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IDÉIAS PARA A PRÉDICA:

1) O Batismo está profundamente ligado ao desejo de Deus em relação ao ser humano:


salvação e vida eterna. Porém cabe-nos o compromisso de assumirmos, a partir daí, o nosso
papel junto ao ministério de Jesus. O batismo de Jesus no início de sua vida pública marca o
seu ministério de libertação e salvação que culminará na cruz. Assim, o Batismo que
recebemos também nos introduz na missão solidária de Jesus para com aquelas pessoas que
sofrem, que pecam, que necessitam de outro horizonte de libertação.
2) O batismo de Jesus desarma os desejos do eu, nos colocando a serviço do nós
(compromisso/aliança). O nosso Batismo nos inclui na família de Deus, fazendo contraste
dentro deste mundo que exclui, segrega e discrimina. A ação de Deus em nosso favor nos
capacita para a vida comunitária.
3) O batismo de Jesus inaugura o significado do nascer de novo: o de estar apta para se colocar
no meio deste mundo vivendo o perdão, o compromisso com o próximo empobrecimento, a
comunhão, a indignação com as estruturas opressivas de poder, e buscando, cada vez mais, um
sentido concreto para este termo indefinido: justiça. (uma nova disposição e maneira de ser)
Qual o significado deste termo para nós? O que caracteriza a ' 'justiça'' a partir da perspectiva
evangélica? — Cabe a nós, filhas e filhos de Deus, unidas em Cristo através do Batismo,
cumprir Ioda a justiça na época em que vivemos, nas comunidades das quais participamos.

Prédica: Mateus 3.13-17


Autor: Augusto Ernesto Kunert
Data Litúrgica: 1º. Domingo de Epifania
Data da Pregação: 13/01/1985
Proclamar Libertação - Volume X
 
l — Introdução ao texto
Duas pessoas se encontram: Jesus e João Batista. O encontro se dá em algum lugar às margens do
Jordão. O motivo é o batismo requerido por Jesus. A iniciativa para o encontro parte de Jesus. Ele
sai de Galiléia e vai em busca de João Batista.
Acontece, e isto é importante registrar, um diálogo entre os dois. Jesus solicita o batismo. João
Batista tem escrúpulos. Hesita. Acha impossível que Jesus seja batizado por ele: Eu é que preciso ser
batizado por ti e tu vens a mim? Os papéis deveriam ser inversos. João Batista reconhece em Jesus o
enviado de Deus, o Messias cujo caminho preparou (Mt 3.3). O profeta se reconhece pequeno diante
do Messias que veio para julgar o mundo. Portanto, não lhe compete, assim considera João Batista,
batizar aquele que é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar (Mt 3.11).
Como, agora, Jesus, o Messias, vem solicitar o batismo dó arrependimento? Pois, o Reino de Deus
está próximo, exatamente na pessoa de Jesus! A partir desta situação compreendemos que João
Batista vacilou e, inicialmente, não quis corresponder ao pedido de Jesus.
O relato do batismo, respeitadas algumas variantes — a de Mateus nos vv. 14 e 15 é muito
importante —, é comum aos quatro evangelhos. Também o Evangelho de João, obviamente à sua
maneira, menciona a ocorrência do batismo. Marcos dedica 3 versículos ao assunto (Mc 1.9-11) e
Lucas o narra em dois versículos (Lc 3.21-22).
Mateus e Marcos fazem Jesus partir da Galiléia em direção ao Jordão. Lucas silencia sobre a
procedência de Jesus. Jo 1.32-34 diferencia-se dos relatos sinóticos, ao dizer que João testemunhou
sobre o batismo de Jesus: E João testemunhou: Vi o Espírito descer do céu como pomba e pousar
sobre ele.O evangelista João não relata o acontecimento, mas reproduz o testemunho de João Batista.
Os textos em Mateus e Marcos são os que mais se aproximam entre si. Entre os exegetas é pacífico
que o texto que serviu de base para os demais evangelhos nos é dado com Mc 1.9-11. Salientam,
porém, que para Marcos o acento está na vocação de Jesus, acontecida no batismo. Os
acontecimentos, tais como: rasgaram-se os céus, o Espírito descendo como pomba sobre ele, e a voz
dos céus, declarando Tu és o meu Filho amado, são ocorrências significativas para Marcos, que as
entende como a vocação de Jesus para ser o Messias de Israel. Nos textos de Ez 1.1 e Is 11.2; 42.1,
do Antigo Testamento, Marcos vê o reforço para o entendimento da vocação de Jesus como Messias
de Israel.
Mateus não assume simplesmente o relato de Marcos. Ele mostra certa independência no seu
testemunho. Mateus entende que no batismo de Jesus ocorre a proclamação de Jesus como Filho de
Deus. Na compreensão de Mateus, Jesus não foi agraciado com o Espírito no batismo, mas é,
segundo Mt 1.18,20, desde a concepção de Maria, portador do Espírito. Mateus, como se vê em Mt
28.20, sublinha a unidade na Trindade. A Trindade ressaltada em nosso texto culmina na Grande
Comissão.
Lutero escreveu a respeito: Assim pregamos e louvamos e agradecemos a Deus, o Onipotente, por
nos dar este Salvador. Ele o coroou, o ungiu. Recebemos o Espírito Santo que testemunha ao nosso
coração que o Pai e o Filho são um. Em outra oportunidade Lutero salientou: Ainda hoje o céu está
aberto sobre todo o mundo... . Nós, cristãos, teríamos motivo para viver em disciplina e andar em
vida santa, já que o céu está aberto para nós e os anjos cantam... (apud Mybes, p. 78)
Somente Mateus registra o diálogo entre Jesus e João Batista. Mais adiante veremos a importância
dos vv. 14 e 15. Enquanto que Marcos deixa os céus se rasgarem, Mateus diz que os céus se abriram.
Para Marcos o acontecimento é percebido por Jesus: Logo, ao sair da água, viu os céus rasgarem-se.
Mateus, porém, dá a entender, que a ocorrência foi perceptível aos demais que presenciaram o
batismo de Jesus (Voigt, Der rechte Weinstock, p. 76). Estas nuances levam à compreensão de que
Marcos vê aqui a vocação de Jesus para ser o Messias, enquanto que para Mateus ocorre aqui a
proclamação de Jesus como Messias. Mateus muda o tu és o meu Filho amado de Marcos para este é
o meu Filho amado, o que reforça a linha de pensamento da proclamação. Em Marcos, Deus se
dirige diretamente a Jesus: Tu és o meu Filho amado, enquanto que Mateus, acentuando o
pensamento da proclamação, testemunha: Este é o meu Filho amado.
É importante, neste contexto, retomar o pensamento de Mi 1. 18,20, o que foi nela gerado é do
Espírito Santo, pois Jesus é o Filho de Deus e não vem a sê-lo com o batismo. Portanto, Jesus é
proclamado o Filho amado de Deus e não passa a sê-lo com o batismo. Aí a diferença entre vocação
para Marcos e proclamação no entendimento de Mateus. Jesus é apresentado como Filho de Deus. E
assim ele deve ser aceito e reconhecido. Nele devemos confiar e a ele devemos obedecer na vida e
na morte. Ao seu lado não existem outros valores, nem poderes, nem conceitos ou imagens.
II — Interpretação
Vv. 13-15: Jesus não pede o batismo do arrependimento. Ele não vem como quem precisa do
batismo para voltar a Deus. Pelo contrário, Jesus vem como o justo, sem pecado e se coloca livre e
espontaneamente ao lado e junto dos pecadores. Ele vem para cumprir toda a justiça. Ele assume
obediência total. Ele vem para entregar-se em favor do mundo. Jesus se distancia do anúncio de João
Batista. Não compartilha as declarações dele. Pois não vem como juiz no final dos tempos. Ele vem
como quem se dá em resgate pelos pecadores, por aqueles que acorrem ao Jordão para se
submeterem ao batismo de arrependimento. Jesus vem para salvá-los. A insegurança de João Batista
diante de Jesus, o que o diálogo reflete muito bem, é compreensível. João Batista parte de outra ótica
da missão de Jesus. Como uma pessoa humana pode ser o Cristo de Deus? João Batista não entende
que Deus não permaneça afastado, distante, não permaneça no céu, mas que, no Verbo que se fez
carne, venha para junto do homem sofredor, para junto do homem em seu emaranhado de culpa.
Jesus sente as dúvidas de João Batista e responde: Deixa por enquanto, porque assim nos convém
cumprir toda a justiça. É como se Jesus lhe dissesse: João Batista, tu interpretas os acontecimentos
de maneira errônea; não te compliques! Voigt parafraseia o deixa por enquanto: João Batista, tu não
podes saber que o meu caminho será bem outro. Eu poderia responder-te que Deus assim o decidiu,
mas eu te digo: Convém-nos cumprir toda a justiça. O Filho de Deus deve ser entregue... julgar o
mundo, salvar o mundo! Isso não se faz com um simples golpe de caneta. Isso não acontece com
uma declaração de Deus, dizendo que seu juízo fica eliminado, que futuramente não interessa o que
os homens pensem a respeito. Não, a justiça deve acontecer. Mas isto significa seguir o caminho
mais difícil. Agora não precisamos falar sobre isso. Mas devemos falar de um outro fato, o qual eu
quero praticar. Eu sigo o caminho como alguém de vocês, o caminho que todos os homens deveriam
seguir. Vocês me encontram ao seu lado como um de vocês: Tu pregas que a ira de Deus haverá de
descarregar-se sobre os homens. Sim, eu estarei no meio da humanidade que sofrerá a ira de Deus, já
agora eu estou ali nascido de mulher, nascido sob a lei (Gl 4.4). (Voigt, p. 72)
Vv. 16 e 17: Ao sair da água, Jesus vê o céu aberto. Mybes (p. 71) diz a respeito: No milagre da
auto-revelação de Deus a visão fica livre para o mundo. O Espírito desce como pomba sobre o
recém-batizado. Jesus, agora que os tempos amadureceram, se prepara para a sua missão e é
agraciado com a força do Espírito. Isto não acontece tanto por sua causa, mas sim para o bem de
outros. (Calvino, apud Mybes, p. 72)
Jesus, reconhecido o Filho de Deus e servo de Deus (veja SI 2.7 e Is 42.1), traz a salvação. Já a
cristandade primitiva viu uma ligação muito íntima entre o batismo de Jesus no Jordão e a cruz de
Cristo no Gólgota. Em Mc 10.38; Lc 12.50 a paixão de Cristo é chamada de batismo. Este
pensamento evidencia a linha teológica que interpreta que o batismo significa o morrer e ressuscitar
com Cristo. O Evangelho de João, em 1.29, se coloca na mesma linha, quando aponta: Eis o cordeiro
de Deus. Mesmo que o texto não o afirme com clareza, o diálogo e toda concepção de Mateus dão a
entender que Jesus é aquele que se identifica com a figura véterotestamentária do EBED JAHWE:
Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores, levou sobre si (Is 53.4s, 12).
Com a vinda do Messias não ocorre a aniquilação dos pecadores; não acontece uma controvérsia de
Deus com o mundo e sim uma participação incompreensível no sofrimento dos homens. No lugar do
ajuste de contas está a graça. Deixa por enquanto; Jesus segue este caminho sem que seja
compreendido. Esse caminho significa para muitos escândalo e loucura.
A denominação Filho de Deus é uma intitulação conhecida. Encontramo-la nos mitos de Homero e
na teologia política da adoração aos imperadores. A comunidade primitiva assume esta designação
para Jesus. Ele é o Filho amado no qual Deus se revela definitivamente ao mundo. Ele é a realização
e consumação de todas as esperanças que se manifestam também nas diversas religiões e ideologias.
Jesus, o Filho amado, é a resposta de Deus para todas as pergunta. A ele pertencem graça e juízo.
III — Meditação
1. A Igreja Oriental tem por tradição a pregação sobre o batismo na época de Epifania. Ela
determinou, a partir do ano 378, que a data de 6 de janeiro fosse festejada como o dia do batismo de
Jesus.
Ao mesmo tempo se considerava ligadas à data 6 de janeiro a visita dos Magos do Oriente e as
Bodas de Caná.
