Você está na página 1de 6

Backyard Sounds, An Immersive Sound Experience

Quintal dos Sons, Uma Experiência Sonora Imersiva



Rosimária Rocha
Doutoranda em Média Arte-Digital
Universidade Aberta/Universidade
do Algarve
Lisboa, Portugal
rosyrocha4@yahoo.com.br

ABSTRACT KEYWORDS
This research consists of a reflection on the immersive sound Installation; computational artifact; sounds; soundscapes
installation “Backyard sounds”. In order to achieve that
objective, we consider both the artistic process involved in its PALAVRAS-CHAVE
creation, as well as the concepts and notions related to the Instalação; artefacto computacional; sons; soundscapes.
computational systems used in it; this combining artistic practice
and theoretical research. The installation aims to reflect on CCS CONCEPTS
sounds in the contemporary epoque, with the intention of
Applied Computing -> Arts and humanities -> Media arts
leading the audience to experience being alone in a dark room
whilst viewing a video and interacting with the sounds, which
ACM Reference format
are only performed with the viewer's participation. The present
sounds are reflections of soundscapes from nature and sounds Rosimária Rocha. 2019. Backyard Sounds: An Immersive Sound
Experience. In Proceedings of Artech 2019 9th Internacional Conference on
produced by the humans; they seek to bring calm and chaos to
Digital and Interative Arts (Artech 2019), Braga, Portugal, 4 pages.
the audience; the extreme paradoxes of contemporary life.
https://doi.org./ 10.1145/3359852.3359943.
RESUMO
A investigação, aqui descrita, consiste numa reflexão sobre a
1 UMA EXPERIÊNCIA SONORA IMERSIVA
instalação sonora imersiva “Quintal dos Sons”. Onde, abordamos Na concepção da arte sonora, o conceito Soundscapes mistura
o processo artístico envolvido na sua criação e os conceitos e sons naturais, processados e artificiais. São obras que (re)criam
noções referentes ao artefacto computacional; aliando, desta sensações de ambientes particulares e imersivos. Segundo Barros
forma, a prática artística e a investigação teórica. [1:860], elas relacionam-se diretamente com a arte da instalação
e imersão, e em muitos casos, são construídas especialmente para
A instalação tem como objetivo principal refletir sobre os sons o local em que acontecerá a intervenção. Muitas destas, fazem
na contemporaneidade, busca levar o(s) fruidor(es) a ficar(em) uso de tecnologias interativas, interfaces, computadores,
sozinho(s) numa sala escura, visualizarem um vídeo e sensores, dispositivos mecânicos, cinéticos e eletrônicos. Ainda
interagirem com os sons, que apenas são executados com a conforme Barros [1:860], a instalação é uma linguagem artística,
aproximação do(s) fruídor(es) (incorporando os sons, imagens e que em seu bojo traz a questão da ampliação do conceito de arte
espaço nas suas próprias vivências sensoriais, de forma e da contaminação de diversos meios como poética.
imersiva). As instalações deslocaram a visão do objeto para o ambiente
Os sons presentes são reflexos do conceito Soundscapes que o circunda e as sensações que tal ambiente pode provocar. A
(paisagens sonoras) de sons da natureza e de outros produzidos própria noção de espaço foi revisitada, no sentido em que “a
pelo Ser Humano; pretende-se, trazer para o fruidor, os extremos instalação pode ser simplesmente o ‘vazio’” [10:567].
paradoxos da vida contemporânea, como a calmaria e o caos. Com relação à arte imersiva, muitas definições incluem
propriedades pertencentes à experiência de imersão. Nachvidal
descreve uma experiência imersiva como aquela em que o
Permission to make digital or hard copies of part or all of this work for personal
or classroom use is granted without fee provided that copies are not made or individuo é envolvido por um sentimento de isolamento do
distributed for profit or commercial advantage and that copies bear this notice mundo real. Um significado semelhante é encontrado em Dovey
and the full citation on the first page. Copyrights for third-party components of
this work must be honored. For all other uses, contact the Owner/Author.
e Kennedy [5] que definem a imersão como um experiência de
perder os sentidos no presente, enquanto concentradso em um
ARTECH 2019, October 23–25, 2019, Braga, Portugal ambiente mediado. Bachelard [3] por sua vez, define a imersão
© 2019 Copyright is held by the owner/author(s).
ACM ISBN 978-1-4503-7250-3/19/10. como a condição de performar numa circunstância definida ou
https://doi.org/10.1145/3359852.3359943
ARTECH 2019, October, 2019, Braga, Portugal R. Rocha

