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A Escola Austríaca de

Economia

LEIS ABSURDAS DO BRASIL - LAB


SUMÁRIO

1. A Escola Austríaca de Economia


2. Praxeologia
3. Valor Subjetivo e Comércio
4. Dinheiro e Moeda
5. Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos
6. Empreendedorismo
7. Cálculo Econômico e Socialismo
8. Glossário

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CAPÍTULO 1

A Escola Austríaca de
Economia

O que é a Escola Austríaca? Para explicarmos o que

representa a Escola Austríaca de Economia, temos que voltar

ao século XV, quando seguidores de Santo Tomás de Aquino,

da Universidade de Salamanca, procuraram explicar a ação

humana e a organização social. Este grupo ficou conhecido

como Escolásticos. Eles perceberam que existiam leis

econômicas regidas por causa e consequência, assim como as

leis que determinam outras ciências naturais. Foram os

primeiros responsáveis por indicar o que determinava

inflação e os primeiros a explicar a lei de oferta e demanda.

Os Escolásticos já defendiam a propriedade privada e o livre

comércio, celebravam o empreendedorismo como motor da

sociedade e abominavam completamente as regulamentações

econômicas, taxação e, principalmente, o controle de preços.

Tiverem seu primeiro tratado econômico, o "Essay on the

Nature of Commerce", escrito em 1730, por Richard Cantillon.

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Apenas um século mais tarde, em 1871, Carl Menger publicou

sua obra "Princípios de Economia", na qual aborda pela

primeira vez a teoria do valor marginal de utilidade (quanto

maior o número de bens que um indivíduo possui, menor

será o valor dado a cada unidade adicional). Menger era

professor de economia na Universidade de Viena e é

considerado o fundador da Escola Austríaca propriamente

dita.

Eugen Bohm-Bawerk reformulou a exposição de Menger e a

aplicou à solução de diversos problemas, como preço, capital

e juros, em sua obra "History and Critique of Interest Theories" 

publicada em 1884. Nela, ele reflete sobre tendência universal

da preferência temporária, tendência que as pessoas

possuem de preferirem a satisfação no agora ao invés de em

um tempo futuro.

Ainda restava à Escola Austríaca realizar a interseção entre as

ideias de microeconomia e macroeconomia. Ludwig von

Mises, conselheiro econômico da Câmara de Comércio da

Áustria, foi a pessoa que aceitou esse desafio e o publicou  em

sua obra "Theory of Money and Credit" , em 1912.

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Em 1921, escreveu a obra "Socialismo" na qual explica

detalhadamente que uma vez que o socialismo não permite a

propriedade privada ou livre comércio, não haverá como os

recursos serem alocados da melhor maneira. Neste livro, ele

previu que o socialismo levaria a sociedade ao caos. Por fim,

escreveu a obra mais completa da Escola Austríaca em 1949

com o título "Ação Humana". Mises é considerado por muitos

o maior economista da história.

Os argumentos de Mises a favor do livre mercado foram

responsáveis por converter grandes economistas do

socialismo para a Escola Austríaca. Um destes economistas era

Friedrich Hayek. Mises e Hayek trabalharam juntos em

diversos estudos sobre ciclos econômicos, problemas da

expansão de crédito e crises econômicas. Hayek escreveu o

famoso livro "O Caminho da Servidão" em 1944 e ganhou o

Prêmio Nobel de economia em 1974.

Por fim, tivemos Murray Rothbard, aluno de Mises e que disse

considerar seu mentor "uma das mentes humanas mais

brilhantes do século". Influenciado por Mises, escreveu "Man,

Economy, and State" em 1963, obra que teve como base o livro

"Ação Humana".

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CAPÍTULO 2

Praxeologia

Para entendermos o pensamento fundamental da Escola

Austríaca, devemos partir da definição de Praxeologia.

