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PARO, Vitor. Gestão democrática da escola pública, 3. ed.

São Paulo: Ática,


1997

“Na medida em que não existe, mas ao mesmo tempo se coloca como algo de
valor, algo desejável do ponto de vista da solução dos problemas da escola, a
tarefa deve consistir, inicialmente, em tomar consciência das condições
concretas, ou das contradições concretas, que apontam para a viabilidade de
um projeto de democratização das relações no interior da escola.” (p.9)

É importante pensar na escola como um lugar que, por possuir gestão,


sinal que tem problemas a resolver. A gestão democrática só vai se
construir na escola através das relações no interior e exterior da escola.

“A segunda advém do fato de que, por um lado, ele deve deter uma
competência técnica e um conhecimento dos princípios e métodos necessários
a uma moderna e adequada administração dos recursos da escola, mas, por
outro lado, sua falta de autonomia em relação aos escalões superiores e a
precariedade das condições concretas em que se desenvolvem as atividades
no interior da escola tornam uma quimera a utilização dos belos métodos e
técnicas adquiridos (pelo menos supostamente) em sua formação de
administrador escolar, já que o problema da escola pública no país não é,
na verdade, o da administrações de recursos, mas o da falta de recursos”
(grifo nosso, p.11)

Atualmente, e isso não é uma coisa que não se saiba, não existe uma
formação para administrador escolar, senão a nível de especialização,
que muitos diretores atuais não possuem. Também dentro deste trecho
de PARO, vale ressaltar que conforme grifado, o problema é a falta de
recursos.

“É nesse sentido, portanto, que vejo a necessidade de a escola organizar-se


democraticamente com vistas a objetivos transformadores (quer dizer: objetivos
articulados aos interesses dos trabalhadores). E aqui subjaz, portanto, o
suposto de que a escola só poderá desempenhar um papel transformador se
estiver junto com os interessados, se se organizar para atender aos interesses
(embora nem sempre conscientes) das camadas às quais essa transformação
favorece, ou seja, das camadas trabalhadoras.”(p.12)

A escola deve organizar-se a fim de atender as necessidades e demanda


do público que está nela, buscando ensinar de acordo com a realidade
atual e potencial dos alunos.

“Portando, uma medida constitucional de caráter geral poderia concorrer para


que a escola, enquanto instituição articulada com os interesses dominados,
tivesse facilitada sua atividade de pressão junto ao Estado, na medida em que
por meio de uma associação de pais ou entidades semelhantes, pudesse
defender mais efetivamente seus direito com relação ao ensino.” (p.13)

Sim, defender o direito de adequação de currículo e também da função da


escola com a educação social que é necessária, pois é na escola a
entrada das pessoas na sociedade, seria de acordo com isto, necessário
a pressão de quem está envolvido nos processos para um maior
comprometimento do Estado na educação.

“Tal dispositivo poderia ser imaginando, a princípio, na forma de liberação do


trabalhador com filho em idade escolar de um determinado número de horas de
trabalho sem prejuízo de seus vencimentos, nos dias em que tivesse que
comparecer à escola para participar de assembleias ou tratar de problemas
relacionados à escolarização do filho. Estabelecido o princípio, a matéria seria
depois regulamentada por meio de lei complementar.” (p.14)

Seria importante sim, na forma de lei, uma liberação para os pais, até
porque se queremos a gestão democrática, e quem formula a LDB
também insiste, deve sim dar provisão aos trabalhadores participarem na
escola.

“Aceitando-se que a gestão democrática deve implicar necessariamente a


participação da comunidade, parece falta ainda uma maior precisão do
conceito de participação. A esse respeito, quando uso esse termo, estou
preocupado, no limite, com a participação nas decisões. Isto não elimina,
obviamente, a participação na execução; mas também não a tem como fim e
sim como meio, quando necessário, para a participação propriamente dita, que
é a partilha do poder, a participação na tomada decisões. É importante ter
sempre presente este aspecto para que não se tome a participação na
execução como fim em sim mesmo, quer como sucedâneo da participação nas
decisões, quer como maneira de escamotear a ausência deste última no
processo.”(p 16)

Pois gestão democrática, de acordo com o texto não se limita a simples


participação, como fim, mas sim como meio, como tomada de decisão e
como deixar a instituição escolar de acordo com a comunidade.

