Você está na página 1de 36

"'«>

·--TCC/UNICAMP
R637b
1335FEF/12

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS


FACULDADE DE EDUCAÇÃO FÍSICA

,
Uma Breve História do Ocio

Diego de Oliveira Gómez Roig

CAMPINAS
2004
TCC/UNICAMP
R637b
o
___.

llllllllllllllllllll/11 111111
1290001335

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS


FACULDADE DE EDUCAÇÃO FÍSICA

,
Uma Breve História do Ocio
Monografia apresentada à
FACULDADE DE EDUCAÇÃO
FÍSICA da UNIVERSIDADE
ESTADUAL DE CAMPINAS, como
requisito parcial para a obtenção do
grau de licenciado em educação fisica,
sob a orientação da prof. dr.a Carmen
Lúcia Soares.

Diego de Oliveira Gómez Roig

CAMPINAS
2004
Prof.a Ms. Maria Cristina Rosa

CAMPINAS
2004
AGRADECIMENTOS

Agradeço aos meus pais pela ajuda e apoio neste trabalho.

Agradeço à Canninha, sua orientação foi fundamental e

indispensável à realização deste texto.

Agradeço aos inúmeros amigos da FEF os momentos de ócio na

cantina e a companhia em muitos por do sóis, algumas das

idéias contidas neste texto surgiram de nossas conversas e

discussões despretensiosas.
RESUMO

Uma breve história do ócio é, como pode ser característico do estudo da história,
uma análise da sociedade contemporânea através de sua construção ao longo do tempo.
O estudo da história nos possibilita desconstruir verdades estabelecidas e, atribuir à
cultura a construção dos valores e costumes. Ao analisar a sociedade do trabalho pelo
prisma do ócio, garantimos um ponto de vista mais abrangente. Este texto pretende
compreender, num recorte do tempo, as transformações, adaptações, valores e
interpretações que o ócio incorporou no curso das modificações históricas que a
sociedade, a política, os costumes, a economia e toda a cultura sofreram.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 1

A VISÃO CLASSICA DE ÓCIO 4

A DUPLA REVOLUÇÃO 7

O ÓCIO E A LUTA DE CLASSES 10

DISCIPLINA E TEMPO 15

ENTRETENIMENTO E SOCIEDADE DE CONSUMO 19

A SOCIEDADE DO ÓCIO 25

REFERÊNCIAS BIBLJOGRÃFICAS 29
INTRODUÇÃO

"Já que o mundo se encaminha para um delirante estado de coisas, devemos nos

encaminhar para um ponto de vista delirante."

Baudrillard

Vivemos num estado de coisas de irrestrita e indistinta reprodução de certos valores

e signos; de delirante proliferação do virtual e do simbólico dissociados do real e do

material. 1 O trabalho é um stgno de valor moral em nossa sociedade, alcançou uma

proliferação simbólica que supera em muito o objetivo palpável da produção. Os Jazeres e

os estudos do lazer são cada vez mais difundidos e valorizados obedecendo à mesma lógica

da excrescência, da proliferação irrestrita que atingiu também os prazeres. O ócio, por sua

vez, não está incluído nesta lógica de proliferação, de reprodução mídiatica que supera o

palpável, apresenta-se longe dos holofotes e das atenções, contrário aos valores da

sociedade contemporânea, contra producente e imoral.

Se nosso tempo apresenta-se essencialmente delirante, talvez ao nos remetermos à

história, a uma análise processual, poderemos distinguir melhor o que nos parece indistinto,

jogar luz sobre o delírio de nosso tempo. O que pretendo é desconstruir para compreender,

e, o ócio é o prisma eleito para analisar a sociedade que o repudia. O ócio, visto por vezes

como vício, neste estudo permitirá tratar o 'vício de análise'.

O tema central deste estudo é o ócio, uma análise histórica do ócio ou uma breve

história. Pretendo compreender num recorte do tempo suas modificações, adaptações,

valores e interpretações que incorporou no curso das modificações históricas que a

1
Ver.BAUDRILLARD, Jean. A Transparência do Mal, 1992.

1
sociedade, a política, os costumes, a economia e toda a cultura sofreram. Buscarei também,

estabelecer relações com os modos pelos quais compreende-se o lazer, o trabalho, a

preguiça, numa acepção global do tema. Não se trata apenas de realizar uma análise

sociológica, histórica e cultural do ócio, mas também analisar a cultura, a história e a

sociedade através do prisma do ócio, desnaturalizando-o e atribuindo-lhe uma inserção na

cultura.

Não pretendo alcançar ao fim deste trabalho uma definição de ócio, nem tão pouco

lhe atribuir valor. Muito se discute nos meios acadêmicos sobre a definição de lazer, mas,

por muitas vezes, através de uma análise a-histórica de seus valores culturais, como se fosse

possível atribuir uma definição pura, natural e lógica ao lazer; como também não é possível

atribuir semelhante definição ao ócio, ou ao trabalho ... Esta é uma discussão inócua que não

serve de paralelo à discussão de ócio que aqui se propõe.

Nessa leitura do ócio e dos temas à ele relacionados, buscarei, ao invés de tentar

defini-los, identificar os agentes econômicos, históricos, sociais e políticos que atuam sobre

esses temas, atribuindo-lhes significados histórica e culturalmente. É necessário

compreender que a cultura onde o ócio se insere, sofre constante transformação, é lugar de

embates de poder, de resistência e mudança. Universo extremamente complexo onde

operam mecanismos de poder transformando e moldando os valores e os costumes, e, esses

mecanismos são também modificados pela transformação destes valores e costumes, numa

complexa relação de interdependência e pluralidade.

Se não devemos prescindir da história ao analisar o ócio, também não devemos

esquecer que a história é plural e descontinua. A linearidade não é uma característica da

história, e, o histórico ou a análise histórica do ócio não deve ser diferente. Se de alguma

mane1ra o texto transparecer linearidade ou singularidade, não é a leitura que deve

2
prevalecer. Ao submeter o ócio à diferentes categorias de análise podemos situá-lo em

diferentes momentos da história, mas, podemos também compreende-lo através destes

vários prismas num único momento. O ócio está inserido no universo heterogêneo da

cultura, e, é através da heterogeneidade que devemos compreende-lo.

