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fãs de romances. A comercialização deste produto é estritamente proibida.”

Digitalizado por Michelle Duarte na comunidade CAROLE MORTIMER E AMIGAS

Amor sem Compromisso

Julia n.º 666 “1998”

Resumo
Grey Nichols queria uma amante, não uma esposa. Mas depois que conheceu a
bela Mariah Stevens, Ele não conseguiu mais tira-la da cabeça...e, para sua
felicidade, nem de sua cama!
Ele estava tão atraído por ela, que até pediu para que morassem juntos..

Mariah Stevens procurava um marido, não um amante. Não importava se suas


noites com Grey eram tórridas de paixão, ela queria algo mais sério. Então,
Mariah lhe deu um ultimato: sem casamento, ela partiria. Mas o jogo do amor
não aceita parceiros intransigentes...
Capitulo I

Mariah Stevens caminhava na ponta dos pés pelo quarto pouco iluminado
para não despertar o homem que dormia, tranquilo, na imensa cama que se
destacava na decoração do aposento claramente masculino.
Ele tinha as pernas longas e musculosas ocultas pelo lençol verde-escuro
que deixava todo o resto do belo corpo á mostra. O corpo era realmente belo.
Mariah tentou concentrar sua atenção na procura de suas roupas,
espalhadas por todos os lados. Nos oito meses de namoro com Grey vira-o
tantas vezes que deveria Ter se acostumado, em vez de sentir a mesma
poderosa sensação de vertigem a cada encontro. Bastava um toque, um leve
contato do corpo dele para que seu corpo se incendiasse. Consciente do fato,
Grey usava e abusava desse poder para seu deleite.
O luar invadia a intimidade através de uma janela entreaberta,
iluminando Mariah enquanto despia a camisa do pijama masculino e apanhava sua
combinação para vestir.
Grey espreguiçou vagarosamente, como fazem os felinos, e Mariah não
pode evitar um olhar de admiração. Além de belo, ele era elegante como um
tigre e, como tal, majestoso até no despertar. Seu primeiro movimento, ainda
semi-adormecido, foi em busca do calor do corpo que deveria estar ao seu lado.
Sua reação ao travesseiro vazio foi o imediato despertar. Os olhos
negros muito abertos logo divisaram o vulto de Mariah com indisfarçável
prazer.
Ele tinha nos olhos um de seus maiores, senão o maior, atrativo, sempre
que pensava em Grey, eram os olhos que primeiro lhe vinham à memória.
Escuros como puro chocolate, com um ponto de ouro no centro. Traziam magia
e sedução capazes de despir um mulher em um relance, e, naquele exato
instante, aqueles olhos pediam em para ela voltar para cama.
Sentiu a pequena peça de seda que a envolvia queimar em sua pele quando
disse:
- Bom Dia.
- Como assim, bom dia ? Oque Está Fazendo?
- Tentando Reunir Minhas Roupas
Ao tentar a frase, Mariah localizou sua calcinha do outro lado do quarto, e riu
sozinha tentando imaginar como fora parar lá. Com um jeito de menino, Grey
rolou na cama e, com o queixo apoiado nas mãos, poderou em tom de pilhéria:
- querida, não acha que está muito cedo para procurar sua roupa? Estamos no
meio da noite, e você só vai precisar dela amanhã.
-Errou, Grey preciso ir embora para casa.
Em um relance, ele olhou para o relógio digital e de novo para ela. Aturdido,
argumentou: já passa da meia-noite, por que não dorme aqui.
Mariah respondeu a pergunta de grey enquanto escovava os cabelos apresada.
- não posso, tenho que atender um novo cliente pela manhã.
- sim, e qual o problema
Grey, preciso estar apresentável e não tenho roupas aqui. E, antes que
pergunte, não jade não pode atendê-lo por mim. trata-se de um homem de
negocios bastante conservador que quer redecorar o escritório.
Mariah e Jade eram irmãs e sócias em um escritório de decoração de
interiores. dividiam o mesmo apartamento e, embora muito unidas, eram
completamente diferentes em muitos aspectos. grey não conseguiu deixar de
tecer um comentário a respeito da cunhada.
-não consigo entender como você pode tê-la como sócia. jade é muito
excênctrica.
Que maldade, Grey! Além de ser uma ótima profissional, ela me ajuda nas
funções em que tenho dificuldades e vice-versa, assim podemos atender a
todos nossos clientes.
Com um só dedo enroscado na alça da combinação, Grey puxou Mariah para
junto dele. Não era preciso que ele dissesse uma só palavra para que ficasse
óbvio sua vontade.
-Eu realmente preciso ir... – A voz dela já deixava transparecer uma certa
hesitação.
O olhar de dele a pertubou de tal maneira que, sem perceber, ela tournou a
vestir a camisa do pijama dele. Mirando-a de alto a baixo, as palavras saíram
roucas, como se pensasse em voz alta:
_nunca pensei que meu pijama pudesse ser tão sexy...
A química que havia entre eles era tão poderosa que Mariah sabia ser inútil
resistir. Quando Grey se dispunha a usar seu charme com ela para lutar
contra? Além do mais, ela não queria resistir aquilo.
Grey era um homem surpreendente quando estavam a sós. Gentil, divertido e
carinhoso como nunca sonhara existir em ser. A arrogância e o cinismo que
eram sua marca registrada no mundo dos negócios e em suas atividades sociais
desapareciam na intimidade.
Sem esperar que Mariah se decidisse, Grey a abraçou, enterrando o rosto
entre os cabelos louros e sedosos, tentando sorver o perfume que exalavam.
Seus lábios, sem pressa, beijavam de leve a nuca de Mariah, fazendo-a perder
o fôlego. Os dedos ágeis escorregaram pelos botões da camisa, desnudando- a
Involuntariamente, ela arqueou o corpo para que seus lábios encontrassem os
dele. Em um relâmpago de lucidez se deu conta de que, não interrompesse
imediatamente aquelas carícias, não conseguiria mais fazê-lo.
Reunindo toda a força de vontade que lhe restava, Mariah tentou protestar.
-Grey..
Não conseguiu nem sequer concluir a frase, pois, ao ouvir seu nome, ele
intensificou o ritmo das caricias, completamente alheio a tudo que fosse
prazer.
-Você já é indispensável em minha vida Mariah...-murmurou ele em seu ouvido.
Simples e sinceras, eram aquelas as palavras mais tocantes que ela já ouvira.
Na verdade, ao ouvi-lás, Mariah conseguiu encarar sem receio algo que a
pertubava a mente já havia algum tempo. Para ela, não bastava que o amor
deles estivesse implícito em cada dia e noite em que juntos pareciam esquecer-
se da realidade, claramente apaixonados um pelo outro, para ela era
imprescídivel que o óbvio fosse dito e repetido. Especialmente no caso deles
em que tudo acontecera de maneira tão repentina e explosiva.
A paixão recíproca fora tão violenta que o envolvimento profundo e rápido em
que ambos haviam mergulhado ainda causava certa apreensão nela. Jamais
haveria outro homem como Grey.
Conhecido pela sua tenacidade e perfeccionismo nos negócios, não houve quem
discordasse de que, cedo ou tarde, Mariah Stevens cederia ao charme do Sr.
Grey Nichols.
Ledo engano... Ela possuía discernimento suficiente para manter distância do
Dr. Nichols e de seus lençóis de cetim.
Polidamente declinou seus convites e recusou seus presentes e flores.
Decididamente, ela não era um mulher como as outras, e Grey teria que aceitar
aquilo.
Mas uma noite viu-se a sós com ele em seu escritório. Grey ofereceu uma
bebida, ela aceitou. Enquanto falavam do aperitivo perfeito, suas mãos se
tocaram, depois seus lábios, depois...
No momento em que sentiu a maciez do sofá de couro sob seu corpo e os lábios
quantes e doces de Grey, ela desistiu de lutar contra seu coração.
O prazer e o desejo foram mútuos, a sedução fora recíproca, tornando aquele
momento único, sem falsas promessas ou palavras vazias.
Acostumada ao comportamento masculino, Mariah surpreendeu-se com as
atitudes de Grey quanto àquela noite. Ao invés de vangloriar-se de mais uma
conquista, preferiu discrição total. Pelo pouco que conhecia dele, aquilo não era
usual. Por uma razão desconhecida, ela estava sendo tratada de forma especial
por ele.
A cada novo encontro muitas afinidades eram descobertas, e os momentos que
viviam juntos eram profundos e alegres. Mas as reservas de Grey quanto a sua
vida pessoal e seu passado continuavam apesar do convívio quase cotidiano
entre eles. Aquela parte oculta de sua vida parecia conter lembranças
dolorosas e muito, muito íntimas.
Mariah se ressentia um pouco com aquele silêncio, mas acreditava que, com o
passar do tempo, Grey confiaria mais nela e lhe contaria tudo.
Seus devaneios foram interrompidos quando sentiu que ele a despira da camisa
do pijama, deixando seus seios nus.
Os olhos negros fixos em seus mamilos que, expostos, tornavam-se rígidos.
-Eu odeio quando você vai embora no meio da noite – a voz rouca dele estava
repleta de insinuações.
Mariah afastou-o colocando suas mãos no peito musculoso e sussurou:
-sinto por não poder ajudá-lo...
Aquelas palavras eram ditas em tom de brincadeira, por isso Mariah ficou
surpresa com a seriedade estampada no semblante dele.
-Eu quero acordar com você todos os dias da minha vida.
Mariah não podia crer em seus ouvidos, mas o olhar firme de Grey confirmava
cada palavra dita. Com o coração batendo acelerado, indagou:
-O que quer dizer com isso?
A resposta veio rápida.
-você sabe que estou me mudando para a casa nova semana que vem..
-Sei
Claro que sabia. Não apenas sabia, como fora a responsável por todos os
detalhes que tornavam ainda mais bela e suntuosa a casa imensa que Grey
construíra no ponto mais alto de malibu, com vista para a praia. Nos últimos
seis meses nada a ocupara tanto quanto aquele trabalho, mas o resultado ficara
além do que ambos haviam imaginado, e ela se orgulhava de sua obra.
-Aliás, quero aproveitar para dizer que os móveis serão entregues na terça-
feira, portanto a limpeza será terminada bem antes. Se quiser pode mudar-se
no Sábado pela manhã.
-Grey já sabia daquilo, mas Mariah mal conseguia disfarçar o nervosismo. –
Posso ajudá-lo a arrumar as coisas...
Mariah, por favor, ouça-me, tenho uma pergunta importante para dizer.
Mariah nunca vira Grey tão nervoso. As mãos dela estavam ensopadas de suor
frio. Ambos os corações batiam descompassados. Desde os primeiros
encontros, soubera que não haveria outro homem como ele em sua vida. Amava
com paixão e chegara a duvidar de que fosse correspondida, já que o tempo
passava e Grey não fizara menção alguma de pedi-la em casamento.
Fora paciente com ele, pois sabia que, cedo ou tarde, acabariam se casando,
conseqüência natural de qualquer relação como a deles.
Mesmo assim, o pedido de casamento era um momento único na vida de uma
mulher. No íntimo, esperara por aquilo durante toda a vida: encontrar e amar o
homem que a levaria ao altar e com quem teria filhos.
Em seus sonhos o pedido seria feito em outras circunstâncias, mas Grey nunca
agia de forma convencional. Pigarreando, ele começou:
-Estamos juntos há oito meses..- as palavras morriam na garganta dele.
-Como já cansei de ouvir você dizer, nenhuma outra conseguiu prendê-lo por
tanto tempo, não é ?!- A tentativa de mariah de acabar com aquela tensão
pareceu surtir efeito.
- exatamente, Nunca conheci alguém assim. Você reúne todas as qualidade que
sonhei em uma mulher. Você é linda, inteligente, culta e, í incrivelmente sexy.
Um pouco embaraçada com a declaração, tentou não parecer tão emocionada.
Conhecia-o bem para saber quanto ele odiava pieguice.
-Fico feliz que tenha percebido minhas qualificações...
-Enfim, acho que encontrei em você a mulher que sempre procurei.
A ansiedade dela não tinha limites. Para que tanto supense? Cada frase
inacabada era uma tortura para ela.
-o que você queria me perguntar, Grey?
-Você gostaria.. quero dizer, pensei que nós .. Droga!!
Vendo a dificuldade dele em proferir as palavras certas, ela decidiu facilitar as
coisas e com os braços ao redor de seu pescoço, respondeu sem ouvir a
pergunta:
-Sim, Grey. Eu me caso com você.
Horrorizado, Grey deu um salto para trás, afastando Mariah de perto dele.
-Casar ? – A palavra parecia mortal da maneira como foi proferida por ele.
Sim – Ela confirmou e, com cautela, continuou- Não era isso que estava
tentando me dizer?
Com absoluta convcção, e afastando-se ainda mais, respondeu: - Não!
Confusa, Mariah sentou-se, cobrindo com a camisa os seios nus.
-O que era então?
Os dois estavam igualmente confusos e constrangidos. Sem compreenderem
como haviam chegado ao ponto de tamanho mal-entendido, ambos tinham a
sensação de logro.
Mariah não conseguia mais pensar na conversa de minutos atrás... Não poderia
Ter se equivocado tanto para justificar a reação dele. Um pouco mais calma,
insistiu para saber o que ele queria.
Assustado, foi preciso que ela repetisse pausadamente a pergunta.
-Eu ... Eu queria que você viesse morar comigo na casa nova.
Foi a vez de ela sentir o chão fugir sob seus pés. Tonta com o que ouvira ainda
perguntou:
-Morar com você ? Morar junto sem casar ? – perguntou, rezando para ouvir
que se enganara.
Controlada a situação, Grey parecia aliviado. Antes de olhar para ela, penteou
com os dedos os cabelos que caíam em desalinho sobre a testa. E, com
naturalidade, argumentou:
-Por que não ? Se pensar bem é apenas uma questão funcional. Praticamente
moramos juntos, falta apenas reunirmos nossas coisas. Aliás, você mora com
sua irmã, portanto nem teria que se desfazer de uma casa.
Era dificil demais para Mariah controlar aquela enorme decepção que estava
sentindo. Não apenas pelo pedido que não se concretizara mas pela maneira
objetiva e racional como Grey enxergava a relação deles. Como pudera se
enganar tanto? Sempre fora uma pessoa equilibrada. Como não percebera quais
eram as intenções de Grey? Respirou fundo e quis esclarecer tudo de uma vez
por todas.
Não, eu não posso morar com você. _ As palavras soaram determinadas para ela
mesma, dando-lhe confiança.
-Por que não? Você conhece todos os meus defeitos e mesmo assim temos nos
dado bem. Está bem. Reconheço que, as vezes, eu me excedo na bagunça e que
também deixo minhas cuecas pelo chão, o que você odeia...
_Grey, isso não tem nada ver com cuecas ou pasta de dente amassada. _ Era
dificil conter as lágrimas, mas mesmo assim ela continuou: Tem a ver com
compromisso.
Com as mãos na cintura e olhar ofendido, ele retrucou:
_Mas eu estou comprometido com você.
-Não, não está. Não o bastante para se casar.
-Se estou entendo bem você não quer morar comigo?
Mariah tentou ser clara o bastante para que a conversa terminasse o mais
rápido possível. Para isso teria que usar de franqueza absoluta.
-Grey, o dia em que eu morar na mesma casa com um homem estarei usando
uma aliança de ouro na mão esquerda. È a este tipo de compromisso que me
refiro, um compromisso para a vida inteira, selado com os ritos tradicionais
como fazem os casais que se amam.
A face lívida de Grey não exprimia emoção visível ao ouvi-la.
-Quando nos conhecemos você conhecia minha opinião sobre casamento, não a
enganei. Não pretendo me casar.
É verdade. Mas pensei que pudesse Ter feito você mudar de idéia ou de
sentimentos. Parece que errei.
-Mariah, você mudou meus sentimentos, nunca gostei tanto de alguém.
-Estou lisonjeada mas sinto muito, não basta para mim. Não mais.
-Não entendo, era o bastante até ontem, até uma hora atrás... o que mudou?
-Eu te amo Grey.
Não era a primeira vez que ela dizia aquilo, mas o sentimento expresso em seus
olhos nunca fora tão intenso. Com voz suave, Grey respondeu:
- Eu sei disso, querida.
- Você me ama, Grey?
- A pergunta era clara e direta, não havia como fugir. Nunca ouvira-o dizer as
três palavras que são únicas para expressar o que une as pessoas. Aquela era
uma prova de fogo.
Não sei o que você chama de “amor”. Talvez os meus sentimentos não estejam á
altura ... Que droga! Você sabe que eu não acredito em amor, Mariah!
Como poderia ela saber se, nos últimos meses, tudo indica o oposto? Como
pudera ser tão cega? Não satisfeito, Grey continuou:
Há uma enorme diferença entre o que você chama de amor e a realidade.
_engano seu, Grey. Meus pais estão casados há trinta e cinco anos e continuam
amando um ao outro.
Quando Mariah o fitou, seus olhos pareciam frios como o aço.
- Seus pais são uma exceção Que apenas vêm confirmar a regra. Minha Mãe já
pensou que estava amando por cinco vezes, mas tudo sempre acabou em
divórcio. – Com desconsolo, continuou: - È disso que estou falando, e não
pretendo viver essa experiência.
Agora as coisas começavam a fazer sentido. Uma infância marcada pela
separação dos pais deixa cicatrizes para o resto da vida. Grey nunca falara
muito de sua família, ou da sua infância. Ela apenas sabia que ele perdera o pai
aos treze anos. Sempre que o assunto era abordado, Grey arrumava uma
maneira de se esquivar. Mas aquele não era o momento para pensar naquilo...
-Por que, de repente, o casamento passou a Ter tanta importância para você,
Mariah?
-O casamento sempre foi importante para mim. Sempre.
Com o coração despedaçado, Mariah percebeu que depois daquela noite as
coisas não seriam iguais para eles, o encanto fora quebrado. Não havia muito
mais a ser dito. Naquele momento, Mariah só queria sair dali o mais depressa
possível. Levantou-se lentamente e caminhou em direção ao banheiro.
Grey a impediu de sair do quarto, bloqueando a passagem. Para ele a conversa
ainda não terminara.
-Quando você foi morar com Dale Simons, o casamento já era importante!-
Grey não poderia ter sido mais infeliz com uma pergunta.
A simples menção daquele relacionamento fazia Mariah estremecer. Fora uma
das piores experiências de sua vida e não pretendia incorrer no mesmo erro
duas vezes.
-E como. Mas a juventude nos induz a erros, por insegurança tentamos relevar
nossos valores mais caros em busca da aprovação alheia. A muito custo aprendi
que de nada vale tentar agradar aos outros em prejuízo de nossos próprios
valores. Nunca mais cometerei esse erro.
- Você o amava? – o machismo de Grey precisava de respostas.
- É claro que sim.
- -Um homem como aquele não pode Ter merecido seu amor! Ele a traía com
muitas mulheres e não fazia questão alguma de ser discreto...- Grey balançava
a cabeça com ar incrédulo. – Será que nem isso foi o bastante para convencê-la
de que o amor é uma tolice sentimental?
- Ele não estava sendo justo. Dale e ela tinham vinte e poucos anos na época e
olhavam a vida com a paixão e a ingenuidade características daquela fase da
vida. Mariah sabia que agora, aos trinta e dois, ela era uma outra mulher.
Talvez a sabedoria fosse a única recompensa que aquela experiência lhe
oferecera.
Com voz pausada, Mariah falou com Grey:
Aquele relacionamento me fez ser mais cautelosa ao me envolver com os
homens, mas não abalou minha convicção no amor, e por conseqüência, no
casamento. Sei que quero me casar e ser feliz com você.
Grey mal podia encará-la. Mariah era muito mais do que ele já sonhara, queria
compartilhar sua vida toda com ela, mas a instituição do casamento tal como a
entendia estava fora de seus planos. Nem Mariah nem qualquer outra o levaria
aquela loucura. Nunca. Por isso mesmo não tinha o direito de iludi-la.
-Eu.. eu não posso .. Não quero me casar. Nunca, Mariah.
Seus olhos se encheram de lágrimas ao ouvi-lo. Sem conseguir contê-las, deixou
que caíssem pelas faces lívidas de dor.
-Sendo assim acho que não nos veremos mais.
Mariah estava destroçada, mas manteve-se altiva. As lágrimas insistiam em
cair a despeito de seus esforços, emprestando uma certa fragilidade ao seu
semblante. Vê-la assim magoada e ferida já seria ruim para Grey, mas saber
que era ele o responsável era insuportável.
Aturdido continuou imóvel, temeroso que qualquer gesto ou palavra agravasse a
situação. Desacostumado a não Ter o controle da situação, custava a crer no
que estava acontecendo.
-Não pode acabar assim.. Pense um pouco mais.
-Nós não temos mais nada para conversar. Queremos copisas distintas para
nossas vidas, portanto é hora de nos separarmos. – Mariah respirou fundo
antes de concluir:
-Adeus, Grey.
Impotente, ele a viu sair de seu quarto e de sua vida, ouvindo-a bater a porta
ao passar. Voltou para cama onde ainda podia sentir o calor e o perfume dela.
Grey passara a maior parte da vida sozinho, mas pela primeira vez a solidãoo
desolava.
Mariah, quando resolverá pôr de lado esse desânimo ?
- Mariah respondeu com um olhar fuzilante a provocação de sua irmâ, jade, que
acabara de ouvir mais uma vez o nome Grey. Estavam lado a lado, ocupando
todo o sofá que servia de cúmplice para conversas íntimas entre elas.
Jade vestia uma malha justa com estampa de leopardo, calças pretas e
brilhantes e, como se não bastasse, longas botas de verniz até o joelho.
Longilínea, mantinha os cabelos curtos em corte moderno, e seus olhos, naquele
dia, estavam cor de violeta, graças ás modernas lentes de contato.
- Eu não estou desanimada. – A voz desmentia a afirmação dela.
- Jade olhou a irmã da cabeã aos pés, e não precisou de palavras para ser
eloquente. Mariah recendia a banho recém-tomado
mas nem perfume passara. Enrolada em um velho roupão era a imagem do
abandono. Os cabelos soltos secavam sem serem penteados, e comia,
demoradamente, um cacho de uva.
- Correto. Você não estava desanimada até uma semana atrás. - O gesto amplo
de Jade era eloqüente como ela. ---:- Ficar ouvindo a voz de Grey nos recados
da secretária eletrônica é ridículo! Nem as adolescentes agem assim... Além de
estragar a fita.
Mariah, irritada, encheu a boca com uvas e replicou: - Já comprei uma fita
nova, portanto pode me deixar em paz.
- Nem pensar. Alguém precisa ser honesto com você, falar sem meias palavras.
Olhe-se no espelho. - Com firmeza, Jade prosseguiu. - Há uma semana que você
se entrega só ao trabalho e ainda passa o dia todo atrapalhando o andamento
dos projetos, esquecendo coisas ou mesmo tra-tando mal quem quer que ouse
cumprimentá-la. Francamente, você não pode passar o resto de seus dias na
companhia de Uvas e televisão.
- Por que não? - Com descaso Mariah colocou mais
uvas na boca.
Mas não fazia parte do temperamento de Jade desistir facilmente. Pegou
Mariah pelos ombros e olhando-a diretamente continuou seu sermão:
- Nunca a vi assim, nem mesmo quando rompeu com Dale.
O olhar sem brilho de Mariah voltou para o passado. Como comparar o fim de
uma relação que se desfizera aos poucos, com o fim abrupto e inesperado de
um caso de amor?
Quando somos jovens e intempestivos, os romances e os rompimentos são
motivados pela emoção. A razão e a consciência de nossas incompatibilidades é
que inviabiliza a maioria dos nossos sonhos adultos.
- Todos estão preocupados, e isso inclui papai e mamãe. Ele sempre a protegeu
e agora a vontade dele é esmurrar Grey pelo que fez a você.
Mariah conhecia seu pai, e conhecia seu poder também.
Um calafrio percorreu sua espinha ao ouvir Jade.
- Diga que está brincando...
o mesmo sorriso cínico de seu pai aflorou nos lábios da
irmã. Embora negassem, os dois eram parecidos em tudo.
- Querida, papai está sendo protetor. Ele realmente tem simpatia por Grey e
esperava que vocês se casassem e lhe dessem um neto.
Há anos que ele esperava, em vão, que suas filhas se casassem. Ou melhor,
que ela se casasse com toda a pompa e glória que o dinheiro pode comprar.
Sonhava em levá-Ia ao altar, em ter netos para brincar e mimar antes que a
artrite o impedisse.
No íntimo, aquele também era o sonho dela e o acalentara com carinho até
aquela noite na casa de Grey. Aos trinta e poucos anos uma mulher sabe quando
encontra o amor da sua vida, e, sem ele os dias parecem vazios e sem luz. -
Jade, não haverá casamento ou netos, pelo menos não com Grey. Essas palavras
não existem no vocabulário dele.
- Nesse caso, é hora de você continuar seu caminho, irmãzinha. . .
Nem por um minuto aquela idéia passara pela cabeça de Mariah. Outro
homem com quem partilhar os mesmos inter sses, a mesma paixão, o mesmo
olhar sobre a vida... Não, depois do que vivera com Grey nenhum outro
conseguiria despertá-Ia para um novo amor.
- Não, isso está fora de cogitação, Jade.
Mariah não gostou da expressão penalizada que Jade exibia. - Nenhum homem
do mundo merece todo esse sofrimento, sei o que estou falando...
Sem dúvida que ela sabia, pensou Mariah. A capacidade de recuperação de
Jade era impressionante. Do mesmo modo intenso que se entregava aos
relacionamentos, assim que eles terminavam, ela renascia das cinzas, pronta
para novos amores.
Pensando com um mínimo de isenção, qualquer um daria razão a Jade.
Remoer-se em autopiedade dia após dia não faria bem a ninguém, nem faria
Grey mudar de idéia. Engolindo seu orgulho, Mariah desabafou:
- Oh, Jade, eu não sei o que fazer! Sinto tanta falta dele que o coração
parece doer. Chego a pensar se não fui tola quando insisti no casamento. Não
tenho certeza se suportarei outra separação.
Sei quanto isso é difícil para você, querida. - Jade colocou sua mão sobre o
joelho da irmã, protetora. - É por isso que insisto, saia, conheça outros homens,
tente se divertir e esquecer Grey.
Suspirando, Mariah enterrou as mãos nos bolsos do rou
pão em um gesto de desalento.
- Gostaria que fosse fácil assim.
- E é. Basta querer.
O sorriso triste e incrédulo de Mariah deu a Jade uma espécie de desafio a ser
vencido. Olhando-a com ares de especialista, falou sem rodeios:
- Nosso primeiro passo será mudar seu visual.
- Nosso? Jade, o que tem em mente?
- Sejamos realistas, tudo em você está ultrapassado;.. Seus cabelos, suas
roupas, seu perfume. Tudo é muito clássico, muito conservador. Se eu
tivesse o seu corpo e seu rosto pode ter certeza de que não os esconderia
do mundo.
- Pois fique sabendo que eu gosto do meu jeito e não pretendo mudar.
- Nem a lingerie? Só você ainda usa calcinhas de algodão! Sem acordo.
- A partir de agora nasce uma nova Mariah, e sob a minha supervisão.
Seria inútil discordar de Jade. Ela desconhecia a palavra "não" quando aquilo
lhe era conveniente. Conformada, Mariah limitou-se a erguer os ombros. Mesmo
porque, àquela altura, a irmã já não a ouvia, imersa em planos para transformá-
Ia em mulher fatal.
Depois de algum tempo Jade já tinha tudo planejado, inclusive o dia e o local
da estréia do novo visual da irmã. Entregou uma .lista de tarefas para Mariah, e
anunciou:
- Não se esqueça: no domingo, enquanto você estiver fazendo compras, vou
eliminar todos os vestígios de Grey desta casa. Depois vamos ao Roxy, lugar
ideal para nossa caçada ao homem ideal.
- Você en10uqueceu? Não irei a caçada alguma nem coisa
parecida. Tudo tem limites, Jade.
- Como espera arrumar um namorado? Fechada em casa será muito difícil.
- Mas eu não quero um namorado!