A Igreja no Ocidente, desde cedo, cuidou de afastar do Natal tudo aquilo que pudesse concorrer com
a sua importância. Com isso aconteceu um esvaziamento do dia 6 de janeiro, eliminado-se a
comemoração do batismo de Jesus. Permaneceu, então, somente a lembrança da visita dos Magos do
Oriente. Felizmente a comissão litúrgica, ao reestruturar os textos para o Ano Eclesiástico, quebrou
esta tradição de esvaziamento de Epifania, recolocando ali textos sobre o batismo de Jesus. (Voigt,
p. 70)
Não devemos deixar de lado os motivos que levaram à mudança de critérios no passado. Havia na
época uma forte confrontação com o gnosticismo. Este preferia a coincidência da data do nascimento
e do batismo de Jesus. Para o gnosticismo não é importante que o Verbo se fez carne e veio habitar
entre nós; que Jesus nasceu homem e Deus verdadeiro lhes é perturbador e contrário à sua linha de
pensamento. Eles defendem a concepção de que no Jordão o Espírito desceu sobre Jesus; antes Jesus
era um simples homem. Diante dessa concepção devemos ter o máximo cuidado para não incorrer no
erro de quem entende que Natal significa simplesmente o nascimento do homem Jesus e que
somente na Epifania se deu sua adoção por Deus, o qual então lhe transmitiu o Espírito. O próprio
Mateus deveria, se assim fosse, reescrever o seu Evangelho. Quanto à compreensão de Mateus de
que Jesus é homem verdadeiro e Deus verdadeiro, lembro Mt 1.18,20. Também o diálogo (vv. 14-
15) não teria sentido se Jesus não tivesse ido ao Jordão como aquele que se diferencia
fundamentalmente de todos os homens. Se, por um lado, a árvore genealógica atesta que Jesus é
homem, Mt 1.20 deixa claro: O que nela foi gerado é do Espírito Santo.
2. A pregação deverá apontar a DOXA encoberta de Jesus que se revela para quem tem ouvidos para
ouvir e olhos para enxergar. Ela se revela no reconhecimento do Deus conosco do Deus pró me.
Jesus se coloca ao nosso lado. Ele entra no mundo e toma morada entre nós. A glória de Jesus se
revela assim que Deus se identifica com Jesus e o declara Filho amado. A declaração de Deus este é
o meu Filho amado e o testemunho e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele
confirmam que o Verbo se fez carne e veio habitar entre nós; que Jesus é Deus verdadeiro, gerado
pelo Espírito Santo, e homem verdadeiro nascido de mulher. Este Deus verdadeiro e homem
verdadeiro se decide pe!a solidariedade com os homens, conosco, os perdidos e condenados. A
decisão de Jesus é incompreensível para João Batista, contradiz as expectativas da época a respeito
do Messias, e continua sendo para muitos escândalo e loucura. A decisão de Jesus foi e continua
pedra de tropeço. A glória de Jesus, porém, se revela exatamente no sim de Deus para com a decisão
de Jesus. O sim de Deus é dado com a proclamação: Tu és o meu Filho amado, o EBED JAHWE.
Jesus, o homem verdadeiro e Deus verdadeiro; Jesus, o Filho amado; Jesus, o EBED JAHWE, o
cordeiro de Deus que leva o pecado do mundo, foi ao Jordão para ser batizado. Ele é o mesmo Jesus
também hoje. Ele entregou todos os trunfos do poder. E o seu procedimento é loucura para uns,
escândalo para outros e pedra de tropeço para muitos. O Cristo que João Batista anunciou e desejou
teria tido um caminho mais fácil. Mas o Cristo que todas as gerações de homens necessitam — a
esperança do mundo — que reconcilia e salva os pecadores, escolheu o caminho da paixão. Este leva
à ressurreição, à vida nova, à vida em abundância. O caminho escolhido nos dá o Cristo pro nobis, o
Cristo pro me.
3. Jesus, ao deixar-se batizar, confessa Deus; solidariza-se com os homens, assume e inicia o serviço
que lhe é atribuído com sua escolha e envio.
Lutero compôs um hino que segue a linha de pensamento do nosso texto: Cristo, nosso Senhor,
quando foi ao Jordão, pela vontade do Pai, recebendo o batismo de João, iniciou sua obra e função.
João Batista chama e batiza. Muitos atendem o seu chamado. Comparecem homens pertencentes às
mais diversas classes sociais, que exercem as mais diversas profissões; eles vêm de longe e de perto.
São pessoas com as mais diversas experiências de vida, com diferentes interesses; todas estão cheias
de culpa e sentem medo e angústia. Elas chegam e alimentam esperança.
João anuncia aquele que há de vir. Ele preconiza novos tempos. Ele aponta a culpa que pesa sobre o
homem e o povo. E nesta situação o Reino de Deus se faz próximo, entra no mundo. Aproxima-se o
dia do juízo. A justiça haverá de vencer. Os exploradores, os corruptos, os causadores do sofrimento
e da miséria tremem diante da vinda do juízo. Haverá a transformação da situação. Por isso,
arrependei-vos dos pecados, dos maus caminhos, da exploração do homem pelo homem, da prática
da injustiça e discriminação. Voltai para Deus. Entregai a Deus a vossa vida. Todo o vosso fazer e
agir sirvam a Deus. Assim João Batista chamou, convidou para o batismo do arrependimento nas
águas do Jordão! Mas Jesus não vem assim a João Batista: como o juiz do mundo que destrói os
pecadores. O novo tempo começa de maneira diferente. Ele começa como oferta da graça.
4. Jesus entra na fila dos que esperam novos tempos, novo céu e nova terra. Descendo às águas do
Jordão, se coloca entre os que confessam sua culpa. No seu batismo Jesus confessa o pecado dos
homens. Assume o caminho do servo de Deus. Jesus se faz solidário com os homens. Ele assume a
responsabilidade pelo pecado dos homens. Entra na brecha em favor dos homens, vive, sofre e morre
por eles. O justo se faz pecador para que os pecadores sejam justificados.
Johann Hinrich Wichern,o fundador da Missão Interna na Alemanha, disse certa vez que Jesus é o
homem que sente todo sofrimento em seu coração e que em seu coração podemos encontrar auxilio
contra toda miséria. De fato, Jesus tem compaixão e misericórdia. Ele não só observa atentamente o
sofrimento, mas toda pessoa é importante para ele. A pessoa em perigo e no sofrimento recebe
auxílio. Um doente é curado. Um carente é consolado. Jesus participa das nossas deficiências sem
perder-se na ajuda para uns poucos. Ele prega o Reino de Deus em sua abrangência. Ele anuncia a
transformação de todas as coisas. Ele vai à cruz em favor de todos. Mas, em sua missão universal,
Jesus não esquece a pessoa, o indivíduo em seu sofrimento.
Jesus tem compaixão com os que sofrem. Ele não consola os doentes prometendo dias melhores no
futuro. Alquebrados, cansados e oprimidos recebem ajuda. Agora, no hoje da vida, Jesus se envolve
com os homens e luta contra o sofrimento. O seu auxílio é dado para o corpo e para a alma. O seu
auxílio não é auxílio alienado, mas um serviço pessoal. Quem assim auxilia tem autoridade para
perguntar: O que vale ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? O que vale ao surdo
ter abertos os seus ouvidos, mas permanecer surdo para o Reino de Deus? O que vale o pão para o
faminto quando lhe retemos o pão da vida? (Mybes, p. 74)
A vida de Jesus é um único serviço, iniciado com o seu batismo. Ele demonstra que o serviço é a
resposta obediente da fé. Antes da pergunta o que devemos fazer?, é necessário ver o que Jesus fez
por nós.
IV — Preparação da prédica
1. É necessário observar, a fim de que ofereçamos pão aos ouvintes e não pedras para a sua já sofrida
caminhada, que o batismo de Jesus não seja apresentado como mais uma entre tantas outras histórias
bíblicas. Epifania é a revelação de Deus em Jesus Cristo. Deus proclama e apresenta Jesus como o
seu Filho amado. Jesus, distanciando-se da intepretação de João Batista, não assume o caminho da
glória e do poder visíveis, mas escolhe o caminho da paixão. E Deus, dando o seu sim à escolha de
Jesus, o declara Filho amado, deixa o céu se abrir e faz descer o Espírito sobre Jesus. Ele vem como
o servo de Deus que leva o pecado do mundo. Epifania é a ação de Deus em favor do mundo.
Epifania, batismo e paixão de Cristo estão interligados de maneira inseparável. Deus revela o
Messias como Filho amado e Jesus assume o caminho do sofrimento.
2. A prédica deve deixar clara a diferença entre o entendimento que João Batista tem do Messias e o
caminho escolhido e seguido por Jesus; e mais, que Deus aceitou o caminho escolhido por Jesus e
por isso o declarou Filho amado. Em especial o diálogo, como nos é narrado por Mateus nos vv. 14 e
15, nos dá boa oportunidade para apontar a intepretação divergente sobre o caminho e a ação de
Jesus. Os textos Mt 3.1-12; Mt 11.7-19; Mc 1.1-8; Lc 3.1-20 e Lc 7. 18-22 nos ajudam, a partir da
declaração de Jesus deixa, por enquanto, porque assim nos convém cumprir toda a justiça, a
compreender melhor a diferença fundamental dos dois posicionamentos.
O item 4 da meditação nos oferece subsídios para entendermos a compreensão que Jesus tem da sua
tarefa, do caminho a seguir e da maneira de agir.
A glória de Jesus está encoberta para o mundo. João Batista esperava que Jesus assumisse o seu
papel de Messias: juiz com esplendor, soberano e poderoso. Ficou admirado e até perplexo quando
Jesus não correspondeu às suas expectativas. Ainda hoje, nas expectativas frustradas e no caminho
escolhido e seguido por Jesus, se separam os homens. Poucos, os que têm olhos para ver e ouvidos
para ouvir, recebem Jesus como o EBED JAHWE. Para muitos, os que não reconhecem a glória de
Jesus no caminho da cruz, a ação de Jesus continua escândalo, loucura e pedra de tropeço.
3. Poucos são os textos que espelham com tamanha clareza a revelação do santo, trino e uno Deus.
Com isso somos induzidos a uma prédica doutrinária sobre a Trindade, pois no texto temos
afirmações impressionantes, tais como: se lhe abriram os céus; viu o Espírito de Deus descendo; uma
voz dos céus que dizia: Tu és o meu Filho amado. Contudo, prefiro permanecer com Lutero que vê o
escopo do texto no Cristo pro me (no Cristo para mim, em meu favor). Frente ao Cristo pro
me ocorrem exatamente a admiração e negativa inicial de João Batista. Este, esperando o juiz
soberano, confronta-se com o Cristo pro me que assume o caminho mais difícil, o da cruz. O
escolhido de Deus, com quem está a plenitude do Espírito desde o tempo em que estava no ventre de
Maria (Mt 1.18,20), não veio para ser servido, mas para servir, veio para ser o nosso resgate. Ele,
que com autoridade pode afirmar eu e o Pai somos um, veio a nós.
4. Jesus, o servo de Deus, o cordeiro que leva o pecado do mundo, se revela com glória na graça, no
amor e na misericórdia e não como juiz vingador. Assim, destronou e destrona hoje os que se
consideram ser algum tipo de filho de Deus. Os políticos, os poderosos, os que se fazem donos de
pessoas, que usam uma moderna escravidão da pessoa humana e fazem promessas maiores do que
jamais poderão cumprir, tropeçam no Cordeiro. Quem requer culto à sua pessoa e não se humilha, vê
no servo pró me escândalo, loucura e pedra de tropeço. Os que depositam em sua força, poder e
capacidades pessoais a sua esperança, ainda não têm olhos para ver nem ouvidos para ouvir. Todos
que se têm na conta de um poderoso filho de Deus, sucumbem diante do Filho amado de Deus. Nisto
se inclui a nossa religiosidade que visa conquistar Deus; inclui-se nossa capacidade moral, quando se
torna um meio legalista para ser agradável a Deus. O Filho amado de Deus entra em nossa vida, no
ontem e no hoje; e aponta o nosso futuro. Hoje Deus fala conosco no Filho amado da Epifania e do
batismo do Jordão.
Em Jesus o céu se abriu e continua aberto, vem-nos a Boa Nova da salvação, da nova vida. O céu se
abriu para que percebamos a presença do Filho amado de Deus. A verdade evangélica do amor, da
graça e da misericórdia não está na técnica moderna, no desenvolvimento nem na capacidade
intelectual ou de trabalho do homem mas ela está na soberana Epifania, quando Jesus Cristo,
proclamado Filho amado de Deus, assume o caminho da via crucis, que é o caminho do Cristo pro
me.
V — Subsídios litúrgicos
1. Confissão dos pecados: Santo Deus e Pai, enviaste-nos o teu Filho amado. Na sua paixão e
misericórdia, o caminho escolhido por Jesus para salvar o condenado e perdido, aceitas os
pecadores. Pecamos contra ti em pensamentos, palavras e ações. O desrespeito às pessoas é pecado
contra ti; nossa injustiça para com pessoas é pecado contra ti. Por isso. Senhor, não podemos
subsistir ante a tua justiça. Apresentamo-nos a ti no conhecimento do teu amor, revelado na cruz de
Jesus Cristo, e pedimos que tenhas misericórdia de nós! A ti suplicamos. Senhor: Compadece-te de
nós, perdoa-nos a culpa e dá-nos o teu Espírito, para que em seu poder, renovados em nosso homem
interior, cumpramos a tua vontade e recebamos vida nova e a vida eterna. Tem piedade de nós.