Praxeologia é o estudo da ação humana. Ela considera que as

leis econômicas devem ser logicamente deduzidas a partir de

axiomas anteriores de modo que as conclusões alcançadas

sejam sempre verdadeiras.

E o que é Axioma? É uma evidência, ou afirmação, cuja

comprovação é dispensável, por ser óbvia. O Axioma da Ação

Humana, por exemplo, que é uma das bases da Escola

Austríaca, diz que a ação humana significa ação propositada -

com o objetivo de alcançar determinado fim. Qualquer

tentativa de negá-la resultaria em uma contradição

performativa, pois argumentar que "humanos não podem

agir" é, em si, uma forma de ação humana com um objetivo

final de contrapor um ponto de vista.

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Outros axiomas que são afirmações obviamente verdadeiras,

por exemplo, são "eu tenho um corpo", "outras pessoas

existem", "eu sou menor do que o planeta Terra".

Podemos trazer outros exemplos de raciocínio praxeológico

importantes para a Economia Austríaca:

Toda ação utiliza meios para obter um fim;

Toda ação é uma escolha entre duas ou mais alternativas;

O agente sempre escolherá a alternativa que lhe trouxer

maior valor;

Em uma troca, o agente sempre valoriza mais o item que

está adquirindo do que o item que possui.

É importante mencionar que o valor, nesse caso, é subjetivo.

Se trata da avaliação individual sobre os benefícios daquela

ação. Como a praxeologia não é uma disciplina normativa, ela

não tem a intenção de dizer o que o indivíduo deve fazer, mas

sim avaliar se os meios que estão sendo utilizados são

adequados para atingir o fim desejado.

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A praxeologia também não é quantitativa, portanto não busca

realizar previsões quantitativas sobre os resultados das ações.

Podemos afirmar, por exemplo, que uma redução no preço de

um bem resultará, ceteris paribus (tudo o mais constante), em

um aumento na quantidade demanda. Contudo, não podemos

deduzir a magnitude desse aumento.

Um princípio importante da praxeologia é que apenas

indivíduos agem. Nações e grupos existem, mas só podem agir

através de seus indivíduos. Essa separação entre grupos e

indivíduos é crucial para diferenciar a Escola Austríaca da

economia keynesiana e, principalmente, marxista. Enquanto

essas outras correntes econômicas diriam que um país A

declarou guerra contra o país B, os austríacos dirão que

determinadas pessoas no congresso de A votaram a favor de

declarar guerra contra B (Normalmente, esses indivíduos não

são os mesmo que arriscam suas vidas na guerra).

E como podemos saber que a praxeologia está correta, sem

que haja um experimento científico por trás de suas alegações?

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Esses axiomas, ou verdades irrefutáveis, não precisam de

testes posteriores para serem validados. Não é necessária uma

observação científica para validar se o ser humano de fato age

ou não. Portanto, essas premissas são chamadas de verdades a

priori.

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CAPÍTULO 3

Valor Subjetivo e Comércio

Um dos temas mais relevantes na Escola Austríaca é a

subjetividade dos valores e como os preços são definidos em

um comércio. Por comércio, entendemos como uma

renúncia mútua de direitos de propriedades, ou seja, um

indivíduo renuncia ao bem que possui em troca do bem de

um segundo indivíduo, que também renuncia à posse do seu

bem inicial em troca de outro.

Para que haja comércio - ou seja, uma troca - é necessário que

o comprador valorize aquele bem mais do que o seu

vendedor o valoriza. Se eu troco uma maçã por uma laranja,

eu estou informando que prefiro a laranja à maçã.

Simultaneamente, a pessoa que realizou a troca comigo está

indicando que prefere a maçã à laranja que estava em sua

posse. Portanto o valor subjetivo que cada indivíduo dá aos

bens é diferente e inverso. Sem essa diferença, não existiria o

comércio.

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Neste caso, vimos que um dos indivíduos prefere ter posse da

maçã. Se houvessem duas maçãs ao invés de uma, certamente

ele preferiria ainda mais essa troca - 1 laranja por 2 maçãs.

