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Revista 777

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Revista 777

EDITORIAL

Faze o que tu queres há de ser tudo da lei

Prezada Estrela esperamos que você se encontre bem e em casa, a Pandemia avança e
operamos para que os sistemas opressores feneçam, somos arautos da Lei do Amor, Luz,
Vida e Liberdade e assim com esse espírito de acolhimento, de braços dados e de infinita
tolerância exceto para com os intolerantes te convidamos a festejar conosco este solstí-
cio de inverno, te convidamos a esse mergulho visita para a pedra lapidada.

Temos estréias queridas nesta edição, muito nos honra as aquarelas do Daniel Santos
a arte do André Consciência que também estreia em texto somando o time da arte a su-
per Nemo e no projeto da capa do Victor Vieira, capa essa que aproveitamos para home-
nagear a estética de Euclydes Lacerda de Almeida grande divulgador da Lei de Thelema
no Brasil. Nos poemas temos estréia do Thiago Bostock. No texto temos a estréia queri-
da da Georgia Van Raalte dos frati Iohannes e Victor Vieira novamente, além do retorno
sempre bem vindo dos frati K39, Eudaimon e RRL, e de nossa equipe completa: as sorores
Adler e Ignis e os Frati Alhudud, Amaranthus, H418 e I156.

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SUMÁRIO

5 A Lei é para todos

11 The way of ABRAHADABRA

15 Pesquisa Iluminista

21 Thelemagick: dispersão e inércia

26 Poema Deusas

28 Nossa Senhora do Abismo. Entrevista com Georgia Van Raalte

31 Princípios da Companhia do Abismo

35 Porque o livro da lei é foda!

39 Simulacros & simulação

42 As regras Naqshbandi, parte Final

48 Poema filhos de Pã

50 Demonolatria Thelemica

58 Bruxaria Thelemica

61 Aleiter Crowley no cinema

69 Sobre o Caos

74 Neuroplasticidade, longevidade e Magick

83 Poema Ele Quem me Seduziu (extrato de diário do Aleister Crowley)

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Daniel Santos

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A LEI É PARA TODOS

A Lei é para Todos, mas nem Todos são para a Lei:


Um ensaio aos buscadores da Santa Ordem

A Lei que me refiro no título deste ensaio é a Lei de Thelema, que pode ser resumida
no axioma “Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei”. “Amor é a Lei, amor sob Von-
tade”. O que muitos desconhecem é que a Lei de Thelema sustenta quatro emanações:
Luz, Vida, Amor e Liberdade. Sem a compreensão dessas emanações o famoso axioma
perde seu verdadeiro sentido, ou seja, o “Faze o que tu queres”, transforma-se em “Faz
o que quiseres”, que é algo bem diferente. Sei que lhe parece confuso, e realmente é, e
o propósito é fazê-lo refletir como tudo isso se projeta nesse plano de discos. Se tornar
Thelemita significa vivenciar a Lei de Thelema, não apenas devorar sua ampla biblio-
grafia. Apenas a vivência lhe trará a mudança de consciência necessária para alcançar a
verdadeira compreensão da Lei.

“Pela Luz contemplareis a vós mesmos, e vereis Todas as Coisas, que em verdade são ape-
nas Uma Coisa, que tem sido chamada de Nada... Mas a substância da Luz é Vida, desde que
sem Existência e Energia a Luz não poderia ser. Pela Vida, portanto, vos sois tornando vos
mesmos, eternos e incorruptíveis, flamejantes como sóis, auto-criados e auto-mantidos...

Ora, assim como pela luz vistes, pelo amor sentis. Há um êxtase de puro Conhecimento,
e outro de puro Amor. E este Amor é a força que une coisas diversas, para a contemplação,
na Luz, da Unidade delas...

Finalmente, através da Liberdade tendes o poder de dirigir vosso curso de acordo com
vossa Vontade. Pois a extensão do Universo é sem limites, e vós sois livres de tomar prazer
como quiserdes, já que a variedade de existência é, igualmente, infinita.” (Liber LC)

Muitos se aproximam da ideologia Thelêmica, achando que vão encontrar em sua


filosofia (mal compreendia) respaldos para comportamentos egoístas, libertinos e irres-
ponsáveis, e o uso desses artifícios podem ser facilmente encontrados nas redes sociais,
ou nas solicitações de entrada em Ordens Thelêmicas. Não hesitam em deixar claro que
não conhecem nada da filosofia, e que o principal fator de aproximação é ligado a falsos
estereótipos ou apenas desejo de pertencer a um grupo.

Thelema emanando Luz, Vida, Amor e Liberdade, jamais é conivente com ideologias
opressoras ou qualquer discurso de ódio. Saber respeitar as diferenças é fundamental,
seja de gênero, raça, orientação sexual, crenças, política, etc. No universo há espaço para

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Revista 777 - A Lei é para todos

todos: cada estrela em sua orbita, e elas não precisam se chocar.

“Todo homem e toda mulher é uma estrela”. (Al i3)

Porém é necessário compreender que antes de ingressar em algum grupo (mesmo


em redes sociais) ou Ordem, é importante pelo menos estar disposto a respeitar os prin-
cípios da filosofia de Thelema e de seus membros, antes mesmo de se aprofundar nos
estudos. A Lei é para todos, mas nem todos estão aptos a comungar com Ela, e saber
reconhecer e aceitar essa condição, é um ato de sabedoria: existem inúmeros caminhos
além de Thelema, e com certeza, algum deve ser o seu.

“Pois também isto é a Alegria da Lei: que não há duas estrelas iguais, e vos deveis com-
preender que esta multiplicidade é, ela mesma, Unidade, e que sem ela a Unidade seria
impossível. E isto é uma dura asserção à Razão, que é apenas manipulação da mente, che-
gardes ao Conhecimento puro através da percepção direta da Verdade. Aprendei, também,
que essas quatro Emanações da Lei flamejam em todos os caminhos; elas vos serão úteis
não só nessas Rodovias do Universo das quais eu escrevi, mas em qualquer Atalho de vossas
vidas diárias.” (Liber LC)

Outro ponto que gostaria de ressaltar é quanto à escolha da Ordem que deseja fazer
parte. É providencial que você busque informações a respeito dos tipos de trabalho que
cada Ordem executa, verificando seu histórico, e analisando por qual delas você sente
maior identificação. Há Ordens Thelêmicas de caráter coletivo presencial, outras de ca-
ráter coletivo que também propõem estudo à distância, e a há também a Santa Ordem da
A.’.A.’., que se difere das outras por ter um trabalho de caráter individual, à distância, ba-
seado na relação instrutor versus instruído, onde seus membros não se encontram para
qualquer tipo de ritualística, ou seja, a A.’.A.’. não atua em um templo físico, não tem CNPJ.

No decorrer do texto irei abordar como são os primeiro contatos do candidato com a
Santa Ordem, pontuando alguns assuntos relevantes sobre o período do Estudante dos
Mistérios e também do início do Probacionato.

Ao Estudante dos Mistérios

A Santa Ordem é uma fraternidade puramente espiritual que mesmo baseada na re-
lação instrutor versus instruído, não é uma Ordem de instrução, e sim uma Ordem de
treinamento, cujas práticas se baseiam no método da ciência ou Iluminismo Científico e
no caminho da vivência da Lei de Thelema. Seu objetivo é alcançar a Grande Obra, que
consiste na Visão e Conversação do Sagrado Anjo Guardião.

Antes de ingressar na A.’.A.’., o candidato passa pelo período de Estudante dos Misté-
rios, que tem como finalidade prepará-lo intelectualmente para realizar o teste antes de
afiliar-se à Ordem como Probacionista. Assim que o candidato se inscreve para tornar-se

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Revista 777 - A Lei é para todos

estudante, ele recebe uma lista bibliográfica que provém de um currículo básico com
conteúdo Thelêmico e de varias escolas iniciáticas. O principal objetivo dessa fase inten-
sa de leituras é ampliar o conhecimento e auxiliar na compreensão da linguagem do ins-
trutor. Como o Estudante dos Mistérios não possui vínculo com a Ordem, esse período
também é muito útil para fazê-lo analisar e decidir se quer ou não seguir nesse caminho,
afinal, o ato de se desligar se torna muito mais fácil sem o peso de um juramento.

Há algumas regras de conduta que são recomendadas ao Estudante dos Mistérios, e


que muitos não são informados. A primeira delas é não poder ingressar como estudante
em duas linhagens ao mesmo tempo. Esse tipo de conduta, quando descoberta, resulta
no desligamento do candidato de uma das linhagens, quiçá, em ambas, e da Santa Ordem.

Outra medida aconselhável de boa conduta é o Estudante dos Mistérios avisar o seu
instrutor em caso de desistência. São muitos os que procuram ingressar na A.’.A.’., e mui-
tas vezes, os instrutores por estarem com grande quantidade de estudantes, ficamos
impossibilitados de aceitar outros. Por outro lado, compete também ao instrutor, se for
do desejo dele, pedir confirmação da renovação do período de Estudante dos Mistérios
assim que o seu candidato completar o ciclo de um ano.

O relacionamento entre o instrutor e seu estudante geralmente mantém um bom


distanciamento, mas sempre se colocando à disposição para tirar dúvidas ou passar in-
formações básicas. Cabe a cada instrutor definir o espaço de tempo que fará contato. A
lacuna de comunicação por parte do instrutor é proposital, visto que não há vínculo do
estudante com a Ordem, além disso, ele procura não interferir no ritmo dos estudos e
não influenciar na escolha do candidato, em seguir ou não o caminho. Contudo, nada im-
pede que o estudante mande às vezes “sinal de fumaça” ao seu instrutor, demonstrando
interesse e comprometimento com os estudos. Fica como dica.

Torna-se muito comum, o estudante entrar em contato com o instrutor em busca do


material de estudo. Só que atualmente a bibliografia indicada é facilmente encontrada na
internet e em grupos de estudo, então, convenhamos, faz parte da tarefa do estudante
providenciar os livros.

O relato mais comum dos candidatos é sobre a dificuldade de se organizar e criar uma
rotina para manter o estudo em dia, e isso, talvez, deva ser o principal motivo de muitos
desistirem. Realmente a quantidade de livros assusta, mas a recomendação é focar nos
assuntos que o estudante desconhece, e nos livros de Thelema. O ato de Persistência já
começa nesse primeiro momento, e assim, deverá permanecer por toda a jornada.

A A.’.A.’. é uma Ordem de ordálios, o que muito assusta, intriga e trás insegurança
àqueles que a procuram. Já surgiram questionamentos quanto à possibilidade do estu-
dante passar por ordálios durante essa fase. Pois bem, é perceptível que a dispersão já
começa a atuar veemente, por hora, nem isso pode confirmar tal especulação, afinal, a

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Revista 777 - A Lei é para todos

ocorrência dos ordálios apenas inicia-se a partir da assinatura do juramento do Proba-


cionista, que é quando o candidato cria vínculo com a egrégora, então é bem improvável
essa possibilidade. De certo que uns tem maior ligação com a egrégora da A.’.A.’. do que
outros, contudo, apenas a determinação em realizar o teste pode responder isso.

O teste para se tornar Probacionista pode ser pedido após o terceiro mês como estu-
dante. Porém, há casos e casos. Por exemplo: há estudantes que pedem acesso à Ordem
que já possuem uma boa bagagem de vivência no ‘ocultismo’, ou mesmo em Thelema, en-
tão, se eles já têm intimidade com o assunto proposto no currículo, não há necessidade
de prolongar o período. Entretanto, mais uma vez fica a critério do instrutor definir o que
me melhor se adapta ao caso do estudante.

Agora, para aqueles que estão vendo pela primeira vez os assuntos, ou não tem muita
intimidade com eles, o melhor momento a pedir o teste, é quando sentirem confiança
que o conteúdo estudado já é suficiente para fazê-lo. Compreendam que para o período
do estudante, a ideia não é se aprofundar nos assuntos sugeridos, e sim ter um conheci-
mento prévio competente a prosseguir com os estudos e as práticas do Probacionato a
diante.

Sabe-se que apenas o ato de conseguir ingressar como Estudante dos Mistérios já é
um momento de sucesso, por saber da dificuldade que é conseguir fazer contato com a
Ordem. A alegria da conquista preenche de tal forma, que acaba por vez alimentando o
ego, a ponto de desviar o candidato dos estudos. Quando ele desperta para isso, o tempo
já passou e a lista de livros continua enorme. Isso é recorrente, assim como também é
normal sentir medo de pedir o teste e não atender aos requisitos do instrutor. Para mui-
tos instrutores, o mais importante do teste não é se deparar com respostas corretas, mas
sim avaliar a ortografia, a linguagem, a capacidade de discernimento, clareza, objetivida-
de, e com isso observar traços da personalidade do futuro Probacionista que irá receber
(ou não). É inacreditável, como nos primeiros contatos já pode se ter uma breve noção de
como será a relação com o novo Probacionista.

Para fechar, uma dica aos estudantes: organize um tempo, se possível, diário, para os
estudos; não deixe o medo, a ansiedade e o desânimo sabotarem o desejo de vocês; no
início os buscadores de Thelema tendem sempre a cair na armadilha do ego ao interpre-
tar erroneamente o “Faze o que tu queres”, se atente a isso; e por fim Persista.

Ao Probacionista

Após ter realizado e passado no teste, o estudante se torna Probacionista. Nesse grau,
que é o primeiro da Santa Ordem, o Aspirante terá como objetivo realizar sua Grande
Obra que é reconhecer a Natureza e os Poderes do seu eu Próprio Ser.

Mas para isso, ele terá que passar pelo treinamento referente ao seu grau, de acordo

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Revista 777 - A Lei é para todos

com os Libri 185 e 13, estando sob as instruções de um instrutor. A regularidade das prá-
ticas, principalmente da prática do Liber Resh, é essencial para que ele possa cumprir o
que assinou no juramento, ou seja, realizar sua Grande Obra. Seu treinamento será ava-
liado através dos relatos que fizer no diário mágico, e o mesmo deverá ser entregue ao
seu instrutor na frequência determinada por ele.

O Probacionato, como o próprio nome diz, é um período onde o Aspirante irá pas-
sar por diversas provações. Será testado pelo instrutor, será testado pelo seu principal
ordálio, a Dispersão, e principalmente, será testado pelo próprio ego. Esse último sim
é o ordálio mais difícil de ser percebido pelo probacionista, porque ele se esconde por
detrás dos traços da personalidade do Aspirante, disfarçados em preguiça, descaso com
as práticas, com os estudos e com a vida, dificuldade de aceitar instruções, arrogância,
carência excessiva, desconfiança quanto à capacidade de instrução do instrutor, dentre
outros inúmeros aspectos.

Logo no primeiro contato que o Aspirante tem com seu instrutor, após assinar o jura-
mento, lhe é solicitado que leia o Liber LXI, Liber Cause. Esse Liber além de expor uma
breve história da Santa Ordem, há na primeira parte uma Lição Preliminar que é de gran-
de valor á todos os membros da A.’.A.’., pois ele aborda a Iniciação, o iniciado e o iniciador.
Um conteúdo que deveria ser revisto com certa frequência por todos, e nunca ignorado
por um Probacionista.

“Embora ninguém possa comunicar o conhecimento ou o poder para realizar isto que
nós podemos chamar a Grande Obra, é, todavia, possível que os iniciados guiem outros.”
(Liber LXI)

É de suma importância que todo Probacionista tenha em mente que os instrutores,


não são Professores, nem Mestres, mas que tem um papel imprescindível dentro de uma
linhagem. Cada qual com seu jeito de ser, de se expressar, e acima de tudo com experiên-
cia suficiente para guiar aquele que está começando no caminho, ou, que mesmo já tenha
alçado alguns passos à frente.

O instrutor não está preocupado com o nível intelectual do instruído, não quer saber
a quantidade de livros que ele leu em sua jornada, muito menos, concorrer no quesito
conhecimento. O que ele realmente almeja, é realizar sua missão, colocando-se à dispo-
sição atenciosamente; dando aquelas dicas essenciais (os famosos ‘pulos do gato’), bem
como regozijar-se com as conquistas e sucesso do instruído, aprendendo sempre muito
com ele.

“Todo homem deve superar seus próprios obstáculos, expor suas próprias ilusões. Porém,
outros podem ajudá-lo a fazer ambos, e eles podem torná-lo completamente apto a evitar
muitos dos falsos caminhos que não levam a lugar algum, os quais tentam os pés cansados
do peregrino não iniciado. Eles podem, além disso, assegurar que ele seja devidamente pro-
vado e testado, pois há muitos que pensam ser Mestres, os quais sequer começaram a trilhar

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Revista 777 - A Lei é para todos

o Caminho do Serviço, que para lá conduz.” (Liber LXI)

Finalizo esse ensaio, com a esperança de tê-los feito compreender a escolha do título.
Reafirmo: A Lei é para todos, mas todos aqueles que estejam dispostos a vivenciar uma
constante mudança consciencial, em prol de se desvencilhar das amarras socioculturais
relativas a padrões que fogem dos princípios da Lei de Thelema.

Quis abordar durante o ensaio o período de Estudante dos Mistérios e alguns pontos
que vejo relevância no Probacionato, por serem os primeiros contatos do Aspirante com
a Santa Ordem. As experiências daqueles que passam ou irão passar por essa fase são
bem semelhantes às adquiridas pelos irmãos mais antigos, então, por isso precisam ser
compartilhadas, no intuito de esclarecer dúvidas e eliminar qualquer tipo de dogma ou
informação equivocada vinculada a vivência na Ordem.

O caminho da Lei é de evolução espiritual, e exige um intenso trabalho interno, que


precisa ser realizado com muita disciplina. É um trabalho minucioso do encontro Con-
sigo Mesmo, onde aprendemos a reconhecer e a respeitar nossa natureza, valorizando a
si e ao próximo.

Convido-os a permitirem-se a abrir os olhos para um novo horizonte onde a Luz, a


Vida, o Amor e a Liberdade possam imperar. Por fim:

“Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.” (Al i40)


“Amor é a Lei, amor sob Vontade.” (Al i57)

Soror Ignis
ignis@abadiadethelema.com

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THE WAY OF ABRAHADABRA

Excerto de The Way of Abrahadabra, “Introdução”, de André Consciência


https://siriuslimitedesoterica.blogspot.com/2020/01/the-way-of-abrahabra.html

O leitor talvez tenha vivido tempo suficiente sob a penumbra pelo que, para não
acrescentarmos à sua demora, à sua ânsia de encontrar a sua clareira na treva ululante,
deverei abreviar esta introdução. Ainda assim, sugerimos que o leitor a leia lentamente,
que pare, de momento a momento, e que coloque estas breves palavras sob meditação,
tanto como a pesquisar sobre qualquer conceito do qual seja ainda ignorante, pois esse
labor aloja já a luz do Sol.

É uma tarefa árdua, a minha, encontrar uma forma de explicar rapidamente e em te-
oria a estrada aberta que estamos prestes a expor ao aventureiro em perigo. Os antigos
acreditavam que o espaço mental e o tempo emocional se entrelaçavam com todas as
noções físicas, pelo que pela extensão do espaço e do tempo havia também a intenção do
espaço e do tempo, que o interior e o exterior eram igualmente ilimitados em proporção,
apenas ancorados na vontade de um ser consciente. Tal lei parecia também implicar que,
uma vez a consciência instalada, não interessa quando ou onde, não restava parte do
universo testemunhado que não fosse animado por uma sensibilidade inteligente numa
relação metafísica e de alguma forma sexual com a imaginação. Era assim que o falo do
universo impregnava o ventre de Adão, a sua caveira, Adão nomeando a manifestação
com diferentes títulos, pelo que, nessa altura, a criatividade pura e original regulava o
caos. O que nos traz à fórmula do nosso título: Abrahadabra.

Abrahadabra é Abracadabra transformado pelo autor Aleister Crowley de modo a con-


ter as impregnações do espírito santo, ou seja, do agente visionário, o fluido secreto que
se gera através da fricção e libertação entre matéria – imanifesta como é – e a sua expe-
riência sensível – cujos antigos sábios tinham como o manifestado. Não é que o homem,
enquanto ser sensível, seja completo e o universo vazio antes de este o experimentar,
em vez o homem, como um microcosmo ou um mundo interior, está vazio até ser to-
cado pelo universo – o macrocosmo –, sendo o imanifesto que manifesta o ser sensível.
O nosso objetivo é explorar as possibilidades animistas desta teoria com as ferramentas
que pensamos próprias.

A teoria parece confirmar que as possibilidades inerentes são, claro está, inumeráveis,
mas para as explorar e traduzir aquilo que é imanifesto naquilo que se manifesta, a arma
livremente à nossa disposição é aquilo que se limita e as ferramentas devem ser de uma
natureza passível de ser medida e organizada numa fórmula ou várias.

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Revista 777 - The way of ABRAHADABRA

Há, assim, cinco símbolos contidos na palavra Abrahadabra:

A coroa, referindo-se ao domínio da mente sobre os fenómenos que testemunha ou,


por outras palavras, ao ventre cerebral que governa sobre o falo do universo, pois a nossa
palavra é tântrica e com o feminino ao topo.

A vara, que parece defender que uma vez o microcosmo impregnado pela relação
sexual descrita entre a força e a matéria e que uma vez o mundo interno do indivíduo
se estruture segundo o amor resultante, o ventre de Adão se torna no falo de Lilit: a sua
língua, a sua palavra, o seu conhecimento ou, por outras palavras, a consciência humana.
Esta é a ferramenta que o mago, o nosso cosmonauta e aventureiro, utilizará para teste-
munhar plenamente o espírito sob as camadas que o rodeiam.

O copo, que nos conta da nova habilidade que o mago tem de se tornar consciente-
mente vazio, quando anteriormente estava inconscientemente vazio. Este é o copo que
leciona sobre a capacidade de alguém se tornar uma manifestação consciente do infinito,
se anteriormente o mago apenas se deixava guiar cegamente pelas inúmeras possibili-
dades. O copo é, assim, a concha que hospeda, uma vez mais, o falo macrocósmico da
força, mas quando antes só a mente, independente de todos os fenómenos, era capaz de
receber a divindade, a gnose ou a experiência sensível e original do universo, a consciên-
cia fará agora de cada parte do mago igual à mente, transformando cada parte de si em
inteligência viva e vivificada. Estas partes, uma vez ativadas, são canais diretos ou portas
entre a energia e a matéria.

A espada, que é a vara hermafrodita representada de forma quadripolar, indica a fusão


entre a perceção individual do mago e a imaginação coletiva que ele recebe do universo
e que articula pelos seus canais. A espada é a ígnea união da vontade individual com a
vontade cósmica, enquanto o último símbolo contido na fórmula de Abrahadabra, a ro-
sa-cruz, é onde a consciência cósmica e a individual se tornam na mesma. Certamente,
este é e tem de ser um processo contínuo, mas uma vez que a qualidade cósmica e primal
na sua exatidão é impressa na individualidade do mago não há como voltar atrás. Não se
retorna à virgindade, e a rosa-cruz é análoga ao orgasmo.