não por representações, de tal modo que todas as condutas do forma, a composição bem-sucedida tem a capacidade de
fruidor envolvido sejam motivadas por interações com objetos transformar as ideias do ouvinte referentes a utilização dos sons
constituídos no horizonte desta circunstância. ambientais e o fazem refletir sobre o ambiente em que está
A instalação “Quintal dos Sons” tem como objetivo levar os vivendo.
indivíduos a refletir sobre os sons na contemporaneidade. Traz De acordo com Gomes [7:10], “a paisagem sonora é cada vez
em sua narrativa a relação histórico-musical da autora, mais relevante na cultura contemporânea. É uma ‘fotografia’ de
abarcando em cada som, sua trajetória de vida, caminhos e um lugar. Uma radiografia ao seu carácter e atividades,
pontes; A metáfora do quintal faz referência ao “meu quintal” simultaneamente disforme e amorfa como repleta de significados
(percurso, trajetória), entretanto, é um caminho que e subtilezas. Uma transmissão complementar ao que a imagem
simultaneamente encontra outros atalhos e estradas que se retém e transporta.” Ainda nesse contexto, o autor afirma que a
entrelaçam em um espaço comum e paradoxalmente paisagem sonora é uma impressão única do lugar a que pertence,
reconhecível na vida pós-moderna. . Outra metáfora utilizada é o da sua história e das pessoas que o habitam.
“o coração”, que com seu som permeia todo o percurso sonoro. Pode-se constatar uma abertura “para um ‘novo’ mundo de
Seja enquanto pulsação (primeiro som do ser humano) e/ou sons, ruídos e silêncios, e, consequentemente para outras
também por sua representatividade no universo musical e atitudes de escuta” que lançaram tanto os alunos/ouvintes como
sensível, enquanto pulsar permanente e mais importante da vida; a mediadora/ professora para encontros inusitados
afinal, “L’essentiel est invisible pour les yeux” [16]. “possibilitando tanto o desvelamento de outras escutas e
materialidades sonoras, quanto à formalização de novos
2 ARTE SONORA E SOUNDSCAPES procedimentos e poéticas composicionais.” [17:35-36]. Essa busca
por uma nova atitude de escuta foi um dos objetivos a serem
O som está presente na vida do homem atual, considerado pós-
alcançados durante o processo.
moderno, de uma forma jamais vista: tudo se passa como se
Segundo Schafer [19:277] o ambiente sonoro de uma
houvesse ocorrido uma sonorização gigante dos espaços nos
sociedade é uma fonte importante de informação. E que o mundo
quais vivemos, provocando uma hipertrofia do nosso ambiente
moderno está se tornando cada dia mais barulhento e ameaçador,
sonoro. Conforme Solomos [22:56], da poluição sonora a que
devido à multiplicação irrestrita de máquinas e tecnologias em
somos submetidos à música cuidadosamente escolhida para ser
geral, o que resulta em uma “paisagem sonora mundial, cuja
escutada em nossos fones de ouvido; da música de supermercado
intensidade cresce continuamente.” Afirma ainda que “Quando
aos mais belos momentos de um concerto; de um som
Cage abre a porta da sala de concerto e encoraja os ruídos da rua
inconveniente de um celular a um intervalo de silêncio
a atravessar suas composições, ele ventila a arte da música com