Esse é o axioma dos bens homogêneos. Quando tratamos de

bens homogêneos (ou idênticos), como maçãs, água,

chocolate, etc, podemos inferir que uma quantidade maior é

sempre preferível a uma quantidade menor. Isso significa que

um indivíduo sempre irá preferir ter duas maçãs do que

apenas uma, preferirá também possuir 5 barras de chocolate a

apenas 4 barras de chocolate.

Contudo, cada unidade adicional desse bem terá um valor

menor do que a unidade anterior. Essa é a lei dos retornos

marginais decrescentes. O que isso significa? Imagine que eu

tenha apenas uma maçã e ganhe mais outra. Obviamente, irei

valorizar aquela maçã adicional. Contudo, imaginemos que

agora eu tenho 820 maçãs. Uma maçã adicional (número 821)

não me trará tanto valor quanto aquela segunda maçã me

trouxe no momento eu que só tinha uma unidade.

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Podemos olhar esse problema por outro ângulo. Imagine que

eu tenha 821 maçãs. Se uma delas apodrece, meu

descontentamento será pequeno, pois ainda possuo 820 maçãs

que são mais do que suficientes para suprir minha necessidade

desse bem. Entretanto, se eu possuo apenas 2 maçãs e uma

delas apodrece, meu descontentamento será grande, dado que

essa unidade perdida provavelmente me fará falta e terei que

alterar meus planos iniciais quanto a esse bem.

Em resumo, quanto menor a quantidade de bens, mais

importante se torna cada unidade daquele bem. Portanto,

quanto menor a quantidade de bens, maior o valor marginal

de cada unidade.

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CAPÍTULO 4

Dinheiro e Moeda

A divisão do trabalho parte do conceito de que os indivíduos

não são auto-suficientes. Como há necessidade de realizar

trocas e comércio, surge também a necessidade de se dividir

o trabalho. Como o mundo oferece recursos diversos e, da

mesma maneira, os indivíduos possuem características

diversas, começam a surgir diferenças em produtividade.

Alguns países, devido aos recurso naturais, começam a

produzir soja de maneira mais produtiva, ou começam a

produzir peixe de maneira mais eficiente. Simultaneamente,

alguns indivíduos percebem que podem ser mais eficientes se

se especializarem em jogar futebol, enquanto outros se

percebem mais produtivos resolvendo problemas

matemáticos.

Desta forma, a especialização da produção torna-se uma

estratégia mais eficiente do que a auto-suficiência, na qual

cada indivíduo teria que produzir tudo o que consome.

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O Brasil pode, por exemplo, se especializar na produção de

café, enquanto os Estados Unidos podem se especializar na

produção de algodão. Essa divisão do trabalho também

acontece entre indivíduos. Um sapateiro irá se especializar em

produzir calçados, enquanto um agricultor irá se especializar

em produzir morangos.

Mesmo após a especialização da produção, as pessoas ainda

dependiam do escambo e da dupla coincidência de desejos

para realizarem trocas entre si.   A partir desta situação de

dificuldade na realização de trocas, surge a criação do

dinheiro.

Dinheiro nada mais é do que um meio de troca aceito em

larga escala. Alguns objetos, ao longo da história, foram

largamente aceitos como meio de troca, como o sal, por

exemplo.

Se eu produzo redes de pesca e quero troca-la por carnes,

posso ter dificuldades em encontrar algum produtor de carne

que queira justamente uma rede de pescas.

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Portanto, o dinheiro - neste caso, o sal - facilita as relações de

trocas em um comércio.

Por meio de tentativas e erros, os seres humanos foram

selecionando os objetos que melhor serviam à função do

dinheiro. Estas funções são: meio de troca, reserva de valor,

unidade de conta. Mas quais são as características que

permitem que um bem seja uma boa opção como dinheiro?

