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SE É POSSÍVEL UM DEUS PRESCIENTE E O HOMEM LIVRE

Se a presciência atribui alguma realidade ao sabido

 Não é porque Deus sabe, que alguma coisa será, que ela há-de ser; mas, porque
há-de ser, é que é conhecida por Deus antes que seja”. (AQUINO, Tomás de.
Summa Theologiae, I, q.14, a.8, arg. 1.)

 parece que a ciência de Deus não é causa das coisas.


o relatividade temporal: algo que será temporalmente, ou seja, ainda não é,
é conhecido por Deus como presente atual na eternidade e, por isso, Ele
sabe.

 “Ora, é manifesto que Deus, pela sua inteligência, causa as coisas, pois, o
seu ser é a sua ciência; donde, é necessário seja esta a causa das coisas,
enquanto junta com a vontade. Por isso, a ciência de Deus, enquanto causa
das coisas, costuma chamar-se ciência de aprovação”. (AQUINO, Tomás de.
Summa Theologiae, I, q.14, a.8, co.)
o “Orígenes exprimiu-se atendendo à noção da ciência, com a qual não
convém a noção da causalidade, senão com a vontade adjunta, como
se disse. Mas, quando diz que Deus tem presciência de alguns seres,
porque hão-de existir, isso se deve entender relativamente à causa de
conseqüência e não, de ser. Donde se segue, que se alguns seres hão-
de existir, Deus tem deles presciência; contudo, não são os seres
futuros a causa de Deus conhecê-los”. (AQUINO, Tomás de. Summa
Theologiae, I, q.14, a.8, ad. 1.)

 Santo Tomás define a ação de Deus como causa total das coisas existentes.
o diferença das causas adjuntas à vontade divina.
o Doutor Universal não nega o argumento temporal de Orígenes, mas
somente quanto à causalidade. Sua argumentação se divide em dois
momentos que delimitam os conceitos e conduzem à solução.

 noção de ciência não convir com a de causalidade.


o alguém saber alguma coisa não implica no ser desta.

Leandro Henrique Rego Fernandez Curso de férias 20-24/07/2020


 há uma correlação de consequência, contudo, não há implicação como causa do
ser.
o Ou seja, se um sujeito sabe algo, não significa que por esse saber este
algo deve ser, mas somente, que a ciência sobre o fato está em posse do
sujeito em questão. São duas realidades que se tocam, mas são
independentes entre si.

 A verdade é a adequação do intelecto à coisa”. (AQUINO, Tomás de. De


Veritate, q.1, a.1, co., Tradução nossa.)
o Ora, compreende-se que a verdade é composta por fatos conhecíveis, e
que o ato de ser da coisa, não depende do conhecimento dela. Afinal, a
coisa antecede o conhecimento enquanto ser, uma vez que a ciência se
adequa a ela e não parece ser possível adequar a mente ao não ser.
o Por conseguinte, a ciência se dá de forma cronológica. O cognoscente
sabe de algo que é, e não algo é porque o cognoscente o sabe.

 causa de consequência em contraste com a causa de ser.


o Deus sabe do que ainda não é, remetendo-se à diferença entre o tempo
material e a eternidade; e dos futuros contingentes, coisas que têm
possibilidade de ser, esteja esta na criatura ou no criador.
o este saber não implica ser, mas o ser da coisa sabida implica a
consequência do saber antecipado de Deus, que é fora do tempo.

 Um paradoxo que só tem sentido diante da relatividade do tempo material e


da eternidade.

 dado que Deus tem a presciência, um fato que acontecerá implica Nele o
saber (como obrigação de consequência, não no sentido de mudar Deus, que é
imutável). Todavia, o saber deste fato não o atribui ser, mas é somente
consequência deste, uma vez dada as duas realidades, a coisa e a presciência.

Se a presciência exclui a contingência

 sabendo Deus de todas as coisas e estando fora das limitações temporais,


profetizar nada mais é do que falar de um conhecimento atual, não se
assimila com adivinhações, mas ao contrário, com a constatação de um fato.
o Nesta ótica, ou a profecia é verdadeira e o futuro é necessário e não
contingente, ou a profecia é susceptível de falsidade e há, portanto,
futuros contingentes.

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 duas hipóteses.
o Se Deus sabe perfeitamente os futuríveis, então profetizar o futuro só
pode ser feito na ocasião dele acontecer, o que torna este futuro não
contingente, mas necessário; ou dele não acontecer, o que remete a
uma imperfeição na ciência divina.
o “Certeza da presciência divina não exclui a contingência dos futuros
contingentes particulares”. (AQUINO, Tomás de. Summa Theologiae,
IIa-IIae., q.171, a.6, ad. 1.)