Senhor!
2. Oração de coleta: Senhor, deixaste acontecer Epifania. Te revelaste em Jesus Cristo o Deus
misericordioso. Abriste o céu para os pecadores e nos di¬zes na declaração de Jesus Cristo como teu
Filho amado, que não queres a morte dos pecadores e sim que vivam, recebendo na paixão de Cristo
o perdão. Encurtaste distâncias. Saíste do afastamento e vieste para junto dos homens. Louvamos e
agradecemos-te, ó Deus e Pai do Filho amado. Tu és nossa esperança em meio ao desespero. Não
rejeitas, mas aceitas. Estamos felizes por sabemos da tua presença em Jesus Cristo, o teu Filho
amado e o nosso Salvador. Amém!
3. Oração final: Nosso Deus e nosso Senhor, louvado seja o teu nome por teres enviado o teu Filho
amado ao mundo, para que trouxesse luz na escuridão que envolve os homens e os povos. A ti
pedimos: Fortalece a nossa fé! Sê conosco em nossa fraqueza! Aumenta nossa esperança por vida!
Sê com a tua comunidade, que confessa o teu nome. Sê na pregação do teu Evangelho para que o
mundo creia que não há salvação senão em Jesus Cristo.
Senhor, pesa-nos no coração o sofrimento dos homens. O medo e a angústia de muitos nos
preocupam. Os desempregados perguntam pelo pão para suas famílias. A insegurança ronda os lares.
Assaltos e violência aumentam. Abre-nos corações e mentes para a fraternidade com os que sofrem.
Senhor, ilumina todos nós com o teu Espírito para que a inimizade seja vencida pelo amor, o
desentendimento seja superado pela compreensão e pela paz entre os homens. Sê tu mesmo a luz
para os doentes, os cegos, os oprimidos e angustiados. Libertando-nos da culpa. Senhor, faze-nos
aptos para o serviço no amor. Ilumina todos nós com a luz de teu Espírito, sé a viva esperança nesta
vida e para a vida eterna. Amém!
VI — Bibliografia
- LAMPARTER, H. Meditação sobre Mateus 3.13-17. In: Für Arbeit und Besinnung. Ano 28.
Caderno 13. Stuttgart, 1974.
- MYBES, F. Meditação sobre Mateus3.13-17. In: Homiletische Monatshefte. Ano 54. Göttingen,
1978/79.
- VOIGT, G. Meditação sobre Mateus 3.13-17. In: -. Der rechte Weinstoch. v. 1, Göttingen, 1968.
- Meditação sobre Mateus 3.13-17. In:-. Der schmale Weg. Göttingen, 1978.
Prédica: Mateus 3.13-17
Leituras: Isaías 42.1-7 e Atos 34.38
Autor: Valério Schaper
Data Litúrgica: 1º Domingo após Epifania
Data da Pregação: 10/01/1992
Proclamar Libertação - Volume: XVIII
 
1. Comentário
Salta aos olhos, nos Evangelhos, a singularidade de Mateus ao introduzir, na perícope do batismo,
um diálogo entre Jesus e João (Schniewind, p. 27). Embora se possa advogar, não sem razão, que os
w. 14-15 apontam para uma tentativa de amenizar o escândalo que provocou entre os primeiros
cristãos o fato de Jesus ter se deixado batizar por João, lendo o evento como algo desejado por Deus
(Kümmel, p. 33), é possível considerar ainda que o diálogo entre Jesus e João determina a
compreensão da perícope do batismo em Mateus (Grundmann, p. 96) em um sentido mais profundo.
O diálogo com João oportuniza, no Evangelho de Mateus, a primeira intervenção oral de Jesus.
Mateus faz dessa primeira fala de Jesus uma declaração programática (Grundmann, p. 97).

Considerando a pregação de João e os w. 11-12, que precedem a perícope do batismo, a fala de João
no v. 14 deixa entrever a compreensão diversa que João e Jesus têm do Messias (Bornkamm, p. 50).
Sem, contudo, entrar aqui no mérito da relação ou não entre a mensagem de Jesus e João, queremos
acentuar o fato de que Jesus insiste em ser batizado, porque convém cumprir toda a justiça.
O verbo convir é uma forma helênica de expressar o dever divino ao qual Jesus se subordina
(Grundmann, p. 97; Bornkamm, p. 50). Um termo correlato no grego, é necessário, tem uma
conotação de lei e liga-se à Apocalíptica e à Teodicéia; convir, por sua vez, manifesta uma reflexão
teológica, conhecimento (Grundmann, p. 97).
A ideia de justiça de Deus, à qual Jesus se submete, é, no pensamento vete-rotestamentário,
expressão recorrente da aliança de fidelidade entre Deus e Israel. Na base desta aliança está um
entregar-se obediente a Deus. Jesus, ao deixar-se batizar, expressa assim sua total entrega a Deus
(Grundmann, p. 97). Mais do que isso, ao colocar-se sob o batismo de João, Jesus não assume o
juízo do machado posto à raiz das árvores, mas coloca-se entre o povo, pecador, para salvá-lo
(Kunert, pp. 211-12 pontos 3 e 4; Schniewind, p. 27), cumprindo toda a justiça.
Mateus fala sete vezes em justiça (3.15; 5.6,10,20; 6.1,33; 21.32), enquanto os demais Evangelhos
mencionam-na apenas uma vez. Em Mateus, o termo justiça aparece em textos sempre centrais e,
muitas vezes, redacionais (Goppelt, pp. 485-86). Com exceção de 3.15 e 21.32, os textos falam de
uma justiça que deve ser buscada, ou ainda ter fome e sede, e de uma justiça que é comportamento
diante de Deus e do próximo com vistas ao Reino. Em 21.32, temos novamente a conexão com João
Batista, que veio no caminho da justiça. Em 3.15, Jesus aceita es- te caminho de justiça para cumpri-
lo. No grego, cumprir tem o sentido de fazer transbordar, tornar pleno, e substitui o termo hebraico
que significa colocar, pôr de pé, estabelecer. Portanto, cumprir a justiça significa não apenas realizá-
la, mas torná-la plena, estabelecê-la. A partir de Jesus, justiça é, então, ao mesmo tempo, exigência e
dádiva escatológica e, diferentemente do pensamento teológico judaico, graça e justiça, direito e
misericórdia (veja Is 42.1-4) não estão mais separados, pois doravante estão unidos nele.

Após o batismo, Jesus sai da água, abre-se o céu, e o Espírito de Deus desce sobre ele em forma de
pomba. A voz que vem do céu no v. 17 dá a entender, em Marcos, que dirige-se apenas a Jesus;
Mateus, por sua vez, a faz soar como um anúncio, uma proclamação (Schniewind, p. 26;
Grundmann, pp 98-99).
Strecker entende que toda a perícope tem' um significado exemplar para a incipiente
institucionalização da comunidade em Mateus (apud Grundmann, pp. 98-99).
João, mesmo tendo batizado Jesus, mandará, após ter sido preso, seus discípulos perguntá-lo se ele
era aquele que estava para vir ou viria outro (Mt 11.2-6). Jesus responde à dúvida de João, relatando
aos discípulos dele o que estava realizando em seu ministério (Mt 11.5-6; veja ainda os textos de
leitura deste domingo: At 10.38; Is 42.7).
2. Reflexão
2.1. Brasil, mostra tua cara
Nada parece mais absurdo do que refletir sobre justiça neste tempo sem heroísmos. Seria, talvez,
como cuspir no mar. No entanto, os meios de comunicação parecem interessados em promover
justiça a toque de caixa, martelando diuturnamente nossos ouvidos e olhos com notícias da
corrupção que campeia nos órgãos públicos, da omissão, das falcatruas, etc. Os meios de
comunicação clamam por medidas moralizantes, por justiça no país. É, sem dúvida, preocupante
quando um setor, de interesses tão instáveis e suscetíveis como os meios de comunicação, arroga-se
o papel de guardião do direito e da justiça numa sociedade. Parece tratar-se do clímax da propalada
modernidade: a vitória total do setor privado sobre o Estado, incorporando até mesmo os poderes
legislativo e judiciário.
O humorista Jô Soares disse que a caça a funcionários públicos e políticos corruptos desencadeou a
Síndrome de Volnei. Todos estão comprando gravadores e gravando até mesmo as conversas com os
respectivos cônjuges ou com os filhos. As lojas de aparelhos eletrônicos anunciam: Gravadores com
padrão ministerial.
Estes dois aspectos descritos acima parecem atestar a falência do poder público no Brasil. O poder
judiciário não impõe mais a lei ou a justiça, mas esta é que se lhe impõe.
No seu mais recente disco, Circulado de Fulo, Caetano Veloso traz em uma das músicas o tema do
furto, do estupro, do sequestro e dos linchamentos com a seguinte conclusão: A mais triste nação/Na
época mais pobre/Compõe-se de possíveis/Grupos de linchadores. A constatação é estarrecedora: a
qualquer momento, em qualquer lugar, pode surgir um grupo de cidadãos, até então pacatos e
anônimos, tentando estabelecer a justiça, a lei, linchando alguém. Perdemos a confiança na
capacidade punitiva do judiciário. Mas, para além da perda de confiança, ergue-se um outro código,
cujas instâncias são inapeláveis: a multidão desumana/desumanizada de linchadores.
Um amigo, advogado trabalhista, volta e meia compartilha comigo a dificuldade de que é
movimentar-se no emaranhado dos códigos legais brasileiros. Há uma infinidade de leis, detalhes,
minúcias, vírgulas. Poderíamos falar de uma hiperlegalização, testemunha, quem sabe, de um afã de
apreender o espírito da justiça. Na verdade, este parece ser o paradoxo do que tratamos antes. Porém,
o que tratamos ame-, pode ser apenas a contraparte desta hiperlegalização.
Contou-me o mencionado amigo que os trabalhadores, por exemplo, saltem como valer-se deste
aparato legal monstruoso. Com salários tão baixos, as pessoas inevitavelmente endividam-se com
facilidade nos armazéns. Para poderem rolai sua dívida pessoal, valem-se do mecanismo da
dispensa. Despedidos, munem-se, ao receber os direitos trabalhistas, de um pequeno capital, com o
qual pagam a com a pendurada no armazém, abrem outra e partem em busca de um novo emprego;
em pregados, repete-se o ciclo. É o famoso jeitinho, que, neste caso, instrumentaliza todos os
artifícios legais ao seu alcance. Entretanto, o jeitinho procura, em geral, burlar a lei, que é
estabelecida para justamente tornar todos iguais. O jeitinho aspira à diferença. Quem se vale do
jeitinho quer estar acima da lei, que vale para todos. O mais interessante é que este comportamento,
de modo geral, e tolerado e, em certo sentido, incentivado, como se o máximo que se pode aspirai na
sociedade é estar acima do lugar comumente reservado a todos, ou seja, o cumprimento da lei. Aí se
ouve aquele comentário: Ah, meu amigo, não nasci paia enfrentar fila! Calligaris aponta que, numa
estrutura onde a lei aparece como resíduo histórico da prepotência escravizante do colonizador,
burlar a lei através do jeitinho é uma tentativa de cobrar uma dignidade de sujeito negada por esta
mesma lei (pp. 109-15).
2.2. ...nos convém cumprir toda a justiça
Sobre este pano de fundo é difícil, mesmo a nível local, falar da transforma cão radical que Jesus
opera ao estabelecer toda a justiça, pois a palavra justiça cai num contexto onde os significados
implodiram o significante.
Jesus, no entanto, não estabelece a justiça como algo formal. Ao cumpri-la. Jesus a estabelece em
sua pessoa. Nele unem-se graça e justiça, direito e misericórdia, cujos efeitos os discípulos
certamente relataram a um João Batista reticente (Mt 11.5-6). Mas se a justiça estabelecida em e por
Jesus é dádiva, torna-se também exigência, pois é doravante referência do Reino. Assim, a expressão
nos convém começa a dizer respeito também aos leitores de Mateus, ou seja, a nós. É verdade que
não precisamos mais cumprir a justiça, pois isso Jesus fez. Não precisamos mais tornar-nos justos
diante de Deus, pois tornamo-nos justos em Jesus. Convém-nos, isto sim, vivermos como justos
justificados. Justo aqui é, sobretudo, saber-se sob a graça e a misericórdia de Deus.