3
A VISÃO CLÁSSICA DE ÓCIO

"Em grego, ócio se diz scholé, de onde vem nossa palavra


'escola'. Para os antigos, só era possível dedicar-se à atividade do
conhecimento se não se estivesse escravizado pela obrigação de
trabalhar."
1
Marilena Chaui

"Não saberia afirmar se os gregos herdaram dos egípcios o


desprezo que sentem pelo trabalho, uma vez que encontro o mesmo
desprezo entre os trácios, citas, persas, e lídios; em suma, porque
entre a maioria dos povos bárbaros, os que aprendem as artes
mecânicas, e mesmo seus filhos, são olhados como os últimos dos
cidadãos.. Todos os gregos foram educados nesses princípios,
particularmente os lacedemonianos."
2
Heródoto

"A natureza não fez nem sapateiros nem ferreiros;


ocupações como essas degradam as pessoas que as exercem, vis
mercenários, miseráveis sem nome que, em virtude de sua própria
condição, são excluídos dos direitos políticos. Quanto aos
comerciantes acostumados a mentir e enganar, só serão suportados
na cidade como sendo um mal necessário. O cidadão que se aviltar
com o comércio das lojas será processado por esse delito. Se
condenado, cumprirá um ano de prisão. A punição será dobrada a
cada reincidência. "
Platào 3

"Tens razão, Critobulo, disse Sócrates. As chamadas artes


manuais não gozam de bom nome e, naturalmente, são depreciadas
nas cidades. Arrninam os corpos dos trabalhadores e dos feitores
obrigando-os a ficar sentados no interior das casas, e algumas
delas até a passar o dia junto ao fogo. E, quando os corpos se
debilitam, também as almas tornam-se bem menos resistentes. As
chamadas artes manuais não deixam tempo livre para cuidar dos
amigos e da cidade e, assim, tais artesãos são considerados maus
para ter-se como amigos e como defensores da pátria. Em muitas
cidades, sobretudo nas que têm fama de guerreiras, não se permite
que um cidadão exerça artes manuais."
Xenofont/

1
CHAUI, 1999, p. 11.
''RónATQ
Z'. ·-· _,._, ~,.,,.~
'-'r-'"'"' L'C'RG"E
'"''r·, ··..J , -<nnn,.
<;.JJJ,I-'. """
, •••
3
PLATÃO apud LAFARGUE, 1999, p. 115.
4
XENOFONTE, 1999, p. 20. ..

4
"Os romanos conheciam apenas duas profissões nobres e
livres, a agricultura e as armas; por direito, todos os cidadãos
viviam à custa do tesouro público, não podendo ser obrigados a
prover a sua própria subsistência através de nenhuma das sordidas
artes [assim designavam as profissões} que por direito, pertenciam
aos escravos. "
Paul Lafargue5

" com grande consenso eles nos recomendam os vícios. Se


nada tentamos que nos seja salutar, já nos será em si mesmo
proveitoso apartar-nos: isolados, seremos melhores. E que dizer de
juntarmo-nos aos melhores homens e elegermos algum modelo pelo
qual conduzamos nossa vida? Isso não é possível sem o ócio: pois
ele propicia o perseverar-nos no que nos agradou, desde que
ninguém, com o concurso da multidão, nos desvie a convicção
ainda mal-afirmada; pois, então, a vida pode avançar em curso
igual e regular, enquanto a entrecortamos com nossos propósitos
contraditórios."
Sêneca 6

"Enfim, não é demais lembrar que a palavra latina que dá


origem ao nosso vocábulo 'trabalho' é tripalllium, instrumento de
tortura para empalar escravos rebeldes e derivada de palus,
estaca, poste onde se empalavam os condenados. E labor [em
latim} significa esforço penoso, dobrar-se sob o peso de uma carga,
dor, sofrimento, pena e fadiga."
Marilena Chau/

"A desnecessidade de trabalhar não só é um ato honorifico


e meritório; passa bem logo a constituir um requisito de
decência.{.. .] Essa desnecessidade de trabalhar é a prova
convencional da riqueza, sendo portanto a marca convencional de
posição social; e essa insistência sobre o mérito da riqueza leva a
uma insistência sobre o ócio."
Veblen 8

Nas sociedades escravistas, como a grega e a romana, ou nas sociedades

aristocráticas como a Europa feudal, o ócio aparece como emblema de status social. A vida

dedicada ao ócio é, sinônimo e condição necessária à erudição, à vida política e às

5
LAFARGUE, 1999, p.115.
6
SÊNECA, 1994, p. 77.
'CHAUI, 1999, p, 12.

5
ocupações nobres. O trabalho é visto como desonra e degradação, e, é relegado

principalmente aos servos e escravos.

8
VEBLEN, 1980, p. 35.

6
A DUPLA REVOLUÇÃO

"Se a economia do mundo do século XIX foi formada


principalmente sob a influência da revolução industrial britânica,
sua política e ideologia foram formadas fundamentalmente pela
Revolução Francesa. A Grã-Bretanha forneceu o modelo para as
ferrovias e fábricas, o explosivo econômico que rompeu com as
estruturas sócio-econômicas tradicionais do mundo não europeu;
1
mas foi a França que fez suas revoluções e a elas deu suas idéias ".

Eric Hobsbawm

O estudo desta 'dupla revolução' é fundamental ao entendimento das raízes

ideológicas da sociedade que ela ol·iginou. É uma revolução abrangente que atingin não

somente a economia e a política, mas também os costumes, os valores, os discursos, a

religião, modificou profundamente a sociedade em todos os aspectos. Foi muito além das

fronteiras da França e Inglaterra e muito além de seu tempo, fundou a sociedade

contemporânea que nós conhecemos.

Consolidou-se uma nova percepção de tempo que alterou radicalmente os valores

atribuídos ao ócio. Cresceu a valorização do tempo disciplinado ao trabalho em detrimento

à qualquer atividade improdutiva. Os valores, a moral, os discursos, as disciplinas passaram

à atender os imperativos da produtividade. O tempo adquiriu valor, passou a ser

comercializado, vendido ou explorado. O tempo de ócio é visto agora como tempo

desperdiçado, indisciplinado, improdutivo, tempo que não contribui ao desenvolvimento da

sociedade e à geração de riquezas.

