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ISSN 1980-1858

Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras


UFMS / Campus de Três Lagoas

Set./Dez. 2019

31
Diferentes incursões pela
linguagem: uma homenagem a
Dercir Pedro de Oliveira
(in memorian)

ORGANIZADORES:
Prof. Dr. Sebastião Carlos Leite Gonçalves
(Universidade Estadual Paulista – UNESP
Câmpus de São José do Rio Preto, BR)

Profa. Dra. Taísa Peres de Oliveira


(Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS
Câmpus de Três Lagoas, BR)
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul x

Reitor
Marcelo Augusto Santos Turine

Vice-Reitor
Camila Celeste Brandão Ferreira Ítavo

Diretor do Campus de Três Lagoas


Osmar Jesus Macedo

Editor-Chefe
Kelcilene Grácia-Rodrigues

Editoração e Diagramação
Kelcilene Grácia-Rodrigues

Arte da Capa
Natália Tano Portela (UFMS)

Organizadores do Dossiê deste volume


Sebastião Carlos Leite Gonçalves
(Universidade Estadual Paulista – Câmpus de São José do Rio Preto, BR)

Taísa Peres de Oliveira


(Universidade Federal do Mato Grosso do Sul – Câmpus de Três Lagoas, BR)

Os autores são responsáveis pelo texto final, quanto ao


conteúdo e quanto à correção da linguagem.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
© Copyrigth 2019 – os autores

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(UFMS, Três Lagoas, MS, Brasil)

G918
Guavira Letras: Revista Eletrônica do Programa de Pós-Graduação em Letras

/ Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Programa de Graduação e Pós-


Graduação em Letras. – n. 31 (3. quadrimestre, 2019), 159p. - Três Lagoas, MS,
2019 -

Quadrimestral.
Descrição baseada no: n. 31 (set./dez./ 2019)
Tema especial: Diferentes incursões pela linguagem: uma homenagem a Dercir
Pedro de Oliveira (in memorian).

Organizadores:
Sebastião Carlos Leite Gonçalves (Universidade Estadual Paulista/Campus de São
José do Rio Preto)
Taísa Peres de Oliveira (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/Campus de
Três Lagoas)

Editor:
Kelcilene Grácia-Rodrigues (Editor-Chefe)

ISSN 1980-1858

1. Letras - Periódicos. 2. Estudos Linguísticos


I. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Programa de Pós-Graduação
em Letras. II. Título.

(Revista On-Line: http://www.guaviraletras.ufms.br)


CDD (22) 805

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Conselho Editorial x

Amanda Eloina Scherer (UFSC – Brasil)


Angela Stube (UFFS – Brasil)
Aparecida Negri Isquerdo (UFMS – Brasil)
Arnaldo Saraiva (Universidade do Porto – Portugal)
Beatriz Eckert-Hoff (UnB – Brasil)
Celina Aparecida Garcia de Souza Nascimento (UFMS – Brasil)
Diana Luz Pessoa de Barros (USP/Mackenzie – Brasil)
Eneida Maria de Souza (UFMG – Brasil)
Graciela Inés Ravetti de Gómez (UFMG – Brasil)
Ivânia dos Santos Neves (UFPA – Brasil)
João Luís Cardoso Tápias Ceccantini (UNESP/Assis – Brasil)
José Antonio Sabio Pinilla (Universidad de Granada – Espanha)
José Luiz Fiorin (USP – Brasil)
Kelcilene Grácia-Rodrigues (UFMS – Brasil)
Luciano Tosta (University of Kansas – Estados Unidos)
Luiz Gonzaga Machezan (UNESP/Araraquara – Brasil)
Marcela Moura Torres Paim (UFBA – Brasil)
Márcia Aparecida Amador Máscia (USF – Brasil)
Márcia Teixeira Nogueira (UFCE – Brasil)
Maria Beatriz Nascimento Decat (UFMG – Brasil)
Maria Cristina Cardoso Ribas (UERJ – Brasil)
Maria do Rosário Valencise Gregolin (UNESP/Araraquara – Brasil)
Maria Filomena Gonçalves (Universidade de Évora – Portugal)
Maria José Faria Coracini (UNICAMP – Brasil)
Maria Luisa Ortiz Alvarez (Universidade de Brasília – Brasil)
Marisa Philbert Lajolo (Mackenzie – Brasil)
Pablo Segovia Lacoste (Universidad de Concepción – Chile)
Rauer Ribeiro Rodrigues (UFMS – Brasil)
Rita Maria Silva Marnoto (Universidade de Coimbra – Portugal)
Roberto Acízelo Quelha de Souza (UERJ – Brasil)
Roberto Leiser Baronas (UNEMAT – Brasil)
Rosario Álvarez (Universidade de Santiago de Compostela – Espanha)
Silvia Inês Coneglian Carrilho de Vasconcelos (UEM – Brasil)
Simone de Souza Lima (UFAC – Brasil)
Tania Maria Sarmento-Pantoja (UFPA – Brasil)
Vera Lúcia de Oliveira (Università degli Studi di Perugia – Itália)
Vera Teixeira de Aguiar (PUC/Porto Alegre – Brasil)
Véronique Marie Braun Dahlet (USP – Brasil)
Xulio Sousa (Universidade de Santiago de Compostela)

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Sumáriox

Editorial .......................................................................................................................... 8

Dossiê: Diferentes incursões pela linguagem: uma homenagem a Dercir Pedro


de Oliveira (in memorian)

Diferentes incursões pela linguagem .............................................................................. 12

Sebastião Carlos Leite GONÇALVES


(Universidade Estadual Paulista/Câmpus de São José do Rio Preto/CNPq)

Taísa Peres de OLIVEIRA


(Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/ Câmpus de Três Lagoas)

Estou aqui? ………………………................................................................................. 19

Aguinaldo José GONÇALVES


(Universidade Estadual Paulista/Câmpus de São José do Rio Preto)

A questão do erro linguístico ......................................................................................... 22


The issue of the linguistic mistake

José Luiz FIORIN


(Universidade de São Paulo)

O Avesso das Coisas: um caso de subversão do regime enunciativo?” ......................... 38


The Reverse of the things: is it a case of subversion of the enunciative regime?

Anna Flora BRUNELLI


(Universidade Estadual Paulista/Câmpus de São José do Rio Preto)

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Articulação de cláusulas na retextualização da fala para a escrita ……………………. 49
Clause combining upon retextualization from spoken to written language

Maria Beatriz Nascimento DECAT


(Universidade Federal de Minas Gerais)

Crenças e atitudes linguísticas acerca dos sequenciadores aí, daí e então na Cidade de
Goiás ............................................................................................................................... 61
Creencias y actitudes linguísticas acerca de los secuenciadores aí, daí y então en la
Ciudad de Goiás

Marília Silva VIEIRA


(Universidade Estadual de Goiás)

A Via Láctea continua no espaço sideral, mas desparece dos atlas linguísticos ............ 74
The Via Láctea (‘milky way’) continues into outer spaces, but it disappears from the
linguistic

Vanderci Andrade AGUILERA


(Universidade Estadual de Londrina/CNPq)

Se outro amor surgir um dia, a valsa perde o ar: um estudo sobre a variação (e
mudança) da morfologia verbal em construções condicionais ……............................... 88
“Se outro amor surgir um dia, a valsa perde o ar”: a study on verbal morphology
variation (and change) in conditional constructions

Rosane de Andrade BERLINCK


(Universidade Estadual Paulista/Câmpus de Araraquara/CNPq)

O efeito de múltiplas variáveis na percepção sociolinguística ....................................... 108


The effect of multiple variables on sociolinguistic perception

Ronald Beline MENDES


(Universidade de São Paulo/CNPq)

A Sociolinguística ‘paramétrica’: desfazendo equívocos .............................................. 124


The “parametric” Sociolinguistics: undoing some mistakes

Maria Eugenia Lammoglia DUARTE


(Universidade Federal do Rio de Janeiro/CNPq)

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Padrões de alinhamento e voz em kaiowá ..................................................................... 141
Alignment patterns and the voice in kaiowá

Valéria Faria CARDOSO


(Universidade Estadual de Mato Grosso/Alto Araguaia)

Um professor digno de homenagem: em especial, a visão do aluno como centro de


interesse .......................................................................................................................... 152
A professor worthy of tribute: especially, the view of students at the center of interest

Maria Helena de Moura NEVES


(Universidade Estadual Paulista/Câmpus de Araraquara)
(Universidade Presbiteriana Mackenzie/CNPq)

Foto do Prof. Dr. Dercir Pedro de Oliveira .................................................................... 159

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Editorial x

O número 31 da Guavira Letras homenageia o Prof. Dr. Dercir Pedro de Oliveira (in
memorian), linguista que, durante o tempo que esteve no nosso convívio, se mostrou
fortemente engajado com a Ciência da Linguagem, com importantes contribuições em
diferentes áreas.

O Prof. Dercir exerceu, para além de sua atuação acadêmica como docente nos cursos
de Graduação e Pós-Graduação, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)
funções administrativas, tais como Coordenador de Curso, Chefe de Departamento, Diretor do
Câmpus de Três Lagoas, Chefe da Coordenadoria de Pesquisa e Pós-Graduação e Pró-Reitor
de Pesquisa e Pós-Graduação da UFMS.

Fui aluna do Prof. Dercir na graduação em Letras da UFMS/Câmpus de Três Lagoas e


com ele conheci os fundamentos da linguística. Primeiro, convivi com ele como discente;
depois, como colega na UFMS/Câmpus de Três Lagoas. Posso dizer que o Prof. Dercir não
mediu esforços, tanto como docente/pesquisador quanto como administrador, para o
crescimento da UFMS e do Câmpus de Três Lagoas. Entre tantas ações, trabalhou
intensamente junto com vários professores para implantar o Programa de Pós-Graduação em
Letras, em nível de Mestrado, aprovado pela CAPES em 1998. Como Pró-Reitor de Pesquisa
e Pós-Graduação, envidou esforços para criação do Curso de Doutorado, do Doutorado
Institucional (DINTER) e do Mestrado Profissional em Letras. Na época, atuava como
Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPG-Letras) de Três Lagoas,
acompanhei a implantação do PROFLETRAS e participei ativamente da realização dos
projetos e da implantação do Doutorado e do DINTER em Letras.

Primeiro, foi aprovado, em 2012, o Doutorado Institucional em Letras


(DINTER/Letras) pela CAPES entre a UFMS/Câmpus de Três Lagoas (Instituição Receptora,
sob a minha coordenação e gestão financeira) e a Universidade Presbiteriana Mackenzie
(Instituição Promotora, sob a coordenação da Profa. Dra. Maria Helena de Moura Neves). Em
2013, iniciou-se o cronograma de atividades acadêmicas do DINTER. Em janeiro de 2017, o
projeto foi concluído com a titulação de doutores em Letras de docentes da UFMS e de outras
instituições de ensino do Estado de Mato Grosso do Sul. Ainda em 2013, com o Prof. Dercir
como Pró-Reitor de Pesquisa (eu era a Coordenadora do PPG-Letras), foi aprovado o Curso
de Doutorado em Letras, que começou suas atividades em 2014.

Hoje, como Editora-Chefe, vejo a Guavira Letras render homenagem ao Prof. Dr.
Dercir Pedro de Oliveira, com o Dossiê: Diferentes incursões pela linguagem: uma
homenagem a Dercir Pedro de Oliveira (in memorian).

Para a presente edição, os professores Sebastião Carlos Leite Gonçalves (Universidade


Estadual Paulista/Câmpus de São José do Rio Preto) e Taísa Peres de Oliveira (Universidade

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Federal de Mato Grosso do Sul/Câmpus de Três Lagoas) elaboraram a proposta de reunir
trabalhos de áreas variadas da Ciência da Linguagem, de modo a evidenciar o trânsito do
nosso homenageado e os sólidos contatos que travou com renomados pesquisadores.

Os artigos desta edição são assinados por autores de diferentes instituições:


Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Goiás (UEG), Universidade
Estadual de Londrina (UEL), Universidade do Estado de Mato Grosso/Alto Araguaia
(UNEMAT), Universidade Estadual Paulista/Câmpus de São José do Rio Preto (UNESP),
Universidade Estadual Paulista/Câmpus de Araraquara (UNESP), Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade
Presbiteriana Mackenzie (UPM).

Conforme o agrupamento dos textos dado pelos organizadores, em “centrais” e “textos-


homenagem”, o Dossiê é disposto da seguinte forma: 1. Diferentes incursões pela linguagem:
uma homenagem a Dercir Pedro de Oliveira (in memoriam), de Sebastião Carlos Leite
Gonçalves (Universidade Estadual Paulista/Câmpus de São José do Rio Preto – UNESP) e
Taísa Peres de Oliveira (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/Câmpus de Três
Lagoas – UFMS/CPTL). Constando como apresentação do Dossiê; é artigo que delineia a
trajetória da carreira acadêmica e a razão de se propor um número temático dedicado “[...] à
figura ilustre desse [Dercir Pedro de Oliveira] linguista, professor, pesquisador, gestor, um
amigo”; 2. Estou aqui?, de Aguinaldo José Gonçalves (Universidade Estadual
Paulista/Câmpus de São José do Rio Preto – UNESP); 3. A questão do erro linguístico, de
José Luiz Fiorin (Universidade de São Paulo – USP); 4. O Avesso das Coisas: um caso de
subversão do regime enunciativo?, de Anna Flora Brunelli (Universidade Estadual
Paulista/Câmpus de São José do Rio Preto – UNESP); 5. Articulação de cláusulas na
retextualização da fala para a escrita, de Maria Beatriz Nascimento Decat (Universidade
Federal de Minas Gerais – UFMG); 6. Crenças e atitudes linguísticas acerca dos
sequenciadores aí, daí e então na Cidade de Goiás, de Marília Silva Vieira (Universidade
Estadual de Goiás – UEG); 7. A Via Láctea continua no espaço sideral, mas desparece dos
atlas linguísticos, de Vanderci Andrade Aguilera (Universidade de Londrina – UEL); 8. Se
outro amor surgir um dia, a valsa perde o ar: um estudo sobre a variação (e mudança) da
morfologia verbal em construções condicionais, de Rosane de Andrade Berlinck
(Universidade Estadual Paulista/Câmpus de Araraquara – UNESP); 9. O efeito de múltiplas
variáveis na percepção sociolinguística, de Ronald Beline Mendes (Universidade de São
Paulo – USP); 10. A Sociolinguística ‘paramétrica’: desfazendo equívocos, de Maria Eugênia
Lammoglia Duarte (Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ); 11. Padrões de
alinhamento e Voz em kaiowá, de Valéria Faria Cardoso (Universidade Estadual de Mato
Grosso/Alto Araguaia – UNEMAT); 12. Um professor digno de homenagem: em especial, a
visão do aluno como centro de interesse, de Maria Helena de Moura Neves (Universidade
Estadual Paulista/Câmpus de Araraquara – UNESP/ Universidade Presbiteriana Mackenzie –
UPM/CNPq).

Externo os meus sinceros agradecimentos aos professores Sebastião Carlos Leite


Gonçalves e Taísa Peres de Oliveira pela brilhante iniciativa em propor um Dossiê
homenageando o Prof. Dercir Pedro de Oliveira. Agradeço aos professores Aguinaldo José
Gonçalves, Anna Flora Brunelli, José Luiz Fiorin, Maria Beatriz Nascimento Decat, Maria

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Eugênia Lammoglia Duarte, Maria Helena de Moura Neves, Marília Silva Vieira, Ronald
Beline Mendes, Rosane de Andrade Berlinck, Valéria Faria Cardoso e Vanderci Andrade
Aguilera pelas contribuições.

Boa leitura!

Kelcilene Grácia-Rodrigues
Editora-Chefe

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
DOSSIÊ:

Diferentes incursões pela


linguagem: uma homenagem a
Dercir Pedro de Oliveira (in
memorian).

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Diferentes incursões pela
linguagem

Sebastião Carlos Leite GONÇALVES1


Taísa Peres de OLIVEIRA2

Em homenagem a Dercir Pedro de Oliveira (in memoriam)

O que me dá alegria na carreira acadêmica é o sucesso dos meus alunos. Então sempre
que eu vejo um aluno trabalhando numa universidade, sempre quando eu vejo um livro, eu
vejo um artigo de um ex-aluno meu, enfim eu vejo aluno trabalhando na pós graduação,
eu vejo aluno trabalhando em instituto de pesquisa ai é a maior felicidade que eu tenho.
(Dercir Pedro de Oliveira. In: RODRIGUES; VILELA, 2014, s.p.)

Quem foi Dercir e por que homenageá-lo 12

O excerto usado na epígrafe que abre esta apresentação foi extraído de uma entrevista
concedida por Dercir Pedro de Oliveira (1946-2014), publicada postumamente na Web revista
discursividade (n. 13, v.1, 2017), em sua homenagem. A entrevista é parte de um projeto
desenvolvido por alunos dos cursos de Letras da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul
(UEMS), Câmpus de Campo Grande, que procura resgatar a “Memória de Vida e Didática
Pedagógica de Professores de Língua Portuguesa”, por meio do registro de relatos de
experiência, considerando que a trajetória de um professor possui “uma ‘memória discursiva’
que...” pode/deve ser “de alguma forma ‘socializada’ com os novos professores”, constituindo,
assim, “material de reflexão para as novas gerações de professores” (RODRIGUES; VILELA,
2014, s.p.). Sem dúvida, Dercir foi (e continua sendo) uma fonte de inspiração para aqueles que
com ele conviveram. Sua satisfação com a carreira acadêmica que construiu, ensinando seus
alunos e com eles aprendendo sempre, é revelada em suas palavras, nesta epígrafe, carregadas
de afetividade e de entusiasmo.

1
Universidade Estadual Paulista/ Câmpus de São José do Rio Preto – UNESP/São José do Rio Preto. Professor
Assistente Doutor do Departamento de Estudos Linguísticos e Literários. Pós-doutorado junto ao Programa de
Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/Câmpus de Três Lagoas –
UFMS/CPTL. Grupo de Pesquisa em Estudos Sociofuncionalistas. CNPq. Bolsista de produtividade em
pesquisa. São José do Rio Preto – SP – Brasil. CEP: 15054-000. E-mail: sebastiao.goncalves@unesp.br
2
Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/Câmpus de Três Lagoas – UFMS/CPTL. Professora Associada da
Área de Linguística e Língua Portuguesa e do Programa de Pós-graduação em Letras da UFMS/CPTL. Grupo
de Pesquisa em Estudos Sociofuncionalistas. Três Lagoas – MS – Brasil. CEP: 79613-000. E-mail:
taisapoliveira@gmail.com

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Munidos desse mesmo entusiasmo, ainda que tardiamente, a Guavira Letras, periódico
do Programa de Pós-graduação em Letras da UFMS – Câmpus de Três Lagoas, presta sua
homenagem, com este número temático, à figura ilustre desse linguista, professor, pesquisador,
gestor, um amigo com quem muitos de nós tivemos a oportunidade e o prazer da convivência
de perto, como o leitor poderá constatar em vários dos artigos reunidos neste número, cujos
autores relatam passagens de uma convivência que extrapola o espaço acadêmico. Os relatos
dizem por si e revelam facetas da personalidade de Dercir, que o tornam uma figura simbólica,
símbolo, nas palavras dos próprios autores, de “amizade”, de “bom humor contagiante e
inabalável”, de “generosidade”, de “alegria de viver”, de “espírito agregador”, de “promoção
do outro”, de “solidariedade”, de “professor”, de “orientador”, enfim, símbolo de “uma
consciência transgressora que justifica uma revista composta de textos que tangenciam a sua
imagem em busca de uma captação da sua natureza”.
É na consciência dessa personalidade multifacetada e ao mesmo tempo, porque não
dizer, singular que buscamos motivação para a homenagem que aqui prestamos, uma forma de
reconhecimento das ações de Dercir em prol da difusão do conhecimento científico emanado
da Universidade, especialmente da Universidade a que ele esteve vinculado e na qual construiu
sua trajetória acadêmica – a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Falemos um pouco
dessa sua trajetória.
Dercir foi Licenciado em Letras, pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Lins
(1967-1970), tendo, na sequência, frequentado dois cursos pós-graduação “lato sensu”: o
primeiro em Linguística (1972), na Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara, hoje um
Câmpus UNESP, e o segundo em Língua Portuguesa e Redação (1972-1973), na Faculdade de
Letras da UFMG. Tendo ingressado como professor e pesquisador na UFMS – Câmpus de Três
Lagoas, em 1973, prosseguiu com sua formação acadêmica e obteve os títulos de mestre em 13
Letras, pela Universidade do Sagrado Coração (1980-1982), e o de doutor em Linguística
Aplicada e Estudos da Linguagem, pela PUC-SP (1985-1989), sob orientação do renomado
sociolinguista Fernando Tarallo, que influenciou decisivamente os rumos de sua carreira de
pesquisador. Anos mais tarde (1994-1995), cumpriu estágio de pós-doutorado na Unicamp, sob
a supervisão de Rodolfo Ilari. Paralelamente a essas atividades de formação como professor
universitário, seu espírito inquieto levou-o ainda à obtenção de um segundo título, em nível de
graduação, o de Bacharel em Direito, pelo Instituto Toledo de Ensino de Araçatuba (1982).
Sua sólida formação como linguista, especialmente após a conclusão de seu doutorado
em Sociolinguística, conduziu-o a integrar importantes projetos coletivos de âmbito nacional e
regional, o Projeto de Gramática do Português Falado (1988), o Projeto ALiB (Atlas
Linguístico do Brasil) (1996) e o Projeto ALMS (Atlas Linguístico do Mato Grosso do Sul)
(1996), do qual foi coordenador e para o qual captou recursos de diferentes agências de fomento
(FUNDECT, CNPq, PROPP/UFMS) (OLIVEIRA, 2007, 2006).
Não foram poucos seus esforços frente aos Projetos ALiB e ALMS, no interior dos quais
coordenou uma numerosa equipe de pesquisadores que percorreu 32 cidades do Mato Grosso
do Sul, no registro da fala de 128 informantes, que subsidiou a elaboração de cartas fonéticas,
semântico-lexicais e morfossintáticas, num primorosíssimo trabalho de documentação
linguística compilada no Atlas linguístico de Mato Grosso do Sul, publicado, em 2007, pela
Editora da Universidade Federal do Mato Grosso Sul (OLIVEIRA, 2007).
Desde o ingresso na UFMS, sua liderança no meio acadêmico o conduziu a postos de
destaques na gestão e administração: foi Coordenador do Curso de Direito (1996-2000), Chefe
do Departamento de Educação (1976-1977 e 1982-1984), Diretor do Câmpus de Três Lagoas

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
(1997-2001 e 2001-2005), Chefe da Coordenadoria de Pós-Graduação da UFMS (2005-2008)
e Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação também da UFMS (2008-2014). Apoiou fortemente
o desenvolvimento regional da UFMS em suas diversas unidades espalhadas pelo interior do
estado do MS (Aquidauana, Chapadão do Sul, Corumbá, Coxim, Naviraí, Nova Andradina,
Paranaíba, Ponta Porã e Três Lagoas). Especialmente no Câmpus de Três Lagoas, foi um dos
responsáveis pela implantação dos cursos de graduação em Direito (1996) e em Medicina
(2014) e o de Pós-Graduação em Letras (1997), e do Hospital Universitário, ainda em
construção, iniciativas que renderam a atribuição de seu nome ao Centro Acadêmico do Curso
de Medicina (Centro Acadêmico de Medicina Dercir Pedro de Oliveira), fundado em 2014.
Como o leitor pode observar nessa breve descrição da trajetória acadêmica de Dercir,
sua dedicação à Universidade o constituiu como pessoa que sempre acreditou na construção de
um mundo melhor e mais justo, pelas vias da educação, disseminando, entre nós, a “certeza de
que nada fica para sempre do mesmo jeito”, como bem expressam as palavras de uma das
autoras deste número sobre seu espírito sempre de otimismo e suas próprias palavras na
entrevista acima mencionada: “A universidade para mim hoje é o centro de irradiação do
conhecimento e a grande oportunidade de ascensão social do pobre, é isso.” (In: RODRIGUES;
VILELA, 2014, s.p.). Ou ainda, nas palavras da ex-Reitora da UFMS, Célia Maria da Silva
Correa Oliveira, em entrevista concedida ao jornalista Eduardo Mustafa, do Jornal HojeMais,
de Andradina, em 24/10/2019:

Ele tinha uma grande sede de aprender para ensinar. Dizia sempre: “aprender antes
dos alunos” e “apenas ensina bem quem aprendeu”. Como diria Manoel de Barros,
Dercir foi um esticador de horizontes. (MUSTAFA, 2019).

14

Sobre o Dossiê em sua homenagem

Para além dessas informações da vida acadêmica de Dercir, o leitor encontrará, logo na
abertura dos diversos artigos centrais deste dossiê e na íntegra dos textos de Aguinaldo José
Gonçalves, que abre o volume, e de Maria Helena de Moura Neves, que fecha o volume, o
depoimento de pessoas que, em algum momento, tiveram a oportunidade de com ele conviver
e que, agora, generosamente, atendendo ao nosso chamado para este dossiê temático, rendem
homenagem ao linguista-amigo (ou amigo-linguista, como quiserem!).
As instituições de origem dos autores mostram o alcance de sua rede de contato. Temos
representados no volume autores de nove instituições de seis diferentes estados do Brasil: USP
(Universidade de São Paulo, São Paulo), UPM (Universidade Presbiteriana Mackenzie, São
Paulo), UNESP (Universidade Estadual Paulista, Câmpus de São José do Rio Preto-SP e
Araraquara-SP), UEG (Universidade Estadual de Goiás, Goiás-GO), UFRJ (Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro-RJ), UEL (Universidade Estadual de Londrina,
Londrina-PR), UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte-MG) e
UNEMAT (Universidade do Estado de Mato Grosso, Alto Araguaia-MT). Certamente essa rede
se estenderia para tantos outros lugares por onde ele passou, seja como aluno, como professor,
como pesquisador ou simplesmente como amigo.
As diferentes incursões pela linguagem, aqui representadas neste dossiê-homenagem,
agrupam nove textos centrais do volume, representativos de três áreas dos estudos da
linguagem, e dois textos-homenagem.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Os textos a que chamamos centrais provém das seguintes áreas:

(i) Estudos do Texto e do Discurso, que conta com as contribuições de José Luiz Fiorin (USP),
Anna Flora Brunelli (UNESP) e Maria Beatriz Nascimento Decat (UFMG);

(ii) Sociolinguística e Dialetologia, com os artigos de Marília Silva Vieira (UEG), Vanderci de
Andrade Aguilera (UEL), Rosane de Andrade Berlinck (UNESP), Ronald Beline Mendes
(USP) e Maria Eugênia Lammoglia Duarte (UFRJ);

(iii) Língua Indígena, representada pelo artigo de Valéria Faria Cardoso (UNEMAT).

Escolhidos, um para abrir e o outro para fechar o dossiê, os textos-homenagem de


Aguinaldo José Gonçalves (UNESP – São José do Rio Preto) e de Maria Helena de Moura
Neves (UNESP/UPM/CNPq) sintetizam a figura emblemática de Dercir Pedro, um “linguista
úmido”, nas palavras de Aguinaldo, que bem soube enxergar que “se há linguagem na poesia
[...], há gramática na poesia...”, nos dizeres de Maria Helena, que bem enfatiza “o empenho [do
homenageado] no trabalho escolar com língua e linguagem” e sua preocupação em ter “o
alunado no centro de atenção”, reafirmando suas próprias palavras referenciadas na epígrafe
deste texto de apresentação.
Passemos a uma breve descrição do conteúdo dos artigos centrais, que representam bem
a incursão pelos estudos da linguagem com que pretendemos recordar de Dercir. Além do
conteúdo científico dos artigos, fazemos questão de, em alguma medida, também deixar
registrada, nesta apresentação, a relação de convivência que seus autores mantiveram com o
homenageado. 15

“Em homenagem ao Dercir, amigo desde a graduação”, José Luiz Fiorin apresenta o
artigo sobre “A questão do erro linguístico”. Nele, o autor apresenta uma reflexão sobre “o
espectro de problemas abarcados” pelo termo “erro linguístico” consideradas as modalidades
falada e escrita. Assim, apresenta, discute e exemplifica fartamente: desvios de norma adequada
a uma dada situação de comunicação; agramaticalidade de frases e períodos; violação de
relações discursivas; problemas ortográficos, infringência a normas impostas pela tradição
gramatical; hipercorreção; falsa análise de enunciados; falsas analogias; impropriedades
lexicais. Recorrendo a dados efetivos de uso da língua, coletados em diversas fontes e
momentos, o autor mostra que as inadequações de linguagem, a depender de como se configura,
têm efeitos diferentes sobre o ouvinte/leitor: ora prejudicam a compreensão do texto, ora
comprometem o enunciador, ora sequer são percebidos por já terem se incorporado à norma
culta real.
Anna Flora Brunelli, em “um bom começo de conversa”, como imagina ela que Dercir
diria sobre o tema de seu artigo “O Avesso das Coisas: um caso de subversão do regime
enunciativo?”, apresenta uma análise de frases aforizadas presentes no livro “O avesso das
coisas”, de Carlos Drummond de Andrade. Considerando as diferenças entre enunciação
textualizante e enunciação aforizante propostas pela Análise do Discurso da linha de
Dominique Maingueneau, a autora chega à formulação da hipótese de que os aforismos
drummonianos representam uma subversão do regime enunciativo, porque fogem ao padrão
típico da enunciação aforizante, ao subverterem tanto o gênero do discurso quanto o texto
reconhecido.

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Encerra a primeira parte dos artigos inscritos nos estudos do texto e do discurso o texto
de Maria Beatriz Nascimento Decat, que dedica, ao “saudoso Dercir, colega de curso de
doutorado na PUC-SP”, resultados de sua pesquisa sobre “Articulação de cláusulas na
retextualização da fala para a escrita”. Numa análise bastante detalhada de três exemplos de
retextualização de textos falados, com e sem mudança de gênero textual, ela amostra como se
processa a articulação de cláusulas, focalizando estratégias de substituição, acréscimo,
reordenação e condensação de relações adverbiais. Seu objetivo é mostrar como a articulação
de orações num complexo adverbial pode servir a diferentes propósitos comunicativos na
(re)organização de um texto.
Representando a área de Sociolinguística e Dialetologia, o segundo bloco de textos
inicia-se com o artigo “Crenças e atitudes linguísticas acerca dos sequenciadores aí, daí e então
na Cidade de Goiás", de autoria de Marília Silva Vieira, orientada no mestrado por Dercir, na
UFMS, e hoje professora do Câmpus Cora Coralina da UEG. Assumindo preceitos da
Sociolinguística e da gramaticalização, a autora defende que aí, daí e então, como
sequenciadores textuais gramaticalizados, podem ser tomados como formas variantes dentro do
domínio da causalidade referencial. Sob tal concepção, investiga atitudes e crenças de alunos
do 3o. ano do Ensino Médio de uma escola da Cidade de Goiás quanto ao uso desses três
sequenciadores, recorrendo a teste de percepção. Ao final, mostra haver correlações entre
características de competência, integridade pessoal e atratividade social e o uso dos
sequenciadores textuais, sobretudo o de então, associado à imagem de falante culto.
O próximo artigo do bloco, “A Via Láctea continua no espaço sideral, mas desparece
dos atlas linguísticos”, é uma “homenagem carinhosa” que Vanderci Aguilera presta ao seu
“saudoso colega e amigo Dercir”, de quem ela lembra a indicação de seu nome para compor a
equipe diretiva do Projeto ALiB. No artigo, ela analisa a presença, a frequência e a distribuição 16
das variantes lexicais empregadas em referência à Via Láctea nas cartas do Atlas linguísticos
do Paraná (ALPR), por ela coordenado, do Atlas Linguístico Mato Grosso do Sul (ALMS),
coordenado por Dercir, e dos registros inéditos do Atlas Linguístico do Brasil, referentes aos
dois estados (ALiB-Paraná e ALiB-Mato Grosso do Sul). Na comparação dos resultados, ela
conclui que: “(i) a criação popular é muito fértil em associações mentais para atribuir nomes
aos fenômenos da natureza dos quais o informante desconhece a nomenclatura padrão ou culta;
(ii) pelo fato de as novas gerações não se deterem mais na observação do céu e dos astros, os
índices de abstenção foram altos tanto nos dois trabalhos do MS [ALMS e ALiB-MS] como
nos dados do ALiB-PR, mas não no ALPR; (iii) quanto às semelhanças entre os quatro corpora,
apenas duas formas são comuns a eles: caminho de Santiago e cruzeiro do sul; (iv) a
religiosidade é muito marcante no ato de denominar a Via Láctea, seja buscando nomes do
hagiológio romano, seja recorrendo a nomes bíblicos.”
Ao relembrar Dercir, com quem partilhou a orientação de Tarallo e momentos de
trabalho no Projeto Gramática do Português Falado, Rosane de Andrade Berlinck o homenageia
com o artigo “Se outro amor surgir um dia, a valsa perde o ar: um estudo sobre a variação (e
mudança) da morfologia verbal em construções condicionais”. Seu estudo trata da variação e
de mudança na morfologia verbal de construções condicionais potenciais no português
brasileiro. Recorrendo a dados de cartas escritas nos séculos XIX e XX, em diferentes regiões
do país, a autora analisa resultados gerais do percurso histórico dessas construções,
contrapondo-os a resultados alcançados em pesquisa de outro autor sobre o mesmo fenômeno
para a sincronia atual do PB. Suas análises revelam: (i) uma tendência à diminuição do uso do
futuro simples do indicativo em apódoses; (ii) o papel de restrições morfolexicais na

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manutenção do futuro do subjuntivo; (iii) o papel de aspectos ligados ao gênero fonte de dados
e o mapeamento dos usos segundo a proveniência dos dados.
Embora sua convivência com Dercir tenha sido breve, mas lhe propiciado uma
experiência gratificante, a orientação de Marília Silva Vieira (autora neste volume) no
Doutorado, Ronald Beline Mendes rende tributo ao homenageado com o intrigante artigo “O
efeito de múltiplas variáveis na percepção sociolinguística”, cuja temática da percepção
sociolinguística, por razões óbvias, aproxima, de alguma forma, seu texto ao de Marília Silva
Vieira, apresentado a pouco. Assentado na concepção de estilo (conjunto de variantes
linguísticas empregadas de maneira socialmente significativa) e na propriedade da
combinatoriedade de variantes, o autor discute resultados de um experimento de percepção
sociolinguística pautado por estímulos auditivos que combinam três fenômenos variáveis: a
pronúncia de /e/ nasal em posição tônica (como ditongo ou monotongo), a concordância
nominal de número e a pronúncia de (-r) em coda (como tepe ou retroflexo). De natureza
teórica, a pergunta que motiva o experimento é se variáveis de diferentes níveis de análise
(fonológico e morfossintático) podem ter efeito interativo nas percepções que o ouvinte tem
dos falantes que ouve. A resposta a que o autor chega é afirmativa, mas as evidências que
apresenta “não são robustas” diante dos numerosos contraexemplos. A partir da discussão dos
resultados, propõe, então, encaminhamentos possíveis de pesquisa para a continuação dos
estudos interessados nessa questão.
Como Rosane de Andrade Berlinck, Maria Eugênia Lammoglia Duarte compartilhou
com Dercir “o orgulho de ter(em) sido os primeiros orientandos de Fernando Tarallo”, ele de
doutorado e ela, de mestrado. Para brindar a “boa amizade” e a “lembrança de um amigo gentil,
tranquilo e extremamente dedicado ao seu trabalho”, Eugênia o homenageia com o artigo “A
Sociolinguística ‘paramétrica’: desfazendo equívocos”. Com postura firme e fundamentada, a 17
autora refuta a ideia repetida, desde os anos de 1980, de uma certa incomensurabilidade entre
empirismo e formalismo, reafirmando a proposta de conciliação teórico-metodológica entre
essas duas correntes, referida como Sociolinguística Paramétrica, desde o manifesto de Tarallo
(1987). Para tanto, argumenta, com base em análises amparadas pela Teoria de Princípios e
Parâmetros – de sua versão clássica à versão minimalista – que “os paradigmas gerativo e
quantitativo, longe de serem mutuamente excludentes, podem contribuir um com o outro no
estudo da mudança linguística, permitindo ao investigador identificar propriedades subjacentes
a descrições superficiais”.
Fechando esse conjunto central de artigos, o texto “Padrões de alinhamento e Voz em
kaiowá”, de Valéria Faria Cardoso, inscrito na área de Língua Indígena, revisita resultado
anterior de sua pesquisa sobre a língua kaiowá, publicado em livro organizado por Dercir
(OLIVEIRA, 2011), investigação iniciada ainda no mestrado sob orientação dele, que aceitou
“o desafio de orientar o primeiro trabalho acadêmico na área de Línguas Indígenas a ser
defendido no Programa de Mestrado em Letras da UFMS”. No artigo, Valéria analisa padrões
de alinhamento de caso e da categoria de voz em kaiowá, amparada por uma abordagem
funcional-tipológica. Levando em conta a Hierarquia de Pessoa (1>2>3) e para além dos usuais
mecanismos de codificação de caso, ela aponta distintos alinhamentos na língua que, quase num
contínuum, vão do nominativo/acusativo ao ergativo/absolutivo, passando por um tipo de caso
considerado “incaracterístico”.
Por último, registramos nossos cordiais agradecimentos a todos os autores pela
generosidade com que atenderam à chamada de publicação deste dossiê temático. Como se
poderá constatar, os artigos estão à altura da homenagem a Dercir Pedro e refletem bem sua

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importância, seu trânsito no cenário da Linguística brasileira e seu comprometimento com a
Universidade Pública socialmente referenciada. Mais sobre ele, deixemos que falem por nós,
organizadores e autores, Aguinaldo José Gonçalves e Maria Helena de Moura Neves, em seus
textos-homenagem.

À leitura, portanto!

Os organizadores.

REFERÊNCIAS

MUSTAFA, Eduardo. Dercir Pedro de Oliveira: comunicador, carismático e educador. Jornal


HojeMais, Andradina, 24/10/2019. [on-line]. 2019. Disponível em:
https://www.hojemais.com.br/andradina/noticia/geral/dercir-pedro-de-oliveira-comunicador-
carismatico-e-educador. Acesso em 24 out. 2019.

OLIVEIRA, Dercir Pedro de (org.). Estudos Linguísticos: gramática e variação. Campo Grande:
Editora da UFMS, 2011.

OLIVEIRA, Dercir Pedro de (org.). Atlas linguístico do Mato Grosso do Sul. Campo Grande:
Editora da UFMS, 2007.
18
OLIVEIRA, Dercir Pedro de. O atlas linguístico do Mato Grosso do Sul. Signum – Estudos da
Linguagem, v. 9, n. 2, p. 169-183.

RODRIGUES, Marlon Leal; VILELA, Maria Aparecida Anastácio. Prof. Dr. Dercir Pedro de
Oliveira: homenagem in memoriam. Web Revista Discursividade, edição 13, v. 1, [s.p.], 2014.
Disponível em: http://www.cepad.net.br/discursividade. Acesso em 9 dez. 2019.

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Estou aqui?

Aguinaldo José GONÇALVES1

Mestre, meu mestre querido!


[...]
Depois, mas porque é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?
Porque é que me chamaste para o alto dos montes
Fernando Pessoa

Em certos momentos de nossa trajetória intelectual e sobretudo em nossa trajetória de


vida encontramo-nos diante de uma atmosfera que nos deixa surpresos para não dizer
deslocados mediante a condição que se nos apresenta. 19
Sempre encontrei dificuldade com a palavra "homenagem", uma vez que ela traz
implicações semânticas que podem tangenciar o equívoco ou o desconforto que nutre as
veleidades existenciais. De maneira alguma quisera que alguns desses infortúnios semânticos
atravancassem os caminhos da estrada principal que deve nortear não as minhas diretividades
racionais, mas as minhas volatilidades espirituais que querem ocupar seu espaço devido nestas
poucas linhas que querem rejeitar o tempo todo os malabarismos retóricos do pensamento.
Ao longe e ao perto e por todas as partes vejo de maneira iluminada os vários esboços
que constroem o debuxo da figura quase emblemática de Dercir Pedro de Oliveira. Os passos
que delinearam os vértices desse intelectual foram pontilhados pela luz a que aludo acima e
como diria Didi-Huberman em vários momentos de seu pensamento reflexivo, são passos que
nos reportam a vaga-lumes, não os forçados vaga-lumes de um pensamento equivocado da
sociedade que quer chamar para si as luzes que trazem ao centro as suas formas torpes de ser
ao alimentarem valores pessoais negaciantes diante da vida e diante do massacre do mundo.
Entretanto, refiro-me aos vaga-lumes metafóricos do pensador francês que explicitam a noção
de luz própria intermitente que sói conduzir os espíritos individuais e coletivos e que norteiam
sobremaneira a concepção do comum, do trivial, do cego que infelizmente acredita no que não
deveria acreditar. O nosso homenageado foi sempre essa luz intermitente que vagou por todos
os cantos em que atuou com esta forma sui generis de existir, corroborando o princípio da vida
que não se embaça, mas que vagueia entre os raios solares irmanado à noção do riso, o complexo
1
Universidade Estadual Paulista/ Câmpus de São José do Rio Preto – UNESP/São José do Rio Preto. Livre-
docente pela UNESP. Escritor, Poeta e Crítico literário. São José do Rio Preto – SP – Brasil. CEP: 15054-000.
E-mail: agnus.fenix@gmail.com

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conceito de riso, figurativizado naquela imagem que não sai de meu pensamento e que
provavelmente não sai do pensamento e dos sentimentos daquela "legião" de jovens em
formação que eram atraídos para o conhecimento juntamente com um intensa linha de reflexão
deste homem que antes de tudo professava diante da situação tão adversa que domina a
universidade. Portanto, ao dizer que se torna quase impossível a caracterização explícita de
Dercir Pedro de Oliveira, é que na verdade nele se instaurou e se instaura o enigma de uma
consciência transgressora que justifica uma revista composta de textos que tangenciam a sua
imagem em busca de uma captação da sua natureza.
O merecimento de Dercir Pedro de Oliveira dessa homenagem póstuma advém dos
vaga-lumes que pela vida dele emanaram e que conduziram outros tantos seres para que
pudessem também evoluir nas plagas de suas buscas. Apesar de ter tido tantos orientandos e
seguidores enquanto vivenciou os descaminhos da universidade, o que mais assinalou os
caminhos principais deste ser de natureza excepcional foi o que o norteou para que conferisse
àqueles que o rodearam e o seguiram foi alguma coisa que não ficou clara para as pessoas, mas
que passaram a fazer sentido depois que ele se foi.
O modo com que esse ser ambíguo e portanto complexo agia não foi de maneira alguma
linear deixando uma posição clara a respeito de seus comportamentos, mas o tempo todo as
mais simples formas de agir eram pontilhadas por uma inteligência que tantas vezes indiciavam
uma ironia e até mesmo escárnio em relação às coisas e aos seres.
Voltando-nos para os elementos centrais de sua história de vida, assinalando aqui sua
história intelectual, nota-se um perfil de seriedade revelado por suas atividades de produção
acadêmica. Nesse caminho flagramos alguns índices determinantes do construto intelectual
desse professor que desvelam o fio de prumo de sua coerência de ação humana que ousaríamos 20
assinalar como a mais determinante na construção e argumentação de seu perfil.
Interessante que costumamos dizer que existem dois tipos básicos de linguistas: o
primeiro se caracteriza por uma certa secura do pesquisador em relação à linguagem e o modo
de ver o mundo que para o literato constrange de certa forma as próprias vertentes da escritura;
o segundo se constitui do que denominamos de "linguista húmido", que são aqueles que lidam
com a linguagem de uma maneira dinâmica e que fazem por isso influência, não só para os
processos de modulação da linguagem, como formas de atuação construtiva e corrosiva do
pensamento pendular do homem.
Não foi por acaso que Dercir optou pela sociolinguística, uma vez que isso delineia a
sua própria forma de viver, de atuar, e de se manifestar como linguista húmido. Gostaria apenas
de ressaltar que dois grandes nomes da linguística mundial são nossos paradigmas como
linguistas húmidos: Eugênio Coseriu e Roman Jakobson, para que se explicite um pouco mais
a nossa forma de elucidar a metáfora. Eugênio Coseriu, pelo que realizou no seu trabalho com
a motivação do signo e as concepções sobre o poético; em Roman Jakobson basta que se grife
os ensaios que constroem sua obra maior Question de Poétique e na suas concepções
fundamentais sobre as funções da linguagem e as veredas inquestionáveis que essas questões
construíram para a teoria da poesia. Não estou aqui tecendo alguma comparação entre os dois
linguistas e o pensamento teórico-crítico do nosso homenageado; entretanto, os fundamentos
que norteiam esse linguista húmido estão no que fez como procedimento desconstrutivo dos
ritos clássicos da linguística, e, mais ainda, na forma como desconstruiu os cânones clássicos
dos valores defendidos por uma linguística ortodoxa.

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Perseguindo aspectos decisivos de seu trabalho de pesquisa observam-se procedimentos
intencionais naquilo que construiu para alimentar os seus anseios e sua forma de visão de
mundo: eis um fundamento decisivo para se ler e se mostrar o perfil deste professor e intelectual.
Dercir Pedro de Oliveira realizou a organização de algumas obras, demonstrando uma
preocupação com o compartilhamento e a interação intelectual de outros colegas das
universidades que frequentou. No campo da sua produção individual, chama-nos a atenção seus
estudos de estilística que revelam um modo especial de a linguística lhe dar com o discurso
literário. Sempre que possível, enquanto coordenador de área, o professor se preocupava em
convidar pessoas de áreas afins para desenvolverem palestras e grupos de estudos e fortaleceu
enquanto Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação as linhas de pesquisa de alunos e demais
colaboradores na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.

Em tempo:

Jean Paul Sartre numa reflexão que considero fulcral para que seja lembrada, diz que é
determinante para o ser humano que se questione a cada dia a quem respondemos nesta vida.
Tem meu espírito a imagem do professor Dercir o filamento daquele que não respondia
exatamente a ninguém para que pudesse levar a todos aquela iluminação do vaga-lume a que
aludi no início desta homenagem. Sinceramente sempre imaginei que o ideário de Jean Paul
Sartre viesse ao universo do poeta ou do ficcionista que vê na multidão o desvelamento do
silêncio e do nada. É com certa emoção que faz ecoar em minhas palavras esta universalidade
mundana de um homem que "eu saiba" não era nem poeta, nem narrador, mas que tinha com
21
os grandes escritores uma profunda tristeza que se manifestava em profunda alegria e que nos
abraçava de modo que o desenho do riso espargia o referido enigma que ninguém soube
explicar. Maurice Blanchot vem aqui iluminar meu espírito numa frase memorável que diz num
ensaio sobre Mallarmé: "dentro da noite, na noite", neste negrume do silêncio eterno, vejo um
sorrido escarlate de Dercir nos olhando como quem não quer nada e nos dizendo "estou aqui".

São José do Rio Preto (SP), outubro de 2019.

AJG

Recebido em 20/10/2019.
Aprovado em 25/11/2019.
Publicado em 31/12/2019.

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A questão do erro linguístico
The issue of the linguistic mistake

Em homenagem ao Dercir, amigo desde a graduação.

José Luiz FIORIN1

RESUMO: Durante muito tempo, a escola trabalhou com uma noção inflexível de erro: o que não obedecia a um
dado padrão de língua. Com o avanço dos conhecimentos da sociolinguística, passou-se a dizer que, em língua,
não havia certo e errado, mas adequado ou inadequado à norma. A questão da adequação ou inadequação é mais
complexa do que a maneira simplista como é apresentada, pois as normais regionais, sociais e situacionais se
entrecruzam numa enorme gama de possibilidades. Ademais, o problema do erro não se esgota na questão da
adequação ou inadequação à norma. Os estudos discursivos impõem que pensemos também na questão da
ambiguidade, da coerência, da coesão, etc. Este trabalho pretende fazer uma reflexão sobre o erro linguístico,
mostrando o espectro de problemas abarcados por esse termo na modalidade escrita da língua: 1) desvio da norma
adequada a uma dada situação de comunicação; 2) agramaticalidade da estrutura da frase ou do período; 3) violação
de relações discursivas; 4) problemas ortográficos; 5) infringência a normas impostas por uma tradição do ensino;
6) hipercorreção; 7) falsa análise do enunciado; 8) falsas analogias; 9) impropriedades lexicais. Os erros ou 22
inadequações de linguagem não têm todos o mesmo efeito: alguns prejudicam a compreensão do texto; outros
comprometem o enunciador; outros, principalmente aqueles que denominamos erros por imposição da tradição de
ensino, nem sequer são percebidos, pois já fazem parte da norma culta real.

PALAVRAS-CHAVE: Normativo. Normal. Agramaticalidade. Inadequação. Correção.

ABSTRACT: For a long time, schools have worked with an inflexible notion of the mistake: that which does not
abide to a certain linguistic standard. With the advance of sociolinguistics, we began to say that there is no right
and wrong in a language, but only adequate and inadequate forms for a certain norm. The issue of adequacy or
inadequacy is more complex than it is usually presented, since regional, social and situational norms can overlap
in an enormous range of possibilities. In addition, the issue of the mistake is not limited by notions of adequacy or
inadequacy to norms. Discourse studies urge us to also consider issues of ambiguity, coherence, cohesion, etc.
This paper offers a discussion on the linguistic mistake, by showing the range of problems referred to by this term
when it comes to written language: 1) refraining from adequate norms for a certain communication situation; 2)
the ungrammaticality of a phrase or sentence structure; 3) the violation of discourse relations; 4) orthographic
problems; 5) the dismissal of norms imposed by tradition; 6) hypercorrection; 7) a false analysis of what is
enunciated; 8) false analogies; 9) inappropriate lexical choices. Linguistic mistakes or inadequacies do not all have
the same effects: some make it difficult to understand a text; others compromise the enunciator; particularly those
mistakes that are defined by the imposition of tradition, since they are already part of the actual cultivated norm.

KEYWORDS: Normative. Norm. Ungrammaticality. Inadequacy. Correction.

