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HABITANDO

O TEMPO

clandestinidade, sequestro e exílio

2

Marília Guimarães






HABITANDO O TEMPO

clandestinidade, sequestro e exílio








2ª edição

































à Fidel, el guerrero mayor de todos los siglos.
à los compañeros imprescindibles,
aquellos que ayudaran a sembrar sueños
y transformalos en realidad.
A los hermanos latinoamericanos que
ratificarón el significado de la solidariedad.
A los luchadores incansables.
A mis hijos Marcello y Eduardo, que
construyen el camino por donde van
formando la gran árbole de la vida.
A Eduardo Ebendinger, compañero de este largo viaje.
A los amigos indispensables, que hicierón possible amenizar
los dias sombrios e compartierón el brillo de muchas
luciernágas y estrellas.


Eu, Marilia Guimarães, brasileira, descendente dos Lima
Cunha Guimarães, da Cidade de Guimarães – Portugal –
nascida no ano do Dragão, conheci desde cedo as diferenças
sociais, no quintal da casa da minha avó, onde excluídos
vinham por um pedaço de pão ou um prato de comida.
Herdei dos meus antepassados o amor à pátria, à família,
a nostalgia dos fados, o amor pelas montanhas e o fascínio
pelo mar.
Aprendi a amar, respeitar os homens e sua múltipla
diversidade.
Desejo como tantos, um mundo melhor, com dignidade,
ética, sem corrupção e impunidade.
Tive o privilégio de viver os movimentos de libertação da
segunda metade do XX. Das décadas em que todos os
continentes se atreveram a enfrentar os preconceitos, a falta
de liberdade.
Sou resultado deste momento histórico, época em que
os famosos “Barbudos da Sierra Maestra” ousaram Lutar e
ousaram Vencer.
A ditadura Militar no Brasil nos levou às prisões,
assassinou companheiros, nos arrastou ao exilio.
Durante dez anos, vivi longe da minha pátria. Durante dez
anos conheci a solidariedade, o amor , a ternura. Participei
em Cuba da construção de uma nova sociedade.
Baseada nestes princípios tenho vivido. Entre trancos e
barrancos, sou feliz.


















“Y sé, que hay muertos que alumbran los
caminhos...” Silvio Rodriguez




Fidel Castro,
Juarez Guimarães de Brito, Inês Etienne Romeu, João
Lucas Alves, Henfil, Nelson Cavaquinho, Angelo Pezutti,
James Allen, Carlos Marighella, Edson Luiz Santos,
Chael Charles Scheier, Carlos Roberto Zanirato,
Joaquim Câmara Ferreira, João Goulart, Luiz Carlos
Prestes, Maria Auxiliadora Lara Barcelos, Onofre Pinto,
Aderval Alves Coqueiro, Alex e Yuri de Paula Xavier
Pereira, Pixinguinha, Vinícius de Moraes, Frei Tito, José
Raimundo da Costa, Carlos Lamarca, Palhano, Zuzu
Angel, Ronaldo Dutra Machado, Soledad Barret
Viedma ...
Che Guevara.

31/12/1969 - Montevideo

04 de Janeiro 1970
Aeroporto José Martí - Habana Cuba
Por que sinto falta de você? Porque esta saudade? Eu não te vejo mas
imagino suas expressões, sua voz teu cheiro...
Machado de Assis 1

De cima de seus três anos, Marcello tentava acertar o cinto de segurança,


enquanto eu colocava Eduardo em seu assento. Acontecera tão rápido. Rio,
Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre e Montevidéu se mesclavam numa
fusão de ruas com caras de alamedas, ondas beijando despretensiosamente os
parques cravados nas montanhas, chimarrão e cafezinho, túnel Rebouças
decolando para os céus do Caribe.
O cansaço de três dias de angústia e incerteza invadiam minhas artérias,
corriam meu corpo, mas tropeçavam com esta força que me domina toda nos
momentos de decisão.
De pronto, tudo havia terminado. Qualquer lugar que fosse, tínhamos
chegado. Que seria de nossos sonhos, ficariam para bem depois. O importante,
agora, era sossegar este coração, tentar controlar o medo, o desespero ante o
desconhecido. Duas mãozinhas se prendiam às minhas para conduzí-las ao
futuro.
- ¿Donde está la mujer con los niños?
Uma voz ríspida ordenou a saída.
Caminhei desconfiada, olhando ao redor. Tudo verde.
Seria uma imensa floresta viva, ou o pânico transformara tudo num campo
de guerra?
Militares camuflados, armados até os dentes, sorriam à nossa passagem.
Um deles discretamente acariciou a cabeça de Eduardo.
Confusa, trêmula, carregando Eduardo e Marcello nos braços cruzei a pista.
Na saleta, militares entravam e saiam, cheios de perguntas:
- ¿Fueron vacunados?
- ¿Cuales vacunas?

1
Machado de Assis – Escritor Brasileiro – Fundador da Academia Brasileira de Letras

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Habitando o tempo

- Vacinas... Terá dito vacinas! Ah! Sim.


Minha resposta não pareceu nada convincente.
- ¿Fueron vacunados?
- Claro que sim.
Outros militares entraram carregados de brinquedos, sucos, brinquedos
de novo. Outro pipocava o flash sobre nossas cabeças. Fotos, fotos, fotos.
- ¿Con quien está el millión de dólares?
Dólares? Que dólares?
- Eles vieram me trazer e pretendem fazer treinamento.
- ¿Treinamiento? ¿Que treinamiento?
- Sei lá. Treinamento militar.
-¿Quien es el jefe?
- Chefe?!?
Caramba, estamos há quase três dias sem comer, como vou saber quem é
o chefe!
O chefe desmoronou na decolagem.
- ¿Quien organizó el secuestro?
- Quê? Quero ver meus companheiros.
Ai, caramba, que confusão!
- Ellos están en otro lugar.
- Quero ver meus companheiros, insisti.
- ¡Ande, ve a llamarlos!- ordenou aquele que parecia ser o chefe.
Extenuado, entra André. Sussurrando, explica que estão todos sendo
interrogados. Que o país não recebe sequestradores.
- Como não recebem sequestradores? Para onde iremos? E agora, que
vamos fazer?
- Não sei. - contestou.
- Como não sabe?
De novo, irrompem pela sala.
- ¿Como se siente ahora? ¿Y los muchachos? ¿Fumas?
- Sim.
Outro militar entra carregado de cigarros, muitos cigarros.
- Escoja lo que quieras.
Escolho um. Não. Acendo outro. Muito fraco. Faço outra opção. Por fim
um cigarro forte, quase um Hollywood. Alívio geral para os pulmões, para o
simpático, para a cabeça. Delícia de cigarro, o melhor cigarro do mundo. Depois
de tantos dias sem fumar, tragava e tragava, compensando o tempo perdido.

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Habitando o tempo

Por fim, começava a raciocinar.


- Os meninos tomaram todas as vacinas, todas.
- ¿Como? Como?
Estou falando, falando e esse militar não entende nada? Chego a uma
conclusão: falo muito mal espanhol, não sei falar direito essa língua; eles nunca
irão me entender. Passarei toda a noite, e não me entenderão. Estou exaurida.
Outro militar se faz presente na saleta.
Não suporto mais tanta pergunta sem resposta. Insuportável, suportar
tanta falta de comunicação.
- Conrado, esta és Mirian Martins de Oliveira.

“Yo soy de los que vamos rompiendo monte


en cueros y en el puño un corazón.
Soy de los que vamos haciendo el primer
Carro donde monte el porvenir"
Vicente Feliu2

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Vicente Feliu – Cantautor – Fundador do Movimento da Nova trova

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1969 - Fevereiro
Bairro de Coelho Neto - Rio de
Janeiro

É bom saber que nada disso dura tanto


Nem a paz do amor, nem a ferida
que enlanguesce a dor Vil é o que já nasce morte e apodrece
O que nem teve tempo para ser ver
E dar sementes"
Vital Farias3


O carnaval ficara para trás, deixando a saudade de um fantástico Jair
Rodrigues esbanjando alegria com seu Bloco de Sujos, enquanto,
despreocupada, iniciava mais um ano letivo, com mil projetos didáticos, novas
metodologias de ensino.
A matriz da escola em Coelho Neto, a filial em Vilar dos Teles, prometia um
1969 de sucesso e grandes realizações.
De repente, simplesmente de repente, entre raios, trovões e tremendo
aguaceiro, aqueles homens entraram sem pedir licença, desmoronando tudo.
Uma folha de papel tarjado em amarelo e verde, onde se lia uma ordem de
prisão, interromperia nesta terra, neste instante, o futuro.
- Tenho ordens para levá-la presa, vociferou quem liderava o grupo.
- Presa? Por quê?
- A senhora está envolvida com os subversivos - explicou o outro - por fazer
uso de mimeógrafo para propaganda comunista.
- Mimeógrafo? Subversivos? O senhor deve estar me confundindo com
outra pessoa!
- A senhora está presa. Tem que me acompanhar.
- Não. Por que tenho de acompanhá-lo? Não vejo possibilidade! Sinto
muito, não tenho tempo e além de não ter feito absolutamente nada, não estou
preparada. Tenho que me banhar, trocar de roupa. Estou trabalhando desde
às oito da manhã, são quase duas horas. Agora não é possível. Irei amanhã.

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Vital Farias – Compositor \ Interprete - Paraiba

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Habitando o tempo

- Amanhã? Não estamos brincando! – argumentou, quase aos gritos. Tem


que ser agora! A senhora não entendeu?
- Sou diretora e proprietária desta escola. O senhor, com certeza, está
enganado.
- Não estou enganado, não. Sua escola comprou um mimeógrafo, que foi
apreendido em mãos de elementos ligados à subversão.
- Onde?
- Em Niterói, num aparelho.
- Aparelho. O que é isto?
- O lugar onde se escondem os comunistas.
- Comunistas? Não eram subversivos?
- Comunistas, subversivos, tudo a mesma coisa, - explicou nervoso.
- Ah! Agora me lembro. O mimeógrafo! Minha escola comprou, sim... mas
foi vendido.
- Vendido? Como vendido?
- Sim. Vendido. Heloísa, pegue o recibo da venda do mimeógrafo!
Atordoada, a secretária não conseguiu se levantar. Estava em choque.
Nada sabia de nossas atividades. Talvez desconfiasse do entra e sai de
estranhos, da chegada e saída de caixas e mais caixas lacradas; reuniões no
adiantado da noite.
As notícias de secundaristas assassinados, como Edson Luiz no restaurante
universitário Calabouço, bem no centro da cidade; dos desaparecidos e das
prisões de pais de família, andavam de boca em boca, e davam o tom da vida
política na cidade.
Caminhei decidida até o arquivo, peguei o recibo e mostrei a folha de papel
timbrado, especificando o valor e a descrição do equipamento.
- Vou levá-lo.
- Não senhor! Este é o original. Não tenho como tirar cópia. Marque um
horário que levo o recibo.
Desconcertado diante do inesperado, o militar titubeou.
- Bem. Mas a senhora tem que comparecer ainda hoje ao Ministério da
Guerra, na Central do Brasil. Sabe onde fica?
- Claro, claro que sei.
Quem, da minha geração, moradora da Cidade Maravilhosa, não conhecia
a famosa Central do Brasil, palco dos acontecimentos que contam parte da
nossa história? Do célebre discurso de Jango, pouco antes do golpe militar, ao
cotidiano sofrido de milhares de habitantes, que transitam, diariamente, do

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Habitando o tempo

subúrbio ao centro, em busca do ganha pão, na romaria em busca de trabalho;


do sonho da menina do bairro distante em busca do sucesso nas passarelas?
Quem, de nós, não conhece o velho relógio, impondo as horas, há mais de meio
século?
- Vou tomar um banho e mudar de roupa. Inviável comparecer assim, suja
e desarrumada. Podem esperar, que antes das cinco horas estarei chegando.

Com passos a princípio indecisos, mas que se tornaram firmes depois, os
homens saíram pelo portão, orgulhosos com o fato de haverem,
brilhantemente, cumprido seu dever.
No chão, junto à cadeira de Heloísa, uma poça de sangue. Coitada! Diante
de tamanho susto, ficara menstruada.
Abracei sua cabeça, beijei sua fronte. Saí dali sem olhar para trás: meus
neurônios, como numa dança frenética, jogavam com trilhões de informações,
enquanto o sistema neurovegetativo respondia, estupidamente, com uma
desenfreada taquicardia. Urgia pensar com serenidade.
Tudo estava em jogo. A organização, meus filhos, amigos que nos
frequentavam inocentemente, meus alunos, meus professores, anos de
trabalho...
Sozinha, dramaticamente sozinha, peguei o primeiro ônibus que passou.
De ônibus em ônibus, Coelho Neto ia ficando longe. Tão longe como a dor da
separação de um amigo, tão longe como os sonhos da primeira infância, longe
como a angústia do irreparável. Tão perto ontem, tão distante agora, do bairro
habitado e cantado por Machado de Assis: seu personagem, “Brás Cubas”
passava pelas minhas lembranças:

...“ Eu trato de anexar à minha filosofia uma parte


dogmática e litúrgica.
O humanítismo há de ser também uma religião, a do
futuro, a única verdadeira.”.

Lamartine Babo fazia um delicado verso, naquele cantinho gostoso do


“Prato de Barro”. “ Mesmo sem ser Dirceu, gosto também de Marília”, dissera um
dia, enamorado como ele só. Como seria o início do verso? …
Faria uma operação plástica no meu enorme nariz, ou cantaria como Juca
Chaves, justificando o que achava uma feiura? Naquele momento, desejei ter
Marcello e Eduardo bem perto, na Avenida Brasil, bem ao alcance das minhas
mãos...

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Habitando o tempo

Madureira ia passando diante dos meus olhos.


Conseguiria Israel passar para a oitava série? Seus pais sempre tão
preocupados com o filho temporão, criado sem nenhuma defesa, habituados à
segurança da minha presença. E as crianças da favela de Acari? E as do IAPTEC?
Durante anos, fui uma referência e um amparo. O dentista gratuito, as
amostras de vitaminas, distribuídas periodicamente entre todos, as visitas aos
casebres insalubres, as bolsas de estudo, a sopa para os famintos, os enterros
dos que não chegaram a conhecer os Por de sol, tudo fazia parte do meu
cotidiano... Antônio, tão franzino... Tão estupidamente pobre. Vanderson está
em plena adolescência. Insuportável, dizem todos. Muito querido, argumento.
Os adolescentes são fantásticos. Fortes como o mar, velozes como o vento,
sensíveis como os rouxinóis, senhores de tudo e do nada, desbravadores,
conquistadores.
Nossa, como o Rio é grande! Quantos quilômetros havia percorrido nestes
últimos anos! Pego um ônibus para Tijuca, parece uma preguiça. Nunca vi uma
preguiça, mas dizem que caminha tão lentamente, que leva dias para subir
numa árvore. Serão feias ou bonitas? Pouco importa, são preguiças. Necessito
de velocidade, muita velocidade. Retorno à situação real.

Calma, porque tenemos prisa


y el trecho es duro de andar.
Calma, pero además constancia
para llegar, para llegar, para llegar.
Calma. Calma y algo más.
Noel Nicola4

4
Noel Nicola – Cantaoutor – Fundador do Movimento da Nova Trova

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1969 - Fevereiro - 16:00h
Bairro das Laranjeiras - Rio de
Janeiro

“As pessoas não se precisam, elas se completam,


não por serem metades, mas por serem inteiras,
dispostas a dividir objetivos comuns, alegrias e vida.”
Mario Quintana5


- Táxi! Táxi! Botafogo, por favor.
- Onde?
- Botafogo. Praia de Botafogo.
A baía está hipnotizante, aqui não chove. Em frente, o Pão de Açúcar.
Esplêndido, imponente. A esta hora, talvez, apinhado de turistas, deslumbrados
com a beleza da cidade. Nem havia percebido o calor que faz. Que bom seria
uma praia! Adoro praia e pimenta!
- Aqui, por favor. Em frente ao cinema.
Cruzo a avenida rapidamente. Faz-se tarde. Outro percurso.
- Táxi!!! Laranjeiras, por favor. Rua General Glicério.
Quando me dei conta, estava trocando de roupa. Mamadeiras, fraldas, leite,
roupinhas, sapatinhos, tudo enfiado desordenadamente dentro da bolsa.6
- Estou indo embora, ouviu, Dona Leontina?
- Pra onde? - perguntou .
Quase correndo, chego à calçada com Marcello e Eduardo nos braços. Dois
e três aninhos de vivência. Marcello é esperto, muito vivo, entende tudo, menos
este corre-corre. Eduardo sorri, adora uma rua.
Dona Leontina olha assustada, sem entender nada.
- Seguramente é briga de marido. - parece me dizer.
- Feche bem antes de sair. Não esqueça nada aberto. O gás, a luz...
- Sim, pode deixar.
- Ligue antes de vir amanhã. Se o Fausto aparecer, diga que fui embora, está

5
Mario Quintana – Poeta – Porto Alegre - RS

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Habitando o tempo

bem?
A pobre, amedrontada, balançava a cabeça num perplexo sim.
Como num passe de mágica, surge Carlos. Nosso querido e adorado
companheiro. Há um ano entrara na clandestinidade, e viera morar conosco.
Um mineiro com jeito de Severino, responsável, alegre, brincalhão, adorado
pelas crianças, paparicado por Dona Leontina, companheiro ímpar pela vida
afora, faz parte do grupo dos imprescindíveis. Tantas outras vezes, incluindo o
presente, Carlos apareceria nos momentos mais críticos, para vivê-los ou nos
tirar deles.
As palavras deram lugar ao silêncio. Entrei no fusquinha ainda cheirando
a fábrica quando o porteiro, ofegante, disparou:
- Seu Carlos! Seu Carlos! Por favor, preciso lhe falar... o relógio da rifa saiu
para o senhor! Espere que vou pegá-lo.
- Não precisa, Seu José. Pego depois, mais tarde, está bem assim?
- Não esqueça, ele toca aquela musiquinha crássica do Shube.7
- Não vou esquecer não, seu José.
Acho que o Carlos esqueceu, sim, o famoso relógio de mesa que tocava a
serenata de Schubert. Nunca mais falamos dele.
Quatro quarteirões depois, Carlos perguntou timidamente:
- Que aconteceu?.
- Como?
-Pegaram o mimeógrafo na casa do Liszt em Niterói.
- Mas, esse aparelho caiu em novembro. Estamos em março. Estranho,
não!?
- Muito. Se não fosse aquele recibo de venda, que inventamos, agora estaria
frita.
- Você é uma guria de sorte. Muita sorte. – concluiu, acariciando meu rosto
com ternura.
- Pra onde vamos? As crianças precisam comer, tomar banho e dormir.
- Vamos localizar o Fausto, e decidiremos para onde ir.
Queria chorar. Chorar tudo. Passado, presente, futuro. Pelas coisas
alegres, pelas mais tristes. Chorar de amor, de ódio, de ternura, de paixão, de
impotência, de força, de saudade, de presença. Chorar.
Não podia. Marcello e Eduardo sequer deveriam sentir qualquer diferença.
A mudança de fato já seria forte demais. Os berços, os brinquedos, a comidinha

7
Franz Schubert – Serenata de Schubert -

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Habitando o tempo

na hora certa. O silêncio para um sono tranquilo. A higiene que evitaria


doenças, até agora ausentes de suas vidas. Não. Não podia derramar uma
lágrima, nem que fosse por um bocejo. Não tinha este direito. Eles deveriam
passar incólumes por tudo. Um não para as doenças, para os sofrimentos. Um
não para o não. O não seria a última palavra que eles aprenderiam, se
dependesse de mim.
Até agora tinha funcionado perfeitamente. As primeiras palavras tinham
sido “ áagguua , poommbo”. Duas expressões de liberdade. Não. Faria qualquer
coisa para não apagar aqueles sorrisos.
- Temos que sair do Rio imediatamente.
- Vamos embora! Vamos para Angustura - lembrou Carlos. Sua irmã está
lá. Com certeza, vai nos ajudar nestes primeiros dias.
Angustura, pequena e linda vila centenária, gloriosa no auge do cultivo do
café, encravada num pedaço mágico de Minas. Cenário da minha primeira
perda, dura, sofrida por toda a vida - pai e mãe de uma única vez. Um para a
morte... outro para a vida...
Palco do meu primeiro toque de mãos me arrepiando toda, despertando-
me no roçar dos dedos, o primeiro amor; das travessuras, da descoberta das
desigualdades e mentiras, dos falsos milagres para cura da leucemia....
Lugar das corridas a cavalo, dos banhos de rio, das rosas verdes, do
racismo tirando vidas...
Aldeia das preces para os pracinhas na Itália, lutando contra o nazismo;
dos mendigos que todos os sábados chegavam ao pátio de minha avó em busca
de um prato de comida, despertando-me para as injustiças sociais…
Referência da vovó amada para todo o sempre. Falante, rechonchuda,
sábia.
- Você parece com seu pai, sabia? - resmungava.
- Sempre dando trela pra Sá Lídia e Biana, essas mendigas piolhentas e
imundas…
- Não se case com este rapaz, minha filha! Ele não a fará feliz, dissera de
uma feita, entre um lapso e outro de sua esclerose avançada.
- Pronto, está resolvido. Lá é calmo, as crianças gostam dela e não vão
sofrer tanto, você não acha? Nada definitivo. Tudo passageiro. Uma semana.
Dez dias, talvez. Nada além de dez dias. Você vai ver - falava Carlos, sem parar
. Logo, logo, arranjamos tudo. Logo. Logo tudo volta ao normal.
Carlos falava e falava, atropelando as palavras, enquanto lágrimas
teimosas umedeciam o bolso da sua camisa.

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Habitando o tempo

Era noite quando deixamos a Rio-Bahia, para percorrer os 8 km que


nos levam à vila.
Helenice olhou sem entender a visita. Meio da semana? Carlos e as
crianças? Sem aviso, sem chamadas? Sem respostas, carregamos os pimpolhos
nos braços. Entramos pela primeira vez, sorrateiramente, na centenária casa.
Abraçamo-nos e decidimos que assim seria. Sem perguntas, sem respostas. Em
silêncio tinha que ser.
Bem pronto viria buscá-los, juro que viria. No regresso, chorei.
A madrugada esbarrava no amanhecer quando regressamos ao Rio.
Muitas, tantas madrugadas faríamos esse caminho de ida e volta, para vê-los
dormindo, esparramados na cama de casal. Uma perna aqui, um braço jogado
na carinha do outro. A respiração suave e doce. Um sorriso furtivo, anunciando
um sonho feliz, eram alavancas para suportar mais um dia de não saber quando,
nem onde.
Quinze dias se passaram entre as estradas de Minas e as frias madrugadas
de Santa Teresa. O vestido verde de veludo, colocado às pressas na saída,
continuava sendo o único disponível, a calcinha lavada pelas madrugadas,
muitas vezes colocada ainda úmida pela manhã, marcavam discretas a
gravidade da situação.
De dia, reuniões à procura de definições e saídas; caminhadas sem rumo,
um único sanduíche para três, outras vezes para quatro. De noite, um porão
cheio de morcegos; na outra noite, um frio quarto, com a cama pequena demais
para dois.

Quando o tempo avisar


Que não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão
Da minha mocidade
Nelson Cavaquinho8

8
Nelson Cavaquinho – Compositor e interprete – Tijuca – Rio de Janeiro

18

1969 – Março
Copacabana – Madrugada

“O guerrilheiro urbano tem que


ser uma pessoa preparada para
compensar o fato de que não tem
suficientes armas, munições e equipe.”
Carlos Marighella9

Copacabana, cantada em verso e prosa, eternizada na canção, é uma


menina ousada de cabelos
ao vento durante a estada do sol, mas mulher misteriosa no burburinho da
noite.
As ondas beijam suas areias, num vai e vem infinito de carícias. Se os dias
são tristes, seus beijos são agressivos; se alegres, cheios de luz, manhosamente
seus lábios deslizam aos pés dos banhistas fascinados com o corpo moreno da
garota assanhada. Na calçada, eternizada nas onduladas pedrinhas
portuguesas, desfilam pescoços apinhados de jóias raras ou falsas, não importa,
enquanto os velhinhos, seus charmosos aposentados, caminham ao balanço da
eterna melodia que vem do mar.
Quem se lembra da Teinha, um biscuit de cabelos “a la Bardot”, amiga do
Erasmo Carlos? Faz anos não ouço diminutivo igual... Ela, sempre animada para
festas e noitadas na Ladeira dos Tabajaras.
Copacabana, perfeita para que Nelson Cavaquinho se perca por seus
inúmeros bares. Como encontrá-lo, para fazer aquela matinê no Teatro
Ginástico?
“Demanda”, de uma obra teatral de proposta política, havia virado uma
peça musical. Não permaneceria em cartaz. Nem o charme de Nelson, nem o
violão celestial de Rosinha de Valença, e nem a novidade do MPB4 seriam
suficientes para garantir uma peça totalmente mutilada pela censura.
- Corta os Beatles, o Vaticano também. Corta a bomba de Hiroshima. Corta.
Corta esta fala do “pijama vermelho do Nelson”. Corta, corta. Fausto e Marilia

9
Carlos Marighella - Guerrilheiro – Fundador da Aliança de Libertação Nacional

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Habitando o tempo

também. - esbravejou o censor.


- É o nome dos autores, nada tem a ver com a peça.- defendeu o diretor.
- Corta, corta, já disse.
Nelson está perdido desde a madrugada. Não voltou.
- Foi para o boteco da Rua Paula Freitas. - afirmou o boêmio, procurando o
caminho de casa.
- Ih! Saiu faz tempo. Deve andar pela Rua Toneleros, com certeza -
resmungou o dono do bar.
Uma nota perdida no ar indicava o caminho. Sentado no meio fio
cantarolando, sempre bem acompanhado, encontrei Nelson.
- E aí, Nelson, onde você se meteu durante toda a noite?
- Tô fazendo uma música pro seu filho.
- Mas, nem estou grávida!
- Não importa, assim é melhor. Ele nasce cantando e tomando umas biritas
que nem eu.
Incorrigível, esse Nelson. Tão . Feliz como criança feliz. Todo ternura.
Como repreendê-lo? Impossível. Possível é eternamente amá-lo...
Você acredita que pode enfrentar um encontro com os militares? –
perguntou, de súbito, Juarez . Se não puder tudo bem. Encontraremos outra
saída. Fazemos assim: você se apresenta. Caso inédito. Os militares se
assustam. Você explica a venda do mimeógrafo, diz que não tem nada a ver com
tudo isso.- completou. Eu acredito em você, sempre foi muito convincente. Eles
acreditarão também. Vocês retornam à casa; tem muita gente na
clandestinidade. Se pudermos evitar, melhor para todos. Tem as crianças, a
escola, muita coisa em jogo. Você pode. Tenho certeza. Mas a decisão é sua. –
sentenciou. Moacyr está morto. Foi executado em Minas Gerais. Outros
companheiros foram presos, estão sendo brutalmente torturados. A situação
está difícil, mas com a sua habilidade e inteligência podemos sair dessa.
Difícil um não. Era pegar ou pegar. Ou o depoimento voluntário, ou o
depoimento involuntário. Cedo ou tarde, eles colocariam as mãos em mim.
Sempre fui medrosa, muito medrosa, mas não para enfrentar a vida. Era, tão
sinceramente questão de viver.
- Sim, vou. Pode contar. Vou e volto.
- Se o pior acontecer, quero dizer, se ficar presa, entregue o lugar do
encontro comigo. Vou te buscar, custe o que custar. Praça José de Alencar, duas
da madrugada, todas as terças feiras. - completou Juarez.
- Tenho certeza que sim.

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Habitando o tempo

Juarez Guimarães, militante da Colina (Comando de Libertação Nacional)


entrou uma manhã nos nossos dias, em 1966, nos primeiros em que Marcello,
devagarinho foi se acomodando dentro de mim, esperando amadurecer para
sair por aí, vivendo.
Juarez chegou num dos momentos mais belos da vida. Estava totalmente
aberta para construir um mundo novo, o mesmo em que, bem pronto, habitaria
meu primeiro filho.
Desde 1962, participava de reuniões políticas de um grupo de estudantes
da Estelita Lins. Marx e Engels eram os nossos mestres; Lenin, o líder maior,
mas foi em Stalin que, naquela época, me descobri.
- Stalin tem o dom de descomplicar o entendimento sobre luta de classes,
professava Mauro, nas tardes de discussão calorosa.
Juarez era sociólogo, conhecia como poucos os problemas brasileiros. Seu
caráter primava pela firmeza, serenidade, garra, total falta de machismo,
praticidade, crença inabalável no homem. Determinado nas colocações de
ordem mais complexas; isso fazia dele um líder ímpar no projeto de um Brasil
novo.
O mundo explodia. A Apollo XI descia na lua, as fotos de Biafra passavam a
frequentar as páginas dos jornais, denunciando a morte, por fome, de milhares
de pessoas. Os Beatles, os Rolling Stones, João Gilberto, Hendrix, Pink Floyd,
transformavam o cenário musical numa revolução de notas, acordes e
comportamento. Os Doces Baianos sacudiam a apatia nacional, os estudantes
deixavam suas carteiras e saiam à rua. Janete Clair construía a fábrica de
sonhos, Barnard, o cirurgião sul-africano, realizava o primeiro transplante do
coração, mas, Che havia sido vilmente assassinado na Bolívia; Martin Luther
King, também.

Juarez fazia parte do exército que vai na frente construindo o futuro.
Durante quatro anos, convivemos com ele. Por quatro anos, pude comprovar
sua honestidade, seu amor sem fronteiras. Com ele, amadureci minhas
convicções de contribuir para um mundo melhor. Um mundo de paz e
solidariedade. Podia-se confiar nele. Eu confiava, sem restrições.
Decisões drásticas, irreversíveis, eu as conhecia de cor. Atravessar o túnel
escuro não constituía uma novidade; havia aprendido que a vontade se
sobrepõe a qualquer obstáculo, que detrás de cada montanha existe um vale
iluminado. Se a rocha nos parece gigantesca, sempre há a possibilidade de
contorná-la: a saída pode estar distante, mas um pouquinho mais e ela está ali.
- Amanhã, o que você acha? Perguntou Juarez.
- Tudo bem. Amanhã na primeira hora da manhã. Fausto viaja para Minas
para ter um álibi.

21
Habitando o tempo

- Combinado.
Sua mão pousou tranquila e forte sobre meus ombros.
- Estarei esperando, sorriu.
Durante toda a madrugada, estive atenta à vida. Tentava conciliar o sono,
precisava descansar. Uma noite mal dormida seria fatal para a paz interior e a
defesa externa.
Passeei pelos campos vangognianos, repletos de girassóis; entrei na
“Tabacaria”, mergulhei em Dante e discuti com Göethe. Entre um cochilo e
outro, trilhões de bolas corriam desenfreada- mente para o horizonte, sendo
tragadas violentamente. Uma delas segurava ferozmente outras duas, numa
luta desesperada para não ser engolida pela bola mestra, que atraía todas para
a linha divisória da imaginação. A medida que as três se aproximavam do final,
a força era cada vez maior. Frear, frear. Mais força, mais força. Numa batalha
feroz, as três bolas estancaram, lado a lado. Juntas, leves, fortes...
Despertei. Amanhecia.
Levantei. Precisava parecer uma inocente elegante. Pintei os olhos com
sombra verde, caprichei no rímel, nos lábios um batom avermelhado, os
cabelos comportados. Vesti a roupa comprada no dia anterior, um delicado
vestido branco de bolas verdes. Adoro tecidos de petit pois. Ficou bem. Muito
bem. Leve, fagueira. Lembrei de Vinícius de Moraes:

“...Ah. que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os


olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente.
Com seu sorriso e suas tramas .Que ela surja, não venha;
Parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e
nos fazer beber
O fel da dúvida...”


Sempre quis um mundo melhor, em todos os sentidos, companheiras
vaidosas, companheiros garbosos.
A liberdade é bonita, cheirosa, fresca, leve, amorosa. A prisão é triste,
fedorenta, obscura, cheia de olheiras. Para lutar por um mundo melhor é
preciso estar bem por dentro e por fora, e estar profundamente apaixonada
pela vida. Assim me sentia linda, linda e, principalmente, poderosa.


22

1969 - Março

“La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.


Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.”
Pablo Neruda10

Peguei a barca para Niterói e surpreendi: entrei ao DEOPS. Como o


combinado cheguei sem ser esperada.
- Por favor, seus documentos.- berrou o sentinela.
- Estão me esperando.
- Quem está esperando a Senhora?.
- O responsável pelo mimeógrafo, que foi apreendido numa casa aqui em
Niterói.
- O quê? - seus olhos arregalaram estupefatos de horror. Que disse? -
gaguejou apavorado.
- Como lhe disse. Não o conheço, nem sei seu nome. Sim sei, que estão me
esperando.
- Um momento. Um momento, por favor.
Segundos depois, estava diante de um delegado.
- Doutor, esta é a senhora do tal mimeógrafo.
Nunca mais lembrei seu nome. Melhor assim; o feio e o mal são para serem
decididamente esquecidos. Todos os nomes, os rostos daqueles senhores,
nunca, jamais serão recordados. Contudo, um único me chamou a atenção; o
major Matt, que não me soou de origem latino-americana.
Alto, loiro, de olhos azuis, fala pausada, como que tentando articular as
palavras com clareza, foi o primeiro a falar.
- Então, a senhora é a do mimeógrafo? Necessitamos de seu depoimento.
- Para isso estou aqui. - respondi com firmeza.
- Por aqui, por favor.
Duas mesas, seis cadeiras, uma velha máquina de escrever, um escrevente
circunspecto, quatro caras frias, sisudas, secas, indiferentes, olhando com
superioridade, por cima dos meus ombros, completavam o cenário. Quantas

10
Pablo Neruda – Poeta - Parral - Chile

23
Habitando o tempo

cenas ficaram gravadas naquelas paredes! De tortura, de pânico, de medo e de


morte. Quanto terror! Meus órgãos tremiam, sentia forte a presença da dor.
Cuidado menina, sussurrava meu coração. Atenção garota, alertavam meus
sentidos.
- Então quer dizer que a senhora vendeu o mimeógrafo? Para quem?
Uma certa satisfação invadiu-me toda; daqui para a frente era só criar uma
bela e estúpida estória. A pergunta veio direta, exatamente como eu esperava.
- Vendi, sim. Estava ocupando muito espaço.
- Tudo bem, mas para quem?
- Não tenho a mínima idéia.
- Não tem idéia?! Então vendeu um enorme mimeógrafo e não tem idéia
pra quem?
- Não. Como posso saber? Acha mesmo que vou me preocupar com quem
compra um mimeógrafo? Só posso acreditar que é porque necessita mais do
que eu.
- Preocupar! A senhora sabe que vendeu para subversivos?
- Subversivos!?
- Sim, comunistas.
- Comunistas onde, no Brasil?
- Claro, no Brasil. A senhora não lê jornal?
- Não. Como posso ler todo o jornal com tantas coisas para fazer. Só tenho
tempo para ler a parte cultural e econômica Bom, e como foi que este
subversivo chegou até a escola? - questionei ingenuamente.
- Isso é o que queremos saber.
- Não acredito. Vocês estão querendo saber como um subversivo chegou
até a minha escola?
- Não. Queremos saber ....
- Ah, sim! - interpelei. Disse para três ou quatro pessoas que desejava
vendê-lo porque ocupava muito espaço. Que não era tão útil como imaginava.
Os mimeógrafos agora são menores e bem melhores. Sabe como são as coisas.
Não tenho muito tempo. No ano passado, tive que fazer cesariana.
Sua mulher fez cesariana? É muito incômodo. Dói e incomoda. Fica
complicado cuidar do bebê. O melhor é parto normal, mas tenho RH negativo e
o bebê teve que trocar o sangue. Ficou mais de quinze dias na maternidade.
Clínica São Clemente, do Dr. Cabral. Vocês conhecem o Dr. Cabral? Horrível!
Bem no natal. Sorte que o médico dele é judeu. Fiquei emocionada com esse
médico. Ele lá, olhando ternamente para o Eduardo, quando cheguei. Difícil

24
Habitando o tempo

encontrar tanta dedicação, principalmente nos dias de hoje.


- Como era o comunista? – interpelou.
- Que comunista? Nunca vi um comunista. São diferentes? Também nunca
vi um extra terrestre, dizem que tem muitos por aí.
Nervoso, o delegado perguntou irritado.
- Quero saber como era o comunista que comprou o mimeógrafo!-
esbravejou.
- O senhor está muito nervoso. Assim não estou acostumada. Sou mãe de
família, tenho meu trabalho, cuido dos meus filhos, do meu marido, dos meus
alunos. Tenho uma vida social intensa. Todas essas coisas que tomam um tempo
inestimável, e o senhor fica nervoso à toa.
- À toa! Necessito da descrição do subversivo e rápido! -
- Subversivo ou comunista? Não conheço nenhum comunista.
- Está bem. Quero saber a cara do homem que comprou o mimeógrafo.
- A cara! Como vou saber? Não prestei atenção. Outro dia vendi um
armário, desses armários horríveis duplex. Assim chamam, duplex, que estava
no quarto de hóspedes. Não gostava do armário, sabe. Vendi e nem sei para
quem. Não vi a cara do comprador. Aliás nem sei se ele pagou pelo armário.
- A cara do comprador do mimeógrafo, viu? Não viu?
- Esse sim. eu vi.
- Como era? Alto, forte, loiro, moreno... Nordestino?
- Nordestino!? Não! - Alto, sim. Era alto.
- Que tamanho?
- Alto.
- Que tamanho? Um metro e oitenta... Um metro e setenta...
- Alto. Maior que eu.
- Qual é a sua altura?
- Acho que um metro e cinquenta e cinco. Ele deve ter mais ou menos um
metro e sessenta e cinco.
- Isto é alto!? Berrou.
- Para mim é... Alto, olhos azuis, como aquele moço. - apontei para o Major
Matt.
- Nome! Nome, por favor. Nome!- sorria orgulhoso da confissão.
- Espera... Não sei. Vocês querem saber muita coisa ao mesmo tempo.
Nome, tamanho, cor de olhos. Vim aqui ajudar a polícia e dizer que vendi o
mimeógrafo, que tenho recibo.
- Ajudar? Até o momento não disse nada útil!

25
Habitando o tempo

- Como nada? Faz mais de uma hora que estou falando sem parar e diz que
não falei nada!?
- E o Liszt? A senhora conhece, não é?
- Claro.
- Ótimo! Ótimo! Chame rápido o coronel, ela conhece o Liszt.
O mau humor presente na sala, deu lugar a uma eufórica alegria. O corre-
corre se estabeleceu num entra e sai de caras curiosas.
Por fim, a informação tanto almejada, Liszt - o pivô de toda a história. Liszt,
o fim da linha de raciocínio. Liszt, fim do mistério. Desmoronamento de um
intrincado cartel de informações.
Sorridentes, amáveis, trocando sorrisos, trouxeram água, para alívio geral
do sistema metabólico. Todo simpatia, o coronel sentou-se à mesa, pronto para
pôr fim a essa busca que ultrapassava mais de cinco meses.
- Cansada? Também estamos bastante cansados. Esses subversivos têm
nos dado muito trabalho. Então, a senhora conhece o Liszt?
- Claro. Gosto muito dele. Há muitos anos. Nunca fomos amigos, isso não.
Mas, conheci sua irmã, no colégio de freiras onde estudava. Uma velha, lúcida,
inteligente, perspicaz.
- Onde ele está?
- Não tenho a mínima ideia.
- Não tem a mínima ideia? Mas, a senhora não disse que o conhece?
- Sim. O senhor não o conhece? Impossível não conhecê-lo.
- Como impossível?
- Realmente, não estou entendendo. Não conhecer o Liszt! Enfim…
- Cale essa boca!!! Onde mora o Liszt? - gritou nervoso.
- Onde mora? Insisto que não sei. Nunca perguntei isso a sua irmã.
- Caralho! Onde está o Liszt?
- Não adianta gritar, pois não sei. Não sei onde ele está enterrado. Não sei!
- Enterrado? - berrou histérico. Desde quando?
- Há uns setenta anos, mais ou menos.
- Levem essa mulher daqui. Agora! Estou ordenando!
- Calma, coronel. Quem sabe ela reconhece alguém pelas fotos.
Ali, diante dos meus olhos, Pedros, Manuéis, Joaquins e Moacyr! Que
horror, Moacyr todo ferido! Que dor! Meu querido companheiro! Quantas vezes,
encontrei-o sentado na varanda, madrugada adentro, cansado, pensativo. E no
dia em que morreu o Che? Como sofremos naquela tarde!
Moacyr, morto! De que mais seriam capazes? Até onde o ódio pela vida iria

26
Habitando o tempo

levar esses homens? Não teriam eles filhos, mãe, amigos?!


Meu coração se desfez em lágrimas, e deu lugar à força maior: o exemplo.
Moacyr morreu lutando pela nossa liberdade. Pelo pão, pelas escolas, pelos
hospitais, pela dignidade, pela paz. Se preciso, eu morreria também.
- Não conheço ninguém, infelizmente. - sussurrei.
- Leve-a! - bradou o delegado - Levem-na para o forte. Quem sabe, lá, ela
reconhece alguém?
- Ela é muito astuta... estúpida, não sei - murmurou indignado, o coronel.
- Vamos rápido! - quase aos berros, ordenou o militar.
- Para onde? Por quê? Vim até aqui pra ajudá-los e vocês me tratam dessa
forma? Que culpa tenho de que o coronel não conheça o Liszt? Ele não é nenhum
desconhecido - continuava insistindo.
- Cale essa boca! Basta de Liszt, entendeu?
Queria sair correndo dali, voltar para casa, ver um tímido pôr de sol. Quiçá
uma estrela. Tocar a mão de um amigo, caminhar pelo Largo do Machado. Ah!
Comer um mil-folhas na Confeitaria Francesa, com Coca- Cola, que, só é
suportável com mil-folhas. Que fome! Quantas horas passaram desde que
cheguei aqui? O aterro do Flamengo ficou maravilhoso. Que feliz idéia de Burle
Marx projetando este enorme jardim. Quero meu pai! Quero ver a carinha do
Marcello. Ouvir a vozinha do Eduardo chamando
- Ah! Pommmbo - a única palavra que ele sabe falar.
Que vontade de pôr o ouvido no chão para sentir a proximidade de um
carro.
- Vamos meninas, escutar de novo!
- Parece que agora é um caminhão…
-Pegue aquela folha outra vez. Aquela que adivinha os sentimentos!
Se a folha ficar preta, o Walter gosta de você; se não, ele fica pra mim...

“Quem sabe, sabe, conhece bem,


como é gostoso gostar de alguém…”11¹⁰

- Caminhando! Caminhando! Vamos logo! Não tenho tempo para perder -


dizia o militar. Vamos entrando no jipe. Depressa, anda!
Tanto tempo passou, está escuro! A estrada é sinuosa, íngreme. Somente o
barulho do mar quebrava o terror da metralhadora apontada para minha
cabeça.
- Não dá para virar para o outro lado? Tenho horror a armas de fogo. Aliás,

11
Carvalhinho - Jota Sandoval - Compositores

27
Habitando o tempo

tenho horror a armas. Faça a gentileza de virar para lá, pedi.


- Está bem. Vire a arma sargento.
- Aonde vamos? Tenho que voltar para casa.
Estacionamos no pátio mal iluminado. Descemos.
- Vamos passar por uma sala onde estão algumas pessoas. Olhe, para ver
se identifica o cara que comprou o mimeógrafo, está bem assim? - ordenou
Como sair dessa, agora? Tenho que ter uma resposta mais que inteligente.
Não posso comprometer ninguém. Ninguém mesmo. Você não sabe quem é
quem. Uma falha, e um inocente será torturado. Calma. Calma, por favor.
- Vamos entra. Temos pressa, ordenou.
Oito homens sentados no refeitório, de olhares assustados, invadiram meu
pâncreas, pisaram meu fígado, correram pelas minhas artérias, chegaram
juntos ao meu coração.
Entrei ávida de justiça. Olhei bem no fundo de seus olhos e quase aos gritos
respondi.
- NÃO FOI NENHUM DESSES AÍ!!!
Um forte empurrão nas costas me fez tropeçar nos degraus.
- Não era para dizer nada! - esbravejou o delegado - Senta aí, anda!
A figura de Moacyr passeava pela minha memória:
- Você chegou tão tarde, Fausto. -Algum problema?
- Um companheiro faltou ao ponto. Estou preocupado. Vou até o aparelho
onde está o Moacyr.
- O Eduardo está com dor de ouvido. Temos que levá-lo ao médico.
Uma voz irada tirou-me das lembranças que passeavam trôpegas pelo
inconsciente.
- Nada feito! - gritava pelo telefone. - Nada feito! Não acredito nesta mulher!
Pode ser... - completava a conversação - Ok!... Ok! Entendido.
Na penumbra silenciosa da sala ouvi o mar. Que lugar era aquele, onde tudo
o que se ouvia era o mar? Esse mesmo mar que amo desde a infância, única
testemunha do meu ódio. Só o ruído do mar, o mesmo que compartiu estórias
contadas nos últimos anos, que lágrimas de amor levou nas suas ondas, e frases
de amor carregou para paragens distantes e segredos envolveu na sua espuma.
Podia vislumbrá-lo azul, furioso tomando o invadido. Era nítida sua fúria contra
as pedras.
Que lugar era este, onde o mar lutava para recuperar sua liberdade? Duas
forças gigantes lutando contra a invasão - a rocha e o mar. Era noite, podia tão
somente sentí-los.

28
Habitando o tempo

O tempo não existe; o pensamento faz o tempo. Meu pensamento não sabia
do tempo, sabia do mar, da pedra, dos olhares assustados dos homens sentados
no refeitório. Sabia do Liszt, do Juarez, dos meninos, dos sonhos, do assassinato
do Moacyr, das tímidas alegrias, da presente tristeza.
- Vamos andando! Vamos, vamos! - vociferou o delegado. Não quero sair
tão tarde do Forte.
Ah! Niterói.. Descobri onde estou. Forte de Santa Cruz. É em cima da
rocha... Sim é o Forte.
Sem titubear, entrei no jipe para um largo caminho de volta. Na barca Rio
- Niterói senti o cheiro da madrugada. Dois ou três passageiros compartilhavam
da minha liberdade. O Rio de Janeiro se acercava sonolento, deslumbrante no
seu vestido de estrelas. Poderia abrir os braços, que alcançaria enlaçá-lo e me
perder numa longa declaração de amor. O cheiro de peixe, o vaivém dos
pescadores, dos amantes de um Cherne fresquinho, comprado bem ali, na Praça
Quinze.
Veloz, entrei num táxi rumo a Copa. Na Barata Ribeiro, esquina com Santa
Clara, desci. No Mercadinho Azul, tomei um cafezinho. Caminhei em direção à
praia, retornei do meio da quadra. Peguei o táxi da madrugada, com direção à
praça José de Alencar.
De pé, olhando a igreja metodista, ali plantada há tantos anos estava,
Juarez. Abraçou-me silenciosamente, forte.
No bar Lamas, decidimos que regressaríamos a casa. Supostamente, o
pesadelo havia passado. Primeiro, buscar as crianças, depois retomar o
trabalho, o contato com os velhos amigos, aquela peça que ficara para a semana
seguinte, um cineminha no Paissandu, e porque não pegar uma praia, já que as
chuvas de março haviam dado uma trégua ao sol?
- Sucesso total! - festejava Fausto. Você botou a Fernanda Montenegro no
chinelo!
- Vamos a casa da sua irmã, primeiro - falei. Não estou convencida de que
eles acreditaram naquela história.
- Claro que acreditaram. É preciso que tenham acreditado - sorriu Juarez.
- Não sei... Melhor verificar. Não vou passar por esse susto de novo. Não
vou, não!
- Tá bem. - concordou Fausto. Vamos até lá, pela manhã.
- Tudo certo. Testamos hoje. Amanhã retornamos a nossa casa e você volta
ao trabalho. Imagina o quanto o Ministro Jarbas Passarinho deve estar sentindo
sua falta.

29
Habitando o tempo

-Nem quero pensar...


“Qué espanto causa el rostro del fascismo! Llevan a cabo


sus planes con precisión artera Sin importarles nada.
La sangre para ellos son medallas. La matanza es acto de heroísmo.
¿Es este el mundo que creaste, dios mío?
¿Para esto tus siete días de asombro y trabajo?”
Victor Jara12

12
Vitor Jara – Compositor e Cantor Chileno. Assassinado no Estádio Nacional.
Esta foi a última canção, feita no Estádio.

30

1969 - Março

Confía en el tiempo, que suele dar dulces salidas a muchas amargas
dificultades.
Dom Quixote de la Mancha13

Cruzamos o hall do 136, da rua das Laranjeiras, sem pressa. O elevador


parou tranqüilamente no oitavo andar. Abri a porta. Inesperadamente, um som
gutural invadiu meus sentidos.
- Abra essa porta. Viemos aqui para prendê-los!
- Prender quem? - balbuciou Darcy.
- Não se faça de tola!
- Eles não estão aqui. Faz dias que não os vejo.
- Não me faça usar a força. Deixe-nos passar, determinou.
Já fora do elevador podia vê-los de costas. Darcy, atônita, olhava
desesperada.
- A senhora não tem nada a temer. Temos ordem para prendê-los.
- Sim senhor... sim senhor. Entre. Pelo vão da porta entreaberta, seus olhos
pediam suplicantes: Suma, por favor! Suma!!!
Até hoje bendigo o engenheiro que projetou a escada exatamente em
frente à porta do elevador. Uma trampa saudável do destino.
Fausto ficara no elevador.
Lentamente, comecei a descer cada degrau.
Minhas pernas necessitavam de comando para executar sua tarefa, de
caminhar, de sustentar toda a massa muscular, órgãos, artérias, tecidos. Urgia
uma saída.
Abri a bolsa. Retirei um lenço de cor laranja. Cobri os cabelos. Um óculos
escuros completou o personagem. Discreta como havia entrado, atravessei a
portaria, nesse momento ocupada por disfarçados moradores.
Durante anos, vivi cada personagem do edifício. Se não os conhecia na
intimidade, para muitos deles criei uma história. O General do terceiro andar,
solitário, vivia sozinho com sua empregada. Era adorador incondicional da

13
Miguel Cervantes – Escritor espanhol

31
Habitando o tempo

ditadura, defendia veementemente suas mudanças e arbitrariedades. Sempre


me chamava ao telefone, toda vez que um desinformado namorado tentava me
localizar. Tentava esquivar-me de seus papos, mas era inevitável que ele me
pegasse para uma conversa. Sequer podia imaginar que eu era radicalmente
contra sua posição política.
E, D. Renée, a velha dama indigna, que nos acompanhava há tantos e
divertidos bailes participando de nossos amores.- Quantos beijos roubados
hoje? – indagava, entrada a madrugada. Todas nós mortas de sono. Ela super
disposta a continuar noite adentro. Linda, ternamente linda, D. Renée, separada
do marido diplomata, vivia com a filha e mimava a única neta, uma bonita
adolescente, sósia da Sofia Loren.
Tantos outros personagens que transitavam naquele hall e na minha
imaginação, nenhum deles ali presente. Reconheci em cada face um algoz, em
cada olhar uma busca.
Sufocando as batidas aceleradas do meu forte coração, fui cruzando o hall
de entrada imenso, interminável, frio, desconhecido.
Fausto havia evaporado.
Alcancei a portaria onde o Seu Adiel vivia parte de seus dias, sempre
sorridente. Agora pálido e assustado.
O velho porteiro Adiel, conhecedor dos primeiros amores, das fugas para o
beijo escondido, da mentira piedosa para o namorado machista, que ficaria para
sempre perdido na história. Do primeiro porre, do socorro às vítimas dos
primeiros desmoronamentos das chuvas de 66.
Outros desmoronamentos, como o do edifício da rua General Glicério, que
fora construído com areia, segundo constataram os engenheiros, viriam e os
responsáveis ficariam sempre impunes, como mais tarde, os do edifício Palace
II.
Nosso antigo porteiro, discreto espectador dos primeiros discursos sobre
a liberdade. Dos caminhões de lixo, colocados estrategicamente na Rua das
Laranjeiras, como divisor de águas: de um lado os de direita, liderados pelo
falso profeta Carlos Lacerda, vestido de jaqueta de couro e jeans, amado e
idolatrado pelas famosas mal amadas. De outro lado, os ávidos de justiça e
liberdade: os defensores do Governo de João Goulart. Da triste passagem dos
tanques de 1964 em direção ao Palácio Guanabara, esmagando nossas ilusões.
Das lágrimas com sabor de perda irreparável, ao saber da saída de Jango.
Seu Adiel, testemunha silenciosa da morte do menino eletrocutado no
pequeno lago que servia de adorno à entrada do prédio, crime de um síndico

32
Habitando o tempo

ensandecido, ceifador das travessuras infantis. Conhecedor da presença furtiva


de rapazes saídos sabe-se lá de onde na calada da noite. Seu Adiel balançou a
cabeça num não patético, impotente, generoso, como relembrando tantas
histórias ao me ver passar e me perder na rua
- Táxi! Táxi!
- Rua do Catete, por favor balbuciei sufocada. - Para onde ir? Que direção
tomar!?
-Para onde vamos, senhora?
-Como?
-Para onde? - insistiu o motorista.
-Rua da Glória.
O que iria eu fazer na Rua da Glória? Sei lá. Saiu sem querer. Tinha que
manter a calma. Respirar fundo. Pensar. Pensar em quê? Precisava de tempo
para refletir.
Sentei no meio do assento traseiro. Pelo retrovisor vigiava a rua para
certificar-me de que eles não me haviam seguido.
A Rua do Catete estava lenta. Era hora da saída da faculdade. Estudantes
de Direito da velha e famosa escola saíam às ruas. Transeuntes secularmente
despreocupados, insistem em cruzar diante do carro, impedindo a passagem.
Eu tinha pressa. Muita pressa. Pressa do nada. De chegar a lugar nenhum.
O Palácio do Catete, transformado em museu, palco de tantas decisões, de
histórias de ódio, de traição, de amor, de frustrações e de morte, passava
majestoso. Ultrapassamos o Império e constituímos uma República sem
cidadania. Getúlio Vargas fora uma fugaz esperança. Juscelino levou a capital
para Brasília e vestiu a aridez do planalto central com uma moderníssima obra
arquitetônica.
Que fazer da minha crença de liberdade, de um mundo mais justo, sem
analfabetos, apinhado de gente feliz e saudável? Onde jogar tantos sonhos?!
O colégio Santo Antônio Maria Zacarias continua igual. Tantas lições de
análise para alunos ávidos de universidade. O relógio da Glória, o Monumento
aos Pracinhas lá longe. A praia do Russel.
Pelo retrovisor pude vê-lo se aproximando, cortando o táxi, estacionando
no meio fio. Lá está ele no fusca cor de caramelo: Carlos. Incrível acreditar, a
primeira de tantas aparições no momento exato em que tudo parecia perdido.
- Encoste aqui, por favor. Obrigado.
Desci apressadamente calma. Caminhei em direção ao carro estacionado,
entrei explodindo em lágrimas e abracei aquele mineiro. Uai!

33
Habitando o tempo

Assim ficamos. Não sei por quanto tempo. O suficiente para saber que
chegara a hora de entrar na luta definitivamente.
De novo, Copacabana presenciou, silenciosa, as horas que se seguiram de
definição. Planejar um destino. Juarez era o mediador perfeito, equilibrado,
humano, solidário, irrepreensivelmente íntegro; foi pausadamente analisando
todas as etapas: da nossa saída de casa, ao dia atual.
Por que será que foram te prender? - perguntou Juarez.
- Imagina, não faço a menor idéia. Vamos tentar averiguar com a família
do Fausto.
- Totalmente ilógico - completou Fausto.
Dias mais tarde, soubemos que o dono da loja, onde havíamos
comprado o tal mimeógrafo, tinha deposto na manhã seguinte, reconhecendo o
Moacyr, numa das fotos da polícia.
Naquela noite ficou decidido que não tínhamos outra saída, que não a
clandestinidade.
Na escuridão da noite, nas águas de março, deixei mergulhar minha falsa
liberdade.
Incerteza, medo, fuga diária, espanto, amizade, solidariedade,
comprometimento, certezas, todas atropeladas na consciência.
Estava preparada. Um novo destino, pensei.

Copacabana amanhecia.
Copacabana princesinha do mar
Pelas manhãs tu és a vida a cantar
E, a tardinha ao sol poente
Deixa sempre uma saudade na gente.. 14

14
Dorival Caymmi – Compositor e Interprete da Bahia.

34

1969 - Abril

“A sorte me acompanha, tenho


corpo fechado à inveja, a intriga
não me amarra os pés, sou imune ao mau-olhado.”
Jorge Amado15


- Primeiro entram vocês, depois vou eu.
- Nós três num motel, Carlos?
- Claro, onde você quer que eu durma? Aqui fora, com certeza, está cheio
de mosquitos, e, além do mais, estou exausto, estou há dois dias, praticamente,
sem dormir. O moralismo fica para depois que acordarmos, tá bem? - sorriu.
Nenhuma palavra a mais consegui registrar.
Acordamos na avançada madrugada, ainda fatigados pela tensão do dia
anterior. Preparamo-nos rapidamente. Carlos saiu às escondidas, regressou à
portaria pedindo que nos despertassem.
Naquele dia, andamos a esmo, em busca de uma alternativa urgente de
moradia para os próximos dias. Indispensável buscar Marcello e Eduardo. O
lugar onde se encontravam não oferecia condições de segurança.
Passei todo o dia muito triste, beirando a depressão. Não tinha para onde
ir. Que fazer? Qual direção tomar? O que significava, realmente,
clandestinidade?
Não ver os amigos. Tudo bem, estava descartado. Esconder-se entre
perucas... Óculos? Como são incômodos! Dois vidros presos por pernas nas
duas orelhas, descansando, inescrupulosos, sobre o septo nasal. Quando não se
tem visão, uma benção. Quando para compor um personagem um desastre…
O quê é, de fato, a clandestinidade? Como vivê-la? Como os cristãos na
antiga Roma? Esperar dois mil anos pela tradução dos afrescos das
catacumbas?

Clandestinidade é a expressão mais sofrida e iluminada nesta história. É o

15
Jorge Amado – escritor Baiano

35
Habitando o tempo

obscuro. A noite em plena luz do dia. É estar na multidão tentando se confundir


dentro dela. São as estradas sinuosas da minha pátria gentil. São vozes
sussurradas no burburinho das ruas. É o medo do nada. Mas é, também, o
despertar pleno da coragem. É o nascimento. É seguir em frente, sem temores.
É ir em busca do encontro definitivo com a liberdade.
A noite adiantara seus passos, quando decidimos visitar as crianças. Fazia
um bem danado olhá-los dormindo. Beijá-los, calidamente para não despertá-
los. Fazer as mamadeiras. Deixá-las prontas. Regressar quando as últimas
estrelas corriam apressadas para dar passagem à alvorada.
Tantas noites percorremos, incansáveis, as estradas que levam a Minas
Gerais. Tantas madrugadas, regressamos, apressados, para o mar.


Naqueles dias, nos transportamos para Sepetiba. Falar alto nem pensar, até
o cochicho poderia ser ouvido naquele quarto minúsculo, com janela e
basculante do banheiro virados para o corredor.
Estava sozinha, como em dias anteriores, quando começaram as dores
abdominais. Cada vez mais fortes. Cada vez mais contantes.
À noite, reclamei que quase não podia caminhar. Havia ido até o mar e
regressara desesperada.
- Não há de ser nada, devem ser apenas gases, você quase não tem comido
- comentou Fausto.
- Não estou comendo por causa das dores. Tenho ânsias de vômito.
- Amanhã vamos ao médico. Fique tranquila.
Pela manhã fomos ao ginecologista. Qual não foi meu espanto! Jorge
Portugal, um velho flerte dos tempos da faculdade. Não podia ser reconhecida!
Felizmente passei despercebida na sua vida.
- Tenho as trompas ligadas.
- Flatulência. Com este remédio, tudo resolvido. As dores vão ceder aos
poucos. Amanhã você nem se lembra mais delas.
Esperançosa, tomei o famoso Espasmo Silidron. Tentei dormir. Em vão. As
dores aumentavam a cada minuto.
- Necessito de um médico, Fausto.
- Para que outro médico, se sabemos que são gases? Esse nervosismo
atrapalha. Tente se acalmar que a dor passa.
Outra noite desvelada. Na manhã seguinte, não podia sair do quarto. As
cólicas eram insuportáveis. São gases, tento convencer a mim mesma. Melhor

36
Habitando o tempo

que eu caminhe até a praia e respire ar puro. Quem sabe, caminhar? Caminhar
sempre faz bem. Regresso ao hotel, quase à beira de um desmaio. É impossível
seguir caminhando…
- Precisa de ajuda? Sente-se mal?- perguntou o gerente.
- Sim, mas vai passar.
Esperei durante todo o dia. Fausto regressou do Rio, entrada a madrugada.
Um médico pelo amor de Deus! - pedia chorando. Não suporto mais esta
dor! Leve-me para um hospital!
Entrei pela manhã numa clínica em Campo Grande. No final da tarde,
diagnosticaram:
- Gravidez tubária. - informou o médico de plantão.
- Tenho as trompas ligadas!
- Algumas vezes acontece - explicou o plantonista.
Às pressas, em choque, dei entrada na unidade cirúrgica.
Quando despertei, Juarez, Fausto e Carlos sorriram felizes.


De pé, Maria Auxiliadora, estudante de medicina, chegada naquele dia de
Belo Horizonte, olhava curiosa. Entrara também na clandestinidade. Sua
primeira tarefa: acompanhar-me no hospital.
Auxiliadora, inquieta, perdidamente apaixonada por um companheiro,
andava por todos os recantos da clínica na ânsia, de quem sabe, encontrá-lo.
- Olha as fotos da Manchete! - folheava a revista, banhada em sangue
vietnamita.
Guerra por todas as partes. As imagens estampadas nas revistas eram
apavorantes. Difícil conter a tristeza. Estavam massacrando o Vietnã.
Modernamente equipados, os boinas verdes queimavam vilas inteiras,
estupravam mulheres, assassinavam crianças, retirando-as ainda vivas do
ventre materno, a golpes de baionetas. Espreitando entre os arrozais, lutando
bravamente, os vietnamitas iam ganhando terreno. Chorava, olhando a
barbárie desencadeada sobre o povo vietnamita. E os mortos pela fome em
Biafra! Aterrorizava olhar o mundo, acuada em uma cama de um hospital.
Da ruptura da trompa, estava salva.
Como salvar do sofrimento milhões de crianças morrendo de fome? Como
transformar o mundo, para que essas cenas hediondas não viessem a ser vistas
pelos meus filhos? Pior ainda, pelos filhos dos meus filhos? Como diminuir as
injustiças sociais?

37
Habitando o tempo

- Ouvi pelo rádio, quando estava no refeitório, que haviam assaltado o


banco Andrade Arnold. Foi agora mesmo, no centro do Rio - despertou-me das
minhas divagações, Auxiliadora. Foram eles, não foi? – pedia-me a confirmação.
- Não sei…
- Claro que você sabe. Conte para mim. Pensa que não vi os lenços
quadriculados?
- Deixa de bobagem. Fique quieta.- pedi com firmeza.
- Você não quer falar, tudo bem. Sei que não estou enganada.
Ao cair da noite, chegaram os três, sorridentes e felizes.
- Poderemos, enfim, sair do hospital sem mais problemas - falou Juarez.
Maria Auxiliadora partiu naquela mesma noite. Meses mais tarde, soube da
coragem de uma jovem, enfrentando a polícia, numa casa invadida no Méier .
Anos mais tarde, soube de seu suicídio no metrô na Alemanha. A tortura e
o exílio foram mais fortes do que o amor. Pelo menos, ela viveu a tempo de ver
o Vietnã sair vitorioso da guerra - pensei, relembrando sua cara apaixonada.
-Deixaremos o hospital bem cedo, o mais rápido possível. Esquentamos
demais o lugar.- alegou Juarez.
- Como são esburacadas as ruas desta cidade. Tudo dói! - reclamei.
- Aguenta mais um pouco - pediu Carlos. Vamos passar por São Cristóvão,
deixar estas armas e daí para Copacabana.
- Outra vez Copacabana? Não aguento mais Copacabana!..
- Você adora Copacabana! Sempre fala que é linda, a mais linda do mundo
e agora não quer? - brincou Carlos.
O companheiro aguardava ansioso, preocupado com a demora, quando,
por fim, chegamos ao aparelho. Descarregaram as metralhadoras. Seguimos
para a zona sul.
Fazia dias que não sentia nenhuma indisposição, mas agora essa dor no
ventre, e a sensação de umidade beiravam o insuportável.
- Carlos, alguma coisa está errada comigo.
- Um pouquinho mais e chegamos.
- Sempre um pouquinho mais... Por que você decidiu deixar aquelas
armas logo agora, que estou saindo do hospital?
- Ora bolas, porque não pude antes. A situação está preta. Você não viu?
Muita gente chegando. O Brasil está ficando em polvorosa, o movimento está
crescendo em todo o país. E a ditadura perdida buscando o fio da meada. Você
tem que ficar boa logo, precisamos também da sua cooperação.
- Onde a gente vai se esconder?

38
Habitando o tempo

- Num aparelho na avenida Copacabana. Não é lá grande coisa, mas como é


provisório...
- E os meninos? Quando vou buscá-los?
- Breve. Passada a recuperação. Também acho que Minas não é o ideal.
Aquela vila é muito pequena. Muitos curiosos. Seguramente, nos viram chegar
e sair pela madrugada, apesar dos cuidados: faróis desligados, o mais
lentamente possível, para afogar o barulho do motor... mas, como dizem os
antigos, seguro morreu de velho.
- Um lugar definitivo, assim espero. – ansiava Carlos.
- Carlos, pare de falar! A dor está aumentando. A saia está toda molhada!
- Deve ser alguma sensação por causa do tempo, dentro deste carro.
Entrei procurando o banheiro, queria urinar. Mais de três horas metida
naquela Kombi! Onde fora parar meu fusca, tão lindo!?
- Uma surpresa! - chamou Fausto esbanjando alegria.
Da janela pude ver um VW, tinindo de novo, bem diante dos meus olhos.
- Para você.
Nem dois minutos haviam passado e Carlos já pedia a chave emprestada.
- Pra pegar umas coisinhas. - alegou.
Voltou, finda a tarde, arisco, com jeito de quem fez travessura querendo e
não querendo explicar.
- Ora bolas. Diga logo o que passou, fui dizendo.
- Bateu com o carro?
-Não.
-Então, o quê?
-É... Fui levar um material... melhor... veja você mesmo!
Um enorme buraco no forro do teto. Nem uma voltinha no quarteirão, e
meu fusquinha havia sido batizado com um vil buraco. Por que me lembro
agora do Volkswagen? Tenho a roupa encharcada de sangue. Dói muito.
- Carlos, veja meu estado. Sangue por todos os lados! Me acode! Anda!
- Vamos remover a faixa devagarinho, sem pressa.
- Não toque.
- Que é isto?
- Ai, ai, ai... estou com o intestino para fora! Estou com a barriga aberta! Ai
ai...
- Calma! Por favor. Calma! - olhava apavorado.
- Calma é o caralho! - gritei. Como resolvo isto agora?
- Espera. Deixa eu ver.

39
Habitando o tempo

- Cale a boca! Cale a boca!


- Vou buscar um médico. Fique deitada, quietinha. Volto rápido.
Numa poltrona desconhecida, num minúsculo apê de Copacabana, ouvindo
o barulho enfurecido de carros, dos que voltam para casa exauridos, depois de
mais um dia de trabalho, muitos sem esperança, sem presente, outros cheios de
crença no futuro, uns felizes, uns tristes. Todos, infinitamente todos,
desconhecendo a minha dor. E se o Carlos não volta?... Será que alguém sabe
que estou aqui? Onde está o Fausto? Carlos disse que ele teve um compromisso
inadiável. O Juarez? Há muito não via ninguém, nem Rodolfo, nem o Lara. Desde
a ida para Sepetiba, meu contato era somente com os três. Ouço um ruído de
chaves. Vozes.
Entram apressados.
- Este é o Ivan. Ele é médico... companheiro, sabe? Vai resolver o seu
problema.
- Hum... Vamos suturar aqui mesmo. Não tenho outro remédio. Não
podemos levá-la a um hospital. - explicou Ivan.
- Segure a minha mão, não conseguimos anestesia.- comentou Carlos.
- Sem anestesia?
- É. Você aguenta. Precisa aguentar! Segure a minha mão. - pediu Carlos.
Vamos, segure. Fique calma. Não grite. Lembre, ninguém pode ouvir, tá bem?
- Tá bem, murmurei esgotada.
Viajei na dor. Só me dei conta quando passei a mão pela fronte e meu suor
era de sangue.

