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MÚSICA GOSPEL BRASILEIRA1

Thiago Leme Marconato

1. O que é música gospel?

2. Gospel norte-americano
O gospel se desenvolveu por causa da segregação racial. Os escravos
convertidos que frequentavam igrejas brancas eram inferiorizados. Então começaram a
formar congregações negras2, onde podiam praticar costumes próprios e pensar
diferente dos senhores. A primeira foi a Igreja Metodista Episcopal Africana, fundada
por Richard Allen. A princípio cantavam hinos tradicionais.
Os work songs3 deram base para composições dos hinos negros. É um recurso
musical africano e ainda é usado em igrejas africanas. O negro spiritual também
influenciou.
O gospel cantava as aflições de um povo marginalizado e explorado pelo branco
e foi uma forma de resistência. 1 Joshua fit the battle of Jericho (1957); 2 Precious Lord
Por volta de 1870, o gospel foi levado para fora da comunidade negra (Jubilee4),
ficando popular e dando origem a estilos como blues e jazz. Mas combinações com
esses estilos não eram bem vistas, pois poderiam tirar a pureza do gospel.

3. Brasil
O primeiro culto realizado no Brasil foi em 10/03/1557. De 1555, com a chegada
de huguenotes calvinistas, até 1560 houve uma primeira tentativa de colonização
protestante que fracassou. Provavelmente contavam com Salmos de Calvino5. Mas as
lutas internas e a perseguição aos calvinistas calou o protestantismo.
A segunda tentativa ocorreu na invasão holandesa de 1630 a 1645. Reformados
holandeses fixados no NE organizaram a Igreja Reformada Holandesa no Brasil.
Celebravam festas e atos religiosos com orquestra. A música congregacional seguia os
Corais de Lutero6 e os Salmos de Calvino (a 4 vozes). Mas com a restauração do
governo português, os holandeses foram obrigados a sair do país e se interrompeu
novamente o protestantismo.
No século XVIII, o Santo Ofício visitava o Brasil e estrangeiros eram proibidos
de entrarem no Brasil, exceto a serviço da Coroa ou Igreja. Com a vinda da Família
Real e a abertura dos portos às Nações Amigas, protestantes de vários países vieram; a
hegemonia católica foi abrindo espaço para o protestantismo. No final do século XIX, já
estavam implantadas no Brasil quase todas as denominações protestantes.
Era o Protestantismo de Missão. Praticavam um uniformidade a teologia dos
avivamentos e da era metodista nos EUA, já que o único inimigo era o catolicismo. A

1
Curso ministrado na 15ª edição dos Cursos de Férias UniFil, no dia 30 de junho de 2015.
2
Precious Lord (Thomas Dorsey, conhecido como “pai do gospel”).
3
Work songs afro-americanos numa prisão em Huntsville, Texas.
4
Swing Low Sweet Chariot, Fisk Jubilee Singers (Indiana), 1909.
5
Salmo 23, seguindo a melodia do Saltério de Genebra (séc. XVI).
6
Castelo forte é o nosso Deus (Ein feste Burg ist unser Gott), 1524. [H.M. 206]
pregação falava do amor de Deus, do perdão gracioso pela aceitação, do arrependimento
dos pecados, da santificação e da vida regenerada. Implantaram um protestantismo
interdenominacional, arminiano, evangelístico e centrado no arrependimento e
conversão. Assim como a teologia trazida pelos missionários era a dos avivamentos, a
música entoada congregacionalmente também era. A maioria dos hinos do repertório
missionário era calcada na hinódia folclórica, dos acampamentos e movimentos de
avivamento dos EUA.
O casal inglês Robert e Sarah Kalley chegou em 10/05/1855 e iniciaram a EBD.
Para Sarah, a música era um meio de doutrinar as crianças. Sarah compunha, traduzia e
adaptava hinos para o português, mas não tinha preocupações estético-musicais ou de
originalidade. Seus poemas e traduções eram encaixados em melodias já existentes
(europeias ou americanas). Seu trabalho resultou no primeiro hinário protestante do
Brasil, o Salmos e Hinos, editado pela primeira vez em 1861. Retratam o estilo musical
dos movimentos de avivamento, a partir de Ira Sankey e Dwight L. Moody, inspirados
em melodias populares, exceto salmos metrificados e composições apontando para o
protestantismo clássico. O Salmos e Hinos cantava a teologia do protestantismo
instaurado no Brasil e teve boa aceitação e assimilação. Apesar de suas origens
folclóricas e evangelísticas, os hinos se tornaram a verdadeira e genuína música sacra
protestante, a única considerada litúrgica.