- Mariah, a vida continua, e como diz papai, não ficamos mais jovens com isso.
Ao menos tente dar ao velho um pouco de esperança de vê-Ia casada. Você se
lembra de Richard Sawyer?
A velocidade das frases e dos argumentos da irmã deixavam Mariah sem
ação. Ela sempre fora terrível para discussões.
- Refere-se ao advogado que nos procurou para redecorar o escritório?
- Exato. Alto, rico, louro e bonitão. Acho que esqueci de comentar que ele
voltou a nos procurar e fechamos contrato, desde que seja você a responsável
pela obra. Entendeu?
A malícia da voz de Jade não passou despercebida, e aquilo fez Mariah
sentir. um calafrio. Como imaginar alguém que não Grey tocando em seu corpo?
Mas um dia aquilo teria de acontecer, se realmente pretendia formar uma fa-
mília era preciso conhecer outros homens.
- Você venceu Jade, estou às suas ordens. Um grito de entusiasmo encheu a
sala.
CAPÍTULO II

Enquanto esperava o primeiro dos três elevadores que a levariam até o


escritório de Grey, Mariah admirava a imponência do edifício que abrigava a
sede da empresa Sistemas de Segurança Nichols.
Já passava das cinco horas da tarde de uma quarta-feira, e só o guarda ainda
estava lá. Teria preferido chegar durante o expediente quando uma multidão
enchia os elevadores, mas tivera que acompanhar um cliente e se atrasara. O
motivo que a trouxera até ali não era agradável para ela, mas não havia como
evitá-Io.
Se quisesse libertar-se definitivamente de Grey era preciso que nada
ficasse pendente entre eles. Como Jade tão bem dissera aquela manhã, era
preciso pôr uma pedra definitiva no passado deles para que ela pudesse seguir
em frente com sua vida.
Tudo parecia fácil quando Jade falava, mas naquele momento Mariah tinha
vontade de correr para casa, de volta ao seu velho e confortável roupão,
abandonado desde que ganhara um quimono de seda da irmã.
Distraída, só percebeu a chegada do elevador quando as portas se abriram
pela segunda vez. A expectativa do encontro com Grey gelava seu peito. Havia
duas semanas que sua rotina incluía noites insones, falta de apetite e uma dor
constante no coração.
Suas mãos apertavam com força o pacote de papel pardo que carregava. Não
conseguiu conter as lágrimas. Antes que mudasse de idéia, pressionou o botão
que a levaria ao décimo-quarto andar.
As paredes espelhadas a acolheram silenciosas, refletindo uma imagem que
Mariah não reconheceu como sua.
Ela ainda não se acostumara com seu novo visual. Especialmente os cabelos,
agora na altura dos ombros e encaracolados nas pontas, resultado de uma leve
permanente. Não se convencera ainda de que a mudança valorizara seu belo
rosto, tornando-a menos séria e muito mais sensual.
Desviou o olhar para o painel de controle. Fugindo dos
espelhos acabou despertando a memória.
Fora ali, naquele mesmo elevador, que em uma noite, ao saírem juntos do
escritório, Grey repentinamente apertara o botão de emergência parando-o
entre os andares.
Mariah fechou os olhos e deixou que as lembranças carregadas de erotismo
voltassem à sua mente como um filme.
Quase podia sentir de novo o perfume masculino que ele usava, tudo voltava
magicamente, deliciosamente... Podia rever cada movimento, exatamente como
l1aquela noite quando Grey se aproximara e levantara sua saia até a cintura, e
com seus dedos ágeis alcançara sua calcinha puxando-a para os joelhos.
Embora um pouco chocada com a atitude não conseguira opor resistência,
apenas murmurara:
- Grey, o que está fazendo?
- Eu quero você, aqui e agora.
Ele possuía o dom de despertar em Mariah as emoções mais intensas e
inesperadas, e fazê-Ia vencer todos os seus tabus. Quando sentiu o calor
molhado da boca de Grey em seus seios, ondas de prazer a fizeram esquecer-
se de onde estavam e deixou-se levar pela fantasia erótica dele. Sentir a
rigidez dele através da calça excitou-a ainda mais e, ao perceber que os braços
musculosos a suspendiam, enlaçou-o com suas pernas entregando-se
completamente. Fizeram amor ali mesmo, não uma, mas duas vezes.
Mariah soltou um gemido lânguido, tão profundamente imersa que estava em
seus pensamentos. .
- Srta. Stevens? A senhorita está passando bem?
Mariah teve um sobressalto ao se dar conta da presença de Jeanie, a
secretária de Grey. A transição do sonho à realidade levou alguns instantes.
Como saída de um transe hipnótico, ela tratou de responder à senhora que a
olhava, visivelmente preocupada.
- Desculpe, Jeanie. Acho que estava sonhando acordada., Percebeu que Jeanie
devia estar muito ocupada, com as mãos cheias de documentos para levá-Ios a
algum departamento, e conhecendo seus instintos protetores, fez questão de
frisar:
, - Não se preocupe, estou bem.
- Tem certeza de que está mesmo bem? - Com delicadeza, Mariah sorriu e a
fez entrar no elevador. - Não quer que eu a anuncie para o sr. Nichols?
- Não é necessário. Só vim trazer isto. - Colocando o pacote sobre a mesa à
sua frente.
Resoluta, a secretária voltou à escrivaninha e categórica pegou o telefone.
- De jeito nenhum. Quer que eu perca o emprego? O sr. Nichols deixou claro
que a qualquer sinal da senhorita, eu deveria informá-Io imediatamente. -
Baixando a voz emendou em um tom cúmplice: - Há duas semanas que ninguém
suporta o mau humor dele. .
Após anunciá-Ia, Jeanie lançou um sorriso malicioso em direção ao corredor
e disse:
- Ele pediu que entrasse imediatamente.
Com o coração disparado e suando frio, Mariah avançou em direção ao
escritório de Grey. Fora dela a escolha do carpete azul onde pisava, como de
tudo mais que decorava aquele andar. Cada detalhe e cada enfeite lembrava um
pedacinho da sua vida com Grey, deixando-a perigosamente emocionada. Teria
de ser rápida e direta ou não conseguiria resistir. Respirou fundo antes de
girar a maçaneta.
Mal entrou e Grey já estava de pé atrás da imensa mesa atulhada de papéis e
dos dois computadores que o conectavam com o mundo. Não passaram
despercebidas do olhar observador de Mariah as olheiras que ele exibia,
tampouco a bagunça sobre a mesa, sinais claros de que ele devia estar se
afogando em trabalho.
- Você não respondeu aos meus telefonemas.
Grey não conseguiu evitar a censura ao cumprimentar Mariah, antes mesmo que
a porta se fechasse atrás dela. Percebera que fora pouco cordial.
Chocada com a recepção pouco amigável, Mariah respondeu mecanicamente,
com a mesma beligerância.
- Achei desnecessário, uma vez que o veria pessoalmente.
Mal terminara a frase e já tinha a boca amarga de ar
rependimento e culpa. Por um minuto, Mariah esqueceu que fora o cinismo dele
que causara a maior decepção de sua vida. Sentiu seu coração se confranger
com o aspecto de Grey. Jamais o vira tão abatido. Cabelos em desalinho sobre a
testa e manchas na camisa tornavam visível seu desleixo. Foi doloroso resistir
ao seu impulso inicial que a impelia direto para ele. Tentou desviar a atenção
para evitar sucumbir ao desalento que os olhos castanho-dourados exibiam ao
fitá-Ia.
Desarmado, Grey suavizou o tom de voz, apelando para a persuasão.
- Isso é loucura... Mariah, achei que pudesse pensar melhor e...
A frase morreu inacabada e abruptamente a expressão em seu rosto
transformou-se em uma máscara horrorizada e desaprovadora.
- Que aconteceu com seus cabelos?
Instintivamente Mariah tocou as pontas encaracoladas, tentando vencer o
pânico e o arrependimento. Por mais que repetisse a si mesma que a opinião
dele não importava, sentiu seu estômago se contrair. Lembrou-se das recomen-
dações de Jade e, fingindo indiferença, retrucou:
- Cortei.
- Isso é óbvio - disse Grey secamente.
Ele continuava com a mesma expressão de horror dirigida a Mariah. Isso a fez
relembrar as inúmeras vezes que o flagrara extasiado com suas madeixas,
brincando com os longos fios dourados entre seus dedos ou sobre seu corpo nu
quando faziam amor.
Bastou uma rápida troca de olhares para ter certeza de que as mesmas
imagens ocupavam o pensamento de Grey. Virou o rosto para não ter que
encará-Io mais. Seu nervosismo a fez morder o próprio lábio deixando-o
ferido. Jade lhe garantira que seria fácil aquele encontro... Estar com ele
sabendo que não o teria mais era quase insuportável.
Grey respirou fundo, tentando recuperar a lucidez. .Não conseguia entender
por que Mariah cortara seus maravilhosos cabelos, tão longos e tão especiais
para ele. Seria apenas para feri-Io? Conhecia-a o suficiente para saber que ela
jamais faria algo tão mesquinho. Então só havia uma explicação:
- Aposto que Jade tem algo a ver com esse novo penteado, acertei? ]
- Claro que não! - A negativa veemente e irritada dela confirmou as suspeitas
de Grey. .
De certa Jorma aquilo o deixou aliviado, e serviu para aliviar a tensão entre
eles. Refeito do impacto do reencontro, Grey notou algo de novo.
Era de seda branca com pequenos botões a blusa que lhe chamou a atenção.
Belíssima, deixava entrever a curva dos seios de Mariah. Apesar de ter seios
perfeitos nunca a vira vestir nada que os valorizasse, insistia em roupas
fechadas ou folgadas. Embora conhecesse a beleza de suas formas, Grey se
surpreendeu com a sensualidade do decote.
Nunca conseguira entender como uma mulher tão sofisticada podia usar
roupas íntimas tão despretensiosas. Eram pavorosos seus sutiãs e calcinhas
sempre enormes. Adivinhou pelo fino tecido que naquilo também ela mudara,
exibindo rendas na lingerie sob a blusa.
Sempre ijivera fantasia de despir Mariah vagarosamente e poder vê-Ia
usando as mais finas e sensuais lingeries, mas nunca pudera realizá-Ias.
Motivado pelas sutis mudanças, desceu o olhar para a saia que apesar de
clássica e discreta não escondia as belas coxas bronzeadas, ou pelo menos
parte delas. As meias escuras davam a sofisticação exata e eram um tom acima
da cor da saia. Ao terminar a inspeção, Grey estava boquiaberto. Nunca a vira
tão desejável.
- Acho que esta é a primeira vez que a vejo de minissaia. . . Os ouvidos de
Mariah não conseguiram discernir se elogio ou censura estava implícito no
comentário. Em dúvida, limitou-se a levantar os ombros em sinal de
assentimento.
Irritado, Grey deixou de lado a postura bem-educada e insistiu:
- Toda essa mudança foi idéia de Jade, acertei? Os cabelos, as roupas... -
Enquanto falava, as mãos gesticulavam enfáticas. - O que virá a seguir, lentes
de contato violeta?
- Não vem ao caso quem escolhe meu corte de cabelo, roupas ou... Namorado.
- Chega Grey. Só estou aqui porque pensei que poderíamos terminar nossa
relação de maneira civilizada. Gostaria de ser sua amiga.
- Amiga? Isso é alguma brincadeira? Não quero uma amiga, quero uma,
amante. - Grey estava fora de si quando segurou as mãos dela.
Depois que conhecera Mariah, nunca mais sentira atração por alguma outra
mulher. De certa forma, fora só a partir daquele namoro que a palavra prazer
começara a ter sentido real. Além da atração física, ela conseguia reunir muito
mais qualidades do que ele jamais sonhara em uma companheira.
Seria tudo perfeito, se ela não tivesse aquela obsessão romântica sobre
amor e casamento. Justamente as duas coisas que jamais fariam parte da vida
de Grey.
- E eu quero marido e filhos.
Falou aquilo sabendo do efeito que produziria nele, mas só assim daria termo à
discussão. E para que não restassem dúvidas, foi conclusiva.
- E quero que saiba que estou saindo com alguél.
Aquilo era mais do que ele podia suportar, Logo outras mãos estariam tocando a
pele suave da sua querida Mariah, e não havia nada que pudesse fazer; Com o
estômago em chamas, a única coisa que lhe ocorreu foi buscar alívio no vidro de
antiácidos que trazia no bolso. Aquele gestà simples dava a medida de quanto
Grey se abalara, portanto era melhor que ela fosse até o fim. Aproveitou a
pausa e concluiu:
- E acho que você deveria fazer o mesmo.
O que se ouviu foi um riso estridente, quase histérico.
- Para quê, diga-me, se todas as mulheres perdem o
encanto quando comparadas a você? Meu Deus, como sinto a sua falta!
Embargada de emoção, a voz de Grey alcançou o coração de Mariah, e a
mesma saudade transpareceu no olhar eloqüente que ela lhe dirigiu. Todavia,
seus lábios continuaram silentes.
Imóvel, viu-o caminhar em sua direção e parar defronte à janela, estavam
próximos e distantes. Dele veio um desabafo inesperado:
- Tenho vivido noites seguidas sem dormir, durante o dia não consigo
trabalhar bem, e a única coisa que tenho posto na boca são esses antiácidos.
Ando tão mal-humorado que até Jeanie já reclamou. Perdi o rumo sem você.
Quando deu por si, Mariah estava de pé diante dele. Cruzara os braços
deixando. ainda mais provocante a curva dos seios que a camisa entreaberta
deixava à mostra para o deleite dos olhos cobiçosos à sua frente. Com que
fervor Grey desejou abrir um a um aqueles botões e descobrir a sensualidade
que ele apenas podia imaginar. Inocente, ela apenas balbuciou um pedido de
desculpa.
-' Sinto muito.
- Sinta, sinta muito porque é você a única responsável pelo meu tormento. Não
posso permitir que vá, cada segundo do dia e da noite é marcado pela sua
lembrança...
Naquele instante, Grey tocou-lhe a face, e ela estremeceu. Com a respiração
entrecortada, afastou-o antes que perdesse o controle.
- Grey, por favor...
- Por quê? Quero saber toda a verdade.
Tinha consciência de que havia uma batalha entre o desejo e o bom senso de
Mariah e, antes que ela se esquivasse, encostou seu corpo ao dela. Sem sucesso
ela tentou dar um passo para trás, mas a poltrona a impediu. Grey quase podia
sentir sua respiração, mas ao invés de tocá-Ia apenas sussurrou:
- Todas as noites vou dormir pensando em você. Quando acordo sinto tanto
desejo que chega a doer. E todas as manhãs eu procuro pelo seu corpo na cama
vazia.
Arfante, Mariah sentiu na pele a presença máscula de Grey despertando
todos seus sentidos para a urgência de tê-Io novamente.
- Também sinto sua falta.
Era tudo o que ele precisava ouvir. Colocando-a entre ele e a poltrona impediu
uma possível escapada e, com os braços, trouxe-a para perto.
- Então você também acorda procurando por mim?
Com os lábios colados à orelha dela, continuou sussurrando:
- Pensa no calor das minhas mãos e de meus lábios tocando-a, e no prazer que
temos em mergulharmos um no outro?
As mãos espalmadas contra -o peito musculoso de Grey queriam afastá-Ia ao
mesmo tempo que se deliciavam com o contato. Um gemido escapou-lhe antes
de dizer.
- Você não está jogando limpo, Grey.
Em qualquer outra circunstância, ele a teria tomado nos braços e eliminado
qualquer resistência em segundos, mas olhando-a nos olhos, conteve sua
impetuosidade a tempo. Estava tão próximo de tê-Ia que parou e disse:
Mantenho minha proposta.
Em um lampejo, Mariah teve de volta seu autocontrole e perguntou:
- Ou seja, morar com você?
- Isso mesmo.
O longo suspiro dispensaria qualquer resposta, mesmo assim ela insistiu:
- Então minha resposta não mudou.
- As coisas podiam ser tão diferentes. Éramos complemente felizes até...
- Até. .. Até eu perceber que você não pode ou não quer me amar? Ou até a
palavra casamento ser mencionada, e eu descobrir que não temos nada em
comum quanto ao futuro?
- Raiva e mágoa endureciam as feições de Mariah. – Para você pode ser
insignificante ter ou não uma família ou alguém a quem amar para sempre Eu
quero um compromisso assim, com um homem que seja capaz de me amar e de
pensar em mim como a mãe de seus filhos. Não quero desperdiçar mais um ano
ou dois, amando alguém que a qualquer momento pode sair da minha vida como
entrou, sem compromisso algum.
Contra aquele argumento ele não podia dizer nada, tudo o que Mariah dissera
era a mais pura realidade. Mas será que com paciência e persistência não
conseguiria fazê-Ia mudar de idéia? Nos negócios Grey conseguia mover mon-
tanhas agindo assim, os muitos milhões de dólares que possuía eram a prova
daquilo.
- Nunca a vi tão teimosa antes. Por acaso Jade tem algo a ver com isso?
Mais segura de si, Mariah permitiu-se rir.
- Não. E eu também me surpreendi com sua teimosia.
Você se revelou muito radical quando o assunto é casamento. - Tenho motivos
para isso.
Testemunhara os insultos que seu pai costumava dirigir à mãe, e a ele também,
responsabilizando-os pela vida infeliz a que fora obrigado por um casamento
sem amor. O rancor que minara sua infância ainda o afetava.
Os sucessivos padrastos. foram apenas mais uma prova para o jovem Grey do
embuste que era o casamento. Desiludido no amor, ele canalizara toda energia
em sua carreira, obtendo nos negócios o respeito e o sucesso.
- Talvez, não sei. Estivemos juntos por oito meses e de repente percebo que
não o conheço.
- Mariah se alguém me conhece é você.
-Em alguns aspectos, pode ser. - Apontando as paredes do escritório em um
gesto amplo. - O homem de negócios, o grande amante, esses eu conheço. Mas
não estou certa sobre quem realmente você é. Onde e como foi sua infância,
seu passado, sua família. Algo o fez assim, tão arisco nas relações afetivas e
tão confiante nos negócios. Admiro-o por seu trabalho, sei que construiu um
império do nada, e o fez sem ajuda de alguém. Mas me responda, para quê?
As respostas ficavam presas na garganta de Grey, e com elas anos de
ressentimento e amargura. Quanto mais ele amava Mariah mais difícil era
fazer confidências. O medo de parecer e ser vulnerável emocionalmente o
obrigava a fugir ou se defender. Amar era, para Grey, o mesmo que pular em
um precipício.
- Como podemos ter uma relação sólida se você nem ao menos confia ou
conversa comigo?
Sentindo-se acuado, Grey defendeu-se.
- Nós conversamos, e muito!
- Claro, sobre mim, sobre a minha família e o meu trabalho ou o seu. Mas não
me lembro de termos dito uma palavra sobre você, seu passado ou sobre suas
antigas namoradas. Talvez por isso incorri no erro de sonhar com coisas que
jamais fariam parte da sua vida. Você rejeita o que, para mim, é essencial.
- Dizem que os opostos se atraem... - Um sorriso iluminou o rosto de Grey,
mas por segundos apenas.
- Durante pouco tempo. - Mariah escorregou para fora da mesa onde se
apoiara durante a discussão. Seus movimentos ágeis contrastavam com o
cansaço de seu olhar. Mas ainda podemos ser amigos.
Grey ponderou que, se quisesse continuar a vê-Ia, forçosamente teria de
concordar com aquela proposta. Só assim teria uma chance para tentar fazer
com que as coisas voltassem a ser como antes. Estendeu-lhe a mão e sorriu.
- Ok, amigos então. Que tal um beijo para selar o começo de uma longa
amizade? . .
- Prefiro um presente. - Com as mãos trêmulas entregou-lhe o pacote que
havia trazido. - Tome, isto é para você.
- Para mim? - O olhar brilhante de um menino iluminava o rosto másculo de
Grey.
- Para quem mais? Abra logo, comprei para você naquele fim de semana que
estivemos em São Francisco.
Ao mencionar aquela viagem, ela aguçou a curiosidade dele, afinal durante
toda a viagem não a deixara a sós nem um minuto nem se lembrava de tê-Ia
visto comprar algo daquele tamanho. Abriu o pacote, e viu surgir diante de seus
olhos um quadro maravilhoso. Reconheceu-o de imediato, vira-o em uma galeria
exclusiva em São Francisco. Estava com Mariah quando aquela tela o
impressionara. Especialmente depois que o marchand explicara o porquê do
título "Alcova dos Amantes".
O que à primeira vista parecia ser uma paisagem marinha com rochas e a
praia, também revelava entre as sombras da pedra a imagem de dois amantes
numa posição erótica se visto de perto e com atenção. A sensibilidade do pintor
fora tanta que, simples sombras sugeriam toda uma cena de paixão. .
- Obrigado. - Grey estava sem palavras.
- É um presente para sua casa nova. - Mariah não conseguia esconder o prazer
que sentia ao apreciar aquela obra de arte.
- Faço questão de que você me ajude a pendurá-Io. Acho que ficará perfeito
no meu quarto.
- Você pode colocá-lo sem minha ajuda.
Ela o conhecia bem o bastante para não se zangar com mais aquela tentativa de
sedução. Grey colocou o quadro contra a parede e dirigiu-se a ela, desta vez
sem brincadeiras.
- Aliás, tenho que parabenizá-Ia, você fez um trabalho maravilhoso com a
decoração.
- Que bom que gostou. Se não se importar gostaria de tirar algumas fotos da
casa para o meu portifolio.
- Quando quiser. - Pensou rápido. - Que tal jantar comigo? Pedi que
entregassem frango xadrez e camarão empanado do Mandarim, deve estar
chegando.
Mandarim era o restaurante chinês favorito de Mariah, e ela adorava os dois
pratos. Convidando-a, estava fazendo uma tentativa desesperada de mantê-Ia
ao seu lado. Inventara aquilo ao vê-Ia olhar para o relógio.
Um simples olhar para o confortável sofá de couro, e Mariah respondeu:
- Você sabe muito bem como esse jantar terminaria. É melhor não aceitar este
convite, obrigada.
- Confesso que isso me passou pela cabeça, mas juro me comportar daqui
para frente se você ficar.
- Desculpe, tenho um compromisso às sete. - Mudando de assunto, continuou:
- Grey, você vai à festa dos sessenta anos de meu pai, não vai?
- Ainda estou convidado?
- Não seja indelicado. Papai pode ter se desapontado com nosso rompimento,
mas isso não mudou a afeição que ele sente por você.
Afeição, aliás, mútua desde o instante em que foram apresentados havia
quase dois anos. Jim Stevens era um bem-sucedido homem de negócios. Criara
as filhas com esmero e também se orgulhava delas, por isso não hesitara em
recomendá-Ias para Grey quando este mencionou, no primeiro contato deles,
que precisava de alguém para decorar sua nova residência. Grey apreciou a
franqueza de Jim e a apreciou ainda mais quando conheceu Mariah. Não podia
negar que tinha apre o incomum por Jim Stevens, e não só por causa de Mariah.
Aquele senhor era um modelo para Grey Nichols.
- Vamos juntos à festa? - No íntimo, Grey sabia que não.
- Não somos mais um casal e não pretendo fingir.
- Não seria fingimento, apenas...O toque do interfone interrompeu-os.
- Grey - Era a voz de Jeanie. - A ligação do sr. Weismann na linha dois, direto
da Birmânia. .Aquele era um cliente de mais de um milhão de dólares, e a ligação
era internacional. Antes que pudesse raciocinar, Mariah estava na porta, e só
lhe restou um beijo de adeus solto no ar.
- Vejo você na festa, não se atrase muito.
Com aquela frase, Mariah desapareceu. corredor afora, e só lhe restou nas
mãos um telefone e no peito, um enorme vazio.
CAPÍTULO III

Nossa, Grey, você está com uma cara horrível!


