firmas mais intensivas em capital.
Conforme Augusto (2012. p. 16):

A busca por mais-valia extraordinária leva diversos capitais a


implementar métodos mais produtivos de forma constante; os capitais
particulares não se contentam em alcançar o nível médio de
produtividade. Em resumo, a concorrência é um processo continuo e
incessante que, embora leve os capitais particulares a buscarem a
reduzir as desigualdades, acaba por reproduzi-las.

Já conforme Bittencourt (2008, p.16):

A concorrência, entendida como rivalidade entre os capitalistas, obriga


o reinvestimento dos lucros na obtenção de novas máquinas e
equipamentos que possam elevara produtividade do trabalho. O
acúmulo incessante de capital é uma exigência do sistema.

Como dito anteriormente, os diferentes capitais possuem diferentes composições


orgânicas de capital, então produzem mercadorias com diferentes valores, com diferentes
quantidades de mais-valia e consequentemente com diferentes taxa de lucro. Devido ao avanço
do modo capitalista de produção essa composição orgânica tende a se elevar progressivamente,
sendo assim o número de maquinas e equipamentos durante o processo produtivo será maior,
suprimindo assim a força-trabalho na produção. Com mais capital constante o valor das
mercadorias será menor devido a menor quantidade de mais-valia produzido e claro, pelo
desgaste do capital constante, segundo Marx (2013. p. 282-283):

Cada produto individual, isoladamente considerado, passa a conter


quantidade menor de trabalho, tomando-se por termo de comparação
estágios inferiores de produção, onde o capital desembolsado em
trabalho é muito maior relativamente ao empregado em meios de
produção....Essa tendência produz , simultaneamente com o
decréscimo relativo do capital variável em relação ao constante, cada
vez mais elevada composição orgânica do capital global, daí
resultando diretamente que a taxa de mais-valia, sem variar e mesmo
elevando-se o grau de exploração do trabalho, se expresse em taxa
geral de lucro em decréscimo continuo.

Outro fato que deve ser levado em consideração quando falamos de concorrência
capitalista é a lei de tendência a decréscimo da taxa de lucro, que regula a concorrência
capitalista, assim como a lei do valor regula a troca de equivalentes. Essa tendência deve-se ao
fato de que, conforme o capitalismo se desenvolve, o capital constante tende a ser relativamente
maior do que o capital variável, ou seja, tendem a serem formadas mais por capital constante do
que por capital variável, de acordo com Marx (2013. p. 282.):

Esse aumento progressivo do capital constante em relação ao variável


deve, necessariamente, ter por consequência a queda gradual na taxa
de lucro, desde que não varie a taxa de mais-valia ou o grau de
exploração do trabalho pelo capital. Ora, vimos ser uma lei do modo
(MARX, 2013. p. 211).
47

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

de produção capitalista que, ao desenvolver-se ele, o capital variável


decresce relativamente, comparada com o constante e, por
conseguinte, com todo o capital posto em movimento.

Lançaremos mão da fórmula da taxa de lucro para demonstrar como essa tendência
m/ v
m l '=
ocorre, l '= essa fórmula pode ser desdobrada da seguinte forma c , na forma
C +1
v
desdobrada podemos notar a tendência que destacamos acima, a parte do capital constante está
no denominador da fórmula, ou seja, se o capital constante aumentar mais que o capital variável
a taxa de lucro irá cair. No modo de produção capitalista, os capitalistas estão sempre
procurando obter o maior lucro possível, sendo assim tendem a incorporar novas tecnologias a
sua produção, com isso aumenta-se o nível de capital constante, em um primeiro momento este
capitalista que incorporou essa nova tecnologia consegue obter lucro extraordinário, porém com
o passar do tempo os outros capitalistas tendem a incorporar esta técnica fazendo com que as
taxas de lucros se equalizem, com esse aumento progressivo da composição média de capital a
taxa de lucro média irá cair, como demonstra a fórmula. Uma das possibilidades para que essa
tendência não ocorra é a de que a taxa de mais-valia aumente mais do que proporcional ao
aumento do capital constante. .
Cabe assinalar então que a lei da tendência da queda da taxa de lucro é inerente ao
modo de produção capitalista, ela nada mais do que a expressão das condições desse modo de
produção. O capitalismo cria as condicionantes para seu desenvolvimento, porém ao mesmo
tempo cria elementos para a sua superação, como a queda gradual da taxa de lucro, de acordo
com Marx (2013. p. 283):

A tendência gradual, para cair, da taxa geral de lucro é, portanto,


apenas expressão, peculiar ao modo de produção capitalista, do
progresso da produtividade social do trabalho. A taxa de lucro pode,
sem dúvida, cair em virtude de outras causas de natureza temporária,
mas ficou demonstrado que é da essência do modo capitalista de
produção, constituindo necessidade evidente, que, ao desenvolver-se
ele, a taxa média geral de mais-valia tenha de exprimir-se em taxa
geral cadente de lucro.

Outra característica do processo de concorrência tem a ver com a migração de capitais


para ramos mais rentáveis, deve este fato principalmente ao nível de mobilidade de capital que
cada economia oferece como praticamente todos os países são adeptos da economia de mercado
esta possibilidade é irrestrita. O capitalista de um determinado ramo se depara com outro ramo
que está auferindo um lucro médio maior que o do seu ramo, ele sabe o quão demorado será
migrar p seu chão de fábrica para aquele ramo, então ele compra ações de uma firma 16 daquele
ramo, via sistema financeiro ou via investimento direto, essa migração de capitais tende a
diminuir o lucro médio daquele ramo. Isso logicamente ocorre simultaneamente em todos os
setores da economia, gerando assim está tendência à equalização da taxa média de lucro
intersetorial.

Portanto, a mobilidade de capital é determinada pelas condições


concretas de produção e de circulação das mercadorias, mas sem que
isso implique no surgimento da noção de barreiras à entrada. Além
disso, deve se ressaltar que, para Marx, entrada de capital não implica
necessariamente, na entrada de novas firmas, mas sim na expansão da

16
“Deve se ressaltar que a transferência intersetorial do capital é, em termos gerais, realizadas pelo sistema
financeiro.” (MALDONADO, 1990. p.4).
48

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

capacidade instalada acima daquela permitida pela acumulação interna


da indústria. (SHAIK, 1978. apud MALDONADO, 1990. p. 5).

Na análise marxiana deve-se sempre atentar para os valores médios, seja para o tempo ou
para os valores, pois é a média que funciona como um centro de gravidade, que faz os valores
(preço, valor, salário, tempo, etc.) gravitarem em torno de sua média; para Marx sempre que o
capitalista produz ou investir ele analisara antes a média desse mercado para depois tomar suas
decisões.
Outro importante ponto no processo de concorrência é o tempo de rotação dos capitais.
Capitais que rotacionam menos em um dado período participam menos do processo de
concorrência do que capitais que rotacionam mais vezes. Tomemos dois capitais, o primeiro A
com 10c+5v, que rotaciona 2 vezes em um determinado período, e outro B com 10 c+10v que
rotaciona 1 vez no mesmo período. A mais-valia gerada pelos dois capitais no período de tempo
é a mesma, 10, pois o primeiro rotaciona 2 vezes então gera duas vezes cinco de mais-valia, e o
que rotaciona uma vez gerá um vez 10 de mais-valia; contudo, as chances de o capital A realizar
suas mercadorias é maior, pois ele entra duas vezes no mercado e o valor de suas mercadorias é
menor do que o capital do que o capital B (pois A é mais intensivo em capital), sendo assim,
mais atrativo aos compradores. Com isso aconteceria o referido acima, o capital B não
conseguirá competir por muito tempo com o capital A; B será forçada a parar de produzir, ou
será absorvido pelo capital A17, gerando o processo de centralização do capital.

A solução proposta por Marx apreende as tendências de


funcionamento do sistema capitalista, resguardando o fundamento
cientifico da economia política. A transformação operada por Marx
tem essa dupla característica – responde a determinações da lei do
valor e da concorrência, vinculando os dois planos teóricos -, o que
nos permite referi-la como um momento teórico crucial no sistema
marxiano, ao fazer a mediação teórica entre a determinação dos
valores pelo trabalho (e, portanto, da mais-valia pelo trabalho não
pago) e a configuração dos preços que regulam a intercambialidade
capitalista e a apropriação do lucro. (HERRLEIN JR, 1997, p.346).

Um ponto que gera muitas divergências entre os teóricos marxistas é a tendência à


equalização da taxa de lucros. Estas divergências partem principalmente do caráter que essa
tendência tem expor-se-á dois pontos de vistas que diferem neste sentido. Para Augusto (2012)
essa tendência não se efetiva, para ele “...essa regulação tem caráter turbulento – isto é, sujeito a
mudanças continuas e imprevistas – uma vez que não é realizada de forma consciente pelos
agentes.”, além disso ele cita uma série de fatores que impedem a equalização, para ele “...as
diferenças nos tempos de rotação entre os diversos ramos, as barreiras a mobilidade do capital, e
as diferenças de produtividade dentro de cada ramo de produção impedem que se estabeleça a
taxa uniforme de lucro como taca efetiva...”, e segue “seu estatuto é apenas tendencial, e o
fluxo de capitais é um fluxo ininterrupto, a taxa geral de lucro é apenas a reguladora de um
processo turbulento”.
Já para Maldonado (1990) esse processo não é tão turbulento, para ele a tendência à
equalização ocorre, porém nada garante que no próximo ciclo econômico ela será a mesma, ou
mesmo que as condições serão as mesmas, diz ele “...ainda que as mercadorias sejam
produzidas sob diferentes condições de produção e, por conseguinte, possuam diferentes valores
17
“Na situação em que o preço de mercado se encontra abaixo do valor de mercado,
alguns capitais não conseguem nem recuperar seu preço de custo, e dessa forma podem ficar
impossibilitados de se reproduzirem como produtores privados, isto é, desaparecem os são
absorvidos pelos capitais mais produtivos, dando origem ao processo de centralização do
capital.” (MARX apud. AUGUSTO, 2012. p. 17).
49

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

individuais, o processo competitivo dentro de uma indústria (ou de várias industrias)18


estabelece um único valor de mercado para as mercadorias, ou seja as mercadorias não são
vendidas pelos seus valores individuais mas sim pelo valor social. Por consequência, uma
hierarquia de taxas de lucro dentro de uma indústria é o resultado do próprio processo
concorrencial – e não uma obstrução a este processo”.
Basicamente os dois autores chegam à mesma conclusão por caminhos diferentes, a
equalização da taxa média de lucros é mesmo só uma tendência, e não a nenhuma lei ou
processo econômico que garanta sua realização seja por um viés mais turbulento ou por um
mais harmônico. O processo concorrencial é imprevisível, ora ele tende ao equilíbrio, ora não.

4. Considerações finais.

A lei de tendência da taxa de lucro governa a concorrência, a concorrência funciona como


um nivelamento das taxas de lucro, repelindo assim, os lucros extraordinários. Esses lucros são
auferidos por um curto espaço de tempo, justamente porque os mecanismos da concorrência
tendem a equalizar as taxas de lucros.
Existem duas características bem claras, no processo de concorrência capitalista segundo
Marx. A primeira é que o processo define a taxa média de lucro da economia, depois da
formação do valor das mercadorias dentro de seu ramo, o capitalista se defronta com outros
capitalistas e com suas respectivas mercadorias no mercado, e com isso se fixa uma taxa média
de lucro global, que servirá como um centro de gravidade para os lucros das empresas.
A segunda característica é que o processo concorrencial define a distribuição da mais-
valia; depois da formação da taxa média de lucro se dá a distribuição da mais-valia entre os
capitais, e de acordo com os desvios que ocorrem, as empresas se apropriam de mais mais-valia,
ou de menos, ou da mais-valia que geram isso depende claro, da composição orgânica de capital
de cada uma, e também das forças de oferta e demanda do mercado.

18
Grifo dos autores.
50

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

REFERÊNCIAS
AUGUSTO, G. A. A imposição do caráter social da produção por meio da concorrência. Revista Nova
Economia, Belo Horizonte, v.22, n.1, p. 11-27, 2012.

BITTENCOURT, T. Alternância entre concorrência e monopólio em Marx, Schumpeter e na Escola


Austríaca. 2008. 51 f. Trabalho de Conclusão de Curso – Universidade Federal de Santa Catarina,
Florianópolis, 2008.

HERRLEIN JR., R. As mediações para uma “consideração especial” da concorrência a partir de Marx.
Ensaios FEE, Porto Alegre, v.18, n.2, p. 329-361, 1997.

HUNT, E. K. História do pensamento econômico: uma perspectiva crítica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.

MALDONADO FILHO, E. A. L. (1990). A dinâmica da concorrência em Marx. In: Encontro nacional de


economia, 18. Anais... ANPEC.

MARX, K. O Capital: crítica da economia política, livro terceiro: o processo global de produção
capitalista, volume IV/ Karl Marx; tradução Reginaldo Sant’Anna. – 3ªed. – Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2013.

--------------. O Capital: crítica da economia política, livro primeiro / Karl Marx; tradução de Reginaldo
Sant’Anna – 33ª Ed. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.
51

O Banco de Compensações Internacionais


(BIS) e a unificação monetária europeia1

Maria de Fátima Silva do Carmo Previdelli2


Fernando Roberto Freitas Almeida3
Luiz Eduardo Simões de Souza4

Resumo

O Sistema Financeiro Internacional está submetido às normas e regulamentos de algumas organizações


supranacionais que, a princípio, por não pertencerem a nenhum país, possuiriam imparcialidade e isenção.
No entanto, há clara ingerência dos interesses de grupos específicos nos resultados obtidos com tais
regramentos. Uma das organizações menos conhecidas, e a mais antiga, do grupo de reguladores é o
Banco de Compensações Internacionais (BIS). O objetivo do presente artigo é detalhar a sua participação
na criação e execução do projeto de uma Europa unificada com uma moeda única subordinada às decisões
de uma instituição supranacional, o Banco Central Europeu (BCE) através da recuperação de informações
presentes nos principais documentos relativos ao processo.

Palavras-chave: BIS, União Europeia, Euro, Sistema Financeiro Internacional, unificação monetária.

Abstract
The International Financial System is subject to the rules and regulations of some supranational
organizations which, in principle, because they do not belong to any country, would have impartiality and
exemption. However, there is clear interference of the interests of specific groups in the results obtained
with such regulations. One of the least-known organizations, and the oldest, in the regulatory group is the
Bank for International Settlements (BIS). The purpose of this article is to detail its participation in the
creation and implementation of the unified Europe project with a single currency under the decisions of a
supranational institution, the European Central Bank (ECB), through the retrieval of information process.

Keywords: BIS, European Union, Euro, International Financial System, monetary unification.

Classificação JEL: F53; F55.

1
Informações mais detalhadas do processo de unificação monetária europeia, bem como dos documentos aqui
utilizados pode ser encontrada em PREVIDELLI, M.F.S.C. Expansão e crise na União Europeia: um olhar para a
economia da Zona do Euro, 2000-2010. Mauritius: Novas Edições Acadêmicas, 2015. Artigo apresentado em
20/11/2018. Aprovado em 20/12/2018.

2
Economista com doutorado em História Econômica pela FFLCH/USP. Professora Adjunta do Departamento de
Economia e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Socioeconômico da UFMA. Pós-doutoranda em
Relações Internacionais pelo INEST/UFF.

3
Doutor em Ciência Política pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, professor do Instituto de Estudos
Estratégicos da Universidade Federal Fluminense INEST/UFF.

4
Economista e Historiador com doutorado em História Econômica pela FFLCH/USP. Pós-doutor em Relações
Internacionais pelo INEST/UFF. Professor Associado do Departamento de Economia e do Programa de Pós-
Graduação em Desenvolvimento Socioeconômico da UFMA.
52

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

1. Introdução

A atual configuração do Sistema Financeiro Internacional (SFI) permite que o mesmo


seja dividido em três grupos de organizações. Um primeiro grupo inclui aquelas que exercem as
funções de regulação e supervisão. Um segundo grupo receberia as que são reguladas e
supervisionadas pelas primeiras. Em um terceiro, estariam as organizações que não seguiriam
tais regras ou supervisão, também conhecido como Shadow Banking System. Essa configuração
do Sistema Financeiro Internacional reflete, em nosso ver, uma característica da própria
evolução do Capitalismo para sua mais recente fase, conhecida de forma geral como
Globalização Financeira (HIRST e THOMPSON, 1998).
Dentro do grupo das organizações que regulamentam e normatizam o espaço financeiro global,
destaca-se o Banco de Compensações Internacionais (BIS, do inglês Bank For International
Settlements) como a mais antiga e menos conhecida do público em geral. Sua participação em
processos decisivos para a atual configuração do SFI em geral, e mais especificamente para o
espaço financeiro europeu que, ao final do século XX atingiu a meta de unificação monetária
com a adoção do Euro, torna o BIS um importante detentor de poder nesse espaço.
A proximidade do banco com os principais tomadores de decisão durante todo o
processo de unificação monetária comprova a sua total responsabilidade no modelo adotado.
Modelo este que, para autores como Walter Laqueur (2012) e David Marsh (2011), foi baseado
no Bundesbank da República Federal da Alemanha, ou Alemanha, para simplificar. A
proximidade do BIS com o banco central alemão vem desde sua fundação, quando o presidente
do então Reichsbank da República de Weimar, Hjalmar Schacht, assumiu sua presidência.
Dessa forma, este artigo busca recuperar as informações relativas à participação do Banco de
Compensações Internacionais (BIS) na criação e execução do projeto de uma Europa unificada
com uma moeda única subordinada às decisões de uma instituição supranacional, o Banco
Central Europeu (BCE). A fonte principal examinada em busca de tais informações são os
documentos oficiais relativos ao processo de unificação monetária europeia, bem como os
históricos apresentados pelo BIS, Instituto Monetário Europeu (IME) e BCE.
Para tanto, além desta introdução, na primeira seção apresentam-se algumas
informações sobre a criação do BIS e as mudanças de função ocorridas após o término da
Segunda Grande Guerra. Na segunda parte, discorre-se sobre a criação do Sistema Monetário
Europeu, seguida de outra seção onde se expõe a implantação da moeda única, o Euro. Em
seguida, apresenta-se o papel do BIS, frente às crises do início do século XXI. Por fim, tecem-se
algumas considerações sobre os aspectos levantados.

2. A Criação do BIS e os primeiros anos

O Banco de Compensações Internacionais (BIS) foi criado no contexto do Plano Young5


, e teve sua aprovação formal em 20 de janeiro de 1930 na Conferência de Haia. O BIS
substituiu o Agente Geral de Reparações criado pelo Plano Dawes em 1924, e assumiu o papel
de administrar a cobrança, e a distribuição dos pagamentos efetuados como reparações por parte
da Alemanha e seus aliados derrotados na Primeira Guerra Mundial. O nome do banco vem
desse papel inicial. Além disso, o BIS foi nomeado como agente para os curadores e fiduciários
dos empréstimos internacionais do governo alemão de 1924 e 1930 (os chamados Dawes e
Young Loans emitidos para ajudar a financiar as reparações de guerra usando majoritariamente
crédito privado de bancos dos EUA). No período, o BIS reinvestiu parte dos valores recebidos
como pagamento das reparações em títulos alemães (BACKER, 2002).

A ideia da criação de um banco supranacional, entretanto, já havia surgido no século


XIX, nas conferências de Paris, mais precisamente na 3 a Conferência Monetária Internacional

5
O Plano Young pretendia lidar com a questão dos pagamentos de reparação impostos à Alemanha (e em menor
medida em outros países da Europa Central) pelo Tratado de Versalhes após o fim da Primeira Guerra Mundial.
53

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

de 1881. Apesar de alguns autores darem o crédito de tal sugestão a Luigi Luzzatti 6, em 1907, os
registros mostram que, no ano de 1892, Julius Woff 7 submeteu um projeto tocando no assunto
na Conferência Monetária Internacional de Bruxelas, e sugestões semelhantes foram feitas por
Raphaël-Georges Levy8 no ano seguinte, 1893. Assim, o debate sobre como as relações
financeiras entre os países europeus deviam se proceder já polarizava opiniões sobre a criação
de organismos financeiros supranacionais e moedas transnacionais desde o processo de
unificação dos Estados Germânicos e o fim da Guerra Franco Prussiana em 1871. (TONIOLO,
2005)

As propostas tinham como ponto comum a criação de uma moeda internacional a ser
utilizada para empréstimos de emergência a bancos centrais. Os fundos para tais empréstimos
viriam de reservas em ouro depositadas pelos bancos centrais, e seriam geridos por uma
instituição comum, que teria neutralidade, por não pertencer a nenhum dos países-membros, ao
mesmo tempo representando todas. (TONIOLO, 2005)

Os nomes por trás da fundação do BIS são Charles G. Dawes 9, Owen D. Young10 e
Hjalmar Schacht11, este último assumiu a presidência do Quadro de Governadores até abril de
1930, sendo o primeiro presidente do BIS, após esta data, Schacht assumir o Ministério da
Economia de Hitler. Os fundos que permitiram o seu funcionamento foram fornecidos pelos
bancos centrais da Bélgica, França, Alemanha, Itália, Japão e Grã-Bretanha além de três bancos
privados nos Estados Unidos: JP Morgan & Company, First National Bank of New York e o
First National Bank of Chicago. O banco central de cada país possuía 16 mil ações e os três
bancos privados americanos tinham 16 mil ações cada. Assim, a representação americana no
6
Jurista, economista e político italiano que exerceu o cargo de primeiro-ministro de 31 de março de 1910 a 30 de
março de 1911. Idealizador em 1863 das cooperativas de crédito cujo modelo recebe seu nome, e basicamente
consiste na criação de bancos populares para difusão do crédito a pequenos empresários e artesãos. Segundo
informações disponíveis no endereço http://cooperativismodecredito.coop.br/cooperativismo/historia-do-
cooperativismo acessado em 20-08-2018.

7
Economista alemão, estudou em Viena e tornou-se professor da Universidade de Zurique em 1889 onde lecionou
estatística e economia até se transferir para a Universidade de Berlim em 1897 para lecionar sobre políticas de crédito
públicas. Defendia a criação de uma moeda internacional e bancos públicos de financiamento de pequeno porte a
juros baixos para estimular o desenvolvimento da indústria alemã. (TONIOLO, 2005)

8
Banqueiro, economista e político francês. Professor na École Libre des Sciences Politiques onde defendia o livre
comércio e a independência do banco central na virada do século XX. Em 1923 foi escolhido para o Comitê de
Finanças, e por cinco anos foi relator do orçamento das regiões liberadas. (TONIOLO, 2005)

9
Charles G. Dawes foi diretor do Departamento do Orçamento dos EUA em 1921 e serviu na Comissão de Reparação
dos Aliados, a partir de 1923. Sua obra posterior sobre “Estabilização da Economia da Alemanha”, garantiu para ele o
Prêmio Nobel, em 1925. Após ser eleito vice-presidente para o presidente Calvin Coolidge, de 1925-1929, e indicado
embaixador na Inglaterra em 1931, ele retornou à sua carreira pessoal na área bancária em 1932 como presidente da
junta de diretores do City National Bank and Trust, em Chicago, onde permaneceu até sua morte em 1951 (BACKER,
2002).
10
Owen D. Young foi um industrial americano. Ele fundou a RCA (Radio Corporation of America) em 1919 e foi
seu presidente até 1933. Ele também atuou como presidente da General Electric de 1922 até 1939. Em 1932, Young
buscou a indicação como candidato a presidente pelo Partido Democrata, mas perdeu para Franklin Delano
Roosevelt.(BACKER, 2002)
11
Hjalmar Schacht foi um economista alemão, banqueiro, político de centro-direita e co-fundador em 1918 do Partido
Democrata alemão. Ele serviu como o Comissário de Divisas e Presidente do Reichsbank sob a República de Weimar
e serviu no governo de Hitler como Presidente do Reichsbank (1933-1939) e Ministro de Economia (agosto de 1934 -
novembro de 1937). Como tal, Schacht desempenhou um papel fundamental na implementação das políticas
atribuídas a Hitler. (BACKER, 2002)
54

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

BIS foi três vezes maior que a de qualquer outro país. A justificativa era o maior nível de
endividamento alemão junto a esses bancos privados (LEBOR, 2014).

No início da década de 1930, a crise financeira e bancária alemã no verão de 1931


levaram primeiro a uma moratória de um ano sobre os pagamentos de reparação (Hoover
Moratorium de julho de 1931) e posteriormente ao seu cancelamento completo pelo Acordo de
Lausanne de julho de 1932. Com a questão das reparações fora do caminho, o BIS passou a
exercer primordialmente o que, no momento de sua criação era um papel secundário, ou seja,
prover atividades denominadas sob o amplo conceito de “cooperação técnica entre bancos
centrais”, tais atividades representavam o gerenciamento das reservas em ouro, efetuar as
transações cambiais, os pagamentos internacionais de remessas, depósitos de ouro e opções de
swap entre os diferentes bancos associados, bem como, passou a abrigar as reuniões regulares
dos chamados Governadores dos Bancos Centrais dos países fundadores. (BACKER, 2002)

O Conselho do BIS consistia nos Governadores e seus suplentes dos países fundadores:
o Banco Nacional da Bélgica, Banco da França, Reichsbank alemão, Banco da Itália, Banco dos
Países Baixos, Riksbank sueco, Banco Nacional Suíço, Banco da Inglaterra, bem como
representantes do Banco do Japão, além dos 3três bancos privados estadunidenses mencionados
anteriormente (JP Morgan & Company, First National Bank of New York e o First National
Bank of Chicago). (LEBOR, 2014)

Após o final da Segunda Guerra Mundial, de acordo com a página oficial do BIS
(www.bis.org), durante a Conferência de Bretton Woods foi decidida a abolição do Banco, pois
se considerou que a organização não teria um papel útil a desempenhar quando os recém-criados
Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento e Fundo Monetário Internacional
entrassem em operação. Entretanto, os banqueiros centrais europeus membros da diretoria do
BIS opuseram-se a tal visão e pressionaram com sucesso por sua permanência. No início de
1948, a resolução de liquidação foi posta de lado, mediante a condição de que o banco se
concentraria principalmente em assuntos monetários e financeiros europeus (BIS, 2017).

As reuniões do Conselho de Administração do BIS foram, assim, retomadas em


dezembro de 1946. Agora não mais para tratar de reparações de guerra mas sim para debater
formas de estabilizar as diferentes moedas nacionais europeias perante o Sistema de Bretton
Woods.O resultado das discussões, em setembro de 1950, foi a criação por parte de 18 países
europeus, da União Europeia de Pagamentos (UEP) e a nomeação do BIS como seu agente
executor. A partir desse momento, o BIS estaria totalmente ligado ao processo de unificação
monetária europeia.

Os objetivos ligados à atuação do BIS e sua posição estratégica dentro das políticas
econômicas europeias não eram humanitários, tampouco idealistas, mas sim realistas, no
sentido do estabelecimento de uma realpolitik.

A manutenção da superioridade militar e os interesses geopolíticos estadunidenses,


contra uma possível expansão soviética na então dividida Alemanha e o enfraquecimento das
antigas potências europeias, configuravam um cenário em que as últimas veriam na sustentação
do BIS um objetivo estratégico de sobrevivência de sua autonomia, tanto em caráter mais
imediato, quanto no longo prazo. Por outro lado, empresários e banqueiros dos EUA haviam
investido na Alemanha, e seria necessário a preservação de tais ligações, permitindo não apenas
a sobrevivência imediata, mas a recuperação a longo prazo dos mercados europeus, frente a uma
alternativa de colapso com provável alinhamento com o bloco soviético. Uma Europa unificada
seria o caminho para contornar-se tal alternativa, assim, para os EUA e a Europa que não havia
se alinhado ao bloco soviético imediatamente após o final da Segunda Guerra.
55

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

A análise teórica de tais movimentos no campo das Relações Internacionais pode ser
encontrada na linha dos pensadores do Globalismo, mais especificamente nos teóricos
contemporâneos das Teorias do Imperialismo e da Globalização. Assim, para Ellen Meiksins
Wood12, se até a virada do século XX tinha-se o império da propriedade com o domínio militar
sobre o território através do controle de fluxos comerciais, agora, tem-se a contradição entre
relações econômicas mediadas por mercados globais e o poder dos Estados Nacionais que usam
seus recursos militares e diplomáticos para garantir a realização de lucro dos grupos financeiros.
Grupos estes que, para William Robinson13, são a representação dos interesses de uma classe
capitalista transnacional que detém as decisões de ordem regulatória e influência direta na
política global. Desta forma, Para Michael Hardt 14 e Antonio Negri15, o Imperialismo tradicional
chegou ao fim e império passou a ser o centro territorial do poder com o declínio progressivo da
soberania nacional moderna. O império atual não possui fronteiras, funciona em todos os
registros da vida social e usa o poder militar para “defender” a paz. (JATOBÁ, 2013)

3. A criação do Sistema Monetário Europeu

Jean Monnet, o chamado “pai da União Europeia” era fortemente ligado ao mundo das
altas finanças e bancos. Desde a década de 1910, Monnet atuava junto aos banqueiros, como
representante de empresas como a IG Farben alemã, o Banco Chase e o Bank of America, junto
a países como a China, por exemplo. Ao final da Segunda Guerra Mundial, Monnet retornou a
Paris, e deu início ao projeto de criação de organizações supranacionais, como a Comunidade
Europeia do Carvão e do Aço (CECA), que viria a ser a percursora da Comunidade Europeia.
(LEBOR, 2014).

No entanto, o primeiro passo efetivo para a unificação monetária dos países europeus
ocorreu a 6 de julho de 1950, dentro da sede da Organização Europeia de Cooperação
Econômica (OECE) – criada pouco antes16, com a finalidade de coordenar o fluxo dos recursos
vindos do Plano Marshall. Naquela data, efetivou-se o acordo que instituiu a União Europeia de
Pagamentos (UEP), integrando 18 países europeus. O BIS orquestrou esse acordo, assumindo a
responsabilidade de sua implantação e coordenação. Assim, o banco que originalmente criado
para administrar as reparações alemãs aos vencedores da Primeira Guerra Mundial, passou a ter
o papel de conduzir a unificação monetária dos países do bloco europeu alinhados ao
capitalismo, buscando manter alguma independência ou mesmo autonomia do padrão-dólar
fixo, estabelecido pelos EUA, em Bretton Woods. Assim, o BIS assume uma tarefa estratégica
no projeto de integração europeia sob condições voláteis. Um equilíbrio bastante precário.

Ainda segundo o acordo, constituía objetivo principal da UEP providenciar condições


para que houvesse livre convertibilidade das moedas europeias, de acordo com o que se havia
decidido em Bretton Woods. Para conseguir isso, cada país devia informar mensalmente ao BIS,
12
Cientista política e historiadora marxista estadunidense, autora de obras como A origem do capitalismo de 1999, e
O império do capital de 2003.

13
Professor americano de sociologia na Universidade da Califórnia. Autor de obras centradas na economia política,
globalização, e materialismo histórico como Uma teoria do Capitalismo Global, produção, classes e Estado em um
mundo transnacional de 2004.

14
Teórico literário e filósofo político estadunidense, professor da Duke University. Autor de Empire, obra escrita com
Antonio Negri em 2000.

15
Também conhecido como Toni Negri, filósofo político marxista italiano. Tradutor dos escritos de Filosofia do
Direito de Hegel, especialista em Descartes, Kant, Espinosa, Leopardi, Marx e Dilthey. Autor em conjunto com seu
ex-aluno Michael Hardt de Império, em 2000. Atua como professor convidado do Collège International de
Philosophie e da Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne).

16
Em 16 de abril de 1948.
56

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

os saldos comerciais bilaterais com os demais partícipes da União. A equipe do BIS, então,
calculava o saldo de cada país, como parte da UEP, dentro do todo contábil. As diferenças
contábeis, positivas ou negativas, em sua maior parte, não foram imediatamente, mas
convertidas em débitos e créditos na União. Com o tempo, a proporção de débitos e créditos
concedidos pela UEP seria gradualmente reduzida, até o final de 1958, quando foi dissolvida
(BIS, 2017).

Com a assinatura dos Tratados de Roma em 1958, e o processo de criação da


Comunidade Econômica Europeia, o BIS continuou seu papel de mentor para os países
subscreventes. Em 31 de dezembro de 1958, a conversibilidade total da conta-corrente foi
restaurada para a maioria das moedas europeias, e a UEP foi substituída pelo Acordo Monetário
Europeu (AME). A execução de tal acordo seguiria sob a chancela e coordenação do BIS.

O sucesso da UEP em restaurar a conversibilidade da moeda na Europa ocidental em


1958 avalizaria as propostas feitas originalmente em Bretton Woods de que as diferentes
moedas fossem livremente conversíveis a taxas de câmbio fixas (com base no dólar e ouro
estadunidenses). O sistema deveria ser autoajustável, com o Fundo Monetário Internacional
(FMI) desempenhando o papel de coordenação.

O BIS ficaria responsável pela coordenação da resposta dos bancos centrais no âmbito
do Grupo dos Dez (G10) – Bélgica, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Países Baixos,
Suécia, Reino Unido e os Estados Unidos, além da Suíça como membro associado – à política
cambial acordada em Bretton Woods. Ou seja, um contraponto sutil, mas claro, ao FMI.

A partir de 1961, esse contraponto se tornaria mais evidente. Iniciativas dos bancos
centrais do G10 incluíram a criação de um Gold Pool comum para intervir no mercado privado
de ouro (1961-1968), a criação de uma rede de swaps de moeda dos bancos centrais e repetidos
acordos de apoio cambial (por exemplo, para reforçar a libra esterlina e o franco francês) (BIS,
2018). Essas medidas visavam manter o poder das moedas europeias, agora dentro do sistema
de Bretton Woods durante a década de 1960.

Em 1962, foi assinado um acordo conhecido como General Arrangements to Borrow


(GAB) pelos bancos centrais da República Federal da Alemanha, Bélgica, Canadá, Estados
Unidos, França, Itália, Japão, Países Baixos, Reino Unido e Suécia., foi criado então o Grupo
dos Dez (G-10). Em 1964, a Suíça foi incorporada ao grupo, que manteve a denominação G-10.
O acordo GAB previa a criação de um fundo mútuo de auxílio entre os países como
suplementação aos fundos do FMI. Destaca-se que o acordo teve participação do BIS como
consultoria técnica e, à época, todos os países eram considerados membros efetivos do banco.
Na prática, o GAB representava um ponto de escape da ingerência do FMI junto aos países-
membros e mais um passo na autonomia de política cambial e monetária do bloco.
Ao final da década de 1960, iniciaram-se os planos para a criação de uma moeda única
na Europa. O responsável pela equipe que elaborou o primeiro documento norteador desse
processo foi Raymond Barre17 dando nome ao chamado Plano Barre (1969). A equipe técnica
supervisionada por Barre incluía membros do BIS, e representantes dos seis membros
componentes à época da Comunidade Econômica Europeia (CEE): República Federal da
Alemanha, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos.
Ao final da década, o documento, apresentado na reunião de Roma, em fevereiro de
1969, expunha uma série de operacionalizações para a integração fiscal, monetária e cambial
dos países europeus. Uma de suas propostas, seguindo os acordos de Bretton Woods, era a
criação de uma política integrada de câmbio entre os países-membros, amparada por um fundo

17
Ocupou o cargo de primeiro-ministro da França entre 26 de agosto de 1976 a 21 de maio de 1981, sob a
presidência de Valéry Giscard d'Estaing, e vice-presidente da Comissão Europeia na Comissão Rey e na Comissão
Malfatti.
57

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

comum de crédito destinado a suprir as flutuações entre as moedas nacionais. Nele, também
consta pela primeira vez a primeira sugestão de um numerário comum aos países-membros, o
European Currency Unit (ECU). No Plano Barre, já estava delineada a intenção de criar uma
autoridade monetária europeia acima dos bancos centrais como se pode verificar nos artigos a
seguir:

Artigo 1: Consultas prévias deverão ocorrer quando da tomada de decisões


importantes, medidas e declarações de um Estado-Membro no domínio da
política econômica atual, quando afetarem as economias dos outros Estados-
membros e disserem respeito a questões como: (i) a evolução dos preços, a
renda e do emprego, (ii) política orçamental geral, (iii) taxas que possam
afetar preços na passagem das fronteiras.
Artigo 2: Estas consultas deverão ocorrer no âmbito do Comitê Monetário,
Comitê de Política Econômica de curto prazo, e Comissão de Política
Orçamentária. Os procedimentos apropriados devem ser especificados após
aprovação do Comitê Monetário18.

Em síntese, pode-se definir o Plano Barre como um conjunto de diretrizes para que se
efetivasse uma União Europeia, com moeda comum, ausência de barreiras alfandegárias entre
seus membros, mobilidade de mão de obra e estabilidade de preços e câmbio. Elaborado pelos
chefes de governo e Bancos Centrais dos seis países-membros sob supervisão do BIS, o
documento serviu de base para os posteriores, que viriam a concretizar a união monetária.
Apesar da aprovação do Plano Barro se dar somente em 1969, no ano anterior, o grupo
dos Governadores dos Bancos Centrais dos países da CEE solicitou a elaboração de um
planejamento para a implantação da moeda única. A tarefa ficou a cargo de Pierre Werner,
Primeiro-Ministro de Luxemburgo, Ministro das Finanças e personalidade com atuação
destacada no BIS.
O comitê Werner era composto por economistas dos países envolvidos, técnicos dos
bancos centrais e do BIS, e terminou polarizando a questão da implantação da unificação
monetária em torno de duas visões antagônicas. Havia um grupo denominado de monetarista,
composto majoritariamente por belgas, franceses e luxemburgueses que defendiam uma
unificação monetária como forma de impulsionar a integração econômica. Em contraponto,
havia o grupo denominado de economistas, composto por alemães e holandeses que defendiam
a necessidade de uma coordenação de políticas econômicas como alicerce para a unificação
monetária. O documento resultante do comitê é entendido como um meio-termo entre as
posições dos referidos grupos.
Apresentado em 1970, o Plano Werner foi aprovado inicialmente pelo Comitê de
Governadores dos Bancos Centrais da CEE, sob consulta técnica junto ao BIS, para ser em
seguida aprovado pelos chefes de Estado das países-membros como uma formalidade.
Como previsto ao final da década anterior, em agosto de 1971, deu-se o colapso do
sistema de Bretton Woods e o abandono unilateral da sustentação estadunidense do padrão dólar
fixo.
Nesse mesmo ano, o Plano Werner foi colocado em vigor. O documento de 68 páginas
formulava um planejamento em três etapas para a unificação monetária. A primeira etapa
encontra-se detalhada com duração e decisões, conforme se pode verificar no trecho a seguir. As
demais etapas não possuíam o mesmo detalhamento.
A primeira fase terá início em 1 de janeiro de 1971 e irá abranger um período
de três anos. Além da ação aprovado pelo Conselho na sua decisão de 8 e 9
de junho 1970, implicará a adoção das seguintes medidas: (I) Os
18
Arquivo oficial de Legislações da União Europeia disponível no endereço http://europa.eu/ legislation
summaries/economic and monetary affairs , consultado em 18-10-2017. Tradução da autora.
58

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

procedimentos de consulta terão um caráter preliminar e obrigatório e


exigirão o aumento da atividade dos órgãos comunitários, em particular o
Conselho e a Comissão, bem como, o Comitê de Gestores dos Bancos
Centrais. Estas consultas incidirão, principalmente, na definição de políticas
econômicas de médio prazo, políticas econômicas de curto prazo, política
orçamentaria e política monetária19.

Como medida adicional ao Plano Werner, em março de 1972, foi colocado em prática
um sistema alternativo a Bretton Woods dentro da CEE, chamado de a “Serpente no Túnel”: um
mecanismo de flutuação combinada das moedas (a “serpente”) no interior de margens de
flutuação estreitas em relação ao dólar (o “túnel”). Esse sistema tinha como mecanismo o uso de
margens de flutuação de 2,25% entre as diversas moedas europeias pertencentes ao sistema.
Desse modo, pretendia-se desenvolver um grupo autônomo de taxas de câmbio entre os países
da CEE que levasse à posterior eliminação das margens de flutuação entre as moedas dos
países-membros (SILVA, 2010, p.176).
Em paralelo, criou-se o Fundo Europeu de Cooperação Monetária (FECOM), cujas
reservas se destinavam a ajudar os bancos centrais nacionais a manter a paridade da sua moeda
no mecanismo da Serpente Monetária, agora alinhada ao dólar fora do sistema de
convertibilidade. O fundo era operado nas instalações do BIS na Basileia onde o banco atuava
como agente de operações e mentor técnico.
Esse sistema teria vida curta. A crise do petróleo de 1973 e a subsequente
desvalorização do dólar provocaram flutuações quase diárias entre as moedas, e levaram a
desequilíbrios nos pagamentos externos dos países integrantes. A França foi o primeiro país a
exigir que sua moeda pudesse flutuar livremente. Em seguida, Inglaterra e Itália também se
retiraram do grupo, seguidos por outros até 1978 quando estava reduzido a uma zona do
“marco”, com a participação da República Federal da Alemanha, o Benelux e a Dinamarca
(SILVA, 2010, pp.179-183).
Em março de 1979, França e da República Federal da Alemanha se uniram novamente
na tentativa de unificação monetária dos países da CEE e criaram o Sistema Monetário Europeu
(SME) baseado no conceito de taxas de câmbio fixas, mas ajustáveis. As moedas de todos os
Estados-membros, à exceção do Reino Unido, participaram no mecanismo cuja
operacionalização e supervisão, mais uma vez, se dava nas instalações do BIS na Basileia.
O SME tinha como objetivo primário interligar as moedas e evitar grandes flutuações
entre os seus respectivos valores. Para tanto foi criado o Mecanismo Europeu das Taxas de
Câmbio (MET), através do qual as taxas de câmbio da moeda de cada Estado-membro
obedeciam a ligeiras flutuações (+/-2,25%) para cada lado do valor de referência. Este valor,
fixado por acordo em relação ao conjunto de todas as moedas participantes, foi chamado de
Unidade de Moeda Europeia (ECU), 1975 e era calculado de forma ponderada, segundo o peso
da economia de cada Estado-membro no total do grupo. O objetivo, mais uma vez, era
fortalecer as trocas e moedas dos países do grupo como uma etapa necessária à criação de uma
unificação monetária.
Em 1987, foi instituído o Comitê para o Estudo da União Econômica e Monetária,
presidido por Jacques Delors. Conhecido como Comitê Delors, composto por 17 membros,
entre os quais Karl Otto Pöhl (presidente do Bundesbank), Robin Leigh-Pemberton (governador
do Banco da Inglaterra), e Willem Duisenberg (presidente do Banco dos Países Baixos),
também membros do Conselho diretor do BIS. Mais uma vez baseado na Basileia, os
fundamentos técnicos para a decisão do Conselho Europeu de avançar para a união monetária
europeia foram fornecidos pelo BIS, (BCE, 2017).

19
Arquivo oficial de Legislações da União Europeia disponível no endereço http://europa.eu/legislationsummaries/
economic and monetary affairs , consultado em 18-10-2017. Tradução da autora.
59

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Além de estar na presidência do Comitê, Jacques Delors era também o presidente da


Comissão Europeia e sua missão era definir os aspectos técnicos do que viria a ser o Ato Único
Europeu (AUE) que alteraria os Tratados de Roma que, em 1958, havia criado a Comunidade
Econômica Europeia.
Um dos membros de maior destaque e influência do Comitê Delors foi Alexandre
Lamfalussy. O economista húngaro e professor em Yale havia entrado no BIS como conselheiro
em 1976 e posteriormente assumiu a direção-geral do banco, nos anos 1990, de onde sairia para
presidir o Instituto Monetário Europeu (IME). Suas opiniões eram altamente reconhecidas no
grupo e sua influência no documento final é reconhecida por todos os participantes. (LEBOR,
2014) Em artigo sobre o processo, em 2005 o próprio Lamfalussy afirmou que a participação do
BIS e o uso de suas instalações foi essencial para a criação de um “ambiente multilateral” para
as discussões do comitê. (LAMFALUSSY, 2005, p.156)
As alterações constantes no AUE visavam a total abertura de fronteiras entre os
Estados-membros para a circulação de bens, de capitais e de pessoas. O objetivo da mudança
era remover as barreiras institucionais e econômicas entre os Estados-membros da CEE e
estabelecer como meta a formação do Mercado Comum Europeu (MCE). Adicionalmente, o Ato
Único Europeu determinava a criação da União Econômica e Monetária (UEM) recuperando as
recomendações dos Planos Werner e Barre. O objetivo era aprovar e regulamentar a
transformação da Comunidade Econômica Europeia em União Europeia. Mais uma vez, o
trabalho do Comitê aconteceu nas instalações do BIS com participação da equipe técnica da
Basileia.
Concluído dois anos depois, o Relatório Delors, ou “Report on economic and monetary
union in the European community”, foi apresentado à comunidade europeia no dia 17 de abril
de 1989. O documento estabelecia como metas: (1) um mercado único com livre mobilidade de
bens, capital e pessoas; (2) políticas generalizadas de fortalecimento dos mecanismos de
mercado; (3) formulação de políticas com foco nas mudanças estruturais e do desenvolvimento
da união; e (4) adoção de políticas macroeconômicas comuns aos países-membros para atingir
os estágios de desenvolvimento que permitissem uma maior concisão nos panoramas
econômicos da União. Havia também o arcabouço legal para legitimar a criação de um novo
agente monetário – o Sistema Europeu de Bancos Centrais (SEBC) – com maior autonomia de
decisão e fora da submissão aos governos nacionais. A política de autonomia dos Bancos
Centrais defendida pelo BIS desde sua fundação estaria agora em vigor para os países europeus
que desejassem aderir ao Euro.
Como forma de implantação da moeda única, o Relatório Delors detalhava os
procedimentos a serem tomados em três fases:
1. Uma fase inicial, objetivando o fortalecimento e convergências das performances
econômicas dos países, acompanhadas por políticas monetárias coordenadas. Esta fase se
caracterizaria por acordos e tratados entre os países-membros para implantar tal
coordenação.
2. Uma fase de monitoramento e avaliação dos resultados obtidos na etapa anterior, de
reestruturação das instituições existentes, assim como de criação de novos agentes de
monitoramento e formulação de políticas em comum.
3. A Etapa de substituição das moedas nacionais por uma moeda única.

O Tratado da União Europeia20, ou Tratado de Maastricht, seria assinado três anos


depois e formalizaria as propostas do Relatório Delors. É importante destacar três protocolos
adicionais que constam desse tratado. O primeiro permite ao Reino Unido optar a qualquer
momento pela entrada na terceira fase de implantação da moeda única. Assim, o tratado isenta o
país de aderir ao uso do Euro e permite que mantenha a libra como moeda oficial.

20
Arquivo oficial de Legislações da União Europeia disponível no endereço http://europa.eu/ legislationsummaries
/economic and monetary affairs , consultado em 18-10-2017.
60

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Adicionalmente, mantêm sua autonomia relativa às políticas monetárias e fiscais adotadas. No


protocolo relativo à Dinamarca, o tratado faculta a entrada do país na Zona do Euro, com a
realização de uma consulta à população do país. Tal consulta não foi realizada até o momento,
numa clara demonstração do país em manter sua moeda nacional sem, no entanto deixar de se
beneficiar do Mercado Único.
Existe uma terceira exceção, a Suécia. Quando aderiu à União Europeia em 1995, o país
não atendia aos critérios necessários para a adoção da moeda única e o povo sueco rejeitou o
Euro através de referendo, preferindo preservar sua moeda nacional.
Os demais países, ao se candidatarem à União Europeia, automaticamente iniciam o
processo de adesão à moeda única, e quando atendem plenamente às exigências dos Critérios
de Copenhague, passam a integrar a Zona do Euro.

4. A implantação da moeda única: o euro

Embora a Fase I tem seu início oficial em 1990 quando se deu a abolição do controle no
nível nacional sobre as taxas de câmbio, libertando assim os movimentos de capitais no interior
da CEE. Ainda nessa primeira fase, atribuíram-se responsabilidades ao Comitê de Gestores dos
Bancos Centrais dos Estados-membros. Em março de 1990, foi definida e regulamentada a
prática de realização de consultas relativas à política monetária entre os gestores dos bancos
centrais. Para tanto, foi elaborado o documento conhecido como a Resolução 141 de 1990 do
Conselho Europeu21 que estabelecia uma supervisão multilateral a ser efetuada nos países-
membros, cobrindo todos os aspectos da política econômica, a curto e médio prazo. Assim, os
países deviam enviar relatórios periódicos com detalhamento das perspectivas e informações
das políticas monetária e orçamental; tais relatórios individuais geravam um relatório anual a ser
avaliado e aprovado pelo Comitê Econômico e Social. O presidente do Comitê dos Gestores dos
Bancos Centrais participava das reuniões e podia convocar reuniões extraordinárias do Comitê
de Gestores de Bancos Centrais para decisões ou detalhamentos que, posteriormente
apresentava ao Conselho. Mais uma vez, a tutela e supervisão do BIS estava presente na
elaboração dos relatórios feitos pelos Bancos Centrais Nacionais.
A criação do Instituto Monetário Europeu (IME) em 1994 marcou o início da Segunda
Fase da UEM e, o Comitê de Gestores dos Bancos Centrais foi extinto. As funções do IME eram
de duplo caráter: por um lado buscavam reforçar a cooperação entre os bancos centrais para que
fosse possível a coordenação das políticas monetárias (ainda que durante essa segunda fase a
política monetária continuasse a ser definida no âmbito nacional); e por outro lado, coordenava
as ações necessárias à instituição do Sistema Europeu de Bancos Centrais (SEBC), a quem
caberia determinar e conduzir a política monetária única a partir do início da terceira fase
quando a autonomia da autoridade monetária europeia deixaria de se dar no nível nacional em
definitivo.

21
Council Decision 90/141/EEC of 12 March 1990 on the attainment of progressive convergence of economic
policies and performance during stage one of economic and monetary union [Official Journal L 78 of 24.03.1990]
disponível no endereço http://europa.eu/legislation_summaries economic_and_monetary _affairs/introducing_
Euro_practical _aspects /l25006_ en.htm acesso em 15-08-2017.
61

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Quadro1: Quotas de Participação dos Bancos Centrais no IME.


Alemanha 24,20%
França 18,30%
Itália 17,05%
Inglaterra 16,45%
Espanha 9,50%
Países Baixos 4,55%
Bélgica 3,00%
Grécia 2,15%
Portugal 1,95%
Dinamarca 1,80%
Irlanda 0,90%
Luxemburgo 0,15%
Fonte: Relatório do IME de 1994.

O Instituto funcionava com recursos próprios advindos dos Bancos Centrais dos
estados-membros participantes da UE em sistema de quotas de participação como se pode ver
no quadro 1. O endereço era, novamente, o BIS na Basileia.
Adicionalmente, o IME gerenciava as operações de empréstimo dentro da comunidade
para os Estados-membros que enfrentassem dificuldades em seus Balanços de Pagamento.
Assim, o IME efetuava os pagamentos resultantes destas operações ativas e passivas, verificava
as datas de vencimento fixadas nos respectivos contratos para o pagamento de juros e reembolso
do capital, relatando para a Comissão as operações efetuadas e usando os mecanismos de
transferência entre contas dos Bancos Centrais no ambiente do BIS.
Em junho de 1997, o Conselho Europeu se reuniu em Amsterdã e aprovou o Pacto de
Estabilidade e Crescimento (PEC) que criou a nova versão do Mecanismo Europeu de Taxas, o
MET II, sucessor do SME e do MET. Este somente entraria em vigor após o lançamento do
Euro na sua forma monetária. O PEC 22 continha instruções engessadoras do orçamento dos
Estados, com a desculpa de evitar endividamento dos mesmos.
O documento era composto por três partes: (1) a primeira parte visava estabelecer um
‘braço preventivo’ relativo a problemas orçamentários; (2) na segunda parte, especificava-se um
regimento dos procedimentos de supervisão das situações orçamentais; e (3) na terceira parte,
conhecida como o ‘braço corretivo” a ser aplicado no caso de um país-membro apresentar uma
situação de “deficit excessivo”.
Os objetivos do PEC em relação ao orçamento dos estados-membros eram a obtenção
de um saldo orçamental próximo do equilíbrio ou de superavit, e especificar o que seriam
circunstâncias excepcionais, e sanções ao deficit excessivo. O PEC definiu como valor de
referência para teto máximo de deficit público, 3% do PIB. Configurava como situação
excepcional, que permitiria valores superiores a esse, uma recessão econômica grave (com taxa
de crescimento anual negativa do PIB ou de uma redução cumulativa da produção durante um
período prolongado de crescimento anual muito baixo)23.
22
Conforme informações disponíveis no endereço http://europa.eu/eu- law/treaties/index_en.htm, acesso em 03-04-
2018.

23
De acordo com informações disponíveis no endereço http://europa.eu/legislation_summaries /economic_and
_monetary_affairs/stability_and_growth_pact l25019 _ pt. htm, acesso em 16-08-2017.
62

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Operacionalmente, cada estado-membro devia apresentar à Comissão Econômica, seus


programas de estabilidade (para os participantes da área do Euro) e programas de convergência
(para os que ainda não fazem parte da área do Euro). Em ambos os casos, os programas visavam
estabelecer a meta orçamentária para os próximos anos e eram avaliados pela Comissão,
sofrendo recomendações específicas para cada Estado. Este era o “braço preventivo” do PEC. .
Já o chamado “braço corretivo” se relacionava ao regulamento 24 sobre as sanções a
serem tomadas no caso de um “deficit excessivo”. Inicialmente, estas assumiam a forma de um
depósito não remunerado junto ao IME. O montante desse depósito incluía uma componente
fixa correspondente a 0,2% do PIB do país; e uma componente variável correspondente a um
décimo da diferença entre o deficit (expresso em percentagem do PIB do ano durante o qual o
deficit foi considerado excessivo) e o valor de referência de 3%.
Nos anos seguintes, o Conselho poderia intensificar as sanções, exigindo depósitos
suplementares correspondentes ao décimo da diferença entre o deficit expresso como
percentagem do PIB do ano anterior e o valor de referência de 3 % do PIB. Caso o “deficit
excessivo” não fosse corrigido após dois anos, os depósitos passam a ser considerados como
multas e, com os juros a eles relacionados, são distribuídos pelos Estados-membros que não
tenham um “déficit excessivo”, de modo proporcional à sua participação no PIB total do bloco.
Ainda em 1998, em reunião do Conselho Europeu em Bruxelas, foram aprovados os
onze países que poderiam adaptar o Euro em 1999 25. Eram estes: Alemanha, Áustria, Bélgica,
Espanha, Finlândia, França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, e Portugal. Os Chefes
de Estado ou de Governo de tais países nomearam, através de acordos políticos, os seus
representantes na Comissão Executiva do BCE. Que, ao ser formalmente instituído em 1 de
junho de 1998, resultou na liquidação do IME e mudou da Basileia para Frankfurt.
A terceira fase de implantação (1999-2002) teve seu início em 1 de janeiro de 1999,
com a fixação irrevogável das taxas de câmbio das moedas dos iniciais 11 Estados-membros
participantes da Zona do Euro, para o valor do último dia útil de 1998. Adicionalmente ocorreu
a introdução do Euro como moeda única, ainda na forma não monetária. Nessa data, tem-se
também a passagem da responsabilidade pela condução da política monetária da área do Euro
para o Conselho do BCE. No entanto, o BCE ainda operaria em conjunto com os Bancos
Centrais nacionais para fixação das políticas monetárias até o ano de 2002, quando passou a
operar sozinho.
A partir da fundação do BCE, a separação física com o BIS tornou-se patente mas as
duas instituições permaneceram mais ligadas do que nunca como se pode atestar no trecho da
publicação oficial do BCE:
Instituído em 1930, o Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) é a
organização financeira e económica internacional mais antiga do mundo. Um
dos principais objectivos do BIS consiste em “promover a cooperação dos
bancos centrais” (artigo 3.o dos Estatutos do BIS). O BCE participa em
todas as actividades de cooperação sediadas no BIS, incluindo o trabalho
estatístico. Desde 2000, o BCE também é accionista do BIS com direito de
voto e representação na Assembleia Geral Anual. O Presidente do BCE
participa 5 nas reuniões dos governadores dos bancos centrais do G10, que
se realizam normalmente na sede do BIS, em Basileia, de dois em dois
meses. Neste fórum, os governadores discutem as principais questões
económicas, monetárias e financeiras internacionais (p. ex., tendências

24
Conhecido como Regulamento (CE) n.º 1467/97 do Conselho, de 7 de julho de 1997, relativo à aceleração e
clarificação da aplicação do procedimento relativo aos défices excessivos. Disponível no endereço
http://europa.eu/legislation_summaries/economic_and_monetary_affairs/stability_and_growth_pact /l25020_p t .htm
acessado em 16-08-2017.

25
Conforme informações disponíveis no endereço http://europa.eu/legislation_summaries /economic_and _monetary_
affairs/introducing_Euro_practical_aspects/l25007_pt.htm acessso em 07-07-2018.
63

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

económicas em países industrializados e economias de mercado emergentes,


potenciais ameaças para a estabilidade financeira mundial e evolução
monetária e financeira de mais longo prazo). As reuniões estão a ser cada
vez mais abertas aos bancos centrais das economias de mercado emergentes
de importância sistémica. (BCE, 2004 ,p.151)

Em contrapartida, ao abrirem mão da autonomia de decisão em relação a suas políticas


monetárias, os governos dos estados usuários do Euro passaram a adotar posturas de isenção
quanto às decisões tomadas pelo BCE e o próximo passo seria a unificação política definitiva
dos Estados. Tal não se deu em 2005 e abriu espaço para dúvidas quanto ao futuro do processo
de unificação europeu.

5. As crises da transição do século XX para o XXI e a nova atuação do BIS

Com o fim dos acordos de Bretton Woods, na década de 1970, o G10 criou dentro do
BIS, o Comitê de Supervisão Bancária da Basileia (BCBS da sigla em inglês). O objetivo era ter
um comitê supranacional de autoridades de supervisão bancária dos bancos centrais dos países
do Grupo, a fim de gerar regras e normas para todo o SFI no que se refere a supervisão bancária.
Começava o embrião do que se tornaria a função primordial do BIS após a unificação
monetária europeia, com o Banco Central Europeu agindo na função de protagonista das
decisões monetárias europeias. Aos, poucos, o BIS mudaria seu papel para o de um Banco que
ditava as regras de funcionamento do SFI. Não apenas um banco dos bancos centrais, mas o
Banco que determinava como os bancos centrais deveriam agir. O posicionamento estratégico
nas décadas iniciais do pós-guerra daria ao BIS a capacidade de articular em seu redor as
instituições financeiras que construiriam posteriormente a unificação monetária e financeira da
Europa.
Nas décadas seguintes, o BCBS formulou e emitiu os chamados Acordos de Capital de
Basileia, conhecidos como Basileia I, Basileia II (2004) e Basileia III (2010). As normas
incluíam a exigência de ativos dos bancos em relação ao montante a ser investido nos mercados,
reservas mínimas a serem utilizadas em momentos de crise, regras para divulgação de
informações financeiras e restrição das atividades bancárias a determinados tipos de
investimentos usando o risco de tais atividades como parâmetros. Ao mesmo tempo, a avaliação
de risco foi delegada pelo grupo do BIS às chamadas Agências Independentes de Avaliação de
Risco (Ratting Agencies).
Na virada do século, outra mudança foi a decisão de que as quotas de suas ações
somente poderiam pertencer a bancos centrais. Assim, em janeiro de 2001, o banco divulgou
que:

(...)sendo uma organização internacional cujo objetivo principal seria


promover a cooperação entre os bancos centrais e, assim, contribuir
para a estabilidade financeira internacional. Ao contrário de um banco
comercial, o principal objetivo do BIS não é maximizar o retorno
sobre o investimento financeiro de seus acionistas, mas sim utilizar
seus recursos para cumprir sua missão de interesse público. A restrição
de sua participação acionária apenas aos bancos centrais é, portanto,
necessária para que o BIS atinja melhor esses objetivos, tanto mais
que a existência de um pequeno número de acionistas privados cujo
interesse é essencialmente financeiro já não está em conformidade
com o papel internacional. desenvolvimento futuro da organização. 26

26
Conforme informações disponíveis no endereço https://www.bis.org/press/p010108.htm acesso em 10-07-2018.
64

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Havia cerva de 15% de ações em mãos de bancos privados, na Bélgica, Estados Unidos
e França e após divergências sanadas nos tribunais de Haia a respeito do valor das ações, o BIS
tornou-se finalmente o que apregoava, um banco dos bancos centrais. (LEBOR, 2014)

As crises do final do século XX (asiática de 1997 e russa de 1998) provocaram


mudanças na forma de pensar a arquitetura financeira global. Em fevereiro de 1999, os
Ministros das Finanças e os Governadores dos Bancos Centrais do G10 criaram o Fórum de
Estabilidade Financeira (FSF) que englobava o Comitê da Basileia de Supervisão Bancária
(BCBS), a Organização Internacional das Comissões de Valores (IOSCO) e a Associação
Internacional de Supervisores de Seguros (IAIS). Era a unificação dos diferentes agentes
reguladores do mercado financeiro internacional sob um mesmo teto, o BIS, na Basileia. Em
2009, o FSF tornou-se o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB). (LEBOR, 2014)

O objetivo expresso oficialmente pelo fórum era coordenar, a nível internacional, o


trabalho das autoridades financeiras, desenvolvendo e implementando as regras de
regulamentação. O Presidente do Board do BIS, Andrew Crockett, foi nomeado o primeiro
Presidente do FSF (1999-2003) e o secretariado do FSF foi baseado na Basileia, a partir do
próprio Banco.

Em relação aos demais grupos e comitês em funcionamento no BIS, o BCE é integrante


de: (1) Comitê de Basileia de Supervisão Bancária (CBSB), como observador e participante das
reuniões; (2) Comitê de Sistemas de Pagamentos e de Liquidação (CSPL), como Presidente; (3)
Comitê sobre o Sistema Financeiro Global (CSFG), e (4) Comitê dos Mercados. Em suma, o
BCE atua no BIS como um banco central de uma nação, porém representa os interesses dos
bancos centrais das nações usuárias da moeda única, o Euro.

Após a crise financeira e bancária de 2007-08, a estrutura do BIS foi novamente


alterada e as principais estruturas e grupos que trabalham no BIS atualmente são o Conselho de
Administração e com seus principais comitês: Comitê de Supervisão Bancária de Basileia
(BCBS), Comitê do Sistema Financeiro Global (BGFS), Comitê de Sistemas de Pagamento e
Liquidação, além do Fórum de Governança dos Bancos Centrais (BIS, 2017).

Quando se discute a atuação da chamada Troika (nome dado ao grupo formado pelo
Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e Comissão Europeia) na recente crise
de 2008, não se menciona o BIS como tendo alguma participação nas discussões do grupo. Essa
ausência do BIS nas decisões monetárias europeias pode ser entendido se pensarmos que o BIS
foi o responsável pela legitimação dada às chamadas Agências Internacionais de Risco,
entidades privadas de avaliação de crédito como Fitch, Standard & Poors e Moody. Essas
agências haviam criado o mito de que os ativos de crédito bancário podiam ser precificados e
negociados como sendo de “baixo risco” em mercados secundários e, portanto, sendo
diretamente responsáveis pela crise subprime. Fato que obrigou o Comitê dos Governadores de
Bancos Centrais do BIS a recomendar que se evite o uso de tais Agências Independentes de
Risco em 2015, oito anos após a crise dos papeis podres do Subprime.

A crise também alterou os grupos responsáveis pelo controle de governança do sistema


financeiro internacional. Assim, além do G10, passou a reunir-se o G20 reunindo as principais
economias de mercado avançadas e emergentes que começaram a integrar o Fórum de
Segurança Bancária.

Atualmente, o BIS passou a informar que sua missão é "(...) servir os bancos centrais
na busca da estabilidade monetária e financeira, promover a cooperação internacional nessas
áreas e atuar como banco dos bancos centrais". Quanto ao modo de operação, afirma que:
65

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

O BIS atinge a sua missão: promovendo a discussão e facilitando a


colaboração entre os bancos centrais; apoiando o diálogo com outras
autoridades responsáveis pela promoção da estabilidade financeira;
realização de pesquisas e análise de políticas sobre questões de relevância
para a estabilidade monetária e financeira; atuando como uma contraparte
principal para bancos centrais em suas transações financeiras; e atuando
como agente ou agente fiduciário em conexão com operações financeiras
internacionais. (BIS, 2018)

Mais um sinal da mudança viria na segunda metade de 2016, quando o BIS aprovou
uma alteração profunda em sua estrutura, a alteração do artigo 27 de seus estatutos que
regulamenta a composição e escolha do seu Conselho de Administração. Até janeiro de 2019, o
Conselho do BIS continuaria com 21 diretores. Os seis diretores ex officio (os Governadores dos
Bancos Centrais da Bélgica, França, Alemanha, Itália, Reino Unido e Estados Unidos), que
podem nomear outro Diretor da mesma nacionalidade. Além disso, nove Governadores de
outros bancos centrais membros podem ser eleitos para o Conselho. A partir de 2019, com a
alteração estatutária, o número total de diretores será reduzido de 21 para 18. Os seis diretores
ex officio acordaram pela nomeação de um diretor - em vez de seis - de uma de suas
nacionalidades, e o número de diretores eleitos passou de nove para 11. (BIS, 2018)

Até a alteração em janeiro de 2019, o atual quadro de diretores possui dois


representantes dos seguintes países: Alemanha, Bélgica, Itália, Reino Unido e EUA. Os países a
seguir contam com um representante: Brasil, Canadá, China, Dinamarca, França, Índia, Japão,
Suécia e Suíça. A presidência atual está nas mãos de Jens Weidmann da Alemanha. Destaca-se
que à exceção de Brasil, China e Índia, os demais integram o chamado Grupo dos Dez (G10). O
que poderia ser considerada uma concessão aos integrantes do chamado grupo dos BRICS.

6. Conclusão

Após o final da Segunda Guerra Mundial, havia um claro interesse dos representantes
dos EUA em Bretton Woods em liquidar o BIS, substituindo-o pelos então criados FMI e BIRD.
A postura dos banqueiros europeus – membros do quadro de diretores do banco que decidiram
pela sua manutenção – pode nos levar a especular sobre uma possível dissensão entre os dois
grupos, resolvida por uma divisão de tarefas entre BIS e FMI onde o primeiro defenderia os
interesses europeus e o segundo, os estadunidenses.

Os objetivos ligados à atuação do BIS e sua posição estratégica dentro das políticas
econômicas europeias refletiam um equilíbrio de forças dentro do bloco capitalista de
ingerência política no continente. A manutenção da superioridade militar e os interesses
geopolíticos estadunidenses, contra uma possível expansão soviética no território europeu,
configuravam um cenário em que potências locais decadentes veriam na sustentação do Banco
um objetivo estratégico de sobrevivência ainda que reduzida e circunstancial de sua autonomia,
tanto em caráter mais imediato, quanto no longo prazo. Por outro lado, empresários e
banqueiros dos EUA haviam investido na Alemanha, e seria necessário preservar tais ligações,
permitindo não apenas a sobrevivência imediata, mas a recuperação a longo prazo dos mercados
europeus, dada a possibilidade de colapso e provável alinhamento com o bloco soviético.

Assim, estabeleceu-se uma interação entre BIS e FMI que não é tão antagônica quanto
se poderia sugerir, à primeira vista. Pelo contrário, a atuação é integrada e complementar. O
FMI empresta dinheiro para os governos nacionais e arrecada dinheiro com as contribuições das
cotas de seus países-membros. O BIS facilita o movimento do dinheiro no SFI fazendo os
“empréstimos ponte” para os bancos centrais dos países onde o dinheiro do FMI ou Banco
66

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Mundial27 foi prometido, mas ainda não liberado. Os empréstimos ponte são devolvidos pelos
governos ao BIS quando ocorre a liberação dos fundos prometidos pelo FMI ou pelo Banco
Mundial. A justificativa oficial para essa ação é evitar problemas de fluxo de caixa em
programas de financiamento do desenvolvimento.

Em termos concretos, 12 dos 21 membros do Conselho do BIS que realmente tomam


decisões, ou seja, os presidentes de bancos centrais da Bélgica, França, Alemanha, Itália, Reino
Unido e Estados Unidos, são membros do Grupo dos Dez (G10) que possui 47% do total de
votos no FMI e no Banco Mundial. Ante uma visão simplista de antagonismo, pode-se perceber
que, na verdade há cooperação porque são exatamente os mesmos interessados que tomam as
decisões no BIS e no FMI.

A unificação monetária europeia e a criação da moeda supranacional, o Euro, poderiam


também ser vistos como uma forma de enfrentamento das potências do velho mundo à moeda
internacional, o dólar, além de uma resposta direta ao fim dos acordos de Bretton Woods.
Assim, o processo foi a concretização do projeto de unificação monetária no qual a moeda
europeia ganhou a confiança dos mercados levantando o orgulho do antigo continente, pelo
menos até a crise de 2007/2008, mas há que se observar a evolução do BIS como um todo.