O autor escolheu atribuir a fórmula ISIS a este processo, a coroa e o copo sendo o
primeiro e o segundo I, a vara e a espada sendo o primeiro e o seguno S, enquanto a rosa-
-cruz é a espiral do duplo S intersectado pela cruz do duplo I. Juntamente com as razões
porque o fiz que poderão ser consultadas pelo leitor posteriormente, tal escolha incide
no diagrama tântrico para a interação entre matéria e perceção. O I, na sua posição verti-
cal, implica a vagina trancada ao pénis, enquanto o S se refere ao movimento do coito. Tal
como fazer amor é um verbo, ISIS afirma que o fluxo destes estágios é cíclico e contínuo:
a mente recebe e molda os impulsos do corpo, ganha consciência e consequentemente o
corpo ganha noção de si mesmo, juntos recebendo o mundo para se tornarem tão vastos

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Revista 777 - The way of ABRAHADABRA

quanto as suas vistas. Enquanto assim o fazem, a mente continua a receber e a moldar os
impulsos do corpo recém-informado, uma consciência mais completa prossegue a sua
evolução na mente e a consciência imanente ao corpo continua a expandir. Juntos, rece-
bem e transmitem o mundo. A rosa-cruz está inteiramente neste processo mas também
além dele, tal como o orgasmo, quando chega, está nos corpos que se relacionam e além
deles.

Por tais métodos formula-se o IAO – Isís, Apófis, Osíris -, sendo que a caveira recebe
o imanifesto e lhe dá forma com a destruição a que os velhos anjos chamavam pelo nome
de luz e os nossos filósofos pelo nome de imaginação, o imanifesto então renascendo
como um ser humano completo.

Em Abrahadabra como fórmula está também contida a soma de todos os seus inteiros
entre 13 e 31, razão pela qual a coluna dorsal dos nossos métodos no que toca a obra em
questão está na ação do espiritual sobre o intelecto, a emoção e o corpo, e na luta des-
tes três para encontrarem equilíbrio entre eles e sobreviverem aos ataques do espírito,
permanecendo o 1 e o 3 como as duas colunas que seguram o Templo de Salomão, a Casa
da Sabedoria.

Finalmente, em aramaico, Abrahadabra significa “crio enquanto falo”, que é a afirma-


ção por direito da imaginação uma vez completa e em posse de todas as suas armas, as
suas componentes estando equilibradas.

A palavra Abrahadabra, na sua completude, não pode ser dita sem os feitos de LVX e
de NOX, o que significa que alguns automatismos inconscientes do individuo que trilhará
o caminho que apresentaremos necessitarão de ser sacrificados e que, onde estiveram
ativos devem tornar-se passivos e os seus significados devem ser alterados para que a
besta inconsciente aprenda com a mente e se torne tão esclarecida quanto esta. Enquan-
to o esclarecimento estagna e não se deixa incomodar pelo tempo, a besta move-se por
instinto: o objetivo é criar o estado mais enaltecido de imaginação, um esclarecimento
articulado e dinâmico e o seu governo sobre os assuntos do mundo. Mundo este que se
fecha ao mago a menos que a sua luz seja gloriosa e as sua visões completas o suficiente
para sobreviverem por si mesmas. Quando o mundo se rende a estas visões e a besta se
capacita de influenciar a terra tal como se diz que as estrelas governam os destinos, é
apresentada ao leitoso peito descoberto que é a consciência original do cosmos, de outra
forma tornando-se a besta numa vampira e numa tirana. No usufruto deste peito e nunca
antes na vida do mago, conhece este a inocência, pela primeira vez bebé e de consciência
amadurecida.

Tais jornadas são a proposta do autor, mas o mapa sem a terra não serve para nada, e
nem tanto servirá a leitura do que virá sem o domínio da prática.

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André Consciência

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PESQUISA ILUMINISTA

The person who confesses that there is such a thing as truth, which is distinguish-
from falsehood simply by this, that if acted on it will carry us to the point we aim
at and not astray, and then, though convinced of this, dares not know the truth
and seeks to avoid it, is in a sorry state of mind indeed1.

Logo ao anunciar-se para o mundo nas primeiras páginas da sua primeira publicação2,
A.’.A.’. usou a expressão “iluminismo científico” para qualificar seu método e seu sistema.
Do mote — o método da ciência, o objetivo da religião — podemos inferir que “ilumi-
nismo” refere-se ao contexto religioso, da iluminação espiritual3. Qual é o sentido para
“científico” nesse contexto? O que pode haver de científico em um sistema de iluminação
espiritual? Nesta breve discussão, vamos nos debruçar sobre um dos aspectos implícitos
no conceito: a pesquisa.

Pesquisa é uma palavra com sentidos envolvendo o estado de dúvida e as ações que se
toma para saná-lo. Pesquisador é uma pessoa atuando para satisfazer uma dúvida, para
transformá-la em certeza. A história da pesquisa está intimamente relacionada à história
da dúvida e a história da certeza. Sabemos que dúvidas significativas já estavam sendo
solucionadas pelas civilizações mesopotâmicas e andinas, entre outras, três mil anos an-
tes do início do calendário gregoriano. Estes povos domesticavam animais, praticavam
agricultura com sistemas de irrigação, fabricavam objetos em diversos materiais, mediam
o tempo, acompanhavam os ciclos naturais e nos deixaram impressionantes monumen-
tos construídos artificialmente. Ao longo dos cinco mil anos seguintes, diversas novas
dúvidas foram sanadas sobre estes e outros assuntos de ordem material, bem como ou-
tros ainda de ordem mais abstrata. Toda essa história está hoje subsumida na grandiosa
História da Ciência4.

Para compreender o contexto do “iluminismo científico” é crucial uma visão do pro-


cesso chamado de “revolução científica”. Os detalhes deste processo não caberão nesta
breve discussão. Será suficiente reconhecer uma de suas rupturas fundamentais, uma
cisão na forma de solucionar dúvidas: ao invés de consultar a Autoridade, consultar as
próprias coisas.

Pierce, no “The Fixation of Belief”, descreve quatro métodos para solucionar dúvidas: o
método da tenacidade, o método da autoridade5, o método a priori e o método científico.
1 Charles S. Pierce, “The Fixation of Belief ”, in “Popular Science Monthly”, vol. 12, new York, 1877-1878, p. 14
2 “The Equinox”, volume I, número 1, London, 1909, pp. 2-3
3 Ao invés do pensamento típico do período histórico de mesmo nome.
4 Veja, por exemplo, Lynn Thorndike, “A History of Magic and Experimental Science”.
5 Peirce, op. cit., p. 8

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Revista 777 - Pesquisa Iluminista

Ele descreve assim o “método da autoridade”: “Let an institution be created which shall
have for its object to keep correct doctrines before the attention of the people, to reite-
rate them perpetually, and to teach them to the young; having at the same time power to

prevent contrary doctrines from being taught, advocated, or expressed. Let all pos-
sible causes of a change of mind be removed from men’s apprehensions. (…) Then let all
men who reject the established belief be terrified into silence.”

Instituições como a Igreja Católica exerceram esta função na sociedade europeia por
séculos. O crime de heresia levaria a pessoa à morte, ao encarceramento ou ao ostra-
cismo. Neste ambiente, a pesquisa se resume à interpretação: o dogma contém o que há
para saber.

Na opinião de Peirce, o método da autoridade, por mais eficiente seja, não suportará
o teste do tempo6: “But no institution can undertake to regulate opinions upon every
subject. Only the most important ones can be attended to, and on the rest men’s minds
must be left to the action of natural causes. This imperfection will be no source of we-
akness so long as men are in such a state of culture that one opinion does not influence
another — that is, so long as they cannot put two and two together.” Cornelis de Waal,
discutindo a obra de Peirce, cita o caso de Galileo7: “A famous example is the swinging
lamp in the cathedral of Pisa that awoke the young church-going Galileo’s interest in
physics, an interest that was instrumental in ending the authoritatively fixed belief that
the earth is the unmoving center of the universe.” De acordo com Peirce8, “To satisfy our
doubts, therefore, it is necessary that a method should be found by which our beliefs may
be caused by nothing human, but by some external permanency — by something upon
which our thinking has no effect. (…) It must be something which affects, or might af-
fect, every man. And, though these affections are necessarily as various as are individual
conditions, yet the method must be such that the ultimate conclusion of every man shall
be the same.” Para satisfazer nossas dúvidas de uma maneira que não depende do que a
Autoridade acha, do que eu acho, do que você acha ou do que qualquer pessoa em par-
ticular acha, se faz necessário um tipo de pesquisa diferente da interpretação do dogma.

Hoje, denominamos Ciência a coleção dos princípios, métodos e ferramentas que via-
bilizam este tipo de pesquisa. Peirce os resume em uma hipótese fundamental9: “There
are real things, whose characters are entirely independent of our opinions about them;
those realities affect our senses according to regular laws, and, though our sensations
are as different as are our relations to the objects, yet, by taking advantage of the laws of
perception, we can ascertain by reasoning how things really are”. O saber será oferecido
pelas próprias coisas aos sentidos do pesquisador.

6 Peirce, op. cit., p. 9


7 Cornelis de Wall, “Peirce: a Guide for the Perplexed”, capítulo 6, seção 2
8 Peirce, op. cit., p. 11
9 Peirce, op. cit., p. 10

16
Revista 777 - Pesquisa Iluminista

Em uma das principais instruções da A.’. A.’., “Liber Exercitiorum”, encontramos uma
orientação espiritual atípica: “It is absolutely necessary that all experiments should be
recorded in detail during, or immediately after, their performance. It is highly important
to note the physical and mental condition of the experimenter or experimenters.

The time and place of all experiments must be noted; also the state of the weather, and
generally all conditions which might conceivably have any result upon the experiment
either as adjuvants to or causes of the result, or as inhibiting it, or as sources of error. (…)
The written record should be intelligibly prepared so that others may benefit from its
study. (…) The more scientific the record is, the better. Yet the emotions should be noted,
as being some of the conditions.” Esta orientação notável estabelece o testemunho dos
sentidos como uma fonte primária do saber sobre o resultado das práticas realizadas.
Elementos subjetivos são reconhecidos lado a lado a elementos objetivos como parte do
real: é preciso observar e registrar a temperatura tanto quanto as emoções.

Neil deGrasse Tyson descreve o método científico de uma maneira muito curiosa10:
“The scientific method is: do whatever it takes, whatever it takes, to not fool yourself into
thinking that something is true that is not, or into thinking that something is not true that
is. That is the scientific method. Whatever it takes.” Ao assumir um real independente do
que eu, você ou qualquer pessoa em particular pense dele, torna-se evidente a possibi-
lidade de que se tenha sobre este real uma certeza com a qual ele mesmo não concorda.
Em outras palavras, algo que é independentemente do que se pensa dele, justamente, o
que se pensa dele é independente do que ele é. Ao abandonar a autoridade e fazer refe-
rência às coisas, procuramos pensar sobre elas pensamentos conforme o que elas são. De
acordo com Tyson, “It’s you and Nature. And you know the cool thing about it? Nature is
the ultimate judge, jury and executioner. You can argue all you want. But if Nature doesn’t
agree with you, you are wrong. Whatever bias you are bringing to the table, Nature will
decide. So you have to make sure that your methods and tools allow Nature to manifest
in whatever way it can, to give you the guidance to where the Truth lays11.”

A possibilidade da auto-ilusão, o desvio do pensamento pelo viés, é reconhecida pela


A.’. A.’. em suas instruções. Em outra de suas principais instruções, “Liber Manus et Sagit-
tae”, encontramos uma abordagem deste risco: “It is essential that he remain the master
of all that he beholds, hears or conceives; otherwise he will be the slave of illusion, and
the prey of madness. (…) There is little danger that any student, however idle or stupid,
will fail to get some result; but there is great danger that he will be led astray, obsessed
and overwhelmed by his results, even though it be by those which it is necessary that he
should attain.” É devido estabelecer controle sobre o erro. Os sentidos, fonte de informa-
ção sobre o resultado das experiências, devem ser corrigidos sempre contra a possibili-
dade de desvio.

10 masterclass.com, “Neil deGrasse Tyson”, aula três, acessada na data 2020-04-29.


11 idem.

17
Revista 777 - Pesquisa Iluminista

No editorial do primeiro número do “Equinox”, esta preocupação está expressa12: “a


series of scientific experiments, designed to instruct beginners in the groundwork of
Scientific Illuminism, and to prevent them from falling into the self deception which pri-
de always prepares for the unwary.” Justamente por seu alto grau de subjetividade, a
pesquisa proposta pela A.’.A.’. é particularmente sujeita a produção de falsas certezas. Não
apenas aquelas da auto-ilusão, mas, também, da ilusão produzida por terceiros. No mes-
mo editorial, esta preocupação particular está expressa: “It is easy for every charlatan to
perform wonders, to bewilder and even to deceive not only fools but all persons, however
shrewd, untrained in observation ; nor does the trained observer always succeed ins-
tantly in detecting the fraud.”

Como visto, o método científico busca sanar a dúvida por referência às coisas, ao in-
vés de autoridade ou outro dispositivo. Porém, esta referência, mediada pelos sentidos,
inclui uma condição inerente de desvio. Através da referência direta às coisas, eu evito o
erro do viés alheio, mas não evito o erro do meu viés. Além disso, nada está dito ainda so-
bre o poder dos próprios sentidos neste processo. Parafraseando Tyson, são necessários
métodos e ferramentas para empoderar a Natureza a se apresentar em imagens mais e
mais perfeitas, nos guiando para verdades mais e mais conformes às coisas.

Consideremos as ferramentas. Dois exemplos básicos de ferramentas desenvolvidas


para este fim são o telescópio e o microscópio. Com o seu auxílio, imagens mais perfeitas
são obtidas das coisas muito grandes e distantes e das coisas muito próximas e pequenas.
Com o aumento da acurácia na observação da posição e dos movimentos das coisas, um
saber mais e mais certo sobre a sua dinâmica pôde ser desenvolvido. Hoje, somos capa-
zes de antecipar com grande precisão o futuro próximo ao ponto de sermos capazes de
causar naves espaciais a chegar em um destino previsto do outro lado do sistema solar. A
operação de ferramentas como o telescópio e o microscópio está sujeita a um baixo grau
de subjetividade. Para a geração de um saber objetivo, esta propriedade é inestimável. A
partir dos grandes sucessos entregues por suas ciências, uma noção particular do que
Ciência deve ser acabou por se consolidar. De acordo com sir Arthur Eddington, “This
question is very much simplified by the fact that, although all our senses may be used
for exploring the physical universe, most of them are redundant and merely corroborate
the information which can be obtained by others. It is therefore unnecessary to know at
this stage the exact scope of the term ‘sensation’. It is sufficient if we can distinguish by
direct awareness a particular class of sensations, which by itself is sufficient to reveal all
that is known of the physical universe. Ideally all our knowledge of the physical universe
could have been reached by visual sensation alone — in fact, by the simplest form of visu-
al sensation, colourless and non-stereoscopic.13” Esta noção de Ciência não reconhece a
necessidade ou pertinência de um acesso completo dos sentidos ao real. Não há um real
que exija mais do que um único e simplório sentido para perceber. A experiência com-
pleta das coisas reais é redutível a leitura de um ponteiro em um instrumento de medida.
12 “The Equinox”, vol. I, n. 1, editorial
13 Arthur Eddington, “The Philosophy of Physical Science”, Cambridge, 1949, p. 197

18
Revista 777 - Pesquisa Iluminista

De acordo com Ernst Lehrs14, “Science, since Galileo, has been rooted in the conviction
that the logic of mathematics is a means of expressing the behaviours of natural events.
The material for the mathematical treatment of sense data is obtained through measu-
rement. The actual thing, therefore, in which the scientific observer is interested in each
case, is the position of some kind of pointer. In fact, physical science is essentially, as
Professor Eddington put it, a ‘pointer-reading science’. Looking at this fact in our way we
can say that all pointer instruments which man has constructed ever since the beginning
of science, have as their model man himself, restricted to colourless, non-stereoscopic
observation. For all that is left to him in this condition is to focus points in space and
register changes of their positions. Indeed, the perfect scientific observer is himself the
arch-pointer-instrument.”

Nesta concepção de Ciência não há espaço para um real cujas condições incluem
emoções. As limitações desta concepção são notadas por E. F. Schumacher em seu “Gui-
de for the Perplexed”15: “Restricting ourselves to this mode of observation, we can indeed
eliminate subjectivity and attain objectivity. Yet one restriction entails another: We at-
tain objectivity, but we fail to attain knowledge of the object as a whole. Only the ‘lowest’,
the most superficial, aspects of the object are accessible to the instruments we em-
ploy; everything that makes the object humanly interesting, meaningful and significant
escapes us.” E. F. Schumacher aborda o problema nos termos de uma adequatio: “The
Great Truth of ‘adequatio’ affirms that nothing can be perceived without an appropriate
organ of perception and that nothing can be understood without an appropriate or-
gan of understanding16.” Esta observação o conduz a construir uma estrutura de “níveis
de existência” caracterizados pela adequatio capaz de percebê-los: o “mundo mineral”
perceptível pelos sentidos imediatos, o “mundo vegetal” perceptível pela “vida”, o “mun-
do animal” perceptível pela “consciência” e o “mundo humano” perceptível pela “auto-
consciência”. Não precisamos admitir o modelo de Schumacher para reconhecer que
o alvo da Religião, a solução das dúvidas típicas do “iluminismo”, não será atingido por
leituras do ponteiro de um eletroencefalograma. Como disse Wilde17, “Em uma palavra,
é indispensável, como pedia o oráculo grego, conhecer-se a si mesmo. Este é o primeiro
passo para a sabedoria. Mas a última frase desta se alicerça em convencermo-nos da
insondabilidade da alma humana. Nós próprios somos o mistério final e mesmo depois
de havermos calculado o peso do sol e as fases da lua e traçado o mapa dos sete céus,
resta-nos ainda conhecermo-nos a nós mesmos. Quem poderia calcular a órbita de sua
própria alma?” Não podemos admitir esta concepção de Ciência como aplicável para os
experimentos do Iluminismo Científico. Seus métodos e ferramentas são inadequados.

Esta concepção restrita não é necessária. Como vimos anteriormente, temos à nossa
disposição uma concepção de Ciência que não a restringe ao alcance de uma visão mo-
14 Ernst Lehrs, “Man or Matter”, (ano), p. 132
15 E. F. Schumacher, “Guide for the Perplexed”, Perennial Library, 1979, p. 53
16 E. F. Schumacher, op. cit., p. 50
17 Oscar Wilde, “A Tragédia de Minha Vida”, Biblioteca Universal Popular, volume 32, 1964

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Revista 777 - Pesquisa Iluminista

nocromática não-estereoscópica. Para satisfazer concepções como as de Peirce e Tyson,


deve-se empregar as ferramentas necessárias para referir nossas dúvidas à Natureza, ao
Real, e fazer tudo o que for possível para permitir que a verdade sobre as coisas esteja
conforme as próprias coisas e não aos nossos diversos vieses e auto-ilusões. Ao invés de
um critério de exclusão baseado na existência ou não existência de instrumentos com
ponteiros, temos um critério de acurácia baseado no grau de aperfeiçoamento dos sen-
tidos usados para obter das coisas o seu testemunho.

A pesquisadora do Iluminismo Científico tem a sua disposição portanto uma concep-


ção de Ciência adequada para cumprir a meta da A.’.A.’., atingir o alvo da Religião. Métodos
estão definidos através dos quais a pesquisadora poderá reproduzir a pesquisa de seus
predecessores. A dúvida sobre a coisas será sanada pela observação pessoal conforme o
testemunho dos próprios sentidos. A admissão de um real independente da pesquisadora
a conduz, pelos critérios e recomendações da Ciência, a empregar todos os métodos e
ferramentas que estiverem ao seu alcance para controlar o erro da observação e corrigir
o viés e a auto-ilusão que fatalmente afetará suas conclusões. Isto não implica admitir
que nenhuma coisa em particular é real, mas, pelo contrário, admitir que existe alguma
coisa pode ser ou pode não ser real, pode ser ou pode não ser um artefato da nossa opi-
nião. Isto não implica excluir os objetos subjetivos do real, mas, pelo contrário, reconhe-
cer a existência desses objetos conforme o testemunho que os sentidos dão sobre eles, e
empregar controles sobre sua observação para diminuir o erro.

Não esgotamos todas as características atribuídas a concepção de Ciência. Em parti-


cular, não tocamos na questão da mútua corroboração. Porém, construímos uma imagem
da pesquisa científica, e a encontramos adequada para responder questões do Iluminis-
mo Científico, desde pequenas questões, como “esta afirmação sobre pranayama é ver-
dade?”, até grandes questões, como “qual é a natureza e os poderes do meu próprio ser?”.

K. 39

20
Revista 777

THELEMAGICK: DISPERSÃO E INÉRCIA

Faze o que Tu queres há de ser tudo da Lei.

O Probacionato é considerado por muitos o estágio mais importante do Colégio Ex-


terno da Santíssima Fraternidade da Astrum Argentum, o que é representado pelo robe
do Probacionista que é também robe do Adeptus Minor. Como ele não reconhece de cara
sua Divindade, ele morde o fruto do bem e do mal e seu robe torna-se escuro até que ele
alcance o Conhecimento e Conversação de seu Sagrado Anjo Guardião. Apesar de o pró-
prio probacionista definir suas tarefas e como progredirá, a experiência tem mostrado
que isso pode ser de extrema dificuldade para alguns. Ele é testado em sua Persistência
apenas, na sua capacidade de trabalhar por si só, com o mínimo de apoio de seu Neófito.
Essa Persistência é associada aos ordálios da Dispersão e da Inércia.

É importante que o Probacionista não foque extremamente no objetivo final que é se


tornar um Neófito, mas sim no processo de experimentar o Probacionato. O objetivo final
raramente está sob seu controle, enquanto o que você coloca no processo está. Focar em
um objetivo distante não dará garantia de sucesso: quem vence e quem falha no Proba-
cionato tem os mesmos objetivos! Enquanto você se torna oficialmente Neófito em ape-
nas um dia (quando completa a contento da Astrum Argentum sua tarefa), seu processo
teve, no mínimo 365 dias: ou seja, o chegar é apenas uma parcela ínfima da caminhada.
Não se cobre excessivamente no quê conseguir, mas sim no porquê conseguir (tenha cla-
ro em sua mente, por exemplo, o porquê de ser importante se tornar Neófito).

Tratar o Probacionato e todos os estágios da Astrum Argentum como processos e não


como graus ou objetivos ajuda a evitar a Dispersão e a Inércia. Um sistema é basicamente
definido como uma entrada x, que passa por um processo y, e gera uma saída z: z = x*y.
A saída de um sistema depende de uma entrada que é sua intenção/aspiração/motiva-
ção submetido a um processo. A entrada do sistema será nós mesmos, com nossa visão
de mundo atual e nossa identidade. Para conseguir o nível necessário de motivação, o
objetivo deve se tornar uma faceta de sua identidade, algo que ele realmente considere
relevante.