O que é viver como justo no Brasil que descrevemos anteriormente? Essa é a pergunta que de fato
importa responder pessoalmente, como comunidade, como cidadãs e cidadãos. Não é mais possível
omitir-se. Não adianta também somente bradar aos quatro ventos contra o descalabro local e
nacional ou contra a classe política. Edificar, administrar e organizar as cidades e o país são tarefas
nossas. E, se vivemos sob a graça e a misericórdia, convém-nos edificar, administrar e organizar
cidades sob o signo da esperança. A comunidade é aqui chamada a erguer sinais dessa esperança, na
certeza de que a plena justiça triunfará.
3. Prédica
Duas ideias para desenvolver a prédica:
1. A prédica pode começar com a leitura de manchetes de jornal sobre corrupção, linchamentos,
falcatruas, etc., traçando um panorama nacional e, de preferência, local.
2. Uma técnica que pode ser útil no enredo da prédica é valer-se do próprio diálogo entre Jesus e
João e recriá-lo ou desenvolvê-lo como meio de expor a mensagem. Isso, é claro, depende muito da
sensibilidade da comunidade a estes artifícios.
Obs.: O hino 165 de Hinos do Povo de Deus poderia ser cantado após a prédica.
4. Bibliografia
BORNKAMM, Günther. Jesus de Nazaret. 3. ed. Salamanca, Sígueme, 1982.
CALLIGARIS, Contardo. Hello Brasil. São Paulo, Escuta, 1991.
GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento. 2. ed. São Leopoldo/Petrópolis,
Sinodal/Vozes, 1983.
GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Matthäus. 5. ed. Berlin, Evangelische
Verlagsanstalt, 1981 (THNT).
KÜMMEL, Werner G. Síntese Teológica do Novo Testamento. 3. ed. São Leopoldo,
Sinodal, 1983.
KUNERT, Augusto E. Meditação sobre Mt 3.13-17. In: Proclamar Libertação. Vol. X, São
Leopoldo, Sinodal, 1984.
SCHNIEWIND, Julius. Das Evangelium nach Mathäus. 12. ed. Göttingen, Vandenhoeck &
Ruprecht, 1968 (NTD).
Prédica: Mateus 3.13-17
Leituras: Isaías 42.1-7 e Atos 10.34-38
Autor: Vânia Moreira Klen
Data Litúrgica: 1º Domingo após Epifania
Data da Pregação: 10/01/1999
Proclamar Libertação - Volume: XXIV
Tema:
Esta perícope nos mostra que, nos primórdios das comunidades, o Batismo como marco essencial
para a vida cristã levou tempo para se unificar. Isto se deve ao fato de o lavar regenerador e
purificador através das águas não ser um simbolismo exclusivo do cristianismo.
Antropologicamente, na maioria das culturas mundiais podemos achar um sentido sagrado para a
água, que contém, simultaneamente, poder de destruição, de fertilização, fonte de vida, alívio das
dores, beleza, etc...
Analisando, a grosso modo, podemos descrever três aspectos essenciais de influência no Batismo
cristão:
a) a purificação através de banhos prescrita na lei veterotestamentária a pessoas e objetos que
haviam contraído impurezas legais — Lv 11-16;
b) a iniciação de prosélitos no judaísmo através de batismos de imersão, sendo que esta prática
aparece em época posterior ao surgimento do cristianismo;
c) o batismo realizado por João Batista, no qual encontramos características muito próprias, não
exigidas em outros rituais de purificação ou iniciação de sua época, como, por exemplo, a conversão
absoluta e penitenciai como preparação para os tempos messiânicos e o caráter provisório, já que
aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu (...) Ele vos balizará com o Espírito Santo
e fogo.
Certamente estas, entre outras práticas batismais, ainda não haviam sido uniformizadas na
comunidade de Mateus, que tinha uma origem judaico-cristã. Talvez por isso podemos notar que,
redacionalmente, há uma intenção de nos fazer compreender que o Batismo foi essencial para o
início do ministério de Jesus. Ele nos mostra também a diferença entre o ministério profético de João
Batista, cuja ação batismal tem como propósito a mudança de conduta, preparando o povo para
aquele que inaugurará um mundo novo, e o ministério de Jesus, onde se evidencia a solidariedade
com as pessoas oprimidas pelo pecado.
Alguns aspectos do texto
Vv. 13-15: Na história do batismo de Jesus encontramos uma complexa narrativa de oposição entre
Jesus e João. A primeira reação de João Batista é de espanto: como pode ser por ele batizado aquele
sobre o qual pregava que era superior, que não tinha pecado? Apesar de João reconhecer a
autoridade de Jesus preconizada desde o início do capítulo, há algo errado em sua identificação do
Messias. Por que Jesus deseja ser batizado? Não é Ele que inaugurará urna nova forma de ser? Que
resgatará a dignidade e o poder político de seu povo?
Vv. 14-15: A percepção de João Batista a respeito do papel presente do Messias é equivocada. Por
isso não consegue ter clareza sobre o que deve ser feito: batizar ou ser batizado? Jesus, ao contrário,
tem bem claro que convém cumprir toda a justiça. João analisa a situação a partir de sua própria
necessidade, de seu próprio julgamento de justiça: Eu é que preciso ser batizado por ti. Em contraste,
para Jesus, a ação correia está baseada na avaliação da situação do que deve ser feito ou do que é
conveniente para o cumprimento da justiça (termo um tanto indefinido em Mateus; na Bíblia na
linguagem de hoje encontramos: pois assim faremos o que Deus quer) naquele momento. Logo,
cumprir toda a justiça significa fazer algo que havia sido estabelecido como comportamento correio
na avaliação da situação em termos de tempo. Cumprir a justiça em um determinado tempo histórico
pode vir a não ser o mesmo em outro. Na crise de João Batista percebemos uma distinção clara entre
o tempo presente (aquilo que ele acha que deve ser feito) e o futuro escatológico (aquele que
inaugurará um novo tempo). Há uma diferença entre o que o ministério de Jesus propõe e a
expectativa daqueles que esperam o Messias.
Vv. 16-17: Nestes versículos a oposição termina. Mateus conta com o conhecimento de sua/seu
leitora/or quando ressalta o significado da oposição ao batismo de Jesus e o que é cumprir toda a
justiça: ele pressupõe que saibamos que Jesus é o Filho amado (v. 17). Toda a simbologia utilizada
nos w. 16 e 17 mostra o reconhecimento de Jesus como o Filho amado de Deus. Para Mateus é
essencial que entendamos que o Filho amado é alguém que cumpre toda a justiça, alguém que está
submetido à autoridade de Deus e que, ao mesmo tempo, tem autoridade comparável a Deus. A voz
que diz: Este é o meu Filho amado declara publicamente a autoridade de Jesus.
Reflexão
Obviamente o texto nos conduz a uma reflexão sobre o Batismo. Podemos nos perguntar se também
hoje em dia não estamos confusas/os sobre este sacramento em nossas comunidades. Por que
balizamos? Qual o valor do nosso Batismo? Como estamos vivendo o nosso Batismo?
O Batismo está profundamente ligado ao desejo de Deus em relação ao ser humano: salvação e
vida eterna. Porém cabe-nos o compromisso de assumirmos, a partir daí, o nosso papel junto
ao ministério de Jesus. O batismo de Jesus no início de sua vida pública marca o seu ministério
de libertação e salvação que culminará na cruz. Assim, o Batismo que recebemos também nos
introduz na missão solidária de Jesus para com aquelas pessoas que sofrem, que pecam, que
necessitam de outro horizonte de libertação.
O batismo de Jesus desarma os desejos do eu, nos colocando a serviço do nós. O nosso Batismo
nos inclui na família de Deus, fazendo contraste dentro deste mundo que exclui, segrega e
discrimina. A ação de Deus em nosso favor nos capacita para a vida comunitária.
O batismo de Jesus inaugura o significado do nascer de novo: o de estar apta para se colocar
no meio deste mundo vivendo o perdão, o compromisso com o próximo empobrecimento, a
comunhão, a indignação com as estruturas opressivas de poder, e buscando, cada vez mais, um
sentido concreto para este termo indefinido: justiça. Qual o significado deste termo para nós?
O que caracteriza a ' 'justiça'' a partir da perspectiva evangélica? — Cabe a nós, filhas e filhos
de Deus, unidas em Cristo através do Batismo, cumprir Ioda a justiça na época em que
vivemos, nas comunidades das quais participamos.
Bibliografia
BRAND, Eugene L. Baptism : A Pastoral Perspective. Minneapolis : Ausgburg, 1975.
CAMACHO, Juan Mateos F. O Evangelho de Mateus. São Paulo : Paulinas, 1993.
GODERT, Valter M. Teologia do Batismo. São Paulo : Paulinas, 1988.
KAVANAGH, Aidan. Batismo : rito da iniciação cristã. São Paulo : Paulinas, 1987.
Prédica: Mateus 3.13-17
Leituras: Isaías 42.1-7 e Atos 10.34-38
Autor: Albérico Baeske
Data Litúrgica: 1º Domingo após Epifania – Batismo de Nosso Senhor
Data da Pregação: 9/01/2005
Proclamar Libertação - Volume: XXX
Saudando as pastoras da IECLB que trabalham na Amazônia Legal;
Sua disposição e seu despojamento nos questionam e anima.

1. Recordando o Batismo

1 – Existem paróquias que celebram este domingo como dia comunitário de recordação do Batismo.
Isto é um bom hábito; ele possui raízes na história litúrgica da Igreja Universal. Urge que sejamos
lembrados e lembradas de que fomos batizados e batizadas. Naturalmente, tal evento anual único não
substitui o cantus firmus da pregação do evangelho de Jesus Cristo. Este reside em convencer as
pessoas para que se deixem batizar, dando elas assim publicamente razão a Jesus Cristo e não a si
mesmas (cf., p. ex., At passim), ou em descrever às pessoas batizadas as conseqüências individuais e
familiares, comunitárias e eclesiais, econômicas e sociopolíticas decorrentes do Batismo, exortando-
as assim a vivenciar seu status (cf., p. ex., Rm 6 e 1 Pe).
Recordar uma vez ao ano que fomos batizados em absoluto é próprio do evangelho. Todavia, é
melhor do que corroborar a idéia de que o Batismo seja um rito mágico de passagem para o bem-
estar de recém-nascidos, uma cerimônia que ornamenta sua entrada na vida com arabescos
religiosos, os quais as famílias solicitam ou exigem, e a comunidade, caso esteja presente, contempla
sentimentalmente. Ato, pois, que parece não ter nada a ver com a gente quando se é adulto. O que é
reforçado pelo hábito antievangélico de realizar batismos sem prédicas explicativas. Tudo indica que
quanto mais bebês se batizam na IECLB tanto menos se prega sobre o Batismo.
2 – Essa situação revela às quantas andam proclamação e vivência do evangelho em nosso meio. A
situação é séria, justamente quando se tem claro que “os efeitos de atuais omissões da igreja vêm
sempre trinta anos depois” (K. Barth). Para enfrentá-la, pouco ajuda repristinar ou engenhar
moldurações litúrgicas do Batismo na acepção igrejeira; menos ainda repetições do rito. Jeito apenas
há no entranhamento paciente e persistente nos testemunhos neotestamentários e reformatórios a
respeito do Batismo. Enfatiza-se como imprescindível para um estudo acurado e comprometedor,
quanto aos primeiros, G. Barth (veja: Recomendações bibliográficas), e quanto aos segundos, M.
Lutero (veja: ibidem).
Quem se enfronha aí toma pé no que é o Batismo e o que significa ter sido batizado para a vida que
vivemos no corpo e em suas relações. Oxalá lutemos por clarividência teológica com respeito a esse
meio da livre poderosa graça de Deus. Sem clareza exegética e alicerce confessional, contribuímos
tão-somente para o lusco-fusco igrejeiro quanto ao Batismo. Com eles sentiremos a necessidade
inadiável de catequese e pastoral batismais. No desempenho das mesmas, é central comunicar o que
Deus faz com as pessoas que são batizadas. A prática igrejeira, corrente entre nós, no entanto, é
declaratória e não existencial. O valor vital único do Batismo está sendo obscurecido, sim, suprido
pela execução esquemática e artificiosa de uma cerimônia igrejeira. Consciências despertadas por
testemunhos bíblicos e confessionais e aterrorizadas quando confrontadas com o Abtaufen [batizar
por série, ao estilo vapt-vupt, de maneira formal e irrefletida, com o resultado de que as pessoas
acabam ficando fora da comunidade] em vez do Hineintaufen [batizar de maneira consciente e
compromissada para dentro de Jesus Cristo e sua comunidade] (E. Thurneysen) precisam ser
confortadas. Aqui prestam auxílio “os da família da fé” (Gl 6.10) na África e na Ásia. Também,
nesse contexto, está mais do que na hora de trocarmos nossa fixação no Hemisfério Norte pelo olhar
atento para o Sul. Nosso norteamento afunda-nos sempre mais nas brumas concernentes ao Batismo,
enquanto cristãos e cristãs da outra parte do Terceiro Mundo nos alertam e desafiam: “Coragem isto
nos dará, fraqueza vencerá” (Hinos do Povo de Deus / HPD 1, 98.4).