As mãos do Carlos sangravam. Nem um ai. Nem um lamento havia saído
dos seus lábios. Debruçou sua cabeça sobre a minha e soluçamos em silêncio.
O pior havia passado.
Antibióticos e curativos foram a tônica dos dias que se seguiram. Juarez,
Carlos e Fausto se revezavam, fazendo-me companhia. Já não podia, nas
madrugadas, enfrentar as estradas. Chegar furtivamente a Angustura, a
Macondo mineira, que guardava cuidadosamente o meu “Elemento 74” (
Tungstênio, apodo carinhoso dado a Marcello) e o meu Alemãozinho (apelido
para o Edu, um anjo louro caído de algum asteróide). Dor e saudade se
mesclavam num todo agonizante, dilacerando os sonhos do futuro próximo.
O inesperado se encarregaria de mudar os nossos projetos. Caberia a mim
escolher um novo desvio.
Este coro diante das Lojas Americanas é insuportável. Desde a manhã, até

40
Habitando o tempo

a noite, crianças perfiladas entoavam canções religiosas, estourando meus


tímpanos. Suas caras tristonhas e famintas me revoltavam. Que triste, meu país!
Quanta miséria de pão, de alma, de sentimentos.
A situação de Marcello e Eduardo estava ficando difícil.
- Vocês podem ter sido seguidos! - alertou minha irmã.
- O farmacêutico andava perguntando demais... “Por que estas crianças
estão aqui? Por que os pais não vêm buscá-las? Sabemos que a mãe delas vem
pela madrugada.
Definitivamente, era hora de buscá-los.
- Temos que tirar as crianças de Angustura, imediatamente! -pressionei.
- Se forem presas, todos nós teremos que nos entregar - concordou Juarez.
- Pensaram nisso? Pode significar uma irreparável perda para a
organização!- concluí.
Contatamos Fábio, nosso cunhado. Coube a ele a difícil tarefa de ir a Minas
pegar os meninos.
No sábado, às 15h, em frente da embaixada americana, no local mais
seguro da cidade, Fábio, corajosamente nos entregou Marcello e Eduardo.
Felizes, risonhos, chegamos ao minúsculo aparelho. Trinta e tantos dias de
ausência, de medo de perdê-los, de pânico de que fossem presos. Agora sim, se
tudo desse errado não importava, estávamos juntos de novo.
Nos dias que se seguiram tentamos novas soluções. Ir a Cuba era uma saída
plausível.
- Vamos criar condições para a viagem. - planejou Juarez. Um sequestro,
por exemplo.
- Agora não dá mais para sair legalmente do país. Vamos avaliar todas as
condições. Uns dois ou três meses, isto se não encontrarmos outra saída.-
finalizou Fausto.
- Temos novas perspectivas. Novos companheiros estão ingressando na
organização. É provável que você fique por aqui mesmo - considerou Juarez.
De novo, a avassaladora angústia. Um aviso. Uma premonição.
- Não posso continuar aqui. Nem um minuto mais.
- O que é isso? Não tenho para onde levá-la! - disparou Carlos
- Aqui, eu não fico. De jeito nenhum. Inventa um lugar. Qualquer coisa, por
favor!
- Vou inventar. Vou sair e retorno num minuto.
Levantou, bateu a porta apressado. Chegou, quase finda a tarde, brincalhão
como sempre.

41
Habitando o tempo

- Encontrei uma casa em Itaipava, acertei o aluguel com a proprietária.


Iremos para lá ainda hoje! – participou-nos, contente.


Era noite, quando a polícia invadiu o aparelho em Copacabana, e as
crianças dormiam angelicalmente na pacata cidade aos pés das Agulhas
Negras. Salvos, mais uma vez.

Acuérdate de mí, no me abandones tan solo, que este abril


me desespera no olvides que el amor vuela de noche y anida en otro
abril cualquiera.
Amaury Perez16

16
Amaury Perez – compositor e interprete de Cuba

42

1969 – Maio
Itatiaia - RJ

“De nossas vulnerabilidades vem nossa força…”
Sigmund Freud17

Em alguns dias que se seguiram, Carlos, às vezes, aparecia na madrugada .


A maioria dos outros dias, passávamos sozinhos. A cicatriz sarava aos poucos.
O peso dos meninos dificultava a cicatrização. Vivia assustada. Ora despertada
na madrugada pelos treinamentos dos militares das Agulhas Negras, ora
questionada pela proprietária que se encantara com o temperamento
quixotesco de Carlos.
- Por que ele deixa vocês sozinhos tanto tempo? - perguntava diariamente.
- Ora, não foi possível desvincular totalmente do trabalho. desculpava-me.
A presença cotidiana dessa senhora, dificultava nossa temporada na serra.
A casa era apenas para veraneio, mas todos os dias ela aparecia. Hospedava-se
na cabana que possuía, do outro lado da rua, e vinha, a todo momento, vasculhar
a nossa vida.
- Estamos em apuros. - comentei numa das noites em que vieram nos
visitar. A ausência de vocês é suspeita. Esgotaram-se as desculpas. Melhor
regressarmos ao Rio e lá decidirmos o que fazer. - adiantei.
No domingo, todos participaram da comemoração do Dia das Mães:
proprietários, caseiros e filhos. Após o almoço, Fausto regressou ao Rio, de
ônibus. Carlos ficou, para levar-nos na segunda-feira.

O ranger de trilhos nos despertou curiosos.
- Fausto? Bonde, a uma hora dessas? Vou abrir a janela!
- Não! Estamos num quarto de frente para a rua.
- Quê!? O que é isso de não poder abrir a janela? Que barbaridade é essa?
- Deixe a janela fechada; você esqueceu?
- Os quartos que dão para o pátio estavam ocupados?

17
Sigmund Freud – Psicanalista – Pai da Psicanálise

43
Habitando o tempo

- Nem todos, mas estes são mais seguros. Os do interior dão para a varanda.
Aqui podemos conversar melhor e as crianças ficam mais à vontade.
- À vontade, com a janela fechada!? Ah! Vou sair, fazer as mamadeiras,
saber do café da manhã...
Não posso acreditar, sem a possibilidade de olhar a rua. Logo em Santa
Teresa que é linda, cálida, charmosa, musical, mas num hotel ao nível da
calçada, de frente para a rua.
A manhã estava esplendorosa. Lá embaixo, a cidade se espreguiçava com
os primeiros roncos dos canos de descarga, com o frear dos ônibus, despejando
operários apressados a caminho de mais um dia de trabalho.
Lá estava impávida, a Central do Brasil, com seu relógio delimitando as
horas.
- General, seu café está servido. - chamou a copeira.
General? Ouvi bem? Isto é uma alucinação! Estou louca, sem dúvida. Um
general! No pequeno hotel, na minha frente!? Só mesmo no Rio de Janeiro. Só
mesmo na fantástica América latina. Há tantos dias, fugindo incessantemente
deles... Que ironia, diante dos meus olhos, quase me tocando, um General.
- Bom dia! – sorri.
- Bom dia. Linda manhã esta! - respondeu alegremente.
Após o almoço, Carlos e Juarez passaram para ver como estávamos.
Conversamos longamente sobre os próximos dias.
- Paciência. Aos poucos vamos encontrando a solução - proferiu Juarez.
- Precisamos definir qualquer coisa, estou beirando a loucura. Ficar parada
não é do meu feitio; daqui a pouco serão três meses sem fazer nada! De lá para
cá, daqui pra lá. Sem perspectiva de saída desta vida. Qualquer coisa é melhor
que nada. Como andará a escola?
- Por ora, esqueça a escola, o trabalho. Tem gente demais entrando na
clandestinidade. Cautela, equilíbrio e paciência - interferiu Juarez, sempre
terno, centrado, administrando o caos. Aos poucos estamos ficando mais fortes,
daqui para a frente ganharemos terreno. Estamos nos consolidando. Breve,
você verá que valeu a pena.
- Eu não quero ficar aqui. Este lugar é muito estranho e me parece muito
perigoso. Aqui vivem aposentados de classe média alta, tem até general!
- Se você quiser, pode ir para Belo Horizonte, ficar com a Maura - ofereceu
Carlos. Ela conhece vocês. Além do mais, sabe da minha situação. É uma saída,
antes da ida para o sul de São Paulo.
- E o sequestro? Cuba ?

44
Habitando o tempo

- Não gosto hoje dessa alternativa. A Ilha é muito definitiva. Você pode ser
muito útil na organização, aqui mesmo - asseverou Juarez.
- E os meninos?
- O lugar para onde pensamos levar vocês tem uma boa infra-estrutura,
tanto para as crianças, quanto para você, que vai executar uma missão especial.
Quinta-feira teremos uma ação importante. Necessitamos do Luís aqui. Podem
viajar na Sexta. Ia me esquecendo... Lembre-se, não pode mais chamá-lo de
Fausto – recomendou, sorrindo.
- De hoje a sexta... 4 dias - concordei.

Na quarta-feira, amanheci aflita. De novo aquela estúpida angústia. Luís
saiu cedo. Carlos chegou à tarde.
Sentados no jardim, olhando a Central, disparei:
- Quero ir embora hoje.
- Hoje?
- Nem mais um dia.
- Não combinamos que seria na sexta-feira?
- Combinamos, mas eu quero hoje.
- Você vai viajar sozinha?
- Vou.
- Bem, temos que ver se há passagens, as coisas não são assim.
- Vá até a Central e verifique. Tem que ser hoje! – cochichei, quase aos
gritos.
Pouco tempo depois, retornava com os bilhetes.
- Tudo bem, você viaja hoje.
Arrumei rapidamente as poucas coisas que nos restavam daqueles últimos
meses. O certo é que não estava feliz. Interiormente, sabia que estava agindo da
maneira mais correta. Uma força me lançava para a frente, apesar do medo, da
insegurança, da angústia do desconhecido.
Chegamos à estação em cima da hora. Tudo que nos tocava fazer, daqui
para adiante seria assim: em cima da hora. Marcello começou a chorar quando
entramos no vagão. Com a cara banhada em lágrimas, colada ao vidro, víamos
ficar para trás todo o nosso passado: os laços que me ligavam a Luís, minha
família, amigos. Só me restavam: Cell, Edu e o incógnito.
Na plataforma, Luís e Carlos disfarçando as lágrimas, viram o trem se
afastando devagarinho, enquanto partíamos, corajosamente, rumo à incerteza.
Apesar dos seus apenas dois aninhos, muitos anos passaram para que Marcello

45
Habitando o tempo

assimilasse aquela despedida.

“Abrindo um antigo caderno foi que eu descobri: Antigamente eu era


eterno.”
Paulo Leminski18

18
Paulo Leminsk – Poeta Curitibano - Paraná

46

1969 – Maio
Belo Horizonte - MG

Para todos os males, a amizade é o melhor remédio.


José Martí19

A manhã de sol morno, timidamente cinzenta, recebeu-nos desconfiada.


Tomei um táxi e, pouco depois, estava diante de uma família como poucas:
solidária, transbordante de ternura, mineiramente discreta e, sobretudo, amiga.
Nenhuma indagação, nenhum questionamento. Carlos e Luís chegam sexta-
feira, foi a única explicação.
O melhor quarto. Um montão de flores, banhos, chás, leite, bolos de fubá,
um corre - corre de atenções ilimitadas.
Assim é Maura, uma mãezona forte, centrada, decidida, sofrida, muito
sofrida, mas pronta para qualquer intempérie. Uma varredora de tristezas.
Fora a minha angústia, acocorada no lado esquerdo do meu ser, escondida
de todos e de tudo, o dia transcorreu tranquilo.
Enquanto fazia as famosas mamadeiras de leite em pó, o qual
nervosamente se embolava, se a água não estivesse morna, todos souberam da
notícia, dada com muito ênfase no Jornal Nacional.
Menos eu.
Maura chegou à cozinha, controlando o choro, abraçou-me forte e se
debulhou em lágrimas.
- Não chore Maura, você vai se acostumar à falta dele. Perder um
companheiro de anos é difícil. Nem sei como reagiria. O tempo se incumbe de
amenizar a dor. Não chore. Carlos está bem, seus outros filhos também, não
fique triste assim.
- Vou me acostumar, pode crer, foi só um momento de fraqueza - balbuciou
Maura, num soluço. Você chegou assim, tão de repente... Sozinha. Deu-me uma
saudade enorme do meu velho. Ele não teria partido tão cedo, se não fosse essa
maldita ditadura. Também, ver o nosso filho preso, torturado... Foi demais para
o seu coração.
- Eu sei. Carlos também sente muito a falta dele. Afinal, não faz tanto tempo

19
José Martí – Poeta, escritor. Cubano -

47
Habitando o tempo

que seu marido morreu.


- As crianças vão ser ótimas para mim. Elas têm o dom de colorir o mundo.
Na manhã seguinte, Maura não trouxe os jornais do Rio.
- Esgotaram cedo - justificou. Amanhã levanto bem cedo, compro o Globo.
Como ainda não podia sair (a ordem era ficar em casa até a chegada dos
dois), não tive outro remédio a não ser me conformar com a notícia de que não
teria notícias.
- Chegam poucos sabe? Aqui é Belo Horizonte. Os jornais do Rio não são
tão lidos.
Oba! Será que os mineiros nem querem saber da Cidade Maravilhosa?
Impossível, é que são ávidos mesmo de notícias.
Sábado. Como dizia Vinícius ¹⁸ “tudo porque hoje é sábado” Carlos abriu a
porta do quarto devagarinho e me olhou. Tentei visualizar além de seus
ombros. Ninguém. Olhei no profundo de seus olhos. Estavam marejados em
lágrimas; envolveu-nos, então, em seus braços, chorando baixinho.
- Cadê o papai?
- Ele não pode vir hoje. Virá depois.
- Não! Eu quero o papai!
- Olha, Marcello, o papai teve que fazer um trabalho de urgência e chega na
semana que vem - esforçou- se para falar.
- Quando é a semana que vem!?
- Bem, hoje é sábado. A semana que vem é depois que vier outro sábado.
- Quando vem outro sábado?
- Depois de domingo, vem a segunda- feira, depois terça-feira. O sol vai
dormindo e acordando, e chega o sábado.
- Tá bem, vou esperar o sol dormir e acordar. Viu Edu? O papai vai chegar
depois do sol dormir e acordar.
Meu desespero chegara ao limite. Precisava ouvir a verdade.
- O que aconteceu?
- Ele foi preso - sussurrou aos meus ouvidos. Não sabemos nada, foi
baleado. Até agora não tivemos notícias fidedignas. Uns médicos amigos nossos
estão tentando obter informações. Sabemos, apenas, que deu entrada no Souza
Aguiar com vida.
- Ninguém diz nada. Você sabe, afinal ele era assessor do Jarbas, Ministro
da Educação.
- Como foi acontecer isto?
- Uma cagada. No dia seguinte a sua partida, fomos dar cobertura a uma

48
Habitando o tempo

ação para pegar um carro. Na hora H, o companheiro que estava junto se


assustou. Luís não podia vacilar, foi junto. O dono do Chambord correu ao
telefone público, chamou a polícia e deu as dicas do carro: Simca Chambord
laranja.
- Laranja? Quantos Simca Chambord laranjas tem no Rio?
- Imagina! Dois ou três.
- Que absurdo!
- Na praça da Bandeira, viram o carro. Perseguição total. Tiroteio. Foi o que
pudemos ver pela televisão.



Vi, por fim, os jornais. Maura, sigilosamente, os havia guardado no quarto
da empregada. Luís parecia morto. Caído na rua, todo ensanguentado.
A dor não se traduz, se sente. Todos os meus órgãos sentiam. Não podia ser
verdade, Luís não estava morto. Não podia estar morto.
Perdida, sai com Carlos para chorar um pouco. Não podia desestabilizar
ainda mais as crianças.
Por mais de duas horas, percorremos as ruas da cidade. Jamais me lembrei
delas. Não sei de qualquer esquina, quiçá uma singela praça, uma árvore
interessante, nem mesmo sei se tem montanhas.
Sufocado pelas lágrimas, Carlos disparou:
- Você tem que ir embora hoje. Uma companheira vem encontrá-la às duas
horas, para deixá-la em lugar seguro.
- Que isso, em lugar seguro? Onde?
- Também desconheço. Em algum momento encontrarei vocês de novo.
Não podia acreditar. De novo! Ninguém está preparado para tanta violação.
- Hoje mesmo tenho que regressar ao Rio.
Se pudesse, diria: não me deixe, por favor! Não posso ficar sozinha. Não
agora. Mas, sabia que esse caminho não tinha volta.


Antes das duas horas chegou Inez. Que bom que foi Inez Ettiene. Trazia no
olhar a garra dos guerreiros, a força dos tornados. Olhou sem compaixão.
Explicou-me que ficaríamos na casa de uns simpatizantes até o final da tarde.
Estava procurando, urgentemente, um lugar para ficarmos.
A família que nos recebeu nos trancou em uma habitação, sem uma

49
Habitando o tempo

palavra, um gesto de ternura, um copo de água. Nem um ruído, um abrir de


torneiras, uma descarga, uma fala perdida. Nada. Silêncio.
Eduardo dormia…
- Quero água. - pedia Marcello.
- Não tem, Cell.
- Eu quero, mãe.
- Vamos mexer bem a linguinha, que a boca enche de água.
Assim , assim: Lá-rá-lá-rá-lá...
- Quero fazer xixi.
- Bom, então vamos brincar de fazer na mamadeira.
Estória atrás de estória, driblando o tempo, distraindo minha criançada
brasileira, como diz Luís.
- Vamos embora... Não quero ficar aqui.
- Sabe aquela moça que nos trouxe, ela vai chegar logo. Vamos beber muita
água, fazer xixi na privada, tomar banho, comer, depois dormir numa cama bem
quentinha.
A espera é a pior das sensações. É falsa, oca, sofrida, desbotada, dolorida,
eufórica, psicótica, esquizofrênica. Foram cinco horas de terror. Havia
escurecido, quando chegou Inez.
- Me perdoe a demora. Não foi fácil conseguir um lugar. Vou levar vocês,
provisoriamente, para a casa de um companheiro; o tempo para conseguir um
aparelho mais estável.

“Ninguém é igual a ninguém.


Todo o ser humano é um estranho ímpar.”
Carlos Drummond de Andrade20

20
Carlos Drummond de Andrade – Poeta mineiro - MG

50

Junho 1969
Belo Horizonte - MG

“Sei que existem 256 caminhos,


mas, não podemos escolher todos ao mesmo tempo.”
Marilia Guimaraes21

O beco escuro servia de passagem para o barraco. Chovia forte lá fora. A


cidade parecia não ter cara. Também, que me importava se ela tinha ou não uma
feição própria? Que me importava esta ou aquela outra cidade, vila ou vilarejo?
Queria, sim, um pouco de solidão. Um pedacinho de espaço para mim e os
meninos. Queria chorar, sem cúmplices. Queria definir um caminho ou pelo
menos entender melhor aquele que deveria trilhar. Sei que existem 256
caminhos, mas, não podemos escolher todos ao mesmo tempo.
A chuva insistia em perturbar meu sono. Jamais ouvira tão perto o barulho
da chuva caindo no zinco. Estranha sensação de liberdade. De tempo em tempo,
ouvia vozes. Risos, rixas. A passagem estreita colocava os transeuntes quase
em cima de nós. Pela manhã, chovia. Chovia tanto que extrapola meu coração.
A sábia natureza aliara-se a meu pranto para amenizar minha dor.
Chão batido, sala, quarto, cozinha, banheiro numa mesma peça. Limpo bem
limpo. José nos atendeu afetuoso. Brincou, conversamos um pouco. Não havia
muito o que falar. Mal nos conhecíamos. O silêncio era prolixo. Durante uma
semana choveu. Durante uma semana, nem abrimos a porta. Como cheguei, saí.
Na calada da noite, às escondidas.
Desta feita, para um lindo apartamento, com moradores jovens, alegres, e
com um sério problema: a empregada não podia saber de nossa presença. Até
que conseguissem livrar-se dela, teríamos que ficar trancados no quarto. -
explicou Martha.
- Vocês podem sair à noite. Dar uma volta pela casa, enquanto ela vai para

21
Marilia Guimarães – Professora -escritora

51
Habitando o tempo

a escola. Mário está providenciando para que ela saia de férias. O problema são
as aulas. Tentaremos dar um jeito.
Mais estórias, contadas no decorrer do dia. Mais cantigas, sussurradas nos
ouvidos, estavam me levando ao desatino. Os pesadelos que desfilavam
intermináveis, nas horas de sono, eram mais leves e prazerosos, do que a
realidade da vigília. É certo que as crianças eram bem pequenas, dois e três
anos. Mas não o suficiente pequenas para dormirem e ouvirem estórias.
Não nutria nenhuma esperança de saída. Até então, a cada lugar novo,
piores situações.
Por fim, embarcaram a empregada, para visitar os seus pais, sob o pretexto
de que precisavam viajar. Fomos libertados das quatro paredes.
Felicidade geral. Respiramos tanto espaço, que caímos esgotados de
liberdade. Foi quando a campainha tocou. Teriam esquecido a chave?
Rapidamente abri a porta.
Diante de mim, um jovem assustado:
- Martha está?
E agora Drummond, que faço com o seu poema? Quem é este homem? De
onde ele saiu?
- Sou Wellington, irmão da Martha...Você quem é?
- Mirian.
Entrou, acomodou-se no sofá. Onde está minha irmã? De onde você veio?
Martha não disse que tinha visitas. Cheguei hoje, estava no treinamento.
- Você não é de Belô?
- Não. Vim conhecer. Nada mais. E, você?
- Sou paraquedista. Estou na aeronáutica.
- Aeronáutica?
Neste momento, Eduardo chamou. Eu havia parado na metade da canção
para atender a porta e ele, ainda meio adormecido, reclamou por ela.
- É uma criança?
- São duas. - respondi
Nessas alturas, melhor a verdade do que colocar tudo a perder.
- Seu marido também está aí?
- Não. Está em Madri, a negócios. Aproveitei para vir conhecer Belo
Horizonte.
- Estranho, Martha nunca ter falado de vocês... Somos tão apegados!
- Com toda certeza terá falado, mas não despertou seu interesse e você
simplesmente esqueceu.
- Difícil. Continuo achando estranho... Você não está fugindo da polícia,
está? Minha irmã é meio louca, e pode estar escondendo você.

52
Habitando o tempo

- Maluquice! Como você viaja! De que polícia eu iria fugir? Os mineiros são
tão desconfiados, que parece que tomaram LSD!
Aquele rapaz perguntava demais. A situação estava ficando complicada e
eles não chegavam. Da empregada, tínhamos nos livrado e veio o “projeto” de
militar.
- Amanhã vou treinar, saltar de pára- quedas. Tenho que estar descansado.
Acho que vou indo.
Se este infeliz comenta que nos viu, estamos fritos. Olhei fixamente para
ele, fixei todas as minhas energias em suas pernas, desejando que, ao saltar,
sofresse uma fratura, fosse engessado e me esquecesse.
Naquela noite, dormi com as crianças no carro do Afonso, numa rua
deserta. Dias depois, soube da novidade: Wellington quebrara a perna, estava
hospitalizado.

Amanhecia, quando chegamos à casa de Afonso. Uma revoada de meninos
descia as escadas apressada, todos falando ao mesmo tempo. Uns amarrando
os cadarços, outros prendendo os cabelos. Sentaram- se à mesa para um rápido
café da manhã, senão perderiam a escola.
Quanta alegria, quanta vida divisei naqueles olhinhos. Mara, a mãe linda e
suave. Afonso, o paizão. Patrícia, Marina, Andrea, lindas de morrer.
No almoço, alegria geral. Crianças novas na casa, aquela comida gostosa.
Um feijão daqueles! Colocado bem cedo no fogão, temperado com pedacinhos
de toucinho, horas antes do almoço. Coisa da cozinha mineira - segredou Mara.

Na parte da tarde, apareceu um companheiro com uma novidade que iria
até hoje marcar minha vida. Um disco compacto de música cubana.
- Um companheiro trouxe de Cuba. É super revolucionário! Música de
protesto. Vamos ouvir?
- É perigoso. - expôs Mara.
- Ouviremos no cantinho. No chão, tá bem?
- Bem baixinho. - suplicou.

“ Se quebró
la cáscara del viento al sur
y sobre la primera cruz
despierta la verdad” .....
Fusil contra Fusil… 22

Abaixados, com o coração em festa, a voz de Silvio Rodriguez, o compositor

22
Silvio Rodriguez – Cantautor Fundador do Movimento da Nova trova

53
Habitando o tempo

deste e de muitos outros séculos, percorreu minhas veias e se escondeu, como


tantos outros trovadores, pintores e poetas em um dos tantos compartimentos
que trago reservado em meu coração para armazenar todas as minhas alegrias.
Tristezas, jogo-as distraidamente na corrente venosa, para alcançarem o mais
rapidamente a atmosfera e se perderem para sempre na poluição das estradas.


Em poucos dias, estava instalada em um aparelho, junto com um
companheiro que faria de conta ser meu marido: Caio.
Entrava no adiantado da noite, dormia sem dizer palavra e saía aos
primeiros raios do sol. Sempre calado, como chegara.
Os dias aos poucos se acomodavam. Ora vinha um companheiro, ora outro,
ocasiões em que aproveitávamos para discutir o futuro de todos e elaborar
planos. Devagar ia participando de novo da organização. Sempre na logística.
Minha condição de mãe era uma grande impossibilidade. Fiz desde bolsas de
couro, para arrecadar dinheiro, a silenciadores, para serem usados nas ações
armadas.
Caio foi se acercando. Passávamos as noites lendo, discutindo política
nacional e internacional. Fizemo-nos amigos. Eduardo foi se apaixonando e,
pela primeira vez, falou: papai.
Marcello, sempre arisco, olhava Caio com simpatia, sem deixar de contar
os dias em que seu pai sairia da prisão para vir brincar de novo.
Por vezes, corria para pegá-lo no terraço, cantando a peito aberto,
bracinhos erguidos para o céu ..."Che Guevara não morreu... Lá- rá-rá... Che
Guevara não morreu!"
- Marcello! Vem cá! O Che não morreu. Por isto você não precisa estar
falando aí fora, tá bem? Senão, o que vão pensar? Que não lemos jornais, não
vemos tevê? - objetiva, apavorada de que alguém escutasse.
- Aqui ao lado, mora o chefe de polícia de Belo Horizonte. - - advertia Caio.
Marcello não podia entender isso, pensava.


Aliada às frias noites Belo-Horizontinas, estava a incerteza dos dias
futuros. Conscientemente, dava-me um tempo, para planejar meu futuro.
A organização estava rachada. Isolada em Minas, não sabia de que lado
ficaram meus companheiros. Juarez, Carlos, Rodolfo (o famoso Liszt) e outros
mais. Eram da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e a ela unira-se a Var-

54
Habitando o tempo

Palmares; mas no congresso de julho, dividiram-se novamente. De que lado eu


ficara? Ninguém me respondia. O contato que eu tinha era com os
companheiros que sabiam do meu aparelho. Eram poucos.
Notícias do Fausto, nenhuma. Apenas soubera que estava vivo, preso na
PM. Carlos desaparecera naquele sábado de maio. Meses sem nenhuma
novidade. Estariam vivos? Saberiam do meu paradeiro? Perguntas sem
possibilidade de respostas. Tinha que encontrar uma saída.
Cláudia, também da VP, estivera conosco em julho, e contara-me todas
essas novidades. Regressou ao Rio, ou talvez a São Paulo. Nem Deus sabe.
De Inês nunca mais ouvi falar, desde nossas longas conversas nas
primeiras noites em Belo Horizonte.
Ouvi falar de Inês Etienne muitos anos depois, quando, corajosamente,
atirou-se na frente de um ônibus em Petrópolis, ao ser conduzida para a morte.
Inês teve, como poucos, a coragem de denunciar o assassinato de alguns
companheiros, como Palhano e a traição do Cabo Anselmo, anos depois.

A cada pergunta, a resposta seca e sem comentários.
- Temos muitos problemas. - concluíam.
Saberia Juarez desta situação? Onde estariam eles?
O tempo, pendurado nas asas do vento, desaparecia por trás dos dias e
meses, sem deixar nenhum rastro de esperança. Belo Horizonte era perigoso.
Cada chofer de táxi, uma ameaça a nossa segurança. Qualquer gesto em falso
poderia significar a nossa prisão. Parecia que todos cooperavam com a polícia.
Enquanto mais alguns ajudavam com informações, outros tantos surgiam
dispostos a dar suas vidas pela liberdade.
A cada esquartejamento, novos Tiradentes surgiam de suas montanhas.


Marcello insistia no retorno do pai. Queria explicações contundentes:
- Por que tá preso, mamãe? Por quê?
- Ele estava trabalhando para que todos os meninos possam ter comida.
Muitas crianças não têm o que comer, não têm cama para dormir!
- Os meninos não têm comida?
- Nem todos. A maioria vivem nas ruas, com frio, fome, sem livros para ler
como os da mamãe.
- Por que não comem?
- Porque a comida é só para quem tem dinheiro. Ontem não fomos ao

55
Habitando o tempo

mercado comprar comida? Lembra? Compramos biscoitos e frutas. O Edu não


estava quase chorando porque estava com fome?
- Tava. Quem não dá dinheiro para eles?
- As pessoas que mandam no Brasil.
- Por quê?
- Porque são muito egoístas e não gostam do Brasil. Gostam de dinheiro. Só
de dinheiro. Não gostam nem de seus filhos.
- Dinheiro não é pra gostar. Eu quero meu pai.
- Sabe, Marcello, estamos em guerra. Nós mesmos estamos aqui,
escondidos, porque se o governo nos pega, vamos presos também.
- Por que a gente queria dar comida?
- Sim.
- E o tio Carlos? Cadê o tio Carlos?
- Não sei, meu anjo. Anda por aí, lutando contra a fome e a miséria.
- Eu quero ele. Eu quero ir pro Rio…
O porquê deu lugar à dor. Marcello já pouco comia, chorava durante a
noite, dormindo. Até que a febre apareceu. Alta, muito alta.
Médicos, remédios, psicólogos, para chegarmos à conclusão de que seria
necessária a presença urgente de Carlos.
Carlos era procurado em Minas. Tinha suas fotos estampadas nas
rodoviárias e aeroportos. Como vir a Minas, sem correr perigo? Sua vinda
estava fora de cogitação. Meu filho definhava aos poucos. Estórias, atenção
extrema, total carinho, todo o meu amor não substituíam a angústia de querer
o Fausto de volta, de regressar a sua casa. Seu corpinho começou a se encher
de chagas, menos as mãos e o rosto. Estávamos perplexos. Como resolver essa
situação? Como salvá-lo? Afonso passava os dias ao seu lado, brincando, dando-
lhe carinho. Até a barba deixou crescer, para simular a imagem paterna.
Nada demovia aquela criança do trauma da perda sofrida a cada semana, a
cada mês, a cada e dia.
Caio viajou ao Rio para localizar Carlos. Regressou abatido. Carlos viajara
com Lamarca, sem data de regresso. Quem de nós tinha data de retorno? Quem
de nós tinha, naquele momento um porto seguro?
Deixou apenas a notícia: Marcello precisa de você.

....”existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo


grande dos sertões,
dos mares, dos desertos,

56
Habitando o tempo

o medo dos soldados, o medo das mães,


o medo das igrejas, cantaremos o medo dos ditadores,
o medo dos democratas, cantaremos o medo da morte
e o medo de depois da morte…”.
Carlos Drummond de Andrade23

23
Carlos Drummond de Andrade – Poeta Mineiro

57

1969 - Agosto
Bairro de Santo Antônio - BH

“Neste universo, tudo é surpreendente.
A cada mistério revelado, mil novos mistérios surgem.”
Jorge Mautner24

Numa manhã gloriosa, com a cara metida na janela, sorrindo matreiro,


Carlos.
Os quatro, apertados num só abraço, nos perdemos aos beijos. Desta vez,
choramos de tanta felicidade.
Beijou milhões de vezes as bochechas ardentes de Marcello; devagarinho
tal qual um anjo, foi amainando aquela dor. Banhando-o com permanganato de
potássio , secou cuidadoso as feridas.
Aos poucos, Marcello foi se entregando, até alcançar a cumplicidade. Lápis
e papel em punho. Croquis, inúmeros croquis. Combinaram a fuga. Fizeram,
durante horas, o roteiro. Homens armados. Camburão. Polícia Federal.
Avenidas, árvores. Homens em postos de comando, soldados em postos de
ataque.
Por fim, a fuga e a liberdade.
- Assim será, meu amor. Vou tirar seu pai da cadeia. Vamos para uma casa
onde você tenha seu quarto para brincar com o Edu, ir à escola curtir com seu
irmão a alegria que a vida vai te proporcionar. Você só tem que ter paciência.
Temos que esperar a hora e o dia certo para a ação, tá combinado?
Entregou a Marcello um desenho, dobrado, que ele guardou com todo
carinho no bolsinho da calça. Era seu segredo e sua cura.
Naquele dia, a febre baixou repentinamente. Nos dias que se seguiram, três
ou quatro dias depois, todas a feridas cicatrizaram. Carlos se despediu,
prometendo voltar.

Desde maio, não sabia de nosso paradeiro. No racha, ele, Juarez, Maria do
Carmo e os demais ficaram na VP. Eu, sem saber, isolada do mundo e de todos,

24
Jorge Mautner – Compositor e Interprete - Rio de Janeiro - RJ

59
Habitando o tempo

estava com os da VAR- Palmares – (Vanguarda Armada Revolucionária –


Palmares).
- Imagina, não sabia de nada. Por este motivo demoraram tanto a me
encontrar. - comentei com Carlos.
- Exatamente.
- Fique quieta que eu volto pra tirar você daqui.
Carlos nunca havia falhado, não seria agora. Como Marcello, esperaria
tranquila o seu regresso.
Depois da vinda de Carlos, nunca mais falaram nada. As reuniões, antes
quase que diárias, foram escasseando. Caio pouco falava. Embora, na
clandestinidade da clandestinidade, meus neurônios sempre estiveram ativos.
Sabia pensar.

Chegou a primavera e com ela Carlos. Passam três dias felizes. O
compromisso com Marcello continuava de pé.
Em novembro, Fausto seria levado para uma audiência no Fórum e neste
dia eles realizariam a ação de resgate. Estávamos radiantes. Carlos voltaria para
nos tirar de Belo Horizonte. A organização tinha planos para nós.
Juarez e Lamarca eram contra a nossa ida para Cuba, como havíamos
cogitado no início.
- Estamos montando um campo de treinamento. Você vai para lá com
outras companheiras. - adiantou.
Carlos partiu, deixando-me com renovada esperança. Sair de Minas, para
começar uma nova vida em prol da revolução. Fosse qual fosse o aporte à
libertação do nosso povo, era bem-vindo. Eu daria o melhor. Certa estou de que
daria. Imbuída na esperança de dias melhores, encarava com mais otimismo o
ostracismo.
Na semana seguinte à visita de Carlos, veio a ordem:
- Vocês vão amanhã para o Rio, de lá para o Rio Grande do Sul.
- Mas, o Carlos disse que vem por estes dias.
- Não virá. Avaliaram que, com duas crianças pequenas, é muito
complicado.
- No Rio receberá as instruções do comando da organização.
Na noite seguinte, acompanhados por Caio, embarcamos para o Rio. Pouco
falamos naquela noite. Algum segredo ele guardava. Tenso e silencioso,
acariciava os meninos enquanto dormiam.
Estava preocupada: que me aguardava agora? Caio se recusava falar.

60
Habitando o tempo

Respondia lacônico às minhas perguntas.


- Você vai para o sul comigo?
- Não sei, no Rio saberemos. Não informaram nada a você? – perguntou.
- Disseram-me que vou para Porto Alegre.
- Sim, eu sei.
- Vamos encontrar o Carlos?
- Não sei.

“Que saudade é o pior tormento,


é pior do que o esquecimento,
é pior do que se entrevar.""
Chico Buarque25

25
Francisco Buarque de Holanda – Compositor/escritor – Paulista

61

1969 – Outubro
Rio de Janeiro

“E agora o que fazer com essa manhã


desabrochada a pássaros?”
Manoel de Barros26

Amanhecia quando o comboio entrou na gare da Central do Brasil. O Rio


acordou lindo. Quanta saudade! Cada pedacinho, cada esquina , a Avenida
Presidente Vargas, a Perimetral, o mar, o cheiro do Rio. Que delícia, o mar! Rio
tem o mar mais exuberante do planeta. Um mar com cheiro de música, de gente.
O Rio tem cheiro de felicidade. O Rio tem cheiro de vida. E toda ela não seria
suficiente para expressar tanta alegria.
- Olha o mar, Marcello! Olha, Eduardo!
- Voltamos pra casa! Voltamos pra casa! Edu, voltamos pra casa! - gritava
Marcello - Olha os barcos! Quantos barcos! Olha o mar... Olha o mar...
- Não vamos para casa, Marcello. Vamos olhar o Rio. Um dia desses
voltamos para casa, tá?
- Para onde vamos? - interrompeu Caio.
- Para Copacabana, fazer hora. É muito tempo de espera, até às dez. Bom,
vamos começar a caminhar um pouco.
- Como você quiser. Não conheço mesmo nada. Só estive nesta cidade duas
vezes. Quando você esteve doente, internada, e vim pegar dinheiro - lembra?
Outra quando Marcello adoeceu.
- Foi quando Carlos assaltou um açougue para mandar o dinheiro, para
pagar o hospital? Ele me contou numa das vezes em Belo Horizonte.
Começou a chover. Entramos na Confeitaria Colombo para tomar um chá
e aguardar o tempo passar.
É simples dizer o tempo passar. É tenebroso viver o tempo passar. O Rio
foi ficando murcho, triste.
A chuva apertava o passo rápido. Ou porque a quantidade a jorrar pela
cidade poderia ser muita, ou porque não quisesse estragar minha satisfação da

26
Manoel de Barros – Poeta – Mato Grosso

63
Habitando o tempo

volta. Ninguém apareceu às dez. O outro horário era às 17h. Ficar esperando
num bar durante todo um dia, não seria viável. Cometeria um erro, mas ía ligar
para minha família. E se os telefones estivessem grampeados? Mesmo assim,
tentaria!
- Alô!?
- Maria Helena, sou eu. Acordei com dor de dente. Você pode me levar ao
consultório?
Pela entonação da voz, devia estar petrificada. Por sorte, foi bem esperta:
- Onde você está trabalhando hoje?
- Em Copa. Espero por você perto da sua boate preferida, que tal?
Estava jogando tudo. Maria não frequentava boates. Fora apenas uma ou
duas vezes, há muitos anos, no Golden Room do Copacabana Palace , quando
ainda namorava meu pai. Ela tinha que lembrar. Ah, Tinha...
- Dentro de meia hora, tá bom?
- Aguarde.
Fomos para um bar perto do Copacabana Palace. Lá estava ela embaixo do
seu guarda - chuva, parada junto à banca de jornal. Um abraço tímido, discreto.
- Onde estão as crianças?
- Ali no bar.
Conversamos pouco tempo. Apenas algumas decisões.
- Vou viajar, mas está chovendo muito. Não tenho para onde ir, neste
momento.
- Uma das suas irmãs está morando na Tijuca. Faz uma semana que se
mudou. Não acredito que esteja mapeada. Durante muito tempo, andaram atrás
dela para saber do seu paradeiro. Faz uns quatro meses que não a procuram.
Desistiram. Até porque, vocês nunca estiveram juntas.
- Vou falar a Dona Glorinha para vir vê-los. Coitados, não vivem mais, desde
que o Fausto foi preso e vocês desapareceram. A vida deles virou um inferno. A
polícia não os deixa em paz. Venderam o apartamento das Laranjeiras e
mudaram faz dois meses. Quase não nos falamos. Quando podemos, é do
telefone público. Queria que você soubesse que aquele Che que o Fausto pintou
para você, levei para Miguel Pereira. Está lá guardado, para quando tudo isto
passar. Marcamos a noite com a Dona Glorinha?
- Às seis, no Largo da Glória, pois hoje mesmo vou embora.
- Para onde?
- Não sei ainda.
Peguei o endereço da Tijuca. Em poucos minutos estava lá. Falamos muito

64
Habitando o tempo

pouco, sobre tantas coisas. Banhei a criançada, deixei tudo preparado para a
partida e regressei a Copa.
O encontro foi rápido, sem grandes explicações.
- Hoje, você parte para São Paulo. De lá, vá para Porto Alegre.
No dia 02 de dezembro, no Parque Farroupilha, um companheiro vai
recebê-la. Vá ao ponto indicado e espere não mais que 15 minutos. Aqui está o
mapa do local. Decore e jogue fora este papel. Hospede - se num bom hotel, que
no mesmo dia será levada para outro lugar. Não se preocupe. Tudo está bem
seguro. Lá receberá instruções. Para onde vai e o que fazer; receberá dinheiro,
etc...
- Preciso de mais detalhes.
- Infelizmente não posso dar. O nome do contato é André. Aqui tem $1.000
dólares. Boa sorte.
Olhei Caio. Sua mirada refletia um medo profundo.
- Caio vai comigo?
- Vai sozinha, companheira.
Por razões óbvias não sei seu nome, seu apelido, a cor da sua tez, seu porte.
Nada de nada.
De novo a angústia saída do desconhecido. Queria voltar, pegar as crianças,
sair pelo mundo. Urgia pegar os meninos.
- Vamos Caio! Rápido, estou desesperada.
Cruzamos o Rebouças na hora do rush, com o coração em frangalhos. Subi
ansiosa o elevador. Entrei. Que alívio!
- Você deve deixá-los. Acho que vocês estão indo para Cuba. - falou meu
cunhado, sem ternura. O Dr. João pode cuidar deles. Ele tem dinheiro, pode lhes
dar o melhor. Além do mais, o exército disse que se você se entregar, não fazem
nada e te liberam imediatamente.
Ouvi as sirenes. Entendi o jogo. Tinha que agir rápido
- Venham Marcello e Eduardo! Pegue a bolsa, Caio!
-Espere! Não pode ir assim, isto é uma loucura!- gritou minha irmã.
Desci atropelando a escada.
- Táxi! táxi! Hotel Glória, por favor!
Um dia escapara dessa forma. Teria sorte duas vezes?
Chovia copiosamente quando encontramos Dona Glorinha. Quinze
minutos, nada mais. Eles não podiam me trair, não me trairiam. O filho dela
estava preso, selvagemente torturado. Não entregariam as crianças. Sabia
disso. Falamos do Fausto, da prisão. Da dificuldade das visitas agora na ilha

65
Habitando o tempo

Grande, das lembranças, da despedida. Dos sobrinhos, da Leda, do Fábio. Um


minúsculo recorrido pela nossa história.
Diga ao Fausto que aonde quer que estejamos, lembraremos dele com todo
carinho. Fazia-se tarde. Peguei um táxi para a Central do Brasil. Naquele
momento, estava vedado deixar qualquer coisa para trás, até mesmo a
saudade.
Caio ficou parado com os olhos fixos na janela, sem lágrimas, sem palavras,
sem despedida. O trem lentamente deixou a plataforma rumo à capital paulista.

66

1969 - Novembro
“O otimista é um tolo. O pessimista, um chato.
Bom mesmo é ser um realista esperançoso.”
Ariano Suassuna27

Em São Paulo, hospedei-me no Hilton. Não podia arriscar. Faltavam 30


dias, para o ponto em Porto Alegre; decidi que viajaria na véspera. São Paulo,
era uma velha conhecida, sentia-me mais segura.
Há dois dias da partida, decidi ir à rodoviária, comprar as passagens.
Ônibus e trens eram os meios de transporte mais seguros, naquele momento.
Por eles transitavam milhões de pessoas, dificultando a vigilância minuciosa. Os
aeroportos eram alvos fáceis.
De repente, o inusitado. Diante de um cartaz, com as fotos dos
companheiros procurados, observando curioso cada uma delas, Rodolfo! Ao
lado, um soldado empunhava, arrogante, sua baioneta.
Tomada por frio e calor intensos observava, imóvel, a cena dantesca. Que
fazia Rodolfo na Estação da Luz ? Olhando tão de perto? Sua foto há muito estava
estampada naquele cartaz. Sempre fora distraído!... Distraído, sim, mas essa era
demais! Seria preso, diante dos meus olhos?
Some daí menino! Falei com meus botões. Peguei também Marcello no
colo, para fugir rápido, se o pior acontecesse.
O policial, qual boneco de cera, nem se moveu. Limitou-se a mirar com
desdém. Um curioso a mais, certamente pensou, virando-se, ao mesmo tempo
em que Rodolfo, balançando a cabeça se afastava, perdido em seus
pensamentos: sou outra pessoa nesse retrato... certo divagava. Tentei alcançá-
lo, mas o perdi-o na multidão.
Recomposta do espanto, comprei passagem para a noite seguinte, num
ônibus leito, confortável para tantas horas de viagem e menos visado pela
polícia.

“Cuando la vida te presente razones para llorar,


demuéstrale que tienes mil y una razones para reír.”
Anonimo28

27
Ariano Suassuna – Poeta, escritor - João Pessoa
28
Anónimo –

67

1969 - Novembro
Porto Alegre

DAS UTOPIAS
“Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos,
se não fora A presença distante das estrelas!"
Mário Quintana

A cidade é simples, interiorana, cálida, um porto alegre, como diria Mário


Quintana. Os poetas têm o dom de nos despertar a curiosidade e a paixão
antecipada dos fatos e da história. Que seria de nós, simples mortais, sem a
maravilha dos sonetos e dos versos livres?
Porto Alegre era uma dessas curiosidades acesas pelas mãos do poeta.
Nada diferente do que eu sonhara. Bonita. Gauchamente charmosa.
Hospedei-me no Hotel São Luiz; escolha estudada, com prudência, nas
noites de São Paulo.
Surpreendentemente, o hotel exigiu pagamento antecipado da minha
estada. Preocupei-me. O dinheiro agora não daria para mais do que uma
refeição.
Descansamos um pouco da exaustiva viagem, e aproveitei o meio da tarde
para conhecer um pedacinho da cidade antes de dirigir-me ao ponto estipulado.
Na hora marcada, 17h30m, lá estávamos, no lugar indicado. Um
caramanchão, revestido de trepadeiras em flor, servia de ancoradouro aos
barcos de passeio, que iam e vinham, cruzando o lago. Visitantes deixavam o
Parque Farroupilha àquela hora da tarde A ordem era esperar quinze
minutos. Somente 15 minutos.
Passados vinte minutos, nem sinal do contato. A noite caíra sobre a cidade,
como todos os dias, para a ordem geral do planeta, sinistra para mim. O próximo
ponto seria dentro de quinze dias. Estava sem dinheiro, com duas crianças para
dar de comer e dormir.
Impacientes, Cell e Edu começavam a reclamar que tinham fome, estavam
cansados.
- Vambora, mãe!

69
Habitando o tempo

Aquela voz tão doce, chamando-me à vida e meu coração desesperado,


buscando forças para enfrentar o obscuro. Venderei o relógio. Amanhã
buscarei um lugar para vendê-lo. Caio me dera de presente, na véspera da
minha partida. Bendito Rolex. Venderei o relógio, amanhã bem cedo.
Tomei Marcello e Eduardo no colo e comecei a caminhar. Não podia me dar
ao luxo de pegar um táxi. Todo o dinheiro que sobrara mal dava para o jantar.
Posso suportar a fome; as crianças, posso enganar com um leite. No café da
manhã, comeremos tudo a que temos direito, e guardaremos o máximo possível
para a merenda. Para o almoço, usaremos o dinheiro restante.
Como venderei o relógio, terei dinheiro. Verei, então, que caminho tomar.
Este plano dará certo. Terei dinheiro. Mudarei de hotel.
Mas, e se André não vier? Se foi preso? Se foi, estou frita. Devo abandonar
o hotel imediatamente. Ninguém sabe que estou aqui. Teria sido seguida? Bom.
São quase sete horas, não conheço esta cidade. Não posso ficar nervosa. As
crianças não podem perceber que estou com medo. Saio do hotel pela manhã
bem cedo. Se ele foi preso, quando chegar no hotel a polícia pode estar me
esperando. Mas ninguém sabe que estou nesse hotel; posso esperar até amanhã.
Havia tomado as minhas precauções. Não cheguei cinco dias antes do
combinado. Não fui para o hotel indicado. Estou loura. Bem vestida, maquiada.
As crianças estão com os cabelos bem compridos.
Mesmo que tenha sido preso e fale; não vai falar. Por que falaria? Não sairei
do hotel. Vou ter calma. Fazer tudo com a maior tranquilidade; qualquer atitude
impensada pode ser fatal. Ai, como Marcello e Eduardo pesam... Estou um trapo.
O hotel parece cada vez mais longe.
Ah! Se pudesse parar um pouco. Ah! Se pudesse gritar. Será que vou passar
a vida inteira fugindo?
Não. Não vou retroceder, nem em pensamento. Jamais retrocedi. Esta
situação é caótica, mas não é a primeira, nem será a última.

“...sussurro sem som onde a gente


se lembra do que nunca soube"
Guimarães Rosa29

29
João Guimarães Rosa – Escritor / médico/ diplomata - Minas Gerais

70

1969 – Novembro
Porto Alegre
“A gente foge da solidão quando
tem medo dos próprios pensamentos.”
Érico Veríssimo30

Entrei no hall beirando a estafa. Quase 40 quilos de preciosidade e 800


toneladas de angústia. Rodolfo aqui! Que alegria! Em Porto Alegre!? Que
coincidência! Estaria na Estação da Luz comprando passagem para cá?
Acerquei-me devagarinho, pois conversava com um funcionário da
recepção. Esperei.
- Rodolfo?- chamei baixinho.
Ele me olhou intrigado.
- Desculpe. A senhora deve estar enganada.
- Não, não estou.
- Com licença.
- Rodolfo, sou Miriam. Pelo amor de deus, você me conhece, sim! Marilia,
Rodolfo, Marilia.
- O que você está fazendo aqui? Está neste hotel com as crianças?
- Estamos.
- Eu também; vamos rápido para o quarto.
- Como você veio parar aqui?.
- Eu é que pergunto. Por que não foram ao ponto hoje?
- Ponto? Hoje? Está enganada, não temos nenhum ponto com você.
- Ora bolas, como vou estar enganada? Um tal de André deveria ter ido ao
encontro. Estamos em Porto Alegre, não no Rio. - respondi nervosa.
- Calma, por favor. Calma. Quem te mandou vir para Porto Alegre, a VP?
- Caramba, VP!? Não, a Var.
- Você está na VAR, menina?
- Eu estava em Belô, desde maio. Fiquei na VAR sem querer, não tinha
nenhuma informação; depois conto toda esta história. Você ficou na VP?
- Sim, estamos quase todos na VPR.
- Que horror!... Ajude-me! O contato que deveria vir nos buscar não

30
Erico Verissimo – Escritor - Cruz Alta - RS

71
Habitando o tempo

apareceu. Estou sem dinheiro, sem saber para onde ir.


- Então, o Juarez não sabe que você está aqui?
- Claro que não deve saber. Se estou na VAR e vocês na VP! Quando Carlos
me disse sobre o racha, e que iria nos buscar, a VAR me tirou de Minas.
- E afinal, o que você está fazendo nesta cidade?
- Indo para Cuba.
- De que jeito? Como vai sair do país?
- Num sequestro! Existe outra forma? Não temos nem documentos…
- É grave. Contudo solucionaremos este impasse. Dinheiro não é problema.
Vou contatar o Juarez para uma definição ou ajuda. A organização é contra o
sequestro. Porto Alegre é muito pequena. A VAR vai nos localizar. Estamos
rachados e com problemas. Alguns militantes eram da VP e passaram para a
VAR, isso nos faz vulneráveis. É provável que André, o companheiro que faltou
ao ponto, seja conhecido nosso.
- Com discrição sairemos dessa. - comentei. Que irresponsabilidade!
Sozinha, com estes dois meninos, e furam o ponto!
Conversamos durante algumas horas, sobre minha estada em Belo
Horizonte. As visitas do Carlos, a perda de contato com a Vanguarda Popular
Revolucionária.
Seis meses depois, pude entender o porquê do meu isolamento, da
ausência de respostas. Estava envolvida em uma ação, não poderia sair dela, e,
se pudesse, teria que ver como, sem prejudicar ambos os lados. Em 48 horas
chegou Maria do Carmo. Uma felicidade imensa. Fora as questões políticas a
serem resolvidas, havia o lado emocional. Rodolfo e Maria eram as únicas
ligações ao meu passado. Falamos por toda a noite. Passado, futuro. Dos
companheiros presos, da resistência, dos problemas enfrentados com tanta
gente na clandestinidade, do projeto defendido por Lamarca, da VP ter seu
próprio campo de treinamento, no sudeste. Dos nossos sonhos, do Rio, do
Fausto e, especialmente do Juarez.
Chegamos a uma conclusão. Deixar de participar da ação naquele
momento, era prematuro. Deveria ir ao ponto daqui a quinze dias. Inteirar-me
sobre a segurança de se fazer um sequestro. Conhecer os detalhes. Como?
Onde?
Um companheiro viria para dar retaguarda, e manter o comando da VP
informado. Num segundo momento, avaliaríamos se participaria ou não do
sequestro.
Combinamos. Mudaríamos de hotel. Rodolfo para um, eu para outro.

72
Habitando o tempo

Juntos, nunca.
Maria do Carmo regressou ao Rio.
Dias depois à hora do jantar, deparei com Rodolfo na recepção.
- O que você está fazendo aqui?
- Hospedado.
- Também estou. Amanhã cambiamos de hotel. Cheia de história esta
cidade, porém pequena demais para nós dois!. - gracejei.
- Pela manhã, cada um para seu lado.- como o pactuado.
Saía com as crianças a passear pelo Parque Farroupilha. Desfrutava aos
poucos da cidade, gozando de uma falsa liberdade.
No dia seguinte, nova surpresa: Rodolfo no café da manhã. Rimos muito.
Nova mudança de hotel.
Pedrinho chegou. Beirava os 18 anos. Compenetrado, aliava sua seriedade
de militante a um jeito moleque e brincalhão, descontraindo a tensão, sempre
presente no ar.
Por aqueles dias, comemoramos os 3 e 2 anos dos meninos. Rodolfo, eu e
as crianças numa singela festa no parque. Uma metralhadora que disparava
fagulhas para Marcello, um carrinho para Edu, um saco de pipocas, um passeio
de barco pelo lago, lembranças guardadas por toda a infância presenteadas por
Rodolfo. Pela vida afora, recordamos esse carinho. Comemorar a vida é
fundamental em tempos de guerra. No dia seguinte, estaria no ponto
aguardando André.


Com quinze dias de atraso, André nos aguardava ao lado do ancoradouro,
juntamente com outro companheiro.
Recebi instruções: comparecer às reuniões e deixar os meninos durante o
dia com uma companheira, para dar-me mobilidade. Três ou mais reuniões.
Que remédio! Não podia dizer que tinha Pedrinho, nem que Rodolfo cuidaria
delas.
- A companheira pode brincar com elas, enquanto estamos reunidos.
- Elas não estão acostumadas a ficar com estranhos. - falei.
- Criança acostuma com tudo. Além do mais, esta companheira é ótima.
Será apenas para as reuniões. - argumentou Andrada.
- Estou de acordo. As reuniões podem ser à noite, os meninos dormem às
19h. Ela pode ficar no hotel.
- Não. Elas devem ir com esta companheira. A casa deles é grande, e as

73
Habitando o tempo

crianças terão liberdade para correr e brincar.


- Depois desta longa temporada em hotéis, vão adorar. - falou André.
- Tudo bem. Que retornem antes das sete. Lembre-se, elas dormem cedo.
Às sete horas, no máximo.
- Não se inquiete, antes das sete estarão aqui.


Passava das 20h. Marcello e Eduardo não haviam regressado. Pedi um
lanche no quarto para não ausentar-me. 22h, nada. Que foi que aconteceu?
Algum acidente com eles? Dormiram de cansaço? Por que não avisaram?
A próxima reunião estava marcada para dentro de dois dias. Como
localizar meus filhos? Saber deles? Como encontrar André, Andrada?
Passei a noite em claro. Rodava pelo quarto em pânico total. Esperava o dia
amanhecer; o silêncio da noite, a falta de ruído. O mundo dorme. Como
despertá-lo? Dorme a sono solto. Relaxado, sereno. Quanto mais noite, mais
tenebroso. Os pensamentos crescem, tomando dimensões gigantescas, o medo
adentra as entranhas, dilacerando tudo. As soluções se apequenam, murcham,
secam, apodrecem, desaparecerem na atmosfera.
Que foi que aconteceu com meus filhos? Tudo de novo, não. Não quero
viver a angústia da separação. Não quero viver este medo.
A cidade está feia, cheira a água insalubre. Cheira a tristeza. Onde está
Quintana, que não me ouve? Onde estão os guerreiros farroupilhas? Onde está
o povo brasileiro, meus irmãos de sangue, crença e cor?
Um suspiro, um estalar de ossos, um gemido preguiçoso. É o amanhecer
chegando de mansinho, sem pressa. Sairei correndo para a rua, quem sabe meu
coração não fareja minhas crias?
Às 10h, encontro Pedrinho.
- Como você está abatida? Que houve?
- As crianças não voltaram. Andrada levou os meninos, para conversarmos
com tranquilidade. Eu mesma estive de acordo, mas que eles voltassem ao
entardecer. Somente amanhã estarei com eles outra vez. Não tenho como
localizá-los. Estou desesperada, Pedrinho.
- Paciência, não aconteceu nada. Quem sabe eles aparecem hoje? Não saia
do hotel. Voltarei à tarde.
Fazia sol. Melhor assim; facilita o raciocínio, diminui a ansiedade. Odeio os
dias cinza, me embotam a mente.
Levaram as crianças para que eu não entregasse a ação, concluí. Quem

74
Habitando o tempo

disse que eu iria entregar? Ora essa! Eles querem ter certeza de que vou no
sequestro. Por isso as crianças não voltaram.
No encontro com Andrada, a sentença: as crianças serão entregues no dia
da viagem.
- No dia da viagem? Como vão ficar sozinhos? Essas crianças já sofreram
muito! – retruquei, tentando demovê-lo.
- Sem questionamentos. Está decidido. – replicou.
Os momentos que se seguiram foram os mais tristes. Iria deixar meu país
coagida pelos dois lados da moeda. A ditadura, que tortura, mata, esquarteja
nossos ideais, e o sectarismo de uns, que não entendem os verdadeiros
caminhos para a conquista da liberdade.
Não foi à toa o racha. Estou confusa, triste, tensa, para julgar friamente esta
estúpida situação.
Assim passei meus últimos dias no Brasil.
Rodolfo e Pedrinho amenizavam a ausência das crianças.
Como Rodolfo regressaria a São Paulo, passou-me alguns documentos
para Onofre Pinto, representante da VPR em Havana. A viagem à ilha era fato
consumado. Como teria reunião com Andrada, marquei com Pedrinho no dia
seguinte, às 15h.
Dormia quando tocaram à porta. Despertei assustada. Era André.
- Vamos, pegue suas coisas.
- Que horas são? Cadê os meninos?
- Três horas. Vamos encontrá-los. Temos pressa. Sua mala está arrumada,
não?
- Claro, sempre. Três da manhã!
- Vamos viajar e precisamos chegar cedo.
Boêmios retornavam aos seus lares, povoando, discretamente, as ruas
vazias àquela hora da madrugada. Entrei no carro ainda sonolenta. Fora da
cidade, paramos.
- Vamos trocar de carro.- ordenou André.
Um fusca estacionou um pouco mais adiante. Caminhamos até ele.
Encolhidos no banco de trás, sonolentos, olhinhos assustados, meus dois
amores.
- Mãe!- choramingaram os dois.
Envolvidos nos meus braços, presos ao meu peito, nem vi o amanhecer,
nem notei que nos distanciávamos do meu país. Não importava o futuro, nem
para onde íamos. De uma única coisa eu tinha certeza: ninguém os arrancaria

75
Habitando o tempo

mais de mim, nem que, para defendê-los, tivesse que matar. Hoje, trinta anos
vividos, reafirmo essa promessa.
No banco da frente, um jovem casal de simpatizantes me levava para o
Uruguai. Em oito horas de viagem, pouco nos comunicamos. Eram simpáticos,
carinhosos, prestativos. Tinham ordens de deixar- nos em Montevidéu.
- Dentro em pouco, chegaremos à fronteira. - lembrou a companheira.
Pegue sua nova identidade. Melhor se livrar da antiga.
Com os dentes, cortei, pedaço a pedaço, todo o meu passado, levado
prazerosamente pelo vento, nas rimas apaixonadas de Vinícius:

...“ Vontade de beijar os olhos da minha pátria


de niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido(auriverde) tão feias
De minha pátria, de minhas pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha

76


1969 - Fronteira do Brasil
com Uruguay – Montevideo

“La vida no es la que uno vivió,
sino la que uno recuerda, y cómo la recuerda para contarla.”
Gabriel Garcia Marquez31


Tensos, mas parecendo turistas lépidos e fagueiros, a caminho de
Bariloche, cruzamos o posto policial. Registraram o carro, documentos.
- Podem seguir - ordenaram.
Paramos para urinar, ali mesmo, na estrada. O primeiro susto passara.
Com Pedrinho e Rodolfo havia traçado uma estratégia. Iria para Cuba.
Diante da situação, não poderia desistir. A organização daria dinheiro suficiente
para qualquer imprevisto. Andrada fora claro. Eu andava com os militantes da
VPR, e, a qualquer deslize, ele não hesitaria em eliminar-nos. Não lhe faltava
coragem ou determinação. Nada impediria a ação há tanto planejada. Ele era o
comandante com poderes absolutos. Andrada vinha da Linha Vermelha, um
segmento da esquerda radical. Era um guerreiro duro, inflexível.


Chegamos a Montevidéu, ao cair da noite. Deixaram-nos.
Com carinho antecipado fomos recebidos por um casal de Tupamaros. Uma
família Tupamara. Alegres, solidários, sofridos, amados, perseguidos, fortes e
seguros.
Vez por outra soava a sirene. Era a polícia, buscando Tupamaros. Saíamos
ao parque a caminhar, enquanto eles desfilavam pelas casas, registrando tudo
e todos. Buscavam o que eles jamais lograriam encontrar: as idéias.
Dias de expectativa, contudo maravilhosos. Trocávamos informações
durante horas, sobre nossos países, nossos projetos de liberdade, a união da
América Latina, sobre nosso presente, sem jamais mencionar nosso futuro.
Com os companheiros que participariam do sequestro, mudamos para um

31
Gabriel Garcia Marquez – Escritor - Aracataca / Colombia

77
Habitando o tempo

pequeno hotel, situado perto da praia, cujo proprietário era também um


militante Tupamaro.
Ia à praia com as crianças, almoçava no Jangadeiro, restaurante brasileiro
de propriedade do ex-ministro do trabalho de Jango Goulart, segundo diziam.
Caminhava pela cidade, vez por outra fazia algumas compras, pois todas as
roupas dos meninos estavam pintadas de tinta a óleo vermelha. Roupas e
cabelos. Um sufoco ir limpando aos poucos as mechas louras emplastadas de
tinta. Um transtorno causado por uma ingênua diversão, enquanto estiveram
longe de mim.
No dia de Natal, almocei no Jangadeiros, uma excelente feijoada, para
alegria dos meninos que adoravam feijão com arroz, batatas fritas e farofa. A
cidade estava em polvorosa. Os Tupamaros tomaram um banco de assalto,
mantendo como reféns, seus funcionários, por mais de seis horas. Polícia e
exército completamente desarvorados.
- Como ousavam, ali, no nariz deles, executar uma ação tremenda como
aquela!?
O povo adorava os Tupas, e silenciavam a qualquer inquirição. Heróis
anônimos, cochichavam pelas ruas.
Também estava apaixonada pelos Tupas. Eles eram a extensão dos meus
Juarezes, Moacires, Marias, Carlos, Laras, Rodolfo's, Sílvias e Pedrinhos.
Dia 30, fui ao Jangadeiros para almoçar. Animado, o gerente nos convidou
para a festa que fariam para o reveillón.
- Seu marido virá, não?
- Não, vai direto para Bariloche. Muito obrigada pelo convite.
- Que pena! Será fantástico!
Desejei a todos um feliz 1970.
Saí, tentando divisar, através do mar, a minha pátria tão amada. Por quanto
tempo, ficaria longe de suas montanhas, de suas florestas, do cheiro do seu mar,
do sotaque multicolorido?
Quanto tempo sem ver a Portela entrando impoluta na Avenida Presidente
Vargas, sem sentir a vibração da nação rubro-negra, sem ouvir o Paulinho da
Viola...
Como viver sem o Bar Luiz, o Paissandu, o Mequinho e o Lara?... Estaria
fadada a repetir o carma mineiro: em vez de Dirceu-Marília? Melhor não cogitar
sobre o futuro. Viver apenas, intensamente, o presente. Bom para os olhos,
melhor para o coração.
Montevidéu estava em festa com a chegada de uma nova década. Sessenta

78
Habitando o tempo

havia sido embrião e feto. Ousou libertar a mulher, assassinou presidentes,


instalou ditaduras para sufocar as conquistas, olhou a Terra desde a Lua, ditou
definições morais e políticas, quebrou tabus. O mundo esperava um 1970,
menos conturbado, o fim das guerras, a punição dos culpados, o retorno à
democracia.
A cada primeiro de janeiro renascem nossas esperanças. Assim foi com
nossos antepassados, assim será com as novas gerações.
Seria 1970 uma década diferente de todas as outras até então vividas?
Faltava um dia para deixar a América Latina. Por quanto tempo? Meses, dias,
anos? Que futuro o futuro havia me reservado? Naquele instante, tão somente
a esperança. Era assim algo como a Terra, como dizia Gagarin, azul. A esperança
para mim é azul. Foi nesse azul que me perdi no dia 31. A princípio apreensiva,
preocupada, ansiosa, tentava conciliar o sono.
Era difícil dormir. No dia seguinte, uma grande aventura. Daria certo?
Sairemos ilesos? Seria o último, o ou primeiro dia das nossas vidas.
- Você não vai levar este casaco de peles é um absurdo!- disse Andrada.
- Foi presente da minha cunhada, uma jóia rara para ela!
- Não. Não pode levar.
Perdida no armário, ficou a única lembrança trazida do Brasil. Todo o resto
da minha bagagem era novo, exceto minhas lembranças. Adormeci inebriada de
tantos pensamentos.

E quando eu estiver mais triste


Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada"
Manuel Bandeira32

32
Manuel Bandeira – Poeta Recife -PE

79

1 de Janeiro de 1970
Aeroporto de Carrasco - Montevidéu
Vôo 114 - Dez anos da Revolução Cubana

…”O valor das coisas não está no tempo que elas duram,
mas na intensidade com que acontecem…”
Fernando Pessoa33

Marcello e Eduardo correm pelo aeroporto, arregaçando a roupa à altura


da cabeça, desenfreados, eufóricos, arteiros.
Um guarda passa, ora para lá, ora para cá olhando encantado a alegria dos
dois, que um ano de clandestinidade não logrou castrar.
- Venham cá, meninos! - seguro os dois pelos braços - Quietos!- Sorrio para
o policial que se detém com as travessuras inesperadas de Cell e Edu.
- Vamonos niños, tranquilos. Después ustedes juegan. Ahorita van a entrar en
el avión. - diz o policial.
- Estão felizes de regressar para verem o pai. - expliquei.
Com o olhar, busquei cada companheiro.
- Passageiros do vôo 114, dirijam-se ao portão de embarque, ouvi em
ecos…
Dali para a frente, a sorte. Todos os detalhes haviam sido repassados,
exceto o inesperado. André, Severina, Conga e Athos embarcam.
Acompanhada pelo olhar vigilante de Andrada, carregada de bolsas,
crianças, passaportes e armas, deixando para trás todo o medo , incerteza e
inquietude dos últimos dias, fui a penúltima a entrar. Andrada, se adiantou à
aeromoça e, delicado, ofereceu sua ajuda.
- Bolsas e crianças não combinam!
- Obrigada! - agradeci.
Sentei, estrategicamente, num dos últimos assentos. A qualquer
imprevisto, estaria fora do alcance dos demais passageiros. André sentou-se no
banco da frente para me dar cobertura. Conga se acomodou no banco de trás.
Terminei de colocar o cinto de segurança em Eduardo, acertei o de

33
Fernando Pessoa – Poeta - Lisboa - Portugal

81
Habitando o tempo

Marcello, apertei o meu e a voz serena da aeromoça desejou-nos uma boa


viagem.
- Dentro de uma hora estaremos fazendo escala em Porto Alegre.
Como escala em Porto Alegre? E São Paulo? O vôo era direto para o Rio
de Janeiro. Como agora esta mudança de rota? Falta de passageiros? É normal?

