Lísias Nogueira.
Social;Umbanda: entre a cruz
Rev. Sociol. USP, e aS.encruzilhada. Tempo113-122,
Paulo, 5(1-2): Social; Rev.
1993Sociol. USP, S. Paulo,
A5(1-2):
R T 113-122,
I G1993
O
(editado em nov. 1994). (editado em nov. 1994).
Umbanda: entre a cruz
e a encruzilhada
LÍSIAS NOGUEIRA NEGRÃO
RESUMO: O artigo considera a umbanda, religião afro-brasileira de constituição UNITERMOS:
recente, como estando dividida entre os apelos de suas raízes negras e os umbanda,
religião,
atrativos legitimadores da adoção dos princípios éticos cristãos. Embora pouco
religiões afro-
racionalizada e postulando uma visão de mundo predominantemente encanta- brasileiras,
da, vem crescentemente moralizando-se a partir, sobretudo, das influências do religiões populares,
ideal kardecista da caridade. Tal incorporação não é, contudo, linear, mas rein- espiritismo.
terpretada a partir da vivência concreta de seus agentes e moderada pela ne-
cessidade da cobrança por serviços religiosos prestados e pela "demanda",
concepção mágica de conflito inter-individual.
R
eligião brasileira (ver Concone, 1987), enquanto sincretismo
nacional a partir de matrizes negras (macumba, candomblé) e oci-
dentais (catolicismo, kardecismo), é a umbanda também recente.
A padronização inicial de seus ritos e seus prenúncios de
institucionalização datam da década de 20, quando kardecistas de classe mé-
dia, atraídos pelos espíritos de caboclos e pretos-velhos que se incorporavam
nos terreiros de macumba do Rio de Janeiro, neles adentraram e assumiram
sua liderança. É possível que o mesmo tenha ocorrido em outros Estados,
sobretudo no Rio Grande do Sul. Em São Paulo houve também movimenta-
ção semelhante, embora a partir de influências cariocas. Imediatamente os
Trabalho apresenta-
adventícios passaram a moldá-la à sua imagem e semelhança: branca, cristã, do no XVIII Encontro
ocidental. Extirpam-se dos cultos os rituais mais primitivos ou capazes de Anual da ANPOCS
GT Religião e Socie-
despertar os pruridos da classe média (matanças de animais, utilização ritual dade, novembro 1994.
da pólvora e de bebidas alcoólicas), moralizam-se os “guias”, educando-os
nos princípios da caridade cristã em sua leitura kardecista, racionalizam-se as
crenças tendo-se por base a teodicéia reencarnacionista e organizam-se as pri- Professor do Departa-
mento de Sociologia
meiras federações que associam terreiros até então totalmente fragmentados. da FFLCH-USP
113
piritismo de Umbanda” Nossas pesquisas4 têm demonstrado a complexidade da umbanda (Bastide. ao tentar dar conta de sua realidade através da noção do “continuum 3 Acreditava existir em mediúnico” (Camargo. Cândido Procópio Ferreira de Camargo. p. no presente trabalho. em sua perspectiva estruturalista. Bastide toma como referência de suas reflexões uma concepção paradigmática de candomblé (ver Monteiro. surgida e consolidada no momento da expansão do sistema urbano industrial do segundo quartel do século. 1994). 5(1-2): 113-122. S. já a umbanda. instâncias criativas do culto. Participam deles umbandistas dos principais estados do sul e sudeste. diagnostica A morte também Brown (1985). relativa às teses publicadas nos anais do Primeiro Congresso de Umbanda de 1941. Rev. São Paulo entre 1944 e 1953. incorrendo na mesma omissão de seu mestre. Radicalizando a interpretação. locus da construção mítica e ritual. espírita. Ver cipais autores umbandistas (seus “intelectuais orgânicos”). XV). em sua análise que privilegia as relações raciais. como não poderia deixar de ser. seria expressão ideológica da integração do mesmo à sociedade de classes nascente. Para uma apreciação da em São Paulo. a umbanda. analisando-a tam- bém na mesma perspectiva integracionista mas tendo o kardecismo como modelo (Camargo. Ferreira de Camargo quem melhor percebeu a complexidade do campo tado. 1961) constituído entre o pólo branco. Apesar de seu instrumental teórico mais ade- tos. Já em 1941 realizou-se no Rio de Janeiro o Primeiro Congresso Nacional de Umbanda. branca do feiticeiro negro. cumba individualizada e nem um centro de Es. P. NEGRÃO. voltado para as necessidades de seu público interno. onde a um- tese da qual extraímos os dados apresentados banda é vivida em seu cotidiano encantado de crenças e práticas mágicas. 