Você está na página 1de 248

General George S. Patton, Jr.

A GUERRA QUE EU VI

TRADUÇÃO DO CEL ÁLVARO GALVÃO

BIBLIOTECA DO EXÉRCITO - EDITORA

Rio de Janeiro - RJ
1979
BIBLIOTECA DO EXÉRCITO Publicação 489
COLEÇÃO GENERAL BENÍCIO Volume 168

Título original norte-americano WAR AS I KNEW IT


Copyright ©, 1947, by Beatrice Patton Waters, Ruth Patton
Totten and George Smith Patton

Capa — Murillo Machado


Revisão — Sebastião J. A. Castro
Renaldo di Stasio

PATTON JR, Georges


T316 A guerra que eu vi. Trad. do Cel. Álvaro Galvão.
Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército, 1979.
p. mapas 21 cm (Coleção General Benício, v. 168, publ. 489)
1. Estados Unidos. Army, 3rd — História — Guerra mundial,
1939-45. 2. Guerra mundial, 1939-45 — Campanhas e
batalhas, 1942-45. I. Titulo. II. Série.

CDD 940.544 973

Direitos para esta edição cedidos por HOUGHTON MIFFLIN


CO., 2 Park Street, Boston, Massachusetts 02107, EUA.

Impresso no Brasil
FUNDADOR,
em 17 de dezembro de 1881,
Franklin Américo de Menezes Dória, Barão de Loreto

REORGANIZADOR,
em 26 de junho de 1937, e fundador da Seção Editorial
Gen Valentim Benício da Silva

DIRETOR
Cel Art Fernando Oscar Weibert

SUBDIRETOR
Cel Art Neomil Portella Ferreira Alves

CONSELHO EDITORIAL
Militares:
Gen Div R-l Francisco de Paula e Azevedo Pondé nomeado
em 10 de outubro de 1973
Gen Div R-l Jonas de Morais Correia Filho nomeado em 10 de
outubro de 1973
Gen Div R-l Adailton Sampaio Pirassinunga nomeado em 8 de
maio de 1958
Ten Cel Inf Pedro Schirmer nomeado em 11 de outubro de
1977
Ten Cel R-l Carlos de Souza Scheliga (relator deste livro)
nomeado em 25 de abril de 1975
Civis:
Prof Pedro Calmon Moniz de Bittencourt nomeado em 28 de
maio de 1975
Prof Francisco de Souza Brasil nomeado em 10 de outubro de
1973
Prof Ruy Vieira da Cunha nomeado em 10 de outubro de 1973

Biblioteca do Exército — Palácio Duque de Caxias — Praça


Duque de Caxias — Ala Marcilio Dias — 3? andar — Centro
— RJ — CEP 20.221 — Endereço Telegráfico “BIBLIEX”
APRESENTAÇÃO

A figura do Autor exerceu e ainda exerce um grande fascínio,


não apenas no meio militar, mas também no grande público
civil interessado em assuntos militares.
Não é somente por este motivo, entretanto, que esta Editora
militar lança, pioneiramente no Brasil, o livro cujo título é
sobejamente forte e chamativo — A Guerra Que Eu Vi — mas
também porque, como é salutar para a história, está ele
escoimado daquilo que poderia transformá-lo numa obra
altamente polêmica, em razão dos comentários a respeito de
outros chefes.
Acrescente-se, ainda, que esta obra apresenta, em uma
situação global, um fenômeno total, envolvente e rico, não só
de fatos militares em si, mas também de vivências e de
acontecimentos nos demais planos da vida, independentemente
de conter, em sua parte final, um testemunho dos mais valiosos
sobre tudo aquilo que Patton, com seu espírito arguto,
marcante e perspicaz, captou e pôde concluir, tirando ilações a
respeito do fundamental em termos de doutrina militar,
ensinamentos de combate e de prática de comando.
É, portanto, um livro que alia o carisma do nome de seu autor
ao valor da mensagem que ele quis transmitir.
Sua inclusão na Coleção General Benício oferece aos
Assinantes uma oportunidade ímpar para o convívio com o
pensamento e a ação de um dos grandes chefes da Cavalaria
contemporânea — o General Patton.

BIBLIOTECA DO EXÉRCITO-EDITORA
AGRADECIMENTO

Não é fácil o trabalho de organizar a edição de um livro,


principalmente quando a organizadora é também esposa. Com
profunda gratidão agradeço a ajuda de vários amigos no
preparo deste livro para publicação. Agradeço especialmente
ao Coronel Paul D. Harkins, subchefe do estado-maior do meu
marido durante toda a guerra, tanto pelo seu conhecimento
pessoal dos fatos relatados, como pelo valor das explicações e
notas incluídas nesta obra. A Douglas Southall Freeman, que o
meu marido considerava um dos maiores biógrafos militares
do nosso tempo, agradeço a introdução que escreveu para “A
Guerra que eu vi”.

Beatrice Ayer Patton


INTRODUÇÃO

O General George S. Patton escreveu um diário que vai de


junho de 1942 até o dia 5 de dezembro de 1945, quatro dias
antes do acidente fatal que provocou a sua morte. Por vezes as
anotações foram registradas quando ele ainda se achava sobre
a emoção e a poeira da batalha; todas elas são francas, muitas
encerram críticas, das quais algumas até contundentes, mas
nenhuma delas é indiscriminada, no sentido de arrasar com
quem discordasse de Patton. O diário retrata o espírito de um
comandante que acreditava na ofensiva permanente e ousada
como meio de acabar com a guerra antes que começasse a
nevar nas Ardenas, no inverno de 1944-45. Tratava-se de
vencer cada obstáculo que se opusesse a esta ofensiva; cada
chefe contrário a ela tinha que ser desafiado a mostrar por que
a ação não alcançaria sucesso; aos olhos de Patton o silêncio
ou a discordância significava excesso de cautela ou
vulnerabilidade à pressão exercida por um dos aliados.
Este tom, predominante no diário do General Patton, é tão
inconfundível e tão nitidamente patriótico que os historiadores
não poderão interpretá-lo de outra forma. Entretanto, como o
General Patton usava as palavras da mesma forma que
empregava o fogo em combate — para obter resultados
decisivos rapidamente — seu diário contém muitas coisas que
iriam ferir os sentimentos de indivíduos cuja dedicação e
competência ele seria o primeiro a reconhecer. O diário inclui
mais de uma referência a chefes criticados áspera e
pessoalmente por Patton, quando ele julgava a crítica
procedente. Todavia, Patton defendeu estes mesmos chefes
todas as vezes que considerou estarem sendo tratados
injustamente ou acusados de erros cometidos por outras
pessoas. Tudo isto ficará esclarecido com o correr do tempo.
No momento, basta dizer que os escritores militares, a quem a
senhora Patton consultou sobre a vantagem da publicação do
diário, concordaram com ela sobre a inconveniência de
publicá-lo.
Esta decisão teria prejudicado o estudo da campanha na
Europa Ocidental em 1944-45, se o General Patton não
houvesse escrito “A Guerra que eu vi”. O livro foi redigido
após a conclusão das hostilidades e o general utilizou-se de
seu diário para decorar a obra com pormenores. Algumas
páginas, inclusive, constituem cópia fiel do diário, com
referências pessoais atenuadas ou eliminadas. Uma vez que o
próprio general recheou o livro com trechos do diário, foi
preciso considerar se seria o caso de incorporar novos trechos
a esta obra. Tal necessidade dizia respeito particularmente ao
relato sobre a Batalha do Bolsão, abordada com maior riqueza
no diário do que no livro que o general escreveu. A
experiência demonstrou que a inclusão de anotações do diário,
devidamente expurgadas, poderia confundir o leitor; por outro
lado, a inclusão pura e simples das anotações faria aquilo que
o General Patton não desejou fazer quando, com o diário sobre
a mesa, escreveu “A Guerra que eu vi”.
Portanto, o texto deste livro é o mesmo produzido pela caneta
rápida do general, com exceção da eliminação da crítica a um
oficial, a quem Patton pediu desculpas ao constatar que
cometera um erro.
Este fato não tem grande importância no que concerne às
operações do III Exército e em nada alterou os resultados da
campanha. Quanto ao mais, pode-se garantir, através do que se
constata com a comparação cuidadosa dos dois documentos,
que nada de importância a respeito do planejamento e
execução da campanha deixou de ser mencionado pelo general
neste livro. 0 leitor só perde o sabor apimentado do diário; o
estudioso pode ficar certo de que não será refutado por
declarações que fizer com base neste livro.
Além disto, os futuros soldados podem aprender muito a
respeito do moral do III Exército, quando estudarem as
anotações transcritas do diário. Algumas delas ilustram um
assunto muito importante: o comando de grandes unidades. Ao
mesmo tempo, a defesa nacional não perde nenhum
ensinamento resultante de sua experiência e que Patton julgou
do seu dever transmitir à América. É conveniente explicar isto
e, portanto, justificar a não publicação do diário em uma época
na qual a crítica contundente de Patton poderia ferir a
suscetibilidade de algumas pessoas, sem contribuir em nada
para a segurança militar.
O General Patton era dotado de elevado senso de
responsabilidade, de poder de observação nitidamente militar e
de preferências que abrangiam uma gama imensa, desde
cavalos e iates até arqueologia e etnologia. Escreveu com
discernimento e entusiasmo sobre aquilo que viu; suas cartas
espelham bem a sua personalidade. Há dois tipos de
documentos escritos por Patton: os destinados exclusivamente
à sua esposa e aqueles que ela denomina corretamente de
cartas abertas, as quais podia mostrar, com toda a liberdade,
aos amigos do general. Por felicidade, algumas das cartas
abertas, mais interessantes referem-se a um período que o
General Patton abordou sucintamente, ou omitiu, em “A
Guerra que eu vi”. A título de apresentação para o homem que
se revelou na Normandia, pareceu acertado publicar as cartas
relativas às campanhas na África e na Sicília. Elas não
constituem documentos propriamente militares, mas são
interessantes porque revelam o tipo de homem que foi George
Patton.
Incluindo estas cartas, “A Guerra que eu vi” representa uma
espécie de história prematura — pode-se até dizer história
provisória — com lugar garantido na bibliografia sobre a
Segunda Guerra Mundial. Por exemplo, este livro pode ser
comparado com as memórias de Jubal A. Early, John B. Hodd,
Richard Taylor e Joseph E. Johnston, publicadas poucos anos
depois do colapso da Confederação Sulina, com a diferença de
que Patton não precisa se desculpar de nenhuma derrota, nem
ventilar nenhuma queixa. Os livros daqueles sulistas não
apresentavam documentos comprobatórios e eram inexatos em
alguns aspectos, mas tinham grande valor histórico por terem
sido escritos enquanto algumas impressões da guerra ainda
estavam bem vivas.
Por volta de 1960, os americanos poderão contar com obras
mais rebuscadas, do tipo das memórias de Grant, Sherman e
Sheridan. Algumas dessas obras serão historicamente mais
exatas do que as autobiografias militares publicadas logo
depois da guerra. Sob este aspecto, as vantagens poderão ser
prejudicadas por lapsos de memória ou pela tendência
traiçoeira de certos tipos de mente, que costumam encontrar
nas operações militares finalidades não vislumbradas pelos
planejadores. Depois de 1965 ou 1970, as memórias serão
envolvidas pelo deslumbramento. Poucas terão valor histórico;
a maioria delas iludirá mais do que esclarecerá.
Nesta ocasião, então, será possível escrever biografias exatas
dos principais chefes militares. As fontes oficiais para a
elaboração de tais biografias são tão vastas que se estima que,
quando publicadas, só os relatórios mais importantes do
Exército compreenderão 1.000 volumes do tamanho da obra
“Registro Oficial dos Exércitos da União e da Confederação”.
Como ainda não se pensou em publicar os relatórios militares
do período 1941-45, é possível que se percam alguns
documentos importantes, os quais poderão ficar desaparecidos
durante os próximos 25 ou 30 anos.
De qualquer maneira, no fim de duas ou três décadas a figura
dos chefes militares estará suficientemente consolidada para
facilitar a tarefa dos biógrafos. Espera-se que o General Patton
seja um dos primeiros a atrair a atenção de biógrafos
competentes; os outros deixá-lo-ão em paz.
Patton era um homem dedicado à vitória, capaz de confundir e
irritar os demais comandantes. Sempre satisfez à norma
napoleônica de proporcionar, através de um comportamento
pitoresco, a causerie de bivouac que faz os soldados xingarem
o comandante e, depois, confiarem nele. Dentre as qualidades
de liderança, a ousadia de Patton faz lembrar a de “Stonewall”
Jackson. Sua disposição de avançar direto para o rio Reno
recorda a marcha de Sherman para o mar. Patton foi forjado no
molde dos grandes soldados americanos; seus documentos
pessoais incluem-se entre os mais completos deixados por um
general dos Estados Unidos. Ele se constituirá em assunto
ideal para uma grande biografia.

Douglas Southall Freeman


Westbourne Richmond, Virginia 26 de julho de 1947
PARTE 1 - CARTAS ABERTAS DA
ÁFRICA E DA SICÍLIA

1. OPERAÇÃO TORCH
O material deste capítulo, escrito durante a campanha africana, não contém
pormenores sobre o combate real por causa das restrições impostas pela
censura, na época em que foi redigido. Entretanto, um breve sumário das
operações militares será útil para a orientação do leitor.
No dia 8 de novembro de 1942 desembarcaram no litoral norte da África três
forças-tarefas, sendo uma delas a Força-Tarefa Ocidental1. O Major-General
Patton comandava as forças terrestres desta Força-Tarefa e seu quartel-
general, em obediência a um quadro de organização do Exército, seria
denominado quartel-general do 5º Exército, logo após o desembarque2.
A Força-Tarefa Ocidental compunha-se de três unidades-tarefas: ao norte,
comandada pelo Major-General Lucien K. Truscott, desembarcando em Port
Lyautey; ao centro, sob o comando do Major-General Jonathan W.
Anderson, desembarcando em Fedala3; e ao sul, comandada pelo Major-
General Ernest A. Harmon, desembarcando em Safi. Os elementos da Força
Aérea do Exército achavam-se sob o comando do General-de-Brigada John
K. Cannon. O efetivo da força-tarefa atingia a cerca de 32.000 homens. A
esquadra era comandada pelo Almirante H. K. Hewitt, que permaneceria no
comando geral até que as forças terrestres e aéreas estivessem firmemente
estabelecidas em terra. Durante cerca de 14 dias o almirante conduziu o
comboio de aproximadamente 100 navios através do Atlântico e sem
qualquer acidente. A esquadra prestou um apoio decisivo ao desembarque.
Os franceses foram totalmente surpreendidos pelo ataque, mas as perdas
comprovam que a luta foi violenta. Tanto no mar como em terra, os
elementos da Marinha francesa lutaram heroicamente até o fim.
No dia 11 de novembro, quando as unidades terrestres já ocupavam as
posições de ataque e os aviões sobrevoavam o alvo, os franceses anunciaram
o fim da resistência, salvando Casablanca da destruição por uma questão de
minutos; este fato, sem dúvida, constituiu um milagre das comunicações.
Nesta mesma tarde assinou-se a paz em Fedala; o General Patton fez um
brinde aos mortos de ambos os países e formulou votos no sentido de que
todos passassem a lutar, lado a lado, para a destruição do nazismo.
Deu-se início, imediatamente, à recuperação do porto, das rodovias e das
ferrovias; ao cabo de duas semanas as unidades americanas já ensinavam às
francesas o manejo das modernas armas de guerra.
No começo de março de 1943 o General Patton foi enviado à Tunísia para
comandar o II Corpo de Exército, que sofrera uma derrota séria no passo de
Kasserine. Este Corpo pertencia ao 18º Grupo de Exércitos, comandado pelo
General Sir Harold Alexander. A finalidade da operação que seria
desencadeada era ajudar a progressão do 8º Exército inglês, comandado pelo
General Montgomery, através de uma ameaça contra a retaguarda do General
Rommel nas vizinhanças de Gafsa. Em fins de abril, o Major-General Ornar
N. Bradley assumiu o comando do II Corpo e o General Patton voltou ao
trabalho que interrompera: o planejamento da invasão da Sicília.
P. D. H.

ÁFRICA DO NORTE

29 de outubro de 1942
O portador desta é o Capitão-de-Mar-e-Guerra Gordon Hutchins, do
Augusta. Quando ele chegar aí, tudo o que aconteceu já terá sido noticiado
pelos jornais. Saímos de Norfolk às 8h10min do dia 24; a largada foi notável
pela impecável eficiência da sua organização. Navegamos em coluna através
do campo de minas, utilizando um canal varrido e sinalizado. Adotamos uma
formação com cinco colunas, com o Augusta na frente.

2 de novembro
A comida é a melhor possível. Acho que vou engordar. Todas as manhãs
faço ginástica, inclusive flexões do tronco e corrida no mesmo lugar — 480
passadas (400 metros) dentro do meu camarote. Durante os exercícios
matinais de combate vestimos os coletes salva-vidas e colocamos o capacete
de aço; não preciso apressar-me porque o meu posto de combate é no meu
próprio camarote. Depois, vou até a ponte de comando esperar a hora do café
da manhã. Acabei de ler o Alcorão — um livro interessante e bom.
Dei aos subordinados uma diretriz de guerra simplificada. Empregar a
estratégia do rolo compressor, isto é, decidir a forma e a direção do ataque e
ater-se à decisão tomada. Na parte tática, não empregar o rolo compressor.
Atacar os pontos vulneráveis. Segurar o inimigo pelo pescoço e chutar-lhe o
traseiro.

6 de novembro
Entrarei em combate dentro de 40 horas, dispondo de poucas informações e
tendo que tomar decisões importantes ao sabor dos acontecimentos. Acho
que a responsabilidade aumenta a capacidade de cada um; com a ajuda de
Deus tomarei as decisões que me competem e decidirei corretamente. Sinto-
me como se a minha vida inteira estivesse orientada para este momento.
Depois de cumprir esta missão, acho que avançarei para o degrau seguinte da
escada do destino. Se cumprir com todas as minhas obrigações os outros
tratarão de fazer o mesmo.

8 de novembro
Na noite passada deitei-me uniformizado e dormi a partir das 22h30min. Não
foi fácil adormecer. Subi para o convés às 2 horas e vi acesas as luzes de
Fedala e Casablanca; também vi luzes na praia. O mar está calmo — nenhum
balanço. Deus está conosco4.

POSSESSÕES FRANCESAS NO NOROESTE DA ÁFRICA


Estamos metidos em um combate naval desde as 8 horas; parece que vai ser
um grande dia. Por volta das 7h15min seis contratorpedeiros inimigos saíram
de Casablanca; dois atiravam. Todos os nossos navios abriram fogo e o
inimigo recuou. Durante 30 minutos o Massachusetts bombardeou o Jean
Bart. Eu ia para a praia às 8 horas; minha embarcação estava suspensa nos
turcos com todas as nossas coisas dentro, inclusive minhas pistolas com cabo
de madrepérola. Mandei um ordenança apanhá-las; naquele exato momento,
um cruzador ligeiro e dois contratorpedeiros saíram de Casablanca,
navegando junto ao litoral, com a finalidade de tentar atingir os nossos
navios de transporte. O Augusta aumentou a velocidade para 20 nós e abriu
fogo. O primeiro disparo da torre fez a nossa embarcação virar; perdemos
tudo, exceto as minhas pistolas. Por volta das 8h20min os bombardeiros
inimigos atacaram os navios de transporte e o Augusta correu para protegê-
los. Depois, voltamos ao combate contra os navios franceses e a luta durou
cerca de três horas. Achava-me no convés principal quando uma granada
inimiga caiu tão perto que a coluna de água levantada molhou-me todo. Mais
tarde, já na ponte de comando, outra granada caiu ainda mais perto, mas eu
achava-me a uma altura que não foi alcançada pela coluna de água. O tempo
estava nublado e o inimigo utilizava a fumaça com maestria. Mal podia
avistá-lo, bem como os impactos dos nossos tiros; todos os navios
americanos atiravam e descreviam grandes zigue-zagues e curvas.
Às 12h42min partimos em direção à praia: eu, o Almirante Hall, chefe do
estado-maior do Almirante Hewitt, meu chefe de estado-maior, Coronel Gay,
os Coronéis Johnson e Ely, do estado-maior da Força de Desembarque
Anfíbio da Esquadra do Atlântico, meus ajudantes-de-ordens Jenson e Stiller
e o Sargento Meeks; quando nossa embarcação afastou-se do navio os
marinheiros debruçaram-se sobre a amurada e aplaudiram. Pisamos na praia
às 13h20min, completamente molhados por causa da passagem na
arrebentação das ondas. O combate ainda se mantinha vivo, mas não
recebemos nenhum tiro.
Harmon conquistara Safi antes do alvorecer, mas a notícia só chegou até nós
depois do meio-dia.
Anderson apossou-se dos dois rios e do terreno elevado na parte da tarde;
prendeu oito integrantes da Comissão Alemã de Armistício. Eles só
souberam do desembarque às 6 horas; logo, a surpresa foi completa.
Quando ainda estávamos em Washington, o Coronel W. H. Wilbur oferecera-
se como voluntário para ir a Casablanca e solicitar a rendição. Por este
motivo, desembarcou na primeira vaga e dirigiu-se para aquela cidade, ainda
no escuro, conduzindo uma bandeira branca. Durante o trajeto foi alvo de
vários disparos, mas, em Casablanca, os franceses respeitaram a bandeira
branca, embora se recusassem a aceitar a rendição.

11 de novembro
Decidi atacar Casablanca nesta data, empregando a 3ª Divisão e um batalhão
de carros de combate. Foi preciso um certo sangue-frio, uma vez que
Truscott e Harmon pareciam em má situação; senti que deveríamos manter a
iniciativa. Na oportunidade, o Almirante Hall veio à terra para combinarmos
o apoio de fogo naval e aéreo e trouxe-nos boas notícias. Truscott
conquistara o campo de pouso de Port Lyautey e já haviam aterrado lá 42
caças P-40. Harmon avançava sobre Casablanca.
Anderson queria atacar de madrugada, mas fixei a hora para as 7h30min pois
não desejava que ocorresse nenhum equívoco por causa da escuridão. Às
4h30min chegou um oficial francês anunciando que as forças localizadas em
Rabat haviam cessado de atirar; o estado-maior queria suspender o ataque,
mas determinei que se cumprisse o planejado. Lembrei-me de 1918, quando
paramos cedo demais. Enviei o oficial francês para Casablanca com a missão
de comunicar ao Almirante Michelier, comandante da área, que o melhor que
ele poderia fazer para não ser destruído era desistir da luta imediatamente,
porque eu ia atacar — só não disse quando. Depois enviei mensagem ao
Almirante Hewit informando que transmitiria a ordem de cessar fogo caso os
franceses desistissem no último instante. Isto aconteceu às 5h30min. Às
6h40min o inimigo desistiu. Felizmente desistiu a tempo, mas os
bombardeiros já estavam voando sobre os alvos e os encouraçados
ocupavam as posições de tiro. Determinei que Anderson penetrasse na
cidade e que atacasse, se alguém tentasse detê-lo. Ninguém o deteve, mas o
período entre 7h30min e 11 horas foi o mais longo de minha vida.
Às 14 horas o Almirante Michelier e o General Noguès vieram tratar dos
termos da rendição. Abri a reunião elogiando os franceses pela bravura
demonstrada e encerrei-a com champanha e brindes. Também os recebi com
uma grande guarda de honra — não adianta nada tripudiar sobre um homem
derrotado.
Eu e Noguès visitaremos o Sultão daqui a um ou dois dias.

VISITA DO GENERAL COMANDANTE E SEU ESTADO-MAIOR AO


GENERAL NOGUES E AO SULTÃO DO MARROCOS
QG da Força-Tarefa Ocidental 16 de novembro de 1942
Às 9h45min, partimos de Casablanca, uma cidade que mistura Hollywood e
a Bíblia, em direção a Rabat. Depois de ultrapassar Fedala deparei-me com o
melhor terreno jamais visto para o emprego de carros de combate:
suavemente ondulado e limpo, salpicado de casas de pedras que serviriam de
abrigo para a Infantaria, mas que não resistiriam ao canhão de 105 mm.
De modo geral a região parece-se com o litoral de Kona, no Havaí. A
vegetação é idêntica e o mar tem a mesma cor azul. Cruzamos com rebanhos
de ovelhas e de gado, todos eles de raça não identificada. Toda a estrada e as
pontes ferroviárias estavam guardadas por um tipo de combatente irregular
marroquino chamado goons5 - pelo menos é assim que o nome soa. Vestem
um roupão listrado em preto e branco, usam um turbante que provavelmente
foi branco alguns anos atrás e estão armados com fuzis antigos e baionetas.
Para além de Fedala, os caminhões e viaturas blindadas destruídos e
obstruindo a estrada constituíam prova concreta da eficiência da Marinha e
da Aviação. Em Rabat, o General Harmon6 providenciara uma escolta para
mim, composta de carros de reconhecimento e carros de combate. Todavia,
julguei que seria muita ostentação de minha parte chegar à sede da
Residência francesa do General Noguès7 com uma tal escolta; dispensei a.
Ao chegarmos à Residência, fomos recebidos por um esquadrão de Cavalaria
marroquino, no qual só os oficiais tinham montaria. A guarda pessoal do
Residente-Geral, também marroquina, trajava uniforme branco com
equipamento de couro vermelho. O porta-pistola e as cartucheiras ficavam
na altura do estômago, sustentados por talabartes cruzados.
Ambas as tropas eram garbosas, cada uma com a sua banda de música
própria, composta de cornetas, tambores e um guarda-chuva de metal com
sinos pendurados nas extremidades e que rodava durante a execução da
marcha batida.
Passei em revista às duas unidades e cumprimentei os oficiais franceses que
as comandavam, realçando o garbo de cada uma — em termos de 1914,
constituíam verdadeiras unidades militares. Lembrei-me, com espanto, que
um único carro de combate de escolta que dispensara poderia destruir,
facilmente, todos aqueles soldados garbosos que me prestavam honras
militares.
A Residência era um prédio bonito, todo em mármore, construído pelo
Marechal Lyautey8 seguindo o modelo do Alhambra9; compreendi
perfeitamente por que o General Noguès não queria abandoná-lo. Recebeu-
nos com muita cordialidade e conversamos durante vinte minutos; depois,
dirigimo-nos para o palácio do sultão.
A área do palácio abrangia alguns hectares e era cercada por um muro de
quase 6 metros de altura; dizia-se que o palácio fora construído no ano
1.300, mas tenho sérias dúvidas a respeito, embora fosse uma edificação
bastante antiga.
Depois de atravessarmos o portão, viajamos cerca de 800 metros por entre as
cabanas dos nativos, todas parecendo alojar famílias numerosas. O palácio é
um prédio branco de três andares construído em arquitetura mourisca e cujo
portão de entrada mal dava para passar um automóvel.
No interior, a guarda do sultão estava formada em volta de uma praça; os
soldados tinham pele escura, estavam armados com fuzil e usavam um
uniforme de túnica vermelha, calça vermelha e perneira branca. Avaliei a
existência de uns 400 homens em forma.
Ao descermos do carro uma outra banda de música, composta por tambores,
pratos, cornetas e o guarda-chuva de metal, começou a tocar com muita
desenvoltura.
Para quem entra no palácio, do lado esquerdo acha-se a bandeira verde do
Profeta. Trata-se de uma bandeira de veludo, bordado a ouro e tendo no
centro algumas palavras em árabe. Depois de atravessar o segundo portão
entramos em um ambiente do Velho Testamento, um pátio amplo e
totalmente cercado por homens trajando as vestes brancas descritas na
Bíblia. Neste local fomos recebidos pelo grão-vizir (pelo menos pensei que
era ele). Vestia um robe branco, com um capuz que encobria um turbante
bordado a ouro. Além de apresentar uma barba irregular, o homem ostentava
o maior conjunto de dentes de ouro até então visto por mim. Declarou-nos
que o sultão concedera a graça de nos receber, o que já era evidente diante
dos preparativos realizados.
Subimos três lances de escadas e ao chegarmos no alto o nosso guia
descalçou os sapatos. Penetramos em uma sala comprida e observei, do lado
esquerdo, os doze apóstolos e mais alguns reservas, enquanto do lado direito
havia um bom número de cadeiras douradas, estilo Luiz XIV.
O chão era coberto pelos tapetes mais grossos e mais bonitos que eu já vira.
O sultão estava sentado na extremidade da sala, em uma plataforma mais
elevada; tratava-se de um jovem de fisionomia atraente e muito expressiva,
mas de aparência muito frágil.
Logo na entrada, faz-se uma parada e uma reverência, inclinando o tronco
para a frente; caminha-se até o meio da sala e repete-se o gesto. Depois
avança-se até a borda da plataforma e executa-se a terceira reverência. O
sultão levantou-se, apertou a minha mão e a do General Noguès e sentamo-
nos todos.
Falando árabe, embora fosse fluente em francês, o sultão disse ao grão-vizir
que me comunicasse em francês a sua alegria por receber-me. Através de
dois intérpretes manifestei-lhe o meu contentamento por estarmos reunidos
mais uma vez, seu povo, os franceses e nós, e garanti-lhe que o nosso único
desejo era unirmo-nos ao seu povo e aos franceses em uma frente comum
contra o inimigo. Era engraçado ver que ele entendia perfeitamente a
conversa em francês, mas tinha que esperar até ser traduzida para o árabe
pois sua dignidade não lhe permitia admitir o conhecimento de uma língua
estrangeira.
Terminada esta conversa inicial, o sultão informou-me que esperava ver os
soldados americanos respeitarem as instituições maometanas, uma vez que
se achavam em país maometano. Respondi que esta ordem fora expedida, em
termos muito precisos, nos Estados Unidos, antes da nossa partida, e que
seria rigorosamente obedecida. Declarei-lhe ainda que esperava receber dele
a comunicação de qualquer transgressão religiosa praticada por americanos,
uma vez que reconhecia existirem pessoas desmioladas em todos os
exércitos, inclusive no dos Estados Unidos. Respondeu-me que não ocorreria
nenhum acidente, mas que, em caso de necessidade, faria chegar ao meu
conhecimento qualquer episódio desagradável, por intermédio do General
Noguès.
Concluí cumprimentando o sultão pela beleza natural do país, pela disciplina
dos seus súditos e pela bela aparência das cidades. Levantamo-nos, o sultão
ergueu-se do trono, apertou nossas mãos e convidou-me para um chá na
quarta-feira, comemorativo de sua ascensão ao trono. Inicialmente fora
minha intenção visitá-lo naquele dia; entretanto, como eu representava o
Presidente dos Estados Unidos e o Comandante Geral das Forças Aliadas,
havia comunicado ao General Noguès que não ficaria bem realizar a visita
em dia de festa. Todavia, o convite formulado indicava claramente que o
sultão valorizava a minha posição.
Terminada a audiência encontramo-nos com os doze sábios e seus reservas.
Eram os paxás das diversas províncias e cidades do Marrocos. Creio que
paxá era um cargo vitalício; o mais velho tinha 92 anos de idade e o mais
jovem, cerca de 70 anos. Estavam todos vestidos de branco e com meias,
mas sem sapatos; representavam um grupo de homens nitidamente
habituados a mandar.
Na saída do palácio recebemos, mais uma vez, as honras militares prestadas
pela guarda. Dirigimo-nos à residência do General Noguès, onde fomos
recebidos pela senhora Noguès e sua sobrinha; serviram-nos um almoço
suntuoso e saborosíssimo. Impressionou-me o fato de o General Noguès
jamais haver hospedado, nem homenageado, qualquer autoridade alemã
durante o tempo da ocupação germânica.
Mantivemos uma breve conversa após o almoço e regressamos a Casablanca,
onde chegamos às 15 horas.

O ANIVERSÁRIO DO SULTÃO
QG da Força-Tarefa Ocidental 22 de novembro de 1842
A segunda visita ao sultão foi semelhante à primeira, só que desta vez fomos
escoltados por um esquadrão de Cavalaria desde a residência do General
Noguès até ao palácio do sultão. Os cavaleiros montavam cavalos brancos
ajaezados com mantas brancas e azuis e trajavam turbantes brancos e túnicas
vermelhas com botões e ombreiras de metal.
Três oficiais cavalgaram ao lado do nosso carro, um de cada lado e um na
retaguarda. Os corneteiros montados tocaram durante todo o trajeto.
Ao chegarmos ao palácio havia todo um regimento de Cavalaria em forma.
Um esquadrão estava armado com lanças. As montarias, tanto do regimento
como da escolta, eram animais excelentes. Dentro do pátio externo estava
formada a Guarda Negra, composta por senegaleses de estatura elevada e
uniformizada com túnica vermelha, equipamento de couro vermelho, barrete
vermelho e polainas brancas. A banda de música executou o hino nacional
do Marrocos e a Marselhesa.
Fomos recebidos pelo grão-vizir, ou mufti, que nos conduziu até o pátio
interno; a partir daí fomos precedidos por dois anciãos, cada um conduzindo
um bastão como nos tempos bíblicos, com uma espécie de cartucheira
amarrada em torno dos quadris e armados com uma cimitarra comprida e
curva, envolvida por uma bainha de couro vermelho.
No vestíbulo e na sala do trono havia muitos chefes; quanto mais afastado do
trono, menor a graduação do chefe. Os altos dignitários estavam colocados à
esquerda de quem se aproxima do trono; vestiam-se com apuro, mas eram
todos idosos e de corpo volumoso.
O sultão fazia-se acompanhar do príncipe Imperial, um de seus filhos com
cerca de 14 anos. O príncipe Imperial sentou-se na primeira cadeira, Noguès
na segunda e eu na terceira. Por ocasião da visita anterior eu sentara na
primeira cadeira e Noguès na segunda, mas o dispositivo atual era bem
adequado. Em seguida, o General Noguès leu um discurso em francês, o qual
o grão-vizir, já com uma cópia, ia traduzindo para o árabe. Terminado o
discurso, o grão-vizir entregou solenemente ao sultão um texto manuscrito
em árabe; tratava-se da resposta do soberano e o sultão começou a lê-la,
enquanto o grão-vizir fazia a tradução para o francês, valendo-se de um
papel que tinha em mãos.
No decorrer desta solenidade comecei a ficar cada vez mais impressionado
com o fato dos Estados Unidos estarem desempenhando um papel tão
insignificante. Assim, quando Noguès parou de falar e saiu da frente do
trono, levantei-me sem pedir autorização a ninguém e, o quanto posso
lembrar, fiz o seguinte discurso:

“Majestade, como representante do grande Presidente dos Estados Unidos e


na qualidade de comandante de uma enorme força militar no Marrocos,
desejo apresentar os cumprimentos dos Estados Unidos nesta ocasião, o 15º
aniversário de vossa ascensão ao trono de vossos ancestrais, e acrescentar a
garantia de que enquanto o país de Vossa Majestade, em ligação com o
governo francês do Marrocos, cooperar conosco e facilitar nossos esforços
alcançaremos com a graça de Deus, tenho certeza, a vitória contra o nosso
inimigo comum, os nazistas.
Estou convencido de que Vossa Majestade e o governo francês do Marrocos
compartilham desta opinião. Enquanto permanecermos de acordo sobre este
assunto só poderemos esperar por um futuro dos mais promissores. Sou
levado a acreditar neste acordo mútuo ao recordar que um dos grandes
antecessores de Vossa Majestade ofereceu de presente ao nosso famoso
Presidente George Washington os edifícios agora ocupados pela missão
americana em Tanger; lembro-me também que a nossa amizade e sintonia de
pontos de vista com os franceses datam do tempo de Washington.
Desejo aproveitar esta oportunidade para cumprimentar Vossa Majestade
pela cooperação inteligente que os vossos súditos prestam aos americanos e
também para manifestar, mais uma vez, a minha grande admiração pelo
garbo imponente e a disciplina impecável dos soldados de Vossa Majestade”.

Um aspecto interessante acerca do sultão é que ele deveria usar barba, por
tradição, mas preferia ter o rosto escanhoado (o que era feito com uma
lâmina que lhe deixava os pelos com um milímetro de comprimento). Os
bigodes eram aparados. Também não se admitia que o sultão usasse traje
europeu, mas alguns de nossos oficiais, bem como inúmeros oficiais
franceses, viram-no cavalgando através do campo, sem escolta e com roupa
de montaria inglesa. Eu tinha certeza de que ele falava francês e quase
certeza de que falava inglês. Na realidade, ouvi o boato de que se diplomara
em Oxford, usando um nome de cobertura.
O chá comemorativo da ascensão ao trono contou com a presença de quase
todas as autoridades. Não pude comparecer pessoalmente e solicitei ao
General Harmon que me representasse. Durante o chá ouviram-se alguns
gritos seguidos de dois estampidos. O sultão pediu desculpas, retirou-se com
grande pompa e retornou ao cabo de alguns minutos. O General Noguès
indagou o que ocorrera. O sultão respondeu que uma das panteras executara
um salto magnífico, escapara do poço e atacara uma das moças do harém,
mas fora morta pelos guardas. A moça sofrera ferimento na garganta, mas
isto não tinha importância pois não se tratava de uma esposa e sim de uma
concubina. Depois desta breve interrupção o chá teve prosseguimento.
Os velhos kasbas ou fortes, são muito interessantes e constituem obstáculos
reais. Existem inúmeros espalhados pelo interior, particularmente nas
montanhas. Os pórticos são em estilo mourisco e os muros possuem guaritas
salientes de 200 em 200 metros. Algumas paredes chegam a ter 4 metros de
espessura.
Dizem que alguns fortes são de origem romana, mas ainda não vi, até agora,
nenhum que me parecesse tão antigo assim. O forte situado em Port Lyautey
é muito resistente. Lutou contra nós durante 3 dias e só foi conquistado
depois que os obuseiros autopropulsados de 105mm abriram brechas para o
ataque a baioneta e granadas de mão, realizado pelo 2º batalhão do 60º RI10.
O forte resistira aos canhões navais de 6 polegadas, aos morteiros pesados e
aos bombardeiros de mergulho; só cedeu diante do infante armado com fuzil
e granada. Não cheguei a indagar se houve sobreviventes entre a guarnição,
mas acho difícil que haja sobrado alguém. No combate corpo-a-corpo um
soldado não chega a dispor de tempo para tecer considerações sobre os
acontecimentos.
O dinheiro deixou de ter valor porque não havia quase nada para se comprar
no Marrocos; também era muito difícil contratar mão-de-obra local.
Estávamos providenciando para que os árabes contratados por nós pudessem
adquirir artigos de maior necessidade, como açúcar, chá, arroz, café e roupas,
a preços reduzidos. O salário dos contratados seria pago em francos, a fim de
valorizar a moeda local.

Hoje pela manhã eu e o General Keyes11 comparecemos a uma igreja


católica repleta de gente e que continha, sem dúvida, muitas viúvas de
homens mortos em combates contra os americanos. A maioria das senhoras
era jovem, vestia-se de preto e chorava, mas não parecia revelar nenhuma
animosidade contra nós.
Madame Hardion, esposa do Ministro de Assuntos Civis, deu a seguinte
explicação: depois de 1940, os franceses sentiram-se tão envergonhados que
já não se orgulhavam de nada; as mulheres mostravam-se mais
envergonhadas do que os homens. Por isto, quando atacamos, os franceses
ficaram encantados com a oportunidade de se baterem contra nós, de uma
forma amistosa na opinião de Madame Hardion. Eu não compartilhava deste
ponto de vista, depois de saber que os franceses perderam de 2 a 3 mil
homens no combate terrestre e mais de 500 no combate naval, ao passo que
nossas perdas elevaram-se a mais de 700 homens, entre mortos e feridos. A
senhora, porém, sustentava a sua opinião e acrescentava que as baixas
haviam contribuído para elevar o moral dos franceses. Isto aplicava-se
particularmente às francesas, anteriormente tão envergonhadas dos homens a
ponto de se recusarem a viver com eles. Também não pude acreditar nesta
opinião, principalmente por causa do número de crianças que vi pelas ruas.
Até agora só encontrei um soldado americano embriagado; assim mesmo,
dois companheiros tomavam conta dele. Nossos homens passaram
dificuldades pois só conseguimos desembarcar as cozinhas no dia 21;
também não dispúnhamos de barracas, mas apenas de sacos individuais.
Apesar de tudo o moral é elevado e a situação sanitária é boa, em que pese a
uma diarreia que durava 24 horas e que foi atribuída, creio eu, à água.
É interessante observar a transformação sofrida pelos soldados. Assim que
chegaram aqui mostravam-se deprimidos, provavelmente por excesso de
fadiga; nos últimos dois dias começaram a dar resultado nossos esforços para
recuperá-los e acho que em pouco tempo voltarão a se apresentar garbosos.
Nos campos, a terra é arada com auxílio dos mais variados tipos de animais.
Os camponeses usam parelhas seja de um cavalo e um camelo, seja de um
burro e um camelo, seja um touro e um camelo, ou um touro e um cavalo.
Disseram-me que não podem usar dois camelos porque um brigaria com o
outro. Qualquer animal atrelado junto com um camelo torna-se indiferente e
perde o interesse pela vida.
O Exército Francês mostra-se bastante amistoso, principalmente o General
Martin em Marrakech. O general ofereceu duas recepções aos oficiais do 47º
RI12, estacionado em Safi, e convidou-me e ao meu estado-maior para que
nos hospedássemos lá. Planejo visitá-lo dentro em breve.
Em 1940, o General Martin comandava a 67ª Divisão Marroquina, que foi
derrotada pelo inimigo. Durante uma visita que lhe fez o General
Anderson13, Martin apareceu com um estandarte da divisão, da qual já não
era comandante, e solicitou a Anderson que retirasse uma faixa preta presa
ao estandarte. O ato significava que a desmoralização da divisão fora
corrigida pela resistência que o General Martin oferecera contra o
desembarque norte-americano. Em seguida o francês partiu a faixa preta ao
meio e entregou uma das metades ao General Anderson. Foi um gesto
tocante e, creio eu, muito significativo.
Vale a pena registrar que no dia 20 conseguíramos desembarcar 30 mil
homens em 13 horas e, a partir dessa data, vínhamos descarregando
suprimento à razão de 47 toneladas por hora, a despeito das condições
desfavoráveis do porto. As marinhas americana e francesa realizaram e
continuavam a realizar um trabalho excelente. O mesmo pode ser dito sobre
a nossa Seção de Suprimento.
MISSA FÚNEBRE, EM CASABLANCA, EM MEMÓRIA DOS MORTOS
AMERICANOS EFRANCESES
QG da Força-Tarefa Ocidental 23 de novembro de 1942
O General Keyes, o Almirante Hall14 e eu encontramo-nos com o General
Noguès, o Almirante Michelier15 e oficiais de estado-maior franceses na
Residência, em Casablanca, às 8h45min. Daí partimos, com uma escolta da
polícia, para a catedral do Sagrado Coração. A polícia militar e soldados
americanos e franceses postaram-se em fila ao longo da calçada no trajeto
que percorremos. A catedral estava repleta.
Fomos recebidos pelo bispo do Marrocos, trajando batina vermelha, coberta
por uma sobrepeliz ricamente bordada e usando um barrete vermelho de
quatro bicos; o prelado nos acompanhou até os primeiros bancos da catedral.
Em frente ao altar estavam dois esquifes: o americano, à direita, coberto com
a bandeira dos Estados Unidos e cercado por uma guarda de seis soldados
americanos, e o francês, à esquerda, coberto com a bandeira da França e
cercado por uma guarda semelhante à nossa.
Terminada a missa, acompanhamos a retirada do celebrante e embarcamos
em nossos carros. O que mais chamou a minha atenção foi o fato de estar
formada na frente da catedral uma guarda de Cavalaria maometana, a pé e
armada com espadas.
Permanecemos durante uma hora na Residência, a fim de dar tempo ao povo
para se deslocar para o cemitério. Depois, dirigimo-nos para lá; do lado de
fora estavam formados um batalhão de Infantaria americano, um de
Infantaria francesa da África e um grupo de integrantes da Legião Francesa,
organização semelhante à Legião Americana. Caminhamos cerca de 800
metros dentro do cemitério e paramos diante de dois mastros, o da direita
com a bandeira dos Estados Unidos e o da esquerda com a da França, ambas
hasteadas.
Eu e o General Noguès colocamos uma coroa de flores em um cavalete junto
ao monumento dos mortos; a Legião Francesa colocou outra coroa de flores.
Em seguida, a banda francesa executou uma marcha batida e a bandeira foi
arriada até ficar a meio-pau. Ao som da Marselhesa a bandeira voltou ao
topo do mastro. Nossa banda tocou a marcha batida e a nessa bandeira
desceu até o meio do mastro. Ao som de Star-Spangled Banner nossa
bandeira voltou ao topo do mastro.
Percorremos as covas, francesas e americanas, parando no meio de cada
grupo de covas para prestar continência. Uma massa de gente nos seguia —
creio que alguns milhares de pessoas.
Cada cova era assinalada por uma cruz; nas covas dos americanos a cruz
continha uma tabuleta onde seriam pintados os nomes, posteriormente. Por
fim, retornamos até o portão, embarcamos nos carros e voltamos para o
quartel-general. A cerimônia fora bastante solene; quando revelei ao General
Noguès a opinião de que a mistura de sangue americano e francês gerara um
sacramento sagrado, ele pareceu-me satisfeito e comovido.

ALMOÇO COM O GENERAL NOGUÈS EM RABAT, MARROCOS


QG da Força-Tarefa Ocidental 8 de dezembro de 1942
O General Noguès convidou a mim, ao General Keyes e a mais oito oficiais
para um almoço na Residência, a fim de nos encontrarmos com Sua
Excelência o Governador de Dacar, senhor Boisson. Viajamos no avião do
General Fitzgerald, do Corpo Aéreo, também convidado para o almoço.
Fomos recebidos com as honras de estilo. Além de nós, do senhor Boisson e
dos generais franceses, compareceram o grão-vizir e o chefe do Protocolo do
sultão. Este chefe do Protocolo era o homem que, inicialmente, pensei ser o
grão-vizir. Todavia, o grão-vizir é o homem que se coloca à direita do sultão
e à frente dos doze apóstolos. Trata-se de um ancião de 92 anos de idade e
fala francês tanto quanto eu.
Quando chegamos, ninguém lhe dava a mínima atenção; por isto, dirigi-me a
ele para conversar. Durante o almoço sentei-me à direita da senhora Noguès
e o grão-vizir à esquerda dela. Mais uma vez não havia ninguém
conversando com ele. Ao entrar e sair da sala de jantar eu deveria caminhar
na frente do grão-vizir, mas fiz tudo para que isto não acontecesse, o que
parece haver produzido uma excelente impressão no velho.
Após o almoço, o chefe do Protocolo veio perguntar se eu poderia conversar
com o grão-vizir. Em nossa companhia achava-se um subordinado do
General Noguès e um oficial de marinha americano, que falava francês, mas
conversei diretamente com o velho. Disse-me ele que o sultão estava ansioso
para que eu soubesse que toda a vida do Marrocos dependeria da preservação
da paz. Afirmei-lhe que era um profundo estudioso da história e que desde a
mocidade a minha idéia era manter a paz no Marrocos francês; pretendia
fazer isto auscultando os desejos de Sua Majestade, através do General
Noguès.
O velho contou-me que, ao ouvir a repetição das minhas palavras, o sultão
seria dominado por um sentimento de alegria. Respondi que me sentiria
duplamente feliz todas as vezes que pudesse proporcionar felicidade a Sua
Majestade. Depois, o grão-vizir falou-me sobre os antagonismos raciais —
os judeus — existentes no Marrocos. Disse-lhe que compreendia
perfeitamente tais coisas porque, quando menino, fora criado em uma grande
fazenda onde existiam vinte mil ovelhas — o que não correspondia
exatamente à verdade, mas causava bom efeito entre os árabes — e que,
como resultado da minha familiaridade com as ovelhas, entendia
perfeitamente as antipatias raciais; declarei mais que não me envolveria no
assunto porque julgava o sultão em melhores condições para resolvê-lo,
coisa que seus ancestrais vinham fazendo há mil e trezentos anos. O velho
confessou comungar com a minha idéia e declarou-me que jamais seríamos
perturbados por problemas raciais ou tribais.
Coube-me dizer ao grão-vizir o quanto era importante para mim saber o que
se passava no Marrocos espanhol e que tinha certeza de que ele e o sultão
eram as pessoas melhor informadas sobre o assunto. O velho respondeu-me
que certos nativos que viviam no Marrocos espanhol, erradamente chamados
de árabes, constituíam a razão de todos os problemas; ele e o sultão
considerariam como missão manter-me informado sobre o que planejavam
aqueles falsos crentes e seus patrões espanhóis, e que tais informações me
seriam dadas como se eu fosse um membro da família.
Contei-lhe depois que, a despeito do meu empenho, provavelmente
ocorreriam violações de mulheres e disse-lhe que gostaria de receber os
pormenores sobre cada caso, no menor tempo possível, a fim de mandar
enforcar os transgressores. O grão-vizir achou a idéia excelente e disse que a
punição dos criminosos traria grande satisfação a todos os marroquinos.
A conversa durou cerca de 15 minutos, no fim dos quais o grão-vizir
garantiu-me que a minha complacência proporcionara-lhe os minutos mais
felizes de sua vida, ao que respondi afirmando que, se proporcionara quinze
minutos de felicidade, então minha vida não fora em vão.
Tudo isto parece muito engraçado quando é posto em letra de forma e deve
ter sido ainda mais engraçado quando expressado através do meu francês,
mas é exatamente deste jeito que os árabes gostam de conversar.
O grão-vizir concluiu dizendo ser preciso conversar com um grande homem
para compreender toda a sua magnitude e que havia um provérbio árabe
dizendo: os que falam que todos os homens são iguais ou estão loucos, ou
são mentirosos; acrescentou que ele e o sultão não eram nenhuma das duas
coisas.

FÈTE DES MOUTONS (FESTIVAL DAS OVELHAS) EM RABAT


QG da Força-Tarefa Ocidental 19 de dezembro de 1942
O sultão convidou a mim, aos comandantes de divisão e a mais quarenta
oficiais para uma cerimônia no palácio. Considerou-se mais adequado que a
guarda fosse americana. Em vista disto, avisei ao General Noguès que
chegaria ao aeroporto às 14h15min, inspecionaria a guarda de honra,
formada por uma companhia do 82º Batalhão de Reconhecimento16, e iria
bem como aos seus oficiais, na Residência.
Eu e o General Noguès viajamos de pé em um carro de reconhecimento, do
qual haviam retirado a cobertura. A escolta de honra impressionou o povo e
foi a primeira vez que vi os árabes aplaudindo.
Na entrada para o jardim do palácio estava postada a guarda de honra
composta por uma companhia de carros de combate, uma bateria
autopropulsada de obuses 105mm, uma bateria de canhões de assalto 75mm
e a banda de música da 3ª Divisão.
Paramos em frente desta tropa, a qual apresentou armas. A banda prestou a
continência habitual e executou os hinos nacionais do Marrocos, da França e
dos Estados Unidos, nesta ordem.
Prosseguimos, então, para o interior do palácio, deixando a guarda de honra
do lado de fora. Dentro do palácio realizou-se a continência tradicional
prestada pelos Guardas vermelhos. Depois fomos cumprimentar o sultão,
que insistiu em se demorar conversando comigo para expressar sua
satisfação pelo fato de estar eu, como representante do Presidente e do
General Eisenhower, presente à principal festa política e religiosa do seu
império. Manifestei-lhe a satisfação que sentiam o Presidente e o General
Eisenhower por estarem representados e declarei achar que esta
circunstância auspiciosa constituía mais uma prova da ajuda de Deus para a
nossa causa. Descobri que era importante mencionar Deus na conversa com
o sultão.

Foram empossados dois novos caides17, terminada esta solenidade dirigimo-


nos para um gramado fora do palácio, cujo comprimento era igual ao de um
campo de polo, mas apenas com a metade da sua largura. O gramado estava
totalmente cercado por uma multidão de maometanos e por alguns franceses.
Fora armado um palanque para as autoridades visitantes; como representante
dos Estados Unidos, ocupei o lugar de honra.
O príncipe Imperial sentou-se ao meu lado e declarou-me, em excelente
francês, que iríamos presenciar o espetáculo mais emocionante do mundo. O
tal espetáculo não teve nada de emocionante, mas a cerimônia que o
precedeu foi muito interessante e extremamente elaborada.
Olhando de frente para a arena, à nossa esquerda ficavam os altos
funcionários de todas as grandes cidades e tribos do Império do Marrocos,
dispostos em coluna de pelotões, por assim dizer. A banda da Guarda negra
tocava durante o tempo todo; ao lado da guarda do palácio havia um
regimento de Cavalaria, cuja metade do efetivo era constituída por lanceiros.
De repente, um número considerável de árabes, todos usando capuzes
vermelhos, surgiu pelo portão do palácio e correu, gritando, em nossa
direção. Atrás deles caminhavam dois homens, cada um segurando uma
lança de uns 4 metros de comprimento e apontada para o céu; seguia-se o
sultão, vestido em trajes árabes e cavalgando um belo corcel branco. A
manta e a cobertura da sela eram de seda cor-de-rosa; atrás dele caminhava
um homem carregando um guarda-chuva enorme.
Quando o sultão aproximou-se dos árabes todos gritaram; os oficiais
estrangeiros prestaram continência. Quando chegou na altura da testa da
coluna de pelotões dos altos dignitários das cidades o sultão parou; de cada
lado do seu cavalo um homem acenou um lenço branco. Pareceu-me ser este
o sinal para o pelotão da frente executar uma curvatura do tronco, repetida
três vezes, em solene reverência. Ao fim da terceira reverência os homens de
capuzes vermelhos corriam para o pelotão e o afastavam para o lado, abrindo
espaço para o pelotão seguinte; o procedimento repetiu-se para os vinte
pelotões.
Achei interessante o séquito do sultão. O soberano tem que apresentar sete
cavalos; assim, cavalga um e mantém quatro completamente arreados, cada
um deles ajaezado com seda de cor diferente: amarelo, vermelho, verde e
roxo. Além disto, dispõe de uma carruagem dourada, creio que uma
antiguidade do ano 1400, com lampiões enormes em cada um dos quatro
cantos e espaço, na retaguarda, para dois cocheiros. A carruagem é
tracionada por dois cavalos, conduzidos por palafreneiros. Com isto
completam-se os sete cavalos, característicos da dignidade do sultão.
Atrás da carruagem segue uma carroça com toldo e cheia de caixas brancas;
atrás dela, um camelo carregado de caixas brancas e seguido por uma mula
com o mesmo tipo de carga. Pelo que pude observar, as caixas estavam
vazias, mas parece que simbolizam as provisões que Sua Majestade
normalmente carregava consigo. A solenidade relembra a visita anual que,
antigamente, o sultão fazia às províncias do império, deslocando-se com os
meios representados na cerimônia. Nas portas de cada cidade o sultão era
recebido pelas autoridades locais, atualmente deslocadas para o palácio a fim
de participarem no cerimonial de comemoração da visita anual.
Terminada esta parte da cerimônia o sultão regressou ao palácio. Só então
chegou o momento para o espetáculo do qual falara o príncipe Imperial.
Consistia de grupos de três a vinte árabes, montados em cavalos e armados
com velhos arcabuzes. Mediante um sinal convencionado, um desses grupos
galopava pela arena executando uma espécie de manejo de armas a cavalo;
um dos movimentos, que me pareceu ser o inicial, consistia em segurar a
arma em posição horizontal, por cima da cabeça, com o cano apontado para
a frente.
Depois, todos giravam as armas em vários sentidos e, finalmente, tentavam
dispará-las. Como a centelha do disparo era produzida por pedra de isqueiro,
nem 30% das armas disparavam. Mas quando a arma funcionava,
normalmente o cavaleiro era derrubado da sela. Bem, quando um árabe cai
do cavalo, principalmente um árabe de certa posição na sociedade — meus
amigos, que queda! — seu turbante voa longe, seus sapatos projetam-se à
distância e os diversos panos que leva por baixo do albornoz espalham-se
por todos os lados. Neste momento, o espetáculo é interrompido para que os
ajudantes possam recolocá-lo na sela e recolham seus pertences.

CASABLANCA
1 de janeiro de 1943
Na madrugada de hoje sofremos o primeiro ataque aéreo. A primeira
explosão de três bombas registrou-se por volta das 3h15min e despertou-me
de um sono profundo. Acendi a luz no meio do quarto, cerrei as cortinas,
apanhei algumas peças do uniforme e, em cinco minutos, cheguei à
cobertura do edifício.
Ventava, chovia e o teto estava baixo, a cerca de 800 metros de altura. Todos
os nossos projetores — quase tantos quanto a idade de George18 — estavam
acesos e procurando buracos no meio das nuvens.
A Artilharia antiaérea leve começou a atirar em cadência rápida e os projetis
traçantes pareciam pirilampos. A barragem já durava cinco minutos quando
ocorreu um clarão enorme, seguido por labaredas que se projetavam como os
tentáculos de um octopus. As chamas deste incêndio arderam durante vinte
minutos, período durante o qual nada aconteceu.
De repente pudemos ouvir distintamente o barulho dos aviões e a Artilharia
antiaérea pesada começou a atirar, valendo- se de um sistema de pontaria que
dispensava a necessidade de avistar o avião.
Continuou o barulho e logo vimos aparecer, por sobre as casas situadas à
nossa retaguarda, um bombardeiro quadrimotor inimigo, que foi
imediatamente focalizado por dois projetores. Em seguida, parece que todos
os canhões antiaéreos da vizinhança dispararam contra ele; o avião ficou
cercado por projetis traçantes e arrebentamentos brancos das granadas de
alto explosivo, os quais logo se transformavam em uma pequena nuvem
preta. O avião não voava a mais de 800 metros de altura; talvez por causa
disto haja furado a barragem sem ser atingido. Pelo menos eu acho que não
foi atingido; outros pensam que sofreu alguns impactos.
Podíamos ouvir outros aviões por cima das nuvens e, vez por outra, a
explosão de bombas. Por uma vez um estilhaço passou zumbindo, mas
parece que o nosso edifício não se achava na área atingida pelos estilhaços.
Enquanto assistia ao espetáculo, enviei oficiais para informarem-se sobre a
situação. Pelas respostas recebidas verifiquei que a nossa defesa atuava de
acordo com as prescrições regulamentares; eu nada poderia fazer, exceto
preocupar-me com o ataque.
Por volta das 4h45min ouvimos um outro bombardeiro vindo pela nossa
retaguarda; repetiu-se a mesma cena, embora este voasse a uma altitude
inferior à do outro. Tenho certeza de que este avião foi atingido duas vezes,
mas vi-o desaparecer na direção da Europa.
Depois da passagem do bombardeiro ouvimos o assobio das bombas; caíram
na região da posição de uma bateria antiaérea, cerca de 1.000 metros à nossa
direita. Meu ajudante-de-ordens, Tenente A. L. Stiller, saiu para verificar os
danos e voltou dizendo que ninguém resultara ferido.
As coisas acalmaram-se e decidi voltar para a cama, pois o ataque parecia
encerrado. Por volta das 5h30min o fogo antiaéreo recomeçou; voltei para a
cobertura do edifício, posto que não despira o uniforme. Houve poucas
explosões e um fogo antiaéreo violento, tanto dos canhões terrestres como
dos canhões dos navios. O espetáculo pirotécnico era mais bonito do que os
que costumavam comemorar o Dia da Independência.
De repente um bombardeiro foi apanhado pelos projetores enquanto voava
bem em frente a nós, mas a cerca de 1.500 menos de altura pois o teto subira
um pouco. As granadas antiaéreas explodiam em volta dele quando o
bombardeiro perdeu altitude, rapidamente, para uns 800 metros; ouvimos
aclamações de todos os lados. Mesmo assim o bombardeiro nivelou o voo e
prosseguiu na rota até que, uns 5 quilômetros mais à frente, desceu
bruscamente até quase ao nível do mar. Via-se perfeitamente um rastro de
fumaça proveniente de um ou dois motores. Acho que o avião estava
perdido, embora ficasse encoberto pelo nevoeiro antes de se chocar com a
água.
Assim que clareou o dia saí para averiguar os danos e conversar com os
soldados. Estavam todos calmos; falei com a guarnição de uma peça situada
a 50 metros de uma cratera. Os soldados contaram que não haviam sido
derrubados ao solo, mas que ficaram cobertos de poeira.
As crateras eram quase do tamanho de um quarto de dormir e estavam cheias
de fragmentos de bombas; analisadas, forneceram dados sobre o tipo da
bomba e da espoleta.
Apesar de haver sido lançado um número considerável de bombas, não
morreu nenhum soldado e só uns poucos resultaram feridos. Os árabes
tiveram menos sorte. Só uma bomba lançada sobre uma cidade vizinha
matou mais árabes do que o número de anos de minha idade, além de ferir
vários outros. Escrevi uma carta de pêsames ao paxá, o que poderia estimulá-
lo mas não ressuscitaria os árabes.
Marquei para às 10 horas uma reunião com todos os aviadores e oficiais da
defesa aérea, a fim de discutir o plano de defesa e efetuar as correções
necessárias. Chegamos à conclusão de que tudo correra de forma satisfatória,
mas que havia necessidade de pequenas alterações. Os danos materiais foram
praticamente nulos. Parece que os bombardeiros alvejaram o campo aberto
ou o meio das ruas. O porto não sofreu nenhum impacto.
Lembro-me de que, ao ver o último bombardeiro passar sobre o nosso
edifício, George Meeks19 disse: “Senhor, se a minha sela estivesse aqui,
poderia lançá-la sobre aquele avião e cavalgá-lo”.