Atentos à decolagem, ansiosos para começarem a viver os anos 70,
ninguém notou quando o passageiro estrategicamente posicionado levantou-
se e entrou na cabine do comandante.
O Caravelle ainda ganhava os céus, quando Andrada ordenou a mudança
de rota.
- Isto é um sequestro. Mude a rota para Cuba, Comandante.
A luz vermelha continuava acesa, e a voz de Athos anunciava, para os
passageiros, o sequestro, lendo o manifesto escrito para a ocasião.

Falava das prisões, das torturas, dos companheiros assassinados, da
ditadura brasileira.
- Este sequestro tem dois objetivos: levar para Cuba os filhos de um
companheiro preso e torturado pela ditadura brasileira e reverenciar a Che
Guevara.
- ...comemorar a Revolução Cubana. - corrigi baixinho.
Fazia dez anos que Cuba estarrecia o mundo. Pequena, aparentemente
frágil, sem recursos naturais, derrubara a ditadura de Fulgêncio Batista e se
declarara socialista. “Se dar ao povo educação e saúde é ser socialista, então
somos.”- dissera Fidel Castro, na época da fracassada invasão dos americanos à
Baía dos Porcos - Playa Girón.
Há dez anos, que o cidadão cubano resistia bravamente para manter sua
soberania. Fazia dez anos. O Brasil também podia, imaginei sonhadora.
Todos ouviram espantados. Nenhum comentário. Pouco a pouco, refeitos
do susto, um suspiro aqui, um ai do outro lado, uma observação mais à frente,
um grito histérico da senhora, quiçá alheia aos acontecimentos dos últimos
tempos.
Esta aeronave não tem autonomia de vôo.- contestou o Comandante. O
Caravelle PP-PDZ, explicou, só pode voar por duas horas. Não comporta mais
combustível, e além do mais, está em pane. Voar para Havana, nem pensar.
Conga, o companheiro gaúcho que entrara no sequestro nos últimos dias
de preparação da ação, conhecedor de algumas manobras de aviação, foi

82
Habitando o tempo

requisitado à cabine.
Borges, o co-piloto, alertou sobre os problemas que certamente surgirão.-
informou André.
- Não chegaremos a Havana. Vamos parar em Porto Alegre para trocar de
nave. - sugeriu Amaral.
- Porto Alegre? Não. Não voltaremos a solo brasileiro. Temos que chegar a
Cuba de qualquer maneira sem sair deste avião.- sentenciou Andrada.
- Não vejo saída. Vou falar com a torre de Buenos Aires. Esta aeronave tem
que ser reabastecida. Temos problemas legais. Autorização de pouso na
Argentina, pagamento de combustível. Temos um protocolo a cumprir. –
mencionou Amaral, o Comandante do Caravelle.
- Vocês não entenderam? Isto é um sequestro!
- Entrem em contato com o aeroporto de Buenos Aires, peçam
permissão de aterrissagem e expliquem a situação. Eles vão entender. Isto é
sério. - concluiu.


Ezeiza – Buenos Aires. 19:00

Trinta minutos depois, aterrizávamos em Ezeiza - Buenos Aires, para
abastecer o avião. O manifesto lido a bordo, deixado com os Tupamaros,
chegara às redações dos jornais. Agências internacionais informavam ao
mundo a notícia de um sequestro num país que escondia sua história aplastada
pelas botas militares.
O sequestro tomava um novo rumo. O nome de cada um dos
sequestradores havia sido divulgado. A presença das crianças, como parte da
ação, também.
De nada valera a decisão de não mencionar meu nome, nem o dos meninos,
nem a presença de uma segunda mulher para cobrir a ação, na possibilidade de
que algo desse errado, como colocaram Andrada e André, pouco dias antes em
Porto Alegre.
Todo o cuidado e cautela, daí por diante, seria pouco. Uma pequena
distração, e um passageiro mais afoito poderia pegar uma das crianças e fazê-
la refém. Mudei de poltrona. Coloquei meus dois filhos do lado da janela e me
acomodei no corredor. Escondi a arma embaixo da bolsa, e, concentrando-me,
pus todas as minhas energias em estado de alerta.
Um casal de idosos foram os únicos passageiros autorizados a deixarem o

83
Habitando o tempo

avião. Após duas horas de negociações, deixamos a capital de Gardel, decolando


em direção à Antofagasta no Chile.
A noite, trazendo em seu cortejo as estrelas, cruzava o hemisfério sul, lenta
e preguiçosa. As crianças, disciplinadas a dormir das 7 às 6h, não reclamariam
até a manhã.
Nosso plano de comemorar o triunfo da Revolução Cubana, ficou
postergado para os anos seguintes. Os passageiros, cansados, terminaram
dormindo, enquanto nós, em estado de alerta, aguardávamos a nova
aterrissagem.
Voando, nada poderia nos acontecer. Nunca o céu me parecera tão seguro.
A próxima parada era uma incógnita. Teriam condições técnicas para consertar
o Caravelle? Abasteceriam sem problemas? Teria a Cruzeiro do Sul autorizado
o abastecimento de combustível.

Aeropuerto Cerro Moreno - Antofagasta. Chile. 0h17m.

Aterrissamos e decolamos em Cerro Moreno, Antofagasta, norte do Chile.
Chile, uma faixa no continente latino americano, beijada pelo Pacífico,
coroada pelos Andes, abriga um povo muito especial. O Chile, que “nos ha dado
tanto”: de Violeta Parra a Neruda, de Victor Jara e Miguel Litin, ao heróico
presidente Salvador Allende, que anos mais tarde seria assassinado no Palácio
de La Moneda, defendendo seu país: “Pagaré con mi vida la libertad de mi
pueblo.”
Eduardo Frei, o então presidente, ordenou que atendessem ao pedido dos
sequestradores: reabastecer o avião.
Em apenas 45 minutos, alçamos vôo dos Andes, com destino ao Peru

Aeropuerto Jorge Chávez - Lima. Perú. 2h10m.

Lima, a de Vallejo34 e Chabuca Grande35, qual gema preciosa incrustada na
história, nos recebeu cheia de surpresas. Hoje, não chove em Lima, e não tenho
vontade de morrer...contrariei Vallejo.
O avião parqueou engasgado. Aos poucos, tensos e famintos, os
passageiros despertavam para a realidade.

34
Cesar Vallejo – Poeta – Santiago de Chuco - Peru
35
Chabuca Grande – Poeta – Interprete – Cotabamba - Peru

84
Habitando o tempo

- Este vôo iria até Porto Alegre. - esclarecia novamente a aeromoça,


preocupada com as consequências da falta de água e comida nas próximas
horas.
Ainda era manhã mas o calor se tornava insuportável. Duas horas haviam
passado e as autoridades peruanas não liberavam a manutenção do avião,
alegando não dispor de equipamento adequado.
- Neste aeroporto, não dispomos de condições técnicas para abastecer o
avião. O birreator Caravelle é um modelo obsoleto. Não temos a bomba para
descomprimir o combustível,nem aparelhagem elétrica para ligar as turbinas.-
explicou o comandante. O equipamento que faz este avião sair do chão não
existe neste aeroporto. Contudo, a Cruzeiro está disposta a colocar uma nova
aeronave para vocês chegarem ao seu destino.
- Não sairemos daqui. - confirmou Andrada.
- Queremos sair daqui!!!- gritou uma senhora. Louca, desvairada,
inconseqüente, desumana! – me fuzilava com o olhar. Como pode expor assim
seus filhos, sua maluca!?
Todos assistiam preocupados àquela explosão. O terror vazava pelos olhos
espantados dos passageiros.
- Calma! Calma, por favor. - pedia desesperado o marido.
André foi até o assento da passageira e a acalmou, alegando o óbvio.
- Não vamos retroceder. Nada acontecerá, se ficarem sossegados. É apenas
uma questão de tempo.
Tempo. Tempo de amar. Tempo de ser feliz. Tempo de liberdade. Tempo
de guerra, para encontrar a paz. Tempo de esperar.
- Ninguém pode deixar seu lugar. Para ir ao banheiro, somente
acompanhado de um de nós. - determinou André.
Aproximava-se o meio dia, o sol abrasante queimava a aeronave, quando
apareceram os primeiros simpatizantes que foram se aglomerando na varanda
do aeroporto.
Faixas, mais faixas com palavras de ordem revolucionárias, coloriam a
tensão e passavam a solidariedade tão necessária em momentos difíceis.
- As turbinas não ligam; sem as baterias apropriadas os motores não
voltarão a funcionar. As empresas peruanas não usam Caravelle.. Este
aeroporto não está aparelhado para atender a este tipo de avião. Só temos uma
solução para o impasse: trocar de avião. A Cruzeiro do Sul vai mandar outro -
de novo a fala segura do Comandante Amaral.
Ouvimos perplexos a sua voz serena. Sem dúvida, um homem experiente,

85
Habitando o tempo

acostumado às peripécias que nos prega a vida, como estar sequestrado em


pleno Andes, responsável por tantas pessoas, negociando para todos e, para si
próprio, a liberdade.
- Precisamos conversar.- pediu André.
Até aquele momento, apesar do desvio de rota, nada parecia tão
complicado. Alguns inconvenientes passíveis de solução. A presença de
jornalistas na pista do aeroporto, apinhado de gente, dava-nos uma certa
segurança.
- Não sairemos deste avião. Custe o que custar - reafirmou Andrada.
Morreremos, se preciso for. Estamos dispostos a morrer. De nada adianta tentar
nos persuadir. Compreendeu, Comandante?
Amaral afastou-se devagar, olhando-me serenamente.
- Tudo bem, vou passar esta informação às autoridades brasileiras e à
companhia aérea.
Através do rádio, comunicou à torre nossa decisão. Regressou mais
animado.
- Desejo conversar com a mãe das crianças.
- Para quê?
- Não sairemos daqui vivos. - confessou-me, sem responder à pergunta.
Mais cedo ou mais tarde, vocês vão ter que sair.
- Sair?
- Sair. Tirados à força. Sem água. Sem comida. É uma questão de tempo.
Estas crianças vão morrer de fome. Vocês não vão aguentar.
Tentei interpelá-lo.
- Ouça-me, pediu. O presidente Velasco Alvarado está disposto a oferecer-
lhe asilo político. O próprio ministro virá até o avião, acompanhado de
jornalistas, para garantir sua integridade física. Garantem que nada lhes
sucederá. Não interessa ao governo nenhum confronto em solo peruano. São
democratas e reconhecidos pelo povo.
Meus companheiros entreolharam- se aflitos. Que decisão tomaria, agora
que a negociação mudara tão repentinamente de mãos?
Eu, que fora posta à margem de tantas decisões... das mais simples às mais
secretas, que tivera meus filhos afastados do meu convívio, para garantirem o
sequestro... Neste instante, o destino de todos, nas minhas mãos: passageiros,
tripulantes, companheiros, meus próprios filhos... sim! Meus filhos, acima de
todos. Olhei para os dois. Tão lindos, tão carentes de infância, de juventude e de
maturidade. Tão pequeninos! Por eles, por todas as crianças do meu triste país,

86
Habitando o tempo

pelos que têm o direito de conhecer o mar, pelo direito que todos têm de ser
felizes, como dizia Martí. Por todos eles.
- Deixe-me a sós com meus companheiros, por favor. - pedi.
André ía falar. Cortei.
Eu não vou deixá-los. Não agora. Antes que vocês aparecessem na minha
vida, eu já cogitava em sair do Brasil. Um dia, conversaremos sobre este
momento. Conversaremos. Chamem o Comandante, por favor...
- Eu.
- Eu vou ficar! Agradeça ao Governo Peruano a delicadeza do gesto.
Agradeça aos jornalistas a solidariedade. Diga ao governo brasileiro que não
vou descer deste avião.
- Não quer pensar um pouco mais?- pediu.
- Não. Não preciso pensar, para decidir o que há muito está decidido. Não
sairei deste avião.
Voltou três vezes, tentando dissuadir-me:
- Mas se a senhora…
- Por favor, não insista.
Coçou a cabeça pensativo, preocupado. Afinal, sua vida também estava em
jogo. Visivelmente nervoso, completou:
- Se você não vai mesmo sair deste avião, aviso que na parte traseira há
uma porta que abre. Vocês devem ficar de olho nela. Seja o que deus quiser.
Vou transmitir sua decisão ao representante do ministro de Relações
Exteriores.
- Tudo bem. - respondi secamente.
Todos me olhavam. Uns, tranquilos diante do inevitável; outros,
resignados, exceto aquela senhora.
Que sabia aquela mulher de sofrimento, que sabia das torturas e
torturados, que sabia de liberdade, de pão, de sede e frio? Do povo massacrado,
sofrido, sem esperança? Dos nossos sonhos de liberdade? Da alegria, ao ver as
crianças de rua em escolas, de homens e mulheres não violentados, trabalhando
com dignidade? Do amor à pátria? Um dia, talvez saberia. Eu não estava
expondo meus filhos. Estava impedindo que eles fossem torturados em nome
da ordem e do progresso.
Sairíamos ilesos, fisicamente; tinha essa certeza, acontecesse o que
acontecesse. Perder nunca fez parte do no meu propósito de vida.
- Abra a porta dos fundos, imediatamente! Um de nós vai ficar lá de
plantão... André!

O cheiro insuportável do banheiro impregnava toda a nave. Doze horas

87
Habitando o tempo

haviam se passado, desde que saíramos de Antofagasta. A água do banheiro


havia esgotado. Todo e qualquer tipo de alimentação nos faltava. Estávamos
famintos e sedentos. Setenta e duas horas sem dormir faziam uma grande
diferença, bem como a fome e a sede. Todo um ano de clandestinidade servira
para o aprendizado de ficar alerta por muito mais tempo que o habitual. Sabia
que podemos viver, sem perder peso, durante trinta dias, somente ingerindo
leite. Para as crianças, tudo bem. Havia leite suficiente para uma semana. Mas,
e água? Em menos de 24 horas acabaria. Este sequestro tinha hora e dia
marcados para terminar. Meu tempo de espera e negociação estavam
cronometrados em relação direta à quantidade de leite e de água para os
meninos.
Fazia mais de duas horas que o co-piloto Hélio Borges não aparecia. Por
que não regressa com notícias?
- Os jornalistas estão muito perto. Devemos ter muito cuidado. Entre eles
pode haver infiltrados - comentou Andrada bastante preocupado.
- Querem tirar fotos das crianças.- disse André.
- Claro que não! Não devemos aparecer. O Manifesto deixado em Buenos
Aires nos identificou, mas eles não nos conhecem. Se a situação muda, podemos
nos confundir com os demais.
- Ilusão a sua. - resmungou Conga.
- Ilusão?
- Severina meteu a cara na janela e foi fotografada; Athos também.
- Não acredito! Não sabem que não podemos nos expor?
- Deram até entrevista!
- Entrevista!? Vá à cabine, Andrada! Acabe com isso! Merda, merda! Se
identificam a primeira mulher, encontrar-me é um segundo. Como fizeram isso,
meu deus? Não queremos violência! Nem mortes! Muito menos mortes!!! Onde
está o co-piloto Hélio? Quero falar urgente com ele!
- Está lá fora.
- Lá fora?!
- Estão dizendo que os sequestradores abriram a guarda. - comentou,
nervoso, Conga.
- Abriram a guarda!? Nunca abriremos a guarda.- olhei para André e
Andrada. Seus olhos estavam mudos.
- A situação está preta. O exército está retirando os jornalistas da pista.
Estão entrando alguns tanques.
- Tanques?

88
Habitando o tempo

- Tanques de guerra, olhe pela janela.


Lá vinham eles, posicionando-se ao redor, sem nenhuma discrição.
Imponentes, sombrios, dominadores.
- Vão invadir o Caravelle? - comentou um passageiro.
- É só uma questão de tempo. - respondeu outro.
- Nada mais de fotos. Nem de chegadas às janelas. Cada qual em seus postos
- pedi a Andrada que ordenasse.
- Não podemos colocar nossas vidas em jogo. Isto é o cúmulo da
irresponsabilidade!- completei furiosa.


Entre medo e euforia, uma discreta alegria invadiu os passageiros. Vozes
sussurradas podiam agora ser ouvidas.
A tarde caía sobre Lima. Cinzenta, chorona, quase triste. Tenho medo das
tardes assim. Frustradas, sem o acariciar dos últimos raios do sol, costumam
ser perigosas. Trazem consigo séculos de angústia e miséria.
Mas Lima é diferente. Tem a força dos deuses Incas, elocubrei. Assim seria.
Ganharíamos o céu qual objeto não identificado, misteriosamente como toda a
cultura andina.

" Jazmines en pelo y rosas en la cara
Airosa caminada la flor de la canela…
...cantava Chabuca Grande.-

A euforia dos primeiros momentos havia passado. O aeroporto deserto de
solidariedade, abrigava a repressão, o terror, o silêncio.
O olhar, antes voltado para as mensagens de vitória e paz, se concentrava
sorrateiro através de pequenas frestas, atento a cada movimento, a cada gesto.
Num piscar de olhos, podíamos ser invadidos.
As negociações haviam parado. Só silêncio e espera. As crianças brincavam
no corredor, ora de pique-esconde, ora atirando-se nas poltronas, ora correndo
no curto espaço e caindo nos braços de André.
- Você acha que este passageiro está com dor de barriga? - perguntou
André.
- Pode ser... respondi.
- Quando sair do banheiro, vamos ver.
- André, são pedaços de passaporte, papéis também. Olha aqui! Uma lista
com nomes de brasileiros! Para que serve?
- Não sei, vamos guardar?

89
Habitando o tempo

-Conga, vá até o assento deste senhor verificar do que se trata.- pediu


André.
- A mala diplomática foi rasgada.- voltou Conga com a nova.
- Mala diplomática!?
- Alguém emprestou uma faca. Não sei, pois o rasgo é grosseiro.
- Chama o Andrada!
- Que fazemos com esta mala?
- Vamos pensar depois. Entregaremos quando chegarmos, ou não sei.-
comentou.


De súbito, veio a ansiada resposta.
- Finalmente, chegaram o gerador e o mecânico chileno que fará funcionar
as turbinas - anunciou contente, o co-piloto. Dentro de poucas horas poderemos
partir.
Enquanto não estivéssemos no céu, poderíamos ser invadidos pela polícia.
No fundo, todos torciam pela chegada, sãos e salvos, à famosa ilha de Fidel.
Após 27 horas de terror, quase às 6h da manhã, levantamos vôo com
destino a nossa próxima escala. Panamá.
De todos os países, o Panamá era, sem dúvida, o mais temido. Estaríamos
em solo americano. FBI, CIA. Passaríamos ilesos? Que surpresa nos reservava a
próxima escala? Cada segundo vivido seria uma vitória, e estas últimas horas
eram decisivas.
Estava cansada, muito cansada. Os meninos dormiam novamente. Comecei
a chorar. Se chorasse, não dormiria. Não podia dormir, custasse o que custasse.
Adoraria um cigarro. Adoraria um copo d’água. Peguei a mamadeira e molhei
os lábios.
As estrelas brilhavam sorridentes. Sorri para elas e lembrei de Olavo Bilac
o poeta parnasiano:

“Ora (direis) ouvir estrelas!
Certo perdeste o censo!...”

Não só ouvi estrelas, como conversei com elas por toda a madrugada.
Falamos do fascínio dos vagalumes que chegam com a noite e se perdem nos
primeiros raios de sol; do Cruzeiro do Sul, brilhando nos meus campos cheios
de palomas. Das amazonas, do chimarrão compartido, das caatingas fedorentas
de morte, dos severinos, da carta de Caminha.

90
Habitando o tempo

Falei da Portela, do Nelson Cavaquinho, do segredo da Ursa Maior, do


Henfil, do Caetano, do Gil, e do Chico.
Lentamente chegou o sol. Amanhecia. A poesia corria desenfreada,
prendendo-se nos feixes avermelhados do céu.
Paulatinamente, a tripulação e os passageiros foram despertando.
O pouso na cidade do Panamá, às 9h dava início ao recomeço dos
problemas anteriores. Reabastecimento, pagamento de taxas alfandegárias,
negociações.
Fomos autorizados a aterrissar longe da área de desembarque. Borges, o
co-piloto mediador, desceu para administrar o combustível. A Panamérica
ofereceu água e comida para todos. Cuidadosos, recusamos.
Na gula poderia estar o nosso insucesso. Quem disse que é gula comer,
depois de tantos dias de jejum absoluto? Comer nem pensar. Certamente, a
comida conteria barbitúricos, e fracos como estávamos, dormiríamos
imediatamente. Não. Aguentaríamos até o fim.
De novo, os mesmos problemas.
- A bateria existente não estava em operação há muitos meses.- confessou
o Comandante. Os mecânicos vão conectar em série, baterias de automóveis,
para acionar a turbina.
- Ótimo. Não tenho dúvidas de que conseguirão.
A poucos metros do avião, um militar vestido a campana. A seu lado, um
senhor de terno. Logo soubemos ser o embaixador do Brasil, e o representante
da aeronáutica, e lógico, a polícia panamenha.
- Conversei com eles, e os dissuadi de qualquer negociação. Falei da
decisão de vocês de não abortarem a operação. - disse Borges.
Outras tantas horas mais de incerteza, até a decolagem para a última
escala: Havana. Cuba

…” Vá lá e tenha coragem de enfrentar os seus problemas mais


difíceis.
Crie seu próprio destino.”
Torquato Neto36

36
Torquato Neto – Poeta, letrista – Teresina - Piaui

91

4 de janeiro de 1970
Aeropoerto José Martí -
Havana. Cuba.17h30m.
…”Si quieres regresar, ya no es posible;
a medida que avanzas se borran los caminos…”
Waldo Leyva37

Lentamente, o Caravelle foi parqueando junto à plataforma de


desembarque, onde, milagrosamente, se lia Aeropuerto José Martí.
Um frio intenso percorreu meu corpo. Seria uma miragem, ou era mesmo
a tão famosa, odiada, adorada, solidária, temida e invejada terra cubana?
- Mucho gusto. Vamonos.
- Onde estão meus companheiros?
- ¿ Como?
- Companheiros - repeti.
- ¡ Oh! En otra sala.
- Quero vê-los.
- ¿ Como? ¿ Que dice? - perguntou o outro militar a Conrado.
- Que desea verlos.
- Ahora, es imposible.
- Quero vê-los, agora. Viemos até aqui juntos e não vou me separar deles
agora.
- Espere um momento - completou Conrado.
Voltou trazendo André.
- Estamos sendo interrogados.
- Como interrogados? Estamos mortos de cansados! Vinte e sete horas de
terror e estão sendo interrogados? Do que vocês falaram?
- Sobre o treinamento.
- Esqueça o treinamento! Cuba não dá asilo, nem dá treinamento, já
informaram. Vocês estão cansados, mas não loucos! Diga a Andrada que não
insista, por favor.
- Tudo bem. Vamos embora, insistiu Conrado.

37
Waldo Leyva – Poeta Santiago de Cuba - Cuba

93
Habitando o tempo

Numa casa, situada bem próximo ao aeroporto, ficamos, até que depois de
algum tempo, outro militar veio nos buscar. Carreguei Marcello e Eduardo nos
braços até o carro, desejando ardentemente chegar ao destino. Uma casa, uma
choupana, um quarto fedorento de hotel, uma mansão, mas chegar. Queria
chegar. Chegar, chegar.


Que avenida florida! Quantas árvores estupidamente frondosas, quantas
margaridas! Igrejas, mansões!... Quantas mansões! Olhava atônita. Será que nos
blefaram!?
Cuba não era cinzenta e triste? Não era!? Parece-me que não!...
A energia emanada daquele solo, fez-me voltar mansamente à vida…
Ao dobrar a esquina, um cinema. Em cartaz “Les Parapluies de Cherbourg”.
Este filme passando aqui?... Esse filme? Aqui? Será uma alucinação!? Meu deus,
como controlar este sintoma? Não agora!
Quantas mulheres elegantes! Vestidos godês!... Penteados B-52, saltos Luiz
XV. Devem estar filmando algum filme de época. Hoje, está na moda. A minissaia
libertou a mulher em muitos sentidos. Das milhões de anáguas, da censura
sexual, e, pouco a pouco vai diminuindo o jugo machista. É importante registrar
todas as épocas, pensei com meus botões.
O hall do hotel Capri, apinhado de gente que circulava de lá pra cá, deixava
escapar a esfuziante alegria dos atores.
Não estava tendo alucinações! Todos os personagens estavam vestidos
assim. Menos mal! Ainda mantinha a consciência.
Divertida, essa Cuba!

Nem percebi quando preenchi a ficha do hotel, muito menos quando
mudaram meu nome e os dos meninos, tal a curiosidade de olhar ao redor.
Subimos ao quarto, me banhei e aos meus meninos. Coloquei-os na cama e
jamais poderei precisar como ou quando conciliei o sono.

Um surdo barulho de ondas, entrou sorrateiramente pelos meus sentidos:
- Dormi! Ai, meu deus, dormi!
Pulo da cama sobressaltada, tropeçando. Vou à caminho da luz que vem
discreta através da janela.
Abro a cortina.
Diante dos meus olhos embaçados, vejo o mar. Furioso, agressivo,

94
Habitando o tempo

quebrando suas gigantescas ondas no Malecón, anunciando enero: inverno


acima do Equador.
Olho Cell e Edu se espreguiçando.
- Mãe. - disseram em uníssono.
- Oi...
Procuro o rádio, giro o botão em busca de “Fusil contra Fusil”.
Uma voz rouca, saída do profundo do coração, cheia de amor, invade o
quarto:

Cuba, primer territorio libre de América. Hoy, 5 de enero de 1970. Año de los
diez millones”.

“Amada, supón que me voy lejos,


Tan lejos que olvidaré mi nombre.
Amada, quizás soy otro hombre
Más alto y menos viejo
Que espera por sí mismo allá lejos,
Allá, trepando el dulce abismo".

Silvio Rodriguez.38

38
Silvio Rosdriguez – Poeta, compositor, e interprete – San Antonio de Los Baños – Cuba

95

1970 “Año de los 10
Milliones”
“Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá…”
Canção do Exílio –Gonçalves dias39

Pulei na cama; cobri Marcello e Eduardo de beijos, dentadas nas pernocas,


cócegas nas barriguinhas; tomei-os entre meus braços; assomei-me à janela e
lhes mostrei o mar.
- Olhem o mar!
- Que bravo, mamãe!
- Olha, olha que ondas gigantes.
- Tá molhando a rua. Por quê?
- Porque no inverno ele fica mal humorado. Acho que o mar não gosta de
sentir frio. Ele gosta mesmo é do sol, penso que é isto.
- Cadê o avião?
- O avião foi embora para o Brasil.
- Foi embora?
- Foi e nós ficamos. Eu, você e o Edu.
O ano de tensão, de medo, de fuga passou. Os quatro dias de terror ficaram
para trás. A partir de hoje, vamos viver aqui. Nesta ilha. Vamos desvendá-la.
Tomá-la nos braços, amá-la, conhecê-la, apaixonar-se por ela. Eu prometo a
vocês, todos os dias, a partir de agora, serão da mais pura felicidade. Prometo
que serão felizes, muito felizes. Podem acreditar em mim.
Ah! Cell e Edu, que sabem vocês da vida, de sonhos, de guerra, da fome, de
frio, de saudade, de solidão, de torturas, de perseguição, de clandestinidade?
- Por que você está chorando? Por quê? Você não gosta do mar, Mamãe?
- Gosto. Gosto muito. Adoro o mar.
- Então, por que está chorando?
- De alegria e tristeza.
- Você está triste? Eu e Edu não estamos tristes. Por que você está triste?
Não chore. Vamos brincar. Vamos.
Ah! Meu amor! Estou chorando de medo do futuro, da responsabilidade de

39
Gonçalves Dias – Poeta, teatrólogo – Caxias - Maranhão

97
Habitando o tempo

fazê-los felizes. Estou chorando por causa do mar. A partir de hoje, é minha
única fronteira. Estou acostumada a múltiplas fronteiras.Trás o horizonte,
fazendo uma curva de cento e oitenta graus, o meu país - aquele onde canta o
sabiá, ora nos versos do poeta, ora na canção. Meu Cell, meu Edu! Tão pequenos.
Tão lindos. Tão puros. A resposta foi um sorriso secando as lágrimas.
- Passou. A brincar, criançada.
“O programa de hoje está dedicado a Beny Moré”. A voz vinda do rádio me
assustou.
Estou no exílio.


Todos os olhares nos vasculharam de cima a baixo, percorrendo curiosos
desde os cachos da cabecinha dourada do Eduardo, até chegarem extasiados a
um par de pernas soltas, livres, despidas, em uma discreta mini-saia para o
cone-sul, escandalosamente nua para a ilha caribenha. Olho ao redor, também
desconfiada. Não era filme a cena da noite anterior, exceto as garçonetes e o
maitre, todos desfilavam modelos dos anos 50. Saias godês, cabelos laqueados,
maquiagem excessiva para a primeira hora da manhã. À primeira vista, a
charmosa ilha de Fidel havia parado em 1959. O desconhecido me intrigava
naquela primeira manhã de exílio.
Vestiam-se à 1950. Porque no cinema passava ’Guarda-chuva do amor‘?. O
filme era mais ou menos recente, lançava Catherine Deneuve no cinema.
Alguma coisa soava errada. A curiosidade aguçou meus sentidos. Tinha que sair
logo, ganhar rápido a rua, desvendar o mistério de 10 anos de socialismo.
Comemos felizes os donuts recheados de doce de leite, bolos, pãezinhos,
algo de fruta e um inesquecível café com leite, quase carioca, ligeiramente
mineiro.
- Antes de mais nada, vamos ver o mar. Depois sairemos por aí para
conhecer a Ilha, - conversava com os meninos.
- Mãe, um murinho! Vamos Edu. Corre, corre.- gritava Marcello
Em um piscar de olhos, segurando minhas mãos atravessadas, subiam no
murinho que bordeja o Pabellón de Cuba, bem ao lado do Hotel onde estamos
hospedados, para seu passeio preferido: caminhar em murinhos e, lá pelas
tantas, atirar-se, voar pelos ares presos a minhas mãos, até alcançarem a
calçada.
- Um, dois e... Tibum...
- Cuidado, companheira.

98
Habitando o tempo

- Quê! - olhei sem entender.


- Cuidado! As crianças podem cair.
Um militar?
- Vamos sair daqui. Depressa crianças.
- Quero pular, - choramingou Marcello.
- Não. Fica para depois.
Apavorada, Eduardo no colo, segurei firme Marcello e desci quase
correndo em direção à orla marítima. Um militar, bem ali ao meu lado. Que
susto! Deveria seguir a risca as ordens recebidas.
- Temos que zelar pela sua segurança, - ordenara o companheiro que nos
atendeu no hotel. - Somos responsáveis pela sua segurança. Nada de falar com
estranhos, ir para longe, entrar em qualquer lugar que não seja público.
Principalmente falar com estranhos, - frisou.
- Mas, todos são estranhos... - Respondi em um ‘portunhol’ assombroso.
- Não importa. Não devem falar. Entendido?
Eu sem falar. Impossível. Sou apaixonada por gente. Por um bom papo. Não
custa tentar, obedecer, nem que seja uma vez na vida. Vamos ver até onde
agüento. Mas, com militar, aí, sim, que não.
Olhei para trás, ninguém nos seguia. Diminuí o passo, fui chegando em
câmera lenta junto à mureta que separa o mar da larga avenida, a esta hora
totalmente vazia. Todos dormem nesta fria manhã de janeiro. As ondas batem
fortes, agressivas, contra as pedras, por vezes estraçalhando na calçada, outras
respingando espuma no asfalto.
- O mar está de ressaca.
- Que é ressaca?
- Ressaca é o mar agitado, nervoso.
- Porque ele está nervoso?
- Deve ser porque está com vontade de passear pela avenida e não encontra
passagem. Fica nervoso, vem forte para pular por cima da mureta.
- Está molhando a gente!
- Não vê? Melhor, vamos para mais longe.
- Mãe, olha. Não tem cabeça.
O que não tem cabeça. Onde? Uma águia sem cabeça. Quebraram a cabeça
da águia.
- Perguntaremos o que sucedeu. ’Tá legal’?
- Lindo o prédio ali na frente. Tem até canhão. Vamos lá?
Meninada, não faz nem 24 horas que estamos a salvo e já temos um montão

99
Habitando o tempo

de coisas para averiguar: a águia sem cabeça, o prédio do canhão, o mar


enfurecido. Não disse que esta ilha tem muitos mistérios?

Na hora do almoço, o restaurante apinhado de gente disfarçou nossa
timidez na escolha do cardápio.
- Que desejam comer? - perguntou a maitre. Lindos olhos castanhos,
cabelos pretos cacheados, corpo esguio, nariz e dentes perfeitos aliados à voz
suave e atenciosa. - Meu nome é Aleida e vocês? São portugueses, não?
- Somos, - respondi ligeiro sob o olhar de reprovação de Marcello.
- Que querem? Ancas de rana?
- Ancas de quê?
- Rana?
- Não sei o que é isto?
- Rana, rana. Daniel. Venga acá.
- Diga: que coisa é ancas de rana?
- Hum... Aquele bicho que faz qua qua qua.
Com as mãos, dedos abertos e levantados em cima da mesa, tentava imitar
uma rã, entre risadas e qua qua.
Ri, sem entender: “Qua qua qua. Que será isso?”
- Vou buscar um papel, regresso em seguida.
- Daniel desenha muito bem, - falava Aleida devagarzinho.
Momentos depois, lápis em riste, uma rã foi aparecendo no papel.
Gorducha... Bem gordinha...
Entre cardápios, rãs, desenhos, naquele dia ganhei meus primeiros e
inesquecíveis companheiros.

Na manhã seguinte, voltamos ao murinho, charme irresistível para todas
as crianças. Do alto, elas observam o mundo, dominam, ditam regras. Felizes,
permitimos sua regência. Orgulhosos do equilíbrio, da firmeza e da
voluntariedade, libertamo-los para o mundo. Quem de nós, homens ou
mulheres, nas cálidas manhãs de domingo, ou em uma distraída quarta-feira de
nossas tão ansiadas férias, não tocou mãozinhas para deixá-los felizes caminhar
pelos murinhos?
- Edu, pega forte a minha mão. Um dois três... Tibum.
- Agora, você, Cell. Vem menino. Não! Sim!!! Vem. De novo. Tibum.
Na esquina, olhando carinhoso, o militar do dia anterior. Sorri,
compartilhando sua curiosidade. Durante a tarde, na lanchonete do hotel, em

100
Habitando o tempo

uma animada conversa com o garçom, o militar da esquina. Trocamos um


discreto sorriso.

Duas alamedas bordejadas por um majestoso jardim, impecavelmente
cuidado, dão entrada ao famoso Hotel Nacional, inaugurado em dezembro de
1930, palco de inusitados acontecimentos entre seus hóspedes famosos, tal
como o asqueroso episódio da passagem da estrela Josefine Baker, a jazzista
americana, furor nos palcos parisienses, proibida de se hospedar por ser negra.
Nem o próprio tempo, ceifador de belezas no acumular dos anos, tampouco os
ferozes furacões conseguiram demolir a sua beleza.
O Hotel Nacional é encantado. Havia descoberto um paraíso. Ideal para as
crianças brincarem, soltas, seguras, enquanto eu mergulharia, nos meses
seguintes, em uma literatura fascinante: José Martí³⁹, e seus versos sencillos;

Yo no puedo olvidar nunca


La mañanita de otoño
En que le salió un retoño
A la pobre rama trunca.

La mañanita en que, en vano,


Junto a la estufa apagada,
Una niña enamorada
Le tendió al viejo la mano.

Nicholás Guillén⁴⁰ com seus versos, suas declarações de amor em prosa e


verso:

¿Quién le dijo que yo era


risa siempre, nunca llanto,
como si fuera
la primavera?
¡No soy tanto!;

Hemingway⁴¹, que fazia eu me perder nas agruras e segredos do velho e


do mar.
Entre versos e sonhos, encontrei Luiz Travassos⁴².
- Oi! Você é a companheira do avião com as duas crianças. - afirmou
sorrindo, falando português.

101
Habitando o tempo

Constrangida, reconheci o famoso rosto do movimento estudantil.


– Oi Travassos... Sim, sou a mãe das crianças.
- Estão no Nacional?
- Não, no Capri. Logo ali.
- Sei! Aqui ao lado. E os outros seqüestradores?
- Foram para outro lugar. Fiquei com as crianças.
As horas passaram distraídas, ouvindo atentas as lembranças que
saltitavam de nossos corações saudosos.....
..."Em quinze minutos de manifestação, falaram três oradores. Diversos
cartazes coloridos, tinham dizeres contra o governo "a ditadura" e "o
imperialismo". Durante todo o tempo os estudantes fritavam em coro frases como
"o povo organizado derruba a ditadura", "fora ianques" e "abaixo a ditadura".Às
seis e meia,
o presidente da UNE, Luis Travassos, subiu num banco de pedra da praça e
falou durante cinco minutos. Disse que o 29º Congresso da UNE se realizou com
inteiro sucesso, que a UNE é contra "a ditadura imperialista" que o "imperialismo
não está lá fora, está aqui dentro mesmo, representado pela ditadura militar".
Travassos acabou por firmar que o povo deve se organizar "para que em conjunto
possamos deflagar uma ação que derrube a ditadura"..... 11/08/1967 Folha de
São Paulo
Travassos, nosso líder estudantil maior, Presidente da União dos
Estudantes, desde novembro saíra do Brasil na troca de militantes pelo
Embaixador Americano. Estivera um pouco mais de um mês no México e ia
vivendo em Havana, enquanto aguardava a decisão de sua organização - AP
(Ação Popular) - para tomar um novo rumo na sua recém-iniciada vida de
exilado. Não estava triste. Sentia-se revigorado com as novas perspectivas de
luta, com os avanços da revolução cultural chinesa, com Mao Tse Thung⁴³.
”Líder máximo da revolução socialista”, argumentava orgulhoso. Luiz
Travassos era maoísta convicto. - Fiz muitos amigos, Mirian. São fantásticos.
Poetas, escritores, jornalistas, você vai adorar. Almoçamos juntos?
- Lógico. Vou banhar as crianças e nos encontramos dentro de uma hora no
restaurante Capri.

De noite, regressou acompanhado. Roque Dalton, poeta, centro-americano,
lutador, contestador e feliz, também exilado - um novo amigo. Saiu recitando:

“Como tú, yo.Como tú amo el amor, la vida, el dulce encanto de las cosas el

102
Habitando o tempo

paisaje celeste de los días de enero..40.”



- Que fazem essas crianças todo o dia? - perguntou de supetão.
- Brincamos sem parar. Conto histórias, brinco de esconder, salto nas
camas incansavelmente até a noite.
- Eles não têm brinquedos?
- Uma metralhadora dada pelo Rodolfo no aniversário deles, comemorado
com sorvete e bolo no Parque Farroupilha em Porto Alegre.
- Espera um pouco. Dentro de alguns momentos volto.
- Aonde você vai, Roque? - perguntou Travassos.
- Calma, homem, já volto. Esses brasileiros são apressados.- saiu batendo a
porta.- Que isso?
- Brinquedos. Todos que pude tirar de Roquinho. Ele já está grande e não
precisa de tantos.
Sua risada invadia a habitação. Atirados no chão, Roque, Marcello e
Eduardo se esbaldavam com tantos carrinhos, bolas, jeeps...
Nossa primeira noite encantada, outras tantas passaríamos regadas a
versos, a discussões políticas efervescentes, a risadas, a felicidade, ao encontro
do futuro.
O telefone tocou insistente.
- Olá. Oi, Travassos.
- Pode vir agora? Tenho uma surpresa.
- Outra?
- Muitas. Muitas. Os meninos estão acordados? Desça rápido.
- Quanta pressa! Já vou, um minuto.
Debruçado à janela do Alfa Romeo, Travassos conversava animadamente.
Acerquei-me, desconfiada com a nova presença. Quem seria a figura saída do
carro?
- Quanta demora! Marta Solis, jornalista da revista "Siempre" do México.
- Muito prazer.
Abraçou-me com tanta ternura. Quase um encontro há muito esperado.
- Que lindos! Marcello e Eduardo. Assim se chamam não é? Também tenho
dois filhos da mesma idade, Ramon e Raul.
Marta era a alegria personificada. Pequena, esguia, cabelos negros, olhar
matreiro, um largo sorriso franco.
De prima, gostamo-nos. De prima, fizemo-nos amigas para sempre. O medo

40
Roque Dalton – Poeta e guerrilheiro. El Salvador

103
Habitando o tempo

do primeiro encontro, quase que furtivo, havia passado. A proibição de


conhecer novas pessoas devia estender-se aos desconhecidos. Marta era amiga
íntima de Roque e Travassos. Foi um dia feliz. Almoçamos juntas. Conversamos
durante horas sobre a situação no Brasil. Alegria e tristeza se mesclavam. Falar
sobre a liberdade, enquanto milhares de nossos companheiros eram
brutalmente torturados nas prisões brasileiras. A situação poderia mudar. Nós
nos prepararíamos e daríamos continuação à luta. Um dia, não muito distante,
nossa pátria estaria livre de pobreza, de fome, de frio, de injustiças, de entrega
ao capital estrangeiro. Um dia, não muito distante, poderíamos abrir os braços
frente ao atlântico, olhos fixos no horizonte e gritar aos céus a tão sonhada e
sofrida liberdade.
O medo da exploração haveria passado. As pequenas nações inteiras
indígenas, que sobreviveram ao extermínio, cultivariam suas terras. Nossos
irmãos africanos seriam reconhecidos como aqueles que em verdade
construíram nosso país. Os primeiros plantadores de cana de açúcar, os
primeiros na extração das pepitas de ouro. Os primeiros a morrerem na
abertura das primeiras estradas, na construção das imensas e suntuosas
catedrais, onde o ouro substituía o barro na escultura das divinas imagens. Os
que, amontoados nas grandes senzalas, tiveram forças para nos ensinar o amor
à terra. Os que, por entre as frestas de pequenas liberdades, nos transmitiram
o que agora é nossa cultura, a musicalidade de nosso sotaque, a força e a
vergonha. Os nossos negros, cujo sangue direta ou indiretamente percorre
nossas veias, dando-nos vida. Marta está loucamente apaixonada pelo Brasil e
pela ternura brasileira, dizem seus olhos transbordantes de luz.
- O Brasil é lindo e verde. Travassos, o novo homem idealizado. – Marta
sorri, matreira.
Todos, sem exceção de credo, cor ou nacionalidade, fomos nos entregando
aos poucos ao amor à pátria, ao amor, à felicidade, aos sonhos, como poetizava
Roque. Viveríamos, a partir daquele encontro, todos os amores, todos os
desejos, todos os enfrentamentos ideológicos, todas as realizações.
- Você não pode ficar trancada com essas duas crianças em um hotel. Nem
pensar. - sentenciou a costarriquense de alma mexicana.
- O companheiro que nos atende prometeu que também vamos ter um
quarto na casa onde vivem os outros brasileiros que chegaram com o Travassos,
alguns dos que foram trocados pelo embaixador americano. Os meninos vão ter
comidinhas mais caseiras, vez por outra, o que é fantástico.
- Lá e na minha casa, - afirmou Marta. - Pode contar com três casas.

104
Habitando o tempo

- Cinco. – sorriu Travassos. - Eu e Roque não contamos?




Fora a liberdade das ruas, o cinecito, o malecón, os murinhos do Pabellón,
cinco lugares para dividir a distância das areias quentes de tantas amadas
praias, o azul celeste do céu, os matizes verdes de tantas montanhas, o sorriso,
a magia do samba, o cheiro de gente minha, o chope na Marquês de Abrantes...
Será que vou suportar viver sem estes elementos que alimentam minha alma?
Três novos amigos: um poeta, um líder estudantil, uma jornalista. Somados aos
do hotel, já eram seis. Seis primeiros companheiros, metade da Sierra Maestra,
o bom começo. Estou feliz! Rindo à toa. Encantada. Isto é, estou encantada no
sentido mais amplo da palavra: fui encantada.
Depois do almoço, inebriada de alegria, regressamos ao hotel.
O telefone tocava insistente. Corri a atendê-lo.
- Olá.
- Estive chamando durante toda a tarde para falar com você. Sou Ibrahim.
- Travassos me falou de você. Também quero conhecê-lo. Pena que não
pode ser hoje, porque as crianças estão exaustas e querem dormir.
- Amanhã vou sair de Havana, para cortar cana no campo. Encontro você
quando regressar, daqui a uma semana mais ou menos.
- Ok. Um beijo.
- Tchau.
Seco este Ibrahim.Nem para mandar um beijo também. Nem parece
brasileiro. Tudo que eu sabia de José Ibrahim é que aos 20 anos já era o maior
líder metalúrgico de São Paulo – de Osasco.
Militante, foi eleito presidente do Sindicato dos metalúrgicos de Osasco
em 1968 com apenas 21 anos e idade e sob sua direção um dos maiores
sindicatos do Estado de São Paulo, voltou às lutas nacionais. A mobilização pela
recuperação dos salários culminou na realização do 1º de maio unificado de
1968, na Praça da Sé, em São Paulo. Alguns manifestantes foram presos e
levados ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). A greve da
Cobrasma em Osasco, simultaneamente à de Contagem (MG), marcou a
presença dos trabalhadores contra a ditadura. Ocuparam a fábrica. O
movimento se expandiu para outras empresas e forçou o Ministério do
Trabalho a negociar com o Comando Geral da Greve. A greve ajudou a
consolidar o Sindicato como referência de luta na região e na história do
movimento sindical brasileiro. A greve também chamou a atenção da ditadura,

105
Habitando o tempo

que, em julho de 1968, voltou a intervir no Sindicato.


Com a reorganização do movimento sindical no final dos anos 1970, o Sindicato
dos Metalúrgicos de Osasco e Região assumiu a liderança do movimento
operário. Nessa história de luta, o Sindicato se consolidou nas mobilizações por
reivindicações específicas da categoria e por mudanças na realidade político-
econômica do país. José Ibrahim, entrava para a história do Brasil como um dos
maiores líderes sindicais” Preso, torturado foi finalmente trocado pelo
Embaixador Americano. “Cinco dias depois de a Junta Militar assumir o poder
no lugar do adoentado Costa e Silva e endurecer ainda mais as regras do jogo
político no país, militantes do MR8 e da ALN decidiram, numa audaciosa ação
conjunta, seqüestrar o embaixador dos EUA no Brasil. E assim, em 4 de
setembro de 1969, Charles Burke Elbrick se tornaria o primeiro diplomata dos
EUA a ser seqüestrado em todo o mundo, e a ação seria a primeira desse tipo
realizada na América do Sul. Elbrick acabou sendo trocado por 15 prisioneiros
políticos, que no dia 6 de setembro embarcaram para o México. Além da
libertação dos companheiros, os guerrilheiros conseguiram divulgar nas rádios
e jornais de todo o país um manifesto contra a ditadura, o que despertou a
atenção nacional e internacional para sua luta contra os militares....

Serão os líderes metalúrgicos carrancudos? Será ele uma estrela?
Nada disso. Ibrahim é tão somente tímido. Extremamente tímido.

A casa da Calle 19 é lindíssima. Dois andares, imponentes pilastras, uma
varanda suntuosa, oito ou nove quartos distribuídos em um imenso corredor
que dava à sala de jantar. Aí viviam, provisoriamente, os companheiros que
chegaram comigo, Wladimir Palmeira e Maria Augusta, perdidamente
apaixonados, Ives Marchetti, José Ibrahim e Onofre Pinto.
Não sei se o exílio, se a própria presença cubana, era determinante, mas o
fato é que VPR´s e VAR Palmares conviviam harmonicamente, compartindo a
mesma casa e dividindo as tarefas domésticas. A cada dia, tocava a um grupo
fazer a comida. Inesquecíveis os dias das famosas lambretas do Marchetti, como
eram chamadas suas facetas culinárias. Mesclava o que via pela frente: carnes,
legumes, arroz, feijões brancos e pretos, folhas, tudo super temperado. Uma
raridade da culinária não especializada, para não dizer simplesmente leiga.
Festa geral os dias de Marchetti na cozinha. Música, risos, desordem total. Cell
e Edu se esbaldavam com as latas de leite condensado acompanhadas do
saboroso mexido.

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Habitando o tempo

- Queremos a comida do Marchetti. - pedia Marcello ao ver as ancas de rana


graciosas acomodadas no prato do luxuoso hotel.

Aos poucos, íamos nos acostumando à tranqüilidade daqueles novos dias
ainda indefinidos. Por quanto tempo ficaria no exílio? Como Dirceu, em vez de
terras africanas, perdida numa ilha do Caribe, tão perto e tão longe. Tão
somente viver... Perdia-me em divagações nas prematuras noites, enquanto as
crianças angelicamente dormiam. Ler, ler muito. Invadir o tempo através de
milhares de livros. Somar conhecimento para enfrentar o tédio das solitárias
madrugadas.
Savana⁴⁴ – o primeiro livro lido - somente ficou a memória de ter sido o
primeiro. Meu parquíssimo espanhol mal permitiu a compreensão de alguma
ou outra frase. Em quinze dias, sinônimos, conjugações verbais, substantivos,
adjetivos dançavam entre meus neurônios na mais sutil intimidade. Pronunciá-
los era um capítulo à parte. Até hoje tropeço comicamente num rojo gutural. Tal
e qual noite e dia se sucedem em uma fusão de harmonia e cor, assim
despertava e adormecia embalada pelos sonhos planejados em um ano de
clandestinidade. Vivia um período de transição.
Sábio seria esperar a vez e a hora de Augusto Matraga, - “ Praticamente
morto, Matraga foi recolhido por um casal de negros que vivia no lugar.
Aconselhado por eles, busca um padre, confessa sua vida, medita sobre a mulher,
a filha, pensa em tudo de ruim que já fez. Agora está decidido: "- Eu vou pra o céu,
e vou mesmo, por bem ou por mal!... E a minha vez há de chegar... Para o céu eu
vou, nem que seja a porrete!..."
"..Com os negros, foi morar num sítio, única coisa que restar a Augusto.
Começou a viver para ajudar os outros. Capinava para ele mesmo e para os
vizinhos, pouco conversava. Murmurava as frases finais do padre – "Cada um tem
a sua hora e a sua vez: você há-de ter a sua". ..Não fumava mas, não bebia, não
olhava para as mulheres. Cada dia esquecia mais a sua vergonha.” Guimarães
Rosa⁴⁵
Com angústia ou desprovida dela, ansiosa ou tranqüila. Estava
reaprendendo a construir a vida. Amigos, projetos, nova linguagem, sonhos,
reeducar os hábitos, participar do coletivo, dividir. Somar é a primeira lição.
Dividir fica bem para depois. Desta forma, acostumados a construir nossas
vidas. Dividir se perde nas salas de aula, em um passado distante. Neste
momento é que as aulas de Matemática começam a ser fastidiosas, complicadas.
Divisões, frações mexem com o interior, transformam nossos sentimentos,

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Habitando o tempo

despertam sentimentos de solidariedade, amor. A Matemática burila o caráter,


estabelece posturas, define limites. Por séculos e séculos conjugamos somar,
dividir, solucionar problemas.
Nesta ilha do Caribe, dividir é a palavra de ordem. Dividir conhecimento,
dividir carinho, dividir sorrisos, dividir trabalho, dividir produção, dividir
descobertas.
Estou reaprendendo a construir uma vida pela divisão.

Havana é totalmente linda. Nos versos do poeta maior, na voz dos
seresteiros, nas cordas das guitarras encantadas. Afagada pelo mar, é manhosa
nas noites de lua cheia. Fogosa nas noites de calor intenso. Sensual no gemido
rouco vindo das ondas quebrando nas pedras que bordejam o malecón. O Prado
iluminado. Suas janelas.
Sua magistral arquitetura. E aquela esquina perdida entre San Lázaro e San
Nicolas?
As ruas desertas anunciam o trabalho no campo no corte da cana de açúcar.
Canadenses, americanos, brasileiros engrossam as fileiras de milhões de
cubanos empenhados em atingir a meta dos 10 milhões.
Vitrines vazias, decoradas de papel picado, retratam a cara do bloqueio
econômico imposto ao Caimán: faltam cuecas, meias, sapatos. Sobra
determinação. Havana. vazia e super populosa. Silenciosa de autos, ruidosa de
música. Nunca triste, sempre iluminada. Estou apaixonada por Havana. Saíamos
todos os dias. O Parque Almendares é o local ideal para as manhãs de
brincadeiras e descontração. Ontem, distraída, passei do ponto. Fomos parar no
final da linha. La Liza – um bairro distante do centro. Um pouco apavorada,
tentava expressar-me em um parco portunhol, quando, por sorte ou
casualidade, o policial sorridente do pabellón apareceu do nada e nos trouxe de
volta ao Hotel.

Passado o susto, fui à casa da Calle 19 conversar um pouco com Onofre e
deixar Marcello e Eduardo curtirem a convivência com outros companheiros.
- Quero leite condensado, - pediram em uníssono.
- Comeram faz pouco. Não vê que gulosos, Onofre?
Açucareiros falantes. - sorriu. - No armário do corredor tem centos de latas
de leite, pode pegar.
Este domingo amanheci com vontade de ser feliz, parecia primavera fora e
dentro do meu coração. Atravessei o corredor depressa, abri o armário, prestes

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Habitando o tempo

a pegar uma simples lata de leite.


- Você é a Miriam? - uma voz detrás estremeceu meus tímpanos.
Em câmera lenta, sob o impacto que me causara aquela voz, virei. Diante
de mim: José Ibrahim, o proleta.
- Hum... Hum... Sou Mirian.
Continuou olhando lá dentro, fundo, tão fundo que me deu arrepios.
- Estou pegando leite condensado para os meninos - respondi excitada.
- Por fim... Quanto tempo... Já acreditava que você era um mito. - insistiu,
enquanto eu saía rápido daquela mirada.
Entre estrofes de Roque, voz e olhar do tímido proleta passavam em 24 por
segundo, no avançado da madrugada.
Nos dias que se seguiram, passamos horas e horas ao telefone depois que
as crianças dormiam.
- O que você faz nas noites?
- Leio.
- Só lê?
- Só leio. Ponho um cobertor na banheira, um travesseiro, mergulho na
leitura. As crianças dormem às sete horas com as luzes apagadas. Como
alternativa, resta o livro e o mar. Porta entreaberta, por uma durmo sem querer,
por outra entreabro uma fresta na janela e olho o mar... E “viajo por mares nunca
dantes navegados”. Luis de Camões.41
De chamada em chamada, fomos nos aproximando. Ibra tímido, discreto,
tão doce, tão seguro. Horas a fio discutíamos a situação cada vez mais tensa no
Brasil, a prisão de muitos, os companheiros, torturas, a crença de poder
construir um mundo de verdade melhor para todos. O socialismo cubano, o
pouco e muito que havia conseguido, o povo cubano há dez anos do triunfo da
revolução.
Tchau... Tchau... Distribuía beijinhos a todos que se encontravam na saleta
quando pelas tardes regressava ao hotel.
- Não gosto de beijos - resmungava Ibrahim, virando a cara, aborrecido.
“Quem não gosta de beijos? Isso deve ser coisa de paulista,” pensava dentro
da minha carioquice. “Ou da distante Osasco”, matutava. Sumia na esquina,
furiosa com o comentário estúpido deste esnobe operário. “Só porque é
operário, crê-se melhor que os demais! Que ódio! Nunca mais lhe dou um
beijinho sequer. Esta foi a última vez...”

41
Luis de Camões - escritor e poeta. Reino de Portugal

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Habitando o tempo

Passados 30 dias de nossa chegada, garçons, garçonetes, camareiras, se


não íntimos, compartiam a cumplicidade do cotidiano. Gentis, carinhosos,
amenizavam a adaptação dos primeiros dias sem o Brasil. Estranhos. Seriam
estranhos os que, em um olhar cheio de ternura, nos desejavam um bom dia; os
que atenciosos, solícitos, brindavam sua discreta companhia nas horas das
refeições supostamente solitárias; os que tentavam, entre gestos humorísticos,
palavras rebuscadas, comunicar os acontecimentos do dia.
- Hoje ,o sol está lindo. Por que não uma volta pelo Zoológico? Crianças
adoram o zoológico. Que digam meus domingos acompanhados de Raulito. –
sugestionava Pepe, o risonho garçom da cafeteria. - Mais cedo do que imagina,
estarei falando português e vocês dominando o espanhol. Palavra de Pepe.
- Irei ao Zôo. - venceram
- Já explico como chegar lá. - interfere Artur.
- Não é assim, gente, esperem. - intromete-se Juana. - Se ela pega o 32, vai
mais rápido.
- Que trinta e dois que nada. O melhor é o 43. Desça com cuidado, cruze a
rua. Aí, bem na frente, o zoológico. – completava.
- Comece pelos leões. Outro dia estive por lá. Preciosos, os felinos luzem
pinturas, - metendo a cabeça pela porta vai-vem, orienta o cozinheiro.
Meus sentimentos se confundem entre Rio e Havana. O gingado carioca /
havaneiro, a simpatia malandra na interferência das explicações. Dá uma
vontade sofridamente alegre de abraçá-los. Quem disse que Havana é triste e
cinza? Havana é um pedaço da Lapa extraviada no Caribe. É o Leme, com seu
Fiorentina, em um entra-e-sai infinito de poemas e notas musicais. É a estação
da Luz. Havana é uma nação Yoruba, tal qual cada pedacinho da minha amada
patriazinha. Havana tem cheiro de estrelas, de mar, de amor. Vou feliz, como
meus anjos louros, levá-los a conhecer os felinos, as panteras negras.
O gorila olha os visitantes mal humorado. “Desde que decifraram o mistério
tão simples da vida, me vêem como algo comum. Antes, vinham conhecer-me
interessados em tudo: meu modo de ser, meus gestos elegantes. Quantos ficavam
perplexos ouvindo minha voz, identificando-se comigo. Hoje, só não passam de
largo por questão de educação, afinal, somos parentes. Ingratos.” Leio em seus
olhos.
- Cell e Edu, este é o gorila.
Vejam o leão. Forte, seguro, todo poderoso. Desde Aristóteles⁴⁷, o leão é
considerado, pelo seu vigor e hábitos predadores, o rei das selvas. E, como se
fosse pouco, sobrevive o mito de seus poderes: se alguém come ou leva consigo

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Habitando o tempo

uma das partes de leão, pode reviver poderes perdidos, curar doenças e
conseguir imunidade frente à morte.
- Mãe, olha o macaco - tirou-me Marcello de minhas divagações.
De regresso passo pela cafeteria.
- Quero sorvete de chocolate.
- Eu de creme, Mãe!
- Não. De chocolate para o Eduardo. O de creme para Marcello. - corrigi o
garçom.
- A companheira, donuts. Acertei?
- Um cafezinho também.
- Acha que vou esquecer seu cafezinho?
Quem serão estes dois homens que não param de olhar e ouvir o que
conversamos? Olho o garçom interrogativa. Vou para o quarto.
Cell e Eduardo, comam depressa que tenho um compromisso. Quanto mais
rápido saio daqui melhor. Quem serão estes homens? Meu Deus.
Vamos. Vamos. Eles nos alcançam no elevador. Ai, Meu Deus. Devem ser
agentes da CIA. Agora tenho certeza, estou sendo seguida e nem prestei atenção.
Como pude cometer este erro? Tanto que me disseram. Cuidado. Cuidado...
Vocês estão protegidos, mas não tanto. Todo cuidado é pouco.
- De onde você é? - perguntou de supetão o mais velho.
E agora ele falou em português. Que sotaque estranho.
- Eu... Eu sou portuguesa.
- De que cidade? - falou o mais novo.
- De Lisboa. Por quê?
- Conhece o Hospital Santa Maria? - voltou a insistir o primeiro.
Hospital Santa Maria. Ai, que terror. Estou perdida. Dentro do elevador,
sem viva alma por testemunha. Vão nos matar. Sim, vão. Estes dois
brutamontes.
- Não. Vivi desde pequena no Brasil. - respondi.
- Hum...
A porta do elevador abriu. Desesperada, grudada em Marcello e Eduardo,
saí quase correndo em direção ao quarto. Detrás os dois, abriram a suíte ao lado.
Estou perdida. Totalmente perdida. O pânico atingiu o clímax. Como fui dar
mole desta maneira? Corri ao telefone para chamar a segurança, quando ele
soou.
- Alô... - contestei aflita.
- Mirian?

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Habitando o tempo

- Ai, Ibrahim. Estou perdida, dois homens me seguiram.


- Como?
- Onde está você?
- Aqui no hall. Desça que tenho uma surpresa.
- Mas tem dois homens me perseguindo. Entraram aqui no quarto ao lado.
- Desça. Averiguaremos com o administrador. Fique calma. Desça.Estou
esperando.
Recuperei meus sentidos. Peguei as crianças. Abri silenciosamente a porta.
Sai veloz pelo corredor vazio. Esperei trêmula o elevador. Entrei assustada, sob
o olhar curioso da ascensorista que já voltara a seu posto.
Saí olhando ao redor. Ibrahim, de frente para a porta, conversava animado
com dois senhores. Que isso? Os homens da cafeteria. Como lhe dizer que são
agentes? Perdidos... Sorridente, Ibrahim se acercou feliz.
- Mirian, quero lhe apresentar dois grandes amigos de Cabo Verde, Amílcar
e Luiz Cabral.
- Que? Não pode ser... Vocês...
Os dois, em um só abraço, me enlaçaram entre seus braços.
- Quer dizer que você é portuguesa? De Lisboa. Ora pois.
- Amílcar é o agente que está perseguindo a linda brasileira? – riu Ibrahim.
- Nunca mais façam isso, por pouco morro de pânico e susto.
- Nunca mais aceite ser de uma nacionalidade da qual você não domine
todos os costumes, cidade onde supostamente nasceu, embora tenha se saído
muito bem ao dizer que sempre viveu no Brasil. - chamou a atenção o grande
líder africano de Guiné-Bissau e Cabo Verde.
Quem diria que, em um mesmo dia, pularia do susto, pânico, ao início de
uma grande e profunda amizade.
Das colônias portuguesas da África, Guiné-Bissau foi a primeira a se tornar
independente, antes mesmo da derrocada da ditadura de António Salazar,
graças à organização política e militar do Partido Africano pela Independência
de Guiné-Bissau e Cabo Verde - PAIGC, fundado por Amílcar Cabral.
A resistência ao colonizador vinha desde o século XVI, quando os
portugueses se instalaram na Guiné-Bissau - "terra de negros”, assim chamada.
Habitada pelos povos oriundos do reino de Malí, pelos fula e mandinga. No
século seguinte, guineanos e cabo verdianos iniciaram um encontro de
cumplicidade, motivado pela escala obrigatória dos barcos negreiros com
destino ao Brasil.
Pobre, pequeno, com a agricultura e o comércio nas mãos de União Fabril,

112
Habitando o tempo

os nativos viviam submetidos a trabalhos forçados na produção para


exportação.
A morte ceifava crianças em uma absurda cifra de uma por cada seiscentos
nascimentos. Onze médicos para todo o país. Na década de 60, enquanto o
mundo explodia em revoluções de costumes, apenas onze guineanos tinham
educação secundária. Nesta triste paisagem, Amílcar Cabral funda, em 1954, a
Associação de Deportes e Recreação, que dois anos mais tarde se converteria
no PAIGC. Conclamou guineanos e caboverdianos para resistirem ao
colonialismo, independente de raça, cor ou religião. Depois de três anos de
inúteis tentativas de chegar a um acordo com os portugueses, o PAIGC iniciou
as guerrilhas. Em 1973, foi eleita uma Assembléia Nacional Popular, que
proclamou a República Democrática, anti imperialista e anticolonialista de
Guiné-Bissau, reconhecida pela ONU. Naquele dia Cell e Edu ouviram uma
história diferente para dormir...

Três anos passaram desde o nosso encontro no lobby do Hotel Capri. Em
fevereiro de 1973, na cidade de Conakry, capital da República de Guiné-Bissau,
Amílcar é assassinado por agentes secretos portugueses. O líder guineano
deixou uma vasta produção de livros e estudos sobre a luta pela libertação dos
povos africanos. Ele foi sucedido no cargo pelo Luiz Cabral, que instalou o
Conselho de Governo na pequena aldeia de Madina do Boé, no coração da zona
liberada.
Até sua partida, nas noites hotelinas, a África adentrou, através da voz
suave e firme de seu máximo líder, na minha vida: forte, linda, cultural,
guerreira, mágica. Amílcar era loucamente apaixonado pela liberdade do
homem.
- Meus irmãos deram vida aos seus, nossas terras “em priscas eras”
formavam um único continente. - animava-se, passeando pela História.
Muitas vezes amanhecia sem que nos déssemos conta.

Entre Martas, Roques, Amílcares, havia os brasileiros que, vez por outra,
apareciam pelo hotel. Andrada e Galeno eram os mais assíduos. Na semana
seguinte, Andrada apareceu com a novidade.
- Vamos fazer curso de tiro. Começaremos amanhã. Venho te buscar lá
pelas dez horas. Fiquei amigo de um professor da Universidade, um Belga.
Muito bacana. Tem nos dado muito apoio. Não está sendo fácil. Os cubanos não
aceitam nos dar treinamento. Insistem que não apóiam os seqüestradores. Acho

113
Habitando o tempo

que entramos em uma fria. A única saída é ir embora daqui, pois não podemos
passar a vida sem fazer nada. Colocaram-nos com os trocados pelo embaixador:
o resto, como um todo desgastante. Agora, mais essa. - concluiu magoado.
- Paciência. Ir para onde? - perguntei preocupada.
- Quem sabe? Europa. Tentar novos contatos. Voltar para América do Sul.
- Aos poucos vou adequando minha vida. Não vejo saída, hoje, para nossa
situação aqui. Vocês não estão preparados para voltar ao Brasil. Sem
infraestrutura é suicídio. O que precisamos é estar preparados para dar
condições aos que ficaram, para derrubarem a ditadura, e não sair morrendo
para firmar terreno. Cuba precisa de braços e cabeças pensando. Ela é o alicerce
da nossa liberdade. Ajudá-la também é fazer revolução. Pensou nisso? - tentei
interferir.
- Imagina. Quero voltar para o Brasil e vocês também farão o mesmo.
Entendeu?
Andrada andava irritado. Qualquer discussão seria inútil.
- Ok. Amanhã estarei pronta. De todo o modo, não tenho nada a perder.
Mais de quinze dias passaram. Um e outro, no próprio campo de tiro, se
revezavam com Marcello e Eduardo para meu aprimoramento balístico. Fausto,
o pai dos meninos, havia sido um excelente professor.
Como tinha a manha tomada, a tarde era para as crianças. As noites, para
ler. No conhecimento encontraria meu caminho.
Ibrahim sumido. Amílcar voltara à África. Luiz trabalhava todo o dia.
Algumas noites, conversávamos até altas horas. Em poucos dias, também
seguiria uma nova estrada. Roque andava às voltas com o término de um
trabalho e Marta fora ao México. A saudade habitava dura o coração.
Vivia um marasmo, amoldando-me, recriando a vida.