1
HOBSBAWM, 1977a, p. 71.

7
"Na sociedade capitalista madura, todo o tempo deve ser consumido, negociado,
2
utilizado; é uma ofensa que a força de trabalho meramente 'passe o tempo'".

O que compreende de fato esta 'dupla revolução' é o triunfo da sociedade capitalista

industrial, da sociedade burguesa liberal, o triunfo de sua ideologia e de sua moral sobre a

sociedade feudal e o absolutismo. A revolução industrial inglesa e a Revolução Francesa,

ambas do fim do século XVIII, são ícones, forneceram os parâmetros desta transformação

que, cedo ou tarde, atingiu todo o mundo.

Esta sociedade foi gerada, desenvolveu-se e criou corpo dentro do 'antigo regime';

suas bases, sua cultura, desenvolveram-se lentamente até demolir, na forma de revolução, o

'ancien régime'.

Thompson, no livro Costumes em Comum, relata a transformação da percepção do

tempo e as novas disciplinas de trabalho que desenvolveram-se na Inglaterra durante o

século XVIII, e, também em parte, nos séculos anteriores. Ele demonstra, que o caminho

percorrido rumo ao capitalismo industrial, é, não apenas de natureza econômica ou política,

mas também de natureza cultural.

"A ênfase da transição recai sobre toda a cultura: a


resistência à mudança e sua aceitação nascem de toda a cultura.
Essa cultura expressa os sistemas de .goder, as relações de
propriedade, as instituições religiosas etc."

Ocorreu uma significativa mudança no tempo do trabalho que, antes ligado aos

'ritmos da natureza', das estações, orientado segundo as exigências das tarefas e por uma

cultura agrária, sincronizou-se ao tempo do relógio, ao ritmo das máquinas. Não só o

empresário, mas também o trabalhador assumiu a idéia de que 'tempo é dinheiro'.

'THOMPSON, 1998, p. 298.


3
lbid., p. 288.

8
A cultura utilitarista, ou a ideologia do utilitarismo foi fundamental e emergente no

âmbito desta transformação, cresceu e foi gerada pela classe média burguesa que

posteriormente ascendeu ao poder.

"Elaborado no curso de luta contra a nobreza, a ideologia


do utilitarismo foi, em parte, um conceito residual, o útil era o que
a nobreza não era. Identificados com o oposto da nobreza, os úteis
eram aqueles cujas vidas não giravam evidentemente ao redor do
ócio e entretenimento", 4

A cultura utilitarista, assim como toda a esfera de valores culturais, mesmo os

valores religiosos da sociedade, caminharam gradualmente na direção da produção, da

produtividade e do progresso. Sabe-se a importância das reformas religiosas na germinação

desta 'dupla revolução'. A Refom1a na InghteiTa, por exemplo, abriu espaço no terreno
5
religioso para o capitalismo moderno inglês.

Consolidaram-se nos diversos segmentos da sociedade; novos valores, novos

costumes e uma nova percepção de tempo, que correspondem à obsessão pela geração de

riquezas e pelo progresso. A construção dos valores atribuídos aos diversos tempos sociais

está circunscrita nesta transformação profunda da sociedade. Transformação permeada por

vários fatores além das mudanças econômicas e dos meios de produção. É pautada pelo

puritanismo, pelo cristianismo, pelo utilitarismo, pelo crescimento dos mecanismos

disciplinares. Destes muitos fatores decorre a construção dos valores, da moral e da ética

capitalista, industrial, urbana... O ócio tornou-se não só 'inútil' como 'imoral'.

4
GOULDNER, 1970, p. 66. (tradução nossa)
5 Ver WEBER, Max. A Êtica Protestante e o Espírito do Capitalismo.

9
O ÓCIO E A LUTA DE CLASSES

Durante o século XIX em contraposição ao grande desenvolvimento do capitalismo

industrial encontra~se a miséria da classe operária e grandes problemas de ordem sociaL

Surgem nesse momento diferentes fonnas de pensar a sociedade ligadas às suas duas

principais classes sociais: a burguesia e o proletariado. Convivem em campos opostos o

liberalismo burguês e o socialismo das classes trabalhadoras.

A miséria e o quadro de grande exploração das classes trabalhadoras são, J·unto com

as crises de super produção, os maiores problemas do capitalismo industrial no século XIX.

A história, como sabemos, não é linear, é descontínua e heterogênea; e, a história do século

XIX é rica em conflitos e polarizações ideológicas. Em oposição à ideologia burguesa e

buscando formular idéias que atendam as necessidades do 'proletariado', surgem diversos

pensadores sociais e economistas críticos do capitalismo.

Karl Marx [1818-1883] e Frederick Engels [1820-1895] foram os pnncrpars

pensadores desta vertente, cnaram o socialismo científico e suas idéias são até hoje

discutidas, estudadas e propagadas. Porém, a este estudo um outro pensador socialista

contemporâneo de Marx e Engels é mais relevante, trata-se de Paul Lafargue [1842-1911] e


1
seu panfleto revolucionário 'O Direito à Preguiça' .

Neste texto do final do século XIX, Lafargue relaciona a glorificação do trabalho

pela sociedade que ele denomina de o 'dogma do trabalho' aos interesses exclusivos da

burguesia, e clama aos trabalhadores para que, em contra partida, despertem aos beneficios

da preguiça. Parece estranho, mas trata-se de um panfleto revolucionário que busca a

1
'0 Direito â Preguiça' é originalmente composto por uma série de artigos da revista francesa
L'Égalité, publicados entre 14 de junho e 4 de agosto de 1880.

10
libertação da classe trabalhadora frente à expropriação e alienação da força de trabalho. Em

seus ideais Lafargue não é diferente de Marx e Engels, mas o que chama a atenção é a sua

exímia descrição da moral burguesa, que ao ser incotporada pelo proletariado permite a sua

exploração nos longos regimes de trabalho e a baixas remunerações, privando-os dos

beneficios da preguiça.

A moral cristã é fundamental à formação desta moral que glorifica o trabalho e seus

valores são, portanto, condizentes ao crescimento do capitalismo industrial e aos interesses

da burguesia.