A VISITA DO SULTÃO À CASABLANCA


12 e 13 de janeiro de 1943
Há duas semanas atrás o tio do sultão, que reside em Casablanca, perguntou
se eu gostaria de visitar o palácio do sultão na cidade e confessou-me que o
sultão queria muito estar presente por ocasião da visita, mas não poderia vir
a Casablanca sem uma razão que justificasse a viagem. Decidimos, então,
homenageá-lo com uma demonstração de todo o armamento e viaturas
motorizadas existentes na minha grande unidade; resolvemos, também,
convidar os franceses.
Esta demonstração tinha dupla finalidade. Em primeiro lugar, impressionar
os franceses e os árabes com o nosso poderio; depois, com uma tal
demonstração de poder, apagar a marca da derrota imposta aos franceses
que, com os meios de que dispunham, evidentemente não poderiam enfrentar
o nosso poder de fogo. É claro que não mencionamos o fato de o nosso
equipamento pesado ainda não ter sido desembarcado na época em que se
travara a luta.
Na tarde do dia 10 de janeiro dirigi-me ao palácio do sultão e fui recebido
pelo chefe do Protocolo. Na ocasião chegaram também os outros oficiais,
inclusive alguns franceses; tivemos uma audiência com o sultão, cabendo a
mim falar pelos militares, conforme indicara o chefe do Protocolo. Voltamos
àquele tipo irritante de conversação: eu falava com o chefe do Protocolo em
francês, o Protocolo falava com o sultão em árabe e a resposta vinha pelo
mesmo caminho. A nossa guarda de honra consistia de uma companhia de
carros de combate leves, alguns motociclistas da Infantaria francesa e alguns
motociclistas da nossa Polícia do Exército. No primeiro carro viajavam o
sultão, seu filho e o chefe do Protocolo; eu e o General Keyes viajávamos no
segundo; seguiam-se os dozes apóstolos, que eram todos vizires, conforme
descobri. Nos demais carros vinham os oficiais americanos e franceses. A
comitiva somava cerca de trinta automóveis.
O local da demonstração fora muito bem arrumado pelo Coronel
Williams20. As guarnições estavam em posição de sentido e a munição de
todas as armas apresentava-se exposta na frente de cada viatura.
Na entrada do local da demonstração a minha viatura-comando esperava
pelo sultão; depois que a banda executou os três hinos nacionais, ajudei o
sultão a entrar na viatura. Neste momento ele determinou que eu o
acompanhasse. O General Noguès protestou, pois avisara-me com
antecedência que jamais um estrangeiro viajara ao lado de Sua Majestade.
Mas o sultão declarou que o problema era dele e que eu seguiria ao seu lado,
o que fiz sentando-me à sua direita. O sultão convidou o General Noguès
para sentar-se à sua esquerda e o príncipe Imperial ocupou um lugar no
assento da frente. Dizem que esta foi a primeira vez que um estrangeiro
viajou ao lado do sultão.
Desfilamos lentamente na frente de cada viatura; dentro das minhas
possibilidades, expliquei o papel de cada uma delas falando francês
diretamente com o sultão — cujo francês era muito melhor do que o meu.
Quando chegamos na frente do caminhão-lavanderia não consegui lembrar a
palavra correspondente em francês e disse: “Não consigo lembrar o nome
disto”. A resposta veio em inglês perfeito: “O senhor quer dizer caminhão-
lavanderia”, o que derrubou o mito de que ele não falava inglês.
Depois desta visita dirigimo-nos ao campo de pouso, onde o Coronel
Beam21 preparara uma excelente demonstração de todos os tipos de avião. O
sultão inspecionou todos os aparelhos com muito interesse e o príncipe
Imperial subiu em todos eles e mexeu nos controles.
Dali passamos ao porto e percorremos o cais. O Almirante Hall levou o
sultão e os membros graduados da comitiva, inclusive os vizires, para o
contratorpedeiro Wainwright, onde assistiram a um exercício de combate.
A maioria dos vizires andava por volta dos 90 anos de idade e não podia
subir escadas; fiquei junto com eles, em conversa amistosa e contando
anedotas. É falsa a teoria de que os árabes não têm senso de humor.
Voltamos com o sultão para o palácio e entramos na sala de audiência; lá,
tive que falar em francês para o chefe do Protocolo e ele em árabe para o
sultão. Então, com um sorriso alegre, o sultão declarou que se sentiria
honrado se eu pudesse acompanhá-lo no almoço do dia seguinte, 13 de
janeiro. Respondi que estava encantado com o convite e indaguei se poderia
trazer comigo o General Clark22. Por fim, voltei para casa.
Logo depois do jantar o Protocolo telefonou e anunciou que o General Clark
não deveria comparecer. Fiquei irritado e ofereci-me para também não
comparecer, mas Clark disse-me que honrasse o compromisso. Foi sábia a
decisão de Clark, pois descobri que o cancelamento do convite se deveu ao
fato de o Protocolo julgar Clark em posição elevada demais para ser
convidado de maneira tão informal. Fiquei muito satisfeito quando soube do
motivo verdadeiro.
Chegamos ao palácio às 13h30min e fomos recebidos com a guarda de honra
de um batalhão de Infantaria nativo, do lado de fora, e por duas bandas de
música e uma companhia da Guarda negra, do lado de dentro.
Conduziram-me, sozinho, para a sala de audiências; iniciei a conversa
através do Protocolo, mas o sultão interrompeu o intérprete e falou
diretamente comigo, em francês. Depois de havermos conversado durante
um tempo que me pareceu enorme, permitiram a entrada de outras pessoas.
Neste momento, a abertura de uma imensa porta dupla de madeira entalhada
anunciou que o almoço estava servido. Foi a sala de jantar mais bonita em
que havia entrado até então. Com cerca de 4,5 metros de altura, era toda em
mármore preto e branco; o teto, em forma de abóbada, era de madeira
entalhada. O mármore negro do chão tinha como arremate um rodapé
também de mármore. A sala era toda cercada por meias-colunas brancas, em
estilo dórico. Disse ao sultão que jamais vira uma sala tão linda, e ele
concordou comigo.
Sentei-me entre o sultão e o príncipe Imperial; o restante do pessoal foi
separado em grupos de árabes, franceses e americanos. Serviram-nos um
almoço com dez pratos diferentes, terminando com cuscuz e sorvete.
Durante a refeição, que durou três horas, falei francês todo tempo com o
sultão e o príncipe Imperial, e ambos me entenderam.
Terminada a refeição, atravessamos um jardim realmente lindo e
caminhamos em direção a um pavilhão construído todo de mosaico, chão e
paredes, por dentro e por fora, e decorado com peroba entalhada. Todos os
batentes eram de bronze. Depois de tomar uma xícara de café e conversar
mais um pouco, atravessamos uma fila dupla da Guarda negra e nos
dirigimos a outro pavilhão, chamado Pavilhão da Felicidade. Entrava-se nele
passando por um jardim abaixo do nível do solo, onde havia uma fonte.
O interior do Pavilhão da Felicidade é todo de mármore branco e alvenaria,
dividido ao meio por uma plataforma elevada que repousa sobre colunas de
mármore branco. Sentamo-nos na metade que ficava à direita; o pessoal
menos graduado sentou-se na metade à esquerda, onde também se achava
uma orquestra nativa.
Em frente ao sultão e a mim havia nove qualidades diferentes de doces, cada
tipo com mais de cem exemplares. Tudo isto arrumado em bandejas de prata,
apoiadas sobre pés com cerca de 30 centímetros de altura. Depois de
conversarmos um pouco, os criados colocaram as bandejas ao nosso alcance.
Que eu haja visto, ninguém, inclusive o sultão, comeu mais do que um doce.
Ao mesmo tempo, serviram-nos chá quente.
Depois de sorvermos a segunda xícara de chá as bandejas foram retiradas e
entrou o fotógrafo oficial para bater as fotografias. Quando me preparava
para sair, o sultão levantou-se e pediu-me que ficasse de pé à sua frente.
Condecorou-me, então, com a Grã-Cruz da Ordem de Ouissam Alaouite,
com uma faixa cor de abóbora e bordas brancas passando sobre o meu
ombro direito e uma medalha pendendo sobre o quadril esquerdo. A faixa
tinha uns 10 centímetros de largura. Recebi também uma estrela de prata em
bom tamanho; esta era a condecoração ostentada normalmente, pois a faixa
só era usada em uniforme de gala. O sultão declarou que me condecorava
pelos serviços que prestara ao Marrocos. Em resposta, declarei que nada do
que houvesse feito pelo Marrocos compensaria a honra de ter recebido tão
elevada condecoração; achei que isto era o correto para declarar naquele
momento. O diploma respectivo continha uma citação: Les lions dans leurs
tamères tremblent à son approche.

O General Heyes, o General Wilbur23, o General Wilson24 e o Almirante


Hall receberam a mesma condecoração na graduação imediatamente
inferior. Grande Oficial. O Coronel Gay25 e o Coronel Conard26 receberam
a Ordem na graduação seguinte, com uma fita ao redor do pescoço,
correspondente a Comendador.
Dirigimo-nos, depois, para a piscina, situada para além do salão de recepção.
Era a piscina mais bonita que eu já vira, com luzes subaquáticas verdes e
vermelhas e um trampolim de duralumínio. A altura do trampolim era
regulada por dispositivo elétrico, acionado com o pé. Em um dos lados havia
um aparelho para remar no seco e um saco de areia para treinamento de
socos. Um dos vizires, que parecia particularmente interessado por mim,
explicou-me que existiam grandes quantidades destes aparelhos em todo o
Marrocos porque, como as mulheres precisavam fazer exercício e eram
proibidas de fazê-lo em público, a solução era recorrer aos aparelhos.
Passamos outra vez pela fila dupla da Guarda negra e entramos na sala de
audiência, onde o sultão voltou a falar árabe; depois de conversar durante
dois minutos, preparei-me para sair. Quando me levantei o sultão declarou
esperar que o almoço constituísse o início de uma amizade longa e
permanente entre nós dois e os nossos países. Respondi-lhe que faria tudo o
que fosse possível para tornar o fim desta amizade tão feliz e auspicioso
quanto o fora o seu início.
VISITA A MARRAKESH E CAÇADA AO JAVALI
Casablanca
1 de fevereiro de 1943
De há muito o paxá de Marrakesh insistia comigo para que fosse visitá-lo; na
tarde do dia 1 de fevereiro, eu, o General Wilbur, o Coronel Gay, o Coronel
Williams, o Coronel Davidson27 e o Capitão Jenson28 voamos para
Marrakesh. Fomos recebidos no aeroporto por um batalhão de Infantaria, um
general francês e o paxá. Visitamos primeiro o General Martin, comandante
do Distrito, e depois fomos para o palácio.
O palácio do paxá ocupa cerca de dois quarteirões da cidade e é totalmente
cercado por muro. Para chegar a ele trafega-se por uma rua que mal dá para
passarem dois carros e entra-se por um portão muito estreito. Cruzado o
portão, chega-se a um belo jardim com uma fonte toda de mármore e duas
estátuas de leões de mármore branco.
O paxá dispõe de três casas de hóspedes, cada uma das quais custou, na
minha opinião, um milhão de dólares. A casa destinada a mim e ao General
Wilbur tinha, no andar térreo, um museu e o gabinete particular do paxá. O
museu abrigava de tudo, desde moedas romanas até os tipos mais modernos
de arma de fogo. A coleção de espadas era fabulosa; tenho certeza de que
uma das que vi era uma espada de cruzado. Eu não podia exprimir nenhuma
admiração por qualquer peça do museu porque, se o fizesse, ela me seria
presenteada imediatamente. De qualquer maneira, tratava-se de peças
interessantes. Vi uma cota de malha em perfeitas condições, provavelmente
por causa do clima seco que impedira que ela se enferrujasse. Vi também a
parte das costas e a parte da frente da armadura a ser usada sobre a cota;
datavam do ano 1400, eram bastante pesadas e entalhadas a ouro. Entre
outras peças o museu abrigava um aparelho de porcelana que o Presidente da
França presenteara ao paxá.
No segundo andar da casa havia um aposento espaçoso, com cerca de 30
metros quadrados, com várias cabinas junto às paredes, como as que
existiam nos locais de telefones públicos, só que as divisões eram de madeira
entalhada e pintada. Perto da entrada deste aposento havia um bar com todos
os tipos de bebidas, só que parecia que ninguém fazia uso delas.
Meu quarto ficava no outro andar e, na realidade, consistia de um quarto de
dormir ligado a um quarto de vestir e dispondo de um banheiro moderno e
completo. As paredes eram pintadas de branco. Meus aposentos
compreendiam uma sala de estar com cerca de 35 metros quadrados,
mobiliado com um sofá que circundava a sala inteira; o teto e as paredes
eram as coisas mais lindas que se podia imaginar. De dois metros de altura
para cima, até o teto, as paredes eram trabalhadas em gesso com desenhos
árabes delicados. O paxá explicou que os desenhos haviam consumido um
ano de trabalho, o que não me pareceu exagero. De dois metros para baixo a
parede era formada por um mosaico de ladrilhos brancos, vermelhos e
amarelos.
No fim do corredor que levava aos meus aposentos havia um árabe a quem o
paxá se referiu como escravo. Era bastante cortês e estava armado com uma
adaga; passou o tempo todo tentando descobrir o que poderia fazer por mim.
A casa ocupada pelos outros oficiais era igual à minha, mas creio que tinha
um número maior de aposentos, cerca de quatro ao todo. As camas eram
cobertas com veludo, sobre o qual se colocavam as colchas bordadas. Cada
quarto de dormir dispunha de um banheiro moderno.
Depois de meia hora de abluções, o que parecia ser uma regra da casa,
dirigimo-nos para uma terceira residência, construída no mesmo estilo das
outras, e fomos servidos de chá. Depois, o cadi, que era filho do paxá, levou-
nos para visitar a cidade e os campos adjacentes, tudo pertencente ao paxá.
Existiam diversos tanques enormes, feitos de concreto com cerca de 200
metros de lado e 3 metros de profundidade. O guia contou-me que um sultão
afogara-se em um dos tanques, embora ele acreditasse, pessoalmente, que o
sultão fora assassinado; e mostrou-me o bote em que ocorrera o acidente.
Tratava-se de uma lancha a vapor, do ano de 1880; a embarcação tinha uns
nove metros de comprimento, achava-se em péssimo estado, mas já ostentara
as cores amarelo e verde e um desenho pintado em dourado.
O diffa, ao qual só compareceram cerca de doze pessoas, obedeceu ao
padrão normal, com a diferença que tudo tinha mais elegância. Na realidade,
tendo servido no Marrocos durante quarenta anos, o General Martin declarou
que jamais havia visto um banquete como aquele. Depois do jantar,
passamos para uma sala onde dois grupos de dança apresentaram um
espetáculo que durou uma hora. As dançarinas aparentavam uns trinta anos
de idade e me pareceram altamente treinadas. Cada uma vestia um traje de
fazenda estampada coberto por um tipo de sobrepeliz de renda. Cada grupo
compunha-se de seis moças e um violinista, tocando o único instrumento
musical que acompanha as danças. Quatro moças marcam o compasso e
fazem o coro vocal enquanto as duas outras executam uma espécie de dueto.
Giram por algum tempo em ritmo de valsa, levantam uma das pernas três
vezes e, depois, movimentam-se rapidamente em ritmo de hula durante um
minuto. Em seguida incorporam-se ao grupo e duas outras moças executam
os mesmos movimentos. A cena repetiu-se o tempo todo, até o fim do
espetáculo.
Fomos despertados às 6 horas da manhã do dia 3 para um desjejum ligeiro,
que ocupou cinco criados para servirem a mim e Wilbur; consistiu de café,
torradas, três tipos de compotas, chá, quatro espécies de doces e alguns
bolos, parecidos com nossos bolos de aveia, porém menos cozidos. Depois
do café, vi que os cinco criados estavam comendo o que sobrara; o que nos
fora servido daria para alimentar umas quinze pessoas.
Às 7 horas, quando saímos do palácio, estava escuro como breu. Viajei em
um Rolls-Royce, junto com o paxá e seu guarda-costas. Os outros nos
acompanharam em dois carros, em companhia do filho do paxá. Viajamos
350 quilômetros pelo deserto até o sopé das montanhas Atlas. Nesta região,
na sua juventude, o paxá participara de combates; era interessante ouvi-lo
descrever os combates dos quais participara. Ele era berbere e durante três
séculos sua família governara esta parte do país como líderes absolutistas. Eu
nunca tinha visto um homem com qualidades de liderança hereditária tão
evidentes. O seu sentimento de superioridade é tão arraigado que ele não
precisa mencioná-lo. Por onde passávamos os árabes faziam uma reverência
e executavam uma saudação hitlerista um pouco modificada. No que dizia
respeito ao paxá, esta gente nem existia; por outro lado, durante uma
refeição, ele ajudava a retirar os pratos servidos e a recolher as migalhas. De
perfil, parecia-se com uma múmia egípcia com a pele cor de café com leite.
Suas mãos eram delicadas.
O paxá confidenciou-me que os árabes jamais ousariam lutar contra os
berberes, exceto em áreas edificadas, e que nos seus dias de combates os
berberes só dispunham de espingardas; assim, a única maneira que ele
encontrava para matar árabes — e havia liquidado várias centenas deles —
era infiltrar-se em uma casa guarnecida, durante a noite, e colocar uma
bomba lá dentro. Nesta operação, fabricavam o estopim com os fios dos
próprios bigodes e pedaços de tecido das próprias túnicas, impregnando- os
com pólvora. Quando clareava o dia, os berberes avisavam aos árabes que
iam dinamitar a casa, se eles não saíssem. Quando os árabes saíam, eram
fuzilados, e o paxá acompanhava a narração fazendo o gesto adequado.
Quando os árabes se recusavam a sair, os berberes abriam um buraco na
parede, invadiam a casa e matavam os árabes a espada. Descreveu-me um
combate em que atacou com dois pelotões, durante cerca de doze horas, mais
de mil árabes.
Este combate ocorrera justamente na estrada pela qual viajávamos. Parece
que desta vez os árabes não estavam dentro das casas. Um dos pelotões fixou
os árabes pelo fogo enquanto ele, à testa do outro pelotão, comandou uma
carga contra os flancos. O paxá continuou dizendo que tudo foi muito
divertido e que quase todos os seus homens morreram, bem como os árabes.
Mostrou-me inclusive um bosque de oliveiras onde, segundo ele, ficaram
tantos árabes mortos que os chacais adoeceram por excesso de comida.
Os campos eram cobertos por amendoeiras, o que tornava a paisagem muito
bonita. Vistos do ar, pareciam ramalhetes de plantas ou pedaços de teia de
aranha cobertos pelo orvalho. Quando você se aproxima, as amendoeiras
ficam parecidas com as cerejeiras, só que são mais bonitas e em número
muito maior do que qualquer conjunto de cerejeiras que eu tivesse visto. Os
árabes têm uma tradição: quando um homem se casa, ou quando lhe nasce
um filho, os amigos vêm visitá-lo trazendo cinco sementes de amêndoa, cada
um, e todos se reúnem para plantá-las. Isto justifica a quantidade de
amendoeiras.
Depois de viajarmos 200 quilômetros, paramos em uma tenda, onde nos foi
servido um novo desjejum, com bolos, vinho e café, e onde encontramos seis
oficiais franceses. Também se encontrava no local um bom número de
goums, armados com carabinas, montando um cavalo e puxando um outro.
Recebi um belíssimo garanhão árabe. A sela era uma cópia exata da sela
militar que comprei no Jannin, em Saumur, em 1912. O paxá cavalgava em
uma mula, grande e preta, com uma sela vermelha que tinha uma forma
parecida com a de uma banheira. Montados, marchamos montanha acima
durante uma hora. Além dos soldados montados, havia um número
equivalente de homens a pé que carregavam espingardas de caça para os
homens montados ou simplesmente nos seguiam por prazer. Nós
marchávamos em bom trote, mas estes homens nos acompanhavam com
facilidade, descalços e passando por terreno pedregoso e alguns cactos.
Quando chegamos na posição preparada, o próprio paxá designou as
posições dos hóspedes importantes. Fiquei à sua esquerda, evidentemente o
melhor lugar. Wilbur ficou ao meu lado; os Coronéis Gay e Williams ficaram
à direita do paxá. Cada posição estava coberta por galhos cortados. A frente,
meu campo de visão abrangia uns 15 metros.
Depois que todos ocuparam suas posições, cerca de mil batedores iniciaram
o trabalho. Primeiro, surgiram chacais e raposas fugindo em grande
velocidade de dentro do mato; errei três tiros, como todo o resto do pessoal.
Então surgiu um javali de bom tamanho bem em frente do paxá, que errou o
tiro mas apanhou rapidamente seu fuzil Mannlicher e atirou na direção do
javali e dos criados que estavam fugindo do animal; felizmente ninguém foi
atingido, nem mesmo o javali.
Neste momento, sobre as pedras na encosta abaixo de mim e avançando na
minha direção, surgiu o javali maior e mais negro que eu já vira. Acertei-o
no olho esquerdo com uma bala, quando o animal encontrava-se uns 10
metros na minha frente; o impulso do bicho fez com que ele viesse cair tão
perto de mim que chegou a manchar-me de sangue. Foi realmente
emocionante; se não o houvesse atingido, provavelmente ele me teria
atingido, e o animal tinha dentes afiados.
Um outro javali surgiu no local onde o paxá atirara sobre os criados e pôs
todos eles em fuga, outra vez. Todos atiraram, menos eu; felizmente
ninguém foi atingido, exceto o javali.
Encerrada esta batida, descemos a colina cerca de 500 metros; iniciou-se o
que eles denominam de contrabatida, isto é, fazer os bichos retornarem ao
lugar de onde fugiram. Desta vez matei um chacal, mas não atirei em
nenhum javali. Com o fuzil, o paxá matou mais dois javalis. Ao todo,
matamos 14 javalis, 5 chacais, 3 raposas e 2 coelhos.
Regressamos à tenda, onde havia mais alimentos esperando por nós, e fomos
avisados de que o chefe local nos esperava com um diffa. Comparecemos ao
local, que era uma aldeia com uma única edificação como Ouarzazate, só
que um pouco menor; tinha cerca de trezentos habitantes, todos reunidos no
pátio onde cantaram e dançaram durante toda a refeição.
Como eu tinha que tomar o avião de volta antes das 17 horas, o banquete foi
rápido, isto é, não durou mais de uma hora e meia; pois bem, nem por um
instante os habitantes pararam de cantar e dançar.
Durante o voo de regresso, despertou a minha atenção o fato de a terra
aparecer toda marcada por locais onde os árabes armaram tendas. As marcas
deixadas na terra pareciam mordidas de sanguessugas nos pelos dos cavalos.
O grande número de marcas revela que este país é habitado há muito tempo.
Eu sempre alimentara o desejo de encontrar um depredador na sua própria
terra e de realizar uma caçada emocionante, cercada de algum perigo. O paxá
e o javali, que foi o maior animal morto na caçada, satisfizeram o meu
desejo.

PARADA DA VITÓRIA EM TÚNIS,


20 DE MAIO DE 194329
Quartel-General do / Corpo Blindado 20 de maio de 1943
Na noite do dia 18, o General Eisenhower telefonou solicitando que eu e o
General Bradley30 comparecêssemos à parada, provavelmente sentindo que
havíamos contribuído com alguma coisa para que ela se realizasse.
Arranjamos um B-25 com o General Cannon e voamos a mais de 400
quilômetros por hora, com vento de cauda; chegamos a Túnis às 9h45min.
Achamos o voo muito interessante, pois sobrevoamos a maior parte do
campo de batalha de Bradley. Passamos também sobre as ruínas de Cartago,
apenas assinaladas no mapa — não há nada para ver no chão. Entretanto,
senti-me perfeitamente familiarizado com as montanhas ao fundo da antiga
cidade, cuja descrição lera em um livro velho.
Nosso bombardeio de Túnis foi muito preciso; enquanto o cais ficou
praticamente destruído, o restante da cidade quase não sofreu nenhum dano.
Todos os campos de pouso estavam junca- dos de aviões alemães destruídos,
provavelmente várias centenas deles.
Quando chegamos ao aeroporto, o General Eisenhower acabara de chegar no
carro dirigido por Kay31. Trocamos apertos de mão e apresentamos nossos
parabéns, mas ele estava tão atarefado com a recepção de oficiais-generais
dos Exércitos francês e inglês que não tivemos tempo de conversar com ele.
Logo depois de nós chegou o General Giraud32, recebido calorosamente por
todos. Em seguida as “sagradas famílias” embarcaram nos automóveis,
escoltados por carros blindados ingleses; seguimos atrás da escolta, tendo o
General Catroux33 por companhia. Ele falava o francês mais compreensível
e elegante que eu já ouvira; mantivemos uma conversa agradável.
Eu e Bradley fomos colocados do lado direito do palanque, praticamente
todo ocupado por civis franceses e militares de menor graduação.
Imediatamente na nossa frente havia uma fila de soldados da Infantaria
Colonial francesa, de pele absolutamente negra, embora eu não creia que
fossem senegaleses. Do outro lado ficou um batalhão de um dos regimentos
de Guarda ingleses, cuja postura militar era irrepreensível.
Logo à minha esquerda estava um corpulento prelado francês com uma faixa
cor de púrpura na cintura, servindo de fundo para uma cruz magnífica com
uma ametista incrustada. Não sei quem era o homem, mas parece que era
muito querido pois vários oficiais e soldados franceses vieram apertar-lhe a
mão e chamavam-no de general. Acho que ele falava inglês, pois parece que
entendeu o que eu disse a Bradley.
Soaram várias cornetas, todos fizeram continência e estouraram fogos de
artifício. Foi engraçado observar a mudança de expressão do povo —
praticamente todos acostumados aos bombardeios — quando verificou que
não se tratava de ataque aéreo.
O barulho todo anunciava a chegada do General Giraud e do General
Eisenhower, seguidos pelo Almirante Sir Andrew Cunningham34, General
Sir Harold Alexander35, General Anderson36, Marechal-do-Ar Tedder37,
Marechal-do-Ar Conyngham38, senhor Macmillan39, funcionário político
inglês, e senhor Murphy40, o seu equivalente americano. O senhor Murphy e
o General Eisenhower eram os dois únicos americanos no palanque.
O acontecimento seguinte foi o desfile de uma banda de gaita de fole dos
Highland, creio que do 42º Regimento. Desfilaram no tradicional meio-
passo, recuo do pé e complementação do passo. Foi uma demonstração
perfeita.
Seguiu-se a banda da Legião Estrangeira, com os tradicionais bonés brancos
e dragonas vermelhas, contando mais de cem instrumentos e liderando o
contingente francês.
Durante quase uma hora desfilaram as tropas francesas que haviam tomado
parte na batalha. Como sempre, desfilaram de forma magnífica. Elas
possuem uma habilidade inata para desfiles marciais, bem como para
qualquer outro tipo de marcha. O contingente francês compreendia tropas
brancas, senegaleses, goums e a Legião Estrangeira. Os legionários
apresentaram-se em excelente forma, com bigodes enormes, alguns ruivos
ou louros. Na realidade, pareceu-me que a Legião Estrangeira francesa era
integrada, em grande parte, por alemães e suecos. Tinha uma aparência
garbosa.
O que impressionava era o fato da Legião haver participado de uma
campanha vitoriosa equipada com armamento modelo 1914; apesar disto,
atuaram muito bem. É claro que, agora, a Legião vai ser toda equipada com
material fornecido pelo Empréstimo e Arrendamento americano. Durante a
campanha o único equipamento americano utilizado pelos legionários foram
algumas submetralhadoras Thompson e alguns lança-rojões.
Cada regimento e batalhão independente francês conduzia uma bandeira
nacional bordada com os nomes dos grandes feitos da unidade. Entretanto, o
número de bandeiras obrigava os assistentes a constantes continências.
Após o desfile dos franceses, surgiu um batalhão da 34ª Divisão de
Infantaria. O aspecto físico dos nossos homens era excelente, todos bem
uniformizados, mas não transportavam bandeiras, nem sequer os símbolos
das companhias; os comandantes de regimento marchavam na coluna da
direita, quase colados na testa da primeira companhia da unidade.
Apesar do excelente aspecto físico, nossos soldados não constituem um
espetáculo durante os desfiles. Acho que ainda nos falta o orgulho de sermos
soldados, e devemos cultivá-lo.
Depois dos americanos desfilaram os ingleses. O contingente constava de
uma representação de cada divisão do 1º Exército, comandada pelo
comandante da divisão, e as divisões constituídas em corpos de exército,
também comandados pelos respectivos comandantes. As unidades da Guarda
eram compostas por homens de estatura elevada; as demais por gente de
baixa estatura. O uniforme de todos eles era de bermudas, exceto o dos
gurkhas41, que são de estatura baixa e que além da baioneta carregam uma
faca enorme.
Os ingleses também compreendem a arte do desfile marcial e apresentaram
um espetáculo realmente esplêndido. Havia um primeiro-sargento que
deveria ser imortalizado em um quadro. Ele representava tudo o que existia
de grandioso no quadro de graduados do Exército inglês, e tinha consciência
disto. Nunca vi um homem tão empertigado.
Depois da Infantaria inglesa desfilaram os carros de combate americanos
tripulados por ingleses, o carro de combate britânico Churchill e alguns
canhões de campanha.
O desfile inteiro durou cerca de duas horas e meia. Terminado, cerca de
trinta pessoas foram convidadas para o almoço oferecido pelo General
Giraud na Residência francesa. Tratava-se de uma reunião formal, mas não
houve nenhum brinde. Além do mais, quase todos nós tínhamos que sair
logo para estarmos de volta aos nossos postos antes do anoitecer.
Espero que este seja apenas o primeiro dos muitos desfiles triunfais a que
terei de comparecer.
O voo de regresso foi muito rápido porque o vento mudara de direção.
Tínhamos um vento de cauda com velocidade de 40 quilômetros por hora;
por isto, chegamos mais cedo do que o previsto e tivemos que esperar meia
hora no aeroporto.
Durante o almoço encontrei o meu amigo General Briggs, comandante da 1ª
Divisão Blindada inglesa, e tive a oportunidade de apresentá-lo ao General
Harmon, que comanda a nossa 1ª Divisão Blindada. Os dois são muito
parecidos e ambos são bem sucedidos nos respectivos comandos.
O General Giraud reconheceu-me imediatamente e suas observações só
faziam elogiar-me. O general é uma figura marcante e parece representar um
Vercingetorix42.

OBSERVAÇÕES SOBRE OS ÁRABES


Casablanca
9 de junho de 1943
Levei muito tempo para perceber o quanto um estudioso da história medieval
pode lucrar através da observação dos árabes.
Todos os integrantes da nossa civilização tingida de petróleo imaginam as
estradas como lajes de concreto ou camadas de asfalto, ou pelo menos como
vias de comunicação limpas e niveladas, cheias de sulcos de rodas. Na
realidade, as estradas, ou talvez seja melhor chamá-las de trilhas, existiram
milhares de anos antes dos homens sonharem com a invenção da roda; foi
através destas estradas que os nossos progenitores, descalços ou calçando
sandálias, deslocaram-se de um lugar para outro exatamente como o fazem
os árabes hoje em dia.
Vista do ar, a estrada árabe parece um rendilhado de pegadas individuais
ligeiramente sinuoso. Quando o terreno é favorável, este conjunto de
pegadas pode espalhar-se por uma largura de 30 a 40 metros; quando se trata
de desbordar afloramentos rochosos ou atravessar vegetação espinhosa, o
conjunto de pegadas concentra-se no foco e forma uma senda singular, para
espraiar-se outra vez quando o terreno volta a melhorar. Em nenhuma parte
nota-se sulco de roda nem marca de salto de sapato, porque os árabes usam
sandálias sem saltos ou andam descalços; os animais andam desterrados e
não existem veículos.
Nas regiões secas, em geral, as estradas são retas, mas não no brutal sentido
matemático do termo. São retas apenas enquanto um homem puder andar em
linha reta de um ponto a outro, ou tão retas quanto o muco seco deixado pela
lesma ao atravessar uma calçada.
Nas regiões litorâneas, onde chove, existem estradas alternativas. O traçado
principal segue a linha de crista pelo mesmo motivo que, no nosso oeste, as
trilhas dos índios, as sendas dos búfalos e até as estradas construídas pelos
pioneiros estendiam- se pelo terreno elevado. Durante a estação seca, as
sinuosidades da estrada na crista são encurtadas através de trilhas que se
desenvolvem em terreno baixo e que são impraticáveis na estação chuvosa.
Nas florestas, as estradas são muito mais sinuosas. Os homens que as
constroem não conseguem enxergar muito longe; por isto o traçado fica
cheio de curvas e segue apenas uma direção geral.
Não é preciso muita imaginação para transformar o árabe montado no seu
garanhão branco e homens e mulheres montados em jumentos nos peregrinos
de Canterbury, enquanto o homem a pé, equipado com um bastão grande e
um punhal, pode ser facilmente confundido com frei Tuck, João Pequeno ou
Robin Hood. Esta semelhança não se aplica apenas ao traje, com exceção do
turbante, mas também às costeletas, à sujeira e provavelmente ao padrão
moral; só sabem falar e não param de falar, Não dispõem de outro recurso.
Poucos sabem ler; não há livros, nem jornais, nem rádios para distraí-los.
Restam as palavras faladas, que na realidade são “palavras aladas” voando a
uma velocidade de 60 a 80 quilômetros, conforme deduzimos durante os
combates na Tunísia através da comparação da origem de um boato com a
hora em que o fato que lhe dera origem realmente ocorrera.
É claro que os boatos continham dados errados mas, de modo geral, eram um
pouco menos truncados do que algumas notícias recebidas através do rádio.
Nos boatos, muitas vezes os carros de combate eram anunciados como
caminhões e os caminhões como carros de combate, e os efetivos sempre
atingiam proporções astronômicas, mas isto é coisa que acontece. Certa
ocasião perguntei a um fazendeiro na Virgínia quantos soldados ele havia
visto; respondeu-me: “Bem, não tenho certeza, mas acho que cerca de um
milhão”. E ele sabia ler e escrever, e possuía um rádio.
Durante muito tempo fiquei bastante intrigado ao ver grupos de árabes
acocorados na poeira ou na lama — não sei como evitavam as hemorroidas
— e batendo papo. Satisfiz a minha curiosidade por acaso, ao ouvir um
soldado referir-se a tais grupos como “a edição matinal do jornal do dia”.
Os costumes agrícolas dos árabes constituem uma mistura estranha do velho
com o novo. Máquinas colhedeiras trabalham ao lado de Rute e Noemi43 —
muitas Rutes e Noemis — cortando o trigo com foice e atando cada paveia
com um fio de palha. Todavia, mesmo utilizando máquinas modernas
continua flagrante a influência da trilha, porque o árabe não aprendeu a
conduzir animais atrelados em parelhas. Por isto, vê-se uma colhedeira ou
uma ceifadeira tracionadas, não por uma ou duas parelhas de cavalos, e sim
por quatro cavalos um atrás do outro, cada cavalo montado por um homem,
enquanto um ou dois homens operam a máquina. E até hoje utilizam também
os respigadores, como nos tempos bíblicos.
A debulha realiza-se em chão de terra, obrigando os cavalos a andarem ou
trotarem, em círculo, sobre as espigas — e lançando estrume durante o
trabalho. Em alguns lugares, deixam os animais caminharem à vontade,
enquanto em outros os animais tracionavam pequenos rolos. Ao fim de
alguns dias desta operação, homens armados com garfos de madeira com três
dentes atiram a palha para o ar e o vento sopra-a para longe. Por último,
usando peneiras de palha, as mulheres jogam para o alto o que sobrou de
grãos e estrume, cumprindo a fase final do joeiramento e limpando pelo
menos a metade dos excrementos e da poeira.
A cerimônia fúnebre também é bastante estranha. Existe em vários lugares,
normalmente no topo das colinas, uma construção pequena, quadrada,
pintada de branco e com o teto em forma de abóboda, onde estão enterrados
os restos de um homem santo. Estas tumbas de Marabouts44 não são igrejas,
nem santuários, mas simplesmente túmulos. É hábito enterrar os mortos nas
vizinhanças dessas tumbas, sem assinalar o lugar sequer com um montículo
de terra. Na realidade, nossos soldados pisaram inadvertidamente em muitas
dessas sepulturas.
Do ar, é fácil identificar as sepulturas agrupadas em torno da tumba do
Marabout, ou reunidas no topo de uma pequena colina. Parece que os árabes
depois de mortos conservam o pavor pela água que os atormenta durante a
vida.
Certo dia vi um funeral notável pela sua simplicidade rude. Na carreta da
frente iam diversos velhos sentados no chão da viatura; entre os pés deles
estava o cadáver, enrolado em um lençol branco e com a metade das pernas
para fora da carreta, balançando no ar. Atrás vinham outras carretas, uma
carroça de quatro rodas, alguns ciclistas e homens e mulheres a pé, uns trinta
ao todo.
A influência árabe na Espanha e na América Latina realçou-se com a
aproximação do verão. Surgiu uma abundância de chapéus multicores de
palha, exatamente iguais aos que conhecemos nos Estados Unidos, exceto
que os daqui são muito maiores porque são usados por cima dos turbantes.
Nunca obtive uma explicação satisfatória para o turbante — a explicação
mais comum é de que se trata de uma proteção para a cabeça contra o sol
tropical; não a considero válida porque muitos árabes, principalmente os do
exército, usam turbantes que não passam de um trapo enrolado na cabeça,
deixando descoberta a parte central do crânio.
Uma outra semelhança entre o árabe e o mexicano é a extrema impiedade
como ambos tratam os animais. Um árabe ou um mexicano jamais pensariam
em retirar a carga de um animal durante um alto prolongado. Se o animal
ficar esfolado, o árabe é incapaz de aplicar toucinho na ferida, procedimento
normal entre os mexicanos. Deixa-a sangrar e confia em Alá. Estar
estropiado não constitui motivo para deixar um cavalo sem trabalhar.
Todos os animais são retardados e muitos são cegos por causa do hábito
comum de golpeá-los na cabeça com uma vara.
O método de castração de ovinos e bovinos é indescritivelmente cruel. Acho
que os cavalos e os jumentos não são castrados porque seus órgãos genitais
não permitem a aplicação do método árabe.
Não se pode deixar de indagar: o que aconteceria se os árabes fossem
cristãos? Tenho certeza que o motivo principal da contenção do
desenvolvimento árabe reside na doutrina fatalista de Maomé e na
degradação suprema das mulheres. O árabe permaneceu onde se achava no
ano 700, enquanto nós continuamos a progredir. Eis aí um tema para um
excelente sermão sobre as virtudes do Cristianismo.

CERIMÔNIA REALIZADA NO QUARTEL-GENERAL DO I CORPO DE


EXERCITO BLINDADO
19 de junho de 943
O Coronel Chauvin comunicou-me que gostaria de conceder a mim e a dois
outros oficiais da minha escolha, e que houvessem servido sob o meu
comando na campanha da Tunísia, o diploma de membro do 2ème Régiment
de Marche de Tirailleurs Algériens juntamente com o alamar da Legião de
Honra do regimento.
Escolhi o General Bradley e o General Gaffey45 e indaguei se seria possível
conceder a mesma honraria, em caráter póstumo, ao Major R. N. Jenson46, o
que foi concedido.
A solenidade desenrolou-se assim: precedida pela bandeira francesa e pela
banda, chegou ao nosso QG, às 16h35min., a 1ª Companhia do 1º Batalhão
do 2ème Régiment de Marche de Tirailleurs Algériens. No pátio do quartel-
general já se achavam um dos nossos pelotões e a banda do 36º Regimento
de Engenharia.
Depois que a tropa francesa ocupou sua posição, nosso pelotão apresentou
armas e a banda tocou a marcha batida em continência à bandeira francesa.
O Coronel Chauvin acompanhou o General Bradley, o General Gaffey e eu
para a revista à companhia. Ao chegarmos na frente da bandeira, então
colocada à esquerda, a banda francesa tocou a Marselhesa. Terminado o
hino, o Coronel Chauvin, seguido pelo seu chefe de estado-maior,
Comandante Gerrier, tomou posição em nossa frente e disse, em voz alta:
“Por meio deste o Tenente-General G. S. Patton torna-se membro honorário
do Deuxième Régiment de Marche de Tirailleurs Algériens e recebe o
alamar da Legião de Honra”. A mesma declaração foi repetida na frente de
Bradley e de Gaffey.
Depois declarou: “Por meio deste o Major R. N. Jenson, morto no campo da
honra no dia 1º de abril de 1943, torna-se membro honorário do Deuxième
Régiment de Marche de Tirailleurs Algériens e recebe o alamar da Legião de
Honra”.
O Coronel Chauvin veio ocupar uma posição à minha direita, a banda
americana tocou a marcha tradicional do arriamento da bandeira e a mesma
desceu do mastro. Em seguida a nossa banda executou a Marselhesa e,
depois, Star-Spangled Banner. Com isto encerrou-se a solenidade.
A guarda da bandeira francesa era composta pelo porta-bandeira, Tenente
Biard, e quatro soldados. Cada um desses soldados possuía a Medalha
Militar, a maior condecoração francesa que pode ser concedida aos soldados
e que só pode ser concedida a eles ou a comandantes de exército. O Tenente
Biard possuía a Grã-Cruz da Legião de Honra e a Cruz de Guerra com várias
palmas.
Os oficiais da companhia eram todos franceses. Todos os soldados eram
berberes e com excelente aparência.
É interessante notar a diferença entre um berbere vestido normalmente com
o albornoz e um berbere uniformizado. A aparência muda para melhor.

2. OPERAÇÃO HUSKY
O 1º Corpo Blindado, que planejou a campanha da Sicília, era constituído
pelo que restara da Força-Tarefa Ocidental, depois de fornecer oficiais e
soldados para o recém-criado 5º Exército. O efetivo do Corpo foi reforçado
para a invasão da Sicília e, após o desembarque, veio a constituir o 7º
Exército.
As Forças Terrestres aliadas, sob o comando do General Sir Harold
Alexander, compreendiam o 8º Exército inglês, comandado pelo General
Montgomery, e o 7º Exército americano, comandado pelo General Patton. As
Forças Navais eram comandadas pelo Almirante Sir Andrew Cunningham e
as Forças Aéreas pelo Marechal-do-Ar Sir Arthur Tedder.
Os exércitos desembarcaram no dia 10 de julho de 1943, com o 8º Exército
no lado sudeste da ilha e o 1º Exército no lado sudoeste.
Na noite de 16 de agosto, elementos do 7º Regimento de Infantaria, da 3ª Dl,
comandado pelo Coronel H. B. Sherman, entraram em Messina. A queda da
Sicília ocorreu na manhã do dia 17, quando o General Patton entrou naquela
cidade. A campanha durara 38 dias.
P. D. H.

A INVASÃO DA SICÍLIA

11 de julho de 1943
Eu, o General Gay, o Capitão Stiller e alguns soldados saímos do Monróvia
no batelão do almirante às 9 horas, e chegamos na praia, em Gela, às
9h30min47.
Na praia vi dois DUKW48, destruídos por minas e sete embarcações de
desembarque encalhadas na areia. Enquanto fazia esta observação o inimigo
abriu fogo, provavelmente com um canhão de 88 ou 105 mm. As granadas
explodiram dentro da água, a uns 30 metros da praia, mas não podiam atingir
a areia por causa do desenfiamento proporcionado pelos prédios da cidade.
Assim que retirassem o material que fizera o nosso carro de reconhecimento
flutuar, era minha intenção avançar até o QG da 1ª Divisão de Infantaria,
cerca de 5 quilômetros para sudeste e a cavaleiro da estrada litorânea. Ao
entrarmos em Gela observamos uma flâmula à nossa esquerda e resolvemos
visitar o Coronel W. O. Darby, comandante dos Rangers49. Foi uma decisão
feliz; se houvéssemos avançado pela estrada, teríamos encontrado sete carros
de combate alemães que, naquele momento, progrediam pela estrada em
direção à cidade.
Quando chegamos no Posto de Comando dos Rangers o Coronel Darby e a
cidade de Gela sofriam um ataque de alemães e italianos, vindo do nordeste.
Darby dispunha de uma bateria de canhões 77 mm, capturada aos alemães,
da 8ª companhia do 3º batalhão do 26º RI, de dois batalhões de Rangers, de
uma companhia de morteiros 4.2 e de um batalhão do 59º Regimento de
Engenharia.
Esta força ficara isolada da divisão, pelo lado direito, em consequência da
progressão dos sete carros de combate, já agora a uma distância de 1.000
metros da orla da cidade.
Dirigimo-nos para um Posto de Observação situado 100 metros à retaguarda
da linha de contato; dali podíamos ver o inimigo progredindo através do
campo, talvez uns 800 metros à nossa frente.
Darby ordenara que as estradas fossem patrulhadas por viaturas meia-lagarta.
Estas viaturas não se destinavam a ações de combate e sim ao transporte de
material de Engenharia; todavia, trabalharam tão bem e fizeram tanto
barulho que perturbaram a progressão dos italianos, os quais parecem que
não dispunham de apoio de Artilharia.
A progressão italiana cessou por volta das 11h50min; voltamos ao PC de
Darby para averiguar o que se passava do lado direito, região que podia ser
avistada de dentro de Gela.
Ao chegarmos lá, dois bombardeiros Hurricane despejaram bombas sobre a
cidade. Depois, a Artilharia alemã abriu fogo com os canhões de 88 mm. O
edifício onde nos encontrávamos foi atingido duas vezes; o teto do prédio
situado do outro lado da rua também foi atingido, mas ninguém ficou ferido,
com exceção de alguns civis. Nunca ouvi tanta gritaria como naquela
ocasião.
Neste momento chegou um oficial da 3ª Dl trazendo dez carros de combate,
vindo de Licata50 para Gela pela estrada litorânea. Chegaram também dois
carros de combate do Grupamento Tático”B”51.
Disse a Gaffey para fechar a brecha entre Gela e a 1ª Dl e para mandar uma
companhia de carros de combate para ajudar Darby. A ordem foi cumprida.
Darby contra-atacou imediatamente, na esquerda, e fez 500 prisioneiros.
Também destruímos os sete carros de combate alemães, na direita.
O oficial recém-chegado explicou-me a situação da 3ª Dl; chegou também o
General Roosevelt52 e conversei com ele a respeito do fracasso da 1ª Dl na
conquista do objetivo, na noite anterior. Na minha opinião o motivo do
fracasso residiu no fato de a divisão haver atacado sem canhões anticarro e
sem desdobrar a sua Artilharia. É verdade que a reação a um contra-ataque
dos CC alemães foi muito boa, inclusive com a destruição de vários carros.
Acho que foram destruídos 14 carros de combate inimigos naquele dia. Eu,
pessoalmente, contei onze.
Decidi, então, ir ver o General Allen53 e o General Gaffey. Já na estrada,
encontramos o General Allen viajando em sentido contrário ao nosso;
paramos no alto de uma colina. Eram 15h30min. De repente, apareceram 14
bombardeiros alemães e a nossa Artilharia antiaérea abriu fogo. Saímos da
estrada, mas como o traçado da mesma era paralelo à direção de voo dos
aviões inimigos, os estilhaços das granadas antiaéreas começaram a cair na
estrada. Um estilhaço caiu a 5 ou 10 metros do local em que estávamos eu e
o General Gay. Durante esta incursão vi dois bombardeiros e um outro avião
serem abatidos.
Passado o ataque voltamos às viaturas e nos dirigimos para o QG da 2ª
Divisão Blindada. Enquanto permanecemos lá uma bateria alemã ficou
atirando contra o quartel-general, mas a pontaria não era boa, ou a colina
atrás do QG nos deixava desenfiados; de qualquer maneira, todos os tiros
foram longos. Combinamos que Allen e Gaffey conquistariam o aeroporto de
Ponte Olivo na manhã seguinte.
Regressamos a Gela sem nenhum acidente; creio não ser comum um
comandante de exército e seu chefe de estado-maior viajarem 10 quilômetros
em uma estrada paralela às linhas de frente de dois exércitos.
Durante a viagem de volta fiquei olhando, despreocupadamente, para o mar.
Saía fumaça de um navio classe Liberty que fora bombardeado pelos
alemães. Diante dos meus olhos uma explosão monumental lançou nuvens
brancas e pretas a vários metros de altura. O navio partiu-se em dois, mas a
parte da popa ainda flutuou durante seis horas. Quase todo o pessoal do
exército, que se encontrava a bordo, cerca de 115 homens, foi salvo.
Enquanto aguardava, na praia de Gela, a embarcação que nos levaria de volta
ao Monróvia, vi a coisa mais tola que os soldados poderiam fazer. Estavam
empilhadas na areia cerca de 300 bombas de 250 quilos e sete toneladas de
granadas explosivas de 20 mm; os soldados cavavam abrigos individuais
entre as bombas e as caixas de munição. Disse-lhes que estavam procedendo
corretamente se quisessem poupar o trabalho de serem enterrados pelo
pelotão de sepultamento; se desejassem poupar suas vidas, seria melhor
cavar em um outro lugar.
Quando dava esta explicação, surgiram dois bombardeiros Hurricane e
metralharam a praia; todos os soldados correram para os buracos que haviam
cavado. Continuei a caminhar pela praia e, assim, convenci-os a saírem dos
buracos.
Chegamos ao Monróvia às 19 horas, completamente encharcados. Acho que
este foi o primeiro dia desta campanha no qual fiz jus aos meus vencimentos.

18 de julho de 1943
Continuamos a progredir, com vários dias de adiantamento em relação ao
planejado desde o assalto bem sucedido contra as praias, executado antes do
alvorecer do dia 10. Conseguimos isto, graças ao fato de não deixar o
inimigo parar a partir do momento em que começou a recuar, isto é, nos
mantivemos, por assim dizer, sempre nos seus calcanhares.
Nosso sucesso também se deve ao fato de os alemães e italianos haverem
gasto muito tempo, trabalho e dinheiro na construção de posições defensivas.
Tenho certeza que, como no caso das muralhas de Tróia e das muralhas
romanas espalhadas pela Europa, o fato de confiarem em posições
defensivas reduziu-lhes a capacidade de combate. Se houvessem despendido
em combate um terço do esforço gasto na construção de fortificações de
campanha, por certo não teríamos conquistado suas posições.
Por outro lado, as unidades italianas, quase todas provenientes do norte da
Itália, combateram de forma desesperada. As unidades alemãs não lutaram
tão bem quanto as que destruímos na Tunísia. Este julgamento aplica-se
particularmente aos carros de combate. Os alemães revelaram bravura, mas
adotaram decisões erradas.
Os números de prisioneiros, de canhões capturados etc., são mais
convincentes do que as palavras para demonstrar o sucesso da nossa
operação. As comparações são odiosas, mas acho que até ontem o 8º
Exército inglês não fez mais de 5.000 prisioneiros.
O inimigo colocava armadilhas no cadáver dos seus mortos, atirava em nós
pela retaguarda depois que o ultrapassávamos e estava utilizando bala dum-
dum. Tudo isto nos custou algumas baixas, mas o inimigo sofreu muito mais.
Nos campos ao sul do aeroporto de Biscari, onde ocorrera um combate
violentíssimo, eu senti o cheiro de corpos em decomposição em ambas as
margens da estrada, pelo menos até afastar-me 10 quilômetros do aeroporto.
Em diversas ocasiões, os alemães semearam minas na retaguarda dos
italianos; quando os italianos corriam, acabavam explodindo. É claro, por
outro lado, que os italianos não gostavam dos alemães.
Os italianos também praticaram atos de bravura. No dia 10, alguns carros de
combate italianos entraram na cidade de Gela, que era defendida pelo
Coronel Darby com dois batalhões de Rangers. Com a metralhadora leve do
seu jipe Darby engajou um dos carros de combate, a uma distância de 50
metros. Ao verificar que os projetis não penetrariam no carro, Darby desceu
até a praia sob o fogo de três carros de combate, apanhou um canhão de
37mm, que acabara de ser desembarcado, abriu uma caixa de munição com
uma machadinha, subiu a colina até a cidade e ocupou posição com o canhão
a menos de 100 metros na frente de um carro que descia sobre ele. O
primeiro tiro não deteve o carro, o que só foi conseguido com o segundo
disparo. Apesar disto, a guarnição não abandonou o carro enquanto Darby
não abriu uma escotilha e atirou uma granada de térmite lá dentro.
No dia seguinte, este mesmo oficial foi proposto para o comando de um
regimento, com promoção ao posto superior na sua patente de tempo de paz;
recusou tudo só para poder continuar combatendo junto com os homens que
ele próprio instruíra. No mesmo dia, o General-de-Brigada Albert C.
Wedemeyer solicitou rebaixamento a coronel, a fim de poder receber o
comando de um regimento. Considero os dois atos como da maior
relevância.
Durante o desembarque, um tenente de Artilharia decolou de uma
embarcação de desembarque com o seu avião Piper Cub, depois de correr 15
metros em cima de uma pista improvisada com cerca de arame. Passou o dia
inteiro voando sobre a cidade, apesar do fogo da defesa. O avião sofreu
vários impactos, mas o observador aéreo manteve o comandante da 3ª Dl
informado sobre a situação.
Um oficial de Marinha conduzindo uma embarcação de desembarque de
carros de combate (LCT) verificou que a lâmina de água não tinha
profundidade suficiente para permitir o acesso de embarcação à praia.
Decidiu avançar o máximo, encalhou a embarcação na areia e engajou as
metralhadoras inimigas com os dois canhões de 20 mm do seu barco;
silenciou-as e possibilitou o desembarque das tropas que transportava.
O apoio de fogo naval — isto é, o fogo naval lançado sobre as praias pelos
navios situados ao largo do litoral — representou um papel destacado.
Chegamos a solicitar este apoio até durante a noite e conseguimos enquadrar
o alvo já na terceira salva.
A população deste país é a mais miserável e esquecida por Deus entre todas
as que já vi. Certo dia, eu estava na cidade quando o inimigo quase a
reconquistou; algumas granadas mataram civis. Pois bem, todo mundo na
cidade levou cerca de 20 minutos gritando que nem coiote.
Os animais recebem melhor tratamento, são mais gordos e maiores do que os
animais na África; fora isto, tudo o mais por aqui é pior do que na África.
As carroças são bem diferentes. Têm o formato de uma caixa com umas
coisas que parecem pés de cama nos cantos e ao longo das bordas laterais.
Os painéis que ficam entre esses pés de cama são desenhados com figuras.
Na parte de baixo da carroça existe uma voluta, colocada entre o eixo e o
fundo da caixa, parecida com as existentes nas varandas das casas
construídas em 1880.
A coleira do animal de tração possui um espigão apontado para cima, com
cerca de 60 cm de altura, e alguns animais usam plumas na testeira da
cabeçada.
Durante dois ou três dias, enquanto o combate se desenvolvia junto das
cidades, os habitantes mostraram-se hostis; como demonstramos a nossa
capacidade de destruir tanto alemães como italianos, tornaram-se
americanófilos e passavam o tempo todo pedindo cigarros.

A CONQUISTA DE PALERMO
27 de julho de 1943
Na tarde do dia 21 conquistamos uma posição a nordeste de Castelvetrano,
de onde poderíamos lançar a 2ª Divisão Blindada54 até então mantida na
retaguarda e mais ou menos no centro da ilha a fim de evitar que o inimigo
descobrisse em que direção iria atuar.
A partir das 4 horas as tropas deslocaram-se para a posição; o dispositivo
ficou pronto antes do amanhecer. De manhã, a divisão iniciou sua progressão
fulminante.
A primeira fase consistiu em romper a posição inimiga e foi executada pelo
41º RI55, apoiado por um batalhão de CC médios do 66º Regimento de
Carros de Combate56. Assim começou a retirada inimiga. Daí em diante,
tudo se resumiu em atacá-lo com concentrações de carros de combate toda
vez que tentava nos deter (os alemães fizeram três tentativas).
Certa vez um canhão de assalto de 75 mm, montado em uma viatura meia-
lagarta, engajou e destruiu um canhão alemão de 105 mm. Foi um ato
heróico e de sorte.
A última posição defensiva alemã situava-se nas montanhas a sudoeste de
Palermo; foi um galho difícil de quebrar, mas resolvemos o problema com
fogo de Artilharia e carros de combate.
Encontramos algumas das mais engenhosas armadilhas que já vi. Os alemães
cavavam um buraco de 5 metros de comprimento por 3 metros de
profundidade na metade do lado direito da estrada e cobriam-no com uma
tela de arame com terra por cima, imitando o piso da estrada. Dez metros à
frente, faziam a mesma coisa na metade do lado esquerdo da estrada. Na
frente de cada buraco colocavam cavaletes, na esperança de que os nossos
carros de combate desrespeitassem a sinalização e caíssem nos buracos.
Felizmente estávamos acostumados a respeitar a sinalização. Em alguns
lugares os alemães cavaram fossos anticarro com 6 metros de largura por 4
metros de profundidade e estendendo-se por vários quilômetros através do
campo. Não nos perturbaram, porque nos agarramos às estradas e fomos
rompendo o caminho.
Passei por uma coluna em movimento e fui alvo de calorosa acolhida por
parte da 2ª DB. Todos pareciam conhecer-me; primeiro faziam continência,
depois acenavam com a mão.
Quando chegamos perto da cidade já estava escuro. Peguei o Coronel R. F.
Perry, chefe do estado-maior da divisão, para servir como guia. Declarou-me
acreditar que a cidade havia sido conquistada; em vista disto, decidimos
prosseguir e averiguar.
Ao nos aproximarmos vimos que as colinas em torno da cidade estavam em
chamas, começamos a descer por uma estrada cortada na rocha e que
atravessava uma aldeia. As ruas estavam cheias de gente gritando “abaixo
Mussolini” e “viva a América”.
Dentro da cidade a população gritava a mesma coisa. Os que chegaram antes
do escurecer, entre eles o General Keyes57, foram recebidos com flores
atiradas nas ruas por onde passavam; receberam de presente uma tal
quantidade de limões e melancias que quase se viram esmagados pelas
frutas.
O governador fugira, mas aprisionamos dois generais; ambos declararam-se
felizes por haverem sido aprisionados, pois achavam que os sicilianos eram
animais e não seres humanos. Naquele dia o total de prisioneiros de guerra
andou próximo da dezena de milhar. Na manhã do dia 23, quando
inspecionava o porto, passei por um grupo de prisioneiros; todos levantaram-
se, fizeram continência e, depois, aplaudiram.
As instalações do porto não ficaram muito danificadas, mas na redondeza a
destruição era realmente terrível. Numa profundidade de dois quarteirões
praticamente cada casa era um monte de escombros. Parece que as explosões
haviam lançado sobre o cais algumas embarcações de pesca; pelo menos não
encontrei outra explicação para o fato de encontrá-las jogadas sobre o cais.
Havia uma boa quantidade de barcos afundados; muitos deles estavam
partidos ao meio.
Escolhemos para quartel-general o palácio Real, que foi limpo, pelos
prisioneiros, pela primeira vez desde a época da ocupação grega. Também
empregamos os prisioneiros para executarem a remoção dos escombros das
ruas e para repararem os danos no cais.
Os italianos de Palermo tinham melhor aparência física do que os outros que
encontramos no resto da Sicília.
O vigário do cardeal veio visitar-me. Garanti-lhe que estava surpreendido
com a gentileza e estupidez do Exército Italiano; estupidez por estar
combatendo por uma causa perdida e gentileza por serem italianos. Pedi-lhe
que divulgasse esta opinião. Disse-lhe mais que demonstráramos a nossa
capacidade de destruí-los; se eles não aprendessem a lição, e se rendessem, a
destruição continuaria. Na verdade, suspendi os bombardeios aéreos e navais
programados porque senti que há havia morrido muita gente e que
poderíamos conquistar o objetivo com a arremetida da 2ª DB, sem
necessidade de infligir baixas desnecessárias entre o inimigo.
Acho que esta operação entrará na história, pelo menos em Leavenworth58,
como exemplo clássico do emprego correto dos blindados. Também creio
que a pesquisa histórica demonstrará que o corpo comandado pelo General
Keyes progrediu com maior rapidez do que os alemães durante a famosa
blitz mesmo enfrentando resistência mais forte e utilizando estradas mais
precárias.
Apesar de tudo, não perdemos tempo; ainda nesta manhã conquistamos a
estrada do norte e deslocamos a Artilharia para apoiar o esforço final do II
Corpo, a ser iniciado nos próximos dias.