- Traga as crianças para merendar aqui; sairei um momento para entregar
uma matéria e volto rápido. - convidou Marta que retornara no dia anterior. -
Ah! Um amigo! Abre a porta.
- Ok!
O sorriso diáfano, a tez negra emoldurada por fios negros como azeviche,
magro, elegante. Uma visão afro-cubano-brasileira diante da minha íris
deslumbrada.
- Mucho gusto. Pablo. - cumprimentou. - Mirian, la brasileña. Certo?
- Prazer. – respondi.
- Marcello e Eduardo, os guris de Rio de Janeiro, - balbuciou a meia voz.

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Habitando o tempo

Caetano, Gil, Chico, Bethânia foram a temática das horas que se seguiram.
- Adoro Elis Regina. Fascinante voz, lúdica, perfeita. - confessou orgulhoso.
- E. Nelson Cavaquinho? - interrompi. - Por acaso existe coisa mais
deliciosa? Ele folheia a alma da gente, inebria, contagia, sufoca, nos
compromete, aperta e solta, em um frenesi. Quando a Bethânia entra cantando...
- Aposto que a música não saiu de cena? - cortou Marta.
- Enfeitiçado.
- Pensou que era brincadeira? - beijou-me a fronte carinhosamente.
Ramon, Raul, Marcello e Eduardo atropelavam Chicos e Caetanos,
Lamarcas e Marighellas em passadas velozes da varanda para a sala, em uma
tarde memorável.
O sol se perdeu no horizonte, apareceram as primeiras fulgurantes...
- Vou andando, as crianças precisam comer e dormir. - levantei
despedindo-me.
Pablo Milanez impostou a voz, sério, decisivo: “Quero alistar-me na
guerrilha brasileira Sou o número um. E dessa condição não abro mão”. Afirmou
decidido.
Em uma despedida à brasileira, um beijinho em cada face, abracei-o
apertado. Feliz dia aquele, ganhei um dos maiores amigo que tenho pela vida a
fora.
- Nos vemos? - perguntou ansioso.
- Com certeza. Alguma coisa me diz que vou ficar muito tempo por aqui.

Abri a janela, dando passagem aos primeiros raios de sol que insistiam em
nos despertar. A Portela entrava impávida na avenida, reverenciada pela massa
extasiada de ‘na onda azul e branca’. Paulinho da Viola⁴⁸ abria os braços,
enlaçando o samba que escapava no vento fresco da madrugada e se perdia
entre as montanhas, ganhava os mares, soberbo, entrava na corrente marítima,
espatifava nas rochas, escapulia da espuma, adentrava batucando no meu
coração. ‘Ah... Minha Portela quando vi você passar, não posso esquecer aquele
azul, não era do céu não era do mar...’ Quem ganhou o carnaval?
- Quem ganhou o carnaval? - perguntou Marcello.
- Ah! Estava pensando alto. O ano passado ganhou a Portela.
- Eu gosto da Portela! -sorriu Marcello.
- Também. - sussurrou Edu.
- A gente adora a Portela, o Flamengo, o Brasil. – brinquei, puxando os dois
para fora da cama.

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Habitando o tempo

- Canta o Bloco dos Sujos. Canta, canta...


- Olha o bloco dos sujos que não tem fantasia, mas que trás alegria para o
povo cantar. Olha o bloco dos sujos, vá batendo na lata, alegria barata... Carnaval
é...
- Quero Sabiá... - choramingou Eduardo.
- Sei que ainda vou voltar para meu lugar. Foi lá... Vamos pra a piscina.
Vamos aprender a nadar. É preciso aprender a nadar.
Um velho sotaque, conhecido desde o meu primeiro choramingo, cortou o
sambinha e a divagação.
- Bom dia... Perdón, buenos dias. São brasileiros? - perguntou curiosa a
senhora. estirada ao sol.
- Sim.
- Nós somos portugueses. Muito prazer! Teresa. Meu marido, Rogério
Paulo, Rui, meu filho mais velho, e Rogério, o caçulinha.
- Muito prazer. Mirian. Marcello e Eduardo. - apontei para os dois.
- Estão aqui muito há tempo.
- Mais ou menos. - respondi. Imagina se cometo a mesma gafe que com
Amílcar. Estaria frita.
- Rogério Paulo é ator. Viemos a convite do governo. Já sabes, Salazar nos
tem atado. Rogério é fundador do Partido Comunista de Portugal. Como vês,
não somos lá, digamos, pessoas tão gratas ao governo lusitano. Vocês são
exilados? – questionou, facilitando meu constrangimento, sem saber que
resposta dar. Ora pois. Adoramos o Brasil. O teatro brasileiro. A música.
Guarnieri é um grande amigo nosso.
-Vem, Marcello. Me dá sua mãozinha... Assim, assim, agora bate as pernas.
Vem, vem... Ora pois, este gajo sabe bem dar suas nadadinhas, - comentou Rui,
já desfrutando da gostosa manhã de inverno ensolarada. - Agora você, Edu.
Vamos lá! Um, dois, três... Tibum.
Eduardo se atirou sem pestanejar.
- Espera aí! Espera aí! Cuidado! Eles são pequenininhos.
- Sem problemas. Sem problemas. Já já estarão a nadar.

Se a manhã amanhecia preguiçosa, dengosa, espreguiçando-se ao sol,
corríamos à piscina, compartindo com ela toda esta brejeirice. Caso contrário,
o murinho do Pabellón era a brincadeira preferida dos meus anjos louros.
Durante pouco mais de um mês, dividimos com os portugueses nossas cálidas
manhãs de um despretensioso inverno. Um belo dia, lá se foram eles, ou para

116
Habitando o tempo

Portugal, ou Espanha, ou quem sabe para onde. O fato é que muitos anos se
passaram até que houvesse um novo reencontro.

A Ilha cheirava a trabalho. Em batalhão, labutavam incansavelmente para
atingir a safra, estabelecida em 10 milhões de toneladas de açúcar. O máximo
que Cuba alcançara em toda a sua História havia sido pouco mais que sete
milhões.
Pelas manhãs, centenas de caminhões abarrotados atravessam as ruas em
direção a algum engenho de açúcar.
Chapéus de palha cobrindo lenços que escondiam com cuidado os cabelos
penteados vaidosamente na noite anterior, preservando-os da poeira suja das
estradas e da poeira branca dos canaviais. Cantarolando, despertando mais um
dia, lá iam pelas estreitas carreteiras as brigadas de homens e mulheres,
dispostas, definitivamente, a conquistar o futuro a golpe de machete.
Todas as manhãs, como em um cotidiano buarqueano, marchavam eles,
acompanhados por nacionalidades solidárias. Brigadas e brigadas se juntavam
aos que, desde o início da safra, haviam se mudado para os engenhos.
Quando pela manhã o telefone tocou, pensei em Travassos. Tão cedo. Que
programa tem ele reservado. Que surpresa traz a sua chamada?
- Alô!
- Oi!
- Ibrahim, quando você chegou?
- Ontem à noite, mas você não atendeu ao telefone.
- Com certeza tocou no quarto errado, pois tanto Roque quanto Travassos
saíram daqui já bem tarde.

Uma discreta euforia balançou meu coração. Estava feliz por ouvir sua voz,
ou era a aveludada manhã de abril, de um abril que se anunciava inesquecível
para todo o sempre?
- Os meninos vão ao parque? Bom. Quer dizer, vamos ao Hotel Nacional
brincar um pouco com eles? Posso?
- Ora, Ora. Sempre pode. - respondi envergonhada.
Havia por detrás daquela afirmação um misto de carinho, uma tênue
saudade. Calada, comprometedora.
- Agora.
- Agora. Estou esperando no hall dentro de dez minutos. Que tal?
O Ibrahim não é, propriamente, um homem bonito, mas tem um não sei

117
Habitando o tempo

quê de James Dean. Um mistério envolve seus 21 anos. A adolescência ceifada


pelos compromissos assumidos com o povo brasileiro. A juventude violentada
no pau-de-arara, nos intermináveis meses de prisão e tortura, fazia daquele
jovem de Osasco um líder prematuro da classe operária brasileira.
Curtia sua presença, seus olhos. Eriçava ao tocar suavemente suas mãos,
principalmente, amava suas falas: simples, descomplicadas, sinceras,
politicamente corretas. Sentia falta da sua presença. Estaria fascinada pelo
proleta – o nosso único proleta na Ilha – ou o amor rondava sorrateiro meu
coração? Contudo, Ibrahim andava fascinado pelos dotes físicos de outra
mulher... Impertinente, grosseiro.
- Não vire a cara. Por que faz isso? Sempre.
- Isto é muito burguês. Beijinhos nas faces. Como se fosse pouco, dois.
- Que saco! Despedir com beijinhos é cultura. Ou você pensa que cultura é
só Jeca Tatu e Caetano Veloso?
- Não quero beijos.
- Nunca mais vou beijar você. Se despedir com beijos é coisa de burguês,
vou morrer burguesa. Amo beijar, tocar o ser humano, sentir o calor que emana
de seu corpo, suas sensações, seus medos, sua força. Adoro tocar as pessoas.
Ao Parque. Este proleta quer me confundir. Da última vez, aquela chatura.
Nesta manhã, todo carinho. Bom, ao Nacional. De todos os modos, uma saudade
fininha caminhava ao meu lado, reclamando sua ausência.
Brincamos toda a manhã, correndo pelo gramado verde. Por vezes caíamos
exaustos, vigiados pelo mar prazeroso beijando incessantemente as pedras do
malecón. Como tocava a Marquetti fazer o saboroso almoço, fomos à casa da
Calle A.
- Gente, vou andando. Já está tarde e as crianças têm que dormir.
- Você não vai ficar? - perguntou Galeno.
- Não trouxe roupa, viemos do Nacional para cá.
Ganhava a porta depois dos beijos de despedida.
- E, o meu beijo? Não vou ganhar? - reclamou Ibrahim.
- Seu beijo! Um beijo!
Aproximei-me... Meus lábios tímidos se acercavam de suas faces quando
ele, nervoso, virou a cabeça e seus lábios roçaram suavemente os meus. Sorri, e
me perdi escada a baixo.
Sem querer. Claro, sem querer. E precisa ser um beijo? Basta um toque.
Leve, distraído. Vou dormir, desfazer esta magia. Apagar esta sensação.
Trimmmm... Trimmmm... O telefone a está hora!

118
Habitando o tempo

- Olá.
- Vamos ao cinema? A Marta fica com as crianças. Falei com ela.
- Que horas são?
- Sete.
- Sete de quê?
- Como de quê? Da manhã.
- Um cineminha pela tarde?
- Ok. Um cineminha pela tarde. Te vejo ás 3 horas na casa da Marta.

- Caramba. Com este vestido amarelo, o bronzeado realça de uma maneira
especial. O batom laranja dá um toque primaveril, e o cheiro do Arpeje inunda
o início da tarde. Tem certeza que é um cineminha? - comentou Marta olhando
risonha.
- Lógico. Desde janeiro de 1969, não sei o que é pegar um cinema. Sozinha,
claro. Abril chegou e esta é a primeira saidinha sem os meninos desde que
cheguei à Ilha.
- Vá. Divirta-se. Dou conta dos quatro.
O silêncio engolia as palavras, as passadas trôpegas confundiam a
caminhada pela Calle 17.
- Sou de Osasco. Você nasceu no Rio?
- Minas Gerais. Do primeiro exílio, dos primeiros mártires, das minas de
ouro, dos poetas, das Marílias e dos Dirceus. Das montanhas. Osasco tem
montanhas? Como as de Minas? Duvido? - completei, sem deixar lugar à
resposta. - Para mim, Osasco é uma fábrica só.
A tarde vacilava entre ir-se discreta ou sair de cena rapidamente. A praça
entre B e C é linda. Um coreto de cimento todo trabalhado com motivos afros e
mexicanos. Árvores enfeitiçadas, frondosas, de um verde matizado, nos
convidam a compartir nossos segredos.
- Sentamos? - convida Ibrahim.
- Aqui, não. Ali. - indicou um banco ao lado esquerdo do coreto.
Meu Deus, este cara me desperta um não sei quê de desejo... Uma vontade
de ficar perto, de sentir seu toque, de ficar olhando, tocar...
Em silêncio, seus olhos entram pelos meus, deslizam mudos pelos meus
cabelos. Falta o ar... Suas mãos estão geladas, suando, umedecendo minha face,
vão descendo devagarzinho, envolvendo de mansinho meu rosto, em câmera
lenta, alcançando meus lábios trêmulos. De suave, tímido, úmido ao beijar
profano. Seus braços enlaçam meu corpo sem pudor, deslizam pelo meu
pescoço. Ganha de novo meus lábios, passeia molhado por meus olhos, toca

119
Habitando o tempo

minhas mãos, sobe para meus ouvidos e, em uma declaração quase que infantil,
sussurra: estou apaixonado por você.
Também... estou. Desde quando, em que tempo, quando descobri, quando
chegou? Sei lá. Mas, estou.
- Eu quero você pra mim. Só pra mim. – insistia, como se um batalhão nos
fosse sacar daquele terceiro instante de felicidade.
Caídos na eternidade da paixão, a lua entrou confundindo o tempo.
- Gostaram do filme? – perguntou Marta.
- Oi, mãe! Oi, mãe! - interromperam Marcello e Eduardo.
- Adoramos. Oi, amores. Brincaram muito? – completei.
Dormi abraçada a Marcello e Eduardo, inebriada.
Este amor com o Ibrahim explodia diferente de todos os que eu já havia
vivido. Sem medos, sem rivais, sem passado. Sem primeiro amor, sem ter que
devolver o Neruda, sem marcas, sem traumas. Se fosse eterno, valeria, se
enquanto durasse, como sonetear Vinícius, daria igual. A paixão muitas vezes
havia rondando meu coração, todas carregadas de lembranças passadas.
Nenhuma delas com os corações virgens. O do Ibra era virgem de mim e o meu
dele. Íamos ser felizes. Juntos ou separados.

“Mercenários desembarcam em Baracoa42,” anuncia o locutor que compartía
todas as nossas manhãs. “Durante o combate, quatro combatentes
revolucionários morrem e dois ficam gravemente feridos”, completou.
Desci para o café da manhã preocupada com os ataques em plena euforia
do açúcar.
- Sem preocupação, Mirian. A gente tira de letra estes mercenários. Por
vezes, costumam sacrificar alguns dos nossos, nunca o povo inteiro.
Aprendemos a defender nossa pátria a golpe de guitarra e canhão.
Aleida argumentava firme. Seus lindos olhos castanhos espanholados
reafirmavam a decisão tomada há muito por todos os cubanos: nossa
independência é prioridade um. O resto, todo o resto que nos toca viver; em
segundo lugar.
Nove dias depois, os mercenários de Baracoa capturados eram julgados,
condenados e fuzilados.
Despertei infeliz. A velha e conhecida angústia despertou meu coração.
Baracoa me preocupava. Não era Baracoa. Vinha de longe, o vento trazia
notícias. De repente, a vontade incontrolável de chorar. Que havia acontecido

42
Barocoa – Provincia de Cuba

120
Habitando o tempo

comigo? Cell e Edu aos poucos iam se habituando às comidas, ao portunhol. Os


últimos dias de convívio com o proleta haviam sido de extrema beleza. Do
Brasil, chegavam notícias sempre preocupantes. Mas daí a este desespero? A
tarde adentrou na noite incomodada, o mar parecia querer tragar o mundo de
um só gole. O mundo está chorando. “Mas por quem?” Perguntava-me.

Ibrahim chegou calado, sério, cabisbaixo.
- Vou logo ao assunto. Sei que vai doer.
- Que isso? O que está acontecendo?
- O Juarez foi assassinado.
- Quê? Você ficou louco? Como assassinado? Quem ousaria assassinar o
Juarez? Vai à merda. Como você pode saber? –Diga, diga.
- Mirian. - olhou-me com carinho. - O Juarez foi a um encontro, não sabemos
ainda como, e, cercado pela polícia, ele deu um tiro na cabeça. A Maria do Carmo
foi presa.
- Não. Nãoooo é verdade.
- Sim, companheira, é verdade. Acalme-se.
- Desculpa-me. Eu não queria dizer assim. Eu também não queria que ele
morresse. Essa merda de ditadura. Esses cretinos!
Chorei meu ser. Chorei ao companheiro imprescindível. Chorei ao nosso
Juarez.
Fui com as crianças olhar o mar. Buscar respostas pra tanta dor. Tentar,
nos espelhos das águas, ver meu país. Encontrar minha gente. Juarez, seguro,
foi uma manchete a mais nos jornais. Quantos sabiam do seu valor? Quantos
tinham consciência de que com ele partia um pedaço grande da nossa
esperança? Poucos como ele foram tão brasileiros. Poucos se dedicaram tanto
à conquista da liberdade! Poucos... Muito poucos... Quantos mais teríamos que
perder para que o povo brasileiro pudesse ter um pouquinho, só um pouquinho,
de escolas, direito à saúde, a uma vida melhor? Quantos Juarezes teriam que
morrer? Morrer é uma palavra muito forte. É para todo sempre. É para nunca
mais.
Olhando as ondas, que teimosas se espatifam contra as muretas, chorei...

O ruído musical dos engenhos, o movimento magistral dos machetes
cortando a cana, a alegria expressa na força de trabalho de cada homem perdido
nas ramas dos canaviais era novamente ultrajada: pequenos barcos pesqueiros
eram afundados e seus tripulantes seqüestrados por agentes da organização

121
Habitando o tempo

criminosa ALFA 66.


Um vazio preenche os corações de tantos que sabem de antemão ser esta
uma das tantas tentativas de ceifar a meta dos dez milhões de toneladas.

Milhares e milhares de mulheres, homens e crianças se concentram diante
da antiga Embaixada Americana.
Dias atrás, toda a população, em um gesto inimaginável de amor e força, se
prostra diante do malecón, olhando vigorosamente para o Norte, logo ali, a 99
milhas. Pelo palanque improvisado passam líderes cubanos, latino-americanos,
brasileiros, africanos, decididos a recuperar, seja como seja, os humildes
pescadores.
Em vigília, exigem do governo dos EUA a entrega dos pescadores
prisioneiros nas Bahamas pela CIA. Nove dias de angústia, nove dias de orgulho
daquela gente, nove dias de inesquecível emoção. Excetuando o discurso de
Jango na Central do Brasil, esta era a primeira entre muitas outras
manifestações, testemunha ocular e participe da afirmação da soberania
nacional. A safra dos dez milhões podia não acontecer depois de tantos atos de
terrorismo, mas Cuba conseguiria atingir uma safra superior a todas as
anteriores.
Nestes dias, aprendi para toda vida: não existem pedras intransponíveis no
caminho. Adoro as pedras. Ou subo por elas, ou as contorno para admirá-las
pelo outro lado. Com elas vêm o pôr-do-sol, os amores, as noites de lua, os dias
sufocantes de calor, a brisa, as marés, o inverno, os dias amarelados do outono,
as conquistas, o conhecimento, as tristezas, as alegrias, os amigos, os
indesejáveis, os imprescindíveis, os poetas, o compositor tímido, o camponês, o
proleta calado e sábio – a vida.
Nixon, representado por um bonecão feio e desajeitado, foi queimado no
malecón, como um Judas na tradição cristã no sábado de Aleluia, e os
pescadores resgatados pela pressão popular deram fim a nove dias de
resistência.

Aleida buscava um lugar mais acessível para estar com Marcello e Eduardo,
quando o Comandante começou a falar.
Emocionados e fortes, ouvíamos em silêncio a voz pausada e enérgica
daquele que há 12 anos delineava, junto com seu povo, o respeito, a
solidariedade, o patriotismo, a liberdade de serem donos de seus próprios
sonhos e vontades.

122
Habitando o tempo

Bandeiras ao vento, palavras de ordem, aplausos ecoavam mar a fora,


atingindo as costas Miameiras.

"Companheiros pescadores,
Companheiros trabalhadores,
Camponeses,
Estudantes.
Faz aproximadamente 48 horas que, neste lugar, vem se reunindo
o povo para expressar seus sentimentos e a sua decisão. Ouvimos
mães e, entre elas, as dos pescadores, que naqueles momentos
viviam sob a angústia do que os mercenários criminosos fossem
capazes de fazer a seus filhos.
Sem dúvida, desde o primeiro instante, tínhamos a segurança de
que ganharíamos esta batalha. Desde o primeiro instante, tivemos
a segurança de que nossos pescadores regressariam sãos e salvos à
nossa pátria, e mais, que seriam devolvidos sem condições de
nenhuma classe.
Desde o primeiro instante, advertimos o responsável principal por
estes fatos, que é o governo dos Estados Unidos, o único
responsável pela vida destes 11 pescadores. Caso contrário, teriam
que assumir também a responsabilidade de qualquer medida que,
em qualquer terreno, o povo de Cuba se visse na necessidade de
tomar, se os pescadores fossem assassinados.
Em geral, nosso povo aprendeu muito de política nestes tempos, e
aprendeu muito de questões internacionais, e aprendeu a saber
distinguir o que se esconde por trás de cada atitude e o que temos
de fazer em cada caso.
“Nós conhecemos numerosos pontos que, neste instante, estão
sendo utilizados como escala intermediária entre a Flórida e Cuba
pelos agentes da CIA.
Lógicamente, el objetivo número uno, el objetivo fundamental era
la devolución de los pescadores sanos y salvos si condición alguna.
Nuestras unidades navales se movilizaron; hicimos un cálculo del
lugar más o menos, o de la dirección, o en qué dirección ellos
tratarían de ocultarse. La tarea era difícil (la de localizar a esos
elementos), porque se trata de un gran número, cientos de islas y
de cayos , y sobre todo la circunstancia de que se trata de un
territorio extranjero, y nosotros consideramos nuestro deber
primero solicitar de las autoridades del gobierno con jurisdicción
sobre ese territorio que tomara las medidas pertinentes del caso, a
fin de localizar a los mercenarios y rescatar a los pescadores.
Nosotros estábamos completamente seguros de que no habían
regresado a la Florida. Todo el mundo sabía eso, porque nosotros
sabemos perfectamente cómo opera la CIA. La invasión de Girón
no salió de la Florida. Se entrenaron en Guatemala, salieron de
Nicaragua, vinieron escoltados por barcos yanquis hasta las

123
Habitando o tempo

cercanías de nuestras costas. (…)


Y en realidad ¿qué ocurría? Que cada día venían más ciudadanos a
protestar en este sitio. Y lo que hacían las autoridades como
autoridades era prácticamente nada. Las organizaciones de
masas, los Comités de Defensa y los propios manifestantes se
organizaron aquí: se pusieron los brazaletes y se dedicaban a
apagar pequeños fuegos que pudieran engendrar una gran
llamarada. Porque señores, la indignación era tremenda. (...) es el
propio pueblo quien organizó el orden, es el propio pueblo quien lo
organizó todo. (...) nos impresionó la autodisciplina de nuestras
masas.
Reveses ha sufrido la Revolución, y los ha sufrido más de una vez, ¡y
reveses de verdad! ¿Y los sufrimos cuántas veces a lo largo de la
historia revolucionaria? En el Moncada, en el Granma nos
quedamos seis o siete con unos pocos fusiles, cuando la Huelga de
Abril. ¡Montones de veces!
Nunca se nos podrá olvidar un día triste en las montañas, cuando
quedábamos 12 hombre y por un radio de pilas escuchamos un
parte del Estado Mayor General del ejército enemigo que decía:
“Han sido perseguidos incesantemente” era verdad , “Sólo quedan
12 hombres y no les queda más alternativa que rendirse o escapar,
si es que pueden”. Y éramos acertaron en su mentira , éramos en
ese momento 12 hombres: unas horas antes habíamos quedado
sólo 12 hombres.
Me acuerdo en aquel momento la reacción de todos nosotros:
“Quedamos 12, pero no nos rendiremos jamás, no pensaremos
jamás en escapar. Seguiremos la lucha y la llevaremos hasta el
final, seguiremos la lucha mientras quede un hombre, seguiremos
la lucha hasta el último aliento”.
Y así también nuestro sentimiento ahora. El sentimiento del
revolucionario solo puede ser uno. (…)
Levantemos la frente, ¡levantemos la frente!, que nos queda mucho
por luchar, que nos queda mucho por hacer. ¡ Levantemos la frente
en este instante amargo! Y frente a nuestros enemigo y junto a
nuestros deberes más elementales digamos, con más fuerza que
nunca en este minuto feliz por un lado y triste por otro, en este
minuto de victoria y de revés , digamos: ¡Adelante, pueblo
revolucionario! ¡Adelante, con más coraje y con más valor que
nunca! Y digamos con más profundidad y más alto que nunca:
¡Patria o Muerte! ¡Venceremos!"

Mal os macheteiros regressavam ao corte da cana, médicos e enfermeiras


partiam para o Peru.
Todavia, desvelados por dias de vigília, mais de cem mil cidadãos da
liberdade se concentravam nos postos médicos, doando sangue para as vítimas

124
Habitando o tempo

de um dos maiores terremotos no país andino. Fidel - Comandante da esperança


era o primeiro da fila.
De braços estendidos, olhava pensativa o líquido vermelho que enchia o
frasco, dando início ao aprendizado da força que ia nortear a minha vida: a
solidariedade.

Pegava-me tarareando pelas ruas, cantando no escuro... O amor nutre a
alma, impregna a pele de suaves arrepios, sonha desejos, colore calçadas,
embeleza sorrisos. Conforta, alenta, redime. Estávamos apaixonados... Pela vida
a fora, estupidamente apaixonados. Nem o tempo, nem os outros amores iriam
borrar ou despedaçar este sentimento. Esta paixão nasceu com os sonhos de
mudar o mundo. Maturou com a revolução, foi ganhando terreno, vencendo
batalhas junto às conquistas cubanas. Fortaleceu para vencer o inimigo, que
destruía nossa gente, sangrava nossas terras, feria de morte nossa dignidade.

Ibrahim, me acalmava com seus beijos que entravam úmidos dentro dos
meus sonhos e, na clareza dos dias, os ensinamentos marxistas, as leituras pelas
madrugadas adentro, as discussões políticas, o conhecimento da alma
proletária iluminavam nossos dias.
Entre a guerra e a paz, nossos corpos se uniram, umedecendo a tarde
primaveril, e, em uma inocente jura, nos prometemos que para sempre seria
assim. Em momentos de extrema ternura, esquecemos do vento, que leva
tristezas, traz alegrias, que muda o curso dos rios, que devasta montanhas,
deflora as hortênsias, borra as paisagens. Em momentos de extrema ternura, a
vida se confunde com a eternidade. Ninguém se lembra que eternidade é tempo
demais para qualquer sentimento. Que a eternidade é virtual...

No Brasil, o seqüestro do Cônsul Japonês nos dava um fôlego de esperança.
A morte de Juarez havia sido um golpe forte para o movimento. Muitos
companheiros se encontravam na prisão, torturados, mortos. O seqüestro de
Nabuo Okuchi, Cônsul Geral do Japão em São Paulo, foi feito pelo comando que
se juntou à VPR, o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) e a Resistência
Democrática (Rede), esta última comandada por alguns dos mais corajosos
companheiros: Eduardo Leite - o Bacuri - e Liszt Vieira.
O seqüestro tinha um motivo específico: tirar das mãos da ditadura o
Shizuo Ozawa – Mário Japa, que detinha informações sobre o Vale da Ribeira,
local escolhido para desencadear a guerrilha rural. Na Ribeira, encontravam-se

125
Habitando o tempo

companheiros de relevante importância para a luta armada.



Hotéis são hospedeiros de casais enamorados, de empresários em viagem
de negócios, de alegres passos dos que desfrutam merecidas férias, de opção
para poetas, músicos ou anciãos em buscam da liberdade caseira. Para residir
com duas crianças prontas para voar, não é insuportável, é odioso. Os dias
seguem longos, curtos, com e sem esperança, carentes de futuro. Viver tão
somente o presente não é tão fácil quanto se apregoa quando a juventude
carece de planejar o amanhã. A juventude exige um futuro. Um presente com
cheiro de amanhã. Qualquer futuro! Um amanhã, um depois de amanhã.
Eu não fugia á regra. Queria desesperadamente um futuro. Futuro nem que
fosse de um dia.
Como exigir dos companheiros cubanos este amanhã? Tanto nos haviam
dado carinhosamente: guarida, atenção, um abrigo. Futuro era pedir demais.
Esta ousadia era sem cabimento. Pobres companheiros... Que fazer com nossas
vidas, se suas próprias vidas estavam sendo construídas à força de gigante?
Minuto a minuto, dia a dia, ano a ano.

Marcello e Eduardo estavam distraídos nas cabanas improvisadas com
lençóis, colchas, travesseiros, nem perceberam o telefone tocando.
- Alô... - atendo.
- Mirian, é Firmin. Vamos levá-la amanhã para um apartamento em
Miramar. Achamos que você vai adorar. Fica bem diante do mar. Prepare-se.
Passamos para pegá-la depois do almoço. Tudo bem? – perguntou feliz.
- Um apartamento perto do mar? - perguntei radiante. - E, Miramar fica
longe?
- Ora! Miramar é depois do Parque Almendares. - explicou vaidoso.
Pulava e pulava, puxando Cell e Edu pelos bracinhos. Beijava-os todos.
Apertava suas carinhas fofas e lindas, puxava seus cachinhos dourados. Beijava-
os... Beijava-os.
- Vamos mudar para um apartamento, criançada brasileira. Vamos ter um
quarto para cada um, uma sala, banheiros. Vamos começar outra vez.
- Que é apartamento? - perguntou Marcello.
- Apartamento é um tipo de casa. Uma casa em cima da outra. Como um
pombal. Em um andar moram algumas pessoas, no outro andar, outras pessoas.
Como aqui. Só que as pessoas vivem, ficam nos apartamentos mais tempo, ou
todo tempo. Ou a vida inteira, ou vida e meia. Nos apartamentos temos espaço

126
Habitando o tempo

para brincar. Podemos fazer um montão de coisas: teatro, ter cachorro, brincar
no quarto, na sala. Como na casa da Marta.
- A Marta vive em um apartamento? – interrogou.
- Vive em um apartamento. - concluí.
- Vamos gostar, manito. - comentou com Edu.
Firmin enfiou a chave na fechadura, orgulhoso. Era todo sorriso.
- Uma casa para Marcello e Eduardo. – foi entrando comentando.
- Linda! Linda! – abracei-o eufórica.
- Venham ver. – chamou, indicando os quartos.
- Todas as janelas dão para o mar. Gostaram da varanda? - apresentava-
nos cada compartimento. – Agora, a cozinha. Que classe de fogão! Quatro fornos,
seis bocas e uma prancha para deixar a comida esquentando. E esta geladeira
com água gelada. – Bárbara sorria.
Com Edu nos braços, olhávamos curiosos. No Brasil, os fogões não são tão
sofisticados, nem as geladeiras com filtros de água. “Que chic”, pensei. Tudo
brilhava, cheirava gostoso, limpo.
- Bom, aí tem de tudo. Peixe, camarões, ovos, carnes, leite. Todas as
semanas, trarei novas compras. Se necessitar algo, telefona para este número.
Venho em seguida. – completou, olhando-me espantado. - Aconteceu alguma
coisa?
- O que vou fazer com tudo isso? – perguntei apavorada.
- Comida.
- Comida? Mas...
- Não sabe cozinhar? - perguntou dando risada.
- Alguma coisa. Peixe, lagosta... Ovos não. Bife, nem falar, sai horroroso.
Estou ferrada. Completamente.
- Damos um jeito nisso. Hoje,você se vira, amanhã pela manhã venho
ensinar umas coisinhas, - falou, saindo porta fora.
Só. Sozinha.
Busquei com os olhos Cell e Edu parados à porta. Abaixei devagarzinho,
apertei-os forte. Transpus a sala, assomei a varanda, fitei o céu. A tarde
despencava entre nuvens carregadas de eletricidade. A tempestade ostentava
relâmpagos e trovões. O céu caía na correnteza das águas que se atiravam
impiedosas sobre as flores, despetalando-as. A primeira tarde na Calle Terceira
y 96. A primeira enxurrada, o primeiro rugido ensurdecedor do mar, o primeiro
vento varrendo sonhos e tristezas, trazendo consigo o nascimento de outro
porvenir.

127
Habitando o tempo

O relâmpago varreu as águas, estremeceu a terra, espatifou no mar. A


saudade, maior que a imensidão do mar, penetrou afiada dentro do meu
desassossegado coração.
O povo cubano me oferecia em um turbilhão um futuro. Aproveitar a
recém-chegada oportunidade cabia meramente a mim. Num incrível instante
beleza, apareceu o sol.
As crianças corriam por toda a casa, radiantes, rolavam pelo chão, pulavam
de cama em cama. Entravam e saíam do banheiro, dos quartos, espalhavam-se
pela sala, chegavam à varanda, olhavam ao redor curiosos.

- Menina... Oi, menina – escuto Marcello chamar. Busco a novidade,
estirando o pescoço curioso. Deitados no chão, olhando pelo vão da murada que
separa o chão da varanda do vazio do terceiro andar, lá está ela. Magrinha,
cabelinhos lisos cor de mel, olhinhos sonhadores, a primeira menina. Marcello
insiste na resposta, enquanto ela sorri feliz sem entender.
- Escondeu. – decepcionou-se Marcello.
- Apareceu. – gritou, chamando Eduardo.
- Está olhando!
Neste esconde-esconde, Luly, a garotinha do lado, entrou definitivamente
no apartamento dos brasileiros. Caímos de encanto por ela, misto de flor
silvestre regada à seiva de baobá. Forte e frágil. Rebelde e centrada. A nossa
doce menina de brincadeiras infantis, a adulta mocinha desabrochando para a
vida.
Luly viveu a nossa vida, amenizou com sua inocência as noites de vigília, a
solidão, foi cúmplice de todos os amores, viveu conosco as dores, as eternas
alegrias. As perdas, os ganhos. Foi a amiga das travessuras. Português e
Espanhol se fundira-se amorosamente.
Passado o temporal, decidi sair para conhecer a redondeza e,
provavelmente, ver a menina da janela ao lado.
Bem ali na esquina, deparamo-nos com o mar. Furioso, atirando-se para
todos os lados, acertando as ondas após-tempestade.
Caminhamos pelos pinheiros que bordejam o edifício, pulamos por sobre
as pedras da playita cravadas de ouriços. Discreto, o sol sumia no horizonte,
dando lugar a uma cálida noite de verão. Fugi no infinito para encontrar a minha
praia. O sorriso do mulato faceiro, a cara sofrida do menino atravessando o sinal
e pedindo a esmola ao transeunte apressado. Ai! Que saudade latejada... Doída...
- Voltamos, criancinhas? Temos que fazer comida, arrumar as camas,

128
Habitando o tempo

conhecer a casa. Até agora, curtimos a tempestade, a varanda, a playita. Que tal
voltarmos à casa onde vamos morar?
- Sim, mamãe. Né, Edu? Vamos ver nosso quarto?
- Sem correr. ‘Pera aí’. Oi. Oi. Cell, Edu. – corria atrás deles tentando
alcançá-los. Ufa! Agarrei os dois no ar...
- É querosene que fala em português? Não é?
Olhei espantada. Que susto! “Sim, é querosene”, respondi sem entender
nada.
Uma visão! Um metro e quase oitenta, linda, magra. Cabelos castanhos de
ondas largas, escuros, olhos mais escuros que a noite, emoldurados pela tez alva
como palomas blancas.
- Sou Lourdes. - completou. - Não falo português, mas sou louca pela Maysa.
Impossível refazer do susto! Da voz rouca, da beleza feito aparição em
noite de lua e, de quebra, apaixonada pela deusa da música popular brasileira?
- Olá. Sou Mirian, brasileña. Vou morar no segundo andar.
- Bem vinda. Muito bem vinda.
- Quase não sei espanhol. - falei
- Euuu nãooo falo português. Estamos quites – sorriu. - Seus filhos?
- Marcello e Eduardo. - apresentei.
- Tenho três: Luly, Mari e Leonel – o Allu.
- Marcello viu uma menina na janela. Esteve chamando por ela.
- É a Luly.
Caramba. Inacreditável. Então é Luly a menina da janela, filha de uma
cubana que adora a Maysa. Miramar promete.

Noite afora, perambulei pela casa, enquanto meus anjos adorados
dormiam em suas camas enormes. Cairiam no chão? Volta e meia, meus olhos
passeavam pelos cabelinhos dourados. Caminhava até a varanda, via o delinear
das árvores, escutava o mar, conferia o contorno dos pinheiros na escuridão.
Metade de mim vagava pelas ruas de Laranjeiras, lia Machado de Assis⁴⁹,
adentrava em Augusto dos Anjos, tomava um chope gelado no Lamas; a outra
desbravava a realidade.

Miramar amanheceu, desnudando cada instante em um doce gesto de
amor e cumplicidade. Os pequenos edifícios se confundem com as suntuosas
mansões hollywoodianas, bordejadas de árvores majestosas, atapetadas de
pequenas e doces margaridas, onde jibóias, girassóis, cactos e pequenos ficus,

129
Habitando o tempo

cuidadosamente desenhados, emolduram o mar. O bairro onde viveria foi


surgindo da noite. Simplesmente inesquecível. Viajei pelas nuvens, segredei
com o mar, mandei recados pela brisa que revirava as ramas dos pinheiros, dei
boas vindas ao sol, enquanto incontáveis lágrimas bailavam nas minhas faces,
rolando de encontro aos lábios, umedecendo-me a alma...
Clareou. O dia, a vida, as marílias, todos os dirceus, os sonhos, a tristeza e
todas as alegrias presentes, ausentes e por vir se curvaram reverenciando
Miramar. Diferente, especial.

Dias depois, todos haviam, de uma forma ou de outra, se apresentado.
- Sou Glória, vizinha do primeiro andar. Antonio, meu marido, Fernando
meu filho. Tenho duas filhas, Ana Glória e Josefina. Todas casadas e com filhos
pequenos. Josefina tem sua Ivetica, uma boneca loura. Ana Glória, Ernestico,
como o Che Guevara. Como trabalham muito, aparecem por aqui nos fins de
semana.
- Outra Ana – apresentou Glória. - A zeladora do prédio. Mora ao lado da
garagem. Ali no último apartamento vive Eládia. Ela é contra o governo, sabe,
vive enclausurada. Tem lá suas manias, pouco fala conosco. Lourdes você já
conhece.
Ao meu lado, Catita, casada com um comandante da Cubana de Aviação – o
famoso Consuegra. Devo a ele meus dotes culinários: lagosta ao chocolate, arroz
frito e feito na panela de pressão, e outras guloseimas a mais. Sem tocar no
socorro dado, urgente, para consertar um ou outro brinquedo quebrado. Catita,
ciumenta como ela só, convivia harmoniosamente comigo. As mulheres
cheiram perigo e, apesar da cumplicidade com seu marido, havia um proleta
pelo meio que me tinha a cabeça virada. Fomos confidentes e amigas por longa
data, até que se mudou para Marianao e o destino, egoisticamente, nos separou.
Nada sei de Catita, de Consuegra muito menos. Mas, a cada furacão que assola
o Caribe, vem-me à lembrança o piloto guerreiro, que entrava no olho do
furacão para medir sua velocidade.
- Hoje, vou sair para voar no meio do ciclone – falava sossegado.
- O quê? Você vai voar no meio do olho do ciclón? Ficou doido.
- Não, brasileira. É uma das maneiras que temos de medir sua velocidade.
Entro de bico no destruidor, medimos e volto tal como entrei. De ponta. Um
erro, por menor que seja, e já era. - brincava, descendo rápido a escada.
Quando ouvia sua voz chamando Catita, meu coração batia aliviado.
Grande Consuegra, festejava.

130
Habitando o tempo

Se o assunto é ciúme, vem-me à mente a linda Catita. Lourinha, mignon, tal


qual bonequinha de luxo.
- Sai da janela, Consu – gritava ela, quando ele brincava comigo, chegada da
praia em um minúsculo biquíni, roupa totalmente inusitada naquelas paragens
caribenhas. Catita sofria com meu jeito livre de vestir.
- Não sofra, mulher – brincava eu. - Consuegra te ama, e eu ao proleta.
Sorria amarelo, contrariada. Sorte minha não ser a única vítima de seus
ciúmes diários.
Nos anos seguintes, sentíamos falta da pequena do lado.

Antonio, o marido da Glória, sessenta e tantos anos de vida bem vivida,
cigarro e as biritas na hora do pôr-do-sol.
Antonio, o Camagueiano, viera para Havana após o triunfo da revolução, e
trabalhava como enfermeiro em uma Central de Açúcar.
- Aposentar só se for para morrer. Quero construir este novo país. Glória
vive implicando. Diz que estou velho, que a Central é longe, que saio cedo...

- Mirian, você já chegou?
Lá vinha ele esperarando no pé da escada feliz, cheio de novidades.
- O Grande Hotel de Camaguey vivia apinhado de bacanas, todos para curtir
a mulher cubana. Era um tal de champanhe, jóias. Um despilfarro... Só vendo.
Uma vergonha... Meninas tão jovens dando para aqueles velhos cheios da grana.
Graças a Fidel, minhas filhas puderam estudar e não são putas. Se não fosse a
revolução, seriam putas. Não tinha saída. Pobre só podia ser puta, sabe. Morria
de medo, afinal eu não passava de um camareiro que nas horas vagas aprendia
enfermagem. A revolução nos despertou sentimentos sufocados. Dignidade,
patriotismo, amor, solidariedade. A colonização destrói nossas raízes, deixa-
nos frágeis, tristes, carentes de terra, carentes de pátria. Um homem sem pátria
é um homem triste. Repara, existem flores, frutas, animais que são próprios de
um lugar. Nasceram ali. Sofrem se saem de seu habitat. Acostumam muitas
vezes, é claro, mas outras morrem, inexoravelmente. Imagina, se o homem
perde suas primeiras referências, se perde seu chão... – falava e falava, tarde e
tardes.
- Antonio, pergunta à Mirian se ela quer um ovinho com banana frita. -
chamava Glória, com sua voz infantil.
- Ora, mulher, como não vai querer? Ela chegou agora, cansada.
Lá vinha meu velho amigo trazendo um prato quentinho, gostoso, cheio de

131
Habitando o tempo

poesia. Cuba, sorrateira, de mansinho, carregada de carinho, ia preenchendo o


vazio escuro do exílio.

Calle Terceira, entre 96 e 96A, frente ao mar, testemunha das minhas
maiores alegrias, escondia a estonteante Sra. Juanita. A velha dama de Villa
Clara, burguesa e latifundiária de nascença. Abandonara Cuba nos primórdios
da revolução com toda sua família, exceto Lourdes. A linda mulher do primeiro
andar. Por quatro anos viveu em Los Angeles com seu filho predileto, Cuchin,
rico, patologista, bem casado com uma sósia de Betty Davis. Regressou a
Havana ainda nos início dos anos 60, cansada de ser esnobada por “um bando
de americanos grotescos comedores de sanduíches, gordos e mal educados”.
- Isto em Los Angeles, terra do glamour. - reclamava. - Se Cuchin não fosse
rico e eu tivesse que viver em Miami, que seria de mim? Entrava em uma loja e
quando dizia “I am cubana” olhavam-me como se fosse uma ladra. Veja só, uma
Veiga sendo tratada como uma qualquer. “Que me perdoe Cuchin, vou embora
daqui”.
Um fim de semana, alegando querer conhecer Acapulco, voou até a cidade
do México e pediu asilo à embaixada cubana. Afinal, Lourdes ia ter um filho e
desta vez seria um varón, sonhava orgulhosa. Voltou à Cuba alimentando o
sonho de levar sua filha e netos para o Norte. Com ela ao lado, seria diferente.
Afinal, nora é um horror. “Nora não é família, é agregada. Tudo o que querem é
boca fechada e bolsa aberta...” Concluía.

- Você é dessas que adoram este ditador?
- Quem? - perguntei assustada.
- O barbudo... Ora!
- Ah! Fidel Castro?
- Sou apaixonada por Nixon. Isto é que é governante. Odeio este Fidel. Não
sei o que você veio fazer aqui.
- Mamãe... Mamãe... Venha aqui – gritou Lourdes assomando-se à porta. -
Ela é assim mesmo. Foi embora. Voltou. E agora fica pelos cantos falando mal
da revolução. Ah! Mamãe. Se Leonel te ouve, nem sei o que vai se passar.
- Odeio meu genro – saiu resmungando.
- Ai, Meu Deus... Tomara que chegue o gás – falava em voz alta no corredor,
chamando-me a atenção.
- Ligue para a Cia. do gás, pois Deus não vai dar nenhuma atenção ao seu
pedido. Não vê que ele está ocupado com questões mais sérias... - retruquei

132
Habitando o tempo

brincando.
- Até que os brasileiros são espirituosos – completou sorrindo. - Vou
insistir com a Cia de gás.
Quebrou o gelo, o iceberg, a barreira ideológica. Dama esguia,
elegantemente vestida, adornada com seu colar de pérolas legítimas - frisava
presunçosa, - e lábios cuidadosamente pintados, Juanita era a avó dos meninos
de baixo, os amigos de Marcello e Eduardo, a sogra do intragável Leonel, mãe
da deusa da beleza, como diziam meus companheiros – mulherengos como eles
só.
“Com um pouquinho de carinho, umas pitadas de amor, eu ganharia esta
mãezona. Deixa estar”. Subia as escadas arquitetando a conquista.

- Lourdes... Entrem, já disse. Venha agora – esbravejou uma voz masculina
saída dos quinto dos infernos.
- Um momento, Leonel. - respondeu Lourdes com as faces subitamente
avermelhadas. -Desculpe, Mirian. Noutro momento falamos.
Equivocadamente ou não, pela voz, pude entender quem era Leonel. Um
agridoce, cuja conquista demoraria alguns intermináveis anos.

Galeno aparecia pelas manhãs. Acordava cedo e despencava até Miramar
para saber as novidades e brincar com os meninos. Dija vinha à tarde, quase
todas. O Brasil presente em todas as conversações. Dulce estava presa em São
Paulo, torturadíssima. Tínhamos medo que ela morresse. Quanto resiste um ser
humano à tortura física e moral? Dulce bravamente resistia. Chorávamos e
torcíamos por ela. Dija a amava tanto, tanto que seu coração tomava todo seu
corpo para abrigar a guerreira distante. Amei e respeitei Dulce desde a primeira
declaração de amor do seu entranhável companheiro. Por todos eles, que nos
cárceres do meu país sofriam as dores físicas em defesa das morais, por todos
eles, tínhamos que ser melhores a cada dia. Mais conscientes, mais firmes, mais
seguros, mais revolucionários. Estudávamos, discutíamos nossas condições de
exilados. Que fazer? Como crescer? Tardes trás tardes, amadurecíamos um
pouco. De cada pôr-do-sol sugávamos a força que emana da mãe natureza para
nos tornarmos melhores. Tentávamos...
Enquanto o General Médici capitalizava a vitória do tricampeonato para
seu governo, mérito único e exclusivo de vinte e duas feras muito bem treinadas
e definidas pelo João “o sem medo” - o João Alves Jobim Saldanha, comunista de
carteirinha como costumava ser chamado, - milhares de brasileiros eram

133
Habitando o tempo

assassinados, torturados, mutilados, estuprados nas prisões. Misto de dor e


alegria. Afinal, de que vive um povo sofrido, faminto, carente de escolas, de vida,
se não dessas gotas de felicidade doadas generosamente por seu próprio povo?
Os meninos do futebol. Estes mesmos, saídos dos guetos, das favelas, da fome,
dos maus-tratos, da falta de futuro. Saldanha tinha esta consciência. Por isso,
desafiava generais. Por isso, era irascível. Ele, melhor que ninguém, conhecia a
verdade. O futebol é o presente que o povo se dá. É o seu momento de liberdade.
É a demonstração do que somos capazes. Vencer...
Os meninos prodígios do futebol não ditam as leis que regem o país, não
comandam exércitos, não definem regras econômicas. Driblam a bola ao
caminho do gol... A nós, nos dão aqueles pequenos instantes de extrema
felicidade, tal e qual a Portela quando desfila seu azul, ou a Mangueira quando
pinta de verde e rosa o verão abaixo do equador. Assim é lindo, forte, vitorioso
e triste meu país.
Dormia o Brasil, acalentado com a vitória da Copa, quando um grupo de
jovens, entre comandados por Carlos Lamarca, seqüestrava, na Rua Cândido
Mendes, o embaixador alemão. E exigia em troca a liberdade de 40 presos
políticos. Dija e eu recebemos a notícia enlouquecidamente euforícos.
- Quem estaria na lista? - argüia Damaris.
Não sabíamos o que fazer. Ligavamos a cada segundo para a rádio “Havana
Cuba” em busca de novidades. Horas a fio de tensão, angústia, alegria sempre.
Quaisquer que fossem os escolhidos, era mais uma vitória nossa.
O Brasil negociava com a Alemanha a usina de Angra. Os alemães
representam um lado muito forte da economia mundial, o governo brasileiro
não vai arriscar a vida do seu representante oficial. Esta sacada foi perfeita.

O telefone vibrou com nossos corações: Fausto, Dulce Maia, Liszt, Gabeira,
Minc, Maninho... quarenta ao todo. Quarenta companheiros livres.
Dija me abraçou, enrolando-nos no fio, pulando, rindo...
- Sim, Ibrahim... Oba, oba... – falava aos risos, enquanto as lágrimas
emudeciam nossas almas, lavavam a dor da espera.

- A tia está na lista, e com as crianças – entrou Ibra feliz. - Quarenta, gente!
- Deixa-me ver - puxava Diógenes o papel mais desejado, trazido pelo
amado proleta.
- Também quero – subia por cima dos dois, tentando ver os nomes.
- Vão para a Argélia. O Japa vai para lá encontrá-los – Ibra, cheio de novas,

134
Habitando o tempo

tagarelava sem deixar que a gente argumentasse. - Acho que amanhã.


Despertei Marcello e Eduardo para contar a novidade. A felicidade era
tanta que não podia esperar o amanhecer.
- Cell e Edu, o papai saiu da cadeia. Foi trocado pelo embaixador alemão.
Qualquer dia desses, a gente o vê outra vez.
- Saiu da cadeia. Eu não disse que o tio Carlos ia tirar ele de lá?
Levantou da cama, retirou do armário a velha folha de papel amassado e,
como em um conto de fadas, explicava ao Edu como havia sido o regaste.
“Então... Ele entrou por aqui, virou para lá...” Saí de mansinho, caminhei até a
varanda enxugando as lágrimas. Fazia muitos anos... Muitos... Nem sei quantos,
que não chorava de felicidade.

Cell e Edu corriam pela playita, saltitando entre as pedras, molhando os
pés, rindo, banhados de alegria. Desde aquela noite, Marcello vivia sorrindo.
Uma hora ou outra, seu pai entraria pela porta adentro.
- Nem todos virão. - confirmou Onofre.
- Fausto, com certeza, escolheria vir a Cuba. Afinal, estamos aqui, -
comentei.
Falar ao telefone, inútil pensar. Se as comunicações eram difíceis em outros
lugares do mundo, avalia Cuba, bloqueada pelos países coniventes com a
política americana. Tentar telefonar podia durar dias. A comunicação com a Ilha
era, na maioria das ocasiões, impossível. Ou um amigo levava um recado, uma
carta, ou contato, nem em terceiro grau.
No dia do meu aniversário, chegaram Liszt e Gabeira. Vieram visitar-me.
Contar as novas. Uma noite feliz como poucas. De Porto Alegre a Miramar. Quem
diria? Não é que a vida é feita mesmo de encontros e desencontros? Liszt era
um encontrado dentre tantos desencontros. Saudei a vida!
- Dentro de alguns dias chegará um grupo. - contou Liszt. - Fausto... Não sei
se está nesta leva. A Tia vem primeiro. Cheia de crianças... E essas coisas mais.
Eu fico por aqui até decidir com a Organização. O Gabeira regressa logo à
Europa. Temos que nos refazer da cadeia. Foi uma barra. Mas isto é assunto
para outro dia.
Abraçamos felizes.
- O Pedrinho está no grupo. – enumerou.
- Pedrinho? Qual o nome dele?
- Edmar.
- Impossível! Edmar... Não combina com ele.

135
Habitando o tempo

- Assim é. Liszt combina com Rodolfo?


- Com barba sim... - brinquei.
Da prisão, dos companheiros que ficaram, da situação dura e caótica, aos
amores, o papo estendeu noite adentro.
O dia amanheceu.Pela o primeira vez comemoraríamos um 26 de julho de
terras cubanas.

Nunca vi nada igual – comentei com Galeno. Milhões de pessoas lotavam a
célebre Plaza de la Revolución.
….”En el día de hoy no vamos a hacer un discurso propiamente
conmemorativo; quiero decir, no vamos a rememorar éxitos y logros de la
Revolución. Tampoco vamos a rememorar pasados heroicos. No es con la palabra
sino con la acción y el trabajo que se rinde tributo a aquellos que lo dieron todo.
Tampoco en el día de hoy vamos a tratar problemas de tipo internacional,
acerca de lo cual mucho podríamos y desearíamos hablar.
En el día de hoy vamos a hablar de nuestros problemas y de nuestras
dificultades (APLAUSOS), y no de nuestros éxitos sino de nuestros reveses. Y
queremos hacer análisis, aunque sabemos que esta tribuna tan multitudinaria no
se presta mucho para el análisis frío ni para los números.
No suelo venir a estos actos con muchos papeles, pero esta vez no me ha
quedado más remedio que traer papeles (APLAUSOS), porque son muchos los
datos y los números.”

Fidel falava devagar, pausado, quase em silêncio. Todos ouviam atentos.
Fidel fazia um recorrido pela história de todos os acontecimentos daqueles
primeiros anos de revolução socialista. Analisava cada ponto. A indústria, a
lavoura da cana de açúcar, a alfabetização, os primeiros médicos, a habitação…
“No pueden evaluar al pueblo, no pueden medir la profundidad de su
entereza moral, del valor de un pueblo. ¡Pueblo cobarde sería aquel que se
atemorizara ante las dificultades! ¡Pueblo cobarde aquel que no fuera capaz de
ver, oír, escuchar, decir la verdad de frente! ¡Pueblo cobarde el que no diga la
verdad ante el mundo! ¡Y nosotros no tenemos ningún temor a hacerlo como lo
hemos hecho hoy, decirlo como lo hemos dicho hoy, plantear por encima de todo
nuestra propia responsabilidad como lo hemos hecho hoy (APLAUSOS), y plantear
los problemas ante el pueblo con la confianza que lo hemos hecho hoy”
Não sei quantas horas levou analisando, sei que nos valeu e muito para
conhecermos de perto o povo, os procedimentos e a firmeza desta revolução

136
Habitando o tempo

que havia mudado a América Latina.

“El poder, ¿qué es el poder? ¿Qué es este poder ni ningún poder?


¡Es la voluntad del pueblo encaminada en una dirección, aunada
en un sentimiento, marchando por un mismo camino! Es este
poder tan simple como tan indestructible el poder del pueblo. ¡Ese
sí es poder! ¡Y ese es el que nos interesa!
Ninguno de nosotros, como hombres individuales, ni sus honores ni
sus glorias interesan absolutamente para nada, no interesan ni
valen nada. Si un átomo de algo valemos, será ese átomo en
función de una idea, será ese átomo en función de una causa, será
ese átomo en unión de un pueblo.
Y los hombres somos de carne y hueso, frágiles hasta lo increíble.
No somos nada, sí lo podemos decir. Somos algo solo en función de
esto y de esta tarea.
Y siempre, siempre estaremos, y cada vez más, cada vez más
conscientemente, cada vez más íntimamente, cada vez más
profundamente, al servicio de esa causa.
Una vez más me resta solo decirle a nuestro pueblo, en nombre de
nuestro Partido, de nuestra dirección, e incluso también en nombre
de mis propios sentimientos ante la reacción, la actitud y la
confianza del pueblo, decirle muchas gracias.
¡Patria o Muerte! .
¡Venceremos! “

Durante muitos anos, muitos 26 mudariam a nossa vida.



Fausto – Luiz para as crianças - subiu as escadas do prédio 9606 semanas
depois, metade da noite.
Da paixão que nascera devagarzinho nas tardes de longos papos no Parque
Guinle, na distante Laranjeiras, das visitas à casa do antigo comunista,
mescladas aos embalados “deixa que eu diga, deixa que pensem, que fale”, dos
poemas deixados por baixo da porta todas as madrugada por 365 dias, restava
o carinho, a cumplicidade e dois lindos meninos.
Inquietudes, sonhos, desejos foram selados em uma quente tarde de
fevereiro, testemunhada por Nelson Cavaquinho⁵⁰ na pequena igreja metodista
da Praça José de Alencar, ao som dos Beatles.
Estes mesmos sentimentos nos distanciaram lentamente no cumprimento
da luta pela liberdade do nosso povo. De todos amores sobram boas e más
lembranças.

137
Habitando o tempo

Deste, a definitiva: Cell e Edu.


Fausto passara um ano e tanto na cadeia. Como tantos outros, trazia no
corpo, na mente, as marcas cruéis do pau-de-arara, dos choques, das noites...
Das infinitas noites de dor e medo, na expectativa de ver passar, diante de seus
olhos, eu, Marcello e Eduardo, capturados em algum canto desse imenso país
chamado Brasil.
Tímidos, saudosos, conversamos toda a noite, até o amanhecer, quando
duas carinhas assomaram à porta do quarto. Todo sorriso, sorrindo, Marcello
puxou Edu pelo braço e se atirou nos braços do seu herói. Quase a saudade nos
pegou...
Naquela manhã, de verão caribenho, viramos a página e cada qual seguiu
como pôde. Durante três meses, convivemos, desfrutando o reencontro.
Ibrahim, Coqueiro, Galeno, Conga, compartilhavam conosco política e
sentimentalmente. Tempos difíceis estes de adaptação, definição, construção...

Meses depois, Fausto foi para Europa com destino indefinido, na crença de
poder regressar ao Brasil e finalizar a luta iniciada anos atrás. Juntos, de uma
só tacada: Galeno o amigo inseparável, o grande Conga, o valente Coqueiro, o
carrancudo Andrada. – nesta altura, mais doce, menos exigente. Não foram
raras as vezes em que se desculpava pelo comportamento irascível e a não
compreensão durante os dias que sucederam o seqüestro.
Por vezes, analisávamos o comportamento do grupo, dos grupos, dos
homens. Andrada era exigente, mas estava desgastado, enfraquecido.
- Estou sendo perseguido. – reclamou nervoso.
- Perseguido? Aqui? De que forma? Andam atrás de você?
- Nada disso. Vivi no Uruguai por um tempo. Clandestino com o Tarzan.
Entrávamos e saímos dos dois países com facilidade. Por isso, dizem que sou
agente da CIA.
- Ora, Andrada. Todo mundo é agente da CIA. Basta não dizer amém ao
poder de turno. Ser agente da CIA ficou tão corriqueiro que virou piada. Deixa
a gente do Pasquim ouvir essa!
- Estão me discriminando! Você não entende?
- Claro que entendo, companheiro. A esquerda não tem vivência. É frágil,
cursa o primário. Dá para entender? A maioria das vezes, irresponsável. Acusar
de traição é grave. Gravíssimo. Cadê as provas?
- São conjecturas. – argumentava sofrido.
- Só faltava essa. Fico puta, sabe? Com tanta coisa para fazer. – tentei

138
Habitando o tempo

contornar a situação. -O tempo é o conselheiro, o juiz, a verdade. Dá esse tempo


pra você. Anos depois, Andrada desapareceu ao entrar no Brasil.

1970 chegava ao fim. Cell e Edu foram à creche, para que eu pudesse
conseguir um trabalho. Os dias passavam lentos, sofridos, amargurados.
Devorava livros. Políticos, romances, ficção, poesia. Todos. Sorte minha: os
preços eram baixíssimos, ao alcance de todos. Nas noites, ouvia Maysa, cantada
e decantada na voz rouca e sensual da Lourdes. A conta-gotas ia me adaptando
à nova vida. Imiscuindo no dia-a-dia do povo cubano. Começava a participar das
reuniões dos CDR´s - Comitês de Defesa da Revolução.
Os Comitês sugiram da necessidade de preservar a Ilha da invasão dos
mercenários, e promover a organização social. Fundados em setembro de 1960,
defendiam e guardavam a revolução a sete chaves. A organização civil era o
principal para a consolidação das conquistas daquele primeiro de janeiro. Os
comitês organizavam as campanhas de vacinação infantil, preventivos de
câncer ginecológico, os exames citológicos. Nenhuma mulher podia deixar de
fazer o exame. E todas acudiam conscientes de que, ao prevenir, estavam
preservando suas vidas. Acredito que, por aí, nasceu o grande logro da
revolução na área da saúde. Será que no mundo existia, em 1960, esta
preocupação em massa?
Reuniam os moradores para debaterem a política nacional e internacional.
Discutiam em detalhes os discursos do Comandante em Chefe. Com que orgulho
enchem a boca para dizer estas palavras: Comandante em Chefe. Lá iam
letrados, recém-alfabetizados, engenheiros, advogados, professores, noite
adentro, palmilhando pedaço a pedaço os problemas nacionais e internacionais.
A partir das dez horas, começava a guarda nas ruas. Tocava a todos a cada
quinze dias, em uma escala definida nas reuniões. Jovens, maduros, meio
maduros, homens e mulheres vigiavam, enquanto a pátria idolatrada dormia
tranqüila nos braços dos seus filhos. Os CRD´s se tornaram o alicerce da
organização social. Cada comitê leva o nome de um herói, cubanos ou
internacionais. O Brasil também é homenageado. Bem no início de Miramar, lá
está, forte e firme, o CDR Carlos Marighella. para orgulho da brasileirada.

Semanas mais tarde, Olaf apareceu para falar da creche que os meninos
freqüentariam.
Olaf é um desses guerrilheiros filhos da revolução. Diferente dos antigos
guerreiros, ele prima pela sensibilidade. Ama a vida. Ama o amor. Ama sua

139
Habitando o tempo

pátria e, de quebra, a minha, quase com a mesma intensidade. É brincalhão


como costuma ser um homem feliz, e nos cuida como se fôssemos seus. Dedica
horas preciosas conversando comigo, ou brincando com os meninos. Torce por
mim e pelo proleta. Entre uma coisa e outra, dedica a vida à revolução cubana.
É jovem e audaz. Forte e seguro. Vai envelhecer amando e lutando por esta
liberdade.

Uma mansão hollywoodiana, abandonada por seus moradores ao triunfo
da revolução. Entrada exclusiva para carros, uma pequena escadaria
sustentada por duas colunas, dá passagem ao hall interior. Um luxo, só. No chão,
mármore Carrara, chapeleira. Ao fundo, a escada arredondada se bifurca em
dois lances para chegar ao segundo andar. Biblioteca, três salões, varandas
bordejadas de jardins com árvores frondosas. Tudo branco e dourado. Parece
que Lauren Bacall entrará em cena... Pequenos lampejos dos luxuosos filmes
década de 50. Este é o Bosquecito – no final da ladeira de uma rua sem saída.
Marcello falava pelos cotovelos. Edu, dentro de sua timidez, joga com
algumas parcas palavras. Não raras vezes, a diretora telefona aflita, depois de
tentar exaustivamente entender português.
- Companheira, o que quer dizer mocotó? Marcello insiste em querer geléia
de mocotó. Sem falar que ele passou um bom tempo contando tudo sobre um
cachorro. Cachorro, tudo bem, acabamos entendendo, mas mocotó...
- Este Marcello! Como explicar geléia de mocotó? Nem eu sei falar tão bem
espanhol. É da perna do boi. - explico constrangida. Uma comida doce! Sabe.
Entendeu?
Morta de rir, finaliza a conversa dizendo o mesmo refrão.
- Vou ver no dicionário, companheira. Fique tranqüila. Damos um jeito.

Por mais alguns meses, deram aquele jeitinho. Entre explicações mímicas
e aurelianas explicações. O Bosquecito marcou com ternura e suave paixão as
primeiras palavras lidas, os desenhos, as brincadeiras, as canções infantis...

“...Barquito de papel mi amigo fiel... Llevame a navegar por el ancho mar. Que
quiero conocer gentes de aqui de allá y todos llevar mi flor de amistad!”⁵¹
Tarareavam os dois nos fins de semana, a caminho do mar. Cell e Edu eram
felizes. Começavam a ganhar o mundo com duas vozes pela mesma garganta.

Silvio, Pablito, Nicola, Sérgio Vitier, Leo Brower adentravam a minha vida

140
Habitando o tempo

com suas canções e a paixão pelas do meu país. Vinícius de Moraes, Chico
Buarque, Milton Nascimento, as Bachianas, de Villa Lobos - interpretadas
magistralmente por Sérgio Vitier. Descobri que, naquela esquina de la Calle 23
entre 10 e 12, aqueles meninos, haviam fincado um pedaço de um país chamado
Brasil. O Grupo de Experimentação Sonora composto por eles, criado pelo ICAIC
– Instituto Cubano de Artes e Indústria Cinematográfica - tinha por finalidade
principal fazer música para cinema, experimentar novos harmonias, estreitar
as relações com a música tradicional de Cuba e a Música Moderna Internacional.
Era o embrião da Nova Trova germinando. Eram os trovadores numa
genealogia musical aceitando-me para sempre como irmã e companheira.
Antes que, fosse anunciada a entrada de 1971, Silvio e Pablito, se
apresentavam no Festival Internacional de Música Popular em Varadero.

Sem pedir licença, dezembro transpôs o umbral do mês das somas e
perdas. Mês de balanço: do coração, dos amigos adquiridos, das parcas
esperanças, das conquistas. Mês de comemorar Cell e Edu.
Quinze e dezessete é para sempre, durante toda a minha vida dias de festa.
Não importa o preço. Custe o que custe. Com ou sem bolo. Na rua, na praia, no
Parque Farroupilha - como havia sido no ano anterior. Com ou sem amigos. Se
na clandestinidade os festejamos, aqui tiraria de letra, apesar das dificuldades.
Sou zero a esquerda em questão de bolos e doces. Guloseimas, nem se fala. Mas
festa pra valer se faz com amigos. E, amigos, sei conquistar.
Longe da terra brasilis, da família, dos antigos amigos, de Ipanema, do
samba, do Pixinguinha e do Flamengo, nada faltou. O bolo confeitado, os
croquetes de frango, carne e camarão. As mil-folhas, bombas e folhados
recheados de doce de goiaba - ainda hoje nosso fetiche.
Em uma das paredes da sala, Glen – o amigo de tantas - colou a saudade em
num mosaico de cores, pedaços do Brasil. Um enorme Corcovado, capa da
Revista Manchete, a Bruna Lombardi linda, com aqueles olhos vermelhos -
primeira paixão do Marcello, que completava quatro anos.
Praias, Caetano e Gil, ruas, montanhas, palavras de ordem, propagandas e
a Bethânia de microfone em punho, fantástica, soberba, ecoando parede à fora,
agitando nossos corações, slogans de 50, 60 e 70.

Rodopiamos com Jair Rodrigues, Beth Carvalho, os Novos Bahianos, Elis,
Nara, sem falar no Roberto e Erasmo, cantamos parabéns, dançando alucinados
até a madrugada.

141
Habitando o tempo

Ao amanhecer Miramar tinha cheiro de Brasil.

