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NOÇÕES BÁSICAS PARA CONTROLE E PREVENÇÃO

DE EROSÃO EM ÁREA URBANA E RURAL

Gerson Salviano de Almeida Filho


Mestre em Engenharia Civil na área de Recursos Hídricos
Pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas
gersaf@ipt.br

2004

Gerson Salviano de Almeida Filho


OBJETIVO

O objetivo deste curso é reunir os conhecimentos sobre prevenção e


controle da erosão urbana e rural, apresentar conceitos básicos, discutir sua
aplicabilidade e limitações de métodos de controle e apresentar alguns
exemplos de controle, já que não se tem dado a devida importância, quanto
aos meios de prevenção desse fenômeno.Sendo assim, a melhor solução é
evitar/prevenir, impedindo que se manifeste ou, caso exista, impedir a
evolução da erosão desde seu início.
Hoje no entendimento destes processos é importante a dedicação de
profissionais de várias áreas no combate da erosão no território brasileiro.

Gerson Salviano de Almeida Filho


RESUMO

Nas áreas urbanas, os prejuízos decorrentes dos processos erosivos,


são incalculáveis, pelo caráter catastrófico inerente ás áreas envolvidas,
colocando em risco moradias e equipamentos de infra-estrutura e aos
insucessos das obras de contenção.
Para os processos erosivos lineares urbanos, devem ser estabelecidos
mecanismos institucionais na lei de parcelamento do solo, obrigatoriedade de
obras de controle de erosão, com obras de infra-estrutura dos loteamentos.
Um plano de controle de uma erosão não deve ser abordado de forma
isolada, mas como um conjunto de medidas para a estabilização de toda a
bacia de contribuição.
O estabelecimento de bases técnicas adequadas para a ocupação
urbana, é de fundamental importância para que o crescimento urbano não
determine novos processos erosivos ou que o crescimento urbano não seja
cerceado pela boçoroca.
O planejamento do sistema de drenagem urbana deve ser elaborado a
partir de critérios bem estabelecidos, oriundos da política de administração
pública, apoiado em regulamentos adequados e que atenda às peculiaridades
locais: físicas, econômicas e sociais, bem como, os diversos fatores
intervenientes.
Outro aspecto que merece destaque é a conservação do sistema de
drenagem, tão importante quanto a implantação da obra.
Também são necessárias a adoção de medidas preventivas por meio de
planejamento adequado para a ocupação de áreas urbanas, não se aprovando
loteamentos em áreas com alta suscetibilidade à erosão, sem que, nos
projetos do loteamento, constem medidas de controle de erosão na forma de
obras de drenagem e proteção superficial, principalmente nas ruas
perpendiculares às curvas de nível e nas cabeceiras de drenagem de primeira
ordem.
Na área rural o não uso ou uso inadequado das práticas
conservacionistas tem-se transformado em um forte problema em processos

Gerson Salviano de Almeida Filho


erosivos. Isso se deve a diversos aspectos, alguns relacionados diretamente
com o procedimento dos agricultores, devido à natureza da agricultura
implantada, e outros devido ao sistema de manejo adotado.
No planejamento de conservação nas áreas rurais é fundamental
entender o problema de uma forma global, com implantação de programas de
microbacias hidrográficas tendo como objetivo de enfrentar os problemas de
degradação de recursos naturais e conseqüentemente aumentando a
produtividade e a produção.

Gerson Salviano de Almeida Filho


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO.............................................................................................................. 1

2 EROSÃO – ASPECTOS GERAIS .............................................................................. 4

2.1 Erosão laminar e linear..................................................................................... 7


2.2 Erosão laminar ou em lençol ......................................................................... 11
2.3 Erosão linear..................................................................................................... 12
2.3.1 Erosão em Sulcos........................................................................................... 13
2.3.2 Erosão em Calhas .......................................................................................... 13
2.3.3 Erosão em Ravina .......................................................................................... 14
2.3.4 Erosão em Boçorocas ................................................................................... 15
2.3.5 Solapamento de margens fluviais .................................................................. 19
3 ESCORREGAMENTOS............................................................................................. 19

4 FATORES CONDICIONANTES DOS PROCESSOS EROSIVOS ........................ 26

4.1 Clima ................................................................................................................... 26


4.1.1 Pluviometria .................................................................................................... 28
4.2 Solo ..................................................................................................................... 30
4.2.1 Textura............................................................................................................. 30
4.2.2 Estrutura .......................................................................................................... 30
4.2.3 Permeabilidade ............................................................................................... 31
4.2.4 Densidade ....................................................................................................... 31
4.2.5 Propriedades químicas, biológicas e mineralógicas .................................... 31
4.3 Topografia ......................................................................................................... 32
4.4 Cobertura Vegetal ............................................................................................ 32
4.4.1 Desmatamento................................................................................................ 33
4.5 Ação antrópica ................................................................................................. 34
4.5.1 Urbanização.................................................................................................... 37
4.5.2 As formas de uso e ocupação e os principais problemas associados a
processos erosivos..................................................................................................... 40
5 EROSÃO RURAL....................................................................................................... 42

5.1 Noções de tecnologiaS disponíveis para práticas agrícolas a fim de


controlar o escoamento superficial do solo........................................................... 44
5.2 Controle das Ravinas e Boçorocas ............................................................. 48
5.3 Noções Sobre Capacidade de Uso das Terras .......................................... 49
5.4 Controle da Erosão Associada a Estradas................................................. 52

Gerson Salviano de Almeida Filho


6 EROSÃO URBANA ................................................................................................... 55

7 CONTROLE DA EROSÃO EM ÁREAS URBANAS.............................................. 59

7.1 Diretrizes para o Planejamento de Controle da Erosão........................... 63


7.2 Procedimentos para Controle dos Processos Erosivos Urbanos......... 65
7.3 Elementos para o Dimensionamento do Projeto de Microdrenagem:... 74
7.4 Componentes da microdrenagem................................................................. 74
7.5 Levantamento de dados ................................................................................. 74
7.6 Cálculo do Projeto de Microdrenagem para Determinação da Vazão...76
7.6.1 Coeficiente de escoamento superficial......................................................... 77
7.6.2 Intensidade de precipitação: .......................................................................... 78
7.6.2.1 Tempo de Concentração ....................................................................... 78
7.6.2.2 Tempo de Retorno.................................................................................. 78
7.6.3 Dimensionamento hidráulico ........................................................................ 81
7.6.3.1 Galerias................................................................................................... 81
7.6.4 Macrodrenagem............................................................................................. 82
8 PREVENÇÃO DA EROSÃO URBANA ................................................................... 82

8.1 Carta de Risco Potencial de Erosão ............................................................ 85


9 IMPACTO DA EROSÃO NOS RECURSOS HÍDRICOS ........................................ 88

9.1 Assoreamento................................................................................................... 91
9.2 Inundações........................................................................................................ 92
9.3 Considerações sobre o Controle de Inundações ..................................... 95
9.3.1 Medidas Estruturais ....................................................................................... 97
9.3.2 Diques e muros de contenção...................................................................... 97
9.3.3 Reservatórios (piscinões) ............................................................................. 97
9.3.4 Aumento da capacidade de descarga ......................................................... 98
9.3.5 Transferência de vazões............................................................................... 98
9.3.6 Medidas não estruturais ................................................................................ 98
9.3.7 Tratamento superficial ................................................................................... 98
9.3.8 Medidas individuais ou localizadas (convivência)...................................... 98
9.3.9 Medidas de emergência..............................................................................100
9.3.10 Relocação de estruturas .............................................................................100
9.3.11 Disciplinamento da ocupação e uso do solo.............................................100
BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................101

ANEXO...............................................................................................................................105
Gerson Salviano de Almeida Filho
Gerson Salviano de Almeida Filho
TABELAS

Tabela 1 – Valores adotados pela Prefeitura de São Paulo (WILKEN, 1978). .............. 77

Tabela 2 – Períodos de retorno para diferentes ocupações (DAEE/CETESB, 1980)... 79

Tabela 3 – Probabilidade de ocorrência de um evento hidrológico em função do


período de retorno (T) (DAEE, 1994). ......................................................... 79

Tabela 4 – Algumas equações de chuvas de cidades Brasileiras................................... 80

Tabela 5 – Alguns valores do coeficiente de rugosidade de Manning (TUCCI et al.


1995) .............................................................................................................. 81

QUADROS

Quadro 1 - Definições de conceitos de erosão por vários autores............................. 7


Quadro 2 – Formas de erosão e potencial de impacto nos recursos hídricos. ......... 10
Quadro 3 - Classificações de processos de erosão definidas por alguns
autores......................................................................................................... 11
Quadro 4 - Classificação dos movimentos de massa (AUGUSTO FILHO,
1992)............................................................................................................ 20
Quadro 5 - Relação de acidentes associados à deflagração de
escorregamento no Brasil. (Banco de Dados do IPT e NOGUEIRA,
2002)............................................................................................................ 25
Quadro 6 - Impactos ambientais da ocupação sobre o meio físico (modificado
de CHIOSSI, 1983)..................................................................................... 40
Quadro 7 - As formas de uso e ocupação e os principais problemas
associados a processos erosivos............................................................. 42
Quadro 8 - Práticas de caráter Vegetativo .................................................................. 46
Quadro - 9 – Práticas de caráter edáfico........................................................................ 46
Quadro 10 – Práticas de caráter mecânico.................................................................... 47
Quadro 11– Classes de capacidade de uso da terra.................................................... 52
Quadro 12 – Formas de erosão e potencial de impacto nos recursos hídricos. ......... 91

GRÁFICO
Gráfico 1 - Número de mortos no Brasil vítimas de escorregamentos
(deslizamentos), a partir de notícias de jornal. (FONTE:
Banco de Dados do IPT). ....................................................................... 24

Gerson Salviano de Almeida Filho


FOTOS

Foto 1 – Boçoroca urbana destruindo moradias e obras públicas................................ 2


Foto 2 – Os processos erosivos afetando a agricultura................................................ 2
Foto 3 – O impacto do transporte de sedimentos nos recursos hídricos..................... 2
Foto 4 – O estado do solo pelo desprendimento das partículas de solo causado
pelo impacto das gotas de chuva...................................................................... 5
Foto 5 – Sulcos na área rural desencadeados pelo pisoteio de gado........................ 13
Foto 6 – Sulcos na área urbana desencadeados pelo escoamento das águas
pluviais. ............................................................................................................. 13
Foto 7 – Erosão em forma de canal possui bordas suaves e largura inferior a
cinco metros..................................................................................................... 14
Foto 8 – Exemplo de uma ravina, desencadeada pelo escoamento superficial
concentrado...................................................................................................... 15
Foto 9 – Erosão em ravina na área urbana.................................................................. 15
Foto 10 – A feição mais danosa da erosão é a boçoroca............................................. 16
Foto 11 - Cavidade produzida pelo fenômeno do “piping” e carreamento de
sedimento. ........................................................................................................ 17
Foto 12 – Evolução lateral da erosão causada pela ação do “piping”.......................... 18
Foto 13 – Detalhe da cavidade provocada pelo “piping”. .............................................. 18
Foto 14 – Franja capilar provocando uma zona saturada no pé do talude e
desencadeando o deslizamento. .................................................................... 18
Foto 15 – Solapamento de margem fluvial que contribui para destruição da mata
ciliar, associado ao incremento da vazão do rio. .......................................... 19
Foto 16 – Escorregamento no município de Campos do Jordão, SP, várias casas
destruídas, dezenas de pessoas feridas e registro de dez mortes. ............ 21
Foto 17 – Corrida de bloco no município de Petrópolis, RJ........................................... 23
Foto 18 – Contenção da boçoroca com sucessivas paliçadas de madeira................. 49
Foto 19 – Conseqüências resultantes da falta de disciplinamento das águas
pluviais em estradas vicinais........................................................................... 53
Foto 20 – Estrada vicinal de terra e escoamento das águas pluviais controlado
por bacias de retenção em paralelo. .............................................................. 54
Foto 21 – Limitações no crescimento do bairro; risco à população devido à
magnitude do processo erosivo...................................................................... 56
Foto 22 – Conseqüência em loteamento sem a implantação de guias e sarjetas....... 57
Foto 23 – Construção de Conjunto Habitacional em área de ocorrência de uma
grande boçoroca.............................................................................................. 57
Foto 24 – Interrupção de uma Avenida em decorrência de erosão.............................. 58
Foto 25 – Conjunto Habitacional com processos erosivos na malha viária, em
razão da ausência de pavimentação.............................................................. 58

Gerson Salviano de Almeida Filho


Foto 26 – Lançamento do sistema de drenagem á meia encosta, sem a execução
de um dissipador de energia. .......................................................................... 61
Foto 27 – Escada hidráulica de gabião ........................................................................... 67
Foto 28 – A conseqüência de não implantar a pavimentação em rua com
declividade acentuada. .................................................................................... 69
Foto 29 – Assoreamento da caixa de passagem. .......................................................... 73
Foto 30 – Ausência de dissipador de energia na saída da galeria, ocasionando
danos a obra e comprometendo a sua eficiência.......................................... 73
Foto 31 – Represa de lazer no município de Bauru, SP. ............................................... 89
Foto 32 – O impacto da erosão urbana a montante na represa.................................... 89

FIGURAS

Figura 1 – Erosão e seus efeitos nos recursos naturais............................................. 5

Figura 2 - Ação da erosão antrópica acelerada .......................................................... 6

Figura 3 – Tipos de erosão (ALMEIDA FILHO, 2000)................................................. 9

Figura 4 – Erosão laminar ou em lençol (RIDENTE JR., 2000)................................ 12

Figura 5 - Características dos movimentos de rastejo.............................................. 21

Figura 6 – Formas mais comuns dos processos de escorregamentos (IPT,


1991a). ........................................................................................................ 22

Figura 7 – Exemplo de corrida que provoca grandes mobilizações de solo e


rocha............................................................................................................ 23

FIGURA 8 - Processo de queda de blocos ou lascas associado a encostas


rochosas abruptas ou taludes de escavação (IPT, 1991a)..................... 24

Figura 9 - Cobertura vegetal e a redução da erosividade da chuva,


BERTOLINI, 1994........................................................................ 31

Figura 10 - Impactos ambientais e sociais provocados pela ação antrópica


(ALMEIDA FILHO, 2000). .......................................................................... 35

Figura 11 - Circulação da Água na Mata (ALMEIDA FILHO, 2000)........................... 36

Figura 12 - Circulação da Água após o desmatamento (ALMEIDA FILHO,


2000). .......................................................................................... 35

Figura 13 - Esquema demonstrativo da baixa produtividade como agente e


resultado da erosão (BERTOLINI e LOMBARDI NETO, 1994).............. 43

Figura 14 - Representação esquemática de vários tipos de terraceamento............. 47

Figura 15 – Representação esquemática de um terraceamento mostrando a


retenção das águas da enxurrada e o parcelamento do declive............. 48

Gerson Salviano de Almeida Filho


Figura 16 – Microbacia sem planejamento conservacionista (CAIC, 1987). ............. 48

Figura 17 – Microbacia com planejamento conservacionista (CAIC, 1987). ............. 48

Figura 18– Modelo de bacias de captação locadas em paralelo e em série


(BERTOLINI, 1992).................................................................................... 55

Figura 19 – Parte de um projeto de emissário visando controle das águas dentro


de uma ravina ou boçoroca (DAEE/IPT, 1989). ....................................... 66

Figura 20 – Exemplo de bacia de dissipação tipo mergulho (PONTES, 1980 e


FENDRICH, 1997)...................................................................................... 67

Figura 21 – Exemplo de dissipador de energia tipo bacia de impacto (PONTES,


1980 e FENDRICH et al., 1997)................................................................ 68

Figura 22- Modelos de dissipador de Ressalto Hidráulico......................................... 68

Figura 23 – Fluxograma de obras de estabilização de taludes.................................... 67

Figura 24– Sistema de Barragens Escalonadas ......................................................... 71

Figura 25 – Barragem em terra com vertedor tipo cachimbo. ..................................... 71

Figura 26 – Exemplo de um dreno cego – composto de uma valeta revestida com


material filtrante e de um seguimento de tubo perfurado, colocado na
saída do dreno sobre o material filtrante instala-se material
impermeável, normalmente constituído por argila ou plástico (selo)
(DAEE/IPT, 1989)....................................................................................... 72

Figura 27 – Dreno com material sintético geotêxtil – trata-se do revestimento de


uma vala com manta geotêxtil de preenchimento com material
filtrante de enchimento, após o envolvimento total do material filtrante
com a manta de geotêxtil procede-se o fechamento da vala com
material impermeável que funciona como selo (DAEE/IPT, 1989).......... 72

Figura 28 – Dreno de bambu- é executado com bambus amarrados em feixes,


assentados em vala e envolvidos com brita; o fechamento da vala é
feito com material impermeável. Método recomendado para
boçorocas rurais (DAEE/IPT, 1989). ........................................................ 72

Figura 29 – Elementos constitutivos de um sistema de microdrenagem urbana


(BARROS, 1995)........................................................................................ 75

Figura 30 – Metodologia para elaboração de cartas de suscetibilidade e risco à


erosão aplicada no IPT (Canil, 2000 apud MACEDO, 2001).................. 87

Gerson Salviano de Almeida Filho


1 INTRODUÇÃO

A erosão constitui um processo natural no desenvolvimento da


paisagem. A atuação lenta e contínua dos processos erosivos modifica a
forma do relevo, normalmente após longos períodos de tempo. Com a
interferência antrópica, esse processo natural pode ser acelerado no tempo
ou, como é mais freqüente, ter aumentada sua intensidade.
O processo de ocupação, quando conduzido de forma agressiva, provoca
degradação ambiental, no qual o homem é o principal agente, através da ação não
planejada sobre o meio ambiente. A incidência dos processos erosivos lineares está
ligada diretamente à atuação predatória rompendo o equilíbrio natural de todo o
ecossistema.
A erosão situa-se entre os mais sérios problemas que o homem vem enfeitando
na atualidade, principalmente pelo aumento constante e progressivo das áreas
atingidas.
Esse fato pode ser observado com o agravamento desse processo em vários
Estados do Brasil. O que está diretamente relacionado com as condições precárias
da infra-estrutura básica, por projetos mal concebidos, práticas de parcelamento do
solo inadequado e a falta de conservação do solo, associados ás condições de
suscetibilidade dos solos envolvidos nos processos erosivos.
O controle dos processos erosivos deve ser efetuado através de uma ação
efetiva de caráter preventivo, seguida de outra ação de caráter corretivo quando o
processo já estiver instalado.
A erosão é um grave problema no País, em face do seu poder destrutivo,
tanto de solos agricultáveis, contribuindo para á degradação de áreas
urbanizadas ou em urbanização e causando alterações nos recursos hídricos
(FOTOS 1, 2 e 3).
Esse controle não é novidade, pois os Incas e Chineses empregavam
continuamente a agricultura em terraços (tabuleiros) tendo como finalidade controlar
as enxurradas, evitando assim o desencadeamento dos processos erosivos.
Os estudos do controle dos processos erosivos no Brasil tem tido
avanços significativos nos Estados do Paraná, São Paulo e Rio Grande do
Sul.

Gerson Salviano de Almeida Filho 1


O intenso processo de urbanização, o acelerado crescimento industrial e
a expansão da atividade agrícola e de mineração provocaram, em seu
conjunto, um grande número de intervenções humanas no ambiente, dos mais
variados tipos e portes que, freqüentemente, resultam na alteração profundas
das condições do meio. Essas intervenções, com raras exceções
processaram-se sem maiores critérios ou medidas de controle e prevenção da
erosão, causando sérios danos ao ambiente e à comunidade.

Foto 1 – Boçoroca urbana destruindo


moradias e obras públicas.

ARQUIVO IPT - 1998

Foto 2 – Os processos erosivos


afetando a agricultura.

ARQUIVO IPT - 1998

Foto 3 – O impacto do transporte de


sedimentos nos recursos hídricos.

ARQUIVO IPT - 2000

Gerson Salviano de Almeida Filho 2


Este processo que sofre a interferência do homem é denominado de
erosão acelerada ou antrópica, e o tipo de erosão que nos interessa discutir.
As conseqüências da erosão acelerada são:
• redução do potencial de áreas agricultáveis;
• danos a equipamentos de infra-estrutura nas áreas urbanas
(parceladas e/ou em consolidação); e
• assoreamento dos rios, lagos, represas e reservatórios.
Nas áreas de altas declividades como as Serras e Montanhas, ocorre um
terceiro grupo que são os movimentos de massa. Nestas áreas, as encostas,
os cortes e os aterros são fortemente afetados principalmente pelos
escorregamentos.
Os sedimentos produzidos pelas erosões e movimentos de massa
provocam o assoreamento que constitui um dos problemas ambientais mais
sérios, causando impactos relacionados a:
• diminuição do armazenamento de água nos reservatórios;
• colmatação total de pequenos lagos e açudes;
• produção de cheias (enchentes/inundações);
• redução de profundidade da calha de cursos d’água;
• obstrução de canais de cursos d’água;
• perda de eficiência de obras hidráulicas;
• deterioração da qualidade da água;
• alteração e morte da vida aquática;
• degradação da água para o consumo;
• veiculação de poluentes como pesticidas, fertilizantes, herbicidas;
• veiculação de bactérias e vírus;
• abrasão nas tubulações e nas partes internas das turbinas e bombas
das usinas; e
• prejuízos ao lazer.
A ocupação desordenada do meio ambiente, a concentração de chuvas
em determinados meses do ano e as formações arenosas, são fatores que
contribuem na geração de processos erosivos.

Gerson Salviano de Almeida Filho 3


Este quadro de desequilíbrio da natureza continuará enquanto a
ocupação agrícola não adotar as práticas conservacionistas adequadas e
respeitar a capacidade de uso das terras, e enquanto nas áreas urbanas a
expansão e ocupação não forem planejadas e não respeitarem o
conhecimento do meio físico, com relação a suas potencialidades e
limitações.

2 EROSÃO – ASPECTOS GERAIS

Os processos erosivos são condicionados basicamente por alterações do


meio ambiente, provocadas pelo uso do solo nas suas várias formas, desde o
desmatamento e agricultura, até obras urbanas e viárias, que, de alguma
forma, propiciam a concentração das águas de escoamento superficial.
A erosão manifesta-se como um fenômeno resultante da ruptura de
equilíbrio do meio ambiente, decorrente da transformação drástica da
paisagem, por eliminação da cobertura vegetal natural e introdução de novas
formas de uso do solo. Dessa maneira o território brasileiro, ao longo dos anos
de sua ocupação, vem manifestando não só a erosão correspondente à
intensificação da atividade agrícola, mas também àquela relativa ao uso
urbano do solo, como um conjunto de processos de desnudar a superfície
terrestre.
Infelizmente, o homem tem se mostrado inerte quanto à avaliação dos
efeitos da erosão acelerada, mesmo após reconhecer a severidade de sua
extensão (BENNETT, 1955). Além de produzir sedimentos, a erosão pode
causar sérios danos à agricultura, seja pela redução da fertilidade e
produtividade dos solos através da remoção de camadas férteis, seja pelo
aparecimento de valas profundas sulcadas no solo, tornando-o intransitável
para as máquinas e implementos agrícolas (LOPES & SRINIVASAN, 1981). A
FIGURA 1 mostra a erosão como problema central e seus efeitos nos recursos
naturais.
No Brasil destaca-se a água como agente erosivo, cujo início do
processo se dá através do desprendimento das partículas do solo, pelo
impacto das gotas de chuva na superfície e pelo escoamento superficial
(QUEIROZ NETO & CHRISTOFOLETTI, 1968; FOSTER et al., 1985; BERTONI

Gerson Salviano de Almeida Filho 4


& LOMBARDI NETO, 1985), (FOTO 4).

BAIXA POLUIÇÃO DE
PRODUTIVIDADE MANANCIAIS
EROSÃO DO
SOLO
DEGRADAÇÃO
DO SOLO ASSOREAMENTO

Figura 1 – Erosão e seus efeitos nos recursos naturais

Foto 4 – O estado do solo pelo


desprendimento das partículas de
solo causado pelo impacto das
gotas de chuva.

ARQUIVO IPT - 1992

Segundo o “American Geological Institute”, erosão é constituída pelo grupo de


processos sob os quais o material terroso ou rochoso é desagregado, decomposto e
removido de alguma parte da superfície terrestre. A água é o agente que, considerado
isoladamente, é o mais importante pelo poder desagregador e como transportador
dos sedimentos (FIGURA 2). No QUADRO 1 apresenta abordagem dos conceitos
gerais da erosão definidos por vários autores.