“Na escola pública há que se considerar, também, que sua prática está tão
perpassada pelo autoritarismo, que o discurso liberalizante mal consegue
escamoteá-lo. Há pessoas trabalhando na escola, especialmente em postos de
direção, que se dizem democratas apenas porque são ‘liberais com alunos,
professores, funcionários ou pais, porque lhes ‘dão abertura’ ou ‘permitem’ que
tomem parte desta ou daquela decisão. Mas o que esse discurso parece não
conseguir encobrir totalmente é que, se a participação depende de alguém que
dá abertura ou que permite sua manifestação, então a prática em que tem lugar
essa participação não pode ser considerada democrática, pois democracia não
se concede, se realiza: não pode existe um ‘ditador democrático’. Se a
democratização das relações na escola pública ficar na dependência deste ou
daquele diretor magnânimo, que ‘concede’ democracia, poucas esperanças
podemos ter de contar, um dia, com um sistema de ensino democrático, pois
diretores magnânimos e bem-intencionados – alguns que até se prejudicam por
amor à causa da democracia – sempre tivemos, mas nem por isso vimos
generalizar-se a democracia na rede pública de ensino.” (p.19)

É necessário tomar consciência da democracia e elencá-la como


meta/tarefa. Não é com boa vontade de alguém que vai se dar voz à
comunidade, pois ela tem voz e não precisa de ninguém que a diga
quando falar. Enquanto não ficar clara a importância da comunidade na
tomada de decisões não se realizará gestão democrática, nem com boa
vontade.

“Com relação aos interesses dos grupos há certa concepção ingênua que toma
a escola como uma grande família, onde todos se amam e, bastando um pouco
de boa vontade e sacrifício, conseguem viver harmoniosamente, sem conflitos.
Mas parece que os conflitos não se se superam por fazer-se de conta que eles
não existem, já que eles são reais e precisam ser resolvidos para serem
superados, e para resolvê-los é necessário conhece-los de forma realista”. (p.
20)

Não é mascarando os problemas ou fingindo que eles não existem que se


resolvem. A gestão juntamente com a participação dos pais, devem tomar
nota de todos os conflitos da escola para sim juntos, resolverem.

“Na verdade ter o diretor como responsável último por esse tipo de escola 1 tem
servido ao Estado como um mecanismo perverso que coloca o diretor como
‘culpado primeiro’ pela ineficiência e mau funcionamento da escola, bem
como pela centralização das decisões que aí se dão. Isso leva o diretor de
escola a ser alvo dos ódios e acusações de pais, alunos, professores,
funcionários e da opinião pública em geral, que se voltam contra a pessoa do
diretor e não contra a natureza do seu cargo, que é o que o tem levado a agir
necessariamente contra os interesses da população.”(p.24)

Que é o caso de muitos diretores escolares, devido a política vertical de


mandos, que muitas vezes os diretores têm de adequar a padrões do
Estado, ganhando ódio da comunidade escolar.

“Nas escolas públicas, especialmente nas que atendem os filhos das camadas
mais pobres da população, está muito presente uma postura que toma a
criança, não como sujeito de aprendizagem e como elemento fundamental para
a realização da educação, mas como obstáculo que impede que esta se
1
Escolas com diretores eleitos por concurso público.
realize, lançando sobre os alunos a responsabilidade quase total pelo fracasso
do ensino. Esse comportamento funda-se, em grande parte, nas concepções
que o próprio professor tem das crianças das camadas populares.”(p. 26)

Isso acontece grande parte das vezes, também tornando isso como
desculpa para tornar a criança que tem vulnerabilidade financeira e social
como sujeito que não pode aprender e que possui deficiências e
dificuldades.

“Outra alegação muito comum especialmente entre diretores de escolas e


professores, é que parece revelar uma visão distorcida a respeito da
comunidade, é que esta não participa da escola simplesmente por não ter
interesse em participar.” (p. 26)

De acordo com PARO, e seus estudos, revela que o trabalho e as


condições de vida dos pais é que grande parte das vezes impede.

“Mas há outro tipo de trabalho não-material cuja produção e consumo se dão


simultaneamente. É o caso, por exemplo, do trabalho do ator no teatro, do
palhaço no circo e do professor na sala de aula.”(p. 31)

O trabalho pedagógico possui especificidade porque ao mesmo tem que


“produz” a aula, ela é consumida pelos alunos que além de
consumidores, também são co-produtores.

“De qualquer forma, se o processo de trabalho pedagógico se realizou a


contento, consideramos que o educando que ‘sai’ do processo é diferente
daquele que aí entrou.” (p.33)

Isso porque o trabalho pedagógico não produz “objetos materiais e


concretos”, mas sim subjetivos e de formação.

“No processo pedagógico também há essa espécie de saber enquanto saber


fazer que se incorpora aos métodos e técnicas de ensino.” (p. 34)

Nessa citação o autor critica que o saber pedagógico também usa a


lógica de subordinação formal do capitalismo, e incorpora saberes em
métodos, o que precisa ser revisto e reaprendido.