Que mis versos vuelan como mariposas


Pequenas e inquietas:
Ay! Quédate, y verás la maravilla
De uma mariposa
Que cubre con sus alas
Toda la tierra.
José Martí43

43
José Martí – Fragmentos e poemas.

142

1971 – “Año de la Productividad”
"Os poemas são pássaros que chegam
Não se sabe de onde e pousam
No livro que lês.”
Os Poemas – Mário Quintana

Debruçada no parapeito, vi chegar cheio de novidades um novo ano. De


comemoração, uma discreta alegria entrelaçada pela nostalgia da distância. Um
ano de exílio. 365 dias perfaziam um século. A convivência com a saudade deixa
marcas indeléveis. De felicidade para comemorar: estarmos vivos...
Da rua chegavam eufóricas alegrias de mil vozes, comemorando mais um
ano de triunfo da revolução. Sem poder ausentar-me, rapidinho, desci as
escadas para abraçar os novos amigos. Adotei aquela felicidade. Corri o céu,
atravessei as estrelas, confidenciei com a lua, presunçosamente linda.
- Sem fronteiras, - segredou-me.
- Sem fronteiras, - concordei.
Pactuamos. Ao dobrar a esquina, beijei com ternura o coração verde
cravado abaixo do equador. Diga-lhe da minha saudade. Diga ao boêmio
perdido na madrugada que amo escandalosamente o povo brasileiro. Não o
deixe esquecer.
Debruçada no parapeito, compartilhei com Miramar a liberdade.
Estava numa encruzilhada. Amava Ibrahim, e como. Mas, a decisão de
permanecer na ilha de Fidel era definitiva. As possibilidades de retorno dada
as circunstâncias eram remotas. Os companheiros vagavam pela Europa
buscando formas de entrar no Brasil e dar continuidade a luta. Não ia
aventurar-me. Deixar as crianças sem uma definição segura do que iria fazer e
como no Brasil. Havia amadurecido, naquele sofrido ano de clandestinidade, e
no primeiro ano do exílio. A separação era a melhor solução. Tínhamos duas
vidas. A Idealizada e a possível de ser vivida. Cuba, mesmo bloqueada
reafirmava a liberdade. Erguia um país socialista. Aqui ficaríamos. Poderia
colocar em prática meus conhecimentos didáticos, culturais. Esta ilha estava
aberta a solidariedade de que maneira fosse e como fosse. Apostaria nesta
vertente.
Como previra, janeiro abriu as portas ao VII Congresso Internacional de

143
Habitando o tempo

Jornalistas, presidido pelo então chanceler Raul Roa. CEIBA I foi inaugurada
como a primeira escola secundária no campo. Alicia Alonso trouxe, para alegria
de todos, de Paris, os primeiros prêmios.
A técnica australiana de corte de cana queimada é adotada para facilitar a
colheita.O primeiro congresso da FEEM reúne jovens estudantes em torno de
temas internacionais. O suave inverno aquece a esperança, desabrocha em
hortênsias azuis. A felicidade esmurra o vento que sopra do Norte. Impossível
deter a História.
Marcello começa a ler quase que sem titubear as primeiras frases. De
números... conhecia todos.
- Para que servem tantos? – pergunta.
- Para aprender a somar e dividir. – respondo.
- Para quê? – volta a insistir.
- Para sabermos quantos amigos temos.Quantas estrelas tem no céu. Para
saber dividir as mil folhas com seus coleguinhas. Tudo na terra, querido, move
em torno dos números, desde o ábaco até o computador.
Era assim. Um grupo de homens caçava animais para comer. Outros
homens juntavam gravetos para fazer o fogo onde iam assar as carnes. Para
dividir entre eles, era preciso somar e depois dividir Assim, foram inventando
os números para dar um nome a cada quantidade. Uma laranja, duas laranjas...
um porco do mato, três porcos do mato... E juntaram tantas e tantas frutas e
tantas e tantas caças que os números foram aumentando, aumentando,
aumentando.
Edu olhou interessado e disse de repente.
- Eu sei, manito. Eu tenho um irmão. Você tem um irmão. Cada um tem um.
Né, Mamãe?
- É, Eduardo – sorri. Eduardo vai saber mais de números que eu e o Cell
juntos.
Ibrahim escutava os longos papos com a criançada brasileira, como dizia o
Fausto, curtíamos cada nova conquista dos meus anjos louros. Na escola, novos
testes psicológicos e de QI acabavam de ser realizados e os dois estavam muito
além da média. Difícil educá-los, mas feliz com o conhecimento que a cada dia
adquiriam.
Estava fascinada com as descobertas na Área Educacional. Afinal, dedicara
parte da minha juventude ao ensino. A Teoria do Conhecimento é a tônica
principal. O sistema educacional cubano reúne vários métodos de
desenvolvimento, baseados no estímulo que determina a independência

144
Habitando o tempo

cognitiva e a criação dos alunos. Dos países caribenhos, é o que prima por uma
larga tradição pedagógica, desde as idéias do padre Félix Varela, considerado
um dos forjadores da nacionalidade cubana. "O primeiro que nos ensinou a
pensar”.
Aos métodos de Varela se entrelaçam a Psicologia e a Pedagogia soviética
e alemã. Varela, Makarenko e Vigotsky.
De Varela, o saber pensar para aprender, discernir, escolher. De
Makarenko, o magistral pedagogo soviético, mais que métodos de ensino, a
organização escolar. De Vigotsky, psicólogo, a realização da aprendizagem. O
processo docente é um complexo processo de ensino e aprendizagem.
Se você detém o conhecimento como se produz na mente, então, pode
encontrar os melhores métodos de ensino – argumenta a jovem professora
apaixonada pela Geografia, que conta a história da humanidade.
- Esta ilha vai se tornar um ícone da educação mundial.
– Não tenho dúvida, - agreguei a seus comentários.
Calada, despenquei no sonho, relembrando a irrecuperável perda das
minhas escolas. Onde estariam agora Pedros, Antonios, e Luízes? Qual deles
sobreviveu à miséria, à dor, à falta de pão, à incompreensão de pais sofridos,
envelhecidos pelo cotidiano, desajustados pelas circunstâncias? Qual conseguiu
cruzar a vala negra que os separa da vida?
Sofria silenciosa, entre a contradição e a impotência.
Invejava esta pequena ilha desafiando o mundo com conhecimento,
solidariedade, amor, enquanto um país chamado Brasil - verde, adornado de
esmeraldas, pintado de ouro, banhado generosamente pelo velho Chico, pelo
Paraíba, pelo Guaíra – pobre, infeliz, faminto, rastejava entre dívidas, torturas,
programas de atraso pré-estabelecidos pelos países dominadores. Quando foi
que perdemos a oportunidade: na proclamação da república, no grito da
independência, na chegada da primeira caravela, ou na chegada do primeiro
trem inglês?...
- Atende ao telefone Marcello. – chamei.
- Mãe, é o Olaf.
- Olá, companheiro?
- Você pode trabalhar na rádio Habana Cuba?
- Na rádio? Não sei nada de rádio.
- Aprende - respondeu sorrindo. - Uma das funcionárias do departamento
de Português vai ficar de licença quatro meses e precisamos de uma voz
feminina.

145
Habitando o tempo

- Qual é o trabalho?
- Selecionar, redigir as notícias e depois transmiti-las para o Brasil.
- Para o Brasil? – quase gritei. - Redigir as notícias vai lá, mas transmitir...
Você ficou louco. Será que posso?
- Se você pode? Ora, menina, você pode muito mais que isso.
- Ora, Olaf. Não sei não. Se ficar feio. Com essa voz nada radiofônica! Que
dia começo?
- Amanhã.
- Amanhã!
Lá pelas 10 horas, entre folhas e folhas de telex, a máquina de escrever e,
nas costas, a responsabilidade de redigir minha primeira notícia sobre o Brasil
para o Brasil – censurado.
- Você vai substituir a Mirian Bernardes?
Por uns tempos, fui respondendo enquanto caminhava para o estúdio. As
folhas recheadas de notícias balançavam entre meus dedos trêmulos.
- Nervosa? – perguntou, tentando ser cortês.
- Nervosíssima... imagina.
- Sou Robert. O americano responsável pela sessão em inglês. Acompanho-
te. Comigo foi igual. Diga-se de passagem, acredito que com todos foi assim. Um
aperto no peito, uma vontade doida de sair correndo... -confortou-me com seu
sotaque carregado.
- Chegamos, - sorriu. - Good luck! Vejo você na saída.

Uma porta pesadíssima foi fechada à minha passagem. No cubículo forrado
em todo sua extensão por um carpete amarronzado, uma mesa, dois microfones
de cada lado, uma janela de vidro hermeticamente fechada, uma lâmpada
pregada no alto da porta aguardam a ordem do diretor. Olhei minuciosamente
para todos os lados, respirei fundo, puxei a cadeira, sentei-me rápido para
sossegar minhas pernas. Milton, o diretor do programa para o Brasil, faria
comigo aquele primeiro dia. Milton era sisudo/simpático. Falava
comedidamente, o que não me deixou nem um pouco à vontade.
Havia dado algumas entrevistas pela vida a fora, mas fazer um programa
com duração de uma hora – um noticiário – assim de supetão, não sei não...
Conferia as notas agrupadas dos telex, quando a luz vermelha acendeu
pintando no ar “gravando”.
- Boa tarde, Brasil. Na cidade de Havana, presidida pelo Comandante Jesus
Montané, membro do Comitê Central do Partido, foi criada a organização União

146
Habitando o tempo

de Pioneiros. A primeira organização de crianças da América Latina – falou


seguro.
- Chico Buarque deixa o Brasil pra se exilar na Itália, acompanhado da sua
mulher, a atriz Marieta Severo. Junto com os baianos Caetano e Gil, o paulista
mais carioca do mundo Francisco Buarque de Holanda forma a tríade que ocupa
o patamar mais alto dos músicos-poetas da geração dos anos 60. Chico, como é
chamado, se notabiliza por ser o grande poeta social popular do Brasil, além de
mostrar-se particularmente original e sensível na criação de canções na
primeira pessoa feminina. Entre suas canções mais famosas estão Sabiá, Pedro
Pedreiro e Construção, - frisei.
- É assassinado no Rio de Janeiro, no bairro do Cosme Velho, Aderbal Alves
Coqueiro, militante da VPR. Coqueiro regressara ao Brasil... Aluísio Palhano,
exilado em Cuba desde o golpe militar de 1964, também de regressou ao Brasil,
foi preso, brutalmente torturado até a morte no Dói Codi de São Paulo, depois
de várias passagens por outros prisões entre Rio e São Paulo. Algum elo havia
partido. Desconfiar com estas informações seriam as novas palavras de
ordem? Haveria um infiltrado entre nós?

Estou falando com o povo brasileiro... Entre a incredulidade e a certeza,
eufórica, saudosa , feliz, realizei uma das mais lindas viagens da minha vida.
Percorri o nordeste, beijei as praias descobertas por Cabral, sobrevoei o
Corcovado, passei pela elegância discreta de suas meninas, mergulhei no
Guaíra. A minha saudade entrou nos ouvidos de nem sei quantos brasileiros,
tristes e alegres como eu.
A nossa missão era linda: dizer o que ficava escondido nas gavetas das
redações dos jornais. Falar pelos milhares de jornalistas que camuflavam a
verdade do que se passava em meu país, da forma mais inverossímeis: receitas
de bolo, poemas, palavras escondidas nas entrelinhas. Nós, da Rádio Habana
Cuba, a cada dia tentávamos dar este presente aos nossos Zuenires, Jaguares,
Ziraldos, heróis das redações.
Durante meses, tentei executar à altura a missão de levar notícias ao povo
brasileiro. Por segurança, na rádio, meu nome de guerra era Bárbara, para o
caso de algum ouvinte tentar manter contato, o que não era lá uma constante.
Mas, eis que um dia, uma chamada internacional super inesperada nos pegou
de surpresa. A telefonista aflita veio ao meu encontro anunciando que uma
senhora estava na linha desejando falar com comigo.
- Quem será? Ninguém sabe que trabalho aqui. Além do mais, todos sabem

147
Habitando o tempo

que este nome não é real.


- Ela já chamou três vezes. Parece muito aflita – explicou.
- Melhor você atender, - confidenciou o diretor do departamento
internacional.
- Alô – atendi aflita.
- Alô. Sou a mãe do Ronaldo. Estou no exterior tentando encontrar meu
filho. Ouvi você pela rádio e estou telefonando para que me ajude.
- Como? Que Ronaldo?
- Ronaldo Dutra Machado. Você o conhece. Ele foi trocado pelo embaixador
alemão, foi para a Argélia e nunca mais soube dele. Estou desesperada. Ajude-
me por favor, Sra. Bárbara. Soube que ele vem para o Brasil. Não posso deixar
que ele cometa esta loucura outra vez. Se vier será assassinado.
Indescritível a dor que se apossou de mim ao ouvir o pedido agoniado,
sofrido daquela mãe que saíra do Brasil tão somente para telefonar. A mãe do
Maninho ao telefone!
Maninho era da ALN, morava no Novo Vedado e nos visitava amiúde.
Marcello e Eduardo eram textualmente apaixonados por ele, incluindo nesta
paixão Ramón e Raul, os filhos da Marta. Raros os fins de semana que Maninho
não passasse conosco. Raros os momentos que não foram da mais pura alegria
na presença desse típico carioca. Charmosíssimo, despertando suspiros,
adorava praia, cheio de histórias, coincidências, amante incondicional da vida,
da pimenta, dos sonhos, da música, dos poetas – um senhor Companheiro. Como
as crianças, eu adorava o Maninho, que amava Tatiana também da ALN, que
amava Pedrinho.
Companheiro de cela do Fausto, dos duros dias do cárcere da Polícia
Militar, na Barão de Mesquita, Rio de Janeiro, muitas vezes chorou por nós,
quando uma falsa gravação de choro de criança levava o pai dos meninos ao pau
de arara, sob alegação de que se não confessasse nós também seríamos
torturados. Até o dia em que festejaram o seqüestro de um avião onde se
encontravam as famosas criancinhas. Maninho nos amou, torceu por nós antes
que soubéssemos de sua existência.
- Aqui estou para roubar as crianças neste fim de semana – entrava
brincando.
- Ramon e Raul também? –perguntavam os dois enlouquecidos.
- Claro.
- Estou vendo. Que faz você que esses meninos não querem outra coisa?
- Nada. Brincamos.

148
Habitando o tempo

- Sim... Sim...
Domingo de noite, voltavam os cinco. Imundos, unhas cheias de barro,
cabelos pegajosos, pés e pernas marrons de tanta sujeira. A banheira entupia
de tamanha imundice.
- Maninho! Esses meninos não tomaram banho?
- Tomaram. Sujaram na hora de saírem.
- Comeram?
- A gente comeu, mãe. Muito. - apressava Marcello a confirmar.
Alguma coisa me cheirava mal. Comeram... Tomaram banho... E esta euforia
exagerada.
- Hoje foi demais. Pulamos do teto. - comentou Edu.
- Pulou do teto? Que isso, Maninho?
- Ora, Mirian! Brincaram de pular da laje no meu colo. – ria, enquanto os
meninos descreviam minuciosamente as peripécias.
- Um coco caiu na cabeça do Ramon, e ele desmaiou. Desmaiou. – tagarelava
Marcello.
- Foi sim. Ficou com os olhos fechados, depois abriu, – completou Raul.
- Mãe, fomos à casa da moça da espada e do violão quebrado – confessou
Marcello.
- Na casa de quem Maninho?
- Uma amiga, Mirian.
- Lá tem uma espada e um violão quebrado na parede - completou Marcello
- Pendurado na parede? - perguntei.
- É isso aí. Na parede. - respondeu um pouco contrariado.
- Ora. Não posso saber?
- Nãoooooooooo...
Aos poucos fui descobrindo o segredo dos fins de semana chorosamente
prolongados... As comidas eram latas de leite condensado com bolachas d'água.
Banho, só nas noites de domingo em Miramar.
Prometo... Para gravar no disco voador... Cantarolava, enquanto o mistério
simples da felicidade delineava sorrisos infantis.
- Alô! Alô! Mirian você está acordada?
- Acordada... Maninho?
- Sou eu.
- São três da manhã, Maninho!
- Não consigo dormir. Aquela canção da morena não sai da minha cabeça.
- Que morena? Como vou saber? Estou dormindo.

149
Habitando o tempo

- Aquela morena, aquela dos lábios... – insistiu.


- Lábios?
Já acordada, comecei a cantarolar.
- Não. Essa não.
- Descobri... “Marina morena você...”
- Máximo! Tchau.
Maninho... Maninho... O som escapando do aparelho mostrava que já estava
desligado. Êta, carioca arretado. Será que ele pensa que está em Ipanema, ou a
saudade bateu muito forte? Foi a saudade molhando de lágrimas seu coração.
Ah! Maninho. Que seria de nossa alegria sem você?

- Alô! A senhora está me ouvindo, dona Bárbara?
- Sim. Vou ver como posso averiguar. Não o conheço, mas vou tentar. Pode
me telefonar daqui a três dias?
- Claro.
Maninho andava pelo Escambray. Localizá-lo através dos companheiros do
Ministério do Interior e discutir se ele falaria ou não com a sua mãe.
- Vamos analisar os prós e contras. - argumentou Olaf.
Dois dias passaram e quando Maninho falou segurando o choro ao
telefone:
- Te amo, mãe. Te amo... Me cuido. Pode deixar. Te amo, mãe...
Meses depois, Maninho foi para Europa, deixando-me uma figa lindíssima,
cheia de axé baiano. Feita de jacarandá, com unhas e pulseirinha de prata - meu
talismã. Sem ela não dou um passo. Da praia a elegantes recepções, lá está ela
adornando meu pescoço. E trago até hoje...
- Para fechar seu corpo. Palavra de marxista. - segredou no meu ouvido
quando terminou de cerrar o fecho.

As hemorragias começaram ainda na Rádio. Ir ao médico, fazer um
diagnóstico. Normal não era. Sem mais nem por quê, uma sangueira corria
perna abaixo sem escolher lugar ou condição. Assustada, fiz um citológico.
- Mirian, telegrama para você.
- De quem?
- Da Maternidade Obrera - entregou Antonio.
“Comparecer urgente à Maternidade para repetição do exame”, lia Lourdes
com os olhos arregalados.
- Bobagem - interferiu Antonio - Rotina, Mirian. Vou com você.

150
Habitando o tempo

- Melhor eu – cortou Lourdes.


- Companheira, temos que realizar um novo citológico porque a coleta foi
insuficiente – delicadamente explicou a médica dentro de sua bata branca.
- Doutora, por favor – solicitou a enfermeira.
- Um momento. Retorno em um minuto.
Em um gesto impensado, agarrei a ficha, li muda o resultado:
ADENOCARCINOMA grau IV.
Na sala em rodopios, prendo a mão de Lourdes entre as minhas. “Leia”,
pedi sem voz. Lívida, quase num desmaio, entreolhou minhas lágrimas.
- Vamos sair daqui. Agora. - implorei silenciosa.
- Mas e a ...
- Nada. Vamos, pelo amor de Deus.
- A doutora. já volta - tentou a enfermeira nos interceptar.
- E agora, Lurdes? Adenocarcinoma...
- Não. Imagina. - tentava articular as palavras. - Vamos voltar. É preciso que
o médico te veja.
- Vem, vem...
Um dilúvio avançava sobre minha face, ensopando a blusa da vizinha
querida.
- Um táxi. Onde tem um táxi? - pedia soluçando. - Um táxi, Lourdes.
- Calma, vamos resolver isto - tentava amenizar a dor.
- Não posso morrer no exílio. Entendeu? Quero o Brasil! Quero meus filhos!
Lurdes, que vou fazer? Não posso morrer agora. Sonhei tanto com meus trinta
anos. Não quero, Lourdes, por favor.
Antonio, parado na sacada, entendeu quando cheguei. Desceu rapidamente
as escadas, abraçou-me e chorou comigo. Lourdes falava e falava. Opinião geral:
ir buscar rapidamente o Jaime, antes de mais nada. Nem que fosse para me
tranqüilizar , antes de ir à escola ver os meninos. Meus meninos. Meus amados
meninos, tão pequeninos, tão indefesos. Impossível que estivesse acontecendo
comigo. Logo agora. E o Ibra? Como podia deixá-los estupidamente por um
adenocarcinoma?
- Vou chamar o Olaf - afirmei.
- Primeiro o Jaime – pediu Glória. - Ele é fantástico. Competente, excelente
cirurgião. Telefonei. Está de plantão e vai atender imediatamente.
Jaime Barahona era colombiano. Estudava na Ilha desde os 17
anos.Terminara medicina e fazia especialização em cirurgia. Na festa, em casa
de amigos o havia conhecido. Olhos puxados, tez morena, cabelos lisos, sorriso

151
Habitando o tempo

latino. Virginiano, trazia consigo todas as características do signo.


- Olá, muchacha. Sabia que você tem os olhos mais lindos que eu já vi? Sem
falar no sorriso. Apaixonei por ele à primeira vista – brincou. - As doenças estão
refletidas nos olhos, e os seus não dizem isso. Vamos ver? Que tal?
Passou o braço carinhosamente pelos meus ombros, dirigindo-me à sala de
atendimento. Examinou, examinou inalterável.
- Dói?
- Não...
- E aqui?
- Não...
- Formidável!
Formidável, esse cara é louco. Olhei para a Josefina, filha da Glória, sem
entender absolutamente o adjetivo.
- Como assim?
- Eu opino fazer um legrado diagnóstico ainda hoje para dirimir as dúvidas.
Aguardamos o resultado e tomamos uma decisão.
- Esperar o quê? Isto não é brincadeira. Vou morrer. Você não entendeu?
Movendo negativo a cabeça, mexeu nos meus cabelos, sempre esboçando
um sorriso. Despedaçada, economizava voz e palavras. Pensamentos dispersos
engoliam meu cérebro. Transtornada, consentia sem questionar. Cercada de
enfermeiras, médicos, ajudantes, borrei sonhos e vontade.
- Brasileira? - perguntou Gabriela, a enfermeira de turno. - Brasileira da
terra do maior cantor das Américas...

“Hoje, eu ouço as canções que você fez pra mim


Não sei por que razão tudo mudou assim
Ficaram as canções e você não ficou
Esqueceu de tanta coisa que um dia me falou
Tanta coisa que somente entre nós dois ficou
Eu acho que você já nem se lembra mais
É tão difícil olhar o mundo e ver
O que ainda exste...”

Inadmissível. À beira de um ataque de nervos, entrando para a sala de


cirurgia e esta moça cantando Roberto Carlos44. A vida segue e é bela, Mirian.
Assim é a cada partida uma chegada. É... Roberto Carlos...
- Sou louca por ele. Quero aprender todas as canções. Ele não vai gravar em

44
Roberto Carlos – Compositor e Interprete – Cachoeiro de Itapemirim - ES

152
Habitando o tempo

espanhol?
- Sei da minha solidão, da dor que arde fundo, das lembranças, sei dá
vontade de sair correndo pela praia, correndo... Sei do pôr-do-sol, sei de dois
meninos dormindo na Calle Dos – grosseiramente contestei.
- Desculpe. Nem uma palavra entendi – retrucou.
Deitada em posição ginecológica, indefesa, com os braços abertos em cruz,
perfurados por agulhas condutoras do soro fisiológico invadindo todo meu
sistema sangüíneo, levando consigo a perda da consciência que nos deixa no
limiar da vida, vi Cell e Edu se apagando diante dos meus úmidos olhos,
mesclados à imagem indígena de Jaime Barahona.
- Mirian... Mirian... Acorde. Acabamos.
- Hummmmmmmmmmm.
- Acorde.
Verde. Quanto verde! Onde... girava e girava. Num esforço, vejo Jaime
tocando delicado meu rosto.
- Finalizamos. Abra os olhos, preguiçosa, temos novidades – coloquiava.
- Tô com sono...
- Fica para depois. Ainda é cedo. Acorda, o Ibrahim está aí fora aguardando.
Poucos minutos, horas, quiçá! Da Maternidade Obrera à Quinta
Dependiente. Do adenocarcinoma a um legrado diagnóstico. Do desespero à
esperança. Da abrupta solidão à presença silenciosamente terna do
companheiro proleta.
- Ibra! - balbuciei sorrindo.
- Oi, Miroca!
Escondeu minha mão dentro da sua. Um beijo longo umedeceu minha
fronte, passando naquele gesto toda a energia disponível em seu universo.
A voz de Jaime chegava de longe, dissertando sobre legrados
falsos.diagnósticos. Calou-se. Distanciou-se, deixando-nos entregues ao mágico
momento de troca de energia.
- Jaime, desculpe, é que estava tão perdido – falou Ibrahim.
- Imagina, companheiro. Não acredito que Mirian tenha um
adenocarcinoma. O exame ginecológico foi negativo. O resultado da raspagem
também vai ser. Essas hemorragias, certamente, são provocadas pelos cistos
dos dois ovários. Por cautela, aguardamos a biópsia e, posteriormente,
extirpamos os cistos.
- Quantos dias? - Perguntou ainda assustado.
- Cinco. Com diagnóstico definitivo, dez.

153
Habitando o tempo

- Ufa! Tudo isso?


- Para viver é nada, menina – beliscou minha bochecha. - Está liberada. A
ambulância vai levá-los à Miramar. Nos vemos na consulta.

Escorreguei na sala molhada no corre-corre para atender rapidamente o
telefone.
- Alô!
- Jaime! Como vai? Tem novidade?
- Ótima. O exame deu negativo. Negativo. Sem câncer. Sem falta de vida.
Vamos operar os ovários? Semana que vem? Tudo bem?
- Ufa! Tudo assim rápido, sem pensar, sem respirar.
- Que disse o anestesista?
- Raquidia.
- Não opinamos. Prefiro não opinar. Contente?
- Preocupada com os meninos. Eles vão ficar com a Marta que, diga-se de
passagem, é ótima. O Ibrahim está no interior.
- Melhor para mim. Ele é muito ciumento. Fica me olhando de um jeito. Os
brasileiros são ciumentos assim ou é só o famoso proleta?
- Ha ha! E os colombianos todos são mulherengos assim?
- Que fazer? Teus olhos e sorriso me deixam desconcertado. Lindo. Lindo.
Como evitar admirá-los?
- Que tal falar de ovários? – desconversei.
Confiante no sucesso da cirurgia, embriagada, ouvia vozes discretas dando
início à operação.
- Se sentir alguma coisa, diga. Começaremos agora. Tudo bem aí? Não é
assim que fala? Tudo bem?
- Huhummm. Tudo bom - sussurrei sonolenta.
- Vou aproveitar para tirar teu apêndice, verificar fígado, estômago. Vamos
nessa? – informou Jaime, já passando o bisturi na região acima do umbigo.
- Aiiiiiiiiii!!!!!!
- Só um pouquinho. Segura aí!
- Fantástico. Você está linda. Nova em folha. Trinta e cinco cistos
minúsculos no ovário direito e dois no ovário esquerdo. Uma fábrica de cistos.
Trompa direita rosadinha. Útero perfeito, limpo. Umbigo novo. Cicatriz
invisível. Retirei todas as anteriores. Do Adenocarcinoma, nem lembrete. Estou
feliz por você.

154
Habitando o tempo

Despertei horas mais tarde, acariciada por umas mãos pequenas, de pele
calejada e suave. Levantei as pálpebras. Dois olhinhos chinos me fitavam com
doçura. Sonho... Acordada, sorri para o rapaz franzino.
- Olá. - cumprimentei.
- Bueno... - esforçou-se para pronunciar. -Vietnamita. Ser vietnamita.
Mestrado de medicina.
- Eu brasileira. – respondi, tal qual ele se identificara.
- Humhummm... Sorriu.
- Não sei falar espanhol, – completou.
- Nem eu. Não importa.
- Ele é vietnamita. Esteve durante muito tempo te cuidando. - intrometeu-
se Gabriela, cantarolando uma canção do Roberto.
Já passava das dezessete horas, quando Jaime chegou. Examinou de cabo a
rabo, olhou minuciosamente a evolução no prontuário e ordenou que me
levassem para o quarto.
Limpíssimo, arejado, virado para o jardim onde podia olhar as ramas
floridas dos flamboyants; respirei aliviada. Estava viva. Bem viva. A biópsia por
congelamento dera negativa. De todas formas, esperaríamos pela específica
para dar nota zero à possibilidade de um carcinoma. Cuidados de uma medicina
consciente. Queria levantar. Olhar pela janela. Caminhar.
- Quer caminhar? Temos apenas oito horas de operada, mas vamos lá um
passinho, para não dizer que sou um ditador que assusta moças indefesas.
- Apraz-me um pouco de ar. Olhar as flores. Festejar a vida.
O vietnamita saiu de mansinho, após tocar levemente meus cabelos. Na
manhã seguinte, encontrou-me no corredor e fez comigo o caminho de volta.
Em menos de dois dias, estava perfeita, mas as normas do hospital eram
rígidas: uma semana para me darem alta. Os dias passavam voando. Todos
festejavam a brasileira. Com flores, com passeios pelos jardins, escapadinhas na
biblioteca, principalmente com a fã Roberto Carlos. Que paixão nutriam aquelas
enfermeiras pelo Roberto. Aí, aprendi algumas canções, sectariamente
discriminadas na época. Roberto Carlos cantava para a ditadura, não fazia parte
do nosso mundo. Mas Roberto lembrava o Brasil, as noites da turma, na Praça
São Salvador, a Stella, a Rosinha de Valença. O Paulo César Studart, - médico
recém formado, lindo e cobiçado pelas meninas de Laranjeiras, as noites no
Zacateca. Reavaliava a Jovem Guarda, os via com o coração brasileiro.

- Manolo, olha essa moça na praia operada. Parece que tem uma ziper na

155
Habitando o tempo

barriga. Cheia de pontos. - comentou assustada.


- Deixa a companheira em paz, Magaly. – frisou, olhando curioso. - Deve ser
novo método de cura. A medicina avança. – saiu meio desconfiado.
Jaime Barahona havia me deixado pegar um pouco de sol. “Um pouquinho”,
aconselhara. “Cicatriza mais fácil”. Aproveitava para caminhar até o mar,
deitava alguns minutos, acompanhada pelo fiel escudeiro, o velho e bom
Antonio. Nem operada essa menina desgruda do mar e das notícias. -
resmungava ao telefone, informando ao Barahona como tinha sido meu dia.
Enquanto estivera hospitalizada... Luis Pavón foi designado para o
Conselho Nacional de Cultura, sem falar na criação de um Conselho Nacional de
Oficinas Populares de Educação, cujo principal objetivo é tornar a educação um
problema de todos. Novamente, pescadores cubanos são capturados pela
polícia costeira americana, a 35 milhas de Cayo Tortuga. Difícil conviver com
esta loucura. Nem bem os pescadores eram libertados e já se anunciava a febre
porcina africana, obrigando o povo e o governo a queimarem centenas e
centenas de porcos. Justo quando a carne de porco chegava com facilidade aos
açougues.
Doía a alma admirar tais cenas que iam além da imaginação Kafiquiana. A
liberdade tem seu preço, mas o povo cubano paga demasiado alto por ela. O que,
de errado, aqueles doze homens fizeram, se não sonhar por um mundo melhor
e lutar palmo a palmo para concretizar este desejo? O sorriso substituía as
lágrimas no ganho do dia-a-dia de novas realizações. Na Ilha de Pinos, a
primeira escola básica no campo, sindicatos para a Indústria Açucareira, para
os trabalhadores civis das FAR - Forças Armadas Revolucionárias, para a
aviação civil, primeiros edifícios construídos por operários, as chamadas micro-
brigadas, sendo inaugurados na cidade nova Alamar.
O caiman verdecia enquanto Raul Roa, o grande chanceler, contracenava
com o mundo, abrindo definitivamente um novo horizonte, enquanto os novos
trovadores, há anos nas estradas, levavam a toda parte do mundo mensagens
de amor e de paz – embaixadores de esperança. Silvio, Pablo, Noel percorriam
a ilha aglutinando novos amantes de sonhos e liberdade. A Nova Trova semeava
força, alegria, ternura e solidariedade, penetrando sorrateiramente em meu
coração, invadindo minha vida, povoando meus anseios, iluminando meus
sonhos. Brasil e Cuba se abraçavam em versos e amores. A paixão era recíproca.

Ibrahim decidiu ir para o Chile. Eu, decidida. Mesmo solitária no apê de
Miramar ficaria para não desestabilizar os meninos. Mudar de país seria o caos.

156
Habitando o tempo

Escola, adaptações. Um eterno começar de novo. Sérgio Lara, físico nuclear, bem
sucedido no trabalho, em um gesto único de amizade, ofereceu-me retaguarda
em Paris, juntamente com as crianças. Ficaria em Habana. Afinal, havia feito
anos atrás uma opção de lutar pelo povo brasileiro. Porque não lutar o dia a dia
com os cubanos que a duras penas mantinham viva sua liberdade. Não aceitava
bem esta necessidade de liberdade em país Europeu. Entendia as inquietudes
dos companheiros, mas era difícil concordar . Um dia, talvez não muito distante,
teria uma segunda chance de dar o melhor de mim, para isto companheiros
como Lamarca continuavam a dar-nos esperança, poderia regressar às minhas
estrelas.
Entre encontros e encontros na esquina do ICAIC, um sorriso aqui, um
toque
de mãos acolá, fui abrindo uma das caixinhas como Juanita definir meu
coração.
- Estou pra ver alguém amar assim – sorria satisfeita. Posso assegurar que
está caidinha por este tal de Noel Nicola. Acha que sou boba. Só porque tive um
só marido. Boba sim é o que eu era. Veja o brilho dos seus olhos, a alegria com
que encara as dificuldades, as ausências. Descobri que isto é amar. Tomara.
Tomara Luly saia a você. Só assim poderá ser feliz sempre.
Juanita, a doce e suave Juanita acertou. Abri uma caixinha, cheirosa,
manhosa, de cedro, escondi aquele trovador lá dentro para todo sempre.

Nicola, um acorde de amor, foi meu cotidiano, minha tatuagem, minha
calmaria. Desde aquele encontro em casa de Marta, numa tarde de janeiro de
1970, eu sonhava com este novo encontro. Assim foi. Um encontro casual, na
esquina da 23, saindo do ICAIC, deparei-me com ele, Pablito e Sérgio Vitier.
Olhamo-nos. De “Belle de jour” exibida no cinema da Universidade a
"Dodeskaden," no bairro Marianao, ao convite para ir a San Nicolas para ouvir
uma de suas últimas composições, foi um salto. Inesquecíveis as setas
indicativas “ Aqui” desde a parada de ônibus de San Lázaro até o número 118
de San Nicolas.
“AQUI NOEL.”
Das cartelas á declaração de amor para Mariana, em ’Te Perdono’, deparei-
me com suas mãos suaves como a brisa. Durante anos, seus lábios, seus dedos,
dedilhavam meu corpo. De êxtase em êxtase, desfrutarmos milhares de
terceiros instantes de pôr-do-sol na playita, de mãos dadas com duas outras
paixões: Cell e Edu.

157
Habitando o tempo

- Corre Nicola..., gritava Eduardo, em uma desenfreada velocidade, para


não perdermos aquele sublime instante que cantava Vinicius em seus versos.
Noel sossegava minha alma tarareando ’Calma por favor porque tenemos
prisa y el trecho es duro de andar...’ Aprendi com ele os encantos da paixão, os
segredos da solidariedade.
Sua guitarra, irmanada numa simbiose de mágia e competência, fluía sons
de ’Maria del Carmem‘ a ’Siempre es 26‘, alusões à mulher guerreira, livre, solta,
feliz, aos acontecimentos de um certo 26 de julho de 1953, marco no século XX,
quando um grupo de jovens ousou e mudou o mundo. Noel, compunha,
organizava a Nova Trova em todo o país e ainda tinha tempo de sobra para
compartir comigo minha velha e saudosa paixão pelo Brasil. Passear pelas ruas
de Habana, fugir à Regla para ver o Cristo, uma versão simplória do imponente
Corcovado, cartão postal do Rio de Janeiro. Descobrir portas e janelas, perder-
se nas muretas do malecón beijadas eternamente pelo mar.
Descer de mãos dadas a Avenida dos Presidentes em direção à Casa das
Américas, refúgio saudável dos trovadores amados e incentivados pela querida
Haydeé Santamaria – mãe de notas e acordes, de sonhos, de realizações.
Nicola foi um o meu amor maior. Entranhável, imprescindível. Assim seria,
por dez anos a fio, por todas as outras décadas vindas e por vir....
Diferente totalmente do proleta que habita outro recanto do meu coração.
Tarefa difícil acreditar que o somente amamos uma vez na vida. Cara metade.
Outra parte da minha laranja. Todos os amores se verdadeiros são eternos
incomparáveis. Nenhum novo amor apaga o anterior. Nem alcanço esta história
de acabou o amor. O que passou foi a euforia a paixão – geralmente metabólica
com durabilidade de um ano mais ou menos. Amor, mesmo é para sempre de
cores e formas diferentes. Os três nunca foram os primeiros nem seriam os
últimos a ter um lugar privilegiado em meus sentimentos. Amo as flores, os sóis,
as canções, as janelas, a menina calada parada na esquina, o Martinho da Vila, a
Bethânia, os homens desde que o egoísmo não seja a sua tônica existencial. Sou
apaixonada pela humanidade.
Maio, chove. Mês de cálidas manhãs, tardes com cheiro de terra passou.
Vou ficar com saudade das vindas noturnas do trovador. Do riso na madrugada,
embaixo do mosquiteiro, do som da guitarra baixinho, baixinho para não
despertar a vizinhança, de "Olhos nos olhos.
Junho voou nas asas dos rouxinóis apresentando Julho o mês de
assomar- se à Praça. Ouvir Fidel compartir com o todo o povo.
18 primaveras do assalto ao Quartel Moncada – primeira ação armada do

158
Habitando o tempo

Movimento 26 de Julho. A Plaza de la Revolución esbajava alegria. Fidel


remexeu os microfones num gesto único de ser. Seu toque energizava aqueles
aparatos capazes de transformar a energia do som. Sua voz pouco a pouco
ressoa, ganha os caminhos da América Latina. 26 de Julho sempre é um dia feliz,
mesmo que as noticias não sejam as melhores. È o dia reafirmação da liberdade.

... “Naturalmente que el deseo sería poder dedicar este acto del 26
de Julio a las cuestiones relacionadas con estos hechos y con el
movimiento revolucionario en América Latina y en el mundo. Pero
es que también tenemos otras obligaciones, puesto que uno de
nuestros fundamentales deberes es no solo alentar y estimular la
lucha de los pueblos, sino también ganar nuestra propia, dura y
ardua batalla en nuestro país – começou Fidel entre aplausos seu
tão aguardado pronunciamento…
Compañeros bolivianos aquí presentes, integrantes de una
representativa delegación….
Nos regocija que en el día de hoy representantes de dos fuertes
movimientos revolucionarios hayan estado presentes en esta
tribuna (APLAUSOS).

"…Y puesto que a nuestro juicio ellos son ejemplo de lo que deberá
ser la patria del futuro, lo que deberá ser la juventud del futuro, de
cómo será la sociedad comunista (APLAUSOS), nuestra más
sincera felicitación, nuestro más profundo reconocimiento en
nombre del pueblo. ¡Nuestra gratitud por haber demostrado con
los hechos que la posibilidad del comunismo para la sociedad del
futuro no constituye una quimera!
¡Nuestro agradecimiento por haber mostrado al pueblo ejemplo de
conciencia, de trabajo y de hombre comunista!
¡Patria o Muerte!
¡Venceremos!

Fidel, volta aos microfones para ler a mensagem da “Brigada Cuba no Peru”
anunciando o fim das obras do primeiro hospital construído em terras Latino –
americanas resultado da premissa cubana – a solidariedade.
A rádio Habana Cuba entrou no ar seca, pesada: “Após um tiroteio travado
entre a polícia e os irmãos de José Campos Barreto, o Zequinha que
acompanhava Lamarca, obrigou-os a abandonar o lugar onde se encontravam
no interior da Bahia e iniciar uma longa e penosa rota de fuga. De 28 de agosto
a 17 de setembro, caminharam 300 quilômetros. Cansados, debilitados,
desnutridos, foram covardemente assassinados ao serem surpreendidos pela

159
Habitando o tempo

polícia, quando descansavam à sombra de uma baraúna.”


A notícia entrou como uma bofetada. Zonzos, órfãos, choramos, cada qual
em seu recanto, o impacto de mais uma perda. Dias antes, Iara Iavelberg havia
se suicidado em um apartamento em Salvador ao ser cercada pela polícia.
O perigo se acercava. Na caatinga, ao descansarem à sombra de uma
baraúna, foram surpreendidos pela repressão. Lamarca estava desnutrido,
asmático, provavelmente com a doença de Chagas.
Perdíamos Lamarca, e com eles outros companheiros como Nilda Carvalho
Cunha, militante do Movimento Revolucionário Oito De Outubro (MR-8). Nilda
era secundarista. Em 20 de agosto de 1971, foi presa em Salvador, por ocasião
da morte de Iara Iavelberg, por agentes do DOI/CODI. Libertada em 12 de
novembro, profundamente debilitada em conseqüência das torturas sofridas,
morre no dia 14 com sintomas de cegueira e asfixia, em conseqüência de
envenenamento durante a prisão. A mãe de Nilda, desesperada com a morte da
filha, passou a fazer denúncias e protestos em praça pública e, certo dia,
apareceu inexplicavelmente enforcada.
“Ninguém mais segura este país” apregoa Emílio Garrastazu Médici, o
ditador brasileiro. Ninguém segura o desvario desses militares que, em nome
da pátria, ensangüentam nossa bandeira. Novembro sepulta migalhas de
esperança.

Enquanto o cruzeiro do sul não passava de uma ilusão de ótica,
mercenários voltavam a atacar, dessa vez Banes, região oriental da Ilha,
deixando dois mortos e quatro feridos.
Fidel convidado pelo Presidente Salvador Allende vai ao Chile. Na festa de
despedida, fala ao povo Chileno no Estádio Nacional:
“Hay una pregunta, muy común en los chilenos, que nos hemos encontrado
en casi todas partes, y que revela ese gran espíritu patriótico de los chilenos y
un poco de ese orgullo patriótico de los chilenos. Y es que se llenan los
pulmones de aire, suspiran profundo, y preguntan: "¿Qué le parece a usted este
país? ¿Qué impresiones tiene usted de este país?" Aun cuando sepan lo que a
uno le parece, aun cuando conozcan de antemano las impresiones. O como
cuando preguntan: "¿Cómo lo han tratado en este país?" Aun cuando puedan
conocer la respuesta de nuestros sentimientos hacia los que aman
verdaderamente este país.
Pero, desde luego, sobre impresiones se pueden decir muchas cosas, que
vayan desde la majestuosidad de las montañas, o el azul del cielo, o la belleza

160
Habitando o tempo

de la Luna, los recursos naturales, sus paisajes impresionantes. Pero nosotros


no somos geólogos ni somos naturalistas. Y lamentablemente, de poeta solo
tenemos aquello que dice el refrán que a todos nos atribuye un poco de poeta y
de loco. Me imagino que los chilenos hayan conocido también ese refrán.
En cambio, hay cuestiones que nos interesan mucho más: nos interesa el
paisaje humano por encima de todo, nos interesa el pueblo por encima de todo,
nos interesan los chilenos por encima de todo (APLAUSOS).
Si a algo hemos dedicado nuestra vida es a la cuestión humana, a la
cuestión social, a la cuestión revolucionaria. Si algo nos despierta el interés por
encima de todo es la lucha de los pueblos y de los hombres, es la marcha
histórica de la humanidad desde que el hombre vivía en hordas primitivas al
hombre de hoy. Si algo nos interesa es el espectáculo vivo de un proceso en sus
momentos críticos.”

Marta Solis, vai na comitiva do Comandante. Regressa apinhada de
novidades brasileiras. Fausto casara com uma advogada, tivera uma filha;
Travassos, a grande paixão, também. Maninho continuava preparando-se para
voltar ao Brasil. A distância se agigantava, nenhuma possibilidade de regresso...
Como a vida é tecida de contrapartidas, Fidel, após 24 dias de gira pelo
Chile, regressa a Habana, depois de ter encantando o povo andino.
O ano terminava. A construção do futuro se consolidava na organização da
sociedade.
Cell e Edu tiveram sua festa entre mil-folhas, uma linda pinhata, sem
grandes alardes. As perdas superaram as expectativas. Ano difícil de viver este
1971.
Sara Gonzalez compensou a dor sintetizando nossos sentimentos “De cara
a cara com o porvernir... "Desde os quarteirões, cresce meu país, se desenvolve
e se projeta... Em cada quadra um comitê, em cada bairro revolução, quadra por
bairro, bairro por cidade, país em luta, revolução...”
1971 termina com a I Assembléia de Balanço dos CDR´s.

“Quiero darle mi dia a los que sueñan,


a los que hacen el pan de madrugada,
a los que ponen piedra sobre piedra,
a los que te mantienen tan despierta...”
Comienza el Dia - Noel Nicola

161
1972 - “Año de la Emulación
Socialista”
“Tempo, Contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver."
Qualquer – Drummond de Andrade

Tudo pode passar nesta ilha: das dificuldades de negociações


internacionais impostas pelo bloqueio imperialista, a edição do primeiro
dicionário vietnamita, o restabelecimento das relações diplomáticas com o
Peru.
Janeiro, fez um friozinho suportável. No Brasil, o verão aportava no cais de
fevereiro, mês da Portela. Claro que havia a Mangueira, o Império Serrano.
Como a Portela, ninguém viu coisa mais bela A Portela é azul e branca. È uma
nuvem mergulhando no mar.
“Os negros trouxeram sua música, sua dança, sua religião e sua inigualável
forma de enfrentar a dor através da arte para a "roça". Foram estes negros,
muitos deles vindos de outras partes do Brasil, sobretudo de Minas Gerais e do
antigo Estado do Rio, que plantaram a semente da batucada nas festas da região.
O cavalo torna-se o principal meio de transporte. Imensos valões dificultavam a
passagem dos moradores. Não havia água, luz ou qualquer tipo de conforto já
comum nos bairros mais abonados da cidade. O antigo engenho cedeu espaço e
nome para a principal via da região: a estrada do Portela. Os primeiros
portelenses foram verdadeiros alquimistas. Magos capazes de transformar dor
em arte, e sofrimento em notas musicais . Nasceu a Portela, a dificuldade sua
matéria-prima. O grande segredo da sua garra trazer nas veias as manifestações
culturais herdada dos antepassados - os escravos” .
Abril desponta majestoso. Esta terra de Mambises - patriotas cubanos que
lutaram contra os espanhóis na guerra de independência, centrada no Caribe,
diáfana , luminosa, guerreira, fez de abril o de “Playa Girón”. Abril é possuído
de uma estranha força, inexplicável, que nos atira para realizar até o impossível,
provando –nos que se o homem deseja transforma o cotidiano, vence
obstáculos, faz possível um mundo melhor. Trovadores cantaram este Abril ao
universo em prosa e verso imortalizando a vitória ímpar contra o império.

Compañeros de historia,
”tomando en cuenta lo implacable

163
Habitando o tempo

que debe ser la verdad, quisiera preguntar


—me urge tanto—,
¿qué debiera decir, qué fronteras debo respetar?
Si alguien roba comida
y después da la vida, ¿qué hacer?
¿Hasta donde debemos practicar las verdades?
¿Hasta donde sabemos?
Que escriban, pues, la historia, su historia,
los hombres del «Playa Girón».
Playa Girón – Silvio Rodriguez⁵⁸

Maio, mês dos trabalhadores em todo o mundo. O primeiro de Maio


celebrado quase sempre na praça da revolução onde se vê o Ministério do
Interior ostentando a foto magnífica de Che Guevara, do outro lado a tribuna
onde se ergue o imponente monumento ao poeta maior e idealizador da
libertação cubana, José Martí.
Na tribuna, ora discursa o Comandante em Chefe, líder da revolução, Fidel
Castro, ora
Comandante, sempre liderados neste dia pelo Presidente da CTC – Central
dos trabalhadores de Cuba.
Dos doze que subiram a Serra Maestra contra a tirania de Batista, somente
Camilo Cinfuegos e o Che não estão presentes. Camilo – como bem definia El
Che:

“ fue el compañero de cien batallas, el hombre de confianza de


Fidel en los momentos difíciles de la guerra y el luchador abnegado
que hizo siempre del sacrificio un instrumento para templar su
carácter y forjar el de la tropa ... Camilo era Camilo, señor de la
vanguardia, guerrillero completo que se imponía por esa guerra
con colorido que sabía hacer."

Neste primeiro de maio, quem fala é Fidel. Milhões de cidadãos


aglomerados escutam atenciosos o discurso daquele que decidiu dedicar
inteiramente sua vida a seu povo Aí se detém o orgulho dos cubanos por este
personagem da História do século XX.
Comandante Fidel Castro Ruz: simples amá-lo, difícil defini-lo. Simples,
terno, atencioso, observador, minucioso, dedicado, forte como a rocha açoitada
pelas ondas, firme como um continente, amoroso, exigente, alegre, brincalhão,
charmoso. Jovem, feliz, triste, pícaro, um realizador de sonhos. Com doze
homens, aos que se somaram milhares, cambiou o rumo da América. Virou de
pernas para o ar o mundo, derrubou as convenções seculares, vestiu a cor verde

164
Habitando o tempo

oliva e fez das cinco faixas e uma estrela, sua estrada e sua guia. Mudou
conceitos, deu a mão aos excluídos e os levou para ver o sol, ler as estrelas,
sonhar com outras plagas. Convenceu a todos de que é possível, seja como for,
materializar todos os sonhos.
Discursa, horas e horas. Tem sempre muito, muito o que doar. De gentes,
de guerra, de paz, de força, de solidariedade, de agressões infames, de
ceifadores de felicidade. Em dado momento, descobrimos que ele está falando
de tudo aquilo que oprime nosso coração. De tantas e incontáveis falas caladas
ao longo dos séculos. Encontramos na sua voz o silêncio de nossos
antepassados. Imigrantes em busca de uma vida melhor calaram, nós, por
medo, por falta de oportunidade, omitimos, por franqueza silenciamos. Fidel,
num crescer de palavras, vai enumerando cada situação, descrevendo nossas
vidas, falando por nós, defendendo-nos. A multidão, silenciosa por vezes,
eufórica na maioria dos momentos, lava a alma apinhada de revoltas
escondidas. Este é o seu segredo. Ser imprescindível.
No elevador do Hospital Fajardo, em um desses dias em que minha tireóide
estava a mil, o conheci; quando olhei, ali estava o homem de século. O mito em
carne e osso. Que fazer? Tremia como vara verde.
- Estás enferma? – perguntou calmamente.
- Hipertireoidismo – respondeu Geraldo Matteo, chefe do Departamento de
Endocrinologia, enquanto Hung entrava.
- Porque pintas el pelo, muchacha? – inquiriu, tocando-me a cabeça.
Meu coração saía pela boca, meus olhos esbugalhados resistiam em
acreditar no que viam diante deles. Como contestar, se a emoção era mais forte
que as palavras? Respiro fundo, trêmula, estupidamente respondo:
- Não pinto el pelo, Comandante.
- Não eres cubana?
- Brasileira - completou Hung, sabedor de que seguramente a taquicardia
havia invadido meu peito.
- Cuidenla – comentou, já saindo do elevador. - Os brasileiros valem ouro
molido, - brincou sorrindo.
Inimaginável este encontro. Indescritível a força de sua presença. Anos
passarão e, a cada lembrança desta tarde, sentirei seguramente a suavidade de
suas mãos sobre minha cabeça.
Assim de simples, conheci o Comandante em Chefe da maior revolução do
século XX. Assim de lindo. Assim de singelo. Assim de maravilhosa é a revolução
cubana. De repente, não mais que de repente, o inesperado muda

165
Habitando o tempo

definitivamente sua vida.



Aos poucos meus companheiros foram partindo para a Europa. Os que
ficaram foram adaptando-se ao dia-a-dia da revolução, uns trabalhavam
integrando-se de corpo a alma na construção de nova sociedade que surgia,
outros a viam passar pela janela como Carolina, a menina tímida da canção de
Chico, esperando o milagre do regresso que um dia a mais, ou menos, haveria
de vir. Entrei de cabeça na vida, nos sonhos, no campo, na música, na pintura,
absorvendo desesperadamente a vida que podiam me oferecer.
1972, passou do canibalismo aos escândalos políticos, atentados, sedução,
ganhos e, principalmente, muitas e insubstituíveis perdas.
Em Munique, sede dos jogos Olímpicos, onze atletas foram brutalmente
assassinados por grupos terroristas.
A política exterior de Nixon amenizava em relações amistosas com a União
Soviética e a China, quebrando com a segunda o bloqueio econômico, mas
impondo bloqueio aos portos vietnamitas, sua maior fonte de prejuízo. A guerra
com o Vietnã, um pequeno e pobre país situado na Ásia Central, era seu talão de
Aquiles. Como em 60, o Vietnã mais parecia um Playa Girón.
Os tratados de paz firmados entre as duas maiores potências nada mais
eram que paliativos para encobrir a vergonha da já prenunciada vitória. Nem
os agentes laranjas, nem a poderosa guerra química e bacteriológica
doblegavam aqueles homens miúdos, franzinos, de fé e convicção
inquebrantável.
O cenário preparado para a reeleição americana abria uma nova polêmica
ao ser descoberto o envolvimento de elementos da CIA e FBI no roubo de
documentos da sede do Partido Democrata em Washington, no Edifício
Watergate, conhecido depois mundialmente.
Aparentemente abafado, Nixon foi reeleito, mas, através das reportagens
de Bob Woodward e Carl Bernestien do Washington Post, que comprovaram
que a invasão ao edifício, a busca de documentos e os microfones não eram fatos
isolados, e sim um plano bem elaborado para sabotar o Partido Democrata,
tirariam-no em 1973 do poder.

No Brasil, os militares confiantes, alicerçados no apoio americano,
anunciavam o milagre brasileiro, inaugurando mil e tantos quilômetros da
Transamazônica. Próprio dos poderes venais, os militares informavam
enganosamente o assentamento de trabalhadores em comunidades, ocultando

166
Habitando o tempo

a devastação da floresta, a destruição das aldeias indígenas. Mais de um bilhão


de dólares foi afogado pelas águas, em uma resposta à altura dos erros
cometidos, da desonestidade e irresponsabilidade dos ditadores brasileiros.
Perdíamos Leila Diniz. Com sua barriga grávida exposta ao sol
inconfundível de Ipanema, suas respostas rápidas e inteligentes, seu
despojamento nas relações amorosas, sua alegria. Sua singular presença
explodia num avião procedente da Austrália. A liberdade do movimento
feminista chegava ao auge de suas conquistas. Mulheres, como Leila, ousavam
romper o bloqueio do preconceito, a submissão de séculos entre talheres, panos
de pratos e cuecas fedorentas. A relação humana será dividida, compartida, não
segmentada a uma única espécie. Os neurônios fazem a diferença entre as raças
que povoam a terra. Pensantes, contestadores, descobrem, modificam, alteram
a ordem estabelecida por séculos. Homens e mulheres, de mãos dadas, fazem a
diferença, alicerçam o futuro.
Substitui Marlon Brando, na entrega do Oscar, uma índia apache, em
resposta à violência deflagrada aos índios americanos. O Poderoso Chefão – um
mergulho na saga histórica dos imigrantes italianos - superlotam os cinemas,
aplaudem o desempenho de Al Pacino e Brando, rendem a Hollywood mais de
300 milhões de dólares.
Novembro terminara com grandes vitórias. Dezembro pressagia diferente,
algo paira no ar de novedoso.
A volta à Cuba de 11 pescadores seqüestrados. A criação do sindicato
Nacional de Trabalhadores da Construção. A criação do Comitê Executivo do
Conselho de Ministros, presidido por Fidel e com a participação dos vice-
primeiros ministros, entre eles o Comandante Ramiro Váldez , criador do
Ministério do Interior, o pilotis da revolução cubana. Quilômetros de distância,
fortalecem o amor que sinto pelo verde das florestas, pelo cheiro insubstituível
do mar, por Ernesto Nazareth, pela elegância musical do Paulinho da Viola, que
breve deverá de ser ouvido nos novos discos a laser, pondo fim aos LP´s
impossíveis de transportar a qualquer parte.
Na minha longínqua pátria, pisoteada por coturnos, a TV a cores e o
“Patinho Feio” (primeiro computador montado pela USP) são as novidades do
momento. No Araguaia, os companheiros enfrentam uma segunda investida do
Exército, que amargam outro fracasso. Adaptados à mata onde vivem desde os
anos 60, nossos heróicos guerrilheiros camuflados sobrevivem dos alimentos
estocados na região. Assim, de quando em vez, íamos sorvendo notícias de que
a luta não cessara no Araguaia.

167
Habitando o tempo

Allende chega a Cuba para uma visita de quatro dias e juntos discursam na
Praça da Revolução. Não sei se foi a primeira vez, mas desta feita Salvador
Allende estremeceu a praça com sua força de orador nato, com seus sonhos de
liberdade, com o compromisso de estar lado a lado com a Cuba Socialista, com
o respeito ao ‘Comandante da América Latina’, referindo carinhosamente a
Fidel Castro. Irmanado na mesma fé, Fidel propõe: “que cada cidadão que tenha
três ou mais quilos de açúcar divida um com o povo chileno”.

Querido compañero Salvador Allende (APLAUSOS);


Queridos compañeros de la delegación oficial chilena (APLAUSOS);
Queridos invitados;
Queridos compatriotas:

Este acto tiene para nosotros un especial significado. Al triunfo de
la Revolución en 1959, una de las personalidades que primero
llegó a Cuba fue Salvador Allende (APLAUSOS), que ya ocupaba un
lugar destacado en la política de su país.
Al revés de otras “personalidades”… el compañero Salvador
Allende le otorgó a nuestro proceso una confianza ilimitada y su
amistad más firme. …

Porque los imperialistas no solo atacan a los pueblos con
explosivos y con napalm, no solo atacan a los pueblos y tratan de
someterlos con la metralla; los tratan de someter mediante el
hambre, mediante el bloqueo, mediante la asfixia económica. Y lo
mismo que han tratado de conseguir en Viet Nam con las bombas,
están tratando de conseguirlo en Chile con la asfixia económica.
Y un pueblo no solo es heroico cuando está dispuesto a dar su
sangre por su hermano. ¡Es heroico también cuando como en el
día de hoy expresa la disposición de dar parte de su alimento por
un pueblo revolucionario y hermano! (APLAUSOS)
Nosotros somos latinoamericanos, pertenecemos a esa gran
comunidad, y algún día nos uniremos a ella integralmente,
plenamente: el día en que la ola revolucionaria barra las
incomprensiones de hoy, los chovinismos de hoy, la balcanización
de hoy, los mezquinos egoísmos de hoy; el día en que la ola
revolucionaria —en dos palabras— barra con el dominio
imperialista sobre los pueblos de América Latina y, con el
imperialismo, su odioso sistema de explotación del hombre por el
hombre.
A la América Latina pertenecemos. ¡Por ella estamos dispuestos a
luchar junto a los demás pueblos de América Latina! ¡Y por ella,
compañero Salvador Allende, y por Chile, no solo estamos
dispuestos a dar nuestra propia sangre, sino también hasta

168
Habitando o tempo

nuestro propio pan!

Solidariedade incondicional ao povo chileno. Cada qual, depois de discutir


em seus centros de trabalho discutiriam a doação de um kilo de açúcar
mensalmente aos chilenos.
Vivemos dias de felicidade. Chile entrava na era socialista. Um grande aliado
para ajudar enfrentar o imperialismo norte – americano. Faltava menos do que
pensávamos para a liberdade aportar em solo brasileiro.”
Miramar, abençoado pelos emocionantes por de Sol recebe uma Marta ,
eufórica, propondo uma grande festa no aniversário dos meninos. Se os 15 e 17
sempre foram uma renovação da esperança, estes seriam mais que especiais.
Um super carnaval, dançaremos até o amanhecer, nos atiraremos ao mar
quando o primeiro raio solar encontrar a janela.
Um barco branco enorme, a famosa pinhata repleto de franjas, simulando
um cisne, alegria da criançada, especial para o Edu. Bombas de chocolate, mil
folhas, maltas cervejas, rum de todas as datas, bolo de morango e muita música
festejaram mais um aniversário dos meus maiores amores.
Em uma resenha simplória, 1972 havia sido de realizações, perdas,
escândalos. Nas noites de Miramar nascia os “Estatutos da Nova Trova Cubana”.
Noel Nicola foi eleito o primeiro Presidente. Somando os prós e os contra,
saímos ganhando até 31 de dezembro, quando mais uma grande perda
empanou nossa fugaz alegria. A Rádio Habana Cuba noticiava:
“A repressão aniquila bases do PCBR no Rio e em Recife; sete mortos.
Carlos Daniel, após quatro dias de tortura, morre no DOI-Codi-SP. Ainda
agonizando, escreve na parede da cela: Este sangue será vingado”.
Não podemos precisar quando, nem como, Carlos, mas, se não for por nós,
por nossos netos, um dia seu sangue, e de tantos outros, será vingado.
O assassinato brutal de Aluísio Palhano, um velho companheiro do PCB,
exilado em Cuba desde o Golpe Militar, reafirmou nossa suspeita. Um infiltrado
entre as organizações passava coordenadas ao serviço informações no Brasil.
Arrasados, apreensivos perdíamos horas a fio analisando a situação.
Desconfiávamos, sofríamos.
Palhano, ao ser executado friamente impediu que muitos companheiros
fossem assassinados. Sua morte nos revelou o traidor.
31 de dezembro de 1972, adormeceu comprometido. Dois anos vividos
entre alegrias, tristezas e a falta do cheiro da pátria.

Puede que con los brazos

169
Habitando o tempo

Haya que abrir la selva,


Pero a pesar de los pesares,
Como sea,
Cuba va. Cuba va.
Cuba Va – Silvio Rodriguez e Noel Nicola.

170
1973 - “Año del XX
Aniversario”
A língua que eu falo trava
Uma canção longínqua,
A voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
À margem esquerda da frase,
Eis a fala que me lusa,
Eu, meio, eu dentro, eu, quase."
Invernáculo – Paulo Leminski

Meus companheiros em todos as definições da palavra deixaram um vazio


imensurável. Desde Liszt, Minc, Pedrinho, Maninho, sem falar no amado proleta
– o eternamente Ibra, que enchiam nossas exiladas vidas, em fugidias alegrias,
discussões frutíferas, crescimento político; poucos ficaram. A Tia, sábia,
amazonas, risonha, forte, sempre às voltas com sua criançada, formava um
capítulo à parte. Pelas manhãs, o primeiro timbre era ela.
- Oi, Mirian. Como foi a noite? As crianças estão bem? Que tal dar uma
passadinha por aqui?
- Estou um pouco agoniada.- respondia, já àquela hora absorvendo um
livro.
- Aposto que acordou super cedo. Estou errada?
- Acordei rompendo o dia. Já limpei, arrumei e estou estudando. Vou dar
uma volta na praia, hoje tem ressaca. Ouvi o barulho das ondas durante toda a
madrugada.
- Janeiro é assim aqui acima do Equador. Tem alguma notícia dos meninos?
- Nada. A não ser a de sempre: estão no Chile, tentando uma forma de
regressar ao Brasil, seguir a luta.
- Tô nessa! Ainda vamos lutar para tornar nosso país livre, feliz.
- Eu também, Tia. Eu também.
- A guerrilha no Araguaia vai de vento em popa! Passa por aqui, temos
muito que conversar. Fora isso, a Jô está sentindo uma dorzinha molesta no lado
direito, bem perto da costela. Não é melhor o Jaime examiná-la?
- Combino com ele hoje. Pode deixar.

171
Habitando o tempo

A Tia, mãe de uma família super especial, fora seu neto Ernesto (em
homenagem ao Che) criava mais duas meninas e dois meninos brasileiros. Com
eles saiu da prisão em junho de 1970, trocados pelo embaixador alemão.
“Sem meus netos não vou.” Pisou pé e não arredou de sua intenção por
nada nesta vida, contava com orgulho.
“Torturar-me nem pensar. Vocês não têm mãe, seus fedelhos? Ousem
colocar-me as mãos. Sabe ler? Escrever? Ai.Não vê que estou nessa para que
seus pais possam dar a vocês tudo isso? Olhem para a minha cara! Covardes.
Torturando e matando nossos companheiros. Os militares ficam com o dinheiro
do país, vendem nossas riquezas, e vocês, os babacas, ficam achando que são os
heróis, salvadores da pátria, combatendo seus próprios irmãos. Saiam dessa,
meninos. No final, eles saltam fora e quem paga o pato? O soldado raso. O
analfabeto. Podiam estar na minha. Saiam fora”. - comentava orgulhosa,
mexendo a panela de feijão que cheirava gostoso.
- Damaris hoje saiu ao médico. Anda aí com suas mazelas.
- Isto é saudade. Saudade dá dor em tudo quanto é lugar. Dá até vômitos e
diarréias. Saudade, falta de um amor. Falta do cheiro de pátria dá câncer. Pode
ter certeza. Por isso, em tudo o que eu faço ponho uma dose grande de amor,
passeio pelo chão do meu Brasil, e cuido desta criançada. O câncer só me pega
se o Brasil não for para frente. Aí sim, posso até morrer deste mal. Caso
contrário, só morro mesmo de alegria. Ontem vi o Comandante. Isso é que é
homem de verdade. Passa cedo para o trabalho. De jipe, menina! E sem escolta.
Não teme nada. Êta! homem arretado. Veja só. Vive, come e dorme para o povo
cubano. Eu, pessoalmente, nunca vi ninguém igual, em toda a minha vida.
- Nem eu. - respondi rápido, antes que ela atropelasse minhas palavras.
Poderia ficar horas a fio a ouvindo falar, era um poço sem fundo de
ensinamento. Nunca havia lido Marx nem Lenin, mas sabia tudo da luta de
classes. Afinal, fora a vida, seus maiores amores eram proletários: Mané, o
Zequinha e o Zé Ibrahim.

Damaris Lucena, com a mesma coragem que fugiu dos pais para casar com
Antonio Lucena, o doutor, saiu do Maranhão para tentar uma nova vida em São
Paulo. De copeira ao Partido Comunista, à VPR, à perda brutal de seu
companheiro de luta, assassinado pelos militares no sítio em Atibaia, bem
diante dos olhos e de seus três filhos ainda pequenos, á prisão, à troca sua e de
seus filhos pelo Cônsul Japonês, à Quinta Avenida; trinta anos haviam passado.
Damaris é toda uma mulher. Sofrida, confiante, dedicada, eterna guerrilheira.

172
Habitando o tempo

Agora está aprendendo comigo gramática portuguesa com a mesma euforia e


garra com que se dedica à causa brasileira. Sofre de duas dores: a perda do
companheiro assassinado e o não encontro com o filho Ariston, desde
dezembro de 1970. Apesar da saudade, como define tão sabiamente a Tia, segue
firme. Sabe que a vida espera muito dela e se cuida e se prepara para este
momento. Damaris me desperta um imenso carinho. Gosto do seu jeito de falar,
do companheirismo, da sua forma solidária de ser. Entende meus dissabores,
minhas angústias, minha solidão. Telminha, sua filha caçula, inteligente como
ela só, estuda com Marcello e Eduardo. Com seus óculos fundo-de-garrafa,
parece uma intelectual mirim. Nasceu dirigente, chefe de turma. Papel que
executa com rigorosa delicadeza. Todos estão na escola e nós vamos vivendo
cada qual à sua maneira.
Estou em um curso super puxado de “Cirurgia de Emergência”. As aulas são
diárias e duram mais de 8 horas. Meus domingos têm sido no Instituto Médico
Legal, operando cadáveres, único dia disponível para aprimorar os
conhecimentos. Hoje, vi uma cena de extrema sensibilidade. Dois cadáveres.
Uma linda mulher, toda queimada de praia, fora vítima de um aborto caseiro.
Estranho em um país onde o aborto é permitido. Qualquer coisa como uma
traição de leve. O marido não podia saber, e para fugir ao registro hospitalar,
entregou-se nas mãos de uma curiosa. ‘Triste’, comentava o legista.
Ao lado, um bebê me chamou a atenção. O enfermeiro cobrira com uma
gaze a mesa de aço inox e ali, delicadamente, colocara a criança. Fiquei parada,
olhando curiosamente a cena. Entregou o bisturi ao legista que, com a mesma
suavidade, iniciou a necropsia no mais profundo silêncio. Seus olhos perdidos
em um sofrimento ignorado, foi retirando amorosamente cada órgão. Passava-
os ao enfermeiro para colocá-los na bandeja. Quando tocou o coração, virei de
costas. Forte demais.
Naquele dia, debati durante horas com uma tireóide teimosa, sem vida há
alguns dias, que insistia em ser seccionada pelo bisturi.
- Conseguiu extirpá-la com os dedos?- perguntou abruptamente Jaime.
- Não. Tive que usar pinças, bisturi... Ufa! Estava duro de roer. - contestei.
- Vamos embora? - questionou.
- Vamos. Já tenho fome e as crianças devem estar ansiosas para irem ao
cinema.
Ao sair, voltei à sala da cena anterior. Vazia. Pairava no ar um cheiro de
amor.
Muitas manhãs estive dissecando cadáveres, aprendendo para salvar

173
Habitando o tempo

vidas. Nunca esqueci aqueles olhares, muito menos aquelas mãos decifrando a
morte.