conscientemente almejado como uma possibilidade entre outras,
conceitos novos e aparentemente sem forma”. [19:108]
os sons são “despejados” continuamente, mixando-se uns com os
É inegável a presença notável de Cage abrindo as janelas da
outros, produzindo efeitos de mascaramento ou se multiplicando.
composição e mostrando a todos à importância do som. Santos
A música, em particular, se transformou numa imensa inundação
[20:37] ressalta que, para além disso, uma espécie de
sonora, um tsunami planetário devastador para alguns, líquido
“anonimato” do som começa se fazer cada vez mais presente, e,
amniótico universal e nutritivo para outros. Em virtude do
ainda na década de 50, com John Cage, a chamada “poética
advento da gravação e ao progresso tecnológico, se tornou
composicional” que se estabelecia destaca o som ‘em si mesmo’,
possível e inevitável escutá-la onde estivermos,
propiciando, dessa forma, um jogo de relações sonoras “onde o
permanentemente; e graças à globalização, se pode, em teoria,
acaso e o imprevisível têm lugar de honra”. A música de Cage, ao
escutar tudo o que se quer – e o que não se quer. Vivemos assim,
lidar ‘com sons’ e não ‘com propósitos’, torna possível o
numa ubiquidade musical e sonora que solicita uma escuta
acontecimento de um jogo que vai além do sonoro e consiste na
contínua.
afirmação da vida e de seu entorno sonoro, a partir de uma
A Arte sonora, tem como material primário o som e pode ser
escuta que age espontaneamente a compor o que ouve.
conectada a muitas áreas, tais como: acústica, psicoacústica,
Se Cage propõe a escutar música, Murray Schafer, compositor
eletrónica, noise, paisagens sonoras, explorações do corpo
canadense trata a paisagem sonora do mundo com uma “enorme
humano, escultura, arquitetura, filme ou vídeo e outros aspectos
composição macrocósmica. O homem é seu principal criador. Ele
do discurso atual da arte contemporânea. Segundo Morais [14:8],
tem o poder de fazê-la mais ou menos bela” Schafer [20:277]. Ou
“A arte sonora é a mescla de manifestações artísticas, nas quais o
seja, ele vê os seres humanos como “orquestradores” nesse
som é referência, que gere um processo de união entre o som,
campo de infinitas possibilidades situadas dentro do domínio da
imagem, espaço e tempo. Esta toma o som como elemento
música.
essencial de uma criação”.
Nesse contexto, torna-se importante falar um pouco sobre
Denomina-se Soundscapes ou Paisagem sonora, conforme
soundscapes composition, tendência composicional que surgiu em
Santos [17:35] ao citar Truax, como a “a presença de sons
meados dos anos 70 no âmbito do movimento World Sound
ambientais em contextos reconhecíveis”, cujo propósito é
Project (WSP) em português Projeto Mundo do som, liderado por
“invocar associações, memórias e an imaginação do ouvinte
Murray Schafer. Projeto este que foi desenvolvido em várias
relacionadas à paisagem”. Revela que a intenção do compositor é
partes do mundo e na atualidade ainda reúne pesquisadores para
conscientizar o ouvinte em relação aos sons do ambiente. Dessa
o que tem sido chamado de Ecologia acústica. Nessa perspectiva
Backyard Sounds: An immersive sound experience ARTECH 2019, October, 2019, Braga, Portugal