1993 (editado em nov. “somente a Ma. ver também Bastide (1973). sua preocupação predominante com o kardecismo. Roger Bastide. a partir de análise dos prin- encontrados em Bastide (1971). ção mágica dos segundos. cretos de terreiros) entre eles. 1961). nome então adotado para se fugir justamente do estigmatizado ter- mo macumba. Paulo. considera a macumba como expressão mágica da marginalidade do negro no período pós Abolição2. para ele paradigma do espiritismo. anos em que rea. quado à realidade estudada. 1978) e uma base empírica res- trita. Sociol. sobretudo de São Paulo e Rio Grande do Sul1. em sua tríplice condição de reli- gião nacional. justamente nos centros urba- nos mais importantes das regiões mais desenvolvidas do país. Renato Ortiz (1991) a per- cebe como uma “exigência” de uma sociedade moderna. USP. Seu discípulo Renato Ortiz. As interpretações sociológicas sobre o nascimento da umbanda as- sentam-se. Constituem as federa- 114 . Tempo Social. 1973. desconhecendo a realidade da religião tal como cotidianamente vivi- da nos terreiros e reproduzindo sobre eles os preconceitos do noticiário 1 Detalhes podem ser jornalístico da época3. C. São os terreiros as 4 Ver Negrão (1973). Umbanda: entre a cruz e a encruzilhada. com inúmeras fórmulas intermediárias (casos con- lizou seus levantamen. ver Negrão (1986). Federações de terreiros e estes próprios constituem um sub- obra do autor. frente à contesta- anterior. e o pólo negro. o kardecismo. além do campo específico dentro do campo religioso global. há que se apontar a insuficiência de suas perspectivas. assumindo as primeiras o trabalho citado na nota caráter de uma ortodoxia exercida por presidentes e líderes. Lísias Nogueira. racionalizada e mo- ralizada. exercida pelos pais-de-santo. Foi 2 Além do trabalho ci. interpreta-a como forma de adaptação do migrante rural ou de pequenas cidades à vida nos grandes centros urbanos. o impediu de melhor compreendê-la. Em que pese as contribuições significativas dos autores para o co- nhecimento da realidade estudada.
Por outro lado. Paulo. a leitu. nos “trabalhos” a eles ofe- recidos. ções as instâncias de racionalização e moralização do culto. Analfabetos ou com baixo grau de instrução. São muito blé do Estado de São poucos os pais-de-santo que têm qualquer interesse secular (político. Os terrei- ros de classe média tendem a ser os mais sensíveis ao discurso racionalizador e moralizador das federações. cuja vivência se dá nas “giras”. Este bosquejo sobre o campo umbandista. dotados de maior 33. na medida em que preten- dem ser mediadoras entre o próprio culto e os agentes significativos da socie- dade global.7%) e de perife- dam obras umbandistas. nas consultas aos guias.000 terreiros existentes só na Capital. 5(1-2): 113-122. . Sobressaem dentre eles duas organizações de caráter confederativo. constituindo-se em Paulo e do SOUCESP fator de atração da clientela. Rev. demonstra sua riqueza. kardecistas e ocultistas. 115 . classe média (29 ou Apenas alguns deles em poucas tendas de classe média. as atitudes dos terreiros frente às federações. moralizados têm um componente lúdico não desprezível. a vivacidade e o caráter jocoso dos guias não banda do Estado de S. A questão da respeitabilidade do culto e de sua legitimidade social somente lhes interessa em escassa medi- da. ébrios como os ma- rinheiros e zés-pilintras ou mesmo sensuais e provocantes como as pomba- 5 giras. Umbanda: entre a cruz e a encruzilhada. tendo como orientação o público externo.Supremo órgão de Umbanda e Candom- A umbanda dos terreiros é ainda um mundo encantado. dos trabalhos. Em geral vivem imersos em ria . contudo. Manipulam magicamente bros (20 ou 23. que vari- am sobretudo em