1
Universidade de São Paulo – USP. Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas. Professor Associado do
Departamento de Linguística. São Paulo – SP – Brasil. CEP: 05508-900. E-mail: jolufi@uol.com.br

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A questão do erro linguístico

Durante muito tempo, em nossas escolas, os professores corrigiram furiosamente os


chamados erros de português. Tudo o que não se coadunava com um determinado padrão
linguístico usado pela escola era considerado erro. Mais ainda, tudo o que não obedecia a esse
padrão era considerado como não sendo português. Ouvia-se um professor dizer a um aluno,
quando este produzia uma dada frase numa norma diferente da norma escolar: - Isso não é
português. E aí não importava se a forma utilizada pelo estudante era uma forma usada pelas
pessoas cultas ou não, a norma escolar era inflexível e os docentes, seus guardiões. Não se podia
dizer João namora com Maria, pois o verbo namorar, na norma escolar, era transitivo direto.
Era um crime fazer frases como A arquibancada assistiu o jogo em silêncio; A falta de limites
na infância implica em problemas na adolescência; A tevê a cores chegou ao Brasil na década
de 70. No português ensinado na escola, assistir no sentido de “estar presente” era transitivo
indireto; implicar, transitivo direto; a tevê, em cores. Façamos uma breve reflexão sobre o
problema da norma escolar.
O termo norma tem duas acepções básicas: a) regra que determina como alguma coisa
deve ser; modelo de alguma coisa; preceito a ser seguido; b) estado habitual; costume
concordante com a maioria dos casos; o que é de uso corrente. Na primeira acepção, há a
determinação de um ideal, a orientação do que deve ser; na segunda, há a constatação do real,
a descrição do que de fato é. O dever ser marca a diferença entre o que existe e o que regula a
existência, enquanto o ser não leva em conta necessariamente a prescrição da regra. Numa
língua, como o português, por exemplo, a palavra norma corresponde, de um lado, à ideia de
obediência a um preceito que se refere a um julgamento de valor; de outro, à concepção de
média, de frequência estatística, de tendência geral ou habitual. Cada um desses sentidos 23
produziu um adjetivo diferente: normativo está relacionado ao primeiro significado; normal, ao
segundo. Com efeito, normativo implica conformidade com uma regra e corresponde melhor à
ideia tradicional de gramática como a “arte de escrever e de falar corretamente”. Normal diz
respeito à determinação e à descrição de uma normalidade, de um fato corrente e geral e, por
isso, está relacionado ao uso. A chamada norma escolar não se ocupa do normal, ou seja, do
uso real da língua, mas do normativo, ou seja, dos preceitos legados pela tradição, que não
correspondem necessariamente àquilo que está sendo utilizado.
A concepção linguística que perpassa todo o ensino baseado na chamada norma escolar
é de que a língua é homogênea (existe um único padrão para todas as situações de comunicação)
e estática (os usos de outras épocas criam preceitos que são válidos para sempre). Ora, como
todos sabemos, a variação e a mudança são inerentes às línguas. Uma característica de todas as
línguas do mundo é que elas não são unas, não são uniformes, mas apresentam variedades
diacrônicas, regionais, situacionais e sociais. A variação é inerente às línguas, porque as
sociedades são divididas em grupos: há os mais jovens e os mais velhos, os que habitam uma
região ou outra, os que têm esta ou aquela profissão, os que são de uma ou outra classe social e
assim por diante. O uso de determinada variedade linguística serve para marcar a inclusão num
desses grupos, dá uma identidade para seus membros. Aprendemos a distinguir a variação.
Quando alguém começa a falar, sabemos se é mato-grossense, gaúcho, carioca, sergipano,
jovem, velho e assim por diante. Sabemos que certas expressões pertencem à fala dos mais
jovens, que determinadas formas se usam em situação informal, mas não em ocasiões formais.
Saber uma língua é conhecer suas variedades. Um bom falante é o que sabe mover-se entre as
variedades de seu idioma. Saber português não é aprender regras que só existem numa língua
artificial usada pela escola.

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As variantes não são feias ou bonitas, erradas ou certas, deselegantes ou elegantes, são
simplesmente diferentes. Como as línguas são variáveis, elas mudam e não se justifica uma
norma escolar absolutamente artificial. O supremo critério de validade das formas linguísticas
é o uso, como já dizia há séculos o poeta Horácio, em sua Arte Poética: si uolet usus/ quem
penes arbitrium est et jus et norma loquendi (vv. 71-72) (se assim quiser o uso, que detém o
arbítrio, a lei e a norma da fala).
Além disso, com muita frequência, a escola não reconhecia a existência de diferenças
fundamentais entre as modalidades escrita e falada da língua, que devem ser entendidas como
um contínuo, que vai do mais falado ao mais escrito. Assim, misturava-se falar bem com bem
escrever. Como se pensava a gramática como um conjunto de preceitos para falar ou escrever
de uma dada maneira, imaginava-se que a chamada norma culta era a única norma da língua
que era gramatical. Ora, não existe variedade linguística que não seja presidida por regras reais
de uso. A língua não é caótica. As diferentes variedades têm gramáticas distintas. Quando, por
exemplo, se fala uma variedade que não faz a concordância nominal e verbal, o marcador de
plural deve aparecer no primeiro elemento que o admite. Por isso, diz-se Os menino joga bola,
mas não se diz O meninos joga bola ou O menino jogam bola.
Essas concepções escolares levam à ideia de que “fora da escola não há salvação”, uma
vez que todas as variedades faladas fora da escola não são português. Apesar de a norma escolar
não guardar necessariamente relação com o uso que as pessoas cultas fazem da língua, o que
significa que ela não é a norma culta real, ela é, no imaginário coletivo, a "língua correta" e a
"língua real". É essa autoridade que permite afirmações como isso não é português, os
brasileiros não sabem falar português, a língua está em decadência. A propósito dessa última
afirmação, é preciso lembrar que as línguas não decaem nem progridem, elas mudam.
24
A ideia de que a língua não é homogênea nem estática deveria conduzir a uma pedagogia
da língua materna que não trabalhasse com a humilhação dos alunos das camadas populares ao
negar a variedade linguística falada por eles, mas que levasse todos os alunos a apropriar-se da
norma culta, vendo seu papel e seu lugar dentro do complexo sistema de variedades que compõe
a língua. Por outro lado, a função primordial do ensino de língua materna é levar o aluno a
apropriar-se da escrita, pois é a escola a instituição social encarregada do letramento. Ensinar a
ler e a escrever e levar à apropriação da norma culta, eis os objetivos básicos do ensino de língua
portuguesa. Ler e escrever significa tornar-se um leitor autônomo e um produtor de textos
competente. Por outro lado, a norma culta de que deve o aluno apropriar-se não é a norma
escolar, mas a norma real, utilizada em jornais, revistas, livros etc. Para saber qual é essa norma,
é necessário que se faça uma pesquisa paciente e minuciosa. As gramáticas usadas na escola
apresentam a norma escolar e não a norma culta. O Guia de uso do português, de Maria Helena
de Moura Neves (2003), é uma “gramática”, que, baseada numa pesquisa num corpus com
oitenta milhões de ocorrências, mapeia a norma culta da língua.
Na verdade, o que se disse no parágrafo anterior era o que a escola deveria ter feito. No
entanto, não foi isso que fez. Com base em certos equívocos, muitos professores passaram a
dizer que, em termos linguísticos, não existe certo/errado, mas apenas adequado/inadequado;
que a norma culta é um meio de opressão das classes dominantes e que, portanto, dela não devia
ocupar-se a escola; que não se pode corrigir a produção linguística dos alunos. Para que não
pairem dúvidas, é preciso deixar bem claro que correção é uma coisa completamente distinta
de humilhação. Isso posto, é necessário, no entanto, refletir sobre a questão do erro, verificar se
a questão da adequação/inadequação esgota o problema e se é preciso corrigir.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Em primeiro lugar, cabe considerar que a questão da norma culta não se esgota nas
variantes sociais. As normas não são estanques, classificáveis em compartimentos
absolutamente separados: de um lado, as variantes sociais; de outro, as situacionais; de outro,
as regionais. Ao contrário, elas formam um entrecruzamento: as variantes regionais apresentam
variantes sociais, que, por seu turno, têm variantes situacionais e assim por diante. Só numa
concepção conspiratória da história, que é absolutamente rechaçado por todos os historiadores
sérios, pode-se pensar que a norma culta seja um instrumento criado pelas classes dominantes
para oprimir as classes subalternas. Por outro lado, levar os alunos das classes subalternas a
apropriar-se da norma culta é um imperativo de uma educação democrática, pois significa dar
a palavra aos dominados em situações de comunicação que exigem o uso dessa norma. É preciso
ver a norma culta mais como uma variedade situacional, a das situações de comunicação
escolares, jornalísticas, científicas etc. do que como norma social. As variedades situacionais
resultam da diversidade dos fazeres práticos e simbólicos em que os homens se engajam. Por
exemplo, na medida em que existe um fazer simbólico, que é a comunicação com o mundo
sobrenatural, existe uma variedade linguística utilizada nessa situação de comunicação. Essa
variedade não existe apenas nos cultos cristãos, mas também nos cultos afro-brasileiros.
Em segundo lugar, é preciso refletir sobre a questão do erro, distinguindo as
modalidades falada e escrita da linguagem. Neste texto, vamos pensá-la apenas para a
modalidade escrita, que é o que interessa mais à escola, dado que, como se disse, é ela a
instituição social encarregada do letramento. Diferencia-se o problema do erro nas duas
modalidades da linguagem, porque o que não acarreta nenhum problema de compreensão na
fala pode levar a incompreensões na escrita.
No texto que segue, Matthew Shirts apresenta, com humor, alguns elementos para
começar a equacionar a questão do erro. 25

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Sexo, palavra e estrangeiro
Matthew Shirts

Aprendi o português já Para um estrangeiro orgulhoso do


marmanjo. Comecei aos 17 anos seu português, não há nada pior do
com um curso de "imersão" no que ser interrompido no meio de uma
terceiro científico do Colégio frase longa, complexa e bem
Imaculada Conceição em Dourados, torneada, justo na hora que começa a
Mato Grosso do Sul. Como todos os impressionar as mulheres, com uma
adolescentes que viajam para países correção do tipo: “é o planeta”. No
estrangeiros, o meu aprendizado caso, o estrangeiro em questão se vê
inicial foi informal. Entre as obrigado a brecar o discurso de
primeiras 100 palavras que conheci, repente, engolir várias palavras e
40 deviam ser obscenas ou, no quebrar o raciocínio para perguntar
mínimo, de uso pouco recomendado "como?". Ao que o interlocutor
em reuniões finas. prestativo inevitavelmente responde:
Isso faz quase 20 anos. Desde "planeta é masculino".
então, seja no Brasil, seja nos EUA, Se for um pouco mais erudito
continuo estudando. Uma segunda acrescentará, de quebra: "vem do
língua a gente não domina grego". Nisso, a plateia começa a dar
completamente, por mais que se risadinhas, muda-se de assunto e,
esforce. Nunca é, nem nunca será, como se não bastasse, o nosso gringo
igual à língua "mãe". ainda terá de agradecer a correção.
Mesmo assim, acho o português [...]
um idioma relativamente fácil de Mas cá entre nós, esse negócio de
aprender. [...] É possível saber como masculino e feminino é complicado.
se formam os tempos verbais, [...] O problema de dar sexo às
quando se usa cada preposição. A palavras, para o estrangeiro pelo 26
ortografia tem uma base fonética. menos, é que é impossível adivinhar
Até a acentuação, por mais que os gêneros de algumas delas. [...] Os
mude, obedece a um esquema brasileiros todos podem confundir
racional. uma concordância verbal ou deixar
Hoje em dia, depois de dois ou escapar uma "meia gordinha", mas
três "drinques", fico até eloquente na muito dificilmente trocam o gênero
língua de Camões. Não sou nenhum de uma palavras.
Ruy Barbosa, é verdade. Mas Todas as línguas, ao que parece,
escrevo sem maiores dramas, vou têm umas armadilhas feitas
em festas sem dar vexames e os especialmente para pegar gringo. Em
meus filhos pararam de me corrigir. português, é claro, passam pela
A única faceta da língua que não questão do sexo.
consigo dominar (e temo que nunca
conseguirei) é o masculino e o
feminino. (O ESTADO DE S. PAULO,
8/4/1995, C2).

Esse texto, com muita graça, enuncia algumas questões básicas concernentes à questão
do erro linguístico: 1 - há formas linguísticas que podem ser usadas em determinadas situações
de comunicação e não em outras; 2 - há regras que são observadas por todos os falantes de uma
dada língua e outras que não são gerais.
Como se afirmou acima, muitos linguistas dizem que, do estrito ponto de vista
linguístico, não há formas corretas e incorretas, dado que todas elas se equivalem. O que há é
inadequação ou adequação à situação de comunicação. Para eles, a correção tem um caráter
extralinguístico, ou seja, social. Corrige-se aquilo que não está de acordo com os usos

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linguísticos prestigiados socialmente. Essa posição, na verdade, está apenas parcialmente
correta, pois confunde níveis diferentes do problema. Analisemo-lo mais detidamente.
Há formas mais ou menos coloquiais, há expressões que se usam numa região e não
noutra, há formas mais ou menos populares, há termos e construções que se usam em família
ou entre os amigos, mas não na presença de estranhos, há formas consideradas grosseiras e
outras que são vistas como delicadas. Do estrito ponto de vista do sistema linguístico, essas
variantes são equivalentes. Por exemplo, dizer eles jogam ou eles joga não afeta a compreensão
e, por isso, uma delas não é superior à outra desse ponto de vista. Observe-se, por exemplo, que
o francês perdeu a marca de 3ª pessoa do plural, sem que isso trouxesse problemas para a
comunicação, pois a língua cria outros mecanismos para assegurar a compreensão adequada do
que se quer transmitir. Se essas formas são equivalentes do ponto de vista do sistema, não o são
do ponto de vista do uso linguístico, pois a primeira (eles jogam) é mais prestigiada. No caso
das variantes, então, a correção diz respeito ao uso e não ao sistema. Temos, nesse caso, de falar
em adequação ou inadequação à situação de comunicação. Há situações comunicativas que
exigem a norma culta (por exemplo, os textos administrativos, didáticos etc.) e outras que quase
"determinam" o uso de uma variedade mais coloquial (por exemplo, uma conversa com amigos
íntimos). Usar uma variante inadequada cria uma imagem desfavorável do falante e, por outro
lado, compromete o vigor argumentativo do texto. O uso da norma adequada deve ser visto
dentro das estratégias argumentativas do enunciador. Observe-se que dos dois textos abaixo,
escritos por Francisco Platão Savioli, o segundo tem uma força argumentativa muito maior:

(1) A cura pelas erva é melhor: primeiro que elas é mais barata, segundo porque, se não faz bem, mau também
não faz.

(2) A fitoterapia, confrontada com a alopatia, apresenta inequívocas vantagens: primeiro pelo baixo custo, 27
segundo pela ausência de sequelas comprometedoras.

No texto abaixo, o narrador mostra que a imagem do enunciador é gerada pela escolha
de uma determinada norma:

... e se não fosses um mariola e um cavalo, saberias, filho, que se não queres que te
tomem por um rústico, não deves falar como os zagais. E isso de dizer "estou com o
saco cheio" é vício de linguagem, conduta feia, de que usam malandrins e tu não
usarás; que, quando estiveres com o saco cheio, hás de dizer "não estou precisamente
demasiado eufórico", ou coisa análoga. Que é sempre preferível, ao invés da torpeza
de designar as coisas pelos nomes corriqueiros que lhes dão, nomeá-las quando for
preciso, eleganter, isto seja, por circunlóquios, metáforas, boleios e demais lindezas
da linguagem figurada, pois que as palavras escolhidas e adornadas provam o requinte
e a boa ensinança daquele que as profere. (LOPES, 1989, p. 128).

Deve-se observar que o uso linguístico não é algo desprezível, que pode ser ignorado
por um linguista, mas é parte integrante da língua. Tudo o que contraria a norma culta real deve
ser corrigido, tanto na fala quanto na escrita, quando ela for exigida pela situação enunciativa.
A correção deve ser feita sempre, mostrando que a forma é inadequada à situação de
comunicação. Deve-se dizer sempre que ela é adequada a outras situações de comunicação. Nos
textos em que é de rigor a utilização da norma culta, o uso das construções abaixo seria
inaceitável.

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(3) Por isso, em nome de todos os comediantes e humoristas, gostaria de lançar este pequeno protesto, pois,
sendo o prefeito uma autoridade governamental, fica muito difícil, para nós, pobres mortais, igualar-se à
verve oficial. (Jô Soares. Veja, 24/5/1995, p. 95).

→ Uso de forma de 3ª pessoa do singular em lugar da de 1ª pessoa do plural.

(4) Qual é a personagem que mais lhe atrai no filme? (O Estado de S. Paulo, 29/5/1995, D10).

→ Uso do pronome oblíquo dativo, que indica objeto indireto, em lugar do pronome oblíquo acusativo, que
manifesta objeto direto.

(5) O médico tem como pacientes, além do presidente do Senado, o presidente da Câmara, deputado Henrique
Eduardo Alves (PMDB-RN), o deputado federal Fábio Faria (PSD-RN), o ministro do Tribunal de Contas
da União José Múcio Monteiro, o ex-ministro José Dirceu e tantos outros que ele não revela a identidade.
(O Estado de S. Paulo, 12/1/2014, A9).

→ Uso inadequado do pronome relativo: o correto seria cuja identidade ele não revela.

(6) Sobre a minha renovação de contrato com o São Paulo, posso adiantar que já tivemos uma conversa no
sábado, onde já evoluiu bastante. (Goleiro Zetti, Programa Bate-bola, TV Gazeta, 31/1/1993).

→ Uso do onde no lugar de que.

(7) Há momentos na vida que você não pode errar. (Propaganda da Agroceres).

→ Falta da preposição em diante do relativo com função de adjunto adverbial de tempo.

(8) Espero que o pessoal reflete sobre o significado desta Copa do Mundo. (Rivelino, Programa Apito Final,
8/7/1990, TV Bandeirantes). 28
→ Uso do indicativo pelo subjuntivo.

(9) Dá licença que eu tenho que me lavá a louça da janta. Se o Zé descobre que dormi na cama dele, me mata
eu e me mata você. (Falas da novela A próxima vítima. Veja. 12/4/1995, p. 8).

→ Uso indevido do dativo ético.

Nesse caso, temos que falar em aceitabilidade social e cultural das formas da língua.
Entra também nesse domínio a questão dos estrangeirismos. Muitos falantes adotam uma
posição purista, de repúdio à incorporação de palavras estrangeiras. Querem manter a pureza
do idioma, pretendem instaurar uma "polícia alfandegária" que impeça a entrada de
estrangeirismos na língua, dizem estar protegendo o idioma da anarquia e da descaracterização.
Cabe lembrar, no entanto, que o léxico de uma língua é constituído de palavras provindas de
muitos idiomas, não é algo puro. O vocabulário do português formou-se com termos latinos,
árabes, italianos, franceses etc. Por outro lado, as línguas não se acham ameaçadas pela
incorporação de palavras estrangeiras, porque seu sistema gramatical (que admite pouquíssimos
empréstimos e, assim mesmo, periféricos) se mantém intocado. Aliás, as palavras estrangeiras
adaptam-se ao sistema fônico e gramatical da língua que as toma emprestado. Por exemplo,
como o sistema fônico do português só admite a consoante /ŋ/ em posição intervocálica, quando
emprestamos uma palavra estrangeira com /ŋ/ em posição inicial, acrescentamos uma vogal
antes, para que a referida consoante fique em posição medial intervocálica (dizemos inhoque,
por exemplo). O jargão da informática emprestou do inglês o verbo deletar. Ele não se conjuga,
no entanto, de acordo com a gramática inglesa, mas de acordo com o sistema de conjugações

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verbais do português. No caso do uso de estrangeirismos, nossa posição deve ser sensata. Não
devemos nem ser puristas, nem ter um fascínio pelo uso de estrangeirismos. Rodrigues Lapa
diz que "a grande lei que rege ou deve reger a adoção de estrangeirismos" é que "deverão ter
acolhimento, quando correspondam efetivamente a necessidade de expressão" (1975, p. 46).
Quando não tivermos uma palavra em português ou quando o termo estrangeiro tiver um matiz
expressivo que não se encontra nos correspondentes portugueses, o empréstimo justifica-se. Da
mesma forma, podem-se usar os empréstimos que, pelo uso, já se incorporaram definitivamente
ao nosso léxico. Sucesso, eclusa, buquê, constatar, desolado, abandonar, lanche, sanduíche,
governanta, gafe, dândi, haraquiri etc. entraram na língua por necessidade de expressão e estão
plenamente incorporados ao idioma. Não se pode condenar a utilização de palavras como
futebol, abajur ou restaurante, porque são de uso geral. Não se pode pretender que, em seu
lugar, se usem ludopédio, lucivelo ou casa de pasto. Expressões como know-how tem um matiz
expressivo que não se encontra em nenhum vocábulo do português. Devem ser evitados aqueles
termos que têm um correspondente adequado na língua. Por exemplo, dizer As rosas nascidas
da mesma tige não é necessário, pois caule corresponde perfeitamente a tige. Da mesma forma,
ouviu-me atentivamente, pois atentamente é o correspondente exato da palavra utilizada.
Por outro lado, podem-se usar estrangeirismos com finalidades expressivas. Pedro Nava
usa uma série de expressões inglesas, para caracterizar a mãe de um colega, que é originária de
um país de língua inglesa:

Eu adorava essas visitas clandestinas a Mrs. Spector, sua nice cup of tea cortada dum
pingo de leite, seus cakes, suas torradas, suas frutas cristalizadas e o cheiro dos
cigarros bout de rose que ela fumava. Porque ela fumava, o que me enchia de mais
assombro que a harmonia de sua voz rouca, que consentia sempre que tivéssemos
mais leite, mais chá, yes dear, mais torta, mais biscoito, mais cake, surely dear, mais 29
manteiga, mais doce, why not? my dear... O Moses exultava, orgulhoso de sua mãe,
do modo como ela nos recebia e nos gavava (gavava, do francês gaver = "dar comida
em excesso"). (NAVA, 1976, p. 155; grifos e parênteses no original).

O que não se deve fazer, sem que haja alguma razão expressiva, é usar construções ou
formas gramaticais estrangeiras. A expressão venho de chegar por acabei de chegar não precisa
ser utilizada. Do mesmo modo, a moça a mais bela por a moça mais bela. Dito de outro modo
corresponde exatamente ao português em outras palavras, em outros termos.
A questão do erro linguístico não se esgota, porém, no problema da aceitabilidade, ou
seja, na inadequação a uma situação de comunicação. É preciso considerar que há realizações
linguísticas que, por descuido ou por falsa análise realizada pelo falante, contrariam as regras
gerais do sistema linguístico, aquelas que o falante nativo dificilmente viola, ou que não
cumprem adequadamente a função de comunicar.
O sistema linguístico possui regras muito gerais de formação de frases e um jogo de
oposições formais. Assim, pertence ao sistema linguístico do português a oposição surdez vs
sonoridade, que forma as consoantes sonoras e as surdas; as regras de combinatórias dos sons
que prescrevem, por exemplo, que r, vibrante simples, não ocorre em posição inicial; as
oposições gramaticais de pessoa, número, tempo etc.; as oposições lexicais, como, por exemplo,
reprodutor/não reprodutor, que permite criar distinções entre touro e boi, garanhão e cavalo,
cachaço e porco; as regras de ordenação de palavras para construir frases, como, por exemplo,
o artigo precede o substantivo que ele determina. Essas regras, que dizem respeito ao sistema e
não ao uso, são gerais, não variam de região para região, de grupo social para grupo social etc.
O que varia são as normas, que são usos habituais de um dado grupo social, de uma determinada

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região, de certa época etc. O sistema contém aquelas regras fundamentais da língua. Ora, a
violação das regras do sistema produz uma agramaticalidade. Nesse caso, o erro diz respeito ao
sistema, não tem nada a ver com um julgamento social sobre uma variedade linguística mais ou
menos prestigiada. Se um falante disser Menino o bola joga campo no, terá violado regras do
sistema, como o artigo deve preceder o substantivo, a preposição precede o termo que ela rege
etc. Nesse caso, não terá produzido uma frase do português, mas terá pronunciado um
amontoado de palavras. Dificilmente, um falante comete certas agramaticalidades. No texto de
Matthew Shirts, já exposto, o cronista diz, por exemplo, que um brasileiro não erra os gêneros
das palavras.
No entanto, uma agramaticalidade, que pode aparecer na língua escrita, é a produção de
frases em que faltam termos essenciais (por exemplo, o predicado) ou períodos compostos por
subordinação em que não aparece a oração principal. Esses "erros" prejudicam a comunicação,
pois o leitor fica sem saber o que quis dizer quem escreveu a frase. Vejamos alguns exemplos:

(10) Já houve o tempo da moreninha, da loirinha e agora chegou a vez da ruivinha. A cor do cabelo, no entanto,
faz pouca diferença, pois a fórmula para conquistar jovens plateias com um interesse maior em sexo do que
em música. O segredo do sucesso na música pop é um rostinho - e um corpinho - feminino bonito e bem
sensual. (Folha de S. Paulo, 17/9/1988, apud UNICAMP, 1989).

→ Observe que, no segundo período, a oração iniciada por pois não tem predicado: não se sabe de que
fórmula fala o enunciador.

(11) Embora as enchentes, todos os anos, continuem a destruir cidades inteiras em algumas regiões do Nordeste,
provocando prejuízos que chegam a milhões de dólares.

→ Nesse período não há oração principal: a primeira oração iniciada por embora é subordinada adverbial 30
concessiva; a segunda é uma subordinada adverbial temporal reduzida de gerúndio.

Além dos casos de agramaticalidade, constituem também erros as violações de relações


discursivas, ou seja, de relações entre partes e segmentos do texto: por exemplo, o uso de
conectores argumentativos inadequados, a criação de enunciados ambíguos etc. Nesse caso,
pode-se dizer que temos verdadeiras agramaticalidades discursivas. Vejamos alguns exemplos:

(12) Proteja a entrada dos intrusos. (Texto publicitário).

(13) O dia 16 de julho de 1945 decorreu tranquilamente em São Paulo, onde não foram registradas grandes
novidades.
No Pacaembu, uma imensa multidão reunira-se para ouvir o Cavaleiro da Esperança, Luís Carlos
Prestes, que se declarou não comunista e "apenas democrático". Muitos, aparentemente, engoliram a tese
perneta. E choveram contribuições ao Partidão de burgueses assustados. (Frederico Branco. Jornal da
Tarde, 19/7/1995, 3A).

(14) Diafragma
Como funciona: insere-se um anel de borracha dentro da vagina para cobrir a entrada do colo do útero, que
deve ser retirado cerca de dez horas após o contacto sexual. (Folheto informativo).

(15) Depois de assinar laudos de reconhecimento de voz dos escândalos provocados por grampos telefônicos, o
foneticista Ricardo Molina ganhou alguma notoriedade e uma série de novos clientes. Da relação de suas
tarefas recentes, incluem-se análises de fitas enviadas por empresas que investigam a conduta de
funcionários e de maridos desconfiados de traição. (Veja, 28/8/2001, p. 30).

(16) Há milhões de pessoas que passam fome no Brasil. Por isso, o governo vai restringir as verbas destinadas
aos programas sociais.

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(17) As dores nas costas eram reflexo de um acidente que o comediante sofreu em 1965, durante um show num
hotel, americano, e que o levariam a ficar viciado num analgésico pelos próximos 13 anos. (Folha de S.
Paulo online, 20/8/2017).

No primeiro caso (12), temos um enunciado ambíguo. O folheto publicitário anunciava


um dispositivo de segurança para portões. No entanto, ele pode dar a entender que, com ele,
tanto se pode impedir a entrada de intrusos, quanto se pode proteger os intrusos, enquanto
entram. No segundo caso (13), também temos uma ambiguidade. A oração final tanto pode
significar que os burgueses assustados fizeram contribuições ao Partidão, quanto que os
burgueses assustados eram os membros do Partidão. No terceiro (14), o pronome relativo que
tanto pode referir-se à expressão anel de borracha quanto à palavra útero, o que significa que
não se sabe o que deve ser retirado dez horas após o contacto sexual. No quarto exemplo (15),
há uma impropriedade no uso da preposição que inicia o sintagma maridos desconfiados de
traição. Da forma como está redigido o texto, o sentido é que as empresas investigam tanto a
conduta de funcionários quanto a de maridos desconfiados de traição. O sentido, porém, é que
empresas que investigam a conduta de funcionários, bem como maridos desconfiados de traição
enviam fitas para serem analisadas. No quinto (16), o uso da conjunção conclusiva não cabe no
contexto. Deveria ser usada uma adversativa ou uma concessiva. No sexto (17), próximos está
usado por seguintes, pois o enunciador pretende dizer que ele ficou viciado num analgésico por
treze anos a partir de 1965 e não a partir do momento da enunciação.
Até o momento, vimos que três fenômenos de natureza diferente são considerados erros:

a) desvio da norma adequada a uma dada situação de comunicação; 31

b) agramaticalidade da estrutura da frase ou do período;

c) violação de relações discursivas.

Há, no entanto, outros fenômenos distintos que também são erros linguísticos.

Erros de ortografia. A ortografia é o conjunto de convenções que rege a grafia das palavras.
Essas convenções, no caso dos países de língua portuguesa, resultam de um acordo entre os
diferentes países. As normas de ortografia são coercitivas para todos os falantes.

(18) O Brasil é lúdico! Olha essa placa no Walmart: "Temos garoupa, pouvo e anchouva". Rarará. O cara é um
poeta! (Jose Simão, Folha de S. Paulo online, 11/10/2018).

→ Polvo está grafado com u e não com l; anchova está escrito com um u, que não existe na grafia da
palavra.

(19) “Investidores começaram a deixar os fundos porque a aplicação não valia mais a pena. Isso fez com que a
poupança batesse recorde de capitação", diz Miguel de Oliveira, diretor executivo da Anefac. (O Estado de
S. Paulo, 5/8/2013, C4).

→ Captação está escrito com um i depois do p; existe a palavra capitação em português, mas significa “o
que cabe a cada um pagar de certo imposto”.

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(20) Como é sabido, a pessoa mais poderosa na Casa Branca hoje é aquela que fala por último com Donald
Trump, já que o presidente sempre segue o último conselho que houve. (Patrícia Campos Mello, Folha de
S. Paulo online, 12//1/2018).

→ Ouve do verbo ouvir não se escreve com h.

Erro por imposição de uma tradição do ensino. Nesse caso, entram aqueles fatos linguísticos
que pertenciam à norma culta da língua, mas que se alteraram e que a escola considera ainda
como usos reais do português.

(21) Dirceu diz que prefere morrer do que delatar como Palocci.

O próprio Dirceu, questionado sobre o depoimento em que Palocci envolve Lula diretamente com o
recolhimento de propinas para o PT, respondeu a interlocutores: "Só luto por uma causa quem tem valor.
Os que brigam por interesse têm preço. Não que não me custe dor, sofrimento, medo e às vezes pânico.
Mas prefiro morrer que rastejar e perder a dignidade". (Mônica Bergamo, Folha de S. Paulo on-line,
9/9/2017).

→ A única regência permitida na norma escolar para o verbo preferir prescreve que o segundo
complemento é introduzido por a: prefere morrer a delatar; prefiro morrer a rastejar e perder a dignidade.

(22) Custei a perceber o problema.

→ O verbo custar, no sentido de "ser custoso", é ensinado como unipessoal; só se considera correto custou-
me perceber o problema).

(23) Não tenho nenhuma dó de criminosos.


32
→ O substantivo dó é ensinado como masculino.

Raul Drewnick, em crônica publicada em O Estado de S. Paulo, de 25/4/1995, analisa


jocosamente um desses "erros".

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A noite estava quase tão gostosa - Não estou censurando o
quanto o chope e o salaminho. Na comportamento dela. Estou é
mesa do bar, os seis amigos, todos indignado com o seu
catedráticos em mulher e futebol, desconhecimento gramatical.
conversavam disso mesmo, porque - Com o meu desconhecimento
não houve, não há e nunca haverá gramatical? Você pode me explicar
assunto melhor para o brasileiro do isso?
que mulher e futebol. (...) - Você disse que ela namora com.
Estavam felizes. E felizes ficaram - Disse. E daí?
até que um deles, o mais fofoqueiro - Daí que isso é uma barbaridade.
dos seis, começou a contar a história O verbo namorar é transitivo direto.
de uma garota, vizinha dele, famosa Quem namora, namora alguém, não
pelas curvas do corpo e pela namora com alguém.
generosidade do coração. Enquanto o acusado de crime
- Vocês precisam conhecer a contra a gramática assumiu um
Adriana. É um estouro, um petardo, triste ar de réu para merecer a
uma bomba atômica! Se ela sai de clemência dos amigos, um deles,
casa e vai até a esquina, a rua toda quase tão empertigado, quanto o
treme. Se ela vai um pouco mais gramático de plantão, protestou:
longe, explode todo o quarteirão. - Espere aí, Aristarco. Você está
- Nossa, ela é tudo isso, mesmo? massacrando o Cordeiro à toa. O
Então a gente precisa conhecer. dicionário do Aurélio diz que
- Ela não é tudo isso. É tudo isso e namorar com é perfeitamente
mais um pouco. Tudo isso e mais válido.
bastante. E ela topa qualquer - Ah, Praxedes, eu não esperava
parada. Já namorou com o bairro que você me viesse com essa. Você
inteiro. sabe muito bem que o Aurélio não é 33
Nesse ponto, o mais empertigado uma boa fonte. O Aurélio admite
dos seis amigos arregalou os olhos e tudo: nóis vai, nóis fumo...
perguntou, com expressão de - Você está querendo dizer,
espanto: Aristarco, que você tem mais
- O que foi que você disse? autoridade do que o Aurélio?
- Eu disse que a menina é um - Não. O que eu estou querendo
avião e namora com todo mundo. O dizer é que em nenhum outro
que é que você está estranhando? dicionário você vai achar esse
- Eu estou estranhando que você, absurdo de namorar com. [...]
um sujeito com instrução, diga uma Antes que o Aristarco, já rubro de
asneira como essa. cólera, apresentasse sua contra-
- Que asneira? argumentação, o Cordeiro resolveu
- Que a menina namora com todo mostrar-se grato ao seu advogado:
mundo. - É isso aí, Praxedes, você está
- Mas é verdade. A Adriana é uma certo. Deixe de ser chato, Aristarco.
devoradora de homens. Dos 8 aos Você quer saber de uma coisa?
80 não escapa um. Namorar é tão bom, mas tão bom,
que até namorar contra é gostoso.

(O Estado de S. Paulo, 25/4/1995.


C2).

Hipercorreção. É o uso de uma forma vista como correta no lugar de outra considerada
indevidamente errada.

(24) O Ministro Paulo Renato, em entrevista em Porto Alegre disse: Olha, faz um ano, fazem agora quase dois
anos que eu... (Folha de S. Paulo, 29/11/1996, p. 3-7).

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
→ O verbo fazer, quando indica tempo transcorrido, é impessoal. Portanto, a forma que deveria ter sido
usada seria faz agora quase dois anos.

(25) Não haverão recursos suficientes para o término das obras.

→ O verbo haver, no sentido de "existir", é impessoal. Portanto, a construção correta seria Não haverá
recursos suficientes para o término das obras. No entanto, imagina-se que o sujeito seja recursos
suficientes e que o verbo deva concordar com ele.

(26) O galfo escapou-lhe das mãos.

→ Como em certas camadas sociais troca-se o l por r, em palavras como calça, maldade, calcanhar, pensa-
se que a forma correta de garfo seja galfo.

Falsa análise do enunciado. É aquele erro cometido por uma análise inadequada da frase,
quando se atribui a uma palavra ou expressão uma função sintática que ela não exerce, quando
se estabelecem relações sintáticas inexistentes, quando se realizam analogias improcedentes
dentro do período. Vejamos alguns exemplos:

(27) Vai chover multas na volta do feriado. (Folha da Tarde, 31/12/1992, 1).

→ Nesse caso, atribui-se à palavra multas, que é o sujeito, a função de objeto direto e, por conseguinte, não
se realiza a concordância; a frase correta seria Vão chover multas na volta do feriado.

(28) ... nas pesquisas em que ocorreram aquisição de bens com quem ficou a propriedade desses bens. (Deputada
Carla Morando, Informativo Adusp, 458, 11/09/2019, p. 6).

→ Toma-se como sujeito o termo pesquisas e faz-se a concordância com ele; no entanto, o sujeito é o termo 34
posposto aquisição de bens; o correto seria em que ocorreu a aquisição de bens.

(29) Pode-se argumentar, é certo, que eram previsíveis os percalços que enfrentariam qualquer programa de
programa de estabilização [...] necessário no Brasil. (Folha de S. Paulo, 7/10/1990, apud, 1991).

→ Atribui-se ao pronome relativo que, que retoma o substantivo percalços, a função de sujeito e não de
objeto direto e faz-se a concordância do verbo com o antecedente (percalços) e não com o verdadeiro sujeito
qualquer programa de estabilização.

(30) O caso obviamente só tem a ganhar se a imprensa sair da posição de aceitar passivamente as informações
e vazamentos da própria PF e fazer o seu papel de questionar. (Flavia Lima, Folha de S. Paulo, 28/7/2019).

→ Usa-se fazer no lugar de fizer, porque o verbo que aparece antes no futuro do subjuntivo, por ser regular,
apresenta uma forma igual à do infinitivo; o verbo irregular fazer contagia-se da regularidade do anterior.

(31) Sou clara e definitivamente pela admissibilidade do impeachment - correndo o risco até do autossuicídio
político. (Dep. Antônio Morimoto (PTB-RO). Folha de S. Paulo, 24/9/1992, 1-4).

→ Analisa-se suicídio como um termo não reflexivo e, por isso, acrescenta-se a ele auto, que significa "si
mesmo".

Muitas vezes, também a hipercorreção resulta de uma falsa análise do enunciado. A


diferença, no entanto, é que ela acaba resultando, para quem a pratica, numa regra de uso: por
exemplo, o verbo fazer indicando tempo passado nunca é usado impessoalmente (dizem sempre
fazem muitos dias e não faz muitos dias).

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Falsas analogias. São aquelas formas criadas por analogia com as regularidades da língua ou
pelo estabelecimento de correspondências, que de fato não existem, entre certas formas da
língua. Diferentemente do caso anterior, não se trata aqui de relações indevidas estabelecidas
entre termos no interior de um período, mas da falsa pressuposição de simetrias entre formas
da língua.

(32) [Os astecas] não só conheciam o banho de vapor, tão prezado na Europa, como mantiam o hábito de banhar-
se diariamente. (Superinteressante, out. 92, apud UNICAMP, 1993).

→ Usa-se mantiam no lugar de mantinham, porque se faz a seguinte analogia: se comer faz a 3ª pessoa do
pretérito imperfeito do indicativo comiam, vender faz vendiam, prender faz prendiam, então manter faz
mantiam.

(33) O New Dog informa que nesta madrugada um grupo de clientes deu início a uma briga dentro do
estabelecimento. Os seguranças interviram imediatamente controlando a situação. (Jovem Pan Online,
27/1/2018).

→ A 3ª pessoa do plural do pretérito perfeito do verbo intervir é intervieram e não interviram; no caso dos
verbos regulares dormir faz dormiram; partir, partiram; então se pensa que intervir faz interviram.

(34) No ano passado, o polo tecnológico de Florianópolis faturou R$ 958 milhões e, se manter o crescimento
médio de 16% dos últimos anos, vai chegar aos 10 dígitos. (Renato Ortiz, O Estado de S. Paulo, 23/9/2012,
B8).

→ O correto seria se mantiver; a analogia é feita com os verbos regulares em -er, que fazem a 1ª pessoa do
singular do futuro do subjuntivo da mesma maneira que o infinitivo.

(35) O novelo deslisou pelo chão. 35


→ Usa-se deslisar por deslizar, porque se associa falsamente esse verbo ao adjetivo liso; note-se que existe,
em português o verbo deslisar, muito pouco usado, que significa "alisar" e que não se confunde com o
verbo deslizar, que quer dizer "escorregar brandamente".

Impropriedades lexicais. É o uso de uma palavra com um significado que ela não tem, mas
que se atribui a ela indevidamente, em geral por uma semelhança fônica muito acentuada com
o termo que seria adequado.

(36) Assim, serão milhares de pessoas que deixarão de contribuir para a arrecadação dos impostos que sustentam
governos que vivem na maior luxúria num país emergente do Terceiro Mundo. (Odiléa Mignon, Fórum dos
leitores. O Estado de S. Paulo, 11/12/2012, A2).

→ Luxúria, em português, não significa "luxo", mas "sensualidade".

(37) O biólogo Braulio Dias, de 59 anos, é secretário executivo da Convenção sobre Diversidade Biológica
(CDB), órgão da ONU responsável por fazer com que os países avancem na implementação de políticas de
conservação ambiental. A cada dois anos a CDB reúne perto de 200 países na Conferência das Partes (COP),
que se destina a estabelecer metas ambientais internacionais. [...]
Com todos os países empenhados na busca por soluções para a crise econômica, há espaço para discussões
relacionadas à biodiversidade?
Sim, há. Na última Conferência das Partes, o encontro bianual promovido pela ONU, que aconteceu na
Índia, em outubro, decidiu-se que os países ricos vão dobrar a ajuda monetária que destinam aos países
pobres e em desenvolvimento. (Veja, 30/1/2013, p. 13-14).

→ Se a CDB se reúne a cada dois anos, o encontro é bienal e não bianual.

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Os erros ou inadequações de linguagem não têm todos o mesmo efeito: alguns
prejudicam a compreensão do texto; outros comprometem o enunciador; outros, principalmente
aqueles que denominamos erros por imposição da tradição de ensino, nem sequer são
percebidos, pois já fazem parte da norma culta real.

(38) As Forças Armadas brasileiras já estão treinando 3 mil soldados para atuar no Haiti depois da retirada das
tropas americanas. A Organização das Nações Unidas (ONU) solicitou o envio de tropas ao Brasil e a mais
quatro países, disse ontem o presidente da Guatemala, Ramiro de León. (O Estado de S. Paulo, 24/9/1994,
apud UNICAMP, 1995).

Nesse caso, a má colocação da expressão ao Brasil e a mais quatro países prejudica a


compreensão do enunciado, pois dá a entender que a ONU solicitou o envio de tropas ao Brasil
e a mais quatro países, quando na verdade ela solicitou ao Brasil e a mais quatro países que
enviassem tropas ao Haiti.
No caso abaixo, os erros linguísticos comprometem o enunciador, pois criam dele uma
imagem desfavorável:

(39) O pronunciamento do presidente Collor anteontem em cadeia nacional de rádio e TV despertou no ex-
deputado José Costa (PMDB) recordações que coleciona para incluir em um livro de memórias e casos
políticos de Alagoas.
Há alguns anos - bem antes de alguém pensar em modernizar os portos - o deputado federal Ozeas
Cardoso, amigo de Arnon de Mello, pai do presidente Collor, ajudou, por uma circunstância qualquer da
vida, a categoria dos estivadores.
Eram os tempos de guerra da velha UDN, partido do deputado.
Sensibilizados, os trabalhadores resolveram promover uma festa para agradecer a mãozinha. O
estivador escolhido para falar na ocasião atendia pelo sugestivo apelido de "Quebra Poste". Homem 36
simples, começou se desculpando por não saber falar direito a língua pátria. Com essa limitação, mas
fazendo questão de expressar toda a gratidão da categoria, "Quebra Poste" resumiu a mensagem em poucas
palavras:
- Seu nome, deputado, já diz tudo: tem o "o" de "onesto" e o "c" de "cincero". (Folha de S. Paulo,
23/6/1992).

REFERÊNCIAS

HORÁCIO. Arte poética. Intr., trad. e notas de R. M. Rosado Fernandes. 4. ed. Lisboa: Calouste
Gulbenkian, 2012.

LAPA, Manuel Rodrigues. Estilística da língua portuguesa. 8 ed. Coimbra: Coimbra Editora,
1975.

LOPES, Edward. Travessias. São Paulo: Moderna, 1980.

NAVA, Pedro. Balão cativo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.

NEVES, Maria Helena de Moura. Guia de uso do português brasileiro: confrontando regras e
usos. São Paulo: Editora da UNESP, 2003.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
UNICAMP. COMISSÃO PERMANENTE PARA OS VESTIVBULARES. Unicamp 89.
Vestibular Nacional. Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa. Ciências
Biológicas, 1989. 8f. (Questão 5, p. 3). Disponível em
http://www.comvest.unicamp.br/vestibulares-anteriores/vestibular-1997-03/. Acesso em out.
2019.

UNICAMP. COMISSÃO PERMANENTE PARA OS VESTIVBULARES. 1993 Vestibular


Nacional UNICAMP. 2a. fase. 1a. prova. 10/01/93. Língua Portuguesa e Literaturas de Língua
Portuguesa. Ciências Biológicas, 1993. 14f. (Questão 3, p. 4). Disponível em
http://www.comvest.unicamp.br/vestibulares-anteriores/vestibular-1997-03/. Acesso em out.
2019.

UNICAMP. COMISSÃO PERMANENTE PARA OS VESTIVBULARES. Unicamp


Vestibular Nacional 95. 2a. fase. 15/1/95. Língua Portuguesa e Literaturas de Língua
Portuguesa. Ciências Biológicas, 1995. 12f. (Questão 3, p. 4). Disponível em:
http://www.comvest.unicamp.br/vestibulares-anteriores/vestibular-1997-03/. Acesso em out.
2019.

Recebido em 09/10/2019.
Aprovado em 30/10/2019.
Publicado em 31/12/2019.
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Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
O avesso das coisas: um caso de
subversão do regime enunciativo?
The reverse of the things: is it a case of subversion of the enunciative regime?

Anna Flora BRUNELLI1

RESUMO: Neste trabalho, considerando as diferenças entre a enunciação textualizante e a enunciação aforizante
(cf. MAINGUENEAU, 2010, 2014, 2015), analisamos as frases aforizadas presentes em O avesso das coisas, livro
de aforismos de Carlos Drummond de Andrade, publicado posteriormente à sua morte. A análise revela que as
frases aforizadas desse livro, que se apresenta por meio de uma cenografia de dicionário, têm certas
particularidades que fogem um pouco do padrão típico da enunciação aforizante, o que nos conduz a formular a
hipótese de que se trata de um caso de subversão do regime enunciativo, para além dos casos de subversão previstos
por Maingueneau (2001), isto é, subversão do gênero do discurso e do texto reconhecido.

PALAVRAS-CHAVE: Aforização. Enunciação aforizante. Subversão.

ABSTRACT: In this paper, considering the differences between the textualizing enunciation and the aphorizing
enunciation (cf. MAINGUENEAU, 2010, 2014, 2015), we analyze the book “The reverse of things”, a book of
aphorisms by Carlos Drummond de Andrade that was published after his death. The analysis reveals that the 38
aphorisms of this book, which is presented through the scenography of a dictionary, have certain peculiarities that
differ somewhat from the typical pattern of aphorizing enunciation, which leads us to formulate the hypothesis
that this is a case of subversion of the enunciative regime, in addition to the cases of subversion already predicted
by Maingueneau (2001), which are the subversion of the discourse genre and the subversion of the type of the
recognized text.

KEYWORDS: Aphorization. Aphorizing enunciation. Subversion.