QUARTEL-GENERAL DO 7º EXÉRCITO APO 758 EX. DOS EUA


1 de agosto de 1943
Ordem Geral Nº 10
Para leitura nas unidades
Soldados do 1º Exército e XII Comando Aerotático:
Desembarcados e apoiados pela Marinha e Força Aérea, durante 21 dias de
combates ininterruptos e labuta infatigável, vocês mataram e aprisionaram
mais de 87.000 soldados inimigos, capturaram ou destruíram 361 canhões,
172 carros de combate, 928 viaturas e 190 aviões. Vocês são soldados
magníficos. O General Eisenhower, nosso Comandante-chefe, e o General
Alexander, comandante do Grupo de Exércitos, manifestaram orgulho e
satisfação com o feito que vocês realizaram.
Agora, em combinação com o 8º Exército inglês, vocês se preparam para
liquidar o inimigo. A ofensiva incansável continuará a ser irresistível. O fim
é certo e está próximo. Nossa parada seguinte será em Messina.
G. S. Patton Jr.
Tenente-General do Exército dos EUA
Comandante

DISTRIBUIÇÃO “D”
QUARTEL-GENERAL DO 7º EXÉRCITO APO 758 EX. DOS EUA
22 de agosto de 1943
Ordem Geral Nº 18
Soldados do 7º Exército:
Nascidos do mar, batizados com sangue e coroados com a vitória, em 38 dias
de batalhas constantes e trabalho ininterrupto vocês acrescentaram um
capítulo glorioso à história da guerra.
Enfrentando o que os alemães e italianos possuem de melhor, vocês jamais
deixaram de alcançar o sucesso. A rapidez do avanço que culminou com a
conquista de Palermo só foi igualada pela tenacidade invulgar demonstrada
no assalto contra Troina e na conquista de Messina.
Cada integrante do exército merece o mesmo crédito. O valor inimitável da
Infantaria e a ferocidade impetuosa dos carros de combate equiparam-se ao
troar incansável dos nossos canhões mortíferos.
Os engenheiros realizaram prodígios na construção e conservação de
estradas impossíveis, através de terreno intransitável. Os serviços de
Intendência e Material Bélico produziram um milagre. As comunicações
lançaram mais de 16.000 quilômetros de fios e o Serviço de Saúde evacuou e
tratou nossos doentes e feridos.
Em todas as oportunidades a Marinha nos proporcionou apoio generoso e
arrojado. Durante a operação, a Força Aérea manteve o céu limpo e
proporcionou apoio contínuo às ações das unidades terrestres.
O resultado deste esforço combinado foi a morte ou aprisionamento de
113.350 inimigos. Vocês destruíram 265 carros de combate, 2.324 viaturas e
1.162 canhões; além disto, capturaram equipamento militar de peso
correspondente a centenas de toneladas.
Todavia, a vitória que vocês alcançaram possui um significado acima e além
do seu aspecto físico — vocês destruíram o prestígio do inimigo.
O Presidente dos Estados Unidos, o Secretário da Guerra, o Chefe do
Estado-Maior do Exército, o General Eisenhower, o General. Alexander e o
General Montgomery, todos enviam cumprimentos a vocês.
A fama que vocês conseguiram jamais desaparecerá.
G. S. Patton Jr.
Tenente-General do Exército dos EUA
Comandante

ESCLARECIMENTOS SOBRE A CAMPANHA DA SICÍLIA


outubro de 1943
O tempo decorrido já foi suficiente para me permitir, agora, dar-lhes uma
idéia geral sobre o lado mais alegre da campanha da Sicília e seus episódios
subsequentes.
O primeiro aviso que recebi sobre a chegada do nosso comboio à área de
transporte foi quando arrebentou o turco que sustentava uma embarcação de
desembarque e a mesma bateu contra a escotilha do meu camarote. Por um
instante pensei que havíamos sido atingidos por uma bomba. Como
dormíramos uniformizados, dirigi-me imediatamente ao convés. Até onde
podíamos enxergar, a linha do litoral era uma massa de labaredas. Em certos
pontos as chamas pareciam formar uma montanha; em outros, constituíam
apenas um colar de fogo.
De tempo em tempo, ao longo da costa incendiada, acendiam-se projetores
que varriam o mar com seus fachos luminosos. O fato era curioso porque,
enquanto a luz era tão intensa que permitia ler um jornal no convés, de terra
o inimigo parecia incapaz de nos ver. Acho que o fenômeno tinha algo a ver
com a retração e o nevoeiro provocado pelos incêndios.
Assim que se acendia um projetor, milhares de projetis traçantes, disparados
pelos nossos contratorpedeiros e navios de patrulha, caíam sobre ele como
abelhas retornando à colmeia. O projetor apagava-se imediatamente.
Descobri que o incêndio ao longo da costa fora provocado por nossas
granadas explosivas que ateavam fogo aos campos de trigo. Felizmente, para
os sicilianos, o trigo já havia sido colhido, mas a palha permanecera no
campo e pegava fogo com facilidade.
Os sicilianos do sul são os tipos mais porcos de toda a ilha. Houve casos de
pessoas que passaram dias com cadáveres dentro de casa por serem
preguiçosas demais para removê-los. Por outro lado, quando utilizamos
cavadores de buraco para postes a fim de abrir buracos para os cadáveres,
estes sicilianos protestaram, alegando que os mortos deviam ser sepultados
horizontalmente e não na vertical. Concedemos permissão para o
sepultamento horizontal, desde que as covas fossem abertas por eles
próprios.
Certa vez, no quintal da casa que ocupei, contei oito crianças, onze bodes,
três cães, várias galinhas e um cavalo, todos catando restos de lixo sobre o
chão. Nenhum deles morria. Acho que uma pessoa criada na base do molho
de tomate produzido à moda siciliana fica imune a qualquer doença. O modo
de preparar este molho consiste em recolher os tomates, grande parte deles já
excessivamente maduros, e espremê-los com as mãos sobre panos velhos, ou
pedaços de papel, ou qualquer outra coisa. Esta massa vermelha permanece
intocada durante alguns dias; depois, é colocada em bandejas, que são
dispostas na calçada, para secar. Como as ruas nunca são varridas, há sempre
uma boa quantidade de poeira contaminada para juntar-se ao molho. É isto
que eles misturam com o macarrão.
Sob a tutela dos alemães, os italianos construíram muitas casamatas. Na
realidade, em vários casos, foram pouco inteligentes porque usaram alfafa e
galhos para camuflá-las; as primeiras granadas de fósforo eram suficientes
para incendiar esta camuflagem.
Em outros casos, tiveram o trabalho de construir casa de alvenaria ao redor
das casamatas. Na hora de utilizá-las, bastava um empurrão, as paredes
desmoronavam e descobriam a casamata. Apesar de tudo, não tivemos muito
trabalho para destruí-las. Só um batalhão destruiu 39 casamatas em um único
dia.
Por causa da escassez de água, e por outros motivos mais, decidimos beber
champanha durante a permanência em Gela; reservamos uma caixa, o que
poderia parecer excessivo, mas que se esgotou em dois dias por causa do
elevado número de visitantes que nos procuraram. Houve necessidade de
obter mais champanha. Para isto foi preciso tirar da cadeia o vendedor, que
era também um conhecido contrabandista; conseguimos isto graças à
interferência do bispo. O homem ficou solto o tempo suficiente para vender
mais champanha e, depois, foi devolvido à prisão.
Agrigento foi uma das primeiras cidades gregas na ilha, como mais tarde
seria dos cartagineses. Existiam três belos templos gregos em Agrigento: um
dedicado a Juno, outro a Concórdia e outro a Hércules, havia também um
caminho sagrado ligando os templos entre si, em cujas margens existiam
túmulos cavados na rocha; atualmente, todos estavam violados e saqueados.
O prefeito da cidade, que também se dizia arqueólogo, levou-me para ver os
templos. Ao chegarmos ao templo de Hércules, o maior de todos mas
também o mais arruinado, perguntei ao prefeito se a destruição fora
provocada por algum terremoto. “Não, general”, respondeu-me, “isto foi um
terrível incidente de outra guerra”. Indaguei qual fora a outra guerra;
explicou-me que a destruição ocorrera na Segunda Guerra Púnica59.
O aparecimento dos cartagineses em Agrigento, no ano 470 A. C., tem
interesse para mostrar que a guerra global não é novidade. Naquela ocasião,
Cartago mantinha uma espécie de aliança (na realidade era vassala) com
Xerxes, o Rei dos reis. Isto se passou na época em que Xerxes planejava
atravessar o Helesponto e atacar a Grécia. A fim de impedir que os gregos de
Siracusa e de outras cidades gregas no calcanhar da bota italiana enviassem
reforços para a mãe-pátria, Xerxes ordenou aos cartagineses que
desembarcassem na Sicília e no calcanhar da Itália, com a finalidade de fixar
as forças das colônias gregas.
Quando se considera o trabalho de planejamento e de coordenação
necessário para a execução desta operação, numa época em que um
mensageiro levava um ano para ir de Sardis até Cartago, não se pode ficar
encantado com a excelência do nosso planejamento, que tem à sua
disposição meios de comunicação instantâneos. Por outro lado, o exército
cartaginês que desembarcou em Agrigento e avançou para oeste, com um
efetivo de cerca de 300.000 homens, levou cinco anos para alcançar
Siracusa; ao chegar lá foi derrotado e totalmente destruído.
Em uma pequena junção de estradas chamada Segesta, Hugh Gaffey e eu
vimos o teatro e o templo grego mais bonito de todos os que já havíamos
encontrado. Tudo achava-se em perfeito estado de conservação, exceto o
telhado do templo que já não existia mais. Como os gregos foram expulsos
desta parte da Sicília no ano 470 A. C. — isto é, há 2500 anos atrás — o
templo deve ter sido construído em data anterior.
Este templo não tinha nada de especial. As colunas não eram monolíticas, ou
compostas de 2 ou 3 blocos, como seria normal; tinham sido construídas
com pedras pequenas. Vale a pena notar que, decorridos dois milênios e
meio, não se conseguia enfiar uma lâmina afiada no espaço entre duas
pedras.
Quando eu tinha oito anos de idade, um pastor protestante chamado Bliss
contou-me que, durante a visita ao Parthenon, colocara seu chapéu de seda
em uma das extremidades de um degrau das escadas e se deslocara para a
extremidade oposta; dali, não conseguira enxergar o chapéu. Isto revela que,
para apresentar linhas agradáveis, a linha reta dos gregos era, na realidade,
curva. Gaffey e eu tentamos a mesma experiência em Segesta, utilizando
nossos capacetes de aço colocados um sobre o outro. Da extremidade de um
degrau não conseguimos enxergar os capacetes situados na extremidade
oposta.
O teatro, com capacidade para umas duas mil pessoas sentadas, localizava-se
no topo de um colina elevada. Assim, além de avistar os atores, os
espectadores também desfrutavam de uma paisagem marinha maravilhosa.
Parece que os gregos que construíram o teatro habitavam uma vila existente
nas vizinhanças. Entretanto, o vandalismo, praticado contra as antiguidades
por várias gerações, fizera desaparecer a vila; sua existência podia ser
deduzida do fato de as pedras que ainda se encontravam no local revelarem
traços de trabalho humano. Por falar em vandalismo, ouvi dizer que uma boa
parte de Pisa foi construída com pedras retiradas de Cartago.
Interessavam-me particularmente a cidade e o porto de Siracusa, pois estes
lugares, com certeza, sofreram operações anfíbias em quantidade superior a
qualquer outro porto no mundo. Ao olhar para as águas de Siracusa eu quase
podia ver as trirremes gregas, as galeras romanas, os vândalos, os árabes, os
cruzados, os franceses, os ingleses e os americanos, os quais, para citar
apenas alguns, haviam atacado, ou tentado atacar, aquele porto.
Quando se chega à Sicília pela primeira vez — e a mesma coisa acontece em
relação à Sardenha e à Córsega — fica-se espantado com a quantidade de
pequenas torres que bordam a linha da costa. Parece que tais torres foram
construídas entre os anos 1500 e 1600, por influência de Gênova. O sistema
consistia em um homem escolher um local adequado para uma torre e
construí-la. Em seguida, procurava a autoridade local e se oferecia para
guarnecer a torre, normalmente ele e sua família, desde que fosse pago para
isto. A soma exigida era modesta — em nossa moeda, cerca de 50 dólares
por ano. Esta parece ser a origem das torres, e não os piratas árabes.
Uma outra característica impressionante, principalmente na Sicília, é que
quase todas as cidades situam-se no topo de picos íngremes. Um exame
minucioso revela que a construção de maior porte nestes picos é a ruína de
um castelo normando.
Os normandos conquistaram a Sicília entre os anos 900 e 970; parece que
cada cavaleiro normando construiu a sua torre — pois a maioria das ruínas
não passa de uma torre — no pico mais alto que pôde encontrar. Com o
passar do tempo, e na medida em que aumentava a sua riqueza, alguns
cavaleiros acrescentaram primeiro uma muralha interna e, depois, uma
externa; todavia, esta não foi a regra geral. A cidade desenvolveu-se através
dos descendentes dos soldados do dono da torre e dos nativos da região, que
se aproximavam do castelo a fim de obter melhor proteção.
O Palácio Real de Palermo (o “Peleópolis”, de Políbio) originou-se desta
forma. O terreno é uma protuberância vulcânica cercada por dois riachos; ali
os árabes erigiram um castelo, que denominavam ksar. Bastante erodida, a
protuberância ainda existe e o ksar original, construído pelos árabes por volta
do ano 700, ainda forma a parte central do palácio. Infelizmente, o palácio
sofreu inúmeras modificações; só no porão e nas paredes internas é que
ainda se pode ver a construção original.
No porão da parte central do palácio encontramos o tesouro normando.
Consistia de dois aposentos de pedra, um construído dentro do outro. Para
entrar no aposento interno era preciso abrir duas portas e atravessar um
pequeno vestíbulo. Estas portas estavam dispostas de tal maneira que ao se
abrir a porta externa, que dava acesso ao corredor, fechava-se
automaticamente a porta interna. No aposento interno havia um buraco com
cerca de 3 metros de profundidade e 2 metros quadrados de fundo, onde
ficava um bloco monolítico. Sobre este bloco empilhava-se a maior parte do
tesouro, como vasos, pratos e outros objetos.
Existiam jarros de vinho enormes nos quatro cantos do aposento; ficavam
pendurados no teto para permitir que o vigia verificasse se alguém violara o
fundo dos jarros. O dinheiro era guardado dentro deles.
Quando atacávamos estas cidades, ou passávamos por elas de viatura, eu
quase podia ver, com os olhos da minha mente, os pequenos grupos de
cavaleiros e homens armados que governavam o mundo conhecido de então,
pelo simples fato de ocuparem aqueles pontos fortes; não escapava ao meu
pensamento o quanto eram fracos em efetivo e blindagem, quando
comparados com os nossos canhões, carros de combate e Infantaria,
passando por eles em colunas intermináveis.
Havia coisas, porém, que os velhos cavaleiros e seus companheiros
malcheirosos teriam compreendido, embora pudessem achar engraçado —
refiro-me à nossa cavalaria improvisada com mulas. Para auxiliar o
deslocamento através de um terreno excessivamente dobrado tivemos que
improvisar unidades montadas. Os homens cavalgavam o que pudessem
encontrar: mulas, burros e, às vezes, bois. As selas ou eram fabricadas no
local, ou provinham de material capturado aos italianos, ou usava-se apenas
a manta sobre o lombo do animal.
Certa vez encontrei um soldado com uma sela italiana colocada sobre o
pescoço do cavalo, na frente da cernelha. Detive-o, para ouvir a sua idéia a
respeito da colocação da sela, mas o cavalo abaixou a cabeça ao parar e o
soldado foi ao chão. Respondeu à minha pergunta dizendo pensar ser aquele
o local apropriado para a colocação da sela. Imaginei que o pobre homem só
havia visto um quadrúpede em picadeiro de circo, onde o artista monta na
cabeça do elefante.
Apesar de tudo, a cavalaria improvisada representou uma grande vantagem.
Na realidade, não poderíamos ter vencido a guerra sem ela. Todos nós
lamentamos não dispor de uma divisão completa de Cavalaria americana,
apoiada por Artilharia de dorso. Se contássemos com uma tal grande
unidade, não nos teria escapado um único alemão.
A vida dos habitantes da região é bastante peculiar. Parece que jamais se
decidiram por um lugar certo para o preparo da alimentação, de modo que
todos cozinham na rua. O equipamento de cozinha melhorou muito com a
nossa chegada, pois passaram a aproveitar as nossas latas de óleo de 20
litros, vazias. Eles não só cozinham nas ruas como sentam-se aí e, o que é
mais angustiante, cantam nas ruas a qualquer hora do dia ou da noite. O
canto atinge tanto o ouvido quanto o nariz, uma vez que o alho é o alimento
básico da população. O alho é vendido em réstias, carregadas nos ombros
dos vendedores.
O siciliano cuida melhor dos seus animais do que o árabe; praticamente não
bate no animal, controlando mulas e cavalos através de um cabresto. Como
os animais sicilianos são criados em casa, tornam-se as criaturas mais dóceis
que já vi. Isto se aplica inclusive aos burros. Para fazer o animal andar ou
tracionar, o siciliano emite um som situado entre o arroto e o gemido. Cada
vez que o homem interrompe o som o animal para automaticamente.
Com as tropas marroquinas aconteceu uma coisa engraçada. Um siciliano
veio procurar-me e disse ter uma queixa a fazer sobre a conduta dos
marroquinos, ou goums, como são chamados. Disse-me que sabia muito bem
que todos os goums eram ladrões, assassinos, e que, por vezes, praticavam o
estupro; tudo isto ele podia entender, e até desculpar, mas vê-los entrar em
sua casa, matar seus coelhos e tirar a pele dos bichos na sala, isto não; assim
já era demais.
Desde que os sicilianos passam a maior parte da vida sentados, seria natural
que, depois de milhares de anos, houvessem pensado em fabricar cadeiras
confortáveis; nada disto, sentam-se em pedras, na lama, em caixas, em tudo
exceto cadeiras. De qualquer maneira, trata-se de um povo muito jovial e que
parece contente com a sujeira em que vive; na minha opinião seria um erro
tentar elevá-los aos nossos padrões, os quais eles poderiam muito bem não
apreciar.
A Córsega é exatamente igual a um pedaço das Montanhas Rochosas
mergulhado no oceano. O terreno é constituído por uma série de picos
absolutamente desnudos, na maioria dos casos de granito polido. A ilha
apresenta duas características marcantes: é inteiramente francesa e não foi
bombardeada pela aviação. Sente-se uma sensação diferente quando se chega
a uma cidade que não sofreu nenhum dano. Ajácio está exatamente como
era.
Por outro lado, Nápoles foi bastante danificada; o porto acha-se funcionando
em condições razoáveis exclusivamente por força do magnífico desempenho
da nossa gente.
Pompéia representa a expressão máxima daquilo que pode ser classificado de
ruína. Proporciona também uma excelente idéia a respeito dos homens que a
construíram. Por infelicidade houve necessidade de bombardear a região
durante o ataque aliado. Por sorte, os danos provocados foram muito ligeiros.

O VÔO PARA O EGITO


Como o rádio e a imprensa noticiaram que estive no Cairo, sinto-me à
vontade para abordar o assunto.

O Coronel Codman60, eu e mais oito oficiais do estado-maior do 7º Exército


decolamos de Palermo às 7h15min do dia 12 de dezembro e voamos
primeiro para Bengazi, onde paramos para reabastecimento e almoço.
O aeroporto situa-se a uns 25 quilômetros da cidade; achava-se em boas
condições de operação, embora danificado por crateras de granadas de
pequeno calibre e fragmentos de bombas. O terreno é desprovido de pontos
notáveis e praticamente sem vegetação, o que obriga a realização de voo por
instrumento; creio que existem poucos lugares como este, nos quais as tropas
já não são mais visíveis a uma distância de 1.500 metros por causa das
inúmeras ondulações do terreno. Lembrei-me o quanto seriam úteis na
região, se fosse possível usá-los, os balões de observação e as velhas torres
de observação dos comandantes de bateria. A superfície do solo parece-se
com barro cozido, tem cor marrom e é mais transitável do que a areia de
Indio61. Entretanto, esta superfície quebra-se depois da passagem de várias
viaturas sobre a mesma trilha. Acho que era por isto que se ensinava a não
levar todas as viaturas por uma mesma trilha no deserto. Em Indio, porém,
verificamos ser mais fácil seguir a trilha aberta por outras viaturas. O terreno
aqui parece mais transitável, principalmente para blindados, do que o do
nosso deserto.
Voamos direto de Bengazi para Tobruk, uma cidade menor e terrivelmente
bombardeada, com um porto artificial cheio de navios naufragados.
Voamos de Tobruk para El Alamein acompanhando a estrada de ferro;
durante o voo baixo podia-se ver viaturas e canhões destruídos, mas
praticamente nenhum fio.
De El Alamein a Alexandria voamos pelo litoral; seguindo o delta do Nilo,
alcançamos Cairo. Há uma diferença nítida entre o verde do vale do Nilo e o
marrom do deserto. O verde abrange uma extensão de 250 quilômetros na
região do delta; no resto do país, ao longo de 4.000 quilômetros, sua
extensão é de apenas 50 quilômetros.
É impressionante a visão das pirâmides quando se chega ao Cairo. Fomos
recebidos no aeroporto pelo Major H. Chapman Waker, ajudante-de-ordens
do General Sir Henry Maitland-Wilson.
O major levou-me, juntamente com Codman, para a casa do general, onde
ficamos hospedados durante toda a visita. Quando chegamos o general
estava ausente; seu ex-chefe de estado-maior e diversos outros oficiais
moravam nesta casa, aliás muito confortável, sem ser luxuosa. Localizava-se
a vinte minutos de carro do centro da cidade, na zona sul e num bairro
chamado Madi. O Major Chapman Walker preparara um programa
completo; aprovei-o, depois de examiná-lo.

13 de dezembro de 1943
Codman, eu e o Major Chapman Walker, acompanhado pela senhora
Ranforly, secretária do General Wilson, saímos para fazer compras na parte
da manhã.
O Cairo é um lugar realmente nojento. O aspecto da cidade e a atitude da
população assemelham-se a Nova Iorque em 1928. Há um bom tráfego de
automóveis em ambos os lados da rua, além dos carros estacionados no
centro da mesma. Todas as lojas apresentam bastante movimento, parecem
bem dotadas de artigos para vender, mas os preços são exorbitantes. Por
exemplo, um par de meias de seda custa 4 libras esterlinas.
O camponês egípcio, visível em grande quantidade, é nitidamente inferior ao
siciliano, o qual eu havia considerado como a expressão mais baixa da
criatura humana. Quando construíram a represa de Assuã, ali começou a
proliferar um tipo de caramujo de água doce. Este caramujo é o hospedeiro
de uma espécie de ancilóstomo, transformado em verdadeira praga depois da
construção da represa. Infectando o camponês egípcio, este ancilóstomo
provoca uma dor de barriga constante e reduz a potência sexual. Para aliviar
a dor e restabelecer o desempenho sexual o camponês passou a fumar
haxixe. Esta droga produz o efeito desejado durante alguns meses; daí em
diante não produz mais efeito; o camponês torna-se ainda mais vulnerável à
contaminação pelo ancilóstomo, o que o deixa preso a um círculo vicioso.
Antes da guerra o tráfico de haxixe estava sob controle; com a guerra, os
camponeses passaram a obter quanto haxixe desejassem e, agora, parecem
muito felizes com isto. São indescritivelmente porcos, nos hábitos e nos
trajes. Em um canal de água doce vi um homem defecando, e, uns dez
metros adiante, algumas mulheres lavando roupas; a jusante, bem perto dali,
havia um ponto de coleta de água potável para uma aldeia.
Da população total do Egito, cerca de 1.200 pessoas são proprietárias de
praticamente todas as terras existentes; uns poucos milhões de camponeses
possuem, cada um, cerca de 2.000 metros quadrados de terra e o restante não
possui nada. O salário médio anual de um camponês é de cerca de 50
dólares, e ele ainda tem que comprar água para beber.
No Nilo, as embarcações a vela têm o mesmo formato das embarcações do
Egito antigo; no ano 762 a vela egípcia, quadrada, foi substituída pela vela
triangular árabe. Estas embarcações navegam muito bem, apesar do aspecto
horrível. Dizem que uma companhia inglesa comprou barcos a vela
construídos no exterior, pensando que seriam mais rápidos do que as
embarcações nativas; quando os barcos estrangeiros foram colocados no
Nilo não puderam navegar, porque os nativos envolveram-nos em círculos
formados por suas embarcações. Pelo que pude averiguar, os barcos nativos
não possuem quilhas, mas sim um leme enorme que, de certa forma,
funciona ao mesmo tempo como quilha corrediça e leme.
Depois das compras fomos beber um coquetel no famoso hotel Shepheard.
Os coquetéis estavam muito bons, mas custavam um dólar e meio cada um.
A tarde visitamos a Escola Inglesa de Blindados, bastante interessante mas
não tão bem organizada quanto as nossas escolas nos fortes Knox e Benning.

A TERRA SANTA
14 de dezembro de 1943
Às 7 horas decolamos para Jerusalém; cruzamos o canal de Suez um pouco
ao sul do lago Tenes, perto do local da travessia dos judeus por ocasião do
êxodo.
Até este voo nunca me passara pela cabeça que, na época em que foi
realizada a travessia, os judeus não precisavam ter transposto nenhuma água
pois existia uma faixa de deserto entre o lago Bitter e o Mediterrâneo,
completamente enxuta. Apesar disto os judeus realizaram a travessia;
Napoleão também atravessou quase no mesmo lugar, e perdeu toda a
bagagem por causa de um vento violento.
A partir do canal voamos acompanhando a linha de progressão de
Allenby62 e passamos sobre o wadi63 El Arish, no mesmo local em que
ocorreu a batalha. Tratava-se de um obstáculo mais difícil do que os livros
deixavam perceber.
Beersheba e o terreno vizinho não pareciam de trânsito difícil;
evidentemente, longe dos poços, o terreno é um verdadeiro mar de areia.
Não é fácil compreender como Allenby cruzou-o com um corpo de
Cavalaria.
De Beersheba voamos sobre Hebron e Belém, viramos para oeste logo ao sul
de Jerusalém e, finalmente, aterramos em Agir, próximo do litoral; havia
alguns automóveis à nossa espera e viajamos 50 quilômetros até Jerusalém.
O único motivo para chamar a Palestina de “terra do leite e do mel” é a
comparação com o deserto que a envolve. O terreno é formado por colinas
rochosas e limpas, nas quais sobrevivem precariamente algumas oliveiras.
Não vimos nenhuma colmeia, embora observássemos algumas árvores do
tipo mimosa.
Em Jerusalém encontramos o Major-General D. F. MacConnell, comandante
do distrito. Entregou-nos um padre inglês, há longos anos residente na
cidade, encarregando-o de guiar-nos durante a visita.
Entramos na cidade pela porta utilizada por Tancredo quando os cruzados
conquistaram Jerusalém pela primeira vez (1099). A igreja do Santo
Sepulcro abrange o túmulo de Cristo e o local onde esteve erguida a Cruz. É
dirigida por um grupo misto de católicos, gregos e coptas; por uma estranha
coincidência, ou graças à habilidade política dos ingleses, o porteiro é um
maometano.
Durante toda a visita a Jerusalém fui protegido por quatro agentes do serviço
secreto, o que me pareceu um absurdo. O mais incrível ocorreu quando
entrei no Santo Sepulcro; os agentes entraram comigo. Ora, ninguém pode
temer ser assassinado em um lugar deste.
Do Sepulcro passamos à capela dos Cruzados, onde foram ungidos aqueles
que se tornaram reis de Jerusalém. Acha-se ali a espada que, segundo a
crença geral, era usada na sagração. Na minha opinião, trata-se de um peça
falsa, tanto porque o pomo do punho não tem a forma consagrada, como
porque o peso da espada é insuficiente. Os pomos das espadas dos cruzados
normalmente eram esculpidos com a forma de uma pedra ou de um pedaço
de chumbo, que costumavam ser incrustados ali em épocas anteriores. O
pomo desta espada tinha a forma de uma bolota rude. O copo e a lâmina
seguiam a forma correta.
Dali nos dirigimos para o lugar onde fora erguida a Cruz. A maior parte do
monte havia sido escavada durante a ocupação dos romanos, que soterraram
o Sepulcro e construíram um templo dedicado a Vênus, abrangendo o monte
Calvário e o Sepulcro. Entretanto, existe um altar que se supõe localizado
exatamente no lugar onde se ergueu a Cruz.
Nesta capela adquiri um rosário para Mary Sacally64 e consegui que fosse
benzido sobre o altar.
Saindo da capela percorremos a Via Sacra, uma rua muito suja, até o ponto
onde existiu o Foro Romano. Creio que a extensão não é mais de 800 metros.
Além das estações da Via Sacra dos católicos, os gregos acrescentaram mais
outras; por isto, um padre grego leva praticamente um dia inteiro
percorrendo a Via e parando em cada estação.
No Foro embarcamos nos carros e seguimos para o jardim de Getsemani,
onde há oliveiras possivelmente já existentes na época de Cristo.
Depois de almoçarmos com o general comandante voltamos ao aeroporto e
voamos para o Cairo, acompanhando a linha do litoral e sobrevoando Gaza.
Embora observasse com muita atenção, não consegui ver nenhum indício do
combate, mas identifiquei a crista de cactos onde os carros de combate
ficaram detidos. Chegamos no Cairo ao anoitecer, realizando em um dia a
viagem que os judeus realizaram em 40 anos.
Ficara combinado para o dia 15 que um ilustre professor nos acompanharia
em um passeio turístico; imaginamos que visitaríamos as pirâmides.
Passamos no hotel Shepheard para apanhar o tal gênio; quando lhe disse que
desejava ver as pirâmides o homem espantou-se e declarou-me que só as
visitara uma única vez, embora residisse no Cairo há 40 anos. Segundo ele, o
que valia a pena ver, na cidade, eram as mesquitas. Disse-lhe que já visitara
todas as mesquitas que me interessavam; portanto, dispensei os seus
préstimos.
Fomos para as pirâmides e contratamos um guia nativo, bastante fluente mas
muito ignorante. As pirâmides constituíram um desapontamento para mim.
Não são tão grandes, nem tão imponentes, quanto as que existem nas
vizinhanças da Cidade do México. A esfinge acha-se em mau estado de
conservação e é menor do que eu esperava. Entretanto, o templo de pedra, no
pé da Esfinge, é uma construção notável. Parece que os construtores
empilharam as pedras e depois perfuraram a capela e os túmulos.
Um dos túmulos possui uma laje no teto, com cerca de 6 metros de
comprimento por 1,80 metros de largura e 60 centímetros de espessura, que
foi introduzida em entalhes nas paredes verticais e é completamente polida.
O polimento e o corte foram realizados com talhadeiras de bronze. Os
egípcios conheciam algum método de temperar o bronze que até agora não
descobrimos.
Às 17h30min realizei uma palestra sobre operações de desembarque para
todos os oficiais do Comando do Oriente Médio, ao todo cerca de 500
oficiais. Acho que o assunto despertou grande interesse pois, contrariando o
hábito inglês, fui muito aplaudido e vários dos presentes escreveram-me
posteriormente; um deles chegou a declarar que jamais aprendera tanto em
sua carreira militar como durante os 30 minutos da minha palestra.

16 de dezembro de 1943
O Major-General Beaumont Nesbitt, encarregado de acompanhar visitantes
ilustres, levou-me ao hotel Shepheard, onde apanhamos o resto da comitiva,
e seguimos ao longo de um canal de água doce, durante duas horas e meia de
automóvel, até o Centro de Instrução de Operações Combinadas situado nas
margens do lago Bitter menor. Parece que os ingleses gostaram tanto da
minha palestra de ontem que solicitaram a sua repetição para cerca de 200
oficiais-alunos e para o Tenente-General R. M. Scobie, comandante do
centro de instrução.
Embora um pouco menor e não tão bom quanto um dos nossos centros em
Mostaganum, o centro de instrução inglês apresentava um ou dois
aperfeiçoamentos em relação aos nossos métodos. Possuíam imitações dos
bordos dos navios, construídos dentro da água, e que permitiam a atracação
de embarcações de desembarque a fim dos homens praticarem a descida
pelas redes, desde o convés até às embarcações.
Na volta, enfrentamos uma tempestade de areia que reduziu a visibilidade a
zero.
O General Sir Henry Maitland-Wilson regressou e compareceu ao jantar.
Tratava-se de um homem corpulento e muito jovial. Impressionou-me mais
do que qualquer outro oficial inglês. Aliás, todos eles, inclusive o general,
interessavam-se muito em minha opinião a respeito de Montgomery; fui
muito cauteloso nas minhas palavras e evitei ser envolvido em fofocas.
No dia 17, o General Nesbitt levou-me para visitar o General Anders,
comandante do II Corpo de Exército polonês. Acompanhado pelo General
Anders e pelo restante da minha comitiva visitamos o acampamento polonês
em Faqus, no lado oriental do delta do Nilo. A guarda de honra que nos
prestou continência revelou excelente apresentação. Almoçamos. Durante o
almoço o General Anders colocou em meu uniforme as insígnias de tenente-
general polonês e o distintivo de ombro do II Corpo. Para não ficar atrás,
outorguei-lhe uma das minhas insígnias do posto e o distintivo de ombro do
7º Exército.
Anders impressionou-me por suas qualidades. Durante a Primeira Guerra
Mundial exerceu a função de chefe de estado-maior de uma divisão russa.
Fora ferido em combate sete vezes e recebera, duas vezes, a medalha do
mérito polonês. Seus soldados tinham a melhor apresentação de todos quanto
já vira, inclusive ingleses e americanos. Rindo, declarou-me que, se colocado
entre um exército russo e um alemão, seu corpo de exército não saberia dizer
qual dos dois gostaria de destruir em primeiro lugar.
Depois de inspecionarmos o II Corpo polonês, eu e o Coronel
Cummings65 voltamos para Alexandria, a convite do Comandante do
Levante, Vice-Almirante Sir Arthur Willis. Cruzamos por sobre o delta
inteiro; infelizmente a maior parte da viagem foi noturna, o que não nos
permitiu ver nada.

18 de dezembro de 1943
Às 10 horas recebemos o Coronel Mosely, que disputara o Grand National
quatro vezes. Seguimos para o late Clube, fomos recebidos por um almirante
e conduzidos em uma lancha para inspecionar o porto.
Depois, visitamos o Parque de Manutenção de Carros de Combate,
impressionante pelo seu tamanho e pouco recomendável pela sua
organização e trabalho de manutenção. Entre outras coisas, verificamos que
as gaxetas eram feitas manualmente.
Voltamos de carro para o Cairo, viajando 240 quilômetros através do deserto.

19 de dezembro de 1943
Decolamos do Cairo às 7 horas e subimos o Nilo até Karnak. O General
Wilson mandou-nos o Major Emory, na vida civil um famoso egiptólogo e
vice-chefe da expedição Carter, que descobriu o túmulo de Tutancâmon.
Karnak situa-se na margem oriental do rio. Do aeroporto até a margem
ocidental viajamos em automóveis Ford, em péssimo estado; cruzamos o rio
em um barco nativo. Viajamos em outros três carros Ford até o Vale dos
Reis. A visita foi muito interessante, uma vez que o Major Emory realizara
muitas escavações ali.
Primeiro entramos no túmulo do faraó Tutancâmon, muito pequeno na
opinião do Major Emory. Originariamente existiam três sarcófagos ao lado
de um esquife de pedra. No momento, só se acha no local o sarcófago
número dois; dentro dele estão os restos mortais do faraó. O sarcófago
número um, em ouro maciço, encontra-se no Museu do Cairo e seu valor é
de 7 mil libras esterlinas. O sarcófago onde repousa o faraó é de madeira,
mas revestido de ouro. O sarcófago número três, todo em madeira, também
se acha no Museu do Cairo.
O Major Emory explicou que o túmulo do faraó foi construído imitando,
mais ou menos, a sua casa. Assim, em cada compartimento do túmulo
existiam as coisas correspondentes aos respectivos quartos dentro da casa.
Emory ressaltou que, embora se houvesse recolhido uma quantidade grande
de objetos valiosos no túmulo de Tutancâmon, existiam quantidades muito
maiores em outros túmulos porque, em comparação com os da dinastia
Ramsés, o de Tutancâmon era um mero cubículo.
Do Vale dos Reis seguimos para Tebas e visitamos o túmulo de um primeiro-
ministro que servira ao sucessor de Tutancâmon. Tratava-se de um túmulo
muito interessante por dois motivos: primeiro, fora descoberto e aberto pelo
Major Emory; segundo, constituía um dos poucos lugares no Egito em que
não existia uniformidade nos baixos-relevos. De um lado da entrada do
túmulo o baixo-relevo era de um tipo bastante antigo. O baixo-relevo do
outro lado era de tipo moderno. A razão da discrepância residia no fato de
haver ocorrido uma reforma religiosa durante o mandato do primeiro-
ministro; assim, um baixo-relevo era anterior e o outro posterior à reforma.
Outro aspecto interessante era a possibilidade de apreciar como os egípcios
trabalhavam. Em uma das paredes do túmulo, cuja obra não fora concluída,
podia-se ver, primeiro, o traçado das linhas que serviam de guia para o
trabalho dos escultores, depois algumas esculturas semiacabadas e,
finalmente, esculturas completas.
Em seguida, visitamos o templo e residência de Ramsés II. Lá existia uma
coisa interessante. Quando lutou na Síria, Ramsés viu os parapeitos ameados
nas fortificações e mandou construir ameias nos parapeitos do palácio.
Transpusemos o rio, almoçamos e fomos visitar os templos de Luxor e
Karnak. Os dois templos ficam afastados uns 800 metros um do outro. Quem
gosta de visitar ruínas deve conhecer em primeiro lugar as que não são
egípcias, porque as ruínas egípcias fazem as outras parecerem
insignificantes.
No pátio de Karnak existe um Foro Romano, o qual apreciado isoladamente
parece imponente. Visto dentro do conjunto, entretanto, é preciso que
alguém chame a atenção para o Foro, uma vez que fica ofuscado pelos
monumentos egípcios.
Em uma parte de Karnak ainda existe o plano inclinado que os egípcios
utilizavam para movimentar as pedras empregadas na construção dos
prédios.
O templo apresenta vários obeliscos. O Major Emory chamou a nossa
atenção para o fato de serem lascadas as bases dos obeliscos existentes em
Nova Iorque, Londres, Paris e Madri; acontece que os nossos engenheiros
lascavam as bases ao colocá-los de pé, porque não conseguiam baixá-los
sobre os pedestais exatamente na perpendicular. Todavia, os obeliscos de
Karnak, pesando no mínimo 75 toneladas cada, não apresentavam nenhuma
lasca na base e estavam colocados perfeitamente na vertical.
Regressamos ao Cairo, aterrando quando já era noite. No dia seguinte, 20 de
dezembro, voamos para Palermo.

MALTA
O Marechal-de-Campo Lord Gort convidou-me para visitá-lo em Malta.
Após uma viagem a Argel, eu, o Coronel Codman e o Capitão Stiller
decolamos na manhã de 4 de janeiro de 1944. Como não éramos esperados
em Malta antes das 15 horas, tivemos tempo para sobrevoar o terreno em que
o II Corpo combatera na última primavera.
Quando nos achávamos a cerca de 100 quilômetros a noroeste de
Constantina o piloto, Capitão Hetzer, informou-me que, certa vez, avistara
uma ruína romana naquela região; procuramos por ela e a encontramos.
Tratava-se de uma cidade bastante grande, com um templo de largas
dimensões e em bom estado de conservação e com um teatro bonito. O nome
da cidade não constava em nenhum mapa que consultei.
Ao nos aproximarmos de Tebessa sobrevoamos o local onde eu assumira o
comando do II Corpo. Mentalmente, ainda podia recordar o terreno coberto
por carros de combate, canhões e barracas, mas não existia mais o menor
sinal de tudo isto, apesar do pouco tempo decorrido.
Os grandes depósitos existentes em Tebessa, e que constituíram o objetivo
do ataque alemão através do passo de Kasserine, tinham sido removidos e
não havia o menor sinal de que eles se localizaram naquela região. O mesmo
acontecia em relação a Feriana, onde tivemos um Posto de Comando, e a
Gafsa.
A observação do terreno onde lutamos durante a batalha de El Guettar
proporciona uma idéia nítida do valor do soldado americano. As montanhas
parecem impraticáveis. Fico satisfeito por não ter sabido, naquela ocasião,
que o terreno era tão desfavorável. É verdade que não se podia usar um avião
para observá-lo; todas as decisões tiveram que ser tomadas com base no
estudo da carta. Se eu soubesse que o terreno era tão difícil bem que poderia
ter sido menos ousado. Não se deve esquecer, porém, que o terreno é tão
difícil para você quanto o é para o inimigo.
Por outro lado, a estrada de eucaliptos que penetrava na nossa posição —
pensando nela, passei horas intranquilo — não constitui uma via de acesso
ameaçadora, conforme se concluía pelo estudo da carta. Se a tivesse visto do
ar, haveria de dormir mais tranquilo.
Depois de El Guettar sobrevoamos Maknassy. Todas as viaturas e carros de
combate destruídos durante a luta também haviam sido removidos.
Malta, onde aterramos às 15 horas, é completamente diferente do que eu
imaginara. A ilha é toda coberta por aldeias e os espaços existentes entre elas
é cultivado. Só os aeroportos ficaram livres desta concentração de
população.
O solo é formado por rocha porosa e macia, capaz de ser entalhada tão
facilmente quanto a madeira, enquanto permanecer dentro da escavação, mas
endurecendo quando exposta ao ar livre.
A fim de se proteger contra os bombardeios alemães a maior parte das
instalações vitais em Malta, conforme todo o mundo sabe, foram enterradas
em cavernas. Entretanto, acho que o mundo não imagina como estas
cavernas são enormes e como foi fácil escavá-las. O trabalho de limpeza de
escombros, realizado pelos ingleses depois da blitz, também é digno de
louvor.
O meu amigo Marechal-do-Ar Park, que comandava a RAF em Malta,
mostrou-me todas as instalações da aviação, inclusive as cavernas. O
contingente da RAF em Malta foi a parte da aviação melhor uniformizada e
mais disciplinada que já vi na minha vida, seja na aviação inglesa, seja na
americana.
No dia seguinte o Capitão Holland, ajudante-de-ordens de Lord Gort, levou-
nos para um passeio turístico pela ilha; visitamos fortes, portos, igrejas e
outros pontos de interesse.
Os fortes são de tipo diferente dos que eu já visitara. Foram construídos
antes de Vauban66, mas ainda assim eram invulneráveis à Artilharia, isto é,
as paredes têm 2,5 a 5 metros de espessura e as ameias destinam-se mais aos
canhões do que às armas portáteis.
Durante o cerco em 1528, os três fortes, um na ilha e os outros nas duas
penínsulas, resistiram ao ataque de 40 mil turcos, guarnecidos apenas por
400 cavaleiros e 800 mercenários.
A natureza do terreno da ilha constituiu uma vantagem para a construção dos
fortes, e foi bem aproveitada. Bastava cortar uma parte da rocha e surgia uma
muralha; a parte removida servia para aumentar a altura da muralha natural.
A coisa mais interessante que vi foi a biblioteca dos Cavaleiros de Malta. O
diretor conduziu-nos durante a visita. O homem fala e lê nove línguas, o que
lhe permite traduzir com facilidade a coleção valiosa de manuscritos
existentes na biblioteca.
Interessei-me particularmente por um códex, datado de 1420 e representando
a vida de Santo Antônio, que viveu tentado por demônios em forma de
mulheres lindas. O meu interesse deveu-se ao fato de que uma das
ilustrações representava uma loja de armaduras, na qual os modelos, que
variavam dos anos 1100 a 1400, apareciam expostos à venda pendurados
como agora se penduram as roupas em uma loja de penhores. Um aspecto
relevante é que a maioria dos historiadores é propensa a separar as
armaduras por período de utilização, mas a gravura constituía uma prova de
que até 1400 ainda se usavam todos os tipos de armadura, tanto de malha
como de chapa.
Um outro códex interessante era o da impressão da Bíblia original, utilizando
tipos de madeira. Todas as letras maiúsculas, porém, não eram impressas e
sim desenhadas a mão.
Para tornar-se Cavaleiro de Malta era preciso possuir 16 antepassados
nobres; assim, quando alguém se candidatava a cavaleiro, tinha que
apresentar sua árvore genealógica, a qual era estudada por um colégio de
parassematógrafos. Se a genealogia estivesse certa o candidato era admitido.
Todas estas árvores genealógicas acham-se guardadas na biblioteca e
constituem a maior coleção do mundo.
Além da exigência de 16 antepassados nobres, um cavaleiro tinha que passar
18 meses no mar, servindo como combatente nas galeras, e, depois, tinha que
trabalhar em um hospital.
O cavaleiro era obrigado a fazer quatro votos: pobreza, castidade, humildade
e obediência. O voto de pobreza obrigava-o a entregar à Ordem quatro
quintos de seus bens materiais. Entretanto, se alcançasse sucesso como
cavaleiro, a Ordem o remuneraria com mais de cem vezes o valor dos bens
que dele recebera; por isto, muitos cavaleiros morreram riquíssimos. Isto
acontecia principalmente antes de 1800, quando os cavaleiros sofreram
limitação no corso que praticavam no Mediterrâneo; até então, o ódio votado
aos turcos servira de argumento para encobrir a pirataria que praticavam,
pessoalmente, contra os turcos e contra quem quer que conseguissem
apanhar.
O voto de castidade não era muito respeitado. Entretanto, um certo Grão-
Mestre resolveu desestimular as atividades amorosas de seus subordinados e
determinou que todas as mulheres passassem a residir na margem do porto
oposta aos fortes. Para encontrá-las o cavaleiro teria que remar até aquela
margem, o que certamente o desacreditaria perante seus pares. Parece que o
descrédito pretendido pelo Grão-Mestre ficou reduzido aos aplausos com
que os outros cavaleiros recebiam os remadores, no regresso ao castelo.
O voto de humildade era cumprido através de um expediente simples: lavar
três vezes o pé de um mendigo. O voto de obediência era respeitado
rigidamente.
Vale a pena lembrar que a maioria da população de Malta jamais viu uma
montanha, um rio, um lago, uma floresta ou uma estrada de ferro e, segundo
dizem meus amigos, não tem o menor desejo de vê-los.
Esta descrição sucinta das ações do 3º Exército e do 19º Comando Aerotático
(sob o comando do General-de-Brigada, depois Major-General, O.P.
Weyland), no conflito que acaba de terminar, constitui uma narrativa pessoal,
escrita apressadamente e destinada ao conhecimento da minha família e de
uns poucos amigos, velhos e íntimos.
Peço desculpa pela repetição frequente do pronome pessoal na primeira
pessoa do singular.
Como critiquei muitas pessoas sem que elas me revelassem suas próprias
versões dos acontecimentos, devo acrescentar que esta descrição contém a
maior quantidade possível de fatos que consegui dos meus apontamentos
pessoais, na época em que a escrevi.
George S. Patton Jr.
julho—agosto de 1945
PARTE 2. OPERAÇÃO OVERLORD

1. A CAMPANHA DA FRANÇA, AVRANCHES, BREST ATÉ O


MOSELA

1º de agosto a 24 de setembro de 1944


No dia 28 de julho de 1944 o General Patton assumiu o controle sobre as unidades do 1º Exército
que já se achavam no continente europeu.
O 1º Exército desencadeara o ataque contra St. Lô no dia 26 de julho. O ataque ganhou impulso nos
dias subsequentes e atingiu o clímax quando o General Patton lançou o seu 3º Exército para a
península da Bretanha, no dia 1º de agosto.
Em duas semanas o 3º Exército expulsou os alemães da península, confinando-os nos portos de
Lorient e Brest, limpou a margem do rio Loire até Angers e progrediu para além de Le Mans e
Alençon, no seu avanço para leste. No fim de agosto os alemães ainda estavam cercados nos portos
e a arremetida do 1º Exército para leste, adquirindo impulso, desbordou Paris e alcançou Reims,
Verdun e Commercy.
Por volta de 5 de setembro, elementos do 3º Exército atingiram Metz e Pont-à-Mousson; em 15 de
setembro, unidades dos XII e XX corpos de exército situavam-se ao longo do Mosela e, em alguns
pontos, haviam transposto o rio. Planos elaborados no escalão superior contiveram o 1º Exército na
sua arremetida para leste; a falta de gasolina e a escassez de outros suprimentos essenciais
provocaram uma parada no avanço.
Quando a campanha terminou no dia 25 de setembro, o 3º Exército já limpara a margem ocidental
do Mosela de elementos inimigos que se achavam ao norte de Metz e consolidara as cabeças de
ponte da margem oriental, ao sul de Metz. Lunéville e Rambervillers já estavam bem atrás das
linhas de frente do 3º Exército.
Durante o período abrangido por este capítulo o 7º Exército norte-americano desembarcou, com
sucesso, no sul da França e progrediu para o norte com rapidez e ousadia, estabelecendo contato
com elementos do 3º Exército no dia 11 de setembro, ao norte de Dijon.
O 1º Exército norte-americano e o 2º Exército inglês progrediram paralelamente pelo norte da
França, atingindo a fronteira da Bélgica e conquistando Antuérpia e Namur em princípios de
setembro. Os russos e os romenos atravessaram a Bulgária e os soviéticos desencadearam uma nova
ofensiva no sul da Prússia Oriental. Constituiu-se o 9º Exército norte-americano no continente
europeu, o qual substituiu o 3º Exército na missão de conquistar os portos da península da Bretanha.
As forças aéreas americana e inglesa prosseguiram proporcionando apoio às forças terrestres e
bombardeando o interior do Reich.
Ao encerrar-se o período, os ingleses já haviam realizado a malfadada operação aeroterrestre em
Arnhem, o 1º Exército penetrava na Linha Siegfried em Aachen e suas vizinhanças, o 9º Exército
completara as operações na península da Bretanha, com exceção dos portos de Lorient e St. Nazaire,
e o 7º Exército aproximava-se da passagem de Belfort, depois de haver realizado a limpeza de
Epinal.
P.D.H.

EXCURSÃO NA FRANÇA COM UM EXÉRCITO

Em março, abril e maio, quando ainda me encontrava em Peover Hall, o primeiro quartel-general do
3º Exército na Inglaterra, tornou-se evidente que o 3º Exército desembarcaria ou na península de
Cherburgo, ou nas vizinhanças de Calais. Pessoalmente, preferia esta última região; embora
pudessem ocorrer baixas elevadas durante o desembarque, a progressão para o interior seria menos
onerosa posteriormente. Em operações anfíbias devemos desembarcar o mais próximo possível do
objetivo. Calais estava mais próximo deste objetivo1 do que Cherburgo.
Meditando sobre o curso provável dos acontecimentos, escolhi determinados pontos onde teria que
travar batalhas, ou que seriam realmente críticos para as operações da minha grande unidade.
Quando o Secretário-Adjunto da Guerra, J.J. McCIoy, visitou Peovar disse-lhe que a primeira
grande batalha do 3º Exército ocorreria em Rennes. Na realidade, travamos ali a segunda grande
batalha. Escolhi como pontos importantes Laval, Chateaubriant, Nantes, Angers, Tours, Orléans,
Bourges e Nevers porque pensava, naquela ocasião, que progrediríamos ao sul da curva do Loire.
Até hoje não sei por que não seguimos nesta direção.
Também selecionei outros pontos, na maioria dos quais lutamos posteriormente; não tenho o meu
mapa à mão e não me recordo do nome de todos eles. Lembro-me, porém, de haver selecionado
Chartres e Troyes e, por estranho que pareça, Worms e Mainz. É preciso realçar que este estudo foi
feito em uma carta rodoviária da França, na escala 1/1.000.000; se é verdade que “o objetivo
principal da humanidade é o homem”, sem dúvida o objetivo principal da guerra é a rede de
estradas.
Na minha opinião, as cartas em menor escala são melhores para o alto comando porque, neste
escalão, é preciso decidir sobre a conduta geral e determinar os lugares, normalmente nós
rodoviários ou linhas fluviais, cuja conquista por nossas forças mais prejudicará o inimigo. De que
modo estes lugares serão conquistados compete aos escalões subordinados determinar, seja através
do estudo em cartas de maior escala, seja, e melhor ainda, através de estudo no terreno.
Também li “The Norman Conquest”, de Freeman, dedicando particular atenção às estradas
utilizadas por Guilherme, o Conquistador, em suas operações na Normandia e na Bretanha. Naquela
época, só poderiam existir estrada em terreno que fosse sempre transitável. Portanto, utilizar estas
mesmas estradas, ainda que nos tempos atuais, permitiria desbordar facilmente as demolições
praticadas pelo inimigo.
Deixamos2 o Reino Unido no dia 6 de julho; o avião decolou exatamente às 10h25min. Fazia
precisamente um ano desde a nossa partida de Argel em direção à Sicília. Ao sobrevoarmos o litoral
leste da península de Cherburgo, observei uma quantidade enorme de navios ao longo da costa.
Depois da aterragem e enquanto viajava pela praia, constatei a existência de um número
impressionante de embarcações destruídas. Uma parte da destruição fora causada pela ação do
inimigo, mas a maior parte resultará do efeito de uma tempestade que durara vários dias, logo
depois do desembarque inicial. Fiquei espantado com a defesa das praias, principalmente com as
casamatas. O fato de os aliados haverem desembarcado com sucesso demonstra que tropas bem
treinadas podem desembarcar em qualquer lugar.
Saindo da praia de Omaha, dirigimo-nos para o quartel-general do General Bradley, ao sul de Isigny,
onde passei a primeira noite envolvido pela preparação da Artilharia mais infernal que até então
presenciara. O QG de Bradley ficava na frente da Artilharia de corpo de exército e quase no meio
dos grupos da Artilharia divisionária.
No dia seguinte encaminhei-me para o meu primeiro Posto de Comando no continente, situado em
Nehou, a sudeste de Bricquebec. Dizia-se que este castelo, Bricquebec, pertencera a um dos
comandantes das legiões de César; a torre principal tem onze faces e representa a transição da antiga
torre quadrada para a torre circular. Para chegar ao PC era preciso atravessar a ponte em Carentan,
que deveria ser transposta em alta velocidade e com grande intervalo entre as viaturas por estar sob
fogo do inimigo. Ao atravessar a ponte encontrei quatro dos nossos soldados sentados sobre ela e
pescando. Entretanto, cada fanfarrão que vinha me visitar tratava logo de contar os perigos que
enfrentava na travessia da ponte.

Nosso Posto de Comando fora muito bem localizado pelo General Gay3 em um velho pomar de
maçãs.
Durante a minha permanência na região aproveitei a oportunidade para examinar, do chão e do ar, as
defesas germânicas em torno de Cherburgo. Também mandei que o chefe do Serviço de Engenharia
do Exército levantasse a planta dessas defesas; na minha opinião, por ser um povo muito metódico,
os alemães construiriam defesas semelhantes onde quer que os enfrentássemos. Imaginava que as
defesas não tinham nada de excepcional; as plantas provaram que eu tinha razão.
Toda a parte norte da península de Cherburgo apresentava- se cheia de plataformas de lançamento
de bombas V-1. As posições de lançamento eram muito interessantes. Normalmente havia uma
pequena estrada de concreto, camuflada para parecer estrada de terra, saía da estrada principal e
conduzia até uma laje de concreto do tamanho de duas quadras de tênis. Nas bordas da laje existiam
recortes semicirculares para a aproximação de caminhões. Bem no centro da laje havia um certo
número de buracos. Algumas posições possuíam depósitos ou paióis para guarda dos foguetes.
Durante a noite, um comboio de viaturas alemãs chegava até uma das lajes conduzindo os foguetes
e uma rampa desmontável. A rampa era colocada em posição de lançamento através da simples
introdução das vigas nos buracos existentes na laje, e formava um ângulo de 30 graus em relação ao
plano horizontal. Em posição, a rampa ficava automaticamente apontada para uma determinada
região da Inglaterra. Depois, os foguetes iam sendo colocados sobre a rampa e disparados. Esgotada
a carga de foguetes, os integrantes do comboio recolhiam a rampa e partiam, deixando uma turma
para reconstituir a camuflagem. Das posições que visitei, poucas haviam sido bombardeadas com
sucesso.
Existia uma outra construção gigantesca cuja razão de ser não consegui explicar. Consistia de um
bloco de concreto com mais de 1,5 quilômetros de comprimento e 20 a 25 metros de largura. Nas
elevações de cada lado tinham sido feitas escavações em forma de cunha, com 30 metros de
profundidade e 60 metros de largura no topo, as quais tinham sido preenchidas com concreto. Na
minha opinião esta obra consumira mais material do que a construção das grandes pirâmides.
Durante dois anos cerca de 3.000 trabalhadores forçados foram empregados pelos alemães e nem a
metade da obra ficara completa.

O General Teddy Roosevelt4 morreu no dia 12 de julho; estivemos presentes ao sepultamento no


cemitério próximo de St. Sauveur; os canhões antiaéreos prestaram a salva fúnebre ao bravo
soldado.
No dia 17 de julho recebemos a visita do Secretário da Guerra Stimson, acompanhado pelo senhor
Bundy5 e pelo General Surles6.
O Coronel Flint7 foi morto no dia 24; ele e o General McNair8 foram enterrados dia 26. Paddy teria
gostado do seu funeral. Mandamos fazer um caixão especial para ele, o qual foi transportado até a
sepultura em uma viatura blindada de meia-lagarta. Carregaram o caixão um comandante de
exército, três comandantes de corpo de exército, um chefe e um subchefe de estado- maior de
exército e todos os cavalarianos que serviam no QG.
Por outro lado, por motivos de segurança, o enterro de McNair foi discreto, apenas com a presença
de Bradley, Hodges, eu, Quesada9 e o ajudante-de-ordens do falecido general.

No dia 24, chegou o General Henry10, pernoitou no nosso QG e passamos momentos agradáveis
examinando as posições de lançamento de bombas e conversando com a 6º Divisão Blindada.
Fiquei muito impressionado com o primeiro domingo que passei na Normandia. Compareci a uma
missa ao ar livre onde todos os presentes estavam armados. Debaixo do chuvisco e ajoelhados na
lama, podíamos ouvir perfeitamente o troar dos canhões e o céu estava repleto de aviões que
navegavam para suas missões de destruição, um contraste flagrante com os ensinamentos da religião
que praticávamos.
As recordações do tempo que passei no pomar de maçãs serão sempre desagradáveis, pois eu estava
obcecado pela crença de que a guerra poderia acabar antes que eu entrasse nela. Também tinha
certeza de que poderíamos avançar mais rapidamente se atuássemos com mais vigor. Declarei
naquela ocasião, e ainda acredito na minha declaração, que duas divisões blindadas, precedidas por
densas concentrações de Artilharia usando espoleta de tempo, e acompanhadas por duas divisões de
Infantaria, teriam rompido diretamente na direção de Avranches, sem necessidade de ter que esperar
pela ofensiva aérea.
A minha fé na viabilidade desta operação aumentou muito quando a 3ª Divisão Blindada inventou o
fura-cercas para carros de combate, depois aperfeiçoado pelo Coronel Nixon11. Toda a península de
Cherburgo e grande parte do leste da Bretanha constituem a região chamada bocage — isto é, uma
região formada por um número incalculável de pequenos campos separados por diques de terra, de
1,20 a 1,50 m de altura e cobertos por cerca viva. Estes diques de terra constituíam excelentes locais
de retardamento para a Infantaria. Entretanto, o fura-cercas cortava os diques da mesma forma que
uma colher corta manteiga derretida.
Uma visão desagradável era a dos crucifixos existentes nos cruzamentos das estradas, assinalando
sepulturas, utilizados pelo pessoal de Comunicações como postes telefônicos suplementares.
Nenhuma das cruzes sofria qualquer dano, mas eu não podia deixar de pensar na incongruência
representada pelas mensagens letais que corriam pelos fios.
Como o 3º Exército só se tornaria operacional às 12 horas do dia 1º de agosto, o General Bradley
designou-me verbalmente para comandá-lo, no dia 28 de julho; explicou-me também os planos para
o emprego inicial de dois corpos de exército: o VIII (Middleton) à direita e o XV (Haislip) à
esquerda12.
Em obediência a este plano, no dia 29 visitei as unidades nas vizinhanças de Coutances e encontrei
uma divisão blindada parada no meio da estrada enquanto o seu estado-maior, escondido atrás de
uma velha igreja, estava completamente mergulhado no estudo na carta. Indaguei por que não
haviam transporto o Sienne. Responderam-me que estavam estudando o assunto naquele momento,
mas não conseguiam descobrir um lugar que desse passagem a vau. Perguntei que esforço haviam
feito para encontrar um passo e fui informado de que estavam estudando a carta justamente para
isto. Contei-lhes, então, que acabara de transpor o rio, cuja profundidade não ultrapassava 60
centímetros e cuja única defesa, conforme experiência própria, não ia além de uma metralhadora
que disparara contra mim com péssima pontaria. Repeti-lhes o provérbio japonês: “uma espiada
vale mais do que cem relatórios”, e indaguei qual o motivo que os impedia de reconhecerem o rio
pessoalmente. Aprenderam a lição e, daí em diante, constituíram uma excelente divisão.
Na manhã de 31 de julho, deslocamos o nosso Posto de Comando para uma região ao norte da
estrada Granville —St. Sever —Lendelin. Foi lá que “Willie” apaixonou-se por uma cadela francesa
e, para vergonha e dissabor da Polícia do Exército, exumou o cadáver recém-enterrado de um
alemão.
Gaffey, Gay e eu permanecemos no antigo PC até às 15h45min, mas não ficamos sem fazer nada
porque obtivemos da Zona de Administração três esquadrões de reconhecimento, que nos eram
absolutamente necessários. Depois do jantar, Gaffey e eu fomos até o Posto de Comando do VIII
Corpo, em Brehal. Middleton ficou muito contente ao nos ver, pois havia atingido seu objetivo, o rio
Sélune, e não sabia como deveria prosseguir. Contei-lhe que, no curso da história, perderam-se
guerras porque rios não haviam sido transpostos; logo, cabia-lhe avançar imediatamente. Enquanto
conversávamos a respeito da construção de uma ponte sobre o Sélune nas vizinhanças de
Pontauboult, o telefone tocou e fomos informados de que a ponte existente ainda podia ser utilizada,
embora estivesse um pouco danificada. Na ocasião, considerei o fato como um sinal promissor para
o futuro sucesso do 3º Exército. Soubemos ainda que a 4ª Divisão Blindada acabara de conquistar a
represa a leste da ponte, que também possibilitava a travessia do rio, e que fizera quatro mil
prisioneiros. Como consequência destas notícias disse a Middleton que avançasse para Brest e
Rennes, com a 6ª DB e 79ª Dl sobre Brest e a 8ª Dl e a 4ª DB sobre Rennes, além de organizar uma
força-tarefa para vasculhar o litoral norte de toda a península, sob o comando do General H. L.
Earnest13.
No regresso ao quartel-general passei diante de um dos alemães mais morto dentre os que já havia
visto. O cadáver estava meio deitado e meio sentado sob uma cerca viva, com uniforme completo,
capacete e jugular por baixo do queixo, mas o corpo ficara totalmente preto. Jamais havia visto
acontecer tal coisa com um cadáver.