Gerson Salviano de Almeida Filho 5


INTEMPERISMO
(FÍSICO, QUÍMICO
E BIOLÓGICO

DESAGREGAÇÃO AÇÃO ANTRÓPICA


DO SOLO

AÇÃO PLUVIAL
Figura 2 - Ação da erosão
antrópica acelerada
PROCESSOS
EROSIVOS

TRANSPORTE

ASSOREAMENTO

AUTOR DEFINIÇÃO
Segundo Fournier (1960) e Zachar (1982) o termo
erosão é de origem latina, derivando do verbo erodere
NISHIYAMA, 1995
ou, segundo Lal (1960), do verbo erosão, que significa
corroer, desgatar.

Conceituam o termo erosão como: sentido lato – “efeito


combinado de todos os processos degradacionais
LEINZ &
terrestres, incluindo intemperismo, transporte, ação
LEONARDOS,
mecânica e química da água corrente, vento, gelo etc.”
1971
Sentido estrito – “corte gradativo das rochas sólidas
pela ação dos rios, ventos, geleiras e mar”.

Destruição das saliências ou reentrâncias do relevo,


tendendo a um nivelamento ou colmatagem, no caso
de litorais, de enseadas, de baías e depressões. Na
geomorfologia já se observa certa reação contra o
GUERRA, 1972 sistema didático adotado da separação entre erosão e
sedimentação, pois, ambos são elementos integrantes
do ciclo de erosão. A uma fase de erosão
(gliptogênese) corresponde de mo simultâneo, uma
fase de sedimentação (litogênese).

A erosão pode ser “normal” ou geológica, que se


desenvolve em condições de equilíbrio com a
DAEE, 1989 intensidade de formação do solo “acelerado” ou
antrópico, cuja intensidade é superior à da formação do
solo, não permitindo a sua recuperação natural.

Desgaste do solo por água corrente, geleiras, ventos e


DNAEE, 1976
vagas.

Gerson Salviano de Almeida Filho 6


Fenômenos de destruição dos agregados do solo pelo
TRICART, 1977
impacto das gotas da chuva.

Processo de esculturação do relevo, que se dá através


dos seguintes agentes externos: chuva, rios, gelo, vento
e mar. O termo erosão, para o geógrafo e para o
SILVA et al, 1999 geólogo, implica na realização de um conjunto de
ações que modelam a paisagem. O pedólogo e o
agrônomo consideram a erosão apenas do ponto de
vista da destruição dos solos.

Desagregação e remoção do solo ou fragmento e


partículas de rocha, pela ação combinada da gravidade
IPT, 1986
com a água, vento, gelo e/ou organismo (plantas e
animais).
Continuar

Continuação
AUTOR DEFINIÇÃO
É o processo de desprendimento e arraste acelerado
das partículas do solo causado pela água e pelo vento
BERTONI, 1985.
cuja origem está ligada principalmente à ocupação das
terras pelo homem (ação antrópica).

De acordo com Morgan (1996), a erosão possui duas fases


distintas: desagregação do solo e o transporte das partículas
Morgan, 1996 apud desagregadas. A energia dos processos é de duas formas:
BORGES, 2002. potencial e cinética. A energia potencial está ligada
diretamente à desagregação do solo, enquanto a energia
cinética ao transporte.

Dentro das ciências ambientais define-se erosão como


o desgaste e/ou arrastamento da superfície da terra
ACIESP, 1987 apud
pela água corrente, vento, gelo ou outros agentes
SILVA et al. 2003.
geológicos, incluindo processos como o arraste
gravitacional.

Quadro 1 - Definições de conceitos de erosão por vários autores.


2.1 Erosão laminar e linear

Antes dos desmatamentos, a ação das águas pluviais era atenuada e


protegida pela cobertura vegetal caracterizando o processo de erosão natural.
Com a ocupação das terras, iniciadas pelo desmatamento seguido da criação
de núcleos, vilas e cidades, e o desenvolvimento da agricultura, execução de
carreadores e estradas, nem sempre efetuadas de modo mais adequado,

Gerson Salviano de Almeida Filho 7


constituíram os fatores decisivos no desenvolvimento acelerado dos
processos erosivos.
A erosão determinada pela ação do homem, também é condicionada
pelas características naturais do meio físico, pela erosividade das chuvas e
erodibilidade dos terrenos.
Para Primavesi (1990) apud RIDENTE JUNIOR (2000), a erosão é um
processo que só passa a ocorrer quando a capacidade de infiltração da água
no solo é menor do que a intensidade das chuvas. Isto significa que, com a
retirada da cobertura vegetal, colocando-se o solo em exposição, a ação do
escoamento superficial é superior à infiltração. Como conseqüência, ocorrem
importantes alterações no comportamento hídrico dos terrenos.
A erosão acelerada (ação antrópica) pode ser laminar ou em lençol,
quando causada por escoamento difuso das águas das chuvas resultando na
remoção progressiva dos horizontes superficiais do solo; e erosão linear,
quando causada por concentração das linhas de fluxo das águas de
escoamento superficial, resultando em incisões na superfície do terreno na
forma de sulcos, ravinas e boçorocas (OLIVEIRA, 1994). No que se refere aos
tipos de erosão, temos que considerá-la quanto à origem e quanto ao agente
(FIGURA 3 e QUADRO 2).
Conceitualmente, é importante distinguir os processos de erosão por
escoamento laminar, dos processos de erosão linear acelerada que envolve a
movimentação de grandes massas de solo e sedimentos, conhecidos no
Brasil como sulcos, ravinas e boçorocas. No Quadro 3 apresenta diferentes
classificações adotadas por alguns autores.

Gerson Salviano de Almeida Filho 8


Geológica ou natural
Quanto à
Origem
Acelerada ou antrópica

Seletiva
Eólica
Massiva
Tipos de
Erosão

Quanto
ao Por
Agente Impacto
Pluvial
Laminar, sulcos,
Por
ravinas e Boçorocas
Arrastamento
Hídrica

Decorrente da ação das ondas


Vertical (por percolação) Fluvial
Maritima
Figura 3 – Tipos de erosão (ALMEIDA FILHO, 2000).

Modelos de Tipos de erosão Dimensões e Bordas da Mecanismos de Impacto nos


escoamento porte feição erosão recursos hídricos

Transporte de
Erosão laminar ou Perda na
Desprendimento e transporte de partícula a

Escoamento sedimentos a curtas


em lençol, ou espessura de solo
superficial Inexistentes distâncias.
erosão entre (centímetros de
difuso Baixo potencial de
partícula na superfície do solo

sulcos. solo)
impacto.
Erosão de
Suaves,
pequeno porte,
sem ruptura Transporte de
Erosão linear em com largura de 10
significativa sedimentos de
sulcos a 30cm, e
na maneira eficiente.
profundidade de 5
superfície Carreia sedimentos
Escoamento a 15cm.
do terreno. provenientes da
superficial
erosão laminar e
concentrado Erosão de
Muito também são áreas
pequeno porte
suave, sem fontes de sedimentos.
Erosão linear em com largura
ruptura na Médio potencial de
calhas inferior a 10m e
superfície impacto.
profundidade
do terreno.
inferior a 50cm.

Gerson Salviano de Almeida Filho 9


Erosão de grande
Abruptas,
porte com largura Transporte intenso de
Escoamento com ruptura
Erosão linear em superior a 1m, e sedimentos.
superficial instável da
ravinas profundidade Alto potencial de
concentrado superfície
superior a 0,5m. impacto.
do terreno.

Transporte muito
intenso de sedimentos
Erosão em
devido à alta
Escoamento estradas vicinais
concentração de fluxo
superficial de terra, cujo Abruptas
de água e a remoção

Movimentos de massa
concentrado projeto e falta de com ruptura
de partículas e
com ou sem manutenção Variada instável da
aprofundamento do
escoamento potencializam a superfície
leito, pela passagem
subsuperficial erosão (estradas do terreno
de veículos e
concentrado de terra
máquinas (ex. Patrol).

Erosão subterrânea
encaixadas).
Muito alto potencial de
impacto.

Transporte muito

Erosão fluvial
Abruptas intenso de sedimentos
Erosão por com ruptura devido à energia de
Escoamento em
solapamento de Variada instável da escoamento de canal
canal fluvial
margens fluviais superfície fluvial.
do terreno. Muito alto potencial de
impacto.

Transporte muito
Escoamento Erosão de grande
Abruptas, intenso de sedimentos
superficial porte com largura
com ruptura devido ao escoamento
concentrado e Erosão em superior a 5m, e
instável da superficial e a
escoamento boçoroca profundidade
superfície ocorrência de piping.
subsuperficial superior a 2m.
do terreno. Muito alto potencial de
concentrado
impacto.
Fonte: OLIVEIRA, 1994 (modificado).

Quadro 2 – Formas de erosão e potencial de impacto nos recursos hídricos.

AUTOR DEFINIÇÃO
Ayres (1936) apud Dividiu a erosão hídrica em 3 tipos: escoamento
CERRI, 1997. laminar; ravinas e erosão fluvial.

Bennet (1939) apud Ao estudar a erosão causada pelo escoamento ao


CERRI, 1997. longo da superfície do terreno distinguiu os
seguintes tipos: laminar; sulcos e boçorocas.

Kohnke & Bertrand Classifica três tipos principais de formas erosivas:


(1959) apud CERRI, laminar; erosão interna, erosão em canal
1997. (subdividida a erosão em sulcos, ravinas e fluvial).

BIGARELLA & Os autores classificam em quatro formas de erosão:


MAZUCHOWKI, 1985. laminar; sulcos, ravinamentos e boçorocas.

OLIVEIRA, 1994. Conforme os mecanismos de erosão presente,


podem-se diferenciar as seguintes classes de

Gerson Salviano de Almeida Filho 10


erosão: laminar ou entre sulcos, em sulcos, em
calha, ravinas e boçorocas.

IPT, 1986. Os estudos realizados no Estado de São Paulo


consideram três formas de erosão: Laminar,
ravinas e boçorocas.
ALMEIDA FILHO, 2000. Em estudo realizado no município de Bauru, SP
determinou as seguintes classes: laminar, sulcos,
ravinas e boçorocas.
RIDENTE, 2000. O autor considera as seguintes classes: laminar,
sulcos, calhas, ravinas, boçorocas e solapamento
de margens.

Quadro 3 - Classificações de processos de erosão definidas por alguns autores.

2.2 Erosão laminar ou em lençol

Causada pelo escoamento em lençol superficial difuso, que retira a


camada superficial do solo de maneira quase homogênea, lateralmente ou em
pequenos filetes (DAEE, 1989), ou ainda interrill erosion segundo FOSTER et
al. (1985). A erosão laminar é dificilmente perceptível, porém evidenciada por
tonalidades mais claras dos solos, observa-se o abaixamento da cota do
terreno (exposição de raízes) e queda da produtividade agrícola (FIGURA 4).
A erosão laminar, muitas vezes, é difícil de ser observada. Os sinais que
aparecem, à medida que vai se tornando mais severa, apresenta as seguintes
características:
• o solo apresenta uma coloração mais clara;
• a produtividade vai diminuindo; e
• observa-se o abaixamento da cota do terreno.
FENDRICH et al. (1997) também concordam com a dificuldade de
observá-la destacando, como aspectos sugestivos de sua ação, o decréscimo
da produção de culturas e o aparecimento paulatino das raízes na superfície
dos terrenos.

Gerson Salviano de Almeida Filho 11


Figura 4 – Erosão laminar ou em lençol (RIDENTE JR., 2000).
Esse processo causado pela ação da água de chuva inicia-se pela ação
do impacto das gotas d’água na superfície do terreno, sobretudo quando
desprotegido de vegetação, promovendo o desprendimento de partículas
constituintes do solo (Ellison, 1974; Bertoni & Lombardi, 1985 apud ALMEIDA
FILHO, 2000). As partículas desagregadas têm seu tamanho original reduzido,
tornando-se mais facilmente transportáveis pela enxurrada. As partículas em
suspensão podem infiltrar-se no solo, diminuindo a sua permeabilidade e
conseqüentemente aumentando o escoamento superficial. Dessa forma, a
ação do impacto constitui o início de um processo erosivo em cadeia,
incluindo outras formas de erosão.

2.3 Erosão linear

Corresponde às formas de erosão causadas por escoamento superficial


concentrado ou rill erosion segundo FOSTER et al. (1985), que comanda o
desprendimento das partículas do solo e o transporte dessas partículas
(desprendidas), segundo as condições hidráulicas desse escoamento. Pode
haver também a ação combinada entre o escoamento superficial concentrado
e o escoamento subsuperficial (OLIVEIRA, 1994).
A erosão por escoamento concentrado pode causar grandes incisões
lineares na forma de sulcos, ravina e boçorocas. Corresponde a um avançado
estágio de degradação do solo, cujo poder destrutivo local é superior ao das
outras formas, e, portanto, de difícil contenção (IWASA & PRANDINI, 1980).

Gerson Salviano de Almeida Filho 12


2.3.1 Erosão em Sulcos

São, em geral, de profundidade e largura inferiores a cinqüenta


centímetros, sendo que suas bordas possuem pequena ruptura na superfície
do terreno (DAEE, 1989). BIGARELLA & MAZUCHOWSKI (1985), definem que
a erosão em sulcos sucede a laminar, podendo igualmente originar-se de
precipitações muito intensas. FAO (1967) declara não existir nenhum limite
definido que assinale o final da erosão laminar e o começo da erosão em
sulcos. Esses ocorrem mais associados a trilhas de gado e em locais de solo
exposto devido à movimentação de terra, nas áreas urbanas ocorrem na fase
da implantação dos novos loteamentos e ruas sem pavimentação (FOTOS 5 e
6).

Foto 5 – Sulcos na área rural


desencadeados pelo pisoteio de
gado.

ARQUIVO IPT - 1986

Foto 6 – Sulcos na área urbana


desencadeados pelo escoamento das
águas pluviais.

ARQUIVO IPT - 1993

2.3.2 Erosão em Calhas


Tipo de erosão em forma de canal, originada pelo escoamento
concentrado das águas superficiais, também são pouco profundas como os
sulcos, porém, possuem bordas suaves e largura inferior a cinco metros
(OLIVEIRA, 1994). Geralmente, mantêm-se com vegetação rasteira pouco

Gerson Salviano de Almeida Filho 13


densa em seu interior (FOTO 7).

Foto 7 – Erosão em forma de canal


possui bordas suaves e largura
inferior a cinco metros.

ARQUIVO IPT-1994

2.3.3 Erosão em Ravina


A ravina é um sulco profundo no solo provocado pela ação erosiva da
água de escoamento superficial concentrado, e que não pode ser combatido
pelos métodos mais simples de conservação de solo.
A passagem da erosão por escoamento concentrado (sulcos) a ravinas não
se caracteriza por nenhum índice simples. Existe uma tendência que se
admite uma profundidade mínima para as ravinas em torno de 30 cm,
segundoTricart apud PONÇANO & PRANDINI (1987) ou 50 cm conforme
IMESON & KWAAD (1980).
Segundo OLIVEIRA (1994), na ravina devem ser considerados
mecanismos de erosão que envolve movimentos de massa, representados
pelos pequenos deslizamentos que provocam o alargamento da feição erosiva
e também seu avanço remontante. As ravinas são normalmente de forma
alongadas, mais compridas que largas e com profundidades variáveis,
normalmente inferiores a dez metros. Raramente são ramificadas, e não
chegam a atingir o nível d'água subterrânea, conforme pode ser observado
nas FOTOS 8 e 9.

Gerson Salviano de Almeida Filho 14


Foto 8 – Exemplo de uma ravina,
desencadeada pelo escoamento
superficial concentrado .

ARQUIVO IPT - 1993

Foto 9 – Erosão em ravina na área


urbana.

ARQUIVO IPT - 1998

2.3.4 Erosão em Boçorocas

Finalmente, o progresso do ravinamento atinge um limiar que é o lençol


freático. Nesta etapa, intervêm processos ligados à circulação das águas de
subsuperfície, fazendo com que o ravinamento atinja grandes dimensões e
passe a ser denominado erosão em boçoroca.
As boçorocas são interpretadas como formas erosivas mais drásticas,
observando-se normalmente a ação de águas de superfície.

A palavra boçoroca provém do tupi-guarani “ibi-çoroc”, e tem o significado


de terra rasgada (PICHLER, 1953), ou então de “mbaê-çorogca”, traduzível por
coisa rasgada (FURLANI, 1980). A origem indígena da palavra vem ao
encontro do fato de que essas feições são reconhecidas de longa data, tendo

Gerson Salviano de Almeida Filho 15


sido descritas pela primeira vez em 1868 por Burton (PONÇANO & PRANDINI,
1987; FURLANI, 1980).
A formação das boçorocas rurais ocorre nas áreas de pastagens e
culturas de má cobertura e manejo inadequado, enquanto as urbanas
desenvolvem-se pela impermeabilização do terreno, fazendo com que o
escoamento seja incrementado com a diminuição da infiltração, numa
mudança de regime de escoamento, localmente mais drástica, do que aquela
provocada pelo desmatamento (IWASA & PRANDINI, 1980).
As boçorocas formam-se geralmente em locais de concentração natural
de escoamento pluvial, tais como cabeceiras de drenagem e embaciados de
encostas. A importância do estudo dos fenômenos associados à formação de
boçorocas é estabelecer medidas de prevenção e controle, como também o
estabelecimento de técnicas compatíveis ao combate do problema.
Formadas pelo aprofundamento das ravinas e interceptação do lençol
freático, onde se pode observar grande complexidade de processos do meio
físico (piping, liquefação de areia, escorregamentos laterais, erosão
superficial), devido à ação concomitante das águas superficiais e
subsuperficiais (RODRIGUES, 1982). Este tipo de processo erosivo atinge
grandes dimensões, gerando vários impactos ambientais na sua área de ação
e na drenagem de jusante, tornando-se um complicador para o uso do solo
nestas áreas. A boçoroca é a feição mais flagrante da erosão antrópica (FOTO
10), podendo ser formada através de uma passagem gradual da erosão
laminar para erosão em sulcos e ravinas cada vez mais profundas, ou então,
diretamente a partir de um ponto de elevada concentração de águas pluviais
(IPT, 1986).

Foto 10 – A feição mais danosa da


erosão é a boçoroca

ARQUIVO IPT - 1993

No desenvolvimento da boçoroca atuam, além da erosão causada pelo

Gerson Salviano de Almeida Filho 16


escoamento superficial como nas demais formas dos processos erosivos
(laminar, sulco e ravina) outros processos, condicionados pelo fato de esta
forma erosiva atingir em profundidade o lençol freático ou nível d’água de
subsuperfície. A presença do lençol freático, interceptado pela boçoroca, induz
o aparecimento de surgências d’água, acarretando o fenômeno conhecido
como “piping” (erosão interna que provoca a remoção de partículas do interior
do solo, formando “tubos” vazios que provocam colapsos e escorregamentos
laterais do terreno, alargando a boçoroca, ou criando novos ramos), conforme
se pode observar nas FOTOS 11, 12 e 13.
Este fenômeno de “piping” tem influência importante no alargamento da
feição erosiva, devido à ocorrência originada de movimentos de areia, pela
liquefação nos sopés dos taludes, no interior da erosão, provocando o
solapamento e escorregamentos em fatias. Na presença do lençol freático,
próximo ao pé do talude, forma uma franja capilar (TAYLOR, 1963) provocando
uma zona saturada no pé das paredes, causando uma diminuição da
resistência para o seu valor mínimo e que aumenta o peso do solo,
acelerando o processo de alargamento das boçorocas (Foto 14).
O “piping” se dá por arraste das partículas de solo ou sedimento do
interior do maciço, por força da concentração das linhas de fluxo em regime
turbulento, ao longo de descontinuidade: lineamento estrutural, contato
interestratos ou mesmo vazios deixados por atividades biológicas (raízes e
animais terrícolas), como apontam PRANDINI et al., 1974; FURLANI, 1980;
IPT, 1986; e DAEE, 1989.

Foto 11 - Cavidade produzida pelo


fenômeno do “piping” e
carreamento de sedimento.

ARQUIVO IPT - 1993

Gerson Salviano de Almeida Filho 17


Foto 12 – Evolução lateral da
erosão causada pela ação do
“piping”

ARQUIVO IPT - 1999

Foto 13 – Detalhe da cavidade


provocada pelo “piping”.

ARQUIVO IPT - 1998

Foto 14 – Franja capilar provocando


uma zona saturada no pé do talude e
desencadeando o deslizamento.

Gerson Salviano de Almeida Filho 18


ARQUIVO IPT - 1998

Apesar do papel da ação das águas subterrâneas ter sido destacado por
vários autores, ele não tem sido considerado da maioria dos projetos de obras
de contenção das boçorocas. A ação das águas subterrâneas é diretamente
responsável pelo insucesso de numerosas obras de engenharia.

2.3.5 Solapamento de margens fluviais

É outro tipo de processo erosivo, que se desenvolve em planícies fluviais


e aparece como importante fator no retrabalhamento de sedimentos
depositados nos fundos de vale (terraços fluviais e depósitos de assoreamento
recentes). Este processo também ocorre, muitas vezes, em linhas de talvegue
ou cursos d’água perenes de primeira ordem (FOTO 15), por meio do
alargamento do canal fluvial (RIDENTE JR. 2000).

Foto 15 – Solapamento de margem fluvial


que contribui para destruição da mata ciliar,
associado ao incremento da vazão do rio.

ARQUIVO – IPT - 1997

3 ESCORREGAMENTOS

Os escorregamentos e processos correlatos fazem parte do conjunto dos


movimentos gravitacionais de massa diretamente relacionados à dinâmica
das encostas. AUGUSTO FILHO (1992) classifica os escorregamentos lato
sensu em quatro grandes grupos: rastejos (creep), escorregamentos stricto
sensu (slides), quedas (falls) e corridas (flows) (QUADRO 4). Os tipos de

Gerson Salviano de Almeida Filho 19


escorregamentos são definidos em função da forma e do tamanho do
processo, bem como o tipo de material (solo, rocha) que foi mobilizado. Esses
processos atuam essencialmente nas áreas de encostas com altas
declividades, nas montanhas, serras e escarpas (FOTO 16). Portanto não
ocorrem de forma generalizada em todo o território brasileiro.
PROCESSOS CARACTERÍSTICAS DO MOVIMENTO/MATERIAL/GEOMETRIA
• vários planos de deslocamento (internos)
• velocidades muito baixas a baixas (cms/ano) e decrescentes
com a profundidade
RASTEJO (CREEP) • movimentos constantes, sazonais ou intermitentes
• solo, depósitos, rocha alterada/fraturada
• geometria indefinida
• poucos planos de deslocamento (externos)
• velocidades médias (m/h) a altas (m/s)
• pequenos a grandes volumes de material
• geometria e materiais variáveis:
ESCORREGAMENTOS PLANARES: solos poucos espessos, solos e rochas com um
(SLIDES) plano de fraqueza.
CIRCULARES: solos espessos homogêneos e rochas muito
fraturadas
EM CUNHA: solos e rochas com dois planos de fraqueza
• sem planos de deslocamento
• movimento tipo queda livre ou em plano inclinado
• velocidades muito altas (vários m/s)
• material rochoso
QUEDAS (FALLS) • pequenos a médios volumes
• geometria variável: lascas, placas, blocos, etc.
ROLAMENTO DE MATACÃO
TOMBAMENTO
• muitas superfícies de deslocamento (internas e externas à
massa em movimentação)
• movimento semelhante ao de um líquido viscoso
• desenvolvimento ao longo das drenagens
CORRIDAS (FLOWS) • velocidades médias a altas
• mobilização de solo, rocha, detritos e água.
• grandes volumes de material
• extenso raio de alcance, mesmo em áreas planas.
Quadro 4 - Classificação dos movimentos de massa (AUGUSTO FILHO, 1992).

Gerson Salviano de Almeida Filho 20


Foto 16 – Escorregamento no
município de Campos do Jordão, SP,
várias casas destruídas, dezenas de
pessoas feridas e registro de dez
mortes.

ARQUIVO IPT - 2000

Os rastejos são deslocamentos lentos e progressivos do solo, induzidos


pela alta declividade do terreno (FIGURA 5).

Figura 5 - Características dos movimentos de rastejo.