decorrência da condição social de seus membros6. De uma maneira geral. Sua realidade é a dos orixás. seus conselhos e indicação de procedi- mentos mágicos de resolução de problemas. Não pode a umbanda ser reduzida à visão que dela têm as federações e seus intelectuais. Para os terreiros as federações tendem a ser vistas como algo exterior à própria umbanda. ou 43. Não importa que sejam eles sérios como os caboclos. desbocados e folgazões como os baianos. Passados os tempos da repressão policial aos cultos e tornada dispensável a proteção real ou virtual conferida pelas federações.3% do total). não só por não ser esta unívoca. Não obstante suas pretensões de unificação institucional. com os quais convivem no ginalidade de seus mem- cotidiano das giras. Lísias Nogueira. não a qualidade moral do guia ou de seu Trata-se do SOUESP - Superior órgão de Um- aconselhamento. e os de periferia os menos. filiando federações5 e reivindicando o monopólio da representação legítima da umbanda junto ao Estado. embora ainda simpli- ficador. dóceis como os pretos-velhos. 1994). USP. O importante é sua eficácia. também não há homogeneidade de terreiros. lêem e recomen. 1993 (editado em nov. Paulo. oscila entre a hostilidade e a indiferença. NEGRÃO. assustadores como os exus. fiadoras do com- portamento de umbandistas e seus “guias” em consonância com os padrões vigentes. cultu. 6 Dividimos os 87 terrei- ral) além do profissional.0%). S. inocentes e bem humorados como as crianças. mas também por pouco influenciar os terreiros. Tempo Social. Sociol. apenas lhes importam o contato com seus “guias” nas sessões. Por outro lado. nos “passes”. das “demandas”. ros amostrados em de ra de textos teológicos racionalizados e racionalizantes é quase inexistente.eufemismo para a condição de quase mar- seu mundo religioso. mesmo àquelas às quais são filiados. o movi- mento federativo paulista comporta mais de trinta organizações disputando a filiação dos mais de 10. de classes inferiores (38 nível de instrução formal e mais afeitos à reflexão abstrata.
presença de me- nores. Seu imaginário e sua prática liga-se aos orixás e suas relações entre eles e os homens. das federações sobre seus filiados. Limita-se quase sempre aos aspectos institucionais. A racionalização dos terreiros é. tipo e ordem das giras. Constatamos que a grande influência moralizadora sobre a umban- da provém do kardecismo. inclusive as atividades organizativas e institucionalizantes levadas a efeito pelo movimento federativo. contudo. Sendo pais e filhos-de-santo pouco afeitos ao trato com a burocracia. é neste momento que as federações se fa- zem necessárias. respondendo às necessidades imediatas de seus filhos-de-santo e clientes. Ao praticar a caridade não são 7 Em nossa amostra. NEGRÃO. a fundo motivador da caridade umbandista. Certamente uma grande quantidade de pais-de- santo teve sua formação espírita e mediúnica inicial nas “mesas-brancas”. Sua prática é entendida. Há também um número indefinido mas certamente bem elevado de simples médiuns iniciados nos salões kardecistas. portanto. O mesmo não ocorre. no que se refere à moralização: todos os terreiros. a concepção de peca- do. salvo exce- ções. Estes se furtam à orientação daquelas em questões rituais e doutrinárias. Poder-se-ia pensar que tal fato dever-se-ia à atuação pedagógica e. ingerência indevida. à qual os pais-de-santo gostariam de poder fugir. a incorporação de valores e atitudes cristãs. reli- gião de berço de 53 como missão. Tempo Social. A idéia de um Deus transcendente e perfeito. Incorpo- ram-se os guias para que estes solucionem os problemas diversos (principal- mente de saúde. seus guias. lhes desperta pouca ou nenhuma atenção. S. pois são mui- (69. no entanto. 116 . mas também de dinheiro. aos meios mágicos de se protegerem e aos seus clientes. encontram-se neste caso. As questões relativas ao cul- to (abertura e encerramento das sessões. muito embrionária. em razão do distanciamento entre umas e outros. portan- to. 1993 (editado em nov. desajustamentos familia- res e amorosos) que afligem a carente clientela. ascensão no mundo dos espí- do total. 