“Não basta, entretanto, ter presente a necessidade de participação da


população na escola. É preciso verificar em que condições essa participação
pode tornar-se realidade.” (p. 40)

Não importa estar na escola nas reuniões e dizer que participa, mas
acredito que a escola tem que auxiliar a comunidade à participar de fato
da gestão da escola, pois comparecer reuniões é simples.
“O caráter representativo da investigação leva-nos a considerar a questão da
representatividade.”(p.41)

O que é comum a representação de pais em reuniões, na quais ninguém


opina e talvez nem seja ouvido pela gestão da escola.

“Falar das potencialidades e obstáculos da participação da população na


gestão da escola pública implica elucidar os determinantes imediatos de tal
participação que se encontram dentro e fora da escola.” (p. 43)

É importante para gestão descobrir o porquê da não participação.

“É preciso, todavia, tomar cuidado para não se erigirem essas dificuldades


materiais em mera desculpara para nada fazer na escola em prol da
participação.” (p. 44)

Falta de recursos da escola é um motivo importante a ser considerado,


mas não pode se tornar determinante.

“No relacionamento com pais e outros elementos da comunidade, quer em


reuniões, quer em contatos individuais, a postura é de paternalismo ou de
imposição pura e simples, ou ainda a de quem está ‘aturando’ as pessoas, por
condescendência ou por falta de outra opção.” (p.48)

A postura de muitos professores é lamentável no que se diz ao


tratamento com os pais. A tarefa do professor é educar mas para isso não
é necessário humilhação dos familiares.

“Uma segunda importante dimensão dos condicionantes ideológicos da


participação presentes no interior da escola diz respeito à própria concepção
de participação que tem as pessoas que aí trabalham.” (p. 49)

Muitas escolas pedem participação da família, mas a participação envolve


a tomada de decisões também, tomada esta que muitas vezes a gestão
não envolve a comunidade escolar, tornando a participação algo
meramente “usual” da parte da gestão.

“Com relação aos condicionantes imediatos da participação da comunidade


externos à unidade escolar, podemos afirmar que, grosso modo, essa
participação é geralmente determinada pelos seguintes elementos: 1)
condicionantes econômicos-sociais, ou as reais condições de vida da
população e, a medida em que tais condições proporcionam tempo, condições
materiais e a disposição pessoal para participar; 2) condicionantes culturais,
ou a visão das pessoas sobre a viabilidade e a possibilidade da participação,
movidas por uma visão de mundo e de educação escolar que lhes favoreça a
vontade de participar; 3) condicionantes institucionais, ou os mecanismos
coletivos, institucionalizados ou não, presentes em seu ambiente social mais
próximo, dos quais a população pode dispor para encaminhar sua ação
participativa.” (grifo nosso, p. 54)

De acordo com essa citação, é importante ressaltar que existem esses


condicionantes e que através deles é que muitas vezes não é possível a
gestão democrática, não por somente falta da gestão da escola
“conceder” espaço, mas também pela participação da comunidade
realmente.

“Em primeiro lugar, raramente se encontra em pleno funcionamento o conselho


de escola nas unidades da rede estadual paulista. Na Celso Helvens o
conselho não tem praticamente nenhuma atuação significativa na direção da
escola. Seus membros são pouco representativos, já que, no dizer da diretora,
tem de ser ‘laçados’ entre aqueles que se dispõem a participar, especialmente
no que se refere aos pais de alunos.” (p. 73)

È uma queixa que acontece que o conselho não é atuante, mas também
acontece que ele não é chamado para participar, de acordo com
entrevista com diretora de escola municipal do município de Jaguarão-
RS.

“Dessa forma, entra no rol das preocupações da administração, na escola, tudo


o que diz respeito ao processo pelo qual se busca alcançar os fins
educacionais estabelecidos. Por conseguinte, é objeto de estudo da
administração, em igual medida, tanto a coordenação do esforço humano
envolvido quanto a organização e racionalidade do trabalho que se realiza para
atingir os resultados desejados.” (p. 76)

Definição das preocupações da administração escolar segundo Paro.

“[...] a educação, enquanto apropriação do saber, constitui já objeto da pratica


politica na medida em que potencializa os grupos sociais que a ela tem acesso
para se colocarem em posição menos desvantajosa diante dos grupos que lhe
são antagônicos. Dessa forma, o estabelecimento de objetivos (políticos)
antecede, e certamente condicionará, o processo de atingi-los (atividade
administrativa)”(p. 78-79)

A educação como prática de política deve vir antes da administração,


como direito e como primordial, pois depois da atividade administrativa
ela se torna condicionada.