Os escorregamentos são processos rápidos, que podem ser de formas


diferentes em função do tipo de solo e rocha, do relevo, etc. Os tipos de
escorregamentos são definidos em função de sua forma e tamanho, bem
como do material (solo, rocha) que foi mobilizado. As formas mais comuns
são os escorregamentos planares, circulares e em cunha (FIGURA 6).

Gerson Salviano de Almeida Filho 21


Figura 6 – Formas mais comuns dos processos de escorregamentos (IPT,
1991a).
As corridas são fenômenos catastróficos decorrentes de chuvas muito
intensas, que provocam a mobilização de solo, rocha, detritos, etc. ao longo
das drenagens. Grandes volumes de material são transportados como um
líquido viscoso, podendo ter grandes deslocamentos com velocidade elevada
(FIGURA 7 e FOTO 17).

Gerson Salviano de Almeida Filho 22


Figura 7 – Exemplo de corrida que provoca
grandes mobilizações de solo e rocha.

Foto 17 – Corrida de bloco no


município de Petrópolis, RJ.

ARQUIVO IPT - 1988

As quedas de blocos ocorrem nos paredões rochosos, deslocando


lascas, blocos, placas, etc. com velocidades muito altas, mas, normalmente, o
material removido tem pouco volume (FIGURA 8).

Gerson Salviano de Almeida Filho 23


FIGURA 8 - Processo de queda de blocos ou lascas associado a
encostas rochosas abruptas ou taludes de escavação (IPT, 1991a).

Ao nível nacional os acidentes desencadeados pelos escorregamentos têm


ocorrido em várias cidades brasileiras (São Paulo, SP; Santos, SP; Rio de Janeiro,
RJ; Petrópolis, RJ; Campos do Jordão, SP; Caraguatatuba, SP; Recife, PE; Vitória,
ES; Belo Horizonte, MG; Salvador, BA; Blumenau, SC;) geralmente ocorre com
vítimas fatais (QUADRO 5), além dos danos econômicos de várias magnitudes
associados a instabilizações de taludes em obras civis lineares (rodovia, ferrovia,
águaduto, gasoduto) e também em áreas de mineração.

LOCAL ANO MÊS MORTES


Santos, SP 1928 março 60
Vale do Paraíba RJ/MG 1948 dezembro 250
Santos, SP 1956 março 56
Rio de Janeiro, RJ 1966 janeiro 100

Gerson Salviano de Almeida Filho 24


Serra das Araras, RJ 1967 janeiro 1200
Caraguatatuba, SP 1967 março 120
Salvador, BA 1969 maio 15
Salvador, BA 1971 abril 104
Campos do Jordão, SP 1972 agosto 10
Estância Velha, ES 1973 julho 10
Maranguape, CE 1974 abril 12
Caruru, SC 1974 março 25
Santos, SP 1979 dezembro 13
Rio de Janeiro, RJ 1982 dezembro 6
São Leopoldo, RS 1983 agosto 6
Salvador, BA 1984 abril 17
Arame, MA 1985 fevereiro 20
Vitória, ES 1985 --- 93
Lavrinhas, SP 1986 dezembro 11
Petrópolis, RJ 1988 fevereiro 171
Salvador, BA 1989 maio 31
São Paulo, SP 1989 março 22
Recife, PE 1990 julho 10
Blumenau. SC 1990 outubro 21
São José, SC 1991 novembro 5
Contagem, MG 1992 março 36
Guarulhos, SP 1993 fevereiro 6
Camaragibe, PE 1994 março 6
Salvador, BA 1995 junho 54
Rio de Janeiro, RJ 1996 fevereiro 64
Ouro Preto, MG 1997 janeiro 13
Camacã, BA 1998 novembro 4
Salvador, BA 1999 maio 5
Campos do Jordão, SP 2000 janeiro 10
Petrópolis, RJ 2001 dezembro 45
Angra do Reis, RJ 2002 dezembro 40
Belo Horizonte, MG 2003 janeiro 16
Maceió, AL 2004 junho 17
FONTE: Banco de dados do IPT; Nogueira, 2002.
Quadro 5 - Relação de acidentes associados à deflagração de
escorregamento no Brasil. (Banco de Dados do IPT e NOGUEIRA, 2002).

Este quadro é resultado das características geológicas, geomorfológicas


e climáticas, acrescidas de alguns processos socioeconômicos verificados no
País, como a intensa urbanização e ao empobrecimento geral da população.
No GRÁFICO 1 apresenta-se a freqüência dos grandes acidentes associados
a escorregamentos no Brasil, entre os anos de 1988 a junho de 2004.

Gerson Salviano de Almeida Filho 25


300
277

250
228

200
166
MORTES
150

101
99
100 90 89 85
68
64 58
48 50
50 34
26 28
23

0
1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004

ANO

Gráfico 1 - Número de mortos no Brasil vítimas de escorregamentos (deslizamentos), a


partir de notícias de jornal. (FONTE: Banco de Dados do IPT).

4 FATORES CONDICIONANTES DOS PROCESSOS EROSIVOS

Os condicionantes que influenciam na aceleração dos processos erosivos são


determinados por quatro fatores naturais básicos e pela ocupação humana que
determinam a intensidade dos processos. BELLINAZZI JUNIOR, et al. (1981) destaca
como os mais importantes: clima; tipos de solo, topografia, cobertura vegetal e ação
antrópica.
4.1 Clima

A água de chuva provoca a erosão através do impacto das gotas sobre a


superfície do solo, caindo com velocidade e energia variáveis, e através da
ação da enxurrada. Sua ação erosiva depende da distribuição pluviométrica,
mais ou menos regular, no tempo e no espaço, e de sua intensidade. Chuvas
torrenciais ou pancadas de chuvas intensas, como tromba d’água, constituem
a forma mais agressiva de impacto da água no solo.

No Brasil, as chuvas não são bem distribuídas. Ocorre variação do


período chuvoso conforme a região. Em algumas delas as chuvas
concentram-se entre setembro a março, justamente na época em que o solo
está sendo cultivado. Esses fatos tornam nosso clima um fator altamente

Gerson Salviano de Almeida Filho 26


favorável ao desencadeamento de processos erosivos. O índice que expressa
a capacidade da chuva provocar erosão é conhecido como erosividade, sendo
um importante parâmetro para a quantificação de perdas de solo (BERTONI e
LOMBARDI NETO, 1985).
O clima é o elemento condicionante por excelência desses processos
denudacionais e, a água, o agente decisivo na esculturação das boçorocas. A
atuação das massas de ar e o balanço hídrico destacam que, o período seco hibernal
e a estação chuvosa estival, constituem o condicionante maior dos processos
morfogenéticos, implicando na meteorização, pluvioerosão, modalidades de
escoamentos, infiltração, evaporação e movimento do regolito (VIEIRA, 1974 e 1978).
A chuva é reconhecidamente o principal elemento climático de
importância direta no desenvolvimento dos processos erosivos.
De acordo com RODRIGUES (1982), o clima é um dos mais importantes
condicionantes dos processos erosivos, uma vez que a água da chuva atua
tanto na denudação do terreno como no comportamento do lençol freático.
Esse autor analisa todos os fatores que caracterizam o quadro climático,
tecendo considerações válidas para regiões tropicais e subtropicais, nas quais
se observam com mais freqüência e maior intensidade, a ocorrência de
fenômenos erosivos acelerados:
• Volume de precipitação: os processos erosivos são mais atuantes e
apresentam maior energia durante o período mais chuvoso;
• Intensidade de precipitação: durante uma precipitação, há
significativa variação da intensidade das chuvas;
• Duração da precipitação: quando houver chuvas de mesma
intensidade, mas com tempos de duração diferentes, observar-se-á,
notoriamente, ações erosivas diferenciadas que tenderão a aumentar
quanto mais demoradas forem as chuvas;
• Freqüência de precipitação: quando ocorrerem chuvas fortes
espaçadas por pequenos e grandes intervalos de tempo (o solo fica
saturado) haverá um agravamento significativo do processo erosivo;
• Variações de temperatura: durante as oscilações na temperatura,
períodos ora frios, ora quentes, observam-se, respectivamente,

Gerson Salviano de Almeida Filho 27


contrações e expansões no solo, induzindo nestas mudanças, como
ressecamento, diminuição da sua coesão, desagregação etc., que
favorecem a instalação do processo erosivo.

4.1.1 Pluviometria

A precipitação, sob a forma de chuva, ao atingir o solo começa a infiltrar-se. A


infiltração é tanto mais intensa no início dos períodos chuvosos quanto mais
ressequido se encontra o solo. À medida que o solo vai se saturando, a infiltração vai
diminuindo até manter-se praticamente constante e conseqüentemente começa a
enxurrada, que vai aumentando de volume em proporções cada vez maiores até
alcançar uma quantidade estável. A freqüência das chuvas é um fator que também
influi nas perdas de solo pela erosão. Se os intervalos entre elas são curtos, o teor de
umidade do solo é alto, e assim as enxurradas são mais volumosas, mesmo com
chuvas de menor intensidade; enquanto os intervalos são maiores o solo está seco
não promovendo as enxurradas, em decorrência de chuvas de baixas intensidades.
EL-SWAIFY et al. (1982) alertam que as chuvas em regiões
tropicais causam maior erosão que em outras regiões, devido à maior
energia de cada evento; esta, por sua vez, estaria relacionada ao maior
número e tamanho das gotas de chuva por unidade de tempo. Este fator
é importante no desencadeamento das fases iniciais da erosão, prévia e
necessárias à formação da maior parte das boçorocas, e pode ser
abordado através de um índice que expressa a erosividade das chuvas.
Muitos estudos têm sido desenvolvidos procurando relacionar perda de
solo com as características da chuva. Hudson (1971), por exemplo, definiu a
erosividade da chuva como sendo sua habilidade potencial para causar
erosão, sendo função das características físicas da chuva: duração,
quantidade, distribuição, intensidade etc. Entre as características citadas, a
intensidade, de acordo com o autor citado, é particularmente importante como
um parâmetro potencial de erosividade cujo poder erosivo se dá em função do
tempo de duração, massa e velocidade de queda das gotas (apud LOPES &
SRINIVASAN, 1981).
O volume e a velocidade da enxurrada dependem da intensidade,
duração e freqüência da chuva, portanto, a intensidade é o fator pluviométrico

Gerson Salviano de Almeida Filho 28


mais importante na erosão. WISCHMEIR & SMITH (1962) consideram chuva
erosiva aquela cuja precipitação é igual ou superior a 1,27 mm. CABEDA
(1976) reformulando a idéia de Wischmeir & Smith, considera como chuva
erosiva àquela que ocorre em quantidade igual ou superior a 15 minutos. Em
termos de erosão, seria importante frisar que ela fundamenta-se em dois
princípios básicos (MONDARDO & VIEIRA, 1975):
• na energia cinética, pelo impacto das gotas de chuva sobre o solo;
• na energia hídrica da água que escorre na superfície em função do
relevo, arrastando partículas de solo.
O impacto das gotas de chuva é um dos mais ativos processos de
erosão por deslocamento e lançamento de partículas de solo por várias
dezenas de centímetros (Ellison, 1944; Ellison, 1947; Poesen & Savat, 1968 e
1981; Rose, 1960, apud NISHIYAMA, 1995).
Assim, a gota da chuva influencia a erosão do solo de três maneiras,
segundo Ellison, 1947 a e b apud NISHIYAMA, 1995:
• rompimento de torrões e agregados do solo em partículas individuais
ou agregados menores, constituindo o destacamento;
• deslocamento de partículas, isto é, o lançamento, para fora do local de
impacto, resultando no transporte; e
• a formação de turbulência quando atinge uma lâmina de escoamento
superficial, aumentando desta forma seu poder erosivo.
De acordo com BERTONI & LOMBARDI NETO (1985), não é comum a
ocorrência de chuva de 50 mm em um período de 30 minutos, que teria um
peso de quase 560 toneladas por hectare; o diâmetro médio das gotas da
chuva seria de aproximadamente 3 mm e a velocidade de queda da chuva
seria de cerca de 8 m/s, energia que deveria ser absorvida pelo solo. A
intensidade da chuva é outro dado imprescindível para definição da
erosividade de uma chuva, pois ela prepara o material a ser transportado pelas
águas de escoamento superficial.
Além da energia das chuvas, devemos considerar o fator de maior ou
menor facilidade de desagregação do solo, dependente do grau de coesão. A
erosão tem lugar quando a intensidade das chuvas é maior do que a sua

Gerson Salviano de Almeida Filho 29


capacidade de infiltração no solo (BIGARELLA & MAZUCHOWKI, 1985).

4.2 Solo

A influência da cobertura pedológica no desenvolvimento dos processos


erosivos (laminar, sulcos, ravinas e boçorocas) foi estudada por diferentes
autores, e os trabalhos mostram que há maior susceptibilidade à erosão para
solos de textura arenosa (SETZER, 1949; RUELLAN, 1953; PICHLER, 1953;
CHRISTOFOLETTI, 1968; VIEIRA, 1978).
Entre as principais propriedades físicas do solo que conferem maior ou
menor resistência à ação erosiva das águas, ou seja, na erodibilidade,
destacam-se a textura, estrutura, permeabilidade, densidade, e as
características químicas, biológicas e mineralógicas. Outra característica
importante do solo com relação ao comportamento erosivo é a sua espessura.
Solos rasos permitem rápida saturação dos horizontes superiores,
favorecendo o desenvolvimento de enxurradas.

4.2.1 Textura

O termo textura refere-se à proporção relativa das frações areia, silte e


argila na composição de um solo. Dificilmente um solo é constituído de uma
única fração, mas sim de uma combinação dessas três, que definem a classe
textura.
O tamanho da partícula influi na capacidade de infiltração e de absorção
da água de chuva, interferindo no potencial de enxurradas no terreno, e em
relação à maior ou menor coesão entre as partículas. Os solos arenosos são
normalmente porosos com capacidade maior de infiltração das águas pluvial e
conseqüentemente menor o escoamento superficial. Como os solos arenosos
possuem na sua composição uma proporção baixa de partículas argilosas,
apresenta maior facilidade de desenvolver processos erosivos em pequenos
escoamentos das águas pluviais.

4.2.2 Estrutura

É o arranjo das partículas do solo com aspecto de um conjunto de


torrões que naturalmente constitui o solo. O formato e tamanho variado estão

Gerson Salviano de Almeida Filho 30


separados uns dos outros por pequenos fendilhamento.
A característica da estrutura influi na capacidade de infiltração e
absorção da água da chuva, como também, na capacidade de arraste de
partículas pelo escoamento das águas pluviais.
Solos com estrutura micro-agregada apresentam alta porcentagem de
poros e, conseqüentemente, alta permeabilidade, favorecendo a infiltração das
águas de chuva; mostram também agregação entre partículas, aumentando a
resistência do solo ao arraste de partículas pela ação das águas (SALOMÃO,
1995).

4.2.3 Permeabilidade

Determina a maior ou menor capacidade de infiltração das águas de


chuva, estando diretamente relacionada com a porosidade do solo. Os solos
com textura arenosa são mais permeáveis que solos argilosos, por apresentar
permeabilidade maior. Em alguns casos dependendo da estruturação, solos
argilosos podem-se apresentar altamente porosos e até mais permeáveis que
certos solos arenosos.

4.2.4 Densidade

A densidade do solo, relação entre a sua massa total e volume, é


inversamente proporcional à porosidade e permeabilidade. Por efeito de
compactação do solo, observa-se um aumento da densidade, como resultado
da diminuição dos macro-poros; em função disto, o solo torna-se mais
erodível (SALOMÃO, 1995).

4.2.5 Propriedades químicas, biológicas e mineralógicas

Essas propriedades do solo influem no estado de agregação entre as


partículas, aumentando ou diminuindo a resistência aos processos erosivos.
A gradiência textural entre os horizontes superiores do solo é uma das
características pedológicas mais importantes em relação ao seu
comportamento erosivo. Trata-se da relação entre os teores de areia e argila
observada nos horizontes superiores do solo. Solos com alta gradiência
textural apresentam, portanto, horizonte A bem mais arenoso que o horizonte

Gerson Salviano de Almeida Filho 31


B, subjacente. Assim, por exemplo, solos do tipo podzólico são em geral, mais
suscetíveis à erosão que os do tipo latossólico, por apresentarem, logo abaixo
do horizonte A (superior), um horizonte com maior concentração de argilas e
com poucos macroporos que representa certa barreira à infiltração das águas.
Como conseqüência, o fluxo de água logo abaixo da superfície, paralela à
encosta, e a saturação do horizonte superior favorecem o desenvolvimento de
enxurradas, tendendo a propiciar maior erosão nos podzólicos.

4.3 Topografia

A influência da topografia do terreno na intensidade erosiva verifica-se


principalmente pela declividade e comprimento de rampa (comprimento da encosta
ou da vertente). Estes fatores interferem diretamente na velocidade do escoamento
das águas pluviais (enxurradas). KUROWSKI (1962) define que a topografia
desempenha importante papel geológico, pois tanto mais impetuosa será a ação
destruidora da erosão, quanto mais inclinadas forem as ruas das cidades. Na medida
que a água escoa em sua descida pelas ruas, a velocidade vai sendo dupla e
triplicamente aumentada, desagregando as rochas, principalmente formações
arenosas, que pela sua permeabilidade e constituição friável fornece à erosão um dos
principais pontos de desencadear os processos erosivos.

4.4 Cobertura Vegetal

É o fator mais importante de defesa natural do solo que funciona como uma
manta protetora, evitando a desagregação das partículas de solo que é a primeira
fase da erosão. Entre os principais efeitos da cobertura vegetal destacam-se: proteção
contra o impacto direto das gotas de chuva (FIGURA 9); dispersão e quebra da
energia das águas de escoamento superficial; aumento da infiltração pela produção
de poros no solo por ação das raízes; aumento da capacidade de retenção de água
pela estruturação do solo por efeito da produção e incorporação de matéria orgânica.

Gerson Salviano de Almeida Filho 32


Figura 9 - Cobertura vegetal e a redução da erosividade da chuva, BERTOLINI, 1994.
4.4.1 Desmatamento

Segundo JORGE (1998), o desmatamento é considerado uma alteração


drástica no equilíbrio do balanço hídrico de uma região, proporcionando um aumento
significativo do escoamento superficial e da infiltração, já que mais água atinge
diretamente o solo. É provável que, com o tempo, a infiltração sofra redução, tendo
em vista a perda da serrapilheira e dos horizontes superficiais, mais porosos, dos
solos, o que acabaria por se refletir num aumento ainda mais notável do escoamento
superficial.
O rápido desmatamento em razão do desenvolvimento agrícola e da
urbanização contribuiu para destruição do equilíbrio ambiental. Em 1953, MAACK
enfatizava a necessidade de proteger a floresta com a finalidade de minimizar os
efeitos da erosão. Vários pesquisadores deram destaque ao problema (CASTANY,
1967; BIGARELLA, 1974; BIGARELLA et al. 1978).
As feições erosivas podem se instalar por concentração do escoamento
superficial, de forma espontânea, nas terras, logo que desmatadas. Vários autores
(Rougerie, 1960; Daubenmire, 1972; Bel, 1973; Chim, 1974; Roose, 1976) apud
DUNNE & DIETRICH (1982) observaram alterações importantes nas taxas de erosão
após os desmatamentos. Tais alterações referem-se não só à perda da proteção
contra a ação direta da chuva no solo, mas, sobretudo, a uma drástica alteração do
comportamento hídrico do meio físico, promovido pela eliminação da cobertura
vegetal (OLIVEIRA, 1994).
Essa polarização condiciona fortemente a distribuição e tipologia dos processos
erosivos atuais. O processo de desmatamento no século passado foi muito rápido,
provocando drásticas alterações nas paisagens, acarretando forte incidência de
processos erosivos (FIGURA 10).

Gerson Salviano de Almeida Filho 33


A fase mais aguda instala-se no momento imediatamente posterior à remoção
da cobertura natural. Sem a proteção da vegetação, o solo fica exposto ao impacto
direto das chuvas, dos ventos e da radiação solar. A camada superficial do solo sofre
rápida degradação e fica exposta à desagregação e arraste das partículas, sendo
possível observar as seguintes alterações:
• variações nas precipitações;
• dessecamento do solo;
• rebaixamento do lençol subterrâneo;
• empobrecimento do solo;
• córregos e rios tornam-se turvos;
• erosão e
• assoreamento
Nas FIGURAS 11 e 12 são apresentados esquemas da circulação da água na
mata e circulação de água depois do desmatamento. O escoamento superficial na
mata é retido e diminuído no solo e grande quantidade de água é diretamente
devolvida à circulação, em forma de umidade por evaporação e transpiração.
Enquanto no desmatamento ocorre uma diminuição do depósito de água no solo, o
que provoca escoamento superficial e subterrâneo mais rápido e elevado (MAACK,
1953).
A destruição da cobertura vegetal influi nas alterações da velocidade e volume
de infiltração e de escoamento superficial, colaborando para o surgimento das
erosões lineares (PRANDINI, et al., 1982, 1976).

4.5 Ação antrópica

A forma como se usa o solo, tem grande influência no processo erosivo, iniciada
pelo desmatamento e seguida pelo cultivo das terras, implantação de estradas,
criação e expansão das vilas e cidades, sobretudo quando efetuada de modo
inadequado, constitui o fator decisivo da aceleração dos processos erosivos. Dentre
os fatores formadores de erosão o principal fator detonante e que agrava,
sobremaneira, tais processos, é a atividade humana. As principais agressões
causadas pela ação antrópica decorrentes são:
♦ retirada da cobertura vegetal, seguida pela queimada;
♦ agricultura praticada sem conservação do solo, tais como plantio morro
abaixo, sem rotação de cultura etc.;
♦ formação de pastos com alta densidade de animais, proporcionando um

Gerson Salviano de Almeida Filho 34


excessivo pisoteio em determinadas direções, formando trilhas e sulcos;
♦ divisa de propriedades, de culturas perpendiculares às curvas de nível;
♦ aberturas de estradas e carreadores sem o devido cuidado na execução de
obras de drenagem para coletar e transportar águas pluviais;
♦ execução de loteamentos sem implantação da infra-estrutura.
♦ exploração mineral ao ser realizada sem técnicas adequadas;

PAISAGEM NATURAL

DESMATAMENTO DESMATAMENTO

TERRAPLANAGEM agricultura + pastagem


(sem conservação do solo)
ATERRO + CORTE + OCUPAÇÃO

PRECIPITAÇÃO
INICIO DA EROSÃO TRANSPORTE DE
TRANSPORTE DE SEDIMENTOS
INICIO DO
SEDIMENTOS
ASSOREAMENTO

BOÇOROCAS

destruição de moradias IMPACTOS E CONSEQUÊNCIAS TERRA


obras públicas IMPRODUTIVA

INUNDAÇÕES LEITO ASSOREADO

Figura 10 - Impactos ambientais e sociais provocados pela ação antrópica (ALMEIDA


FILHO, 2000).

Gerson Salviano de Almeida Filho 35


PRECIPITAÇÃO
EFEITO DE
INTERCEPÇÃO

EVAPOTRANSPIRAÇÃO

ESCOAMENTO
SUPERFICIAL
LENTO
EVAPOTRANSPIRAÇÃO
DO SOLO

GOTAÇÃO

ESC
OAM
ENT
O SUP
ERF
ICIAL

SERRAPILHEIRA

SUCÇÃO

CAPILARIDADE

INFILTRAÇÃO
EFETIVA NO
MACIÇO
NATURAL

ESC
OAM
ENT
O SUB
TER
RÂN
EO

Figura 11 - Circulação da Água na Mata (ALMEIDA FILHO, 2000).

Gerson Salviano de Almeida Filho 36


PRECIPITAÇÃO

DESPRENDIMENTO DAS
PARTÍCULAS DO SOLO

ESCOAMENTO
SUPERFICIAL RÁPIDO

CONDENSAÇÃO
E FECHAMENTO ESC LIXIVIAÇÃO DA
DE POROS OAM
ENT MATÉRIA
OS ORGÂNICA
UPE
RFIC
IAL
INFILTRAÇÃO PROCESSOS
EFETIVA NO EROSIVOS
MACIÇO
NATURAL

CAPILARIDADE

ESC
OAM
ENT
O SUB
TER
RÂN
EO

Figura 12 - Circulação da Água após o desmatamento (ALMEIDA FILHO,


2000).