- Eu me sinto horrível. Sente aí, Mark.
Grey e Mark, amigos desde os tempos de faculdade, conservavam a mesma
camaradagem de vinte anos antes graças às noites de segunda-feira e do
Bruno's Pub.
Mesmo sem muita disposição para conversar e mal-humorado, Grey não deixou
de comparecer ao bar naquela segunda. Afinal precisava distrair-se e deixar de
pensar em Mariah, com aquelas roupas e namorado novo. Exasperado e de
péssimo humor era o oposto de Mark, que chegou exibindo um lindo bronzeado
e um ar de satisfação.
- Bruno, por favor, uma cerveja e amendoins. – Olhando para o copo vazio de
Grey, continuou: - E mais um uísque.
- Duplo e sem gelo.
Depois que os copos estavam cheios, e o barman os deixou a sós e com uma
garrafa, Mark arriscou.
- Parece que hoje terei que levá-Io para casa. Considerando as muitas vezes
que você me carregou daqui, acho que será um. prazer retribuir a gentileza.
Mark Davis tinha sido o irmão que Grey nunca tivera. Conheceram-se no
primeiro ano da faculdade na University of Southern California, tinham os
mesmos interesses, o mesmo talento com as mulheres e, com o passar dos anos,
a amizade de escola transformou-se em uma relação fraterna.
A teoria de que nenhum casamento podia ser bom tinha ali um bom exemplo.
Grey assistira ao sofrimento do amigo durante os anos que, a duras penas,
manteve-se casado, e ao terrível processo de separação. Mark sofria ainda pois
tinha dois filhos com a ex-esposa.
- Vamos lá, diga logo que desta vez você está sofrendo.
O grunhido que ele obteve como resposta não foi o bastante para fazê-Io
desistir. Esperou que Grey enchesse de novo o copo, sabia que o orgulho ferido
é tão ruim quanto a saudade para alguns homens, e Mariah fizera com que ele
sentisse as duas coisas. Mas, principalmente, Mark sabia de algo que nem
mesmo Grey talvez soubesse: ele a amava
como nunca antes, portanto, nem dez garrafas de bebida o fariam esquecer a
dor-de-cotovelo.
Os pensamentos que povoavam a mente de Grey confirmavam aquela teoria. A
rejeição de Mariah fora um ataque ao seu ego, no início pelo menos, mas aos
poucos sua reação se transformara em tristeza e agora, podia afirmar que nun-
ca sentira tamanha depressão em toda sua vida. Estava a ponto de não conter
os soluços ao encontrar um batom esquecido, ou ao ouvir uma música que
lembrasse ela.
Perguntava-se quando aquilo começara a acontecer na sua vida.
- Rapaz, você a tem visto ultimamente? - Mark engolia um punhado de
amendoins entre uma frase e outra. – Ela mudou os cabelos, as roupas... Eu
nunca a tinha visto usando minissaias... Vau, que pernas! Como um macho das
cavernas, Grey olhou irado para Mark que tratou de se defender, afastando-o
com as mãos.
- Calma, calma... Não fui o único que reparou.
- Diga logo, onde foi que você viu Mariah?
- Uma ou duas vezes no Roxy's. Sábado à noite, ela estava lá com certeza.
- Aquele lugar é um mercado de gente. - O estômago dele dava voltas. - É um
bar para solteiros!
- Também para solteiras maravilhosas!
Grey engoliu a dose para não descarregar sua fúria em Mark. A bebida desceu
queimando pela garganta.
- Com quem ela estava, Mark?
- Com Jade.
- Foi o que pensei - murmurou. - Quem mais?
- Havia uns dez rapazes atrás dela. - E tomando coragem, continuou: - Escute,
preciso contar que Mariah estava... bem... bom... estava muito sexy.
Fantástico, era só o que faltava, ouvir aquilo do seu melhor amigo. Mesmo sem
saber se queria ouvir a resposta, continuou.
- E, ela ficou com alguém?
- Eu a vi, fui cumprimentá-ia e enquanto falávamos chegou um sujeito que
parecia estar com ela.
- Deve ser o tal que ela disse estar namorando. Mark continuou a dar o
relatório.
- Pelo que pude descobrir com Jade, ele é um advogado. - Ela dançou com ele? -
Diga que não, eu não suportaria saber que outro homem pôde estreitá-ia entre
os braços. -Não.
Grey fechou os olhos e suspirou aliviado. Mas a alegria durou pouco. '
- Mas foi embora com ele.
As imagens que surgiram na cabeça de Grey deixaram-no maluco. A bebida
queimava seu estômago e nem os antiácidos faziam efeito. A expressão
transtornada preocupou Maik.
- Juro que eu nunca pensei que o veria assim por causa de uma mulher.
Será que ninguém percebia? Ela não era uma mulher ela era a mulher. Não
havia outra como ela, ela era perfeita e só depois que a perdera é que se dera
conta daquilo.
- Tudo tem sua primeira vez.
- Isso passa. - E com uma ponta de sarcasmo, Mark continuou: - Há mais
mulheres interessantes no mundo que peixes no mar, não foi você quem disse
isso quando eu me separei de Sheila? - E chegando mais perto, insistiu: -Aquela
bela morena ali, não pára de olhar para você. Vá até lá.
- Esqueça, não estou interessado. Faça bom proveito.
Olhando para o outro lado, Grey deixou evidente seu desinteresse pela
jovem, que partiu para outra paquera. Desconsolado deixou o orgulho de lado e
desabafou:
- Mark, se eu lhe disser que não sei o que deu errado, você acredita? Tudo
estava ótimo entre mim e Mariah, quase perfeito. - E balançou a cabeça
desconsolado.
- As faíscas, meu caro...
Intrigado, Grey esperou que Mark se explicasse, mas como isso não aconteceu
antecipou uma pergunta.
- Faíscas?
- Foi o que eu disse. Você sabe como as mulheres adoram toda aquela cena do
começo do romance, o primeiro jantar com velas, as flores. As primeiras
faíscas.
Grey pensou que em se tratando de fogo ou faíscas, nunca houvera problema
algum entre eles, bastava estarem sozinhos e o excitamento era natural.
- Acho que não é esse o caso. - E rindo para Mark continuou: - Meu caro,
faíscas como as nossas só na queima de fogos do Quatro de Julho.
- Ah, não... Talvez no começo fosse assim, mas aposto que nos últimos tempos
já havia uma certa rotina entre vocês. Uma rotina deliciosa, para você talvez,
mas rotina.
Pensando sobre isso, Grey percebeu que era verdade o que Mark dissera, e que
era a saudade daquela rotina que o matava durante as noites ou fins de semana.
Era sua amante mas também sua melhor amiga e companheira, por isso pedira
para que morassem juntos.
- Talvez esteja certo, mas e daí?
- A transição entre o romance e o relacionamento quase sempre traz seqüelas.
Como resultado, as mulheres começam a ver as coisas sob o ponto de vista do
casamento. Éa hora de terminar ou repensar as coisas.
Talvez Mark estivesse com razão, e fosse hora de reavaliar a relação deles.
Ele nunca se vira como um homem romântico, ao contrário, se gabava de ter os
pés no chão e agir como tal. Por conta daquilo, Mariah fora privada de pequenas
gentilezas corpo receber flores ou bombons. Mesmo nas poucas ocasiões em
que a presenteara fora por obrigação social. Será que ela interpretara aquilo
como um sinal de que não era amada?
Demonstrando um súbito interesse pelas palavras do amigo, insistiu:
- Supondo que já repensei a relação, qual é o próximo passo?
- Simples, pense nela como um novo cliente a ser conquistado para sua
empresa, e pronto.
- Mark, seja um pouco mais específico.
- Invista um pouco do seu tempo e dinheiro para agradá-Ia, jantares, flores, e
jóias, especialmente. Um pouco de atenção, algumas atitudes românticas e
aposto que a terá de volta.
Mariah concordava plenamente e, secretamente sentia-se lisonjeada com o
fato de que, mesmo com uma agenda repleta, ele tivesse ido pessoalmente à
floricultura.
Mas Jade não tinha a mesma visão romântica, tudo o que ela queria era ficar
livre de tantas flores no seu local de trabalho.
- Insista com ele ou com Jeanie, ou não teremos espaço para andar amanhã.
Riah, você sabe onde isto vai dar, não é? - E tirando o cartão das tulipas,
gracejou. - Vamos ver o que nosso rapaz diz...
Mas Mariah arrancou das mãos da irmã o pequeno envelope, o que Grey tinha
escrito era só para que ela lesse, e certamente Jade o ridicularizaria por
tentar ser romântico. Sorriu com a brincadeira sutil que dizia em inglês
"Tulips", ou seja, dois lábios, são melhores que um, beijos Grey."
As flores e os cartões trouxeram de volta o Grey de seus sonhos, mas antes
que se perdesse em devaneios, Jade a puxou para a realidade.
- Diga, Richard é romântico?
Mariah olhou de relance para a irmã que se acomodara na poltrona à frente, e
em um esforço, tentou descrever seu novo par sem ser cruel.
- Richard é interessante.
- Interessante? Peixes tropicais são interessantes, , porcelana chinesa é
interessante... Richard é um homem e tanto.
Só então Mariah percebeu o que Jade queria realmente saber. Cruzando as
pernas sobre a mesa, foi direta.
- Ele beija bem?

- Sim, beija. - Na verdade, Mariah ficara com a impressão de que o beijo


deixara sem fôlego e tonta com a avidez das mãos dele apalpando seu corpo.
- Vócês já...?
- Não, Jade. - A idéia a aterrorizava na medida em que Richard parecia
obcecado por ela, não sabia por quanto tempo conseguiria evitar de ir para
cama com ele.
- Não? Qual é o problema?
- Jade, eu mal o conheço, tenha dó. E, para ser honesta, acho que não vai dar
certo com Richard.
- Bem, faça-me um grande favor, espere até a semana que vem para dizer isso
a ele. Por favor...
Não era próprio de Jade pedir qualquer coisa, ainda mais assim. Estranhando,
Mariah perguntou:
- Por que eu deveria esperar?
- Porque mandei a conta do nosso trabalho e ele vai pagar à vista. Querida, por
favor...
Mariah entendeu mas não faria nada para ferir os sentimentos de Richard
dessa maneira, assim como não gostaria de ter os seus sentimentos feridos. Se
fosse o caso, falaria com ele antes disso e depois veriam o pagamento do
trabalho. Essa faceta de Jade a irritava profundamente às vezes.
Quanto ao resto, haviam combinado de irem juntos à festa de aniversário de
seu pai, então certamente antes disso ela não falaria nada a respeito de
rompimento com ele. Precisava de um acompanhante elegante e charmoso para
poder enfrentar a presença de Grey. Richard era a única opção de que
dispunha. .
Tudo bem, Jade. Ficamos assim, prometo que não direi nada até a festa do
papai, mas depois disso terminarei esse mal fadado romance. Realmente não
temos nada em comum.
Uma voz chamou. pelo nome de Mariah, discreta e firme. Uma jovem e elegante
senhora aproximou-se delas trazendo uma bela caixa em uma das mãos.
Perguntou qual das duas era Mariah e cortesmente explicou que tinha sido
encarregada da entrega de um presente. A caixa tinha o papel exclusivo de uma
das lojas de lingerie mais elegantes da cidade. Na hora Mariah percebeu que
não era usual fazerem entregas; portanto a senhora devia ser a gerente da
loja.
- Srta. Stevens? Isto é para a senhorita, nossa loja não costuma fazer
entregas, mas parecia ser uma questão de vida ou morte, e como era no meu
caminho eu abri uma exceção. Espero que seja do seu agrado, as peças foram
escolhidas entre as melhores da coleção e são praticamente exclusivas.
Jade emburrou e não deixou por menos:
- Isso sem mencionar que certamente ele pagou três vezes mais caro para ter
esse luxo da entrega.
Mariah cutucou a irmã para que se calasse, e a senhora fez de conta que nada
havia ouvido.
- Obrigada pela gentileza, está entregue.
- Sei que estou sendo indiscreta, mas devo cumprimentá-ia pelo bom gosto do
seu namorado. Ele escolheu pessoalmente cada uma das peças.
- Desculpe, mas qual é a loja? - Mais uma vez Jade se metia.
- P.J. Lingerie.
- Uau!! Abra logo, agora interessou-me.
Mariah ficou embaraçada, hesitou um pouco antes de abrir, mas Jade não
arredaria o pé dali sem ver exatamente o que tinha dentro. Sem dar a mínima
para os pudores alheios quase abriu ela mesma a embalagem. O laço de fita
rosa foi desfeito, a caixa se abriu e dentro várias pequenas embalagens de
cetim. Em cada uma delas, uma peça diferente.
Desde a primeira caixa até o conteúdo tudo era deslumbrante. Com a
respiração suspensa, abriram um a um.
- U-la-lá! - Jade estava boquiaberta. - Devo admitir que o homem conhece o
assunto.
A "peça" causadora de tamanha comoção era nada menos que uma cinta-liga
de cetim preto e renda, três calcinhas de cetim e seda preta sensuais e três
pares de meia da mais fina seda também negras, cada qual com detalhe
diferente. Uma delas tinha costura atrás, outra era fumê, e a terceira tinha
uma pequena borboleta bordada em relevo no elástico da coxa, as antenas eram
de pequenas pedras brilhantes.
Com um nó na garganta, Mariah olhava para os detalhes luxuosos das delicadas
peças sem reação. As embalagens voltaram a esconder o que a irmã chamava de
"fetiches irresistíveis" de Grey. Só depois de se livrar da curiosidade alheia,
Mariah sentou-se para ler o bilhete de Grey.

"Percebi que você passou a gostar de lingerie. Deixe-me dividir com você
uma fantasia minha, vê-la usando cintaliga e meias negras sob um vestido
sofisticado, curto, sexy. É noite, à nossa volta outras pessoas conversam, mas
não veêm que em um canto da festa, nós dois dividimos um segredo. Eu a
abraço, e deslizo minha mão para encontrar entre as sedas um ponto de calor e
maciez no seu corpo. Macio e morno, entre meus dedos... Lembre-se da
fantasia quando lembrar-se de mim."

Mariah estava completamente fora de si ao terminar a leitura, Grey sabia


como tocar seu ponto fraco, e o fizera magistralmente. Ele a deixara excitada
e o pior, frustrada. Imersa no erotismo que impregnara o ambiente nem
percebeu que Jade quase lera a nota de Grey. Disfarçando, perguntou:
- O que é que eu faço com isso? E Jade, prontamente:
- Aproveite enquanto pode.
Grey reconheceu a expressão triunfante e machista de posse assim que pôs
os olhos no acompanhante de Mariah. Louro e alto olhava para os outros homens
do salão como quem dizia "a noite é minha". Conhecendo o gênero, Grey podia
apostar que ele ainda não a tivera, e pior, a pretensão do rapaz era para aquela
noite.
Mas aquilo não aconteceria, não se ele, Grey, pudesse impedir. Medindo o
advogado de alto a baixo, com seus cabelos louros e impecável smoking, não se
convencia de que Mariah pudesse sentir atração por ele.
A festa estava magnífica, Jim Stevens era um homem de sucesso e carisma, e
seus sessenta anos de vida estavam sendo comemorados em grande estilo.
O salão de gala do Hilton estava apinhado de homens de gravata-borboleta e
mulheres cobertas de jóias. Fora, uma longa fila se formava para dar os
parabéns ao pai de Mariah, que ao lado da mãe, Donna, recebia-os com um
sorriso nos lábios.
Os sons vindos do salão formavam um burburinho onde.
o riso e os tinir de cristais davam o tom. Uma brigada de garçons, impecáveis e
solícitos serviam champanhe, e uísque em abundância. Os mais finos canapês
disputavam a preferência dos convivas com o caviar servido em salvas de prata
cobertas de gelo.
Homens se reuniam em grupos para falar de negócios ou mulheres. Por sua
vez, as mulheres disputavam a primazia da mais bela jóia ou vestido. Grey tinha
que reconhecer que poucas vezes vira uma recepção como aquela.
Em outra ocasião teria conseguido ótimos contatos para seus negócios,
raramente surgiam reuniões tão propícias para novos contratos. Mas nada
poderia desviar sua atenção do objetivo da noite, Mariah.
Nem que quisesse, não conseguiria tirar os olhos dela ou melhor, do vestido que
a cobria.
Sofisticação e elegância eram pouco para definir o que aqueles palmos de
tecido traduziam. Todo de renda negra, parecia ter sido moldado ao corpo, o
decote generoso insinuava, para descobrir com sensualidade o que o forro, que
saía da altura dos seios e terminava no alto da coxa, deixava à mostra. As
delicadas alças de cetim sustentavam os seios fartos, e Grey podia jurar, a
cinta-liga e lingerie negras cuidavam para que as pernas parecessem tão
fantásticas. Só não conseguia saber qual delas, mas pretendia descobrir. E
logo.
Seu enlevo terminou ao perceber o advogado esticando seu braço em torno
dela, para cochichar em seu ou,vido algo que a fez sorrir e balançar a cabeça.
Lindos, os cabelos louros pareciam ser feitos de seda dourada, roçando as es-
páduas perfeitas. Só de olhá-la sentiu que seu corpo dava sinais evidentes da
excitação masculina. Como um adolescente precisou disfarçar colocando as
mãos nos bolsos. Nesse momento uma voz sussurrou bem às suas costas:
- Ela está estonteante, concorda?
- Jade, só podia ser você a responsável por isso.
- Querido, eu apenas quebrei a casca, o resto foi natural.
- E riu, saindo de mansinho.
Mas Grey não a deixou passar.
- O que pretende? Exibir sua irmã para todos os solteiros da cidade?
- Para quê? Richard é um ótimo partido. Mas Mariah é tão cheia de detalhes...
Andaram juntos trocando farpas até estarem bem próximos de Mariah e seu
par, quando alguém derrubou uma taça de champanhe ao lado deles. Assustada,
Mariah fez um movimento brusco e, deliciado, Grey pode constatar que uma
borboleta brilhava no alto da coxa bem torneada.
O jantar foi anunciado, e separado de seu alvo, Grey passou impaciente por uma
sucessão de iguarias e pelo cansativo charme de uma linda loura. Mal serviram a
sobre mesa e os pares voltaram à pista, aliviado Grey levantou-se da mesa e
partiu em busca de Mariah.
Depois de duas voltas no salão finalmente localizou o casal. O advogado parecia
ter conseguido arrastar Mariah para um canto pouco iluminado e pelo visto, ela
não teria como se esquivar.
Aproximóu-se sem a menor cerimônia, passos firmes e um sorriso congelado no
rosto. Morto de ciúme, teve que repetir mil vezes para manter a calma, a
palavra "controle". Fingindo surpresa, abordou-os.
- Mariah? Há quanto tempo, finalmente a encontrei. Ignorando a expressão
irada do advogado, continuou com a farsa até o limite do cinismo quando
comentou:
- Fico feliz que esteja usando meu pequeno mimo da P.J., acertei?
Corando, Mariah fez as, apresentações de praxe, e acrescentou, marota.
- Obrigada pela lembrança, adorei.
Era a oportunidadé que faltava para Grey. Sem mais, convidou-a para dançar,
formal e irônico,
- Será que eu poderia roubá-Ia por uns minutos, Richard? Gostaria de dançar
com esta deslumbrante dama. Pelos velhos tempos.... - Se Mariah quiser,
será uma honra. - O ódio era traduzido em galanteios e frases rebuscadas.
Ele tomou-a pelo braço, e juntos sem dizer palavra entraram na pista de dança.
A pressão dos corpos um contra o outro falou por eles: Com a voz rouca de
desejo, Grey apenas murmurou:
- Você está maravilhosa esta noite.
- E você parece um machão ridículo tratando Richard daquela maneira. Desde
quando tem ciúme, Grey?
- Sou um homem em desespero, creia. Diga-me, o rapaz é casadoiro?
- Mais do que imagina.
Pronto, tudo arruinado de novo, pensou Grey. afastando-se dele Mariah tentava
voltar para onde estava quando Grey puxou-a pelo braço com rudeza e
perguntou:
- Você já dormiu com ele?
Entredentes, Mariah respondeu:
- Não é da sua conta.
Caminhavam com passadas duras entre os convivas, a vontade de Mariah era
esbofeteá-lo, mas mantendo a classe nada fez. Por fim ouviu Grey dizer:
- Aposto cem dólares que se ele a levar para casa, de hoje não passa.
Estourando de indignação, Mariah virou-se para dar a resposta merecida por
aquele insulto. Mal o viu e as pernas tremeram, com o olhar ele a despiu
vorazmente,. Através do vestido viu apontarem os mamilos túrgidos pelo desejo
despertado por ele. Um sorriso malicioso aflorou nos lábios dele:
- Já disse que você está linda?
Ao vê-Io pelas costas Mariah reconheceu que mais uma vez ele produzira no
seu corpo ondas de desejo deixando-a fora de órbita. Teve que falar:
- Grey, pare com isso.
Sem se virar de todo, ele respondeu.
- Desculpe, é mais forte que eu. - E de. chofre, virou-se e tomando-a pelo
braço, carregou-a até a varanda. A noite estava quente como o corpo de Mariah
eem um minuto Grey levou-a para um discreto recanto formado por pequenos
arbustos. As pessoas andavam e falavam sem se dar conta da presença deles.
Em um piscar de olhos, sem aviso prévio Mariah se viu suspensa pelas pernas de
Grey,a mão que a levantou no ar, agora deslizava para as coxas e para dentro
do vestido. Aturdida, não reagiu. Gaguejou a pergunta óbvia.
- Grey, o que está fazendo?
Mas ela sabia exatamente o que ele estava fazendo. Os dedos habilidosos
correram até a cinta liga, passearam pelas extremidades da seda e afundaram
no pequeno espaço entre o tecido e o elástico das peças finas.
Com calma e desejo as palavras a levaram ao céu.
- Lembre-se da fantasia...
CAPÍTULO IV

Lembre-se da fantasia...
Mariah gemeu enquanto as palavras que Grey escrevera transformavam-se em
realidade. Se por um lado se recriminava por estar usando a lingerie como ele
pedira, por outro lado estava excitada demais para se culpar.
O burburinho de vozes e risos se misturava coma música vinda do salão,
estavam isolados e rodeados pelas pessoas que, embora próximas, não tinham
acesso à pequena alcova encontrada por Grey. Muito embora mal houvesse
terminado uma taça de champanhe, Mariah parecia estar sob o efeito de uma
garrafa, flutuando.
Percebendo que não resistiria, ensaiou um tímido protesto. - Grey...
- Sshh, querida... - Sussurrou com voz cálida, antes de pousar os lábios., na
nuca de Mariah.
Adivinhando onde e como tocá-Ia, ele a surpreendeu ao correr os dedos para o
elástico da calcinha e habilmente fazê-Io descer até a barra do vestido.
Assustada com a ousadia, sentindo-se à mercê dele, gemeu um lamento. Não
obteve resposta, às vezes a comunicação verbal é desnecessária, especialmente
quando o objetivo é proporcionar prazer.
E aquela era a intenção de Grey naquele momento, dar a ela uma noite
inesquecível. Com as mãos sobre o corpete rendado acariciou-a do quadril até a
cintura; dessa forma fez subir o vestido, deixando descoberta a pele clara
entre as meias e a cinta-liga. Mariah pedia em silêncio para que ele continuasse
explorando seu corpo, todo ele. O decote profundo deixava ver o peito arfante
e ávido.
Grey só precisou encostar nas alças finas para que o cetim e a renda cedessem,
deixando livres. os seios deslumbrantes.
Os mamilos róseos e rígidos desapareceram entre a língua e os lábios dele,
incansáveis entre um e outro, enquanto a pele alva dos' seios reluzia entre seus
dedos.
Ela o queria como nunca quisera alguém antes, mais que simples desejo era
quase uma necessidade física, pouco importavam as pessoas ou o risco de
serem flagrados. Qualquer conseqüência seria ínfima se comparada com aquilo
tudo.
Ondas de desejo percorriam-na de cima abaixo para eclodirem em sua
intimidade, como lavas de um vulcão irradiando calor e umidade.
Ele a tocou no ponto mais sensível de seu sexo e, conhecendo-a, usou seus
dedos para fazê-Ia vibrar com paixão até quase o desfalecimento.
Agora ela precisava tocá-Io,. queria-o inteiro para si. Tomando a dianteira,
Mariah acariciou-o por sobre a calça onde a virilidade dele se avolumava em
uma demonstração do desejo despertado por ela.
Ela o queria dentro de seu corpo com desespero, já se imaginava com as pernas
em torno dele, devorando-o.
Todas as suas inibições e tabus tinham sido superados em poucos minutos,
naquele momento, ela queria mais e mais. Só então se deu conta de que a
fantasia terminara. Ignorando seu próprio desejo Grey afastou-se um pouco,
até sua respiração se normalizar. Imediatamente tratou de recompor Mariah,
usando de gentileza desmedida acertou cada detalhe da aparência. Atônita viu
brilhar de satisfação única o olhar de Grey.

Totalmente recomposto, beijou-a levemente nos lábios antes de dizer:


- Tenha uma boa-noite, querida.
Para em seguida deixá-Ia prostrada lá, enquanto desaparecia entre os convivas
que subiam as escadas. O sorriso de despedida tinha um quê de vitória
machista.
Por longos minutos, Mariah continuou ali, completamente sem ação, e mesmo
depois que se moveu, suas pernas ainda estavam trêmulas. Foi preciso o apoio
do corrimão para conseguir vencer os poucos degraus, tamanha era sua per-
turbação. Indignação e raiva se fundiam dentro do peito, e lágrimas
manchavam-lhe a maquiagem. Um nó formou-se em sua garganta antes de
murmurar:
- Grey, seu maldito!
O que ele queda era apenas seduzi-Ia e assim impedir
que outro homem; aliás Richard, se aproximasse de seu corpo, pelo menos
aquela noite. Puro egoísmo, ou pior, puro machismo estúpido.
Nem pensara que, independente de qualquer coisa, nenhum homem a tocaria,
nem à força. Sentiu-se duplamente humilhada.
Você também foi culpada, dizia a voz de sua consciência.
Lembre-se de que nem ao menos tentou resistir.
Um vulto masculino e duas mãos na cintura de Mariah foi o bastante para
enervá-Ia. Sem pensar duas vezes, deu meia-volta e acertou a face do
cavalheiro com a mão espalmada. Só depois de deixar a marca de seus dedos na
face dele é que percebeu que acertara Richard. Culpou Grey por mais aquela
falha.
Sou eu, querida. - E, mais que depressa, esticou seus dedos para a cintura dela.
Perdoe-me, não sei onde estou com a cabeça. – E continuou andando, confusa.
Mas Richard não desistiria assim tão facilmente.
- Pensei que a tinha perdido, você sumiu há horas...
- E com acento sedutor acrescentou: - Cheguei a imaginar que havia sido
abandonado.
Tomada pelo pânico, Mariah só de olhar para Richard tinha engulhos, se antes
era impensável qualquer intimidade com ele, depois de Grey, até vê-Io era
insuportável.
- Richard...- Que tal darmos uma volta no jardim, estaremos mais à vontade
entre as árvores. Mais sozinhos... - E sem cerimônia, colocou as mãos no decote
em suas costas.
Foi com dificuldade que Mariah conteve os engulhos de seu estômago, mas
limitou-se a tirar as mãos e pedir:
- estou cansada, por que não vamos embora?
- Otimo! - E despindo-a com os olhos, perguntou:
Na minha casa ou na sua?
- Minha. Desculpe-me, mas estou com enxaqueca e morrendo de cólica.

Ofegante e suada, Mariah mal podia esperar para chegar ao fim do seu
coopero Como sempre, o último quilômetro parecia mais cansativo e longo.
Acostumara-se a ter Grey a seu lado, fazendo troça do seu cansaço e
estimulando-a a continuar. Mas aqueles dias pertenciaI ao passado, portanto
teria de se acostumar a correr sozinha nos finais de semana dali em diante.
Tentou canalizar sua atenção para o exercício mas, alguns metros adiante,
pegou-se ainda com a cabeça cheia de lembranças. Grey sempre fora adepto do
cooper, apaixonado pelos benefícios do esporte, enquanto para ela correr nada
mais era do que uma tortura auto-imposta. Mas, em nome do amor, todos os
sacrifícios são pequenos, e Mariah passara a correr. Aos poucos começou a
gostar, e finalmente fizera daquilo um hábito saudável e prazeroso.
Precisava descarregar a tensão provocada pelos incidentes da noite anterior.
Depois de ter sua fúria despertada pelo péssimo comportamento de Grey,
tivera que aturar os maus modos de Richard até chegar em casa. Tranqüilidade
e paz era só o que ela almejava no momento. Sem nenhum homem por perto.
Mas nem sempre nossos desejos são realizados. Farfalhar de folhas e passadas
rápidas anunciaram a presença de mais alguém na pista de coopero Antes
mesmo que pudesse vê-Io, Mariah sabia de quem se tratava. Incrível ou não,
o alvo de todo seu rancor, único culpado pela noite insone estava ali, a poucos
passos dela.
Fingiu ignorar a presença dele, o que foi se tornando cada vez mais difícil, mais
um ou dois metros e estariam juntos. Uma mistura de raiva e prazer tomou
conta de Mariah.
Estavam próximos demais da entrada do condomínio e do fim da pista. Mesmo
sem olhar tinha certeza de que estava sendo despida pelo olhar de Grey. Sem
ter escapatória, resolveu encará-Ia. Encontrou-o com um sorriso aberto.

- Bom dia, querida! - exclamou, esbanjando bom humor. A vontade dela era
mandá-Io para o inferno, mas calou-se, limitando seu cumprimento a um gesto
de cabeça.
- Que dia maravilhoso, não acha?
Até você aparecer, pensou mas não disse, em vez disso, deu meia-volta e
começou a se alongar na grama, deixando-o estrategicamente para trás.
Alegre e sonoro, o riso masculino soou como provocação para os nervos
irritados de Mariah que não imaginara que, ao dar-lhe as costas...
- Não posso dizer como é linda a vista daqui de trás...
- Quase fora de si, Mariah deu meia-volta novamente e sem lhe dirigir a
palavra voltou a correr. De excelente humor, Grey fazia questão de segui-
Ia, e por onde passava, distribuía sorrisos e cumprimentos. Da velhinha que
alimentava os pombos ao mendigo, todos foram brindados por , um "bom-
dia". Mariah, por sua vez, era a imagem da
- antipatia e mau humor.
Ele não conseguira enxergar qual fora seu erro, afinal,
tudo que fizera até aquele momento fora ser gentil com ela, tentando agradá-
Ia a todo custo.