Na manhã do dia 1º de agosto todos estavam muito atarefados no nosso PC, exceto Harkins14 e eu;
por isto, resolvemos, ao meio-dia, comemorar o nascimento do 3º Exército com um brinde. A única
coisa que conseguimos encontrar para beber foi uma garrafa de um suposto brandy, oferecida a
Harkins por Campanole15. Tentamos beber o líquido, mas engasgamos.
A passagem de dois corpos de exército (VIII e XV) por dentro de Avranches foi uma dessas coisas
que não podem ser feitas, mas que acabam sendo. Só se tornou possível graças à utilização perfeita
de oficiais de estado-maior muito experimentados e graças à participação ativa dos comandantes de
corpos e de divisões, por vezes eles próprios dirigindo o trânsito. Não tínhamos dúvida de que, caso
ocorresse um congestionamento, nossas perdas seriam elevadas, principalmente entre a Infantaria
motorizada. Eu próprio tive que me aconselhar: “não dê ouvidos aos seus receios”.
A missão imediata do 3º Exército era conquistar e manter uma cabeça-de-ponte sobre o rio Sélune
entre Avranches e St. Hilaire-de-Harcouet. Imaginei que a melhor forma de cumprir a missão seria
através da conquista imediata de Brest e Lorient, e passei a agir dentro desta hipótese.
No fim da tarde de 1º de agosto a 6ª Divisão Blindada já conquistara Pontorson, onde eu e
Beatrice16 passáramos uma noite, em 1913, quando visitamos Mont St. Michel. Na operação a 6ª
DB perdera uma bateria de canhões autopropulsados por causa de uma tolice. Os canhões ficaram
muito próximos da linha de frente, muito junto uns dos outros e não havia destacamento de
segurança. O oficial responsável por isto foi morto em ação.
No mesmo dia a 4ª DB achava-se nas vizinhanças de Rennes. Aí aconteceu uma coisa engraçada.
Uma hora antes do pôr do sol recebemos um informe revelando que uma coluna blindada
encontrava-se quinze quilômetros a sudeste de Rennes e deslocando-se rapidamente para a cidade.
Solicitei ao General Weyland, comandante do XIX Comando Aerotático, que enviasse alguns caças-
bombardeiros para deter aquela coluna. Os aviões não conseguiram encontrá-la porque, na
realidade, tratava-se da 4ª DB que avançava sobre a cidade por nordeste. De qualquer maneira, os
aviões fizeram um bom serviço, atacando a resistência inimiga situada na frente da 4ª DB, ação
precursora de muitas outras que seriam realizadas em benefício do 3º Exército. Sem dúvida, foi
amor à primeira vista entre o XIX Comando Aerotático e o 3º Exército.
No dia 2 de agosto Stiller e eu nos juntamos a uma coluna da 90ª Divisão de Infantaria que
ultrapassara Avranches e marchava para leste; caminhamos algumas horas no meio dos soldados. Na
ocasião, havia muita dúvida sobre a eficiência desta divisão, mas havíamos colocado o General
McLain no seu comando e o General Weaver no subcomando. Ao chegarmos na região em que a
estrada virava para o sul, em direção a St. Hilaire, encontramo-nos com McLain e Haislip; ficamos
sabendo que o combate que se travava mais adiante era consequência de um ataque liderado
pessoalmente por Weaver, para a conquista de uma ponte. Era o início do aparecimento de uma das
melhores divisões combatentes, e aqueles dois homens muito contribuíram para isto. Posteriormente
a divisão teve uma série de grandes comandantes.
Na viagem de regresso ao quartel-general do exército, junto com Haislip, vi um jovem oficial e seu
motorista saltarem rapidamente de um jipe e pularem dentro de uma trincheira. Parei para averiguar
o que se passava e eles explicaram que havia um avião inimigo sobre nossas cabeças. Era verdade,
mas voava tão alto que, praticamente, não poderia nos causar nenhum mal; ali estava mais um
exemplo de nervosismo durante o primeiro combate. Voltaram para o jipe muito mais depressa do
que haviam saltado.
Voltando de Avranches neste início de agosto, vi um dos piores acidentes que já testemunhei. Um
soldado de Engenharia caiu na frente de um trator em movimento; o homem ficou praticamente
partido ao meio, mas ainda com vida. Permaneci junto dele e ministrei-lhe morfina até a chegada de
uma ambulância.
Durante este período enfrentamos considerável atividade aérea da parte do inimigo; é verdade que a
ação inimiga seria considerada desprezível se fosse comparada com a que exercíamos sobre ele.
Lembro-me que, certa noite, ouvi perfeitamente cem explosões distintas em cerca de uma hora.
Evidentemente, o fato de poder ouvi-las indicava impactos dispersos.
Outra noite, o inimigo bombardeou e metralhou, propositalmente, os prisioneiros confinados em um
dos nossos campos. O oficial da Polícia do Exército que comandava o campo soltou os prisioneiros,
para que procurassem abrigo; de uns poucos milhares, só cinquenta retornaram ao campo. Estes
mostravam-se indignados com os alemães e manifestavam livremente sua indignação.
No dia 4, Codman, Stiller e eu decidimos encontrar a 6ª Divisão Blindada. Stiller seguiu em uma
viatura blindada, abrindo caminho; eu e Codman o acompanhamos de jipe, passando por Avranches,
Pontorson, Combourg e Merdrignac. Encontramos um oficial de ligação muito afobado e que nos
informou que a estrada se achava sob fogo inimigo. Soubemos, mais tarde, que o pobre homem
ficara um pouco perturbado da cabeça. De qualquer maneira, foi excitante viajar quinze quilômetros
por uma estrada de um país ocupado pelo inimigo e sem encontrar nenhum soldado nosso. Por fim,
encontramos o Posto de Comando da divisão.
No dia seguinte, na reunião do estado-maior, fiquei perturbado ao verificar que havia viajado por
uma região ocupada por uma divisão alemã. Não quis magoar o nosso E-2, revelando-lhe que não
conseguira encontrar a tal divisão inimiga.
Na medida em que penetrávamos na península bretã a atitude da população tornava-se mais
amistosa. Acho que isto se devia ao fato de ter havido menos combates e menos bombardeio
naquela região. Os normandos, na península de Cherburgo, não se mostraram muito satisfeitos.
Todavia, talvez não devamos criticá-los, uma vez que nós e os alemães havíamos bombardeado suas
cidades.
Por causa das grandes distâncias que era obrigado a percorrer, realizava a maior parte dos meus
deslocamentos em um avião da ligação L-5. Vi inúmeros aviões derrubados. Em volta de cada
destroço existia uma trilha aberta por uns vampiros esquisitos. A cena me fazia lembrar aves mortas
e parcialmente comidas pelas abelhas. Os planadores, com as fuselagens alongadas e as asas
colocadas bem para a frente, lembravam libélulas.
Certo dia, ao visitar o quartel-general do 12º Grupo de Exércitos, do General Bradley, passei por St.
Lô, onde eu e Beatrice dormíramos uma noite, em 1913, e compráramos alguns móveis. Até aquele
momento era a cidade mais destruída que eu já havia visto. Daquela ocasião em diante habituei-me
a ver coisas piores.
O bombardeio mais intenso que sofremos ocorreu no dia 7 de agosto. Acho que as bombas eram
pequenas, provavelmente bombas de 90 quilos. Durante esta incursão acertaram um dos nossos
depósitos de munição que continha cerca de mil toneladas de explosivos. Ao cabo de três dias ainda
havia fogo no depósito.
Até o dia 7 — isto é, o início da segunda semana — a 83ª, do VIII Corpo, achava-se nas orlas de St.
Maio. A 6ª Divisão Blindada estava próxima, mas não dentro, de Brest. Dinan fora conquistada por
um grupamento tático da 8ª Dl, o qual se deslocou para oeste de St. Maio para atacar Dinard. A 4ª
Divisão Blindada estava em Vannes e aproximava-se de Lorient. A 79ª Dl transpusera o rio em
Laval e a 90ª em Mayenne, enquanto a 5ª DB aproximava-se de Château Gontier e elementos da
outra parte da 8ª Dl achavam-se em Châteaubriant.
Às 08h30min chegou um oficial do Corpo Aéreo, que fora abatido nas vizinhanças de Angers e
resgatado por um integrante das Forças Francesas do Interior; o aviador informou-nos que viajara de
Angers até Châteaubriant por estradas secundárias e não encontrara nenhuma unidade alemã —
apenas vira pessoal de Comunicações recolhendo fio e recuando para leste. Declarou também que a
ponte em Angers estava intata. Enviei o General Gaffey, o francês e o Coronel Carter17 a Vitry, a
fim de reunirem um grupamento tático da 5ª Dl, alguns carros de combate e uma unidade de
reconhecimento para atacar Angers. Tratava-se de uma operação arriscada, mas a guerra é assim. O
ataque obteve sucesso, mas os alemães explodiram a ponte quando nossas tropas chegaram diante
dela.
No final deste dia chegou até nós o boato de que os alemães dispunham de várias divisões
blindadas18 e atacariam para oeste, partindo da linha Mortain-Barenton sobre Avranches.
Pessoalmente, achei que se tratava de um blefe germânico para encobrir um movimento retrógrado.
De qualquer maneira, detive as 80ª e 35ª Divisões de Infantaria e 2ª Divisão Blindada francesa nas
vizinhanças de St. Hilaire, para o caso de ocorrer alguma novidade.
No dia 8, Hughes19 e eu viajamos para Dol, onde dizem existir o maior símbolo fálico do mundo, o
qual não conseguimos encontrar; visitamos o VIII Corpo. Seguimos, depois, para as vizinhanças de
St. Maio, que estava sendo atacada pela 83ª Divisão de Infantaria. Encontrei Macon, o comandante
da divisão, bem próximo da linha de contato. Quando ele viu o General Hughes no carro comigo, o
homem empalideceu; compreendi que ele imaginou que eu viera trazer o seu substituto no comando
e gritei para Macon: “Bom trabalho”. Na realidade, a divisão ia bem, mas não muito bem. Já haviam
sofrido 800 baixas e capturado 1.300 prisioneiros20.
Foi neste dia que ordenamos o ataque do XV Corpo na linha Alençon-Sées. No dia 8 a 83ª Dl
conquistou St. Maio e cessou a última resistência diante da 5ª Dl, em Angers.
Recebi, no meu quartel-general, a visita de Bradley, Tedder e Spaatz21. Era a primeira vez que nos
reuníamos desde GAFSA22, no dia em que os alemães bombardearam a rua principal, em plena luz
do dia, logo depois de Spaatz explicar-me que os ingleses tinham o domínio total do ar. Sorrindo,
Tedder declarara: “Aposto que Patton considerou isto como uma anedota”. Respondi-lhe que não,
mas declarei que condecoraria o alemão, autor do bombardeio, se pudesse encontrá-lo. Como
consequência do bombardeio, também desfrutamos a oportunidade ímpar de ver árabes e camelos
correndo.
Fiquei preocupado porque existia uma brecha enorme no flanco americano, de St. Hilaire e
Mayenne; havia uma segunda brecha a sudoeste de Alençon. A única coisa que eu pude fazer para
me proteger destas brechas foi reunir a 7ª DB em Fougères.
No dia 11 eu e Codman visitamos o quartel-general do XV Corpo, a nordeste de Le Mans e, depois,
as 79ª e 90ª Divisões de Infantaria e 5ª Divisão Blindada. Não consegui encontrar o General
Leclerc, da 2ª DB francesa, pois ele inspecionava a linha de frente, apesar de tê-lo procurado em
lugares pouco recomendados pela cautela tradicional. No dia anterior a 2ª DB francesa e a 5ª DB
estiveram engajadas em combates violentos, com uma perda total de 40 carros de combate.
Ocorreu um incidente engraçado durante esta viagem. Tenho insistido constantemente para que os
canhões anticarro ocupem posição em lugares de onde possam ver sem serem vistos. Cheguei a um
cruzeiro no centro de uma junção de três estradas e encontrei, exatamente embaixo da cruz, um
canhão anticarro sem nenhum disfarce. Chamei o sargento comandante da guarnição e repreendi-o
por não estar cumprindo as minhas determinações. Quando acabei de falar ele declarou: “Muito
bem, senhor, mas ontem destruímos dois carros de combate daqui desta posição”. Tratei de pedir-lhe
desculpas. Será que a santidade do lugar salvara o canhão?
Fizemos planos para que a 7ª BD transpusesse o rio Mayenne na cidade do mesmo nome e se
deslocasse para Alençon, ao mesmo tempo em que a 80ª progredisse para o norte; as duas divisões
se juntariam na estrada Laval — Le Mans. Assim que o 1º Exército liberasse a 35ª Dl, ela se juntaria
às outras duas e ficaria constituído o XX Corpo, que progrediria à esquerda do XV Corpo. A 5ª
Divisão de Infantaria, menos um grupamento tático que ainda se encontrava em Angers, concentrar-
se-ia em Le Mans e aguardaria a chegada da 4ª DB, que estava para ser liberada. Estas duas divisões
constituiriam o XII Corpo, preparado para progredir para nordeste, isto é, ao sul do XV Corpo e no
flanco direito do exército.
As ilhas ao largo de St. Maio ainda estavam dando trabalho, bombardeando nossas tropas no litoral
com os canhões de grande alcance; até então eu não conseguira persuadir a Marinha inglesa a tomar
uma providência. Decidimos também pedir ajuda do ar contra Dinard, uma vez que a tentativa de
evitar o bombardeio das cidades estava nos causando muitas baixas.
No caminho para o nosso novo Posto de Comando, eu e Codman paramos no castelo de Fougères.
Tratava-se do melhor castelo que eu já vira, do ponto de vista militar, pela sua situação; a parte
residencial fora destruída por Richelieu e desde aquela época ninguém mais residira no castelo, nem
realizara qualquer melhoramento. Só foi conquistado duas vezes; uma por volta do ano 1100 e outra
por nós.
No dia 13, ficou claro que o XX Corpo não estava fazendo nada; deslocamo-lo para nordeste de Le
Mans, usando a 7ª Divisão Blindada e a 5ª Divisão de Infantaria e mandando um grupamento tático
da 80ª Dl para Angers. Isto nos permitiu reunir o XII Corpo, formado pela 4ª DB e 35ª Dl. Ainda
integrado pelas 5ª DB, 2ª DB francesa, 90ª Dl e 79ª Dl, o XV Corpo ocupou a linha Alençon-Sées-
Argentan. Poderia ter entrado facilmente em Falaise e fechado o bolsão, mas recebemos ordem para
não fazer isto porque, diziam, os ingleses tinham semeado uma grande quantidade de bombas de
retardamento pela região. Esta parada constituiu um erro grave, pois eu tinha certeza de que
poderíamos ter conquistado Falaise, mas não tinha certeza se os ingleses poderiam fazê-lo. Na
verdade, nossos pelotões de reconhecimento já estavam nas orlas da cidade quando recebemos
ordem para recuar.
Devido a necessidade de parar o XV Corpo, o XX Corpo deslocou-se para Dreux e o XII Corpo
para Chartres. Com este dispositivo, contando com quatro corpos (VIII, XII, XV e XX), o exército
podia atacar em qualquer direção sem que um corpo atravessasse na frente do outro; na realidade,
foi o que fizemos nos dias 12 e 13 e, também, mais tarde.
Graças à clarividência do Coronel Cummings, Ajudante-Geral do 3º Exército, o nosso sistema de
administração passava direto das divisões para o exército, deixando os corpos em seus campos
específicos de atuação como grandes unidades de emprego tático. Em virtude deste sistema,
tínhamos toda a facilidade para transferir divisões sem a menor perda de tempo. Jamais tivemos que
nos reagrupar, o que parecia a principal forma de diversão dentro dos exércitos ingleses.
Até o dia 14 de agosto, o 3º Exército avançara mais rápido e a maior distância do que qualquer outro
exército na história. A noite de 14 de agosto foi a primeira, desde o início da nossa atuação, em que
não fomos bombardeados, mas na manhã do dia seguinte sofremos o ataque de um avião americano
que se perdera no espaço.
Codman e eu voamos para Le Mans; não me lembro de outra ocasião em que houvesse relutado
tanto para entrar em um avião, porque o meu estado-maior me garantira que, se os alemães não me
derrubassem do alto, os americanos me derrubariam de baixo, uma vez que os constantes
bombardeios habituaram os artilheiros a atirar em tudo o que voasse. De fato, foi um dos poucos
dias em que tive um pressentimento de morte iminente, o qual não se concretizou.
Aterramos na margem de uma estrada e pegamos, imediatamente, um jipe do Corpo de Saúde que
transitava pela estrada. Antes, providenciei para que retirassem a bandeira com a Cruz Vermelha,
porque não queria utilizar uma proteção a que não fazia jus. Depois de visitar McLain, na 90ª Dl,
partimos ao encontro de Haislip, no XV Corpo, a fim de orientá-lo sobre a situação em curso.
Concordou comigo que poderia avançar para Dreux com duas divisões e sustentar o bolsão de
Falaise com outras duas. Mais tarde, fui até Bradley, que aprovou o plano; assim, lançamos o XV
Corpo sobre Dreux, o XX sobre Chartres e o XII sobre Orléans. Bradley autorizou-me a manter a
80ª Dl para o avanço para leste, substituindo-a no VIII Corpo por uma divisão do 1º Exército. No
fim do dia, o resumo da situação era o seguinte: três corpos atacariam para leste às 20h30min e o
VIII Corpo continuaria a efetuar a limpeza da Bretanha.
A leste de Le Mans registrou-se um dos melhores exemplos da cooperação entre blindados e apoio
aéreo. Numa extensão de quase quatro quilômetros a estrada estava cheia de viaturas e blindados
inimigos, a maioria ostentando o inesquecível cartão de visitas do caça-bombardeiro P-47 — isto é,
os buracos produzidos pelos projetis .50. Sempre que a Força Aérea e os blindados puderem atuar
juntos os resultados serão excelentes. Os blindados podem se deslocar com a rapidez necessária para
impedir que o inimigo se desdobre fora das estradas e, enquanto o inimigo se mantiver nelas, o
caça-bombardeiro é o seu adversário mais mortífero. Para conseguir este trabalho em equipe são
necessárias duas coisas: primeiro, confiança e amizade estreita entre o ar e a terra; segundo, ímpeto
constante e aparentemente implacável do comandante da força terrestre. Uma caneca de suor
economiza um litro de sangue.
Notava-se uma melhoria considerável no estado de espírito dos homens que chegavam aos hospitais
de evacuação; caiu drasticamente o número de baixas por automutilação. Os soldados gostam de
jogar no time vencedor.
O General Leclerc veio procurar-me, muito preocupado porque ele e a 90ª Dl estavam parados,
enquanto a 5ª DB e a 79ª Dl progrediam para Dreux. Expliquei-lhe que isto era o processo mais
rápido para efetuar a mudança de posição das unidades e que eu não estava interessado nas
repercussões políticas sobre quem seria o primeiro a chegar ao rio Sena. Apesar da troca de palavras
ásperas, nos despedimos como amigos.
Ocorreu uma outra preocupação a respeito de cinco divisões Panzer em Argentan; recebi ordem para
parar na linha Dreux-Châteaudun. Acho que levei o pessoal na conversa, pois retomei a progressão
na manhã seguinte.
No dia 15, recebemos a visita do príncipe Felix, do Luxemburgo.
No dia 16, Stiller, Codman e eu viajamos para Chartres, que acabara de ser conquistada por Walker;
encontramo-lo na ponte, ainda sujeita a alguns tiros inimigos. A ponte fora parcialmente destruída
por um alemão escondido em um abrigo individual e que acionou o detonador das cargas de
explosão depois que os elementos da vanguarda haviam ultrapassado a ponte; morreram alguns
americanos. Em seguida, o alemão ergueu as mãos e rendeu-se. Os americanos o aprisionaram, o
que considerei o máximo da insensatez.
Dali partimos para o quartel-general do XV Corpo em Châteauneuf-en-Thymérais. O General
Haislip estava com um dos olhos machucado, em virtude de acidente com um caminhão francês; o
moral de todos era bastante elevado.
No dia 16 de agosto, às 18h30min Bradley telefonou e disse- me que atacasse e conquistasse Trun,
na brecha de Falaise, com a 2ª DB francesa e as 80ª e 90ª Divisões de Infantaria. Disse-me também
que o General Gerow seria o comandante do corpo de exército que ia enquadrar aquelas três
divisões. (O V Corpo do 1º Exército, comandado por Gerow, fora dissolvido na ocasião em que as
suas divisões foram transferidas para o meu VIII Corpo, na época do ataque contra Brest.) Bradley
deu a entender que Gerow comandaria o novo ataque contra Trun.
Acontece que eu enviara Gaffey a Alençon para executar o ataque ordenado por Bradley. Em vista
disto, combinei com Gay telefonar-lhe dizendo “mudar de montaria”, seguido da hora do ataque,
caso Gaffey fosse realmente substituído por Gerow. Após a decisão de Bradley, telefonei para Gay e
transmiti a ordem mais curta que já foi dada a um corpo de exército: “mudar a montaria às 6
horas”23.
No lugar das três divisões que perdemos, recebemos duas divisões transferidas do 1º Exército e dois
batalhões de Rangers.
Neste ínterim, dei ordem a Haislip para atacar e conquistar Mantes-Gassicourt com a 5ª DB e 79ª
Dl. Com isto, poderíamos controlar o tráfego de embarcações alemãs pelo Sena.
Aconteceu uma coisa muito triste no dia 17 de agosto. O Major-General Gilbert Cook, que
comandava o XII Corpo e fora subcomandante do 3º Exército durante o deslocamento da Inglaterra
para o continente, sofreu um distúrbio circulatório tão grave que não pôde permanecer no comando.
Isto representava um golpe profundo para todos nós; relutei muito em acatar a prescrição médica e
abrir mão da cooperação de Cook. Tratava-se de um excelente soldado e de um chefe ousado. Ele
permanecera no comando por tempo superior ao que permitia o seu estado de saúde. No dia 19,
consegui a nomeação do Major-General Manton C. Eddy para substituí-lo. Eddy comandou a 9ª Dl
na Tunísia, na Sicília e na travessia do canal da Mancha.

Um franco-atirador feriu o Coronel Odom24 no mesmo bosque que eu atravessara no dia 16. Ele
ainda estava em pé, pois acabara de subir no jipe, quando sentiu um golpe sobre o coração e ouviu
um estampido. Levou a mão ao local e retirou-a coberta de sangue. Quando o motorista viu o
sangue, gritou: “vamos desaparecer daqui”; e arrancou com tanta rapidez que Odom quase foi
lançado para fora da viatura. O projétil acompanhou uma costela e não penetrou na cavidade
pulmonar, por isto ele escapou. Sem ligar para a sua formação médica, Odom retornou ao serviço
três dias depois de ser ferido.
Dia 17, completou-se um ano de conclusão da campanha da Sicília.
No dia 19, acompanhado pelo General Wyche da 79ª Dl, fui até Mantes e vi o rio Sena. Senti-me
muito tentado a ordenar que a 79ª transpusesse o rio, mas contive-me até encontrar o General
Bradley. Encontrei-o naquela noite, depois de realizar um voo longo, no qual fomos obrigados a nos
desviar duas vezes do mau tempo. Bradley não só aprovou a travessia da 79ª Dl como ordenou que a
5ª DB, do mesmo corpo, atacasse para o norte, ao longo da margem ocidental do Sena, enquanto o
XIX Corpo (Major- General C. H. Corlett) do 1º Exército progredia pela margem oriental. Também
aprovou o meu plano de transposição: XX Corpo em Melun e Fontainebleau e XII Corpo em Sens.
Ficou claro que depois da realização destas travessias os rios Sena e Yonne não teriam mais
utilidade para os alemães como obstáculos fluviais. A transposição em Melun deu-se no mesmo
local da realizada por Labienus com a sua 10ª Legião, em 55 A.C.
O Coronel Codman foi a Vannes e trouxe o meu velho amigo General Koechlin-Schwartz, do
Exército Francês. Durante a Primeira Guerra Mundial, ele fora um dos grandes instrutores da Escola
de Estado-Maior do Exército em Langres. Passamos uma noite agradável recordando o passado;
entre outras coisas, disse-me que, na Escola, se ele houvesse pensado no que eu vinha fazendo, só
pensado, sem ensinar nada a nenhum aluno, teria sido recolhido a um hospício. Declarou também
que quando ouviu dizer que uma divisão blindada avançava para Bresi, teve certeza de que eu
estava no comando. Indaguei por que o Exército Francês comportara-se tão mal em 1940.
Respondeu-me, sem pestanejar, que durante dez anos o Exército Francês só pensou, ensinou e
treinou a defensiva — nunca a ofensiva.
No dia 20, um grupamento tático da 79ª Dl forçou uma transposição em Mantes. Ao mesmo tempo,
a 5ª DB avançou para o norte sobre Louviers. Quando realizava a limpeza de Evreux, sua retaguarda
foi atacada por blindados alemães. A 7ª DB, que se achava nas vizinhanças, entrou na luta e os
alemães retiraram-se perdendo 10 carros de combate. De qualquer maneira, o combate atrasou a
progressão da 5ª DB.
De acordo com os planos que formulara no dia 20, marquei a hora do ataque para os XX e XII
corpos em Melun, Montereau e Sens, respectivamente, como sendo o amanhecer do dia 21 de
agosto, a fim de que ninguém tivesse tempo para impedir o meu ataque. Apesar disto, por medida de
segurança, dei aos corpos a senha “Proset”, que significaria, se transmitida pelo rádio, “fazer alto no
local em que se encontrar”.
Nestas ocasiões via-me sempre assaltado por uma sensação engraçada. Quando os planos surgiam
na minha cabeça pareciam-me simples; depois de expedidas as ordens, quando tudo já estava em
movimento e eu sabia que não havia mais possibilidade de voltar atrás, dominava-me uma sensação
de receio e eu tinha que dizer para mim mesmo: “Não dê ouvidos aos seus temores”. A sensação era
muito semelhante àquela que me assaltava antes da corrida de obstáculos. Eu ficava impaciente para
começar a corrida, mas quando soava a sineta sentia-me atemorizado. Assim que era acionada a
bandeira da partida o medo sumia.
Ao iniciarmos o nosso movimento, Eddy, do XII Corpo, perguntou-me até que ponto deveria
preocupar-se com o seu flanco direito. Respondi-lhe que isto dependeria do seu grau normal de
nervosismo. Evidentemente não havia nada para cobrir-lhe aquele flanco, mas esta ausência de
cobertura era desprezível numa progressão em profundidade — isto é, uma divisão atrás da outra.
Se eu tivesse me preocupado com flancos, jamais poderia ter entrado na guerra. Por outro lado,
estava convencido de que a nossa Força Aérea tinha condições para localizar qualquer grupo de
forças inimigas com efetivo suficiente para constituir uma ameaça. Eu haveria de conseguir alguma
coisa capaz de repelir a ameaça, enquanto a Força Aérea providenciaria o retardamento da
progressão inimiga.
Concluídos todos os acertos, deslocamos o Posto de Comando do 3º Exército para Brou, 25
quilômetros a noroeste de Châteaudun. No bosque onde ficava o PC, “Willie” foi atacado por um
enxame de marimbondos vorazes. Foi preciso o comandante do exército, o chefe do estado-maior, o
subchefe do estado-maior, vários soldados e cerca de 20 litros de gasolina para afastar os
marimbondos. “Willie’” ficou bastante ferido; tratamos seus ferimentos com água e soda.
Nesta época, o Coronel Nixon obteve três espoletas completas de bombas V-1 no meio do material
que capturamos em um aeroporto a noroeste de Orléans.
Até o dia 21 de agosto, fim das três primeiras semanas de combate, as baixas do 3º Exército eram:

25

Durante o período, os recompletamentos somaram apenas 10.622 homens. Era o início do


enfraquecimento do nosso efetivo, provocado pela falta de recompletamentos, situação que
perduraria até à época da luta em Bastogne.
No curso destas mesmas três semanas estimávamos as seguintes perdas para o inimigo:

25

Por causa da nossa experiência na Tunísia e na Sicília nossas estimativas eram bastante corretas. As
perdas materiais eram as seguintes:
No Posto de Comando, recebemos a visita do juiz Robert P. Patterson, Subsecretário da Guerra, e
General Brehon E. Somervell, chefe dos Serviços do Exército dos Estados Unidos.
As travessias dos rios Sena e Yonne foram bem sucedidas em Montereau e Sens. O XX Corpo ainda
não realizara a transposição em Melun porque, em Bauillet, ocorrera um combate violento entre o 2º
RI (Coronel A. W. Roffe), da 5ª Dl, e vários milhares de alemães. Naquela ocasião senti que a
grande oportunidade de ganhar a guerra estaria em deixar o 3º Exército progredir com três corpos,
dois para cima e um para o lado, até à linha Metz-Nancy-Epinal. Acreditei, e ainda acredito, que
esta atuação teria nos levado a cruzar a fronteira da Alemanha ao cabo de dez dias. As rodovias e as
ferrovias eram adequadas para suportar nossa progressão.
Elementos da 5ª Divisão de Infantaria encontraram alguns integrantes da Gestapo em Orléans;
infelizmente, eles tentaram fugir. A divisão também capturou um automóvel Cadillac, o qual foi
oferecido como presente ao quartel-general do 3º Exército.
Voei até o QG de Bradley para tentar vender-lhe o plano acima e descobri que ele já havia ido ver o
General Eisenhower e o General Montgomery, levando um plano parecido; a única diferença é que
Bradley propunha utilizar o 1º e o 3º Exércitos, enquanto eu propunha apenas o emprego do 3º
Exército.
A cidadela de St. Maio entregou-se à 83ª Divisão de Infantaria no dia 21; dizem que o mérito
principal cabe a um alemão nascido na América, aprisionado e forçado a trabalhar na cozinha da
guarnição; ele teria convencido aos dois outros cozinheiros alemães, também nascidos no Brooklyn,
que o melhor meio para acabar com a guerra era fazer um furo na cisterna de água. Isto feito, a
guarnição viu-se forçada à rendição por falta de água. Se não é verdadeira, pelo menos é uma boa
história.
Na manhã do dia 23, vivemos momentos de expectativa quando anunciaram a chegada de um grupo
de franceses portadores de uma proposta. Pensei imediatamente que vinham propor a rendição e
ordenei que a conversa fosse estenografada. Entretanto, tudo o que eles desejavam era uma
suspensão das hostilidades a fim de salvar Paris, e provavelmente alguns alemães. Mandei-os para o
General Bradley, que os aprisionou.
Assim que os emissários saíram, chegou o meu amigo General Juin26. Foi extremamente lisonjeiro
e disse que o meu arrojo era napoleônico. Disse também, e isto foi mais importante, que a brecha de
Nancy era o melhor caminho para atravessar a Linha Siegfried. Eu chegara à mesma conclusão
através do estudo na carta, pelo seguinte motivo: quando se encontra um grande número de estradas
principais passando em um mesmo lugar, é para lá que se tem que ir qualquer que seja a resistência
do inimigo. É inútil conquistar um lugar com facilidade se ele não facilitar a sua progressão. A fim
de tornar mais viável o plano para progredir através da brecha de Nancy era aconselhável conseguir
duas divisões extras. Nem a 90ª Dl, nem a 80ª Dl estariam prontas em tempo; por isto tentei
persuadir o General Bradley a dar-me duas divisões do VII Corpo (Major-General J. L. Collins), do
1º Exército, que eu julgava achar-se na vizinhanças de Chartres. Não consegui nada na conversa
com Bradley e tive que continuar avançando para leste sem as divisões.

O Coronel Muller27 e eu voamos para Lavai para discutir com Bradley a questão dos suprimentos.
Ele esperava por mim no aeroporto, pois tinha que viajar para encontrar os Generais Eisenhower e
Montgomery. Bradley estava muito preocupado porque sentia que Montgomery exercia muita
influência sobre Eisenhower, o que acabaria desviando para o norte todos os exércitos americanos,
ou parte deles. O Marechal-do-Ar Sir Leigh-Mallory28 passara o dia inteiro conversando com
Bradley, tentando vender esta idéia.
Depois que Bradley partiu e num curto espaço de tempo, os dez minutos necessários para o
deslocamento do aeroporto até o quartel-general, ocorreu-me o que acredito ter sido a minha maior
idéia tática: virar o 3º Exército para o norte, o XX Corpo a partir de Melun e Montereau, o XII
Corpo a partir de Sens. Isto poderia ser realizado mais depressa do que qualquer outra coisa.
Avançaríamos inicialmente em direção a Beauvais e poderíamos levar junto a 4ª Divisão de
Infantaria, do 1º Exército, que estava se aproximando de Paris, a 79ª Dl que se achava na região de
Mantes e também pertencia ao 1º Exército, e, provavelmente, a 5ª DB. Depois de alcançar Beauvais,
poderíamos progredir em direção paralela ao Sena e deixá-lo aberto para ingleses e canadenses;
além disto, nossos suprimentos seriam recebidos através de Mantes, economizando no mínimo 50%
do transporte necessário para fazer a entrega através de Montereau. O General Levan C. Allen,
chefe do estado-maior de Bradley, ficou entusiasmado; combinamos que ele me telegrafaria, após o
regresso de Bradley, dizendo “Plano A” caso eu pudesse virar para o norte, ou “Plano B” caso
devesse prosseguir para leste.
Se os futuros historiadores vierem a pesquisar a atuação do 3º Exército e do seu comandante, devem
atentar bem para os dois pontos que acabo de mencionar. No espaço de dois dias elaborei dois
planos, totalmente diferentes mas igualmente viáveis. O que estou querendo ressaltar é que não se
faz primeiro um plano e, depois, se tenta enquadrar as circunstâncias dentro do plano. O que se tenta
é fazer planos adequados às circunstâncias. A capacidade ou a incapacidade de proceder assim
conduz ao sucesso ou ao fracasso no comando de grandes unidades.
No dia 23, a 2ª DB francesa e a 4ª Dl entraram em Paris. No dia 24, a British Broadcasting
Corporation anunciou que o 3º Exército de Patton conquistara Paris. A notícia representava justiça
ideal, pois eu teria conquistado aquela cidade se não houvesse recebido ordem para não fazê-lo.
Mais tarde, descobri que, ao entrar na capital, a 2ª DB francesa dissera a todos que pertencia ao 3º
Exército, ao invés do 1º.
No dia 25 de agosto deslocamos o Posto de Comando do Exército para um local entre Orleans e
Pithiviers. Antes da abertura deste PC Bradley telefonou-me pedindo que eu fosse a Chartres. A
famosa catedral, da qual haviam removido todos os vidros, não sofrera o menor dano e, na minha
opinião, parecia mais linda do que nunca; a maior quantidade de luz no seu interior permitia que se
admirasse melhor a arquitetura.
Monty vencera mais uma vez e o esforço principal ia ser deslocado para o norte, ao invés de para
leste. O 1º Exército, com nove divisões, atravessaria o Sena em Melun e Mantes, dois locais
conquistados e transpostos pelo 3º Exército. Após a travessia o 1º Exército avançaria para Lille.
Com sete divisões — XII Corpo: 4ª DB, 35ª Dl e 80ª Dl; XX Corpo: 7ª DB e 5ª Dl; XV Corpo: 2ª
DB francesa e 90ª Dl — cabia ao 3º Exército progredir sozinho em direção à linha Metz-
Estrasburgo. Apesar de tudo, as coisas não iam tão mal assim, pois ainda tínhamos sete divisões de
boa qualidade avançando na direção que eu e Bradley desejávamos seguir.
Na volta desta reunião, cheguei bem tarde no novo Posto de Comando e decidi voar até o XX
Corpo, que não visitava há alguns dias. Meu piloto normal (Major W. W. Bennett, comandante da
14º Esquadrilha de Ligação Aérea, do 3º Exército) não estava lá; segui viagem com um sargento
piloto. Em pouco tempo tive certeza de que nos perdêramos, mas continuamos a voar até que
passamos exatamente por cima de um hospital de campanha alemão, dentro de um bosque. Isto
convenceu-me de que voávamos no mínimo a 25 quilômetros na retaguarda da linha de frente
alemã; ganhamos a altura e fugimos o mais depressa possível.
No dia 26, chegou o pessoal do Serviço de Comunicações para filmar “Um dia com o General
Patton”. Primeiro viajamos para o XX Corpo, que se achava em Fontainebleau; depois, seguimos,
via Nemours, para além de Montereau para encontrar a 5ª Divisão de Infantaria. Elogiei o General
Irwin pelo esplêndido trabalho que a sua divisão vinha realizando e tive a felicidade de poder
condecorar vários de seus homens com a Cruz de Serviços Relevantes.
Logo no início da campanha, quando expedi uma ordem determinando que um grupamento tático de
Infantaria, no mínimo, deveria viajar nos carros de combate de uma divisão blindada, a 5ª Dl foi a
que reclamou com mais insistência, entre outras coisas declarando que os soldados não tinham
como se segurarem nos carros de combate. Respondi que isto era um caso típico de azar, mas tinha
certeza de que os soldados prefeririam se equilibrar em cima de qualquer coisa durante 40
quilômetros, ao invés de marcharem a pé 24 quilômetros. Lembro-me que no dia desta visita Irwin
não perdeu oportunidade para exaltar a Infantaria “carro-transportada”. Sem dúvida o soldado
profissional é um conservador.
No trajeto de volta, atravessamos o Sena em Melun, junto com elementos da 3º Divisão Blindada,
do 1º Exército. Quando me reconheceram, as guarnições ergueram-se nos carros de combate e
aplaudiram-me.
Dirigi-me ao quartel-general da 7ª DB e disse ao seu comandante, em linguagem muito categórica,
que não estava satisfeito nem com ele, nem com a divisão, no que dizia respeito à apresentação do
pessoal e à mobilidade. É importante registrar isto porque, mais tarde, foi preciso transferir este
general.
Voltei a Fontainebleau e voei para o XII Corpo, localizado na estrada Sens-Troyes. Estava lá quando
o General Wood chegou para comunicar que a 4ª DB acabara de conquistar Troyes. Esta conquista
constituiu um feito de armas magnífico. O Coronel, depois General, Bruce Clark levou o seu GT
para o norte da cidade, onde uma ravina, ou um barranco, a 3 quilômetros do objetivo
proporcionava-lhe cobertura. A orla da cidade estava cheia de canhões e soldados alemães. Clark
colocou em linha uma companhia de carros de combate médios, apoiou-a com duas companhias de
Infantaria Blindada, com os soldados embarcados, e lançou uma carga com todos os canhões
disparando. Conquistou a cidade com o seu GT, sem perder uma única viatura. Mais tarde, foi
preciso realizar um outro ataque para tirá-lo da cidade, pois os alemães restabeleceram suas linhas
logo depois da passagem daquele pequeno grupamento tático.
Ao reler a narração que acabo de fazer sobre as minhas atividades naquele dia e sobre os lugares
que percorri, fiquei espantado com a minha própria agilidade. Talvez possa averiguar, algum dia, o
número de quilômetros que voei e andei em viatura na tentativa de dirigir as campanhas do 3º
Exército. Aposto que anda por volta de um milhão.
No dia, 27, o XX Corpo conquistou Nogent e continuou a progressão para Reims, enquanto o XII
Corpo avançou para Châlons, via Vitry. O escalão superior obrigou-me a deixar a 35ª Dl a leste de
Orléans cobrindo meu flanco direito, embora eu acreditasse que ninguém conseguiria convencer um
alemão a atravessar o rio Loire em direção ao norte. Voei para Orléans, que estava sendo
moderadamente bombardeada pela Artilharia inimiga colocada do outro lado do rio. O aeroporto a
noroeste da cidade vivia uma atividade febril. No dia anterior despachara cerca de 600 aviões e
estava fazendo a mesma coisa hoje. Os aviões transportavam munição e combustível para as nossas
unidades.
No dia 28, conquistamos Château-Thierry e nos aproximamos de Vitry-le-Francois, Châlons e
Reims. O General Bradley chegou por volta das 10h30min. Tive muita dificuldade para convencê-lo
a deixar-me prosseguir no ataque em direção ao rio Mosa. No fim, concordou.
Na minha opinião, o dia 29 de agosto foi um dos dias mais críticos desta guerra; depois, serão
escritas muitas páginas sobre este dia — ou melhor, sobre os acontecimentos que marcaram este dia.
Nesta ocasião, tornara-se evidente que não existia nenhuma ameaça real contra nós, desde que não
nos deixássemos deter por inimigos imaginários. Por isto, disse a Eddy, do XII Corpo, que
avançasse sobre Commercy e determinei que Walker, do XX Corpo, fizesse o mesmo com relação a
Verdun. Tudo parecia cor-de-rosa quando, às 14 horas, informaram-me que não haviam chegado os
530.000 litros de gasolina que deveríamos receber naquele dia. No princípio pensei tratar-se de um
processo indireto de diminuir o ímpeto do 3º Exército. Depois, verifiquei que não se tratava disto; o
atraso devia-se a uma alteração do plano, feita no Alto Comando e implementada, na minha opinião,
pelo General Montgomery.
No dia 30, fui a Chartres falar com Bradley, com o Major- General H. R. Bull (E-3 do General
Eisenhower) e Allen, chefe do estado-maior de Bradley. Apresentei o meu plano de avançar
rapidamente para leste, com a finalidade de romper a Linha Siegfried antes que ela pudesse ser
guarnecida. Bradley era favorável, mas Bull e, conforme percebi, o resto do Estado-Maior do
SHAEF29 não concordavam.
Sou de opinião de que este foi o erro mais grave da guerra. No que concerne ao 3º Exército, não só
deixamos de recuperar a gasolina que faltou como também não recebemos mais nenhuma. Em
consonância com a decisão de deslocar o esforço para o norte, incluindo nele dois corpos do 1º
Exército, todos os suprimentos — gasolina e munição — tiveram que ser orientados naquela
direção.
Além do mais, a ponte aérea com que havíamos contado para o transporte de boa parte dos nossos
suprimentos tinha sido desviada para alimentar os parisienses. Ao mesmo tempo, sem que eu
soubesse do fato, os demais aviões de transporte estavam sendo reunidos para um lançamento aéreo
na frente do 21º Grupo de Exércitos. Por fim, à guisa de tiro de misericórdia no 3º Exército, a Zona
de Administração30 utilizou várias companhias de transporte para realizar a mudança do seu
quartel-general de Cherburgo para Paris, e logo nesta ocasião.
Depois de receber todas estas notícias arrasadoras, dirigi-me ao novo Posto de Comando em La
Chaume, perto de Sens. Lá, encontrei Eddy que acabara de obter autorização de Gaffey para fazer
alto em St. Dizier; segundo ele, prosseguir além daquele ponto significaria deixar seus carros de
combate sem gasolina. Chamei Eddy imediatamente e disse-lhe que avançasse até os carros de
combate e ficasse com o motor parado que, daí para a frente, desembarcasse o pessoal e
prosseguisse a pé, porque era impositivo conquistar cabeças-de-ponte sobre o Mosa. Na última
guerra ou havia esvaziado os tanques de três quartos do efetivo dos meus carros de combate e
prosseguido com o restante; achei que Eddy poderia fazer o mesmo. Eu tinha certeza que constituía
um erro enorme parar até mesmo no Mosa, porque poderíamos continuar até o rio Reno, nas
vizinhanças de Worms. Era hora de citar o poema “Se”, de Kipling. “Se você puder completar o
minuto inesquecível com o sexagésimo segundo, vale a pena continuar…”
Para aumentar nossas preocupações, o General de Gaulle tentou reaver a 2ª DB francesa, que era
absolutamente necessária para liberar a 35ª Dl, então protegendo o nosso flanco direito.
No dia 31 de agosto, voei com o General Bradley para Morlaix, na extremidade noroeste da
península da Bretanha. Dali, dirigimo-nos para o quartel-general do VIII Corpo e, depois, para a
península de Plougastel, que fica a sudoeste de Brest; lá, encontramos com Middleton. Não estava
otimista em relação à conquista de Brest e tinha muitas queixas sobre a falta de arrojo por parte da
Infantaria. A Zona de Administração, também não fornecera a quantidade de munição que havia
prometido. Disse-lhe que o baixo rendimento da Infantaria se devia ao fato de estar combatendo
durante muito tempo. No caminho de volta disse a Bradley que não poderia continuar combatendo
em quatro frentes indefinidamente; gostaria que o VIII Corpo fosse transferido para alguém. Como
sempre, Bradley havia pensado na mesma coisa. Durante esta guerra, foi notável o número de vezes
em que a mesma idéia ocorreu a nós dois. Passei a noite em companhia de Bradley e de Simpson.
As unidades que combatiam na península da Bretanha iam ficar sob o comando de Simpson31;
quando chegasse a 94ª Dl, estava previsto que ela substituiria a 6ª Divisão Blindada.
No dia 2 de setembro, em Chartres, o General Eisenhower explicou seu plano a Bradley, a Hodges e
a mim próprio: consistia em apoiar Montgomery na limpeza da região do Passo de Calais. Dissemos
a ele que o 3º Exército já dispunha de patrulhas no rio Mosela, nas vizinhanças de Nancy, e que
patrulhas do 3º Esquadrão de Reconhecimento haviam penetrado em Metz.
Por fim, persuadimos o General Eisenhower a deixar que o V Corpo, do 1º Exército, e o 3º Exército
prosseguissem e atacassem a Unha Siegfried, tão logo se estabilizasse a região de Calais. Até aquela
ocasião só haveríamos de receber quantidades muito reduzidas de combustível e munição.
Eisenhower estava impressionado com a idéia de uma batalha gigantesca na Alemanha.
Pessoalmente, eu não acreditava na possibilidade de uma grande batalha, se continuássemos
avançando; manifestei esta opinião. Afinal acabei obtendo autorização para manter cabeças-de-
ponte sobre o Mosela e preparar o ataque contra a Linha Siegfried, desde que conseguisse
combustível para os deslocamentos.
No dia 3 de setembro, visitei o XII Corpo, em Ligny-en-Barrois, e expliquei a Eddy o nosso novo
plano. Fiquei feliz ao saber que ele capturara 380.000 litros de gasolina de aviação e estava em
condições de se deslocar. Esta captura também incluía 270 toneladas de carne.
Depois dirigimo-nos, via Commercy, para o quartel-general da 80ª Dl, em Gironville. Passamos por
muitas cidadezinhas que pareciam falidas. O General McBrige ostentava boa forma física e o
coronel-comandante do regimento que se achava na vanguarda32 tinha a situação sob controle. Do
Posto de Comando deste regimento, bem à esquerda, na nossa frente, aparecia Montsec; avistava-se
também Apremont, Pannes e Essey, recordações do ataque que realizei nesta região 26 anos atrás.
Montsec era um monumento colossal dedicado à memória dos nossos mortos. Não pude deixar de
pensar que o atraso na nossa progressão provavelmente produziria, com o correr do tempo, a
edificação de outros monumentos dedicados a homens que não haveriam de morrer se o nosso
avanço pudesse ter sido mais rápido. Algumas semanas mais tarde voltei a este mesmo local em
companhia de Byrnes, posteriormente nomeado Secretário de Estado.
No regresso paramos para uma visita ao Coronel Clark, comandante de um grupamento tático da 4ª
DB, e soubemos que ele realizara um feito notável em Vitry. Ao aproximar-se da cidade, um civil
francês informou-lhe que a ponte situava-se no fim de uma determinada rua e que estava coberta por
quatro canhões de 88 mm, em posição em um barranco na margem oposta, de onde enfiavam a
ponte inteira. Clark atravessou a cidade com uma companhia de carros de combate leves,
disparando em todas as direções e lançando granadas de mão, e carregou sobre a ponte, sufocando
as guarnições alemãs com os tiros dos carros de combate e expulsando os canhões 88 mm do
barranco sem perder uma única viatura.
De agora em diante a nossa progressão seria realizada de acordo com o que o General Allen
chamava de método da “sopa de pedra”; vou descrevê-lo. Certa vez um vagabundo bateu na porta
de uma residência e pediu água fervendo para fazer uma sopa de pedra. A dona da casa ficou
curiosa e forneceu a água, na qual o homem colocou dois seixos brancos. Em seguida, perguntou se
poderia conseguir umas batatas e cenouras, para dar um pouco de sabor à sopa; depois, pediu um
pedaço de carne, e assim por diante. Em nosso caso, a fim de atacar, primeiro tínhamos que simular
um reconhecimento; depois, surgia a necessidade de reforçar o reconhecimento, e assim
sucessivamente até chegar ao ataque — tudo dependendo da quantidade de combustível e munição
que nos concediam para cada tipo de operação.
Correu um boato que, oficialmente, achei que não poderia ser verdadeiro. Contavam que o pessoal
do nosso Serviço de Intendência simulou pertencer ao 1º Exército e conseguiu que o depósito
daquela grande unidade nos fornecesse uma boa quantidade de gasolina. Invertendo o aforisma a
respeito da Brigada Ligeira, isto não é guerra, mas é maravilhoso.

Até o fim da quarta semana as perdas do 3º Exército eram:

Os recompletamentos recebidos somaram 19.506 homens o que representava um déficit de 5.000


homens.

Quando nosso Posto de Comando deslocou-se para um ponto a sudeste de Châlons, recebemos a
visita da senhora Anna Rosenberg, do Departamento de Mobilização de Guerra e Reconversão.
Parece que “Willie” não ficou contente ao vê-la com umas calças compridas muito justas; com
delicadeza, ferrou os dentes na perna da visitante, mas ela não o levou a sério.
No dia 4 de setembro, Bradley nos informou que a situação no norte se estabilizara, que iríamos
receber metade dos suprimentos disponíveis e que poderíamos transpor o Mosela e forçar a Linha
Siegfried. Acrescentou que receberíamos a 2ª DB francesa e a 79ª Dl imediatamente, e a 6ª DB e 83ª
Dl assim que fossem substituídas por elementos do 9º Exército. A devolução da 2ª DB francesa e
79ª Dl restituía ao 3º Exército o XV Corpo, que perdêramos com muito pesar logo depois da
transposição do Sena. Recebemos o comandante do corpo, General Haislip, tão contente por voltar
como nós por recebê-lo.
Até a chegada do XV Corpo a leste de Troyes, o ombro de Neufchâteau até Nancy tinha que ser
mantido com o XII Corpo, ao mesmo tempo em que nos cabia manter cabeças-de-ponte sobre o
Mosela, em Toul e Pont-à-Mousson. Tão logo o XV Corpo se tornasse operacional, o XII Corpo ia
progredir ao longo da linha Nancy-Château Salins, com o XV Corpo atacando escalonado à sua
direita e transpondo o Mosela ao sul de Nancy, provavelmente nas vizinhanças de Charmes. O XX
Corpo também atacaria, forçando a transposição nas vizinhanças de Metz.
Viajei para a linha de frente, passando por Verdun e Etain, onde viramos para o norte, e cheguei ao
quartel-general da 90ª Dl. É verdade que atingimos o local do quartel-general antes da chegada da
divisão. Depois, voltamos para Etain e viajamos para Conflans, lugar famoso como berço do
lendário Brigadeiro Gerard, dos Hussardos. Conflans achava-se na linha de frente e era mantida por
elementos do 2º RI da 5ª Dl. Na orla leste da cidade encontrei um GT da 7ª DB que se achava
detido, há uma hora, por fogo de metralhadoras e morteiros. Evidentemente era um absurdo que
uma unidade blindada aceitasse tal situação. Ordenei-lhe que avançasse e voltei ao quartel-general
da divisão para falar com o comandante. Era a segunda vez que me via forçado a exigir mais
combatividade da parte dele. O General Walker fora o primeiro a observar a falta de combatividade
deste comandante, quando nos achávamos em Chartres, e solicitara a sua substituição. Apesar da
minha reputação de decepador de cabeças, na realidade suporto as coisas por bastante tempo.
Quando cheguei no quartel-general verifiquei que estávamos tendo problemas com o 1º Exército a
respeito de gasolina. Soube também que o XII Corpo sofrera um golpe em Pont-à-Mousson, onde
um dos batalhões da 5ª Dl fora repelido com perdas elevadas.
No dia, 8 fui a Ligny-en-Barrois para encontrar com Eddy e seguimos para a frente de combate ao
sul de Toul, onde havia a possibilidade de se estarem criando as condições para uma batalha. Eddy e
eu fomos até o quartel-general de Wood, localizado tão próximo da linha de frente que nos permitia
ver o combate; caíam granadas do outro lado da estrada onde nos encontrávamos. Dava gosto ver
um comandante que se aproximava tanto da frente.
No dia 9, Bradley concordou com o deslocamento da 83ª e 6ª DB; depois, conversamos bastante a
respeito da operação contra Brest. Ambos julgávamos que a conquista de Brest, naquele momento,
era inútil; a cidade localizava-se muito distante da frente e o porto estava muito destruído. Por outro
lado, concordamos que quando o Exército Americano inicia uma missão, não pode deixar de
cumpri-la. Logo, era necessário conquistar Brest.
Neste mesmo dia, na minha primeira visita a Paris, encontrei a senhora de Vaux e seu filho. Eu os
conhecera em Bourg33 vinte e sete anos atrás. Depois do almoço, ela levou-me para ver o General
Sérigny, antigo chefe do estado-maior de Pétain e de relações rompidas com ele por causa do papel
desempenhado pelo marechal. Eu conhecera Sérigny na guerra anterior; o velho estava muito
entusiasmado e declarou que, embora admirasse o General Pershing, minha tática era mil vezes
melhor. É claro que isto se devia à delicadeza dos franceses e também ao fato de que a mobilidade
dos exércitos atuais é incomparavelmente maior do que a que podia ser obtida com os meios à
disposição de Pershing. Se ele dispusesse da nossa mobilidade, teria avançado com maior rapidez.
Na noite de 9 de setembro, o posto de Comando da 90ª Dl sofreu um ataque alemão e o General
McLain acordou com um carro de combate inimigo atirando a 6 metros de distância. Felizmente o
carro não atirava contra ele; parece que pertencia a um grupo de carros de combate que havia errado
o caminho. O grupo recuou, reuniu-se ao resto da divisão e os alemães atacaram ao alvorecer.
McLain era um grande guerreiro e não desperdiçara o tempo; no segundo ataque os alemães
perderam 40 carros de combate e 900 homens. Um dos poucos carros que conseguiu escapar foi um
Pantera. Vi a marca das lagartas no trecho em que o carro avançou direto contra a nossa posição,
esquecido do que poderíamos fazer para detê-lo, e depois virou bruscamente para a esquerda em
uma estrada que levava à Alemanha. Desapareceu no meio de uma nuvem de poeira e soltando
fagulhas nos pontos em que era atingido pelos nossos projetis traçantes.
Soubemos que o XV Corpo atacaria ao longo da linha Chaumont-Neufchâteau-Lunéville às 8 horas
do dia 11. Enquanto o XII Corpo enfrentou um combate violento a leste do rio e sul de Nancy, o XV
Corpo continuou a progredir. Um fato esquisito nesta travessia de curso de água foi um regimento
enfrentar forte resistência, e, como consequência, sofrer baixas elevadas, ao passo que o regimento
vizinho não encontrou nenhuma resistência, nem sofreu nenhuma perda. Em um exercício escolar
teríamos interrompido o ataque onde havia resistência e impulsionado aquele que encontrava
facilidade, mas os exercícios escolares não levam em conta nem a dificuldade de comunicação, nem
a dificuldade, ou o perigo de interromper um ataque noturno depois de desencadeado.
O XX Corpo conseguiu transpor alguma Infantaria ao sul de Metz e a 90ª Dl avançava para o rio, de
Metz para Thionville. Elementos da 2ª DB francesa, do XV Corpo, estabeleceram contato com
elementos da 1ª Dl francesa, do 7º Exército, no dia 10 de setembro, nas vizinhanças de Sombernon.
Durante os voos sobre a França impressionava-me ver a quantidade de esforço humano despendido
na construção de trincheiras e outras organizações do terreno durante esta e a Primeira Guerra
Mundial. Um pacifista encontraria ali um tema excelente para um sermão sobre a fraqueza humana,
inspirado nestes monumentos à perversidade da guerra. Todavia, encontraria melhor argumento
olhando para os cemitérios, onde cada cruz branca representa uma prova da insensatez humana que
produz, invariavelmente, mais guerras.
Os 20.000 alemães que se renderam ao 9º Exército, no dia 11, declararam desejar que ficasse
especificamente entendido que se haviam rendido ao 3º Exército e XIX Comando Aerotático, e não
ao 9º Exército.
No dia 12, tivemos uma reunião no quartel-general do 12º Grupo de Exércitos para tratar do
problema de suprimentos. Tomei muito cuidado porque o Coronel R. W. Wilson, E-4 do 1º Exército,
achava-se presente. Ele fora o meu E-4 no II Corpo. Sabíamos que Montgomery comunicara a
Eisenhower que o atraso na progressão do VII Corpo americano devera-se à falta de gasolina. Mas
não fora exatamente o que havia acontecido; tratava-se simplesmente de mais um exemplo da
tentativa de Monty de desviar tudo para o norte, a fim de atacar os Países Baixos e o Ruhr. Se o Alto
Comando cedesse às suas lisonjas, nada mais restaria para o 3º Exército a não ser manter
defensivamente a margem ocidental do Mosela e deslocar o XX Corpo para Luxemburgo.
Entretanto, achei que se pudéssemos realizar uma travessia impediríamos a concretização daquela
situação infeliz; Bradley deu-me prazo até a noite de 14 de setembro. Se até aquela ocasião eu não
houvesse conseguido estabelecer uma boa cabeça-de-ponte, cabia-me parar de reclamar e assumir o
papel melancólico de comandante da defesa.
O General Hughes trouxe-me uma nova pistola 38 com cabo de madrepérola e uma capa de inverno
recém-colocada na lista de distribuição; era muita gentileza da parte dele. Nós dois tentamos visitar
o XV Corpo; devido a um erro de orientação, só conseguimos chegar até o escalão de retaguarda do
Corpo. No dia seguinte, eu e Hughes fomos até o XII Corpo; perdemos a viagem porque Eddy havia
partido ao romper do dia para o PC da 80ª Dl, divisão que fora violentamente contra-atacada ao sul
de Pont-à- Mousson. De fato, os alemães realmente chegaram até a ponte, mas o onipresente
Coronel Bruce Clark, da 4ª DB, vinha vindo naquela direção e o seu GT repeliu os alemães. O 2º
RI, da 5ª Dl, e um grupamento tático da 7ª DB também foram expulsos de uma colina a noroeste de
Metz por um contra-ataque germânico. Entretanto, a 35ª Dl e o GT do General-de-Brigada H. E.
Dager, da 4ª DB, estavam bem do outro lado do rio, ao sul de Metz e avançavam para Lunéville. A
5ª Dl, menos o 2º RI, conseguiu transpor o rio ao sul de Metz.
Durante a realização da nossa inspeção, eu e Hughes assistimos a um belo combate de carros de
combate a uma distância de mil a mil e quinhentos metros. Estávamos em um pomar de ameixeiras
e pudemos misturar a atividade profissional com o prazer. Em primeiro plano jaziam dois carros de
combate alemães ardendo violentamente; além deles, três dos nossos carros de combate avançavam
em direção à orla de um bosque. Podíamos ver o clarão na boca dos canhões e sentir a diferença
entre as metralhadoras americanas e as alemãs. Estas possuem uma cadência de tiro muito mais
rápida do que as nossas. Depois, viajamos para o quartel-general do XV Corpo, que não havíamos
conseguido encontrar na última tentativa realizada. O corpo executara um trabalho excelente,
conquistando Neufchâteau e desbordando Chaumont. Além disto, conquistaram uma cabeça-de-
ponte sobre o Mosela, em Charmes. Nesta noite recebemos a visita do cardeal Spellman.
Na noite de 14 de setembro estava cumprida a minha promessa a Bradley; na sua e na minha
opinião, tínhamos uma boa cabeça-de-ponte sobre o Mosela e achávamos que, com alguma sorte, eu
ainda poderia continuar avançando para leste.
Deslocamos o nosso Posto de Comando para um ponto 8 quilômetros ao sul de Etain; esta cidade
fora a ponta dos trilhos para os alemães na operação contra Verdun, na Primeira Guerra Mundial;
por isto, a cidade e os campos circunvizinhos haviam sido intensamente bombardeados. Na
realidade, graças ao dinheiro americano, a cidade fora completamente reconstruída em 1921. No
caminho para lá parei para almoçar em Verdun com o General Bradley e o General Bull. Bradley
mostrava-se bastante deprimido porque, ao que parecia, Montgomery mais uma vez conseguira
persuadir o Alto Comando a desviar todos os suprimentos para o 1º Exército, em prejuízo do 3º
Exército; apesar disto, Bradley achava que o 3º Exército poderia continuar progredindo. Pior notícia
ainda era a de que um corpo, com duas divisões, seria transferido do 12º Grupo de Exércitos para o
7º Exército, que no momento dispunha apenas de um único corpo. Posteriormente, o efetivo do 9º
Exército comportaria sete divisões e os efetivos dos 1º e 3º Exércitos seriam elevados para nove
divisões de Infantaria e três blindadas. Mesmo com muito otimismo, eu achava que a guerra já teria
acabado quando isto viesse a acontecer. Felizmente, durante a batalha do bolsão comandei 17
divisões, e cheguei a comandar 18 em abril-maio de 1945.
Enquanto transcorria esta discussão, recebemos uma mensagem formidável, anunciando a conquista
de Nancy e informando que o XV Corpo destruíra a 16ª Dl alemã (General-Tenente34 Ernst
Haeckel), inclusive 60 carros de combate no momento em que iam atacar o flanco direito do XII
Corpo. O XV Corpo atravessara o Mosela em Charmes com a finalidade de deter este ataque, e
chegara a tempo.
Enquanto o PC estava em Etain, visitei o campo da batalha de Verdun na Primeira Guerra Mundial,
particularmente o forte Douaumont. Trata-se de um monumento magnífico, porém inútil, ao
heroísmo. Por toda parte existem ruínas onde pereceram homens valentes só para manter a posse de
algo que teriam salvo mais facilmente se houvessem atacado. Douaumont sintetiza a loucura da
guerra defensiva.
Naquela ocasião, parecia haver uma possibilidade de o XII Corpo efetuar uma ruptura; se isto se
concretizasse, planejei dar ao corpo a 7ª DB e deixar que o XX Corpo mantivesse Metz com as 83ª,
90ª e 5ª Divisões de Infantaria, enquanto o XII Corpo avançaria para o Reno com as 7ª, 6ª e 4ª
Divisões Blindadas e 35ª e 80ª Divisões de Infantaria.
No dia seguinte, recebemos a visita dos russos, da qual recusei-me a participar, viajando para a
frente de combate; nem por isto deixei de retribuir o tratamento que eles dispensavam aos nossos
observadores: mandei o E-2 colocar na Seção de Informações uma carta de situação que não
mostrava absolutamente nada. No XII Corpo encontrei o General Eddy muito nervoso. Disse-lhe
que se recolhesse ao leito muito cedo, depois de beber um bom trago; queria vê-lo em condições de
atacar a Linha Siegfried.
Naquele dia, eu estava cheio de esperança e já me via transpondo o Reno. Cheguei até a aconselhar
Eddy que, durante a progressão, colocasse o corpo em coluna de divisões, e depois de abrir uma
brecha na Linha Siegfried, despachasse blindados apoiados por Infantaria embarcada em viaturas
diretamente para o rio, na esperança de conquistar uma ponte em Worms; com o restante do corpo
ele empurraria os ombros da penetração e limparia a área entre os rios Sarre e Mosela. “Nem tudo o
que é bom sempre dá certo”.
Viajando para o XII Corpo, via Toul, Pannes e Essey, passei pelos mesmos lugares em que vivera e
atacara há vinte e seis anos e quatro dias. Alguns acidentes capitais ainda estavam bem nítidos, mas
um muro atrás do qual me abrigara ao comandar um ataque era, agora, de tijolos, quando a minha
recordação registrava que tinha sido de pedra. Provavelmente haviam construído um muro novo. De
qualquer maneira, devo ter passado por maus momentos naquele dia 12 de setembro de 1918.
Os franceses tentavam, outra vez, reaver a 2ª DB, a qual protestava contra isto através de seu
comandante de corpo, Haislip.

Perdas até o dia 17

Bradley telefonou para dizer que Monty desejava que todas as unidades americanas parassem a fim
de que ele, Monty, pudesse dar “uma punhalada com o 21º Grupo de Exércitos no coração da
Alemanha”. Bradley declarou-me que ao invés de punhalada, sairia um golpe com “faca de cortar
manteiga”. Com a finalidade de evitar uma tal parada, era evidente que o 3º Exército teria que se
engajar a fundo imediatamente; solicitei que Bradley não me telefonasse antes da noite de 19 de
setembro.
No dia 18, condecorei o General Leclerc com a Estrela de Prata e entreguei-lhe seis Estrelas de
Prata e vinte e cinco Estrelas de Bronze para serem concedidas aos integrantes da sua divisão. Nesta
ocasião o Coronel Vennard Wilson, do 106º Regimento de Reconhecimento, informou que duas
colunas de Infantaria alemã atacavam Lunéville, partindo da direção de Baccarat. Determinei que
Haislip atacasse imediatamente. Suas ordens foram bastante simples e, como Wyche estava
conosco, tudo se desencadeou na mesma hora.
Dirigi-me para Nancy e encontrei Eddy despreocupado. Estava enviando o GT-B da 6ª Divisão
Blindada, que se aproximara de Toul, diretamente para Lunéville para deter o contra-ataque inimigo.
Eu estava decidido a deixar que o ataque do XII Corpo contra a Linha Siegfried prosseguisse,
independentemente do que acontecesse em Lunéville. Fiquei satisfeito porque os XII e XX Corpos
haviam estabelecido contato físico ao norte de Pont-à-Mousson.
Recebi um estudo de situação do oficial de Engenharia e do E-2 sobre a Linha Siegfried. Verifiquei
que os dois locais que selecionara para a ruptura, através de um estudo do mapa rodoviário,
coincidiam exatamente com as conclusões resultantes de um estudo cuidadoso feito em uma carta
com curvas de nível.
Ao invés de ser o que eu esperava, o dia 19 foi um dia ruim. A 35ª Dl perdeu uma colina a nordeste
de Nancy, o que deu ao inimigo a possibilidade de observação e fogos sobre a cidade. A 4ª DB
sofria um ataque violento e o XV Corpo ainda não atingira Lunéville. Para animar Eddy contei-lhe
dois casos; primeiro que Grant dissera certa vez: “Em toda batalha sempre há um momento em que
ambos os lados se consideram derrotados, mas o que continua atacando acaba vencendo”; segundo,
o que Lee teria dito em Chancellorsville: “Meu efetivo era fraco para a defesa, portanto ataquei”.
Depois disto, Eddy reconquistou a colina rapidamente.
Eu e ele saímos para ver Wood. Encontramo-lo junto ao GT de Bruce Clark, que acabara de destruir
20 carros de combate inimigos. Desde que atravessara o Mosela, Clark tinha a seu crédito 700
alemães mortos, 1.400 prisioneiros de guerra, 70 carros de combate e 27 canhões destruídos. Estava
claro que a divisão de Wood achava-se desdobrada ao máximo, mas eu ainda acreditava que
devíamos prosseguir no ataque. Penso que a minha orientação é totalmente válida contra os
alemães, porque enquanto os atacamos eles não têm tempo de planejar um ataque contra nós.
No dia 20, no quartel-general de Bradley, tomei conhecimento de um estudo de situação que
confirmava a justeza da direção de progressão, que, desde o início, Bradley e eu desejávamos. Vale
lembrar o nosso desejo de avançar com dois corpos em primeiro escalão e um terceiro um pouco à
retaguarda e à direita, ao longo do eixo Nancy-Château Salins-Sarregueminas-Mainz ou Worms e
depois infletir para nordeste em direção a Frankfurt. Estava claro que o 3º Exército precisaria
receber um reforço de duas divisões de Infantaria, no mínimo, e manter as quatro divisões
blindadas. Na ocasião eu estava convencido, e depois descobri estar com a razão, que não existiam
alemães à nossa frente, exceto os diretamente engajados pelas nossas unidades. Em outras palavras,
o dispositivo alemão não tinha profundidade. Foi neste dia que tomei a decisão definitiva de não
perder tempo na conquista de Metz, mas sim fixá-la com o menor efetivo possível e avançar para o
rio Reno.
No que dizia respeito ao combate as coisas melhoraram no dia 21; todavia, um oficial do meu
estado-maior que estivera no 6º Grupo de Exércitos, do General Devers, ouvira o próprio general
falar que iria receber diversas unidades do 3º Exército. Voei para Paris a fim de protestar junto ao
General Eisenhower. Os acontecimentos demonstraram que a minha viagem foi inútil, mas naquele
momento pensei que havia conseguido alguma coisa.
No dia seguinte, Codman, Stiller e eu visitamos a 90ª Dl e o 358º RI, comandado pelo Tenente-
Coronel Christian Clark, que fora ajudante-de-ordens do General Drum em 1936. Apanhamos o
Coronel Polk, do 3º Regimento de Reconhecimento e fomos até a extremidade esquerda do nosso
dispositivo, num lugar onde constituíamos as únicas pessoas vivas interpostas entre o nosso flanco e
o inimigo. Durante esta viagem encontramos supostos soldados franceses, indisciplinados e
desarmados, interessados apenas em comer rações americanas. Decidi livrar-me deles.
O dia 23 de setembro foi um dos piores da minha carreira militar. Bradley telefonou para dizer que o
escalão superior decidira transferir a 6ª Divisão Blindada e determinar que o 3º Exército adotasse
postura defensiva por causa da escassez de suprimentos. O General Devers dissera ao General
Eisenhower que, a partir de 1º de outubro, poderia abastecer o XV Corpo através de Dijon, e por
isto, solicitara a transferência do mesmo. Bradley e eu sentimos que Devers acabaria conseguindo o
que pedira, como aconteceu realmente. Quando confessei a minha tristeza ao General Gay, ele
indagou: “Qual é o preço da glória?” Com isto queria dizer que apesar da vitória no Marrocos, na
Tunísia, na Sicília e agora na França, continuávamos a ser menosprezados. Tive o otimismo de
lembrar-lhe que durante a minha vida, cada vez que sofrera um grande desapontamento a
recuperação excedera as expectativas. Foi o que aconteceu neste caso, só que na ocasião ainda não
sabíamos disto.
No dia 24, Gaffey, Maddox35 e eu recebemos os três comandantes de corpos, Eddy, Haislip e
Walker, no QG do 3º Exército em Nancy e traçamos uma frente defensiva a leste do Mosela.
Também escolhemos pontos sucessivos ao longo desta frente e onde poderíamos atacar dentro do
método da “sopa de pedra”; ostensivamente, a finalidade seria assegurar uma linha favorável ao
prosseguimento das operações, mas na realidade esperávamos conseguir uma ruptura. O General
Haislip ficou triste diante da perspectiva de deixar o 3º Exército; nós estávamos tristes com o fato de
perdê-lo.
Um exemplo formidável da cooperação da Força Aérea registrou-se no dia 24. Cinco carros de
combate da 4ª DB estavam sendo atacados por cerca de 20 carros de combate alemães; o único
auxílio que lhes poderíamos prestar era aéreo. O tempo estava fechado para voo, segundo os
padrões normais de operação, mas o General Weyland ordenou que duas esquadrilhas prestassem o
apoio aéreo. Os aviões foram orientados para o local do combate através de um radar, colocado a 5
metros acima do nível do solo. Localizado o inimigo, os aviões metralharam-no e bombardearam-
no. Enquanto lutavam, os pilotos não sabiam se haveriam de encontrar condições para aterrar;
apesar disto, cumpriram a missão de forma extraordinária. No fim, conseguiram aterrar no interior
da França, onde acharam um buraco nas nuvens. Um dos oficiais que comandou esta ação chamava-
se Cole; posteriormente, soube que foi condecorado com a Medalha de Honra. Bem que a merecia.