4.5.1 Urbanização

O crescimento sem planejamento adequado das cidades pode ser


considerado o grande fenômeno de transformação da ocupação do solo no
século XX.
O uso urbano diferencia-se fortemente do uso rural. Os núcleos urbanos
e, principalmente, as periferias são o palco dos mais intensos processos de
degradação ambiental, onde a erosão aparece de forma intensa e acelerada.

Gerson Salviano de Almeida Filho 37


Mesmo terrenos pouco suscetíveis à erosão passam a desenvolver este
processo em função das fortes modificações provocadas pelo parcelamento
do solo, da implantação do sistema viário e da grande mobilização provocada
pelos serviços de terraplanagem. Cortes e aterros expõem tanto o solo
superficial como o saprolito à degradação acelerada. As condições
hidrológicas, já modificadas pelo desmatamento, são fortemente alteradas em
função da impermeabilização do solo promovida pelo pavimento das ruas,
telhados, pátios etc.
A ação antrópica apresenta conseqüências danosas e muitas vezes
trágicas ao meio ambiente, principalmente pelo uso de técnicas inadequadas
e por uma total desconsideração de processos interdependentes, que são
responsáveis pelo equilíbrio desse meio físico. Assim sendo, apresenta
alguma destas formas inadequadas de utilização dos terrenos que afetam
diretamente nas perdas de solo e formação de processos erosivos:
• implantação de cidades em local de solos altamente arenosos, com
relevo ondulado e declividade máxima de 10%, sem planejamento
adequado para evitar a erosão;
• retirada da vegetação e construção de edificações, causando a
diminuição do tempo de concentração das águas e o aumento do
escoamento superficial, resultando em condições favoráveis à
instalação dos processos erosivos;
• falta de pavimentação e traçado deficiente de ruas e sistemas de
drenagem que contribuem para as perdas de solo. Quando há
pavimentação, em geral, há galerias, mas nem sempre há
pavimentação onde há galerias e, muitas vezes, não há galerias,
pavimentação e saída com dissipadores nas galerias.
A ocupação do meio físico de forma inadequada provoca o aparecimento
de diversos impactos ambientais, principalmente os processos erosivos e
conseqüentemente o assoreamento. A seguir, no QUADRO 6 são
apresentados estes impactos ambientais.
A erosão urbana integra um gênero de problemas correlatos nas
alterações do regime hidrológico que podem ser observadas nos meios

Gerson Salviano de Almeida Filho 38


urbanos, são os seguintes (CARVALHO, 1995):
• o homem urbano preza espaços arborizados ou gramados em terreno
público, mas procura esgotar as possibilidades que a Lei lhe oferece
para substituir os seus por construções;
• o homem urbano perdeu a noção de que águas pluviais constituem
recurso natural diretamente aproveitável e foi reduzido à passividade
absoluta quanto ao abastecimento de água, não lhe importando de
onde ela vem e a que custo, desde que jorre abundante e potável da
torneira;
• a urbanização afeta o regime hidrológico (concentração de drenagem,
eliminação de rugosidade, redução de percurso, inibição da infiltração
e da evapotranspiração, aumentando caudais de cheias, reduzindo
tempos de concentração), sem contrapartida natural.
USO e OCUPAÇÃO INTERVENÇÃO IMPACTOS CONSEQUÊNCIA
Remoção da
Erosão - Assoreamento;
cobertura vegetal
Loteamento Modificação da Inundações/
Terraplenagem:
paisagem Enchentes
cortes e aterros;
Remoção da Erosão
Assoreamento
cobertura vegetal localizada,
Área Industrial Contaminação do
Terraplenagem: Poluição do ar,
ar, solo e água
cortes e aterros solo e água.
URBANA Desmatamentos;
Terraplenagem;
Erosão e
Sistema Viário corte e aterro; Assoreamento
Escorregamento
Sistemas de
drenagem
Escavações;
Assoreamento;
Infra-estrutura Sistemas de Erosão e
Inundações/
Urbana drenagem; Escorregamento
Enchentes
Corte e aterro
Grandes
Erosão - Assoreamento;
desmatamentos;
Atividades Perda da camada Poluição de
Técnicas
Agrícolas fértil do solo; mananciais;
agrícolas
RURAL Desertificação
inadequadas
Desmatamento;
Chácaras de Erosão e
Cortes/Aterro; Assoreamento
Lazer Escorregamentos
Terraplenagem
Desmatamentos; Erosão e
Assoreamento;
Escavações Escorregamento
Poluição de
instáveis; /
mananciais;
MINERAÇÃO Mineração Desmontes de deslizamentos;
Contaminação do
rochas; Explosões-ruído;
ar, solo e água
Modificação da Depósitos de
Paisagem rejeitos

Gerson Salviano de Almeida Filho 39


Quadro 6 - Impactos ambientais da ocupação sobre o meio físico (modificado
de CHIOSSI, 1983).
4.5.2 As formas de uso e ocupação e os principais problemas associados
a processos erosivos

Conforme ALMEIDA & FREITAS (1996), as informações de uso e


ocupação do solo associadas às do meio físico fornecem subsídios para
diretrizes e recomendações gerais para ocupação, a partir da interação dos
processos existentes com sua alteração pela ação antrópica do uso ou
mesmo potencializando a ocorrência de novos processos até então
inexistentes.
As categorias de uso são definidas em relação a um conjunto de
alterações no meio físico que possam resultar no desenvolvimento de
problemas semelhantes. Ressaltando que cada tipo de aplicação diferenciam-
se as categorias de uso a ser delimitadas e/ou o tratamento que deve ser
dado às mesmas.
No contexto das cartas de suscetibilidade à erosão, sua integração com
o uso e ocupação do solo se traduz em susbsídios, tanto para determinar a
intensificação do processo erosivo, como para analisar situações de risco, que
resultam na identificação dos danos socioeconômicos decorrentes de
impactos ambientais. As categorias de uso devem traduzir as diferenças
necessárias quanto ao parâmetro utilizado, e gradam desde a mínima
exposição dos solos, e conseqüentemente com menor contribuição à erosão,
até aquelas com significativa exposição dos solos e efetiva contribuição à
erosão.
No âmbito do uso urbano do solo, observou-se que com a consolidação
das áreas urbanas e implantação da infra-estrutura básica, de maneira geral,
há diminuição da exposição dos solos e conseqüentemente a ocorrência dos
processos erosivos. A fase de parcelamento do solo é significativa quanto à
exposição dos solos, e se prolonga até a fase de consolidação da ocupação,
tanto na instalação da infra-estrutura básica quanto das edificações.
Adotando-se esse princípio, apresentam-se a seguir as principais
categorias de uso e ocupação do solo e os principais problemas associados.

Gerson Salviano de Almeida Filho 40


a) Áreas urbanizadas – estas áreas consolidadas com as intervenções
artificiais, são fortemente alteradas em função da impermeabilização do
solo, gerando grandes volumes de escoamento superficial, que muitas
vezes, pelo dimensionamento do sistema de drenagem e lançamento
em locais não apropriados, provocam erosões de grande porte;
b) Áreas de expansão urbana – os núcleos urbanos e loteamentos
localizados principalmente, nas periferias são as áreas onde ocorrem
o mais intensos processos de degradação ambiental, desencadeando
entre outros, a erosão de forma intensa e acelerada. Mesmo áreas de
baixa suscetibilidade a erosão em função das fortes modificações
provocadas pelo parcelamento do solo, da falta de infra-estrutura
urbana e da grande mobilização dos serviços de terraplenagem,
passou a constituir áreas potenciais à ocorrência de processos
erosivos;

c) Mata/Reflorestamento – esta categoria de vegetação arbórea e


arbustiva condiciona baixa tendência de indução dos processos
erosivos, exercendo proteção ao solo. As áreas reflorestadas também
estão incorporadas a esta categoria por proporcionarem proteção ao
solo, apesar de haver um manejo;

d) Pastagens – essas áreas podem ser consideradas de tendência


média a alta de indução dos processos erosivos, apesar de manter
uma cobertura do solo na maior parte do ano. Um dos problemas
relaciona-se ao pisoteio do gado, que provoca a compactação do solo
e aumento do escoamento superficial, onde as trilhas formadas
induzem à concentração do escoamento superficial e desencadeiam
os processos erosivos. A pastagem para desempenhar o papel de
protetora do solo é preciso que, desde a sua formação, sejam
adotadas medidas de conservação do solo, de aplicação de corretivo e
de adubação de plantio. Após o estabelecimento dessas medidas, as
adubações de manutenção e o manejo da espécie forrageira

Gerson Salviano de Almeida Filho 41


escolhida desempenharão importante função como medidas
conservacionistas;

e) Atividades agrícolas – esta categoria pode se constituir como de alta


tendência de indução da erosão, principalmente quando não são
adotadas práticas conservacionistas.

No QUADRO 7 são apresentados as formas de uso e ocupação e os


principais problemas que podem ocasionar.

Categoria de Uso Intervenção Conseqüências


Possibilidade de desencadear
Mata/Reflorestamento Desmatamento processos erosivos e transporte de
sedimentos (assoreamento)
Compactação do solo, aumento e
Retirada da cobertura concentração do escoamento
Pastagens
Pisoteio do gado desencadeiam processos erosivos e
transporte de sedimentos.
Erosão laminar, processos erosivos
Cultivos sem práticas lineares e transporte de
Atividades Agrícolas
conservacionistas sedimento/assoreamento das
drenagens.
Impermeabilizações,
Erosão (lançamento das galerias a
ocupação das baixadas,
Áreas urbanas meia encosta ou na cabeceira de
concentração das águas
consolidadas drenagens). Inundações/enchentes
pluviais, estrangulamento de
Assoreamento
sistemas de drenagens.
Movimento de terra, Intensos processos erosivos (laminar,
parcelamento do solo e sulcos, ravinas e boçorocas) e
Áreas urbanas em
ausência de infra-estrutura transporte de
expansão
(sistema de drenagem e sedimento/assoreamento das
pavimentação). drenagens.
Quadro 7 - As formas de uso e ocupação e os principais problemas associados a
processos erosivos.

5 Erosão Rural

A erosão nas áreas rurais é causada pelas recentes mudanças no uso e


ocupação das terras; passando de florestas para terra de culturas. Embora
nas áreas rurais a erosão laminar seja predominante, ocorrem também os
processos erosivos lineares. Os processos de erosão formam-se em todo
lugar onde há concentração do escoamento da água e não existem condições
ou proteção adequadas contra a ação erosiva. As principais causas da erosão
rural são:

Gerson Salviano de Almeida Filho 42


• processos erosivos lineares formados pelo escoamento concentrado
das águas pluviais provenientes das áreas urbanas;
• as águas drenadas pelas estradas pavimentadas e não pavimentadas;
• caminhos/trilhas das águas drenadas das culturas;
• pastagem quando se deixa gado transitar continuamente pelas
mesmas trilhas;
• terraços das áreas agrícolas que descarregam a água nas laterais das
estradas;
• terraços em gradiente que canalizam as águas retidas para divisas de
propriedade;
• áreas agrícolas sem manejo de solos que concentram água na linha
de drenagem natural da bacia de captação;
• água captada pelo leito das estradas e que, por infiltração e
distribuição adequada, adentra nas áreas agrícolas, em algum ponto,
desencadeando a formação de grandes processos erosivos.
O processo erosivo, além de degradar o perfil do solo, é a causa de
outros problemas que levam à baixa produtividade e ao empobrecimento do
meio rural (FIGURA13).

EROSÃO
EROSÃO

MENOR
MENORCOBERTURA
COBERTURADO DOSOLO
SOLO
BAIXA
BAIXA MENOS
MENOSMATÉRIA
MATÉRIAORGÂNICA
ORGÂNICA
PRODUTIVIDADE
PRODUTIVIDADE DEGRADAÇÃO
DEGRADAÇÃO -FÍSICA,
- FÍSICA,
AGRÍCOLA
AGRÍCOLA QUÍMICA
QUÍMICABIOLÓGICA
BIOLÓGICA

Figura 13 - Esquema demonstrativo da baixa produtividade como agente e


resultado da erosão (BERTOLINI e LOMBARDI NETO, 1994).

Gerson Salviano de Almeida Filho 43


Todo solo agrícola possui um conjunto de características que
determinam o limite da intensidade de exploração racional e econômica, sem
que o mesmo venha sofrer uma acentuada redução de sua capacidade
produtiva. Estas dependem da textura, estrutura, porosidade, permeabilidade,
relevo, pedregosidade, profundidade efetiva, fertilidade, drenagem interna,
capacidade de infiltração e armazenamento de água, além de outras
características físicas e químicas, que podem ser rapidamente destruídas na
agricultura tradicional.

5.1 Noções de tecnologias disponíveis para práticas agrícolas a fim de


controlar o escoamento superficial do solo
Os processos erosivos em áreas de cultivo podem ser minimizados
ou controlados com a aplicação de práticas conservacionistas, que têm
por concepção fundamental garantir a máxima infiltração e menor
escoamento superficial das águas pluviais.
O controle da erosão em áreas rurais destaca-se
fundamentalmente com a utilização adequada de práticas agrícolas de
conservação do solo, a adoção de medidas contra a erosão associada a
estradas e o fornecimento de subsídios visando ao planejamento da
ocupação agrícola, por meio da elaboração de mapas de capacidade de
erosão das terras.
Partindo da preparação do solo que se determina à potencialidade
do processo erosivo, toda e qualquer medida, para redução da erosão e
aumento da infiltração de água no solo, deve-se considerar os seguintes
pontos básicos:

• impacto direto das gotas de chuva sobre a superfície do solo;

• diminuição da desagregação das partículas do solo;

• aumento da capacidade de infiltração de água no solo;

• redução da velocidade de escoamento das águas superficiais.

São várias as técnicas de conservação do solo adotadas na agricultura,


podendo-se agrupá-las em vegetativas (QUADRO 8), edáficas (QUADRO 9) e

Gerson Salviano de Almeida Filho 44


mecânicas (QUADRO 10). As técnicas de caráter vegetativo e edáfico são de
mais fácil aplicação, menos dispendiosas e mantêm os terrenos cultivados em
condições próximas ao seu estado natural, devendo, portanto, ser
privilegiadas. Recomenda-se a adoção das técnicas mecânicas em terrenos
muito suscetíveis à erosão, em complementação às técnicas vegetativas e
edáficas.

PRÁTICAS DE CARÁTER VEGETATIVO


Utiliza-se a cobertura vegetal como critério básico de contenção da erosão
TÉCNICAS COMENTÁRIOS
Têm sido normalmente utilizadas em culturas permanentes, tais
como plantio de café, laranja e fruticultura em geral, cobrindo os
claros deixados no terreno por suas copas. Em culturas anuais, as
plantas de cobertura, quando utilizadas, visam completar o efeito
Plantas de Cobertura de cobertura já proporcionado pelas plantas cultivadas. Erosão – o
aumento da cobertura vegetal do solo está diretamente
relacionado com o aumento de produção, maior a produção de
biomassa, maior a produtividade e conseqüentemente menores
serão as perdas causadas pela erosão.
Plantio em faixas de exploração contínua ou em rotação,
intercalado, em geral, com culturas anuais ou semiperenes (cana-
de-açúcar, mandioca, etc.). Principais objetivos interceptar a
velocidade das enxurradas e dos ventos, facilitar a infiltração das
águas e permitir a contenção do solo parcialmente erodido.
Erosão – o efeito da cultura em faixa no controle de erosão é
baseado em três princípios: as diferenças em densidade das
Culturas em Faixas culturas empregadas, o parcelamento dos lançantes e a
disposição em contorno. A disposição alternada de culturas
diferentes faz com que as perdas por erosão sofridas por
determinada cultura sejam, em parte, controladas pela cultura que
vem logo abaixo. Culturas como feijão, mamona e mandioca
perdem mais solo e água por erosão do que amendoim, algodão
e arroz, e estas, por sua vez, perdem mais que soja, batatinha,
milho e cana-de-açúcar (LOMBARDI NETO, 1994).
São fileiras de plantas perenes ou semiperenes e de crescimento
denso, (cana-de-açúcar, por exemplo), dispostas com
Cordões de Vegetação
determinado espaçamento e sempre em contorno. Apresentam
Permanente
comportamento de controle da erosão semelhante às culturas em
faixa.
Intercalação nas capinas de maneira a manter parcelas da área
em cultivo, com mato, imediatamente abaixo de outra recém-
capinada. Seu efeito no controle da erosão é semelhante ao
observado na cultura em faixas e cordões de vegetação
Alternância de Capinas
permanente. A eficiência desse sistema no controle de erosão
será tanto maior quanto mais próximas das curvas de nível do
terreno estiveram as ruas das plantas. Sendo bem-conduzido, ele
não afeta a produção (LOMBARDI NETO e DRUGOWICH, 1994).
Quebra-Ventos Barreira densa de árvores visando interceptar a ação dos ventos,
controlando a erosão eólica.
Uma das maneiras eficientes de controlar a erosão nas culturas
perenes (café, cacau, pomares) cortando as ervas daninhas a uma
pequena altura da superfície do solo. Nessa prática deixa-se
Ceifa do Mato
intactos os sistemas radiculares do mato e das plantas perenes e
uma pequena vegetação protetora de cobertura, constituída de
tocos (LOMBARDI NETO e DRUGOWICH, 1994).

Gerson Salviano de Almeida Filho 45


A cobertura do solo com restos de culturas é uma das mais
eficientes práticas de controle da erosão, especialmente no caso
da erosão eólica. Essa pratica tende a melhorar a estrutura do
Cobertura Morta solo na camada superficial. O efeito mais importante, do ponto de
vista de controle da erosão, pela proteção que oferece o impacto
das gotas de chuva e contra o escoamento acelerado da
enxurrada (LOMBARDI NETO, 1994).

Quadro 8 - Práticas de caráter Vegetativo

PRÁTICAS DE CARÁTER EDÁFICO


São práticas conservacionistas que mantêm ou melhoram as condições de fertilidade do solo
e, indiretamente, controlam a erosão.
TÉCNICAS COMENTÁRIOS
Prática muito comum na agricultura brasileira, destruindo a matéria
orgânica e o nitrogênio, bem como a estrutura ou organização das
Controle de Fogo partículas constituintes do solo, condicionando a diminuição na
capacidade de absorção e retenção de umidade. Esta prática
diminui a resistência do solo à erosão.
Incorporação de nitrogênio e matéria orgânica no solo, enterrando-
se restos vegetais ainda verdes. O húmus produzido melhora as
Adubação Verde e Plantio condições físicas do solo pela estruturação e aumento de
porosidade. A porosidade do solo é bastante aumentada pela ação
dos organismos vivos do solo (plantas e animais).
Manutenção e restauração da fertilidade do solo proporcionando
Adubação Química aumento de produtividade e melhor cobertura vegetal, protegendo,
desta forma, o solo.
Incorporação de matéria orgânica no solo pela aplicação de certos
Adubação Orgânica
produtos (esterco e composto orgânico).
Plantio de diferentes tipos de lavouras (plantas que esgotam,
recuperam ou conservam os solos), numa mesma gleba, visando ao
Rotação de Cultura
controle de doenças e pragas e melhoria das características físicas
do solo.
Correção da acidez do solo pela aplicação de cálcio. Solos ácidos
dificultam o aproveitamento do fósforo pelas plantas e o
Calagem desenvolvimento de microorganismos fixadores do nitrogênio
atmosférico. Portanto, a calagem proporciona melhores coberturas
vegetais do solo, protegendo-o contra a erosão.
Quadro - 9 – Práticas de caráter edáfico

PRÁTICAS DE CARÁTER MECÂNICO


São práticas artificialmente desenvolvidas nas áreas de cultivo pela execução de estruturas
em canais e aterros, com finalidade de controlar o escoamento superficial das águas e facilitar
a sua infiltração.
TÉCNICA COMENTÁRIOS
Marcação no terreno de curvas de nível e execução em espaços
estabelecidos de sulcos e camalhões de terra. As fileiras de cultura
Plantio em contorno (Nível) e os sulcos e camalhões, acompanhando as curvas de nível,
constituem obstáculos que se opõem ao percurso livre das
enxurradas, controlando a erosão.
Essa prática é a mais antiga e eficiente de controle de erosão nas
terras cultivadas, sendo constituída de um canal e um camalhão
com a finalidade de parcelar o comprimento de rampa,
possibilitando a redução de velocidade e subdividindo o volume do
Terraceamento
deflúvio superficial facilitando sua infiltração no solo, ou disciplinar o
seu escoamento até um leito estável de drenagem natural
(FIGURAS 14 e 15). São vários os métodos utilizados: terraço em
nível, terraço em desnível, terraço em patamar e outros, e sua

Gerson Salviano de Almeida Filho 46


escolha depende das condições do terreno (tipo do solo e
declividade).
Canais de dimensões apropriadas, vegetados, capazes de
transportar com segurança a água de escoamento superficial
proveniente dos sistemas de terraceamento ou de outras estruturas.
São estruturas rasas e largas, com declividade moderada e
Canais escoadouros
estabelecida em leitos resistentes à erosão. Sua melhor localização
talvez seja a depressão natural, onde são encaminhadas
naturalmente as águas que escorrem em um terreno, desde os
espigões até o rio ou depressão mais baixa.
Quadro 10 – Práticas de caráter mecânico

Figura 14 - Representação esquemática de vários tipos de terraceamento

Gerson Salviano de Almeida Filho 47


Figura 15 – Representação esquemática de um terraceamento mostrando a
retenção das águas da enxurrada e o parcelamento do declive.

5.2 Controle das Ravinas e Boçorocas

O controle destes processos, além de difícil é muito caro, podendo até


ser mais elevado que o próprio valor da terra. Portanto é essencial efetuar as
medidas de controle destes processos para prevenir a sua formação.
As medidas para o seu controle poderão ser feitas por meio dos
seguintes procedimentos ( BERTOLINI et al., 1994):
• isolamento da área afetada com cerca – para evitar o acesso de
gado, trânsito de máquina e veículos que podem favorecer a
concentração da enxurrada e dificultar o desenvolvimento da
vegetação;
• drenagem da água subterrânea – quando atinge o lençol freático, o
sucesso do controle da boçoroca é coletar essa água e ser conduzida
até um leito de drenagem estável, que pode ser feito com dreno de
pedra ou feixes de bambu;
• controle da erosão em toda bacia de captação – evitar que o
escoamento superficial das águas pluviais tenha na erosão um canal
escoadouro. Isso pode ser conseguido com sistema de
terraceamento, canais escoadouros ou divergentes, plantio em nível,
cobertura vegetal ou outras práticas que deverão ser implantadas em
todas as áreas a montante e laterais, formando a bacia de captação
da erosão.
• suavização dos taludes da erosão – as paredes da erosão são muito
íngreme, havendo a necessidade de se fazer suavização nos taludes,
a fim de facilitar a implantação da vegetação protetora do solo;
• construção de paliçadas ou pequenas barragens – essas estruturas
podem ser feitas com madeira, pedra, galhos ou troncos de árvores,
entulho ou terra, tendo a finalidade de evitar o escoamento em
velocidade no interior da erosão (FOTO 18);
• vegetação da erosão – deve ser feita com plantas rústicas que

Gerson Salviano de Almeida Filho 48


desenvolvam bem em solos erodidos, proporcionem boa cobertura do
solo e tenham um sistema radicular abundante. As vegetações mais
usadas na proteção de área com boçoroca são as gramíneas
(batatais, seda, capim-quicuío e a braquiária) e leguminosas (cudzu e
as diversas espécies de Lespedeza spp) ou essências florestais (pinus
e o eucalipto).
Aplicando essas medidas, o processo erosivo estabiliza-se e o solo
começa a reconstituir, mas, a alternativa melhor é a adoção de medidas
preventivas utilizando o uso da terra, segundo sua capacidade, para não
desencadear esses processos. O uso inadequado das práticas
conservacionistas também transforma áreas com grande incidência de
processos erosivos.

Foto 18 – Contenção da boçoroca


com sucessivas paliçadas de madeira

ARQUIVO IPT - 1993

5.3 Noções Sobre Capacidade de Uso das Terras

O método de elaboração de mapas de capacidade de uso das


terras foi originalmente estabelecido nos Estados Unidos da América do
Norte (KLINGEBIEL, MONTGOMERY, 1961), com finalidade de
utilização no planejamento de práticas de conservação do solo, tendo
em vista o controle da erosão, podendo, entretanto, ser utilizado como
subsídios ao planejamento agrícola de forma mais ampla. O método
baseia-se na análise integrada das características físicas e da

Gerson Salviano de Almeida Filho 49


fertilidade do solo, características topográficas do terreno e de
suscetibilidade à erosão.
Ao planejar a conservação do solo de uma área deve -se fazer em
toda a bacia de contribuição, devendo conjugar todas as possibilidades
tecnológicas de maneira adequada para cada situação, além de encarar
a área agrícola passível de uma intervenção, de forma integral,
desconsiderando os limites fundiários individuais, respeitando somente
os limites impostos pela natureza (FIGURAS 16 e 17).
A seguir são apresentados no QUADRO 11, os grupos e classes de
capacidade de uso das terras.