“Com a democratização do acesso à escola pública, esta passa a apresentar


condições cada vez piores de funcionamento, o que leva à transferência para a
rede escolar privada dos filhos dos grupos sociais de melhor situação
econômica e com maior poder de pressão sobre o Estado.” (p. 86)
Essa citação mostra o quão grande é o problema da democratização, pois
agora existe o direito à escolarização, mas com o maior número de alunos
e menor atenção do Estado, a educação pública tem se tornado precária.

“Por isso, o objetivo de preparar para o ingresso na universidade, que foi


adequado aos interesses de determinada classe em certo momento histórico,
pode muito bem não ser prioritário quando se pretende servir aos interesses de
outras classes.” (p. 88)

Têm de ser adequado à todas as classes, devido a democratização do


ensino público.

“A incompetência da escola pública deve-se, em grande parte, ao fato de que,


instado pelas pressões da população a oferecer escola para todos, o Estado
exime-se de se comprometer com qualquer padrão mínimo de qualidade dos
serviços oferecidos.” (p. 90)

Com a democratização, isso é apenas uma consequência visto que


conforme já foi dito, a educação básica tem se tornado precária.

“Mas há ainda um importante elemento a considerar na discussão dos padrões


mínimos de qualidade para a escola pública popular e que diz respeito à
implementação de um efetivo processo de avaliação dessa escola pública.” (p.
93)

Desta forma seria possível recuperar os danos da expansão e melhorar o


sistema de ensino, avaliando regularmente a eficácia das escolas.

“Além disso, com baixos salários e precárias condições de trabalho, o


profissional se sente muito pouco estimulado a atualizar-se e a procurar
aperfeiçoar-se em serviço. No caso do professor, acrescente-se a esse
desestimulo o fato de ter que trabalhar em mais de um emprego para
compensar os baixos salários, restando-lhe pouco tempo para dedicar-se a
uma formação continuada, necessária não apenas para compensar a fraca
formação profissional que recebeu, mas também por tratar-se de um trabalho
intelectual que exige constante atualização.”(p. 96)

É uma realidade da educação brasileira, e esse é um dos motivos da falta


de docentes qualificados na educação básica.

“Como qualquer outro trabalhador, o professor tem o direito de lutar por


salários justos e melhores condições de trabalho, mas, pela natureza das
atividades que desempenha e pelo seu papel político na distribuição do saber,
tem que ter um mínimo de compromisso com um ensino de qualidade.” (p. 99)

Sem dúvida alguma que o professor é uma das peças mais importantes
do país.
“O que temos, em geral, são prédios (a que se convencionou qualificar de
‘escolares’) precariamente equipados e malconservados, onde se amontoam
quantidades enormes de crianças e jovens sem os mais elementares critérios
didático-pedagógicos e sem as mínimas condições sequer de convivência
humana.” (p. 109)

Isso devido a falácia de “escola para todos”, que o autor critica no inicio
do parágrafo.

“Não se trata de advogar uma pureza para a escola que a colocaria fora da
realidade humana, mas de, precisamente por sua característica social,
entende-la como um instrumento de transformação, não renunciando seu papel
histórico de contribuir para a superação da alienação e acriticidade prevalentes
no âmbito das relações dominadoras que se fazem presentes no processo
capitalista de produção.”(p. 111)

Nunca pode-se deixar de ver a escola com seu papel transformador, como
consta na citação, pois é através dela que se “molda” os sujeitos para a
vida em sociedade, tentando superar assim o capitalismo onde minoria
tem condições e as pessoas tem de sujeitar para poder viverem. É
somente através da escola que podemos nos libertar destas concepções.

“Se estamos convencidos da relevância social da escola, é preciso afirmar seu


compromisso com a qualidade dos serviços que presta, ou seja, com a
eficiência com que ela alcança seu fim específico, que consista na apropriação
do saber pelo educando, não na capacidade deste para tirar notas ou
responder a provas e testes; dai a total irracionalidade e falta de sentido das
alternativas de avaliação externa da escola por meio de testes e prvas à
imagem e semelhança dos concursos vestibulares.” (p. 114)

É importante a escola rever seus princípios de ensino e avaliação, onde


se aprenda e não se decore. Até porque notas e resultados não valem
realmente se não houver conhecimento.
FICHAMENTO DO LIVRO

“GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA PÚBLICA”

VITOR PARO

Graduando: Lucas da Silva Martinez

Disciplina: Gestão democrática na escola

Profª: Silvana Gritti

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