O BIS foi criado para defender os interesses dos bancos privados norte-americanos e
dos bancos centrais europeus na obtenção das reparações da Alemanha ao final da Primeira
Guerra Mundial. Passou a defender os interesses do Reich durante a Segunda Guerra Mundial.
Frente à perspectiva de eliminação pelos EUA, após o final do conflito, adotou um
posicionamento estratégico nas décadas iniciais do pós-guerra. Isso daria ao BIS a capacidade
de articular em seu redor as instituições financeiras que construiriam posteriormente a
unificação monetária e financeira da Europa, mudando seu papel, de “banco dos nazistas”, para
arquiteto da unificação europeia. Quando o processo se encerrou com a fundação do BCE e
ocorreu a mudança geográfica do centro de decisões da Basileia para Frankfurt, mais uma vez, o
BIS passou por uma transformação em seus objetivos e se tornou o órgão máximo da
regulamentação do Mercado Financeiro Internacional, mantendo um papel de coordenação
financeira e monetária do território europeu que dura quase um século, sobrevivendo a três
padrões cambiais, duas guerras e várias crises. É difícil descartar a hipótese de que tenha
passado ao largo da responsabilidade sobre tais eventos.

27
Para ser membro, ou beneficiário, do Banco Mundial, é obrigatória a
associação ao FMI.
67

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Referências

BACKER, J.C. Bank for International Settlements: Evolution and Evaluation, London: Quorun Books,
2002
BCE. Relatório anual 2004. Disponível no endereço https://www.ecb.europa.eu acesso em 24-05-2014.
BCE. Relatório anual 2009. Disponível no endereço https://www.ecb.europa.eu acesso em 24-05-2014.
BIS. The History of the Bank for International Settlements disponível no endereço: https://www.bis.org/
about/history.htm acesso em 24-05-2017.
BIS. Annual Report 2017-18. disponível no endereço: https://www.bis.org/about/areport/areport2018.pdf,
acesso em 20-08-2018.
BORIO, C., TONIOLO, G., CLEMENT, P. Past and Future of Central Bank Cooperation. New York:
Cambridge Univ. Press, 2008.
HIRST, Paul e THOMPSON, G.. Globalização em questão. Petrópolis: Vozes, 1998.
JATOBÁ, Daniel. Teoria das Relações Internacionais. Coleção Temas Essenciais em R.I, V 2.São Paulo:
Saraiva, 2013.
LEBOR, Adam. The tower of Basel, The Shadowy History of the Secret Bank that Runs the World.
New York: PublicAffairs, 2014.
LAQUEUR, Walter. After the fall. The end of the European dream and the decline of a continent. New
York: St.Martin Press, 2012
LAMFALUSSY, Alexandre. Central Banks, Governments, and the European Monetary Unification
Process. IN: BORIO, C., TONIOLO, G., CLEMENT, P. Past and Future of Central Bank Cooperation:
New York: Cambridge Univ. Press, 2008.
MARSH, David. The Euro, the battle for the New Global Currency. London: Yale Univ.Press, 2011
PEET, Richard. Unholy Trinity. The IMF, World Bank and WTO. New York: Zed Books, 2009.
PERSAUD, A.D. Como seria um Sistema Financeiro SISTEMICAMENTE RESILIENTE? IN:
CINTRA, M.A.M. e GOMES, K.R.G.(orgs). Transformações no sistema financeiro internacional. Brasília
: Ipea, 2012
PORTER, Tony (2009).The G-7, the Financial Stability Forum, the G-20, and the Politics of
International Financial Regulation. Disponível no endereço: https://tspace.library.Utoronto.Ca
/bitstream/1807/4900/6/porter5.html acesso em 15-08-2017.
SILVA, António Martins da. História da União Europeia; A integração comunitária (1945-2010).
Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2010
TARULLO, Daniel K. Banking on Basel, the future of international financial regulation. Washington:
Peterson Inst., 2008
TONIOLO, Gianni. Central bank cooperation at the Bank for International Settlements, 1930-1973.
New York: Cambridge Univ. Press, 2005
WOLFF, Ernst. Pillaging the world. The history and politics of the IMF. New York: Tectun, 2014
YAGO, Kazuhiko. The financial history of the Bank For International Settlements. New York:
Routledge, 2015.
68

Integração Regional na América Latina:


debatendo os fundamentos sócio históricos da
dependência estrutural e da unidade latino-
americana1
Mariana Davi Ferreira2
Alexandre César Cunha Leite3
Jaime Cesar Coelho4

Resumo
Este artigo tem como objetivo compreender a configuração da integração regional na América Latina
como um instrumento estratégico de busca por autonomia em determinadas conjunturas históricas. Assim,
objetiva-se fazer um debate sobre a relação entre imperialismo, dependência e integração na América
Latina, partindo do recorte da integração regional concebida como instrumento de resistência anti-
imperialista e de caráter latino-americanista. Para tal, busca-se retomar de maneira sucinta os principais
elementos da formação sócio histórica da América Latina, para delinear as particularidades conferidas à
dinâmica do capitalismo dependente. Em seguida, procura-se compreender como a integração configura-
se como mecanismo de busca por maior autonomia para a região e de reação à dominação externa,
levando em consideração que no seio da contradição a integração também é um instrumento disputado
pelo imperialismo, estando no espectro da disputa de projetos políticos para a região. Isto posto, a partir
da tradição do pensamento integracionista latino-americano, o debate aqui realizado debruçar-se-á sobre
as raízes e os fundamentos que dão origem a essa concepção particular de integração articulado a algumas
experiências de integração regional que se enquadram nessa concepção.

Palavras-chave: Integração; América Latina; Capitalismo dependente.

Abstract
America, starting from the cut of regional integration conceived as an instrument of anti-imperialist
resistance and Latin Americanist character. To this end, the main elements of the socio-historical
formation of Latin America are summarized to delineate the particularities given to the dynamics of
dependent capitalism. Next, we try to understand how integration is a search mechanism for greater
autonomy for the region and a reaction to external domination, taking into account that within the
contradiction integration is also an instrument disputed by imperialism, being in the of political disputes
over the region. From the tradition of Latin American integrationist thought, the debate will focus on the
roots and foundations that give rise to this particular conception of integration articulated to some
experiences of regional integration that fall within this conception.

Keywords: Integration, Latin America, Dependent capitalism.

Classificação JEL: F53; F55.

1
Artigo apresentado em 08/05/2018. Aprovado em 08/07/2018.

2
Professora da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Bacharel em Ciências Sociais (UFPB) e em Relações
Internacionais (UEPB). Mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações
Internacionais (UFSC). E-mail: marianadaviferreira@gmail.com.
3
Docente do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (PPGRI/
UEPB) e do Programa de Pós-Graduação em Gestão Pública e Cooperação Internacional da Universidade Federal da
Paraíba (PGPCI/UFPB). Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisa em Ásia-Pacífico (GEPAP/UEPB/CNPq). E-
mail: alexccleite@gmail.com. Orcid: http://orcid.org/0000-0002-0209-2717

4
Professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC) e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais (UFSC). Doutor em Ciências Sociais pela
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). E-mail: jccoelho@ineu.org.br.
69

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

1. Considerações Iniciais

Os processos de integração regional intensificam-se na América Latina a partir de


meados da segunda metade do século XX. Considerando que diferentes motivações podem
fomentar o impulso desses arranjos regionais, afirmamos aqui que algumas dessas experiências
de integração regional constituem-se, historicamente, vinculadas à políticas que
buscavam/buscam combater a condição de subdesenvolvimento da região. No sentindo
simbólico, essas experiências de integração da região guardam relação umbilical com a
concepção de unidade latino-americana inaugurada nos processos de independência das
colônias no século XIX. Compreende-se, assim, que esse modelo particular de integração é
construído a partir da retomada de elementos da formação sócio histórica comuns aos diferentes
países da América Latina.
Nesse sentido, este texto tem como objetivo compreender o processo no qual, em
determinados períodos históricos, a integração regional na América Latina configurou-se como
um instrumento anti-imperialista e de busca por autonomia pelos Estados. Assim, busca-se
apresentar um quadro analítico sobre a relação entre imperialismo, dependência e integração na
América Latina, partindo do recorte da integração regional concebida como instrumento de
resistência anti-imperialista e de caráter latino-americanista.
Para tanto, o artigo ora apresentado divide-se em duas seções. A primeira está dedicada
ao debate sobre a condição estrutural de dependência que demarca as formações sociais dos
Estados latino-americanos e a centralidade da política imperialista no aprofundamento dessa
condição, a partir da contribuição dos clássicos do pensamento social latino-americano. Já a
segunda abordará o processo de integração regional na América Latina como elemento inerente
à sua formação sócio histórica. Nesse sentido, o debate realiza-se no entrelaçamento das
experiências concretas de arranjos regionais e a emergência de uma tradição do pensamento
integracionista latino-americano (BRICEÑO RUIZ et al, 2012). Esses elementos são
retomados na busca por compreender as raízes e os fundamentos que dão origem a essa
concepção particular de integração, com destaque para as experiências de integração dos anos
2000.
Nesse percurso, a elaboração de uma síntese sobre a América Latina e as
particularidades decorrentes de sua formação sócio histórica dependente demanda cautela, tendo
em vista a dificuldade de realizar uma discussão macro sem se deter às particularidades
nacionais, que guardam diferenciados complexos Estado/sociedade civil em função de suas
formações econômico-sociais específicas. Por se tratar de uma história multissecular, repleta de
determinações nas mais diversas esferas da vida social, uma aproximação com tal síntese torna-
se possível pelos elementos comuns que marcaram a colonização deste subcontinente e a
consolidação do capitalismo dependente, que se desdobram até o tempo hodierno pela posição
que esta região ocupa na Divisão Internacional do Trabalho (DIT).
Partimos da perspectiva teórica que considera a articulação entre a história do
subdesenvolvimento da América Latina e a consolidação do sistema capitalista mundial
(MARINI, 1970)5. Consideramos, assim, que a colonização europeia do território latino-
americano constitui processo essencial para a acumulação originária de capital e,
posteriormente, o desenvolvimento do capitalista. Isso ocorreu através de expropriação das
riquezas, contribuindo para i) a consolidação do modo de produção capitalista e, por
conseguinte, ii) para a conformação da dependência e do subdesenvolvimento como
características estruturais das economias latino-americanas 6 (MARX, 2002; FRANK, 1980).
5
Para Marini (2005) desenvolvimento e subdesenvolvimento conformam faces opostas da mesma moeda,
configurando momentos constitutivos da mesma realidade. Assim sendo, o subdesenvolvimento é entendido como
processo constituinte e necessário para a reprodução da acumulação ampliada (locus do modo de produção
capitalista), que só será superada via revolução socialista.

6
O conceito de dependência estrutural aqui utilizado refere-se aos condicionantes estruturais da dependência
latino-americana, que - a partir das relações centro-periferia estabelecidas no seio do modo de produção capitalista –
70

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Assim, a dependência7 constitui uma especificidade da dinâmica do capitalismo latino-


americano. Marini (2005, p. 141), define a dependência como: “uma relação de subordinação
entre nações formalmente independentes, em cujo marco as relações subordinadas são
modificadas ou recriadas para assegurar a reprodução ampliada da dependência”.
Assim, é viável afirmar que as condições concretas do capitalismo dependente
compartilhada pelos Estados da região possibilitam a construção de uma identidade latino-
americana8. A elaboração desta concepção de identidade é parte da construção teórica em que se
insere este artigo e parte da percepção de que as relações de dominação externa que demarcaram
a colonização de todos os territórios da região resultam em uma experiência histórica
compartilhada da qual emerge origina, nas lutas de independência no século XIX, a
possibilidade identitária da unidade latino-americana. Em A Ideologia Alemã, Marx (2007, p.
94-95) diz que a “produção de ideias, de representações, da consciência, está, em princípio,
imediatamente entrelaçada com a atividade material e com o intercâmbio material dos homens,
com a linguagem da vida real. Assim, a produção de imagens coletivas e intersujetividades
molda e dá sentido ao mundo, erguendo-se sob relações sociais de produção concretas, cuja
síntese compõe uma estrutura histórica.
A referência do conceito de América Latina – enquanto unidade possível pela história
compartilhada – é debatida pelo pensamento social latino-americano 9 e se fortalece na segunda
metade do século XX. Acerca deste processo de reflexão e produção própria sobre a região,
Bernal-Meza (2005, p. 31) destaca que “a busca de uma leitura própria sobre as questões sociais
remonta à confrontação “europeísmo-americanismo”: o debate pela imposição de uma
determinada forma de conceber a identidade e construir a história sobre perspectivas regionais”.
Trata-se da constituição de um pensamento latino-americano por intermédio de representações
literárias, ensaios entre outros tipos de expressões escritas que expressam identificação regional.
Destarte, os estudiosos da América Latina constroem uma leitura sobre o conceito que
busca debater as particularidades da formação social, econômica e política da região e, em
alguns casos, o debate em torno da existência (ou não) de uma identidade latino-americana. Tal
discussão coaduna com o debate teórico sobre a viabilidade de uma integração da América
Latina (ALVAREZ, 2010).
Nas próximas páginas far-se-á um resgate dos principais elementos da formação sócio
histórica da América Latina, atentando para a centralidade da dependência em sua estrutura. Em
seguida, analisar-se-á, como tais especificidades configuram experiências sui generis de
integração regional no seio de sua história, que permite afirmar a relação entre essas
experiências e a construção de uma identidade latino-americana.

2. Elementos da formação sócio-histórica da América Latina

Nesta seção serão apresentadas, a partir do pensamento social crítico latino-americano e


da literatura clássica de tradição marxista, as especificidades da consolidação do capitalismo
confere aos países dessa região uma inserção subalterna na divisão internacional do trabalho.

7
Para Marini (2005) a dependência constitui-se com a consolidação do capitalismo dependente. Diferente da
leitura de Gunder Frank, para o qual a dependência se conforma desde o período colonial, no qual vigoravam as
relações entre Colônia e Metrópole. Aqui apresentam-se os elementos da formação sócio histórica da América Latina,
considerando que o período colonial estabelece as bases para a posterior consolidação da dependência como traço
estrutural da dinâmica do capitalismo latino-americano.

8
Cabe deixar claro que não se considera aqui neste artigo que a identidade latino-americana seja dada,
fechada ou reificada. Mas sim como processo e, como tal, é compreendido diferentemente por distintas correntes
teóricas.

9
Esse pensamento se constitui a partir de líderes, escritores e estudiosos latino-americanos, como Simon
Bolívar e José Martí no século XIX, posteriormente Mariátegui, teóricos cepalinos, dependentistas e outros.
71

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

dependente na região para que, em seguida, sejam situadas as mudanças que ocorrem nas
relações centro-periferia na fase imperialista do capitalismo. Para tal, a seção trata, de maneira
panorâmica, de três momentos históricos: a colonização, a consolidação do capitalismo
dependente na América Latina e as mudanças consonantes à fase monopolista do capitalismo. O
propósito está na busca do entendimento de como a dependência se constitui como elemento
estrutural na dinâmica do capitalismo latino-americano. Isso para viabilizar, na próxima seção, a
articulação entre essa realidade e a construção de arranjos regionais na busca por autonomia.

2.1. Capitalismo sui generis e dependência estrutural

A colonização europeia da América Latina constituiu etapa essencial para a


consolidação do modo de produção capitalista no “Velho Mundo”. Marx (2002, p. 864) cita que

As descobertas de ouro e de prata na América, o extermínio,


escravização das populações indígenas, forçadas a trabalhar no
interior das minas [...] são os acontecimentos que marcam os albores
da era da produção capitalista. Estes processos idílicos são fatores
fundamentais da acumulação primitiva.

O sistema colonial torna-se uma fonte de prosperidade para os Estados nacionais


europeus. Sustentadas pelo monopólio, a acumulação derivada assegura mercado às
manufaturas além do fornecimento a custos módicos de insumos essenciais.

A América Latina emerge no século XVI como extensão da acumulação primitiva de


capital e converte-se, segundo Marini (2005), em salvaguarda econômica em estreita
consonância com a dinâmica do capitalismo internacional. Com a exploração de minas e com o
extermínio dos grupos originários, funda-se uma sociabilidade que vigora a partir de padrões de
dominação externa (FERNANDES, 1973b) firmada na relação dependente entre os países do
centro e da periferia.

Nesta perspectiva, a colonização da América Latina, protagonizada, inicialmente, por


Espanha e Portugal, através do financiamento das grandes navegações, desde o século XV, tem
como objetivo primordial explorar as fontes de riquezas do “Novo Mundo”, configurando-o em
uma colônia de exploração (MENDONÇA; PIRES, 2012) cuja produção era adequada a cesta
de consumo das metrópoles.
No Brasil, por exemplo, a exploração deu-se por meio da implantação de uma
agricultura tropical baseada no modelo plantagem, fundado no tripé: escravidão, latifúndio e
monocultura açucareira (FURTADO, 1969), que deixou marca indelével na formação social
brasileira. No que concerne à América Espanhola, inicialmente, o domínio deu-se em um
território caracterizado pelo imediato descobrimento de significativas jazidas de minérios pelos
espanhóis, a partir da implementação de encomiendas10. A conquista que se iniciou com base na
exploração de minérios para a acumulação originária de capital conformou economias satélites,
que, após a decadência da mineração, tornaram-se a base da economia e da organização social
da América Espanhola (MENDONÇA; PIRES, 2012).
O elemento determinante na constituição da organização social das colônias latino-
americanas figura no papel que estas cumpriram no processo de acumulação originária do
capital. Neste sentido, Florestan Fernandes (1973, p. 11) destaca que à semelhança de outras

10
Na América, a encomienda constituía um sistema que garantia o controle total da Coroa espanhola sobre a
exploração das riquezas do território americano, por meio da conjugação entre costumes espanhóis e práticas de
cobrança típicas dos povos pré-colombianos. Configurava-se, assim, uma concessão real aos conquistadores, pela
qual a Coroa adjudicava-lhes certo número de aldeias e índios que deveriam ser catequizados e protegidos. Ao
encomendero era permitido exigir trabalho dos indígenas (encomienda de servicios), bem como a entrega de gêneros
(encomienda de tributos) (MENDONÇA & PIRES, 2012, p. 64).
72

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

nações das Américas, as nascentes nações latino-americanas derivam de uma expansão da


civilização ocidental, denominado por este autor como colonialismo organizado e sistemático.
A organização social das colônias hispânico-lusitanas formava-se em torno do Pacto
Colonial que previa a estrutura econômica primário-exportadora nas colônias, das quais as
produções eram voltadas para abastecer as metrópoles, a baixos custos, e na compra dos
produtos manufaturados produzidos nas metrópoles europeias. Assim, desde a colonização,
funda-se uma lógica dependente e assimétrica nas relações entre América Latina e a Europa.
Esta lógica relacional, estabelecida no Antigo Sistema Colonial, configurou-se como a primeira
forma de dominação externa (FERNANDES, 1973b; NOVAIS, 1993).
Na análise sociológica do capitalismo dependente, Fernandes (1973b) caracteriza a
dependência estrutural por meio da existência de padrões de dominação externa ao longo da
história latino-americana. Da colonização à consolidação e desenvolvimento do capitalismo
dependente, as relações de dominação externa equivalem a uma constante expansão do
capitalismo e incorporação dependente dos países latino-americanos ao espaço político, social e
econômico das sucessivas nações que ocuparam, ao longo da história, a posição de hegemonia
no sistema capitalista.
Os fundamentos legais e políticos necessários à dominação colonial exigiram o
estabelecimento de uma ordem social na qual os interesses que vigoravam eram o da figura do
colonizador e, principalmente, da Coroa, a partir da transplantação dos padrões ibéricos de
estrutura social, junto à exploração da mão de obra indígena e do tráfico negreiro. Configurou-
se, assim, a sociedade colonial estruturada para viabilizar o processo de dominação externa na
América Latina, a partir do Antigo Sistema Colonial (FERNANDES, 1973b; NOVAIS, 1993).
Nesse processo forjaram-se as bases da dominação externa que deram o tom das relações entre
os territórios latino-americanos (colônias, semicolônias e, posteriormente, Estados nacionais) e
as nações hegemônicas. O Antigo Sistema Colonial deixou como herança uma estrutura
societária plutocrática com a marca da concentração de riqueza e do poder (FERNANDES,
1973a).
A crise dos arranjos sociais que conferiam estabilidade ao Antigo Sistema Colonial
ocorreu quando os interesses econômicos das metrópoles ibéricas começaram a chocar-se com
os interesses da burguesia industrial nascente na Europa. A formação do capitalismo industrial
europeu culminou, dessa forma, em novas demandas para o papel das colônias na dinâmica da
economia internacional. Tem papel relevante neste cenário a Revolução Industrial e as práticas
liberais que fomentaram a crise colonial e que, consequentemente, resultou na independência
das colônias latino-americanas.
O crescimento da Inglaterra, enquanto potência industrial, acabou sendo determinante
no desmantelamento da relação entre as metrópoles ibéricas e as colônias latino-americanas. A
Inglaterra passou a ser o principal Estado a estabelecer relações de dominação externa com a
América Latina. Esse processo ocorre mediante o amadurecimento do capitalismo industrial
inglês, que colocou Londres no centro das políticas de dominação externa de cunho neocolonial.
Na América Latina, a independência das colônias ocorreu mediante a conservação de traços
típicos de sociedades nacionais dependentes. As relações de dominação externa sobre a região
perpetuaram-se no novo cenário histórico.
A consolidação do capitalismo industrial na Europa coloca a América Latina numa
posição mais ativa no mercado mundial, sendo as relações de dependência ressignificadas sob a
forma do neocolonialismo e, posteriormente, sob a forma de relações de cunho imperialista. “A
Inglaterra iniciou uma política colonial que propiciou rápido impulso à emergência dos
mercados capitalistas modernos nos centros urbanos das ex-colônias” (FERNANDES, 1973b, p.
15). Nesse contexto, a influência externa é observada por uma dominação indireta, através do
controle de mercado, tendo, internamente, o apoio das classes exportadoras que se forjavam
com a formação do mercado mundial.
No limiar desse processo, o desenvolvimento manufatureiro inglês substituiu as
exportações espanholas e portuguesas, para além de declinar o princípio das manufaturas locais
latino-americanas pela enxurrada de produtos ingleses que passou a compor as pautas de
73

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

importação na América Latina. “A liberalização do comércio trouxe consigo a destruição de


novas fábricas que surgiam, através da inundação completa dos mercados [latino] americanos
por mercadorias” (PIMENTEL apud FRANK, 1980, p. 112). Segundo Frank (1980), esse
processo foi central para a canalização das economias pós-independência rumo uma ampliação
da produção de matérias primas para exportação, definindo o papel dessas economias na divisão
internacional do trabalho.
Diante da especialização produtiva demandada pela grande indústria, coube à América
Latina e às demais economias dependentes o suprimento dos bens agrícolas necessários.
Segundo Marini (2005), o crescimento da classe operária industrial na Europa foi viabilizado
pelos meios de subsistência de origem agropecuária produzidos, também, pelos países da
América Latina. Nesse ínterim, essa dinâmica “permitiu aprofundar a divisão do trabalho e
especializar os países industriais como produtores mundiais de manufaturas” (Ibid., p. 143).
As considerações de Frank (1980) e Fernandes (1973a, 1973b) demonstram como os
processos de independência e a formação de Estados nacionais não resultaram em uma ruptura
com a dominação externa. Há, sim, uma reconfiguração da dinâmica da dependência para
manutenção dos interesses dos grupos privilegiados na periferia e no centro.
Na segunda metade do século XIX, as transformações em curso na periferia aprofundam-
se com o adensamento da articulação das economias dependentes na direção dos dinamismos
das economias capitalistas centrais11. Segundo Fernandes (1973b, p. 16) os focos de influência
externa atingem todas as esferas da sociedade, nos planos da economia, da política e da cultura.
A reorganização da dinâmica da economia internacional no curso da Revolução
Industrial consolida o capitalismo dependente como realidade concreta na América Latina. Para
Marini (2005), a articulação da América Latina com a economia mundial se materializa pelo
estabelecimento da DIT. A dependência estrutural consolida-se como produto da
internacionalização do processo produtivo, a partir da incorporação das atividades econômicas
dos países latino-americanos ao sistema de produção capitalista centralizado nos países
europeus. Ianni (1974, p. 176, grifo nosso) aponta que à medida que se ampliam e são
aprofundados os laços de interdependência e complementaridade entre as economias,
expandem-se também as estruturas de dependência. “Nesse sentido, a dependência estrutural é
o produto necessário da reprodução ampliada do capital, em escala mundial”. Para isto todas
as formas de exploração da força de trabalho, e não somente a forma típica capitalista do
trabalho assalariado, são admitidas e subordinadas à extração e exportação do excedente. Neste
aspecto trabalho servil e escravo não se constituem no espaço subdesenvolvido em antinomias
da expansão do capitalismo, mas fazem parte de um amplo processo de superexploração da
força de trabalho na formação de um sistema-mundo capitalista.
Trata-se de uma inserção subordinada da América Latina no modo de produção
capitalista, desenvolvida por meio da transferência de valor (Carcanholo; Saludjian, 2014) que
perpassa todas as fases da dependência e se materializa na transferência de parte do valor que é
produzida na periferia para ser realizada no centro. Na proporção em que se transfere valor da
periferia para o centro estabelece-se uma cisão no ciclo de reprodução do capital latino-
americano, comprometendo o processo de acumulação nas periferias (MARINI, 2012). Nas
economias dos Estados latino-americanos, isso resulta em uma apropriação repartida do
excedente econômico nacional, já que parte da riqueza produzida no território nacional passa a
ser apropriada pelas economias centrais (FERNANDES, 1973a). Aqui se fundamentam os
elementos centrais de constituição da dependência como uma característica basilar das
economias latino-americanas, isto é, a deficiência no processo de acumulação nesses países e
sua corresponde funcionalidade para o processo de acumulação das economias centrais.
A contradição fundamental do modo de produção capitalista entre a produção social da
riqueza e sua apropriação privada apresenta-se de maneira ainda mais arraigada nas economias
11
Fernandes (1973a) contribui para a compreensão das consequências da dominação externa em esferas
como a cultura e a sociedade. Em sua obra esses elementos aparecem a partir da narrativa obre a incorporação
dependente da periferia ao que o autor denomina o “espaço social e político das nações hegemônicas”. A
sociabilidade dos países dependentes sofre uma gritante influência externa dos padrões sociais do Norte.
74

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

dependentes, tendo em vista que ocorre uma repartição internacional da apropriação da riqueza
aqui produzida. Assim, “a apropriação privada do produto do trabalho das classes assalariadas
ocorre tanto em âmbito nacional como em nível internacional” (IANNI, 1974, p. 176).
As consequências da cisão no ciclo de reprodução do capital tornam ainda mais gritantes
as contradições típicas de uma sociedade de classes, resultando no caráter sui generis do
capitalismo dependente e suas estruturas sociais. Esse caráter sui generis é explicado por Marini
(2005) pela particularidade que adquire a relação capital x trabalho na América Latina, pois um
mecanismo de compensação precisa ser introduzido para sanar essa interrupção da acumulação
interna de capital. Isso se dá pelo aumento da produção de excedente, por meio da
superexploração da força de trabalho, como especificidade da dinâmica do capitalismo
dependente latino-americano.
Forjam-se então, diferentes mecanismos de aumento da exploração da força de trabalho,
quais sejam: i) a intensificação do trabalho, ii) a prolongação da jornada de trabalho e a iii)
expropriação da parte do fundo de consumo do trabalho, necessário ao operário para repor sua
força de trabalho (MARINI, 2005, p. 156). A superexploração da força de trabalho traz
implicações concretas para a população desses países, isto é, graves consequências sociais da
distribuição regressiva de renda e riqueza. (CARCANHOLO, 2012). Essas decorrências se
expressam no nível de desigualdade e de concentração da renda, da riqueza e do poder na
América Latina, que implica em condições de vida degradantes para as classes trabalhadoras
dos países dependentes.
Conforma-se, assim, a partir desses elementos, uma sociedade de classes marcada pela
“heteronomia permanente”, tendo em vista que a revolução burguesa na América Latina não
rompeu com o arcaico, e, desembocou na consolidação de uma estrutura do modo de produção
capitalista de caráter sui generis. Resulta disso a marca da constante relação entre o “arcaico” e
o “moderno” como modus operandi na sociedade de classes na América Latina (FERNANDES,
1973a). A estabilidade dessa sociedade de classes requer mecanismos de dominação que
reforçam, a partir do arcaico, a concentração da renda, do prestígio social e do poder,
exacerbando as mazelas sociais.
Nesse modelo de capitalismo, as classes sociais não cumpriram seu papel enquanto
agente histórico de transformação como em sociedade de classes fundadas pela via clássica da
Revolução Burguesa, tal qual ocorreu na Europa. Nos países europeus ocorreu a ruptura com o
antigo regime e a conformação de uma estrutura social, na qual as classes sociais cumprem suas
funções, enquanto agentes históricos de uma sociedade fundada na propriedade privada, na
formalização do Estado e do Direito (FERNANDES, 1973a). Assim, nesses países, a
consolidação da “civilização burguesa”, com a hegemonia dos interesses dessa classe, instaura
uma ordem social competitiva na qual as classes baixas utilizam os instrumentos típicos da
“estrutura democrática” - mais formal que concreta - para pautar seus interesses de classe e
efetivar-se enquanto agente histórico.
Às avessas, a burguesia latino-americana adquire um caráter débil para consolidar um
projeto democrático e nacional, pois a sociedade de classes se funda sobre estamentos
senhoriais típicos do Antigo Regime Colonial, sem conseguir superá-los (FERNANDES, 1973a,
1973b, 2006) e, ainda, com uma relação de complacência com o imperialismo, cedendo espaço
às evoluções externas do capitalismo. Nesse sentido, para consolidar sua hegemonia de classe, a
burguesia recorre a instrumentos antidemocráticos que perpetuam e acentuam a concentração
dos mecanismos de poder, as disparidades sociais e as relações de dominação externa.
Pela origem colonial, o capitalismo moderno apresenta-se na América Latina com uma
série de particularidades, sendo a condição burguesa das classes dominantes não “o requisito,
mas o produto imprevisto e quase inexorável dessa evolução”. Fernandes (1973ª, p. 91) ainda
aponta que: “a ordem social competitiva não deita suas raízes mais longínquas em um
estamento burguês revolucionário; mas em estamentos senhoriais que pretendiam usar suas
posições-chaves no controle da economia e de Nações-Estados emergentes”.
A permanência de elementos do arcaico em conexão com o moderno confere o estado
de heteronomia permanente. Fernandes (1973a, p. 55) ressalta que, como consequência desse
75

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

modelo, não existe possibilidade de alteração no padrão das transformações que leve da
articulação dependente ao desenvolvimento autônomo dos países latino-americanos, sendo um
constante processo de readaptação às evoluções externas. Desse modo, a dependência não
possui um caráter residual nas sociedades latino-americanas. Ao contrário, sua dimensão
inegavelmente estrutural consolida-se por meio das transformações, inerentes à dinâmica do
capitalismo periférico, que consistem numa contínua adaptação nas relações centro-periferia a
novas condições históricas. São essas modificações no seio do capitalismo internacional e nas
relações dominação-subordinação (IANNI, 1974) que levam à política imperialista, como novo
padrão de dominação externa que será tratado a seguir.

2.2. Imperialismo e relações de dependência no capitalismo monopolista

A expansão capitalista - da acumulação originária à etapa da financeirização na fase


monopolista - é demarcada por processos de readequação das economias latino-americanas às
demandas do mercado mundial. Essas economias, ajustando-se de forma periódica, respondem à
lógica da dinâmica da acumulação de capital que, a partir da fase imperialista, transfigura
frequentemente suas relações sociais de produção e reprodução.
Tratou-se até aqui dos principais elementos da formação da América Latina, que
determinaram a condição sui generis do capitalismo dependente em consonância com os
padrões de dominação externa que vigoraram até a transição do neocolonialismo, transfiguram-
se na forma de relações de cunho imperialista. Busca-se resgatar o debate da dependência, na
fase monopolista do capitalismo, a partir da concepção leninista de imperialismo. Assim, Lenin
(2012) define imperialismo como o estágio monopolista do capitalismo.
Ianni (1974, p. 161) atenta que a análise da dependência estrutural equivale ao
“aprofundamento da análise do imperialismo, vista da perspectiva do país subordinado”. Nessa
afirmação está contida a relação complementar que existe entre os estudos da dependência e do
imperialismo. Assim, busca-se articular a relação entre dependência e imperialismo por esse
ângulo. Como reitera Ianni (1974, p. 175), sob várias perspectivas, o conceito de dependência
estrutural corresponde, complementar e antiteticamente, ao conceito de imperialismo. Nesta
relação o desenvolvimento de um torna-se dependente do outro.
Nesse sentido, as bases da transição ao estágio monopolista do capitalismo residem no
esgotamento do capitalismo concorrencial, no final do século XIX. Por meio das mudanças na
dinâmica do capitalismo, em torno do desenvolvimento das forças produtivas, do surgimento
dos monopólios pela tendência à centralização e à concentração de capital e da modificação do
papel dos bancos, o capital monopolista torna-se a coluna vertebral da economia capitalista
(BRAZ; NETTO, 2012). O monopólio passa a ser, portanto, a unidade básica de funcionamento
da dinâmica capitalista (SWEZZY; BARAN, 1964).
Nessa nova fase do capitalismo, o papel dos bancos é revolucionado a partir do controle
de massas monetárias gigantescas que se transformam em crédito disponibilizado na forma de
empréstimo para o capitalista industrial. O papel dos bancos é converter capital-dinheiro inativo
em capital ativo, ou seja, em capital que rende lucro. Segundo Lenin (2012, p. 192), há uma
fusão entre capital bancário e capital industrial, que origina o capital financeiro. Em síntese, os
bancos passam “de intermediários de pagamentos a associados de capitalistas industriais”.
A consolidação da dinâmica da “era dos monopólios” introduz novas necessidades para
a continuidade da reprodução ampliada de capital. A tendência, cada vez maior, a centralização
e a concentração das atividades econômicas levam a acumulação de capital em proporções
gigantescas, gerando uma grande massa de excedente de capital. Nos países centrais, esse
excedente não é investido em políticas para a elevação do nível de vida dos trabalhadores, mas é
convertido, por meio da exportação de capitais para os países da periferia, em expansão dos
lucros capitalistas. Lenin (2012, p. 94) ressalta, além disso, que “a necessidade da exportação de
capitais se deve ao fato de o capitalismo ter amadurecido excessivamente em alguns países, e o
capital carecer de um campo para a sua colocação lucrativa”. Por conseguinte, a centralidade
76

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

que adquire a exportação de capital no capitalismo monopolista traz consequências para a


relação centro-periferia. A política imperialista se consolida como instrumento para viabilizar a
expansão territorial com vistas ao investimento do excedente de capital 12.
Na fase monopolista, a necessidade da expansão do capitalismo coloca para os Estados
a política colonial como elemento central na busca por mercados e exportação de capital para
garantir a realização do valor produzido nos monopólios. “As nações imperialistas, tanto através
de suas empresas monopolistas quanto do próprio Estado, expandem os seus tentáculos para as
nações periféricas” (LENIN, 2012, p. 17). Nesse período, os Estados, onde o capitalismo
monopolista se desenvolve e cujos interesses representam, relacionam-se na luta pelo território
econômico dos países formalmente soberanos, mas econômica e politicamente dependentes 13. A
esse respeito, Lenin (2012) afirma que o capital financeiro e a política internacional formam
conjuntamente em mecanismo de poder, delimitando a operação da partilha do mundo e as
relações de dependência. Ficam assim, os Estados subordinados, presos ao emaranhado político
e econômico constituído pela estrutura monopolista.
As relações próprias da dinâmica capitalista entre economias centrais e periféricas
incorporam alterações que ressignificam o papel da periferia para o circuito da acumulação no
centro. Há, dessa forma, uma (re)funcionalização das relações de dependência e, por
consequência, do padrão de dominação externa que demarca a relação entre centro e periferia.
Segundo Ianni (1974, p. 126), a expansão das fronteiras econômicas e políticas dos Estados
Unidos em direção ao sul das Américas resultou em um comprometimento dos sistemas
políticos e econômicos das nações latino-americanas com a hegemonia estadunidense. “Assim,
sempre que a primazia dos Estados Unidos se afirmava ou expandia, reduzia-se ou eliminava-se
a presença inglesa na América Latina”.
Esse padrão de acumulação típico do capitalismo monopolista gera uma redefinição
constante da materialização do subdesenvolvimento 14. São essas modificações que configuram a
política imperialista como novo padrão de dominação externa. Nesse sentido, dado o
crescimento do potencial produtivo da economia latino-americana, o imperialismo restrito dá
continuidade às relações de dependência estabelecidas entre a América Latina e o centro.

Na tentativa de afastamento da influência europeia, principalmente inglesa, os Estados


Unidos, com um discurso de segurança, começam a desenvolver uma política de influência
sobre todo o continente, legitimada pelo discurso do pan-americanismo15. Neste sentido, a
dominação norte-americana deu-se a partir da formulação de uma política própria para a região
latino-americana. No século XIX destaca-se a Doutrina Monroe, uma política anunciada em
1823, sob o mandato presidencial de James Monroe que segundo Karnal (2007), tem como
pressuposto discursivo os Estados Unidos enquanto responsáveis pela proteção dos Estados de

12
Nas transações internacionais para exportação de capitais, os países centrais que fornecem os empréstimos
o fazem – geralmente – com cláusulas que instituem requisitos aos países receptores, a partir das quais o credor
obtém algum proveito. Essa condição desigual na concessão dos empréstimos norteia a exportação de capitais com
vantagens concebidas aos países exportadores, seja no campo militar ou nas vantagens comerciais em relação ao
acesso ao mercado dos países subdesenvolvidos as quais concedem o empréstimo. Tais cláusulas passam a exercer o
papel de estímulo à exportação de mercadorias dos países centrais – fornecedores dos empréstimos – através de uma
relação de determinação sobre a pauta importadora dos países receptores.

13
Mercados, transferência de produção para acesso a matéria-prima, ao exército industrial de reserva que
significa mão-de-obra mais barata, desorganizada politicamente enquanto classe e disponível.

14
Como também nos relembra Celso Furtado em sua obra O Mito do Desenvolvimento.

15
Aqui o pan-americanismo se diferencia do pan-americanismo defendido por Simon Bolívar no processo de
independência das colônias hispano-americanas no século XIX. Nesse momento histórico, se inicia a definição de
dois projetos diferentes para o subcontinente: o projeto latino-americanista, que remonta à Bolívar, e o projeto pan-
americanista, que remonta à Monroe e a política imperialista dos Estados Unidos para a América Latina.
77

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

toda a América. A doutrina Monroe seria completada posteriormente pelo Corolário Rossevelt,
no início do século XX, que preconizava aos EUA o direito exclusivo de interferência no
subcontinente sempre que seus interesses estivessem sob risco.
Sobre a política externa estadunidense no final do século XIX, um dos momentos mais
expressivos foi a I Conferência Internacional Americana (1889-1890), que ocorreu em
Washington, com o objetivo de fomentar as relações comerciais entre os países americanos. A
Conferência ressaltou o protagonismo dos interesses estadunidenses, sob a pressão das forças
nacionais ligadas ao livre comércio (PÁDUA, 2012, p. 23).
Segundo Ianni (1974), no século XX, a relação dos Estados Unidos com a América
Latina baseia-se na combinação da diplomacia do dólar e do big stick. Diferentes denominações
são utilizadas pelos governantes norte-americanos para as relações com os países latino-
americanos: “monroísmo, pan-americanismo, não-intervencionismo, boa vizinhança, aliança
para o progresso, segurança hemisférica, interdependência, solidariedade interamericana,
associação madura, presença discreta, negligência benigna e assim por diante” (Ianni, 1974, p.
7).
Assim, “a dominação externa, graças ao capitalismo monopolista e ao recente padrão de
imperialismo total ramificou-se e intensificou-se a ponto de organizar-se a partir de dentro em
bases quase simétricas às da antiga dominação colonial” (FERNANDES, 1973a, p. 97). Passa a
vigorar o “imperialismo total” como padrão de dominação externa típico do capitalismo
monopolista, que modifica os arranjos econômicos, mas continua a ter em seu cerne a marca da
acumulação dual de capital e da apropriação repartida do excedente econômico nacional.
O “imperialismo total” ou novo imperialismo consolida-se a partir da expansão das
grandes empresas corporativas típicas das economias centrais para os territórios latino-
americanos. Nesse momento, a dominação externa se concebe de forma mais complexa e
profunda, já que há um controle interno das economias dependentes pelos interesses externos.
Mecanismos típicos das empresas monopolistas passam a ser implementados na dinâmica
econômica da periferia com investimentos em marketing, mudança do quadro administrativo
das empresas, propagandas em massa entre outras ferramentas de projeção. No âmbito
econômico, a falta de instrumentos que pudessem regulamentar e supervisionar a atuação dos
monopólios nos Estados latino-americanos resultou em um enraizamento ainda maior das
estruturas de controles externas em território nacional (FERNANDES, 1973b). Isso acabou
influenciando a falta de autonomia na gestão da política econômica dos Estados dependentes 16.
Ianni (1974, p. 163) destaca que, frente à dominação imperialista, se conformam problemas
como “a alienação dos centros de decisão, sobre a política econômica, resultante da expansão e
do fortalecimento das empresas multinacionais sediadas principalmente nos EUA”.
O “imperialismo total” torna-se ainda mais ofensivo com o término da II Guerra
Mundial. Acontecimentos desse período remetem ao i) estabelecimento da hegemonia norte-
americana no Ocidente; ii) criação de uma série de instituições internacionais
instrumentalizadas pelo imperialismo17; iii) mudança na ordem monetária internacional iv)
“ameaça” da expansão do modelo socialista com a instauração da bipolaridade enquanto
ordenamento do sistema internacional; v) a longa onda expansiva da economia internacional nos
16
Fernandes (1973b) alerta que os aspectos econômicos são apenas uma esfera das modernas tendências de
dominação externa. A incorporação dependente da periferia ao que o autor denomina o “espaço social e político das
nações hegemônicas” resulta em uma gritante influência externa dos padrões sociais do Norte na sociabilidade dos
países dependentes. Isso se dá por meio da empresa corporativa, mas também por outras instituições oficiais
(públicas) e privadas, que têm a função de reconstruir as sociedades latino-americanas de acordo com interesses
externos.
17
Formação de instituições internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU) no campo político,
o General Agreement on Tariffs and Trades (GATT), no campo comercial, o Fundo Monetário Internacional (FMI),
para ajustamento de desequilíbrios das balanças de pagamentos e o Banco Mundial (BM), para financiamento do
desenvolvimento. No cenário internacional, há a instrumentalização dessas agências e instituições internacionais para
implementação de estratégias que lhes são adequadas. Segundo Braz e Netto (2012, p. 237) “O poder de pressão
dessas instituições sobre os Estados capitalistas mais débeis é enorme e lhes permite impor desde a orientação
macroeconômica, frequentemente direcionada aos chamados ‘ajustes estruturais’, até as providências e medidas de
menos abrangência”.
78

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Anos Dourados, que solidificam o imperialismo total enquanto padrão de dominação externa na
América Latina.
Segundo Fernandes (1973b), a expansão do modelo socialista significou uma
“influência dinâmica decisiva” à defesa agressiva do capitalismo privado por parte das nações
capitalistas avançadas18. Entretanto, a grande onda de expansão econômica dos ‘Anos Dourados’
esgotou-se no final dos anos 1960, quando ocorreu uma queda nos índices de crescimento
econômico das economias centrais. Os déficits alcançados pela economia americana
dificultaram que o dólar mantivesse seu poder de ordenação dos movimentos comerciais e
financeiros no mundo, resultando no fim da vigência do padrão dólar-ouro, seguida por uma
desvalorização do dólar e o rompimento com regime de câmbio fixo, passando para o regime de
câmbio flexível.
Esse processo levou à financeirização – como resultado da onda recessiva – e ao boom
de excedente disponível no sistema financeiro após o choque do petróleo que resultou em uma
expansão do crédito, facilitando a concessão de empréstimos aos países do “Terceiro Mundo”.
O resultado disso para as economias latino-americanas foi um aprofundamento no
endividamento externo. Assim, para recuperação da crise, o sistema capitalista lançou mão de
três estratégias: restruturação produtiva, financeirização do capital e a ofensiva neoliberal.
Nesse contexto, as economias dependentes foram atingidas mais gravemente, sobretudo em
função da crise da dívida pública. Foi posta em prática uma série de ajustes 19 de cunho
neoliberal, veiculadas em forma de “boas práticas” e “boas instituições” pelo Consenso de
Washington, que pode ser analisado como um dos instrumentos pelos quais a burguesia
internacional imprime uma direção política de classe às estratégias de enfrentamento da crise
dos anos 1980. Castelo (2013, p. 322-3) elucida os pontos referendados no Consenso de
Washington, que remontam à publicação de 1986, o Toward Renewed Economic Growth in
Latin American, são eles: 1. Disciplina fiscal; 2. Prioridades do gasto público em educação e
saúde primárias; 3. Reforma tributária; 4. Liberalização financeira e taxa de juros; 5. Taxa de
câmbio competitiva; 6. Liberalização comercial internacional; 7. Atração de investimento
externo direto; 8. Desregulamentação/desburocratização e mercados competitivos; 9.
Privatização; 10. Garantia de direitos de propriedade, em especial dos setores informais.
Sob essas condições históricas, a dependência estrutural dos países latino-americanos
(MARINI, 2005) é reforçada na fase monopolista do capitalismo. Frente a esse cenário, a
América Latina vem construindo arranjos de resistência que se configuram de maneira diversa
ao longo da história, mas compartilham a busca por autonomia e, por consequência, contra o
imperialismo e a dominação externa. Isso culmina em uma série de experiências, como
revoluções, processos de integração regional, arranjos cooperativos, que têm como pauta
projetos de cunho nacionalista e anti-imperialista, justamente por serem esses os requisitos
centrais para a construção de autonomia na região, item que será abordado a seguir.

18
A disputa da Guerra Fria intensifica-se com a ofensiva da classe trabalhadora que levou a revoltas
populares e vitórias na China (1949) na Guerra do Vietnã (1950-1975), nos processos de libertação nacional das
colônias africanas durante o período de 1960-1975. Na América Latina, também havia uma ascensão dos movimentos
de massa com teses revolucionárias, que levaram a revoltas populares na Bolívia (1950-1954) Guatemala (1954),
Cuba (1956-1959), República Dominicana (1963-1964) e em outros países.

19
Aqui chamamos de ajustes o que, na linguagem liberal, é nomeado de reformas. Coutinho (2010, p. 35)
aponta que a palavra reforma sempre foi ligada a luta dos subalternos, adquirindo uma conotação claramente
progressista na linguagem política. Entretanto, “o neoliberalismo busca utilizar a seu favor a aura de simpatia que
envolve a ideia de ‘reforma’. É por isso que as medidas por ele propostas e implementadas são mistificadoramente
apresentadas como ‘reformas’, isto é, como algo progressista em face do estatismo, que, tanto em sua versão
comunista como naquela social-democrata, seria agora inevitavelmente condenada à lixeira da história. Desta
maneira, estamos diante da tentativa de modificar o significado da palavra ‘reforma’: o que antes da onda neoliberal
queria dizer ampliação dos direitos, proteção social, controle e limitação do mercado, etc., significa agora cortes,
restrições, supressão desses direitos e desse controle”.
79

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

3. Tradição do pensamento integracionista latino-americano: teoria e a práxis política

O debate sobre a integração e unidade da América Latina tem um de seus fundamentos


na doutrina política de Simón Bolívar, no século XIX, em meio às lutas de independência das
colônias hispano-americanas. O documento que sintetiza esse projeto latino-americanista é a
Carta de Jamaica, de 06 de setembro de 1815, como resposta à carta do inglês Henry Cullen a
fim de solicitar cooperação da Inglaterra para o processo de luta pela independência das
colônias hispânicas. Escrito por Bolívar, a carta apresenta uma visão pioneira sobre a unidade
latino-americana com a proposta de um governo confederado para as nascentes repúblicas.
Segundo Bolívar, trata-se de uma ideia grandiosa que objetiva formar um todo unificado
(VENEZUELA, 2007).
Ocorrido em 1826, o Congresso do Panamá sintetiza o anseio de Bolívar na construção
dessa unidade e tinha como objetivo a conformação de uma confederação como meio de
garantir a estabilidade e a segurança das nações. O artigo II do Tratado de Unión, Liga y
Confederación Perpetua aponta a centralidade da busca pela autonomia desse Congresso.

ARTIGO 2º - O objeto deste pacto perpétuo será sustentar em comum,


defensiva e ofensivamente, se necessário, a soberania e a
independência de todas e cada uma das potências confederadas da
América contra toda dominação estrangeira, e assegurar, desde agora,
para sempre, os prazeres de uma paz inalterável, e promover, para o
efeito, a melhor harmonia e boa inteligência, por isso entre os povos,
cidadãos e sujeitos, respectivamente, como com as demais potências
com as quais se deve manter ou entrar em relações amigáveis
(TRATADO…, 2013, tradução nossa).

A proposta do Congresso não foi efetivada. “A obra de Bolívar se desintegra


definitivamente em 1830, deixando o caminho livre as pretensões hegemônicas das potências
sobre as nações débeis do Sul” (VENEZUELA, 2007, p. 5). Entretanto, segundo Briceño Ruiz
(2012), o legado de Bolívar resulta em um marco para a fundação de uma concepção particular
de integração regional para a América Latina, que foi sendo trabalhada e difundida no
imaginário coletivo da região. Assim, constitui-se uma imagem coletiva compartilhada da
necessidade de se alcançar uma integração entre povos e países, que em diferentes momentos
foi impulsionada ou retraída, a depender das contingências históricas.
A concepção do projeto latino-americanista prossegue na produção intelectual da nossa
região. Segundo Briceño Ruiz et al (2012) há uma verdadeira tradição do pensamento
integracionista, que se desenvolveu e resultou em um acúmulo sobre o tema em diferentes
esferas da vida social, desde a economia, passando pela política, literatura e filosofia. Segundo
Bernal-Meza (2005): “Durante os últimos quase duzentos anos, distintos pensadores e estadistas
– idealistas, utópicos, pragmáticos e realistas – defenderam, com vários argumentos, a
necessidade de alcançar a integração entre os povos e países” (BERNAL-MEZA, 2005, p. 47,
tradução nossa). Essa tradição remonta aos precursores da independência e aos que denominam
como “os libertadores”, seguindo durante todo o século XX até o tempo hodierno.
Como na América Latina “o capitalismo e a sociedade de classes aqui não são produtos
de uma evolução interna” (FERNANDES, 1973a, p. 35), o capitalismo dependente evolui sem
contar com condições de crescimento auto-sustentado e desenvolvimento autônomo. A ausência
da autonomia pode ser considerada um elemento-chave na compreensão da especificidade
latino-americana, no que tange à dependência estrutural e à sociedade de classes que se funda
em seu território, como apontado anteriormente. Nesse sentido, as experiências demonstram que
a agenda da integração latino-americana possui, em seu cerne, a pauta da busca pela autonomia.
Para Briceño Ruiz (2012), a partir das experiências práticas, duas ideias fundamentais
determinaram o pensamento sobre integração na América Latina: i) a autonomia política na
80

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

busca por uma maior liberdade frente as potências extrarregionais e ii) o desenvolvimento
econômico (diversificação da estrutura produtiva regional). Historicamente, essas duas pautas
estiveram presentes em diferentes experiências e arranjos regionais.
A presença da busca por autonomia e desenvolvimento econômico, como pautas centrais
nos processos de integração regional da América Latina, constitui-se como uma particularidade
perante a condição de seus Estados como economias dependentes. Dessa forma, em
determinados momentos da história, a política externa desses países utiliza a integração como
um instrumento para enfrentar os problemas derivados da inserção subordinada desses países na
dinâmica do capitalismo internacional.
Compreendida a partir dessa dimensão, a integração pode ser apontada como um tema
inerente à história da América Latina, que remete à luta pela independência com Simón Bolívar,
José Gervasio Artigas e José Martí, conjugada à unidade regional. O legado desse período
constitui-se sob o acúmulo de intelectuais em obras e escritos que reivindicavam a unidade
latino-americana. A peculiaridade desse legado se dirige exatamente pela práxis que remonta a
essa experiência: o acúmulo teórico ocorreu sob o seio da luta contra o colonialismo. Nela, o
pensar se vincula às iniciativas integracionistas no plano do concreto, concebendo a integração
como instrumento na busca por autonomia, ou seja, por diminuição das relações de dominação
externa do século XIX. A meta era a defesa das novas repúblicas frente a gana material derivada
do expansionismo norte-americano (Briceño Ruiz et al, 2012).
Posteriormente, no final do século XIX, destaca-se a luta pela independência de Cuba,
que teve como protagonista José Martí. Depois de Bolívar, Martí destaca-se pela defesa do
projeto latino-americanista que “[...] não é concebível sem seu anti-imperialismo – duas
posições complementares, que fundamentam seu projeto transformador e a cuidadosa estratégia
que adotou para realiza-lo” (RODRIGUEZ, 2006, p. 8). Foi ele que inaugurou o uso da
expressão Nuestra América; segundo Rodríguez (2006) a expressão representada uma
perspectiva de identidade latino-americana, uma proposta de integração regional.
Nesse mesmo período, o crescimento da economia estadunidense e sua consequente
inserção nas economias latino-americanas resultaram no surgimento do pan-americanismo. “Em
um plano retórico, o pan-americanismo pretendia criar uma comunidade de interesses entre os
países do hemisfério ocidental, o fator econômico foi em grande medida seu eixo motor”
(BRICEÑO RUIZ, 2012, p. 33, tradução nossa). Nessa perspectiva, Santos (1993, p. 109)
argumenta que é constituinte da política internacional e da diplomacia na América Latina o
dilema entre as concepções de Bolívar e Monroe. Segundo o autor: “Bolívar, na sua luta pela
independência, concebeu uma América hispânica independente dos Estados Unidos, cujas
origens culturais distintas, poder econômico e ambições expansionistas os apartavam deste
projeto libertário”.
A síntese do pan-americanismo foi a convocação estadunidense aos Estados do
hemisfério para a Conferência Internacional Americana (1889-90), germe para a “União
Panamericana”. Essa movimentação para a integração continental continha como centralidade a
intenção dos Estados Unidos em afirmar sua hegemonia (MARINI, 1992, p. 119).
Assim, o antagonismo entre as propostas de Bolívar e Monroe demonstram a existência
de diferentes projetos políticos para a região latino-americana que se expressam nos diferentes
arranjos regionais construídos ao longo da história do subcontinente. Dessa forma, a política
externa dos Estados Unidos e suas movimentações no que tange à América Latina 20 conformam
uma variável interveniente na análise da integração regional latino-americana. Segundo Santos
(1993, p. 100) “a proposta de uma integração latino-americana tem uma longa história.
Contudo, ela contou com uma hostilidade definitiva dos Estados Unidos, que sempre se opôs à
unidade da América Latina, considerada como um rompimento da unidade maior americana”.
Dessa forma, na América Latina, a integração regional pode ser vislumbrada como uma disputa
entre as concepções de Bolívar e de Monroe.

20
Alguns exemplos desse projeto são: a Doutrina Monroe (1823), a I Conferência Internacional Americana
(1889-1890), Política da Boa Vizinhança (1930), o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) (1948).
81

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

No século XX, com a consolidação da fase monopolista do capitalismo, aprofunda-se a


realidade do subdesenvolvimento próprio da periferia, tendo a síntese da dominação externa em
sua fase imperialista nos Estados Unidos. Em meio a esse cenário, no âmbito do pensamento
social latino-americano, a teorização sobre as táticas para fomento do desenvolvimento sob a
particularidade da dependência ganha fôlego com a Comissão Econômica para a América Latina
(Cepal). Criada em 1948, a Comissão foi a primeira iniciativa institucionalizada que se dedicou
ao estudo das particularidades da dinâmica do capitalismo latino-americano (FURTADO, 1969).
É importante ressaltar que, para além de análise teórica, a Cepal exerceu imediata e
considerável influência na formulação da política econômica na região (FURTADO, 1969). A
formulação da teoria do intercambio desigual passa a ser um fundamento específico na
orientação de políticas voltadas a impulsionar a integração regional, com foco na
industrialização por substituição de importações. (BERNAL-MEZA, 2008; MARINI, 2010;
RUIZ, 2012).
Nesta seara, intelectuais inscritos em diferentes correntes teóricas passam a se debruçar
sobre o estudo da dependência e o subdesenvolvimento da região. Essa ebulição gerou um
frutífero debate acerca da situação periférica da América Latina e as possíveis táticas para
superá-la no âmbito do pensamento social, como demonstrado na caracterização da dependência
latino-americana no subtópico anterior. Entre esses pensadores, há correntes teóricas que
“bebem no leito histórico” da Cepal, como a vertente marxista da Teoria da Dependência, que
considera central a análise das relações centro-periferia a partir das trocas desiguais. Entretanto,
há discordâncias entre elas no que toca à análise da dinâmica do capitalismo dependente. O
conceito cepalino concebia o subdesenvolvimento 21 a partir de uma visão etapista, como uma
fase anterior ao desenvolvimento pleno, fase pré-industrial, como se todos os países que
buscassem construir condições para tal alcançariam o desenvolvimento. (MARINI, 2010, p.
105). Já a Teoria Marxista da Dependência (TMD) considera desenvolvimento e
subdesenvolvimento como faces opostas da mesma moeda, configurando momentos
constitutivos da mesma realidade. Sobre esse debate, em síntese, Briceño Ruiz et al (2012, p.
19) aponta que “a obra de Prebrisch, o estruturalismo, os aportes da CEPAL e a teoria da
dependência, assim como a contribuição de um crescente grupo de intelectuais e políticos
significaram o amadurecimento do pensamento integracionista na América Latina”.
Assim, a partir da segunda metade do século XX, a Cepal realiza estudos sobre o
subdesenvolvimento da região, que apontavam os empecilhos para a integração latino-
americana. Entre elas, a heterogeneidade estrutural nas economias latino-americanas, junto à
dependência externa – historicamente construída – e um desenvolvimento frágil da indústria
nacional (BERNAL-MEZA, 2008). Isso se devia à situação de dependência que os países latino-
americanos ocupavam na divisão internacional do trabalho. A integração regional tornou-se,
portanto, uma estratégia para superar o subdesenvolvimento, a partir da concepção cepalina de
industrialização, mediante forte intervenção estatal.
Esta estratégia começa a ganhar corpo com algumas iniciativas regionais. A partir do
Grupo de Trabalho do Mercado Regional Latino-Americano, criado no âmbito do Comitê de
Comércio da Cepal, é assinado o Tratado de Montevidéu (1960), originando a Associação
Latino-Americana de Livre Comércio (Alalc). Inicialmente, houve o aumento dos fluxos
comerciais intrarregionais. Entretanto, a experiência da Alalc foi marcada por muitas lacunas,
visto que havia muitas assimetrias entre as economias latino-americanas. A síntese de tais
lacunas foi a assinatura do Protocolo de Caracas (1969); a partir dos obstáculos na estratégia de
multilateralismo radical da Alalc, ocorre a abertura para acordos bilaterais (SANTOS, 1993).
Durante este período também se destaca a criação do Pacto Andino, que,
posteriormente, se tornaria a Comunidade Andina das Nações (CAN), em 1969. Ainda sob as

21
Marini (2010) realiza uma crítica à metodologia utilizada pela CEPAL para mensurar o grau de
desenvolvimento dos países como puramente descritiva, gerando resultados tautológicos. Isso porque a diferenciação
entre desenvolvimento e subdesenvolvimento era feita por critérios meramente quantitativos, estabelecendo
“correlações verificáveis que não esclarecem de maneira alguma, por si só, as questões ligadas a causa e efeito”.
(Ibidem, 2010, p. 106).
82

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

formulações cepalinas, na década de 1980 foi criada a Associação Latino-Americana de


Integração (Aladi), que tem por objetivo superar os problemas da Alalc e fomentar a integração
latino-americana a partir de ações mais pontuais, sem aplicar o multilateralismo radicalizado
desta.
Na década de 1970, mudanças no ordenamento da economia internacional trouxeram
consequências específicas para dinâmica das economias periféricas. Com o processo de
aumento do preço do petróleo estipulado pela Opep, resulta um excedente disponibilizado em
forma de crédito no sistema financeiro agora desregulamentado e liberalizado. Com a expansão
do crédito e as facilidades no fornecimento de empréstimos, os países periféricos aprofundam
um processo de endividamento externo, que já se iniciara em períodos anteriores.
Na década de 1980, o resultado do endividamento expressa-se no que ficou conhecido
como a “década perdida”. Resultante da conjuntura econômica desfavorável, as nações latino-
americanas se articulam para discutir a questão da dívida em instâncias multilaterais. Santos
(1993, p. 126) ressalta que “a questão da dívida externa se converteu num ponto central de
articulação diplomática no subcontinente”. Sob liderança de Fidel Castro (RAMPINELLI,
2012) se fortalece uma “consciência sobre a dimensão da dívida, a impossibilidade do seu
pagamento e a perspectiva de utilizá-la como um fator de unidade latino-americana, de
colaboração Sul-Sul e de pressão sobre as potências econômicas dominantes” (Santos, 1993, p.
126). Isso demonstra a construção de instâncias regionais com foco na unidade da região para
solucionar problemas compartilhados por economias tipicamente periféricas.
Marini (1992) suscita que, em meio à conjuntura adversa da década de 1980, surge a
necessidade da concertação regional. Alguns exemplos dessa movimentação na América Latina
são: i) no caso do Grupo dos Oito (1986), que aprovou o Mecanismo Permanente de Consulta e
Concertação e ii) nas articulações para Integração Brasileiro-Argentina, de onde surgiria o
Mercado Comum do Sul (Mercosul). Em síntese, Marini (1992) aponta para uma hipótese de
que a situação de crise leva os Estados subdesenvolvidos a se articularem regionalmente. Ou
seja, diante do cenário de crise e estagnação econômica, restaria aos países da região adotar uma
política de concertação, que por sua vez, levaria a uma integração regional, menos dependente
dos Estados Unidos e com uma presença mais ativa do Brasil (MARINI, 1992, p. 144-5).
Entretanto, mesmo com a articulação dos países latino-americanos na tentativa de
enfrentar, de maneira conjunta, a crise da dívida, a ‘solução’ para o endividamento das
economias latino-americanas foi a adoção de uma série de medidas liberalizantes, reiterando a
sua situação de dependência estrutural. A experiência neoliberal ganhará força com o insucesso
das tentativas heterodoxas de combate à inflação desenvolvidas principalmente na segunda
metade dos anos 1980. Nessa conjuntura, a Cepal reorientou sua análise sobre o
desenvolvimento no que tange à integração regional. A nova leitura cepalina, denominada de
neoestruturalismo, defendia uma integração regional com abertura dos mercados de forma a
obter uma competitividade não espúria (desarrollo hacia afuera), denominada regionalismo
aberto. O regionalismo aberto se atrela às reformas neoliberais aplicadas nas economias latino-
americanas, derivadas do Consenso de Washington, possibilitando uma maior influência do
projeto político estadunidense para a região. Assim, os processos de integração regional que se
desenvolvem na América Latina durante a década de 1990 possuem um cunho eminentemente
econômico, a exemplo do avanço exclusivo na integração negativa ligada à liberalização
comercial, sem potencializar a integração em outras áreas.
Seguindo esta política, surgiram processos de integração com foco majoritariamente
comercial, mas que não se apresentam a partir de uma concepção homogênea. Entre eles,
destacamos Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta), o Mercado Comum do Sul
(Mercosul), a reestruturação da CAN (antigo Pacto Andino) e a proposta da Área de Livre
Comércio das Américas (Alca). Bernal-Meza (2008) considera que há uma forte vinculação
entre o modelo do regionalismo aberto e o projeto político estadunidense para a região. A
proposta da Alca demonstra de maneira mais explicita essa tese. Segundo o autor:
83

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

A Alca personificava para os Estados Unidos um instrumento de sua


estratégia global e de segurança nacional, porque se tivesse
constituído a potência do bloco mais importante do mundo em termos
de cifras econômicas, demográficas, etc. Ademais, a ALCA teria
tornado possível, entre outros fatores, melhorar sua posição de
negociação na OMC e frear a presença da União Europeia e das
potências asiáticas na região (BERNAL-MEZA, 2008, p. 186).

Segundo Sanahuja (2009), o período de ascensão do regionalismo aberto na América


Latina deu-se entre 1990 e 2005. A partir de 2005, arranjos regionais mais plurais começam a se
desenhar na América Latina. Já no início do século XXI, configura-se na América Latina uma
mudança de paradigma como resultado dos efeitos cumulativos de desgaste decorrentes dos
ajustes neoliberais da década de 1990. Nesse movimento de inflexão, outros projetos políticos
para a América Latina voltaram para o campo de disputa da região. Nessa perspectiva, trata-se a
seguir das experiências contemporâneas que, frente suas diferenças, possibilitam pensar a
integração como mecanismo de busca por maior autonomia para a região e de reação à
dominação externa. Faz-se isso sem deixar de considerar que, no seio da contradição, a
integração também é um instrumento disputado pelo imperialismo, estando no espectro da
disputa de projetos políticos para a região.

4. Integração regional no limiar do século XXI: dependência versus autonomia

No início do século XXI, a construção de tais arranjos regionais na perspectiva de busca


por autonomia pode ser considerada como uma iniciativa entre outras articulações em torno da
composição de um campo antineoliberal na América Latina (BOCCA, 2013). Essas
experiências desenvolveram-se, majoritariamente, nas duas primeiras décadas do século XXI,
enfrentando obstáculos nos últimos anos com o agravamento da crise econômica na região.
Esses novos arranjos em nível regional têm sido protagonizados por projetos políticos
de Estados que atualmente almejam lideranças regionais: o Brasil, que exerce um protagonismo
pelo peso econômico que é determinante na região, e a Venezuela, que protagoniza o
enfrentamento à ofensiva neoliberal e imperialista no subcontinente latino-americano, mais
explicitamente aos Estados Unidos. Sinteticamente, o fomento à integração de cunho latino-
americanista, a partir da concepção apresentada ao longo desse artigo, é protagonizado de
maneira mais explícita pela política externa venezuelana. As experiências apresentam-se em
contestação ao modelo do regionalismo aberto. Essa oposição é elemento central na
conformação da proposta de uma nova integração regional de combate ao imperialismo, de
construção de autonomia e de fortalecimento da América Latina enquanto polo alternativo de
poder no cenário internacional.
É importante destacar que a eleição de Hugo Chávez, em 1998, como presidente da
Venezuela foi um elemento central para a retomada da tradição bolivariana como eixo norteador
para um projeto de integração regional latino-americano. Nesse processo, a recondução da
política externa da Venezuela, a partir de 1999, estabelece como traço prioritário da agenda
diplomática venezuelana a integração regional. O país delineia, assim, um projeto político
específico para a América Latina, atrelado ao objetivo estratégico da política externa
venezuelana: a construção de uma ordem multipolar. No documento Emancipación de la
Política Exterior de Venezuela (2012) afirma-se que: “Se o caminho para a pluripolaridade (sic)
é a integração, então, tenhamos como norte a consolidação de nossas alianças regionais
imediatas, construindo e consolidando as distintas fases de atuação” (VENEZUELA, 2012, p.
74, tradução nossa). Dessa forma, a integração regional se insere como uma das táticas para
construção do objetivo estratégico em voga e tem como papel opor-se ao modelo do
regionalismo aberto. Deve-se levar em consideração, também, aspectos estruturais da
perspectiva integracionista venezuelana, que fazem dela uma perspectiva mais radical: a
integração foi entendida como um mecanismo de defesa diante do acirramento das tensões com
84

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

os EUA. Ela cumpre dois aspectos chaves: tenta compor uma contenção antiimperialista no
âmbito político e expande as possibilidades de aumento da divisão regional do trabalho com
ganhos de escala de mercado e de financiamento.
Entre as diferentes experiências destacamos a União das Nações Sul-Americanas
(Unasul) que é, em grande medida, resultado de um desenho geopolítico brasileiro.
Adicionalmente destaca-se, já pelo lado do protagonismo venezuelano: a Comunidade dos
Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e a Aliança Bolivariana para os Povos de
Nossa América (Alba), essa última trazendo em sua sigla sua clara contraposição em relação ao
projeto neoliberal da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
Destacamos, aqui, a retomada da tradição do pensamento integracionista latino-
americano pelos documentos oficiais da política externa venezuelana, pois foi esse país que
buscou articular esse modelo de integração regional por meio das iniciativas supracitadas (Alba
e Celac). No documento El Nuevo Mapa Estratégico (2004), Chávez menciona a existência de
dois diferentes eixos na geopolítica regional, que representam projetos políticos opostos para a
América Latina, a saber: o Eixo Bolívar formado por Brasília, Caracas, Havana e Buenos Aires
e o Eixo Monroísta, composto pelas conexões entre Bogotá, Quito, Lima, La Paz e Santiago,
sob influência do Pentágono. Entretanto, é importante mencionar que após a eleição de Evo
Morales (2006) e Rafael Correa (2007) como presidentes da Bolívia e do Equador,
respectivamente, La Paz e Quito se tornaram parceiros prioritários de Caracas, passando a
compor o Eixo Bolívar. Nesse sentido, segundo Chávez

[...] a nossa estratégia deve ser quebrar esse eixo [Monroe] e


conformar a unidade sul-americana e creio que não é um sonho, creio
que nunca antes na América se havia dado uma situação como essa.
Há três anos éramos Cuba e Venezuela, em nível de governo, e agora
como mudou a situação (VENEZUELA, 2005, p. 24, tradução nossa).