Em Cuba, os processos de mudanças, as transformações aconteciam de
fato. Rápidas. Vive-se intensamente. Política e cultura em ebulição. A ilha é
pequena para tanta informação. O povo alfabetizado quer mais e mais.
Grupos contra-revolucionários metralham barcos de pescadores em águas
internacionais, nas Bahamas. Continuam seqüestrando pescadores, tentando
com estas ações terroristas desestabilizar o processo de transformação social.
Cuba resiste. Nas estatísticas internacionais da OMS, é citada como o país de
menor taxa de mortalidade infantil.
Oscar Padilla, um santiagueiro, lutador da Serra Maestra, é nomeado
Ministro do Trabalho. Raul Roa, Ministro das Relações Exteriores, participa no
Panamá da reunião do Conselho de Segurança da ONU. Trovadores, como Silvio
Rodriguez e Augusto Blanca, levam suas canções ao povo europeu.
Embaixadores de um novo tempo de ternura abrem espaço para a revolução
que se agiganta. Da Europa ao sul do continente americano, Pablo Milanez, Noel
Nicola, Silvio Rodriguez e Augusto Blanca cantam a solidariedade, o
companheirismo anunciado um novo tempo de esperança.
Crianças vietnamitas choram o bombardeio de Napalm. Mas a garra e fibra
dos cidadãos enfraquecem os soldados Estados Unidenses. Pouco a pouco, o
gigante vai sendo derrotado pelo pequeno povo oriental e ameaçado na
aparente fortaleza pelas comunidades indígenas, que reivindicam os acordos
violados durante anos. Reunidos em Wounded Knee, cenário do massacre, de
1890, pelas tropas norte- americanas de mais de duzentos Sioux, o Movimento
Indígena Americano exige melhores condições de vida e reconhecimento de sua
cidadania.

Impossível deter a corrida pela liberdade. A Fábrica Girón entrega o
primeiro ônibus urbano montado na Ilha. Os trabalhadores discutem em
assembléias a nova lei de maternidade. Vilma Espin, presidente da Federação
das Mulheres Cubanas, encerra o primeiro Encontro Latino-Americano da
Federação Democrática Internacional de Mulheres.
Fundado em 1967, o Instituto Nacional do Livro chega a cem mil
publicações. Cem mil livros tocados por olhos e mãos desejosas de
conhecimento e aventuras. Imagino um povo pequeno, nada mais que 20.000
milhões de habitantes, percorrendo os encantos do meu país. Milhões de

174
Habitando o tempo

cubanos apaixonados pela nossa “Gabriela”, pelas ruas do pelourinho, pelas


cantigas, pelo Wadinho, pelo nosso simpático furacão Jorge Amado.
Julho é mês de festa no meu coração. Como obra e graça do Espírito Santo,
nasci um dia antes do Assalto ao Quartel Moncada. Amanheço 25,
comemorando a vida, e anoiteço festejando a liberdade. Talvez esse seja um dos
motivos escondidos no segredo do tempo: minha paixão por este povo. Quem
sabe sai voando de Santiago para cair numa estrela, nas montanhas de Minas
Gerais. Qualquer coisa além de uma mera coincidência me ata a estes
guerrilheiros da Sierra Maestra, às ladeiras santiagueiras, às ruas
santaclarense, aos havaneiros, aos doces mineiros dos homens que habitam o
interior da terra na eletrizante Mata-Hambre. Qualquer coisa explicável
provavelmente pelas leis da Física. Agora, julho, precisamente o dia seis, é para
comemorar as crianças. Terminam as aulas e as lojas abarrotadas de
brinquedos fazem a alegria da garotada. Cada menino ou menina tem direito a
três brinquedos, todos, sem exceção. Um caro, destes eletrônicos – japoneses
ou soviéticos – e outros dois de menor preço, muitas vezes mais apreciados. Lá
em casa serão seis, que se vão juntando aos dos anos anteriores. O que Marcello
e Eduardo gostam mesmo de fazer é correr pelas ruas, mergulhar nas águas
límpidas do Caribe, representar longas peças teatrais, onde muitas vezes me
toca ser a escrava e a princesa. Desenhar quadro a quadro um filme de
aventuras, que mais tarde passarão para mim, em uma sessão privé, projetada,
através de um projetor idealizado e realizado por eles, enquanto aguardam
ansiosos alcançar a terceira prateleira da estante, onde habitam os livros mais
desejados: os meus livros.
- Quando vocês alcançarem, é porque já está na hora de poder lê-los. -
explico cada vez que intentam pegar um, com a ajuda cúmplice de uma cadeira.
– Combinado?
- Combinado. Mas posso ler este? – indaga Marcello com seus olhinhos
infantis.
- O Estado e Revolução? Com cinco anos, menino?
Posso –pede, quase aos prantos.
Analisei a situação, discuti ferozmente com todos os princípios de histórias
infantis e tomei uma decisão. Será como homeopatia, se não fizer bem, mal
também não fará. Não posso, nem devo desencorajá-lo. Há três anos aguarda
ansioso por este livro.
- Eu sei ler. - responde feliz. - Sei ler tudo.
- Concordo.- estamos combinados.

175
Habitando o tempo

Edu também quer um.


- Mas Eduardo, tem que esperar um pouquinho mais. Ainda não domina
todas as palavras. No próximo semestre, pode ser. Enquanto isso continue
lendo o da segunda prateleira.
- Não quero. Vou esperar.- afirmou categórico. - Vou ler o ANO 45.
- Ok. Criança. Quando setembro chegar, você pode ler o ANO 45.
Imagina... Um livro sobre o fim da segunda guerra mundial. Interessante,
histórico, esclarecedor. Afinal que sabíamos de paz. Nada. A não ser aquela das
tardes com pôr-do-sol, das brincadeiras pelos murinhos. Fora isso, lá fora, além
do mar que nos cerca, guerras de todos os tipos e matizes violentam o homem,
os sonhos, as notas musicais, as estrelas.
Férias até o final de agosto. Fomos passar uns dias em Mata-Hambre. Um
povoado de mineiros, risonhos, fortes, queimados pelo sol, embora trabalhem
a mais de 40 metros metros de profundidade, no seio da terra. Fascina-nos a
mina de níquel, as tempestades de relâmpagos ao cair da tarde, o porco assado
na brasa, as marmeladas de goiaba com queijo crema. E a Munda fritando as
mariquitas?
- Queridos! Quanta alegria recebê-los. – apertava Cell e Edu entre seus
braços. - Todos estão em polvorosa a esperar a chegada de vocês. Bárbaro chega
no final da tarde. Quer porque quer uns dias na casa dele também. Beijos
beijos... Que meninos gostosos. Que magra! Qual o problema! Amores!- indagou
curiosa.
- Não. Ando cansada! Cheia de taquicardia! Com uma fome louca de
repente, saciada com qualquer pedaço de pão. Sei lá.
- Não foi ao médico?
- Claro. Contudo, não chegaram a um diagnóstico definitivo. Crêem ser uma
neurose de ansiedade. Choro à toa. Nada que uns dias de campo não resolvam.
Mas eu sabia que não era bem assim. Os sintomas se agravavam
velozmente. As noites de insônia, as taquicardias nas madrugadas, a ânsia pelo
mar. O pranto incontrolável, as mãos trêmulas, o medo do nada. Somente
Antônio compartía a verdade. Quantas madrugadas, ao escutar-me descendo a
escada, levantava rápido alcançando-me na rua escura que me levava ao mar.
- O que você tem, querida? - abraçava-me, enquanto meu corpo tremia e o
coração em uma disparada queria alcançar a velocidade da luz.
- Quem sabe? Quero entrar no mar.
Entrava de camisola e tudo, ficava quieta com a água até o pescoço entre
as pedras da playita. Chorava e chorava até que o coração exausto me permitia

176
Habitando o tempo

o luxo de sair da água e voltar à casa para tentar dormir um pouco. Estaria
enlouquecendo?
Alguns dias passava super bem. De repente, aquele mal estar ia tomando
conta do meu corpo.

- Bárbaro vai adorar hospedá-los, apesar de trabalhar praticamente dia e
noite. Em tempos de guerra, impossível viver, conciliar. Bárbaro, você sabe, é
um bárbaro. Exigente, como ele só. Agora, como chefe do Partido, labuta em
dobro. Estou feliz. Meu filho serve à Pátria como poucos, em coisa séria, cheia
de mistérios.
Lá ia meu pensamento imaginando cenas jamesbondianas protagonizadas
por aquele negro, descendente direto das costas africanas. Um deus de beleza,
alegria e vivacidade. Forte, audaz, terno como um gato angorá. Culto como um
PHD em um pólo científico. Dominava desde a Matemática até as Artes, como
quem passou anos debruçado em livros, freqüentando rodas de intelectuais.
Passava do cavalo à discussão de política internacional como quem muda de
camisa. Bem casado, pai de um bebê gostoso e simpático, faz-nos um bem
danado ou quando vamos de visita, ou quando aparece pela madrugada para
dar aquele abraço, nas vezes que vem à Habana, nas reuniões do Partido.
Continuo mal. Durmo e o cansaço persiste. Vira e mexe a taquicardia
aumenta, as mãos ficam trêmulas, o corpo não responde meus apelos. Apesar
da insistência de todos, vou regressar a Habana.

Hoje, Marcello desapareceu com o Edu enquanto eu dormia, após um farto
e delicioso almoço. Assustados, percorremos a região para encontrá-lo na
fazenda dos cavalos.
- Como este menino passou pelo mata-burros? – indagavam intrigados
todos os moradores circunvizinhos.
“Impossível” argumentou o camponês. “Para ser sincero, nunca vi isto
acontecer em todos os meus anos de vida. E, diga-se de passagem, já passei de
meio século”, opinava, retirando o chapéu sob o sol escaldante e raspando a
cabeça em um gesto de incredulidade.
- Como você chegou até aqui, menino? - inquiri botando o coração pela
boca.
- Pela ponte. Foi ótimo. Este cavalo é mansinho. Verdade, Edu?
- Ai, meus Deus! - suspirava Bárbaro, apavorado só de imaginar o desastre
que poderia ter sido.

177
Habitando o tempo

Marcello e sua paixão pelos cavalos. Talvez eles soubessem disso e, de uma
forma mágica, os protegeram. Nenhuma outra explicação encontramos para tal
aventura.
- Vamos levá-lo para Habana, mãe?
- Como? Onde deixá-lo? Não temos lugar.
- Tem sim.- contestou feliz. - Na banheira.
- Banheira! Um cavalo na banheira! - além da imaginação tamanho
disparate, olhei para a platéia ali formada pelo incidente.
- Na banheira. Cuido dele direitinho.- sorria.
- Pensaremos no assunto depois de conversar sobre as desvantagens para
o cavalo de ser trancafiado numa banheira. Ok?
- Desce. Regressaremos à casa de jipe. Dolores deve estar aflita com o nosso
coletivo sumiço.
A bem da verdade, rimos toda a tarde da feliz façanha dos dois, disfarçando
quando se acercavam. Perigoso com certeza, mas quaisquer dos presentes
afirmavam nunca ter passado por tamanha proeza. Um cavalo em pelo,
montado por dois guris, havia passado por uma ponte, por um mata–burros,
sem nenhuma conseqüência. Mistérios...

Dias depois, regressando à cidade, fomos deixando para trás os verdes
prados de Pinar del Rio, seus simpáticos operários, como eu, apaixonados pelo
Brasil.
A cidade nos recebeu linda. Sou fascinada por suas janelas, pela Quinta
Avenida, com suas margaridas e fícus, cada qual recortado em formatos
geométricos. Um gênio da tesoura poda as árvores com tal maestria que as
torna, fora a beleza natural, esculturas admiráveis. O cheiro do mar inebriou
meus sonhos e Paulinho da Viola com seu molejo embalou a saudade e
preencheu a solidão.
Acordei com uma doce enxaqueca musical ...
“Minha viola vai pro fundo do baú... não haverá mais ilusão... quero
esquecer ela não deixa”.
- Tá cantando, mãe?
- Paulinho da Viola. Querem ouvir? Vamos lá... - dirigindo à cozinha para o
café da manhã.
“Alguém que só me fez ingratidão... Minha viola... No carnaval, quero
afastar as mágoas que o teu samba não desfaz. Pra facilitar o meu desejo,
guardei meu violão, não toco mais. Minha viola...”

178
Habitando o tempo

- Gostaram?
- Vamos cantar esta pro Maninho. - disse Edu.
- Pro Nicola também, na hora do pôr-do-sol. – adicionou Marcello.
- Para todo mundo. Encheremos Habana de samba. Um dia, traremos a
Portela. Já pensaram aquele azul e branco desfilando pelo Malecón?
Paulinho passou o dia nos meus pensamentos. Quanta saudade! Quanta
solidão! Quanta falta de uma montanha, de uma florestinha! Que saudade
danada! O pior do exílio é a saudade. Uma saudade indefinida, desfigurada,
doída, espinhosa, que dilacera o coração. Sofro. Sofro muito. Cell e Eduardo são
tão pequenos. Preenchem minha tristeza, mas nunca poderão entender esta
melancolia. Devoro a literatura universal, vejo todos os filmes em cartaz, vou a
todas as vernissages. Recebo amigos. Mas quero colo. Colo da minha pátria.
Estou doente. Uns acreditam ser neuroses de ansiedade.
- Vá ao Hospital Fajardo. Podemos estar confundindo com um problema na
tireóide.- orientou o residente da emergência.
- Irei. Quando voltar a crise, vou a este local. Com certeza. - confirmei o
pedido carinhoso.

Passei pelo colégio para ver os meninos no final da tarde. Sentada na
mureta, uma linda garota de uns 17 anos brincava com Marcello.

- Mãe, esta é a Hildita, minha amiga. Ela passa por aqui e brincamos.
- Que bom! Uma nova amiguinha?
- Prazer em conhecê-la. Sou Hilda.
- Olá. Prazer, Mirian.
- Vocês são brasileiros?
- Somos.
- Que bom. Adoro o Brasil. Todo mundo diz que é um país belíssimo.
- Realmente é de uma beleza sem limites.
- Ela é mi novia!
- Su novia? Que bom! Uma namorada linda e meiga deste jeito.
Rimos juntas... Brincando, fizemo-nos amigas. Muitas tardes, ao visitar
Marcello e Eduardo na Beca, encontrava Hildita, sempre terna, carinhosa,
simpática. As conversas, da porta da escola, estendemos até a parada do 132.
Daí a meu apartamento, nas sextas-feiras, não demorou muito. Adoro
adolescentes. Hildita era uma delas. Falamos pouco, ou quase nada, sobre as
famílias de ambas. Acostumada à clandestinidade, não perguntava. Sabia que

179
Habitando o tempo

estudava, tinha algumas amigas, sua mãe viajava e, naquele momento, estava
no Peru.
Em uma tarde antes das férias, mês em que, seguramente, não nos
veríamos, confessou-me, muito timidamente:
- Mirian. Tenho que contar uma coisa para você.
- Algum problema na escola? Um namoradinho?
- Nem uma coisa nem outra. Nem sei como dizer. Faz tempo que nos
falamos e estou envergonhada.
- Nada de vergonha. Qualquer coisa que tenha feito é normal e pode ser
consertado. Sempre podemos.
Saiu como um furacão. Sem pausa. Ininterrupta:
- Sou filha do Che Guevara. Sou Hilda Guevara Gadea.
Calei, mirando-a bem fundo nos olhos. Abracei-a forte
- Bem que os teus olhos me eram familiares - consegui balbuciar.
Nada mudou em nossa relação, exceto a emoção de poder ler os bilhetes
enviados pelo nosso amado Comandante, guerrilheiro heróico, nas suas viagens
pelo mundo, madrugadas a fora; e a tremedeira disfarçada, quando sentei na
cama em que ele por vezes dormia. Todas e incontáveis vezes que, encostada
nas minhas pernas, entrelaçava seus negros cabelos entre meus dedos,
contando-lhe estórias da minha pátria, do amor pelo meu povo, pela
humanidade, ela ficava perdida nas lembranças dos felizes dias em que seu pai
vinha brincar, tal como eu costumava fazer com Marcello e Eduardo.
A vida me há premiado com grandes regalos. Hildita, foi um dos maiores.
Ainda jovem, foi viver ao lado da Ursa Maior. Mas muda de constelação. Em
noites de lua cheia, por vezes, encontro uma estrela, piscando, piscando. Sei que
lá está ela dando seu passeio pela América Latina.

Um dia, sentada na sua sala, as crianças brincando felizes de correr com ela
pela casa, de novo a sensação de enforcamento e a disparada cardíaca. Saí à
calçada, seguida rapidamente por Hildita, que estava super preocupada com o
meu estado.
- Vou morrer, Hildita. Não posso mais. Olha como estou tremendo. O
coração vai explodir.
- Venha, querida. Vamos ao Fajardo como nos indicou o médico do Hospital
Nacional. As crianças ficam com a Maria.

O Hospital Fajardo, localizado em Vedado, além de abrigar o Instituto de

180
Habitando o tempo

Endocrinologia, tem sua história ligada às torturas e assassinatos cometidos


pelo regime de Fulgêncio Batista. Localizado perto da prisão, tinha um túnel que
ligava os porões ao setor de emergência, permitindo a saída discreta dos mortos
pela repressão.
- Quero um endócrinologista? Um endócrino? - tentava gritar, desesperada.
- Calma! Vamos resolver seu problema.- reafirmou o plantonista.
- Não quero. Vou morrer! Quero um endócrinologista!
- Valium, enfermeira.- ordenou.
- Sem Valium. Quero um endócrinologista! - chorava convulsivamente,
perdendo as forças.
- Escuta. Não temos endocrinologista de plantão. Eles somente dão
consulta ambulatoriais. Você vai dormir e amanhã, pela manhã, prometo que
um endócrino virá vê-la. - explicou segurando firmemente minhas mãos
trêmulas.
- Não! Não quero!
Como em um passe de mágica, ali estava ele. Franzino, pequeno, com os
olhos puxados, olhando-me com todo a ternura disponível no planeta.
- Aqui estou!
- Endócrinologista?
- Isto mesmo.- apresentou-se. - Santiago Hung.
- Tão pequeno. - balbuciei dopada pelo Valium. - Tão pequeninho...

Seu sorriso iluminou o cubículo, enquanto meu coração em disparada
corria para o infinito.
- Vou curar você. - murmurou secando minhas lágrimas.
Numa abrupta crise tireóidea, vinte dias de coma, gotas e gotas de iodo,
poemas, conversas sobre o cotidiano, “Detalhes” tarareado pela famosa
Gabriela – a enfermeira fanática incondicional de Roberto Carlos, foram
elementos obrigatórios impostos por Hung para me restituir a vida.

Santiago Hung foi um capítulo à parte nos meus anos de exílio. Simples,
carinhoso, atencioso, descendente de chineses, carregava o conhecimento, a
paz, o mistério, a tranqüilidade. Persistente, dedicado, foi restituindo-me a vida
a cada dia. Hung me doou a possibilidade de ver o sol brilhar, admirar as
estrelas, brincar e curtir Marcello e Eduardo, rever amigos, molhar os pés no
mar. Entrei na sua vida para sempre. Desde sua paixão por Efigênia, ao
nascimento de seu primeiro filho, em um dia que a minha tireóide decidiu

181
Habitando o tempo

extrapolar os mil por hora.


- Onde está o Hung?- indaguei.
- Não veio. - respondeu a enfermeira.
- Não veio? Estou péssima. Como vou vê-lo?
- Seu filho nasceu hoje. Só amanhã.
- Impossível esperar, estou mal, super mal.
Enquanto reclamava como uma menina mimada, fui interpelada por um
médico que entrava e se dispôs a me atender.
- Venha comigo, vou vê-la.
- Obrigada. Quero o Dr. Hung.
- Ele não virá. Eu posso atendê-la. - afirmou categórico.
- Desculpa, mas você sabe bastante endocrinologia, o suficiente para saber
o que tenho, assim como o Hung?
- Sei, - sorriu abraçando-me tranquilamente, deixando-me falar e falar.
Aumentou um pouco a doses da medicação. Explicou-me da demora da cura
completa. Dos próximos tratamentos que seguramente o Dr. Hung iria adotar.
Acompanhou-me até o ponto do táxi, sob o olhar curioso das enfermeiras. Na
manhã seguinte, retornei. Precisava da anuência de Hung.
Detrás de sua timidez, Hung me olhou e disparou:
- Sabe quem a atendeu ontem?
- Um doutor.
- Um doutor? O Chefe de Endocrinologia do País, Matteo. Lembra-se dele?
O dia que conheceu o Comandante?
- Não. Como vou lembrar. Estou mal.
- E, você pergunta se sabe mais que eu? Ah! Miriam. Só mesmo uma
hipertireóidea, e ainda por cima brasileira para fazer uma pergunta destas ao
papa da endocrinologia.
- Só mesmo em Cuba poderia isso acontecer. - brinquei feliz, por estar nesta
ilha, pelo nascimento de Carlos, por existir Hung.
Durante anos, seu consultório foi cúmplice dos meus sonhos, dos meus
novos e velhos amores, das minhas dores, das minhas alegrias. Amava Hung,
como só se ama um grande e fiel amigo. Quantas e repetidas vezes cheguei ao
Fajardo disparada, ora taquicárdica, ora trêmula e chorosa, ora com os nervos
à flor da pele.
- Deixar de fumar seria uma excelente medida. Você não acha? Quantos
cigarros por dia? – perguntou, esperando minha resposta.
- Dois, três ou quatro maços, depende.

182
Habitando o tempo

- O quê? Dessa forma, vai ter um câncer de pulmão, sem falar em um belo
enfisema pulmonar. - advertiu sério. - Vamos deixar o cigarro?
- Impossível. Não sou capaz de tamanha proeza. Imagina se tenho força de
vontade suficiente.
- Vai ter que arrumar. Tão brava e guerreira, como pode dizer tamanho
disparate? Ora, Miriam!
- Vou pensar neste assunto. Imagina viver sem este pedaço de papel cheio
de folha secas. Sem esta fumaça, sem este cheiro. Difícil, Hung. Tenho
consciência do mal que ele me faz. Tenho consciência dos estragos no
organismo. Tenho consciência que é uma merda, mas não tenho garra para
tanto. – envergonhada, mudei de assunto. - Quer vir comigo a um show de
Vicente e Silvio na Biblioteca Nacional? Às oito.
- Não posso, estou estudando um caso complicado.
- Sempre às voltas com seus pacientes, seus estudos. É preciso distrair um
pouco, mudar de atividade, sabe? – tentei dissuadi-lo.
- Fica para outra ocasião.
Beijei-o na face, como manda o figurino, e saí pensativa. Especial este Hung.
Domina com delicada maestria as glândulas. As esmiúça, penetra nos seus
segredos, regula seus distúrbios, controla suas imperfeições. Ama tanto esta
parte vital do organismo que gasta horas e horas decifrando seus enigmas.
Hung é um típico médico cubano. Enfrenta todos os limites. Estuda, supera,
rompe fronteiras, salva. Ama a vida. A nossa vida.
Estava entre dois Santiagos: o da vida e o da tortura, da morte, da vergonha,
do medo.
11 de setembro de 1973 – Santiago do Chile chora, rebela-se, corre
desenfreada para salvar a liberdade. Chilenos, argentinos, brasileiros, suecos,
cubanos resistem ao covarde golpe a Salvador Allende. Sob forte bombardeio
dos caças da força aérea, entrincheirado no Palácio da Moneda, Allende não
renuncia. “Pagarei com a minha vida a liberdade do meu povo. Tenho certeza
de que não será em vão. Este é o meu testamento político”. Augusto Pinochet
Ugarte banha de sangue os Andes. Ceifa vidas, tortura, assassina, desaparece
com milhares de homens, mulheres, crianças. Mata para calar a voz da
liberdade. Presos no Estádio de Futebol, Victor Jara, com o violão em punho,
consolava seus compatriotas. Para impedi-lo de tocar sua guitarra, cortam-lhe
suas duas mãos. Victor continuava cantando até que uma bala certeira, bem no
meio da fronte, lhe tira a vida. O Estádio, em silêncio, apavorado, chora. A
América Latina treme de dor, mais pobre, mais sofrida, mais triste.

183
Habitando o tempo

Milhões de exilados, desaparecidos, assassinados engrossam as páginas


negras da história da conquista dos homens.
“Quando conquistamos a vitória nas urnas, sabíamos de todas as
dificuldades que iríamos encontrar. O imperialismo tem braços longos e
poderosos demais” profetizou Salvador Allende, onze meses antes do golpe
militar.
O imperialismo tem braços longos, mas nossos ideais de paz, de respeito
ao homem , à natureza, à vida ultrapassam o infinito.
O ano demarcação do nada e do tudo chegava ao fim, silencioso, mudo,
perplexo. Quantas Américas passariam impunes por seu crivo invisível e
palpável?
Em Habana, o sotaque chileno se unia a de uruguaios, paraguaios,
argentinos. Brasileiros escapados da morte e das prisões de Pinochet. Cuba
solidária, aquela que conhecemos no dia a dia dava guarida a milhares de
exilados reafirmando seu compromisso com a justiça e a liberdade.
Reunidos em torno à tristeza, esboçamos um pálido sorriso doloroso para
bendizer à Revolução Cubana.

“Yo pisaré las calles nuevamente


de lo que fue Santiago ensangrentada
y en una hermosa plaza liberada
me detendré a llorar por los ausentes.”
Yo Pisaré las Calles Nuevamente – Pablo Milanez45

45
Pablo Milanez- Poeta, cantautor - Bayamo - Cuba

184
"1974 – “Año del XV
Aniversário”
Irmão das coisas fugidias,
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
No vento.
Se desmorono ou se edifico,
Se permaneço ou me desfaço
- não sei, não sei. Não sei se fico
Ou passo."
Motivo - Cecilia Meireles46

A inauguração da Escola Vocacional Lenin, por Leonid Breczhnev,


Secretário Geral do Partido Comunitas da União Soviética, com a presença do
Comandante, anunciava bom ano. Outras escolas no campo eram abertas,
possibilitando o ingresso de noventa e oito mil novos alunos, em um ousado
programa educacional, baseado em trabalho e estudos. Os frutos, nos anos
subseqüentes, comprovaram o êxito desta feliz experiência.
Lázaro Pena, fundador da Central de Trabalhadores de Cuba, deixa a vida
e uma grande lacuna entre os trabalhadores cubanos, enquanto em Alamar,
num gesto de solidariedade sem precedentes, trabalhadores cubanos entregam
inúmeras unidades habitacionais a exilados chilenos. Este gesto comove a
todos, já que o problema habitacional constitui um dos maiores desafios à
revolução. Milhares de interioranos migraram à capital, criando um impasse ao
desenvolvimento do campo e um excedente de habitantes necessitados de
trabalho.
No Brasil, o General Médici entrega ao tráfego a ponte de treze quilômetros
de concreto, encurtando a distância entre Rio e Niterói. Milhares de operários
morreram na obra, enquanto nos cárceres milhares de prisioneiros
continuavam sendo mortos e torturados.

Merino, Presidente da Central dos Trabalhadores do Chile, havia passado
alguns dias pela casa, rumo à Alemanha, onde seguiria sua labor de unir e lutar

46
Cecilia Meireles – Poetisa - Tijuca – Rio de Janeiro

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Habitando o tempo

pela liberdade. Milhares de chilenos se encontravam na Europa, urgia uni-los.


O golpe não os havia pegado desprevenidos, pressentia-se, armava-se a
resistência, mas as forças de direita durante anos minavam o avanço do
socialismo. Anos foram necessários da Idade Média ao Capitalismo. Anos,
séculos seriam necessários para enfraquecer os alicerces fincados pelos
imperialistas.
Cerca de três mil exilados aportaram em Cuba nos últimos meses. Dentre
eles, futuros e eternos amigos. Coloma com sua doce Patricia. Mirna e a pequena
Andréa, totalmente aterrorizada com os bombardeios do Moneda. Bastava um
helicóptero passar ao longe para que guaguita começasse a vomitar, tremer e
chorar desenfreadamente. Repetidas vezes, agarrando-me pelo pescoço,
choramos juntas.
Com os chilenos, uma leva de brasileiros. Medeiros, Baianinho, de
Jequiezinho, vestido de pantalonas super coloridas, do laranja ao verde
bandeira, despertando a curiosidade dos transeuntes. Saíra de Jequiezinho
acompanhando um companheiro do PC do B buscado pela polícia local, cruzou
o Brasil nas boléias dos caminhões, caminhou por estradas que levam ao Sul,
cruzou a fronteira e foi detido pelos guarda-fronteiras para ser repatriado – ou
melhor dito, para ‘desaparecer nos cárceres da ditadura’, não fosse o Arcebispo
de Buenos Aires interceder pelos presos, tirá-los das mãos da guarda brasileira,
ampará-los e, um pouco mais tarde, possibilitar sua chegada ao Chile. Baianinho
nasceu para chegar certo na hora errada. O primeiro vôo do dia 11 de setembro,
saindo de Buenos Aires para Santiago do Chile, levava a bordo o menino de
Jequié. Em uma Santiago ensangüentada, errante, perdido entre balas e
canhões, dirigiu-se ao endereço indicado. Como todo azarão é um tremendo
sortudo, na mesma rua vivia também uma brasileira que imediatamente o
recebeu, e dali direto ao exílio na embaixada do Panamá. William, e Baianinho
passaram a fazer parte do nosso cotidiano na mesma manhã em quem que
fomos ver Medeiros na praia, em Santa Fé. Marta Solis, e eu vivendo há quase
três anos em Havana, éramos o retrato de duas chicas saudáveis, felizes,
curtidas de sol.
Inevitável o comentário de bom brasileiro dos dois recém-chegados:
- Caramba, olha que coisa mais linda, mais cheia de graça. Duas de uma só
vez. Ah! Se o Vinícius estivesse por aqui. - murmuram em uníssono.
- Esses brasileiros, Marta. Nem quando acabados de sair de uma tremenda
deixam a alegria de lado. Por estas e outras que adoro brasileiros.
- Eu também. - sorriu Marta.

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Habitando o tempo


Dali para frente, os dois, a seu tempo, conviveram conosco. As calças boca
de sino trazidas pelo famoso baiano, para não escandalizar demais os cubanos
eu as usava; ele meus jeans, mais discretos que as cores laranja e verde bandeira
de um cetim fantástico.
Anos mais tarde, fui madrinha de seu casamento, não antes deste baiano
porreta ter destruído centenas de corações.
Havana mudou de cara com a chegada de tantos chilenos, uruguaios,
argentinos. Uma América Latina completa. O Hotel Presidente, construído no
início do século, abrigou a maioria dos exilados que aportaram na Ilha logo após
o golpe militar do Chile.
Enquanto o sangue derramado no hemisfério sul clama por justiça, no
Alentejo, soa como há muito não se fazia:

“Grândola, vila morena,


Terra da fraternidade,
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti ô cidade... ”

A voz de José Alonso penetra as ruas de Lisboa dando a senha para que os
militares marxistas do Movimento das Forças Armadas tomassem quartéis,
academias militares, tv´s, aeroportos, emissoras de rádio. Era a Revolução dos
Cravos pondo fim a quase cinco décadas de ditadura. Portugal enterrava o
salazarismo. Até nos momentos mais críticos de sua história, nossos
compatriotas primaram pelo amor. Em lugar de balas, cravos; passavam das
lapelas, usados para identificar os revoltosos, aderidos pela população, para os
canos dos fusis. Indescritíveis estes portugueses. Liberdade para as colônias era
a palavra de ordem. Com esta medida, desmoronava o último baluarte do
Império Português, alicerce do programa de Antonio Oliveira Salazar.
O pôr-do-sol, o cheiro do Tejo, o exótico dos telhados vermelhos das casas
dos bairros antigos de Lisboa, o verde das regiões montanhosas, o esmeralda
do mar que banha a península respiram democracia.

Folhas e folhas de papel entravam frenéticas pelos aparelhos de telex das
agências de noticias:
“O universo é uma imensa bolha de espaço-tempo, cujo conteúdo se afasta
velozmente do centro que lhe deu origem e empurra para longe seus limites –
afirma Stephen Hawking. Logo, não há limites. Baseado nesta teoria,
revoluciona o mundo da Cosmologia e da Física. É apenas uma questão de

187
Habitando o tempo

tempo decifrar o universo”.


Países da América e África reatam relações diplomáticas com Cuba.
Panamá, Colômbia, Senegal, Camarões, Venezuela. Começam a transitar grupos
de teatro, de música, escritores ávidos da magia cubana.
A África de nossos antepassados invade, em um feliz encontro, os fins de
semana carregados de música, poesia e saudade.
“Sodade... Sodade de Cabo Verde...”
Blas Roca, dirigente operário e membro do Partido Comunista, entrega a
Fidel, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, o novo projeto de lei
do “Código da Família”. Quem melhor para festejarmos neste dia, que não uma
homenagem à ilustre visitante vietnamita .
Nguyen Thi Dinh foi a mais importante mulher revolucionária nas guerras
de libertação do povo vietnamita. Nasceu guerreira e assim viveu. Da luta
contra os franceses à invasão americana, Nguyen se sobressaiu por sua
tenacidade. Vice-Comandante das FAPL, emociona a ilha caribenha com sua
presença. Os vietnamitas me enternecem a cada palavra, a cada gesto, a cada
bravura. Aparentemente frágeis, seja por sua estatura, seja pelo tom doce de
sua voz, seja pela leveza de seus gestos, abrigam em suas entranhas gigantes de
vontade, de coragem. Venceram guerras, superaram crises, ganharam o
reconhecimento do mundo.

A duzentos metros do Malecón, perto da “Casa das Américas”, ao lado do
Ministério de Relações Exteriores, ergue-se majestosa a Avenida dos
Presidentes. Uma das avenidas mais bonitas da Capital. Começa perto do mar,
esplêndida, alonga-se devagarzinho em uma subida entremeada de árvores,
moldadas cuidadosamente pelas mãos de um artista que as converte em formas
geométricas. Esferas, triângulos, cubos, sinos, em um jogo interessante que
deixa o transeunte fascinado.
De repente, um banco de praça convidativo insiste numa paradinha rápida,
com o simples intuito de admirar. E, nesse subir incessante, se abre, em um feixe
de luz, umas vezes iluminada pela luz do sol, outras vezes com o colorido azul
da lua mágica do céu do Caribe, ali, bem em frente, a Praça da Revolução, palco
de encontros inesquecíveis. Milhares, milhões de cubanos se misturaram a
outras nacionalidades, vibrando na mesma sintonia. Atentos, fortes,
inquebrantáveis, revolucionários, ouvem, aplaudem, choram, riem, se
arrepiam, se emocionam diante da força das palavras, da convicção de
liberdade e de amor à pátria de seu Comandante Maior, sob o olhar poético de

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Habitando o tempo

José Martí.
Ir a La Plaza é uma renovação de vida e esperanças. É recarregar de energia
as funções vitais de nosso cérebro. É tocar com as mãos a solidariedade, o amor,
a ternura.

Este Primeiro de Maio seria diferente. O Chile estava sob o jugo do General
Pinochet, um dos mais cruéis ditadores que se tem conhecimento na história
dos Andes. Cuba, novamente sozinha na América para lutar contra o bloqueio.
Renovar as forças para continuar a batalha árdua, sofrida, para se manter livre.
Ramiro Valdez, comandante da revolução, é o orador. Reconhecido, por
saber dominar as técnicas de segurança com perfeição, tem os gestos calmos
voz serena, e um olhar de sábio. É um homem que sabe o que faz e porque o faz.
Quase um mito. Participou de todos os momentos marcantes da guerra
revolucionária, desde o assalto ao Quartel Moncada. Veio no Granma com os 82
homens. Sobreviveu. Participou de todas as principais batalhas da guerra que
culminou com a derrocada de Batista, em 1959. Um herói da Pátria. Constrói
com sua perseverança, palmo a palmo, esta nova sociedade. Faz parte do sonho
de criar o homem novo.


”A metralladora en mano se enfrentó al adversario y tras la
dispersión de sus compañeros quedó solo, hasta encontrarse con el
Che Guevara y otros combatientes poco después. El monte y una
cueva serían oportuno refugio, en esos momentos, de los cuales el
Che escribió: Resolvimos mantenernos allí durante el día, aunque
con el compromiso expresamente tomado por los cinco, de luchar
hasta la muerte. Quienes hicieron este pacto nos llamamos:
Ramiro Valdés, Juan Almeida, Chao, Benítez y el que esto relata...
Después de días sin comida ni descanso, totalmente extenuados,
tuvo lugar el reencuentro con Fidel en Cinco Palmas. Las almas se
alzaron junto a los brazos amigos, por saber con vida al jefe de la
Revolución y ante la posibilidad de arribar a La Plata y alcanzar la
Sierra Maestra para continuar la lucha. Los sueños, suelen
cumplirse cuando son fuertes y verdaderos, aunque parezcan
imposibles.
Primero se integró el joven de quien les hablo en la columna 1, a la
que llamaron todos Columna madre. Posteriormente integró la 4 y
al crearse la columna invasora 8 Ciro Redondo, al mando del
comandante Ernesto Che Guevara, fue designado su segundo jefe.
De manera que realizó la invasión a Occidente y posteriormente,
una vez en el territorio de la antigua provincia de Las Villas,
participó en las acciones del Escambray, hasta el triunfo de enero

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Habitando o tempo

de 1959, al que arribó con los grados de comandante, obtenido


desde los primeros momentos de la lucha en la Sierra.”

Nossas vidas estão muito ligadas a ele. De sua sabedoria e direção depende
nossa segurança e de todos os exilados latino-americanos, asiáticos e africanos.
Devemos a ele o caminhar tranqüilo pelas ruas nas deliciosas madrugadas de
Habana, a segurança de nossos filhos nas escolas, sejam elas na cidade ou no
campo.
Ramiro Valdez é parte integrante da esperança de que existe “um
almanaque cheio de dias 26”, como tão bem cantou Noel Nicola.

El caiman fervilha, emoções por viver e vividas. O Conselho de Ministros
regulamenta as eleições, a Constituição e o funcionamento dos órgãos do poder
popular. Imediatamente, iniciam-se as assembléias para a escolha dos
candidatos. Em Matanzas, o município do mais famoso balneário, Varadero,
com suas grutas deslumbrantes - Vale de Viñales, começam as eleições para
Delegados do Poder Popular. Pela primeira vez na história, uma brigada de
cortadores de cana consegue atingir o décimo milhão de arrobas. Na Argentina,
o peronismo levaria ao poder, pela primeira vez na História do Ocidente, uma
mulher ao cargo na Presidência da República – Isabelita Perón. Novos tempos
para o Cone Sul? Pode ser.

No Caribe, verão. Hora das merecidas férias aos que estudaram com afinco,
alcançaram boas notas. Da visita à casa dos avós. Da semana na praia com toda
a família.
Mês das crianças. Fidel recebe dos Pioneiros a medalha “4 de abril”, em
uma solenidade simpática e divertida no Parque Lênin.

Segundo turno em Matanzas e nos lugares onde os candidatos não
obtiveram a metade mais um dos votos.
Oduwaldo Vianna Filho – o Vianinha, um dos maiores dramaturgos
cariocas. Autor, ator, pensador do teatro e agitador cultural, Vianinha
procurou criar um teatro que refletisse os problemas das classes populares
brasileiras, procurando formas de expressão que estimulassem atitudes
críticas diante desses problemas.
Conclui “Rasga Coração” nos últimos instantes de vida uma das mias belas
e polêmicas de suas obras.

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Habitando o tempo


”Rasga Coração” é uma homenagem ao lutador anônimo político, aos
campeões das lutas populares; pleito de gratidão à Velha Guarda, à geração que
me antecedeu, que foi a que politizou em profundidade a consciência do País.
(...) Em segundo lugar, quis fazer uma peça que estudasse as diferenças que
existem entre o novo e o revolucionário. O revolucionário nem sempre é novo
e o novo nem sempre é revolucionário.” Dias depois, Brasil perdia seu jovem
dramaturgo.

Richard Nixon, Presidente dos Estados Unidos, renuncia ao cargo
pressionado pelo escândalo das investigações no Caso Watergate. Espionagem
da sede do Partido democrata pelos membros do Partido Republicano.
Watergate começou com a irritação e a paranóia de Nixon com os protestos
contra a guerra no Vietnã. O Presidente ordenou a espionagem e golpes sujos
contra seus adversários. Descoberto, renunciou. A derrota no Vietnã se tornava
dia a dia mais evidente. Milhares de americanos morriam em terras
vietnamitas, desmentindo a propaganda de que os Estados Unidos sairiam
vitoriosos desta batalha.
Dezembro assoma através do vento cálido das tardes frias, das ondas
vorazes batendo forte no Malecón, do silêncio de ameaças de furacões. Coração
atolado pela satisfação de um novo fim de ano.
Comemoramos em grande estilo os oito anos do Marcello e os sete aninhos
do Edu. Como nos anos anteriores, pela manhã e na parte da tarde, a
preparação. Excetuando bolo, piñata e as mil folhas, que sempre chegam no dia
anterior, tudo é preparado pela criançada, trovadores, pintores, poetas e
companheiros brasileiros que ainda se encontram na Ilha. Como diz o ditado, “o
melhor da festa é esperar por ela”. Decidimos quebrar a quizila. Divertimo-nos
antes, durante e depois, entre confetes e serpentinas regados ao que há de
melhor nos sambas da época. Dançamos, brincamos até o sol raiar. Limpamos,
arrumamos tudo nos seus devidos lugares e acabamos dormindo na playita,
banhados pelo sol suave de dezembro.

No Brasil, o General Ernesto Geisel, que no início do ano assumiu a
Presidência, afirma que o governo não está ressentido quanto aos resultados
das eleições. O MDB surpreende nas eleições federais, faz 16 senadores, contra
os seis da Arena.
Surpresas seguidas de muitas surpresas, nos segreda este 1975, que fecha

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Habitando o tempo

mais um balanço de vitórias neste primeiro país livre da América Latina.

Yo soy de todas partes donde algún día un corazón se levantó.


Llevo en la frente una verdad como la luz y en la mirada una barrena a
más allá.
Yo soy de todas partes donde una buena vez dijimos basta y se acabó,
pero reparto mi pedazo a todo aquel que a pecho abierto abre una
puerta a los demás.
Yo soy de los que vamos rompiendo monte en cueros y en el puño un
corazón.
Soy de los que vamos haciendo el primer carro donde monte el
porvenir.
A Los que Luchan Toda la Vida - Vicente Feliú⁶⁴

192
1975 - “Año del I Congreso”
Artigo III – Fica decretado que, a partir deste instante,
Haverá girassóis em todas as janelas,
Que os girassóis terão direito
A abrir-se dentro da sombra;
E que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
Abertas para o verde onde cresce a esperança."
Os Estatutos do Homem – Thiago de Mello47

Como previa, este Janeiro entraria diferente. Os Comitês de Defesa da


Revolução, ainda na ressaca pelos festejos dos dezesseis anos de soberania,
anunciavam em todas as rádios que forças comunistas tomaram a primeira
cidade vietnamita: Phuoc-Binh. Sentíamos no ar, já se aproximando, o cheiro da
vitória.
A modernidade devagarzinho se aproximava da ilha. Podia falar com
Moscou via satélite. Conversar com Wladimir deixaria de ser um suplício. Dias
de espera, até que a telefonista anunciava que ia completar a chamada.
Wladimir foi uma dessas coisas gostosas que nos acontece quando estamos
abertos ao amor.
Um dia, em uma reunião para ver as fotos da viagem de férias feita pelo
Conselheiro Comercial da Embaixada Mexicana, apareceu um moreno risonho,
brincalhão, todo intimidade. Creio que o sangue, afro-ibérico, determinou esta
característica tão típica desses dois povos: um charme irresistible. Dos dois
sexos. O povo brasileiro é definido como lindo, amoroso, sedutor. Cubanos
iguais: fascinantes, charmosos, encantadores, atraentes. Árdua a tarefa de
escolher o melhor entre duas raças. De quebra, fico simplesmente com as duas.
No regresso, seu carro emparelhava ao meu, tentando conversar em pleno
trânsito
- Seu telefone - pedia com um gesto mundialmente conhecido, implorava.
- Ignorava.
Mais adiante, no sinal fechado, quase aos gritos, pedia meu número.
Disfarçava, com uma vontade louca de cair na gargalhada, diante da insistência.
- Quem será este tipo? – perguntava ao amigo sentado ao lado.
- Sei lá. Desconhecido? É, não pode ser. Estava lá. Era convidado também.
- Nunca o vi antes. Você viu?

47
Thiago de Melo – Poeta – Barreinha - Amazonas

193
Habitando o tempo

- Nunca.
Quase dormida, ouço o timbre tocar. “Voltaria Roberto?” Questionei,
abrindo a porta.
- Quê? Você aqui? Como chegou? Quem é você?
- Calma. Não sou ladrão, nem tarado, ou coisa parecida. Sou Wladimir
Padilla, filho do seu amigo Oscar Padilla, Ministro do Trabalho. Já! Ubicou?
Deixa-me entrar.
- Não. Explique-me. Como me encontrou?
- Simples. Segui o carro. Vi o endereço. A luz que acendeu. E arrisquei.
- Está louco?
- Tampouco. É que nunca vi uma garota tão linda.
- Vai embora. Por favor.
- Tudo bem. Dá-me seu telefone. Prometo não molestar.
- Se dou, você vai?
- Vou.
Passei o número, prometendo, garantindo, em toda a minha vida jamais
atendê-lo.
Na hora do café, antes da saída para o trabalho, tocando à porta: Wladimir.
Inimaginable!
- Achou mesmo que ia telefonar? Vim levar você ao trabalho. Assim vamos
nos conhecendo.
De lá para cá, sempre assim: uma chamada na calada da noite, ou seja de
Moscou, ou nos dias de férias em Havana, tira-me o sono.
- Que vai fazer esta noite? – do outro lado, a voz de um grande e doce amigo.
Com Wladimir vivi momentos de extrema felicidade. Na encantada
madrugada santiagueira, Marti em versos se entrepunha entre camparis Nas
ladeiras, encontrei com intimidade o Pelourinho. Na visita ao museu do General
Antonio Maceo, prócer da independência de Cuba, junto a Máximo Gómez e José
Martí contra o colonialismo espanhol numa guerra, que durou mais de dez anos,
a história.

De surpresas em surpresas, Wladimir reservara a maior delas, o cafezinho
na casa de Maria, filha mais nova de Antonio Maceo. Percorremos quilómetros
de história de uma ponta a outra. Independência do jugo espanhol, fundiam as
lutas travadas na Serra Maestra.

Portas destrancadas, velho hábito de Santiago de Cuba, ponto de encontro

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Habitando o tempo

dos jovens guerrilheiros nas noites da linda Santiago fascinavam o travesso


Wladimir, transitando entre Raul Castro – irmão caçula de Fidel, Juan Almeida,
Frank Pais e tantos outros que sua memória de menino guardou com muito
carinho.

Raul, nasceu como seu irmão em Birán, estudou, liderou lutas estudantis,
esteve presente no Moncada, exilou-se no México ao sair da prisão e
desembarcou no Granma. Comandou o “Segundo Frente” na Serra Maestra.

Dizem que é duro e rigoroso. Os que o conhecem de perto falam de sua
simplicidade e firmeza. É Chefe das Forças Armadas Revolucionárias desde
1959, quando apenas contava com 28 anos de idade. Casou com Wilma Espin,
também guerrilheira, fundadora e Presidente da Federação das Mulheres
Cubanas. Como outros Comandantes está sempre ao lado de Fidel, embora suas
aparições em público sejam bastante raras. Dirige o exército com firmeza e
competência.

- É um homem cubano – afirmava Maria com orgulhos dos meninos da
Serra.

“Aqui nadie se rinde” sentenciou Almeida o guerrilheiro, poeta, escritor,
compositor em Alegria de Pio ao serem emboscados pelo fogo inimigo.

Comadante Juan Almeida Bosque, nascido de família humilde na cidade de
Havana, com um tremendo coração santiagueiro é um desses seres
excepcionais. Participou das guerras revolucionárias, organizou, dirigiu um dos
pontos mais estratégicos da resistência: o “Terceiro Frente Oriental Mario
Muñoz Monroy. Simples, terno, valente, tenaz, fantasticamente humano. Muitas
tardes, em Miramar compartimos do convívio deste companheiro entranhável.
A revolução cubana tem em seus quadros homens de indescritível
compromisso com a vida, com seu povo, com a soberania de sua pátria. Comove
vê-los, conversar com eles, saciar de sua fortaleza, nobreza de sentimentos e
valentia.
Frank País, um dos fundadores, líder do Movimento 26 de Julho engrossa
esta fileira. Sua morte aos 23 anos, em uma emboscada nas ruas de Santiago,
desencadeou uma greve geral de trabalhadores. Santiago vestiu de luto a perda
de seu líder. Toda Cuba reagiu ao covarde assassinato, e as forças de Batista

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Habitando o tempo

retrocederam ante a ira popular.


“... en los primeros momentos la gente quería llegar hasta el cadáver y
hubo forcejeo con los guardias. Es que la reacción popular fue espontánea, muy
poderosa y desde ese momento se paralizó la ciudad, la gente se dedicó a ir a
donde estaba Frank”... declarou Wilma Espin.
Da Serra Maestra Fidel escreve a Célia Sanchez “Todos los esbirros, todos
los miserables que sirven a este régimen de un modo o de otro, todos los
politiqueros juntos, no valen la vida de Frank País”.
Falar de Frank me levou as tardes, e noites na casa da Tia - no Novo Vedado.
- Nós éramos a retaguarda dos meninos da Sierra Maestra. Frank, franzino,
professor, cheio de ilusões e vontade férrea liderava o Movimento no Oriente.
Amado, respeitado por companheiros, vivia, e respirava revolução. Vira e mexe
entrava casa adentro sempre sorridente buscando um biscoitinho para comer.
- O estômago reclama nervoso, tia. Precisa ouvir sua inquietude. Não tenho
tempo para grandes manjares. Qualquer coisa para enganar a fome. Ia
engolindo enquanto nos punha a par das últimas novidades. Da cidade e do
campo.
Por vezes um banho ligeiro no calor sufocante do verão caribenho, trocava
de roupa e saia às pressas para cumprir alguma tarefa. Era um dos meus
maiores orgulhos junto com Raul. Meus dois meninos. Quantas vezes tive por
força das circunstâncias viajar ao exterior trazendo armas embaixo das rodadas
saias junto com minha filha maior. Frank ria como criança das peripécias nas
furtivas viagens, enquanto embrulhamos o material para fazer chegar a
montanha.
Nos parcos momentos de lazer fazíamos planos para o dia da Vitória. De
como o povo receberia Fidel nos braços. De como seria nossa ilha livre com a
queda de Batista.
Naquele 30 de julho de 1957, como em vezes anteriores, banhou-se às
pressas trocou-se deixando sobre a cama uma linda goiabeira toda suada, saiu
para um encontro que lhe custou a vida. Difícil foi aceitar sua morte. Difícil
foram os dias que se seguiriam sem Frank.
Lágrimas nos olhos, voz embargada ia descrevendo as ruas de Santiago na
morte do seu menino. Havana e Santiago presentes na sala de Maria, e da
adorável “tia” lembranças de um tempo em que entregar–se em prol da
liberdade era questão de honra. Nós também não passávamos de simples
meninos tentando um Brasil melhor. Santiago se definia plena na canção de
Augusto Blanca.

196
Habitando o tempo

Santiago:
tus callejones paso a paso te recuerdan
Santiago:
Nómbrame alguno que nunca escribiera su historia,
nómbrame alguno donde no se hallan escuchado
alguna vez aquel petardo de las nueve,
nómbrame alguno que nunca sintonizara
aquel programa en la habitación del fondo:

“…Aquí radio Rebelde
desde la Sierra Maestra…”

Amávamos tantas coisas em comum que extrapolamos o desejo para nos


tornarmos companheiros eternos.
Sagitariano, seguramente filho de Ogum, pregava peças a torto e a direito.
- Hoje, vamos a uma paisagem sem precedentes.
Subimos a rua que contorna o “Morro” para ver o Malecón48 desde o alto
do túnel que corta a baía sob o mar.
- Vê. Existe coisa mais linda no planeta?
A murada que separa o mar da avenida, emoldurada pelos prédios
centenários, faz do Malecón um dos mais belos cartões postais.
- Linda. Preciosa. Mas, Copacabana é mais bonita. Tem areia. O mar beija
por vezes, nas grandes ressacas, a Avenida Atlântica. A calçada que circunda a
orla é de pedras portuguesas em formato de ondas. Uma maravilha! Pode crer.
Abraçou –me suave, beijou meus cabelos e num riso maroto sentenciou:
- Perfeito. Nós é que preferimos fazer a revolução primeiro, e a calçada
deixamos para depois.
Seguramente o tempo passará e esta afirmação sempre me trará um
sorriso nos lábios e muita alegria no coração.

Rio e Havana desfilavam pelo nosso imaginário. Estado da Guanabara,
assim denominado depois da transferência da capital para Brasília, e o Estado
do Rio de Janeiro se fundiram em um único, cuja capital seria a cidade do Rio de
Janeiro. Uma rápida e simples cerimônia, ignorando os problemas sociais do
outro lado da baía e o papel que esta cidade desempenha no coração e na alma
dos brasileiros. Preocupados com os decretos que legalizavam a fusão dos
estados, esqueceram que o Rio de Janeiro viria a enfrentar todos problemas
inerentes a uma capital de um Estado carcomido pela fome, pela miséria, pela

48
Malecón – Avenida que bordea o mar em Vedado - Cuba

197
Habitando o tempo

falta de saneamento básico, pela imigração desenfreada.



Nas prisões, milhares de companheiros continuam sendo torturados e
mortos ao largo do país.

O mundo explode, com imensa emoção, pela vitória dos vietnamitas sobre
o gigante das infames guerras. Americanos se retiram humilhados, sob os
olhares atentos do mundo. Membros da OEA estudam o fim do bloqueio à Cuba,
que já passa dos onze anos. Sem sucesso. Apesar da vergonhosa derrota, os
Estados Unidos não cedem o fim do bloqueio.

A Ilha festeja a sua escolha para ser a sede do XI Festival Mundial da
Juventude e dos Estudantes, no verão de 1978. Na capital, começava XII
Encontro de Diretores de Centro de Escritores Socialistas. Fidel recebe o
anteprojeto da nova Constituição do País.

Maio, tiempo lluvias por caer – como diz o poeta. Celebra-se o Primeiro de
Maio na Praça da Revolução, José Martí. No teatro Lázaro Peña, o XXX
aniversário da queda do fascismo é celebrado com tristes recordações do
holocausto e a decisão férrea de impedir um segundo capítulo deste na história
da humanidade.

Os dias engolem as noites e os pores-do-sol empurram os luares para a
madrugada. Sinal de que o verão chegou e com ele os dias de viver na praia, de
brincadeiras, de teatro infantil, de idas ao cinecito, de cuidar dos gerânios e das
borboletas, de correr pelos pinheiros, de pegar polvos com Luly, Ayu, Mary, de
sair com os meninos da Ana Glória e a delicada Ivetica. Dias de viver vinte e
quatro horas de alegria com Cell e Edu. Férias, tempo de pôr em dia os mistérios
da ilha.

Na recepção de Luis Echeverria Alvarez, Presidente do México, Fidel, que
prima pelo humor, me abraça tranquilamente e lá vem a famosa pergunta:

- A ver, brasileña! Na União Soviética tomam vodka, no Japão saquê, na
França excelentes vinhos, no México tequila. Que bebida tomam os brasileiros?
- sorri matreiro.
Num gesto ímpar de carinho, abraça-me, esperando a tão almejada

198
Habitando o tempo

resposta. Nem mesmo um salto altíssimo impede o levantar dos meus olhos,
bem para cima, para fitá-lo
- Aguardente, Comandante.
- falo séria.
- Aguardente? Como é isso? Aguardente? – insistiu.
Ulisses Estrada, do Departamento de América do Comitê Central, que nos
cuidava carinhosamente, começa a rir.
Não é que o Comandante me encurralou em uma saia justa? Logo pinga, um
dos maiores palavrões em Cuba? Ah! Este cubano... Como dizer diante de todos
esta palavra, sem que morressem de vergonha? Ah! Fidel... Fidel... Agora me
pegaste!
- Buenoooo. Pinga, Comandante – sussurrei.
Com as faces pegando fogo, todos que o cercavam seguravam o riso e a
vergonha.
- Coisas de diferenças nos idiomas - ria, feliz.
É um mal cubano gostar tanto do Brasil, e o Comandante não foge à regra.
Trata-nos com muito carinho. Assim é com a Tia, com a Damaris, quando, por
um motivo ou outro, encontra com elas. Seu respeito pelo ser humano é tão
especial que não esquece nossos nomes. Cada qual é de suma importância para
este único homem que realizou o sonho que deu sentido ao século XX.
Estar ao lado de Fidel não é, tão somente, um privilégio, é uma renovação
de vida.
A visita do Presidente Mexicano foi, sem dúvida, um sucesso, como
costumam ser as idas à Ilha. Pena que viera tão somente para preparar a vinda
do presidente, depois lá se foi o Embaixador à la Vinícius de Moraes – Edmundo
Flores.
Edmundo, fugia a regra. Poesia, música brasileira, conversas filosóficas
pelas tardes em pleno Malecón, descontração e amor à natureza eram partes
intrínsecas de sua personalidade. Sentiríamos muito a sua falta. Em algum lugar
do México, eu o encontraria mais tarde, com o mesmo frescor dos tempos
havaneiros.

Os meses arremessam-se ao futuro, em uma corrida alucinada e louca. São
meses de trabalho intenso, de criação, de realizações.
A Escola Vocacional Comandante Ernesto Che Guevara é inaugurada em La
Villas, município de Santa Clara, local onde foi travada uma das maiores
batalhas contra o regime de Batista.

199
Habitando o tempo

”Al retirarse el enemigo de Camaguán, sin ofrecer resistencia,


quedábamos listos para el asalto definitivo a la capital de la
provincia de Las Villas. (Santa Clara es el eje del llano central de la
Isla, con 150 000 habitantes, centro ferroviario y de todas las
comunicaciones del país. Está rodeada por pequeños cerros
pelados, los que estaban tomados previamente por las tropas de la
dictadura.
En el momento del ataque, nuestras fuerzas habían aumentado
considerablemente su fusilería, en la toma de distintos puntos y en
algunas armas pesadas que carecían de municiones. Teníamos una
bazooka sin proyectiles y debíamos luchar contra una decena de
tanques, pero también sabíamos que, para hacerlo con efectividad,
necesitábamos llegar a los barrios poblados de la ciudad, donde el
tanque disminuye en mucho su eficacia.
Mientras las tropas del Directorio Revolucionario se encargaban
de tomar el Cuartel No. 31 de la Guardia Rural, nosotros nos
dedicábamos a sitiar casi todos los puestos fuertes de Santa Clara;
aunque, fundamentalmente, establecíamos nuestra lucha contra
los defensores del tren blindado situado a la entrada del camino de
Camaguán, posiciones defendidas con tenecidad por el ejército, con
un equipo excelente para nuestras posibilidades...” Che Guevarra.

Novembro trouxe outras surpresas. Dia dez marcou a independência de


Angola de Portugal. A República Popular de Angola tinha agora um Presidente
– Agostinho Neto, líder no Movimento Popular de Libertação de Angola – MPLA.

Na Catedral da Sé, em São Paulo, cerca de dez mil pessoas participavam do
ato ecumênico, em memória do jornalista Wladimir Herzog. Preso no dia 24 de
outubro, foi chamado para depor. No dia seguinte, apresentou-se para depor
no DOI – CODI. Sete horas mais tarde, chegava a informação de que Herzog
havia se suicidado em sua cela. Jornalistas presos no local viram Wladimir ser
torturado, sem sombra de dúvidas, até a morte.

Dezembro, colorido. Risonho. De extrema beleza.
Comemoração para Marcello e Eduardo. Nove e oito anos de infância feliz,
tranqüila, permeada de muitas alegrias.

Na praça da revolução “José Martí”, uma multidão apóia os acordos
firmados no I Congresso do Partido Comunista de Cuba e reafirma o

200
Habitando o tempo

Comandante Fidel Castro Ruz como líder máximo da Revolução Cubana.

“Los compañeros del Comité Central ejercen una función en virtud


de su capacidad y de sus méritos, pero nuestro Partido y nuestra
sociedad elevan a miles, a decenas de miles, a cientos de miles, a
millones de hombres humildes del pueblo, aunque no estén en el
Comité Central. Y así hay incontables héroes de la zafra, decenas
de héroes del trabajo, miles y miles de héroes anónimos. ¡Digamos
que nuestra Revolución aprecia, más que a nadie, al héroe
anónimo! (APLAUSOS) ¡Al hombre humilde, al combatiente
modesto que cumple con su deber por un problema de conciencia,
sin importarle jamás ni siquiera si le reconocen sus méritos!
(APLAUSOS) ¡Ese es el modelo del comunista! (APLAUSOS) Y lo que
importa es que el Partido y el pueblo se sientan representados en
su Comité Central.
Es muy hermoso que la elección al Comité Central se gane como se
gana en nuestro país. Que haya compañeros, como el compañero
Pedro Rodríguez Peralta (APLAUSOS), que se ganó ese honor
combatiendo en el Movimiento de Liberación junto a los patriotas
de Guinea Bissau y que, gravemente herido y prisionero del
enemigo, soporta años de cárcel en las prisiones fascistas de
Portugal (APLAUSOS), y se mantiene inconmovible y firme, como
un verdadero comunista, frente al maltrato, frente a las presiones
de todo tipo, cuando era un hombre solitario en una celda a miles
de kilómetros de la patria (APLAUSOS). ¡Qué lejos estaría él de
pensar en ese instante que un día su pueblo tendría la oportunidad
de testimoniar la admiración hacia tan cabales virtudes de
comunista! (APLAUSOS)
Reinaldo Castro nos muestra que cortando caña en un cañaveral
se puede ganar el derecho a ser dirigente de nuestro Partido
(APLAUSOS). Pilar Fernández nos enseña que trabajando allí
humildemente en una fábrica, y dirigiendo con eficiencia, y
consagrando su vida al funcionamiento adecuado de un centro de
producción, se puede ganar el honor de ser miembro del Comité
Central (APLAUSOS). O entregado a la ciencia y a salvar vidas,
como Zoilo Marinello (APLAUSOS); o escribiendo durante decenas
de años versos populares y revolucionarios, como Nicolás Guillén
(APLAUSOS). Otros ejemplos pueden añadirse, como el ejemplo de
Facundo (APLAUSOS), que se puso zapatos por primera vez a los
14 años, y que consagró su vida a las luchas obreras y campesinas.
Sencillamente, trabajando y cumpliendo el deber, los militantes
revolucionarios —dondequiera que estén, dentro del país o fuera
del país—, como símbolos de lo que hacen decenas y cientos de
miles, y aun millones de cubanos, pueden llegar a recibir ese
extraordinario honor, en el cual no pensaron y por el cual no se
esforzaron esos compañeros. Porque tenemos un Comité Central

201
Habitando o tempo

cada uno de nosotros muy superior incluso a lo que es el Comité


Central de nuestro Partido: ¡Y es el Comité Central de la conciencia
de cada uno de nosotros! (APLAUSOS)”

31 rompe a madrugada em um dos mais lindos amanheceres havaneiros.


Atirados nas areia da playita, deixando que a água fria molhasse os sapatos,
inebriados de felicidade, desenhamos um 1976.

Tengo, vamos a ver,


que ya aprendí a leer,
a contar,
tengo que ya aprendí a escribir
y a pensar
y a reír.
Tengo que ya tengo
donde trabajar
y ganar
lo que me tengo que comer.
Tengo, vamos a ver,
tengo lo que tenía que tener.
Tengo – Nicolás Guillén49

49
Nicholás Guillen – Poeta –Camaguey – Cuba

202
1976 – “Año del XX Aniversario del
Granma”
Ao longe, ao luar,
No rio uma vela,
Serena a passar,
Que é que me revela ?
Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.
Que angústia me enlaça ?
Que amor não se explica ?
É a vela que passa
Na noite que fica.
Ao Longe, Ao Luar – Fernando Pessoa

Marta Solis chegou toda linda, pegou-me apressada. Eu cantarolando


Chico, um dos ícones da Música Popular Brasileira, sonhava com o retorno à
minha patriazinha. Começar o ano encontrando o Presidente do Panamá, Omar
Torrijos, certamente era um bom sinal.
O presidente panamenho, independente de super simpático, governava
com muita inteligência, trazendo grandes logros para o povo e soberania ao
país. No Palácio das Convenções, Fidel o recebeu com a marca registrada de
Cuba: hospitalidade elegante, alegre e solidária. Cuba sabe receber como
poucos.
Como nos anos anteriores, a esperança de voltar ao Brasil desfilava nos
meus sonhos colorida, forte, plena. Deixar a Ilha seria difícil, mas a pátria verde
amarela precisava de nós para, junto aos que resistiam no dia-a-dia, pôr fim à
ditadura. O ano começava regado a desejo de muitas realizações, de uma
América Latina livre.
As eleições em Cuba transcorriam esplêndidas. 5.717 266 eleitores
referendaram a Constituição da República de Cuba. Raul Castro, General de
Divisão, Segundo Secretário do Comitê Central do PCC e Vice-Primeiro Ministro
do Governo Revolucionário, encerra o ato, no Teatro Karl Marx, em Miramar, da
proclamação da nova Constituição.

203
Habitando o tempo

O hemisfério sul se debatia entre a falta de liberdade, as prisões, os


desaparecimentos de militantes, a fome e a miséria.
Jorge Videla, Comandante do Exército Argentino, lidera um golpe. Prende
a Presidenta Isabel Martínez de Perón, submergindo o país do nosso
guerrilheiro heróico em anos de terror. Mais de 30.000 argentinos
desapareceram nas prisões ou nos campos de tortura. A ditadura brasileira
antecipa-se a outros e reconhece a legitimidade, a soberania, do governo de
Videla, enquanto Zuzu Angel morre em um misterioso acidente de carro ao sair
do túnel Dois Irmãos, que liga a Zona Sul da cidade à Barra da Tijuca.
Zuzu denunciava ao mundo o assassinato de seu filho Stuart Angel,
militante do MR8, em cárcere brasileiro. Famosa estilista, reconhecida
internacionalmente, era a primeira mãe a gritar sobre as prisões brasileiras,
onde militantes eram assassinados e seus corpos desaparecidos. Vestia-se de
negro, a cabeça ornada de flores, muitas cruzes no pescoço e cintura, refletindo
o martírio. Foi a precursora das “Loucas da Praça de Maio”, assim chamadas,
inicialmente, as argentinas que reclamavam a soltura e devolução de seus
familiares queridos.
De uma forma ou de outra, os habitantes do Sul do Equador expressavam
sua dor e lutavam pela libertação e término destas sangrentas ditaduras. No
exílio, milhares de latino-americanos se organizavam em grupos, buscando
formas de retornarem e darem continuidade à luta iniciada nos anos 60, pela
reafirmação da nacionalidade e independência.

Fidel, à frente de uma delegação, inicia uma exitosa gira pelos países do
bloco socialista. Regressando, visita Argélia e Guiné, distribuindo o fluido
mágico da esperança, levantando a moral de países europeus e africanos, que
se debatiam ante a progressiva perda de suas raízes culturais e políticas.
Tolerantes observavam o crescimento do movimento Punk afrontando a
sociedade londrina, mudando a moda, o comportamento, cinema, artes,
indústria fonográfica. Era a ruptura com uma geração que, supostamente, havia
se vendido às gravadoras. Mick Jagger e Rod Stewart, distantes de seu público
e movimentando-se no set internacional. A insatisfação da juventude inglesa,
sem perspectiva de trabalho ao deixar as universidades, encontrava na
formação destas bandas a escapatória para suas frustrações.
A angústia do vazio, da falta de sonhos, da desesperança é a maior inimiga
para se constituir uma sociedade justa, equilibrada, sem violências, sem fome,
sem miséria.