5(1-2): 113-122. A sua prática é ao mesmo tempo a finalidade do culto e sua instância legitimadora. garantindo no primeiro caso uma consultados. 32 apenas os clientes os favorecidos. mas à qual se submetem. formação católica. acatando com reservas apenas certas normas organizacionais (horários de funcionamento. parecem ter sido de alguma forma por ela atingidos. to restritivas da liberdade individual. mas também os médiuns e os próprios gui- dos 76 pais-de-santo as que se elevam na hierarquia espiritual. Paulo. atraindo novos e man- tendo antigos filiados. 1994). A teoria kardecista da reencarnação e da evolução espiritual é o pano de desprezar. repressiva. Lísias Nogueira. aconselhamento aos clientes e trabalhos mágicos realizados) são consideradas de competência exclusiva dos pais-de-santo ou dos próprios guias e as tentativas de padroni- zação por parte das federações. Umbanda: entre a cruz e a encruzilhada. Sociol.7 %) dos mesmos. são amplamente generaliza- das. ou quase todos. trabalho. Tal não se dá. no limite.1 % reencarnação mais favorável e no segundo caso. ou 42. A influência das idéias de Allan Kardec difusas no meio umbandista pode ser aferida pela generalizada presença da concepção de caridade. Não se pode ritos. dada a necessidade de se registrarem em cartório como entidades civis para poderem funcionar legal e livremente. aderindo posteriormente às giras7. USP. utilização ritual de bebidas e da pólvora). como despachantes especializados. Rev. contudo. Tudo o que transcenda a isto.
“A solução formalmen- doutrina abrangente. “a esmola é a parte mais universal e primária” (Weber. inspirou-se na doutrina e suas inter-relações - kármica hindu para explicitar o sentido da comunicação com os espíritos e no é La Table. informa-nos ainda Weber. do qual passaram a constituir sua Índia. “exaltam a generosidade dos ricos e maldizem os avaros”. 455-456). 1990. sem deixar de ser religião e assimilando do positivismo inclusive le encontram-se infor- mações detalhadas so- seus elementos religiosos. é a “boa obra” no hinduísmo. em nada bre as fontes do pensa- incompatível com as noções comtianas de bondade e altruísmo e seus princí. No plano da caridade espírita. 423). desenvolveu-se e difundiu-se muito 1964. o evolucionismo. exten- sivo inclusive ao inimigo. Paulo. 1964. no que se refere (1990) demonstram o contraditório engaja- ao amor pelos vivos. política. 455) da virtude religiosa. no hinduísmo. S. 1983). p. Importa não tanto as obras sociais em Igreja quase como uma si mesmas mas a transformação operada na pessoa tendo por fim seu auto. sitivismo e a pedago- forme demonstrou Weber10. Mas perdeu sua dimensão propriamente política. ciada a vivos (práticas terapêuticas) e mortos (exortações para a prática do XI. também. tal 8 “A esmola se apresen- como ocorreu na religião de Zaratustra. Umbanda: entre a cruz e a encruzilhada. Lísias Nogueira. mais que em seu país de origem. a mais eficiente teodicéia já imaginada pelo homem. prescindível. Tal fusão produziu. Tempo Social. p. IX). A questão da caridade é fundamental no contexto das religiões mo- ralizadas. O amor ao próximo como busca de salvação pode superar o casuísmo da esmola eventual e. produzindo uma 10 gia. como profissionais mais antigos do sagrado. no confucionismo e no judaísmo e “no caso do cristia- nismo primitivo adquiriu a dignidade de um sacramento”8. à ciência e à filosofia positivista. o kardecismo teve trajetória Laplantine (1990). Uniu assim Kardec a oria da reencarnação. franceses nos movi- mentos socialista utópi- evitando os envolvimentos partidários11. escolas e creches. Sociol. 1994). Permaneceu. Ao ser transladado para o Brasil. tendo acentuado seus traços religiosos e 11 Aubrée & Laplantine atenuado sua pretensão filosófica e científica. propi. no catolicismo e nas ta para o rico como algo tão necessário para al- igrejas orientais. O kardecismo parece enquadrar-se totalmente neste caso. p. Sua noção de caridade não é. segura. 