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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

Mestrado em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável

Yara Landre Marques

METROPOLIZAÇÃO: por uma abordagem além do território

Belo Horizonte, MG
2013
Yara Landre Marques

METROPOLIZAÇÃO: por uma abordagem além do território

Dissertação apresentada ao curso de


Mestrado em Ambiente Construído e
Patrimônio Sustentável da Universidade
Federal de Minas Gerais, como requisito
parcial à obtenção do título de Mestre em
Ambiente Construído e Patrimônio
Sustentável.
Orientador: Prof. Dr. Leonardo Barci
Castriota

Belo Horizonte, MG
2013
FICHA CATALOGRÁFICA

M357m Marques, Yara Landre.


Metropolização [manuscrito] : por uma abordagem além do território /
Yara Landre Marques. - 2013.
178 f. : il.

Orientador: Leonardo Barci Castriota.

Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais,


Escola de Arquitetura.

1. Regiões metropolitanas – Teses. 2. Belo Horizonte, Região


Metropolitana de (MG) - Teses. 3. Urbanização - Teses. 4. Espaço
urbano - Teses. 5. Crescimento urbano – Teses. I. Castriota,
Leonardo Barci. II. Universidade Federal de Minas Gerais. Escola de
Arquitetura. III. Título.

CDD 307.764

Ficha catalográfica: Biblioteca Raffaello Berti, Escola de Arquitetura/UFMG


À minha querida amiga e
professora Lourdinha Dolabela Pereira,
que nos deixou muito cedo e cuja
ausência se faz sentir sempre. À ela que
foi a juventude sempre, fica o carinho e
minha saudade.
AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente ao meu pai e minha mamãe, que me ensinaram a


sair e ver o mundo e sempre ofereceram o suporte para voltar em segurança.
Agradeço à minha irmã Jussara, uma companheira na viagem pelos livros e pela
arte; ao meu irmão Paulo por seu carinho e seleções inusitadas de músicas, que me
permitiram perceber a alteridade.
Agradeço à minha filha Isabel, que tem sido uma alegria única e com quem
tenho aprendido muito, todos os dias.
Agradeço ao Manoel Teixeira Azevedo Junior, que tem sido sempre um farol,
mesmo quando não enxergo nada.
Agradeço ao Diego Filipe Cordeiro Alves, Leandro de Aguiar e Souza, Glauco
José de Matos Umbelino e Rondineli José Carvalho Fernandes, amigos e
companheiros de trabalho que estiveram presentes e muito contribuíram que esse
trabalho começasse e pudesse ser concluído.
Agradeço à querida Renata Lacerda Gontijo pela a paciência em formatar
esse trabalho.
Agradeço ao meu grande amigo Paulo André Barros Mendes, pela paciência
de discutir comigo cada trecho desse trabalho.
Agradeço ao meu amigo Edésio Fernandes, que tem sido um companheiro
inestimável desde o início de minha jornada profissional.
Agradeço à minha amiga Hélvia Vorcaro, que esteve sempre presente no meu
caminho por essas ideias.
Agradeço ao meu incansável amigo Louis L.A., cuja presença sempre foi uma
alegria.
Agradeço aos meus companheiros de PLAMBEL, pela longa viagem que
fizemos juntos e por tudo que essa viagem enriqueceu minha vida. Esse trabalho é
um pequeno e modesto agradecimento a eles.
Agradeço ao meu orientador Leonardo Barci Castriota, amigo e um modelo de
pensador que sempre me incentivou e levou a buscar mais e achar que há sempre
mais à frente.
Agradeço aos professores do MACPS, e em particular à professora Eleonora
Sad de Assis.
Agradeço à Arlete Arlete Soares de Oliveira e Victoria M. de León, que foram
inestimáveis na secretaria de MACPS.
Agradeço aos meus colegas de curso, muitas delas pessoas novas em minha
vida, mas que certamente a marcaram.
Agradeço à Nani, que muito se ocupou do cotidiano da casa quando eu não
pude fazê-lo.
A muitos mais eu teria de agradecer, mas a lista seria extensa e talvez eu não
conseguisse lembrar-me de todos.
A cidade é moderna. Dizia o cego a seu filho. Os olhos cheios de terra. O
bonde fora dos trilhos. (NASCIMENTO, 1975).
RESUMO

O presente trabalho aborda a questão das regiões metropolitanas, principalmente


em suas configurações espaciais a partir de seu modo de produção e a evolução
que suas estruturas urbanas tiveram diante das mudanças da organização
produtiva. A temática é desenvolvida a partir do estudo de caso da Região
Metropolitana de Belo Horizonte, com foco no desenvolvimento do vetor sul dessa
região e da Região do Alto do Paraopeba, ligado aos novos processos da produção
flexível e que vem apresentando grande vinculação da Região do Alto Paraopeba à
Região Metropolitana de Belo Horizonte, de maneira que não pode mais se distinguir
os processos de metropolização entre os dois espaços. Esse processo nos leva a
pensar que os atuais conceitos utilizados para a instituição e gestão da RMBH estão
superados e dificultam não só o planejamento, como também a gestão democrática
do espaço metropolitano, institucionalmente denominados Regiões metropolitanas.

Foi feita uma abordagem dos conceitos de espaço, território e metropolização entre
outros para dar suporte às análises, em seguida foi traçada uma evolução da
questão metropolitana no Brasil, principalmente da década de 1930 até os dias de
hoje, onde os eventos da ditadura militar e da Constituição de 1988 são dois
momentos de inflexão na abordagem da temática metropolitana no Brasil.

A criação e desenvolvimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte é outro


aspecto desenvolvido ao longo do trabalho, que permite compreender como a
questão metropolitana foi institucionalizada, quais são seus atores públicos e
privados, como foi gerida, seus conflitos e o espaço resultante a partir daí.

Conclui-se, a partir da analise da relação entre a RMBH e o desenvolvimento da


região do Alto Paraopeba, que os processos metropolitanos ganharam novas formas
urbanas e que sua institucionalização e gestão carecem de revisão para se torne
efetiva a participação da população nos processos de tomada de decisões no que
concerne à matéria, bem como para o planejamento metropolitano.

Palavras-chave: Metropolização. Novas configurações das regiões metropolitanas


RMBH. Crescimento da RMBH.
ABSTRACT

This current work deal with the issue of metropolitan areas, especially in their space
configurations from their way of production and the evolution that have faced with the
changes of the productive organization. The thematic is developed from the case
report in the metropolitan region of Belo Horizonte, with focus on development in
south area and the region of Alto Paraopeba, connected with the new process of the
flexible production, that have been linking the Alto Paraopeba region with
metropolitan area of Belo Horizonte, in such way that couldn't no longer distinguish
the metropolization processes between the two spaces. This process made us think
that the current concepts used for the institution and management of this
metropolitan area are overcome and get hard planning the democratic management
of the metropolitan space, called institutionally Metropolitan Regions.

An approach was made about the concepts of space, territory and metropolization
among others to give support to the analysis. After was traced an evolution of
metropolitan issue in Brazil, first from the 1930's to nowadays, where the events in
the military dictatorship and the 1988 Constitution are both moments of inflection in
discussing about the metropolitan thematic in Brazil. The creation and development
of the Metropolitan Region of Belo Horizonte is another aspect developed throughout
the work, which allow to understand how the metropolitan issue was institutionalized,
what are your public and private agents and how was managed their conflicts and
space resulting from there.

The conclusion from this analyze of the relationship between Metropolitan Region of
Belo Horizonte and development of the Region of Alto Paraopeba, is that these
metropolitan processes gained new urban forms and their institutionalization and
management need to be revised to become effective public participation in decision-
making processes, with regard to this matter and metropolitan planning.

Keywords: Metropolization. New settings in metropolitan areas RMBH. Growth


RMBH.
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Mapa de Inserção Regional da Área de Estudo ........................................ 22

Figura 2 - Fluxograma das etapas de trabalho .......................................................... 39

Figura 3 - Organograma do Plano Metropolitano de Belo Horizonte - PLAMBEL -


Proposta Técnica ...................................................................................................... 60

Figura 4 - Agregação de municípios à RMBH 1974/2002. ........................................ 65

Figura 5 - Agregação de municípios à RMBH em 1974 ............................................ 66

Figura 6 - Agregação de municípios à RMBH em 1988 ............................................ 67

Figura 7 - Agregação de municípios à RMBH em 1993 ............................................ 68

Figura 8 - Agregação de municípios à RMBH em 1997 ............................................ 69

Figura 9 - Agregação de municípios à RMBH em 2000 ............................................ 70

Figura 10 - Agregação de municípios à RMBH em 2002 .......................................... 71

Figura 11 - Aglomerado metropolitano 1984 ............................................................. 72

Figura 12 - Mancha urbana da RMBH mapeada em 1991, 2000 e 2010 .................. 82

Figura 13 - Modelo digital de Elevação - APA Sul RMBH ....................................... 100

Figura 14 - Mapa atual da RMBH ............................................................................ 103

Figura 15 - Mapa de Inserção Regional da Área de Estudo .................................... 118

Figura 17 - Malha Ferroviária Atual ......................................................................... 123

Figura 18 - Mapa Malha Viária e Ferroviária da Área de Estudo............................. 124

Figura 19 - Mapa Vetor Sul ..................................................................................... 126

Figura 21 - Mapa do Quadrilátero Ferrífero ............................................................. 129

Figura 22 - Mapa Interseção da Área de Estudo com o Quadrilátero Ferrífero ....... 133
Figura 23 - Mapa de intensidade de emissão de luz - 1995 .................................... 148

Figura 24 - Mapa de intensidade de emissão de luz - 2000 .................................... 149

Figura 25 - Mapa de intensidade de emissão de luz - 2005 .................................... 150

Figura 26 - Mapa de intensidade de emissão de luz - 2010 .................................... 151


LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Dados Econômicos e Demográficos da RMBH 2000-2010 ...................... 64

Tabela 2 - Evolução da População da Região Metropolitana de Belo Horizonte -


1940-2000 ................................................................................................................. 79

Tabela 3 - Evolução da população da RMBH (1950-1996) ....................................... 80

Tabela 4 - População e Taxa de Crescimento Geométrico da RMBH no período


1970-2000 ................................................................................................................. 83

Tabela 5 - Tabela de domicílios por situação da RMBH 2000/2010 e dos municípios


do Vetor Sul e de BH ............................................................................................... 120

Tabela 6 - Tabela PIB – MG – 1999 e 2010 ........................................................... 122

Tabela 7 - Tabela municípios do CODAP e do Vetor Sul com população urbana e


população rural........................................................................................................ 127

Tabela 8 - PIB Total e PIB per capita nos municípios do CODAP (2009) ............... 134

Tabela 9 - Valor Adicionado da indústria a preços recorrentes nos municípios do


CODAP ................................................................................................................... 134
LISTA DE SIGLAS

ADAMS - Aspectos Demográficos e Ambientais da Demanda Social

ADE - Área de Diretrizes Especiais

AID - Área de Influencia Direta

AMBEL - Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Belém

ANPUR - Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Planejamento


Urbano e Regional

APA - Área de Proteção Ambiental

APA-SUL - Área de Proteção Ambiental da Região Sul

APE - Área de Proteção Especial

ASSCOM/SEDRU - Assessoria de Comunicação da Secretaria de Estado de


Desenvolvimento Regional e Política Urbana

TRANSBETIM - Empresa de Transporte e Trânsito de Betim

BH - Belo Horizonte

BHTRANS - Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte

BIRD - Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento

BNH - Banco Nacional da Habitação

BR-040 - Brasil 040

CAC - Complexos Ambientais Culturais

CDI MG - Companhia de Distritos Industriais de Minas Gerais

CEAT - Cultura, Educação, Segurança Alimentar, Trabalho e Renda

CEDEPLAR - Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional de Minas Gerais


Cia - Companhia

CIPLAG - Capacidade Institucional de Planejamento e Gestão

CNDU - Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano

CNPQ - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

CNPU - Comissão Nacional de Regiões Metropolitanas e Política Urbana

CODAP - Consórcio Público para o Desenvolvimento do Alto do Paraopeba

COMITECO - Companhia Mineira de Terrenos e Construções

CSN - Companhia Siderúrgica Nacional

CSP - Companhia Siderúrgica do Pecém

CSU - Companhia Siderúrgica UBU

DER/MG - Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais

EBTU - Empresa Brasileira de Transportes Urbanos

EBTU - Empresa Brasileira dos Transportes Urbanos

EIA/RIMA - Estudo de Impacto Ambiental /Relatório de Impacto Ambiental

EME - Esquema Metropolitano de Estruturas

ERSA - Estanho de Rondônia S.A.

ETC - Estrutura Produtiva, Conhecimento, Tecnologia

FACE - Faculdade de Ciências Econômicas

FAPERJ - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro.

FDM - Fundo de Desenvolvimento Metropolitano

FGV - Fundação Getúlio Vargas


FIAT - Fabbrica Italiana Automobili Torino

GEE - Gases de Efeito Estufa

GEGRAN - Grupo Executivo da Grande São Paulo

GEOUSP - Revista de Geografia da Universidade de São Paulo

GERM - Grupo Executivo da Região Metropolitana

GRANBEL - Associação dos 34 Municípios da Região Metropolitana de Belo


Horizonte

HUCITEC - Humanismo, Ciência e Tecnologia

HVQ - Habitação, Vida Cotidiana e Qualidade de Vida

IAB - Instituto de Arquitetos do Brasileiro

IBAM - Instituto Brasileiro de Assistência aos Municípios

IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

IGA - Instituto de Geociências Aplicadas

IGC - Instituto de Geociências

INCM - Imprensa Nacional-Casa da Moeda

IPASE - Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado

ISBN - International Standard Book Number

ISSN - International Standard Serial Number

Km - quilômetros

Ltda. - Limitada

LUOS - Lei de Uso e Ocupação do Solo

MCidades - Ministério das Cidades


MCT - Mobilidade Urbana, Comunicações, Transportes e Sistema Viário

MDL - Mecanismo de Desenvolvimento Limpo

METROBEL - Companhia de Transportes Urbanos da Região Metropolitana de Belo


Horizonte

MG - Minas Gerais

MG-030 - Minas Gerais 030

MOMTI - Modelo Metropolitano para o Transporte Integrado

MRS Logística S.A. - Malha Regional Sudeste da Rede Ferroviária Federal S. A

Namisa - Nacional Minérios S.A.

NGDC - National Geophisical Data Center

OCTG - Oil Country Tubular Goods

OEM - Bens de capital

ONGs - Organizações não governamentais

PACE - Plano de Circulação da Área Central de Belo Horizonte

PACOTT - Projeto de Ampliação da Capacidade Operacional do Transporte e do


Trânsito

PDDI - Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado

PDDI-RMBH - Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado da Região Metropolitana


de Belo Horizonte

PIB - Produto Interno Bruto

PLAMBEL - Planejamento da região metropolitana de belo horizonte

PMDI - Plano Mineiro de Desenvolvimento Integrado

PME - Programa de Mobilização Energética


POS - Plano de Uso do Solo

PRONEX - Programa de Apoio a Núcleos de Excelência

PTB - Parada de Trens de Betim

PUC - Pontifícia Universidade Católica

RIDE-DF - Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno

RIDES - Regiões Integradas de Desenvolvimento

RIVS - Risco Socioambiental, Vulnerabilidade Social e Segurança Pública

RJ - Rio de Janeiro

RM - Regiões Metropolitanas

RMBH - Região Metropolitana de Belo Horizonte

RPPN - Reservas Particulares do Patrimônio Natural

S.A. - Sociedade Anônima

SEPLAN - Secretaria de Estado de Planejamento e Orçamento

SERFHAU - Serviço Brasileiro Federal de Habitação e Urbanismo

SIDERBRAS - Siderúrgica Brasileira Ltda.

SMARHS - Saúde, Meio Ambiente, Recursos Hídricos e Saneamento

SMAU - Secretaria Municipal de Atividades Urbanas

SP - São Paulo

SSI - Subsistema

TRANSMETRO - Transportes Metropolitanos

UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais


USDEC - Uso do Solo, Dinâmica Imobiliária e Escalas de Centralidades
Metropolitanas

USIMINAS - Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais S.A.

V&M - Vallourec & Mannesmann Tubes do Brasil

VMFL - Vallourec & Mannesmann Florestal Ltda.

VSB - Vallourec & Sumitomo Tubos do Brasil

ZEIS - Zona Especial de Interesse Social


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO .................................................................................................. 20

2 O DESENVOLVIMENTO DA IDÉIA DE REGIÃO METROPOLITANA NO


BRASIL ........................................................................................................... 42

3 A RMBH: DESENVOLVIMENTO, ESTRUTURAÇÃO E


INSTITUCIONALIZAÇÃO ............................................................................... 53

4 O VETOR SUL DA RMBH E A REGIÃO DO ALTO PARAOPEBA ................. 117

5 CONCLUSÃO.................................................................................................. 154

REFERÊNCIAS .................................................................................................. 164

ANEXO A – ALGUMAS INDICAÇÕES PARA IDA AO CAMPO: EM BUSCA DE


ATITUDES E COMPORTAMENTOS PARA O CONHECIMENTO DO
URBANO....................................................................................................... 173

ANEXO B – MAPA 1 - 1º NÍVEL DE APROXIMAÇÃO ....................................... 176

ANEXO C – MAPA 2 - 2º NÍVEL DE APROXIMAÇÃO ....................................... 177

ANEXO D – MAPA 3 - 3º NÍVEL DE APROXIMAÇÃO ....................................... 178


20

1 INTRODUÇÃO

A temática metropolitana tem sido das mais presentes em nossos dias, na


maior parte das vezes relacionadas com nossas catástrofes cotidianas, pobreza,
violência, tráfego, poluição e outras mazelas mais, aliás todas verdadeiras. Em
outros momentos aparece como motivo de orgulho como "a maior cidade nisso ou
naquilo", a "cidade que nunca dorme", no ranking das cidades globais e outros que
tais.
O grande crescimento das metrópoles tem ganhado diversos nomes nos
estudos, "megacidades", "metrópoles expandidas", "metápolis", "exópolis" e outros
tantos, que serão abordados, ainda que brevemente, mais adiante. Essa pluralidade
de nomeações mostra o quanto o tema é importante e digno de referência.
Há uma grande corrida onde todas as cidades, ou quase todas, estão
inscritas para garantirem sua condição de "nó" na grande rede urbana tecida no
planeta. É claro que todos os inscritos querem subir ao Panteão com tecnologia
limpa ou de ponta, como se convencionou chamar. Este seria o paraíso em nossos
dias. Mas a metrópole das catástrofes quase não se mistura com aquela onde se
instala o paraíso.
Apesar de muito usados, o termo metrópole e região metropolitana não têm
suas definições muitas vezes postas, nem mesmo na produção acadêmica, de forma
a referir-se a uma situação particular dada, a uma região ou mesmo a uma cidade,
as abordagens, na maioria das vezes, são conceituais e por isso, genéricas, dado
que cabe a um conceito ser genérico. Isso não quer dizer que não há estudos sobre
regiões metropolitanas reais: todos responsáveis pela gestão de uma região com um
determinado conjunto de características que se designou metropolitana, tem de
definir seus parâmetros de identificação. A definição desses parâmetros é
fundamental para a gestão dessas situações. Essa definição e a gestão estão
vinculadas e isso nos parece relevante, e nosso tema se insere nessa injunção.
Pois bem, nossa intenção aqui é abordar o crescimento, não dizemos o
desenvolvimento de uma metrópole que não tem lugar no paraíso; trata-se de uma
metrópole que tem sua influência em escala nacional. Essa condição, embora não
tão brilhante assim, influencia o cotidiano de milhões de pessoas, como outras
metrópoles brasileiras, e é um tema que merece ser refletido.
21

No Brasil, o processo metropolitano está como que dividido em dois


momentos: a metrópole da ditadura e a metrópole da democracia. É fato que a o
metropolitano existiu nos tempos da ditadura e mesmo antes dela e também que foi
gerida e estudada naqueles momentos; é fato também que o metropolitano
subsistiu e está presente nos tempos mais democráticos, onde tem sido gerido e
estudado. Nos momentos de fim da ditadura e passagem para a democracia, o
metropolitano enquanto tema e gestão foi proscrito. Há, nesses momentos, uma
enorme lacuna nas reflexões sobre os espaços metropolitanos. Infelizmente os
produtores do espaço urbano não pararam nesse interregno, pelo contrário,
aproveitaram o imenso espaço desregulado que tinham diante de si e moldaram
inúmeras situações ao seu gosto.
No caso da RMBH, em particular, esse momento entre o fim do planejamento
centralizador da ditadura e a retomada recente das ações relativas à região
metropolitana deixou uma grande lacuna não só quanto à gestão, mas também da
produção de dados seriados. Nesse momento de um aparente vazio político em
relação à RMBH, foi quase que totalmente produzido o Vetor Sul da região dirigido
pelos agentes imobiliários e proprietários de grandes terrenos. O espaço formal aí
produzido é elitizado, e no seu conjunto, afeta de maneira negativa os recursos
naturais da região.
Longe dessa discussão tornada dual entre a metrópole da ditadura e a
democracia, creio que temos uma realidade urbana que se estabeleceu em países
com ditadura, como os da América Latina, como também em países democráticos
no mundo inteiro, quase me atrevo a dizer que com poucas diferenças.
A reflexão contida nesse trabalho busca identificar as novas configurações
espaciais da RMBH e diante da nossa realidade metropolitana, esse conhecimento
pode oferecer novos parâmetros para se pensar a gestão.
Dessa forma, o trabalho busca verificar se a RMBH em seu crescimento no
sentido sul (Vetor Sul) estaria caminhando para uma ampliação que incluiria a
Região do Alto Paraopeba (FIG.1), principalmente Conselheiro Lafaiete, Congonhas,
Ouro Branco, São Brás do Suaçuí e Jeceaba, todos eles municípios pertencentes ao
Alto Paraopeba. Outras possíveis configurações em relação aos demais vetores não
foram abordadas no presente, já que o vetor abordado seria emblemático da
situação a ser observada.
22

Figura 1 - Mapa de Inserção Regional da Área de Estudo

Fonte: Elaboração própria com dados extraídos da Malha de Limites Municipais – IBGE
23

Essa nova configuração implicaria na necessidade de uma nova abordagem


conceitual de região metropolitana em Minas Gerais e possivelmente de uma nova
delimitação.
A análise aqui desenvolvida trata do caso do desenvolvimento do Vetor Sul e
seu embricamento com a região do Alto Paraopeba, todavia, o crescimento da
RMBH tem se dado de maneira similar e enfática em direção à outras regiões, essas
pertencentes ao colar metropolitano, como a região de Sete Lagoas. A abrangência
do fenômeno de expansão da RMBH, com certeza, leva à reflexão sobre a
necessidade de mudança dos limites atuais e de novos parâmetros para a aferição
do processo de metropolização.
A institucionalização das regiões metropolitanas no Brasil é extremamente
inadequada, baseada nos conceitos de "função pública de interesse metropolitano",
como veremos no capítulo I desse trabalho, e os processos de gestão democrática
podem ser chamados de recentes e por isso sem possibilidades uma avaliação mais
sólida.
Milton Santos observou, diversas vezes, que o espaço é anterior ao território,
essas observações do mestre foram tomadas como uma orientação a ser seguida.
Dessa forma, nosso objetivo principal é apreender as novas dinâmicas
espaciais da Região Metropolitana de Belo Horizonte e avaliar a adequação das
atuais definições de Região Metropolitana e institucionalização em Minas Gerais,
frente aos novos processos de espacialização. Para tal, nossa opção foi avaliar as
condições das novas espacializações à luz dos chamados processos flexíveis.
O debate acerca da diversidade de nomes dados aos processos que
envolvem as metrópoles, como também as indagações tais como sobre se a
modernidade acabou ou não, e ainda, se pós- modernidade seria uma denominação
adequada não foram contemplados nesse trabalho e se constituiria em temática
interessante para outros trabalhos.
Há inúmeros estudiosos voltados a esses temas específicos e a eles fica
debitado o avanço na matéria. No trabalho foi adotada a expressão "espaço da
produção flexível", que é adequada para o processo que abordamos, sem entrar em
outras discussões importantes, mas que nos afastariam do eixo do tema analisado,
Para o desenvolvimento do trabalho, elencamos uma bibliografia básica
trabalho sem a intenção de fazer uma revisão exaustiva da bibliografia disponível
24

sobre o tema, que vão desde autores muito conhecidos até autores novos que vem
desenvolvendo reflexões importantes nessa área de interesse. Os autores aqui
apresentados que foram nosso ponto de partida das abordagens feitas. Outros
autores foram consultados e citados, mas os que elencados nesse momento foram
suporte para o desenvolvimento das ideias apresentadas nas nossas reflexões.
A temática do espaço na era da produção pós-moderna é abordada de
maneira fundamental pelos autores David Havey com a obra A Condição Pós-
Moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural, Edward Soja, com
Thirdspace: journeys to Los Angeles and other real-and-imagined places e
Geografias pós-modernas: a reafirmação do espaço na teoria social e ainda Chales
Jencks, com a obra El lenguaje de la arquitectura postmoderna , que descreveram e
conceituaram essa questão de forma a se tornarem fundamentais para quaisquer
abordagem futura da temática.
Da mesma forma, na abordagem do fenômeno urbano toda a obra de Henri
Lefebvre, em particular a obra Espaço e Política e as de Milton Santos, em especial,
as obras: Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico-
informacional, A Urbanização Brasileira e A natureza do espaço: técnica e tempo,
razão e emoção e O retorno do Território estão na base das nossas formulações
acerca do tema.
As novas configurações dos espaços urbanos á partir da produção flexível
tem em François Ascher, com a obra Metápolis: acerca do futuro da cidade, uma
reflexão da maior importância, assim como Saskia Sassen, com As cidades na
economia mundial.
A questão da territorialidade, sob o nosso ponto de vista tem em Rogério
Haesbaert um autor da maior relevância, principalmente nas obras, Território e
Multiterritorialidade: Um Debate e no pequeno e denso texto da Conferência: Dos
Múltiplos territórios à Multiterritorialidade.
Também as obras de Milton Santos citadas acima são importantes na
abordagem da questão da territorialidade.
Do ponto de vista da situação jurídica e institucional a obra do professor
Edésio Fernandes, é fundamental, em particular Direito urbanístico e política urbana
no Brasil, coletânea organizada pelo autor.
25

Elencamos também aqui Lewis Mumford, principalmente com sua obra A


cultura da Cidade, de 1930, pois nos parece que do ponto de vista ambiental é uma
contribuição importante.
Estas obras são aqui destacadas entre tantas produzidas por esses autores
no sentido de objetivar nossa discussão, no entanto o conjunto da obra de cada um
desses autores poderia estar igualmente citado, pois em cada uma delas há uma
importante contribuição para o pensamento do espaço urbano.
A abordagem sobre a questão subdesenvolvimento e sua espacialização tem
em Carlos Brandão, uma contribuição importante através de seu estudo: A dimensão
espacial do subdesenvolvimento: uma agenda para os estudos urbanos e regionais.
Tese de livre docência. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2003.
As regiões metropolitanas brasileiras têm sido objeto de vasta produção
bibliográfica nos tempos mais recentes, talvez por ter sido o tema anteriormente
ofuscado por aqueles ensejados pelo Estatuto da Cidade, Lei Federal nº 10.257 e
atualmente, diante da necessidade de se lidar com a situação metropolitana, o tema
volta à pauta com vigor.
É importante observar que a temática metropolitana tal como posta até então
foi abordada, apenas de forma ligeira, na Constituição Federal de 1988 e nem
mesmo no Estatuto da Cidade ela mereceu destaque, talvez por se supor que a
questão metropolitana e, por conseguinte, sua gestão viessem a se contrapor à
autonomia municipal muito prezada nesses processos. Há também uma vasta
literatura que aborda a autonomia municipal, sem, contudo, apresentar alguma
avaliação das questões metropolitanas.
A temática das regiões metropolitanas, principalmente as do Estado de São
Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais, foram objeto de reflexões
importantes. O Observatório das Metrópoles (2004, 2010) elaborou, em 2004, um
estudo, a pedido do Ministério das Cidades, com a finalidade de contribuir para a
definição de uma política para as RM.
Além disso, Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Orlando Alves dos Santos Junior
já haviam organizado em 1994 importante coletânea de artigos sob o título de
Globalização, fragmentação e reforma urbana: o futuro das cidades brasileiras na
crise. Essa publicação reúne várias abordagens que, com certeza estão no cerne do
pensamento desenvolvido sob o tema. Entre os trabalhos presentes nessa
26

publicação destacamos o artigo de Hermínia Maricato, Reforma urbana: limites e


possibilidades de uma trajetória incompleta, que naquele momento já delineia alguns
importantes conflitos da questão metropolitana pós-constituição.
Em tempos mais recentes e, a consolidação do Plano Diretor Metropolitano,
promovido pela Agencia Metropolitana de Belo Horizonte, sob a Coordenação Geral
de Roberto Luís de Melo Monte-Mór (CEDEPLAR-FACE-UFMG) traz
importantíssimo material bibliográfico.
Mesmo anteriormente ao Plano Diretor da RMBH, Roberto Luís de Melo
Monte-Mór, já se constituía num autor fundamental para a compreensão da questão
urbana em Minas Gerais e no Brasil. Entre seus trabalhos destacamos duas
importantes publicações sobre a temática: Novas espacialidades na urbanização
brasileira e Urbanização extensiva e lógicas de povoamento: um olhar ambiental..
Na primeira o autor discute de maneira muito apropriada as novas espacializações
brasileiras, que nos anos seguintes vieram a confirmar-se; na segunda, o olhar
ambiental é introduzido referindo-se às novas formas de urbanização extensiva,
quando essa temática começava a ser articulada.
Jeröen Klin, no estudo para o CEDEPLAR sobre Gestão do espaço urbano
(Governança colaborativa para a mobilização dos territórios. Elementos para uma
agenda metropolitana) apresenta uma abordagem sobre a participação e
mobilização popular que nos parece importante para a visão da situação atual da
RMBH.
A equipe mineira do Observatório das Metrópoles produziu uma publicação
importante sobre espaço metropolitano organizada por Jupira Gomes Mendonça e
Maria Helena Godinho: População, espaço e gestão na metrópole: novas
configurações, velhas desigualdades.
Quanto ao Eixo Sul da RMBH, também incluído na nossa temática, a
publicação organizada por Heloisa Soares Costa: Novas Periferias Metropolitanas –
A expansão metropolitana em Belo Horizonte: dinâmicas e especificidades do Eixo
Sul contém contribuições importantes sobre a questão, uma vez que reúne vasto e
variado material sobre a expansão do Vetor Sul da RMBH, constituindo-se em
referência sobre a matéria.
Seguindo a mesma abordagem da referência acima citada, o trabalho de
Mônica Campolina Diniz Peixoto, Licenciamento ambiental e expansão urbana: um
27

estudo em Nova Lima, Região Metropolitana de Belo Horizonte, ofereceu


importantes pontos para a discussão do Vetor Sul da RMBH.
O Instituto de Geociências da UFMG (IGC) tem conduzido diversos trabalhos
de avaliação do processo de planejamento da RMBH. Entre os autores destacamos,
Geraldo Magela Costa, principalmente com a Produção do espaço metropolitano em
Belo Horizonte, Brasil: revisitando a economia política da urbanização, inserido nos
projetos de pesquisa do CNPQ "Políticas públicas, planejamento e gestão urbanos
no ambiente metropolitano: estudos sobre a RMBH” e “A produção do espaço na
metrópole de Belo Horizonte: grandes empreendimentos, planejamento e políticas
públicas”, iniciado no 1º trimestre de 2009.
O trabalho de Sérgio de Azevedo e Virgínia Rennó dos Mares Guia, O novo
arranjo institucional da Região Metropolitana de Belo Horizonte: avanços e desafios
e A gestão do transporte na Região Metropolitana de Belo Horizonte, também são
importante referência para o tema desenvolvido no nosso trabalho, já que os autores
são profundos conhecedores da questão metropolitana e seus desdobramentos.
Outros títulos dos mesmos autores são citados no desenvolvimento do trabalho.
O trabalho instigante José Moreira de Souza, traz uma contribuição
importante para o olhar que nos propusemos fazer sobre a RMBH, principalmente
pelo domínio do autor sobre a historiografia da RMBH e pela abordagem singular
com que Moreira discorre sobre os fatos, na maior parte vivenciados pelo próprio
autor.
A releitura dos antigos documentos produzidos pelo PLAMBEL e catalogados
pela Fundação João Pinheiro, nos deu um novo olhar sobre aqueles temas tratados
no início da institucionalização da RMBH.
Dois autores que discorrem sobre o PLAMBEL também nos ajudam nesse
novo olhar, o primeiro é Josadac F. Matos, com seu trabalho Aspectos Políticos e
Institucionalização da Administração Metropolitana no Brasil: O caso de Belo
Horizonte, e o segundo é João Bosco Moura Tonucci Filho, com: Dois momentos do
planejamento metropolitano em Belo Horizonte: um estudo das experiências do
PLAMBEL e do PDDI-RMBH. Matos é uma fonte importante acerca dos primeiros
momentos da RMBH e Tonucci lança um olhar do momento atual sobre a ação e
produção do PLAMBEL.
28

A região do Alto Paraopeba foi objeto do Plano de Desenvolvimento Regional


para o Alto do Paraopeba, produzido pelo Centro de Desenvolvimento e
Planejamento Regional (CEDEPLAR), da Faculdade de Ciências Econômicas (Face)
da UFMG, sob a coordenação de Ricardo Machado Ruiz e Alisson Barbieri Também
esse material é importante na compreensão do crescimento da região que Lafaiete,
que esse trabalho por nós proposto aborda.
A questão dos impactos da economia na configuração das regiões
metropolitanas tem sido um dos aspectos relevantes nestes estudos. Assim, os
trabalhos de Clélio Campolina Diniz, como o título Desenvolvimento poligonal no
Brasil: nem desconcentração, nem contínua polarização, são muito importantes na
compreensão da questão. Outros trabalhos de autoria de Diniz foram consultados, o
conjunto da obra do autor é importante para a compreensão dos processos
econômicos da nossa economia, embora esse citado tenha se constituído em
referência destacada.
Partindo dessa bibliografia de referência e do desenvolvimento de nossas
próprias elaborações, temos alguns pressupostos teóricos que se explicitados,
facilitarão o entendimento desse trabalho.
O primeiro se refere ao processo metropolitano, que nesse trabalho é
entendido como aquele em que o espaço urbano produzido, ultrapassa os limites
políticos e passa a conformar-se num único espaço comprometido com uma
dinâmica emanada a partir de um polo central e o conjunto de suas atividades. O
espaço comprometido não é necessariamente contínuo, mas vinculado ao processo
produtivo da centralidade metropolitana.
Muitos autores que tratam da questão metropolitana citam Lopes (2006)
nessa passagem, que se coaduna com a abordagem feita no nosso trabalho:

A especificidade do metropolitano decorre do fato de os elementos do


espaço (meio ecológico, infraestruturas, sujeitos sociais) guardarem uma
interdependência estreita, sistemática e cotidiana, manifesta de forma
concentrada em uma determinada fração do território que se encontra
fragmentado pela divisão político-administrativa vigente. (LOPES, 2006,
139).