O estudante pode iniciar um hábito de praticar porém só persistirá se o sistema e os


processos forem integrados em sua identidade. O diário serve como guia nessa caminha-
da, onde conhecemos quem somos, determinamos onde queremos chegar e medimos
continuamente nosso progresso nessa caminhada, passo a passo. Perguntas como “Que
tipo de pessoa se torna Neófita?” podem ajudar a determinar quem você busca se tornar.
A resposta para essa pergunta é um “probacionista que conclui sua tarefa”. Isso gera ou-

21
Revista 777 - Thelemagick: dispersão e inércia

tra pergunta, “Que tipo de Probacionista conclui sua tarefa?”. Esse tipo de pergunta traz
clareza quanto ao que se deve realizar no processo. Ficamos desmotivados não porque
não sabemos ou queremos fazer, mas sim porque não temos clareza do que vamos fazer.

O processo de viver é baseado em decisões e toda ação que fazemos pode ser vista
como um problema que precisa de solução. A recompensa é sempre citada no juramento
para que o Probacionista aplique a ideia de retorno e entenda que o prazer associado à
Consecução é um bem valioso e que jamais será tirado daquele que venceu. Você pode
inclusive usar a ideia de recompensa nas suas práticas diárias, para obrigar seu subcons-
ciente a persistir. Quem persiste no Probacionato prova a si mesmo que pode persistir
em qualquer outra coisa da vida e que é de extrema resiliência. Ver o Probacionato como
um problema a ser solucionado e reconhecer que haverá uma recompensa faz com que
nos motivemos e persistamos.

Podemos dividir o processo de Consecução em quatro etapas relacionadas aos quatro


mundos cabalísticos: Atziluth, ou arquétipo, a nossa percepção espiritual, a percepção e
reconhecimento de que há uma recompensa. Essa etapa é mais uma inferência do que
uma intuição, pois temos certeza que teremos uma recompensa (um bem estar) depois
de concluir nossa Tarefa Mágica. O segundo estágio é relacionado com o sentimento ou
com Briah, onde sentimos e desejamos a recompensa. Aqui devemos lembrar do nosso
objetivo microcósmico (“fazer o Ritual do Pentagrama”) que se relaciona com nosso ob-
jetivo macrocósmico (“Tornar-me um Neófito”). O terceiro estágio está relacionado com
Yetzirah ou com a formação, onde o processo se forma (“fazer o Ritual do Pentagrama
com tantas respirações antes, no meu quarto, voltado para o Leste, com a luz apagada e
às 18:00 horas”). Por fim, no quarto estágio ou Assiah, fazemos (manifestamos) a prática
buscando o objetivo claramente exposto em Yetzirah.

É importante que toda prática tenha associada essa quatro componentes da Intuição,
Sentimento, Pensamento e Sensação nas seguintes formas:

Intuição — Fé, Certeza, Confiança na Recompensa;


Sentimento — Desejo, Atração, Motivação pela Recompensa;
Pensamento — Simplicidade, Processo, Ideação da Recompensa;
Sensação — Execução e Satisfação para alcançar a Recompensa.

É interessante que não precisamos focar sempre em Atziluth para concluir bem uma
Tarefa: nosso desejo já está no subconsciente desde o momento que assinamos o Jura-
mento do Probacionista. Isso é o que faz as práticas se tornarem hábito; no entanto, é
sempre valoroso ter um objetivo diário simples, que se relacione com o objetivo macro,
para que nos conscientizemos sempre do porquê estamos fazendo tal prática. Isso pode
ser exemplificado pela recitação do Will, perante as refeições.

22
Revista 777 - Thelemagick: dispersão e inércia

Se você está na sua cozinha e tem um pedaço de bolo provavelmente você parará e pe-
gará um pedaço, mesmo que esteja sem fome. Isso acontece porque achamos que a mo-
tivação nos leva a ação, quando em muitas ocasiões o ambiente nos leva a executar uma
ação. Quando alguém quer parar de usar o Facebook, ela não consegue porque o celular
está sempre ali, às mãos. Mas se ela troca a senha para 8Ty6%rYue784$#@teyrushGH e
anota num papel guardado noutro cômodo, em cima do guarda-roupa, em código-morse
é bem provável que o cérebro não vá querer consumir tanta energia para buscar o papel,
digitar e acessar a rede social. Uso isso diariamente para focar em minhas tarefas. No en-
tanto, o que a maioria faz é deixar o celular ao nosso lado e consultá-lo a todo momento
que o tédio bate.

É importante ajustar o seu ambiente para que essas distrações não te levem a se dis-
tanciar da Recompensa. Deixar o ambiente preparado para suas tarefas fará com que
você crie hábitos de prática e organização (devido à clareza de intento que proporciona).
Dificilmente você lerá um livro hoje se ele está muito distante de você. Dificilmente pra-
ticará violão se ele está guardado na caixa, sobre o guarda-roupa. O ambiente deve ter
sugestões, como lista de tarefas, até seu próprio diário, já no local onde você praticará.
Cuidado deve ser tomado para que as sugestões são se misturem demais com suas prá-
ticas comuns do dia-a-dia. Por exemplo se você quer apenas praticar um ritual menor
do pentagrama antes de dormir, deixe apenas seu diário no quarto e tire todas as outras
distrações como celular, livros, telas. Até uma simples pomada pode ser motivo para pro-
crastinar e você quererá ler o rótulo inteiro.

Se você se vê perdendo muito tempo, o oposto também é válido: para cortar hábitos,
cortar também seus gatilhos. Por exemplo, apagar aplicativos do celular ou desativar
notificações de redes sociais. Se estiver ainda difícil vencer a procrastinação, você pode
associar o substituto da tarefa com a sua obrigação. Outro exemplo, se você deixa de fa-
zer sua Asana para ficar no Facebook, você pode:

Logar no Facebook, como se fosse usar; fazer sua Asana (gatilho — obrigação);
Quando terminar sua Asana, mexer alguns minutos no Facebook (recompensa — de-
sejo)

É importante lembrar também que procrastinamos e adiamos nossa Tarefa simples-


mente porque queremos evitar a dor. Nossa vida inteira é baseada em evitar a dor: come-
mos mesmo sem fome, para evitar a fome; bebemos mesmo sem sede, para evitar a sede.
Não fazemos jejum porque sentiremos fome; não ficamos em Asana porque sabemos que
haverá incômodo. Essas impressões que nos levam à Dispersão nas Tarefas podem ser
de grande ajuda. Você pode anotar no diário, por exemplo, o que leva você a se dispersar
de seus objetivos quotidianos. Obtive resultados muito bons ao anotar o que me distraía
durante determinada tarefa, mágica ou não. Ao terminar de anotar, me conscientizava de
minhas emoções e voltava à tarefa: o tempo que seria perdido com a distração era dimi-
nuído 10, 100 vezes. Saber limitar o quanto de estímulos inúteis chega a nós é importante

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Revista 777 - Thelemagick: dispersão e inércia

na luta contra o ordálio da dispersão, da procrastinação. Conhecendo o nosso tempo e


organizando a nossa vida do jeito que queremos e não do jeito que o ambiente nos impõe
é um passo para o controle de si mesmo e posteriormente do Conhecimento e Conver-
sação do Sagrado Anjo Guardião cuja voz esporadicamente escutamos nos momentos de
foco intenso, de concentração e de União.

Amor é a Lei, Amor sob Vontade,

Frater Amaranthus

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Revista 777

Soror Nemo

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Revista 777

DEUSAS

Certa vez me perguntaram se eu acredito em Deus?


Deus? Claro que não,
acredito em deuses e deusas,
sim Deusas, nelas acredito mais,
são infalíveis, maravilhosas.
Não estranhem, temos intimidades.
Rimos bem alto, nos divertimos,
gargalham sonoramente das minhas piadas,
as vezes me pregam uma peça também, bebemos, jogamos,
Brincamos e dançamos,
sempre experimentamos algo novo,
os deuses sempre gostam dos banquetes,
mas eu cozinho para as deusas,
e elas sabem disso.
As vezes saímos, só nós saltando as madrugadas.
Na volta há o ágape, o amor num sentido único inexplicável.
Pelas manhãs me inflamo em oração a ela.
Faço um café, escuto a campainha,
atendo a porta não sem antes olhar pela janela:
a Deusa trouxe pão e mortadela.

H418

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Revista 777

Soror Nemo

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Revista 777

NOSSA SENHORA DO ABISMO

Entrevista com Georgia Van Raalte

A entrevista a seguir foi feita online, em tempos de pandemia, no dia 20 de maio ás


21:00 horas. Foi uma conversa muito agradável, eu que já estava interessada após ler a
tradução do “Um guia básico para o trabalho devocional com a Deusa Babalon”, e depois
dessa conversa decidi traduzir o texto “Princípios da Companhia do Abismo”, percebo
as práticas como efetivas e causa de muitas dúvidas em quem não consegue perceber,
que um ser em equilíbrio, consegue lidar com todos os espectros dos gêneros, e com o
nosso corpo físico e espiritual.

Georgia se aprofunda no tema, com práticas e bastante embasamento no assunto,


através dos seus artigos sobre a Nossa Senhora do Abismo.

Thalita Hagen: Inicialmente, gostaria que você se apresentasse e explicasse quando


o Templo do Abismo apareceu, o significado do nome, e onde ele está localizado.

Georgia : Meu nome é Georgia van Raalte, sou estudante de doutorado na Inglater-
ra. Sou formada em teologia e estudos religiosos, e tenho trabalhado e escrito sobre o
ocultismo há vários anos. O Templo de Nossa Senhora do Abismo foi criado em outubro
de 2017 por meu marido Ted Elser (Nemo Theaphilus) como resultado final de vários
meses de trabalho de comunicação com Nossa Senhora, atravessando o Abismo. Foi-
-lhe dada uma missão: criar um templo externo para realizar Sua obra, que é restaurar
o relacionamento da humanidade com o divino. Atualmente, está localizado em Atlanta,
Geórgia, com membros espalhados pela maior parte do mundo.

Thalita Hagen: Podemos considerar uma ordem?

Georgia : Não, não é uma ordem. Somos um coletivo que chamamos de Companhei-
ros do Abismo. Somos um coletivo que busca ativamente o auto-crescimento através do
abismo, e nosso objetivo é ajudar os outros nessa provação, para que possam encontrar
seu próprio caminho. Porque lembramos o isolamento de estarmos sozinhos e espera-
mos que outras pessoas encontrem companhia em sua jornada. Não há hierarquia e não
temos títulos extravagantes.

Thalita Hagen: Quais são os princípios fundamentais?

Georgia: Do próprio templo ou dos companheiros?

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Revista 777 - Nossa Senhora do Abismo

Escrevi um longo artigo sobre nossos princípios, que está no site, mas é tudo em
inglês.

Thalita Hagen: Do templo seria melhor, mas acho que você respondeu à pergunta
anterior sobre o objetivo de ajudar na jornada do abismo, está certo ou estou errada?
Você pode falar sobre o artigo que eu traduzo, vamos colocar na revista também.

Georgia : O objetivo do templo, simplesmente falando, restaurar o relacionamento


da humanidade com o divino; e sim, ajudando os outros em sua jornada pelo abismo
https://templumabyssi.com/the-principles-of-companionship

Thalita Hagen: Como se desenvolve em relação ao Thelema. O abismo está relacio-


nado à Cabala?

Georgia : Queremos apoiar as pessoas, seja qual for o caminho delas. Não exigimos
credos de votos, porque o voto de devoção é suficiente. O templo se desenvolveu a
partir de thelema e, obviamente, a deusa Babalon é uma deusa apropriada por thelema,
mas eu diria que éramos mais parecidos com gnósticos ou pós-thelema. A ideia do abis-
mo é muito informada pela árvore cabalística da vida, com a qual trabalhamos muito
- embora acreditemos que as pessoas possam encontrar e atravessar o abismo sem ter
nenhuma ideia sobre a cabala.

Thalita Hagen: Quanto ao culto ao corpo, o corpo como templo, como vê o proces-
so de desenvolvimento espiritual, e o corpo é visto como transitório, material e talvez
inferior.

Georgia : Não sei se sei exatamente o que você quer dizer. Quer dizer, trabalhamos
com o corpo em vez de rejeitá-lo?

Thalita Hagen: É isso mesmo, como você vê esse processo de desenvolvimento


espiritual naquele contato, mais físico. Talvez seja uma má interpretação minha sobre
alguns textos sobre desenvolvimento espiritual, que trata o corpo como algo não muito
importante no processo espiritual.

Georgia : Sim, definitivamente o desenvolvimento espiritual está entrelaçado com o


físico. você não vai além do malkuth, deve trabalhar todos os dias. A maioria dos textos
espirituais parece ver o corpo como não importante para o espírito; mas para mim é
exatamente o oposto.

Thalita Hagen: Como você interpreta as identificações de gênero em relação ao Ba-


balon.

Georgia : Essa é uma pergunta realmente importante que merece um ensaio de vá-

29
Revista 777 - Nossa Senhora do Abismo

rias páginas por si só. Eu precisaria de muito mais tempo do que tenho para fazer justi-
ça a essa pergunta. Mas acho que resumiria dizendo que Babalon é a Mãe de Todos. Ela
absorve todos, não importa quem sejam, e ama todos eles. Ela é infinitamente inclusiva,
pois é mãe das abominações. Sob suas asas, há espaço para uma infinidade de diferen-
tes tipos de magia, diferentes tipos de sexualidade e diferentes tipos de relacionamen-
tos e essa é uma de suas glórias.

Thalita Hagen: Quero agradecer a você por essa conversa, por esclarecer essas dú-
vidas sobre a Temple of Abyssi. Você será notificada sobre a tradução quando publicar-
mos, em breve você receberá meu e-mail, pois eu também gostaria de participar dessa
jornada aqui no Brasil.

Georgia : Foi um prazer fazer isso! Verdadeiramente. E estamos ansiosos para rece-
ber noticias suas e dos leitores da Revista!

30
Revista 777

PRINCÍPIOS DA COMPANHIA DO ABISMO

Por Georgia Van Raalte

I.
As Leis da Magia (e a magia tem muitas leis, apesar do que possamos pensar) podem
ser condensadas na ideia de Polaridade. De qualquer forma que você as experimente,
com qualquer nome que as chame, a atração e o fluxo do circuito são a estrutura subja-
cente da magia. A melhor analogia para a magia não é magnetismo ou luz, mas a corrente
alternada do circuito elétrico.

Vamos ouvir o que a estimada Dion Fortune tem a dizer sobre o assunto, em sua opus
magnum The Mystical Qabalah:

“O esoterista vê em Malkuth o resultado final de todas as operações; até que os Pares


de Opostos alcancem o equilíbrio estabelecido que dá o estado da Terra, ou coerência,
pode-se dizer que completaram qualquer ciclo de experiência. ”(249)

“Malkuth é o nadir da evolução, mas deve ser encarado, não como a profundidade má-
xima da espiritualidade, mas como a bóia de marcação em uma regata. Qualquer iate que
segue para o percurso de volta para casa antes de contornar a bóia de marcação é des-
qualificado. E assim é com a alma. Se tentarmos escapar da disciplina da matéria antes
de dominarmos as lições da matéria, não estamos avançando para os céus, mas sofrendo
de desenvolvimento interrompido. ”(252)

Nenhuma operação [mágica] é concluída até que o processo tenha sido expresso em
termos de Malkuth ou, em outras palavras, tenha sido divulgado em ação no plano físico.
”(257)

Magia de sucesso depende de ser trazida à Terra. Todas as operações mágicas come-
çam e terminam em malkuth; eles devem fazer, pois a mágica é a negociação e a renego-
ciação do ser humano, enquanto ele encontra o divino.

Quando se trata de magia e misticismo ‘elevados’, muitos dedicam suas vidas ao Cami-
nho, sem que lhes ocorra a abertura de um espaço para retorno. Isto é o que os místicos
medievais tinham sobre nós esotéricos, o que os eremitas esqueceram: se o trabalho é
apenas sempre em uma direção, o trabalho nunca está completo.
O Caminho em que você está é o seu verdadeiro caminho somente se isso o leva a agir
com Amor e Compreensão em relação aos Outros. A natureza da Obra da Arte da Alma é

31
Revista 777 - Princípios da Companhia do Abismo

a de refinar metais comuns para criar uma pedra preciosa. O Santo Graal foi procurado
para libertar a terra de sua maldição. Qual é o sentido de roubar o caldeirão de Keridwen
se não o usamos para alimentar nossos compatriotas?

Reconhecemos a dualidade, a distorção das polaridades encapsuladas no andrógino


divino, que é necessário experimentar e entender para alcançar o conhecimento dos
mistérios mais elevados. De alguma forma, esquecemos que a polaridade funciona em
todas as direções, ao mesmo tempo. Na mesma medida em que o grande trabalho é uma
mistura de polaridades de lado, por assim dizer, duas cobras torcendo a árvore - na mes-
ma medida é o trabalho, ao mesmo tempo em movimento ascendente e descendente.

Não estamos nos afastando da terra, mas aprofundando nossa compreensão de suas
glórias, seus mistérios. Os cabalísticos seria melhor entendidos como uma série de esfe-
ras envoltos um no outro, com Kether no centro, como o núcleo ardente de nosso globo,
e o malkuth do lado de fora, a crosta sobre a qual andamos. Nosso trabalho não é uma
tentativa de sair da humanidade em direção ao divino, mas uma tentativa de entrar na
humanidade, para encontrar a divindade que já reside lá.

E esse trabalho não teria sentido se o circuito não fosse concluído - se o conheci-
mento não fosse trazido à Terra, para que ele pudesse fertilizar, mesmo que tenha sido
fertilizado pelo chamado da Terra. Assim, o visionário é obrigado a compartilhar o que vê
e, assim, também trabalhamos.

É uma chance que devemos ter aqui, uma generosidade de espírito, uma fé na hu-
manidade. E, de fato, pode ser possível alcançar o ciclo e retornar sozinho em sua torre
branca, e assim será. Mas você nunca conhecerá as alegrias inimagináveis ​​da terra.

II.
Qual é o modelo que devemos seguir para a nossa comunidade? Pois todos devemos
trabalhar a partir de um modelo. Não podemos evitar, pois é assim que a linguagem
funciona. Para não ser escravo do jogo de linguagem, é preciso aprender a brincar com
significado, a manipular. Fraternidade, Ordem, Fraternidade, Sociedade, Irmandade, Sa-
cerdócio, Igreja. Não somos nada disso, apesar de extrairmos elementos de todos eles.

A amarga experiência nos mostrou que o modelo de cavaleiros em armaduras que os


ocultistas tanto adoram é desatualizado e misógino. Como a Irmandade, ela se apóia em
princípios absolutos, que são a queda de todas as filosofias práticas. Estamos todos tão
desesperados por comunidade, que consideramos comunidade um sentido cego de per-
tencimento, em vez de algo que vive, se move, se torna. A comunidade deve ser modelada
em nossas células e corpos, não projetada em monumentos esculpidos.

Como vivemos no proto-apocalipse, por que não adotamos uma abordagem mais mí-
tica?

32
Revista 777

Nós nos consideramos Companheiros. Nós somos aqueles que jantam juntos, aqueles
que compartilham o pão da vida. Nós somos aqueles com quem um, é tudo.

Não estamos atados a juramentos e promessas, mas a um propósito. Nós não fazemos
uma escolha e depois sentamos em complacência. Escolhemos novamente todos os dias
e todos os dias.

Traduzido por Thalita (Soror Adler)

33
Revista 777

Daniel Santos

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Revista 777

PORQUE O LIVRO DA LEI É FODA!

Sinto me na obrigação de externar aqui pra vocês um causo, certa vez me pergunta-
ram: para quem está interessado em Thelema e só ouviu por alto e gostaria de aprofun-
dar mais, qual obra você indica? Sempre respondo: “Você já leu o Livro da Lei?”. Muitos
acreditam que, por se tratar de uma leitura complexa, um grimório cifrado de encan-
tamentos e correspondências gemátricas anunciando uma nova febre sobre os céus, a
palavra silenciosa e a chave dos novos rituais, pode ser uma leitura muito confusa para
quem nunca leu nada sobre Thelema, correto?

Sim, correto; é por isso mesmo!!!

Caro leitor, caso você já tenha lido o Livro da Lei te convido para uma viagem no tem-
po. Procure se lembrar da primeira vez que você pegou esse livro, seja ele físico ou digital,
se lembram da sensação que a primeira leitura causou? Sensação no corpo? E a advertên-
cia do comento? Um misto de sentimentos? Pois é né...Então, só um livro sagrado ou foda
provoca isso, podemos até admitir a não sacralidade de Liber AL afinal nem todos podem
assim o considerar, eu o considero), mas sim, ele é foda!

No livro Equinócio dos Deuses, que é um apêndice do Magick, lançado no Brasil na


década de setenta por Marcelo Ramos Motta (que recomendo efusivamente e encontrado
facilmente tanto em documento eletrônico quanto físico - eu recomendo a edição física)
tem o Gênesis Liber AL, onde Crowley comenta os fatores que o levaram a uma experi-
ência que culminou com a recepção e descrição do Livro da Lei; por isso recomendo a
leitura desta obra: existem alguns pontos interessantes a serem levantados para quem
a leu. Eu disse recepção e descrição ao invés de escrita, isso porque o próprio Crowley
admite que a escrita do Livro não é dele, ele não teria nem a capacidade nem o recurso
discursivo para aquela escrita, que para ele possuia uma prosa truncada e esteticamente
estranha para o seu gosto (obviamente isso pode ser fruto de uma estratégia Crowleyana
a fim de criar uma mitologia acerca daqueles dias 8, 9 e 10 de abril de 1904 que abalaram
o mundo).

Não sou muito adepto das teorias de que Rose Keely, sua esposa na época, teria re-
cebido a mensagem e sendo depois apagada da história por seu marido, nem tão pouco
na história de ser uma obra espírita ditada pela entidade praeter humana Aiwass: sabe-
mos que houver preparações, rituais e uma grande operação mágicka que rechaçam pelo
menos a versão de psicografia espírita. Farei aqui ainda uma homenagem a Rose Kelly, a
primeira mulher escarlate, que teve um papel fundamental em toda essa história e que de
certa forma sofreu um leve apagamento histórico.

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Revista 777 - Porque o Livro da Lei é Foda!

Hoje sabemos, para corroborar a história de uma possível mitologia, que a Estela da
Revelação ou a Estela do museu de Boulaq nunca foi 666, dentre outras coisas. Uma cer-
teza é que Crowley deixou o Livro na gaveta por cinco anos, estivesse talvez incrédulo
sobre o conteúdo, ou se preparando estudando minuciosamente para depois expor ao
mundo a filosofia e sistema mágicko de Thelema. Existem algumas coincidências que
assombraram Crowley, eventos profetizados em Liber AL que afetaram a todos nós e em
particularmente a ele; a título de curiosidade vou elencar alguns.