Introdução

Tive a grata oportunidade de conhecer o Dercir na metade da década de 90, quando


ele estava fazendo um pós-doc na UNICAMP e eu tinha apenas iniciado meus estudos de pós-
graduação. Nessa época, sabia pouco não só sobre os conteúdos das disciplinas que cursava,
mas também sobre outros aspectos da vida de um pesquisador, o que não impediu Dercir,
sempre generoso e disposto a ajudar quem quer que fosse, de me incluir em seu círculo de
amizades, o que foi muito importante para mim, não só pelas preciosas lições de análise
linguística com as quais pacientemente me presenteava nos momentos de dúvida, como também
pelo apoio e ajuda que me ofereceu quando precisei mudar de linha de pesquisa por motivos
alheios à minha vontade. Com seu bom humor contagiante, Dercir foi uma das pessoas que me

1
Universidade Estadual Paulista/ Câmpus de São José do Rio Preto – UNESP/São José do Rio Preto. Professora
Assistente Doutora do Departamento de Estudos Linguísticos e Literários. Membro do Grupo de Pesquisa FEsTA
(Fórmulas e Estereótipos: teoria e análise), cadastrado no CNPq. São José do Rio Preto – SP – Brasil. CEP:
15054-000. E-mail: anna.brunelli@unesp.br

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ajudaram a lidar com as incertezas dessa fase, que, ao final, muito graças à sua pessoa, entrou
para minha memória como uma época não só de aprendizado, mas também de companheirismo
e de leveza. De fato, desse tempo, ficam a saudade de um amigo querido e a lição de que trilhar
novos caminhos pode ser uma opção produtiva, ainda que os acertos não sejam imediatos. Para
homenageá-lo, apresento os resultados de uma reflexão que iniciei recentemente sobre
aforizações que fogem do padrão. Imagino que Dercir poderia ficar satisfeito de ver que
continuo procurando novas questões, com disposição para debates e críticas. Provavelmente ele
diria que é um bom começo de conversa.
Com tal intuito, inicio este artigo retomando as reflexões de Maingueneau (2006, 2010,
2014), sobre as frases sem texto. Como bem observa o autor, os gêneros discursivos não se
valem necessariamente de textos constituídos por um conjunto de frases interligadas segundo
regras específicas. Observando provérbios, ditados, slogans, máximas, manchetes de artigos de
imprensa, citações célebres, o autor nota que há frases que parecem fugir à ordem do texto. Tais
frases podem circular como frases completamente autônomas nos muros das cidades, nas
camisetas das pessoas, nas redes sociais, em ilustrações da mídia impressa, enfim, nos mais
diversos tipos de suportes. Mas é possível também que sejam empregadas como frases
destacadas, mas não completamente isoladas, pois ainda estão inseridas em textos que derivam
de gêneros; é o caso das frases que compõem as manchetes jornalísticas, os títulos ou subtítulos,
as legendas de fotografias.
Normalmente essas frases foram extraídas, ou melhor, destacadas de textos, o que leva
Maingueneau (2010) a dividi-as em dois subconjuntos, conforme a natureza de seu
destacamento: de um lado, os provérbios e as demais fórmulas sentenciosas que, pela natureza,
não se vinculam mais a um contexto situacional nem a um cotexto original. Para esses casos, o
destacamento é classificado por Maingueneau como sendo do tipo constitutivo ou primário. 39

No outro subconjunto, o do destacamento secundário, estão as frases extraídas de um


texto particular. Segundo Maingueneau (2010), essa extração não acontece por acaso, já que
certas frases têm características ou propriedades que favorecem a extração, isto é, que as tornam
destacáveis. Entre essas propriedades, podemos citar: (i) o fato de a frase apresentar uma relação
íntima com a temática central do texto; (ii) a posição em que a frase se encontra no texto
(normalmente o final do texto); (iii) o fato de a frase ser dotada de certas propriedades
enunciativas, como a de ser uma frase generalizante, dotada de um tom um pouco mais solene.
Essas propriedades favorecem a extração da frase, tornando-a destacável, o que pode
vir a ocorrer efetivamente: por exemplo, a frase de uma matéria de jornal pode ser repetida e
empregada como sua manchete ou subtítulo, ou ainda é possível que uma frase dita por uma
figura pública (uma celebridade, uma autoridade governamental) num momento específico
(uma entrevista, um comício) venha a ser citada em outro texto, ligado a um contexto posterior
e independente do original.
Como bem observa Maingueneau (2010), a destacabilidade das frases, isto é, a
propriedade que abre a possibilidade para que sejam extraídas, segue uma direção contrária à
própria dinâmica da textualização, que leva os constituintes dos textos a ser integrados por meio
de elos coesivos, formando uma unidade orgânica.
Embora a destacabilidade favoreça a extração das frases, ela não se confunde com o
destacamento efetivo. Para acentuar essa diferença, Maingueneau (2010) formula o conceito de
sobreasseveração. Trata-se de uma operação de destaque de uma frase em relação ao restante
do texto por meio de marcadores de diversas ordens: de ordem aspectual (a genericidade da

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frase), de ordem tipográfica (a posição de destaque que ocupa no texto), de ordem prosódica
(saliência fônica), de ordem sintática (construção do tipo pregnante), de ordem semântica
(presença de uma figura de linguagem) etc.
As frases sobreasseveradas ou destacáveis não fazem parte da lógica da citação, por
isso não devem ser consideradas frases destacadas propriamente ditas, ainda que a
sobreasserveração favoreça muito o destacamento posterior. Outro indício de que se trata de
fenômenos distintos é o fato de muitas frases que foram efetivamente destacadas (na qualidade
de manchetes, títulos ou subtítulos) não corresponderem a frases incialmente sobreasseveradas
nos textos originais. Dadas essas diferenças, podemos dizer que a sobreasservaração facilita o
destacamento, ainda que não seja condição nem garantia de sua ocorrência efetiva.
Para os casos de destacamento por extração, Maingueneau (2010) diferencia o
destacamento forte, em que a frase destacada se separa do texto fonte, e o destacamento fraco,
em que a frase destacada fica contígua ao texto-fonte, na qualidade de uma manchete, de um
intertítulo, de legenda de foto, por exemplo. No processo de destacamento, a frase pode sofrer
alguma alteração, porque, ao contrário das outras frases do texto (inclusive das frases
sobreasseveradas, isto é, as destacáveis, mas não efetivamente destacadas), as frases destacadas
desfrutam de um status pragmático especial, pois decorrem de um regime de enunciação
específico chamado por Maingueneau de “enunciação aforizante”, em oposição à enunciação
textualizante.
Na enunciação textualizante, a cena relativa ao gênero discursivo a que o texto
pertence define posições correlativas de produção e de recepção aos protagonistas do discurso.
Trata-se, essencialmente, de papéis que implicam direitos, deveres e competências associados
a uma cena verbal específica, na qual a responsabilidade do dizer é partilhada e negociada, 40
respeitando o contrato do gênero discursivo. Além disso, nesse tipo de enunciação, os
pensamentos se articulam por meio dos mais diversos jogos de linguagem (argumentar, narrar,
responder etc.).
Por outro lado, na enunciação aforizante, não há posições correlativas; encontra-se
apenas uma instância que se dirige a uma espécie de auditório universal, que, por sua vez, não
se reduz a um enunciatário específico. Assim, no lugar de protagonistas colocados no mesmo
plano, essa enunciação, de tipo monologal, centra-se completamente no enunciador, que passa
a ser apreendido em sua totalidade, isto é, sem ruptura entre a instância discursiva e a instância
tomada fora da enunciação. Nesse caso, é o próprio indivíduo que se exprime,
independentemente de qualquer papel discursivo em particular, e seu pensamento é expresso
aquém de qualquer jogo de linguagem. Esse pensamento não é uma argumentação, nem uma
resposta, nem uma narração: é uma tese, uma afirmação soberana.
Além disso, na enunciação textualizante, há possibilidade de haver heterogeneidade
enunciativa; por exemplo, pode haver diferentes figuras do enunciador, diferentes planos
(primeiro plano e segundo plano), diferentes modos enunciativos (embreado e desembreado).
Mas, na enunciação aforizante, não há espaço para a heterogeneidade nem para a mudança de
planos enunciativos.
Outra diferença importante entre os tipos de enunciação: enquanto a enunciação
textualizante resiste à apropriação por uma memória, dada à própria dificuldade de
memorizarmos textos longos, a aforizante pretende ser uma fala sempre disponível, que estaria
atualizando o que seria, de fato, digno de memorização. Esse é um efeito de sentido desse tipo

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de enunciação, que se apresenta como se fosse parte de uma repetição que é, na verdade,
inaugurada por meio de sua própria ocorrência.
Desse modo, nas frases destacadas, também chamadas de frases aforizadas, o
enunciador consegue ir além da diversidade das interações imediatas dos gêneros discursivos.
Maingueneau (2010) nomeia esse enunciador de “aforizador”, esclarecendo que ele assume o
ethos daquele que está no alto, do indivíduo autorizado que está em contato com uma fonte
transcendente. Ele é aquele que enuncia algo que prescinde de negociação, como uma verdade
soberana, uma tese.
Nesses termos, o aforizador, segundo Maingueneau (2010, 2014), diz respeito a um
sujeito de pleno direito, pois, nessa figura discursiva, o sujeito da enunciação coincide com o
sujeito no sentido jurídico e moral; trata-se, afinal, de alguém que se coloca como responsável,
que afirma valores e princípios perante o mundo, dirigindo-se a uma comunidade que está além
dos indivíduos empíricos que são seus enunciatários mais diretos.
Outra característica importante das frases aforizadas diz respeito ao sentido. Segundo
Maingueneau (2010), a descontextualização dessas frases é acompanhada por uma opacificação
de seu sentido, que conduz o enunciatário a um trabalho interpretativo, de acordo com o qual é
levado a atribuir um sentido que vai além do sentido imediato mais óbvio dessas frases. Mais
exatamente, para o autor, a interpretação das frases aforizadas assume uma forma geral que
pode ser assim definida: “dizendo X, o enunciador implica Y, onde Y é um enunciado genérico
de valor deôntico” (MAINGUENEAU, 2010, p.15). Quanto a esse trabalho interpretativo, o
autor, considerando especialmente o caso das frases aforizadas que circulam no discurso
jornalístico ou no discurso cotidiano, faz a seguinte observação:
41
Certamente, não se trata de uma hermenêutica tão rica e institucionalizada quanto a
que acompanha os textos filosóficos, religiosos ou literários, mas é uma verdadeira
‘atitude hermenêutica’ que leva os leitores ou os ouvintes a mobilizar certo
número de estratégias interpretativas: partindo do postulado de que a aforização
resulta de uma operação de destacamento que é pertinente, o leitor deve
construir interpretações que permitam justificar essa pertinência. Pouco importa
qual seja a interpretação que ele construa, o essencial é que ele postule um além do
sentido imediato e aja de acordo. Fazendo isso, o enunciatário é chamado a justificar,
pela busca hermenêutica, a própria operação de destacamento: o fato de esse
enunciado ser apresentado em um regime aforizante leva o enunciatário a legitimar a
totalidade do quadro situacional. (MAINGUENEAU, 2010, p. 15, grifoS nosso).

O conteúdo da frase deve ser entendido, nesses termos, como uma verdade que
dispensa qualquer tipo de negociação. A fim de exemplificar o valor deôntico desse tipo de
frase, Maingueneau cita o caso de uma frase aforizada que foi atribuída à cantora Preta Gil e
apresentada pela revista Veja numa seção de frases destacadas: “Eu me acho linda” (Veja, 3 de
setembro de 2003, apud MAINGUENEAU, 2010, p. 15). Para o autor, essa frase, apesar de ser
aparentemente trivial, tem um sentido que vai além de seu sentido imediato e que pode ser
parafraseado por uma frase genérica com valor deôntico explícito. Nesses termos, paráfrases
possíveis para a frase aforizada em questão seriam: “Não se deve ter vergonha de ser gordo”,
“Deve-se ter orgulho de ser negro”, “A gente deve se amar”, “Não se deve esconder o corpo”
etc.
Considerando as propriedades gerais da enunciação aforizante, neste trabalho,
analisamos as frases aforizadas presentes na obra “O avesso das coisas”, de Carlos Drummond

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de Andrade. Conforme vamos apresentar no próximo item, a análise revela que essas frases
aforizadas têm certas particularidades que fogem um pouco do padrão típico da enunciação
aforizante, o que conduz a refletir sobre o status enunciativo dessas frases.

“O avesso das coisas”

Neste trabalho, analisamos frases aforizadas presentes em O avesso das coisas, livro de
aforismos de Carlos Drummond de Andrade publicado posteriormente à sua morte. O livro em
questão apresenta as frases aforizadas organizadas em ordem alfabética, todas dispostas depois
de um item lexical (normalmente um substantivo comum) que informa o tema da aforização,
como se esse par “termo + frase aforizada” formassem um verbete, o que configura a
cenografia2 de um dicionário. Vejamos alguns exemplos:

(1) Civilização. Uma civilização que, para sobreviver depende de petróleo, não merece esse nome. (p.44)

(2) Crueldade. Condenamos a crueldade alheia sem indagar se, em situação idêntica, não faríamos a mesma
coisa. (p. 53)

(3) Harmonia. A ideia de harmonia é chocante em um mundo de seres desarmônicos. (p. 101)

No livro há 478 verbetes, mas, como há verbetes em que o mesmo item lexical está
seguido de mais de uma frase aforizada, apresentadas separadamente, tal como ocorre nos
dicionários, em que os itens lexicais podem vir acompanhados de mais de um sentido, o número 42
de aforizações, 928 no total, é maior que o número de entradas lexicais.
Considerando os itens lexicais que são tematizados nesses verbetes por meio das frases
aforizadas, podemos dizer que o livro, do ponto de vista temático, é bastante heterogêneo, pois
discorre sobre temas variados que estão normalmente associados a certos tipos de discurso.
Assim, embora não seja possível circunscrever exatamente a temática da publicação, notamos
que há frases aforizadas que estão mais próximas, por versarem sobre temas que estão
associados a certos tipos de discurso, ainda que não de modo exclusivo. Vejamos algumas
possibilidades de agrupamento desses temas que correspondem a um item lexical sobre o qual
versa(m) a(s) frase(s) aforizada(s) que lhe segue(m):

2
Segundo Maingueneau (2006), toda enunciação envolve três cenas: cena englobante, cena genérica e cenografia.
A cena englobante diz respeito ao estatuto pragmático do discurso, integrando-o a um tipo específico (discurso
publicitário, científico, literário, jornalístico etc.). A cena genérica é a cena do contrato associado a algum gênero
de discurso (editorial, sermão, artigo científico etc.) e, como tal, tem aspectos pré-definidos e constantes; por
exemplo: define papéis específicos aos participantes do discurso (numa aula, por exemplo, um professor se dirige
a alunos), é dotada de uma finalidade específica, elege um tipo de suporte próprio, define um tempo e um lugar
apropriados etc. Por fim, a cenografia é a cena particular a partir da qual a enunciação se constitui. Assim, por
exemplo, um romance pode ser enunciado por meio de uma cenografia de diário íntimo, ou de relato de viagem,
ou de troca de correspondências. Como o autor afirma, não se trata de um mero cenário: a cenografia legitima
um discurso que, em troca, deve legitimá-la, estabelecendo que essa cenografia é exatamente a cenografia
requerida para enunciar como convém. Nesses termos, é, ao mesmo tempo, a fonte do discurso e aquilo que ele
mesmo engendra.

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- temas do discurso religioso: anjo, apocalipse, Bíblia, confissão, diabo, eternidade, fé,
Igreja, inferno, oração, pecado, pecados capitais (isto é, avareza, cólera, inveja, gula,
luxúria, preguiça, vaidade);
- temas do discurso político: constituição, democracia, direito, direitos do homem, ditadura,
estado, governo, liberal, ministro, monarquia, ONU, parlamento, partido, pátria, segurança
nacional, tirania, vice-presidência, voto;
- temas do discurso sexual: cópula, masturbação, nudez, orgasmo, sensualidade, sexo, pênis,
pornografia, prazer, virgindade;

Ainda quanto à temática, o livro apresenta um viés metalinguístico, uma vez que contém
verbetes sobre os seguintes itens lexicais, todos associados ao universo da linguagem: aforismo,
cinema, citação, cronista, dicionário, esperanto, gramática, leitura, língua, linguagem, literatura,
livro, palavra, poesia, soneto, surrealismo, rima, teatro, televisão, verbete, verso.
Além disso, há também verbetes sobre figuras Bíblicas (Adão, Caim, Cristo, Deus, Jó,
Jonas, Judas, Maria Madalena, Noé, Pilatos, Salomão, São José), sobre figuras do universo da
produção cultural (Balzac, Dante, Flaubert, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Marcel Proust,
Mozart, Tolstoi, Wagner, Kafka) e sobre figuras históricas (Júlio César, Napoleão, Nero).
Apesar dessa heterogeneidade temática, todas as frases aforizadas apresentam um traço
comum, isto é, o fato de que seu conteúdo está ligado a algum tipo de crítica social. Conforme
já dito, segundo Maingueneau, nas aforizações, o enunciador, que é o “aforizador”, assume o
ethos daquele que está no alto, do indivíduo autorizado que está em contato com uma fonte
transcendente e, nessas condições, enuncia algo que prescinde de negociação, como uma
verdade soberana, uma tese. No caso das aforizações do livro em análise, o que esse aforizador 43
enuncia é menos uma tese que poderia traduzir um modelo de conduta e mais algum tipo de
denúncia, de crítica social.
A esse respeito, podemos notar que o prefácio da obra sinaliza que as frases aforizadas
estão na contramão de um certo modelo. Mais exatamente, nesse prefácio, o autor afirma que
suas aforizações, ao contrário das aforizações dos moralistas, que eram máximas, são
“mínimas”. Nas palavras do próprio Drummond de Andrade:

Assim como os antigos moralistas escreviam máximas, deu-me vontade de escrever o


que se poderia chamar de mínimas, ou seja, alguma coisa que, ajustada às limitações
do meu engenho, traduzisse um tipo de experiência vivida, que não chega a alcançar
a sabedoria, mas que, de qualquer modo, é resultado de viver.
Andei reunindo pedacinhos de papel em que estas anotações vadias foram feitas e
ofereço-as ao leitor, sem que pretenda convencê-lo do que penso nem convidá-lo a
repensar suas ideias. São palavras que, de modo canhestro, aspiram a enveredar pelo
avesso das coisas, admitindo-se que elas tenham um avesso, nem sempre perceptível,
mas às vezes curioso ou surpreendente. (DRUMOND DE ANDRADE, 2010, p. 5,
grifo nosso).

Conforme podemos notar, as frases aforizadas ali reunidas comungam algo com aquelas
que o autor toma como modelo (“as máximas, dos moralistas”), uma vez que, como tais frases
aforizadas, também oferecem algum tipo de experiência, como resultado do viver, mas parecem
não ter o mesmo status, já que são frutos de uma experiência “que não chega a alcançar a
sabedoria”. São apresentadas ainda como “anotações vadias”, “palavras que, de modo
canhestro, aspiram a enveredar pelo avesso das coisas”.

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Desse modo, considerando as frases aforizadas tomadas como exemplo, podemos dizer
que o tipo de frase aforizada a que o autor se refere e a partir de que apresenta as suas por
oposição é justamente o tipo de aforização mais canônica, relativa aos provérbios, às máximas
heroicas, às fórmulas filosóficas, que, diferentemente de outros tipos de frases aforizadas (por
exemplo, as frases embaraçosas ditas por celebridades que foram posteriormente destacadas
pela mídia contemporânea) são, acima de tudo, “teses, enunciados genéricos de grande teor
doutrinal” (MAINGUENEAU, 2006, p.81), frases normalmente marcadas por um tom
apropriado, um pouco mais solene.
A crítica literária também reconhece esse aspecto do livro, conforme podemos observar
na reflexão desenvolvida por Topa (1995), segundo o qual a distância que há entre as frases
aforizadas de Drummond de Andrade e as da tradição poderia justificar o fato de a crítica
portuguesa não ter dispensado, até aquele momento, atenção à publicação. Assim, para Topa
(1995), como as aforizações de Drummond de Andrade não estão “do lado utilitário, mas do
lado do puro prazer3”, elas se desmarcam “de algum modo da longa e nobre tradição literária
do aforismo, o que poderá ajudar a explicar a menor atenção que a crítica dispensou à obra”
(TOPA, 1995, p. 424).
O léxico empregado no prefácio é revelador desse aspecto; vejamos: “vadias”,
“canhestro”, “avesso” compõem um tipo de léxico que contraria as expectativas relativas ao
tom mais solene das aforizações canônicas e diz respeito ao conteúdo das aforizações em
questão, vinculado a algum tipo de crítica social, que ora é mais sutil, ora mais direta, conforme
podemos notar respectivamente nos exemplos (4) e (5) que denunciam aspectos negativos do
perfil dos políticos:
44
(4) Zen. Prática budista que faz falta a governantes e políticos: exige meditação profunda. (p.239)

(5) Política. A ignorância, a cobiça e a má-fé também elegem seus representantes políticos. (p. 181)

Conforme podemos notar, no exemplo (4), a crítica a governantes e políticos se faz de


um modo indireto, uma vez que não se diz explicitamente como eles são, apenas se lhes aponta
uma falta, a da prática do zen, que exige meditação profunda. Desse modo, cabe ao enunciatário
inferir como os políticos são, considerando essa falta. Essa inferência poderia ser traduzida mais
ou menos nos seguintes termos: os políticos não praticam o zen, pois não são capazes de
meditação profunda e, se não são assim, é porque devem ser o contrário, isto é, superficiais,
imediatistas, voltados a valores mais rasos. Já no caso seguinte, o do exemplo (5), podemos
notar uma crítica mais aberta, na medida em que se afirma que, entre os políticos, estão os
representantes da ignorância, da cobiça e da má-fé, o que seria o mesmo de dizer que políticos
(ou pelo menos alguns deles) são ignorantes e/ou ambiciosos e que agem de má-fé.
A respeito da visão - crítica - de mundo presente nessas frases aforizadas, notamos que
ela está relacionada a uma gradação de tons, que vai do humor ao pessimismo, passando pelo
realismo. Vejamos exemplos:

3
O prazer a que Topa (1995) faz referência, do nosso ponto de vista, está ligado à própria opção de Drummond
de Andrade de enveredar pelo avesso das coisas, considerado que o avesso é apresentado por ele, no prefácio da
obra, como algo “curioso ou surpreendente”.

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(6) Sociedade. Viver em sociedade requer instinto de formiga, presas de leão e habilidade camaleônica. (p.204)

(7) Casamento. Há homens e mulheres que fazem do casamento uma oportunidade de adultério. (p.39)

(8) Comida. A comida costuma faltar ou sobrar por motivos alheios ao apetite. (p.45)

(9) Vida. A certa altura da vida não vale a pena acreditar que alguma coisa valha a pena. (p.229)

O exemplo (6) versa sobre as dificuldades de se viver em sociedade, o que exigiria


habilidades especiais designadas metaforicamente por “instinto de formiga”, “presas de leão”,
“habilidade camaleônica”. O modo exagerado como tais habilidades são apresentadas e a
própria referência ao mundo animal envolvida nas metáforas dessa frase aforizada lhe conferem
um tom de humor. No caso seguinte, o do exemplo (7), o humor está relacionado à quebra de
expectativa provocada pela antítese casamento vs. adultério.
Já os demais exemplos são marcados por outros tipos de tons: no exemplo (8), o tom é
sério e adequado para se tratar do tema da má distribuição de renda, que leva algumas pessoas
a passarem fome (“comida costuma faltar”) enquanto outras desperdiçam comida (“comida
costuma sobrar”); já no exemplo (9), o tom é claramente pessimista, uma vez que se afirma que
há na vida um momento (pelo menos um) em que mais não vale a pena cultivar esperanças
(“acreditar que alguma coisa valha a pena”).
Especificamente quanto ao tom humorístico das frases aforizadas do livro em análise,
Topa (1995) observa que esse tom “não está ao lado da alegria”. Mais exatamente, como
observa, a crítica tecida nessas aforizações “implica uma visão que, por excesso de lucidez ou
por desfocagem intencional, chega a ser cruel” (TOPA, 1995, p. 426). Além disso, o crítico 45
literário nota que esse tom sofre variações. A esse respeito, Topa (1995) afirma:

há várias tonalidades de humor, adequadas a cada circunstância. Há momentos em


que apresenta um caráter cómico mais ou menos imediato [...]. Há outros em que,
sob a aparência de um certo tipo de humor negro, se colocam subtilmente questões
sérias e se assume uma atitude crítica face a determinada prática social [...]. Há outros
ainda em que, sob uma feição quase macabra, se destaca sobretudo a subtileza da
visão e o estabelecimento de relações insuspeitáveis entre extremos [...]. (TOPA,
1995, p. 426, grifos nossos).4

A visão crítica também está presente nas aforizações de natureza metalinguística:

(10) Escola literária. Na escola literária não há discípulos; só há mestres. (p.78)

(11) Língua. A língua portuguesa deveria dispensar seus defensores pedantes e defender-se por si mesma.
(p.129)

(12) Literatura. As obras-primas devem ter sido geradas por acaso; a produção voluntária não vai além da
mediocridade. Novidade em literatura costuma surgir envolta em naftalina. (p.131)

(13) Livros. Nos livros tudo se aprende inclusive a inutilidade de escrevê-los. (p.132)

4
Quanto a essa variação de tons, Topa (1995) registra ainda que algumas frases aforizadas são marcadas por um
“humor cáustico, que se exercita na denúncia de eventuais mistificações menos óbvias” (TOPA, 1995, p. 428).

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Conforme podemos notar, os elementos do universo da linguagem (escola literária,
obras-primas da literatura, livros, língua) podem funcionar como gatilhos para que seja revelado
algum aspecto menos distinto e menos perceptível (ou, quem sabe, apenas menos comentado)
do universo da criação literária; esse parece ser o caso das frases aforizadas em (12) e (13), que
revelam que a literatura também pode ser medíocre, ou inútil etc. Por outro lado, esses
elementos também podem servir de gatilho para que seja tecida alguma crítica mais voltada ao
próprio comportamento humano marcado por certos vícios. Por exemplo, na frase aforizada
apresentada em (10), o tema “escola literária” pode ser entendido como um pretexto para que
se aborde indiretamente a vaidade e/ou presunção humana, que é o que mais provavelmente
justifica o fato de os integrantes de uma mesma escola literária se considerarem todos “mestres”
(e, portanto, todos brilhantes, geniais) e não “discípulos” (e, portanto, menos importantes,
menos brilhantes). No exemplo (13), por sua vez, a “língua” parece ser um pretexto para se
referir ao pedantismo de seus “defensores”.
Considerando conjuntamente as características apresentadas (visão crítica, tom de
humor, tom pessimista) que distanciam as frases aforizadas de Drummond de Andrade das que
o próprio autor toma como modelo, parece-nos possível enquadrá-las entre os casos de
subversão, atualizando, de um certo modo, a reflexão desenvolvida por Maingueneau (2001)
sobre os modos a partir dos quais um discurso pode se apoiar em outro. Segundo Maingueneau
(2001), entre essas formas de composição discursiva estão os casos de imitação. A imitação não
se refere exatamente à prática de copiar um fragmento isolado, mas de tomar como modelo um
texto ou um gênero de discurso, com metas específicas, isto é, seguindo a sua orientação ou
desqualificando-a. No primeiro caso, temos o fenômeno da captação; no segundo, subversão.
Conforme esclarece Maingueneau (2001), tanto na captação quanto na subversão, a imitação
pode operar sobre dois planos distintos: o do gênero do discurso e o do texto reconhecido. 46
Do nosso ponto de vista, parece-nos possível ampliar a compreensão do fenômeno da
subversão, com a inclusão de casos de subversão do tipo de enunciação. Nesses termos,
estariam sujeitas a essa classificação todas as frases aforizadas que questionam ou
ridicularizam, de alguma forma, a sabedoria popular dos provérbios, das frases feitas e dos
discursos cristalizados.5 Diga-se o mesmo para outros casos de frases aforizadas, como as frases
em análise, que se valem desse tipo de enunciação não para reforçar sua eficiência, mas para
tecer uma crítica social de um modo inusitado, subvertendo algumas das expectativas
associadas à enunciação aforizante. Dito de outro modo: trata-se de casos de uma enunciação
aforizante às avessas, justamente porque rompe com aspectos marcantes das mais canônicas,
tal como tom e conteúdo/propósito. Assim, nas canônicas, o aforizador enuncia uma tese ou
uma verdade soberana ligada ao propósito de apresentar uma norma de conduta, o que se faz
por meio de um tom mais solene; nas frases aforizadas em análise, por outro lado, encontramos
uma crítica social que se tece por meio de vários tipos de tons (tons de humor, tom realista, tom
pessimista).
Reforça nossa hipótese o fato de haver no livro frases aforizadas que subvertem o
conteúdo de certos provérbios e de frases célebres, o que também foi observado por Topa
(1995), embora em outros termos. Vejamos exemplos desses casos:

5
A letra da canção Bom Conselho, de Chico Buarque, oferece-nos bons exemplos de casos assim: “inútil dormir
que a dor não passa”, “está provado, quem espera nunca alcança”, “aja duas vezes antes de pensar”.

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(14) Deus. Para distrair-se, Deus costuma escrever torto em linha tortas. (p.62)

(15) Independência. A frase completa do Imperador deveria ser: “Independência econômica ou morte”. (p. 113)

Conforme podemos notar, o exemplo (14) subverte o provérbio “Deus escreve certo por
linhas tortas”, enquanto o exemplo (15) altera o sentido da frase atribuída ao imperador D.
Pedro I, quando da proclamação da independência do Brasil, isto é, “independência ou morte”.
A respeito desses casos de intertextualidade, Topa (1995) afirma que, valendo-se de estratégias
distintas (substituições ou acréscimos lexicais, emprego de metáforas etc.), há nessas frases
aforizadas sempre um efeito de transformação do texto base, a partir do qual um novo sentido
se produz, contradizendo, às vezes mais, às vezes menos, o sentido do discurso original, o que
está “claramente a serviço de uma estratégia satírica” (TOPA, 1995, 429). Enfim, como se trata
de mais caso de emprego de linguagem que não segue a mesma direção do discurso que toma
como modelo, entendemos que esses casos reforçam a pertinência de nossa hipótese.

Considerações finais

Neste trabalho, considerando as características da enunciação aforizante apontadas por


Maingueneau (2006,2010 e 2014), tecemos algumas considerações sobre as frases aforizadas
reunidas no livro O Avesso das Coisas, de Carlos Drummond de Andrade. Nessa reflexão, que
também dialoga com Topa (1995), notamos que tais frases aforizadas se afastam um pouco do
padrão das aforizações mais canônicas, próximas do tipo de aforização a que o próprio autor do
livro elege como modelo, isto é, as máximas. 47
Mais exatamente, considerando certas de suas características (crítica social, tom de
humor, tom realista, tom pessimista, heterogeneidade temática, intertextualidade), notamos que
as frases aforizadas em análise fogem mesmo ao padrão das aforizações mais prototípicas, que
são marcadas por um tom mais solene, que são mais homogêneas, que se destinam a sustentar
uma verdade soberana, muitas vezes relativa a uma norma de conduta.
Essa diferença nos conduz à proposta de tratar o livro como um caso de subversão da
enunciação aforizante. Desse modo, O Avesso das Coisas pode ser considerado como uma
enunciação aforizante às avessas, que, mais do que oferecer ao leitor verdades soberanas,
relativas a normas de comportamento, volta-se a expor uma visão crítica sobre os temas de que
trata. De fato, se consideramos o modo como as frases aforizadas são definidas no próprio livro
(“O aforismo constitui uma das maiores pretensões da inteligência, a de reger a vida 6 ”),
podemos dizer que suas frases aforizadas, distantes desse objetivo, estão mais voltadas a
observar a vida de um modo crítico, oferecendo ao leitor a possibilidade de conhecer uma certa
visão de mundo de uma forma criativa e pouco corriqueira, já que se faz pelas avessas, ou seja,
subvertendo as expectativas da enunciação aforizante.

REFERÊNCIAS

DRUMMOND de ANDRADE, Carlos. O avesso das coisas: aforismos. 7.ed. Rio de Janeiro:
Record, 2010.

6
Drummond de Andrade, 2010, p. 8.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. Tradução de Cecília Pérez
de Souza-e-Silva e Décio Rocha. São Paulo: Cortez, 2001.

MAINGUENEAU, Dominique. Cenas de enunciação. Tradução de Maria Cecília Pérez de


Souza-e-Silva et al. Curitiba: Criar Edições, 2006.

MAINGUENEAU, Dominique. Doze conceitos em análise do discurso. Tradução de Adail


Sobral et al. São Paulo: Parábola, 2010.

MAINGUENEAU, Dominique. Frases sem texto. Tradução de Sírio Possenti et. al. São Paulo:
Parábola Editorial, 2014.

TOPA, Francisco. Drummond minimal: revisitação de O avesso das coisas. Línguas e


Literaturas, Porto, v. 12, série 2, 1995, p.423-430.

Recebido em 25/10/2019.
Aprovado em 12/11/2019.
Publicado em 31/12/2019.

48

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
A articulação de cláusulas na
retextualização da fala para a
escrita1
Clause combining upon retextualization from spoken to written language

Maria Beatriz Nascimento DECAT2

RESUMO: Neste trabalho investiga-se como se processa a articulação (ou combinação) de cláusulas em português,
na atividade de retextualização de textos orais para escritos, com ou sem mudança de gênero textual. É dado
enfoque, sobretudo, às operações que seguem regras de transformação, propostas por Marcuschi (2001), através
de estratégias de substituição, acréscimo, reordenação e condensação. São analisadas especificamente as relações
de caráter adverbial, procurando verificar de que maneira as proposições relacionais desse tipo, que emergem no
texto-base, são mantidas no texto-final e como elas ali se materializam linguisticamente. Objetiva-se mostrar como
a combinação de orações pode estar a serviço dos diferentes propósitos comunicativos do usuário da língua quando
da organização/reorganização de um texto, após a retextualização, procurando verificar o que conduz ao uso da
estratégia de condensação, que fator sintático-discursivo ou pragmático leva à reordenação, ou à substituição de
uma estrutura por outra.
49
PALAVRAS-CHAVE: Retextualização. Articulação de orações. Relações retóricas. Organização discursiva

ABSTRACT: This is an investigation of how clauses are combined in Brazilian Portuguese upon retextualization
from spoken to written language, whether or not the textual genre is maintained. An emphasis is placed on
operations that follow transformation rules, such as the ones proposed by Marcuschi (2001), involving the
strategies of substitution, addition, reordering and condensation. More specifically, adverbial structure is analyzed
to establish how adverbial propositions from the base-text are linguistically materialized in the end-text. The aim
is to demonstrate in which sense clause combining may serve a language user’s various communicative purposes,
as he/she organizes and reorganizes a text after retextualization. What exactly is conducive to the use of the strategy
of condensation? Is there a specific syntactic-discursive factor or else a pragmatic factor leading to reordering or
substitution of a structure for another?

KEYWORDS: Retextualization. Clause combining. Rhetorical relations. Textual organization

Introdução

Com este trabalho, presto minha homenagem ao Prof. Dr. Dercir Pedro de Oliveira, com
quem tive a oportunidade de compartilhar conhecimento e experiência de vida. O contato com

1
Este trabalho foi apresentado em comunicação no X Congresso Internacional da ALED, em 2010, sob o título
“Retextualização: a articulação de cláusulas na organização discursiva”, e foi atualizado para fins desta
publicação.
2
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Faculdade de Letras. Docente do Programa de Pós-Graduação
em Estudos Linguísticos da UFMG. Belo Horizonte – MG – Brasil. CEP: 31270-901. E-mail:
bdecat@uol.com.br

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
o querido e saudoso Dercir, colega de curso de doutorado na PUC-SP, proporcionou-me a
certeza de que nada fica para sempre do mesmo jeito. As tristezas, os ‘sufocos’ do curso, os
momentos pesados eram logo ‘retextualizados’ por Dercir, através de suas gargalhadas sonoras
e cativantes, que faziam todos acreditarem que tudo era bom, tudo era possível. Saudades de
você, meu amigo!
Neste estudo pretendo mostrar como se processa a articulação (ou combinação) de
cláusulas (orações) em português, a partir da atividade de retextualização de textos orais para
escritos, com ou sem mudança de gênero textual. É dado enfoque à organização discursiva da
produção oral e escrita, sobretudo às operações que seguem regras de transformação, através
de estratégias de substituição, acréscimo, reordenação e condensação. São aqui trabalhadas as
operações propostas no modelo de Marcuschi (2001), principalmente as “regras de
transformação”. Assim, são analisadas preferentemente, mas não exclusivamente, as relações
de caráter adverbial, com o objetivo de verificar de que maneira tais relações, que emergem no
texto-base, são mantidas no texto-final e como elas ali se materializam linguisticamente. Esta
análise se vale, também, da noção de “proposições relacionais”, postulada pelos estudiosos da
Teoria da Estrutura Retórica (Rhetorical Structure Theory) – RST, uma teoria funcionalista
desenvolvida na costa oeste norte americana, que tem como seus expoentes e fundadores Mann
e Thompson (1983 e 1988), e Matthiessen e Thompson (1988). Segundo esses autores
funcionalistas, as “proposições relacionais” são inferências3 – ou significados – que emergem
da contiguidade entre duas cláusulas, podendo, no entanto, emergir entre porções maiores de
texto, sem necessidade de qualquer marca formal (por exemplo, um conectivo) que as
identifique. Em outras palavras, a “proposição relacional” é, por um lado, a informação
transmitida pelo texto e, por outro, um fenômeno de combinação, definido nas duas partes de
um texto, permitindo perceber a relação entre essas partes, qualquer que seja o seu tamanho. 50
Postulam aqueles autores que a gramática da articulação de orações reflete a organização
do discurso. Por outro lado, segundo a RST, a formação dos textos se dá por grupos
organizados de orações, havendo entre elas um relacionamento hierárquico que se manifesta de
diferentes formas. Além disso, as relações podem ser descritas com base na intenção
comunicativa do falante/escritor, e também na avaliação que ele faz de seu interlocutor, o que
reflete as escolhas, ou opções, do usuário da língua para a organização de seu discurso. Postula,
ainda, essa teoria que “a maioria das relações que se estabelecem são do tipo núcleo-satélite,
em que uma parte do texto serve de subsídio para outra” (ANTONIO, 2004, p. 40). O objetivo
é focalizar a articulação de cláusulas, mostrando como a combinação de orações pode estar a
serviço dos diferentes propósitos comunicativos do usuário da língua quando da
organização/reorganização de um texto, após o processamento da retextualização. Dentre
outros aspectos, interessa saber o que conduz ao uso da estratégia de condensação, ou que fator
sintático-discursivo ou pragmático leva à reordenação, ou à substituição de uma estrutura por
outra. A descrição aqui apresentada visa explicar como as orações se tornaram objeto dessas
transformações/operações/estratégias para servirem a funções discursivo-pragmáticas de
tópico, fundo, guia, entre outros, atendendo aos objetivos do usuário da língua na atividade de
retextualização.
Não vou me estender, neste trabalho, em maiores considerações sobre essa atividade, uma
vez que seus principais aspectos já foram exaustivamente estudados por Marcuschi, em várias
de suas obras, especialmente Marcuschi (2001), assim como por outros autores, como
Dell’Isola (2007). Para os propósitos deste artigo basta entendermos que a retextualização é

3
O termo ‘inferência’ é usado, aqui, como sinônimo de ‘significado’, simplesmente.

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uma atividade que consiste na passagem de um texto para outro, envolvendo operações
complexas que podem interferir tanto no código quanto no sentido. Trata-se de uma atividade
que exige, principalmente, a compreensão do que está dito no texto que servirá de base para a
transformação que se pretende, o que tem a ver com o aspecto cognitivo desse
processo/atividade. A retextualização será vista, então, como “a passagem de uma ordem para
outra ordem” (MARCUSCHI, 2001, p. 47), ou, nos termos de Dell’Isola (2007, p. 36), como
“a refacção ou a reescrita de um texto para outro”, ou, ainda, como a “transformação de uma
modalidade textual em outra, envolvendo operações específicas de acordo com o
funcionamento da linguagem”.
O corpus em que o presente estudo se baseou foi constituído de produções escritas
realizadas por informantes que dominam a norma culta (informantes não necessariamente de
nível universitário) e resultantes de retextualizações de textos orais. Os exemplos aqui
discutidos são de três tipos:

a) dados obtidos de uma Sessão Plenária do Tribunal de Contas de Minas Gerais, analisados
anteriormente por Rosa (2000), os quais considero, fundamentada nas postulações de
Marcuschi (Inédito e 2008), como pertencentes ao gênero ata (ou relato científico);

b) dados obtidos de uma retextualização feita com base em um excerto4 de entrevista do Projeto
NURC-SP, a partir da qual foi produzido um texto escrito5 do gênero propaganda;

c) dados obtidos de uma narrativa espontânea oral (narrativa de experiência pessoal), feita por
professor universitário e retextualizada, logo após sua produção oral, para a modalidade
escrita.6 51

As operações envolvidas nos dados analisados evidenciaram a aplicação das seguintes


estratégias (ou grupos de estratégias):

a) condensação versus desdobramento;

b) reformulação objetivando explicitude versus reformulação manifestando implicitude (±


condensação);

c) reformulação da estrutura sintática com objetivos pragmáticos.

Retextualizações com mudança de gênero

Os exemplos a seguir, retirados de Rosa (2000), apresentam a retextualização escrita


como uma etapa subsequente a duas anteriores. Trata-se de exemplos do tipo “a”, acima
explicitados. Neles há mudança do gênero discussão (a etapa oral do processo de construção

4
Excerto extraído do Inquérito 255 (Diálogo entre dois informantes), Bobina 95, Informantes 303 e 304, linhas
234-257, p. 105-106 de Castilho e Preti (1987).
5
Essa e outras retextualizações da entrevista foram produzidas por pós-graduandos em curso por mim ministrado.
6
Esses dados constituem parte do corpus investigado por Decat (1993) para a análise da hipotaxe adverbial no
português em uso.

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textual) para o gênero ata. Além da mudança de gênero, deu-se a alteração da modalidade, da
oral para a escrita, sendo que na escrita há dois momentos: o primeiro, em que o taquígrafo
elimina alguns elementos típicos da oralidade, ou marcas interacionais; e o segundo, em que o
revisor faz a sua retextualização que, de modo geral, vem a constituir o texto final,7 no gênero
ata.

(1)
Texto oral Escrito (taquígrafo) Escrito (revisor)
eu gostaria de lembrar... que no Gostaria de lembrar que no curto Gostaria de lembrar que no curto
curto período em que estive... período em que estive, quando período em que estive à frente da
eh... quando cheguei... cheguei cheguei, cheguei até durante uma Autarquia – aliás, lá cheguei até
até durante uma greve... eh:: nós greve, nós conseguimos encurtar durante uma greve –conseguimos
conseguimos... encurTAR o o período de remessa dos recursos encurtar o período de remessa dos
período de remessa dos recursos do Estado. recursos do Estado
do Estado

Fonte: Elaboração própria.

Na trajetória do exemplo acima, nos trechos destacados, observa-se o uso da estratégia de


condensação, em que duas unidades informacionais, que mantinham com a porção subsequente
“nós conseguimos” uma relação adverbial temporal – em função de satélite do núcleo “nós
conseguimos”, sob a ótica da RST – foram transformadas, por condensação, numa única
cláusula, no texto-final do revisor. A relação retórica núcleo-satélite, presente no texto-base,
passou para o âmbito intraoracional na retextualização. A estrutura resultante, no entanto, não
apresenta marcas do tipo “conectivo” que permitam explicitar a relação adverbial. Apesar disso, 52
essa relação (mais especificamente, a proposição relacional) emerge entre as partes no texto-
final, e é reconhecida pela presença de elementos não conectores, como “lá” e “durante”, que
carregam a significação espaço-temporal contida no texto-base (o oral). Essa estratégia de
condensação contribuiu para um ‘enxugamento’ do texto, aproximando-o do padrão culto da
modalidade escrita e do gênero ata, em nada prejudicando o conteúdo semântico do texto. Pode-
se também dizer que se aplicou, na retextualização em tela, a estratégia de reformulação com
vistas à implicitude, que tem a ver com a condensação. De qualquer forma, observa-se que a
relação retórica (proposição relacional) – também chamada de relação de coerência por
Taboada (2009) – de natureza circunstancial (espaço-tempo) foi mantida no texto-final,
materializada de forma diferente daquela do texto-base, ou seja, sem o conectivo que sinaliza a
relação semântica, o que mostra que essa marca não é imprescindível para o estabelecimento
da relação, como já mostrado por Taboada (2006).

(2)
Texto oral Escrito (taquígrafo) Escrito (revisor)
bem... considerando a proposta Bem considerando a proposta do Bem, eu acho que a proposta do
do:: conselheiro VX... eu acho conselheiro VX, eu acho que é a conselheiro VX, é igual à minha:
que é a mesma minha... mesma minha 500 por 500 UFIR por inadimplência, por
quinhentos por inadimplência por inadimplência por trimestre, não trimestre, não é mesmo?
trimestre... não é mesmo? é mesmo?

Fonte: Elaboração própria.

7
Há casos em que há mais uma retextualização, feita, então, pelo Conselheiro autor da fala. Para maiores detalhes,
consulte-se Rosa (2000).

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A mesma estratégia de condensação pode ser verificada no exemplo (2) acima. O texto-
base apresenta duas cláusulas – melhor dizendo, nos termos de Halliday (2004), dois complexos
clausais, ou oracionais – quais sejam: a) “considerando a proposta do::conselheiro VX” ; e b)
“eu acho que é a mesma minha”, nesse último caso uma oração encaixada dentro do complexo
oracional. A proposição relacional (ou relação retórica) que emerge entre esses dois complexos
é a de condição (que pode ser assim parafraseada: ‘se eu considerar/levar em consideração a
proposta do conselheiro, eu acho que é a mesma minha’). Pode-se postular que a carga
informacional contida na forma gerundial do verbo “considerar” é a mesma materializada na
expressão “eu acho”. Ora, se essa análise proceder, observa-se que a estratégia de condensação
foi aplicada exatamente para eliminar a repetição, visando explicitude, nos termos de Marcuschi
(1995): no texto-final, a materialização do conteúdo veiculado nos trechos dos dois momentos
anteriores se deu através de uma estrutura oracional que exibe um predicado de processo mental
(‘eu acho’) – nos termos de Halliday (2004). Na análise aqui proposta, considero que houve um
processo de articulação de orações por “encaixamento” (e não por uma relação retórica núcleo-
satélite, nos termos de Mann e Thompson, 1988), em que toda a informação veiculada pelos
dois complexos oracionais apontados acima foi condensada num único complexo (ou período),
do qual faz parte uma oração subordinada completiva.
A seguir, é apresentada uma amostra da análise dos dados obtidos nas retextualizações
construídas por alunos de pós-graduação. Por limitação de espaço, trago, aqui, somente um
exemplo dessa atividade, que teve como texto-base o seguinte excerto de uma entrevista
elicitada pelo Projeto NURC-SP. Trata-se de um diálogo entre dois informantes (D2, inquérito
255, linhas 234-257), tendo como um de seus temas o relacionado a transportes e viagens.

(3) 53

Doc. o senhor falou há pouco sobre::... trem...


L2 uhn...
Doc. eu gostaria de...
L2 trem?
Doc. é...
L2 olha trem eu sou FÃ de trem sabe: eu acho trem assim uhn o tipo de transporte gostoso... eu por
mim... [se pudesse escolher num determinado momento eu...escolheria o trem]... por algumas razões...
uma por exemplo é que... [no trem...eu acho que há o repouso assim integral]... [porque o trem não tem...
a mobilidade de um ônibus por exemplo que às vezes dificulta a leitura et cetera]... [quer dizer o trem é
mais esTÁvel... não mais do que o avião evidente o avião...é mais]... [mas o trem...tem a vantagem sobre
o avião assim... da gente ter... aquela tranqüilidade de saber que vai viajar durante um bom tempo... quer
dizer e que ele vai naquela linha] e [isso rePOUsa]... [eu acho isso repouSANte quer dizer... saber que
eu vou tomar um trem vou chegar daí a sete horas realmente de repouso... então relaxa... entende? e lê...
e mesmo aquela passagem por estações... aquela coisa sempre gostei disso]... [uma viagem por de trem
para mim sempre repousa sempre foi repousante]

Fonte: Castilho e Preti (1987, p. 105-106).

A partir desse texto-base, do gênero entrevista, foram feitas retextualizações escritas com
mudança para o gênero propaganda. Dessas produções de autoria de alunos de pós-graduação,
discuto uma em que a propaganda tem como suporte um folder, a ser distribuído em agências
de viagem, como se pode ver em (4) a seguir.

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(4)

VAI VIAJAR?...
Ô trem bão!!!

Então não vá de ônibus,


a não ser, claro, que goste de ficar sacolejando! Mas sabemos que não, ainda mais se você gosta de
aproveitar o tempo da viagem com leituras agradáveis.
Então a solução seria ir de avião?
Certamente também não, ainda mais se você pegar uma ponte aérea. É sentar e levantar, quase não dá tempo
nem de ler a orelha do livro!
Qual a solução, então?
Se você gosta de viagens repousantes, e não tem nenhuma pressa em chegar ao seu destino...
...VÁ DE TREM!
(Autor: A.C.A. Aderaldo)

Em (3) estão grifados os trechos cujas retextualizações serão aqui discutidas. Como os
trechos se encontram muito próximos uns dos outros, o grifo simples se alternará com grifo
duplo, além do uso de colchetes delimitando os trechos discutidos, para melhor diferenciação
entre eles.

Uma divisão macroestrutural do texto-base pode ser assim determinada:

a) uma primeira parte, em que se introduz o assunto (“olha trem eu sou [...] eu escolheria o
trem”) e em que há um posicionamento do falante quanto ao meio de transporte em discussão 54
– o trem;

b) uma segunda parte (“por algumas razões [...] sempre gostei disso”), em que o falante expõe
suas razões para preferir o transporte ferroviário;

c) uma última parte (“uma viagem [...] foi repousante”), que constitui um resumo de toda a sua
argumentação.

A temática desenvolvida em cada uma dessas partes materializa-se por relações retóricas
diversas; ou, em outras palavras, são de diferentes naturezas as proposições relacionais que
emergem entre as partes do texto, seja na sua macroestrutura seja na microestrutura
materializada pela articulação das orações.

Comparando-se o texto-base de (3) com a retextualização exibida em (4), observa-se que,


de uma maneira geral, as relações retóricas (ou proposições relacionais) se mantiveram, na
passagem da entrevista oral para o folder com o texto escrito da propaganda. A seguir serão
apontadas as equivalências e/ou diferenças entre os dois textos.

a) No texto-base, a relação de condição que emerge entre as orações do trecho “se pudesse
escolher num determinado momento eu... escolheria o trem” é exibida, no texto do folder, entre
as porções “VAI VIAJAR?” e “Então não vá de ônibus”. Observe-se que, na retextualização,
não há mais conectivos para marcar a relação retórica, mas essa permanece, o que reforça o que
postulam os teóricos da RST sobre o papel do conector, ou de sua ausência, na determinação

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da relação que emerge entre as partes. Como já apontado acima, Taboada (2006) enfatiza que
o conectivo sinaliza, mas não determina qual é a relação que emerge entre as partes. Assim, a
relação retórica se manteve na retextualização, mesmo não havendo conectivo que possa sugerir
a ideia de condição. Essa relação retórica serve para introduzir a proposta, que traduz os
objetivos comunicativos a que o texto estará servindo.

b) Na segunda parte da macroestrutura de (3) são dadas as razões para a preferência pelo trem,
quando se evidenciam relações de contraste envolvendo comparação, ora com o ônibus –
“porque o trem não tem...a mobilidade de um ônibus por exemplo” – que em (4) é materializada
por uma oração com relação adverbial de condição negativa, nos termos de Halliday (2004) –
“a não ser, claro, que goste de ficar sacolejando!”; ora com o avião – “o trem é mais
esTÁvel...não mais do que o avião” (em 3), que se realiza em (4) por uma relação de solução
(“Então a solução seria ir de avião?”). Mesmo negada a seguir (“Certamente também não”), a
solução é acompanhada imediatamente de uma relação de condição concessiva, que evidencia
o contraste (“ainda mais se você pegar uma ponte aérea”). No trecho logo a seguir – “É sentar
e levantar, quase não dá tempo nem de ler a orelha do livro!” – emerge uma relação de
causa:resultado, também proposta por Halliday (2004), ou simplesmente uma relação de
resultado, nos termos de Mann e Thompson (1988), podendo ser parafraseada como “de modo
que quase não dá tempo...”. Essa relação se faz presente também no texto-base, quando o falante
manifesta a possibilidade ‘repousante’ de se fazer leitura durante uma viagem de trem (“e isso
rePOUsa”). Essa referência à leitura já é feita logo no início da retextualização para o gênero
propaganda: o contraste entre as vantagens do trem e do ônibus é feito de imediato, relação essa
que é materializada por uma oração adversativa com valor concessivo (“mas sabemos que
não”), seguida de outra oração com relação de causa:condição (“ainda mais se você gosta de
55
aproveitar o tempo da viagem com leituras agradáveis”).

c) Finalmente, na terceira parte da macroestrutura do texto-base, encontra-se uma relação de


resumo – proposta por Mann e Thompson (1988) –, materializada pelo trecho “uma viagem
por de trem para mim sempre repousa, sempre foi repousante”. Na retextualização apresentada
em (4) não se detecta propriamente uma relação de resumo, mas de condição positiva (do tipo
“se... então”), materializada pelo complexo oracional formado pela coordenação de duas
orações adverbiais de condição – “Se você gosta de viagens repousantes / e / (se) não tem
nenhuma pressa em chegar ao seu destino” – e uma oração-núcleo, que veicula uma solução
(“VÁ DE TREM!”).

A análise da retextualização de (3) em (4) permite a conclusão de que, de modo geral, o


conteúdo informacional veiculado pelo texto-base foi mantido no texto-final, através de
materializações diferentes e condizentes com o gênero da retextualização, a propaganda. E
possível observar a recuperação, o resgate, pelo texto-final, de várias das relações retóricas que
emergiram no texto-base, através de operações de condensação e de reformulação, essa última
com vistas ora à explicitude ora à implicitude, nos termos de Marcuschi (1995).

Um caso de retextualização sem mudança de gênero

A terceira e última parte da presente análise traz a discussão referente a uma narrativa
de experiência pessoal. Do texto-base na modalidade oral foi feita a retextualização para a

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modalidade escrita, dentro do mesmo gênero relato. Como já foi dito anteriormente, os textos
aqui exibidos pertencem ao corpus por mim trabalhado (DECAT, 1993) em análise das relações
hipotáticas adverbiais no português em uso.
Abaixo seguem-se o texto-base (o relato oral) e a retextualização (relato escrito),
transcritos na íntegra. Neles foram selecionadas algumas estruturas para a discussão aqui
empreendida.
É importante esclarecer que tanto o texto-base quanto o texto-final (a retextualização)
foram produzidos pelo mesmo informante. Esse não teve acesso ao texto oral, sendo a
retextualização para a modalidade escrita efetuada imediatamente após a produção do texto oral
pelo informante.