 Isso porque a presciência recai sobre os futuros contingentes, que se dão de


forma cronológica, relativamente, ou seja, quando eles são em ato e não
somente enquanto possibilidade. Ora, sendo em ato, os contingentes já são
necessariamente e, portanto, presos a uma determinação atual.

 presciência divina respeita os eventos futuros em duplo modo,


o “A presciência divina respeita os eventos futuros, de dois modos.
Primeiro, em si mesmos, isto é, enquanto os conhece como se foram
Presentes. Segundo, nas suas causas, isto é, enquanto os vê como uns
efeitos dependentes das suas causas”. (AQUINO, Tomás de. Summa
Theologiae, IIa-IIae., q.171, a.6, ad. 2.)

 Estes dois modos se referem, portanto, ao tempo e a causalidade.

Da relação do dilema com a causalidade

 O primeiro modo se refere à relatividade do tempo.


o a presciência não fere a contingência enquanto conhece os futuros no seu
tempo relativo, enquanto são presentes e determinados.

 compreende-se que a ação da presciência no tempo material não está


fundada em uma verdade teológica, revelada, ou em uma justificativa
religiosa de que Deus sabe tudo por Ele ser o próprio Deus. Na verdade, é
uma conclusão lógica alcançada pela razão, que muito se relaciona com os
conhecimentos físicos de tempo e relatividade apresentados por Albert
Einstein, salvo as devidas proporções.

 E embora os futuros contingentes sejam em si mesmos, sujeitos a uma


determinação, contudo, considerados nas suas causas, não são determinados de
modo tal, que não se possam realizar de outra maneira”. (AQUINO, Tomás de.
Summa Theologiae, IIa-IIae., q.171, a.6, ad. 2.)

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 conserva-se a causalidade, afinal, se um posterior é causado por um anterior e,
este é necessário, pois sabido, o posterior seria também necessário.
o as causas dos futuros contingentes não são necessárias, logo, as
consequências também não são.
o O ponto chave deste entendimento é que a causa é sabida pela
presciência na sua condição de presente. Logo, sua consequência
também é compreendida nesta mesma condição.

 profecia de Jonas,
o a subversão de Nínive era um futuro contingente, afinal, não aconteceu.
o Como se funda então esta revelação da presciência?
o para os fatos do atual presente durante o momento deste determinado
saber, que seriam as causas, Nínive seria subvertida, o que seria o efeito.
Nestas condições, a causalidade conferiria a Nínive o fim sabido pela
presciência e afirmado pela profecia.
o Todavia, diante do fato de que os anteriores mudaram, mudou-se
também o posterior e não houve, portanto, a subversão.
o quando há mudança da causa, também há mudança do efeito.

Da relação da presciência com a vontade

 Santo Agostinho pensa que o objeto da presciência divina é a vontade livre do


homem.
o Uma vez que esta é uma potência causante dos atos humanos, Deus, que
é presciente, sabe da existência deste poder, visto que foi Ele quem o
concedeu.
o Ora, ao conceder a vontade ao homem, o Criador sabia da sua capacidade
livre antes mesmo que ela fosse concedida.

 “Assim sendo, sinto-me sumamente preocupado com uma questão: como


pode ser que, pelo fato de Deus conhecer antecipadamente todas as coisas
futuras, não venhamos nós a pecar, sem que isso seja necessariamente? [...]
Desse modo, não digo que ele não devia ter criado o homem, mas, já previra
seu pecado como futuro, afirmo que isso devia inevitavelmente realizar-se.
Como, pois, pode existir uma vontade livre onde é evidente uma necessidade
tão inevitável”? (AGOSTINHO, De Libero Arbitrio, III, 3,8. 2ª ed. Trad. de Ir.
Nair de Assis Oliveira. São Paulo: Paulus, 1995, p. 152)

 Agostinho insiste na conciliação das duas realidades.


o o criador, dotado de presciência, sabe da potência da vontade e de sua
capacidade de produzir atos livres. Não sendo o ser perfeitíssimo
contraditório em si mesmo, não impedirá a realização da vontade, afinal,
foi Ele mesmo quem a concedeu ao homem.

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 Santo Agostinho: se Ele previu a possibilidade do mal em virtude da liberdade
da vontade, esta ação restringe-se à prever e não implica forçar ou obrigar.