No capítulo III de Liber AL, que corresponde ao personagem Ra Hoor Khuit e à visão
do Homem da Terra, podemos ver em muitos comentários do próprio Crowley um tom
bastante apocalíptico visto que Ra Hoor Khuit é um deus de guerra e vingança (assim a
mudança para o Aeon de Hórus), deveria ser de luta interna e externa. Convulsões sociais
e guerras eram esperadas; Crowley então, de certa forma, via o advento profético do li-
vro, principalmente do capítulo III, ligado a ordálios (provas iniciáticas) pessoais como
a perda de sua filha na Abadia de Thelema na Itália e aos futuros conflitos descritos no
texto. Há estudos a respeito e para aqueles que quiserem se aprofundar sugiro a obra
Aleister Crowley and the Western Esotericism (Martin Starr); algum dos conflitos foram:
Guerra dos Balcãs, Primeira Guerra Mundial, Guerra Sino Japonesa e a Segunda Guerra
Mundial. Outra questão é o verso trinta e quatro do capítulo III:

“Mas o vosso local santo ficará intocado através dos séculos: embora com fogo e espada
ele seja queimado e destruído, ainda assim uma casa invisível lá permanecerá, e continuará
até a queda do Grande Equinócio; quando Hrumachis se erguerá e aquele da dupla baqueta
assumirá meu trono e lugar. Outro profeta surgirá, e trará febre fresca dos céus; outra mu-
lher despertará a lascívia e adoração da Cobra; outra alma de Deus e besta se misturar-se-a
no sacerdote globado; outro sacrifício manchará a tumba; outro rei governará; e não mais
serão derramadas bênçãos Ao Senhor místico com cabeça de Falcão!”

No dia 23 de dezembro de 2015 bombeiros foram chamados pois avistaram fogo na


Casa de Boleskine, que era a casa de Crowley e Rose Edith na época da escrita do livro;
particularmente este que vos escreve não prefere levar as coisas por um ponto de vista
tão literal assim, e convenhamos: tudo é perecível e transitório, por isso nada vou co-
mentar a respeito.

Para mim o Livro da Lei tem uma importância sagrada porque ali de forma profética
está contida uma mensagem para a humanidade revelando assim um caráter libertário
universal, um guia ou um roteiro de Magick para os thelemitas e, por fim, um grimório de
encantamentos pessoais usado por Crowley.

“O Livro anuncia uma Nova Lei para a Humanidade. Ele substitui as sanções religiosas e
morais do passado, que foram destruídas por toda parte, por um princípio válido para cada

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Revista 777 - Porque o Livro da Lei é Foda!

homem e mulher no mundo, e que é evidentemente irrevogável em si.”


(Excerto da Nota Introdutória de Al, Equinócio dos Deuses)

Em sua abrangência universal e profética vemos ali a Lei do forte que justamente é a
Lei da Liberdade, ideais lançados naquele febril abril de 1904 que ressoam até hoje: uma
mensagem clara que o tempo de sacrifício e morte do deus sol agora dava vez à criança
coroada e conquistadora, essa criança é alegre, jocosa e, claro, também prega suas peças;
essa criança somos nós assim como os deuses moribundos e as deusas férteis, todos são
parte em parte de nós; Thelema abarca a totalidade das fórmulas, usando o que é bom e
expurgando o que não é de nós, por isso agora “Todo homem e toda mulher é uma es-
trela”, ”Todo número é infinito; não há diferença”, ”Vinde a mim é uma palavra tola; pois
sou Eu que vou”. Os paradigmas agora são outros; a iniciação pode até seguir seu curso
natural, porém é necessário que o regente reclame sua “terra” e assim se prepare para
os conflitos internos: “Escolhei uma ilha: fortificai-a!”, e acima de tudo: “Faze o que tu
queres há de ser tudo da lei”.

Na segunda perspectiva temos um roteiro Mágicko para os aspirantes que trilham


o caminho Thelemita. Crowley nos diz que esta Obra se trata também de uma fonte de
encantamentos mágicos, sem falar de passagens iniciáticas em cada um dos capítulos a
cada hora modificando o ponto de vista, da escrita e obviamente do leitor. Assim, em um
momento o discurso é para os homens e mulheres da Terra, em outro para os amantes
e num distinto momento para os eremitas. Essa reflexão nos levará sempre para uma
possibilidade trina de percepções de nossas naturezas. Eu mesmo testei alguns encan-
tamentos de versos ali para o meu uso pessoal e todos se provaram ser extremamen-
te eficientes sejam como invocação magicka ou até mesmo mantras que carregam um
enorme poder magnético; observei sucessos utilizando a tradução em língua portuguesa
entretanto devo admitir que o poder deles em inglês se multiplica, talvez pela sonoridade
das palavras e combinação de letras os resultados são bem mais robustos; deixo abaixo
alguns desses encantamentos e encorajo que todos descubram os próprios como um
exercício íntimo:

Adoração de Nuit - Liber AL I:61


Adoração de Hadit - Liber AL II:6-7
Banimentos dos Elementos - Liber AL I:44
Invocação dos Elementos - Liber AL II:62
Maldições do Liber AL III:49-60
Adorações do Liber AL III:37,38

Obviamente deixarei a imaginação de vocês fluir solta aqui, não há intenção alguma
de instrução - meu ponto foi apresentar os encantamentos.

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Revista 777 - Porque o Livro da Lei é Foda!

Há ainda um terceiro aspecto a ser considerado. Liber AL é o grimório mágicko de


Crowley, ou seja, a produção de um adepto, por mais que ele não reconheça sua autoria;
porém essa dicotomia desaparece quando tomamos o ponto de vista de Aiwass, o ver-
dadeiro autor, “ser” o Sagrado Anjo Guardião dele. Pelos mesmos motivos que elenquei
anteriormente sobre o vasto repositório de encantamentos há também a figura de lin-
guagem do Livro que em vários momentos dialoga não só com o leitor mas com aquele
que o escreve, dizendo que “em certos momentos é inútil resistir a pena que está em suas
mãos”. O Livro ali ganha um ar bem pessoal e não de forma abrupta e muito bem estrutu-
rada Crowley elaborou alguns comentários sobre o Liber AL. Alguns são explícitos como
o comentário velho e o novo, e recheou em outras obras passagens muito pertinentes. O
estudo destes é algo sobre o qual todo interessado em Thelema deve se debruçar. Assim o
trabalho se mostra como o grimório pessoal de todo adepto; porém, no caso do Crowley,
deduzimos que ele foi alçado ao grau de Magus para profetizar uma nova palavra, uma
nova fórmula mágicka. Obviamente depois ele voltou ao seu tipo de trabalho e se prepa-
rou por longos anos para de fato alcançar esse grau de Magus - obviamente isso é uma
suposição que eu adotei.

Muito do Livro da Lei pode e deve ser estudado e absorvido em seus comentários, se
acham também com alguma facilidade na internet e devo dizer que é um estudo para a
vida. Dos comentários do Livro da Lei aqui indico o The commentaries of AL: Being the
Equinox volume V, no. 1 ou o famoso Equinócio do Motta lançado em 1975 publicado com
ineditismo na época; encontra-se facilmente na internet. Nesta obra se encontra o co-
mentário Novo, que é mais maduro e tem comentários de Motta sobre os comentários de
Mestre Therion, uma vez que só Crowley tem a autoridade necessária de comentar sua
própria obra - afinal aqueles que discutem o conteúdo deste Livro devem ser evitados
por todos, como focos de Pestilência.

Não existe lei além de Faze o que tu queres.


Amor é a lei, amor sob vontade.

Força e fogo são de nós

H418
hoor@abadiadethelema.com

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Revista 777

SIMULACROS & SIMULAÇÃO

Nos últimos meses pudemos observar uma convergência favorável de algumas da-
tas que guardam simbolismo especial para os thelemitas, mas também para seguidores
de outros magi e suas religiões, dharma, e modos de viver. Começamos no último deze-
nove de Março, a Temporada Sagrada de Thelema, um mês especial para a maioria dos
thelemitas que culminou no décimo dia de Abril onde se deu, com algum consenso, a
recepção do livro da Lei. A maioria passa por esse período com meditações sobre os Atus
do tarot de Thoth, Crowley-Harris, e leitura dos textos sagrados da tradição espiritual
thelemita. Poucos dias depois, na noite do dia 23, ao se avistar o crescente lunar deu ini-
cio o mês do Ramadã, temporada que marca a recepção do Corão, onde os muçulmanos
jejuam, percorrem todo o livro sagrado em leitura e meditação, e tem seu “ponto alto”
no Noite do Decreto, ou Noite do Destino, que marca durante os últimos dias o apareci-
mento do anjo Gabriel para ditar o livro sagrado ao profeta Muhammad, que a paz esteja
com ele. Ainda dentro do mês do Ramadã neste ano, mas em outro contexto, no dia sete
de Maio pudemos assistir o Vesak, que é a comemoração do nascimento, iluminação e
morte do Buddah Shakyamuni, onde os budistas fazem pujas, meditações, observação
dos preceitos, e das Nobres Verdades.

Dias sagrados, festivais e comemorações religiosos, são frequentemente simula-


cros do evento comemorado, através dos simulacros somos convidados a reviver em me-
nor grau, e apreciar a mensagem daquele profeta, ou santidade. Logo as coincidências de
datas neste ano, talvez nos convida a refletir que Thelema não escolheu uma abordagem
muito diferente nesse aspecto. Para nós thelemitas é igualmente importante revisitar os
escritos de Mestre Therion, e tentar entender como se deu a revelação, por vezes per-
correndo um caminho similar, ou simulação. Mas ora, o livro da Lei não faz imprecações
contra e amaldiçoa essas religiões e seus profetas? Não são estes os credos crapulosos?

“Com a minha cabeça de Falcão Eu furo os olhos de Jesus enquanto está pendurado na
cruz. Eu bato as minhas asas na face de Muhammad e o cego. Com minhas garras Eu ar-
ranco a carne do Indiano e do Budista, Mongol e Din. Bahlasti! Ompehda! Eu cuspo sobre os
vossos credos crapulosos.” (Liber AL III:51-53)

Ao olhar atentamente a definição da palavra credo, ela trata de conjunto de re-


gras, doutrina, princípios, fé. Olhando através dessa palavra é clara a manifestação que
está sendo apontada, e porque se exorciza esses cascões construídos sobre a imagem
dos Magi da Santa Ordem que foi alterada pelo tempo, e pela soberba de sacerdotes
religiosos e governantes interessados em exercer poder através delas. No liber Aleph,
Mestre Therion se dirige ao seu filho mágico tratando de Lao Tze, Gautama, Sri Krishna,

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Revista 777 - Simulacros & Simulação

Dionísio, Tahuti, Moisés, e Muhammad (s.a.w.s.), em ordem, endereçando retificações


das fórmulas desses Magi e, mas principalmente, como e onde a humanidade falhou em
entendê-las, segundo Therion, mas em um tom bem mais conciliador e universalista.

Uma boa passada nos comentários do AL compilados por Marcelo Motta no seu
Equinox V número 1, resolve a crítica dura a essas religiões, e o comentário é tão duro
quanto os próprios versos do AL. Neles Crowley é igualmente sarcástico e blasfematório
com os credos. Ele guarda uma certa simpatia pelo credo interno do islã, dizendo ser uma
crença de homens fortes e com coragem, e com a mesma mão diz ser o credo externo
uma tolice apropriada a inteligência dos povos que a receberam. Mostrando ao mesmo
tempo uma espécie de racismo, e algum fetichismo pela imagem de viril do homem do
oriente médio que existia em sua mente. Mas de modo geral há uma crítica feroz mesmo
ao credo interno do cristianismo, budismo, hinduísmo, e também ao judaísmo, que talvez
alguns tenham deixado escapar, mas ocorre em igual medida, com leves pitadas de xe-
nofobia, racismo e pedantismo, como é de praxe dentro dessas críticas.

Ainda assim, aqueles que foram recebidos como probacionistas, ouviram, ou ao me-
nos puderam ler a Lição de História, no Liber Causae, como conciliar o universalismo de
“em todos os sistemas religiosos, deve ser encontrado um sistema de iniciação”, ou do
Liber Aleph ao falar dos Magi, com a sua fala mais belicosa nos comentários do AL, e do
próprio AL com seus “credos crapulosos”? Thelema é ao mesmo tempo universalista e
reformista, ou é uma ruptura completa?

“Ó MEU Filho! Parece-me em certas Horas que Eu mesmo nasci num Tempo mais te-
mível e fatal do que Mohammed, que paz esteja com Ele!” (Liber Aleph - Da Grande Besta, o
Logos do Æon)

“E Satã é adorado por homens sob o nome de Jesus; e Lúcifer é adorado pelos homens
sob o nome de Brahma; e Leviathan é adorado por homens sob o nome de Allah; e Belial é
adorado por homens sob o nome de Buda.”
(Terceiro Aethyr, Liber 418)

Penso que há que se separar também uma fala direcionada a Santa Ordem, en-
quanto outra é de modo mais geral direcionada a todos: a Lei é para todos! E a Lei foi
escrita. Sendo assim muito do livro da Lei, especialmente o tão rejeitado terceiro capí-
tulo, é direcionado a esses que vivem nesse tempo temível e fatal. Tal como a mensagem
do Corão começa a primeira palavra sendo (bism)Allah, e a última palavra sendo “povo”,
ainda que seja bem pouco linear, assim também o AL, já numa linguagem poética mais
linear e palatável a escrita ocidental, tem em seu último capítulo uma mensagem para a
sociedade e o povo da nossa época. A mensagem é agressiva porque é o tom e o espírito
da época, sendo o AL recebido dez anos antes da Primeira Guerra Mundial, e a nossa
época de secularismo como aspira boa parte do trabalho místico desenvolvido ao longo
do Liber ABA, o magnum opus de Mestre Therion.

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Revista 777 - Simulacros & Simulação

A idéia dos Quatro Principes Infernais é curiosa, porque sendo adorados como
a falsa imagem dos deuses e mensageiros, o comentário aponta uma crítica à ortodoxia
religiosa, estrutura rígida e literalista, além de supersticiosa que tomaram as maiores
religiões do mundos. Essa estrutura e rigidez converteram as mensagens, em seu opos-
to, em castração e alienação da própria natureza. No entanto, só porque existam quatro
príncipes que regem esse inframundo, e a quem se deve direcionar para obter aquilo que
se quer segundo Abramelim, não significa a inexistência de demônios menores e subal-
ternos. Toda religião sofre desse mal, ora pela incapacidade de entendimento, ora pela
ação de governantes que se utilizam das grandes religiões para direcionar as massas, ora
própria pela maldição dos Magi. Sim, mesmo Thelema! Mesmo a visão de thelema como
religiosa está sujeita a isso. Mas como? Ortodoxia e thelema não combinam, é a respos-
ta rápida para uns. Outros vão dizer que a mensagem é clara, ou facilmente esclarecida
através mesmo dos escritos mais básicos de Therion. Nao discordo. Mas será mesmo que
isso basta? Não foram os outros Magi também claros em sua época e deixaram a mensa-
gem de fácil acesso?

Thelema pode não combinar com ortodoxia, mas frequentemente a mensagem de


Luz, Vida, Amor e Liberdade, é perdida em discursos que falam mais sobre permissivida-
de do que sobre Liberdade, e possuem muito pouco entendimento sobre Amor, quando
estes mesmo não advogam a morte em vez da Vida. Uma das falas frequentes, e repetidas
a exaustão é que Crowley disse sobre “cada um abrir o próprio caminho na selva”, e mui-
tos querem com isso justificar uma prática espiritual totalmente desequilibrada e com
pouco fundamento só porque essa é uma extensão da própria personalidade, condenan-
do o caminho bem delineado Mestre Therion como se esse fosse de ortodoxia e imitação.
Quando não, repito, tomam por liberdade, o que é uma simples permissividade aos capri-
chos do ego, que tomam por natureza. A natureza do amor thelemita é bem delineada no
primeiro capítulo do AL. Enquanto a natureza da liberdade é tratada no segundo capítulo,
e complementada com a natureza da condição humana em Pequenos Ensaios em Direção
A Verdade. A “lição de filosofia” contida em Librae, diz que equilíbrio é base do trabalho,
em referência a uma atuação equilibrada na cruz dos elementos, e entre Misericórdia e
Severidade, novamente a exemplo do nosso livro sagrado.

A maldição dos Magi é falar somente mentiras, dado que a verdade é intransmis-
sível em termos práticos, portanto aqueles que buscam aprender deles precisam estar
cientes para não se tornarem o macaco de Thoth, tanto quanto para entenderem a natu-
reza dos rituais, celebrações e festivais como simulacros que conduzem a experimentar
uma perspectiva profética. A realidade virtual do filho mágico, ao qual é dirigido Liber
Aleph, do próximo profeta, tiveram que ser tão duramente entendidas por Crowley quan-
to o sacrifício virtual do filho por Ibrahim (a.s.) após um sonho profético.

I.156
hrumachis.com
i156@revista777.com

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Revista 777

AS REGRAS NAQSHBANDI, parte final

Dando início à última parte de nossa série sobre o treinamento, regras ou segredos
da ordem sufi Naqshbandi. Aconselho a quem chegou de paraquedas neste último artigo
que procure nas edições anteriores o início da série.

Antes de iniciar o texto propriamente dito, preciso explicar uma diferença histórica
que ocorre entre as oito primeiras regras e as três últimas. Originalmente eram oito as
regras ou segredos ensinados pelo Abdul Khaliq Gajadwani e terminava com o Wuquf-e-
-Zamani. No século XIV o Sheikh Baha-ud-Din Naqsband Bukhari, fundador da tradição,
em seus comentários sobre as regras, adicionou como parte do processo mais regras
com o objetivo de ajudar o entendimento dos originais e, por isso, elas são levemente
diferentes das originais. Hoje em dia há grupos que só seguem as oito “originais” com as
outras três como side quest, outros que entendem que são 11. Como não estamos seguin-
do um sheikh específico, nem uma halka de trabalho, deixo essa questão de lado e você,
leitor, fica livre para apreender conforme queira.

Segundo ponto a ser falado é que as últimas três regras ou segredos começam com o
termo “Ukuf” que significa pausa. Pausa não é exatamente um interromper de um pro-
cesso ou uma não ação como visto em outras regras, mas sim, um forma de criar um
hiato, um espaço, um vazio; uma analogia possível é pensar num salto para cima. Quando
se pula, entre o movimento de subida e o de queda, há um pequeno espaço, não temos
controle da gravidade mas, se tivéssemos, imagine que seria possível “esticar” brevemen-
te esse momentum; outro exemplo poderia ser visto em uma dança de salão onde há um
pré movimento em que se cria o espaço onde o giro vai acontecer: ele existe em potencial
entre os dois dançarinos mas num certo jogo de pernas esse espaço cresce e fluidamente
o giro ocorre.

Então vamos lá:

9 - Ukufi Zamani - A pausa do Tempo

“Esta é a pausa do intelecto e do pensamento condicionado. Não é uma pausa do


pensamento. Você se coloca em uma situação onde sua chamada formação educacional,
seus termos de referência, condicionamento e lavagem cerebral são postos de lado. Ba-
sicamente, você suspende julgamentos baseados em seu condicionamento social. Deixa
de lado atitudes pré-concebidas. Seu interesse pode estar na função exterior de seu ser,
mas você põe a decisão nas mãos de seu Mestre.”

42
Revista 777 - As regras Naqshbandi

Jami en Resalah-i-nuria, disse: “Wuquf-i-Zamani é um termo que significa contabilizar


o tempo em que se passa no [estado] dispersão (tafriqah) ou contemplação (Jam’iyyat).”

“A base do trabalho do buscador espiritual é estabelecida na consciência do tempo


[a prática], verificando a cada momento se é ele que percebe a respiração, respira com
presença ou com esquecimento.”

A maneira mais básica desta regra é perceber o tempo que se tem. Na tradição Sufi
se conversa muito sobre dar um tempo, sentir o momento para, então, saber como se
portar a cada momento. Este ensinamento, quando dado para um grupo mais religioso,
é dirigido para a lembrança de que a todo tempo em que estamos vivos, estamos envol-
vidos em pequenos rituais e costumes; Ukufi nos dá o convite a perceber como fazemos
as coisas automaticamente.

Num sentido mais místico, é tentar tirar o condicionamento que temos em não perce-
ber o tempo, colocando o foco no tempo que o tempo tem. As vezes agimos de maneira
mais rápida ou mais devagar e, da mesma forma, temos percepções de tempo distintas:
às vezes o tempo parece correr, às vezes parece não passar nunca. Uma pausa no tempo
está intimamente ligado com nossa noção do tempo.

No sentido mais cerimonial é possível pensar que há ukufi no RmP, exemplo: antes de
começar a cruz cabalística há uma respiração, uma puxada de ar para poder vocalizar;
nesse momento existe um espaço possível de ser explorado, é um momento que nem
iniciou o RmP e nem terminou de existir o mundo profano. Entre a Cruz cabalística e o
traçado dos pentagramas também, etc.

Esse espaço no tempo, ao ser explorado e entendido, pode também ser esticado.
Como a respiração é um ato mágico e temos um número finito de respirações nesta vida,
então é interessante pensar que em todo momento entre a inspiração e a expiração há
uma pausa, um ukufi. Trazendo o assunto para Thelema é algo como: estamos habituados
a dizer “mas eu sou assim” ou “assim que eu reajo”, “é da minha vontade/personalidade”;
se, um pouco antes de darmos respostas desse tipo, entendermos que há um intervalo
de espaço no tempo, é possível deixar que Thelema ultrapasse nossa reação para além
do eu imediato.

10 - Ukufi e Adadi - Pausa no Número

“Estes são exercícios interiores executados com números. Baseiam-se no sistema Abjad,
e você divide as partes de seu corpo em segmentos. Segmentos diferentes podem ser postos
em funcionamento em momentos diferentes, sob circunstâncias diferentes. Seu Mestre lhe
dirá quais, e com que partes de seu corpo você pode ou deve operar em um dado momento.

43
Revista 777 - As regras Naqshbandi

Novamente, do ponto de vista condicionado, não pergunte porque ou como: faça-o.”

“A diversidade e a proliferação é nada mais do que a aparência. O Um é manifesto no


Todo”

“Narrado por Abu Huraira: Allah tem noventa e nove Nomes, i.e. cem menos um, e quem
acreditar no seu significado e a age de maneira correta, entrará no Paraíso; Allah é Witr
(um), e ama “o Witr” (i.e. números ímpares)” (Livro #75, Hadith #419)

No misticismo ocidental a gematria é usada como a arte acerca de extrair números


esseciais e de operações aritmética com esses números essenciais mas, na cultura do
Oriente Médio, a gematria é uma arte menos apreciada do que no Ocidente; a abordagem
preferida por eles é pensar no significado daquele número durante uma preparação e na
execução de cada ato. Dentro da idéia de Pausa, Ukufi-e-Adadi vai nos direcionar para o
número de repetições do dhikr, por exemplo, número de dias em que o dhikr é recitado,
a contagem do tasbih (o rosário islâmico), etc.