A desagradável conclusão de que os homens esperam mais que um beijo de


boa-noite de uma mulher com quem jantaram ou saíram algumas vezes fora
provada por Richard na noite anterior. Tivera que deixar claro que não
costumava ir para cama com alguém depois de uma semana, o que o irritou ainda
mais.
- Sabe de uma coisa, você está melhorando, querida. E com voz doutoral,
continuou: - Normalmente você já estaria estirada na grama.
Fora de si, Mariah esqueceu-se de ignorá-lo e em um impulso passou-lhe uma
rasteira. Sem apoio, Grey perdeu o equilíbrio e desabou no chão. Vibrando com
sua pequena vingança, usou-seu rosto angelical para perguntar:
- Sr. Nichols, o senhor nunca foi tão atrapalhado, é a idade? Rápido, em um
salto ele se pôs de pé com o olhar prometendo vingança. Mais que depressa,
percebendo o tamanho da encrenca, tratou de correr dali. Inútil, além de
maior, Grey era um corredor veloz e, em segundos, ele a tinha segura pela
cintura. Como dois moleques de rua, acabaram rolando pela grama,
engalfinhados. Continuaram assim até Grey salvar Mariah que, por pouco,
não batera a testa contra uma rocha. Ao protegê-Ia, instintivamente
Mariah olhou-o como macho, e o efeito foi instantâneo, o suor sob o sol e o
esforço exalava virilidade. Apoiada sobre o tórax musculoso, deixou-se
seduzir até mesmo pelo jeito moleque inocente dele, que o tornou mais
desejável que nunca.

Mais um segundo e perderia as rédeas da situação, porque, pior que a


atração física, só o amor intenso que Grey a fazia sentir. Ela se rendeu,
sabendo que durante aquele momento mágico, ele se deixara surpreender sem
reservas. Desmanchando os cabelos loiros de Mariah, Grey se gabava. - Eu a
peguei, espertinha, morda a língua, feche a boca... O garoto voltou a ser
homem quando olhou para a boca de Mariah e outras imagens., menos ingênuas,
vieram à tona. O olhar dele não escondia nada, mas, mesmo ouvindo tocar o
sinal interno alertando para o perigo, ela não conseguiu se mover. Os lábios
quentes e ávidos a arrebataram em um beijo apaixonado, terno, longo,
Deixando os lábios, . encontrou o pescoço de Mariah e com uma longa carícia
procurou pelas curvas sensuais do corpo dela, Gemendo de prazer, mordendo os
lábios, ela o puxou pelos cabelos afastando-o de perto. E, o que parecia uma
carícia, mudou quando, com voz cortante avisou:
- Antes que eu grite por socorro, acho bom parar. Sem perder a pose, Grey deu
o troco:
- Parece que alguém acordou do lado errado da cama, ou será que na cama
errada?
- Saia de perto de mim! Agora! - O ódio cegava Mariah. Pior, só conseguiu que
Grey, gentilmente lhe oferecesse a mão, que foi recusada com histeria capaz
de levá-Ia ao extremo de, sem mais, dar um tapa em Grey.
- Se você me tocar de novo eu não respondo por meus atos. Acariciando o local
do tapa, ele se limitou a dizer:
- Você é louca por mim.
Frustração e mágoa turvavam as idéias de Mariah e antes que repetisse a
agressão contra Grey, afastou-se, mas suas palavras o alcançaram.
- Você não perde por esperar, Grey!
Sem ousar tocá-Ia, chegou mais perto.
-Mas o que foi que eu fiz?
Ainda com o coração disparado e ofegante, mal refeita do assédio de Grey,
respondeu:
- Você sabe exatamente o que foi.
Com as mãos na cintura e balançando a cabeça, final mente entendeu.
- Está se referindo à noite de ontem?
- Adivinhou!
Um esboço de sorriso apareceu no canto dos lábios de Grey, e com uma certa
malícia disfarçada sugeriu:
- Então é isso...
Complemente fora de si, ela repetia:
- Isso, é disso que estou falando. - Ao mesmo tempo tentava se convencer de
que a raiva era só porque a fantasia não se concretizara. - Não foi pouco para
mim, e pior, você me deu as costas como se nada houvesse acontecido.
O brilho dos olhos de Grey era o sinal do triunfo, o dourado da pupila tomou
conta do castanho, transformando sua expressão.
- Então foi isso que a aborreceu? Eu ter interrompido nossas carícias e saído
logo depois?
Uma exclamação de estupefação saiu como um som de protesto involuntário.
A arrogância masculina na sua pior e mais acentuada demonstração, e quanto
mais estúpido e primitivo ele se mostrava, mais incrivelmente sexy lhe parecia.
Possessa com o
desplante, Mariah explodiu.
- Você agiu de caso pensado, para, para...
Com absoluta transparência, sério e direto, confessou: - Eu não podia deixar
você ir para cama com outro homem sem fazer nada para impedir.
Ele realmente agira como um adolescente, ingênuo e apaixonado, e quase
conseguiu comovê-Ia com aquilo. O que não a impediu de dizer:
- Não compete a você decidir com quem eu vou ou não para a cama. Não mais,
você não tem o direito de, de...
- De fazer amor com você? - Indignado, lembrou-se de que se não o fizera na
noite anterior, fora por que não quisera. Mas naquele momento tudo era
diferente.
- Sim. É isso.
Esquecidos de que não eram os únicos no parque, continuou Emocionado, Grey
ainda questionou.
- O que pode ser isso?
O impossível, pensou resignada.
- Que você me ame.
- Como é que eu posso dar uma coisa que não faz parte do meu mundo? - E com
desilusão estampada: - Mariah, eu nem mesmo sei o que é amor.
Ouvi-Io dizer aquilo magoou-a profundamente, nada poderia ser mais triste
para um ser humano que chegar à maturidade desconhecendo aquele
sentimento. Amada desde o primeiro momento de vida, para ela fora natural
entender e retribuir aquilo. Sem medo de parecer piegas, ousou definir o
indefinível, direta e simplesmente como ela própria o entendia.
- Amor é se importar, querer bem, compartilhar, admirar tanto uma pessoa que
quando não se pode tê-Ia ao lado, sentimos uma dor única e pungente.
- Saiba que nunca senti tanta dor na vida. - E não era mentira. - E saiba que
me importo.
Ele se esquecera do fundamental.
- Mas não divide, não compartilha o que tem aí dentro.
- Ela tocou-lhe o peito.
Calou-se, sua postura era defensiva ao argumentar.
- Faria diferença se eu o fizesse?
Pensou e repensou antes de dar uma resposta. Teria que ser honesta ou estaria
dando falsas esperanças para ambos.
- Sinceramente, não sei mais. - E completou: - Mas não posso negar, as coisas
mudariam entre nós se eu soubesse a causa do seu descrédito no casamento
e no amor.
Entre a cruz e a espada, melhor dizendo, entre seu desejo e sua
incapacidade de realizá-Io, Grey era prisioneiro de si mesmo, incapaz de lidar
ou expressar seus sentimentos ou emoções. Perturbado, impotente,
angustiado... Tudo aquilo transparecia nos olhos, e Mariah soube que seria
excluída da vida dele.
Tentara, sem Sucesso, estar com ele incondicionalmente, podia lamentar, mas
não continuar com uma relação sem retorno.
Voltou a caminhar em direção à sua casa, e, daquela vez, ele não a impediu.
- Você já acabou aqui, John?
A voz de Mariah ecoou pela sala de jantar onde ela e um fotógrafo estavam
trabalhando já havia algum tempo. Grey concordara em colocar apenas a mesa,
cadeiras e um bufê, escolhidos por ela em um antiquário em Carmel. O mogno
realçava a delicadeza do gobelin francês dos assentos, dando nobreza e
conforto ao mesmo tempo. A luz do dia, filtrada pela cortina, enchia de
reflexos o aposento.
Colocando um novo filme na máquina, John balançou a cabeça e pediu:
- Preciso de mais meia hora aqui embaixo, tudo bem?
Pensei em outros ângulos e...
- Como achar melhor. - Ela aquiesceu.
Deixou-o trabalhar à vontade, afinal era ele o responsável pela revista Casual
Elegance ser a melhor do país em decoração.
Com rigor profissional anotava mentalmente o que deveria ser refeito ou
retocado, errara ao não providenciar para que Grey tivesse o mesmo
tratamento de seus outros clientes. Meticulosa, verificou um por um todos os
cômodos até chegar ao vestíbulo.
Os ponteiros imóveis do carrilhão a fizeram verificar as horas em seu pulso.
Calculou que teria, no máximo uma hora e meia de trabalho se não quisesse
estar por ali quando Grey chegasse do trabalho, o que em geral só ocorria bem
depois das seis horas.
Mesmo assim, avisou John para que se apressasse. Havia mais de uma semana
que não o via, precisamente dez dias desde o último encontro no parque. De
alguma forma ela conseguira pôr um ponto final no que ainda restava entre eles.
Formal e polido, autorizara a sessão de fotos com um rápido telefonema. Por
sua vez, Mariah pediu para que as flores de Grey fossem entregues no nome
dela, mas em um asilo.
Apesar de ter alguma experiência em relacionamentos desfeitos, ela nunca pa
sara por nada tão doloroso. A sensação era de estar totalmente só. Temia que
aquela dor nunca mais cessasse.
Caminhou pelo salão. No pé da escada Mariah tomou fôlego e coragem para
subir os degraus até a parte íntima.
Conhecia cada milímetro daquelas paredes e deixara um pouco de si mesma ao
dar vida e personalidade ao lugar onde sonhara começar uma família com Grey.
Evitou a suíte principal ocupada por Grey. Seguiu até o fim do corredor, onde,
menor e mais iluminado, estava seu quarto predileto.
Não segurou as lágrimas ao abrir a porta. Planejara, um dia, ocupá-Io com um
berço, brinquedos. e um filho. A ingenuidade a deixara cega e frágil.
Equipamentos de ginástica, uma esteira, bicicleta ergométrica e um
equipamento de som potente. Grey montara uma pequena academia naquele
quarto. Realmente não havia mais espaço na vida dele para fantasias pueris.
O que houve? Não gostou do quarto?
Em um sobressalto viu a silhueta máscula dele que, apoiado no batente, sorria.
Mãos enfiadas nos bolsos da calça cáqui, a camisa folgada descendo até as
coxas, displicente e charmoso.
Mais uma vez, ele a surpreendia.
CAPÍTULO V

De boca aberta, Mariah não podia acreditar em seus ouvidos. Seqüestrá-Ia? Só


podia ser piada. - Você não está falando sério.
- Nunca falei tão sério. - Desviando os olhos da estrada por um segundo,
fixou-os nela.
- - Já me viu brincando assim alguma vez?
Nunca, mas também nunca o imaginara seqüestrando alguém. - Por que você me
seqüestraria?
- Para estarmos juntos e sozinhos.
- Parece que não há ninguém aqui.
- Não é o suficiente, preciso de um fim de semana. Três dias e duas noites ao
lado de Grey era mais do que poderia suportar.
- Você não tem o direito de me colocar em um carro e me levar para, sabe lá
onde....
- Caso não tenha notado, já fiz isso.
Tentando parecer autoritária, ordenou.
- Leve-me de volta à loja.
- Com certeza - prometeu. - No domingo. Apelando para o aspecto racional,
argumentou:
- Mesmo que eu concorde, não tenho como passar três dias sem nada além
desta roupa.
- Não há problema, comprarei o que precisar. Determinado, nem levou em conta
quando Mariah balançou negativamente a cabeça.
- Jade vai ficar doida se eu não aparecer logo. Combinamos sair juntas à
noite.

Óbvio sinal de desagrado, tinha os músculos retesados e o tom de voz austero.


- Iam ao Roxy's?
Um pouco embaraçada, engoliu em seco.
- Não interessa aonde íamos, mas preciso avisar Jade. Não queria irritá-Ia
mais, então propôs .uma trégua. - Vamos parar daqui a pouco e você telefona,
certo? - Quanta generosidade... Será que pode dizer para onde estamos indo?
- Lago Arrowhead.
Agora sim ele a confundira. Por que ele desejava ir para uma vila como aquela,
perdida entre as montanhas e rústica ao extremo?
- O que tem lá?
- Privacidade. - Antecipando as respostas, encarou-a
sério e começou a falar. - Mariah, lembra quando discutimos' sobre minhas
reservas ao falar do passado? Pois resolvi tentar conversar, pela primeira vez
falar das coisas que magoaram e marcaram minha história. São tantos anos de
amargura que não sei como começar.
- Nem posso crer. É mesmo verdade?
- Se me der mais està chance, com toda certeza.
Seria preciso muito mais que aquilo para poderem retomar a relação, não
apenas dividir seu passado mas especialmente o futuro. E ela não conseguia
vislumbrar aquela possibilidade. Foi honesta ao dizer:
- Grey, tirando toda a carga emotiva, sinceramente...
- Por favor? - E era desesperado o pedido.
- Estou impressionada. - Era a verdade dita em tom de brincadeira.
- Com razão, nunca agi assim.- E súplice repetiu. Por favor.

Disfarçando suas emoções, Mariah voltou-se para o laqo, na sua perna, a mão
de um menino grande fazia c-arinhos, e ela temeu sofrer ainda mais.
- Para que passarmos mais tempo ferindo-nos com palavras, Grey?
- Vai ser diferente, prometo.
Sem os óculos, ele pareceu cansado e triste. Olheiras fundas, tinha as faces
vincadas e sem cor. Ver o sofrimento refletiçlo em seus olhos acabou
comovendo Mariah.
- Está bem. Eu fico... mas com duas condições.
- Farei o que você quiser. - Grey estava exultante. ,
- Primeira: chega de segredos ou assuntos proibidos, vamos falar sobre tudo,
inclusive sobre sua família.
- Sem problemas, estou aqui para isso. A segunda? Um risinho pairou de leve
nos lábios de Mariah antes de dizer:
- Nada de sexo.
Por aquilo ele não esperava. Sem esconder o desapontamento, Grey concordou
após um instante de hesitação.
- Querida, nunca pensei que você fosse tão durona...- suspirou desanimado.
- Aceita? - Mariah estendeu-lhe a mão.
- Aceito. - Inexplicavelmente, um brilho malicioso iluminava-lhe o rosto.
Se Mariah fora direta e específica ao colocar suas condições, Grey sentia-se
no direito de segui-Ias à risca. E, ele ouvira muito bem que o sexo estava
proibido. Sexo, mas beijos, carinhos, palavras à meia voz não faziam parte da-
quele trato.
Até porque, particularmente, sempre julgara serem os melhores momentos
aqueles que antecedem o sexo. Adorava quando, com o deslizar de suas mãos e
boca sobre o corpo de Mariah, garantia seu passaporte para o prazer. Não, não
seria quebrada sua palavra, porém...

Estava escura a trilha ate o chalé. Deixando Mariah à sua frente, Grey a
guiava tocando seu ombro para indicar o caminho. Mal seus dedos roçaram-lhe
as espáduas, um arrepio a fez estremecer.
E, poucos metros depois, foram brindados com a vista deslumbrante do lago
Arrowhead ao luar. Entre a mata nativa e debruçado sobre as águas plácidas
estava o chalé.
Pequeno, feito de pedras e troncos, parecia um ninho de amor. Rústico por
fora, o interior aconchegante escondia pequenos detalhes dignos da mais
exigente personalidade. Curiosa, Mariah não conseguia imaginar quem seria o
dono.
- De quem é?
- Mark. Foi o que lhe coube no divórcio. A esposa ficou com o Mercedes, a casa
em Malibu, o dúplex em Beverly Hills. E deixou que ele ficasse com esta cabana,
segundo ela, sem valor. Mark traz os filhos quando ela deixa.
- Ele foi generoso deixando que viéssemos para cá.. Generoso não seria a
palavra apropriada para descrever o estado de espírito de Mark ao
recomendar, em detalhes, como utilizar a hidromassagem ou a lareira.
Os detalhes românticos não impressionaram Mariah, mais atenta ao
comportamento de Grey que à decoração ambiente.
Enquanto Grey se ocupava em colocar tudo em ordem na casa, Mariah preparou
uma pequena refeição aquecendo uma lasanha. Já era tarde da noite e ambos
estavam famintos.
Não foi sem uma ponta de satisfação que percebeu que Grey se preocupara em
trazer as coisas que eram especialmente de seu agrado, como aquela massa.
Uma das sacolas foi reconhecida por ela como um presente pois trazia seus
doces favoritos, mas desconhecia que além daquilo Grey se armara contra a
falta de lojas e fizera por sua conta um pequeno enxoval para aqueles dois dias.
Na parada para avisar Jade, aproveitara para comprar alguma coisa mas, na
pressa, apenas um par de mocassins e uma calça estavam entre os cremes e
xampu.
Respeitando os limites possíveis para alguém que acabara sendo seqüestrada,
Mariah se viu aos poucos, começando a relaxar. Comeram, conversaram
trivialidades, arrumaram a cozinha e, ao terminarem, ela se divertiu ouvindo
uma serenata de grilos e sapos.
Aproveitando o momento de descontração, Grey não perdeu tempo.
Que tal um banho quente lá fora?
- Pensei que estávamos aqui para conversar. .
- Alguma coisa nos impede de fazermos as duas coisas? - Não me lembro de ter
trazido traje de ba.nho - sarcástica, respondeu.
- Nem eu tampouco. - Grey tentava aparentar naturalidade. Observando o jeito
quase ingênuo dele, Mariah cruzou os braços e sem se deixar enganar
comentou.
- Um pouco forçada essa sua falha de memória, concorda? Riu e, com um dar de
ombros, confessou:
- Certo, certo... Mas vamos lá, prometo me controlar... Olhando-o de alto a
baixo, Mariah tentou se certificar da sinceridade daquelas palavras do homem
sedutor à sua frente. Sem falso moralismo, não tinha por que recusar a
sugestão... Só a incomodava éstar nua, bem, mas eram adultos o bastante para
que isso não os impedisse de manterem o autocontrole.
- Então? Vamos ou não? - Grey estava ansioso. Aquele seria um bom momento
para provar sua determinação em não ceder à primeira tentação. Soltando os
cabelos, dirigiu-se ao banheiro dizendo:
- Vá preparando a água, encontro você em poucos minutos. E saiu da sala,
deixando-o exultante com a decisão.
Mariah escovou os cabelos, soltou-os para tornar a prendê-Ios, indecisa sobre
como encarar suas próprias emoções. Ridícula ou não, a verdade era uma só,
estava constrangida em encarar Grey sem roupa. Pela primeira vez, precisou
esconder-se dele enrolada em uma toalha.

Distraído com a água borbulhante, Grey estava esperando por ela recostado
em uma das espreguiçadeiras colocadas no deque em torno da imensa banheira.
Todo vestido, apenas seus pés estavam nus. Um copo de vinho branco estava
servido, e ele tinha outro em suas mãos.
Instintivamente Mariah levou a mão ao peito, certificando-se de que a toalha
não a deixaria descoberta por acidente. Estava preocupada em manter seu
corpo coberto pois sabia que até o simples fato de respirar o mesmo ar de
Grey já a perturbava.
- A noite está maravilhosa, não acha?
Absorto, olhando para o céu estrelado, não teve certeza se a notara de
imediato. As estrelas foram deixadas de lado para que a atenção dele se
concentrasse em cada milímetro de Mariah. No tom de voz era perceptível o
desapontamento. - Sim, está. Então, vai ficar parada aí ou pretende entrar na
água? .
Com embaraço, ela corou .para dizer o óbvio. - Eu estou... bem... estou sem
roupas...

- Mariah, em segundos eu também estarei. Algum problema?


E sem cerimônia começou a desatar seu cinto, depois abaixou o zíper mas
Mariah o interrompeu:
- Grey! .
Aparentando inocência e exalando malícia, despiu-se todo e disse:
- Até parece que você nunca me viu sem roupa.
Mais que depressa Grey afundou seu corpo no calor das borbulhas, submergiu
inteiro para logo depois vir à tona. - Ahh! Delicioso! Agora é a sua vez.
- Olhos fechados, sr. Nichols.
Grey riu satisfeito e comentou com seu jeito malandro: - Engraçado, pensei que
a tinha curado de todas as inibições há muito tempo... Verdade. Mas aquilo não
queria dizer nada. Mariah e ele estavam separados, portanto seu embaraço era
plenamente justificado. Era uma questão de respeito próprio manter uma
certa discrição.
- Olhos fechados.
Mesmo a contragosto, Grey atendeu-a, mas fez questão de frisar:
- Conheço cada pintinha sua, posso descrever seus seios em detalhes, e você se
preocupa com... Tenha paciência!
Estava frio fora da água. Quando Mariah finalmente entrou na banheira, seu
corpo estava todo arrepiado. Preocupada com o olhar devorador sobre seu
corpo, rapidamente submergiu até a altura dos ombros.
- Você prometeu que não ia ficar me olhando.
- Eu? De jeito algum eu seria tolo a esse ponto. Por acaso você faz idéia
quanto tempo faz desde a última vez que vi seu corpo nu? Desde a última
vez que fizemos amor? Amor mesmo?
Era transparente o desejo e a saudade em cada uma das palavras de Grey.
Por sua vez, a água roçando seus seios e a presença máscula à sua frente
deixavam os delicados mamilos doloridos. Todo o seu corpo podia responder
quantas horas ou minutos haviam se passado desde o último toque dele.
- Não faço idéia Grey.
- Posso garantir que faz muito, muito tempo.
- Pode ser, não tenho pensado muito nisso. - Mentirosa, protestou seu corpo.
Grey bebericou o vinho, tentando mudar de assunto.
Olhou para o céu, admirou a lua, mas não se conteve.
- Será que Richard imagina onde você está hoje?
Sem saber ao c rto o porquê, Mariah achou por bem contar a verdade.
- Faz tempo que não o vejo.
Um audível suspiro de alívio escapou de seu peito, olhos fixos em Mariah todo o
tempo.
- Por que não?
A vontade dela era gritar "Por sua causa, por que meu corpo e minha alma são
teus".
- Não é da sua conta. - E franziu a testa, amuada.
Com jeitinho, Grey tentou tomar para si um dos pés dela, colocando-o entre
suas coxas. A reação foi imediata e violenta mas ineficaz, seu pé continuou
onde estava. Pacificador, explicou:
- Calma, moça. Minha intenção é somente massagear seu pé. Posso?
Seria infantil dizer não, pensou Mariah, e além do mais, era deliciosa a
sensação. Aos poucos ela foi relaxando, o vinho, a água morna e o silêncio da
noite estavam surtindo efeito.
- Richard não devia ser muito bom na cama, acertei? - perguntou
abruptamente.
Chocada, não sabia se ria ou gritava, preferiu rir.
- Como é que eu vou saber? Não chegamos nem perto disso. - Ótimo! - A
satisfação deu brilho aos olhos castanhos:
- Bem, quem será o próximo pretendente da lista de Jade?
- Nenhum. Será que pareço incapaz de escolher meus namorados?
- Desculpe-me, mas seu pai adora. brincar de cupido para as filhas.
- Da animosidade do começo da noite pouco ou nada restara, havia sim, uma
doce cumplicidade pairando no ar.
Comprovando aquela mudança, Mariah não hesitou em colocar,
espontaneamente, o outro pé para ser massageado por ele. Até a voz de Grey
perdera a agressividade.
- Ou não se lembra de como foi que não encontramos? Como poderia não
lembrar o momento em que, pela primeira vez, fora hipnotizada por aqueles
olhos? Desde então começara a crer em amor à primeira vista. .
- Claro que me lembro. Estávamos em uma reunião de trabalho.
- Seu pai arquitetou tudo.
- Indicando meu escritório de decoração. – Corrigiu Mariah, depois de terminar
de beber seu vinho.
Cortês, Grey imediatamente trocou o cálice vazio por um cheio,
estrategicamente colocado em um enorme balde de gelo. Detalhes como
aqueles faziam a diferença para uma mulher refinada como ela. Nunca antes ele
se preocupara em oferecer aquelas pequenas demonstrações de carinho.
Delicada como convém a uma dama, sua aprovação foi manifestada por um
sorriso. Um inebriante sorriso.
- Não foi bem assim. Digamos que bastou uma menção minha sobre a casa
para que ele se encarregasse de falar sobre você, e não apenas indicou seu
trabalho como fez questão de marcar a reunião.
Realmente ela se lembrava do entusiasmo de seu pai quando lhe falara sobre
Grey, aliás, sr. Nichols, um jovem e bem-sucedido empresário, solteiro e que
estava procurando uma decoradora. Devia ter desconfiado...
- Você não devia ter concordado.
- Foi o que tentei em princípio, mas seu pai insistiu e, para não magoar um dos
melhores clientes da Nichol's, achei que não faria mal algum conhecê-Ia. - E
continuou meio sem jeito. - Para ser honesto, todo tempo imaginei um desastre
de saias à minha espera.
Envaidecida, deixou escapar um suspiro de prazer.
- E o que encontrou?
- A mulher da minha vida. - E ele não estava mentindo, tampouco seu olhar que,
transbordando ternura, confirmava suas palavras.
Abalada, confusa, mas, principalmente comovida, Mariah precisou de muita
força de vontade para resistir aos apelos do coração.
- Bem, de minha parte posso dizer, que encontrei aquele dia o homem mais
arrogante do mundo.
Sem se importar, limitou-se a dizer:
- Digamos que sei o que me agrada. - Soou presunçoso, tal como o pretendido.
- Antes mesmo de olhar as amostras de carpete, por exemplo...
- Exatamente. - Brincalhão, concordou. - Se bem me lembro, não conseguimos
falar muito de negócios naquela noite.
Sim, era verdade. Embora discreto, ele fizera de tudo para mostrar que seu
interesse não se restringia ao âmbito profissional. Trivialidades à parte,
certificara-se sobre possíveis rivais e, por fim...
-Como, se você me beijou?
-Quer me dizer que você não gostou? Vi em seus olhos...
-- Cada um vê o que quer.
- Talvez. Mas, se não me falha a memória, fui plenamente correspondido pelos
seus doces lábios. Ou imaginei isso também?
Mariah franziu a testa. Absolutamente, em se tratando de Grey, jamais seria
apropriado o adjetivo puritano ou qualquer um de seus sinônimos. Faltavam
palavras para qualificar o charme dele, a maneira de fazer amor e a delícia de
seus beijos.
Aquele pequeno detalhe não deveria ser levado em consideração, caso
estivessem falando de um cavalheiro, claro, Como poderia opor resistência
naquelas circunstâncias?
- Admita, você queria tanto quanto eu aquele beijo.
- Nem todos compartilham da sua opinião, nunca lhe ocorreu isso?
Farto de tanta indiferença, fingi da indiferença, retrucou: - Acho que terei que
provar minhas opiniões a esse respeito...
De repente ela sentiu o coração disparar. Sabia muito bem do que ele era capaz
e também tinha plena consciência sobre sua capacidade de resistência. O bom
senso ordenou que, para sua própria segurança, devia fugir dele e das suas
mãos. Ato contínuo, enrodilhou-se toda, abraçando os joelhos tal e qual uma
adolescente. Tímida, assentiu:
-Desisto. Confesso, a atração foi mútua, está bem assim?
Envaidecido, prosseguiu:
- Tanto que nem precisei pedir duas vezes para vê-Ia novamente.
- Encontramo-nos para falar de trabalho! - Ao menos era aquela a desculpa,
pensou ela. - Afinal, você me procurou por isso.
Antes de responder, seus dedos livraram a testa dos cachos molhados,
penteando-os para trás.
- E eu tinha outra opção para vê-Ia de novo? Você foi, de longe, a mulher
mais difícil que conheci. Se soubesse o trabalho que eu tive...
Ouvir aquilo alegrou-a intimamente. O calor da água, o olhar eletrizante de
Grey formaram gotículas de suor sobre seus lábios. Mestre na arte de seduzir,
não levaria muito tempo e, com beijos e carícias, Mariah veria por terra suas
defesas. Mais algumas frases e, lá estaria ela, corpo e alma à deriva.
- Jogo sujo...
- Eu era louco por você. - E sussurrando, docemente prosseguiu. - E continuo
sendo.
Mariah suspirou, e o desânimo abateu-se sobre ela inexoravelmente. Tudo o
que Grey estava conseguindo era tornar insuportável a separação. Talvez ele
realmente fosse louco por ela mas havia uma diferença entre "ser louco" e "ser
apaixonado" e aquela diferença era grande demais para ser superada. Já
estava decidida a sair da água e dar por encerrada a noite quando lembrou-se
de que estava nua.
Atento a tudo, Grey adiantou-se e saiu primeiro, de forma a não criar mais
situações embaraçosas para Mariah. Desviou o olhar para que ela saísse
também.
Grata pela gentileza, esperou que ele se virasse. Grey perdeu o fôlego ao vê-Ia.
O corpo molhado parecia reluzir com a luz da lua, sob a toalha adivinhava-se
seu contorno sensual. Dando asas à imaginação deixou-se dominar pelo desejo
de cobrir de carícias cada milímetro dele.
- Grey, você pode me emprestar uma camiseta? Não tenho nada para dormir.
- Percebendo que ele não respondia, perguntou: - Está me ouvindo?