"A moral capitalista, triste paródia da moral cristã, rodeia de


anátemas a carne do trabalhador; seu ideal é reduzir o produtor ao
minimo de necessidades, suprimir suas alegrias e paixões e
condena-lo ao papd d:: máquina d:: gerar trabalho, sem trégua e
. dade. " 2
semp1e

A moral e a ideologia burguesa construíram-se nos pilares da moral cristã, do

puritanismo, da cultura do utilitarismo e dos ideais do liberalismo. Mas é a tradução

principalmente da moral cristã, de seus valores que, segundo Lafargue gerou o 'amor pelo

trabalho', a glorificação do trabalho que ele denominou de 'dogma do trabalho'. Dogma


3
que segundo ele, é o gerador de todas as misérias individuais e sociais da classe operária.

Os regimes de trabalho nas fábricas européias neste período, chegavam à 14 ou até

16 horas por dia, porém os salários eram suficientes apenas à subsistência. O desemprego

era um problema tão grande quanto a super produção. Isto, porque é da exploração da mão

de obra, da apropriação da 'mais valia' 4 , que advém o lucro do empresário e a condição de

2
U\FARGUE, 1999, p. 60.
3
lbid., p. 67.
4
MARX, 1963, p . .48.

11
miséria do proletariado. E quanto mais miseráveis, paradoxalmente, ao invés de dificultá-la

mais fácil torna-se a exploração.

"[.. .] os operários morrendo de fome, vão dar cabeçadas nas


portas das fábricas.[.. .] E esses miseráveis, que mal conseguem
agüentar-se de pé, vendem doze ou quatorze horas de trabalho duas
vezes mais barato do que quando tinham pão sobre a mesa. E os
filantropos da industria aproveitam-se do desemprego para
fabricar mais barato. "5

O 'dogma do trabalho' é de tal maneira engendrado, que os trabalhadores pensando-

se revolucionários, na escassez de trabalho, reivindicam o 'direito ao trabalho', ou nesta

lógica, a sua própria miséria. Não é necessário infligir o trabalho aos trabalhadores, a

estrutura social e econômica e esta moral, dão conta que os próprios trabalhadores o façam.

"Trabalhem, trabalhem, proletários, para aumentar a riqueza


social e suas misérias individuais, trabalhem, trabalhem para que,
ficando mais pobres, tenham mais razões para trabalhar e
tornarem-se miseráveis. Essa é a lei inexorável da produção
. t·zsta. ,6
cap1ta

As crises de super produção e as altas cargas horárias eram fatores geradores de

desemprego. Justamente a super produção, proveniente da mecanização e do

desenvolvimento dos meios de produção, bem como o enorme contingente subtraído do

setor produtivo, é que permitirão, na sociedade que Lafargue almeja, que não se trabalhe

mais de três horas por dia.

"Mas convencer o proletariado de que a palavra que lhes


inocularam na mente é perversa, de que o trabalho desenfreado a
que se entregou desde o começo do século é o mais terrível flagelo
que assola a humanidade, de que o trabalho só se tornará um
condimento do prazer da preguiça, um exercício benéfico para o
organismo humano, uma paixão útil ao organismo social, quando

'LAFARGUE, 1999, p. 81.


6
lbid., pg. 79.

12
for sabiamente regulamentado e limitado a um máximo de três
horas por dia. " 7
As reduções nas jornadas de trabalho, são importantes reivindicações dos sindicatos

e dos trabalhadores no século XIX e XX, aparecem como solução ao desemprego e às

insalubres jornadas. O ócio e a preguiça são suprimidos da classe trabalhadora não só pela

moral que prega o trabalho como virtude, mas principalmente por uma questão econômica e

sociaL

"Embrutecidos pelo V!ClO, os operanos não conseguiram


perceber que, para que todos tenham trabalho, é necessário
racioná-lo como se raciona água num navio à deriva. ,,8

A intensificação da produção de riquezas, de valores é uma característica importante

do século XIX. Neste século, houve um crescimento da riqueza social jamais visto e a

burguesia era a classe social que desfrutava dos beneficios das riquezas geradas nas

fábricas. Seus hábitos dispendiosos aproximavam-se cada vez mais dos da antiga

aristocracia.

"[. ..} quando a moral da abstinência, moderação e


contenção entrava dramaticamente em conflito com a realidade do
sucesso burguês. Os burgueses não viviam mais numa economia
familiar de escassez ou num nível social remotamente longe das
tentações da alta sociedade. O problema era mais o de gastar que o
de economizar. Não apenas os burgueses ociosos tornavam-se mais
e mais numerosos{. ..] como de que outra forma, exceto gastar,
9
poderiam os bem-sucedidos burgueses demonstrar o seu sucesso".

Não é casual a escolha do termo preguiça, um pecado capital, em lugar de qualquer

outro, pois, Lafargue busca principalmente, refutar a moral cristã, puritana, a moral

burguesa, que se apresenta essencialmente hipócrita.

7
1bid., p. 84.
8
lbid., p. 100
9
HOBSBAWM, 1977b, p. 247.

13
"Sabe-se, hoje, que Lafargue pensara, inicialmente, em
intitular seu panfleto como direito ao lazer e, depois, como direito
ao ócio.[. ..] Ao escolher e propor como um direito um pecado
capital, o autor visa diretamente ao que denomina 'religião do
trabalho', o credo da burguesia [não só francesa} para dominar as
mãos, os corações e as mentes do proletariado, em nome da nova
figura assumida por Deus, o Progresso". 10

O ócio, não assume um único papel, um único valor nesta sociedade. Mas, uma

questão importante à análise aqui, é o peso da glorificação do trabalho no curso do

capitalismo, da sociedade industrial. A moral que glorifica o trabalho em detrimento à

preguiça é, hipócrita ou não, uma construção que deriva de toda uma cultura, de um

processo profundo e abrangente de transformação da sociedade, desde seus meios de

p:-odução, Pté a política, e o conjunto mais amplo de valores.

1
° CHAUI, 1999, p. 24.