4. Corinhos (1950)
Na década de 1950, começaram a aparecer no Brasil composições musicais
independentes, conhecidas como corinhos ou cânticos (posteriormente). Foram trazidos
pelas instituições paraeclesiásticas, e usadas apenas em reuniões específicas de jovens,
como louvorzões, acampamentos, EBDs, festivais e atividades de evangelização.
Inicialmente não sendo reconhecidas como litúrgicas, essas músicas sempre foram
colocadas à margem da hinódia oficial; a tensão se instaurou na discussão do que podia
ou não ser usado no culto. Mas foram ganhando espaço entre os jovens das igrejas
históricas e se desenvolvendo. Ao longo dos anos, os não-hinos foram sendo agregados
aos cultos de forma bastante lenta e sutil, sempre com muita resistência. No entanto toda
a marginalização e resistência que essas músicas receberam frente à hinódia tradicional
geraram certo descontentamento religioso e insatisfação musical por parte dos jovens e
músicos.

5. Neopentecostalismo (1970)
Na década de 1970, teve início a formação do neopentecostalismo (movimento
carismático ou renovação carismática). Caracteriza-se:
 pela ênfase na batalha espiritual contra o diabo e seus representantes terrenos, que
geralmente é baseada nas guerras do Antigo Testamento entre Israel e nações inimigas,
as quais são contextualizadas numa nova realidade de condições pessoais e sociais
adversas (como fome, desemprego, pobreza, doenças, brigas, depressão e vícios).
Devido à ênfase na subjetividade pessoal e na experiência pessoal com Cristo, cada fiel
pode interpretar o inimigo de uma forma diferente, de acordo com a realidade em que
está inserido. Novas concepções de batalha espiritual vieram dos EUA nos anos 1990,
começando a guerra contra espíritos territoriais e hereditários. Esses demônios são
geralmente identificados com divindades de outras religiões, e para expulsá-los são
realizadas intercessões coletivas nos cultos e nos locais, para libertar, evangelizar e
tomar posse para Deus (Marcha para Jesus). Para os hereditários é preciso renunciar ao
pecado dos ancestrais e quebrar as maldições hereditárias.
 pela difusão da teologia da prosperidade. Promete-se saúde perfeita, prosperidade
material, sucesso nos empreendimentos terrenos, felicidade e vitória sobre o diabo e os
males causados por ele. Rompe-se com os antigos valores e crenças pentecostais. Se
antes a pobreza material não representava nem virtude cristã nem veículo de redenção,
agora ela é associada à falta de fé e à insubmissão aos desígnios divinos. Exalta-se a
riqueza, estimula-se o desejo de fruição de bens materiais, a bem-aventurança deste
mundo é enaltecida, a ênfase na redenção paradisíaca pós-morte cede lugar à pregação
de promessas de bênçãos concretas agora, a espera pelo Messias é substituída pelo
imediatismo. Os pregadores pregam uma salvação terrena. Com isso, a fé se torna um
meio ou recurso para o fiel se dar bem no mundo. Lema IURD
 pelo abandono de grande parte dos tradicionais e estereotipados usos e costumes
puritanos de santidade, pelos quais o crente mostrava sua santidade, a “veste dos
santos”. Agora convivem bem com prazeres e afazeres deste mundo, como assistir à
TV, seguir a moda (ainda que sensual), frequentar praias, piscinas, cinemas, teatros,
praticar esportes.
O mal agora consiste em doenças, baixos salários, desemprego, brigas,
separações, alcoolismo, vícios, solidão, depressão, etc.; responsabilizam o diabo e seus
demônios por todos os males, por isso deve-se combatê-lo. O bem consiste em
prosperidade, saúde, felicidade, sucesso e vitória; isso é concedido aos cristãos de fé. A
principal atribuição divina é curar, acudir, e abençoar as vítimas da ação demoníaca.
O neopentecostalismo só teve visibilidade pública no fim da década de 1980,
com 3 mi de fiéis. Principais denominações: IURD, Sara Nossa Terra, IRC e IIGD.
Nesse período, grupos musicais desafiavam as regras do tradicionalismo
trazendo estilos contemporâneos para a igreja.  Bompastor7
Luiz de Carvalho8, VPC 19, VPC 210  MCC x descontentamento