1964. Aparece. estando presente sua recomendação em todas as religiões mundiais: é um dos cinco preceitos absolutos de fé no Islão. NEGRÃO. te mais perfeita do pro- sa.” (Weber. cap. 5(1-2): 113-122. Religião 9 O mais completo estu- extremamente racionalizada desde a codificação espírita promovida por seu do sobre o Kardecismo na França e no Brasil - fundador francês na segunda metade do século XIX. mas este caso extremo permaneceu peculiaridade cristã. mantendo mento dos espíritas hospitais. A prática das boas obras adquire cançar a bem aven- “uma direção metódica racional de toda a vida e não em virtude de obras turança que os pobres são considerados na isoladas entre si” (Weber. Se o positivismo de les Esprits. mesmo antes destas surgirem: Weber de- monstra que mesmo os magos e rapsodos. Ver cap. palatável ao secularizado homem moderno. 117 . USP. científica e religio. de Marion Aubrée e François Comte transformou-se de ciência em religião. con. Na religi- osidade ética. Somente com a expansão do cristianismo tornou-se possível o universalismo do amor. pois os espíritos foram destituídos conhecemos. 416). devemos à doutrina ‘Karma’ da do patamar sobrenatural para o natural. a mais desencantada das religiões. blema da teodicéia que mente. le Livre et experimentalismo científico para captar suas mensagens9. 1964. ça na transmigração das almas” (Weber. de certa forma. grandemente interessado em obras sociais. Rev. p. o po- evolução kármica. ao mesmo tempo filosófica. co e liberal. criar um habitus. classe particular e im- aperfeiçoamento. mediante sua sistematização ética. mento de Kardec: a te- pios do amor e do viver para outrem (ver Comte. Ne- inversa. 1993 (editado em nov. à chamada cren- dimensão invisível (ver Aubrée & Laplantine.
A elas só comparecem aqueles que sabem que serão cobrados e que. ao seu inverso. Neste caso o próprio doador é o árbitro de suas disponibilidades. 1993 (editado em nov. freqüentemente os passes. Tempo Social. especialmente) ou dinheiro. continua sendo atitude moralmente in- sustentável. as consultas e os trabalhos realizados no terreiro são cobrados. bem e doutrinação) mediante o contato mediúnico entre eles. agora totalmente voltado para a educação moral e religiosa. melhor sucedidos serão. cobra-se pouco. para a sobrevivência do pai-de-santo e de sua família. mas especialmente à utilização do poder espiritual para atividades tidas como malfazejas. no caso extremo. Paulo. Para ser legítima. se a montagem e a manutenção dos terreiros é dispendiosa. além do que o pecado parece ser a cobrança. advindos de sua herança negra. a título de presente. Se nem todos os orixás. paga-se por um serviço prestado. de necessitados. Lísias Nogueira. Os traços mági- cos da umbanda. Não obstante. a cobrança é ilegítima. Rev. portanto. O problema é a compatibilização dos extremos. inclusive economicamen- te. Manteve assim o espírito pedagógico original do kardecismo. Apesar de todos os subterfúgios para justificar-se a cobrança. gratifi- cação ou esmola. em espé- cie (velas e bebidas. validam as trocas econômi- cas entre pais-de-santo e sua clientela. Como exer- cer plenamente a caridade. S. totalmente desinteres- sada do ponto de vista econômico. Considera-se legítimo também receber-se o espontaneamente dado. quanto mais eficazes sejam eles na coerção dos poderes extra-empíricos no sentido da realização dos desejos daqueles que os solicitem. mesmo quan- do se a faz. inversamente. em conseqüência 118 . quando este não tem trabalho profissional. Apenas o necessário para cobrirem-se as despesas do terreiro ou. mas esta não se coaduna à ética da caridade. USP. ela é vista sempre com reservas. concentrou seus conteúdos religiosos. 