Esta regra te põe em contato com o pensamento ativo de utilizar os números para
diversos efeitos e intenções, por exemplo, uma meditação de 30 minutos é diferente de
fazer 5 meditações de 6 minutos. Há também o lado passivo deste segredo, que é estar
mais receptivo para que os números provenientes de fenômenos seriados possam ser
apreciados e, assim, ser possível extrair significados extras dos mesmos. E, para além da
percepção dos números, a regra ainda relembra que todos os números são uma mani-
festação do Um (ou do nenhum), o que possibilita criar um entendimento do porquê, em
cada circunstância, o Um “quis” se mostrar de outra forma.

Último ponto sobre este segredo é dado por Omar Ali Shah, ao afirmar que é possível
dividir o corpo em vários segmentos e que, nesta segmentação, podemos retirar sig-
nificados importantes para o trabalho esotérico, além de fornecer uma ferramenta de
comunicação mais neutra. Ao dividir o corpo em partes numéricas, convidamos nossa a
mente a perceber com mais profundidade pois, “fiz uma oração e meu pé ficou tremen-
do” possui menos informação que “fiz uma oração e a planta do meu pé estremeceu, e
meu dedão formigou, e meu calcanhar eu não conseguir sentir”. Outra forma de se colo-
car seria: “fiz um relaxamento mas percebi que o músculo do ombro direito, o tríceps do
esquerdo e o músculo lombar não relaxaram”, o que nos gera informação para podermos
afinar nossas práticas futuras.

11- Ukufi E Qalbi - Pausa no Coração

“Esta não é a parada física do coração. Significa que a pessoa usa o conceito de “Cora-
ção”, reunindo amor e dever ao mesmo tempo no mesmo lugar. O coração está à disposição
do Mestre, que fará com ele o que for necessário.que ou como: faça-o.”

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Revista 777 - As regras Naqshbandi

“Khwaja Ubaidullah Ahrar disse:’ Ukufi-i-qalbi é uma expressão que significa uma cons-
ciência e presença do coração em direção ao Altíssimo Real, sentida de tal forma que o co-
ração não sente necessidade de nada, exceto do Real’”

“O Profeta disse: Allah o Todo poderoso ( Ar-Rahman) disse: Eu sou como Meus Servos
imaginam que Eu sou”

Para quem já ouviu o termo Caminho do Coração este segredo trabalha com ele. Se
estamos criando um espaço/hiato para o pensamento neutro, o que aconteceria se o es-
paço criasse um espaço dentro dele? Ukafi-e-Qalbi é a escuta do coração, que é fácil de
resumir, (observe o seu coração pulsando) e bem mais complicado de explicar.

No sentido mais exotérico, e para além do que a Disney ensina, o coração é a bússola
do caminho. Quando estamos em contato com um instrutor, um guru, um professor, há
uma entrega de um bem precioso e, às vezes, o ego fica incomodado com algum comen-
tário ou algum desafio. Cabe lembrar que o coração sabe o que faz e que ao escutá-lo
para além do ruído que o ego faz, achamos soluções para os desafios. Outras vezes, como
diria Frater Saturnus, o Anjo fala pela boca de uma pessoa e nos encantamos pela pessoa,
mas há momentos que o Anjo troca de veículo e acabamos, por medo do abandono, ou
excesso de identificação, esquecendo de seguir o Anjo e ficamos presos a pessoa.

Há uma possível comparação ao resultado de Ukufi-e-Qalbi com a obtenção do Co-


nhecimento & Conversação com o Santo Anjo Guardião se pensarmos que, em ambos os
casos, quando obtemos sucesso, o adepto ou o sufi presta mais atenção nesse sentido
interno do que no resto, inclusive no que o sheikh, imã ou instrutor tem para instruir.
Nesse estágio o buscador já possui propriedade em seu caminho e começa a se preparar
para a aniquilação/cruzar o abismo. Importante frisar que tanto Ukufi-e-Qalbi e C&C
com o SAG não são a mesma coisa mas é algo que pode ser fartamente comparado, como
já foi abordado por outros autores ocultistas.

Na tradição sufi, o coração está no cerne da prática. O cuidar do e o observar o co-


ração é dar oportunidade para que ele nos diga para onde o caminho tem de ir. Muitas
vezes é usada a analogia do ovo que irá despertar, em que a cada prática estamos nu-
trindo esse ovo; portanto a prática repetida, que muitas vezes parece sem resultado, vai
fornecendo os substratos para que esse ovo possa eclodir, e muitas vezes um pequeno
movimento deste ovo nos enche de alegria.

Em algum momento constataremos que, para além da percepção do que estamos sen-
tido durante uma prática mística, há uma sensação dentro da sensação. Ou de outra

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Revista 777 - As regras Naqshbandi

forma, quando estamos numa prática mística, há aquele que observa e que podemos dar
espaço para que ele sinta, há também aquele que observa aquele que observa e tentamos
empatizar com ele sem perder a perspectiva senão acabamos voltando ao nosso pensa-
mento centrado no eu (olha só como eu sinto as coisas) e se torna mais uma forma de
egotrip, mas é possível evitar esse desvio e sentir o que esta sensação quer e necessita
estaremos. E essa relação vai crescendo e tornando mais profunda, muitas vezes modi-
ficando as práticas, outras vezes simplificando, ou mesmo aprofundando seus estágios.

E por fim esta regra tem para os mais avançados um outro entendimento:
Quando começamos uma prática sagrada, naquele momento podemos ter diversos
pensamentos em paralelo, então se aprende a aniquilar aqueles devaneios que não são
próprios pro momento, depois que isso ocorre, aprendemos que há pensamentos bastan-
te úteis e dentro do esperado, mas também temos de aniquilá-los em prol do essencial,
e assim só resta a essência e esta é o último obstáculo para o aniquilamento completo e
o retorno ao cosmo

Creio que essa última regra não necessita muito de comparações, mas diria que uma
diferença de métodos é que enquanto temos de um lado um trabalho caracterizado por
estágios bem definidos no outro há um crescendo sem estágios e bem devagar em pe-
quenas revoluções tal qual é sugerido na dança cósmica dos dervishes, onde o sufi inicia
a dança com as roupas fúnebres e no desvelar circular ele alcança os níveis elevados.

Último adendo a essas regras e que fará mais sentido para quem estuda cabala, caso o
leitor não esteja habituado é só pular esse parágrafo: ukufi ou wuquf tem como raíz wqf
(algo próximo pros cabalistas seria Vav Qof Peh) que também é raiz da palavra waqf (tem-
plo) e pelo temurah árabe temos qwf que é buscar, “seguir os passos de” e fqw é acordar
e atravessar. Se adicionado Taá/Tav2, por exemplo, que é um símbolo saturnino a raiz se
transforma na palavra tawaqf - antecipação, aquele sentimento conhecido de quem no
Natal ficou esperando o Papai Noel chegar. Gematricamente wqf tem a mesmo valor de
QOF por extenso (e usasse as mesmas letras porém no alfabeto árabe)

Por fim concluímos nosso estudo de comparação de escolas místicas, diferenças sem-
pre irão existir, e não só entre a A.’.A.’. E a naqshbandi, mas se tivéssemos analisados algu-
ma outra das 4 grandes Silsilahs (correntes espirituais que ligam o sufi ao profeta) como
a Chishtiya ou a Suhrawadiya com a A.’.A.’., outras semelhanças iriam aparecer e outras
diferenças ficariam óbvias. E acredito que assim como no início do sufismo havia poucos
adeptos e penso que em alguns séculos iremos falar das linhagens da A.’.A.’. exatamente
da mesma forma que falamos das Silsilahs onde cada grupo tem seu Khalifa mítico, seu
Pir a ser reverenciado, seu sheikh que te acompanha e toda uma constelação de ensina-
mentos e histórias, todas elas de alguma forma se conectando ao Profeta, cada uma com
com seus respectivos adeptos e um lendo o que o outro está fazendo. Outro ponto im-
portante é que usamos de linha guia as Regras dos Naqshbandi em relação com algumas
práticas e linhas de trabalho da A.’.A.’. e tentei ao máximo reduzir a comparação e entendo

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Revista 777 - As regras Naqshbandi

que de ambas as linhas muita coisa foi deixada de lado. Mas há uma essência que acredito
ser inescapável nas duas linhas. Sufi é uma corrente baseada na revolta do coração contra
a ritualística vazia que a religião fornece, e o Caminho individual em busca do cumpri-
mento da Lei de Thelema também possui uma revolta contra o formato mais tradicional
de ensino esotérico.

Alhudhud

Fontes:
1- Ali sha - Omar: As regras ou segredos da ordem naqshbandi isbn 85-7213-018-7
2 - https://coracaosufi.com.br/
3- https://naqshabandi.org/
4- http://shaykhnazimdergahnelsonuk.com/

1 no Tarot respectivamente: Hierofante Lua Torre ou Touro Peixes Marte


2 No Tarot O Universo/Mundo

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Revista 777

FILHOS DE PÃ

Crianças de novas Eras


É chegada a hora
Venha à mim filhos do Sol.
Caio entre mandrágoras,
Mas não ei de padecer.
É o dia,
Eu sou vida,
Há em mim,
Há em tudo.
Gloriosas luzes de Pã.

BOSTOCK, Thiago. Filhos de Pã. Bahia. 2020.

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Revista 777

Daniel Santos

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Revista 777

DEMONOLATRIA THELEMICA 93/666

- 666

A palavra hebraica para “A Besta” usualmente é AChIHA, porém, quando escrita em sua
integralidade, como ALP-ChITh-YVD-HH-ALP possui o somatório que resulta em 666. O
glifo egípcio neteru (visível na extremidade esquerda do terceiro registro horizontal no
anverso da Estela da Revelação Thelêmica, cujo número anexado da exposição no Museu
do Cairo também foi 666), que significa “deuses” ou “espíritos”, quando escrito NVThIRV,
tem o valor de 666. Finalmente, ANKH-FN-KHONShU-T tem o valor de 666. 666 é o valor
de Sorath, o espírito solar “olímpico”; e a de Ommo Satan, a “Tríade do Mal” de Satanás
- Typhon, Apophras e Besz.

666 tem várias propriedades matemáticas muito interessantes. Como Crowley ob-
servou, é a soma dos 36 primeiros números naturais. É também a soma dos quadrados
dos 7 primeiros números primos. Os primeiros 144 dígitos do pi somam 666. Assim como
expressa a manifestação da divindade do homem, o 666 segmenta uma corrente magicka
da busca pelo Eu, sempre refletindo a si mesmo na natureza que o condensa, observando
o “paraíso” como um ideal fantasioso que deturpa a realidade do inferno, lar do fogo, o
mesmo dito em AL II:20:

“Beleza & força, gargalhada sobressaltada e langor delicioso, força e fogo, são de nós”
- Como ato político

A Demonolatria nasce num momento social em que a humanidade estava forçada e se


dividir entre um deus judaico cristão e seu opositor, causador de tudo aquilo que vai de
contra a satisfação deste sistema vigente. Acreditem ou não, não estou falando de 2020,
estou falando do século XVI quando a igreja, aposto, toma territórios e declara seus ini-
migos com base nos interesses da igreja. Imagine a situação: uma organização “dona” de
territórios que vão para além do espaço urbano, se estendendo até fazendas e florestas
e, neste ambiente, pessoas com rotinas distantes da igreja eram obrigadas a se equilibrar
entre as regras vigentes desta gestão e suas experiências pessoais, lidando dia após dia
com suas plantações, com os astros e com as vozes da noite. Esse posicionamento reli-
gioso nasce da falha da catequização católica, que dava ênfase ao combate a um inimigo
que, ao mesmo tempo que era o opositor do “misericordioso deus”. Podemos dizer que
este combate se dava a partir de uma repressão sexual que obviamente teria vazão no
combate aos símbolos cristãos pela própria população. Isso acontecia pela relação com
os seres magickos que estavam mais presentes no dia a dia do agricultor como forma de
manifestação natural do que o próprio deus católico, figuras que uma dia foram deuses

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Revista 777 - Demonolatria Thelemica

demonizados e diminuídos pela literatura cristã, reduzidos à responsabilidade de causar


traições para justificar os atos perversos dos homens. Adorar um demônio se tornou
um ato de alinhamento político, de combater em conjunto aquilo que era corrupto aos
seus valores, que era regra que não estivesse de acordo pleno com sua rotina e vivência.
Adorar um demônio é compreender seu papel para além das atrocidades imbuídas às
suas lendas, é compreender que um demônio é um símbolo marginal atirado na clandes-
tinidade do Ser por manifestar pensamento contrário aos monopolistas da narrativa. Eu
acreditei, em determinado momento com base em meus trabalhos precipitados voltados
para uma amálgama de goétia luciferiana e um satanismo roto de banca de jornal, que a
demonolatria era a corruptela cristã ferida, portanto vingativa. Mas, é possível notar que
no processo de adoração ao demônio a compreensão cotidiana aumenta, a natureza se
reflete no ente e você passa a compreender as manifestações da matéria em tudo o que
ele demonstra. Neste momento, o demônio adorado passa a ser uma narrativa de nossos
ímpetos expostos na natureza e guiados por seu arquétipo. Entenda que esta figura fala
para além do sistema vigente, ele representa a natureza desnuda, livre de amarras, lan-
çado à terra e ao inferno em vergonha e renascido do orgulho de ser um questionador.
Demônios não são certeza, demônios são dúvidas e sua natureza é o ímpeto pela busca,
mais que pelo encontro.

- Como ato de autoconhecimento

É importante compreender que adorar um demônio diz muito sobre reforçar a iden-
tidade que se tem quando tudo o que está ao nosso redor não expressa quem somos e
isso se dá, principalmente, quando este espaço é opressor e condicionante, castrador e
estéril. Olhamos os símbolos, as rezas, as palavras utilizadas para expressar a alma social
e notamos que a sociedade “comum” nos falta símbolos para comunicar quem somos.
Nesta falta vocabular, nos valemos do uso dos demônios para expressar especificamente
quem somos e como desejamos ser vistos, seja de forma concreta ou nos servindo como
exemplos de personalidade a assumir de forma seletiva. É óbvio que, ao nos espelhar-
mos em Lucifuge, não atearemos fogo em igrejas ou cuspiremos em suas portas (apenas
se assim quiserdes é claro, porém sem minha recomendação), mas selecionaremos de
seu modus operandi a capacidade de olhar como que sob o ofuscar da luz, porém sem
a necessidade de modificar a forma de vibrarmos ou de nos manifestarmos. Portanto,
Lucifuge passa a ter emanações sobre nossas personalidades e expressões a fim de de-
monstrar sabedoria em meio à desordem. A busca por uma identidade que compõe a
cena de observar o outro para construir a si mesmo, parte do reconhecimento daquilo
que opõe os valores contensores do ímpeto da vida. Temos e somos desejo, algo que não
deve ser reprimido, mas sim compreendido, vivenciado e direcionado da melhor forma
possível. Um demônio frente à nossa identidade é a menor distância entre a mensagem
que carregamos e a transcendência material do que podemos colocar em prática dentro
de nosso verdadeiro potencial. Aleister Crowley se via como A Grande Besta e Kenneth
Grant, em O Renascer da Magia, define uma Besta como algo incompreendido/incom-
preensível. Isso me remete à parte bíblica que a divindade judaico-cristã se define como

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Revista 777 - Demonolatria Thelemica

“sou o que sou”, de forma que apenas ele é capaz de se compreender, mas todos são ca-
pazes de perceber sua manifestação. Devemos compreender nossa natureza ainda que
falte arcabouço semântico em quem nos observa e tenta nos definir. Somos demônios,
matéria terrena que comunica os desejos do Eu em equilíbrio com leis naturais que es-
tão acima de nós e em prol da liberdade tanto quanto cada um que deseja Ser para além
do outro. Adorar um demônio é, no mínimo, adorar um símbolo que reflete aquilo que
desejamos expressar em nós e/ou de nós; é utilizar como fonte de inspiração o compor-
tamento combativo a qualquer força que se imponha sem consideração à individualidade
e a expressão pessoal de cada um.

- Como ato de realização dos desejos pessoais

No plano em que habitamos somos a matéria inteligente, tão densos quanto as pa-
redes de nossas casas, tão tangíveis quanto nossos documentos em nossas carteiras ou
quando nossas comidas em nossos pratos. A diferença entre nós e a matéria comum é a
capacidade de manipular toda esta matéria, notando nossa ação sobre a mesma. Disso
surge o desejo de fazer mais. Começamos gritando para espantar um animal em nome de
nossa sobrevivência. O tempo passa e, dividindo os mesmos espaços com estes animais,
os gritos se tornam obsoletos. Nos sobrepomos à matéria e nos adaptamos medida que
nos tornamos tão obsoletos quanto nossas práticas. O processo de reinvenção necessita
do ócio para acontecer e, nesse movimento, nos banhar na necessidade de expressar
este desejo. As ordens da carne são vislumbres da expressão do Eu que a utiliza como
intérprete de suas intenções. Este tradutor trata os demônios como vocabulário para ob-
jetivação de suas necessidades e imposições. Falar de desejo é antes de tudo pensar em
seu significado e também na emanação que o torna o que é. O desejo é a expressão entu-
siasmada da carne e entusiasmo é uma aspiração divina, uma condição supraconsciente
da união do espírito com o corpo. Assim como no ímpeto do espírito, o corpo tem como
ímpeto viver para além da alma, deixando cada terminação nervosa e zona erógena sali-
var pelo gosto de tocar o tangível e sentir sua complexidade oposta ao sutil. Um demônio
tem em sua natureza, através da narrativa judaico-cristã, um movimento de queda por
conta da densidade que atingira no momento da criação do homem. Portanto, o demônio
é como uma célula que compõe a queda do corpo do homem após provar do fruto proi-
bido. Neste corpo, cada célula é responsável por compor um tecido que dá origem a um
órgão singular. Há frio, há fome, sede e tesão. A pele arrepia, a garganta seca e as mucosas
se hidratam. Nesse momento, o animal que há em nós necessita de espaço para ocupar.
Muitas vezes a natureza não lhe fornece os símbolos necessários para pautar seus mo-
vimentos. A noite passa a criar estes seres e estes passam a nos criar. Nós os criamos
como entes e eles nos criam como filhotes, ensinando sua língua bárbara, os uivos que
falam com seus irmãos. Seja qual for a frase que expresse o seu desejo, há um demônio
cujo nome simplifica e amplifica o potencial semântico desta sentença. Conhecendo a
raiz entenderá a consistência da madeira, logo será levado a compreender a necessidade
que tem esta matéria essencial. “Faze o que tu queres há de ser Tudo da Lei” (AL I:40) é a
palavra do Aeon.

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Revista 777 - Demonolatria Thelemica

- Como libertação

Para haver manifestação, é necessário que haja um plano para esta existência. O Eu
necessita de algo para condensá-lo até que tome forma e a partir de tal forma nascem os
primeiros processos do reconhecimento. Aqui nos encontramos homens e mulheres na
natureza, plano pré-existente ou coexistente a nós para nos servir como primeiro com-
parativo. A perfeição da natureza é expressa através do símbolo alquímico do quadrado
perfeito cujos quatro ângulos de noventa graus, que em conjunto totalizam trezentos
e sessenta graus, um círculo perfeito; o mesmo que também é representado pelo ou-
roboros, a serpente que morde a própria cauda cumprindo o ciclo natural da vida que
se consome no ato de viver e também o símbolo astrológico do sol, cujo círculo possui
um ponto em seu centro que faz referência a nós mesmos. O Eu está no centro de toda
realidade que habita, dando sentido à existência para fora de si e refletindo sua mani-
festação sobre aquilo que toca. Esta é a realeza do Eu, que de tão vasto necessita objeti-
vamente da figura demoníaca para manifestar-se sobre a matéria. Muita gente acredita
que a liberdade está em tomar as decisões que desejamos como barcos cujas velas não
dependem dos ventos, quando, nesta imagem, nos aproximamos mais da identidade do
vento, cuja direção é uma (de cada vez) e, caso algo o impeça de segui-lo, encontra outro
caminho para seguir seu curso. A vida tem por decisão 2 caminhos: o do Eu e o do Ou-
tro. Aqui entendemos que somos o vento seguindo a direção do Eu e quando algo entra
em nosso caminho utilizamos figuras demoníacas e disruptivas para encontrar brechas.
Aqueles que se veem como o barco, acreditando que a independência do vento é a sua
missão, se tornam tábuas sobre a água, objetos à deriva sem utilidade, pessoas manipu-
ladas por aqueles que sabem o caminho que devem seguir e reconhecem seu próprio Eu
em suas atitudes. Aqueles cuja sentença thelêmica “os escravos servirão” (AL II:58) faz
juz, aos aprisionados no arcano XV, O Diabo, cuja prisão é mantida por eles mesmos, não
observam o movimento natural de seu meio para caminharem de forma mais facilitada.
Estes são presos a materialidade, servindo a ela como corpos vazios de almas originais,
dependentes de tudo para preenchê-los. A demonolatria não é sobre escravidão ou so-
bre dependência, mas sobre a potencialização das condições da natureza das quais nos
servimos como sábios reis e rainhas sobre a terra.

- Mecanismo Intimidade é a palavra chave para um trabalho de demonolatria, ela é


responsável pela interpretação empírica dos símbolos escolhidos pelo demonólatra para
o reconhecimento de suas potências em relação às necessidades do próprio Eu. É neces-
sário um investimento sobre o conhecimento pessoal para evitar obsessões da parte do
símbolo sobre o operador, é de fácil prisão a mente envolvida mais na realização da ação
que no desfrutar da manipulação como expressão de si. A expressão é o foco dado à ma-
nifestação. Neste trabalho, esta é uma palavra fundamental para atribuir forma e servir
como “régua” de ponderação quando faltar interpretação na comunicação entre o Eu e
a matéria. Quando digo matéria falo de tudo aquilo que para nós é tangível. Cabalistica-

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Revista 777 - Demonolatria Thelemica

mente, eu diria que é tudo abaixo do abismo de Daath, o Abismo da Razão. Um demônio é
o menor caminho entre a expressão de seu desejo e a manifestação do mesmo, portanto
se faz necessário conhecer tanto a essência do desejo quanto a forma que ele manifesta
o ímpeto de sua carne. A base da demonolatria utiliza elementos presentes em diversos
sistemas de magia, ocidentais e orientais. Utilizarei, aqui, seu próprio opositor como re-
ferência, pois suas mecânicas são similares, apesar das motivações e interpretações de
seus símbolos e da própria expressão do Eu. Enquanto o cristianismo explora seus meca-
nismos a partir de um deus soberano, a demonolatria observa na divindade algo inerente
à sua existência e cuja coexistência o torna divino e capaz de se expressar através do que
desejar.

A bíblia cristã propõe uma trindade onde, apesar de toda ela representar o mesmo
ente, cada integrante desta organização possui sua função. Diferente da maior parte dos
satanismos, onde se tornam inversos extremos e equivalentes na intenção de não se dar a
oportunidade de estar “por baixo”, a demonolatria não tem por base o conflito direto com
a instituição cristã. A menos que o demonólatra assim deseje, os demônios se tornam
elementos fundamentais pelo alinhamento de humor e composição etérica com nossos
espíritos naturais, expressão de nossas manifestações em meio ao plano que habitamos.