6. Renascer
Na década de 1980, Estevam e Sônia Hernandes fundaram a IRC em São Paulo.
A IRC é conhecida pelo estilo novo e despojado de seus pastores, pelo culto vibrante e
de caráter festivo, pelas programações inovadoras para jovens e, acima de tudo, pela
música gospel. A marca gospel foi patenteada pela Fundação Renascer, sob a alegação
de que poderia ser usada por pessoas não idôneas.
Estevam Hernandes percebeu o descontentamento dos grupos citados. Sua
estratégia mostra uma amplitude que não havia sido percebida por outros grupos
neopentecostais. Na análise do campo religioso, dois fatores importantes, em cada grupo
foram detectados: os fatores internos ao campo, referentes à questão litúrgica, e os
externos. Um dos fatores internos, como a falta de uma empatia com a hinódia
tradicional por parte dos jovens e dos jovens músicos, foi sem dúvida um ponto muito
bem detectado pela IRC. Cientes da realidade de descontentamento litúrgico e musical
de vários cristãos, lançaram a terminologia gospel no Brasil, no sentido de diferenciar
essa música da que vinha sendo produzida.
O culto da IRC assume a forma de espetáculo. O momento de louvor, que inicia
a liturgia do culto, é realizado sob esse enfoque; euforia e emocionalismo tomam conta
7
Gravadora e importadora evangélica, fundada por Luiz de Carvalho e presidida por Elias de Carvalho.
8
Desperta, Brasil, Álbum 25 anos louvando a Deus, 1972
9
Algo mais, Álbum Se eu fosse contar, 1973.
10
De vento em popa, Álbum De vento em popa, 1977.
desse momento. A IRC trata a música gospel como elemento central e oficial em seus
cultos e renuncia a antiga hinódia protestante.
As músicas da IRC foram difundidas principalmente pelo grupo Renascer Praise.
O grupo foi concebido por Sônia Hernandes na mesma época da fundação da IRC111213.
A banda é o principal nome de divulgação das músicas da igreja e sempre foi um dos
maiores destaques do cenário gospel nacional, dominando quase totalmente os meios de
divulgação do gospel. Além da realização de shows, a banda já realizou gravações de
dezoito álbuns, entre CDs e DVDs, que quase sempre são grandes espetáculos, com
orquestras, coros e danças coreográficas.
Assim a IRC gerou mais liberdade artística na atuação dos compositores e
instrumentistas, valorizando a qualidade musical dos cultos e a boa condição técnica dos
músicos. Antes da IRC, os músicos estavam descontentes pela falta de liberdade
estilística de composição e pela descredibilidade de sua atuação dentro do campo. A
liturgia protestante no Brasil sempre dependeu da ação prática de alguém que soubesse
um mínimo de música para execução de instrumento, regência coral ou ensaio de
crianças, mas geralmente essas pessoas não têm formação profissional na área de
música. Ao mesmo tempo em que a liturgia deve contar com a relevância da música, tal
função é exercida por leigos num duplo aspecto; geralmente quem exerce a função de
músico na liturgia não a exerce fora e, tem um trabalho tecnicamente limitado. Não é
difícil encontrar grandes talentos desenvolvendo essa função nas igrejas, sem nenhum
incentivo à formação técnica, já que a função é exercida de forma satisfatória. Assim a
maioria das igrejas assume uma postura de não preocupação com o grupo responsável
pela música litúrgica, colocando nas mãos de não especialistas uma parte
importantíssima de sua liturgia, a música. Dessa forma, ao dar ao músico o status de
levita, liberdade estilística e possibilidade de profissionalismo, a IRC atendeu ao desejo
de reconhecimento desse grupo; reconhecimento que se deu dentro e fora da igreja.
Outro grupo analisado foi os jovens. Um ponto de descontentamento é a
insatisfação religiosa, ligada à área litúrgica (ao canto congregacional). Mesmo com
ritmos como rock e pop já sendo tocados em reuniões de jovens e em algumas
comunidades, a insatisfação se dava na proibição dessa música, ligada aos gêneros
populares como cântico congregacional. Na igreja o jovem era obrigado a cantar o que
não gostava e era proibido de cantar algo que lhe fosse agradável e culturalmente
acessível. A principal estratégia da IRC foi colocar essa música, que sempre foi
produzida à margem da hinódia oficial, como central e oficial em sua liturgia. Dessa
forma, o culto da IRC adotou completamente o estilo da música popular e renunciou a
antiga e tradicional hinódia protestante, criando um “novo produto litúrgico”.
O fator social do jovem também foi explorado. A IRC deu ao jovem a
possibilidade de entretenimento social, o entretenimento gospel. Seguindo a tendência
de visibilidade social e abandono da atitude ascética e contracultural das igrejas
neopentecostais, o jovem cristão buscou no gospel uma interação com o mundo secular.
Tal necessidade de visibilidade, aliada ao desejo de se sentir pertencente a algum tipo de
grupo social foram proporcionados pelo gospel. Além de não poderem frequentar
lugares comuns a outros de sua faixa etária (como bares, danceterias e shows), as igrejas
protestantes não lhes ofereciam oportunidade de entretenimento. Assim o jovem cada
vez mais se sentia distanciado da convivência social com grupos de sua idade. O