O relatório de perdas até 24 de setembro era

2. FORÇANDO A LINHA DO MOSELA

25 de setembro a 7 de novembro de 1944


Durante o período abrangido por esta campanha, as atividades do 3º Exército foram as mais
improdutivas e menos compensadoras de toda a sua história. Parecia que as condições
meteorológicas e as diretrizes restritivas estavam aliadas para impedir a progressão das suas
unidades. Depois de dois meses de uma guerra tipicamente ofensiva, caracterizada pela rapidez da
progressão, eis que as unidades são chamadas para conquistarem objetivos limitados e lutarem
contra os elementos da natureza.
Apesar disto, e sempre pensando no futuro, a frente transformou-se de cabeças-de-ponte inseguras,
em 25 de setembro, para cabeças-de-ponte firmes, bem organizadas, dispondo de espaço suficiente e
de onde poderiam ser desencadeados com sucesso os ataques na direção leste.
Durante este período aumentou a resistência alemã nas outras frentes na Europa. O 21º Grupo de
Exércitos, do General Montgomery, passou este período limpando as tropas inimigas do porto de
Antuérpia e das ilhas Walcheren. Depois de limpar Aachen, o 1º Exército continuou a enfrentar
resistência cada vez mais forte na Linha Siegfried. Nas montanhas dos Vosges, o 6º Grupo de
Exércitos, do General Devers (7º Exército americano e 1º Exército francês) progrediu lentamente.
Os russos entraram na Tcheco-Eslováquia e limparam Budapeste. Prosseguiu lentamente o avanço
aliado pelo vale do Pó, na Itália. As forças aéreas continuaram a bombardear os centros industriais e
os aeroportos alemães.
P. D. H.

A INUNDAÇÃO

O período entre 25 de setembro e 7 de novembro foi bastante difícil para o 3º Exército. Pela
primeira vez na nossa vida não estávamos progredindo rapidamente, e nem sequer progredindo.
Com meios inadequados, lutávamos contra um efetivo inimigo igual ou superior ao nosso, ocupando
excelentes posições defensivas; além disto, as condições meteorológicas nos eram desfavoráveis.
No dia 25 de setembro o General Bradley enviou-me um documento ultrassecreto confirmando a
ordem para adotarmos postura defensiva. Este documento continha apenas o texto escrito da ordem
verbal recebida anteriormente. Para que tudo ficasse devidamente registrado, elaborei e remeti ao
General Bradley o meu plano de ocupação de uma posição defensiva e ampliação da cabeça-de-
ponte sobre o rio Mosela. Conforme declarei no capítulo anterior, o plano inteiro visava a manter o
espírito ofensivo das unidades através de ataques a diversos pontos, sempre que os meios o
permitissem.
No dia 26, o Coronel Codman, o Coronel Campanole e eu viajamos para Gondrécourt com a
finalidade de localizar uma tal Madame Jouatte, que fora a inquilina do General Marshall em 1917.
Desde que a vira pela última vez Gondrécourt não mudara absolutamente nada, mas a família que
procurávamos mudara-se para o sul da França. Entretanto, o prefeito da cidade, que tinha duas filhas
encantadoras, ofereceu-nos um copo de vinho e uma das moças tocou piano.
De Gondrécourt partimos para Chaumont, via Neufchâteau, e almoçamos no Hotel de France, onde
o General Pershing, o General Harbord, de Chambrum36 e eu almoçáramos no outono de 1917,
quando visitamos Chaumont pela primeira vez e a escolhemos para quartel-general da Força
Expedicionária Americana. A família continuava como dona do hotel, apenas uma geração mais
nova. Ofereceram-nos alguns pratos do mesmo tipo de comida que faziam em 1917. Depois do
almoço, visitei a casa da cidade em que morou o General Pershing e o quartel onde residíramos
durante dois anos.
A nossa força aérea atacara e danificara o quartel uns quinze dias antes do XV Corpo do 3º Exército
conquistar Chaumont. Entretanto, a minha sala perto do portão ficou intacta. Gostava dela, pois foi
o local do meu primeiro comando efetivo, na qualidade de comandante da Companhia do QG da
FEA.
O Coronel Campanole teve uma notícia desagradável durante a visita ao velho quartel. Enquanto
permanecíamos na cidade, ele não parava de falar sobre uma francesa linda, que conhecera em 1917
e 1918, e sobre a esperança de poder revê-la. Esta moça exercia alguma atividade controlada pela
polícia; no quartel, indaguei de um policial se ele conhecia a tal moça, esclarecendo que se tratava
de uma grande amiga do Coronel Campanole. Com mais ingenuidade do que delicadeza, o policial
dirigiu-se a Campy e disse: “Sim, conheço-a muito bem; mas ela é muito velha, até para o senhor”.
Depois da surpresa de Campanole, dirigimo-nos para Vai des Ecoliers, onde o General Pershing
morou durante a última fase da guerra e onde servi como ajudante-de-ordens do Príncipe de Gales, a
quem ensinei a dançar e a jogar dados. Infelizmente, o local estava completamente transformado.
Em seguida, passamos por Langres, sem ter tempo de parar, e fomos para Bourg, quartel-general da
minha Brigada de Carros de Combate, em 1918. O primeiro homem que vi na rua estava parado
sobre o mesmo monte de estrume onde, tenho certeza, se encarapitara em 1918. Indaguei se ele
estivera na cidade por ocasião da última guerra e ele respondeu-me: “Sim, General Patton, e o
senhor estava aqui como coronel”. O homem organizou um desfile triunfal, com os habitantes
carregando forcados, segadeiras e ancinhos e saímos procurando os meus velhos antros, inclusive o
meu gabinete e o quarto de dormir no castelo de Madame de Vaux.
Os habitantes ainda mantinham a cova daquele herói nacional, a “Privada Abandonada”. Eis a
origem do caso. Em 1917, o prefeito, que morava em uma “casa nova” — construída em 1760—
veio ver-me, chorando copiosamente, para comunicar que não o havíamos informado sobre a morte
de um dos nossos soldados. Eu também não sabia da funesta ocorrência, mas não queria confessá-lo
a um estranho. Tratei de apurar tudo e verifiquei que ninguém havia morrido. Entretanto, o prefeito
insistia que fôssemos visitar a “cova”; saímos juntos e encontramos o buraco recém-tapado do que
fora uma latrina militar, aliás muito bem tapado, coberto por um monte de terra e assinalado por
uma cruz com os dizeres “latrina abandonada”. Eis por que os franceses julgaram tratar-se de uma
sepultura. Jamais contei-lhes a verdade sobre a “sepultura”.
Na viagem de volta para Etain, passamos pelo campo de pouso de onde Codman decolara para seus
voos na Primeira Guerra Mundial e de onde operavam para bombardear Conflans.
Recebemos muitos visitantes no dia 27. Ao todo foram dez generais, dos quais Hughes e Spaatz
eram os mais amigos. Recebemos também a comunicação definitiva sobre a perda do XV Corpo,
constituído pela 2ª DB francesa e 79ª Dl. Entretanto, prometeram-nos as unidades de Infantaria da
26ª Dl, comandada pelo Major-General Willard S. Paul, e mais o restante da divisão, caso
pudéssemos encontrar os recursos necessários para que chegassem até nós. Sempre encontrei
recursos para o deslocamento de qualquer unidade que fosse transferida para o 3º Exército; só tinha
dificuldade para fornecer recursos às unidades que saíam do nosso exército.
Esta escassez de unidades durou algum tempo e era indecorosa. Parece que desviaram onze
batalhões de Infantaria para realizar o trabalho de estivadores e utilizaram todas as viaturas das
divisões recém-chegadas para o transporte de suprimentos.
Planejei substituir elementos da 80ª Dl e toda a 4ª DB pela 26ª Dl, assim que a recebesse. Aquelas
duas divisões haviam enfrentado combates violentos e a 80ª Dl vinha ocupando um terreno muito
difícil. A 4ª DB repeliu três ataques, mas um regimento da 35ª Dl foi expulso de uma colina ao norte
de Chateau Salins. Eu costumava ficar revoltado com o fato de nossas unidades serem expulsas de
suas posições, e até hoje não me conformo com isto.
Stiller e eu viajamos para Pont-à-Mousson, via St. Benoit e Thiaucourt; nesta última localidade
existe um enorme cemitério norte-americano — um monumento aos pacifistas que geraram a última
guerra. Visitamos um Posto de Observação avançado da 80ª Dl, em companhia do General
McBride. A divisão não estava de posse de uma cabeça-de-ponte segura, porque o inimigo mantinha
três colinas que dominavam o vale onde se situava a cabeça-de-ponte. Conforme mencionei no
capítulo anterior, foi neste vale que a 80ª Dl sofreu um contra-ataque violento. Para conquistar as
colinas, era preciso proporcionar descanso a um grupamento tático da divisão. Planejei substituir
este GT por um outro da 26ª DI, assim que a recebesse.
De volta do PO avançado, passei no Posto de Comando do regimento e condecorei vários soldados,
além de assinar três promoções por bravura, de sargento a tenente.
Depois, apanhei o General Irwin, da 5ª Dl e fomos visitar um batalhão avançado do 2º RI. Para
chegar lá existiam duas alternativas: atravessar uma montanha a pé, na lama, ou seguir de viatura
por uma estrada na qual um trecho de 2 quilômetros se achava sob observação direta e fogos do
inimigo. Escolhi a estrada. Os alemães alvejaram a nossa viatura e erraram completamente a
pontaria, mas bombardearam o Posto de Comando do batalhão enquanto estive lá. Também devem
ter corrigido a pontaria sobre a estrada, porque fizeram quatro disparos sobre nossa viatura com
granadas de 150 mm; o primeiro caiu muito longe, o segundo um pouco mais próximo a ponto de
chamar a nossa atenção; o terceiro disparo lançou lama e pedras sobre nós e o quarto caiu a 2 metros
de nosso jipe, mas não explodiu.
No dia 29 de setembro, a leste de Nancy, eu estava presente quando a 35ª Dl foi atacada por partes
de uma ou duas divisões alemãs e perdeu mais terreno. A 4ª DB também estava sendo atacada.
Disse a Eddy que empregasse o resto da 6ª DB para socorrer a 35ª Dl. Ele objetou, alegando que se
o contra-ataque falhasse não lhe restaria nenhuma reserva. Retruquei explicando que exatamente por
este motivo o contra-ataque não poderia fracassar e lembrei o episódio em que Cortez mandara
incendiar seus navios. Chamamos o GT-B da 6ª DB (comandado pelo Coronel, depois General de-
Brigada, G. W. Read), que se achava com o XX Corpo. Quinze minutos depois do recebimento da
ordem o grupamento tático já estava em movimento.
Os Generais Eisenhower e Bradley vieram almoçar conosco e oferecemos a eles uma nova bebida.
Era uma mistura, metade conhaque, metade champanha, a qual chamávamos de “170”. Muita gente
pensava tratar-se apenas de champanha, o que constituía uma vantagem para a nossa mistura.
O General Eisenhower explicou a situação de forma muito clara e convincente. Declarou que o 6º
Grupo de Exércitos não ia ultrapassar o efetivo de 16 divisões e que o 21º Grupo de Exércitos
ficaria limitado a 17 divisões, tudo por causa da escassez de recursos humanos. Na realidade, antes
do fim da guerra, os efetivos alcançaram níveis inferiores aos acima mencionados. Como
consequência, todas as divisões que chegassem à França seriam distribuídas entre os 1°, 3º e 9º
Exércitos. Naquela ocasião, seu plano era colocar o 9º Exército entre o 1º e o 3º Exércitos e
conquistar Metz tão logo retomássemos a progressão para leste.
Depois que Eisenhower terminou a exposição, sugeri que alguém, ele próprio ou um outro general
com bastante antiguidade, fosse designado para arbitrar as disputas entre o 12º Grupo de Exércitos,
a Zona de Administração e o Corpo Aéreo a respeito de suprimentos. Naquela época, a ZA fornecia
os suprimentos e ainda determinava para quem seriam distribuídos. Declarei mais que o pessoal da
ZA era muito inflexível em seus métodos. Se as unidades combatentes fossem tão inflexíveis assim,
a guerra já teria sido perdida.
Também convenci o General Eisenhower a incluir os nomes dos comandantes de regimento entre os
que podiam ser divulgados pela imprensa. Aliás, já haviam sido divulgados nomes de oficiais mais
modernos do que os comandantes de regimento.
De acordo com a minha concepção naquela época, os alemães desejavam a posse de Metz e Nancy.
Como estavam de posse da primeira e não estavam sendo importunados pelos americanos, nada
fariam naquela região, mas concentrariam esforços para a reconquista de Nancy, porque era
evidente que esta cidade, e muito particularmente Château Salins, abria a via de acesso para a
invasão da Alemanha. Tratei deste assunto em uma Nota de Instrução.
Decidi descansar no dia 30 de setembro, mas mandei que o General Gaffey fosse até o XII Corpo.
As 15 horas, pelo rádio, Gaffey chamou-me e declarou que seria melhor a minha presença imediata
em Nancy. Ao chegar lá verifiquei que a 35ª DB fora autorizada a retrair dos bosques a oeste de
Château Salins e que a 6ª DB não entrara em combate da forma que eu ordenara. Parece que as 15ª e
539ª Divisões alemãs atacavam a 35ª Dl. Como consequência de uma reunião um tanto “quente”, a
6ª DB atacou ao alvorecer do dia seguinte, reconquistou os bosques e matou grande quantidade de
alemães. Se as minhas instruções houvessem sido cumpridas, isto teria sido feito no dia anterior. Foi
muita sorte o General Gaffey chegar em Nancy no momento exato.
Entretanto, a situação não me parecia consolidada; mantive um GT da 90ª Dl, do XX Corpo, em
prontidão, em condições de se deslocar meia hora depois de recebida a ordem. Penso que o fracasso
das unidades na manutenção da posse da colina boscosa decorreu do fato dos três generais
interessados haverem escapado da morte por um triz, naquele mesmo dia. Estavam todos parados
em um portão de saída quando uma granada caiu nas proximidades, matando dois soldados da PE e
ferindo mortalmente três outros que se achavam a 2 metros dos generais.
Certa vez, na Sicília, disse a um general, que se-mostrava um tanto relutante em atacar, que eu tinha
absoluta confiança nele e, para provar isto, ia embora para o meu QG. Tentei o mesmo truque neste
dia, e ele funcionou mais uma vez.
No voo de regresso ao quartel-general aterramos depois do escurecer. Em que pese às dificuldades,
o Major Bennett era um piloto muito competente.
Telefonei para o chefe do estado-maior do XII Corpo (General-de-Brigada Ralph J. Camne) à meia
noite; ao ser informado de que ele estava dormindo, também fui para a cama, pois a situação deveria
estar sob controle.

Baixas até o dia 1 de outubro:


No dia 2 de outubro condecorei os comandantes dos dois regimentos que reconquistaram a colina e,
depois, fui olhar o terreno defendido pela 4ª DB, comandada pelo Major-General J. S. Wood. O
dispositivo era excelente, como costumava ser tudo daquela divisão. Em seguida, fui visitar Baade,
que comandava a 35ª Dl e fora ferido no combate do dia anterior. Sob fogo, ele é o homem mais
tranquilo que já vi.
Durante cerca de dez dias pensamos em sondar o valor defensivo dos fortes alemães que cobriam
Metz, a oeste do Mosela. A 5ª Dl estimava que um desses fortes, Driant, poderia ser conquistado
com um batalhão. No dia 3 de outubro puseram o plano em execução e obtiveram considerável
sucesso inicial. Todavia, depois de cerca de sete dias de operação resolvemos abandoná-lo porque as
baixas estavam aumentando muito.
No dia 4 de outubro, a 83ª Dl aproximou-se da cidade de Luxemburgo. Fui até lá para uma inspeção
e fiquei surpreendido ao constatar que o grão-ducado inteiro não fora danificado pela guerra, com
exceção dos entroncamentos ferroviários e a própria cidade. A situação do país deve ter alguma
peculiaridade, pois não foi bombardeado por ninguém.
A minha tentativa junto ao Material Bélico para a instalação de duas metralhadoras coaxiais sobre o
chassi de cada carro de combate completa hoje um ano de idade. Até agora ainda não consegui
nada.
No dia 5, houve necessidade de acrescentar mais um batalhão ao ataque contra Driant.
Eddy procurou-me para tratar do problema criado por um de seus comandantes de divisão, que tinha
o hábito pernicioso de querer comandar mais os batalhões do que os grupamentos táticos.
Discutimos a possibilidade de substituí-lo, mas acabamos decidindo que não conhecíamos ninguém
melhor e que seria necessário instruí-lo sobre o assunto. Depois, este homem tornou-se um dos
melhores comandantes de divisão do 3º Exército.
Acredito que este hábito de querer comandar escalões muito inferiores é incutido nas escolas e nas
manobras. Na realidade, o general deve comandar o escalão imediatamente inferior e conhecer a
localização das unidades cujo comando estiver dois escalões abaixo do seu. Por exemplo, um
comandante de exército deve comandar os corpos e localizar na sua carta de operações a posição
dos corpos e das divisões, mas não deve comandar as divisões. Um comandante de corpo deve
comandar as divisões e registrar na sua carta até a localização dos regimentos. Um comandante de
divisão deve comandar os regimentos, ou grupamentos táticos, e registrar na sua carta até a
localização dos batalhões. O comandante do regimento deve comandar os batalhões e registrar na
sua carta até a posição das companhias; e assim sucessivamente com os comandantes de batalhão e
de companhia.
Minha experiência revela que qualquer oficial-general que viola esta regra e, digamos, no escalão
exército, começa a anotar a posição dos batalhões, acaba comandando-os e perdendo a sua
eficiência. Na Tunísia, o E-3 inglês do General Alexander começou a mostrar-me onde colocar os
batalhões e tive que recusar-me categoricamente a aceitar tais ordens. Alexander deu-me razão.
A 26ª Dl chegou e assumiu o controle do setor mantido pela 4ª DB; um dos seus regimentos
substituiu o regimento mais ao norte da 80ª Dl.
Os alemães bombardearam o quartel-general do XX Corpo, nas vizinhanças de Conflans, com um
canhão de 280 mm. A julgar pela espessura do metal e o tamanho do estilhaço da granada, devia
tratar-se de um canhão naval montado sobre vagão ferroviário e abrigado por um túnel.
Nesta ocasião ficaram prontos, e foram aprovados, os planos para o ataque do XII Corpo no dia 8 de
outubro. A operação seria a seguinte: a 80ª Dl atacaria direto para leste, cabendo ao regimento que
descansara, conquistar as três colinas na frente da zona de ação da divisão; um batalhão da 35ª Dl,
reforçado por uma companhia de carros de combate, atacaria para noroeste, a fim de limpar os
bosques na esquerda do setor da divisão, enquanto dois GT da 6ª DB atacariam para o norte, entre a
esquerda da 35ª Dl e a direita da 80ª Dl. A operação foi planejada como uma forma pouco
dispendiosa de retificar a linha de contato e manter o espírito ofensivo das unidades.
No dia 7 de outubro, recebemos a visita dos Generais Marshall e Bradley; depois do almoço,
reunimos todo o estado-maior para examinar os planos para a conquista do forte Driant e para o
ataque do XII Corpo. Como sempre, o General Marshall fez perguntas muito incisivas, mas acredito
que conseguimos respondê-las. Ficou muito pesaroso por não poder ficar para observar o nosso
ataque, em virtude de um encontro marcado com o General Montgomery.
No dia 8, decidi voar para Nancy, o que foi um erro, pois o mau tempo só nos permitiu decolar
quando já era tarde demais para que eu pudesse assistir ao início da batalha. Quando consegui
chegar no Posto de Observação do XII Corpo, quatro cidades à nossa frente ardiam violentamente e
de uma delas elevava-se uma coluna de fumaça com, pelo menos, 1,5 quilômetros de altura. Os
carros de combate da 6ª DB avançavam contra o flanco sul de duas aldeias, de onde recebiam uma
concentração considerável de fogo; no fundo da paisagem os P-47 do XIX Comando Aerotático
realizavam um excelente trabalho de bombardeio. Imediatamente à nossa frente, em um campo,
estavam reunidas várias centenas de prisioneiros aguardando o devido encaminha mento. Foi uma
pena que o General Marshall não pudesse ficar para assistir ao combate.
Depois de observar tudo durante algumas horas, fui visitar o General Paul, comandante da 26ª DI.
Ele fora Ajudante do 27º Regimento de Infantaria no quartel Schofield, em 1925 e 1926, quando
causou-me excelente impressão, plenamente justificada posteriormente. Do seu quartel-general,
dirigimo-nos para o Posto de Observação da 80ª Dl. Das duas colinas à sua frente, a mais ao sul já
havia sido conquistada, mas a do norte, justamente a mais boscosa, parecia ainda estar na mão dos
alemães. Quando cheguei, achei que estavam dispostos a permitir que os alemães ali
permanecessem até a manhã do dia seguinte. Julguei isso muito perigoso e determinei que a colina
fosse conquistada naquela noite, o que foi conseguido.
No dia 10, os três comandantes de exército (Hodges, Patton e Simpson), acompanhados de seus
oficiais de Logística (E-4), reuniram-se no quartel-general do Grupo de Exércitos. Bradley
explicou-nos que Montgomery alegara ser a conquista do Ruhr um serviço para dois exércitos sob
as ordens de um comandante, e que ele, Montgomery, deveria ser este comandante, dirigindo o seu
próprio exército e o 1º Exército americano. O General Eisenhower concordava que a missão era
para dois exércitos, mas achava que deveriam ser dois exércitos americanos. Assim, ao invés de
permanecer entre os 1º e 3º Exércitos e utilizar como elemento de vanguarda o VIII Corpo, que
estava chegando à frente vindo de Brest, o 9º Exército passaria para o norte do 1º Exército e
receberia deste o XIX Corpo, enquanto o VIII Corpo integraria o 1º Exército, devendo instalar o seu
Posto de Comando nas vizinhanças de Bitburg. O 3º Exército perderia a 83ª Dl para o VIII Corpo,
mas, no fim, receberia a 95ª Dl e a 10ª DB. Os 1º e 9º Exércitos iam iniciar o ataque sobre o Ruhr
assim que houvesse munição disponível, o que, naquela ocasião, se admitia possível a partir de 23
de outubro.
Esclarecida toda esta situação, como diria Cesar, a situação logística começaria a ser discutida assim
que chegasse o General Walter B. Smith, chefe do estado-maior do General Eisenhower. Ao chegar,
Smith declarou que entrara em vigor a minha sugestão de nomeação de um oficial-general antigo
para julgar as decisões da Zona de Administração a respeito de suprimentos. O árbitro designado foi
o General R. C. Crawford, E-4 do SHAEF.
Nesta reunião, chamei a atenção para o fato de que se estava dando muita importância à tonelagem
fornecida e não aos artigos pedidos. Por exemplo, é inútil receber mil toneladas de gasolina quando
se precisa de quinhentas toneladas de gasolina, duzentas toneladas de munição e trezentas toneladas
de material de pontes. E não adianta a ZA informar que enviou as mil toneladas pedidas. Também
consegui explicar que a munição deveria ser expedida por tipo, e que nos dissessem quais os tipos
que poderiam ser fornecidos, ao invés de qual a munição que deveríamos gastar, permitindo que
ficasse a nosso critério a forma de economizar munição. Além disto, ficou resolvido que, a partir
daquela data, a dotação de munição seria fixada em tiros por peça, por dia, ao invés de unidades de
fogo. Na ocasião, julgamos que a dotação mínima deveria ser de 60 tiros por peça, por dia, para o
obus de 105mm e 40 tiros para os calibres maiores. Isto significava que, se o pessoal de logística
fornecesse a dotação diária, um exército poderia economizar munição e, nos dias de batalha, gastar
350 ou 400 tiros de 105 mm por dia.

Baixas até 8 de outubro

Viajei de manhã para Nancy, a tempo de tomar o café da manhã com o General Marshall que
pernoitara com Eddy. Seguindo um itinerário muito bem escolhido por Eddy, conseguimos
inspecionar todas as divisões que compunham o seu corpo de exército. Durante a viagem aproveitei
a oportunidade para solicitar a promoção a general dos Coronéis Bruce Clark, da 4ª DB, e George
W. Read, da 6ª DB. No caminho de volta da 35ª Dl duas salvas de granadas inimigas atingiram a
montanha, acima da estrada e cerca de 300 metros à nossa frente. Era a terceira vez que sofria
bombardeio naquela estrada; era provável que o inimigo dispusesse de um bom PO.
Depois do XII Corpo inspecionamos as divisões do XX Corpo, acompanhados pelo General Walker.
Durante a visita à 90ª Dl não poupei elogios ao trabalho do General McLain. Depois da inspeção, o
General Marshall declarou que tinha esperança de poder colocar McLain no comando de um corpo.
No correr do dia, tive várias oportunidades de conversar demoradamente com o General Handy37, o
que sempre constituía um prazer.
No dia 11, decidimos abandonar o ataque contra Driant. Na época, o suprimento de munição fazia-
se de forma bastante precária, com uma média diária de sete tiros por peça para 155mm e mais ou
menos o dobro para 105mm.
Dia 12, atendendo ao convite de Bradley, viajei para Verdun a fim de encontrar J. F. Byrnes,
Secretário de Estado; como o General Bradley estava com reunião marcada com o General
Eisenhower, passei o resto do dia conduzindo o senhor Byrnes através dos campos de batalha de St.
Mihiel e Mosa-Argonne. Achei-o um dos homens mais interessantes e bem informados dentre os
que conheci e apreciei sua companhia e seus comentários.
Deslocamos o Posto de Comando para Nancy, e nos instalamos confortavelmente em um quartel
alemão. Era um dos seis quartéis originariamente construídos pelos franceses e que haviam sido
bombardeados por pedido nosso, quando atacávamos a cidade. Felizmente para nós, as bombas não
provocaram danos sensíveis; quando Spaatz viu o resultado do bombardeio, pediu-me que não
dissesse a ninguém que aquilo fora trabalho dos americanos.
No dia 14, o General Eisenhower convidou todos os comandantes de exército e de corpo de exército
para comparecerem ao quartel-general do 1º Exército, a leste de Liège, onde foi oferecido um
almoço ao rei George, da Inglaterra. Depois que Sua Majestade se retirou, o General Eisenhower
conversou conosco sobre a necessidade de preservar o espírito ofensivo e, também, de não criticar a
Zona de Administração. Dadas as circunstâncias, as duas coisas eram mais fáceis de dizer do que de
fazer.
No dia 15, acompanhado pelos Generais Eddy e Wood, fiz a minha preleção tradicional a todos os
oficiais e à maior quantidade de graduados e soldados que foi possível reunir. Dei ênfase especial ao
fogo em movimento. Esta divisão foi uma das primeiras a adotar a doutrina que eu preconizava e,
durante os combates, obteve bons resultados, com perdas bastante reduzidas.

Baixas até 15 de outubro

Pouco tempo depois, McLain foi transferido para o comando do XIX Corpo, em substituição ao
Major-General C. H. Corlett, transferido por motivo de saúde; o Major-General J. A. Van Fleet
assumiu o comando da 90ª Dl. O General Van Fleet, que veio a ser um excelente comandante de
divisão e de corpo, desembarcara na Normandia comandando um regimento da 4ª Dl e fora um dos
primeiros oficiais a serem recomendados para uma promoção provisória. No fim da guerra era o
comandante do III Corpo.
Visitei também a 95ª Dl, comandada pelo Major-General H. L. Twaddle, e que acabara de ser
incorporada ao 3º Exército; fiz a minha preleção tradicional para oficiais e praças. Naquele dia
viajei 8 horas em uma viatura descoberta e debaixo de chuva constante; fiquei encharcado.

No dia 17, os Generais Gaffey e Gay, os Coronéis Harkins, Maddox, Müller e Koch38 e eu
examinamos os planos para a próxima operação. Consistia em iniciar o ataque com as três divisões
de Infantaria do XII Corpo, com a finalidade de conquistar uma cabeça-de-ponte sobre o rio Seille.
Atingido este objetivo, a Infantaria seria ultrapassada pelas 4ª e 6ª Divisões Blindadas. Caberia à 6ª
DB apossar-se do terreno elevado a leste de Metz, enquanto a 4ª DB avançaria diretamente para o
rio Sarre para apossar-se de um local de travessia ao sul de Sarregemund. Um dia mais tarde o XX
Corpo atacaria, com a 5ª Dl acompanhando a 80ª Dl, ao sul de Metz. Cabia à 95ª Dl conter Metz —
manter os defensores da cidade atarefados — e simular uma transposição ao norte da cidade,
enquanto a 90ª Dl realizava a transposição do Mosela ao norte de Thionville, acompanhada de perto
pela 10ª DB. Tão logo estivesse consolidada a conquista do terreno elevado a leste de Metz, a 10ª
DB deveria girar para o norte e atacar Sarreburgo, a qual ia ser atacada por uma força-tarefa
comandada pelo Coronel J. K. Polk, do 3º Regimento de Reconhecimento, antes da chegada da 90ª
Dl. Esperava-se que a operação provocasse a conquista de Metz e a liberação de duas divisões
blindadas, a 4ª e a 6ª, para a ruptura da Linha Siegfried e posterior ataque contra o rio Reno.
Convém observar que ambos os planos, para a operação de conquista de Metz e a campanha do
Sarre, foram elaborados com mais pormenor do que costumávamos elaborar os planos para as
operações durante a travessia da França. O motivo é evidente: a excursão pela França foi um
verdadeiro corre-corre, pois tínhamos que avançar sempre para manter a vantagem adquirida
inicialmente. Na situação atual iniciávamos o movimento partindo de uma posição inicial
desvantajosa.
No dia 19, Harkins levou os planos a Bradley, para aprovação. O General-de-Brigada R. E. Jenkins
(E-3 do 6º Grupo de Exércitos) e o Coronel J. S. Guthrie (E-3 do 7º Exército) telefonaram para
combinar um limite entre os 7º e 3º Exércitos. Também queriam conseguir a ferrovia entre Toul e
Nancy. Não houve problema quanto ao limite, uma vez que eles aceitaram o que eu havia proposto,
e não houve problema quanto à ferrovia, uma vez que me recusei a compartilhá-la com os outros —
não por qualquer motivo fútil, mas apenas porque estava sendo utilizada na sua capacidade máxima
para abastecer o 3º Exército.
Nesta mesma noite cerca de 60 aviões inimigos sobrevoaram Nancy; nossa Artilharia antiaérea
abateu três, com certeza, e pode haver abatido mais outros três. Jamais descobri qual a missão
desses aviões, pois não lançaram nenhuma bomba.
No dia 20, o Tenente-General Patch, comandante do 7º Exército, pediu-me uma companhia de
construção de passadeiras para uma operação que pretendia realizar dia 1º de novembro. Atendi ao
pedido.
Neste mesmo dia, o General Spaatz e eu visitamos o General Wood e assistimos a uma
demonstração muito interessante de carros de combate com e sem pés-de-pato39.
O General Spaatz ficou com Wood e eu fui inspecionar os regimentos da 26ª DI, que iam participar
do combate dentro de pouco tempo. Tudo estava em excelente forma, exceto a falta de prática nos
cuidados individuais. Mostrei-lhes como secar os lugares de repouso e adverti-os principalmente
para a necessidade de manter os pés secos. Faço tal observação porque, pouco tempo depois, esta
divisão apresentou mais de trezentos casos de pé-de-trincheira.
No dia 21, recebi a apresentação do Major-General John Millikin, comandante do III Corpo de
Exército, agora integrante do 3º Exército. Eu me opusera a receber Millikin porque julgava errado
dar o comando de um corpo a um general que jamais comandara uma divisão em combate,
principalmente quando todos os comandantes de divisão eram veteranos na luta. Fora disto,
considerava Millikin um excelente general.
Disse a Millikin que mandasse todos os chefes de seção do estado-maior do corpo para fazerem um
estágio com os chefes das seções correspondentes no exército; assim, quando o corpo se tornasse
operacional, ele saberia o que esperar de nós.
Eddy apresentou seu plano para a ofensiva, o qual foi aprovado.
Naquela noite a única bomba V-1 que penetrou no território do 3º Exército atingiu um monte a leste
da cidade, sem provocar qualquer dano.
O primeiro ataque da 26ª DI foi um sucesso; os feridos que visitei no hospital estavam de moral
elevado e satisfeitos com a vitória obtida.

Baixas até 22 de outubro

No dia 22, recebi Bradley e Allen, seu chefe de estado-maior, e passamos a examinar os planos para
o ataque iminente. A assenção de Bradley era que se todos os exércitos atacassem simultaneamente
— os dois ingleses, os três americanos do 12º Grupo de Exércitos, e o 7º Exército do 6º Grupo de
Exércitos — o ataque poderia acabar com a guerra. A minha opinião, expressa em carta enviada a
ele no dia 19 de outubro, era de que lutávamos contra três inimigos. Um era a Alemanha, o outro as
condições meteorológicas, e o terceiro o tempo. Dos três, julgava as condições meteorológicas
como o mais importante de todos uma vez que, naquele momento e pela primeira vez, o número de
doentes igualara o número de baixas em combate; e as condições meteorológicas não estavam
melhorando. No que dizia respeito ao tempo, cada dia de atraso representava o aparecimento de
novas organizações defensivas para se oporem ao nosso ataque. Afirmei também que não havia
munição suficiente para abastecer todos os exércitos, mas havia munição para suprir um exército e
que o 3º Exército se achava em condições de atacar 24 horas depois de receber a ordem respectiva.
Depois de muita discussão ficou estabelecido que eu poderia atacar em qualquer dia após 5 de
novembro; depois desta data haveria disponibilidade de bombardeio aéreo.
No dia 23, Walter e Eddy reuniram-se sob a minha supervisão para combinarem os pormenores dos
respectivos ataques. Também compareceu o General Millikin, cujo III Corpo ainda não estava
operacional. Depois da reunião, inspecionei as instalações logísticas nas vizinhanças de Tou
utilizando, pela primeira vez, um vagão ferroviário especial, capturado aos alemães, e que Müller
oferecera ao quartel-general do 3º Exército. Dizia-se que se tratava do vagão especial de
Hindenburg, posteriormente utilizado por Goering.
Na madrugada do dia 24 de outubro, os alemães abriram fogo contra Nancy com um canhão ou
obuseiro de 280 mm e continuaram a atirar até às 4h45min. Três granadas caíram nas vizinhanças
da casa onde eu estava; devo declarar que nenhuma delas caiu a menos de 35 metros da casa. Uma
granada atingiu a casa do lado oposto da rua e o ângulo de queda revelou que passara alguns
centímetros acima do telhado do aposento onde dormia o General Gaffey. Os vidros da minha casa
ficaram todos quebrados.
Ouvi gritos partindo de dentro das ruínas; apanhei minha lanterna de mão, atravessei a rua e
encontrei um francês puxando vigorosamente a perna de um homem que parecia preso pelos
escombros. Segurei a outra perna e comecei a puxá-la também, mas a vítima passou a gritar ainda
mais alto, de repente engasgou e deixou de emitir qualquer som. Depois, verificamos que o homem
ficara com a cabeça presa embaixo de uma mesa e que a nossa tentativa de socorro quase a separara
do resto do corpo. Todavia, o homem não sofrera outro ferimento além de uma escoriação no
pescoço.
Enquanto participava desta cena, mais para o lado uma velha, também presa pelos escombros de
outra casa, começou a gritar; o francês tentou confortá-la com as seguintes palavras: “Por favor,
madame, não se perturbe; fique calma, esteja tranquila. Imagine que o grande General Patton em
pessoa está executando a remoção dos escombros; logo, a senhora também poderá ser salva. Além
disto, ele já chamou um médico e uma ambulância. Mais uma vez peço-lhe que se tranquilize”.
Enquanto ajudávamos a pobre senhora, caiu a terceira das granadas já mencionadas e a sua explosão
atirou alguns detritos sobre nós. Creio firmemente que, nesta madrugada, fiquei mais atemorizado
do que em qualquer outra ocasião da minha carreira.
A situação logística era excepcionalmente má, em particular no que dizia respeito a rações, gasolina
e munição; a situação era tal que, no dia 25 de outubro, recebemos a visita pessoal do General Lee e
seus subordinados imediatos, que tudo fizeram para atenuar nossas dificuldades.
No dia 25, o 104º Regimento de Infantaria, da 26ª DI, atacou sob o comando do Coronel D. T.
Colley. Obtiveram três quartos do sucesso, porque uma fatia da colina ainda continuou nas mãos do
inimigo. Entretanto, o General Paul julgou a experiência como suficiente e determinou que um
outro regimento prosseguisse com o ataque a partir das 18 horas. Colley soube da decisão por volta
das 13 horas; dirigiu-se ao batalhão que liderava o ataque e explicou que a honra do regimento não
permitia que se passasse para outra unidade um trabalho incompleto. Declarou que ele próprio
lideraria o ataque, o que fez com excepcional arrojo. A posição foi conquistada, mas Colley levou
um tiro no ombro direito; o projétil entrou em diagonal, atravessou os dois pulmões e saiu na altura
da ponta do pulmão esquerdo, milagrosamente não atingindo o coração e as artérias. Condecorei-o
com as Palmas de Carvalho para a Cruz dos Serviços Relevantes que ele recebera na Primeira
Guerra Mundial. Colley recuperou-se completamente e, por solicitação própria, voltou ao comando
de um regimento.
Inspecionei os três regimentos da 95ª Dl e pronunciei uma palestra sobre o combate para cada um
deles.
Nesta ocasião, julgamos haver descoberto o Posto de observação utilizado por alguém para ajustar
os tiros de 280 mm; organizamos um plano complicado para capturar o observador, pois o PO
achava-se no interior da nossa posição. Na realidade, não havia observador nenhum. Provavelmente
os caças-bombardeiros P-47 silenciaram o canhão, uma vez que não nos deu mais nenhum trabalho.
O suprimento de munição ainda estava ruim e a gasolina fornecida não dava para recompletar o
consumo diário.
Nosso exército recebeu, no dia 28 de outubro, o 761º Batalhão de Carros de Combate (só de negros
e comandado pelo Tenente-Coronel O. T. Bates). Foi o primeiro batalhão deste tipo que recebemos.
No dia 28, determinei ao General Walker que acabasse com a perda de tempo em torno de
Maizières-le-Metz, que o 357º RI da 90ª vinha atacando há alguns dias, e se engajasse na conquista
do objetivo. A ordem foi cumprida no dia 29; durante a ação o comandante do regimento, Coronel
G. B. Barth, recebeu um ferimento considerado fatal, no momento. Todavia, escapou com vida e
recuperou-se posteriormente.
No dia 29, Weyland e eu visitamos o 12º Grupo de Exércitos com a finalidade de conseguir a
cooperação da 83ª Dl no ataque que executaríamos. A idéia era fazer a 83ª atravessar a ponte
mantida pela 90ª Dl e progredir rapidamente, coberta pela força de Polk, para conquistar Sarreburgo
e possivelmente Trier, revertendo, depois, ao 1º Exército. Depois de muita discussão, Bradley
concordou em dar-me o controle operacional da 83ª Dl, desde que eu não utilizasse mais de dois
regimentos da divisão.

Um outro assunto discutido foi o de reduzir, ou não, o efetivo das unidades ao previsto no QOD40,
antes do ataque. É claro que durante o período de inatividade obtivêramos recompletamento em
quantidade suficiente para ultrapassar, pela primeira vez, o efetivo previsto. Neste ponto, o General
Bradley foi muito astuto. Declarou: “Você verá que a ordem para a redução do efetivo extra vigorará
a partir do dia 15 de novembro; até lá provavelmente a ação do inimigo haverá anulado o objetivo
da ordem”. Apoiado por mim, o General Weyland solicitou a retenção de um dos grupos de caça do
XIX Comando Aerotático que estava sendo transferido para o 9º Exército; não conseguimos nada.
Inspecionei e fiz uma preleção para o 761º BCC no dia 21. Uma boa parte dos tenentes e alguns
capitães tinham sido meus sargentos no 9º e no 10º Regimentos de Cavalaria. Individualmente eram
bons soldados; entretanto, manifestei minha opinião naquela época e jamais encontrei motivo para
mudá-la, de que o soldado preto não raciocina com a velocidade necessária para servir em
blindados.
Quando ainda estávamos na Inglaterra, Bradley e eu tivemos a idéia de contar com um coronel extra
em cada divisão; caso ocorresse uma baixa, existiria um homem imediatamente disponível. Havia
necessidade disto, porque a diferença de idade entre o comandante do regimento e o do batalhão era
tão grande que este último não possuía a experiência indispensável para assumir um comando de
regimento. Um dos coronéis que consegui colocar nesta situação foi Bob Sears, meu colega de
turma e três anos mais velho do que eu. Ele assumiu o comando de um regimento da 35ª Dl no dia 3
de agosto e comandou-o durante todos os combates até o dia 31 de outubro; apesar da sua excelente
condição física, tornou-se evidente que ele deveria ser substituído, ou acabaria morrendo na função.
Bob Sears adquirira excelente reputação no seio da divisão; ele próprio matara sete alemães. Acho
que isto é uma proeza para um comandante de regimento em qualquer guerra.
Quando o General Spaatz visitou o General Wood, conforme já mencionei, ficou angustiado porque
Wood morava em uma barraca molhada e enlameada; por isto, mandou de presente o seu próprio
trailer. Coube-me entregá-lo ao General Wood. Realmente era um reboque grande e luxuoso. Nunca
vi ninguém mais satisfeito e tão decidido a não utilizar o presente.
No dia 2 de novembro, realizamos uma reunião com os comandantes de corpos, o General Weyland,
o estado-maior do 3º Exército e representantes das 8ª e 9ª Forças aéreas, para acertar em definitivo
quando e onde os aviões participariam do próximo ataque. Como resultado desta reunião ficaram
estabelecidos os alvos e suas prioridades, principalmente os fortes de Metz e os bosques na zona de
ação da 80ª Dl; decidiu-se também que a data do ataque do 1º Exército seria denominada dia D, que
o XII Corpo lançaria seu ataque de Infantaria no dia D + 1 e o ataque blindado no dia D + 2, a não
ser que a situação propiciasse um engajamento mais rápido dos blindados; decidiu-se ainda que o
XX Corpo executaria uma demonstração com a 95ª Dl contra o norte e leste de Metz, no dia D + 1,
e que a 90ª Dl atacaria ao norte de Thionville no dia D + 2. Depois de muita discussão, fixou-se o
limite entre os XX e XII corpos.
Neste mesmo dia chegaram a Nancy o General Bradley e seu oficial de operações (E-3), General A.
Franklin Kibler, e declararam ser evidente que os ingleses não estariam prontos para atacar antes de
10 de novembro e, muito provavelmente, nem antes de 1º de dezembro. Bradley afirmou que o 1º
Exército não poderia atacar se não recebesse de volta duas divisões americanas dadas em reforço
aos ingleses e pertencentes aos 1º e 9º Exércitos. Desejava saber quando eu ia desencadear o ataque.
Informei a Bradley, conforme mencionei acima, que poderia atacar no dia seguinte à realização de
um ataque aéreo bem sucedido, ou nunca antes do dia 8 caso as condições meteorológicas
impedissem o ataque aéreo. O General Bradley declarou-se muito satisfeito por encontrar alguém
disposto a atacar.
No dia 3 de novembro, fiz uma preleção para os oficiais, sargentos e alguns soldados selecionados
das três divisões do XII Corpo, as 26ª, 35ª e 80ª Divisões de Infantaria. Mostrei-lhes a honra
concedida ao 3º Exército, autorizado a atacar sozinho. Também reiterei minha insistência no
emprego do fogo em movimento e na utilização de todas as armas de apoio.
Fizemos os acertos finais através de Weyland para o caso de a aviação não poder efetuar os
bombardeios antes do crepúsculo de 7 de novembro; o XII Corpo atacaria no dia 8 mesmo sem
apoio aéreo. Na ocasião conversei com Bradley, pelo telefone, a respeito do emprego da 83ª Dl.
Solicitei que a parte da Artilharia de Corpo dada em apoio àquela divisão fosse autorizada a
transpor o rio Mosela e a apoiar o ataque dos dois grupamentos táticos da divisão. Não obtive uma
decisão final a respeito da minha solicitação.
Em virtude do mau tempo reinante, não pôde ser realizado o bombardeio de Metz, marcado para o
dia 5; os aviões penetraram fundo na Alemanha e descarregaram suas cargas.
Devers visitou-me no dia 5 e prometeu-me que o 7º Exército apoiaria o meu flanco direito.
Neste mesmo dia, falei para os oficiais da 10ª DB, da 90ª Dl, da 95ª Dl e do QG do XX Corpo. Cada
uma destas preleções foi realizada na chuva. Como sempre, transmiti-lhes minhas palavras de
estímulo antes de batalha.
Por fim, ainda neste dia, recebi a visita do General Hughes. No dia 6, ele e eu, a pedido dele,
falamos às 4ª e 6ª Divisões Blindadas. Inicialmente, não havia incluído estas divisões na minha
programação porque achava que eram tão experientes e tão veteranas que não havia necessidade de
ensinar o padre-nosso ao vigário; pareceu-me que esta exclusão ofendeu-as, o que me fez revogar
minha decisão e dirigir-me a elas. Na prelação à 4ª DB aproveitei o fato de o 1º Exército não atacar
conforme fora previsto e fiz um gracejo para eles: “o primeiro será o último e a quarta será o
primeiro”.
Numa conferência com a imprensa, no dia 6, informei que o ataque seria desencadeado antes ou na
manhã do dia 8; forneci pormenores sobre o ataque e solicitei que o assunto fosse guardado em
segredo. Pedi ao representante de uma estação de rádio que divulgasse a notícia de que o ataque
tinha objetivo limitado, com a finalidade de retificar a linha de contato para facilitar a sua ocupação
durante o inverno; prometi avisá-lo sobre o momento em que ele poderia corrigir esta notícia. O
radialista procedeu exatamente conforme pedi, e creio que o noticiário radiofônico ajudou um pouco
a iludir os alemães.
Ocorreu-me a lembrança de que há dois anos, no dia 7 de novembro, estávamos nos aproximado do
litoral da África, a bordo do Augusta. Ventara forte no início da tarde, mas o vento cessara às 16
horas, o que nos permitiu realizar um desembarque perfeito na costa do Marrocos. Agora, às
14h30min deste 7 de novembro, chovia forte, aliás como já vinha acontecendo há dias. Às 19 horas
os Generais Eddy e Grow vieram à minha casa e solicitaram o adiamento do ataque por causa das
péssimas condições meteorológicas e o aumento do volume das águas dos rios. Indaguei quem eles
gostariam de ter como substitutos, porque o ataque seria desencadeado na hora marcada.
Imediatamente concordaram comigo e, como sempre, tiveram um desempenho excelente.

Baixas ocorridas até o dia 7 de novembro


Vale a pena observar que a necessidade de fazer alto no Mosela acarretou as baixas acima, que não
teriam ocorrido, pelo menos em número tão elevado, se tivéssemos podido continuar a nossa
progressão.
As perdas materiais até 7 de novembro foram

3. A CONQUISTA DE METZ E A CAMPANHA NO SARRE

8 de novembro a 18 de dezembro de 1944


Não foi difícil tirar as unidades do 3º Exército da apatia gerada pela inatividade registrada durante o
mês de outubro. Elas nunca tiveram mentalidade defensiva e, ao menor aceno, estavam prontas para
avançar em qualquer direção.
Este aceno foi a ofensiva iniciada no dia 8 de novembro. A despeito das condições meteorológicas
desfavoráveis durante outubro, as unidades do 3º Exército empurraram para trás as linhas alemãs a
fim de conquistarem melhores posições de ataque.
De 25 de setembro a 7 de novembro a progressão cobrira uma média de 4 mil quilômetros, até a
região ao sul e a leste de Metz; ao norte desta cidade o exército era suficientemente forte para
transpor o Mosela em qualquer ponto.
A nova ofensiva para leste começou na madrugada de 8 de novembro. Mil canhões realizaram a
preparação do ataque, que foi desencadeado apesar das inundações, da chuva e do nevoeiro. A
progressão foi lenta, cansativa e penosa. Todavia, em meados de dezembro, a operação alcançara
um ponto que exigia uma nova série de planos — uma nova coordenação do esforço — para
conseguir uma ruptura para o Reno. O 3º Exército conquistou Metz no dia 13 de dezembro, a
primeira vez que a cidade era conquistada através de um ataque desde o ano 641 da era cristã.
A nova ofensiva foi planejada, com a ajuda do General Spaatz e sua 8ª Força Aérea, para o dia 19
de dezembro. A blitz aérea ia ser a maior até então tentada. Mil bombardeiros pesados da 8ª Força
Aérea martelariam as posições inimigas durante três dias consecutivos. As ordens foram expedidas,
os comandantes avisados, os recompletamentos providenciados e as orações feitas; as unidades
iniciaram os deslocamentos. Só se havia esquecido de uma coisa — o Alto Comando alemão não foi
consultado. Consequência: o “Bolsão”.
Em outras frentes o 21º Grupo de Exércitos progrediu lentamente, enfrentando forte resistência. O
1º Exército consolidou suas conquistas. Os russos avançaram sobre Budapeste. Na Itália, caiu
Ravena. O 6º Grupo de Exércitos progrediu pelas montanhas dos Vosges, atingiu o rio Reno na
região de Estrasburgo- Colmare ultrapassou Hagenau. A Força Aérea deu sequência aos seus
poderosos golpes ofensivos. No Pacífico, Tóquio começou a sentir todo o peso da ofensiva
americana, enquanto a Marinha apoiava as forças terrestres na conquista de Leyte.
P. D. H.

ATOLADO NA LAMA

Acordei às 3 horas da madrugada de 8 de novembro de 1944, chovia copiosamente. Tentei dormir


outra vez, mas não consegui; levantei-me e comecei a ler o livro de Rommel, “Ataques de
Infantaria”. Por acaso, abri o livro em um capítulo que descrevia um combate na chuva, em
setembro de 1914. Fiquei muito animado, pois achei que se os alemães podiam atacar na chuva eu
também poderia fazer o mesmo; voltei a dormir e fui despertado às 5h15min pela preparação de
Artilharia. A chuva cessara e o céu estava estrelado. O disparo de mais de setecentos canhões soa
como o bater de várias portas pesadas dentro de uma casa vazia, enquanto o céu afogueia-se e vibra
com os clarões. Cheguei até a sentir uma certa compaixão pelos alemães, agora alertados para o fato
de que o ataque que tanto temiam havia começado. Vaidosamente, lembrei-me de que sempre
“pedira o impossível”, tivera a “ousadia extrema” e “não dera ouvido aos meus receios”.
Bradley telefonou às 7h45min para saber se estávamos atacando. Pareceu satisfeito ao saber que
íamos avançando. Eu não lhe contara nada por medo de receber uma ordem suspendendo o ataque.
O General Eisenhower veio ao telefone para dizer; “Espero que você não pare mais” Imediatamente
eu, Codman e Stiller nos dirigimos para o Posto de Observação do XII Corpo, mas havia tanto
nevoeiro artificial e fumaça no ar, produzidos pelos geradores que protegiam as pontes, que não se
via quase nada. Por volta das 10 horas os caças-bombardeiros apareceram em força e atacaram os
postos de comando inimigos cuja localização conhecíamos. O dia estava claro e era o melhor dos
últimos dois meses.
Inspecionei os quartéis-generais das 80ª, 35ª e 26ª Divisões e visitei o General Wood. Naquele dia,
ao escurecer, cada unidade atingira o objetivo estabelecido para a jornada; infelizmente, começou a
chover.
A inspeção da frente de combate no dia 9 foi desanimadora. Algumas pontes tinham sido carregadas
pela correnteza; viaturas, aviões e até um hospital estavam ilhados pelas águas da inundação, e a
situação não era boa. Entretanto, na inspeção à 5ª Dl, eu, o comandante, General Irwin, e o
comandante do 2º RI, Coronel A. W. Roffe, subimos uma colina e vimos os 1.476 aviões da 8ª
Força Aérea aproximarem-se e bombardearem os alvos em Metz. Era uma visão reconfortante.
Inicialmente, vimos umas esteiras de fumaça no ar e chegamos a pensar que os alemães haviam
disparado foguetes antiaéreos. Na realidade, a fumaça representava uma marcação efetuada pelos
aviões aliados. Estávamos suficientemente próximos da região dos alvos a ponto de ouvirmos muito
bem o ruído dos motores dos aviões e sentirmos o estremecimento do solo em consequência das
explosões.
Na volta, verificamos que todas as pontes sobre o Mosela estavam destruídas, com exceção da
situada em Pont-à-Mousson, e que a largura do rio Seille passara de 60 para 150 metros. Entrei no
meio do GT-B da 10ª DB, comandado pelo General-de- Brigada E. W. Piburn, na região de Mars Ia
Tour, local da grande batalha de Cavalaria em 1870, e achei que a tropa apresentava bom aspecto e
deslocava-se para o combate com muita disciplina. Naquela noite já estavam do outro lado do
Mosela 5 batalhões da 90ª Dl.

Vieram passar a noite conosco os Generais Spaatz, Doolittle e Curtis41 e o professor Bruce Hopper,
historiador da Força Aérea. Sou muito grato a todos eles, pois tenho certeza que o magnífico apoio
aéreo que recebemos naquele dia deveu-se principalmente à amizade destes homens.
No dia 10, o nível do rio baixou um pouco e a ponte de Pont- à-Mousson, que fora interditada no dia
9, voltou a ser utilizada. O fato foi motivo para grande satisfação porque, antes da liberação da
ponte, eu estava com sete divisões na margem oposta de um rio intransponível e sem nenhuma
ponte. A 4ª DB progredia bem e a 6ª DB, deslocando-se para nordeste, cercou uma coluna de
alemães entre sua própria zona de ação e a da 5ª Dl e realizou um bom massacre. Haislip, do XV
Corpo, veio procurar-me para assegurar que a sua grande unidade cobriria o flanco direito do 3º
Exército. Naquela ocasião o XV Corpo pertencia ao 7º Exército.
Eu esperara vencer esta batalha no dia 11, dia do meu aniversário e meu dia de sorte na África
ocidental. Nada disto aconteceu.
Bradley telefonou às 17h10min e, na minha opinião, caiu em contradição ao proibir-me de utilizar a
83ª Dl. Acho que foi levado pela conversa de Middleton, ou de Hodges, ou de ambos. Fiquei muito
magoado, na hora, e ainda considero o fato como um grande erro cometido. O emprego de dois
regimentos daquela divisão contra Sarreburgo teria conquistado a cidade no dia 12 ou 13 e,
provavelmente, teríamos conquistado Trier. Com Trier em nossa posse, von Rundstedt não teria
realizado uma ruptura. Talvez aí esteja mais um exemplo do ditado: “por causa do cravo de uma
ferradura perdeu-se a batalha”.
Naquela ocasião o problema do pé-de-trincheira começou a adquirir gravidade. Só em uma divisão
contaram-se três mil casos. O problema não podia ter sido totalmente evitado porque os homens
tinham que atravessar rios com a água na altura do peito; as botas de borracha de nada adiantariam.
Entretanto, uma boa parte da culpa cabe aos oficiais e sargentos que não fiscalizaram a execução
das medidas preventivas. Escrevi uma carta sobre pé-de-trincheira endereçada aos oficiais e a
situação melhorou. Mandei que todos os coturnos fossem impermeabilizados antes de serem
distribuídos e determinei que este trabalho fosse realizado pelos prisioneiros de guerra. Junto com as
rações, determinei que a Intendência enviasse para a frente, diariamente, um par de meias secas para
cada homem. Graças aos esforços do Coronel Muller, a Infantaria estava praticamente equipada com
galochas. Infelizmente, alegando que as galochas fatigavam os homens, alguns regimentos não
distribuíram o material na hora em que ele era mais necessário. A dificuldade criada pelo pé-de-
trincheira evidenciou a necessidade de posicionar os dois corpos em coluna de divisões, a fim de
que algumas divisões pudessem descansar e secar, enquanto as outras prosseguiam.
Os chefes das seções do estado-maior ofereceram-me uma festa de aniversário na seção do Coronel
Koch; a bebida oferecida foi o “diesel blindado”42, tipo “hora de expediente” — hora de expediente
significando que as bebidas alcoólicas haviam sido suprimidas da mistura.
No dia 12, a 90ª Dl sofreu um contra-ataque alemão violento, executado por um efetivo equivalente
a uma divisão de Infantaria.
O contra-ataque foi repelido com uma bravura incrível, embora nossa tropa não dispusesse de carros
de combate, nem de canhões destruidores de carros na margem oriental do rio Mosela; além disto, a
ponte na retaguarda da 90ª Dl fora destruída. Entretanto, a resistência foi apoiada por cerca de 30
grupos de Artilharia de Corpo de Exército.
A disponibilidade de munição melhorou, exceto para os obuseiros de 240 mm e os canhões de 8
polegadas.
O General Eisenhower telefonou para dizer-me que destituíra o General Silvester do comando da 7ª
DB e que o mesmo declarara que eu tinha prevenção contra ele. O que não podia ser verdade, uma
vez que impedira o seu rebaixamento pelos comandantes de corpo desde o mês de agosto.

O 7º Exército atacou no dia 13. Recebi Bradley e Bonesteel43 e nos dirigimos para o quartel-
general do XII Corpo em Château Salins. Inspecionamos também a 4ª DB e Bradley teve a
oportunidade de ver como a lama havia deixado o campo de batalha. Fora das estradas, até os carros
de combate atolavam.

Prometeram-nos a Infantaria divisionária da 75ª Dl44 até o dia 10 de dezembro e a divisão inteira
até o dia 15. A 11ª DB, que estava embarcando na Inglaterra, também seria nossa.
Nesta época, a idéia de Bradley era atribuir ao 15º Exército, tão logo fosse organizado, as regiões à
retaguarda dos 1º e 3º Exércitos, para deixar uma área menor sob nossas responsabilidades.
No fim da tarde, visitamos os feridos nos hospitais e encontramos todos com o moral elevado.
Sempre foi excelente o comportamento dos feridos durante toda esta operação.
No dia 14, fui obrigado a dissuadir o General Eddy de desbordar Falkenberg.
Visitei Walker e inspecionamos a 95ª Dl. As perdas desta divisão, desde o dia 8 de novembro, foram
80 mortos e 482 feridos. Eram perdas elevadas para o pouco terreno conquistado, e transmiti esta
opinião a Twaddle.
Em Thionville, vi a maior ponte Bailey do mundo. Acabara de ficar pronta e os engenheiros a
construíram debaixo de fogo. Caíam alguns tiros nas proximidades, mas a ponte não foi atingida
durante a nossa travessia. Fomos até Cattenom, atravessamos uma passarela protegida por uma
cortina-de-fumaça e inspecionamos a 90ª Dl. A travessia do Mosela pela 90ª Dl constituiu uma
transposição de curso de água heróica, realizada sob dificuldades incalculáveis. Quando dois
batalhões já se achavam na margem oposta, a correnteza carregou a ponte e todo o resto da divisão
teve que ser atravessada em botes de assalto.
O General Van Fleet levou-nos para percorrer o campo de batalha do dia 12; eu nunca tinha visto
tantos alemães mortos45 em uma única região. Estavam alinhados em uma extensão de quase dois
quilômetros, praticamente ombro a ombro.
A transposição do rio pela 10ª DB começou hoje; estamos progredindo realmente.
Recebi o General Eisenhower no dia 15; inspecionamos o XII Corpo e as 26ª e 35ª Divisões. Ele
ficou muito satisfeito com o desenvolvimento da operação e foi fotografado andando na lama, artigo
de que dispúnhamos em abundância.
Naquela noite tivemos um incidente engraçado. Quis que a lareira do quarto do General Eisenhower
apresentasse um bom fogo, mas o fogo foi tanto que incendiou o hotel; tivemos alguma dificuldade
até para retirar o general do quarto. Na verdade, eu e Jimmy Gault, o ajudante-de-ordens inglês,
suamos bastante.
Até o dia 15 de novembro a situação geral era satisfatória, com exceção da 4ª DB que cedera um
pouco de terreno e o 7° Exército que não realizara o que esperávamos. O XII Corpo deu início ao
reajustamento do seu dispositivo, com o objetivo de ficar com a 6ª DB pronta para ser lançada no
aproveitamento do êxito, caso ocorresse uma ruptura.

As baixas até o dia 15 de novembro eram

O General Eisenhower partiu no dia 16, depois de percorrer as instalações de Material Bélico e
Intendência e de visitar um hospital.