Figura 16 – Microbacia sem planejamento conservacionista (CAIC, 1987).

Gerson Salviano de Almeida Filho 50


Figura 17 – Microbacia com planejamento conservacionista (CAIC, 1987).

GRUPO A
Terras passíveis de utilização com culturas anuais, perenes, pastagens e/ou
reflorestamento e vida silvestre.
CLASSE UNIDADE DE USO CARACTERÍSTCAS
Terras cultiváveis, Apresenta solos profundos; boa retenção de
I aparentemente sem problemas água; média a alta fertilidade e declividade
especiais de conservação. inferior a 3 %; não suscetível à erosão.
Terras cultiváveis, com Apresenta solos profundos; boa retenção de
II problemas simples de água; média fertilidade; declividade de 3 a
conservação. 6%; baixa suscetibilidade à erosão.
Terras cultiváveis com Apresenta solos profundos a rasos; alta a
problemas complexos de baixa retenção de água; alta a baixa
III
conservação fertilidade; declividade de 12 a 20%;
moderada suscetibilidade à erosão.
Terras cultiváveis apenas Apresenta solos profundos a rasos; alta a
ocasionalmente ou em extensão baixa retenção de água; alta a baixa
IV
limitada, com sérios problemas fertilidade; declividade de 12 a 20%;
de conservação. moderada suscetibilidade à erosão.
GRUPO B
Terras impróprias para cultivos intensivos, mas adaptadas para pastagem e
reflorestamento.
CLASSE UNIDADE DE USO CARACTERÍSTCAS
Terras adaptadas em geral para Apresenta solos rasos; mal drenados;
pastagens e/ou reflorestamento, declividade inferior a 3%; não suscetível à
V sem necessidade de práticas erosão.
especiais de conservação,
cultiváveis apenas em casos

Gerson Salviano de Almeida Filho 51


muito especiais.
Terras adaptadas em geral para Apresenta solos rasos à medianamente
pastagens e/ou reflorestamento, profundos; baixa fertilidade; declividade de 12
com problemas simples de a 20%; moderada a alta suscetibilidade à
VI conservação, cultiváveis apenas erosão.
em casos especiais de algumas
culturas permanentes protetoras
do solo.
Terras adaptadas em geral Apresenta solos rasos à medianamente
somente para pastagens ou profundos; baixa fertilidade; declividade
VII
reflorestamento, com problemas superior a 20%; alta suscetibilidade à
complexos de conservação. erosão.
GRUPO C
Terras não adequadas para cultivos anuais, perenes, pastagens ou reflorestamento,
porém apropriadas para proteção da flora e fauna silvestres, recreação ou
armazenamento de água.
CLASSE UNIDADE DE USO CARACTERÍSTICAS
Terras impróprias para culturas. São constituídos por terrenos áridos, muito
VIII
acidentados, pedregosos ou encharcados.
Quadro 11– Classes de capacidade de uso da terra

5.4 Controle da Erosão Associada a Estradas

As estradas são meios de comunicação das comunidades, e por meio


delas é que ocorrem o escoamento da produção agrícola e o transporte das
matérias-primas.
A maioria das estradas situadas nas zonas rurais teve sua execução
realizada de forma inadequada pelos colonizadores. Estes se orientaram pela
estrutura fundiária e pelas facilidades do terreno, mas, como conseqüência,
em períodos de chuvas o desenvolvimento de processos erosivos na pista de
rolamento, às áreas marginais e à sua plataforma como um todo.
Considerando o alto custo da técnica de pavimentação, é importante
obter tecnologias alternativas que possibilitem a manutenção das estradas de
terra, para estas proporcionem boas condições de tráfego durante o ano todo.
Os processos erosivos são observados tanto ao longo da plataforma nos
cortes e aterros, como fora dela, em caixas de empréstimo, áreas de jazidas
exploradas, junto aos pés de aterros e a jusante das obras de transposição
(bueiro, pontilhões, pontes. etc.). As erosões nas estradas vicinais são
desecandeadas inicialmente na forma de sulcos onde os solos têm baixa
resistência à erosão e, sob a ação de enxurradas, envolvem para grandes
ravinamentos, podendo chegar até o nível das águas do aqüífero freático,

Gerson Salviano de Almeida Filho 52


passando tal situação a ser denominada de boçorocas, cujo desenvolvimento
pode apresentar grandes dimensões e rápida evolução.
A principal causa desse processo, instalado nas estradas, é o descaso
na captação e disciplinamento das águas pluviais, de forma a eliminar seu
efeito destruidor de desencadear as erosões e conseqüentemente o transporte
de sedimentos mais rápido para as drenagens (FOTO 19).

Foto 19 – Conseqüências resultantes


da falta de disciplinamento das águas
pluviais em estradas vicinais.

ARQUIVO IPT - 1986

Para implementar projetos de adequação que objetivem realizar


melhorias em estradas rurais, devem ser levados em consideração os
parâmetros técnicos, socioeconômicos, e suas implicações com os aspectos
ambientais, prevendo sua integração com práticas de manejo e uso dos solos
das áreas marginais. Assim, os projetos devem sempre considerar
(DEMARCHI, 2003):

• as estradas rurais devem ser dimensionadas e configuradas de tal


forma que atendam a longo prazo às demandas de tráfego e
possibilitem o acesso às áreas cultivadas nas diversas estações
do ano, sob as mais adversas condições climáticas;

• as estradas rurais são partes do meio rural e para serem


integradas à paisagem devem ser observados requisitos de
preservação ambiental, bem como de proteção e condução
adequadas das águas.

O controle dos processos erosivos em estradas e carreadores deve ser


integrado com as práticas de manejo de solo nas bacias de contribuição, mas,
devem também levar em consideração dois fatores importantes:

Gerson Salviano de Almeida Filho 53


• a água proveniente das áreas de agropecuária não deve chegar às
estradas; e

• a água captada pelo leito da estrada deve ser distribuída nas áreas de
agropecuária, de modo a não causar erosão.

O aproveitamento das águas das chuvas das estradas rurais é feito por
meio da construção de bacias de retenção, tendo como objetivo armazenar as
águas das chuvas, que, por infiltração no solo, vão abastecer o lençol freático,
aumentando o potencial dos mananciais (FOTO 20 E FIGURA 18).

Foto 20 – Estrada vicinal de terra e


escoamento das águas pluviais
controlados por bacias de retenção em
paralelo.

ARQUIVO IPT - 1995


O combate aos processos erosivos nas estradas de terra deve ser
realizado com a execução de um sistema de drenagem eficiente, tendo como
finalidade (IPT, 1988):
• evitar que as águas corram ou empocem sobre a pista, canaletas de
crista, bueiros, passagem livres;
• retirar o máximo possível à água da plataforma através de sangras;
• evitar que as águas corram ou empocem sobre a pista de rolamento,
executando o abaulamento transversal com declividade em torno de 3
% e proteger o sistema de drenagem com canaletas laterais.

Gerson Salviano de Almeida Filho 54


Figura 18– Modelo de bacias de captação locadas em paralelo e em série
(BERTOLINI, 1992).

6 EROSÃO URBANA

As primeiras ocorrências de erosões urbanas expressivas conhecidas no


Brasil são das regiões Sul e Sudeste. Datam de cerca de 60 anos no Oeste de
São Paulo e 40 anos no Noroeste do Paraná, coincidindo, praticamente, com
o ápice do processo de colonização e ocupação dessas regiões, realizados
através do desmatamento intensivo para plantio de café, culturas anuais de
algodão e amendoim, e a instalação de núcleos urbanos, ao longo das
ferrovias e rodovias.

Gerson Salviano de Almeida Filho 55


A alta freqüência de ocorrências dos processos erosivos resulta das
precárias condições de infra-estrutura, por projetos mal concebidos de
drenagem, ou mesmo, pela escolha de áreas naturalmente adversas.
A erosão urbana se expressa mais freqüentemente nas formas de erosão
laminar e de sulcos ou ravinas nas vias públicas e áreas periféricas, e mais
intensamente na forma de boçorocas que, de forma acelerada, destroem
edificações e equipamentos urbanos (FOTO 21).

Foto 21 – Limitações no
crescimento do bairro; risco à
população devido à magnitude do
processo erosivo.

ARQUIVO IPT - 1993


Os principais fatores que influem na erosão em áreas urbanas e
relacionadas com o escoamento superficial (PONTES, 1980), são:
• vazão do escoamento das águas pluviais;
• declividade do terreno; e
• natureza do terreno.
Assim, para combater de maneira efetiva a erosão nessas áreas
urbanas, deve-se atuar sobre esses fatores, de forma a eliminar ou atenuar a
influência dos mesmos. Dentre as principais causas do desencadeamento e
evolução dos processos erosivos nas áreas urbanas podem ser destacados):
• a maioria dos loteamentos populares e conjuntos habitacionais não
conta com sistemas de drenagem de águas pluviais e servidas, ou,
quando os tem, são deficientes (FOTO 22);
• o sistema viário, de maneira geral, tem implantação inadequada, com
ruas perpendiculares às curvas de nível, ausência de pavimentação,
guias e sarjetas ( FOTO 23);
• a expansão urbana é realizada de forma descontrolada, com a
implantação de loteamentos e conjuntos habitacionais em locais não

Gerson Salviano de Almeida Filho 56


apropriados, sob o ponto de vista geotécnico e agravado pela
deficiência ou ausência de infra-estrutura básica; e
• a implantação de loteamentos em topos de colinas, fazendo com que as
águas pluviais sejam lançadas próximas da zona urbanizada, à meia encosta
ou cabeceira de drenagem, as quais ficam submetidas à ação erosiva.

Foto 22 – Conseqüência em
loteamento sem a implantação de
guias e sarjetas.

ARQUIVO IPT - 1989

Foto 23 – Construção de Conjunto


Habitacional em área de ocorrência
de uma grande boçoroca.

ARQUIVO IPT - 1993


As conseqüências no desenvolvimento das boçorocas nas áreas
urbanas, além de atingir imóveis e infra-estrutura representadas pelas obras
de redes de água, esgoto, telefone, eletricidade, drenagem pluvial e
pavimentação, podem também gerar as seguintes conseqüências indiretas
(ALMEIDA, et al. 1999):

• interrupção do tráfego, por efeito da erosão ou conseqüência de


assoreamento, ou alagamento das vias (FOTOS 24 e 25);

• aplicação de novos investimentos na região;

• saída de indústrias que são prejudicadas pelos processos erosivos;

Gerson Salviano de Almeida Filho 57


• desvalorização imobiliária;

• decréscimo de arrecadação nas áreas degradadas;

• intranqüilidade da população;

• migração dos núcleos urbanos;

• assoreamento da drenagem, com redução da capacidade de escoamento


de condutos, rios e lagos urbanos;

• transporte de substâncias poluentes agregadas aos sedimentos;

• fator limitante da expansão urbana, em função dos altos custos de correção;


e

• desenvolvimento de focos de doenças, pela prática comum de aterro com


lixo urbano e despejo de esgoto.

Foto 24 – Interrupção de uma


Avenida em decorrência de erosão.

ARQUIVO IPT - 1993

Foto 25 – Conjunto Habitacional com


processos erosivos na malha viária,
em razão da ausência de
pavimentação.

ARQUIVO IPT - 1993

Gerson Salviano de Almeida Filho 58


7 CONTROLE DA EROSÃO EM ÁREAS URBANAS

Na origem, a erosão urbana está associada à falta de planejamento


adequado, que considere as particularidades do meio físico, as condições
socioeconômicas e as tendências de desenvolvimento da área urbana. Este
desenvolvimento amplia as áreas construídas e pavimentadas, aumentando
substancialmente o volume e velocidade das enxurradas e, desde que não
dissipadas, concentra os escoamentos, acelerando os processos de
desenvolvimento de ravinas e boçorocas, com perdas significativas para a
população e o Poder Público local. Pode-se considerar que já foi alcançada
uma boa experiência quanto às medidas corretivas que vem sendo
implantadas no sul-sudeste brasileiro e, em particular, no estado do Paraná.
A bibliografia analisada demonstra que no controle dos processos
erosivos lineares urbanos somente são executadas obras de correção, quando
afetam aquelas formas de uso e ocupação do solo que representam altos
investimentos por unidade de área (urbanização/industrialização e obras civis).
As tentativas de correção são muito caras com referências a obras civis, nas
suas concepções inexistem avaliações detalhadas de seu desempenho. Da
mesma forma, como já foi registrada por GUIDICINI & NIEBLE (1976), não se
encontram referências detalhadas às obras de contenção na bibliografia
internacional disponível.
A alta incidência de feições erosivas resulta das precárias condições de
infra-estrutura, projetos de drenagem mal concebidos, ou mesmo, pela
escolha de áreas naturalmente adversas.
Segundo PRANDINI (1985), a correção e o diagnóstico dos mecanismos
de eclosão e evolução das erosões lineares se dão através de estudos
geológicos e geotécnicos, que contribuem para a concepção de:
• medidas preventivas que evitem a deflagração destes processos
erosivos; e
• medidas corretivas eficientes e econômicas, que garantam a
interrupção de sua evolução e permitam aplicação em larga escala,
como são exigidas pela extensão das áreas atingidas.

Os mais recentes trabalhos que apresentam a concepção de obras de correção

Gerson Salviano de Almeida Filho 59


implantadas, já mostram, de alguma forma, não ignorar o papel erosivo da água
subsuperficial (DAEE, 1980; 1989; FENDRICH, 1997; IPT, 1986, 1991b; ALMEIDA,
1997 e 1999).
Assim, ao mesmo tempo em que se aperfeiçoam as técnicas de
disposição das águas pluviais, de forma a dissipar a energia das águas nas
obras terminais (SAAB, 1980; FENDRICH, 1997), no controle das boçorocas,
já são adotados os dispositivos (drenos, filtros, e septos) que buscam evitar a
ação erosiva da “percolação excessiva e o possível colapso da estrutura”, ou,
ainda, recomendando tipos de estruturas não totalmente estanques (como os
gabiões) que “facilitam o controle dos solapamentos pelas águas de
infiltração” (PONTES, 1980).
O controle corretivo das erosões consiste na execução de um conjunto
de obras, cuja finalidade primordial é evitar ou diminuir a energia do
escoamento das águas pluviais sobre terrenos desprotegidos, que pode ser
conseguido com obras de sistema de drenagem tais como: pavimentação das
ruas, guias, sarjetas, bocas de lobos e galerias de águas pluviais. No controle
destes processos, é fundamental a análise da bacia de contribuição para a
elaboração de projetos, contendo:
• microdrenagem;
• macrodrenagem; e
• obras de extremidades.
Mesmo quando as águas superficiais são captadas por sistemas
apropriados de redes de galerias, constata-se, com freqüência, o
desenvolvimento de erosão no ponto de lançamento, devido à falta ou
ineficiência de sistemas de dissipação de energia, ou o lançamento é feito á
meia encosta ou na cabeceira de drenagem (FOTO 26).
Em virtude de vários insucessos em obras de controle de erosão,
principalmente em boçorocas, IWASA e PRANDINI (1980) salientam a
necessidade de manutenção em obras de controle, bem como de um
acompanhamento sistemático e crítico do desempenho da obra. Tem-se
verificado que medidas de correção parcial de boçorocas urbanas chegam a
agravar ainda mais o processo. Os melhores resultados são obtidos mediante

Gerson Salviano de Almeida Filho 60


planos que levam em conta o tratamento da bacia drenante a montante e o
tratamento do processo erosivo.

Foto 26 – Lançamento do sistema


de drenagem á meia encosta, sem a
execução de um dissipador de
energia.

ARQUIVO IPT - 2001

O elemento essencial no desempenho destas medidas indicadas é a


pavimentação das ruas para o adequado funcionamento da rede de drenagem
urbana, que garante a estabilização e a eficiência do sistema de drenagem.
Portanto, a pavimentação deve ser entendida como parte integrante do
sistema, fazendo-se necessária para que essas obras não sejam inutilizadas.
Um aspecto muito importante na garantia da obra implantada é a
manutenção do sistema hidráulico, pois, muitas vezes uma pequena medida
de engenharia ao longo da vida útil do sistema de drenagem/contenção, feita
adequadamente, evita ou impede o colapso.
Das observações feitas em vários processos erosivos urbanos (ravina e
boçoroca), no estado de São Paulo, e, pela grande experiência de contenção
de erosões realizadas pelos Órgãos de Controle de Erosão do Paraná,
podemos concordar com FENDRICH, 1997, que conclui:
• não existe um tipo de obra adequada para toda e qualquer situação;
• soluções econômicas e simples só existem se aplicadas no início do
desenvolvimento dos processos erosivos;
• aplicação de vegetação como complemento a qualquer obra ou
medida de engenharia no controle dos processos erosivos é
recomendável;
• a implantação de drenos no interior das boçorocas;

Gerson Salviano de Almeida Filho 61


• não há diferença entre erosão rural e urbana, pois a diferença está
nas medidas de controle;
• as entidades responsáveis pela contenção desses processos devem
ter em mente que não existem obras, mesmo que caras, que sejam
completamente seguras, devido à probabilidade de afluir um maior
risco hidrológico;
• deve ser executada manutenção do sistema hidráulico na contenção
da erosão e na bacia de contribuição.
O projeto de contenção de uma boçoroca envolve, desta forma, aspectos
geotécnicos e urbanísticos. O primeiro exige a caracterização e quantificação
dos fatores e mecanismos, e o segundo, inclui a possibilidade e alternativas
de ocupação da área. A concepção do projeto deve, necessariamente,
considerar o adequado conhecimento dessas questões, sendo fator decisivo
para o sucesso das obras de contenção (IPT, 1986).
A elaboração de projetos de sistemas de drenagem, visando à
recuperação dos processos erosivos, tem que se integrar ao crescimento
planejado da área ao seu redor. Grande parte do fracasso dos projetos de
drenagem e de contenção dos processos erosivos advém do
subdimensionamento das suas estruturas, diante da expansão urbana, ou da
não-instalação de eficientes estruturas de dissipação nos pontos de deságüe,
e na ausência dos estudos geotécnicos necessários para a correta concepção
do projeto (ALMEIDA FILHO, 1997).
As boçorocas são processos dinâmicos e, durante a concepção do
projeto, deve-se levar em consideração as mudanças geométricas, o que
exige certa flexibilidade do projeto.
Apesar de existirem mecanismos comuns a todos os processos erosivos,
todo projeto deve considerar as especificidades próprias de cada erosão, o
que dificulta a generalização de solução padrão. Assim, de modo geral, a
elaboração do projeto de contenção deve levar em conta alternativas que
contemplem as seguintes medidas principais:
• disciplinamento das águas superficiais;
• disciplinamento das águas subterrâneas, que é uma das principais

Gerson Salviano de Almeida Filho 62


causas do desenvolvimento lateral e remontante, através de drenos
filtrantes impedindo o carreamento do solo (“piping”);
• estabilização dos taludes ou recomposição da área por
terraplenagem e revegetação;
• execução de emissários conduzindo as águas nos pontos do talvegue
estáveis; e
• conservação das obras.

7.1 Diretrizes para o Planejamento de Controle da Erosão

A origem e a evolução dos processos erosivos lineares urbanos


dependem fundamentalmente das condições locais de ocorrência, tanto no
que se refere aos elementos do meio físico (solo, relevo, intensidade e
freqüência das precipitações pluviométricas) como das modificações
introduzidas pela urbanização (sistema viário, edificações).
Grande parte dos projetos de contenção de boçorocas apresenta sérios
problemas de eficiência, principalmente por subdimensionamento das suas
estruturas, frente à dimensão e complexidade dos fenômenos erosivos.
Na maioria dos casos, a causa desses problemas está na ausência ou
inconsistência dos estudos básicos necessários para a correta concepção do
projeto de contenção. Tais estudos devem visar à obtenção de respostas às
questões relacionadas às características fenomenológicas específicas da
erosão e à disponibilidade de materiais de construção.
O projeto tem que se integrar à concepção planejada do crescimento da
cidade, pois as cidades assentadas em áreas com alta suscetibilidade a
processos erosivos lineares têm que ter planos diretores especificamente
concebidos frente às características dos terrenos. O planejamento urbano
destas cidades se impõe, não só como medida preventiva contra o surgimento
de novas boçorocas, mas, também, como condição básica para a correta
concepção e o sucesso de obras de correção para as boçorocas já instaladas.
É fundamental o levantamento das características dos processos
erosivos lineares de maneira simples e objetiva, tais como suas causas e
dinâmica de sua evolução que podem ser organizados em forma de ficha de
campo. Para o levantamento dessas informações, recomendam-se os

Gerson Salviano de Almeida Filho 63


seguintes procedimentos:

a) histórico do processo erosivo linear – levantamento das


informações relativas às causas da deflagração do fenômeno e as épocas
mais importantes de sua evolução, por meio de contatos com moradores,
análise de documentação existente, fotografias aéreas antigas e recentes.

b) caracterização da bacia de contribuição – Tem por objetivo principal


entender o caminhamento das águas pluviais e das águas servidas desde sua
procedência, na bacia de captação até a cabeceira da erosão e seus ramos
ativos; como também determinar o comprimento de rampa, declividade e
caracterização do estado atual de ocupação. São subsídios para orientação
do cálculo da vazão e, conseqüentemente, para o correto dimensionamento
das obras hidráulicas.

c) dados geométricos do processo erosivo – utilizado para determinar


o volume, podendo dar idéia do porte da erosão. Os dados geométricos
(profundidade, comprimento e largura) subsidiam para o dimensionamento
das medidas de controle.

d) dinâmica da erosão – corresponde á descrição dos principais


fenômenos responsáveis pelo desenvolvimento do processo erosivo,
destacando a evolução remontante por escoamento superficial, presença da
ação de água subsuperficial nos descalçamentos e trincamentos paralelos às
bordas.

e) medidas de controle implantadas e seu desempenho – permite


registrar a existência ou não de obras de controle ou combate à erosão, e
descrever os tipos de obras implantadas.

f) previsão de evolução e nível de criticidade – avaliação das


tendências de evolução do processo, considerando as alterações na interação
do processo erosivo com a área urbana. Determinar o nível de criticidade da
boçoroca com base na avaliação integrada de fatores intrínsecos ao processo
(estágio evolutivo da boçoroca e velocidades previsíveis) com os fatores do
uso e ocupação atual, objetivando a possibilidade de destruição de moradias e

Gerson Salviano de Almeida Filho 64


equipamentos urbanos, ou a iminência destes serem atingidos devido à
dinâmica de evolução da erosão.

g) croqui do processo erosivo – apresentar o desenho da boçoroca no


terreno, integrado com a área urbana; apresentado informações de geometria,
declividade, surgências d‘água, estabilidade dos taludes etc.

No ANEXO A é apresenta-se um modelo de preenchimento de ficha de


cadastro de processos erosivos lineares.

7.2 Procedimentos para Controle dos Processos Erosivos Urbanos

Conhecendo-se as características da bacia de contribuição e dos


processos erosivos, passa-se à concepção das obras de contenção e à
elaboração do projeto executivo, de maneira a garantir a eliminação das
causas ativas do desenvolvimento dos processos erosivos. É importante
salientar que durante a elaboração do projeto tem-se que conhecer:

• as características geométricas dos processos erosivos que podem


sofrer modificações após curtos períodos de chuva, exigindo
flexibilidade do projeto com adaptação de obras a ser implementadas
durante a construção;

• apesar de existir erosão, cujos processos e mecanismos erosivos, são


comuns, todo projeto deve considerar as especificidades próprias da
erosão, o que dificulta a generalização de soluções padrões para um
determinado conjunto de processos erosivos.