O espaço urbano, e esse é um pressuposto para o desenvolvimento do


trabalho, é a mediação dos vários processos econômicos, sociais e culturais que o
formam.
29

Lefebvre (2008), por sua vez, afirma que a cidade é uma mediação entre uma
ordem próxima e uma ordem distante, onde a ordem próxima é aquela inscrita no
campo circundante que a cidade domina, e organiza, extraindo daí o sobretrabalho.
Ainda de acordo com esse autor, a ordem distante é aquela onde se inscreve a
sociedade escravagista, feudal, capitalista, e outros.
Pode-se considerar que o processo metropolitano, pelo menos na segunda
metade do século XX, foi ligado às necessidades de concentração territorial de
população visando à produção econômica, particularmente a industrial, nos moldes
então praticados.
Obedecendo a uma divisão internacional do trabalho, a qualidade dos
espaços gerados liga-se, de alguma forma, ao nível e à maneira com que
determinada região se insere na estrutura de produção internacional; daí surgiram
as metrópoles desenvolvidas, e aquelas em desenvolvimento, e as imensas
diferenças que as separam e que a retórica pode fazer parecer menores do que são.
O processo de urbanização que essa estratégia de concentração territorial e
populacional trouxe é irreversível e embora, hoje a concentração não seja mais fator
tão preponderante da metropolização e se busque mitigá-lo ou pelo menos estancá-
lo, seus efeitos sobre os outros espaços produtivos e ambientes também é
relevante. Dessa maneira, o processo urbano chega mesmo a imobilizar ou destruir
aquelas atividades estranhas ao seu processo produtivo, como é o caso das
atividades agrícolas no entorno das regiões metropolitanas. Sobre o seu próprio
território metropolitano, com raras exceções, os efeitos se traduzem em baixas
condições de habitabilidade, principalmente para vastas camadas das populações
pobres nos países periféricos.
Os espaços metropolitanos mundiais ficaram assim marcados, por um lado,
como espaço de poder e riqueza para poucas metrópoles, e, por outro, como espaço
de diferenças sociais e pobreza urbana para a maioria.
Cabe se observar que as estratégias de concentração territorial perderam sua
importância nos processos produtivos com a chamada produção pós-industrial ou
produção flexível, onde o emprego maciço, pela indústria, de mão-de-obra de baixa
qualificação, deu lugar aos processos de automação e emprego de mão-de-obra de
maior qualificação, alteração de vínculos de emprego em prol da terceirização e,
ainda, a fantástica emergência do setor de serviços que marca esse momento da
30

economia. Essa mudança na estrutura de produção tem grandes impactos nos


espaços metropolitanos, obsoletos em muitos de seus aspectos e objeto de pressão
em termos de novas qualidades, que comportem os chamados processos limpos.
Numa primeira reflexão, as novas condições levam a uma divisão cada vez
maior desses espaços nas mesmas velhas categorias de incluídos e excluídos. De
um lado temos a população pobre, muitas vezes expulsa do novo mercado de
trabalho, que permanece em periferias que se deslocam para frentes cada vez mais
distantes. Em contrapartida, a população mais rica e até mesmo atividades
econômicas, principalmente de serviços, saem das áreas centrais tradicionais e se
espraiam por um território, ainda assim metropolitano e cada vez mais amplo em
busca da apropriação das qualidades ambientais que sua sofisticação incorpora.
Tais qualidades ambientais são também os remanescentes de recursos naturais
que, dessa forma, são agora pressionados de uma maneira diferente daquela de
quando representavam somente insumos para a produção.
Os processos produtivos industriais, visando aumentar sua competitividade,
buscam sinergia em sua cadeia produtiva, o que faz com que os espaços ligados à
produção, desde a localização de comodities, insumos e fontes de energia, às linhas
de beneficiamento e transformação, estabelecem uma rede espacial num território
mais amplo que o das antigas regiões metropolitanas. Esses novos espaços
metropolitanos podem se constituir por sua expansão dispersa por territórios antes
não metropolitanos, no sentido clássico, ou, até mesmo, dar-se a partir da fusão de
espaços metropolitanos anteriormente considerados distintos.
Edward Soja (2000, p. 218) quanto aos novos processos urbanos, cita
Chambers (1990) quando diz que a metrópole pós-moderna emergente representa
um novo modo de vida contemporâneo, todavia marcado por continuidades
profundas com o passado. Na página 242, o autor diz que não podemos mais
chamar de dispersão à produção do espaço urbano atual e que estaríamos frente ao
espaço pós-metropolitano, que abarca escala regional. Essa ideia é muito
importante em nossas análises.
Na mesma obra, Soja (2000, p. 225) diz que a transição metropolitana pode
ser descrita como uma implosão ou uma explosão de grande alcance na escala da
cidade, que seria ao mesmo tempo de dentro para fora, como também de fora para
dentro.
31

A autora Regina Prosperi (2000) ensina na introdução de sua obra aqui


citada, que as novas configurações metropolitanas, não se constituem em
descontinuidade espacial ou um deslocamento temporal, elas apontam a presença
de um novo padrão urbano no qual a precariedade e a modernização surgem de
forma imbricada, superpondo-se e gerando um espaço próprio de um novo padrão
de urbanização que podemos designar como modernização precária.
As várias configurações espaciais que esses processos tomam têm levado os
autores a nomeá-los das mais diversas maneiras.
Regina Prosperi (2006, p. 40) diz que os muitos conceitos usados para se
referir a tal fenômenos revelam o esforço de se penetrar na reestruturação do
território em termos funcionais, econômicos, sociais e mesmo formais, que apontam
para novas dinâmicas que trazem consigo o enfraquecimento da cidade compacta,
que foi um dos principais objetivos do urbanismo. Esses diferentes pensamentos
convergem no interesse que as novas dinâmicas despertam.
Edward Soja (2000, p. 218) por seu turno, alerta que denominações de pós-
urbana, pós-industrial e pós-capitalista que são, no ponto de vista do autor, as mais
inadequadas, já que nem mesmo os novos processos de urbanização são
inteiramente novos. Nesse caso, para ele a pós-metrópolis pode ser considerada
como uma variação das questões vinculadas à reestruturação gerada pelas crises e
pelo desenvolvimento geo-historicamente desigual, que foram moldando (e
remodelando) os espaços urbanos desde o início capitalismo industrial e urbano.
Assim, a pós-metrópolis representa, em grande medida, a extensão do urbanismo
moderno e modernista, uma metamorfose ainda que parcial e incompleta, que
conterá sempre em si resíduos dos espaços urbanos anteriores.
Vários autores têm usado várias expressões para nomear o espaço urbano
correspondente à produção flexível, algumas delas serão a seguir discutidas.
Um dos principais termos que tem sido muito empregado para referir-se aos
grandes aglomerados metropolitanos tem sido Megalópole. O conceito foi
trabalhado, em 1961, pelo geógrafo francês Jean Gottman. O termo é usado na
abordagem das conurbações de várias metrópoles ou mesmo de regiões
metropolitanas. A maior megalópole do mundo seria então a faixa da costa norte-
americana que vai de Boston a Washington, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova
York.
32

Voltando a Soja (2000, p. 10) este cita os autores Allen Scott y David Harvey,
que deram uma nova descrição à industrialização capitalista tardía, descrevendo-a
como um período de transição do fordismo até um regime de acumulação flexível.
Soja emprega também, os termos de megacidade, galáxia metropolitana, pós-
metrópole, exópolis e metropolex, entre outros.
A pós-metrópolis é representada e estruturada regionalmente, como uma
Exópolis, uma nova forma urbana que desafia os estudos urbanos atuais, diz ainda
Soja (2000, p.228, grifos nossos).
Outra autora importante na descrição dos processos urbanos atuais é
François Ascher (1995, p.15-40) que propõe o termo metápole para descrever esse
tipo de situação urbana contemporânea.
Para Ascher (1995) "a metápole é um novo território, com um conjunto de
espaços onde todos ou parte dos habitantes, das atividades econômicas ou dos
territórios são integrados ao funcionamento cotidiano de uma metrópole [...]"
(ASCHER, 1995, p. 34). A metrópole pré-existente está na origem da metápole, que
se desenvolveria à partir da justaposição dos processos de metropolização e de
formação de um novo território urbano, com a conurbação extensa.
Avaliando o que Ascher chama de metapolização, poderíamos dizer que se
trata ainda da metropolização, ainda que ampliada ou extensiva, ou descontínua,
onde permanece a mesma lógica de formação da metrópole: atividades econômicas
ou territórios integrados num mesmo cotidiano.
No entanto, nossa opinião converge com a de Ascher no sentido de que
estamos na terceira fase da cidade, que agora liberta do pensamento funcionalista,
torna-se flexiexistencialista, absorvente e indiferente.
As diversas denominações das metrópoles em seu processo atual, na rede de
cidades mundiais, não serão aprofundadas por nós, embora esse seja um tema
atual e importante, mas foge do nosso eixo de abordagem no momento. Nosso
objetivo é observar o processo de espacialização atual da RMBH enquanto
metrópole em seu segundo momento de expansão, a sua hierarquia na rede de
megalópoles, ou qualquer outra denominação não traria grandes modificações aos
aspectos que pretendemos abordar, não obstante a importância de circunscrevê-la
na chamada escala global.
33

Saskia Sassen (1998, p.11), é outra autora importante no contexto atual de


identificação dos processos urbanos. A autora diz que vivemos numa era global em
que o "global" se manifesta horizontalmente e não por meio de sistemas de
interação verticais. A autora diz que a tendência é se ter o global como algo que
flutua lá em cima, entre países, numa mobilidade de caráter internacional. Nesse
caso, pensamos que existam interações verticais e horizontais como resultado
daquilo que chamamos globalização e também não pensamos exatamente em
países, mas em processos hegemônicos globais.
Regina Prosperi (2006, p.11) mostra suas preocupações para com as
abordagens teóricas de alguns profissionais que lidam com o processo urbano, para
ela, há uma tendência entre os sociólogos em estudar as cidades abordando a
ecologia das formas urbanas, a distribuição da população e os centros institucionais
ou focalizando as pessoas e os grupos sociais, os estilos de vida e os problemas
urbanos, porém, essas abordagens já não mais satisfazem.
Para essa autora, o planejamento que corresponde à nova realidade é o
chamado Planejamento Estratégico e nós não vemos que essa modalidade de
planejamento possa ser considerada adequada às nossas metrópoles. O nosso
processo de metropolização periférica não nos permite tratarmos apenas de ações
estratégicas, a dualidade em nossos espaços metropolitanos entre centro e periferia,
não poderia, acreditamos nós ser rompida apenas com o planejamento estratégico,
embora ações dessa natureza possam ser eficazes no curto prazo e em
determinadas partes do espaço metropolitano. (PROSPERI, 2006, grifos nossos).
Monica de Carvalho (2000, p.78) diz sobre o planejamento estratégico que
esse se inclui em um contexto teórico diferente do vivido pelo planejamento urbano
moderno, já que as críticas mais radicais que eram feitas fundavam-se em matrizes
vinculadas ao pensamento marxista que, hoje, de certa forma, vem sendo
escamoteado não só pela força com que se impôs o pensamento neoliberal, mas
também pelo próprio recuo teórico da esquerda nos debates de alternativas que
pretendam a superação das contradições entre a lógica da mercadoria e a lógica da
sociedade urbana.
Segundo Vainer (2000 apud CARVALHO, 2000, p. 80) "o planejamento
estratégico as suas ações têm conduzido a um processo de valorização do espaço
34

“requalificado” reproduzindo-o para a apropriação do capital e a consequente


levando á expulsão daqueles não podem pagar por essa mercadoria de luxo".
O autor Gustavo G. Machado (2007, p. 54) refere-se a um fator fundamental,
quando reflete que a questão metropolitana guarda relação organização territorial do
poder, já que o atributo principal, que a define, é exatamente o hiato existente entre
a organização do território na forma de municípios e a cidade-metrópole real que
extrapola esses limites institucionais. Esse descompasso, no Brasil, onde a figura
política do município foi reforçada na constituição de 1988, é de difícil superação,
mantidas as atuais condições. Nesse caso, se o município é território, o
metropolitano é processo.
O geógrafo Rogério Haesbaert discute a questão lembrando que Lefebvre se
refere sempre a espaço, e não a território. Na opinião do autor, é fácil perceber que
Lefebvre não aborda o espaço num sentido genérico e abstrato, muito menos fala de
um espaço natural-concreto, trata-se, na verdade, de um espaço-processo, um
espaço socialmente construído. (HAESBAERT, 2007, p. 21, grifo nosso)
Essa ideia de um espaço-processo é adequada para caracterizar o nosso
pensamento quanto ao espaço metropolitano e também às suas territorialidades.
Santos (2005, p. 1) aponta para o fato de que vivemos com uma noção de
território herdada da Modernidade incompleta e do seu legado de conceitos puros,
atravessando os séculos praticamente intocados.
Para Rogério Haesbaert (2007) a chamada pós-modernidade inclui uma
multiterritorialidade, ou seja, o domínio de um novo tipo de espaço, onde o espaço
euclidiano de superfície contínua sucumbe à descontinuidade, à fragmentação,
contendo múltiplos territórios, e à simultaneidade, onde vários tempos convivem no
mesmo momento nesses territórios. Continua o autor, dizendo que essa nova forma
de territorialização não tem limites precisos, e nós consideramos que esse é caso
das novas regiões metropolitanas. Assim, não acreditamos que esteja havendo uma
desterritorialização, mas uma reconfiguração de territórios, onde todo território é, ao
mesmo tempo e obrigatoriamente, em diferentes combinações, funcional e
simbólico, pois as relações de poder têm no espaço um componente indissociável
tanto na realização de "funções" quanto na produção de "significados".
(HAESBAERT, 2007, grifos nossos).
35

Ainda segundo o autor, em se tratando de situações hegemônicas, ou


subalternas, o território pode ser forte de tal maneira que funcionalidade e identidade
tenham a mesma intensidade. Sob a perspectiva de nosso trabalho, nas regiões
metropolitanas e na RMBH, em particular, esse parece ser o caso.
Milton Santos (1994) ensina uma questão fundamental: “É o uso do território,
e não o território em si mesmo, que faz dele um objeto da análise social [...]”
(SANTOS, 1994, p. 15).
Há ainda uma assertiva de Milton Santos, que nos parece fundamental:

O território são formas, mas o território usado são objetos e ações, sinônimo
de espaço humano, espaço habitado. Mesmo a análise da fluidez posta ao
serviço da competitividade, que hoje rege as relações econômicas, passa
por aí. De um lado, temos suma fluidez virtual, oferecida por objetos criados
para facilitar essa fluidez e que são, cada vez mais, objetos técnicos. Mas
os objetos não nos dão senão uma fluidez virtual, porque o real vem das
ações humanas, que são cada vez mais ações informadas, ações
normatizadas. (SANTOS, 1994, p. 16).

Nesse trabalho tomamos como basilar a afirmação: "o cotidiano é a quinta


dimensão do espaço" como aponta Santos (1996), o tempo/velocidade seria a
quarta. (SANTOS, 1996, p.39, grifos nossos).
Citamos o geógrafo Milton Santos, no sentido de argumentar que nossa
abordagem tenha mais afinidade com ordem próxima, ou do cotidiano, nos aspectos
que enfocaremos, daí, o ranking em termos globais traria poucos aportes, embora o
autor, à página 96 da mesma publicação alerte que é na própria história
contemporânea, história conjunta do mundo e dos lugares, o nosso ponto de partida,
tanto para entender os problemas, como para tentar resolvê-los. Portanto, se a
classificação exata num ranking mundial não nos interesse muito, o processo de
globalização nos interessa sobremaneira.
Falando das novas configurações espaciais das metrópoles, Regina Prosperi,
(2000) ensina:

As duas palavras-chave utilizadas para descrever física e funcionalmente a


nova configuração espacial das metrópoles, desde os anos 70, quando o
fenômeno se tornou patente, são fragmentação e dispersão. As duas
situações apontam a tendência do território a romper as continuidades
urbanas tradicionais através da fragmentação e, como resposta, gerar
núcleos de atividades difusos e insulados, ou seja, a dispersão.
(PROSPERI, 2000, p. 7, grifos nossos).
36

As novas cadeias produtivas, estabelecidas de forma complementar e


dependente num território ampliado e mesmo regional, dão os contornos
metropolitanos a esses processos. David Harvey (2006) nomeia esse processo
como acumulação flexível, e afirma que este “explora tipicamente uma ampla gama
de circunstâncias geográficas aparentemente contingentes, reconstituindo-as como
elementos internos estruturados de sua própria lógica abrangente.” (HARVEY, 2006,
p. 265, grifos nossos).
Ainda Soja (1993) diz: "A especialização flexível na produção, nas relações
trabalhistas e na localização das atividades produtivas tem o efeito de desenrijicer as
estruturas hierárquicas mais antigas e criar, pelo menos, a aparência de uma ordem
significativamente diferente de responsabilidade e controle." (SOJA, 1993, p. 207).
Ainda na mesma publicação, Havey afirma que acidade "pós-indutrial" é, na
melhor das hipóteses uma meia-verdade, e na pior, um espantoso erro de
interpretação da dinâmica urbana e regional contemporânea, já que a
industrialização continua a ser a força propulsora primordial do desenvolvimento, em
todas as situações do mundo contemporâneo. Acreditamos que essa visão que
permeia o presente trabalho é fundamental para nossa análise.
O nosso foco é investigar a nova forma de região metropolitana diante do
processo de acumulação flexível, nos termos citados anteriormente. (Os grifos são
nossos)
Na RMBH e sua conjugação com a região do Alto Paraopeba, embora, exista
a presença de um importante eixo rodoviário/corredor, o processo abordado se
vincula à implantação de grandes unidades de produção em espaços de certa forma
distantes da região metropolitana original, mas próximos das regiões produtoras de
matérias primas, ou outros insumos da cadeia produtiva de forma a obter um
processo de produção sinérgico, onde o transporte de pessoas que se fizer
necessário não é item prioritário nas escolhas. A transferência de unidades de
produção não se dá de forma isolada, mas pode ser considerada estratégica para
todo um conjunto de atividades de um setor. Outras regiões, tal como a do Vetor Sul
tem comportamento semelhante ao que descrevemos nesse trabalho.
Nessas circunstâncias não prevalece o ambiente urbano/rural difuso, o
caráter urbano se afirma em detrimento das atividades rurais. Apenas as atividades
primárias ligadas à produção das comodities utilizadas no processo permanecem e
37

se ampliam. É interessante observar que na região do Alto Paraopeba não se


desmobilizaram grandes áreas agrícolas para além dos municípios diretamente
impactados (Jeceaba e São Brás do Suaçuí), tendo permanecido nos demais
municípios onde existiam, embora áreas destinadas à pastagens e silvicultura
tenham sido comprometidas.
Em termos metodológicos é importante ressaltar que a abordagem do
presente trabalho é multidisciplinar, dada a natureza do processo que estamos
investigando: para entende-lo, é preciso utilizarmos recursos de diversas áreas,
como o urbanismo, a geografia, a sociologia e outros tantos. A questão dos novos
processos metropolitanos envolve fronteiras diversas do conhecimento, assim como
o próprio processo urbano pode ser considerado uma fronteira nova, uma fronteira
que ultrapassa as anteriores.
O desenvolvimento do processo metodológico buscou identificar as condições
peculiares à RMBH, ao contexto socioeconômico mineiro, nacional e em algumas
vezes, internacional, como também, buscou caracterizar o processo de
institucionalização das regiões metropolitanas no Brasil.
O processo de formação da RMBH, tanto do ponto de vista da evolução
espacial, como institucional foi identificado e o desenvolvimento da estrutura
metropolitana foi enfatizado. O Vetor Sul da RMBH e seu desenvolvimento foram
objeto de detalhamento, necessário à analise que se pretendia.
A região do Alto Paraopeba formadora do CODAP foi também abordada,
enfatizando-se o crescimento das atividades metalúrgicas e siderúrgicas na região e
a segmentação do processo produtivo.
As possibilidades da região do Alto Paraopeba ter fortes vínculos de natureza
metropolitana com a RMBH foram exploradas no eixo das análises.
Os dados utilizados são secundários, sendo de produção própria algumas
bases cartográficas.
As análises foram mais de caráter qualitativo, dado que não se queria fazer
um trabalho dentro da economia e nem da geografia, embora as duas áreas tenham
oferecido importante suporte ao desenvolvimento do trabalho. As análises
cartográficas foram muito importantes para o desenvolvimento do trabalho.
38

Principalmente no Capítulo III, o nosso procedimento metodológico foge das


fontes de dados secundárias que são habitualmente utilizadas na análise de formas
urbanas.
Nesse trabalho, foram utilizados dados contidos em processos de
licenciamento ambiental de empreendimentos na região, que possuem interessante
acervo de informações, à princípio não voltados para a análise urbana, mas que
oferecem múltiplas possibilidades de serem articulados e inseridos num processo de
percepção da forma urbana.
Outro procedimento que foge aos padrões usuais foi o uso das cartas de luz,
que permitiu avaliar o processo de expansão das atividades no vetor sul e na região
do CODAP num horizonte temporal mais largo e em área mais abrangente que os
dados disponibilizados através do IBGE, planos diretores ou planos regionais
existentes. O uso desse material permitiu também uma visão clara do processo de
expansão da ocupação de toda a área abordada.
Dados quantitativos foram usados eventualmente, quando se precisou
caracterizar algum fato que ficaria mais rico com esse tipo de informação.
Não foram utilizados dados primários, a literatura disponível foi muito
ampliada pelas buscas na internet, que nos possibilitaram "baixar" livros inteiros de
edições esgotadas.
As atividades seguiram o seguinte fluxograma (FIG. 2) das etapas de
trabalho:
39

Figura 2 - Fluxograma das etapas de trabalho

Fonte: Elaboração própria


40

No segundo capítulo do nosso trabalho, "O Desenvolvimento da Ideia de


Região Metropolitana no Brasil", abordamos como se desenvolveu a ideia de
metrópole e de região metropolitana no Brasil, incluindo aspectos relativos à sua
institucionalização e gestão.
Nesse capítulo utilizamos conteúdos de algumas discussões das quais
participamos no Conselho Superior do IAB, onde fomos do Conselho Superior por
alguns mandatos efervescentes de abordagens urbanas, inclusive algumas
discussões que aludiam ao famoso Seminário do Quitandinha. Não raro, pudemos
ter contato direto com atores destacados no desenvolvimento da questão
metropolitana no Brasil.
O objetivo desse capítulo é fazer o resgate de algumas questões que foram
fundamentais para que as questões metropolitanas no país pudessem ser
introduzidas na pauta política. Resgatamos também alguns embates que levaram às
decisões iniciais ou influenciaram as posteriores.
No terceiro capítulo, "A RMBH: desenvolvimento, estruturação e
institucionalização", buscamos identificar os diversos momentos da RMBH, desde os
momentos iniciais da sua institucionalização, até os momentos atuais, marcados
principalmente pelo PDDI.
Trata-se de um capítulo longo, que preferimos não dividir, fieis à nossa ideia
de que esse tema não deva ser fracionado numa abordagem como a nossa. O
planejamento, a gestão e a intervenção esses sim devem ser divididos de forma
operacional em algum momento, mas essa unidade nunca deve ser perdida. Foram
abordados os processos imediatos anteriores e os momentos iniciais da
institucionalização da RMBH, suas primeiras abordagens, e seu desenvolvimento.
Nosso eixo foi a formação da estrutura da RMBH e por isso, deixamos de abordar
importantes estudos desenvolvidos à época, para não tornar nosso trabalho extenso,
ou desviarmos de seu objetivo.
Os processos relativos aos vetores oeste e sul da RMBH foram destacados,
pois a articulação entre esses vetores é um dos suportes de nossas análises. A
questão dos recursos ambientais impactados pelas novas formas de uso e ocupação
do solo foram destacadas, por serem um dos grandes conflitos desses processos.
Abordamos brevemente o processo relativo ao Vetor Norte, embora tenhamos
consciência da importância atual da abordagem desse vetor.
41

O que chamamos de apagão de dados ocorridos na década de 1990 na


RMBH também foi objeto das reflexões contidas no trabalho.
Quanto ao PDDI, buscamos não reproduzi-lo no trabalho, mas nos
referenciarmos nele. Esse trabalho é muito recente e de muito fôlego e seria
prematuro avaliar seus desdobramentos, embora alguns indicativos de quais seriam
estes desdobramentos tenham sido abordados no presente trabalho.
No quarto capítulo, "O Vetor Sul da RMBH e a região do Alto Paraopeba",
buscamos explorar a nova espacialidade metropolitana, tomando como estudo de
caso as vinculações de natureza metropolitana entre o Alto Paraopeba, o Vetor Sul
da RMBH e processos econômicos que caracterizam a região metropolitana de Belo
Horizonte.
Nesse capítulo exploramos as atividades minerarias e metalúrgicas da região
do Alto Paraopeba, tanto as tradicionais, como aquelas que têm se deslocado para a
região e que, sob nosso ponto de vista, ensejam sua abordagem sob a ótica do
processo de ampliação da RMBH.
No último capítulo, avaliamos nossas hipóteses iniciais e concluímos que,
dentro do nosso enfoque são verdadeiras. Exploramos as consequências dessa
nova realidade em termos da institucionalização e da gestão.
O ponto básico da indagação do trabalho desenvolvido representado pela
indagação se poderiam esses novos espaços serem considerados metropolitanos,
sob nossa perspectiva de análise é correto, o que levaria à condição do próprio
conceito de metropolitano aplicado à RMBH necessitar ser revisado à luz dos novos
fenômenos ensejados pelo atual processo produtivo e seus rebatimentos espaciais.
O presente estudo nos fez perceber que a temática merece maiores
aprofundamentos e é bastante rica, principalmente em relação à territorialidade e à
gestão.
Resta-nos concluir que se a metrópole traz inúmeras mazelas, ela traz
também a possibilidade de solucioná-las e mais que isso, ela traz para o
pensamento horizontes os mais amplos possíveis, já que talvez o maior mérito da
metrópole seja a alteridade.
“Pode-se dizer que a realidade urbana desaparece? Não, ao contrário, ela
generaliza-se.” (LEFEBVRE, 2008, p. 84).
42

2 O DESENVOLVIMENTO DA IDÉIA DE REGIÃO METROPOLITANA NO BRASIL

A reforma de cidades passou a ser, desde o século XIX, objetivo para aqueles
que pretendiam adaptar a cidade europeia medieval e barroca à industrial, ou seja,
adequá-la às novas funções, modernizando-a.
Em 1867,o engenheiro espanhol Ildefonso Cerdá publicou a “Teoría General
de la Urbanización”, na qual fazia analogia entre a cidade e o funcionamento do
corpo humano, a ideia de funções estava muito ligada a essa associação, o que
também conduzia a uma abordagem multidisciplinar.
No Brasil, entre 1895 a 1930, cidades como o Rio de Janeiro, São Paulo e
Porto Alegre foram objeto de propostas e intervenções urbanísticas, ou de
“melhoramentos”.
Paralelamente, no Brasil, havia no período 1920-1960, fortes correntes
políticas que propugnavam o fortalecimento do municipalismo, a criação do Instituto
Brasileiro de Assistência aos Municípios – IBAM é um momento de força da postura
municipalista. Tais questões estavam na ordem do dia e foram fortalecidas no II
Congresso Nacional de Municípios ocorrido em São Vicente, em outubro de 1952.
Esse congresso dava muito destaque à questão agrária e é considerado um marco
importante no municipalismo brasileiro.
O modernismo tinha uma ideia muito clara e veemente sobre as cidades e
pode ser resumida nessa frase de Le Corbusier : “A cidade se esmigalha, a cidade já
não pode subsistir, a cidade já não mais convém. A cidade está velha demais.”
(CORBUSIER, 1976, p. 9), feita em 1929, no seu livro “Urbanismo”. Usar a citação
de uma frase para caracterizar um pensamento de época pode não ser muito
apropriado, mas, nesse caso, a linguagem de Le Corbusier é sintética e panfletária e
reflete o pensamento corrente.
A ideia de “reconstrução da sociedade”, em pauta em alguns países da
Europa e nos Estados Unidos, teve o engajamento de nomes como Ernest May,
Bruno Taut, Walter Gropius e Le Corbusier .
Essas ideias tiveram muita repercussão a partir dos encontros Internacionais
de Arquitetura Moderna. Se no 3º Congresso Internacional de Arquitetura Moderna
(CIAM), realizado em Bruxelas, em 1930, o tema da habitação foi ampliado para as
43

diferentes maneiras de agrupamentos e bairros, equipados do ponto de vista técnico


e social, no 4° Congresso, em 1933, o objeto principal foi o estudo da cidade.
O delineamento inicial da questão metropolitana surge então nessa segunda
metade do século XX, da necessidade de identificar e ordenar o fenômeno do
crescimento das cidades fora dos limites políticos estabelecidos.
As questões acerca das graves condições das grandes cidades se explicitam
no início da década de 1960 e são um dos eixos prioritários das preocupações dos
arquitetos sob uma pauta constituída pela chamada Reforma Urbana. Esse tema foi
silenciado pelo golpe de 1964, embora tenha surgido no mesmo momento o
planejamento local integrado, no bojo do Serviço Federal de Habitação e Urbanismo
- SERFHAU, autarquia federal.
Entre 1961 e 1968 O Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB, importante ator
naquele momento histórico, publicou a revista Arquitetura, cujo editor era o arquiteto
Maurício Nogueira. Essa publicação foi muito importante para o pensamento das
cidades e sua participação nas abordagens sociais do tema, havendo inclusive uma
seção denominada “O problema da habitação e os arquitetos”. Outras publicações
como a Guanabara e a Habitat foram também importantes na disseminação das
ideias dos arquitetos sobre as cidades.
O Seminário de Habitação e Reforma Urbana: O Homem, sua Casa, sua
Cidade , em 1963, no Hotel Quitandinha, foi realizado pelo IAB em conjunto com o
Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado (IPASE), e dele
participaram 70 profissionais. No documento final do Seminário foi definido o termo
Reforma Urbana: “conjunto de medidas estatais, visando à justa utilização do solo
urbano, à ordenação e ao equipamento das aglomerações urbanas e ao
fornecimento de habitação condigna a todas as famílias.” (SILVA, 2003). As
conclusões propugnavam ainda por mudanças na legislação para que nas áreas de
grande concentração urbana constituídas territorialmente por Municípios distintos
fossem criados órgãos de administração, que consorciem as municipalidades para a
solução de seus problemas comuns. O documento sugeria ainda, em seu ítem 13,
“que para a efetivação da reforma urbana torna-se imprescindível à modificação do
parágrafo 16º do artigo 141 da Constituição Federal, de maneira a permitir a
desapropriação sem exigência de pagamento à vista, em dinheiro.” (SILVA, 2003).
44

No bojo do documento final do referido seminário uma subcomissão elaborou


um anteprojeto da lei de reforma urbana, que passou a ser referência importante da
temática.
As Reformas de Base de João Goulart incluíam a Reforma Urbana, entendida
como conjunto de medidas do Estado, "visando à justa utilização do solo urbano, à
ordenação e ao equipamento das aglomerações urbanas e ao fornecimento de
habitação condigna a todas as famílias." (REFORMA DE BASE JOÃO GOULART,
1963).
Essas Reformas de Base estão entre as motivações principais do golpe militar
de 1964.
No período imediato após o golpe, modificou-se, de forma radical, a prática do
planejamento urbano e regional no Brasil, marcado a partir da forte atuação do
SERFHAU – Serviço Federal de Habitação e Urbanismo -, criado em agosto do
mesmo ano de 1964.
O Encontro sobre a Habitação, no entanto, continuou reverberando e teve
ampla influência na inclusão do tema da região metropolitana na constituição de
1967.
A repercussão mais notável foi a introdução da emenda proposta pelo
Senador Eurico Resende, consubstanciada no parágrafo 10, art. 157, da
Constituição de 1967, que estabelecia que a União, mediante lei complementar,
poderia instituir Regiões Metropolitanas no país.
Nas discussões que precederam a Constituição de 1967, o jurista Hely Lopes
Meirelles foi encarregado de preparar o "Anteprojeto de Lei Complementar" para a
definição da condição legal das regiões que seriam criadas. Pela proposta daquele
jurista, haveria a promulgação de uma Lei Complementar para cada Região
Metropolitana, e a competência para instituir regiões metropolitanas era da União, e
sugeria ainda a criação de administrações metropolitanas por iniciativa dos Estados
e de Municípios que desejassem se consorciar. O Setor de Planejamento Regional e
Municipal do Ministério do Planejamento havia solicitado também ao jurista a
formulação de um estatuto legal sobre o planejamento local integrado municipal.
A emenda do senador Eurico Resende à Constituição de 1967 era uma
versão autoritária dos estudos do jurista, já que não incluía a criação de Regiões
metropolitanas por consorciamento de municípios que assim o quisessem e, assim,
45

foi determinado, através da edição do art. 157, § 10 da Constituição Federal de


1967, que a criação das Regiões Metropolitanas seria de competência exclusiva da
União, que trataria de regulamentar a proposta mediante Lei Complementar.
As Regiões Metropolitanas eram constituídas por municípios que,
independentemente de sua vinculação administrativa, integrassem a mesma
unidade socioeconômica, visando à realização de serviços comuns.
Pode-se observar que o pensamento funcionalista esteve e está
profundamente imbricado à ideia de região metropolitana no Brasil, na qual a ideia
de função pode ser considerada chave. Pode se notar aqui, uma forte herança do
modernismo.
Em 1969, a Emenda Constitucional nº 1 manteve praticamente sem alteração
esse conteúdo de 1967.
Em 1973, foi aprovada a Lei Complementar nº 14, que em seu artigo 1º,
instituiu, “... na forma do artigo 164, da Constituição, as Regiões Metropolitanas de
São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Salvador, Curitiba, Belém e
Fortaleza”. Em seu artigo 2º que diz que “haverá em cada Região Metropolitana um
Conselho Deliberativo e um Conselho Consultivo, criados por lei estadual.”.
No artigo 5º dessa lei, o interesse metropolitano foi atribuído aos “seguintes
serviços comuns aos municípios que integram a Região:” (BRASIL, 1973).