Marlene Dietrich46, que permanecera na Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial, contou-me
que os alemães usavam soro antitetânico para o tratamento do pé-de-trincheira; experimentamo-lo
em alguns voluntários no hospital, sem nenhum resultado positivo.
Em Falkenberg, no dia 17, os prisioneiros revelaram que haviam sido enterradas na cidade várias
bombas de retardamento, algumas com a espoleta regulada com retardo para até 21 dias.
Posteriormente, explodiram cerca de 15 destas bombas.
Eddy telefonou para dizer que a sua dotação de munição para o dia 18 eram 9 mil tiros; respondi-lhe
que gastasse 20 mil, pois não via motivo para acumular munição. Não há meio termo para a
munição, você gasta ou não gasta. Perder-se-iam mais homens gastando 9 mil tiros por dia, durante
três dias, do que consumindo 20 mil tiros em um dia — e provavelmente sem conseguir progredir
tanto. Acredito que se deva lutar até que a escassez de suprimento nos obrigue a parar; então, trata-
se de cavar trincheiras.
O dia 18 foi um grande dia para a aviação. O XIX Comando Aerotático começou a voar com o
alvorecer do dia e só encerrou suas atividades quando já estava bastante escuro; durante a noite o
trabalho ficou por conta dos caça noturnos, que atacaram quinze comboios durante a escuridão.
O XX Corpo progrediu bem. As 90ª e 85ª Divisões avançaram bastante e conseguiram,
praticamente, estabelecer contato com a 5ª Dl a leste de Metz. A 10ª DB atingiu seu objetivo. As
coisas iam tão bem que eu já me via atravessando a Linha Siegfried um dia destes. Eu andava
otimista demais.
Visitei o quartel-general da 5ª Dl em Forte Leisne, nas vizinhanças de Verny. Comandado pelo
Coronel Robert P. Bell, o 10º Regimento de Infantaria executou um ataque noturno e progrediu 6
quilômetros para cortar o último caminho de fuga do inimigo em Metz. Quando me achava no forte,
este regimento estabeleceu contato físico com elementos da 90ª Dl; a partir das 11 horas, elementos
das 5ª e 90ª Divisões iniciaram a luta nas ruas de Metz. O aspecto notável do ataque noturno foi a
sua progressão através de um campo de minas. A decisão pela ação noturna custou ao regimento 35
baixas. Se houvesse realizado a mesma operação durante o dia provavelmente teria perdido os
mesmos 35 homens no campo de minas, além de vários outros que seriam atingidos pelos tiros de
metralhadora e fuzil.
Em Verny pudemos examinar o efeito do bombardeio pesado. Os fortes ficam danificados quando
sofrem um impacto direto de uma bomba grande, mas os danos não alcançam o grau que se
imagina. O efeito de choque provocado pela detonação provavelmente é maior do que o efeito de
danos.
A última coluna alemã que tentou fugir de Metz foi apanhada na estrada por uma companhia de CC
médios da 6ª DB, que abriu fogo sobre a coluna de uma distância de cerca de 150 metros. Percorri a
estrada e raramente vi uma cena de destruição tão grande.
Um outro trabalho notável foi a conquista da ponte que ligava a margem ocidental a uma ilha no
Mosela, bem em frente a Metz. A ponte foi encontrada intata; a Artilharia cobriu-a com
concentrações de granadas com espoleta de tempo até que os carros de combate chegaram e
expulsaram os defensores sem que estes tivessem oportunidade para detonar as cargas de destruição
da ponte.
Comuniquei a Bradley que Metz ainda não se rendera oficialmente, mas já estava em nossas mãos, e
que o crédito pela sua conquista pertencia ao XX Corpo.
As condições meteorológicas impediram qualquer apoio aéreo no dia 20. Entretanto, os franceses
conseguiram uma ruptura em Belfort e 7º Exército progrediu muito bem. Sem dúvida a notícia era
excelente.
Nesta mesma data acertamos os pormenores no sentido de que o III Corpo absorvesse a 5ª Dl e
assumisse a responsabilidade pelo setor de Metz. Isto não só aliviaria o XX Corpo de garantir a sua
segurança de flanco, como também tornaria operacional o III Corpo de Exército; assim, se o inimigo
atacasse o VIII Corpo ao norte, teríamos alguma coisa para lançar contra ele. O XX Corpo, então
integrado pela 10ª DB e 90ª e 95ª Divisões de Infantaria, poderia prosseguir no ataque já em curso
contra Sarreburgo e iniciar um segundo ataque entre Merzig e Sarrelautern. A primeira vista poderia
parecer temerário um ataque nesta região, onde se localizava a posição mais forte da Linha
Siegfried. Todavia, às vezes a fortaleza aparente resulta em fraqueza, porque os chefes não parecem
dispostos a ocupar as posições mais fortes com os efetivos de que eles realmente necessitam.
Tanto o XX Corpo como o XII estavam preocupados com seus flancos internos, nas vizinhanças de
St. Avold, cada um querendo que o outro ocupasse um espaço vazio criado naquela região.
Entretanto, senti que seria melhor estreitar a zona de ação de cada corpo e confiar em Deus, no
sentido de que os alemães não atacariam por entre os corpos. Que eu saiba, jamais tentaram realizar
um tal ataque.
Sem sombra de dúvida, o impulso do ataque se deteriorava, devido à exaustão das tropas e à falta de
recompletamentos. Para mim, a única solução era estreitar a zona de ação de cada corpo. Até o dia
22, os planos finais para o prosseguimento do ataque eram: para o XX Corpo, — a 10ª DB e um GT
da 90ª Dl — atacar Sarreburgo e Merzig; para o resto da 90ª Dl e a 95ª Dl, atacar nas vizinhanças de
Sarrelautern. A 5ª Dl, menos um GT que permaneceria em Metz, constituiria uma reserva, em
condições de ser empregada na zona de ação do ataque que obtivesse sucesso.
Nesta época, a resistência em Metz desmoronara completamente; na realidade, estávamos apenas
bombardeando os fortes restantes com material e munição dos alemães. No XII Corpo, a 80ª Dl e a
6ª DB atacariam nas vizinhanças de Sarreguemines; um GT da 35ª Dl acompanharia a 6ª DB; a 26ª
DI e o restante da 35ª Dl deveriam manter as posições, enquanto se recuperavam e secavam o
equipamento. A 4ª DB atacaria ao sul de Sarrebrucken. Uma das desgraças desta campanha é que
fora planejada quando as condições meteorológicas eram boas e o terreno estava seco. Por isto, as
operações previstas seriam uma espécie de blitz. Quando foi desencadeada, enfrentávamos a maior
inundação dos últimos 80 anos.
No dia 23, realizamos uma solenidade militar em homenagem a Eddy e Walker pela conquista de
Nancy e Metz, respectivamente. Embora ambos ainda ostentassem o posto de major-general, a
banda tocou os compassos da marcha batida correspondentes a tenente-general e eu esperei que isto
pudesse ser uma profecia. Para Walker foi realmente uma profecia; quanto a Eddy, creio que, no
fim, também ganhará a terceira estrela.
O General Giraud, do Exército francês, passou parte do dia comigo e animou-me muito. Durante
alguns anos ele exercera um comando em Metz e estudara todas as vias de acesso para um ataque
dali até a Alemanha. Concordava plenamente com as que eu havia selecionado. Também destacou
algumas regiões que, segundo ele, o terreno não permitia a montagem de ataque. Na ocasião, aceitei
o seu conselho, mas quando o XX Corpo atacou, no dia 13 de março de 1945, o fez realmente por
cima de terreno considerado intransponível.
Foram identificados elementos da 130ª Divisão Panzer Lehr (comandada pelo General-Tenente Fritz
Bayerlein) entre os XII e XV Corpos; sofreram um ataque contra os flancos, desencadeado com
sucesso pela 4ª DB.
Dispúnhamos de um estudo preparado visando a utilizar o XV Corpo, como integrante do 3º
Exército, em um ataque planejado do Sarre ao Reno. No dia 24, os Generais Eisenhower e Bradley
passaram por Nancy, a caminho do 6º Grupo de Exércitos, e tentei vender-lhes a idéia de empregar o
XV Corpo, baseando a minha argumentação no fato de que entre Lunéville e Thionville havia
espaço apenas para um exército e havia um único corredor natural. Embora a argumentação fosse
fundamentada, não obtive sucesso.
Os dias mais curtos e as distâncias enormes aconselhavam o deslocamento para a frente do nosso
Posto de Comando. Entretanto, com exceção de St. Avold, não existia lugar que dispusesse da rede
de estradas necessárias ao exercício do comando, e St. Avold já estava ocupada pelo XII Corpo. A
localização de um posto de comando impõe a existência de uma rede de estradas que permitam ao
comandante deslocar-se para qualquer parte da linha de contato. Um posto de comando situado em
local que obrigue um deslocamento para a retaguarda, em busca de estradas que conduzam à frente
de combate, é um PC mal localizado. Quando for possível, sempre é melhor escolher um local que
permita o deslocamento para a frente, o que além de economizar tempo ainda permite que os
soldados vejam em que direção se desloca o comandante; o regresso deve ser feito de avião, para
que o comandante não seja visto no deslocamento para a retaguarda.
Por falar em voo, recordo-me que quando comecei a voar sobre a França observei, do ar, um grande
número de abrigos individuais cavados em ambos os lados das estradas principais. Uma
investigação revelou que tal proteção se tornara necessária para manter em atividade os motoristas
dos caminhões alemães; quando os nossos bombardeiros apareciam, eles saltavam direto para dentro
dos abrigos. Os habitantes locais eram obrigados a cavar e conservar tais abrigos, os quais eram
rapidamente tapados por eles próprios assim que conquistávamos a região.
Uma outra coisa que me impressionou foi o número de crateras em campo aberto, onde parecia não
haver provocado nenhum dano. Sem dúvida foi isto o que aconteceu na maioria dos casos, mas não
se deve criticar muito o bombardeio aéreo quando se leva em consideração o número de projéteis
disparados por fuzis e canhões desdobrados em campo aberto. Por outro lado, praticamente todos os
campos de aviação alemães pareciam ter sofrido uma epidemia de erisipela, pois estavam todos
cheios de crateras.
No dia 25 inspecionei a 95ª DI. O moral dos combatentes era bom, mas seus métodos de ataque
pareciam carecer de ímpeto. Durante o trajeto ocorreram vários impactos de granadas de 88 e 105
mm bem perto de nós. Passamos por dentro de Metz; foi uma sensação agradável entrar em uma
cidade que não havia sido conquistada durante 1.300 anos.
O recompletamento forneceu-nos vários capitães. Inicialmente, designei-os para companhias
comandadas por tenentes, a fim de que eles ficassem entendendo do riscado. Embora isto não seja
permitido pelo regulamento, agi assim nesta e na Primeira Guerra Mundial, e deu certo.
O 7º Exército enviou uma proposta de limites entre eles e o 3º Exército, que, se aceita, nos teria
empurrado para longe. Consegui persuadi-los a aceitar o limite que utilizaríamos entre os XII e XV
corpos, se tivéssemos recebido o XV Corpo; este limite norte era: Lorentzen — Rahlingen —
Boulin — Waltholben — Kaiserslautern — Bobenheim. Telefonei para o General Haislip e
cumprimentei-o pela ruptura conseguida, realmente um trabalho muito bem feito.
Recebemos a visita de Averell Harriman, Embaixador na União Soviética; levei-o até a 4ª DB a fim
de que ele visse que os russos não eram os únicos que tinham queixas contra a lama. Durante a
viagem, passamos por dois fossos anticarro novos e quatro antigos; variavam de 3 a 4 metros de
profundidade por 7 a 9 metros de largura. Passamos também por várias linhas de trincheiras, todas
transpostas pelos nossos soldados porque não haviam sido adequadamente defendidas. Deve ter sido
espantosa a quantidade de homens-hora desperdiçada nestas defesas inúteis. Na visita à 4ª DB,
atravessamos o rio Sarre e cuspimos na margem alemã deste rio.
Condecorei um tenente que, no comando de um dos nossos carros de combate Mark IV, destruíra
cinco carros de combate Pantera. Depois, dirigi-me ao local deste combate e vi os cinco carros
destruídos ainda fumegantes. A marca das lagartas na lama revelava o que sucedera. Nosso carro de
combate vinha descendo pela estrada quando avistou um pouco à frente, numa depressão à sua
direita, dois carros Pantera a cerca de 250 metros. Atacou a ambos e destruiu-os; parece que ao
avançar para liquidar os dois carros inimigos, descobriu os outros três; atacou-os a uma distância de
40 metros. Todos os carros de combate alemães foram destruídos, bem como o nosso.
Harriman contou-me que Stalin fizera um grande elogio ao 3º Exército, na presença do chefe do
Estado-Maior do Exército Vermelho, ao afirmar: “O Exército vermelho não seria capaz de conceber
e, sem dúvida, não poderia ter executado a progressão realizada pelo 3º Exército através da França”.
No dia 28, os Generais Brereton47 e Ridgway48 apareceram no QG do 3º Exército procurando um
emprego para o exército aerotransportado. Mostrei-lhes uma área entre Worms e Mainz que
constituía o local mais desejável para a transposição do Reno, do ponto de vista das forças
terrestres. Declararam que o local parecia bom para eles e que iriam estudá-lo.
O problema do exército aerotransportado é ser muito trabalhoso o seu emprego. No estágio atual do
desenvolvimento das tropas aerotransportadas, acredito que seria muito mais útil dispor de um
regimento aerotransportado em cada exército, em condições de ser empregado mediante aviso
prévio de 12 horas, do que contar com várias divisões aerotransportadas que, normalmente, gastam
semanas em preparativos para o emprego. Durante a nossa progressão pela França planejaram por
três vezes o emprego de divisões aerotransportadas, mas sempre chegamos ao lugar onde elas
seriam lançadas antes que tivessem tempo de ficarem prontas para o lançamento.
O General Walker declarou que poderia atacar Sarrelautern em qualquer ocasião após a manhã de
29 de novembro e que não seria imprescindível o apoio aéreo, embora estimasse muito poder contar
com ele. Bradley telefonou para dizer que os 1º e 9º Exércitos pareciam detidos e que, caso eu
conseguisse uma ruptura, ele me daria o apoio que estava destinado àqueles exércitos.
No dia 29 de novembro, junto com o XII Corpo, estudei os planos para estabelecer uma cabeça-de-
ponte sobre o rio Sarre, empregando a 26ª DI a noroeste da 4ª DB. A idéia era atuar na margem
oriental do rio para facilitar a transposição da 35ª Dl em Sarreunion, o que por sua vez
provavelmente possibilitaria a transposição da 6ª DB neste mesmo ponto.
Viajando de Château Salins para St. Avold, cruzamos a Linha Maginot e ficamos impressionados
com a sua falta de imponência. Na realidade, elementos da 80ª Dl progrediram através desta parte
da Linha sem notar que estavam passando por ela.
O déficit de recompletamentos atingiu a soma de 9 mil homens; retirei 5% do efetivo das
companhias de quartéis-generais, de exército e de corpos, e mandei incorporar às unidades
combatentes de Infantaria. Isto provocou uma torrente de reclamações dos chefes de seção, todos
alegando que a diminuição do efetivo afetaria o trabalho da seção. A verdade é que nem a redução
de 10% do efetivo, que me vi forçado a realizar posteriormente, produzia qualquer efeito negativo
sobre o funcionamento das seções.
Uma outra escassez que se tornou aguda naquela ocasião foi a de bebidas. Estavam encerrados
aqueles bons tempos em que capturávamos 26 mil caixas de champanha em uma cidade e 14 mil
caixas de conhaque na outra (todas elas marcadas como propriedade do Exército Alemão).
O General Weyland e eu, acompanhados dos respectivos estados-maiores, estudamos o emprego dos
bombardeiros médios sobre Sarrelautern e decidimos que eles teriam que bombardear com OBO49,
caso não conseguissem realizar bombardeio visual antes do dia 1º ou 2 de dezembro; decidimos
também que, se não fosse possível realizar o bombardeio antes do dia 2 de dezembro, as 90ª e 95ª
Divisões atacariam de qualquer maneira. No início da noite o General Weyland telefonou para dizer
que receava não poder contar com nenhum bombardeiro caso não atacássemos no dia 1º de
dezembro. Dei ordem a Walker para realizar o ataque naquele dia, o que provavelmente constituiu
um erro da minha parte; os preparativos da 95ª Dl teriam sido melhor concluídos se o ataque
houvesse sido atrasado de um dia.
Quando os bombardeiros médios atacaram Sarrelautern, no dia 1º apenas quatro dos oito grupos
conseguiram lançar as bombas sobre o alvo e a 95ª Dl encontrou mais dificuldade do que a prevista
para chegar até o rio. No dia 2, dez grupos de bombardeiros médios atacaram Sarrelautern, obtendo
resultados muito bons; o mais importante foi a destruição da usina elétrica da cidade. Os alemães
estavam utilizando a corrente gerada pela usina para acionar as cargas de destruição das pontes.
Como consequência do bombardeio, as pontes foram conquistadas intatas.
Visitei a 90ª Dl e o Posto de Comando do 359º RI, comandado pelo Coronel Raymond E. Bell. Pedi-
lhe que me levasse a um Posto de Observação ao norte de Sarrelautern. Seguimos de viatura durante
uma parte do trajeto, apeamos dentro de um bosque e começamos a descer por uma estrada. Vi do
outro lado do rio, enfiando a estrada, uma casamata alemã com um canhão. Perguntei a Bell se a
casamata estava ocupada e ele respondeu que achava que sim. A distância era de menos de 200
metros; felizmente os alemães não atiraram. Quando chegamos ao PO, situado em uma casa, os
alemães desencadearam uma concentração de Artilharia contra nós, mas não conseguiram nenhum
impacto no alvo. Jamais gostei de PO instalado em casa, pois sinto-me muito exposto nos andares
superiores — principalmente durante um bombardeio.
No dia 2, tomou-se evidente que o General Wood precisava ser retirado da frente para repousar. O
General Eisenhower providenciou tudo; mandei Gaffey, então chefe do meu estado-maior, assumir o
comando da divisão. Eu estava disposto a solicitar a nomeação de um comandante para a divisão,
mas não havia ninguém disponível e a situação de combate exigia um bom comandante para a 4ª
DB. Os feitos subsequentes desta divisão provaram que eu estava certo na escolha que fizera.
O problema de recompletamentos tornou-se extremamente grave. Estávamos com claros de 11.000
homens em um exército com seis divisões de Infantaria e três blindadas; em termos de fuzileiros —
e este é o pessoal que sofre mais baixas — os claros existentes indicavam que as companhias de
fuzileiros estavam reduzidas a 55% do efetivo normal. Baixamos ordens para a redução de mais 5%
nos efetivos das companhias de QG e autorizando os comandantes de divisão a canibalizar50 as
unidades não essenciais, como as companhias anticarro, para aumentar o número de fuzileiros.
No dia 5 de dezembro, um dia depois que Gaffey assumiu o comando, a 4ª DB progrediu 11
quilômetros, com o General Earnest liderando o ataque. A 90ª Dl cruzou o rio Sarre a jusante de
Sarrelautern e a 95ª Dl conseguiu colocar um segundo regimento do outro lado do rio, ao sul
daquela cidade. O fogo da Artilharia inimiga era intenso, mas nossas baixas não foram elevadas.
No dia 6, os parlamentares Luce e Merrick, durante a realização de uma visita dirigida na zona de
ação do 3º Exército, puxaram o cordel do gatilho de dois canhões que atiravam contra o forte
Driant. Eu era totalmente contrário a isto porque, na Primeira Guerra Mundial, um dos nossos
parlamentares fez a mesma coisa e o ato provocou repulsa geral entre a população.

Naquela noite recebi os Generais Spaatz, Doolittle e Vandenberg51 e combinamos uma incursão
aérea violenta contra a Linha Siegfried, nas vizinhanças de Kaiserslautern. Provavelmente, tratava-
se da mais ambiciosa blitz aérea já concebida. Consistiria de três dias consecutivos de ataque em
profundidade, com a utilização de mil bombardeiros pesados por dia. A fim de diminuir a
probabilidade dos nossos soldados serem atingidos e permitir que a linha de bombardeio se situasse
sobre a linha de contato, planejamos recuar 400 metros todas as unidades de Infantaria que se
encontravam na frente. Para evitar que o inimigo reocupasse esta faixa de 400 metros, planejamos
espalhar alguns carros de combate imediatamente atrás da linha de bombardeio. A probabilidade de
impacto direto de uma bomba contra um carro é muito pequena e os estilhaços não afetam os carros.
No combate na frente de Sarrelautern, a 90ª não conseguiu conservar a ponte, por causa do fogo
inimigo direto, mas manteve suas posições com grande bravura, utilizando-se do transporte noturno
em barcaças.
Para o 3º Exército a conquista de Metz e a campanha do Sarre iniciou-se no dia 8 de novembro de
1944. No dia 8 de dezembro — isto é, depois de um mês de luta — já havíamos libertado 873
cidades e 4 mil quilômetros quadrados de superfície. O número de prisioneiros de guerra atingia a
30.000 e o de mortos e feridos a cerca de 88.000. Também destruímos 137 carros de combate e 400
canhões. Nossas perdas em combate, neste mesmo período, eram de 23.000 homens mortos, feridos
e desaparecidos, as perdas fora de combate atingiam a 18.000 homens, resultando no total de 41.000
baixas. Os recompletamentos somaram apenas 30.000 homens, o que deixava 11.000 claros. A
estatística mostrava que durante 130 dias de combate, desde 1º de agosto até a presente data, a
média diária de baixas por todos os motivos no 3º Exército era de 812 homens; a média dos
alemães, só na nossa frente de combate, era de 2.700 homens.
A fim de respeitarmos a data combinada com a Força Aérea para a ruptura do 3º Exército em
direção ao Reno, inicialmente fixada para 19 de dezembro, tínhamos que chegar à Linha Siegfried
antes daquela data; por isto, as operações na frente do XII Corpo adquiririam o aspecto de corrida
contra o tempo. Para vencer esta corrida foi preciso engajar o 346º Regimento de Infantaria
(comandado pelo Coronel N. A. Costello) da 87ª Dl (comandada pelo General-de-Brigada Frank L.
Culin Jr.) assim que ele se apresentou ao exército, além de preparar o novo emprego da 4ª DB e da
80ª Dl, que estiveram descansando alguns dias
As condições meteorológicas estavam tão más que ordenei a todos os capelães militares que
rezassem pedindo bom tempo. Mandei imprimir uma oração nas costas de um cartão de Natal e fiz
distribuí-lo a todos os integrantes do 3º Exército. A oração implorava por tempo seco para a
batalha52.
No dia 12, Stiller eu visitamos os postos de comando da 4ª DB, e 87ª Dl. A 87ª Dl estava
substituindo a 26ª DI e um dos seus regimentos já participava do combate, aparentemente com
sucesso. Mais tarde, verificou-se que o sucesso não era tão grande quanto se esperava. Todavia,
tratava-se de uma boa divisão.
Em seguida, inspecionamos a 35ª Dl que lutava obstinadamente, embora muito fatigada e com
efetivo reduzido. Sua missão era conquistar o terreno elevado à esquerda do XII Corpo, em
Sarreguemines. Decidi atribuir a 6ª DB e a 26ª DI ao III Corpo, nas vizinhanças de Sarrebrucken; se
o inimigo atacasse o VIII Corpo do 1º Exército, como era provável53, eu poderia proporcionar
ajuda, empregando o III Corpo em um ataque direto para o norte, na margem ocidental do rio
Mosela. Por outro lado, se o XX Corpo fosse repelido do norte, onde havia provas de que o inimigo
estava se concentrando nas vizinhanças do Trier, poderia fazer um “esquerda-volver”, e conter o
ataque, enquanto o III Corpo poderia avançar para leste, em Sarrebrucken, acompanhando a
progressão do XII Corpo. Expliquei esta manobra ao General Eddy e ele concordou que a idéia
estava correta.
No dia 13 de dezembro, fixamos definitivamente o dia 19 como data para a blitz aérea. Estava
planejado penetrar nas posições inimigas com o XII Corpo na noite de 22 de dezembro. Naquela
ocasião, se o VI Corpo (comandado pelo Major-General E. H. Brooks), do 7º Exército, localizado à
nossa direita, ainda não houvesse realizado a penetração, disporíamos de tempo para deslocar a blitz
aérea para executar uma segunda operação na zona de ação do VI Corpo.
O combate em Sarrelautern era muito cansativo, pois lutávamos de casa em casa; por outro lado, as
baixas eram bem poucas.
As 80ª e 5ª Divisões de Infantaria achavam-se, agora, com efetivo completo, graças ao primeiro
corte de 5% no efetivo supérfluo das companhias de QG, e ainda dispúnhamos de 4 mil homens
fazendo estágio de instrução em Metz. Esta sobra completaria o efetivo da 26ª DI e ainda
contemplaria as 90ª e 95ª Divisões. Se a Zona de Administração procedesse da mesma forma,
disporíamos de soldados em número suficiente para acabar com a guerra. Para conseguir um tal
resultado bastaria o General Eisenhower expedir uma ordem cortando 10% do efetivo das unidades
da ZA, transformando este pessoal em fuzileiros.
No dia 14, em Sarrelautern, Codman e eu atravessamos a ponte sobre o rio, a qual diziam estar
sujeita ao fogo inimigo. Tratava-se de um gesto de minha parte; queria mostrar aos soldados que o
inimigo também atira nos generais. Não atiraram muito por ocasião da minha passagem. Quase
todas as casas que examinei em Sarrelautern, dos dois lados do rio, eram verdadeiros fortes. O andar
térreo era todo construído em concreto com 12 polegadas de espessura; havia aberturas para tiro de
metralhadoras, situadas pouco acima do nível da calçada, nos porões de cada casa. Os alemães
constituíam uma raça realmente radical.
A 90ª Dl vinha realizando um trabalho magnífico na margem oriental do rio, apesar da falta de uma
ponte. Seu efetivo de fuzileiros achava-se bastante desfalcado, mas o que existia era valente e estava
matando um número considerável de alemães.
Passamos por Thionville a caminho do Luxemburgo, para ir ver Bradley. Parece que Montgomery,
ajudado pelo Primeiro-Ministro, conseguira os serviços do 9º Exército. Montgomery opunha-se
violentamente às operações realizadas por Patch e por mim. Queria também concentrar todas as
forças disponíveis no norte e queria comandá-las ele próprio, sustentando que o Reno só poderia ser
transposto nas vizinhanças de Colônia, e que isto deveria ser feito sob o comando dele. Tudo isto
me afligia muito; além do mais, meu ataque não era brilhante, progredia em saltos curtos e eu sentia
que teria que passar à defensiva, perdendo várias divisões, se não conseguisse uma penetração
depois da blitz aérea.
No dia 16, Eddy achava-se muito desanimado e nervoso, principalmente porque o ataque da 87ª Dl
não corria bem e porque um coronel fora substituído no comando por desleixo na prevenção do pé-
de-trincheira. Mais tarde, este coronel demonstrou ser um excelente combatente.
Naquela época eu achava que a situação era mais favorável do que o fora anteriormente e
examinava a possibilidade de colocar o III Corpo na retaguarda da 35ª Dl; a finalidade seria
aproveitar qualquer sucesso que pudesse ser conseguido durante a penetração, uma vez que pelo
menos Millikin não estava fatigado, embora lhe faltasse experiência de combate.
Pensei seriamente em obrigar Eddy a descansar um pouco e teria feito isto se não temesse que o
resultado de umas férias fosse pior do que o da permanência na função.
Na noite de 16 de dezembro, o General Allen, chefe do estado-maior do 12º Grupo de Exércitos,
telefonou pedindo que a 10ª DB fosse dada em reforço ao VIII Corpo do 1º Exército, a fim de
repelir um poderoso ataque alemão. Foi esta a primeira notícia oficial que recebemos sobre o ataque
alemão que prevíramos, e que mais tarde ficou conhecido como “Bolsão”. Protestei energicamente,
pois a perda desta divisão comprometeria demais a minha probabilidade de obter uma penetração
em Sarrelautern. Declarei que já havíamos pago um preço elevado para avançar naquele setor e que,
nesta altura dos acontecimentos, deslocar a 10ª DB para o norte seria agir exatamente como os
alemães desejavam. O General Bradley aceitou os meus argumentos, mas declarou que a gravidade
da situação era tal que não podia ser mencionada pelo telefone.
No dia 17, chegaram dados mais concretos sobre o ataque alemão. Já estavam identificadas diversas
unidades inimigas ao longo de uma frente extensa, mas faltava identificar as grandes unidades. Na
noite de 17, registrou-se uma movimentação desusada dos alemães na frente do XX Corpo. Podia se
tratar de uma finta para cobrir um ataque contra o VIII Corpo do 1º Exército, ou o ataque contra o
VIII Corpo poderia ser uma finta para cobrir um ataque contra o XX Corpo. Na minha opinião o
verdadeiro ataque fora desfechado contra o VIII Corpo.
Caso os alemães atacassem, não seria má a situação na frente do 3º Exército. A 5ª Dl estava
substituindo a 95ª e a 80ª Dl dirigia-se para a zona de ação do XII Corpo, a fim de garantir a nossa
presença na Unha Siegfried no dia 19. O único lugar em que o ataque do inimigo poderia ferir o 3º
Exército era no triânguIo Sarre — Mosela, onde o Coronel Polk com o seu 3º Regimento de
Reconhecimento reforçado, cerca de 400 homens, vigiava uma frente de quase 50 quilômetros.
Chamei o General Millikin e conversei com ele sobre o possível emprego do III Corpo em um
ataque para o norte, caso os alemães continuassem a atacar o VIII Corpo do 1º Exército. Ordenei a
Eddy que engajasse a 4ª DB no combate, porque imaginei que se não fizesse isto a divisão poderia
ser transferida para o norte por ordem do escalão superior. Este meu ato demonstra como estava
errada, na ocasião, a minha avaliação sobre a gravidade do ataque inimigo.
Recebi um telegrama de Bradley às 10h30min do dia 18, convocando-me para uma reunião em
Luxemburgo, juntamente com os meus E-2, E-3 e E-4. Declarou-me que iria apresentar uma
proposta que não me agradaria. Depois que chegamos, Bradley mostrou-me que a penetração alemã
era muito maior do que imaginávamos e indagou o que eu poderia fazer. Disse-lhe que poderia
suspender o ataque da 4ª DB e concentrá-la em Longwy, a partir da meia-noite. Acrescentei que a
80ª Dl poderia iniciar o movimento para o Luxemburgo na manhã do dia seguinte e que a 26ª DI
poderia ser alertada para iniciar o deslocamento em 24 horas, embora acabasse de incorporar 400
homens inexperientes (recompletamentos provenientes das companhias de QG). Nesta mesma noite
Bradley telefonou, por volta das 23 horas, e pediu-me que fosse encontrá-lo e ao General
Eisenhower em Verdun, às 11 horas do dia seguinte, 19 de dezembro. Imediatamente convoquei
uma reunião do estado-maior para as 8 horas do dia 19, convidando também o General Weyland e
seu estado-maior.
Abri a reunião dizendo que os planos haviam sido alterados e que, embora estivéssemos
acostumados a deslocamentos rápidos, agora teríamos que demonstrar a nossa capacidade para atuar
com maior rapidez ainda. Em seguida, elaboramos um plano de operações sumário, baseado na
hipótese de podermos empregar o VIII Corpo (Middleton) do 1º Exército e o III Corpo (Millikin) do
3º Exército em duas ou três direções possíveis. A partir da esquerda e em ordem de prioridade, os
eixos de ataque eram: das vizinhanças de Diekirch direto para o norte; das vizinhanças de Arlon até
Bastogne, cidade ainda na posse de nossas forças; das vizinhanças de Neufchâteau contra a
extremidade esquerda da penetração inimiga.
Se levarmos em consideração que Codman, Harkins, e eu decolamos para Verdun às 9h15min e que
entre 8 horas e a decolagem realizou-se uma reunião de estado-maior, planejaram-se três linhas de
ação possíveis e se estabeleceu um código simples que me permitia telefonar para o General Gay e
dizer quais das duas ou três linhas de ação seriam executadas, pode-se concluir que a guerra não é
assim tão difícil quanto se pensa.
Descemos em Verdun às 10h45min. Participavam da reunião os Generais Eisenhower, Bradley,
Devers, o Marechal-do-Ar Tedder e um grande número de oficiais de estado-maior. O General
Strong, E-2 do SHAEF, apresentou um quadro da situação, que estava longe de ser satisfatória.
Eisenhower declarou desejar que eu viesse para o Luxemburgo para assumir o comando da batalha e
indagou em que data eu poderia fazê-lo Respondi que a partir do meio-dia do dia 19 de dezembro.
Eisenhower declarou também que estimaria que eu executasse um ataque poderoso, com um
mínimo de seis divisões.
Respondi-lhe que realizaria um ataque potente com três divisões — a 4ª DB e as 26ª e 80ª Divisões
de Infantaria — no dia 22 de dezembro e que com um número maior de divisões o ataque só poderia
ser executado dias mais tarde, o que prejudicaria a surpresa.
Quando disse que poderia atacar no dia 22, registrou-se um burburinho na sala. Alguns pensaram
que eu estava me exibindo, outros pareciam muito satisfeitos.
Mostrei que queria sob meu comando: o VIII Corpo do 1º Exército, juntamente com a 101ª Divisão
Aeroterrestre (comandada pelo General Maxwell D. Taylor), a 28ª Dl e parte da 9ª DB; o III Corpo
com as 26ª e 80ª Divisões de Infantaria e a 4ª DB; o XII Corpo com as 4ª e 5ª Divisões de Infantaria
e a 10ª DB; e o XX Corpo com as 90ª e 95ª Divisões de Infantaria e a 6ª DB. Passariam para o 7º
Exército a 87ª Dl e a Infantaria divisionária da 42ª Dl, que estavam com o 3º Exército.
Uma vez decidido que o 3º Exército deveria atacar, realizou-se uma reunião entre Eisenhower,
Devers e Bradley para tratar do deslocamento da frente. A decisão final foi atribuir ao 7º Exército
uma parte da frente do 3º Exército e determinar que aquele exército mantivesse as posições atuais
desde um ponto ao sul de Sarrelautern até a extremidade da sua zona de ação atual, no rio Reno.
Enquanto não chegasse a divisão que a substituiria, não tínhamos autorização para deslocar a nossa
6ª DB.
O Marechal-do-Ar Tedder pediu-me que abrisse mão do XX Corpo, para dedicar minha atenção à
ofensiva em uma única frente. Recusei-me, porque desejava aproveitar a sua zona de ação como
local para repouso. Conforme se verificou alguns meses mais tarde, a retenção do XX Corpo foi
uma das grandes sortes da minha vida; a posse dele propiciou-me a oportunidade de conquistar Trier
e a posse de Trier abriu o caminho para o ataque final através do Palatinado.
Tão logo foram tomadas estas decisões, telefonei para Gay determinando o deslocamento da 26ª DI
e da 4ª DB para Arlon, via Longwy, e da 80ª Dl para Luxemburgo, via Thionville. Na realidade, a 4ª
DB já estava se deslocando desde a noite anterior (18 de dezembro). A 80ª Dl iniciara o movimento
na manhã do dia 19 e a 26ª DI iniciou o deslocamento com o recebimento da ordem.
Se pegarmos as baixas ocorridas até o dia 21 de dezembro, data que assinala o fim da luta na batalha
do Sarre, e subtrairmos delas as baixas registradas até o dia 8 de novembro, verificaremos que a luta
no Sarre foi difícil e sangrenta. Ficaremos também de posse de um conjunto de dados que nos
permitirão avaliar o preço da “Batalha do Bolsão”, que estava prestes a se iniciar.

As baixas até 21 de dezembro eram


4. A CAMPANHA DE BASTOGNE - ST. VITH

19 de dezembro de 1944 a 28 de janeiro de 1945


No dia 19 de dezembro de 1944, o General Eisenhower convocou uma reunião, em Verdun, para
tratar da penetração realizada por von Rundstedt e conhecida como o “Bolsão”. Desde 12 de
dezembro o General Patton levantara a possibilidade de um ataque alemão no seu flanco norte, na
zona de ação do 1º Exército, e mandara efetuar o planejamento necessário para enfrentar tal
possibilidade. Suas notas sobre a campanha registram muito bem o que sucedeu naqueles dias e nos
dias posteriores.
O bolsão foi uma operação extenuante, plena de combates implacáveis, de situações incríveis, de
deslocamentos precisos e de esforço sobre-humano da parte do soldado americano. Quando a
batalha do bolsão terminou, no dia 28 de janeiro, as unidades americanas achavam-se, mais uma
vez, em boas posições na fronteira da Alemanha, prontas para desfecharem um golpe contra o
coração do Reich sem necessitarem de nenhuma pausa. Iniciou-se uma nova ofensiva geral no dia
29 de janeiro.
Durante o período, o General Montgomery assumiu o controle do 1º Exército americano ao norte da
penetração alemã. Deteve a ofensiva germânica com um ataque do 1º Exército para o sul, fazendo
junção com o 3º Exército nas vizinhanças de Houffalize. Os 21º e 12º Grupos de Exércitos
juntaram-se no esforço para empurrar o inimigo para leste e para a Linha Siegfried. Obrigado a
adotar uma atitude defensiva para permitir que o 3º Exército realizasse o seu ataque contra o bolsão,
o 6º Grupo de Exércitos tomou sob sua responsabilidade uma parte da zona de ação do 3º Exército e
montou posições defensivas nas montanhas Vosges. Não se registrou nenhuma novidade na Itália.
Nas Filipinas, o General MacArthur desembarcou em Luzon e havia chegado às portas de Manilha
no fim deste período.
Em progressão para o oeste, os soviéticos apossaram-se de Varsóvia, Cracóvia e Lodz e chegaram a
150 quilômetros de Berlim.
A Força Aérea continuava a bombardear a Alemanha, enquanto a Marinha dominava todos os
mares.
P. D. H.

O BOLSÃO

Passei a noite de 19 de dezembro com o XX Corpo, em Thionville; de lá telefonei ordenando que a


5ª Dl fosse retirada da frente de combate e se deslocasse para o Luxemburgo. Na manhã do dia
seguinte fui ao quartel-general de Bradley, na cidade de Luxemburgo, e descobri que ele
movimentara o GT-B (General-de-Brigada H- E. Dager) da 4ª DB de Arlon para uma posição a
sudoeste de Bastogne e detivera a 80ª Dl em Luxemburgo, tudo isto sem me comunicar nada. Como
o GT-B ainda não se engajara no combate, fi-lo voltar para Arlon e mandei a 80ª Dl prosseguir na
marcha para as vizinhanças de Mersch.
Bradley e eu conversávamos sobre planos para uma operação simultânea dos 1º e 3º Exércitos
quando Eisenhower telefonou e comunicou a Bradley que Montgomery ia assumir o comando
operacional dos 1º e 9º Exércitos americanos, por causa das dificuldades nas comunicações
telefônicas entre Bradley e aqueles exércitos. Para ser franco, isto não era totalmente verdadeiro; na
ocasião, pareceu-me que Bradley havia sido posto de lado, seja por falta de confiança nele, seja por
ser o único meio de que dispunha Eisenhower para impedir que Montgomery “se reagrupasse”.
Falando da falta de velocidade de Montgomery, recordo-me do que disse o Sargento Meeks na
ocasião em que disparamos pela França, enquanto Montgomery fixava Caen “valentemente”. Disse
Meeks: “Puxa, general, se o General Montgomery continuar imóvel, vai nascer capim nos pés dos
soldados ingleses em terra, ou marisco nos pés do que estiverem embarcados”.
De qualquer maneira, o General Bradley suportou como um verdadeiro soldado a decisão, que
representava, praticamente, um rebaixamento; também não se intrometeu nas operações do 3º
Exército durante o restante da campanha, o que poderia ter feito por ser esta a única grande unidade
a ela subordinada. Por outro lado, mantive-o sempre a par do que ia fazer e vali-me de consultas a
ele e ao seu estado-maior.
Desloquei-me de Luxemburgo para Arlon e encontrei Middleton, Millikin, Gaffey e Paul;
Middleton apresentou um quadro geral da situação. O VIII Corpo combatia muito bem, mas já não
dispunha de reservas para engajar no combate, salvo a 101ª Divisão Aeroterrestre54 em
Bastogne. Também achavam-se em Bastogne um GT da 9ª DB55, um GT da 10ª DB, o 705º
Batalhão de Destruidores de Carros de Combate e algumas unidades de Artilharia e de Intendência
constituídas exclusivamente por soldados negros. Ao contrário da Artilharia, os soldados pretos de
Intendência empunharam fuzis e lutaram muito bem.
Depois desta reunião percorri os quartéis-generais das 9ª e 10ª Divisões Blindadas e 4ª e 80ª
Divisões de Infantaria (todos no nordeste do Luxemburgo) e determinei ao General Morris56,
comandante da 10ª DB, que assumisse o comando temporário dos dois grupamentos táticos da sua
divisão, presentes no local, de um GT da 9ª DB, que se achava nas proximidades, e da 4ª Dl, até a
chegada do XII Corpo do General Eddy, que vinha do sul. Disse ao General Leonard, comandante
da 9ª DB, para levar o seu quartel-general para junto do VIII Corpo e assumir o comando dos dois
grupamentos táticos da 9ª DB em Bastogne. Na minha opinião constituía um erro a pulverização das
9ª e 10ª Divisões Blindadas no âmbito do VIII Corpo; entretanto, no momento, a situação poderia
torná-la necessária. Também realizei inúmeros chamados telefônicos para acionar batalhões
autopropulsados de destruidores de carros, batalhões divisionários de carros de combate, hospitais,
munição, material de pontes, etc.; determinei que duas divisões blindadas e a 4ª Dl transformassem
os efetivos das companhias anticarro em fuzileiros, pois existiam muitos claros desta qualificação
naquelas três grandes unidades.
No fim deste dia movimentado, meu motorista, Sargento Mims, disse-me: “General, o governo está
gastando muito dinheiro à toa pagando um estado-maior completo. O senhor e eu acionamos o 3º
Exército durante um dia inteiro e fizemos um trabalho melhor do que o do estado-maior”. Na
realidade, o deslocamento espetacular do 3º Exército, do Sarre para o bolsão, deveu- se à eficiência
extraordinária do seu estado-maior, e em particular ao General Gay, General Muller, Coronel Nixon
e Coronel E. Busch, chefe do Serviço de Intendência do 3º Exército. Quem desejar saber como se
deve movimentar um exército, têm que estudar esta operação descrita em pormenores no Relatório
de Operações Realizadas, do 3º Exército.
Ao anoitecer do dia 20 de dezembro a situação era a seguinte: a partir da esquerda, o VIII Corpo
(Middleton), agora pertencente ao 3º Exército, compreendia a 101ª DAet e seus reforços, a 28ª Dl
menos cerca de dois regimentos, a 9ª DB e algumas unidades de Artilharia de Corpo de Exército; o
III Corpo (Millikin) dispunha das 26ª e 80ª Divisões de Infantaria e 4ª DB; o XII Corpo (Eddy)
contava no Luxemburgo, naquele momento, com as 4ª e 5ª Divisões de Infantaria e 10ª DB, sob o
comando do General Morris até a chegada de Eddy; XX Corpo (Walker), com as 90ª e 95ª Divisões
de Infantaria e 6ª DB. Entretanto, a 6ª DB não tinha autorização para abandonar as vizinhanças de
Sarreguemines enquanto não fosse substituída por elementos do 7º Exército. A 35ª Dl deslocava-se
para Metz, onde receberia recompletamentos e seria transferida para o XII ou VIII Corpo, conforme
indicassem as circunstâncias. O ataque do III Corpo estava fixado definitivamente para 4 horas do
dia 22 de dezembro.
No dia 21, recebi diversos chamados telefônicos de vários escalões superiores, manifestando
apreensão quanto a minha possibilidade de realizar um ataque bem sucedido apenas com três
divisões. Sustentei a minha opinião de que era melhor atacar com três divisões imediatamente, e
obter surpresa, do que aguardar por mais tempo e perdê-la. Naquela ocasião, tinha certeza de que
poderia contar com o corpo do General Eddy, no dia 23 ou 24, e fazê-lo atacar com a 5ª Dl e 10ª
DB, além da possibilidade de emprego da 4ª Dl, apesar de seu efetivo muito desfalcado e do
desgaste sofrido pela divisão em combate. Tinha certeza, e afirmei isto na ocasião, que o 1º Exército
poderia atacar o flanco norte do bolsão no dia 23, se desejasse fazê-lo. Receava que o inimigo
pudesse desfechar um ataque de espoliação57 no sul, partindo das vizinhanças de Echternach e
contra a 4ª Dl; se os alemães soubessem da situação da divisão, certamente teriam realizado um tal
ataque, mas o sistema de comunicações germânico era muito ruim. Duvido até que, naquela
oportunidade, os alemães soubessem do movimento do 3º Exército.
Os estados-maiores dos III, XII e XX Corpos reuniram-se comigo em Luxemburgo. O VIII Corpo
achava-se muito distante e não pôde comparecer à reunião. Como sempre, no limiar da ação, todos
estavam cheios de dúvidas, exceto eu. Sempre coube-me o papel infeliz de ser o raio de sol e aquele
que dá o tapinha nas costas antes da ação, tanto para os meus subordinados como para os meus
superiores. Posso dizer com toda a sinceridade que, naquela ocasião, não tinha dúvida sobre o
sucesso da operação, mesmo quando a 4ª Dl anunciou um ataque inimigo violento às 17 horas do
dia 21 — mais tarde verificou-se que não havia nada. No dia 21, aquilo que eu mais desejava era já
estar no dia 22, porque enquanto atacamos, o inimigo só pode pensar em nos deter, ao passo que
enquanto nos defendemos, ou nos preparamos para atacar, o inimigo pode pensar em nos atacar
também. Durante a noite, Millikin solicitou que a hora do ataque fosse transferida para 6 horas do
dia 22.
O III Corpo partiu para o ataque às 6 horas e progrediu uma média de 11 quilômetros, apesar da
vigorosa resistência do inimigo e das dificuldades provocadas pelas pontes e estradas destruídas. A
progressão foi menor do que eu esperava, mas compreendi que é sempre difícil manter um ataque
avançando; além disto, senti que o inimigo não reagiria dentro das próximas 36 horas, no decorrer
das quais esperava poder retomar a progressão.
O 10º Regimento de Infantaria (Coronel Robert P. Bell), da 5ª Dl, realizou um feito notável ao
atacar na direção de Echternach às 12 horas do dia em que chegara à frente, depois de um
deslocamento de 200 quilômetros a partir de Sarrelautern. Por felicidade, o regimento caiu sobre
dois batalhões que se preparavam para atacar na zona de ação da 4ª Dl e destruiu-os. Em Arlon,
encontrei-me com oito soldados e um oficial que se achavam em Wiltz quando os alemães atacaram,
e que haviam fugido no dia 19 de dezembro. Haviam atravessado o terreno ocupado pelo inimigo,
caminhando direto para o sul, e só haviam avistado sete alemães. Isto levou-me a acreditar que a
densidade do ataque germânico era menor do que a que vinha sendo anunciada.
As condições meteorológicas desfavoráveis na Inglaterra não nos permitiriam reabastecer Bastogne
pelo ar, no dia 22; preparamos o reabastecimento para a noite de 22-23 de dezembro. Nesta ocasião,
tornou-se evidente que o XII Corpo não poderia atacar para o norte do rio Sauer enquanto não
afastássemos o inimigo para leste daquele rio e substituíssemos a 4ª Dl, esgotada e com 1.600
claros, por uma nova divisão — provavelmente a 90ª. A 6ª DB passaria do XX para o XII Corpo,
enquanto a 4ª Dl e a 10ª DB incorporar-se-iam ao XX Corpo. Também havia a possibilidade de ser
liberada a 11ª DB, que se dizia estar sendo concentrada nas vizinhanças de Reims, como reserva do
SHAEF. Era bastante significativa a quantidade de Artilharia de corpo e de exército que apoiava o
ataque do 3º Exército: 88 grupos, ou 1.056 canhões, de calibres de 105 milímetros para cima.
No dia 22, Bastogne sofreu um ataque violento, vindo de nordeste, e que a 101ª DAet repeliu.
Provavelmente, tratava-se da primeira reação ao nosso ataque.
Através de ordens capturadas, ficamos sabendo que os alemães pretendiam avançar para oeste, para
além de Arlon, virar para o sul e, depois, atacar a cidade de Luxemburgo pelo oeste. Como ainda
persistia esta possibilidade, tornou-se necessário prestar atenção no flanco esquerdo do exército.
Empregando toda a 5ª Dl e parte da 4ª Dl, o XII Corpo realizou um ataque com objetivo limitado,
para expulsar o inimigo para leste do rio Sauer, enquanto o XX Corpo realizou um ataque de
diversão, também com objetivo limitado, na direção de Sarreburgo. As condições meteorológicas
melhoraram; sete grupos de caças-bombardeiros executaram um trabalho esplêndido e alguns aviões
da 9ª Força Aérea bombardearam e destruíram pontes nas vizinhanças de Sarreburgo. Por outro
lado, era preciso deslocar o GT-R (Coronel Wendell Blanchard) da 4ª DB do flanco direito para o
esquerdo do III Corpo, a fim de tentar uma penetração até Bastogne. Este movimento abriu uma
brecha entre a 26ª DI e a 4ª DB, que foi preenchida pelo 6º Regimento de Reconhecimento,
comandado pelo Coronel E. M. Fickett. Naquele dia a progressão não foi significativa, variando de
4 a 8 quilômetros.
O dia 24 foi desanimador. Sofremos violentos contra-ataques em toda a frente e um deles obrigou o
GT-B da 4ª DB a recuar vários quilômetros, com a perda de diversos carros de combate.
Provavelmente o erro foi meu, por haver exigido um ataque diurno e um noturno. Este último tipo
de ataque só pode ser executado na primeira noite de combate, ou talvez, na segunda; mais tarde, os
homens acham-se fatigados demais para executá-lo. Além disto, é bastante duvidoso o valor de um
ataque noturno de blindados, a não ser que o terreno seja absolutamente favorável e se possa contar
com a lua cheia. Naquela ocasião, lembro-me de ter ficado surpreendido ao perceber quanto tempo
levava para entender de guerra. Eu já combatera o tempo suficiente para ter aprendido tais coisas.
A 101ª DAet recebeu suprimentos pelo ar e não sofreu nenhum ataque diurno; provavelmente o
inimigo temia os nossos caças-bombardeiros.
Atacando na zona de ação de Diekirch até Echternach, para apossar-se da linha do rio Sauer, o XII
Corpo progrediu praticamente até o rio, exceto na vizinhança de Echternach. Prisioneiros
capturados naquele dia revelaram que não recebiam rações há três ou quatro dias. Também
interceptamos uma mensagem radiofônica da 5ª Divisão Paraquedista alemã (General-Major
Ludwig Hellman), que lutava contra a nossa 26ª DI, na qual o comandante declarava que não
poderia resistir por mais tempo sem receber ajuda e a munição e os lança-rojões de que necessitava.
Nada aconteceu na frente do XX Corpo.

Perdas até 22 de dezembro

Naquela ocasião, a minha opinião, que os acontecimentos subsequentes demonstraram estar errada,
era de que este ataque fora planejado e estava sendo dirigido pelo Estado-Maior alemão com a
finalidade de recuperar a iniciativa. Entretanto, não havia dúvida que as fases planejadas já estavam
atrasadas; por isto, acreditei, então, que tínhamos a possibilidade de cercá-los e destruí-los. Ocorria,
porém, uma recordação aterradora: em 1940 os alemães atacaram da mesma forma e depois viraram
para sudoeste, através de Sarrebrucken e Thionville, em direção a Metz; evidentemente, poderiam
repetir a operação. Não tínhamos a menor idéia sobre o volume dos recursos alemães e,
inquestionavelmente, os superestimamos; aliás, neste aspecto, provavelmente eu era menos culpado
do que os outros.
O dia de Natal amanheceu claro e frio; tempo ótimo para matar alemães, embora a idéia parecesse
um tanto antagônica com o espírito do dia. Saí de manhã bem cedo com a finalidade de visitar todas
as divisões que combatiam; consegui visitar dois grupamentos táticos da 4ª DB, a 26ª, 80ª e 5ª
Divisões de Infantaria, e elementos da 4ª Dl e 10ª DB.
O Serviço de Intendência teve o mérito de distribuir peru a cada soldado no dia de Natal; os que
estavam na linha de frente receberam sanduíche de peru e os demais comeram peru quente. Além do
Exército Americano, não sei de outro exército capaz de fazer tal coisa. Os soldados ficaram muito
satisfeitos.
Fomos metralhados e bombardeados por dois aviões alemães, aliás sem grande sucesso, enquanto
nos achávamos com o GT-A (General-de-Brigada H. L Earnest) da 4ª DB. Durante toda a guerra na
França e na Alemanha, esta foi a única vez que fui apanhado na estrada e atacado pela aviação
alemã.
No conjunto, o dia não foi de muito sucesso. Continuamos a progredir, mas não libertamos
Bastogne. Por causa das condições meteorológicas a guarnição cercada não recebeu suprimento por
via aérea. O único fato auspicioso correu por conta da 5ª Dl que, na sua zona de ação, empurrou o
inimigo para o rio Sauer e matou muita gente que tentou fugir atravessando o rio.
Tomamos providências para que a 6ª DB substituísse a 10ª DB ao norte de Luxemburgo e para que a
35ª Dl, que se achava em Metz desde a noite de 23 de dezembro, se deslocasse, fosse incorporada ao
III Corpo na manhã do dia 26 e ocupasse posição entre as 26ª e 80ª Divisões de Infantaria. Só então
a 80ª Dl passaria a integrar o XII Corpo.
Já bem tarde da noite participamos de uma ceia de Natal muito tranquila no refeitório do General
Bradley. Depois, eu e Bradley conversamos durante bastante tempo; contou-me ele que
Montgomery declarara o 1º Exército impossibilitado de atacar durante três meses e que os únicos
ataques possíveis seriam feitos por mim, mas que eu estava muito fraco. Por isto, deveríamos recuar
para a linha Sarre — Vosges, ou mesmo para a do Mosela, a fim de recuperar o número de divisões
suficientes para a continuação do meu ataque.
Eu e Bradley consideramos repugnante esta idéia, pois sentimos que eia teria repercussões políticas
incalculáveis, além de significar, muito provavelmente, seja a morte, seja a escravidão, para todos os
habitantes franceses da Alsácia e da Lorena, regiões que seriam recuperadas pelos alemães caso
executássemos o movimento proposto por Montgomery58.
Até 14 horas do dia 26, a situação parecia negra. Não conseguíramos libertar Bastogne e
enfrentávamos contra-ataques constantes. Entretanto, a 5ª Dl cerrara sobre o rio Sauer e, na noite de
25 para 26, utilizáramos a nova espoleta de tempo variável contra uma concentração de alemães nas
proximidades de Echternach, matando 700 homens comprovadamente.
O GT (Coronel T. L. Harrold) da 9ª DB que atuava com o XII Corpo foi incorporado à 4ª DB, no III
Corpo, com a finalidade de estender mais para a esquerda o flanco daquela grande unidade.
Elementos da 28ª Dl, que se encontravam na zona de ação do XII Corpo, também foram enviados
para o VIII Corpo. A 35ª Dl iniciou o deslocamento para a linha de contato, preparada para atacar
no dia 27, ao passo que dois terços da 6ª DB já estavam concentrados ao norte de Luxemburgo.
Acreditei que este movimento da 6ª DB fora prematuro. Eu deveria ter esperado mais tempo; então,
teria visto que seria melhor engajá-la no flanco esquerdo porque o corredor para o norte, a partir de
Diekirch, e o meu eixo de ataque preferido, era considerado demasiadamente estreito para o
emprego dos blindados. Pelas observações que realizei posteriormente, penso que tal consideração
estava errada e que os blindados poderiam ter sido lançados naquele corredor. Nunca se sabe.
O General Gaffey telefonou-me às 14 horas do dia 26 e indagou se eu o autorizaria a assumir um
risco considerável com o GT-R do Coronel Blanchard, a fim de realizar uma penetração até
Bastogne. Autorizei o pedido. Às 18h45min estabeleceu-se o contato e Bastogne estava liberada,
mas o corredor aberto tinha apenas 300 metros de largura. Na noite de 26, durante um ataque aéreo
inimigo, 100 prisioneiros alemães atacaram os guardas. Muitos foram mortos; nenhum escapou.
Nesta ocasião, eu fazia o maior esforço possível, através do General Bradley, para conseguir uma ou
todas as divisões que permaneciam em torno de Reims como reserva do SHAEF (11ª DB, 17ª DAet
e 87ª Dl). Com a nossa entrada em Bastogne, senti que o alemão estava batido e que era hora de
atacar com todos os meios disponíveis, ao invés de ficar guardando reservas.
Bradley foi ao encontro de Eisenhower e Montgomery na manhã de 27 de dezembro. Ele e eu
tínhamos muita esperança no sentido de que Eisenhower lhe restituiria os 1º e 9º Exércitos, pois
sentíamos que Montgomery jamais atacaria. Também pedi a Bradley que sugerisse o deslocamento
das 11ª DB e 17ª DAet de Reims para uma posição alternativa, ao longo do rio Semois, de onde
poderiam cobrir o flanco esquerdo do 3º Exército e continuarem bem localizadas para a proteção do
restante das forças americanas situadas na linha do Mosa.
Depois de uma reunião com Middleton e Millikin em Arlon, ficou decidido que o III Corpo
assumiria o controle operacional das unidades do VIII Corpo que se achavam em Bastogne, até que
a situação ficasse melhor esclarecida. Também planejamos, para o dia 30, um ataque de uma divisão
blindada reforçada por um grupamento tático de Infantaria contra Houffalize, e para o dia 31 um
ataque com uma divisão blindada e duas de Infantaria contra St. Vith. Para a operação, o VIII Corpo
receberia de volta a 101ª DAet e seus reforços e cobriria o flanco esquerdo. Naquela ocasião, eu
achava que se pudesse conseguir mais três divisões acabaria logo com a penetração alemã.
Depois que Bradley regressou, eu, ele e o General Anderson59 discutimos, na realidade planejamos,
um ataque contra Echternach, transpondo o rio Sauer e prosseguindo pela via de acesso para Bonn.
A fim de empurrar o inimigo para o sul, propusemos uma blitz aérea a ser seguida por um ataque do
XX Corpo contra Sarreburgo. As possibilidades deste ataque eram muito tentadoras, mas para
assegurarmos a sua transformação em sucesso precisaríamos de mais três divisões; quero dizer, mais
três da 11ª DB e 87ª Dl que Bradley conseguira que me fossem entregues. Não havia
disponibilidade de grandes unidades; portanto, o sonho morreu.
Enviei o General Grow e o Coronel Harkins a Bastogne para providenciarem o deslocamento da 6ª
DB para aquela região, a fim de ser empregada no ataque contra St. Vith; o deslocamento seria
totalmente noturno, para que a participação da divisão naquele ataque constituísse surpresa absoluta.
A 11ª DB e a 87ª Dl deveriam concentrar-se a sudoeste de Bastogne até às 24 horas de 29 de
dezembro e, ao amanhecer, atacar na direção de Houffalize, ultrapassando a extremidade esquerda
do dispositivo da 101ª DAet. Nas zonas de ação dos XII e XX Corpos a situação permanecia
estática.
No dia 30, as 11ª DB e 87ª Dl atacaram, com a 87ª à esquerda do dispositivo. Imediatamente caíram
sobre o flanco de um contra-ataque desencadeado pelos alemães com a 130ª Divisão Panzer Lehr e
26ª Divisão Volksgrenadier60. Este combate de encontro transtornou ambas as ações, mas foi muito
oportuno, no que nos diz respeito, porque os alemães teriam fechado o corredor para Bastogne caso
não sofressem o impacto do nosso ataque. Todos os nossos generais diretamente envolvidos na
operação eram favoráveis a um adiamento do ataque por 24 horas; se eu os tivesse atendido os
alemães teriam obtido sucesso no contra-ataque.
Neste mesmo dia os alemães ainda realizaram um ataque de duas divisões, 1ª Divisão SS
(Brigadeiro E. Wisch e Coronel SS Möhmke) e 167ª Dl (General-Tenente Köcker), contra as 35ª e
26ª Divisões de Infantaria e um terceiro ataque contra a parte norte da defesa de Bastogne.
Provavelmente, este foi o maior contra-ataque coordenado já recebido por minhas unidades
subordinadas. Objetivamos sucesso em todas as frentes.
Ainda no dia 30, foram mortos quatro alemães em um jipe americano e vestindo uniformes do
Exército dos Estados Unidos; a 35ª Dl relatou assim o encontro com um outro grupo de 17 alemães
com uniformes americanos: “Uma sentinela, reforçada, avistou 17 alemães com uniformes
americanos. Quinze foram mortos e dois morreram inopinadamente”.
Dirigi-me a Bastogne através do corredor, passando bem próximo dos alemães. Felizmente eles não
atiraram. Na cidade, condecorei com a Cruz dos Serviços Relevantes: General-de-Brigada
McAuliffe, comandante da 101ª DAet durante a batalha, e Tenente-Coronel S. A. Chappuis, que
comandou o 502º Regimento Paraquedista. Depois, circulamos pela região a fim de que os soldados
nos vissem, e eles ficaram bastante satisfeitos. No dia 25, os alemães haviam enviado uma
delegação, com bandeira branca, exigindo que McAuliffe se rendesse; sua resposta ficou famosa:
“Nuts”61.
No dia 31, repelimos 17 contra-ataques alemães. Não conseguimos conquistar muito terreno, exceto
a 6ª DB que avançou 4 quilômetros atacando de surpresa ao longo da estrada para St. Vith.
Circulavam boatos que nossas tropas estavam sendo metraIhadas, há vários dias, por aviões P-47
que os alemães haviam capturado. Evidentemente, tais boatos eram prejudiciais. Recebi os Generais
Spaatz, Doolittle e Vandenberg e discutimos processos e métodos de estancar os boatos; por fim
decidimos que no dia 1º nenhum P-47 voaria sobre as zonas de ação dos XII E XX Corpos. Se
aparecesse algum avião deste tipo só poderia pertencer ao inimigo. Também conseguimos que o 3º
Exército recebesse a 17ª DAet, perdendo a 28ª Dl.
A ordem abaixo sintetiza, dentro das minhas possibilidades, os acontecimentos de 1944:
Ordem Geral
1º de janeiro de 1945
Nº 1
AOS OFICIAIS E SOLDADOS DO 3º EXÉRCITO e
AOS NOSSOS CAMARADAS DO XIX COMANDO AEROTÁTICO
Desde o corredor sangrento em Avranches, em Brest, na travessia da França até o Sarre, na
transposição do Sarre e penetração na Alemanha e agora em Bastogne, vocês conquistaram vitórias
sobre vitórias. Vocês não só derrotaram um inimigo astuto e obstinado como também, com vigor
inquebrantável, sobrepujaram terreno e condições meteorológicas desfavoráveis. Nada deteve a
progressão de vocês, nem calor, nem poeira, nem inundação e nem neve. A história militar não
registra nada que se compare com a velocidade e o talento que vocês demonstraram.
Há pouco tempo tive a honra de receber das mãos do comandante do 12º Grupo de Exércitos,
Tenente-General Ornar N. Bradley, a segunda Palma de Folha de Carvalho para a Medalha de
Serviços Relevantes. Esta condecoração foi-me outorgada não pelo que fiz, mas pelos feitos que
vocês realizaram. Agradeço a todos.
E minha firme convicção, e são meus votos de Ano Novo, que vocês permaneçam sob a proteção de
Deus Todo Poderoso e a direção esclarecida do- nosso Presidente e do nosso Alto- Comando, nesta
trajetória vitoriosa até o fim, para eliminar a tirania e a corrupção, vingar os nossos camaradas
mortos e restabelecer a paz em um mundo exausto de guerra.
Para finalizar, não pude encontrar nada melhor para expressar os meus sentimentos do que repetir-
lhes as palavras imortais do General Scott em Chapultepec: “Bravos fuzileiros veteranos, vocês
foram batizados com fogo e sangue e adquiram a têmpera do aço”.
G. S. Patton Jr. Tenente-General do Exército
Comandante