Na elaboração do projeto é fundamental a análise da bacia de


contribuição para a elaboração de projetos, contemplando o conjunto de
medidas principais que consistem basicamente de:
a) microdrenagem - é importante, no controle e prevenção da erosão,
evitar o escoamento direto sobre o solo, através de estruturas de
captação e condução das águas superficiais (sarjetas, bocas-de-lobo,
coletores, galerias e poços de visita);
b) macrodrenagem - são obras responsáveis pelo escoamento final das águas
pluviais drenadas da área urbana, para fora do perímetro urbano, até

Gerson Salviano de Almeida Filho 65


atingirem os locais adequados para deságüe em dissipadores de energia,
ou seções artificiais ou naturais, hidraulicamente estáveis (emissários em
tubos de concreto armado, canais abertos ou fechados de concreto armado,
canais abertos em gabiões e grama). As obras de macrodrenagem visam
melhorar as condições de escoamento para minimizar os problemas de
erosões, assoreamento e inundações ao longo dos principais talvegues. A
solução definitiva seria prolongar o emissário até um córrego ou talvegue
que apresentasse estabilidade, conduzindo-o às vezes, pelo interior da
erosão até um local adequado para a descarga das águas, onde a sua
energia possa ser dissipada (FIGURA 19);

Figura 19 – Parte de um projeto de emissário visando controle das águas


dentro de uma ravina ou boçoroca (DAEE/IPT, 1989).
c) obras de extremidades – são os dissipadores de energia, dispostos
na saída dos emissários, tendo a finalidade de reduzir a velocidade
das águas, de tal forma a permitirem um escoamento tranqüilo no
talvegue receptor (ex: Bradley-Peterka, bacia de imersão, dissipadores de
ressalto hidráulico e ressalto de esqui). Entre os vários tipos de dissipadores,
tem-se:
• degraus dissipadores – Esse tipo de dissipador é adequado para pontos de
deságüe onde a declividade é muito acentuada, assim é conveniente a
utilização de vários degraus de baixa altura, para reduzir o problema de
erosão e turbulência (FOTO 27).

Gerson Salviano de Almeida Filho 66


Foto 27 – Escada hidráulica de
gabião

ARQUIVO IPT - 1996

• Bacia de imersão – Esse tipo de dissipador baseia-se no fato de que as


águas descarregadas escavariam o terreno naturalmente até atingir a
profundidade de equilíbrio. O fluxo d’água que sai da galeria tem alta
velocidade reduzida ao entrar na bacia, sendo distribuída ao longo do
escoamento para jusante. É constituída de uma escavação revestida em
enrocamento pesado tendo uma camada filtrante por baixo, areia brita ou
geotêxtil (FIGURA 20). Orientações para dimensionamento desse dissipador
podem ser encontradas em FENDRICH, et al. 1997.

Figura 20 – Exemplo de bacia de dissipação tipo mergulho (PONTES, 1980 e


FENDRICH, 1997).

Gerson Salviano de Almeida Filho 67


• dissipador de impacto tipo BRADLEY PETERKA- obtém-se a dissipação
pelo choque do jato de água num defletor vertical suspenso e pelos
redemoinhos que se formam pela mudança de direção da corrente. Esse tipo
é indicado para descarga de até 11 m3/s e velocidade até 9 m3/s (FIGURA
21). Orientação para dimensionamento deste dissipador pode ser encontrada
em FENDRICH, et al., 1997.

Figura 21 – Exemplo de dissipador de energia tipo bacia de impacto


(PONTES, 1980 e FENDRICH et al., 1997).

• dissipador com ressalto hidráulico – É provocado por uma sobrelevação


brusca da superfície líquida, com a alteração da velocidade do escoamento
ao passar de um regime rápido a tranqüilo. Esses dissipadores de energia
são projetados para canais abertos (FIGURA 22).

Figura 22- Modelos de dissipador de Ressalto Hidráulico

Gerson Salviano de Almeida Filho 68


d) pavimentação – obras destinadas a evitar a erosão laminar e em
sulcos, nas ruas onde a declividade é maior, assegurando a
adequada eficiência do sistema de microdrenagem. A pavimentação
deve ser entendida como parte integrante do sistema de drenagem,
apesar do alto custo envolvido, convém sempre rever o plano
urbanístico da cidade, de modo a priorizar para pavimentar as ruas de
maior concentração de escoamento superficial (FOTO 28).

Foto 28 – A conseqüência de não


implantar a pavimentação em rua com
declividade acentuada.

ARQUIVO IPT - 1995

e) estabilização dos taludes ou aterro da boçoroca – são obras


complementares com a finalidade de proteger os taludes resultantes,
contra a erosão promovida pelas chuvas e contra possíveis
escorregamentos. Essas obras normalmente são realizadas através
de serviços de terraplenagem (cortes com bermas e aterros) e
medidas de proteção superficial através de revegetação. Na área de
empréstimo a ser usada como aterro, deve ser executados a remoção
da camada superficial e armazenamento do solo para,
posteriormente, lançá-lo sobre o material de aterro possibilitando uma
recuperação imediata da vegetação. Nesse material devem ser feitos
ensaios geotécnicos, (granulometria, ensaio de compactação proctor,
limite de ATTERBERG, infiltração, densidade e umidade natural). Na
FIGURA 23 são apresentados, de uma maneira genérica, as medidas
e os principais tipos de obras na estabilização de taludes dos
processos erosivos.

Gerson Salviano de Almeida Filho 69


f) revegetação – a cobertura vegetal tem papel importante no controle
da erosão. Ela colabora para a estabilização dos taludes laterais,
diques e reaterro, protegendo o solo descoberto pelo movimento de
terra do impacto direto das gotas de chuvas, além de conter e
dispensar o escoamento superficial concentrado.

OBRAS DE
ESTABILIZAÇÃO
DE TALUDES

INSTABILIZAÇÕES
INSTABILIZAÇÃO
EM CORTES
EM ATERROS

RETALUDAMENTO
RECONSTRUÇÃO

OBRAS DE OBRAS DE
OBRAS DE DRENAGEM DE PROTEÇÃO
CONTENÇÃO SUPERFICIAL E SUPERFICIAL
SUBSUPERFICIAL

Figura 23 – Fluxograma de obras de estabilização de taludes

g) estabilização de talvegues (leito da boçoroca) – Para promover o


equilíbrio e impedir a evolução da boçoroca, utiliza-se sistemas de
barragens escalonadas no seu leito (FIGURA 24), permitindo, assim,
diminuir a declividade do fundo do talvegue e estabilizar o leito pelo
assoreamento. A construção dos barramentos (semelhante ao dique)
no interior da boçoroca deve ser feita à jusante do dique de terra.
Todas as barragens devem ser construídas em única etapa, para que
o assoreamento causado pela barragem a jusante proteja a barragem
de montante, e assim sucessivamente. As soluções comumente
encontradas são diques de terra (FIGURA 25), barragem em gabião, e
solo cimento. É importante ressaltar, que estas medidas não têm
como finalidade a retenção de água, mas, apenas dos sedimentos.

Gerson Salviano de Almeida Filho 70


Figura 24– Sistema de Barragens Escalonadas

SOLO CIMENTO\
MANTA DE GABIÕES CRISTA

CAPTAÇÃO
NÍVEL DE ASSOREAMENTO
BANQUETA

SATURADO
SOLO CIMENTO
ATERRO

VIGA DE APOIO

COLARES ANTIPERCOLANTES

DRENO TAPETE FILTRO


ESTACAS

Figura 25 – Barragem em terra com vertedor tipo cachimbo.

h) disciplinamento das águas subterrâneas – a ação das águas


subterrâneas (lençol freático ou lençol suspenso) é apontada como
um dos maiores desafios existentes na execução de obras em
boçorocas. Ao atingir o lençol freático, os mecanismos de erosão são
intensificados em função do surgimento do gradiente piezométrico
que ao emergir no pé do talude, apresenta suficiente força para
deslocar partículas, podendo estabelecer o processo de erosão
tubular regressiva (“piping”). Ocorre também, a liquefação do material
arenoso pela lenta percolação d’água junto à parede da boçoroca,
provocando uma diminuição da coesão do solo e conseqüente
solapamento do talude. O tratamento convencional é feito com a
aplicação de drenos enterrados, visando à drenagem das águas
subsuperficiais de maneira a impedir o arraste do solo pelo “piping”. A
seguir são mostrados os tipos de drenos e suas características
(FIGURAS 26, 27 e 28):

Gerson Salviano de Almeida Filho 71


Figura 26 – Exemplo de um dreno cego – composto de uma valeta revestida
com material filtrante e de um seguimento de tubo perfurado, colocado na
saída do dreno sobre o material filtrante instala-se material impermeável,
normalmente constituído por argila ou plástico (selo) (DAEE/IPT, 1989).

Figura 27 – Dreno com material sintético geotêxtil – trata-se do revestimento


de uma vala com manta geotêxtil de preenchimento com material filtrante de
enchimento, após o envolvimento total do material filtrante com a manta de
geotêxtil procede-se o fechamento da vala com material impermeável que
funciona como selo (DAEE/IPT, 1989).

Figura 28 – Dreno de bambu- é executado com bambus amarrados em feixes,


assentados em vala e envolvidos com brita; o fechamento da vala é feito com material
impermeável. Método recomendado para boçorocas rurais (DAEE/IPT, 1989).

Gerson Salviano de Almeida Filho 72


i) Conservação das obras – inspeções periódicas para verificação das
condições das estruturas hidráulicas, e monitoramento específico para
avaliar o funcionamento dos drenos e filtros. Com o colapso de uma
simples estrutura, seu efeito destruidor se multiplica, comprometendo
toda a obra. Dessa forma, medidas de manutenção como a limpeza e
desobstrução de canais e tubulações, reparos em canais e
dissipadores podem prolongar a vida útil das obras (FOTOS 29 e 30).

Foto 29 – Assoreamento da caixa de


passagem.

ARQUIVO IPT - 1993

Foto 30 – Ausência de dissipador de


energia na saída da galeria,
ocasionando danos à obra e
comprometendo a sua eficiência.

ARQUIVO IPT - 1995

Quando as obras de microdrenagem e de pavimentação forem


implantadas sem a execução das obras de macrodrenagem e extremidades,
haverá uma transferência dos processos erosivos das áreas urbanas para as
periurbanas, com agravamento da situação. Nas bacias onde forem
implantadas essas adequadamente, mas, a malha viária não tiver
pavimentação, os problemas causados pelos efeitos da erosão laminar e em
sulcos prejudicam a eficiência de funcionamento do sistema de drenagem devido ao
intenso assoreamento.

Gerson Salviano de Almeida Filho 73


7.3 Elementos para o Dimensionamento do Projeto de Microdrenagem:

Esse tema que será desenvolvido a seguir aborda os aspectos mais


importantes para a realização de um projeto de captação e condução de
águas superficiais. O dimensionamento de um sistema de drenagem de
águas pluviais é baseado nas seguintes etapas (TUCCI et al, 1995):
• subdivisão da área e traçado;
• determinação das vazões que afluem à rede de condutos; e
• dimensionamento da rede de condutos.

7.4 Componentes da microdrenagem

A realização de uma rede de microdrenagem de águas pluviais


adequada e eficientes exige grandes investimentos por parte do Poder
Público. É importante que os técnicos procurem soluções econômicas mais
convenientes em estudos básicos preliminares, tais como: dados
pluviométricos e características da bacia de drenagem contribuinte.
A infra-estrutura de captação e condução de águas superficiais é
composta pelos elementos descritos a seguir (FIGURA 29):
a) Sarjetas: pequenos canais abertos de condução de águas superficiais
para as bocas-de-lobo;
b) Bocas-de-lobo: são dispositivos que fazem a conecção das sarjetas
com as galerias permitido o afluxo das águas que escoam pela
superfície para condutos fechados;
c) Galerias: condutos destinados a conduzir as águas captadas pelo
sistema de drenagem superficial da área urbana.
d) Poços de visita: dispositivos de acesso às galerias que permitem a
mudança de direção, declividade, diâmetro, assim como, a
manutenção das canalizações.

7.5 Levantamento de dados

Para podermos elaborar um projeto de microdrenagem urbana será


necessário o levantamento dos seguintes dados:

Gerson Salviano de Almeida Filho 74


Figura 29 – Elementos constitutivos de um sistema de microdrenagem urbana
(BARROS, 1995).

Gerson Salviano de Almeida Filho 75


• Obtenção de plantas plani-altimétrica da área, na qual será realizado
o projeto, na escala 1:2000 (curvas de nível de 1 em 1 metro) ou
1:5000 (curvas de nível de 5 em 5 metros). Caso não se obtenha essa
planta pode-se delimitar o divisor topográfico por meio de uma
poligonal nivelada.
• Realização de levantamento topográfico para obter o nivelamento
geométrico em cada esquina para obter-se, com melhor precisão, as
áreas de influência nos pontos de entroncamento.
• Cadastro das redes de esgoto pluviais ou outros serviços que possam
interferir na área de projeto (por ex. tubulações enterradas).
• Situação da urbanização por tipo de ocupação e densidade de
ocupação dos lotes, além de identificar o uso e ocupação do solo a
montante da instalação, para não ocorrer um sub dimensionamento do
sistema em um curto período.
• Analisar curso de água receptor, que receberá o lançamento final para
evitar impactos futuros, como problemas de inundações e daqueles
relacionados á dinâmica do rio.

7.6 Cálculo do Projeto de Microdrenagem para Determinação da Vazão

O método adotado para o cálculo do projeto de microdrenagem para


dimensionamento das estruturas do sistema de drenagem e o Racional por ter
sido muito usado nos projetos de sistemas de drenagens em aeroportos, são
2
também para bacias pequenas (<2 km ), ou ainda que tenham de tempo de
concentração menor do que uma hora. Os seus princípios básicos são (TUCCI
et al, 1995):
• a duração da precipitação máxima do projeto é igual ao tempo de
concentração da bacia. Admite-se que a bacia é pequena para que
essa condição aconteça, pois a duração é inversamente proporcional
à intensidade;
• adota-se um coeficiente único de perdas, denominado C, estimado
com base nas características da bacia;
• não se avalia o volume da cheia e a distribuição temporal das vazões.

Gerson Salviano de Almeida Filho 76


A equação do modelo é a seguinte:

Q = 0,278 ⋅ C ⋅ I ⋅ A

Onde:
Q → vazão, em m³/s;
C → coeficiente de escoamento superficial, adimensional;
I → intensidade de precipitação, em mm/h;
A → área da bacia, em km²;
7.6.1 Coeficiente de escoamento superficial

O coeficiente de escoamento superficial é um índice que determina a


parcela da precipitação que atinge a seção de vazão como escoamento
superficial. Dentre os vários fatores que o influenciam, pode-se destacar o tipo
de cobertura superficial como sendo o principal deles. Para obter-se este
valor, utilizar-se a tabela apresentada abaixo (TABELA 1), que leva em
consideração o tipo de ocupação da zona. Deve-se observar que os valores
estão compreendidos em intervalos, onde, a extremidade inferior dá a solução
de menor segurança, já a outra extremidade visa exatamente o oposto quanto
aos aspectos mencionados.

Tabela 1 – Valores adotados pela Prefeitura de São Paulo (WILKEN, 1978).


Zonas C
Impermeabilização muito elevada: 0,70 – 0,95
cidade com terrenos não permeáveis e
ruas e calçadas pavimentadas.
Impermeabilização elevada: ruas e 0,60 – 0,70
calçadas pavimentadas com terrenos
poucos permeáveis.
Impermeabilização média: partes 0,50 – 0,60
residenciais com ruas pavimentadas.
Impermeabilização baixa: partes 0,25 – 0,50
residenciais com jardim e ruas
pavimentadas.
Subúrbio: pequena densidade de 0,10 – 0,25
construções.
Matas, parques e campos: partes 0,05 – 0,20
rurais e áreas verdes com grande áreas
coberta por vegetação.
FONTE: WILKEN, 1978.

Gerson Salviano de Almeida Filho 77


Pode-se também obter o valor do coeficiente de escoamento superficial
através do seguinte cálculo.

ÁreaCoberta × 0,8 + ÁreaDescoberta × 0,3


C=
ÁreaTotal

Obs.: Devido o coeficiente de escoamento superficial ser adimensional não


importa a unidade de entrada das áreas, desde que sejam todas iguais.

7.6.2 Intensidade de precipitação:


Para estimar a intensidade de precipitação é necessário, em um primeiro
instante, calcular o tempo de concentração, que corresponde ao intervalo de
tempo que demora em uma gota de chuva escoar até o ponto de captação
mais próximo. A intensidade da chuva de projeto é função da sua duração e
da precipitação máxima, e deve ser igual ao tempo de concentração.

7.6.2.1 Tempo de Concentração

Existem várias equações para o cálculo do tempo de concentração. Uma das


mais utilizadas para pequenas bacias é a equação do Método Califórnia por:
0, 385
 L3 
Tc = 57 ⋅  
H 
onde:

L → extensão do talvegue principal, em km;


H → diferença da cota entre o ponto mais afastado da bacia a seção
principal.

7.6.2.2 Tempo de Retorno

O período de retorno (T) de uma chuva ou de um pico de cheia está


diretamente relacionado com o grau de segurança que se deseja proporcionar
aos bens protegidos e, portanto, ao dimensionamento das obras.
A freqüência das descargas de projetos dos sistemas de galerias de
águas pluviais corresponde a chuvas com períodos de retorno que variam de 2
a 10 anos. A TABELA 2 apresenta um resumo das freqüências das chuvas a
serem consideradas para o dimensionamento de galerias.
A seleção do período de retorno de um evento hidrológico de qualquer

Gerson Salviano de Almeida Filho 78


projeto requer, usualmente, um estudo técnico-econômico que indique qual o
risco do capital aplicado nessas obras. Esse risco está associado aos danos
provocados por um evento hidrológico de mesma probabilidade que o de
projeto e deve, portanto, ser minimizado (DAEE, 1994). Na TABELA 3 são
apresentadas as probabilidades de ocorrência de um evento hidrológico em
função do período de retorno (T) (DAEE, 1994).
Tabela 2 – Períodos de retorno para diferentes ocupações (DAEE/CETESB,
1980).
TIPO DE OBRA TIPO DE OCUPAÇÃO TEMPO DE
RETORNO
Residencial 2
Microdrenagem Comercial 5
Aeroportos 2-5
Áreas comerciais 5-10
Áreas comerciais e 50-100
Macrodrenagem residenciais
Áreas de importâncias 500
específicas
FONTE: DAEE/CETESB, 1980
Tabela 3 – Probabilidade de ocorrência de um evento hidrológico em função
do período de retorno (T) (DAEE, 1994).

Período de retorno Probabilidade de que o evento será igualado ou excedido


T em anos do pelo menos uma vez em período de anos de:
evento 05 10 15 20 25 50 75 100
05 0,672 0,892 0,964 0,988 0,996 -- -- --
10 0,410 0,651 0,794 0,878 0,928 0,955 -- --
15 0,292 0,498 0,646 0,748 0,822 0,968 0,994 0,999
20 0,266 0,402 0,537 0,642 0,723 0,923 0,979 0,995
25 0,185 0,366 0,458 0,558 0,640 0,870 0,954 0,983
50 0,096 0,183 0,262 0,332 0,396 0,636 0,701 0,868
75 0,063 0,122 0,178 0,230 0,278 0,480 0,635 0,730
100 0,049 0,096 0,140 0,181 0,222 0,395 0,549 0,634
200 0,025 0,049 0,073 0,095 0,118 0,222 0,314 0,394
500 0,009 0,020 0,030 0,039 0,049 0,095 0,140 0,181
FONTE: DAEE, 1994

Gerson Salviano de Almeida Filho 79


Essas probabilidades podem ser consideradas como fatores de risco,
visto que representam o risco de dano e destruição que o engenheiro
necessita assumir na ocasião do projeto de uma estrutura de drenagem.
Analisando-se a intensidade de chuvas históricas, é possível, por meio
de tratamento estatístico, obter equações que representem as variações
dessas intensidades em função da duração e da freqüência das chuvas.
Essas equações de chuva são muito utilizadas em projetos de drenagem. A
seguir é apresentada, uma equação genérica e várias equações de chuvas de
diversas localidades (TABELA 4).

Tabela 4 – Algumas equações de chuvas de cidades Brasileiras


EQUAÇÕES DE CHUVAS
I - intensidade média de chuva, em mm/min.; Tc - tempo de concentração,
em minutos; Tr - período de retorno, em anos;
EQUAÇÃO GENÉRICA Tr m
I =K⋅ K,m, T0, a →
(Tc + T0 )a
parâmetros de calibragem da equação que
deve ser determinado para cada local.
CIDADE EQUAÇÃO

São Paulo 3462,7.Tr 0,172


i=
(t + 22)1,027
Curitiba 5950Tr 0, 217
i=
(t + 26)1,15
Rio de Janeiro 1239Tr 0, 5
i=
(t + 20) 0,74
Belo Horizonte 1447 ,87Tr 0,10
i=
(t + 20) 0,84
Fortaleza 506,99Tr 0,181
i=
(t + 8) 0, 61
Brasília 3645
i= Tr para 10 anos
(t + 16) 0,945
Porto Alegre a
i=
t +b
Tr=5 anos: a=23 e b=2,4
Tr=10 anos: a=29 e b=3,9
Tr=15 anos: a=48 e b=8,6
Tr=30 anos: a=95 e b=16,5
FONTE – ZUFFO, 1997 e GENOVEZ, 1993

Gerson Salviano de Almeida Filho 80


7.6.3 Dimensionamento hidráulico

Feito o cálculo do dimensionamento hidrológico, pode-se fazer os


dimensionamentos hidráulicos, que permitirá coletar as águas pluviais na área
urbana e levá-las até um outro local, onde essas não possam causar
problemas com a formação de erosão.

7.6.3.1 Galerias

O dimensionamento hidráulico das tubulações da galeria é efetuado


utilizando-se a fórmula de Manning, aliada à equação da continuidade. O
cálculo depende do coeficiente de rugosidade e do tipo de galeria adotada. Na
TABELA 5 são apresentados os coeficientes de rugosidade.

(Rh ) 2 / 3 (I )1 / 2
V = onde:
n
Rh = Raio hidráulico
I = declividade longitudinal dos tubos
n = coeficiente de Rugosidade
V= velocidade de escoamento à seção plena

Q = A.V onde
2
A= área de seção do tubo em (m )
V = velocidade de escoamento em (m/s)
3
Q = vazão a seção plena em (m /s)

Tabela 5 – Alguns valores do coeficiente de rugosidade de Manning (TUCCI


et al. 1995)
CARACTERÍSTICAS n
canais retilíneos com grama de até 15 cm de altura 0,30 – 0,40
canais retilíneos com capins de até 30 cm de altura 0,30 – 0,40
Galeria de concreto
pré-moldado com bom acabamento 0,011 – 0,014
moldado no local com formas de madeira 0,012 – 0,014
Sarjetas
asfalto suave 0,013
asfalto rugoso 0,016
Concreto suave com pavimento de asfalto 0,014
concreto rugoso com pavimento de asfalto 0,015
pavimento de concreto 0,014-0,016
pedras 0,016

Gerson Salviano de Almeida Filho 81


7.6.4 Macrodrenagem

As obras de macrodrenagem são as responsáveis pelo escoamento final


das águas pluviais provenientes da microdrenagem, que englobam o leito das
ruas, guias e sarjetas, bocas de lobo e galerias. A importância da
macrodrenagem tem a finalidade de conduzir melhores as condições de
escoamento dessa rede para atenuar os problemas de erosões,
assoreamento e inundações ao longo dos principais talvegues.
Constitui-se, basicamente, de canais naturais ou artificiais, galerias de
grandes dimensões, estruturas auxiliares e obras de proteção contra erosão,
incluindo também outros componentes, tais como vias marginais e faixas de
servidão. Embora independentes, as obras de macrodrenagem mantém um
estreito relacionamento com o sistema inicial de drenagem, devendo ser
projetada conjuntamente no estudo de uma determinada área. O
aprofundamento desse tema pode ser encontrado em FENDRICH et al., 1997
e TUCCI et al., 1995.

8 PREVENÇÃO DA EROSÃO URBANA

Como já foi dito, a ocupação desordenada atua como importante agente


desencadeador de processos erosivos, devido ao surgimento das cidades em
locais impróprios, o crescimento delas sem a utilização de instrumentos
técnicos adequados, como Planos Diretores compatíveis com realidade
regional, e ausência de infra-estrutura adequada, aliado ainda às
características do meio físico, tais como solos arenosos muito suscetíveis à
erosão.
Para prevenir os efeitos dos processos erosivos deve-se definir e
implementar adequadamente práticas de prevenção. Iniciado o processo
erosivo, todas as alternativas de contenção são caras e de difícil execução.
Os projetos de loteamentos ou conjuntos habitacionais devem ser
concebidos a partir de planejamento urbanístico integrado, que contemple
eficiente e adequado sistema de drenagem. Deve contemplar também, como
condição básica, a correta concepção de obras de correção para os processos
erosivos já instalados.

