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sobre múltiplos Osmar Diflon

Escrever sobre múltiplos, hoje, em 1977, é quase que heliográficas do mesmo, que virá a ser executado por outras
~ um múltiplo. Tudo já foi dito, de maneira exatamente pessoas qualificadas. O arquiteto participará apenas, se
igual, que se torna inevitável não usar os recursos de achar necessário, como supervisor da obra em execução.
repetição da "ars multiplicata" ao falar sobre o assunto. O artista da "ars multiplicata" torna-se cada vez mais um
"A essência do múltiplo é conversar na pluralidade, a "designer" executando menos programando mais.
unicidade da obra", segundo Jayme Maurício. Em meu caso particular, como era poeta neoconcreto e
O múltiplo apresenta as condições favoráveis para também arquiteto, minha obra, inevitavelmente , veio a ter
atingir o maior número possível de pessoas, quebrando o não só as condições como como a necessidade coerente
preconceito de que belo é sinônimo de caro, e que qualidade de ser multiplicável. Quando escrevia poesia no plano, no
é atributo exclusivo de peça única. Esse preconceito resulta papel, podia publicar em jornais ou em livros. Mas quando
da ilusão que tem sido sabiamente mantida pelo mercado. passei a trabalhar com a terceira dimensão, no espaço, como
A obra artística tomou-se difundível e multiplicável graças divulgar minhas pequenas criações poéticas? Em 1960,
aos recursos da máquina- essa máquina que era tida como quando senti essa limitação, não se falava em múltiplos no
perigosa inimiga da arte, e que tornou-se, enfim, sua aliada. Brasil. A repetição da obra de arte, feita pelo criador, seria
Fala-se de múltiplo, como se fosse uma categoria à parte plagio de si mesmo. Em 1970 as coisas mudaram, e me
na escala da criação artística. Mas múltiplos sempre existiram: deram o primeiro prêmio no Salão de Verão com objetos
desde as réplicas da estatuária clássica, das estampas intrinsecamente multiplicáveis, feitos em 1960. Continuo
gravadas do século XIV, às gravuras de hoje, às fotografias, multiplicando até hoje, tenham ou não os múltiplos saído
filmes e discos. Todas as obras de arte, enfim, multiplicadas de moda, pois não é isso que importa. Continuo usando
em exemplares-tipo idênticos à concepção original de seu o meio de expressão e divulgação necessário à minha
autor, Podem ser consideradas múltiplos. Múltiplos tomaram- necessidade de criação poética, e , felizmente com boa
se, há pouco graças à tecnologia e à quebra de mito da peça aceitação por parte do público, cumprindo , pois, a finalidade

única, certas obras de Man Ray e Marcel Duchamp- esse de tornar a obra acessível a um número muito maior de

fantástico artista pioneiro, precursor e inventor de muito do que pessoas. Infelizmente não temos ainda, aqui , as condições

se faz hoje. Um múltiplo no campo da poesia, perfeito, para de reprodução em escala industrial. Ficamos na escala
·
mim ' como sIntese · ··
de uma obJet1v1dade concreta, e· o poema artesanal, por enquanto, o que já é muito, se lembrarmos que
de Gertrud S . . ,, o que falta para grande massa de população do país não é
e te1n- "Uma rosa, é uma rosa, e uma rosa •
Os Processos de criação e feitura de um múltiplo aproxima- arte e sim o mínimo indispensável para suas necessidades
se da . ~ A
básicas.
situaçao criativa do arquiteto contemporaneo: Ele
desenha . .. . .. Documento datilografado , Rio de Janeiro, novembro 1977
seu anteprojeto, seu projeto def1rnt1vo, tira copias

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