Schafer [19:287] explica que “Ecologia é o estudo da relação surgiu também a necessidade de captar e reproduzir ambientes e
entre os organismos vivos e seu ambiente. A ecologia acústica é, cenas sonoras, contendo fontes sonoras em diferentes posições,
assim, o estudo dos sons em relação à vida e a sociedade”. Em dando origem ao conceito de realidade virtual e de sistemas
todo esse estudo a audição tem papel preponderante, sendo a capazes de criar espaços artificiais com o intuito de imergir um
escuta entendida como “a interface crucial entre o homem e o ou mais espectadores, tirando partido das suas capacidades
meio ambiente” [18:38]. E quando se coloca a escuta nesse sensoriais.
patamar, busca-se a interação e integração do homem com o De acordo com Campesato [4], a ligação que a arte sonora
meio ambiente. estabelece com o espaço ocorre por meio da instalação sonora,
Embora o WSP tenha tido como principal trabalho que é um tipo de arte que não se concentra em um só objeto mas
documentar, arquivar, descrever e analisar as paisagens sonoras, que considera a relação entre vários elementos num contexto e o
com a intenção de aumentar a consciência pública dos sons do som, por sua vez, é o elemento unificador da obra. Nas esculturas
ambiente através de uma escuta que possibilitasse o pensamento sonoras, a construção da obra acontece em ligação com a
crítico, uma atividade reconhecida como paralela surgiu em meio construção do próprio espaço em que se insere, ou seja, o espaço
a esse movimento o soundscapes composition, que abrangeu é um elemento integrante da obra.
diversos compositores e/ou artistas sonoros. Conforme Santos A arte da instalação, frequentemente, implica sua audiência
[18:38] ao citar Toffolo, as composições paisagens sonoras, de no próprio espaço aonde a obra se dá. Neste sentido, Francisca
acordo com os princípios do WSP, são composições que se Gonçalves [8] afirma que através do desenvolvimento de uma
baseiam na noção de “reeducação da escuta”, viabilizadas pelos instalação sonora com variados graus de interatividade/
meios tecnológicos, produzidas com sons ambientais, imersividade, pode-se facilitar o processo de aprendizagem,
pretendendo colocar em evidência problemas referentes a fomentando a educação ambiental; utilizar esse tipo de
poluição desse ambiente acústico, ressaltando contudo, a relação intervenção com gravação de vocalizações de diferentes espécies,
de referência que o objeto sonoro possui com seu contexto explorará não apenas a ligação com a fonte causadora do som
auditivo, social e cultural. mas sim a avaliação do próprio som e suas características como
Para se compor na perspectiva de uma paisagem sonora é foco de atenção (altura, timbre) e seu estímulo no indivíduo. .
inerente que a composição surja da própria paisagem sonora Quando fala-se em arte imersiva, muitas definições incluem
gravada; “é como é se os materiais sonoros revelassem as propriedades pertencentes à experiência de imersão. Meneguete
estruturas essenciais ao desenvolvimento sonoro da peça.” [13:109] ressalta que a imersão não deve ser simples metáfora
[18:39]. construída artificialmente por analogia a um pensamento
objetivo frente ao fenômeno complexo, mas uma estrutura de
3 INSTALAÇÃO SONORA IMERSIVA existência que se propaga na imagem poética do mergulho, do
“lançar-se-em-direção-ao-mundo”, com tudo o que isso tem de
Desde os primórdios que o ser humano sempre esteve imerso na
“perigo”. Nesse sentido, estar imerso é esse sentido existencial de
arte e em ambientes sonoros. Schafer, no seu livro Soundscapes:
estar envolto, de envolver-se, mergulhar não em uma
Our Sonic Environment and the Tunning of the World [21], afirma
“substância”, mas em uma “circunstância”. Essa circunstância,
que a imersão do ser humano em ambientes sonoros influenciou
por sua vez, é uma cena onde o que importa é a relação vivida
bastante o seu comportamento, a forma de ser e estar, criando
entre acontecimentos, não as coisas em si enquanto objectos
fortes laços com certos elementos, sons de grande escala de
passíves de representação absoluta.
intensidade, como é o caso de trovões, temporais, ou mesmo o
som do próprio mar, que eram impossíveis para o Homem de
perceber, mas que aprendeu a temer e a respeitar. 4 TRABALHOS RELACIONADOS
Eventualmente, tentou captar estas características, através da Esta instalação é inspirada nas experimentações de Murray
construção e utilização de instrumentos que lhe permitiam Schafer, John Cage, Luigi Russolo, Pierre Schaeffer, Rosangella
replicar estes atributos que temia da Natureza, de modo a Leote, entre outros artistas que contribuíram para a evolução do
conceder este caráter titânico a situações ou indivíduos estudo das Soundscapes (paisagens sonoras), das instalações
particulares, como é possível perceber pela utilização de sinos sonoras e imersivas.
para indicar eventos religiosos ou de canhões para contextos Dentre instalações de referência temos “Rainforest15”, de
bélicos. Outro exemplo de uma característica de cariz sonoro que David Tudor, citado por Thomas Patteson, que faz referência a
prevaleceu desde os exórdios da humanidade foi a conotação este trabalho como sendo um dos primeiros exemplos de
negativa associada ao silêncio, estando, inconscientemente, instalações sonoras que, na época, foi considerada um desafio
muitas vezes associado a perigo ou morte. para os ouvintes. O objetivo principal era demonstrar as
Conforme Gonçalves [8:7], esta forte relação com os propriedades acústicas dos objetos em si [15]. Da mesma
ambientes sonoros que nos rodeiam foi sempre um importante maneira, Matt Rogalski reforça que “Tudor´s interest, dating
objeto de estudo ao longo do tempo, impulsionando back to 1965, lay in finding a means of making objects reveal
investigações ao nível da psicoacústica, para compreender a their own resonant characteristics rather than using them as
forma como o som nos chega aos ouvidos e a maneira como instruments to be played manually” [6:26].
interpretamos esses sinais. Com a evolução das tecnologias
ARTECH 2019, October, 2019, Braga, Portugal R. Rocha