Gerson Salviano de Almeida Filho 82


Em alguns países vêm sendo elaboradas, aprovadas e aplicadas às leis
do uso do solo, tanto para áreas rurais, como para urbanas. Essas leis são
conjuntos de dispositivos legais que orientam melhor o uso do solo. Nas áreas
urbanas, regulamentam os trabalhos de terraplanagem de novos loteamentos,
aberturas de novas ruas etc., para diminuir a fonte dos processos erosivos e,
por conseqüência, a produção de sedimentos que serão depositados nas
obras de drenagem urbanas.
Em agronomia, são bastante conhecidas as práticas de prevenção e
controle da erosão. A erosão, dada sua intensidade, atinge diretamente os
horizontes do solo, reduzindo o espaço para o crescimento e busca de
nutrientes pelas raízes levando ao empobrecimento do solo e baixa
produtividade agrícola. São bastante conhecidas as práticas de prevenção e
controle na proteção do solo frente à ação erosiva da gota da chuva e do
escoamento superficial, e na possibilidade de promover a exploração racional
de determinada área, considerando-se suas potencialidades e limitações.
Dentre as questões técnicas, destaca-se a utilização adequada de práticas
agrícolas de conservação do solo, podendo agrupá-las em vegetativas,
edáficas e mecânicas.
O plano de prevenção da erosão urbana consiste basicamente de
ordenamento do assentamento urbano, que estabelece as normas básicas
para evitar problemas futuros, além de planejar situações que favorecem o
desencadeamento do processo erosivo, e, no caso de espaços já ocupados,
reduzir ou eliminar os possíveis efeitos negativos dessa ocupação.
Para a garantia de implantação de um plano de prevenção, devem ser
definidas diretrizes legais, compreendendo uma legislação relativa ao
perímetro urbano, zoneamento urbano, arruamento e loteamento. Para
prevenir, ou seja, evitar a erosão nessas áreas, pode-se planejar e programar
as expansões dentro da técnica estabelecida para o controle e,
conseqüentemente, para que não sejam necessárias aplicações volumosas
de recursos em sedes ou distritos urbanos que, com uma simples expansão
de área, vejam ressurgir problemas antes combatidos. A observação nos
mostra claramente que toda a tecnologia desenvolvida no combate à erosão

Gerson Salviano de Almeida Filho 83


urbana, ao longo do tempo, foi muito voltada a tentar controlar os processos
desencadeados ao invés de tentar preveni-los.
Evidentemente, trata-se de um processo dinâmico, que deve
acompanhar a expansão urbana, a implantação de infra-estrutura, e o
aumento de densidades ocupacionais, apesar de que o próprio grau de
urbanização torna-se agente causador do processo erosivo. O uso e a
ocupação do solo devem atingir os objetivos de minimização dos efeitos
destes fatores sobre a erosão urbana, definindo as restrições de uso,
justificáveis do ponto de vista econômico ou social.
A implementação de medidas preventivas e o enfrentamento de
problemas decorrentes do uso e ocupação do solo realizado de forma
inadequada, buscando a melhoria da qualidade de vida e a própria otimização
dos investimentos, exigem análise e sistematização integrada dos processos
que sejam significativos para o conhecimento e a abordagem do meio
ambiente (FREITAS e ALMEIDA, 1995). Uma ferramenta fundamental na
prevenção dos processos erosivos é a elaboração de Carta Geotécnica, que
tenha como pressuposto básico:

• predeterminar o desempenho da interação entre o uso do solo e o


meio físico, bem como indicar os conflitos potenciais entre as próprias
formas de uso e ocupação;

• orientar medidas preventivas e corretivas para minimizar


deseconomias e riscos aos empreendimentos e no meio circundante.

A carta geotécnica é um produto resultante da caracterização dos


terrenos, considerando os parâmetros dos seus componentes físicos, os quais
induzem ao desenvolvimento de processos e fenômenos responsáveis pela
dinâmica da crosta terrestre.
Assim, a cartografia apresenta diversas denominações, de acordo com o
objetivo, conteúdo, natureza dos terrenos e formas de ocupação (BITAR et al.,
1992; FREITAS e ALMEIDA, 1995):

• Cartas Geotécnicas (lato sensu) – apresentam as limitações e


potencialidades dos terrenos e estabelecem diretrizes de ocupação;

Gerson Salviano de Almeida Filho 84


• Cartas de Risco Geológico – avaliam os danos potenciais à
ocupação de acordo com as características ou fenômenos naturais ou
induzidos pelo uso do solo;

• Cartas de Suscetibilidade – destacam um ou mais fenômenos ou


comportamentos indesejáveis, para uma determinada forma de uso do
solo (p. ex. Carta de Suscetibilidade a erosão);

• Cartas de Atributos (geológicos, geotécnicos) - apresentam a


distribuição geográfica de características de interesse a uma ou mais
formas de uso e ocupação;

• Cartas de Capacidade do Uso da Terra – cartas que têm a


finalidade específica do uso rural/agrícola, desenvolvidas a partir do
confronto do mapa de classes de declividade dos terrenos com as
unidades pedológicas do solo. Estabelecem classes homogêneas de
terras com base no grau de limitação deste uso, e subclasses com
base na natureza da limitação.

8.1 Carta de Risco Potencial de Erosão

A carta de risco de erosão em áreas urbanas é um instrumento para


prevenção e controle de erosão e, conseqüentemente, para a preservação
ambiental.
Essa carta é a síntese integrada entre as condições do meio físico
(geologia, pedologia e geomorfologia) e do uso e ocupação atual do terreno,
frente à formação de novos processos erosivos e ao avanço daqueles já
instalados. Trata-se de um produto dinâmico que se modifica frente às novas
condições de uso do solo a ser instalada. A principal função da carta de risco
potencial de erosão é a determinação de medidas preventivas à erosão,
visando a futura ocupação de determinadas áreas. Fornece subsídios do meio
físico para o Plano Diretor Municipal, no que diz respeito ao parcelamento do
solo urbano, com orientações para a prefeitura nas determinações das
diretrizes dos projetos de loteamentos em áreas de alto risco aos processos
erosivos. Quanto ao código de obras, são indicadas soluções normativas de

Gerson Salviano de Almeida Filho 85


obras de controle de erosões e diretrizes do planejamento do sistema viário.
No planejamento urbano, pode auxiliar na determinação do zoneamento de
uso do solo, na delimitação do perímetro urbano e no direcionamento do vetor
preferencial de expansão urbana (IPT, 1997). A FIGURA 30 mostra a
metodologia para elaboração de cartas de suscetibilidade e risco à erosão
aplicada no IPT (Canil, 2000 apud MACEDO 2001).
Estudos mais recentes vêm tornando mais precisos alguns aspectos
previamente abordados em relação a planos preventivos e caracterização
geotécnica das áreas afetadas por boçorocas.
O estabelecimento de bases técnicas adequadas para a ocupação
urbana é de fundamental importância para que o crescimento urbano não
determine novos processos erosivos ou que o crescimento urbano não seja
cerceado pela boçoroca.
A prevenção e controle da erosão em centros urbanos constituem uma
obrigação da administração pública comprometida com o planejamento ambiental, a
qualidade de vida e segurança da população. Somente dessa forma, será possível
estabelecer programas de prevenção ou de controle, constituídos por planos rigorosos
de uso e ocupação do solo e de restrições de ocupação.
Os loteamentos continuam sendo implantados, na maioria dos casos,
em total desacordo com regras básicas e elementares; e o uso e ocupação do
solo ocorrem de forma pouco racional, resultando quase sempre em
agressões e no desequilíbrio do meio ambiente.
O controle dos processos erosivos deve ser efetuado através de uma
ação efetiva de caráter preventivo seguido de outra ação de caráter corretivo
nas áreas de ocorrências dos processos erosivos.
A carta de risco também pode orientar a prefeitura na escolha e seleção
de áreas para instalação de futuros conjuntos habitacionais e loteamentos
populares que são, atualmente, os maiores potencializadores de erosão, por
se instalarem geralmente em terrenos de menor custo, situados em áreas
mais problemáticas, sob o ponto de vista geotécnico. Para isto é necessário
que as recomendações para algumas áreas de maior suscetibilidade aos
processos, seja definida um uso específico, como, bens públicos do tipo

Gerson Salviano de Almeida Filho 86


parques, praças, áreas verdes, campos de futebol.

Base Cartográfica Bacias Hidrográficas


(unidade de análise)

CONDICIONANTES CLIMA
NATURAIS (análise
pluviométrica)

GEOLOGIA GEOMORFOLOGIA PEDOLOGIA


(litologia) (declividade e formas de vertente) (textura)
ANÁLISE DOS PROCESSOS EROSIVOS

MAPA GEOLÓGICO MAPA DE DECLIVIDADE MAPA DE SOLOS

Unidades Homogêneas dos Identificação das feições


Terrenos de erosão e sedimentação
(compartimentos CARTA DE FEIÇÕES DE
geomorfopedológicos) EROSÃO E SEDIMENTAÇÃO

CARTA DE
Identificação dos tipos de uso do solo
SUSCETIBILIDADE
CARTA DE USO E OCUPAÇÃO DO SOLO
À EROSÃO

Legislação CARTA DE RISCO DE


Ambiental EROSÃO

Planejamento do uso e ocupação do solo


Medidas para prevenção dos processos erosivos

Figura 30 – Metodologia para elaboração de cartas de suscetibilidade e risco


à erosão aplicada no IPT (Canil, 2000 apud MACEDO, 2001).
Baseado na carta de risco deve-se realizar o planejamento da
urbanização considerando alguns aspectos importantes como:

Gerson Salviano de Almeida Filho 87


• vetor de crescimento da cidade;
• áreas industriais;
• aterro sanitário;
• conjuntos habitacionais quanto ao arruamento (traçado, direção,
tamanho e largura);
• tamanhos dos lotes; e
• sistema de drenagem.
As recomendações devem sempre estar embasada nas características
das particularidades dos terrenos e dos processos envolvidos.
Na legislação vigente, não há norma ou lei específica destinada ao
controle eficiente da erosão urbana, mas a legislação federal sobre o
o
parcelamento do solo urbano (Lei n 6.766, de 19/12/1979) contempla tópicos
relacionados à prevenção da erosão nas áreas urbanas.
Para os processos erosivos lineares urbanos devem ser estabelecidos
mecanismos institucionais na lei de parcelamento do solo, obrigatoriedade de
obras de controle de erosão, com obras de infra-estrutura dos loteamentos.
Para finalizar, é fundamental realizar trabalhos educacionais amplos, de
conscientização da comunidade em geral e, em especial, às crianças, sobre
os sérios problemas referentes ao uso inadequado do solo e das medidas
preventivas que devem ser tomadas para que os problemas erosivos no Brasil
sejam atenuados e controlados.

9 IMPACTO DA EROSÃO NOS RECURSOS HÍDRICOS

O impacto da erosão nos recursos hídricos manifesta-se através do


assoreamento dos cursos d’água, reservatórios e a deterioração da qualidade
dessas águas, além de trazer com maior freqüência e intensidade de
inundações danosas e também alterações ecológicas que afetam fauna e
flora (FOTOS 31 e 32).

Gerson Salviano de Almeida Filho 88


Foto 31 – Represa de lazer no

FOTO: NARIQUI
município de Bauru, SP.

Foto 32 – O impacto da erosão


FOTO: NARIQUI

urbana a montante na represa

Quanto aos danos socioeconômicos, destaca-se a ocorrência de


inundações em rios urbanos afetando a população que habita suas margens,
ou, também, a escassez de água para uma determinada população, devido a
colmatação de reservatórios de abastecimento, resultando na diminuição da
capacidade de armazenamento (OLIVEIRA, 1994).
Nos cursos d’água e reservatórios, ocorre o aumento da turbidez, devido
ao aumento da quantidade de sedimentos em suspensão na água. O aumento
na quantidade de sedimentos transportados leva ao aumento da despesa com
tratamento de água para o consumo, além de prejudicar a vida de organismos
aquáticos, pela diminuição da incidência da luz solar.
OLIVEIRA (1994) apresenta uma forma de classificação de erosões
conforme a óptica da produção de sedimentos (QUADRO 12), de maneira que,
modificado, pode também representar o potencial de impacto nos recursos
hídricos de cada forma de erosão.

Gerson Salviano de Almeida Filho 89


Modelos de Tipos de erosão Dimensões Potencial relativo de impacto nos
escoament e feições (ordem de recursos hídricos
o correspondentes grandeza) e
porte

Erosão laminar ou Perda na


Escoamento Transporte de sedimentos a curtas
em lençol, ou espessura de solo
superficial distâncias.
erosão entre (centímetros de
difuso Baixo potencial de impacto
sulcos. solo)
Erosão de
pequeno porte,
Erosão linear em
com largura de 10
sulcos
a 30cm, e Transporte de sedimentos de maneira
profundidade de 5 eficiente. Carreia sedimentos
Escoamento
a 15cm. provenientes da erosão laminar e
superficial
Erosão de também são áreas fontes de
concentrado
pequeno porte sedimentos.
Erosão linear em com largura Médio potencial de impacto.
calhas inferior a 10m e
profundidade
inferior a 50cm.
Erosão de grande
Escoamento porte com largura
Erosão linear em Transporte intenso de sedimentos.
superficial superior a 1m, e
ravinas Alto potencial de impacto.
concentrado profundidade
superior a 0,5m.
Erosão em
Escoamento
estradas vicinais Transporte muito intenso de
superficial
de terra, cujo sedimentos devido à alta concentração
concentrado
projeto e falta de de fluxo de água e a remoção de
com ou sem
manutenção Variada partículas e aprofundamento do leito,
escoamento
potencializam a pela passagem de veículos e máquinas
subsuperfici
erosão (estradas (ex. Patrol).
al
de terra Muito alto potencial de impacto.
concentrado
encaixadas).

Transporte muito intenso de


Escoamento Erosão por
sedimentos devido à energia de
em canal solapamento de Variada
escoamento de canal fluvial.
fluvial. margens fluviais
Muito alto potencial de impacto.

Escoamento
superficial Erosão de grande
concentrado porte com largura Transporte muito intenso de
e Erosão em superior a 5m, e sedimentos devido ao escoamento
escoamento boçoroca profundidade superficial e a ocorrência de piping.
subsuperfici superior a 2m. Muito alto potencial de impacto.
al
concentrado
FONTE: OLIVEIRA, 1994 (modificado).

Gerson Salviano de Almeida Filho 90


Quadro 12 – Formas de erosão e potencial de impacto nos recursos hídricos.
9.1 Assoreamento

O uso inadequado do solo, tanto por atividades agro-pastoris, como por


obras de engenharia civil, pode desencadear o fenômeno de assoreamento de
cursos d’água. O processo de assoreamento numa bacia hidrográfica tem
uma relação direta com processos erosivos que são fontes dos materiais
transportados em suspensão, por arraste ou saltação, depositando-se quando
ocorrem condições favoráveis para a sedimentação.
O problema se torna mais grave em bacias hidrográficas cujo meio físico
apresenta condições favoráveis para o desenvolvimento da erosão e
escorregamento, principalmente nas áreas com práticas agrícolas
inadequadas e onde a expansão dos núcleos urbanos se dá com a instalação
de infra-estrutura precária, bem como, da modificação da velocidade de
cursos d “água por barramentos e desvios.
Um indicio de que uma bacia hidrográfica está sofrendo problemas de
assoreamento e transporte de sedimentos, pode ser observado ao longo da
drenagem, por meio do aspecto da coloração da água e do depósito de
sedimentos.
O assoreamento pode conduzir, a médio ou longo prazo, à inutilização
das barragens para os fins a que foram construídas; igualmente preocupantes
são as conseqüências decorrentes do próprio processo de assoreamento,
com a inviabilização de algumas formas de uso múltiplo do reservatório,
infringidos ao próprio equipamento gerador.
Uma barragem, na rede de drenagem em que foi implantada, constitui
um nível de base local e uma barreira que interrompe o fluxo normal das
águas, diminuindo a sua velocidade e, conseqüentemente, sua capacidade de
transporte de sedimentos. Assim sendo, todo o aporte de sedimentos
transportados por arrastamento no fundo dos canais chega ao reservatório e
nele se deposita, juntamente com uma parcela do material que as águas
transportam em suspensão.
Esse entendimento leva à conclusão de que estudos de assoreamento
em corpos d'água, tanto em seus aspectos qualitativos como quantitativos,

Gerson Salviano de Almeida Filho 91


devem se relacionar às suas causas, ligadas especialmente à dinâmica
superficial e de uso e ocupação de toda a bacia de drenagem.
Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA,
1976), o problema do assoreamento traduz-se pelos seguintes impactos:
• diminuição do armazenamento de água;
• colmatação total de pequenos lagos e açudes;
• obstrução de canais de cursos dágua;
• destruição do habitat aquáticos;
• criação de turbidez, prejudicando o aproveitamento da água e
reduzindo a atividade de fotossíntese;
• degradação da água para consumo;
• aumento dos custos para o tratamento de água;
• prejuízo dos sistemas de distribuição de água;
• veiculação de poluentes como fertilizantes, inseticida, pesticidas e
herbicidas;
• obstrução de canais de irrigação e navegação; e
• abrasão nas tubulações e nas partes internas das turbinas.

9.2 Inundações

As enchentes e inundações representam um dos principais tipos de


desastres naturais que afligem constantemente diversas comunidades em
diferentes partes do planeta, sejam áreas rurais ou grandes metrópoles.
Os cursos d’água naturais são formados pela contribuição das águas
superficiais, ou seja, a parcela das precipitações pluviométricas que escoa
pela superfície dos terrenos, somadas às águas de subsuperfície que
constituem o escoamento de base.
As vazões do escoamento de base, principalmente as do lençol freático,
apresentam variações lentas e de pequena intensidade, enquanto as vazões
das águas superficiais, por estarem diretamente relacionadas com as
precipitações, apresentam grande variação em curtos intervalos de tempo.
Ao ocorrer uma precipitação sobre a bacia de um curso d’água, sua
vazão aumenta de instante em instante até atingir um valor máximo,

Gerson Salviano de Almeida Filho 92


decrescendo em seguida, de forma mais lenta. A esse acréscimo na vazão,
com elevação do nível d’água, por um determinado período, dá-se o nome de
enchente ou cheia. As vazões podem chegar a valores que superam a
capacidade de descarga do leito menor (calha) do curso d’água, extravasando
as águas para as áreas marginais, denominadas leito maior, várzea ou
planície de inundação. Esse extravasamento caracteriza uma inundação.
Portanto, uma inundação é um fenômeno que ocorre sempre que a
vazão a ser escoada é superior à capacidade de descarga da calha de um
curso d’água. Em áreas urbanizadas, esse fenômeno torna-se mais
importante quando existem ocupações nas várzeas que possam ser
prejudicadas com a presença da água.
Excetuando-se os fenômenos meteorológicos, a ocorrência e a
intensificação das inundações têm suas principais causas nas atividades do
homem. O regime dos cursos d’água é modificado quando ocorrem alterações
substanciais nas características físicas das bacias e ocupações das várzeas.
Os fatores que contribuem para a ocorrência de inundações são apresentados
a seguir:

• diminuição da capacidade de descarga das calhas causada por:


-assoreamento, devido ao aumento da quantidade de material sólido
transportado pelas águas pluviais (erosão devido ao desmatamento,
abertura de ruas não pavimentadas, grandes movimentos de terra
para implantação de conjuntos habitacionais, loteamentos
clandestinos ou não, etc.);
-crescimento da vegetação nas margens e no próprio leito menor;
-obstruções localizadas, como pilares e vãos insuficientes em
pontes, bueiros subdimensionados, etc.;
• represamento de um curso d’água contribuinte provocado por cheia
do curso d’água principal;
• construção de obras hidráulicas no curso d’água que provocam
alterações no regime desse curso, tanto para jusante (retificações,
canalizações, etc.) como para montante (barragens);
• descarga de obras de drenagens situadas a montante; e

Gerson Salviano de Almeida Filho 93


• aumento do volume médio escoado nos cursos d’água pela
importação de águas de outras bacias adjacentes.

Os efeitos produzidos por uma inundação podem ser resumidos em


perdas de ordem econômica e social, sofridas por indivíduos estabelecidos
nas áreas afetadas e pelos demais municípios, pois o Poder Público arca com
parte dos danos.
Alguns dos danos causados por inundações são apresentados a seguir:

• perdas de vidas humanas;

• destruição de moradias;

• deterioração do estado de saúde das populações atingidas;

• contaminação dos recursos hídricos, incluindo as águas de


abastecimento, propiciando o aparecimento de surtos epidêmicos;

• perdas de bens materiais na indústria e no comércio;

• paralisação de atividades econômicas; e

• paralisação de alguns serviços públicos (abastecimento de água,


fornecimento de energia elétrica, transporte, comunicação etc.).

Além desses, outros prejuízos e inconvenientes podem ocorrer,


dependendo das peculiaridades da região atingida. Cabe ressaltar que esses
danos ocorrem tanto em áreas diretamente atingidas como fora delas, e seu
valor total depende das características locais da cheia e do tipo de ocupação.
Entre os principais fatores que afetam o valor final dos danos, pode-se
destacar:
• altura da inundação. Quanto maior a altura, maior serão as perdas
de bens materiais;
• velocidade de escoamento. Altas velocidades produzem forças que
podem arrastar pessoas; derrubar postes, árvores e veículos; e
destruir edificações;

Gerson Salviano de Almeida Filho 94


• duração da cheia. Longos períodos de duração acarretam maior
número de perdas de bens materiais além do aumento dos
inconvenientes do deslocamento dos desabrigados;
• transporte de sedimentos. Influem no aumento da ação de abrasão
e do custo e tempo gasto na limpeza das áreas atingidas;
• previsão e aviso da ocorrência de inundações. Quando existe tal
sistema é possível a tomada de medidas de emergência e minimizar
os danos;
• tipo de estruturas existentes. Alguns materiais de construção são
mais susceptíveis a danos que outros; e
• qualidade das águas. Os riscos à saúde pública serão maiores
quando os cursos d’água recebem esgotos domésticos ou
industriais.

9.3 Considerações sobre o Controle de Inundações

Como visto no item anterior, o fenômeno de inundação é conseqüência


de interações entre fatores de caráter hidrológico, hidráulico, geomorfológico e
da forma como o homem ocupa o solo nas bacias de contribuição e nas
planícies de inundação (várzeas).
Controlar inundações significa intervir nos diversos processos e elementos
envolvidos, com o objetivo de evitar a ocorrência desse fenômeno. Sendo, entretanto,
um fenômeno cuja previsibilidade possui natureza probabilística, o controle não pode
pretender eliminar todos os danos, mas evitar aqueles associados a certa
probabilidade de ocorrência. Assim, por exemplo, se um canal for dimensionado para
escoar determinada vazão, essa medida de controle eliminará os danos provocados
por vazões menores ou iguais a essa e apenas reduzirá os produzidos por cheias
superiores. Como há sempre a probabilidade de ocorrer uma cheia superior, existe
em correspondência a cada medida adotada, um risco de inundação e um dano
residual a ser esperado.
Tal consideração nem sempre é compreendida pelos indivíduos
beneficiados com obras de proteção, nem mesmo pela população em geral,
que tende a considerar ser possível resolver o problema definitivamente,
conceito muitas vezes difundido pelos próprios executores dessas obras. Em

Gerson Salviano de Almeida Filho 95


conseqüência, desenvolve-se um falso senso de segurança, fazendo com que
as áreas protegidas sejam intensamente ocupadas, sem que os riscos ainda
existentes sejam levados em conta. Quando ocorre uma cheia superior àquela
de projeto, os prejuízos tendem, então, a ser muito superiores.
Há muito tempo se executam obras para proteção de áreas contra
inundações, como a construção de diques, reservatórios ou da capacidade de
escoamento de canais naturais. Entretanto, apenas neste século, com a
intensificação do fenômeno de urbanização verificado em quase todo o
mundo, é que o problema passou a ser tratado de modo sistemático, surgindo
as primeiras entidades governamentais para cuidar do assunto,
desenvolvendo programas apoiados em bases hidrológicas mais consistentes.
Nas últimas décadas, tem-se procurado não apenas impedir a ocorrência de
extravasamentos, principal objetivo das obras anteriormente acima citadas,
mas intervir de maneira preventiva, modificando tanto as causas de elevados
picos de vazão, como a susceptibilidade a danos, pelo contato com as águas,
das propriedades e benfeitorias que devam se localizar nas planícies de
inundação.
De modo geral, as medidas para o controle de inundações são
classificadas em dois grandes grupos: o de medidas estruturais e o de
medidas não-estruturais.
As medidas estruturais são aquelas destinadas a reter, confinar, desviar
ou escoar com maior rapidez e menores cotas o volume de enchente,
caracterizando-se pela construção de obras hidráulicas de grande porte,
apresentando grande área de influência e envolvendo, freqüentemente, a
aplicação maciça de capitais.
As medidas não-estruturais são aquelas de caráter extensivo, com ações
abrangendo toda a bacia, ou de natureza institucional, administrativa ou
financeira, adotadas individualmente ou em grupo, espontaneamente ou por
força de legislação, destinadas a atenuar os deflúvios ou adaptar os
ocupantes das áreas potencialmente inundáveis para conviver com a
ocorrência periódica do fenômeno.