204
Habitando o tempo

O egoísmo, qualidade prima dos governantes, e a corrupção, caráter


genético dos representantes em toda a extensão do planeta, apodrecem valores,
destroem futuros, propalam a fome, plantam violência, destroem desejos,
assassinam crianças, mutilam adolescentes, defloram jovens, estupram
conhecimentos dos que chegaram ao ápice da sua melhor contribuição,
constrangem idosos nas frias madrugadas de suas parcas vidas, em
intermináveis e vis filas dos seguros sociais. Realizam a reforma agrária nos
sete palmos de terra onde são enterrados corpos cadavéricos carcomidos pelo
desalento.
O imperialismo, especialista em incentivar atos terroristas, repete, reprisa
o financiamento de apátridas para atacar duas lanchas pesqueiras, afundando,
ferindo e assassinando um dos tripulantes. São incontáveis os ataques
terroristas à Ilha depois da nossa chegada por aqui. De “Playa Girón” aos dias
de hoje, os inimigos de Cuba não fazem outra coisa a não ser agredir, violentar,
matar, ferir, destruir. Podemos escrever a sangue e fogo – este povo não se
curvará. Anos podem passar de bloqueio brutal, inumano, mas os cubanos não
entregarão um pedacinho sequer do terreno pátrio conquistado naquele
primeiro de janeiro de 1959. Aprendi no dia a dia, essa simples verdade.
Carlos, o nosso guerreiro, escrevia do front em Angola. Feliz pela
contribuição que podia dar ao povo africano, tantos séculos explorado pelo
conquistador cruel e sanguinário. Às vezes, estando em Luanda com o pessoal
do cinema, telefonava para Havana. Falava com as crianças, enchendo-as de
carinho.
- Tio, não sei fração, - comentou Marcello.
- Amanhã tento ligar para você. Vamos resolver este assunto. Combinado?
- Combinado. - saltitava Marcello pela sala mexicana.
A presença mexicana se fundia ao samba e à Nova Trova. Era um tal de
Pedro Vargas, sucedido por uma Beth Carvalho, deslizando deliciosamente em
uma “Imaginária Maria del Carmen”, cantada por um trovador adorado. Mais
feliz impossível, não fosse a saudade que dilacera as vísceras, estrangula;
carência de corcovados e da Portela.
Dia seguinte, ao soar o timbre, imediatamente corremos a falar com Carlos.
Marcello pegou o telefone. Apontava as explicações detalhadamente.
- Como foi que você disse? Pegar três cores diferentes? Dividir em pedaços.
Escreva aí, mãe.
- Estou escrevendo, Cell.
- Corre.

205
Habitando o tempo

- Estou correndo.
- A primeira corte em quatro partes. A segunda cor em três partes e terceira
cor em seis partes – explicava Carlos.
Assim, em uma chamada de longa distância. Aliás, longuísssssssssima
distância, Marcello aprendeu a aula dada no dia anterior na escola. Apenas um
pretexto para preencher a falta que este filho de Ogum – guerreiro por natureza,
fazia nos dias de imensa nostalgia.

Reúna as peças de cada cor:


Portanto, cada peça é uma fração do círculo:


Inacreditável este Carlos. Seu irmão não é? – afirma Santiago Alvarez,


acabado de chegar de Luanda onde filmaram um desses raros documentários.
- Não, Carlos é além de irmão, é o companheiro certo de todas as horas,
para o que der e vier. Seja na Itália, Angola, front ou nos braços de uma linda
morena, se precisarmos, lá estará ele. Presente sempre. Volta e meia, chamada
de algum lugar da África para saber de nós.
Éramos infinitamente felizes. Embora a guerra, a tensão do cotidiano.
Queríamos viver. Ser felizes, construir a tão sonhada sociedade do homem
novo, com todas as possibilidades que nos regalava a revolução, mas o terror
rondava. Nem mesmo havíamos nos refeito do seqüestro dos pescadores, e
bombas explodiam na embaixada de Cuba em Portugal, matando os

206
Habitando o tempo

funcionários Adriana Corctho e Efrén Monteagudo. Em Nova York, outra bomba


explodia na missão de Cuba junto as Nações Unidas, provocando danos
materiais. Contra tudo e contra todos, seguíamos adiante.
Se por um lado, Marcello andava às voltas com a Matemática para fazer as
provas, Edu, que desde então era cobra em números e seus derivados,
preparava, com uma euforia ímpar, sua participação no XV aniversário da
criação do Ministério do Interior. Um grupo de crianças iria representar um
esquete sobre os guarda-fronteiras. Fidel e todos os comandantes da revolução
estariam presentes. Uma comemoração inesquecível. Todos os dias,
repassávamos o texto. A tensão aumentava.
- Calma, Eduche! - tranqüilizava Nicola. - Tudo sairá maravilha. Você é um
bárbaro.

- Mãe!!!!!!!!!!!!! - apertava meu pescoço, em um sufoco de alegria. - Fidel
estava lá. Tremi que nem vara verde ao vento. Mas representei direitinho. Nem
conseguia olhar para ele. Fiquei nervoso, igualzinho a você quando o viu pela
vez primeira. Lembra? È grande como um jogador de basquete. Tava de roupa
do exército.
- Verde-oliva?
- Isso mesmo. As botas como as dos guarda-fronteiras. Mãe! Olha para cá.
Cala a boca, Manito!
- Também quero saber como foi – interpelou Marcello, tentando saber mais
detalhes sobre o Comandante.
- Ah! Quando ele fala, olha pra gente. Mexe e remexe nos microfones. Todos
os nossos amigos estavam lá. Eu vi.
- E os outros guris representaram direitinho?
- Representaram. Só um deles tropeçou no degrau. Não caiu, sabe!
Para Eduardo - um brasileiro - homenagear os companheiros do Minint
transcendia à expectativa. Para mim, um orgulho impensável.
O Minint é uma espécie de enigma inatingível. Criado para contrarrestar os
ataques de contra revolucionários. É composto de homens dedicados,
guerreiros. Para nós somos como super–heróis. Na realidade, são sentimentais,
familiares, amorosos. Fomos presos por este amor nos primeiros dias na Ilha.
Nada temíamos. Em algum lugar, um Ifraim, um Rafael, um Olaf, um Fabian
velava nossos sonhos. Com eles, aprendi desde as primeiras lições de culinária
ao sentimento que permeia minha vida: a solidariedade. Cantados em prosa e
verso, fortalecem-nos ante a presença constante das ameaças terroristas. São

207
Habitando o tempo

os guardiões da Pátria.
As férias desta vez serão em Matahambre, Pinar del Rio.
Hoje ,vamos fazer porco assado bem diferente, confidenciou Munda.
- Diferente?
- Bem Diferente. Vamos recheá-lo de congrí, bastante cebola, alho,
cominho, e outros segredinhos mais. Finalmente, assá-lo na brasa. Algumas
cervejas bem geladas, aipim no molho. Sobremesa: mermelada de goiaba com
queijo branco ou requeijão
Munda, você está brincando, ou falando sério? Essa comidinha me cheira
coisas do Brasil.
Do Brasil, que nada. Comida cubana das boas. Menina, esqueceu que somos
irmãos no amor e na raça?
Dias de paz, de mimos, de dengo. Julho se transformou em pura emoção e
gulodices. Agosto não seria diferente. Recarregamos as baterias até mesmo a
saudade era menos acre.

“Viver não é respirar, mas construir” desta maneira havia vivido o “Grande
timoneiro” de 800 milhões de chineses, até sua morte no início de setembro.
Mao Tsé Tung encarnava a lenda do herói revolucionário. Da marcha de 1934,
uma jornada de 9.600 Km em 368 dias, à implantação do socialismo na China.
Da revolução cultural, ao desenvolvimento. Mao entrou definitivamente na
história dos grandes líderes da humanidade.
A Operação Condor, organização dos setores militares e da Cia, que tinha
por finalidade perseguir internacionalmente os revolucionários latino-
americanos e caribenhos, mata em um atentado, em Washington, o ex-
Chanceler do Chile no governo de Salvador Allende. Letelier engrossa a lista dos
assassinados. Os sucessivos atentados à Cuba fazem parte desta operação
terrorista. A Ilha - seu alvo maior.

- Preste atenção, Comandante. Você. Não é bocê. Está bem?
- Vvvvvvocê. Esta palavra é complicadíssima. V em lugar de B. Bom, vamos
lá – insistia na pronúncia até a quase perfeição.
As aulas invadiam a noite e o interesse de todos me estimulava.O Tempo
curto, a pressa de aprender tanta coisa em poucos dias aumentava a adrenalina.
Cubana de Aviación teria, de agora em diante, comissários e Comandantes
falando um simpático portunhol em terras além-amar. Na primeira viagem,
trouxeram um lindo colar de sementes nativas. Artesanato de alta qualidade

208
Habitando o tempo

que passei ostentar nos shows dos trovadores, fazendo inveja a quantos o viam.
Depois, uma saia rodada, amarela com flores pintadas entre o amarelo do sol
ardente africano e o marrom das terras sem cultivo. Na terceira viagem, uma
linda camisa com a foto de Agostinho Neto. “Desta forma, daqui a pouco, terei
um guarda-roupa todo africano”, brincava toda boba com os experts dos céus
afro-caribenhos.
Nas alegrias de idas e vindas, o choque, a dor, profunda como o próprio
mar que os tragara. Rodava como louca pela sala, lágrimas se confundiam com
os gritos sufocados. Impossível! Impossível acreditar. Tamanha barbárie não
podia ser concebível. Uma bomba. Duas bombas. E todos os que viajavam a
Havana, desde Barbados, mergulharam suas esperanças, seus sorrisos, sua luta
cotidiana, a felicidade de voltar e ver seus familiares, de sentir o calor de sua
ilha. Perderam-se para sempre, em um dos piores ataques terroristas já
registrados na História. Quem ousara executar este plano sórdido? Quem teria
tido a coragem de carregar tantas mortes em suas costas? Que motivo leva um
homem ou quantos homens ousam matar em nome de uns quantos dólares?
Que ódio pode carregar um coração a ponto de matar uma equipe inteira de
jovens esgrimistas? Em nome de que paz assassinaram passageiros asiáticos?
Em nome de que liberdade cortaram a liberdade de duas tripulações?
Durante dias, brigadas vasculharam o mar. Poucos corpos resgatados,
muita tristeza. Caladamente, o povo cubano seguia atento às noticias. O céu
chorava nossa dor e sob lágrimas, silenciosos, doloridos, durante três dias, o
povo cubano reverenciou seus companheiros brutalmente executados. Este
atentado tinha um dono, um nome e um executor: a CIA, os contra
revolucionáios de Miami e um assassino frio, cruel, calculista – Posada Carriles.
Na Praça, molhada em lágrimas, a voz de Fidel soava trêmula, embargada
pela dor:

“En pleno vuelo el avión fue destruido por una carga explosiva a
los pocos minutos de haber despegado del aeropuerto de
Barbados. Con heroísmo indescriptible los bravos y expertos
pilotos de la nave hicieron un supremo esfuerzo para hacerla
regresar a tierra, pero el equipo, ardiendo y casi destruido, solo
pudo permanecer en el aire unos minutos más. Contaron, sin
embargo, con el tiempo y la entereza suficiente para explicar que
había ocurrido una explosión a bordo, que la nave ardía e
intentaban regresar a tierra. Es inimaginable el drama que tiene
que haber significado para los pasajeros y los tripulantes la
explosión y el incendio encerrados en una nave aérea a una altura
aproximada de 6 000 metros.

209
Habitando o tempo

Alguna agencia imperialista de inmediato habló sobre un posible


fallo mecánico, pero en cinta grabada quedaron registradas todas
las palabras del piloto trasmitidas al aeropuerto de Barbados. A
esa evidencia se sumaron inmediatamente otras. Dos individuos
con documentos que los acreditaban como venezolanos habían
tomado el avión en Trinidad para descender del mismo en
Barbados antes del accidente; casi inmediatamente después que la
nave estallara en el aire tomaron otro avión de regreso a Trinidad,
donde se alojaron sin equipaje alguno en el más lujoso hotel. A
petición de las autoridades de Barbados, a quienes se les habían
hecho sospechosos, fueron arrestados
Por el carácter de la documentación, las autoridades de Venezuela
tuvieron también rápido conocimiento de los hechos y acceso a la
investigación. Al día siguiente, 7 de octubre, el presidente de
Venezuela, Carlos Andrés Pérez, en cable de condolencia a Cuba,
calificaba el hecho de abominable crimen. En términos públicos
semejantes se expresó después, en la sede de Naciones Unidas, el
propio Primer Ministro de Barbados. El hecho de que esos
gobiernos —cuyos funcionarios tenían acceso a las fuentes más
inmediatas e importantes de información, que eran los propios
arrestados, las circunstancias que rodeaban su conducta y sus
documentos— calificaran el acto como terrorismo, era ya de por sí
muy significativo.
Aunque desde las primeras informaciones el Gobierno de Cuba no
albergaba la menor duda acerca de la causa de la tragedia, se
abstuvo de hacer declaración alguna en espera de analizar
cuidadosamente las noticias que se fueran recibiendo, así como los
antecedentes e informes —unos públicos y otros confidenciales—
que obraban en su poder.
Podríamos preguntarnos qué se pretende con estos crímenes.
¿Destruir la Revolución? (Exclamaciones de: "¡No!") Es imposible.
La Revolución emerge más vigorosa frente a cada golpe y cada
agresión, se profundiza, se hace más consciente, se hace más fuerte
(Aplausos). ¿Intimidar al pueblo? (Exclamaciones de: "¡No!") Es
imposible. Frente a la cobardía y la monstruosidad de crímenes
semejantes el pueblo se enardece, y cada hombre y mujer se
convierte en un soldado fervoroso y heroico dispuesto a morir
(Aplausos).
La Revolución nos inculcó a todos la idea de la fraternidad y la
solidaridad humana. A todos nos hizo hermanos entrañables en los
que la sangre de uno pertenece a todos y la sangre de todos
pertenece a cada uno de los demás (Aplausos). Por eso el dolor es
de todos, el luto es de todos, pero la invencible y poderosa fuerza
de millones de personas es nuestra fuerza. ¡Y nuestra fuerza no es
solo la fuerza de un pueblo, es la fuerza de todos los pueblos que ya

210
Habitando o tempo

se redimieron de la esclavitud y la de todos los que en el mundo


luchan para erradicar del seno de la sociedad humana la
explotación, la injusticia y el crimen! (Aplausos.)
Nuestra fuerza es, en fin, la fuerza del patriotismo y la fuerza del
internacionalismo. Las ideas por las que luchamos son estandarte
de los hombres más honestos y dignos del mundo de hoy y el
emblema seguro y victorioso del mundo de mañana.
Hacia nuestros hermanos guyaneses y coreanos inmolados ese día,
va también nuestro recuerdo más ferviente en estos instantes. Ellos
nos recuerdan que los crímenes del imperialismo no tienen
fronteras, que todos pertenecemos a la misma familia humana y
que nuestra lucha es universal (Aplausos).
No podemos decir que el dolor se comparte. El dolor se multiplica.
Millones de cubanos lloramos hoy junto a los seres queridos de las
víctimas del abominable crimen. ¡Y cuando un pueblo enérgico y
viril llora, la injusticia tiembla!”

Como chegamos, saímos da Praça a pedido do Comandante, porque a rua


que leva ao cemitério não comportaria tanta gente. Cada um sabia de antemão
que a injustiça sim tremeria no dia do seu juízo. Buscar os assassinos, lutar por
sua punição era um dever, mais que um desejo. Passei pela escola para abraçar
as crianças. Unicamente elas abrandam a dor. Cell ,olhos nos olhos, repetiu a
fala final do emocionante discurso daquela tarde chuvosa. Anos a fio, nas noites
de intensa tristeza, ouvia sua pequenina voz.
“Quando um pueblo enérgico e viril chora, a injustiça treme”
Enlouquecidos com o fortalecimento da revolução, terroristas, em vão,
tentavam desestabilizá-la. Em Mérida, no intento de seqüestrar o Cônsul
Cubano, é assassinado o técnico da indústria pesqueira de Camarões, Artaignan
Diaz Diaz. É baleada a embaixada cubana, em Caracas.
- Mãe! Mãe! Carros pretos cheios de gente estão estacionando em frente
ao edifício. Vem para cá.
- Como sabem?
- Um deles disse que a “Mirian, si, vive aqui”.
Abrindo a porta, deparo-me com Luís Cabral, o velho amigo das primeiras
noites havaneiras, dos papos na madrugada. Das lembranças de independência,
hoje uma realidade. Abraçamo-nos por um bom tempo, entre duas emoções: a
perda de Amílcar e a alegria de vê-lo Presidente de Guiné Bissau e Cabo Verde.
- Acho que esta brasileira é bruxa. Quantas vezes, naquelas madrugadas,
prognosticava que seria eu um dia Presidente? Ora, pois.
- São as voltas que esta vida dá - ri num abraço apertado.
Conversamos um pouco e lá se foi mais uma vez um grande amigo cumprir

211
Habitando o tempo

com as tarefas que a vida revolucionária nos impõe. Dentre as amarguras, um


dia feliz.
Depois de Luís Cabral, uma leva de africanos aportou em Cuba para
estudar. Medicina, enfermagem, história e outras tantas especialidades,
inclusive militares. As tardes de sábado mudaram para a Calle 3ª. entre 96 e
96A. Guitarras dedilhavam canções cabo verdianas, matizadas pelo toque
virtuoso de Nicola, pela alegria dos Edgares, Djosas, Felipes, Cesarias. Sábados,
infalivelmente invejados. Meninas de tranças e sorrisos largos, lindas, de pôr
qualquer mortal à beira de um colapso, se confundiam com a beleza crua
selvagem de um Edgard, mergulhado nas estrofes de John Lennon, soprando
para a brisa da tarde as canções que “você fez para mim”, de um Roberto Carlos
idolatrado em terras africanas, e as canções de Amandio Cabral, como “Sodade”.

Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Ess caminho
Pa São Tomé

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau

Si bô 'screvê' me
'M ta 'screvê be
Si bô 'squecê me
'M ta 'squecê be
Até dia
Qui bô voltà

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau

- A sodade da pátria é igual em todos os idiomas - dizia Edgard.


Julian, um companheiro que atendia a famílias cujos pais estavam na
guerra em Angola, nas inúmeras noites em que me deixava, insistia que eu
encontrasse um companheiro para amenizar a solidão.

- Nem pensar. Prefiro assim. Compromisso é complicado, voltarei ao Brasil

212
Habitando o tempo

em algum momento. Nicola casou com Mariana. Aliás, Nicola ama a Mariana.
Também me ama, tem demonstrado ao largo de todos estes anos. Mas, nunca
deixará sua pátria. Sabe, que não hesitarei um segundo em voltar à minha. E, ai?
Só um angolano, militante do MPLA, batendo a minha porta. Batendo à porta.
Tumm. Tumm. Tummm. Sem campainha.
- Puxa! Inacreditável. Um anúncio no Granma? Talvez a solução. Brasileira,
solteira, bonita, busca angolano... hahhahaha! Assim impossível – divertia-se
Julian, após um dia de trabalho, tenso e gratificante. Dar solidariedade era nossa
principal tarefa.
Sábado trás sábado, traziam à casa brasileira um novo membro. Novas
canções, outras palavras dos dialetos irmão. Um dia, chegou Jacinto Estrela. Um
pedaço de mau caminho. Angolano, militante do MPLA, que, para contrariar
minha determinação, havia batido na porta e não a campainha, como seria
natural.
- Dojsa, por que não tocou a campainha?
- Foi Jacinto, que bateu à porta.
- Tudo bem. Entre, já estamos a almoçar.
- Um momento! Tocou à porta contrariando o cotidiano? – perguntei.
- Ora pois.
- Nacionalidade?
- Angolano.
- Quê? Militante do MPLA?
-Assustado, respondeu que sim.
- Pronto. Encontrei minha cara-metade. Vamos nos casar.
- Casar. Que é isso? - Sem entender nada, Jacinto ia, de garfada em garfada,
avaliando a história.
Resumi o papo com Julian. Risada geral. Finalizamos a tarde alegres na
esperança de uma breve festa comemorativa. Bodas no ar. Dias depois,
trancinhas nos cabelos, elaboradas qual obra de arte pelas Guineanas, cuscuz
de farinha de mandioca, aliança de ouro com sete aros, linda de morrer,
decidimos viver nos fins de semana um grande caso de amor. Claro que o amor
acatou uma grande amizade, regada à música, poesia; a ancestralidade de dois
povos unidos através de muitos e muitos séculos. No ano seguinte, fui madrinha
do casamento de Jacinto com uma bela cubana.
“Liberdade, Anistia” ouvia-se em uníssono durante o cortejo fúnebre do
Presidente João Goulart, deposto pelo golpe militar em 1964, enterrado em São
Borja no Rio Grande do Sul. Jango faleceu na sua fazenda La Villa, na Argentina.
Doze anos de ditadura. Doze anos de tortura, de morte, de sofrimento, de exílio
para muitos. Na Espanha, é referendada uma nova reforma política, pondo fim

213
Habitando o tempo

ao franquismo. No Brasil, a polícia invade um aparelho do PC do B e mata alguns


de seus líderes.
Dezembro desabrocha entre tragédia e comédia, como costuma ser a vida.
Alegria e tristeza confundem sentimentos, embaralham sonhos, alavancam
universos. Dezembro, mês de balanços. De perdas irreparáveis, de ganhos.
Dentre tantas que a vida me aprontou, decidi que, por pior que fosse, era o mês
do Cell e do Edu. Enxugar a dor, comemorar a vida. Tudo o que a vida me tirou
e que até hoje dói tanto, retornou em ternura, no riso dessa criançada brasileira
que cresce cercada de amor, de poesia, de música, de companheiros
imprescindíveis, de conhecimentos, de uma invejada infância.
Agito total por todo o apartamento do Pablo Labañino. Na varanda, surge
entre os dedos mágicos de Nelson Dominguez, Choco e Raimundo uma piñata
em forma de conversível vermelho. Nos cartazes, Mafalda – a contestadora de
Quino, adorada por gerações, encontrava seu lugar nas paredes, onde as
vinhetas iam surgindo da imaginação apaixonada de Nelson Herrera, poeta que
amo de paixão. Luz del Carmen Zuno e Izidro Botalim, aos beijos, adornam a
mesa com sanduíches de dar água na boca, juntavam-se as famosas mil folhas,
ponto alto de qualquer festa infantil, sem falar no bolo que esperava ansioso o
momento em que seria a felicidade geral da garotada – grande e pequena,
atirado numa guerra de açúcar por todos os lados. Madrugada adentro, Preta
Pretinha, Bloco de sujos, Rancho da Goiabada, O que será que será, em uma
mistura frenética de sambas, frevos, sambas-canções e marchas carnavalescas,
abraçados pela alegria e a saudade. Celebrava os 10 anos do Marcello e os 9 do
Eduardo.
Na playta, o trinta e um chegava de mansinho nos enchendo de esperanças.
De CDR em CDR, festejávamos um novo amanhecer. Naquele ano, acordamos
sob o sol de Varadero. Se 1977 seria o ano da volta ao país verde de um mar
intenso, de frondosas florestas, do gingado do samba, do negro , do mestiço, do
índio, do Martinho da Vila, dos sonhos do Darcy Ribeiro, das arquiteturas de
Niemeyer, do Fradinho do Henfil, do Domingos de Oliveira, do Antunes – gênio
teatral, da Fernanda Montenegro, não sabia com certeza. Mas que era de
esperança, não tenho dúvida.

Quiero dormir un rato,


Un rato, un minuto, un siglo;

214
Habitando o tempo

Pero que todos sepan que no he muerto;


Que hay um establo de oro en mis labios;
Que soy el pequeño amigo del viento Oeste;
Que soy la sombra inmensa de mis lágrimas.
De la Muerte Oscura – Garcia Lorca50

50
Garcia Lorca -Poeta Fuente Vaqueros – Espanha.

215
1977 – “Año de la Institucionalización”
Deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar,
"quero assistir o sol nascer, ver as águas dos rios correr,
ouvir o pássaro cantar, eu quero nascer, quero viver...
Deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar,
se alguém for vir perguntar, diga que eu só vou voltar depois que eu
me encontrar...
Quero assistir o sol nascer, ver as águas dos rios correr,
ouvir o pássaro cantar, eu quero nascer, quero viver...
Deixe-me ir preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar."
Preciso Me Encontar - Cartola51

Janeiro acorda preguiçoso. De ressaca, quase sempre. Contudo, é um mês


de acerto de contas com o futuro. Planejar trabalhos, encaminhar realizações,
orçar felicidades.
Luz e Botalim, já casados por mim em uma cerimônia singela, à meia-noite
do dia 31, no reveillon da casa do Glenn - um amigo de tantos e incontáveis anos,
– viajariam para Santiago de Cuba, onde pretendiam viver por uns tempos.
Botalim, o menino rebelde da Nova Trova, um dos maiores mestres da litografia,
compunha, cantava como um anjo. Um artista total, sem contar a ternura
entrelaçada à alegria santiagueira. Luz del Carmen, uma preciosa mexicana
amiga de lutas e desejos de liberdade, declamava Vinícius: “que não seja eterno,
posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Valeria a pena esta
união? Como valeu! Paloma e Alondra, duas mensageiras deste amor voam
pelos céus do México, lindas, fortes, seguras.
Janeiro. Impetuoso. Solitário, às vezes. Sem flamboyants, nem margaridas.
Ondas gigantes açoitando as pedras do malecón, não traz furacões no seu vento
frio. Na esquina de F e Treze, ainda não vive o poeta de cabelos grisalhos,
mirada amorosa, versos de séculos inteiros.
Damaris, Tia e as crianças passam os dias na espera de uma boa notícia do
Brasil. Tia faz de tudo. Cozinha, cria um cabrito, tem flores e verduras no seu
quintal. Lá se vão sete anos que chegamos. A saudade do cheiro desta pátria
bendita é a mesma do dia primeiro. Os cubanos nos cobrem de alegrias, mas

51
Cartola – Angenor de Oliveira – compositor, poeta Catete Rio de Janeiro.

217
Habitando o tempo

sabem que a nossa lua, o nosso céu, a terra que pisamos quando ainda nem
sabíamos o que nos reservava a vida, nunca serão iguais.
O toque da campainha soou forte, apressado. Já era noite em Havana, meu
Rio de Janeiro possivelmente dormia. Parado diante de mim, todo riso: Silvio.
- Rápido! – puxando-me pelas mãos.
- Ficou louco! Aonde vamos?
- Entre no carro!
- Olha, menino, onde você está me levando?
- Fica quieta. Espera... - apertando o acelerador. - Desça depressa., menina.
- E quê?
- Sua lua é maior que essa aí? Diga-me? Sem pensar.
A lua intensa reluzia no malecón, prateando as águas do Atlântico.
Extasiada, maravilhada, emudeci. Palavras. Momentos como este dispensam
adjetivos. Carinho igual induz às lágrimas. Como agradecer aos doces
trovadores momentos como este de extrema e aturdida felicidade? Parados,
quietos, como requer tanta beleza, viajei quilômetros, cruzei galáxias, adentrei
buracos negros e despertei sob a mira do extraterrestre, sentado na mureta,
acenando a cabeça, confirmando a pergunta. Nem na longínqua Cassiopéia,
pode-se ver luz igual. Ah! Silvio. Não falta tanto para você caminhar, lua no alto,
pelas minhas areias, sentir a suave brisa de Copacabana, tocar as folhas que
caem das florestas que circundam o mar.
- Um dia destes, vamos ver um rio que desaparece em uma árvore
frondosa. Lá em Santo Antônio de los Banhos. Aposto que no Brasil você não
encontra um fenômeno assim.
Será? Falando com franqueza, até hoje não vi um rio se perder embaixo de
uma árvore e nunca sair no mar. Penso que se perdeu em algum lençol freático,
transformou-se em petróleo e ainda vai jorrar pertinho de Santo Antônio.
.
Notícias do Brasil, atrasadas em dias, nos deixou o coração ferido. Maysa,
que preenche tantas noites de Miramar, morre em um acidente de carro na
recém-construída ponte Rio-Niterói. Noite adentro, a voz de Lourdes ganhou os
ares e homenageou sua compositora e intérprete preferida. Pequeno este
planeta. Na Calle Terceira , bem junto ao mar, na ilha mais badalada do Caribe,
nossa cantora maior tinha uma infinidade de fãs.
Raúl Castro Ruz homenageia com a “Medalha Comemorativa XX
Aniversário das Forças Armadas Revolucionárias”, pelo dia Internacional da
Mulher, a Célia Sanchez, Haydeé Santamaría, Wilma Espin, Melba Hernandez e

218
Habitando o tempo

Delsa Esther Puebla, todas guerrilheiras desde os tempos do Moncada.


No ano de 1857, justamente no oito de março, operárias têxteis de uma
fábrica de Nova Iorque entram em greve, reivindicando a redução da jornada
de trabalho, de dezesseis horas, ganhando menos de um terço do que ganhavam
os homens, para dez horas. Fechadas na fábrica, morreram queimadas cerca de
130 delas. Em 1910, em uma conferência internacional de mulheres realizada
na Dinamarca, decidiu-se homenageá-las, estabelecendo o dia 8 de março como
o "Dia Internacional da Mulher". Desde então, o movimento a favor da
emancipação da mulher foi tomando forma em todos os países. A luta pela
libertação da mulher deve estar vinculada à busca de solução dos problemas
gerais da sociedade. Em raras oportunidades, as forças políticas elegem a
questão da mulher como fundamental para o desenvolvimento do processo de
libertação dos povos. A mulher joga com um papel primordial nas mudanças
sociais. Mãe, influência, educa na busca do conhecimento e da liberdade.
Esposa, impulsiona, apóia, constrói lado a lado as novas conquistas no seio da
comunidade. Nos cárceres, entrega sua vida, convicta de suas verdades. Nas
praças, enfrenta as forças policiais, denunciando a perda de seus filhos, amigos,
companheiros. Cuba, vanguarda de idéias e ideais, cede espaço ao avanço da
força feminina no campo, nas forças armadas, nas profissões outrora exercida
tão somente pelos homens. Batalhadoras ocupam seu devido lugar ao sol. Faço
parte deste exército de mulheres. Sinto orgulho de ser mãe guerrilheira, de
pertencer ao Comitê de Defesa da Revolução, como orientadora ideológica,
companheira na luta e fora dela. Ficar nesta ilha, ajudar a construir uma
sociedade nova, foi a melhor opção que já fiz na vida. Acredito mesmo neste
batalhão de fé, gente comprometida e partícipe desta revolução. Sem ele, sem a
participação em massa, a Revolução não teria sobrevivido a tantos reveses.
Treze anos depois, no mesmo dia do golpe militar, o Ditador Ernesto Geisel
decretou o recesso do Congresso. Elaborou o “Pacote de Abril”, enfurecido com
a derrota do anteprojeto do Poder Judiciário. Tomou medidas nos quatorze dias
consecutivos, entre elas: a pretendida reforma do Judiciário, o novo mandato
presidencial de seis anos, a eleição indireta de um terço do Senado, o aumento
das bancadas dos Estados menos desenvolvidos, onde a Arena – partido do
Governo - tinha maioria de votos. A tensão aumentava no país al Sul do Equador,
a operação Condor aumentava sua vigilância sobre a movimentação dos
exilados; Brizola é expulso do Uruguai e pede asilo aos Estados Unidos.

Um terremoto estremeceu o dia, Maria Auxiliadora Lara Barcellos, a

219
Habitando o tempo

companheira dos momentos difíceis da clandestinidade, presa em 1969,


estupidamente torturada, testemunha ocular do assassinato de seu
companheiro Carlos Chael, se suicida na Alemanha, onde se encontrava exilada.
Quanta dor, quanto sofrimento, quantas lembranças não superadas levaram-na
a decidir pelo silêncio? Quantas vidas a ditadura iria ainda levar à loucura? O
exílio arrebata a identidade, destrói a alma, aprisiona sentimentos, marca a
ferro e fogo. “Seguiremos lutando por você até onde der e como der. Pelos que
não puderam ver o amanhã. Hoje. Sempre.” Lágrimas sufocavam minha voz.
- Um pôr-do-sol viria bem. Que tal?
- Não quero. Até a palmeira que enfeita a entrada do prédio embota a
minha cabeça.
- Calma, por favor. Nada é definitivo. Diferentes dias virão. Uma linda
primavera lhe espera.
Nicola tentava amenizar tantas dores com ele vivida ao longo destes anos.
Foram tantas e insubstituíveis perdas, que nem ele mesmo conseguia encontrar
alentos.
- Como vai a preparação do curso de Português para a Faculdade de Letras?
As aulas através da análise sintática vão ou não vão ser uma revolução? – tentou
rir.
- Acho que vai. Passo noites a fio procurando exemplos. Complicado. Bem
complicado e trabalhoso. No fim sairá uma maravilha.
- E o mestrado em análise estruturada vai indo bem? Não pode fazer feio.
De mansinho, ia me sacando da fossa. O trabalho sempre foi o melhor
remédio para a dor, principalmente se é irreversível.
- Vamos jogar um buraco? Depois toco um pouco de violão. Pensa que não
sei que os Manguarés cantaram “Samba de Orly“, quando você chegou à Uneac?
Gostou da Pequena Serenata Diurna? Viu como Silvio conseguiu fazer o tal
samba-canção? Cobra este poeta! E se o Chico gravar? Bárbaro! – ia falando,
afinando a guitarra. - Tatuagem ou cotidiano?
- As duas. Depois... “A ver”, “Quatro estações”.
- Primeiro me diga como vai a tradução dos sonetos do Vinícius.
- Super difícil. As rimas são fantásticas. Vivo recitando Vinícius pelas ruas.
Se durmo, os versos saem do subconsciente. Vivo, como, sonho Vinícius de
Moraes. Nicholas Guillén pegou pesado. Não sou poeta, entretanto, decepcioná-
lo nunca. Daqui a uns meses estará pronto. Para que tenho tantos poetas? –
sorri.
- Menina!

220
Habitando o tempo

Impressionante como Nicola cantava sem sotaque tantas canções de Chico,


Caetano, Moraes Moreira. Como interpretava Gismonti!

Tudo acontece neste pedaço de terra regada de mar. A União de Pioneiros
de Cuba passa a chamar União de Pioneiros José Martí. Seu lema: “Seremos
como el Che”. Nas escolas, uniformizados de calça vinho, camisa branca, um
lenço vermelho no pescoço, as crianças aprendem desde as primeiras letras a
serem dignos, éticos, solidários.
O Primeiro de Maio – Dia dos Trabalhadores - é comemorado com um belo
discurso de Fidel Castro na Plaza de la Revolución. No Brasil, é aprovado a Lei
do Divórcio. Emenda Constitucional do Senador Nelson Carneiro. De acordo
com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas IBGE em 1974,
mais de duzentas mil pessoas estavam desquitadas no país. O número de
separadas ultrapassava a faixa dos 1,2 milhões. Moderno, com uma cultura
européia acentuada desde o Império, nosso país vive de contradições
assustadoras. O assassinato de Claudia Lessin choca a sociedade brasileira.
Vinte e um anos, encontrada com cerca de 20 quilos de pedras atadas ao pé,
junto às rochas da Avenida Niemeyer.
Recebida com festas, volta à Espanha, após 38 anos de exílio na União
Soviética, Dolores Ibarra, Deputada Comunista, apelidada La Passionária,seus
discursos inflamados levantavam o ânimo dos republicanos contra os
desmandos do ditador Franco.

Férias à porta, viajaria com as crianças. Tempo de sol, de praia, de manhã
até a noite. De concertos domingueiros. De comidas no restaurante Pequim. De
noitadas, na varanda povoada de trovadores. Morrer de rir com as canções de
Virulo.Que delícia!

- Para onde você vai? Eu não vou. Vai para Vedado? Eu não vou. - respondia
o chofer do táxi, Chevy, que circulava pela cidade.

Enlouqueciam os criticados com o humor genial deste trovador, simpático,
tímido, divertido. Suas críticas mexiam com o inconsciente coletivo, com o
ridículo das atitudes egoístas e acomodadas. Primeiro a rejeição natural, depois
o reconhecimento pequeno, mas significativo. Virulo trouxe um toque novo à
trova cubana. “Virulo imprime o humor à essência de seu trabalho; propõe
alternativas às definições instituídas e declara que o humor não distrai,

221
Habitando o tempo

concentra. O Humor não aceita, questiona. O Humor não gratifica, inocula o


veneno da dúvida.” O humor educa. Unanimidade nacional, vira do avesso as
bases do humor caribenho. Dinâmico, cria com a voracidade da velocidade da
luz. Idealiza, cria e dirige, permitindo que eu participe como colaboradora do
melhor programa musical destes tempos na TV: “Te doy una canción”, dedicado
inteiramente à Nova Trova.
A Nova Trova disseminou pelo mundo os ideais revolucionários de Cuba.
Com suas guitarras, os trovadores iam rompendo o bloqueio imposto pelos
Estados Unidos. Foram os arautos dos logros do homem novo. Seu canto de
amor à Pátria, ao homem, ia ganhando novos mundos. Jovens, adolescentes
quase, levavam e traziam informações do mundo musical. Pelos centros de
solidariedade espalhados pelo planeta, abriam portas, ganhavam um novo
público. Admirados, amados, respeitados, foram se firmando no cenário
mundial. A relação com os países da Europa, África e América do Sul foi se
solidificando. Quantos olhares direcionaram ao maior fenômeno do século: a
construção de uma sociedade livre, a duzentas milhas do imperialismo?
Fizeram amigos. . Conquistaram um público. Souberam, como poucos,
preservar este companheirismo. Amavam o Brasil, cantavam sua música,
admiravam seus compositores e intérpretes. Feliz, via o mundo se abrir àqueles
jovens ávidos de saber. Quantas e eternas noites passaram aprendendo a
pronunciar corretamente palavras, para interpretar, em shows, canções de
Chico, Caetano, Milton, Martinho da Vila, Villa Lobos, homenageando meu país.


No cinema, artistas/diretores brasileiros lideravam o ranking das salas de
exibição. A cada ano, mesmo em época de plena ditadura, Glauber Rocha,
Nelson Pereira dos Santos, Rui Guerra garantiam a informação cinematográfica.
A Semana do Cinema Brasileiro era esperada com entusiasmo por toda a
população.

Ver Brasil/Cuba na fachada do Carlos Marx, um moderno teatro construído
em Miramar, era o sonho almejado. Em um milagre, que só a arte torna
realidade, Djavan, Chico, Gonzaguinha, Zezé Mota, Simone ecoaram pelas ruas
de Havana. Quando Silvio dedilhou os primeiros acordes de “Como gasto
papeles recordante“, os adoradores da música inebriados cantaram em uma só
voz todas as estrofes de “Te doy una canción”. Emoção. Pura emoção.
Indecifrável. Faltava agora o reverso da medalha: Cuba no Brasil. Um dia seria!

222
Habitando o tempo

Por quantos anos esperaria? Não fazia diferença.


Take por take, Cell e Edu iam montando a história do próximo filme,
desenhado em papel radiográfico lavado com água sanitária, recortado, furado
para que pudessem entrar no projetor. Cada película com princípio, meio e fim.
Organizadíssimos. Acabamento impecável. Exibiriam para mim assim que
terminado, mesmo antes da viagem para a casa de Bárbaro em Pinar del Rio.
Se cansados, desenhavam, alma cheia de cores, esboçavam imagens
inimagináveis nas folhas de papel, incentivados por Nelson Dominguez – um
dos artistas plásticos mais conceituados, detentor de inúmeros prêmios no
exterior e no Caiman verde.
Nelson tem uma pincelada magistral. Cada imagem, pintura ou gravura
revela sua veia poética. Brinca com os elementos da natureza, tornando-os arte.
Funde o amor, a vida, a esperança, em pinceladas de rara beleza. Passeia pelo
imaginário, escapa da realidade, desabrocha na sua infância, no mistério do
verde, no vermelho dos pores-do-sol das montanhas camponesas, no brilho
ofuscante das estrelas cadentes. Homem adaptado à cidade, guarda a ternura
das flores, o olhar penetrante do trabalhador dos canaviais. Tudo regado à
experiência de anos manipulando cores e tecnologias.
Uma noite, altas horas, cansado dos palpites nos seus verdes e vermelhos,
ordenou-me com linóleo e instrumentos na mão:
- Faça seu próprio quadro. Este vermelho aqui é meu. Tudo bem?
Encabulada, depois de mil perdões, enclausurei-me num ímpeto de criação
para o criador. Desenhei meu próprio retrato, sem nenhuma intenção de fazê-
lo.
Se por susto, ou se Nelson despertou em minhas mãos a benção de poder
registrar–me em uma xilografia, jamais saberei. Na parede do meu quarto, no
auto-retrato, uma linda mariposa repousa no meu colo. Casualmente,
desenhada por ele numa delicada semente. Nelson deixou plantadas muitas
sementes, que por vezes acontecem dar frutos.

Antes de partir para o campo, fomos à inauguração do Acampamento
Internacional de Pioneiros 26 de julho. Fidel durante algumas horas falou com
a meninada. Contou histórias, fez brincadeiras.

“No podemos dedicarnos solo a construir palacios y campamentos


de pioneros, porque todavía tenemos que seguir haciendo escuelas
secundarias, escuelas tecnológicas, escuelas preuniversitarias y
facultades universitarias, y tenemos que seguir haciendo escuelas
primarias y círculos infantiles y policlínicos y hospitales.

223
Habitando o tempo

Hoy, podemos conmemorar el Día de los Niños con este


campamento. No está malo; dicen los visitantes que es muy bonito,
que es muy bueno. Realmente se escogió uno de los mejores lugares
de una de las mejores playas del país; hay quienes dicen que una de
las mejores playas del mundo, pero nosotros no lo vamos a decir
porque no hemos visitado otras playas del mundo. Dicen que es
una de las mejores. Nos alegramos. Y en uno de los mejores lugares
de esa playa, se ha construido el campamento internacional de
pioneros.”

E, seguia...

“Cuando se hizo la cocina, ya se hizo más grande, no para que


comieran ustedes solos aquí, porque ustedes son 1.000, un poquito
más, y la cocina tiene capacidad ¿saben para cuántos? ¡Para 4
000! Ya está la cocina del campamento de pioneros provincial.
Y nosotros hoy visitamos la cocina. ¡Qué cocina! Hay unas pailas
grandes, así. Y yo le pregunté al maestro cocinero cuánto arroz
podía cocinar ahí, en una paila sola. Me dijo: ’Doscientas libras de
arroz, 1 200 raciones de arroz‘. Y le pregunté: ’¿Y los frijoles dónde
los cocina?’ Dice: ’Ahí‘. Digo: ’¿En qué tiempo, maestro?’ Me dijo:
’Quince minutos‘. Le digo: ’¿Cómo 15 minutos?’
Yo recordaba cuando estaba preso en Isla de Pinos. De vez en
cuando yo era cocinero también, y tenía allí una ollita y estaba dos
horas para cocinar aquellos frijoles. No se querían ablandar
(RISOS). Y el maestro, en la cocina de ustedes, los cocina en 15
minutos.”

Com que maestria falava àquelas crianças de línguas e sentimentos


diferentes.

“Sabemos que nuestros pioneros entienden esto. Entienden que


mucho de lo que tenemos hoy se lo debemos a los que se
sacrificaron ayer (APLAUSOS), pero también saben que mucho de
lo que tendrán las futuras generaciones deberá crearse con el
sacrificio y el esfuerzo de nuestra presente generación de pioneros
(APLAUSOS). Que la oportunidad de ser heroicos existirá siempre,
que la oportunidad de sacrificarse existirá siempre, que la
oportunidad de luchar existirá siempre.
Los años futuros serán también años de esfuerzo, de sacrificio, de
lucha, de heroísmo, pero serán también años de victorias y de
éxitos.
Las generaciones pasadas no monopolizaron todo el mérito
posible; las generaciones futuras tendrán la oportunidad de hacer
cosas iguales y aun mejores que las que realizaron nuestra

224
Habitando o tempo

generación y las generaciones pasadas (APLAUSOS).


En este hermoso día felicitamos a todos los pioneros cubanos, y
saludamos a todos los pioneros procedentes de otros países que
nos visitan. Y con inmensa satisfacción, podríamos decir con
orgullo: nuestro Partido y nuestro Gobierno Revolucionario les
entregan este campamento internacional que, por voluntad de
ustedes, se llamará Campamento Internacional 26 de Julio
(APLAUSOS).”

As crianças riam encantadas. Os adultos, poucos, jamais esqueceram o dia


em que Fidel – o Comandante de nossa esperança - discursou aos Pioneiros de
todo o mundo. É preciso muito coração para agüentar tanta emoção.
Nós, de um mundo onde as crianças dormem estendidas nas frias calçadas
das cidades, sem um pedaço de pão sequer para saciar sua fome: haja coração...
De férias, aproveito para ler, ouvir longas histórias, respirar oxigênio puro,
viver dias de simplicidade intensa. Durante as noites: olhar estrelas, buscar
algum cometa perdido, perdendo-me nas lembranças da minha patriazinha.
Sofrida. Violentada. Massacrada. Ai. Que saudade danada do chiado dos esses!
Os dias com Bárbaro e os mineiros de Mata-Hambre sabiam ser de rara
satisfação.

Enquanto curtíamos as benesses do campo, o barco pesqueiro Rio Jobabo
explodia no Porto de Callao, no Peru. Por sorte, todos os sessenta tripulantes
saíram ilesos. Mais um ato terrorista dos mercenários a serviço do império.
Camaguey, cidade escolhida para comemorar o XXIV aniversário do assalto
ao Quartel Moncada, recebe com festas o Comandante em Chefe. Lindo este 26.
Ao terminar o ato, comovidos, ouvimos a voz de Nicola ecoar pela multidão: “Há
um almanaque cheio de dias 26”. Vale a lição. Só começar.

Mal entramos em Havana, mil convites. Inauguração do Museu das Armas,
no Castelo da Força - fortaleza mais antiga do continente americano.
- Edu, isto é mojito. Você é pequeno. Beber, nem pensar.
- Estou com sede.
- De água será, porque mojito, nada.
Sem dar conta, ele pegou outro copo e de um gole tomou a delícia gelada.
Dois mojitos. Ria sem parar. Ria a mais não poder. Queria outro. Queria ir
à Bodeguita com Roger Aguilar, pintor, gravador, um dos melhores do atelier
da Praça da Catedral.
- Bom, bonito, disponível - brincou Paneca, gravador, dos que fazem da arte

225
Habitando o tempo

cubana uma referência internacional.


Porres à parte. Uma bronca de leve no Eduardinho, valeu o encontro. Por
sua beleza e história, a Praça da Catedral Habana conserva a arquitetura
barroca, sendo ponto de encontro de quantos visitam a cidade. O atelier de artes
plásticas, parte do fascínio da praça, conheceu, senão as primeiras, muitas obras
de artistas hoje famosos no mundo inteiro. Lugar ideal para encontros,
decidimos realizar os “Sábados na Praça”.
Em um pequeno palco, desfilaram suas guitarras os meninos da Nova
Trova. Em cavaletes improvisados, gravadores do atelier expunham suas obras.
Aos poucos, entre música, gravuras, pinturas, chegando devagar a poesia, ir à
praça se tornou a cachaça de quantos ansiavam por um fim de semana
diferente. Novos espaços culturais animavam a obra de recuperação do
patrimônio histórico, iniciada pelo historiador Eusébio Leal.
Poucos amam esta cidade como Leal. Uma esquina pode ser um achado, a
janela, antes destruída, luz colorida na praça restaurada. Cada árvore, um
pedaço de ferro, uma banheira, têm sua história. Por quantos sábados Cell e Edu
ouviam atentos, interessados, as histórias de ruas, praças, da vontade férrea de
se construir um museu, da luta para tombar a cidade histórica e recuperar os
primórdios da América Caribenha?
Leal esmiuçou, pedaço a pedaço, a cidade velha, tocou cada porta,
transformou mentalidades com a força de sua vontade; como um construtor de
sonhos e idéias, foi apaixonadamente entrando para a História.

Em agosto, Elvis Presley, ídolo dos anos 50, dono de um estilo próprio,
recordista de venda, parâmetro para milhares de jovens, solitário, abandonado,
entregue a todo tipo de drogas, morre em Menphis, aos 42 anos.

Em Angola, cubanos lutam lado a lado aos africanos. Muitos regressaram.
Leonel, meu vizinho, ainda não. Podiam fazer de tudo um pouco. Uns dando
assistência médica, outros ajudando a criar escolas. Nelson Dominguez e
Eduardo Rocca, o Choco, por lá andaram criando a Escola de Artes.
Por sinal, uma odisséia a ida dos dois. Marcada a viagem, decidimos fazer
aquela despedida, regada a muito rum e música brasileira. Silvio, Pablito,
Nicola, Botalim, sem falar nos artistas plásticos presentes. Uma festança. Entre
mil beijos, despedimo-nos. Ao despertar, decidi passar na casa de Nelson, para
pegar meu aparelho de som. Qual não foi minha surpresa. Sobre a cadeira da
sala, uma valise de mão.

226
Habitando o tempo

- Caramba, ele esqueceu a maleta? - perguntei curiosa à sua sogra.


- Que nada! – contestou sorrindo. - Voltaram do aeroporto.
- Do aeroporto? Mas o que passou?
- Sei lá. Quando acordei, ele dormia. Ainda dorme.
Chamei os trovadores, contei o ocorrido. Impossível, alegavam todos. Pois
assim mesmo, não haviam embarcado.
Semana seguinte, nova despedida, menos concorrida, mas divertida igual.
A mesma situação: voltaram do aeroporto. Três tentativas. Novas surpresas.
”Dessa vez é definitivo. Hoje sim, vamos”.
Fui para casa com Vicente Feliú, disposto a me ajudar a encontrar uma rima
para um soneto de Vinícius de Moraes. Vivia feliz. Fazia alguns tempo que
traduzia os sonetos de nosso poetinha. Difícil, esse delicioso Vinícius. Horas a
fio, dedilhava cada verso, mergulhava ávida em cada estrofe, sorvia cada rima.
Cada soneto traduzido, uma glória. As lindas rimas carregam a magia do amor
de Vicente, de Nicola, de Silvio, de Pablito, de Lázaro de Augusto Blanca, e Sara.
Assim, em cada pedaço da minha amada pátria, estes trovadores amados;
amantes fossem no gingado do samba tão bem dançado por Silvio. Na feijoada
improvisada temperada pelo Pablo Milanez, nos versos de Nicola – “você me
deu um país... me contou as lendas de Corisco e Lampião”, majestosamente
composto no mais perfeito português. Brasil e Cuba, dois amantes enamorados.
Exaustos de cavar uma rima, fomos surpreendidos pelo toque da campainha.
- Quem será, Vicente?
- Sei lá. Não esperamos ninguém.
Diante dos meus olhos, parado, aquele sorriso derramando ternura.
- Vicenteeeeeeeeeeeeeeeeeee!
- Quê?
- Choco e Nelson voltaram da Jamaica.
Inviável. Choco, às gargalhadas, contava atropeladamente o ocorrido.
Na semana que seguiu, chegaram em Angola dois pintores, deixando para
trás análoga sodade. Dois anos se passaram sem que víssemos o sorriso do
Chocolate mais famoso dos mares caribenhos e do santiagueiro capaz de fazer
arte em uma semente caída despreocupada de uma árvore.
Os sonetos rodopiaram pela off-set antes que as angolanas reproduzissem
em suas cabeleiras os desenhos de Choco. Última moda além-mar. “Tranças à la
Choco”. Curtindo as ondas dialogarem com as pedras, no badalado Malecón
corríamos léguas em busca de dois mágicos da pintura contemporânea. Idilistas
natos

227
Habitando o tempo

executávamos tarefas na tão sonhada sociedade do homem novo, com todas as


possibilidades que nos regalava a revolução.

Silvio e Vicente decidiram passar uns dias no meu apartamento, agora em
San Agustin, a alguns pedaços da praia. Precisavam compor. Precisavam do
silêncio. Não sei dizer quantas canções nasceram destes dias, com certeza
extrapolam o inusitado. Vicente Feliú, além de compor obras eternas, é
infinitamente revolucionário. Puro, nobre, amigo, um singular companheiro.
Silvio é o tímido mais guerreiro que conheço. Suas canções percorrem um
universo sem precedentes. Passou pelas flores, pelos dias, pelo amor, pelo mar,
pelas mariposas, pelas sensações, pelos sentimentos, pelos anjos, sobretudo
pela vida, e pela amada revolução. Busco na sua obra um detalhe que haja
faltado. Não encontro. É aquele amigo que cantou o poeta, que muita gente
procura pela vida. Conhece como ninguém minha paixão pelo trovador da Calle
San Nicolas. Ri das loucuras de nossas divergências. Diverte-se com nossas
brigas bobas e sem sentido. Adora História. Passa horas, analisando e
dissertando sobre Fernão Cortez na conquista do México em 1519. “Cortez
viveu 15 anos nas Antilhas, onde acumulou grande riqueza, terras e prestígio.
Sabia?” E por aí seguia. Astecas, povos nativos, exploração, descaracterização
da cultura mexicana, mariposas (símbolo da vida eterna). É capaz de passar
horas dedilhando o violão, cantando baixinho músicas brasileiras. Adora Chico,
Bethânia, Caetano, Pixinguinha, Villa Lobos. Ama Vinícius, Manuel Bandeira,
Carlos Drumonnd de Andrade. Enamorou-se bem jovem do Brasil.
Pego-me sentada em um bar de Ipanema, perdida nestas longas e
deliciosas conversas. Quem pode afirmar que estou em um apartamento a mais
oito mil quilômetros das costas do Brasil, se uma guitarra toca um samba-
canção?

Alberto Juantorena, nas Olimpíadas de Montreal, vence as provas dos 400
e 800 metros. Teófilo Stevenson brilha no boxe. Surge a estrela romena Nadia
Comaneci. Aos quatorze anos, surpreende o mundo com sua perfeição,
extraordinário talento, técnica primorosa. Primeira nota dez na história da
ginástica, em barras assimétricas. Procedentes dos Estados Unidos, cinqüenta
jovens, levados por seus pais ao princípio da revolução, integram a Brigada
“Antonio Maceo” e visitam Cuba pela primeira vez. Aos 88 anos o cineasta, ator
e músico, o genial Charles Chaplin, morre. Carlitos, assim denominado por
gerações, foi expulso em 52 de seu país de adoção, os EUA, pelo anticomunismo

228
Habitando o tempo

macartista.

Acerca o fim de ano. Marcello e Edu terão sua animada festa, como
acontece há 11 anos.
- Mirian o bolo acaba de chegar – apressa Cary abrindo à porta da Casa de
San Lázaro, residência de Reina – a rainha mãe de uma família singular.
Cary, não é um capítulo à parte. É o próprio capítulo dentro dos nossos
anos na Cuba de Fidel, exílio regados a sinsontes, e sabiá. É um encontro
eternizado. Lembra sempre que me conheceu em 1971, tempos de Hildita. Na
memória, surgiu dessas abençoadas tardes com Choco. Namoradinhos?
Romance discreto e passageiro. Pode ser. Magrinha, bonita como costuma ser
as cubanitas interessada no sedutor, esplendoroso continente ao sul do
Equador.
Estudava letras. “Gabriela, cravo e canela” excitava sua curiosidade. Jorge
Amado, seu Chico Buarque. Feijão branco, sábados na praça da
Catedral,Vinicius, batuques e batucadas, alegrias e tristezas. Cell e Edu. Idas e
vindas de San Lázaro a Miramar ou San Agustín muitas águas rolaram. Ganhei
uma irmã, uma outra família,
Companheira a toda prova. Gosto da Cary...

Uiiii! Perdida garota. Em que esquina desta cidade?

- Nada, Carlos. Perdi no meu próprio labirinto.
- Acabei meu desenho – põe na parede exigiu Edu.
- Onde está o verde, meu filho?
- Sei lá.
Carlos ajuda aqui este menino – pediu a graciosa Deysi.
Sobe, desce, sobe, desce – esta escada vai me matar um dia. Tantos doces,
pinhantas, um vai e vem de papéis.
Ufa! Cary ajuda aqui.
Reina da cozinha preparando - pés de moleque ria do corre corre
desnecessário. Festas minha filha... festas... você adoram essa fofoca – como diz
a Mirian.
Cheirinho de café. Vou nessa.
Cary, Carlossss!!!! Caramba, esse cara me consome com este sumiço –
reclamo.
Crianças agitadas, frenéticas, brincalhonas abarrotavam salas e balcões.

229
Habitando o tempo

Cell e Edu abrigados de amor e encantamento ancoraram seu aniversário no


cais de Havana.
Apesar da agitação do ano, realizações logradas. Os Sonetos de Vinícius de
Moraes no prelo.. Inúmeras aulas elaboradas com intenso trabalho, prontas
para serem ministradas. No mestrado, surpreendia a todos meus
conhecimentos em análise estruturada. Resquícios de Evanildo Bechara. Devia
a ele, gramático brasileiro, sui generis, suprema novidade no ensino da língua
portuguesa.
Frouxa, tristonha. Sinto uma dor fininha, desembarcando lenta, lembrando
a distância que me separa do Rio de Janeiro.
1977, sonolento entrava no túnel do tempo.

Uno regresa as vece. La importancia


De volver, no es salvar lo ya vivido,
Es saber en qué esquina en latido
Pueden fundirse el tiempo y la distancia.
El tempo, la memória, el olvido – Waldo Leyva

230
1978 – “Año del XI Festival”
“Escreva sua história na areia da praia
para que as ondas a levem através dos sete mares
até tornar-se lenda na boca das estrelas cadentes.
Conte sua história ao vento.
Cante-a nos bares para os rudes marujos
aqueles cujos olhos são faróis sujos, sem brilho.
escreva no asfalto, com sangue,
grite bem alto a sua história
antes que ela seja varrida na manhã seguinte pelos garis."
Escreva sua História – Claufe Rodrigues52

Um janeiro diferente. Dezenove anos de revolução. Festa de Norte a Sul.


Felicitações até da estação orbital Saliut-6. Tempo de felicitar a Universidade
de la Habana, uma das primeiras do continente, data de 1728. Prima por sua
excelência acadêmica, alto grau científico e pedagógico foi o palco das primeiras
demonstrações revolucionárias. Duzentos e cinqüenta anos de conhecimentos.

No México, o ditador Ernesto Geisel é recebido sob protestos em sua visita
oficial. Preso por pertencer ao esquadrão da morte, imediatamente solto, o
torturador Sérgio Fleury retoma suas funções na polícia de São Paulo.
Movimentos discretos iniciam o caminho de volta à democracia. O governo
militar de Geisel começa um lento processo de transição. A crise do petróleo e
a recessão mundial interferem na economia brasileira. Créditos e empréstimos
internacionais diminuem, coincidem com o fim do milagre econômico, a
insatisfação popular diante as altas taxas. Geisel anuncia a abertura política
lenta, gradual e segura. A oposição política começa a ganhar espaço. Os
militares da linha dura, descontentes promovem ataques clandestinos aos
membros da esquerda.
Cary fincou suas raízes. Reina a mãezona. Daisy, boneca de porcelana, uma
matrioska, a sensual e brejeira Rosalva, sem falar no Carlos, grande parceiro em
contendas políticas.
Caridad transpôs as fronteiras baianas, penetrou na casa do Rio Vermelho,

52
Claufe Rodriguez – Poeta -

231
Habitando o tempo

encontrou Seu Jorge nos seus sonhos de jovem universitária e transformou


Gabriela em PHD dos amores.
Se Jorge Amado era na literatura a estrela com “Gabriela, Cravo e Canela” e
“Dona Flor e seus dois maridos,” passeando no imaginário dos que curtem a fala
portuguesa, Machado de Assis deslumbrava os alunos. Uma nova descoberta.
“Ainda que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio. Faço-o
eu, e a ciência mo agradecerá...“ (Memórias póstumas de Brás Cuba).

Fora os literatos, falar do Brasil, passar as manhãs em português
agasalhava minha saudade. Podia aproveitar para lhes informar as notícias da
terrinha: dos desmandos da ditadura, como a prisão de 11 professores acusados
de praticar o marxismo na escola primária, do protesto em várias cidades no
décimo Aniversário da morte de Edson Luiz, o estudante assassinado quando
almoçava no restaurante estudantil “Calabouço”. Sua morte desencadeou uma
repressão acirrada, levando milhares de estudantes e profissionais às prisões,
no ano de 1968.
Pelas manhãs, o Brasil rolava solto nas aulas da Faculdade de Idiomas
Estrangeiros. À noite, na praça do Teatro Amadeo Roldan, artistas plásticos,
trovadores e poetas se agrupavam ao povo para dar início aos trabalhos para o
XI Festival da Juventude e estudantes. Durante a semana, a população, junto aos
pintores, elaborava os cenários usados nos sábados no palco do teatro.
Apareciam poetas de todas as gerações, profissionais ou não. De Garcia
Marques a Fernando Retamar. De estudantes a diplomatas. Ainda soam em
nossos ouvidos os poemas do sacerdote e poeta nicaragüense Ernesto Cardenal,
recém-recebido pelo Comandante.

“La persona
más próxima
a mí
eres tú
a la que
sin embargo
no veo
hace tanto tiempo
Más que en sueños”

No Parque Almendarez, a voz de Sílvio Rodriguez e Noel Nicola em “Cuba


Va”, de Pablo Milanés , Sara González, Virulo, o Grupos Moncadas, e os
Manguarés. Por entre as árvores centenárias, cruzavam o rio, espalhavam no

232
Habitando o tempo

mar seus cantos de luta e de paz. Por toda a Ilha, em alguma praça, um trovador
ou poeta estendia o movimento nascido na Capital. Cuba, embora sempre tenha
sido o som maior do Caribe, agora era um pouco mais: era Cuba da felicidade.

O III Frente Oriental Frank País estava em festa. Vinte anos haviam passado
desde que aqueles jovens guerrilheiros ousaram libertar o povo cubano do jugo
tirano de Batista. Vinte anos de luta na construção de uma sociedade. Estar ali,
em Mayari Arriba, em plena Sierra Maestra, com o Comandante, Raúl Castro,
Juan Almeida e José Machado Ventura, transcendia meus desejos. Enterrar os
restos mortais dos companheiros caídos nas batalhas, na época da guerra,
estremecia minhas vísceras. Como agradecer à vida esta ventura? Por lá fiquei,
em companhia do Comandante Pancho, por mais uns dias de aprendizado com
àqueles que ajudaram a montar esta emocionante história de coragem, de luta,
de desprendimento, de amor à pátria. Acredito que, somente em Cuba, somos
capazes de viver tão fortes emoções, de contracenar com a História viva e
vivida.
Acordar aquele abril a primeira derrota do imperialismo em terras
cubanas é vital. Que classe de derrota! Fidel, à frente do batalhão, expulsou
todos os mercenários em menos de setenta e duas horas. Girón, cantada e
decantada em todos as demonstrações da arte. Seja o Girón Rodriguiano, o
Girón de Sara, o Girón em todas as facetas da poesia, seja nas lembranças de
Fidel.

..“O fato de que Playa Girón estivesse em nossas mãos 66 horas


depois que os exploradores da força invasora tocassem as costas
da nossa Pátria, demonstra o vigor do fulminante contra-ataque a
que foram submetidos. Lutou-se sem cessar dia e noite, sem um só
minuto de trégua. A três milhas da costa, uma forte esquadra
norte-americana, que incluía porta-aviões e infantaria de
Marinha, pronta para intervir, observava o desenvolvimento da
contra-ofensiva revolucionária, a tal ritmo que, se recebia a ordem
de agir, já não havia força invasora que apoiar, nem pista segura
onde um governo fantoche pudesse aterrar” ..

Assim se lutou em Playa Girón. Assim lutaria agora este povo se preciso
fosse. Girón, um exemplo de luta para toda América Latina.
Como no início de 1970, o mundo entrava em convulsão. O luto cobriu as
ruas da Itália quando o cadáver de Aldo Moro apareceu num Renault, no centro
de Roma. A Itália parou, chocada com a violência, em manifestações unindo
todas as tendências políticas. Em São Bernardo do Campo, dois mil e quinhentos

233
Habitando o tempo

metalúrgicos, liderados por Luiz Inácio da Silva – o Lula, iniciam a primeira


greve de trabalhadores do país depois do AI 5. “O trabalhador não tem nada
mais a perder, porque perdeu até a esperança no diálogo. Agora, sim, haverá o
verdadeiro diálogo. Para que ele exista, as máquinas precisam parar” disse o
Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. Vários políticos da oposição apóiam o
movimento, inclusive o candidato a senador Fernando Henrique Cardoso.

No Rio de Janeiro, o Museu de Arte Moderna, arde em chamas mais de
quarenta minutos, perdendo obras de valor inestimável. Dois Picasso e dois
Miró. Não há dinheiro que substitua esta tragédia.
Julho aponta no horizonte cheio de novidades. Nasce Louise na Inglaterra,
primeiro bebê de proveta. Desde os primórdios da humanidade, a reprodução
humana dependia do ato sexual. Com Louise Brown, a esperança de poder gerar
um ser humano criou uma enorme expectativa em milhares de mulheres
estéreis, apontando inúmeros desdobramentos para a genética. Hung, doce
endocrinologista, vibrava com a novidade. Sua paixão pela genética era visível.

A Ilha respira festival. Inaugurações, vernissages, lançamentos de livros.
Ato pelo XXV aniversário do Assalto ao Quartel Moncada em Santiago de Cuba.
Começa o Festival da Juventude e dos estudantes. O mundo se fez presente
nas ruas de Havana.
Entre tantos, Maninho aparece no meio da multidão, corre para nossos
braços. Quanto tempo estivemos assim, apenas o tempo sabe. Que saudade,
gente! Quanto contentamento! Marcello e Eduardo o abraçavam tão apertado,
sufocando sua voz. Entre beijos e lágrimas, perdemos a noção do tempo. Se é
que tempo existe. Se é que tempo tem noção. Falamos toda a madrugada, toda
a manhã, caímos dormindo uns sobre os outros como nos velhos tempos. Por
este encontro não esperávamos.
Sucesso total este maravilhoso encontro de jovens, comprometidos com as
mudanças, com o desejo de se ter um futuro. Deixou uma murrinha danada, mas
Augusto chegaria. Grandes noites, felizes dias estavam reservados.
Augusto Blanca, anjo encantado, ia gravar o seu disco. Dias de trabalho
árduo. Primeiro os arranjos, logo colocar a voz, depois mixar. Trabalhava sem
parar. Chegava tarde, exausto, mas com disposição para pegar a guitarra e
encher o quarteirão de música.
Cantarolava desafinada, mas cantarolava. Augusto é doce como a ternura,
seu interior tem a beleza de um campo de girassóis, sua voz é a mensageira da

234
Habitando o tempo

ventura. Adoro tudo neste filho de Banes. Um dos maiores poetas/trovadores


de Cuba. Suas músicas vão do amor à vida, aos sentimentos pátrios, à sua
adoração pela meninada, aos vaga-lumes que iluminam os caminhos. Da
pequena boliviana sem mar, ao menino guerrilheiro nicaragüense, dos garotos
brasileiros, ao filho venerado. Conheci Augusto há séculos atrás. Sou seu
solecito. Ele é o meu sol maior, na escala musical e no astro rei. Rosy, sua
companheira, é a sua Rosa. Paixão à primeira vista. Rosy, minha irmã querida,
aquela que a gente encontra pela vida e não perde jamais. Nutrimos uma sincera
cumplicidade. Conhecemos nossas dores, compartimos imensas alegrias.
Choramos e rimos juntas. São minha família santiaguera. Eu, sua Mirian – a
brasileira, o elo abaixo do Equador. Nasci no continente, eles, na ilha, juntos
formamos um lindo país. Amo Cuba, os dois, o Brasil. Isto porque nem citei a
Consuelo - a mãe de Rosy, Raulito - nosso pequeno príncipe viver em um
asteróide, como costuma dizer. Luisito, meu filhote cubano, metade Augusto e
metade Rosy, mas com uma sabedoria e vontade, particularmente próprias.
Consuelo é uma bola de algodão doce.
- Um cafezinho. Quer Mirian?
- Quero. Com pouco açúcar.
- Para fumar um Popular? Cigarro faz mal à saúde. Cada maço traz a
observação. “Fumar daña la salud” – dizia séria.
Ah! Consuelo. Acostumei com a mensagem e passo de largo. Um dia vou
deixar de fumar. Sem data. Sem hora marcada. Vou deixar, um dia...