3 – O testemunho desses familiares da fé é quase desconhecido em nossas plagas. Daí informações
que estimulam uma pastoral batismal, tão premente entre nós (para detalhes, veja: Recomendações
bibliográficas – W. Freytag e G. F. Vicedom):
a – O Batismo é mais importante do que o nascimento. Um europeu perguntou a um velho africano
sua idade. Este respondeu: “Tenho dois anos”. O europeu, perplexo: “Como, dois anos?”. O velho,
radiante: “Fui batizado dois anos atrás!”.
b – O Batismo nos assevera extra nos que Deus nos quer bem. Idéias profundas, até cristãs,
declarações de amor a Jesus, além de permitir uma vida dupla, não nos asseguram a benevolência
recriadora de Deus. Exclusivamente pelo Batismo público, com muita água e rodeado pela
comunidade, ocorre a ruptura com a velha existência e, concomitantemente, o surgimento do novo
ser. Eis o que testificam indianos. Zulus denominam o Batismo de “o grande vau, o único lugar onde
se pode passar para o outro lado”: da velha vida para a nova, deste mundo para o reino de Deus, da
morte para a vida.
c – O Batismo envolve a abrenunciação da vida antiga com seus esconderijos, ídolos e tramóias. Por
isso, na véspera do Batismo, batizandos na África e na Ásia abrem de maneira total sua vida até
então perante confessores particulares ou a comunidade reunida e pedem a absolvição em nome de
Deus. E a comunidade preocupa-se poimenicamente com cada um dos batizandos.
d – O Batismo determina toda a vida. O mencionado ancião africano o entendeu. Irmãos e irmãs dele
se dão nomes por ocasião do Batismo. Como: “Deus me carrega”, “uma pessoa nova”, “eu fui
acrescentada ao povo de Deus”. Doravante insistem que se use esse nome. Não atendem pelo velho.
Quando chamados pelo novo, lembram-se: crer em Jesus Cristo é viver de modo diferente do que
todo mundo vive. E o pessoal que chama ou escuta chamar aquele nome está sendo constantemente
questionado: que vida nós estamos levando? Um missionário papua explica: “Mediante o Batismo,
Deus coloca as pessoas batizadas em sua mochila; assim lhe pertencem. Ele cuida delas em corpo e
alma. Quando se perdem, ele as procura de novo”.
e – Batismo leva à vida eterna. Batizados de Papua-Nova Guiné testemunham após o Batismo aos
não-batizados: “Antes do Batismo, temíamos a morte como vocês. Igual a esta pedra aqui queríamos
ficar sempre em cima da terra. Nós não tínhamos nenhuma esperança de vida eterna. Agora sabemos
que precisamos morrer, não porque fomos enfeitiçados, mas porque pecamos. Contudo, temos um
amparo na morte, e ele nos preparou, mesmo pelo túmulo, um caminho ao céu”. Uma africana,
crente em Jesus Cristo, morreu dizendo: “Eu vou agora para aquele que vi no Batismo”.
f – Batismo custa caro. Em vez de uma promessa verbal, o Batismo é uma ruptura existencial.
Enquanto as pessoas simpatizam com Jesus Cristo, seus parentes, vizinhos e compatriotas não acham
isso nada demais, até apóiam e compartilham suas lucubrações. No entanto, quando se deixam
batizar, são hostilizadas, excluídas do convívio parentesco e social, deserdadas. Em países
muçulmanos, famílias colocam anúncio fúnebre no jornal relativo a seu membro que foi batizado.
Na Índia, sucede que batizados são considerados párias, que eles próprios odiavam antes, e suas
mulheres os abandonam e seus filhos fogem deles.
g – Batismo inclui na comunidade. Pelo Batismo as pessoas referidas perderam a comunhão legada
e, ao mesmo tempo, ganham parte naquela que rompe círculos étnicos, barreiras sociológicas e
fronteiras políticas. Ser batizado é idêntico a ser membro do corpo vivo de Jesus Cristo, que recebe,
abarca e vela os que o Batismo tornou míseros e sós. Um catequista africano fez a seguinte
comparação: “A criança vive antes do nascimento no ventre da mãe e não entende nada do mundo.
Assim também nós, que vivemos neste mundo, não entendemos o reino de Deus. Nele se entra
através de um segundo nascimento, ou seja, o Batismo”. O Batismo é, pois, naturalização no reino
de Deus.
h – Batismo é a palavra visível de Deus. Por isso a comunidade vigia para que a dádiva inefável de
Deus não seja malbaratada. Sua assembléia examina os/as catecúmenos/as e decide quem será
batizado. A comunidade conhece os pais que solicitam o Batismo para suas crianças e cuida para não
serem batizadas crianças cujos pais são crentes em Jesus Cristo da boca pra fora. “Destarte muitos
pais entre nós aprenderam que não se pode brincar com as coisas de Deus”, afirmam africanos e
chineses.
i – Batismo compromete com a missão. Na Índia, um bispo fez com que os/as catecúmenos/as, que
pediram o Batismo, colocassem, durante sua realização, a mão direita na cabeça e declarassem: “Ai
de mim se não pregar o evangelho (1 Co 9.16)”. E um outro expressou: “Eu não posso crer na ação
salvadora de Jesus por mim, se ela não se destina a todos”.
j – Eficácia dupla do Batismo. Um evangelista papua dirigiu-se assim aos que “esqueceram seu
Batismo”: “No Batismo, Deus colocou sua mão em cima de vocês. Não a vêem, pois Deus é
invisível. Contudo, ele é poderoso. Como conseguem se livrar de sua mão? Ora, vocês têm duas
possibilidades: ou seguem no discipulado e a mão de Deus os acaricia, ou não seguem, então ela bate
neles”.
2. A comunidade
1 – A comunidade com que o leitor e a leitora de PL convivem, ela pensa o que em relação ao
Batismo e de que jeito o vivencia intra et extra muros ecclesiae? Ninguém, em culto e comunidade,
pronuncie a palavra batismo/batizar sem ter presente o que as pessoas que aí estão associam com o
termo. Enfatiza-se, pois, realizar enquetes comunitárias com a finalidade de descobri-lo. Já a
disposição da Quarta Parte do Catecismo Menor coloca as perguntas básicas; também contribui o
respectivo trecho de Nossa Fé – Nossa Vida. Então o que o povo com que o pregador e a pregadora
lidam e eles próprios entendem por Batismo? Por que a gente o realiza ou o solicita? Quem batiza?
Quem é batizado? Ter sido batizado implica o quê? Resumindo: Quem é Deus no Batismo, quem
somos nós no Batismo? Procedendo nesta linha, começa-se a valorizar “o Santo, Venerabilíssimo
Sacramento do Batismo” (Lutero).
É fácil formular tais perguntas de forma curta e grossa. Já mais difícil é ganhar o apoio do
presbitério para a iniciativa e animar a comunidade a responder com desenvoltura. Dificílimo é, no
entanto, ouvir bem e, depois, matutar no que se ouviu. Ora, quem se aproxima do Batismo em nossas
paragens e analisa sua praxe mexe com fogo. Falar em questões políticas e nelas optar por
determinada alternativa, perante a comunidade, constitui um foguinho em comparação com o
fogaréu que a preocupação conseqüente com o Batismo pode provocar. Aí quem crer em Jesus
Cristo, em geral, e as pessoas ordenadas para um ministério eclesiástico, em particular, estão sendo
desafiadas, exigidas e comprometidas. Na certa: valorização do Batismo acaba com a paz igrejeira. É
verdade, o Batismo custa caro – igualmente entre nós. Desse modo ele se evidencia meio da livre e
poderosa graça de Deus. Que a obreirada, antes dos demais, seja bem calçada e assistida no sentido
acima esboçado (cf. I.2s.).
2 – No afã de estimular o tino para o que se pode ouvir concernente ao Batismo e fortalecer a
disposição de se expor às colocações e trabalhá-las, seguem manifestações recolhidas, escolhidas
aleatoriamente.
a – “Ninguém nos precisa dizer o que é o Batismo – nós sabemos o que é praxe em nossa igreja.”
b – “Quem não é batizado é selvagem.”
c – “Quando nasce a criança, ela em seguida é batizada. Assim sempre foi e é em nossa família. Ser
batizado como adulto é uma vergonha.”
d – “Batizamos o nosso Joãozinho para poder chamá-lo pelo nome.”
e – “Batizar faz bem ao bebê, inclusive vamos levar a água batismal para casa. Se o bebê passa mal,
botamos na testa dele alguns pingos dessa água.”
f – “Batizar não faz mal, não. Melhor ainda é deixar-se batizar logo em mais duas ou três igrejas.”
g – “Nós [pais e padrinhos] queremos batizar o menino, a comunidade não tem nada a ver com isso.”
h – “Se vocês complicam com o Batismo, saibam que existem muitas igrejas que batizam sem fazer
perguntas.”
i – “Afinal, o que meu Batismo tem a ver com meu ganha-pão?”
j – “Na história de Jesus com as crianças [Mc 10.13-6], a gente nota que abençoar não é batizar.”
k – “Puxa, aqui [At 8.26-40] é bem diferente do que em nossa igreja: aqui o Batismo fica no fim e na
igreja, no início.”
3. O texto-base para a prédica
1 – O fato de que Jesus de Nazaré foi batizado por João Batista pertence aos dados históricos da vida
de Jesus, que pessoa alguma, familiarizada com a tradição sinótica, contesta. Agora, o apaixonante é
como cada um dos sinóticos, respectivamente as comunidades pós-pascais que eles representam ou
às quais falam, interpreta tal fato inconteste. À medida que os sinóticos transmitem o que houve com
Jesus, expõem “o Evangelho de Jesus Cristo” (Mc 1.1), que extrapola a história do homem de
Nazaré. Eles são mais do que tradutores e transmissores; são testemunhas vivas que puxam e
atualizam o que houve para sua hora e contexto, pois crêem e sabem que o próprio Jesus Cristo – o
ubíquo, o onipresente e o monoagente – suscita e sustenta seu testemunho (Mc 13.31 par.; cf. Hb
13.6; Ap 4.9 par.), já que lhe apraz, através deles, alcançar todo mundo e o mundo todo (cf. Mt
28.18-20). (Veja para a questão hermenêutica que se coloca em qualquer época e ambiente: G.
Eichholz, Tradition und Interpretation – Studien zum Neuen Testament und zur Hermeneutik.
München: Kaiser, 1965. p. 11-34; mormente: p. 11-4, 21-6, 34 [Theologische Bücherei Band 29]).
2 – Mt 3.13-17: A perícope se subdivide em três partes: v. 13 – relação batizando-batizador; v. 14s. –
diálogo entre os dois; v. 16s. – os acontecimentos que envolvem o Batismo de Jesus de Nazaré. O
jeito mais transparente de descobrir o testemunho específico de Mateus referente ao fato de que João
Batista batizou Jesus é compará-lo com os de Marcos (Mc 1.9-11) e de Lucas (Lc 3.21s.). A
concentração restrita e exclusiva em Mateus evidencia:
a – O diálogo entre João Batista e Jesus de Nazaré (Mt 3.14s.) é matéria peculiar ao primeiro
evangelista; se ele a delineia ou já lhe vem da tradição anterior, não importa. A pergunta do Batista
(v. 14b) focaliza o que pessoas desde os primórdios da igreja até hoje remoem: o enigma que rodeia
o Batismo de Jesus. Respondeu-se e responde-se de dois jeitos. O primeiro, sob o ponto de vista
psicológico/ético, ressalta, por exemplo, a humildade e solidariedade de Jesus. O segundo, sob o
ponto de vista dogmático, e aí em alusão antecipada ao v. 17, encontra, por exemplo, reflexos da
polêmica entre discípulos do Batista e discípulos do Nazareno e de convicções cristológicas, sejam
adocianistas ou redentoristas.
Em vez de voltar-se a tais conjeturas, corresponde à ausculta concentrada do testemunho mateíno
entranhar-se na resposta de Jesus de Nazaré (v. 15). Por sinal, na primeira palavra que ele pronuncia
conforme Mateus, chama atenção particular a expressão: “nos convém cumprir toda a justiça” (v.