Assim, a centralidade de um novo modelo de integração regional, na agenda da política


externa venezuelana, compõe as estratégias de enfrentamento ao modelo neoliberal de
integração hegemônico, iniciado na década de 1990, num movimento de inflexão que conforma
um campo de disputa entre diferentes projetos políticos para a América Latina. Este artigo
compartilha da hipótese de que passam a vigorar, hodiernamente, três projetos políticos em
disputa para a América Latina: i) O projeto imperialista neoliberal, alinhado ao projeto da
política externa estadunidense para os países latino-americanos, com participação de frações
burguesas associadas e dependentes do capital internacional; ii) o projeto
neodesenvolvimentista, que corresponde parcialmente aos interesses do “empresariado
regional” que pode se beneficiar de políticas protecionistas e que se sustenta politicamente na
promessa de políticas de ampliação do mercado interno via políticas redistributivas; e iii) o
projeto do “Socialismo no século XXI” , representado pela política externa venezuelana, com
síntese na ALBA-TCP (BOCCA, 2013, p. 12; KATZ, 2011). É importante ressaltar que a
configuração de tais projetos políticos é um movimento híbrido, que expressa conexões e
contradições no campo das experiências históricas concretas. É possível, neste sentido, perceber
que o neodesenvolvimentismo e o projeto do Socialismo no Século XXI encontraram
aproximações táticas durante os governos Lula da Silva no Brasil e Hugo Chavez na Venezuela.
Nesse contexto, tais projetos políticos estão presentes nos diferentes processos de
integração em curso na região. Os processos de integração regional que remetem à unidade
latino-americana, com caráter anti-imperialista declarado e de contestação à dependência
externa, se inserem no Eixo Bolívar, com o protagonismo da política externa venezuelana na
construção desses arranjos. Este protagonismo, tem seu escopo limitado, como demonstrado
recentemente, pela importância de Argentina e Brasil no concerto regional. A política externa
destes dois países pode fazer avançar ou dificultar enormemente as pretensões venezuelanas de
um integracionismo latino-americanista.
85

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

5. Considerações Finais

Este texto propôs-se a realizar um debate entre imperialismo, dependência e integração,


a partir das particularidades da formação sócio-histórica da América Latina. Reiteramos a
importância de resgatar a contribuição de estudiosos latino-americanos para compreensão das
particularidades do capitalismo dependente, levando em consideração a ligação entre a
produção do pensamento social e as contingências históricas que o particulariza, tornando-o
fruto de um lugar e um tempo determinado (COX, 1996). Nesse sentido, reitera-se que
buscamos contribuir com a socialização de leituras excluídas dos principais círculos
acadêmicos, com o objetivo de alcançar a singularidade da análise das relações de dependência,
a partir do olhar de estudiosos que vivenciaram a especificidades da sociedade de classe típicas
do capitalismo dependente latino-americano.
Nesse sentido, compreende-se que o caráter estrutural da dependência latino-americana
se expressa na sua inserção subordinada na divisão internacional do trabalho, que reverbera na
estruturação da sociedade de classes também dependente. Esse processo traz consequências para
as classes pauperizadas no que tange à relação capital x trabalho, por meio da abnegação de
direitos sociais e participação política, que torna ainda mais complexa a situação de
subdesenvolvimento dos Estados latino-americanos. Historicamente, visualiza-se como na etapa
do capitalismo monopolista ocorre um aprofundamento da dependência com a complexificação
dos mecanismos de dominação externa típicos do imperialismo.
No que tange às experiências de integração, desenvolvidas nas primeiras décadas do
século XXI, é possível destacar o caráter anti-imperialista e latino-americanista nos arranjos
protagonizados pela política externa venezuelana. A conjuntura de crise que permeia a região
latino-americana resultou em dificuldades para o aprofundamento do projeto de “integração
bolivariana” que, para além da dependência da renda petroleira, também esteve fortemente
vinculada à conjuntura de ascensão dos líderes de esquerda na América Latina.
Nessa perspectiva, é importante mencionar que após o falecimento de Chávez, o cenário
latino-americano entrou em um processo de restauração das forças conservadoras, que
fragilizou a anterior articulação regional entre chefes de Estado de cunho progressista e,
consequentemente, prejudicou a continuidade da integração bolivariana. Tanto pela morte do
seu principal líder e impulsor, como pela conjuntura política e economicamente adversa à
projetos regionais de cunho alternativo.
A mudança do eixo de política externa de dois dos principais países da América Latina,
Argentina e Brasil, também resulta num forte impacto nesse processo. Após a vitória de Macri,
nas eleições presidenciais da Argentina, visualiza-se um forte retorno da agenda neoliberal e a
retomada das relações mais estreitas com Washington. O mesmo ocorre após o golpe de Estado,
consumado em agosto de 2016 no Brasil. O presidente interino Michel Temer escolheu José
Serra, um dos líderes do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), para Ministro das
Relações Exteriores. Ao assumir a pasta, José Serra afirmou que a diplomacia brasileira não
seria exercida a serviço “das conveniências e preferências ideológicas de um partido político e
de seus aliados no exterior” (BRASIL, 2016, s.p.). Essas mudanças conjugadas ao processo de
polarização política, crise econômica vivenciada no âmbito doméstico pela Venezuela e à
manutenção da queda no preço do petróleo desde 2014 fragilizaram ainda mais o
aprofundamento da integração bolivariana.
Por fim, a história demonstra que o imperialismo possui uma capacidade real de
reestruturar-se perante “contraofensivas”. Apesar disso, o potencial histórico da luta anti-
imperialista é inegável. Trata-se de um conjunto de experiências que se acumulam para o
aprendizado histórico das forças populares e revolucionárias da América Latina, as únicas
capazes de construir uma nova hegemonia na região.
86

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Referências

ALVAREZ, M. (Des)construção da identidade latino-americana: heranças do passado e desafios futuros.


In: Revista Intercâmbio dos Congressos de Humanidades. Brasília, UnB, 2010. Disponível em:
<http://unb.revistaintercambio.net.br/24h/pessoa/temp/anexo/1/231/427.pdf>. Acesso em 20 jul. 2013.

AMARAL, Marisa S. Teorias do imperialismo e da dependência: a atualização necessária ante a


financeirização do capitalismo. 2012. 161f. Tese (Doutorado em Economia) – Faculdade de Economia e
Administração, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.

BARAN, Paul; SWEEZY, Paul. Capitalismo Monopolista: Ensaio sobre a ordem econômica e social
americana. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

BERNAL-MEZA, Raúl. América Latina en mundo: el pensamiento latino-americano y la teoría de las


relaciones internacionales. Buenos Aires: Grupo Editor Latinoamericano, 2005.

BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Discurso do ministro José Serra por ocasião da cerimônia
de transmissão do cargo de ministro de estado das Relações Exteriores, 18 de maio de 2016. Disponível
em: <www.itamaraty.gov.br/pt-BR/discursos-artigos-e-entrevistas-categoria/ministro-das-relacoes-
exteriores-discursos/14038-discurso-do-ministro-jose-serra-por-ocasiao-da-cerimonia-de-transmissao-do-
cargo-de-ministro-de-estado-das-relacoes-exteriores-brasilia-18-de-maio-de-2016>. Acessado em: 20 ago.
2016.

______; MASERA, Gustavo Alberto. El Retorno del Regionalismo. Aspectos políticos y económicos en
los procesos de integración internacional. São Paulo: Cadernos PROLAM, 2008. Disponível em:
<www.usp.br/prolam/downloads/2008_1_7.pdf>. Acesso em 30 jun. 2015.

BOCCA, Pedro P. Livre-comércio dependente, lutas sociais e a formação se um campo antineoliberal na


América Latina. 2013. 118 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Ciências
Sociais, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC – SP), São Paulo, 2013.

BRICEÑO RUIZ, J.; GRACEA, A. M. C.; PUNTIGLIANO, A. R. (Org.). Integración Latinoamericana y


Caribeña. Política y Economia. Madrid: FCE, 2012, p. 27-59.

BRICEÑO RUIZ, José. Los cambios en la política exterior de Venezuela y “el giro hacia el sur” de
Chávez. In: BIZZOZERO, Lincoln; CLEMENTE, Isabel (Org.) La política internacional en un mundo en
mutación. Montevidéu: EBO, 2011. p. 47-75.

CARCANHOLO, Marcelo; SALUDJIAN, Alexis. Integração latino-americana, dependência da China e


subimperialismo brasileiro na América latina. Buenos Aires, 2014. Disponível em: <http://web.isanet.org/
Web/Conferences/FLACSO-ISA%20BuenosAires%202014/Archive/a5eb220d-d8b3-48f1-a256-
5c5c87c3bfa2.pdf>. Acesso em: 20 jan. 2015.

FRANK, Andre Gunder. Acumulação dependente e subdesenvolvimento: repensando a teoria da


dependência. São Paulo: Editora Brasiliense, 1980.

FERNANDES, Florestan. Capitalismo Dependente e Classes Sociais na América Latina. Rio de Janeiro:
Zahar Editora, 1973a.

FURTADO, Celso. Formação Econômica da América Latina. Rio de Janeiro: Lia, Editor S.A., 1969.

IANNI, Octávio. Imperialismo na América Latina. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1974.

KARNAL, Leandro. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto,
2007.
87

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

KATZ, Claudio. El rediseño de América Latina: ALCA, MERCOSUR y ALBA. 1ª ed. Buenos Aires:
Luxemburg, 2006.

LENIN, V. I. Imperialismo, estágio superior do capitalismo. São Paulo: Expressão Popular, 2012.

MARINI, Ruy Mauro. América Latina: dependência e integração. São Paulo: Editora Página Aberta,
1992.

______. Dialética da dependência. In: TRASPADINI, R; STEDILE, J. P. Ruy Mauro Marini: vida e obra.
São Paulo: Expressão Popular, 2005.

______. Subdesenvolvimento e revolução. Florianópolis, Insular, 2013.

MARX, Karl. O Capital. Crítica da Economia Política. Livro I; Vol. II. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2002.

______. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B.
Bauer e Stimer, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845 – 1846). São Paulo: Boitempo,
2007.

MENDONÇA, M. G.; PIRES, M. C. (orgs.) Formação econômica da América Latina. São Paulo: LCTE,
2012.

NOVAIS, Fernando. Estrutura e Dinâmica do Antigo Sistema Colonial. 6ª ed. São Paulo: Brasiliense,
1993.

RAMPINELLI, W. J. Prefácio à 2ª Edição. In: RAMOS, Jorge Abelardo. História da Nação Latino-Ame-
ricana. 2ª ed. Florianópolis: Insular, 2012.

RODRIGUÉZ, Pedro Pablo. Martí e as duas Américas. 1ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2006.

SANTOS, Theotonio dos. Economia mundial, integração regional e desenvolvimento sustentável: as


novas tendências da economia mundial e a integração latino-americana. Petrópolis, RJ: Editora Vozes,
1993.

SOUZA, Nilson Araújo de. América Latina: as ondas de integração. Revista OIKOS, Rio de Janeiro, Vol.
11, nº 1, p. 87-126, 2012. Disponível em:
<http://www.revistaoikos.org/seer/index.php/oikos/article/viewFile/296/168>. Acesso em: 20 jan. 2015.

VENEZUELA. Emancipación de la política exterior de Venezuela. Caracas: Ministerio del Poder Popular
para Relaciones Exteriores, 2012. 175 p.

VENEZUELA. Fundamentos filósoficos de la nueva integración del Sur. Caracas: Edições do Instituto de
Altos Estudos Diplomáticos Pedro Gual, 2007. 101 p.

VENEZUELA. HARNECKER, Marta (Org.). Taller de Alto Nivel "El nuevo mapa estratégico" 12 y 13
de noviembre de 2004: intervenciones del presidente de la república Hugo Chávez Frías. Caracas:
Ministerio de Comunicación e Información, 2005.
88

A inserção Externa da Argentina: uma análise


a partir do comércio intra-industrial com
Brasil, Estados Unidos e China1
Virginia Laura Fernández2
Marcelo Luiz Curado3

Resumo

Este artigo analisa o Índice de Comércio Intra-Industrial (ICII) da Argentina com Brasil, Estados Unidos,
China e o Mundo, de 1992 a 2010. O ICII permite analisar as articulações entre os fluxos de comércio por
grupos de atividade e a tendência desse comércio. Permite também inferir sobre a integração comercial e
produtiva entre países. Os resultados do caso argentino mostram um ICII baixo, de reduzido
aproveitamento das economias de escala e de diferenciação, e de intercâmbio comercial baseado nas
vantagens comparativas de seus recursos naturais. Porém, a despeito do resultado geral negativo, é com o
Brasil que o indicador mostra valores mais elevados (0,382), com tendência crescente nos últimos anos,
em especial nas Manufaturas Não Baseadas em Recursos Naturais, o que expressa tanto a semelhança
relativa das estruturas produtivas de ambos os países, quanto certa homogeneização desde a instauração
do MERCOSUL. Em sentido diametralmente oposto, tanto o ICII com a China é muito baixo (0,097),
sobretudo em Fibras Têxteis, Minerais e Metais, quanto o dos Estados Unidos (0,186), ainda que este
tenha apresentado oscilações durante o período analisado.

Palavras-chave: Inserção Externa; Índice de Comércio Intra-Industrial; Argentina; MERCOSUL.

Abstract
This article analyzes the Intra-Industry Trade Index (ICII) of Argentina with major trading partners of the
analyzed markets: Brazil, United States and China between 1992 and 2010. The ICII allows to investigate
the articulations between the flows of commerce by lines of activity and the tendency of that trade. In
addition, it allows inferences on trade and productive integration between countries. The results show that
Argentina maintains a low ICII in which it exploits economies of scale and differentiation very little and
bases its commercial exchange on the comparative advantages of its natural resources. However, it is with
Brazil that this indicator has the highest values (0.382) and with a growing trend in recent years,
especially in Non-Natural Resource Manufactures, which expresses the relative similarity of the
productive structures of these countries and how they have been homogenized since the establishment of
MERCOSUR. On the other hand, ICII with China, although with a growing trend, is extremely low
(0.097) and especially in Textile, Mineral and Metals Fibers. With the United States, ICII is low (0.186),
and although it had oscillations it remains stable between points.

Keywords: External Insertion; Intra-Industry Trade Index; Argentina; MERCOSUR.

Classificação JEL: F10, F12, F02, C13.

1
Artigo apresentado em 20/06/2018. Aprovado em 29/11/2018.

2
Pós-doutora e Doutora em Desenvolvimento Econômico, Universidade Federal do Paraná (UFPR), Brasil.
Professora Universidad Nacional de Rosario, Argentina, e do Departamento de Economia da UFPR. Email:
virginialaurafernandez@yahoo.com.ar.
3
Doutor em Economia, Universidade Estadual de Campinas, Brasil. Professor da UFPR, Brasil. Email:
mlcurado@gmail.com.
89

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

1. INTRODUÇÃO

O começo do século XXI marca uma mudança de época para a interpretação dos
fenômenos geoeconômicos e seus impactos sobre os fluxos de comércio mundial. As grandes
transformações ocorridas com a entrada da China na OMC em 2001, os efeitos da crise mundial
de 2007/2008 sobre as economias desenvolvidas, a saída da Grã-Bretanha da União Europeia
em 2016 e a saída dos Estados Unidos do Acordo Transpacífico de Cooperação (TTP) no início
de 2017, são expressões dessa mudança. Porém, a nível regional nada é mais relevante que o
novo rumo que parece se desenhar para o Mercosul. Neste sentido, aprofundar o conhecimento
que se tem do comércio internacional argentino, mediante o Índice de Comércio Intra-Industrial
(ICII) é de grande utilidade para orientar as decisões políticas e se definir estratégias comerciais.

O comércio intra-industrial ocorre quando dois parceiros comerciais intercambiam


simultaneamente produtos de uma mesma atividade industrial, elaborados com fatores
semelhantes. Esse tipo de comércio traz benefícios superiores ao comércio inter-industrial
(Cicco et al, 2013). Com efeito, desde meados dos anos 60 a literatura identifica que parte
relevante dos fluxos comerciais são desse tipo. São seminais os trabalhos de Balassa (1966) e de
Grubel (1967), aos quais se seguiram os de Grubel e Lloyd (1975), Krugman (1979, 1980 e
1981) – analisando, em especial, o comércio intra-industrial horizontal - e Falvey (1981) e
Falvey e Kierzkowski (1987) – que enfoca o comércio intra-indutrial vertical (Carmo e
Bittencourt, 2013). Esses estudos põem em cheque a literatura neoclássica sobre o comércio
internacional, baseada no modelo Heckscher-Ohlin-Samuelson (HOS), segundo a qual cada país
se especializa em determinadas atividades produtivas de acordo com suas vantagens
comparativas para alcançar a eficiência alocativa dos recursos produtivos em nível mundial. O
modelo HOS supõe que, para alcançar essa eficiência, existe competição perfeita (sem
distorções nem falhas de mercado), rendimentos decrescentes e produto homogêneo.

O principal argumento teórico que fundamenta o comércio intra-indústria são os


benefícios extras no comércio internacional relacionados às economias de escala e à
diferenciação de produtos. Tais benefícios extras derivam da possibilidade de que o país se
especialize com maior eficiência na produção e exportação de um número menor de bens e, ao
mesmo tempo, que as importações garantam uma maior variedade e qualidade em termos de
bens disponíveis pelos consumidores domésticos (Krugman e Obstfeld, 2001; Martins, 2004).
Contudo, os autores também expressam que este tipo de comércio intra-industrial é mais
frequente entre países que possuem estruturas produtivas semelhantes

Um caso oposto a este tipo de comércio, e aos benefícios extras por eles gerados, é o comércio
inter-indústria. O comércio inter-indústria é o que surge quando os países estabelecem relações
de comercio internacional baseadas nas vantagens comparativas. Neste caso, um dos países
exporta alimentos e os outros bens manufaturados. Quando o que se explora é o comércio inter-
indústria, os países encontram restrições para gerar economias de escala na produção integrada.
A consequência disso é que as estruturas produtivas dos países tendem a se tornar mais
heterogêneas.

Este artigo analisa o Índice de Comércio Intra-Industrial (ICII) da Argentina com Brasil,
Estados Unidos, China e o Mundo, de 1992 a 2010. O ICII permite indagar as articulações entre
os fluxos de comércio por grupos de atividade e a tendência desse comércio. Permite, também,
inferir sobre a integração comercial e produtiva entre países. O artigo se divide em três partes.
Na primeira, faz-se uma brevíssima resenha da literatura sobre o comércio intra-industrial e se
discorre sobre a metodologia para a elaboração do ICII. Na segunda, veem-se os principais
resultados do ICII da Argentina e se complementa e aprofunda a análise sobre a inserção externa
argentina com os resultados obtidos por Fernández e Curado (2016a). Na última, realizam-se as
reflexões finais sobre a utilidade do ICII para definir as estratégias comerciais.
90

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

2. O ÍNDICE DE COMÉRCIO INTRA-INDÚSTRIA


O ICII é um indicador útil para analisar a interação entre os grupos pertencentes aos
mesmos complexos produtivos. Estudar a evolução do índice ao longo do tempo fornece
indícios sobre o grau de articulação comercial entre os grupos industriais dentro das firmas e,
inclusive, intra-produtos. De alguma maneira, este índice permite visualizar se ao longo do
tempo existe algum processo de integração produtiva ou especialização por parte das indústrias
de cada país. Cabe destacar que a evolução deste indicador não expressa a determinação de
causas ou efeitos, apenas assinala algum tipo de tendência na intensidade do fluxo de comércio
de uma economia com seus parceiros comerciais.

A despeito da preocupação crescente pelo tema, sobretudo pela relevância para orientar
a política comercial, são raros os estudos empíricos que analisam o comércio intra-industrial da
Argentina. De fato, os primeiros estudos foram realizados pelo Centro de Estudos da Produção
do Ministério de Economia e Produção da Argentina, em 2004, seguidos em 2007 pelo estudo
de Lucángeli, e em 2010, pelo de Grimbatt. Mais recentemente, Cicco et al (2013) publicaram
dois artigos, um sobre os determinantes nacionais do comércio intra-industrial e outro sobre as
características desse tipo de comércio durante e depois do Plano de Conversibilidade. Por fim,
De Ángelis e Porta (2014) elaboraram um estudo, com desenvolvimento metodológico e
empírico, sobre o comércio intra-indutrial argentino entre 1993 e 2012. O presente trabalho
pretende contribuir com o debate, utilizando uma nova agregação dos dados, conforme se verá,
e contemplando o saldo comercial de cada agregação. Além disso, o trabalho, ao analisar o ICII
entre Argentina e Brasil, também contribui para a discussão sobre a evolução do comércio no
Mercosul.

O ICII pode ser medido em diversos níveis de agregação. Como em todos os casos de
agregações, à medida que tratamos de informações mais detalhadas, com mais dígitos, a análise
torna-se mais exaustiva. No entanto com motivo de fazer uma análise complementária seguir-se
a a agregação utilizada em Fernández e Curado (2016), isto é, conglomerando os grupos de
Recursos Naturais -RN- (Agricultura, Fibras Têxtil Minerais e Metais-FTMM-), Energia e os de
Manufaturas (Manufaturas Baseadas em Recursos Naturais –MBRN- e Manufaturas não
Baseadas em Recursos Naturais -MnoBRN), segundo a classificação de Mandeng de 1993. Por
questões de simplicidade4, selecionou-se um país referencial para exemplificar cada destino. Os
sócios comerciais serão o MUNDO (este representando todos os países), os Estados Unidos
(representando a OCDE), o Brasil (representando o MERCOSUL) e a China (como expressão
da AD). Chamaremos os destinos de sócios comerciais, para expressar o vínculo bilateral.

Comparando-se, portanto, as exportações e importações, pretende-se indagar as


articulações existentes entre os fluxos do comércio por grupos de atividades, mantendo o foco
na tendência do comércio entre sócios ao longo do período analisado. Ou seja, o objetivo é
conhecer como evoluiu a estrutura de exportações da Argentina com cada sócio, paralelamente à
estrutura de importações com esse sócio. Assume-se que quaisquer modificações na estrutura
comparada de exportações e importações refletirão as modificações nos padrões de consumo e
produção do país e de seus sócios. Para realizar esta análise será utilizado o Índice de Comércio
Intra-Indústria (ICII) desenvolvido por Grubel y Lloyd em 1975.

2.1. OS PRINCIPAIS FUNDAMENTOS ECONÔMICOS DO COMÉRCIO INTRA-


INDÚSTRIA
4
No item 2.3. é descrito o trabalho dedicado para obter e processar os dados para cada sócio
comercial.
91

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Na literatura sobre comercio internacional, parte-se da premissa de que o comércio


intra-indústria permite expressar algum tipo de especialização “virtuosa” dentro da economia e,
portanto, se admite que este fluxo de comércio é desejável para cada país (Martins, 2004).

O principal argumento teórico que fundamenta o comércio intra-indústria é baseado na


ideia que este tipo de comércio pode representar benefícios extras, em especial relacionados às
economias de escala e à diferenciação de produtos. Tais benefícios extras derivam da
possibilidade de que o país se especialize com maior eficiência na produção e exportação de um
número menor de bens e, ao mesmo tempo, que as importações garantam uma maior variedade
e qualidade em termos de bens disponíveis pelos consumidores domésticos (Krugman e
Obstfeld, 2001; Martins, 2004). Esta análise está baseada num conjunto de supostos,
especialmente: a) que se considere um mercado de competição monopolista e b) que existam
rendimentos crescentes de escala na mesma indústria. Krugman e Obstfeld (2001: 143) afirmam
que, se presentes essas condições, existirão benefícios extras pela produção integrada entre
países, em que se alcançarão maiores níveis de produção, concentrados em empresas de maior
tamanho, que produzem com menores custos e, portanto, oferecem seus bens a um preço menor
no mercado. O fio condutor deste resultado é a especialização produtiva e exportadora dos
países e a oferta mais diversificada para os mercados de consumo pela via da importação.

Contudo, os autores também expressam que este tipo de comércio intra-industrial é mais
frequente entre países que possuem estruturas produtivas semelhantes. É por esta razão que o
comércio intra-indústria possui um papel relevante no comércio de bens manufaturados entre os
países mais industrializados. Como resultado deste tipo de comércio, existe a tendência a
homogeneizarem-se os níveis de desenvolvimento tecnológico, disponibilidade de capital e
trabalho qualificado. Destarte, Krugman e Obstfeld (2001: 144) afirmam que os países que
mantém um alto comércio intra-industrial manterão relações de capital e trabalho muito
similares em suas estruturas produtivas.

Um caso oposto a este tipo de comércio, e aos benefícios extras por eles gerados, é o
comércio inter-indústria que surge quando os países estabelecem relações de comercio
internacional baseadas nas vantagens comparativas. Neste caso, um dos países exporta
alimentos e os outros bens manufaturados. Quando o que se explora é o comércio inter-
indústria, os países encontram restrições para gerar economias de escala na produção integrada.
A causa e consequência disso, já que é um processo que se retroalimenta, é que as estruturas
produtivas dos países sejam heterogêneas.

A leitura e o processamento dos dados levam à seguinte conclusão: quando as


economias possuem um ICII alto, próximo a um, é porque existe efetivamente comércio intra-
indústria. Por outro lado, um ICII baixo, próximo a zero, reflete uma maior amplitude do
comércio inter-indústria (Krugman e Obstfeld, 2001: 144). Os grupos industriais são também
classificados segundo o ICII. Um índice alto expressa um setor industrial que tende a ser de
bens manufaturados sofisticados, como por exemplo, a indústria química e o setor farmacêutico.
Um índice baixo é característico das indústrias de produtos intensivos em mão de obra, como a
indústria do calçado e de acessórios nos Estados Unidos. Neste último caso, claramente o que
sucede é que os benefícios derivados do comércio entre Estados Unidos e o mundo surgem das
vantagens comparativas. Acerca dos bens com ICII alto, Krugman e Obstfeld sintetizam da
seguinte forma:

Esses bens são exportados principalmente por países avançados e estão


provavelmente sujeitos a importantes economias de escala na produção. No
outro lado da escala, as indústrias com comércio intra-indústria muito
pequeno são normalmente as de produtos intensivos em trabalho, como
calçados e acessórios. Esses são bens que os Estados Unidos importam dos
92

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

países menos desenvolvidos, onde as vantagens comparativas são claras, e


são o determinante principal do comércio dos Estados Unidos com esses
países. (2001: 144, 145)

Importa destacar que frequentemente se confunde um ICII alto com um processo de


transformação conhecido como “maquila”. Isto ocorre quando os países que possuem mão-de-
obra barata importam componentes muito sofisticados de países mais industrializados, realizam
a montagem desses componentes – o que requer o uso intensivo do fator trabalho – e então os
exportam como produtos industriais de alto valor agregado. Os autores citam como “pseudo-
intra-indústria” a relação comercial deste tipo entre México e Estados Unidos, na qual a
primeira importa “chips” para montar computadores e os exporta como “Computadores,
dispositivos e acessórios”, gerando um ICII alto, mas vazio de valor agregado (2001: 144-145).

Além disso, é relevante dizer que o processo virtuoso do padrão de comércio


influenciado pela melhora no ICII é característico nas economias que possuem estruturas
produtivas similares. Não pode-se esperar o mesmo de países que possuem estruturas produtivas
muito heterogêneas – nas quais as economias de escala e a diferenciação de produtos não sejam
relevantes. Nestes casos, os autores consideram haver implicações políticas negativas (2001:
146).

Considerando que a principal restrição ao crescimento econômico, apontada pelos


estruturalistas latino-americanos (em especial Pinto, 1960), é a existência de uma estrutura
produtiva heterogênea, na qual coexistem poucos setores com produtividade alta (vinculados à
exploração das vantagens comparativas naturais) e muitos setores de baixa produtividade
(intensivos em mão-de-obra de baixa qualificação), é possível convergir esse enfoque sobre o
comércio intra-indústria com a literatura estruturalista latino-americana.

De fato, a heterogeneidade da estrutura produtiva dificulta o avanço tecnológico no


interior do quadro produtivo nacional o que, por sua vez, restringe a inserção externa do país,
que se define, então, unicamente pelas vantagens comparativas, e não a partir da diferenciação
de produto ou das economias de escala.

Em outras palavras, é possível esperar que qualquer melhora na estrutura produtiva de


um país – que torne mais homogêneos seus setores produtivos, e a torne mais homogênea com o
resto do mundo – permitiria tanto avançar no comércio intra-indústria, quanto melhorar sua
inserção externa (escapando às vantagens comparativas dos recursos naturais).

2.2. O SIGNIFICADO DO ÍNDICE DE COMERCIO INTRA-INDÚSTRIA E SUA MEDIÇÃO

Uma maneira de avaliar a importância relativa do comércio intra-industrial é através do


Índice de Comércio Intra-Indústria (ICII), no qual o “intra” se refere ao comércio intra-setorial,
intra-firmas, intra-produtos. (Martins, 2004).

O ICII pode apresentar o mesmo valor independentemente de ser positivo ou negativo o


saldo comercial do grupo ou setor de atividades analisado. Assim, por exemplo, se temos um
grupo ou setor de atividades no qual as exportações superam as importações em 100 milhões de
dólares, o indicador vai apresentar o mesmo resultado de um quadro em que as importações
superam as exportações em 100 milhões de dólares. Por isso, é essencial analisar este indicador
em paralelo ao saldo comercial do grupo ou atividade num determinado momento. O ICII
seguindo a formulação de Grubel e Lloy (1975) é definido como:

|X − M j|
ICII j =1−( j )
( X j+ M j )
93

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Onde X j são as exportações de um produto (grupo de atividades) denominado j, e M j


são as importações de um produto (grupo de atividades) denominado j. No numerador se mede o
valor absoluto do saldo comercial e no denominador, o intercâmbio comercial.

O índice relaciona o saldo comercial com o intercâmbio comercial de um produto


(grupo de atividades) e, portanto, mede quanto deste intercâmbio comercial excede ao saldo
comercial, como proporção do próprio intercâmbio comercial (Martins, 2004: 99, 100).

O ICII varia entre 0 e 1. E por sua formulação, à medida que a distância entre o valor
das exportações e importações é maior, o ICII é menor. Um índice alto expressa uma diferença
pequena entre os valores de exportação e importação dos grupos, independentemente destes
grupos serem mais ou menos expressivos dentro da balança comercial. Por este motivo, pode-se
esperar que países que possuam padrões de comércio muito especializados em poucos grupos e/
ou em grupos de baixa articulação com outros grupos da mesma agregação, apresentem um ICII
mais baixo. Quando o ICII = 0 existem somente exportações ou importações. O ICII = 1 indica
que as exportações e importações possuem o mesmo valor.

Martins (2004) afirma que o cálculo do ICII implica que o índice varie inversamente à
magnitude do saldo comercial, mesmo sendo este positivo ou negativo. Por este motivo, propõe
que uma interpretação mais sofisticada da evolução do ICII deva distinguir os produtos que
apresentam queda do índice dos que apresentam alta. Além disso, considera necessário
distinguir a natureza do saldo comercial dos produtos. Por esse motivo neste artigo estudaremos
conjuntamente a evolução do ICII da Argentina com a evolução do saldo comercial.

2.3. A CONSTRUÇÃO DO ÍNDICE DE COMÉRCIO INTRA-INDÚSTRIA PARA A


ARGENTINA

Na construção do ICII da Argentina, serão apresentados os dados sobre o comércio


externo total com cada país (MUNDO, EUA, Brasil e China) em três períodos diferentes (1992-
2000, 2000-2007, 2007-2010), com a finalidade de verificar a existência de algum processo de
integração produtiva ou complementariedade entre os sócios comerciais.

Por questões de organização da informação e para conseguir comparar os resultados


com os da inserção externa argentina de Fernández e Curado (2016a), considerou-se mais
relevante agregar os dados em RN (Agricultura, FTMM), Energia e Manufaturas (MBRN e
MnoBRN). Os dados de intercâmbio comercial argentino entre 1992 e 2010 foram estudados em
paralelo ao saldo comercial, tal como proposto por Martins (2004).

A base de dados utilizada foi a do COMTRADE, das Nações Unidas. Os dados foram
classificados seguindo a CUCI Revisão 3 e obtidos, ano a ano, para cada país. Importa
mencionar que originalmente considerou-se a possibilidade de estudar todos os países dos
mercados OCDE, MERCOSUL e Ásia em Desenvolvimento -AD. No entanto, a forma de
obtenção dos dados, por país, implicaria em processar o comércio de 46 países para cada um
dos anos que compõem nosso período e subperíodos. Num segundo momento, seria necessário
harmonizá-los para cada ano, o que requereria tempo adicional ao disponível para esta pesquisa.

Por sua vez, dado que os três países (Estados Unidos, Brasil e China) encontram-se
entre os quatro principais destinos das exportações argentinas desde 2001, concentrando a terça
parte das mesmas, é possível considerá-los como uma amostra representativa dos mercados da
OCDE, MERCOSUL e AD. Por fim, é importante mencionar que os grupos exportados e
importados entre Argentina e os outros países nem sempre são coincidentes, o que implicou em
tarefa adicional de verificação dos dados por grupo para cada tipo de comércio.
94

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

3. PRINCIPAIS RESULTADOS.

Em termos gerais, podemos dizer que os primeiros resultados da leitura do ICII da


Argentina, mostra que com o MUNDO a participação dos grupos com ICII ≥ 0,5 oscilou, ainda
que o indicador tenha apresentado crescimento entre pontas. Em 1992, Argentina
comercializava 259 grupos, dos quais 65 (25,1%) possuíam um ICII ≥ 0,5; em 2000 eram 256
grupos, dos quais 85 (33,20%) possuíam um ICII ≥ 0,5; em 2007 eram 254, dos quais 80
(31,5%) com ICII ≥ 0,5. Por fim, em 2010, de 257 grupos comercializados, apenas 78 (30,35%)
possuíam um ICIII ≥ 0,5.

Analisando a evolução do “ICII da Argentina entre pontas” (anos 1992 e 2010), e


calculando este como uma média para todos os grupos, pode-se afirmar que houve crescimento
com os sócios Brasil, China e MUNDO (em menor medida). Por sua vez, o índice com os EUA
mostra oscilações, mantendo-se estável entre pontas.

Por sua vez, a média do ICII da Argentina é baixa com a maior parte dos destinos e nos
diferentes períodos, sendo inferior a 0,400. Em 2010, por exemplo, é 0,343 para o destino
MUNDO e 0,382 para o Brasil. Entretanto, a média é baixíssima para os EUA (0,186) e mais
baixa ainda para a China (0,097). Isso revela que a Argentina mantém um vínculo comercial
muito mais inter-indústria com seus sócios, que intra-indústria. (Tabela 1)

É notável que o ICII do destino Brasil seja mais alto (e com tendência crescente) que os
dos destinos EUA e China, o que dá indícios de que as estruturas produtivas argentina e
brasileira são mais semelhantes. Neste sentido, mostra-se viável detectar e fortalecer as
agregações nas quais existem potencialidades de melhorar o comércio intra-indústria, em
especial as de MnoBRN. Outro detalhe: entre 1992 e 2000 a maior média do ICII era com o
MUNDO, seguido pelo Brasil. No entanto desde 2007, os dados de comércio intra-indústria
com Brasil assumem protagonismo. (Anexo 1 Tabelas 2 a 9)

Os resultados nos levam a concluir, contudo, que a Argentina mantém um tipo de


comércio intra-indústria em que explora muito pouco as economias de escala e a diferenciação
de produtos, baseando-se muito mais nas vantagens comparativas de seus recursos naturais. Por
outro lado, é com o Brasil que o indicador apresenta valores mais altos nos últimos anos. De
fato, é com esse país que a Argentina possui mais semelhanças na sua estrutura produtiva e na
relação de utilização de seus fatores produtivos (capital e trabalho), que com os outros sócios
comerciais.

Os indicadores extremamente baixos com EUA e China expressam um tipo de comércio


mais inter-indústria e bem menos intra-indústria. Neste tipo de comércio, um dos países
especializa-se em manufaturados e outro em commodities. No entanto, é importante destacar
que enquanto a Argentina mantém seu ICII estável ao longo do tempo com Estados Unidos,
posicionando-se como exportadora histórica de alimentos e/ou commodities, o ICII da Argentina
com a China, ainda que extremamente baixo, expressa uma tendência crescente.

Analisando qual setor produtivo apresentou melhor desempenho, as MnoBRN revelam-


se à frente, em 2010, em vários destinos: Brasil, MUNDO e Estados Unidos, com indicadores
de 0,483, 0,413 e 0,366 respectivamente. Com a China, o melhor ICII foi em FTMM (0,141).
(Tabela 1)

Por sua vez, os Saldos Comercias (SC) indicam que os sócios com saldo comercial
positivo são MUNDO e China (com exceção do ano de 1992, em que ambos os destinos
demonstraram uma balança comercial deficitária para Argentina). Desta forma, observando o
interior dos agregados, as MnoBRN tiveram em todos os anos analisados saldo comercial
95

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

negativo para o país. O resto dos agregados teve saldo positivo, com exceção de Energia, que
foi deficitária com o MUNDO em 1992, e com a China, em 2000 5.

Em contrapartida, com os EUA e o Brasil o SC é negativo. Os componentes que


acumulam o saldo deficitário com Estados Unidos e o Brasil são, em ordem de importância, as
MnoBRN e as FTMM. Além disso, com o Brasil, a Argentina manteve uma balança comercial
negativa nas MBRN desde 20006.

TABELA 1 - ÍNDICE DE COMÉRCIO INTRA-INDÚSTRIA DE ARGENTINA COM


DIVERSOS DESTINOS ANOS 1992 E 2010
MUNDO
Participação setorial
Saldo Comercial 1992 Saldo Comercial 2010 var SC 10-92 ICII 92 ICII 10 var ICII 10-92
RECURSOS NATURAIS $ 6.429.666.308,00 $ 33.133.830.622,00 415% 0,249 0,224 -10%
Agricultura $ 6.492.174.404,00 $ 32.304.905.509,00 398% 0,305 0,235 -23%
Fibras Têxtil, Minerais e Metais $ -62.508.096,00 $ 828.925.113,00 -1426% 0,194 0,213 10%
ENERGIA $ 657.819.977,00 $ 908.758.033,00 38% 0,355 0,328 -8%
MANUFATURAS $ -9.716.214.928,00 $ -23.481.840.624,00 142% 0,335 0,356 6%
Manufaturas RRNN $ -413.926.503,00 $ 3.230.850.048,00 -881% 0,338 0,299 -12%
Manufaturas Não RRNN $ -9.302.288.425,00 $ -26.712.690.672,00 187% 0,332 0,413 24%
OUTROS $ -220,00 $ 834.120.046,00 -37914557% 0,067 0,241 262%
TOTAL $ -2.628.728.863,00 $ 11.394.868.077,00 -533% 0,314 0,343 9%
ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
Participação setorial
Saldo Comercial 1992 Saldo Comercial 2010 var SC 10-92 ICII 92 ICII 10 var ICII 10-92
RECURSOS NATURAIS $ 354.365.366,00 $ 875.166.099,00 147% 0,128 0,105 -18%
Agricultura $ 369.176.418,00 $ 896.828.651,00 143% 0,193 0,157 -19%
Fibras Têxtil, Minerais e Metais $ -14.811.052,00 $ -21.662.552,00 46% 0,062 0,052 -16%
ENERGIA $ 282.838.853,00 $ 561.251.117,00 98% 0,303 0,086 -72%
MANUFATURAS $ -2.512.281.090,00 $ -3.893.610.604,00 55% 0,193 0,178 -8%
Manufaturas RRNN $ 125.377.395,00 $ 447.600.059,00 257% 0,195 0,133 -32%
Manufaturas Não RRNN $ -2.637.658.485,00 $ -4.341.210.663,00 65% 0,190 0,222 17%
OUTROS $ -1.658.692,00 $ 401.075,00 -124% 0,142 0,366 158%
TOTAL $ -1.876.735.563,00 $ -2.456.792.313,00 31% 0,185 0,186 1%
BRASIL
Participação setorial
Saldo Comercial 1992 Saldo Comercial 2010 var SC 10-92 ICII 92 ICII 10 var ICII 10-92
RECURSOS NATURAIS $ 394.394.027,00 $ 1.478.099.911,00 275% 0,166 0,187 13%
Agricultura $ 544.566.379,00 $ 2.406.253.197,00 342% 0,222 0,243 9%
Fibras Têxtil, Minerais e Metais $ -150.172.352,00 $ -928.153.286,00 518% 0,110 0,131 19%
ENERGIA $ 96.081.185,00 $ 906.148.388,00 843% 0,214 0,119 -44%
MANUFATURAS $ -2.156.644.442,00 $ -5.909.114.845,00 174% 0,223 0,417 87%
Manufaturas RRNN $ 3.335.332,00 $ -124.967.478,00 -3847% 0,156 0,351 125%
Manufaturas Não RRNN $ -2.159.979.774,00 $ -5.784.147.367,00 168% 0,290 0,483 67%
OUTROS $ -1.282.675,00 $ 689.517,00 -154% 0,074 0,208 182%
TOTAL $ -1.667.451.905,00 $ -3.524.177.029,00 111% 0,249 0,382 53%
CHINA
Participação setorial
Saldo Comercial 1992 Saldo Comercial 2010 var SC 10-92 ICII 92 ICII 10 var ICII 10-92
RECURSOS NATURAIS $ 50.666.712,00 $ 4.794.391.518,00 9363% 0,000 0,134 29567%
Agricultura $ 41.045.027,00 $ 4.736.069.204,00 11439% 0,001 0,126 13900%
Fibras Têxtil, Minerais e Metais $ 9.621.685,00 $ 58.322.314,00 506% 0,000 0,141 sd
ENERGIA $ 467.027,00 $ 664.061.163,00 142089% 0,000 0,051 sd
MANUFATURAS $ -93.240.172,00 $ -3.223.978.807,00 3358% 0,037 0,053 45%
Manufaturas RRNN $ 6.279.697,00 $ 53.810.547,00 757% 0,005 0,010 100%
Manufaturas Não RRNN $ -99.519.869,00 $ -3.277.789.354,00 3194% 0,068 0,096 41%
OUTROS $ 629,00 -100% 0,000 sd
TOTAL $ -42.105.804,00 $ 2.234.473.874,00 -5407% 0,050 0,097 93%

FONTE: Elaboração própria com base em COMTRADE 2014. Segundo a CUCI Rev. 3
reagrupada por Mandeng (1993:190)

5
Ver Anexo 1, tabelas 2 a 9 com evolução por subperíodos do ICII e dos Saldos Comerciais da Argentina.

6
O SC do grupo “Outros” é positivo com o MUNDO e com a China, mas negativo com os EUA e o Brasil até 2000.
Desde 2007, porém, é positivo com todos os países. O principal componente de Outros é o grupo 931 “Operações e
mercadorias especiais não classificadas segundo sua natureza”; em 2000, com os EUA, aparece também o grupo 961
“Moedas (exceto de oro)”, com valores muito baixos.
96

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Fazendo uma análise comparativa entre a variação do ICII e do SC, entre 1992 e 2010,
podemos afirmar que com todos os sócios as variações do ICII para as MnoBRN foram
positivas. Ou seja, a Argentina teve um comércio intra-indústria crescente por estes tipos de
produtos industrializados, o que expressa que a diferença entre o valor exportado e o importado
neste agrupamento se reduziu com o tempo. Neste mesmo sentido, a variação do SC foi
crescente, ainda que numa porcentagem não tão expressiva como no resto das agregações. A
particularidade das MnoBRN é que o SC da Argentina com todos os sócios é deficitário.

Detalhando os resultados para cada sócio, vê-se que com o sócio MUNDO, somente as
FTMM e o agregado “Outros” mostraram evolução positiva conjunta – melhora do ICII e SC
positivo. Com o Brasil foram os grupos de Agricultura e “Outros”. Com os EUA, unicamente o
agregado “Outros”. Com a China, a Argentina mostra uma melhora no ICII e no superávit
comercial com os agregados FTMM, Agricultura, Energia e MBRN.

Uma diferença importante entre os resultados de comércio intra-indústria da Argentina


com os EUA e o Brasil é que enquanto com aquele o ICII caiu em todos os agregados
(excluindo as MnoBRN), com este o ICII aumentou entre as extremidades em todos os setores –
com exceção dos grupos de Energia, que concentraram-se no grupo 334 “Óleos de Petróleo e
óleos obtidos de minerais betuminosos (exceto óleos virgens)” a maior parte do comércio
(superavitário para Argentina). Este foi o grupo que mostrou o maior aumento em SC positivo
entre a Argentina e o Brasil para o período.

Por outro lado, a variação dos indicadores da China mostra incrementos positivos de
ICII e de SC positivo em todos os agregados, com exceção de MnoBRN, que apresenta uma
balança comercial deficitária.

Finalmente, com o MUNDO há reduções do ICII na Agricultura, Energia e MBRN, nos


que se evidencia uma variação positiva do SC superavitário. Por sua vez, há um crescimento no
ICII nas FTMM, que tem variação positiva do SC positivo; e em MnoBRN, com SC crescente
negativo.

É importante esclarecer que as variações dos SC foram na maioria dos casos mais
intensas que as variações de ICII. Se aceitamos a ideia de que um ICII mais alto indica mais
semelhanças nas estruturas produtivas dos países, isso poderia significar que as melhoras
obtidas na evolução da balança comercial da Argentina tiveram mais a ver com o
aproveitamento das vantagens comparativas vinculadas principalmente aos RN (FTMM,
Agricultura), à Energia e às MBRN – e menos com as economias de escala e diferenciação de
produto. No entanto, a melhora no indicador de MnoBRN mostra um esforço de mudança
estrutural efetivado na estrutura produtiva nacional, que se expressa mais fortemente com o
Brasil, que quase duplica o ICII passando de 0,290 a 0,483. (Tabela1)

Martins (2004) mostra que, na relação comercial do Brasil entre a década de 80 e 90,
tanto os grupos em que o ICII aumentou quanto os em que diminuiu mostravam um crescimento
maior das importações que das exportações. Em nosso caso, observamos que os grupos cujo
ICII aumenta apresentam ampliações ainda mais significativas de SC positivo e SC negativo (no
caso das MnoBRN, com todos os sócios; e das FTMM e as MBRN, com o Brasil). Por sua vez,
os grupos que tiveram redução de ICII tiveram também elevação maior do SC superavitário.
Além disto, em nenhuma agregação houve redução do ICII e aumento do SC negativo.

Por fim, podemos utilizar os resultados sobre a inserção externa argentina obtidos
originalmente por Fernández e Curado para complementar nossa análise do ICII da Argentina.
97

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

De fato, a pesquisa mostra uma forte influência dos mercados emergentes


(MERCOSUL e Ásia em Desenvolvimento) no padrão comercial da Argentina, a partir de 1990,
em que o MERCOSUL impacta positivamente e a Ásia em Desenvolvimento negativamente.

“...es notable que desde 1990 encontramos cuatro resultados diferentes en la


estructura comercial argentina hacia los destinos analizados: a) se redujo
drásticamente la participación de los productos industrializados con mayor
valor agregado al destino Asia en Desarrollo, b) se mantuvo la participación
de estos productos al destino OCDE, c) se incrementó levemente la
participación al destino Mundo y d) se incrementó en gran medida la
participación al destino MERCOSUR.” (2016a:14)

É nas MnoBRN que a Argentina apresenta seus melhores ICII. Aliás, neste setor o
índice apresenta uma tendência crescente. Isto mostra que o comércio intra-indústria mais
sofisticado apresenta o indicador mais alto. Por isto, poderíamos dizer que, ao longo do período
analisado, houve uma tendência da estrutura produtiva nacional a reduzir suas diferenças com a
estrutura produtiva do mundo. Esta constatação condiz com a melhora do padrão de exportações
da Argentina, em especial, com os destinos MUNDO e Brasil, anunciada em Fernández e
Curado (2016a). De fato, como visto, ocorreu um aumento da participação das MnoBRN nas
exportações da Argentina, tanto para o MUNDO, quanto para o MERCOSUL 7.

Com os sócios Estados Unidos e China, o incremento do ICII para as MnoBRN é tênue,
o que se assemelha aos resultados de Fernández e Curado (2016a), visto que a Argentina
mostrou uma leve melhora das MnoBRN nas exportações à OCDE. Por sua vez, houve redução
da participação desse setor no mercado dos países em desenvolvimento da Ásia.

Por sua vez, vemos que as agregações FTMM, Agricultura, Energia e MBRN alcançam
resultados muito particulares para cada sócio. Para o caso da China, todos estes agregados
mostram um ICII crescente, um SC positivo e uma tendência crescente do SC positivo. Apesar
da Argentina manter com este sócio comercial o ICII mais baixo, os maiores valores se dão nas
FTMM e Agricultura. Isso mostra que com a China, a Argentina mantém principalmente um
vínculo comercial baseado nas vantagens comparativas dos RN. No entanto, o saldo comercial
se mantém positivo e crescente.

Para o caso do Brasil, com exceção de Energia, estes agregados (FTMM, Agricultura e
MBRN) também mostram um ICII crescente, mesmo com um SC negativo e uma tendência
crescente do SC negativo. Para Energia, Argentina mantém um SC positivo e uma queda do
ICII. Com Brasil, a melhor evolução do ICII aconteceu nas manufaturas em geral, tanto nas
MnoBRN como nas MBRN, mesmo com um SC negativo e com tendência positiva da variação
do SC negativo.

Neste ponto é importante destacar que a evolução positiva do ICII para os diferentes
agregados e, em especial, para os manufaturados diz respeito ao processo de homogeneização
das estruturas produtivas de ambos os países, ainda que incipiente. Isso coincide com os
resultados de Fernández e Curado (2016a) sobre as melhoras na estrutura comercial da
Argentina com o MERCOSUL, como resultado dos esforços de criação e fortalecimento do
bloco regional desde a década de 90, na qual o Complexo Automotivo mostra a expansão do
comércio entra países, a despeito de que a Argentina não tenha podido saldar seu déficit
comercial. Poderíamos afirmar, também, que o comércio com Brasil é intra-indústria, já que o
ICII é mais alto e próximo a 0,400 e se especializa nas exportações de Agricultura e Energia,
7
Ver Anexo 2 – Tabelas 10 e 11 com estruturas de mercados (MUNDO, OCDE, MERCOSUL e Ásia em
Desenvolvimento) e estrutura comercial da Argentina para cada mercado.
98

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

enquanto recebe do Brasil manufaturados e FTMM. Por ser comércio intra-indústria é possível
que ambos os países obtenham benefícios extras derivados das economias de escala ou da
diferenciação de produtos para alguns grupos em particular.

Os resultados de Cicco et al. (2013: 32) também expressam que Argentina continua se
relacionando com o mundo aproveitando as vantagens comparativas dos recursos naturais
apesar das mudanças de modelo a partir de 2003. Não obstante, durante os últimos anos existe
uma tendência de melhora do comércio intraindustrial em geral com o mundo e no setor
manufatureiro durante os últimos anos, em especial no comércio com o MERCOSUL. Por sua
vez, Carmo e Bittencourt (2013: 27) ao analisar o ICII do Brasil com Argentina durante o
período 1995-2009, sugerem que a qualidade dos produtos brasileiros e argentinos tornou-se
mais similar ao longo do tempo. O que complementa e reforça a ideia da relevância do comércio
bilateral de qualidade entre Argentina e Brasil e seus impactos sobre a integração produtiva
regional.

Os resultados para com os EUA mostram que não houve grandes variações do ICII.
Podemos dizer que a Argentina mantém um comércio inter-indústria com Estados Unidos, já
que o ICII é baixo e próximo a 0,200. Este comércio se especializa nas exportações de
Agricultura, Energia e MBRN, enquanto recebe dos EUA manufaturados mais sofisticados e
FTMM. As variações positivas do ICII entre 1992 e 2010 se deram com as agregações Outros e
MnoBRN, embora neste último caso o crescimento tenha sido muito menor que o visualizado
com os demais sócios comerciais. De fato, os dados revelam a baixa integração comercial da
Argentina com os Estados Unidos durante as últimas décadas e reforçam a afirmação da tênue
evolução da participação das MnoBRN na estrutura de exportações argentinas com destino
OCDE de Fernández e Curado (2016a).

4. REFLEXÕES FINAIS
O ICII é um indicador útil para analisar a interação entre os grupos pertencentes aos
mesmos complexos produtivos. Estudar a evolução do índice ao longo do tempo nos dá indícios
sobre a existência ou não de uma maior ou menor articulação comercial entre os grupos
industriais dentro das firmas e, inclusive, intra-produtos. O índice permite visualizar se ao longo
do tempo existe algum processo de integração produtiva ou especialização por parte das
indústrias de cada país. Cabe destacar, igualmente, que a evolução deste indicador não expressa
a determinação de causas ou efeitos, apenas assinala algum tipo de tendência na intensidade do
fluxo de comércio de uma economia com seus sócios comerciais.

Entende-se que a análise do ICII não é um fim em si mesmo, mas um instrumento para
verificar a qualidade da relação comercial da Argentina com seus principais parceiros
comerciais: Brasil, China e os Estados Unidos e que adquiri relevância para orientar suas
políticas produtivas e comercias visando alcançar um processo de integração produtiva onde o
comércio exceda o mero intercâmbio de bens e serviços aproveitando as vantagens
comparativas dos recursos naturais.

O pano de fundo da pesquisa é a condição histórica da Argentina de exportadora de


recursos naturais ou manufaturas com baixo valor agregado. De fato, o recente boom das
commodities, em especial a demanda asiática por soja e seus derivados, vem colocando a
política econômica argentina em xeque, trazendo ao centro do debate questões como política
industrial, tipo de câmbio e impostos à exportação. Por outro lado, a crescente interação
produtiva e comercial, entre Brasil e Argentina, do Complexo Automotivo e de Autopeças teve o
condão de dinamizar o parque industrial de ambos os países, trazendo, além de dilemas à
condução da política comercial, uma oportunidade de diversificar e sofisticar a matriz produtiva
argentina. Foi, portanto, tendo em conta esse debate e as questões e dilemas a ele concernentes,
que a atual pesquisa se desenvolveu.
99

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Analisando a evolução do “ICII de Argentina entre pontas” (anos 1992 e 2010) –


calculando este como uma média para todos os grupos – houve crescimento com os sócios
Brasil, China e MUNDO (em menor medida). Por sua vez, o índice com os EUA mostra
oscilações, mantendo-se estável entre pontas.

Por outro lado, a média do ICII da Argentina é baixa com a maior parte dos destinos e
nos diferentes períodos, sendo inferior a 0,400. Isso revela que a Argentina mantém um vínculo
comercial muito mais inter-indústria com seus sócios, que intra-indústria, em que explora muito
pouco as economias de escala e a diferenciação de produtos, baseando-se muito mais nas
vantagens comparativas de seus recursos naturais. Ainda que, é com o Brasil que o indicador
apresenta valores mais altos nos últimos anos. De fato, é com esse país que a Argentina possui
mais semelhanças na sua estrutura produtiva e na relação de utilização de seus fatores
produtivos (capital e trabalho), que com os outros sócios comerciais.

Analisando qual setor produtivo apresentou melhor desempenho, as MnoBRN revelam-


se à frente, em 2010, em vários destinos: Brasil, MUNDO e Estados Unidos, com indicadores
de 0,483, 0,413 e 0,366 respectivamente. Com a China, o melhor ICII foi em FTMM (0,141).

Do ICII das MnoBRN vê-se que com o Brasil o índice é relativamente alto, 0,483.
Aliás, é o mais alto ICII encontrado, que, inclusive, apresenta uma tendência crescente ao longo
da série. Por isto, poderíamos dizer que houve uma tendência da estrutura produtiva argentina a
reduzir suas diferenças com a estrutura produtiva do Brasil. Isso coincide com o exposto em
Fernández e Curado (2016a) sobre as melhoras na estrutura comercial da Argentina com o
MERCOSUL, como resultado dos esforços de criação e fortalecimento do bloco regional desde
a década de 90, na qual o Complexo Automotivo e de Autopeças assume protagonismo na
relação comercial e integração produtiva dos países.

Os resultados de Cicco et al. (2013: 32) também expressam que Argentina continua se
relacionando com o mundo aproveitando as vantagens comparativas dos recursos naturais
apesar das mudanças de modelo a partir de 2003. Não obstante, durante os últimos anos existe
uma tendência de melhora do comércio intra-indústria geral com o mundo e no setor
manufatureiro, em especial com o MERCOSUL. Finalmente, Carmo e Bittencourt (2013: 27) ao
analisar o ICII do Brasil com Argentina durante o período 1995-2009, sugerem que a qualidade
dos produtos brasileiros e argentinos tornou-se mais similar ao longo do tempo. O que
complementa e reforça a ideia da relevância do comércio bilateral de qualidade entre Argentina
e Brasil e seus impactos sobre a integração produtiva regional.

Posto isto, consideramos relevante que as estratégias de inserção externa da


Argentina visem fortalecer ainda mais – e com mais qualidade – as interações e
complementariedades produtivas com o MERCOSUL e, em especial, com o Brasil. Isto
implica pensar em cadeias produtivas completas e integradas por agregados industriais,
que possam ser feitas dentro da região. A integração das cadeias produtivas poderia
levar ao bloco a uma ampliação da escala de produção, do mercado consumidor e a um
favorecimento do avanço tecnológico e incremento da produtividade. Esses elementos
fomentariam, também, que a região fizesse frente à alta competitividade e concorrência
dos países asiáticos, em especial à China.
100

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BALASSA, B. Tariff reductions and trade in manufacturers among the industrial countries. The
American Economic Review, 56(3): 466-473. 1966.

BALASSA, B. Intra-industry specialization: A cross-country analysis. European Economic


Review, 30(1): 27-42. 1986

BEKERMAN, M.; DALMASSO, G. “Políticas productivas y competitividad industrial. El caso


de Argentina y Brasil”. Revista de Economia Política, vol. 34, nro. 1 (134), pp. 158-180,
janeiro-março 2014.

BERRETTONI, D. “América Latina en las exportaciones argentinas: la importancia del


mercado regional en la calidad de la inserción internacional”. Revista Argentina de Economía
Internacional. Nro 2 pp. 17-40. Centro Economía Internacional, Ministerio de Relaciones
Exteriores y Culto de la República Argentina, diciembre 2013.

CARMO, A. e BITTENCOURT, M. “Comércio intraindustrial entre o Brasil e a Argentina:


novas evidências”. Revista de Economia e Administração, v.12, n.1, 7-31 p, jan./mar. 2013.

CENTRO DE ESTUDIOS PARA LA PRODUCCIÓN (CEP). Secretaría de Industria, Comercio


y Desarrollo de la Pequeña y Mediana Empresa (2004a) “Comercio intraindustrial en el
intercambio bilateral Argentina- Brasil en perspectiva”. Síntesis de la Economía Real”, 2da
época (45): 92-106, mayo.

CENTRO DE ESTUDIOS PARA LA PRODUCCIÓN (CEP). Secretaría de Industria, Comercio


y Desarrollo de la Pequeña y Mediana Empresa (2004b). “Comercio intraindustrial en el
intercambio bilateral Argentina-Brasil en perspectiva (Parte II). Síntesis de la Economía Real”,
2da época (46): 75-83, ago.

CICCO, CALA E BERGES. El comercio intraindustrial argentino: evolución y características


en la convertibilidad y la postconvertibilidad. Revista FACES, 2013, Año 19, Número 40-41,
pp. 7-36. Universidad de Mar del Plata, Argentina. 2013

CICCO, CALA E BERGES. Determinantes Nacionales del Comercio Intraindustrial en


Argentina. Revista de Economía y Estadística - Vol. XLIX, N° 2 (2011) - pp. 27-50. Instituto de
Economía y Finanzas - Facultad de Ciencias Económicas, Universidad Nacional de Córdoba –
Argentina. 2013

DE ÁNGELIS J. e PORTA F. “Comercio intraindustrial de Argentina entre 1993 y 2012. Um


análisis metodológico y empírico”. Tesis de Maestría en Relaciones Económicas
Internacionales, Universidad de Buenos Aires, Argentina. 2014

FAJNZYLBER, F. “Competitividad internacional: evolución y lecciones”. Revista de la CEPAL


(36) diciembre 1988: 7-24.

FAJNZYLBER, F. “Inserción internacional e innovación institucional”. Revista de la CEPAL


(44) agosto 1991: 149-178.
101

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

FALVEY, R. E. Commercial policy and intra-industry trade. Journal of international economics,


11(4), 495-511. 1981

FALVEY, R., e KIERZKOWSKI, H. Product Quality, Intra-industry Trade, and Imperfect


Competition. Protection and Competition in In-ternational Trade. Essays in Honor of WM
Corden. Oxford: Basil Blackwell. 1987

FERNÁNDEZ, V. “ A inserção externa da Argentina: um estudo sobre a relevância dos recursos


naturais no padrão de exportações, a competitividade e o comércio intra-industrial, no período
de 1985-2010”. Tese de Doutorado. Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Brasil. 2014.

FERNÁNDEZ, V e CURADO, M. “La inserción externa de argentina: un estudio sobre la


relevancia de los recursos naturales en el patrón de exportaciones entre 1985 y 2007”.
Publicación Fundación Friedrich Ebert Stiftung Argentina, Análisis 8, año 2016a.

FERNÁNDEZ, V e CURADO, M. “O impacto dos mercados emergentes na competitividade


das exportações argentinas e brasileiras”. 44 Encontro Nacional de Economia. ANPEC, Foz de
Iguaçú, 2016b.

FERRER, A. “La Economía Argentina. Las Etapas de du Desarrollo y Problemas Actuales”.


Fondo de Cultura Económica, 1973

GRIMBLATT, G.A. “Comercio Intraindustrial: Teoría, Mediciones e Implicancias de Política


Comercial”. Trabajo presentado en Asociación de Economía para el Desarrollo de la Argentina
(AEDA). 20-21 sep. 2010

GRUBEL, H. G. Intra-industry specialization and the pattern of trade.Canadian Journal of


Economics and Political Science, 374-388. 1967

GRUBEL, H. G. y P. J. LLOY Intra-industry trade: the theory and measurement of international


trade in differentiated products, Macmillan London. 1975

HECKSCHER, E. F. y B. G. OHLIN. Heckscher-Ohlin trade theory, The MIT Press. 1991

Krugman, P. R. Increasing returns, monopolistic competition, and international trade.Journal of


international Economics, 9(4), 469-479. 1979

KRUGMAN, P. Scale economies, product differentiation, and the pattern of trade. The
American Economic Review, 70(5): 950-959. 1980

KRUGMAN, P.R., & OBSTFELD, M. “Economia internacional – teoria e prática”. Makron


Books, São Paulo, 2001.

KRUGMAN, P. Y OBSTFELD, M. Economía Internacional: Teoría y Política. Madrid. Pearson


Education. 2006

LUCÁNGELI, J. “La especialización intraindustrial en el Mercosur”. Serie Macroeconomía del


Desarrollo, Santiago de Chile: CEPAL. 2007
102

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

MANCINI, M. “Tendencias actuales y transformaciones incipientes en China: sus implicancias


para las economías latinoamericanas.” Revista Entrelíneas de la Política Económica, Nº 40- Año
7, Universidad Nacional de La Plata, La Plata, diciembre 2014: 12 -21.

MANDENG, O. J. “Análisis de competitividad: Argentina: estudio de caso basado en el


programa computacional CAN”. Indicadores Econômicos FEE. Análise Conjuntural 21(2)
agosto 1993: 189-203.

MANDENG, O. J. “Competitividad internacional y especialización”. Revista de la CEPAL (45)


diciembre 1991a: 25-42.

MANDENG, O. J. “Metodología para un análisis de la competitividad internacional de los


países”. Industrialización y Desarrollo Tecnológico (10) agosto 1991b: 7-10.

MARTINS, M. A. “O comercio exterior brasileiro nos anos 1980 e 1990: estrutura e evolução
do padrão de especialização”. Tese Doutoramento. Universidade Estadual de Campinas -
Campinas, São Paulo 2004.

NONNENBERG, M. J. B., & MESENTIER, A. “A Criação do Mercosul Contribuiu para


Aumentar a Intensidade Tecnológica das Exportações da Região?” Textos para discussão 1644,
IPEA, 2011.

NONNENBERG, M. J. B. “Exportações e Inovação: uma análise para América Latina e Sul-


Sudeste da Ásia”, Textos para discussão, IPEA, 2011.

PREBISCH, R. “El desarrollo Económico de América Latina y alguno de sus principales


problemas”, Boletín Económico de América Latina, vol. 7, febrero, 1962. 1ra ed., 1949.

XAVIER, C. “Padrões de especialização e competitividade no comércio exterior brasileiro”.