1994). Não explorar é o lema. de- bate-se a umbanda com um dilema que lhe parece ser constitutivo. independentemente do fato de serem ou não cobradas embora. A solução mais freqüentemente encontrada é a concessão de con- sultas particulares. no máximo. a prática divinatória. O caráter próspero de um terreiro é sinal de seu domínio sobre os espíritos. Sociol. normalmente o sejam. Como fonte de lucro. Muitas vezes o jogo de búzios ou de cartas também justifica a cobrança. Cobrar-se de pobres. O interesse econômico pode conduzir à cobiça e à negação da caridade mas também. NEGRÃO. a prática da caridade deve ser. seu domínio sobre estes abre caminho ao seu sucesso econômi- co. em princípio. podem pagar. exigindo recursos de que raramente pais e filhos-de-santo dis- põem? Como levantar os recursos sem comprometer o ideal? Entre a sobrevi- vência e o cumprimento da missão oscilam os umbandistas tentando uma fórmula conciliatória entre ambos. A caridade não se contrapõe apenas à cobrança. neste caso. O progresso material depende da cobrança. 5(1-2): 113-122. mesmo que provindo de pessoas de escassos recursos. de enriquecimento. Umbanda: entre a cruz e a encruzilhada. a realiza- ção do mal contra inocentes. não o recebimento. Entretanto. Herdeira da moralidade espírita via sua concepção de caridade. Só é admissível se a pessoa puder pagar e não lhe vá fazer falta. realizadas fora das giras e tidas como infensas ao ideal da caridade.
não é o comércio religioso. sobretudo de seus terreiros de condição econômica inferior. A originalidade da umbanda. 1993 (editado em nov. alguns deles. Tais práticas consubstanciam-se na demanda12. Assim como o bem que se busca. O descompasso entre o ideal e a necessidade. O mal Velho (1975). ou seja. espiritualmente elevados e. mas aqui e agora. Não obstante. São eles especi- almente os exus e as pombas-giras. Neste clima. regido pela inveja e pela concorrência. a resolução de problemas diversos. des- prendidos do material. expressão simbóli- ca de conflitos reais. fazer o bem a vivos e mortos é o único caminho para a evolução espiritual destes e daqueles. o peso do cotidiano e os interesses de pais-de-santo e clientes fazem-se sentir. podem ser seduzidos por propostas do tipo do ut des. que consideram- na uma resposta à ação mágica precedente. choca-se ela contra duas práticas tradicionais dentro do universo mágico no qual se constituiu: a cobrança pelos serviços religiosos prestados e a deman- da. a cura. inclusive ao catolicismo dominante. merece o mal que desejava contra sua vítima e que lhe é devolvido. 119 . o castigo daquele que provocou o mal deve sê-lo também. defendendo-se e contra atacando. decorrendo daí a desconfiança ge- neralizada entre eles. Lísias Nogueira. pois é prática 12 Ver. A demanda embora persista mesmo na umbanda moralizada. Sociol. Rev. enquanto tal. 1994). deve ser imediato. utilização por alguém dos serviços dos orixás para defender-se dos seus desafetos e contra atacá-los. 5(1-2): 113-122. não de maldade. NEGRÃO. ou combate mágico a inimigos e desafetos. marinheiros. é legitimada pelo merecimento do mal por parte de quem é por ele atingido. provocada pela inveja. portanto. entre o princípio e a prática. Quanto à cobrança. ciúmes ou despeito dos rivais. quando não “doutrinados”. ainda presos às necessidades materiais e não dotados de consci- ência moral. a tradição negra. em si mesmo. Raramente a interven- ção dos guias é assumida como iniciativa dos demandantes. é ter elaborado justificativas moral- mente sustentáveis para fugir aos rigores do princípio da caridade kardecista por ela mesma incorporada. impregnou profundamente a ética umbandista. A caridade. as aceitam sem restrições ou constrangimentos. A demanda implica no caráter conflituoso da vida cotidiana: há inimigos. Umbanda: entre a cruz e a encruzilhada. Quem pratica o mal deve pagá-lo e não só no além. Praticá-la. comum à maioria das religiões. S. todos os pais- de-santo são “demandeiros” em potencial. tem de ser superado. USP. Ambas são necessárias: a pri- meira para a manutenção dos terreiros e a segunda porque há a necessidade de defesa e proteção