(5) Relato oral (texto-base)


1
[“foi lá naquele Centro George Pompidou e eu tava com minhas filhas... e as minhas... meninas... não
esquecem deste episódio porque...3[foi na escada rolante quando eu vi a minha bolsa tava aberta] as meninas
acho que foi até 2 [a minha filha que falou “ó mamãe a sua bolsa tá aberta” ] 3[aí eu olhei tinham tirado a
carteira... com tudo né? com os documentos... e aí:: eu fiquei...nervosa]1 ( ) 4 e 6[fui até a delegacia... mais
próxima quando eu cheguei na delegacia mais próxima era uma fila de gente pra reclamar da mesma
coisa]...5[e os policiais muito mal humoRAdos... sabe?... e as minhas meninas é que ficaram apavoradas
porque chegaram todo tipo de gente e muito mal encaradas... e os caras tinham muito pouca... sei lá muito
pouca paciÊNcia... sabe? com as pessoas e e um homem griTANdo e você via que ocê tava no meio assim
de:: seria a a zona... a zona crítica da cidade... sabe? cê tava no meio da zona crítica da cidade grande com
todo o pequenos... criminosos né? que que passam por ali e as as pequenas vítimas ninguém ali era vítima
de grande coisa todo mundo]... 7[(eu) me lembro que eu sentei perto duma moça (que) também era
professora universitária e ela era canadense franco-canadense e a gente começou conversar não é? e achando
muita graça a gente estar ali naquela situação tão... fora do normal pra pra fazer uma queixa na polícia]...8[e 56
na verdade a gente tem que fazer a queixa porque senão o:: o seguro que cê tem não cobre... o que você
perdeu você tem que provar quando cê chega que:: você:: foi roubada e tal...]”(NDO,2,F)
Fonte: Decat (1993).

(6) Relato escrito (texto-final)

{“Uma das experiências mais desagradáveis que eu tive em minha vida, acho eu, que foi ser roubada na
rua, em Paris. Na rua é modo de dizer.} 1[O que aconteceu foi que estando olhando uma exposição de
Picasso no Centro George Pompidou tive minha carteira batida.] 3[Só fui notar quando, em companhia
de minhas filhas, eu descia as escadas rolantes.] 2[Uma delas viu a bolsa aberta e me alertou.] Tarde
demais! Lá se fora meus francos, algumas libras, documentos.]1 4[Tive que ir até a delegacia mais
próxima para dar queixa.] Lá fui eu, com as garotas a reboque. 5[Ainda sob o choque do roubo eu teria
outro choque: a atitude dos policiais das delegacias de uma grande cidade. Brutalidade, nervosismo,
intolerância.] 6[Isso eu assisti ao aguardar chegar a minha vez de falar.] 9[Confesso que cheguei a pensar
em desistir, sair logo daquele local com gosto e décor de submundo.] Quando chegou minha vez porém,
o funcionário foi gentil e até falou em inglês! 8[Não me esqueço porém dos rosto que eu vi ali: o dos
vagabundos que dormem ao relento e brigavam por causa de cobertas e o grito horrível, ameaçador do
policial que os prendera.]” (NE,2,F)

Fonte: Decat (1993).

Da mesma maneira como feita nos exemplos (3) e (4), os trechos a serem objeto de
discussão estão identificados dentro de colchetes, com grifo simples alternando com grifo
duplo, para maior entendimento do leitor. A novidade, aqui, é que cada trecho entre colchetes

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é antecedido por uma numeração que facilita a correspondência dos trechos no texto-base e no
texto-final. Por isso mesmo, nem sempre essa numeração obedece à ordem natural do texto. No
relato escrito, há um trecho inicial dentro de chaves – { } –, o que não apareceu no texto-base.
A explicação para isso virá no decorrer da discussão a seguir.
De imediato, a comparação entre os dois textos acima aponta para o fato de que houve,
no texto-final, a aplicação da estratégia de acréscimo. Isso porque nesse último existe um trecho
inicial exibindo, em relação ao restante da macroestrutura do texto, a relação retórica de
preparação, conforme postula por Mann e Thompson (1988), que proporciona ao leitor uma
orientação quanto ao tema e local do acontecimento narrado. Funcionando à maneira de um
‘resumo introdutório’, nos termos da estrutura da narrativa proposta por Labov e Waletzky
(1967), essa preparação está materializada através de um complexo oracional, constituído pelo
primeiro e segundo períodos do texto (“Uma das experiências [...] modo de dizer.”).
A exposição a seguir será feita tomando-se separadamente cada trecho sublinhado nos
dois textos acima.

Trecho 1: No texto-base, esse trecho não é materializado por apenas uma oração introdutória,
mas por um complexo de orações, tendo início em “foi lá naquele Centro George Pompidou”
até “eu fiquei nervosa”. Dentro desse trecho há vários outros que se relacionam entre si através
de algum tipo de relação retórica (proposição relacional), por exemplo de tempo, de sequência,
dentre outras; no texto-final (o relato escrito ), todo o trecho 1 corresponde a uma estrutura
oracional resultante de processo de clivagem (“O que aconteceu foi que [...] carteira batida”),
que introduz o tema. Dentro dessa estrutura, a localização de onde se deu a experiência foi
materializada através de uma forma verbal no gerúndio, que evidencia a proposição relacional
circunstancial de tempo (“estando olhando uma exposição no Centro George Pompidou”) que 57
emerge entre essa porção satélite e o restante da estrutura (o núcleo) em que ela se insere.

Trecho 2: No texto-base há uma citação de fala, materializada parataticamente em discurso


direto (“minha filha que falou ‘ó mamãe a sua bolsa tá aberta’”). No texto escrito, esse trecho
corresponde a uma estrutura de coordenação (“Uma delas viu a bolsa aberta e me alertou”),
evidenciando a aplicação da transformação de reformulação de uma estrutura com citação de
fala, encaixada como oração subordinada completiva, em uma estrutura de coordenação. À luz
da RST, pode-se dizer que a retextualização evidenciou a emergência de uma relação
multinuclear de sequência, materializada pela coordenação das duas orações. É interessante
lembrar que o trecho 2 está, no texto-base, dentro de uma porção maior, que é o que foi
considerado o trecho 1.

Trecho 3: No relato oral, esse trecho traz uma ideia temporal, materializada pelo advérbio “aí”.
Uma possível paráfrase do trecho seria: quando eu olhei, tinham tirado a carteira.... Ou seja,
no texto oral emergiu a proposição relacional circunstancial de tempo, mesmo não havendo um
conectivo que a identificasse, aspecto exaustivamente defendido pela RST. Já no texto-final,
escrito, a relação temporal foi recuperada, através de um complexo oracional em que uma das
orações é iniciada pelo conectivo “quando” (“Só fui notar quando, em companhia de minhas
filhas, eu descia as escadas rolantes”). Em outras palavras, a proposição relacional implícita no
texto-base foi explicitada no texto-final com o auxílio do conectivo, evidenciando mais a
relação núcleo-satélite de tempo.

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Trecho 4: Também nesse trecho é veiculada a ideia temporal entre duas orações no texto-base
(“fui até a delegacia... mais próxima quando eu cheguei [...] mesma coisa”). No texto-final, no
entanto, a relação temporal desaparece. Em seu lugar, materializa-se uma relação de finalidade
(“para dar queixa”), que se configura, nos termos de Mann e Thompson (1988), como o satélite
(ou porção ancilar) do núcleo materializado por “Tive que ir até a delegacia mais próxima”. A
condensação das ideias veiculadas nesse trecho do texto-base acabou por eliminar a relação
temporal implícita no texto oral.

Trecho 5: Nesse momento do relato da experiência, no texto oral, o falante passa a tecer
comentários, próprios da avaliação comumente presente na estrutura da narrativa proposta por
Labov e Waletzky (1967). Os comentários, ou avaliações, se materializam através de uma
sequência de orações num esquema de listagem, uma relação retórica multinuclear, tal como
postulado pela Teoria da Estrutura Retórica – RST (MATTHIESSEN; THOMPSON, 1988;
MANN; THOMPSON, 1988). Numa porção extensa do texto tem-se uma lista de orações
paratáticas aditivas – ou, nos termos de Halliday (2004), de orações que exibem a relação de
expansão por extensão, com adição de elemento novo. No texto-final, o comentário realizou-
se linguisticamente apenas através de uma oração simples, seguida de um conjunto de três
substantivos (“Brutalidade, nervosismo, intolerância”), que resultaram da aplicação da
estratégia de condensação. Em outras palavras, o conteúdo semântico dos comentários feitos
no texto-base através de uma sequência de orações foi expresso por itens nominais, no caso
SNs (sintagmas nominais), que são considerados por Ono e Thompson (1994) como SNs
‘soltos’, ou, nos termos de Decat (2011), “desgarrados”.

Trecho 6: Nesse ponto do relato escrito (texto-final), há um acréscimo de uma estrutura


58
tipológica narrativa, com duas orações formando um complexo clausal no qual emerge a relação
temporal, mais especificamente um tempo simultâneo (“Isso eu assisti ao aguardar...”),
conforme postula Halliday (2004). Não há, no relato oral (texto-base), nada que corresponda,
pelo menos diretamente, a esse acréscimo com a ideia de tempo simultâneo. Essa ideia está
inserida no Trecho 4 do texto-base (por isso mesmo, ele recebeu os dois números sobrescritos:
4 e 6).

Trecho 7: Aqui ocorre, no texto-base, uma inserção parentética, com comentários numa
sequência paratática, como aconteceu no Trecho 5. Já no texto-final, escrito, a ausência desse
tipo de comentário revela a aplicação da estratégia de eliminação visando explicitude e
completude, uma vez que o teor do comentário se distancia bastante da linha temática do texto.
Por esse motivo, não houve numeração sobrescrita correspondente no texto escrito.

Trecho 8: No texto-base foram feitos comentários ‘resumitivos’, através de orações paratáticas


e hipotáticas com relação retórica de motivo 8 , além de orações encaixadas. A porção
correspondente no texto-final não tem característica de resumo, mas configura-se como um
comentário com retomada, materializado por uma estrutura apositiva na qual se inserem
orações relativas encaixadas (relativas restritivas), com função de especificação e servindo à
focalização.

8
Sob esse rótulo foram consideradas, em Decat (1993 e 2001), sem maiores distinções, as relações de ‘causa’,
‘razão’, ‘justificativa’, dentre outras. Mantém-se, aqui, essa análise.

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Trecho 9: Somente no texto-final, o produto da retextualização, é identificado o Trecho 9, que
retoma o que no texto-base foi expresso pelo Trecho 5. Dito de outra forma, o trecho do texto-
final vem como um comentário, através de um único complexo oracional (“Confesso que
cheguei a pensar em desistir, sair logo daquele local com gosto e décor de submundo”). Há aqui
especialmente um trecho que retoma tudo o que foi dito no Trecho 5, sintetizado na expressão
nominal “local com gosto e décor de submundo”.

Considerações finais

A análise aqui apresentada constitui apenas um esboço de uma pesquisa maior, e, por isso,
não pretende esgotar-se em si mesma. Leituras diferentes, visões teóricas diversas poderão
atribuir aos dados aqui examinados outra interpretação e outra análise. Pretendi, aqui, somente
apontar um caminho de estudo da estrutura sintática da língua que leve em conta outros
componentes, principalmente o semântico e o pragmático-discursivo. Procurei evidenciar como
isso pode ser feito levando em conta a articulação de orações através da atividade de transformar
um texto em outro, o que pode contribuir para detectar a organização discursiva e os objetivos
comunicativos do produtor do texto. Nesse sentido, a gramática é vista como um reflexo do
discurso, um reflexo das opções do usuário da língua na organização de seu texto, seja ele oral
ou escrito, em qualquer gênero. A atividade de retextualização apresenta-se, assim, como uma
atividade bastante produtiva para o estudo dessas opções de organização discursiva.

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Recebido em 11/11/2019.
Aprovado em 29/11/2019.
Publicado em 31/12/2019.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Crenças e atitudes linguísticas
acerca dos sequenciadores aí, daí
e então na Cidade de Goiás
Creencias y actitudes linguísticas acerca de los secuenciadores aí, daí y então en la
Ciudad de Goiás

Em homenagem a Dercir Pedro de Oliveira.

Marília Silva VIEIRA1

RESUMO: Com base na interface entre a Sociolinguística (LABOV, 1978, 2008 [1972], 2001; LAVANDERA,
1978) e as teorias de gramaticalização (HOPPER; TRAUGOTT, 1991; GIVÓN, 1955), é possível considerar que
aí, daí e então, enquanto sequenciadores textuais, constituem uma variável no domínio da causalidade referencial
(SWEETSER, 2001). Nesse sentido, o presente trabalho visa averiguar se o uso intercambiável dessas formas gera
diferenças semânticas e estilísticas, e se tais diferenças estariam atreladas a significados sociais (ECKERT, 2012). 61
Para isso, foram utilizados excertos de fala de uma informante da Cidade de Goiás, a fim de analisar crenças e
atitudes de alunos do terceiro ano do Ensino Médio acerca dos três sequenciadores de causalidade. A partir de um
teste de percepção, identificaram-se correlações entre características de competência, integridade pessoal e
atratividade social (BOTASSINI, 2015) e o uso das formas, sobretudo no que tange a então, associado à imagem
de um falante culto.

PALAVRAS-CHAVE: Crenças. Atitudes. Sequenciadores. Cidade de Goiás.

RESÚMEN: Basado en la interfaz entre la Sociolinguística (LABOV, 1978, 2008 [1972], 2001; LAVANDERA,
1978) y las teorías de la gramaticalización (HOPPER;TRAUGOTT, 1991; GIVÓN, 1955), es posible considerar
que aí, daí y então constituyen una variable en el dominio de la causalidad (SWEETSER, 2001). Así, la presente
investigación tiene como objetivo analisar si el uso intercambiable de esas formas genera diferencias semánticas,
y si esas diferencias estarían atreladas a significados sociales (ECKERT, 2012). Para eso, se utilizaron extratos de
habla de una informante de la Ciudad de Goiás para investigar creencias y actitudes de alumnos del tercer año de
la Ensenãnza Secundaria, acerca de aí, daí y então como secuenciadores de causalidad. A partir de una prueba de
percepçión, fueron identificadas correlaçiones entre características de competencia, integridad personal y
atractividad social (BOTASSINI, 2015) y el uso dos secuenciadores, sobretudo a respecto de então, asociado a la
imagen de un hablante culto.

PALABRAS-CLAVE: Creencias. Actitudes. Secuenciadores. Ciudad de Goiás.

1
Universidade Estadual de Goiás – UEG/Câmpus Cora Coralina, Goiás (GO). Professora do Curso de Licenciatura
em Letras e do Programa de Pós-graduação em Língua, Literatura e Interculturalidade. Goiás – GO – Brasil.
CEP: 76.600-000. E-mail: vieirasmarilia@gmail.com

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Introdução

Na obra seminal “Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística”,


Weinreich, Labov e Herzog (WLH) (2006 [1968], p. 136) preconizam que “o nível da
consciência social é uma propriedade importante da mudança linguística que tem que ser
determinada diretamente”. É sabido, entretanto, que desde a consolidação da Sociolinguística
como corrente de estudos que pensa a língua em um contexto social, os fenômenos fonético-
fonológicos parecem ter maior aderência ao modelo de análise proposto, já que, com variáveis
desse nível, a premissa de que duas ou mais formas têm o mesmo valor de verdade é assegurada
sem maiores questionamentos.
Sob essa perspectiva, a correlação entre identidade social e o uso de uma ou outra
variante fonético-fonológica é comum, ao ponto de, frequentemente, a ideia do que seja
variação linguística ser ilustrada, no senso comum, como a referência a um ou outro sotaque.
Por outro lado, variáveis semântico-discursivas, além de serem marcadas pela dificuldade da
equivalência de sentido e de função, não costumam ser mencionadas quando se discorre sobre
uma identidade linguística, ou mesmo quando o assunto é prestígio e estigma linguísticos.
Na obra supramencionada, WLH (2006 [1968]) também apontam, como um dos cinco
problemas que se apresentam para a mudança linguística, a avaliação. De acordo com os
autores, ela atua na constituição de uma identidade linguística e pode ser compreendida sob três
perspectivas: a dos estereótipos, formas com grande apelo social, a dos marcadores, estruturas
com um grau de avaliação intermediário, e a dos indicadores, formas com grau de avaliação
baixo (LABOV, 1972). Essa é uma questão que se torna relevante para a variação de itens
semântico-discursivos e, quando se discute aí, daí e então, tem-se a premissa de que a última 62
forma é a mais valorizada pela escola e pela tradição grammatical, o que pode influenciar a
percepção dos falantes.
Segundo Labov (2001, p. 193-7), para investigar a atitude, podem ser adotados métodos
como o matched guise, que tem como finalidade a identificação de atitudes inconscientes dos
falantes em relação à língua. Porém, mesmo com a existência desses testes, as pesquisas sobre
percepção ainda não fizeram tradição, sobretudo na Sociolinguística brasileira. Além disso, são
cerceadas, por vezes, por questões epistemológicas, como as que dizem respeito à constituição
do envelope de variação, como já discutido acima.
Para um melhor entendimento dessa fragilidade metodológica, é válido fazer um breve
retrospecto: ao longo de seu desenvolvimento, a Sociolinguística aperfeiçoou concepções e
métodos distintos de lidar com a variação, que passaram a ser divididos em três ondas
(ECKERT, 2012).
Os estudos de 1ª onda visam identificar padrões regulares de variação linguística, por
meio da coleta de dados em comunidades de fala, com base em dados de uma amostra
estratificada de acordo com categorias sociais pré-determinadas. Nesse sentido, merecem ser
lembrados projetos de variação linguística realizados no Brasil, como o PEUL (Programa de
Estudos sobre a Língua em Uso), sediado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, o
VARSUL (Variação Linguística na região Sul do Brasil), sediado na Universidade Federal de
Santa Catarina, dentre outros.
Por sua vez, os estudos de 2ª onda, apesar de também partirem de amostras de
comunidades de fala, com vistas à descrição de padrões regulares de variação, são norteados
por um viés etnográfico, cujos dados envolvem categorias sociodemográficas mais abstratas,

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como o grau de pertencimento à comunidade. O estudo empreendido por Labov (1976) sobre o
inglês afroamericano em Nova Iorque ilustra bem essa corrente.
Por fim, os estudos de 3ª onda, ainda de caráter quantitativo, passam a dedicar-se à
compreensão de categorias sociais que definam o padrão linguístico. Tais estudos centram-se
em comunidades de práticas, a fim de explicar a performance do falante no que tange à adesão
a formas linguísticas específicas.
Comungando dos preceitos da terceira onda de estudos da Sociolinguística, o presente
trabalho baseia-se na variável aí, daí e então, constituída por sequenciadores textuais
gramaticalizados (HOPPER; TRAUGOTT, 1991; GIVÓN, 1955) no domínio funcional da
causalidade (SWEETSER, 2001), a fim de analisar atitudes relacionadas ao uso de tais itens. A
comunidade de práticas em questão é constituída por uma turma de 15 alunos do 3º ano do
Ensino Médio de uma escola particular, da Cidade de Goiás, no estado homônimo, a 130 km
da capital, Goiânia.
Segundo Freitag (2015), a investigação de atitudes e julgamentos linguísticos adentram
o processo de constituição da identidade pela língua e pelo discurso, contribuindo para ações
de planejamento e de conscientização, bem como para propostas de ensino de português como
língua materna ou como segunda língua. Pesquisas dessa natureza podem colaborar com a
reavaliação de estereótipos, subsidiando políticas linguísticas educacionais em contextos locais.
Além disso, o estudo de atitudes e valores acerca dos fenômenos linguísticos auxilia a
compreensão da norma culta, revelando usos regionais do português brasileiro.
Entre os trabalhos pioneiros sobre atitudes linguísticas no Brasil, destacam-se o de
Santos (1973), que avalia atitudes linguísticas de adolescentes sobre o valor social de variantes;
o de Almeida (1979), que se debruçou sobre as atitudes linguísticas de falantes brasileiros, 63
partindo da comunidade de Belo Horizonte; o de Alves (1979), que verificou as tendências de
adesão à fala paulistana apresentadas por pernambucanos e baianos, residentes em São Paulo;
e o de Santos (1980), que pesquisou como crenças e atitudes escolares são transmitidas aos
estudantes.
Sabe-se que a avaliação que um sujeito faz da língua de um falante reflete atitudes
linguísticas anteriores em relação ao dialeto, à classe social e ao grupo étnico ao qual esse
ouvinte está vinculado. Ao abordar esse assunto, Labov (1976) salienta a importância que a
avaliação feita pelos próprios falantes tem para o entendimento da estrutura social da língua e
das mudanças linguísticas.
Ainda nessa perspectiva, Grimes (1983, p. 10) lembra que “é necessário aprofundar o
estudo sobre tipos de inter-relacionamento entre padrões e valores culturais, o uso da língua e
as atitudes linguísticas. Isso deve ser feito para se poder chegar a conclusões válidas sobre qual
é a língua que se deve usar na comunidade oral, e para planejar as atividades de alfabetização e
educação”, abordagem que dialoga com os objetivos desta pesquisa.
Diante desse panorama, o presente trabalho ganha relevo, à medida que contribui para
uma área de estudos pouco explorada, sobretudo no que diz respeito à natureza da variável
estudada. Se testes de percepção de Língua Portuguesa ainda são pouco comuns, aqueles que
se dedicam a fenômenos semântico-discursivos são ainda mais raros.
Desse modo, almeja-se diagnosticar a existência de identidades sociais associadas ao
uso dos sequenciadores de causalidade aí, daí e então, como no excerto abaixo, retirado de
Vieira (2016).

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(1) minha mãe nunca tinha morado em cidade grande aí/daí/então ela se assustou muito com o assalto
(CG58FS-Valéria)2

O objetivo é verificar como alunos de 3º. ano do Ensino Médio de uma escola privada,
da Cidade de Goiás, pautados em suas experiências como falantes de Português Brasileiro e em
conhecimentos acerca da gramática normativa, avaliam as formas em questão. Além disso, o
teste aplicado visa averiguar como os discentes descrevem a troca dos sequenciadores aí, daí e
então nos estímulos apresentados.
Como são falantes jovens, acredita-se que os discentes julguem como mais “naturais”
os sequenciadores aí e daí, típicos da oralidade. Por outro lado, é possível que avaliem então
como forma mais culta, devido à influência da escola.

Critérios selecionados

Como mencionado anteriormente, para elaboração do teste de percepção, foram


avaliados quatro critérios: culto, simpático, humilde e urbano. A escolha de tais itens relaciona-
se a características como competência (culta), integridade pessoal (humilde) e atratividade
social (simpática e urbana), a exemplo de Botassini (2015).
Acredita-se que o uso de aí e daí, em contraposição a então, pode suscitar a imagem de
um falante menos culto, já que a última forma é mais escolar e priorizada em textos escritos de
mais formalidade. 64
A inclusão de simpático coaduna-se com a expectativa do critério anterior. Assim,
acredita-se que o informante que utiliza com mais frequência o sequenciador então, forma de
mais prestígio, pode ser visto como mais pedante, e consequentemente, menos simpático do
que aquele que emprega as formas aí e daí.
Nessa linha, um falante que utiliza com mais frequência aí e daí, que, possivelmente,
seria avaliado como menos culto e mais simpático, também seria avaliado como mais humilde,
no sentido de apresentar uma imagem menos imponente do que alguém que emprega então em
contextos de sequenciação causal.
Por fim, optou-se por urbano a fim de averiguar uma possível correlação entre o uso de
aí e daí com a imagem de uma pessoa que não mora na cidade ou que não se influencia por
padrões desse meio e, que, consequentemente, teria menos prestígio. Por outro lado, o emprego
de então, forma de mais prestígio, estaria associado a um falante da cidade.

A escolha desses quatro critérios também se deu em virtude do grau de formação dos
avaliadores, no caso, alunos do 3º. ano do Ensino Médio. Foram inclusas no teste características
que pudessem ser facilmente compreendidas pelos discentes quando da avaliação dos excertos.

2
Trecho extraído de Vieira (2016). O código que acompanha o excerto representa o perfil da informante: sua
cidade (CG - Campo Grande), seu sexo (F - feminino), sua idade (representada por dois dígitos) e seu nível de
escolaridade (S - superior). O sequenciador em destaque foi aquele originalmente utilizado pela falante. Os
demais foram colocados junto a ele para ilustrar a intercambialidade dos itens estudados.

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A escola como uma comunidade de práticas

Eckert e McConnell-Ginet (2010, p. 102) definem comunidade de práticas como “um


conjunto de pessoas agregadas em razão do engajamento mútuo em um empreendimento
comum”. Em termos gerais, uma comunidade de prática pode ser entendida como um grupo
que tem os mesmos interesses e dedica-se a uma mesma finalidade. Logo, em uma comunidade
dessa natureza, é comum haver o desenvolvimento de atividades conjuntas, por pessoas que se
ajudam e compartilham experiências. Tal universo mostra-se como ambiente propício para a
investigação das dimensões de poder e solidariedade, no tocante à avaliação dos sequenciadores
aí, daí e então.
Logo, entende-se, que padrões linguísticos emergem à medida em que os seus falantes
estão, de fato, participando de atividades, nas quais há práticas sociais específicas. Observa-se,
aqui, uma mudança de perspectiva em relação à primeira onda da Sociolinguística: se antes, o
foco dos estudos era a estrutura, agora, passam a ser as práticas sociais.
Na comunidade de práticas analisada neste estudo, 15 alunos com idades entre 17 e 18
anos trocam experiências que transcendem a esfera estudantil. Portanto, uma pesquisa com esse
público-alvo reflete avaliações que sujeitos nessa faixa compartilham a respeito da língua, que,
na verdade, traduzem como esses jovens avaliam concepções sociais pré-existentes ao uso dais
formas em estudo.

Metodologia
65
Os primeiros estudos sobre atitudes linguísticas foram realizados na década de 1960,
por Lambert, Hodgson, Gardner e Fillenbaum (1960), que pesquisaram como jovens
canadenses falantes de francês e de inglês avaliavam suas próprias línguas. O experimento
passou a ser conhecido como matched guise, ou comparação de modalidades, e foi aprimorado
ao longo do tempo, tanto com a produção de estímulos (entrevistas e leitura de textos) quanto
com escalas de avaliação.
Baseado nessa técnica, desenvolveu-se, para a presente pesquisa, o teste exibido no
Quadro 1. À medida que ouvia um bloco de estímulos linguísticos, o julgador preenchia um
teste com cinco possilbidades de avaliação. Ao todo, 15 alunos participaram da pesquisa, 10 do
sexo feminino e 5 do sexo masculino. Os alunos cursam o 3º. ano do Ensino Médio de uma
escola privada da Cidade de Goiás-GO.

Quadro 1 – Teste de percepção.


Concordo Concordo Não concordo, Discordo Discordo
Parcialmente nem discordo parcialmente
A pessoa que você ouviu é
culta.
A pessoa que você ouviu é
simpática.
A pessoa que você ouviu é
humilde.
A pessoa que você ouviu é
urbana.
Fonte: Elaboração própria.

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Para a análise dos dados, as cinco colunas de avaliação foram amalgamadas em três,
resumidas em avaliação positiva, neutra e negativa, assim como em Botassini (2013).

Quadro 2 – Esquema de avaliações.


Positiva Neutra Negativa
Concordo Concordo Não concordo, Discordo Discordo
parcialmente nem discordo parcialmente
A pessoa que você ouviu é
culta.
A pessoa que você ouviu é
simpática.
A pessoa que você ouviu é
humilde.
A pessoa que você ouviu é
urbana.
Fonte: Elaboração própria.

A partir de ocorrências retiradas de Vieira (2016), nove estímulos foram gravados por
uma informante vilaboense (nativa da Cidade de Goiás) de 29 anos e escolaridade superior.
Foram selecionados três excertos de fala: um em que o sequenciador originalmente utilizado
era aí, outro, em que havia uso de daí e um terceiro, com então. Cada um dos excertos foi
regravado, de modo a substituir aí por daí e então; daí, por aí e então; e então, por aí e daí,
respectivamente. Desse modo, foram formulados três blocos de estímulos:

I) 66
a) Minha mãe nunca tinha morado em cidade grande aí ela se assustou muito com o assalto.
b) Minha mãe nunca tinha morado em cidade grande daí ela se assustou muito com o assalto.
c) Minha mãe nunca tinha morado em cidade grande então ela se assustou muito com o assalto.

II)
a) Você não tem condição de morar naquele lugar, que é perto do seu trabalho, né? Aí você tem que ir pra um outro
bairro.
b) Você não tem condição de morar naquele lugar, que é perto do seu trabalho, né? Daí você tem que ir pra um
outro bairro.
c) Você não tem condição de morar naquele lugar, que é perto do seu trabalho, né? Então você tem que ir pra um
outro bairro.

III)
a) Qualquer coisa às vezes eu largo a moto lá e volto de táxi, depois eu pego, porque é pertinho, dez reais, entendeu?
Depois eu vou de táxi, aí fica mais tranquilo.
b) Qualquer coisa às vezes eu largo a moto lá e volto de táxi, depois eu pego, porque é pertinho, dez reais, entendeu?
Depois eu vou de táxi, daí fica mais tranquilo.
c) Qualquer coisa às vezes eu largo a moto lá e volto de táxi, depois eu pego, porque é pertinho, dez reais, entendeu?
Depois eu vou de táxi, então fica mais tranquilo.

O objetivo foi verificar se, quando expostos a um mesmo enunciado, manipulado quanto
ao uso dos sequenciadores de causalidade, os alunos conseguiriam identificar diferenças
semânticas e sociais correlacionadas ao uso de cada uma das formas em questão. Além disso,
seria possível elaborar uma resposta mais satisfatória à premissa central da Sociolinguística,
que prima sobre o valor de verdade.

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No caso de aí, daí e então, a intercambialidade das formas não se restringe à manutenção
semântica do enunciado, mas esbarra também emu ma propriedade estilística (na concepção
laboviana). Em outras palavras, o questionamento é se, ao optar por uma das três formas, o
falante imprime à sentença informações vinculadas a um registro ou modalidade de uso da
lingua, que, por sua vez, estariam atrelados à identificação com um determinado grupo social
ou posição hierárquica, por exemplo.
Para analisar a hipótese, depois de ouvirem os três blocos de enunciados e atribuírem a
eles seus juízos de valor, os alunos responderam às seguintes perguntas: “Qual dos três
enunciados de cada seção soa mais natural a você? Ao pronunciar o mesmo trecho com aí, daí
e então, você percebe alguma diferença de significado? Poderia explicar?”

Resultados

Observa-se que, tanto nas tabelas do Bloco I, quanto naquelas do Bloco II, aí e daí são
mal avaliados quando o quesito é culto, ao passo que então recebe julgamento mais positivo.
Nas tabelas com dados do Bloco II, em que foi manipulado um enunciado originalmente
verbalizado com o sequenciador daí, observa-se que, à semelhança do primeiro Bloco I, aí e
daí são mal avaliados quando o quesito é culto, ao passo que então recebe julgamento mais
positivo.

Tabela 1 – Bloco I – Aí.


Positiva Neutra Negativa 67
% % %
A pessoa que você ouviu é culta. 14 93,34 1 6,66 0 0
A pessoa que você ouviu é simpática. 3 20 5 33,34 7 46,66
A pessoa que você ouviu é humilde. 2 13,34 1 6,66 12 80
A pessoa que você ouviu é urbana. 5 33,34 4 26,66 6 40
Fonte: Elaboração própria.

Tabela 2 – Bloco I – Daí.


Positiva Neutra Negativa
% % %
A pessoa que você ouviu é culta. 12 80 3 20 0 0
A pessoa que você ouviu é simpática. 4 26,66 2 13,34 9 60
A pessoa que você ouviu é humilde. 7 46,66 2 13,34 6 40
A pessoa que você ouviu é urbana. 0 0 3 20 12 80
Fonte: Elaboração própria.

Tabela 3 – Bloco I – Então.


Positiva Neutra Negativa
% % %
A pessoa que você ouviu é culta. 4 26,66 2 13,34 9 60
A pessoa que você ouviu é simpática. 7 46,66 1 6,66 7 46,66
A pessoa que você ouviu é humilde. 8 53,34 0 0 7 46,66
A pessoa que você ouviu é urbana. 1 6,66 2 13,34 12 80
Fonte: Elaboração própria.

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Tabela 4 – Bloco II – Aí.
Positiva Neutra Negativa
% % %
A pessoa que você ouviu é culta. 4 26,66 1 6,66 10 66,66
A pessoa que você ouviu é simpática. 5 33,34 6 40 4 26,66
A pessoa que você ouviu é humilde. 4 26,66 3 20 8 53,34
A pessoa que você ouviu é urbana. 4 26,66 6 40 5 33,34
Fonte: Elaboração própria.

Tabela 5 – Bloco II – Daí.


Positiva Neutra Negativa
% % %
A pessoa que você ouviu é culta. 10 66,66 4 26,66 1 6,66
A pessoa que você ouviu é simpática. 7 46,66 4 26,66 4 26,66
A pessoa que você ouviu é humilde. 5 33,34 3 20 7 46,66
A pessoa que você ouviu é urbana. 4 26,66 3 20 8 53,34
Fonte: Elaboração própria.

Tabela 6 – Bloco II – Então.


Positiva Neutra Negativa
% % %
A pessoa que você ouviu é culta. 5 33,34 2 13,34 8 53,34
A pessoa que você ouviu é simpática. 4 26,66 6 40 5 33,33
A pessoa que você ouviu é humilde. 7 46,66 3 20 5 33,34 68
A pessoa que você ouviu é urbana. 2 13,34 0 0 13 86,66
Fonte: Elaboração própria.

Quanto a simpático, os resultados, assim como aqueles apresentados no Bloco I,


mostram-se distribuídos. Todavia, o uso de daí parece induzir a uma avaliação mais positiva
desse quesito, talvez, pela maior coloquialidade desse sequenciador.
Os resultados de humilde revelam que aí é uma forma mais bem avaliada para esse
critério, embora haja certa indecisão, visto que, como mostram os dados, o julgamento também
tende à neutralidade, quadro se que repete para daí e então. Dentre os sequenciadores, contudo,
então é o que recebe avaliação menos positiva nesse quesito. Para urbano, tem-se,
diferentemente do Bloco I, uma certa vantagem de daí e então, já que esses sequenciadores são
mais bem avaliados nesse quesito. Daí, talvez, por ser mais coloquial e então, por estar
associado a uma forma mais escolar.
No Bloco III, verifica-se que aí e daí continuam sendo avaliadas como formas que
induzem à imagem de um falante menos culto, ao passo que então recebe uma avaliação mais
positiva.

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Tabela 7 – Bloco III – Aí.
Positiva Neutra Negativa
% % %
A pessoa que você ouviu é culta. 13 86,66 1 6,66 1 6,66
A pessoa que você ouviu é simpática. 6 40 1 6,66 8 53,34
A pessoa que você ouviu é humilde. 4 26,66 3 20 8 53,34
A pessoa que você ouviu é urbana. 3 20 6 40 6 40
Fonte: Elaboração própria.

Tabela 8 – Bloco III – Daí.


Positiva Neutra Negativa
% % %
A pessoa que você ouviu é culta. 9 60 3 20 3 20
A pessoa que você ouviu é simpática. 5 33,34 8 53,34 2 13,34
A pessoa que você ouviu é humilde. 4 26,66 6 40 5 33,34
A pessoa que você ouviu é urbana. 3 20 3 20 9 60
Fonte: Elaboração própria.

Tabela 9 – Bloco III – Então.


Positiva Neutra Negativa
% % %
A pessoa que você ouviu é culta. 5 33,34 1 6,66 9 60
A pessoa que você ouviu é simpática. 5 33,34 3 20 7 46,66
A pessoa que você ouviu é humilde. 6 40 4 26,66 5 33,33
A pessoa que você ouviu é urbana. 3 20 1 6,66 11 73,34 69
Fonte: Elaboração própria.

Corroborando os resultados do Bloco I, o falante que emprega aí é avaliado como menos


simpático do que aquele que opta por daí e então. Os resultados para humilde indicam uma
quase equivalência de julgamentos, com sutil preferência por aí e então.
Para urbano, tem-se, novamente, como no Bloco II, daí e então, como sequenciadores
mais bem avaliados.
Em relação às perguntas feitas ao final de cada bloco de estímulos (“Qual dos três
enunciados de cada seção soa mais natural a você? Ao pronunciar o mesmo trecho com aí, daí
e então, você percebe alguma diferença de significado? Poderia explicar?”), constatou-se,
de forma geral, um consenso.
Os discentes não observaram diferenças semânticas no que se refere à troca dos
sequenciadores, mas apontaram alterações estilísticas, como afirmam os alunos 1 e 2, em
resposta à intercambialidade dos sequenciadores nos enunciados do Bloco I.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Figura 1 – Resposta da aluna 1.

Fonte: Elaboração própria.

Figura 2 – Resposta do aluno 2.

Fonte: Elaboração própria.

A aluna 1 afirma: “O então me parece o padrão a ser usado, já que dá a intenção de


concluir ou apresentar uma justificativa; aí me parece mais simpático que daí, já que a fala é
mais leve e eu utilizo mais. O aluno 2 diz que: “A mais natural seria aí; significado não, mas 70
muda em relação à formalidade, ou soa mais ou menos culto”.
Aqui, é importante frisar que os alunos se valem de conhecimentos pré-estabelecidos,
tanto pela tradição normativa, preconizada pela escola, quanto pela sua própria experiência
como falantes da língua, para atribuir valor aos sequenciadores. Por meio das respostas dos
discentes, é possível afirmar que a percepção acerca das estruturas linguísticas dialoga com
visões de mundo, decorrentes de práticas sociais, no caso, a prática com uma visão normativa
de língua.

Conclusão

A problemática desta pesquisa gira em torno da correlação entre os sequenciadores da


causalidade, aí, daí e então a identidades sociais. Outra questão que subjaz ao teste aplicado
diz respeito a uma possível alteração semântica gerada pelo uso intercambiável dos
sequenciadores no domínio da causalidade.
A comunidade de práticas estudada foi uma turma de 3º ano do Ensino Médio de uma
escola privada da Cidade de Goiás. Nesse universo de pesquisa, 15 alunos responderam ao teste
proposto, que consistiu em nove excertos de fala, manipulados a partir de três enunciados. O
primeiro enunciado, originalmente verbalizado com aí, foi regravado, com daí e então. O
segundo, que havia sido formulado com daí, foi regravado com aí e então. O terceiro, cujo
sequenciador original era então, foi manipulado com as formas aí e então. O objetivo era

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garantir que, nas três situações, seria possível substituir uma forma pela outra, conservando o
valor de verdade.
Dentre os quatro critérios que compõem o teste, culto apresentou-se como mais
indexado. Nos três blocos de estímulos, a maior porcentagem de avaliação de aí e daí recebeu
avaliação positiva. Tal percepção decorre, muito provavelmente, da consciência normativa que
os alunos têm acerca de então, categorizado como conclusão explicativa, ao passo que as
demais formas nem mesmo são estudadas como conectivos, somente como advérbios.
Em relação ao critério simpático, daí revelou-se como sequenciador empregado por
pessoas mais bem avaliadas quanto a esse item, o que pode ser explicado em virtude de sua
maior coloquialidade. Assim, essa avaliação pode ter convergido com a preferência dos jovens
alunos por esse registro de fala.
Para humilde, aí revela-se como forma mais bem avaliada, o que pode ser explicado
pelo fato de que esse sequenciador é associado à informalidade e, possivelmente, a um menor
grau de escolaridade.
Quando o quesito é urbano, daí e então são sequenciadores mais bem pontuados. O
primeiro, provavelmente, pelo fato de ser associado a uma fala mais jovem e coloquial e o
segundo, por estar relacionado a um maior prestígio social.
Embora a variável semântico-discursiva seja, geralmente, menos passível de avaliações
sociais que as fonético-fonológicas, por exemplo, o teste aplicado revela a correlação de
percepções estilísticas e sociais aos sequenciadores estudados. Para atribuir valor às formas em
questão, os alunos pautaram-se em experiências compartilhadas em sua comunidade de
práticas. 71
Resultados dessa natureza podem nortear o ensino de conectivos nas aulas de
Língua Portuguesa, a fim de tornar o aluno um sujeito ativo, que pode emitir opiniões a partir
de sua vivência linguística e de sua gramática internalizada (CHOMSKY, 1986). Assim, o
ensino da norma padrão poderá ser proporcionado pari passu à descrição de usos reais da
língua, compreendidos como resultado de experiências e de posicionamentos sociais dos
falantes.

REFERÊNCIAS

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Tradução da edição original de 1968, por Marcos Bagno. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.]

Recebido em 22/10/2019.
Aprovado em 18/11/2019.
Publicado em 31/12/2019.

73

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
A Via Láctea continua no espaço
sideral, mas desaparece dos atlas
linguísticos
The Via Láctea (‘milky way’) continues into outer spaces, but it disappears from the
linguistic atlases

Vanderci de Andrade AGUILERA1

RESUMO: Neste artigo, analisamos a presença, a frequência e a distribuição das variantes léxicas para denominar
a Via Láctea nas cartas dos Atlas linguísticos do Paraná – ALPR (AGUILERA, 1994) e do Mato Grosso do Sul –
ALMS (OLIVEIRA, 2007), bem como nos registros inéditos do Atlas linguístico do Brasil referentes a ambos os
estados – ALiB-PR e ALiB-MS. Os dados demonstraram que: (i) a criação popular é muito fértil em associações
mentais para atribuir nomes aos fenômenos da natureza dos quais o informante desconhece a nomenclatura padrão
ou culta; (ii) pelo fato de as novas gerações não se deterem mais na observação do céu e dos astros, os índices de
abstenção foram altos tanto nos dois trabalhos do MS como nos dados do ALiB-PR, mas não no ALPR; (iii) quanto
às semelhanças entre os quatro corpora, verificamos que apenas duas formas são comuns a eles: caminho de
Santiago e cruzeiro do sul; (iv) a religiosidade é muito marcante no ato de denominar a Via Láctea, seja buscando
nomes do hagiológio romano, seja recorrendo a nomes bíblicos. 74

PALAVRAS-CHAVE: Via Láctea. Criação popular. Atlas linguísticos.

ABSTRACT: In this paper, we analyze the presence, frequency and distribution of lexical variants to name the
Milky Way (‘Via Láctea’) in the reports of the Atlas Linguísticos do Paraná (‘Linguistic Atlases of Paraná’) –
ALPR (AGUILERA, 1994), and of Mato Grosso do Sul – ALMS (OLIVEIRA, 2007), and in the unpublished
reports of the Atlas Linguístico do Brasil (‘Linguistic Atlas of Brazil’) – ALiB-PR and ALiB-MS. The data showed
that: (i) mental associations are very productive to name nature phenomena of which speakers are unaware of
standard nomenclature; (ii) since younger generations no longer do sky and star observation, abstention rates were
high in both data from MS and in data from ALiB-PR, but not in ALPR; (iii) as for similarities between the four
corpora, we find that only two common forms among them: caminho de Santiago (‘Santiago way’) and cruzeiro
do sul (‘Southern cross’); (iv) religiosity is remarkably productive in naming the Milky Way (‘Via Láctea’), either
by names from the Roman hagiology or by biblical names.

KEYWORDS: Via Láctea (‘Milky Way’). Popular creation. Linguistic atlases.

Apresentação

Com este texto quero prestar uma carinhosa homenagem ao meu saudoso colega e amigo
Dercir Oliveira, pela sua trajetória e pelo seu companheirismo. Não posso deixar de mencionar

1
Universidade Estadual de Londrina – UEL. Centro de Letras e Ciências Humanas, Departamento de Letras
Vernáculas e Clássicas. CNPq. Bolsista de produtividade em pesquisa. Londrina – PR – Brasil. CEP: 86057-970.
E-mail: vanderci.aguilera@terra.com.br

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que, em novembro de 1996, por ocasião do lançamento do Projeto do Atlas Linguístico, durante
o Seminário Nacional Caminhos e Perspectivas para a Geolinguística no Brasil, na
Universidade Federal da Bahia, no momento de compor o Comitê Nacional que iria comandar
os destinos de tão sonhado Atlas, o Dercir dirigiu-se à nossa também saudosa Suzana Cardoso,
que presidia a sessão, e sugeriu meu nome para compor a equipe diretiva do ALiB. Sou grata a
ele por esse gesto de confiança.
Para homenageá-lo, retomei o Atlas Linguístico do Mato Grosso do Sul, organizado por
ele e publicado em 2007 pela Editora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul,
selecionei uma das cartas lexicais: a que trata da distribuição espacial das variantes para a via-
láctea (OLIVEIRA, 2007, p. 109) e propus contrapor os dados sul-matogrossenses aos
registrados nas cartas 16 e 17 do Atlas Linguístico do Paraná, de minha autoria (AGUILERA,
1994, p. 56-58) e aos dados atuais coletados pelo ALiB em ambos os Estados.
No verbete Via Láctea, Caldas Aulete (1964) traz a seguinte definição:

larga faixa esbranquiçada que em noites serenas se vê no céu, abrangendo quase um


círculo máximo da esfera celeste, formada por massas de estrelas e nuvens estelares,
e que é a visão longínqua da nossa galáxia. Também lhe chamam caminho, carreiro
ou estrada de São Tiago. [É uma nebulosa espiral, lentiforme, com espessura máxima
de 15 mil anos-luz e diâmetro de aproximadamente 100 mil anos-luz].

Para obter a resposta sobre esse local no espaço celeste, a questão foi assim formulada
aos informantes: “Numa noite bem estrelada, aparece uma banda ou faixa que fica no céu de
fora a fora, onde tem muitas estrelas muito perto umas das outras. Como chamam essa banda
ou faixa?” 75

Sobre o Atlas Linguístico do Mato Grosso do Sul (ALMS) e a carta da via-láctea

O ALMS é o oitavo atlas estadual publicado no Brasil, depois do Atlas Prévio dos
Falares Baianos (ROSSI; FERREIRA; ISENSEE, 1963), do Esboço de um Atlas de Minas
Gerais (RIBEIRO et al., 1977), do Atlas Linguístico da Paraíba (ARAGÃO; MENEZES,
1984), do Atlas Linguístico de Sergipe (FERREIRA et al, 1987), do Atlas Linguístico do Paraná
(AGUILERA, 1994), do Atlas Linguístico e Etnográfico da Região Sul do Brasil (KOCH et al.,
2002) e do Atlas Linguístico de Sergipe II (CARDOSO, 2005).
Da Apresentação do ALMS, consta:

Dentre os objetivos do ALMS, realça-se o da contribuição que terão os estudiosos da


linguagem sobre a realidade lingüística de Mato Grosso do Sul, com a consciência de
que a língua portuguesa é um veículo de comunicação passível de variações e
mudanças lingüísticas. (LIMA, 2007, p. 7).

A apresentadora informa, também, que foram registradas as variantes mais frequentes


em 32 localidades do Estado, obtidas mediante entrevistas com 128 informantes, de ambos os
sexos, estratificados em duas faixas etárias, num total de 3200 horas de gravação. Trata-se, pois,
de um atlas geossociolinguístico ou pluridimensional por incluir, além da dimensão diatópica,
as dimensões diassexual e diageracional.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Por sua vez, Oliveira, como organizador da obra, expõe os princípios metodológicos
que a nortearam:

Nas pesquisas atuais, a dialetologia se aliou à sociolingüística, fazendo um


entrecruzamento metodológico, criando novas alternativas para as investigações.
Assim, o informante não precisa, obrigatoriamente, ser analfabeto e nem residir na
zona rural. É muito importante, por outro lado, que ele tenha nascido no local ou que
para ali tenha vindo com até 8 anos de idade e que tenha cursado somente até a quarta
série do ensino fundamental, podendo residir na região urbana. São mais acessíveis
os da periferia, por estarem sempre dispostos a colaborar com a pesquisa.
(OLIVEIRA, 2007, p. 11).

Foram elaboradas 207 cartas, dentre as quais 47 expõem a realização de fenômenos


fonéticos, 153 trazem a variação no léxico sul-matogrossense e sete sobre fenômenos
morfossintáticos. As cartas lexicais referem-se a temas relativos a acidentes geográficos,
fenômenos atmosféricos, tempo, flora, fauna, corpo humano e suas funções, entre outros.
A carta em estudo é identificada como QSL 0036.a - via-láctea, indicando que se refere
às respostas dadas a essa questão do Questionário Semântico Lexical do ALMS. A Carta foi
elaborada com a seguinte composição:

(i) no canto superior central a bandeira do Mato Grosso do Sul (MS), o título Atlas Linguístico
Mato Grosso do Sul e à sua direita, a identificação QSL 0036.a - via-láctea;

(ii) à esquerda, o mapa do Estado do Mato Grosso do Sul com os limites estaduais (Mato
Grosso, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Paraná) e os países limítrofes (Bolívia e Paraguai), a 76
escala e, em segundo plano, o mapa do Brasil com a localização espacial do MS;

(iii) à direita, a Legenda com as variantes lexicais; e,

(iv) no canto inferior esquerdo, a informação sobre a disposição das variantes em uma cruz com
as cores utilizadas para identificar os informantes, do seguinte modo:

• acima do braço da cruz, à esquerda, a cor verde representa a fala do homem da 1ª faixa
etária;
• à direita, a cor branca representa a fala da mulher da 1ª faixa etária;
• na parte inferior do braço da cruz, à esquerda, o azul representa a fala do homem da 2ª
faixa etária, e à sua direita, o amarelo traz o registro da mulher da 2ª faixa etária.

(v) todas as cartas trazem no rodapé o título Atlas Linguístico Mato Grosso do Sul.

Os registros, na Legenda, estão transcritos grafematicamente, isto é, não se trata de


transcrição fonética nem ortográfica, mas de uma forma intermediária que obedece a algumas
convenções como: representação das vogais e > i e o > u com a elevação que ocorre na fala;
transcrição de -inho > -im, entre outras.
O ALMS traz, no capítulo 11 da obra, as Considerações sobre o Léxico em que Ferreira,
ao fazer a descrição lexical, informa que foram coletadas as seguintes denominações para a Via
Láctea:

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
caminho de santiago, rabo de galo, cruzeiro, caminho de ouro, cova de Adão e Eva,
covas de Adão, cruzeiro do sul, rabo de peixe, corpo de nossa senhora, nuvem, mulher,
véu, são francisco, túmulo de Adão e Eva, Adão e Eva, avestruz na noite estrelada,
sete cabrilha, caminho de São Jorge, ema, marca o frio, névia e pão de cada dia.
(FERREIRA, 2007, p. 254).