14
DISCIPLINA E TEMPO

"Lembra-te de que tempo é dinheiro. Aquele que pode


ganhar dez xelins por dia por seu trabalho e vai passear, ou fica
vadiando metade do dia, embora não despenda mais do que seis
pence durante seu divertimento ou vadiação, não deve computar
apenas essa despesa; gastou, na realidade, ou melhor, jogou fora,
cinco xelins a mais. "
Benjamin Franklin 1

A sociedade que se construiu nestes séculos de industrialização, tem uma

característica importante, a artificialidade do tempo. Os tempos sociais obedecem a um

ritmo externo ao homem; o tempo que nas sociedades agrícolas tradicionais era ligado aos

ritmos da natureza [estações, chuvas, etc ... J passou a ligar-se ao ritmo das maquinas, da

produção industrial, da vida urbana. Impôs-se uma nova disciplina de tempo, que

corresponde à necessidade de inferir produtividade ao tempo. É preponderante extrair mais

do tempo que adquiriu valor, que é uma mercadoria.

Se o tempo é um valor de troca, qu.em o detém ou o compra, o faz para obter lucro.

Quanto maior a produtividade, maior o lucro. Data do fim do século XIX e inicio do século

XX o taylorismo, ou a organização 'científica' do trabalho. O taylorismo é um bom

exemplo de técnica de disciplina, corresponde à busca frenética de produtividade e a

tentativa de sujeição dos trabalhadores ao sistema de produção.

"A importância do taylorismo, a nosso ver, advém


fundamentalmente do fato de concretizar de forma exemplar a
noção de ' tempo útil' que a sociedade do trabalho introjetou no
coração de cada um de nós: há muito tempo guardamos um relógio
moral que nos pressiona contra o ócio. "2

1
FRANKLIN, Benjamin apud WEBER, 1980, p. 182.
2
RAGO, 1984, p. 11.

15
O crescimento dos mecanismos de disciplina foi e é fundamental à ordem que busca

extrair 'mais' do tempo. O poder que, nas sociedades feudais era exercido principalmente

através de mecanismos de soberania, na sociedade capitalista industrial assume também o

mecanismo heterogêneo e polimorfo das disciplinas.

"Este novo tipo de poder, que não pode mais ser transcrito
nos termos da soberania, é uma das grandes invenções da
sociedade burguesa. Ele foi um instrumento fundamental para a
constituição do capitalismo industrial e do tipo de sociedade que
lhe é correspondente; este poder não soberano, alheio à forma da
soberania, é o poder disciplinar". 3

Os mecanismos de disciplina não só exercem o papel de regrar, de adequar, de

controlar, de recalcar, mas principalmente buscam tornar eficiente. Buscam a eficiência do

tempo, a multiplicação das forças dos corpos que rivalizam com as máquinas. Os

mecanismos disciplinares articulam o poder ao tempo e aos corpos na busca insistente de

produtividade.

''A disciplina aumenta as forças do corpo [em termos


econômicos de utilidade] e diminui essas mesmas forças [em
tennos políticos de obediência]. [. ..] a coerção disciplinar
estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada
e uma dominação acentuada. " 4 ·

Ao se disciplinar os usos do tempo livre buscou-se combater o ócio e tomar esse

tempo livre útil aos padrões dessa sociedade. É o lazer que possibilitou disciplinar o tempo

da diversão, descanso e entretenimento. O lazer surgiu na construção e desenvolvimento da

sociedade capitalista industrial e é parte de sua estrutura; é e foi necessário ao tratamento

do ócio. Decorre da artificialidade e da racionalização do tempo nas fábricas que tem seu

3
FOUCAULT, 1985, p. !88.
4
Id., 1977, p. 127.

16
contraponto no tempo livre. O prazer está fora do mundo do trabalho; na vida cotidiana

regrada, disciplinada, compartimentalizada, existe o tempo do trabalho, o tempo das

obrigações religiosas, sociais e familiares e o tempo do descanso e do lazer.

Os tempos liberados do trabalho e os tempos de lazer são um campo de embate

importante na história da construção desta sociedade; são palco de resistência e mudança,

de su}eição ao poder e de subversão. Porém, o ócio é a expressão máxima da subversão

moral nesta sociedade que assume o utilitarismo corno ideologia e o trabalho como virtude.

A diminuição da carga horária dos trabalhadores comuns, portanto, não resultou na

valorização do ócio ou da preguiça, pelo contrário, intensificaram as preocupações em

torno dos usos deste tempo liberado. Houve uma busca de adequação deste tempo aos

padrões que regem esta sociedade.

"Ou seja, trata-se de tornar o tempo livre capaz de


responder às necessidades e interesses de caráter econômico,
moral, politico institucional, de torná-lo um negócio de algum
modo útil e passível de utilização pelos diversos setores sociais.
[. ..] Nessa perspectiva, o lazer é tratado como a negação do erro,
do ócio, ou ainda como 'negócio' capaz de excluí-lo ou de tratá-lo.
Esse tratamento implica a integração do ócio numa ordem moral,
5
racional e economicamente útil".

Esta diferenciação entre lazer e ócio é fundamental ao fenômeno de crescimento do

lazer. É preciso ter uma leitura menos ingênua da sociedade, pois se ela o absorveu tão

bem, devemos encontrar no lazer características convergentes à sua lógica. Paralelo ao

crescimento do lazer encontra-se o repúdio ao ócio. O lazer se constrói de valores próprios,

convergentes à ótica capitalista e não como o ócio que diverge dos preceitos da

produtividade e da utilidade.

5
SANT' ANNA, 1994, p. 20

17
Como na natureza, também nos sistemas sociais existem 'leis universais',

intrínsecas a cada sistema. No sistema capitalista, as leis gerais são orientadas a partir de

seu ideário primeiro, qual seja, a produtividade e o valor de troca. Estes ideais impregnaram

o tempo tomando-o mercadoria e generalizaram-se atingindo todas as esferas sociais. O

lazer não é o lugar e o tempo da redenção, é também, lugar e tempo de sujeição como todos

os espaços que a sociedade disponibiliza.

"A lei do tempo como valor de troca e como força produtiva


não se imobiliza no limiar do lazer, como se este escapasse
miraculosamente a todos os constrangimentos que regulam o tempo
de trabalho. As leis do sistema [de produção} nunca entram em
férias. " 6

O ócio, doença social do sistema capitalif'.ta, chmwnstração de desperdício de tempo

e dinheiro, não obedece a essas 'leis'. A 'vadiagem' deixou de ser um 'problema'

exclusivamente social e econômico e responde agora ao poder soberano das leis de direito,

tornou-se contravenção prevista em vários dos códigos penais do mundo. Todos os

mecanismos de poder alinharam-se à disposição de eliminar o ócio; dos mecanismos

disciplinares ao que restou dos mecanismos de soberania, traduzidos nas leis de direito.