1. Portabilidade: deve ser algo fácil de carregar e de

transportar;

2. Divisibilidade: deve ser possível de dividir em partes

menores;

3. Fungibilidade: uma unidade de dinheiro deve ser idêntica a

outra unidade de dinheiro;

4. Escassez: não deve ser um bem abundante, mas sim, raro o

suficiente para ser valioso;

5. Aceitabilidade: um grande número de indivíduos deve

aceitar esse bem como meio de troca.

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A partir dessas características e, novamente, através de

tentativas e erros, o ouro e a prata se sobressaíram como bens

capazes de executar a função do dinheiro na sociedade.

Por que então temos hoje o papel-moeda ao invés de ouro e

prata?

Por uma questão de comodidade e segurança, as pessoas

começaram a guardar ouro e prata em bancos, e recebiam um

certificado (uma nota) referente a quantidade exata que

tinham deixado no banco, de modo que pudessem resgatar

aquele valor, ou repassar esta nota a um terceiro. Contudo,

uma vez que essas notas se tornaram largamente aceitas como

dinheiro, o governo viu a oportunidade de quebrar essa

relação entre notas e a quantidade de ouro.

Dado que as pessoas continuam confiando no papel-moeda

como meio de troca universalmente aceito, o governo pode

agora imprimir mais desse papel-moeda para financiar suas

atividades. Esse processo causará inflação, levando a um

aumento de preços na economia, mas essa não é a única

consequência.

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A inflação é um processo que demora um certo tempo para

acontecer. Supondo que os preços de uma economia são

estáveis no dia de hoje, uma impressão de maior quantidade

de papel-moeda irá beneficiar justamente aqueles que tiverem

acesso a essa quantidade logo no começo, antes que os preços

tenham sido afetados pelo processo de inflação. Obviamente,

o governo é o primeiro a se beneficiar, pois é o detentor deste

novo dinheiro e os preços de mercado ainda não se ajustaram.

Após gastar seus recursos, o dinheiro adicional na economia

levará a um longo processo de ajustes de preços para cima. A

última pessoa a realizar uma compra será a mais afetada, pois

encontrará todos os preços acima do nível que havia

anteriormente. Os indivíduos que tem um salário fixo ou não

podem ajustar os preços pelos quais recebem (normalmente

os mais pobres), terão apenas consequências negativas dessa

expansão monetária, enquanto o governo tem grandes

benefícios e poucas desvantagens em criar mais papel-moeda,

esse é o chamado Efeito Cantillon. Portanto, a expansão

monetária pode ser resumida como um processo no qual os

mais pobres pagam a conta do aumento dos gastos do

governo.

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CAPÍTULO 5

Teoria Austríaca dos Ciclos


Econômicos

Diferentemente do que prega a teoria Keynesiana, a Escola

Austríaca afirma que consumo e investimentos não movem

na mesma direção, e com uma maior poupança (maior

investimento) a economia cresce num ritmo mais alto.

Segundo Keynes, qualquer redução no consumo significaria

um aumento de estoque de produtos não vendidos, que

levaria a uma redução na produção, redução nos

investimento, demissão de funcionários, gerando ainda

menor consumo. É uma espiral negativa de consumo e

investimentos. A economia entraria em uma recessão. Por

isso, Keynes acreditava que era papel do governo estimular o

consumo, ainda que tivesse que contratar pessoas para cavar

um buraco durante o dia e outro grupo de pessoas para tapar

o buraco à noite.

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Contudo, Keynes não aborda o efeito da taxa de juros nessa

situação. A Escola Austríaca contrapõe que uma redução no

consumo geraria, sim, um aumento nos estoques de produtos

não vendidos. Contudo, menor consumo gera maior dinheiro

disponível para ser emprestado e, portanto, reduz a taxa de

juros. Com isso, setores que buscam retornos a longo prazo,

como construção civil, desenvolvimento de novos produtos,

medicina; tem incentivo para fazer uso dessa menor taxa de

juros e investir em seus projetos de longo prazo.