Na carta foram registradas 28 formas, com os índices de ocorrências, que podem ser
sintetizadas da seguinte maneira:2

(i) caminho-de-santiago, registrada na fala de dezesseis informantes, totalizando 12,49%, com


as variantes: caminhu di santiagu (8,59%), camim di santiagu (2,34%), caminhu di santiágua
(0,78%), camim santiagu (0,78%);

(ii) cruzeiro do sul, na fala de sete informantes, totalizando 5,46%, juntamente com as variantes
cruzeru (2,34%), cruzeiro do sul (0,78%), cruzeru du sul (0,78%);

(iii) cova-de-adão-e-eva, elicitada por seis informantes, representando 4,68% do total com as
variantes: cova di adão i eva (0,78%), covas di adão (0,78%), cova di adãu (0,78%), cova du
adão i eva (0,78%), túmulu di adão i eva (0,78%), adão i eva (0,78%);

(iv) rabo de galo, na fala de cinco informantes (3,91%), sob a variante rabu di galu;

(v) doze ocorrências únicas, totalizando 9,36%, cada qual representando 0,78%: caminho de
ouro, caminho de são jorge, rabo de peixe, corpo da nossa senhora, manto de nossa senhora,
pão de cada dia, são francisco, avestruz na noite estrelada, mulher, neve, nuvem, arco e véu. 77

Dos esperados 128 registros, 82 foram de não respostas, indicadas na Legenda sob as
siglas RPN e RP, representando 64,1% do total.

Sobre o Atlas Linguístico do Paraná (ALPR) e a carta da via-láctea

O ALPR é resultado da tese de doutorado de Aguilera, orientada pelo Dr. Rafael Hoyos
Andrade, da Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis, defendida em 1990 e
publicada em 1994. Trata-se do quinto atlas estadual editado no Brasil e o segundo de natureza
bidimensional, isto é, além da dimensão diatópica, incluiu a dimensão diassexual ao entrevistar
um homem e uma mulher em cada um dos 65 pontos investigados. O ALPR compõe-se de 191
cartas das quais 92 são lexicais, 70 fonéticas e 29 de isoglossas. No verso de cada carta, a autora
incluiu notas com informações diversas, principalmente excertos da fala do informante,
comentários referentes à pergunta.
As cartas lexicais foram configuradas da seguinte forma:

(i) no alto à direita, consta a legenda com as variantes representadas por círculos;

2
Há uma pequena divergência entre as variantes constantes da Legenda da carta e a relação de formas apresentada
por Ferreira (p. 254), pois, naquela, não foram mapeadas sete cabrilha e ema e, nesta, não consta a forma arco.

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(ii) no canto direito inferior consta o título da carta com a variante mais produtiva, seguido do
número da questão;

(iii) no rodapé da carta, à esquerda, vem a identificação Atlas Linguístico do Paraná, e, à direita,
o número da Carta.

Sobre as variantes lexicais para Via Láctea, o ALPR traz duas cartas: a de nº 16, com a
distribuição diatópica de caminho de Santiago, e a de nº 17, com as demais formas coletadas.
As variantes fonéticas para caminho de Santiago foram mapeadas na carta 114.
A carta 16 mostra que esta variante está presente em 40 dos 65 pontos do Paraná,
distribuída por todas as regiões do Estado, com 53 registros, e distribuição equitativa entre a
fala masculina (26 registros) e a feminina (27 registros). As notas informam outros nomes
atribuídos pelos informantes que não foram inscritos nas cartas, como: cordão de São
Francisco, caixão de Adão e Eva, carreiro de São João Maria, onze mil virgens, alegria das
estrelas, cidade de Deus, pinheirinho de Natal, além de cruzeiro e cruzeiro do sul.

Figura 1 – Carta 16: caminho de São Tiago.

78

Fonte: Atlas Linguístico do Paraná (AGUILERA, 1994).

A carta 17 traz as demais variantes para a Via Láctea que foram agrupadas a partir do
primeiro nome da lexia composta: caminho, estrada, cova e sepultura. Nas notas, a autora
informa o segundo nome da lexia composta: caminho de Nosso Senhor, estrada de Roma,

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estrada de São Francisco, caminho de Roma, caminho de Maria, caminho dos anjos, caminho
de Adão, sepultura de Adão e Eva, entre outros.
O polimorfismo recolhido distribui-se, sobretudo, pela área correspondente ao Paraná
Moderno, que abrange as regiões do Norte Pioneiro, Norte Novo, Norte Novíssimo e o Oeste.
A carta 17 do ALPR traz a distribuição diatópica dessas outras designações.

Figura 2 – Carta 17: Via Láctea (outras designações).

79

Fonte: Atlas Linguístico do Paraná (AGUILERA, 1994).

Computando os dados de ambas as cartas, dos 130 registros esperados, foram obtidos
92, enquanto 38 informantes alegaram não saber, não conhecer ou nunca ter ouvido o nome
para essa parte do espaço sideral. As respostas representam 70,8% do total e o índice de não-
respostas corresponde a 29,2%.

Sobre as designações da Via Láctea coletadas pelo ALiB no Mato Grosso do Sul e Paraná

No Mato Grosso do Sul, o ALiB selecionou seis pontos para os inquéritos: Coxim,
Corumbá, Paranaíba, Campo Grande, Nioaque e Ponta Porã, em cada um dos quais foram
entrevistados quatro informantes com o nível de escolaridade Fundamental, estratificados
segundo o sexo e a faixa etária; além disso, na capital, incluíram quatro informantes com o nível
Universitário.

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Os dados apontam que 18 dos 28 informantes, ou 64,3%, desconhecem o nome para a
Via Láctea ou declararam não se lembrar dele. Foram apontadas as seguintes designações:
caminho de São Tiago, com seis registros coletados na fala dos informantes 3 (homem, da 2ª
faixa etária, do nível Fundamental) de Campo Grande, Coxim, Cuiabá, Paranaíba, Nioaque e
Ponta Porã; um registro na fala da informante 8 (mulher, da 2ª faixa etária, do nível
Universitário); carreiro de Santiago, véu de estrela, colmeia, cada qual com um registro na fala
do informante 3 em Coxim, da informante 6 de Campo Grande (mulher, da 1ª faixa etária, do
nível Universitário) e do informante 1 de Nioaque (homem, da 1ª faixa etária, do nível
Fundamental), respectivamente. Alguns informantes se referiram a constelação e a cruzeiro do
sul e outros só conseguiram se lembrar da denominação na retomada feita no final do
Questionário.
Para o Paraná, o ALiB definiu dezessete pontos para os inquéritos: Nova Londrina,
Londrina, Terra Boa, Umuarama, Tomazina, Campo Mourão, Cândido de Abreu, Piraí do Sul,
Toledo, Adrianópolis, São Miguel do Oeste, Imbituva, Guarapuava, Curitiba, Morretes, Lapa e
Barracão. Do total de 72 informantes, 43 declararam não conhecer o nome para a Via Láctea,
ou mesmo nunca ter prestado atenção nesse aspecto do espaço celeste, o que representa 59,7%
de não-respostas. Dentre os que elicitaram alguma forma, oito registraram constelação; quatro,
cruzeiro do sul; três, caminho-de-santiago e as seguintes ocorrências únicas: sepultura de Adão,
sepultura de Jesus Cristo, carreiro de Santiago, caminho de Adão, caminho de Cristo, caminho
de Roma, caminho do céu, capão de estrelas, sete Marias, estrelas empilhadas e corrente de
estrelas. A forma via-láctea foi registrada na fala de quatro informantes: dois espontaneamente
e dois mediante o teste de identificação que consiste em apresentar diversas variantes e pedir
que o falante reconheça a forma que usa ou conhece.
Para efeito de comparação e de melhor visualização dos resultados obtidos nos dois atlas 80
e nos dados coletados em ambos os Estados aqui considerados – Mato Grosso do Sul e Paraná,
foi elaborado o Quadro 1, indicando a fonte, o número e percentual de não-respostas ou
abstenções, e o número e percentual de variantes válidas. Foram incluídas as respostas que,
embora não correspondessem ao referente em pauta, seu uso era justificado pelos informantes,
ou representavam alguma expansão do significado de um referente para o outro com o qual
guardam alguma relação de sentido.

Quadro 1 – Dados obtidos no corpus constituído para este estudo.


Fonte Nº informantes Abstenções % registros válidos %
ALMS 128 82 64.1 46 35.9
ALPR 130 38 29.2 92 70.8
ALiB-MS 28 18 64.3 10 35.7
ALiB-PR 72 43 59.7 29 41.3
Fonte: Elaboração da autora com os dados do ALMS, ALPR, ALiB-MS e ALiB-PR.

O quadro 1 mostra que a ausência de respostas aumentou consideravelmente entre os


falantes do Paraná se se considerar o salto de mais de 30% de abstenções entre um e outro. Esse
aumento significativo pode ser explicado por vários fatores, dentre os quais destacamos:

(i) o ALPR foi elaborado com a proposta de atlas rural, isto é, a maioria de seus informantes
habitava ou já havia habitado o campo e se dedicava a atividades agrícolas; ao contrário, o
ALiB, considerando o êxodo rural e a migração para as áreas periféricas dos grandes centros
urbanos, nas últimas décadas, optou por elaborar um atlas mais urbano;

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
(ii) os dados foram coletados com um espaço temporal de 20 anos ou mais: as entrevistas do
ALPR foram levadas a efeito entre os anos de 1986 e 1989 e os do ALiB-PR, entre os anos de
2001 e 2010, fator que propicia a mudança na sociedade, no indivíduo e na sua fala;

(iii) a diversificação nos hábitos e modos de vida com o advento da televisão e da internet, com
os celulares, as redes sociais que inibem a reunião da família nas varandas e frentes das casas
e, consequentemente, a contemplação da natureza, em particular, do céu à noite.

Quanto aos índices de abstenção entre os dados sul-matogrossenses, esses se


mantiveram bastante altos em ambas as sincronias. Acredita-se que o espaço temporal entre a
coleta de um e de outro seja bem menor entre ambos os trabalhos, embora o ALMS não informe
a data do trabalho de campo. As entrevistas para o ALiB-MS ocorreram entre os anos de 2001
e 2006.
Comparando os dados sul-matogrossenses de ambos os trabalhos, verifica-se que eles
se assemelham em alguns aspectos e se diferenciam em outros:

(i) caminho de São Tiago predominou na fala dos sul-matogrossenses investigados em ambos
os estudos;

(ii) é alto o nível de abstenção em ambas as sincronias. Por outro lado, há uma diferença
considerável em relação ao número de variantes coletadas, o que pode ser explicado pelo
número de pontos e de informantes, pois, devido à maior densidade da rede de pontos do ALMS,
que contemplou 32 localidades em relação ao ALiB-MS, com seis pontos apenas, o 81
polimorfismo se manifesta mais acentuadamente no primeiro.

(iii) no ALMS foram mapeadas 28 variantes lexicais e nos dados do ALiB-MS registraram-se
seis variantes apenas.

Quanto aos dados paranaenses, o ALPR e o ALiB-PR mostram o seguinte:

(i) o primeiro também traz um número maior de variantes, 24, e o segundo, catorze, o que pode
ser explicado tanto pela extensão de ambas as redes de pontos (65 e 17 respectivamente), pelo
número de informantes (130 e 72 respectivamente), como pela diferença temporal na coleta de
dados;

(ii) os trabalhos têm objetivos diferentes: atlas rural e atlas urbano;

(iii) perfil dos informantes estratificados de acordo com as variáveis sociais diferentes: no
primeiro, preferência por analfabetos ou com baixa escolaridade, um homem e uma mulher e
única faixa etária e, no segundo, informantes com até a 8ª série do ensino Fundamental, dois
homens e duas mulheres e duas faixas etárias.

Olhando para os dados obtidos em cada um dos Estados, também é possível observar
semelhanças e diferenças. Para melhor visualização, construiu-se o Quadro 2 com as
denominações convergentes nos estudos aqui analisados, agrupando formas com alguma
semelhança.

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Quadro 2 – Formas mais frequentes registradas no ALMS, ALPR, ALiB-MS e ALiB-PR.

Variantes3/Atlas ALMS ALPR ALiB-MS ALiB-PR


caminho de Santiago4 x x x x
cova/sepultura/túmulo de Adão (e Eva) x x - x
cruzeiro (do sul) x x x x
caminho de (Roma/Adão/Maria/S. Pedro/Cristo/do x x - x
céu/ouro/S. José/S. Jorge/Nosso Senhor)
estrada (de Roma/de São Francisco) - x - x
constelação - - x x
via láctea - - - x
Fonte: Elaboração da autora com os dados do ALMS, ALPR, ALiB-MS e ALiB-PR.

O quadro 2 mostra que:

(i) apenas duas formas são comuns aos quatro trabalhos: caminho de Santiago e cruzeiro do
Sul;

(ii) as lexias compostas formadas por cova, e semelhantes, e caminho, no primeiro elemento,
foram registradas em três estudos, exceto no ALiB-MS;

(iii) o elemento estrada só aparece na fala dos paranaenses participantes de ambas as pesquisas;

(iv) constelação só aparece nos dados do ALiB;


82
(v) a variante padrão via láctea está sendo inserida na fala dos paranaenses, sobretudo entre os
informantes de nível universitário.

No grego, é denominada galaktódes trópo, caminho de leite, assim como em várias


outras línguas: alemão Milchstraße, francês voie laictée, inglês, milky way, todas relacionadas
à mitologia grega que, assim explica a origem da Via Láctea:

Embora Hera (Juno) seja sempre descrita como odiando Herácles (Hércules), em certa
altura ela foi enganada, tendo-o amamentado como uma mãe. Enquanto ela estava a
dormir, o impostor do Deus Hermes (Mercúrio) levou o Herácles bebé para o Olimpo
e colocou a sua boca junto ao seio de Hera, que imediatamente começou a dar-lhe de
mamar, até que ele lhe mordeu, e ela acordou e o atirou pélos ares. Herácles não sofreu
nada, mas o leite de Hera continuou a correr, esguichando para o céu onde foi formar
a Via Láctea. (CHEERS, 2003, p. 134).

3
Os dicionários consultados registram as seguintes variantes: caminho, carreiro ou estrada de São Tiago
(CALDAS AULETE, 1964); caminho de São Tiago, estrada de São Tiago, carreiro de São Tiago,via-látea,
(KOOGAN; HOUAISS, 1998); caminho de São Tiago, estrada de Santiago, estrada de São Tiago, carreira de
São Tiago,carreiro de São Tiago; via látea (FERREIRA, 2004).
4
O Atlas lingüístico galego (GARCÍA; SANTAMARINA, 2003) traz no Mapa 31 as variantes Camiño de
Santiago, Camín de Santiago, Carreira de Santiago, Carrilleira de Santiago, Carr[ɛ]ra de Santiago, Vereda
de Santiago, Carro de Santiago, Carrín de Santiago, Camiño de san Andrés, Camiño de san Campio, Carreira
das estrellas e Poldras.

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No entanto, na fala popular brasileira pesquisada nos quatro estudos geolinguísticos são
as denominações de motivação cristã para designar a Via Láctea, fugindo, dessa forma, de
denominações pagãs, tal como ocorreu com arco-íris que, em alguns recantos do país, é
conhecido como arco-da-velha (escritura), arco-da-aliança, aliança de Deus.
É o que se observa na série de nomes populares coletados no Paraná e no Mato Grosso
do Sul que, num processo de antropomorfização da Via Láctea, remetem o segundo elemento
a figuras bíblicas ou das religiões cristãs, tendo como base os itens caminho, carreiro ou estrada
(de Adão, de Adão e Eva, de Cristo, de Nosso Senhor, de Maria, de São Pedro, de São Francisco,
de São José, de São Jorge, de São João Maria, dos anjos, que Deus cruza, e de São Tiago ou
Santiago – figura religiosa mais lembrada), ou os itens corpo ou manto (de Nossa Senhora),
rede ou cordão (de São Francisco), cova, túmulo ou sepultura (de Adão, de Adão e Eva, de
Jesus). Ainda seguindo a orientação cristã, há nomes que se referem a lugares e objetos
considerados sagrados, como estrada de Roma, caminho do céu, pinheirinho de Natal e a
figuras bíblicas como onze mil virgens.
Não ficam de fora as associações metafóricas zoomórficas, como rabo de galo, rabo de
peixe, colmeia, ema e até avestruz na noite estrelada. Nomes mais genéricos também são
aproveitados para denominar a Via Láctea, como neve, nuvem, arco, véu. Alguns nomes
dificultam compreender a associação que o falante fez para criar designações como mulher e
pão de cada dia. Por outro lado, é frequente a extensão de significado de uma lexia para outra,
como em cruzeiro do sul e constelação.
Alguns excertos do ALiB-PR e ALiB-MS mostram como os informantes concebem a Via
Láctea, a denominam ou reconhecem a dificuldade de lhe atribuir um nome a não ser recorrendo
ao vocabulário dos ancestrais: 83
Umuarama 210/3
INF.- Cruzero.
INQ.- Como que é esse?
INF.- A turma fala cruzero.
INQ.- Como que é ?
INF.- É é bom o pessoal (inint) a gente aprendeu isso quando era quando era criança, né, que cê vê o céu estrelado
assim e tem uma parte que ela é mais estrelada assim e faz tipo dum dum parece um carreadô assim parece uma
estrada num parece? Então a turma fala cruzeros. Cruzero no céu.
INQ.- Que fica de fora a fora... tudo branquinho aí vocês chamam de...
INF.- Isso, justo cruzero.
Cândido de Abreu 213/2
INF.- Eh...é que os antigo costuma dizê quando tem aquela faixa preta no céu que tá cheia de estrela, e diz que é,
aquela, aquela, é indicando uma pessoa que vai morrê, né, isso que é. Eh, como é que é o nome? Ah, eu também
num lembro e eu sabia, ela tá indicando o caminho, é vários, né, e é bem comprido, então, é tudo, todas as pessoa
que tão pra morrê. É o que os antigo fala, e eu acredito que sim porque de repente morre um atrás do outro assim,
(inint) como é que é o nome?

Cândido de Abreu 213/3


INF.- Constelação, é?
INQ.- Como é que é essa constelação? É uma faixa assim, essa que eu tô falando pro senhor, é uma faixa que tem
muitas estrelas, todas perto, assim, uma da outra, o senhor já viu?
INF.- Como é que nós chamamo? Eu num sei por que, a constelação é diversas estrelas juntas assim, ou não?
Constelação de estrela? Ou então, como é que nós vamo dizê, assim, bastante estrela junto.
INQ.- É, bastante estrelas, assim, uma faixa no céu.
INF.- Então, a senhora qué a forma do sistema do caboclo antigo.
INQ.- Isso, é.
INF.- O caboclo antigo dizia tem um capão de estrela lá. (risos). Um capão qué dizê, um ajunto, não é?

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Campo Grande 115/2
INF.- A gente que é criado na cidade não olha muito para isso, né? Se eu fizesse essa perguntas para o Wellington
ou para Ana Alice, eles não iam responder nem a metade, foram criados na cidade.

Campo Grande 115/3


INF.- Os antigos sempre falava... muitos, cansei de vê. Diz que era camim de São Tiago, não sei, né?

Nioaque 116/3
INF.- Aquele era o Caminho do São Santiago, minha mãe falava.
INQ.- Ah tá. Ainda fala isso?
INF.- Ah ninguém fala mai né.
INQ.- Não?
INF.- Ninguém fala mais.
INQ.- Chama de que agora?
INF.- Ah nem sei tamém.
INQ.- Nem para as estrela né.
INF.- Ninguém olha estrela mais (risos).
INQ.- Não olha para as estrela mais.
INF.- Antigamente tava lá olhando estrela e perguntava pá mãe o pai, eis falava: não issaí é... isso é aquilo... só
falano.
INQ.- E chamava Caminho...
INF.- De São Santiago.

Ponta Porã 117/3


INF.- Aqui o meu pai, meus avô chamava aquilo de caminho de santiago
INQ.- Caminho de santiago...
INF.- Santiago... aquela faixa branca assim né.
84
Imbituva 218/3
INF.- Acho que num... eu num... como eu digo, eu num tenho conhecimento de estrela, eu acho que é uma corrente
né. Corrente de estrela né, deve de ser né.
INQ.- Mas como que corrente de estrelas que o senhor fala?
INF.- É uma, uma perto da outra né.
INQ.- Então se o senhor visse assim aquela faixa lá...
INF.- É, eu dizê, uma corrente de estrela né, uma... tem estrela... como é que eles dizem... estrela... eu num tenho
lembrança na hora.

Ponta Porã 117/4


INF.- Ah... tem tem aquele que passa um... um triozinho assim...
INQ.- Isso.
INF.- Com’é que é o nome daquilo lá é…
INQ.- Quando a gente mora em sítio, em fazenda você fica observando o céu estrelado né a gente vê aquilo lá
fica bonito…como que é o nome aquilo lá?
INF.- Ah tem um nome aquilo lá, estrada de São Sebastião parece que é. Como tinha o nome daquele negócio
lá…
INQ.- Estrada…
INF.- Eu sei que tem um nome é dum santo. Tsc. Ah eu já ando tão esquecida.
INQ.- Vamos ver depois, quem sabe a senhora lembra.
INF.- Tem aquelas bastante estrela também que chama sete cabria, são sete estrela.
INQ.- É. Chama como?
INF.- Sete cabria. É sete estrela pode contá, tá as sete juntinha, de certo é aquela que a senhora tá falano.
INQ.- É... mas às vezes essas são mais assim... é como se a gente olhasse assim e visse um caminho assim no céu
né... como se fosse uma trilha de estrelas tudo.
INF.- Estrada de santiago que nóis chama...
INQ.- Estrada.
INF.- Caminho de santiago

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INQ.- Caminho...
INF.- É aquele... que nóis chama.
INQ.- A senhora tinha falado qualquer coisa de São Sebastão.
INF.- Não... não era São Sebastião... caminho de santiago... aquele lá.

Duas designações elicitadas como ocorrências únicas em cada um dos três estudos
merecem destaque: sete cabrilla, no ALMS (p. 254), sete cabria, no ALiB-MS, na fala da
informante da segunda faixa etária de Ponta Porã e siete calinga, elicitada pela informante do
ALPR, nascida em Guaíra. Essas duas cidades fazem fronteira com o Paraguai onde é muito
frequente a troca linguística entre os falantes de português e de espanhol. Cabrilla no
Dicionário da Real Academia Espanhola (RAE) (on-line), na sexta acepção, é definida como
Olas pequeñas, blancas y espumosas que se levantan en el mar cuando este empieza a agitarse.5
Seria esta a motivação para expandir o significado de cabrilla para denominar a Via Láctea? O
fato de serem brancas, espumosas e em agitação? Por sua vez, o Dicionário de Almoyna (1984),
na primeira acepção do verbete cabrilla, informa que significa cabrinha, pequena cabra, o que
leva a pensar na zoomorfização dessa parte do espaço celeste. Quanto a calinga pode-se pensar
em duas hipóteses:

(i) a apreensão auditiva modificada de cabrilha, cabria para calinga;

(ii) ou, segundo o Dicionário da RAE, viria de calima, forma modificada de calina, infl. por
bruma. 1. f. Accidente atmosférico consistente en partículas de polvo o arena en suspensión,
cuya densidad dificulta la visibilidad.6 Esta explicação parece mais aceitável.

85
Como se pode observar, a imaginação dos falantes é bastante fértil no processo de
criação de nomes populares para seres, objetos e fenômenos dos quais ignora a denominação
padrão, ou oficial. Entraram, pois, em ação, vários processos metafóricos e metonímicos para
a criação de signos motivados, como se documentou com a lista de variantes coletadas.

Considerações finais

O estudo das variantes para a Via Láctea, registradas em dois atlas estaduais publicados
– o ALMS (OLIVEIRA, 2007) e o ALPR (AGUILERA, 1994) e as que compõem o corpus
inédito do ALiB-MS e ALiB-PR, demonstrou que a criação popular é muito fértil em associações
mentais para os fenômenos da natureza para os quais desconhece a nomenclatura padrão ou
culta. Em muitos casos, pelo fato de as novas gerações não se deterem mais na observação do
céu e dos astros, os índices de abstenções foram altos tanto nos dois trabalhos do MS como nos
dados do ALiB-PR. Por outro lado, a recorrência às lembranças da infância, da fala dos pais e
avós, reavivou a memória para formas atualmente em desuso.
Ao identificar as semelhanças e diferenças entre esses estudos, observou-se que há duas
formas comuns aos quatro trabalhos: o caminho de Santiago e o cruzeiro do sul, este por
extensão do significado de uma constelação para um espaço repleto de estrelas. Outra

5
Ondas pequenas, brancas e espumosas que se levantam no mar quando este começa a agitar-se (Tradução da
autora).
6
Acidente atmosférico que consiste de partículas de pó ou areia em suspensão, cuja densidade dificulta a
visibilidade (Tradução nossa).

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
observação a ser feita é a presença marcante da religiosidade sobre a criação popular dos signos,
muitas vezes formas únicas, antropomorfizadas, na figura de santos do hagiológio romano ou
figuras bíblicas. É a presença da Igreja, retirando formas pagãs e substituindo-as por nomes
cristãos. A zoomorfização, embora em menor escala, também foi acionada no ato da criação
das denominações.
Para concluir este texto, mas não finalizando as reflexões sobre os dados geolinguísticos
aqui trazidos, fica a triste constatação de que as novas gerações estão perdendo, em uma
velocidade alarmante, o contato com as belezas naturais e com as suas raízes linguísticas, o que
foi comprovado pelo número elevado de não-respostas, seja por desconhecimento do referente,
seja por desinteresse em lhe atribuir um nome ou de apreender a denominação mais usual na
língua portuguesa.

REFERÊNCIAS

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do Estado, 1994. 2 v.

ALMOYNA, Julio Martínez, Dicionário de Espanhol-Português. Porto: Porto Editora, 1984.

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Paraíba. Brasília: CNPq, Universidade Federal da Paraíba, 1984.

CALDAS AULETE. Dicionário contemporâneo da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: 86


Editora Delta, 1964. 5 v.

CARDOSO, Suzana Alice Marcelino et al. Atlas linguístico do Brasil. Londrina: Ed. UEL,
2014. 2 v. [v. 1: Introdução; v. 2: Cartas linguísticas].

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COMITÊ NACIONAL DO PROJETO ALIB. Atlas Linguístico do Brasil. Questionários.


Londrina: Ed. UEL, 2001.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa, 3.


ed. Curitiba: Positivo, 2004.

FERREIRA, Carlota. et al. Atlas Linguístico de Sergipe. Salvador: Universidade Federal da


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GARCÍA, Constantino; SANTAMARINA, Antón (dir.). Atlas lingüístico galego. Santiago de
Compostela: Fundación Pedro Barrié de la Maza, 2003. v. 5 [Léxico: Tempo atmosférico e
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https://dle.rae.es/. Acesso em 01/11/2019.

KOCH, Walter et al (ed.). Atlas linguístico e etnográfico da Região Sul do Brasil (ALERS).
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KOOGAN, A.; HOUAISS, A. Enciclopédia e dicionário ilustrado. Direção geral Abrahão


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LIMA, Fabiana Portela. Apresentação. In: OLIVEIRA, Dercir Pedro (org.). Atlas linguístico de
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87
ROSSI, Nelson; FERREIRA, Carlota; ISENSEE, Dinah. Atlas Prévio dos Falares Baianos. Rio
de Janeiro: Ministério de Educação e Cultura; Instituto Nacional do Livro, 1963.

Recebido em 09/11/2019.
Aprovado em 03/12/2019.
Publicado em 31/12/2019.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
“Se outro amor surgir um dia, a
valsa perde o ar”:
um estudo sobre a variação (e
mudança) da morfologia verbal
em construções condicionais1
“Se outro amor surgir um dia, a valsa perde o ar”:
a study on verbal morphology variation (and change) in conditional constructions

Rosane de Andrade BERLINCK2

RESUMO: O estudo investiga um processo de variação e de mudança na morfologia verbal de construções


condicionais potenciais no português brasileiro, em dados de cartas escritas entre os séculos XIX e XX, em
diferentes regiões do país. Discute-se os resultados gerais desse percurso, tomando como contraponto conclusões
sobre o fenômeno na sincronia atual (Brandão, 2018). Focalizando o século XX, busca-se identificar as 88
combinações modo-temporais variantes na expressão da condicional potencial e os fatores que se correlacionam
com o emprego de uma ou outra combinação, e avaliar como os padrões de uso observados se colocam em relação
ao quadro descrito no PB atual. A análise mostrou uma tendência à diminuição do uso do futuro simples do
indicativo em apódoses, o papel de restrições morfolexicais na manutenção do futuro do subjuntivo, o papel de
aspectos ligados ao gênero fonte de dados e o mapeamento dos usos segundo a proveniência dos dados.

PALAVRAS-CHAVE: Subjuntivo. Morfologia verbal. Condicionais. Variação e mudança linguísticas. Gênero


epistolar

ABSTRACT: The study investigates a process of variation and change in the verbal morphology of potential
conditional constructions in Brazilian Portuguese. The data come from letters written in 19th and 20th centuries,
in different regions of the country. The general results of this path are discussed, taking conclusions about the
phenomenon in the current synchrony as a counterpoint (BRANDÃO, 2018). Focusing on the twentieth century,
we seek to identify the variant mode-tense combinations in the expression of potential conditional and the factors
correlate with the use of one or the other combination, and to evaluate how the observed patterns of use are in
relation to the picture described in the current BP. The analysis showed a tendency to decrease the use of indicative
simple future in apodosis, the role of morphological-lexical restrictions in maintaining the future of the

1
Participaram da pesquisa que resultou neste artigo a estagiária Thainá Akewaga Gomes e a doutoranda Sílvia
Maria Brandão (PPGLLP-Capes). Agradeço às duas pela dedicação, seriedade e competência. Agradeço
especialmente à Sílvia por ter despertado meu interesse pelas condicionais e pelas tantas discussões
enriquecedoras que temos sobre esse tema.
2
Universidade Estadual Paulista/Câmpus de Araraquara – UNESP/Araraquara. Professora Assistente Doutora do
Departamento de Linguística. CNPq. Bolsista produtividade em pesquisa. Araraquara – SP – Brasil. CEP: 14800-
901. E-mail: rosane.berlinck@unesp.br

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
subjunctive, the role of aspects related to the data source genre and the mapping of uses according to the
provenance of the data.

KEYWORDS: Subjunctive. Verbal morphology. Conditionals. Language variation and change. Epistolary genre.

Palavras iniciais3

Conheci Dercir Pedro de Oliveira durante o período em que ele fazia seu Doutorado sob
a orientação de Fernando Tarallo. Na época eu estava no Mestrado, também sob a orientação
de Tarallo. Dercir era aluno da PUC-SP e eu estava na Unicamp, os dois espaços institucionais
em que Tarallo atuou. Fernando e a paixão pela Sociolinguística e pela Sintaxe nos
aproximaram. No primeiro semestre de 1986, participamos de uma disciplina sobre Análise da
Conversação ministrada por Ataliba Teixeira de Castilho, na Unicamp. Essa primeira
experiência de análise do texto falado marcou profundamente. Como aprendemos naqueles dias
em que era possível mergulhar (apenas) na Linguística! As discussões eram instigantes e
enriquecedoras. E temperadas pelo humor inabalável e a enorme alegria de viver de Dercir. O
aprendizado sobre a estrutura do texto falado (e, portanto, da língua) se prolongou ao
integrarmos a equipe de pesquisadores do Projeto Gramática do Português Falado, no
subprojeto coordenado por Mary Kato e Fernando Tarallo.
As nossas trajetórias acadêmicas também se aproximam por um interesse compartilhado
pela ordem dos constituintes sentenciais. Sua tese explorou a configuração da oração em
português a partir da realização e posição dos argumentos verbais (interno(s) e externo). Em 89
minha dissertação de mestrado, analisei a posição do sujeito em relação ao verbo em orações
do português, falado e escrito. O verbo, assim, constituía elemento central nas nossas pesquisas,
ponto de referência para os processos. Continua no cerne de minhas pesquisas e é por essa via
que trago minha homenagem a Dercir.
Exponho neste texto resultados das investigações recentes que tenho desenvolvido sobre
a variação e mudança no âmbito da morfologia verbal (e as consequências sintáticas dessas
mudanças). Trata-se de entender a tendência à substituição de formas de subjuntivo por formas
de indicativo em estruturas oracionais complexas, focalizando aqui a construção condicional.4
As construções condicionais têm sido objeto de interesse e estudo em muitas línguas, a
partir de abordagens teóricas bastante diversas, como a semântica, pragmática (MEJÍAS-
BIKANDI, 2009), a teoria gerativa, a gramática funcional, teorias de gramaticalização, a
gramática de construções, a linguística cognitiva (SWEETSER, 1990;
GOLDBERG,1995,1996), sem falar em investigações em outras disciplinas como a psicologia
(cf. p.ex. FROSCH; BYME, 2012).
No âmbito dos estudos em gramática funcional, exploram-se aspectos ligados à
articulação de orações, os limites ou fronteiras entre as noções de condição, causa, tempo e
processos de gramaticalização dessas noções (NEVES; BRAGA, 1998; HIRATA-VALE,
2001). Abordagens formalistas vão focalizar as estruturas sintáticas e semânticas da construção
(MARTÍNEZ-ARBELAIZ, 1997; IPPOLITO, 2014). Os estudos também se diferenciam

3
No título do artigo, o verso “Se outro amor surgir um dia, a valsa perde o ar” está em Uma canção inédita, de
Edu Lobo (Disponível em: https://www.letras.mus.br/edu-lobo/439661/. Acesso em 15/10/2019).
4
Para um estudo sobre o processo em orações completivas, ver Berlinck (2019).

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
segundo adotem uma perspectiva sincrônica (TAPAZDI; SALVI, 1998; SOUSA, 2007;
TESCH, 2011) ou diacrônica do fenômeno (LEÃO, 1961 – que parece ser a primeira
investigação dessa natureza para o português; ALMEIDA, 2010; LEBLANC, 2010).
É comum nos trabalhos, qualquer que seja a abordagem, destacar a variedade de formas
verbais (tempo/modo) e correlações verbais presentes nessas construções. Também frequente é
associar tais possibilidades de uso a diferentes nuances semânticas ou funções pragmáticas e/ou
discursivas (GERALDI, 1978; TRAVAGLIA, 1987).
Por outro lado, alguns estudos sobre a alternância de tempos e modos verbais nas
porções que compõem a construção (prótase ou apódose) ou na construção como um todo
(TAPAZDI; SALVI, 1998; DOMINGOS, 2004; NETA, 2006; SOUSA, 2007; TESCH, 2011;
BITTENCOURT, 2012; OLIVEIRA, 2013; BRANDÃO, 2015, 2018) revelam que essa
alternância pode, em certas configurações, constituir casos de variação estrita, em que não há
alteração no sentido (WEINREICH; LABOV; HERZOG,1968; LABOV, 1972). Estou me
referindo a alternâncias do tipo ilustrado em (1) a (4):5

(1) se ele não quiser ele desliga o auto-falante (AC-88, DE-L.359)

(2) porque se aquela água ficar ...o arroz vai ficar papa (AC-88, RP-L.522)

(3) a pessoa se ela acredita muito na igreja católica...ela vai ficar na igreja católica né? (AC-23, RO-L.511)

(3) Se eu peço truco e você aceita, você perde (AC-21, RP-L.214)


90
Uma análise rigorosa dos contextos em que tais construções ocorreram indica que todas
preenchem o requisito para serem interpretadas como condicionais eventuais/potenciais: “[...]
sua prótase repousa sobre a eventualidade, e o enunciado da apódose é tido como certo, desde
que a condição enunciada na prótase seja satisfeita” (NEVES; BRAGA, 2016, p. 148).
Além de apontar a possibilidade de situações de variação, os estudos sobre condicionais
em corpora orais mostram que há uma tendência favorecendo o emprego das formas ditas “não-
normativas” – tempos/formas verbais do indicativo, em oposição aos do subjuntivo, e, no caso
da apódose, uma preferência geral pelo presente e pretérito imperfeito do indicativo, a depender
da relação de hipoteticidade veiculada pela construção (se potencial ou irreal, por exemplo).
É assim que propus uma investigação dos processos de variação e de mudança afetando
a morfologia verbal em construções condicionais no português brasileiro (doravante, PB). Elegi
como fonte de dados cartas pessoais escritas por brasileiros de diferentes regiões, uma escolha
que justifico na próxima seção. O estudo geral pretende observar os processos no intervalo
compreendido entre os séculos XIX e XX. Neste artigo discuto primeiramente os resultados
gerais desse percurso, tomando como contraponto as conclusões de estudo que explorou o
fenômeno na sincronia atual, em amostra de fala (BRANDÃO, 2018). Em um segundo

5
Os códigos que seguem os exemplos se referem à amostra de onde provêm os dados (AC – Amostra Censo, do
Banco de Dados Iboruna), número do informante, tipo de texto (NE – narrativa de experiência, NR – narrativa
recontada, DE – descrição de espaço, RP – relato de procedimento, RO – relato de opinião) e linha na transcrição
em que consta a ocorrência (GONÇALVES, 2007).

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momento, aprofundo a caracterização da variação nos dados de condicionais potenciais 6 do
século XX. Pretendo, assim, tentar responder aqui as seguintes questões: (i) que combinações
modo-temporais podem ser definidas como variantes na expressão da condicional potencial,
(ii) que fatores se correlacionam com o emprego de uma ou outra combinação, (iii) como os
padrões de uso que caracterizam as amostras analisadas se colocam em relação ao quadro
descrito para o fenômeno no PB atual.

Por que tomar cartas como fonte de dados?

A escolha das fontes de dados é sempre um desafio para o historiador da língua,


sobretudo na medida em que ele leva em conta a especificidade da expressão dos fenômenos
linguísticos em função do gênero textual que o texto-fonte materializa. E essa é uma condição
fundamental para a análise, já que a distribuição de recursos linguísticos e de variantes pode se
diferenciar muito segundo a natureza do texto-fonte.
Ao optar por cartas pessoais como fonte de dados, segui uma prática já bem estabelecida
nos estudos históricos, pautada no fato de constituírem textos reais, no fato de as cartas
materializarem um tipo de diálogo, uma interlocução – ainda que a voz do interlocutor não
esteja presente, esse outro/destinatário está pressuposto e referido no texto (BAKHTIN, 1997;
CASTILLO GÓMEZ, 2006), e no fato de poderem corresponder a um menor monitoramento
na escrita devido a relações mais familiares ou íntimas entre autor e destinatário. A conjugação
de tais condições cria um ambiente favorável ao uso de formas não-previstas pela norma, mas
correntes em situações coloquiais.
91
Lembro ainda que esse tipo de texto já foi fonte de inúmeros estudos desenvolvidos no
âmbito de projetos como o PHPB (Projeto Para a História do Português Brasileiro) e o PHPP
(Projeto História do Português Paulista), dos quais participo desde 1998. Também relevante é
a reflexão que se tem feito sobre a natureza dessas fontes (LOPES, 2005; SIMÕES; KEWITZ,
2006; BERLINCK; BARBOSA; MARINE, 2008, entre outros).
Para a composição dos corpora de cartas pessoais, utilizei material que integra os
corpora do PHPB. Foram privilegiados textos classificados como correspondência particular
(cartas pessoais em circulação restrita – família, amigos, colegas etc.), disponíveis em
https://sites.google.com/site/corporaphpb/. As cartas do século XIX são de Pernambuco, Bahia,
Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Santa Catarina; as cartas do século XX vêm
do Rio Grande do Norte, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Santa
Catarina. Nos dois conjuntos privilegiei, sempre que possível, textos escritos na segunda
metade de cada século.

6
A restrição à análise de condicionais potenciais se explica pelo fato de serem as mais frequentes no corpus
investigado – cerca de 77% (83 em 107), no século XIX, e 55% (237 em 431), no século XX. O baixo número
de dados dos dois outros tipos principais de condicionais, em função de sua “hipoteticidade” – as reais/factuais
e as irreais/contrafactuais – não implica ausência de variação nas construções, mas inviabiliza a investigação de
fatores que as possam estar motivando, daí sua exclusão do estudo neste momento.

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A variação e a mudança nas condicionais potenciais

Apresento a seguir resultados da análise dos processos de variação e mudança nas


condicionais potenciais. Começo com os desafios da constituição do envelope de variação,
questões de ordem teórico-metodológica incontornáveis. Em seguida traço um possível
caminho de mudança no uso das formas verbais nesse contexto, também investigo o papel de
aspecto constitutivo dos textos-fonte de dados no processo e diferenças na escolha das variantes
em função da proveniência geográfica das cartas.

Sobre o envelope de variação

Antes de explorar o que os dados colhidos nas cartas nos revelaram, vale ressaltar um
aspecto fundamental do estudo de processos de variação e mudança além do nível fonético-
fonológico. Justifiquei a escolha desse objeto de estudo, em parte, pela constatação de que se
encontram situações efetivas de variação entre as construções condicionais potenciais
(conforme exemplos (1)-(4)). No entanto, para chegar a esse conjunto de variantes, ao envelope
de variação, é preciso superar o desafio colocado pelo significado, intrinsicamente constitutivo
das construções nos níveis morfológico e sintático. Foi adotada, para isso, a solução já bem
estabelecida no modelo de trabalhar com uma noção de comparabilidade funcional e não de
identidade de significado referencial (ou expressão de um mesmo estado de coisas) (cf.
LAVANDERA, 1983; SANKOFF, 1988; MILROY; GORDON, 2003). Assim, a variável
dependente em estudo foi composta das várias combinações modo-temporais que ocorreram
em construções condicionais, para as quais foi possível estabelecer a seguinte interpretação, 92
aqui retomada a partir de Neves e Braga (2016, p.148) 7: “Dada a eventualidade/potencialidade
da prótase, o enunciado da apódose será tido como certo, se a condição enunciada na prótase
for satisfeita”.
A aplicação desse procedimento de seleção de dados resultou na identificação de 83
dados de condicionais potenciais nas cartas do XIX e 237 dados nas cartas do XX. Essas
ocorrências estão distribuídas, respectivamente, por 13 e 31 diferentes combinações modo-
temporais. Naturalmente, algumas delas se restringem a pouquíssimos dados (nas cartas do XX,
por exemplo, 18 delas só apresentaram uma ocorrência), o que compromete a caracterização de
seu uso. Desse modo, foi tomado primeiramente como critério um limite mínimo de 30 dados
(GUY,1980)8, o que limitou o conjunto de variantes a uma variante no século XIX – [Futuro
do Subjuntivo + Presente do Indicativo] (31 dados) – e duas combinações no século XX –
[Futuro do Subjuntivo + Futuro do Indicativo] (57 dados) e [Futuro do Subjuntivo + Presente
do Indicativo] (82 dados). Levando em conta que o quadro sincrônico inclui a combinação
[Presente do Indicativo + Presente do Indicativo] como uma variante produtiva junto das duas
outras, decidi partir do quadro presente na análise dos dados das cartas (do presente para o

7
Uma estratégia para a identificação do grau de certeza epistêmica (ou grau de hipoteticidade) de uma construção
condicional, de acordo com Neves (1999) e Gryner (2008), é testar a possibilidade de substituição da conjunção
se por já que (leitura real), e se por acaso (leitura potencial ou irreal).
8
Guy assim se expressa: “As a practical matter, we wish to discover how much data is required in order to achieve
a reasonable degree of reliability and accuracy in the factor values. In this regard, the figure of 30 tokens per
factor seems to be an appropriate goal if reliable results are to be obtained.” (GUY, 1980, p.26). E acrescenta em
nota: “It is interesting to note that N = 30 is the approximate dividing line between "large" and "small" samples
in statistics; below this figure different tests of significance (such as the t-test) must be used.”

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passado). A inclusão das três combinações, que, de fato, são as mais produtivas nos três
momentos avaliados, então, se justificou pelo objetivo de contrapor o quadro das cartas dos
séculos XIX e XX ao cenário do início do XXI (cf. questão (iii) ao final da primeira seção).
O universo investigado se compôs, desse modo, de 58 dados no século XIX e 152 dados
no XX. Os exemplos no quadro 1 ilustram as construções encontradas no corpus.

Quadro 1 – Combinações modo-temporais analisadas nas cartas brasileiras do século XX.


Combinações Exemplos
FUTURO DO SUBJUNTIVO +
Se até sabado sentir a cabeça em melhor estado, escreverei
FUTURO DO INDICATIVO
novamente. (20-BA28)9
(doravante FS+FI)
FUTURO DO SUBJUNTIVO +
Se eu morrer amanhã quero que você saiba que morri por
PRESENTE DO INDICATIVO
te amar e mesmo morto vou continuar te amando (20-RN18)
(doravante FS+PI)
PRESENTE DO INDICATIVO +
Se não tem greves, a vida de todo mundo fica atrapalhada
PRESENTE DO INDICATIVO
de vez, né? (20-SP04)
(doravante PI+PI)
Fonte: Elaboração própria.

Um possível caminho de mudança

O conjunto de dados disponíveis nas cartas do século XIX é modesto, mas permite, na
comparação com o século XX, identificar uma tendência de estabilidade nos usos das três
combinações. Diferenças só vão se revelar na comparação com resultados sincrônicos. É o que 93
se vê na figura 1.

9
Os códigos junto dos exemplos se referem a século-estado de proveniência-número da carta. Assim, BA –
Bahia, RN – Rio Grande do Norte, SP – São Paulo.

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Figura 1 – Proporção de uso de combinações modo-temporais de construções condicionais -
cartas dos séculos XIX e XX e dados de fala (Iboruna) (cf. BRANDÃO, 2018).10

70%
58,5%
60% 53% 54%
50%
38% 37%
40%

30% 24%
17,5%
20%
9% 9%
10%

0%
Cartas-XIX Cartas-XX Fala-Iboruna

FS+FI FS+PI PI+PI

X² = 16.9 (4), p = 0.00211


Fonte: Elaboração própria.

O que fica claro é que as variantes cuja distribuição relativa se altera, na passagem do
XX para o XXI, são FS+FI e PI+PI. Com toda a ressalva que se deva fazer, em função da
diferente natureza dos dados, esse contraste poderia estar associado à tendência à diminuição
de uso de formas do subjuntivo. É tentador pensar em um percurso que iria de FS+FI para 94
FS+PI e dessa combinação para PI+PI, com uma gradual diminuição no uso do arranjo que traz
o subjuntivo. No entanto, o predomínio da combinação FS+PI, nos três subcorpora indica que
algo mais influencia a escolha das formas.
Vamos encontrar uma possível motivação para a manutenção das formas do Futuro do
Subjuntivo na natureza morfológico-lexical do verbo que aparece na prótase da construção.
Uma análise da identidade lexical dos verbos revela que em 60% dos dados das cartas
oitocentistas temos verbos irregulares na prótase da condicional (35 em 58); nas cartas
novecentistas, essa proporção é de 57% (87 em 152). No caso do século XX, quando
restringimos esse universo aos dados em que temos Futuro do Subjuntivo na prótase (seja com
Futuro ou Presente do Indicativo na apódose) – 139 ocorrências, a proporção de verbos

10
Os índices de proporção apresentados na Figura 1 provêm do seguinte conjunto de dados:
FS+FI FS+PI PI+PI
Cartas-XIX 22 31 5
Cartas-XX 57 82 13
Iboruna 121 299 90
Fonte: Elaboração própria.
11
Os índices informam a significância estatística das diferenças entre o emprego das variantes nas diferentes
situações analisadas. X2 corresponde ao teste de qui-quadrado, que calcula a diferença entre o valor observado
e o valor esperado. p é uma medida de significância. Considera-se estatisticamente significativo o cálculo em
que p ≤ 0.05 (igual ou menor a 0.05). Os índices referentes à Fig. 1 revelam que a diferença nas proporções é
estatisticamente significativa. Os cálculos apresentados neste estudo foram realizados com os recursos da
linguagem de programação R (R CORE TEAM, 2018).

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irregulares sobe para 60% (83 em 139). E trata-se de um pequeno número de diferentes verbos
irregulares: 11 no século XIX (dar, estar, fazer, haver, ir, poder, querer, saber, ser, ter, vir),
13 no século XX (dar, dizer, estar, fazer, haver, ir, poder, querer, saber, ser, ter, ver, vir). São
verbos irregulares fortes, cujo radical se modifica no pretérito perfeito e que, mais importante
nesta análise, “não apresentam identidade de formas entre o infinitivo flexionado e o futuro do
subjuntivo” (BECHARA, 2001, p.226). Os exemplos em (5-9) ilustram esses casos com dados
das cartas novecentistas.

(5) “Bem, em todo caso, se não der para entender eu escrevo de novo!” (20-SP06)

(6) “[...], mas se você não estiver namorando com ninguém espero que você me responda essas cartas que eu
lhe mandarei.” (20-SC15)

(7) “diga Vicente que se ele quiser vir tratar da perna aqui que eu ainda tenho um cantinho aqui para ele [...]”
(20-MG40)

(8) “Se ele for “ruinzinho” eu deixo ele lá e venho embora.” (20-BA96)

(9) “Se tiver transporte peço-te trazer Mamãe já que Titia obstina-se com não querer mais vir” (20-RN06)

Quando, por outro lado, observamos o tipo de verbo que aparece nas construções com
Presente do Indicativo na prótase, parece haver uma tendência ao predomínio de verbos
regulares (69%, 9 casos em 13, no século XX). O número de dados não permite chegar a uma
conclusão, mas aponta uma possível correlação, que um corpus mais robusto permitiria avaliar.
Verbos irregulares constituem, como se sabe, um grupo pouco numeroso em português 95
(CÂMARA JR., 1970)12. Ainda que numericamente modesto, esse grupo inclui alguns dos
verbos mais produtivos da língua. Sua produtividade tem relação direta com o fato de que vários
deles podem funcionar tanto como verbos plenos como auxiliares/funcionais/suporte. O caráter
distintivo de suas formas verbais, que resulta de “[...] desvio em face dos padrões gerais
morfológicos da conjugação” (NEVES, 2018, p.1274), lhes assegura saliência. A junção de
produtividade e saliência pode levar à manutenção da forma. Vejo nessa combinação de fatores
uma explicação possível para os índices de permanência das construções condicionais com
Futuro do Subjuntivo.
Essas correlações ganham suporte se observamos o quadro verificado nos dados
sincrônicos de fala estudados por Brandão (2018). Em sua análise de corpus de construções
condicionais constituído a partir do Banco de dados Iboruna (ALIP – Amostra Linguística do
Interior Paulista, (GONÇALVES, 2007), a autora identifica uma concentração de ocorrências
com um pequeno número de verbos, predominantemente irregulares. Em 607 dados analisados,
37% (227) contêm apenas 3 diferentes verbos na prótase – ter, ser e querer. Esses verbos
apresentam índices bastante altos de FS (entre 84% e 98%); juntos respondem por 39% da
morfologia de FS do corpus estudado.
Delineia-se uma situação que combina um viés de restrição morfológico-lexical (uma
rotinização lexical) com uma convencionalização estrutural (“[...] the extention to which the
subjunctive is associated to a given structurally-defined context” (POPLACK et al, 2018,
p.240)). É nesse sentido que Brandão se questiona, diante do uso quase categórico do FS com

12
O número restrito de verbos irregulares, assim como sua grande produtividade, são características gerais desse
tipo de verbo, não exclusivas do português.