Foi como cair das nuvens, tão absorto estava em seus devaneios, que não ouvira
uma palavra. De volta à realidade, olhou-a um tanto aparvalhado antes de
responder:
- Desculpe-me, estava distraído. - Recompondo-se, prosseguiu: - Vamos entrar?
. Entraram, curiosa Mariah o seguiu. Boquiaberta, viu-o tirar de uma das
sacolas um pacote pequeno e perfumado. Dentro, uma ,camisola discreta.
- Espero que goste, comprei quando paramos para telefonar para Jade.
Singela e delicada, a camisola nada tinha de sexy, muito pelo contrário.
- Grey, às vezes você realmente me surpreende. Obrigada, é perfeita.
Beijou-o de leve na ponta do nariz, e, desmanchando.se em sorrisos, correu
para vestir o mimo cor de pêssego.
Simultaneamente, Grey vestiu a calça do pijama e estirou-se, à espera dela.
Sabê-Ia tão próxima e tão distante ao mesmo tempo era exasperador. Na sua
imaginação, um milhão de coisas aconteceram naqueles poucos minutos. Ansiava
pela companhia de seu corpo durante as noites, agora intermináveis e solitárias.
Não foi preciso esperar muito. Percebeu o perfume de lavanda impregnando o
ar, anunciando como um arauto, a presença iminente de Mariah. Sorriu,
melancólico e saudoso de um passado cheirando à lavanda, quando suas noites
pareciam breves e ardentes.
À sua frente estava ela, radiante e juvenil, faces coradas e tão resoluta que
Grey previu que não teria sucesso na sua empreitada, pelo menos aquela noite.
Dormiram separados. Enquanto Mariah ressonava na confortável cama, Grey
maldizia a si mesmo no sofá desconfortável. Mas, como ela bem lembrara,
haviam feito um trato.
CAPÍTULO VI

Nossa, é enorme!
Colado ao ouvido de Mariah, Grey ousou perguntar.
- Gostaria de tê-Io?
Embasbacada, olhos vidrados, ainda argumentou: - Grande assim?
Ele riu alto e desaforado.
- Pelo que me consta, você sempre soube lidar com isso... Tal insinuação jamais
passaria incólume. Grey chegou a sentir nas costelas o punho certeiro de
Mariah, mas, por milagre, foi um sorriso que o atingiu.
- Esclareça, por favor. O senhor só pode estar se referindo à sua enorme
cabeça oca.
Com a ingenuidade de um menino de dez anos perguntou: - Como, senhorita?
Mas ela não lhe deu ouvidos, ocupada demais em admirar a vitrine da joalheria
de Arrowhead. Lá, repousando sobre veludo negro, um anel de diamante a
enfeitiçava.
Estavam passeando, olhando as vitrines, quando a bela jóia chamara sua -
atenção. O comércio local era pequeno, porém incrivelmente sofisticado. Com o
dedo, indicou o diamante ao dizer:
- Grey, aquilo é imenso. - E em seguida, olhando para ele com desdém,
continuou: - Algo que parece estar além da sua compreensão.
-Pois saiba que esta jóia vale bem mais que qualquer diamante. - Indignado com
a indireta alusão aos seus dotes físicos.
Mariah desatou a rir e rir muito, até as lágrimas, e o som do seu riso foi música
para os ouvidos de Grey, que também acabou rindo com ela. A tensão da noite
anterior se dissipara.
- Querido, pensei que soubesse que os diamantes são, os melhores amigos das
mulheres, como acertadamente disse Marylin Monroe.
-Pode ser... - E amuado, disse: - Mas existem coisas mais preciosas.
Olhando com atenção, Grey teve de admitir que nunca vira uma jóia como
aquela antes. E ele conhecia um pouco do assunto. Mesmo a distância, seu olho
clínico calculava uns cinco quilates, lapidação perfeita e pureza incomum. Até
conhecer Mariah era assim que via jóias, como um investimento, tanto que
nunca presenteara mulher alguma com elas, e certamente não fora por falta de
dinheiro.
Mas as coisas mudam e as pessoas também, e Grey não era exceção. Por que
não dá-lo de presente a Mariah? Seria uma forma de estar com ela para
sempre, simbolicamente.
- Você realmente achou bonito? - perguntou em tom casual. Pensativa, ela
moveu a cabeça lentamente, avaliando o que diria.
- Veja como ele é diferente. É grande sem perder a elegância.
Respirou fundo antes de dizer:
- Se quer o anel, ele é seu. - Sorriu com seu primeiro ato de romantismo,
orgulhoso.
- Está falando sério? - Embasbacada, Mariah perguntou. - Já me viu brincar
com algo tão caro?
- Noivas usam esse anel. - Mágoa e perplexidade se revelaram em sua voz. -
Esse é um anel de casamento!
Era só o que faltava, pensou Grey. Como poderia saber? Arrependeu-se de não
ter trazido seus antiácidos com ele, pois o estômago parecia estar em brasa.
Percebeu o tamanho da besteira que a sua boa intenção provocara ao tentar
remediar a situação.
- Um anel é um anel. Quem dá significado a ele é a emoção com que é dado.
- Pelo que vejo, ele não significa quase nada para você.
- Claro que significa! - Irritou-se com a injusta interpretação de seus
sentimentos. - Seria um sinal do que eu sinto por você. Um presente que a faria
lembrar-se de mim sempre que o colocasse.
- Uma espécie de suvenir?
De repente Grey sentiu-se acuado como um criminoso.
Estava sendo torturado pela simples razão de tentar agradar. Ela conseguira
transformar em um ato hediondo a tentativa de produzir alegria. Contra-
argumentou:
, - Pense no anel como uma recordação minha. - Mas até para ele soou ruim a
frase.
Não houve tempo para palavras esclarecedoras. Mariah expressou-se
claramente antes delas.
- O tipo de presente perfeito para uma amante.
Incompreendido, magoado, estava a ponto de perder a paciência.
- Nunca disse ou insinuei que você fosse minha amante.
- Eu aceitaria de bom grado este anel em outras circunstâncias, Grey. - E
passional, Mariah concluiu. - Este anel traduz o amor entre duas pessoas.
- Jura? - E cínico, continuou cada vez mais hostil.
Um anel não conseguiu fazer meu pai amar minha mãe, tampouco conseguiu
fazer minha mãe amar algum de seus outros quatro maridos. E tenho sérias
dúvidas de que o meu novo padrasto, com ou sem anel, tenha melhor sorte.
Um silêncio sepulcral caiu entre eles. Imóveis, destoavam dos turistas que
iam e vinham, alegres. Grey mal podia conter sua raiva, e para completar,
Mariah tinha o olhar perplexo e horrorizado. Bem, ela não pedira honestidade?
E aquilo não era nada comparado com o resto da sua história.
- Sua mãe se casou cinco vezes? - Foi a primeira coisa que Mariah conseguiu
perguntar. Mesmo assim com um fio de voz.
- Sim. - Amargo e ferido, continuou o relato. – E separou-se outras tantas, e a
cada separação a história se repetia. Deprimida, fechava-se com seu
sofrimento, ignorando o resto do mundo, inclusive a mim. Consumia-se em
autopiedade até encontrar um novo homem que lhe desse um mínimo de
atenção. Então, começava tudo de novo.
A ciranda doentia daquela mulher à procura da felicidade, os homens
enfileirados como mercadorias, já era revoltante para ela, Mariah. Como então
teria sido para Grey assistir a sua própria mãe ser a protagonista de tanta
sordidez?
Seu pai não o quisera, e nunca fizera segredo daquilo, pelo contrário.
Comprazia-se em dirigir insultos e humilhações ao filho, disso ela sabia.
Mas nunca poderia imaginar que a mãe também o ignorasse. Aturando-o por
perto como uma bagagem incômoda.
Em um esgar, a boca de Grey destilava amargura onde deveria estar um
sorriso. As feridas ainda não haviam cicatrizado mesmo depois de tantos anos.
- Este é o tipo de lembrança que não cabe no seu álbum de família, não é?
Sinto muito, mas é o que eu tenho.
- Grey, essas não são suas memórias, são dos seus pais.
Estavam tensos, mas o impacto inicial já havia sido superado. Caminhavam lado
a lado, e Mariah fora obrigada a reconhecer, julgara e condenara Grey sem
dar-lhe o benefício da dúvida. Os homens são inocentes até prova em contrário,
seu pai não cansava de repetir. Ouvira aquilo desde menina, no entanto nunca se
dera conta do que aquilo realmente significava. Fora egoísta e infantil e
envergonhava-se daquilo.
- Eu sinto muito. - E sua voz parecia-lhe vazia e fútil comparada ao sofrimento
dele.
- Pelo quê? Não foi culpa sua minha mãe fracassar como esposa.
Ele não a entendeu. Nem poderia. Como expressar seu pesar, sem parecer
piegas, pelos anos perdidos de sua infância, pela desesperança que o dominava,
e com razão, quanto à felicidade conjugal?
Tola, egoísta, ousara julgar pelos seus padrões quem tivera na vida o pior
como cotidiano. Ao passo que ela, Mariah, só conhecera a parte doce e colorida
da vida como realidade. - Muito menos sua. Ninguém é responsável pela
escolha do outro.
- Quem sabe? Alguns diriam que meu pai fez o que fez por amor e vice-versa.
E não fosse o meu nascimento, eles teriam tido chance de cultivar o amor. Se é
que isso existe.

Mesmo bravo, cínico, um laivo de fragilidade brilhava no fundo do olhar e


Mariah sensibilizou-se. Com um gesto de carinho, ela tomou em suas mãos o
queixo voluntarioso e másculo. Branda era sua voz e doce como nunca antes.
- Ninguém disse que casamentos são fáceis, ao contrário. Meus pais já
tiveram um sem número de desavenças, mas isso não quer dizer que não se
amem, apenas divergem e discutem juntos até acharem a solução ou soluções.
Afinal, amor é isso, casamento é isso, respeito mútuo. Não desistir só porque
surgiu uma dificuldade.
- Foi o que você fez comigo. - E ele estava certo ao recriminá-la.
- Eu penso diferente agora. Errei, mas você também errou. Nossa relação
parecia sem sentido, sem consistência.
Se houvesse uma única certeza, eu jamais desistiria de você.
- Sem sentido ou sem casamento?
Naquele momento, só o fato de Grey não empalidecer ao falar em casamento
era motivo de alegria, não de tristeza.
- É de amor que estou falando. Do seu amor.
Aquilo deixou Grey sem palavras, e sem defesas. Quando conseguiu
recuperar o fôlego, a mão de Mariah gentilmente impediu-o, não era um bom
momento para palavras.
- Não diga nada agora, Grey. Prefiro que pense bem, como eu farei, antes de
tropeçarmos nas palavras.
Calma como nunca, quase feliz, Mariah colocou em seu peito a mão de Grey para
fazê-Io entender:

- Não mudou o meu sentimento, tampouco o seu, como não mudaram também
nossos pontos de vista. E se o amor, . ou sei lá como vai chamar, acontecer para
você, que seja sem dúvidas.
Depois daquilo, M<;lriah precisou se esquivar das mãos ávidas de Grey, que
não paravam um segundo de tentar seduzi-la.
Mãos na cintura, compenetradíssima, Mariah vasculhava o armário da cabana
de Mark. Sua missão era encontrar algo para entretê-Ios depois de jantar. A
conversa fora produtiva mas, para o bem de ambos, um pouco de descontração
não faria mal.
Os pés de Grey descalços sobre o assoalho a levaram a olhar para trás, e só
aquela visão foi o suficiente para que continuasse em sua busca. O vinho nos
copos e a porta semi-aberta do quarto de dormir eram bastante persuasivos.
Persuasivos demais.
- O que você tanto procura?
- Procurava. Que tal um joguinho? - E segurando uma caixa grande, virou-se
aliviada.
- Cartas, eu tenho no carro. Pôquer?
- Não esse tipo de jogo. Aqui temos W AR, Monopólio, Scramble, até damas...
Que tal Scramble?
- Nunca joguei, não posso dizer.
- Está me gozando? - Não estava, percebeu Mariah.
Solícita, tentou disfarçar o espanto e explicar. - E o jogo mais popular da
América, máis que Monopólio.
- Também nunca joguei esse.
Nenhuma criança americana passava sem conhecer aqueles jogos havia quase
quarenta anos. Até meninos de rua conheciam as regras.
- Bem, quais eram seus jogos favoritos, então?
Com elegância, Grey disfarçou seu desconforto com um gole de vinho - antes de
responder.
- Bem, eu sempre gostei de Paciência, não requer parceiros.
Disposta a resgatar um pouco do que ele perdera, Mariah começou a armar o
tabuleiro de Scramble. Enquanto arrumava as peças e explicava o básico do
jogo, uma espécie de palavras cruzadas ao contrário, perguntou:
- Seus pais nunca jogaram com você?
- Minha mãe estava ocupada demais tentando agradar
meu pai para pensar em crianças. - Seus olhos estavam úmidos quando falou. - E
meu pai não ra um exemplo de diversão, não em casa pelo menos.
- Ou seja, nunca o levaram para pescar, acampar ou passar as férias na praia?
- Nunca. Digamos que o máximo era ter a companhia de meu pai no jantar vez
ou outra. Não sei se entende, mas meus pais casaram em circunstâncias pouco
convencionais. E continuaram o casamento do mesmo modo.
Mariah deixou o jogo arrumado e foi se sentar no sofá ao lado de Grey,
estendendo suas pernas sobre as dele, como fazem as crianças. Aquele assunto
o incomodava, deixava-o tenso e desconfortável.
Mariah achou prudente não fazer perguntas, manifestou seu interesse
aproximando-se mais.
A presença dela o acalmou, superando o temor que aquelas lembranças
suscitavam. Repousou a cabeça sobre o encosto do sofá, deixando que fluíssem
as recordações, quase como pensamentos ditos em voz alta.
- Minha mãe engravidou e isso obrigou-os a casar. Meu pai não se esquivou da
responsabilidade de seu ato, mas desde cedo percebi o quanto isso lhe custara.
O sr. Aaron Nichols me via como um lembrete do seu erro.
- Certamente seu pai o amava.
- Se amava, nunca me contou. - Nem sua mãe, que parecia gostar dele, ou pelo
menos não o odiava, jamais dissera que o amava. Grey cresceu achando
desnecessário exteriorizar seus sentimentos.
O vinho, a necessidade de desabafar, a cumplicidade de Mariah, tudo
inspirava e contribuía para soltar as travas, encorajando-o a pôr para fora suas
mágoas.
O tom da conversa era cada vez menos rancoroso ou amargo. Eram memórias
de um homem só.
- A capacidade de meu pai era extraordinária para me insultar ou
menosprezar. Não importava quanto eu me esforçasse, nunca consegui agradá-
Io. Agora, se por acaso, eu cometesse um deslize, qualquer um, durante dias
seria esse o assunto familiar. O prazer dele era maior quando havia alguém
presente para testemunhar meu fracasso. Uma vez, criança ainda, eu jogava
com um amigo no jardim. Infelizmente meu pai viu quando tropecei nos cordões
do sapato e deixei de pegar a bola. Furioso, levantou-me do chão pela orelha
enquanto gritava quanto estúpido eu era.
O rosto de Mariah se transformara em uma máscara de horror, as palavras
morriam em sua garganta, vazias demais para expressar o que lhe ia na alma.
- Meu amiguinho foi esperto o suficiente para sair correndo dali, mas eu fiquei
ali, parado, ouvindo-o gritar para toda vizinhança o quão miserável era sua
vida desde que eu nascera. Do terraço, minha mãe assistia a tudo sem
esboçar reação alguma, por fim, ele me arrastou para dentro como um
cachorro.
- Sua mãe não fez nada para proteger você?
Diante da indignação de Mariah, Grey não pôQe deixar de rir, sarcástico.
- Nada, nunca.
- Mas por quê?
- Por medo, por covardia. Talvez pensando que agindo assim faria meu pai ficar
conosco. Fosse. qual fosse a razão., o fato é que nunca reagiu, mesmo quando
era ela o alvo. No fim, ela acabou percebendo que jamais teria o amor ou a
atenção do marido. Submissa ou não, ela nada significava para ele. Só que nesse
meio tempo, ela acabou negando ao filho as mesmas coisas que reclamara para
si. - De pé, Grey foi até a lareira, de costas para Mariah atiçou o fogo e com
ele as recordações. - Menininho, tudo que eu fazia ou pensava era para agradar
o velho Nichols. Minha única meta era essa, fazê-Io ter orgulho de mim. Não
demorou muito para que eu aprendesse a lição: não importava quanto eu
tentasse, nunca teria sucesso. Para ele, o único responsável da sua infelicidade
era eu, portanto, era em mim que descarregaria sua raiva, às vezes em minha
mãe.
- Você era apenas uma criança inocente, Grey!
A irrelevância daquele argumento ficou implícita no jeito como ele levantou os
ombros.
- Aaron Nichols, meu pai por acaso, era um ser humano vil, cruel e sem coração.
Nunca pude entender o que minha mãe viu ou gostou nele. Foi uma bênção para
nós ele ter morrido naquele acidente.
Ressentido, viu sua mãe repetir os mesmos erros da juventude, nem para
aquilo fora útil o sofrimento. Vivian Nichols continuava à procura do amor,
mesmo sendo usada e maltratada em troca de migalhas de afeição. Dor e
desencanto foram o resultado daquela busca pelo amor eterno e verdadeiro.
Grey não podia acreditar que aquele sentimento existisse. - Você ainda fala
com sua mãe?
Ao alimentar o fogo crepitante da lareira, Grey buscava forças para encarar
seus fantasmas. Um longo suspiro deu dimensão ao seu esforço.
Três vezes por ano. No meu aniversário, no dela, e no Natal. Não temos muito
a dizer um para o outro. Ela tem a sua vida e eu, a minha.
De frente para o fogo, imerso em si mesmo, Grey esforçava-se para
readquirir seu equilíbrio. Naquele estado de espírito, foi um bálsamo ouvir
Mariah murmurar seu nome.
- Grey... .
Dando meia-volta, deparou-se com a presença dela ao seu lado. Um sentimento
de embaraço e alívio confundia Grey, sem saber bem o que resultara em Mariah
o relato.
- Minha infância não foi exatamente um modelo de felicidade, não é?
-Não, não chegou nem perto do normal. -A voz trêmula denunciava sua emoção.
A mesma dor multiplicada por mil enchia o peito de Grey
havia anos. Triste e lúcido.
- E isso não me torna um perito em paternidade, com certeza. Crianças não me
deixam à vontade e bebês me apavoram. - Com o olhar límpido, Grey teve
coragem de prosseguir: - Lembra-se de quando você me disse no escritório que
ser pai é assustador?
Tremendo de impaciência, Mariah assentiu.
- Lembro, claro.
- Pois você estava certa. Nada me apavora tanto quanto a idéia de criar uma
criança.
O que o amedrontava era repetir os mesmos erros de seu pai. E qual a garantia
que aquilo não aconteceria com ele? Já lera a respeito de crianças maltratadas
que acabam repetindo os mesmos erros com seus filhos.
- Grey, tenho certeza de que com seu filho será diferente. - Como pode ter
certeza?
Mariah pôs suas pernas entre as dele, e puxou-o gentilmente para si. Em seus
olhos transbordavam compreensão e afeto.
- Porque você é gentil e amoroso, como devem ser os bons pais. Todo o
resto vem naturalmente.
Discordando dela, Grey balançou a cabeça.
- Não acho que seja simples assim. Seja como for, eu não quero ter filhos,
Mariah. Não suportaria que uma criança passasse pelo que eu passei. .

Seguro de sua afirmação, evitou o abraço de Mariah, e rijo, voltou-se para o


fogo. Mas os braços delgados dela cingiram-no por trás, pressionando seu
corpo contra suas costas.
- Grey, você jamais seria capaz de magoar ou ferir uma criança. Eu sei disso.
Ninguém poderia imaginar, mas aquilo era tudo o que ele precisava ouvir
naquele instante. Mais que simples palavras, Mariah lhe devolvera um pouco da
confiança perdida. Perdida ou desconhecida, qual a diferença?
Tolhido pela sua incapacidade em lidar com sentimentos puros, limitou-se a
beijar-lhe as palmas das mãos com reverência. Só então pôde encará-Ia de
frente, estreitando-a contra o peito.
- Muito, muito obrigado. - A voz estava embargada de emoção.
- Eu devo agradecer por ter merecido sua confiança.
Na opinião de Grey as atividades da noite estavam encerradas, porém, os
olhinhos acesos de Mariah indicavam exatamente o contrário.
Mais desperta que nunca, não perdeu tempo e, em poucos minutos, a mesinha
de centro se transformara em tabuleiro do seu jogo favorito desde a infância.
CAPÍTULO VII

Era de manhã, e Grey estava ajudando-a a arrumar a cama. Quando a luz do


amanhecer atravessou as cortinas para iluminar o quarto, encontrou-a
exatamente na mesma posição do começo da noite, aninhada no seu colo.
Enquanto esticava os lençóis com as mãos, a mente de Mariah estava longe e em
seus lábios aflorou um sorriso com as recordações aquela manhã. Grey a
despertara com um casto beijo na nuca. Mantivera sua palavra como um
cavalheiro.
Sentindo o desejo do corpo de Grey, Mariah acordara primeiro. Admirada,
constatou que, apesar de saber quanto seria fácil seduzi-Ia durante a noite,
ele nem sequer tentara. Na noite anterior estivera à beira da capitulação, o
desejo ainda queimava dentro dela.
Divagando, custou um pouco até notar que Grey a olhava fixamente parado do
outro lado da cama. Absorto, parecia não ter escutado sua pergunta.
- Grey?
Prestando mais atenção, Mariah se deu conta de que ele hão estivera ausente,
mas sim planejando algo, reconheceu aquele jeito de olhar. Não estava
enganada.
- Estou pensando em ficar aqui mais alguns dias.
Ele estava resolvido a ficar.
Certamente aquilo era uma brincadeira, pensou Mariah. Ambos tinham
compromissos profissionais na manhã seguinte, e não eram poucos.
De antemão, Grey sabia que não seria fácil convencê-Ia,
mas estava disposto a usar métodos pouco convencionais, caso fosse preciso.
Uma vez que começara com aquela insensatez, o mínimo que podia fazer era ir
até o fim. E raciocinou, qual a diferença de um seqüestro de dois ou de dez
dias?
Como era de costume, levantou os ombros, sinal eloqüente de suas intenções.
- Poucos dias, só até o fim da semana.
- Final da semana? - Pasma e boquiaberta, ela não conseguiu evitar a surpresa.
Era muito cinismo! Além de descabida, a proposta fora colocada por ele como
se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo... E nem sequer lhe passou pela
mente a possibilidade de consultá-Ia! Tinham tido dois dias maravilhosos mas o
mundo real os aguardava.
- Grey, acho que essa não é uma boa idéia...
- É fantástica, uma das melhores idéias que já tive. A cabana está à nossa
disposição, por que não aproveitarmos?
Mariah tentava com esforço manter a calma, mesmo porque não acreditava
que Grey realmente estivesse falando sério, nunca o vira negligenciar o
trabalho, muito pelo contrário. Por outro lado, também nunca o vira tão
determinado.
- Porque eu tenho compromissos, clientes, contratos...Aquilo a que chamam
trabalho.
- Ninguém mais que eu sabe o que é isso, porém meus compromissos terão
que esperar uma semana. Decidi dedicar minha agenda só para você, Para nós
dois.
- Eu não acredito no que estou ouvindo. - E pensou em argumentos para
convencê-Io a mudar de idéia. - Você não pode me manter uma semana como
refém, isso é absurdo.
- Quer apostar? - Com ar de troça, sorriu entredentes. - Começo a gostar da
idéia de tê-Ia cativa, inteiramente à minha mercê...
Aquele comentário infeliz traduzia um pouco do que seria aquela semana,
caso ficassem na cabana. Estava mais que na hora de dar um fim àquela
brincadeira. Com a paciência no limite, Mariah estendeu a mão para ele.
- Sem problema, você pode ficar, eu volto sozinha. As chaves do jipe, por
favor. - Era uma ordem, não um pedido. .
Gaiato, a primeira coisa que fez foi abrir os braços e as pernas, e pôr as mãos
na cabeça.
- Reviste-me se as quiser. - E cínico, continuou na mesma posição. - Se achar
as chaves, prometo que partiremos na mesma hora.
Se havia algo a ser encontrado ali era um corpo masculino muito desejável, e
um homem que estava louco para ser revistado por ela. Um suspiro longo e
resignado antecedeu sua voz.
- Por que está agindo assim?
Grey só precisou de um segundo para dar sua resposta, foi o tempo entre
alcançar sua nuca e colar seus lábios nos dela. Um beijo ardente e apaixonado
capaz de deixá-la sem fôlego. Mas principalmente, um beijo eloqüente, cheio de
emoções inéditas para ambos. .
Quando finalmente Mariah recuperou o fôlego, seu corpo latejava por
inteiro. Dividida, ao mesmo tempo que vibrava de alegria, temia confiar na
intuição e repetir o mesmo erro anterior. Era bom demais para ser verdade o
que lhe dizia seu coração.
- Acho que respondi sua pergunta.
A mensagem era aquela mesma, Mariah não se enganara daquela vez. Manteve a
respiração suspensa, intuindo que muito mais a surpreenderia dali em diante.
Não estava de todo enganada.
Ele segurava seu rosto entre as mãos, monopolizando-lhe a atenção.
- Olhe, eu não acreditava em muitas coisas até ontem. - Um sorriso irônico
surgiu no canto de sua boca. - Compartilhar ou confiar eram palavras bem
pouco usadas por mim. A verdade é que estes dois dias mudaram alguma coisa
dentro de mim. Por um lado despertou-me para viver sensações novas e
fantásticas, por outro me causa pânico total, uma vez que não consigo entender
mais a mim mesmo. Mesmo assim quero procurar as respostas junto com você,
longe de tudo e de todos. Eu preciso de você para me encontrar.
Ele estava coberto de razão, tinham avançado anos em poucas horas de
conversa honesta e intensa, mas havia mui. to mais para ser dito e ouvido. E
Grey fora sincero, estava com medo, se não encontrasse nela o apoio
necessário voltaria a se fechar.
Pela primeira vez em semanas, Mariah vislumbrou a esperança, talvez ainda
não fosse tarde demais para sonharem com o futuro.
-Pegando a bolsa, Mariah puxou-o pelo braço, fingindo zanga: - O que está
esperando, rapaz? Vamos logo telefonar. Ainda assim, Grey não deixou por
menos, com audácia replicou.
- Sabia que. você acabaria me dando razão.
- Por acaso eu tive escolha? - resmungou ela.
- Você perdeu completamente o juízo? - A ira de Jade venceu os ruídos e
chiados da péssima ligação. Sua desaprovação não conhecia limites. - Não
satisfeita com um fim de semana com Grey, aliás muito repentino... Agora quer
uma semana?
Mariah estava de muito bom humor para se deixar abalar pelas paranóias da
irmã.
- Estou avisando que vou ficar. Portanto, ouça, tudo está na minha mesa.
Planilhas, plantas, fornecedores... Se não puder resolver, mande esperarem por
mim.
- Seja razoável, deixe um telefone, Mariah. Esse homem fez lavagem cerebral
em você?
- Para minha felicidade, não temos telefone. Mas mesmo que houvesse, não
daria. Jade estou bem e feliz, fique contente por mim.
- Aposto que dormiu com ele, Depois não venha chorar no meu ombro... Querida,
será que não sofreu o bastante?
- Não é da sua conta e, creia-me, Grey está com a melhor das intenções.
- Pelo seu tom. de voz, espero que esteja usando um anel de noivado.
Quase. E Mariah relembrou o diálogo em frente à joalheria. Seus olhos
brilharam com a possibilidade de Jade estar mais perto da verdade do que
poderia supor.
- São poucos dias, sei que você resolve tudo por aí. Obrigada e um beijo.
- Riah, desisto. Você é um caso perdido. Cuide-se e...boa sorte.
Rindo sozinha com a rabugice da irmã, Mariah colocou o telefone no
gancho. Grey estava a poucos, metros, entretido com as compras. De longe
parecia ainda mais atraente e viril. Passou-lhe pela cabeça, de repente, que ele
não tinha idéia do que era ter amor de irmã, ou mãe, ou pai. Ninguém para se
preocupar com ele, no máximo a secretária sentiria sua falta.
Andou até ele e, sem explicação, abraçou-o longamente.