11
RP 1, 1993.
12
Vencedor invicto, Álbum Deus é fiel, 1996.
13
Na força do louvor, RP 12 – Apostólico, 2005, Estádio do Pacaembu.
estereótipo de crente distanciava-o das igrejas protestantes históricas e principalmente
das pentecostais clássicas, pois sua conduta não se enquadrava na severidade do padrão
de comportamento dessas igrejas; para esse tipo de igreja, o roqueiro ao se converter
deixaria de ser roqueiro e passaria a ser crente. Quando a IRC adotou o gospel, manteve
a identidade de cada tribo e manteve a forma externa da mensagem, mudando o
conteúdo. O roqueiro que se converte na IRC continua sendo roqueiro, só que ouve e
dança rock gospel. Dessa forma, o descontentamento duplo do jovem foi percebido pela
IRC e o gospel se tornou um sinônimo de modernidade e liberdade de estilo. O êxito das
programações e shows gospel mostra que o jovem evangélico tem as mesmas
necessidades que outros jovens não pertencentes à sua religião. Na realidade, ser jovem
e gostar de dançar, de se divertir, de usar roupas e acessórios da moda, mesmo os mais
extravagantes, não causa escândalo e é totalmente normal na IRC.
O aspecto analisado no jovem foi a insatisfação causada pelo discurso de
separação dos valores seculares. A IRC tratou o jovem cristão como qualquer outro
jovem, que tem ao seu dispor um mercado musical. Os gostos não foram questionados e
sim incorporados pela igreja. Criaram-se vários grupos musicais para os mais variados
jovens evangélicos, que não podiam aliar religiosidade, gosto musical e diversão.