Em relação às instalações sonoras que influenciaram Momento 01 - Abertura/Recepção


diretamente a nossa proposta de trabalho, são instalações
O(s) indivíduo(s) fica(m) sozinho(s) em uma sala. Ao
inspiradoras: a “La selva74” de Francisco López [11]. Trata-se de
adentrar(em) à sala um vídeo começa a ser exibido. Esse vídeo
uma experiência imersiva num ambiente sonoro de uma floresta
traz a seguinte narrativa:
tropical na Costa Rica, fazendo uma viagem sonora natural
! O som do universo; o vento; o primeiro som que o ser
criada por uma multidão de sons de chuva, cascatas, sapos,
humano ouve (batidas do coração). Em seguida temos um mote:
insetos, aves, mamíferos e até sons de plantas, em um dia
“Quero falar de uma coisa, advinha onde ela anda, pode estar
chuvoso. Um ambiente acusmático que nos apresenta uma
dentro do peito ou caminha pelo ar.” (Trecho da música: Coração
enorme complexidade e, um desafio à escuta profunda. López
de Estudante - dos compositores Wagner Tiso e Milton
acredita na possibilidade de uma escuta de sons profunda, pura, e
Nascimento); Coração (som das batidas do coração será
livre dos níveis de procedimento, contextuais ou intencionais de
constante em todo o vídeo); Coração que caminha (som da
referência. Outra obra inspiradora é “Acousmatic Park”, uma
caminhada), que passa por (rios e mares), e atravessa o oceano.
instalação de Francisca Gonçalves [8] que propõe ao ouvinte
Vive o caos do presente (vida em trânsito: instabilidade, angústia,
uma experiência sonora acusmática tendo em vista uma
autocarro, metro, viagem, irritação...). Mas quer repousar,
aproximação com a natureza e os seus sons. Desta forma, são
refletir, ser o que é: “essência”, e desligar-se do mundo (tela
apresentados vários níveis de envolvimento sonoro, onde os
preta, sem imagens), sair do caos e ser apenas coração
locais escolhidos foram transformado em espaços de escuta,
(mantra/som relaxante).
propondo o treino e o exercício da escuta e dos vários modos
associados. Foram criados ambientes com sonoridades
Momento 2 - Interação
provenientes do meio natural procurando estabelecer uma ponte
com a vivência pessoal, tendo em consideração o objetivo de Assim que o vídeo começa a ser reproduzido, conforme as
potencializar a consciência aural. A interatividade dos fruidores instruções na tela, o fruidor interage através dos sons. Todos os
faz parte do conceito da instalação, dessa maneira, além de sons da narrativa são inspirados em soundscapes relacionadas
aumentar a consciência aural individual, a instalação busca com a vivência musical e trajetória acadêmica da autora. Após a
promover o ensino e a aprendizagem da fauna portuguesa e/ou primeira imagem da tela, o fruidor pisa na primeira faixa e o
exótica na interpretação de determinadas soundscapes. sensor de aproximação 1- emite os sons do primeiro ficheiro (o
Outra instalação que influenciou esta insvestigação e som do universo); esse áudio finaliza com os sons da caminhada
inclusive a ideia de utilizar imagens é “Caminho das águas” (nesse momento aparece na tela um convite para que o fruidor
[12:203], que é uma instalação audiovisual interativa cujo o tema avance para a segunda faixa). Ao estar na segunda faixa, após a
aborda uma grande seca ocorrida no outono e verão brasileiros tela ficar completamente escura, o fruidor avança para a terceira
de 2014-2015. As referências visuais e sonoras da obra faixa, senta-se e coloca nos olhos uma venda (máscara escura nos
compreendem o repertório imagético de estiagem e cursos d'água olhos).
minguantes, contrapondo a paisagem audiovisual natural às
interferências humanas no ambiente. O material visual presente Narrativa/interação do fruidor - Detalhamento
na obra consiste em gravações associadas a cada seção temporal Logo que o(os) fruidor(es) entra(m) na sala e coloca-se
da instalação. O material sonoro compreende sons de paisagem posicionado no início do circuito, o sensor infravermelho detecta
sonora e texturas compostas previamente. A tecnologia utilizada a presença e envia a mensagem ao Arduíno/protoboard/processing
foram dois projetores, oito canais de áudio e duas câmeras que através da programação computacional ativa o vídeo que
infravermelhas controlada por um sistema computacional tem 3 minutos e 45 segundos. Na sala, há no chão 3 faixas. Cada
implementado em MaxMSP. faixa representa a posição precisa que o(s) fruidor(es) deve(rá)
estar na sala para ativar o sensor de aproximação que está
5 DESCRIÇÃO DA INSTALAÇÃO localizado no chão, na mesma direção de cada faixa. Cada sensor
assim que detectar a aproximação (programada em distância) do
Acho que o quintal onde a gente brincou é maior que a fruidor ativa os sons que estão em sincronia com as imagens.
cidade.
Cada faixa, está abaixo detalhada:
A gente só descobre isso depois de grande.
A gente descobre que o tamanho das coisas há de ser
medido pela intimidade que temos com as coisas. 1. Faixa 1 - Primeiros sons: Abertura
Há de ser como acontece com o amor. 2. Faixa 2 - Movimento: Caminhada/Caos
Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre 3. Faixa 3 - Relaxamento/Sentados/Venda/Escuta/Reflexão.
maiores, do que as outras pedras do mundo. Justo pelo
motivo da intimidade […] [2] Assim que o fruidor entra na sala e se aproxima da primeira
“Quintal dos sons” é uma instalação sonora imersiva, que tem faixa, sua presença é detectada pelo sensor infravermelho e o
como tema os sons na contemporaneidade. O artefacto é vídeo começa 5 segundos depois que o fruidor se aproxima da
produzido a partir de um arduíno, protoboard; quatro sensores de primeira faixa. Ao se posicionar na primeira faixa o Sensor de
aproximação infravermelhos; um projetor, um notebook; uma aproximação 1 dará play ao primeiro áudio, que traz o som do
coluna de som e programação em Processing.
Backyard Sounds: An immersive sound experience ARTECH 2019, October, 2019, Braga, Portugal