Portanto, o consumo atual de fato tem uma redução devido ao

aumento da poupança, mas o consumo futuro aumenta, já que

os investimentos atuais gerarão maior produtividade no

futuro. Essa maior produtividade traz maior riqueza e, ainda

que a taxa de consumo seja a mesma (digamos que a

população consome 90% de sua renda e poupa os outros 10%),

o valor nominal do consumo será mais alto que no estágio

inicial.

Em resumo, a redução do consumo envia dois sinais ao

mercado:

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1. Reduz a demanda por investimento em bens de consumo

final, como arroz, televisão, máquina de lavar - é o

chamado efeito demanda derivada.

2. Reduz a taxa de juros, levando a menor custo para

empréstimos e investimentos. Estimula a demanda por

investimento em bens com retorno a longo prazo - é o

chamado efeito desconto temporal.

Outra forma que o governo tem de aumentar os

investimentos é através da expansão monetária. O governo

literalmente imprime mais dinheiro e o distribui através de

empréstimos. Esse novo dinheiro é disfarçado como

poupança, gerando maior investimentos. Contudo, a

impressão de novo papel moeda não gera uma mudança de

comportamento do consumidor, ou seja, não faz com que ele

de fato poupe mais.

Na realidade, dado uma taxa de juros mais barata, as pessoas

tem menores incentivos de poupar, de modo que o consumo

aumenta. Existe um incentivo para tomar mais recursos

emprestados, gerando aumento nos investimentos.

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Contudo, investimentos devem vir da poupança, e essa

situação acaba de fazer com que a poupança caia e os

investimentos aumentem. Essa discrepância entre poupança e

investimento é coberta pelo novo dinheiro impresso.

Portanto, esse crescimento não pode ser sustentável, uma vez

que os investimentos não estão partindo de dinheiro poupado.

Desta maneira, haverá o investimento em produtos em

estágios iniciais de desenvolvimento, mas haverá

hiperconsumo dos produtos em estágios finais, distorcendo

toda a economia deste país. Este conflito entre grande

consumo e grande investimento sem lastro em poupança,

eventualmente torna o crescimento econômico em recessão,

pois não é sustentável a longo prazo.

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CAPÍTULO 6

Empreendedorismo

As escolas Neoclássicas e Keynesianas ignoram

completamente o papel do empreendedor na economia.

Contudo, na literatura Austríaca, a figura do empreendedor é

mencionada como o indivíduo que age, diariamente,

assumindo riscos e coordenando o mercado, como bem

relatou Mises:

"É impossível eliminar a figura do empreendedor do quadro

de uma economia  de mercado. Os fatores de produção não se

podem juntar espontaneamente. Precisam, para ser

combinados, dos esforços intencionais de homens que visam a

atingir certos fins e são motivados pelo desejo de melhorar

seu estado de satisfação. Ao eliminar o empreendedor,

elimina-se a força motriz do sistema de mercado."

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Para que um empreendedor inicie sua produção, temos alguns

conceitos importantes a serem vistos. Segundo Carl Menger,

existem três tipos de bens de produção: bens originais (terra e

trabalho), bens intermediários (bens que são produzidos pela

ação humana mas não estão no fim da cadeia produtiva), e

bens finais (bens disponíveis ao consumo da população).

A visão Austríaca na determinação de preços para os bens de

produção é exatamente contrária à visão Marxista. Segundo a

Escola Austríaca, os preços dos bens originais e intermediários

são determinado pelo valor do bem final. Por exemplo, não é

pelo fato de as terras na região de Champagne serem caras que

o produto final - champanhe - é caro. Pelo contrário, como os

consumidores do produto final - champanhe - valorizam o

produto e estão dispostos a pagarem caro por ele, logo os bens

originais (terra na qual o champanhe é produzido) passam a

ter um valor também maior. O mesmo acontece com o valor

dos salários dos funcionários dessa produtora de champanhe.