6
BAUDRILLARD, 1975, p. 259.

18
ENTRETENIMENTO E SOCIEDADE DE CONSUMO

"Antes do século XVIII o tipo mais comum de crise era


provocado pelo fracasso das colheitas, pela guerra, ou por algum
acontecimento anormal; eram caracterizados pela escassez de
alimentos e outros artigos necessários, cujos preços se elevavam.
Mas a crise que conhecemos, a crise que começou a existir com o
advento do sistema capitalista, não é devida a fatos anormais -
parece parte e parcela de nosso sistema economzco; é
caracterizada não pela escassez, mas pela super abundância. Nela,
os preços, ao invés de subirem, caem."
1
Leo Huberman

O capitalismo industrial tem sofrido inúmeras cnses estruturais desde o seu

surgimento e em grande parte, devido à super produção de bens. Os meios de produção

desenvolveram~se brutalmente, porém nem sempre o consumo acompanhou tal ritmo.

Portanto, surgiram a cada nova crise, novas políticas, reestruturações sociais e culturais que

aproximaram produção e consumo.

A busca por mercados em outros países foi uma prática, historicamente importante,

realizada pelos países mais industrializados na tentativa de escoar seus excedentes. É o

imperialismo que caracterizou o fim do século XIX e inicio do XX e gerou a Primeira e a

Segunda Grande Guerra.

A exploração de novos mercados, como se conhecia, em parte se esgotou; o

capitalismo sofreu e ainda sofre, principalmente, um alargamento interno de suas fronteiras.

O consumo se estendeu a todas as classes, ganhou novas características e se ampliou.

1
HUBERMAN, 1971, p. 271.

19
Vivemos a chamada sociedade de consumo, onde a exacerbação do consumo busca

confrontar o desenvolvimento dos meios produtivos.

"a moral do consumo prolonga a da produção ou encadeia-se com ela numa

mesma lógica social da salvação. "2

Os setores produtivos da economia, cada vez mais, necessitam de menos mão de

obra. A mecanização da industria e até da agricultura subtraíram enormes contingentes de

trabalhadores deste setor e proporcionaram reduções nas jornadas de trabalho. Estes

trabalhadores inflacionaram o setor terciário gerando novas fronteiras ao capital.

O consumo hoje não se limita somente aos bens agrícolas ou industrializados, novas

'necessidades' surgem a todo momento. Houve um enorme crescimento do setor terciário

que agora detêm a maior parcela da economia e, principalmente, o surgimento e

crescimento da chamada industria do lazer e entretenimento.

O lazer é hoje também um produto, socialmente aceito e saudável aos olhos do

capital, obediente à suas regras e, portanto, diferente de ócio e da visão de ócio ligada à

preguiça e à improdutividade. A industria do entretenimento pauta-se nas mesmas leis

econômicas que qualquer outra industria, obedece as mesmas leis de mercado e utiliza

estratégias semelhantes.

Como toda mercadoria, o lazer deve expandir-se e encontrar mercados, conquistar

novos consumidores. Atinge agora, na busca constante de expansão, não somente as classes

dominantes, mas toda a população. Houve um alargamento das fronteiras do capital, que

não tendo mais colônias ou novos mercados, geograficamente falando, para desbravar,

aumentou suas fronteiras internas.

BAUDRILLARD~.l981, p. 16.
2

20
A classe trabalhadora tomou-se um importante consumidor, principalmente nos

paises mais ricos e desenvolvidos. Este fenômeno que nem de longe é fruto de algum tipo

de democratização, atende apenas à necessidade do capital alargar suas fronteiras frente ao

desenvolvimento dos meios de produção. É clara a diferen-ça de consumo entre as várias

classes sociais e a segregação gerada pelos diferentes níveis de poder aquisitivo.

A insistência sobre o consumo é consoante à necessidade do sistema de se

reproduzir. A propagação, a produção e o crescimento do consumo, dos Jazeres e de toda a

gama de atividades desvinculadas da produção material, se articulam à reprodução do

sistema produtivista, capitalista. Constrói-se como mecanismo de poder, de controle e, de

maneira alguma, como fruto de subversão.

Semelhante a moral aristocrática do ócio, o consumo apresenta-se como emblema

ou signo de distinção social. Essa distinção estende-se a aquisição de prazer, lazer ou

entretenimento quando estes temas se alinham à lógica de produção/consumo. É

interessante observar a lógica do consumo trilhando uma condição hegemônica, articulando

à sua esfera vários segmentos da vida. O prazer hoje se relaciona ao consumo e é postulado

pela aquisição e não pela busca autônoma e livre da satisfação dos desejos. A repressão dos

desejos individuais, característica dos regimes disciplinares, dá lugar à sua estimulação em

sintonia à exacerbação do consumo.

O dinheiro, condição necessária ao consumo, nesta lógica de tempo mercadoria e

prazer mercadoria, se impõe como sinônimo de felicidade. É uma importante caracteristica

da sociedade hoje que, o lazer decorre da disponibilidade de tempo e dinheiro. O tempo

livre, ou o tempo disponível ao prazer, responde às regras de mercado, de tempo

economicamente útil e de tempo comprado.

21
-

O ócio, ou mesmo a visão clássica de ócio não aparece como resposta à ocupação

deste tempo disponível. O ócio é indisciplinado, não se valora o tempo gasto ociosamente

em ganhos ou perdas, útil ou inútil; o ócio não participa desta lógica que atribui valor ao

tempo, e, mesmo com o aumento do tempo disponível ele ainda é visto negativamente. As

pessoas, acostumadas a disciplinar, organizar, ocupar o tempo, tendem a não valorizar este

tempo 'desordenado' e 'sem finalidade' material, sem finalidade palpáveL

A industria do lazer e entretenimento exerce um importante papel ordenador quando

disciplina o tempo livre ao consumo e justifica o tempo de trabalho. Se o prazer está fora do

universo de trabalho, quando ele se dá através do consumo, beneficia esta lógica, uma vez

que o consumo só se realiza através dos dividendos conseguidos no trabalho e, assim, o

individuo fica circunscrito num universo restrito entre trabalhar e consumir.