Tese Doutoramento. Universidade Estadual de Campinas - Campinas, São Paulo 2000.
103

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

ANEXO 1– TABELAS COM SALDO COMERCIAL E ÍNDICE DE COMÉRCIO INTRA-


INDÚSTRIA (ICII) DA ARGENTINA, VARIACÃO ICII COM SÓCIOS COMERCIAIS:
MUNDO, ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, BRASIL E CHINA. (COMTRADE 2014)

TABELA 2- ÍNDICE DE COMÉRCIO INTRA-INDÚSTRIA DE ARGENTINA COM


MUNDO
1992-2000
Participação setorial
Saldo Comercial 92 Saldo Comercial 00 var SC 00-92 ICII 92 ICII 00 var ICII 00-92
RECURSOS NATURAIS $ 6.429.666.308,00 $ 10.353.183.390,00 61% 0,249 0,307 23%
Agricultura $ 6.492.174.404,00 $ 10.162.653.345,00 57% 0,305 0,348 14%
Fibras Têxtil, Minerais e Metais $ -62.508.096,00 $ 190.530.045,00 -405% 0,194 0,265 37%
ENERGIA $ 657.819.977,00 $ 3.714.745.396,00 465% 0,355 0,245 -31%
MANUFATURAS $ -9.716.214.928,00 $ -13.192.222.984,00 36% 0,335 0,379 13%
Manufaturas RRNN $ -413.926.503,00 $ 860.765.819,00 -308% 0,338 0,356 5%
Manufaturas Não RRNN $ -9.302.288.425,00 $ -14.052.988.803,00 51% 0,332 0,402 21%
OUTROS $ -220,00 $ 184.859.900,00 -84027327% 0,067 0,527 691%
TOTAL $ -2.628.728.863,00 $ 1.060.565.702,00 -140% 0,314 0,371 18%
2000-2007
Participação setorial
Saldo Comercial 00 Saldo Comercial 07 var SC 07-00 ICII 00 ICII 07 var ICII 07-00
RECURSOS NATURAIS $ 10.353.183.390,00 $ 27.230.765.879,00 163% 0,307 0,224 -27%
Agricultura $ 10.162.653.345,00 $ 26.460.020.012,00 160% 0,348 0,239 -31%
Fibras Têxtil, Minerais e Metais $ 190.530.045,00 $ 770.745.867,00 305% 0,265 0,209 -21%
ENERGIA $ 3.714.745.396,00 $ 3.403.161.990,00 -8% 0,245 0,261 7%
MANUFATURAS $ -13.192.222.984,00 $ -20.215.117.171,00 53% 0,379 0,374 -1%
Manufaturas RRNN $ 860.765.819,00 $ 1.440.531.642,00 67% 0,356 0,305 -14%
Manufaturas Não RRNN $ -14.052.988.803,00 $ -21.655.648.813,00 54% 0,402 0,442 10%
OUTROS $ 184.859.900,00 $ 653.727.330,00 254% 0,527 0,449 -15%
TOTAL $ 1.060.565.702,00 $ 11.072.538.028,00 944% 0,371 0,360 -3%
2007-2010
Participação setorial
Saldo Comercial 07 Saldo Comercial 10 var SC 10-07 ICII 07 ICII 10 var ICII 10-07
RECURSOS NATURAIS $ 27.230.765.879,00 $ 33.133.830.622,00 22% 0,224 0,224 0%
Agricultura $ 26.460.020.012,00 $ 32.304.905.509,00 22% 0,239 0,235 -2%
Fibras Têxtil, Minerais e Metais $ 770.745.867,00 $ 828.925.113,00 8% 0,209 0,213 2%
ENERGIA $ 3.403.161.990,00 $ 908.758.033,00 -73% 0,261 0,328 26%
MANUFATURAS $ -20.215.117.171,00 $ -23.481.840.624,00 16% 0,374 0,356 -5%
Manufaturas RRNN $ 1.440.531.642,00 $ 3.230.850.048,00 124% 0,305 0,299 -2%
Manufaturas Não RRNN $ -21.655.648.813,00 $ -26.712.690.672,00 23% 0,442 0,413 -7%
OUTROS $ 653.727.330,00 $ 834.120.046,00 28% 0,449 0,241 -46%
TOTAL $ 11.072.538.028,00 $ 11.394.868.077,00 3% 0,360 0,343 -5%

FONTE: Elaboração própria com base em COMTRADE 2014. Segundo a CUCI Rev. 3
reagrupada por Mandeng (1993:190)

TABELA 3 -SÍNTESE DESTINO MUNDO (FTMM, Outros: ++)


ICII médio 2010: 0,343 (Maior ICII: MnoBRN)

Agregações Var ICII 92-2010 Var SC 92-2010 SC 92.00.07.10

FTMM + + + (1992-)

Outros + + + (1992-)

MnoBRN + + (-) -

Energia - + +

MBRN - + + (1992-)

Agricultura - + +

FONTE: Elaboração própria com base em COMTRADE 2014. Segundo a CUCI Rev. 3
reagrupada por Mandeng (1993:190)
104

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

TABELA 4- ÍNDICE DE COMÉRCIO INTRA-INDÚSTRIA DE ARGENTINA COM


ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
1992-2000
Participação setorial
Saldo Comercial 92 Saldo Comercial 00 var SC 00-92 ICII 92 ICII 00 var ICII 00-92
RECURSOS NATURAIS $ 354.365.366,00 $ 489.831.100,00 38% 0,128 0,164 29%
Agricultura $ 369.176.418,00 $ 502.889.287,00 36% 0,193 0,200 4%
Fibras Têxtil, Minerais e Metais $ -14.811.052,00 $ -13.058.187,00 -12% 0,062 0,128 106%
ENERGIA $ 282.838.853,00 $ 965.173.429,00 241% 0,303 0,086 -72%
MANUFATURAS $ -2.512.281.090,00 $ -3.091.134.526,00 23% 0,193 0,247 28%
Manufaturas RRNN $ 125.377.395,00 $ 444.934.151,00 255% 0,195 0,235 21%
Manufaturas Não RRNN $ -2.637.658.485,00 $ -3.536.068.677,00 34% 0,190 0,259 36%
OUTROS $ -1.658.692,00 $ -25.092,00 -98% 0,142 0,000 -100%
TOTAL $ -1.876.735.563,00 $ -1.636.155.089,00 -13% 0,185 0,229 24%
2000-2007
Participação setorial
Saldo Comercial 00 Saldo Comercial 07 var SC 07-00 ICII 00 ICII 07 var ICII 07-00
RECURSOS NATURAIS $ 489.831.100,00 $ 861.201.306,00 76% 0,164 0,122 -26%
Agricultura $ 502.889.287,00 $ 879.000.508,00 75% 0,200 0,168 -16%
Fibras Têxtil, Minerais e Metais $ -13.058.187,00 $ -17.799.202,00 36% 0,128 0,075 -41%
ENERGIA $ 965.173.429,00 $ 1.401.855.084,00 45% 0,086 0,105 22%
MANUFATURAS $ -3.091.134.526,00 $ -3.260.952.547,00 5% 0,247 0,175 -29%
Manufaturas RRNN $ 444.934.151,00 $ 422.300.052,00 -5% 0,235 0,088 -63%
Manufaturas Não RRNN $ -3.536.068.677,00 $ -3.683.252.599,00 4% 0,259 0,262 1%
OUTROS $ -25.092,00 $ - -100% 0,000 0%
TOTAL $ -1.636.155.089,00 $ -997.896.157,00 -39% 0,228 0,210 -8%
2007-2010
Participação setorial
Saldo Comercial 07 Saldo Comercial 10 var SC 10-07 ICII 07 ICII 10 var ICII 10-07
RECURSOS NATURAIS $ 861.201.306,00 $ 875.166.099,00 2% 0,122 0,105 -14%
Agricultura $ 879.000.508,00 $ 896.828.651,00 2% 0,168 0,157 -7%
Fibras Têxtil, Minerais e Metais $ -17.799.202,00 $ -21.662.552,00 22% 0,075 0,052 -31%
ENERGIA $ 1.401.855.084,00 $ 561.251.117,00 -60% 0,105 0,086 -18%
MANUFATURAS $ -3.260.952.547,00 $ -3.893.610.604,00 19% 0,175 0,178 1%
Manufaturas RRNN $ 422.300.052,00 $ 447.600.059,00 6% 0,088 0,133 51%
Manufaturas Não RRNN $ -3.683.252.599,00 $ -4.341.210.663,00 18% 0,262 0,222 -15%
OUTROS $ - $ 401.075,00 0,366
TOTAL $ -997.896.157,00 $ -2.456.792.313,00 146% 0,210 0,186 -11%

FONTE: Elaboração própria com base em COMTRADE 2014. Segundo a CUCI Rev. 3
reagrupada por Mandeng (1993:190)

TABELA 5 -SÍNTESE DESTINO ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA (Outros: ++)


4º DESTINO DE ARGENTINA.
ICII médio 2010: 0,186 (Maior ICII: MnoBRN)

Agregações Var ICII 92-2010 Var SC 92-2010 SC 92.00.07.10

Outros + + + (1992-)

MnoBRN + + (-) -

Agricultura - + +

MBRN - + +

Energia - + +

FTMM - + (-) -

FONTE: Elaboração própria com base em COMTRADE 2014. Segundo a CUCI Rev. 3
reagrupada por Mandeng (1993:190)
105

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

TABELA 6 - ÍNDICE DE COMÉRCIO INTRA-INDÚSTRIA DE ARGENTINA COM


BRASIL
1992-2000
Participação setorial
Saldo Comercial 92 Saldo Comercial 00 var SC 00-92 ICII 92 ICII 00 var ICII 00-92
RECURSOS NATURAIS $ 394.394.027,00 $ 1.385.776.805,00 251% 0,166 0,187 12%
Agricultura $ 544.566.379,00 $ 1.559.786.523,00 186% 0,222 0,216 -3%
Fibras Têxtil, Minerais e Metais $ -150.172.352,00 $ -174.009.718,00 16% 0,110 0,157 43%
ENERGIA $ 96.081.185,00 $ 1.227.233.709,00 1177% 0,214 0,153 -28%
MANUFATURAS $ -2.156.644.442,00 $ -2.073.655.247,00 -4% 0,223 0,459 106%
Manufaturas RRNN $ 3.335.332,00 $ -158.211.971,00 -4844% 0,156 0,477 206%
Manufaturas Não RRNN $ -2.159.979.774,00 $ -1.915.443.276,00 -11% 0,290 0,440 52%
OUTROS $ -1.282.675,00 $ -4.897.174,00 282% 0,074 0,106 44%
TOTAL $ -1.667.451.905,00 $ 534.458.093,00 -132% 0,249 0,364 46%
2000-2007
Participação setorial
Saldo Comercial 00 Saldo Comercial 07 var SC 07-00 ICII 00 ICII 07 var ICII 07-00
RECURSOS NATURAIS $ 1.385.776.805,00 $ 1.481.278.401,00 7% 0,187 0,179 -4%
Agricultura $ 1.559.786.523,00 $ 2.110.117.411,00 35% 0,216 0,292 35%
Fibras Têxtil, Minerais e Metais $ -174.009.718,00 $ -628.839.010,00 261% 0,157 0,066 -58%
ENERGIA $ 1.227.233.709,00 $ 1.284.469.045,00 5% 0,153 0,179 17%
MANUFATURAS $ -2.073.655.247,00 $ -6.939.957.039,00 235% 0,459 0,376 -18%
Manufaturas RRNN $ -158.211.971,00 $ -201.199.600,00 27% 0,477 0,309 -35%
Manufaturas Não RRNN $ -1.915.443.276,00 $ -6.738.757.439,00 252% 0,440 0,443 1%
OUTROS $ -4.897.174,00 -100% 0,106 0,000 -100%
TOTAL $ 534.458.093,00 $ -4.174.209.593,00 -881% 0,364 0,361 -1%
2007-2010
Participação setorial
Saldo Comercial 07 Saldo Comercial 10 var SC 10-07 ICII 07 ICII 10 var ICII 10-07
RECURSOS NATURAIS $ 1.481.278.401,00 $ 1.478.099.911,00 0% 0,179 0,187 5%
Agricultura $ 2.110.117.411,00
$ 2.406.253.197,00 14% 0,292 0,243 -17%
Fibras Têxtil, Minerais e Metais $ -628.839.010,00
$ -928.153.286,00 48% 0,066 0,131 99%
ENERGIA $ 1.284.469.045,00 $ 906.148.388,00 -29% 0,179 0,119 -34%
MANUFATURAS $ -6.939.957.039,00 $ -5.909.114.845,00 -15% 0,376 0,417 11%
Manufaturas RRNN $ -201.199.600,00
$ -124.967.478,00 -38% 0,309 0,351 14%
Manufaturas Não RRNN $ -6.738.757.439,00
$ -5.784.147.367,00 -14% 0,443 0,483 9%
OUTROS $ 689.517,00 sd 0,208
TOTAL $ -4.174.209.593,00 $ -3.524.177.029,00 -16% 0,361 0,382 6%

FONTE: Elaboração própria com base em COMTRADE 2014. Segundo a CUCI Rev. 3
reagrupada por Mandeng (1993:190)

TABELA 7 -SÍNTESE DESTINO BRASIL (Agricultura e Outros: ++)


1º DESTINO DE ARGENTINA
ICII médio 2010: 0,382 (Maior ICII: MnoBRN)

Agregações Var ICII 92-2010 Var SC 92-2010 SC 92.00.07.10

Agricultura + + +

Outros + + + (1992-)

MnoBRN + + (-) -

MBRN + + (-) - (1992+)

FTMM + + (-) -

Energia - + +

FONTE: Elaboração própria com base em COMTRADE 2014. Segundo a CUCI Rev. 3
reagrupada por Mandeng (1993:190)
106

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

TABELA 8 - ÍNDICE DE COMÉRCIO INTRA-INDÚSTRIA DE ARGENTINA COM CHINA


1992-2000
Participação setorial
Saldo Comercial 92 Saldo Comercial 00 var SC 00-92 ICII 92 ICII 00 var ICII 00-92
RECURSOS NATURAIS $ 50.666.712,00 $ 653.561.282,00 1190% 0,000 0,064 14122%
Agricultura $ 41.045.027,00 $ 625.041.420,00 1423% 0,001 0,072 7900%
Fibras Têxtil, Minerais e Metais $ 9.621.685,00 $ 28.519.862,00 196% 0,000 0,056
ENERGIA $ 467.027,00 $ -5.368.079,00 -1249% 0,000 0,000
MANUFATURAS $ -93.240.172,00 $ -337.821.493,00 262% 0,037 0,097 166%
Manufaturas RRNN $ 6.279.697,00 $ 62.965.929,00 903% 0,005 0,089 1680%
Manufaturas Não RRNN $ -99.519.869,00 $ -400.787.422,00 303% 0,068 0,105 54%
OUTROS $ 629,00 $ - -100% 0,000
TOTAL $ -42.105.804,00 $ 310.371.710,00 -837% 0,050 0,093 86%
2000-2007
Participação setorial
Saldo Comercial 00 Saldo Comercial 07 var SC 07-00 ICII 00 ICII 07 var ICII 07-00
RECURSOS NATURAIS $ 653.561.282,00 $ 4.430.111.506,00 578% 0,064 0,093 45%
Agricultura $ 625.041.420,00 $ 4.347.141.946,00 595% 0,072 0,153 113%
Fibras Têxtil, Minerais e Metais $ 28.519.862,00 $ 82.969.560,00 191% 0,056 0,032 -43%
ENERGIA $ -5.368.079,00 $ 409.789.532,00 -7734% 0,000 0,015
MANUFATURAS $ -337.821.493,00 $ -2.231.979.088,00 561% 0,097 0,064 -35%
Manufaturas RRNN $ 62.965.929,00 $ 88.314.149,00 40% 0,089 0,021 -76%
Manufaturas Não RRNN $ -400.787.422,00 $ -2.320.293.237,00 479% 0,105 0,106 1%
OUTROS $ - $ -
TOTAL $ 310.371.710,00 $ 2.607.921.950,00 740% 0,093 0,103 11%
2007-2010
Participação setorial
Saldo Comercial 07 Saldo Comercial 10 var SC 10-07 ICII 07 ICII 10 var ICII 10-07
RECURSOS NATURAIS $ 4.430.111.506,00 $ 4.794.391.518,00 8% 0,093 0,134 44%
Agricultura $ 4.347.141.946,00 $ 4.736.069.204,00 9% 0,153 0,126 -18%
Fibras Têxtil, Minerais e Metais $ 82.969.560,00 $ 58.322.314,00 -30% 0,032 0,141 341%
ENERGIA $ 409.789.532,00 $ 664.061.163,00 62% 0,015 0,051 240%
MANUFATURAS $ -2.231.979.088,00 $ -3.223.978.807,00 44% 0,064 0,053 -17%
Manufaturas RRNN $ 88.314.149,00 $ 53.810.547,00 -39% 0,021 0,010 -52%
Manufaturas Não RRNN $ -2.320.293.237,00 $ -3.277.789.354,00 41% 0,106 0,096 -9%
OUTROS $ -
TOTAL $ 2.607.921.950,00 $ 2.234.473.874,00 -14% 0,103 0,097 -6%

FONTE: Elaboração própria com base em COMTRADE 2014. Segundo a CUCI Rev. 3
reagrupada por Mandeng (1993:190)

TABELA 9 -SÍNTESE DESTINO CHINA (FTMM, Agricultura, Energia, MBRN: ++)


2º DESTINO DE ARGENTINA
ICII médio 2010: 0,097 (Maior ICII: FTMM)

Agregações Var ICII 92-2010 Var SC 92-2010 SC 92.00.07.10

FTMM + + +

Agricultura + + +

MnoBRN + + (-) -

Energia + + + (2000-)

MBRN + + +

Outros 0 - + em 1992

FONTE: Elaboração própria com base em COMTRADE 2014. Segundo a CUCI Rev. 3
reagrupada por Mandeng (1993:190)
107

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

ANEXO 2– TABELAS COM ESTRUTURAS DE MERCADOS. MUNDO, OCDE,


MERCOSUL E ÁSIA EM DESENVOLVIMENTO E ESTRUTURA COMERCIAL DA
ARGENTINA PARA CADA MERCADO (TRADECAN 2012)

TABELA 10- ESTRUTURA DE MERCADO (importações por destinos)

MUNDO OCDE
Participação setorial em %
1985 1990 2000 2007 2010 1985 1990 2000 2007 2010

RECURSOS NATURAIS 16,33 14,54 10,31 10,43 11,34 16,11 14,56 10,48 10,18 10,98

Agricultura 13,40 11,96 8,81 7,91 8,71 13,27 12,17 9,15 8,42 9,39

Fibras Têxtil, Minerais e Metais 2,93 2,58 1,51 2,52 2,63 2,84 2,39 1,32 1,75 1,59

ENERGIA 17,35 9,71 9,31 10,21 9,93 17,82 9,78 8,94 10,57 10,35

MANUFATURAS 64,86 73,98 77,85 71,77 70,05 64,54 73,82 77,48 71,47 69,51

Manufaturas RRNN 5,67 5,79 4,78 5,02 4,78 5,89 5,85 4,75 4,81 4,16

Manufaturas Não RRNN 59,19 68,20 73,07 66,74 65,28 58,66 67,97 72,72 66,66 65,35

OUTROS 1,47 1,78 2,53 7,60 8,68 1,54 1,84 3,10 7,78 9,16

MERCOSUL Ásia em Desenvolvimento


Participação setorial em %
1985 1990 2000 2007 2010 1985 1990 2000 2007 2010

RECURSOS NATURAIS 16,97 15,41 9,52 7,74 7,16 16,01 13,10 9,37 10,50 12,00

Agricultura 13,58 11,11 7,88 5,56 5,73 12,53 9,61 7,07 5,87 6,73

Fibras Têxtil, Minerais e Metais 3,40 4,29 1,64 2,18 1,43 3,49 3,49 2,31 4,63 5,27

ENERGIA 34,12 23,18 11,54 9,92 7,91 14,81 8,82 11,50 10,36 10,26

MANUFATURAS 48,83 61,33 78,80 73,50 77,60 67,75 76,80 78,30 72,41 70,18

Manufaturas RRNN 2,90 3,31 2,71 3,05 2,56 4,89 6,26 5,61 5,84 6,53

Manufaturas Não RRNN 45,93 58,02 76,09 70,46 75,04 62,86 70,54 72,69 66,57 63,65

OUTROS 0,08 0,09 0,15 8,84 7,33 1,43 1,27 0,82 6,74 7,57

FONTE: Fernández e Curado (2016a)


108

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

TABELA 14 - ESTRUTURA COMERCIAL DA ARGENTINA (exportações por destino)

MUNDO OCDE
Participação setorial em %
1985 1990 2000 2007 2010 1985 1990 2000 2007 2010

RECURSOS NATURAIS 68,83 59,41 49,10 59,49 55,94 71,64 67,41 60,76 69,55 65,52

Agricultura 65,77 55,81 46,57 56,39 53,06 68,24 63,66 57,13 64,41 60,82

Fibras Têxtil, Minerais e Metais 3,06 3,60 2,52 3,11 2,88 3,40 3,74 3,63 5,14 4,71

ENERGIA 6,38 6,49 17,86 7,50 7,53 6,32 5,10 12,44 5,79 5,85

MANUFATURAS 24,13 33,64 32,41 32,55 36,09 21,09 26,81 25,35 23,99 27,64

Manufaturas RRNN 6,99 7,25 5,01 3,79 5,07 7,72 9,12 7,90 5,54 9,78

Manufaturas Não RRNN 17,15 26,38 27,40 28,77 31,01 13,37 17,69 17,45 18,45 17,86

OUTROS 0,50 0,47 0,63 0,45 0,44 0,51 0,56 1,45 0,66 0,99

MERCOSUL Ásia em Desenvolvimento


Participação setorial em %
1985 1990 2000 2007 2010 1985 1990 2000 2007 2010

RECURSOS NATURAIS 54,40 49,80 31,53 28,82 25,34 74,20 49,10 79,79 85,04 85,94

Agricultura 52,37 48,03 30,01 27,37 24,55 70,68 40,94 75,39 80,73 81,19

Fibras Têxtil, Minerais e Metais 2,03 1,77 1,52 1,46 0,79 3,52 8,17 4,39 4,31 4,75

ENERGIA 13,68 7,50 19,03 5,03 4,35 0,00 3,19 4,91 6,20 4,54

MANUFATURAS 31,88 42,44 49,44 66,14 70,30 23,87 46,56 15,18 8,74 9,36

Manufaturas RRNN 9,68 4,58 2,47 2,29 1,76 6,08 6,83 6,82 3,68 4,27

Manufaturas Não RRNN 22,20 37,86 46,98 63,86 68,55 17,79 39,74 8,36 5,06 5,09

OUTROS 0,04 0,01 0,00 0,01 0,01 1,79 0,26 0,08 0,02 0,03

FONTE: Fernández e Curado (2016a)


109

Bases Históricas do Desenvolvimento


Mexicano (1876 - 1940)1
Eduardo Gonzales Silva2
Ivan Colangelo Salomão3

Resumo

País de histórica tradição mineradora, o México estabeleceu um dos maiores parques industriais da
América Latina a partir do início do século XX. As bases do desenvolvimento econômico-industrial
mexicano remontam, porém, à política de intervenção adotada durante a ditadura de Porfírio Díaz. A
Revolução Mexicana também desempenhou um papel político relevante para a configuração do
desenvolvimento econômico do país. Já nos anos 1930, o governo Lázaro Cárdenas encetou um novo
modelo de desenvolvimento baseado na nacionalização da estrutura produtiva e na inclusão de atores
sociais historicamente alijados. Nesse sentido, este artigo tem por objetivo resgatar tais bases históricas
do desenvolvimento econômico mexicano entre 1876 e 1840.

Palavras-chave: México; Industrialização; Desenvolvimento econômico.

Abstract
Mexico, a country with a historical mining tradition, established one of the largest industrial parks in
Latin America since the beginning of the 20th century. The bases of Mexican development reassemble to
the interventionist policy adopted during the Porfirio Diaz’s dictatorship. The Mexican Revolution also
played a relevant political role in shaping the Mexican economic development. Lázaro Cárdenas’s
administration adopted a new development model based on the nationalization of the productive structure
and the inclusion of historically excluded social actors. This paper analyzes the historical bases of the
Mexican economic development from 1876 to 1840.

Keywords: Mexico; Industrialization; Economic development.

Classificação JEL: O25, O38.

1
Artigo apresentado em 07/03/2018. Aprovado em 24/06/2018.

2
Bacharel em Economia (UFRGS).
3
Professor da Faculdade de Ciências Econômicas e do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (PPGE/UFRGS).
110

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

1. Introdução
A partir do final do século XIX, a economia mexicana passou por transformações
que viriam a desembocar em um processo de industrialização acelerado a partir da década
de 1930. País de histórica tradição mineradora, o México logrou estabelecer um dos
maiores parques industriais da América Latina, ao mesmo tempo em que incitou o
encaminhamento para a resolução, ainda que não definitiva, dos problemas fundiários do
país.
Foi no período em que o ditador Porfírio Díaz (1876-1911) comandou o país que
se lançaram as bases do novo modelo de desenvolvimento mexicano. Agraciado com um
significativo fluxo de capitais estrangeiros, os quais encontravam em determinadas
economias latino-americanas novas possibilidades de investimentos, o porfiriato logrou
estabelecer uma rede de infra-estrutura a qual sustentou o desenvolvimento dos setores
minerador, agrário e industrial por que passaria o país a partir de meados do século XX.
Se a atividade econômica como um todo se viu prejudicada a partir da eclosão do
movimento revolucionário de 1910, pesquisas recentes vêm demonstrando que o setor
industrial não foi direta e negativamente afetado pelos conflitos que se alastraram pelo
país. Do ponto de vista político-social, a Revolução Mexicana ainda contribuiu para a
ascensão de um novo ator social alijado do tabuleiro político até então: os camponeses de
origem indígena.
No que concerne à estrutura econômica do país, lançavam-se as bases para que se
viabilizasse o processo de industrialização por substituição de importações. No típico
movimento de economias que passaram a crescer hacia adentro, o setor industrial
mexicano encontrou no mercado interno o motor de seu desenvolvimento. Nesse sentido,
o governo de Lazaro Cárdenas (1934-1940) representou um marco relevante da história
do país ao harmonizar as condições necessárias para a formação de capital ao mesmo
tempo em que promovia a inclusão social de setores historicamente marginalizados.
Do ponto de vista teórico, tratou-se de um típico caso de industrialização
retardatária de uma economia periférica. Amparando-se em epistemologia dialética,
argumenta-se que a relação entre o setor primário-exportador e a indústria era, ao mesmo
tempo, de unidade e contradição. Unidade, pois ambos faziam parte de um mesmo
processo de desenvolvimento capitalista, que remonta ao período pré-independência,
quando o efeito transbordamento do setor minerador impulsionou outros setores
econômicos, como comércio, bancos, setor público, ferrovias, eletrificação, entre outros.
Já a contradição respondia pelos limites impostos ao desenvolvimento industrial devido à
posição dominante da economia mineradora na acumulação de capital (Silva, 1976).
Diante do exposto, este artigo tem por objetivo resgatar e apresentar as bases
históricas do desenvolvimento econômico mexicano do final do século XIX ao início do
processo de industrialização acelerada do cardenismo. Para tanto, dividiu-se o trabalho
em três partes, além desta breve introdução. A seguir, apresentam-se aspectos gerais da
economia, da sociedade e da política mexicanas no decorrer do período supradelimitado.
Na seção três, discorre-se acerca da política econômica adotada por Cárdenas del Río.
Por fim, tecem-se as considerações finais.
111

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

2. A economia política da industrialização mexicana


O processo de industrialização mexicano estabeleceu-se a partir da Grande
Depressão. Suas origens remetem, no entanto, ao final do século XIX graças à
participação estatal naquele que ficaria posteriormente conhecido como Processo de
Substituição de Importações (PSI). Haber (1993) afirma que tal processo teve início no
governo do ditador Porfirio Díaz (1876-1911) e se intensificou, sobretudo, durante a
Segunda Guerra Mundial devido à impossibilidade de importação de bens
industrializados provenientes das nações em conflito.
À estabilidade política do Porfiriato deveu-se um período de crescimento
econômico proveniente, em grande parte, do desenvolvimento de ferrovias e dos setores
mineiro e têxtil. As disputas internas violentas que acompanharam o país desde a
independência (anos 1820) foram atenuadas durante o longo período de governo Díaz.
No entanto, isso não foi o suficiente para impedir que as contradições políticas e sociais
voltassem a tomar força, tornando impossível a continuidade do regime autoritário,
quando o ditador foi então deposto no início da Revolução Mexicana (1911).
A Revolução Mexicana envolveu diversos setores da sociedade que não se faziam
politicamente representados. Camponeses, trabalhadores urbanos e setores da burguesia
lutaram contra o poder oligárquico de que se locupletavam grandes latifundiários que
comandavam o país havia muito tempo. Ainda assim, a Revolução Mexicana foi, acima
de tudo, uma revolução burguesa que permitiu a chegada ao poder de uma parcela da
sociedade que tinha interesses no desenvolvimento de um projeto industrial.
O governo pós-revolucionário do presidente Lázaro Cárdenas (1934-1940)
contribuiu com as bases legais, institucionais e políticas que serviriam de sustentação ao
processo de substituição de importações. Rivera (2012) afirma que a implantação de
reforma agrária, reconhecimento de entidades representativas de operários, reformas na
legislação trabalhista e a nacionalização de grandes empresas, especialmente dos setores
petrolífero e ferroviário, serviram essencialmente ao desenvolvimento do capitalismo no
México.
Nesse sentido, o início do processo industrial ocorrido no século XIX é a base
para entender as transformações ocorridas nas décadas seguintes. Pode-se afirmar, pois,
que o Pofiriato marcou esta mudança de pensamento em direção a um zeitgeist que
delegava à industrialização a tarefa precípua do desenvolvimento dinamicamente
sustentável.

2.1 O Porfiriato (1876-1911)


Haber (1993) afirma que, até os anos 1980, historiadores e economistas que se
debruçavam sobre a industrialização mexicana sugeriam que se tratava de um fenômeno
relativamente recente. Até essa época acreditavam que industrialização do país havia
iniciado durante a Segunda Guerra devido à incapacidade de importação de produtos das
nações beligerantes, corroborando a clássica teoria cepalina dos “choques adversos”. As
pesquisas corroboravam o discurso oficial de que a industrialização havia se iniciado a
partir de 1940 e de maneira quase repentina, uma vez que toda a infraestrutura anterior
teria sido destruída durante a Revolução Mexicana.
112

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Investigações mais recentes, contudo, demonstram que foi durante o Porfiriato


que se instalou grande parte da capacidade industrial do México. Naquela época, e não
nos anos 1940, o governo mexicano começou a seguir uma política de substituição de
importações, oferecendo a quase todas as indústrias importantes do país algum tipo de
proteção de tarifas ou subsídio. O que se resulta significativo é que durante o governo
Díaz houve uma mudança na estrutura produtiva: o que antes se resumiam a pequenas
fábricas artesanais, tornaram-se, depois, grandes plantas industriais que utilizavam
métodos avançados de produção importados da Europa e dos Estados Unidos.
A trajetória de Porfírio Díaz até a Presidência da República foi marcada por
confrontos militares e disputas políticas. Nascido em Oaxaca, Díaz viu-se órfão de pai
aos três anos; aos treze, ingressou em um seminário para tornar-se padre conforme o
desejo da mãe. Desistiu da carreira eclesiástica para logo iniciar os estudos jurídicos no
Instituto de Ciencias y Artes, de Oaxaca, onde se tornou discípulo do futuro presidente
liberal Benito Juárez. Em seguida, alistou-se no exército, onde obteve rápida ascensão.
Engajou-se em guerras e revoltas a favor da causa liberal. Na Guerra da Reforma (1858-
1861), confronto entre liberais e conservadores, contribui para a vitória dos primeiros,
momento em que Benito Juárez assumiu a presidência e, Díaz, o comando das forças
armadas.
Porfírio voltou a pegar em armas para lutar contra a invasão francesa (1862-1863)
ordenada por Napoleão III como forma de exigir o pagamento da dívida externa
mexicana, e, principalmente, viabilizar a coroação do rei Maximiliano I (1864-1867)4. A
boa campanha militar de Díaz o deixou em condições de disputar presidência em 1867,
mas o Congresso optou pela reeleição de Juárez, em 1871. Após a morte do presidente,
no ano subsequente, Porfírio se rebelou contra o vice e, após longa campanha de
desestabilização, assumiu o governo, como presidente constitucional, em 5 de maio de
18775.
Segundo Coatsworth (1989), ao iniciar o período do Porfiriato, as atividades
agrícolas eram responsáveis por 42% do PIB mexicano, e as manufatureiras, por 16%.
Díaz pensava um governo que combinasse garantias políticas – introduzidas no México
com as reformas bourbônicas ao final do século XVIII – com metas econômicas
conservadoras sob o lema positivista de “Ordem e Progresso”. A “ordem”, essencial para
o crescimento econômico, buscava colocar fim às disputas políticas e militares de mais de
50 anos. Era necessário estabelecer confiança para o retorno dos investimentos privados
no país. Nesse sentido, o uso da força e a aliança com grupos importantes permitiram a
Díaz retomar o controle político do país.
Já o “progresso” significava transformar o México em uma nação industrializada.
Era necessário eliminar barreiras que impediam o crescimento econômico, como a falta
de infraestrutura e transporte e de capital financeiro. De acordo com Moreno-Brid e Ros
4
O México foi oferecido a Maximiliano I pelo ditador francês como forma de compensação à tomada do território de
Piemonte na Itália durante a guerra de unificação italiana. Aproveitando-se da debilidade dos Estados Unidos devido
a Guerra de Secessão (1861-1865), Napoleão III vislumbrou a possibilidade de aumentar sua influência na América
Latina. Foi nesse contexto que Díaz teve um bom desempenho militar durante os conflitos, garantindo a derrota de
Maximiliano e o triunfo de Juárez.

5
O governo de Díaz interrompeu o período de 55 anos marcados por alta instabilidade política desde a
independência, período em que a presidência trocou de mãos 75 vezes.
113

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

(2004, p. 41), o principal homem do governo Díaz, Matias Romero, já alertava para a
necessidade de reformas que viabilizassem o desenvolvimento industrial: “esta nación
posee en su suelo enormes tesoros de riqueza agrícola y minera que no pueden
explotarse por falta de capital y de comunicaciones”.
O Estado passou a outorgar concessões e incentivos financeiros para a construção
de linhas ferroviárias, as quais eram subsidiadas em até 50% do custo total. A ampliação
do sistema ferroviário aumentou o mercado, derrubou barreiras locais e regionais ao
comércio e aumentou a concorrência. Segundo Coatsworth (1978), o sistema ferroviário
aumentou de 900 a 19.000 km na década de 1880, reduzindo em 80% o custo do frete.
Os capitais externos tiveram papel-chave na política econômica do Porfiriato.
Coatsworth (1989) afirma que a partir da década de 1880 entraram no país capitais
externos americanos e europeus, na forma de empréstimos e investimentos. Novos
códigos de comércio e mineração foram promulgados a partir de 1893 com intuito de
melhorar as condições de investimento privado. Moreno-Brid e Ros (2004) argumentam
que a política industrial foi instrumentalizada pela união de proteção tarifária a produtos
específicos e diminuição de tarifas médias, o que melhorava o acesso dos fabricantes a
bens de capital e insumos estrangeiros.
O sistema bancário mexicano era bastante limitado no século XIX, se considerado
o fato de que não havia bancos no país até 1864. Por quase todo o século XIX, todas as
transações comerciais do país se realizavam por meio de grandes casas comerciais que
giravam letras de crédito e empréstimos. O acesso ao crédito para o investimento era
lento e desigual, pois apenas aqueles empresários com bons contatos conseguiam ter
acesso a esse tipo de financiamento. O mercado acionário inexistia até 1896, quando
foram negociadas as primeiras companhias mexicanas em bolsa de valores. Portanto, a
maior parte do capital investido na manufatura mexicana vinha dos grandes negociantes e
financeiros do país. Segundo Haber (1993), era o único grupo que contava com suficiente
liquidez para financiar as plantas industriais e a importação de maquinário.
A classe mais importante de industriais-negociantes-financistas que dominavam
as grandes empresas era composta, basicamente, por estrangeiros: franceses, em sua
maioria, seguidos por espanhóis, ingleses e americanos. Exerciam considerável poder
econômico sobre o governo e possuíam investimentos dispersos tanto geográfica como
setorialmente. Possuíam bônus da tesouraria do governo, eram membros das maiores
instituições financeiras do país e representavam o governo nos mercados internacionais e
nas requisições de empréstimos no exterior. Nos termos de Haber (1993), tal grupo era,
com efeito, “o próprio Estado”, de modo que o estímulo para a promoção de políticas
industriais respondia, durante aquele momento, a interesses próprios.
O acesso aos mercados mundiais, viabilizado por tais investimentos estrangeiros,
fez com que as exportações mexicanas triplicassem entre 1870 e 1913 como proporção
do PIB (MORENO-BRID; ROS, 2004). Assim como no período colonial, o setor
exportador, incentivado pela depreciação da moeda local ao final do século XIX6, voltou
a se tornar o motor do crescimento econômico mexicano.

6
Durante séculos, a prata foi o equivalente geral do peso mexicano. Devido à adoção do padrão monometálico (ouro)
pelos países avançados, porém, a demanda pela prata caiu significativamente, levando a uma desvalorização real do
peso de 26%.
114

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

A estratégia econômica do Porfiriato resultou em crescimento e modernização em


diversos campos, revertendo um século de decadência. O incremento anual médio do PIB
per capta ao longo do período foi de 2,1%. A expansão ferroviária não apenas favoreceu
algumas das atividades tradicionais como a mineração, mas também contribuiu para
viabilizar atividades novas, cuja escala de produção e densidade de capital as tornava
pouco rentáveis até então. Coatsworth (1989) afirma que graças à substituição de
importações de têxteis, cerveja, papel, cimento e aço, a produção industrial aumentou em
média 3,6% ao ano entre 1877 e 1910.
Além da mudança do processo produtivo industrial para grandes fábricas, houve
profunda modificação da estrutura social e econômica das zonas rurais. Visando a uma
melhora na produção e na distribuição das mercadorias vindas do campo, o governo de
Díaz promoveu uma aceleração na redistribuição da terra de propriedade federal a
empresas de desenvolvimento privadas e particulares com boas relações políticas.
Segundo Schaffer (1963), em 1890, 20% do território mexicano pertencia a menos de 50
pessoas ou empresas; até o início da década de 1900, 95% da terra cultivada passou às
mãos de 835 famílias, em uma pequena, ainda que simbólica distribuição da posse da
terra.
Por outro lado, o desenvolvimento social não acompanhou esse crescimento pari
passu. Os bons resultados no setor produtivo não foram o suficiente para impedir o
achatamento real da renda do trabalho. Em 1910, a queda dos salários reais chegou a 26%
em comparação a 1903. A desigualdade entre os muito ricos e muito pobres, a maioria da
população, abriu uma enorme brecha na sociedade mexicana. A expulsão de indígenas de
suas terras em favor de grandes latifundiários nacionais e estrangeiros tornou-se política
sistemática. A maior parte dos habitantes expulsos precisou se ocupar como peões em
fazendas. Uma grande seca em 1907 contribui para reduzir a produção de alimentos e
elevar seus preços. Dois terços do povo mexicano ainda viviam em zonas rurais. Em
1910, apenas 28% da população dominava a leitura e a escrita, e a expectativa de vida ao
nascer não superava os 37 anos. Havia um desequilíbrio crescente entre crescimento
econômico acelerado e lentidão dos avanços sociais.
O padrão de desenvolvimento porfirista começava a mostrar sinais de
esgotamento. Haber (1989) afirma que, apesar do robusto crescimento do PIB, o grau de
pobreza naquele período fazia com que um simples aumento no valor do milho fosse o
suficiente para diminuir o grau de consumo de manufaturas dos trabalhadores a ponto de
pôr em crise a indústria de roupas. O uso da força para conter as agitações sociais tornou-
se recorrente.
A má distribuição dos benefícios do progresso material chegou ao limite ao final
da primeira década do século XX. As classes médias emergentes excluídas das decisões
políticas, e os trabalhadores e camponeses marginalizados dos bônus econômicos,
uniram-se em torno de uma coalizão partidária sob o lema “democracia, reforma agrária e
direitos trabalhistas” (MORENO-BRID; ROS, 2004). Consolidavam-se os elementos que
colocariam fim à pax porfiriana de 35 anos.
2.2 Política, sociedade e economia durante a Revolução Mexicana
O autoritarismo com que Porfírio Diaz governou o país fazia com que o
descontentamento de determinados setores alijados do poder aumentasse de forma
115

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

gradativa. A manipulação de toda a máquina pública durante o porfiriato era justificada


pelo meio século de conflitos que se sucederam às guerras de independência no início do
século XIX. Do ponto de vista econômico, explicava-se a centralização em nome da
estabilidade requerida pelos investidores, sobretudo os estrangeiros. O lema do porfiriato
resumia a aura de discricionariedade que circunscrevia seu governo: “menos política e
mais administração”.
A contrariedade com as arbitrariedades, somada à insatisfação de grande parte das
classes não beneficiadas pelo crescimento econômico concentrador, fez com que os
últimos anos do Porfiriato fossem marcados por forte repressão política. Em 1908, Díaz
já aquiescia à ideia de convocar eleições gerais, agitando a cena política mexicana.
Um dos mais populares líderes da oposição era Francisco Madero. Visto como
uma ameaça ao arranjo que Díaz previa para sua sucessão, Madero foi detido em 1910,
meses antes de o ditador ser reeleito. A balbúrdia que se alastrou pelo país respondia
menos à insatisfação popular com o resultado do pleito do que à situação de precariedade
laboral a que parte expressiva da massa trabalhadora fora relegada. Nesse contexto é que
surgem duas das mais conhecidas figuras do imaginário popular mexicano. Os líderes
camponeses Emiliano Zapata (do estado de Morelos, ao sul) e Francisco Pacho Villa (de
Chihuahua, ao norte).
Zapata vivenciara a destruição das comunidades indígenas e dos ejidos (porções
de terra de uso coletivo, em geral, pertencentes ao Estado); Villa, a proletarização do
homem do campo do norte povoado por latifundiários e indústrias mineradoras. Em
comum, defendiam a devolução das terras aos camponeses. Villa sugeria a manutenção
da propriedade privada aliada à indenização aos latifundiários; Zapata, por sua vez,
defendia a devolução de terras de acordo com as tradições indígenas de propriedade
comunal (CAMÍN; MEYER, 2000).
Ambos acataram o “Plano San Luís Potosí”, lançado por Madero que havia
escapado para o Texas. Por meio desse documento, Madero atacava o governo porfirista e
se autoproclamava novo presidente do México, chamando a população às armas, se
assim, fosse necessário. De acordo com Wasserman (2004), o plano promoveu a união
dos anseios de camponeses, operários, intelectuais e até investidores estrangeiros. A união
em torno de Madero resultou na queda do ditador e na sua ascensão ao cargo em 1911.
O novo presidente, entretanto, não atendeu aos anseios populares. Formou um
gabinete de políticos pertencentes aos partidos tradicionais – majoritariamente liberais e
conservadores –, e com apenas dois revolucionários. A instabilidade política se manteve,
fazendo com que os investimentos americanos se retraíssem em pouco tempo. Além da
desordem, as empresas estrangeiras de exploração de petróleo rejeitaram o imposto
fixado pelo governo de 0,20 dólar por tonelada de petróleo cru.
Apesar da indignação popular, os responsáveis por sua queda, em 1913, foram
representantes do establishment mexicano: banqueiros, comerciantes estrangeiros e
remanescentes do exército porifirista. O ex-lugar tenente maderista, Victoriano Huerta,
assumiu o poder apoiado pela Igreja Católica, grandes industriais, antigas oligarquias
rurais e investidores estrangeiros7. A contra-ofensiva dos setores da sociedade que não
7
Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, os EUA tomavam para si uma “missão civilizatória” de “pacificar e
democratizar” os países sob sua influência. O governo norte-americano não aceitava a aproximação de Huerta com
investidores europeus, especialmente alemães. Como forma de se fazer presente no xadrez geopolítico do Caribe, os
EUA assumem o porto de Vera Cruz e desalojam comerciantes alemães que lá operavam (WASSERMAN, 2004).
116

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

reconheciam a legitimidade de Huerta foi violenta, levando-o a renunciar em 1914.


Venusitano Carranza, líder constitucionalista e ex-governador do estado de Coahuila,
assumiu o poder representando os interesses da burguesia nacional, dos pequenos e
médios proprietários e comerciantes, mas em oposição às reivindicações camponesas e
operárias.
As pressões populares levaram-no a atender parte dos pleitos dos chamados
“desordeiros”, em especial, zapatistas e villistas. Com esse objetivo, Carranza apresentou
a Lei Agrária, em 1915, pela qual devolvia aos legítimos donos as terras que haviam sido
expropriadas anteriormente. A lei não chegou entrar em vigor, mas a nova constituição,
de 1917, foi a primeira Carta Magna da América Latina a prever a eliminação do
latifúndio e a divisão da terra em pequenas propriedades (WASSERMAN, 2004).
Carranza concluiu seu mandato em 1920, sendo sucedido por governos cujos
principais fitos visavam à destruição do aparato político-econômico porfirista, além de
conter o ímpeto das reformas exigidas pelas classes populares a fim de não ameaçar os
interesses da burguesia que ascendia ao poder. É nesse sentido que se pode afirmar que a
Revolução Mexicana contribuiu para o desenvolvimento do capitalismo não apenas no
âmbito produtivo, mas também político e cultural, reforçando ícones da identidade
nacional mexicana inexistentes até então.
O crescimento econômico experimentado pelo país durante o Porfiriato foi
prejudicado durante revolução. Consoante Haber (1989), a crença de que a
industrialização daquele período não teria resistido à revolução foi consensual entre os
autores que se dedicaram ao tema. Porém, trabalhos publicados nos anos 1980, como os
de Ojeda (1985) e Rancaño (1987), por exemplo, passaram a contestar esse entendimento
ao demonstrarem que os investimentos realizados àquela época se mantiveram operantes
por todo o período, uma vez que as forças revolucionárias não visavam à destruição das
plantas industriais8.
Chávez (2012) identificou que o fenômeno da violência durante a revolução foi
desigual ao longo do território mexicano, fazendo com que o impacto negativo sobre as
atividades econômicas também variasse. As regiões norte e sul foram, no geral, as mais
afetadas pelo conflito. Vias férreas, zonas mineiras, de criação de gado, de plantação de
algodão e açucareiras foram diretamente atingidas pelos confrontos. Solís (1981, p. 77)
apresenta dados que ilustram o quadro:
No setor da mineração, a produção sofreu uma queda brusca. A
exploração de ouro caiu em 1915 em 18% do que havia sido
produzido em 1910; a produção de prata reduziu-se em 50% e a
de chumbo em 4,6% no mesmo ano. A participação da
mineração no Produto Interno Bruto caiu de 1480 milhões de
pesos – de 1960 – em 1910 a 883 em 1921 [...] declinando a
uma taxa média anual de 4,0%.

8
Segundo Rancaño (1987), a estratégia utilizada pelos exércitos revolucionários era ameaçar as fábricas, forçando os
empresários a contribuírem com a causa da revolução. Assim, em pacto de não-agressão, a burguesia industrial teve
seus ativos relativamente preservados durante os conflitos.
117

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

A agricultura também teve sua participação no PIB reduzida, passando de 4.805


milhões de pesos em 1910 para 4.652 milhões em 1921, retomando o mesmo nível de
atividade anterior à eclosão do conflito somente em 1926. A indústria manufatureira
também reduziu sua participação absoluta, passando de 3.354 milhões de pesos em 1910
para 3.049 milhões em 1921, recuperando-se àquele nível somente em 1925.
Do ponto de vista social, a revolução contribuiu para a generalização das relações
de trabalho capitalistas. Nas regiões mais desenvolvidas, houve o desaparecimento da
peonaje9 e a expansão do mercado de trabalho livre. Dessa maneira, adequaram-se as
antigas instituições e formas de organização às novas necessidades de desenvolvimento
do país. Acima de tudo, a nova reorganização permitiu que uma fração da burguesia –
industrial – chegasse ao poder e aí exercesse sua influência para levar a cabo seu projeto
de desenvolvimento (Chávez, 2012). Surgia uma nova configuração de poder, na qual a
hegemonia burguesa se sustentaria em, pelo menos, dois pilares: o político-partidário e o
econômico-industrial.
2.3 A crise da década de 1930 e os impactos sobre a economia mexicana
A crise econômica que sucedeu à quebra da bolsa de Nova York em 1929
colapsou diversas economias latino-americanas dependentes das importações e dos
financiamentos norte-americanos. A desordem social decorrente da onda de falências e
desemprego enfraqueceu a estrutura de poder dominante em diversos países do
subcontinente. Nesse sentido, Bulmer-Thomas (2005) ressalta a ascensão de novas forças
econômicas, sociais e políticas, as quais ensejariam o surgimento de um novo modelo de
desenvolvimento na América Latina. De forma sumarizada, a impossibilidade de manter
a pauta de importações em decorrência da crise daria origem, em alguns países do
continente, a um processo de industrialização baseado na substituição de importações
(PSI).
A implantação do PSI foi possível graças à transferência de capitais antes
investidos na agricultura e mineração, os quais, em decorrência da crise no setor externo
passaram a ser invertidos na indústria. O êxodo rural também se mostrou essencial para o
surgimento do novo modelo, pois tornou possível a criação de uma classe: o operariado.
Por fim, o Estado assumiu um novo papel, incumbindo-se de liderar o desenvolvimento
por meio de medidas ativas de concessão de créditos e financiamentos, construção de
obras de infraestrutura e políticas de proteção para a indústria infante.
Segundo Cárdenas (1987), a manufatura foi o setor da economia mexicana que
apresentou maior crescimento (125%) ao longo da década de 1930. São pelo menos três
os fatores que explicam esse desempenho. Em primeiro lugar, houve uma recuperação
relativamente rápida dos preços do petróleo e da prata, que eram responsáveis por 75%
das exportações mexicanas e afetando diretamente a demanda agregada. Em segundo, a
desvalorização do peso produziu uma mudança nos preços relativos, favorecendo as
mercadorias nacionais. Por fim, um fato político (início de um novo governo), em 1934,
embasou a mudança na condução da política econômica instrumental: abandonar-se-ia a
parcimônia em benefício de políticas fiscal e monetária contracíclicas, as quais passaram
a privilegiar investimentos produtivos em detrimento dos gastos correntes. Como
resultado da confluência desses elementos, observou-se uma expressiva recuperação da
demanda agregada, encabeçada pelo setor industrial.
9
Neste tipo de relação laboral, os peões eram retidos e obrigados a trabalhar gratuitamente para os fazendeiros até a
completa quitação de dívidas que tivessem contraído.
118

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

3. Desenvolvimento sob o governo Cárdenas (1934-1940)


O governo de Lázaro Cárdenas del Río pode ser considerado uma consequência
da Revolução Mexicana, uma vez que se propôs a implementar as reformas pleiteadas
pelas camadas populares a fim de tornar o desenvolvimento mais igualitário. A presença
de representantes das massas indígenas nos lócus decisórios marcou o sexênio cardenista,
o que lhe garantiu o apoio para a implantação da reforma agrária e, principalmente, da
nacionalização de empresas estrangeiras ferroviárias e de petróleo. Seu governo criou as
bases legais e institucionais que aprofundaram o processo de substituição de importações
a partir de 1940.
Procedente de uma família indígena de origem humilde, Cárdenas recebeu apenas
a instrução primária. Iniciou carreira militar durante a revolução e obteve rápida
ascensão. Ingressou na política anos mais tarde apadrinhado por outro militar
revolucionário, o presidente Plutarco Elías Calles, conhecido como “o chefe máximo”.
Em 1928, Cárdenas foi eleito governador do estado de Michoácan, de onde ficou
conhecido nacionalmente devido à gestão bem avaliada: criou diversas escolas,
promoveu a repartição das terras, aliou-se a associações sindicais e democratizou o
acesso ao ensino superior.
Eleito presidente da República em 1934 pelo recém-criado Partido
Revolucionário Mexicano (PRM), Cárdenas granjeou autonomia política, governando
sobre uma base social progressista e reformista, da qual faziam parte os partidos
comunista e socialista, liberais radicais, a Confederação dos Trabalhadores Mexicanos
(CTM) e a Confederação Nacional dos Camponeses (CNC). Tratava-se de estratégia para,
apoiado em setores populares, eximir-se da tutela das antigas lideranças militares de seu
partido.
O primeiro indício de que se tratava de um governo diferente dos que lhe
antecederam foi a mudança significativa da política fundiária. Cárdenas procurou
recompensar o apoio indígena-rural ao promover uma profunda reforma no acesso à terra
a partir de 1935. A nova legislação não poupava as áreas de concentração de grandes
propriedades voltadas ao comércio externo, como, por exemplo, as regiões de La Laguna,
onde se produzia algodão, Yucatán, centro de produção de pita, e Lombardía e Nueva
Italia, zonas produtoras de algodão para consumo interno. A redistribuição de terras, que
até então só havia ocorrido sob a forma dos ejidos em Morelos e estados vizinhos,
espalhou-se por todo o país. Ao fim de seu mandato, Cárdenas havia oferecido um total
de 20 milhões de hectares aos camponeses.
Em um primeiro momento, a reforma teve um efeito econômico negativo. A
produção agrícola comercial estancou em 1937, tendo atingido, em 1940, os níveis
observados 5 anos antes. Isso porque os camponeses que ocuparam os ejidos utilizavam-
nos, basicamente, para a produção de subsistência. Somava-se a isso o fato de que os
ejidatarios contarem com financiamento menos favoráveis se comparados aos produtores
privados. Camín e Meyer (2000) afirmam, no entanto, que provavelmente o consumo de
alimentos nas zonas rurais aumentou, sem ter sido registrado pela economia monetária.
Rivera (2012) ressalta que, para viabilizar seu projeto reformista, Cárdenas teve
que romper com atores sociais importantes, sobretudo o clero católico, proprietário de
119

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

vastas extensões de terra. Além disso, empenhou recursos vultosos para viabilizar a
produção na nova realidade, criando um Banco Nacional dos Ejidos ao qual se delegou a
tarefa de financiar a produção dos assentados.
O modelo econômico sob Cárdenas buscava favorecer o desenvolvimento
econômico sem abster-se dos compromissos políticos que o levaram à presidência. Nesse
sentido, a reforma agrária cardenista estava envolta a um caráter social. O mote do
governo era permitir o desenvolvimento do indivíduo, antes mesmo que o da economia.
Ao final de seu mandato, Lazaro Cárdenas havia estabelecido novas propriedades a
772.000 camponeses, dos quais a imensa maioria era de indígenas, sendo os ejidos
responsáveis por 18.000.000 ha. de área cultivada.
No que concernia à política industrial, as principais medidas levadas a cabo por
Cárdenas circunscreveram à produção petrolífera. Até então controlado por dois grandes
conglomerados – a Shell, de origem anglo-holandesa, e a Standard Oil, empresa norte-
americana –, o setor foi expropriado pelo governo mexicano devido à recusa por parte
das empresas em cumprir a decisão judicial que garantia o aumento de salário dos
operários. Como resposta ao que considerou um desrespeito à soberania nacional, Lázaro
Cárdenas nacionalizou todo o setor de extração de e fundou a Petróleos de México S/A
(PEMEX), empresa estatal que gozaria do monopólio da extração. A política de “boa-
vizinhança” de Roosevelt, que visava a garantir o apoio estratégico do México no
tabuleiro geopolítico pré-II Guerra Mundial, impossibilitou reações diplomáticas
arestosas por parte das potências envolvidas além de boicotes pontuais.
Do ponto de vista da condução da política econômica instrumental, o governo
Cárdenas também rompeu com a ortodoxia ao promover uma política fiscal anticíclica a
partir de 1936, conforme pode ser observado na tabela 1. Indo além, Camín e Meyer
(2000) afirmam que 56% das despesas eram direcionadas ao desenvolvimento industrial e
a programas sociais: 38% para objetivos de desenvolvimento econômico (estradas,
irrigação, crédito etc.) e 18% para gastos sociais (saúde pública e educação).
Tabela 1 – Receitas e despesas do Governo Federal (1934-1940)
(em milhões de pesos)

Ano Receitas Despesas Saldo

1934 295 265 30

1935 313 301 12

1936 385 406 -21

1937 451 479 -28

1938 438 504 -66

1939 566 571 -5

1940 577 610 -33

Fonte: Villarreal (1976, p. 39).


120

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

A imperiosidade imposta pela crise mundial permitiu que, a partir daquele


momento, o governo mexicano lançasse mão de uma política econômica ativa para fazer
frente à queda da demanda agregada. Do ponto de vista monetário, o governo aumentou a
oferta de moeda de 454 milhões de pesos, em 1934, para 1,06 bilhão, em 1940. Somada à
aceleração de gastos, porém, a política monetária expansionista resultou em descontrole
inflacionário, agravado por crises sazonais na oferta de produtos agrícolas. Por outro
lado, a manufatura mexicana foi beneficiada por meio de um aumento da demanda por
produtos manufaturados decorrente da expansão fiscal e creditícia.
Pode-se afirmar que, ao lado do desenvolvimento industrial e do aumento da
produção primária, o México adotou um modelo marginalmente diferente do
implementado em outras grandes economias latino-americanas, como Brasil e Argentina.
De forma esquemática, o modelo cardenista vislumbrava um México predominantemente
agrícola, rural e cooperativo. Desenvolvimento integral do indivíduo com justiça social
parece ter sido o mote de Lazaro Cárdenas, para quem o futuro do país repousaria sobre
ejidos e pequenas comunidades industriais a serviço do bem-estar da população.
Resultado de uma política deliberada ou não, o fato é que, durante os anos 1930, a
indústria manufatureira mexicana cresceu a taxas não vistas até então, perfazendo um
claro processo de industrialização via substituição de importações. Montadoras norte-
americanas, como a Ford, a General Motors e a Chrysler, instalaram-se no país. Empresas
de outros setores, como cinema, radiodifusão e madeireiro, também investiram valores
expressivos no estabelecimento de novas plantas no país. A despeito dos ganhos auferidos
pela casse trabalhadora, o fato é que o país passava, naquele momento, por uma típica
revolução burguesa-industrial.
Em 1939, o candidato situacionista, Manuel Ávila de Camacho, prometia dar
continuidade ao projeto cardenista. Em sua plataforma de governo, os ejidos, as
cooperativas e a propriedade estatal seriam os sobre os quais o país seguiria a se
desenvolver. As forças contrárias ao ideal de Cárdenas, contudo, reorganizaram-se para
retomar o poder ao final do seu mandato. Líderes ruralistas, representantes do capital
estrangeiro e setores da classe média passaram a oferecer oposição cerrada a Camacho,
presidente eleito em 1940. A pressão do establishment mexicano encerrou o caminho
rumo ao chamado “socialismo mexicano”.
A partir dos anos 1940, as conquistas populares da era cardenista foram sendo
gradativamente eliminadas: o movimento de distribuição terras aos camponeses deixou
de ser prioritário e a diminuição do fornecimento de recursos aos agricultores permitiu a
reconcentração progressiva da propriedade fundiária. De outra parte, a associação da
burguesia nacional com o capital estrangeiro possibilitou a penetração de grandes
empresas monopolistas as quais lograram retomar a hegemonia na estrutura produtiva
mexicana. Em 1946, o PRM, criado por Cárdenas, se transformou em Partido
Revolucionário Institucional (PRI), legenda que se utilizou de sua profunda infiltração no
aparelho estatal, bem como no tecido social mexicano, para se manter no poder até a
primeira década do século XXI.
Os feitos do governo Cárdenas del Río, porém, transformaram a história do país.
As reformas econômicas e sociais, baseadas em um projeto nacionalista, embasaram uma
121

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

clara mudança no modelo de desenvolvimento, a partir daquele momento, inclusivo e


progressista. O legado reformista de sua gestão emoldura a faceta social de uma das mais
relevantes revoluções ocorridas na América Latina pós-independência.

4. Considerações finais
Este trabalho sistematizou alguns dos principais acontecimentos político-
econômicos que embasaram o desenvolvimento econômico do México a partir do último
quartil do século XIX. País que apresentava um histórico de conflitos desde pelo menos
as guerras de independência, foi durante o porfiriato (1876-1911) que os agentes
vislumbraram a estabilidade necessária para que fosse viabilizado o desenvolvimento
capitalista no país.
Conforme procurou-se argumentar no decorrer deste trabalho, a industrialização
mexicana teve seu início ainda no século XIX durante o período do Porfiriato. Nesse
sentido, o desenvolvimento industrial observado após a Revolução Mexicana foi
possibilitado graças à capacidade produtiva já instalada no país: plantas (ociosas),
infraestrutura, ferrovias, energia, tecnologia, conhecimento técnico etc.
As políticas de Estado encetadas a partir do governo Cárdenas (1934-1940)
demarcaram um novo modelo de desenvolvimento. Envolto a um projeto nacionalista e
intervencionista, Cárdenas levou a cabo reformas estruturantes as quais não apenas
atendiam aos interesses de frações importantes da burguesia nacional, como também
contemplou as demandas de segmentos sociais historicamente excluídos. A
nacionalização do setor petrolífero representou um marco no modelo desenvolvimentista
mexicano; por seu turno, o programa de reforma agrária procurou atender ao pleito da
massa camponesa indígena pauperizada pelo crescimento concentrador das décadas
anteriores.
Sob Cárdenas, o processo de industrialização também atingiu novo patamar.
Baseado em políticas de subsídio, de proteção tarifária e preferência governamental pela
produção nacional, o governo adotou uma política econômica ativa, e anticíclica, para
proteger a renda nacional, estimular a demanda agregada e, assim, viabilizar a
manufatura mexicana.
Dessa forma, observa-se que o processo de desenvolvimento mexicano no período
em análise passou por momentos de ruptura e continuidade, fenômeno típico dos países
de industrialização tardia. A propalada vocação primário-exportadora da segunda maior
economia latino-americana obstou o desenvolvimento de seu setor secundário por meio
dos interesses e da atuação do capital transnacional. Ainda assim, o México logrou não
apenas estabelecer uma indústria competitiva, ainda que restrita a determinados
departamentos, ao mesmo tempo em que promovia reparações históricas de resgate da
cidadania de parcelas marginalizadas desde o período colonial.
122

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Referências Bibliográficas

BORTZ, Jeffrey L.; HABER, Stephen. The Mexican Economy, 1870-1930: essays on the
economic history of institutions, revolution and growth. Stanford: Stanford University Press,
1993.

BULMER-THOMAS, Victor. As economias latino-americanas, 1929-1939. São Paulo; Brasília:


Universidade de São Paulo; Fundação Alexandre Gusmão, 2005.

CAMÍN, Héctor A.; MEYER, Lorenzo. À sombra da revolução mexicana: história mexicana
contemporânea, 1910-1989. São Paulo: Editora da USP, 2000.

CÁRDENAS, Enrique. La industrialización mexicana durante la Gran Depresión. Ciudad de


México: El colegio de México, 1987.

CHÁVEZ, Hilario B. Desarrollo industrial y dependencia económica en México. Saarbrücken:


Académica Española, 2012.

COATSWORTH, John H. Obstacles to economic growth in nineteenth-century Mexico. The


American Historical Review, Washington D.C., v. 83, n. 1, p. 80-100, Feb. 1978.

COATSWORTH, John H. The Decline of mexican economy, 1800-1860. Berlim: Colloquium


Verlag, 1989.

HABER, Stephen H. Industry and underdevelopment: the industrialization of Mexico, 1890-1940.


Stanford, California: Stanford University Press, 1989.

MENDONÇA, Marina; PIRES, Marcos C. Formação econômica da América Latina. São Paulo:
LCTE, 2012.

MORENO-BRID, Juan Carlos; ROS, Jaime. México: las reformas del mercado desde una
perspectiva histórica. Revista de la CEPAL, Santiago do Chile, n. 84, p. 35-57, 2004.

OJEDA, Leticia G. Los empresarios de ayer: el grupo dominante de la industria textil de Puebla,
1906-1929. Puebla: Universidad Autónoma de Puebla, 1985.

RANCAÑO, Mario R. Burguesía textil y política en la Revolución Mexicana. Ciudad de México:


Universidad Nacional Autónoma de México, 1987.

RIVERA, Sérgio E. M. Aspectos gerais do Modelo de Substituição de Importações (MSI) no


México (1940-1982). In: MENDONÇA, Marina; PIRES, Marcos C. Formação econômica da
América Latina. São Paulo: LCTE, 2012.

SCHAFFER, Victor M. Reforma agraria en México: 50 años de revolución. Ciudad de México:


Fondo de Cultura Económica, 1963.

SILVA, Sérgio S. Expansão Cafeeira e Origens da Indústria no Brasil. São Paulo: Editora Alfa
Omega, 1976.

SOLÍS, Leopoldo. La realidad económica mexicana: retrovisión y perspectivas. Ciudad de


México: Siglo XXI, 1981.

WASSERMAN, Claudia. História contemporânea da América Latina: 1900-1930. Porto Alegre:


UFRGS, 2004.
123

A Crise Asiática de 1997 e a Imunidade


Taiwanesa: um estudo sobre a estruturação do
setor externo de Taiwan1
Ben Lian Deng2

Resumo

Em julho de 1997, uma onda de ataques especulativos atingiu e se alastrou sobre os principais mercados
financeiros do sudeste e leste asiático, falindo diversas corporações e levando a um grave revés
econômico nos países afetados. Entretanto, o único país da região aparentemente não afetado foi Taiwan,
que passou praticamente imune à crise. Diferentemente dos seus vizinhos asiáticos, Taiwan possuía uma
característica estrutural única, como saldo de conta corrente positiva, alta taxa de reservas de divisas
internacionais, e baixo endividamento externo, que contribuíram para a imunidade taiwanesa.

Palavras-chave: Taiwan, Crise Financeira, Crise Cambial, Crise Asiática, Fluxo Internacional de
Capitais.

Abstract
In July 1997, a wave of speculative attacks struck and spread over the major Southeast and East Asia
financial markets, bankrupting several corporations and leading to a serious economic setback in the
affected countries. However, the only country that apparently was not affected in the region by the crisis
was Taiwan, which was virtually immune to the crisis. Unlike its Asian neighbors, Taiwan possessed
some unique structural features such as a current account balance surplus, high foreign exchange reserves,
and low external debt, that contributed to the Taiwanese immunity.

Keywords: Taiwan, Financial Crisis, Currency Crisis, Asian Crisis, International Capital Flow.

Classificação JEL: F34, F38.

1
Artigo apresentado em 06/07/2018. Aprovado em 11/08/2018.
2
Mestrando do Curso de Economia Politica Internacional, UFRJ.
124

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Introdução
Em meados de 1997, o sistema financeiro tailandês passou a sofrer uma série de ataques
especulativos de hedge funds, que instintivamente apostavam contra a moeda tailandesa, o bath,
devido a existência de baixos estoques de divisas internacionais naquele país. Após uma série de
tentativas do Banco Central tailandês de tentar manter a paridade entre o bath e o dólar, o
governo foi obrigado a desatrelar o bath do dólar, e adotar o regime de câmbio flutuante,
resultando numa acentuada desvalorização do bath nos meses subsequentes. Os esforços do
governo tailandês de conter a fuga de capital resultaram uma redução drástica das reservas
internacionais tailandesas e a contração de uma enorme dívida externa, deixando o país
praticamente falido. (WU, 1998: 529)
Em seguida, a crise se alastrou por outros países asiáticos, como a Malásia, Indonésia,
Filipinas, Hong Kong e Coreia do Sul, e posteriormente, sairia desse eixo atingindo outros
países como Rússia, Brasil e Argentina. Como consequência da “falência” das economias locais,
houve uma sensível redução dos preços das ações, das taxas de crescimento econômico na
região, além dos aumentos das taxas de inflação e de desemprego. A crise asiática de 1997
atingiu principalmente a Tailândia, a Indonésia e a Coreia do Sul, e forçou o Fundo Monetário
Internacional (FMI) a intervir e socorrer estes países, que foram obrigados a adotar reformas
fiscais, políticas deflacionárias, e compressão do crédito.
Em meio à crise financeira que se instaurou na Ásia, poucos países não foram afetados,
e um deles é Taiwan. Assim como a Coreia do Sul, Taiwan foi considerado um dos New
Industrialized Countries (NICs), entretanto não sofreu os mesmos efeitos da crise como os seus
vizinhos sofreram. Por quais razões Taiwan não foi afetado pela crise de 1997? Quais foram as
características estruturais da economia de Taiwan que o “salvaram” da crise?
Com intuito de analisar as razões para a “imunidade” taiwanesa perante a crise de 1997,
o presente trabalho além de conter a introdução e a conclusão, contará também com quatro
seções. A primeira seção analisará as características e deficiências estruturais da industrialização
de Taiwan entre 1937 e 1958. Na segunda seção, analisaremos os efeitos da política de
promoção às exportações, e seus impactos sobre a balança de pagamentos. Na terceira seção, os
impactos do neoliberalismo nos países asiáticos. Na quarta seção, as peculiaridades estruturais
da economia taiwanesa pós reformas neoliberais, destacando quais foram os fatores
determinantes para a “imunidade” de Taiwan diante da crise.