CONCLUSÃO – CONDUÇÃO DO SILOGISMO

 Dessa forma, considera-se que o homem é dotado de livre arbítrio, ou seja, tem a
capacidade de escolher, por si, entre mais de uma possibilidade de atos.
o Este não é um ato do homem, mas uma potência que há em cada um e
permite que estes elejam entre uma coisa e outra.
o o livre arbítrio é uma potência, vontade, própria do ser humano
enquanto ser racional, não ligado à moralidade, mas à capacidade
interna do ser humano de eleger aquilo que deseja em prol de um
fim. Ou, é a potência de assumir ou rechaçar algo segundo sua
própria vontade.

 Entretanto, os atos contraditórios não enfraquecem ou diminuem a


credibilidade da argumentação sobre o homem ter livre arbítrio, ao
contrário, o confirmam, diante da realidade de que foi este mesmo homem
que tomou a referida escolha, e isso é livre arbítrio.

 Deus é a causa primeira motora, tanto das causas naturais como das voluntárias.
Ora, se Deus é a causa motora das causas voluntárias, então o homem não pode
ser livre.
o “Assim como, movendo-as, não faz com que os atos delas deixem de ser
naturais; assim também, movendo as voluntárias, não faz com que os
seus atos deixem de ser voluntários, mas antes, causa-lhes essa
qualidade, porque obra, em cada ser, conforme a propriedade deles”.
(AQUINO, Tomás de. Summa Theologiae, Ia, q.83, a.1, ad. 3.)

 Deus é causa motora primeira, mas é causador na medida dos causados.


o Logo, se uma pessoa é livre por natureza, é causada exatamente nesta
medida de liberdade.

 Deus tem ciência: sendo Deus sumamente imaterial, é consequentemente dotado


da perfeição do conhecimento. Visto que a perfeição engloba perfeitamente toda
sorte de conhecíveis.

 se toda a criação material, que aconteceu simultaneamente com o tempo, vem


Dele, é necessário que Ele mesmo anteceda a realidade espaço-temporal.

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 é, em virtude do tempo, que é possível argumentar sobre a possiblidade de se
conhecer o futuro.
o A primeira percepção é que o tempo nasce e é um acidente do
movimento, ou seja, da passagem de uma potência para um ato.
o se não há mudança, não há antes e depois e, portanto, não há tempo.
o Todavia, se antes da criação não havia nada, e o nada não se move, o
tempo deve surgir, necessariamente, concomitantemente àquilo que tem
potência e, portanto, se atualiza gerando um antes e um depois.
Conclusivamente, o tempo nasce com a matéria, dotada de potência e
que limita o ato.
o Consequentemente, o primeiro movimento foi concomitante à criação da
matéria, pois quando havia somente Deus, que é imutável, não poderia
haver tempo algum.
o De acordo com esta ideia, vê-se que Deus é fora do tempo.
o Não está nele e não se submete a ele.

 A eternidade e o tempo existem simultaneamente e ambos implicam certa


medida de duração
o o Criador é dotado de uma liberdade supratemporal. Esta garante a Deus
o acesso ao tempo de forma relativa, de maneira que o Criador excede o
tempo, e para Ele, que é eterno, o tempo é inteiro instantâneo, ou em
outras palavras, perfeitamente presente.

 Isto é um fator causal da presciência, afinal, se para um ser o tempo é


perfeitamente presente, de maneira que o futuro é como agora, então é possível
para este ser conhecer o futuro como simples presente.
o Dado que o conhecimento acontece ao passo do fato acontecido, para
Deus, conhecer o que no tempo material é considerado futuro, não seria
para Ele uma previsão do que acontecerá, mas um fato presente que
acontece em Seu agora.
o nem mesmo o passado é visto como algo que já não é, mas enquanto
presente, relativamente.

 ainda pode parecer que se o Criador conhece o que se sucederá então tudo é
necessário e, portanto, o homem não tem livre arbítrio.

 Santo Tomás afirma que a presciência não implica uma realidade no sabido, mas
naquele que sabe, uma vez que está ativamente no cognoscente e passivamente
no sabido.
o Isto porque a presciência não está nas coisas que constituem seu objeto,
mas é uma razão existente no intelecto do provisor.

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 Em síntese, a presciência ultrapassa o conceito de relatividade temporal.
o Engloba-se nos futuros contingentes, portanto, em tudo aquilo que faz
parte do poder de Deus executar, ou mesmo das criaturas.
o Ou seja, é sabido pelo Criador tudo o que é contingente em sua causa e,
portanto, é tido como futuro e como contingente ainda não determinado
por uma atualização; porque, a causa contingente, pode tender para
termos opostos.

 Finalmente, conclui-se que Deus é dotado de presciência, o homem de livre


arbítrio, e estas duas realidades não são opostas em si mesmas. É, portanto,
possível um Deus presciente e o homem livre.

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