O valor de seus recebimentos é igual à contribuição que eles

possuem no valor da produção final.

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Neste ponto, é importante frisar que os valores pagos pelos

fatores de produção são uma estimativa realizada pelo

empreendedor sobre seus ganhos futuros.

Obviamente, ele pode estar errado acerca de suas estimativas

e, ao final da produção, perceber que os consumidores

mudaram suas preferências e preferem outra bebida ao

champanhe. Ou pode ser que um crescimento econômico leve

os consumidores a comprarem mais do seu produto. Tudo

isso terá impacto nos lucros do empreendedor. Ou seja,

sempre existirá um risco de falha em seu prognóstico.

Em realidade, podemos considerar a atividade

empreendedora como uma atividade de incerteza mais do

que uma atividade de risco. Isto porque "risco" implica que os

possíveis resultados e possibilidades são conhecidas (como em

um cassino), ao passo que a "incerteza" significa que a

distribuição de probabilidades dos resultados são

desconhecidas e imprevisíveis.

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Portanto, o tempo tem grande papel na atividade

empreendedora. O empreendedor não conhece suas

possibilidades futuras de sucesso ou fracasso, pois trabalha em

um ambiente de incertezas. Ele estima o valor que terá com

sua produção e remunera cada um de seus fatores de

produção de acordo.

Contudo, esses fatores são remunerados com descontos

temporais. O que isso significa? Se o empreendedor espera

vender o produto por R$100 daqui um ano e seu funcionário

representa 10% da contribuição para a produção, seu salário

será R$10, descontado a taxa de juros desse período. Por que

isso acontece? O funcionário receberá seu salário no tempo 0

(agora) independente do sucesso ou fracasso do produto

(independente da incerteza), e o produto estará pronto no

tempo 0+1 (daqui um ano), portanto ele contribuiu o

correspondente a R$10 no futuro, que trazendo a valores

atuais seria igual a R$10/(1+i). Sendo "i" igual a taxa de juros

desse período.

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Em resumo, a tarefa do empreendedor é combinar os fatores

de produção, dado um ambiente de incerteza, de maneira que

os bens finais sejam mais valorizados que a soma dos bens

intermediários e bens originais. Portanto, na visão da Escola

Austríaca, empreendedorismo refere-se à ação humana sob

condições de incerteza.

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CAPÍTULO 7

Cálculo Econômico e
Socialismo

Como último tópico deste manual, iremos relacionar o

cálculo econômico e o socialismo, e como os dois são

incompatíveis entre si. Antes de tudo, vamos formalizar o que

são as ideias socialistas.

Basicamente, o socialismo se baseia na ideia de ditar como a

sociedade deve viver, com o sustento de sua população

proveniente de uma uma produção coletiva, na qual as

pessoas não trabalhariam por dinheiro e na qual não haveria

propriedade privada. O objetivo do socialismo era se provar

tão produtivo quando o sistema capitalista.

Mises, então, escreveu artigos nos quais apontou as

contradições socialistas e as razões pelas quais este sistema

estava fadado a jamais funcionar. Importante mencionar que

Mises escreveu seu principal artigo sobre o assunto "Economic

Calculation in the Socialist Commonwealth" em 1920. Seu

argumento partia dos seguintes pressupostos:

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1. O Socialismo abolia a propriedade privada;

2. Como o estado seria dono de todos os meios de produção,

eles não poderiam mais ser trocados ou comercializados

livremente;

3. Sem livre comércio, não há preços de mercado;

4. Portanto, sob o regime socialista, o estado não pode calcular

o custo de produção dos bens daquela economia;

5. Na ausência do cálculo econômico de lucros e prejuízos, os

planejadores não podem saber o melhor uso dos recursos

escassos, de modo que a sociedade socialista é naturalmente

inviável.