Universo; o vento; o primeiro som que o ser humano ouve Toda a programação do artefacto foi criada em Processing aliado
(batidas do coração). ao Arduíno. No primeiro momento, com a utilização do sensor
infravermelho, foi criado um algoritmo capaz de reproduzir o
vídeo conforme à presença dos espetadores/fruidores detectadas.
Cada presença foi programada para ser novamente detectada a
cada 7 minutos. De modo que, assim que as pessoas entram na
sala e se aproximam da primeira faixa o vídeo começa a ser
reproduzido até o final. Também em processing e arduíno foram
programados os sensores de aproximação infravermelhos; estes
Figura 1 - Faixas 1, 2 e 3 detectam a presença através do calor, mas também são utilizados
para detectar obstáculos e acionar alarmes e sons diversos. Esse
Ao visualizar o comando na tela, o fruidor deverá caminhar para sensor foi escolhido pela sua precisão, permitindo-nos a
a segunda faixa. Assim que se aproxima, o Sensor 2 ativa os sons possibilidade de programá-lo conforme a distância e tempo de
do áudio “Movimento”. Que representa o Coração que caminha produção de cada áudio selecionado na construção da instalação.
(som da caminhada), que passa por (rios e mares), e atravessa o
oceano (Minha travessia Brasil/Portugal). Vive o caos do
presente (vida em trânsito: instabilidade, angústia, autocarro,
metro, viagem, irritação...).
No momento que a tela fica preta, aparece um comando a
solicitar que o fruidor avance para a terceira faixa, onde e é
convidado a colocar uma venda e sentar-se. O Sensor 3 ativa o
áudio “Mantra”. Após experimentar sons movimentados e ao
final um som irritante.; o fruidor é estimulado a desligar-se do
mundo (das imagens) e meditar, refletir, ser o que é: “essência;
sair do caos e ser apenas coração (mantra do coração).