1. Industrialização Dependente (1937-1958)

Entre o período entre 1624 e 1937, a economia de Taiwan era caracterizada como
tipicamente agroexportadora, em que a captação de divisas era dependente da exportação de
commodities, servia para financiar a importação de manufaturados. Entretanto, a economia de
Taiwan passou por uma profunda reestruturação a partir do final da década de 30. Devido à
eclosão da guerra Sino-Japonesa em 1937, e à necessidade de mobilizar o império japonês para
os esforços de guerra, o governo do Japão instituiu a política de substituição de importações em
Taiwan (1937-1945), com o intuito de aumentar a capacidade industrial e fornecer manufaturas
para a expansão militar japonesa. Embora Taiwan seja escassa de matérias primas, as conquistas
japonesas na Manchúria, na China e no Sudeste da Ásia possibilitaram o abastecimento de
commodities para as indústrias locais, sem pressionar a balança de pagamentos da colônia.
(HSIAO; HSIAO, 2002: 181-184; MURAOKA, 2002: 227-230)
O modelo de substituição de importações viria momentaneamente entrar em colapso,
após a derrota do Japão na guerra, e a cessão de Taiwan para a China em 1945. Devido ao status
de guerra civil no continente chinês, o governo Kuomintang (KMT) passou a desviar grandes
somas de recursos, commodities, além de bens confiscados do governo japonês para financiar a
guerra na China. Além disso, o desmantelamento do império japonês interrompeu o
fornecimento de matérias primas, forçando a importação e pressionando a escassez de divisas. A
destruição parcial da infraestrutura durante a guerra, a política monetária expansiva e a má
gestão das firmas estatais levaram a uma profunda crise econômica que, em 1948, alcançou taxa
125

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

de desemprego de 15%, e a inflação atingiu 3.400%. (HSIAO; HSIAO, 2002: 184-185; CHO:
2002: 21-22)
Entretanto, a crise do modelo de substituição de importações seria revertida a partir de
1950. Após a eclosão da guerra da Coréia, os EUA, com intuito de frear a expansão comunista
pela Ásia e estabilizar a região, passaram a apoiar financeiramente o governo do KMT em
Taiwan. Entre o período de 1951 e 1968, o governo de Taipé recebeu cerca de 1,465 bilhões de
dólares em ajuda financeira americana (CHO, 2002: 17-24). Além disso, os Estados Unidos da
América (EUA) contribuíram também para os investimentos e a modernização do setor agrícola
de Taiwan, o que resultou em dois importantes fatores: a elevação da taxa de poupança, que
possibilitou o aumento dos investimentos domésticos; e o aumento das exportações de bens
agrícolas, que permitiu a captação de divisas necessárias para a importação de insumos e bens
intermediários e de capital. (RANIS, 2002: 6-8, 21)
Além da ajuda americana, o governo de Taiwan adotou uma série de medidas, como a
imposição de uma política monetária austera e alta taxas de juros, fato que auxiliou na
estabilização monetária. A imposição de políticas típicas de substituição de importações, como a
imposição da desvalorização cambial, controle sobre as importações, quotas de importação,
cambio múltiplo, empréstimos subsidiados, e altas tarifas de importações, favoreceu a proteção
do mercado interno, resultando em altas taxas de crescimento econômico, que durante o período
entre 1952 e 1958, atingiu uma média de crescimento econômico anual de 8,6%. (AMSDEN,
1987: 133)

Tabela 1: Ajuda Financeira Americana e a Balança Comercial de Taiwan entre 1951 e 1968
(milhões de dólares)
Auxílio Financeiro dos EUA Déficit em
Saldo
Ano % em relação Exp. Imp. relações as
Valor Bruto Comercial
ao PIB Exportações
1952-
266,9 6,13% 244 379 -135 -55,33%
1953
1954-
341,9 6,88% 334 606 -272 -81,44%
1956
1957-
318,6 6,48% 461 669 -208 -45,12%
1959
1960-
261,2 4,77% 577 923 -346 -59,97%
1962
1963-
255,7 3,33% 1215 1346 -131 -10,78%
1965
1966-
37,9 0,34% 1966 2331 -365 -18,57%
1968
Fonte: CHO, 2002: 19; TSAI, 2009: 185

No entanto, observa-se que o “sucesso” da política de substituição de importações foi


extremamente dependente do auxílio financeiro americano. Devido à escassez de matérias
primas em território nacional e à necessidade de importar bens de capital e intermediários,
houve consecutivos déficits na balança comercial, que eram financiados pelos EUA. O tamanho
limitado do mercado consumidor interno e a instabilidade política impossibilitaram a atração de
investimentos estrangeiros. Ademais, a obsessão de Chiang Kai-shek em retomar a China
resultava no comprometimento de grande parte do orçamento fiscal para o departamento de
defesa, que comprometia grande parte do orçamento fiscal, tornando a atual política econômica
insustentável a longo prazo. (CHO, 2002: 24-25; RANIS, 2002: 21)
126

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

2. Promoção as Exportações

A política de auxílio financeiro dos EUA aos seus aliados diplomáticos passaria a ser
contestada e abandonada gradualmente ao final da década de 50. Devido à política de auxílio
financeiro na Europa (Plano Marshall), e na Ásia (Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Vietnam do
Sul), os EUA passaram a acumular gradativamente, na balança de pagamentos, déficits que
alcançaram a cifra de 4 bilhões de dólares em 1958. Sob esse contexto, a partir do governo
Eisenhower, mudou-se a política de auxílio financeiro dos EUA, passando de ajuda de
contingência para estabilização econômica a curto prazo a uma política de empréstimos para
desenvolvimento econômico a longo prazo. De acordo com essa nova política, os EUA
pretendiam que seus aliados fossem se tornando gradualmente independentes da ajuda
financeira provida por Washington. (WOO, 1991: 69-72)
Em vista da insustentabilidade da manutenção da política de substituição de
importações, em 1960 o governo de Taiwan, sob supervisão da United States Agency for
International Development (USAID), formulou uma série de medidas para estimular a política
de “promoção às exportações”. Além da manutenção das medidas da política de substituição de
importações, foram adotadas as seguintes medidas: 1) incentivos fiscais; 2) crédito especial para
financiar indústrias exportadoras; 3) criação de barreiras não tarifárias; 4) controle fiscal através
do congelamento dos gastos em defesa; 5) o estabelecimento de “zonas de processamento de
exportações”, nas quais empresas recebem benefícios como isenção de impostos (através da tax
rebate scheme) e infraestrutura voltada para exportação, eliminando os custos de transação e
risco; e 6) o estabelecimento de indústrias de upstream e midstream. (CHO, 2002: 8-9, 35-39;
LI, 1994: 46-50, 159-168; RANIS, 2002: 6)
Além das políticas de incentivo às exportações adotadas pelo KMT, houve outros
fatores que favoreceram as exportações de Taiwan. A existência de uma farta oferta de mão de
obra barata a ser explorada e a inexistência de legislações trabalhistas e ambientais favoreceram
a competividade das indústrias locais. Ademais, os EUA, com o intuito de beneficiar as
economias exportadoras asiáticas, abriram o seu próprio mercado consumidor interno para as
exportações de Taiwan, assim como para o Japão e a Coreia do Sul. Como resultado, as
exportações de Taiwan cresceram rapidamente, entre as décadas de 60 e 80. (CHO, 2002: 42-50)

Tabela 2: Exportações, Importações e Saldo Comercial de Taiwan entre 1969 e 1995 (em
milhões de dólares)
Ano Exportações Importações Saldo Comercial
1969-1971 4590 4581 9
1972-1974 13110 13272 -162
1975-1977 22836 22062 774
1978-1980 48601 45534 3067
1981-1983 69938 60375 9563
1984-1986 101044 66242 34802
1987-1989 180650 136920 43729
1990-1992 224860 189578 35282
1993-1995 289785 265953 23832
Fonte: CHO, 2002: 19. Elaborado pelo autor.

O contínuo aumento das exportações também foi acompanhado pela sofisticação dos
bens exportados que eram cada vez mais intensivos em tecnologia. A partir da década de 70, o
governo de Taiwan, com o intuito de agregar mais valor adicionado as suas exportações, passou
a adotar uma série de políticas de investimentos em P&D, educação, capital humano, institutos
de pesquisa e parques tecnológicos, resultou no surgimento de uma farta mão de obra
qualificada e de infraestrutura para a indústria domestica de alta tecnologia. Como resultado
dessa política de incentivo ao upgrade industrial, Taiwan passou a endogeneizar a produção de
bens intermediários, especialmente componentes eletrônicos, que antes eram importados,
127

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

favorecendo o surgimento de uma extensa rede de firmas de produção de bens intermediários e


manufaturas da indústria de eletrônicos (POON, 2002: 21; LI, 1994: 169-184). Ademais, a
necessidade das firmas americanas de terceirizarem o segmento de manufatura de suas cadeias
produtivas, levaram estas firmas a terceirizarem a produção para Taiwan, tanto de bens
intermediários, quanto de manufatura, beneficiando a indústria local. As exportações de bens de
alta intensidade tecnológica cresceram rapidamente a partir da década de 80. Em 1983, estes
bens correspondiam a apenas 19,3% do total das exportações de Taiwan, entretanto houve um
aumento gradual dessas exportações, já que em 2015 passou a corresponder a 53,3%. 1
Como resultado da política de promoção às exportações, a balança comercial de Taiwan,
que registrava déficits durante a década de 50 e 60, reverteu a tendência e passou a registrar
superávits comerciais crescentes a partir da década de 70 (ver Tabela 2). A melhora da balança
comercial de Taiwan possibilitou que o governo americano reduzisse gradualmente a ajuda
financeira provida ao governo de Taipé, até o fim do programa de auxílio em 1968 (ver Tabela
1). Durante o período de 1958 a 1986, o crescimento médio da economia foi de 10,2% ao ano.

3. Neoliberalismo e a Fragilidade Asiática

Embora os estados desenvolvimentistas asiáticos, como Taiwan, tenham atingido um


grau satisfatório de industrialização desde a década de 50, o desenvolvimentismo foi
gradualmente abandonado e suplantado pelo ideal neoliberal a partir do final da década de 80.
Com o colapso do sistema de Bretton Woods em 1971 e a sobrevalorização do dólar resultante
do choque de Volcker em 1979, o déficit comercial dos EUA aumentou substancialmente, e os
setores industriais americanos gravemente afetados pelo câmbio desfavorável passaram a
reivindicar a intervenção do governo americano a favor da desvalorização do dólar e da
retomada da competividade da indústria americana.
Haja vista o grande déficit comercial com os países leste asiático, como o Japão, Coréia
e Taiwan, desde a década de 80, os EUA passaram a exercer uma forte pressão a favor das
reformas institucionais neoliberais, passando a pregar a política de “fair trade” ao invés de “free
trade”. Devido à forte dependência não só comercial, como política e militar entre estes países
em relação aos EUA, a partir de meados da década de 80, os governos de Seul e Taipé passaram
a adotar as reformas neoliberais pressionadas por Washington. Como consequência, houve a
gradual desregulação de todos os seus sistemas cambiais, tarifários, e financeiros, além de
programas de privatizações de bancos públicos e remoção de barreiras não tarifárias (CHO,
2002: 51-54). O fato levou a uma forte redução da competividade das indústrias do leste
asiático, e o declínio gradual das taxas de crescimento na região.
Ademais, após o Japão aderir ao Acordo de Plaza em 1985, o Iene Japonês sofreu uma
súbita sobrevalorização, resultando na perda da competividade da indústria japonesa. Como
reação à perda da competividade, o Japão passou a deslocar as indústrias de maior intensidade
laboral para o sudeste asiático, especialmente para a Tailândia, Indonésia, Malásia e Filipinas,
onde a mão de obra é de baixo valor unitário. Como consequência, entre 1985 e 1994, houve
um enorme fluxo de investimentos japoneses para o sudeste asiático, fato que levou às altas
taxas de crescimento econômico naquela região. (MEDEIROS, 1998: 156-158)
Entretanto, a partir de meados da década de 90, o panorama de prosperidade no sudeste
asiático começou a entrar em crise. Em 1994, o governo chinês desvalorizou o câmbio em 35%,
fato que aumentou consideravelmente a competividade das exportações chinesas, reduzindo as
exportações dos países do sudeste asiático e, consequentemente, à redução da captação de
divisas internacionais através das exportações. Ademais, o mercado interno destes países passou
a ser inundado pela importação de bens manufaturados oriundos da China, deteriorando a
balança comercial. (MEDEIROS, 1998: 159, 162; YANG, 2001: 88)
Além disso, em 1995 houve a considerável desvalorização do Iene Japonês, fato que
resultou na recuperação parcial da competividade da indústria japonesa, levando à expansão do
1
Taiwan Statistical Data Book 2002; 2008; 2016, Council for Economic Planning and Development; National
Statistics Database, Republic of China (Taiwan)
128

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

superávit de serviços de fatores do Japão e à contração do fluxo de saída de investimentos. O


fato impactou negativamente os países do sudeste asiático, uma vez que a redução substancial
dos investimentos japoneses no sudeste asiáticos levou à deterioração acentuada na balança de
pagamentos destes países. (MEDEIROS, 1998: 159-164)
Em vista da redução gradual de entrada de divisas estrangeiras, seja por exportações ou
por entrada de investimentos estrangeiros, inúmeros países asiáticos passaram a captar divisas
internacionais, necessárias para realizar investimentos domésticos, através da elevação da taxa
de juros interna, que atraiu investimentos especulativos de curto prazo, resultando a elevação
gradativa do endividamento externo. Ademais, a adoção da política de âncora cambial e a
manutenção de um câmbio valorizado contribuíram para o gradual endividamento externo,
tornando o setor externo destes países cada vez mais debilitado, resultando o início dos ataques
especulativos em meados de 1997, que se alastrou pela Ásia. (YANG, 2001: 87-89)

4. A Imunidade Taiwanesa

A crise asiática de 1997 evidenciou inúmeras fragilidades das novas economias


industrializadas periféricas, além de má coordenação estatal de suas respectivas políticas fiscais,
monetárias e cambiais, diante da nova realidade do sistema financeiro mundial neoliberal. Em
meio ao caos financeiro que devastou a Ásia em 1997, Taiwan foi uma exceção, com uma base
estrutural única e um setor externo consolidado, conseguindo passar “ileso” à crise. A seguir
analisaremos os conjuntos de fatores que constituíram a “imunidade” de Taiwan.

4.1 - Taxa de Investimento e Poupança Interna

Na tentativa de sustentar e acelerar os investimentos domésticos, diante da gradual


redução dos investimentos estrangeiros, inúmeros países asiáticos optaram por outras formas de
captar divisas internacionais através de endividamento para financiar os seus investimentos
domésticos. (WU, 1998: 534-537)

Gráfico 1: Taxa de Crescimento Econômico, Taxa de Formação Bruta de Capital Fixo,


Poupança Doméstica e Saldo de Poupança

Fonte: CHEN Y.C., 1998: 12


129

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

A hipótese de que os países asiáticos estavam investindo valores bem superiores à


capacidade de captar capital através da sua própria poupança doméstica pode ser confirmada de
acordo com o gráfico 1. Todos os países, excetuando a Indonésia e Taiwan, possuíam taxa de
investimentos superiores à sua própria taxa de poupança. Este fato indica que os demais países
asiáticos estavam recorrendo ao capital internacional para financiar seus investimentos,
enquanto Taiwan e a Indonésia, possuíam excedente considerável de poupança, e tinham
capacidade de financiar os investimentos domésticos através da poupança doméstica. (CHEN
Y.C., 1998: 12-13)

4.2 - Conta Corrente

Um dos principais fatores que levaram aos ataques especulativos sobre o sistema
financeiro asiático de 1997 foi a extrema fragilidade das contas correntes dos países afetados
pela crise. Durante a década de 90, diversos países asiáticos registraram déficit em suas contas
correntes, indicando que estes países tiveram outras fontes de obtenção de dólares, não limitada
à obtenção de divisas através da balança comercial (severamente afetado pela concorrência
chinesa) e de serviços, para equilibrar a balança de pagamentos. A política adotada foi a
captação de capital através da atração de capital estrangeiro de curto prazo e endividamento,
sustentado por altas taxas de juros, para financiar os seus respectivos investimentos domésticos.
(WU, 1998: 534, 538)

Gráfico 2: Saldo da Conta Corrente (1990-1996, em bilhões de dólares)

Fonte: CHEN Y.C., 1998: 10

O único país que não registrou déficit no saldo da conta corrente foi Taiwan. Desde a
década de 70, Taiwan sustentou o superávit de sua balança de conta corrente, devido ao sucesso
de sua política de promoção de exportações. Ademais, a bem-sucedida transição das indústrias
de exportação de bens intensivos em trabalho para bens intensivos em tecnologia favoreceu
Taiwan a escapar da competição chinesa durante a década de 90, e manter o saldo da conta
corrente positiva, sem ter que recorrer ao capital internacional para financiar os próprios
investimentos domésticos. (YANG, 2001: 91-92; WU, 1998: 538)
130

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

4.3 - Dívida Externa e Reservas Internacionais

Entre os países periféricos em geral, a capacidade de investimento esbarra seriamente na


problemática da restrição externa. No caso dos países asiáticos, a atração limitada de
investimentos estrangeiros levou inúmeros países, que almejavam o rápido crescimento
econômico, a financiar seus investimentos através da contração de um endividamento externo.
O crescente endividamento foi acompanhado pela manutenção das reservas de divisas
internacionais em baixo nível. (YANG, 2001: 89, WU, 1998: 543-544)

Gráfico 3: Dívida Externa e Reservas Internacionais dos Países Emergentes Asiáticos


entre janeiro e junho de 1997

Fonte: CHEN Y.C., 1998: 11

O único país que foi exceção à tendência de elevação do endividamento externo e de


manutenção de baixos níveis de reservas internacionais foi Taiwan, devidos às suas políticas
peculiaridades. Após a expulsão de Taiwan da ONU em 1971, a China passou a pressionar
politicamente a exclusão de Taiwan de todas as organizações internacionais, inclusive as
financeiras como o Banco Mundial e o FMI. Após as reformas institucionais neoliberais em
meados da década de 80, que fragilizaram o sistema financeiro doméstico, aliadas à
incapacidade de obter apoio de organismos multilaterais em caso de crises, o governo de Taiwan
acabou sendo forçado a acumular divisas internacionais e a manter o endividamento a baixo
nível, com o objetivo de se proteger financeiramente em caso de crise. (YANG, 2001: 97-98;
WU, 1998: 541-543)
Como se pode observar no gráfico 3, a dívida externa dos países emergentes asiáticos,
excluindo Taiwan, representava cerca de 2,5 vezes mais do que as suas próprias reservas
internacionais, enquanto Taiwan possuía reservas internacionais que representavam mais de 3
vezes a própria dívida externa. A vulnerabilidade em relação ao baixo estoque de reservas
internacionais em relação à dívida externa evidenciava a incapacidade destes países de
sustentarem os seus respectivos câmbios valorizados a longo prazo, e foi o fator decisivo que
levou aos ataques especulativos contra os sistemas financeiros asiáticos. O fato de Taiwan
possuir reservas internacionais muito superiores a própria dívida desestimulou os ataques
especulativos a Taiwan. (YANG, 2001: 95; WU, 1998: 538)

4.4 - Endividamento do Setor Privado: O Caso Coreano

As origens da crise financeira na Coreia foram distintas do caso do sudeste asiático.


Enquanto os países do sudeste asiático foram gravemente afetados pela retração dos
investimentos japoneses em 1995, na Coreia estes investimentos jamais foram relevantes. A
maior causa de a Coreia ter entrado na crise em 1997 foi o endividamento dos conglomerados
131

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

domésticos. Devido ao processo de desregulamentação financeira a partir de 1991, houve a


apreciação gradativa do Won Coreano em relação ao dólar, fato que levou a queda da
competividade das exportações coreanas, principalmente em relação à concorrência chinesa.
Ademais, a Coreia mantinha um alto grau de déficit comercial em relação ao Japão,
especialmente devido à importação de bens intermediários e de capitais. (MEDEIROS, 1998:
163-168)
Em vista da necessidade de aumentar a competividade da indústria coreana, através da
elevação da intensidade tecnológica das exportações, e de reduzir o déficit comercial em relação
ao Japão, especialmente através da substituição de importações de componentes eletrônicos, o
governo coreano passou a auxiliar os conglomerados domésticos, a financiarem o upgrade
industrial através do endividamento externo. Durante a década de 90, houve uma substancial
elevação do endividamento dos conglomerados e da dívida externa coreana, que foi também
influenciada pela confiança excessiva do governo coreano em relação aos resultados a curto
prazo. Além da Coreia, a Indonésia adotou políticas similares. (CHEN Y.C., 1998: 14)
Entretanto, o governo coreano não foi capaz de aumentar as exportações de bens de
maior intensidade tecnológica, no mesmo ritmo que perdia os mercados nas exportações de bens
tradicionais, fato que gerou resultados financeiros dos conglomerados aquém ao esperado.
Como consequência, em meio à crise financeira que estava se alastrando pela Ásia, o mercado
financeiro passou a especular em relação à capacidade do governo coreano de liquidar as
dívidas contraídas. Em vista da contração de uma alta de endividamento externo e baixo estoque
de divisas externas, a Coreia acabou se tornando um alvo fácil para os ataques especulativos.
(CHEN Y.C., 1998: 14; MEDEIROS, 1998: 165-168; YANG, 2001: 90)
Ao contrário do caso coreano, o governo de Taiwan não utilizou fundos governamentais
para beneficiar determinados grupos econômicos. O fato deve-se a estrutura peculiar da
indústria de Taiwan, devido à inclinação socialista do KMT e a forte repressão contra o
surgimento de forças políticas de oposição. A formação dos tradicionais conglomerados
asiáticos foi desestimulada em Taiwan, e historicamente a industrialização foi liderada por
pequenas e médias empresas. Devido a este fato, governo de Taiwan preferia deixar as firmas
deficitárias decretarem falência, a conceder empréstimos preferenciais, como ocorreu no caso
coreano. (CHEN Y.C., 1998: 14-15)

4.5 – A Atuação do Banco Central e a Variação Cambial

Em meios aos ataques especulativos que atingiram os sistemas financeiros asiáticos em


meados de 1997, os bancos centrais destes países institivamente atuaram em defesa na
manutenção da paridade cambial, seja através da oferta de divisas internacionais de seu próprio
estoque de reservas de divisas, ou através do aumento gradual da taxa de juros.
Entretanto, devido a descrença dos investidores internacionais em relação à capacidade dos
estados asiáticos de conseguirem manter a paridade cambial, por causa dos baixos estoques de
divisas internacionais, houve um processo desenfreado de saída de capitais. Em meio ao caos
generalizado, os bancos centrais asiáticos não foram capazes de defender a paridade cambial,
resultando no rápido esgotamento das divisas, ao fim da âncora cambial, e a adoção do câmbio
flutuante.
132

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Gráfico 4: Evolução da Taxa de Cambio entre Janeiro de 1997 e Maio de 1998

Fonte: CHEN Y.C.., 1998: 4

A questão cambial em Taiwan, porém, foi tratada de outra forma. Quando os ataques
especulativos atingiram o sistema financeiro de Taiwan a partir de julho de 1997, inicialmente o
Banco Central de Taiwan tentou defender o câmbio, realizando gastos de cerca de 7 bilhões de
dólares para manter a paridade em relação ao dólar. Entretanto, devido à insistência dos ataques
especulativos, o banco central, em 17 de outubro, abandonou a câmbio fixo para adotar o
câmbio flutuante. (CHEN C.L. 2000, 56-59; YANG, 2001: 84-85; WU, 1998: 530)
O abandono do câmbio fixo em Taiwan, entretanto, não impactou seriamente a taxa de
câmbio, comparado à desvalorização acentuada do cambio de seus vizinhos asiáticos. A
principal razão pela qual Taiwan resistiu aos ataques foi a existência de um setor externo
consolidado, com superávit persistente na conta corrente, e uma dívida externa bem inferior ao
estoque de divisas internacionais, que dificilmente sofreria o esgotamento das reservas de
divisas internacionais, o que desestimulou os ataques ao sistema financeiro de Taiwan. Entre o
período de julho de 1997 e janeiro de 1998, a Rúpia Indonésia desvalorizou 70%; o Bath
Tailandês, 55%; o Won Sul-coreano, 50%; e o Ringgit Malaio, 42%; enquanto o Novo Dólar
Taiwanês se desvalorizou apenas 15%. (CHEN C.Y., 1998: 3)

Conclusão

Como pudemos observar, Taiwan possuiu historicamente um problema crônico em


relação ao seu balanço de pagamentos, e foi extremamente dependente da exportação de
commodities agrícolas para captar divisas internacionais até 1937. Durante o período de
substituição de importações (1937-1958), a industrialização só foi bem-sucedida devido às
consequências geopolíticas internacionais, como a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. A
superação da fragilidade do setor externo, somente veio a partir da década de 60, através da
implementação da política de incentivo às exportações, políticas de upgrade industrial, e
133

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

novamente devido a condições políticas externas favoráveis, como a abertura do mercado


americano.
Embora a trajetórias de crescimento econômico entre Taiwan e a Coreia sejam
similares, a estrutura econômica e industrial entre os dois países era completamente diferente.
Devido ao isolamento internacional desde a década de 70, Taiwan foi obrigada a acumular
enormes reservas de divisas internacionais e desestimular o endividamento externo, com o
intuito de se proteger de qualquer eventual crise cambial. Ademais, as grandes taxas de
poupança interna, a postura conservadora do governo em relação à politica industrial, como a
não concessão de empréstimos preferenciais para firmas em dificuldades financeiras, e a
atuação prudente do banco central em não defender a paridade da moeda em relação ao dólar,
impediram que os ataques especulativos fossem bem-sucedidos em Taiwan.
Embora Taiwan não fosse capaz de escapar completamente dos efeitos da crise de 1997,
o país foi um dos menos afetados na região. Ainda que as reformas institucionais neoliberais
tenham comprometido a autonomia dos estados desenvolvimentistas de determinarem suas
próprias políticas monetárias, fiscais e cambiais, e a capacidade de manter altas taxas de
crescimento econômico a longo prazo, Taiwan demonstrou a capacidade de se adaptar e escapar
das armadilhas da nova era neoliberal.
134

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Referências Bibliográficas

AMSDEN, ALICE H. O Estado e o Desenvolvimento Econômico de Formosa. Revista Economia


Política, vol. 7, No 4, Outubro/Dezembro/1987, p. 128-141.
AMSDEN, ALICE H.; CHU, WAN-WEN. Upscaling: Recasting Old Theories to Suit Late
Industrializers. In: CHOW, PETER C.Y. (ORG). Taiwan in the Global Economy: From an
Agrarian Economy to an Exporter of High-Tech Products. Praeger Publisher, 2002, p. 23-38.
CHEN, CHYONG L. Why Has Taiwan Been Immune to the Asian Financial Crisis? Asia-Pacific
Financial Markets, 2000, Volume 7, Number 1, p. 45-68.
CHEN YI-CHI. Asian Crisis Project, Country Report on Taiwan. University of Washington,
October 13, 1998. Disponivel em: https://faculty.washington.edu/karyiu/Asia/booklet/tn-report.pdf.
Acessado em 28 de junho de 2017.
CHO, HUI WAN. Taiwan´s Application to GATT/WTO: Significance of Multilateralism for an
Unrecognized State. Praeger Publisher, 2002.
CHOW, PETER C. Y. From Dependency to Interdependency: Taiwan´s Development Path toward a
Newly Industrialized Country. In: CHOW, PETER C.Y. (ORG). Taiwan in the Global Economy:
From an Agrarian Economy to an Exporter of High-Tech Products. Praeger Publisher, 2002, p.
241-278.
FEI, JOHN C. H., GUSTAV RANIS & SHIRLEY KUO. Growth with Equity: The Taiwan Case.
Oxford University Press, Oxford, 1979
HSIAO, FRANK S.T.; HSIAO, MEI-CHU W. Taiwan in the Global Economy: Past, Present, and
Future. In: CHOW, PETER C.Y. (ORG). Taiwan in the Global Economy: From an Agrarian
Economy to an Exporter of High-Tech Products. Praeger Publisher, 2002.
LI, KUO-TING. The Evolution of Policy Behind Taiwan´s Development Success. World Scientific
2nd Edition, 1995.

MURAOKA, TERUZO. Colonization and NIEs´lization of Taiwan´s Economy Blending with Japan
´s Globalization: A Global Perspective. In: CHOW, PETER C.Y. (ORG). Taiwan in the Global
Economy: From an Agrarian Economy to an Exporter of High-Tech Products. Praeger
Publisher, 2002, p. 223-240.
POON, TERESA SHUK-CHING. Competition and Cooperation in Taiwan´s Information
Technology Industry: Inter-Firm Networks and Industrial Upgrading. Praeger Publisher, 2003.

RANIS, GUSTAV. Lessons from Taiwan´s Performance: Neither Miracle nor Crisis. In: CHOW,
PETER C.Y. (ORG). Taiwan in the Global Economy: From an Agrarian Economy to an
Exporter of High-Tech Products. Praeger Publisher, 2002, p. 3-22.
TSAI, HENRY SHIH-SHAN. Maritime Taiwan: Historical Encounter with the East and the
West. Armonk, NY: M. E. Sharpe, 2009.
YANG, YA-HWEI. Riding the Wave of the Asian Financial Crisis: Taiwan´s Lessons for Emerging
Economies. In: CHEN CHIU, LEE-IN (ORG). Taiwan, East Asia and Copenhagen Commitment.
UN NGO Policy Series No.1, Taipei: CIER Press, May 2001, p. 81-110.
WOO, JUNG-EN. Race to the Swift: State and Finance in Korean Industrialization. New York:
Columbia University Press, 1991.
WU, RONG-I. Taiwan's Role in the Asian Financial Crisis. Review of Pacific Basin Financial
Market and Policies, Volume 1, Number 4, 1998, p. 529-544.
135

O comércio de abastecimento de carnes


verdes para o Rio de Janeiro no início do
século XIX: uma via para a acumulação
mercantil1
Pedro Henrique Pedreira Campos2

Resumo

Este artigo analisa o comércio interno realizado no Brasil na primeira metade do século XIX, enfatizando
o abastecimento de carnes verdes para a cidade do Rio de Janeiro. Abordando a bibliografia que se dedica
ao estudo do tema, bem como acessando fontes primárias, percebemos que, ao contrário de certos antigos
postulados historiográficos, o comércio doméstico dispunha no período de razoável dinamismo e
constituiu uma via para a acumulação mercantil. Notamos que os capitais acumulados no comércio de
abastecimento da cidade do Rio de Janeiro formaram recursos que depois foram revertidos no processo de
industrialização do país, na formação do capital bancário nacional e na montagem de unidades produtoras
da economia para exportação de gêneros primários para o mercado internacional.

Palavras-chave: História econômico-social; comércio de abastecimento; Rio de Janeiro; carnes verdes;


século XIX.

Abstract
This article analyzes the internal commerce carried out in Brazil throughout the 19th century,
emphasizing the supply of fresh meat to the city of Rio de Janeiro. By approaching the bibliography
devoted to the study of the subject, as well as accessing primary sources, we perceive that, contrary to
certain old historiographical postulates, domestic commerce had a period of reasonable dynamism and
constituted a way for mercantile accumulation. We noticed that the capital accumulated in the supply
trade of the city of Rio de Janeiro formed resources that were later reversed in the process of
industrialization of the country, in the formation of the national banking capital and in the assembly of
units producing the economy for export of primary products to the international market.

Keywords: Economic-social history; supply trade; Rio de Janeiro; fresh meat; 19th century.

Classificação JEL: N56, O13.

1
Artigo apresentado em 24/05/2018. Aprovado em 30/06/2018.

2
Professor do Departamento de História e Relações Internacionais da UFRRJ. A pesquisa que deu origem a este
artigo contou com o apoio do CNPq e da Faperj. Correio eletrônico: phpcampos@yahoo.com.br.
136

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Tradicionalmente, a formação do capital industrial e financeiro no Brasil é remetida ao


acúmulo de recursos gerado pela produção e comercialização de artigos de exportação, como no
caso clássico da cafeicultura3. Essa explicação da origem do capital acumulado no Brasil pode
ser entendida como parcialmente válida, visto que é adequada de certa forma ao processo de
conformação do capital industrial e bancário paulista, mas não abarca outros processos de
gestação de capitais, não-relacionados à produção voltada para o comércio exterior. Tentamos
nesse breve ensaio resgatar a importância do comércio interno para a formação originária de
capitais no Brasil, focando as vias mercantis para o abastecimento da cidade do Rio de Janeiro
na primeira metade do século XIX, acessando fontes primárias e secundárias e problematizando
em particular o caso das carnes verdes4.

Na primeira parte do artigo, estabelecemos um breve balanço da história e historiografia


do comércio de abastecimento na economia brasileira durante a primeira metade do século XIX,
em particular os estudos dedicados à análise do processo de suprimento de gêneros para a
cidade do Rio de Janeiro no período. Na segunda parte, analisamos o caso particular do
abastecimento de carnes verdes para a urbe após a chegada da família real portuguesa e da corte,
em 1808. Para isso, acessamos e analisamos dados qualitativos e quantitativos de fontes
primárias, obtidas em documentos oficiais mantidos em arquivos e através de relatos de
viajantes que estiveram na cidade nesse período. Com isso, percebemos que se tratava de um
comércio com significativa importância e que proporcionou uma acumulação de capital de
aspecto altamente concentrado, contribuindo para a formação do capital industrial e bancário
brasileiro, além de ter provido recursos para a instalação de plantagens 5 voltadas para a
produção e exportação de produtos para o mercado internacional.

História e historiografia do comércio de abastecimento para a cidade do Rio de Janeiro na


primeira metade do século XIX

Maria Yedda Linhares e Francisco Carlos Teixeira da Silva, em livro clássico datado de
1981, reservaram um capítulo inteiro para a questão da produção de alimentos em uma
economia colonial (Linhares; Silva, 1981, p. 107-170). Demonstravam que o comércio de
abastecimento para as áreas urbanas nesse tipo de economia se fazia, em geral, de forma
problemática, com crises de escassez e carestia correntes. A explicação para esse estado de
fragilidade no abastecimento estava na própria condição colonial da economia em questão, já
que os proprietários rurais tendiam a direcionar a sua produção preferencialmente para os
artigos de exportação, cujo alto preço fazia deles itens mais rentáveis que os alimentos
produzidos para o mercado interno. Se o Brasil permaneceu sob a condição de país
principalmente primário-exportador durante o século XIX, podendo assim ser considerado uma
economia colonial, não se pode afirmar que o comércio de abastecimento era irrelevante no
período, como mostraram diversos estudos recentes6.

Já no século XVIII, uma poderosa teia econômica havia sido criada para abastecer a
região das minas de ouro e diamantes no interior da América portuguesa. Reses iam do Nordeste
e, depois, do Sul para Minas Gerais; mantimentos saíam de São Paulo para a região e da cidade
do Rio de Janeiro partiam as importações, os escravos e diversos artigos básicos produzidos
nessa capitania, depois da abertura do Caminho Novo. Essa dinâmica econômica em torno da
produção das minas ativava a especialização de diversas regiões da colônia em um comércio de

3
Para isso, ver Cano, 1977; Silva, 1976; Mello, 1982; Mendonça, 1995.

4
Carne verde, ou carne fresca, é a carne obtida do gado bovino recém-abatido. Era uma forma comum de alimentação
nesse período, assim como a carne seca, obtida do gado bovino e salgada para que não estragasse.

5
Sobre o conceito de plantagem ver Gorender, 1978.

6
Para uma revisão bibliográfica dos mesmos, ver Campos, 2012, p. 17-39.
137

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

abastecimento vigoroso integrando diversas capitanias, o que foi pesquisado pela professora
Mafalda Zemella, em um texto pioneiro (Zemella, 1990 [1951]).

Com o escasseamento paulatino de ouro e diamantes em Minas Gerais, o fluxo de


abastecimento entre Rio e Minas se inverteu. A capitania do Rio de Janeiro, antes a principal
produtora e abastecedora de artigos de consumo para a região aurífera, passou a receber
alimentos e produtos diversos da capitania mineira, principalmente da sua região Sul, a chamada
Comarca do Rio das Mortes. As regiões da capitania do Rio antes especializadas na produção de
gêneros primários para o suprimento das áreas mineradoras de ouro passaram a fornecer itens
para exportação. A cidade do Rio de Janeiro, que era desde a segunda metade do século XVIII
epicentro econômico e político da América portuguesa, teve um grande crescimento
demográfico no período, tornando-se a mais populosa cidade da colônia desde a década de
1780. A partir de então, o Rio virou um centro urbano que desenvolvia comércio com diversas
regiões da América portuguesa e que era abastecido por capitanias próximas e mais distantes da
região do Centro-Sul (Lenharo, 1993 [1979]; Campos, 2010).

Portanto, essa preeminência econômica da cidade e o fato de ser centro aglutinador de


uma produção que se desenvolvia para fora da capitania é algo anterior à chegada da família
real, em 1808. Desde fins do século XVIII, por exemplo, a cidade era suprida de gado bovino do
Rio Grande do Sul e da produção de alimentos de Minas Gerais (Campos, 2010). Já estava
estabelecido na cidade uma importante comunidade de homens de negócio 7 com transações no
comércio de importação e exportação, no comércio de abastecimento por mar e por terra, na
África e outras localidades do Império português, sendo a cidade desde então a principal
importadora de escravos dentre os portos brasileiros.

Isso não implica em afirmar que não houve uma ruptura demográfica e econômica em
1808, com chegada da família real e da Corte portuguesa. Apesar da grande discussão acerca do
número de pessoas que chegaram ao Rio naquele ano, pode-se afirmar que houve ali um marco
no desenvolvimento da população da cidade, bem como do seu comércio de abastecimento.
Alguns números podem comprovar isso. Segundo os censos havidos no período, a população da
área urbana passou de 43.376 em 1799 para 79.321 em 1821, em um crescimento anual de 2,8%
da população, ao passo que, entre 1821 e 1838, o incremento demográfico foi da ordem de 1,2%
ao ano. Houve ainda um grande crescimento da área suburbana que, não computada no
recenseamento de 1799, contava com 33.374 habitantes em 1821, sendo comuns as notícias de
crescimento dessa região nas fontes do período (Linhares; Levy, 1973). Apesar dos números não
serem plenamente confiáveis, o espantoso aumento demográfico do período é confirmado por
diversos viajantes, como é o caso de Luccock (1975 [1820]).

Além de toda a família real e da corte portuguesa que se instalou na cidade, passaram a
morar e a se alimentar na urbe uma série de estrangeiros e uma grande população flutuante. A
população portuária do Rio de Janeiro aumentou muito nesse período, sendo significativo para
isso o fato de que aportaram na cidade 778 navios em 1807 e mais de 5 mil em 1811. Delso
Renault mostra como havia 90 navios estrangeiros na cidade em 1808 e um total de 422 em
1810. Esse aumento do número de navios remete ao crescimento da quantidade de visitantes na
cidade e também à elevação da demanda por alimentos e outros itens naquele momento
(Renault, 1985, p. 24-25; Linhares, 1979, p. 159-164; Lamarão, 1991, p. 37).

A chegada da Corte portuguesa e dos estrangeiros levou também a um grande


incremento na entrada de escravos ao porto, que se elevou de 9.602 em 1808 para 18.677 em
1810, em um aumento de quase 100% em apenas dois anos (Fragoso, 1992, p. 145). Essa
alteração demográfica e econômica teve repercussão direta sobre o comércio de abastecimento.
Pelo registro de Lorena, em São Paulo, onde eram contadas as reses bovinas vindas do Sul do
território indo para a capital, passaram 7.663 cabeças de gado em 1806 e 13.409 em 1810
7
Sobre a comunidade de negociantes cariocas no período, ver PIÑEIRO, 2014.
138

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

(Marcondes, 2000, p. 7). Outros números poderiam ser citados, mas fica evidente que 1808
representa uma ruptura em termos demográficos e econômicos para a cidade do Rio de Janeiro
que, já sendo epicentro dinâmico da América portuguesa com conexões econômicas com outras
capitanias, passa a ter um intercâmbio comercial com outras regiões intensificado a partir de
então.

Com a chegada da Corte, solidificou-se essa conexão econômica da cidade do Rio de


Janeiro com o Centro-Sul da América portuguesa, através do comércio terrestre e de cabotagem,
no que a professora Maria Odila Dias chamou de interiorização da metrópole. O Rio de Janeiro
e o Centro-Sul passaram a ser a metrópole do Império, ao passo que o Norte da América
portuguesa e outras regiões seguiram no seu estatuto colonial, subordinadas. Apesar de
pesquisas posteriores demonstrarem que esses fluxos comerciais já existiam, a partir de então,
eles ganharam nova monta. A mesma autora afirmou que também teve início nesse período o
processo de enraizamento dos interesses mercantis portugueses na cidade do Rio de Janeiro
(Dias, 1986, p. 60-84), afirmação que parece ser válida só parcialmente, já que estudos
demonstraram como a maior parte da comunidade mercantil do Rio de Janeiro da época joanina
já se encontrava assentada na cidade antes de 1808. João Fragoso afirma que aproximadamente
70% dos negociantes do Rio entre 1808 e 1821 já se encontravam na cidade antes da chegada da
Corte (Fragoso, 1992, p. 215-216).

Uma das mais importantes áreas de investimento desse grupo mercantil era o comércio
de abastecimento para a nova Corte, visto que, além de terem chegado à cidade milhares de
pessoas, os hábitos de consumo desses novos habitantes demandavam produtos mais
sofisticados e caros, o que possibilitava um comércio ainda mais lucrativo. Esses homens de
negócio gozavam de boas relações com membros do aparelho do Estado português instalado na
cidade, muitas vezes sendo eles mesmos titulares de cargos relevantes na hierarquia política. A
partir dessas conexões e da penetração do grupo mercantil no aparelho de Estado, os
negociantes obtiveram políticas favoráveis para o comércio de abastecimento no período
joanino e no Primeiro Império. Medidas como a proibição da presença de estrangeiros no
comércio de cabotagem e por terra, a proibição do recrutamento de tropeiros e boiadeiros que
estivessem carregando mantimentos nos caminhos e diversas isenções de impostos foram
comuns principalmente nos anos após a chegada da Corte, o que, se por um lado facilitou a
regularidade do abastecimento urbano, por outro, beneficiou diretamente o segmento mercantil
envolvido no negócio (Lobo, 1978, vol. I, p. 81-123).

No estudo clássico sobre o assunto, Alcir Lenharo afirma que, a partir de 1808, havia
três fontes de abastecimento para a cidade do Rio de Janeiro: a externa, com importações de
outros países; a interna terrestre, feita através dos caminhos; e a interna marítima, realizada no
comércio costeiro, de cabotagem (Lenharo, 1993, p. 20). As importações de outros países,
sobretudo a Inglaterra, só fizeram se intensificar a partir de 1808. Olga Pantaleão mostrou como
eram importados, no período, não só tecidos e roupas, mas também manteiga, cerveja, alimentos
diversos e até aparelhos para esquiar (Pantaleão, 1993, p. 64-99). Essa febre de produtos
estrangeiros era fruto da abertura dos portos e foi ainda mais facilitada com as tarifas de 1810.
Porém, a maioria desses produtos era consumida por uma estreita faixa dominante da
população, com maior capacidade de compra. E, mesmo assim, a maioria dos produtos
essenciais, como os alimentos, permanecia sendo suprida a partir da produção interna.

O comércio de cabotagem era feito com os principais portos da costa do Brasil.


Chegavam ao porto do Rio navios e barcos vindos de diversos portos fluminenses, trazendo uma
importante produção de artigos alimentícios das diversas vilas da capitania e, depois, província
do Rio de Janeiro. A produção nessa região foi reativada com a chegada da Corte. A pesquisa de
mestrado de Márcia Motta, por exemplo, mostra como a região das bandas d’além, que
corresponde hoje aos municípios de São Gonçalo e Niterói, era decadente no período logo
anterior a 1808, sofrendo um revigoramento econômico e agrícola a partir da chegada da família
139

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

real, com a formação de uma produção de produtos básicos de alimentação para a população da
nova Corte. Chegavam da região em especial alguns produtos altamente perecíveis, como leite,
flores, frutas e verduras, que não podiam ser trazidos de regiões muito longínquas com as
técnicas vigentes naquele período. A produção era feita principalmente em grandes propriedades
com escravos e arrendatários (Motta, 1989; Motta, 1997).

Ana Maria dos Santos nota que, do porto das Caixas, situado em Itaboraí, saíam em
direção ao mercado da Corte, no início do século XIX, alimentos produzidos nas regiões de
Itaboraí, Rio Bonito, Macacu, Capivari, Saquarema, Maricá, Campos, Macaé, Cantagalo e Nova
Friburgo (Santos, 1974). João Fragoso relaciona uma série de regiões na capitania
especializadas na produção para o abastecimento no período, citando, além das regiões
indicadas por Ana Maria dos Santos, Rio do Ouro, Cabo Frio e Inhomirim (Fragoso, 1992, p.
83-93). Dentre esses locais, há o caso de Nova Friburgo, colônia de suíços criada em 1819 com
o objetivo principal de abastecer o Rio de Janeiro, que também embarcava a sua produção pelo
porto das Caixas (Gouvêa, 2005, p. 705-752; Lobo, 1979, p. 37-51; Mayer, 2003). Portanto, a
capitania, e depois província, do Rio de Janeiro, que havia perdido a sua função de produção de
artigos básicos para o abastecimento urbano em fins do século XIX, viu a reorganização desse
papel com a chegada da Corte, agora com o objetivo de abastecer a cidade do Rio de Janeiro e
não mais as regiões produtoras de ouro.

Ainda no comércio de cabotagem, diversos portos do Nordeste enviavam produtos e


compravam outros da cidade, porém os números mais elevados dos trâmites mercantis são
encontrados com os portos do Centro-Sul, já que a vinculação comercial com os portos da
Bahia, Pernambuco e outros não parece ter sido profunda o suficiente para caracterizar, no
século XIX, um mercado nacional com epicentro no Rio. Dentre as regiões do Centro-Sul, os
portos que tinham os mais altos índices de troca com o Rio de Janeiro eram os do Rio Grande
do Sul (Luccock, 1975 [1820], p. 57). Esses eram muito importantes para o abastecimento da
capital por suas exportações de charque e outros produtos pecuários, além de trigo e outros itens
agrícolas. O Rio Grande do Sul era a principal província abastecedora da cidade do Rio no
século XIX ao lado de Minas Gerais, porém, ao contrário dessa, combinava um comércio
terrestre com o comércio por cabotagem.

O comércio de cabotagem era, portanto, uma das vias mais importantes do


abastecimento do Rio de Janeiro no século XIX, envolvendo altas somas de recursos. Foi área
especial de acumulação mercantil, dado que, além dos lucros possibilitados, o comércio feito
por nacionais gozou de proteção estatal contra a entrada de estrangeiros (Prado; Luizetto, 1981,
p. 159-196).

O comércio feito por terra era talvez o mais importante dos três, por envolver grandes
contingentes de tropas e boiadas. As tropas eram os conjuntos de mulas que traziam para a
cidade do Rio de Janeiro os diversos produtos oriundos de outras regiões e as boiadas, as
caravanas de bois que eram levados à capital para matança e consumo. As principais regiões que
abasteciam o Rio por terra eram Rio Grande do Sul e Minas Gerais e, em menor escala, o
continente de Curitiba e as províncias a Oeste de Minas. O continente de Curitiba fazia parte da
capitania, e depois província, de São Paulo, correspondendo aos atuais estados de Santa
Catarina e Paraná. As províncias a Oeste de Minas no período eram Goiás e Mato Grosso, que
tinham como principal atividade a produção e o envio de reses para a capital, passando por
Minas Gerais (Lenharo, 1993; Campos, 2010).

As tropas foram abordadas no estudo de Alcir Lenharo e eram trazidos nelas produtos
como toucinho, charque, farinha de mandioca, feijão, milho e outros produtos essenciais. Tão
poderosos eram os tropeiros mineiros e o fluxo comercial entre a província e a capital que, em
1842, os negociantes envolvidos nesse comércio se recusaram a apoiar os levantes liberais e as
propostas de autonomia da província frente ao Rio de Janeiro. O poder desse grupo social era
140

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

expresso, no período, em veículos próprios de imprensa e em grupos políticos organizados,


sendo o comércio de abastecimento, nesse caso, um importante fator de integração não só
econômica, mas também política entre Rio e Minas, dada a recusa do grupo pelas propostas de
emancipação regional (Lenharo, 1993, p. 92-104).

Carlos Eduardo Suprinyak fez um estudo mais recente sobre o mercado de animais de
carga no Brasil do século XIX, atualizando os estudos feitos anteriormente por Lenharo e
estendendo o recorte para a segunda metade do século XIX. Usando diversificadas fontes
primárias e de posse do método quantitativo, o autor desenvolveu séries sobre a passagem das
tropas no Centro-Sul do território brasileiro ao longo do Império. A partir de análise dos dados,
o autor apresenta o quadro de um comércio altamente complexo, bastante concentrado e que
tinha uma importância fundamental para o transporte de cargas do Brasil no século XIX,
servindo tanto à economia de abastecimento como à produção voltada para exportação
(Suprinyak, 2008)

Se essas tropas e boiadas eram integradas por agentes escravos e livres, o mesmo
ocorria na produção desses produtos de abastecimento. Alcir Lenharo mostra como a produção
para suprimento da capital era feita muitas vezes em médias e grandes propriedades utilizando
força de trabalho escrava. Também no Sul do país, as grandes propriedades estancieiras usavam
escravos campeiros para a produção pecuária (Maestri, 2002; Farinatti, 2006, p. 1-21),
ocorrendo o mesmo em Goiás e em outras regiões produtoras (Funes, 1983). Muitos desses
gêneros, no entanto, não eram produzidos com controle pleno dos proprietários de terra.
Eurípedes Funes e outros autores mostraram como eram comuns os chamados lotes escravos, o
que Ciro Cardoso intitulou de "brecha camponesa da escravidão" (Cardoso, 1987; Cardoso,
1982), pequenas porções da terra ou da produção pertencentes aos escravos e que, muitas vezes,
eram colocadas no mercado, chegando inclusive aos centros consumidores como o Rio de
Janeiro. Portanto, se boa parte dos itens consumidos na cidade do Rio eram produzidos em
fazendas por escravos, alguns deles foram gerados pelos cativos em seus lotes particulares,
mantidos pelos senhores como forma de diminuição de custo daquela força de trabalho
(Campos, 2010, p. 13-30).

Os caminhos que levavam à capital eram vários. De Minas Gerais vinham o Caminho
Novo, a Estrada do Comércio e a Estrada da Polícia. O Caminho Novo foi construído em 1701
devido à mineração e sofreu inúmeros melhoramentos no século XVIII, o que fez com que ele
deixasse de ser apenas um caminho de pedestres para se tornar uma grande rota para tropeiros e
boiadas que demoravam apenas 10 dias para chegar às antigas regiões auríferas (Zemella, 1990,
p. 115-120). Esse caminho tinha variantes, o Caminho do Couto e o Caminho da Terra, que
auxiliavam a integração das diversas regiões de Minas ao porto da Estrela e à cidade do Rio de
Janeiro. A Estrada da Polícia e a Estrada do Comércio foram construídas na época joanina e
projetadas pela Junta de Comércio. A primeira, que passava por São João del Rei, era a mais
importante para o comércio de boiadas, daí ser chamada comumente de caminho das boiadas
(Lenharo, 1993, p. 48-52).

A integração do Sul com o Rio de Janeiro também teve início em função da mineração.
Com a construção do Caminho Novo, São Paulo passou a ter um contato maior com o Rio de
Janeiro e um caminho foi construído entre as duas cidades em 1733. Por causa do abastecimento
de reses, mulas e cavalos do Sul para as minas, foi construída uma estrada de Viamão até São
Paulo em 1738, ligando, dessa forma, o Rio Grande do Sul e o Continente de Curitiba à cidade
do Rio de Janeiro. Essa estrada, que ligava o Rio Grande de São Pedro ao Rio, também sofreu
melhoramentos durante a época joanina (Zemella, 1990 [1951]; Campos, 2010).

O período da regência joanina e do reinado de D. João VI teve políticas de grande


incremento e de conservação para os caminhos que levavam à Corte. A política teve continuação
na época de D. Pedro I, sendo interrompida em 1831. Essa integração, aliada a outros fatores
141

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

como a proibição da presença de estrangeiros no comércio interno e o estudo sobre a fauna e a


flora brasileira, levou Geraldo Beauclair Oliveira a falar de uma marcha da construção da
economia nacional. Essa marcha não prosseguiria até a consolidação autônoma da economia,
sendo interrompida em função da emergência de um grupo oposto às frações de classe que
pleiteavam essa integração. O ano de 1860 foi um importante marco do fim do projeto da
construção de uma economia nacional (Oliveira, 2001, p. 101-102).

Mesmo com os melhoramentos, as reclamações acerca das condições dos caminhos


eram recorrentes, mesmo no período das políticas mais favoráveis. Havia queixas por parte de
viajantes, dos negociantes que atuam nesses locais e de funcionários das instâncias políticas
locais e central. Eram comuns comentários sobre a existência de ervas daninhas que matavam os
animais, caminhos mal-conservados que inundavam na época das cheias, roubos de produtos e
animais nas estradas, além dos altos impostos cobrados nesses caminhos. Em função de tantas
reclamações e limitações dessas vias, considerava-se a condição dos caminhos que levavam à
capital o motivo central para a escassez e carestia dos gêneros de abastecimento. Porém, vê-se
que, mesmo com essa relativa modificação na política de integração no início do século XIX,
em geral, eram as vias que ligavam as áreas produtoras de artigos exportáveis aos portos as que
mais recebiam melhoramentos e incentivos do poder político. Isso foi evidente para os
caminhos do ouro no século XVIII e para as ferrovias no XIX, que foram construídas muito em
função da conexão entre as regiões produtoras de café e o porto do Rio de Janeiro. Mesmo
assim, essas ferrovias eram parcialmente utilizadas para o envio de gêneros alimentícios e
outros produtos de abastecimento para a cidade do Rio de Janeiro, apesar de seus traçados não
priorizarem as regiões produtoras desses artigos (Graça, 1991, p. 15-17).

O caso do comércio das carnes verdes para a cidade do Rio de Janeiro na primeira metade
do século XIX e o processo de acumulação de capital

Os gêneros mais importantes e com maior fluxo para a cidade eram os de consumo mais
difundido pela população. Assim, existia uma importante produção de farinha de mandioca na
província do Rio de Janeiro e em Minas Gerais que abastecia a cidade. Da mesma forma, vinha
do Rio Grande do Sul uma importante leva de carne seca através do comércio de cabotagem,
sendo parte daquela produção exportada para outros portos escravistas. Carne de porco vinha
viva ou conservada de Minas Gerais com as tropas. Porém, mais que todos esses produtos, o
mais significativo é o da carne verde, tão importante para o comércio que levou Maria Yedda
Linhares a afirmar que “a história do abastecimento no Brasil é a história da carne verde”
(Linhares, 1979, p. 191-192).

A carne verde era, ao lado do charque, a forma mais comum de alimentação a partir da
rês bovina, constituindo-se da carne proveniente do animal recém-abatido, que era retalhado e
tinha suas partes vendidas pelos açougues da cidade. A carne verde, também chamada de carne
fresca, tinha que ser consumida rapidamente após a compra, já que em pouco tempo ficava
inadequada ao consumo. O item era obtido a partir das boiadas que chegavam à cidade, vindas
das regiões de Minas Gerais e do Sul, já que a produção fluminense, antes concentrada na
fazenda de Santa Cruz e em Campos, não dava conta da demanda da cidade. O Rio Grande do
Sul era o principal criador de reses bovinas, mas foi o principal supridor de reses vivas à capital
apenas até 1818, quando passou a se voltar mais para a produção do charque, especialidade da
região. Desde então, Minas Gerais e as capitanias a Oeste – Mato Grosso e Goiás – se tornaram
os principais supridores da capital, enviando anualmente dezenas de milhares de bois vivos ao
Rio, o que dava a especialização de certas localidades mineiras, em torno de cidades como São
João Del Rey, epicentro econômico da região abastecedora da Corte (Graça, 1998) 8.

8
Para o comércio de abastecimento de carnes verdes para a cidade do Rio de Janeiro no período anterior à chegada da
Corte portuguesa, ver a pesquisa de Tavares, 2012.
142

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

O abastecimento problemático do produto se dava em função, dentre outros motivos, da


longa viagem necessária para chegar até a cidade e, por isso, trata-se do gênero de
abastecimento mais documentado nos arquivos brasileiros. Era ainda o foco de ação de grandes
interesses do setor mercantil, sendo o item responsável pela movimentação de aproximadamente
379:392$000 réis em todo o ano de 1812 e 608:060$800 réis somente no ano de 1821, de
acordo com levantamento que fizemos junto aos documentos referentes ao produto no Arquivo
Geral da Cidade do Rio de Janeiro9. Essa segunda cifra corresponde à metade do capital inicial
do Banco do Brasil, que demorou anos a ser completado (Franco, 1973). A cifra é indicativa do
expressivo volume de recursos que o comércio envolvia, o que reforça a nossa argumentação
acerca da elevada importância do comércio de abastecimento para a economia brasileira naquele
período.

O fluxo anual de bois para o Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século girava em
torno de 50.000 cabeças, o que era, entre 1810 e 1821, dirigido em última instância por uma
pessoa apenas, o arrematante do contrato das carnes verdes. Os contratos eram muito comuns na
primeira metade do século XIX, sendo uma forma do Estado português obter fundos adiantados,
de se eximir de um encargo que demandaria novos funcionários públicos e também uma forma
de favorecer os grandes negociantes cariocas, principais beneficiários dos mesmos 10. Havia
contratos também para a arrecadação de impostos, construção e demolição de bens públicos,
fornecimento de bens e gêneros essenciais para o Exército, a Marinha e a Real Uxaria, que era o
suprimento de artigos essenciais para o depósito da família real. Apesar de existir em outros
períodos e contextos, o contrato tem um significado próprio na época joanina, diretamente
relacionado ao pacto político vigente naquele momento, que dava grande destaque social e
político aos homens de negócio e também à própria conjuntura emergencial vivenciada pelo
aparelho de Estado então (AGCRJ, s/d; 1817; 1829; 1844; 1845). Tanto é válida essa tese que
com a paulatina construção do aparelho de Estado e com a exclusão cada vez mais forte dos
negociantes do pacto político, os contratos foram deixando de existir a partir da década de 1830.

O principal negociante envolvido no comércio nesse período foi Joaquim José de


Siqueira, que, quando morto, em 1834, deixou um inventário de mais de 397 contos de réis, o
mais valioso estudado por Riva Gorenstein, depois dos pertencentes à família Carneiro Leão
(Gorenstein, 1993, p. 238). Depois disso, o comércio passou a ser controlado por negociantes de
fora do Rio de Janeiro, como Domingos Custódio Guimarães, negociante mineiro de São João
Del Rey (AGCRJ, 1837), que, depois, virou um grande fazendeiro cafeicultor do Vale do
Paraíba, o Visconde de Rio Preto, que detinha um total de 11 propriedades na região (Fragoso,
1992). Por fim, vieram as empresas e os ‘convênios’, formas de combinação de capital para
dominar o mercado em forma de oligopólio, com regulação pelos agentes privados da
quantidade ofertada e do preço. Nesse período, meados do século em diante, parte das reses que
abastecia a cidade já vinha em vagões dos trens (Graça, 1991, p. 15-17).

O gado chegado das regiões de Minas ou do Sul não era imediatamente direcionado
para o consumo. Em função do seu mau estado, eles eram deixados ao longo de
9
Para se chegar a estes números, multiplicou-se o preço tabelado da libra da carne vendida nos referidos anos – 30
réis em 1812 e 40 réis em 1821 – pela quantidade de libras existentes em uma arroba – 32 – pela quantidade média de
arrobas existentes em um boi – 9,5 – pela quantidade anual de reses que deveriam ser mortas no matadouro – 50.050
em 1821. O valor total é aproximado, já que o contrato que regulava as vendas nem sempre era seguido à risca,
havendo outras variáveis existentes difíceis de ser mensuradas, como o mercado negro. Dados retirados de AGCRJ,
1829.

10
Helen Osório, que estudou a arrematação de contratos no Rio Grande do Sul no XVIII, concluiu que os contratos
podiam ser mais lucrativos do que a lavoura agroexportadora e até do que o tráfico de escravos, chegando a taxas de
lucro de 17 a 45%, contra os 5 a 10% da lavoura açucareira e os 19,2% em média do tráfico de escravos,
contabilidade que, ressalta a própria autora, não inclui os diversos privilégios que se tiravam dos contratos (Osório,
2001)
143

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

aproximadamente um ano em campos ao redor da cidade, principalmente na Fazenda de Santa


Cruz, ponto de criação e engorda tradicional de gado desde a época em que os jesuítas
controlavam a propriedade. A fazenda havia sido, na sua época inaciana, o principal centro
produtor de gado para o abastecimento da cidade do Rio de Janeiro dentro da capitania, mas
com a tomada da propriedade pelo Estado português, o espaço foi abandonado e o gado
descuidado, o que fez com que se tornasse bravio e fugisse. Nessa fazenda, ao longo do século
XIX, os escravos campeiros cuidavam do gado que chegava à cidade dos longínquos centros
produtores, tentando garantir a sua engorda e o eficaz suprimento de água e pasto para o
mesmo. Porém, em função do tamanho limitado e de outras questões, a propriedade não tinha
capacidade suficiente para receber tamanho número de reses, que muitas vezes ficavam ali
também por período maior que um ano. Em função disso, muitas vezes, o boi saía da fazenda
ainda magro e com carne não adequada ao consumo (Viana, 1974).

Após esse período de quarentena, o boi era levado até o matadouro público da cidade.
Houve, ao longo do século, quatro matadouros principais para suprir a urbe de carne fresca. O
matadouro de Santa Luzia ficava na praia do mesmo nome e tinha sido construído na época do
marquês de Lavradio, na década de 1770, sendo desativado em 1853. De tamanho bem inferior,
o matadouro da Cidade Nova funcionou entre os anos de 1820 e 1830. Em 1853, o principal
matadouro da capital passou a funcionar em São Cristóvão e, em 1881, finalmente a cidade
ganhou um matadouro fora do perímetro urbano principal, como era costume em outras cidades
ao redor do mundo, ficando o mesmo em Santa Cruz. Nos matadouros, trabalhavam, em geral,
vários escravos, alguns inclusive de ganho, com apenas dois funcionários livres dirigindo as
funções, além de fiscalizadores da municipalidade e do governo imperial (AGCRJ, 1830;
Gonçalves, 1952).

Abatida no matadouro, a rês era enviada em quartos para os açougues da cidade,


transporte realizado por escravos, sendo então vendida para o público. A venda nos talhos
também era feita sobretudo por escravos, que retalhavam a carne e a vendiam a preço fixo, até
1823, e a preço liberado a partir de então. Os compradores da carne eram também, na maioria
das vezes, escravos que, ordenados por seus proprietários, iam aos açougues e entravam nas
filas para a compra da refeição de seus senhores (AGCRJ, 1830).

Apesar de todo o circuito da produção e da circulação do comércio de carnes verdes ser


dominado pela figura dos escravos, esses raramente consumiam esse item, já que se tratava de
um gênero parcialmente restrito no consumo (Campos, 2010).

No Brasil do século XIX, a escravidão era instituição que marcava profundamente a


sociedade, determinando a própria estrutura e estratificação social. O posicionamento dos livres
na estrutura social era dado em grande medida pela quantidade de escravos que esses possuíam.
Um sujeito possuidor de um ou dois escravos não era tido como uma pessoa rica e poderosa
naquela sociedade, ao passo que um proprietário de dezenas ou centenas de cativos era
posicionado no alto da pirâmide social (Gorender, 1978, p. 205-209; Silva, 1975). A presença da
escravidão fazia a sociedade ser altamente desigual, mais do que em outros contextos não-
capitalistas, fazendo com que, segundo João Fragoso, 14% dos mais ricos inventários
contivessem mais de 60% da riqueza total, enquanto mais de 45% dos inventários dos mais
pobres contassem com 4% da riqueza, no início do século (Fragoso, 2000 [1990], p. 149). Para
melhor entender o significado desses números, deve-se levar em conta que só pessoas com
posses tinham seus bens inventariados, o que não correspondia aos escravos e indigentes. Logo,
a escravidão fazia com que a desigualdade entre os livres fosse também muito elevada.

Essa alta disparidade social se expressava nos hábitos de consumo, também altamente
estratificados. Através da pesquisa realizada, verificamos que havia três grandes faixas de
consumo principais na cidade no que tange à alimentação. Em primeiro lugar, uma classe
dominante constituída por homens de negócio e também pelos altos funcionários públicos com
144

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

grande poder de compra que podiam se alimentar com diversos gêneros estrangeiros e diferentes
fontes de proteínas animais, em especial a carne verde, tipo de carne de caráter relativamente
restrito. Em seguida, um setor intermediário, constituído por comerciantes, médios e pequenos
funcionários do Estado português e da Câmara, caixeiros, artesãos e outros trabalhadores livres
com alguma renda ou salário. Essas pessoas não podiam consumir produtos estrangeiros
correntemente e nem todos os tipos de carne, porém podiam consumir a carne verde
esporadicamente, em especial quando o seu preço era tabelado, apesar de não em quantidade
significativa. Por fim, os escravos e indigentes, que consumiam os produtos mais simples e
baratos, como o feijão e a farinha de mandioca. No que se refere às proteínas, consumiam a
carne seca e o toucinho, sempre em uma quantidade reduzida, sendo que a carne verde quase
nunca era consumida por esse grupo, a não ser em ocasiões de festas, fartura ou roubo (Silva,
1975; AGCRJ, 1820).

Há, no entanto, certa diversidade dentro de cada um desses três grupos em função da
grande hierarquização da sociedade escravista da cidade do Rio de Janeiro no período. O
primeiro grupo incluía o grupo dos negociantes, que se caracteriza pelo forte escalonamento de
suas fortunas e, portanto, do seu poder de compra. O grupo intermediário é o mais diverso,
contando com comerciantes com certo destaque econômico-social e também com caixeiros, que
tinham um poder de consumo bem inferior, havendo no grupo pessoas que podiam consumir a
carne verde todos os dias e outras que poucas vezes consumiam o item. E também o terceiro
grupo tinha a sua diferenciação em função da própria diversidade intrínseca à escravidão urbana
e à inclusão dos indigentes neste grupo. Essa divisão do mercado consumidor da cidade em três
grupos distintos entre si e hierarquizados internamente é fruto da sociedade escravista e retrata
um mercado que, altamente restrito, criou dinâmicas sociais próprias (AGCRJ, 1820; Campos,
2010; Gorender, 1978).

É possível notar, a partir dessa hierarquização do consumo na cidade, que os escravos,


apesar de envolvidos em todas as etapas da produção e da circulação, participavam
marginalmente do consumo, só conseguindo se alimentar do gênero em ocasiões
extraordinárias. Percebemos também que, em meados do século, alguns escravos em áreas
rurais só se alimentavam de vegetais, sendo a eles vedado quase sempre o consumo de proteínas
animais (Costa, 1857). Assim, ao contrário do que afirmava Gilberto Freyre, os escravos não
parecem ter se alimentado bem no Brasil colonial e imperial (Freyre, 1987 [1933]). Josué de
Castro criticou o autor pernambucano por entender que os que melhor se alimentavam no
período colonial eram escravos e senhores, sendo a pior alimentação a dos homens livres
pobres. Castro demonstrou em seu estudo como os cativos brasileiros comiam muito, mas
comiam mal e tinham diversos problemas de subnutrição (Castro, 2002 [1946], p. 127-128).

Os órgãos que tradicionalmente fiscalizavam e regulavam o comércio de abastecimento


na área urbana não se encontravam na dimensão superior da estrutura política do Estado
português ou do Estado imperial, mas no aparelho político da municipalidade. Assim, eram as
câmaras municipais que tinham, desde o período colonial, a função de organizar o
abastecimento urbano, impondo a regulação do peso, do preço, dos locais de venda, da
quantidade a ser vendida e punindo os infratores das posturas municipais e dos editais. O
funcionário responsável pela fiscalização do comércio urbano era o juiz almotacé, funcionário
da Câmara Municipal, às vezes eleito, às vezes indicado. Almotaçar vem do árabe e significa
regular, taxar. Em Portugal, havia a Mor-almotaçaria, que regulava o sistema de pesos e
medidas vigentes no país e no Império. Com a reformulação das Câmaras Municipais, em 1828,
os almotacés foram substituídos pelos fiscais dentro das freguesias urbanas e pelos juízes de paz
nas freguesias não-urbanas (Linhares, 1979, p. 78-97).

Eram comuns os conflitos entre contratadores e comerciantes com os almotacés e


oficiais da Câmara. Eram recorrentes também que conflitos entre negociantes ou entre
diferentes grupos de homens de negócios fossem parar em discussões do plenário da Câmara.
145

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Muitas vezes, essas disputas se travestiam de disputas apenas no campo das idéias, entre
intervencionistas e liberalizantes, por exemplo. Porém, observando com maior cuidado as
condições sociais dos debatedores em questão e as minúcias das suas reivindicações e protestos,
é possível perceber interesses que eles estavam defendendo, dada a sua condição econômico-
social, já que vários vereadores eram também importantes homens de negócio da cidade
(AGCRJ, 1820).

Em situações emergenciais, a instância de Estado superior à municipalidade intervinha


no comércio de abastecimento. Esse foi o caso, por exemplo, da carne verde à época da chegada
da família real. Nesse tempo, por ordem direta do Rei, o tema foi deixado aos cuidados da
Intendência de Polícia da Corte, sob a liderança de Paulo Fernandes Vianna. Este tomou
algumas rendas que antes pertenciam à Câmara, reformulou a forma de abastecimento do
gênero à cidade, enviou cartas a lavradores e criadores distantes para enviarem boiadas com
urgência para a cidade e criou o sistema de contrato, que beneficiava diretamente um negociante
ligado ao seu cunhado11. Da mesma forma, o governo de D. Pedro I resolveu interferir
diretamente no comércio, acabando com os preços tabelados e com o sistema de contrato em
1823, o que teve como conseqüência direta o aumento do preço das carnes e o beneficiamento
dos intermediários envolvidos no comércio (AGCRJ, 1830). Da mesma forma, apesar da
justificativa de facilitar o abastecimento da capital de gêneros alimentícios, os incentivos
concedidos na época joanina e no I Império aos intermediários do comércio foram abandonados
logo no início da Regência, denotando uma virada política e a perda do poder dos negociantes
ou de frações destes no interior do aparelho de Estado naquele momento (Gouvêa, 2005).