Por outro lado, para que haja o cálculo econômico, são

necessários três fatores:

1. Propriedade privada de todos os bens, não apenas os bens

finais, mas todos os bens intermediários e bens originais;

2. Liberdade para comércio de todos os bens e serviços;

3. Moeda independente da influência política.

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Em resumo, a alocação racional de recursos escassos é

impossível na ausência do cálculo econômico por meio de

preços de mercado. No socialismo, apenas um agente é

responsável por toda a alocação dos meios de produção.

Contudo, é impossível que uma pessoa, ou um pequeno grupo

de indivíduos, possa ser capaz de entender todo o mercado e o

melhor uso de cada recurso. No capitalismo, os

empreendedores são os responsáveis naturais por estimar o

melhor uso de cada recurso, com base nos preços, que

refletem a demanda e oferta do mercado. Por fim, para

contrapor o ponto levantado por Mises, socialistas buscam

justificar que se pode precificar os bens de uma economia

com base nas horas trabalhadas, que como vimos

anteriormente, não é a maneira correta de se precificar, já que

o valor de bens originais se dá pelo valor do bem final

produzido, e não o contrário.

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Glossário

AXIOMA:
Uma evidência, ou afirmação, cuja comprovação é
dispensável, por ser óbvia.

CETERIS PARIBUS:
"Tudo o mais constante" ou "mantidas inalteradas todas as
outras coisas".

CONTRADIÇÃO PERFORMATIVA:
Quando a tentativa de negar uma afirmação demonstra que a
mesma é verdadeira.

EFEITO CANTILLON:
O aumento de quantidade de dinheiro na economia gera
benefícios para os primeiros a receberem o dinheiro e
desvantagens para os últimos.

EFEITO DEMANDA DERIVADA:


É o efeito da demanda no mercado do produto final.

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EFEITO DESCONTO TEMPORAL:
É o efeito da demanda por investimento em bens que terão
retorno a longo prazo.

EMPREENDEDOR:
Aquele que age e assume riscos diários com expectativa de
retorno a longo prazo. É a força motriz do sistema de
mercado.

INCERTEZA:
Situação na qual a distribuição de probabilidades é
desconhecida.

MEIO DE TROCA:
Característica de uma moeda em ser amplamente aceita
como método de pagamento.

PRAXEOLOGIA:
Estudo da ação humana através de axiomas anteriores.

PREFERÊNCIA TEMPORÁRIA:
Tendência que as pessoas possuem de preferirem a satisfação
no agora ao invés de em um tempo futuro.

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RESERVA DE VALOR:
Algo que pode ser utilizado para manter o valor que pode ser
consumido no futuro.

RETORNOS MARGINAIS DECRESCENTES:


Cada unidade adicional de um bem terá um valor menor do
que a unidade anterior.

RISCO:
Situação na qual os possíveis resultados e probabilidades são
conhecidos.

TAXA DE JUROS:
O preço de emprestar dinheiro no mercado financeiro; taxa
de retorno de um investimento.

UNIDADE DE CONTA:
O meio utilizado em uma economia para mensurar valores.

VALOR SUBJETIVO:
É a importância relativa de um bem comparado a outro, para
um determinado indivíduo em um determinado momento
no tempo.

VERDADE A PRIORI:
Verdades que são óbvias e que não podem ser refutadas por
meio de testes.

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Referências Bibliográficas:

Belton, P., & Von Mises, L. Ludwig von Mises's The Theory of

Money and Credit.

Huerta de Soto, J. (2010).  The Austrian school. Cheltenham:

E. Elgar.

Menger, C. (1950).  Principles of economics. Glencoe: Free

Press.

Rothbard, M. (1970).  Man, economy, and state. Los Angeles,

Calif.: Nash.

Rothbard, M. (2011).  What has the government done to our

money?. Mansfield Centre, CT: Martino.

Von Mises, L., & Greaves, B. (2007).  Human action.

Indianapolis: Liberty Fund.

Von Mises, L.  Economic calculation in the socialist

Commonwealth. [S.l.]: [s.n.].

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