Figura 4 Faixa 2 -Exposição na Casa de Arte José Saramago,


Julho, 2019, Óbidos, Portugal

Figura 2 - Primeira montagem - Instalação “Quintal dos Sons”.

Figura 5 - Faixa 3 -Exposição na Casa de Arte José Saramago,


Julho, 2019, Óbidos, Portugal

6 CONCLUSÃO
A instalação “Quintal dos Sons” apresentada neste artigo, tem
como finalidade estabelecer uma relação de empatia entre o
público e o artefacto através da escuta sonora, dos estímulos
visuais e do movimento corporal de continuidade (caminhada).
Figura 3 - Faixa 1 - Exposição na Casa de Arte José Saramago, Cria-se assim, uma atmosfera sonora imersiva, que leva o fruidor
Julho, 2019, Óbidos, Portugal. a pausar, fechar os olhos escutar um mantra; refletir sobre a sua
escuta sonora; os sons naturais e os sons do cotidiano na
contemporaneidade.
ARTECH 2019, October, 2019, Braga, Portugal R. Rocha

A instalação faz parte do projeto de investigação “Quintal dos [16] Antoine Sainte-Exupéry (1943).Le Petit Prince. Estados Unidos. Editora: Artes
Gráficas Indústrias Reunidas.
Sons: Um caminho para a imersão sonora”, do doutoramento em [17] Fátima Carneiro dos Santos (2006). A paisagem sonora, a criança e a cidade:
Média Arte-Digital, pela Universidade Aberta de Portugal, que exercícios de escuta e de composição para uma ampliação da ideia de música.
Tese de Doutorado. Universidade de Campinas: SP.
está em andamento. Busca através do artefacto (estudo prático) e [18] ________ (2013). A escuta da cidade/paisagem sonora: um exercício poético.
teoria, criar uma interação entre o espaço sonoro e o fruidor; Baleia na rede: Estudos em arte e sociedade. ISSN: 1808-8473, vol.1, n.10.
estimular a consciência auditiva através das soundscapes, e [19] Murray Shafer (2001) A Afinação do mundo: uma exploração pioneira pela
história passada e pelo atual estado do mais negligenciado aspecto do nosso
reforçar assim, a relação do indivíduo com o ambiente e suas ambiente: A paisagem sonora. Tradução Maria Trench Fonterraba. São Paulo-
sonoridades. Editora Unesp
[20] ________ (2011) O Ouvido Pensante. Tradução de Marisa Trech de O.
Conceitos como: Arte sonora, imersão, interação, soundscape Fonterraba, Magda R. Gomes, Maria Lúcia Pascoal; revisão técnica de
e instalação sonora, estão diretamente envolvidos com a Aguinaldo José Gonçalves. 2ª ed. São Paulo: Ed. Unesp.
instalação e são discutidos ao longo do texto. Segundo Barros [1: [21] ________ (1993) The Soundscape: our Sonic environment and the turning of
the world. Rochester, Vt: Destiny Books, 1993.
858] “a forte ênfase no elemento do som é o que define a arte [22] Markis Solomos (2015). Da música ao som, a emergência do som na música
sonora ou sound art como um guarda-chuva conceitual que dos séculos XX e XXI-Uma pequena instrudução. Tradução Rogério Costa e
Carole Gubernikoff. Arte Recearch Journal. Brasil. V.2. n.1. P 54-68, jan/jun.
inclui obras de uma infinidade de linguagens artísticas.”
“Quintal dos sons” foi montada, até o momento, em duas
exposições, todas no ano de 2019 e obteve boa recepção por parte
do público; 100% dos fruidores participaram ativamente e
concluíram o circuito dos sons até o final, passando por todas as
faixas.
Os próximos passos serão revisitar o artefacto, ampliar a
disrupção e agressividade dos soudscapes; aumentar os sensores e
projetores, de modo a criar imagens em camadas e maior
interatividade sonora; construindo, dessa forma, uma ambiente
ainda mais imersivo; Propõe-se ainda, participar de mais
exposições; congressos e publicações, além de dar continuidade à
escrita da tese que está em andamento.