Apesar de todas as medidas tomadas, de controle no caso do período joanino, e de


liberação no caso do I Império, Regência e II Império, o suprimento de gêneros para a cidade do
Rio de Janeiro nunca foi satisfatório em termos de preços e quantidade. São comumente
encontradas nas fontes do período reclamações e protestos em função de escassez e carestia,
tanto por parte de habitantes da cidade, como de membros do aparelho de Estado. Em períodos
de guerra e outras situações de exceção, eram muito comuns as crises de carestia e escassez.
Dessa forma, quando da guerra de invasão da Cisplatina, a partir de 1815, com o fechamento do
porto de Montevidéu pela armada lusa, todas as importações do charque uruguaio foram
interrompidas, levando a uma maior demanda da carne seca gaúcha tanto pelos mercados
brasileiros como pelos centros consumidores estrangeiros que também compravam o charque
uruguaio. Isso levou a um aumento considerável do preço do produto na cidade do Rio de
Janeiro e à diminuição abrupta do envio de reses do Rio Grande do Sul para a cidade, visto que
os criadores locais preferiam transformar a carne bovina em charque para venda do que enviar
reses para serem abatidas na cidade, já que a carne verde era tabelada naquele momento (AN,
1818). Situações similares ocorreram em outras guerras na região do Prata ao longo do século,
com a neutralização das exportações argentina, paraguaia e uruguaia de certos produtos
(Corsetti, 1983).

Outro caso de crise de escassez na cidade teve lugar na década de 1850, levando o
funcionário público do Império Sebastião Ferreira Soares a escrever sobre o assunto no período.
Nesse período, houve grave crise de escassez e carestia de gêneros essenciais na cidade,
especialmente alimentos básicos e carne. Parte dos agentes do período creditaram a crise à falta
de braços sentida no país em decorrência da abolição do tráfico de escravos. Soares, ao
contrário dessa análise, entendeu que a crise se devia a outros fatores. Segundo ele, com a lei
Eusébio de Queiroz, os antigos traficantes e negociantes ligados ao comércio de escravos
passaram a investir em outros ramos, fazendo grande especulação e estabelecendo práticas
monopolistas no comércio de abastecimento para a cidade, levando à escassez e à carestia dos

11
O cunhado de Paulo Fernandes Vianna era Fernando Carneiro Leão e o negociante ligado a este era Joaquim José
de Siqueira (Gorenstein, 1993; AGCRJ, 1820).
146

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

alimentos. A discussão ocorrida nas décadas de 1850 e 1860 foi analisada depois por diversos
autores (Soares, 1977 [1860]; Linhares; Silva, 1981, p. 15-72).

A escassez e carestia de gêneros na cidade do Rio de Janeiro é algo anterior à chegada


da Corte, sendo um problema contínuo em todo o período colonial, apesar da vivência de
períodos mais agudos e outros mais brandos. Como assinalado, um dos períodos de grave crise
de escassez e carestia foi vivido em 1808 com a chegada da Corte e dos estrangeiros. A
quantidade de pessoas chegadas à cidade de uma só vez foi tamanha que faltaram na cidade
todos os tipos de produtos, somando-se à crise alimentícia uma grave crise habitacional, o que
fez com que muitos se mantivessem em seus navios sem ter um alojamento apropriado na
cidade. Esse foi o caso mais profundo de crise vivido no século que se conhece, pois os outros
momentos de escassez e carestia foram, em geral, setoriais, ou melhor, referentes a um ou
poucos produtos. Assim foi o caso da referida crise desencadeada pela invasão do Uruguai, em
1815, quando houve escassez de carne verde e carestia de charque (AN, 1818).

Fatores técnicos, naturais e a própria especulação, muitas vezes decorrente da alta


concentração do comércio e das práticas especulativas e monopolistas comuns naquele período,
faziam com que o preço oscilasse bastante, quando em regime livre. A carne verde, que foi
tabelada a 30 réis a libra durante todos os anos da década de 1810, passou a 40 réis, em 1821, e
após a liberação dos preços, ocorrida em 1823, teve forte oscilação. Assim, seu preço, que
girava em torno de 50 réis ou um pouco mais nas décadas de 1820 e 1830, chegou ao pico de
160 réis no ano de 1830 (AGCRJ, 1830). Esse tipo de variação do preço, apesar das graves
conseqüências geradas, parecia ser recorrente.

A explicação para essas crises deve ser encontrada na própria estrutura econômica do
Brasil no século XIX. Assim como Ernest Labrousse demonstrou que a crise econômica na
economia de Antigo Regime tinha uma lógica diferente das crises capitalistas, havendo maior
influência do clima e sendo mais caracterizada como de escassez e falta e não de fartura e
superprodução (Labrousse, 1973, p. 343-344), também a sociedade escravista colonial tinha os
seus próprios mecanismos de crise. O estatuto colonial da economia fazia com que a produção
de artigos mais caros e para exportação fosse muitas vezes mais valorizada que a produção
visando o abastecimento urbano, tornando essa área, em geral, subsidiária da produção voltada
para o mercado externo. A sociedade escravista, altamente desigual e hierarquizada, além de
relativamente pouco provida de capitais, tendia a ter um comércio altamente concentrado. No
caso do abastecimento urbano da cidade do Rio no século XIX, somava-se a isso uma questão
peculiar: boa parte da produção que supria a capital de mantimentos vinha de regiões
longínquas passando por caminhos em péssimas condições e com alta taxação. Isso facilitava a
tendência de fazer com que o comércio fosse altamente concentrado, já que eram poucos os
negociantes que tinham a capacidade, por exemplo, de mobilizar boiadas vindas de Goiás para o
Rio de Janeiro ou que pudessem fazer um carregamento de charque do Rio Grande do Sul para a
Corte. Pode-se dizer, portanto, que a estrutura econômico-social, a péssima integração do
território e os impostos cobrados na circulação levavam a um alto índice de concentração do
comércio de abastecimento, principalmente em ramos mais complexos e lucrativos, como o
transporte de boiadas (Fragoso, 1992, p. 173-179).

Com essa alta concentração do abastecimento, os negociantes nela envolvidos


estabeleciam tentativas de monopolização de determinados ramos do comércio, tentando excluir
os seus adversários diretos, seja através do preço e da concorrência econômica, seja por meio da
força e por formas de rivalidade extra-econômica, o que era comum no período. No caso do
comércio de reses, por exemplo, o controle do matadouro através do contrato fazia com que
determinado negociante pudesse privilegiar a matança de suas próprias reses naquele
estabelecimento, deixando para o fim da fila as cabeças de gado de seus oponentes ou até
mesmo proibindo esses de fazer o abate de seus animais naquele estabelecimento, que era
público (AGCRJ, 1837). Outras formas de concorrência aguerrida eram utilizadas, muitas vezes
147

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

com violência, sendo o objetivo o de excluir um rival do dito mercado, tentando monopolizar
determinado ramo do comércio.

Com o estabelecimento de um monopólio ou de um oligopólio na venda de um item, o


preço passava a ser praticamente determinado pelos controladores de tal comércio, elevando-o
muitas vezes de forma indiscriminada. Essa prática era recorrente e parece ser a explicação
principal para a carestia e a grande oscilação dos preços dos gêneros essenciais. O
estabelecimento do monopólio em certos mercados era denunciado por funcionários públicos e,
principalmente, por concorrentes do negociante líder da venda do produto em questão. Muitas
vezes, a intervenção estatal era requerida nessas situações, mas na maior parte do período
imperial, não houve grande interferência sobre o comércio de abastecimento, sendo esse um
ambiente privilegiado para as práticas monopolistas dos negociantes (AGCRJ, 1830; Lenharo,
1993).

A população da cidade consumidora desses itens alimentícios essenciais não assistia de


forma passiva ou simplesmente reclamava diante da alta dos preços e do desaparecimento de
certos produtos em alguns períodos. Foram comuns as revoltas, os motins, as agitações e os atos
de violência relacionados ao abastecimento urbano. Os principais grupos sociais a se revoltarem
nessas situações eram os setores intermediários da estrutura social, homens livres pobres, em
especial o “explosivo” segmento dos caixeiros. Esses eram os maiores prejudicados das
intempéries do abastecimento, já que tinham suas rendas limitadas, ao contrário dos grupos
dominantes, que não sentiam de forma tão profunda essa carestia e escassez. Os escravos
participavam, às vezes, das revoltas, mas de maneira menos drástica que os setores
intermediários, já que tinham uma alimentação precária, mas muitas vezes garantida pelos seus
senhores, não se podendo afirmar o mesmo para os cativos de ganho (Martinho, 1993).

Algumas revoltas e motins relevantes ocorreram associados a momentos políticos


instáveis. Foi o caso das agitações de 1818, em que houve grande reclamação contra o preço do
charque e a falta de carne verde, havendo nas movimentações urbanas brados de apoio e ‘vivas’
à Revolução Pernambucana de 1817 (AGCRJ, 1817; Gonçalves, 1952, p. 283-358). Nesse
sentido, era muito comum a associação entre reclamação contra a carestia e escassez e os
protestos políticos em momentos delicados da história nacional.

Esse foi o caso também das agitações na época da Independência, que reuniam queixas
contra o suprimento da cidade e contra as Cortes portuguesas. A crise do I Império juntou nas
ruas, em situações como as ‘noites das garrafadas’, queixas contra a gestão de D. Pedro I e o
preço de alguns itens essenciais. O mesmo ocorreu no início da Regência, período de grande
instabilidade política e problemas no abastecimento da cidade (AGCRJ, 1837; Ribeiro, 2002).

Os negociantes que atuavam no comércio de abastecimento constituíam o alvo principal


dessas revoltas e agitações, tendo eles péssimas imagens junto à população e aos consumidores
em geral. Alcir Lenharo mostra como eles eram hostilizados pelos consumidores e não tinham
credibilidade junto à população, apesar da riqueza e poder que podiam possuir (Lenharo, 1993,
p. 96-97). Os revoltosos demandavam maior suprimento dos produtos, abertura dos armazéns
dos negociantes e preços justos12.

Imbuídos dessas práticas monopolistas e com a facilidade dessa estrutura mercantil


altamente concentrada, os homens de negócio envolvidos no comércio de abastecimento
obtinham lucros altíssimos. Márcia Motta mostra como os que mais lucravam no comércio da
região a leste da Baía da Guanabara com a Corte eram os intermediários e não os produtores
(Motta, 1989, p. 77-82). Da mesma forma, Alcir Lenharo demonstra como o lucro no âmbito da
12
João José Reis identificou situações similares na Bahia no século XIX e notou que as demandas populares eram
“parecidas” com o que Edward Thompson chamou de ‘economia moral da multidão’. Ver REIS, 2003. p. 37-8. Ver
também Thompson, 2005 [1991], p. 150-202; 203-266.
148

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

circulação tendia a ser maior que o auferido na produção agropecuária, no que tange aos itens
que saíam do Sul de Minas para o Rio. Esses negociantes envolvidos no abastecimento
juntavam fundos e montaram fazendas, sendo muito importante a acumulação obtida no
comércio de abastecimento da corte para a montagem do complexo cafeicultor do Vale do
Paraíba, depois da doação de sesmarias a alguns desses negociantes por D. João VI (Lenharo,
1993, p. 84; 89; 92-93).

Algumas trajetórias foram marcantes, como é o caso de Antonio da Silva Prado, o


Barão de Iguape. Esse negociante começou sua carreira comercial arrematando contratos,
negociando gado bovino e muar, para depois investir em fazendas e bancos, dando origem a
uma das principais famílias do grande capital industrial e bancário paulista (Petrone, 1976).

Larissa Virginia Brown demonstra em sua tese de doutorado sobre o comércio interno
para a cidade do Rio de Janeiro no final do século XVIII e início do século XIX, dentre outras
coisas, como os grandes comerciantes despontavam, além de suas atividades no intercâmbio de
mercadorias, como credores das atividades produtivas. Além de atuar na compra e venda de
mercadorias, por serem grandes possuidores de capital à disposição, eles desenvolviam
atividade creditícia, sendo eles muitas vezes associados a práticas usurárias no período (Brown,
1986). Essa assertiva reforça a tese da acumulação e concentração de capital nas mãos dos
homens de negócios envolvidos com o comércio interno naquele período.

Em vias de conclusão

João Fragoso afirma que ao lado do tráfico de escravos, o comércio de abastecimento


era a principal forma de acumulação mercantil desenvolvida na economia escravista (Fragoso,
1992, p. 140-150). Esse capital depois seria responsável pela montagem do capital industrial e
financeiro nacional. Afonso Alencastro Graça Filho notou que, em meados do século XIX, os
negociantes presentes no suprimento da capital investiam em empreendimentos industriais na
cidade, nos primeiros estabelecimentos fabris criados no país (Graça, 1991, p. 221-223; Levy,
1994, p. 45-111), fenômeno que permaneceu visível em períodos históricos posteriores 13. O
mesmo autor, em sua tese de doutorado, mostrou como a cidade de São João Del Rey, epicentro
urbano da região abastecedora da capital da província de Minas Gerais, acumulou capitais com
o comércio de abastecimento para a Corte e passou a desenvolver uma forte atividade creditícia,
com os capitalistas locais fornecendo recursos para os negociantes da Corte. A partir disso, com
capitais adquiridos no comércio de abastecimento, e não só na produção de café, a cidade
desenvolveria mais tarde uma relevante função bancária (Graça, 1998, p. 72-75; 90-95).

Como vimos ao longo deste texto, mesmo com o predomínio da escravidão e com a
condição colonial, a economia colonial brasileira, através do comércio de abastecimento e
outros tipos de negócio – como o tráfico de escravos, as companhias de seguros, o comércio de
importação e exportação, a exploração de contratos régios etc –, foi capaz de acumular recursos
e concentrar em poucas mãos grandes fortunas. Assim, os circuitos internos da economia
brasileira no período possuíam um vigoroso dinamismo e foram responsáveis pela formação de
grandes patrimônios nas mãos dos controladores desse comércio. Tendo em vista o caráter
escravista da formação econômico-social brasileira, esse comércio de abastecimento gozava de
um significativo grau de concentração, tendendo ao monopólio, como ocorreu com o comércio
de carnes verdes na cidade do Rio de Janeiro na década de 1830. Com isso, formaram-se
grandes fortunas que foram depois invertidas em outras atividades econômicas. Dessa forma, o
comércio de abastecimento, bem como outras atividades vinculadas ao mercado doméstico,
ajudaram a acumular e concentrar recursos que depois foram investidos em projetos industriais,
na formação de empresas bancárias e na própria efetivação de grandes fazendas que usavam

13
Fábio Garcez de Carvalho estudou os investimentos dos grandes comerciantes presentes no comércio de
abastecimento no ramo da indústria no período da Primeira República. Ver Carvalho, 1992.
149

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

força de trabalho cativa para produção e exportação de produtos primários para o mercado
internacional.

Assim, é preciso levar em conta a importância desses canais internos de acumulação de


capital nas economias do Brasil e da América Latina no período colonial e durante o século XIX
para que não caiamos no equívoco de associar todo e qualquer dinamismo econômico à
economia vinculada ao mercado externo, reforçando uma visão forânea e precipitada acerca das
economias latino-americanas e do seu processo de desenvolvimento e industrialização nos
séculos XIX e XX.
150

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Referências Bibliográficas
AGCRJ (Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro). 1817. Arrematações do Senado da Câmara
(1806-1817). Códice 39-3-52.
AGCRJ. 1820. Representação do Almotacé Cunha sobre as carnes verdes (1820). Códice: 53-2-22.
AGCRJ. 1829. Arrematações do Senado da Câmara (1818-1829). Códice 39-3-53.
AGCRJ. 1830. Matadouros e açougues (1822-1830). Códice 53-3-2.
AGCRJ. 1837. Carnes verdes e matadouros: talhos, açougues, ofícios, portarias, representações,
memórias, impostos sobre o gado a abater, pareceres, etc (1832-1837). Códice 53-3-14.
AGCRJ. 1844. Arrematações da Câmara Municipal (1830-1844). Códice 39-3-56.
AGCRJ. 1845. Arrematações: rendas dos contractos, telheiros, matadouros, aferições, barracas,
animaes, terrenos (1822-1845). Códice 39-3-54.
AGCRJ. 1850. Arrematação das carnes verdes e estabelecimento de talhos nesta cidade – objectos
relativos. Códice 53-2-20.
AN (Arquivo Nacional). 1818. Fundo: Série anterior (A2). Corte. Ministério do Império. Câmara
Municipal da Corte. 1806-1880. IJJ10 35.
BROWN, Larissa Virginia. Internal Commerce in a Colonial Economy: Rio de Janeiro and it's
hinterland, 1790:1822.Tese de doutoramento. Charlottesville: University of Virginia, 1986.
CAMPOS, Pedro Henrique Pedreira. "A história do abastecimento e a historiografia nacional". In:
GUIMARÃES, Carlos Gabriel; CAMPOS, Pedro Henrique Pedreira; PIÑEIRO, Théo Lobarinhas
(org.). Ensaios de História Econômico-social: séculos XIX e XX. Niterói: Eduff, 2012.
CAMPOS, Pedro Henrique Pedreira. Nos Caminhos da Acumulação: negócios e poder no
abastecimento de carnes verdes para a cidade do Rio de Janeiro (1808-1835). São Paulo: Alameda,
2010.
CANO, Wilson. Raízes da Concentração Industrial em São Paulo. São Paulo: Difel, 1977.
CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. A Afro-América: a escravidão no Novo Mundo. São Paulo:
Brasiliense, 1982.
CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. Escravo ou Camponês: o protocampesinato nas Américas. São
Paulo: Brasiliense, 1987.
CARVALHO, Fábio Garcez de. Hierarquização e Oligopólio: o caso do comércio de abastecimento
de gêneros alimentícios na cidade do Rio de Janeiro (1892-1922). Dissertação de mestrado em
História. Rio de Janeiro: UFRJ, 1992.
CASTRO, Josué de. Geografia da Fome. 15ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002 [1946].
CORSETTI, Berenice. Estudo da Charqueada Escravista do Rio Grande do Sul, 1800-1890.
Dissertação de mestrado em História. Niterói: UFF, 1983.
COSTA, Antônio Correia de Souza. Qual a alimentação que usa a classe pobre do Rio de Janeiro e
qual a sua influência sobre essa classe? Rio de Janeiro: Universal de Laemmert, 1857 (tese à cadeira
de higiene da faculdade de medicina do Rio de Janeiro) (BN / II – 294,7,20 n. 3)
DIAS, Maria Odila Leite da Silva. A interiorização da metrópole: 1808-1853. In: MOTA, Carlos
Guilherme (org.). 1822: Dimensões. 2a ed. São Paulo: Perspectiva, 1986. p. 60-84.
151

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

FARINATTI, Luís Augusto Ebling. Escravidão e pecuária na fronteira Sul do Brasil: primeiras notas
de pesquisa – Alegrete, 1831-1850. In: Anais do II Encontro de Pós-Graduação em História
Econômica (CD-ROM). Niterói: 2006. p. 1-21.
FRAGOSO, João Luiz Ribeiro. Homens de Grossa Aventura: acumulação e hierarquia na praça
mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1992.
FRAGOSO, João Luiz Ribeiro. O império escravista e a República dos plantadores. In: LINHARES,
Maria Yedda Leite (org.). História Geral do Brasil. 9a ed. Rio de Janeiro: Campus, 2000 [1990]. p.
144-187.
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. História da Banco do Brasil. Vol I. Brasília: Banco do Brasil,
1973. 279p.
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. 25a ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987 [1933].
FUNES, Eurípedes Antonio. Goiás, 1800-1850: um período de transição da mineração à
agropecuária. Dissertação de mestrado em História. Niterói: UFF, 1983.
GONÇALVES, Aureliano Restier. Carnes verdes em São Sebastião do Rio de Janeiro (1500-1900).
In: Revista do Arquivo do Distrito Federal. Vol. III. Rio de Janeiro: 1952. p. 283-358.
GORENDER, Jacob. O Escravismo Colonial. São Paulo: Ática, 1978.
GORENSTEIN, Riva. "Comércio e Política: o enraizamento dos interesses mercantis portugueses no
Rio de Janeiro (1808-1830)". In: MARTINHO, Lenira Menezes; GORENSTEIN, Riva. Negociantes
e Caixeiros na Sociedade de Independência. Coleção Biblioteca Carioca. Rio de Janeiro: Secretaria
Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, 1993.
GOUVÊA, Maria Fátima da Silva. "Dos poderes do Rio de Janeiro joanino: administração e
governabilidade no império luso-brasileiro". In: JANCSÓ, Istvan (org.). Independência: história e
historiografia. São Paulo: Hucitec, 2005. p. 707-52
GRAÇA Filho, Afonso Alencastro. Os Convênios da Carestia: organização e investimento do
comércio de subsistência da Corte (1850-1880). Dissertação de mestrado em História. Rio de
Janeiro: UFRJ, 1991.
GRAÇA Filho, Afonso Alencastro. A Princesa do Oeste: elite mercantil e economia de subsistência
em São João Del-Rey (1831-1888). Tese de doutoramento em História. Rio de Janeiro: UFRJ, 1998.
LABROUSSE, Ernest. Fluctuaciones Economicas e Historia Social. Madri: Tecnos, 1973.
LAMARÃO, Sérgio Tadeu de Niemeyer. Dos Trapiches ao Porto: um estudo sobre a área portuária
do Rio de Janeiro. Coleção Biblioteca Carioca. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura do
Rio de Janeiro, 1991.
LENHARO, Alcir. As Tropas da Moderação: o abastecimento da Corte na formação política do
Brasil. Coleção Biblioteca Carioca. 2a ed. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura do Rio de
Janeiro, 1993 [1979]. 135p.
LEVY, Maria Bárbara. A Indústria do Rio de Janeiro através de suas Sociedades Anônimas. Coleção
Biblioteca Carioca. Rio de Janeiro: EdUFRJ/Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro,
1994.
LINHARES, Maria Yedda Leite. História do Abastecimento: uma problemática em questão (1530-
1918). Brasília: Binagri, 1979.
152

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

LINHARES, Maria Yedda Leite; LEVY, Maria Bárbara. "Aspectos da história demográfica e social
do Rio de Janeiro: 1808-1889". In: MAURO, Frédéric (org.). L’Histoire Quantitative do Brésil de
1808 a 1930. Paris: Centre Nacional de Recherche Scientifique, 1973, p. 123-142.
LINHARES, Maria Yedda Leite; SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. História da Agricultura
Brasileira: combates e controvérsias. São Paulo: Brasiliense, 1981.
LOBO, Eulália Maria Lahmeyer. História Político-administrativa da Agricultura Brasileira, 1808-
1889. Brasília: Ministério da Agricultura, 1979.
LOBO, Eulália Maria Lahmeyer. História do Rio de Janeiro: do capital comercial ao capital
industrial e financeiro. Rio de Janeiro: IBMEC, 1978. 2 vols.
LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. Belo Horizonte/São
Paulo: Itatiaia/USP, 1975 [1820].
MAESTRI Filho, Mário. Deus é Grande, o Mato é Maior: história, trabalho e resistência dos
trabalhadores escravizados no Rio Grande do Sul. Passo Fundo: UPF, 2002.
MARCONDES, Renato Leite. O Abastecimento de Gado do Rio de Janeiro: 1801-1810. Riberão
Preto, SP: USP/FEA, 2000.
MARTINHO, Lenira Menezes. "Caixeiros e Pés-descalços: conflitos e tensões em um meio urbano
em desenvolvimento". In: MARTINHO, Lenira Menezes; GORENSTEIN, Riva. Negociantes e
Caixeiros na Sociedade de Independência. Coleção Biblioteca Carioca. Rio de Janeiro: Secretaria
Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, 1993.
MAYER, Jorge Miguel. Raízes e Crise do Mundo Caipira: Nova Friburgo. Tese de doutoramento
em História. Niterói: UFF, 2003.
MELLO, João Manuel Cardoso de. O Capitalismo Tardio: contribuição à revisão crítica da formação
e desenvolvimento da economia brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1982.
MENDONÇA, Sônia Regina de. A Industrialização Brasileira. São Paulo: Moderna, 1995.
MOTTA, Márcia Maria Menendes. "Niterói rural: elite de ontem e arrendatários de outrora (1808-
88)". In: MARTINS, Ismênia de Lima; KNAUSS, Paulo (org.). Cidade Múltipla. Niterói: Niterói
livros, 1997. p. 169-183.
MOTTA, Márcia Maria Menendes. Pelas Bandas d’Além: fronteira fechada e arrendatários
escravistas em uma região policultora (1808-1888). Dissertação de mestrado em História. Niterói:
UFF, 1989.
OLIVEIRA, Geraldo Beauclair Mendes de. A Construção Inacabada: a economia brasileira (1828-
1860). Rio de Janeiro: Vício de Leitura, 2001.
OSÓRIO, Helen. "As elites econômicas e a arrematação de contratos reais: o exemplo do Rio
Grande do Sul (Século XVIII)". In: FRAGOSO, João Luiz Ribeiro; BICALHO, Maria Fernanda;
GOUVEIA, Maria Fátima (orgs.). O Antigo Regime nos Trópicos. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2001, p. 107-137.
PANTALEÃO, Olga. "A presença inglesa". In: HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.) História
Geral da Civilização Brasileira. Tomo II, vol.1. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1993. p. 64-99.
PETRONE, Maria Thereza Schörer. O Barão de Iguape: um empresário na época de independência.
São Paulo: Nacional, 1976.
153

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

PIÑEIRO, Théo Lobarinhas. "Os Simples Comissários": negociantes & política no Brasil Império.
Niterói: Eduff, 2014.
PRADO, Maria Lígia; LUIZETTO, Maria Cristina Z. "Contribuição para o estudo de comércio de
cabotagem no Brasil, 1808-1822". In: Anais do Museu Paulista. Tomo XXX, ano 1980-1. São Paulo:
1981. p. 159-196.
REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo:
Companhia das Letras, 2003.
RENAULT, Delso. O Rio Antigo nos Anúncios de Jornais, 1808-1850. 3a ed. Rio de Janeiro: CBBA/
Propeg, 1985.
RIBEIRO, Gladys Sabina. A Liberdade em Construção: identidade nacional e conflitos antilusitanos
no Primeiro Reinado. Rio de Janeiro: Relume-Dumará/FAPERJ, 2002.
SANTOS, Ana Maria dos. "Auge e decadência econômica do recôncavo da Guanabara: o caso de
Itaboraí". In: GRAHAM, Richard (org.). Ensaios Sobre a Política e a Economia da Província
Fluminense no Século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1974. p. 64-103.
SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Análise de Estratificação Social: o Rio de Janeiro de 1808 a 1821.
São Paulo: USP, 1975.
SOARES, Sebastião Ferreira. Notas Estatísticas Sobre a Produção Agrícola e Carestia de Alimentos
no Império do Brasil. Rio de Janeiro: IPEA/INPES, 1977 [1860].
SILVA, Sergio. Expansão Cafeeira e Origens da Indústria no Brasil. São Paulo: Alfa-Ômega, 1976.
SUPRINIAK, Carlos Eduardo. Tropas em Marcha: o mercado de animais de carga no centro-sul do
Brasil imperial. São Paulo: Annablume / Fapesp, 2008.
TAVARES, Georgia da Costa. A Atuação dos Marchantes no Rio de Janeiro Colonial: estratégias de
mercado e redes de sociabilidade no comércio de abastecimento de carne verde, 1763-1808. Rio de
Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura / Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 2012.
THOMPSON, Edward Palmer. Costumes em Comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
VIANA, Sônia Bayão Rodrigues. A Fazenda de Santa Cruz e a Política Real e Imperial em relação
ao Desenvolvimento Brasileiro, 1790-1850. Dissertação de Mestrado em História. Niterói: UFF,
1974.
ZEMELLA, Mafalda. O Abastecimento da Capitania de Minas Gerais no século XVIII. 2a ed. São
Paulo: Hucitec, 1990 [1951].
154

A trajetória da economia capixaba entre 1985


e 20091
Heldo Siqueira da Silva Junior2
Gustavo Rocha Bulgareli Ferreira3

Resumo

Uma das dificuldades em realizar alguns estudos na área de economia reside na obtenção de informações.
Os dados sobre produção, diversificação econômica e preços, em alguns casos podem ser escassos ou
mesmo, ao serem atenderem a metodologias diversas, podem ser incompatíveis. O exercício deste
trabalho foi sistematizar as informações sobre a produção e os preços da economia do Espírito Santo,
desde 1985 até 2009. Além disso, foi realizada uma análise comparando a trajetória com o restante da
economia brasileira e de alguns trabalhos sobre a economia capixaba para identificação de convergências
e elaboração de conclusões sobre o tema.

Palavras-chave: Retropolação do PIB; Contas regionais; PIB estadual; Economia do Espírito Santo;
Economia capixaba.

Abstract
One of the difficulties in performing studies economics lies in obtaining information. Data on production,
economic diversification and prices in some cases can be scarce or, when made with different
methodology, may be incompatible. The exercise of this work was to systematize the information on
production and prices onthe economy of Espírito Santo from 1985 to 2009. In addition it was compared
its path with the rest of the Brazilian economy and some work on the state economy to identify
convergences and perform some conclusions on the subject.

Keywords: GDP retropolation; Regional accounts; State GDP; Espírito Santo economy; Capixaba
economy.

Classificação JEL: B00; C02; C81; Y10.

1
Artigo apresentado em 04/08/2018. Aprovado em 10/09/2018.

2
Mestre em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo, Economista do Instituto de Defesa Agropecuária
e Florestal do Espírito Santo.

3
Mestrando do Programa de pós-graduação em contabilidade da Universidade federal do Espírito Santo, Economista
do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo.
155

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

1 – Introdução
Uma parte significativa da análise econômica diz respeito à apuração de dados para que
seja possível observar as teorias na prática. Nesse sentido, o grau de abrangência das
informações e o período que cobrem são elementos que melhoram a capacidade dos analistas de
realizarem inferências sobre a sociedade. Além disso, o reconhecimento consistente da realidade
permite a tomada de decisões mais eficientes. A contabilização e o trato das informações
econômicas é custoso e difícil, de maneira que se faz importante zelar pela qualidade e correção
daquelas que já estão disponíveis.
O objetivo deste artigo é resgatar as informações para a economia do Espírito Santo, da
base de dados do IBGE para as contas regionais. Em 2002 houve uma mudança na metodologia
de apurar a produção nos estados, que vinha sendo medida a partir de uma base de dados de
1985. Essas contas apresentam dados importantes sobre a economia capixaba, dividida em 15
setores e com indicadores de variação de preços. A base de 2002 oficial já havia sido retroagida
até 1995, entretanto, a metodologia não permitia a conversão dos dados a anos anteriores.
Definiu-se, então, uma metodologia que admitisse a retração dos dados até 1985, ampliando o
horizonte de análise da trajetória econômica. Assim, buscou-se realizar uma análise da
economia estadual e uma comparação com a realidade que se viveu no país entre 1985 e 2009 e
os estudos de outros autores.
Além desta introdução, o texto apresenta uma contextualização econômica do país em
meados dos anos 1980, com as políticas focalizadas no combate à inflação. Trata-se de um pano
de fundo para a apresentação de uma comparação entre os indicadores de preços ao consumidor
no país e os índices apresentados pela economia capixaba, que é apresentada na seção seguinte.
Posteriormente, a análise dos preços é apresentada de maneira setorizada, com uma análise
pontual dos elementos que contribuíssem em cada ramo de atividade para dada trajetória. Em
seguida se busca interpretar os elementos de produção efetivos, com inferências acerca do
Volume Bruto da Produção (VBP), Volume do Consumo Intermediário (VCI), Volume
Adicionado (VA) dos 15 setores divididos entre os ramos de atividade primária, secundárias e
terciárias. Além disso, uma proposta de índice de produtividade, que leva em conta o VA e o
VBP é apresentada com seus respectivos resultados para cada setor. Conclusões gerais sobre os
estudos também são apresentadas e depois as referências bibliográficas. Em anexo encontram-se
as notas metodológicas sobre a conversão de setores e sobre o modelo matemático proposto e os
volumes brutos e percentuais em forma de gráfico.
2 – A segunda metade dos anos 1980 até a estabilização monetária
A trajetória econômica dos estados brasileiros após o regime militar sempre esteve
muito ligada ao governo central. Lopreato postulava que a reforma tributária de 1966,
O governo federal, com a centralização fiscal e com o domínio dos
recursos financeiros, tinha o controle das decisões de investimentos
porque realizava diretamente eleva da parcela dos gastos públicos e
influenciava a política de gastos dos governos estaduais – bem como
do setor privado – via concessão de subsídios e incentivos fiscais
regionais e setoriais, transferências e empréstimos de agências oficiais
(LOPREATO, 2000, p. 7).
Em consonância com essa afirmação, Morandi e Rocha (2012), ao tratarem do
desenvolvimento do Espírito Santo entre a segunda metade da década de 1970 e o início dos
anos 1980, identificam que o entendimento da economia capixaba no período passa pela
avaliação da economia nacional. Para eles,
156

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

[...] grande capital tanto desenvolve atividades inexistentes


anteriormente, quanto se apropria de outras cujo capital local era
hegemônico. Assim, nota-se um duplo movimento, pois, ao mesmo
tempo em que abre espaço para o crescimento do capital local pela
complementariedade, reduz o espaço desse capital que é submetido à
implacável concorrência. O problema se resolve mediante a
concentração, com o desaparecimento de alguns grupos locais e a
consolidação de outros, que se tornam “grandes e nacionais”. Dessa
forma, praticamente todos os setores da economia estadual vão sendo
dinamizados e integrados sob a égide do grande capital.
Nessas condições, as decisões de investimento passam a depender
menos da dinâmica da economia estadual e mais da dinâmica da
economia brasileira e do planejamento estratégico dos grandes grupos
privados e estatais. Suas decisões são baseadas em macro políticas e
procuram sancionar os objetivos e diretrizes da política econômica
federal (MORANDI e ROCHA, 2012, p. 114).
Esses elementos nos levam ao estudo da trajetória da economia brasileira no período
anterior ao início década de 1980. Após o milagre econômico no início da década de 1970 e a
crise da dívida dos países latino-americanos no início dos anos 1980, a economia brasileira
chega a meados desta década em dificuldades. Entre 1981 e 1984 a economia brasileira
decrescera à média de 0,6%, com trajetórias ruins particularmente na indústria e no setor
agropecuário. O período de 1979 e 1984 marcou um decréscimo na renda per capita por volta
de 10% e a inflação avançou de saiu de 43,0% em 1978 para em 230,3% no final do governo
Figueiredo (FISHLOW, 1986). A inflação, oriunda dos choques de oferta de petróleo e de sua
influência na dívida externa, foi identificada como o grande problema da economia brasileira.
Após a morte de Tancredo Neves, José Sarney assume a presidência, em 1985, com a
incumbência quase estrita de trazer a flutuação dos índices de preços para patamares civilizados.
O debate da época identificava que a inflação tinha um aspecto de tendência e outra de
choques estruturais. O Plano Cruzado é lançado em 1986, principalmente para tentar debelar o
aspecto tendencial da inflação, com medidas heterodoxas, entendendo que os choques
desinflacionários, defendidos pelos ortodoxos, teriam impacto reduzido em circunstâncias de
preços descontrolados, acarretando em custos reais elevados. A principal medida do Plano era o
congelamento de preços, que aconteceu já em seu lançamento em Fevereiro. A taxa de inflação
mensal medida pelo IPCA caiu de 12,7% no primeiro mês para -0,1% em Março. Os meses que
se seguiram apresentaram inflação baixa, mas em trajetória de aceleração, até Agosto, quando
chegou a 3,6% ao mês com a autorização de reajustes nos preços administrados. No mês
seguinte o índice de preços declinou para 1,7% voltando a elevar-se e chegando a Dezembro em
11,7%4 (MARQUES, 1988).
Uma das interpretações que se fizeram famosas sobre o fracasso do Plano Cruzado
sugeria que os aumentos de preços, ainda que constantes, não eram sincronizados, de maneira
que no momento do congelamento havia desalinhamentos de preços. Ao mesmo tempo, o
estancamento da inflação provocava uma recomposição na renda e, em consequência, excesso
de demanda. Entendeu-se que os problemas enfrentados pela economia brasileira na época não
eram conjunturais, de maneira que pudessem ser debeladas apenas com um plano econômico,
mas estruturais, do papel que o financiamento do Estado brasileiro ocupava no cenário
econômico.
Estava claro [...] que a transferência de recursos reais envolvida na
crise da dívida era uma causa importante das altas taxas de inflação,

4
O final do ano de 1986 ainda apresentou o episódio do Plano Cruzado II, mas que não teve influência significativa
em baixar as taxas de inflação, mas simplesmente as acelerou para o início de 1987.
157

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

na medida em que obrigava a grandes desvalorizações cambiais. Além


disso, ela tornara a poupança externa negativa e, por meio dos juros
devidos sobre a dívida externa, reduzira a poupança pública. A
consequência havia sido uma dramática redução da taxa de
crescimento da economia brasileira na década de 80 (BRESSER-
PEREIRA, 1993, p. 24).
A natureza estrutural do problema implicava em adoção de medidas de prazos
diferentes. Na avaliação do então Ministro da Fazenda Bresser-Pereira, seriam necessários
Um plano de estabilização de curto prazo, que paralisasse a inflação –
que estava explodindo após o fracasso do Plano Cruzado – e um plano
de estabilização de médio prazo, que apresentasse minha avaliação da
política brasileira e as políticas básicas que orientariam minha ação no
Ministério. [...] O programa de estabilização de curto prazo consistia
em um congelamento de preços de emergência acompanhado de
reformas institucionais e de algumas medidas de ajuste fiscal, que
passaram a ser chamados de ‘Plano Bresser’. O objetivo era reduzir
temporariamente a inflação e retomar um mínimo controle sobre a
economia, de modo a permitir que, em um segundo momento, fosse
posto em prática um programa de estabilização definitivo (BRESSER-
PEREIRA, 1993, p. 25)
Após a implementação do Plano, a inflação caiu de 26% em Junho para 3% em Agosto.
Entretanto, a liberalização gradual dos preços acelerou novamente o processo inflacionário, que
chegou a 14% em Dezembro, mês da saída do ministro.
Outro momento importante do combate à inflação aconteceu logo no início dos anos
1990, com o Plano Collor. O novo presidente lançou o programa de estabilização já no primeiro
dia de seu mandato, através da medida provisória nº 168/90, posteriormente convertida na Lei nº
8.024/90. O entendimento era que a desinflação abrupta causava três inconvenientes que
impediam que as medidas fossem duradouras. Primeiramente havia a tendência de monetização
elevada, por causa da desinflação, com aumento da base monetária. Além disso, com a ampla
liquidez dos ativos financeiros, criava-se um tipo de “moeda indexada” no setor financeiro que
sustentava a inércia inflacionária. Por fim, havia o custo da manutenção da dívida mobiliária
com o aumento das taxas de juros reais.
A maneira com que o Plano tratou dessas dificuldades foi o bloqueio da liquidez. O
entendimento era que sem a indexação, haveria fuga em massa dos capitais, gerando
instabilidade. As aplicações financeiras na caderneta de poupança foram bloqueadas acima de
Cr$ 50 mil (US$ 770 em 30/03/1990). A liberação das aplicações de overnight foram liberadas
em até Cr$ 25 mil ou 20% do valor total e os fundos e depósitos a prazo foram liberados em
20%. O bloqueio estava previsto para 18 meses, com remuneração de 6% ao ano, mais correção
monetária, sendo liberadas a partir do 19º mês em 12 parcelas. “Com o bloqueio se pretendia
assegurar que as pressões inflacionárias não fossem repostas logo em seguida, como ocorrera de
forma cada vez mais rápida e intensa nos três choques heterodoxos dos anos anteriores”
(CARVALHO, 2003, p. 289).
A resposta dos índices de preços ao programa foi satisfatória inicialmente. A inflação,
medida pelo INPC, que havia sido de 68,19% em Janeiro, acelerando-se para 82,18% em
Março, marcando 14,67% em Abril. No mês seguinte chegou a 7,31%, voltando a acelerar-se a
partir de então, chegando a Dezembro em 19,14%, com o fracasso do Plano.
Um dos fundamentos do Plano Collor era a convicção de que, com o
bloqueio da liquidez, o BCB recuperaria o controle da oferta de moeda
e poderia ordenar a monetização, de forma a separar a moeda
demandada para transações e a moeda demandada para especulação. A
158

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

experiência do bloqueio demonstrou a impossibilidade de separar a


demanda por moeda para fins especulativos e para giro dos negócios,
dentro do conjunto formado pela moeda indexada e pela moeda
convencional. O objetivo de controlar a monetização falhou, no
essencial, por este motivo (CARVALHO, 2003, p.329).
Após várias tentativas frustradas para combater a inflação, entendeu-se que a lógica de
constituição de um plano bem sucedido deveria abranger mais elementos que os anteriores. Em
estudo sobre o debate que ocorria na época, Jennifer Hermann (2003) argumentava que as altas
taxas de inflação diminuíam a taxa de juros real, desincentivando a poupança interna e
afastando investidores internacionais. Assim, qualquer política de estabilização econômica
deveria levar em conta as questões do sistema financeiro além das questões fiscais e monetárias.
Segundo ela, programas de estabilização deveriam ser implementados em três etapas.
Primeiramente, deveria haver uma estabilização macroeconômica, que consistiria em um ajuste
fiscal, com a viabilização do orçamento público, a estabilização monetária, reduzindo a
expectativa de inflação, e a reforma no modelo de política monetária, com a utilização dos
instrumentos de mercado aberto ao invés da intervenção direta. O momento posterior seria o de
medidas de liberalização financeira de implementação rápida, com a liberalização dos mercados
de capitais, melhorando os canais de financiamento direto da economia, e a liberalização
cambial, melhorando a transparência e ampliando a liquidez do mercado de divisas. Por fim,
política financeira de médio prazo implicaria na liberalização bancária gradual e condicionada,
para o controle de riscos das operações assumidas pelos bancos, criação de mecanismos de
supervisão bancária, para regular as posições dos financeiras dos bancos, reestruturação
patrimonial do setor bancário, com a privatização de instituições públicas e saneamento de
alguns bancos privados, e finalmente, liberalização da conta de capital, que seria o último passo
para a reforma do sistema monetário.
3 – A estabilização financeira e a análise dos índices de preços no Brasil e no Espírito
Santo
As experiências frustradas no combate à inflação permitiram a elaboração de um plano
econômico que enfrentasse a instabilidade econômica em todas as suas perspectivas.
Inicialmente foi implementado o Plano de Ação Imediata (PAI), que era um programa de ajuste
fiscal que buscava a reorganização do setor público, lançado ainda em Dezembro de 1993. No
início de 1994 foi aprovado o Fundo Social de Emergência, que desvinculava 20% das receitas
federais para as medidas de ajuste fiscal (SOARES, 2010).
O outro elemento a ser considerado pelo Plano foi a inércia inflacionária. Ao contrário
de tentar estabilizar os preços através de congelamento de preços e a indexação de títulos por
meio de congelamento de ativos, a solução achada no âmbito do Real era utilizar uma moeda
auxiliar, a Unidade Real de Valor (URV), para simular o mecanismo inflacionário. O objetivo
era alinhar os preços indexados a partir da URV, de maneira que quando houvesse o lançamento
da nova moeda o carregamento dos preços fosse eliminado. Em 1º de Julho de 1994 foi lançado
o Real, que convertia os cruzeiros em Real na medida de R$ 1,00 para Cr$ 2.750,00. Juntamente
com o Plano foi adotada a política de âncora cambial para segurar os preços domésticos através
da competição com as mercadorias importadas. A taxa de câmbio do Real em relação ao Dólar
foi mantida com a paridade por volta de R$ 1,00 para US$ 1,00 e o Banco Central intervinha no
mercado de câmbio para manter essa cotação. Com o sucesso do Plano Real, a taxa de inflação
medida pelo IPCA que fora de 2.477,15% em 1993, reduziu-se para 916,46% em 1994 e
22,41% em 1995, chegando a 1996 em apenas um dígito. A tabela 1 mostra a inflação brasileira
medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor e o deflator implícito do PIB do Espírito
Santo entre 1986 e 1995.
159

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Gráfico 1 – IPCA e Índice do Deflator Implícito do PIB do Espírito Santo (1986-1995)


2500,00%
2250,00%
2000,00%
1750,00%
1500,00%
1250,00%
1000,00%
750,00%
500,00%
250,00%
0,00%
1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995

IPCA - Brasil Índice de preços do Valor Adicionado ES

Fonte: IBGE (elaboração própria), 2014


O gráfico 1 mostra a aceleração da inflação brasileira após o Plano Cruzado. Os efeitos
provenientes do Plano Collor durante o ano de 1990 também fica claro até 1991 e a aceleração
posterior em 1992. Os índices somente voltam a diminuir em 1994 e se estabilizam a partir de
1995. O indicador de preços do Espírito Santo parece acompanhar o IPCA com alguma
defasagem, mas com uma trajetória semelhante.
A política de manutenção dos preços que se seguiu ao sucesso do Plano Real foi a
utilização da âncora cambial. Posteriormente, em 1999, houve a modificação para a política de
metas para inflação. O principal objetivo da âncora cambial era fazer a inflação interna
convergir para os preços das mercadorias transacionadas no mercado internacional. Esse
provavelmente tenha sido o efeito mais importante para a manutenção da taxa de inflação em
níveis baixos durante a segunda metade da década de 1990. Mesmo assim, como os preços de
produtos não transacionáveis permanecem flutuando, de acordo com a disponibilidade interna, o
índice de inflação diverge da variação cambial, respondendo mais abruptamente às oscilações.
Francisco Souza (1999) postulou que a necessidade de atração de reservas para
manutenção da paridade cambial implicou na prática de taxas de juros muito acima das
internacionais. A mesma taxa básica de juros que servia para atrair divisas e manter o câmbio
estabilizado reajustava a dívida pública brasileira. Nesse sentido, sua manutenção implicou em
uma esforço fiscal expressivo para arcar com a ampliação da dívida pública. O Gráfico 2 mostra
os índices de preços do anterior e a trajetória do câmbio no período posterior a 1995.
Gráfico 2 – IPCA e Índice do Deflator Implícito do PIB do Espírito Santo e taxa de câmbio
(R$/US$) (1996-2009)
20,00% 4,00
18,00% 3,50
16,00%
3,00
14,00%
12,00% 2,50
10,00% 2,00
8,00% 1,50
6,00%
1,00
4,00%
2,00% 0,50
0,00% 0,00
1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009

IPCA - Brasil Índice de preços do Valor Adicionado ES Taxa de câmbio

Fonte: IBGE; Ipeadata (elaboração própria), 2014.


A âncora cambial começou a ser utilizada em 1994, juntamente com a implantação do
Real. Naquele ano, a taxa de conversão ao fim do ano era de R$ 0,84 para cada US$ 1,00. No
ano seguinte, a taxa fechou em R$ 0,97 e chegou ao ano de 1998 em R$ 1,21. O início do ano
posterior foi marcado por uma acentuada desvalorização cambial levando a taxa para R$ 1,79 e
ao abandono da âncora cambial com a implantação do regime de metas de inflação
160

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

(IPEADATA, 2014). Uma observação que pode ser feita é que as taxas de inflação oscilaram
mais que a taxa de câmbio, mesmo em resposta aos efeitos da desvalorização cambial. Ao
mesmo tempo, percebe-se que os índices de preços acompanharam a taxa de câmbio mais
claramente a partir de 2000.
Assim como no gráfico 1, é possível perceber que o índice de preços capixaba
acompanhou os efeitos do IPCA nacional. Mesmo assim, os movimentos do índice no Espírito
Santo parecem responder com uma certa defasagem em relação àquele que se utiliza como
comparação. Além disso, da mesma forma parece responder a variações na taxa de câmbio.
4 – Trajetória dos preços por atividade econômica
Ao tratar das transformações da economia capixaba no início dos anos 1980, Morandi e
Rocha (2012) apontam dois elementos de significativa preponderância. Primeiramente o
aumento da produtividade das atividades agrícolas, com a reposição da capacidade produtiva
dos cafezais, perdida nas décadas anteriores, com o aumento de 80,0% da capacidade produtiva
entre 1975 e 1980. Durante a década de 1970 e meados da década posterior também se expandiu
a área de florestas que passou de 98.388 hectares em 1975 para 156.785 em 1985. Os autores
estimavam que aproximadamente 84,5% dessas áreas destinavam-se à exploração de celulose. A
outra grande modificação na economia estadual ocorrida no período aconteceu no ramo da
indústria de transformação. Nesse caso, os destaques foram para a indústria metal mecânica, que
entre 1970/75 cresceu a taxas de 111,1% ao ano e entre 1975/80 a taxas de 33,3% ao ano e a
indústria de papel papelão que ampliou-se à taxa de 190,0% ao ano no período 1975/80.
Os aspectos estruturais da economia capixaba são importantes na medida em que dizem
respeito à cotação dos preços das mercadorias que produz. Tanto a cafeicultura quanto as
indústrias metal mecânica e o complexo de celulose e indústria de papel tem seus preços
cotados no mercado internacional. Isso implica que são mais sensíveis ao câmbio e ao mercado
internacional que outros setores. Além disso, como apontou Souza (1999) os preços de
mercadorias não transacionáveis em termos internacionais são praticamente imunes às pressões
cambiais. A tabela 1 mostra a trajetória dos preços em diversos setores do Espírito Santo entre
1986 e 2009.
161

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Tabela 1 – Deflator implícito dos setores capixabas entre 1986-2009 (Períodos escolhidos) 5

Fonte: IBGE (elaboração própria), 2014.


Uma informação importante para analisar a tabela 1 diz respeito à trajetória cambial nos
anos entre 1986-1990 e 1991-1995. No primeiro período, a desvalorização do câmbio
correspondeu a 832,2%, chegando a 950,5% no momento posterior. Uma vez que os principais
setores da economia capixaba, agropecuária e indústria de transformação, estavam vinculados
aos preços internacionais, é compreensível que a inflação nesses setores fosse menor na segunda
metade da década de 1980 e se acelerasse no início da década seguinte. O deflator do PIB
agregado pareceu seguir esses setores.
Tratando-se especificamente do que ocorreu entre 1986-1990, percebe-se que os
indicadores de preços dos setores de disponibilidade interna ampliam-se a uma taxa mais
acelerada que os outros, com destaque para Administração pública, defesa e seguridade social,
1.124,2%, Alojamento e alimentação, 1.061,1% e Outros serviços coletivos, sociais e pessoais,
1.295,6%. Ao mesmo tempo, a trajetória dos preços do setor agropecuário ampliou-se a um
nível abaixo do registrado pelo estado em termos gerais e pelo índice nacional. A Indústria
extrativa mineral também parece ter seguido a menor desvalorização cambial, ficando abaixo
dos índices compostos, com 830,4%.
Seguindo a análise dos dados, no corte de tempo posterior, o índice de preços do
Espírito Santo se eleva mais que o IPCA nacional em todos os setores. Um dos elementos que
podem ter influenciado essa trajetória é a maior desvalorização cambial que aconteceu no
período. Além disso, percebe-se que, a despeito do final da década de 1980, a inflação por essa
medida no Estado é mais acelerada que a brasileira. Os setores que mais aceleraram o indicador
capixaba foram Agropecuária, 1.464,6%, Administração pública, defesa e seguridade social,
1.328,6% e Comunicações, 1.313,9%. Outros setores como Eletricidade, gás e água, com
1.078,0%, Indústria de transformação, com 1.047,9%, Comércio e reparação de veículos e
objetos pessoais, 1.088,3% e Intermediação financeira, 1.091,0%, tiveram preços variando
menos que a média estadual.
O período posterior à implantação do Plano Real, 1996-2000, registrou uma média de
8,2% para o deflator implícito do PIB capixaba. A âncora cambial parece ter sido
particularmente influente no caso do setor agropecuário, que registrou deflação média de 2,9%.
Uma observação é que várias atividades do setor terciário, em que se encontram poucos serviços
5
As definições de ramo de atividade e setor econômico estão de acordo com as encontradas nos estudos do PIB do
estado do Instituto Jones dos Santos Neves.
162

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

transacionáveis no mercado internacional tiveram comportamento bem acima da variação


média. Atividades imobiliárias, aluguéis e serviços, 18,0%, Comunicações, 24,5% e Outros
serviços coletivos, sociais e pessoais, 15,6%, corroboram essa argumentação. As altas taxas de
juros praticadas no período, identificado por Souza (1999), bem como a reestruturação bancária
por que passa o país podem ser elementos influentes na explicação da variação dos preços da
Intermediação financeira, que variou em média, 25,1%. Outro setor cujos preços ampliaram-se
em média mais que o geral foi o de Eletricidade, gás e água, 12,9%, que também passou por
várias modificações.
A primeira metade dos anos 2000 marcou uma inflação média levemente mais elevada
que o período anterior no Espírito Santo, 10,6%. A Indústria extrativa e a de transformação
tiveram elevações de 21,8% e 14,6%, respectivamente. A explicação provável para esse
comportamento é a desvalorização cambial que ocorreu no período, uma vez que essas
mercadorias são cotadas no mercado internacional. Em uma análise para a economia nacional,
Braga et. ali (2011) identificou que os setores de commodities e rochas haviam respondido
positivamente aos efeitos da valorização dos preços internacionais nesse período.
Entre as atividades terciárias, Administração pública, defesa e seguridade social,
14,2%, e Intermediação financeira, 15,1%, elevaram-se destacadamente acima da média. Por
outro lado, Agropecuária, 1,6%, Eletricidade, gás e água, 4,2%, Alojamento e alimentação,
3,7%, e Saúde e educação mercantis, 3,0%, tiveram comportamento bem abaixo da média geral.
O último período analisado, 2006-2009, apresentou os menores índices de inflação da
série, 5,6% para o estado e 4,4% da média nacional. Mesmo assim, alguns dos setores não
transacionáveis apresentaram trajetórias de preços bem mais elevadas que a média, como o caso
de Alojamento e alimentação, 15,5%, serviços domésticos, 11,2%, Saúde e educação mercantis,
20,4%. O período ainda apresentou uma recuperação dos preços do setor Agropecuária, 9,8% e
variação bem acima da média para Eletricidade, gás e água, 14,6%. Ao analisarem a política de
metas de inflação no Brasil, de Paula et. ali (2009) identificaram que os preços administrados,
que elevavam-se em patamares bem acima dos administrados até a adoção das metas para
inflação, aproximam-se do núcleo da inflação após a adoção do regime e tornam a acelerar-se a
partir de 2004. Em geral, esses preços mantinham uma trajetória mais elevada que os preços
livres, mesmo após fim da âncora cambial. O período ainda apresentou variação negativa média
na Indústria de transformação, 0,64 e no setor de Comunicações, 2,6%, apresentando
aceleração levemente positiva para a Intermediação financeira, 0,4%.
5 – A trajetória econômica do Espírito Santo entre 1986-2009
Uma das maneiras mais usuais de analisar o desempenho de determinada economia é
através do Produto Interno Bruto (PIB). Em termos agregados, esse indicador mede o volume
agregado adicionado pelo sistema econômico em estudo. Outra forma de analisá-lo é de maneira
particionada, com informações sobre os setores que compõem a economia e seu desempenho.
Além disso, os dados sobre valor adicionado, volume de produção e consumo intermediário
podem trazer informações a respeito da produtividade.
Os dados analisados dizem respeito aos anos de 1985 e 2009 para a economia de
maneira desagregada em 15 setores. Entre as informações contidas estão o Valor Bruto da
Produção (VBP), o Valor do Consumo Intermediário (VCI) e o Valor Agregado (VA), que é
equivalente ao PIB de cada setor e é representado pela diferença entre o VBP e o VCI, sem os
Impostos Sobre Produtos, Líquidos De Subsídios (INSTITUTO JONES DOS SANTOS
NEVES,2013a). Outra organização que se observa entre os setores é a distinção entre atividades
Primária, Secundárias e Terciárias6. A tabela 2 mostra a evolução da ampliação média do Valor
6
Os dados arquivos diferentes, um com valores entre 1986 e 2004 e outro entre 2002 e 2009, já que em 2004 houve
uma modificação no cálculo do PIB. Houve desdobramento de alguns setores e outros foram renomeados. Nos
relatórios do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), os mesmos setores são divididos em atividades primárias,
secundárias e terciárias. A tabela de conversão dos setores dos dois arquivos e das atividades caracterizadas pelo IJSN
163

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Agregado por setor no Espírito Santo no período analisado 7. O gráfico 3 mostra a evolução dos
ramos de atividade como proporção do VA da economia capixaba no período.
Gráfico 3 – Evolução dos grupos de atividades econômicas entre 1985 e 2009
60,00%

50,00%

40,00%

30,00%

20,00%

10,00%

0,00%
1985 1987 1989 1991 1993 1995 1997 1999 2001 2003 2005 2007 2009

Primário Secundário Terciário

Fonte: IBGE (elaboração própria), 2014


Analisando o gráfico 3 pode-se referenciar a importância dos “Grandes projetos” identificados
por Rocha e Morandi (2012), que deram uma grande preponderância para o setor de Indústria
de transformação incluídos como atividade secundária. Ao mesmo tempo, a Agropecuária que
corresponde à atividade primária chegou a representar 19,5% do valor agregado, regredindo
conforme havia a expansão dos setores ligados à ocupação urbana. O crescimento das atividades
terciárias também pode ter fonte no mesmo movimento, tendo a soma de seus setores saído de
38,1% em 1985 para ultrapassar as atividades secundárias em 1994, completando o período
analisado com mais da metade do VA capixaba, 51,3%. Esses movimentos generalizados podem
ser melhor identificados com análises mais pormenorizadas. A tabela dois mostra a trajetória do
VA entre os setores econômicos entre 1986 e 2009.
Tabela 2 – Variação média do Valor Adicionado em períodos escolhidos (1986-2009)

Fonte: IBGE (elaboração própria), 2014.

encontra-se em anexo.
7
A nota técnica sobre a retropolação dos valores entre 1985 e 2002 encontra-se em anexo.
164

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Os cortes temporais analisados no caso dos índices de preços foi utilizado para a análise
dos valores agregados. É importante salientar que o crescimento econômico capixaba foi em
média maior que o do país em todos os períodos analisados. No período de 1986-1990
identifica-se que, tanto a economia capixaba quanto a brasileira cresceram a taxas baixas. O
setor primário, referente à agropecuária caiu fortemente, essa posição corrobora com os efeitos
observados nos preços, que, como foi visto na seção anterior, ampliaram-se em média 15,4%
abaixo do estado. Ao mesmo tempo, pode-se observar que os setores mais ligados às atividades
urbanas ampliam-se de maneira mais vigorosa. As atividades secundárias, mais especificamente
a Construção e os ramos de Eletricidade, gás e água, serviços urbanos, ampliaram-se acima da
média estadual. A Indústria extrativa mineral8 expandiu-se acima da média também. Entre estas
atividades, apenas a indústria de transformação cresceu menos que a média, pois vinha de uma
expansão bastante significativa no período anterior, entre 1975 e 1985. Ao mesmo tempo, os
ramos terciários também ampliaram-se acima da média em praticamente todos os casos. Um
destaque apontado parece ter sido o setor de Comunicações9, que expande-se a taxas de 19,4%.
Outra expansão significativa foi a do segmento de Outros serviços coletivos, sociais e pessoais,
com 11,5% em média por ano. Estas atividades também estão ligadas à urbanização, uma vez
que experimentada pelo Estado no período (MORANDI e ROCHA, 2012).
O corte temporal posterior, entre 1991 e 1995, apresenta uma expansão mais acentuada
do produto nacional. No caso do Espírito Santo, a agropecuária permanece perdendo espaço,
enquanto as atividades secundárias ampliam-se em um ritmo abaixo da média. Entre os setores
do ramo terciário, as atividades imobiliárias e serviços às empresas permanecem ampliando-se
acima da média, juntamente com as Comunicações.
O período entre 1996 e 2000 marca a utilização da âncora cambial como metodologia
de política monetária. Isso implicava na manutenção do Real apreciado frente ao Dólar,
impulsionando as importações para o Brasil. Nesse sentido, um dos destaques foi o setor de
Transportes e armazenagem, que expandiu-se à taxas de 7,3% ao ano. Essa expansão deu-se
porque o estado era uma das portas de entrada das importações no país. Sobre as importações,
Mota afirma que
[...] a participação capixaba no total brasileiro, em valor, manteve-se
crescente [...]. O maior aumento nos anos 90 decorre da abertura
comercial que estimulou-as em todas as regiões. O instrumento do
FUNDAP possibilitou aos importadores operarem pelo porto de
Vitória, mascarando a participação estadual no total das importações,
visto que muitas trading, sobretudo de São Paulo, instalam-se em
Vitória com o objetivo de utilizar aqueles benefícios. Isso superestima
a participação capixaba no total brasileiro. Basta lembrar que o
Espírito Santo tomou-se o principal estado em importações de
automóvel, estimuladas pela sobrevalorização cambial promovida
pelo Plano (MOTA, 2002, p. 103).
A condução da política econômica nacional também marca esse período pelas
transformações no setor bancário, o que parece explicar a trajetória negativa da Intermediação
financeira, que decaiu à média de 0,1%. Novamente, as atividades imobiliárias e serviços às
empresas apresentam uma variação positiva bem acima da média, com 10,4%. As atividades
secundárias e a Agropecuária, apresentam novamente comportamento abaixo da média. Uma
análise a “vocação para o comércio exterior” característico do Espírito Santo, sugeriu que “as
exportações capixabas se concentraram em bens intensivos em matérias-primas, industriais

8
O setor de Indústria extrativa mineral no Espírito Santo refere-se principalmente ao comércio de rochas ornamentais
(cf. MOTA, 2002).
9
O setor de Comunicações é identificado a partir de 2002 como Serviços de informação portanto incorpora todos os
avanços em termos de serviços de informação observados nas últimas décadas.
165

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

semi-elaborados [ferro, ferro fundido e aço] ou tradicionais, como café e rochas ornamentais”
(MOTA, 2002, p. 100). Isso implica que a apreciação cambial é prejudicial a esses setores, uma
vez que dificulta as exportações.
O corte de tempo posterior, 2001 a 2005, é marcado por uma flexibilização na política
cambial. Os setores vinculados à exportação parecem responder positivamente a nova política
cambial, com expansão na Indústria extrativa mineral e Agropecuária expandindo-se a taxas de
médias de 11,8% e 9,8%, respectivamente. Por outro lado, o grupo de atividades terciárias
amplia-se abaixo da média pela primeira vez no período estudado. O segmento de Transportes e
armazenagem reflui de sua significativa expansão no período de câmbio valorizado para crescer
abaixo da média, a taxas médias de 3,9%. O setor de Comunicações, permanece expandindo-se
bastante acima da média, com taxas de 14,9%.
O último período analisado, entre 2006 e 2009, é marcado por nova trajetória de
apreciação cambial. Assim, os setores ligados à exportação voltam a crescer abaixo da economia
estadual, de 6,3%, com a Agropecuária expandindo-se a taxa de 1,7% e o de Indústria de
transformação à 3,1%. Em compensação, os segmentos vinculados à importação voltam a
apresentar trajetória positiva em referência ao estado, com a Indústria extrativa mineral
ampliando-se à 11,8%10 e Transporte e armazenagem à 8,0%.

6 – Uma proposta de avaliação da produtividade dos setores

Outra análise que se buscou fazer foi em relação ao percentual do VBP que
transformou-se em VA, ou seja, que não foi consumido no processo produtivo 11. Entende-se que
esse valor permita fazer alguma inferência sobre a produtividade do setor em termos
monetários12. A tabela 3 mostra a evolução deste indicador para os grupos de atividades e os
setores da economia capixaba no período analisado.

10
Utilizando outra metodologia foi possível identificar a modificação da importância relativa entre os setores das
atividades secundárias “Considerando o crescimento das atividades que constituem o setor secundário, observa-se
que a Indústria de Transformação apresentou expansão de +33,6% entre os anos de 2000 e 2010, abaixo do
desempenho registrado pelo setor de construção Civil (+52,8%) e da Indústria Extrativa, sobretudo desta última, que
registrou um crescimento expressivo de +295,7%” (INSTITUTO JONES DOS SANTOS NEVES, 2013, p. 8). Os
valores equivalentes neste estudo, entre 2000 e 2009, foram 33,0%, 49,9% e 231,1%, respectivamente.

VA
11
A obtenção deste indicador é a simples proporção entre ( VBP )em porcentagem.
12
Não se trata de medir a produtividade dos fatores de produção que dependeriam do cálculo dos
volumes de utilização dos mesmos (cf. SAMPAIO et. ali, 2005).
166

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

VA
Tabela 3 – ( VBP ) em períodos escolhidos (1986-2009)

Fonte: IBGE (elaboração própria), 2014.


Em relação às atividades primárias, que corresponde ao setor de Agropecuária, a
proporção de VA que era de 74,1% em média na segunda metade da década de 1980, tem uma
trajetória declinante até o final da década seguinte. Essa perda pode ter relação com a queda dos
preços relativos do setor no primeiro período. Já a segunda metade da década de 1990 foi
marcada pela manutenção da apreciação cambial, que trouxe dificuldades aos empreendimentos
exportadores. Os dois espaços de tempo seguintes são marcados pela ampliação do indicador, na
época de liberalização cambial, entre 2001 e 2005 e nova retração entre 2006 e 2009.
Entre o grupo de atividades secundárias, o setor de Construção é aquele que
experimenta expansão do índice em todo o período observado. Mesmo nos cortes de tempo em
que se expande abaixo da média estadual, 1996-2000 e 2001-2005. A queda no indicador para o
setor de Eletricidade, gás e água diz respeito ao forte crescimento do Consumo Intermediário
expandiu-se desde 1986 até 2009 a taxa de 8,9%, enquanto o Valor Bruto da Produção cresceu à
6,0%. Entre 2006 e 2009, essa relação se inverteu, com o VBP ampliando-se na base de 5,4% e
o VCI em 4,1%. Mesmo expandindo-se abaixo da média geral, a Indústria de transformação
apresenta crescimento no indicador até o final da década de 1990, com ligeira retração entre
2001 e 2005 e nova expansão desde então, quando volta ao melhor nível, mas com um nível
2,7% acima daquele observado em 1986. Quanto à Indústria extrativa mineral, o VCI expande-
se a taxas superiores ao do VBP até 2003. Dessa maneira há uma inflexão com recuperação do
índice entre 2006-2009.
Na análise das atividades terciárias como um todo 13, observa-se que houve expansão do
indicador entre 1986 e 2000. Entre 2001 e 2009 observa-se uma queda no índice. Como um
todo, houve expansão de 2,2% durante o período estudado. Os setores que puxaram o
crescimento foram Administração pública, defesa e seguridade social 9,1%, Alojamento e
alimentação 16,7% e Transporte e armazenagem 28,4%. O setor de Atividades imobiliárias,

13
Entre os dados, não há registro de consumo intermediário para o setor de Serviços domésticos,
de maneira que VBP=VA para todos os períodos.
167

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

aluguéis e serviços prestados às empresas apresentou queda no indicador em 5,5%, apesar de


ter apresentado expansão acima da média nos primeiros quatro períodos analisados.
Comportamento parecido ocorreu no setor de Comunicações, que expandiu-se a taxas
relativamente altas em comparação com o restante da economia, mas teve retração no indicador
de 2,5%. Os outros setores apresentaram comportamento negativo para o índice.