I. planejamento integrado do desenvolvimento econômico e social;


II. saneamento básico, notadamente abastecimento d’água, rede de
esgotos e serviços de limpeza pública;
III. uso do solo metropolitano;
IV. transportes e sistema viário;
V. produção e distribuição de gás combustível canalizado;
VI. aproveitamento dos recursos hídricos e controle da poluição ambiental,
na forma que dispuser a lei federal;
VII. outros serviços incluídos na área de competência do Conselho
Deliberativo por lei federal. (BRASIL, 1973).

Novamente a divisão funcionalista é associada à questão metropolitana.Para


Grau uma região metropolitana é definida como:

O conjunto territorial intensamente urbanizado, com marcante densidade


demográfica, que constitui um polo de atividade econômica, apresentando
uma estrutura própria definida por funções privadas e fluxos peculiares,
formando, em razão disso, uma mesma comunidade socioeconômica em
que as necessidades específicas somente podem ser atendidas, de modo
46

satisfatório, através de funções governamentais coordenada e


planejadamente exercitadas. (GRAU, 1974).

Em função do novo estatuto legal das regiões metropolitana, em 1974 foi


criada a Comissão Nacional de Regiões Metropolitanas e Política Urbana – CNPU,
vinculada a Secretaria de Planejamento da Presidência da República, formada por
representantes dos Ministérios da Fazenda Indústria e Comércio, Transportes e
Interior.
Em 1976, foram iniciados em âmbito estadual, os Planos de Desenvolvimento
Integrados das Regiões Metropolitanas.
Um momento importante, em 1976, foi o da criação da poderosa EBTU -
Empresa Brasileira de Transportes Urbanos, que passou a contar com recursos
externos do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento - BIRD e do
Programa de Mobilização Energética - PME, que aportou considerável volume de
recursos a programas de transporte em regiões metropolitanas, principalmente nas
três regiões metropolitanas do sudeste do país, que receberam 56% dos
investimentos.
Em 1977, a CNPU, propõe um anteprojeto de lei de desenvolvimento urbano,
onde constam artigos tais como:

Artigo 23 – Compete, ainda, ao Estado, quanto às Regiões Metropolitanas,


estabelecer normas e diretrizes, supletivas e complementares à legislação
federal, bem como:
I – aprovar o Plano de Desenvolvimento Integrado das Regiões
Metropolitanas, compatibilizando-o com o planejamento estadual;
II – estabelecer Áreas de Interesse Especial, localizadas na Região
Metropolitana;
III – disciplinar o uso e a ocupação do solo de interesse metropolitano.
(BRASIL, 1977).

Ou no Artigo 35, desse anteprojeto onde propõe que :

União, Estados, Regiões Metropolitanas e municípios estabelecerão o seu


sistema de planejamento com a finalidade de formular, executar e controlar
a implantação dos planos de desenvolvimento urbano previsto nesta lei.
(BRASIL, 1977).

O anteprojeto não prosperou e diante da condição crítica dos grandes


aglomerados, em 1979 é aprovada a famosa Lei 6766/79, com o objetivo de
47

disciplinar o processo de parcelamento no país que apresentava naquele momento


altíssimos índices de crescimento, notadamente aqueles periféricos.
O desenrolar do processo em relação à questão metropolitana no Brasil é um
desses momentos atípicos no campo das ideologias, já que o país estava em pleno
advento da ditadura militar, e muitos dos profissionais envolvidos e que de alguma
forma impulsionaram o pensamento habitacional e metropolitano na época eram de
esquerda e alguns tinham pertencido aos quadros do partido comunista brasileiro.
Aqui se tem um encontro da mesma natureza do que aconteceu com o patrimônio
histórico, em 1938, o encontro de pensadores que poderiam ser considerados de
esquerda e a ditadura. No caso das regiões metropolitanas a questão é ainda mais
estranha, já que a ditadura militar não pode sequer ser comparada à de Vargas em
termos dos direitos civis, para não estender o assunto.
Em 1979 a CNPU foi substituída pelo CNDU - Conselho Nacional de
Desenvolvimento Urbano, presidido pelo Ministério do Interior e composto pelos
secretários gerais da Secretaria de Estado de Planejamento e Orçamento -
SEPLAN, dos Ministérios da Fazenda, Transportes, Indústria e Comércio,
Comunicações, Justiça e Interior, pelos presidentes do BNH e da EBTU, um
representante do Ministério da Aeronáutica e outros cinco membros nomeados pela
Presidência da República.
O CNDU, por seu turno, elaborou o Anteprojeto da Lei de Desenvolvimento
Urbano preparado que deu origem ao Projeto de Lei nº775/83.
Entre seus artigos destacavam-se, a nosso ver:

Artigo 5 - Parágrafo segundo – Os municípios que constituem regiões


metropolitanas delimitarão suas zonas urbanas em conformidade com as
normas e diretrizes do planejamento metropolitano e mediante prévia
anuência do Conselho Deliberativo de que tratam as Leis complementares
nº 14, de 8 de junho de 1973 e nº 27, de 3 de novembro de 1975.
Artigo 17 – Observado o disposto nesta lei, compete aos Estados e ao
distrito Federal (no âmbito III – regulamentar a implantação das regiões
metropolitanas, elaborar, aprovar e implementar os respectivos plano de
desenvolvimento; dos respectivos territórios), supletiva e
complementarmente à União.
Artigo 19 – (posteriormente incluído no 22) – Os planos de desenvolvimento
metropolitanos, para efeito de compatibilização dos instrumentos incentivos,
repasse e financiamento da administração pública, direta e indireta, deverão
obedecer às diretrizes e normas de ações metropolitanas, bem como aos
elementos de procedimentos mínimos a serem baixados pelo Conselho
Nacional de Desenvolvimento Urbano. ( O Parágrafo único desse artigo foi
substituído por inclusão de “aprovar” no item III do artigo 17).
48

Artigo 20 – Inclui-se entre os serviços reputados de interesse metropolitano,


mencionados no Artigo 5º da lei complementar nº14, de 8 de junho de 1973,
a habitação.
Artigo 18 – Aos municípios, observado o disposto nesta lei, compete:
V – Compatibilizar o planejamento do seu desenvolvimento como os dos
Estados e Territórios ou como o da respectiva região metropolitana ou
aglomeração urbana. (BRASIL, 1983).

Por parte dos Estados, havia iniciativas quanto ao planejamento das regiões
metropolitanas, mesmo antes da Lei Complementar 14 de 1973.
Esse processo narrado acima é, a nosso ver e em breves palavras, a gênese
da Lei Federal Complementar 14 de 1973.
Paralelamente aos movimentos do governo federal em instituir e regulamentar
as regiões metropolitanas, alguns Estados apresentavam iniciativas próprias nesse
sentido.
Em São Paulo, havia o Grupo Executivo da Grande São Paulo (GEGRAN),
criado pelo Governo do Estado em 29/03/67. Na região de Porto Alegre a iniciativa
partia dos municípios integrantes da área metropolitana, assim foi criado o Grupo
Executivo da Região Metropolitana (GERM), órgão técnico montado pelo Conselho
Metropolitano de Municípios por volta de 1970.
O desgaste da autoridade central do período da ditadura militar e as
perspectivas de descentralizar o poder político e o fortalecimento do município,
atingiram o estatuto das regiões metropolitanas, que na verdade não se encaixavam
em nenhuma das esferas de governo e ainda poderia ferir a autonomia dos
municípios que a compunham. Em alguns momentos surgiu a ideia, rechaçada
principalmente por constitucionalistas e municipalistas, de que a região
metropolitana poderia constituir-se no 4º poder.
Embora a chamada Reforma Urbana tenha sido tema de um grupo de
trabalho no processo constituinte de 1988 e tenha recebido importante aporte de
Emenda Popular de Reforma Urbana, subscrita por mais de 150 mil pessoas em
todo o Brasil, a questão não teve na nova Carta o destaque que merecia,
considerando-se que a população passara a se concentrar em mais de 70% de seu
total nos grandes aglomerados urbanos. O direito à cidade foi, de alguma maneira,
ofuscado pelo grande tumulto que envolveu a questão agrária no processo
constituinte. O Brasil rural e os grandes interesses econômicos a ele vinculados
tiveram mais visibilidade. Esta observação não desmerece a importância da
49

distribuição justa de terras agricultáveis no país, mas apenas aponta a falsa


dicotomia, que se estabeleceu naquele momento, entre as questões urbanas e as
agrárias, a possibilidade da abordagem complementar das duas questões fulcrais
para o Brasil não se fez presente.
Desta forma, a inclusão dos artigos 182 e 183 tenha representado um avanço,
esse era ainda um avanço tímido.
O artigo 182 da Constituição de 1988 diz:

A política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder Público


municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em lei, tem por objetivo
ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o
bem- estar de seus habitantes.
§ 1º - O plano diretor, aprovado pela Câmara Municipal, obrigatório para
cidades com mais de vinte mil habitantes, é o instrumento básico da política
de desenvolvimento e de expansão urbana.
§ 2º - A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às
exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano
diretor.
§ 3º - As desapropriações de imóveis urbanos serão feitas com prévia e
justa indenização em dinheiro.
§ 4º - É facultado ao Poder Público municipal, mediante lei específica para
área incluída no plano diretor, exigir, nos termos da lei federal, do
proprietário do solo urbano não edificado, subutilizado ou não utilizado, que
promova seu adequado aproveitamento, sob pena, sucessivamente, de:
I - parcelamento ou edificação compulsórios;
II - imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana progressivo no
tempo;
III - desapropriação com pagamento mediante títulos da dívida pública de
emissão previamente aprovada pelo Senado Federal, com prazo de resgate
de até dez anos, em parcelas anuais, iguais e sucessivas, assegurados o
valor real da indenização e os juros legais. (BRASIL, 1988).

No entanto, a Constituição de 1988 não recepciona a Região Metropolitana


como vinha sendo tratada, abordando-a apenas no § 3º do Artigo 25, no qual
transfere para os Estados a responsabilidade de recepcionar as Regiões existentes,
criarem e organizarem as regiões metropolitanas na seguinte redação:

Art. 25. Os Estados organizam-se e regem-se pelas Constituições e leis que


adotarem, observados os princípios desta Constituição.
[...]
§ 3º. Os Estados poderão, mediante lei complementar, instituir Regiões
Metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões, constituídas por
agrupamentos de municípios limítrofes, para integrar a organização, o
planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum.
(BRASIL, 1988).
50

O artigo 182 da Constituição de 1988 vem a ser regulamentado pela Lei


Federal 10.257/2001, o Estatuto da Cidade, importante marco legal que tem
impulsionado o planejamento urbano nas cidades, e a melhoria das condições de
vida urbana, com abordagens acerca da regularização fundiária, áreas de risco,
gestão participativa, entre outros temas. A aprovação do Estatuto das Cidades
recupera parte substantiva das discussões sobre a Reforma Urbana nos momentos
que antecederam a Constituinte de 88.
O Estatuto das Cidades, Lei estabelece no inciso II, artigo 41, a
obrigatoriedade de Plano a todos os municípios que compõem uma Região
Metropolitana. Há um interregno entre o recepcionado na Carta Magna em relação à
questão metropolitana e a exigência do Estatuto da Cidade: a Constituição menciona
a obrigatoriedade de Plano Diretor para cidades acima de 20.000 habitantes, o
Estatuto inclui os municípios pertencentes às regiões metropolitanas nessa
exigência.
O Ministério das Cidades não tem abordado as questões metropolitanas, com
e ênfase que o tema merece. A matéria é tratada de maneira até mais vigorosa no
âmbito do Ministério do Desenvolvimento e Combate à Fome.
No site oficial desse ministério, sobre a pergunta acerca do que são as
Regiões Metropolitanas, é dada a seguinte resposta:

A mudança da população das zonas rurais para as zonas urbanas acarretou


um crescimento desordenado das cidades, transformando-as em grandes
centros populacionais. Esses centros populacionais são chamados de
regiões metropolitanas, que consistem em uma (ou, às vezes, duas ou até
mais) grande cidade central – a metrópole – e sua zona de influência.
(BRASÍLIA, 2012).

A falta de critérios na definição das diversas regiões metropolitanas tem sido


considerada consequência da matéria não ter sido realmente recepcionada na
Constituição de 88, mas nos parece também seguir, de alguma forma, a cultura
legislativa e executiva no país que muita vezes se afasta de critérios objetivos,
incorporando composições advindas de pactos a alianças de sustentação
político/partidária.
O que podemos observar é que, embora tenham sido adotados recentemente
vários arranjos institucionais no que se refere às regiões metropolitanas, a maior
parte esses arranjos não se baseiam em estudos mais aprofundados do que vem
51

ser o fenômeno metropolitano. Essa condição a princípio dificulta a própria


institucionalização, e ainda de forma mais grave, a nosso ver, dificulta a própria
gestão.
Numa tentativa de permitir a resolução de questões comuns à vários
municípios, por meio da retomada da discussão sobre a chamada Emenda 241 da
Constituição Federal, no ano de 2005 o governo avançou, após várias discussões
polêmicas, na criação e regulamentação da chamada Lei dos Consórcios Públicos
(Lei nº 11.107, de 6 de abril de 2005). Observa-se que os consórcios são legalmente
monotemáticos.

O advento mais recente no âmbito dessa matéria foi a criação das Regiões
Integradas de Desenvolvimento - RIDES, como mais uma forma de construção de
redes de cooperação, segundo texto no site do Ministério da Integração.
Em 1998 foi elaborada a Lei Complementar nº 94 criando a Região Integrada
de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno - RIDE-DF, primeira RIDE
brasileira, para reduzir as desigualdades regionais causadas pela alta concentração
urbana em volta do Distrito Federal e minimizar as pressões de demanda por
serviços públicos e a dificuldade de provisão dos mesmos pelo setor público. Por
envolver municípios de mais de uma Unidade da Federação, a RIDE é uma forma de
ação mais ampla que a prevista nas Regiões Metropolitanas. (Ministério de
Integração Nacional).
Nesse caso, consideram-se de interesse da RIDE os serviços públicos
comuns ao Distrito Federal, aos Estados de Goiás e de Minas Gerais e aos
municípios que a integram relacionados com as seguintes áreas:

I - infraestrutura;
II - geração de empregos e capacitação profissional;
III - saneamento básico, em especial o abastecimento de água, a coleta
e o tratamento de esgoto e o serviço de limpeza pública;
IV - uso, parcelamento e ocupação do solo;
V - transportes e sistema viário;
VI - proteção ao meio ambiente e controle da poluição ambiental;
VII - aproveitamento de recursos hídricos e minerais;
VIII - saúde e assistência social;
IX - educação e cultura;
X - produção agropecuária e abastecimento alimentar;
XI - habitação popular;
XII - combate às causas de pobreza e aos fatores de marginalização;
XIII - serviços de telecomunicação;
52

XIV - turismo. (DISTRITO FEDEREAL, 1998).


O Programa governamental Minha Casa Minha Vida e outros programas
governamentais com objetivos similares têm espalhado, nos arredores das cidades
pequenas e médias, idênticos conjuntos habitacionais, com unidades não inferiores
a 32 m², e realizado o sonho da casa própria mundo afora nesse Brasil. Os novos
conjuntos são semelhantes aos já muito analisados conjuntos habitacionais da
política do Banco Nacional da Habitação - BNH. Muitos dos atuais conjuntos
construídos nessa safra recente repetem a mesma lógica da localização afastada do
tecido urbano, levando as periferias para mais longe e, o que é mais grave, criando
periferias segregadas onde elas não existiam. Entre os objetivos dessa política é
que a população não venha para as cidades maiores, que não aumente os fluxos de
migração, que seu próximo sonho não seja Meu Condomínio Minha Vida, como nas
metrópoles e nas cidades maiores.
53

3 A RMBH: DESENVOLVIMENTO, ESTRUTURAÇÃO E INSTITUCIONALIZAÇÃO

Nesse capítulo, buscamos elencar elementos que oferecerão suporte à nossa


análise e às nossas conclusões, que, vale lembrar, são acerca da configuração
territorial. Não poderíamos abordar a nossa questão se não resgatássemos, de
alguma forma, os aspectos ligados à instituição da RMBH e seu desenvolvimento
até os dias de hoje, incluindo-se desde momentos iniciais àqueles posteriores ao
processo constituinte de 1988 e ao evento do Estatuto das Cidades.
Busca-se fugir das visões dualistas, de bem e mal, antes e depois, das
abordagens antitéticas e irredutíveis entre si, e abordar a questão como um
processo e como todo processo, que não é monolítico e nem linear, trazendo em si
as contradições que ensejam as suas próprias transformações. Aqui vale citar,
Oliveira (1972) em sua Crítica à Razão Dualista: "a expansão do capitalismo no
Brasil se dá introduzindo relações novas no arcaico e reproduzindo relações
arcaicas no novo." Buscamos ainda, pensar que não é um processo findo, mas
surpreendido em sua plena evolução, o que talvez não nos permita, em alguns
momentos, tirar conclusões definitivas. Em algumas questões, mais basilares para o
tipo de discussão que queremos estabelecer, aprofundamo-nos um pouco mais,
sem, contudo, imaginar que nesse vasto universo da temática metropolitana o nosso
recorte aponte todas as questões relevantes. Uma das questões importantes que
não foi possível nos aprofundar mais, se refere à gestão metropolitana atual e seu
desafio, que nos parece uma temática que cada vez mais se abre à reflexão e
avaliação.
A questão das regiões metropolitanas tem sido estigmatizada por muitos
autores de esquerda como um tema da ditadura, da centralização do poder, da
diminuição da autonomia local. Não que os governos da ditadura não tenham feito
isso e que as regiões metropolitanas tenham oferecido terreno profícuo para tal. No
entanto, na realidade urbana do Brasil hoje e já naquela época, a questão dos
espaços urbanos conurbados e dependentes entre si que se constituem na
espacialização da estrutura produtiva em seu nível restrito e ampliado. As condições
da vida se apresentam cada vez mais agravadas, com a divisão entre ricos e pobres
54

mais acentuada. E essa é uma questão fundamental no equacionamento da questão


urbana no Brasil.
O planejamento dos primeiros momentos das regiões metropolitanas tem sido
classificado de tecnocrático, afirmação esta com a qual também concordamos, não
porque os técnicos ou a tecnologia estivessem no poder, mas por ter o poder do
estado da ditadura utilizado de maneira magistral os recursos técnicos para
implantar e consolidar interesse das classes hegemônicas e do capital internacional,
ao qual os militares serviam de correia de transmissão.
Soja (1993) discorre a respeito da questão afirmando que:

O planejamento urbano foi criticadamente examinado como um instrumento


do Estado, que atendia às classes dominantes através da organização e
reorganização do espaço em benefício da acumulação de capital e da
administração da crise. (SOJA, 1993, p. 118).

Ainda de acordo com Soja:

Os planejadores regionais, fascinados pelas novas teorias da época,


também se inclinaram a ser alegremente conciliatórios, convencidos de que
seus objetivos poderiam ser alcançados através das boas intenções e das
ideias inovadoras do planejamento espacial. (SOJA, 1993, p. 204).

Nas palavras de Maltez (2004): "Há assim uma identificação entre Estado da
Sociedade industrial e o Estado Administrativo ou Estado com executivo forte, todos
produto de uma certa fase ideológica do mundo, dita da tecnocracia."
Nesse capítulo buscamos identificar de que maneira o planejamento urbano
na RMBH se enquadrou nessa condição e cumpriu bem esse papel, mas também
queremos discorrer como, em determinado momento, ele buscou outros paradigmas
e a importância desse momento e, por fim, queremos fazer algumas considerações
sobre o momento atual. Embora nossa abordagem não deixe de lado os marcos
institucionais, a questão da configuração espacial é um ponto central da nossa
abordagem. Interessa saber aqui o desenvolvimento das estruturas espaciais do
território metropolitano e sua profunda articulação com os processos produtivos e
seus rebatimentos na forma urbana. Se do ponto de vista da gestão a participação
das populações é um pilar fundamental, entender o novo/velho espaço metropolitano
é importante não só para o seu planejamento, mas para se buscar a sua
55

organização institucional adequada, que é um pilar para a sua gestão viável e


democrática.
Azevedo e Mares Guia (2010) ressaltam, no caso da RMBH, citando Cintra
(1988):

Contudo, é importante registrar que, embora tendo sua atuação marcada


pelo viés tecnocrático, a postura da equipe foi sempre temperada por
posições socialmente progressistas: o planejamento metropolitano iria não
só solidificar as bases para o progresso material de Minas Gerais, mas
contribuiria também para melhorar a qualidade de vida da população. A
pretensão era a utilização das técnicas que manipulavam [...] para atender a
necessidades sociais e encontrar soluções para o transporte coletivo,
habitação popular e acesso dos mais pobres a lotes urbanos com
infraestruturas mínimas. (CINTRA, 1988, p. 39 apud AZEVEDO; MARES
GUIA, 2010, grifo nosso)

Ferrari Junior alerta:

Ainda, deve-se, entretanto, ter o cuidado de evitar uma abordagem simplista


do tema, pensando que um planejamento urbano participativo e mais
democrático não necessita do conhecimento técnico e suas ferramentas.
(FERRARI JUNIOR, 2004, p. 27).

É importante considerar que também esse não foi um processo monolítico,


dado o nível de fragmentação e compartimentação do Estado brasileiro, que o
impedia de funcionar como uma correia transmissora azeitada. Comandos
contraditórios e sobrepostos não foram raros no período, tanto que o PLAMBEL,
órgão técnico de suporte à gestão da RMBH à época tentou implementar uma
Comissão de Compatibilização de Obras, o que não resultou muito efetivo.
O planejamento metropolitano historicamente na RMBH teve seu enfoque
mais bem sucedido na ordenação territorial, acabando por priorizar os instrumentos
de controle da ocupação do território e nas grandes intervenções físicas,
principalmente no sistema viário. Cabe ressaltar que, suas propostas e estudos não
se resumiram a essa pauta, tratando das condições de vida das populações de
menor renda, do patrimônio histórico e natural, entre outros itens, mas é claro que
sob essas questões seus avanços foram mais tímidos ou nenhum, já que
beneficiavam imediatamente a estrutura que o capital demandava para desenvolver-
se naquele momento.
Sobre essa condição, Ferrari Junior, reflete:
56

Ao que se refere especificamente às cidades brasileiras, podemos pensar


que o planejamento teve na cidade uma visão que priorizou a ordenação do
território, sua configuração arquitetônica, seus equipamentos coletivos,
acabando por valorizar a obra física pura e desconsiderando-se a
construção da cidadania de grande parte de seus habitantes. (FERRARI
JUNIOR, 2004, p.18).

Com o fim da ditadura, inicia-se um novo ciclo, há uma nova ordem em curso
no país e sobre isso Ferrari Junior, diz:

Além disso, a crescente vitória da ideologia neoliberal, nos anos 80 e 90


vem reforçar a ideia que o fim do intervencionismo estatal, ou seja, do
planejamento “controlador”, e da burocratização é mais que necessário para
que as economias de mercado possam resolver os problemas urbanos e
sociais das cidades. (FERRARI JUNIOR, 2004, p.19).

Magalhães (2008) afirma:

A metrópole teria sido um produto da industrialização fordista aliada a uma


atuação do Estado pautada pelo keynesianismo (no nível urbano, através
do provimento dos meios de consumo coletivo), enquanto esta nova forma
urbana pós-metropolitana é marcada pela indústria pós-fordista e o Estado
neoliberal. (MAGALHÃEAS, 2008).

Sem nos adiantarmos nas questões do momento atual, voltemos aos


momentos da criação e institucionalização da RMBH.
Em 1973, foi aprovada a Lei Complementar nº 14, que em seu artigo 1º
estabeleceu “[...] na forma do artigo 164, da Constituição, as Regiões Metropolitanas
de São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Salvador, Curitiba, Belém e
Fortaleza1." (BRASIL, 1973). Em seu artigo 2º diz que “haverá em cada Região
Metropolitana um Conselho Deliberativo e um Conselho Consultivo, criados por lei
estadual.” (BRASIL, 1973).
No artigo 5º dessa lei, como já foi dito no capítulo anterior, o interesse
metropolitano foi atribuído aos seguintes serviços comuns aos municípios que
integram a Região:

1
Posteriormente, a Lei Complementar nº 20 incorporou a Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
Ainda em 1974 foi criada a Comissão Nacional de Regiões Metropolitanas e Política Urbana – CNPU,
vinculada a Secretaria de Planejamento da Presidência da República, formada por representantes
dos Ministérios da Fazenda Indústria e Comércio, Transportes e Interior.
57

Art.5º-Reputam-se de interesse metropolitano os seguintes serviços comuns


aos Municípios que integram a região:
I. planejamento integrado do desenvolvimento econômico e social;
II. saneamento básico, notadamente abastecimento d’água, rede de esgotos
e serviços de limpeza pública;
III. uso do solo metropolitano;
IV. transportes e sistema viário;
V. produção e distribuição de gás combustível canalizado;
VI. aproveitamento dos recursos hídricos e controle da poluição ambiental,
na forma que dispuser a lei federal;
VII. outros serviços incluídos na área de competência do Conselho
Deliberativo por lei federal. (BRASIL, 1973).

Para Eros Grau (1974) uma região metropolitana é o Conjunto territorial


intensamente urbanizado, com marcante densidade demográfica, que constitui um
polo de atividade econômica, apresentando uma estrutura própria definida por
funções privadas e fluxos peculiares, formando, em razão disso, uma mesma
comunidade socioeconômica em que as necessidades específicas somente podem
ser atendidas, de modo satisfatório, através de funções governamentais coordenada
e planejadamente exercitadas. (GRAU, 1974, grifo nosso).
Em 1976, foram iniciados em âmbito estadual os Planos de Desenvolvimento
Integrados das Regiões Metropolitanas.
Em Minas Gerais, de acordo com Matos (1982):

Outra experiência de organização de entidade de planejamento e


administração metropolitana que merece ser aqui citada é a de Belo
Horizonte. Talvez seja a única região metropolitana no Brasil que já
dispunha de Plano Preliminar de Desenvolvimento Integrado da Região
Metropolitana antes da Lei Complementar nº 14/73. (MATOS, 1982, p.87).

Matos (1982) ressalta que a versão aprovada da Lei 14/73 diferia das
discussões anteriores acerca das regiões metropolitanas:

Mas a 17 de abril de 1973, o Executivo Federal enviou ao Congresso


Nacional o anteprojeto, que em quase nada se assemelha aos anteriores
com a inclusão de cinco emendas das 42 e se tornaria a Lei Complementar
nº 14, de 1973. (MATOS, 1982, p.98).

O autor diz ainda que a legislação continha uma forma de coerção em relação
aos municípios:

Os municípios da região metropolitana que participarem da execução do


planejamento integrado e dos serviços comuns terão preferência na
obtenção de recursos federais e estaduais, inclusive sob forma de
58

financiamento, bem como de garantias para empréstimos. (MATOS, 1982,


p.100).

Assim, antes mesmo da institucionalização inicial, já havia um grupo de


trabalho dentro da Fundação João Pinheiro, com objetivo de elaborar um Plano de
Desenvolvimento Integrado Econômico e Social da Região Metropolitana de Belo
Horizonte. Ainda de acordo com Matos (1982) citado anteriormente:

Em 1964 já existia uma Secretaria de Trabalho e Cultura Popular (hoje


2
Secretaria de Trabalho, Ação Social e Desportos) que contava com um
Departamento de Habitação Popular. A equipe técnica deste Departamento
era composta por alguns arquitetos e sociólogos que realizaram dois
estudos relacionados com a realidade urbana local: um sobre habitações
populares e outro sobre as favelas de Belo Horizonte. (MATOS, 1982,
p.110).

O autor esclarece que essa política da Secretaria do Trabalho teria sido


desarticulada em 1965, o que teria levado a descontentamento de técnicos
envolvidos naquele trabalho, que se transferiram para o Conselho Estadual de
Desenvolvimento com a intenção de criarem de um setor voltado ao planejamento
urbano. Esse grupo obteve algum nível de sucesso com a criação aí do Grupo de
Planejamento Integrado.
Embora existindo tal grupo, a questão metropolitana em Minas Gerais
conseguiu ser efetivamente desenvolvida à partir da estratégia do grupo oriundo da
Secretaria do trabalho em vincular a criação de uma central de abastecimento na
região à execução de um diagnóstico regional.
De acordo com Matos (1982):

Terminados os dois estudos, o Estado concentrou sua atenção e recursos


no projeto executivo da central de abastecimentos, considerando que o
Plano Preliminar de Desenvolvimento Integrado da Região Metropolitana
era apenas um livro que o haviam obrigado a fazer, apesar de já haver a
nível nacional, - inclusive no Congresso, relevantes discussões sobre os
problemas metropolitanos. (MATOS, 1982, p.114).

Ainda de acordo com Matos (1982) em 1969 o arquiteto Ney Werneck, um


dos líderes do grupo vindo da Secretaria do Trabalho, levou ao governador a
proposta, então polêmica, de que a equipe constituída para elaborar e implantar o

2
O secretário à época era o Professor Edgar Godoi da Matta Machado.
59

Plano da Região Metropolitana seria o primeiro embrião de um órgão que


futuramente assumiria as funções de planejamento e administração metropolitana. A
proposta encontrou muitos adversários, desde a Hidroservice, que elaborara o
estudo para a central de abastecimento, ao prefeito de Belo Horizonte, até grupos
que tinham interesse que tal trabalho fosse entregue a uma consultora internacional.
Não obstante os percalços, foi criado o Grupo da Grande BH.
De acordo ainda com autor:

Em 12 de dezembro de 1969, a Assembleia Legislativa aprovava e o


governador sancionava a Lei 5.399 autorizando a "instituição de Fundação
destinada à pesquisa aplicada nos campos da economia, da administração
e da tecnologia básica e social. (MATOS, 1982, p.120).

Essa veio a ser a Fundação João Pinheiro.


De acordo com Azevedo e Mares Guia (2010):

As diretrizes definidas pela União, primeiro através do Serviço Federal de


Habitação e Urbanismo (SERFHAU) e, posteriormente, pelo seu sucessor, o
Conselho Nacional de Políticas Urbanas (CNPU) – responsável pela
formulação e financiamento da política urbana do País –, garantiam o
financiamento de trabalhos desde que se adotasse o modelo de
planejamento integrado e que este fosse realizado por empresas privadas.
(AZEVEDO; MARES GUIA, 2010).

Em 1971, a Fundação João Pinheiro sofreu seu primeiro esvaziamento


político e numa estratégia de sobrevivência política, em 30/06/1971, foi celebrado
Convênio entre o Conselho Estadual de Desenvolvimento (representando o Estado
de Minas Gerais e tendo no seu bojo o Grupo da Grande BH), os Municípios da
Região Metropolitana de Belo Horizonte e a Fundação João Pinheiro, para a
elaboração do Plano Metropolitano. Estava criado o PLAMBEL e numa condição que
atendia às exigências do SERFHAU.
Aqui é importante observar que nenhum poder político forte ou com ligações a
grandes grupos econômicos estava presente naquele arranjo inicial; tratava-se de
um órgão em crise política no bojo do governo(a Fundação João Pinheiro) e um
grupo sem um lugar adequado ou estabilidade e também esvaziado politicamente
(Grupo da Grande BH), que se uniram nessa empreitada inicial, que mais tarde se
mostrou diversa do que se imaginava inicialmente e cumpriu um grande papel na
organização do espaço produtivo da RMBH.
60

Figura 3 - Organograma do Plano Metropolitano de Belo Horizonte - PLAMBEL


- Proposta Técnica

Fonte: FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1972

O Organograma acima demonstrado na Figura 3 consta do Documento Plano


Metropolitano de Belo Horizonte - PLAMBEL - Proposta Técnica - Fundação João
Pinheiro, 1972. Os municípios da Região Metropolitana fazem parte do Grupo de
Acompanhamento e compõem o Conselho Consultivo.
61

Pode-se observar que nenhuma instância deliberativa é mencionada no


organograma. A estrutura de gestão, nos termos da Lei Complementar 14/73, ainda
não estava delineada.

É ainda Matos que observa:

Percebe-se, através deste breve relato sobre a busca dos meios e da forma
para a criação de um órgão de planejamento e administração da Região
Metropolitana de Belo Horizonte, a completa ausência de qualquer
mobilização comunitária, tentativa de coalizão do grupo técnico com
governos municipais, ou outras maneiras de tangências. Este fenômeno não
foi específico de Belo Horizonte. Parece ter ocorrido na maioria das regiões
metropolitanas brasileiras com a tentativa de coalizão do grupo técnico com
governos municipais, ou outras maneiras de tornar pública a necessidade
do planejamento metropolitano. Todas as tentativas, barganhas e mesmo a
difusão da ideia não ultrapassavam os limites dos próprios técnicos do
Governo Estadual localizados nas suas diferentes agências. Este fenômeno
não foi específico de Belo Horizonte. Parece ter ocorrido na maioria das
regiões metropolitanas brasileira. (MATOS, 1982, p.116-117).

Enquanto esteve ligado à Fundação João Pinheiro, o PLAMBEL desenvolveu


os seguintes estudos:

 Comunicações na Região Metropolitana.Diagnóstico.1973. 58 p.;


 O Desenvolvimento Econômico e Social da Região Metropolitana de
Belo Horizonte. 1974. 7 V.;
 Esquema Metropolitano de Estruturas. 1974. 381 p.;
 O Esquema Metropolitano de Estruturas (primeiro esboço)1973. 91 p.;
 A Estrutura Econômica da Região Metropolitana: Diagnóstico e
Proposições (relatório intermediário) 1973;
 Estudo para a Constituição da Companhia Metropolitana de Águas e
Esgotos de Belo Horizonte. 1973. 23 p.;
 Informações Básicas da Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Caderno 1. 1974. 1 V.;
 Limpeza Pública na Região Metropolitana: diagnóstico.1973. 59 p. ;
Metodologia da Pesquisa Sócio-Econômica. 1974. IV.; (Sócio-
econômica e contrariando os modelos clássicos de diagnóstico para
um plano duas pesquisas articuladas: a de Vida Associativa e a de
62

Lideranças comunitárias, reunidas num conjunto de Pesquisas sócio-


políticas.) Moreira, 99 ) pé de página)
 Metodologia da Pesquisa de Transporte e Trânsito. 1974. IV.;
 Orientações para uma política Habitacional. 1974.93 p.;
 Pesquisa de Atividades Econômicas. 1974. 137 p.;
 Pesquisa Sócio-Política. 1974. 4V.;
 Plano de Transportes Coletivos para a Região Metropolitana ,19 74. 1
V. ;
 O Plano Metropolitano de Drenagem Urbana. 1975. 115 p.;
 Plano Metropolitano de Transportes. 1974. 4V.;
 A Poluição Atmosférica na Região Metropolitana: diagnóstico. 1973. 26
p.;
 A Região Metropolitana de Belo Horizonte. 1974. 24 p.;
 Saneamento Básico na Região Metropolitana: relatório intermediário.
1973. 153 p.;
 O Setor Público na Região Metropolitana de Belo Horizonte:
 Análise Econômica e Financeira. 1974. 103 p.;
 Sistema Metropolitano de Planejamento: notas sobre sua
institucionalização na Região Metropolitana de Belo Horizonte. 1974.
IV.;
 O Sítio Natural da Região Metropolitana de Belo Horizonte, 1973.