7. O marketing da Renascer
Estevam Hernandes e seu sócio Antonio Abbud tinham a intenção de aliar
objetivos diferentes ao mesmo produto:
1) ter um produto que satisfizesse a demanda do público jovem;
2) que tivesse características de mercado que atraíssem músicos em busca de
profissionalização e jovens em busca de entretenimento;
3) que pudesse atingir o mercado fonográfico secular, tornando-se um gênero da
música nacional, o gênero gospel.
Para a operacionalização de seus objetivos, a IRC utilizou um planejamento de
marketing cuidadoso. Raimar Richers define marketing como “as atividades
sistemáticas de uma organização humana voltadas à busca e realização de trocas para
com o seu meio ambiente, visando benefícios específicos”. A definição reside na ideia
da troca, que pode envolver objetos tangíveis (como dinheiro e bens de consumo) e
intangíveis (como serviço ou ideias). Mas para que se caracterize como uma relação
mercadológica, a troca tem que ser sistemática e intencional. Assim não é toda troca que
pode ter conotações mercadológicas; a relação de troca só pode ganhar uma conotação
mercadológica quando existir uma especificação objetiva, um público objetivo e um
resultado previsível, o que caracteriza um planejamento de marketing.
A definição de marketing não se aplica apenas em empresas cuja finalidade é
lucro financeiro. Uma campanha social de um hospital visando distribuir remédios a um
determinado grupo, por exemplo, pode ter um planejamento de marketing para os
resultados serem os mais previsíveis e satisfatórios possíveis. Assim se enquadram
também igrejas, que podem usar um planejamento de marketing sem necessariamente
objetivarem lucro. Mas para haver marketing a objetivação de resultados é necessária.
O planejamento de marketing consiste em:
1) Análise: estudo e compreensão das forças vigentes do mercado pretendido;
2) Adaptação: ajuste da oferta da empresa às forças detectadas na análise;
3) Ativação: conjunto de medidas destinadas a fazer com que o produto atinja o
mercado pré-definido e seja adquirido; trata-se da distribuição adequada do produto
para o consumo;
4) Avaliação: controle e interpretação dos resultados para planejar os processos
futuros.
Comparando os passos do planejamento de marketing com a IRC, percebe-se
que alguns pontos em comum: 1) Análise e percepção da insatisfação religiosa; 2) Nova
produção religiosa intencional para satisfazer a um determinado grupo; 3) Abertura de
inúmeras frentes para a distribuição e divulgação do gospel.
Muitas foram as estratégias de ativação gospel. O uso de canais de comunicação
em massa, como rádio e TV, o patrocínio de shows ao vivo, de mega-shows em estádios
com bandas gospel internacionais, gravações e lançamentos de CDs colocaram
definitivamente a música gospel em contato com o público-alvo: o jovem. A instauração
do mercado deu-se por completo. Os agentes internos do mercado falam que é um
movimento sem retrocesso no Brasil.
Entre as variadas formas de divulgar a música gospel exploradas pela IRC estão:
 Terça Gospel no Dama Xoc: início da divulgação do gospel no meio secular. Dama
Xoc era uma casa noturna em São Paulo. Já se divulgava o gospel como algo diferente
de evangélico, ao mesmo tempo em que diferenciava o tratamento do músico, com
ênfase no profissionalismo, e atraía o jovem evangélico com uma opção de
entretenimento gospel fora dos espaços convencionais.
 Evangelismo de segunda-feira na IRC Sede em 1990: lotava a igreja com cerca de 8
mil jovens. Lançou o evangelismo-show. O som era rock pesado e performance
totalmente igual à do meio secular. Jovens evangélicos vindos em caravanas, drogados e
tribos urbanas conviviam juntos. No final do show, um apelo que se identificava com o
público levava milhares à conversão. A IRC arrebanhava os jovens convertidos,
formando um público específico para esse tipo de música, somando aos evangélicos.
 A criação da gravadora Gospel Records: Estevam Hernandes (e Antonio Abbud)
fundou sua própria gravadora em 1990, para lançar as bandas da IRC. Os lançamentos
de CDs começaram a constituir outro tipo de entretenimento gospel. Adotaram um
agressivo sistema de vendas para atingir não só o meio evangélico, disponibilizando
produtos em shoppings e grandes lojas. Encerrou as atividades em 2010.
 Arrendamento da rádio Imprensa Gospel em 1990: inovação na programação, com
ênfase à música gospel com o objetivo de alcançar o público jovem. Grande reforço na
propaganda dos novos e antigos músicos, divulgação dos trabalhos da IRC e
lançamentos da Gospel Records.
 SOS da Vida14, 1991: primeiro show gospel no Brasil com as dimensões alcançadas
(Ginásio do Ibirapuera lotado). É realizado anualmente e conta com participações
internacionais e investimento de empresários seculares.
 I Festival de Música Gospel de Novas Bandas, 1992: objetivo de descobrir novos
talentos para posteriormente serem lançados no mercado pela IRC.
 Marcha para Jesus15: a maior reunião em números de evangélicos do país. Trata-se
de uma caminhada num percurso delimitado pela prefeitura, que termina num grande
14
Valéria, Oficina G3.
15
Uma onda de calor, Resgate, 1993.
show ao ar livre, dirigido por Sônia e Estevam Hernandes, onde vários artistas gospel se
apresentam. A variedade de estilos musicais denota a capacidade de expansão que a
música gospel assumiu. Diversas tribos musicais se encontram no mesmo local,
mantendo suas respectivas identidades. Jovens com cabelos pontiagudos e coloridos,