7 - Conclusões

O artigo apresentou as informações sobre o exercício da retropolação dos dados de VBP,


CI, VA e Índice de preços de 15 setores da economia capixaba entre 1985 e 2009. É uma
contribuição à análise da economia do estado para unificação dos dados encontrados sobre o
período e que já haviam sido retroagidos até 1995. Entende-se que a análise permitiu reconstruir
os aspectos mais relevantes da trajetória econômica que se seguiu no período dado o cenário que
a economia brasileira representou.
A reconstrução da primeira metade da década de 1980 e os planos de controle
inflacionário que ao longo de seu curso foram o ponto de partida para a análise. A economia
capixaba compartilhou das dificuldades enfrentadas pelo país naquele momento, apresentando
taxas de crescimento baixas e índices de preços crescendo a taxas aceleradas. Naquele
momento, as atividades secundárias, ligadas à produção de commodities industriais para
exportação representavam a maior parte do VA da economia do estado e a agropecuária ainda
apresentava preponderância, com 19,5% do geral. Mesmo assim, já podia-se perceber uma
tendência à ampliação dos serviços urbanos, vinculados às atividades terciárias e da construção
dos centros urbanos, incorporados no setor de construção.
Mesmo com os desajustes do início dos anos 1990, há uma ampliação do crescimento,
tanto em níveis nacionais quanto locais. Os índices de preços permaneceram em trajetória
acelerada até a implementação do Plano Real, em 1994. O comportamento observado em nível
nacional foi compartilhado com a economia local. Em termos de desempenho econômico, esse
período foi desfavorável às atividades agropecuárias que atingem 10,0% do VA no ano. A
proporção deste valor frente à produção bruta também diminui vertiginosamente. No caso das
atividades secundárias, apesar da diminuição de sua importância relativa, o percentual de VA em
relação ao VBP ampliou-se em relação à década anterior. Trata-se de um indicativo de que a
vigorosa expansão das atividades terciárias, em média 84,6% acima do estado, que responda
pela modificação. Em 1994, o VA das atividades terciárias foi de 45,5% e das secundárias
44,5%, quando haviam sido de 44,0% e 44,9%, respectivamente, no ano anterior.
A âncora cambial adotada entre 1995 e 2000 trouxe resultados positivos no combate à
inflação e provocou algumas mudanças na economia do Espírito Santo. O período marca a
consolidação das atividades terciárias, que mais uma vez expandem-se em um patamar 75,8%
superior à média estadual. Neste caso, destaca-se Administração pública, defesa e seguridade
social, Atividades imobiliárias, aluguéis e serviços prestados às empresas e Comunicações, com
expansão de 7,8%, 10,4% e 20,3%, respectivamente. Os dois últimos setores ainda respondem
por uma aceleração de preços elevada, de 18,0% e 24,5%, respectivamente.
No período, os ramos voltados para a exportação de commodities industriais, rochas
ornamentais e agropecuária perdem espaço frente ao câmbio valorizado enquanto o de
Transporte e armazenagem se acelera com os ramos industriais de outros estados importando
produtos pelos portos capixabas, permitindo uma ampliação média de 7,3%. A proporção do VA
em relação ao VBP amplia-se significativamente nesse setor, 48,2%, quando havia sido de
45,0%, entre 1991-1995 e de 40,5% na década anterior.
Ao mesmo tempo, a política de juros altos faz os preços da Intermediação financeira
ampliarem-se acima da média, mesmo com a queda no VA do setor, com declínio acentuado de
168

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

sua proporção em relação ao VBP. Os preços administrados de Eletricidade, gás e água,


também apresentam trajetória acelerada e comportamento análogo ao setor financeiro na
produção.
O início do século XXI começou com a implementação do regime de metas para inflação e a
valorização do US$ que se seguiu ao abandono da âncora cambial. Assim, o corte de tempo
entre 2001 a 2005 observou um efeito positivo no setor de Agropecuária, que expandiu-se à
média de 9,8%. Essa expansão foi possível apesar de os preços terem expandido-se abaixo da
média, 1,6% ante, 10,6% do estado, com aumento da proporção do VA em relação ao VBP para
66,4% ante 62,3% no fim da década de 1990. No caso da aceleração nos preços da Indústria de
transformação, entende-se que valorização relativa dos preços internacionais das commodities
industriais capixabas produziu o aumento de 3,5%, uma vez que não houve variação
significativa no indicador de produtividade. O setor de Indústria extrativa mineral, que
ampliou-se à média de 11,8% ao ano no período, parece ter sido o maior beneficiado da
recomposição dos preços internacionais, uma vez que seu percentual de VA sobre VBP diminui
para 34,2%, frente a 50,5% no período anterior, e o índice de preços subindo à 105,9% mais que
a média. Esse momento também marca o primeiro trecho em que o grupo de atividades
terciárias amplia-se menos que a média estadual, 4,5% e 4,7%, respectivamente. As exceções
ficaram entre os setores de Atividades imobiliárias, aluguéis e serviços prestados às empresas,
5,4%, Outros serviços coletivos, sociais e pessoais, 5,7% e Comunicações, 14,9%.
Nos quatro anos finais da análise, acentuam-se alguns elementos identificados na primeira
metade da década de 2000. A tendência de ampliação da Indústria extrativa mineral, ou seja, de
rochas ornamentais, se mantem, desta vez com expansão significativa da proporção de VA em
relação ao VBP, que passou para 42,4%. Esse movimento permitiu o crescimento do setor na
ordem de 18,5%, bem acima da média estadual, de 6,3%, mesmo com seus preços ampliando-se
menos que os da economia em termos gerais, 4,2% e 5,6%, respectivamente. Destaca-se que o
crescimento da economia estadual no período foi 68,9% maior que a média nacional. Essa
ampliação trouxe carregou setores como a Construção, 8,2% e as atividades terciárias, que
crescem à média de 6,0%. Os destaques entre essas atividades são a Intermediação financeira,
que expande-se à 14,3% e Transporte e armazenagem, 8,0%. O setor de Comércio e reparação
de veículos e objetos pessoais também aparece de maneira destacada com ampliação de 7,0% no
período.
169

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Referências Bibliográficas
ARESTIS, Philip, DE PAULA, Luiz Fernando e FERRARI-FILHO, Fernando. A nova política
monetária: uma análise do regime de metas de inflação no Brasil. Economia e Sociedade. Abril de
2009, Vol. 18, nº 1, pp. 1-30.
BASTOS, Carlos, JORGE, Calorine Teixeira e BRAGA, Júlia. Análise desagregada da inflação por
setores industriais da economia brasileira entre 1996 e 2011. Textos para discussão nº 18 - IE/UFRJ.
2011.
BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Estabilização em um ambiente adverso: a experiência brasileira
de 1987. Revista de Economia Política. Outubr-Dezembro de 1993, Vol. 13, nº 4, pp. 16-36.
CARVALHO, Carlos Eduardo. O fracasso do Plano Collor: erros de execução ou de concepção?
EconomiA. Julho-Dezembro de 2003, Vol. 4, nº 2, pp. 283-331.
FISHLOW, Albert. A economia política do ajustamento brasileiro aos choques do petróleo: Uma
nota sobre o período 1974/84. Pesquisa e Planejamento Econômico. 16, Dezembro de 1986, Vol. 3,
pp. 507-550.
HERMANN, Jennifer. O modelo de liberalização financeira dos anos 1990: 'Restatement' ou a
autocrítica? Revista Nova Economia. Julho-Dezembro de 2003, Vol. 13, nº 2, pp. 137-172.
IBGE. 2014. Contas regionais. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. [Online] 2014. [Citado
em: 19 de Novembro de 2014.] http://downloads.ibge.gov.br/downloads_estatisticas.htm.
—. 2007. Nota metodológica nº 26. Instituto Jones dos Santos Neves. [Online] Dezembro de 2007.
[Citado em: 19 de Novembro de 2014.] www.ijsn.es.gov.br.
INSTITUTO JONES DOS SANTOS NEVES. A indústria de transformação capixaba: mudanças
estruturais entre 2000 e 2010. Instituto Jones dos Santos Neves. [Online] Novembro de 2013a.
[Citado em: 19 de Novembro de 2014.] www.ijsn.es.gov.br.
—. 2013. PIB estadual 2002-2011. Instituto Jones dos Santos Neves. [Online] Novembro de 2013b.
[Citado em: 19 de Novembro de 2014.] www.ijsn.es.gov.br.
IPEADATA. Taxa de câmbio - R$ / US$ - fim período. Ipeadata. [Online] [Citado em: 11 de
Novembro de 2014.] http://ipeadata.gov.br/.
LOPREATO, Francisco. Federalismo e finanças estaduais: algumas reflexões. Texto para Discussão
nº 98. IE/UNICAMP. Setembro de 2000.
MARQUES, Maria Sílvia. O Plano Cruzado: teoria e prática. Revista de Economia Política. Julho-
Setembro de 1988, Vol. 8, nº 3, pp. 101-130.
MORANDI, Angela Maria e ROCHA, Haroldo Corrêa. Cafeicultura e grande indústria: a transição
no Espírito Santo 1955-1985. Vitória: Espírito Santo em Ação, 2012.
MOTA, Fernando. Integração e dinâmica regional: O caso capixaba (1960-2000) - Tese (Doutorado).
Biblioteca digital da Unicamp. [Online] 2002. http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?
code=vtls000249024&fd=y.
SAMPAIO, Armando Vaz, PORCILE, Gabriel e CURADO, Marcelo. Produtividade total dos
fatores: Aspectos teóricos e evidências brasileiras. Economia & Tecnologia. Setembro-Dezembro,
2005, Vol. 3.
SOARES, Fernando Antônio. Da formação às fases da âncora cambial no Brasil: Uma perspectiva
histórica do Plano Real. Economia e Desenvolvimento. 2010, Vol. 9, pp. 31-78.
SOUZA, Francisco Eduardo. A política de câmbio do Plano Real (1994-1998) especificidades da
âncora cambial brasileira. Revista de Economia Contemporânea. Janeiro-Junho de 1999, nº 5, pp.
37-56.
170

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Anexo I – Listagem da nomenclatura dos setores 1985 para 2002

Lista de setores nos arquivos originais Lista de setores utilizados no trabalho Atividade
Agropecuária Agropecuária Primária
Indústria extrativa mineral Indústria extrativa mineral Secundária
Indústria de transformação Indústria de transformação Secundária
Eletricidade, gás e água Eletricidade, gás e água Secundária
Construção Construção Secundária
Comércio e reparação de veículos e objetos Comércio e reparação de veículos e objetos
pessoais pessoais Terciária
Alojamento e alimentação Alojamento e alimentação Terciária
Transportes e armazenagem Transportes e armazenagem Terciária
Comunicações Comunicações Terciária
Intermediação financeira Intermediação financeira Terciária
Atividades imobiliárias, aluguéis e serviços Atividades imobiliárias, aluguéis e serviços
prestados às empresas prestados às empresas Terciária
Administração pública, defesa e seguridade social Administração pública, defesa e seguridade social Terciária
Saúde e educação mercantis Saúde e educação mercantis Terciária
Outros serviços coletivos, sociais e pessoais Outros serviços coletivos, sociais e pessoais Terciária
Serviços domésticos Serviços domésticos Terciária
Agricultura Agropecuária Primária
Pecuária Agropecuária Primária
Atividades imobiliárias, aluguéis e serviços
Serviços de informação prestados às empresas Terciária
Serviços prestados à família e associativas Outros serviços coletivos, sociais e pessoais Terciária
Atividades imobiliárias, aluguéis e serviços
Serviços prestados às empresas prestados às empresas Terciária
Construção civil Construção Secundária
Indústria extrativa Indústria extrativa mineral Secundária
Produção e distribuição de eletricidade, gás, água,
esgoto e limpeza urbana Eletricidade, gás e água Secundária
Comércio e reparação de veículos e objetos
Comércio e serviços de manutenção e reparação pessoais Terciária
Serviços de alojamento e alimentação Alojamento e alimentação Terciária
Transportes, armazenagem e correio Transportes e armazenagem Terciária
Intermediação financeira, seguros e previdência
complementar e serviços relacionados Intermediação financeira Terciária
Atividades imobiliárias, aluguéis e serviços
Atividades imobiliárias e aluguéis prestados às empresas Terciária
171

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Anexo II – Nota técnica da retropolação

A partir de 2007, o sistema de contas regionais foi revisto e houve uma retropolação até
o ano de 1995. O princípio era que as variações dos índices de preço e volume permaneceram
inalteradas (cf. IBGE, 2007). Esse pressuposto foi utilizado no modelo que se apresentou com
uma modificação. Assumiu-se que, em termos globais, os indicadores de Valor Bruto Agregado
e Consumo Intermediário estavam corretos, mas que sua distribuição entre os setores estava
desbalanceada. Isso implica em afirmar que toda a variação do produto se deu entre os setores
estudados, de maneira que se houvesse uma expansão menor de um setor ela seria compensada
por outro. Assim, permitiu-se que os índices de volume fossem revistos de maneira que a
distribuição percentual dos setores em 1985 convergisse para aquela observada em 2002, sem
que se perdesse a proporção das variações dentro dos setores ao longo do tempo. Entende-se por
agregados os volumes apurados nas contas, sejam eles Valor Bruto da Produção (VBP) ou
Consumo Intermediário (VCI). O Valor adicionado é apurado a partir da subtração entre o VBP
e o VCI.
A organização entre os setores e os volumes agregados dos setores A até M de são dados pela
formalização que segue.
Setor A A 1985 A 1986 … A 2002
… … … … …
Setor M M 1985 M 1986 … M 2002
Agregado A 1985 +…+M 1985 A 1986 +…+ M 1986 … A 2002 +…+ M 2002
(1)
A suposição é que o índice que a proporção dos índices que reajusta os valores dos setores ao
longo dos anos está correto. Entretanto, a proporção desse reajuste entre os setores está
desbalanceada, de maneira que é necessário achar um vetor que normalize os valores. Ou seja,
A 1985 A 2002
as proporções e são diferentes entre si, mas ambas
A 1985 +…+ M 1985 A 2002 +…+ M 2002
verdadeiras. Nesse caso, se assume que o índice de reajuste não conseguiu captar as variações
adequadamente. Assim, o objetivo é achar um grupo de valores que garanta a convergência das
proporções entre um setor em 1985 e o seu equivalente em 2002.
A expressão que iguala os valores observados à trajetória medida entre 1985 e 2002 de um setor
específico é dado pela expressão que segue.
A 1986 A 2002
PA ( ) ( )
A 1985

A 2001
( A 1985 )=(1+r A )
2002−1986
( A 1985 )= A 2002
(2)
A t +1
Os fatores correspondentes a
( )At
, t como um parâmetro de tempo qualquer, são equivalentes

aos índices de volume de reajuste dos agregados. Assim, pode-se rearranjar (2) e substituir pelos
próprios índices, estabelecendo um vetor para todos os setores como em (3).
172

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

(1+r A )n
P A=
( Í ndice de volume A 1986 )( Í ndice de volume A 1987 ) … ( Í ndice de volume A 2002 )

(1+r M )n
P M=
( Í ndice de volume M 1986 )( Í ndice de volume M 1987 ) … ( Í ndice de volume M 2002 )
(3)

Aplicando-se o vetor (3) na expressão (1), pode-se reescrever impondo-se que a expressão (4)
seja verdadeira
A 1986 A 2002
Setor A PA
( )(
A 1985
A 1985 ) … PA
( )(
A 2001
A 2001 )

… … … …
M 1986 M 2002
Setor M PM
( )
M 1985
( M 1985 ) … PM
( )
M 2001
( M 2001 )
A 1986 M 1986 A M 2002
Agregado P A
( )
A 1985
( A 1985 ) +…+P M
( )
M 1985
( A 2001 ( )
M 1985 ) … P A 2002 ( A 2001 ) +…+ P M
M 2001 ( )
( M 2001 )

(4)
Assim, garante-se que os índices de volume dos setores garantem sua proporção ao longo dos
anos e sejam adequadas a ambos os estudos.
173

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019


Anexo III - Quadros - VBP, VCI e % de Valor adicionado

Espírito Santo (R$ Bilhões 2002)


0,54 70,00

0,53 60,00

0,52 50,00

0,51 40,00

0,50 30,00

0,49 20,00

0,48 10,00

0,47 -
1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007

Agropecuária (R$ Bilhões 2002)


0,81 4,00
0,78 3,50
0,75 3,00
0,72 2,50
0,69 2,00
0,66 1,50
0,63 1,00
0,60 0,50
0,57 -
1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007

Construção (Bilhões R$ 2002)


0,58 4,50
0,56 4,00
0,54 3,50
0,52 3,00
0,50 2,50
0,48 2,00
0,46 1,50
0,44 1,00
0,42 0,50
0,40 -
1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007
174

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Eletricidade, gás e água (Bilhões R$ 2002)


0,58 1,60
0,52 1,40
0,46 1,20
0,40 1,00
0,34 0,80
0,28 0,60
0,22 0,40
0,16 0,20
0,10 -
1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007

Indústriadetransformação (Bilhões R$ 2002)


0,36 18,00
0,35 16,00
0,34 14,00
0,33 12,00
0,32 10,00
0,31 8,00
0,30 6,00
0,29 4,00
0,28 2,00
0,27 -
1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007

Indústriaextrativamineral (Bilhões R$ 2002)


0,86 12,00

0,76 10,00

0,66 8,00

0,56 6,00

0,46 4,00

0,36 2,00

0,26 -
1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007
175

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Administração Pública (R$ Bilhões 2002)


0,75 6,00

0,73 5,00

0,71 4,00

0,69 3,00

0,67 2,00

0,65 1,00

0,63 -
1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007

Alojamento e alimentação (R$ Bilhões 2002)


0,56 1,20

0,54 1,00

0,52 0,80

0,50 0,60

0,48 0,40

0,46 0,20

0,44 -
1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007

AtividadesImobiliárias, aluguéis e serviços a famílias e empresas(R$ Bilhões


2002)
0,87 2,50

0,85 2,00

0,83 1,50

0,81 1,00

0,79 0,50

0,77 -
1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007
176

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Comércio ereparação de veículos e objetospessoais (R$ Bilhões 2002)


0,78 6,00

0,76 5,00

0,74 4,00

0,72 3,00

0,70 2,00

0,68 1,00

0,66 -
1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007

Comunicações (R$ Bilhões 2002)


0,63 5,00
0,62 4,50
0,61 4,00
0,60 3,50
0,59 3,00
0,58 2,50
0,57 2,00
0,56 1,50
0,55 1,00
0,54 0,50
0,53 -
1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007

Intermediação financeira (R$ Bilhões 2002)


0,91 3,00

0,85 2,50

0,79 2,00

0,73 1,50

0,67 1,00

0,61 0,50

0,55 -
1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007
177

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Serviçosde saúde e educação mercantis (Bilhões R$ 2002)


0,66 1,40

0,64 1,20

0,62 1,00

0,60 0,80

0,58 0,60

0,56 0,40

0,54 0,20

0,52 -
1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007

Transportese armazenagem (R$ Bilhões 2002)


0,54 6,00

0,50 5,00

0,46 4,00

0,42 3,00

0,38 2,00

0,34 1,00

0,30 -
1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007

Serviçosdomésticos (R$ Bilhões2002)


0,35

0,30

0,25

0,20

0,15

0,10

0,05

-
1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007
178

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Outrosserviços coletivos, sociais e pessoais(R$ Bilhões 2002)


0,64 1,40

0,62 1,20

0,60 1,00

0,58 0,80

0,56 0,60

0,54 0,40

0,52 0,20

0,50 -
1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007

Anexo IV – Proporção de Valor Adicionado agregado por setor no Espírito Santo em períodos escolhidos (1985 a 2009)
Saúde e educação
mercantis
Serviçosdomésticos
0,44%
Transportes e
armazenagem 1985-1990
1,91% 7,22% Agropecuária
14,64%
Outrosserviços
coletivos, sociais e
pessoais
Intermediação 0,69%
financeira
Construção
6,40%
Comunicações 6,62%
0,57%

Comércio e reparação Eletricidade, gás e água


de veículose objetos 1,62%
pessoais
11,57%
Atividades imobiliárias,
aluguéis e serviços
prestados às empresas
5,26%
Alojamento e
alimentação
1,53%
Indústria de
Administração pública, transformação
defesae seguridade Indústria extrativa 28,64%
social mineral
7,79% 5,12%
179

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019


Saúde e educação
mercantis
Transportes e
armazenagem 1991-1995
2,24% Serviços 6,77% Agropecuária
Outrosserviços domésticos 11,66%
coletivos, sociais 0,67%
e pessoais
Intermediação 1,08%
financeira Construção
5,51% Comunicações 7,87%
0,91%
Eletricidade, gás e
água
Comércio e reparação
1,67%
de veículose objetos
pessoais
12,54%
Atividades imobiliárias,
aluguéis e serviços
prestados às empresas
7,49% Indústria de
transformação
Alojamento e
24,09%
alimentação
1,67% Administração pública,
defesae seguridade Indústria
social extrativa mineral
10,29% 5,56%

Saúde e educação Transportes e Agropecuária


1996-2000
Outrosserviços mercantis armazenagem 7,77%
Serviços
coletivos, sociais e 2,43% 7,57%
domésticos
pessoais 1,03% Construção
1,41%
8,24%
Intermediação
financeira
4,81% Eletricidade, gás e
Comunicações água
1,71% 1,51%

Comércio e reparação Indústria de


de veículose objetos transformação
pessoais 21,03%
12,70%

Atividades imobiliárias,
Administração pública, Indústria extrativa
aluguéis e serviços
defesae seguridade mineral
prestados às empresas Alojamento e
alimentação social 5,45%
10,15%
1,69% 12,50%
180

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019


Serviçosdomésticos Transportes e 2001-2005
1,20% armazenagem Agropecuária
7,88% 8,31%
Saúde e educação
Outrosserviços mercantis
coletivos, sociais e 2,45% Construção
pessoais 7,01%
1,63%
Eletricidade, gás
Intermediação e água
financeira Comunicações 0,82%
3,97% 3,08%

Comércio e reparação
de veículose objetos
pessoais Indústria de
11,08% transformação
18,51%

Administração
pública, defesae
Atividades imobiliárias, seguridade social Indústria extrativa
aluguéis e serviços 13,62% mineral
prestados às empresas Alojamento e 6,91%
11,86% alimentação
1,68%

Serviçosdomésticos 2006-2009
0,96% Transportes e
armazenagem Agropecuária
Saúde e educação 8,10% 7,42%
Outrosserviços
mercantis Construção
coletivos, sociais
2,20% 7,04%
e pessoais
1,86% Eletricidade, gás
Intermediação e água
financeira 0,69%
4,37%

Comunicações Indústria de
3,39% transformação
17,57%

Comércio e reparação
de veículose objetos
pessoais
11,47% Indústria extrativa
mineral
9,20%
Atividades imobiliárias,
Administração
aluguéis e serviços
pública, defesae
prestados às empresas Alojamento e
alimentação seguridade social
11,79%
1,69% 12,27%

Fonte: IBGE (elaboração própria), 2014.


181

A Inserção Feminina no Mercado de Trabalho


sob o Contexto Capitalista nas Regiões
Metropolitanas do Brasil do Período 2003 -
20141
Alana Paula de Araújo Aires2
André Cutrim Carvalho3

Resumo

Do ponto de vista histórico, especialmente a partir da década de setenta com a ocorrência de movimentos
sociais mundiais pelo mundo, a cultura da sociedade também foi sendo alterada. O gênero feminino
passou a conquistar maiores espaços no mercado de trabalho e, consequentemente, aumentando o seu
nível de instrução, bem estar e escolaridade. No entanto, ainda sofrem com a desigualdade salarial e por
serem minoria em cargos que exigem maior grau de instrução. Nestes termos, o presente artigo busca
analisar por que mesmo com tantos avanços no âmbito econômico e social este fenômeno persiste no
capitalismo contemporâneo. Além disso, este trabalho analisou a relevância da participação feminina no
mercado de trabalho, sobretudo a sua representação econômica do ponto de vista do capitalismo
contemporâneo. Para realização desse trabalho foi utilizado o método descritivo-exploratório, utilizando
dados secundários do IBGE. Percebeu-se, portanto, que a partir de uma ação conjunta entre o Estado e a
sociedade civil organizada pode-se alcançar resultados positivos.

Palavras-chave: gênero feminino; mulheres; mercado de trabalho; capitalismo.

Abstract
From the historical point of view, especially since the seventies with the occurrence of worldwide social
movements around the world, the culture of society has also been changed. The female gender has gained
more space in the labor market and, consequently, increasing its level of education, well-being and
schooling. However, they still suffer from the inequality of wages and from being a minority in positions
that require a greater degree of education. In these terms, the present article seeks to analyze why even
with so many advances in the economic and social sphere this phenomenon persists in contemporary
capitalism. In addition, this study analyzed the relevance of female participation in the labor market,
especially its economic representation from the point of view of contemporary capitalism. For this work,
the descriptive-exploratory method was used, using secondary IBGE data. It has been realized, therefore,
that from a joint action between the State and organized civil society one can achieve positive results.

Keywords: female gender; women; job market; capitalism.

Classificação JEL: J16.

1
Artigo apresentado em 30/10/2018. Aprovado em 20/12/2018.

2
Mestranda em Gestão de Recursos Naturais e Desenvolvimento Local da Amazônia pelo PPGEDAM (UFPA).
Especialista em Desenvolvimento de Áreas Amazônicas pelo FIPAM-NAEA (UFPA). Economista pela Faculdade de
Economia - FACECON (UFPA). E-mail: alanah.aires@gmail.com.

3
Doutor em Desenvolvimento Econômico e Pós-Doutor em Economia pelo Instituto de Economia (IE) da
Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Professor-Pesquisador da Faculdade de Economia (FACECON) e
do Programa de Pós-Graduação em Gestão de Recursos Naturais e Desenvolvimento Local da Amazônia
(PPGEDAM ) da UFPA e Professor-Visitante do IE-UNICAMP. E-mail: andrecc83@gmail.com.
182

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

1. INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, um dos marcos importantes em um contexto de análise mundial e,


principalmente, nacional foi a inserção feminina de forma gradativa no mercado de trabalho. O
presente estudo procura realizar uma análise sobre o ingresso feminino no mercado de trabalho,
nas principais Regiões Metropolitanas Brasileiras, no período de 2003 a 2014.
Em linhas gerais, este artigo busca explicar se houve aumento da participação
feminina neste período e como ocorreu esta inserção, bem como suas características. Por outro
lado, será demonstrado de que forma os fatores culturais refletem na reduzida participação
feminina e como isto afeta a economia.
Para este trabalho foram analisadas as Regiões Metropolitanas de Recife, Salvador,
Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e de Porto Alegre a partir dos dados gerados pela
Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE. As cidades e os indicadores foram escolhidos por
apresentarem as mudanças mais significativas ao longo dos últimos 12 anos. Por definição, a
Região Metropolitana de Belém não foi analisada no estudo, uma vez que crescimento da
inserção feminina no mercado de trabalho foi extremamente marginal, a partir do período
utilizado4.
Atualmente, com o avanço da globalização, muitas mulheres conquistaram o seu
espaço no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, empresas capitalistas procuram reunir
habilidades de homens e mulheres para alcançar a eficiência máxima dentro da corporação, isto
é, elevar a produtividade, reduzir os custos e, consequentemente, aperfeiçoar o tempo
despendido com cada tarefa.
No entanto, apesar de tantas conquistas em relação à inserção feminina no mercado de
trabalho, ainda existem mulheres que aceitam funções sem remuneração adicional, pois sentem
a necessidade de se fixarem e provarem a sua capacidade na empresa. Muitas destas empresas,
inclusive, procuram o perfil feminino a fim de ocuparem cargos importantes pelo fato deste
perfil ser polivalente, ou seja, trabalham fora do lar, são mães (em alguns casos) e, também,
executam tarefas domésticas. Neste caso o perfil feminino é o mais adequado. Segundo Sousa
(2001, p.15):
A mulher trabalhadora foi um produto da Revolução Industrial, não
tanto porque a mecanização tenha criado para ela setores de trabalho,
onde antes não existiam, mas porque ela se tornou uma figura
perturbadora e visível.

Outra questão avaliada neste artigo é em relação as desigualdade de gênero existentes


no Brasil e que refletem na desigualdade em termos de renda. De acordo com a pesquisa
realizada pela ONU (2010), já não é mais possível explicar as diferenças de salário com a falta
de oportunidades. No Brasil, por exemplo, o tempo médio de estudo das mulheres já é superior
ao dos homens, e nos Estados Unidos, as mulheres ocupam 58% das vagas nas universidades.
Neste sentido, o presente trabalho busca analisar por que mesmo com tantos avanços
em diversos setores da economia brasileira e em maiores incrementos até mesmo na Legislação
vigente (como a licença maternidade), as mulheres ainda são minoria no mercado de trabalho e,
ainda, representam, em alguns casos, salários menores em relação aos homens. Nestes termos, o
problema a ser investigado nesta pesquisa pode ser formulado através da seguinte pergunta: As
desigualdades em torno do gênero feminino representam, de fato, uma realidade extremamente
prejudicial dentro capitalismo contemporâneo?

4
Segundo dados obtidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Pesquisa Nacional por
Amostras de Domicílio (PNAD) e Ministério do Trabalho Emprego e Renda (MTb), na Região Metropolitana de
Belém, de 2005 a 2015, a participação feminina no mercado de trabalho foi extremamente pequena, uma vez que os
homens, ainda, constituem a maior parcela de participação neste sentido e as mulheres constituem a maior parte da
população desocupada.
183

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

A hipótese do trabalho decorrente do questionamento acima conduz a suposição de


que além das causas econômicas, sociais e políticas, há fatores culturais colaboradores para o
problema em questão. Um dos fatores determinantes deste comportamento pode ser explicado
por uma herança sócio-cultural oriunda da Idade Média, já que neste período as mulheres eram
proibidas de demonstrar suas habilidades em atividades que não fosse dentro do lar. No entanto,
é notório que as desigualdades de gênero ainda estão presentes no capitalismo contemporâneo.
Uma das consequências em relação às desigualdades de gênero é o reflexo no nível de
salários entre homens e mulheres. Pode-se afirmar que tal diferença inicia-se quando o gênero
feminino passa a ser considerado como “sexo frágil”.
Segundo André (2009), existe um tipo de preconceito que está sendo aniquilado a cada
dia, mas que sutilmente ainda existe em muitos locais e áreas: o preconceito contra a mulher no
âmbito profissional em alguns setores, que existem cargos específicos para homens, onde a
mulher não é capaz de executar.
Lombardi (2007, p. 04) vai além quando diz:

Dependendo da profissão que escolheram, a discriminação contra a


mulher tem se mostrado mais forte, como tem sido constatado em
numerosos estudos e pesquisas. Em geral, essa discriminação não é
explícita, o que torna mais difícil para as mulheres identificá-la e
reagir a ela. Invariavelmente a discriminação parte dos homens,
normalmente, dos colegas de profissão que estão no mesmo nível.
Uma das causas é o receio de que a colega venha a competir com eles
por melhores posições na empresa. A minimização desse problema
começa primeira pela conscientização de que ele existe. É muito
comum as mulheres não se darem conta do processo de discriminação
e reagirem trabalhando mais e mais, o que, por sua vez, alimentará a
resistência dos colegas. Estão aí os ingredientes para o, atualmente,
tão discutido assédio moral no trabalho.
O preconceito com relação a inserção feminina no mercado de trabalho é
consequência natural do modo de produção capitalista, conceitos religiosos e sociais que a
mulher sofre no âmbito profissional. Os múltiplos papéis da mulher no lar e na família são
constantemente confrontados e lembrados de forma a criar obstáculos para que ela tenha um
trabalho fora do lar e uma vida independente (ANDRÉ, 2009).
No Brasil, estudiosos clássicos como Langoni (1973), Senna (1976) e Branco (1979)
baseavam-se em um modelo que conectava a curva de U-invertido de Kuznets à Teoria do
Capital Humano, de modo que o acelerado crescimento econômico em um país de renda per
capita relativamente baixa e a mudança da estrutura econômica de agrária para industrial teria
desencadeado efeitos concentradores da renda. Esta vertente focava a distribuição pessoal da
renda com um olhar mais específico sobre o mercado de trabalho (SANTOS 2011).
Já na década de 1990, a literatura apresentou inúmeros trabalhos no sentido de
identificar as causas da desigualdade de renda brasileira, uma vez que, a concentração de renda
ainda continuava em níveis elevados. BARROS et. al (2002) afirma que:
Ao conceder sequência a esses trabalhos de cunho langoniano,
enfatiza-se um dos principais problemas sociais do país decorria da
desigualdade educacional responsável pela desigualdade salarial da
população brasileira.

Por outro lado, os resultados empíricos de Mendonça et. al (1995), embora tenham
incluído outros determinantes da desigualdade de renda no Brasil, enfatizam o papel do capital
humano nesse processo, remetendo a discussão sobre a desigualdade de renda para a oferta de
trabalho.
184

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Desse modo, a hipótese em questão será discutida para posteriormente obter uma
conclusão objetivando dirimir e viabilizar se estas possibilidades ocorrem na sociedade
contemporânea e como podemos conduzi-la para assim amenizar ou até mesmo erradicar
conflitos em diversos setores da economia ocasionados por esta questão.
Na discussão histórico-teórica, de que trata o capítulo 1, já é possível perceber que o
avanço da industrialização modificou a estrutura produtiva. Concomitantemente a continuidade
do processo de urbanização também proporcionaram aumento com relação as probabilidades
das mulheres encontrarem postos de trabalho dentro da sociedade.
Existem diversas teorias debatidas na literatura no sentido de elucidar as
desigualdades de gênero existentes no contexto laboral. Segundo Abramo (2007, p.56), “tais
teorias podem ser divididas basicamente em três grupos: neoclássica, segmentação de mercado e
teoria de gênero/feminista”. A teoria neoclássica destaca principalmente as características
voltadas à educação e à experiência, isto é, o capital humano e sua representatividade no
mercado de trabalho (TOHARIA, 1999).
Stuart Mill foi um dos poucos economistas que no Século XIX já reconhecia o direito
das mulheres para independência profissional e social. Segundo Mill (1983, p. 260):

As ideias e instituições que fazem do sexo um fundamento para uma


desigualdade de direitos legais, e para uma diferença forçada de
funções sociais, dentro em breve terão de ser reconhecidas como
sendo o maior obstáculo para o aprimoramento moral, social e até
intelectual.

Segundo conceito da teoria neoclássica, a mulher que pensa e age de maneira racional
seria aquela que procura cargos com salários iniciais mais altos e com retornos em termos de
experiência de mercado mais baixos, tendo em vista que, por vezes, necessita trabalhar em
períodos parciais devido às suas ocupações familiares.
Por outro lado os autores marxistas, afirmavam que ao examinar a natureza de gênero
do capitalismo, evidenciam-se situações de desigualdade em relação às mulheres. Engels
enfatizou o significado da exclusão das mulheres da economia de mercado como causa de sua
subordinação no capitalismo: “Já podemos ver a partir disto que emancipar a mulher e fazer
dela igual ao homem é e permanece sendo uma impossibilidade enquanto as mulheres ficarem
fora do trabalho social produtivo” (ENGELS, 1972, p. 221).
Para responder o questionamento e coordenar a hipótese levantada para este trabalho,
a metodologia do estudo buscou o maior número possível de informações sobre a temática
utilizando a técnica de pesquisa do tipo qualitativa, que tem como finalidade ampliar as
informações sobre o assunto em questão através de livros, artigos de periódicos e outras
referências importantes. De acordo com Da Silva e Menezes (2005, p. 20):

[A pesquisa qualitativa] considera que há uma relação dinâmica entre


o mundo real e o sujeito, isto é, um vínculo indissociável entre o
mundo objetivo e a subjetividade do sujeito que não pode ser
traduzido em números. A interpretação dos fenômenos e a atribuição
de significados são básicas no processo de pesquisa qualitativa. Não
requer o uso de métodos e técnicas estatísticas. (...) O processo e seu
significado são os focos principais de abordagem.

Para Carvalho (2014, p. 11): “a especificação metodológica constitui parte obrigatória


da pesquisa acadêmica que adote o método científico, contudo, é preciso distinguir o método de
abordagem dos ditos métodos de investigação”. Carvalho (2014, p. 11) observa, ainda, que “o
método de abordagem diz respeito à filiação filosófica e ao grau de abstração do fenômeno
estudado, já os métodos de investigação ou procedimentos de uma pesquisa consistem nas
etapas concretas da investigação e do uso das técnicas de pesquisas adequadas”.
185

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Nas ciências sociais em geral impõe-se uma restrição metodológica: que é a


necessidade de confrontação da realidade pensada, abstraída do concreto, com a realidade
empírica, isto é, aquela que é percebida pelos nossos sentidos. Por sua vez, como observado por
Lakatos e Marconi (1991, p. 106), “os conhecimentos práticos estão submetidos à necessidade
de conexão imediata com a realidade a que se referem”.
Na investigação teórica, diferentemente da investigação empírica – enquanto o método
de pesquisa baseado em levantamentos de campo de dados primários ou mesmo em
levantamento de dados secundários – o método de pesquisa tem a ver mais com o método de
exposição das ideias: se dedutivo ou indutivo.
Por sua vez, a partir do método qualitativo-exploratório foram utilizados dados
secundários obtidos através do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio
da Pesquisa Mensal de Emprego (PME). Além disso, foram observados dados do Anuário
Estatístico do IBGE, do Sistema de Recuperação Automática (SIDRA) e bases de dados
relativos a inserção da mulher no mercado de trabalho, como por exemplo, o Relatório Anual de
Informações Sociais (RAIS).
Como o objetivo deste trabalho é caracterizar a inserção feminina no mercado de
trabalho do processo de desenvolvimento econômico no nas Regiões Metropolitanas do Rio de
Janeiro, Salvador, São Paulo, Recife, Porto Alegre e Belo Horizonte, pode-se definir essa
pesquisa como sendo do tipo exploratória.
Por fim, neste trabalho, além do capítulo introdutório, contém em sequência, o
primeiro capítulo que realiza uma discussão histórico-teórica em relação a inserção feminina no
mercado de trabalho, como ela surge e sua abrangência. O segundo capítulo faz referência ao
diagnóstico das desigualdades de gênero no capitalismo contemporâneo. Já o terceiro capítulo
apresentará dados comparativos que demonstram as características da inserção feminina no
mercado de trabalho dentro das Regiões Metropolitanas estudadas; a População
economicamente ativa (PEA) segundo o sexo e jornada de trabalho nos últimos 12 anos. Por
fim, serão apresentadas as considerações finais.

2. O PAPEL DO GÊNERO FEMININO NO SISTEMA CAPITALISTA: UMA


PERSPECTIVA DE DISCUSSÃO HISTÓRICO-TEÓRICA

Do ponto de vista histórico, é preciso entender que a divisão das funções entre o
gênero masculino e o gênero feminino surgiu nas sociedades primitivas, onde as atividades
executadas “fora do lar” – como a caça ou a pesca – foram exclusivamente dos indivíduos
masculinos, já as atividades domésticas foram, majoritariamente, destinadas às mulheres.
No período da Revolução Industrial, por exemplo, as mulheres ocuparam posições em
que recebiam salários baixos (e, muitas vezes, quase nada). No século XX, além do surgimento
das Leis Trabalhistas e da ocorrência da 2ª Guerra Mundial, surgiram fatores que impulsionaram
a participação feminina no mercado de trabalho capitalista.
Pelegrini et al. (2010) cita, como exemplo, as mudanças denominadas
comportamentais, tais como: a diminuição do número de filhos e a expansão da escolaridade,
fruto dos diversos movimentos feministas que colaboraram para a que a mulher continuasse no
mercado de trabalho nas décadas posteriores a estes acontecimentos.
Percebe-se que a entrada da mulher no mercado de trabalho foi capaz de representar a
emancipação feminina em diversas áreas. Neste contexto, havia uma determinação imposta pelo
sistema capitalista – que perdura até hoje – de que os homens deveriam ser considerados os
provedores da família e as mulheres organizadoras do lar. Com o advento do Estado Moderno
são modificadas as relações sociais.
Desta forma, também, são alteradas as relações de gênero, sobretudo a posição da
mulher na sociedade, tornando fundamental compreendê-la. Por outro lado, uma relação de
igualdade substancial no espaço reprodutivo e no espaço produtivo não seria do interesse e nem
faria parte da lógica do capital, que no máximo “permitiria” uma relação de igualdade formal.
186

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Nestes termos, o Estado e, principalmente, a Constituição de muitos países, passa a


considerar todos iguais, independente da religião, do nascimento ou dos privilégios de classe,
notórios no âmbito capitalista. Na verdade, o Estado passa a ser o espaço do universal, em
contraposição à sociedade burguesa que é o espaço do particular.
A sociedade burguesa tem por base os indivíduos, e estes – enquanto cidadãos - irão se
expressar perante o Estado. Pois é homem que, perante o Estado (na comunidade), pensa – ou
deveria pensar - no universal. “Deveria”, pois ainda que se considere que o espaço da política e
do Estado é o espaço do público, do universal, “do pensar em todos”, o poder político é o poder
organizado de uma classe para oprimir outra.
Contudo, ainda que o Estado se relacione com cidadãos em condição de igualdade, o
mesmo não deixa de ser um órgão de dominação de classe, que existe na realidade da sociedade
civil e que é produto das relações sociais de produção. Com o Estado moderno, a relação entre o
público e o privado adota novas vertentes, o que afeta as relações de gênero. Com o Estado
moderno, a relação entre público e privado adota novas vertentes, o que afeta as relações de
gênero.
Marx (2003) afirma que o Estado está baseado na contradição entre a vida pública e a
vida privada, na contradição entre interesses gerais e interesses particulares. Dessa forma, não
pode eliminar a contradição entra a finalidade e a boa vontade da administração, de um lado, e
os seus meios e capacidade, de outro, sem eliminar a si mesmo, já que se baseia nessa
contradição. A administração deve restringir-se, por isso, a uma atividade formal e negativa,
pois onde a vida burguesa e o seu trabalho começam, acaba o seu poder.
Marx (2004) vai além quando diz que o Estado centraliza-se e, ao mesmo tempo,
estende os atributos e os agentes do poder governamental. Está “acima” da sociedade. E os
antigos privilégios, quebrados com a Revolução Francesa, transformam-se em “privilégios
modernos.
De acordo com Oliveira (2013), se no feudalismo, as mulheres eram excluídas do
Estado, com a igualdade existente no capitalismo, elas poderiam passar a participar das decisões
oficiais. Neste sentido, foi a criação da soberania individual, o surgimento do indivíduo, que
possibilitou a entrada da multidão trabalhadora na comunidade política.
Nota-se que o processo histórico que gerou a ascensão do capitalismo e juntou o
trabalhador assalariado “livre e igual” ao corpo de cidadãos, foi o mesmo processo em que os
camponeses foram arrancados de sua propriedade e de sua comunidade, com seus direitos
comuns e costumeiros. O Estado “separa-se”, ainda que não se separe. Segundo Oliveira (2013,
p.03):
O capitalismo difere-se das formas pré-capitalistas porque estas se
caracterizam por modos extra-econômicos de extração de mais-valia,
em que a coação política, legal ou militar, obrigações ou deveres
tradicionais determinando a transferência de excedentes para um
senhor ou para o Estado por meio de serviços prestados, aluguéis,
impostos etc.
No capitalismo, as funções sociais de produção e distribuição, extração e apropriação
de excedentes, e a aplicação do trabalho social são, de certa forma, privatizadas e obtidas por
meios não-autoritários e não-políticos; o trabalhador é “livre”, pois não está numa relação de
dependência ou servidão. Ou seja, o capitalismo representa a privatização última do poder
político e, ao mesmo tempo, é um sistema caracterizado pela diferenciação entre o econômico e
o político.
Segundo um estudo recente de Nancy Cott, de 1987, o Feminismo é recolocado em
um contexto histórico e demonstra que, no seu sentido atual, esta palavra começou a ser
utilizado nos Estados Unidos (New Harven) apenas no primeiro decênio do século XIX. A
"definição operacional" que ela propõe é funcional e completa. Nestes termos, de acordo com
Cott, (1987, p.3) seus três componentes são:
187

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

A defesa da igualdade dos sexos ou também denominada de oposição


à hierarquia dos sexos; o reconhecimento de que a "condição das
mulheres é construída socialmente, [...] historicamente determinada
pelos usos sociais."; a identificação com as mulheres enquanto grupo
social e o apoio a elas. Já quando se trata de ideologismo o feminismo
é acessível tanto aos homens quanto as mulheres.
Segundo Louise (1990, p. 07), “é importante destacar que os primeiros autores que
discutiram acerca do assunto realizaram uma análise descritiva e interpretativa”. Desta forma,
evitaram disponibilizar e resolver problemas analíticos, já que a exposição descritiva em relação
à história das mulheres incluiu a história política e a história do trabalho.
Clinton et al. (1984, p. 08) procuraram analisar “até que ponto elas aceitaram as
limitações sociais e políticas, como construíram esferas de autonomia e de influência”. Na
concepção de Louise (1990), nesses trabalhos, o princípio regulador fundamental da história das
mulheres é a ideologia das esferas, com a esfera pública aberta somente aos homens e a esfera
privada enquanto espaço das mulheres.
Por isso, Arendt (1958, p. 65), afirma que “o conceito de trabalho é explicado pela sua
essência”. Apenas em Marx (2013), o estigma do trabalho não produtivo referente ao labor foi
questionado, mas não por ser considerado fundamental para construção da humanidade e do ser
social, e sim por possuir valor e ser produtivo.
De certa forma, a mulher foi impulsionada para o mercado de trabalho devido a uma
necessidade estrutural do capitalismo. Isto ocorreu em um período onde os homens estavam
afastados em razão de conflitos internacionais. Para manter e intensificar a expropriação de
mais-valia a mulher foi absorvida nas funções ocupadas anteriormente pelos homens ainda que
com menor remuneração em relação aos seus antecessores, isto é, a desvalorização do trabalho
da mulher é lucrativa.
Neste sentido, a inserção da mulher no mercado de trabalho já surge de modo
precarizado, uma vez que este provimento ocorre a partir de um déficit mercadológico. Cabe
destacar, também, que um dos fatores que levaram as mulheres a exercitarem o trabalho
mercadológico foi, justamente, o aumento do custo de vida desproporcional ao aumento da
renda masculina, logo, na maioria das vezes, o trabalho mercadológico precisa ser acumulado
junto às tarefas domésticas realizados para a própria família.
Por um lado, a inclusão da mulher na contemporaneidade representou uma conquista,
mas por outro possibilitou que o capitalismo ampliasse a exploração da força de trabalho,
intensificando essa exploração. No final do século XVIII e início do século XIX, as mulheres
foram inseridas de forma gradativa aos espaços públicos por meio do trabalho.
Neste contexto, a mulher ainda ocupava escalões inferiores e precisavam da
autorização de seus maridos para exercer o trabalho fora de casa. Além disso, nesta época, o
mundo desenvolveu-se, de maneira acentuada, em termos de tecnologia, indústria, transporte,
comércio e inovações que acabaram por alterar o padrão de vida.
Quando as mulheres saíram do campo em busca de emprego e educação, tornaram-se
uma força social e, consequentemente econômica, que não poderia mais ser negada. Nas
palavras de Goldman (2014, p. 21):
A conquista da entrada no mercado de trabalho trouxe às mulheres o
acúmulo das funções de produção social – no âmbito do emprego
formal – e as suas “naturalizadas” tarefas de reprodução social, como,
por exemplo, o cuidado com os filhos, a família e as tarefas
domésticas.
Diante desse contexto, as mulheres então passaram a ter sua força de trabalho
duplamente explorada, caracterizando o exercício de uma dupla, ou até mesmo tripla, jornada de
trabalho. Engels (1984) destaca a contradição exposta pelo sistema capitalista, pois este
possibilitou um maior grau de autonomia das mulheres – envolvendo o sistema de produção
188

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

social – porém, ao mesmo tempo, expôs as contradições oriundas da necessidade de entrada das
mulheres da classe trabalhadora no mercado formal de trabalho com seus afazeres domésticos.

3. A DESIGUALDADE DO GÊNERO FEMININO NO CAPITALISMO


CONTEMPORÂNEO: UM BREVE DIAGNÓSTICO
De modo geral, todas as áreas tiveram um avanço significativo da participação
feminina, principalmente, no capitalismo contemporâneo. Isto é consequência de um histórico
de lutas oriundo de uma sociedade baseada pelas simbolizações, como bem observado por
Faganello (2009). O próprio autor recorda que tais simbolizações acabaram originando a ordem
social que, ainda, está presente em muitas sociedades ocidentais.
Nestes termos, o presente capítulo procura realizar um breve diagnóstico da ocorrência
da participação feminina no mercado de trabalho, bem como as suas características e
especificidades. Em termos de nível nacional, o avanço constituído pelo artigo 5º da
Constituição Federal, de 1988, representa um progresso diante das desigualdades de gênero,
pois prevê a igualdade para todos brasileiros sem diferença de qualquer natureza e afirma que
homem e mulheres possuem igualdade nos direitos e obrigações.
Uma aplicação a esta determinação da Constituição foi o que ocorreu em Porto Alegre
no ano de 1995. A cidade assumiu o compromisso de implementar a Plataforma de Ação
Mundial da Mulher (PAM), aprovada na IV Conferência Mundial da ONU. Este compromisso
foi instituído pelo Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (COMDIM), por meio da Lei
Complementar 347/95, de autoria da Vereadora Maria do Rosário Nunes. De acordo com o
Faganolli (2009, p. 3), “o Fórum Municipal da Mulher possui reconhecimento pela Lei como
Órgão Legítimo que elege dois terços da COMDIM”.
Diante disto, no ano de 1996, o Congresso Nacional, através da Lei nº 9.100/95 -
parágrafo 3º, art. 11 - fez a inclusão do Sistema de Cotas na Legislação Eleitoral. Este Sistema
obrigava os partidos políticos a inscreverem no mínimo 20% de mulheres em suas chapas
proporcionais. Por outro lado, a Lei 9.504/97 aumenta para 30% este percentual. E, em 1998
com a criação do primeiro Conselho Municipal de Mulheres este percentual foi definido para
25%.
Ainda sim, apesar de todas essas conquistas significativas, o gênero feminino ainda
não conseguiu alcançar uma posição de igualdade com o masculino. Para demonstrar como
ocorre essa participação no mercado de trabalho, será utilizado a Pesquisa Mensal de Emprego
(PME) desenvolvida pelo IBGE.
O estudo desenvolvido pelo IBGE (2014) por meio da PME implantada em 1980 é
responsável em expor indicadores para o acompanhamento conjuntural do mercado de trabalho
nas regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e
Porto Alegre. A pesquisa é realizada por meio de uma amostra probabilística, planejada de
forma a garantir os resultados para os níveis geográficos no qual é produzida.
Baseado nos estudos do IBGE (2014), as grandes transformações ocorridas no
mercado de trabalho brasileiro, desde a vigência da PME, fixaram uma revisão completa,
vigente no período de Março de 2002, abrangendo os seus aspectos metodológicos e
processuais.
Além disso, a modernização da PME visou adequar às características do trabalhador e
de sua inserção no sistema produtivo, fornecendo informações para a formulação e o
acompanhamento de políticas públicas. Em relação aos conceitos e métodos, ocorreram
atualizações de forma que estas conseguiram acompanhar as recomendações da Organização
Internacional do Trabalho (OIT).
De acordo com o IBGE (2014), em janeiro de 2008, havia 21,2 milhões de Pessoas
Ocupadas (PO) no total das seis regiões metropolitanas analisadas pela PME (2014). Neste
período, as mulheres representavam 44,4% desse contingente (9,4 milhões). Em relação à
População em Idade Ativa (PIA), elas eram 53,5%; à População Economicamente Ativa (PEA),
45,5% e à População Desocupada (PD), 57,7%.
189

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Na comparação com janeiro de 2003, as diferenças entre esses indicadores foram de,
respectivamente, 0,4 ponto percentual para a PIA, 1,7 ponto percentual para a PEA, assim como
para a PO e 4,9 pontos percentuais para a PD. Além disso, de acordo com dados do IBGE, ano
2011, juntamente com a Secretaria de Políticas para as Mulheres e o Ministério do
Desenvolvimento Agrário, que fez uso dos dados do Censo de 2010, comparados com o ano de
2000, a participação das mulheres com idade ativa (16 anos ou mais) no mercado de trabalho
aumentou 50% (2000) para 55%, enquanto a participação dos homens reduziu de 80% para
76%.
Isto significa que existe um contingente potencial de mulheres que pode ingressar no mercado
de trabalho e continuar responsável pelo futuro da formação da força de trabalho do País.
No século XIX, com a consolidação do sistema capitalista, diversas mudanças
ocorreram na produção e na organização do trabalho feminino. Com o desenvolvimento
tecnológico e o intenso crescimento da maquinaria, boa parte da mão-de-obra feminina foi
transferida para as fábricas. Nas palavras de Probst (2003, p. 43), “as mulheres deixaram de ser
apenas uma parte da família para se tornarem parte de uma empresa”.
Desde 1932 existem aparatos legislativos capazes de beneficiar o gênero feminino. O
artigo 113, inciso I da Constituição Federal de 1932, deixa explícito que todos são iguais
perante a lei, afinal, não haverá privilégios, nem distinções, por motivo de nascimento, sexo,
raça, profissões próprias ou dos pais, classe social, riqueza, crenças religiosas ou ideias
políticas.
Ainda sim, com essa conquista, algumas formas de exploração perduraram durante
muito tempo. No passado, jornadas de trabalho extenuantes, entre 14 e 18 horas, com diferenças
salariais acentuadas eram comuns. A justificativa desse ato estava centrada no fato de o homem
trabalhar para sustentar a figura feminina, ou seja, não havia necessidade do gênero feminino
auferir um salário equivalente ou superior ao gênero masculino.
Atualmente, entretanto, as mulheres exercem cargos inferiores aos dos homens e
recebem salários igualmente inferiores, mesmo quando se ocupam de cargos iguais, o salário
das mesmas acaba por ser inferior. Apesar de estar consagrado que homens e mulheres devem
obter as mesmas remunerações no desempenho da mesma função, o que acontece é que o difícil
acesso feminino a cargos de topo, com salários mais elevados leva a que se possam observar
diferenças claras na distribuição do rendimento, como constatam Mendonça et al. (2011).
Ainda segundo Mendonça et al. (2011), a segregação ocupacional define-se pelo modo
como os homens e as mulheres são distribuídos pelos diferentes tipos de emprego (Indústria,
Construção, Comércio, Serviços Prestados para Empresas, Administração Pública, Serviços
Domésticos e Outros Serviços). A verdade é que ao gênero feminino cabe o desempenho de
funções onde a força física não seja exigida, onde o poder da sedução possa ser usado, e onde os
seus cuidados possam ser aplicados.
Posto isto, no mercado de trabalho o desempenho das mulheres é mais evidente nas
áreas dos serviços e educação. De acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e
Desempregados (CAGED, 2011) e da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS, 2011) do
Ministério do Trabalho e Emprego, a participação da mulher no mercado de trabalho tem sido
crescente nos últimos anos. Os registros da RAIS em 2011, revelaram que o nível de emprego
com carteira assinada para as mulheres cresceu 5,93%, em relação ao ano anterior.
Pela RAIS (2010), o estoque de empregos femininos no Brasil era de 18,3 milhões de
postos de trabalho, e em 2011 esse estoque alcançou 19,4 milhões, um crescimento de 5,93%. O
estoque de empregos masculino cresceu no período, 4,49% passando de 25,7 milhões de postos
em 2010 para 26,9 em 2011. Outros fatores importantes contribuíram para o aumento da
participação da mulher no mercado de trabalho, no Brasil: a queda da taxa de fecundidade e o
aumento no nível de instrução da população feminina. Segundo Probst (2003, p. 06):
A taxa de natalidade no Brasil, em 1950 era de 6,2 filhos por mulher; a
redução da fecundidade ocorreu com mais intensidade nas décadas de
70 e 80 que baixou para 4,7; em 1990 caiu para 2, 6; em 2010 caiu
190

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

para 1,8 por mulher. Acredita-se, assim, que com menor número de
filhos as mulheres possam conciliar melhor o papel de mãe e
trabalhadora, desenvolvendo melhor as novas funções que o mercado
de trabalho lhes oferece; 2) O aumento no nível de instrução feminino
foi outro fator importante que contribuiu para a maior participação da
mulher no mercado de trabalho.

Uma análise no Cadastro Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), coordenado


pelo IBGE em 2011, demonstra um maior crescimento da participação das mulheres
principalmente nas atividades de administração pública (210.612 empregos); restaurantes
(54.398); atividades de atendimento hospitalar (51.410); limpeza em prédios e em domicílios
(50.214); e comércio varejista especializado em eletrodomésticos e equipamentos de áudio e
vídeo (44.767). Até no setor de transporte rodoviário de carga, atividade tradicionalmente
masculina, houve um crescimento significativo no saldo de emprego de mulheres,
aproximadamente 11.768 postos, como pode ser visto no PORTAL BRASIL, ano 2012/2013.
Outro setor em que a participação da mulher evoluiu no período foi na Construção Civil,
principalmente em atividades como Construção de estações e redes de telecomunicações, em
que a participação feminina passou de 12,96% em 2010 para 13,68% em 2011; Perfuração e
construção de poços de água que passou de 11,75% para 12,31%; e ainda na Montagem e
instalação de sistema e equipamentos de iluminação e sinalização em vias públicas, postos e
aeroportos atividade onde a participação feminina passou de 14,14% em 2010 para 14,36% em
2011.
A participação feminina em atividades produtivas no Brasil não é recente. Ainda na
Primeira República, as mulheres, principalmente aquelas oriundas das camadas populares, já
exerciam atividades produtivas. A maioria delas residia em área rural − característica
predominante da população brasileira num momento anterior ao processo de urbanização − e
trabalhava em suas próprias casas, exercendo um importante papel no modelo de produção
familiar. Apesar de sua inegável importância no processo produtivo, as mulheres eram
reconhecidas apenas como as responsáveis pela manutenção do equilíbrio doméstico familiar
(CAPPELIN, 2006).
A partir da década de 1970 a participação feminina no mercado de trabalho abrangeu
diferentes camadas sociais, parte fruto das conquistas políticas dos movimentos feministas a,
luta pelos direitos da mulher e sua autonomia na esfera pública, contribuindo significativamente
para mudanças de comportamentos e valores sociais e auxiliando na construção de uma nova
representação da mulher trabalhadora.
Outro dado relevante, no impacto do crescimento dessa participação, é a própria
mudança do contexto econômico a partir da década de 1980, no qual se faz necessária a
contribuição financeira de outros integrantes na renda familiar devido à recessão e à perda de
poder aquisitivo (ANDRADE, 2009).
Outra questão importante de ser considerada neste trabalho foram as características
econômicas que esta inserção do mercado apresenta e de que forma isto reflete na sociedade.
Pois, sem dúvida, nos últimos anos o avanço feminino no mercado de trabalho torna-se tema
relevante e não pode deixar de ser palco de discussões.
Em sua obra clássica sobre a situação das mulheres no século XIX, Hardy Taylor e
Jonh Stuart Mill (1869), descreviam um cenário onde elas não tinham direito legal algum a
propriedade – nem mesmo ao dinheiro que era herdado de sua família naquela época. Além
disso, por lei, eram proibidas de exercer diversas profissões; não tinham direito sobre seus filhos
e tampouco tinham quaisquer direitos políticos.
Atualmente, essas barreiras legais explícitas constituem história do passado na maior
parte do mundo. No entanto, apesar de todos esses avanços, as mulheres ainda sofrem
significativamente com padrões de gênero assimétricos. Segundo dados do IBGE (2014),
enquanto os homens gastam, em média, 10,5 horas por semana com afazeres domésticos
191

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

(limpeza, culinária, cuidar dos filhos etc.), as mulheres gastam mais que o dobro: 24,5 horas por
semana.
Os chamados padrões de gênero assimétricos têm implicações importantes não
somente para as mulheres, mas para toda a economia nacional. Em média, mulheres brasileiras
ganham 20% a menos do que os homens. De fato, como apontam algumas pessoas, uma parte
dessa diferença é explicada por uma série de características diferentes entre homens e mulheres.
Por exemplo: há um número menor do perfil feminino em profissões que em geral pagam mais
(como engenharia ou ciência e tecnologia), e essas diferenças nas escolhas profissionais médias
entre homens e mulheres contribuem para explicar as diferenças salariais entre os grupos.
Em 2013, um estudo realizado pela Fundação de Economia e Estatística do Rio
Grande do Sul concluiu (a partir de dados do PNAD) que as diferenças de educação, idade,
experiência, sindicalização, horas trabalhadas, geografia e características da indústria onde as
pessoas trabalham podem explicar cerca de 2/3 das diferenças salariais entre homens e
mulheres, ou seja, mesmo depois de consideradas basicamente todas as características que
podem, em teoria, influenciar seu salário, ainda persiste 1/3 da diferença salarial entre homens e
mulheres.
A influência mais direta das desigualdades de gênero sobre a economia é refletida na
menor participação feminina na força de trabalho. Com menos trabalhadores produzindo, há
menor especialização econômica, subutilização de talentos na sociedade, menor crescimento e
menos prosperidade.
Ademais, como as mulheres tendem a ter mais anos de educação em relação aos
homens, constituir um número menor de empreendedoras femininas reduz também a inovação
da economia. Embora na grande maioria dos países mulheres tenham uma participação da força
de trabalho proporcionalmente menor que a dos homens, esse efeito é mais acentuado em países
de renda média – como é o caso do Brasil.
Em países muito pobres, mulheres não têm opção senão acumular as tarefas
domésticas com um trabalho externo para garantir a subsistência de sua família. À medida que a
sociedade enriquece, mulheres passam a poder ficar em casa com os filhos, enquanto a renda do
outro cônjuge sustenta o lar.
Finalmente, quando um país acumula suficiente capital humano e amplia serviços
especializados – como creches, por exemplo -, mulheres podem voltar à força de trabalho e
contribuir para o crescimento econômico.

4. ANÁLISE COMPARATIVA DA PARTICIPAÇÃO FEMININA NO MERCADO DE


TRABALHO NO PERIODO DE 2003-2014

Na época da inserção feminina no mercado de trabalho houve uma avalanche de


preconceito que perdura até os dias de hoje e que podemos observar através de pesquisas que
comprovam que as mulheres ainda ganham salários menores em relação aos homens,
executando as mesmas tarefas. A categoria Gênero, segundo Barbieri (1993, p. 04), “é o
reconhecimento [...] de uma dimensão da desigualdade social até então não trabalhada,
subsumida na dimensão econômica, seja nas teorias das classes ou nas teorias da
estratificação social”. Nas sociedades em geral, podemos citar o Brasil como exemplo, onde
sobressaem as relações de gênero assimétricas e hierárquicas, que se manifestam tanto no
âmbito profissional quanto nas relações familiares.
Apesar das mudanças do mundo, ainda destinam às mulheres as atividades, tais como
os cuidados com a casa e com a família, enquanto aos homens cabe o papel de provedor de sua
família. Estas diferenciações por gênero ditado pelo mercado de trabalho, determinando assim
que homens e mulheres ocupem lugares desiguais e hierarquicamente determinados e favorecem
a ocorrência de discriminadores em relação às mulheres. O lugar ocupado pelo sexo masculino e
feminino nos setores de atividade e na hierarquia das ocupações tem a característica do gênero.
192

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

A abertura do mercado nacional acelerara o ritmo de inserção da mulher no mercado


de trabalho, principalmente no setor industrial, onde o maior foco era o aumento da
produtividade e da qualidade dos produtos/serviços nacionais, a fim de enfrentar a concorrência
dos produtos importados. Com a consolidação do sistema capitalista, no século XIX, ocorreram
várias mudanças na dinâmica do trabalho feminino. Um intenso crescimento da maquinaria, e
um acelerado desenvolvimento tecnológico fizeram com que grande parte da mão de obra
feminina fosse transferida para as fábricas, com uma carga horária de até 18 horas por dia, e um
salário inferior ao do homem (KÜHNER, 1977).
Segundo Probst (2005), após essas mudanças, para beneficiar as mulheres que
trabalhavam fora de casa, a Constituição de 1932 estabeleceu igual valor correspondente ao
salário, a todo trabalho igual, sem distinção de sexo. Ainda sim, mesmo com leis beneficiando o
g, elas continuavam a ser exploradas, com a justificativa de que o homem era o mantenedor do
lar, assim, não era necessário pagar um salário maior a mulher.
Ainda sim com todos esses fatores, a inserção da mulher no mercado de trabalho
continuou a crescer. Pesquisas realizadas anteriormente mostram que, a participação feminina
no mercado de trabalho cresceu de forma intensa desde a década de 70.
De acordo com os dados obtidos pelo IBGE (2014), o rendimento de trabalho das
mulheres, em 2014, estimado em R$ 1.770,99, continua sendo inferior ao dos homens, estimado
em R$ 2.387,60. Comparando a média anual dos rendimentos dos homens e das mulheres,
verificou-se que, em média, as mulheres ganham em torno de 74,2% do rendimento recebido
pelos homens, um avanço de 0,6 ponto percentual em relação a 2013. A tabela 4 mostra que este
resultado retoma os avanços que ocorreram a partir de 2008. Em 2003 esse percentual era
70,8%.
A média anual do rendimento médio mensal real dos homens em 2014 cresceu 2,4%,
variação inferior à encontrada para as mulheres, de 3,2%. De 2013 para 2014, a variação do
rendimento de mulheres cresceu em todas as Regiões Metropolitanas pesquisadas. Rio de
Janeiro, com variação de 6,3% e Recife, com variação de 6,1%, foram as regiões de maior
crescimento da remuneração feminina. Salvador (que de 2012 a 2013 tinha apresentado queda
no rendimento de 5,2%) e Belo Horizonte foram as regiões com os menores crescimentos em
2014 (1,4% e 1,6% respectivamente).
Segundo o IBGE (2014), em doze anos o rendimento médio real dos trabalhadores
homens cresceu 32,2% enquanto o das mulheres cresceu 38,4%. Os destaques para o
rendimento tanto dos homens (47,8%) quanto das mulheres (55,7%) ocorreu na Região
Metropolitana do Rio de Janeiro.
De acordo com as Tendências mundiais do Emprego das Mulheres, divulgado em
2012, de 2002 a 2007, a diferença das taxas de desemprego masculino e feminino esteve
constante em 0,5%. Somente a taxa de desemprego feminino estava em 5,8% (com 72 milhões
de mulheres desempregadas em relação ao total global de empregadas em 2007 que era de 1,2
bilhões), enquanto o desemprego masculino era de 5,3%. (Tendências mundiais do Emprego das
Mulheres, 2012).
Uma demonstração disto é a realização da Pesquisa Mensal de Emprego, organizada
pelo IBGE. A Pesquisa permite analisar o mercado de trabalho, de 2003 a 2014 com maior
precisão e detalhamento, tornando possível apontar as grandes transformações que ocorreram
nas seis regiões metropolitanas abrangidas pela pesquisa.
Com base na Pesquisa Mensal de Emprego - PME, em 2014, a média anual (obtida
somando-se os resultados mensais de cada ano e dividindo-se por doze), do contingente de
pessoas com 10 anos ou mais de idade (população em idade ativa) foi estimada para o total das
seis regiões metropolitanas abrangidas pela pesquisa em 43,3 milhões de pessoas.
De acordo com a PME, em 2014, as mulheres continuaram a representar a maioria da
população em idade ativa (54,1%) e, ao longo dos últimos doze anos o comportamento foi o
mesmo, tanto para o conjunto das seis regiões metropolitanas, quanto para cada uma delas
separadamente. Não foram observadas variações significativas ano a ano. As Regiões
193

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Metropolitanas de Salvador e de Recife apresentaram as maiores proporções de mulheres em


idade ativa (55,2% e 55,0%, respectivamente). Já Belo Horizonte, a menor (53,3%).
Em termos percentuais no que se refere ao gênero foi possível notar que a população
ocupada estava distribuída entre 53,9% de homens (12,4 milhões de pessoas) e 46,1% de
mulheres (10,6 milhões de pessoas) em 2014. Como já observado em anos anteriores, as
mulheres continuam sendo minoria na população ocupada (PO) e maioria na população em
idade ativa (PIA).
Contudo, a participação da mulher na população ocupada vem apresentando contínuo
crescimento ao longo desses 10 anos de observação da PME. No início da série anual, em 2003,
elas representavam 43,0% da população ocupada, implicando, portanto, crescimento de 3,1
pontos percentuais em relação a 2014.
Em relação a 2013, dentre as regiões, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre
não registraram aumento da participação da população feminina na ocupação, com declínio de
1,8%, 0,3% e 0,4%, respectivamente. Pela primeira vez em todas as comparações anuais, a
população ocupada masculina total diminuiu em números absolutos, com variação de 0,3%; já
em relação ao ano de 2003, a população feminina ocupada em São Paulo e Porto Alegre tiveram
as maiores expansões: 3,3 e 3,7 pontos percentuais, respectivamente.
Segundo a Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, em 2014, as pessoas ocupadas
tinham uma jornada média semanal de 40,1 horas efetivamente trabalhadas, contra 41,3 horas
em 2003. As Regiões Metropolitanas de São Paulo (40,6) e Rio de Janeiro (40,8) apresentaram
jornadas superiores à média das seis regiões.
Em 2014, a jornada média semanal das pessoas ocupadas, se manteve a mesma de
2013, 40,1 horas efetivamente trabalhadas por semana em todos os trabalhos, contra 41,3 horas
em 2003. As Regiões Metropolitanas de Rio de Janeiro e São Paulo registraram as maiores
jornadas médias semanais de 40,5 horas efetivamente trabalhadas.
Nas demais regiões a jornada semanal foi pouco inferior a 40 horas semanais, sendo a
Região Metropolitana de Recife a que apresentou o menor número, de 39,8 horas efetivamente
trabalhadas. Segundo o sexo, em 2014, os homens continuam tendo um maior número médio de
horas trabalhadas por semana em todos os trabalhos, do que as mulheres, 41,8 horas e 38,1
horas, respectivamente, uma diferença de 3,7 horas.
Mas essa diferença vem diminuindo, em 2003, os homens trabalhavam em média 43,6
horas, enquanto que as mulheres 38,3 horas, uma diferença de 5,3 horas entre eles.
Com relação ao gênero a maior mudança na inserção do mercado de trabalho foi em
relação aos empregados com carteira de trabalho assinada no setor privado. Pois, em 2014, do
total de 11,7 milhões de ocupados nessa modalidade, os homens representavam 57,5% dos
empregados com carteira de trabalho assinada no setor privado, 4,9 pontos percentuais a menos
que em 2003. Frente a 2003, as maiores quedas da participação masculina foram observadas nas
Regiões Metropolitanas de Porto Alegre (5,9 pontos percentuais), Belo Horizonte (5,9 pontos
percentuais), Salvador (5,7 pontos percentuais) e São Paulo (5,2 pontos percentuais). Esta queda
ocorreu devido ao aumento da participação da população feminina nesta forma de inserção de
trabalho na mesma magnitude da respectiva diminuição da participação masculina.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

De acordo com a pesquisa, por meio dos dados secundários da PME (IBGE, 2014), a
participação das mulheres na população ocupada teve elevação significativa, nas capitais
analisadas, quando comparamos o ano de 2003 com 2014.
O estudo desenvolvido confirmou a hipótese, por meio da análise da PME
desenvolvida pelo IBGE, ou seja, a de que as desigualdades em torno do gênero feminino
representam, de fato, uma realidade extremamente prejudicial dentro capitalismo
contemporâneo. Além disso, tais diferenças são ocasionadas por uma herança cultural machista
e também pela entrada tardia das mulheres no mercado de trabalho.
194

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

A busca por igualdade, somente a partir das décadas de 1960 e 1970, contribuiu para
acentuar a desigualdade salarial existente no mundo contemporâneo, uma vez que isto ocorreu
de forma tardia quando comparamos ao homem. O gênero feminino ainda perde espaço em
determinadas empresas por estas acreditarem que terão algum tipo de prejuízo em suas
atividades por este gênero não apresentar ou pouco apresentar disponibilidade no trabalho em
função da casa ou família.
De maneira geral, no período em analisado, em todos os grupamentos de atividade
foram registrados ganhos no poder de compra do rendimento do trabalho. Em termos
percentuais, os grupamentos com os maiores aumentos foram os que tinham os menores
rendimentos.
No entanto, apesar de tantos avanços no universo político, econômico e social, a
inserção feminina ainda é menor a nível mundial, porém ainda apresentam um crescimento
maior, ainda que gradativo, para as Regiões Metropolitanas analisadas.
Esse crescimento minucioso é consequência, por exemplo, da ineficiente aplicação dos
recursos públicos. De acordo com a diretora executiva da ONU Phumzile Mlambo-Ngcuka
(2016), os recursos públicos não estão indo para a direção onde são mais necessários: por
exemplo, para a construção de creches com qualidade e serviços essenciais com mão de obra
capacitada enquanto o perfil feminino neste período pudesse trabalhar consciente de que seu
filho estivesse recebendo tratamento adequado, ou seja, de boa qualidade. Onde não há serviços
públicos, o déficit recai principalmente sobre o gênero feminino.
As disparidades entre gêneros, no capitalismo contemporâneo, ainda encontra forças
na ausência de políticas econômicas e sociais, uma vez que tais políticas precisam ser
implementadas em conjunto. Além disso, é necessária a geração de trabalho com maiores
mecanismos de proteção ao gênero feminino e a redução da disparidade salarial entre homens e
mulheres, o fortalecimento dos mecanismos de proteção social ao longo da vida, a redução e a
redistribuição do trabalho doméstico e o investimento em serviços sociais com foco nas
mulheres.
Este pouco avanço no mercado de trabalho ao longo dos anos é resultado também dos
menores salários recebidos por elas pelas mesmas funções desempenhadas pelos homens. O
relatório Progresso das Mulheres no Mundo 2015-2016: “Transformar as economias para
realizar os direitos”, divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) Mulheres, mostra
que no mundo, em média, os salários das mulheres ainda são inferiores aos dos homens na
mesma função.
Em linhas gerais, as mulheres continuam recebendo em todo o mundo um salário
diferente pelo mesmo tipo de trabalho, o que resulta em grandes desigualdades em termos de
recursos recebidos ao longo da vida (ONU, 2016). O estudo ratifica ainda mais a hipótese
levantada no trabalho, pois segundo o Relatório da ONU ainda em 2010, metade das mulheres
com idade para trabalhar constituíam parte da população ativa.
No caso dos homens, o índice é superior. A pesquisa revela que, em todas as regiões,
as mulheres realizam quase duas vezes e meia mais trabalho doméstico e de cuidados de outras
pessoas não remunerados quando comparado com os homens. Nestes termos, a partir de uma
ação conjunta entre Estado e Sociedade, com ações de políticas públicas eficientes que
garantam de forma efetiva os direitos fundamentais, pode-se mudar o quadro atual e garantir
maiores conquistas para o gênero feminino, dando-lhes maiores e melhores condições de
trabalho. Isto refletirá de forma positiva na sociedade como um todo.
Portanto, além de gerar uma conscientização na sociedade de maneira geral em
relação a essa inserção feminina, a partir de novas condutas em relação a este comportamento, a
melhor forma de impulsionar este processo e mudar o cenário atual (apesar de muitos avanços)
é incentivar, tanto o setor privado como o público, a adotarem práticas de igualdade de gênero.
A partir disso, estes setores passarão a perceber a importância que tais igualdades apresentam e
de que forma isto atingirá a economia positivamente e contribuirá para o desenvolvimento de
cada região e, consequentemente, do país.
195

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Referências Bibliográficas

ABRAMO, L. W. A inserção da mulher no mercado de trabalho: uma força de trabalho


secundária. 2007. 327f. Tese (Doutorado em Sociologia) – Departamento de Sociologia, Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.