Como se vê, os estudos abrangiam diversas áreas do conhecimento e


pretendiam estabelecer uma base ampla para o planejamento metropolitano.
Durante os períodos seguintes, o PLAMBEL, já institucionalizado como órgão
técnico de suporte aos Conselhos Deliberativo e Consultivo da RMBH, continuou
elaborando estudos nas mais diversas áreas, embora, por motivos que
discorreremos adiante, apenas algumas dessas áreas, sob o acolhimento do estado,
prosperaram.
A Lei Estadual nº 6.303, de 1974, regulamentou a Região Metropolitana de
Belo Horizonte e instituiu a autarquia Planejamento da Região Metropolitana de Belo
63

Horizonte (PLAMBEL) como entidade de planejamento e apoio técnico aos


Conselhos Deliberativo e Consultivo.
Quanto à questão dos municípios componentes da RMBH, essa incluía desde
o seu início, por exemplo, o Município de Caeté, que não mantinha maiores vínculos
com a sede, mas era a terra natal do Governador. Essa falta de critérios, ou a
natureza muito particular de alguns deles, permaneceu; exemplo disso é a presença
do Município de Baldim ou Capim Branco na configuração da atual região
metropolitana de Belo Horizonte.3
A RMBH tinha então área de 368.806 hectares. Atualmente esta área é de
aproximadamente 946.797 hectares, conforme pode ser visto nas Figura 4, Figura 5,
Figura 6, Figura 7, Figura 8 , Figura 9, Figura e Figura 11, demonstradas a seguir.

3
Nesse caso, parece-nos que a abordagem permanece a mesma, já que a primeira constituição da
RMBH, na Lei Estadual nº 6.303, de 1974 e na configuração após os processos constituintes federais
e estaduais se mantém semelhante ausência de critérios na incorporação de municípios à região
metropolitana) pé de página.
64

Tabela 1 - Dados Econômicos e Demográficos da RMBH


2000-2010

Fonte: TONUCCI FILHO, 2012.


65

Figura 4 - Agregação de municípios à RMBH 1974/2002.

Fonte: Adaptado da Agência RMBH, 2009, p.5-6


66

Figura 5 - Agregação de municípios à RMBH em 1974

Fonte: Adaptado da Agência RMBH, 2009, p.5-6


67

Figura 6 - Agregação de municípios à RMBH em 1988

Fonte: Adaptado da Agência RMBH, 2009, p.5-6


68

Figura 7 - Agregação de municípios à RMBH em 1993

Fonte: Adaptado da Agência RMBH, 2009, p.5-6


69

Figura 8 - Agregação de municípios à RMBH em 1997

Fonte: Adaptado da Agência RMBH, 2009, p.5-6


70

Figura 9 - Agregação de municípios à RMBH em 2000

Fonte: Adaptado da Agência RMBH, 2009, p.5-6


71

Figura 10 - Agregação de municípios à RMBH em 2002

Fonte: Adaptado da Agência RMBH, 2009, p.5-6


72

Figura 11 - Aglomerado metropolitano 1984

Fonte: PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2007

O PLAMBEL desenvolveu então uma série de estudos que embasariam a


intervenção pública na RMBH, estes estudos abrangem as áreas definidas como
atribuição da RMBH.
Os principais estudos iniciais são o "Esquema Metropolitano de Estruturas" -
EME, o "Modelo Metropolitano para o Transporte Integrado" - MOMTI e o "Plano de
Uso do Solo" - POS. Diversas pesquisas são desenvolvidas tais como a
Sócioeconômica, de Processos da Morar e a mais robusta à época, a Pesquisas de
Origem e Destino, voltada ao conhecimento dos processos de mobilidade da RMBH.
Foram pesquisas de grande fôlego e que envolviam um grande contingente de
pessoas e recursos de grande monta.
O EME, que já se iniciara antes, no Grupo da Grande BH, teve sua
metodologia pautada nas modelagens de simulação de crescimento e segundo Deák
(1975): "a finalidade é antecipar com determinada margem de confiabilidade, o efeito
da ações pretendidas em função de determinadas metas." Assim o submodelo EME
refere-se ao subsistema SSI: Esquema Metropolitano de Estruturas.
73

Esta denominação refere-se à localização e/ou configuração de estruturas de


ordem regional, de uma hierarquia de organização superior àquela das estruturas do
sistema urbano local. Os elementos que compõem o subsistema EME são:

 infraestrutura física regional, compreendendo as vias de transporte e


comunicações regionais, represas e acidentes geográficos de âmbito
regional;
 localização do emprego básico, compreendendo:
1. empregos governamentais (nas três esferas: federal, estadual e
municipal);
2. grandes indústrias, existentes ou cuja futura localização já esteja
determinada;
3. comércio atacadista.

Foram simulados alguns cenários e um deles foi escolhido, e passou a


nortear os estudos seguintes.
É importante observar que o documento trabalhava com um modelo
matemático mecânico, baseado no modelo de Lowry 4, e estabelecia relações
lineares. Variáveis importantes como o mercado imobiliário ficavam fora das
análises.
O mercado imobiliário veio a ser analisado de forma pertinente em documento
produzido pelo PLAMBEL, mas naquele momento inicial e com o tipo de modelagem
utilizada, era impossível se fazer qualquer tipo de avaliação desse componente de
dinâmica urbana, que se mostrou extremamente impactado pela estrutura da RMBH,
o que se pode observar no processo de periferização que ocorreu no momento
seguinte.
Não obstante, se compararmos a estrutura do cenário escolhido com atual
estrutura identificada nos diversos diagnósticos do PMDI, vemos que as estruturas

4
O Modelo de Lowry foi desenvolvido para Pittsburgh em 1964 e é o primeiro modelo matemático
com perspectiva integrada de transportes e usos do solo com o objetivo prever a localização de
atividades tendo em consideração vários princípios de interdependência locativa. Essa definição é
retirada do curso Transportes Ambiente e Usos do Solo ministrado pelo professor João de Abreu e
Silva, Instituto técnico de Lisboa, 2007.
74

mantêm um razoável nível de identidade, não se considerando que atual RMBH é


bastante maior que aquela tratada pelo EME.
Teria sido o EME um exercício de futurologia bem sucedido? Sem entrar nos
méritos do modelo, acreditamos que o seu êxito de deva à extrema articulação que
ele proporcionou aos estudos e intervenções posteriores que se deram e ao fato de
que havia na escolha do cenário uma vontade política que retratasse a correlação de
forças presentes no estado e no país. As condições da acumulação do capital
naquele momento apontavam para a concentração da produção e da população em
determinados pontos do território. Singer (1968) aborda muito amplamente o tema
em seu livro Desenvolvimento e Crise, que pode se dizer ser um clássico sobre a
matéria.
Soja (1993), por sua vez, diz que:

O desenvolvimento regional desigual sempre foi uma importante base de


geração e extração de superlucros, e continua a sê-lo mesmo numa era em
que a fonte primária da super lucratividade pode ter passado a ser o
desenvolvimento setorial desequilibrado. (SOJA, 1993, p. 205)

O processo de periferização também estava nessa lógica da estrutura de


produção daquele momento.
O POS, pode então, ser um instrumento mais leve e talvez mais ideológico,
pois o caminho duro havia sido feito pelo EME. Além da regulação do uso do solo, o
POS tratava também da vida cotidiana e em seus chamados "pontos-chave",
aqueles entornos dos quais se estimulava maior nível de conforto da vida cotidiana,
também podem ser comparados aos do PMDI.
Azevedo e Mares Guia (2010) comentam:

Num comportamento pautado pelo “voluntarismo utópico” – expressão


usada por Mattos para indicar uma das características dos planejadores
“cepalinos”, a orientação teórica e metodológica adotada pelos técnicos
tinha como base uma ideologia que, de modo geral, se contrapunha à dos
grupos sociais que detinham o poder de decisão. Viam-se como “agentes
de mudança social” e internalizavam o desempenho desse papel como uma
“missão”, acreditando serem dotados de autonomia suficiente para atuarem
nesse sentido. (MARES GUIA; AZEVEDO, 2010).
75

Acreditamos que esse comportamento tenha pautado os técnicos do


PLAMBEL não só no seu início, mas ousaria dizer que durante quase toda a
existência da autarquia.
O MOMTI foi importante instrumento de consolidação da estrutura urbana do
EME. Não faremos especificamente observações acerca dos modelos de
transportes, eles seguem tendo modelagem própria, quase que um tema aparte na
cidade, mesmo em estruturas de gestão participativas. O modelo econômico
adotado no país nos dias de hoje, que tem na indústria automobilística e de outros
bens de consumo duráveis um de seus importantes pilares, tornou bem mais difícil
soluções para esse tema.
Em termos de estruturação, o principal vetor de crescimento da RMBH, à
época, constituía-se no vetor oeste, onde estavam sendo implantadas e
consolidadas as principais atividades econômicas ligadas à indústria, com ênfase
para a Cidade Industrial Juventino Dias e para a nova região industrial de Betim,
com o Distrito industrial Paulo Camilo Penna e Distrito Industrial do Imbirusssu, onde
se consolidava o núcleo de produção ligado ao setor metal-mecânico, representado
pela FIAT e indústrias complementares.
O fortalecimento do setor metal- mecânico na RMBH é conhecido como o
ciclo da Segunda Industrialização Mineira. A implantação das atividades ligadas ao
setor metal mecânico foi fortemente subsidiada pelo poder público estadual.
Segundo o site FIATPRESS:

Desde o princípio da construção de sua fábrica em Betim, em junho de


1974, a FIAT já surpreendia o país. Em apenas dois anos, a empresa
italiana colocou em perfeitas condições de funcionamento uma indústria
com uma área coberta de 350 mil metros quadrados (2.245.000 metros
quadrados de área total). (FIATPRESS, 2012).

Os terrenos onde se localizou a planta industrial foram fortemente subsidiados


pelos poderes públicos, assim como todos os serviços de terraplenagem. Ainda
segundo a mesma fonte citada anteriormente: "Com a fábrica, nasceram e
cresceram, um grupo de cerca de 500 empresas de autopeças e componentes."
(FIATPRESS, 2012).
Segundo Oliveira (1996) citado por Rivellari (1998):
Para atender a FIAT, a siderúrgica (Usiminas) instalou uma subsidiária,
próxima à montadora, no município vizinho de Contagem, cuja finalidade é a
76

realização dos trabalhos de estampagem para os veículos FIAT, numa


relação de exclusividade.(OLIVEIRA, 1996 apud RIVELLARI, 1998).

Fazemos essa citação no sentido de demonstrar que desde o início a


produção industrial do vetor oeste estava vinculada a outras regiões do estado, no
caso Ipatinga, através da subsidiária da USIMINAS.
Há um aspecto importante a ser observado no processo de implantação da
FIAT: o processo de favelização de áreas de seu entorno. A FIAT inaugura em
09/07/1976 já com uma enorme ocupação de barracos na área em frente a ela, do
outro lado da rodovia: o Jardim Teresópolis, parcelamento da década de 1960
empreendido pela COMITECO, mas que não fora ocupado, é então invadido por
pessoas atraídas pelas possibilidades de emprego na empresa e até mesmo por
operários que haviam participado das obras. A ocupação precária utilizava muitas
vezes na construção das moradias os caixotes que acondicionavam o maquinário
utilizado inicialmente pela empresa. A região do Jardim Teresópolis expandiu-se
rapidamente e hoje o Jardim Teresópolis/Santo Antônio, em Betim, na RMBH, é o
primeiro aglomerado subnormal do estado e o 24º brasileiro, com mais de 20 mil
moradores, segundo texto do jornal Estado de Minas, baseado em dados apurados
pelo IBGE no último censo demográfico e divulgados em dezembro de 2011. A
existência de numerosos parcelamentos vagos era uma característica do município
de Betim, além da existência de pequenos núcleos urbanos isolados naquela região,
tais como PTB (Parada de Trens de Betim), Citrolândia, região da Colônia Santa
Isabel e outros. Havia também um processo de construção de conjuntos
habitacionais em áreas desconectadas do tecido urbano. Pastagens, loteamentos
não ocupados e conjuntos habitacionais povoavam a paisagem da região naquele
momento. O processo de consolidação e conurbação do vetor incorporou todas
essas áreas.
No caso do Jardim Teresópolis5, o terreno era de propriedade da empresa
COMITECO Engenharia, que ainda no ano de 1970 – quando foi iniciada a
construção da FIAT – começou a vendê-lo em forma de pequenos lotes para as
famílias que chegavam à região em busca de emprego. No entanto, várias dessas

5
Sua subregião é composta por oito bairros adjacentes (Vila recreio, Vila Bemge, Amazonas,
Alvorada, Riacho 3, Boa Esperança, Chácara Santo Antônio, Arvoredos).
77

famílias não conseguiram quitar a dívida com a COMITECO, tendo, desta forma, que
deixar os lotes. Estes se tornaram ociosos e, alguns anos mais tarde, outras famílias
que chegavam em busca de melhores condições de vida passaram a invadi-los. A
empresa COMITECO desta vez, não fez nenhum reclamo para reaver sua
propriedade.
As principais ações do PLAMBEL se deram no sentido de consolidar o eixo
oeste, e em seguida o eixo norte, particularmente na área dos transportes, o que
naquele momento representava a vontade dos grupos econômicos e políticos
hegemônicos. Essas ações, sobre esse enfoque, foram bem sucedidas e esse
sistema viário resultante ainda hoje é parte significativa dos eixos viários, presentes
na estrutura da RMBH.
O contexto econômico internacional e sua nova divisão internacional do
trabalho apontavam para a descentralização das plantas industriais de setor
automotivo. O Brasil e a Argentina foram, na América do Sul, países que acolheram
essas atividades. Ao lado da FIAT, a Volkswagen esteve entre as indústrias
europeias que deram ênfase a essa ideia. Esse contexto que envolveu o Brasil, e no
caso, Minas Gerais, deve ser inscrita naquelas classificadas por Lefebvre como da
ordem distante em relação aos territórios em que as atividades vieram a ser
localizadas.
A implantação dessas atividades em Minas Gerais e no Brasil se inscreve no
processo que Santos (2008) descreve:

Simultaneamente, duas escalas de reprodução do capitalismo se encontram


no território. Nesse caso, o que está em questão é a própria expansão do
capitalismo no espaço mundial, colonizando e incluindo novos rincões
territoriais no complexo universo dos fluxos de valores em escala
internacional. O capitalismo internacional se utiliza, aqui, dos espaços
nacionais, na escala territorial, para uma estratégia de reprodução ampliada
das relações de produção. (SANTOS, 2008).

Por outro lado, houve muita disputa entre estados e municípios para sediar
essas atividades e no caso da FIAT, estado e município de Betim se uniram nessa
empreitada bem sucedida.
Essas ações do estado e município se aproximam da ordem próxima, onde,
em tese, algum controle popular era possível, mas esses não eram os tempos,
estávamos em pleno regime da ditadura militar. Em termos dos órgãos deliberativos
78

da RMBH naquele momento também não havia participação de representantes da


população e sequer dos legislativos. Muito se tem falado sobre isso e não temos
uma opinião divergente acerca da matéria.
Mas, voltando à localização da FIAT, o estado e o município de Betim
ofereceram enormes vantagens locacionais e tributárias à empresa, o que foi sem
dúvida fundamental para a localização escolhida. No entanto, outro fator pode ser
considerado fundamental: a presença dos insumos necessários ao processo
produtivo, e nisso a presença do quadrilátero ferrífero é outra vantagem locacional
da maior importância, além da malha ferroviária6 existente.
Assim, se as possibilidades se situaram na ordem distante, o acolhimento no
sítio específico se deu em nível local, onde um verdadeiro aparato foi montado no
sentido de viabilizar tal implantação.
Naquele momento, embora não tenha tido qualquer manifestação por parte da
população, o ideário positivista do progresso imprimia grande euforia à população, a
fábrica era considerada um novo "el dorado".
O desenvolvimento do vetor Oeste foi apoiado em grandes investimentos na
constituição do sistema viário articulador. Esses recursos, oriundos do BIRD,
articulados pela então poderosa EBTU, sobre a qual já nos referimos no capítulo
anterior. A implantação, em 1977, da chamada Via Leste-Oeste é um dos primeiros
investimentos calcados no MOMTI a ser implantado na RMBH com recursos do
BIRD, intermediados pelo PLAMBEL e sob o aval da EBTU. Essas atividades na
área dos transportes davam muita visibilidade ao PLAMBEL, que além do vetor
oeste, investiu também no Vetor Norte, com a implantação da chamada Via Norte,
que hoje compõe a Linha Verde e estrutura o Vetor Norte.
Segundo Brito e Souza (2005):

A presença dessas atividades industriais, principalmente do vetor oeste,


ensejaram um grande movimento migratório em direção à RMBH e em
consequência, também um grande processo de periferização,
marcadamente no próprio vetor oeste, como é o caso citado do Jardim
Petrópolis, e em seguida no Vetor Norte e Leste da RMBH. Inclui-se nesse

6
A importância dessa malha é tal que a estação alfandegária de interior ligada ao processo de
exportação dos produtos da FIAT se localiza aí.
79

processo o conhecido fenômeno do crescimento da Ribeirão das Neves na


década de 80, o maior do Brasil. (BRITO; SOUZA, 2005).

Tabela 2 - Evolução da População da Região Metropolitana de Belo Horizonte -


1940-2000

Fonte: BRITO; SOUZA, 2005, p. 53


80

Tabela 3 - Evolução da população da RMBH (1950-1996)

Fonte: BELO HORIZONTE, 2001


81

O forte controle do uso do solo que se adotou em Belo Horizonte a partir de


1976, com o advento da Lei de Uso e Ocupação do Solo de Belo Horizonte e falta de
qualquer controle nos municípios vizinhos e pertencentes ao Aglomerado
Metropolitano, levou a um crescimento vertiginoso dos parcelamentos irregulares
nesses municípios, que assumiram o papel de dormitório. O caso mais expressivo e
conhecido é o do município de Ribeirão das Neves, que teve na década de 1980 o
maior índice de crescimento populacional do país e da América Latina (TAB. 2 e
TAB. 3) enquanto o município de Betim teve o maior crescimento econômico do
Brasil na década.
Ainda de acordo com Brito e Souza (2005) essa importante concentração
industrial estimulou tanto a construção de vários conjuntos habitacionais, por
iniciativa governamental, quanto a construção de loteamentos para a população de
baixa renda, pelo capital imobiliário. Essa intensa ocupação demográfica deu origem
ao processo de conurbação de Belo Horizonte com o município de Contagem, e
deste com o de Betim. Apesar da realização de investimentos estatais necessários à
implantação do parque industrial, a fragilidade do controle público sobre o uso e a
ocupação do solo permitiu ampla liberdade de atuação ao capital imobiliário - fato
que gerou assentamentos sem a necessária infraestrutura urbana.
82

Figura 12 - Mancha urbana da RMBH mapeada em 1991, 2000 e 2010

Fonte: Elaborado por UMBELINO (2011), G com dados extraídos do IBGE, FJP, PDDI
83

Naquele momento, não só pela implantação da Lei de Uso e Ocupação do


Solo (LUOS), mas também pela implantação do Plano de Circulação da Área
Central de Belo Horizonte (PACE), o município de Belo Horizonte foi um forte aliado
da gestão metropolitana institucionalizada. O PACE reorientou o sistema de
circulação na área central de Belo Horizonte e foi um dos itens que possibilitou o
rearranjo do sistema de transportes coletivos em toda a RMBH, através do programa
denominado PACOTT - Projeto de Ampliação da Capacidade Operacional do
Transporte e do Trânsito, no início dos anos 1980.

Tabela 4 - População e Taxa de Crescimento Geométrico da RMBH no período


1970-2000

Fonte: Elaborado por Glauco Umbelino com dados extraídos do IBGE


84

O PLAMBEL desenvolveu, ao lado dessas grandes ações estruturantes do


espaço metropolitano, ações de apoio às diversas administrações municipais na
realização de suas estruturas funcionais e de elaboração das legislações
urbanísticas, principalmente de uso e ocupação do solo. Essas ações foram bem
sucedidas nos municípios em que foram desenvolvidas.
Do ponto de vista da gestão oficial através do Conselho Deliberativo e do
Conselho Consultivo, paralelamente na RMBH, foi criada em 1975, pelos municípios
que a compunham, a GRANBEL7, a associação de municípios da região
metropolitana, no caso dos executivos municipais que a compunham.
Cabe observar aqui, no entanto, que sempre houve um grau de desencontro
ou descompasso entre GRANBEL e AMBEL, e nos dois fóruns sempre houve
disputa entre os municípios de maior porte e aqueles de menor porte.
Em relação aos transportes, a questão deixou de ser gerida pelo PLAMBEL
com a criação da empresa pública Companhia de Transportes Urbanos da Região
Metropolitana de Belo Horizonte – METROBEL que teve sua constituição autorizada
pela Lei n. 7.275, de 28/06/78, sob a forma de sociedade anônima, vinculada ao
Conselho Deliberativo da Região Metropolitana de Belo Horizonte, com a finalidade
de implantar e operar, diretamente ou através de terceiros, o serviço de interesse
comum dos Municípios integrantes da região metropolitana referente a transportes e
sistema viário, mencionado na Lei Complementar n. 14, de 08/06/73.Entretanto, a
METROBEL só veio a ser constituída de fato em 16/06/80.
A Lei nº 7.275/78, que criou a METROBEL , rezava em seu artigo 49 que "o
Estado de Minas Gerais subscreverá pelo menos 51% (cinquenta e um por cento)
das ações com direito a voto".
Não houve rupturas entre as posturas do PLAMBEL e da recém criada
METROBEL, Já que essa na verdade se desdobrava da própria equipe do
PLAMBEL que vinha tratando da questão naquela autarquia. As competências da
METROBEL na Região Metropolitana eram o planejamento e operação do
transportes, do trânsito, do sistema viário metropolitano, além de atividades

7
A Granbel - Associação dos 34 Municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte, foi fundada
em 06 fevereiro de 1975, em Betim/MG. Nasceu para ser o fórum de debates e decisões políticas
capazes de manter a unidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte e de representar seus
interesses comuns.
85

complementares, como administração de terminais de transportes e outras. A


METROBEL, por suas ações na redefinição nas de operação dos transportes
coletivos da RMBH, trouxe muita insatisfação entre os empresários dos transportes
coletivos e também entre a população, por alterar hábitos arraigados.
A criação da Câmara de Compensação Tarifária, que remunerava as
empresas pelos quilômetros e condições percorridas, levou a que as linhas de Belo
Horizonte, principalmente as que trafegavam no eixo da Avenida Afonso Pena, a
transferirem recursos para as linhas que operavam em trajetos mais longos. Essas
medidas, que permitiram uma política tarifária de maior justiça social; por outro lado
levaram à expansão das periferias, já que o impacto dos custos de transportes
passaram a contar menos nos orçamentos familiares.
O Governo Newton Cardoso cria, através da lei estadual 9527/87, a
Secretaria de Estado de Assuntos Metropolitanos e no mesmo ato que extingue a
METROBEL, cria a TRANSMETRO. A mesma lei ainda vincula PLAMBEL e
TRANSMETRO à Secretaria de Assuntos Metropolitanos. Com a criação da
TRANSMETRO, através da Lei Estadual n. 9.527, de 29/12/87, a METROBEL entrou
em processo de liquidação, ratificado pela Assembleia Geral Extraordinária dos
acionistas realizada em 20/01/88.
Voltando à questão da forma urbana, se a implantação da FIAT e seu parque
industrial complementar configurou o espaço metropolitano à época, as mudanças
no processo de produção daquela empresa que podemos chamar adequação aos
modelos da produção industrial pós-moderna, igualmente impactou os espaços
diretamente ligados a ela, como estendeu os espaços pressionados diretamente por
seu processo de produção a um vasto território, ainda no vetor oeste, mas já
apontando para uma explosão ainda maior. Na FIAT, esse processo foi denominado
"just in time" e é assim descrito por Rivellari (1998) que também cita Oliveira (1996):

Atualmente, num raio de 100 Km em torno da montadora FIAT, o JIT


Externo funciona com 10 fábricas instaladas e 12 em processo de
instalação. O processo de terceirização é mais intenso na montadora do
que entre as autopeças. Conforme Oliveira(1996), a montadora mineira não
apenas terceiriza partes do seu processo produtivo, como também a mão-
de-obra operacional, cabendo aos seus fornecedores não apenas
produzirem subconjuntos completos, mas também montá-los e realizarem
outras tarefas produtivas. Os fornecedores alegam que o objetivo primeiro é
reduzir o custo para a montadora, pois o diferencial de salário que pagam
aos seus operários comparativamente ao que recebem os operários da
86

“empresa-mãe” é grande. Além da redução de custos, a FIAT dificulta a


organização sindical de seus operários ao inserir trabalhadores de várias
empresas para executarem o mesmo tipo de trabalho. (OLIVEIRA, 1996
apud RIVELLARI, 1998).

Esse processo trouxe grande impacto ao tecido urbano e à malha viária, já


que a fábrica não mantinha mais estoques de seus componentes, que eram
entregues no seu pátio a cada duas horas. É em Betim que a RMBH sofre sua
primeira alteração visível em consequência dos novos processos produtivos, que
poderiam ser incluídos no título abrangente de produção pós-moderna.
Em 1983, o PLAMBEL diz, em seu documento "O processo de Formação do
Espaço Metropolitano – Hipóteses gerais", que:

Ao conjunto de formas urbanas com sua significação cambiante,


relacionadas entre si podemos chamar de estrutura urbana. Trata-se de um
conjunto de estruturas físicas- edifícios, terrenos , sistemas de infraestrutura
que articulam os espaços entre si, suporte e realização de localizações de
populações e atividades posicionadas e relacionadas uma às outras e
geradoras de fluxos também definidos espacialmente. A estrutura urbana
começa a ser entendida quando/se explicitam as localizações de atividades
e populações /que determinam a direção e o sentido dos fluxos de pessoas,
mercadorias, dinheiro, informações, etc - o centro e as localizações que são
determinadas - as periferias. (BELO HORIZONTE, 1983).

Aqui temos um momento de inflexão na abordagem que o PLAMBEL dá ao


espaço metropolitano. A ideia de forma urbana e por consequente de estrutura
urbana passa a permear como o espaço é abordado. Nesse momento, o PLAMBEL
busca identificar unidades que refletissem o cotidiano das populações
metropolitanas. Em 2002, o documento Relatório Consolidado Pesquisa Origem e
Destino, 2001 - 2002, Volume I dá o testemunho daquela postura:

No Sistema de Unidades Espaciais, a categoria principal de apreensão da


realidade metropolitana do ponto de vista dos moradores e dos desafios ao
seu cotidiano é denominada campo. Campo é concebido como unidade de
vida urbana. Nele os moradores vivem uma parte da cidade como se fosse
uma totalidade. Tensionada por diferentes forças, essa unidade é capaz de
sintetizá-las no espaço, ensejando centralidade como resposta às
simultaneidades dos usos. Há uma tentação de confundir o conceito de
campo com o de bairro. Pode-se dizer que todo bairro, assumido em seu
pleno sentido é um campo, mas nem todo campo é um bairro. Um bairro é
um campo quando constrói e mantém a identidade dos seus moradores e a
impõe à vizinhança e visitantes. Mas um bairro pode também se tornar
referência de uma região maior, confundindo-se com subcomplexos ou
complexos diferenciados de Campos. Barreiro, Eldorado, Ressaca, Venda
Nova, Justinópolis, São Benedito, Aarão Reis, Pampulha, são exemplos de
87

nomes de bairros que designam regiões ou subcomplexos diferenciados de


campos. (MINAS GERAIS, 2002, v. 1, p. 32).

A Região Metropolitana foi dividida em 205 campos em 1982, 233 em 1992 e


260 em 2001.
Também nesse momento, o PLAMBEL (1983) explicita uma nova abordagem
da estrutura urbana em seus estudos:

Ao conjunto de formas urbanas com sua significação cambiante,


relacionadas entre si podemos chamar de estrutura urbana. Trata-se de um
conjunto de estruturas físicas- edifícios, terrenos , sistemas de infraestrutura
que articulam os espaços entre si, suporte e realização de localizações de
populações e atividades posicionadas e relacionadas uma às outras e
geradoras de fluxos também definidos espacialmente. A estrutura urbana
começa a ser entendida quando/se explicitam as localizações de atividades
e populações /que determinam a direção e o sentido dos fluxos de
pessoas,mercadorias, dinheiro, informações, etc - o centro e as localizações
que são determinadas - as periferias. (BELO HORIZONTE, 1983).

Alguns autores consideram que desde o início da década de 1980, o processo


de planejamento do PLAMBEL estava em declínio. Somos de opinião diversa:
aquele foi um momento de inflexão, como dissemos anteriormente, onde era
buscada uma nova forma de conhecimento e contato com a realidade metropolitana.
Naquele momento foram criadas as Unidades Básicas de Planejamento Urbano -
UBEs, unidades de vida cotidiana, identificadas em campo através de contatos não
estruturados com a população. Essas unidades informaram o Sistema de Unidades
Espaciais da RMBH e redirecionaram a sistematização dos dados e compreensão
da RMBH. Esse processo levou à identificação das estruturas de centralidade nas
mais diversas escalas na região. O documento "Algumas Indicações para a Ida ao
Campo – Em busca de atitudes e comportamentos para o conhecimento do urbano",
de autoria do filósofo José de Anchieta Correa, consultor do PLAMBEL à época,
apresentado no anexo I, dá uma noção do que possa ter sido aquele momento, já
que ali estão as orientações do que deveria ser observado em campo.
Um pressuposto dessa abordagem da RMBH é de que o espaço
metropolitano é tensionado de forma diversa em cada um dos lugares, assim foram
adotados três níveis de aproximação da realidade metropolitana:
O primeiro nível refere-se à região metropolitana como um todo, como os
processos sociais adquirem especificidade em parte da região. "Nesse nível de
88

aproximação, evidenciam-se, ainda os processos-síntese da formação do espaço:


concentração/dispersão e estratificação social." (BELO HORIZONTE, 1984, p.04).

O segundo nível explicita os modos particularizados de exercício da


centralidade, onde se pode identificar, à luz do processo histórico de
formação de cada porção, as forças capazes de influenciar o dinamismo
das partes do território, reconhecendo-lhe a identidade particular e própria.
(BELO HORIZONTE, 1984, p.07).

"O terceiro nível é fundamentalmente identificado pelas pesquisas de campo,


aproximando-se do cotidiano." (BELO HORIZONTE, 1984, p.08).
O Anexo II mostra a localização em mapa dessas unidades e suas
correspondências.
Livre do peso da gestão dos transportes, sem muitos recursos financeiros a
gerir, tendo a assistência técnica aos municípios como uma de suas atividades
possíveis naquele momento, o PLAMBEL pode voltar-se para avaliar suas
atividades, suas metodologias, e criar naqueles momentos algum nível de
pensamento que se buscasse novo e que apontasse em que sentido os estudos
metropolitanos deveriam se orientar. Embora o momento tenha sido, do ponto de
vista técnico, da maior relevância, não houve nenhum estrutura formal de
participação popular, continuando os fóruns de gestão participativa obstruídos na
época. Apesar da pequena importância da questão metropolitana naquele contexto
político, o PLAMBEL deixa, em relação àqueles momentos, um testemunho de
criatividade, e uma sintonia muito grande com momentos vindouros. Talvez esse
tenha sido um importante momento de liberdade de pensamento metropolitano, que
caminhava justamente no vácuo deixado pelos processos políticos do momento.
Acreditamos que essa fase tenha sido de produção analítica muito rica e
fornece pontos de contatos expressivos com o PMDI, produzido em 2011. Se pensa
em força advinda dos momentos da ditadura e centralização do poder, esse é um
momento decadente sim, mas se pensa em abertura aos momentos políticos do
país, esse é um momento rico e criativo.
Esse momento de inflexão da abordagem da RMBH foi bastante atípico e
caminhava na contramão do planejamento estratégico e pontual que passava a
vicejar nos processos de planejamento que a globalização ensejava, onde
predominava a disputa e concorrência entre os lugares para um melhor
89

posicionamento no ranking das cidades globais. Em termos do governo estadual não


havia uma postura metropolitana correspondente a esse momento do PLAMBEL.
Eram tempos do governo Tancredo Neves, seguido pelo governo Hélio Garcia. Eram
tempos que apontavam para o movimento pelas eleições diretas; o PLAMBEL
estava em sintonia com as mudanças que o país exigia. Em seguida, veio o governo
de Newton Cardoso8, 1987 a 1991, onde se já não bastassem as baixas convicções
do governador em relação às questões metropolitanas, ele tinha como compromisso
a extinção da METROBEL, dados os numerosos conflitos entre aquela empresa e a
população na gestão dos transportes.
Aqui sim começa a oclusão do PLAMBEL que vai até sua extinção em 1996,
no governo de Eduardo Azeredo9. Se houve o PLAMBEL de antes da instituição das
regiões metropolitas, se houve um PLAMBEL do EME, também houve o PLAMBEL
das inflexões na direção do cotidiano, do diverso, do plural.
Uma frase do documento produzido por Corrêa (1981) "Voltar-se
obstinadamente para a captação do dinâmico, do vivido, dos encontros, das
simultaneidades do uso e significações inscritas no espaço.", diz muito daqueles
momentos.
Voltando aos termos institucionais no final de 1987 é criada a Secretaria de
Estado de Assuntos Metropolitanos, ficando, de fato, suas decisões a cargo do
Governador do Estado (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1998, apud AZEVEDO;
MARES GUIA, 2000, p. 137). A Constituição de 1988, como já foi dito anteriormente
não recepciona as regiões metropolitanas e trata a matéria apenas no § 3º do Artigo
25.1., no qual transfere para os Estados a responsabilidade de recepcionar as
Regiões existentes, criarem e organizarem as regiões metropolitanas na seguinte
redação:

8
Newton Cardoso, quando prefeito de Contagem foi o responsável pela implantação de um grande
núcleo de habitação popular na bacia de Preservação Ambiental de Vargem das Flores, manancial
que abastecia parte daquele município e parte do de Betim.