No inicio da industrialização, todo o tempo do trabalhador, exceto o mínimo

necessário ao descanso, era tomado, alienado ao sistema produtivo. As diminuições nas

jornadas de trabalho nunca pretenderam realmente disponibilizar unidades de tempo aos

trabalhadores, afinal, o tempo é uma mercadoria, possui valor. Em contra partida à

disponibilidade desse tempo, buscou-se tomá-lo econômica e socialmente útil. Porém, com

o aumento da necessidade de consumo diminuiu a incidência dos mecanismos de disciplina

sobre os tempos livres e aumentou a incidência de mecanismos de controle.

"Poder-se-ia dizer que, na ação disciplinar, a produção


permanece o centro dos desejos e coações dominantes, mas,
naquela de controle, é principalmente o consumo que conquista um
lugar de destaque. "3

3
SANT'ANNA, 2002, p. 47.

22
O crescimento das estratégias de marketing foi necessário para controlar, para

adequar esse tempo ao consumo. São estratégias que agem ao nível do desejo e, as quais, as

industrias de lazer e entretenimento se utilizam muito bem e, também são veiculo. Se o

prazer satisfaz o desejo, nada melhor que gerar desejo para vender prazer.

"Pois se o poder só tivesse a função de reprimir, se agisse


apenas por meio da censura, da exclusão, do impedimento, do
recalcamento, à maneira de um grande super-ego, se apenas se
exercesse de um modo negativo, ele seria muito frágil. Se ele é
forte, é porque produz efeitos positivos a nível do desejo- como se
começa a conhecer- e também a nível do saber. O poder longe de
impedir o saber, o produz". 4

Construíram-se padrões de usos do tempo livre, que cada vez mais dependem de

al:_pt:!.<t formo. de consumo. Esses padrões difundiram-se de ta! n~dneira, que; aqueles que

não possuem meios financeiros suficientes para realizá-los, se vêm impedidos de usufruir

do seu tempo livre. Não é realmente valorizado pela sociedade o uso autônomo, livre e

independente deste tempo disponível.

Trabalho alienado, ou fulano é alienado, são expressões muito usadas; mas o que

realmente significam? Quando o trabalhador aliena sua força de trabalho ao setor produtivo

ou à outrem, quer dizer que ele se toma alheio ao seu trabalho, ou ao que realiza através

dele. Este é o cerne do problema, pois qual é o tempo e espaço social que o indivíduo

dispõe para 'realizar-se'? Ele é capaz de realizar-se, de buscar felicidade de forma

autônoma?

O que observamos é que os indivíduos tomaram-se alheios, também, na busca da

realização pessoal nos tempos liberados. Esta realização, na sociedade de consumo, se dá

através da aquisição de inúmeros objetos e produtos e sua eleição, também é alheia ao

4
FOUCAULT, 1986, p. 148.

23
indivíduo. Ela se estabelece muito mais nas estratégias de marketing que nas necessidades

do indivíduo que as consome. Vale lembrar que as necessidades humanas se distinguem em

muito das necessidades dos animais, determinam-se além das necessidades fisiológicas, são

também fruto da construção humana, da cultura.

A realização através do consumo se extingue no ato consumatório, ela não está na

relação com o objeto consumido, mas sim na posse deste como símbolo de conquista. É

uma busca sem fim, dada a condição efêmera do prazer proporcionado e isto explica os

diferentes níveis de consumo que produzem o mesmo nível de insatisfação. A insatisfação

não leva à negação do consumismo, mas sim à insistência sobre ele.

O mundo do trabalho continua hegemônico, dita o tempo livre em todos os aspectos,

até mesmo quanto à realização pessoal. Mesmo que ela ocorra no tempo liberado, ela é

efêmera, pois não se transfere ao trabalho; mas a alienação do trabalho se transfere ao

tempo livre. O mundo continua regrado pelo trabalho mesmo quando se observa o aumento

dos tempos liberados.

Tanto é verdade que, o tempo do desempregado não é passível de lazer, por todas as

coações morais e econômicas as quais ele é submetido. É apenas um tempo ocioso, no

sentido pejorativo que a palavra adquiriu, pois o desempregado não contribui de maneira

produtiva à sociedade. Não cabe, ou não é possibilitado ao desempregado que, ele usufrua

um tempo social que não possui. O tempo de descanso é um tempo comprado pelo

trabalhador junto ao empregador, ou a sociedade. É um tempo que lhe é permitido mediante

sua contribuição social, o trabalho.

24
A SOCIEDADE DO ÓCIO

Qual é a característica da sociedade hoje? Vivemos atualmente numa sociedade

capitalista, produtivista, de consumo? Num regime disciplinar, de controle ou de poder

soberano? Como se define o estado de coisas em nosso tempo?

Talvez a resposta esteja na heterogeneidade, na diversidade da história, onde um

único tempo histórico, urna única sociedade e uma única cultura podem abranger todas

estas características, como também, as formas de resistência à elas. Somam-se a essas

classificações: cultura do espetáculo, sociedade da informação, regime da propagação ...

Vivemos num turbilhão de informação, milhões de dados, imagens, idéias ... circulando,

propagando, orbitando à velocidade subliminar da incompreensão. É o estado que

Baudrillard caracterizou de pós-orgia, 1 de liberação em todos os campos e sentidos.

Romperam-se as barreiras do real e do virtual, do publico e do privado; a vida

transformando-se num grande espetáculo à imagem de um grande reality show.

Virtual é a palavra de ordem atualmente. A economia é, por exemplo, virtual

quando se traduz no mercado financeiro de capitais, onde o dinheiro investido nas bolsas de

valores do mundo não tem paralelo material. As diversões seguem o mesmo caminho, dos

vídeo games aos reality shows.

Os reality shows, o grande interesse das massas pela vida privada das celebridades,

são exemplos de uma 'realização externa', alheia ao indivíduo; ou, uma nova forma de

alienação através do universo virtual. Criou-se uma nova necessidade, que é a necessidade

do virtual.

1
BAUDRILLARD, 1992, p. 9.

25
As necessidades humanas crescem tanto quanto a capacidade de produção dos

meios de satisfaze-las; e, estes meios crescem freneticamente na tentativa de confrontar a

impossibilidade de satisfação integral dos indivíduos diante dos moldes do trabalho

moderno.