ANDRADE, Silvana Rodrigues de. Para além do “teto de vidro”: o trabalho feminino e as
representações do ideal de mulher executiva. Rio de Janeiro/RJ: PPHPBC/Cpdoc/FGV, 2009.

ANDRÉ, Willian. Preconceito profissional contra a mulher. Extraído do blog


http://willianandre.blog.com/2009/11/05/preconceito-profissional-contra-a-mulher. Acesso em 15 de
fevereiro de 2017.

ALMEIDA, Cássia. Mulheres e Mercado de Trabalho. Disponível em Mulher ganha menos em


qualquer trabalho. Jornal O Globo. 2012. http://oglobo.globo.com/economia/mulher-ganha-menos-.
Acesso em 15 de fevereiro de 2017.

ARENDT, H. The Origins of Totalitarianism [OT]. Segunda edição com um novo capítulo. New
York, 1958.

BARBIERI, Teresina de. Sobre a categoria gênero: uma introdução histórico-metodológico. Trad,
Antonia lewinsky. Recife: SOS corpo, 2016.,

BARROS, Ricardo P. HENRIQUES, Ricardo e MENDONÇA, Rosane. Pelo fim das décadas
perdidas: Educação e Desenvolvimento Sustentado no Brasil. Rio de Janeiro: IPEA. Texto para
discussão nº 857, p.53, 2002. Disponível em http://www.ipea.gov.br. Acessado em 30 de março de
2017.

BARROS, Ricardo P.& MENDONÇA, Rosane. Os determinantes da desigualdade de renda no


Brasil. Rio de Janeiro: IPEA. Texto para discussão nº 377, 1995. Disponível em
http://www.ipea.gov.br.

BERLIN, Isaiah. Karl Marx: sua vida, seu meio e sua obra. São Paulo, 1991.

BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. Nova Fronteira, 1980.

BRUSCHINI, Maria Cristina. Trabalho das mulheres e mudanças no período 1985 – 1995. São
Paulo: FCC/DPE, 1998.

CAGED. Cadastro Geral de Empregados e Desempregados 2011. Ministério do Trabalho e


Emprego. Disponível em: http://portal.mte.gov.br/caged/. Acessado em 12 de março de 2017.

CAPPELLIN, Paola. “Mulheres pobres e violência no Brasil urbano”. In: PRIORE, Mary del (org.).
História das mulheres no Brasil. São Paulo, Contexto, 2006.

CARRASCO, Cristina. El trabajo doméstico: un análisis económico. Madrid: Ministerio de Trabajo


y Seguridad Social, 1991.

CUTRIM CARVALHO, André. Análise da Indústria Mineral Metálica e seus impactos na


Amazônia. Belém/ Unama. 2005.
CARVALHO, David Ferreira. Economia política do desenvolvimento econômico, formação do
Estado, padrões de industrialização e crises e ciclos econômicos do capitalismo contemporâneo.
Belém: ICSA/UFPA, 796p., 2015.
196

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

CHALMERS, Alan Francis. O que é Ciência Afinal. São Paulo. Editora Brasiliense, 1993.

CLINTON, Catherine; SMITH, Bonnie; BORDIN, Ruth. The Plantation Mistress: Woman's World
in the Old South. New York, Pantheon. 1983.

COTTY, Nancy. The Grounding of Modern Feminism. New Haven: Yale UP, 1987.

DA SILVA, Edna Lúcia; MENEZES, EsteraMuszkat. Metodologia da pesquisa e elaboração de


dissertação,UFSC,4ed.Ver.Atual. Florianópolis,2005

Desigualdade de gênero no mercado de trabalho persiste, diz ONU. 2010. Disponível em:
http://www.ebc.com.br/amphtml/cidadania/2015/04/desigualdade-de-gênero-no-mercado-de-
trabalho-persiste-diz-onu. Acessado em 24 de fevereiro de 2017.

Desigualdade salarial de gênero afeta a economia. 2015. Disponível em< http://mercadopopular.org/


2015/11/como-o-machismo-torna países mais pobres>. Acessado em 27 de março de 2017.

ENGELS, Frederich. A origem da família, do Estado e da Propriedade Privada. Rio de Janeiro,


Civilização Brasileira 1984.

FAGANELLO, P. C. Discriminação de Gênero: Uma Perspectiva histórica. In: X SALÃO DE


INICIAÇÃO CIENTIFÍCA PUCRS. 2009, Rio Grande do Sul: PUCRS, 2009, p. 3.

FIGUEIREDO, Santos Jose Alcides. Estrutura de posições de classe no Brasil: Mapeamento,


mudanças e efeito na renda. Belo Horizonte/ Rio de Janeiro, Ed.UFMG. Iuperj.

GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 1991.

GOLDMAN, Wendy. Estado, Mulher e Revolução: política familiar e vida social soviéticas,
1917-1936. São Paulo, Boitempo : Iskra Edições, 2014.

GONÇALVES, Andréa Lisly. Gênero e história das mulheres na historigrafia. Belo Horizonte.
Autêntica, 2006.

IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Mensal de


Emprego. Algumas características da inserção das mulheres no mercado de trabalho: Recife,
Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre 2003-2008.

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Principais destaques na evolução do


mercado de trabalho: retrospectiva 2003 -2014.
KUHNER, M. H. O desafio atual da mulher. Rio de Janeiro, 1977.

LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Fundamentos de metodologia científica.


São Paulo: Atlas, 1991.
LOUISE, A. Tilly. Gênero, História das Mulheres e História das Mulheres. Geneses, 1990, p.
148-166.

LOMBARDI, Maria Rosa. “Um mercado de trabalho cada vez mais feminino”. Difusão de Ideias.
Fundação Carlos Chagas, outubro/2007. Disponível em:
http://www.fcc.org.br/conteudosespeciais/difusaoideias/pdf/entrevista_mercado_mais_femini no.pdf.
Acessado em 01 de abril de 2017.

MARX, Karl. O Dezoito Brumário de Louis Bonaparte. São Paulo, 2004.


197

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital.
Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2003.

MARX, Karl. O Capital. São Paulo, Ciências Humanas, Livro 1, Capítulo XIV, 1978.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Obras escolhidas. v. 3. São Paulo: Alfa-Omega, 1972.

MARX, K. Manuscritos Econômicos e Filosóficos. In: FROMM, E.. O Conceito Marxista do


Homem Apêndice: Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844 de Karl Marx. RJ : Zahar
Editores, 1983 (8a. ed.).

MARX, K. Prefácio a Contribuição à Crítica da Economia Política em Florestan Fernandes


Marx Engels. Col. História, São Paulo, Ática 1983, p. 231.

MENDONÇA, Carla. Desigualdade de gênero no mercado de trabalho. Disponível


em:http://sociologicamentepensando.blogspot.com.br/2011/12/desigualdades-de-genero-no-
mercado-de.html Acessado em: 30 out. 2013.

MILL, Stuart. Princípios de economia política. v. 2. São Paulo: Victor Civita, 1983.

MILL, Stuart; Taylor Hardy. The subject of Woman. London: Longamans, Green, Reader and dyee,
1869.

Mulheres ganham menos do que os homens em todos os cargos. Disponível em:


http://www.g1.globo.com/economia/concursos-e-empregos. Acessado em 02 de março de 2017.

OLIVEIRA, Camila. Gênero e Classe: o ser mulher trabalhadora In: VI COLÓQUIO


INTERNACIONAL MARX E ENGELS 2014, São Paulo: UNICAMP, 2013.

PELEGRINI, Jordana; MARTINS, Silvana Neumann. A história da mulher no trabalho: da


submissão às competências. Um resgaste histórico e as gestoras Lajeadenses neste contexto.
Cchj/Univates – Revista Destaques Acadêmicos, Ano 2, n.2, 2010.

Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. 2014. Disponível em


www.ibge.gov.br/home/estatística/pesquisa_resultados.php?id_pesquisa=40. Acessado em 29 de
março de 2017.

PORTAL BRASIL. Cresce a participação da mulher no mercado de trabalho. 2012/2013.


Disponível em: http://www.administradores.com.br/noticias/carreira/ Acessado em 23 out. 2013.

PROBST, E. R. A evolução da mulher no mercado de trabalho. 2005. Disponível em


http://www.icpg.com.br/artigos/rev02-05.pdf. Acessado em 30 de março de 2017.

RAIS. Relação anual de informações sociais. 2010/2011. Disponível em: http://www.rais.gov.br/


Acessado em 30 de março de 2017.

Relatório da ONU investiga desigualdade de gênero no trabalho na América Latina e Caribe. 2010.
Disponível em https://nacoesunidas.org/mulheres-trabalham-mais-do-que-os-homens/. Acessado em
30 de março de 2017.

SANTOS, S. E. O papel da educação no debate da desigualdade de renda do trabalho e a


heterogeneidade educacional brasileira. 2011. 151f. Dissertação (Mestrado em Economia
Política), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.
198

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Sessão Extraordinária da Assembleia Geral das Nações Unidas “Mulher 2000: Igualdade entre os
Sexos, Desenvolvimento e Paz no Século XXI”, Nova Iorque, 5-9 de Junho.

SOUSA, C. M. A mulher no Mercado de Trabalho. 2001. 37f. Curso de Especialização em


Relações Humanas, Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro.

TEIXEIRA, Marilane Oliveira. Desigualdades salariais entre homens e mulheres a partir da


abordagem de economias feministas. Niterói, Revista Gêneros, v.9, n.1, p.31-45. Sem. 2008.
199

O Brasil e a necessidade de um New Deal1


Cássio Silva Moreira2

Resumo

O artigo sugere que o Estado tem um papel fundamental, por meio do investimento público, para a
retomada do crescimento e desenvolvimento socioeconômico brasileiro. Para isso, a experiência do New
Deal, durante a administração do governo Franklin D. Roosevelt, seria uma boa fonte de inspiração para a
elaboração de um projeto nacional de desenvolvimento para o país. A historiografia econômica
geralmente classifica o governo Roosevelt como um governo que antecipou de forma prática muito da
teoria desenvolvida pelo economista inglês, John Maynard Keynes. No seu governo avançou o uso da
política fiscal como instrumento para redistribuir renda e estimular a demanda agregada, sendo um
contraponto ao liberalismo econômico na época. Mas também se preocupou em aumentar a oferta por
meio de investimentos estatais e estímulos ao investimento do setor privado. Desse modo, via a ação do
Estado como imprescindível para a retomada do crescimento diante da fragilidade que o país se
encontrava após a crise da quebra da bolsa de 1929. O artigo propõe a tese de que o Brasil necessita de
um novo New Deal, retomando, mesclando e atualizando o programa econômico adotado no inicio do
século XX. Portanto, há a necessidade do país adotar um novo pacto nacional-desenvolvimentista dentro
do contexto de mundialização do capital e de globalização da informação. Assim sendo, o artigo defende
um resgate histórico do Programa Econômico e Social implementado nos EUA na década de 1930,
todavia, adaptando a realidade brasileira do século XXI.

Palavras-chave: New Deal, Projeto Nacional, Keynesianismo, Governo Roosevelt.

Abstract
The article suggests that the State plays a fundamental role, through public investment, for the resumption
of growth and socioeconomic development in Brazil. To this end, the experience of the New Deal during
the administration of the Franklin D. Roosevelt administration would be a good source of inspiration for
the development of a national development project for the country. Economic historiography generally
classifies the Roosevelt government as a government that practically anticipated much of the theory
developed by the English economist, John Maynard Keynes. In his government he advanced the use of
fiscal policy as a tool to redistribute income and stimulate aggregate demand, being a counterpoint to
economic liberalism at the time. But it has also been concerned with increasing supply through state
investment and stimulus to private sector investment. In this way, he saw the State's action as essential for
the resumption of growth in the face of the fragility that the country found after the crisis of the stock
market crash of 1929. The article proposes the thesis that Brazil needs a new New Deal, merging and
updating the economic program adopted at the beginning of the 20th century. Therefore, the country
needs to adopt a new national-developmental pact within the context of the globalization of capital and
the globalization of information. Thus, the article advocates a historical rescue of the Economic and
Social Program implemented in the US in the 1930s, however, adapting the Brazilian reality of the 21st
century.s.

Keywords: New Deal, National Project, Keynesianism, Roosevelt Government.

Classificação JEL: O21, O38, N32, N36.

1
Artigo apresentado em 11/09/2018. Aprovado em 30/10/2018. O autor agradece a colaboração do bolsista Luís
Gustavo Nunes (PIBIC-EM/IFFRS/CNPq) e dos estudantes Paola Gonçalves e Klaus Schuch, isentando-os das falhas
remanescentes.

2
Professor do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), Doutor em Economia do Desenvolvimento pela
UFRGS. E-mail: cassio.moreira@poa.ifrs.edu.br. Site: www.cassiomoreira.com.br.
200

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Introdução

Um dos grandes desafios para uma nação em desenvolvimento é o de trilhar um caminho


que reverta processos antigos de inserção subordinada na economia mundial, e assim construir
sua própria história. Alguns autores como Celso Furtado, John Kenneth Galbraith, Ha-Joon
Chang e Mariana Mazzucato argumentam que apenas o movimento das livres forças de
mercado não é capaz de levar economias capitalistas (em vias de desenvolvimento) ao
desenvolvimento. É necessário, num país como o Brasil, uma projeto que alie crescimento e
geração de emprego com distribuição de renda e a atenuação das disparidades regionais.
Portanto, estes são objetivos de uma nação em prol do bem-estar coletivo. Esse caminho é
possível por meio de um conjunto de políticas públicas que articulam virtuosamente os diversos
agentes sociais em torno de um projeto de desenvolvimento nacional sustentável e que seja
inclusivo. A literatura econômica mostra que a maioria das experiências exitosas de
desenvolvimento teve como papel fundamental o Estado como ator estratégico nos processos
nacionais de construção política, econômica e social.

Se, por um lado, com os novos paradigmas tecnológicos no contexto da globalização


financeira e da informação estão trazendo fortes modificações ao mundo atual, em que a
inovação tecnológica está cada vez mais presente como motora do desenvolvimento das
economias. Por outro lado, uma nação deveria ter como um dos seus objetivos primordiais a
construção de uma política de pleno emprego centrada na capacidade de intervenção estatal na
economia e da regulação pública do mercado de trabalho

É nesse contexto que se procura evidenciar a importância de um Estado Empreendedor


como o principal instrumento para fomentar a adoção de novas tecnologias, gerando com isso
um ambiente mais competitivo. Há duas perspectivas em que se deseja aprofundar nesse artigo.
A primeira, a experiência brasileira em planejamento econômico a partir de 1930, percorrendo
os governos desenvolvimentistas até a década de 1980 e a frágil tentativa de retomar esse
processo a partir de 2006. A segunda, é a experiência do New Deal na economia norte-
americana durante os governos de Franklin Roosevelt.

Diante do exposto, o objetivo geral desse artigo pode ser expresso com a seguinte
pergunta: cabe ao Estado ser o motor do desenvolvimento econômico brasileiro? Muito se
debate, atualmente, sobre o papel do Estado. Desde uns mais radicais que pregam um estado
mínimo, desde outros que salientam que o estado deve participar de atividades econômicas.
Nesse artigo adota-se a perspectiva que o Estado é o principal agente a promover o crescimento
e desenvolvimento socioeconômico.

O desenvolvimento tem dois conjuntos de metas, às vezes antagônicas. O primeiro


destaca a integração nacional, o prestígio do país no exterior, a estabilidade econômica e o
crescimento econômico; o segundo corresponde à qualidade de vida da população, por meio da
distribuição de renda e da satisfação das necessidades básicas em matéria de saúde,
alimentação, habitação, educação e emprego, além da garantia dos direitos individuais, de
dignidade, e liberdade de pensamento.

O Estado, com o objetivo de atingir essas duas metas, além das suas três funções
clássicas: distributiva, alocativa e reguladora – deve atuar como articulador e fomentador da
inovação tecnológica e na manutenção do pleno emprego; vitais na era do conhecimento para o
desenvolvimento econômico. Portanto, além de criar um ambiente propicio a investimentos
privados, caberia ao estado ter como meta à preservação do pleno emprego e a manutenção do
crescimento econômico. Conforme Galbraith, “na economia moderna a produção é agora mais
necessária pelos empregos que oferece do que pelos bens e serviços que proporciona". Por isso,
os estados nacionais, principalmente em países subdesenvolvidos ou em vias de
desenvolvimento, devem sair do debate entre estado máximo ou mínimo, e sim, um estado forte
201

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

(com plenas condições de intervir na economia por meio de um planejamento consistente e de


longo prazo) e necessário (para promover qualidade de vida para sua população).

O artigo está dividido em cinco seções, incluindo esta introdução. Na seção 2, traz um
histórico de planejamento econômico no país de 1930 até 2014. Na seção 3, apontam-se as
principais ações do governo Roosevelt (1932 – 1944), consubstanciadas pelo New Deal. Na
seção 4, são apresentadas algumas propostas para o Brasil inspiradas no programa econômico
adotado pós-1929 nos EUA. Por fim, na seção 5, são apresentadas as considerações finais ao
texto.

1 – O planejamento econômico no Brasil (1930-2014)


Durante a década de 1920, em razão das incertezas quanto ao rumo da economia
brasileira, cresceram os debates em torno da necessidade de um projeto para o país, inclusive
sobre a necessidade ou não da industrialização. Esses debates surgiam concomitantes com as
crises recorrentes do setor cafeeiro e com a crescente industrialização dos países desenvolvidos.
Entretanto, embora houvesse certo crescimento industrial no período, o pacto político-
econômico vigente se, de um lado, não era contrário à indústria, de outro lado voltava-se
firmemente à manutenção da economia agro-exportadora como principal alicerce da economia
nacional.

A chamada República Velha (1889-1930) caracterizava-se pelo predomínio da atividade


de exportação, a chamada economia agroexportadora. O café foi, nesse período, o principal
produto responsável pela entrada de divisas no país. Estas eram as responsáveis pela
possibilidade de importação de produtos manufaturados, visto que, embora já houvesse diversas
indústrias, essas ainda eram incipientes e ligadas à economia cafeeira. Salienta-se duas
correntes explicativas para a formação e expansão da indústria no Brasil. A primeira, chamada
de “industrialização induzida pelas exportações”, argumenta que o surgimento da indústria
residia na expansão da economia cafeeira, gerando divisas que permitiam aos industriais
importarem máquinas e equipamentos em períodos de prosperidade. A segunda, chamada de
“teoria dos choques adversos”, sustenta que o crescimento industrial decorria das crises do setor
cafeeiro. Nesse sentido, um dos pilares da política de valorização do café era a desvalorização
cambial. Se, por um lado, uma taxa cambial mais desvalorizada incentivava as exportações de
café, por outro lado dificultava a importação de produtos manufaturados, o que incentivava a
produção local desses produtos (VERSIANI; SUZIGAN, 1990).

No Brasil, algumas ações que visavam organizar a economia datam da década de 1940 3.
Podemos citar o relatório Simonsen (1944-45), os diagnósticos da Missão Cooke (1942-43), da
Missão Abbink (1948), da Comissão Mista Brasil-EUA (1951-53) e no Plano Salte (1946).
Entretanto, com exceção desse último, não podem ser considerados planos que visassem
implementar a sistematização do planejamento na economia brasileira. Eram mais medidas
medidas setoriais. A primeira experiência mais complexa de planejamento econômico vai
acontecer no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), com o Plano de Metas.

O Plano SALTE, em 1950, que era referente à saúde, alimentação, transporte e energia,
inseriu linhas especiais de crédito para o setor privado. Ele continha o esboço do Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico, que veio a ser criado no segundo governo Vargas,
em 1952.

O Programa de Metas, elaborado no governo de JK, diagnosticou a existência de pontos


de estrangulamento e de germinação e estabeleceu objetivos globais e setoriais no intuito de
romper os setores estrangulados, por meio de uma em conjunto com o setor privado. Esse plano
3
Em 1939, o Plano Especial de Obras Públicas e Aparelhamento da Defesa Nacional, atingiu uma boa taxa de
realização e de equilíbrio orçamentário, não gerou efeito sobre o processo econômico produtivo; em 1943, o Plano de
Obras e Equipamentos seguindo na mesma linha do anterior.
202

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

teve forte intervenção estatal na economia. Durante este governo, por meio do Plano de Metas,
a economia brasileira deu um salto em matéria de crescimento econômico e infraestrutura Esse
crescimento acelerado ocasionou, em um segundo momento, forte reversão da situação
econômica com queda nos investimentos e na taxa de crescimento da renda, assim como
aceleração da inflação, causando fortes desequilíbrios na economia brasileira. Com o governo
Juscelino Kubistchek, por meio do Plano de Metas, a expansão da indústria em vários setores
apresentou um crescimento considerável. Entretanto, havia ainda a necessidade da promoção de
tecnologia e na elevação da produção de máquinas e equipamentos. Ademais, o crescente
volume das importações, aliado à deterioração dos termos de troca relativa aos produtos
exportados, trazia a necessidade crescente de divisas para sustentar o processo de
desenvolvimento do país e o serviço da dívida externa.
Durante o governo João Goulart, o Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico Social,
elaborado pelo então ministro do Planejamento, Celso Furtado, foi uma tentativa de combater a
inflação no curto prazo e, no longo prazo, promover o crescimento sustentável e reestruturar a
economia de forma a permitir o desenvolvimento econômico. Essa mudança se daria por meio
das reformas de base, que consistiam em reformas no comércio exterior e na limitação da
atuação das empresas estrangeiras, assim como na estrutura agrária, uma reforma universitária e
o aperfeiçoamento da legislação social (expandindo a legislação para o campo) e da legislação
política (com a extensão do voto aos analfabetos). A diminuição da dependência externa seria
por meio da industrialização, da renegociação da dívida externa e das reformas de base, embora
algumas medidas mais ortodoxas como contenção do investimento público e do salário real
seriam realizadas no curto prazo nesse período de transição.

Esse plano visava aliar estabilidade monetária com crescimento econômico e propunha
algumas reformas de base como fundamentais para a execução de suas metas. Foi o primeiro
plano a coordenar os objetivos macroeconômicos com setoriais, tendo objetivos de curto e
longo prazo. Estabeleceu políticas fiscais, monetárias e cambiais, a fim de garantir a presença
do Estado na economia e, desse modo, controlar e direcionar investimento governamental de
forma a fomentar o investimento privado a seguir as metas indicativas do programa econômico.

Basicamente o plano possuía dois componentes básicos. O primeiro consistia em


medidas de combate à inflação e o segundo as chamadas Reformas de Base (reformas agrária,
eleitoral, universitária, bancária, da legislação sobre o capital estrangeiro, urbana e a tributária).
Entretanto, esse plano não pôde ser implementado em sua totalidade, posto que foi interrompido
por meio do golpe civil-militar de 1964. O insucesso do Plano Trienal, em seus objetivos
principais como controle progressivo da pressão inflacionária, atenuação das desigualdades
regionais, e redistribuição de renda, em parte foi causado por pressões de variados segmentos,
os quais impediram direta e indiretamente a atuação das medidas propostas, uma vez que eram
considerados de caráter intervencionista ou até socialista. Ademais, é interessante salientar a
tamanha resistência por parte de segmentos da sociedade em relação à continuidade de um
governo que teria apenas mais um ano de governo após 1964.

O Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), formulado no governo ditatorial


de Castelo Branco, no triênio 1964-67, caracterizou-se por princípios ortodoxos, fazendo parte
da sua equipe economistas de corrente mais liberal. Os quais viam nas forças de mercado o
caminho mais adequado para o Brasil. Portanto, esse período será marcado mais por ações de
combate a inflação e algumas reformas institucionais. A primeira, foi uma Reforma Tributária
que introduziu a correção monetária no sistema tributário; transformou impostos em cascata em
impostos sobre valor adicionado, como o IPI e o ICM; e redefiniu o espaço tributário entre as
diversas esferas do governo, fortalecendo o poder da União. A segunda, foi a Reforma
Monetária – Financeira cujos objetivos eram: criar condições de condução independente da
política monetária e direcionar os recursos às atividades econômicas; busca-se desenvolver o
mercado de títulos públicos e novos instrumento de financiamento não inflacionários do déficit
203

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

público; criação do CMN e do BACEN: CMN- órgão normativo da política monetária, BACEN
- órgão executor da política monetária, fiscalizador do sistema financeiro; reforma do sistema
financeiro e do mercado de capitais baseado no modelo financeiro norte-americano
caracterizado pela especialização e segmentação do mercado. A terceira, foi uma “Reforma
Urbana” por meio da criação do SFH (Sistema Financeiro da Habitação) e do BNH (Banco
Nacional da Habitação). A quarta uma Reforma do Setor Externo, tendo como objetivos
estimular o crescimento evitando as pressões sobre o Balanço de Pagamentos; melhorar o
comércio externo e atrair o capital estrangeiro; incentivos fiscais e modernização dos órgãos
ligados ao comércio internacional (CACEX e CPA); eliminar os limites quantitativos;
unificação do sistema cambial e adoção do sistema de minidesvalorizações (1968); e atração do
capital estrangeiro por meio da revogação da lei que limitava a remessa de lucros assinada no
governo Goulart e a renegociação da dívida externa e um acordo de garantias para o capital
estrangeiro. (MOREIRA, 2014).

O PAEG trouxe resultados que ocasionou alguns conflitos econômicos. Em 1967 foi
elaborado o Plano Decenal de Desenvolvimento Econômico e Social (1967/76), que formulou
um modelo de crescimento econômico com o objetivo de aliar crescimento, estabilidade e
equilíbrio das contas externas. Mas esse plano nunca acabou saindo do papel. O que foi
elaborado e parcialmente executado foi o Programa Estratégico de Desenvolvimento (PED),
formulado para o período de 1968-1970, onde tentou programar investimentos em áreas
estratégicas, incentivando um conjunto de instrumentos financeiros para o setor privado.

Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) foi o nome dado aos dois planos
econômicos, de números I e II, referentes respectivamente aos períodos 1972-1974 e 1975-
1979. O I PND tinha um foco no setor privado e capital estrangeiro. Nesse período foi criado o
Programa de Promoção de Grandes Empreendimentos Nacionais que convocava o empresariado
brasileiro a participar de setores estratégicos do desenvolvimento. Visava articular a interação
das empresas privadas nacionais, multinacionais e estatais. Muitas das suas metas não foram
alcançadas pelo setor privado nacional o que fez com que a participação do estado na
econômica aumentasse. O II PND, lançado no governo de Ernesto Geisel, eleito por via indireta
em 15 de janeiro de 1974, foi marcado por duas ações principais. A primeira, no âmbito
político, consistiu no processo de distensão, que, embora devesse ser lenta e gradual, encontrou
resistência em segmentos das forças armadas. A segunda foi um audacioso plano de
investimentos, o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), aprovado pela Lei n°. 6.151,
de 1974.

O modelo econômico-social que o governo Geisel pretendia adotar consistia nas


seguintes diretrizes: a) em uma economia moderna de mercado, mas sendo conduzida pelo
estado em prol do crescimento; b) forte conteúdo social; c) pragmatismo-reformista, nos
campos econômico e social, principalmente com relação à agropecuária; d) orientação para um
“nacionalismo positivo” , voltado para assegurar a execução da estratégia nacional de
desenvolvimento, realizando o equilíbrio entre capital nacional e estrangeiro, e garantindo, na
articulação com a economia internacional, a consecução das metas do País. (II PND, 1974).

Essa estratégia abrangia algumas frentes de atuação. Em primeiro, estava a ideia de


consolidar o país em uma economia moderna por meio de uma descentralização espacial dos
investimentos, em especial nas áreas de indústrias básicas, desenvolvimento científico e
tecnológico e infraestrutura de energia, transportes e comunicações. Em segundo, em virtude à
crise do petróleo, o governo pretendia expandir fontes internas de energia e desenvolver novas
vantagens comparativas. Ademais, o governo pretendia tentar corrigir as distorções regionais
por meio da utilização do espaço brasileiro, associado à disponibilidade de recursos humanos,
com a aplicação dos recursos de capital já assegurados às novas regiões.
204

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

A equipe econômica era chefiada pelo ministro Mário Henrique Simonsen, da Fazenda, e
por João Paulo dos Reis Velloso, do Planejamento, a quem coube liderar a elaboração do plano.
Este, embora estabelecesse metas de desempenho esperadas, pouco menciona sobre as fontes de
recursos para viabilizá-las, possivelmente devido às dificuldades visíveis da conjuntura.

Há uma controvérsia muito grande entre economistas sobre a elaboração, execução e os


resultados do II PND . Entretanto, há certa tendência na literatura em reconhecê-lo como a mais
ampla experiência de planejamento econômico no Brasil depois do Plano de Metas. Ademais, se
entendermos, em consonância com o diagnóstico do Plano Trienal, que o processo de
substituição de importações não se encerrara ao final da década de 1950, pois ainda carecia
alcançar inúmeros segmentos de bens de capital e intermediários, pode-se dizer, como o fazem
Castro e Souza (1985, p. 76), que com os investimentos do II PND, “dali por diante, em marcha
forçada, a economia subiria rampa das indústrias capital-intensivas e tecnológico-intensivas”. A
lógica implícita no plano firmava que a crise decorria do desequilíbrio intersetorial – a
prioridade aos bens de consumo duráveis estabelecida desde o Plano de Metas
sobredimensionara o setor, enquanto outros segmentos não acompanharam sua evolução
quantitativa e qualitativa – e acenava para a diminuição da dependência externa em vários itens
para enfrentar o desequilíbrio do balanço de pagamentos. Subentendia, com isso, que as
propostas do Plano Trienal eram pertinentes e, caso tivessem sido implantadas
tempestivamente, a economia brasileira encontrar-se-ia menos vulnerável diante do choque do
petróleo.

As áreas prioritárias dos investimentos do II PND foram: (a) insumos básicos: metais
não-ferrosos, exploração de minérios, petroquímica, fertilizantes e defensivos agrícolas, papel e
celulose; (b) infraestrutura e energia: ampliação da prospecção e produção de petróleo, energia
nuclear, ampliação da capacidade hidrelétrica (Itaipu) e substituição dos derivados de petróleo
por energia elétrica e pelo álcool (Pró-Álcool), expansão das ferrovias e a utilização de carvão;
(c) bens de capital: mediante garantias de demanda, incentivos fiscais e creditícios, reservas de
mercado (lei de informática) e política de preços. Os investimentos estatais adquiriram inclusive
uma dimensão regional, com a distribuição espacial dos principais projetos (Almeida, 2004, p.
23). Além disso, Batista (1987) assinala como ponto a favor do plano sua determinação em
avançar o processo de industrialização no Brasil por meio da implantação de um programa de
substituição de importações no setor energético e de expansão da capacidade de produção de
bens intermediários, incluindo a implantação de indústrias de tecnologia naval, equipamento
ferroviário, aeronáutica, petroquímica e farmacêutica. Assim como no governo Goulart, o papel
das empresas estatais seria fundamental, pois seriam os agentes impulsionadores do capital
nacional e da indústria de bens de capital.

O II PND pode ser considerado um audacioso plano de desenvolvimento que estava


baseado no tripé estado, capital privado nacional e capital privado estrangeiro. Contudo,
percebe-se por meio das medidas adotadas pelo plano uma inversão de prioridades em relação
ao governo anterior baseado no I PND. Enquanto, no governo Médici, a política econômica
priorizou o capital estrangeiro, no governo Geisel essa lógica se inverte.

Mesmo essa estrutura (“tripé”) estando centrada na participação das empresas estatais,
capital privado nacional e capital estrangeiro, não quer dizer que não existissem conflitos entre
os agentes, mas mesmo que houvesse conflitos, não significaria que essa base de sustentação
poderia vir a chegar ao fim (FARO, 2010). De fato, com o desenvolvimento do plano, a
participação do estado começou a se elevar e percebia-se uma intenção do governo por priorizar
o capital privado nacional em detrimento do estrangeiro. Continua Faro, que anteriormente ao II
PND, ocorria no Brasil desde a implantação do regime civil-militar, políticas adotadas que
favoreciam o capital privado estrangeiro em detrimento do capital privado nacional.
205

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Conforme Contador (2006), se existisse uma participação maior das empresas estatais na
economia, poderia haver um risco de "estatização" econômica ou, se ocorresse uma participação
maior do capital externo, poderia haver um comprometimento da estratégia adotada. O que
demonstra a intenção dessa retomada nacional-desenvolvimentista com todas as restrições
externas e internas a isso.

"... Por exemplo havia exigências de compartilhamento do


controle de operações das multinacionais com as empresas
estatais e privadas brasileiras; formação de joint ventures,
transferências de tecnologia e etc. Mas a importância do tripé
havia alcançado tamanha proporção que os conflitos não
podiam levar uma das partes à morte, visto que elas tinham
interesses comuns por serem co-participantes de uma
engrenagem que lhes trazia vantagens mútuas. Controvérsias à
parte, os interesses comuns e os mecanismos de colaboração
entre o Estado brasileiro, as empresas privadas nacionais
expostas aos mercados externos e as multinacionais, em
especial as norte-americanas, deveriam prevalecer, mantendo
de pé o tripé que sustentava o modelo de desenvolvimento
seguido pelos governos militares, ao qual, por seu turno, era o
ingrediente que deu a eles uma certa legitimidade enquanto
funcionou." (CONTADOR, 2006 p.53-54)

Conforme Percival (1985), a estratégia de fortalecimento da indústria nacional seria o


núcleo do II PND, no qual a empresa estatal seria o principal eixo, as empresas estatais seriam
as responsáveis pela "efetivação das transformações" e "ampliação das bases técnicas
produtivas". As empresas estatais estariam no centro das negociações, nucleando e “mediando”
os interesses da empresa estrangeira com a nacional (o lucro). Percival explica que a atuação
das empresas estatais durante o II PND seria mais do que apenas de uma empresa, e sim de um
agente econômico, com objetivos traçados e específicos de mediar conflitos e gestar uma
possível interação de troca de tecnologia e know-how, entre as empresas nacionais e
multinacionais. Isso fazia parte da nova estratégia adotada: a de priorização do capital nacional,
que está explicito no II PND com o objetivo de tornar as empresas nacionais mais competitivas
mundialmente, tornando-as capazes de competir em setores dinâmicos, os quais não estavam
inclusos em processos de substituição de importação adotados anteriormente.

Em resumo, o II PND continuou a propor a ação governamental sobre os programas


estratégicos de infraestrutura econômica e social e em traçar diretrizes indicativas para o setor
privado, incumbindo-o de atender, somente, as necessidades básicas da população. Muito
parecido inclusive com a maneira de atuar dos governos Vargas, JK e Goulart no que tange a
participação do Estado para o desenvolvimento econômico.

O Terceiro Plano Nacional de Desenvolvimento (III PND), formulado para o período


1980/85, apresentou um elevado grau de flexibilidade, estabelecendo apenas diretrizes gerais e
criando um amplo programa indicativo, em que a presença do Estado se limitou àqueles setores
considerados básicos para o processo de crescimento e desenvolvimento. Podemos atribuir que
a partir do governo de Figueiredo que o planejamento estatal começa a ficar em desuso até
diminuir consideravelmente nas décadas de 1980 e 1990 com as políticas de estabilização e
políticas neoliberais desse período.

O primeiro plano da nova republica foi o Plano Cruzado, elaborado para o período
vigente a partir de 1985, e visava corrigir o descontrole econômico que marcou o fim do regime
militar. Os objetivos do Plano Cruzado não fugiram àqueles perseguidos pelos planos e
programas anteriores, ou seja, conseguir vencer o combate à inflação mantendo os níveis de
206

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

produção e emprego. Nesse aspecto, criou-se o Plano Cruzado, tendo como ação principal o
congelamento preços e salários. Mas como o plano se preocupou apenas com aspectos inerciais
da inflação, negligenciando outras questões como de demanda e distributivas, o plano logrou
fracasso. Os Planos Bresser e Verão não passaram de meras correções e uso crescente de
medidas mais ortodoxas de combate a inflação que também não tiveram sucesso no combate a
inflação. Nesse período a grande prioridade nacional passou a ser a estabilidade monetária e
questões como crescimento, desenvolvimento e distribuição de renda passaram a ter um caráter
secundário frente ao grande problema hiperinflacionário brasileiro.

A década de 1990 inicio com o Brasil ingressando na política neoliberal dos governos
Collor e Fernando Henrique Cardoso e a ação estatal passou a ser vista cada vez mais como
prejudicial ao ambiente econômico. Nesse contexto que surgem os Planos Collor I e II. O
primeiro, caracterizou-se por uma brusca redução na oferta monetária. A drástica redução da
oferta monetária, acompanhada de gerenciamento liberal, resultou em efeitos negativos para a
economia, visto que o choque do confisco mergulhou a economia brasileira numa queda brusca
do PIB. Grande parte desses governos foram marcados por inexistência de planejamento de
médio e longo prazo. A maioria das medidas eram de curto prazo, e a crença cada vez maior no
livre mercado como propulsor do crescimento.

A partir de 1993, no governo Itamar Franco, foi criado o Plano Real. O objetivo maior
era acabar com a indexação da economia levando em conta o aprendizado com todos os erros
dos planos anteriores. O Programa de Estabilização Econômica (Plano Real) foi concebido e
implementado em três fases: a) estabelecimento do equilíbrio das contas do governo, com o
objetivo diminuir o déficit público; b) criação da Unidade Real de Valor: URV; e c) conversão
desse padrão de valor em uma nova moeda: o Real atrelado a uma valorização cambial que
depois passou a ser o principal elemento do plano.

Após uma “década perdida”, o Brasil voltou aos fluxos dos capitais internacionais no
início dos anos 1990. O Estado completamente endividado passa a ter um papel subserviente ao
capital estrangeiro e as reformas liberalizantes sobrevoam a América Latina e reformulavam o
papel do estado na economia. Iniciava-se a inserção do país num mundo cada vez mais
globalizado. As vitórias de Collor/Itamar e Fernando Henrique Cardoso (FHC) colaboraram
para o avanço de reformas liberais e combateram a inflação de forma a estabilizá-la a níveis
irrisórios a partir de 1994. O Brasil se inseria na globalização e os projetos desenvolvimentistas
perderiam espaços para o neoliberalismo sob o lastro do chamado Consenso de Washington.

Entretanto, ao longo dos últimos anos, em que ficaram claros os movimentos


característicos da chamada globalização (em seus aspectos produtivos e financeiros), a
economia brasileira foi capaz de aproveitar a combinação excepcional de expansão da liquidez
financeira internacional, da demanda e dos preços das commodities, e promoveu mudanças
importantes em seu modelo de desenvolvimento. Em especial a partir da ascensão de Luis
Inácio “Lula” da Silva do Partido dos Trabalhadores (PT). Quando o Lula chegou ao poder em
2003, conforme as diretrizes do seu programa de governo havia um objetivo focado no combate
a fome, geração de emprego e distribuição de renda.

No “Programa de Governo 2002”, da Coligação Lula Presidente, as linhas do novo


modelo estavam assim anunciadas: “(…) O motor básico do sistema é a ampliação do emprego
e da renda per capita e, consequentemente, da massa salarial que conformará o assim
chamado mercado interno de massas. O crescimento sustentado a médio e longo prazo
resultará da ampliação dos investimentos na infraestrutura econômica e social e nos setores
capazes de reduzir a vulnerabilidade externa, junto com políticas de distribuição de renda”.
Esse documento estava dividido em três grandes áreas: 1) crescimento, emprego e inclusão
social, 2) desenvolvimento, distribuição de renda e estabilidade, e 3) infraestrutura e
desenvolvimento sustentável (PROGRAMA DE GOVERNO, 2002).
207

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Nas eleições de 2002, a candidatura da esquerda moderada,


capitaneada por Lula, vence o pleito e toma possa em 2003. O Plano
Plurianual 2004-2007, intitulado, Orientação estratégica de governo –
Um Brasil para todos: crescimento sustentável, emprego e inclusão
social, ao abordar o projeto de desenvolvimento, além de explicitar
que o Estado terá papel decisivo em sua condução, diz: “O PPA 2004-
2007 terá como objetivo inaugurar a seguinte estratégia de longo
prazo: inclusão social e desconcentração da renda com crescimento do
produto e do emprego. Crescimento ambientalmente sustentável,
redutor das disparidades regionais, dinamizado pelo mercado de
consumo de massa, por investimentos e pela elevação da
produtividade. E redução da vulnerabilidade externa através da
expansão de atividades competitivas que viabilizem esse crescimento
sustentado. As políticas e programas que darão substância a essa
estratégia distribuem-se em cinco dimensões: social, econômica,
regional, ambiental e democrática.” O conteúdo desse documento
explicita o propósito social-desenvolvimentista da política do Estado
desde 2003 (IANONI, 2014, p.8).

Lopes (2012) afirma que se em 2003 e 2004 era adequado afirmar que o governo Lula
constituía a continuação do programa solidificado por Fernando Henrique, mas, com o aumento
da intervenção estatal e medidas anticíclicas consideráveis foram postas em ação pelo segundo
Governo Lula, não é mais possível igualar os dois regimentos. Mercadante (2010) sustenta o
argumento de que o Governo Lula poderá entrar para a história como um ponto de inflexão ao
promover a ruptura com programa neoliberal típico dos anos 1990, é o ressurgimento de temas
como desenvolvimento nacional, expresso principalmente no neologismo “novo
desenvolvimentismo”. A nova expressão indica que os eventos do presente têm algum elemento
em comum com o aquele momento (governo Vargas) importante da criação do Estado
capitalista brasileiro. Como ressaltado, é necessário hoje, fazer as mediações dessa nova
ideologia com suas contrapartidas na estrutura. Só assim será possível descobrir quais são as
forças políticas contemporâneas agindo sobre o estado brasileiro no presente. É importante
destacar, no entanto, que o formato das ações do governo em direção ao sustento da reprodução
de capital na economia brasileira está fortemente condicionado por circunstâncias internacionais
alheias ao poder de decisão dos brasileiros. Por isso, a análise da conjuntura nacional nunca
pode abstrair dos acontecimentos econômicos e políticos no exterior. E nesses contextos as
décadas de 1950, 1960 são bem diferentes da desse início do século XXI. Esses momentos
iniciais dos anos 2000 estavam condicionados por fatores internacionais bem mais semelhantes
aos dos anos 1990, o que camuflava os traços de ruptura que só se tornaram realmente visíveis a
partir de 2008. Nesse momento, quando analisamos o uso dos recursos sob controle do Estado,
é possível averiguar a mudança para um Estado que lembra aquele Estado desenvolvimentista
da década de 1960, como por exemplo, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social) e sua função na crise 4. Outro exemplo mais recorrente é o PAC (Programa
de Aceleração do Crescimento), que nada mais é do que a parte mais exaltada do PPA (Plano
Plurianual) 2008-20115. Pode-se constatar, portanto, um aumento do controle econômico a
partir dos programas específicos de política fiscal para amainar a recessão.

Os programas do PT, “Programa de Governo 2002: Coligação Lula para presidente” e


“Lula de novo com a força do povo: Lula presidente 2007-2010” existam muito objetivos

4
Ver Coutinho (2009).

5
Ver Macedo (2011).
208

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

semelhantes à Mensagem ao Congresso Nacional do governo João Goulart de 1964 6. Inclusive


no segundo programa de governo, logo na página seguinte a capa, há a seguinte citação: “O
nome do meu segundo mandato será desenvolvimento. Desenvolvimento com distribuição de
renda e educação de qualidade” (PROGRAMA DE GOVERNO, 2006).

Entretanto, será a partir da entrada de Dilma Rousseff na Casa Civil e de Guido


Mantega no Ministério da Fazenda em 2006 (no núcleo do governo) que os termos trabalhismo
e social-desenvolvimentismo começaram a ser usados seguidamente. Esse projeto, portanto,
começou a ganhar concretude no seu segundo mandato. Muitas das ações que marcaram o
governo Lula surgiram após o ingresso deles, tais como: a criação de uma estatal para gerir o
Pré-Sal, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o Programa Luz pra Todos e o
Programa Minha Casa minha Vida, a criação da Rede Federal de Educação Profissional e
Tecnológica, Plano Nacional de Educação (PNE), a Política de Desenvolvimento Produtivo,
entre outros. Houve a retomada de uma de programas de infraestrutura, que há muito tempo
(desde o II PND) o Brasil não tinha. Cabe mencionar o Programa de Aceleração do Crescimento
(PAC I e PAC II) em conjunto com o Programa de Investimento em Logística e a Política de
Concessões de Rodovias, Ferrovias, Portos e Aeroportos do governo Dilma Rousseff.

Em termos de política econômica, o primeiro governo Lula manteve o tripé


macroeconômico do governo FHC de superavit primário, taxa de câmbio flutuante e regime de
metas de inflação. Contudo, podemos acrescentar a isso uma crescente ingerência do governo
nessa política. As características do segundo governo Lula seriam: a) expansão do mercado
interno sustentada pelos investimentos e pelo consumo das famílias, b) políticas creditícias
expansionistas e de combate a crise internacional e, c) ampliação dos programas sociais por
meio das políticas de renda e distributivas. Com a eleição, de Dilma Rousseff em 2010, esse
tripé começa a ser desmontado ou afrouxado. Entretanto, a análise em questão não deve se
restringir no curto prazo e sim no longo prazo em termos de projeto.

Um projeto de nação consiste na existência de uma estratégia de transformação


econômica e social que vise à elevação da produtividade e ao aumento do bem-estar a médio e a
longo prazo de uma população dentro de determinado território. Tanto o Programa Nacional de
Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (PRONATEC), a expansão da Rede Federal de Educação
Profissional Científica e Tecnológica como o Programa Brasil sem Fronteiras parecem estar em
consonância com aqueles objetivos de longo prazo, ou seja, elevar a produtividade e o aumento
do bem estar no médio e longo prazo das empresas e da população. Nesse sentido, o governo
Dilma parece ter implementado uma estratégias e políticas públicas para implantar um padrão
de desenvolvimento para o país. Isso caracterizaria um desenvolvimentismo. Esse padrão é
uma combinação peculiar de incentivos para o investimento privado, aumento da produtividade
e da renda (setores, agentes, financiamento, regulação, composição e organização dos
mercados, distribuição da renda, etc.).

Salienta Fonseca (2013) que no desenvolvimentismo há uma política pró-ativa com o


objetivo de desenvolver o país. É um projeto com um objetivo deliberado, que, por via do
aumento da produção e da produtividade, visa atingir determinados fins. As transformações
recentes na economia brasileira reacenderam o debate sobre o desenvolvimento e o
desenvolvimentismo. Os êxitos do desenvolvimento inclusivo e os limites das exportações de
commodities – primárias e industriais – colocam desafios extras à superação do
subdesenvolvimento brasileiro, que se atualiza mais uma vez sob o véu da combinação do
crescimento econômico e da mobilidade social. Decorridos quatro anos do governo Dilma,
parece-nos já configurada que houve uma tentativa ou sentido de conjunto que este governo
imprimiu à sua política econômica, não apenas na acepção de gestão macroeconômica, mas no

6
Ver Moreira (2014).
209

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

conceito de um projeto de longo prazo que lida com aspectos mais estruturais da produção e
repartição da renda.

Há mudanças em relação ao governo Lula, mas há também um forte caráter de


continuidade no sentido estrutural em três pilares fundamentais: manutenção da valorização real
do salário mínimo e das políticas de transferência de renda, expansão da infraestrutura física e
capacitação profissional. Ademais, há sinalização para a necessidade da realização de reforma
política e de uma reforma tributária. Além disso, a manutenção de nova dinâmica de inserção
internacional, iniciada no governo Lula, focada na cooperação do tipo Sul-Sul e diversificação
das exportações para outros mercados trazem semelhanças com a Política Externa Independente
do governo Goulart. Esse novo modelo se contrapõe ao chamado modelo neoliberal, e tem
semelhanças com o que se convencionou chamar de nacional-desenvolvimentismo. Em relação
à indústria (ponto mais frágil da tese de uma nova etapa de desenvolvimentismo) podemos
destacar durante o governo Dilma algumas ações que parecem, pelo menos em termos teóricos,
uma tentativa de incentivar o setor industrial a responder, de forma robusta, um novo contexto
econômico. Cabe salientar as diferenças com o nacional-desenvolvimentismo dos anos 1950 e
1960, em virtude do elevado aumento da participação das exportações da indústria chinesa no
mercado internacional e do crescente aumento da participação dos serviços em detrimento da
indústria na composição do PIB na maioria dos países. Mesmo assim, os governos Lula e Dilma
adotaram as seguintes medidas para incentivar a indústria: a política de compras de produtos
fabricados no país (em especial para a indústria petrolífera e naval), a política de
Desenvolvimento Produtivo e o Plano Brasil Maior, redução do IPI, aumento da taxação de
produtos importados e imposição de barreiras comerciais e tarifárias. Ademais, no início do
governo Dilma houve uma tentativa de mudança na política de juro (com uma política
monetária menos ortodoxa com redução mais rápida da taxa SELIC e redução dos juros dos
bancos públicos) que expressariam uma tentativa de ruptura da hegemonia do segmento
bancário-financeiro no poder. Portanto, essas medidas e outras nos levam a sustentar que houve
uma tentativa de implementar um novo modelo de desenvolvimento chamado de social-
desenvolvimentismo. Enfim, esse seria caracterizado por intermédio de uma estabilidade
econômica, consolidação da democracia, manutenção do crescimento do emprego e da renda
com elevação da inclusão social.

2 – O New Deal do governo Roosevelt


O New Deal, em português “Novo Acordo”, foi um conjunto de medidas econômicas
e sociais formuladas pelo governo Roosevelt, entre os anos de 1933 e 1937, com o objetivo de
recuperar a economia dos Estados Unidos após a crise de 1929. Teve como princípio básico a
forte intervenção do Estado na economia. As principais medidas e objetivos do New Deal
afetavam tanto a demanda quanto a oferta da economia.
Talvez uma das mais importantes delas foram os fortes investimentos estatais em
obras públicas. O governo americano investiu, principalmente, na construção de obras de
infraestrutura (pontes, aeroportos, rodovias, aeroportos, usinas hidrelétricas, barragens, portos,
entre outras). Os investimentos também foram para a construção de escolas e hospitais. O
principal objetivo dessas medidas era a geração de empregos, pois o desemprego era enorme
após a Grande Depressão de 1929.

Outra medida implementada pelo governo foi uma Reforma no Sistema Bancário e
Monetário. Por meio da modificação e criação de leis, passou a ter um maior controle e
fiscalização sobre o mercado financeiro. O grande objetivo era evitar fraudes financeiras,
especulações e diminuir os riscos de operação dos bancos.

O governo nos EUA também adotou uma política de controle de preços e produção
das empresas, e assim evitar um aumento de estoques das empresas que poderia gerar uma nova
crise. O plano procurava resolver isso por intermédio da fiscalização sobre os estoques da
210

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

empresas, para que eles não aumentassem a ponto de gerar riscos operacionais. Os preços das
mercadorias também foram controlados pelo governo, a fim de evitar o aumento da inflação. No
meio rural, o governo fez uma série de incentivos agrícolas, tais como subsídios, empréstimos e
outras medidas voltadas para o aumento da atividade agrícola das grandes propriedades e da
agricultura familiar. Buscava assim aumentar a produção de gêneros agrícolas, e por
consequência elevar o emprego no campo. Ademais, isso ajudava a diminuir o êxodo rural, que
estava gerando problemas sociais nos grandes centros urbanos.

Na área social, o governo Roosevelt adotou ações para diminuir os impactos da crise
de 1929. Foi criada a Previdência Social, o seguro desemprego, criação de um salário mínimo e
um seguro para idosos acima de 65 anos. Cabe frisar também que houve uma redução da
jornada de trabalho semanal com o objetivo de aumentar o número de empregados, pois desse
modo as empresas teriam que contratar mais funcionários. Conforme Schlesinger (1958) que o
coração do New Deal é o princípio da ação concertada na indústria e na agricultura sob a
supervisão do governo, visando a uma economia equilibrada, em oposição à doutrina assassina
do individualismo selvagem. Basicamente dois programas sintetizam o que foi o New Deal e a
expansão da participação dos investimento das estatais na economia. O primeiro, para a
indústria, chamado de National Recovery Administration (NRA) e o segundo, para agricultura,
de Agricultural Adjustment Administration (AAA). O NRA ajudou a implementar uma cultura
de solidariedade, por meio de ações entre empresários e trabalhadores na tentativa de mediar
exigências trabalhistas e conter práticas destrutivas de competição no meio industrial. O AAA
foi a maneira encontrada para controlar os preços em queda dos produtos agrícolas. O objetivo
era controlar a produção para conter o ciclo vicioso de preços baixos por meio de incentivos à
agricultores a produzir mais e, assim, conter a elevação de preços (PEIXOTO, 2016). Conforme
Limoncic e Martinho (2009), o grande objetivo desse programa era incentivar a redução da
produção através de subsídios governamentais, para que a oferta novamente se regulasse com a
demanda e os preços voltassem a subir.

Conforme os dois quadros abaixo, é possível mencionar que o New Deal pode ser
dividido em duas partes: o 1º New Deal (1932-1933) 7 e o 2º New Deal (1934-1935). Com
relação ao primeiro, as bandeiras foram: estímulo às obras públicas, redução da jornada de
trabalho e aumento do número de empregos (surgindo a ideia de pleno emprego), regulação do
mercado financeiro, defesa da subvenção/subsídios aos agricultores, cortes no funcionamento
público, pacote de ajuda ao sistema financeiro para recuperar a credibilidade bancária (o que
rendeu um controle pelo governo federal do poder bancário), entre outros. Com relação ao
segundo é possível falar do imposto de renda progressivo. Neste sentido, as camadas mais ricas
das população passaram a pagar muitos impostos. Buscou-se fazer a seguridade chegar a todos,
por meio da assinatura da Lei da Seguridade Social, que assistia os trabalhadores com uma série
de recursos, como seguro desemprego, salário mínimo, aposentadoria e o mínimo de
estabilidade. Além disso, a política de Roosevelt fortaleceu também os sindicatos nas
negociações com o governo em prol dos trabalhadores (ALONSO, 2002).

A seguir serão apresentadas outras das principais medidas implementadas pelo New
Deal. Algumas de caráter temporário, ou seja até o fim da depressão econômica, outras de
cartater permanente mantidos por outros governos.

7
Em 1932, Roosevelt foi governador do Estado de Nova York, sendo eleito presidente do EUA em 1933.
211

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Quadro 1 - Principais medidas do New Deal entre 1932 e 1933

Permanente ou
Programação Promulgação Descrição
temporário
Public Buildings 1932 Permanente Concessão de subvenção para a construção de edifícios do governo
Administration federal

Public Roads 1932 Permanente Concessão de subvenção para a construção de rodovias publicas
Administration

Reconstruction 1932 Temporário Concessão de empréstimos para bancos, ferrovias, industrias,


Finance governos locais; serviu como apoiador para muitos programas do
Corporation New Deal
Agricultural 1933 Permanente Promoveu aumento dos pregos agrícolas através de restrições na
Adjustment produção
Administration (AAA)
Civil Works 1933 Temporário Subvenções para ampliação de postos de trabalho destinados a
Administration obras públicas; manutenção de edifícios e parques públicos

Commodity Credit 1933 Permanente Concessão de empréstimos que garantissem pregos agrícolas
Corporation mínimos

Farm Credit 1933 Permanente Reorganizou e coordenou programas que ofereciam empréstimos a
Administration agricultores para sementes e hipotecas de fazendas

Federal Deposit 1933 Permanente Depósitos bancários segurados


Insurance
Corporation
Federal 1933 Temporário Subvenções para pagamentos diretos e como “seguro desemprego”
Emergency Relief para famílias de baixa renda
Administration (FERA)
Federal Farm 1933 Permanente Emissão de títulos para ajudar a financiar hipotecas agrícolas e
Mortgage melhorar empréstimos
Corporation
Home Owners Loan 1933 Temporário Fundos de empréstimo para ajudar bancos no refinanciamento de
Corporation empréstimos hipotecários problemáticos

National Recovery 1933 Temporário Supervisão do desenvolvimento de códigos de competição


Administration (NRA) industrial

Public Works 1933 Temporário Concessão de subvenções e empréstimos para a construção de


Administration (PWA) obras públicas de grande escala

Public Works 1933 Temporário Concessão de subvenções e empréstimos para a construção de


Administration, Housing projetos habitacionais públicos
Division
Securities and 1933 Permanente Regulação do mercado financeiro
Exchange
Commission
Tennessee Valley 1933 Permanente Construção de barragens de grande escala com o objetivo de criar
Authority (TVA) reservatórios e fornecer energia elétrica

Fonte: Fishback, 2006


No início de 1933, o presidente Roosevelt, num dos seus primeiros atos, anunciou a
suspensão das transações bancárias, por intermédio do Emergency Banking Act. Tal evento ficou
conhecido como Bank Holiday (feriado bancário) e tinha como objetivo o reordenamento do
sistema e, como resultado, reestabelecer a confiabilidade e a integridade dos bancos (SILBER,
2009). Em relação a recuperar e ampliar o nível de emprego foi criado o Civilian Conservation
Corps (CCC). Tal projeto consistia em efetuar serviços de recuperação de obras públicas e
diminuição do nível de erosão no solo (em especial de regiões afetadas pela seca, como o estado
do Oklahoma). Por meio desse programa, várias pessoas foram empregadas, gerando assim um
212

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

aumento de renda e, consequentemente, de consumo (LIMONCIC; MARTINHO, 2009). O


Corpo Civil de Conservação (CCC), tinha outro projeto semelhante: o Public Works
Administration (PWA) que criava empregos pagando pessoas desempregadas para construir
escolas, pontes e represas. Isso foi substituído pelo Works Progress Administration (APW) em
1935. Outro projeto importante foi o Tennessee Valley Authority (TVA), que trazia energia
hidroelétrica para sete estados do Vale do Tennessee, uma das áreas mais afetadas do país.
Barragens e usinas elétricas foram construídas, gerando muitos empregos, inclusive cidades que
seriam temporárias mas que acabaram sendo permanentes. O Federal Emergency Relief
Administration (FERA), ajudou pessoas de baixa renda de várias formas diferentes, como por
exemplo, doar roupas e preparar refeitórios.

Quadro 2 - Principais medidas do New Deal entre 1934 e 1938

Permanente
Programa ou Ação Promulgação ou Descrição
Temporário
Federal 1934 Permanente Regulação da comunicação interestadual
Communications
Commision
Federal Housing Administration 1934 Permanente Seguro federal para hipotecas residenciais

Federal Savings and Loan Insurance 1934 Permanente Seguro federal de depósitos de poupança e
Corporation empréstimo
National Labor Relations Board 1935 Permanente Monitoramento e julgamento de disputas sobre
acordos de negociação coletiva
Resettlement 1935 Temporário Concessão de empréstimos e subsídios a
Administration agricultores para prestar socorro e garantir
melhores oportunidades na agricultura

Rural Electrification Administration 1935 Permanente Concessão de empréstimos para estender a


eletricidade para áreas rurais

Social Security Administration, Aid to 1935 Permanente Destinação de fundos estaduais e federais para
Dependent Children prover assistência a crianças órfãs

Social Security Administration, Aid to 1935 Permanente Assistência estadual e federal aos cegos
the Blind
Social Security Administration, Old- 1935 Permanente Fundos estaduais e federais de assistência a
Age Assistance idosos indigentes
Social Security Administration, Old- 1935 Permanente Pensões a trabalhadores aposentados
Age Pensions
Unemployment 1935 Permanente Fundos federais e estaduais de seguro para
Insurance beneficiar trabalhadores desempregados

Works Progress Administration (WPA) 1935 Temporário Subvenções para trabalhos temporários em
pequenos projetos públicos

Farm Security Administration 1937 Temporário Concessão de empréstimos e subsídios para


melhores oportunidades na agricultura

U.S. Housing Administration 1937 Permanente Empréstimos para projetos habitacionais públicos
Fair Labor Standards Act 1938 Permanente Estabeleceu o salario mínimo nacional e
restrições de horas de trabalho para trabalhadores
envolvidos no comercio interestadual
Fonte: Fishback, 2006
213

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

Todas essas medidas do presidente Roosevelt tinham como objetivo estabilizar a


economia e fornecer empregos e alívio financeiro para empresas e famílias. Em seus primeiros
cem dias no cargo, ele pôs em prática muitas leis importantes, incluindo a Lei Glass-Steagall e a
Lei de Empréstimo dos Proprietários de Casas. Na verdade a Glass-Steagall Act representava
duas leis, propostas pelos democratas Carter Glass, senador da Virgínia, e pelo deputado Henry
Steagall, do Alabama. A primeira lei visava atribuir mais instrumentos ao Federal Reserve
(FED), para possibilitar o desconto de títulos do governo e commercial papers, fundamental
numa época de baixa liquidez. A segunda lei, que influenciou enormemente a adoção em outras
economias, separava bancos comerciais e de investimentos. Basicamente, Glass-Steagall tinha
três objetivos: a) evitar o conflito de interesses na concessão do crédito, na aplicação e no
investimento desses mesmos recursos pela mesma entidade financeira; b) limitar a especulação
nos mercados; c) limitar riscos desmedidos. Contudo, uma das medidas mais importantes do
New Deal foi a National Industrial Recovery Act (NIRA), que visava instituir a cooperação em
detrimento da concorrência, desde que permitisse salários aumentassem. O ato permitiu que as
indústrias formassem um cartel, sob a condição de que essas indústrias caso aumentassem
preços também aumentassem os salários. O NIRA permaneceu em vigor até 1935, quando foi
decidido pelo Supremo Tribunal para ser inconstitucional.

Existe uma certa controversa na historiografia econômica que se as políticas do New


Deal, implementadas por Roosevelt, ajudaram ou prejudicaram na recuperação econômica.
Fishback (2006) argumenta que após o New Deal os EUA tiveram uma diminuição do
desemprego, elevação do PIB e o fechamento e falência de empresas e bancos diminuíram. Por
outro lado, Greenspan (2008), salienta que a regulamentação gerada pelo New Deal manteve a
participação do estado na economia e isso elevou degradação do papel do mercado o que
prolongou a recuperação da economia norte-americana. Entretanto, a visão predominante é que
ajudara muito a reduzir a desigualdade de renda nos Estados Unidos e sua recuperação
econômica.

Os maiores legados desse programa econômico foram a Previdência Social, seguro-


desemprego e subsídios agrícolas, que ainda existem até hoje.

Quadro 3 – Síntese do New Deal


O que foi o New Deal  Controle sobre bancos e instituições financeiras e econômicas;

 Construção de obras de infraestrutura para a geração de empregos e aumento do mercado


consumidor;

 Concessão de subsídios e crédito agrícola a pequenos produtores familiares;

 Criação de Previdência Social, que estipulou um salário mínimo, além de garantias a


idosos, desempregados e inválidos;

 Incentivo à criação de sindicatos para elevar o poder de negociação dos trabalhadores e


facilitar a defesa dos novos direitos instituídos.

Quatro dimensões  Reformas econômicas e regulação de setores da economia;

 Medidas emergenciais;

 Transformações culturais;

 Nova pactuação política entre o Estado e fatores sociais, uma espécie de trabalhismo
americano.

Fonte: Elaborados pelo autor


214

Revista de Economia Política e História Econômica, número 42, julho de 2019

O New Deal pode ser considerado uma versão americana do que foi o trabalhismo no
Brasil com o governo Vargas. Houve um pacto entre Estado, trabalho organizado e capital,
semelhante com o Estado de Bem-Estar Social europeu. A divisão de tarefas desse pacto
estariam assim distribuídas: o Estado assumiria papéis keynesianos anticíclicos, de forma a
tornar-se um dos maiores compradores do setor privado e também um fornecedor de renda, por
meio de de sua função produtora empregando pessoas e, assim, elevar o consumo; o capital
repassaria ganhos de produtividade do trabalho aos salários, (sendo essa uma das principais
condições para garantir a estabilidade do sistema) e, por fim, os sindicatos aceitavam o sistema
capitalista (em crescente ameaça com o surgimento do socialismo), em troca de sua
incorporação ao mundo do consumo de massas. Tanto Keynes quanto Ford já haviam previsto
que a aceleração dos ganhos de pr