Esse governador é conhecido também pela grande demissão que realizou entre os funcionários
públicos, numa ação voltada ao enxugamento da máquina administrativa, mas que levou grande
insegurança aos quadros técnicos. No PLAMBEL surgiram várias listas de demissões.
90

Art. 25. Os Estados organizam-se e regem-se pelas Constituições e leis que


adotarem, observados os princípios desta Constituição [...]
§ 3º. Os Estados poderão, mediante lei complementar, instituir Regiões
Metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões, constituídas por
agrupamentos de municípios limítrofes, para integrar a organização, o
planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum.
(BRASIL, 1988).

As funções públicas de interesse comum em são:

1. Cartografia
2. Defesa Civil
3. Gás Canalizado
4. Habitação
5. Meio Ambiente
6. Recursos Hídricos
7. Saneamento
8. Saúde
9. Sistema Viário
10. Transporte Intermunicipal
11. Uso do Solo Metropolitano

A Constituição Mineira, por sua vez, diz:

Art.45 - Considera-se região metropolitana o conjunto de Municípios


limítrofes que apresentam a ocorrência ou a tendência de continuidade do
tecido urbano e de complementaridade de funções urbanas, que tenha
como núcleo a capital do Estado ou metrópole regional e que exija
planejamento integrado e gestão conjunta permanente por parte dos entes
públicos nela atuantes.
• (Artigo com redação dada pelo art. 1º da Emenda à Constituição nº 65, de
25/11/2004.)
Art. 46 - Haverá em cada região metropolitana:
I - uma Assembleia Metropolitana;
II - um Conselho Deliberativo de Desenvolvimento Metropolitano;
III - uma Agência de Desenvolvimento, com caráter técnico e executivo;
• (Vide Lei Complementar nº 107, de 12/1/2009.)
IV - um Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado;
V - um Fundo de Desenvolvimento Metropolitano.
§ 1° - A Assembleia Metropolitana constitui o órgão colegiado de decisão
superior e de representação do Estado e dos municípios na região
metropolitana, competindo-lhe:
I - definir as macrodiretrizes do planejamento global da região
metropolitana;
91

II - vetar, por deliberação de pelo menos dois terços de seus membros,


resolução emitida pelo Conselho Deliberativo de Desenvolvimento
Metropolitano.
§ 2° - Fica assegurada, para fins de deliberação, representação paritária
entre o Estado e os Municípios da região metropolitana na Assembleia
Metropolitana, nos termos de lei complementar.
§ 3° - O Conselho Deliberativo de Desenvolvimento Metropolitano é o órgão
colegiado da região metropolitana ao qual compete:
I - deliberar sobre o planejamento e a execução das funções públicas de
interesse comum;
II - elaborar a programação normativa da implantação e da execução das
funções públicas de interesse comum;
III - provocar a elaboração e aprovar o Plano Diretor de Desenvolvimento
Integrado da região metropolitana;
IV - aprovar as regras de compatibilização entre o planejamento da região
metropolitana e as políticas setoriais adotadas pelo poder público para a
região;
V - deliberar sobre a gestão do Fundo de Desenvolvimento Metropolitano.
§ 4° - Fica assegurada a participação de representantes do Estado, dos
Municípios da região metropolitana e da sociedade civil organizada no
Conselho Deliberativo de Desenvolvimento Metropolitano.
• (Artigo com redação dada pelo art. 1º da Emenda à Constituição nº 65, de
25/11/2004.)
Art. 47 - Fica instituído o Fundo de Desenvolvimento Metropolitano,
destinado a financiar os planos e projetos da região metropolitana, em
consonância com o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado.
• (Artigo com redação dada pelo art. 1º da Emenda à Constituição nº 65, de
25/11/2004.) (BRASIL, 1988).

A Emenda Constitucional 65 de 2004 diz:

Art. 43 - Considera-se função pública de interesse comum à atividade ou o


serviço cuja realização por parte de um Município, isoladamente, seja
inviável ou cause impacto nos outros Municípios integrantes da região
metropolitana.
§ 1º - A gestão de função pública de interesse comum será unificada.
§ 2º - As especificações das funções públicas de interesse comum serão
definidas na lei complementar que instituir região metropolitana,
aglomeração urbana e microrregião.

Art. 44 - A instituição de região metropolitana se fará com base nos


conceitos estabelecidos nesta Constituição e na avaliação, na forma de
parecer técnico, do conjunto dos seguintes dados ou fatores, dentre outros,
objetivamente apurados:
I - população e crescimento demográfico, com projeção quinquenal;
II - grau de conurbação e movimentos pendulares da população;
III - atividade econômica e perspectivas de desenvolvimento;
IV - fatores de polarização;
V - deficiência dos serviços públicos, em um ou mais Municípios, com
implicação no desenvolvimento da região. (BRASIL, 2004).

Percebe-se que a Constituição do Estado de Minas Gerais trata de maneira


bem mais abrangente a questão metropolitana.
92

Após os processos constituintes, a Lei Complementar nº 88/2006, de 12 de


janeiro de 2006 e a Lei Complementar nº 89/2006, de 12 de Janeiro de 2006
dispõem sobre a Região Metropolitana de Belo Horizonte. A Lei Complementar nº
90/2006, de 12 de Janeiro de 2006 dispõe sobre a Região Metropolitana do Vale do
Aço. As instâncias da gestão de acordo com a Constituição Estadual, Emenda 65 e
Leis Complementares 88 e 89 passam a ser:

1. Assembleia Metropolitana, constituída por 34 prefeitos, 34 presidentes


das Câmaras, 4 representantes do executivo estadual, e 1 da
Assembleia Legislativa. A Assembleia Metropolitana tem o pode vetar,
(por deliberação de dois terços dos votos válidos), qualquer resolução
emitida pelo Conselho Deliberativo. É a instância mais poderosa de
gestão da RMBH;
2. Conselho Deliberativo de Desenvolvimento da RMBH, composto por 5
representantes do executivo estadual, 2 da Assembleia Legislativa, 6
dos executivos municipais e 2 da sociedade civil. Cabe ao Conselho
Deliberativo aprovar, acompanhar e avaliar a execução do PDDI, fixar
diretrizes e prioridades e aprovar o cronograma de desembolso dos
recursos do Fundo Metropolitano;
3. Agência de Desenvolvimento da RMBH Agência RMBH, autarquia
territorial e especial, de caráter técnico e executivo, para fins de
planejamento, assessoramento, regulação urbana e apoio à execução
das funções públicas de interesse comum na região metropolitana e
tem em suas atividades fundamentais: “elaborar o Plano Diretor de
Desenvolvimento Integrado - PDDI”, “promover a execução das metas
e prioridades estabelecidas pelo PDDI”, através da “promoção e
implementação do Plano, de Programas e Projetos”;
4. Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado – PDDI, contemplando as
funções públicas de interesse comum;
5. Fundo Metropolitano, constituído por 50% dos recursos do Estado e
50% dos Municípios;
6. Conferência Metropolitana, a ocorrer a cada 2 anos (2007, 2009, 2011),
com membros eleitos os do Colegiado da Sociedade Civil e os dois
93

conselheiros e respectivos suplentes no Conselho Deliberativo e


prefeitos eleitos por seus pares Conselho metropolitano
7. Colegiado metropolitano, criado na Primeira Conferência Metropolitana
da RMBH, compõe-se de 20 entidades representando cinco segmentos
sociais: Empresários, Movimentos sociais e populares, Organizações
não governamentais - ONGs, Organizações profissionais, acadêmicas
e de pesquisas e Sindicatos de trabalhadores. O objetivo é ter uma
instância de apoio e assessoramento, conferindo mais legitimidade aos
representantes da sociedade civil (dois conselheiros titulares e
respectivos suplentes), no Conselho Deliberativo de Desenvolvimento
Metropolitano da RMBH.

A TRANSMETRO foi extinta em 1994, passando as linhas metropolitanas ao


gerenciamento do Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais,
DER/MG. A criação das entidades municipais de transporte como a BHTRANS,
TRANSBETIM, Contagem, diminui a força do sistema estadual de gestão dos
transportes metropolitanos. A Câmara de compensação tarifária foi mantida, já os
empresários do setor já haviam se reorganizado adaptando ao seu funcionamento.
Os pequenos empresários ou tinham se unido a outros empresários ou
desaparecido do mercado.
O PLAMBEL foi extinto pela Lei Estadual nº 12.153 de 1996, tendo suas
funções redistribuídas entre a Secretaria Estadual de Planejamento e, ironicamente,
retornando à sua origem, a Fundação João Pinheiro. As funções referentes à
cartografia metropolitana foram atribuídas ao Instituto de Geociências Aplicadas -
IGA. Pois bem, além de naquele momento se interromper, ou no mínimo
desarticular, a presença do estado nas questões metropolitanas, aquelas medidas
fragmentaram o que se poderia chamar de seu espólio.
Em relação aos transportes, a criação da TRANSMETRO, com a liquidação
da METROBEL, se não trouxe descontinuidade nos serviços, trouxe desvantagens
gerenciais, já que a METROBEL era uma empresa mista e a nova entidade uma
autarquia.
Nesse momento, o estado estava tentando se desobrigar de muitas de suas
funções, buscando, à sua maneira, alguma coisa parecida com um estado mínimo,
94

nos padrões neoliberais. Aqui se criou uma lacuna em relação à produção de


conhecimentos e também em relação à gestão metropolitana.
Após a extinção do PLAMBEL, e mesmo antes disso, ainda no governo de
Newton Cardoso, as atividades de produção de conhecimento acerca do espaço
metropolitano são desaceleradas e sob alguns aspectos, extintas.
No momento seguinte à extinção do PLAMBEL, suas funções são transferidas
para a Fundação João Pinheiro, onde sofrem uma ruptura, pelo menos no que diz
respeito às questões da organização territorial e dados seriados dessa natureza. Os
dados relativos às questões socioeconômicas continuam a ser produzidos, e mais
tarde virão, inclusive, a serem ampliados.
A grande batalha anual em torno das tarifas dos transportes coletivos
intermunicipais na RMBH foi a única pauta que mobilizou as instâncias colegiadas
gestora da RMBH naquele momento. Uma batalha interessante naqueles momentos
se travou também em relação à composição de custos na planilha tarifária dos
transportes metropolitanos e alguns movimentos comunitários regionais, como por
exemplo da Região Operária do Barreiro em Belo Horizonte. Havia nesse caso, nas
regiões operárias um pequeno espaço para esse embate, o que foi eliminado com
as políticas da produção chamada pós-moderna, que tirou as condições de
organização dos sindicatos. Esse é um tema interessante, mas que não nos
aprofundaremos nesse estudo dada a sua natureza.
Voltando à questão metropolitana, outro motivo para a exclusão dessa
questão das pautas vigentes, foi o fato de terem sido os anos 2006 e 2007 os anos
de elaboração dos Planos Diretores Municipais dos municípios com mais de 20 mil
habitantes e municípios metropolitanos, segundo exigência do Ministério das
Cidades, após a aprovação do Estatuto das Cidades, Lei nº 10.257, de 10 de julho
de 2001. A ASSCOM/SEDRU consultada em 10 de dezembro de 2010 diz:

A Implementação do arranjo institucional de gestão da RMBH, que teve seu


ponto de partida em 2007, na 1ª Conferência Metropolitana. Na
oportunidade foi instalada a Assembleia Metropolitana, realizou-se a eleição
e posse dos representantes da sociedade civil e dos municípios no
Conselho Deliberativo Metropolitano e discutiu-se as propostas para o
planejamento metropolitano. (MINAS GERAIS, 2010, grifo nosso).

Em 2009 o arranjo foi completado com a instalação e a operacionalização da


Agência de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte, com
95

atribuições de planejamento e gestão de funções públicas de interesse


metropolitano.
Essa afirmativa, de alguma forma, reforça nossa opinião a respeito do hiato e
da descontinuidade havida na RMBH, de 2006 a 2009, não só em termos de seus
colegiados, como da produção de conhecimentos especializados. Embora esse
interregno possa não parecer, em termos temporais muito largo, muitas séries
históricas foram interrompidas. Esse foi um momento particular da expansão do
Vetor Sul da RMBH, que se deu diferentemente dos demais vetores estruturadores
anteriores, não mais sob a chancela do governo estadual, mas sob a batuta da
iniciativa privada e da municipalidade de Nova Lima, a quem interessava adensar as
áreas vizinhas ao município de Belo Horizonte. A presença de conhecidos
investidores do mercado imobiliário, como Sam Zell10, naquele momento no Vetor
Sul mostra a magnitude dos interesses envolvidos. O evento da implantação do
bairro Belvedere III, a partir de 1994, foi em grande parte consolidado no 2004, 2005
e 2006.
Segundo Bartolosi (2003):

A aprovação do loteamento Belvedere III ocorreu em 1988, através do


processo de parcelamento do solo no. 01.100399/88.49. Nessa época, a
legislação ambiental federal (Resolução Conama no. 01/86) já previa a
exigência de estudo de impacto ambiental para fins de aprovação de
loteamento em áreas de relevante interesse ambiental. No entanto, o
empreendimento não foi submetido a esse tipo de avaliação, mesmo porque
o processo administrativo dispensou outras providências ainda mais
rotineiras que essa. (BARTOLOSI, 2003)

O início da implantação desse parcelamento, ao qual se opunham a


população, movimentos ambientalistas e a legislação em vigor naquele momento, se
deu por em Outubro de 1994, já que em 05 de Agosto os empreendedores
conseguiram na justiça, despacho do Juiz da 5ª Vara da Fazenda Pública, João
Henrique Prado Bueno, que a Prefeitura fornecesse alvarás de construção para os

10
Conhecido como um dos primeiros investidores de peso a apostar no mercado imobiliário brasileiro
- o que fez nos idos de 2005 -, Zell já investiu recursos em uma série de companhias brasileiras por
meio da sua gestora, a Equity International.
A partir de 2005, Zell investiu na incorporadora Gafisa, na administradora de shoppings BR Malls, na
construtora voltada para a baixa renda Tenda, no grupo de investimentos Bracor e na financeira
Brazilian Finance.
96

18 projetos que se encontravam em tramitação na Secretaria Municipal de


Atividades Urbanas (SMAU). (HILGERT; KLUG; PAIXÃO, 1998).
Essa sentença contemplou apenas aspectos administrativos referentes ao
processo de aprovação do parcelamento, as questões dos graves impactos
urbanísticos e ambientais do empreendimento não foram consideradas, e nem
mesmo cabiam ser avaliados no tipo de processo que foi movido pelos
empreendedores.
Hilgert, Klug e Paixão (1998) dizem em trabalho apresentado no VII Seminário
sobre a Economia Mineira:

O caso do bairro Belvedere III, de Belo Horizonte, que é paradigmático para


entender a relação entre regulação urbana e mercado imobiliário em um
contexto que conjuga fragilidade institucional com abertura política
(redemocratização). Mostrando como que os empreendedores urbanos se
aliaram ao poder público, visando seus interesses, justamente no momento
em que cresciam as demandas da sociedade para o reconhecimento de
reivindicações urbanas e diversas forças políticas se aliavam para criar
instrumentos urbanísticos em prol de uma cidade mais justa. (HILGERT;
KLUG; PAIXÃO, 1998).

Os autores dizem ainda:

Em junho de 2000, a situação do Belvedere era de 29 prédios prontos como


outros 44 em construção. Os dados demonstram como a “criação” do bairro
Belvedere III foi bem sucedida tanto do ponto de vista dos interesses
imobiliários quanto da população de alta renda ávida pelas externalidades
de vizinhança. (HILGERT; KLUG; PAIXÃO, 1998).

A implantação do Belvedere III não foi o único movimento no sentido da


ocupação do Vetor Sul, a municipalidade de Nova Lima também estava interessada
em urbanizar e ocupar as poções daquele município na divisa com Belo Horizonte.
Essas áreas eram vizinhas ao Belvedere III e assim a ocupação da região conhecida
como "Seis Pistas" (referencia à larga avenida aberta ali para dar suporte á essa
ocupação) se deu concomitante à do Belvedere III.
Essa área abrange dois bairros de Nova Lima – o Vale do Sereno e a Vila da
Serra, que juntos possuem uma área de cerca de 1.700.00 m². A via estruturadora
dessa região é a Alameda da Serra (a Seis Pistas), com atividades residenciais,
comerciais e de serviços.
97

Ademais, as terras do entorno do aglomerado metropolitano, particularmente


no Vetor Sul, eram de propriedade das empresas mineradoras, que mantinham um
"cinturão de engorda" no entorno sul da RMBH. Muitos planos de recuperação de
áreas mineradas também propõem o parcelamento como uma forma de recuperação
dessas áreas degradadas. Um caso exemplar dessa natureza é que em pleno
funcionamento da Mineração Lagoa Seca, já se prevê o futuro loteamento e até o
parque que será aí implantado.
Todos os terrenos mencionados anteriormente foram sendo colocados no
mercado por essa ocasião, o que impulsionou o crescimento urbano na região,
permitindo inclusive a proliferação dos condomínios fechados na região. A novidade
dessa ocupação é a altíssima velocidade e densidade praticadas ali, sem considerar
a capacidade de escoamento do sistema viário e o comprometimento dos recursos
ambientais da APA-SUL.
Esse movimento na direção sul da RMBH, estendeu-se para além da
chamada Lagoa dos Ingleses, com a implantação, em 1998, impulsionada pelo
empreendimento denominado Alphaville 11 que em uma área de 4,3 milhões de
metros quadrados, localizou seis áreas residenciais unifamiliares (Inconfidentes,
Real, Arvores, Minas, Flores e Península dos Pássaros), uma área residencial
multifamiliar (Lumière, Mirante do Sol e Town Houses), 1 área comercial (Alphaville
Mall), uma área empresarial, uma área de comércio e uso múltiplo (Fundação Dom
Cabral, Hotel Caesar Business, Colégio e Minas Tênis Náutico)12.
A implantação de novas áreas residenciais dentro desse perímetro também
tem avançado. Esse vetor de ocupação atingiu outros municípios de Vetor Sul, tais

11
A arquitetura carceral dos centros comerciais e dos condomínios fechados expressa de forma mais
espetacular um processo mais amplo de redução do espaço público e de pasteurização da condição
de cidadania.
Soja (2007) refere-se aos espaços que ele denomina de Carceral Archipelago onde predominam a
obsessão com a segurança: "Carceral Archipielagos: on the rise of fortress cities, surveillance
technologies,and the substitution of police for polis¨. (SOJA, 2007, p.5).
12
Gafisa comprou 60% da Alphaville no segundo semestre de 2006 e, posteriormente, elevou a fatia
para 80%.
"A construtora Gafisa confirmou ontem, em fato relevante, que está negociando a venda de ativos
para dois "gigantes" do setor de private equity: a Equity International, do megainvestidor americano
Sam Zell, e a GP Investimentos. A companhia disse que o negócio está sendo "examinado pela
administração". (fonte: Fernando Scheller_03/02/2012_Jornal O Estado de São Paulo)
98

como Rio Acima e Brumadinho, onde os impactos foram de grande monta. Diniz
(2005) discursa a respeito de tal empreendimento, da seguinte maneira:

A ausência da instância do planejamento e gestão metropolitana, se traduz


na perda da referência para a análise ambiental dos empreendimentos e de
seus efeitos sobre os municípios do entorno, atraindo para o licenciamento
ambiental a responsabilidade de decidir sobre sua viabilidade ambiental
sem a diretrizes municipais relacionadas as restrições e potencialidades de
expansão urbana em seu território. (DINIZ, 2005).

De acordo com os autores, Brito e Souza:

Essa região é caracterizada fundamentalmente pela eficiente atuação


combinada do mercado imobiliário e das companhias mineradoras, ambas
articuladas, distinguindo-se dos outros vetores pela ocupação dos
loteamentos por uma população de renda mais elevada, em boa parte sob a
forma de condomínios. […] O grande monopólio da propriedade de terra em
Nova Lima, por exemplo, possibilita que o mercado imobiliário disponibilize
seus estoques segundo suas necessidades de valorização, para diferentes
fins. Esse fato contribui para selecionar os emigrantes segundo as
exigências da expansão urbana que mais lhes interessa. (BRITO; SOUZA,
2005).

Ainda de acordo com Brito e Souza, afirma-se que:


A maior diferença entre os salários médios e medianos ocorre justamente
no Vetor Sul, onde eles têm os maiores valores - o que sugere maior
dispersão na distribuição dos salários, certamente acompanhada de maior
concentração. (BRITO; SOUZA, 2005).

Em um de seus textos o Conselho Metropolitano diz:


1. A região do Belvedere que já se constitui numa centralidade
metropolitana. Pertencente a dois municípios, com usos diversificados,
complexos e adensamento habitacional de maior renda, é um importante
centro de empregos. Foi se estabelecendo como tal pela iniciativa privada,
pela permissão de uso do solo nos dois municípios, mas com carência ou
baixa qualidade dos espaços e dos serviços públicos, especialmente dos
transportes, o que torna mais agudo o trânsito de automóveis.
2. No Vetor Sul, ao longo da BR-040, já se esboçam outras
centralidades metropolitanas: o Jardim Canadá e o Alphaville. Todas essas
centralidades vão se conformando sem diretrizes especiais do poder público
que as potencializem como centros importantes, inclusive de adensamento
habitacional para rendas diversas e para programas habitacionais
governamentais, geração intensiva de pequenos empreendimentos e
oportunidades de emprego. Podemos dizer que nessas centralidades o
poder público, apesar de suas atribuições de formular diretrizes de
planejamento e desenho urbano, com a prestação intensiva de seus
inúmeros serviços de educação, saúde, segurança, transportes [...] é o
grande ausente! (BELO HORIZONTE, 2012).

O PDDI (2011), discursa a respeito da centralidade, Jardim Canadá:


99

Aposta-se no potencial do Jardim Canadá como área privilegiada para a


instalação de novos equipamentos e empreendimentos econômicos, devido
à sua topografia favorável e à ainda ampla disponibilidade de terrenos sub
ou não utilizados. (PDDI, 2011, v. 4, p.46).

A ocupação da região do Jardim Canadá, bairro antigo de Nova Lima e


distante da sede urbana do município e das ocupações na região das Seis Pistas,
vem se dando em duas direções: uma com a ocupação de população da baixa
renda, nos terrenos aos fundos do loteamento e outra por atividades econômicas
variadas, desde galpões de médio e grande porte até supermercados sofisticados
voltados ao atendimento da população de alta renda da região do Alphaville e dos
condomínios na área lindeira à rodovia. O jardim Canadá é na verdade a única
região que sobrou naquele município com capacidade de receber atividades
econômicas industriais e de serviços de apoio à indústria e uma das poucas com
capacidade de receber populações de baixa renda.
Existe no bairro uma Zona Especial de Interesse Social - Zeis, com 49 lotes.

O Jardim Canadá é vizinho do Parque Estadual do Rola Moça e no momento


suas atividades não vêm impactando de maneira significativa esse parque.
Os terrenos do Jardim Canadá são também vizinhos da Mina de Capão
Xavier, o que lhes possibilita, no futuro, serem vizinhos de populações de alta renda.
O processo de ocupação das áreas de propriedade das mineradoras até a
chamada Lagoa dos Ingleses e para além dela reforçando a tendência de ocupação
do Vetor Sul, não vai ao encontro dos objetivos da criação em 1995, da Área de
Proteção Ambiental da Região Sul - APA-SUL (FIG. 13), que tem como objetivo
principal a proteção dos mananciais daquela região.
100

Figura 13 - Modelo digital de Elevação - APA Sul RMBH

Fonte: Elaborado por Luiz Sérgio Teixeira da Silva com dados extraídos do IBGE
101

A Área de Proteção Ambiental da Região Sul - APA-SUL, foi criada através do


Decreto Estadual nº 35.624/1994, mas com conselho funcionando efetivamente em
1998. A criação dessa APA teve como objetivo a proteção dos mananciais da região
sul da RMBH. Embora o Meio Ambiente seja uma função metropolitana, os
empreendimentos aprovados para a sua área foram julgados exclusivamente sob o
enfoque tradicional do licenciamento ambiental nos termos da legislação estadual,
que inclui a questão urbana no meio antrópico e os EIA/RIMA embora recheados de
dados históricos e censitários, na verdade não julgam a matéria em sua real
amplitude.
A Lei Estadual nº 13.960, de 26/07/2001 deu a forma final de regulamentação
da APA-SUL. Essa APA apresenta uma extensão de 1.625,32 km², englobando
partes dos municípios de Barão de Cocais, Belo Horizonte, Brumadinho, Caeté,
Catas Altas, Ibirité, Itabirito, Mário Campos, Nova Lima, Raposos, Santa Bárbara,
Sarzedo e todo o município de Rio Acima. A região abrangida pela APA é de
intensos conflitos entre a preservação de recursos naturais, atividades de mineração
e ocupação urbana.
A implantação de condomínios fechados ou de edifícios destinados à alta
renda e serviços especializados, ampliou também a distância entre pobres e ricos na
RMBH como um todo e particularmente no próprio Vetor Sul, onde se constituíram
áreas voltadas exclusivamente às populações de renda alta. A localização da sede
da Fundação Dom Cabral nessa área sinalizou, a nosso ver, o amplo apoio que essa
ocupação tem entre os setores empresariais da RMBH.
Segundo Brito e Souza:

Vale ressaltar que o preço do solo - regulado pelo mercado imobiliário,


como salienta Cardoso (2001) - tem um forte componente especulativo, pois
aposta na formação de estoques para administrar a valorização do preço da
terra urbana. Assim, este preço torna-se uma poderosa ferramenta para
selecionar o acesso dos emigrantes às diversas áreas ou municípios
metropolitanos. O grande monopólio da propriedade de terra em Nova Lima,
por exemplo, possibilita que o mercado imobiliário disponibilize seus
estoques segundo suas necessidades de valorização, para diferentes fins.
Esse fato contribui para selecionar os emigrantes segundo as exigências da
expansão urbana que mais lhes interessa. (BRITO; SOUZA, 2005).

O PMDI, sobre o qual discorreremos mais adiante, reconhece essa condição


ao localizar aí uma de suas centralidades metropolitanas de primeiro nível, na
102

política proposta do reforço de várias centralidades metropolitanas. E ainda que o


meio ambiente seja uma função metropolitana, a paisagem, importante componente
ambiental e cultural não é percebida assim. Os empreendimentos que ocuparam
essa região desfiguraram de maneira irreversível os bens paisagísticos ali
existentes. A Serra do Curral, na divisa entre Belo Horizonte e Nova Lima, se
inscreve entre essas perdas irreparáveis.
Retomando a questão institucional da RMBH, o estado cria, através da Lei
Complementar nº 107/2009, de 12 de Janeiro de 2009, a Agência de
Desenvolvimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte - Agência RMBH e
dispõe sobre a instituição e a gestão de região metropolitana e sobre o Fundo de
Desenvolvimento Metropolitano.
103

Figura 14 - Mapa atual da RMBH

Fonte: Elaboração própria com dados extraídos da Malha Municipal Digital – IBGE

Em 2011 foi desenvolvido o PDDI-RMBH, Plano Diretor de Desenvolvimento


Integrado da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Alguns pontos do documento
foram destacados por nós, no sentido de estabelecer um diálogo entre o PDDI e o
104

processo anterior de conhecimento da RMBH (FIG. 14). Esse diálogo pode ser mais
amplo e esperamos apenas estarmos iniciando essa tarefa.
O PDDI, assim como os estudos anteriores do PLAMBEL e da Fundação
João Pinheiro conta com inúmeras bases de dados e análises. O PDDI representa
um grande avanço nos estudos e proposições para a RMBH e é testemunho de um
momento político de extremo comprometimento com a questão metropolitana.
O que lamentamos é que relativamente à década 90, tenhamos um apagão
de dados sequenciados acerca da RMBH, o PMDI retoma a produção de dados e
análises acerca da região a partir de 1998. Na verdade, há o que chamamos de
ruptura entre os dados anteriores e os atuais, embora no campo acadêmico tenham
havido algumas abordagens sobre o tema. Os estudos do PDDI, apenas fazem uma
breve sistematização dos dados anteriores. A RMBH não se iniciou em 1998, como
também não havia interrompido seu processo com a extinção do PLAMBEL, assim,
em termos formais fica uma lacuna referente há esses anos, lacuna essa que foi
preenchida em algumas análises temáticas. Há uma grande diferença na
espacialização da RMBH anterior e posteriormente à década de 1990.
Em todo caso, a década de 1990 é a década de fortalecimento do Vetor Sul, e
do início da reestruturação do Vetor Norte. A configuração que tem a RMBH atual foi
forjada na década de 1990. Também nos últimos anos da década de 1990 enfatizou-
se o processo de transferência, ampliação e criação de grandes plantas industriais
na Região do Alto Paraopeba.
O deslocamento de grandes plantas siderúrgicas e de parte significativa do
beneficiamento de minérios extraídos no quadrilátero ferrífero permite liberar novas
áreas para o mercado imobiliário, já que esse deslocamento desonera os espaços
mais valorizados pelo mercado imobiliário da presença dessas atividades produtivas
que ocupam grandes áreas, geram grande volume de tráfego, além de todas as
questões ligadas ao controle ambiental. Assim, essas atividades vão ocupar áreas
ainda não tão valorizadas pelo mercado imobiliário e de alguma forma, ficam longe
da pressão organizada dos grupos ambientalistas, que encontram menos acolhida
junto à essas municipalidades, agradecidas pelo progresso que essas empresas
trazem aos seus municípios.
No PDDI, foram usadas as mais novas técnicas de organização,
sistematização e análise de dados acerca da RMBH, assim como foram incluídas as
105

mais variadas pautas que estão presentes nas questões urbanas atuais e em suas
arenas. Há um processo de preparação da população para a gestão metropolitana
em curso.
Ferrari Junior alerta que devemos "reconhecer que o processo de
democratização pode se tornar frágil se não estiver pautado em metodologias que
primem pela instrumentalização e suporte à decisão". (FERRARI JUNIOR, 2004,
p.26). Quanto a essa questão, o PDDI oferece uma excelente base para o processo
de gestão participativa.
Sem dúvida, o PDDI é um marco no planejamento da RMBH. Não vamos
reproduzir aqui o PDDI, e nem mesmo fazer uma resenha dele, o que não teria
sentido e nem seria possível no âmbito do nosso trabalho, vamos apresentar a
estrutura básica de seu primeiro volume que julgamos esclarecedora para o
entendimento de seu desenvolvimento.
O primeiro volume apresenta o marco teórico e a sínteses dos estudos
setoriais. A primeira parte, referente ao Marco Teórico-Metodológico apresenta a
seguinte estrutura:

1. Introdução com as abordagens:


 O sentido do planejamento metropolitano na universidade;
 Planejamento para a transformação social, econômica e ambiental;
 Construindo novo processo de planejamento: universidade + cidade.
2. O Contexto político-institucional do PDDI-RMBH
3. Os Pressupostos, objetivos e marco teórico-metodológico:
 Referências para orientação do PDDI;
 Fortalecimento do papel regional e nacional da RMBH;
 Escalas de Análise/Proposição do PDDI-RMBH.
4. A Estrutura e plano de trabalho:
 Estrutura geral do PDDI-RMBH;
 O Processo de Elaboração do Plano.
5. Os Núcleos Temáticos de Desenvolvimento:
 Núcleo Econômico;
 Núcleo Social;
106

 Núcleo Ambiental.

As sínteses dos estudos setoriais são das seguintes áreas:

 Uso do Solo, Dinâmica Imobiliária e Escalas de Centralidades


Metropolitanas (USDEC);
 Mobilidade Urbana, Comunicações, Transportes e Sistema Viário
(MCT);
 Habitação, Vida Cotidiana e Qualidade de Vida (HVQ);
 Cultura, Educação, Segurança Alimentar, Trabalho E Renda (CEAT);
 Saúde, Meio Ambiente, Recursos Hídricos e Saneamento (SMARHS);
 Complexos Ambientais Culturais (CAC);
 Capacidade Institucional de Planejamento e Gestão (CIPLAG);
 Risco Socioambiental, Vulnerabilidade Social e Segurança Pública
(RIVS);
 Aspectos Demográficos e Ambientais da Demanda Social (ADAMS);
 Estrutura Produtiva, Conhecimento, Tecnologia e Alternativas
Energéticas (ETC);
 Estudo Complementar Prioritário: Oferta e Utilização de Serviços
Ambulatoriais e Hospitalares;
 Estudo Complementar Prioritário: Evolução do Perfil Epidemiológico
nos Municípios da RMBH entre 1998 e 2006;
 Estudo Complementar Prioritário: Capacidade De Investimento, Base
Tributária E Arranjos Financeiros Metropolitanos;
 Estudo Complementar Prioritário: Mudanças Climáticas: Impactos,
Vulnerabilidades e Políticas de Controle de Emissões de Gases de
Efeito Estufa (GEE) na RMBH.

Sob o nosso ponto de vista, é interessante observar o foco destacado que se


deu ao fato de o PDDI ter sido desenvolvido pelas universidades, particularmente a
UFMG. Considerando o esvaziamento do pensamento sobre a cidade ocorrido nos
órgãos do estado, e considerando os recursos tecnológicos disponíveis na
107

universidade e que não estão presentes nos órgãos do estado e considerando ainda
a política de terceirização adotada pelo estado, a universidade revela-se como uma
das poucas alternativas plausíveis de elaboração desses estudos.13
Do ponto de vista da universidade é um avanço em sua relação para com a
sociedade civil. Não obstante, Algebaile alerta que tal situação poderia esvaziar as
possibilidades dos profissionais do serviço público, que não estariam assim se
preparando para o enfrentamento que o exercício de suas funções demanda.
No volume seguinte do PDDI tem-se o Relatório Parcial, Subsídio às Oficinas
Participativas, que apresenta, além da metodologia, a proposta de reestruturação
territorial da RMBH e as políticas propostas segundo os eixos temáticos
integradores.
Aqui, destacamos a abordagem da "Rede de Centralidades na RMBH" e os
"Lugares metropolitanos e áreas de oportunidade". Embora a ideia de uma rede de
centralidades metropolitanas estivesse presente desde o EME, a atual proposta
busca abordar diversas escalas da vida metropolitana de uma forma bastante
interessante.
Nesse volume, é dito:

A centralidade metropolitana é, certamente, o espaço da riqueza coletiva,


do poder político e institucional, e o espaço da festa, expressão maior de
uma comunidade regional. Por sua vez, o modelo centro-periferia dominante
na RMBH (como na maioria das regiões metropolitanas brasileiras) é por
definição desigual, hierárquico, excludente e segregador. (PDDI, 2012, p. 6).