- Adoração como mecanismo de magia (AL I:40-44)

“A Magia é a Ciência e a Arte de causar mudanças de acordo com a Vontade” (Liber ABA
- Livro Quatro)

Conheça a razão pela qual seu Eu expressa o desejo através da carne para se manifes-
tar e entenderá os mecanismos para a melhor escolha, interação com o demônio a ser
utilizado em seu trabalho magicko por conseguinte a realização deste desejo através do
encurtamento do caminho entre o mesmo e a realização.

“Faze o que tu queres há de ser Tudo da Lei” (AL I:40)

A partir desta frase como início da fórmula da utilização da demonolatria devemos


conhecer a nós mesmos, pois conhecendo a raiz de nossa natureza identificamos o pra-
zer do entusiasmo do Eu expresso pela carne. Essa manifestação será refinada através
da figura demoníaca que melhor expressar nosso ímpeto, até que alcancemos o nível de
consciência onde não há maior símbolo de manifestar o Eu do que este mesmo pronome
pessoal.

“A palavra de Pecado é Restrição. Ó homem! não recuses tua esposa, se ela quiser! Ó
amante, se tu queres, parte! Não há laço que possa unir o dividido senão amor: tudo além é
uma maldição. Amaldiçoado! Amaldiçoado seja isto pelos æons! Inferno.” (AL I:41)

A intimidade com um símbolo como um arquétipo demoníaco em favor da expressão

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Revista 777 - Demonolatria Thelemica

do Eu na natureza passa por abandonar o “respeito” que carregamos junto das relações
humanas que alimentam repressões sociais. Intimidade é reconhecer o completo poten-
cial do outro através do contato, envolvimento ilimitado e integral com a figura com a
qual buscamos um alinhamento .

“Deixai aquele estado de multiplicidade limitado e repugnante. Assim com vós todos; tu
não tens direito senão fazer a tua vontade.” (AL I:42)

Compreender a forma como você se expressa e manifesta seu desejo em meio aos
acontecimentos alheios à sua presença é essencial para a observação do verdadeiro ca-
minho a seguir. Existem dois caminhos: 1) a linha reta do vento que você é, desviando de
tudo aquilo que lhe interfira ou até mesmo derrubando o obstáculo para seguir, e 2) o
comportamento do barco à deriva que abre mão do vento em suas velas em nome de sua
independência. Não reconhecer seu potencial divino limita o fogo que fará a correlação
entre você e a figura demoníaca escolhida para o processo de refinamento de seu desejo.

“Fazei isso, e nenhum outro dirá não.” (AL I:43) “Pois pura vontade, desaliviada de propó-
sito, livre da ânsia de resultado, é todo caminho perfeito”
(AL I:44)

O Eu se manifesta em camadas, do inefável sentido por si num esquema de camadas.


Para se tornar mais tangível e manifesto na materialidade da natureza, ele se manifesta
através da carne, fazendo com ela que seja sua primeira ferramenta de manifestação, ele
utiliza seu aparelho vocal e ali o som se torna outro método de expressão, ele nota seu
corpo e percebe a conexão dos ciclos da natureza a sua volta expressos nele mesmo, e
então há a identificação, as folhas caem e com o tempo seu pelos também, a gravidade
puxa para baixo os frutos dos galhos e sua pele segue o mesmo sentido. O vento entorta
as árvores, move a face das águas e agita a poeira. Ali, ele se lembra do vento que é e além
de natureza ele se percebe causador das alterações da mesma, ainda que ele seja parte
dela. Assim como inquestionável é a roda das 4 estações do ano, inquestionável passa a
ser a expressão de seus desejos para a manifestação do Eu. As árvores já não entortam
mais pela dobra de sua madeira, mas sim pela expressão do desejo para a manifestação
do Eu. Os demônios a serem escolhidos partem do conhecimento que há sobre as neces-
sidades, pois ele se torna a linguagem mais objetiva para a realização do ato. De fato, esta
é a escolha da ferramenta mais apropriada para um trabalho em questão.

- Ritual, Amuleto e o Eu

Ritual

A ritualística deve sempre compreender as necessidades do desejo, portanto jamais


será reproduzida da mesma maneira que a forma anterior de realizá-lo. O desejo muda
de objetivo à medida que o Eu se manifesta, ainda que caminhe na mesma direção. A in-

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Revista 777 - Demonolatria Thelemica

teração com o meio causa também modificações na trajetória dos objetos que expressam
a comunicação com o demônio. Como numa relação com outra pessoa, à medida que a
pessoa muda e você também, a rotina se altera para se organizar na intenção de haver um
convívio salutar entre ambos. No caso da demonolatria, se você se propõe a criar laços
de intimidade com um demônio, você precisa compreender que ele é um portal para uma
nuance de sua personalidade, portanto, seu estado e cuidado consigo mesmo demonstra
o cuidado que deverá ter com o demônio a ser utilizado. Não se atenha a elementos es-
pecíficos e padronizados em rituais anteriormente vistos em livros ou em outras mídias.
A menos que perceba a necessidade desta expressão, fique livre para compreender as
necessidades que o seu desejo possui em relação à figura demoníaca escolhida. É ne-
cessário apenas que haja sempre uma alteração em seus estados de consciência quando
propuser o contato, para que a sensibilidade do seu Eu torne o contato com o símbolo
um ato sensível à natureza do desejo

Amuleto

A partir do trabalho da ritualística anteriormente mencionada, o amuleto se torna


um elemento conectivo para alinhamento energético, onde sempre que notado (quando
ativada esta habilidade) trará ao manipulador as potencialidades específicas do demônio
acessado. Este fetiche pode não apenas conter toda a essência do símbolo demoníaco,
como também uma expressão específica utilizada para trabalhos segmentados. Pode ha-
ver uma divisão das habilidades do ente como uma força em um anel, outra em um colar
e assim por diante. O mais importante é reconhecer e fazer ser percebido que aquele
amuleto é um estandarte da expressão de seu desejo através da carne e que assim deve
ser utilizado.

Eu

O Eu é o elemento primário e final da prática da demonolatria, é a expressão máxima


e mais objetiva que fala de si em relação e para além da natureza. Enquanto pronome
pessoal deve ser o maior amuleto de expressão do desejo . Ainda que para que exista o Eu
ele necessite de um plano de manifestação, o espaço etérico-geográfico para que “seja”
precisa do significado e função dada pelo Eu a manifestar. Portanto, os demônios para
que também existam dependem da figura a ser refletida em suas superfícies. Escolher
um demônio para adorar é escolher uma parte de si mesmo para atender e glorificar.

- Referências:
Crowley, Aleister (ed.) “Sepher Sephiroth” na cabala de Aleister Crowley: Três textos .
Nova York: Samuel Weiser.

Crowley, Aleister. (1991). O Equinócio dos Deuses. (Edição fac-símile corrigida.) Nova
York: OTO / 93 Publishing.

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Revista 777 - Demonolatria Thelemica

Keith, Mike. (25 de setembro de 2004). “O número da besta.” O mundo dos números
de Mike Keith

Westcott, W. Wynn. (1993). O número 666. Oxford, Inglaterra: Mandrake Press.

Victor Vieira | 93/666

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Revista 777

BRUXARIA THELEMICA

Antes de iniciar este texto, gostaria de deixar meu agradecimento aos meus ances-
trais, à Hecate, a Baal (demônio ou deus?) e ao Demiurgo Saturno.

Muitas vezes, não vemos um texto escrito por um thelemita no qual ele agradece aos
ancestrais, à alguma divindade ou o que quer que seja. Ao menos, e estando bem sincero,
ainda não trombei com nenhum assim. E é sobre isso que quero tratar deste assunto hoje.
Por muitos anos fiz parte da A.’.A.’. e inúmeras outras fraternidades, aprendi bastante,
descobri bastante sobre mim, mas em algum momento, deixei de lado meu trabalho na
Santa Ordem por questões pessoais, podendo voltar, felizmente, recentemente à labuta.
Neste período afastado, aproximei-me da bruxaria; (normalmente, trememos ao ouvir
isso pois logo nos remetemos à Wicca que possa ter alguma coisa de valor e falo com
total desconhecimento de causa e experiência). Não quero falar aqui de algumas ver-
tentes como Cultus Sabbati, Clan of Tubalcain e etc; muito menos, falar sobre rituais
elaboradíssimos. Para mim e outros praticantes, e aqui posso incluir algumas linhas de
ritos africanos e afro-brasileiros, estou falando de algo orgânico, no qual apenas uma
vela, um incenso e uma evocação ou cantiga é feita (claro, dependendo do intuito, outros
materiais podem ser usados).

Em Liber O vel Manus et Saggittae, Crowley escreve:

2. Neste livro é falado das Sephiroth e dos Caminhos, de Espíritos e Conjurações; de Deu-
ses, Esferas, Planos, e muitas outras coisas que podem existir ou não.
É irrelevante se elas existem ou não. Pois fazendo certas coisas, certos resultados segui-
rão; estudantes devem ser seriamente advertidos a evitar atribuições de realidade objetiva
ou validade filosófica a qualquer uma delas.

O trecho acima é um tanto quanto delicado, pois parece que Crowley joga fora uma
grande quantidade de possibilidades que o magista como operador pode realizar. De que
adianta ser magista se ele precisa ter o papiro virgem ou um aparato que o impossibilita
de, por exemplo, no meio do expediente de trabalho, ir ao banheiro e fazer uma operação
magicka? Onde está a facilidade e fluidez da coisa? Necessariamente ele precisaria ter-
minar o dia de trabalho, chegar em casa, tomar banho, de preferência, e só então realizar
a operação?! Isso não é prático. Crowley criticava Austin Osman Spare por fazer magia
para vender seus quadros, pois ele precisava ter dinheiro para se alimentar. Não era de
família abastada como o profeta. O que quero dizer é: entendo que o propósito final de
Thelema são as duas consecuções do Conhecimento e Conversação com o Sagrado Anjo
Guardião e do Bebê do Abismo. Mas parece que nós focamos nisso e esquecemos de que

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Revista 777 - Bruxaria Thelemica

o dia a dia, o cotidiano, exige de nós uma série de responsabilidades, seja familiares, do
lar, do trabalho, do estudo, enfim.

Sei que os métodos de pantáculo, sigilo e alfabeto de desejo do Spare, goécia são im-
portantes, mas será que são suficientes?

Durante os anos que andei afastado, optei por essa abordagem mais bruxesca e orgâ-
nica da magia e tive melhores resultados do que com o pantáculo.

Vou pegar um dos exemplos que mais trabalhei: goécia. A menina dos olhos de
qualquer adolescente que põe a mão em seu primeiro grimório e que logo o usa para
arrumar uma namorada. O método comumente conhecido, e simplificando bem, é fazer
o banimento, colocar o espírito no triângulo, o operador dentro do círculo, e fazer o pe-
dido que quer. Ja sabe, ne?! O espírito começa a enrolar, ameaça ele! Diz que vai destruir
seu nome, seu sigilo e toda aquela baboseira. Vamos concordar que se você é um espírito
(e aqui eu estou assumindo que ele é algo externo ao operador, ok?!) de alguns muitos
anos, tem poder, você vai obedecer um cara que te chama e ainda te ameaça? Você pode
até fazer, mas na primeira oportunidade, vai tirar tudo isso desse cara. Ao menos, é o que
eu faria.

Gostaria de propor uma outra forma de trabalho com os espíritos desse sistema e
de outros. Uma visão que está presente, novamente, nos ritos africanos e afro-brasileiros:
o de criar relação com o espírito. No caso da Goécia, é possível pegar os ensinamentos da
Stephanie Connolly no qual ela usa os mantras para chamar os espíritos. E a partir daí, é
possível explorar a melhor forma como irá trabalhar. Sempre bom atentar para indícios
que indicam o sucesso da operação, tais como: um cheiro peculiar ou característico que
remete ao espírito, um comentário, mas o principal ainda continua sendo a comunicação
onírica. E essa relação é alimentada conforme o magista quiser. Com o tempo, o espírito
vai se mostrando, revelando ser algo diferente do “demônio que comanda 70 legiões” e
toda aquela ladainha. Recomendo fortemente a obra de Jake Stratton Kent. O autor des-
trinchou a clavícula salomônica e deu uma nova luz ao grimório.

Mas ok, provavelmente, você está se perguntando o que diabos isto a ver com The-
lema. E isso é muito simples: como disse lá em cima, os principais nortes que guiam a via
da Santa Ordem são as duas consecuções, mas a grande maioria de nós não nasceu em
berço de ouro e precisa estar na labuta diária. Precisa trabalhar, cuidar da família, enfim,
possui tarefas cotidianas. E eu não vejo, por exemplo, onde o ritual menor do pentagra-
ma ajuda nisso, ou os do hexagrama. Era como se fosse preciso dar uma aterrada melhor
no trabalho mágicko. E é óbvio que tendo uma boa relação com os espíritos, o trabalho
se desenvolve. Veja, não estou aqui defendendo a subjugação ou a fé cega a um espírito,
entidade ou divindade, o que estou defendendo é, estando em sintonia com um espírito,
que tenhamos forças para agir, porque só quem dá as coisas nesse mundo são os nossos
pais e, às vezes, nem isso.

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Revista 777 - Bruxaria Thelemica

Frater RRL

Bibliografia:

Connolly, Stephanie – Daemonolatry Goetia, DB Publishing (2010)

Crowley, Aleister – Liber O vel Manus et Saggitae (https://www.hadnu.org/


publicacoes/liber-o-vel-manus-et-sagittae/)

_____________ - Libel al vel Legis (https://www.thelema.com.br/espaco-no-
vo-aeon/livros/al-o-livro-da-lei/)

Gemma Gary – Devil’s Dozen - Thirteen Craft Rites of the Old One (Troy Books, 2015)

Holmes, Leo – LeMULgeton - Goetia and the Stellar Tradition (Fall of Man, 2013)

Straton Kent, Jake – Conjure Codex 1 – Entrevista com Jake Straton Kent (Hadean
Press, 2011)

______________- Geosophia – Scarlet Imprint (2010)

______________- Goetic Liturgy – Hadean Press (2015)

______________- Trve Grimoire – Scarlet Imprint (2010)


Experiências registradas em diário (2015 – 2020)

60
Revista 777

ALEISTER CROWLEY NO CINEMA,


parte I: contribuições para uma filmografia.
O objetivo deste ensaio é avaliar a recepção da obra de Aleister Crowley no cinema
de ficção comercial. A primeira parte apresenta uma filmografia panorâmica, enquanto
a segunda parte – que será publicada em outro número da 777 – tem como foco o filme
Chemical Wedding (2008). A pergunta-chave que orienta as reflexões sobre as tensas e
ambíguas relações entre a escritura thelêmica e o cinema é: considerando que a indús-
tria cinematográfica fortalece o princípio básico da reprodução ideológica do sistema,
qual é o sentido do discurso de Crowley em filmes de entretenimento que reproduzem
o fetichismo da mercadoria cultural? Questão complexa, porque envolve um desajuste
entre a vontade de autonomia e liberdade irrestrita com o desejo de lucrar com a venda
de uma mercadoria para uma coletividade massificada.

“Aleister Crowley é o vilão arquetípico do século XX” (ARNOTT, 2009, s. p.)1 . O seu
discurso da liberdade plena, da autonomia do indivíduo, da magia sexual, da experiência
com psicotrópicos e da busca de novas formas de percepção tem provocado simulta-
neamente repúdio das tendências mais conservadoras e adesão das forças libertárias e
transgressoras. Seja como líder espiritual, vilão ou anti-herói, o escritor tornou-se pops-
tar, guru do rock e personagem de inúmeros produtos da indústria cultural, tornando-se
bem estabelecido no catálogo dos bens culturais de sucesso.

O registro audiovisual mais antigo a fazer referência a Crowley é o seriado Os Misté-


rios da Seita Negra (The Mysteries of Myra, 1916), dirigido por Leopold Wharton e Theo-
dore Wharton. De acordo com Diana Anselmo-Sequeira (2013), os 15 episódios da série,
que foram exibidos entre 24 de abril e 31 de julho de 1916 pela International Film Service,
em Nova York, tiveram todas as suas cópias completas destruídas. Atualmente, encon-
tramos apenas fragmentos de quatro episódios no British Film Institute, na Library of
Congress e no YouTube.

O Mestre da Ordem Negra, interpretado por Michael Rale, logo na abertura do vídeo
disponível no YouTube aparece em pose e visual semelhantes ao de Crowley em uma
conhecida fotografia de 1910 (Cf. LACERDA, 2012). A imagem se repete várias vezes, com
pequenas variações. O mago é o antagonista de Myra Maynard, a jovem médium inter-
pretada por Jean Sothern, numa trama que envolve a herança de uma fortuna, ocultismo,
ficção científica e ação policial.

A transformação de Crowley em personagem de cinema em 1916 poderia ser conside-


rada prematura, se desde 1910 ele já não fosse uma “celebridade controversa”, envolvida
1 Todas as traduções de citações de obras em língua estrangeira foram feitas por mim, com exceção dos nomes dos
filmes (usei o título comercial adotado no Brasil).

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Revista 777 - Aleister Crowley no cinema

em escândalos com “drogas, rituais, mágicos, orgias sexuais” (HEYSS, 2010, p. 137). Por
exemplo, em junho de 1912, sob o nome iniciático Baphomet, Crowley foi nomeado Rei
Supremo da O.T.O. (Ordo Templi Orientis) na Grã-Betanha. Em outubro de 1914, o es-
critor mudou-se para Nova York, cidade onde foi filmada a série Os Mistérios da Seita
Negra, sendo diversas vezes difamado por jornais sensacionalistas que o acusavam de
satanismo (HEYSS, 2010, p. 152).

O Mágico (The Magician, 1926), filme mudo dirigido e roteirizado por Rex Ingram, tem
roteiro adaptado do romance homônimo de William Somerset Maugham, que compôs
o vilão-título inspirado em Crowley. O magista respondeu ao romancista com o texto
“How to Write a Novel! (After W. S. Maugham)”, publicado em dezembro de 1908, ano do
lançamento do livro, na revista Vanity Fair. Adotando Oliver Haddo, nome do protago-
nista, como pseudônimo, Crowley levianamente acusou Maugham de plágio (CROWLEY,
1989, p. 571).

No filme de terror, que segue o enredo do livro, o praticante de magia negra Oliver
Haddo, interpretado por Paul Wegener, pesquisa a fórmula mágica para a criação de vida
humana. A fim de alcançar seu objetivo, ele precisa do sangue de uma virgem. A eleita é
Margaret Dauncey, interpretada por Alice Terry.

Três décadas se passaram até que Crowley voltasse ao cinema. O cineasta indepen-
dente Kenneth Anger (2009), para quem a diferença entre underground, avant-garde e
comercial dissipou-se no século XXI, dirigiu uma série de curtas-metragens experimen-
tais de temática thelêmica. Inauguration of the Pleasure Dome (1954) – que teve outras
três versões em 1958, 1966 e 1978 – mostra uma festa com a participação da Grande Besta
666 (interpretado por Samson De Brier) e sua Mulher Escarlate (interpretada por Marjo-
rie Cameron); Thelema Abbey (1955), que aborda a comunidade que Crowley fundou em
Cefalù (comuna italiana da região da Sicília), infelizmente foi perdido; Invocation of My
Demon Brother (1969), com trilha sonora de Mick Jagger, mostra imagens psicodélicas
de um ritual; e o mais recente Brush of Baphomet (2009) foi inspirado na descoberta de
pinturas de Aleister Crowley.

O destaque da filmografia de Anger fica para Lucifer Rising (1972), que apresenta deu-
ses egípcios convocando o anjo Lúcifer para inaugurar uma nova era. As filmagens co-
meçaram em 1966 e o filme ficou pronto em 1972, com trilha sonora de Jimmy Page, mas
só foi lançado em 1980, com música de Bobby Beausoleil, membro do grupo de Charles
Manson que cumpria prisão perpétua por homicídio desde 1969.

Marjorie Cameron, atriz thelemita que interpretou a mulher escarlate em Inaugura-


tion of the Pleasure Dome, é a protagonista do curta-metragem The Wormwood Star
(1956), dirigido e roteirizado por Curtis Harrington. O filme representa como a atriz al-
cançou a consecução do conhecimento e conversação do Sagrado Anjo Guardião, ato
que segundo Crowley (1954), seguindo o texto atribuído a Abraão, o Judeu (2017), seria o

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Revista 777 - Aleister Crowley no cinema

clímax do trabalho de todo magista.

Outro filme dos anos 1950 seria A Noite do Demônio (Night of the Demon, 1957), diri-
gido por Jacques Tourneur, com roteiro de Charles Bennett e Hal E. Chester baseado no
conto “Casting the runes”, de M. R. James (2011), publicado originalmente em More Ghost
Stories (1911). Ainda que muitos intérpretes afirmem que o personagem Mr. Karswell seja
inspirado em Crowley, não há evidência de que o contista tenha conhecido o magista
(JONES, 2011, p. 444). As poucas semelhanças entre Crowley e o Karswell de James não
são evidências suficientes: ambos fundaram religiões para si mesmos; escreveram livros
de ocultismo; eram corpulentos e não usavam barba. No filme, eu também não encontrei
evidências de que o líder satanista Julian Karswell, interpretado por Niall MacGinnis, te-
ria sido inspirado em Crowley. Concluo que a falsa atribuição seja baseada na confusão
entre Thelema e um satanismo genérico.

Uma década depois temos outro caso de falsa atribuição. Pearson (1968) e outros au-
tores afirmam que o satanista Adrian Marcato, mencionado no filme O Bebê de Rosemary
(Rosemary’s Baby, 1968), de Roman Polanski, seria baseado em Crowley. No entanto, a
única evidência apresentada – e eu não encontrei outra – é que as gravações tiveram
como cenário o edifício Dakota (no filme rebatizado The Bramford), onde viveu Aleister
Crowley (e onde John Lennon foi assassinado).

O líder satanista do filme, Steven Marcato, filho de Adrian, conhecido como Roman
Castevets, parece ser inspirado em Anton LaVey. Não foi por coincidência que o perso-
nagem interpretado por Sidney Blackmer fez o brinde de Réveillon, em 01h14m, com as
seguintes palavras: “A 1966! O Ano Um!”. 1966 foi o ano da fundação da Igreja de Satã, que
o autodenominado Sumo Sacerdote declarou ser o Anno Satanas – o primeiro ano da Era
de Satã (DYRENDAL, LEWIS, PETERSEN, 2016, p. 52).

No mesmo ano de 1968 foi lançado o filme As Bodas de Satã (The Devil Rides Out,
1968), dirigido por Terence Fisher, baseado no livro homônimo de Dennis Wheatley, pu-
blicado em 1934. Tanto o livro quanto o filme fazem referências evidentes a Crowley, ain-
da que confundam Thelema com satanismo. Ambos identificam o líder satanista Mocata
(interpretado por Charles Gray) como um Ipsissimus, grau mais elevado da A.’.A.’..