REFERÊNCIAS

[1] Ianni Luna Barros (2016). Instalações Sonoras. Anais do 15º Encontro
Internacional de Arte e Tecnologia de Brasília. Brasil: Universidade de
Brasília.
[2] M. Barros (2003) Memória Inventadas a Infância.São Paulo: Planeta.
[3] Gaston Bachelard (2008). A poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes.
[4] Liliam Campesato (2007) A Arte Sonora: Uma Metamorfose das Musas. Tese
de Mestrado em Música. Universidade de São Paulo.
[5] J. Dovey & H.W. Kennedy (2006) Game Cultures: Computer games as new
Media. Berkshire: Open University Press.
[6] John Driscool & Matt (2004). "David Tudor's rainforest: an evolving
exploration of resonance." Leonardo Music Journal 14. 25-30.
[7] José Gomes (2015). Composing with Soundscapes: Capturing and Analysing
Urban Audio for a Raw Musical Interpretation. Tese de doutoramento em
Ciências e Tecnologia das Artes-Música Computacional. Escola das Artes da
Universidade Católica Portuguesa.
[8] Francisca Gonçalves (2016). Acousmatic Park-Interação com o espaço sonoro,
natureza e modos de escuta. Tese de mestrado em Multimédia da
Universidade do Porto.
[9] Miguel Duarte Gonçalves (2013). Ambientes Sonoros Interativos e Imersivos.
Tese de Mestrado em Som e Imagem. Escola das Artes da Universidade
Católica Portuguesa.
[10] Fernanda Junqueiro (1996). Sobre o Conceito de Instalação. In: Revista Gávea
v. 14: 551-569, Rio de Janeiro, setembro.
[11] Francisco López (2004). "Profound listening and environmental sound
matter."Audio culture: readings of modern music. New York (NY):
Continuum International Publishing Group , 82-87.
[12] Clayton R. Mamedes; Artemis Moroni et. al. (2015). Caminho das águas,
instalação audiovisual interativa: implementação computacional e interação
dos visitantes. Computer Music: Beyond the frontiers of signal processing
and computational models. XV SBCM – .Unicamp.SP
[13] Lucas Correia Menenguete (2010). Realidade Virtual e experiência do espaço:
imersão, fenomelogia, tecnologia. Tese de mestrado em tecnologias da
inteligência e Desingn Digital. PUC.São Paulo.
[14] MORAIS, Liliana Cunha. (2014). A Dimensão do som: Relação entre artista,
comunidade e território. Tese de mestrado em criação artistica
contemporânea.Universidade de Aveiro.
[15] Thomas Patteson (2008).The Echo of nature: Sound Technology and the
ReEnchantment of the World: 1-30.