Sentado, Grey começava a perceber a beleza à sua volta.


A cabana debruçava seu alpendre sobre o lago, dali, ele admirava a
grandiosidade do cenário.
Apesar do sol, soprava uma aragem agradável. Nunca experimentara uma
sensação igual antes, mis'" de paz, felicidade e mansidão. .
Sentia saudade da presença física de Mariah naquele cenário perfeito. Onde
estaria ela? Relutou em chamar seu nome, mas realmente sentia sna falta.
Gostaria de tê.la todos os segundos, tirando o máximo daquele tempo mágico
só deles. Tempo aquele que poderia durar para sempre.
Grey, como um menino, divertiu -se atirando uma pedrinha no lago. Circulo,
perfeitos ,e formaram na superficie plácida, modificando-a.
Assim como a pedra, ele também não imaginara as conseqüências que o
"seqüestro" de Mariah produziriam em sua vida. Movido apenas por instinto,
nunca cogitara a possibilidade de rever posições, ao contrário.
Arraigados ressentimentos o tornaram cético em relação às pessoas.
Esqueça-se da parte boa que li,. fora negada para não ter pena de si mesmo. O
garoto magoado transformara-se um adulto amargo, sem ilusões.
O espantoso era perceber que tudo aquilo só se tornara claro ao conversar com
Mariah mesmo que por poucas horas.
Com carinho e suavidade, ela obtivera muito mais que os psicólogos com teorias
acadêmicas.
Eram tantas emoções e sentimentos novos que aquela mulher incrível
despertava nele que chamá-los simplesmente de amor seria banalizar a melhor
coisa que já lhe acontecera na vida.
- Você, aí... - Surgindo do nada, Mariah surpreendeu Grey. - Posso saber o que o
senhor está fazendo?
- Esperando por você.
- Aqui estou. - Estalou um beijo em sua bochecha. O que gostaria de fazer
hoje?
A visão à sua frente era perturbadora. As pernas nuas eram perfeitas e
ágeis, deiXando entrever maravilhas escondidas. Propositadamente ou não,
seus lábios rosados eram tão ou mais provocantes que seu corpo. Sentada ao
seu lado, ela estava tão próxima, tão desejáveL.. Uma centena de sugestões lhe
ocorreram para a pergunta formulada, deliciosamente eróticas todas elas.
Decidido a manter a palavra dada a qualquer custo, por maior que fosse a
tentação, reagiu estoicamente.
- Mark me falou que há trilhas incríveis atrás da mata. - Grey, eu vim para
descansar, não para ser torturada. -Bobagem, você vai adorar. - Perturbado,
ele precisava de algo que ocupasse seu pensamento.
Tarde demais percebeu que descansava sua mão sobre a coxa de Mariah,
próxima demais de tentações quase irresistíveis. Sem confiar muito em sua
força de vontade ocupou as mãos de outra forma e o pensamento também.
- E nada melhor que uma hidromassagem para acabar com o cansaço de uma
caminhada. E coloco à sua disposição meus serviços como massagista.
- Uhmn... Estou ficando tentada a aceitar.
Não bastasse, para desespero de Grey, Mariah resolvera abraçá-Io por trás.
Entregue viu-a deslizar a mão em sua perna ao' mesmo tempo que sentia o
contorno dos seios contra as costas. O sentido dado à palavra tentação
começava a ganhar novos significados.
- Dê-me alguns minutos e você verá.
Soou rouco o riso baixinho dela em seu ouvido.
- Estarei por perto.
Interrompendo-o clima de sedução explícita, o alegre burburinho de três
meninos pulando na água livrou Grey da capitulação total perante os encantos
de Mariah.
Rabugento, comentou em tom solene a falta de cerimônia e modos dos
garotos, que, alheios a eles, esbaldavam-se a valer.
- Parece divertido, não? - perguntou Mariah.
- Tanto quanto um enxame de gafanhotos. Mas, se quiser se refrescar...
- Estou muito bem, estava apenas pensando nos meninos, parecem estar
adorando a brincadeira.
Menos ranzinza, Grey passou a apreciar os movimentos vigorosos e espontâneos
dos jovens atletas.
- Certamente. .
- Nunca sentiu falta de um irmão, Grey?
- Como, se nunca tive um?
Os ombros e o sarcasmo de sempre acompanharam a resposta. Seria uma longa
jornada até os antigos rancores serem superados, pensou Mariah. Eram muitas
carências.
- Pois não consigo imaginar como seria minha infância sem Jade.
- Fácil, calma e tranqüila. -..,... Grey replicou, mordaz. - E solitária.
- Mas você sobreviveria. Vocês eram muito unidas? - Nem sempre.
A cumplicidade entre eles crescia nos momentos mais surpreendentes,
recriando uma intimidade capaz de vencer os velhos tabus. Quando Grey
percebeu, passeava seus dedos na perna de Mariah, divertido em vê-Ia
arrepiada ao contato.
- Rivalizavam?
- Isso não. Nunca disputamos de verdade. No máximo, a briga era sobre quem
ia tomar banho primeiro ou lavar os pratos. Desde cedo me acostumei a
emprestar coisas para
Jade sem esperar algo em troca, roupas ou sapatos. - E Grey percebeu quanto
aquilo a incomodava até o momento
presente. - O pior é que ela se recusa a reconhecer isso.
-,- Aposto que você nunca fez nada parecido.
- Sério, nunca mesmo. Sempre fui um anjo.
- Que não seja por isso.
- Grey... Sem brincadeira, mesmo sendo desorganizada ou meio maluca, Jade é
a melhor amiga que já tive. Nos bons
e maus momentos sempre pude contar com ela, para tudo.
- Sinto não por dizer o mesmo.
Ao invés de lamentar o que perdeu, já pensou em formar uma família? Mudar
de posição, ser pai, ver seus filhos crescendo e tomar parte disso? Ser aquele
que tem uma história para ser contada.
O olhar dele estava perdido na balbúrdia dos garotos brincando na água.
Como poderia reproduzir um papel que ele nem imaginava qual era?
A chegada do pai dos meninos chamando-os para o almoço foi providencial
para Grey. Serviu para desviar o rumo perigoso da conversa.
Sob protestos, as crianças obedeceram ao chamado paterno e deixaram o
lago vazio novamente. Mas a quietude durou muito pouco.
Em um estalo, Grey se pôs de pé, arrancando sapatos, camisa e relógio.
Disposto a experimentar um pouco de alegria infantil, carregou com ele Mariah
sem sandálias e repleta de alegria.
- Agora é a nossa vez de brincar.
- Então, prepare-se! Desse negócio eu entendo. - Empurrando-o para o lago,
Mariah não se furtou da brincadeira.
Pouco a pouco, ele estava aprendendo a olhar o mundo com outros olhos, mais
complacentes com certeza.
Esquecidos do tempo e das regras, tal e qual Peter Pan, foram crianças até o
pôr-do-sol. Criança como. Grey jamais pensou que poderia ser.
CAPÍTULO VIII

Provando o bocado que Grey pusera em sua boca, Mariah emitiu um pequeno
ruído de prazer. A sobremesa estava divina, aliás como tudo naquele jantar.
Acomodados na melhor mesa do pequeno e sofisticado restaurante, entre
flores, cristais e à luz suave das velas, desfrutavam da companhia um do outro.
Sem se importar com ninguém mais, Grey devorava Mariah com os olhos
trasbordantes de desejo. Os casais que ocupavam as demais mesas impediam a
livre expressão dos pensamentos dela, mas o rubor surgido em suas faces a
denunciaram.

- Grey, não era necessário todo esse aparato. Flores, este vestido fantástico,
este jantar... - comentou, um tanto culpada por ter aceito que saíssem para
comer.
Nem de longe poderia supor que resultasse naquela superprodução um simples
palpite. Todos os detalhes haviam sido lembrados, até mesmo o traje
deslumbrante que estava usando. Seu lado prático manifestou-se imaginando a
pequena fortuna que certamente fora desembolsada por Grey.
- Essencial é a palavra, necessário não traduz a realidade da ocasião. O mínimo
que merecemos depois de tanta comida congelada e dos pratos que a fiz lavar.
Sem contar seu sorriso ao receber as rosas, e, visão igual à sua, vestida assim,
não me recordo.
Gentilezas à parte, o vestido era deslumbrante, e nem mesmo em Los Angeles,
na badalada Rodeo Drive, seria fácil encontrar alguma roupa parecida. A
começar pelo fino cashmere, de um rosa antigo comum entre os tecelões do
Himalaia. O charme da roupa era justamente seu despojamento, colado ao
corpo, só o decote profundo das costas conferia ao modelo um traço de
modernidade ocidental.
O caimento da peça no corpo de Mariah assombrou-o, nem uma polegada a
mais ou a menos, e o efeito era estonteante. Mais que erotismo, foi a
perplexidade que o levou a perguntar.
- Decifre-me seu enigma, o que a veste sob o vestido, ou, o que a despe?
Ato contínuo, seus dedos escorregavam, sutis, em uma carícia tímida e
provocante circunscrita aos domínios da decência vitoriana. Interrompida a
carícia, apenas um leve roçar foi o bastante para provocar o intumescimento
dos seios, os mamilos imediatamente desenhados através do tecido delicado.
- Você não está usando sutiã, está?
De repente, o jogo da sedução começou a dar prazer à Mariah. Segura e com a
platéia, que mesmo alheia lhe garantia domínio da situação, deixou-se levar pelo
imaginário. Dona de si, mergulhou o dedo na sobremesa e levou-o para a boca de
Grey, e o que poderia parecer vulgar, nela era excêntrico. E sem abandonar o
ar angelical, um acento rouco modulava as palavras.
- Este vestido é para ser usado sem sutiã. Já imaginou que posso não usar mais
alguma outra coisa?
Toda a polidez que ainda restava em Grey evaporou-se naquele instante.
Enlevado, nem titubeou em reter entre os lábios lascivos o dedo de Mariah,
segurando-lhe o pulso.
Não menos lasciva, sua outra mão escorregou para a perna dela, deslizando
sob a barra do vestido até alcançar o elástico das meias de seda.
- Grey... - Ela não tinha certeza se dissera para adverti-lo ou incentivá-lo.
- Estou tentando descobrir o que há sob esse vestido. Aqui e agora. - E a voz
rouca deu o tom exato da excitação do momento.
Como um felino, Grey tinha todos os músculos retesados, pronto para a caça
ou para o amor. Lembrando-se do que acontecera na festa de seu pai, Mariah
não se surpreenderia se ele quebrasse a promessa. Estavam havia uma semana
na cabana, dormindo juntos sem fazer amor, compartilhando uma intimidade
inédita para ambos.
Mas nenhum felino seria sorrateiro como seus dedos. Nada em sua fisionomia
indicava que tinha alcançado seu objetivo quando conseguiu tocar o elástico de
seda.
- Você estaria menos sensual nua do que vestindo esta lingerie.
E para provar que estava com razão, avançou tocando-a sob a diminuta calcinha
de seda, fazendo-a tremer de cima a baixo. Evocações cheias de erotismo
assaltaram-na.
Precisou morder o lábio para controlar a própria excitação que quase deixava
escapar um gemido, o que fez aflorar um sorriso de vitória no rosto de Grey.
Ato reflexo, Mariah simplesmente cruzou as pernas, resistindo à sedução e
prendendo-lhe a mão.
- Desejam mais alguma coisa? Café, um licor?
O garçom estava ali, bem ao lado de Grey. Mortificada, a reação de Mariah foi
de total paralisia, enquanto sentia o rosto arder. Com absoluta presença de
espírito, Grey aproximou-se mais dela e com voz pausada dirigiu-se ao rapaz.
- Nada mais, obrigado. Apenas a conta e, se possível, algum tempo à sós com
minha noiva. Preciso terminar esta pequena confissão de meus pecados de
solteiro.
Na realidade, a impressão que eles passavam era de uma conversa privada ao
pé do ouvido. Nem por um segundo foi aventada outra hipótese menos elegante
que justificasse tanta intimidade.
Mal podia crer na tranqüilidade dele diante do embaraçoso diálogo com o
garçom. E, pior, da malícia dos olhos dourados ao estar de novo a sós com ela.
Quase imediata mente ordenou, entredentes:
- Tire a mão, já!
Com o ar mais matreiro do mundo, e sem mover um músculo, Grey argumentou:
- Foi você quem começou...
- Pois agora estou terminando.
- Eu teria uma outra forma de terminar isto, bem mais interessante.
Daquilo ela não tinha a menor dúvida. Havia poucos minutos atrás ela sentira um
desejo tão intenso que chegava às raias da loucura. Por pouco não titubeara em
ceder aos seus instintos ardentes.
- Querida, descruze suas pernas.
- Grey!
- Você é quem sabe, mas minha mão está presa. -Ohh!
Assim que relaxou as pernas, Grey discretamente obedeceu à ordem de Mariah
e com absoluta elegância retomou à posição original do início do jantar. Um
pouco depois, uma movimentação incomum dos garçons chamou a atenção deles.
Com um bolo confeitado cheio de velas aproximaram-se de uma das mesas
centrais, cantando "Parabéns a Você" em uma evidente quebra da etiqueta do
lugar. Estouraram aplausos e, enquanto os garçons se dispersavam, Mariah
aproveitou para perguntar para um senhor já idoso mas ainda cheio de
vitalidade, que ao lado da esposa comemorava mais um aniversário de
casamento.
- Há quantos anos o senhor está casado?
Sorrindo para ela, olhou para a esposa com olhos de paixão e respondeu:
- Apenas quarenta e oito anos maravilhosos. E meu coração ainda dispara cada
vez que a vejo.
- Meus parabéns para ambos. E muita felicidade.
Mariah voltou para Grey seu olhar e atenção. Ele parecia exageradamente
ocupado em conferir o troco da conta, evitando compartilhar da efusão dela.
Risonha, com os cotovelos apoiados na mesa e as faces rosadas de uma alegria
espontânea nem se deu conta do embaraço de Grey.
- Não sei como duas pessoas se suportam tanto tempo juntas.. É difícil
acreditar que ainda seja por amor.
- E claro que há amor entre eles. Por que mais estariam casados?
- As pessoas ficam casadas por um sem número de motivos que não tem nada
a ver com amor. Obrigação, companheirismo, afinal é o que a sociedade espera
de nós. Irritado, parecia pessoalmente atingido com a comemoração. - Que
demora, pedi um café há séculos!
- Calma. Você precisa aprender a olhar para as coisas sem tanta mágoa. Queira
ou não, aquele casal está apaixonado há quase meio século, Grey, e isso não tem
nada a ver com você.
- Olhar sem mágoa? Como eu fui obrigado a olhar para minha mãe e seus'
muitos namorados ou maridos? Qual é a diferença entre o verdadeiro amor e o
desejo de viver esse amor? Às vezes a vontade de ser amada é tanta que
somos capazes de fingir que isso acontece.
Mariah se deu conta de quanto aquilo o afetava, a amargura do seu timbre de
voz a impressionou. Não importava quanto ele se recusasse a admitir, estava
evidente a mágoa que o corroía.
- Não nego que muitas vezes o divórcio é a única resposta para remediar alguns
casamentos equivocados. Mas o normal não é isso, ao contrário, a maioria dos
casamentos ébaseada em compromisso mútuo e é isso que ajuda marido e
mulher a superarem as dificuldades.
O inflamado discurso dela foi interrompido pela chegada do café e docinhos.
Em seguida se levantaram para sair e, embora Grey tentasse parecer gentil e
solícito como poucos, Mariah percebeu quanto aquilo estava sendo difícil para
ele. As generosas gorjetas deixadas por ele, tanto no restaurante quanto. para
o manobrista apenas confirmaram as suspeitas dela.
Foi com o coração apertado que Mariah percorreu o caminho de volta para a
cabana. Grey estava mudo. O cenho franzido era um sinal do tormento
constante que o acompanhava. O amor era desconhecido para ele, nada mais
normal que ele não acreditasse naquele sentimento. Pelo que pudera aprender
de tudo que Grey lhe contara, estava justificado e muito o temor em entregar-
se às emoções e mais uma vez ficar vulnerável. A criança que fora rejeitada e
ferida sempre que ousara crer no amor nunca esquecera a dor das frustrações.
Ele só se lembrava daquele lado da vida, e cabia a ela mostrar-lhe outros
lados, afinal ninguém mais o amara em toda a sua existência. Ao entrarem na
cabana, Mariah tinha um plano em mente, fruto de uma decisão dificílima e só
podia torcer para que desse resultado.
Com gestos estudados, Mariah colocou a bolsa sobre o sofá, e ligando um
abajur suave, pediu para Grey:
Você se importaria em acender um pouco a lareira? Mesmo no verão, as noites
na montanha sempre eram
frias o bastante para aquilo. Se quisesse amenizar a clima tenso que ainda
pairava entre eles, o melhor a fazer era não tocar no assunto. Mesmo assim,
Mariah resolveu acabar. com os tabus e arriscou.
- Você me contou que sua mãe teve inúmeros parceiros, mas nunca lhe passou
pela cabeça que, de certa forma, ela amou e foi amada por todos eles?
A reação dele foi surpreendente. Com a pá de cobre ainda na mão, levantou-
se e com olhos de menino respondeu:
- Sem dúvida. E esse amor ou amores eram não intensos que tudo e todos eram
esquecidos. Inclusive eu, um garoto chato que queria que a mãe o amasse um
pouco. Mas ela vivia em um eterno conto de fadas. Mudavam os príncipes mas
ela ainda era a princesa que precisava ser amada, cada vez mais para
compensar os anos com meu pai. E a cada galanteio masculino recebido, novos
horizontes de paixão a seduziam. Minha mãe não saberia enxergar o amor
verdadeiro mesmo que tropeçasse nele!
Mariah, linda e inabalável, aproximou-se dele e perguntou: - Certo. Mas me
responda, qual é a sua percepção a respeito do amor?
Em poucos passos, Grey chegou ao bar, um pouco da ousadia dela o fizera
recuar até lá. Sua segurança aumentou quando aqueceu um copo de conhaque,
pois mesmo depois de tomar um uísque puro, ele ainda tremia, Mariah aceitou o
excelente conhaque francês que lhe foi dado, mas esperou pela resposta.
- Você sabe. o que penso sobre amor.
Antes de conseguir sorver mais um gole, Grey se assustou ao ver Mariah virar
o seu copo. Quando terminou, ela estendeu-o para que fosse novamente
servida. Aquela manobra foi eficiente para evitar que Grey se atirasse no
torpor do álcool. Conhecendo-o, sabia que a segunda dose seria cavalar e daí
para frente nada mais o deteria, a não ser que se preocupasse com ela.
Cavalheiro, serviu-a com parcimônia e fez questão de trocar de copo e aquecê-
lo, retardando ao máximo o momento de servi-la.
- Talvez... - E com languidez desnorteado começou a desatar o nó da gravata
dele. - Mas, se você acreditasse no amor, o que ambos sabemos que não
acontece, o que esperaria dele?
Completamente desconcertado, Grey não sabia onde pôr as mãos ou como
reagir, enquanto Mariah deslizava com naturalidade e desenvoltura raras.
- Não quero filosofar sobre o tema, Mariah.
- Certo. - E com a gravata já sobre seu ombro, dedicava-se a abrir
meticulosamente, um a um; os botões da camisa social dele. - Então me conte, o
que a nossa relação lhe parece?
Ela conseguiu que os olhos dele se tornassem mais escuros e viu-o perder o
controle definitivamente da situação.
- Como assim?
- Depois de nove meses ainda estamos juntos. Ambos somos ricos e atraentes,
independentes e socialmente bem colocados. Desculpe tanta honestidade mas,
queria saber o que o atrai em mim .e por que ainda estamos juntos? - Como uma
gata, Mariah o olhava sedutoramente, e, para enlouquecê-lo de vez., seu braço
estava enrodilhado no pescoço dele. - Deve ser apenas atração física, não?
Acontece...
Grey tinha os dentes cerrados, Mariah percebeu aquilo ao mesmo tempo que o
viu empalidecer.
- Mariah, sabe que não é isso que me liga a você, não é so isso.
- Como eu saberia se você nunca me disse nada?
Mariah estava colada a ele, provocando-o em todos os sentidos. Talvez fosse
diferente se aquilo acontecesse um mês antes, mas naquele momento, os olhos
azuis dela eram muito mais expressivos que o corpo estonteante que o deixava
incomodado. Sentiu-se horrível por nunca ter conseguido dizer quanto ele a
queria diferente e mais que qualquer outra. Talvez fosse aquilo que faltava ser
dito, ou ouvido para que conseguissem se entender.
- Serei mais clara. - E com a língUa, umedeceu os lábios antes de terminar. -
Que palavras usaria para descrever nosso relacionamento?
- Compreensão, carinho, respeito, confiança,e uma química mágica entre nossos
corpos e mentes.
- Parece que você me ama. Quem diria. . . - E riu de prazer. - Eu não disse isso.
- E precisa? - Triunfante, mal podia se conter de tanta satisfação. - Há
milênios essas são as palavras para descrever o amor. .
Ele queria rebater, confrontá-la, discutir com ela porém não conseguia abrir
a boca. Será que ele realmente queria? Só sentia ,que não sabia mais nada.
Mariah conduziu-o para o tapete macio em frente à lareira, um pequeno e
agradável fogo servia como calor e iluminação, um nó crepitante de pinheiro
ardia só para dar aconchego à ala. Foi aquilo que fez com que Mariah apagasse
o abajur e se deixasse iluminar só pela chama rubra das labaredas.
Ela parecia uma visão divina, e Grey fechou os olhos para que não se
decepcionasse ao vê-Ia desaparecer no sonho que deveria terminar. Mariah
esperou que ele abrisse os olhos exatamente na mesma posição e com um
sorriso deslumbrante. Beijou-o e mordiscou-o no lábio como a provar que não
era um sonho.
Rendido pela emoção, enfeitiçado, tomado por todas as melhores sensações
jamais imaginadas, Grey se entregou ao delírio sem saber como nem por quê.
Em um assomo de fetichismo, Mariah puxou para cima dos ombros o vestido,
deixando à mostra a brancura e o contorno firme dos seios e o contraste dos
mamilos bem desenhados e escuros e eretos como em um desafio.
Jogando para longe o vestido, apenas as meias e a pequena peça de seda
cobriam-lhe o corpo.
Com o sangue fervendo nas veias e sem acreditar na fortuna que reservara
uma noite como aquela para ele, perguntou com absoluta firmeza, antes de
sucumbir ao delírio.
- Mariah, e o nosso trato?
- Acabei de mudar de idéia e revogá-la. Acho que devo mostrar-lhe o que é o
amor, caso haja dúvidas sobre isso entre nós.
A dúvida se foi no minuto seguinte, quando as mãos dela desnudaram-lhe o
peito, puxando-lhe a camisa até o cotovelo. O brilho dos olhos azuis intensos de
prazer, ao se debruçarem nele para beijar seu pescoço, deixaram-no excitado
como nunca antes. A língua dela capturou a sua em um beijo profundo e
sensualíssimo.
Sentindo-se tolhido pela camisa semi despida, Grey rasgou-a para poder
alcançar os seios de Mariah, completamente obcecado por eles.
Um segundo de hesitação paralisou-o, queria tanto satisfazê-la que teve
receio de não conseguir corresponder à altura. As inúmeras vezes em que se
amaram não lhe conferiam segurança alguma naquele momento, pois nunca vira
tanta sensualidade.
Mariah o acariciava sem permitir que ele fizesse o mesmo com ela, em uma
espécie de doação completa de si mesma e de seu prazer, enlouquecendo-o.
Mesmo quando os dedos de Grey tentaram uma carícia íntima, vencendo a
barreira' da calcinha de seda, Mariah afastou-os para longe e disse:
- Vou mostrar o que é amor, amor de verdade. Sem pedir nada a não ser o
prazer do outro. Deixe que eu o ame.
Furiosamente, ela o enlouquecia de beijos e carícias, despindo-o de toda
roupa como uma gueixa treinada na função de produzir sensações únicas. Seus
delírios e fantasias mais secretos se tornavam realidade nas mãos de Mariah.
Mãos, boca, língua o deixaram tão fora de si a ponto de gritar para que ela
parasse. .
Surpreendente, obedeceu-lhe e, com um beijo, imobilizou para que pudesse
ter tempo de escorregar para o tapete e, de forma erótica, despir as meias de
seda. Nem em sua imaginação febril de macho tamanha carga de sensualidade
existira. Excitado ao extremo, enlouqueceu quando a viu tocar seus mamilos e
provocante, pedir.
- Faça amor comigo, Grey.
Como negar? Um breve instante de razão o fez ponderar: - Mariah, não tenho
preservativos, podemos mesmo assim?
- Não se preocupe.
Foi o suficiente para libertá-lo de toda a censura. Mergulhando no corpo
desejado, desnudou-a e a possuiu com força e virilidade desesperadas.
Acolhendo seu desejo, Mariah o enlaçou com as pernas trazendo-o para dentro
de si. Amor de corpo e alma. Unidos em uma confusão de pensamentos e
anseias saciados, plenos na fusão de seus corpos.
A primeira vez de abandono e completo delírio entre um homem e uma mulher é
tão assustadora que chega a tirar o fôlego, e as palavras perdem o sentido.
- Eu amo você. - Mariah sussurrou como um autômato.
Continuaram abraçados mesmo depois de muito tempo de passada a onda da
paixão. Mariah não sabia quanto Grey guardara como tesouro único as palavras
dela.
Perturbado e em estado de graça, finalmente se entregou ao sono nos braços
de Mariah.
CAPÍTULO IX