dentro de um universo de relações hostil. ideal cristão filtrado pelo crivo kardecista. Paulo. há pessoas mal intenciona- das. Não é errado agir contra eles. na próxima encarnação. Revidam ao agressor e este. zés-pilintras e ciganos. após “correrem uma gira”. mas também alguns baianos. mesmo dos terreiros mais mágicos e pouco moralizados. considerado condenável. de sua condição de “guias de luz”. Pais-de-santo. aceitam apenas demandar quando. A reinterpretação se impõe: os valores não po- dem simplesmente ser transpostos para a prática. Trata-se de justiça. sobre a demanda. Tempo Social. conduzindo a padrões efeti- vos que lhes sejam totalmente fiéis. convençam-se de sua justiça.
em estrito sentido durkheimiano. capaz de exercer efeitos transformadores. como em Weber. imediata. No mínimo tem o efeito catártico atribuído por Malinowski (1974) à magia. sendo esta orientada pela concep- ção de justiça mencionada. 1993 (editado em nov. sobretudo em troca de pagamento. quando quem cobra não tem recursos. É também justo defender o ofendido e punir o ofensor. pólo antagônico do benefício e negador do ideal da caridade. no máximo. portanto. contando com a participação do ofendido que. Em um número restrito de seus terreiros. Lísias Nogueira. Para evitá-lo. com sua aceitação passiva se não do mal. A justiça praticada dentro dos quadros restritos aos litigantes 120 . sem que se espere os castigos e as recompensas do além. sobretudo de classes médias. transformando o culto em fonte de lucro. Sociol. voltada à satisfação das necessidades e desejos individuais. É justo cobrar para cobrir despesas. competitiva e conflitual. Umbanda: entre a cruz e a encruzilhada. com predomínio do interesse econômico. USP. S. Justiça rápida. também é vista como legítima. é justo cobrar de quem pode pagar e de quem quer fazê-lo. como se poderia inferir a partir da análise clássica dos fenômenos mágico-religiosos. prevalecem os princípios cris- tãos-kardecistas do “voltar-se a outra face” e de “fazer o bem sem olhar a quem”. Tempo Social. em sentido du- rkheimiano: embora parta destes. até certo ponto. tende a ter moralizadas suas crenças e práticas. Injusto é demandar contra o inocente. de direito antes repressivo que restitutivo. tem a vantagem adicional de ser simbólica e. está em cobrar de quem não tenha ou a quem venha faltar. deles se afastam sensivelmente ao admitir o justiçamento individual. cobrando excessivamente ou de quem não tem recursos. sem abdicar de ambas as práticas. A justiça é imediata. De fato. Além de eficaz na crença dos que a ela apelam e a ativam. ou então cobrar excessivamente. Desfaz o mal feito contra inocentes e o faz retornar contra quem o provocou. podem conduzir ao malefício. 5(1-2): 113-122. referências ideais presentes no discurso mas não na prática. na medida em que permanece dentro de cosmovisão encantada e mágica. embora mantendo em parte seu encantamento e magia. ao menos do agressor: trata-se da ética da justiça e da repara- ção do agredido mediante o castigo do responsável pelo ato maléfico. 1994). é justo cobrar o que o trabalho vale. imputável do ponto de vista jurídico-racional. no aqui e agora. Trata- se. A demanda. NEGRÃO. Na maioria deles tais princípios são. consentânea com o tipo de realidade de onde ela emerge: individualista. a justiça é invocada. O injusto é a exploração. ao reagir e ativar a manipulação mágica. assume papel decisivo no próprio processo. quando indiscriminadas. A umbanda. totalmente distanciado da virtude cristã do perdão. Paulo. Não existe também a mediação institucionalizada de aparato judicial: são os pró- prios guias e agentes mágicos os juízes e executores da pena. Rev. mesmo que o pagante tenha recursos. contudo. Cobrança e demanda. não estamos di- ante da simples reprodução dos quadros morais vigentes. uma religião a-ética. Não é a umbanda. Não se trata da ética cristã do amor ao inimigo e da humildade. Não se trata também de ética calcada em mensa- gem religiosa específica.