O processo de acumulação do capital, no caso particular do Brasil e dos


demais países classificados eufemisticamente de "emergentes", usou a estratégia do
desenvolvimento centro/periferia e os dados disponíveis mostram que essa situação
de incluídos/excluídos não se alterou. Embora os incluídos possam ter optado por
morar em seus condomínios fechados e que estes possam se localizar em raios
mais amplos, e a produção econômica possa ter se dispersado por territórios mais
vastos, a diferença continua e amplia-se cada vez mais. Essa questão está na raiz
das nossas metrópoles e embora as estratégias do planejamento possam mitigá-las,

13
As estratégias de reforma do Estado no Brasil são: a privatização, a publicização e a terceirização.
Ministério público
108

não acreditamos que possam dissolvê-la, já que as opções políticas e econômicas


capazes de alterá-la não estão nesta pauta.
As políticas urbanas nos grandes municípios da região, se por um lado,
mitigam as condições de segregação com os programas de (re)qualificação urbana,
por outra elitizam os espaços onde são aportados os maiores investimentos
públicos, como é o caso das operações urbanas.
De acordo com Ribeiro (2004):

Na cidade da globalização periférica, os efeitos dos novos mecanismos de


vulnerabilização produzem a despossessão moral de vastos segmentos da
população. A globalização impõe a lógica do mercado e, ao mesmo tempo,
cria uma massa marginal. A segregação residencial emerge como forma de
gestão social dessa massa marginal. A modernização, realizada pela
acumulação liberal, ao mesmo tempo em que promove, quebra os laços da
integração social. (RIBEIRO, 2004).

Voltando ao PDDI, a introdução do estudo dos lugares metropolitanos é


bastante apropriada, dada a diversidade das situações dos municípios
metropolitanos. Um conflito metropolitano importante é apontado nesse volume do
PDDI, refere-se à expansão da exploração minerária e dos setores metalúrgico e
siderúrgico na RMBH e no seu entorno, fortalecendo uma base industrial tradicional
e obsoleta, de pouco dinamismo tecnológico e com impactos ambientais
consideráveis. (PDDI, 2012, p. 6).
Sobre essa questão, acreditamos que a região do Alto Paraopeba esteja se
incorporando à RMBH exatamente por causa desse conflito. As terras do entorno do
aglomerado metropolitano têm se valorizado muito, sob o ponto de vista imobiliário e
os conflitos urbanos e ambientais ensejados por essas atividades tem deslocado
essa frente de atividades para a região do Alto Paraopeba (região do CODAP) onde
esses conflitos podem ser administrados mais facilmente que no entorno do atual
aglomerado metropolitano.
As atividades extrativas naquela região tem se intensificado, assim como as
plantas industriais de beneficiamento siderúrgico tem expandido suas atividades e
outras ainda, como é o caso da VSB (antiga Mannesman), têm instalado nessa
região novas unidades.
Outra questão importante que o PDDI traz é a da cidadania metropolitana:
109

Tratava-se de considerar de modo inquestionável a centralidade do sujeito


na civitas, absoluta e local, mas também e principalmente, no espaço
urbano ampliado – a “civitas metropolitana“ – implicando a construção de
um sentido de identidade e do fortalecimento do exercício da cidadania,
agora em escala urbano-regional¨. (PDDI, p. 8).

Há um volume que trata do Relatório de Definição das Propostas de Políticas


Setoriais, Projetos e Investimentos Prioritários e Sumário Executivo. Seis volumes
seguintes tratam de detalhar as propostas setoriais, projetos e investimentos
prioritários.
Recentemente, o Executivo enviou à Assembleia o Projeto de Lei nº
3.078/2012, que "dispõe sobre a gestão unificada da função pública de interesse
comum de uso do solo metropolitano de que tratam o art. 25, § 3°, da Constituição
da República Federativa do Brasil, e os arts. 41, I, 42, 43 e 46 da Constituição do
Estado, nos termos da Lei Complementar n° 88, de 12 de janeiro de 2006." (BRASIL,
2012), define:

I - interesse metropolitano: o interesse na promoção do desenvolvimento


social e econômico sustentável das Regiões Metropolitanas, do equilíbrio
das suas funções urbanas e da melhoria da qualidade de vida de seus
habitantes;
II - gestão unificada: a gestão exercida conjuntamente pelo Estado e pelos
municípios, no nível do planejamento estratégico, operacional e de
execução, nos termos do art. 5º;
III - função pública de interesse comum de uso do solo: as atividades
relacionadas ao controle dos processos de utilização do espaço urbano, de
forma ordenada e equilibrada, cuja realização por parte de um município,
isoladamente, seja inviável ou cause impacto nos outros municípios
integrantes da região metropolitana;
IV - regulação do solo metropolitano: o conjunto de normas, instrumentos,
arranjos, restrições e incentivos aplicados na gestão unificada do solo
metropolitano;
V - zonas de interesse metropolitano: as áreas da região metropolitana
indicadas pelo Zoneamento Metropolitano e definidas como de interesse
metropolitano, especialmente no que se refere a um ou mais dos seguintes
temas:
a) mobilidade;
b) meio ambiente;
c) desenvolvimento econômico;
d) informalidade fundiária;
e) serviços públicos;
f) planejamento de obras públicas de abrangência metropolitana.
VI - famílias de baixa renda: as famílias cujo somatório das rendas mensais
de seus integrantes seja inferior a quatro salários mínimos; e
VII - colar metropolitano: o conjunto de municípios do entorno da região
metropolitana atingidos pelo processo de metropolização, nos termos da lei
complementar que a instituir. (BRASIL, 2006).
110

Quanto a essa proposta de legislação, baseada nos estudos recentes da


Agência e no PDDI, somos de opinião de que essa é bastante mais apurada e
sofisticada que aquelas apontadas no início da RMBH e mesmo na Constituição
Estadual. Não obstante, permanece nela a definição vaga do que seja interesse
metropolitano, podendo no âmbito dela, abrigar-se os mais diversos conteúdos, o
que implicaria na dificuldade de operacionalização, mesmo que conjugado com os
demais itens definidos na sequência, principalmente no capítulo VI. A proposta
mantém o viés funcionalista do planejamento modernista que tem estado presente
em toda a trajetória da questão metropolitana no Brasil, como abordamos no
capítulo 2.
O fenômeno metropolitano poderia ser segmentado da maneira como vem
sendo em todos os momentos de sua gestão? É essa a sua natureza?
Voltando à proposta de legislação, outra questão que consideramos
inovadora nela refere-se à Gestão do Solo Metropolitano:

Art. 5º - A gestão unificada da função pública de interesse comum de uso do


solo caberá ao Sistema de Gestão Metropolitana, em cada região
metropolitana, composto por:
I - instâncias colegiadas deliberativas:
a) Assembleia Metropolitana;
b) Conselho Deliberativo de Desenvolvimento Metropolitano;
II - órgãos e entidades de gestão metropolitana:
a) Gabinete de Secretário de Estado Extraordinário de Gestão
Metropolitana;
b) Agência de Desenvolvimento Metropolitano;
III - instrumentos de planejamento e gestão metropolitanos:
a) Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado-PDDI;
b) Fundo de Desenvolvimento Metropolitano-FDM.
Art. 6º - No planejamento e na gestão do solo metropolitano, compete ao
Conselho Deliberativo de Desenvolvimento Metropolitano:
I - aprovar o Zoneamento Metropolitano da respectiva região metropolitano
II - garantir a aplicação de instrumentos metropolitanos nas zonas de
interesse metropolitano;
III - deliberar sobre a utilização. (BRASIL, 2006).

No caso, a proposta das instâncias colegiadas ignora a Lei Complementar nº


88, de 12 de janeiro de 2006, trazendo a gestão para a esfera do Executivo.
Na última década, o governo do estado retoma seu papel de aportar ao
território metropolitano intervenções de vulto e com grande potencial de estruturação
espacial. Esses investimentos são principalmente a Linha Verde, o Centro
Administrativo do Estado e a revitalização o Aeroporto de Confins, esse dentro do
111

chamado "boom aéreo brasileiro". Essas intervenções buscam, a nosso ver,


direcionar o crescimento da RMBH no sentido norte, o que é uma estratégia eficaz
em termos do deslocamento de certo tipo de atividades econômicas, principalmente
serviços, e populações naquela direção, apesar disso, essa ação não é eficaz no
sentido de relocar os setores importantes das atividades econômicas da RMBH,
cada vez mais comprometidas com a mineração e indústrias de transformação
minerária e bens de consumo duráveis numa cadeia sinergética que agora une o
Vetor Sul ao Vetor Leste e à região do Alto Paraopeba, e ainda considerando-se a
complementaridade dessas atividades com aquelas situadas na região de Ipatinga.
A partir dos investimentos do estado no vetor norte, verifica-se um
realinhamento do mercado imobiliário no vetor. Um exemplo disso é o município de
Vespasiano que tem a população com renda per capta média de R$ 553,31 (valores
referentes a agosto de 2010), que depois da implantação do Centro Administrativo
do Estado e da Linha Verde já surge como alternativa para as classes mais altas,
como podemos observar no seguinte anuncio imobiliário disponível na internet:

Lançamento ALPHAVILLE:
Lotes residenciais e comerciais rede ALPHAVILLE, esta conhecida e
diferenciada construtora localizada em todo Brasil, hoje com excelente
estrutura na Lagoa dos Ingleses próximo a BH, agora chega em( sic)
Vespasiano.
Para você que quer tranquilidade, qualidade de vida, segurança [...] Vem aí
um excelente empreendimento da rede ALPHAVILLE em Vespasiano.
ALPHAVILLE - Minas Gerais:
À (sic)6 km da Cidade Administrativa, excelente localização, investimento e
moradia.
Lotes de 450m a 790m - Residenciais
Lotes 1.000m a 12.000m – Comerciais. (OLX, 2012, grifos nossos).

Vespasiano é um município muito urbanizado e com poucas áreas de


expansão, a chegada de uma população de renda alta no município implicaria na
expulsão da população mais pobre. É bom lembrar que o perímetro urbano do
município já abrange 100% de sua área, o que tende a atrair um processo de
urbanização desenfreada. Essa modalidade de expansão metropolitana adotada no
Vetor Norte engloba uma nova forma de realização do capital financeiro. De acordo
com Carlos:

Dessa forma se constrói uma hipótese: a reprodução do espaço urbano da


metrópole sinaliza o momento em que o capital financeiro se realiza
112

também por meio da produção de “um novo espaço” sob a forma de


“produto imobiliário”. (CARLOS, 2009, p. 309)

Em outro momento a autora diz:

Nesse movimento, uma articulação profunda entre o Estado e os setores


econômicos se revela por intermédio de políticas urbanas que direcionam o
orçamento público para a construção de uma infraestrutura necessária para
que esse processo econômico se realize sem sobressaltos. (CARLOS,
2009, p. 305).

Essa nova lógica que se aplica às estratégias de crescimento do Vetor Sul, e


notadamente no Vetor Norte com a presença maciça do investimento público na
reconfiguração da dinâmica imobiliária da região. Se no Vetor Sul, os condomínios
não deixam espaço para as populações de renda baixa, que inclusive presta
serviços ali, no Vetor Norte a questão é mais grave: a população de baixa renda vai
sendo expulsa pelas novas dinâmicas do mercado imobiliário. Carlos (2009) discorre
de maneira apropriada sobre essas novas estratégias do mercado imobiliário:

O setor de construção dos condomínios é produto de uma lógica imobiliária


que vende o espaço da periferia para a classe média, que, todavia, precisa
ser convencida dessa nova “necessidade de habitar”. É dentro dessa lógica
que se produzem as novas estratégias de marketing assentadas na ideia de
“qualidade de vida”, que contempla um conjunto de itens, todos eles
voltados à necessidade de ampliar a base social sob a qual se desenvolve a
sociedade de consumo – agora como consumo também do espaço.
(CARLOS, 2009, p. 312).

Ainda, Carlos (2009) alerta no caso de São Paulo, que sob esse ponto de
vista e escala dessa análise são, em nossa opinião, similares:

Atualmente, o movimento de passagem da hegemonia do capital industrial


para o capital financeiro não que dizer, evidentemente, que a metrópole se
desindustrializa, pois o que constatamos é que o processo de
desconcentração do setor produtivo das empresas se faz com uma
centralização das sedes das empresas em São Paulo. O que há de novo
nesse processo é o fato de que o setor financeiro vai se realizar por meio do
espaço, isto é, produzindo o espaço, uma vez que o capital tende a migrar
de um setor ao outro da economia, e quando isso ocorre, uma nova
infraestrutura se torna necessária como condição e meio para que tal
processo se realize. (CARLOS, 2009, p. 309).

A reconfiguração do espaço metropolitano diante dessa dinâmica imobiliária


implica não só em novas frentes da expansão urbana nesses moldes, mas também
113

na reconfiguração de espaços ocupados e consolidados, mas que se mostram


inadequados na realização do capital financeiro. Assim os centros urbanos são
requalificados e as áreas, principalmente aquelas dos principais eixos de articulação
urbana são objeto de numerosas operações urbanas14, que as reinserem no
mercado imobiliário aptas às novas funções.
São Paulo realizou várias operações urbanas dessa natureza e o município
de Belo Horizonte, tem em curso vários projetos dessa natureza. Essas operações
são possíveis pela elitização dessas sedes metropolitanas, que tendem a não mais
abrigar atividades econômicas obsoletas ou de impacto ambiental, ou ainda pouco
rentáveis em termos do espaço. Desta forma, as áreas centrais ocupadas pelas
populações de baixa renda passam a ser cobiçadas pelo mercado imobiliário, que
busca oferecer alternativas aos serviços mais sofisticados nessas localizações
centralizadas.
Em Belo Horizonte, isso não se dá somente na área central e corredores: a
região do Barreiro antes pressionada pela produção industrial de grande impacto,
teve muitas dessas atividades desativadas ou deslocadas para outras regiões e
agora busca disponibilizar e adensar terrenos antes de propriedade da indústria ou
impactados por ela. Em relação às atividades industriais que permanecem, os novos
padrões de controle ambiental permitem uma convivência mais pacífica com o tecido
urbano do entorno. Assim, as atividades industriais, de alguma forma, são expulsas
para áreas mais afastadas e mesmo fora da RMBH. Sobre esse tema discorreremos
em outro capítulo desse trabalho.
Segundo Moura:

A aglomeração de Belo Horizonte possui a quarta maior escala industrial do


País, e demonstra forte integração com a aglomeração do Vale do Aço, com
elevado nível de complementaridade produtiva no complexo metal-
mecânico da capital mineira. No caso do arranjo urbano-regional de Belo
Horizonte, essas duas aglomerações se aglutinam. (MOURA, 2009, p.)

14
As operações urbanas são um instrumento de intervenção urbanística coordenado pelo poder
público municipal, visando à transformação estrutural de áreas específicas da cidade. Deve envolver
a participação de moradores, proprietários e investidores privados e ser o instrumento regulamentado
pelo Plano Diretor.
114

Sob nosso ponto de vista, a região do Alto Paraopeba, abrangida pelo


CODAP também se aglutina com a RMBH, em torno da produção minerária e a
complementaridade produtiva do complexo metal - mecânico da região.
Recentemente, a região de Divinópolis e a de Sete Lagoas também se interligam
com a RMBH, embora não tenhamos avaliado a amplitude dessas possibilidades
nesse trabalho, mas se a RMBH, através do Vetor Sul e das atividades produtivas
do Alto Paraopeba, podem, sob nosso ponto de vista, estarem se aglutinando, ou
mais que isso, se unindo, a mesma situação poderia estar acontecendo em outras
direções.
Soja (1993) afirma:

Nunca, em época anterior, a espacialidade da cidade capitalista industrial


ou o mosaico do desenvolvimento regional desigual tornaram-se tão
caleidoscópicos, tão soltos de suas amarras do século XIX, tão cheios de
contradições inquietantes geografias pós-modernas. (SOJA, 1993, p.227).

Em seu artigo, citado anteriormente, Moura diz:

As cidades estariam, assim, conectando-se a circuitos distintos,


especializados; em outras palavras, redes particulares estariam conectando
grupos particulares de cidades, conforme seus diferentes papéis na
dinâmica internacional da economia. (MOURA, 2009, p.13).

Essas possibilidades reforçam a nossa visão de que a condição metropolitana


precisa ser redefinida, pelo menos no caso da RMBH.
As recentes ações do Estado que buscam reconfigurar o espaço da RMBH
foram decididas diretamente por este, embora tenham o caráter eminentemente
metropolitano. Os municípios metropolitanos e seus cidadãos em nada opinaram e
não podemos considerar como de ampla participação as audiências públicas dos
processos de licenciamento ambiental de "empreendimentos que atingem mais de
dois municípios." O Licenciamento Ambiental e seus fóruns da participação não são
legítimos como instâncias de deliberação metropolitana, não obstante, os processos
de licenciamento ambiental serem legítimos e fundamentais em sua área de
abrangência.
A expulsão de populações pobres do entorno do Centro Administrativo e em
todo o Eixo Norte e sua substituição por populações de renda mais alta e atividades
econômicas é uma "crônica de uma morte anunciada", para a qual os processos de
115

Licenciamento Ambiental não oferecem respostas. Afora o processo de


licenciamento ambiental, as atuais decisões não diferem da natureza daquelas
tomadas por ocasião da implantação das grandes plantas do vetor oeste.
As atas da 2ª Reunião Ordinária da Subcomissão Urbana e de transportes da
Assembleia Nacional Constituinte registram uma proposta de artigo encaminhado
pelas entidades representativas dos arquitetos brasileiros naquele momento. O
artigo proposto diz:

Art. Fica assegurado o amplo direito de informação relativo ao plano de


estruturação urbana, processos de parcelamento de solo, edificações,
transformação de uso, licenciamento de estabelecimentos comerciais,
indústria e de serviços, inclusive pela exposição pública, desde a sua
formulação até a sua implantação. (BRASIL, 1987).

Colocamos essa citação aqui no sentido de ressaltar que, pelo menos desde
o processo constituinte, há uma clara manifestação de profissionais que atuam nas
questões urbanas acerca da necessidade de transparência nos processos de
tomada de decisões, que afetam a estrutura urbana. No caso de uma estrutura
urbana metropolitana, nos parece que tais avaliações transparentes se revestem de
importância maior ainda.
Isso não quer dizer que do ponto de vista pessoal não concordássemos com
a necessidade de reforçar o Vetor Norte, inclusive como maneira de diminuir as
pressões sobre o Vetor Sul, mas estamos falando de processos participativos ou da
ausência deles. No site da Agência Metropolitana, sobre o que seria a região
metropolitana consta:
As regiões metropolitanas não param.
As regiões metropolitanas são espaços vivos e dinâmicos, que reúnem
milhões de pessoas de diferentes origens e concentram a maior parte das
atividades econômicas, administrativas e culturais no país e no mundo.
Elas são o cenário da vida e dos sonhos de milhões de pessoas que
dividem o mesmo espaço, trafegam pelas mesmas ruas e avenidas e
respiram o mesmo ar.
As regiões metropolitanas de Minas Gerais concentram quase 40% de todo
o PIB estadual. (BELO HORIZONTE, 2013).

Acreditamos que, em se tratando de um site oficial da Agência, esse nível de


informação é insuficiente, mesmo para um contato inicial.
Terminamos esse capítulo citando alguns parágrafos da análise de Ribeiro
(1997):
116

Sem passado e sem futuro, a análise em ciências sociais perde em eficácia


e em contundência, aproximando-se, perigosamente, do pensamento
circunstancial, sensitivo e acrítico. A complexidade e o ritmo da vida no
contexto urbano-metropolitano alimentam esta possibilidade de
fragmentação da percepção induzindo a análise à desestruturação temática
ou à inovação aparente cuja tendência é ser rapidamente abafada por
novos fatos ou por novas formas de olhar a realidade social. (RIBEIRO,
1997, p.55).

Este plano analítico introduz a necessidade de compreensão do fenômeno


metropolitano em interligação com os avanços teóricos atuais relativos ao
estágio/ momento histórico do capitalismo. Devem ser consideradas, neste
sentido, as inovações factuais e interpretativas que assinalam a presença
de processos históricos (conjunturais/ estruturais) que transformam,
significativamente, a dimensão e o caráter da metrópole. (RIBEIRO, 1997,
p. 56).

Neste sentido, acreditamos que dispomos de informações teóricas e


históricas mais completas sobre as passagens (transição) entre formas de
produzir – pré-capitalistas ou não capitalistas para plenamente capitalistas
(Singer, 1979) – do que sobre o movimento de absorção, concentração e
centralização de capitais, ou ainda, sobre as formas de acumulação
(desiguais e articuladas) que caracterizam, hoje, o país. (RIBEIRO, 1997, p.
60).
117

4 O VETOR SUL DA RMBH E A REGIÃO DO ALTO PARAOPEBA

Iniciaremos essa parte do nosso trabalho, citando dois estudos muito


importantes sobre o nosso tema, que já citamos anteriormente: O PDDI da RMBH,
2011 e o Plano de Desenvolvimento Regional para o Alto Paraopeba, desenvolvido
pelo CEDEPLAR, 2010. Os dois estudos apontam situações que nos dão suporte no
desenvolvimento de nossa abordagem.
Assim, o PDDI (2011) aponta que os elevados investimentos previstos no
complexo minero-metalúrgico no entorno da RMBH e Colar (na região do Alto
Paraopeba, em Conceição do Mato Dentro e em Ouro Preto) deverão ter
importantes impactos econômicos na RMBH, notadamente no eixo Belo
Horizonte/Contagem/Betim, tanto na demanda derivada de serviços (minerários e
mais complexos), como em equipamentos para estas indústrias. Da mesma forma, é
esperada uma considerável geração de postos de trabalho tanto na construção
quanto na operação desses empreendimentos. (PDDI, v. 5, p.23, grifos nossos)
118

Figura 15 - Mapa de Inserção Regional da Área de Estudo

Fonte: Elaboração própria com dados extraídos da Malha de Limites Municipais – IBGE
119

Como dissemos, nesse capítulo, pretendemos explorar a ligação da Região


do Alto Paraopeba com a RMBH (Figura 15), não só em relação ao vetor oeste,
onde se localizam as grandes plantas industriais da RMBH, mas igualmente em
relação à dinâmica do Vetor Sul. O Vetor Sul, aqui considerado por nós abrange o
município de Nova Lima e partes dos municípios limítrofes, articulados a ele pelo
sistema formado pelas BR 040 e 356 e pela MG 030: Belo Horizonte, Raposos, Rio
Acima, Itabirito, Moeda e Brumadinho. A expansão da RMBH na direção sul pode
ser considerada como uma extensão da própria Região Sul de Belo Horizonte e sua
poderosa imagem simbólica, que a associa à moradia das classes de renda mais
alta e ao consumo mais elitizado. Assim, essa região é marcada pelo parcelamento
e ocupação de imóveis destinados à população de renda mais alta ao longo das vias
BR-040 e MG-030. É também a região onde predominam os condomínios fechados,
muitos deles irregulares do ponto de vista das normas urbanísticas.
Como já dissemos anteriormente, a estrutura fundiária da região é
extremamente concentrada em mãos de poucos proprietários, constituídos pelas
mineradoras, que disponibilizam seus terrenos de acordo com suas decisões por
estarem as jazidas esgotadas ou por ser o mercado imobiliário mais interessante
que o estoque daquelas terras. Dados do Instituto Horizontes apontam que:

Em Nova Lima, onde 41% do território é de propriedade da Anglo Gold e da


Cia Vale. A Vale detém a propriedade de terrenos também em Itabirito e
Brumadinho, mas em proporções mais modestas. (INSTITUTO
HORIZONTES, 2009, p. 3).

Os dados do censo de 2010 mostram que houve diminuição das taxas de


crescimento populacional da RMBH na última década, mas ao analisarmos o
crescimento da mancha urbana em áreas com qualidade ambiental, o que se
constitui em atributo de valorização imobiliária, vemos que estas manchas estão se
expandindo (TAB. 5).
120

Tabela 5 - Tabela de domicílios por situação da RMBH 2000/2010 e dos


municípios do Vetor Sul e de BH
Domicílios Particulares Permanentes

Município 2000 2010

Total Urbana (%) Rural (%) Total Urbana (%) Rural (%)

RMBH* 1.175.508 1.146.740 97,55% 28.768 2,45% 1.505.073 1.477.484 98,17% 27.589 1,83%

Baldim 2.215 1.363 61,53% 852 38,47% 2.539 1.616 63,65% 923 36,35%

Belo Horizonte 628.447 628.447 100,00% - 0,00% 762.075 762.075 100,00% - 0,00%

Betim 78.472 76.299 97,23% 2.173 2,77% 112.591 111.764 99,27% 827 0,73%

Brumadinho 7.201 5.182 71,96% 2.019 28,04% 10.570 8.873 83,95% 1.697 16,05%

Caeté 9.266 8.042 86,79% 1.224 13,21% 11.877 10.244 86,25% 1.633 13,75%

Capim Branco 2.051 1.839 89,66% 212 10,34% 2.647 2.393 90,40% 254 9,60%

Confins 1.248 797 63,86% 451 36,14% 1.698 1.698 100,00% - 0,00%

Contagem 143.231 142.068 99,19% 1.163 0,81% 184.839 184.220 99,67% 619 0,33%

Esmeraldas 11.985 9.715 81,06% 2.270 18,94% 17.523 16.225 92,59% 1.298 7,41%

Florestal 1.560 1.030 66,03% 530 33,97% 2.034 1.697 83,43% 337 16,57%

Ibirité 33.720 33.540 99,47% 180 0,53% 46.239 46.130 99,76% 109 0,24%

Igarapé 6.375 5.858 91,89% 517 8,11% 10.391 9.656 92,93% 735 7,07%

Itaguara 3.168 2.151 67,90% 1.017 32,10% 3.987 2.997 75,17% 990 24,83%

Itatiaiuçu 2.284 1.335 58,45% 949 41,55% 3.074 1.882 61,22% 1.192 38,78%

Jaboticatubas 3.506 1.815 51,77% 1.691 48,23% 5.396 3.352 62,12% 2.044 37,88%

Juatuba 4.331 4.194 96,84% 137 3,16% 6.808 6.677 98,08% 131 1,92%

Lagoa Santa 9.859 9.201 93,33% 658 6,67% 15.734 14.614 92,88% 1.120 7,12%

Mário Campos 2.698 2.014 74,65% 684 25,35% 3.870 3.629 93,77% 241 6,23%

Mateus Leme 6.495 5.425 83,53% 1.070 16,47% 8.562 7.536 88,02% 1.026 11,98%

Matozinhos 7.585 6.932 91,39% 653 8,61% 9.871 8.980 90,97% 891 9,03%

Nova Lima 16.759 16.405 97,89% 354 2,11% 24.203 23.685 97,86% 518 2,14%

Nova União 1.363 366 26,85% 997 73,15% 1.653 857 51,85% 796 48,15%

Pedro Leopoldo 13.939 11.314 81,17% 2.625 18,83% 17.510 14.944 85,35% 2.566 14,65%

Raposos 3.511 3.306 94,16% 205 5,84% 4.379 4.147 94,70% 232 5,30%
Ribeirão das
61.995 61.828 99,73% 167 0,27% 85.135 84.496 99,25% 639 0,75%
Neves
Rio Acima 1.926 1.627 84,48% 299 15,52% 2.631 2.286 86,89% 345 13,11%

Rio Manso 1.268 770 60,73% 498 39,27% 1.689 884 52,34% 805 47,66%

Sabará 29.295 28.583 97,57% 712 2,43% 36.479 35.503 97,32% 976 2,68%

Santa Luzia 46.744 46.574 99,64% 170 0,36% 58.332 58.191 99,76% 141 0,24%
São Joaquim
4.675 3.512 75,12% 1.163 24,88% 6.799 5.353 78,73% 1.446 21,27%
de Bicas
São José da
3.834 2.253 58,76% 1.581 41,24% 5.647 3.277 58,03% 2.370 41,97%
Lapa
Sarzedo 4.419 3.736 84,54% 683 15,46% 7.339 7.261 98,94% 78 1,06%
Taquaraçu de
919 378 41,13% 541 58,87% 1.162 552 47,50% 610 52,50%
Minas
121

Domicílios Particulares Permanentes

Município 2000 2010

Total Urbana (%) Rural (%) Total Urbana (%) Rural (%)

Vespasiano 19.164 18.841 98,31% 323 1,69% 29.790 29.790 100,00% - 0,00%

Fonte: Elaboração própria com dados extraídos do IBGE

Isto mostra um nível considerável de migração interurbana na direção do


Vetor Sul e também uma nova tipologia se impõe naquela região: o condomínio
fechado. Quanto aos condomínios, outra novidade que se pode observar é a
presença da tipologia do condomínio fechado adotada tanto para empreendimentos
de alta renda, como para outros nas periferias populares, para faixas de renda
média e média baixa. Essa disseminação dos condomínios horizontais fechados
para outras faixas de renda demonstra o alto valor simbólico que esse tipo de
ocupação tem.
Os municípios de Itabirito e Moeda têm sido atingidos pelo crescimento do
vetor. O Instituto Horizontes cita conforme Costa que, “a importância deste tipo de
parcelamento é de tal ordem que representa 62% dos lotes produzidos nas décadas
de 80 e 90 nos municípios de Nova Lima e Brumadinho.” (COSTA, 2004).
Ainda segundo o Instituto Horizontes, que realizou estudos na região:

A expansão de Brumadinho, difundida como expansão da parte rica de Belo


Horizonte, apresenta uma realidade bem mais complexa. Há de fato, em
partes do município, principalmente no eixo da BR-040, loteamentos
voltados para a parcela da população de renda média e alta, que saem da
capital por motivos diversos, entre os quais, parece destacar-se, o medo da
violência urbana e a procura por uma vida mais tranquila junto à natureza.
Com isto, observou-se, nos últimos anos, o adensamento de condomínios
fechados, sendo que os dois mais conhecidos, Recanto das Pedras e Retiro
do Chalé, já estão totalmente ocupados. (INSTITUTO HORIZONTES, 2009,
p. 34).

Nova Lima e Brumadinho vêm apresentando as maiores taxas do Vetor Sul,


mas inferiores às observadas nos municípios do Vetor Oeste. Entretanto,
quando se analisa o grupamento formado pelos dois municípios, nota-se
que a taxa do grupo, no período 2000-2007, ficou em 2,04%, superior,
portanto, ao do eixo da BR-381, assinalando para a aceleração do processo
de ocupação que acontece nos dois municípios. (INSTITUTO
HORIZONTES, 2009, p. 5).
122

O PIB dos municípios do Vetor Sul, excetuando-se Belo Horizonte é de


R$3.589.008.000,00 , tendo crescido na última década em 221 %, enquanto o PIB
da própria RMBH é de R$ 120.833.978.000,00, segundo o Censo IBGE, 2010 (TAB.
6).

Tabela 6 - Tabela PIB – MG – 1999 e 2010


Produtos Interno Bruto (PIB) a Produtos Interno Bruto (PIB) a
Município
preços correntes (R$mil) - 1999 preços correntes (R$mil) - 2010
R$ 633.403,31
Brumadinho R$ 133.409,00

R$ 793.398,18
Itabirito R$ 288.333,00

R$ 14.546,63
Moeda R$ 8.924,00

R$ 1.857.558,25
Nova Lima R$ 628.016,00

R$ 32.892,70
Raposos R$ 33.067,00

R$ 45.096,61
Rio Acima R$ 24.957,00

R$ 3.376.895,67
Total R$ 1.116.706,00

Fonte: Elaboração própria com dados extraídos do IBGE


Outra característica que impacta a expansão de parcelamentos e da
ocupação é a presença de importantes áreas de preservação ambiental. Em Nova
Lima citam-se Reserva do Tumbá, Fechos (APE - Estação Ecológica), Rola Moça
(Parque Estadual), Mutuca (APE), Mata do Jambreiro (RPPN), Cristais (RPPN),
Parque Municipal do Rego dos Carrapatos (Parque Ecológico), e ainda a Mata
Samuel de Paula (RPPN), Mata Capitão do Mato e o Parque Municipal Rego
Grande. Em Brumadinho, citam–se as APE’s do Rio Manso e Catarina, além da APA
Inhotim e das RPPN’s Sítio Grimpas e Jequitibá. Ressalte-se ainda que a APA SUL
(FIG. 16) abrange parte considerável dos territórios dos municípios do Vetor Sul, em
um total de 1.109,31 ha.
Os municípios do Alto Paraopeba compõem o Consórcio para o
Desenvolvimento do Alto Paraopeba - CODAP e, em 2010, o CEDEPLAR fez o
"Plano de Desenvolvimento Regional para o Alto Paraopeba".
123

A região vizinha do colar metropolitano de Belo Horizonte é articulada ao


centro da RMBH pela rodovia federal BR-040 e pela ferrovia MRS Logística S.A.
(Ferrovia do Aço). Os municípios de Belo Vale, Jeceaba, Entre Rios de Minas e São
Brás do Suaçuí situam-se à direita da rodovia no sentido Belo Horizonte/Rio de
Janeiro. Congonhas, Conselheiro Lafaiete e Ouro Branco situam-se na margem
oposta (FIG. 17 e FIG. 18).