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o verbo querer: “Poderíamos nos perguntar, então, se o verbo querer flexionado no subjuntivo
já seria uma forma que se encontra lexicalizada, [...]” (BRANDÃO, 2018, p. 99).
A interação entre gramática e léxico tem se mostrado um fator muito atuante em
processos de variação e mudança (PIMPÃO, 2015; POPLACK et al., 2018; BERLINCK, 2019),
estabelecendo restrições e aberturas em diferentes espaços de uso e em diferentes estágios de
mudança. Este estudo vem reforçar a ideia de que é fundamental levar em conta o papel que o
aparentemente idiossincrático nível lexical desempenha na definição dos caminhos dos
processos.

A variação nas cartas do século XX

Volto-me agora para a caracterização da variação observada nos dados das cartas do
século XX, para além das restrições de natureza morfolexical. Particularmente, vou explorar
dois fatores não estruturais – a temática das cartas e a distribuição dos usos segundo a região
geográfica em que a carta foi produzida13.
O primeiro desses fatores se relaciona com a natureza do texto-fonte de dados. A
percepção da importância de considerar aspectos que caracterizam o texto, como materialização
de um gênero, veio para a pesquisa como um aprofundamento de preocupações presentes nas
propostas e investigações desenvolvidas no PHPB e no PHPP. Dentre os componentes
principais que definem o gênero – estrutura composicional, temática e estilo (BAKHTIN,
1997), investigo aqui o possível papel da temática tratada na carta na distribuição de usos
das variantes focalizadas. 96
A definição da temática foi estabelecida a partir da própria leitura das cartas e da
identificação dos assuntos ali tratados. Com essas informações foi possível reunir os temas em
duas categorias gerais: temas subjetivos – em que os assuntos giram em torno de
relacionamentos, normalmente amorosos ou de amizade (sentimentos, conselhos, encontros,
correspondência); e temas objetivos – em que se encontram pedidos, relatos de situações do
cotidiano, informações sobre terceiros, assuntos financeiros. Os excertos em (10) e (11)
ilustram a distinção, respectivamente.

(10) Uma coisa eu tenho certeza que te amo muito, você foi a primeira mulher a preencher todo o vazio dentro
de me. Se eu morrer amanhã quero que você saiba que morri por te amar e mesmo morto vou
continuar te amando. (20-RN18)

(11) Eu tenho uma fita pirata de um show deles aqui em São Paulo e se você quizer eu gravo para você, ok?
(20-SP02)

Subjacente a essa distinção está a hipótese de que o contexto nomeado como mais
objetivo seria um espaço mais aberto às construções inovadoras e que, por outro lado, o
contexto denominado mais subjetivo abrigaria proporcionalmente mais usos da combinação
FS+FI. Cabe mencionar que o Futuro do Indicativo presente nas apódoses corresponde à forma
sintética desse tempo verbal. Esse aspecto é relevante para a avaliação da combinação FS+FI
como mais conservadora: ela traz tanto na prótase como na apódose formas verbais associadas

13
Como os corpora explorados incluem cartas de diferentes proveniências, foi possível investigar uma perspectiva
que também marcou o trabalho de Dercir – a da variação no espaço geográfico.

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a usos prescritivos que fazem parte de processos comprovados de mudança no PB – a
substituição do subjuntivo pelo indicativo e o abandono da forma sintética do futuro em favor
da forma perifrástica (esse último em estágio avançado).
Vemos, na Figura 2, que, de fato, há uma clara diferença entre os dados presentes em
cartas de tema “objetivo” e de tema “subjetivo”. Enquanto a hierarquia entre as variantes
observada nos resultados gerais (FS+PI > FS+FI > PI+PI, com um predomínio bem marcado
de FS+PI) se mantém no conjunto de dados de tema “objetivo”, a relação se altera entre os
dados de tema “subjetivo”. Nesse caso, observamos um equilíbrio no emprego das duas
variantes que trazem o FS na prótase. Chama a atenção, sobretudo, a presença significativa de
dados com a combinação FS+FI.

Figura 2 – Proporção de uso de combinações modo-temporais construções condicionais


segundo a temática das cartas - século XX.14

66%

48%
45%

23%

11%
7%

97
objetivo subjetivo

FS + FI FS + PI PI + PI

X² = 9,35 (2), p = 0.009


Fonte: Elaboração própria.

Ainda que o processo como um todo esteja atravessado pela passagem do sintético para
o perifrástico na expressão do futuro na apódose (a análise de Brandão (2018) não encontrou
nenhum caso de futuro sintético nos dados sincrônicos de fala), é preciso refletir sobre o que
leva a esse relativo maior emprego da forma de futuro no contexto mais subjetivo. A
comparação entre dados com FS+FI e FS+PI ((12)-(13)) mostra que o valor de
eventualidade/potencialidade da concretização da situação descrita na apódose se mantém em
ambas, de modo que as formas seriam intercambiáveis, sem prejuízo de interpretação ((12a')-
(13a')).

14
Os índices de proporção apresentados na Fig. 2 provêm do seguinte conjunto de dados:
Tema FS+FI FS+PI PI+PI
Objetivo 15 42 7
Subjetivo 42 40 6
Fonte: Elaboração própria.

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(12) a. [...] portanto peço-te para ser razoavel, se achares que deves ficar podes ficar, e se achares que deves
vir embora desceremos juntos no proximo domingo, não quero que faças nada contra a vontade (20-
RJ07) – [tema ‘subjetivo’]
a’. [...] se achares que deves ir embora descemos juntos no próximo domingo

(13) a. Se você quizer as letras do Songs... eu arrumo pra você, tá? (20-SP03) [tema ‘objetivo’]
a’. Se você quiser as letras do Songs, eu arrumarei...

Um possível caminho para explicar essa distribuição seria um conjunto de aspectos que
compõem, junto com a temática, condições de produção do texto e que levam a escolhas
linguísticas valoradas como exemplares de uma norma de prestígio ou, por outro lado,
representativas de usos coloquiais. Assim, não seria o tema, diretamente ou exclusivamente,
que determinaria a escolha, mas ele estaria associado a contextos menos ou mais favoráveis a
determinadas formas. Quando observamos os exemplos (12a) e (13a), levando em conta o
conjunto de escolhas que os constituem, vemos outros elementos que se somam na construção
de um efeito que poderíamos chamar de mais cuidado e outro que seria mais casual. Em (12a),
a ênclise do pronome átono e o uso das marcas morfológicas da 2ª pessoa do singular se
combinam com o futuro sintético; em (13a) temos ao lado do presente do indicativo a forma
contrata ‘pra’, o uso do ‘você’ e o marcador discursivo ‘tá?’, aproximando o texto de uma
conversa descompromissada.
Por fim, passo a explorar a distribuição dos usos segundo a proveniência geográfica
dos dados. Depois de décadas produtivas de estudos sobre fenômenos variáveis no PB, que
focalizaram comunidades em diferentes regiões do país, investigando amostras de fala e de
escrita, começam a ser elaboradas sínteses para mapear esses processos em nosso território
(MARTINS; ABRAÇADO, 2015; PIMPÃO, 2015). Busca-se sistematizar os resultados 98
esparsos, para construir um quadro geral. O desafio é grande, comparável à diversidade de
situações. Ilustro com o estudo de Scherre, Dias, Andrade e Martins (2015).
Os autores apresentam um mapeamento da variação dos pronomes tu e você, em suas
várias realizações e possíveis articulações com a marca verbal de concordância. Condensando
resultados de estudos que analisaram 60 amostras de fala cobrindo quase todo o território
brasileiro, identificam-se seis subsistemas no endereçamento ao interlocutor: (i) só você, (ii)
mais tu (+60%) com concordância baixa (-10%), (iii) mais tu (+60%) com concordância alta
(40%-60%), (iv) tu/você com concordância baixa (-60% de tu, concordância -10%); (v) tu/você
com concordância média (-60% de tu, concordância: 10%-39%); (vi) você/tu (tu de 1% a 90%,
sem concordância). Apesar desse leque variado de construções, a sistematização trouxe à luz
uma distribuição que espelha fatores sociohistóricos de ocupação dos espaços. Por um lado,
verifica-se que

O subsistema só você é suprarregional, mas se concentra na área central do país com


bastante uniformidade, envolvendo a antiga capitania de São Paulo, segundo mapa
que mostra a divisão administrativa do Brasil em 1709 (cf. Mattos, 2013, p.36).
(SCHERRE, DIAS, ANDRADE, MARTINS, 2015, p. 142).

Essa vasta região inclui os estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul
(exceção feita ao Distrito Federal e Brasília), Tocantins, Espírito Santo, Minas Gerais e São
Paulo (com exceção da cidade de Santos), a cidade de Salvador, e o estado do Paraná. Como
apontam os autores, com poucas exceções, corresponde ao que foi o território da capitania de
São Paulo, uma delimitação resultante das incursões paulistas ao interior do país desde o século

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XVI, antes mesmo de constituir uma nação. Complementarmente, os demais subsistemas estão
alocados, em uma distribuição variada, nas regiões que se situam nos “extremos do mapa” –
Norte, Nordeste e Sul (Santa Catarina e Rio Grande do Sul).
O estudo de Scherre et al. (2015) excede em muito as conclusões que destaquei aqui. O
propósito de trazê-lo, para além de exemplificar o esforço de sistematização de décadas de
estudos variacionistas, é permitir um diálogo com o que se observou nas construções
condicionais potenciais provindas de textos de diferentes regiões do Brasil. Esses resultados
estão apresentados na Fig. 3.

Figura 3 – Proporção de uso de combinações modo-temporais construções condicionais


segundo a região de proveniência das cartas - século XX.15
81%

48% 46% 46%


41%

15%
11% 8%
4%

Nordeste Sudeste Sul

FS+FI FS+PI PI+PI


99

X² = 19,06 (4), p = 0.0007


Fonte: Elaboração própria.

Vemos nessa distribuição um contraste claro entre os usos encontrados nas cartas do
Sudeste (Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo) e aquelas do Nordeste (Rio Grande do Norte,
Pernambuco, Bahia) e Sul (Santa Catarina). O índice extremamente alto de FS+PI nas cartas do
Sudeste, que faz dessa combinação a escolha majoritária, se contrapõe a um equilíbrio de uso
entre FS+FI e FS+PI nos estados do Nordeste e do Sul. Se assumimos a ideia de que FS+FI é
uma opção mais conservadora no sistema, tendo em conta a combinação de Futuro do
Subjuntivo e Futuro do Indicativo sintético, como já discutido, desenha-se um cenário em que
teríamos uma região central em que o processo de substituição de formas verbais estaria mais
avançado, frente a regiões situadas nos extremos do território.
A associação com o quadro identificado por Scherre et al. (2015) é inevitável, mas
certamente prematura. Se os resultados aqui obtidos sugerem uma distribuição geográfica que
contrapõe Sudeste, por um lado, e Nordeste/Sul de outro; essa observação deve ser tomada mais

15
Os índices de proporção apresentados na Figura 3 provêm do seguinte conjunto de dados:
Região FS+FI FS+PI PI+PI
Nordeste 38 33 9
Sudeste 7 37 2
Sul 12 12 2
Fonte: Elaboração própria.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
como uma hipótese a testar a partir da análise de um conjunto mais robusto de dados, tanto
quantitativamente, quanto qualitativamente (no sentido de representarem um maior número de
estados componentes das várias regiões).
Estudos como os de Vianna e Lopes (2015), sobre a variação entre os pronomes nós e a
gente apontam, por exemplo, índices altos e superiores de a gente (a forma inovadora) em João
Pessoa e em Porto Alegre, comportamentos diferenciados entre cidades de uma mesma região
(Porto Alegre – 70%; Curitiba – 54%) e comportamentos semelhantes entre cidades de regiões
diferentes (Rio de Janeiro – 79%, Belo Horizonte – 70%, Florianópolis – 72%). As autoras
destacam a relevância de outro fator de natureza geográfico-social para a caracterização do
fenômeno: o contraste urbano/rural. Resultados como esses mostram que correlações entre
fenômenos variáveis e distribuição espacial podem ser específicas para cada caso e que as
motivações para os diferentes padrões de uso precisam ser buscadas além do geográfico.
Ainda se faz necessário aprofundar o que subjaz a diferenças como essas e isso passa, a
meu ver, necessariamente, por fatores de natureza socio-histórica, ligados aos processos de
ocupação de cada região, a movimentos migratórios internos, que marcaram a história brasileira
sobretudo no século XX, à ação de forças normatizadoras (escolarização, acesso à mídia).
A relevância estatística das duas variáveis – tema e região – pede que se observe em que
medida esses fatores interagem para caracterizar a variação já observada nas condicionais. Um
recurso que permite uma visualização clara dessas interações é a árvore de inferência
condicional.16 Na Fig. 4 temos representada a hierarquia de significância entre as variáveis (ou
grupos de fatores) e o modo como se combinam para definir os padrões de uso das combinações
modo-temporais.
100

16
O método de regressão que gera diagramas arbóreos de inferência condicional (LEVSHINA, 2015) opera um
cálculo que resulta em uma ‘classificação’ dos grupos de fatores e fatores envolvidos na análise de um fenômeno,
segundo uma partição binária recursiva. Segundo Levshina (2015, p. 291) “o algoritmo testa se quaisquer
variáveis independentes estão associadas com a variável dependente (resposta) e escolhe a variável que tem a
associação mais forte com a [variável] resposta”. Com isso “o algoritmo opera uma divisão binária nessa
variável, dividindo o conjunto de dados em dois subconjuntos”. O processo se repete “até que não haja variáveis
associadas ao resultado no nível pré-definido de significância estatística”. O resultado é projetado na forma de
uma árvore como a que vemos na Fig. 4.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Figura 4 – “Diagrama arbóreo de inferência condicional” (c-tree) referente à variação modo-temporal
nas construções condicionais potenciais – cartas – século XX.

Fonte: Elaboração própria.

O cálculo mostra que “região” tem um peso maior, estabelecendo uma primeira
distinção entre o comportamento dos dados provenientes da região Sudeste e aqueles das
regiões Nordeste e Sul (node 1). Em um segundo momento, vemos a interação de “tema”, mas
que se revela um fator decisivo para caracterizar o conjunto de dados do Sudeste apenas. Entre 101
os dados provindos do Nordeste e do Sul (node 2), observamos a mesma relação hierárquica
entre as variantes já verificada na Figura 3. No caso dos dados do Sudeste, porém, a
diferenciação segundo o “tema” determina uma distribuição marcadamente diversa entre as
variantes. É no âmbito dos dados de tema “subjetivo” que encontramos os casos de FS+FI. O
número de dados dessa variante com tema “objetivo” é muito pouco expressivo. Por outro lado,
o que desponta como a opção preferida nesse contexto é a combinação FS+PI. Mas é também
muito significativo que seja apenas nesse contexto que temos dados de PI+PI. A comparação
com os resultados sincrônicos sugere um caminho de expansão para a variante PI+PI. A
associação com o contexto “objetivo” pode indicar um lugar de entrada para essa combinação
no uso. Vemos, assim, que o cruzamento das variáveis leva a um refinamento da caracterização
do comportamento variável do fenômeno e permite elencar hipóteses sobre o percurso do
processo.
Para uma caracterização total do fenômeno, é necessário investigar o papel de outros
fatores, principalmente de natureza estrutural. Aspectos como referência temporal, definitude
do sujeito e pessoa gramatical do sujeito têm sido incluídos em estudos sobre condicionais e
devem ser considerados em etapas posteriores desse estudo.

Considerações finais

Tendo como pano de fundo interesses mais gerais sobre a natureza e o modo como se
dão a variação e a mudança linguísticas, propus neste estudo buscar respostas para as seguintes
questões, aqui retomadas, para permitir uma síntese:

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(i) que combinações modo-temporais podem ser definidas como variantes na expressão da
condicional potencial,
(ii) que fatores se correlacionam com o emprego de uma ou outra combinação,
(iii) como os padrões de uso que caracterizam as amostras analisada se colocam em relação
ao quadro descrito para o fenômeno no PB atual.

Para responder o primeiro questionamento, adotei uma prática que combina o princípio
da empregabilidade (HYMES, 1972) com um limite mínimo de dados (GUY, 1980). A
aplicação desses critérios foi modalizada de forma a permitir a comparação entre os resultados
sincrônicos e os dois momentos históricos considerados – séculos XIX e XX. Desse modo,
foram identificadas três combinações modo-temporais que efetivamente funcionavam como
variantes nos corpora – correspondem a uma leitura potencial: Futuro do Subjuntivo/Futuro do
Presente do Indicativo, Futuro do Subjuntivo/Presente do Indicativo e Presente do
Indicativo/Presente do Indicativo.
A comparação entre os corpora de dados de cartas dos séculos XIX e XX com resultados
sincrônicos (questão (iii)) sugeriu um possível caminho de mudança, que se associa a uma
tendência mais geral de diminuição de uso de formas verbais de subjuntivo e de formas
sintéticas. Uma análise minuciosa da identidade lexical dos verbos que aparecem nas prótases
das construções condicionais levou a identificar fatores de resistência do futuro do subjuntivo
em alguns contextos, que incluem verbos irregulares. Assim, vemos confirmada mais uma vez
a importância de controlar esse fator já observado em outros estudos (BERLINCK, 2015, 2019;
POPLACK et al, 2018). A identidade lexical dos itens envolvidos no processo pode explicar
os aparentes contrafluxos de processos variáveis. 102

Relativamente à questão (ii), foi avaliado um aspecto pouco explorado em análises


variacionistas – possíveis correlações entre a temática abordada nas cartas e as escolhas das
variantes. A análise indicou uma associação entre temas “subjetivos” e a maior frequência de
emprego da variante considerada mais conservadora. Esses resultados vêm confirmar o que se
tem verificado em outros estudos (VIEIRA, 2014; COELHO; NUNES DE SOUZA, 2014;
BERLINCK; BIAZOLLI; BALSALOBRE, 2014; BIAZOLLI, 2016) quanto à importância de
levar em conta aspectos relativos à construção do texto e ao gênero textual/discursivo no estudo
da variação e da mudança.
Por fim, um mapeamento dos usos das combinações em função da origem geográfica
dos dados revelou uma distribuição diferenciada entre Sudeste, por um lado, e Nordeste/Sul, de
outro. Ainda que só possam ser tomados como hipótese a ser mais amplamente testada, defendo
que cenários como esse podem ser manifestações na superfície da língua de processos socio-
históricos de longo termo, que incluem não só o modo de ocupação dos espaços, mas forças
normatizadoras, como a escola, as mídias e o estado.
Sem dúvida, uma compreensão plena do fenômeno pede novas investigações; considero,
porém, que elas serão, com proveito, guiadas pelas tendências e hipóteses vislumbradas por
meio do presente estudo.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
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Tradução da edição original de 1968, por Marcos Bagno. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.]

Recebido em 11/11/2019.
Aprovado em 29/11/2019.
Publicado em 31/12/2019.

107

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
O efeito de múltiplas variáveis na
percepção sociolinguística
The effect of multiple variables on sociolinguistic perception

Ronald Beline MENDES1

RESUMO: Com base na concepção de estilo como um conjunto de variantes linguísticas empregadas de maneira
socialmente significativa (PODESVA, 2006; ECKERT, 2012), bem como na propriedade da combinatoriedade de
variantes (ECKERT, 2016), este artigo discute os resultados de um experimento de percepção sociolinguística
cujos estímulos auditivos combinam: a pronúncia de /e/ nasal em posição tônica (como um ditongo ou um
monotongo), a concordância nominal de número e a pronúncia da coda (-r) como tepe ou retroflexo. A pergunta
que motiva o experimento é de natureza teórica: variáveis de diferentes naturezas (fonéticas e gramaticais, por
exemplo) podem ter um efeito interativo nas nossas percepções acerca dos falantes que ouvimos? A resposta a que
chega o artigo é afirmativa, mas as evidências não são robustas (na medida em que os contraexemplos são mais
numerosos). A partir da discussão dos resultados, o artigo propõe encaminhamentos possíveis para a continuação
dos estudos interessados nessa questão.

PALAVRAS-CHAVE: Percepção sociolinguística. Estilo. /e/ nasal. Concordância nominal. Coda /-r/.
108

ABSTRACT: Drawing on the notion of style as a cluster of linguistic variants employed socially meaningfully
(PODESVA, 2006; ECKERT, 2012), as well as on the property of combinativeness of variants (ECKERT, 2016),
this paper discusses the results of a sociolinguistic perception experiment in which the sound stimuli combine: the
pronunciation of stressed nasal /e/ (as a diphthong or a monophthong), nominal number agreement, and the
pronunciation of coda (-r) as a tap or a retroflex. The question that motivates the experiment is theoretical: can
variables of different natures (phonetic and grammatical, for example) have an interactive effect in our perceptions
of speakers? The answer reached by the article is affirmative, but the evidence is not robust (that is,
counterexamples are more numerous). In discussing the results of such an experiment, the article proposes possible
ways to continue the study of these issues.

KEYWORDS: Sociolinguistic perception. Style. Nasal /e/. Nominal number agrément. Coda /-r/.

Introdução

Em homenagem ao Professor Dercir Pedro de Oliveira2 (in memoriam), esse artigo se


dedica a discutir os resultados de um experimento de percepção sociolinguística, desenvolvido
1
Universidade de São Paulo – USP. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Professor Associado do
Departamento de Linguística. CNPq. Bolsista de produtividade em pesquisa. São Paulo – SP – Brasil. CEP:
05508-900. E-mail: rbeline@usp.br
2
Meu convívio com o Professor Dercir Pedro de Oliveira foi brevíssimo, mas devo a ele uma das experiências
mais gratificantes da minha carreira de professor e orientador: foi dele que “herdei”, por assim dizer, uma de
minhas melhores alunas de doutorado, Marília Silva Vieira, atualmente professora da Universidade Estadual de
Goiás. Em 2011, o Professor Dercir, então orientador de Marília Vieira, convidou-me como membro titular da
banca que examinaria sua dissertação de mestrado, na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
de acordo com a técnica matched-guise (LAMBERT et al., 1960; CAMPBELL-KIBLER,
2009), cujos estímulos auditivos são definidos por três variáveis linguísticas: (i) pronúncia de
/e/ nasal em sílaba tônica (como um ditongo ou um monotongo), (ii) a concordância nominal
de número e (iii) a pronúncia da coda (-r) como tepe ou retroflexo. Objetivamente, a questão
central que motiva tal experimento é: essas variáveis teriam um efeito conjunto na percepção
de como soam os paulistanos?
Embora esse artigo tenha um papel descritivo – no que concerne à significação social
dessas variáveis, já estudada por meio de experimentos que se concentraram em cada uma delas
isoladamente (OUSHIRO, 2019; MENDES, 2018; MENDES, 2016a, 2016b) – seu principal
interesse é de natureza teórica e baseia-se nas propriedades indiciais das variáveis linguística,
de acordo com Eckert (2016): implicitude, subespecificação e combinatoriedade. A primeira
delas diz respeito ao fato de que nós, falantes, dizemos muito sobre nós mesmos – como em
“Eu me afilio a valores feministas” ou “Eu sou daqui e me orgulho disso” – sem empregar tantas
palavras (mas empregando variantes de variáveis linguísticas que indiretamente indiciam tais
ideologias). A segunda – uma propriedade geral das línguas – lembra que não precisamos de
numerosas variáveis para indiciar significados sociais por meio de nossa fala. Em outras
palavras, podemos nos valer de algumas poucas variáveis linguísticas em nossas produções,
entendidas como atos performativos, para veicular significações sociais. Finalmente, a terceira
das propriedades elencadas por Eckert (2016) é a que mais nos interessa aqui: significados
sociais não se associam a variantes isoladas; ou ainda: variantes linguísticas não assumem
significados sociais isoladamente, mas em conjunto.
A propriedade da combinatoriedade tem a ver ainda com o conceito de estilo como um
“aglomerado” (cluster) de variantes (ECKERT, 2016; ECKERT, 2012; PODESVA, 2006). De
acordo com esse conceito, espera-se que variantes de diferentes variáveis covariem de maneira 109
socialmente significativa, isto é, elas não são empregadas independentemente umas das outras
e, por conseguinte, nossa percepção de como soam as pessoas deve ter correlação com esse
fato. Muitos trabalhos já foram desenvolvidos no sentido de mostrar que variantes de diferentes
variáveis têm, em conjunto, efeito na percepção de como soam os falantes – como por exemplo
Munson et al. (2006), Campbell-Kibler (2011), Pharao et al. (2014) e Pharao e Maegaard
(2017), para citar apenas alguns. Esses trabalhos têm em comum o fato de que lidam
exclusivamente com variáveis fonéticas. São mais raros os estudos que procuram verificar
efeitos interativos de variáveis gramaticais e fonéticas na percepção.
Levon e Buchstaller (2015) configuram uma das poucas exceções: investigaram os
efeitos da anteriorização de (th) e do uso do morfema flexional /s/ com a terceira pessoa do
plural (o que se conhece por “NSR” Northern Subject Rule, como em they likes ‘eles gostam’)
– na percepção de quão profissional soa o falante britânico. Os autores verificaram que, embora
ambas as variantes tenham efeito na percepção de que os britânicos soam menos profissionais,
esses efeitos são independentes entre si. Outro exemplo é o trabalho de Mendes (2018), que
estuda percepções de paulistanidade e de gênero a partir de estímulos que combinam as
variáveis concordância nominal e pronúncia de /e/ nasal (ditongo vs. monotongo). Aqui
também, ambas variáveis linguísticas têm efeito em quão paulistanos e quão
masculinos/femininos soam os falantes cujas vozes foram utilizadas no experimento, mas tais
efeitos são independentes entre si (ou seja, não há interação estatisticamente significativa entre
as variáveis em foco).
Nesses dois exemplos, interessa o fato de que tanto à variável NSR (em Levon e
Buchstaller, 2015) quanto à concordância nominal (em Mendes 2018) associam-se significados

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sociais. Essas são evidências contrárias ao Princípio da Interface (LABOV, 1993), de acordo
com o qual elementos fonéticos e lexicais estratificam-se socialmente mais do que elementos
“mais profundos” da estrutura linguística. É com base nesse princípio que Labov et al. (2011)
discutem o conceito de “monitorador sociolinguístico”, um dispositivo de que dispomos para
avaliar a superfície do sinal linguístico, mas não aspectos estruturais mais abstratos.
Por outro lado, o fato de que não se observa interação significativa entre uma variável
de natureza gramatical e outra de natureza fonética em nenhum desses dois trabalhos requer
que outros experimentos sejam desenvolvidos, no sentido de verificar se a ausência de interação
tem a ver com a natureza das variáveis ou com fatos de covariação na produção: isto é,
elementos linguísticos que não covariam na produção também não interagem na percepção?

As variáveis linguísticas – (EN), (CN) e (-r)

A partir desses questionamentos, o presente experimento combina três variáveis: duas


de natureza fonética – /e/ nasal (EN) e coda (-r) – e uma de natureza gramatical – a concordância
nominal (CN).
Os numerosos estudos sobre essa última nos mostram que a variante não padrão
funciona como um estereótipo de baixa classe social e baixa escolaridade, fortemente registrado
(no sentido de Agha, 2007). Mais recentemente, Mendes (2016a) mostra que, além de
significados associais relacionados a classe e a escolaridade, há uma relação indicial indireta
(OCHS, 1992) entre (CN) e masculinidade. Em um experimento de percepção elaborado com
a técnica matched-guise (LAMBERT et al., 1960; CAMPBELL-KIBLER, 2009), quatro vozes
masculinas foram percebidas como menos masculinas no seu disfarce com concordância não 110
padrão (CNø) e como mais masculinas no seu disfarce com concordância padrão (CNp).
Quanto à pronúncia variável de (EN) como um ditongo ou um monotongo (em posição
tônica, em palavras como “setenta”), trata-se de um caso de mudança em progresso abaixo da
consciência dos falantes paulistanos (OUSHIRO, 2015), em direção à variante ditongada – que
é favorecida na fala das mulheres, dos falantes de classes mais altas e na leitura de um texto ou
leitura de palavras (em comparação, respectivamente, a falantes do sexo masculino, de classes
mais baixas e na conversação com um documentador – tendo em conta que os dados foram
extraídos de entrevistas sociolinguísticas). Em termos perceptuais, Mendes (2016b) verificou
que, dos quatro falantes (2 homens e 2 mulheres) cujas vozes foram utilizadas num experimento
matched-guise, dois deles foram percebidos como mais paulistanos e mais femininos no seu
disfarce com a variante ditongada [ejn]. Em outras palavras, além das correlações com
sexo/gênero, classe e estilo (casual vs. cuidadoso), verificadas na produção linguística
paulistana, os significados sociais “paulistanidade” e “masculinidade/ feminilidade” fazem
parte do campo indicial (ECKERT, 2008) dessa variável.
Finalmente, a variável coda (-r) foi escolhida para integrar o experimento que aqui se
reporta porque, além de se tratar de uma das variáveis mais importantes para a identificação de
dialetos regionais no Brasil (CALLOU et al., 1996), em São Paulo observa-se uma
diferenciação entre falantes de regiões mais centrais da cidade relativamente àqueles de regiões
mais periféricas (OUSHIRO, 2015): nestas últimas, verifica-se uma mudança em progresso em
direção à variante retroflexa, que também é mais aceita pelos falantes como um marcador de
paulistanidade (por oposição aos falantes de regiões centrais, que mais frequentemente rejeitam
tal associação).

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Além de análises da produção dessas variáveis em São Paulo, Oushiro (2015) também
fez uma análise de sua covariação (incluindo em seu estudo também a variável concordância
verbal). No que concerne às três variáveis que definem os estímulos no presente experimento,
interessa lembrar que (CN) e (-r) covariam na fala dos paulistanos: aqueles que tendem a
empregar CNø mais vezes também tendem a pronunciar a coda (-r) como retroflexa mais
frequentemente; aqueles que usam mais CNp pronunciam (-r) mais vezes como tepe. Por outro
lado, não se observa esse tipo de correlação entre (EN) e nenhuma das outras variáveis.
Dessa forma, a inclusão dessas três variáveis no presente experimento permite discutir
se seus efeitos na percepção (sejam eles independentes um do outro ou interdependentes entre
si) podem ser explicados em virtude da sua natureza (fonética vs. gramatical) ou de sua
covariação na produção.

O experimento

Como se combinam, em virtude da questão que motiva o experimento, as variantes de


três variáveis linguísticas, utilizam-se excertos da fala de apenas dois informantes – cujos
pseudônimos são Janaína e Lucas. A inclusão de um número maior de falantes – embora
interessante (tal como se discute na conclusão) – requereria um número maior de combinações
(falantes vs. variantes) e o tempo necessário para a execução das tarefas do experimento pelo
ouvinte seria maior. Os trechos das falas de Lucas e Janaína (nos quais se destacam as
ocorrências das variáveis em foco) foram extraídos de suas entrevistas sociolinguísticas
coletadas pelo Projeto SP2010 (disponível em http://www.projetosp2010.fflch.usp.br):
111
Janaína:

Tem uma chácara que eu frequ[ẽ]to bastante e as praia-s do sul, do no[ɻ]te.

Lucas:

O dinheiro, por ex[ẽ]plo... as pessoa-s (es)tão se vestindo da fo[ɻ]ma que querem.

As variantes que originalmente ocorreram nesses trechos das falas de Janaína e Lucas
foram /e/ nasal não ditongado, concordância nominal padrão e retroflexo. Observe-se que eles
ocorrem na mesma ordem em ambos os estímulos; em outras palavras, tal ordenação não foi
uma variável que definiu o experimento. As demais versões desses estímulos (ou seja, os demais
disfarces desses dois falantes) foram digitalmente produzidos, com a função “cortar” e “colar”
do Praat (BOERSMA; WEENINK, 2018), utilizando-se outras ocorrências das variantes nas
respectivas entrevistas com esses dois paulistanos. Como são três as variáveis e como cada uma
delas é binária, são oito as combinações possíveis:

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O experimento foi aplicado online (na plataforma Qualtrics) e houve um total de 580
respondentes voluntários – dos quais 469 responderam a todas as questões; as 111 respostas
incompletas foram descartadas. Cada um deles ouviu Janaína e Lucas em apenas uma das oito
versões acima e, para cada um desses falantes, compartilharam suas impressões acerca de como
eles soaram, por meio de escalas de diferenciais semânticos (Fig. 1) e características categóricas
(Fig. 2).

Figura 1 – Escalas de diferenciais semânticos.

Fonte: Elaboração própria.

112
Figura 2 – Características categóricas (não escalares).

Fonte: Elaboração própria.

Ao final do experimento, os respondentes também preencheram um formulário


demográfico, cujas informações aí compartilhadas poderiam ser utilizadas mais tarde como
variáveis independentes nas análises de suas respostas (Fig. 3).

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Figura 3 – Formulário demográfico para o respondente.

Fonte: Elaboração própria.

Dos 469 participantes que preencheram integralmente os formulários, 254 são mulheres
e 211 são homens (4 preferiram não se identificar binariamente); 73% desses ouvintes são
naturais da capital São Paulo (19% são do interior do estado e 8% migraram de outros estados).
A idade mínima dos ouvintes foi 18 anos e a máxima 80. A idade mediana foi 27. 113

Análise das respostas nas escalas

Quando se trabalha com respostas em escalas, recomenda-se testar se há correlações


entre elas. Em outras palavras, interessa verificar se tais respostas são independentes umas das
outras ou se são interdependentes. Uma das formas de verificar isso é por meio de Análises de
Componentes Principais (ACPs), que testam exaustivamente correlações (positivas e negativas)
entre as várias escalas. A Tab. 1 a seguir resume os resultados desse tipo de análise para as
respostas dadas pelos 469 participantes às 9 escalas do experimento.

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Tabela 1 – Análise de Componentes Principais das respostas dos ouvintes às nove escalas do
experimento (Rotação Promax).
‘Prestigiosidade ‘Gênero’ ‘Simpatia’
Urbana’
paulistanidade 0.60 0.10 -0.17
inteligência 0.66 -0.09 0.21
amigabilidade -0.18 -0.02 0.94
masculinidade 0.07 -0.88 0.15
formalidade 0.83 0.09 -0.34
educação 0.81 -0.00 0.12
extroversão 0.20 -0.07 0.67
feminilidade 0.12 -0.90 0.13
periferia-centro 0.81 -0.03 -0.15
eigenvalue 2.84 1.63 0.13
% variância 32 18 17
cumulativa % 32 50 67
Fonte: Elaboração própria.

A Tab. 1 mostra que as 9 escalas podem ser reduzidas a 3 Componentes Principais


(CPs). Índices de correlação superiores a 0.70 indicam forte correlação entre as respostas dadas
nas respectivas escalas – que é o caso de formalidade, educação e periferia-centro (no primeiro
componente); pode-se considerar, porém, que as respostas às escalas de paulistanidade e
inteligência também integram esse componente, ainda que a correlação seja menos forte nesses
dois casos. Como se trata de uma correlação positiva, entende-se que quando os falantes
(Janaína e Lucas) foram ouvidos como mais formais, também foram ouvidos como mais 114
educados (em termos escolares) e como pessoas que soam como paulistanos de regiões mais
centrais da cidade (além de mais paulistanos e mais inteligentes). Por isso, esse primeiro
componente principal (que explica 32% da variância nas respostas) foi chamado de
“prestigiosidade urbana”.
O segundo componente é integrado pelas respostas nas escalas de masculinidade e
feminilidade, em correlação negativa – ou seja, quando os falantes foram ouvidos como mais
masculinos, também foram ouvidos como menos femininos e vice-versa (o que seria de
esperar). Por essa razão, esse componente principal (que explica 18% da variância nas
respostas) está sendo chamado de “gênero”.
O último dos três componentes identifica-se como “simpatia” por ser integrado pelas
respostas nas escalas de amigabilidade e extroversão (menos fortemente no caso da última). No
interesse da concisão, esse componente não será analisado na discussão a seguir, da mesma
forma que, no presente trabalho, não se analisam as respostas dos ouvintes às características
não escalares.

Efeitos de (EN), (CN) e (-r)

Quando se desenvolvem ACPs, a função principal do pacote psych (REVELLE, 2016)


do R (R CORE TEAM, 2018) gera scores para cada componente principal (CP) – a partir do
número de escalas correlacionadas entre si nos diferentes componentes, bem como a partir das
respostas dadas pelos ouvintes nas escalas (que, no caso desse experimento, são constituídas de
6 pontos). Cada um desses componentes constitui, então, uma variável numérica, que pode ser

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tomada como variável dependente em modelos de regressão linear, a fim de testar se os valores
que definem o componente guardam correlação com as demais variáveis que caracterizam o
experimento. Como o interesse central desse artigo é discutir se os efeitos das variáveis
linguísticas, quando presentes, são independentes uns dos outros ou interdependentes, apenas
elas são incluídas como variáveis independentes nas análises cujos resultados se apresentam a
seguir (além do falante e, como efeito aleatório, o ouvinte).
Para o primeiro componente – prestigiosidade urbana – observa-se que a única variável
linguística que tem correlação com a variação nas respostas é a coda (-r). As outras duas
variáveis linguísticas – (CN) e (EN) – não têm efeito nesse componente. Há uma interação
significativa entre (-r) e falante, mas nenhuma das interações entre variáveis linguísticas tem
efeito significativo na variável dependente.

Tabela 2 – Resumo dos resultados do modelo de regressão (efeitos mistos) para o componente
principal Prestigiosidade Urbana.
Efeitos Fixos Estimativa Erro Padrão valor t valor p
(Intercept) -0.40694 0.10527 -3.866 0.000119 ***
Lucas 0.91275 0.15199 6.005 <0.001 ***
ENmonotongo -0.11459 0.15986 -0.717 0.47
CNp 0.09300 0.14774 0.629 0.53
Rtepe -0.40463 0.14887 -2.718 <0.01 **
Lucas:monotongo -0.24991 0.22518 -1.110 0.27
Lucas:CNp -0.16035 0.21515 -0.745 0.46
monotongo:CNp 0.07593 0.22128 0.343 0.73
Lucas:Rtepe 0.57279 0.21644 2.646 <0.01 **
monotongo:Rtepe 0.19737 0.22153 0.891 0.37 115
CNp:Rtepe 0.17196 0.21457 0.801 0.42
Lucas:monotongo:CNp 0.28125 0.31247 0.900 0.37
Lucas:monotongo:Rtepe 0.04442 0.31247 0.142 0.89
Lucas:CNp:Rtepe -0.14844 0.31247 -0.475 0.63
monotongo:CNp:Rtepe -0.11324 0.31247 -0.362 0.71
Lucas:monotongo:CNp:Rtepe 0.02309 0.45582 0.051 0.96

Total N: 938. Efeito aleatório: Ouvinte (469). Log likelihood: -1181.426 (df=18)

Fórmula: Prestigiosidade Urbana (CP1) ~ Falante * (ẽ) * (CN) * (r) + (1|Ouvinte)

Fonte: Elaboração própria.

Nessa tabela (bem como em todas as que trazem um resumo dos resultados de um
modelo de regressão), os valores na coluna Estimativa devem ser lidos em relação ao chamado
Intercept (ou nível de referência) que, nesse modelo, foi estabelecido como Janaína, na sua
versão com ENditongo, CNø e Rretroflexo (pela ordem alfabética – que é default nas análises
feitas no R). Assim, na primeira linha da coluna Estimativa, -0.40694 é o valor estimado
pelo modelo, em termos de Prestigiosidade Urbana, para Janaína, em seu disfarce com
pronúncia ditongada de /e/ nasal, CNø e pronúncia retroflexa de (-r). Na segunda linha, na
mesma coluna, o valor 0.91275 deveria ser somado à estimativa para
Janaína/ENditongo/CNø/Rretroflexo (o da linha superior), para se obter a estimativa para
Lucas. Em outras palavras, 0.91275 é o “tamanho” da diferença entre as estimativas para esses
dois falantes, no CP Prestigiosidade Urbana. O valor p < 0.001 (seguido de três asteriscos, na

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última coluna) indica que são pequeníssimas as chances de obter esses resultados caso a
hipótese nula fosse verdadeira (ou seja, caso não houvesse diferença significativa entre Janaína
e Lucas, nesse componente). Isso quer dizer, então, que podemos rejeitar a hipótese nula, ou
seja, a diferença entre eles (0.91275) é estatisticamente significativa.
Seguindo o mesmo raciocínio, é também significativa a diferença entre respostas
baseadas em Rtepe e aquelas baseadas em Rretroflexo (o valor de referência – Intercept).
Também há uma interação entre Falante e a variável (-r), já que a diferença entre Lucas:Rtepe
e Janaína:Rretroflexo (o valor de referência) é significativa (p<0.01). Nenhuma outra diferença
estimada é significativa, o que significa que, para o CP Prestigiosidade Urbana, as respostas
variaram significativamente apenas a depender da variável (-r) e do falante.
A Fig. 4 ilustra essa interação entre Falante e (-r): Janaína foi ouvida como alguém que
soa significativamente menos prestigiosa, em termos de urbanidade, no seu disfarce com tepe
(observe-se que o boxplot verde, no seu caso, está mais para baixo – relativamente ao vermelho
– e os entalhes nos dois boxplots, que indicam o intervalo de confiança, estão suficientemente
distantes entre si para que a diferença seja significativa). Para Lucas, observa-se a distribuição
contrária: as respostas para ele, na sua versão com tepe (boxplot verde) estão mais para cima –
ou seja, ele soa mais urbanamente prestigioso quando é ouvido nesse disfarce, relativamente ao
retroflexo.

Figura 4 – Distribuição das respostas (scores) no componente Prestigiosidade Urbana para


Janaína e Lucas, de acordo com a variável (-r).

116

Fonte: Elaboração própria.

Tal como foi desenhado, esse experimento não permite responder por quê Janaína é
ouvida como “menos prestigiosa” no seu disfarce com tepe. Entretanto, isso pode ser evidência
de que a significação social das variantes de (-r) em São Paulo esteja em processo de mudança,
uma vez que, num experimento com apenas dois falantes, a relação entre tepe e prestígio urbano
não se observa para ambos. Em sua análise da produção da coda (-r) em São Paulo, Oushiro
(2015) mostra que são distintos os padrões para falantes que moram na região periférica da
cidade e para aqueles que moram na sua região central: para os primeiros, observa-se mudança

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em progresso em tempo aparente, em direção ao retroflexo, mas não para os últimos. Além
disso, em sua análise de percepções associadas a (-r), Oushiro (2015) verifica que o retroflexo
também indicia paulistanidade – mas mais para os paulistanos da periferia. Em suma, os
resultados que vemos aqui podem ter relação com esses outros fatos de produção e de percepção
– verificados por meio de análises que se concentram na variável (-r).
Interessa, contudo, reiterar que (-r) é a única variável linguística que, nesse experimento,
tem correlação com a variação nas respostas dadas pelos ouvintes no que toca ao componente
Prestigiosidade Urbana (que, tal como vimos anteriormente, é composto pelas escalas de
paulistanidade, inteligência, formalidade, educação e periferia-centro). Mais interessante ainda
– para os propósitos deste artigo – é a constatação de que não há interação estatisticamente
significativa entre (-r) e as outras duas variáveis linguísticas. Em outras palavras, os efeitos de
(CN) e (EN) não potencializam os de (-r) na percepção de quão urbanamente prestigioso soam
os falantes.
A Tab. 3 traz o resumo dos resultados do modelo de regressão para o CP Gênero. Aqui
também, vemos que há diferença significativa entre as respostas dadas para Janaína (o valor de
referência, no Intercept) e Lucas. Diferentemente, contudo, a variável linguística que tem efeito
nas respostas às escalas que integram esse componente é (CN). Observa-se, aqui também, uma
interação entre Falante e a única variável linguística que tem efeito nas respostas. Mais uma
vez, as interações entre as variáveis linguísticas não têm efeito na variável dependente.

Tabela 3 – Resumo dos resultados do modelo de regressão (efeitos mistos) para o componente
principal Gênero.
Efeitos Fixos Estimativa Erro Padrão valor t valor p 117
(Intercept) -0.284689 0.116746 -2.439 0.0149 *
Lucas 0.365695 0.168565 2.169 <0.05 *
ENmonotongo 0.005794 0.177289 0.033 0.97
CNp -0.360381 0.163848 -2.199 <0.05 *
Rtepe -0.034661 0.165103 -0.210 0.83
Lucas:monotongo 0.219763 0.249739 0.880 0.38
Lucas:CNp 0.577782 0.238608 2.421 <0.05 *
monotongo:CNp 0.284292 0.245407 1.158 0.25
Lucas:Rtepe 0.367783 0.240042 1.532 0.13
monotongo:Rtepe 0.098892 0.245691 0.403 0.69
CNp:Rtepe 0.309647 0.237969 1.301 0.19
Lucas:monotongo:CNp -0.264874 0.346548 -0.764 0.44
Lucas:monotongo:Rtepe -0.403546 0.346548 -1.164 0.24
Lucas:CNp:Rtepe -0.553068 0.346548 -1.596 0.11
monotongo:CNp:Rtepe -0.340831 0.346548 -0.984 0.33
Lucas:monotongo:CNp:Rtepe 0.458543 0.490092 0.936 0.35

Total N: 938. Efeito Aleatório: Ouvinte (469). Log likelihood: -1277.807 (df=18)
Fórmula: Gênero (CP2) ~ Falante * (ẽ) * (CN) * (r) + (1|Ouvinte)

Fonte: Elaboração própria.

Esses resultados lembram aqueles de Mendes (2016a), que verificou que quatro falantes
do sexo masculino foram percebidos – todos – como homens que soa menos masculinos quando
apresentados aos ouvintes no disfarce com CNp (concordância padrão) e mais masculinos no
seu disfarce CNø. Considerando-se que, no presente experimento, temos apenas duas vozes –
uma masculina e uma feminina –, vale analisar os dados relativos a eles separadamente – a fim

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de verificar se os efeitos de (CN) no CP Gênero permanecem os mesmos. Os resumos dos
respectivos modelos de regressão são apresentados nas Tab. 4 e 5.

Tabela 4 – Resumo dos resultados do modelo de regressão para os dados referentes a Janaína
Componente Principal: Gênero.

Efeitos Fixos Estimativa Erro Padrão valor t valor p


(Intercept) -0.284689 0.107032 -2.660 0.00809 **
monotongo 0.005794 0.162538 0.036 0.97
CNp -0.360381 0.150215 -2.399 <0.05 *
Rtepe -0.034661 0.151366 -0.229 0.82
monotongo:CNp 0.284292 0.224989 1.264 0.21
monotongo:Rtepe 0.098892 0.225249 0.439 0.66
CNp:Rtepe 0.309647 0.218169 1.419 <0.05 *
monotongo:CNp:Rtepe -0.340831 0.218169 -1.073 0.28

Total N: 469. Log likelihood: -583.631 (df=9)


Fórmula: Gênero (CP2) ~ (ẽ) * (CN) * (r) (dados = Janaína)
Fonte: Elaboração própria.

Tabela 5 - Resumo dos resultados do modelo de regressão para os dados referentes a Lucas
Componente Principal: Gênero.
Efeitos Fixos Estimativa Erro Padrão valor t valor p
(Intercept) 0.08101 0.13093 0.619 0.5364 118
monotongo 0.22556 0.18940 1.191 0.2343
CNp 0.21740 0.18678 1.164 0.2450
Rtepe 0.33312 0.18762 1.775 0.0765
monotongo:CNp 0.01942 0.26347 0.074 0.9413
monotongo:Rtepe -0.30465 0.26317 -1.158 0.2476
CNp:Rtepe -0.24342 0.27127 -0.897 0.3700
monotongo:CNp:Rtepe 0.11771 0.37316 0.315 0.7526

Total N: 469. Log likelihood: -664.1061 (df=9)


Fórmula: Gênero (CP2) ~ (ẽ) * (CN) * (r) (dados = Lucas)
Fonte: Elaboração própria.

Como se pode observar, os resultados são bastante diferentes, quando se analisam as


respostas referentes a Janaína e Lucas separadamente. Para Lucas (Tab. 5), na verdade nenhuma
das variáveis tem efeito no modo como ele é ouvido, em termos de Gênero. Em outras palavras,
comparativamente a Janaína, ele é ouvido sempre da mesma forma, independentemente do
estímulo (ou seja, da combinação das variantes linguísticas).
Já para Janaína, vemos que ela é ouvida como mais ou menos feminina a depender da
variável (CN) e da interação entre (CN) e (-r). De fato, esse é o único caso, nesse conjunto de
análises, em que observamos uma interação entre duas variáveis linguísticas que tem um efeito
significativo nas respostas dadas pelos ouvintes. A Fig. 5 ilustra tal interação.

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Figura 5 – Distribuição das respostas (scores) no componente Gênero para Janaína, de acordo
com as variáveis (CN) e (-r).

Fonte: Elaboração própria.

Considerando-se que o CP Gênero é integrado pelas escalas de feminilidade e


masculinidade e que o CP vai de “mais feminino” a “mais masculino” (eixo y do gráfico), essa
distribuição de dados nos mostra que Janaína é ouvida como mais feminina no seu disfarce com 119
retroflexo e com CNp (concordância padrão). Quando ela é ouvida no seu disfarce com tepe,
não há diferença entre as variações nas respostas baseadas em CNø e CNp. Nesse caso, portanto,
retroflexo e CNp são variantes que se potencializam, no indiciar da significação social.

Conclusão

O design desse experimento, em cujos estímulos combinam-se as variantes de três


variáveis linguísticas socialmente relevantes para paulistanos, foi feito a partir de estudos
anteriores, interessados nos significados sociais das variantes dessas mesmas três variáveis –
analisadas isoladamente (OUSHIRO, 2015; 2016a, 2016b) ou em pares (Mendes (2018), que
combinou (CN) e (EN) nos estímulos que utilizou). No contexto desses trabalhos, os resultados
do presente experimento sugerem que os ouvintes parecem mais frequentemente atentar para a
significação social da variante de uma variável do que para uma combinação de variantes. Esta
é outra maneira de dizer o que as análises anteriormente apresentadas mostraram: apenas em
um caso – a percepção de gênero para Janaína – observou-se interação estatisticamente
significativa entre variáveis; na maioria dos casos, uma única variável teve efeito na variação
das respostas dadas pelos ouvintes. Essa variável não é necessariamente de natureza fonética:
(CN) teve efeito na percepção de gênero no conjunto de dados dos dois falantes cujas vozes
foram utilizadas e, interessantemente, a interação observada se deu entre uma variável
gramatical (CN) e uma variável fonética (-r).