A evolução dos meios produtivos e o crescimento dos tempos sociais desvinculados

da produção material, provocaram o surgimento de diversas teorias profetizando a dita

'sociedade do ócio'. Este é um sonho recorrente, desde a antiguidade clássica vários

pensadores imaginam a possibilidade de uma sociedade onde as máquinas libertariam os

seres humanos do trabalho. Lafargue assim imaginou, e, se valeu de Aristóteles para ilustrar

seu sonho, que no final do século XIX, segundo ele, já era 'possível'.

"Se cada instrnmento pudesse executar sua função própria


sem ser mandado, ou por si mesmo, assim como as obras de Dédalo
se moviam por si sós, ou como os tripés de Vulcano realizavam
espontaneamente seu trabalho sagrado; se, por exemplo, as rocas
das fiandeiras fiassem por si sós, o dono de oficina não precisaria
mais de auxiliares, nem o senhor de escravos." 2

A enorme mecanização da industria, continua a gerar profetas da sociedade do ócio.

Esta sociedade é vista como conseqüência da evolução dos meios de produção e

organização da sociedade atual. Porém, esta sociedade não ocorreu antes, e, não parece tão

próxima. O problema, ou a chave para a sociedade do ócio, não está nos meios produtivos,

mas sim na estagnação das 'necessidades' individuais. Estagnação é claro, nas populações

privilegiadas. Pois, em meio à tanta abundância existem muitos que sobrevivem em

condições subumanas, e, submetidos à regimes de trabalho muito próximos aos do início da

industrialização.

2
ARISTÓTELES apud LAFARGUE, 1999, p. I 18.

26
Mais do que questionar o do aumento dos tempos liberados; devemos questionar

como eles serão utilizados, por quais valores serão regidos, e, se obedecerão as leis do

tempo do trabalho, ou não?

"Se vamos ter mais tempo de lazer no futuro automatizado, o


problema não é 'como as pessoas vão conseguir consumir todas
essas unidades adicionais de tempo de lazer?', mas 'que capacidade
para a experiência terão as pessoas com esse tempo livre?'. Se
mantemos uma avaliação de tempo puritana, uma avaliação de
mercadoria, a questão é como empregar esse tempo, ou como será
aproveitado pelas industrias de entretenimento". 3

Como é possível falar em 'sociedade do ócio' numa sociedade que ainda valoriza o

trabalho nos moldes anteriores, que ainda vaiara o tempo como mercadoria, que mantém os

mesmos valo:"es da 'sociedade do trabalho'? Como pode haver t2: trr.nsiyão se:n uma

correspondente mudança de valores, uma mudança cultural que a justifique, que realmente

possibilite uma transição tão significativa?

"Quer dizer, não basta aumentar o tempo livre, se o que continua a dimensionar esse

tempo é o mundo do trabalho, com seus valores e suas leis". 4

O ócio que imaginamos, quando nos remetemos aos pensadores gregos, é um tempo

de contemplação, reflexão, introspeção, expressão, arte e aprendizado. Tempo que pennitiu

a construção do pensamento clássico. Tempo dentre outras coisas, dedicado à elucidação de

questões fisicas, metafisicas, filosóficas, morais, políticas ... Dedicação que atribui à vida

uma condição muito própria.

Não se trata de buscar na visão clássica de ócio a resposta para a ocupação dos

tempos liberados crescentes. Mas, levantar questões relevantes que nos remetam a uma

apropriação autêntica deste tempo e dos demais tempos sociais. Ao confrontar as visões

3
THOMPSON, 1998, p. 302.

27
clássica e contemporânea, de temas como o ócio e o trabalho, obtemos algumas respostas,

e, novas questões que nos levam um passo à diante.

4
SANT' ANNA, 1994, p. 53.

28
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUDRILLARD, Jean. A Sociedade de Consumo. Lisboa: Edições 70, 1975.

____ . Para uma Crítica da Economia Política do Signo. Lisboa: Edições 70, 1981.

____ .A Transparência do Mal: Ensaio Sobre Fenômenos Extremos. za ed.


Campinas, SP: Papirus, 1992.

CHAUI, Marilena. Introdução. In: LAFARGUE, Paul. O direito à Preguiça. São Paulo:
Ed. Hucitec; Ed. Unesp, 1999.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Editora Vozes, 1977.

_ _ _. Microfisica do Poder. 6a ed. Ri ode Janeiro: Edições Graal, 1986.

GOUiDNER, Alvin W. La Crisis de la Sociologia Occidental. Buenos Aires: Amorrortu


Editores, 1970.

HOBSBAWM, Eric J. A Era das Revoluções: Europa 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1977.

_ _ _ _ . A Era do Capital: 1848-1875. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. 6a edição. Rio de Janeiro: Zahar


Editores, 1971.

LAFARGUE, Paul. O Direito à Preguiça. São Paulo: Ed. Hucitec; Ed. Unesp, 1999.

29
MARX, Karl. Salário, Preço e Lucro. Rio de Janeiro: Editorial Vitória, 1963.

RAGO, LuziaM.; MOREIRA, Eduardo F. P. O Que é Taylorismo. São Paulo: Ed.


Brasiliense, 1984. [col. Primeiros Passos]

SANT'ANNA, Denise B. de. O Prazer Justificado: História e Lazer. São Paulo: ed. Marco
Zero, 1994.

~~-· Entre a Serpente e a Toupeira: Transitando pelas idéias de Foucault e Deleuze.


In: BRUHNS, Heloisa T. [org.] Lazer e Ciências Sociais: Diálogos Pertinentes. São
Paulo: Chronos, 2002.

SÊNECA. Sobre a Tranqüilidade da Alma; Sobre o Ócio. São Paulo: Nova Alexandria,
199~.

THOMPSON, E. P. Costumes em Comum: Estudos Sobre a Cultura Popular Tradicional.


São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

VEBLEN, Tornstein. A Teoria da Classe Ociosa. São Paulo: Abril Cultural, 1980. [col. Os
Pensadores]

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Abril Cultural,
1980. [col. Os Pensadores]

XENOFONTE. Econômico. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

30

Você também pode gostar