Figura 16 - Malha Ferroviária Atual

Fonte: Plano CEDEPLAR


124

Figura 17 - Mapa Malha Viária e Ferroviária da Área de Estudo

Fonte: Elaboração própria com dados extraídos da Malha de Limites Municipais - IBGE, da Hidrografia - IGAM e da Malha Rodoviária - GEOMINAS
125

A maior polarização urbana da região é a cidade de Conselheiro Lafaiete, que


não abriga nenhuma unidade industrial ou lavra mineral expressiva, mas oferece os
serviços e comércio de âmbito regional. Conselheiro Lafaiete é uma cidade que tem
suas atividades principais voltadas para o setor terciário. Entre Rios de Minas
também é uma cidade voltada ao terciário de menor porte que Conselheiro Lafaiete
é impactada pela planta industrial da VSB, em escala menor que Jeceaba e São
Brás do Suassí, essas totalmente modificadas pela presença da unidade industrial.
Entre 2000 e 2010, o conjunto de municípios de referência do CODAP
apresentou um crescimento médio populacional de 1,30% ao ano e o grau de
urbanização passou de 89,20% para 90,65%.
Ao analisar os municípios da área do CODAP, destaca-se a taxa de
crescimento de Congonhas e Conselheiro Lafaiete, 1,8% ao ano e 1,3% ao ano
respectivamente. Jeceaba, contudo, foi o único município dentre aqueles da CODAP
que, entre o 2000 e 2010, teve crescimento negativo.
Tanto a rodovia, quanto a ferrovia ligam ao litoral e aos pontos exportadores
da região.
126

Figura 18 - Mapa Vetor Sul

Fonte: Instituto Horizontes


127

Tabela 7 - Tabela municípios do CODAP e do Vetor Sul com população urbana


e população rural
Nome dos 2000 2010
municípios Total Urbana Rural Total Urbana Rural
Municípios de referência do CODAP
Belo Vale 7.429 3.136 4.293 7.536 3.295 4.241
Congonhas 41.256 39.458 1.798 48.519 47.236 1.283
Conselheiro
102.836 99.515 3.321 116.512 111.266 5.246
Lafaiete
Entre Rios de
13.114 8.390 4.724 14.242 9.878 4.364
Minas
Jeceaba 6.109 2.831 3.278 5.395 2.988 2.407
Ouro Branco 30.383 26.303 4.080 35.268 31.609 3.659
São Brás do
3.282 2.718 564 3.513 3.129 384
Suaçuí
Municípios do Vetor Sul da RMBH
Brumadinho 26.614 19.373 7.241 33.973 28.642 5.331
Itabirito 37.901 35.245 2.656 45.449 43.566 1.883
Moeda 4.469 1.569 2.900 4.689 1.789 2.900
Nova Lima 64.387 63.035 1.352 80.998 79.232 1.766
Raposos 14.289 13.455 834 15.342 14.552 790
Rio Acima 7.658 6.576 1.082 9.090 7.944 1.146
Fonte: Elaboração própria com dados extraídos dos censos demográficos de 2000 e
2010

A ligação com o vetor oeste estaria calcada na articulação entre as recentes


plantas industriais da região do Alto Paraopeba e aquelas situadas na RMBH,
particularmente as do setor siderúrgico e metalúrgico. Já a ligação com a expansão
do Vetor Sul (FIG. 19) se daria através das atividades do setor imobiliário, cuja
demanda principal seria a de localização de atividades já tradicionalmente ligadas à
RMBH e ao próprio Vetor Sul, mas agora também impulsionadas pelas dinâmicas
oriundas da expansão das atividades industriais no Alto Paraopeba: uma nova
demanda estimulada pela presença de funcionários de renda mais alta, empregados
nas novas plantas, parte deles transferidos de unidades situadas no vetor oeste da
RMBH.
A essa demanda se somariam ainda moradores de renda mais alta da RMBH,
que almejam as condições de moradia mais próximas dos recursos naturais, com
maior nível de segurança e isolamento em relação às cidades de maior porte, das
quais não abrem mão dos benefícios, mas buscam alcançá-los de um ponto de vista
privilegiado. Além da demanda por moradia, esse novo segmento necessita também
128

do apoio de comércio e serviços mais sofisticado no seu cotidiano. A região do


Alphaville forneceria esse apoio.
Em seu Plano de Desenvolvimento Regional para o Alto Paraopeba, o
CEDEPLAR ensina que:

De fato, o processo de ocupação e articulação regional que liga a atual


RMBH ao Alto Paraopeba tem origens claras no século XVIII e todo esse
espaço regional, de Lafaiete a Belo Horizonte (e para além) obedece a uma
lógica, qual seja, a formação de um espaço urbano-regional organizado a
partir da mineração como base exportadora e as atividades de
abastecimento agropecuário e de comércio como base de organização
local. O que vimos acontecer, agora em processo renovado e potencializado
pela industrialização de bens intermediários, é o ressurgimento das
atividades mineradoras, e suas derivações, como principais elementos
indutores da dinâmica econômica e demográfica nessa ampla região. O que
estamos assistindo no Alto Paraopeba é, exatamente, a intensa
dinamização de territórios e espaços sociais que, até então estavam
parcialmente desarticulados de regiões mais distantes. Em suma, não há
como se pensar a dinâmica do Alto Paraopeba sem se considerar suas
articulações diretas com o espaço metropolitano e, para além desse, com o
espaço urbano-industrial brasileiro e seus desdobramentos globalizados.
(CENTRO DE DESENVOLVIMENTO E PLANEJAMENTO REGIONAL DE
MINAS GERAIS, 2010, p.6, grifo nosso).

E adiante na pag. 14:

Hoje, paradoxalmente, observa-se um reforço da atividade metalúrgica no


interior do Quadrilátero, com a expansão de empreendimentos de
metalurgia e siderurgia e a retomada da mineração face à alta cotação
mundial do minério de ferro, particularmente com a entrada da China no
mercado como grande consumidor. Cabe ainda notar que o
desenvolvimento das atividades relacionadas à transformação do minério de
ferro, tanto para a produção do ferro-gusa quanto do aço, historicamente
não se processaram a oeste da Serra da Moeda, nos municípios do vale do
Paraopeba. Hoje, todavia, espera-se uma redefinição daquela região e sua
integração ao espaço produtivo mineral e siderúrgico, que tradicionalmente
caracterizava apenas o Quadrilátero Ferrífero. (CENTRO DE
DESENVOLVIMENTO E PLANEJAMENTO REGIONAL DE MINAS
GERAIS, 2010, p.14, grifo nosso).
129

Figura 19 - Mapa do Quadrilátero Ferrífero

Fonte: Elaboração própria com dados extraídos da Malha de Limites Municipais - IBGE, da Hidrografia - IGAM e da Malha Rodoviária - GEOMINAS, SIG do
Quadrilátero Ferrífero - CODEMIG
130

Continuando com o que ensina o CEDEPLAR (2010), mais adiante o


documento, à pagina 21, elenca os eventos que ensejam as transformações na
região do Alto Paraopeba no século XXI:

(a) Institucionalização da Região Metropolitana de Belo Horizonte a partir de


1970 e sua intensa expansão elitizada recente em direção ao Eixo-Sul,
gerando novos conflitos entre habitação de elite, preservação ambiental e
mineração;
(b) Industrialização fordista a partir de 1970 consolidou o Eixo-Oeste (Betim
e Contagem), que se derramou sobre municípios adjacentes e aponta para
sua expansão, reestruturação e flexibilização;
(c) Forte e intensa retomada da exploração do minério de ferro em toda a
região (agora, atingindo o Alto Paraopeba), como também de siderúrgicas
que disputam o controle de terras e de lavras de minério;
(d) Instalação de novas plantas metalúrgicas e siderúrgicas na região,
fusões, aquisições, privatizações (Açominas-Gerdau; Ferteco-Vale, entre
outras) de antigas empresas implicando novos investimentos significativos;
(e) Novas ligações rodoviárias e expansão da infraestrutura urbano-
industrial, das comunicações, e dos serviços produtivos em toda a região e
a consequente redução das diferenças e o aumento das articulações entre
cidades e campo. Tudo isto aponta para um intenso processo de
reestruturação regional, reafirmando algumas das diferenciações acima
apontadas, mas redefinindo papéis das cidades e criando novas
centralidades urbano-industriais. Ao mesmo tempo, pode-se supor fortes
rearticulações das ligações locais, sub-regionais, e regionais, tanto com a
RMBH quanto com espaços econômicos mais distantes. (CENTRO DE
DESENVOLVIMENTO E PLANEJAMENTO REGIONAL DE MINAS
GERAIS, 2010, p. 21, grifo nosso).

A nosso ver, os itens a), b), e d) configuram-se como uma relação de caráter
metropolitano, ou seja, a nova estrutura da região está fortemente ligada às
atividades econômicas da RMBH tradicional.
No nosso marco teórico, definimos qual seria nossa abordagem principal
quanto à metropolização. O processo metropolitano é aqui entendido como o
processo em que o espaço urbano produzido ultrapassa os limites políticos e passa
a conformar-se num único espaço comprometido com uma dinâmica econômica
emanada a partir de um polo central e o conjunto de suas atividades. O espaço
comprometido não é necessariamente contínuo, mas vinculado ao processo
produtivo da centralidade metropolitana. Dessa forma estaria havendo um
fortalecimento da especialização já existente na região em relação à produção
siderúrgica e metalúrgica, com uma nova variável: a explicitação e ampliação da
vinculação das atividades da região com aquelas da RMBH.
Santos e Monte-Mór (2012) dizem que foi identificada a necessidade de se
aprofundar mais a questão minerária, "isso porque a RMBH está inserida na Região
131

do Quadrilátero Ferrífero (FIG. 21), a maior produtora de minério de ferro do pais,


que vem experimentando um crescimento paradoxal com ampliação da renda
mineraria." (SANTOS; MONTE-MÓR, 2012, p.10).
A intenção inicial da transferência da capital de Vila Rica para Belo Horizonte
teria sido:

A opção por Belo Horizonte, vai representar, além da quebra da velha


ordem política ligada à mineração, o impulso para reorganizar a economia
mineira a partir de um novo centro regional. A nova capital é idealizada
como símbolo dos tempos republicanos, negação da cidade colonial, cidade
moderna, que deve constituir-se na base para o projeto de industrializar o
Estado. (BELO HORIZONTE, 1984).

Aliás, somos de opinião que a região metropolitana de Belo Horizonte não


surgiu de um processo ligado exclusivamente à sua capital, mas ao processo
referente à chamada "Terceira Industrialização Mineira", com ênfase no setor
metal/mecânico, cujas unidades produtivas não se situavam no município de Belo
Horizonte e tampouco o processo de periferização daí advindo estava concentrado
naquele município. Assim, não só o município da capital foi ao encontro do vetor
oeste, mas este também alimentou a ligação com a região central da RMBH.
Um dos objetivos da transferência da capital teria sido, como dito
anteriormente, "constituir-se na base para o projeto de industrializar o Estado" e
esse objetivo tem se cumprido, não especificamente pelo município de Belo
Horizonte, mas por seu aglomerado metropolitano.
A Belo Horizonte de Aarão Reis, sede de serviços burocráticos, por si só
jamais ensejaria uma região metropolitana, por mais importantes que fossem tais
serviços. Belo Horizonte sequer era a capital de toda Minas Gerais, perdendo em
muitas regiões do estado para a polarização de São Paulo e em outras do Rio de
Janeiro, o que ademais, ainda ocorre, mesmo que em escala menor.
Assim, a intenção de romper com a região mineradora expressa na fundação
de Belo Horizonte já havia sido quebrada com a chamada segunda industrialização
mineira, envolvendo o setor metalomecânico. Somos de opinião que um novo
processo da mesma natureza vem se estabelecendo: Belo Horizonte, através de sua
região metropolitana, o Quadrilátero Ferrífero (FIG. 22) e o Alto Paraopeba se
vinculam num
132

mesmo processo produtivo siderúrgico/metalúrgico, configurando o que


poderia ser, a nosso ver, o segundo momento da região metropolitana de Belo
Horizonte.
133

Figura 20 - Mapa Interseção da Área de Estudo com o Quadrilátero Ferrífero

Fonte: Elaboração própria com dados extraídos da Malha de Limites Municipais - IBGE, da Hidrografia - IGAM e da Malha Rodoviária - GEOMINAS, SIG
do Quadrilátero Ferrífero - CODEMIG
134

A região do Alto Paraopeba, como foi mencionado anteriormente, é composta


pelos municípios Belo Vale, Congonhas, Conselheiro Lafaiete, Entre Rios de Minas,
Jeceaba, Ouro Branco e São Brás do Suaçuí. Essa região tem sofrido em seu
conjunto um intenso processo de modificação de suas atividades e alteração de seu
papel no conjunto da rede de cidades mineiras. Dentre essas mudanças destaca-se
o fortalecimento da relação com o Vetor Sul e oeste da RMBH, que se dá pela
ampliação das áreas mineradas nessa região e pela instalação e ampliação de
plantas industriais do setor metalúrgico e ainda pelo processo de avanço imobiliário
no Vetor Sul da RMBH.

Tabela 8 - PIB Total e PIB per capita nos municípios do CODAP (2009)

Fonte: Fundação João Pinheiro, 2009

Tabela 9 - Valor Adicionado da indústria a preços recorrentes nos municípios


do CODAP
Valor Adicionado (VA)
Municípios da indústria a preços correntes
(R$ mil)
Belo Vale 2802
Congonhas 77901
Conselheiro Lafaiete 39430
Entre Rios de Minas 4715
Jeceaba 1066
Ouro Branco 274403
São Brás do Suaçuí 1353
Fonte: Elaboração própria com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) / Coordenação de Contas Nacionais (Conac); Fundação João Pinheiro (FJP) / Centro de
Estatística e Informações (CEI)
135

O Plano de Desenvolvimento Regional para o Alto Paraopeba, analisando os


deslocamentos diários dos moradores da área do CODAP, verificou que 52,54% dos
deslocamentos são internos à própria área e que 30,43% destinam-se à Belo
Horizonte. E conclui:

O saldo pendular, dado pelo número de pessoas que trabalham e estudam


na região sem residir na mesma, subtraídos aqueles que residem na região,
mas trabalham ou estudam em outra exibe, em números absolutos, o
cenário de perda de trabalhadores para outras regiões adjacentes, em
especial a capital mineira. (CONSÓRCIO PÚBLICO PARA O
DESENVOLVIMENTO DO ALTO PARAOPEBA, 2010, p. 47)

Desenvolvendo a abordagem do crescimento das atividades minerárias e


siderúrgicas na região, embora esse desenvolvimento seja atribuído em grande
parte pela ampliação da demanda internacional por produtos e comodities
produzidas na região, pode-se notar que pelo menos um dos grandes investimentos,
a nova unidade da Vallourec e Sumitomo do Brasil – VSB localizada em Jeceaba,
sobre a qual falaremos adiante, atenderá às demandas internas por tubos sem
costura e roscas premium a serem utilizadas na exploração de petróleo no pré-sal
brasileiro. Isto é, essa implantação tem parte de sua viabilidade ligada ao mercado
nacional. Os tubos sem costura também são utilizados na indústria automobilística,
de maquinário agrícola e outros.
Segundo informações colhidas no site institucional do Grupo Vallourec:

A VSB terá uma aciaria com capacidade para produzir 1 milhão de


toneladas de aço bruto/ano. Desse total, 700 mil t serão utilizadas para a
fabricação de 600 mil t de tubo de aço sem costura, com conexão de roscas
premium. As 100 mil t restantes são recicladas dentro do ciclo de produção,
retornando ao forno elétrico. As outras 300 mil t de aço bruto serão
transformadas em barras lingotadas para o Grupo Vallourec. (GRUPO
VALLOUREC, 2012, p. 2).

Ainda segundo a mesma fonte:

A Vallourec e a Sumitomo Metals compartilham da visão de que o mercado


de tubos sem costura para aplicações no setor de Óleo e Gás irá se
desenvolver nos próximos anos, impulsionado pela forte demanda mundial
– atual e futura – por energia.
O Complexo Siderúrgico da VSB, instalado no Distrito Industrial de Jeceaba,
destina-se a produção de um milhão de toneladas de aço, das quais serão
136

produzidas 600.000 toneladas por ano de tubos sem costura, para


aplicações tais como na área de OCTG (Oil Country Tubular Goods), ou
seja, tubos para aplicações petrolíferas de alta qualidade.e 300.000
toneladas de barras de aço.
O Complexo Siderúrgico Jeceaba contemplará uma usina siderúrgica
integrada, compreendendo as áreas e redução (pátio de matérias-primas,
planta de pelotização, altos-fornos, estocagem/ peneiramento e sistema de
injeção de finos), aciaria (forno elétrico a arco, forno panela, desgaseificador
a vácuo e lingotamento contínuo) e laminação (laminação, tratamento
térmico e rosqueamento). (GRUPO VALLOUREC, 2012, p.2).

De acordo com estudo do CEDEPLAR (SILVA, 2011), o parque siderúrgico


nacional atualmente é composto por 13 empresas privadas, controladas por oito
grupos empresariais, que operam 27 usinas (12 usinas integradas e 15 semi
integradas), distribuídas por 10 estados brasileiros, além de cerca de 80 produtores
independentes espalhados pelo Brasil: 63 em Minas Gerais; 15 na região de Carajás
(Maranhão e Pará); 4 no Espírito Santo e 2 na região de Corumbá, em Mato Grosso
do Sul. A VSB faz parte do grupo de siderúrgicas integradas.
Podemos tomar o caso da VSB como emblemático no tipo de abordagem que
queremos fazer, pois ela é a primeira grande planta siderúrgica na região do
CODAP, à direita da rodovia no sentido RJ, que modifica de imediato a situação de
municípios que tinham pouca vinculação com a mineração ou a siderurgia. Podemos
dizer que esse é um território novo agregado às atividades dessa natureza que já
ocorriam de maneira intensa em municípios vizinhos, como Congonhas (CSN) e
Ouro Branco (Gerdau). A percepção da agregação desses novos territórios é
importante ao vislumbrarmos o novo papel da área no cenário econômico. Uma rede
de produção se intensifica e a ligação com área tradicional da RMBH também vai se
ampliando.
Outro aspecto que nos parece importante, no caso da VSB, é que sua
primeira planta localiza-se no município de Belo Horizonte, ou seja, no próprio
município sede da RMBH. É importante mencionar que a planta de Belo Horizonte
continuará funcionando em interação com a nova planta. Os estudos ambientais
apontam que o número de trabalhadores empregados na nova planta é de cerca de
1500 pessoas, sendo que cerca 400 trabalhadores da região receberam treinamento
para trabalharem na operação da usina. Não obstante a empresa transfere
trabalhadores da sede para a nova usina. Muitos desses trabalhadores são
transportados todos os dias de BH até Jeceaba, num movimento pendular.
137

Outra questão importante é apontada no Relatório de Impacto Ambiental


(RIMA) do Complexo Siderúrgico de Jeceaba (1997, p.7) que mostra a relação
dessa unidade com as produtoras de gusa e ligas localizadas na região e mesmo
fora dela.
Segundo o site O empreiteiro, os principais empreendimentos do setor
siderúrgico no Brasil são:

ArcelorMittal - Duplicação da Arcelor Mittal Monlevade


Expansão: usina dobrará a capacidade de produção de aço bruto de 1,2
milhão para 2,4 milhões de t/ano de aço bruto;

Vale
TKCSA - A Siderúrgica do Atlântico, parceria entre a Vale e a
Thyssenkrupp, já está comissionada
Produção: 5 milhões t/ano de placas de aço que será totalmente exportada;

Alpa - Aços Laminados do Pará


Produção: capacidade anual de 2,5 milhões de t/ de placas
Entrada em operação: novembro de 2013;

Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP)


Produção: capacidade de produção anual de 3 milhões de t/ano de placas
de aço para exportação (6 milhões de t/ano, na segunda fase)
Entrada em operação: 2014;

Companhia Siderúrgica UBU (CSU)


Produção: capacidade anual de cinco milhões de t de placas de aço
Início das operações: 2014;

Usiminas
Projetos: conclusão da coqueria 3, em Ipatinga (MG); projetos de melhoras
operacionais nas plantas de Ipatinga e de Cubatão (SP). Em 2011, estão
previstas a ampliação da Unigal e a implantação do novo laminador de tiras
a quente em Cubatão
Produção: 7 milhões de t/anual (dezembro de 2010) e atingir,
gradativamente, a produção de 29 milhões de t/anual até 2014;

Gerdau
Principais projetos: laminador de aços planos e outro de bobinas a quente,
em Ouro Branco (MG); expansão da capacidade de produção de perfis
estruturais de 540 mil t para 700 mil t/ano, também em Ouro Branco;
ampliação das centrais de corte e dobra de vergalhões;

CSN
Projetos: novos negócios e novos mercados a serem estabelecidos com a
produção de 500 kt/ano de aços longos (vergalhões e fio máquina).
Produção de 400 kt/ano de vergalhos. Produção de 100 kt/ano de fio
máquina
Start up previsto: 2013;

V&M
Fábrica da Vallourec & Sumitomo Tubos do Brasil (VSB) em Jeceaba
Produção: capacidade para produzir um milhão de toneladas de aço
bruto/ano e tubos sem costura;
138

Votorantim
Investimentos na Usina Siderúrgica em Resende
Projetos: sexta central especializada em corte e dobra de aço, junto com a
primeira unidade de distribuição na região Centro-Oeste. (ESTADÃO, 2011).

De oito grandes empreendimentos três estão na região em tela. A crise


econômica que atingiu o setor retardou a agenda de investimentos, no entanto, é
importante verificar a presença importante da região entre os maiores
empreendimentos siderúrgicos do país.

As matérias-primas da aciaria serão o gusa líquido e sólido produzido no


próprio Complexo, o gusa sólido que será comprado de outras empresas e
recebido em vagões, e as liga metálicas, que serão recebidas em
caminhões e estocadas em silos na área de aciaria. [...] Vale, ainda,
enfatizar os rebatimentos da implantação do empreendimento do ponto de
vista regional. Já foi observado que as demandas do empreendimento em
termos de serviços e emprego resultarão em rebatimentos para os
municípios vizinhos de maior porte, como é o caso de Congonhas,
Conselheiro Lafaiete e Ouro Branco. Essa transformação será um impacto
de alta magnitude. (MINAS GERAIS, 2008, p.39-41, grifo nosso).

O parecer técnico que informa o processo de licenciamento dessa unidade


aponta: "adicionalmente, tem-se a proximidade do transporte ferroviário, acesso a
diversas rodovias e à mina de Pau Branco (fornecedora do minério de ferro), de
propriedade da V&M Mineração Ltda., localizada no município de Brumadinho."
(EIA/RIMA, p. 4).
O próprio EIA/RIMA do empreendimento diz:

A planta industrial da VSB estará localizada a 130 Km de Belo Horizonte


com a definição do local sendo determinada pela vocação minero-
siderúrgica da região de Jeceaba e municípios vizinhos, tais como
Congonhas, Ouro Branco e Conselheiro Lafaiete. (MINAS GERAIS, 2008, p.
4, grifo nosso).

E ainda, no documento de resposta às Informações Complementares ao EIA,


o empreendedor esclarece que:

Em relação ao grau de dependência funcional e quanto às relações


estabelecidas entre a Área de Influencia Direta - AID e os principais polos
regionais e microrregionais, com destaque para Conselheiro Lafaiete e
Congonhas, que, de modo geral, o porte de um determinado município é
fator preponderante para a determinação da capacidade de absorção do
aumento dos fluxos de renda e demanda por bens e serviços. Dessa forma,
o documento conclui que, considerando o pequeno porte de Jeceaba, serão
139

restritos, em alguma medida, a capacidade deste município prover


atendimento a todas as demandas da população relacionada ao
empreendimento, o que pode, ainda, ser dificultado, caso se verifique a
ocorrência de fluxos intensos de pessoas indiretamente atraídas à região.
Inferência similar pode ser aplicada, também, aos municípios de São Brás
do Suaçuí e Entre Rios de Minas. (EIA/RIMA, p. 34).

Adicionalmente, a VSB informa ainda outras de suas motivações:

Tem-se a proximidade do transporte ferroviário, acesso a diversas rodovias


e à mina de Pau Branco (fornecedora do minério de ferro), de propriedade
da V&M Mineração Ltda., localizada no município de Brumadinho.¨ Parecer
técnico. (EIA/RIMA p. 4, grifo nosso).

Esse esclarecimento mostra que um outro município metropolitano e


pertencente à APA-SUL, além de sede da atual Região Metropolitana, está
diretamente vinculado ao processo produtivo de Jeceaba.
Para melhor compreender a questão siderúrgica na região, podemos citar
Santos (2009), que informa nos informa quanto ao estudo para a implantação da
CSN:

Pode-se dizer que havia entre os mineiros o entendimento que a região do


Vale do Paraopeba estava apta, assim como o Vale do Rio Doce, a receber
uma grande usina siderúrgica. (SANTOS, 2009. p. 55).

O autor argumenta sobre uma questão fundamental para o desenvolvimento


da siderurgia em Minas Gerais que se pode verificar que os principais
empreendimentos siderúrgicos constituídos em Minas Gerais como também no
Brasil, no decorrer do século XX, foram frutos da atuação do Estado ou do capital
estrangeiro, ou ainda da parceria entre os dois. (SANTOS, 2009, p. 60). O autor
menciona também que:

Em 1976 a SIDERBRAS, uma empresa holding do sistema siderúrgico


estatal, e o governo de Minas assinaram o acordo de acionistas segundo o
qual a primeira passava a controlar a AÇOMINAS, marcando a entrada
definitiva do governo federal no projeto. (SANTOS, 2009).

Essas informações aqui elencadas mostram que houve uma intenção primeira
do poder público em localizar no vale do Paraopeba atividades ligadas à siderurgia,
patrocinadas por ele próprio em vários momentos a partir da implantação da CSN,
que essas ações foram continuadas com a implantação da AÇOMINAS e no
140

momento o incremento dessas atividades continua tendo o apoio do poder público,


embora em escala menor que anteriormente.
A nova planta da VSB, no atual ciclo da economia não teve o envolvimento
tão direto do estado, mas mesmo assim, contou com apoio expressivo do poder
público estadual, já que o distrito industrial em que se localiza é uma iniciativa da
Companhia de Distritos Industriais de Minas Gerais - CDI MG, bem como o seu
processo de licenciamento ambiental.
É importante observar que em 1980, a VSB, então Mannesman, em sua
planta no Barreiro foi a terceira siderúrgica em termos de produção no estado, mas
nos anos seguintes a produção diminuiu. O início das operações da Gerdau, então
AÇOMINAS e a expansão da CSN15 podem ter influenciado nessa queda de
produção. (SANTOS, 1999, p. 49).
Pois bem, a VSB desloca parte importante da sua produção exatamente para
a região do Alto Paraopeba, nas proximidades daquelas plantas que apresentavam
produção maior que a sua. De alguma forma, a VSB se liberta de sua localização no
aglomerado tradicional da RMBH e se desloca para um território onde pode se
expandir em condições mais favoráveis, sem as deseconomias do aglomerado, mas
ainda mantendo a proximidade com a sua principal mina (Pau Branco) e podendo
usufruir da aglomeração na região de Lafaiete onde já se localizavam outras
grandes plantas siderúrgicas.
Em março de 2012, a VSB pediu uma nova licença, o que a nosso ver é
importante para se perceber as relações da dessa planta para além de seu entorno
imediato. A empresa pede licença ambiental para o Uso de Carvão Vegetal
Proveniente de Plantios de Biomassa Renovável como Agente Redutor na Produção
de Ferro-gusa do Complexo Siderúrgico da Vallourec & Sumitomo Tubos do Brasil
Ltda. (VSB), Jeceaba/MG, Brasil. A caracterização do empreendimento feita pela
empresa diz:

Esta atividade de projeto propõe o uso de carvão vegetal renovável – fonte


de bioenergia sólida proveniente de biomassa de madeira produzida de
forma sustentável através de plantios dedicados – como agente redutor no

15
A CSN não fecha o ciclo produção de seus produtos na região, sua unidade no estado do Rio de
janeiro tem importante papel na fabricação dos produtos que são postos no mercado.
141

processo de redução do minério de ferro. (VALLOUREC & SUMITOMO


TUBOS DO BRASIL LTDA, 2012).

E mais adiante: "o projeto proposto apresenta um potencial substancial para


ser replicado por outras organizações no Brasil, na América Latina, no Caribe, assim
como em diversos países em desenvolvimento da África e Ásia." (VALLOUREC &
SUMITOMO TUBOS DO BRASIL LTDA, 2012).
E ainda:

A VSB assinou um contrato de longo prazo para suprimento de agente


redutor com a VMFL, empresa do Grupo V&M que é responsável pela
gestão das florestas dedicadas ao projeto. Os plantios são executados com
a adoção de práticas de produção sustentável e tecnologia de plantio
avançada desenvolvida pela VMFL. (VALLOUREC & SUMITOMO TUBOS
DO BRASIL LTDA, 2012).

Mais adiante esclarece:

A atividade de projeto deverá ser abastecida pelos plantios dedicados


implantados e gerenciados pela entidade do projeto.
As terras dos municípios de Curvelo (Região de Curvelo), Bocaiúva,
Engenho Navarro, Olhos D’água, Guaraciama, Montes Claros, Coração de
Jesus (Região de Montes Claros), Várzea da Palma, Francisco Dumont,
Lassance, Augusto de Lima e Buenópolis (Região Serra do Cabral) se
enquadram na categoria (ii) plantios florestais após a última rotação. As
terras da Região Serra do Cabral continham plantios florestais de pinus,
espécie que não possui ciclo de rebrota. Parte das terras do município de
Curvelo (Fazenda Vera Cruz, com área de 1.335,88 hectares, incorporada à
Fazenda Pindaíbas6) está na categoria(i) pastagens.
As terras em Curvelo, Bocaiúva, Engenho Navarro, Olhos D’água,
Guaraciama, Montes Claros, Coração de Jesus, Várzea da Palma,
Francisco Dumont, Lassance, Augusto de Lima e Buenópolis são, assim,
consideradas dentro dos limites desta atividade de projeto. (VALLOUREC &
SUMITOMO TUBOS DO BRASIL LTDA, 2012).

Podemos observar que além do envolvimento direto dos municípios do Alto


Paraopeba, as atividades da VSB impactarão também municípios onde será
produzida madeira de reflorestamento visando à obtenção de carvão vegetal usado
como redutor nas atividades da siderúrgica. O uso de biomassa nesse processo, por
não ser de origem fóssil é considerado mais adequado e seria um processo mais
limpo, mas se considerarmos o comprometimento de vastas áreas do cerrado com
atividade de silvicultura, os impactos são também de grande monta. A empresa
informa que também outras plantas industriais da região estão utilizando processo
semelhante, o que se pode concluir que uma vastíssima área de estado estará
142

comprometida com esse tipo de monocultura. As outras atividades agrícolas, a


diversidade econômica e a diversidade biológica dos municípios envolvidos ficam
comprometidas.16
Quatro etapas constituem o processo produtivo de uma grande siderúrgica:
preparação do minério de ferro e a transformação do carvão mineral coque para sua
introdução no alto-forno, esses primeiros procedimentos são denominados
preparação das cargas. No caso do uso de carvão vegetal, como a VSB, esse não
necessita ser transformado em coque; em seguida se dá a chamada redução
quando o minério e o coque ou carvão passam por uma reação que incorpora
carbono e produzido o ferro gusa, segue-se então, o refino, onde o ferro gusa é
transformado em aço por meio de métodos de aciaria. Por fim, vem a Laminação do
aço onde se obtém o produto que será comercializado.
A siderúrgica é na verdade uma atividade exportadora de energia embutida
no gusa e no aço a preços muito baixos e sua produção é um dos papéis que a
região do quadrilátero ferrífero e outras regiões do estado tem numa divisão
internacional da produção. Trata-se de uma indústria que tem custo muito alto ao
estado se forem computados os seus valores reais.
A eliminação do carvão mineral torna o processo de redução mais barato,
com a eliminação da coqueria. As plantas de beneficiamento, como as da VSB e da
Gerdau trabalham com um grande nível de tecnologia, mas também se beneficiam
dos baixos custos energéticos.
É o parque industrial voltado para a transformação metalúrgica que vai definir
a dinâmica de acumulação do padrão de desenvolvimento capitalista nessa região
de atividade mineral e metalúrgica.
Segundo Santos (1999):

16
Nos últimos anos, grandes produtores de aço e ferro, como a Acesita S/A e Belgo Mineira (ambas
fazem parte do Grupo Arcelor Mittal ), iniciaram o desenvolvimento de atividades de projeto
semelhantes, em resposta ao incentivo do MDL.

O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) é um dos mecanismos de flexibilização criados pelo


Protocolo de Quioto para auxiliar o processo de redução de emissões de gases do efeito estufa
(GEE) ou de captura de carbono (ou sequestro de carbono).
Fonte: Documento Carbono VSBA pagina 35.
143

Como é possível verificar o Brasil está entre os produtores de aço que


apresentam menores custos produtivos, juntamente com Rússia e Índia.
Localidades como a Europa, os Estados Unidos, o Japão e a China
apresentam custos de produção muito mais elevados que os observados
para a siderurgia brasileira. (SANTOS, 1999, p. 85).

É ainda Santos (1999) que fala: "O projeto (da AÇOMINAS) que contou com o
financiamento de um grupo de bancos europeus e americanos, liderados por
britânicos, se arrastou por nove anos até que fosse inaugurado, em 1985."
(SANTOS, 1999, p. 55).
Um pouco mais adiante, o autor conclui:

Portanto, pode-se verificar que os principais empreendimentos siderúrgicos


constituídos em Minas Gerais como também no Brasil, no decorrer do
século XX, foram frutos da atuação do Estado ou do capital estrangeiro, ou
ainda da parceria entre os dois. (SANTOS, 1999, p. 60).

E por fim, o autor informa:

Como é possível verificar o Brasil está entre os produtores de aço que


apresentam menores custos produtivos, juntamente com Rússia e Índia.
Localidades como a Europa, os Estados Unidos, o Japão e a China
apresentam custos de produção muito mais elevados que os observados
para a siderurgia brasileira. (SANTOS, 1999, p. 85).

O site da CSN informa: "A CSN opera com um dos menores custos mundiais
de produção siderúrgica, o que lhe garante grande vantagem competitiva nos
mercados em que atua." (COMPANHIA SIDERÚRGICA NACIONAL, 2012).
Quanto à questão do alto valor agregado de seu processo produtivo o site
institucional da CSN diz:

Dominando toda a cadeia produtiva do aço, a CSN atende a diferentes


segmentos da indústria, com uma diversificada linha de produtos de alto
valor agregado. A empresa produz os mais diversos tipos de aços
revestidos galvanizados, resistentes à corrosão. Os principais mercados
atendidos pela Companhia são: Automotivo; Construção Civil; Grande Rede
(distribuição); Linha branca (eletrodomésticos); OEM (bens de capital) e
17
embalagens metálicas . (Companhia Siderúrgica Nacional, 2012).

17
No segmento de Mineração, a CSN possui minas de minério de ferro de alta qualidade localizadas
no Quadrilátero Ferrífero, em MG. A mina de Casa de Pedra, em Congonhas - MG, produz minério de
ferro de alta qualidade, assim como sua subsidiária Nacional Minérios S.A. (Namisa), que possui
minas próprias também de excelente qualidade e que ainda comercializa minério de ferro de
terceiros. Além disso, a CSN possui a Mineração Bocaina, situada em Arcos - MG, que produz
144

Essa informação reforça nosso argumento de que o processo de instalação e


ampliação de plantas siderúrgicas na região do Alto Paraopeba está ligado à
presença de insumos e à intenção de dominar maior numero de etapas do processo
siderúrgico, aumentando-se assim o valor agregado do processo produtivo. Esse
processo produtivo ampliado não mais se restringe ao lugar da mina ou da planta
industrial, mas abarca um amplo território e as plantas apresentam processos
tecnológicos avançados para o setor. Considerando-se os principais mercados dos
produtos siderúrgicos produzidos na região, o leque de abrangência dessas
atividades regionais é ainda maior.
Em seu estudo para a região, o CEDEPLAR considerou como cenário
confirmado para os seguintes investimentos:

Vallourec Sumitomo do Brasil


0 ton. de tubos
0 ton. Aço
600 mil ton. tubos
300 mil ton. de aço
1500 1500
CSN Casa de Pedra 16 milhões de ton. 40 milhões de ton. 2500 7500
Ferrous 0 ton. 25 milhões de ton. 1200 3600
Ferrous 0 ton. 25 milhões de ton. 600 1800
Namisa 6 milhões de ton. 12 milhões de ton. 600 1800. (CENTRO DE
DESENVOLVIMENTO E PLANEJAMENTO REGIONAL DE MINAS
GERAIS, p. 74).