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Tanto de acordo com a noção de estilo como uma combinação de variantes de múltiplas
variáveis, quanto do ponto de vista da significação social de cada uma das variáveis incluídas
no estudo, seria de se esperar maior recorrência do efeito de interações, ou seja, seria de se
esperar que os significados das variantes das três variáveis se potencializassem – de modo que,
por exemplo, ambos os falantes fossem ouvidos como mais urbanamente prestigiosos no seu
disfarce com a variante ditongada de [ejn], a concordância padrão CNp e a pronúncia tepe da
coda (-r).
Há, então, duas interpretações possíveis para os resultados que aqui se obtiveram: (i)
considerando-se que, na produção, (EN) é uma variável em mudança abaixo da consciência dos
falantes, pode ser que ela seja menos socialmente útil para a construção de estilos e, do ponto
de vista da percepção, isso se manifeste na ausência de interação com as variantes das outras
duas variáveis; (ii) apesar do pequeno número de falantes utilizados no experimento, talvez seus
resultados constituam uma evidência de que a percepção sociolinguística seja tão
“esquemática” que o ouvinte se valha de apenas uma variante para fazer seu julgamento (em
vez de atentar para um conjunto de variantes).
No caso da segunda dessas interpretações, seria o caso de considerar que percepção e
produção não necessariamente convergem – na medida em que não seria o caso de afirmar que,
a partir desses resultados, precisaríamos rever o conceito de estilo (de onde emerge a
significação social da variação linguística – (ECKERT, 2016)) como uma combinatória de
variantes de múltiplas variáveis.
Por outro lado, no que diz respeito à hipótese da covariação na produção como um
correlato para a percepção, vale atentar para o fato de que o único caso de interação estatística
significativa entre variáveis se deu justamente entre variáveis que covariam na produção dos 120
paulistanos: (CN) e (-r); tal como vimos anteriormente, (EN) não covaria com nenhuma das
outras variáveis incluídas no estudo de coesão dialetal desenvolvido por Oushiro (2015). Assim,
ao mesmo tempo em que se considera, aqui, que produção e percepção possam constituir
dimensões de variação que mais divergem do que convergem (do ponto de vista de seu
funcionamento), considera-se também que a ausência de interações com (EN) nos resultados
aqui apresentados pode estar relacionada ao modo como essa variável funciona na fala
paulistana.
A continuação desses estudos, portanto, faria bem em desenvolver diferentes testes, tais
como: (i) incluir mais falantes no experimento (embora isso fatalmente o torne mais longo, o
que acaba levando um maior número de respondentes a abandoná-lo antes de terminá-lo – algo
que já se observou na realização do presente experimento: lembre-se que dos 580 voluntários,
111 não finalizaram o preenchimento dos formulários de percepção, de modo que suas respostas
não puderam ser computadas); (ii) utilizar outra variável linguística no lugar de (EN), que não
se trate de um caso de mudança abaixo do nível da consciência dos falantes, tal como a altura
de vogais médias pretônicas (para continuar com uma variável fonética) ou a concordância
verbal (uma variável gramatical que covaria com (CN) na produção – o que poderia ser um
contraponto interessante para discutir os resultados do estudo de percepção).
A inclusão de mais falantes, apesar da desvantagem do aumento do tempo necessário
para a realização do experimento, tem a vantagem de aumentar o poder explanatório acerca do
efeito das variantes das variáveis linguísticas, diante da variável “falante”. Por exemplo, seria
muito interessante poder verificar se continuaria não havendo efeito de nenhuma das variáveis
linguísticas na percepção da fala de Lucas, mesmo se fossem incluídos mais falantes no
experimento. No que concerne à decisão sobre quais variáveis linguísticas utilizar na confecção

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dos estímulos, ela depende dos significados sociais que interessam ao estudo. Para a pergunta
– de natureza teórica – sobre como funciona a percepção sociolinguística (nós nos valemos de
conjuntos de variáveis ou, diante de tal conjunto, acabamos atentando para apenas uma?), tanto
a pronúncia de médias pretônicas como a concordância verbal seriam providenciais, na medida
em trariam mais evidências para a hipótese sobre covariação na produção versus efeito
interativo de variáveis na percepção.
Finalmente, quando se trata de um experimento cujos estímulos se definem por variantes
de múltiplas variáveis, interessa empregar a metodologia do tempo real para o julgamento que
o ouvinte faz do estímulo que ouve: com um cursor contínuo (em vez de uma escala de pontos),
pode-se medir se/como foi mudando a decisão do ouvinte (sobre se um falante soa mais ou
menos inteligente, por exemplo) à medida que ele ouve o estímulo e move o cursor. As
diferentes respostas consideradas pelo ouvinte ao longo da audição do estímulo podem, então,
ser potencialmente correlacionadas à posição das variantes das diferentes variáveis ao longo
dele. Trata-se, assim, de mais uma possibilidade para a continuação desses estudos.

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Recebido em 23/11/2019.
Aprovado em 11/12/2019.
Publicado em 31/12/2019.

123

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A Sociolinguística “paramétrica”:
desfazendo alguns equívocos
The “parametric” Sociolinguistics: undoing some mistakes

Maria Eugenia Lammoglia DUARTE1

RESUMO: Neste artigo procuro elucidar um equívoco que vem sendo repetido desde os anos 1980 sobre a
incomensurabilidade da pesquisa que reúne empirismo e formalismo e que viria a ser referida entre nós como
Sociolinguística Paramétrica desde o manifesto de Tarallo (1987). Para tanto, procuro mostrar como, a partir do
desenvolvimento da Teoria de Princípios e Parâmetros – de sua versão clássica à versão minimalista – os
paradigmas gerativo e quantitativo, longe de serem mutuamente excludentes, podem contribuir um com o outro
no estudo da mudança linguística, permitindo ao investigador identificar propriedades subjacentes a descrições
superficiais.

PALAVRAS-CHAVE: Sociolinguística Paramétrica. Linguística de “pesos relativos”. Linguística de


“propriedades paramétricas”. Parâmetro do Sujeito Nulo.

ABSTRACT: This article intends to elucidate a mistake that has been repeated since the 1980s about the
incompatibility of associating empiricism and rationalism in the type of research that would be referred to as
Parametric Sociolinguistics since Tarallo’s (1987) manifest. In order to do so, I will show how, since de 124
development of the Theory of Principles and Parameters – from its classical formulation to the minimalist version
– the generative and the quantitative paradigms, far from being incompatible, can contribute to each other in the
study of language change allowing the analyst to identify more abstract properties underlying superficial
descriptions.

KEYWORDS: Parametric Sociolinguistics. Linguistics of “relative weights”. Linguistics of “parametric


properties”. Null Subject Parameter.

Introdução2

Este artigo tem o objetivo de mostrar que a perspectiva de estudo da variação e mudança
linguística, que hoje conhecemos como Sociolinguística Paramétrica ou Socioparamétrica,
evoluiu junto com a Teoria de Princípios e Parâmetros, desde sua formulação em Chomsky
(1981). Para tanto, resgato um pouco desse percurso, a partir do artigo-manifesto de Fernando
Tarallo (1987), mostrando que sua proposta de então, limitada a uma “leitura paramétrica” de
resultados de pesquisas variacionistas diversas disponíveis à época, era um ensaio no sentido

1
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Professor titular da Faculdade de Letras. CNPq. Bolsista de
produtividade em pesquisa. Rio de Janeiro – RJ – Brasil. CEP: 21941-590. E-mail: eugenia@brazilmail.com.br
/ eugenia@letras.ufrj.br
2
Dercir e eu compartilhamos o orgulho de ter sido os primeiros orientandos de Fernando Tarallo na PUC-SP: ele,
o primeiro de doutorado, e eu, a primeira de mestrado. Nos conhecemos em 1985, quando ele chegou a São Paulo
e, desde então, mantivemos uma boa amizade, renovada nos encontros em eventos de que participávamos. Ficou
a lembrança de um amigo gentil, tranquilo e extremamente dedicado ao seu trabalho.

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de constatar que o que vinha se desenvolvendo no âmbito a Teoria de Princípios e Parâmetros
seria um importante componente gramatical para estudar a mudança, levantar hipóteses,
identificar não só as restrições estruturais no percurso da mudança como também os efeitos do
seu “encaixamento” no sistema linguístico, uma questão tão cara à análise sociolinguística mas
tão raramente respondida nos estudos sobre mudança sintática. A primeira seção retoma o artigo
de Tarallo e mostra o equívoco provocado por essa proposta inicial de fazer uma “leitura
paramétrica” de trabalhos já prontos. Na segunda seção, discuto a pouca atenção que se tem
dado à explicitação da teoria gramatical escolhida para realizar uma análise no âmbito da Teoria
da Variação e Mudança. A terceira seção é dedicada a uma comparação entre o italiano e o
francês, de um lado – sistemas com marcações opostas em relação ao Parâmetro do Sujeito
Nulo – e o português do Brasil, que hoje se revela claramente um sistema mais próximo do
francês do que do italiano e do português europeu. Algumas das propriedades mais salientes
nessa distinção são destacadas e serão utilizadas na seção seguinte, que apresenta uma análise
que conjuga os dois modelos, enfatizando sempre que sem o componente gramatical, que vem
da Teoria de Princípios e Parâmetros e nos fornece os grupos de fatores estruturais que
possibilitam o início do trabalho, a pesquisa empírica não se inicia. Concluímos com algumas
observações e informações recentes relacionadas às mútuas contribuições que advêm dessa
associação entre uma teoria gramatical dedicada à identificação de propriedades abstratas que
diferenciam as línguas entre si e uma teoria que observa os dados da língua-E em busca de
generalizações que possibilitem interpretar os caminhos da mudança.

Por uma Sociolinguística Românica “Paramétrica” (TARALLO, 1987)


125
Quando Tarallo propôs, em 1987, num artigo publicado na Revista Ensaios de
Linguística (v. 13, UFMG), fazer uma “leitura paramétrica” de resultados de pesquisas
variacionistas sobre três línguas românicas, o linguista não estava insinuando que a
sociolinguística “paramétrica” consistiria eternamente nessa “leitura” de resultados empíricos,
buscando chegar a uma sistematização formal à luz da Teoria de Princípios e Parâmetros (P&P).
Na ocasião, usando as próprias palavras o autor, a Teoria de P&P estava em plena infância e
Tarallo via nela um futuro promissor no sentido de acompanhar a mudança sintática a partir das
propriedades relacionadas aos parâmetros da gramática universal. Dos anos 1980 para cá, não
só a Teoria de P&P evoluiu, como a mudança paramétrica passou a ter um espaço importante
na agenda gerativista. Assim, o que se faz hoje, não é uma “leitura” paramétrica de resultados
de análises empíricas pré-fabricadas: a pesquisa “socioparamétrica” se inicia a partir das
propriedades associadas a uma determinada marcação paramétrica, desde o estabelecimento de
hipóteses e o estabelecimento dos grupos de fatores linguísticos até a interpretação dos
resultados, o que permite responder as grandes questões empíricas da Teoria da Variação e
Mudança Linguística (TVM) propostas em Weinreich, Labov e Herzog (1968): as restrições às
variantes, a implementação (origem e propagação de uma nova variante no sistema), a transição
(ou estágios na propagação) e o encaixamento da mudança, uma das questões fundamentais no
estudo da mudança, de que falaremos mais adiante (sem descuidar, naturalmente, do
componente social, que subjaz a qualquer tipo de amostra analisada e que é indissociável de
uma análise sociolinguística).
No clássico artigo de Tarallo, o autor observa uma série de resultados de estudos
empíricos sobre variáveis fonológicas e sintáticas no grupo românico. No caso das variáveis
fonológicas, um exame minucioso dos resultados de análises sobre o espanhol, o francês e o

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português brasileiro permite ao autor concluir que “por detrás dessa precisão estatística há uma
dimensão maior a ser percebida: as pistas que mais frequentemente justificam o
encaminhamento de um sistema variável e mutante para uma e não outra direção” (p. 69),
sugerindo claramente “parâmetros” de variação.
No caso das variáveis sintáticas, apesar de muito menos estudadas pela TVM na época
do artigo, Tarallo chama a atenção para o fato de ser mais transparente o paralelo entre os
avanços do modelo da TVM e o modelo de P&P. Para tal paralelo, o autor toma três estudos,
um para cada uma das três línguas românicas em foco, sobre uma das principais propriedades
associadas às línguas românicas positivamente marcadas em relação ao Parâmetro do Sujeito
Nulo (PSN): a chamada “inversão livre do sujeito”, presente no espanhol e no português
europeu e ainda possível no português brasileiro, mas ausente no francês, um sistema
negativamente marcado em relação ao PSN. O rótulo “inversão livre” não é muito feliz, uma
vez que não se trata de uma inversão propriamente “livre”, mas de uma inversão obrigatória
nas línguas de Sujeito Nulo (LSN) do grupo românico, sempre que se tem uma sentença
apresentativa, que expressa juízo tético, ou um elemento novo, com valor de foco, ilustrados,
respectivamente, em (1) e (2):

(1) Telefonou a Maria. (em resposta a “Alguma novidade?” / “O que aconteceu?”)

(2) Telefonou a Maria. (em resposta a “Alguém telefonou?”)

A ordem VS não sofre restrições severas quanto à transitividade verbal no italiano, no


espanhol peninsular e sul-americano e no português europeu, mas, no caso de verbos com mais
de um argumento, um deles aparece, em geral, em forma de clítico: 126

(3) Comeu-a a Maria. (em resposta a “Quem comeu a torta?”)

Ainda em relação à ordem VS, nos sistemas que a licenciam, sujeitos “pesados” tendem
a aparecer pospostos (4), um caso que se afasta da inversão livre ilustrada em (1)-(2) acima:

(4) Foram indicados às bolsas todos os candidatos que tinham obtido notas acima de nove.

Interessa-nos aqui, conforme aponta Tarallo, a observação de Dubuisson (1981, apud


TARALLO, 1987, p. 70) sobre a possibilidade de ainda ser atestada a “inversão livre” no
francês canadense, apesar de ser uma língua de sujeito preenchido, desde que haja a presença
de um “desencadeador”, como vemos no adjunto em primeira posição “au bout” em (5a); um
verbo em primeira posição torna a sentença agramatical (5b).

(5) a. Au bout de la rue brille une lumière.


‘No fim da rua brilha uma luz’.

b. *Brille uma lumière au bout de la rue.


‘Brilha uma luz no fim da rua’.

Da mesma forma, a posposição do sujeito em (6a) é gramatical pelo peso do sujeito,


modificado por uma oração relativa; na ausência de um modificador, um sujeito “leve”, como
em (6b), torna a ordem VS agramatical em francês:

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(6) a. Sont tenus de présenter d’excuse au professeur tous les enfants qui ont été absents de l’école plus d’une
demi-journée.
‘São obrigados a apresentar uma justificativa ao professor todos os alunos que estiveram ausentes da
escola por mais de meio turno’.

b. *Sont tenus de présenter d’excuse au professeur tous les enfants


‘São obrigados a apresentar uma justificativa ao professor todos os alunos’.

A comparação com resultados para o espanhol e o português confirmam uma outra


restrição: a transitividade verbal; de fato, verbos inacusativos, como em (3), ou intransitivos,
como em (1), são mais favoráveis à inversão livre do que verbos transitivos. Assim, sem ignorar
que a ocorrência da ordem VS no francês é marginal, já que o sistema é [-sujeito nulo], ao
contrário do que ocorre no espanhol e no português, Tarallo propõe que a presença de um
elemento em posição inicial, a transitividade verbal e o peso do sintagma em função de sujeito,
no caso da posposição, sejam “parametrizáveis”, a partir de uma hierarquia que leve em conta
esses fatores estruturais. E o autor conclui que “ao ‘parametrizarmos’ as línguas do ponto de
vista da teoria da variação e mudança, estamos na realidade colocando os fatores
condicionadores à aplicação de determinadas regras dentro de uma perspectiva ‘paramétrica’”
(p. 74-75). E ele vai além: essa observação da variação à luz da Teoria de P&P permite realinhar
as propriedades associadas a uma determinada marcação paramétrica. Se, algum dia, o francês
viesse a se tornar novamente uma LSN, os mesmos fatores que regulam a ordem VS no
espanhol e no português iriam reger a ordem VS no francês. Se, ao contrário, o espanhol e o
português viessem a deixar de ser sistemas de sujeito nulo, certamente os verbos
monoargumentais, a presença de um desencadeador e o peso do sujeito seriam os ambientes 127
mais resistentes à mudança, como mostram os dados do francês (e, podemos acrescentar: como
mostram hoje os dados do português do Brasil).
Essa proposta de Tarallo viria a se concretizar no clássico artigo de 1989, reeditado em
2006, que confirma o casamento entre a TVM e a Teoria de P&P, quando Tarallo e Kato (1989
[2006]) publicam “Harmonia trans-sistêmica: variação intra- e inter-linguística”. O texto de
1987 é aí retomado com maior profundidade e procura compatibilizar a linguística de
“propriedades paramétricas” com a linguística “de probabilidades”, que hoje poderíamos
substituir por linguística “de pesos relativos”. O modelo estatístico que indica a “probabilidade”
de aplicação de uma regra (tendo 0,5 como um ponto neutro) foi substituído por um modelo
logístico de “pesos relativos”, capaz de superar os problemas de análise causados pelas
frequências brutas. Segundo Naro (2003, p. 20), esse modelo logístico, introduzido por Pascale
Rousseau e David Sankoff em 1978, “engloba as boas propriedades dos modelos anteriores,
substituindo-os em qualquer análise de dados”. Em princípio, os valores absolutos dos pesos
relativos calculados não têm significância analítica; o que importa é a sua ordenação, sendo
justamente por isso que se deve preferir o uso do termo “peso relativo”.3

3
Apesar da insistência dos que trabalham com a Teoria da Variação e Mudança para que as análises apresentem a
“relação” entre os pesos obtidos (quanto maior a distância entre eles, mais relevante é o que alcança peso mais
alto em relação ao que alcança o mais baixo no que diz respeito ao seu efeito no uso da variante tomada como
valor de aplicação), a maioria dos trabalhos deixa de mostrar essa “relação” entre os pesos. Não tem sentido
mencionar o peso mais alto simplesmente sem apontar sua relação com os demais. Isolado, seja ele qual for, não
faz qualquer sentido.

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Alguns resultados então apontados por Tarallo e Kato para o enfraquecimento da flexão
verbal e maiores restrições à ordem VS permitem aos autores propor um realinhamento das
duas primeiras propriedades associadas aos sistemas [+sujeito nulo] e antecipar a remarcação
do valor do PSN no português brasileiro para um sistema [-sujeito nulo]. São resultados
intralinguísticos inspirados em propriedades interlinguísticas ou paramétricas, com base em
evidências advindas de diferentes línguas românicas.
Mas o ponto importante desta seção é enfatizar que a proposta de Tarallo (1987)
retomada em Tarallo e Kato (1989 [2006]), segundo a qual uma leitura “paramétrica” daqueles
resultados de análises sociofuncionalistas permitiria predizer o rumo de uma possível mudança
e realinhar propriedades paramétricas, não consistiria eternamente nessa “leitura” de resultados
já prontos, advindos de análises diversas. Pelo contrário, o que aconteceu a partir de então foram
análises que tinham como ponto de partida as propriedades paramétricas. Em outras palavras,
o levantamento de hipóteses e o estabelecimento dos grupos de fatores que restringem a
mudança partiriam da Teoria de P&P. Não é justo, pois, perpetuar a falsa ideia de que uma
análise variacionista da mudança sintática associada à Teoria de P&P consista numa “leitura”
de resultados à luz dessa teoria. Tampouco é justo tratar a TVM com uma simples metodologia
para trabalhar com grande número de dados empíricos. Que ela tem uma metodologia
sofisticada para processar e interpretar o efeito dos fatores linguísticos e sociais num processo
de variação e/ou mudança é um fato inegável; mas ela se funda igualmente em princípios
assentados sobre fundamentos empíricos advindos da observação da língua-E. E, como não há
outra forma de estudar a mudança a não ser com base em dados da Língua-E para se chegar às
propriedades da Língua-I, temos aí os ingredientes para um casamento perfeito.
Voltando um pouco no tempo, podemos perceber que Tarallo, nos anos 1980, pensava
exatamente no que não se pensava naquele momento da evolução da Teoria de P&P:4 que as 128
línguas mudam com o tempo e que as mesmas forças que atuaram no passado deveriam atuar
no presente. E, como sociolinguista interessado no conjunto de mudanças superficiais atestadas
na sintaxe do português brasileiro (PB), sabia que precisaria de uma teoria linguística que lhe
permitisse pôr em prática seu modelo de estudo das mudanças em curso, situando o PB no
contexto das línguas românicas. Os benefícios seriam mútuos. E o que realizamos hoje,
acompanhando a evolução de ambos os modelos, deixam claros esses benefícios (cf. DUARTE,
2015, 2016).

O problema relacionado à adoção de uma teoria gramatical nos estudos variacionistas

Como mencionamos na seção anterior, os estudos variacionistas relacionados a


fenômenos fonético-fonológicos eram muito mais numerosos na década de 1980 do que os que
envolviam a mudança morfossintática. De todo modo, a análise variacionista era quase sempre
iniciada sem que se explicitasse, no corpo dos pressupostos teóricos, um ponto fundamental –
aliás o ponto de partida para a realização da análise de qualquer fenômeno variável: qual a teoria

4
A preocupação inicial da Teoria Gerativa era identificar Princípios comuns a todas as línguas e os Parâmetros de
variação que as diferenciavam. Não havia espaço para a variação intralinguística nem deveria haver. Só a partir
de fins dos anos 1980, a agenda gerativista incluiria o estudo da mudança como relacionado à aquisição
(LIGHTFOOT, 1991) e estenderia o interesse a mudanças paramétricas ocorridas no passado, tendo de
forçosamente lidar com dados empíricos (cf. KROCH, 1989, 1994, 2001; VANCE, 1989; ROBERTS, 1993).
Isso não significa que o interesse principal de todo gerativista seja lidar com análises empíricas, que só interessam
ao estudo da mudança.

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gramatical a ser adotada na aplicação do modelo de mudança? As formas variantes apareciam
no “envelope de variação”, os grupos de fatores eram elencados sem que se explicitasse de onde
e por quê tinham surgido. Essa constatação, particularmente nas análises de variáveis sintáticas,
está muito clara nas palavras de Alison Henry (2006, p. 277):

No âmbito dos estudos variacionistas tem havido pouca discussão sobre que tipo de
fatores pode afetar a escolha de variantes ou sobre como determinados fatores são
escolhidos para a análise num caso específico. Tipicamente os fatores selecionados para
alimentar uma análise de estatística aparecem sem uma discussão extensiva e não fica
claro como, excetuando as intuições do pesquisador, se chegou a eles ou se há
quaisquer restrições sobre o que pode ser um fator numa determinada análise. (HENRY,
2006, p. 277, grifos acrescidos).5

Na verdade, era como se a Teoria da Variação e Mudança fosse uma teoria gramatical,
capaz de fornecer uma descrição do fenômeno em estudo e de guiar desde a formulação de
hipóteses de trabalho até o elencamento dos grupos de fatores relevantes para a investigação
em foco. É óbvio que nos estudos relatados por Tarallo na primeira seção deste artigo havia
uma ou mais teorias gramaticais (não raras vezes implícitas). Nos estudos de fenômenos
fonético-fonológicos, ou se usava uma teoria de base estruturalista ou de base gerativista,
embora tais teorias sempre aparecessem como num passe mágica nos grupos de fatores que
favorecem ou desfavorecem uma ou outra variante, enquanto nos de natureza morfossintática,
predominavam os modelos funcionalistas. E a interpretação dos resultados de tais pesquisas,
com alguma frequência, se limitava aos resultados estatísticos sem responder, por exemplo, ao
problema do “encaixamento” linguístico. Mas como identificar os efeitos provocados, “de
forma não acidental”, pela entrada de uma nova variante no sistema, sem uma boa teoria 129
linguística? Para Weinreich, Labov e Herzog (1968 [2006]), esse novo traço no sistema, ou
efeito colateral de uma mudança, pode passar despercebido se o quadro que guia o estudo não
é o adequado à análise do fenômeno que se propõe investigar.

Como se faz uma análise da mudança paramétrica associando a linguística de


propriedades paramétricas e a linguística de pesos relativos?

Desde a sua formulação (CHOMSKY, 1981), o Parâmetro do Sujeito Nulo (PSN) tem
como sua primeira propriedade o Princípio segundo o qual há línguas que licenciam um sujeito
nulo referencial e não referencial em oposição a línguas que não o licenciam. Entre as primeiras
estaria o italiano e o espanhol; entre as segundas, o inglês e o francês. Embora tenha passado
por muitas reformulações nesses 38 anos que se passaram, podemos dizer que essa primeira
propriedade se mantém no que diz respeito às línguas românicas acima citadas. Quanto ao
sujeito referencial nulo, podemos refinar essa propriedade destacando que, essas línguas
[+sujeito nulo] do grupo românico, em que o paradigma flexional parece desempenhar papel

5
Cf. original: Within variationist studies, however, there has been little discussion of what type of factors can
affect the choice of variants, or of how the particular factors are chosen for analyzing any given case. Typically
the factors chosen for entry into VARBRUL analysis appear without extensive discussion, and it is not clear
how, apart from the intuitions of the researcher, these are arrived at or whether there are any constraints on what
can be a factor here. (HENRY, 2006, p. 277).

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decisivo, o sujeito de 1ª e 2ª pessoas, que é dêitico, é preferencialmente nulo (a menos que haja
ênfase) em contextos iniciais e também encaixados:

(7) a. 1ps Parlo bene l’italiano.


‘Falo italiano’.

b. 2ps Parli bene l’italiano.


‘Falas bem italiano’.

c. 2ps Parla bene l’italiano.


‘Fala bem italiano’. (o senhor/a senhora – tratamento respeitoso)

Na 3ª pessoa, naturalmente anafórica, um sujeito em contexto inicial pode ser nulo desde
que um antecedente permita sua identificação.

(8) a. Parla3ps bene l’italiano.


‘Fala bem italiano’. (referindo-se a um homem ou a uma mulher)

b. Parlano3pp bene l’italiano.


‘Falam bem italiano’. (referindo-se a mais de uma pessoa)

Em contextos encaixados, tendo o sujeito a mesma referência que o da matriz, o normal


é um sujeito nulo (seja ele de 1ª, e 2ª ou de 3ª pessoa, que aqui ilustramos):

(9) a. Marioi há detto che i parla bene l’italiano.


‘Mário disse que fala bem o italiano’. 130

b. I bambinii hanno detto che i parlano bene l’italiano.


‘As crianças disseram que falam bem o italiano’.

Ainda em relação à primeira propriedade dos sistemas [+sujeito nulo] do grupo aqui
referido, os sujeitos com o traço semântico [-animado] não são representados por pronomes
pessoais (ou são nulos ou são retomados com um demonstrativo). Os exemplos mostram a
retomada do antecedente [-animado] no contexto precedente e numa encaixada:

(10) a. Ho letto [il libro]i . i É molto interessante.


‘Li o livro. É muito interessante’.

b. [La casa]i è caduta perchè i era molto vecchia.


‘A casa caiu porque era muito velha’.

Tomemos essa propriedade que caracteriza as línguas [+sujeito nulo] do grupo românico
e vamos compará-la com um sistema [-sujeito nulo] do mesmo grupo de línguas: o francês.

(11) a. Je parle bien le français.


‘Eu falo bem francês’.
b. Tu parles bien le français.
‘Tu falas bem francês’.
c. Vous parlez bien le français. (tratamento cerimonioso ou referência à 2ª pp)
‘Vós falais bem o francês”.

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(12) a. Il / Elle parle bien le français (3ª ps)
‘(ele/ela) Fala bem francês’.
b. Ils /Elles parlent bien le français. (3ª pp)
‘(eles/elas) Falam bem francês’.

(13) a. Jeani a dit qu’ili parle bien le français.


‘Jean disse que (ele) fala bem francês’.
b. [Les enfants]i ont dit q’ilsi bien le français.
‘As crianças disseram que (elas) falam bem francês’.

(14) a. J’ai lu [le livre]i. Ili est très interessant.


‘Eu li o livro. (ele) É muito interessante’.
b. [La Maison]i a efondré parce que ellei était très vieille.
‘A casa caiu porque (ela) era muito velha’.

Os mesmos exemplos para o italiano, traduzidos para o francês, revelam que, neste,
todos os sujeitos pronominais são expressos obrigatoriamente. Observando o paradigma
flexional dos verbos em italiano, podemos ver que todas as pessoas apresentam uma desinência
distinta, exceto o uso da 3ª pessoa do singular para o tratamento respeitoso, equivalendo ao
nosso uso de o senhor, a senhora. Este é um paradigma “rico” em oposições, capaz de licenciar
o sujeito nulo. O francês, por outro lado, exibe um paradigma bem mais reduzido em número
de oposições: apesar de a escrita conservar as desinências que foram perdidas desde a fase
medieval, o francês conserva na escrita essas desinências perdidas, mas na língua oral a
realização de parle (1ª. ps), parles (2ª. ps), parle (3ª. ps), parlent (3ª. pp) é exatamente a mesma
– parle. Apenas duas formas têm realização diversa: a 1ª.pp parlon(s) e a 2ª.pp parle(z). E se
levarmos em conta que o francês prefere o pronome “on” semelhante ao nosso pronome “a 131
gente” para a 1ª.pp, associado ao verbo na 3ª.ps (on parle bien le français = a gente fala bem o
francês / a gente fala francês bem), veremos que o sistema tem duas ou três oposições no
paradigma flexional verbal, um número insuficiente para licenciar o sujeito nulo. Daí os dois
sistemas serem considerados exemplos prototípicos de línguas positiva e negativamente
marcadas em relação ao PSN, respectivamente.
Mas por que todo esse preâmbulo para defender a associação da linguística de
“propriedades paramétricas” com a linguística de “pesos relativos”? Ora, sabemos que o
português europeu (PE) mantém um paradigma que podemos considerar muito mais rico do
que o do português brasileiro (PB). Excetuando a perda do pronome vós (ainda atestado em
regiões mais isoladas e ainda vivo nas combinações com o pronome nominativo vocês – vos,
convosco, vossos, cf. Bacelar do Nascimento, Mendes e Duarte, 2018), o PE mantém um
sistema de oposições bem próximo ao italiano e ao espanhol peninsular. O PB sofreu algumas
mudanças no sistema pronominal e processos de apócope que impactaram o paradigma
flexional, com consequências na realização dos nossos sujeitos pronominais:

Tabela 1 – Pronomes pessoais e flexão verbal no presente do indicativo no PB.


PESSOA SINGULAR PLURAL
1ª. Eu trabalho Nós trabalhamos
A gente trabalha
2ª. Tu trabalha(s) ~ Vós trabalhais
Você trabalha Vocês trabalha(m)
3ª. Ele/ela trabalha Eles/Elas trabalha(m)
Fonte: Elaboração própria.

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Dos seis pronomes pessoais do Português clássico (séculos XVI-XVIII) – singular eu,
tu, ele/ela e plural nós, vós, eles/elas, que se combinavam com seis desinências distintas,
perdemos o pronome vós bem como a flexão verbal a ele associada e, a partir do século XIX,
ganhamos dois novos pronomes, fruto de processos de gramaticalização: você/vocês, e a gente
(cf. LOPES; BROCARDO, 2016). Você é resultado da gramaticalização da forma de tratamento
respeitoso Vossa Mercê e, ao entrar no nosso sistema, mantinha resquícios desse traço de
cortesia e era usado em distribuição complementar com o pronome tu, usado no tratamento
mais íntimo, entre familiares e amigos muito próximos. Essa distribuição ainda existe no PE e
tudo indica que você, além de ser usado em relações assimétricas (de superior para inferior), é
muito raramente pronunciado, podendo se confundir com o senhor/a senhora. Sua realização
fonética no tratamento de superior para inferior não é sentida como rude, mas o contrário
encontra muita rejeição entre os falantes (cf. BACELAR DO NASCIMENTO; MENDES;
DUARTE, 2018). No Brasil, tu e você têm distribuição diatópica e, nas áreas em que ambos os
pronomes são usados, eles costumam se intercambiar, sem distinção de cortesia e com a mesma
forma verbal: sem a desinência associada a tu <-s>, em geral, pouco frequente (cf. SCHERRE
et al., 2015). Vós foi plenamente substituído por vocês (LOPES, 2002).
O pronome a gente, também originário do SD (Sintagma Determinante), foi igualmente
plenamente gramaticalizado no PB (OMENA, 1996; LOPES, 2003) e entrou em competição
com o pronome nós, estando hoje em ampla vantagem em relação a este no PB oral. No PE, ao
contrário, a gente ainda é usado com seu valor nominal, como mostram ocorrências de seu uso
com modificadores (a gente que vive aqui… a gente deste lugar…). Como ambos os novos
pronomes ocorrem com a forma verbal na 3a pessoa do singular, temos aí mais um fator a
desencadear a redução no quadro flexional. Finalmente, além da apocope sofrida pela forma
verbal combinada com tu, temos um fenômeno variável no PB, certamente relacionado aos 132
sucessivos contados no período da colonização: a desnasalização do ditongo [ãw], com a perda
da semivogal posterior nas formas verbais de 2ª. e 3ª. pessoas do plural. Este fenômeno, que
está em variação com a realização do ditongo, talvez o mais sujeito a estigma no presente,
contribui para agravar o já bastante reduzido paradigma flexional do PB, tornando-o incapaz de
licenciar e identificar sujeitos nulos. Nos termos de Roberts (1993), nosso paradigma flexional
deixa de ser “funcionalmente” rico, dado o número de oposições, enquanto o italiano, o
espanhol e o PE mantêm sua riqueza flexional.

O sujeito referencial nulo no PE e no PB: o percurso de uma análise contrastiva à luz da


Sociolinguística Paramétrica

Nesta seção mostramos como se trabalha hoje com o quadro de P&P e a TVM. Tomando
apenas o licenciamento do sujeito referencial nulo, uma análise variacionista deveria formular
suas hipóteses a partir do quadro flexional ilustrado na Tab. 1 acima. Se no PB, tu e você se
encontram em variação e a gente é largamente preferido em relação a nós, contamos com um
paradigma que apresenta usualmente três formas distintivas (<-o>, <->, <-m>), podendo
chegar a apenas duas formas diferentes no presente e pretérito imperfeito do subjuntivo. Quanto
ao PE, as formas verbais associadas a tu e às 2ª. e 3ª. pessoas do plural não sofrem apócope (cf.
VIEIRA; BAZENGA, 2012); o pronome nós é largamente favorecido em relação a a gente e o
uso de você no singular permanece para nós brasileiros uma misteriosa forma de tratamento
silenciosa, não pronunciada. Isso leva o PE a cinco oposições – (<-o>, <-s>, <->, <-mos>, <-
m>) – um sistema rico o bastante para licenciar e identificar o sujeito nulo.

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Os grupos de fatores são então elencados a partir das propriedades que caracterizam um
sistema [+sujeito nulo],6 que, naturalmente abrange um conjunto maior do que um sistema [-
sujeito nulo], como o francês; enquanto o primeiro inclui sujeitos nulos e expressos, o francês
só apresenta sujeitos expressos. Um primeiro grupo de fatores estruturais que ocorre está
relacionado à pessoa do discurso e à desinência verbal. Outro fator estrutural vem do
conhecimento de que numa língua [+sujeito nulo] há restrições ao pronome nulo sempre que se
faz um contraste ou ênfase (não se pode enfatizar com elementos nulos!). Uma análise
cuidadosa não incluirá pronomes enfáticos ou aqueles que expressam contraste (Eu vou e você
fica). 7 Assim, serão computados na análise sujeitos “não marcados” de 1ª. e 2ª. pessoas,
dêiticos. Quanto ao sujeito pronominal de 3ª. pessoa, necessariamente anafórico, há restrições
quanto ao seu antecedente: se esse antecedente tem a mesma função e se encontra na oração
antecedente (seja ela uma principal ou uma subordinada anteposta, ou mesmo uma oração
adjacente), o sujeito nulo é o esperado num sistema [+sujeito nulo]; se, por outro lado, ele se
encontra em outra função sintática ou distante (e há outros possíveis candidatos a sujeito
capazes de comprometer a correta interpretação de uma categoria vazia), um sujeito nulo pode
não ocorrer. Temos então um conjunto de restrições estruturais que podem constituir um grupo
de fatores que leve em conta a função e a posição do antecedente com o qual é coindexado o
sujeito em análise.
Outro fator deve necessariamente ser levado em conta: o traço semântico do referente.
Se sabemos, pela descrição das línguas [+sujeito nulo] do grupo românico, que elas não exibem
um paradigma de pronomes pessoais com o traço [-animado], o traço semântico deve constituir
um importantíssimo grupo de fatores a ser levantado.
Inúmeros outros traços que distinguem os sistemas [+/-sujeito nulo] já bem descritos
podem “alimentar uma análise estatística”, como lembra Henry (2006) no trecho citado na 133
segunda seção. Não se chegou a eles por conta da “intuição do analista”; pelo contrário, chegou-
se a eles porque há uma descrição extensiva de sua relevância para o fenômeno em análise.
Além de fatores estruturais, uma análise voltada para a mudança não pode descuidar dos fatores
sociais. No caso da mudança em “tempo aparente”, a faixa etária do falante é extremamente
importante – as gerações mais jovens exibem percentuais mais altos das variantes inovadoras
do que as mais velhas; as sugestões trazidas pelo construto do “tempo aparente” podem ser
confirmadas ou infirmadas num estudo em tempo real de curta duração, em que uma nova
amostra da mesma comunidade ou do mesmo falante, recontactado, sejam recolhidas com um
intervalo de cerca de 20, 25 anos (cf. PAIVA; DUARTE, 2003). Além desses dois modelos de
estudo, podemos ter o estudo de longa duração, que conta apenas com dados de textos escritos,
que, se provenientes de fontes confiáveis, podem trazer importantes informações sobre a
evolução das línguas. Além da faixa etária, acima mencionada, inúmeros outros fatores
extralinguísticos podem ser incluídos entre os grupos de fatores que entram na análise
estatística.
Apresentamos a seguir os resultados obtidos numa análise contrastiva da realização do
sujeito referencial definido de 3ª. pessoa (DUARTE, 2019) com base em uma amostra gravada

6
Desde Duarte (1993 [2018], 1995, 2003, entre outros), o procedimento para as análises parte das propriedades
associadas ao PSN.
7
São também marcados os sujeitos de 1ª. pessoa quando o falante retoma o turno. Devemos a Marins (2009) esse
importante achado na sua análise do italiano oral, uma informação que explica por que a expressão do pronome
de 1ª. pessoa do singular alcança índices mais expressivos do que os de 2ª. e 3ª., sempre com elevados índices
de sujeitos nulos.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
nos anos 2009/2010 em duas localidades de Lisboa e duas do Rio de Janeiro. 8 Para cada
localidade foram entrevistados 18 indivíduos, 9 homens e 9 mulheres, distribuídos em três
faixas etárias e três níveis de escolaridade, um total de 36 falantes para o Rio de Janeiro 9 e 36
para Lisboa. O programa estatístico Goldvarb X (SANKOFF; TAGLIAMONTE; SMITH,
2005) selecionou para a realização do sujeito pronominal, tanto para a amostra do PB quanto
para a do PE, exatamente os mesmos fatores: o padrão sentencial, o feixe de traços semânticos
e a estrutura do Sintagma Complementizador. Apresentamos aqui os resultados para os dois
primeiros grupos de fatores (para a análise completa, cf. Duarte, 2019).
O grupo nomeado “padrão sentencial” tem relação com as propriedades ilustradas em
(9)-(10) para o italiano e (13)-(14) para o francês. Nos exemplos (9) e (13) vemos o padrão em
que o sujeito da subordinada tem seu antecedente em função de sujeito na principal anteposta,
correspondendo a “1 (com c-comando)” na primeira coluna da Tab. 2, a seguir. Na linha
seguinte vemos o padrão “1 (sem c-comando)”, em que o sujeito da principal posposta tem seu
antecedente na subordinada anteposta (“Quando Mariai chegou, (ela)i cumprimentou os
presentes”.). O padrão 2 corresponde a um antecedente na mesma função de sujeito na oração
adjacente, padrão “2 (adjacente)”, exatamente como nos exemplos em (10) e (14), em que os
SDs são [-animados], mas poderiam ser igualmente [+animados]. Os demais padrões são os que
exibem o antecedente do sujeito em outra função sintática ou distante, com a presença de uma
ou mais orações com outro sujeito interveniente. Os resultados estão na Tab. 2:

Tabela 2 – Sujeito de 3ª pessoa vs padrão sentencial (valor de aplicação: sujeito nulo).


PE Input: 0,756 PB Input: 0,248
PADRÃO N/T % P. R.. N/T % P. R..
1 (com c-comando) 78/83 94% 0,930 19/46 41% 0,765 134
1 (sem c-comando) 13/14 93% 0,854 15/116 11,5% 0,197
2 (adjacente) 402/515 78% 0,588 225/586 38% 0,646
3 (outra função) 77/153 50% 0,274 37/175 21% 0,428
4 (distante) 66/183 36% 0,183 35/241 14,5% 0,330
range 0,747 range 0,435
Log likelihood = -44,.136 Log likelihood = -624,928
Significance = 0,000 Significance = 0,000
Fonte: Duarte (2019, p. 109-110).

Os resultados percentuais para o PE mostram que, de fato, a primeira propriedade a


caracterizar uma língua românica [+sujeito nulo] é a correferência entre sujeitos,
independentemente de existir c-comando (o sujeito da principal c-comanda o sujeito da
subordinada posposta). Observe-se que, mesmo na ausência de c-comando, os percentuais para
sujeito nulo são praticamente idênticos: 94% e 93%. Com o antecedente em oração adjacente,
o efeito favorecedor é ainda expressivo (78% de sujeitos nulos). À medida que o antecedente
fica menos acessível sintaticamente, os percentuais caem, mas são ainda importantes (50% e
36% para o antecedente em outra função e distante, respectivamente). A leitura da coluna com
os pesos relativos nos mostra a força dos dois primeiros padrões no favorecimento do sujeito

8
Amostra disponível em http:///www.corporaport.letras.ufrj.br.
9
A regularidade na distribuição dos fenômenos morfossintáticos estudados nas regiões urbanas do Brasil,
excetuando a variação nas formas de tratamento e no quadro de reflexivos, mais sujeitos a variação diatópica,
nos permite fazer referência aos resultados para o Rio de Janeiro como referentes ao PB. O mesmo podemos
dizer em relação aos dados de Lisboa, referindo-nos a eles como dados do PE.

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nulo (com 0,930 e 0,854), seguidos pelo padrão “antecedente adjacente” (com 0,558), bem
menos favorável em relação aos dois primeiros padrões. No outro extremo, temos os dois
últimos padrões, fortemente desfavoráveis ao sujeito nulo (0,274 e 0,183). A distância (range)
entre o peso mais alto e o mais baixo (0,747) evidencia quão expressiva é a força dos padrões
numerados com 1 na Tab. 2.
Vejamos agora os resultados para o PB: todos os valores percentuais já estão abaixo de
50%. E apenas os dois padrões que ainda resistem com 41% e 38% de sujeitos nulos são os
padrões 1 (com c-comando) e 2 (com antecedente adjacente). A ausência de c-comando
(segunda linha) alcança o índice mais baixo: 11,5% de sujeitos nulos, o que significa dizer que
uma propriedade fundamental num sistema [+sujeito nulo] já está perdida. Não basta um
antecedente com a mesma função: ele deve c-comandar o sujeito em análise. Quanto aos dois
últimos padrões, não surpreendem os baixos índices de 21% e 14,5%. Vejamos agora os pesos
relativos na coluna seguinte. O que eles nos dizem? Exatamente que, neste estágio da
propagação da mudança, dois fatores continuam a resistir (1 com c-comando e 2 adjacente) com
0,765 e 0,646, quando observados em relação aos três outros padrões. Como esperado, o padrão
1 sem c-comando revela o peso mais baixo (0,197). A distância entre o peso mais alto e o mais
baixo (range) é de 0,435, sugerindo a perda da força dos fatores prototípicos de uma LSN. Esta
é uma verdadeira análise socioparamétrica, feita a partir da propriedade mais característica de
um sistema [+sujeito nulo] e nos revela que o PB já não pertence a esse grupo.
Mas vejamos uma outra propriedade que mencionamos acima: o feixe de traços
semânticos do antecedente na Tab. 3:

Tabela 3 – Sujeito de 3ª pessoa vs feixe de traços semânticos (valor de aplicação: sujeito nulo).
135
PE Input: 0,756 PB Input: 0,248
TRAÇO N/T % P. R. N/T % P. R.
[-ani/-esp] 12/12 100% --- 7/12 58% 0,863
[-ani/+esp] 137/142 96,5% 0,942 73/173 42% 0,692
[+ani/-esp] 191/246 78% 0,562 62/191 32,5% 0,555
[+ani/+esp] 308/559 55% 0,307 189/803 23,5% 0,437
range 0,635 range 0,426
Log likelihood = -440,725 Loglikelihood = -624,928
Significance = 0,000 Significance = 0,000
Fonte: Duarte (2019, p. 113).

Iniciando, mais uma vez pelo PE, podemos observar o favorecimento do sujeito nulo
pelo traço [-animado] do referente, que, se combinado com um referente [-específico] (“escola
pública”), alcança 100% de sujeitos nulos. Com o traço [+específico], vemos que um pronome
pessoal [-animado], embora possível, é raríssimo no PE (3,5%), sendo quase categórico o
sujeito nulo, independentemente do padrão sentencial. Com o traço [+animando], o pronome
pode ser expresso, desde que favorecido pelos padrões expostos na Tab. 2. Mais uma vez, os
pesos “relativos” exibem a distância entre o traço [-animado] e [+animado] na realização do
sujeito nulo no PE, com uma distância de 0,635. Quando se observam os resultados para o PB,
vemos o avanço dos pronomes com o traço [-animado], que, embora constituam um contexto
de resistência importante, já alcançam 58% e 42% de sujeitos nulos, o que não é pouco se
comparados com os índices do PE. Os pronomes com o traço [+animado] já chegam a índices
bem baixos de sujeitos nulos, como esperado. E os pesos relativos, opondo [-animados] de um
lado e [+animados] de outro revelam a importância deste grupo na mudança em curso. O

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desenvolvimento e a implementação de um paradigma de pronomes com o traço [-animado]
juntamente com o avanço do pronome expresso no padrão 1 atestam a remarcação do valor do
PSN no PB – de [+sujeito nulo] passamos a [-sujeito nulo]. O que vemos nessas tabelas,
parafraseando Kroch (1989), são reflexos de gramáticas em padrões de mudança linguística.10
Outros grupos de fatores associados ao PSN são apresentados nas análises de Duarte
(1995, 2019) entre outras. Mas, para nosso objetivo, os resultados dessas duas tabelas são
suficientes para mostrar que o trabalho desenvolvido no âmbito da Sociolinguística Paramétrica
NÃO consiste em fazer uma “leitura” de outras análises já prontas e a partir delas levantar
hipótese. Como dito, inicialmente, e aqui demonstrado, é a Teoria de Princípios e Parâmetros
que fornece ao variacionista as propriedades associadas a um parâmetro e é a partir delas que a
análise se inicia. As investigações até aqui realizadas sob essa perspectiva teórica têm
demonstrado que o conjunto de propriedades associadas aos sistemas [+sujeito nulo] de fato se
aplicam às línguas do grupo românico que exibem esse valor. E a perda dessas propriedades no
PB é muito evidente. Só para mencionar algumas, a perda do sujeito referencial nulo no PB
leva ao surgimento de pronomes pessoais com o traço semântico [-animado], favorece o
“redobro” do sujeito (cf. DUARTE, 1995; DUARTE; REZENDE DOS REIS, 2018), tem
motivado a perda da inversão “livre”, ilustrada em (1) a (3) neste artigo, uma mudança já
desencadeada, mas que se faz perceber lentamente à medida que afeta SDs com o traço
[+animado/+definido] e resiste com referentes que portam o traço [-animado/-específico] e com
certos verbos inacusativos (cf. SANTOS; SOARES DA SILVA, 2012). Além disso, inúmeras
análises sobre a posição estrutural do sujeito em sentenças impessoais têm revelado uma
interessante porém “não casual”, competição entre sujeitos expletivos nulos e a presença, na
posição estrutural do sujeito, de elementos referenciais que não fazem parte da grade temática
dos predicados (DUARTE, 2017).11 136
Toda a polêmica em torno de a Sociolinguística e a Teoria de P&P serem teorias
irreconciliáveis vai aos poucos perdendo força, uma vez que elas não estão em competição
como teorias linguísticas sobrepostas – a Sociolinguística, como já enfatizamos, é um modelo
para o estudo da mudança que não se sustenta sem uma teoria linguística / gramatical.
Reiteramos que as hipóteses que orientam uma análise de mudança em curso e os grupos de
fatores estruturais que sustentam e dão sentido a essa análise não aparecem no colo do
pesquisador como por milagre. Eles têm de vir de um modelo gramatical suficientemente
consistente para o empreendimento. E que não se confunda a Teoria da Variação e Mudança
com uma simples metodologia quantitativa. Essa metodologia da TVM é de fato uma
ferramenta “poderosa e segura para ser usada no estudo de qualquer fenômeno variável”, nas
palavras de Naro (2003, p. 25). No entanto “as suas limitações são as do próprio linguista, a
quem cabe a responsabilidade de descobrir quais são os fatores relevantes, de levantar e
codificar os dados empíricos corretamente, e, sobretudo, de interpretar os resultados numéricos
dentro de uma visão teórica da língua (NARO, 2003, p. 25). Não há dúvida de que o modelo de
Princípios e Parâmetros fornece os “fatores relevantes” e conduzem a “uma correta
interpretação dos resultados” quando se busca fazer uma análise comparativa da sintaxe das
línguas, iluminando o caminho que a mudança percorre.
Hoje, as pesquisas sobre variação dialetal e mudança desenvolvem o que tem sido
tratado como uma abordagem mais inovadora e coesiva, que integra insights da tradição

10
Reflexes of grammars in patterns of language change (KROCH, 1989).
11
Para outros estudos relacionados ao Parâmetro do Sujeito Nulo com base em peças de teatro brasileiras,
escritas no Rio de Janeiro ao longo dos séculos XIX e XX, ver Duarte (2012).

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
variacionista e gerativista. Esses trabalhos, desenvolvidos desde a década de noventa, se
baseiam principalmente em evidências da aquisição de regras variáveis em L1 e L2. 12 Mais
recentemente, vemos estudos em mudança paramétrica, que reconhecem o pioneirismo de
Tarallo e Kato (1989 [2006]) nesse trabalho “coesivo”, como se pode observar em Matinez-
Sans (2011) em seu estudo sobre mudança paramétrica em curso no espanhol dominicano. Da
mesma forma, as análises empíricas têm contribuído para as reformulações no âmbito da Teoria
de P&P, de modo muito especial para as revisões do PSN, hoje referido como “parâmetros” do
sujeito nulo (no plural!), incluindo pelo menos quatro grupos diferentes de sistemas linguísticos
que licenciam sujeitos nulos (cf. ROBERTS; HOLMBERG, 2010; HOLMBERG, 2010)

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12
Não é objetivo deste artigo discutir a polêmica entre a variação dentro da mesma gramática (WEINREICH,
LABOV; HERZOG, 1968 [2006]) ou a existência de gramáticas em competição (KROCH, 1989, 1994, 2001).
O certo é que a observação da propagação da mudança, com uma nova forma entrando no sistema em diferentes
contextos de forma não simultânea, pode perfeitamente ser interpretada de uma e outra forma, especialmente
quando o mesmo indivíduo gravado em momentos diferentes da sua vida apresenta índices cada vez mais altos
de um traço inovador enquanto vai perdendo o traço conservador.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
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Tradução da edição original de 1968, por Marcos Bagno. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.]