Motivos à parte, Santiago entrava no roteiro. Pretexto para estar com eles,
curtir a cidade musical. Comer um bom assado, um congri, bater papo gostoso
até às tantas. Êta! Coisa boa ir a Santiago de Cuba. Terra de heróis. De Frank
País. De Antonio Maceo. De Almeida. Da Sierra Maestra. Do glorioso
Comandante Pancho. De Mayari abaixo e acima. De colher café, comer uvas em
pleno Caribe. Do carnaval, do balde cheinho de cerveja tomada ladeira acima ao
som de uma conga.
Na primeira viagem, fui encontrar Nicola. Hospedaria-me em casa de
Augusto e Rosy. Os dois loucos varridos, por não terem tinta pra pintar a
barbacoa, colaram todas as cartas de amor que trocaram na adolescência nas
paredes, formando o mais lindo painel de amor já visto. Por estas e tantas outras
que nem Nicola nem eu nem a própria vida apagaremos estas lembranças.
- Alguém conhece outra forma de querê-los?
O disco saiu lindo. Arranjos espetaculares e, de quebra, uma obra-prima

235
Habitando o tempo

dedicada a mim, “No olviste uma vez que fuiste sol”:

“...Y ve, calmale la sed a tus enormes prados


no permitas que se pierda tu cosecha
hoy que hasta la lluvia fiel no te ha escuchado
y busca tu raiz
Y dale la caricia a la que siempre espera
la única manera de hacerla que vuelva
a ofrecerte frutos hasta en el invierno
y no olvides que una vez,tu fuiste sol
Y ve, desata esos diques de corrientes presas
déjate llevar y vuelve a ser jinete
baja hasta tus valles de palomas sueltas
que este es tu país
Dónde están tus riendas
donde esta tu espuma
donde abandonaste tu camino entonces
donde naufragaste haz crecer mil rosas,
y no olvides que una vez tu fuiste sol....53

“No olvides” é um hino para os que um dia deixaram sua pátria e


encontraram no coração dos cubanos um refúgio. Sabe tudo, este filho da
poesia.

A casa vivia dias de agito geral. Augusto com seu disco. Luz Maria Montiel,
antropóloga mexicana, hospedada conosco estudaria o candomblé em Cuba.

“Quiero decir -agrega con pasión- que lo fascinante del caso es que,
sin importar el color de la piel, la africanía es una raíz que los
mexicanos no conocemos, pero que está en el México profundo de
Guillermo Bonfil y, por lo tanto, en la cultura nacional. La africanía
de México está en la religión y la magia; en el gusto por los colores
y su aplicación en el decorado de casas, templos y palacios; en las
formas de cocinar, la música y el baile; en el habla popular: los
refranes, las leyendas, la tradición oral; en la medicina tradicional
y el conocimiento ecológico... signos todos de una africanización
del indígena y una indianización del negro...''

Luz Maria, chegada de Paris direto para Havana passaria em nosso


apartamento um mês buscando os elos de ligação entre as nações iorubás e os

53
Augusto Blanca – “No olviste uma vez que fuiste sol” -“No olviste uma vez que fuiste sol” Cantautor
– Banes – Santiago de Cuba - * Esta canção composta para a autora do livro.É um hino de amor e
Liberdade em toda a América Latina.

236
Habitando o tempo

negros vindos da África na época da colonização. As crianças de férias


esperavam todos os dias ansiosos a chegada da nossa antropóloga.
Conversavam por horas sorbiam do seu saber ávidos. Nos primeiros dias,
fomos para Regla descobrir casas de santeria. Desconhecia este mundo.
Certa feita, fora com Glen visitar um santeiro supostamente famoso no
intuito de desbravar raízes africanas.
- Não podemos atendê-los – desconversou a senhora que atendeu à porta.
- Viemos de longe – insistiu com todo charme Glen.
- Impossível.
- Atenderei a de cabelo grisalhos – ressou pelo corredor uma voz gutural.
- Desculpem. Um deus negro depara defronte de nossos olhos
maravilhados. Atarantados, mudos defronte daquela miragem. Lindo. Cabelos
grisalhos, metro e noventa de altura, magro beirando os noventa anos, mirada
serena nos conduziu a uma pequena sala pediu delicadamente que me
acomodasse e numa linguagem onde mesclava espanhol com o dialeto africano
ia explicando razões de sua atitude.
- Você é filha do Rei. Vem de um país verde, terra dos meus irmãos, quase
balbuciava as palavras. Encabulada seguia cada explicação como uma oração.
Como podia aquele senhor perdido em Guanabacoa saber tanto de mim. Como?
Filha do Rei? Algum equívoco. Anos, muitos anos passaram para que fosse
decifrado o mistério de suas palavras.
Arcádio, o santeiro de Guanabacoa podia ser a chave. O caminho para Luz
Maria conquistar. Assim foi.
Anos, muitos anos passaram para que fosse decifrado o mistério de suas
palavras. Sou filha de Xangô.


Em Nicarágua, a Frente Sandinista crescia vertiginosamente. Apoio total da
população. A tomada do prédio do Congresso com novecentos reféns
reafirmava o avanço da luta. Em vão, brasileiros de Havana tentaram ir para a
frente de batalha.


Nada impede que em Cuba tudo seja uma grande festa, apesar do trabalho
duro, das necessidades, do bloqueio. Transformar um motivo em festa é para
principiantes. Uma cervejinha e uns tostones davam um samba daqueles.
O filho da Helena, romena que lecionava na Faculdade de Línguas, festejava

237
Habitando o tempo

aniversário e nós as vitórias nicaragüenses. Como tudo começa e termina em


samba, mesmo no berço do bolero, Beth Carvalho54 despejava alegria com a
Goiabada Cascão:

...""Goiabada-cascão, em caixa
É coisa fina sinhá
Que ninguém mais acha
Rango de fogão de lenha
Na festa da Penha
Comido com a mão
Já não tem na praça
Mas como era bom
Hoje só tem misto-quente
Só tem milk-shake
Só tapeação
Já não tem mais caixa
De goiabada-cascão ..."55

Sambando sem parar, deparei-me com aqueles olhos. A batida do samba


sufoca. Alucina. Tentei puxá-lo para dançar. Tímido, esquivou-se querendo vir.
Dias passaram. Já soavam vinte e três horas, quando a campainha tocou.
- Estranho! À esta hora?
De frente, pedindo mil desculpas, Jacinto com o rapaz da festa.
- Alguma novidade?
- Nenhuma.
- Rui Lopes, muito prazer.
- Veio estudar. É fotógrafo e dos bons. Ganhou o prêmio Lênin de fotografia
ano passado. Queria ver a brasileira, e aqui estamos – argumentou Jacinto.
- Já ia dormir?
- Estava lendo um pouco. Amanhã dou aula na parte da manhã. São bem
vindos.
Como furacão, Rui cruzou a sala, pegou um livro na estante e de supetão
soltou:
- Este livro é meu.
- Nunca. Veio de Luanda. Os meninos trouxeram para completar minhas
gramáticas.
- Viu? Rui Paulo Lopes Ferreira – Lisboa 1972.

54
Beth Carvalho – Compositora interprete – Considerada uma das melhores sambistas do Brasil.
55
Nei Lopes – Compositor - Brasileiro

238
Habitando o tempo

Pasma, reli na parte interior. Nítido e firme, seu nome escrito, muito bem
escrito, à caneta.
Jacinto se calou. Olhei. Pensei e afirmei as coincidências pelas quais
atravesso nos duzentos e cinqüenta e seis caminhos que escolhi para percorrer.

Rui Paulo Lopes, vinte anos de pura alegria. Inteligente, culto, lido, tímido,
brincalhão, Ele apenas retornou. Em 1970, no Hotel Nacional, Cell e Edu
aprenderam a nadar com ele. “Vaya casualidad” - diría Nelson Dominguez.
Vivemos todos os possíveis.

Ávidos de notícias, antes de sair para trabalhar, líamos o Jornal do Brasil,
trazido religiosamente pelos companheiros do departamento de América.
Estampada uma linda manchete: - “Criado em São Paulo o Comitê Brasileiro pela
Anistia”. Em poucos meses, formavam-se comitês na maioria dos Estados, em
cidades, bairros, escolas, categorias profissionais. A luta pela anistia entra em
ritmo de campanha.
A Justiça Federal de SP responsabiliza a União pela morte do jornalista
Wladimir Herzog em uma cela do DOI-Codi.
Paralelo à alegria de uma possibilidade de retorno à patriazinha, a
Operação Condor seqüestra dois jovens uruguaios - Universindo Díaz e Lilian
Celiberti, em Porto Alegre. Parecia dizer “aqui estamos, vigiando noite e dia”.
Domingo, depois do almoço, começavam os preparativos para a ida à
Escola. Primeiro Marcello, que pegava a guagua na Calle de los Presidentes,
quase em frente à Casa das Américas – templo da cultura latino-americana.
Victor Jara, Joan Manuel Serrat, Chico Buarque e Gabo, assim, carinhosamente
apelidado, Garcia Márquez, foram alguns dos que passaram pela Casa.
Lançamentos de livros, shows imperdíveis, marcados sempre na memória,
saraus, todos assinalados pelo objetivo maior: a união das culturas.
Depois, já entrada a noite, Eduardito entrava na beca. Como passavam a
semana internados, geralmente, deixava para fazer as compras nas sextas-
feiras, guardando para o fim de semana todas as melhores e possíveis
guloseimas. Este domingo não fora diferente. Pouca coisa sobrara para durante
a semana, dias em que, comumente, comia ou na rua ou na casa de amigos.

Pela TV veio a notícia: “Todos devem permanecer em suas casas."A Defesa
Civil está tomando as medidas pertinentes. Um furacão se aproxima de Cuba.
Deve passar pelas costas de Pinar del Rio.”

239
Habitando o tempo

- Virgem Santa! Domingo de tarde, supermercado fechado. Como vou


fazer?
- Mãe, que máximo. Veremos um ciclón.
- Sem tonteiras, Marcello. Furacão é coisa séria. Ainda não existem
equipamentos modernos para detectar todas as posições de vento, mudanças
de velocidade. Vou falar com o pessoal do CDR. Saber das providências que
devemos tomar. Porque tudo isto, sim, é uma tremenda novidade.

Meia hora depois, Rui entra esbaforido. Ouvira a notícia e saiu correndo
para compartir conosco esta situação inesperada.
- Estou ferrada! Imagina. Com pouquíssimo para comer e os mercados
fechados, passam das quatorze horas.
- Tentarei conseguir alguma coisa – saiu apressado. - Calma, pessoal.
Voltou com uma lata de biscoito de água de uns cinco quilos.
- Não havia mais nada. Esta mania que vocês têm de não ver TV, em
algumas circunstâncias pode ser fatal.
Duas horas mais tarde, a chuva caía, jorrava dos céus aos borbotões. Com
a TV ligada, ainda foi possível ver as recomendações do Serviço de Meteorologia
e Defesa Civil.
Somente as áreas de risco seriam desalojadas. O locutor ia enumerando as
localidades, todas distantes do lugar onde morávamos. “Reservem água. A luz
será cortada até às vinte horas, devido às fortes rajadas de vento. Outras
providências serão avisadas pelos Comitês de Defesa da Revolução”.
De pronto, a televisão saiu do ar. A fúria do vento açoitava as janelas.
Pulamos os quatro na cama. Entre risos e um medo atroz, fomos nos
adaptando a oito dias sem luz, janelas fechadas, água escassa, biscoito com leite
condensado e, por vezes arroz.
- Vamos fazer arroz?
- Daquele que só você sabe?
- Que delicia! - levantaram correndo Marcello e Eduardo.
- Eu não. Quem ensinou foi o Consuegra, o Comandante da Cubana de
Aviação. Quer aprender? Quer?

A ver...
Lave dois copos de arroz.
Coloque na panela de pressão duas colheres de óleo e o arroz, e
alho se quiser.
Pode ser outra coisa, por exemplo, em vez do alho, cebola ou louro.

240
Habitando o tempo

Com o fogo baixinho, vá fritando até ficar com cheiro de pipoca.


Coloque sal e dois copos de água.
Atenção!
Sempre tem que ser a mesma quantidade de arroz e de água.
Entendeu?
Tampe a panela.
Deixe pegar pressão.
Abaixe o fogo e cozinhe por 9 minutos.
Pronto.
Não existe melhor arroz no mundo!

A comida já estava no final quando tudo voltou a normalidade. Todas as


histórias, havidas e por haver, foram contadas. Todas as piadas, incluindo
diversas nacionalidades, desfilaram risonhas pela sala, cozinha e quartos.
Em Pinar del Rio, o furacão destruiu milhares de pés de fumo. Uma colheita
que traria excelentes divisas para o país fora água abaixo. Começar de novo era
a palavra de ordem. Começar de novo: inevitável.

Uma tragédia abala os últimos dias do ano. Jim Jones, da seita americana
Templo do Povo, prepara um suicídio coletivo em Jonestown, na Guiana.
Ultrapassou as novecentas vítimas o envenenamento. Uma mistura de suco de
laranja com cianureto. Os que se recusaram a beber veneno foram assassinados.
Jim Jones, que vivera oito meses em Belo Horizonte, entre 1962 e 1963, se
mudou com seus adeptos para a Guiana, em 1977, com a aprovação do governo
local, depois das primeiras denúncias contra a seita por ex-adeptos.
As notícias aumentam com a proximidade do fim de ano. No Brasil, o
Movimento Negro elege a data da morte de Zumbi como o Dia Nacional da
Consciência Negra. O Ministro da Justiça suprime a censura prévia dos
comerciais de rádio e televisão. O Diário de Pernambuco publica a lista de
setenta e oito torturadores de PE, feita por presos políticos. No último dia do
ano, após dez anos de arbítrio Geisel revoga o AI 5 e extingue as penas de morte,
prisão perpétua e banimento. A Assembléia Nacional do Poder Popular escolhe
“Año 20 de la Victória” para 1979. O poder Popular decide felicitar seu guia e
principal artífice desta vitória. Comandante em Chefe Fidel Castro Ruz.

Os 15 e 17 foram de festa como nos anos anteriores. Desta vez, em casa de
Nelson Herrera, o poeta. Tínhamos um acordo. Sempre que possível
festejaríamos na casa de algum companheiro. Carnaval preparado com esmero,
todos compareceram em peso. Pintores, trovadores, poetas, amigos íntimos ou
não. Chilenos poucos os que haviam ficado na ilha. Alguns brasileiros

241
Habitando o tempo

pouquíssimos. Incluindo o sempre presente Reinaldo. O famoso Zé do Boné.


Amanheceu com Martinho da Vila:

Em casa, um bom Porto e um fado à la Chico Buarque. Terminamos felizes
1978 com esperança antecipada de regresso.

Acuérdate de mí cuando el otoño


le dé paso a la primavera;
acuérdate de mí si el pensamiento
te libra del amor que te sujeta.
Acuérdate de mí, no me abandones
tan solo, que este abril me desespera;
no olvides que el amor vuela de noche
y anida en otro abril cualquiera.
Acuerdate de Abril – Amaury Perez56

56
Amaury Perez – cantautor. Havana - Cuba

242
1979 – “Año 20 de la Victoria”
Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo.
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes"
Vinícius de Moraes57

O País iniciou o ano todo comemorações. Vinte anos de conquistas.


Hospitais modernos surgiam a cada mês, escolas no campo equipadas com o
que havia de mais moderno, duzentas toneladas de peixes e mariscos para o
mercado interno e externo. Livre de analfabetismo. Meta do Primeiro Grau
cumprida. Controle do câncer uterino, através da campanha de exames
citológicos anuais. Zero de mortalidade infantil. Infecção hospitalar - palavra
desconhecida. Sem sombra de dúvidas, uma suprema vitória. Ninguém como o
povo cubano soube “transformar o revés em Vitória”, como pedira Fidel, no
início de 1970.

No Brasil, cento e sessenta metalúrgicos fazem greve geral, o governo
intervém, mas a greve continua. Professores entram em greve e a CNBB aprova
o apelo dos bispos pela anistia. No Congresso Metalúrgico, em Lins, São Paulo,
é aprovada a criação de um Partido dos Trabalhadores. O PT é um partido
formado por intelectuais, operários, artistas, sociólogos, economistas. “A
estrela no peito. O Brasil no coração,” com este slogan conquistou adeptos em
todo o país. Seu símbolo uma estrela vermelha de cinco pontas marcada com a
sigla PT em branco.

.... que este partido seja de todos os trabalhadores da cidade e do


campo, sem patrões, um partido que seja regido por uma
democracia interna, respeite a democracia operária, pois só com
um amplo debate sobre todas as questões, com todos os militantes,
é que se chegará à conclusão do que fazer e como fazer. Não um
partido eleitoreiro, que simplesmente eleja representantes na

57
Vinicius de Moraes – Compositor, interprete, poeta por excelência, diplomata. Um dos maiores
nomes da Bossa Nova.

243
Habitando o tempo

Assembléia, Câmara e Senado, mas que, além disso e


principalmente, seja um partido que funcione do primeiro ao
último dia do ano, todos os anos, que organize e mobilize todos os
trabalhadores na luta por suas reivindicações e pela construção de
uma sociedade justa, sem explorados e exploradores;...

Resolução do IX Congresso dos Trabalhadores Metalúrgicos, Mecânicos e
de Material Elétrico do Estado de São Paulo, na cidade. Aprovada em 24
de janeiro de 1979. Lins (SP).

Assim como o PT outros Partidos foram surgindo no exílio como PDT –


Partido Democrático Brasileiro, fundado pelo ex- governador do Rio Grande do
Sul, Leonel Brizola. O Brasil ia tomando um caminho de organização política,
com a finalidade de dar fim à era ditatorial.


A rua onde está situada a Faculdade de Línguas, impressiona pelas árvores
frondosas formando na sua extensão um túnel verde, que ameniza o calor
abrasante e clareia os sentimentos. Absorta, percorro a distância entre casa e
trabalho. Por vezes, Ifrain freia seu fusca bem juntinho, em um sorriso largo e
companheiro. Colocamos em dia as notícias da Ilha, do Brasil e do mundo.
Ulisses Estrada aparece da mesma forma, sempre um prenúncio de felicidade.
Julian, em outra atividade, já não atende às famílias de companheiros na guerra,
muitos retornaram e suas famílias estão estabilizadas. Adoramo-nos, anos de
cumplicidade, de amor e entrega total à Revolução.
- Aonde vai hoje à tarde?Podemos ir a algum lugar. Queres? - questiona Rui.
- Vou à casa da Argélia saber de Maria e Raulito. Quem sabe tem suco de
mamey. Depois vou a uma exposição. Te vejo amanhã.

Na época da chegada de Cristóvão Colombo o Mamey aparentemente
crescia na Jamaica, Puerto Rico e Antilhas Menores. Provavelmente, foi
transportada pelos índios Arawak para outras regiões. Árvore sempre verde,
tem flores masculinas, femininas e bissexuais. Seu fruto é arredondado, com
casca grossa e polpa amarelada, macia e doce. Mais parece um manjar dos
deuses. Seus frutos são anuais, o que nos leva a aproveitar a ocasião a todo
custo.
Argélia, a mãe de todos, terníssima, atenciosa, tem uma família especial.
Silvio, o poeta deste e dos próximos séculos, nasceu de seu ventre. Maria de los
Angeles, uma linda jornalista de cabelos negros, casou com o Raulito, último

244
Habitando o tempo

embaixador no Brasil antes do golpe militar em 1964, elo forte com a minha
pátria.
“O mérito é da revolução Cubana que eu represento. Não é meu, e sim da
Revolução Cubana, que represento", costumava dizer Raúl Roa García, exemplo
de homem modesto, sensível e mormente simples. Raulito Roa traz nas veias
está simplicidade do pai, o mesmo carisma, uma capacidade impecável com um
elemento a mais: toca tumbadora, cultua o samba, venera Vinícius de Moraes, é
amigo de noitadas cariocas, respeita Jorge Amado, curte Copacabana. Hoje,
representa Cuba perante as Nações Unidas.
Saí tarde da casa de Argélia e, quando cheguei ao Pabellón de Cuba, para a
inauguração da exposição do XX Aniversário dos Órgãos de Segurança do
Estado, o General José Abrantes terminava o discurso. Josefina, amiga de longa
data, feliz, andava de um lado a outro, garantindo o sucesso do evento. Ramiro
Valdez – o Comandante da Revolução – como sempre, simpático, presidia a
sessão.
Josefina, mãe de Guillermo – quando eles estão na adolescência perdemos
a personalidade e nos transformamos na “mãe de”. Mirian – mãe de Marcello e
Eduardo. Abrantes – pai de Ricardo. Assim por diante. Josefina é uma belíssima
mulher. Alta, esguia, cabelos negros, pele alva, voz serena, esconde uma
guerrilheira do dia-a-dia. Bem cedo começa seu dia. Trabalha com Abrantes,
mas sem hora para terminar. Guillermo, Marcello e Ricardo estão na mesma
turma. São disciplinados e atentos. Pudera, com Alida de diretora. A generala da
Batalla de Jigue. Não permite nada fora da ordem estabelecida.
- Podem namorar. Mas nada de engravidar – sentencia.
- Podem trazer sanduíches, desde que sejam trezentos e vinte quatro. Aqui
tenho este número de alunos. Bem alimentados, sadios, fortes, sem anemia,
nem gripe estes garotos pegam. Se querem, tragam, - voltava a afirmar.
- Detalhe importante. Não quero só mulheres nestas reuniões de pais. Não
importa que cargo ocupem, os pais são indispensáveis.
Dura de roer esta Alida, excelente educadora.
Vira e mexe um príncipe africano, ministros, e embaixadores apareciam
nas reuniões mensais para tomar conhecimento do andamento escolar e
emocional de seus adolescentes.
Francamente. Podíamos trabalhar e dormir em paz. Alida velava os sonhos
e o sono de nossos filhos.
Em 19 de junho de 1979, a Frente Sandinista de Libertação Nacional na
Nicarágua, através de uma insurreição popular, derrota a sanguinária ditadura

245
Habitando o tempo

de Anastasio Somoza, que foge para os Estados Unidos, deixando um rastro de


mais de vinte mil mortos. Os sandinistas adotaram este nome em homenagem
a Augusto César Sandino, guerrilheiro que se opôs firmemente à intervenção
americana. A prioridade da revolução sandinista seria a educação. Somente
através da educação e da resistência cultural é possível preservar a soberania
nacional. Uma nova era começava para o povo nicaragüense.
Julho entrou trazendo raras alegrias. João Figueiredo, o atual ditador de
turno no Brasil, cede aos poucos a pressão popular nacional e internacional. É
realizado, em Salvador, o Trigésimo Primeiro Congresso da UNE. O primeiro
desde a prisão em Ibiúna, em 1968. Leonel Brizola se reúne com brasileiros em
Lisboa, com a finalidade de abrir uma frente de luta no Brasil. Muitos aderiram,
possibilitando a criação do Partido Democrático Brasileiro. Alguns exilados
retornam ao país e não depõem na Polícia Federal. Durante 23 dias, prisioneiros
políticos fazem greve de fome contra a anistia limitada.
Tempo de férias no Caribe. Eduardo deveria ir à escola Lênin. A média para
freqüentar a Lênin era acima de 98,5, quer dizer: média geral da primeira à
sexta série, ocasião em que inicia a Secundária. Problema geral. Edu não queria
ir à escola Lênin e sim para a Batalha de Jigue. A Escola Wladimir Lênin é a
primeira do país criada especificamente para os alunos de toda a Ilha que,
durante o curso primário, alcançassem a mais alta média. Edu ficara em terceiro
lugar. A Batalha de Jigue, também disputada por muitos, ocupava naquela época
o segundo lugar de melhor escola de Cuba.

”Hace varios años nuestro pueblo viene realizando un enorme


esfuerzo en construcciones escolares. En cada nuevo curso escolar
se abren 80 000 nuevas capacidades aproximadamente para
estudiantes becados de nivel medio. Nuestra concepción
educacional se basa en el principio marxista y martiano de la
combinación del estudio y el trabajo. Hoy construimos escuelas
secundarias básicas e institutos preuniversitarios en el campo,
donde los alumnos laboran tres horas diarias en planes agrícolas;
escuelas politécnicas e institutos tecnológicos junto a las fábricas,
donde los estudiantes trabajan cuatro horas al día en los talleres
industriales, y escuelas de maestros de primaria en todas las
regiones del país, donde los jóvenes que se forman como maestros
realizan su práctica docente enseñando en las escuelas. También
desarrollamos las universidades, donde se aplica igualmente el
principio del estudio y el trabajo, participando los alumnos 20
horas semanales en actividades productivas.Esta escuela que
inauguramos hoy, es del tipo que llamamos vocacional. En ella

246
Habitando o tempo

ingresan los alumnos mediante selección rigurosa, basada en las


altas calificaciones que obtengan en la enseñanza primaria y en su
expediente escolar. En el país existirán siete escuelas de este tipo,
donde estudiarán en total 25 000 alumnos. Actualmente se inicia
la construcción de una en Las Villas, otra en Camagüey y otra en
Oriente. Llevarán los nombres de: Lenin, Marx, Engels, Martí,
Maceo, Gómez y el Che”

As escolas vocacionais, tais como as escolas no campo, são o orgulho da


revolução. Arquitetura impecável, limpas, cheirosas, com toda a tecnologia à
disposição dos alunos, parecem hotéis cinco estrelas. A primeira vez que estive
na Batalha de Jigue cheguei às lágrimas. Um por ter meu filho estudando em
condições tão maravilhosas, outra de alegria, comemorando a vitória deste
povo capaz de tudo para dar conhecimento, ética e, principalmente, dignidade
à sociedade.
- Alida, tenho um problema. Um super problema. Eduardo ,o irmão do
Marcello, não quer ir para Escola Vocacional Lenin.
- O que você me disse? Esse menino não quer a Lenin?
- Não. Quer ficar aqui junto com seu manito. Temos que entendê-lo. Somos
nós três. Embora os amigos de turma, os companheiros. Mas, somos três.
Exilados. Sem Pátria. Compreendo o Edu. Os anos lindos e por muitas vezes
felizes estão permeados de uma insegurança terrível. Como será o amanhã? Já
tive por diversas vezes internada. Um é esteio do outro. Sei que é complicado
aceitar. Mas, assim é.
- Tenho excesso de alunos. Não vejo nenhuma possibilidade.
Eduardo era preciso: “Fico sem estudar”.
- Meu filho, aqui ninguém fica sem ir à escola! Vamos para a Lenin, querido.
Último dia de matrícula e nada. Edu decepcionado. Eu enlouquecida.
- Fiquem em casa. Arrumem tudo. Vou à Batalha de Jigue. Não regresso sem
uma resposta definitiva.
Decidi sair da Batalha de Jigue somente quando Alida cedesse. Assim foi.
Era noite quando chegou de Havana.
- Ainda aí? – perguntou encabulada.
- Até conseguir uma vaga – afirmei.
- Tudo bem. Pode trazê-lo. Verei o que posso fazer.
Era quase madrugada quando cheguei em casa. Feliz e triste. Antes, Edu
chegava às sextas-feiras, conversávamos horas a fio. No sábado, pela manhã,

247
Habitando o tempo

preparávamo-nos para a chegada do Marcello. Chorei quase toda a noite. Santo


Antonio de los Baños era distante, não tão quanto uma cidade brasileira da
outra, mas o suficiente para me matar de saudades. Antes, eles estudavam em
Miramar. Era bater a vontade de abraçá-los um pouquinho de saudades e lá
estava eu beijando meus pimpolhos, entre um trabalho e outro. Teria que
aprender a viver sem as crianças durante a semana. Uma missão difícil. Chorei
quase toda a noite.
- Quem é? - abri a porta semi dormida.
- Ifrain, companheira. Andou chorando? Os olhos estão inchados. Que
passou? E o colégio resolvido?
Abraçou-me. Vai passar. Ifrain entendia o quanto era difícil viver longe da
terra amada. Do seu alicerce. Do seu chão.
- A injeção. Vamos nessa, garota. Faltam poucas e está infecção urinária já
era – aplicando o antibiótico. - Viu? Não me custou nada vir pelas manhãs tão
cedo, menos mal que o hospital liberou as ampolas para que eu injetasse. Este
antibiótico é italiano e só pode ser usado nos centros hospitalares.
- Sei disso. O diretor foi muito compreensivo.
- Sem choro! Amanhã de manhã estou de volta.
Ah! Ifrain. Sabe Deus, que horas você foi deitar ontem. Como explicar tanto
dedicação,tanta solidariedade? Somente um homem novo, mesmo que o mais
velho estivesse fazendo um grande esforço para mudar valores. Este é um deles.
Imprescindível.
- Vamos ao cinema. Depois à Havana Velha comprar charutos e um vinho
no Hotel Sevilha. Depois vamos caminhar pelo malecón e depois a dormir.
Amanhã tens provas a corrigir? Não tens?
- Muitas.
- Suas aulas foram boas? E a beca?
- Igual. Ficar longe de você dói um bocado.
- Dói nada. Uma noite que outra não vai tirar pedaço, pois. - brinquei
arrasando um português lisboense.
- Agora falas português, gaja?
- Sempre falei, ora ora. Esqueceu que sou neta direta de portugueses da
família Cunha Lima dos Guimarães?
- Dormiste bem. Algo mal. Tenho uma angústia. As crianças voltam de
manhã. Aula mesmo só no dia 03 de setembro.
- Não há de ser nada. É saudade! É sodade, como dizem os africanos.
Julian chegou tão pronto Rui havia saído. Havia um código: amores amores,

248
Habitando o tempo

companheiros à parte.
- Vim rápido, assim que soube.
- Soube o quê?
Ifrain, retardatário, entrava atropelando cadeiras.
- Ora bolas! Chegou primeiro?
Pela cara dos dois, algo de bom havia passado. Algo muito significativo.
- Os Estados Unidos levantaram o bloqueio?
- Friíssssssssssssimo!
- A ver
- A ver nada falaram em uníssono: O Presidente Figueiredo assinou a Lei
No. 6.683, de 28 de agosto de 1979, que concede anistia e dá outras
providências.
- Mentira. Mentira. Aos beijos, abraços entrelaçados, choramos. Quando,
não sabia, mas voltaria ao Brasil em algum momento. Eufórica, louca, alucinada,
queria correr, gritar, sacudir o mundo.
- Calma, por favor. Agora vamos esperar o nome dos anistiados. Já é um
começo. Calma.
- Vou à Batalha de Jigue.
- Espera. As crianças precisam saber com toda a certeza. Calma.

Teria toda a calma do mundo, esperara dez anos por isso. Dez anos. O
importante agora era ver a famosa lista publicada no Diário Oficial. Mas como?
Dormia tranqüila quando fui despertada por Rui.

- Olha aqui! Olha! Encontrei no JB do dia 28/08/1979. “Supremo Tribunal
Militar divulga relação de 326 anistiados e liberta 12 presos”. Leia no corpo da
matéria – Marília Guimarães Freire. Leiaaaaaaaaaaaaa! Embaixo tem mais. Uma
lista em ordem alfabética.
- Vê se tem o nome do Liszt. Vê do Ibra. Vê se está o Fausto, o Minc. Vê, Rui!
Que faço, Meu Deus?
De novo, o verde, o cheiro do mar. As minhas montanhas. O Pão de Açúcar!
A Bethânia! A Cinelândia! Os meus companheiros! Vamos contar para as
crianças, embolava tudo. Por onde começar? Por onde ser feliz? Como deixar
esta ilha que amo tanto? Que faço com os pores-do-sol sem o Nicola? Sem as
luciernágas? Sem a timidez do Silvio? Sem as cores do Nelson e do Choco.? Que
faço sem o Carlos nas tardes de San Lázaro? Não há nada no mundo, nem nunca
haverá, que me faça deixar de gostar desta ilha. Como estará meu Brasil? Onde

249
Habitando o tempo

ponho esta tristeza e esta alegria? Abrace-me. Mais forte. Abraçe-me por todos
e por tudo.

..." um terno em tecido jeans e um distintivo tricolor do antigo


Partido Trabalhista Brasileiro, hoje Partido Democrático
Trabalhista (PDT), na lapela, o engenheiro Leonel Brizola chegou
ao aeroporto de Foz do Iguaçu às 17h25 do dia 06 de setembro de
1979, para encerrar o mais longo exílio já vivido por um político
brasileiro. Ele desceu de um bimotor Piper de oito lugares que o
trazia de Assunção e atravessou a pista acenando alegremente..."
... Disposto a regressar ao Brasil mesmo sem ter sido anistiado,
Brizola foi convencido por amigos a aguardar que seu nome fosse
incluído na lei da anistia. Contudo, seu retorno só ficou assegurado
duas horas antes do pouso do pequeno avião que o trouxe de
Assunção por um recado telefônico de Brasília que mandou riscar
seu nome da lista de indesejáveis do computador da Polícia
Federal, onde ainda figurava apesar da lei da anistia. O visto de
entrada saiu em um minuto...
Revista Veja 12/09/1979

Cheguei rápido à escola. Beijava entre lágrimas meus dois e infinitos


amores.
- Vamos voltar ao Brasil. Fomos anistiados. Continuem estudando até que
possamos saber como voltar.
- Paramos de estudar? A escola está ótima. Hoje, recolhemos morangos e
abacaxis. Você vai comprar no mercado o abacaxi que eu peguei? Oi! Escutou,
mãe?
- Escutei, Cell. Hoje, mesmo vi piñas no supermarket, deve ser as que vocês
recolheram. Vamos comprar.
Jamais decepcioná-lo. Nunca no momento da emoção. Mais tarde, diria que
em muitos lugares da ilha outros meninos também haviam recolhido abacaxis.
Os aeroportos do país estavam de festa. Familiares, TV´s, rádios, jornais
aguardavam a chegada de cada vôo para receber seus filhos. Lembrei do Henfil
- um dos maiores cartunistas, o criador dos fabulosos “ Os Fradinhos”. Passou
toda sua vida defendendo o fim do regime ditatorial, esperando ansioso a volta
se seu irmão querido, Herbert de Souza – o revolucionário Betinho -. O
companheiro que iria mudar mudar conceitos. Fernando Gabeira, entre outros
tantos pousavam em solo brasileiro.
Durante anos a fio, os cruéis censores da ditadura impediam a publicação
de noticias, mas o povo melhor que ninguém entendeu as saídas que

250
Habitando o tempo

encontraram nossos jornalistas – passando as informações através de “receitas


de bolo” e outras metáforas. O Pasquim criado por intelectuais, através de doses
maciças de humor, verve, anarquia e inteligência abria o Brasil escuro,
escondido para o leitor . Chico Buarque , por ter suas músicas previamente
censuradas passou a usar pseudônimo de Julinho da Adelaide e Leonel de Paiva
. Apesar da censura músicas como “Tô voltando” fazia o maior sucesso na voz
de Simone e servia de refrão para os que voltavam do exílio.

"..Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto


Eu to voltando
Põe meia dúzia de Brahma pra gelar, muda a roupa de cama
Eu to voltando
Leva o chinelo pra sala de jantar...Que é lá mesmo que a mala eu vou largar
Quero te abraçar, pode se perfumar porque eu to voltando
Dá uma geral, faz um bom defumador, enche a casa de flor
Que eu tô voltando
Pega uma praia, aproveita, ta calor, vai pegando uma cor
Que eu tô voltando
Faz um cabelo bonito pra eu notar que eu só quero mesmo é
Despentear
Quero te agarrar... pode se preparar porque eu to voltando
Põe pra tocar na vitrola aquele som, estréia uma camisola
Eu to voltando
Dá folga pra empregada, manda a criançada pra casa da avó
Que eu to voltando
Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar
Telefone não deixa nem tocar... Quero lá.. lá.. lá.. ia.....porque eu tô voltando!
Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando
Põe meia dúzia de Brahma pra gelar, muda a roupa de cama
Eu tô voltando
Leva o chinelo pra sala de jantar...Que é lá mesmo que a mala eu vou largar
Quero te abraçar, pode se perfumar porque eu to voltando
Dá uma geral, faz um bom defumador, enche a casa de flor
Que eu tô voltando
Pega uma praia, aproveita, ta calor, vai pegando uma cor
Que eu tô voltando
Faz um cabelo bonito pra eu notar que eu só quero mesmo é
Despentear
Quero te agarrar... pode se preparar porque eu to voltando
Põe pra tocar na vitrola aquele som, estréia uma camisola
Eu tô voltando

251
Habitando o tempo

Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós58

Paulo e Célia preparavam a viagem de volta. A volta de muitos era assunto


de todos os dias. As famílias agitadas enviavam dinheiro, xerox de documentos
para a legalização da entrada. Nós nada. Ligamos para o Brasil, mas a família do
Fausto alegou não ter nenhum documento meu. O Embaixador da Suíça,
representante do Brasil em Cuba se recusava a me reconhecer como brasileira.
- Usted tiene que tener alguna prueba – argumenta.
Regressei diversas vezes à Embaixada. Nada. Sem provas não teria salvo-
conduto.
- Mirian, encontrei uma saída.- chegou Rui com a novidade. - A Cecília
Thompson, esposa do Francisco Guarnieri, viveu lá em casa quando estavam
exilados. Ela é jornalista. Vamos ligar para a Folha de São Paulo, localizá-la.
Tenho certeza de que nos ajudará.
Assim foi. Cecília começou a tentar uma saída para localizar o número da
minha identidade no Rio de Janeiro, Missão praticamente impossível. A
democracia estava longe de acontecer.
Determinada, telefonei para o Aroldo Wal, jornalista brasileiro que
trabalhava na Prensa Latina. Sempre os jornalistas salvando-me de situações
extremas.
Antes anos em Lima, quando tudo já parecia perdido a imprensa
internacional botou a boca no mundo denunciando que naquele “Caravelle”
que desviávamos para Cuba haviam duas crianças de 2 e 3 anos de idade. Tanto
o império, quanto a ditadura brasileira pensaram duas vezes. Não invadiram o
avião.
Aroldo prestativo como sempre orientou-me a ligar para o Alto
Comissionado da ONU, falar com Sérgio Vieira de Melo. Sérgio é brasileiro,
amigo, com certeza, ajudaria também. Ele ia tentar outras formas de me ajudar.

Lázaro Garcia, um dos trovadores da Nova Trova de Cienfuegos,
hospedado em minha casa por estes dias, me acompanhou outra vez à
Embaixada da Suíça.
- Desta vez conseguiremos.- vamos Lázaro. Acredite, sou pé quente. Tive
uma idéia fantástica.
- Senhor Embaixador, não sou eu que devo provar minha nacionalidade, e

58
Paulo César Pinheiro- Compositor
Maurício Tapajós – Músico

252
Habitando o tempo

sim meu país. Afirmei.


Pensativo, passou alguns minutos.
- Tem razão. Vou lhe dar o salvo-conduto. Traga fotos suas e das crianças.
- Aqui estão - apresentei.
- Como você tinha certeza de que eu aceitaria?
- Intuição. Vontade de ver o meu país.
Saímos discretos da embaixada, localizada na Quinta Avenida, linda,
florida, com suas margaridinhas amarelas. A menos de 10 metros, atirei-me nos
braços de Lázaro e rodopiamos pela alameda central, enamorados pela vida,
pela liberdade.

Arruma aqui, desarruma ali. Cary, incansável. Rui separava o que eu
deveria trazer.
- O apartamento fica montado, pois se acaso você quiser voltar - sentenciou
Julian.
Por fim, a despedida. Um entra e sai de amigos de dez anos. Até Bárbaro
veio de Pinar del Rio. Fizemos um sarau, cheio de saudade. Cantamos,
choramos, rimos, conversamos, trocamos juras de amor eterno. Todos,
lágrimas nos olhos, beijaram-nos com todo carinho que cabe neste mundo, sem
dizer adeus Ninguém iria ao aeroporto. Muita confusão. Emoção em demasia.
Na manhã de 13 de novembro, saímos com destino ao Panamá.
Julian nos passou para sala VIP, beijou-nos sem dizer palavras, deixou-nos
a na escada do avião. Não olharia para trás. Podia regressar.
Minutos depois, o avião de Cubana de Aviação, que nos levaria de volta do
exílio, despegou da pista do “José Martí” em direção ao Cruzeiro do Sul. Pela
janela, olhei o verde da plantação que circunda Rancho Boyeros. Quantos anos
de felicidade. Quantos amores. Quantas realizações. Quanta poesia. Quanta cor.
Quanta música. Quanta ternura levávamos em nossos corações. Minhas
lágrimas molharam o solo querido da eterna ilha de Fidel, de Camilo, do Che, do
Ramiro, do Fabian, do Ulisses, do Ifrain, do Olaf, dos trovadores, dos poetas,
pintores, dos vizinhos da Calle Terceira, da playta, dos exuberantes por-do-sol,
das ondas falantes do malecón, da Calle San Nicolás, do Hotel Capri, das meninas
de mini-saias, das novas construções de Alamar, de San Agustín, do Antônio e
Juanita, do único paraíso onde a pequena serena é diurna.
Dez dias no Panamá. A Varig tinha apenas um vôo semanal, que estava
lotado, embora tivéssemos reservado desde Havana. Com apenas quatrocentos
dólares, seria difícil esperar dez dias em um Hotel. Reinaldo, companheiro

253
Habitando o tempo

brasileiro, que vinha comigo no mesmo vôo, foi para o mesmo hotel dividir o
quarto. Pela madrugada, saído do céu, apareceu padre Chico que nos levou à
sua casa.
Trabalhando em uma reserva indígena, hospedava todos os
revolucionários que por lá passavam, guerrilheiros salvadorenhos, brasileiros,
nicaragüenses, índios.
Chegar à reserva nos obrigava a cruzar a Escola das Américas, campo de
treinamento anti guerrilha que os americanos mantinham no Panamá. Aí
passávamos os dias, banhando na água fria do Pacífico, em uma belíssima praia
selvagem, na espera do dia definitivo da partida. Entre idas e vindas,
conseguimos o passaporte na Embaixada do Brasil no Panamá. Estava
legalizada.
Vinte e dois de novembro chegou cedo, caloroso como são os dias
panamenhos. Ora chove, ora faz um sol e calor insuportáveis. O 737 da Varig
decolou suave já beirando zero hora. Chegaríamos em nove horas. Tomada pela
emoção da volta, mesclava todos os sentimentos em uma gamela de sonhos,
sem poder conciliar o sono. Todas as lembranças passadas, presentes, futuras
entravam vertiginosamente, percorrendo meus neurônios. Machado de Assis
entrelaçava Alejo Carpentier. Chico Buarque e Sílvio Rodriguez se fundiam em
uma só harmonia. Rio e Havana eram beijadas pelas mesmas ondas do
Atlântico. Laranjeiras e Miramar, com suas esquinas e histórias, sacudiam na
turbulência amazônica. Estávamos sobrevoando solo brasileiro.

“Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa


E brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma teu chão...
Que vontade vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E, ao batuque em meu coração...”
Vinícius de Moraes

Ouço longe a voz do comandante anunciando a chegada. Embriagada pela


alegria, sufocando de emoção, pego Marcello e Eduardo pelas mãos, saio da
nave em direção à saída.
- Marilia Guimarães? – pergunta o homem vestido de preto com as
insígnias da Polícia Federal.
- Sim. Sou. Seguro
- Acompanha-me.

254
Habitando o tempo

- Marcello e Eduardo? – pergunta outro agente. - Venham comigo.


- Por quê? São meus filhos.
- Sigam-me por favor.
- 23 de novembro de 1979. Fomos detidos.


...Guardaré lo mejor, lo más querido
debajo de mi almohada por si acaso
guardaré aquel frescor del primer beso
para cuando mañana caiga herido.

Guardaré lo mejor, la maravilla
en un cofre de nácar y de estrellas
guardaré en su interior las cosas bellas
para el tiempo de sembrar otra semilla.

Más si alguien se atreve a arrebatarme
tanto tesoro ahorrado en estos años
tanta niñez feliz, tanto cariño
tanto descubrimiento, tanto sueño
juro desenfundar mi fantasía
y a golpe de canción dar la batalla
juro que haré volar mi maravilla
en nombre de este tiempo y su poesía.
Augusto Blanca59

59
Augusto Blanca –Compositor, interprete, artistas plástico, poeta. De Banes - Cuba – Fundador do
Movimento da Nova trova -

255

Documentos





“A poucos minutos de Montevidéo, o Caravelle foi desviado de sua rota -
Rio de Janeiro, indo a Buenos Aires e depois Antofagasta e Lima, para
reabastecimento. Retido no Peru, por um defeito elétrico, somente hoje deverá
chegar ao Panamá e final- mente Havana.”

Fonte: O Globo, Rio de Janeiro, 03 de janeiro de 1970.

257


258

“– Isto é um sequestro. Mude o rumo para Cuba.” Estas foram as palavras
que o comandante Amaral ouviu a bordo do Caravelle PP-PDZ, dez minutos
depois de levantar vôo deMontevidéu, no dia 1°. Ele e o segundo oficial, Hélio
Batista
Borges, tentaram convencer os sequestradores da impratica- bilidade do
vôo até Havana, mas suas ponderações foram inúteis.
Os sequestradores não aceitaram, sob qualquer hipóteseque o aparelho
aterrizasse no Brasil, embora os pilotos tivessemadver- tido que surgiriam
dificuldades de pouso na rota do pacífico.Por fim, concordaram em descer em
Buenos Aires e, de lá, seguirpara Lima, no Peru.
O comandante Amaral, e o segundo-oficial Borges aindalida- vam com o
instrumental do “Caravelle”, quando a porta dacabina foi aberta. Surgiram dois
homens armados com revólverescalibre
38, carga dupla.
Borges procurou manter a calma. Tratou de alertá-los sobreos problemas
que surgiriam e lembrou, inclusive, as dificuldadesen- frentadas por outro
Caravelle da Cruzeiro do Sul, desviado para Cuba no ano passado. De nada,
adiantaram seus argumentos. Apartir de Montevidéu, até ontem - quando o jato
pousou no Ga- leão - sucederam-se 136 horas de apreensões.
O grupo de sequestradores era formado de oito pessoas:qua- tro homens,
duas mulheres e duas crianças. Todos foram enérgicos em suas ações, mas não
deixaram de ser corteses coma tripulação e os passageiros.
Sempre havia um à porta da cabina de comando. Umadas moças, porém,
demonstrava uma timidez que não se per-cebia nos demais. Ela cobria a arma
com um pano.
Os piores momentos da viagem foram vividos em Lima, quan- do os
sequestradores atiraram panfletos pela janela e, antes que os repórteres
peruanos pegassem algum, a polícia cercou o aparelho. Fazia muito calor lá
dentro porque o sistema de refrigeração estava desligado e tudo isso contribuiu
para aumentara tensão.”

Fonte: Folha de São Paulo, São Paulo, 5 de janeiro de 1970.




259



“ LIMA, 2 - O Caravelle da Cruzeiro do Sul, seques- trado en- tre Montevidéo
e Porto Alegre na noite do dia primeiro está detido por motivos técnicos em
Lima, não se acreditando que possa le- vantar vôo para Havana no sábado.
Equipamentos são esperados, procedentes de Santiago. O calor a bordo do apa-
relho, parado desde a madrugada no aeroporto é sufocante.”

“ O engenheiro disse que o piloto não tinha certeza de contar com a força
adequada para decolar e revelou ser bem pro- vável que os sequestradores
sejam 7 e 8, embora 5 se tenham identifica- do, parece certo que dois ou três
passageiros pertencem ao grupo.”

Fonte: O Estado de São Paulo (São Paulo) 02 dejaneiro de 1970.









260




“BUENOS AIRES, Un informe técnico emanado de fuentes aeronáuticas
estabeleció esta noche que el jet Caravelle tiene una autonomia de vuelo de
3,500 kilómetros.” ‘’ANTOFAGASTA, Chile Ene.2 (AF) - Aterrizó en el
aeródromo de Cerro Moreno, Antofagasta, el avión de la compñia brasileñia
“Cruzeiro do Sul”, que vuela co rumbo a La Habana ... “

Fonte: “IA CRONlCA” IERCERA EDICION, Lima, 02 de enero de 1970.










261



“Sozinho, o sub-comandante Silvio Fróes desceu em Lima para
providenciar socorros.”

“No aeroporto de Lima, colocaram-se guardas com metra- lhadora e
bombas de gás para impedir que curiosos se aproxi- mas- sem do avião da
Cruzeiro do Sul que permaneceu mais de vinte horas em solo peruano.Todos na
espectativa da chegada de outro Caravelle da LAN, que traz do Chile novas
baterias para as turbi- nas. Dois menores estão na aventura, junto com os cinco
seques- tradores.”

“... a voz do comandante informou pelo interfone:

— Senhores passageiros, fiquem calmos. Apesar de o nos- so avião estar
sendo sequestrado, ninguém correrá perigo. Deve- mos pousar em Buenos
Aires ...”

Fonte: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 03 de janeiro de 1970.







262





“O grupo é chefiado pelo advogado James Allen de 28 anos (...) James Allen
vivia em Montevidéo como asilado político e fora líder estudantil em Goiás.”
“Os sequestradores, em declarações e documentos distribui- dos à
imprensa, identificaram-se como membros da Vanguarda Armada
Revolucionária Palmares. (...) Disseram ainda cha- mar- se o grupo “Comando
João Domingues”, em homenagem a um revolucionário brasileiro que foi um
dos companheiros que, como muitos outros, morreu torturado pelas forças
armadas brasileiras, transformadas em agentes policiais do imperialismo no
Brasil.”
“...Enquanto isso, o ambiente no aeroporto de Lima é de tensão, com as
autoridades peruanas garantindo que se os seques- tradores tentarem
qualquer manobra, tomar outro avião, respon- deremos com a força.”


Fonte: O Globo, Rio de Janeiro, 03 de janeiro de 1970.




263




“Dissen que los dos nifios son hijos de un revolucionario que está preso en
Brasil y que ellos los llevan junto con su madre a Cuba.”

“Sólo el ingeniero de vuelo (Helio Borges, de nacionalidad brasilefia
descendió del avión y se puso en contacto con Ias auto- ridades del aeropuerto
a fin de lograr el reabastecimiento de com- bustible para Ia nave. ( ... ) Las
probabilidades de que el avión non pudiera seguir vuelo de inmediato eran muy
grandes al cierre de esta edición (4 de Ia madrugada).”


Fonte: El Comercio, Lima, 02 de enero de 1970.











264





“Depois de trinta e ClnCO horas de tensão, passageiros, tripu- lantes e
seqüestradores respiraram aliviados.”
“Este foi o mais longo suspense havido nas aventuras de pira- taria aérea.
Forças da polícia peruana montaram vigilância constan- te em torno do avião,
dispostas a intervirem em caso de violências contra os passageiros e
tripulantes.”
“O Sr. Hélio Borges afirmou então que os sequestradores na verdade eram
oito, pois tinha certeza que mais três deles estavam entre os passageiros. O
piloto confirmou esta suspeita.”



Fonte: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 04 de janeiro de 1970.











265

FALTA O TEXTO E A IMAGEM CORRETA



















266



“ESSE INESQUECÍVEL VÔO NÚMERO 114
DE JATO PURO DA CRUZEIRO”

Fonte: Última Hora, Rio de Janeiro, 5 de janeiro de 1910.

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268



“HAVANA -148 As autoridades cubanas identificaram os sequestradores
do avião brasileiro “Caravelle”, que aterrizou nesta capital como “seis homens
e duas mulheres armados de dois re- vólveres”.
“Como se sabe, o grupo identificado do exterior, como mem- bros do
movimento extremista brasileiro, “Var-Palmares”, havia se apoderado quinta-
feira do “Caravelle” da companhia “Cruzeiro do Sul”, quando voava entre
Montevidéu e São Paulo.
“Trata-se do primeiro avião deste ano desviado para Cuba pelos “piratas
do ar”. No ano passado, quatro aparelhos de na- cionalidade brasileira, foram
desviados para Cuba, dos quais dois pertenciam à Cruzeiro do Sul.”


Fonte: O Granma, Havana, Cuba, 07 de enero de 1970.
























269

270
FALTA IMAGEM CORRETA


“Durante uma hora, os nove passageiros e sete tripulantes do Caravelle da
Cruzeiro do Sul, PP-PDZ, que chegou ao Galeão, às 11 h25m, depuseram perante
as autoridades da aeronáutica sobre o sequestro do avião e lhes foram exibidos
slides de subversivos para serem identificados. Nesse espaço de tempo não
foram permitidos contatos entre os ocupantes do avião e seus familiares, que
esta- vam presentes no aeroporto.
O primeiro oficial do Caravelle, Hélio Borges, após ter sido li- berado pelas
autoridades de segurança, disse que nenhum dos sus- peitos apresentados
através dos slides a passageiros e tripulantes foi reconhecido, acrescentando,
porém, que quanto à identificação dos verdadeiros sequestradores não existe
qualquer problema, pois eles próprios se identificaram durante o vôo, não
colocando obs- táculos a isso.”



Fonte: O Dia, Rio de Janeiro, janeiro de 1970.

271




“Depois de novo e angustiante drama vivido por passageiros e tripulantes
no Panamá, chegou ontem a Cuba, por volta das 17h, “Caravelle” da Cruzeiro do
Sul, sequestrado no último dia 1º por quatro rapazes e duas moças, quando
voava entre Montevidéu e Porto Alegre. A estada no Panamá foi cercada de
grande tensão, pois, como o de Lima, o aeroporto daquela cidade não possui
usina geradora. A solução encontrada por autoridades locais e tripulan- tes foi
ligar os motores do avião a uma série de baterias de auto- móveis.”

Fonte: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 5 de janeiro de 1970.

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Participantes do sequestro

James Allen Luz (Andrada).


Athos Magno Costa e Silva.
Luis Alberto Silva (Conga).
Isolde Sommer (Severina).
Claudio Galeno de Magalhães Linhares (André).
Marilia Guimarães (Mirian).
Marcello Guimarães e Eduardo Guimarães
(filhos de Marilia, com quatro e três anos, respectivamente).




















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Moaryr-João Lucas Alves
Militante do Comando de Libertação Nacional (COLINA). Nasceu em
Canhotinho/PE, em 3 de novembro de 1935. Era 2° sargento da Aeronáutica.
Morto aos 34 anos, em Belo Horizonte.
Estudou no Grupo Escolar Marcelo Pinheiro e fez o Colegial no Ginásio
Visconde de Mauá, em Recife, indo para a Escola de Especialistas da
Aeronáutica em Guaratinguetá/SP, de onde saiu como 3° sargento. Serviu na
Base Aérea de Ibura/PE de 1957 a
1960. Em 1961 esteve nos Estados Unidos especializando-se por conta do
Ministério da Aeronáutica.
Expulso da FAB em 1964 pelo Ato lnstitucional n? L Preso, no Rio de
Janeiro, a 8 de novembro de 1968 e levado para o DOPS/ RJ e, posteriormente,
para a PE. Em 20 de novembro de 1968, foi decretada sua prisão preventiva por
30 dias e, em 18 de dezembro, prorrogada por mais 30 dias. Ao final dos 60 dias,
foi requerido o relaxamento de sua prisão, em 20 de janeiro, ato reiterado em
29 de janeiro, pedidos que não foram apreciados pela Justiça.

Em 28 de fevereiro, em nota oficial, foi transferido para a Poli- cia de Belo
Horizonte e, em 06 de março, foi anunciada sua morte por suicídio na Delegacia
de Furtos e Roubos de Belo Horizonte.
Nas torturas que sofreu nesse departamento policial, João Lu- cas teve
vários ossos quebrados, olhos vazados, além de queima- duras generalizadas.
Onofre Pinto (ex-banido e desaparecido em
1974), preso na mesma época, denunciou o ocorrido em depoi- mento à
organização ‘’Amnesty International”.
Vários presos políticos, como Antônio Pereira Mattos, Angelo Pezzutti da
Silva e Afonso Celso Lana Leite dentre outros, em de- poimentos realizados em
Auditorias Militares, à época, denuncia- ram as torturas sofridas por João Alves.
O laudo médico, requerido pelo advogado Modesto da Silvei- ra, revelou
unhas arrancadas, escoriações e equimoses ao longo do corpo, inclusive no
rosto e nas nádegas, não demonstrando qual- quer indício do suposto suicídio
por enforcamento.
A necrópsia, realizada no Departamento de Medicina Legal/ MG, em 06 de
março de 1969, firmada pelos Drs. Djezzar Gonçal- ves e João Bosco Nacif da
Silva, confirma a falsa versão policial de suicídio por enforcamento, apesar de
descrever algumas esco- riações presentes no braço esquerdo, pé direito e na
região glútea, assim como a falta de uma unha e rouxidão em outras. Esses mé-

274
dicos foram denunciados pelo GTNM/MG, mas sequer foram in- vestigados,
pois o CRM/MG arquivou a denúncia.
Foi encontrado no arquivo do antigo DOPS/SP, um relatório sobre sua vida
pregressa oriundo da Delegacia Regional-Guanaba- ra-Serviço de Ordem
Política e Social, datado de 8 de novembro de 1968, com uma anotação a caneta
“suicidou-se no DOPS/BH”.

Fonte: Movimento Tortura Nunca Mais.



275
Juarez-Juarez Guimarães de Brito

Dirigente da VANGUARDA POPULAR REVOLUCIONÁRIA (VPR).


Nasceu, em 22 de janeiro de 1938, em Belo Horizonte, filho caçula de
Amélia Guimarães de Brito e do engenheiro Jayme Fe- rreira de Brito.
Ao lado de seus irmãos mais velhos, teve uma infância alegre. Seu primeiro
sobrinho nasceu antes que ele fosse alfabetizado, e seus irmãos brincavam com
ele, chamando-o de titio analfabeto. Passou parte dessa meninice, vivendo no
que ele costumava cha- mar de paraíso, uma estação experimental de
fruticultura, sob a direção de seu pai, então Secretário de Agricultura do Estado
do Maranhão.
De volta a Belo Horizonte, Juarez estudou no Colégio Batista e,
posteriormente, ingressou na UFMG, na Faculdade de Ciências Econômicas,
onde se formou em 1962, nos cursos de Sociologia e Política e Administração
Pública.
N aquela época, alternava os estudos com as atividades po- líticas e com a
paixão pelo cinema. Era freqüentador assíduo do Cineclube do Colégio Arnaldo.
Membro da Juventude Trabalhista do PTB de Minas Gerais, trabalhou
principalmente junto aos sindicatos, assessorando e or- ganizando cursos de
história e oratória. Como militante da PO- LOP participou de todas as lutas da
época: da greve dos mineiros de Nova Lima contra a Hanna Corporation,
movimentos da Liga Camponesa de Três Marias, entre tantas outras.
Casou-se em 1962 com sua primeira namorada, Maria do Carmo.
Depois de formado, o eixo de sua vida passou a ser a atividade política. Em
1963, foi trabalhar em Goiás, como assessor e pro- fessor da Universidade
Federal. Em 1964, mudou-se para Recife, onde exerceu funções na SUDENE.
Após o golpe de 64, foi preso e passou 5 meses na prisão. Ao ser libertado,
transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde continuou a trabalhar como sociólogo
e pesquisador.
Divergindo da orientação da POLOP, dela se afastou ao optar pela luta
armada como forma mais adequada à resistência ao golpe militar naquele
momento, passando a fazer parte do COLI,NA.
Participou da criação da VAR/PALMARES e, após sua divisão, permaneceu
como militante da VPR.
No dia 18 de abril de 1970, quando o carro que dirigia foi cercado, Juarez
cumpriu um pacto que tinha com sua companheira e deu um tiro no próprio
ouvido. Embora tenha sido atingido tam- bém pelos policiais, o tiro letal foi

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disparado por ele mesmo.
Foi enterrado em Belo Horizonte por sua família.

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Onofre - Onofre Pinto


Dirigente da VANGUARDA POPULAR REVOLUCIONÁRIA (VPR).
Nasceu aos 26 de janeiro de 1937 em ]acupiranga, Estado de
São Paulo, filho de Júlio Rosário e de Maria Pinto Rosário.
Desaparecido aos 36 anos. Ex-sargento do Exército Brasileiro. Seu
prontuário nos arquivos do antigo DOPS/SP registra que Onofre teve seus
direitos políticos cassados pelo Ato Institucional nOl e sua prisão preventiva
decretada, em 8 de outubro de 1964, pela 2a Auditoria de Guerra de São Paulo,
por sua participação no “Movimento dos Sargentos”.
Foi indiciado em IPM instaurado pela 2a Auditoria da 2a RM em 2 de
fevereiro de 1966.
Foi preso no dia 2 de março de 1969 por elementos do DOPS e da 2a Cia-PE.
Foi banido do Brasil em setembro de 1969, quando do seqües- tro do
embaixador americano no País, e viajou para o México com outros 14 presos
políticos.
Ainda dos registros policiais consta que, “Infor- mação do II Exército de
29/01/70, esclarece que Onofre Pinto ... teria a in- tenção de retornar ao
Brasil... em princípios de fevereiro de 1970”. E completa os dados:
“O Ministério do Exército nos cientificou que provavelmente o marginado
encontrar-se-ia no Chile.” Mais adiante, outras infor- mações ratificam o quanto
se encontrava “cercado”pelos policiais:
‘’A CIOP, em 2/7/73, nos cientificou o seguinte: ‘A carteira de identidade
de Francisco Wilton Fernandes, emitida pelo Institu- to Nacional de
Identificação do Departamento de Policia Federal, Brasília, em 17/05/73, RG nº
104.947, estaria de posse de um apa- relho de subversivos brasileiros em
Santiago do Chile. Segundo o informante, a referida carteira deverá ter a
fotografia substituída pela de Onofre Pinto.’” “O Ministério da Aeronáutica, em
1/8/73 nos cientificou que o ex-sargento do Exército Onofre Pinto ... re- side em
Santiago do Chile no se- guinte endereço ... “ “Relatório de Plantão de 29/6/74,
nos cientifica que através do Rádio nO 3749, proveni- ente da DPF, fomos
solicitados a observar os indiví- duos Onofre Pinto e Daniel José de Carvalho,
que se dirigem para São Paulo, procedentes do Uruguai ... “
Desapareceu em julho de 1974, quando tentava entrar clandestinamente
no Brasil com um grupo de banidos.

278
Carlos - Wellington Moreira Diniz

Nascido em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 10/03/1947, iniciou sua vida


política no Movimento Estudantil, através do “Grêmio Estudantil da Escola
Técnica” como 1º Secretário da União Mineira do Estudante Técnico Industrial.
Fez parte da AP, POLOP, V AR- PALMARES, VPR. Técnico em Máquinas e
Motores, formado na Escola Técnica Federal MG. Cursou até o segundo ano de
Sociologia pela UFMG, e segundo ano de História na FAFIBH.
Foi preso em setembro de 1968 por subversão e apoio a greve dos
metalúrgicos, no “120 Regimento de Infantaria do Exército.” Fez greve de fome
nos presídios masculino e feminino, em novem- bro, exi- gindo a liberdade após
a morte do pai.
Solto em 12 de dezembro de 1968, entra na clan- destinidade. Participou
de inúmeras ações e foi preso em abril de 1970 pelo
Doi Codi, no tiroteio do Largo do Ma- chado.
Em 1971, foi libertado na troca do Embaixador Suiço. Esteve exilado até a
anistia em 1979, no Chile, México e Itália. Participou da guerra para a
independência de Angola.
Atualmente, exerce os cargos: Diretor e Profes- sor na Clínica “Tai-Ji
Terapias Orientais”, Professor da “Escola Paulista de Te- rapias”, Acupunturista
do Hos- pital Espírita André Luiz; Presi- dente do Sindicato dos Acupunturistas
e Massoterapeutas de BH SIMOR.

Fonte: O próprio


279
Liszt / Rodolfo - Liszt Benjamin Vieira

Liszt Vieira já era advogado e, na época, estudante de Ciências Sociais,


quando sua geração foi colhida pelo impacto do Ato lnsti- tucional no. 5, em
dezembro de 1968. Participante ativo do movi- mento estudantil que explodiu
no Brasil e no mundo, nos idos de
68, assumiu a continuidade das lutas pela redemocratização do país
participando da luta armada contra a ditadura militar.
Foi preso, torturado e banido do Brasil em junho de 1970, trocado, com
outros companheiros, pela liberdade do embaixador alemão que havia sido
sequestrado no Rio de Janeiro um mês antes.
Morou na Argélia, Cuba, Chile, Argentina e França.
Viveu dez anos no exílio, sendo os cinco últimos na França, onde concluiu
na Universidade de Paris um mestrado em ciências sociais.
Pioneiro da ecologia política no Brasil, foi eleito deputado pelo PT- RJ em
1982. Dedicou-se nos anos 80 à atividade política parlamentar e aos
movimentos sociais, havendo participado dire- tamente da Campanha das
Diretas Já, dos debates sobre a Consti- tuinte em 1988, da campanha
presidencial de 1989.
Nos anos 90, foi coordenador do Fórum Global da Con- ferência Rio-92, do
Fórum Brasileiro e do Fórum Internacional de ONGs, de 1991 a 1995.
Atualmente é professor de Sociologia na PUC-Rio e professor de
PolíticaAmbiental na Universidade Federal Fluminense - UFF. É doutor em
Sociologia pelo IUPERj. É divorciado e pai de três filhos.
Escreveu inúmeros artigos para livros e revistas. É autor dos seguintes
livros: Cidadania e Globalização (1997), Os Argonautas
da Cidadania (2001); na área arnbiental, publicou Fragmentos de
um Discurso Ecológico (1990), Ecologia:
Direito do Cidadão (1993) e Cidadania e Política Ambiental
(1998), os dois últimos como co-autor.

Fonte: O próprio.


280
Carlos - Wellington Moreira
Diniz


Nascido em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 10/03/1947, iniciou sua vida
política no Movimento Estudantil, através do “Grêmio Estudantil da Escola
Técnica” como 1º Secretário da União Mineira do Estudante Técnico Industrial.
Fez parte da AP, POLOP, V AR- PALMARES, VPR. Técnico em Máquinas e
Motores, formado na Escola Técnica Federal MG. Cursou até o segundo ano de
Sociologia pela UFMG, e segundo ano de História na FAFIBH.
Foi preso em setembro de 1968 por subversão e apoio a greve dos
metalúrgicos, no “120 Regimento de Infantaria do Exército.” Fez greve de fome
nos presídios masculino e feminino, em novem- bro, exi- gindo a liberdade após
a morte do pai.
Solto em 12 de dezembro de 1968, entra na clan- destinidade. Participou
de inúmeras ações e foi preso em abril de 1970 pelo
Doi Codi, no tiroteio do Largo do Ma- chado.
Em 1971, foi libertado na troca do Embaixador Suiço. Esteve exilado até a
anistia em 1979, no Chile, México e Itália. Participou da guerra para a
independência de Angola.
Atualmente, exerce os cargos: Diretor e Professor na Clínica “Tai-Ji
Terapias Orientais”, Professor da “Escola Paulista de Te- rapias”, Acupunturista
do Hos- pital Espírita André Luiz; Presi- dente do Sindicato dos Acupunturistas
e Massoterapeutas de BH SIMOR.

Fonte: O próprio









Glossário:
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Carlos (Wellington Diniz Moreira).
César Vallejo: Poeta peruano.
Chabuca Grande: Compositor e intérprete peruano. Fausto/Luiz
(Fausto Machado Freire).
João: Juarez Guimarães de Brito. Liszt/Rodolfo: Liszt Bejamim
Vieira. Moacyr: João Lucas Alves.
Sílvio Rodrigues: Compositor e intérprete. Um dos
fundadores da Nova Trova cubana.

COLINA: Comando de Libertação Nacional. DEOPS: Departamento
(Estadual) de Ordem Pública e Social. Orgão da Repressão Política
a cargo da Política Cívil. IAPTEC: Conjunto habitacional dos
aposentados em Irajá. POLOP: Política Operária.
VAR-PALMARES: Vanguarda Armada Revolucionária -Palmares.
VPR: Vanguarda Popular Revolucionária.


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