Ele a amava.
Mariah insistiu em seu propósito de eliminar as dúvidas que poderiam povoar a
mente de Grey quanto ao amor que sentia por ele. O dia seguinte e a manhã que
o sucedeu ainda pegaram Grey tentando negar a si mesmo que o sentimento que
o ligava a Mariah era o amor. Depois de tanto negar sua existência fora
forçado a render-se. Rotulado ou não, era inegável o que lhe enchia a alma.
Quase não sentia vontade de viver se Mariah não estivesse ao seu lado.
Nem ousava mais pensar que era a atração física o que os unia. Soava como
uma blasfêmia ao seu amor próprio menosprezar o que seu coração tivera a
chance de provar.
Depois de conhecê-Ia nunca mais achara outra mulher que se comparasse em
beleza, inteligência ou teimosia. Poucos homens no mundo eram tão convictos ou
eficientes quanto Mariah.
Ela adormecera profundamente depois de caminhar duas horas, preparar o
almoço sozinha e ter se esmerado na limpeza e arrumação da cabana. A mulher
que viera para aquele trabalho fora apenas ajudante dela. Orgulhava-se da
competência de Mariah para os trabalhos caseiros, que era tão grande quanto
seu talento para decoração de interiores.
Foi com aquele espírito que Grey se dirigiu para a cidade enquanto Mariah
descansava. Queria que ela acordasse com uma surpresa, compraria o jantar na
cidade e a surpreenderia com a mesa posta.
Enquanto dirigia através da paisagem que a natureza exuberante
proporcionava em todo o trajeto até a cidade, Grey se perguntava quanto
tempo mais teria de felicidade com Mariah. Mesmo admitindo que a amava,
quem poderia dizer se aquele sentimento duraria uma semana, um mês ou um
ano? O idílio se prolongaria durante quanto tempo, até que ela percebesse que
não teria nele o esposo tão sonhado ou o pai dos seus filhos?
Por mais que procurasse aquelas respostas não se sentia capaz de obter
respostas. Decidira deixar aquelas questões de lado e simplesmente aproveitar
o que a Providência lhe concedera ao pôr Mariah em sua vida.
Se contentaria em aproveitar cada minuto do presente, amando-a e, se um
dia aquilo acabasse teria muito prazer em tê-Ia como sua amiga mais querida.
Era tudo o que podia oferecer.
Talvez um dia ela entendesse que nada o faria melhor que aquilo. Nada tinha
para oferecer além dele mesmo, nunca seria marido ou pai.
Quem sabe, talvez houvesse uma chance para eles, Mariah podia pensar
melhor e aceitar sua proposta. De uma coisa ele tinha certeza, ninguém faria
mais que ele para vê-Ia feliz se aquilo acontecesse.
Foi e voltou tão depressa que a encontrou na mesma posição que adormecera.
Com satisfação, Grey arrumou a mesa, sem esquecer detalhe algum da
primorosa etiqueta francesa.
O bom senso o levou a um cardápio de pratos frios, sua inexperiência no
fogão era total. Mas não foi difícil arrumar o salmão, caviar e os patês em uma
travessa e as saladas em outra. Acendeu as velas e colocou o champanhe no
gelo. Borrifou um pouco de perfume na sala e sentou-se, esperando por ela.
Nem dez minutos se passaram e ouviu Mariah saindo do banheiro. Com prazer
ouviu-a chamar seu nome.
- Grey?
- Aqui na cozinha.
Recém-saída do banho, Mariah estava deslumbrante. Mal cobrindo seu corpo,
um pedaço de seda vermelha que a fazia ainda mais tentadora. Sob a seda, um
colante desenhava com perfeição cada detalhe dos seios divinos, que pareciam
mais exuberantes que antes. 11Uvez fosse sua imaginação, mas Grey podia
jurar que nada mais a cobria da cintura para baixo.
Antes que pudesse tocá-la, Mariah se esquivou e, brejeira, sentou-se à mesa.
- Tudo isso é para mim?
- Certamente. - E colocou em sua boca uma colher com caviar.
Um pouco da iguaria sobrou entre os lábios carnudos de Mariah. Sutil e
sensual, Grey não hesitou em usar seu dedo para eliminar qualquer traço dele.
Sem cerimônia, Mariah pegou aquela mesma mão e, sem mais, colocou-a entre
suas coxas, gemendo logo ao primeiro contato dos dedos de Grey. Em um
instante apenas, ele conseguira provocar nela um delicioso torpor do prazer.
Mas a fixação dele pelos seios de Mariah extrapolavam o próprio ato sexual.
Não foi fácil, mas conseguiu. Aos poucos a túnica vermelha escorregou pelos
ombros dela e, em seguida, foi o colante que cedeu deixando nu um dos seios,
para seu deleite e delícia. Tomou-o na mão, que tremia ao acariciar seu
contorno perfeito até tocar o mamilo com a ponta de seus dedos antes que sua
língua, sôfrega, se ocupasse dele. Sugou apaixonadamente até ouvi-la
sussurrar:
- Delicioso.... Mariah se entregou à carícia totalmente, estremecendo quando
Grey segurou o bico de seu seio entre os dedos, e, com movimentos circulares
levou-a à loucura.
- Acho que não esqueci como se faz. - Grey arfava, procurando formas de
dar-lhe mais e mais prazer.
Ele amava tanto aquela mulher que poderia morrer por ela, e certamente
morreria sem ela. E se haveria momento ideal para mostrar-lhe aquilo, aquele
momento havia chegado. Superando sua própria vontade que o instava a tomá-
Ia para si urgentemente, Grey se conteve e, ao invés daquilo, afastou-se e
cobriu a nudez com a túnica vermelha, para espanto de Mariah.
Em um misto de desejo e incompreensão, o olhar de Mariah o fitava quando
ele pegou sua mão e ali depositou uma pequena caixa de veludo negro, dizendo:
- Talvez isto a convença.
- Isto é para mim? Mas não é meu aniversário. Abraçando-a, Grey tentou
controlar seu próprio nervosismo. Com o coração aos pulos sentiu dificuldade
em articular as palavras certas. .
- Não é preciso ser seu aniversário para que eu demonstre quanto... - Pigarreou
e tomou fôlego antes de pronunciar: - Quanto eu amo você!
- O que disse? - Mariah perguntou, cética.
- Eu disse que amo você!
Passado o choque inicial, lágrimas inundaram-lhe as faces e sorriu, em êxtase.
- Oh, Grey! Eu sabia disso! Tinha certeza!
- Quer dizer que fiz todo este esforço à toa?
Visivelmente Grey procurava disfarçar, gracejando, a imensa emoção que o
dominara. Mas Mariah, de pronto respondeu:
- Não, claro que não... - E enxugando uma lágrima, assegurou: - Hoje é um dos
dias mais felizes da minha vida! - Então pare de chorar e abra logo o presente.
Boquiaberta, Mariah tinha estampada no rosto a expressão da mais pura
felicidade. Seus olhos brilhavam mais que a jóia à sua frente. Montado em
platina, cravejado de pequenos rubis em torno de um diamante de um quilate,
mais que uma jóia, aquele anel era digno de uma princesa de contos de fada.
Delicadamente, Grey segurou o queixo de Mariah, que estava, literalmente,
caído. Acariciando-lhe a face, murmurou:
- Acho que não preciso dizer mais nada, não é? O anel fala por mim.
- É absolutamente maravilhoso.
Naquilo eles concordavam. Linhas simples e elegantes faziam-no menos
extravagante que aquele que estava exposto na vitrine da joalheria, porém os
rubis davam vivacidade à peça, e fora por isso que Grey o escolhera, a chama
interior de Mariah era tão intensa quanto o rubro das pedras preciosas.
Arriscara-se comprando um anel depois da discussão do último fim de
semana, mas certificara-se de que nada ali remetia à idéia de casamento, e
entre todas as outras jóias nenhuma se equiparara àquela.
E pelo semblante de Mariah parecia ter acertado na escolha. Tomou-lhe a
mão esquerda e nela colocou o anel, beijando apaixonadamente a ponta de seus
dedos em seguida. Um sentimento poderoso o dominou naquele momento,
surpreendo-o em sentir tanto prazer com aquele gesto. - Você me faz feliz,
Mariah. Feliz como nunca fui.
Rindo, Mariah se atirou nos braços de Grey para um longo e caloroso abraço. E,
mesmo quando deixou o aconchego de seu peito, seus olhos não se desviavam
dos dele.
- Você realmente me ama?
- Não foi você mesma quem me disse isso ontem?
- Sério? Tem mesmo certeza disso?
- Tenho sim, querida. Embora essa idéia me apavore, acho que vou acabar me
acostumando com ela.
- Pode ter certeza disso. - E um sorriso malicioso iluminou-a.
O contato macio e cálido dos lábios, a boca generosa abrindo-se para ele, a
língua despudoradamente sensual, Mariah imprimiu tudo e muito mais em um
único e lascivo beijo capaz de produzir em Grey um desejo urgente e violento
de posse.
Ardendo na mesma febre de paixão, as bocas se fundiram, e tentavam fazer
o mesmo com seus corpos, que arfavam em uníssono.
Mariah, envolta pela túnica de seda nunca parecera tão sedutora aos olhos
de Grey, que rapidamente se viu quase despido pelas mãos dela que, no entanto,
continuava vestida. A excitação só aumentava com aqueles detalhes. Quase
teatral foi o movimento das mãos de Grey que, hábeis, puxaram até a cintura a
blusa de Mariah, deixando à mostra seus seios nus. Excitando-o ainda mais a
constatação que, sob seu olhar, eles se tornavam mais opulentos e rígidos.
Trêmulo de desejo, alcançou um dos mamilos com sua língua e para delírio de
Mariah sugou-o até ouvi-Ia gemer de prazer. Ao levantar a cabeça do colo alvo
dela, Grey sentiu-se impotente para deter as mãos que o despiam por completo.
Disposto a dar o troco pela noite anterior, segurou os pulsos delicados de
Mariah, impedindo-a de continuar, mesmo depois de sentir-lhe bater o coração
acelerado contra seu peito.
- Querida, é minha vez de eliminar qualquer dúvida a respeito dos meus
sentimentos.
Deixando-se levar pela cena, Mariah limitou-se a, languidamente, fechar os
olhos e dizer:
- Tem razão...
Com abandono, deixou para ele a iniciativa de possuí-la, entregando-se
completamente ao prazer de ser penetrada pelo homem amado. Grey, pela
primeira vez, conhecia os prazeres múltiplos em dar prazer. Ao possuir Mariah
e sugar seus seios alternadamente, viu-a em êxtase, o mesmo que o tomaria de
assalto em seguida. Em uníssono, chegaram juntos ao ápice.
O amor realmente fazia toda diferença do mundo. De maneiras diferentes os
dois chegaram à mesma conclusão. Enlaçados, quietos e tranqüilos esqueceram-
se do mundo, imersos em seus sonhos.
- Grey, diga mais uma vez... Por favor.
- Eu amo você, Mariah.
- Acho que nunca vou me cansar de ouvi-lo repetir isso.
- Garota, assim você vai me matar! - exclamou Grey. Tinham acabado de fazer
amor pela segunda vez, e Mariah ainda o tinha dentro de si. Voluptuosa, parecia
querer mais e mais, apesar de ter conseguido levar Grey à exaustão.
Já não estavam mais na cozinha, mesmo no calor da paixão o bom senso
prevalecera, e ele a carregara até a cama. Entre os lençóis, Mariah mal lhe
dera tempo de tomar fôlego e o exigira de novo para si. Portanto, Grey estava
falando a verdade. Morrendo de rir, marota, argumentou:
- Ao menos ao morrer será um homem feliz... - Quer jeito melhor de morrer?
Nem mesmo Grey poderia explicar como ela conseguira mas o fato era que,
enquanto falavam, Mariah continuara a acariciar seu co po e o resultado fora
surpreendente.. Tão surpreendente que Grey não se conteve:
- Nossa, onde você aprendeu tudo isso?
- Jade me emprestou alguns livros bastante instrutivos... - E cheia de segundas
intenções na voz rouca, murmurou sedutora: - Não quero que fique entediado
comigo.
Entediado, está brincando? Fazer amor com você pode ser tudo, menos isso.
Uma viagem à Marte é mais corriqueira que uma noite ao seu lado.
- Falando nisso, parece que não fui a única aqui a aprender coisas. Flores,
lingerie sexy, cartões...
Massageando os cabelos dourados de Mariah, matou a curiosidade dos olhos
azuis que o fitavam.
- Alguém me disse que as mulheres gostam de um pouco de romantismo.
Aproveitando a oportunidade, manhosa, ofereceu-lhe a nuca para uma
massagem, prendendo os cabelos em um coque displicente. Pescoço e costas
nuas e o bico de um dos seios balançando com o arfar da respiração ritmada de
Mariah foram mais que estimulantes, foram afrodisíacos para Grey.
- Mark realmente é um perito em corações femininos, foi dele a idéia,
acertei?
- De quem mais seria? - Rindo, intensificou a massagem, agora bem mais
libidinosa. - Mas funcionou, não negue. Cá estamos nós para provar.
- Porque eu deixei. Afinal, se eu não quisesse estar com você, ninguém me
manteria presa aqui. E estou adorando cada minuto.
Segurando-a pela cintura, virou Mariah de frente para ele. Estremeceu ao
constatar quanto o excitara. Corou ao sentir um calor úmido inundar suas
coxas. Rouco, Grey respondeu-lhe:
- Posso garantir que não tanto quanto eu.
A respiração entrecortada de Mariah fazia seu peito arfar, e os seios
acompanhavam o movimento. Contendo seu impulso de tocá-la, tentou prolongar
o prazer de ambos.
- Confesso que nunca vi nada tão ousado quanto o que você fez.
- Ousado? Não diria isso... Pelo que sei, ousadia não tem nada a ver com sexo
no tapete ou na cama. .
- Bobo. Não é disso que estou falando. É ao anel que me refiro.
- Bem, o amor nos deixa tolos a ponto de loucuras como essa. Perdoe-me, mas
nunca amei antes, portanto não sei como me portar.
- Fico feliz em ser à primeira. - Provocante, acariciou os próprios seios. Com
o indicador molhado pelo vinho gélado fazia movimentos circulares contornando
os mamilos. - É como se recuperasse minha virgindade. Uma jovem apaixonada e
pura que se entrega ao homem experiente pela primeira vez. Adoraria viver
essa fantasia com você.
Não foi preciso dizer mais nada. Com gentileza, Grey tocou-Ihe os seios, como
se o fizesse pela primeira vez, incorporando a fantasia sugerida e
transformando-a em realidade.
E a tortura se prolongaria noite adentro se Mariah não o fizesse parar.
Teriam a vida inteira para fantasias, guardaria uma noite inteira para viver
aquela cena. Mesmo porque, a noite já fora bastante intensa, e seu desejo por
ele era urgente. E tudo levava a crer que Grey sentia o mesmo.
Puxando-o para si, segurou um dos seios para que ele o abocanhasse. Sugando
a ponta do mamilo, conseguiu leváIa ao ápice do prazer, alternando sua língua e
mãos entre os seios, com o intuito de proporcionar prazer apenas. Ao agir sem
egoísmo, acabou por obter um orgasmo intenso e inesperado.
Rápido e definitivo, daquela vez o amor conseguiu saciar e apaziguar corpos e
mentes e, por alguns preciosos minutos, silêncio e tranqüilidade invadiu-os.
Mariah parecia hipnotizada, levantara o braço esticando-o, extasiada com o
anel.
Lindo, valioso, deslumbrante em nada se assemelhava aos tradicionais anéis
de no.ivado, mas Grey não era exatamente o tipo de homem tradicional. Nada
dele podia ser normal ou comum.
Sorriu ao pensar na reação dos pais ao saberem do seu noivado com Grey. Já
podia ver sua mãe preparando a festa do casamento, e o pai pedindo para que
não pensassem em economias. "Afinal, minha filha merece o melhor", diria ele.
Grey ainda não adormecera. Certificou-se daquilo antes de perguntar:
- Grey, quando vamos nos casar? Sempre sonhei com um casamento no meio do
inverno, mas se for melhor esperar até a primavera, não me importo.
- O que prefere?
A instantânea rigidez da musculatura foi o primeiro sinal, em seguida seus
olhos a fitaram arregalados, e com calma exagerada falou; .
- Mariah, eu nunca falei em casamento.
Ela só podia estar tendo um pesadelo. Gelada, tentou raciocinar, beliscou-se
antes de mais nada. Balbuciando, pensou alto.
- Mas eu o ouvi repetir que me amava.
- E é a mais pura verdade.
- E... e eu vi o anel.
- Não é um anel de noivado, pode ter certeza. Fiz questão disso.
- Como pôde? Que diferença faz, até uma argolinha de lata de cerveja teria o
mesmo efeito se você a colocasse no meu dedo. Do que eu deveria chamar isto?
o silêncio pesado que caiu, sobre eles disse tudo. Mas o coração de Mariah
estava sangrando, e daquela vez a dor era mil vezes mais intensa.
- Responda, você me deve pelo menos isso.
"- Não piore as coisas, por favor. Eu só imagino você na minha vida, pelo menos
por hora, juro que é verdade. - Por hora, ou seja, nada impede que as Coisas
mudem. - Mariah, você conhece o que é casamento na minha concepção. E nada
mudou, e duvido que venha a mudar.
o som surdo que Mariah deixou escapar se assemelhava ao lamento de um
animal ferido. Nunca imaginou que fosse capaz de sofrer tanto. Nada mudara,
Grey era o mesmo, tudo se repetia, só a dor era outra, muito mais forte.
- o que a fez pensar que eu havia mudado? Será que mesmo depois de me
ouvir, você não entende? Não sou canalha, nada que eu disse poderia levar à
isso.
- Talvez tenha razão, eu mesma me enganei. Criei castelos onde nem havia
chão. A culpa deve ser minha.
a ar estava irrespirável para Mariah, e mal ela conseguia forças para continuar
a falar.
- Faz bem a você colocar um anel e me ver usando-o, mas é insuportável o peso
que um compromisso pode trazer.
- Bem que pensei que esse anel traria confusão - murmurou entredentes.
Ele nunca a entenderia, Mariah percebeu claramente ao ouvi-Io resmungar.
Reunindo toda a força que lhe restara, levantou a cabeça e segurou as lágrimas.
Dentro do possível sua voz soou firme e clara ao dizer:
- Não há nada que já não tenha sido dito entre nós.
Portanto somos inconciliáveis. Irremediavelmente.
- Mariah, espere. Não seja tão radical, temos...
- Não temos mais nada. A lua-de-mel acabou, leve-me para casa. Agora.
CAPÍTULO X

Mariah gemeu mesmo antes de estar de olhos abertos. Sua vontade era
morrer. Morrer para não sentir mais seu coração estraçalhado. Suportar outra
semana igual à última parecia impossível. Foi o que bastou para o peso da
angústia voltar a fazer parte da sua rotina.
Olhou mais de uma vez para o relógio até convencer-se de que realmente
dormira até o meio-dia. Andava tão cansada que precisava de muitas horas de
sono para conseguir descansar. Resignada saiu da cama, colocou o velho. roupão
e foi à cozinha.
Domingo de manhã, Jade não dormira em casa, por sorte. Havia cinco
semanas desde que voltara da cabana que sua vida se resumia a atividades
corriqueiras, como estar em casa sozinha. Sua irmã não a poupara de ouvir o
famoso "Eu não disse?", mas depois daquilo desmanchara-se em gentilezas,
procurando fazê-Ia esquecer Grey.
Mas Mariah sentia-se só, não conseguia mais nem disfarçar seu desanimo e
muito menos seguir os conselhos de J ade e voltar à vida.
A geladeira aberta oferecia-lhe inúmeras opções, mas nada a apetecia. Optou
pela tigela de uvas frescas, mas nem aquilo parecia bom ao seu estômago. Seu
bom apetite desaparecera e toda a comida lhe dava náuseas.
Desatou a chorar sobre as uvas, nunca estivera tão sensível, qualquer coisa a
entristecia. Jade já não tinha mais paciência para seus arroubos emocionais,
suas oscilações de humor.
Passado o período inicial em que Grey a atormentara com sua presença e seus
telefonemas, quando obrigara Jade a mandá-Io embora mais de uma vez, era
com saudade que ouvia a voz na secretária eletrônica dizendo "Eu te amo". A
gravação a fazia chorar, mesmo depois da milionésima vez.
Rememorava com exaustiva perfeição de detalhes a semana idílica que tivera
com Grey, mas era pior o depois, quando se lembrava do resultado humilhante
do seu esforço em transformá-Io com seu amor.
Já não agüentava mais as palavras de Jade que insistia em obrigá-Ia a voltar
a uma espécie de comportamento social sem sentido para ela.
Dito e feito, Jade voltava faceira para casa, beijando-a alegremente.
- Bom dia, irmãzinha!
- Tem certeza?
Olhando com mais atenção, Jade observou:
- Mariah, há quanto tempo dura esse seu mal-estar? Uma semana?
- Não prestei atenção, talvez.
Então comece a prestar atenção nisto. - E colocou um embrulho na mesa.
- O que é isso?
- Um teste de gravidez.
- Estou doente, não grávida!
- Tem certeza?
- Pílula é o suficiente para isso não acontecer.
- Depende, nada é cem por cento eficaz. Faça o teste e saberemos.
- Farei para provar que está errada.
De mau humor, Mariah seguiu as instruções e pediu que Jade verificasse o
resultado. Amuada, nem olhou para o vidrinho, Dez minutos depois foi
surpreendida pelo resultado positivo.
- Oh, Riah! Além de tudo, grávida. Sinto muito.
- Como pode ser?
- O que esperava depois de dias de tórrida paixão? Não há anticoncepcional que
resista.
Passada a primeira lufada de desespero, Mariah mudou de expressão, sorrindo
brincou.
- Bem alguém tem que fazer parte das estatísticas de falha.
Riram juntas, mas não por muito tempo.
Jade foi direta. - O que quer fazer, Riah?
- Ter o bebê, claro.
Não seria fácil criar uma criança sem pai, daria adeus ao seu sonho de
casamento, mas não conseguia pensar em não tê-Ia. Mesmo que aquilo não
estivesse entre seus planos, amaria seu filho.
- Querida, isso eu já sabia. Mas quero saber sobre o pai, vai contar a Grey?
Sua decisão foi instintiva, mesmo antes de dizer, já se podia saber a resposta
ao observar suas expressões. E nada a faria mudar de idéia.
- Não, não vou contar. Não quero forçá-Io a nada, especialmente a isto. Por
duas vezes ele disse que não queria casar. E sei que apesar disso um filho o
faria casar-se comigo. E isso é tudo de que não preciso. Caso encerrado.
- Se é assim, tudo bem. Mas papai e mamãe precisam saber, será uma
decepção e tanto. Um neto e sem pai conhecido..
- Estamos nos anos noventa, fim de século. Eles terão que se acostumar com
a idéia. Todo dia milhares de mulheres dão à luz sozinhas, não sou uma exceção.
Já parecia que aquele ser fazia parte da sua vida havia tempos. Embevecida,
Mariah começou a alisar o ventre, pensando como mãe.
Jade a abraçou, emocionada. Uma onda de ternura envolveu-as como um
manto.
- Uau, temos um bebê. Que acha, menino ou menina?
Prefiro menina.
Uma garotinha com os olhos azuis e cabelos negros como os de Grey, ou
talvez com os olhos escuros também. Seria uma parte dele ao seu lado, para
sempre.
- Que importa, vou amá-lo e esperar que seja forte e saudável.
- Quem diria, eu serei tia.
E eu, mãe. E as lágrimas precederam os soluços, impedindo-a de falar.
Querida, por que o choro?
Jade, pergunte aos meus hormônios...
N a verdade eram por tudo que ela e Grey poderiam ter construído juntos, e
pela ausência que fatalmente seria sentida pelo resto da vida.
Não é inacreditável?
Mariah estava repetindo pela décima vez a mesma frase, para desespero de
Jade, que, pacientemente a estava acompanhando. Recém-saídas do consultório
médico, caminhavam pelo estacionamento lotado à procura do carro.
No quinto mês de gestação, Mariah passara por uma bateria de exames e
ultra-sonografias, que, além de mostrarem um bebê saudável, emocionaram-na
até as lágrimas. Vira na tela do ultra-som o seu bebezinho chupando o dedo,
todo ele bonitinho e formado.
É verdade, pela primeira vez eu achei que parece gente. Jade não perdia a
mania de ser honesta. Pena que não pudemos descobrir o sexo, queria saber
se é menina.
Melhor assim, já pensou a surpresa quando nascer? Pense, você estará lá, será
a primeira a saber.
Será? Não sei não, Mariah. Sempre tive pavor de sangue. Bobagem. A única a
passar mal serei eu nessa hora. Grey é quem deveria estar ao seu lado, não eu.
Entraram no carro em silêncio, Jade dissera o que não devia, e Mariah não pôde
evitar que a tristeza nublasse suas feições. É claro que gostaria de que aquilo
fosse possível, ,mas não era. Sempre que sentia os chutes do pequeno dentro
de' si, uma mistura de alegria e tristeza vinham junto. A alegria era óbvia, mas
a tristeza tinha relação com a ausência.do pai. Uma ausência que ainda não
conseguira sublimar.
Pensara muito antes de tomar a decisão final, e estava convenci da de que o
melhor para o seu filho era crescer sem o pai. Antes aquilo que ter um pai que
não o aceitasse. E depois de tudo que ouvira de Grey, não tinha o direito de
forçá-Io a uma paternidade à sua revelia.
Havia meses que vinha tentando superar as mágoas e pensar apenas no filho
que teria pelo resto da vida, mas não era fácil esquecer-se do homem da sua
vida, ainda mais carregando consigo um pedaço dele.
Naquela manhã mesmo, ao mirar-se no espelho e ver as transformações do
seu corpo não conteve as lágrimas, ao lembrar-se da semana mais feliz da sua
vida nas montanhas, com Grey.
Mas não podia se deixar abater, não tinha aquele direito depois de todo o
amor que Jade e seus pais vinham dedicando a ela e ao bebê. Ficar deprimida
um minuto que fosse era o mesmo que ofender e magoar a eles.
Sabia que Jade estava ansiosa para ouvir qualquer coisa de sua boca que
soasse alegre, conhecia bem sua irmã querida. Além do quê, desde a primeira
consulta, cumpriam um ritual inventado por ela, assim que saíam do consultório
com boas notícias, iam almoçar em comemoração.
Jade não só pagava a conta, como conseguira marcar todas as consultas para
as onze horas da manhã, e aquílo lhe custara quatro caixas de bombons de
cereja e uma hora de conversa com a velha sra. Carter, enfermeira do seu
médico.
- Estou enjoada do Monte Cristo, que tal irmos ao Maxime's? - Forçando um
sorriso, Mariah sugeriu.
- Riah, é do outro lado da cidade, mas, quem sou eu para contrariar uma
mulher grávida? Ao Maxime's!
- Decisão sábia, desejo não se discute. - Mariah acelerou o carro, um pouco
mais feliz.