15c). O que quer dizer “toda a justiça”? A concordância grega (A. Schmoller, Handkonkordanz zum
Griechischen Neuen Testament. 15. ed. Stuttgart: Bibelanstalt, 1973, verbete dikaiosynae = p. 124,
2ª coluna) arrola sete textos que trazem o vocábulo “justiça”. Levando-os em devida conta, a
acepção de “justiça” no primeiro evangelista poderia caracterizar-se como a seqüência da ação
resgatadora que Deus traça, determina e impulsiona. E, ao mesmo tempo, Deus vela para que as
pessoas se enquadrem em sua “justiça” (cf. Is 56.1), esperando e cobrando que andem “no caminho
da justiça” (21.32). De certa forma, o v. 15c resume todo o testemunho mateíno. Jesus de Nazaré
conhece “a justiça”, compreende-a, concorda com ela, assimila-a, entrega-se a ela e está decidido a
trilhar “o caminho” dela. Ele é “manso e humilde de coração”, o obediente a Deus por excelência
(11.29 [cf. 5.5]; 26. 42d – ambas as passagens só em Mateus). Razão pela qual para ele não há outra
opção, a saber: “convém cumpri-la”. Mais perto do termo original – plaeroosai – seria “realizá-la
completa e plenamente, de pronto e sem embargo nem senões” e, assim, erigir “a justiça” de vez em
parâmetro. “Convém a nós” significa: a ele próprio, Jesus de Nazaré, e a João Batista – e à
comunidade que o evangelista tem em mira (cf. 5.20,48).
Eis o testemunho atualizador de Mateus, seu proprium: o escopo poimênico-eclesial (cf. para o
enfoque, p. ex., 7.21-9; 22.1-14; 25.31-46). O primeiro evangelista insiste no Batismo, porque Deus
assim o quer; necessitas praecepti (K. Barth) qualifica o Batismo. Se Jesus de Nazaré vem, livre e
espontaneamente, com a finalidade de se deixar batizar (3.13), seus discípulos não podem agir de
modo diferente. Discípulos não simpatizam com ele, mas o seguem em tudo, inclusive rompendo
com a sinagoga, representada por “fariseus e saduceus” (v. 7-12; cf. 23.13-36), isto é, procurando o
Batismo.
b – Ao registrar “batizado Jesus, saiu logo da água” (v. 16a), Mateus descreve, de maneira objetiva e
afirmativa, os fenômenos que ocorrem (cf. Ez 1.1-4). Para o evangelista, esses são acontecimentos
que se enxergam e ouvem (v. 16b-17). Assim introduz a descrição deles com seu termo predileto:
idou, que usa 62 vezes (cf. W. Bauer, Wörterbuch zum Neuen Testament. 5. ed. Berlin: Töpelmann,
1963. verbete idou = coluna 733); a interjeição idou é a versão grega popular da hebraica hinne, “eis
[aí]” (v. 16b e 17a). O vocábulo expressa perplexidade em relação ao que se segue e confere
gravidade/dignidade ao mesmo; enfatiza algo “totalmente inesperado” (Bauer, o. c.) e que, eo ipso,
envolve, confronta e força a decidir-se. Já esse detalhe remete, novamente, ao escopo poimênico-
eclesial de Mateus.
Corroborando o impacto, o evangelista junta o fender-se do céu com o descer da pomba. “Os céus
foram abertos” (o original tem aoristo na voz passiva; recomenda-se acompanhar o texto editado por
E. Nestle, que faz jus à maneira afirmativo-objetiva de Mateus) (v. 16b) e “o Espírito de Deus veio
sobre ele [Jesus]” (v. 16d). Céu aberto assinala o caráter escatológico do Batismo de Jesus de
Nazaré. O próprio Deus se auto-revela, fato ansiosamente esperado e ardentemente implorado por
seu povo (cf., p. ex., Is 63.19). E, quando Deus se auto-revela, vem junto “o Espírito de Deus”. Jesus
de Nazaré, Batismo e “Espírito de Deus” estão inter-relacionados. O evangelista salienta sobremodo
o aspecto do último, pois, como testifica já antes, Jesus é “gerado do Espírito Santo” (1.20,18). O
ressalto, no contexto do Batismo de Jesus, esmiúça, igualmente, o escopo poimênico-eclesial de
Mateus: o Batismo, realizado na comunidade, acontece “com o Espírito Santo e com fogo” (3.11).
Ele exprime com precisão seu testemunho, colocando que “o Espírito de Deus [sic]” vem sobre Jesus
de Nazaré (v. 16c), aquele “Espírito de Deus” da criação (Gn 1.2) e da recriação por intermédio do
“rebento de Jessé” (Is 11.1-10) / do “servo de Deus” (42.1-9; cf. 61.1-11). Agora e aqui, com e em
Jesus, irrompe a nova criação. Mateus particulariza a imbricação entre Batismo e “Espírito de Deus”
com as formulações de que Jesus, após ter sido batizado, “saiu logo [sic] da água” (v. 16a) e de que
o Ressurreto encarrega os onze “a fazer discípulos e batizá-los em nome do Pai e do Filho e do
Espírito Santo [sic]” (28.16.19). O Batismo coloca os batizandos no raio de ação do “Espírito de
vosso [seu] Pai” (10.20-3), ou seja, da presença de Deus, que está agindo neles e mediante eles pelo
mundo afora (28.18-20). Conseqüentemente, quem “falar contra o Espírito Santo” – aquele que
determina e impulsiona a comunidade – “não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no
porvir” (12.32).
c – Objetividade e afirmação no testemunho mateíno chegam a seu auge no v. 17. “Uma voz dos
céus, que dizia” (v. 17a), isto é, Deus quebra seu silêncio e fala – o que apenas ocorre no fim dos
tempos. O próprio Deus proclama Jesus de Nazaré. Deus se manifesta de maneira direta e exclusiva:
é “este”, não há outro. Deus mesmo faz “este” (v. 17b) conhecido e reconhecido. Jesus não se
autoproclama, “ele só pode ser o que Deus dele faz” (A. Schlatter). Deus é insofismável:
sua eudokia (11.26) incorpora; sim, realiza-se sua epifania. O que desdobra, por assim dizer urbi et
orbi, denominando Jesus de Nazaré “meu filho” (cf. Sl 2.7) amado”, mais perto do texto original:
“meu filho, o único que amo” (v. 17b). O que Isaque é para Abraão (Gn 22.2,12, 16) e o que “seu
filho amado, que ainda lhe restava” é para o dono da vinha (Mc 12.6 par.), assim Jesus de Nazaré é
para Deus. “Em quem me comprazo” (v. 17c) remete a Is 42.1. A combinação entre Sl 2.7 e Is 42.1
leva a concluir que “comprazer” e “escolher” interpretam-se mutuamente. Deus constata que “o meu
servo”, prometido a tanto tempo, está aí; “este” é Jesus – adequado, pois, à leitura no culto de Is
42.1-7, também a de At 10. 34-8. Ora, Deus em absoluto se dirige a Jesus de Nazaré, mas a todo o
mundo e ao mundo todo sobre “este”. A “este” as pessoas reagem de modo diferenciado (Mt 27.37-
54). Deus garante “este” – o evangelho segundo Mateus inteiro o testifica, referências são
desnecessárias. Em, com e sob a pessoa de Jesus e sua obra Deus está presente e entra em campo – e
em ninguém e nada mais; em, com e sob a pessoa de Jesus e sua obra a vontade de Deus é cristalina
e está consumada – e em mais nada e ninguém.
Unicamente em, com e sob a pessoa de Jesus e sua obra, “os céus estão abertos”, inicia o novo éon.
Eis a Boa Nova de Deus – tão-somente em Jesus de Nazaré. Mateus – dentro de seu escopo
poimênico-eclesial – alteia Jesus perante a comunidade destinatária como o “espelho do coração
paterno [de Deus], sem o qual nada vemos senão um juiz encolerizado e terrível” (Lutero). Exorta-a
a ficar bem junto de Jesus – embora apareça só em 17.5 o acréscimo: “a ele ouvi” –, vale que ele é “a
única Palavra de Deus que deve ouvir, em quem deve confiar e a quem deve obedecer na vida e na
morte”, e além dele não pode ter “outros acontecimentos e poderes, personagens e verdades como
fontes de sua pregação e como revelação divina” (1ª Tese da Declaração Teológica da Igreja
Evangélica Alemã, Barmen, 1934). Procedendo dessa forma, a comunidade torna-se filha do “vosso
Pai celeste” (5.45.9; cf. 13.38). Logo, Mateus inculca na comunidade que Deus “não pode negar-se a
si mesmo [...] por isso, quando seus filhos [e suas filhas] se apartam da obediência e tropeçam, faz
que sejam revocados[as] pela palavra ao arrependimento [...]. E quando tornam a voltar-se para ele
em genuíno arrependimento mediante fé verdadeira, ele sempre quer mostrar o velho coração
paterno a quantos temem sua palavra [veja Jr 3.1].” (Declaração Sólida)
Para o evangelista, Jesus de Nazaré não precisa ser chamado como foram os profetas do Primeiro
Testamento – ele “salvará o seu povo dos pecados deles”, é “Emanuel” (1.23; 28.20) desde sua
concepção (Mt 1.18.20-3). O que foi preciso era que fosse proclamado como tal em público e com
voz inconfundível, e disso Deus mesmo se encarrega. Que Jesus não pode ser comparado com os
profetas, e muito menos ainda com os doze, se demonstra no fato de que não recebe envio.
Conseqüentemente segue a prova inicial que atesta a autenticidade de sua existência: 4.1-11. Com o
que Mateus alude, em conformidade com seu afã poimênico-eclesial, ao futuro imediato da
congregação dos batizados.
4. Sugestões para o culto
1 – Continuando a linha de pensamento desenvolvida até aqui, o culto não pode deixar de focalizar o
Batismo (cf., em termos, PL 24, p. 67-9). Festividade é inoportuna; extremamente oportuno é
encaminhar para a compenetração. Ao que corresponde implorar a Deus que nos conceda a graça
da metanoia (Mt 3.2), cujo primeiro “fruto digno” (v. 8) é o empenho comunitário pela redescoberta
do “Santo, Venerabilíssimo Sacramento do Batismo”: sua praxe intrépida, refletida e diferenciada,
que envolve existencialmente, e sua vivência cotidiana, alegre e consciente, em nosso ambiente.
2 – Um jogral, formulado por membros, que espelha o que se entende por Batismo na comunidade,
dê a devida introdução ao “tema do culto”.
3 – As orações sejam voltadas ao Batismo. A “confissão dos pecados” enumere superficialidades,
desleixos e abusos em relação ao sacramento, constatados in loco et concreto, entre pais e padrinhos,
presbitérios e obreiros e obreiras. A “coleta” peça a Deus por clareza, instrução e decisão em nossas
brumas relativas ao Batismo a partir de sua palavra. A “oração final” rogue para que Deus
providencie que a IECLB descubra o “Santo, Venerabilíssimo Sacramento do Batismo” e anime a
comunidade presente a tomar iniciativas concretas e corajosas nessa direção, esboçadas na prédica,
tanto em âmbito local quanto sinodal.
4 – Como hinos ofereçam-se: HPD 1, 40; 42; 96; 100; 105; 137; 177; 188. O Povo Canta, 230s.
5 – Lutero pregou 47 vezes (sic) sobre Mt 3.13-7. Em nosso meio, nos últimos trinta anos, a perícope
está sendo tratada pela quarta vez (as outras abordagens encontram-se em PL X, p. 206-15 [com
muitas observações valiosas no texto em pauta e nos correlatos]; XVIII, p. 57-60; XXIV [24], p. 67-
9).
O enfoque a respeito do “Batismo entre nós” (veja I.s.) e as informações exegéticas e reflexões
teológicas anteriores (veja III.) podem orientar a(s) prédica(s) como segue. Os pontos arrolados não
querem indicar uma ordem prioritária, apenas lembrar aquilo que se deveria rebuscar, investigar a
fundo e contextualizar.
a – Fomos batizados e batizadas. Que importância tem esse fato em nossas vidas? Ele nos alegra – e
custa algo?
b – É determinação de Deus que nos deixemos batizar. Quem fica distante ou hesita em se submeter,
de livre e espontânea vontade, ao Batismo quer superar Jesus de Nazaré. Com o que em absoluto se
justifica batizar, a torto e direito, qualquer bebê. Batismo não é meio apropriado para encher os
templos aos domingos ou para aumentar o número de membros. Batismo é, isto sim, meio da graça
livre e poderosa de Deus.
c – Batismo provoca ruptura com o estabelecido e estratificado religioso e social, com suas regras e
ideologias, com suas forças mantenedoras e defensoras. A ruptura inicia por abolir o batizar como
mera celebração igrejeira e social, esperada e aplaudida, sem conseqüências eclesiais e sociais. A
ruptura prossegue em envolver a comunidade toda, responsabilizando-a pela prática batismal e pelo
acompanhamento dos batizandos e das batizandas. A ruptura vai adiante à medida que o Batismo
constituir o critério da vida no corpo em todas as suas dimensões. Chega de “tanto faz quanto fez”,
“Maria vai com as outras”, compromissos religiosos múltiplos, achar que se é cristão e cristã quando
se “ama” o próximo, discutir fés, mesclar fé em Deus com nossa boa e livre vontade, misturar a vida
que se imagina com a vida que Deus dá.
d – Batismo coloca-nos perante a face de Deus. Seu Espírito nos prende aí. Deus fala de si e quer
que o proclamemos – e não a nós e “nossa igreja”. Deus desdobra que ele próprio está presente em
Jesus de Nazaré para sempre e para todos. Desta feita destitui os mais diversos “filhos de Deus”.