Não se trata de ausência de moralidade. A justiça. dificilmente acessíveis. Umbanda: entre a cruz e a encruzilhada. Sociol. Estamos. Rev. No máximo. USP. Lísias Nogueira. Rev. conforme se poderia legi- timamente supor a partir da literatura sociológica clássica. NEGRÃO. de forma despersonalizada e formal. compartilhada com os demais cultos afro-brasileiros. despossuídos. 5(1-2): 113-122. Sociol. distantes dos quadros de uma hegemonia moral que atrela os interesses indi- viduais aos sociais e remete a justiça para além da competência das vítimas. os exus e as pombas-giras. a um- banda assenta-se antes na vida real. aqui ou no além. Esta moralidade peculiar. não. é claro. embora também obscurecida em alguns terreiros mais iden- tificados às vigências religiosas. como diria Georges Gurvitch (1956). que legitima o justiçamento inter-indivi- dual. pois. aparece assim como fundamento moral da prática mágica umbandista. 1993 (edited in nov. 1993 (editado em nov. Paulo. A prática do castigo aos ofensores pelos pró- prios ofendidos. au- tônoma e não heterônoma. USP. mediante a utilização de recursos simbólicos. apesar dos linchamentos freqüentes e da am- bígua presença dos “justiceiros” entre aqueles. não tem repercussões sociais de maior amplitude. do amor cristão e da caridade espírita. S. Umbanda: between the devil and the deep blue sea. prescindindo de mecanismos institucionais especializados. em princípio irrestrita. Embora estejam presentes dentro dos limites éticos umbandistas tanto as normas mo- rais vigentes quanto as revelações religiosas que lhes são associadas. Não se trata. 1994). passiva e conformista. no cotidiano de subalternos e carentes. também nela presentes em algum grau. é peculiarida- de sua. está bastante dis- tanciada da moralidade vigente. A concepção religiosa predo- minante tenta obscurecer o caráter necessariamente mercantil das trocas reli- giosas e atribuir o castigo à vontade de Deus. mas de uma moralidade de aspiração. contrária (ou ao menos diversa) à estabelecida. na expectativa da justiça divina. Lísias Nogueira. tende a ser contida por concepção específica de justiça. que legitima a punição dos maus por suas próprias vítimas. 1994). Tempo Social. Apesar da amoralidade ser traço característico de seus agentes má- gicos por excelência. apenas os disciplinando a ponto de não se oporem radicalmente aos ideais. Trata-se de moralidade assen- tada no sentimento de justiça peculiar àqueles que vivem em meio basica- mente competitivo. 5(1-2): 113-122. Mas dentro de moralidade peculiar. Tempo Social. É uma ética pragmática. vista pela ótica dos subalternos. que não opõe valores abstratos às restritivas relações concretas. A umbanda as toma como princípios válidos porque inevitáveis. 121 . da tradicional moralidade cristã vigente em nossa sociedade. sua eficácia. a troca econômica é traço evi- dente e necessário. Recebido para publicação em setembro/1994 NEGRÃO. admite o castigo neste mundo à competência do Estado. mas que as reconhecem e aceitam como são: cobranças e deman- das. desprovidos de meios materiais necessários para enfren- tar a luta cotidiana pela vida e superar os problemas que suscita. marginali- zados ou precariamente dispostos nos lugares sociais. Na umbanda.
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