- Bem, tenho que ser honesto, além das suas ótimas referências, gostei dos
seus preços e do senhor, sr. Nichols. Quero dizer, de você, Grey.
Sam Haight disse aquilo ao devolver-lhe as dez páginas onde estava
detalhada a proposta da empresa de Grey para um enorme projeto em todas as
empresas do Grupo Haight.
- Quero assinar já o contrato, quanto antes eu tiver esse novo sistema, melhor.
Grey ficou estático por alguns segundos antes de responder qualquer coisa,
afinal, o senhor à sua frente era um dos maiores empresários da Costa Oeste.
Magnata era uma palavra que definia apenas uma parte de quem era Sam
Haight. E aquele era o maior contrato de que se tinha notícia na área de
segurança empresarial. Era muito bom para ser real, pensou Grey antes de
responder. Impaciente como só os idosos sábios, o sr. Haight insistiu:
- Então, quer ou não o projeto? Não tenho o dia todo. - E estendendo a mão. -
Basta apertar minha mão, se não consegue falar. É assim que fecho negócios há
mais de cinqüenta anos.
Sam Haight se encantara com o novo sistema e não via a hora de vê-Io
instalado. O velho magnata queria um brinquedo novo e o encontrara ali. Além
do neto único de seis anos de idade, era do prazer de fazer bons negócios que
ele tirava a vitalidade invejável para qualquer rapaz de vinte' aos oitenta anos.
Dizia que não podia morrer até criar o neto, o que levaria mais vinte anos,
pelo menos. Perdera a esposa, 6s dois filhos e a nora em um acidente aéreo
havia cinco anos, e só não. enlouquecera por causa do neto.
Desde então duplicara a fortuna do pequeno e se empenhava pessoalmente
ém dirigir seu império, portanto Grey estava vivendo um momento de glória ao
fechar aquele contrato.
Apertaram as mãos, e Grey falou com o timbre obstinado que o levara até ali:
- Esse trabalho será supervisionado por mim, pessoalmente. Garanto ao
senhor.
- Fabuloso. É um prazer fazer negócio com você. E matreiro, piscou para
Grey. - Rapaz, isso não acontece sempre.
Desde que rompera com Mariah, havia meses, pouca ou nenhuma razão tivera
para a alegria e, de repente, estava com tudo que sonhara e só um pouco menos
triste que antes. No entanto, aquele deveria ser O dia mais feliz de sua vida,
aquele que, durante anos de trabalho e solidão fora seu objetivo de luta, não
pelo dinheiro, já conquistado, mas pela vitória pessoal que significava.
Só, não tinha com quem dividir aquele triunfo. Perdera a mulher que. amava, e
seu coração doía sem parar desde então, sem descanso. Quando conseguiria
olhar para outra mulher sem pensar nela? Quando conseguiria se perdoar por
tê-Ia deixado partir?
Sam Haight costumava dizer que se conhece um homem em dois lugares, à
mesa e na cama. No caso de negócios, a mesa era reveladora. Portanto, a
conversa entre os cavalheiros acontecera durante um lauto almoço.
Almoço terminado e negócio fechado, Grey elegantemente pagou a conta sem
que Sam percebesse. Ambos se levantaram e com as pastas em punho se
dirigiram à saída do Maxime's.
Ao passar pela jovem e atraente recepcionista foi brindado com um sorriso e
o mais tentador dos olhares, mostrando sua clara intenção para com ele.
Inutilmente a moça esperou por reciprocidade de interesses, Grey
simplesmente a ignorou. Nada nela lhe despertara atenção. Irritou-se consigo
mesmo por não desejar mulher alguma depois de conhecer Mariah.
Quantas vezes se vira embaraçado ao correr atrás de alguém que julgara ser
Mariah, mas não era. A mesma impressão de tê-Ia visto o dominou ao chegar ao
hall do restaurante. Cheio de gente à espera de uma mesa, teve quase certeza
de que ela estava entre elas. Sabia que sua mente imaginara aquilo, então
balançou a cabeça e tentou se distrair com outra coisa. Mas ouviu claramente
quando a recepcionista chamou:
- Mariah Stevens, mesa para dois. Por favor, me acompanhem.
O coração aos pulos e a garganta seca foram sintomáticos. Grey mal podia se
manter sobre as pernas quando reconheceu a voz que dizia:
- Quanto tempo mais terei que atender seus desejos?
Meia hora para sentar. .
- Faltam só quatro meses.
- Isto eu suporto, mas por favor, chega de sorvete de creme com picles de
cenoura.
Não podia ser verdade, mas era. Nem em um milhão de anos ele esqueceria voz
de Mariah ou do tom metálico da voz de Jade. Eram elas que estavam ali. Sem
pensar virou-se a tempo de vê-las de costas, seguindo para o salão e em um
ímpeto chamou-a.
- Mariah?
Como uma visão, lentamente viu-a se virar, balançando os cachos loiros, até
estar de frente com o mesmo sorriso encantador. Mas não contava com o
choque seguinte, aquilo que estava vendo não estava acontecendo, não era
possível. Seus olhares se encontraram e a mesma surpresa os enchia de pavor.
- Grey? - Pálida, balbuciou.
Obviamente era desagradável para ela o encontro. Jade se adiantou, e
tentando proteger a irmã, pediu-lhe:
- Por favor, Grey, Mariah não quer falar com você agora. Não provoque uma
cena desagradável.
- Quero ouvir Mariah dizer isso. - Irritação e mágoa eram evidentes nele..
Jade não conseguia compactuar com o que viria a seguir, sua honestidade era
seu maior defeito e qualidade. Olhou-os e antes de deixá-los a sós disse:
- Acho que já se conhecem, dispensam minha companhia.
- - Não! - Mariah quase gritou.
- Não? - Estarrecido, Grey exclamou inconformado.
Sem entender o que estava acontecendo, continuou olhando para ela na
tentativa de desvendar os verdadeiros motivos para aquele estranho
comportamento. Teria sido capaz de apagar da memória tudo o que eram um
para o outro havia poucos meses?
A sala lotada, não permitiu a Mariah dar um passo, por mais que quisesse
fugir para longe. Ao contrário, Grey estava a dois passos da saída quando
começou a andar em sua direção.
Um brilho diferente transformara o semblante de Mariah, notou logo Grey.
Na ânsia de percorrer com o olhar o corpo tão desejado, chamou sua atenção o
decote da blusa rosa, onde despontavam seios bem mais opulentos que antes.
Não foi preciso olhar muito mais para perceber o óbvio, Mariah estava grávida.
Raiva, mágoa, ciúme se misturavam em um torvelinho, sufocando-o. Aquele filho
devia ser dele, foi o primeiro pensamento ordenado depois do choque inicial.
Como um autômato segurou o braço de Mariah, como se quisesse ter certeza
de que ela era real.
Contendo sua emoção, ainda teve presença de espírito para olhar para Jade e
Sam e, polidamente pedir-lhes:
- Será que me dão licença por alguns minutos? Gostaria de trocar duas
palavras com Mariah a sós.
Mariah olhou de maneira suplicante para Jade, que, sem hesitar falou:
- Você precisa contar a ele. Ou eu conto.
Sam Haight ofereceu o braço para Jade e, cortês, convidou-a para tomarem
um licor longe dali.
- Eu adoraria um daiquiri, senhor. Vamos?
Na mesma hora, Grey tomou Mariah pelo braço e encaminhou-se para o
restaurante de novo, sentando-se à mesa reservada para ela. Longe de ser o
local ideal para uma conversa reservada era no entanto a única opção para eles.
Nervoso, Grey pediu um drinque antes de se sentar, e só falou depois do
primeiro gole, mesmo assim, tremendo.
- Como vai você?
- Bem. E você?
Tamborilando os dedos na mesa, em desconforto evidente, nenhum deles
parecia capaz de tocar no assunto da gravidez. Dois goles depois, Grey tomou
coragem e arriscou.
- Vejo que não perdeu tempo para começar uma família. Quem é o felizardo?
Richard?
Eles se entreolhavam com tanta desconfiança, sem conseguirem encarar de
frente um ao outro. Mariah sentiu-se especialmente incomodada com a dor
expressa nos olhos castanhos de Grey.
- Isso não importa.
- Não importa você ter se casado e estar grávida pouco depois de terminarmos
uma relação como aquela?
Vendo que de nada adiantaria fugir da realidade, Mariah abreviou quanto
pôde a tortura. Dolorosa ou não, precisava encarar de frente a situação. E Grey
não a deixaria sair sem uma explicação convincente.
- Eu não me casei. - A frase foi sussurrada por Mariah.
Os indícios eram bastante claros, e Grey não era tão tolo a ponto de não
enXergar o óbvio. Mas por algum motivo, foi difícil para ele se convencer de
que não havia mistério algum sobre a paternidade do filho de Mariah. Pouco ou
nada afeito ao convívio com mulheres grávidas, não foi fácil para ele olhar para
Mariah e aceitar as mudanças trazidas pela gravidez. Simultaneamente, foi
tomado por um frêmito de felicidade tão intenso que o assustou. lndefinível
sensação era aquela que o deixou atônito por minutos.
Aproveitando o estado de perplexidade dele, Mariah levantou-se, e deixou-o
ali, saindo à procura de Jade depois de dizer:
- Grey, preciso ir.
Mas ele a alcançou, e com firmeza segurou-a pelo braço, perguntando o óbvio:
- De quem é o bebê?
- Meu. Solte-me!
- Mariah! Quem é o pai do seu filho?
- Não é da sua conta.
A firmeza no olhar e no tom de voz de Grey era indicativo perigoso de que ele
estava prestes a perder a paciência. - Eu acho que é da minha conta.
Com os olhos tomados pelas lágrimas, os lábios tremendo para conter o pranto,
foi com esforço sobre-humano que ela resistiu ao impulso de pular nos braços
dele, à procura de um pouco de carinho e proteção.
Mas ele queria respostas, e não a deixaria sair sem uma explicação, aliás sem
que a verdade fosse revelada na íntegra. Por nada no mundo ele a desculparia.
Há testes para comprovação de paternidade. – Soou ameaçadora e fria a
voz de Grey.
O efeito foi forte o bastante para que a cor sumisse das faces de Mariah.
Chorando, não ofereceu mais resistência.
- Por que você quer saber?
Será que era preciso dizer que a amava? Aquela era a resposta que, em
outras circunstâncias, ela teria ouvido. Mas não naquele momento, não depois
de tanta luta inglória para ser entendido.
- Responda a minha pergunta.
Cerrou os olhos para ter forças, e quando os abriu, foi para encarar a
realidade cruel e inevitável.
- Você é o pai, Grey.
Imediatamente ele soltou seu braço, dando um passo para trás sob o impacto
da notícia. Subitamente não conseguia mais respirar, faltava-lhe oxigênio. Ela
teria um filho dele, mesmo que ele não aceitasse o fato de ser pai.
Aterrorizado com a inevitável verdade à sua frente, sentiu o chão sumir sob
seus pés. Como poderia encarar aquela tarefa? E se, inconscientemente, agisse
tal qual seu pai fizera?
Mais aliviada que outra coisa, Mariah caminhou pelo salão à procura de Jade.
E quando Grey voltou a falar com ela, um pouco de tranqüilidade a impediu de
tremer.
- Ainda não terminei de falar, Mariah.
- Não há nada para falar.
. - Por que você não me procurou quando soube disso?
- Disso? Acho que você mesmo respondeu a pergunta. Ficou claro para mim qual
sua posição a respeito de filhos.
- Cabe a mim resolver o que penso ou não sobre isso.
- Fique certo de que eu não espero nada de você, aliás, não quero nada. Jamais
suportaria ver alguém obrigado a se sacrificar por causa do meu filho, seria
ruim para todos. Ele merece muito mais que isso.
As palavras acertaram-no em cheio, como um soco no estômago. Senhor, ela
estava absolutamente certa. Por instinto, talvez, Mariah colocara as mãos
sobre a barriga, como se quisesse proteger o bebê. Ela merecia muito, muito
mais do que ele poderia oferecer. Aquela criança talvez sofresse menos se
crescesse sem ter pai do que tendo um pai ruim ao lado. E ele não podia ser um
bom pai para ninguém.
Desamparo e medo tomaram conta de Grey, desarmando-o completamente.
Confuso, não sabia o que fazer ou para onde correr em busca de apoio,
exatamente como antigamente, quando era criança. .
Mas a criança crescera, agora ele era um homem. Formara-se na escola mais
dura e severa que existe, a escola da vida, conhecera de perto a humilhação e a
crueldade humana desde cedo, graças ao seu próprio pai.
Engolindo em seco, pensou racionalmente. Querendo ou não, aquela criança
viria ao mundo, e seria seu filho. Restava a ele decidir como lidar com aquela
situação, com aquela armadilha cruel que o destino. reservara para ele e para
um inocente.
CAPITULO XI

Na praça central do Wilshire Plaza, um pequeno e elegante shopping center de


Los Angeles, Grey olhou para o relógio de pulso, o cenho franzido exprimia
ansiedade. Estava atrasado mais de uma hora e quarenta minutos no horário
marcado pelo seu alfaiate para prova dos ternos que mandara fazer.
Sua vida se transformara a partir daquele último encontro que tivera com
Mariah. Se não fosse Jeanie, nem conseguiria calçar os sapatos pela manhã sem
tropeços. Devia a ela ainda conseguir levar adiante seus negócios.
O bebê não lhe saía da cabeça nem por um segundo. O bebê de Mariah. Ela
estava assumindo sozinha toda a responsabilidade sobre aquela criança. Mesmo
sofrendo, dia a dia aumentava sua certeza de ter tomado a decisão correta.
Nada poderia transformá-lo em um bom pai.
A família feliz que seu filho e Mariah mereciam ter ele não poderia dar.
Quem, como ele, só conhecera hostilidade e ressentimentos na infância não
saberia jamais oferecer outra coisa. A idéia de viver o papel de marido e pai
era tão medonha para Grey quanto as lembranças mais terríveis de sua
memória.
Perguntava-se sem cessar como não conseguira evitar que o maior erro da
sua vida acontecesse? E, pior, mesmo consciente daquilo, por que ainda pensava
naquele bebê com tanta emoção?
Procurava entre as muitas lojas à sua frente a do seu alfaiate. Recém-
inaugurada, Grey não a conhecia. Irritou-se com a mudança, com o alfaiate, com
tudo.
Entre o burburinho do shopping, um ruído chamou-lhe a atenção. Perspicaz,
procurou identificar de onde vinha aquele som estranho. Plantas, vasos e
estátuas adornavam o suntuoso pátio, poucas pessoas circulavam e não foi
difícil para Grey encontrar a origem daquele barulho.
Sob a folhagem de uma palmeira, agachada, uma menininha chorava baixinho,
visivelmente assustada. Não devia ter mais que cinco ou seis anos de idade,
cabelos castanhos caíam-lhe na testa quase cobrindo seus olhos azuis como
contas de vidro.
Bastou um passo de Grey em sua direção, e a bonequinha mostrou-se
ainda mais atemorizada. Uma onda de ternura tomou-o de assalto, teve vontade
de proteger, cuidar daquela criança. Se uma criança desconhecida despertara
tudo aquilo, como seria poderosa a sensação de estar com seu próprio filho?
Seu filho. O bebê que Mariah carregava dentro de si. Como por encanto, tudo
começou a fazer sentido. Como não percebera antes?
- Meu nome é Grey - disse, tentando ganhar a confiança da garotinha. - E o seu,
qual é?
- B-Brandy. Mas eu não posso falar com estranhos. - Entendo, mas Brandy,
onde está sua mãe? Voltando a chorar, resmungou:
- Não sei, eu parei para olhar uma boneca naquela loja, e a mamãe sumiu.
- Querida, prometo que vamos achar sua mãe. Por que não segura minha mão?
Depois de hesitar um pouco, a menina acabou cedendo, seus grandes olhos
azuis olhavam Grey com um misto de temor e esperança.
Logo encontraram o balcão de informações, onde uma jovem simpática se
dispôs a localizar a mãe de Brandy, acionando para aquilo a segurança do
shopping pelo rádio. Dirigindo-se primeiro a Grey, informou:
- Senhor, fique tranqüilo, ela será rapidamente localizada. Somos gratos pelo
que fez. - E olhando para Brandy, disse: - Doçura, não quer se sentar aqui
comigo enquanto espera?
Mas a menina balançou a cabeça negativamente ao mesmo tempo que agarrava
com mais força os dedos de Grey.
- Não, quero ficar com ele.
A jovem olhou para Grey, que assentiu em ficar com Brandy. A poucos metros,
uma colorida loja de doces levou-o a convidar a menina para tomar sorvete.
- Quero um bem grande de chocolate, pode?
- Claro que pode. Vamos? - Divertiu-se com o sorriso de felicidade estampado
no rosto dela.
Minutos mais tarde, enquanto via Brandy lambuzar-se toda de chocolate, Grey
não conseguiu se recordar de quando fora a última vez que tivera um copinho
de sorvete nas mãos. E, de repente, lá estava ele, adorando cada minuto
daquele programa inesperado.
Ele ia ser pai. Saído do nada, um relâmpago de lucidez assaltou-o, trazendo à
tona toda a comoção reprimida desde que soubera. que Mariah esperava um
filho, filho dele e dela, fruto do amor deles.
Mas não pudera suportar o peso que a paternidade representava para ele. O
medo de repetir os mesmos erros de seu pai quase o levara a um erro muito
maior, privar-se e privar seu filho de momentos como aquele que estava
vivendo.
Grey superara, naquela meia hora, muitos dos temores que o' acompanhavam
desde a infância. Um pouco de paciência e carinho tinham sido suficientes para
cuidar da garotinha perdida.
Claro que ainda o atemorizava a idéia de ser pai mas, ao mesmo. tempo,
também odiaria que seu filho ou filha crescesse sem um pai para amá-lo.
Grey percebeu que amaria, ou melhor já amava aquela criança, a despeito do
que quer que houvesse resolvido anteriormente. Ansiava pelos seus sorrisos,
queria compartilhar cada minuto bom ou ruim dele ou dela.
Queria estar por perto quando precisasse de ajuda, como fizera com aquela
menina.
- Você é um homem muito bom, muito melhor do que seu pai jamais foi.. As
palavras de Mariah voltaram-lhe à mente e dissiparam qualquer dúvida que
ainda restava.
Ela acreditara nele, mas será que aquela crença resistiria à sua própria
estupidez?
Como pudera ser tão tolo a ponto de abandoná-la? O que ela pedia era tão
pouco, e ainda assim ele negara. Como também se negara a admitir que queria
tanto quanto ela uma família estável e feliz. Tudo por medo, medo de fracassar
e sofrer. Mas não estava sofrendo agora, desistindo sem tentar?
Restava saber se não era tarde para pedir a Mariah que lhe perdoasse. Tinha
de achar uma maneira de reparar seus erros, imediatamente.
Brandy precisou puxar com força a manga do paletó até conseguir sua
atenção, perdido que estava naqueles pensamentos. Só então Grey reparou que
o sorvete de chocolate deixara vestígios não só no rostinho da menina, mas
nela toda, e nem seu terno fora poupado.
- Obrigada, sr. Grey, gostei muito do sorvete. Gostei muito do senhor
também.
Um nó se formou na garganta de Grey, e ele só não desatou a soluçar porque
foi surpreendido pela mãe de Brandy que, de longe, gritou:
- Filhinha! Brandy!
E correu para onde eles estavam, ela sim, chorando convulsivamente, mesmo
quando abraçou a filha. Depois de certificar-se de que a menina estava ali, sã e
salva, olhou para Grey.
- Nunca tive tanto medo na vida. Ela estava comigo e um minuto depois não
estava mais. Obrigada. Muito, muito obrigada.
Grey despediu-se de ambas, e quando saiu do shopping tinha a alma leve,
como se tivesse deixado para trás uma parte triste de sua vida.
- Entre aqui.
Mariah lançou um olhar irritado para Grey, mas fez o que ele disse, já que o
jipe, dele estava bem no meio do estacionamento lotado, atrapalhando o
tráfego.
Ultimamente Mariah não sabia mais o que esperar de Grey, depois que o vira
invadir seu escritório, havia duas semanas, reclamando seus direitos de pai,
tudo mais era possível. Ainda estava se perguntando o que o fizera mudar de
idéia tão repentinamente naquele momento, como entender aquela atitude
inusitada.
Visivelmente contrariada com a situação, não escondeu sua impaciência.
- Grey, você não pode me seqüestrar toda vez que tivermos uma discussão.
- Não estou seqüestrando você.
De qualquer maneira, o carro já estava na pista expressa da avenida, e não
havia nada que indicasse que Grey pretendesse dar meia-volta.
- Não? E como você chama me abordar no estacionamento, colocar-me dentro
do seu carro, levando-me para onde bem entende?
- Não faça drama, por favor. Eu apenas achei que seria melhor falarmos a
sós.
- Nossa, quanta gentileza... Mas sinto não ter tempo para conversar agora,
Jade me espera.
- Mariah, quando é que vamos conseguir conversar como dois adultos?
- Não há nada que eu queira falar com você – afirmou convicta.
- Então, por favor, me ouça.
Ela tampouco gostaria de ouvi-Io, mas, aparentemente, não tinha outra
opção, a não ser que se atirasse do carro em movimento. Resignou-se, porém
fez questão de manterse calada e com os olhos fixos na janela lateral.
Antes de começar, Grey pigarreou uma ou duas vezes, limpando a garganta.
Mariah teve a desagradável impressão de que seria longo o discurso.
- Como sabe, faço absoluta questão de acompanhar o crescimento do meu
filho...
- Grey, já falamos disso, será que não se importa em ir direto ao assunto?
- Se insiste... Bem, eu quero começar já, quero dizer, quero acompanhar sua
gravidez até o final.
- Você quer? - indagou ela, um tanto quanto desconfiada das intenções dele.
- Quero. Eu posso acompanhá-la ao médico, não posso?
- Ele estava vibrando com a expectativa.
- Pode.
Aquela idéia não a agradava, mas não tinha o direito de privá-lo daquilo ou
privar seu bebê de sentir o pai perto dele desde a gestação.
Refletindo sobre aquilo, chegou à melancólica conclusão de que seria doloroso
tê-Io ao lado, e ao mesmo tempo não estar próximo. Estariam juntos, mas não
compartilhariam das mesmas emoções.
- Quanto à preparação para o parto, para acompanhar você... Precisamos ir
juntos ao curso.
- Grey! - Estupefacta, Mariah não se conteve. – Jade é minha acompanhante. O
curso já começou há meses.
- O filho é meu, agradeço a Jade, mas nada vai me impedir de ver meu filho
nascer. Eu insisto em estar com você nessa hora. E desviou o olhar da estrada
para ela: - Você não vai me impedir, vai?
Mariah estava apreensiva com a determinação de Grey. Começou a cogitar a
possibilidade de que ele pudesse estar pensando em requerer a guarda do
bebê.
- Claro que não. Fique certo de que nada vai se interpor entre você e seu
filho. Mas não se sinta pressionado, eu sei como sua vida é atribulada, jamais
me ocorreu contar com a sua presença todos os dias. Fico feliz que se importe
tanto com ele.
- Eu encontrarei tempo para vê-lo todo dia. Distraída, só quando sentiu um
solavanco deu-se conta de onde estavam. Seu coração se confrangeu com a
vista da casa de Grey. A casa de um homem solteiro, sem espaço para fraldas
ou mamadeiras, sem lugar para uma criança que pudesse sujar com pezinhos de
terra os tapetes raros.
Não havia lugar naquela casa para ela, nem para seu bebê. Exatamente como
na vida de Grey, eles eram intrusos. Sentiu-se desamparada e com uma enorme
vontade de chorar.
Estacionados em frente à casa, Mariah percebeu que Grey também parecia
incomodado. Timidamente estendeu a mão e tocou sua barriga, temeroso, como
se esperasse ser rejeitado. Quando seus olhares se encontraram, Mariah
enterneceu-se.
- Queria fazer isso há algum tempo, mas tive medo de que você não deixasse.
- E o que o fez pensar que eu deixaria agora?
- Arrisquei. - Sem mexer a mão, perguntou. – Você sente ele se mexer?
Um enorme sorriso iluminou-a e esquecida de todo o ressentimento,
concentrou-se, e guiou a mão de Grey para que sentisse o seu filho. Em estado
de graça, Grey não parava de sorrir.
Enquanto brincava e acarinhava a barriga onde seu filhinho estava, Grey não
pôde evitar que seus olhos recaís sem sobre os seios exuberantes de Mariah e,
em seguida, na boca e nos olhos.
- Nunca a vi tão bonita.
Ele não estava mentindo, seus olhos comprovavam aquilo. O desejo e o amor de
Mariah por ele eram seus pontos vulneráveis, muito vulneráveis.
- Grey, não faça assim....
- Assim como?
Seu corpo clamava por Grey, mas aquilo não a impediu de reagir envergonhada
quando ele tentou escorregar sua mão para debaixo de sua blusa,
- Não faça isso, por favor.
- O que há de errado em dizer para uma mulher como está linda?
Especialmente se essa mulher carrega um filho meu.
Quase tudo, pensou Mariah, se essa mulher está com o coração estraçalhado
por sua causa. Pensou mas guardou para si, desviando o olhar para longe dele.
- Eu ainda a quero muito, Mariah. - Sinceridade e afeto davam um timbre
novo à sua voz. - O tempo em que estivemos separados só serviu para aumentar
o que sinto por você. E para que eu percebesse o que estava faltando na minha
vida.
afastando-se dele, Mariah procurou se defender de mais uma decepção. Por
mais difícil que fosse, tinha de resistir aos apelos de Grey, ou se arrependeria
mais tarde. Estava farta de repetir os mesmos erros, por isso perguntou logo: -
Afinal, o que estamos fazendo aqui?
Olhou para a casa demoradamente, como se a visse pela primeira vez, e só
então respondeu, enquanto abria a porta para ela.
- Tenho algo para lhe mostrar. Vamos entrar?
Mariah ia dizer não, pedir que a levasse de volta, mas o brilho no olhar de Grey
a fez mudar de idéia e aceitar o convite.
Puxando-a pela mão, atravessaram rapidamente o vestíbulo, galgando os
degraus até o piso superior. A cada passo dado, os músculos de Grey se
retesavam mais e mais, tornando perceptível seu nervosismo.
Ele parou em frente ao quarto menor, tomando fôlego antes de bater na
porta fechada, indicando que estava ali a surpresa.
Apreensiva, Mariah não conseguia atinar o que poderia haver ali dentro,
capaz de provocar tamanha comoção. Vagarosamente a porta foi sendo aberta,
desvendando aos seus olhos incrédulos o porquê do comportamento de Grey.
O que estava diante dela era a realização de um sonho, do seu sonho. O
quarto do bebê, exatamente como havia imaginado, estava ali, diante de seus
olhos. Até o papel de parede de bichinhos e o enorme urso de pelúcia eram
idênticos aos sonhados por ela.
Trêmula, sem saber se ria ou chorava,. Mariah passeou pelo quarto, tocando
cada objeto, como se precisasse daquilo para se certificar de que não estava
tendo uma alucinação.
Sobre o bercinho, uma caixinha de música em forma de palhacinho começou a
tocar uma antiga cantiga de ninar, a mesma que ouvira de sua mãe, na infância.
Soluçando, Mariah deixou-se levar pela emoção.
- Você não gostou? Jade me jurou que era esse o quarto que você tinha
imaginado.
- Oh, claro... - Sorriu ela. - Quem mais poderia ser?
O sorriso morreu nos lábios de Mariah ao imaginar que aquele quarto era
para o seu filhinho, seu e de Grey, mas aquela casa não era sua. E a idéia de ter
que se separar do bebê quando ele viesse para aquele quarto a aterrorizou.
E tudo levava a crer que Grey estava disposto a dividir com ela a guarda da
criança.
- Não discuto seu direito de pai, mas não vou deixar que uma babá tome
conta do meu filho.
- Uma babá? - E seu rosto adquiriu um ar maroto. Desculpe, esqueci de
contar...
- Contar o quê, Grey?
- Que quero me casar com você, Mariah.
- Como assim?
- Igreja, cartório... E tudo mais que for preciso para que eu possa ter a família
que sempre desejei. É isso, Mariah, eu quero me casar com você. Como nunca eu
quis nada na minha vida.
- Oh, Grey, isto é um sonho?
- Não, querida, isto é a vida real. Comum, normal e feliz. Eu apenas demorei
para aceitar que mereço um pouco da felicidade que você sempre me ofereceu.
Será que é tarde demais para você me perdoar?
- Não, nunca é tarde. Eu ainda o amo, Grey Nichols.
- Mariah, eu amo você e posso lhe garantir que este amor é para sempre.
Tomando-a nos braços, Grey selou seu compromisso com um longo e
apaixonado beijo, o primeiro beijo de uma vida inteira de carinhos e felicidade.
FIM!

JANELLE DENISON adora escrever histórias picantes, sensuais, repletas


de momentos de amor. Ela se diz convencida de que o amor é o que pode
acontecer de mais belo na vida de uma pessoa. Seja ele de verdade ou através
das páginas de livros.