É importante lembrar que a implantação da VSB já se realizou, os demais


projetos sofreram atrasos devido à conjuntura internacional recessiva, que afetou em
muito a exportação dos produtos minerários e siderúrgicos.
O mesmo estudo aponta para esse cenário com a implantação da siderúrgica
Vallourec Sumitomo, CSN Casa de Pedra, Namisa e Ferrous a variação do PIB da
Região em 2025 em relação à 2009, seria 85%. (CENTRO DE
DESENVOLVIMENTO E PLANEJAMENTO REGIONAL DE MINAS GERAIS, 2012,
p. 83).
Acerca dos empregos pendulares, que a nosso ver caracterizam bem a
relação com a RMBH e principalmente com BH, o CEDEPLAR diz:

dolomito e calcário, e a Estanho de Rondônia S.A. (ERSA), empresa com unidades de mineração e
fundição de estanho. Informação obtida no site oficial da empresa.
145

Foram considerados empregos pendulares uma proporção de 7,00% da


população total. Este valor, para a região, segundo o censo de 2000 era de
3,25%. Imagina-se que essa proporção aumente para 7,00% devido à
expansão da área de influência da RMBH, o crescimento dos fluxos de bens
e serviços para os municípios adjacentes à região, e o limite de capacidade
de retenção de população da região (devido, por exemplo, à infra estrutura
urbana). (CENTRO DE DESENVOLVIMENTO E PLANEJAMENTO
REGIONAL DE MINAS GERAIS, p. 91).

Em relação à rede urbana, o mesmo estudo, aponta:

Contudo, no caso do CODAP, não seria mais adequado olhar os municípios


separadamente. O crescimento populacional e econômico estará
concentrado em uma área de aproximadamente 10 km de raio, ou seja,
muito concentrado. Tal concentração levará inexoravelmente a uma forte
integração regional com a formação de uma ampla área urbanizada com
intenso fluxo de serviços, pessoas e produtos. Não será uma área urbana
contígua, mas estará certamente integrada. (CENTRO DE
DESENVOLVIMENTO E PLANEJAMENTO REGIONAL DE MINAS
GERAIS, p. 116).

Essas projeções do CEDEPLAR podem contribuir com nossa hipótese de que


o processo de implantação e ampliação do setor minero-metalúrgico na região do
CODAP tem um forte componente de metropolização, dentro de padrão de
flexibilização dos processos produtivos.
Uma interessante representação da nova espacialidade aqui abordada pode
ser vista através do mapa de luzes noturnas obtidas a partir dos dados da pesquisa
Nighttime Lights Time Series, do National Geophisical Data Center (NGDC). Este
projeto possui uma série histórica que mensura a cada ano, a quantidade e
intensidade de luz emitida durante a noite nas diversas regiões do globo terrestre.
De uma maneira didática, pode-se explicitar que os resultados são muito parecidos
com o que é visto por um passageiro na janela de um avião durante um voo noturno.
O processamento destas informações permitiu traçar uma série histórica dos
recentes processos, principalmente de adensamento de atividades. No presente
trabalho este parâmetro foi utilizado como forma de acompanhar a evolução da
mancha urbana durante o período de referência. Foram selecionados períodos
quinquenais que abrangem de 1995 a 2010 para a avaliação que se segue.
O mapa de intensidade de luz de 1995 (FIG. 23) mostra, dentre a Área de
Interesse do trabalho proposto, a presença de áreas com maiores emissões de luz
no município de Belo Horizonte, bem como nas sedes dos municípios de: Nova
146

Lima, Itabirito, Brumadinho, Ouro Branco, Conselheiro Lafaiete e Congonhas.


Ressalta-se que, dentre os municípios citados, apresentavam maiores índices de
emissão de luz os municípios Belo Horizonte, Conselheiro Lafaiete e Ouro Branco.
Seriam esses trechos com maior intensidade luminosa aqueles com ocupação
consolidada naquele momento. Observa-se também a existência de grandes áreas
com baixa emissão de luz, indicando áreas ainda não ocupadas de maneira intensa.
No mapa de 2000 (FIG. 24) observa-se ou aumento da intensidade das áreas
já densamente ocupadas em 1995, especialmente o município de Belo Horizonte e
as sedes municipais de Conselheiro Lafaiete, Congonhas, Ouro Branco e Itabirito.
Observa-se também o espalhamento das áreas de média emissão de luz (que
indicam áreas já ocupadas, porém em processos menos intensos) dos municípios de
Itabirito, Ouro Branco e Congonhas. Além disso, destaca-se o aumento da
intensidade da emissão de luz ao longo das rodovias BR-040, BR-356, MG-825 (no
trecho que liga a cidade de Moeda à rodovia BR-040). Embora localizadas longe das
sedes municipais, estas áreas se caracterizam pela existência de condomínios e
casas de campo, o que poderia explicar o processo de expansão da ocupação nas
áreas.
Em 2005 (FIG. 25) é possível verificar a intensificação do processo observado
durante o período de 1995 a 2000. O aumento das áreas ocupadas longe das sedes
municipais, bem como o processo de ocupação ao longo dos principais eixos
rodoviários da região se tornam ainda mais evidentes neste momento. Ressalta-se
que neste momento já não se observam grandes áreas com emissão de luz muito
baixa na Área de Interesse, o que atesta o intenso processo de ocupação na área
durante o período em análise.
Durante o período de 2005 a 2010 (FIG. 25 e FIG. 26) verifica-se o expressivo
aumento da intensidade de emissão de luz na região, destacando-se o aumento da
área de alta emissão de luz em Belo Horizonte e seu avanço em direção aos
municípios de seu entorno imediato. Além disso, há o surgimento de novas áreas
com alta intensidade de emissão de luz no município de Nova Lima. Neste momento
as áreas densamente ocupadas não se restringem mais à sede urbana, se
espalhando ao longo das rodovias BR-040, BR-356 e MG 030. A localização destas
áreas corrobora, de certa forma, a tese apresentada nos parágrafos anteriores,
tendo em vista se tratar de áreas historicamente ocupadas por condomínios e casas
147

de campo. Ao longo da rodovia BR-040 (principal eixo de ligação da porção sul da


Área de Interesse) não há mais áreas com baixa emissão de luz, indicando que toda
a área já foi de alguma forma ocupada. Além dos municípios já densamente
ocupados em outros momentos, chama a atenção no mapa de 2010 (FIG. 26) o
aumento significativo da intensidade da emissão de luz (e, consequentemente da
ocupação), dos municípios de Entre Rios de Minas, Jeceaba e São Brás do Suaçuí.
.
148

Figura 21 - Mapa de intensidade de emissão de luz - 1995

Fonte: Elaboração própria com dados extraídos da Malha de Limites Municipais - IBGE, NLTS/Nasa
149

Figura 22 - Mapa de intensidade de emissão de luz - 2000

Fonte: Elaboração própria com dados extraídos da Malha de Limites Municipais - IBGE, NLTS/Nasa
150

Figura 23 - Mapa de intensidade de emissão de luz - 2005

Fonte: Elaboração própria com dados extraídos da Malha de Limites Municipais - IBGE, NLTS/Nasa
151

Figura 24 - Mapa de intensidade de emissão de luz - 2010

Fonte: Elaboração própria com dados extraídos da Malha de Limites Municipais - IBGE, NLTS/Nasa
152

Carlos Américo (1996, p. 14) fala que recentemente, a atenção da


investigação da temática deslocou-se da questão da desconcentração para as
prováveis tendências de reaglomeração espacial da indústria, como decorrência da
terceira revolução industrial, em especial de suas implicações em termos da
reestruturação produtiva, novos métodos organizacionais e da acumulação flexível.
E não seria essa a nossa questão? Estaríamos diante da desconcentração
produtiva ou seria uma reaglomeração produtiva? Não estariam essas atividades se
concentrando em outra parte do território regional de uma região metropolitana
ampliada, que pode se deslocar para mais perto das áreas de produção de suas
matérias primas e de importantes infraestruturas, já que não necessita mais da
concentração de mão de obra? Que pode liberar para o mercado imobiliário e para
atividades mais nobres o seu antigo território, num processo de elitização dos
centros das regiões metropolitanas?
Na origem desse novo arranjo estaria justamente o quadrilátero ferrífero, do
qual a transferência da capital para Belo Horizonte buscava se afastar. Não é por
certo um processo circular, trata-se de uma elipse, possível de se realizar quando as
noções de distancia e tempo se modificam e quando a presença dos processos
produtivos na configuração dos espaços fica mais explicita.
Não há mais diferenças no processo de produção ocorridos na região
metropolitana tradicional e naquela que pode incluir o Alto Paraopeba, ou
Divinópolis, ou Sete Lagoas. As lógicas internas perderam o sentido, há uma lógica
maior presidindo, no caso é a produção siderúrgica de Minas Gerais. As vantagens
de aglomeração nesse setor se situam basicamente em Minas Gerais e Norte do
país em termos de produção de insumos, mas as redes de infraestrutura privilegiam
a região mineira em se tratando de processos de transformação industrial. A
elitização dos espaços centrais faz parte dessa lógica, não é apenas uma
contrapartida, faz parte da aludida nova lógica da organização do espaço, agora
com o mercado imobiliário como forte componente do capital financeiro.
Outro fator que privilegia a região mineira em termos de produção do setor
siderúrgico é que ele é extremamente dependente do carvão vegetal, fácil de obter
em Minas Geral e bem difícil no norte do país. Referimo-nos, evidentemente, ao
carvão de reflorestamento e não ao carvão obtido da eliminação de vegetação
nativa.
153

A inclusão dessas regiões num processo metropolitano as igualaria às atuais


regiões formalmente pertencentes à RMBH? Supomos que não, já que não são
apenas os fatores de ordem econômica presentes na configuração do espaço,
existem os fatores socioculturais, bastante relevantes na diferenciação interna
desses espaços. Isso já acontece na atual configuração formal da RMBH,
determinando inclusive escalas de inserção na região metropolitana, mas
acreditamos que essa forma ampliada da região guarde mais diferenças entre os
lugares que a atual, incluindo espaços e tempos com dinâmicas diferentes daqueles
que inicialmente formaram a RMBH.
Centralidades estaduais, como Conselheiro Lafaiete, ou Sete Lagoas não se
dissolvem numa identidade única de metropolitanos, como outrora aconteceu com
Contagem e Betim. Essa nova configuração da região metropolitana seria
policentrada e mais diversificada, o que é uma vantagem sobre a sua configuração
oficial atual. A presença de atividades de serviços distribuídas pelo novo espaço
metropolitano também o qualificaria de maneira positiva e diferenciada que a
situação anterior, com a geração de novos fluxos menos dependentes da sede da
RMBH. A descentralização de serviços não mais somente dos ligados diretamente
ao cotidiano das populações, mas também de serviços especializados, como as de
ensino, por exemplo, é um processo importante que acontece concomitantemente
com a produção ligada aos setores metal/mecânico e metalúrgico e não foi abordada
no presente trabalho, já que fugia de seus contornos.
154

5 CONCLUSÃO

Em nossas conclusões ressaltamos primeiramente que o urbano como um


direito é cada vez mais viável com as novas tecnologias, das redes e das novas
formas da produção, que permitem ampliar as conquistas da cidadania para além de
territórios contínuos, ou para fora dos clusters, embora no momento atual essa
viabilidade ainda não se efetive em sua amplitude possível.
Porem há um longo caminho a ser percorrido até que o direito à cidade seja
de fato uma realidade para todos os cidadãos metropolitanos. Embora seja até
temerário pensar em tempo diante das novas velocidades, esse caminho implica no
amadurecimento da sociedade em termos de exercício de seus deveres, para além
da reivindicação de seus direitos, o que é um pressuposto para a existência da
democracia em qualquer momento, mas principalmente quando o urbano se espaira,
no que isso tem de bom e de ruim. Enquanto o espaço da produção se espaira e
apresenta a sua poliformia, o sistema de gestão não segue de qualquer forma essa
situação, não apresentando conteúdos que possam abrigar as diversidades
metropolitanas. Há uma inércia, que ademais é própria de todo processo de
mudança de formas de gestão, mas que na situação atual reflete os interesses dos
grupos hegemônicos, já que a condição metropolitana gerida de forma realmente
democrática tenderia a diminuir privilégios que a relação de proximidade desses
grupos e os governos trás, principalmente no que diz respeito ao mercado
imobiliário, como ficou bem evidenciado em nosso trabalho no tocante às dinâmicas
imobiliárias nos vetores sul e norte da atual RMBH.
Essa dicotomia entre a espacialidade produzida e as formas atuais de gestão,
se perdurar, pode, na verdade, ampliar diferenças sociais, localização de
investimentos públicos, criação de maior quantidade de clusters e ainda, piorar as
condições da qualidade de vida dos trabalhadores, pois esses arcariam com o maior
ônus da nova espacialização.
A diversidade da institucionalização das Regiões Metropolitanas no Brasil
pode ser adequada em alguns aspectos, já que cada uma delas apresenta suas
próprias peculiaridades, mas também reflete que não há uma concepção política,
territorial e socioeconômica sobre essa pluralidade de regiões, se o respeito às
peculiaridades se dá em algumas regiões metropolitanas, na maior parte delas isso
155

não é observado. O que se pode verificar é que mesmo em estados que tratam
diferentemente as suas regiões metropolitanas, a gestão delas está muito defasada
de suas realidade em termos de processos de produção e espacialização.
É importante frisar que as Regiões Metropolitanas brasileiras existentes ainda
não encontraram uma forma adequada de gestão, o que em parte é devido fato do
fenômeno ultrapassar e envolver espaços municipais, instâncias privilegiadas de
gestão no atual formato institucional, sonde o fenômeno metropolitano é mais
próximo do que hoje identificamos como fenômenos regionais, sem, contudo, sê-los
de fato e inserindo-se num interstício entre essas duas esferas, que envolve desde o
cotidiano de populações até fenômenos de ordem econômica nacional e regional e
seus rebatimentos na da organização do espaço. Não há atualmente uma forma de
gestão que realmente refira-se a essa condição descrita.
Os grandes investimentos na região metropolitana ou que possam trazer
alterações às suas formas não tem fórum onde possam ser avaliados sob esse
prisma. A legislação ambiental, de forma tímida, obriga ao licenciamento ambiental
os empreendimentos que estejam localizados em dois municípios ou a uma certa
distancia física da divisa de outro município. Os possíveis impactos de um processo
que altere as condições metropolitanas não podem ser identificados por esse tipo de
parâmetro inadequado, aliás, para qualquer investimento metropolitano ou não.
Agrava-se aqui a omissão em relação à condição metropolitana que os
empreendimentos são avaliados isoladamente. Desdobrar um processo de
licenciamento em vários tem sido uma estratégia que grandes empreendedores
usam para fugir de uma avaliação geral, ainda que seja essa avaliação tímida a que
nos referimos.
As estratégias de competição entre cidades e regiões no sentido de sua
inserção no ranking mundial têm acarretado enormes prejuízos ao patrimônio
ambiental dessas regiões, como é o caso demonstrado em nosso trabalho quanto à
expansão do vetor sul e do Alto Paraopeba.
Discutimos ao longo desse trabalho como a configuração dos espaços
metropolitanos se funda na decisão dos grandes agentes econômicos e na ação do
estado, que com seu poder de alocar infraestruturas, ou influenciar na alocação
delas pode efetivamente direcionar tanto a produção, quanto a forma urbana daí
advinda. Mesmo os processos internos às cidades, como o mercado de terras que
156

implicam em determinar a localização de centralidades e periferias, com a


participação, não raras vezes, do próprio poder público, não sofre nenhuma
avaliação efetiva por parte de sociedade. Como dissemos anteriormente, a simbólica
participação da sociedade no processo de licenciamento ambiental, não é suficiente
para a avaliação das alterações urbanas advindas dos processos de intervenções
públicas, ou público privado ou outros empreendimentos em áreas urbanas.
Em relação a instâncias de avaliação de impactos e alteração da forma
urbana, desconhecemos instâncias que venham se pronunciando quando ao tema,
embora a princípio tal matéria seria da competência do conselho metropolitano.
Instâncias específicas de avaliação de impactos urbanos, mesmo que no
âmbito do conselho metropolitano, devem ser implementadas de forma ágil, ou será
essa uma grande omissão pública em relação à gestão democrática das regiões
metropolitanas.
Voltando ao atual processo de reorganização da gestão da atual RMBH,
citamos as observações de Klin (2010):

O arranjo institucional de Belo Horizonte é relativamente novo e seria ainda


prematuro para avaliações mais afirmativas.
Conforme observamos, o protagonismo metropolitano ganha um impulso
adicional em função da aproximação dos atuais governador e prefeito da
capital. Essa convergência política, no entanto, gera a dúvida de vir a se
transformar numa dependência, ou, na pior das hipóteses, numa debilidade
do próprio sistema. Há antecedentes de que esse papel positivo das
lideranças pode se transformar num passivo e numa fragilidade do arranjo
como um todo. (KLIN, 2010, p. 14-15).

De uma forma elegante, podemos dizer que o momento que ensejou de forma
positiva a elaboração do PMDI, é uma configuração momentânea de forças políticas
no estado, mas ainda não é uma condição consolidada dos municípios
metropolitanos sobre o planejamento metropolitano ou sobre sua implementação.
A questão metropolitana está longe da pauta dos municípios que a compõem
e mais longe ainda dos cidadãos que nele residem, talvez porque o conhecimento
de seus processos e de suas cadeias de efeitos sejam de difícil percepção e
impliquem uma vasta e imbricada rede de atores. De um modo geral, a percepção
da futuridade metropolitana é catastrófica e associada a violência e deterioração das
qualidades de vida, embora essa seja uma visão muito difundida e de alguma força
reforçada pelas mídias, o nosso trabalho indica que a percepção adequada dos
157

processos metropolitanos e uma gestão democrática abrem possibilidades


absolutamente novas para a qualidade dos espaços urbanos e principalmente dos
espaços metropolitanos.
A inestimável contribuição de Milton Santos à compreensão dos espaços
atuais nos permite concluir que convivem simultaneamente incontáveis tempos
dentro do espaço metropolitano, inúmeras acelerações e desacelerações, diante
disso nos perguntamos: como é possível se estabelecer um pacto democrático entre
pares tão desiguais? Como se poderiam construir uma esfera pública metropolitana,
que comportasse as diferenças, os conflitos, os enfrentamentos desses pares
assimétricos? Esse é a nosso ver um dos maiores desafios à gestão democrática
das regiões metropolitanas e acreditamos que o tema mereça ser desenvolvido, se,
de fato, pretendemos alcançar a cidadania metropolitana.
Em termos estritos, temos que o cidadão metropolitano, não possui
representatividade real. Ele não tem na verdade oportunidades reais de participar
efetivamente do processo de tomada de decisão metropolitana. Acreditamos que o
cidadão metropolitano não deva ser uma figura de retórica, mas uma condição real à
qual sejam reconhecidos os direitos daí advindos, já que das repercussões da
metropolização não poupa nenhum de seus habitantes.
Outra importante conclusão é que fragmentação e dispersão não são a exata
definição dos processos metropolitanos atuais. O processo metropolitano não está
fragmentado, a não ser o que o fragmento refira-se exclusivamente ao território e
aos aglomerados urbanos dentro das atuais regiões metropolitanas. O processo
metropolitano segue a mesma lógica em termos do processo de produção, mas
ocupa território mais extenso. Tampouco está disperso, está, isto sim, organizado de
forma nem sempre continua, o que, aliás, já acontecia, não obstante, em algumas
situações a aglomeração inicial foi reforçada, concomitante tenham sido incluídos
novos territórios não necessariamente contínuos, mas não há nenhuma
aleatoriedade nesse processo.
Demonstramos em nosso trabalho que a região metropolitana da produção
flexível é multiterritorial, com várias territorialidades se superpondo simultaneamente
em todos os sentidos, o que implicaria na necessidade de revisão do conceito de
região metropolitana e de seus processos de gestão.
158

Outra conclusão refere-se ao fato de, se houve mudanças na lógica da


produção, também a forma de morar das populações de renda mais alta mudou.
Talvez a entrada enfática do mercado imobiliário na produção do espaço urbano
seja uma das mudanças mais significativas na nossa região metropolitana. Essa
constatação é importante para se construir um sistema adequado de gestão do uso
do solo metropolitano. A gestão do uso do solo na RMBH é feita somente pelos
municípios individualmente, instâncias adequadas para a gestão no nível local, mas
insuficientes para a gestão do uso do solo metropolitano, visto como um processo
que não tem fronteiras exatamente definidas.
Haesbaert (2004) diz que temos nessa situação territorializações efetivamente
múltiplas – uma “multiterritorialidade” em seu sentido estrito, constituídas pelas
ações de grupos ou indivíduos que formam seus territórios na conexão flexível de
territórios multifuncionais e multi-identitários. (HAESBAERT, 2004, p.8).
O mesmo autor, diz ainda que há a combinação de "tempos espaciais"
incorporada à multiterritorialidade, devendo-se abordar também as implicações das
múltiplas territorialidades acumuladas desigualmente ao longo do tempo, nos termos
postos por Santos (1978, apud HAESBAERT, 2004, p.8).
É ainda Haesbaert (2004) que prossegue nessa abordagem dizendo que mais
do que de superposição espacial trata-se hoje, com o novo aparato tecnológico-
informacional, de uma multiterritorialidade não apenas por deslocamento físico como
também por “conectividade virtual”, com a capacidade de interagirmos à distância,
influenciando e, de alguma forma, integrando outros territórios. (HAESBAERT, 2004,
p.13).
Desta forma, essa multiterritorialidade não tem limites que se possam traçar
de maneira definida, têm-se na verdade limites provisórios e sujeitos a constantes
alterações, e nesse trabalho enfatizamos o processo como um elemento
identificador da condição metropolitana. Temos um espaço-processo metropolitano.
A multiterritorialidade, como um dos componentes identificador da condição
metropolitana é uma das contribuições desse trabalho para o reconhecimento dos
novos espaços metropolitanos.
Não podemos então falar de um território metropolitano, no sentido político-
jurídico, segundo o qual “o território é visto como um espaço delimitado e controlado
sobre o qual se exerce um determinado poder, especialmente o de caráter estatal."
159

Dessa forma, reforçamos nossas conclusões de que a configuração político-


social da RMBH não corresponde à natureza dos processos que a formam no seu
atual momento, ao qual chamaremos de segunda etapa da metropolização, onde a
produção flexível, as novas tecnologias e o rearranjo espacial da produção geram
um espaço e territórios que são diversos daqueles hoje denominados Região
Metropolitana de Belo Horizonte.
Esse descompasso, como nos referimos anteriormente, impossibilita a gestão
efetiva das regiões metropolitanas, no caso a RMBH. Enfatizamos que conhecer a
natureza do processo metropolitano e sua organização espacial é fundamental para
encontrar-se a forma de gestão democrática que efetivamente envolva a ampla
gama de atores sociais que participam do processo, em suas diversas escalas.
No caso da RMBH, sua nova multiterritorialidade ligada a seu processo
metropolitano engloba a Região do Alto Paraopeba, como visto nesse trabalho, e
ainda, possivelmente a região de Sete Lagoas e Divinópolis, entre outros, por terem
suas relações de produção vinculadas aos processos da RMBH, de forma similar ao
que foi visto em relação ao Alto Paraopeba. Com a demonstração da forte
vinculação do Alto Paraopeba com os processos metropolitanos da RMBH, a ponto
de não haver ruptura entre eles, podemos supor que outras regiões não analisadas
nesse trabalho tenham uma situação análoga.
O conhecimento dos reais contornos da RMBH é um tema que merece ser
trabalhado já que os limites atuais incluem municípios que podem não ser realmente
metropolitanos, enquanto exclui outros que de fato são metropolitanos. Esse é um
tema da maior relevância para a gestão metropolitana.
Conhecer não só a natureza do processo metropolitano, mas também a sua
organização espacial é fundamental para se buscar a forma de gestão democrática
que efetivamente envolva a ampla gama de atores sociais que participam do
processo, em suas diversas escalas.
A expansão da RMBH encontrando-se como Alto Paraopeba, embora fruto de
verticalidades poderosas, modificou radicalmente o espaço cotidiano, banal de toda
a população da região, surpreendida com o novo porte, com o novo vulto,
populações que num sonho de progresso querem abrir mão de seu centro histórico,
como é caso de Entre Rios de Minas e de alguma forma de São Brás do Suaçuí.
Essa gente que abre mão de sua casa para aluga-la como alojamento de
160

trabalhadores das obras, essa gente que imagina que enfim vai mergulhar no que há
de mais novo atualmente, a globalidade, essa gente vai ficar com o mais amargo da
globalização, os impactos dessas grandes plantas industriais no seu território e na
sua identidade, sem as desejadas benesses da inclusão na globalização, como um
sonho de estar mais perto do centro.
Milton Santos acredita que nos pequenos lugares se dê a resistência contra
as velocidades das transformações oriundas das verticalidades, mas se o lugar
pequeno, de repente, muito de repente, deixa de ser pequeno, se é surpreendido por
um porte nunca antes imaginado ali? Se tudo acontece antes que o sonho da
imersão no global se quer comece a desvanecer?
A gestão da questão metropolitana nos grandes municípios talvez pudesse
levar a um pacto possível entre eles, mas em relação aos municípios pequenos
onde a ideia de poluição ou asfalto, ou qualquer outra desse tipo é bem vinda, pois
representa progresso, ainda no ideário positivista, a questão é diferente. Embora
possam eles estar sendo tencionados pelo fenômeno metropolitano, essa percepção
não lhes é fácil, nem imediata. Ser metropolitano é um sonho que pode custar caro
tanto do ponto de vista social como dos recursos naturais.
A médio prazo, no caso da região do Alto Paraopeba, o espaço hoje com um
nível grande de diversidade econômica, tenderia a ser unifuncional, voltado a
produção siderúrgica, o que seria um empobrecimento da região, mesmo que
alguma cidade, no caso Conselheiro Lafaiete, venha a receber grandes incrementos
por ser suporte local à toda atividade voltada à mineração e siderurgia na região.
Os recursos culturais tem se mostrado frágeis diante da vigorosa atividade
econômica da região, exemplo disso é a recente discussão em relação aos
perímetros da mineração e a proteção do entorno paisagístico do conjunto da Matriz
do Senhor de Matozinhos, com o importante acervo de seu adro e das esculturas
dos profetas. As discussões mostraram a fragilidade das salvaguardas aos bens
culturais diante da atividade minerária.
A RMBH com suas novas configurações compromete de maneira enfática os
recursos naturais e no caso que estamos analisando, os recursos naturais da APA-
SUL, acelerando a exploração minerária do quadrilátero ferrífero. As novas plantas
siderúrgicas e a ampliação das existentes no Alto Paraopeba, além do
comprometimento dos recursos naturais, paisagísticos e culturais do entorno,
161

impactam terras agricultáveis usadas para a produção de carvão em extensas áreas


do estado, criando uma paisagem de desertificação. Em outra parte do texto,
alertamos que a produção do gusa na verdade tem embutida um alto custo
energético, que não é contabilizado em toda sua extensão.
Os processos de transformação industrial, como os da planta da VSB,
agregam mais valor aos produtos siderúrgicos, porém o balanço energético ainda é
negativo.
Não há em Minas Gerais e nem no país uma matriz energética que calcule os
custos reais da energia utilizada. A comercialização dos créditos de carbono ainda é
uma forma insipiente de mitigar os desequilíbrios dessa natureza.
Não vamos fazer uma lista só de prejuízos, é claro que há grandes ganhos,
mas no processo urbano ganhos e prejuízos podem estar em lugares diferentes,
podem se referir a sujeitos diferentes. O processo de gestão buscaria mediar essa
questão no sentido da justiça social.
Outra questão relevante é quanto ao papel desempenhado pelo estado, onde
dada a tradição da organização política do Estado brasileiro, temos de um lado
municípios e de outro o poder central da Federação. O Estado funciona como uma
correia transmissora dos desígnios das forças hegemônicas do país e o espaço do
cotidiano ampliado que constituem as regiões metropolitanas. No caso, por exemplo,
da implantação da nova planta da VSB, a intervenção estatal deu suporte apenas ao
empreendedor, não havendo nenhuma ação pública que abordasse os impactos de
outra natureza. A implantação do empreendimento foi abordada apenas como um
processo isolado de licenciamento ambiental.
Há ainda outro ponto importante que se refere ao cipoal da regulamentação e
de suas lacunas, advindas de diversos ramos da legislação que envolvem, sem
nenhuma articulação entre os diferentes aspectos do processo urbano, questão
sobre a qual já discorremos anteriormente.
Santos (2005) em o Retorno do Território, alerta sobre o conflito entre, de um
lado, o ato de produzir e de viver, função do processo direto da produção e as
formas de regulação ligadas às outras instâncias da produção. Este seria um objeto
que mereceria especial atenção na dinâmica urbana atual. (SANTOS, 2005, p. 9).
Aqui se poderiam adicionar algumas considerações ensejadas por Lewis
Mumford, tido por muitos autores como um antecessor dos movimentos ecológicos
162

em sua abordagem da cidade, principalmente em sua obra A Cultura da Cidade,


1930, onde o autor faz "uma síntese da interpretação feita por Patrick Geddes do
ciclo urbano da aldeia (eópoles) às megalópoles e às necrópoles”.
(MUMFORD,1930, apud SANTOS, 2005, p. 663), como processos contínuos e
encadeados na condição dos espaços urbanos. Os aspectos ligados à evolução da
morfologia do espaço urbano estão ausentes nos processos institucionais que
envolvem a nova espacialização metropolitana, mesmo que que não se não se use a
categorias sugeridas por Mumford.
A autora Jane Jacobs (2000) na introdução de sua obra Morte e Vida de
Grandes Cidades comenta que: "Um livro como A Cultura das Cidades era em
grande parte um catálogo mórbido e tendencioso de mazelas." (JACOBS, 2000),
talvez Mumford contribuísse para tal elenco de mazelas.. A autora não deixa de ter
razão, mas ainda assim, gostaríamos de refletir nos termos desse ciclo destacado
por Mumford, dada a importância dele para a deflagração das discussões sobre a
qualidade de vida nas cidades. Não seria o caso de termos muitas opiniões
convergentes com esse autor, trata-se aqui de apenas fazer um panorama ligeiro
sobre alguns pontos da obra de Mumford que nosso trabalho possibilita, os quais
tangenciam a situação abordada nesse trabalho.
Apesar do mesmo nome e do vaticínio correto da exaustão de recursos e do
congestionamento, a nossa metrópole atual é de natureza e de forma diferente
daquela posta por Mumford e de sua posterior Tiranópolis, que ao fim levaria à
nefasta Necrópolis, processos encadeados entre si no pensado do autor. Na
verdade, o que temos é a transformação da cidade por cima de si mesma,
espraiando seus espaços o que leva à exaustão de recursos e congestionamento,
ampliando os círculos de sua dependência. A dicotomia centro/periferia, pelo menos
em termos espaciais, se não se eliminou, pelo menos se dá de outra forma, com o
centro invadindo as periferias e vice-versa. A própria metrópole tem em si a sua
periferia. O conceito engloba, a nosso ver, a centralidade, seja ela de qual ordem for
e a periferia, também ela de qualquer ordem.
A megalópole representa, ao mesmo tempo, concentração e dispersão,
segundo Mumford: aqui convergimos.
Voltamos à questão do processo de metropolização, lembramos que Santos
(2005) aponta contradições importantes:
163

O território, hoje, pode ser formado de lugares contíguos e de lugares em


rede: São, todavia, os mesmos lugares que formam redes e que formam o
espaço banal. São os mesmos lugares, os mesmos pontos, mas contendo
simultaneamente funcionalidades diferentes, quiçá divergentes ou opostas.
(SANTOS, 2055, p. 2, grifos nossos).

A consciência da cidadania e o exercício da democracia metropolitana


poderiam ter nessas contradições um campo fértil de mudança. É uma possibilidade
interessante, mas ainda muito distante de se alcançar e acreditamos que se deva
persistir nela.
O nosso trabalho indica que, a curto e médio prazo, a condição metropolitana
ainda vá ser de difícil identificação e gestão, já os conceitos, definições e práticas
ainda são vagos, embora o tema venha emergindo, uma reformulação profunda nos
parece distante, embora não queiramos trazer para esse trabalho o que Jacobs
(2000) chama de um "catálogo mórbido e cheio de mazelas". O nosso trabalho
pretende acrescentar uma pequena contribuição no sentido da percepção da
condição metropolitana. No caso da RMBH, o trabalho deixa claro que os atuais
limites institucionais da região metropolitana não coincidem, ou não incluem as
áreas que efetivamente participam diretamente do processo metropolitano dessa
região.
Acreditamos na cidade como uma condição avançada da organização
humana e acreditamos também que a criatividade é um atributo humano que tem lhe
garantido a sobrevivência. Este talvez seja um dos motivos que nos tenha levado a
escolher o tema do presente trabalho.
Voltando a Lefebvre (2004) podemos dizer que: “O urbano é o possível,
definido por uma direção no final do percurso que vai em direção a ele. Para atingi-
lo, isto é, para realizá-lo, é preciso em princípio contornar ou romper os obstáculos
que atualmente o tornam impossível”. (LEFEBVRE, 2004, p. 28).
É importante lembrar que o urbano se diferencia da cidade, pois, ele surge no
processo de “destruição da cidade”. Talvez seja apenas um pequeno detalhe, mas a
nosso ver vislumbra infinitas possibilidades.
164

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173

ANEXO A – ALGUMAS INDICAÇÕES PARA IDA AO CAMPO: EM BUSCA DE


ATITUDES E COMPORTAMENTOS PARA O CONHECIMENTO DO URBANO
174
175
176

ANEXO B – MAPA 1 - 1º NÍVEL DE APROXIMAÇÃO


177

ANEXO C – MAPA 2 - 2º NÍVEL DE APROXIMAÇÃO


178

ANEXO D – MAPA 3 - 3º NÍVEL DE APROXIMAÇÃO

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