As cenas iniciais com os créditos apresentam pentagramas e imagens medievais do


diabo. A simbologia ocultista aparece ao longo do filme, em altares, cálices, velas e facas
de sacrifício, algumas vezes historicamente precisas, outras não. Por exemplo, no ritual
representado entre os minutos 38 e 43, Mocata saúda Babalon e Osíris, depois conjura
Baphomet, três entidades significativas no panteão thelêmico. No entanto, o culto de
Mocata tem pouca semelhança com as irmandades thelêmicas.

No minuto 22 do filme, o personagem Nicholas, Duque de Richleau (interpretado por


Christopher Lee), encontra a obra A Clavícula de Salomão na casa do seu amigo Simon

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Revista 777 - Aleister Crowley no cinema

Aron (Patrick Mower), que estava enfeitiçado por Mocata. O livro, também conhecido
como Chave de Salomão, é um pseudo-epígrafo atribuído ao Rei Salomão, mas de ori-
gem renascentista. Existem várias versões do texto, sendo uma delas traduzida por Sa-
muel MacGregor Mathers, editada, anotada e prefaciada por Aleister Crowley, em 1904
(CROWLEY, 1995).

No minuto 55, Mocata parafraseia a definição de Crowley para magia. Enquanto o sa-
tanista do filme define Magic como “the Science of causing change to occur by means of
ones will” (a ciência de fazer com que a mudança ocorra por meio da vontade de alguém),
o escritor descreve sua Magick como “the Science and Art of causing Change to occur in
conformity with Will” (ciência e arte de causar mudança em conformidade com a vonta-
de).

Crowley, que altera a grafia da palavra inglesa para diferenciar o seu sistema iniciático
dos espetáculos circenses de ilusionismo, defendia a vontade como máxima soberana,
suprimindo todas as formas de autoridade estabelecidas, tendo em vista a realização dos
desejos individuais. Em contraposição às religiões, que esperam que um poder superior
justifique o mundo, e à magia tradicional, que adota símbolos canônicos, alheios aos in-
divíduos, sua Magick se caracteriza por fazer uso apenas de símbolos pessoais. Assim, a
única fonte de orientação espiritual confiável em todo o universo seríamos nós mesmos.
O indivíduo, não Deus, tampouco o Diabo, passa a ser o centro do Universo: “Eu estou só:
não existe Deus onde Eu sou” (CROWLEY, 2018, p. 145).

A única produção brasileira da lista é Bellini e o Demônio (2008), filme dirigido e ro-
teirizado por Marcelo Galvão, com base no livro homônimo de Tony Bellotto, de 1997. No
romance do guitarrista da banda Titãs, o detetive Remo Bellini tem que localizar um ma-
nuscrito perdido do escritor Dashiell Hammett. No filme, o personagem interpretado por
Fábio Assunção é contratado por um cliente misterioso e não identificado para descobrir
o paradeiro do Livro da Lei, de Aleister Crowley, que parece estar relacionado a uma série
de assassinatos e rituais satânicos.

Trata-se de mais um filme que confunde o ocultismo de Crowley com o satanismo.


Considerando que historicamente a dominante cultural cristã-ocidental tem apresen-
tado o diabo como personificação do mal e o satanismo como uma transgressão das
normas moralmente aceitas, todos aqueles que contrariam a moral cristã têm sido ro-
tulados como demoníacos. E o diabólico tem sido uma mercadoria lucrativa, pois, como
argumenta a nona declaração satânica da Bíblia Satânica: “Satã tem sido o melhor amigo
que a igreja já teve, uma vez que ele a tem mantido no mercado por todos esses anos!”
(LAVEY, 2013, p. 12). Considerando que a indústria cultural é simultaneamente pornográ-
fica e puritana, o jogo de virtude e pecado, tentação e ascese, move a máquina: quem cai
em tentação pode se arrepender e alcançar a redenção.

Nota sobre os seriados

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Revista 777 - Aleister Crowley no cinema

Aleister Crowley também tem aparecido em seriados para televisão e streaming. A


primeira referência seria o Tio Fester, da Família Addams (The Addams Family), criada
pelo cartunista Charles Addams em 1938. O personagem dos quadrinhos, bem como as
representações de Jackie Coogan (na série de 1964) e Christopher Lloyd (no filme de 1991)
parecem fisicamente com o Crowley careca e sem barba dos anos 1920. E nos créditos
finais do filme de 1991, a canção “The Addams Groove”, do MC Hammer, começa com um
verso que parafraseia a Lei de Thelema – “Faz o que tu queres deverá ser o todo da Lei”
(CROWLEY, 2018, p. 139) – “They do what they wanna do” (eles fazem o que eles querem).

Em Supernatural (2005-2020), o demônio Crowley (interpretado por Mark Sheppard)


aparece entre a 5a e a 12a temporadas (2009-2017), primeiramente como o Rei das Encru-
zilhadas, passando posteriormente a Rei do Inferno. Crowley também é o nome do de-
mônio protagonista de Good Omens (2019), série de seis episódios dirigida por Douglas
Mackinnon e escrita por Neil Gaiman. A semelhança entre o escritor e os personagens
encontra-se sobretudo no nome.

Em O Mundo Sombrio de Sabrina (Chilling Adventures of Sabrina, 2018-2019), no se-


gundo episódio da 1a temporada, o Padre Faustus Blackwood (interpretado por Richard
Coyle), Sumo Sacerdote da Igreja da Noite, conduz o batismo das Trevas de Sabrina Spell-
man pronunciando as palavras do Livro da Lei: “Não há lei além de ‘Faz o que tu queres’”
(CROWLEY, 2018, p. 157). E no episódio 8 da 1a temporada, o bruxo Ambrose Spellman
menciona que no passado ele conheceu um jovem chamado Crowley, “brilhante, caris-
mático e devoto do Senhor das Trevas”.

Um estudo à parte deve ser dedicado à série Strange Angel (2018-2019), que conta a
história de Jack Parsons, thelemita que foi um dos cientistas responsáveis pela criação do
combustível de foguetes. Os episódios do seriado abordam sua participação na O.T.O. e
no Laboratório de Propulsão a Jato do Instituto de Tecnologia da Califórnia, que pertence
à NASA.

De acordo com o historiador Lincoln Mansur Coelho (2018), na TV, Crowley também
ganhou vida em desenhos animados, como no mordomo Menta (Peppermint Butler) de
Hora da Aventura (Adventure Time, 2007-2018), na série de anime D.Gray-man (Dī.Gurei-
man, 2006- 2008), baseada no mangá homônimo escrito e ilustrado por Katsura Hoshino,
bem como no anime Toaru Majutsu no Index (2008-2009), baseado na série de light novel
japonesa escrita por Kazuma Kamachi e ilustrada por Kiyotaka Haimura. Podemos acres-
centar a animação experimental de micro-metragem The Adventure of a Worm: A Short
Tribute to Mr Aleister Crowley, The Magus (2008), dirigida por Richard Pecha.

Em abril de 2020 estreou na Netflix a série de animação para adultos The Midnight
Gospel, criada por Pendleton Ward, da Adventure Time, em parceria com o comediante
Duncan Trussell. No 20o minuto do terceiro episódio, o protagonista Clancy Gilroy diz
que já leu alguns livros de magia e elogia: “Tipo o Crowley, nossa! Mas, Jesus amado, às

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Revista 777 - Aleister Crowley no cinema

vezes ele parece sombrio”. E continua uma conversa sobre magick, magia, ocultismo,
O.T.O., Golden Dawn e Crowley novamente.

Estas notas para uma filmografia de Aleister Crowley, que enfatizam os filmes co-
merciais de ficção – os inúmeros documentários sobre sua vida e obra, excluídos deste
texto, demandam um outro espaço – indicam que a maioria das produções, assim como
a imprensa sensacionalista dos anos 1910-20, apresentam uma adaptação deturpadora
dos escritos de Crowley, confundindo Thelema com magia negra e satanismo.

Considerando que Crowley tornou-se a personalidade mais notória do ocultismo,


devido à sua capacidade de influenciar tanto a indústria cultural quanto a contracultu-
ra, e as convergências entre a doutrina de Thelema e a direção que o satanismo con-
temporâneo tomou (ambos no chamado “caminho da mão esquerda”) – a confusão é
explicável, ainda que não seja justificável, por revelar incapacidade de compreensão
das nítidas diferenças entre as doutrinas (cuja explicação foge ao escopo deste artigo).

Considerações finais

A pergunta-chave que orientou as reflexões sobre as tensas e ambíguas relações


entre a escritura thelêmica e o cinema foi: considerando que a indústria cinematográ-
fica fortalece o princípio básico da reprodução ideológica do sistema, qual é o sentido
do discurso de Crowley em filmes de entretenimento que reproduzem o fetichismo da
mercadoria cultural?

Os filmes de ficção comercial avaliados neste artigo adotam clichês de Crowley como
satanista ou praticante de magia negra, envolvido em crimes violentos. Assim, revelam
um desajuste entre a linguagem ocultista de Crowley, que expressa uma vontade de au-
tonomia e liberdade irrestrita, com a linguagem cinematográfica feita para lucrar com
a venda de uma mercadoria para uma coletividade massificada.

Os filmes abordam a transgressão de Crowley sem nunca romper com os padrões do


entretenimento comercial e do conservadorismo estético que hostilizam a transgres-
são thelêmica. Assim, mantém o sistema econômico funcionando mediante o estímulo
ao consumo. Se no cinema de ficção comercial o realizador se preocupa com o êxito
comercial do filme, no documentário, em tese a construção da narrativa fílmica tem
como objetivo a representação das vidas biografadas, através do que procura não se
afastar da realidade, independentemente da aceitação do grande público. E no cinema
experimental, o artista não se preocupa com dados documentais e se opõe às práticas
e ao estilo da indústria cultural. Por isso, a filmografia experimental de Kenneth Anger
e os diversos documentários sobre Crowley existentes precisam de estudos à parte.

Referências audiovisuais

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Revista 777 - Aleister Crowley no cinema

BELLINI e o Demônio. Direção: Marcelo Galvão. Barueri: Imagem Filmes, 2008. 1 DVD.

BRUSH of Baphomet. Direção: Kenneth Anger. Nova York, NY: Mystic Fire Video, 2009.
Disponível em: < https://youtu.be/6fKBRzgXrH4>. Acesso em: 10 dez. 2019.

CHEMICAL Wedding. Direção: Julian Doyle. Londres: Bill&Ben Productions, Focus Fil-
ms, 2008. Disponível em: <https://youtu.be/zrGCoISeOCs>. Acesso em 10 dez. 2019.

CHILLING Adventures of Sabrina. Criação: Roberto Aguirre-Sacasa. Los Gatos, CA:


Netflix, 2018-2019. Disponível em: <https://www.netflix.com/title/80223989>. Acesso
em: 10 dez. 2019.

GOOD Omens. Direção: Douglas Mackinnon. Seattle: Amazon, 2019. Disponível em:
<https://www.primevideo.com>. Acesso em 10 dez. 2019.

INAUGURATION of the Pleasure Dome. Direção: Kenneth Anger. Nova York, NY: Mys-
tic Fire Video, 1954 [1966]. Disponível em: <https://youtu.be/IgnRr170ERM>. Acesso em:
10 dez. 2019.

INVOCATION of My Demon Brother. Direção: Kenneth Anger. Nova York, NY: Mystic
Fire Video, 1969. Disponível em: <https://youtu.be/JyWkcB-K9TI>. Acesso em: 10 dez.
2019.

LACERDA, Jonatas. Aleister Crowley: Memória Fotográfica. 2012. Disponível em:


<http://www.thelema.com.br/espaco-novo- aeon/conteudo/uploads/2012/11/a_gal-
leries_aleister_crowley_1910_05.jpg>. Acesso em: 17 nov. 2019.

LUCIFER Rising. Direção: Kenneth Anger. [S.L.]: Puck Film Productions, 1972 [1980].
Disponível em: <https://youtu.be/4o6HIM03ozw>. Acesso em: 10 dez. 2019.

NIGHT of the Demon. Direção: Jacques Tourneur. Culver City, CA: Columbia Pictu-
res, 1957. Disponível em: <https://www.dailymotion.com/video/x21hmso>. Acesso em:
10 dez. 2019.

ROSEMARY’S Baby. Direção: Roman Polanski. Los Angeles: Paramount Pictures, 1968.
Disponível em: <https://www.primevideo.com>. Acesso em 10 dez. 2019.

Frater Eudaimon

67
Revista 777

SOBRE O CAOS

RELAÇÕES ENTRE KAKODAIMON, AGATHODAIMON E ANJOS.

93! Saúdo a todos os fratres e Sorores!

No início, tudo era indistinguível e os opostos eram uma coisa só, tudo existia poten-
cialmente na mônada primordial, também chamada de Caos. Porém, com a reflexão e a
coexistência do demiurgo, o que era apenas potencial torna-se realização resultando na
Harmonia. O Deus criador (demiurgo), refletindo sobre as potencialidades do Caos, se
esforça em reproduzi-las da maneira mais perfeita, dando origem às disciplinas do qua-
drivium que constituem o universo.

Geralmente ao escutar a palavra Caos, inferimos desordem, dispersão, desentendi-


mento, ausência de harmonia e entre outras coisas do gênero. Entretanto, o Caos em seu
sentido mais primitivo e místico, não tem relação com a desordem e nem tem relação
com a ordem, isto é, o Caos é a união dos opostos, ele não é nem uma coisa e nem outra.

Partindo para a atualidade, a velha história de que o Caos é inútil ou algo a ser evita-
do, não é congruente com a ideia de Caos que os antigos tinham. Os pitagóricos deram
uma importância notável a respeito do Caos ou Mônada, que corresponde com a forma
geométrica de um círculo.

A MÔNADA

Figura 1 – Mônada

Fonte: Iamblichus - The theology of arithmetic (1988)

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Revista 777 - Sobre o Caos

Figura 2 – Diagrama em forma de lambda

A mônada é a fonte não espacial dos números, pois preserva a própria identidade de
todos os números, como pode ser observado no diagrama em forma de lambda, além dis-
so, 1×2=2 ou 1×10=10 e assim por diante, sempre preservando a integridade do número, e
isto acontece porque tudo existe em potencial na mônada. O autor diz (J MBLICO, 1988,
p. 35, tradução livre):

Pois a mônada é par e ímpar e par-ímpar; linear e lugar e sólida (cúbica e esférica
e na forma de pirâmides daquelas com quatro ângulos, àquelas com um número
indefinido de ângulos); perfeita e super perfeita e defeituosa; proporcional e har-
mônica; primo e incomposta, e secundária; diagonal e lateral; e é a fonte de toda
relação, seja de igualdade ou desigualdade, como foi provado na Introdução1.

A mônada também é chamada de Uno, deste modo, ela constitui a união dos opostos,
Jâmblico (1988, p. 35, tradução livre) diz: “é chamada de “mônada” por causa de sua esta-
bilidade [...]2”.

Sendo assim, supondo que apenas o bem existisse, ele não seria bem, por outro lado,
se somente o mal existisse, ele não seria mal, logo, o bem e o mal são uma coisa só, uma
vez que, um não admite ser na ausência do outro.

Deste modo, vivemos em uma dualidade que é aparente, porém em termos de poten-
cialidade e imaterialidade, essa dualidade não existe, Nicômaco (1926, p. 182, tradução
livre) cita exemplos acerca das coisas imateriais:

As coisas sem corpo, entretanto, das quais nós concebemos em conexão com ou
juntamente com a matéria, tais como qualidades, quantidades, configurações,
1 Lê-se na tradução inglesa que se consultou: “For the monad is even and odd and even-odd; linear and place and solid (cubical
and spherical and in the form of pyramids from those with four angles to those with an indefinite number of angles); perfect and over-
-perfect and defective; proportionate and harmonic; prime and incomposite, and secondary; diagonal and side; and it is the source of
every relation, whether one of equality or inequality, as has been proved in the Introduction”.

2 Lê-se na tradução inglesa: “Its is called ‘monad’ because of its stability [...]”.

69
Revista 777 - Sobre o Caos

grandeza, pequenez, igualdade, relações, realidades, disposições, lugares, tempos,


todas essas coisas, em uma palavra, por meio do qual as qualidades encontradas
em cada corpo são compreendidas ‒ todas elas são de si mesmas imóveis e imutá-
veis, mas, acidentalmente elas compartilham e participam das afeições do corpo,
ao qual elas pertencem3.

Postas essas considerações, os corpos físicos tem multitude e magnitude, em outras


palavras: quantidade e delimitação, adição e subtração, aritmética e geometria. Ora, mul-
titude e magnitude é a própria definição de número, portanto, o número é o princípio
imaterial que está intrinsecamente relacionado aos corpos.

Dentro desse contexto, o ser é limitado a experienciar uma aparente dualidade, da


qual os maniqueístas dizem que foi imposta pelo demiurgo, que é mal. Entretanto, como
foi mostrado, a dualidade é aparente e o demiurgo na visão pagã é aquele que está em
um estado de Caos, e tenta reproduzir de maneira perfeita as potencialidades do Uno,
trazendo-as para fora de si, ou seja, o demiurgo faz a sua obra da melhor maneira possível
e ele não assume posições, uma vez que ele está em um estado de Caos.

RELAÇÕES ENTRE KAKODAIMON, AGATHODAIMON E ANJOS.

Hoje vivemos em uma sociedade onde o “bem bate no mal”, tal concepção tem um fun-
damento histórico enraizado em algumas crenças, por outro lado, nas tradições antigas
como o paganismo ocidental, pode-se denotar uma importância dada ao equilíbrio entre
os opostos, em outras palavras, Eudaimonia.

A Eudaimonia na maior parte dos casos será tratada por doutores e professores sim-
plesmente como “felicidade” e totalmente desassociada dos daimons e dos mistérios,
mas o que muitos não se questionam é, por que felicidade? A resposta dessa pergunta
está nos daimons.

Para enfatizar isso, podemos sistematizar uma hierarquia presente desde os tempos
remotos: Deuses (Elementos da natureza personificados), Daimons (Agente dos Deuses),
Heróis (Homens exemplares, arquétipos) e Almas puras (Homens que estão na busca co-
nhecimento, podemos entender como filósofos talvez).

De fato, essa ordenação hierárquica pode variar, uma vez que, muitos Deuses também
são daimons, independente disso, o fato é que os daimons possuem uma função de serem
mensageiros dos Deuses, deste modo, estabelecem uma ponte entre o teurgo ou feiticei-
ro com relação aos Deuses (elementos da natureza).

3 Lê-se na tradução inglesa: “The bodiless things, however, of which we conceive in connection with or together with matter,
such as qualities, quantities, configurations, largeness, smallness, equality, relations, actualities, dispositions, places, times, all those thin-
gs, in a word, whereby the qualities found in each body are comprehended ‒ all these are of themselves immovable and unchangeable,
but accidentally they share in and partake of the affections of the body to which they belong”.

70
Revista 777 - Sobre o Caos

Assim sendo, é no equilíbrio do agathodaimon (espírito bom) e kakodaimon (espírito


maligno) que reside a virtude, a perfeição, em outras palavras, o estado de Caos. Ao depa-
rarmos com essa constatação, pode-se dar mais consistência ao pensamento de Plotino,
que Deus é tudo que existe simultaneamente, isto é, o Uno, que por sua vez é o Caos.

A HÉPTADA

Figura 3 – Héptada

Fonte: Iamblichus - The theology of arithmetic (1988)

Dando continuidade, os anjos estão diretamente relacionados com a héptada, isto é,


com o 7, sua concepção angelical em termos místicos, difere muito da concepção das
atuais grandes religiões.

Nicômaco (J MBLICO, 1988, p. 88, tradução livre) relata alguns aspectos teológicos
dos babilônicos, descrevendo a concepção angelical destes, a qual foi retirada de algum
escrito sagrado que não é especificado, mostrando que, assim como os politeístas oci-
dentais, os babilônicos associavam os espíritos com os corpos celestes, ele diz:

[...] e eles pela mesma razão chamam esses agrupamentos de ‘rebanhos’ em seus
escritos sagrados, e também de ‘anjos’ pela inserção do ‘g’ perdido; portanto, os
corpos celestes e espíritos que se destacam em cada um desses rebanhos, também
são chamados de anjos e arcanjos, e eles são em número sete, com a consequência
de que o hebdomad é a este respeito, mais verdadeiramente uma mensagem4.

Nicômaco (J MBLICO, 1988, p. 88) descreve que esses 7 corpos celestes são guardiões,
responsáveis por manter o universo e trazerem a estabilidade eterna. A palavra rebanho
em grego lê-se agele e o ‘g’ perdido deriva da palavra “mensagem”, que vem do grego
aggelia, a qual constitui aquilo que os anjos trazem, e anjo em grego é aggelos, ou seja,
o anjo é um mensageiro dos céus. Robin Waterfield (1988) descreve que Nicômaco está
tentando nos lembrar da palavra agelaia que significa forrageador.
Esta unidade entre os opostos constitui o caráter uníssono do Caos. Desta unidade
4 Lê-se na tradução inglesa consultada: “[...] and they for the same reason call these clusters ‘flocks’ in their holy writings, and
also ‘angels’ by insertion of the lost ‘g’; hence the heavenly bodies and spirits which are outstanding in each of these flocks are likewise
called angels and archangels, and they are seven in number, with the consequence that the hebdomad is in this respect most truly a
message”.

71
Revista 777 - Sobre o Caos

parte todas as outras formas geométricas e números dos quais estamos familiarizados,
sendo assim, não podemos compreender o Uno em si, nem o visualizar, entretanto, po-
demos compreender a união dos opostos sem necessariamente ter qualquer uma dessas
capacidades sensoriais.

Sendo assim, podemos ter uma compreensão da unidade através do hebdomad (inte-
lecto) por meio das mensagens dos anjos ou daimons.

Iohannes

REFERÊNCIAS

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I, II e III. 2013. 140f. Dissertação de Mestrado Pontifícia Universidade Católica de São
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2. ed. Translated from the Greek by Thomas Taylor. London: Bertram Dobell, 1895.

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lated from the Greek by Robin Waterfield. Grand Rapids: Phanes Press, 1988.

PLATÃO. Timeu-Crítias. Tradução de Rodolfo Lopes. Coimbra: Universidade de Coim-


bra, 2011.

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Revista 777

Daniel Santos

73
Revista 777

NEUROPLASTICIDADE, LONGEVIDADE E MAGICK

“Nós afirmamos a existência de uma fonte secreta de energia que explica o fenômeno
dos gênios: uma ocorrência no cérebro caracterizada pela união de sujeito e objeto. Propo-
mo-nos a discutir este fenômeno, analisar sua natureza, determinar claramente condições
físicas e mentais que lhes são favoráveis, descobrir suas causas e então produzi-los em nós
mesmos,para que possamos estudar seus efeitos”.