com braceletes e outros acessórios com o nome Jesus Cristo, misturados na grande
multidão, pulam exaustivamente como se estivessem em qualquer outro show de rock.
A música gospel é um produto simbólico adaptado; veio atender a novas
questões litúrgicas ligadas ao neopentecostalismo e responder a uma demanda religiosa
do protestantismo histórico referente à área da hinódia. Pode-se fazer essa afirmação ao
constatar que essa música é ouvida e difundida por jovens protestantes históricos das
mais variadas denominações. Ou seja, embora seja uma música voltada para as novas
formas de culto neopentecostais, o gospel não se difunde apenas nesses meios, mas vem
sendo amplamente divulgado e consumido pelos jovens protestantes históricos. Os
jovens protestantes, independentemente de sua denominação, têm acesso fácil a esse
mercado e podem, sem censura de suas igrejas, consumir sem reservas todo tipo de
música religiosa.
É nesse ponto que a característica do mercado se faz presente. A música gospel
está ligada ao mercado gospel em sua gênese; falar de gospel é falar de mercado. Nem a
procura religiosa, nem a produção religiosa por si só pode provocar o consumo
religioso; este é resultado, única e exclusivamente, da convergência de uma procura
religiosa insatisfeita com a oferta do produto adequado a esta procura. Sempre que e
somente se ocorrerem essas duas condições, ocorrerá consumo religioso. Ou seja,
somente quando um produto aparece para suprir alguma insatisfação religiosa é que o
consumo religioso acontece. Dentro dessa perspectiva, pode-se verificar a formação de
um público, na maioria de jovens entre 15 e 30 anos, das mais variadas denominações
protestantes históricas, das igrejas pentecostais clássicas e obviamente das igrejas
neopentecostais, que consome os mais variados gêneros musicais do gospel. O consumo
do gospel pelos jovens protestantes históricos denota uma demanda, uma insatisfação
religiosa (ou necessidade) relacionada à música nas igrejas tradicionais. O consumo
religioso confirma a demanda que existia. Os especialistas buscam sempre oferecer o
produto adequado à demanda, mas a possibilidade de crescimento profissional confere
ao músico um reconhecimento direto do público, sem intermediação dos especialistas
das igrejas. Tal fato é notado nos grandes eventos de gravação e lançamento de CDs e
shows realizados por todo o País, que atraem o público jovem de várias denominações
protestantes históricas, pentecostais e neopentecostais, cuja motivação é o grupo
musical que se apresenta, ficando a igreja do grupo em segundo plano ou incógnita.
Tal produção religiosa foi objetiva e intencional e obteve grande sucesso,
justamente porque contou com fatores internos ao campo, a insatisfação prolongada de
grupos específicos, e também com fatores externos, como o domínio da área de
marketing e o investimento financeiro por parte do produtor.
É um mercado relativamente novo. A incorporação de uma ética mercadológica,
com as especificações da área fonográfica, é cada vez mais crescente, e o número de
bandas, rádios e gravadoras gospel mostram que o mercado é lucrativo. Embora o
mercado se estabeleça com leis próprias e claras no meio gospel, trouxe um aspecto
confuso no campo religioso protestante: alguns músicos temem essa confusão, que
aparentemente mistura aspectos religiosos e profissionais. Músicos renomados, que
desde os anos 1980 já atuavam no meio musical evangélico são os que mais se
preocupam com a forte tendência de profissionalização. Mas, embora temerosos com o
mercado gospel, a maioria dos artistas não nega a importância da valorização
profissional. Muitos misturam na mesma resposta às entrevistas sem problemas palavras
como show e evangelismo e falam ao mesmo tempo da preocupação com o mercado,
com salvar vidas e com suas respectivas carreiras (em 1999).
A IRC obteve sucesso ao convergir a procura religiosa desses grupos
insatisfeitos com a música gospel, na qualidade de produto ofertado adequadamente a
essa procura. Em 2000, a IRC já possuía 353 igrejas no Brasil, duas nos EUA e uma na
Espanha, num total de aproximadamente 300 mil membros. Mas a intenção de Estevam
e Abbud de concorrência no mercado secular ainda não tinha sido concretizada. O
mercado se expandiu de tal forma que saiu do controle da IRC, o que era um objetivo
inicial.
A Revista Show Gospel – O Guia da Música Evangélica teve o primeiro número
lançado em 2000; mostra a expansão do mercado e o mais completo informe do gospel
em âmbito nacional. É uma revista setorizada, específica para empresas, agentes
promocionais e artistas que visam atuação no mercado gospel. A criação da revista é um
ponto relevante, que denota a consolidação efetiva desse mercado. Em 2004, a revista
trouxe mais de 700 bandas e solistas na lista de artistas. Os solistas somam 348 no RJ,
341 em SP, 61 em MG e 130 em outros estados. As bandas são 172 em SP, 81 no RJ, 26
em MG e 67 em outros estados. A listagem contém e-mail, endereços e telefones para
contato. Artistas internacionais e nacionais que estão fora do país também são
encontrados. A revista ainda traz outras listagens, como Serviços 16, Rádios gospel (132
rádios entre AM e FM; 35 em SP, 14 no RJ, 15 no PR e 15 em MG) e Gravadoras
gospel (111 gravadores; maior concentração em SP e RJ). O mercado busca de todas as
formas impor suas leis específicas aos que desejam fazer parte dele. A linguagem
mercadológica fonográfica é nítida, bem como o tipo de divulgação promocional dos
inumeráveis artistas gospel.