Gerson Salviano de Almeida Filho 96


9.3.1 Medidas Estruturais

Medidas estruturais são os meios mais tradicionais para controle de


cheias utilizadas em todo o mundo. No Brasil, quase a totalidade dos projetos
para o controle de inundações está classificados nesta categoria de medidas.
Ressalta-se que a adoção de qualquer medida estrutural deve ser
precedido de estudo completo de sua influência em outras regiões da bacia,
pois toda modificação nas características hidráulicas dos canais ou na
distribuição de vazões numa determinada seção tende a provocar alterações a
montante ou a jusante, podendo agravar os riscos de inundação nessas
regiões.
As medidas estruturais que envolvem obras de grande porte e que
beneficiam extensas áreas e necessitam de recursos financeiros elevados,
têm sido implantadas e mantidas por órgãos da administração pública, como
é o caso do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) no Estado de
São Paulo, entre outros de âmbito regional e municipal.

9.3.2 Diques e muros de contenção

Estes tipos são as mais antigas dentre as medidas de proteção e atuam


no sentido de isolar áreas, evitando o contato com as águas, constituindo-se
em um obstáculo físico ao seu avanço, geralmente construídos paralelamente
aos cursos d'água, ou circundando totalmente uma área a ser protegida,
formando “pôlders”.

9.3.3 Reservatórios (piscinões)

A função deste tipo de medida é atenuar o pico da onda de enchente por


meio da acumulação de grandes volumes, descarregando apenas vazões
compatíveis com a capacidade do canal a jusante. A eficiência de um
reservatório na atenuação de cheias depende de seu volume útil (Vu), isto é,
de sua capacidade de reservação. Para cada cheia, caracterizada por sua
vazão máxima e volume, corresponde um volume útil necessário para sua
contenção.

Gerson Salviano de Almeida Filho 97


9.3.4 Aumento da capacidade de descarga

Compreendem obras que visam melhorar as condições de escoamento


das calhas dos cursos d'água, aumentando sua vazão de descarga sem
transbordamento. Procura-se aumentar a velocidade e a seção transversal
através de alargamento, aprofundamento, aumento da declividade por
retificação e corte de meandros, diminuição da rugosidade das paredes com o
revestimento e controle da erosão e do transporte de sedimentos.

9.3.5 Transferência de vazões

Quando o aumento da capacidade de descarga do curso principal não é


tecnicamente viável, podem-se separar parcelas excedentes do deflúvio e
desvia-las para outro curso d'água, natural ou artificial.

9.3.6 Medidas não estruturais

Compreendem conjuntos bastante diversificados de medidas, que


apenas recentemente vêm sendo estudadas e aplicadas.

9.3.7 Tratamento superficial

Essas medidas são destinadas a diminuir o escoamento superficial


direto provocado por uma precipitação pluviométrica, através do aumento da
infiltração no solo e do tempo de concentração das bacias.
Em áreas urbanas, o tratamento superficial consiste em: utilização de
pavimentos permeáveis em vias secundárias, passeios e estacionamentos;
aumento das áreas ajardinadas; recarga do lençol subterrâneo por meio de
tubos perfurados, poços secos, valas de infiltração contendo areia ou
cascalho; concepção do sistema de microdrenagem levando em conta a
acumulação de águas em locais onde isso é possível; e outras.

9.3.8 Medidas individuais ou localizadas (convivência)

Consistem em soluções adotadas individualmente ou por pequenos


grupos de proprietários, para proteger suas propriedades dos efeitos negativos
de inundações. O objetivo principal é evitar que a água entre nas edificações e
se isso ocorrer, que os prejuízos sejam minimizados. Não modificam,

Gerson Salviano de Almeida Filho 98


portanto, as características das cheias, exceto nos casos em que sejam
aplicadas tão intensamente que modifiquem as características da bacia.
Podem ter caráter permanente ou temporário.
São exemplos dessas medidas:
• fechamento temporário ou permanente de aberturas nas edificações,
como portas e janelas, utilizando-se placas metálicas de fácil
colocação ou material vedante nas juntas e fendas;
• utilização de válvulas de retenção nas tubulações de águas pluviais e
de esgotos para impedir o refluxo das águas para dentro dos edifícios;
• construção de novas edificações em cotas acima dos níveis atingidos
por inundações freqüentes;
• elevação de estruturas já existentes;
• construção de diques e muros de contenção em torno das estruturas a
proteger;
• construções estruturalmente resistentes às pressões hidrostáticas e
hidrodinâmicas atuantes, bem como devidamente ancoradas para
evitar a flutuação;
• uso de materiais de construção menos susceptíveis de estragos pelo
contato com as águas;
• impermeabilização de paredes externas para diminuir a infiltração; e
• relocação, dentro de um edifício, dos utensílios e objetos de maior
valor, colocando-os em cotas mais elevadas.
Muitas outras medidas podem ser incluídas nesta relação, pois são
suficientemente flexíveis para aproveitar as peculiaridades de cada região ou
edificação. Muitas vezes são aplicadas de forma desordenada, sem que o
problema seja amplamente analisado, o que pode resultar em baixa eficiência
na atenuação dos danos. Verifica-se, entretanto, que quando aplicadas
racionalmente e apoiadas por normas legais, como os Códigos de
Edificações, e/ou através de entidades públicas, tais medidas apresentam boa
eficiência, razão pela qual tem sido, nos últimos anos, estudadas e
incentivadas por órgãos que atuam no setor.

Gerson Salviano de Almeida Filho 99


9.3.9 Medidas de emergência

Do mesmo modo que as anteriores, estas medidas não modificam as


cheias, apenas diminuem os danos. Consistem na evacuação da população
da área potencialmente inundável antes da sua ocorrência, construção de
diques temporários, por exemplo, com sacos de areia, para proteger locais
especiais e, imediatamente após a passagem da enchente, execução da
limpeza e reabilitação da área. Para isso é necessário um sistema de previsão
de cheias e que o tempo para a chegada da onda de enchente seja suficiente
para o aviso às populações e a execução das medidas. Seu funcionamento
eficaz exige, portanto, a existência de organismos de ação comunitária
suficientemente ágeis e um elevado nível de conscientização e treinamento
das populações ribeirinhas para que tenham comportamentos adequados às
situações de emergência.

9.3.10 Relocação de estruturas

Consistem na remoção de edificações existentes na várzea para locais


de menor risco de inundações, e posterior demolição e aproveitamento do
local, para usos menos afetados pelas inundações.

9.3.11 Disciplinamento da ocupação e uso do solo

Em itens anteriores foi comentada a influência que a ocupação do solo,


exerce sobre os deflúvios tanto dentro quanto fora das planícies de inundação.
O controle do crescimento das áreas urbanas é, portanto, fundamental para
que não se intensifiquem, no futuro, os inconvenientes provocados por
inundações, que aumentam os riscos e insegurança das populações e das
atividades econômicas localizadas nas várzeas, fazendo com que a
comunidade seja obrigada a fazer vultosos investimentos para atenuar seus
efeitos.
Controlar e o uso e ocupação do solo é agir de maneira preventiva,
minimizando as alterações do ciclo hidrológico provocadas pela urbanização.
Na elaboração dos planos de desenvolvimento urbano, além dos fatores de
ordem urbanística, econômica e social, devem ser considerados também os
fatores hidrológicos, nem sempre estudados com a devida atenção e

Gerson Salviano de Almeida Filho 100


profundidade.
As administrações públicas, usando seu poder disciplinador do uso do
solo, podem regulamentar a ocupação das baixadas, fixando as faixas de
servidão em função das características hidrológicas dos cursos d’água,
restringindo a ocupação a atividades que possam conviver com inundações
periódicas. É o caso da utilização das áreas marginais para a implantação de
parques, campos de futebol e áreas verdes, imprescindíveis para o lazer dos
habitantes de aglomerados urbanos.

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Gerson Salviano de Almeida Filho 108


ANEXO A

Gerson Salviano de Almeida Filho 109


Ficha de cadastro de erosão
Ficha de cadastro de erosão
1. Identificação e localização da Estado: MT Município: Alto
erosão Araguaia
Descrição: Localização:
BANDEIRA Fazenda: Santa Lúcia; Proprietário: Vítor
Carlos
Acesso:
MT 100 Alto Araguaia a Taquari, desvio estrada velha

2 Dados regionais
Bacia hidrográfica: Geomorfologia:
Córrego Bandeira Rio Araguaia Colinas Amplas

Geologia: Pedologia:
Formação Botucatu Areia Quartzosa

3. Características da bacia de contribuição


Área (há) Comprimento do Talvegue (m) Declividade Media (%) Declividade media do int. da
0 boçoroca (%)
3500 10
Uso do solo:
Está sendo construída a rodovia MT-100 que passa pelo divisor da bacia. Existe
ainda a estrada antiga que localiza-se paralela ao trecho da estrada nova. Nesta
porção desenvolvem-se os primeiros ravinamentos, predomina a pastagem
associada a árvores isoladas do cerrado. Em direção a jusante predomina o cerrado
de porte médio na margem direita entre os ramos 1 e 2, e cerrado de porte baixo na
margem direita do ramo 3. Na margem esquerda do ramo 3 ocorre pastagem
associada com cerrado de porte baixo. Esta vegetação predomina até o rio
Araguaia. Nos trechos do canal da erosão e nas porções próximas ao trecho
assoreado do córrego Bandeira, há presença de vegetação de várzea associada a
pastagem.

Causas, condicionantes e atenuantes:


A antiga estrada de terra situada a montante da erosão constitui seu principal
condicionante através da concentração da água superficial, provocando sulcos e
ravinas que vão se conectar aos ramos principais da boçoroca. Ao longo desta
estrada foram construídas caixas de retenção/infiltração para a diminuição do
escoamento superficial, que apresentam bom funcionamento, porém, não resolvendo
o problema. A própria conformação da estrada, construída sobre aterro permitiu que
ela funcionasse como barragem para as águas de montante, diminuindo o
escoamento superficial e favorecendo a infiltração.
Existem cercas caídas no interior da erosão. Existe uma antiga estrada cascalhada,
já destruída por ravina, paralela ao corpo principal da erosão (margem esquerda),
terminando em pequena lagoa. Também na margem esquerda há uma linha de
transmissão que está ligada ao sítio na outra vertente da erosão, à jusante. Existe
outro caminho paralelo à margem direita da erosão que termina na casa do sítio.
Bem próximo a margem esquerda da erosão há uma cerca (+_ 2m)

Gerson Salviano de Almeida Filho 110


4. Características da boçoroca
Descrição geral:
Boçoroca de reativação de cabeceira de drenagem, de grande porte, com três
ramos principais, em franco processo de evolução, por concentração de água
superficial e ação de águas de subsuperfície.
Descrição detalhada:
Trecho A: Desenvolvimento generalizado de sulcos e ravinas, formados por
concentração de águas superficiais provenientes da antiga estrada de terra, a
montante, distante cerca de 200m dos ramos principais da boçoroca (trecho B).
Estas ravinas possuem profundidade que varia de 1m a 8m e largura variando de 2m
a 12, sempre com formato em V. Não possuem vegetação interna, e a maior parte
dos taludes apresentam-se instáveis.
Trecho B: Este trecho é definido por três ramos principais (1, 2 e 3), que possuem
taludes bastante inclinados e fundo chato.
Ramo 1: Este ramo é alimentado pela maior ravina (trecho A), com 8m de
profundidade, 12m de largura e extensão de 300m, que deságua em sua cabeceira.
A partir daí é observado o aparecimento de surgências d´água, tendo a boçoroca
70m de largura média, 25m de profundidade média e 140m de extensão até o canal
principal. Os taludes apresentam inclinação igual ou superior a 45º, quase que
totalmente instabilizados devido às surgências d´água na base, que formam
cavidades por piping, causando escorregamentos laterais (planares ou circulares).
Na cabeceira deste ramo, foram observadas várias trincas no solo, que identificam a
movimentação do maciço. O perfil do solo é homogêneo, arenoso, friável, muito
permeável, de cor Vermelho Amarelada (Areia Quartzosa). No fundo de vale
observa-se o transporte de sedimentos, caracterizando o canal com padrão
anastomosado. As condições de fundação são ruins devido à presença do
assoreamento, além do material movediço próximo às surgências d´água nas bases
dos taludes.
Ramo 2: Duas ravinas com profundidade média de 4m, largura média de 6m e
extensão de cerca de 200m, dão origem ao ramo 2 que é o de menor porte em
relação ao 1 e ao 3. Este ramo possui largura média de 40m, 20m de profundidade
média e extensão da ordem de 80m. Próximo a cabeceira deste ramo, observa-se
que o talude da sua margem esquerda está bastante instabilizado com inclinação
média de 33º, com o talude da margem direita parcialmente estabilizado. A jusante, o
talude da margem direita encontra-se muito instável indicando a possibilidade de
evolução remontante devido ao piping, na confluência com o ramo 1. Na base dos
taludes é generalizada a ocorrência de surgências d´água. A vazão da água de
subsuperfície dos ramos 1 e 2 é estimada em 52 l/s. Não apresenta boas condições
de fundação, devido ao intenso assoreamento e ao material movediço próximo às
bases dos taludes.
Ramo 3: Trata se do ramo principal da erosão, instalado sobre a linha do talvegue.
Apresenta vários ramos na forma de ravinas próximos à sua cabeceira em um
trecho de cerca de 100m até a antiga estrada de terra. Estas ravinas apresentam
dimensões semelhantes àquelas que estão contribuindo com os ramos anteriores e
se constituem num conjunto expressivo, egradando o solo e drenando as águas
superficiais para o interior deste ramo da boçoroca. A extensão deste ramo, é da
ordem de 400m, com profundidade média de 18m e largura média de 65m. O setor
de cabeceira apresenta taludes instáveis com várias surgência d´água na base,
provocando o descalçamento e escorregamentos planares no maciço de solo,

Gerson Salviano de Almeida Filho 111


semelhante ao ramo 1. Em direção a jusante, na margem esquerda, os taludes estão
semi estabilizados com presença de vegetação, enquanto na margem direita, várias
surgências d´água e escorregamentos associados caracterizam a sua instabilidade.
A vazão deste ramo é da ordem de 24l/s. No fundo deste ramo o assoreamento é
intenso, não apresentando boas condições para fundação.
Trecho C: A partir da confluência destes três ramos, a água proveniente da
boçoroca, passa a escoar através de canal preferencial (córrego Bandeira). Neste
trecho, o solo característico é de cor acinzentada, arenoso, permeável e friável.
Próximo a confluência dos ramos, o canal possui largura média de 20m e
profundidade de 12m, enquanto no final da erosão possui largura de 4m e
profundidade de 1m. Os taludes do canal estão estabilizados, com vegetação
arbustiva acompanhando toda a sua extensão, com formato em V. A vazão
encontrada neste trecho, corresponde ao total da vazão dos ramos 1, 2 e 3 e é da
ordem de 122 l/s.
Trecho D: Neste local a drenagem encontra se, numa planície, com o canal
meandrante em algumas porções e anastomosado quando entulhado pelo
assoreamento proveniente da erosão. A vegetação é característica de depósito de
assoreamento associada a pastagem. Existem trechos em que o depósito de
assoreamento destruiu a mata ciliar, avançando pela várzea, ocupando extensas
áreas. Nestes trechos o assoreamento não possui nenhum tipo de vegetação, o que
evidencia a sua evolução e movimentação, sendo o material arenoso transportado
para o rio Araguaia.

5. Avaliação das condições da evolução


A erosão está ativa nos trechos A e B e poderá atingir a estrada a médio/longo
prazo, colocando em risco tanto a antiga estrada de terra, bem como, futuramente a
estrada asfaltada.
No trecho A, a evolução é causada por escoamento superficial concentrado que
descalça os taludes laterais, aprofundando o canal que possui formato em V . Este
processo continua, pois apesar da estrada que está sendo asfaltada ter sido
desviada do leito da antiga estrada de terra, as águas provenientes das partes mais
altas desta estrada continuam sendo lançadas dentro das ravinas que se tornaram
caminhos preferenciais do escoamento.
O trecho B é o mais ativo, pois, além do avanço de cabeceira em cada um dos
ramos, existe o avanço lateral. Na cabeceira este avanço é mais intenso, pois,
existe a concentração de águas superficiais proveniente das ravinas que levam a um
aprofundamento destes trechos, e além disso, existem várias surgências d´água que
estão levando à desestabilização da base dos taludes. Os taludes laterais encontram
se em sua maioria desestabilizados favorecendo o alargamento da boçoroca, devido
principalmente à ação do piping nas surgências d´água que criam verdadeiras
cavernas na base dos taludes, induzindo a ocorrência de escorregamentos. Neste
trecho o aprofundamento do canal não é tão intenso, pois este se encontra bastante
assoreado. A continuidade da evolução neste trecho, pode levar a união destes
ramos criando um grande anfiteatro de cabeceira de drenagem, pois a evolução
lateral que existe hoje, está favorecendo a destruição dos divisores internos de
água.
No trecho C a evolução é bastante reduzida, pois está com vegetação arbustiva
abundante em seu interior se comportando como um canal de drenagem natural e
estabilizado num ponto de equilíbrio.
O trecho do assoreamento, ou trecho da planície fluvial,

Gerson Salviano de Almeida Filho 112


6. Principais Impactos
A ocorrência deste processo erosivo está acarretando vários impactos nas bacias
hidrográficas, destacando se:
. degradação do solo;
. risco de destruição das rodovias a montante;
. destruição do cerrado;
. destruição da linha de transmissão de energia, bem como de cercas e do caminho
paralelo à erosão;
. risco de morte de animais e pessoas por queda no interior da erosão;
. assoreamento do córrego da Bandeira; e
. aporte de sedimentos para o rio Araguaia.

7. Sugestões de medidas preventivas e corretivas


As medidas preventivas visam o disciplinamento do uso do solos respeitando os
limites das características naturais do terreno, enquanto as medidas de correção
visam a estabilização do processo e minimização dos seus impactos.
A prevenção se dá através do planejamento do solo agrícola, baseado em estudos
realizados para a confecção de Carta de Capacidade do Uso do Solo e da adoção
de práticas conservacionistas.
Como medidas de correção serão propostas intervenções, através de obras de
engenharia visando a estabilização do processo erosivo e minimização dos seus
impactos.

7.1 Bacia de contribuição:


Como medidas de correção propõe-se:
- cercar a área ao redor da boçoroca;
- disciplinamento das águas superficiais provenientes das estradas através de
sistema de drenagem eficiente (coletores, escadas d´água, tubos, dissipadores),
desviando o fluxo das linhas de concentração atuais, conduzindo até o ponto de
estabilidade do canal fluvial;
- preservação do cerrado, através da recomposição dos trechos degradados;
- adoção de práticas conservacionistas

7.2 Boçoroca:
Para o trecho A:
1- reconformação do terreno através da eliminação das ravinas e caminhos
preferenciais de água, podendo ser realizado através de reaterro ou retaludamento;
2- construção de leiras neste trecho desviando as águas superficiais da cabeceira e
evitando o escoamento superficial concentrado; e
3- recomposição do cerrado em todo o trecho de cabeceira.

No trecho B, envolvendo os ramos 1, 2 e 3, com comportamento e estágio evolutivo


muito semelhante, propõe-se:
1- instalação de drenos profundos (espinha de peixe), visando a captação e
disciplinamento das águas de subsuperfície e estabilização da base dos taludes,
utilizando-se tubos de concreto perfurado, cascalho, areia fina e manta geotêxtil,

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conduzindo desde as principais surgências d´água até o ponto de estabilidade do
canal de drenagem. Para a captação das surgências podem ser utilizados feixes de
bambu em substituição aos tubos de concreto, que seriam utilizados apenas no eixo
principal da espinha de peixe;
2- análise da estabilidade dos taludes laterais da boçoroca após a instalação dos
drenos profundos. No caso dos trechos estáveis, realizar apenas o revestimento
superficial através de revegetação. Nos trechos ainda instáveis, pode-se realizar
duas formas de intervenção:
a) retaludamento para a suavização do ângulo dos taludes, com a construção de
canaletas de crista e de base nas bermas construídas para disciplinamento das
águas superficiais e escadas hidráulicas para a dissipação da energia;
b) alteamento do fundo da erosão através de reaterro, visando diminuir a altura dos
taludes laterais;
3- revegetação dos taludes da erosão através do plantio de gramíneas e
leguminosas de pequeno porte consorciadas com espécies arbóreas nativas do
cerrado. Se necessário, para a proteção dos taludes, poderiam ser utilizadas telas
vegetais, feitas com capim seco entrelaçado que são presas aos taludes através de
estacas; e
4- monitoramento e manutenção de todas as obras realizadas.

O trecho C, apesar de ser o mais estável atualmente, é necessário que seja


monitorado após a implantação das obras de drenagem superficial e dos drenos
profundos, pois pode haver um aumento no volume do escoamento de água que
pode levar à instabilização do canal. Se isto vier a ocorrer, será necessário o
revestimento do canal até que alcance o equilíbrio.

Para o trecho do assoreamento (D) serão propostas medidas interdependentes, a


partir do monitoramento da saída do córrego Bandeira no rio Araguaia, com intuito de
analisar a carga de sedimentos que está sendo transportada.
1- Se este transporte não for expressivo, apenas continuar o monitoramento, e
incentivar a revegetação na superfície do assoreamento com espécies de várzea
(nativas).
2- Se houver um intenso transporte de sedimentos buscar medidas de solução do
problema, como:
a) revegetação do corpo do assoreamento com espécies de várzea (nativas), e
monitoramento do transporte de sedimentos após a implantação desta medida;
b) caso o transporte de sedimentos continuar expressivo adotar o redirecionamento
do canal de drenagem através de seu disciplinamento em canal revestido drenante,
com grelhas geotêxteis, sacos de solo/cimento ou gabião. Incentivo à revegetação
na superfície do assoreamento com espécies de várzea (nativas).
Se o monitoramento detectar que o transporte de sedimentos continua elevado
talvez seja necessário:
c) se as duas medidas anteriores não surtirem efeito deve-se retirar o material do
assoreamento mecanicamente ou através de dragagem. Neste caso, o problema
será a área de bota fora deste material, que pode ser a própria erosão de montante,
desde que todos os cuidados técnicos sejam tomados. Poderia ser realizado o
aterro mecânico ou hidráulico.
8. Disponibilidade de materiais de construção
Na MT 100, sentido Alto Araguaia para Alto Taquari, distando cerca de 14 Km de
Alto Araguaia, do lado direito, existe uma cascalheira que está sendo explorada pela
empreiteira que está realizando a obra de asfaltamento da rodovia.

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9. Ensaios realizados
Foi realizado ensaio de infiltração de água no solo (in situ) e ensaios de
granulometria em laboratório, através da coleta de amostras de solo.

9.1 Ensaio de vazão:


A vazão dos Ramos 1 e 2 foi estimada em 52 l/s.
A vazão do Ramo 3 foi estimada em 24 l/s.
A vazão a jusante da confluência dos Ramos 1, 2 e 3 foi estimada em122 l/s.

9.2 Infiltração:
Infiltração de água no solo estimada em: 0.72 x 10 _3 l/s /m2.

9.3 Laboratório:

10. Identificação da ficha


Referências: Fotos: 10 Coord. 10.1
Sr. Isaías 4.1.1, 4.1.2
EO:
Equipe: Data: Folha topográfica:
José Luis, Kátia (IPT), Humberto, Valdir 29/05/98 Alto Araguaia
(METAGO)
FONTE: IPT, 1998

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