Aleister Crowley, 1911

(Este artigo pertence à série “PandeMagick”, com o intuito de falar sobre neuroplasti-
cidade, saúde física, mental e longevidade; será dividido em partes I e II).

Por mais que nossa sociedade dê extrema importância à materialidade, movida em


parte pelo consumismo, não há de se negar que os maiores avanços científicos, “espiri-
tualistas” e tecnológicos foram alcançados após árduo esforço de mentes consideradas
brilhantes mas que considero na realidade mais bem empregadas/organizadas/dotadas
de oportunidade/trabalho árduo do que diferenciadas (como o próprio Crowley). Utiliza-
mos nossas grandes capacidades físicas e mentais e esquecemos que ambas se compor-
tam como um músculo e são passíveis de treinamento. A mente, por ser complexamente
estruturada e ter vários recônditos que nem sempre estão à mostra (e.g., inconsciente)
(MLODINOW, 2014), passa a aparência de sempre funcional, de nunca apresentar proble-
mas, e por darmos mais atenção às dores físicas do que às emocionais e mentais, mui-
tas vezes tratamos apenas os lados sintomáticos desses grandes reservatórios psíquicos
(KAHNEMAN, 2011). Esquecemos, também, que nosso cérebro é feito de matéria e que
deve ser exercitado como qualquer outra parte do corpo, e que o cuidado com a mente
é fundamental para se ter qualidade de vida. Um exemplo de como uma mens insana in
corpore sano pode existir é a esquizofrenia que, sem cura, acaba com a vida de milhares
de pessoas todos os anos. Considerando que a mente controla o corpo e responde aos
estímulos aplicados a esse, me parece relevante que maior atenção seja dada à saúde da
mente, tanto quanto se dá ao corpo; essa urgência de cuidar da saúde física e mental
veio mais à tona agora com o Coronavírus e a Pandemia, por isso diversas considerações
serão feitas sobre a saúde mental, hábitos que propiciam a sua manutenção e uma apre-
sentação de fatores controláveis que podem conduzir à longevidade.

Por muitos anos se discutiu - isso desde 1700 - se haveria como se “treinar” a mente, e
se isso teria efeitos no longo prazo, propiciando um envelhecimento mental mais saudá-
vel. Durante duzentos anos acreditou-se na plasticidade do cérebro, mas como não havia
provas, a ideia caiu em esquecimento até 1900 (quando então se tornou possível observar

74
Revista 777 - Neuroplasticidade, longevidade e Magick

células de forma mais detalhada, através do microscópio), voltando somente após 1950 à
tona e ao debate (CONSTANDI, 2016). Mesmo a psicologia e a psiquiatria, advindas de um
corpus de conhecimento muito mais antigo (composto por filosofia, alquimia, medicina,
hermetismo medievais), tiveram seus expoentes somente no início dos anos 1900, com
Freud e Jung. Enquanto as ciências consideradas exatas avançam rapidamente com o
progresso tecnológico, o conhecimento profundo da mente humana ainda é baseado em
empirismo e as modelagens são pouco ou nada úteis à sua análise significativa: sabemos
o quê e os porquês, mas pouco entendemos dos “comos” da mente.

Para escrever este breve artigo chequei o histórico da neuroplasticidade, o desenvol-


vimento da pesquisa em redes neurais biológicas e por fim, dentre vinte e um estudos,
selecionei os que achei mais interessantes para trazer à discussão a saúde da mente e a
possibilidade evidenciada do aumento de qualidade de vida decorrente. Como explora-
dores da Magicka, arte que trabalha muito com a mente e suas propriedades, torna-se
relevante que os Magistas tenham um cuidado com ela para que possam usá-la melhor
e por mais tempo. O relato foi estendido para a questão da longevidade física e mental e
cuidados que podemos ter para propiciar essa longevidade; ao final seguem as referên-
cias consultadas para os interessados em aprofundar a questão.

O ENVELHECIMENTO

O cérebro humano, como qualquer outro órgão, gera novas células ao longo da vida
porém com a idade essa taxa diminui. No entanto não entendemos no que exatamente as
células novas contribuem nas funcionalidades do cérebro, além das relações descobertas
entre antidepressivos (como a fluoxetina ou Prozac) e a ocorrência de neurogênese (ERI-
CKSON et al., 1998). Há apenas hipóteses de que a neurogênese possa ser positiva no tra-
tamento de doenças como depressão, mal de Parkinson e mesmo prejudicial para casos
como câncer cerebral (CONSTANDI, 2016). Ainda com muitas controvérsias em relação à
quantidade e à funcionalidade das novas células, o fato da neurogênese em adultos abriu
caminho para estudos e terapias para doenças e injúrias cerebrais, bem como transplan-
tes de áreas afetadas acidental ou naturalmente.

Nosso cérebro alcança dimensão quase total até em torno de 16 anos. Depois disso
outras partes do cérebro continuam se desenvolvendo, alcançando maturidade pelos 20-
25 anos. Durante a segunda e terceira décadas de vida os circuitos neurais são refinados
e ajustados, criando o efeito comportamental que chamamos de maturidade (SELEMON,
2013). Naturalmente somos afetados pela idade notadamente nos fatores atenção, apren-
dizado, memória, execução e mudança de tarefas, mas outras funcionalidades como me-
mória fatual, visual, ou regulação de emoções, podem ser mantidas ou até melhoradas.
Com a idade avançada, temos neurônios mortos e diminuição de massa cerebral. Estudos
em humanos mostram resultados não conclusivos quando velhos e jovens são subme-
tidos a testes de atividade cerebral versus idade. Por exemplo, em testes (CONSTANDI,
2016) com eletroencefalograma, velhos têm maior atividade cerebral; mas qual seria o

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Revista 777 - Neuroplasticidade, longevidade e Magick

significado disso? Pode ser uma compensação natural das células mortas, ou então uma
baixa eficiência sináptica, e portanto, necessidade de mais neurônios durante as ativida-
des. Apesar de sabermos que a idade afeta o funcionamento mental, não sabemos dizer
exatamente como.

Estudos mostram que as áreas mais afetadas com o envelhecimento são áreas pré-
-frontais, justamente também as áreas que regulam as funções executivas principais:
memória operacional, inibição e flexibilidade cognitiva. Essas funções básicas podem
afetar atividades simples diárias como dirigir, pagar contas, fazer cálculos simples, re-
conhecer pessoas e locais, tornando a qualidade de vida infinitamente inferior. Mais à
frente uma discussão breve sobre o envelhecimento físico mostrará que quando células
envelhecem, 99% delas são recuperadas e o 1% das que não são recuperadas determinam
o envelhecimento.

NEUROPLASTICIDADE

Às modificações no sistema nervoso chamamos de neuroplasticidade e essa se re-


fere a quaisquer processos que modifiquem a estrutura ou funcionalidades cerebrais. A
neuroplasticidade é uma forma de reação e adaptação ambiental, e responde aos estí-
mulos recebidos pelo indivíduo. A neuroplasticidade envolve desde impulsos elétricos
de milissegundos até mudanças estruturais maiores, que ocorrem ao longo de meses e
anos (CONSTANDI, 2016). Algumas delas, como as conexões sinápticas, são vistas como
importantes para a memória e o aprendizado. A mielina, que funciona como “capa pro-
tetora” de circuitos elétricos, é fortalecida com o uso das conexões neurais - em meses,
anos e períodos até maiores. Outras, como a neurogênese, ocorrem em situações mais
específicas e regridem ao longo da vida. A neuroplasticidade diminui igualmente com a
idade e pesquisas mostram que os estímulos durante a infância causam maiores impac-
tos em como os adultos memorizam e aprendem ao longo da vida. Isso explicaria porque
crianças que aprendem novos idiomas ou música durante a infância têm mais facilidade
de memorização mesmo em idade adulta.

Apesar de exercícios e treinamento ajudarem na manutenção de certas funcionali-


dades e estruturas cerebrais, não há evidências de que a neuroplasticidade possa ser
melhorada para além das regiões específicas relacionadas à tarefa em execução. E como
tudo de natureza física, ainda que possa ser melhorada futuramente, sempre será dentro
de limites impostos pela fisiologia do cérebro. Vejo a neuroplasticidade como uma faca
de dois gumes: ela pode ser útil na criação por exemplo de bons hábitos. A hipnose é um
grande exemplo de como a neuroplasticidade pode ser usada com objetivo terapêutico
(BARBER, 1995). Mas também pode ser um grande problema, por exemplo quando as-
sociamos o uso de alguma droga ou hábito com um prazer instantâneo: rapidamente a
plasticidade cerebral pode se adequar a vícios. A alta atividade da plasticidade na infân-
cia e adolescência mostra que essa faixa etária é mais vulnerável à adição e às doenças
mentais (SCHRAMM-SAPYTA et al, 2009). A grande diferença de estímulos a que somos

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Revista 777 - Neuroplasticidade, longevidade e Magick

submetidos ao longo da vida é o que provavelmente nos faz ser tão diversos - “todo ho-
mem e toda mulher é uma estrela” - enquanto humanos. E por isso não necessariamente
um único exercício pode ser aplicado como regra geral e resultar em benefício para qual-
quer pessoa; múltiplas combinações existiriam para múltiplos cérebros e experiências,
tornando o tema bastante complexo e amplo.

Os processos do porquê envelhecemos podem ser verificados em estudos epigenéti-


cos, que discutem claramente a longevidade em seres humanos e suas correlações epi-
genéticas, que são bastante interessantes e com resultados promissores. Os principais
estudos focam em três funcionalidades consideradas mais importantes na realização de
tarefas simples do dia-a-dia: memória operacional, responsável por capturar e manipular
informação e estímulo; inibição, que é a habilidade de suprimir informações irrelevantes
e focar; flexibilidade cognitiva, que é a habilidade de comutar entre múltiplas tarefas,
conjuntos ou perspectivas (NGUYEN, 2019).

Que precisamos exercitar tanto corpo quanto mente, não temos dúvidas, graças a
estudos como os supracitados: as principais constatações são de caráter estrutural ou
seja, há evidências de aumento do volume cortical e de matéria cinza no cérebro diante
de exercícios específicos (NGUYEN, 2019). A maioria desses estudos são baseados em
jogos ou atividades que exigem esforço cognitivo repetitivo, eliminando treinamentos
que envolvessem atividade física, já que há evidências de que essa última possa melhorar
a capacidade cognitiva (NGUYEN, 2019). É importante considerar que grande parte das
pesquisas avaliadas consideraram apenas treinamentos que pudessem ser realizados em
tablets e computadores, por terem sido realizados em laboratório.

Em relação aos exercícios cognitivos estudados, seus resultados são muito limitados
quanto à área de afetação (extremamente específicas) e quantidade de repetição neces-
sária. Isso pode levar à ideia de que, para uma maximização dos efeitos de exercícios,
eles devem ser bastante variados, e compreender uma ampla variedade de estímulos.
Poderíamos citar como exemplo aqueles aplicativos de treinos mentais: artigos mostram
que há melhoria em tarefas relacionadas ao exercício e de funcionalidades relaciona-
das à atividade treinada unicamente. Assim como na atividade física, onde exercitamos
determinada região, também na atividade mental parece ocorrer o mesmo: cada área é
desenvolvida por estímulos específicos e não por outros.

A maioria dos resultados mostra que só há transferência cognitiva após um mínimo


de horas, que varia de estudo para estudo, e as melhorias cognitivas são limitadas. Os
resultados mostram que apesar de o volume neural se alterar com apenas 8-12 horas
de prática, mudanças na neuroplasticidade e mais proeminentes das conexões neurais
necessitam de muito mais treino. Isso poderia sustentar que, mediante uma quantidade
pequena de práticas Mágickas, pouco ou nenhum resultado mental poderia ser alcança-
do. Alguns estudos reportam que o reforço axonal e mielinal ocorreram somente após
100 horas de prática, mas não foram observadas em treinamentos de 36 horas ou menos

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Revista 777 - Neuroplasticidade, longevidade e Magick

(NGUYEN, 2019). Os estudos mostram também que treinamentos multidisciplinares são


melhores do que uni-disciplinares no longo prazo, tendo como objetivo a melhoria nas
atividades do dia-a-dia (LEUNG, 2015). Isso pode indicar também que é mais interessan-
te diversificação de práticas Mágickas e desafios nas já praticadas, do que se ater a uma
única, sem variações.

Alguns artigos se referem a técnicas de meditação como métodos de aquisição de


maior autoconsciência e metacognição (reconhecimento e percepção de como nós mes-
mos funcionamos). As aplicações de técnicas de atenção e foco são inúmeras, por exem-
plo nas artes musicais onde se aplica as técnicas de Feldenkrais para evitar excessos de
tensão (e.g., para instrumentistas e dançarinos). A consciência parece ser o centro das
atenções em artigos que tratam da mente e não poderia ser menos relevante já que é
com essa pequena parcela mental (sendo o resto o que desconhecemos, ou inconsciente)
que conseguimos atuar deliberadamente no mundo. Cabe ressaltar aqui a importância
que tem de forma geral a arte e a ciência, como formas de expressão do chamado self
junguiano.

SAÚDE FÍSICA

Segundo geneticistas, dois modos guiaram a evolução epigenética no planeta: o modo


reprodutivo, que ocorreu em épocas de tranquilidade terrena, com poucos cataclismas e
destruição em massa de espécies. Nessa fase, os seres vivos desenvolveram a tendência à
reprodução; o segundo modo sendo o modo de proteção e reparo, desenvolvido em fases
em que os seres vivos eram submetidos a privação de alimentos, luz, água, temperaturas
extremas, etc. Esse modo de proteção e autopreservação é o que ativamos em momentos
de necessidade física e podem ser excitados deliberadamente através de:

Mitigação de danos de DNA (DI MICO, 2011), como usar óculos solares, protetor solar
e diminuir exposição à radiação ultravioleta, entre outros;

Restrição Calórica (BORDONE, 2005), através de por exemplo jejum intermitente;

Redução do consumo de proteína (HOUTKOOPER, 2013) levando à diminuição de IGF-


1, menor risco câncer e mortalidade entre menores de 65 anos (LEVINE, 2014);

Exercícios Físicos (VAQUERO, 2009), entre os quais são mais aconselhados os exercí-
cios chamados de alta-intensidade. Alguns casos ainda citam que altas taxas, por exem-
plo, chegando a 85% da frequência cardíaca, são os melhores (qualquer tentativa de exe-
cução deverá ser orientada por um profissional da área).

Calor e Frio (ADAMS, 2009), como exposição deliberada ao frio ou calor, por propiciar
a reconstrução celular devido aos mecanismos de proteção e autopreservação do corpo
(aos leitores, sugiro a consulta das referências para mais detalhes).

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Revista 777 - Neuroplasticidade, longevidade e Magick

NEUROGÊNESE

É fato que a produção de neurônios na vida adulta é bastante baixa comparada à in-
fância. No entanto, com apenas 600-700 neurônios criados diariamente, podemos subs-
tituir ao longo de anos grande parte dos que apresentam mau funcionamento. Apren-
dizado diversificado propicia a neurogênese; situações de estresse causam declínio na
produção de novos neurônios, assim como privação de sono. O sexo também é consi-
derado um propício na criação de neurônios, bem como atividades físicas variadas. A
restrição de calorias em 20%-30%, jejum intermitente, flavonoides (e.g., existente em
chocolates), ômega 3, todos apoiam consistentemente a neurogênese em pesquisas com
ratos e macacos (VAQUERO, 2009). Até o tipo de alimentação não fica de fora das análi-
ses: alguns estudos mostraram a relação de que comidas com texturas suaves impactam
a utilização de nossos neurônios - comidas de difícil mastigação desgastariam mais os
neurônios. Pode-se que concluir que atividade física, mental e dieta modulam humores
e memória, assim como modulam também a neurogênese. Algumas pesquisas têm mos-
trado que tratamentos anti-depressivos podem ser criados com base na neurogênese e
diversificação de atividades diárias. No geral, os estudos mostram que o cuidado com a
mente pode envolver treinamento cognitivo, mas que os fatores físicos envolvidos são
igualmente relevantes. É possível dizer com fundamento que nossa atenção à saúde deve
se dividir entre corpo e mente para que possamos ter maior qualidade de vida. Segue
abaixo alguns resultados interessantes de pesquisas relacionando o envelhecimento e as
capacidades cognitivas melhoradas por treinamento.

Título: Cognitive and Neural Plasticity in Old Age: A Systematic Review of Evidence
from Executive Functions and Cognitive Training

Metodologia: Foram filtrados diversos artigos relevantes de acordo com Tipo de Estu-
do (medidas antes e depois dos treinamentos), Tipos de Treinamento (cognição, memória
e inibição), Participantes (idade >=60 anos), Medidas (mudanças funcionais ou estruturais
neurais: volume cerebral, conexões neurais, plasticidade, medições com fMRI e outros).

Conclusão: Melhorias cognitivas geralmente associadas com as tarefas treinadas; evi-


dências de aumento de massa cinzenta; diferentes resultados de variação nas conexões
sinápticas e mais reforço das existentes.

Título: ERP and Behavioral Effects of Physical and Cognitive Training on Working Me-
mory in Aging: A Randomized Controlled Study

Metodologia: participantes entre 65 a 88 anos saudáveis, sem medicação, que não


treinassem física ou cognitivamente de nenhuma forma. 467 pessoas foram inicialmente
contatadas e 152 selecionadas. Os treinamentos propostos formaram quatro grupos nos
quais as pessoas foram divididas: físico, cognitivo, relaxamento, controle. Os treinamen-
tos ocorreram por 4 meses, 2x por semana, 90 minutos por sessão. Todos os grupos

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Revista 777 - Neuroplasticidade, longevidade e Magick

supervisionados por profissionais. Exercícios físicos: cardiovascular; bicicletas ergomé-


tricas, exercícios em solo, simples para aumento do metabolismo e força física. Exercí-
cios cognitivos: com lápis (escrita) e computador, com MAT (mental activation training
- (exercícios para melhorar a memória, atenção visual e velocidade de processamento de
informação) nas primeiras semanas. Posteriormente softwares como Mentaga, Ahano,
MentalAktiv e Freshminder foram apresentados cuidadosamente para que se familiari-
zassem. Grupo Social: Relaxamento e sessões de treinos simples de alongamento. Testes
foram feitos anteriormente para garantir a saúde física e mental, bem como exames físi-
cos e neurológicos.

Conclusão: O treino cognitivo melhorou a memória de curto prazo em relação ao


grupo de controle. Não houve melhoria significativa de memória de curto prazo no gru-
po de exercícios físicos nem no grupo de relaxamento. A pesquisa dá diversos detalhes
e medições, concluindo que poucos exercícios e relaxamentos curtos contribuem muito
pouco para a melhoria funcional cerebral.

Título: Neural Plastic Effects of Cognitive Training on Aging Brain

Metodologia: Participantes: 209 idosos com risco de declínio cognitivo; acima de 60


anos; letrados; visão e audição normais; destros; inteligência considerada normal em tes-
tes de QI; testes foram inicialmente feitos para garantir uma média de velocidade mental
de processamento e outras características. Treinamento: programa Brain Fitness Pro-
gram, três sessões de uma hora por semana, autoaplicados e controlados pelos pesqui-
sadores.

Conclusão: Foram constatadas melhorias em funções como atenção e memória de


curto prazo, mas não memória visual-espacial e verbal. O estudo também detectou que
as melhorias são específicas de determinados grupos de tarefas (ou seja, melhoria em
atividades similares às treinadas) e propõe um estudo maior e específico para diversas
funções cognitivas. O estudo conclui que há bastante potencial de exercícios mentais na
melhoria de atividades do dia-a-dia, principalmente relacionados à neuroplasticidade e
à memória de curto prazo ou operacional.

Pode-se notar que a saúde mental está intimamente relacionada à saúde fisiológi-
ca do corpo e do cérebro, e que essa saúde pode ser mantida e melhorada através de
exercícios que ativem as diversas áreas. A longevidade do corpo (e consequentemente
da mente) é uma possibilidade clara através de mitigação de danos de DNA, restrições
calóricas, exercícios físicos e exposição deliberada a situações de calor/frio/fome mo-
derados. Magick, por ter diversas práticas associadas à memória, linguagem, construção
mental, análise, síntese quando praticada de forma equilibrada, diversificada e específica
para cada pessoa, pode ser de grande apoio na manutenção da saúde mental de seus
praticantes. Estudos quantitativos e qualitativos são extensos nas áreas de Asana, Pra-
nayama, Meditação mas ainda escassos por exemplo em práticas ritualísticas específicas

80
Revista 777 - Neuroplasticidade, longevidade e Magick

e tradicionais, como memorização de trechos de Libri sagrados, e se tornam promissores


campos de estudo e desenvolvimento. Friso aqui também a relevância do estágio de Pro-
bacionista, devido à grande diversidade de informação e treinamento a que os estudan-
tes são submetidos. É possível travar diversos paralelos entre práticas mágickas, cogniti-
vas e físicas que corroboram, ainda que de forma científica insuficiente, com os objetivos
destacados em Liber ABA e Liber Aleph - a consecução da Grande Obra e do Iluminismo
Científico. Tudo isso e muito mais, e a relação de Magick com este texto sobre fisiologia
serão discutidos na parte II da série PandeMagick.

REFERÊNCIAS

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81
Revista 777 - Neuroplasticidade, longevidade e Magick

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Frater Amon

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Revista 777

ELE QUEM ME SEDUZIU

“He who seduced me first I could not forget.


I hardly loved him but desired to taste
A new strong sin. My sorrow does not fret
That sore. But thou, whose sudden arms embraced
My shrinking body, and who brought a blush
Into my cheeks, and turned my veins to fire,
Thou, who didst whelm me with the eager rush
Of the enormous floods of thy desire,
Thine are the kisses that devour me yet,
Thine the high heaven whose loss is death to me,
Thine all the barbed arrows of regret,
Thine on whose arms I yearn to be
In my deep heart thy name is writ alone,
Men shall decipher -when they split the stone.”

***

“Ele que primeiro me seduziu: esquecer não podia.


Mal o amava mas provar desejava
Um novo e forte pecado. Meu sofrer não diluía
A dor. Mas tu, cujos repentinos braços abraçaram
Meu encolhido corpo, e que um rubor trouxeste
Às minhas faces, e das minhas veias fizeste fogo,
Tu, que me perseguiste com a ansiosa pressa
Dos enormes transbordos do teu desejo,
Que me devoram ainda, teus são os beijos,
Teu o alto céu cuja perda é para mim a morte,
Tuas todas as flechas agudas de arrependimento,
Teus, em cujos braços anseio estar
Teu nome sozinho está escrito em meu profundo coração,
Quando fenderem a pedra - Homens o decifrarão.”

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Revista 777 - Ele quem me seduziu

“Tomai vossa fartura e vontade de amor como quiserdes, quando, onde e com quem
quiserdes” (Liber AL, I, 51). Aleister Crowley, nos Diários de Amsterdam, sobre seu ro-
mance com Herbert Pollitt; em comemoração ao mês do orgulho LGBTQIA+ 2020.

Tradução: Frater Amaranthus - frater.amaranthus@gmail.com

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