8. Música gospel brasileira


É possível estabelecer três tipologias para o trabalho que desenvolvido no Brasil:
1) a hinódia tradicional, que se vale da hinódia norte-americana e inglesa;
2) cânticos, ou corinhos, usada em louvorzões e programações de jovens, à
margem da hinódia oficial;
3) e a música gospel, que abrange a liturgia oficial de algumas igrejas
neopentecostais e o mercado fonográfico e de entretenimento.
Podemos perceber que houve um salto entre os cânticos e o gospel, esses dois
tipos distintos da música sacra (ou hinódia). O gospel seguiria uma produção paralela à
hinódia oficial do protestantismo tradicional, mas não se trata de uma evolução
histórica. A música gospel rompe com o antigo cântico quando passa a incorporar uma
gama quase contraditória de valores (seculares, litúrgicos e de mercado).
Há uma grande diferença entre os cânticos e o gospel. Não se trata de um mesmo
produto, mas uma adaptação total de um produto antigo, baseada na análise do campo
16
Arranjadores, artes gráficas, assessoria de imprensa, assessoria fonográfica, barracas e coberturas para
apresentações, brindes, bufês, catracas eletrônicas, colagem de cartazes, compositores, credenciais,
direitos autorais, distribuidoras, duplicadores de CDs, efeitos especiais, escolas de música, espaços para
shows, estúdios, filmagens, fotografia, geradores, ingressos, instrumentos musicais, luz e som, marcas e
patentes, masterização, móveis para camarins, palcos, produção de evento, produção de vídeo, produção
visual, produtores musicais, segurança, serenata gospel, técnico de som, telões, transporte terrestre e
aéreo, trios elétricos, web design, workshop, etc.
religioso protestante brasileiro. O conhecimento do campo foi fundamental para que o
gospel assumisse o perfil atual. Os cânticos e suas diversas formas estético-musicais,
sempre marginalizados pelos pelo protestantismo histórico, atingiram status litúrgico.
No gospel não há distinção entre a música de entretenimento e a música de
evangelização; entre o crescimento e sucesso na carreira e expansão e propagação da
palavra de Deus. Tudo o que fala de Deus ou pelo menos das coisas de Deus é um meio
de evangelizar uma pessoa ainda não convertida. Não se fala mais de evangelização
para jovens, mas sim de shows gospel. Portanto se trata de um mesmo produto,
apresentado com grande produção artística, mas que atinge as funções de evangelização
e de entretenimento. O discurso evangelístico é mantido pela maioria dos músicos e
bandas, e não há o menor conflito em aliar cachês que podem variar de mil a 15 mil
reais por apresentação. A exemplo da IRC:
 a música de entretenimento é explorada pelas bandas Katsbarnea17 e Resgate.
 a música de louvor e adoração é a que detém o maior destaque na IRC, através do
Renascer Praise

Inversão de papeis no culto (palco, plateia e apoio/dirigente).

17
Extra, Álbum O Som que te faz girar, 1988.

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