Quem é Deus nota-se no jeito de Jesus e em ninguém outro. A “este” nos cabe seguir no “caminho
da justiça” – em gratidão e alegria. Aqui o céu está aberto, olhamos além dos horizontes da IECLB e
a presença de Deus nos é garantida.
e – Batismo atrai tentação. O caráter do Batismo revela-se em meio a atribulações. Seu valor está
sendo comprovado nas aflições que assolam fé e vida da gente batizada. A tentação qualifica e acera
a existência dos batizados e das batizadas.
Prédica: Isaías 42.1-7
Leituras: Atos 10.34-38 e Mateus 3.13-17
Autor: Valdemar Schultz
Data Litúrgica: 1º. Domingo após Epifania
Data da Pregação: 07/01/1996
Proclamar Libertação - Volume XXI

1. Contexto e Texto
1.1. O Nosso Profeta
O livro do profeta Isaías é dividido em três blocos: 1-39; 40-55 e 55-66. lista divisão é consenso na
pesquisa exegética. Os caps. 40-55 são atribuídos ao Segundo Isaías (sobre este profeta veja a
introdução no Proclamar Libertação XIX, pp. 241s.). Conforme B. Duhm, no livro do Segundo
Isaías podem ser relacionados quatro cânticos: 42.1-4; 49.1-6; 50.4-9; 52.13-53.12. Neles podem ser
detectados acréscimos secundários e terciários. Embora na sua origem estes conjuntos de textos
tenham sido independentes, a redação final os apresenta inter-relacionados pelo tema do Servo de
Javé, colocando-os sob o mesmo pano de fundo histórico: o retorno do exílio no séc. 6.
Os cânticos do Segundo Isaías expressam esperança em meio ao sofrimento e desafiam as pessoas
conformadas com o trabalho forçado no exílio. Pela sua maneira poética de lamentar e anunciar
esperança, o nosso profeta foi chamado de evangelista do Antigo Testamento. Ele sabe como
redirecionar o olhar cabisbaixo de um povo sofrido à Terra Santa, fazendo ecoar o grito de retorno:
Sai de lá'' (Is 52.11). É um olodum'' mais antigo:' 'Avisa lá que eu vou.
1.2. O Nosso Texto
O nosso texto é o primeiro dos quatro cânticos conforme a classificação de Duhm. Os vv. 1-7 falam
do oráculo de Javé sobre o seu Servo, podendo ser divididos em duas partes: nos vv. 1-4 Javé
apresenta o seu Servo, o eleito. O seu nome não aparece no texto. O profeta é o intermediador do
dito. Nos vv. 5-7 o Servo é confirmado para sua vocação. Estes versículos e os dois seguintes (8-9)
possivelmente são posteriores. Na sequência do texto, têm a l unção de explicar e reforçar o cerne
(1-4). A fórmula de anúncio do dito no início do v. 5 evidencia a separação entre estas duas partes.
A revelação do Servo de Javé (1-4) é inter-relacionada com o passado histórico de Israel:
1) A escolha do servo é semelhante à escolha do rei Davi. Javé põe sobre ele o seu Espírito (l Sm
16.13).
2) Sua estratégia se diferencia da violência de seus antepassados como em Gideom (sem barulho,
sem violência).
3) Sua vitória é equiparável à de Josué (colocará o direito sobre a terra).
A sua atividade está voltada para as nações. O seu direito (que no Segundo Isaías tem sentido
judicial: cf. 41.1; 50.8 e 54.17) revela o domínio de Javé sobre o mundo e a sua intervenção na
história (51.4). Javé, que é o criador e o mantenedor da vida (v. 5), confirma a vocação de seu Servo,
a qual é universal (v. 6) e voltada para a libertação de todos os povos (v. 7).
Essa libertação não acontece nos moldes da brutalidade dos assírios e dos babilônios, mas no
respeito aos povos e na busca da vida que Javé criou para todos (' 'não esmagará a cana quebrada,
nem apagará a torcida que fumega'' — v. 3)i
2. O Servo de Javé
O cântico em questão tem como tema a revelação e a vocação do Servo de Javé. Quem é este Servo?
Inúmeras interpretações foram dadas: ora em sentido individual, ora coletivo, ora histórico, ora
escatológico.
O sentido coletivo atribui ao Servo de Javé o povo de Israel histórico (41.8). O Servo de Javé seria o
povo do cativeiro. A esse povo sofrido, oprimido, desanimado e sem esperança é dada a missão de
realizar a justiça de Javé diante da opressão e da escravidão do opressor. Uma variante desta
interpretação propõe que não se trata de um Israel histórico, mas de um Israel idealizado ou de uma
personificação da comunidade pós-exílica na dispersão.
O sentido individual é mais polémico do que o coletivo. Do ponto de vista histórico, somente uma
vez é possível aplicá-lo a Ciro, rei persa, do período pós-exílico (45.1ss.). Em Ciro se concretizaria a
expectativa de um Rei Messias. A ideia de tal rei remonta aos tempos de Moisés, passando pelos reis
e profetas até os tempos de Jeremias e Isaías. Neste sentido, o próprio Segundo Isaías poderia ser o
Servo.
Os textos não dão condições para sustentar um personagem histórico determinado. Não seria o
aspecto histórico transcendido por um discurso profético escatológico? Foi levantada a hipótese de
que o Servo de Javé no Segundo Isaías seria um Moisés escatológico. O retorno do exílio seria o
êxodo da opressão babilônica para a terra que outrora havia sido prometida, e depois possuída, mas
fora perdida, l lá de se considerar na leitura dos cânticos que o Servo de Javé pode ter um sentido
histórico e escatológico. E ainda, conforme M. Buber, um sentido coletivo e individual, onde um
revela o outro.
3. Pistas para a Prédica
1) Sugerimos para o início da prédica uma reflexão sobre o Servo de Javé. Quem é este servo sofrido
para nós hoje? A visão que a tradição cristã nos legou foi a de um servo que sofre calado, passivo
diante da sua própria morte. O Novo Testamento se refere cerca de 170 vezes direta e indiretamente
à figura do Servo, relacionando-o com Jesus Cristo. Essa visão passiva da vida e morte de Jesus
interessa muito aos cristãos cautelosos que reagem com repúdio a qualquer atitude que exija um
enfrentamento com o poder constituído. A busca de uma identidade do Servo deve levar em
consideração a situação histórica do séc. 6 no pós-exílio. O Servo na verdade é fraco, sofrido,
esmagado pela opressão e pelo trabalho forçado em terra estrangeira. Ele também tem saudade de
casa, de sua terra santa, da casa de oração. Mas Javé é quem o apresenta. Ele faz do mais fraco o
forte, sustenta-o e lhe dá uma missão: promulgará o direito (vv. l, 3 e 4).
2) A postura do Servo é de humildade, de derrotado (v. 2). Mas sua ação é a ação de Deus no
mundo. A sua força vem de Deus, que criou e mantém o mundo. O momento histórico do período
pós-exílico é de certa trégua. Mesmo assim, existe muito desânimo. O povo se sente como cana
quebrada (v. 3). A missão do Servo nessa situação é a de animar e organizar o retorno à terra. Fazer
isso é cumprir o direito de Deus no mundo.
Momentos históricos diferentes exigem ações diferentes. Numa dominação violenta como a dos
babilônios e assírios, ou numa ditadura militar, ou numa segregação racista (apartheid), o
enfrentamento direto com o opressor é muitas vezes inevitável. Numa dominação mais aberta como
a do período persa, ou numa democracia neoliberal, há possibilidade de negociações, diálogo e até
mesmo de se fazer alianças. Uma postura mais ponderada não deve significar e nem levar ao
comodismo ou à passividade diante das situações de pobreza e miséria que o sistema social e político
impõe. A postura do Segundo Isaías diante do seu momento histórico tem um colorido diferente da
cor do sangue.
3) Deus é o Senhor da história que criou este mundo e o mantém. Ele é quem sustenta os fracos e
defende os oprimidos. Faz enxergar os que estão cegos e liberta os encarcerados (v. 7). Tem o
mundo sob o seu domínio. Em Jesus Cristo Deus se tornou fraco para que o seu direito fosse
proclamado sobre as nações. Jesus Cristo entendeu o seu sofrimento e a sua morte como entendeu a
sua vida: não para ser vivida para si mesmo, e, sim, em favor de muitos. Ninguém me tira a vida: eu
a dou por mim mesmo. (Jo 10.18.) Como a missão do Servo nos move hoje em dia em nossa
realidade específica?
4. Bibliografia
GRIMM, Werner & DITTERT, Kurt. Deuterojesaja; Deutung — Wirkung — Gegenwart. Stuttgart,
Calwer, 1990.
KRAUS, Hans-Joachim. Das Evangelium der unbekannten Propheten; Jesaja 40-66. Neukirchen-
Vluyn, Neukirchener, 1990.
MESTERS, Carlos. A Missão do Povo que Sofre; Tu És Meu Servo. Petrópolis, Vozes, 1985.
WIENER, Claude. O Dêutero-Isaías; o Profeta do Novo Êxodo. 2. ed. São Paulo, Paulinas, 1984.
Prédica: Isaías 42.1-7
Leituras: Atos 10.34-38 e marcos 1-4-11
Autor: Wanda Deifelt
Data Litúrgica: 1° Domingo após Epifania
Data da Pregação: 09/01/2000
Proclamar Libertação - Volume: XXV
Tema: Epifania
Exegetas e comentaristas tendem a identificar três grandes blocos no livro de Isaías. Os caps. 40-55
formam a segunda parte, também conhecida como Dêutero-Isaías. O texto de Is 42 está dentro de um
conjunto literário maior, escrito provavelmente na época do exílio babilônico, no séc. VI a.C..
Retomando a história
O exílio representa, na vivência do povo de Israel, uma grande ruptura. Primeiro porque as pessoas
que foram para o exílio não eram as pessoas comuns, mas a liderança: elite governante, sacerdotes,
funcionários reais, chefes militares. Os babilônios tinham uma ideia fixa com relação ao modo de
estender o seu domínio: removiam a liderança local e deixavam seus próprios funcionários como
administradores. A ideia é que o povo seguiria uma nova liderança como um corpo segue o que lhe
diz a cabeça.
Isso funcionava com a maioria dos povos, mas de modo especial entre aqueles que entendiam que
sua liderança era imposta divinamente, ou seja, que o rei era como um representante dos deuses na
terra. Por isso, suas ordens deveriam ser seguidas sem discussão. Mas com o povo de Israel isso não
funcionava, pois o rei não era visto como divindade. Antes, era alguém que deveria ser o mais
exemplar em termos de justiça, humildade, coragem e testemunho de fé. Como se sabe, no entanto,
os próprios reis em Israel nem sempre seguiam esse princípio, mas frequentemente abusavam de seu
poder.
Por isso surgiram os profetas, pessoas de profunda convicção de fé, dispostas a denunciar as
injustiças e anunciar o novo dia de Javé. O seu clamor era que o caminho da justiça fosse
restabelecido e todas as relações de exploração eliminadas. A grande crítica dos profetas era contra a
idolatria — não meramente o culto a outras divindades, mas a própria fabricação de imagens e ídolos
pelo povo de Javé. Essa realidade é relembrada em Is 41.7,29. Os profetas usavam todo tipo de
recursos, desde a persuasão até a ameaça, para que seus voltassem ao caminho correio. Nem sempre
tinham sucesso e às vezes acabavam sendo perseguidos e aprisionados.
Dentre as ameaças anunciadas pelos profetas, uma freqüentemente empregada era a de que um rei
estrangeiro viria para livrar o povo das mãos dos seus malfeitores e despojaria os reis de Israel,
aniquilando-os em sua soberba e arrogância. Assim também foi entendido o exílio babilónico para as
elites deportadas: um castigo pelo seu mau desempenho como líderes, por terem sido pessoas que se
preocupavam em assegurar seus próprios interesses e não o bem-estar do povo. Os ensinamentos de
Deus eram distorcidos e deturpados em benefício próprio.