Recebido em 17/10/2019.
Aprovado em 17/11/2019.
Publicado em 31/12/2019.

140

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Padrões de alinhamento e voz em
kaiowá
Alignment patterns and the voice in kaiowá

Valéria Faria CARDOSO1

RESUMO: Neste artigo, propomos apresentar uma análise dos padrões de alinhamento de caso e da categoria de
voz em kaiowá. As análises são amparadas teoricamente numa abordagem funcional-tipológica, baseadas nos
trabalhos de Dixon (1979, 1994), Comrie (1981), Andrews (1985), Givon (1994) e Payne (1994). A análise dos
padrões de alinhamento em kaiowá exigiu que se levasse em conta a Hierarquia de Pessoa (1>2>3), traço
característico de línguas da família tupi-guarani, para além dos usuais mecanismos de codificação de caso. O
estudo de tais mecanismos aponta para distintos alinhamentos na língua que vão, quase num contínuum, do
nominativo/acusativo ao ergativo/absolutivo, passando por um tipo de caso “incaracterístico”.

PALAVRAS-CHAVE: Ergatividade. Acusatividade. Caso incaracterístico. Voz inversa.

ABSTRACT. In this paper, we propose to present an analysis of case alignment patterns and the voice category in
kaiowá. The analyzes are theoretically supported by a functional-typological approach based on the works of
Dixon (1979, 1994), Comrie (1981), Andrews (1985), Givon (1994) and Payne (1994). The analysis of alignment
patterns in kaiowá required taking into account the Person Hierarchy (1> 2> 3), a characteristic feature of Tupi-
Guarani family languages, in addition to the usual case coding mechanisms. The study of such mechanisms points
141
to distinct alignments in the language that go, almost in a continuum, from the nominative / accusative to the
ergative / absolutive, going through a kind of “uncharacteristic” case.

KEYWORDS: Ergativity. Accusativity. Uncharacteristic case. Inverse voice.

Considerações iniciais

Neste volume temático da Revista Guavira, intitulado Diferentes incursões pela


linguagem, no qual prestamos uma homenagem a Dercir Pedro de Oliveira2 (in memoriam), um
linguista magnífico, lépido e de importância decisiva em minhas escolhas acadêmicas,
proponho revisitar o artigo “Gramática kaiowá: estratégias de marcação de caso” publicado no livro
Estudos Linguísticos: gramática e variação, organizado por ele (OLIVEIRA, 2011) com propósito

1
Universidade do Estado de Mato Grosso/Campus de Alto Araguaia/Núcleo de Rondonópolis. UNEMAT.
Docente do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Linguística da
UNEMAT. Cáceres – MT – Brasil. CEP: 78780-000. E-mail: valeria.cardoso@unemat.br
2
Pretendo, aqui, dar vazão ao sentimento de profundo afeto e admiração que nutro por Dercir Pedro de Oliveira,
quem me inseriu na pesquisa linguística e, para além do campo teórico e metodológico, nos idos de 1990,
orientou-me num trabalho de iniciação científica (bolsista CNPq/UFMS), propiciando o acesso à pesquisa de
campo e aos eventos científicos e culturais (os memoráveis e tradicionais: GEL e SBPC). Esse tipo de
investimento intelectual e pessoal praticado por Dercir, de modo brilhante e singular como sempre doou seus
conhecimentos, fez desse professor, orientador e pesquisador, um linguista admirável. Sua atuação trilhou para
muitos ex-alunos e colegas da UFMS, Campus de Três Lagoas, um caminho acadêmico, hoje, percorrido em
distintas universidades brasileiras como a UNESP, UFGD e UNEMAT.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
de, entre outros, “evitar que os resultados das pesquisas científicas fiquem empoeiradas nas
prateleiras das bibliotecas universitárias”.
Neste sentido, retomo a temática do artigo, impulsionando-a a obter outras nuances e
perspectivas de análise. Ao mesmo tempo, prossigo com a pesquisa linguística iniciada em 1998,
momento no qual o professor Dercir aceita o desafio de orientar o primeiro trabalho acadêmico na
área de Línguas Indígenas a ser defendido no Programa de Mestrado em Letras da UFMS. Tenho
dito que, nessa ocasião, o gosto do mestre pela Sociolinguística cedeu ao desafio de desvendar uma
nova trilha na Linguística.
A língua guarani é classificada como pertence ao subgrupo I da família tupi-guarani,
tronco tupi, com três dialetos falados no território nacional: kaiowá, nhandewa e mbyá. 3
Consideramos o kaiowá, ponto central de nossa pesquisa, uma variedade do guarani falado
atualmente por aproximadamente 40 mil pessoas, que, em sua maioria, vivem no Estado de Mato
Grosso do Sul.
No presente artigo, propomos apresentar uma análise dos mecanismos de codificação de
caso e voz em kaiowá amparada teoricamente numa abordagem funcional-tipológica, baseada
nos trabalhos de Dixon (1979, 1994) e Comrie (1981), que tratam especificamente das tipologias
de padrões alinhamento de caso, além dos estudos de Andrews (1985), Givón (1994), Payne
(1994) e Dixon (1994), que analisam a codificação de voz (inversa e direta) na língua.
Além dessa introdução, esse artigo é sequenciado do seguinte modo: na segunda seção,
reportamo-nos a conceitos fundamentais sobre padrões de alinhamento, como ergatividade,
acusatividade e cisões intransitivas. Na terceira seção, retomamos, de modo sucinto, a análise da
cisão intransitiva em kaiowá (CARDOSO, 2011), para, na seção seguinte, tratar dos padrões de
alinhamento intraclausal nessa língua, tomando por base os sistemas referenciais de pessoa e 142
número, a concordância verbal, a marcação de caso e a ordem de constituintes, todos com base em
construções declarativas e independentes com um e dois lugares argumentais. Por fim,
considerando que é a análise dessas diferentes configurações nos padrões de alinhamento da
língua que conduz à análise da categoria de voz (direta e inversa), reportamo-nos a ela, na quinta
seção, à qual se seguem as considerações finais e as referências.

Padrões de Alinhamento: conceitos fundamentais

Muitas pesquisas linguísticas referentes aos sistemas de marcação de caso e seus


respectivos alinhamentos têm-se desenvolvido desde a década de 1970 (ZÚÑIGA, 2006). Os
termos ergatividade e acusatividade têm sido usados como padrão de alinhamento (ou padrão
gramatical) para distinguir as funções A (argumento controlador/iniciador de sentença transitiva)
e O (rótulo derivado do objeto direto de sentença transitiva) transitivas. Em síntese, as línguas
naturais incluem em suas gramáticas uma marcação contrastiva entre A e O transitivos, e
também a função de S (argumento único de sentença intransitiva). Tal marcação é o objeto
primeiro dos estudos referentes aos diferentes sistemas de marcação de caso nas línguas do
mundo.

3
Segundo Mori (2016, p. 201), são reconhecidas quatro subdivisões do povo guarani atual: os Nhandewa, os
Mbyá, os Kaiowá e os Chiriguano. Falantes guaranis das três primeiras subdivisões citadas são encontrados no
território brasileiro. Os Mbyá também se encontram em território argentino, na província de Missões e em várias
regiões do Paraguai. Os Chiriguanos estão dispostos em Isoso, na região do Chaco Boliviano.

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Segundo Dixon (1994), os termos ergativo/ergatividade e acusativo/acusatividade podem
ser usados para descreverem o caminho em que funções sintáticas dos argumentos predicativos são
marcadas em sentenças transitivas e intransitivas, isto é, se S é marcado num mesmo caminho que
O e diferentemente de A (num arranjo ergativo), ou se S é marcado no mesmo caminho que A e
diferentemente de O (num arranjo acusativo). Dixon trata este tipo de descrição como
ergatividade/acusatividade morfológica ou intraclausal.
Comrie (1981), tomando como base os tipos de agrupamentos possíveis de serem
estabelecidos entre S, A e P (onde P = paciente, por meio do modelo SAP), chega a cinco tipos
logicamente possíveis de padrão de alinhamento. São eles:

A. Neutro: mesma marca morfológica - que pode ser nula - é atribuída a S, A e P.

B. Nominativo-acusativo: mesma marca morfológica - caso nominativo - para S e A, e uma marca


diferente - caso acusativo - para P.

C. Ergativo-absolutivo: mesma marca morfológica para S e P – caso absolutivo - e uma marca


morfológica diferente para A – caso ergativo.

D. Tripartido: marcas morfológicas distintas para S, A e P.

E. Tipo ainda não atestado como um sistema consistentemente atuante na marcação de caso, uma
vez que teria que ocorrer uma mesma marca morfológica para A e P, e uma marca morfológica
distinta para S. Tomamos esse tipo, aqui, como um caso do tipo Incaracterístico.
143
Comrie expõe os porquês de, entre os tipos de agrupamentos logicamente possíveis, dois
deles (B e C) serem encontrados em quase todas as línguas do mundo. Segundo o autor, isso se
deve ao fato de existir somente um SN em sentenças monoargumentais, logo, não sendo necessário,
sob o ponto de vista funcional, marcar esse SN de alguma forma que o distinga de outros SNs, como
em (A, D e E). Assim, não sendo necessária a distinção entre S e A ou entre S e P, uma vez que eles
não ocorrem em uma mesma sentença, o caso atribuído a S pode ser usado para um dos dois
argumentos de uma sentença transitiva. A partir disso, têm-se os dois sistemas de marcação de caso
predominantes nas línguas do mundo (B e C), em que S pode ser identificado com A (num arranjo
nominativo) ou com P (num arranjo ergativo).
Para Dixon (1994), a marcação contrastiva de caso entre A e O pode ser identificada,
também, junto ao SN em função de S, do seguinte modo: aquele S semanticamente semelhante
a A é marcado como Sa, isto é, no mesmo caminho que A, e aquele S semanticamente
semelhante a O é marcado como So, isto é, no mesmo caminho que O. Assim se comportam as
línguas de sistema intransitivo cindido, nos termos de Dixon: línguas de sistema de cisão-S
(split-S) ou, ainda, línguas de sistema fluido-S (fluid-S) (cf. CARDOSO, 2012).
De acordo com Mithum (1991), o sistema intransitivo cindido tem recebido várias
designações, dentre essas estão: ativa (ou de tipologia ativa); ativo-neutro; ativo-inativo; ativo-
estativo ou estativo-ativo; agentivo ou agente-paciente; cisão-S e cisão intransitiva. O kaiowá
é uma língua de cisão intransitiva. Passemos às análises.

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Cisão intransitiva em kaiowá

Em Cardoso (2011), reconhecemos que o kaiowá, de modo semelhante a outras línguas


da família tupi-guarani, possui um sistema de marcação de caso com intransitivo cindido.
Sumariamente, pudemos observar que o kaiowá, num nível intraclausal, atende a um sistema
de cisão-S, ou seja, S é identificado no mesmo caminho que A, exercendo controle sobre a
atividade – identificado por Sa, e também se comportando como O, sendo afetado pela atividade
– identificado por So.
Importa considerar que a padronização por afixos pronominais em palavras verbais
ocorre como mecanismo de referência cruzada (de concordância), ou seja, quando um verbo
principal ou um auxiliar contém afixos que indicam informações sobre pessoa e/ou número ou
gênero vinculadas a um determinado SN. Se um conjunto de afixos correfere-se a um SN de
função de S ou A, com outro conjunto de afixos diferente para correferir-se ao SN em função
de O, esta língua pode ser caracterizada como nominativa-acusativa no nível intraclausal. A
característica de língua ergativa dá-se quando um conjunto de afixos correfere-se a S ou a O, e
outro conjunto de afixo refere-se a A.
Em kaiowá, língua de cisão intransitiva, os afixos pronominais das séries I e II são
marcadores de pessoa e número em verbos independentes, num arranjo entre os participantes
A, O, Sa e So. Observemos, no quadro 1, as séries de afixos pronominais marcadores de pessoa
na língua, seguidos de dados linguísticos descritos para análise.

Quadro 1 – Séries afixos pronominais marcadores de pessoa/número.


Pessoa e número Série I Série II 144
(A=Sa) (O=So)
1sg a- ʃe-
1pl (excl) ro- ore-
1pl (incl) ja- nhande
2sg re- nde-
2pl pe- pende-
3 o- i- ~ h-
Fonte: Elaboração própria.

(1) prefixo da série I – marcando (A)

ʃe ainũpã iʃupe
ʃe a- i-nũpã i-ʃupe
eu 1sg(A)-dir-bater 3-Acus4
‘eu bato [n](ele)’

(2) prefixo da série I – marcando (Sa)

ʃe agwahẽmã
ʃe a- gwahẽ-mã
eu 1sg(Sa)-chegar-Pont
‘eu já cheguei’

4
ABREVIATURAS: 1 = primeira pessoa, 2 = segunda pessoa, 3 = terceira pessoa; A = sujeito transitivo, Abs =
absolutivo, Acus = acusativo, dir = direta, Erg = ergativo, excl. = exclusiva, fut = futuro, incl. = inclusiva, intens
= intensivo, inv. = inversa, Nom = nominativo, O = objeto transitivo, Part = partícula, Pl = plural, n/pd = não-
possuído, Sa = sujeito intransitivo ativo, Sg = singular, So = sujeito intransitivo inativo.

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(3) prefixo da série II – marcando (O)

nde ʃereʃa ave


nde ʃe= r-eʃa ave
você 1sg(O)=inv.-ver Ptc
‘você me vê também’

(4) prefixo da série II – marcando (So)

ʃe ʃekyra eterei
ʃe ʃe= kyra eterei
eu 1sg(So)=gordo intes
‘eu engordei muito mesmo’

Ao atentarmos aos dados acima e observarmos que Sa, de verbos intransitivos marcados
com a série I {a-} (em 2), possui correferência no mesmo caminho que A (em 1), e que So, de
verbos intransitivos marcados com a série II{ʃe-} (em 4), correfere-se a O de verbos transitivos
(em 3), podemos constatar que o mecanismos de correferência cruzada em kaiowá opera sobre
o sistema de cisão intransitiva do tipo cisão-S (split-S), em que Sa é marcado num mesmo
caminho que A, e So num mesmo caminho que O.
Enfim, no que se refere à marcação de caso entre predicados bi e monoargumentais,
reconhecemos que o kaiowá, assim como o kamaiurá (SEKI, 2000), é uma língua de Sistema
Ativo/Inativo, ou ainda, de Cisão Intransitiva (CARDOSO, 2008).

145
Padrões de alinhamento intraclausal em kaiowá

Conforme Dixon (1994), a função de um SN (S, A ou O) numa sentença pode ser


marcada por um mecanismo ou pela combinação destes: i) flexões de caso: as formas em que o
caso é marcado num SN podem variar; ii) partículas separadas ou pre/posposições marcam
função sintática; e iii) o verbo ou um auxiliar pode incluir alguma indicação de pessoa, número,
gênero, etc., em concordância com SNs em certas funções sintáticas.
Para além dos mecanismos de identificação das funções dos SNs descritos acima, a
análise dos padrões de alinhamento intraclausal em kaiowá requer que levemos em conta a
Hierarquia de Pessoa (1>2>3), traço característico de línguas da família tupi-guarani, bem como
a manifestação de outra série de afixos pronominais marcadores de pessoa e número em kaiowá,
a Série III, que, em geral, ocorrem somente em construções transitiva, nunca em intransitivas.
No quadro 2, apresentamos as séries de afixos pronominais marcadores de
pessoa/número e caso, em construções independentes da língua kaiowá. E, a partir desse
quadro, propomos uma síntese de análise em (i), (ii) e (iii).

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Quadro 2 – Série de afixos pronominais marcadores de pessoa e caso.
Série I Série II Série III
Pessoa/ Número NOMINATIVO ABSOLUTIVO INCARACTERÍSTICO
1 sg [a-] [ʃe-] -
2 sg [ɾe-] [nde- ~ nẽ-] [oɾo- ~ ɾo]
(1sg/2sgA/O)
1 pl (incl) [dʒa-] [ɲãnde-] -
1 pl (excl) [ɾo-] [oɾe-] -
2 pl [pe-] [pẽnde-] [opo- ~ po-]
(1sg/2plA/O)
3 [o-] [i- ~ h-] -
Fonte: Elaboração própria.

i) Acusatividade: num alinhamento nominativo-acusativo, os mecanismos de codificação de


caso usados em kaiowá dão-se por meio da concordância nominativa entre o SN (em função
de A ou Sa) e os afixos pessoais da série I (cf. {ro-}, em (5)) codificados junto ao predicado
transitivo; por meio da adposição que marca a função de O acusativo, a posposição {pe ~ -
ʃupe}; por meio da ordem dos constituintes, sendo a preferencial SV/AVO, manifestando,
também, o padrão de alinhamento nominativo-acusativo, podendo, ainda, ser de ordem livre,
caso haja o preenchimento do SN em função de O por um nominal/pronominal marcado pela
adposição acusativa; e, por fim, por meio da hierarquia de pessoa, que ocorre quando (A) é
hierarquicamente maior que (O). Notemos que, em (5), A=1pl > O=3, sendo este uma não-
pessoa do discurso.

(5) marcação do nominativo – série I (A > O) 146


ore roinupã iʃupe kwera
ore ro- i- nupã i -ʃu -pe kwera
nós 1pl(excl)(A)-dir-bater n/pd-posp-Acus pl
‘nós batemos neles’

ii) Ergatividade: o alinhamento ergativo-absolutivo em kaiowá é codificado a partir da


concordância ergativa não-marcada com a marcação de O absolutivo codificado pelos clíticos
pronominais pessoais da série II (cf. {ore-}, em (6)), afixados ao predicado transitivo, bem
como pela não ocorrência de um SN (O) pleno, regendo, assim, a ordem SOV. Quanto à
hierarquia de pessoa, tem-se que a ergatividade em kaiowá ocorre quando: (A) é
hierarquicamente menor que (O), sendo este um paciente mais tópico. Observemos que, em (6),
sendo A=2pl < O=1pl, a hierarquia de pessoa (1>2>3) fica invertida.

(6) marcação do absolutivo – série II (A < O)

pẽẽ orereʃa
pẽẽ ore= r- eʃa
vocês 1pl (excl)(O)= inv- ver
‘vocês nos veem’

iii) Incaracterístico: caso do tipo E (COMRIE, 1981), aqui, proposto como sendo o tipo de
caso que ocorre – se e somente se – as funções de A e O forem preenchidas pelas pessoas do
discurso (1ª. e 2ª.), sendo essas codificadas simultaneamente por meio dos afixos pessoais da
série III (cf. {po-}, em (7)). Essa série de afixos pessoais, que marcam simultaneamente (A e

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O), ocorre somente com predicados transitivos, não havendo marca morfológica distinta para
a função de S (seja Sa ou So), portanto, ocorre a mesma marca para A e O e uma distinta para
S.

(7) caso do tipo E - Incaracterístico - série III (A / O)

ʃe poinupãta
ʃe po- i- nupã -ta
eu 1sg/2pl-dir- bater -Fut
‘eu baterei [em] vocês’

Em suma, esse indistinto tipo de caso, o tipo E (COMRIE, 1981), é aqui considerado
um tipo de caso “incaracterístico”, que ocorre, em kaiowá, quando (A) e (O) são pessoas do
discurso e codificadas, na morfologia verbal transitiva, por meio dos afixos pessoais da Série
III: (1A/2sgO) = {oro- ~ ro-} e (1A/2plO) = {opo- ~ po-}(cf. quadro 2), de modo distinto da
codificação dada para (1sgA) = {a-} da Série I, nominativa, bem como para (2sgO) = {nde- ~
nẽ-} ou para a (2plO) = {pẽnde-}, ambas absolutivas, da Série II. Do mesmo modo que também
não há congruência entre caminhos de (A e O) e S (seja S a ou So). Assim, propomos que o tipo
de caso E, ou ainda, o caso incaracterístico, é discretamente atestado em kaiowá, mesmo que
não ainda como um sistema de alinhamento consistentemente atuante. Por fim, como já
mencionamos, o estudo dos distintos padrões de alinhamento em kaiowá é que conduz para a
análise da categoria de voz, aqui em específico, a voz direta e a voz inversa. Segue a análise.

Voz Inversa em Kaiowá


147
Payne (1994), em seu texto intitulado “The Tupí-Guaraní Inverse”, propõe que as
línguas tupi-guarani que apresentam construções com pronomes marcadores de pessoa da série
II, seguidos do prefixo relacional {r-}, ou nos termos da autora, construção Conjunto 2/r-, são
línguas que possuem um Sistema Inverso. Nessas línguas, a mudança de uma construção direta
para uma construção inversa é completamente gramaticalizada em termos da Hierarquia de
Pessoa (1>2>3), e, quando estão envolvidas duas 3as. pessoas, a construção é gramaticalizada
como direta, sendo marcada invariavelmente com o conjunto 1 e não marcada com o morfema
indicador de inverso {r-}.
Para o kaiowá, em específico, Cardoso (2008) propõe que seja uma língua de Sistema
Inverso, uma vez que a codificação de (A) ocorre quando este é hierarquicamente mais alto
que (O), sendo marcado com a série I ou III, seguido do morfema indicador de voz direta { i-},
como em (b), (c) e (d) do quadro 3. Sendo (O) hierarquicamente mais alto, marca-se o (O) com
a série II, seguido do morfema marcador de voz inversa {r-}, como em (e), (f) e (g) do mesmo
quadro.
Quadro 3 – Codificação de (A) e (O).
A O Marcação
(a) 1ª 2ª Série III (portmanteau)/ i-
(b) 1ª 3ª Série I/ i-
(c) 2ª 3ª Série I/ i-
(d) 3ª 3ª Série I/ i-
(e) 2ª 1ª Série II/ r-
(f) 3ª 1ª Série II/ r-
(g) 3ª 2ª Série II/ r-
Fonte: Elaboração própria.

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Os dados abaixo evidenciam que o kaiowá codifica (A) junto a verbos transitivos de
sentenças independentes, por meio dos prefixos da série I, seguido do morfema {i- ~ h-}
marcador de voz direta ((8) e (9)), sendo (A) hierarquicamente mais alto que o argumento
interno (O). De outro modo, codifica o argumento interno (O), por meio dos clíticos
pronominais da série II, seguido do marcador de voz inversa {r-} (10), quando (O) é
hierarquicamente mais alto que (A).

(8) marca-se caso nominativo/acusativo e voz direta com { i- ~ h- })

a) 1 A 3O
ore roinupã iʃupe kwera
ore ro- i- nupã i-ʃupe kwera
nós1pl(excl)(A)-dir-bater 3-Acus Pl
‘nós batemos [n]eles’

b) 2 A 3O
pẽẽ peheʃa iʃupe kwera
pẽẽ pe- h- eʃa i- ʃupe kwera
Vocês 2pl(A)-dir-ver 3-Acus Pl
‘vocês vêem eles’

c) 3 A 3O
ɲaɲgwa oisuʔu kunũmĩpe
ɲaɲgwa o- i-suʔu kunũmĩ-pe
cachorro 3ª.(A)-dir-morder menino-Acus
‘o cachorro mordeu o menino’ 148

(9) marca-se caso do tipo E - incaracterístico e voz direta com { i- ~ h- })

a) 1 A 2sg O

ʃe rohaihu
ʃe ro- h- aihu
eu 1sg/2sg(A/O)-dir-amar
‘eu te amo’

b) 1 A 2 pl O

ʃe poinupãta
ʃe po- i- nupã-ta
eu 1sg/2pl(A/O)-dir-bater-Fut
‘eu baterei [em] vocês’

(10) marca-se caso ergativo/absolutivo e voz inversa com { r- ~ Ø- })

a) 2 A 1O

ndetɨpo ʃereʃa woi


nde-tɨpo ʃe- ɾ- eʃa woi
você-inter 1sg(O)-inv-ver mesmo
‘você me viu mesmo?’

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b) 3 A 1O

haʔe ʃeraihu
haʔe ʃe- ɾ-aihu
ele 1sg(O)-inv-amar
‘ele/a me ama’

c) 3 A 2O

haʔe ndenupã
haʔe nde- Ø- nupã
ele 2sg(O)- inv-bater
‘ele te bate’

Em kaiowá, quando estão envolvidas duas 3as. pessoas, como em (11), propomos que o
prefixo {o-} marque (A) e o afixo {i-} identifique a voz direta e não o pronome inativo
codificador de (O), uma vez que, esse mesmo afixo {i-} coocorre junto aos afixos pessoais
portmanteau (série III), que codificam A e O simultaneamente, como visto em (9).

(11) 3A 3O

ɲaɲgwa oisuʔu kunũmĩpe


ɲaɲgwa o- i-suʔu kunũmĩ-pe
cachorro 3ª.(A)-dir-morder menino-Acus
‘o cachorro mordeu o menino’
149
Finalmente, apresentamos o quadro (4), que sintetiza a presente proposta de análise da
marcação de caso e de voz para a língua kaiowá:

Quadro 4 – Síntese da marcação de caso e de voz em kaiowá.


A O Hierarquia Caso Voz
1 - 3
2 - 3 A>O ACUSATIVO DIRETA
3 - 3
1 - 2 A/O INCARACTERÍSTICO DIRETA
2 - 1
3 - 1 A<O ERGATIVO INVERSA
3 - 2
Fonte: Elaboração própria.

Em suma, em kaiowá, quando as construções são marcadas com a série II/r-, são
consideradas construções inversas, tendo o morfema {r-} como marcador de voz inversa,
como propôs Payne (1994), e quando as construções são marcadas com a série I/i- ou com a
série III/i, propomos que sejam construções diretas-ativas, tendo o morfema { i-} como
marcador de voz direta.

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Considerações finais

Tendo identificado aspectos gramaticais próprios da marcação de caso e voz na língua


kaiowá, consideramos, finalmente, que a marcação gramatical é entendida como traço essencial
para o estabelecimento das relações gramaticais – de sujeito e objeto – numa língua. No entanto,
advertirmos para o fato de que a identificação das funções gramaticais de cada argumento deve
ser considerada primeiro e, que é um erro classificar uma língua como sendo ergativa ou não,
sem antes se perguntar em que extensão ou em quais construções particulares esta língua é
ergativa ou é acusativa. Antes, vale considerar que os dois sistemas de marcação de caso
predominantes nas línguas do mundo – o ergativo e o acusativo – mostram que S pode ser
identificado tanto com A quanto com O, o que nos leva a concluir que a relação de S com A ou
com O não pode ser entendida como um reflexo direto das relações gramaticais de sujeito e de
objeto.

REFERÊNCIAS

ANDREWS, Avery. The major functions of the noum phrase. In: SHOPEN, Timothy. (ed.).
Language typology and syntactic description. Cambridge: Cambridge University Press, 1985.
v. 1.

CARDOSO, Valéria Faria. Aspectos Morfossintáticos da Língua Kaiowá (Guarani). 2008.


267f. Tese (Doutorado em Linguística) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade
Estadual de Campinas, Campinas, 2008. 150

CARDOSO, Valéria Faria. Gramática kaiowá: estratégias de marcação de caso. In: OLIVEIRA,
Dercir Pedro de. (org.). Estudos linguísticos: gramática e variação. Campo Grande: Ed. UFMS,
2011.

CARDOSO, Valéria Faria. Ergatividade, acusatividade e sistemas cindidos. In: SOUZA, Edson
R. F. (org.). Funcionalismo linguístico: análise e descrição. São Paulo: Contexto, 2012. p. 225-
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COMRIE, Bernard. Language universals and linguistic typology: syntax and morphology.
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GIVÓN, Talmy. Syntax: a functional-typological introduction. Amsterdam/ Philadelphia, 1984.


v. 1.

MORI, Angel Corbera. Descrição gramatical do Kaiowá (Guarani). LIAMES: Línguas


Indígenas Americanas, v. 16, n.1, p. 201-205, 2016. Disponível em:
https://doi.org/10.20396/liames.v16i1.864617. Acesso em: 20 out. 2019.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
OLIVEIRA, Dercir Pedro de. A obra literária de Rosário Congro: um estudo estilístico. Três
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OLIVEIRA, Dercir Pedro de. (org.). Estudos linguísticos: gramática e variação. Campo
Grande, MS: Ed. UFMS, 2011.

PAYNE, Doris L. The Tupi-Guaraní Inverse. In: FOX, Barbara; HOPPER, Paul (ed.). Voice:
form and function. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins, 1994. p. 131-40.

SEKI, Lucy. Gramática do Kamaiurá: língua tupi-guarani do Alto Xingu. Campinas, SP:
Editora da UNICAMP/Imprensa Oficial, 2000.

ZÚÑIGA, Fernando. Deixis and alignment: inverse systems in indigenous languages of the
Americas. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins, 2006.

Recebido em 04/11/2019.
Aprovado em 25/11/2019.
Publicado em 31/12/2019.

151

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
Um professor digno de
homenagem: em especial, a visão
do aluno como centro de interesse
A professor worthy of tribute: especially, the view of students at the center of interest

Maria Helena de Moura NEVES1

RESUMO: O texto reverencia o Professor Dercir Pedro de Oliveira resgatando a significativa lembrança que sua
presença deixou no cenário acadêmico das Letras no país. Esse resgate se faz em três “tempos”, que passam: por sua
atuação universitária como professor das Letras, com o aluno sempre no centro de atenção; por sua lida
universitária, nas aulas em Letras, com a linguagem e a língua materna no foco da análise; por sua notável atuação
em postos de coordenação e de gestão acadêmica. No conjunto da homenagem, destaca-se o significado particular
do grande empenho do Professor Dercir em erigir sempre o alunado como centro de interesse, na escola.

PALAVRAS-CHAVE: Língua, linguagem e literatura na escola. Trabalho escolar com a gramática. Centro escolar
no aluno.

ABSTRACT: This text honors Professor Dercir Pedro de Oliveira by recollecting the significant memory he left in the 152
Brazilian Linguistics community. The recollection presented here comprises three ‘periods’: his contribuition at the
university as professor of Letters, with students always in the center of attention; his work at the university, with
language and mother tongue in the center of analyses; his outstanding administrative and contribuition. The overall
goal of this tribute is to shed some light on Professor Dercir’s work with students always as at the center of interest,
in school.

KEYWORDS: Language; language and literature in school. Working with grammar in school. Students at the center
of interest in school.

Introdução

Este texto assume o perfil de conversa com esse grande amigo Dercir, que também foi,
memoravelmente, um ‘colega de classe’ muito próximo nos bancos escolares, em um Curso de
Aperfeiçoamento em Linguística, na Unesp de Araraquara. Foi um curso memorável, em que,
por 24 meses, recebemos, todos os sábados, manhã e tarde, magistrais lições de Linguística do
Professor Francisco da Silva Borba e em que consolidamos parcerias para sempre.
Esse amigo de lhaneza ímpar sempre teve a admiração de quem com ele convivia, por
suas inúmeras qualidades de pessoa e de profissional. Destaco entre elas, neste meu texto que é
de reverência acadêmica, a grande e frutífera dedicação ao bom desenvolvimento da área de

1
Professora emérita pela Universidade Estadual Paulista/Câmpus de Araraquara – UNESP/Câmpus de
Araraquara. Professora Associada da Universidade Presbiteriana Mackenzie – UPM. CNPq. Bolsista
produtividade em pesquisa. São Paulo – SP – Brasil. CEP: 01302-907. E-mail: mhmneves@uol.com.br

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Letras na Universidade pública, a que se unia uma grande sensibilidade para o trato das questões
de linguagem, além de uma atenção especial ao papel ‘educador’ do professor.
Assim, este meu texto, para além das considerações apreciativas, terá seu ponto de apoio
centrado na atenção dada por nosso homenageado ao papel que acreditava caber à universidade
pública, com marcado foco no trabalho escolar com a língua e a linguagem, particularmente
posto em questão o ensino de língua materna, e centralmente considerado o aluno. Não fica sem
registro, com certeza, dentro do envolvimento pessoal no convívio que tive com o Professor
Dercir, a admiração que ele sempre me mereceu, como ‘gente’.
Afinal, no conjunto de temas que nesta homenagem construo, minha apreciação se
desenvolve em torno dos seguintes pontos a ele relacionados: (i) sua atuação universitária como
professor das Letras, com destaque para a colocação do aluno sempre no centro de atenção; (ii)
sua lida universitária nas aulas em Letras, com destaque para a colocação da linguagem e da
língua materna no foco da análise; (iii) afinal, sua firme e eficiente atuação acadêmica de
condução de trabalhos de coordenação e de gestão.
A conclusão se volta a destacar o grande significado que tem de ser atribuído ao
empenho do Professor Dercir em erigir sempre o alunado como centro de interesse, na escola.

A atuação universitária do Professor Dercir Pedro de Oliveira nas Letras: o alunado no


centro de atenção

Tive o prazer de escrever a Apresentação do livro Introdução à sintaxe: tradicional,


formal e estrutural (OLIVEIRA, 2013), e esse texto por si dá o teor da minha apreciação de 153
Dercir como professor empenhado no trabalho escolar com língua e linguagem. A primeira
observação que fiz em meu texto foi a de que o livro se oferece ao leitor, explicitamente, como
uma obra pensada para estudantes ligados à observação e à compreensão da expressão
linguística, especificamente quanto à sua base sintática. Como em meu texto ressalto, desde o
início fica evidente no livro o tom de quem fala dirigindo-se empenhadamente a alunos, e fica
revelado o cuidado particular de Dercir com um trabalho que realmente os atinja:

Além de já abrir o livro com a dedicatória aos “alunos de todos os tempos, de todos
os níveis e de todos os cursos”, o Professor Dercir o traz apresentado em claras lições,
evidentemente para ser lido por aqueles que devem “aprender” a analisar os
enunciados da língua. (NEVES, 2013, p. 9).

Como desenvolvo a seguir, na Apresentação do livro, diferentemente do que ocorre no


comum das lições gramaticais disponíveis, essa obra, organizada em três partes postas em
paralelo, vai trazendo lições que não se alinham em uma única direção; pelo contrário, as partes
já se anunciam como dirigidas a três diferentes campos de visão. Desse modo, fica definido
com grande evidência o objetivo didático da montagem da obra, que é o de mostrar aos
estudantes visões alternativas da análise linguística, e, obviamente, da teoria de base das
análises.
Um ponto bastante relevante que destaco naquele texto é o modo de explicitação pelo
qual, muito originalmente e adequadamente, o livro dirige cada um desses três campos: nas
partes de 1 a 3, há três diferentes tons e diferentes profundidades, em coerência com a natureza
de cada campo, e em atenção à base que sustenta cada uma das propostas específicas.

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O que passo a desenvolver a seguir resume as indicações de minha Apresentação sobre
cada uma dessas seções da obra, o que me permite recuperar a indicação final de que, como
defende o autor, a visão da predicação não se esgota em um olhar interno, que vai simplesmente
às partes componentes da oração, mas propõe-se chegar “a todos os recantos e os profundos da
gramática da língua”. (NEVES, 2013, p. 11).
Na Parte 1, Dercir traz a sintaxe tradicional bem tecnicamente apresentada, sem nenhum
revestimento de condução argumentativa. Os leitores podem ir recolhendo diretamente tudo
aquilo que eles mais viram na sua trajetória de estudos de Língua Portuguesa, nos diversos
graus de ensino, com o claro objetivo de trazer esse todo de novo, mas agora oferecido em
modo simples, enxuto, despido de indicações que não tenham relevância. As informações são
passadas com grande economia, praticamente como um sumário que recolha de modo bem
digerível noções que possam já ter sido recebidas com complicações desnecessárias.
Na Parte 2, pelo contrário, a sintaxe formal vem apresentada em um texto que
declaradamente – e devidamente – se apoia em especialistas. Assim, as propostas da teoria da
gramática do programa gerativista de Chomsky (rubricado como “formalismo chomskyiano”)
fazem-se com recurso contínuo a textos dos grandes estudiosos brasileiros que destrinçaram a
teoria, como marco na Apresentação:

Começa com uma ligeira menção ao marco inicial que está no Syntatic Structures, de
1957, passa pelas noções seminais de gramaticalidade, de competência, de gramática
interiorizada, de princípios e parâmetros, de falante / ouvinte ideal, detendo-se, afinal,
na explicitação da estrutura oracional, com atenção às categorias sintagmáticas e às
estruturas arbóreas. Sempre com o apoio de estudiosos autorizados, anda por algumas
versões da teoria sintática gerativa, para concluir com a reunião de tudo sob a rubrica
de “formalismo chomskyano”, e para reafirmar que o leitor pretendido para as lições 154
oferecidas é o estudante, no caso, o estudante interessado em “estudos sintáticos”.
(NEVES, 2013, p. 10)-

Há a destacar, aqui, na linha em que construo esta homenagem, que as lições oferecidas
têm como leitor determinadamente pretendido o estudante, e, mais especificamente, o estudante
interessado em “estudos sintáticos”.
Na Parte 3, final, o que se desenvolve é a teoria tesnieriana, cuja base é o Eléments de
syntaxe structurale (1959), sendo notável o cuidado didático do autor no repasse dos elementos
básicos da teoria: as noções de conexão e estema, de dependência e regência, de núcleo e
actantes, de junção e translação, todas com subordinação à noção central de valência. Nesse
mesmo sentido de preocupação didática, aponte-se que todas essas noções são
discriminadamente relacionadas com orações do português submetidas a uma análise sintática
canônica, com a lúcida ressalva de que “é importante que os alunos tenham noção de sintaxe
tradicional”.
Afinal, o que meu texto de Apresentação conclui é que todas as partes do livro se
oferecem para compor um conjunto de lições que aproveitem a estudantes. Destaco que uma
interpretação desavisada do oferecimento dessas três partes poderia fazer entender que elas não
estariam conversando entre si, entretanto tal visão se desfaz na verificação de que e elas
respondem a um programa didático pelo qual esse conjunto de lições oferecido constrói um
aparato que se põe à disposição dos estudantes para confronto interpretativo.
Além dessa destinação prática, há uma noção central, sistêmica que une todas as partes
do livro, que foi o foco na “oração”, uma unidade que tem papel determinante em qualquer

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ramo da ciência linguística, até na teoria funcionalista da linguagem, a qual, como se sabe,
constrói uma gramática que se subordina ao nível da organização discursivo-textual do
funcionamento linguístico. Afinal, como observo na Apresentação, o livro mostra que,
diferentemente do que possa parecer, a visão da oração / da predicação, efetivamente, não é
algo que se esgote em um olhar interno, o de suas partes componentes, mas é algo capaz de
chegar “a todos os recantos e os profundos da gramática da língua”. (NEVES, 2013, p. 11).

Ainda sua lida universitária nas aulas de Letras. A língua materna e a linguagem, em toda
a sua extensão, no foco da análise

Neste segmento também ficamos na apreciação do Dercir empenhado no trabalho


escolar com língua e linguagem, mas agora apanho o que considero o mais evidente universo
em que se desenvolvem as lidas universitárias dos professores de Letras, por onde entro em um
campo ao qual nosso homenageado, formado dentro da ciência sociolinguística, era muito
sensível, como mostra o conjunto de seus trabalhos.
Reflito aqui, especialmente, sobre aquele (aparentemente) duplo interesse que nos move
nas atividades escolares, que são a Língua e a Literatura, apontando que, em geral, o ensino
escolar tem-se ressentido de uma tensão entre esses dois campos de estudo, uma visão que tem
sua origem concreta na organização comumente dada à grade de disciplinas. E é nesta parte de
meu texto que as reflexões são particularmente pensadas e expressas como tributo ao linguista
e amigo que reverencio e de quem, a propósito, cito duas obras de interesse literário
(OLIVEIRA 2002 e 2006).
155
Esse espelho das tradicionais grades dos programas de fato sugere uma ‘dicotomia’, pois
alguém facilmente diria que, nos estudos linguísticos, ressalta a necessidade de considerar-se a
‘gramática’ da língua, o que pode levar ao entendimento – que já indico como desavisado – de
uma colisão, ou pelo menos de um estranhamento, com o interesse literário. E é a crítica a esse
entendimento que quero trazer aqui, a partir da noção de que a ‘gramática’ nada mais é do que
o complexo de mecanismos e procedimentos que uma língua deixa à disposição de todos os que
dela têm posse, para que, mediante as ‘escolhas’ que façam, na produção da linguagem, eles
componham suas peças de atuação linguística. Com certeza entre essas peças estarão muito
especialmente – muito naturalmente – abrigadas todas as que os poetas ‘poeticamente’ criam
(em verso ou em prosa), e que rotulamos como ‘de literatura’. E não é preciso pensar muito
para verificar quão felizes, nas tais ‘escolhas’ para ativação do sistema da língua, são aqueles
poetas que fruímos e admiramos.
Assim, esta afirmação que faço, de que há gramática na ‘poética’, não constitui uma
proposta viesada da Linguística. É exatamente por uma reflexão desse tipo que se há de
compreender legitimamente a literatura como coisa de ‘poeta’, por onde facilmente se recupera
a etimologia desse termo e do termo poesia, ligados ao verbo grego poiéo: “fazer”, “criar”. A
literatura é, pois, coisa daquele indivíduo que, por excelência, ‘cria’: ora, as peças literárias são,
na realidade, ‘criações’ vindas de um usuário da língua que as faz entendidas, aceitas e fruídas
pelos falantes, e exatamente pelo modo ‘poético’ como ele as organiza, com a ‘gramática’ (ou
seja, com o ‘sistema de regras’) de que dispõe para suas ‘criações’.
Talvez a aparente contundência dessa noção de um texto como algo ‘regido’ por um
sistema possa fazê-la parecer estranha, ou imprópria, neste contexto, mas é absolutamente claro
que uma criação literariamente distinguida como de ‘poeta’ estará naturalmente entendida como

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pautada pelo sistema gramatical da língua. É pela sua inserção no sistema que ela produz
significado, não é, por exemplo, pelo que nela haja de singularidades que marquem um padrão
de características genericamente indicado, para aquela época, por uma historiografia de
determinadas fases da literatura. As singularidades marcam, realmente, a ‘linguagem’ que se
cria naquela peça e naquele evento de produção de sentidos e de efeitos poéticos, mas elas nada
mais são do que o resultado daquilo que o poeta ‘cria’ com as escolhas que faz quando aciona
a ‘gramática’ de que dispõe como usuário da língua.
Há risco de distorções, sim, nessa visão de que ‘há gramática na poética’, por exemplo
o de querer-se lidar com textos literários como ‘pretexto’ para uma exercitação paralela de
doutrina gramatical, o que já se tem feito, especialmente em exercícios escolares para ‘caça’ de
exemplos de classes, de funções, ou de ‘desajustes’ gramaticais. Com certeza, entender a
‘poesia’, em primeiro lugar, como – literalmente – peça de linguagem em uma língua
‘histórica’, e regida por um ‘sistema’, não é algo que venha com receitas prontas e
parametrizações; muito pelo contrário. Também não é na busca de respostas e soluções para
roteiros de desempenho escolar que vale essa lição básica de que, infalivelmente, se há
linguagem na poesia (e claramente há), há gramática na poesia...
Trata-se, basicamente, de uma necessária reflexão sobre o natural fazer da ‘linguagem’
que naturalmente está no fazer da ‘literatura’. A proposta é que, nas peças literárias, está,
constitutivamente, a verdadeira ‘gramática’ de que a ciência trata, que é aquela da língua em
função: é aquela que faz o cálculo da produção de sentido de toda e qualquer peça linguística;
inclusive – ou até particularmente – a literária, obviamente.

Afinal, sua firme atuação acadêmica de condução de trabalhos de coordenação de gestão 156

Nosso homenageado Professor Dercir sempre se notabilizou pelo caráter empreendedor


de suas ações dentro da academia, o que foi extremamente facilitado por sua capacidade de
resolver com praticidade as mais diversas questões, e especialmente pelo seu modo de ser
colaborativo e agregador. Ele era aquele membro da comunidade que não ficava fazendo
especulações vagas, esperando que as coisas acontecessem. Saía a campo, assumia a luta, fazia
acontecer. Lembre-se que sempre se envolveu relevantemente em atividades de pesquisa (em
época em que isso não era tão usual, fez pós-doutorado), que foi bolsista de Produtividade em
Pesquisa do CNPq e que organizou o Atlas Linguístico de Mato Grosso do Sul (OLIVEIRA,
2007); que em suas atividades de ensino, chegou a Professor titular, lecionando em todos os
níveis acadêmicos; e, ainda, que ocupou postos elevados de gestão acadêmica, indo de membro
de Conselhos superiores a Coordenador de curso, a Chefe de Departamento, a Coordenador de
Pós-graduação, e, afinal, a Pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação. Foi nesta última posição
que tive com ele uma experiência notável, que bem deixa ver o Dercir que minha memória
guarda, com admiração.
Nesse terreno quero registrar devidamente o empenho com que ele conduziu, em 2012,
as tratativas que mantivemos para o estabelecimento de um Dinter que propus (Edital CAPES
Minter / Dinter nº 13/2012), envolvendo a Universidade Presbiteriana Mackenzie, como
instituição promotora, e a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, como Instituição
Receptora. Com a Capes tendo anunciado naquele ano que o Programa Minter/Dinter não seria
subsidiado financeiramente, eu só tive condição de empreender a proposta porque a Reitoria da
UFMS, na pessoa do seu Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação, o Professor Dercir,

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empenhadíssimo em titular seus docentes, registrou documentadamente que sua Instituição
assumiria os encargos do empreendimento.
Para ilustração desse empenho, trago aqui um trecho do Ofício da Pró-reitoria de
Pesquisa e Pós-graduação-PROPP da Universidade Federal do Mato-Grosso do Sul que já havia
sido enviado à CAPES, em 26 de maio de 2011 (em referência ao Edital anterior, que foi o de
nº 12/2011, de Chamada Pública de novas propostas de Mestrado e Doutorado
Interinstitucionais, Minter / Dinter Nacional e Internacional):

De acordo com o Plano Pedagógico Institucional (PPI), a UFMS tem


expandido sua missão por meio do aprimoramento das ações de gestão, ensino,
pesquisa e extensão. Essa expansão está traduzida pela qualificação do corpo docente
em aprimoramento constante, participação em programas de pós-graduação stricto
sensu, aumento da produção científica, abrangência regional dos serviços por meio de
projetos de extensão.
Em face dessa missão, os cursos de pós-graduação da UFMS têm papel
importante na formação de recursos humanos especializados para as atividades de
ensino e de pesquisa, bem como para atuar no mercado de trabalho de modo geral.
Além da preocupação em criar condições para oferecer um ensino de graduação de
qualidade, há o fomento para ações que visem articular a graduação com a pesquisa e
a pós-graduação.
Considerando que a pós-graduação é o resultado do princípio integrador dos
diversos níveis educacionais e representa o vórtice dos estudos, constituindo-se num
sistema especial de cursos que se propõe atender às exigências da investigação
científica e da capacitação docente e mercadológica, os princípios que norteiam a
política institucional de pesquisa e pós-graduação são: a) estímulo à capacitação de
docentes da UFMS, visando à melhoria na qualidade de ensino de graduação e de pós-
graduação, bem como à consolidação de pesquisa científica; b) contribuição para a 157
formação de pesquisadores, atendendo especialmente às necessidades setoriais e
regionais da sociedade, particularmente comprometidas com desenvolvimento do
Mato Grosso do Sul.
Assim, a UFMS pretende garantir a inserção de eixos de pesquisa e, ao
mesmo tempo, incentivar a titulação dentro de seu quadro-docente, com o objetivo de
avançar na qualificação acadêmica e científica, contribuir para o aprimoramento de
profissionais que prestarão serviços à comunidade.

E assim terminava o documento, no qual quero resgatar o destaque dado por Dercir à
valorização dos estudos linguísticos e dos estudos literários, em conjunto:

A realização do DINTER em parceria com a Universidade Presbiteriana


Mackenzie contribuirá para a consolidação da pesquisa nas áreas de estudos
linguísticos e literários na UFMS. Por meio da capacitação de seus docentes espera-
se potencializar as ações de ensino, pesquisa e extensão, consolidar os grupos de
pesquisa certificados pela Instituição, endossar os programas de pós-graduação stricto
sensu, com o reforço das linhas de pesquisa existentes e a possível criação de outras.

Afinal a proposta foi aprovada pela Capes em 14 de outubro de 2012, tendo sido o único
Minter/Dinter de Letras aprovado no ano, e com generoso (e inesperado) financiamento, o que
levou a uma bela consecução de resultados, ao final do período.

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Em conclusão

Em consonância com o que até aqui desenvolvi, simplesmente concluo, voltando ao


centro de interesse de Dercir, que sempre foi o alunado, e o faço recolhendo novamente uma
das mais diretas referências que ele faz a esse foco, na composição do seu livro sobre a análise
sintática. Dando uma bela e moderna lição, ele proclama que essa análise é de grande e natural
interesse escolar, entretanto a escola não pode fazer dela seu fim último, deve vê-la, sim, como
“um caminho para compreender” os processos de construção discursivo-textual.
E, afinal, pondo definitivamente o aluno em foco, o que nosso homenageado
lucidamente conclui é que o trabalho escolar nesse sentido nunca deverá reduzir-se a uma busca
de aplicação terminológica, “tirando o entusiasmo que o aluno tem pelo estudo da língua”
(OLIVEIRA, 2013, p. 13).

REFERÊNCIAS

NEVES, Maria Helena de Moura. Apresentação. In: OLIVEIRA, Dercir Pedro. Introdução à
sintaxe: tradicional, formal e estrutural. Campo Grande: Editora UFMS, 2013. p. 9-11.

OLIVEIRA, Dercir Pedro de. A estilística em Rosário Congro. Campo Grande: Editora UFMS,
2002.

OLIVEIRA, Dercir Pedro de. O Livro da Concentração. O linguístico e o literário. Campo


Grande: Editora UFMS, 2006. 158
OLIVEIRA, Dercir Pedro de. Atlas Linguístico de Mato Grosso do Sul (ALMS). Campo Grande:
Editora UFMS, 2007.

OLIVEIRA, Dercir Pedro de. Introdução à sintaxe: tradicional, formal e estrutural. Campo
Grande: Editora UFMS, 2013.

TESNIÈRE, Louis. Eléments de syntaxe structurale. Paris: Klincksieck, 1959.

Recebido em 04/12/2019.
Aprovado em 23/12/2019.
Publicado em 31/12/2019.

Guavira Letras (ISSN: 1980-1858), Três Lagoas/MS, v. 15, n. 31, p. 1-159, set./dez. 2019.
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