Em 605 a.C. a Babilônia havia se estabelecido como nova potência na região, exigindo o pagamento
de tributos. Pagando os tributos, Jeoaquim permaneceu rei em Judá. Quando reteve os tributos,
Nabucodonosor enviou uma expedição a Jerusalém, em 597, como represália. Joaquim (ocupando o
trono três meses, após a morte de seu pai Jeoaquim) foi levado à Babilônia, juntamente com outras
pessoas da corte, ferreiros, serralheiros, sacerdotes, etc. O número de deportados chegou a 3.023 (de
acordo com Jr 52.28). No lugar de Joaquim foi designado Zedequias, tio do rei, que tinha uma
pretensão de independência, conclamando o povo para tal. Mas o resultado foi desastroso. Em 586
Jerusalém foi sitiada, os muros e o templo destruídos e a cidade incendiada.
O exílio foi entendido como castigo para essa liderança deportada para a Babilônia. Depois de algum
tempo, e após se darem conta de que seu retorno não seria imediato, as próprias lideranças
deportadas se deram conta de que sua realidade era outra. Experimentaram uma profunda mudança.
Trata-se, agora, de um povo que precisa de consolo, que não tem mais o poder de que usufruía
anteriormente: Já é findo o tempo de sua milícia, que a sua iniquidade está perdoada e que já recebeu
em dobro da mão do Senhor, por todos os seus pecados. (Is 40.2.)
Para o povo que ficou em Israel, o exílio naturalmente significou outra coisa. Muitas pessoas, apesar
de insatisfeitas com a instauração de mudanças no sistema de tributos, com a destruição do templo
(em 586) ou com a subjugação estrangeira, perceberam elementos positivos, como a remoção de
uma liderança que se fazia de surda aos apelos de justiça. O profeta Jeremias mostra esta tendência,
apoiando o projeto de Gedalias (um funcionário sem parentesco com a família real). Para Jeremias,
Nabucodonosor era um enviado de Javé para punir Judá e Jerusalém por não terem escutado o
chamado de seus profetas (Jr 25. l -12).
Os exilados, no entanto, experimentavam uma conversão. De gente da corte, passaram a ser
trabalhadores braçais. De autoridade, passaram a ser subjugados. De perseguidores de profetas,
passaram eles mesmos a ser profetas. IV senhores, passaram a ser servos. Essa inversão na relação
de poder lhes ofereceu um outro ponto de vista. Os ricos e arrogantes se chamam agora de
vermezinho de Jacó, povozinho de Israel (Is 41.14).
Nessa nova relação existe também uma redefinição da relação com Deus. O Deus que castiga e pune
dá lugar a outro, um Deus que ampara, consola e protege quem sofre. É um Deus que encoraja seu
povo: Tu és o meu servo, eu te escolhi e não te rejeitei, não temas, porque eu sou contigo; não te
assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a minha destra
fiel. (Is 41.9-10.)
O texto
O texto que estamos analisando é descrito como um dos quatro cânticos do servo sofredor. A
exegese os delimita assim: 42.1-4; 49.1-6; 50.4-9; 52.13-53.12. Estamos tratando, portanto, do
primeiro cântico. E bem provável que originalmente estes textos tenham sido independentes, mas na
redação do Dêutero-Isaías os cânticos estão inter-relacionados. Também é quase certo que esses
cânticos tenham surgido como uma forma de lamento e anúncio de esperança, como canções
conhecidas pelo povo antes de serem registradas pelo autor (ou autores) do texto.
Quem é o servo a que o texto se refere'.'' Ele existe mesmo ou é uma idealização? É um indivíduo ou
é toda uma comunidade? Na tradição cristã temos associado este e os demais cânticos a Jesus,
fazendo comparações entre o sofrimento de um e do outro. Mas o texto não trata de Jesus. A beleza
do texto é que ele justamente não identifica quem esse servo sofredor de fato é. O servo pode ser um
indivíduo, mas pode ser uma comunidade. Ele já está no meio de nós, mas ainda não pode ser
identificado plenamente.
A primeira parte do texto (v. 1) identifica o servo, mostrando que ele é escolhido: meu servo, a quem
sustenho, cm quem minha alma se compraz. Sua natureza especial é destacada através da expressão
pus sobre ele o meu Espírito, o que demonstra a vocação distinta do servo, a sua identificação com
um plano divino, uma sintonia com a vontade de Deus. A variação na terminologia do eleito, do
ungido quer dar um caráter enfático ao seu ministério, que é descrito nos versículos que seguem.
A descrição do ministério inicia com a observação ele promulgará o direito para os gentios (v. 1),
reafirma este compromisso no v. 3 (em verdade promulgará o direito) e culmina com outra expressão
que enfatiza a sua conexão com a justiça, até que ponha na terra o direito (v. 4). O direito será
promulgado e seus ensinamentos serão aguardados (e as terras do mar aguardarão a sua doutrina).
Numa compreensão nova para dentro do contexto do povo escolhido, a justiça se estende além dos
que estão no exílio, ou do próprio povo de Israel: ela vale também para os gentios.
Os vv. 2-4a dão indicações sobre a qualidade desse ministério e a maneira como esse servo
procederá. A descrição se dá pela negação, ou seja, descrevendo o que o servo não fará: não clamará
nem gritará, nem fará ouvir sua voz na praça (v. 2); não esmagará a cana quebrada nem apagará a
torcida que fumega (v. 3); não desanimará nem se quebrará (v. 4). Que características poderíamos
usar se quiséssemos colocar esse ministério em termos afirmativos? Como é esse servo'.' Em
primeiro lugar, humilde, alguém que não chama a atenção sobre si. Depois, alguém que pratica a
solidariedade: não oprime quem já é oprimido. Por fim, alguém que é persistente e consegue resistir.
O cântico do servo é formado pelos vv. 1-4. O v. 5 já não fala mais do servo, mas introduz a
dimensão do Deus criador. Em um único versículo, o texto resume a teologia da criação (a mesma
desenvolvida em Gn 1.1-2.4a, que surgiu no mesmo período). Deus criou o céu e o estendeu.
Formou a terra e tudo que ela produz. Dá fôlego de vida a seu povo e o espírito a quem anda nesta
terra. De maneira poética, a descrição retoma os conceitos principais da teologia da criação.
O v. 6 dá continuidade ao tema do caráter especial dado por Deus ao servo. Trata-se de um ser
ungido que tem uma tarefa a cumprir. Os vv. 6 e 7 não fazem referência ao servo, especificamente,
mas descrevem no que esse chamado de Deus consiste. Trata-se de um ser (ou uma comunidade)
chamado em justiça, a quem Deus toma pela mão e guarda, mediador da aliança com o povo e luz
para os gentios. A tarefa colocada à sua frente é grandiosa: ' 'para abrires os olhos aos cegos, para
tirares da prisão o cativo e do cárcere os que estão em trevas (v. 7).
Pensando na prédica
É difícil imaginar que, na concepção veterotestamentária, uma única pessoa pudesse encarnar todas
as qualidades e expectativas que este cântico arrola. Talvez, ao invés de um indivíduo, o cântico
esteja se referindo à coletividade, ou seja, que o servo represente a comunidade em exílio. Para ela se
colocam novas possibilidades, criadas por uma realidade diferente daquela que haviam
experimentado (ou que seus pais e mães, avós e avôs haviam experimentado) enquanto elite
pensante e atuante em Israel.
Uma solução demasiadamente fácil é a de transferir essas expectativas para a figura de Jesus Cristo,
afirmando nele o ser ungido. De fato, Jesus se destaca em seu ministério justamente pelas
características da humildade, solidariedade c resistência que o cântico enaltece. As leituras
adicionais, sugeridas para este domingo, apontam para esse papel de Jesus. A passagem de Mc 1.4 II
pode contribuir para essa associação entre o servo e Jesus, especialmente nos vv. 7 e 11. João Batista
é aquele que aparece no deserto, pregando batismo de arrependimento. Pela sua simplicidade (as
vestes de João eram feitas de pelos de camelo; dr trazia um cinto de couro e se alimentava de
gafanhotos v. 6) se estabelece uma certa semelhança com o servo. Mesmo tendo seus próprios
seguidores, de não aponta para si como o escolhido, mas para um outro: Após mim vem aquele que é
mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de, curvando-me, desatar-lhe as correias das
sandálias. (V. 7.) Jesus mesmo, vindo da (Galiléia, é batizado por João e, ao sair da água, o Espírito
desce como pomba sobre ele, ao que se ouve uma voz dos céus dizendo: Tu és o meu filho amado,
em ti me comprazo (v. 11). Confirma-se, então, a eleição de Jesus da mesma maneira como a do
servo em Isaías.
Essa conexão entre um texto e o outro é feita com muita facilidade, e quase automaticamente. Mas
se nós, hoje, apontamos somente para essa leitura estaría¬mos destituindo o texto de seu valor
intrínseco, um texto que surgiu como palavra de Deus em um outro momento da história de seu
povo. A leitura cristocêntrica pode diminuir o impacto do cântico de Is 42. Tem-se a impressão de
que o evento de Jesus representa uma experiência única e absoluta de ministério, onde a comunidade
(e as pessoas que confessam Cristo como seu salvador) não teria também a mesma função: de
assumir o chamado do servo como um chamado para seu próprio ministério, enquanto comunidade
confessante e atuante.
Neste sentido, o texto de At 10.34-38 oferece subsídios adicionais para a reflexão. É um texto que
remete tanto para a comunidade quanto para Jesus Cristo. A ênfase em Jesus se dá mais
especificamente no v. 38, na formulação Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com
poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque
Deus era com ele. Juntamente com Isaías e Marcos, a unção é destacada, estabelecendo uma ponte
entre os três textos. Mas os versículos iniciais também nos dão uma boa ideia do que esse ministério
representa para a comunidade, no seguimento de Jesus Cristo e no sacerdócio de todas as pessoas
que crêem.
A primeira indicação está na declaração de que Deus não faz acepção de pessoas (At 10.34). Se a
sociedade e a cultura fazem tal acepção, discriminando pessoas por causa de cor, raça ou etnia, sexo
ou preferência sexual, o mesmo não acontece por parte de Deus. Na mesma linha, o credo batismal
em Gl 3.27-28 nos relembra que já não há mais judeu nem grego, nem escravo nem liberto, nem
homem nem mulher, porque somos um em Cristo. A acepção de pessoas é descartada também no
cântico, em Is 42, quando apresenta sua preocupação com os gentios. A justiça e o amor de Deus se
estendem sobre outros povos e nações, como um grande manto que cobre toda a terra. Consegue-se
entender, assim, a ênfase do cântico na teologia da criação, pois todos os seres foram criados pelo
mesmo, único Deus. Como filhas e filhos de Deus, também recebemos o convite de sermos como o
servo, alguém que promulga a justiça sem fazer distinção entre as criaturas de Deus.
Uma segunda pista de como o ministério do servo de Deus foi entendido pela comunidade cristã está
em At 10.35: Em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável. O tema da
justiça aparece mais uma vez como ingrediente necessário para o seguimento de Deus, exatamente
como havia sido proclamado no cântico de Isaías. Não se trata mais de um indivíduo histórico
isolado (alguém que viveu no exílio babilônico), mas de alguém que serviu como um modelo de
liderança e ministério para as gerações futuras. Por suas qualidades, Jesus foi muitas vezes
identificado com esse servo, mas os seus atributos valem também para toda comunidade que pratica
e vive em justiça. A prática da justiça introduz a dimensão ética. A justiça deve ser praticada em
todos os níveis: desde a pessoa mais simples até a mais alta autoridade. Todos se colocam sob a
mesma lei.
Uma palavra final quanto ao texto de Is 42.1-7 deve ser dita. Trata-se de uma palavra de cautela.
Este texto já foi muito usado para ensinar humildade, paciência e mansidão, enaltecendo estes
valores justamente entre aquelas pessoas que mais sofrem. A idealização desses valores sem o
ingrediente da justiça poderá facilmente desvirtuar o texto, estimulando a passividade ao invés do
anúncio da esperança. Por isto, a dimensão ética e comunitária deve estar presente na reflexão. O
texto de Is 42.1-7 traz uma nova proposta de liderança, de exercer o ministério: não machucar nem
ofender os mais fracos, não usar propaganda nem demagogia, não desanimar nem desfalecer, até
estabelecer o direito sobre a terra. Por ser tão radical, esta proposta pode levar ao martírio e ao
sofrimento, assim como levou Jesus à cruz.]
Bibliografia
MESTERS, Carlos. A missão do povo que sofre. Petrópolis : Vozes, 1981.
PIXLEY, Jorge. A história de Israel a partir dos pobres. 3. ed. Trad. Ramiro Mincato. Petrópolis :
Vozes, 1991.
SCHULZ, Valdemar. Isaías 42.1-7. In: SCHNEIDER, Nélio, DEIFELT, Wanda (Orgs.). Proclamar
Libertação. São Leopoldo : Sinodal, 1995. vol. 21, p. 51-54.
SCHWANTES, Milton. Sofrimento e esperança no exílio : história e teologia do povo de Deus no
século VI a.C. São Paulo/São Leopoldo : Paulinas/Sinodal, 1987.

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