Logo no primeiro dia do ano os alemães começaram a bombardear a cidade de Luxemburgo com
uma arma especial62. Inicialmente pensamos tratar-se de um foguete; depois, de uma granada de
canhão de longo alcance. Circularam inúmeros boatos sobre a origem da arma, até que capturamos o
canhão que disparava o tal projétil. Tratava-se de um projétil de 1,80 metro de comprimento por
1,20 metro de largura, com um colar protetor em torno da ogiva e um cone invertido, com
estabilizadores, verticais, na base. A carga de propulsão inicial dilatava o cone, produzindo uma
câmara de compressão de gases que iniciavam o deslocamento do projétil no interior de um tubo
liso de 60 metros de comprimento, constituído por 25 seções conectadas por flanges. Na junção de
cada quatro seções existiam dois tubos pequenos que se encaixavam no principal formando um
ângulo de 45º e cada um contendo uma carga de reforço. Quando o projétil saía do tubo o colar
protetor da ogiva desprendia-se e os estabilizadores mantinham-no na trajetória. O alcance provável
era de 55 quilômetros. A carga explosiva era muito reduzida mas, infelizmente, um projétil atingiu
um hotel exatamente no momento da saída do Capitão John Clementi, comandante da companhia do
quartel- general do 3º Exército, matando-o.
Nossa progressão no dia de Ano Novo não chegou a ser importante, com exceção da 6ª DB que
avançou bem; não havia nenhum motivo de preocupação para nós. Todas as unidades do 3º Exército
encontravam-se na posição em que deveriam se encontrar; se fôssemos derrotados, o motivo seria a
melhor capacitação do inimigo para o combate e não algum erro que eu pudesse ter cometido no
desdobramento das grandes unidades.
A 11ª DB lutou bastante bem na sua estreia na batalha, mas perdeu um número desnecessário de
carros de combate. Não creio que o comando desta divisão haja atuado como deveria.
Posteriormente, com um novo comandante, a divisão transformou-se em excelente grande unidade.
Exatamente à meia-noite de 31 de dezembro todos os canhões do 3º Exército dispararam contra os
alemães durante 20 minutos; eram nossos votos de feliz Ano Novo. Quando o fogo cessou, nossos
observadores avançados declararam que podiam ouvir os gemidos dos alemães dentro dos bosques.
No dia 2, tomei conhecimento mais pormenorizado da atuação da 11ª DB e considerei-a
insatisfatória; soube que o General Middleton fora obrigado a intervir pessoalmente para reparar as
falhas. Planejamos a ultrapassagem da 11ª DB pela 17ª DAet, com exceção de um batalhão de
carros de combate que ficaria para apoiar a 17ª, pois a divisão não dispunha de carros orgânicos.
Um dos principais defeitos de uma divisão aeroterrestre é que jamais dispõe do que necessita após a
realização do salto — nem carros de combate, nem Artilharia adequada, nem transporte.
A 6ª DB continuava indo bem. No nosso flanco direito, o XV Corpo do 7º Exército sofreu um
ataque violento; como as unidades atacantes identificadas eram as que havíamos repelido no terreno
alagado do Mosela ao Sarre, não dei muita importância ao ataque, naquele momento. Afinal, após
uma longa espera, o VII Corpo do 1º Exército partiu para o ataque na direção de Houffalize, com as
2ª e 3ª Divisões Blindadas63 e as 83ª e 84ª Divisões de Infantaria64. Achei que os alemães não
reagiram a este ataque durante vários dias e não vi nada que me obrigasse a alterar o dispositivo
atual do 3º Exército. Na noite de 2 para 3 de janeiro tive um palpite de que os alemães iriam atacar.
Realmente um palpite errado. No dia 3 a 6ª DB progrediu 4 quilômetros; na esquerda, a 87ª Dl
progrediu pouco.
A 11ª DB deteve um contra-ataque inimigo na parte esquerda da sua zona de ação. A 17ª DAet não
conseguiu atacar no dia 3 seja por causa da má condição das estradas, seja porque a Zona de
Administração não providenciou o transporte da divisão nos prazos prometidos, mas ficou pronta
para atacar na manhã de 4, em combinação com a 101ª DAet.
Ficamos muito contentes com a diretriz do SHAEF estabelecendo que o 12º Grupo de Exércitos
reassumiria o controle do 1º Exército tão logo fosse estabelecido o contato entre os 1º e 3º Exércitos
em Houffalize. Portanto, a vontade de chegar a Houffalize constituiu a mola propulsora dos nossos
combates nos dias seguintes. Nesta altura dos acontecimentos Montgomery teve a coragem de
arranjar alguém na América para sugerir que o General Eisenhower se achava sobrecarregado de
trabalho e precisava de um subcomandante de forças terrestres para orientar todas as unidades, na
Europa, e que ele, Montgomery, era a dádiva de Deus para a solução deste problema bélico.
No ataque da manhã do dia 4, a 17ª DAet sofreu um golpe violento e comunicou a perda de 40% de
um batalhão. Sempre que se recebe um relatório deste tipo fica-se sabendo que o pessoal
responsável não entende nada de guerra. Raramente é verdadeiro o relatório que indica mais de 10%
de baixas, a não ser que os soldados tenham fugido ou se rendido.
Encontrei Miley, comandante da 17ª DAet, em Bastogne. Enquanto estive na cidade sofremos um
bombardeio constante, inclusive de granadas com espoleta de tempo. Os clarões dos nossos canhões
e os dos inimigos, refletidos sobre os campos cobertos de neve e ao cair da noite, proporcionavam
um belo espetáculo, embora não muito animador. Na tarde do dia 4 de janeiro, registrei a seguinte
anotação no meu diário e, o que é mais importante, foi a única vez que registrei tal idéia: “ainda
podemos perder esta guerra”.
Em uma das primeiras destas cartas, afirmei que Bradley não interferia de forma alguma no
combate do 3º Exército. Houve um caso em que ele não chegou a dar ordem, mas sugeriu com
bastante veemência que deveríamos colocar uma nova divisão a sudeste de Bastogne, para garantir a
integridade do corredor, ao invés de atacar ao norte de Diekirch, para dividir o inimigo ao meio.
Confesso que me deixei levar pelo ardor da insistência de Bradley, mas assumi toda a
responsabilidade pelo erro representado pelo engajamento da 90ª Dl deslocada muito para oeste. Se
eu houvesse colocado a 90ª Dl ao norte de Diekirch, tenho certeza de que teria capturado um
número muito maior de alemães e por um preço muito menor.
Para empregar a 90ª Dl, do XX Corpo, em um ataque, ultrapassando a 26ª DI, destinado a expulsar
os alemães de uma bolsa a sudeste de Bastogne foi preciso recorrer aos préstimos da 94ª Dl. A
minha proposta era que a 94ª Dl, assim que chegasse, fosse entregue ao XX Corpo e que, então, a
90ª Dl fosse transferida para o III Corpo. Tão logo a 26ª DI fosse ultrapassada pela 90ª, deveria
deslocar-se para o XX Corpo e substituir a 94ª Dl, a qual seria transferida para o XII Corpo, a fim de
que dispuséssemos das novas divisões para o ataque rumo ao norte, a partir de Diekirch. Podia
parecer um vaivém confuso, mas era o caminho mais curto para colocar as divisões em posição.
Vale a pena salientar a facilidade com que o estado-maior do 3º Exército era capaz de movimentar
as grandes unidades. O estado-maior não se importava que a divisão realizasse dois ou três
deslocamentos, desde que fosse prevenido com uma certa antecedência. A operação sofreu atraso de
alguns dias porque o SHAEF não liberaria o último grupamento tático (um terço da capacidade
combativa de uma divisão) da 94ª Dl enquanto a 28ª Dl não cerrasse sobre Reims.
No dia 6, convoquei o General Millikin, comandante do III Corpo, e Van Fleet, comandante da 90ª
Dl, para, juntamente com o meu estado-maior, acertarem os pormenores do ataque que a 90ª Dl ia
realizar, ultrapassando a 26ª DI, ao longo da estrada que corria para noroeste sobre a crista das
elevações no sul de Wiltz. Dois GT da 26ª DI atacariam um de cada lado da 90ª Dl, enquanto o
outro GT substituiria o GT da direita da 35ª Dl e atacaria para o norte. O GT da 35ª Dl, após a
substituição, ajudaria o ataque da 6ª DB para sudeste, a fim de fazer junção com a 9º Dl já em
terreno elevado.
Planejávamos apoiar este ataque com o fogo de mais de mil canhões de calibre 105 mm e
superiores. O fogo seria orientado em duas direções, metade dos canhões atirando ao longo do eixo
de progressão da 90ª Dl e a outra metade atirando perpendicular a este eixo; tiraríamos vantagem da
dispersão em alcance nos dois sentidos. Gostei muito desta idéia porque eu mesmo a concebi. Além
disto, os tiros longos dos canhões que atirariam perpendicular ao eixo de progressão iriam cair nas
elevações a nordeste do rio Wiltz.
Para esconder dos alemães o deslocamento da 90ª Dl, decidimos manter a fisionomia da frente
enviando um grupo de simulação do Serviço de Comunicações para ocupar o Posto de Comando
deixado pela 90ª Dl e manter o tráfego de mensagens. Documentos capturados posteriormente
revelaram que a dissimulação funcionara.
A 90ª Dl realizou um trabalho inteligente na regulação das peças de Artilharia. Na medida em que
suas peças terminavam a regulação, um número equivalente de peças da 26ª DI deixava de atirar.
Acreditávamos que assim o inimigo não perceberia a chegada de uma nova unidade. Evidentemente,
a 26ª DI mobilizava a linha de frente para que o inimigo não aprisionasse ninguém da 90ª Dl. O fato
de enfrentarmos apenas três contra-ataques, todos eles fracos, levou-nos a pensar que o inimigo
estava se retirando.
Ultrapassando a 26ª DI, o regimento da esquerda da 80ª Dl atacou e conquistou o terreno elevado
nas vizinhanças de Dahl. Isto aliviou a pressão na direita da 26ª DI e facilitou a progressão posterior
da 80ª Dl para o norte. O ataque desta divisão obteve bastante sucesso à custa de poucas baixas;
conseguimos destruir cinco carros de combate e alguns canhões autopropulsados inimigos com a
perda de apenas dois dos nossos carros de combate.
O General Eddy ficou muito preocupado com a possibilidade de um ataque ao sul, vindo de
Diekirch. Não concordei com ele, mas lancei mão da única reserva de que dispunha — uma
companhia de canhões rebocados, que vinha sendo utilizada para escoltar prisioneiros de guerra —
e enviei-a para o XII Corpo. Também fiz com que os E-3 da 4ª DB (Tenente Coronel J, B, Sullivan)
e da 10ª DB (Tenente-Coronel J. A. McChristian) efetuassem reconhecimentos nas vizinhanças do
XII Corpo, a fim de poderem desdobrar suas grandes unidades rapidamente.
O Coronel Conklin, chefe do Serviço de Engenharia do exército, inspecionou os campos de minas e
os obstáculos nas estradas na frente do XII Corpo. Esta foi a única vez na minha carreira militar que
utilizei campo de minas e obstáculos nas estradas.
Os escalões realizaram gestões para que atacássemos Houffalize na manhã do dia 8. Como só vim a
saber disto por volta das 9 horas, adiei o ataque para o dia seguinte.
A caminho de Arlon, onde ficava o quartel-general do III Corpo, a fim de preparar este ataque,
cruzei com o último regimento da 90ª Dl que se dirigia para a batalha. Os soldados haviam levado
muitas horas viajando em caminhões, a uma temperatura de 60 abaixo de zero, e estavam
enregelados. Na outra faixa da estrada, deslocando-se em sentido oposto, havia uma fila
interminável de ambulâncias conduzindo homens para a retaguarda — os feridos; apesar de tudo,
quando me viram, os soldados da 90ª Dl levantaram-se e aplaudiram. Foi a experiência mais
comovente da minha vida, realçada pelo conhecimento do tipo de serviço que estava sendo
executado pelas ambulâncias. Durante o trajeto encontrei Gaffey e fiz-lhe sinal para que me
seguisse.
O plano para o ataque do dia 9 de janeiro era o seguinte: dispositivo, da esquerda para a direita —
VIII Corpo com as 87ª DI, 17ª e 101ª Divisões Aeroterrestres e 4ª DB; III Corpo com as 6ª DB e
35ª, 90ª e 26ª Divisões de Infantaria; e XII Corpo com a 80ª Dl, num total de 9 divisões. Durante a
noite Middleton telefonou para dizer que as 87ª Dl e 17ª DAet haviam sofrido muito no dia anterior
e que, na sua opinião, não deveriam atacar antes do dia 10; o mesmo poderia ser aplicado à 4ª DB.
Respondi-lhe que o ataque seria desencadeado no dia 9, de acordo com o que fora planejado.
Durante o dia inteiro aumentaram a quantidade e a intensidade dos boatos sobre um contra-ataque
alemão em Sarrebrucken.
O fundamento principal de tais boatos residia no fato de referirem-se exatamente àquilo que os
alemães deveriam fazer, pois as estradas que saem de Sarrebrucken passam por St. Avold e
prosseguem diretamente para Thionville, Metz e Nancy. Logo, St. Avold era um acidente capital
muito importante; na zona do XX Corpo tinha a mesma importância que tivera Bastogne no Bolsão.
Em face da persistência dos boatos, telefonei para o XX Corpo e disse a Walker que preparasse
posições de retardamento; consegui, também, que o último GT da 94ª Dl cerrasse sobre Thionville.
O início do ataque da 90ª Dl quase resultou em tragédia para o General Van Fleet. Enquanto
observava o desembocar do batalhão de primeiro escalão várias granadas de morteiro alemãs
atingiram o local, matando os homens que o acompanhavam.
Todas as providências para este ataque haviam sido ordenadas verbalmente e em sequência rápida,
mas nem por isto deixavam de ser complexas, uma vez que os canhões da divisão do General
Gaffey, a 4ª DB agora integrando o VIII Corpo, estiveram apoiando a 35ª Dl do III Corpo e tiveram
que permanecer nesta missão durante a fase inicial do ataque, só retomando o apoio à 4ª DB
posteriormente.
Apesar de todo o nosso otimismo, o ataque não progrediu mais do que 3 quilômetros, com exceção
do GT-B da 4ª DB, atacando em combinação com parte da 101ª DAet, que atingiu os bosques a
oeste de Noville.
Devo lembrar que, no dia 8, o escalão superior insistiu na realização do ataque. Pois bem, às
10h30min do dia 10, isto é, dois dias mais tarde, recebi uma ordem direta para desengajar uma
divisão blindada e colocá-la em reserva ao sul da cidade de Luxemburgo, com a finalidade de deter
uma penetração que se supunha iminente. Estes dois exemplos, pelos quais Bradley não era
diretamente responsável, demonstram o quanto é desaconselhável comandar a grande distância da
frente.
Ao receber a ordem, levei o General Bradley até Arlon e discutimos com os comandantes de corpos
a respeito da divisão que deveria ser desengajada. A única possibilidade encontrada foi o
desengajamento da 4ª DB, no momento apenas com um GT empenhado. Eu, os dois comandantes
de corpos e os comandantes das 4ª e 6ª Divisões Blindadas e 101ª DAet reunindo-nos no quartel-
general da 4ª DB para acertar as providências destinadas a retirar esta divisão da frente e casar a 6ª
DB com a 101ª DAet. Aí está um outro exemplo ilustrativo da facilidade com que o comando pode
ser exercido, desde que os comandantes se disponham a ficar suficientemente próximos da frente
para ver e entender o que está ocorrendo. A ordem para o desengajamento de uma divisão foi
recebida às 10h30min. Antes do crepúsculo dois GT da 4ª DB dirigiam-se para Luxemburgo, via
Arlon. A penetração que a divisão deveria deter jamais ocorreu.
No trajeto de volta ao QG, visitei as 35ª, 90ª e 26ª Divisões de Infantaria para explicar por que
deveriam prosseguir atacando, embora ficasse suspenso o ataque na esquerda. A decisão era justa,
uma vez que elas estavam progredindo bem. Quando cheguei no QG deparei com um novo boato,
gerado nos escalões superiores, de que o inimigo ia nos atacar transpondo o rio ao norte de Trier. A
minha impressão, que as investigações posteriores demonstraram estar certa, é que o inimigo não
tinha possibilidade de realizar um tal ataque porque não dispunha das unidades necessárias — na
realidade, os ataques inimigos, naquela ocasião, eram desfechados com efetivos insignificantes.
Perdemos diversos vagões de munição em consequência do choque de um trem cargueiro com um
trem de munição, ao sul de Arlon; o relatório falava em 300 toneladas de munição, mas
provavelmente tratava-se de 100 toneladas.
No dia 11 de janeiro, tornou-se evidente que o fim da operação em Bastogne estava próximo.
Prevendo isto, eu realizara um estudo da rede de estradas e dos obstáculos fluviais na zona do XX
Corpo; dirigi-me a Thionville para conversar com o General Walker a respeito do meu estudo.
Parecia-me que o inimigo poderia transpor o rio Sarre em três locais; primeiro, nas vizinhanças de
Sarreburgo, onde contava com algumas pontes e barcaças de transporte ainda intatas. Todavia, a
rede de estradas era muito limitada e achei que os alemães não se arriscariam por ali. O outro local
situava-se em Sarrelautern, enfrentando as nossas cabeças-de-ponte. Também não vi muita
probabilidade neste local; primeiro, porque o inimigo teria que conquistar a metade da cidade que se
achava em nosso poder, e segundo porque havíamos minado a ponte para destruí-la em caso de
ataque. Restava Sarrebrucken e se eu fosse os alemães, atacaria ali. Existiam sete pontes boas na
cidade e os alemães dispunham de uma cabeça-de-ponte na margem ocidental do rio com cerca de
12 a 16 quilômetros. A rede de estradas para Thionville, e daí para Nancy, era excelente. Entretanto,
St. Avold constituía um ponto crítico; o General Walker achava-se perfeitamente ciente disto e
tomara providências para defendê-lo. Providenciara também para que fosse explodida a ponte sobre
o rio Nied, a fim de canalizar qualquer ataque alemão.
Sua solução, e a minha solução pessoal naquela ocasião, era atacar Sarrebrucken com o que
dispúnhamos. À luz dos dados hoje disponíveis, teria sido a ação ideal e, provavelmente, teria
rompido a linha alemã muito antes do que foi rompida posteriormente.
Nas vizinhanças do XX Corpo a posição foi reforçada, por causa da preocupação do SHAEF em
relação a um contra-ataque alemão iminente. Além das divisões que integravam o XX Corpo, 94ª e
95ª Divisões de Infantaria e 10ª DB, ainda poderiam ser empregadas a 4ª DB, que constituía a
reserva do 3º Exército, e as 8ª e 9ª Divisões Blindadas que estavam se concentrando, a primeira nas
vizinhanças de Pont-à-Mousson e a outra nas proximidades de Metz. Estas duas divisões pertenciam
à reserva do SHAEF.
Ficou previsto para o dia 13 o ataque final dos VIII e III Corpos para a conquista de Houffalize. No
dia 12, o General Gay visitou os dois corpos para coordenar o plano de ataque e para conseguir que
o VIII Corpo restituísse um grupo de obuses de 155mm que recebera por empréstimo do XII Corpo.
O General Bradley revelou-me o plano para o emprego do grupo de exércitos. Queria que o 1º
Exército atacasse para leste, contra Colônia, ao mesmo tempo que o 3º Exército conservasse a
pressão e, na realidade, mantivesse um flanco defensivo desde um ponto nas vizinhanças de St. Vith
até a junção com o 7º Exército. Este plano tinha a vantagem de utilizar a brecha existente na Linha
Siegfried a oeste de Colônia, aberta pelo 1º Exército em novembro, além de utilizar a via de acesso
mais curta. Pessoalmente, eu era contrário a este plano porque me impedia de atacar e porque
acreditava que o XX Corpo, apoiado pelos III e XII, poderia atacar direto para leste, através de
Sarrelautern, com maior probabilidade de romper a posição alemã e conquistar o vale do Sarre. Eu
continuava firme na minha teoria: temos que atacar para impedir que os alemães ataquem.
O ataque contra Houffalize começou no dia 13, mas a progressão não foi tão rápida quanto
esperávamos. De qualquer maneira, a atitude mental dos soldados era excelente. Até aqui eles
tinham tido dúvida; a partir de agora, estavam caçando uma raposa debilitada e queriam vê-la morta.
No dia 14, recebi a visita dos Generais Somervell, Campbell65, Lee e Plank66 e conversamos
longamente a respeito do equipamento. Recomendei vigorosamente a suspensão da construção de
destruidores de carros de combate e a substituição do batalhão divisionário de destruidores de carros
por um batalhão de carros de combate. Aproveitei também para reiterar a minha solicitação de duas
metralhadoras coaxiais em cada carro de combate.
No dia 15, foram expedidas as ordens para que o XII Corpo iniciasse o ataque para o norte, através
de Diekirch, na manhã de 18 de janeiro. Para este ataque o XII Corpo recebeu a 4ª DB e a 87ª Dl,
além das divisões de que dispunha — 80ª, 4ª e 5ª Divisões de Infantaria. O tempo continuava muito
frio.
Fui visitar as unidades que atacavam Houffalize. Em certa altura, passamos por uma posição de
metralhadora alemã cujo atirador fora morto, e por certo imediatamente congelado, em uma posição
semi-sentado e com os braços estendidos, segurando uma fita cheia de projetis. Em outro ponto
avistei uma série de objetos pretos elevando-se da neve; o exame revelou tratar-se dos dedos dos pés
de um soldado morto. Um outro fenômeno resultante do congelamento rápido dos mortos em
combate era a coloração avermelhada dos cadáveres — uma visão repugnante.
Às 9h5min do dia 16, o 41º Esquadrão de Cavalaria (Capitão Herbert Foye) da 11ª DB, que vigiava
o nosso flanco esquerdo, estabeleceu contato com o 41º Regimento de Infantaria Blindada (Coronel,
depois General-de-Brigada, S. R. Hinds) da 2ª DB em Houffalize. Isto devolvia a Bradley o
comando do 12º Grupo de Exércitos.
No fim da tarde, recebemos ordem para enviar a 10ª DB para o 6º Grupo de Exércitos, a fim de
cooperar na liquidação do chamado bolsão de Colmar.
No dia 17, cumprimentei pessoalmente Millikin e Middleton pela bem sucedida liquidação do
bolsão. Ainda não havíamos repelido os alemães exatamente para a antiga linha de partida, mas
iniciáramos, naquela data, esta operação final.
O General Hughes estava comigo; visitamos a 6ª DB e as 90ª e 26ª Divisões de Infantaria e
explicamos a todas que era preciso continuar lutando, apesar de sabermos que estavam todas
cansadas. Condecorei o General Van Fleet e dois de seus subordinados com a Cruz dos Serviços
Relevantes. Também vi o morteiro alemão de 120 mm que a 90ª Dl estava usando na sua companhia
de morteiros. Tratava-se de uma arma leve e excelente.
No dia 21, os VIII e III Corpos receberam ordem para retomar a ofensiva ao longo do eixo Bastogne
—St. Vith.
O ataque do XX Corpo, com transposição do rio Sure, começou às 3h30min da madrugada de 18 de
janeiro, sem a preparação de Artilharia, e obteve surpresa tática completa.
Eu e o General Eddy inspecionamos as 4ª e 5ª Divisões de Infantaria. A 4ª Dl estava um pouco
apática e o General Eddy ordenou ao seu comandante que transpusesse o rio e verificasse se os
comandantes de batalhão haviam feito o mesmo. A 5ª Dl estava com o moral elevado. Subimos até
um Posto de Observação do qual podíamos avistar os alemães a 180 metros abaixo de nós, lá no
vale. Nossos soldados usavam uniforme para neve, alguns capturados e outros que o General Eddy
mandara fabricar no Luxemburgo.
Tivemos que enviar para o 6º Grupo de Exércitos a 101ª DAet, uma unidade antiaérea e algumas
unidades de destruidores de carros, para participarem de um ataque que principiara quando alguém
disse que poderia reduzir o bolsão de Colmar com uma divisão, e que acabou exigindo mais cinco
divisões.
Walker telefonou para saber se poderia executar um ataque no triângulo Mosela —Sarre com a 94ª
Dl e um GT da 8ª DB. Dei-lhe luz verde.
O atraso do ataque dos VIII e III Corpos para o dia 21 dava possibilidade ao inimigo de deslocar
para a zona de ação do XII Corpo algumas unidades que se achavam na frente daqueles dois corpos.
Apesar disto, o XII Corpo estava descansado e precisava percorrer uma distância curta para atingir o
objetivo.
Por causa do granizo e do gelo, as condições das estradas pioraram tanto no dia 19 que não
conseguimos deslocar nem a 101ª DAet, nem a 76ª Dl.
Nesta data, a 94ª Dl chocou-se com elementos da 11ª Divisão Panzer (General-tenente Weitershein).
A despeito das péssimas condições meteorológicas no dia 20, o XII Corpo progrediu vários
quilômetros, enquanto a 95ª Dl, em Sarrelautern, enfrentou um contra-ataque alemão de efetivo de
400 homens e repeliu-o — em parte por causa dos erros dos próprios alemães. Eles cruzaram a linha
de partida antes da hora e, por isto, foram apanhados primeiro pela preparação da sua própria
Artilharia, depois pelas barragens da nossa. Só fizemos 40 prisioneiros. O General Schmidt, da 76ª
Dl, informou que, naquele dia, um dos seus grupamentos táticos se aproximaria do VIII Corpo.
No dia 21, o XII Corpo praticamente atingiu o seu objetivo inicial e colheu uma numerosa
concentração de alemães na ponte, perto de Vianden; o corpo dispunha de excelente observação
sobre a área e manteve o inimigo debaixo de fogo contínuo de Artilharia empregando espoletas de
tempo variável.
Neste mesmo dia, durante a visita ao VIII Corpo, sucederam dois episódios bastante instrutivos. Em
certo local, elementos da 17ª DAet ficaram imobilizados em um aclive escorregadio e não houve um
oficial que lembrasse de mandar os soldados desembarcarem para empurrar os caminhões ladeira
acima. Quando alguém tomou esta atitude, a divisão prosseguiu no deslocamento. O outro episódio
foi provocado pelo gelo, que neutralizou o funcionamento das minas americanas e alemãs; formou-
se tanto gelo sob as aranhas das minas que não havia pressão que as fizesse detonar. Por outro lado,
quando ocorresse o degelo poderiam surgir muitas baixas quando as unidades percorressem as
estradas que supunham limpas, mas cujas minas estariam com as aranhas novamente livres.
Determinamos a utilização do maior número possível de detectores de minas em todas as estradas.
O General Van Fleet era comandante de um corpo de exército que estava sendo organizado na
Inglaterra e, mais tarde, quando o General Millikin teve problemas em março, na ponte de
Remagen, comandou o III Corpo. O seu afastamento levou-nos a procurar entre os generais-de-
brigada do 3º Exército um comandante para a 90ª Dl; selecionamos o General Earnest. Entretanto,
na mesma noite recebi ordem do General Eisenhower para colocar o Major-General L. W. Rooks no
comando temporário da divisão, a fim de que ele se familiarizasse com as condições na frente de
combate, antes de assumir uma função no estado-maior de Eisenhower.
O ataque dos VIII e III Corpos progredia satisfatoriamente, retardado apenas pelo mau tempo e por
tiros de armas portáteis. No dia 22, podia-se dizer que o VIII Corpo ficara praticamente
espremido67. A 80ª Dl, do XII Corpo, progredia bem, ao norte do rio Wiltz; por isto, disse a Eddy
que não parasse no objetivo final, mas prosseguisse avançando para o norte e, se houvesse
necessidade, utilizasse elementos da 4ª DB para cobrir seu flanco direito.
Telefonei para o General Bradley e roguei-lhe que todos os exércitos atacassem nesta data, 22 de
janeiro, não importando que estivessem fatigados, com claros excessivos ou o que fosse. Em face da
ofensiva soviética68, eu tinha certeza que era hora de atacar. E era.
Às 15h30min, o General Weyland telefonou para comunicar a existência de uma quantidade
razoável de blindados alemães deslocando-se em várias direções, ao norte de Diekirch, e que, na
verdade, os pilotos haviam informado tratar-se da maior concentração observada desde o bolsão de
Falaise; o general informou-nos que todos os seus aviões tinham sido lançados no ataque contra os
blindados inimigos69.
No dia 23, a operação desenvolvia-se muito bem, com exceção de um batalhão da 94ª Dl que
perdera 40 homens, entre mortos e feridos, e 400 desaparecidos em ação. Determinei que o General
Walker investigasse o fato.
Apesar dos vigorosos protestos, meus e do General Bradley, o SHAEF ordenou a transferência da
35ª Dl, menos um GT que combatia junto com a 6ª DB, para o 6º Grupo de Exércitos. Desde o dia 6
de julho, e com exceção de apenas 5 dias, a 35ª Dl participava do combate real contra o inimigo;
naquele momento, a divisão acabava de sair da linha de frente.
O VI Corpo do 7º Exército foi repelido e perdeu alguns quilômetros de terreno.
O plano para o prosseguimento do ataque do 12º Grupo de Exércitos previa dois corpos do 1º
Exército atacando a Linha Siegfried, em direção paralela ao ataque do VIII Corpo do 3º Exército; os
III, XII e XX Corpos permaneceriam na defensiva. Se este plano não obtivesse resultado,
possivelmente Bradley teria que transferir 12 divisões para Montgomery; todos nós estávamos
ansiosos pelo sucesso.
Quando foi levantado o problema de atacar com um corpo no meu flanco norte, em combinação
com o ataque do 1º Exército, pensei em dar ao General Walker o comando desta operação; ele era o
menos fatigado dos comandantes de corpo e eu o considerava um soldado com inclinação agressiva.
Todavia, levando em consideração que Middleton já conhecia o terreno e que, acima de tudo, era o
comandante do VIII Corpo, decidi deixá-lo no comando e executar o ataque; embora ele estivesse
muito cansado, eu conhecia bem as suas qualidades de liderança.
O plano para fortalecer o corpo de exército de Middleton era complicado e consistia no seguinte: a
76ª Dl do VIII Corpo, uma divisão nova, substituiria a 87ª Dl do XII Corpo, a qual passaria para o
VIII Corpo; a 17ª DAet do III Corpo substituiria a 26ª DI deste mesmo corpo, a qual seria
transferida para o XX Corpo que liberaria a 95ª Dl para o corpo de Middleton. Além disto, o VIII
Corpo receberia a 90ª Dl do III Corpo e a 4ª Dl do XII Corpo. Em suma, o corpo contaria com a 11ª
DB e 4 divisões de Infantaria, potência suficiente para um ataque poderoso. Este plano foi elaborado
durante o jantar oferecido aos comandantes de corpos na minha casa, na noite de 23 de janeiro.
No dia 24, o General Hodges veio almoçar comigo e Bradley. Depois do almoço, os estados-
maiores dos 1º e 3º Exércitos reuniram-se para discutirem os limites entre os exércitos. Os limites
estabelecidos foram bastante satisfatórios. Quando todos estavam contentes, o General Whitely70,
da Seção de Operações do SHAEF, telefonou e disse a Bradley que desejava retirar um comando de
corpo de exército do 12º Grupo de Exércitos para ajudar o 6º Grupo de Exércitos. Ao que eu saiba,
esta foi a única vez que Bradley perdeu a calma. Respondeu a Whitely que se ele tinha a intenção de
arruinar toda a operação, podia levar o comando de corpo, mas podia também levar todos os corpos
e divisões e ir com tudo para o inferno. O General Bull, adjunto de Whitely, veio ao telefone e
Bradley repetiu o que havia declarado e acrescentou que, muito mais do que uma operação tática, o
que estava em jogo era o prestígio do Exército Americano. Ficamos muito contentes com a sua
atitude e comunicamos isto a Bradley. O General declarou estar em condições de desencadear o
ataque no domingo, dia 28; apressei-me em declarar que o meu ataque desembocaria no sábado, dia
27.
Bradley, Hodges e eu concordávamos que era um absurdo desperdiçar unidades no bolsão de
Colmar; e mais, pelo que sabíamos, esta era a terceira vez que tentavam dispensar o esforço.
Pessoalmente, estávamos dispostos a executar nosso ataque, independentemente das unidades que
perdêssemos.
Na ocasião, eu estava convencido de que os alemães recuavam, provavelmente para o outro lado do
rio Reno. Vale a pena mencionar que esta era a linha de ação desejada pelo Alto-Comando,
conforme constava nos relatórios encontrados com oficiais alemães, mas recusada por Hitler.
No dia 25 de janeiro, Codman, Stiller e eu visitamos as 4ª, 5ª e 80ª Divisões de Infantaria. Também
passamos por Diekirch, Eittelbruck e Wiltz. Todas tinham sido muito bem “libertadas”. Com a
temperatura abaixo de zero, e nesta época os termômetros ficavam sempre abaixo de zero, a
destruição das portas e janelas pelo bombardeio provocava o congelamento e ruptura dos
encanamentos de água; portanto, as casas estavam inabitáveis, pois não havia possibilidade de
consertar os esgotos, nem os sistemas de aquecimento.
Também nesta data todas as grandes unidades do VIII, III e XII Corpos, com exceção do regimento
da esquerda da 80ª Dl, achavam-se em seus objetivos finais, isto é, o conjunto de elevações a leste
da estrada Diekirch—St. Vith. As 76ª e 87ª Divisões estavam efetuando a troca de posições.
Nessa operação, o ataque do XII Corpo saiu-se excepcionalmente bem; planejado com acerto,
executado com rapidez e sofrendo poucas perdas.
No dia 24, em um grupo de 100 prisioneiros alemães, a 5ª Dl identificou elementos de cinco
divisões alemãs, enquanto a 6ª DB identificou elementos de dez divisões em um grupo de 150
prisioneiros. Isto revelava um alto grau de desorganização entre os alemães. Infelizmente, naquela
época, não conseguimos perceber a gravidade desta desorganização. Durante todo o período, os
escalões superiores estavam impregnados de pessimismo e viviam nos alertando para o perigo de
uma reação inimiga. Sem dúvida uma atitude péssima.
Ao anoitecer de 26 de janeiro, tivemos certeza de que seriam completadas em tempo útil todas as
trocas de grandes unidades e que o ataque poderia ser desencadeado no dia 28. Se alguém
propusesse uma movimentação de tropas igual a esta em Leavenworth, os instrutores ficariam
malucos; aqui, tudo estava sendo executado. Entretanto, a diferença entre esta operação e um
exercício em Leavenworth é que dispúnhamos, aqui, de um estado-maior eficiente e experimentado,
composto de homens extremamente capazes, enquanto em Leavenworth só existiam alunos mais ou
menos estupidificados pelas normas dos manuais.
No dia 28, visitei Middleton, em Bastogne, e achei-o impregnado pelo espírito ofensivo. Seu plano
de ataque começava com a 87ª Dl na esquerda e a 90ª Dl na direita, seguidas respectivamente pelas
95ª e 4ª Divisões de Infantaria. Após uma determinada progressão a 90ª Dl ia organizar um flanco
defensivo na direita e seria ultrapassada pela 4ª Dl, que também organizaria um flanco defensivo
mais para leste. Quando a 87ª perdesse o impulso da sua progressão seria ultrapassada pela 95ª Dl, a
quem caberia dar prosseguimento ao ataque ao longo do eixo de progressão do corpo. Não havia
necessidade de organizar um flanco defensivo na esquerda porque este lado estaria protegido pelo
ataque do 1º Exército. A 11ª DB cerraria na retaguarda da 90ª Dl, pronta para se lançar no
aproveitamento do êxito.
Parei em Martelange, quartel-general do III Corpo, e determinei que o corpo se preparasse para
ampliar a base do saliente ao sul da 90ª Dl; isto é, penetrar pelo buraco aberto pela 90ª Dl e, depois,
atacar para sudeste. Para executar tal operação com eficiência eu precisava dar uma outra divisão ao
III Corpo, que no momento só dispunha da 17ª DAet, da 6ª DB e de um GT da 35ª Dl.
Quando cheguei ao quartel-general encontrei Eddy com uma proposta para atacar para o norte e
fazer junção com a 4ª Dl. Fiquei muito satisfeito com a idéia e autorizei-o a executá-la. Também
obtivemos do 1º Exército a utilização de uma estrada que partia de Houffalize para oeste. Na área do
III Corpo a rede de estradas achava-se em má situação e ia ficar em piores condições ainda.
No dia 28, decidimos atacar só no dia 29; como só ia acontecer antes da batalha, o dia 28 foi um dia
de nervos à flor da pele. Entretanto, o sistema de recompletamento estava funcionando como nunca;
estávamos com os efetivos praticamente completos. Apesar da neve, do gelo e do granizo, as trocas
de divisões foram concluídas.
No que concerne à situação de manutenção de viaturas o quadro era pessimista; havia um índice
elevado de indisponibilidade, não só provocado pelo estado precário das estradas, como agravado
pelo fato de havermos movimentado 17 divisões, num percurso médio de 1.600 quilômetros, no
período entre 19 de dezembro e 16 de janeiro. Some-se a isto o fato de estarmos deslocando 8
divisões, cobrindo um percurso mais ou menos igual. O frio provocou um relaxamento considerável
nas atividades de manutenção de 1º escalão. Além disto, sofríamos de grave escassez de pessoal de
Material Bélico para realização de manutenção.
Chegamos ao fim da campanha do bolsão, que nos custou 50.630 homens.
Durante esta operação, o 3º Exército avançou mais e mais rapidamente e engajou mais divisões em
menos tempo do que qualquer outro exército na história dos Estados Unidos — e provavelmente na
história do mundo. Os resultados obtidos decorreram exclusivamente da qualidade incomparável
dos oficiais, soldados e equipamentos americanos. Nenhum país pode resistir a um tal exército.

Perdas até 29 de janeiro


5. DE EIFEL AO REINO E A CONQUISTA DE TRIER

29 de janeiro a 12 de março de 1945


No dia 29 de janeiro de 1945, as treze divisões dos quatro corpos do 3º Exército encontravam-se nas
margens dos rios Mosela, Sauer e Our, prontas para romperem a Linha Siegfried desde Sarrelautern
até o norte de St. Vith.
Naquela data, o VIII Corpo abriu a nova ofensiva, seguido pelo III Corpo que lhe ficava
imediatamente ao sul. O XII Corpo atacou no dia 6 e 7 de fevereiro e o XX Corpo no dia 19.
No fim do mês, todos os corpos já haviam rompido a Linha Siegfried, famoso “monumento à
estupidez do homem”; o mês de março foi um mês terrível para os alemães. O ímpeto do ataque não
diminuía nunca; o XX Corpo conquistou Trier no dia 2 de março e no dia 5 a 4ª DB entrou no
aproveitamento do êxito e atingiu o Reno no dia 8. A partir do dia 13, o 3º Exército controlava o rio
Mosela desde o rio Sarre até Coblença e controlava o rio Reno de Coblença para o norte, até
Andernach.
Impraticável para movimentos rápidos, segundo os profetas, o Eifel foi conquistado em doze dias. O
XX Corpo ocupou Trier, cidade-chave do triângulo do Sarre.
Durante este período não aconteceu nada na frente do 21º Grupo de Exércitos. No 6º Grupo de
Exércitos, as unidades americanas e francesas limparam o bolsão de Colmar e progrediram, outra
vez, para o Reno. Os russos atingiram o Báltico, entre Stettin e Dantzig, e chegaram ao rio Oder, a
uma distância de 65 quilômetros de Berlim.
Não havia nenhuma novidade a registrar na Itália.
O 1º Exército americano rompeu a Linha Siegfried, conquistou uma cabeça-de-ponte sobre o rio
Reno, em Remagen, e colocou três divisões na margem oriental daquele rio.
No Teatro de Operações do Pacífico, Iwo Jima estava dando muito trabalho.
P. D. H.

MUITOS RIOS E DEFESA PASSIVA

O VIII Corpo partiu para o ataque no horário previsto, no dia 29 de janeiro, com um batalhão da 4ª
Dl transpondo o rio Our. Naquela noite a 90ª Dl ia transpor o mesmo rio, bem mais ao norte. Devido
à configuração do terreno a 87ª Dl achava-se afastada da margem, mas cerrava sobre o rio para
iniciar o seu ataque.
Convoquei o General Eddy para discutir o seu próximo ataque, ao norte, contra Bitburg. Ambos
concordamos que o efetivo era insuficiente, mas tínhamos esperança no sucesso.
Uma vez que o meu plano previa a substituição do XX Corpo pelo 7º Exército no triângulo do
Sarre, chamei Walker para discutir comigo e com Eddy a forma como ele haveria de ocupar a parte
direita da zona de ação do XII Corpo, quando o ataque fosse desencadeado. Naquela ocasião,
admitia-se que o XX Corpo seria substituído logo após a conquista de Colmar.
Recebemos a informação de que a 35ª Dl ia ser transferida para o 9º Exército, ao invés de nos ser
devolvida. Vale a pena lembrar que havíamos emprestado a divisão ao 7º Exército. Tratava- se de
uma das divisões mais antigas do 3º Exército e que sempre atuara muito bem.
Do ponto de vista sentimental e sob o prisma do moral, constitui um erro evidente a transferência de
divisões de um corpo de exército para outro. Do mesmo modo, é errado transferir corpos de exército
de um exército para outro. Entretanto, nossa capacidade de realizar tais transferências desempenhou
um papel importante nos nossos sucessos.
No período janeiro-fevereiro de 1945 a situação logística, bem como a de recompletamentos, era a
melhor possível.
No dia 13, passei em Bastogne, apanhei o General Middleton e nos dirigimos a St. Vith. A cidade
era a mais destruída das que eu já vira desde a Primeira Guerra Mundial. Ingleses, americanos e
alemães foram os responsáveis pela destruição.
No caminho, atravessamos o local de uma batalha de carros de combate logo no início da
penetração alemã. Contei mais de 100 blindados americanos na região da estrada, o que me fez
expedir uma ordem, logo cumprida, no sentido de que cada carro de combate fosse examinado para
que ficasse registrado o calibre, a direção e o tipo de impacto que o colocara fora de ação; os dados
assim levantados serviriam para que construíssemos um carro de combate melhor. Estes dados
acham-se em poder do Departamento de Material Bélico.
A destruição de St. Vith era tão grande que não havia possibilidade de transitar por dentro da
cidade; o VIII Corpo foi obrigado a construir uma estrada, contornando-a. A estrada de contorno
permaneceria em ótimo estado enquanto o solo continuasse gelado, como acontecia no momento.
Mais tarde, esta estrada tornou-se impraticável, mas, quando isto sucedeu, os engenheiros já haviam
desobstruído o centro da cidade.
No regresso visitamos a 87ª Dl, que realizara um bom trabalho e conquistara 11 quilômetros de
terreno no seu flanco norte. A 4ª Dl, visitada em seguida, não conseguira progredir tanto. Nestas
duas divisões foram tomadas providências meticulosas para combater o congelamento e o pé-de-
trincheira. Eu andava muito preocupado, estimando que teríamos muitas baixas por causa disto, uma
vez que a nossa progressão se realizava em terreno molhado e cortado por rios. Na realidade, a
incidência de perdas fora de combate aumentou pouco durante este período de condições
meteorológicas bastante desfavoráveis.
Os soldados americanos são muito espertos. Quando não conseguiam conquistar uma cidade para
passar a noite, colocavam duas bolas de neve uma de cada lado e fechavam o espaço com uma
terceira, tapando a direção por onde corria o vento. Cobriam a parte interna deste compartimento
com galhos de pinheiro e dormiam no interior, em grupos de 3 ou 4. Até hoje tenho dificuldade para
entender como seres humanos conseguem suportar as condições de combate em temperaturas
abaixo de zero graus.
Por último, visitamos a 90ª Dl que, como sempre, combatera bem e conquistara o objetivo.
Os outros três corpos ainda se mantinham na defensiva e estavam se reorganizando.
Eddy propôs desencadear o seu ataque contra Bitburg no dia 6. Disse-lhe que deveria atacar no dia
4. Então, queixou-se amargamente de que eu jamais levava em consideração os fatores de tempo e
espaço. Respondi-lhe que se levasse em consideração as ponderações dele, ou de qualquer outro
comandante de corpo, ainda estaríamos lutando na margem ocidental do rio Sena.
Depois da conversa com Eddy telefonei para o 12º Grupo de Exércitos para ver se conseguia a 9ª
DB e uma divisão de Infantaria para substituir a 17ª DAet, cujos efetivos achavam-se muito
desfalcados. Quando o General Allen respondeu ao meu telefonema, não só declarou-me que não
receberia nenhuma grande unidade, como também informou-me que não deveria realizar nenhum
movimento enquanto não recebesse novas ordens. Como consequência, tive que dizer a Eddy para
suspender o ataque planejado para o dia 4 de fevereiro.
Dirigi-me a Thionville, almocei no XX Corpo e fui inspecionar a 94ª Dl; lá, falei com franqueza
com o comandante da divisão a respeito das perdas fora de combate, que na ocasião representavam
a porcentagem mais elevada entre as grandes unidades do exército, e do grande número de soldados
da divisão que haviam sido aprisionados. Depois, fiz reunir todos os oficiais e o maior número
possível de sargentos e soldados e repeti as minhas palavras; disse-lhes francamente que os alemães
haviam feito um número excessivo de prisioneiros e estimulei-os a corrigirem a má impressão
causada pela divisão.
De volta ao quartel-general recebi uma mensagem de Bradley dizendo que a 95ª Dl ia ser transferida
para o 9º Exército. Protestei, como sempre, mas fui informado que a ordem partira da Junta de
Chefes de Estado-Maior em Washington. Bradley disse-me ainda que comparecesse no dia seguinte
a Spa, na Bélgica, para uma reunião de comandantes de exército destinada a tratar de um novo
ataque.
No dia 2 de fevereiro o Coronel Harkins, Codman e eu viajamos para Spa, via Bastogne e
Houffalize. Esta última cidade estava arrasada, muito mais destruída do que St. Vith.
Spa era uma cidade agradável e, em 1918, servira como quartel-general para Hindenburg; o quartel-
general do nosso 1º Exército achava-se situado exatamente no mesmo local. Das janelas do prédio
avista-se o lago em torno do qual o Kaiser ficou passeando, enquanto Hindenburg decidia se a
guerra prosseguiria ou não.
Na reunião, fomos informados de que o General Eisenhower recebera ordem da Junta de Chefes de
Estado-Maior para transferir o 9º Exército para o 21º Grupo de Exércitos, comandado por
Montgomery. Será que isto era uma tentativa do General Marshall para manter em ação 14 divisões
inglesas que há muito tempo não produziam quase nada?
A finalidade do novo ataque seria conquistar uma extensão ampla da margem do rio Reno; caso a
Alemanha sofresse um colapso, estaríamos em condições de transpor o rio imediatamente.
Na ocasião, eu acreditava que o ataque dos 1º e 3º Exércitos, já em curso, avançaria mais e com
maior rapidez do que o novo ataque, uma vez que os ingleses não poderiam atacar antes de 10 de
fevereiro. À guisa de compensação para o nosso orgulho, fomos informados de que poderíamos
continuar atacando até o dia 10, ou além desta data, desde que as baixas e o consumo de munição
não fossem exagerados.
Soube ainda que o 6º Grupo de Exércitos não assumiria a responsabilidade pelo triângulo Mosela —
Sarre. Na realidade, uma das melhores coisas que me aconteceu foi exatamente a impossibilidade do
6º Grupo de Exércitos ocupar esta faixa do terreno; mantendo a posse do triângulo Mosela — Sarre,
o 3º Exército conseguiu conquistar Trier e iniciar o ataque através do Palatinado. Naquele momento,
porém, fiquei bastante aborrecido. Eis aí um outro exemplo, dentre muitos na minha vida, em que
uma grande desilusão demonstrou ser o caminho para o sucesso futuro.
Ficamos muito preocupados por acharmos indigno que os exércitos americanos acabassem a guerra
na defensiva. Um outro motivo para a nossa raiva foi o fato de sabermos que o SHAEF estava
constituindo uma reserva para o Teatro de Operações. Isto era o mesmo que trancar a porta da
estrebaria depois do roubo do cavalo. Evidentemente, nesta fase da guerra, não havia necessidade de
reserva nenhuma; era preciso, sim, atacar violentamente tudo e em todas as frentes.
No dia 3, reuni todos os comandantes de corpos para examinarmos a forma de prosseguir no ataque.
Embora um tanto relutante por perder a 95ª Dl para o 9º Exército, o General Middleton declarou
acreditar que ainda poderia continuar atacando com as três divisões de Infantaria que lhe restavam,
principalmente porque as condições das estradas da região eram tão ruins que já se tornava um
problema sério a manutenção da 95ª Dl. Diante disto, Eddy poderia realizar o ataque contra Bitburg;
disse-lhe que marcasse o seu desencadeamento para a noite de 6 para 7 de fevereiro.
O que resultou da reunião de Spa foi uma perda de dois dias no lançamento do ataque. Meus planos
baseavam-se na hipótese de que os alemães não estavam em condições de desfechar um contra-
ataque de vulto. A hipótese revelou-se verdadeira.
Tentei conseguir, mas sem sucesso, as 9ª e 10ª Divisões Blindadas para ajudarem o XX Corpo na
limpeza do triângulo Sarre — Mosela.
No dia 4, visitei os hospitais e fiquei surpreso com o número relativamente pequeno de feridos.
Encontrei três soldados com ferimentos produzidos por eles próprios: dois feridos no pé esquerdo e
um na mão esquerda. A minha experiência indicava que toda vez que um soldado apresenta
ferimento nestas duas partes do corpo, é muito grande a probabilidade de o ferimento ter sido
autoprovocado. Expedi uma ordem determinando que os soldados encontrados com ferimentos
naquelas partes fossem submetidos a julgamento, primeiro por falta de exação no cumprimento do
dever e, depois, por ferimento autoprovocado. É quase impossível condenar um homem por este
ferimento, mas é fácil condená-lo por falta de exação no cumprimento do dever, cuja pena chega a 6
meses de prisão. Durante dois meses, os soldados raciocinaram em torno dos objetivos desta ordem,
depois começaram a pedir aos amigos que disparassem contra eles. Entretanto, o tiro dos amigos
geralmente não tinha boa pontaria, o que implicava na perda de vários dedos dos pés; como
consequência, diminuiu muito o número de autoflagelados.
Eu estava procurando manter em sigilo a próxima ofensiva contra Bitburg, para evitar que fosse
detida pelos escalões superiores; em vista disto, fiquei perturbado quando recebi um telefonema
ordenando que me apresentasse ao General Eisenhower em Bastogne. Ao chegar lá, fui
surpreendido pelo fato de me ver envolvido em uma operação, por assim dizer, fotográfica. Vale a
pena lembrar, mesmo que isto não me agrade muito, que o General Eisenhower não disse uma
palavra sobre a ofensiva contra Bastogne, apesar de ser esta a primeira vez que o via desde o dia 19
de dezembro, quando me pareceu muito contente por poder contar comigo em um momento crítico.
Este encontro teve importância em um aspecto: a escolha de um comandante de corpo. O General
Bradley declarou que Middleton deveria voltar para o 1º Exército, sua grande unidade de origem.
Declarei que preferia ficar com Middleton e ceder Millikin; embora apreciasse o trabalho realizado
por Millikin na ofensiva contra Bastogne, considerava-o inexperiente quando comparado com
Middleton. O General Eisenhower autorizou-me a ficar com Middleton. Passei a reunião pensando
em Nelson na noite que antecedeu o ataque a Calvi, na Córsega, quando o almirante descobriu que o
efetivo dos franceses era o dobro do que ele imaginara, mas não comunicou o fato ao seu superior
com receio de que o ataque pudesse ser cancelado.
No trajeto de volta, passei por Trois Vierges, local do novo Posto de Comando do VIII Corpo. O
ataque desenvolvia-se melhor do que se esperava. A 4ª Dl achava-se a apenas 3 quilômetros de
Prum. Isto na noite em que a 11ª DB deveria atacar, ultrapassando a 4.a Dl, para conquistar o terreno
elevado a leste do rio; infelizmente esta divisão não cumpriu a missão.
Acordei às 3 horas da madrugada do dia 6 tendo na cabeça o plano completo para a penetração dos
VIII e XII Corpos e a convicção de que, uma vez realizada a penetração, poderia empregar duas, ou
talvez três, divisões blindadas para repetir a campanha executada na península da Bretanha. Jamais
consegui saber se estas idéias táticas decorriam de uma inspiração ou da insônia; entretanto, quase
todas as idéias táticas que me ocorreram, surgiram praticamente completas, mais ou menos como
Minerva surgira da cabeça de Júpiter.
Recebi o General Eddy, que se mostrava cheio de confiança no sucesso do seu próximo ataque.
A 5ª Dl cruzou a linha de partida à 1 hora da madrugada do dia 7 e transpôs o rio Sauer. Perderam-
se muitos botes e, provavelmente, mais de 60 homens morreram afogados por causa da enchente e
da velocidade da corrente fluvial.
Um regimento da 76ª Dl (o 471º RI, comandado pelo Coronel George E. Bruner), atacando à direita
da 5ª Dl, realizou uma transposição mais eficiente do que a desta divisão, porque não percebeu o
perigo representado pelo curso de água. Depois da travessia, o regimento passou três dias sem
produzir grande coisa — com certeza recuperando-se do choque causado pelo seu próprio heroísmo
na travessia.
Atacando a oeste de Wallensdorf, situada a oeste da confluência dos rios Our e Sauer, a 80ª Dl
encontrou menos dificuldade na transposição e conseguiu colocar dois batalhões na margem oposta
do rio. A divisão realizou uma preparação de Artilharia com duração de 30 minutos e desencadeou o
ataque ao alvorecer.
A travessia destes rios pelas três divisões constituiu um feito magnífico. Os rios estavam tão cheios
que suas águas encobriram as cercas de arame farpado da Linha Siegfried, construídas em suas
margens; quando desembarcavam dos botes, os soldados chocavam-se inadvertidamente contra
estas cercas. As encostas das colinas eram protegidas por cercas de arame farpado e continham
inúmeras casamatas. Mais tarde, um observador civil revelou-me que não podia imaginar como
seres humanos tinham coragem para enfrentar tais defesas. Na realidade, a ousadia do ataque e o
valor da posição contribuíram materialmente para o nosso sucesso. Todavia, as condições
meteorológicas vigentes fizeram a progressão parecer desnecessariamente lenta; eu e Eddy ficamos
muito preocupados.
Neste dia, o outro corpo (XX) não fez nada de importante.
Depois do meio-dia visitei a parte do rio Mosela coberta pelo 2º Regimento de Reconhecimento,
comandado pelo Coronel Hank Reed (Charles H. Reed), e fiquei satisfeito com o método utilizado
para cobrir a frente. Subimos pela margem do rio e pudemos avistar, a curta distância, as posições
alemãs situadas em plano inferior. Na verdade, espantei-me ao me ver tão perto do inimigo.
Felizmente ninguém atirou em nós.
A situação não melhorou no dia 8. Ainda não dispúnhamos de uma única ponte, seja sobre o rio
Our, seja sobre o Sauer, e o ataque quase não progredia. Fiz uma tentativa infrutífera para retardar a
saída da 17ª DAet. Creio que uma boa parte do meu sucesso, bem como uma boa parte da minha
impopularidade, deve-se ao fato de sempre lutar contra as ordens que implicavam na perda de
unidades; frequentemente conseguia ficar com as unidades, ou, pelo menos, obter que fossem
trocadas por outras.
O VIII Corpo ficou em situação logística tão crítica que Middleton sugeriu a suspensão do ataque;
disse-lhe que prosseguisse e conquistasse Prum porque, depois, eu tentaria abastecê-lo pelo
chamado “caminho do céu”71. A estrada achava-se sob fogo direto dos alemães, mas eu pensava em
utilizá-la durante a noite. O que conseguimos, mais tarde.
O General Muller (E-4) realizava um esforço ciclópico para colocar em funcionamento a estrada de
ferro que passava nas proximidades de St. Vith. No III Corpo, fomos obrigados a colocar dois
batalhões de Engenharia, inexperientes, no lugar da 17ª DAet; fui visitar Millikin, para ver como ele
contornara a situação e considerei sua solução inteiramente satisfatória.
No dia 9, viajei para Trois Vierges, via Wiltz, para ver Middleton. A situação da rede rodoviária era
lastimável, mas Middleton, com sua tenacidade habitual, realizava o impossível para se movimentar.
Recebi o General Keyes72, que se achava em gozo de uns dias de férias. Desde 10 de julho de 1943,
Keyes não se afastava da luta; quando lhe concederam um descanso, ao invés de repousar em um
lugar tranquilo, veio visitar-me para ver mais guerra.
No dia 10, Bradley telefonou para indagar a partir de que data eu poderia passar à defensiva.
Respondi-lhe que era o comandante mais idoso e com mais experiência de combate do Exército dos
Estados Unidos na Europa; se fosse obrigado a passar à defensiva, pediria demissão do comando.
Ele respondeu que eu significava muita coisa para os meus subordinados e que não poderia
abandoná-los. Retruquei que fazia jus a alguma consideração e que teria de ser substituído se não
me deixassem prosseguir no ataque. Além disto, sugeri que seria excelente se ele pudesse enviar
membros do seu estado-maior para inspecionarem a frente de combate e verificarem o que ocorria
por aqui. Bradley era excelente pessoa, mas seu estado-maior não parecia grande coisa. Ele
mencionou como o maior erro já cometido pelo SHAEF o ataque de Montgomery, utilizando o 9º
Exército. Eu não achava que este era o maior dos erros; na minha opinião, o maior de todos ocorrera
em fins de agosto, quando o General Eisenhower desviou o 1º Exército para o norte, para ajudar
Montgomery, e, como consequência, cortou o abastecimento do 3º Exército.
A situação logística do VIII Corpo atingiu um nível tão ruim, no dia 11, que o General Weyland
tomou providências para abastecer as 87ª e 4ª Divisões de Infantaria por via aérea, se e quando isto
fosse necessário.
Perdemos os dois batalhões de Engenharia que protegiam a frente que pertencera ao III Corpo (na
ocasião, este corpo já fora transferido para o 1º Exército). Autorizei Middleton, que assumira a
responsabilidade por esta parte da frente, a apear elementos da 6ª DB e, se necessário, utilizá-los
como Infantaria, mas impus-lhe a manutenção da ponte sobre o rio Our, que acabara de ser
conquistada por aquela divisão.
Por outro lado, o XII Corpo conseguiu, finalmente, construir pontes sobre os rios Our e Sauer e
progredia bem.
No dia 12, eu e o General Keyes viajamos para o VIII Corpo, via Arlon, Bastogne e Wiltz,
atravessando a floresta que fora intensamente bombardeada pela Artilharia durante a operação
contra Bastogne. Notava-se perfeitamente o efeito produzido pelas granadas com espoleta de tempo
variável. Podia-se distinguir o ângulo de queda de todas as granadas que haviam explodido mais ou
menos 9 metros acima do topo das árvores. Após a explosão, os estilhaços deceparam os galhos em
um ângulo de 40º em relação ao solo. Todavia, naquela época pareceu-me que a espoleta de tempo
variável não seria muito eficaz contra pessoal em área coberta de vegetação, porque os troncos e
galhos absorveriam os estilhaços; posteriormente, uma conversa com o General Grow confirmou a
minha impressão. Em áreas cobertas a espoleta com retardo é mais eficaz, porque só funciona no
impacto contra a parte mais grossa dos troncos das árvores, já perto do solo. Guerreando aprende-se
muito sobre a guerra.
Cruzamos por centenas de cavalos mortos, pertencentes à Artilharia alemã, e por inúmeros
cadáveres. Ao longo da estrada existiam muitos carros de combate Tigre que pareciam ter sido
abandonados pela tripulação e destruídos. Examinamos vários destes carros.
No momento a estrada de Trois Vierges para St. Vith estava intransitável para viaturas, mas todos os
integrantes do VIII Corpo que não se achavam realmente engajados em combate trabalhavam para
revesti-la com troncos de árvores. O trabalho consistia em colocar longarinas longitudinalmente,
distanciadas entre si de 1,20 metro, e depois cravar nelas as peças transversais. Os engenheiros
realizaram um trabalho notável, aliás como sempre costumavam fazer.
As condições meteorológicas ficaram tão ruins que autorizei o General Eddy a interromper o ataque,
fato que o levou a atacar com maior vigor ainda. Como é estranha a natureza humana!
Durante toda a operação contra Bastogne, eu costumava passar 5 ou 6 horas por dia viajando em um
carro aberto e, praticamente, não tive nenhum problema. Jamais apanhei uma gripe; meu rosto ficou
ligeiramente empolado, mas não chegou a me incomodar. Nunca usei roupas muito pesadas.
Entretanto, sempre mantive um cobertor sobre as pernas, o que constitui um auxílio inestimável
para evitar o congelamento. Codman e Stiller, que viajavam no banco traseiro, sofreram muito mais
do que eu.
No dia 13, o Comando de Transporte (comandado pelo Major-General P. L. Williams) utilizou 83
aviões para lançar munição e alimentos para as 4ª e 87ª Divisões de Infantaria.
Eddy e eu atravessamos o rio Sauer na zona de ação da 5ª Dl; depois, percorremos a margem
nordeste utilizando um jipe que achamos por lá. Acho que foi daí que surgiu a história sobre a
travessia do rio a nado. Atravessamos sobre uma passadeira de assalto, já meio submersa e
protegida por uma cortina-de-fumaça; quando chegamos na margem oposta, qualquer soldado
menos avisado poderia pensar que viéramos nadando. Ora, nenhum de nós dois nadou coisa alguma.
Todavia, constituiu uma aventura a transposição sobre a passadeira coberta pela cortina de fumaça;
não havia corrimão e não se enxergava um palmo adiante do nariz. Os soldados ficaram
entusiasmados quando nos viram.
Existiam muitas casamatas na margem oposta do rio. Lembro-me que uma delas estava camuflada
como celeiro, um celeiro de madeira. Quando se abria a porta, por onde se supunha devesse entrar o
feno, deparava-se com uma parede de concreto, com 3 metros de espessura, e um canhão de 88mm.
Outra casamata tinha sido construída dentro de uma casa velha, cujas paredes externas foram
derrubadas por ocasião da luta. O interessante sobre estas defesas é que não produziram nenhum
resultado.
Durante a operação, só a 90ª Dl destruiu 120 dessas casamatas em 48 horas, com a perda de menos
de 120 homens. E isto foi conseguido através de um reconhecimento minucioso, da neutralização
das viseiras com tiros de metralhadora e de fuzis e, seja com o emprego de dinamite contra as
entradas dos fundos, seja com tiro direto dos canhões de 155 mm autopropulsados. A uma distância
de 300 metros, cada granada de 155 m destrói uma casamata.
Enquanto as primeiras vagas de assalto transpunham o rio Sauer, nossos canhões na margem do rio
atiravam nas casamatas a uma distância de 400 a 600 metros. Sem isto, provavelmente a travessia
teria sido mais difícil.
O famoso Capitão Krass, um verdadeiro artista alemão na arte do contra-ataque, rendeu-se a uma
das nossas divisões. Disse seu nome e declarou que havia feito o possível para se tornar bastante
conhecido pelos americanos. Indagado por que motivo se rendera, respondeu que havia feito tudo
aquilo que um homem poderia fazer, fora condecorado com todas as medalhas de combate do
Exército alemão, e não era nenhum louco. Por isto, resolvera salvar sua vida para tornar-se instrutor,
depois da guerra — provavelmente para ensinar como lutar na próxima guerra.
No dia 14, o Comando de Transporte realizou nova operação de suprimento para as 4ª e 87ª
Divisões de Infantaria, utilizando 103 aviões. Nos dias seguintes a progressão foi muito lenta.
No dia 19, escrevi uma carta ao General Bradley dizendo que todas as unidades americanas, com
exceção do 3º Exército, não estavam fazendo absolutamente nada e como eu ainda continuava
atacando, poderia obter melhor resultado se dispusesse de mais divisões. Solicitei de uma a três
divisões. Acredito ter sido esta a única carta que escrevi para registrar a minha posição; sentia que
seríamos criticados pela história por não havermos atuado com mais energia.
Ás 11h30min do dia 19, Walker telefonou para dizer que achava a situação madura para se obter
uma ruptura no triângulo do Sarre, desde que lhe fosse entregue uma divisão blindada. Bradley
achava-se ausente; falei com o General Bull e consegui a 10ª DB, mas sob uma condição: “só para
esta operação”.
Sempre me causou espécie o fato de ser obrigado a implorar na hora de vencer as batalhas.
No dia 20, a 10ª DB incorporou-se ao XX Corpo e começou a atacar para o norte, à esquerda da 94ª
Dl. O ataque foi muito bem executado; ao anoitecer, as duas divisões achavam-se nas vizinhanças
de Sarreburgo. A 10ª DB lutara naquela região em novembro e, por isto, já conhecia o terreno.
Visitei a frente do XII Corpo em companhia de Eddy; chegamos a uma ponte sobre o rio Sauer,
onde havia uma placa: “Ponte do General Patton — Construída pelos Pigmeus Possantes”. A
história da placa devia-se ao fato de a ponte estar em construção na última vez em que estive na
margem do rio, ocasião em que declarei jamais haver visto um trabalho tão grande realizado por
tantos homens baixinhos.
Na verdade, os “pigmeus” constituíam a 6ª Companhia do 1303º Regimento de Serviços Gerais de
Engenharia (comandado pelo Capitão Walford T. Gradison).
Depois de deixar Eddy, dirigi-me com o General Middleton para o “caminho do céu” e
inspecionamos a rede de estradas da sua zona de ação. Middleton realizou um trabalho notável
impulsionando seu corpo de exército; assim que a ferrovia começasse a funcionar até St. Vith a
situação melhoraria e ele poderia abandonar a utilização das rodovias na sua retaguarda. Com isto
também recuperaria unidades de Engenharia e poderia empregá-las na frente de combate. Além
disto, estaríamos penetrando na Alemanha, onde as estradas são muito melhores do que na Bélgica e
no Luxemburgo. Na realidade, as estradas nestes dois países são muito ruins — provavelmente por
não serem construídas para suportar trânsito pesado durante o inverno (os habitantes da região
revelaram que a lei proíbe trânsito pesado durante o inverno).
Após a inspeção das estradas, visitamos a 6ª DB e as 90ª e 4ª Divisões de Infantaria. O General
Grow, da 6ª DB, não ia bem de saúde; aconselhei-o a gozar uns dias de dispensa e deixar que o seu
subcomandante (General-de-Brigada George W. Reed) conduzisse a divisão.
O General Bradley veio ao quartel-general do 3º Exército no dia 21 para nos apresentar o plano
geral das próximas operações. Ei-lo: o ataque do 21º Grupo de Exércitos e do 9º Exército seria
desencadeado no dia 23; quando atingissem o Reno, as duas grandes unidades tentariam conquistar
uma cabeça-de-ponte. Durante este período o 1º Exército protegeria o flanco direito do 9º Exército,
enquanto o 3º Exército manteria a posição — pelo menos em teoria. Quando o 21º Grupo de
Exércitos alcançasse o Reno, o 1º Exército deveria avançar sobre Colônia com o seu corpo da
esquerda. Assim que se iniciasse o ataque contra Colônia, mas não necessariamente a sua conquista,
os III e V Corpos — isto é, os corpos do centro e da direita do 1º Exército — atacariam
sucessivamente, enquanto o 3º Exército avançaria, de Prum, na direção de Coblença. Esta fase da
operação seria encerrada quando os exércitos aliados encostassem no Reno, de Colônia até
Coblença.
Na fase seguinte o 1º Exército fixaria as posições inimigas ao longo do rio, enquanto o 3º Exército
atacaria pelo corredor de Frankfurt, partindo de Sarrelautern e de Sarreguemines ou Sarreburgo,
dependendo das circunstâncias.
Indaguei taxativamente se poderia, ou não, atacar Coblença antes da investida sobre Colônia; a
resposta foi que deveria fazê-lo, caso surgisse a oportunidade.
No dia 22, condecorei algumas enfermeiras com a Estrela de Bronze e o Tenente James H. Fields,
da 4ª DB, com a Medalha de Honra. Disse a Gaffey que não queria mais ver o Tenente Fields na
frente de combate; minha experiência indicava que os homens condecorados com a Medalha de
Honra, ou mesmo a Cruz de Serviços Relevantes, normalmente tentavam realizar o impossível e
eram mortos; havia necessidade de conservar estes homens vivos, a fim de produzir uma raça viril.
Após a solenidade dirigi-me para Remich e encontrei-me com os generais Walker e Morris.
Descobri que Morris perdera o comboio com o material de transposição de curso de água e,
portanto, não transpusera o rio em Sarreburgo; quando o encontrei, já no meio da tarde, achava-se
imobilizado por tiros de armas portáteis provenientes da margem oposta do rio. Disse-lhe que era
preciso lançar uma ponte imediatamente, com ou sem fogo inimigo. O General Walker foi para
Sarreburgo a fim de impulsionar a operação.
O VIII Corpo progredia bem e prometia alcançar o rio Prum no dia 23.
Naquela data, a situação no triângulo era nebulosa, devido ao SHAEF e não aos alemães. Foi muito
infeliz a idéia de constituir a reserva do SHAEF, pois éramos obrigados a colocar uma divisão nesta
reserva todas as vezes que dela recebíamos uma outra divisão. E isto apesar das minhas três divisões
blindadas acharem-se bem posicionadas para o ataque; na verdade, duas delas já estavam engajadas.
O melhor que consegui foi um prazo de 48 horas para enviar a substituta da 10ª DB.
Bradley telefonou, avisando que receberíamos duas divisões de Infantaria novas, caso enviássemos
para a área de repouso duas divisões veteranas. As 80ª e 90ª Divisões precisavam de descanso e a
sugestão de Bradley foi imediatamente aceita — principalmente porque as divisões não precisariam
sair da área do 3º Exército.
O fato notável do dia 24 de fevereiro foi que, naquela data, o número de perdas fora de combate, —
13.976 — na fase iniciada em 29 de janeiro, excedeu o número de perdas em combate — 12.296.
Era a primeira vez na história do 3º Exército que as perdas fora de combate excediam as perdas em
combate. O fato deveu-se não ao aumento exagerado das primeiras, mas sim ao acentuado declínio
das últimas. A proporção entre os dois tipos de perdas constitui um bom indicador de eficiência de
uma divisão, desde que se leve em consideração o índice normal de perdas fora de combate.
Almoçaram comigo, no dia 25, Middleton, Walker e Gaffey (que respondia pelo comando do XII
Corpo enquanto Eddy estava em tratamento de saúde). O General Bradley telefonou e perguntou se
também poderia participar do almoço e trazer Allen. Combinei com os três comandantes de corpos e
com o General Weyland uma forma de persuadir Bradley a nos deixar continuar utilizando a 10ª DB
com a finalidade de conquistar Trier. Na hora, o mais eloquente de todos foi Weyland. Tenho certeza
que Bradley concordava conosco, mas senti que ele estava cumprindo ordens. Entretanto,
conseguimos convencê-lo a nos deixar continuar atacando até o crepúsculo do dia 27, desde que o
General Eisenhower me autorizasse a empregar a 90ª Dl, divisão que não estava engajada em
combate, em cumprimento da ordem que criara a reserva do SHAEF. Toda a história da guerra
poderia ter sido diferente, se não houvéssemos obtido permissão para continuar atacando, porque a
conquista de Trier constituiu um ponto de inflexão no curso dos acontecimentos.
Mais uma vez obtive autorização de Bradley para tentar uma ruptura a leste do rio Prum, se e
quando surgisse uma oportunidade. Garanto que Bradley e Allen sentiram-se muito satisfeitos, pelo
menos Allen confessou isto, por se acharem no meio de um grupo de pessoas dispostas a combater.
Há interesse em relatar a sequência dos acontecimentos que culminaram na conquista de Trier,
porque diferiu daquilo que se imagina ser a forma normal de os generais planejarem. O XX Corpo
iniciaria o ataque contra o triângulo Sarre — Mosela visando a consolidar a experiência de combate
da 94ª Dl. Então, no dia 19, graças ao seu elevado senso de oportunidade, Walker telefonou para
comunicar que poderia limpar o triângulo, se dispusesse de uma divisão blindada. Conforme já
relatei, tomei emprestada a 10ª DB e as coisas correram relativamente bem até que transpusemos o
rio em Sarreburgo. Então, ocorreu tanto a mim quanto a Walker que jamais pretendêramos
simplesmente conquistar Sarreburgo, mas sim que tínhamos os olhos fixos em Trier; por isto,
prosseguimos.
No dia 26 o XX Corpo não fez quase nada, porque fora violentamente atacado, a leste do Sarre e ao
norte de Zerf, pela 2ª Divisão de Montanha alemã (comandada pelo General-Major Degen); na
ocasião, pareceu-nos que teríamos que nos voltar para leste e destruir esta divisão. Por outro lado, o
XII Corpo progredia muito bem, com a divisão da esquerda, a 4ª DB, no rio Kyll nas vizinhanças de
Bitburg, e com as 5ª e 76ª Divisões de Infantaria no rio Kyll ou aproximando-se dele. Diante deste
quadro, tive a idéia de deslocar a 4ª DB pelo sul, por trás das 5ª e 76ª Divisões, e atacar Trier pelo
norte. O General Gaffey, que se achava no comando interino do XII Corpo, ressaltou a dificuldade,
do ponto de vista logístico, de deslocar a 4ª DB e sugeriu que empregássemos a 76ª Dl, situada no
lado direito da zona de ação, reforçada pelo batalhão de carros de combate da 80ª Dl, que se achava
na área de repouso.
O ensinamento a ser colhido é que os bons generais fazem planos que se adaptem às circunstâncias,
mas não tentam criar circunstâncias que se adaptem aos planos.
A referência a Bitburg faz-me lembrar um episódio que presenciei e que é bastante elucidativo a
respeito dos alemães. Entrei na cidade pelo sul enquanto ainda se lutava na orla norte da cidade, o
que não ficava muito distante porque Bitburg é uma cidade pequena. Embora ainda explodissem
granadas na zona urbana, vi cinco alemães, três mulheres e dois homens, consertando o telhado de
uma casa. Não estavam esperando pela ajuda da lei de Empréstimo e Arrendamento, como teria
acontecido em muitos outros países que não preciso mencionar.
No dia 27, a 10ª DB progrediu 8 quilômetros para o norte, a partir de Zerf; achava-se, portanto, na
metade do caminho para Trier. No dia anterior, o inimigo concentrara a 2ª Divisão de Montanha,
mas cometera um erro na estimativa da direção do ataque da 10ª DB. Ao que parece, pensou que os
blindados iam atacar para sudeste, a partir de Zerf, para alcançarem a retaguarda da Linha Siegfried;
como consequência, os alemães planejaram o contra-ataque da divisão sobre aquela direção. O que
aconteceu na realidade foi que a 10ª DB atacou para o norte, na direção de Pellingen, mas o lado
direito da sua retaguarda ficou exposto ao contra-ataque alemão.
Depois que escureceu, telefonei para Bradley, conforme prometera, e informei que ainda não estava
em Trier, mas sim a oito quilômetros da cidade; solicitei autorização para prosseguir. Disse-me que
prosseguisse até que uma ordem superior o obrigasse a deter-me; e acrescentou que ia permanecer
longe do telefone.
No dia 28, a 10ª DB ainda não havia entrado em Trier, mas achava-se em boa situação, depois de
atingir uma região que lhe permitia atacar com várias colunas. Até então o terreno só permitira o
ataque com uma coluna, o que dificulta muito a ação de uma divisão blindada.
Neste dia, uma visita ao General Morris demonstrou de forma cabal que nossas linhas telefônicas
sofriam escuta inimiga. Antes de sairmos, Codman utilizou o telefone para saber o nome da cidade
onde deveríamos encontrar o General Morris. Ao chegarmos a uma encruzilhada, perto de tal
cidade, um soldado da PE nos deteve e informou-nos que o general deslocara-se para um outro
lugar. Pois bem, enquanto viajávamos para o novo local a cidade combinada para o nosso encontro
sofreu uma concentração violenta de Artilharia, exatamente na hora em que deveríamos estar juntos.
Sarreburgo, quartel-general da 94ª Dl, foi o local de nascimento de João, o Cego, rei da Boêmia e
duque do Luxemburgo, morto na batalha de Crécy em 1346. Seu timbre, com três penas, é utilizado
atualmente pelo Príncipe de Gales. João criou a Ordem do Leão Vermelho do Luxemburgo e a do
Leão Branco da Boêmia — ambas me foram concedidas posteriormente.
No caminho de volta, o General Malony levou-me para ver o que ele pensava ser um castelo
medieval. Na realidade, tratava-se de uma empresa vinícola moderna e que produzia um vinho
bastante ruim. Enquanto olhávamos para o estabelecimento, uma granada passou sobre nossas
cabeças a uma altura suficiente apenas para não nos atingir.
Acho que esta granada dirigiu nossos pensamentos para assuntos religiosos. No caminho de volta do
estabelecimento vinícola um dos oficiais da minha comitiva explicava, com muita ênfase, a tradição
religiosa de seus ancestrais; para demonstrar o grau de santidade de família, declarou: “General,
minha família é católica há mais de três mil anos”. Indaguei, então: “Já eram católicos antes de
Cristo?” A resposta foi: “Sim senhor”. Já contei este caso várias vezes e pouca gente achou graça.
Voei para Bastogne no dia 1º de março e conversei com o General Middleton a respeito dos planos
para a sua próxima operação. Sua idéia era empregar a 11ª DB, no dia 3, a fim de abrir um buraco
até o rio Kyll, através da 5ª Divisão Paraquedista alemã. Alcançado o rio, a travessia seria realizada
pela 4ª Dl, que progrediria na esteira da 11ª DB. O restante do seu corpo de exército estava se
conduzindo bem.
Na zona de ação do XII Corpo todas as grandes unidades haviam atingido a linha do rio Kyll e a 76ª
Dl fizera mais de mil prisioneiros.
Às 14h45min Walker telefonou para dizer que a 10ª DB entrara em Trier e conquistara, intata, uma
ponte sobre o rio Mosela. A conquista da ponte deveu-se a um ato heróico do falecido Tenente-
Coronel J. J. Richardson. Viajava ele na viatura que se deslocava na testa do seu batalhão de
Infantaria blindada quando avistou os fios que se ligavam às cargas de demolição, na extremidade
mais afastada da ponte. Pulou da viatura, atravessou a ponte correndo, debaixo de fogo cerrado e
cortou os fios. O combate sempre revela os grandes guerreiros.
Telefonei para os Generais Smith e Bradley e comuniquei a conquista de Trier. Ambos pareceram
muito contentes.
No dia 2 de março eu e Walker conversávamos sobre os planos para a redução do chamado saliente
de Mettalach, ao sul de Sarreburgo; pensávamos em limpar a região assim que a 94ª DI, já muito
cansada, fosse substituída pela 26ª DI, que regressava da área de repouso. Durante a conversa
percebi, inopinadamente, que seria bem mais proveitosa uma operação que consistisse em transpor o
Mosela, em Schweich, com a 10ª DB, reforçá-la com um GT da 76ª Dl e avançar sobre Wittlich.
Walker começou imediatamente a elaborar este plano.
Eddy e eu atravessamos o rio Sarre em Echternach e nos dirigimos para Bitburg, em visita às 76ª, 5ª
e 80ª Divisões de Infantaria e 4ª DB. A viagem for muito interessante por dois motivos. Primeiro,
mostrou as dificuldades imensas sobrepujadas pela 76ª Dl ao transpor a Linha Siegfried naquela
região; segundo, demonstrou a absoluta inutilidade das defesas fixas.
De um ponto da estrada que balizara o eixo de progressão da 76ª Dl avistavam-se quinze casamatas,
além dos “dentes de dragão”73 e fossos anticarro. Apesar disto, foram ultrapassados por esta
divisão relativamente pouco experiente. Visitamos a casamata do comando do setor. Tinha três
andares abaixo do nível do solo e compreendia alojamentos, banheiros, um hospital, cozinha,
lavanderia, depósitos e demais comodidades, inclusive uma rede telefônica completa. A eletricidade
e o aquecimento eram produzidos por dois geradores diesel. Entretanto, toda a capacidade ofensiva
desta casamata consistia de duas metralhadoras e um morteiro de 60 mm, colocados em cúpulas de
aço que subiam e desciam acionadas por um mecanismo hidráulico. A particularidade do morteiro
de 60 mm é que era operado por controle remoto. Como em todos os outros casos, esta casamata foi
conquistada por meio de uma carga de dinamite colocada na porta dos fundos. Nas cúpulas de aço
de 25 centímetros de espessura encontramos as marcas das nossas granadas de 90 mm, que apenas
ricocheteavam quando disparadas contra as casamatas, em tiro direto e à distância de 200 metros.
Os pacifistas colherão grandes ensinamentos do estudo das linhas Siegfried e Maginot, lembrando
sempre que estas defesas foram transpostas, que Tróia foi conquistada, que as muralhas de
Adriano74 foram atravessadas, que a Grande Muralha da China foi uma inutilidade e que, pelos
mesmos motivos, os largos oceanos que, segundo alegam, nos defendem, também podem ser
transpostos por um inimigo resoluto e inteligente. Na guerra, a única defesa garantida é o ataque, e a
eficiência do ataque depende do espírito bélico daqueles que o executam.
No dia 3 de março, Gay entregou pessoalmente ao comandante da 10ª DB a ordem para transpor o
Mosela e, atacando com o reforço de um GT da 76ª Dl, conquistar uma cabeça-de-ponte sobre o rio
Kyll e prosseguir para leste, paralelo ao Mosela. O restante do XX Corpo continuava na limpeza das
áreas da retaguarda. No XII Corpo, a 5ª Dl forçou uma cabeça-de-ponte sobre o Kyll, com a
finalidade de permitir um aproveitamento do êxito pela 4ª DB. No VIII Corpo, seis horas mais tarde,
a 11ª DB ultrapassou a 4ª Dl e atacou, mas chocou-se contra uma resistência de vulto.
Na opinião do General Bradley o 3º Exército estava se distendendo muito e perderia a condição de
executar o que ele chamava de “arremetida potente” contra Coblença. Garantimos a ele que a rede
de estradas não permitia uma arremetida com mais do que duas divisões, e que esta já estava sendo
realizada no VIII Corpo pelas 11ª e 90ª Divisões, no XII Corpo pela 4ª DB e 5ª Dl e no XX Corpo
pela 10ª DB e parte da 76ª Dl. A 65ª Dl ingressou no 3º Exército na área do XX Corpo e a 26ª DI
substituiu a 94ª Dl.
Na data de 4 de março os 9º e 1º Exércitos achavam-se situados ao longo do rio Reno. No decorrer
dos últimos 30 dias a média diária de prisioneiros capturados pelo 3º Exército chegou a mil homens;
o número total de prisioneiros, desde o início da operação em 29 de janeiro, excedeu o total de
perdas em combate sofridas pelo 3º Exército no mesmo período.
Na zona de ação do XII Corpo, a 5ª Dl conquistara uma cabeça-de-ponte sobre o rio Kyll; no XX
Corpo a 10ª DB forçara a travessia do Kyll, mais ao sul, e deslocava-se para leste, na parte norte do
rio Mosela.
No dia 5 de março, a 4ª DB, do XII Corpo, iniciou o avanço para o Reno com uma progressão de 16
quilômetros e, apesar da chuva e da lama, atingiu as vizinhanças da cidade de Daun.
Às 10 horas do dia 6, telefonei para Bradley e disse-lhe, pela primeira vez, que o XII Corpo estava a
caminho do Reno e solicitei-lhe que ordenasse a progressão da direita do 1º Exército, a fim de não
atrasar a esquerda da 87ª Dl situada na esquerda do 3º Exército.
Durante o dia, a 4ª DB atacou e aprisionou o quartel-general do 53º Corpo de Exército alemão,
comandado pelo General Kau von Rothkirch e General-Tenente Botsch.
No nosso flanco norte, na zona de ação do VIII Corpo, foram construídas três pontes sobre o Kyll:
uma para a 4ª Dl, outra para a 11ª DB e uma terceira para a 90ª Dl.
Acompanhado pelo General Gay, o Príncipe Felix do Luxemburgo visitou a frente, inspecionou a
10ª DB e foi a Trier. Em decorrência desta visita, o General Gay julgou quase totalmente limpa a
área ao norte do Reno, na zona de ação do 3º Exército, e sugeriu o planejamento de um ataque para
sudeste, no Palatinado. Recomendou também a cessação do ataque da 10ª DB, que acabaria sendo
prejudicado pela progressão constante do XII Corpo, com a idéia de aproveitar a divisão em outro
lugar.
A 4ª DB atingiu o rio Reno às 17 horas do dia 7 de março. Neste dia a 11ª DB começou a progredir
com maior rapidez e chegou perto de Kyllberg. A 10ª DB recebeu ordem para cessar o ataque.
Neste dia processamos e fotografamos o 200.000° prisioneiro alemão. Enviamos a fotografia para a
Seção de Relações Públicas do 12° Grupo de Exércitos, mas eles não a difundiram, sob o pretexto
de que o homem fora fotografado com um cartaz com o número 200.000 e que isto contrariava a
Convenção de Genebra.
No dia 8, em cumprimento de ordem do escalão superior, perdemos a 6ª DB para o 6º Grupo de
Exércitos.
Com a finalidade de elaborar o plano de ação futuro do 3º Exército e XIX Comando Aerotático,
realizei uma reunião do estado-maior, inclusive com o comparecimento do General Weyland. O
plano esboçado, e posteriormente executado, foi o seguinte: atacar com dois corpos com a
finalidade de conquistar cabeças-de-ponte sobre o Reno, nas vizinhanças de Mainz, Oppenheim e
Worms. Compreendendo as 94ª, 26ª e 80ª Divisões de Infantaria e 10ª DB, posteriormente reforçado
com a 65ª Dl e 12ª DB, o XX Corpo atacaria na direção de Kaiserslautern, partindo de Trier —
Sarreburgo. O XII Corpo, compreendendo a 4ª DB e as 5ª, 76ª, 90ª e 89ª75 Divisões de Infantaria,
transporia o Mosela a sudeste de Mayen e atacaria para o sul, inicialmente na direção de Bingen e
Bad Kreuznach, com a finalidade de impedir que as unidades inimigas escapassem para a outra
margem do Reno e para conquistar cabeças-de-ponte entre Mainz e Worms. O VIII Corpo, com as
87ª e a 4ª Divisões de Infantaria e 11ª DB, continuaria a limpeza da região ao norte do Mosela e a
oeste do Reno, sabendo perfeitamente que, se conseguíssemos uma travessia do Reno, iríamos
aproveitar a oportunidade.
O General Bradley declarou que preferia que não atacássemos para o sul, transpondo o Mosela, a
não ser que conquistássemos uma ponte intata.
O 1º Exército parecia estar tirando bom proveito da cabeça-de-ponte em Remagen. Ficamos muito
contentes com o fato mas também sentimos uma certa inveja.
No dia 9, juntei-me aos Generais Bradley, Hodges, Doolittle, Simpson e outros para receber a
Legião de Honra francesa, no grau de Grande Oficial, e a Cruz de Guerra com Palma. Antes da
solenidade, eu e Bradley combinamos o deslocamento do limite do 3º Exército mais para o sul, a
fim de ficarmos com Sarrelautern como local de travessia do rio Sarre. Em seguida, pelo telefone,
dei ordem a Gay para que a 80ª Dl integrasse o XX Corpo e a 90ª Dl, o XII Corpo. Julgamos
indispensável engajar profundamente os 1º e 3º Exércitos a fim de impedir a concretização do plano
de Montgomery de colocar sob seu comando a maioria das divisões da frente aliada, inglesas e
americanas, para um ataque contra a planície do Ruhr — o que colocaria no limbo os 1º e 3º
Exércitos.
Conversou-se a respeito da possibilidade de coordenar os planos de ataque dos 3º e 7º Exércitos,
mas este último não poderia atacar antes do dia 15. Como senti que o tempo era mais importante do
que a coordenação, decidi atacar o mais cedo possível. Na realidade, sou de opinião que
coordenação é uma palavra muito mal empregada e envolve uma ação difícil de realizar.
Os dias 10 e 11 custaram muito a passar, pois todos preparavam-se para a próxima operação. De
qualquer maneira, aproveitamos a oportunidade para reunir os comandantes de corpos. Felizmente
também contamos com a presença do General Patch, comandante do 7º Exército; com isto, todos
tomaram conhecimento do que iria acontecer e Patch concordou em deixar Walker (meu corpo ao
sul do dispositivo) coordenar a ação com Haislip, comandante do corpo no norte do dispositivo do
7º Exército. Sempre foi muito fácil trabalhar com Patch.
Neste dia, recebi o faqueiro de prata com o distintivo do 3º Exército, encomendado através do
General Littlejohn76, e pago do meu bolso.
Walker não conseguiu desencadear o ataque no dia 12, mas prometeu cruzar a linha de partida no
dia 13 às 3 horas. O XII Corpo estava pronto para atacar logo depois da meia-noite, já no dia 14.
Littlejohn e eu passamos bastante tempo examinando e discutindo sobre os uniformes. Por fim
chegamos à conclusão de que o melhor uniforme para a guerra consiste de coturnos bem fabricados,
com a parte crespa do couro virada para o lado externo, calças de lã grossa, com a boca não
excedendo de 28 centímetros, camisa de lã e capacete; para o inverno, capote forrado e luvas. A
camisa e a calça constituíam as peças mais importantes, melhor confeccionadas e mais padronizadas
de todo o fardamento recebido pelos soldados; se pudessem ser distribuídos dois tipos de camisa e
um tipo de calça (grossa), teríamos um uniforme simples e que demoraria mais a se desgastar.
Atendendo ao seu próprio pedido, recebi um general que fora substituído no comando e que
desejava explicar por que não se saíra bem. Ofereci-lhe um comando menos importante em uma
outra divisão, mas ele pediu-me 48 horas para pensar. Não lhe disse isto, mas percebi que um
homem incapaz de se decidir em menos de 48 horas não está capacitado para comandar tropas em
combate.
Assim terminou a campanha que provavelmente passará à História como a campanha de Eifel. Foi
uma luta dura e prolongada, com muitas transposições de rio, condições meteorológicas
desfavoráveis e uma boa dose de sorte. Até 12 de março o balanço de perdas era o seguinte:

6. A CONQUISTA DE COBLENCA E A CAMPANHA DO


PALATINADO
13 a 21 de março de 1945
Muitos, inclusive os alemães, consideram a campanha do 3º Exército no Palatinado como uma das
melhores campanhas de toda a guerra.
Em dez dias, doze divisões deste exército cruzaram o Mosela, em direção ao sul, cada uma tentando
progredir mais do que a outra, levando a destruição à retaguarda das unidades alemães que, na
Linha Siegfried, ainda enfrentavam o 7º Exército americano, cercando e destruindo dois exércitos
alemães, aprisionando mais de 60.000 inimigos e conquistando 25.000 quilômetros quadrados de
território, tudo isto com um mínimo de perdas.
Já no dia 22 de março, achavam-se no Reno, ao sul de Coblença, oito divisões prontas para a luta.
Apoiadas por unidades de Infantaria, 4 divisões blindadas lançaram-se sobre as montanhas
Honsbrouck, consideradas “intransponíveis para blindados”. Os alemães ficaram confusos,
perplexos e desamparados. O inimigo transformou-se em uma massa castigada de homens, mulheres
e crianças, entremeada com nazistas fanáticos. Conforme o General Patton previra, quase um ano
antes, a guerra foi ganha a oeste do Reno. O 3º Exército ficou em condições de atravessar aquele rio
em Mainz, Worms e Oppenheim.
Na zona de ação do 6º Grupo de Exércitos prosseguiu a ofensiva para o Reno; o inimigo retraiu no
flanco norte e ofereceu resistência tenaz na Linha Siegfried.
Em outros teatros de operações, Panay rendeu-se a MacArthur; Mandalay, na Birmânia, ainda
resistia e o combate progredia lentamente na Itália.
As forças aéreas continuaram a bombardear a Alemanha, concentrando sobre Berlim as suas
incursões mais violentas.
P.D.H.

O PRINCÍPIO DO FIM

O ataque do XX Corpo partiu na hora marcada, no dia 13 de março, mas não progrediu com rapidez
devido ao terreno difícil nas zonas de ação das 94ª e 26ª Divisões de Infantaria. As 2 horas da
madrugada de 14 de março, o XII Corpo achava-se pronto para atacar, nas vizinhanças de Trier. No
início do ataque, com a 5ª Dl à direita e a 90ª Dl à esquerda, o XII Corpo construiu quatro pontes
sobre o Mosela, que ficaram prontas antes do meio-dia; ao entardecer já se achavam na margem sul
do rio quatorze batalhões. Sucedeu aí um caso de sorte extraordinária, ou de proteção divina; na
tarde do dia 12, metade do efetivo da 2ª Divisão de Montanha alemã defendia os locais onde foram
construídas as pontes. Entretanto, este efetivo foi deslocado para fazer frente ao ataque do XX
Corpo, o que possibilitou ao XII Corpo realizar a operação de travessia do curso de água
praticamente sem posição. O caso ilustra bem a conveniência da defasagem de tempo na execução
de um ataque.
Viajei para Trier, via Wasservillig. As legiões romanas que avançaram do Luxemburgo para Trier
utilizaram esta mesma estrada; eu quase podia sentir o cheiro de suor acobreado e ver a poeira
levantada pela marcha para o combate destes guerreiros resolutos. À guisa de monumento aos feitos
romanos, as entradas para o anfiteatro eram as últimas ruínas existentes em Trier. O centro da cidade
apresentava-se completamente destruído, bem como as pontes, com exceção da que conquistamos
intata. Visitei a 10ª DB e as 80ª, 94ª e 26ª Divisões de Infantaria. Naquela ocasião, achava-me
preocupado com a possibilidade do 7º Exército, que atacara na manhã do dia 15, alcançar Mainz
antes de mim. Se eu pudesse desvendar o futuro teria prestado um grande serviço à minha
autoconfiança.
No dia 15, voei para Mayen e encontrei-me com os Generais Eddy, do XII Corpo, e Middleton, do
VIII Corpo. Disse a Middleton que iria tirar as divisões do seu corpo de exército, com exceção da
87ª Dl, mas que lhe mandaria a 76ª Dl o mais breve possível. O general não protestou; pelo
contrário, apresentou uma sugestão brilhante para a conquista imediata de Coblença com a 87ª Dl.
Middleton era o comandante de corpo que apresentava maior facilidade para o trabalho em equipe, e
era também um dos mais eficientes.
No conjunto, o exército não foi bem, a não ser nas zonas de ação das 80ª e 94ª Divisões, onde a
progressão atingiu 10 quilômetros.
No voo de regresso ao QG, desviei-me da rota para fotografar Vianden e Clairvaux, dois castelos
magníficos e de tipos diferentes, um nas barrancas do rio e outro sobre a rocha.
No dia 16, às 11 horas, Bradley telefonou para avisar que o General Eisenhower deveria estar
sobrevoando a minha cidade, uma vez que seu avião não conseguira aterrar onde Bradley se
encontrava. Corri para o campo de pouso e encontrei-o pouco depois das 14 horas. O General Smith
acompanhava-o. Dirigimo-nos imediatamente para a sala de operações e ambos mostraram- se
satisfeitos e pródigos em elogios; Smith declarou que eu poderia pedir emprestado as divisões que
desejasse, em face do sucesso que obtivera com a 10ª DB. Durante a tarde, Smith passou em revista
a uma guarda de honra formada para recebê-lo — acho que foi a primeira vez que lhe prestaram tal
homenagem.
O General Eisenhower e eu embarcamos em dois jipes e seguimos para Trier; visitamos o Posto de
Comando do GT-A da 10ª DB e encontramos o General Morris e o subcomandante da divisão,
General Piburn. Elementos da 10ª DB e 90ª Dl atingiram o rio Nahe e conquistaram pontes. A 11ª
DB integrou-se ao XII Corpo e concentrou-se nas vizinhanças de Boullay, preparando- se para a
travessia na esteira da 89ª Dl. A 87ª Dl transpôs o Mosela a nordeste da 90ª Dl e alcançou as orlas
de Coblença; a 28ª Dl, cedida temporariamente pelo 1º Exército, integrou-se ao VIII Corpo e
assumiu a responsabilidade pela margem do rio que se estendia do sul do 1º Exército até Coblença,
exclusive.
O General Eisenhower disse a Smith que ordenasse ao 7º Exército a transferência da 12ª DB para o
meu exército, para integrar o XX Corpo, a partir da manhã do dia 17.
No dia 17 o General Eisenhower assistiu à reunião matinal do meu estado-maior e desdobrou-se em
elogios. Declarou que, por sermos veteranos, não percebíamos a nossa própria grandeza e não
ostentávamos nenhuma presunção. Todavia, outras pessoas estavam percebendo que os americanos
eram bons. A título de exemplo, contou que os jornais classificavam como “fracos efetivos” as
forças alemãs que lutavam na zona de ação da 4ª DB, mas esqueciam de elogiar a divisão pela
rapidez da sua progressão — o que impedia que uma quantidade considerável de alemães fugisse do
avanço daquela divisão.
Voamos para Lunéville, a fim de encontrar os Generais Patch e Devers. Havia uma idéia que
preconizava a instalação de um Posto de Comando único para mim e Patch. A idéia morreu depois
que explicamos o funcionamento perfeito das nossas comunicações telefônicas e a diferença
considerável entre os nossos objetivos.
De volta ao Luxemburgo concedi uma entrevista à imprensa e mencionei os aspectos abordados
pelo General Eisenhower. Declarei também que se estava dando grande valor a três divisões de
fuzileiros navais, no Pacífico, por estarem sofrendo perdas elevadíssimas, enquanto doze ou treze
divisões do meu exército não mereciam a menor atenção porque não sofriam tantas baixas. Pedi aos
jornalistas que corrigissem o noticiário, forneci-lhes a relação de perdas do 3º Exército (a verdadeira
lista de baixas americanas comparada com as baixas alemãs estimadas) e disse-lhes que podiam
publicá-la.
Veio à baila o problema dos nossos carros de combate em comparação com os dos alemães;
respondi dizendo que, nos combates travados até então, havíamos destruído dois carros de combate
inimigos para cada carro que perdêramos. Disse também que todo o nosso equipamento, uniformes
etc. eram superiores aos dos aliados e aos dos alemães.
Raciocinando sobre a discussão que travara com os correspondentes de guerra a respeito dos carros
de combate, escrevi uma carta ao General Handy relatando o que havia dito aos correspondentes.
Esta carta foi objeto de grande publicidade e produziu um bom efeito na contenção de críticas
indevidas, as quais além de não serem verdadeiras também afetam negativamente o moral de nossos
soldados77.
Às 18 horas Walker telefonou pedindo a destituição de um dos seus comandantes de divisão.
Autorizei, desde que ele apresentasse o nome de um substituto mais qualificado do que o general
que ia ser substituído, o que Walker não conseguiu fazer. Em seguida telefonei para Eddy e revelei-
lhe a minha irritação pelo fato da 11ª DB não haver produzido nada. Para encerrar o dia telefonei
para Middleton e disse-lhe que pelo menos ele escapara do campo da minha ira; cumprimentei-o
pela sensacional conquista de Coblença.
O dia 18 não chegou a ser nem bom, nem mau. A 4ª DB foi detida por um contra-ataque idiota,
executado por dois regimentos de Infantaria da 2ª Divisão Panzer (comandada pelos General-
Tenente von Luttwitz e General-Major von Lauchert). As demais unidades dos VIII, XII e XX
corpos atuaram bem, mas não de forma brilhante.
A situação melhorou no dia 19. O VIII Corpo terminou a limpeza de Coblença. No XII Corpo, a 4ª
DB chegou a 10 quilômetros de Worms e a 16 quilômetros de Mainz. As 90ª e 5ª Divisões de
Infantaria transpuseram o rio Nahe. Parte da 11ª DB achava-se em Neisenheim e em contato com a
12ª DB, do XX Corpo, que se achava em Lauterecken. A 10ª DB e parte da 12ª DB chegaram a 20
quilômetros de Kaiserslautern, seguidas de perto pelas 80ª e 94ª Divisões de Infantaria.
Naquela ocasião, se a guerra terminasse no minuto seguinte, eu diria que as unidades sob meu
comando haviam executado a melhor e mais bem sucedida campanha da história. Até hoje
mantenho a mesma opinião.
Durante a tarde recebi Hodges e Bradley; as perspectivas eram sombrias porque teríamos que passar
à defensiva e, provavelmente, ceder dez divisões ao 9º Exército, subordinado a Montgomery, caso
não conseguíssemos conquistar uma cabeça-de-ponte sobre o Reno. Entretanto, poderíamos
continuar na ofensiva caso atravessássemos o rio antes do ataque inglês. Hodges e eu resolvemos
que ele faria a travessia em Remagen e eu nas vizinhanças de Mainz, marcando um primeiro
encontro em Geissen. A partir dali, ele seguiria pela autoestrada e estradas que se dirigiam para
oeste, enquanto eu tomaria as estradas para leste e avançaria por Kassel e Hanau.
No dia 200 balanço da operação revelava-se promissor. Na zona de ação do XII Corpo, uma força-
tarefa da 90ª Dl aproximava-se do Reno, cerrando sobre o rio ao sul de Mainz, o que cortaria todas
as rotas de fuga até o sul daquela cidade. O GT-A da 4ª DB (comandado pelo Coronel H. A. Sears)
achava-se a 15 quilômetros a nordeste de Kaiserslautern, enquanto o GT-B (comandado pelo
Coronel C. W. Abrams) desbordava esta cidade, cuja ocupação fora deixada a cargo da 80ª Dl.
Combinei com Patch o traçado de um novo limite entre os exércitos, alcançando o rio Reno ao sul
de Worms e deixando Kaiserslautern para o 7º Exército, e que entraria em vigor tão logo eu
atingisse esta cidade. Disse a Patch que pretendia orientar para o sul pelo menos uma divisão
blindada e uma de Infantaria, logo após a conquista de Kaiserslautern; a finalidade da ação era
estabelecer contato com o VI Corpo78 e, dessa forma, cercar completamente os remanescentes das
forças alemães. Acrescentei que assim que terminasse esta tarefa eu sairia da área atribuída ao 7º
Exército.
O nosso total de perdas no dia 19, tanto em combate como fora de combate, somou 800 homens;
além dos mortos, ainda aprisionamos 12.000 alemães.
Na ocasião estranhei, e agora acho muito mais estranho ainda lembrar a dificuldade que tive em
conseguir autorização para conquistar Trier e em obter permissão para a 4ª DB aproveitar o êxito até
o Reno. Na realidade, foi preciso recorrer a uma certa trapaça a fim de obter permissão para transpor
o Mosela em direção ao sul79.
Ainda junto comigo, Patch disse brincando: “George, esqueci-me de cumprimentá-lo por ser o
último a chegar ao Reno”. Respondi-lhe: “Permita-me cumprimentá-lo por ter sido você o primeiro
a abandoná-lo”, referindo-me à época em que o VI Corpo (comandado pelo Major-General E. H.
Brooks) recebeu ordem para recuar, depois de ter chegado à margem do rio.
As operações no Palatinado terminaram praticamente no dia 21 porque, no XII Corpo, a 90ª Dl
chegara a Mainz e atacava a cidade com dois regimentos; a 4ª DB estava em Worms e a 11ª DB
achava-se ao sul desta cidade. Na zona de ação do XX Corpo a 12ª DB cerrava sobre Mannerheim e
a 10ª DB voltara-se para o sul, a partir de Neustadt, contra Landau. A 80ª Dl limpara Kaiserslautern,
enquanto as 94ª e 26ª Divisões de Infantaria avançavam em direção àquela cidade, apesar da
confusão provocada pela 6ª DB, do 7º Exército, que cruzara o eixo de progressão da 26ª DI.
Fui a Simmeren, conversar com Eddy. Era evidente que os alemães julgaram que atravessaríamos o
rio em Mainz, pois colocaram dois regimentos na cidade, com ordem para resistirem até o fim.
Entretanto, decidimos lançar uma cortina de fumaça sobre o rio, em Mainz, para dar a impressão de
que realizaríamos a travessia ali, enquanto a transposição real ocorreria em Oppenheim. Este local
dispunha de uma vantagem: na nossa margem havia um ancoradouro de barcaças cujo acesso ficava
oculto das vistas da margem inimiga, por se achar dentro da área urbanizada. Os nossos botes de
assalto podiam ser lançados na água, no ancoradouro, sem que o inimigo pressentisse a operação.
Eddy selecionara este local com vários meses de antecedência.
Apesar de tudo, julgo-me culpado pelo erro de não haver realizado uma travessia do rio ao norte da
confluência do Meno com o Reno, isto é, ao norte de Mainz. O que me levou a cometer este erro foi
o receio de ser contido pelo terreno elevado ao norte da confluência dos dois rios. Por outro lado, se
esta travessia houvesse sido executada, ter-se-ia evitado a transposição no rio Meno em Frankfurt e
na sua foz. Foi esta uma das poucas vezes em que me deixei levar por um excesso de precaução.
De qualquer maneira, decidimos transpor o Reno na noite de 22 de março com a 5ª Dl. Entreguei a
Eddy um plano que até poderia parecer engraçado: empregar 200 aviões L-4 transportando um
infante em cada avião para o outro lado do rio; com os aviões, teríamos 200 homens na margem
oposta a cada 30 minutos. O autor desta excelente idéia foi o General-de-Brigada E. T. Williams,
oficial de Artilharia do 3º Exército80.
Depois de combinar tudo com Eddy, voamos para Mainz, ao encontro do General Middleton, do
VIII Corpo, para tratar da sua travessia, ou na garganta do rio nas vizinhanças de Boppard, ou nas
proximidades de Lorch, com a idéia de realizar o deslocamento inicial sobre Mastatten, uma
encruzilhada bem situada e que abria a opção de deslocamento seja para nordeste, sobre Limburg,
seja para o sul.
O trabalho para obter material de pontes para as transposições era muito penoso e só foi levado a
bom termo graças aos esforços ingentes do General Conklin, oficial de Engenharia do 3º Exército, e
do Destacamento Naval81 que cooperava conosco.
Nesta ocasião começamos a sofrer escassez de rações; tomamos todas as providências para
economizar o que fosse possível.
A campanha do Palatinado encerra-se no dia 21 de março, mas é conveniente realçar que a nossa
travessia do Reno, em Oppenheim, realizou-se sem parada na margem ocidental, isto é,
simplesmente alteramos a direção dos eixos de progressão das 5ª e 90ª Divisões de Infantaria, do sul
para leste, enquanto continuávamos a avançar para o sul com o restante dos dois corpos de exército.
Esta ação levou os alemães a acreditarem que a nossa tentativa de transposição não era perigosa,
uma vez que não tinha as características de operação planejada de travessia de curso de água com
grandes efetivos. Achei que a melhor forma de transpor o Reno seria através de um coup de main A
execução deste coup foi magnificamente planejada por Eddy e gloriosamente empreendida pelo
General Irwin.
Perdas até 21 de março
82

No dia 23 de março, divulguei a Ordem Geral nº 70, abrangendo as operações realizadas no período
de 29 de janeiro a 22 de março. Publico-a neste livro porque ela contém as minhas opiniões sobre a
campanha do Palatinado.
Ordem Geral
23 de março de 1945
Nº 70
AOS OFICIAIS E PRAÇAS DO 3º EXÉRCITO
É
AOS NOSSOS CAMARADAS DO XIX COMANDO AEROTÁTICO
No período de 29 de janeiro a 22 de março de 1945 vocês arrebataram ao inimigo 16.200
quilômetros quadrados de território. Conquistaram 3.072 cidades, vilas e aldeias, destacando-se
entre as primeiras as de Trier, Coblença, Bingen, Worms, Mainz, Kaiserslautern e Ludwigshafen.
Além de aprisionarem 140.112 militares inimigos, vocês mataram ou feriram mais de 90.000
homens; com isto, praticamente destruíram os 7º e 1º Exércitos alemães. A história não registra um
feito igual em tão pouco tempo.
O que tornou possível esta campanha foi a bravura bem conduzida, a inabalável dedicação ao
serviço, a audácia incomparável e a rapidez na progressão reveladas por todos vocês. Ao mesmo
tempo, do ar, os inigualáveis caças-bombardeiros atacaram incansavelmente, durante 24 horas, o
inimigo desorganizado.
O mundo exulta com o que vocês fizeram; o General Marshall, o General Eisenhower e o General
Bradley elogiaram vocês pessoalmente. A maior honra que já me foi concedida é a de ter o meu
nome associado ao de vocês nestes grandes feitos.
Aceitem, todos, a minha sincera admiração e o meu agradecimento pelo que conseguiram realizar;
lembrem-se de que a travessia do rio Reno, realizada às 22 horas da noite passada, promete a todos
uma glória ainda maior no futuro.
G. S. Patton Tenente-General, Exército dos EUA
Comandante

7. FORCANDO O RENO, FRANKFURT-SOBRE-O-MENO E A


TRANSPOSIÇÃO DO MULDE

22 de março a 21 de abril de 1945


A velocidade era essencial nesta fase da guerra. A conquista do terreno era mais importante do que
a limpeza de regiões ainda na posse de um inimigo derrotado. Tratava-se de provocar o colapso total
da retaguarda alemã. Ficavam para trás apenas unidades inimigas desorganizadas e confusas; ainda
resistiam alguns remanescentes da organização militar germânica.
Percebendo esta situação, o General Patton ordenou que o primeiro ataque através do Reno fosse
executado pelo XII Corpo na noite de 22 para 23 de março.
Atrás dos elementos da vanguarda do 3º Exército, já desdobrado na margem do Reno, de Coblença
até Speyer, existia um aglomerado de alemães aturdidos, bem como alguns americanos igualmente
aturdidos. Todo mundo marchava para leste: os americanos avançando, os alemães recuando;
algumas unidades avançadas do 3º Exército chegaram ao Reno na frente dos alemães que fugiam da
progressão do 7º Exército americano. Quando estas unidades americanas atingiam o Reno,
deparavam-se com um ponto de estrangulamento. Quando os alemães alcançavam o Reno,
transformavam-se em prisioneiros de guerra.
Às 22 horas de 22 de março a 5ª Dl, do XII Corpo, transpôs o Reno dentro do horário previsto. Não
houve preparação de Artilharia, nem bombardeio aéreo, nem lançamento de paraquedistas. A
travessia decorreu com tanta eficiência e tranquilidade que surpreendeu tanto ao inimigo como às
nossas próprias tropas.
Durante os trinta dias seguintes a guerra transformou-se principalmente em deslocamentos pelas
estradas, embora houvesse necessidade de reduzir um bolsão de resistência em uma ou outra
ocasião. É verdade que, em certa ocasião, duas divisões de Infantaria e duas blindadas deslocavam-
se para o norte, por ambas as margens da autoestrada que passava ao norte de Frankfurt, em direção
a Kassel, ao mesmo tempo em que dezenas de milhares de prisioneiros alemães deslocavam-se para
o sul, pela autoestrada, sem serem vigiados por nenhuma unidade de guarda.
As reservas alemães foram envolvidas, as instalações de retaguarda ou foram destruídas, ou
ignoradas, e a população civil ficou aturdida. Revelaram-se as atrocidades cometidas pelos nazistas
e fervilharam boatos a respeito de um possível “reduto”.
Quando chegou o fim do mês, a vanguarda do 3º Exército já ultrapassara os distritos de Saxe,
Coburgo e Gotha; encontrava- se nas orlas de Chemnitz e além de Nuremberg. O Mulde já havia
sido transposto quando as ordens do escalão superior indicaram uma nova direção de ataque: não
para leste, mas para sudeste, através da Bavária e da fronteira tcheco-eslovaca.
A situação era fluida em todas as frentes de combate, com exceção da Itália. Na frente ocidental
todos os exércitos aliados achavam-se do outro lado do Reno. Ao norte, o 21º Grupo de Exércitos
atingira o rio Elba; mais para o sul, o 1º Exército chegou aos subúrbios de Dresden. O 7º Exército
conquistou Nuremberg. Os soviéticos ocuparam Viena e Dantzig. Em todas as frentes as forças
aéreas deram prosseguimento às suas incursões em apoio às forças terrestres.
O Presidente Franklin Delano Roosevelt faleceu no dia 12 de abril.
P.D.H.

O RENO, O RENO, O RENO ALEMÃO

No dia 22 de março a 4ª DB, nas vizinhanças de Worms, foi substituída pela 10ª DB, do XII Corpo,
e pela 11ª DB, do XX Corpo. Elementos da 12ª DB, do XX Corpo, avançavam contra
Ludwigshaven, enquanto a 10ª DB alcançava Landau com um Grupamento Tático. Por fim, um GT
da 2ª DB progredia sobre a cidade de Speyer. No momento em que este GT conquistou aquela
cidade foram cortados todos os caminhos de fuga dos alemães para o Reno, dentro da minha zona
de ação.
Neste dia atingimos o número máximo, naquela época, de prisioneiros capturados em uma jornada:
11.000 homens.
O General Weyland, o Coronel Codman e eu viajamos de Sarreburgo para Kaiserslautern, via St.
Wendel, e prosseguimos mais 20 quilômetros na direção de Neustadt, passando por dentro da
floresta. Testemunhamos uma das cenas de destruição das mais completas que já me fora dado ver.
Uma coluna alemã, que se deslocava pela estrada, vinda de noroeste e formada principalmente por
viaturas e canhões com tração hipomóvel, sofreu um ataque de uma companhia de carros de
combate médios, da 10ª DB, contra o seu flanco direito. Os alemães trafegavam por uma estrada
cuja margem esquerda acabava na borda de um precipício enorme, quando os carros de combate
surgiram pela margem direita da estrada, entre o leito da mesma e uma cadeia de montanhas.
Viaturas e animais foram empurrados para o precipício, numa extensão de mais de 4 quilômetros.
Podia-se ver a marca das lagartas dos carros sobre o corpo dos animais mortos, bem como os sinais
de pólvora nos cadáveres dos homens e dos cavalos que haviam recebido tiros à queima-roupa.
Embora orgulhoso com a proeza da 10ª DB, senti pena daquelas pobres criaturas.
Ao anoitecer, já de volta ao quartel-general, soubemos que elementos da 10ª DB haviam
estabelecido contato com elementos do VI Corpo do 7º Exercito nas vizinhanças de uma cidade
chamada Schwanim; completara-se o cerco das unidades alemãs. Também recebi um telegrama de
Gerow, então no comando do 15º Exército: “Parabéns por haver cercado três exércitos, sendo um
deles americano”.
Na noite de 22, lançando-se ao ataque às 22h30min, a 5ª Dl transpôs o Reno em Oppenheim,
completando a sua 23ª operação de travessia de curso de água; antes do amanhecer a divisão
contava com 6 batalhões na margem oposta, com a perda total de 28 homens, entre mortos e feridos.
A respeito desta travessia, dizem que ocorreu um incidente engraçado. O 21º Grupo de Exércitos
deveria transpor o Reno em 24 de março; para comemorar o fato extraordinário, Churchill escreveu
um discurso de louvor ao Marechal Montgomery pela execução do primeiro ataque através do Reno
na história moderna. O discurso foi gravado e, só podia ser por erro da BBC, transmitido para o
mundo inteiro, apesar do 3º Exército já se achar na margem oriental do Reno há mais de 36 horas.
Como a 10ª DB penetrara profundamente na zona de ação do 7º Exército, troquei-a pela 6ª DB,
localizada no flanco esquerdo daquele exército; a troca ocorreu mediante entendimento entre o
General Patch e eu.
No dia 24 de março, Codman, Stiller, o General Eddy e eu atravessamos o Reno em Oppenheim,
parando para cuspir dentro do rio. Ao chegar à margem oposta, deliberadamente escavei o chão com
um dos pés e apanhei um punhado de terra alemã, imitando Cipião, o Africano, e Guilherme, o
Conquistador; ambos haviam realizado o mesmo gesto e exclamado: “vejo em minhas mãos o solo
da África”, ou “… o solo da Inglaterra”. Vi o solo da Alemanha nas minhas mãos.
Em seguida voamos para o quartel-general do VIII Corpo para inspecionar a travessia em Boppard,
realizada na noite de 24, e a travessia da 76ª Dl, em St. Goar, na noite seguinte.
Considerei uma situação privilegiada o fato de atravessarmos o rio em St. Goar, perto do local
lendário de Lorelei — um dos lugares sagrados da mitologia germânica.
O XII Corpo ia muito bem na transposição do Reno. Já se achavam do outro lado a 5ª Dl inteira,
dois regimentos da 90ª Dl e quase toda a 4ª DB; realizavam-se os preparativos para o início da
travessia da 6ª DB na manhã do dia 25. Enquanto isto, o XX Corpo, concentrava-se nas vizinhanças
de Mainz, onde decidíramos construir uma ponte ferroviária; a rede de estradas de ferro era boa e
esta obra representava um benefício para a nossa linha principal de suprimentos.
O plano para a operação subsequente previa o envio de um GT da 76ª Dl para o sul, ao longo do
Reno, com a finalidade de conquistar o terreno elevado que dominava o local de travessia em
Mainz, bem como a transposição do rio Meno, nas vizinhanças de Mainz, pela 5ª Dl e do rio Reno,
ao norte da confluência do Meno com o Reno, pela 80ª Dl; o resto do XII Corpo atravessaria o
Meno a leste de Frankfurt, tendo Giessen como ponto de primeiro destino e para onde também
estava orientado o VIII Corpo. Disse a cada comandante desses corpos de exército, em separado,
que esperava vê-lo chegar primeiro no ponto de destino; fi-lo no intuito de estimular o espírito de
competição.
Nesta ocasião ocorreu-me a idéia de criar um corpo de exército totalmente blindado, com três
divisões blindadas, apoiado por um grupamento tático motorizado, retirado de uma divisão de
Infantaria, entregar o comando deste corpo a Walker e sair em disparada sobre Kassel ou sobre
Weimar, dependendo das circunstâncias.
Apesar de todos os estudos de história que lêramos afirmarem ser o Reno intransponível entre
Bingen e Coblença, a 87ª Dl conseguiu transpô-lo naquela região no dia 25, colocando dois
regimentos na margem oposta em plena luz do dia. Aqui, mais uma vez, vali-me da minha teoria: o
lugar mais difícil é, provavelmente, o menos defendido.
Os alemães realizaram um ataque aéreo forte contra a nossa ponte; graças aos nossos canhões
antiaéreos e ao XIX Comando Aerotático, o piso da ponte não foi atingido, mas um barco sofreu um
impacto e afundou.
Atravessei o Reno no dia 26 de março, junto com Codman, e determinei que Eddy enviasse uma
expedição a Hammelburg, transpondo o rio Meno. Esta expedição tinha duas finalidades: a primeira,
convencer os alemães de que íamos avançar para leste, quando pretendíamos, na realidade,
progredir para o norte; a segunda, libertar cerca de 900 prisioneiros americanos detidos em
Hammelburg. A minha intenção era despachar um GT da 4ª DB; infelizmente, Eddy e Hoge,
comandante da divisão blindada, convencera-me do contrário e, no final, concordei que a ação fosse
atribuída a uma companhia blindada e uma companhia de Infantaria Blindada.
Recebi a notícia de que o Coronel John Hines, filho do meu velho amigo Major-General John L.
Hines, fora ferido no rosto por um tiro de canhão de 88 mm, quando liderava seus carros de
combate no ataque a um aeroporto ao sul de Frankfurt, e que perdera os dois olhos. Depois de
ferido, o coronel comunicou-se pelo rádio com o comandante da divisão, fez-lhe um relato preciso
da situação e concluiu dizendo: “Além disto, general, é melhor que o senhor mande alguém
substituir-me porque estou bastante ferido83. Pela bravura demonstrada, Hines recebeu a Palma de
Carvalho para a Cruz de Serviços Relevantes que lhe fora concedida durante a campanha do Sarre.
Tratava-se de um grande soldado e foi poupado pela morte. O General Grow ficou bastante
perturbado com a perda de Hines. Na verdade, ficou tão perturbado que não fez nada no dia seguinte
e teve que ser acionado para conquistar Frankfurt.
Mais tarde, encontrei-me com o General Walker no PC recuado do XII Corpo e completamos as
providências para que a 80ª Dl transpusesse o Meno com uma coluna e o Reno com outra.
Quando voltei ao quartel-general, descobri que uma força-tarefa da 9ª DB, do 1º Exército, desviara-
se para o sul; Bradley indagou se eu desejava orientá-la para Wiesbaden, cidade que eu estava
prestes a atacar. Concordei imediatamente com a proposta; depois, voei para Bad Kreuznach a fim
de visitar o Coronel Hines. Quando cheguei lá ele já estava na mesa de operações e anestesiado. Era
um quadro doloroso de ser visto.
No dia 27 mudamos o Posto de Comando para Oberstein e ocupamos o quartel do antigo 107º
Regimento de Infantaria alemão (comandado pelo Coronel Gronaw). Encontramos ali uma águia
enorme, esculpida em madeira; enviamo-la à Academia Militar de West Point, como presente do 3º
Exército.
No dia 28, surgiu uma confusão tremenda pelo fato de a 80ª Dl haver transposto o Reno e o Meno
sem grande dificuldade e avançar contra Wiesbaden, para onde também avançavam um GT da 76ª e
a força-tarefa da 9ª DB. Por um momento pareceu que cada uma das forças ia abrir fogo contra as
duas outras. No fim, conseguimos parar os elementos da 9ª DB e da 76ª Dl e fazê-los regressar a um
lugar adequado.
O Coronel E. M. Fickett, comandante do 6º Regimento de Reconhecimento, com uma força-tarefa
do VIII Corpo, cruzou a autoestrada e prosseguiu para leste, realizando um trabalho esplêndido;
enquanto isto, a 4ª DB percorreu mais de dois terços da distância até Giessen. A 6ª DB transpôs o
Meno, penetrou no centro de Frankfurt e prosseguiu para o norte.
Por outro lado, ficamos bastante preocupados com a incapacidade de obter informação sobre o que
sucedera com a força-tarefa da 4ª DB, enviada para leste.
Ao conversar com Bradley a respeito dos limites entre os 3º e 1º Exércitos, sugeri que deveríamos
nos virar para leste, para a área Dresden — Leipzig, tão logo conquistássemos Kassel, cidade para
onde progredíamos. Esta idéia surgira do meu estudo da carta e de uma conversa com o General
Giraud, do Exército francês. Bradley acolheu bem a idéia e, na ocasião, fizemos planos para esta
operação.
Giraud declarara que pessoas de sua família — a esposa e duas noras, se não me falha a memória —
estavam aprisionadas em algum lugar nas vizinhanças de Weimar. Sugeri que o seu ajudante-de-
ordens acompanhasse a 4ª DB, na ocasião com maior probabilidade de ser a primeira a chegar lá. Os
membros da família Giraud acabaram sendo libertados, assim como uma princesa belga que sabia
histórias muito esquisitas a respeito do que ela chamava de “recolhimento” para mulheres
importantes, ao norte de Berlim. Segundo a princesa, este “recolhimento” abrigava cerca de 400
alemãs cujos maridos ocupavam posições de destaque; na realidade as esposas constituíam reféns.
Aparentemente todas eram muito bem tratadas, mas os alemães fuzilaram um grande número de
mocinhas, conforme a princesa pudera testemunhar da janela do seu aposento. As execuções
ocorriam durante a noite, o que fazia a princesa perder o sono. Consideramos a história muito
fantástica.
No dia 29, a 70ª Dl (Major-General A. J. Barnett) e a 13ª DB (Major-General J. B. Wogan) foram
transferidas para o 3º Exército, mas tiveram que permanecer na margem ocidental do Reno, como
reserva do SHAEF. Isto aliviou bastante a situação na retaguarda; desdobramos a 70ª Dl ao longo do
Reno, de Coblença até Oppenheim. Também fomos autorizados a empregar todos os quatro
regimentos de reconhecimento pertencentes ao 3º Exército; até então tínhamos ordem para manter
um regimento em reserva. Bradley pediu-me que deixasse uma divisão de Infantaria, como reserva
do exército, reunida nas vizinhanças de Frankfurt ou de Wiesbaden. Designamos a 5ª Dl para
cumprir esta missão.
Quanto ao mais, tudo corria bem. As 4ª e 6ª Divisões Blindadas realizaram excelente progressão,
mas a 11ª DB, que se voltara para leste, ficou detida além de Flanau. Também diminuiu o ritmo da
progressão da divisão que se achava mais ao norte no dispositivo do VIII Corpo porque o 1º
Exército estabeleceu o seu limite em desacordo com o limite fixado pelo 12º Grupo de Exércitos.
Como consequência, o limite direito do 1º Exército cortou o eixo de progressão da 87ª Dl. No fim,
conseguimos acertar os limites.
No dia 30, o rádio alemão anunciou a captura e destruição da divisão blindada que atacava
Hammelburg84.
Recebemos instruções para nos deslocarmos o mais rapidamente possível para a linha dos rios
Werra e Wesser e, depois, progredirmos para leste, até o rio Elba. O escalão superior sugeriu que
esta última progressão fosse executada lentamente. Respondemos que a progressão rápida constituía
o único meio de evitar perdas.
Apoiada por elementos das 80ª e 65ª Divisões de Infantaria, a 6ª DB atingiu um ponto situado 20
quilômetros a sudeste de Kassel.
No dia 31 de março voei para o quartel-general do XII Corpo, a leste de Frankfurt, e expliquei que
este corpo, depois de ultrapassar os rios Werra — Wesser, se limitaria a progredir cerca de 24
quilômetros por dia. Era minha intenção voar até o XX Corpo e explicar a mesma coisa, mas Walker
chegou ao QG do XII Corpo e expus-lhe a situação ali mesmo.
Depois, dirigi-me ao campo de pouso para empreender a viagem até o VIII Corpo; na ocasião,
aterrava o avião do General Sibert, E-2 do 12º Grupo de Exércitos, precedido de um aviso para que
eu o aguardasse. Sibert tinha um plano para a captura do centro de comunicações alemão na região
do quadrilátero formado por Gotha, Erfurt, Weimar e Ohrdruf; achei-o muito promissor, depois de
ouvir a exposição de Sibert. Do campo de pouso telefonei para o QG do XII Corpo e determinei que
Walker nos esperasse lá. Infelizmente ele já saíra, mas conseguiram avisá-lo; chegamos os três
praticamente juntos ao QG. Explicamos a idéia de um avanço acelerado contra o quadrilátero de
Weimar, com Eddy na direita e Walker na esquerda. Disse aos comandantes de corpo que se lhes
abria a grande oportunidade de projetarem seus nomes na história e ordenei-lhes que agissem.
Autorizei Walker a desbordar Kassel a fim de acelerar a operação.
Por fim, voei para o Posto de Comando do VIII Corpo, a oeste de Limburg. O aeroporto de Limburg
estava sendo abastecido de gasolina pelo Comando de Transporte Aéreo, que enviava 60 aviões por
hora, cada avião trazendo 115 camburões de 5 galões de combustível. Se não fosse o Comando de
Transporte, mais uma vez teríamos ficado sem gasolina.
Antes de me retirar do VIII Corpo, Gay telefonou, comunicando os limites entre este corpo e os XX
e XII, uma vez que havíamos decidido colocar o VIII Corpo no centro do dispositivo. Middleton
ficou muito satisfeito com os novos limites, mas fui obrigado a dizer-lhe que não iniciasse a
operação; considerando o ataque iminente contra o quadrilátero de Weimar e a possibilidade de um
contra-ataque alemão partindo da região de Hanau, Middleton estava ocupando uma posição ideal,
nas proximidades de Limburg, para deter qualquer tentativa alemã partida de Hanau.
No voo de regresso, Codman e eu acompanhamos a garganta do leito do Reno e fotografamos os
dois locais de travessia utilizados pelo VIII Corpo naquela região.
Às 18h30min Bradley telefonou para comunicar que o General Eisenhower mostrara-se um tanto
preocupado com o risco inerente ao avanço contra Weimar; depois de discutirmos o assunto,
Bradley deu permissão para o prosseguimento do ataque.
Tratei de averiguar o sucedido às duas companhias da 4ª DB que sabíamos, agora com certeza,
capturadas pelo inimigo. As companhias haviam forçado a travessia do Meno a leste de Frankfurt; o
capitão comandante da força-tarefa foi ferido levemente, mas o ataque prosseguiu e alcançou as
orlas de Hammelburg. Aí a força-tarefa deparou-se com elementos de três divisões alemãs atraídos
pelo ataque, conforme esperávamos. Enquanto alguns carros de combate e a Infantaria blindada
combatiam tais elementos, outros carros de combate avançaram contra um campo de prisioneiros de
guerra, situado 10 quilômetros ao norte, e libertaram os presos. Seguidos por cerca de 1.200
prisioneiros, estes carros reuniram-se à força-tarefa nas vizinhanças de Hammelburg; iniciou-se,
então, o retorno às nossas linhas, pela mesma estrada utilizada no avanço. O resto da história me foi
contado pelo Major Stiller, meu ajudante-de-ordens, que acompanhava a força-tarefa, mas não
exercia o comando. Stiller sugeriu que se voltasse por um caminho mais ao norte, ao invés de
utilizar a mesma estrada já percorrida. O comandante rejeitou a sugestão. Em certo momento a
coluna parou para reabastecimento. No curso desta operação a coluna foi atacada por três
regimentos de Infantaria, partindo de três direções distintas. Como consequência, a força dispersou-
se. O Major Stiller, o capitão-comandante e mais cinco soldados lutaram até consumir toda a
munição e ter as respectivas viaturas destruídas; só então renderam-se.
No dia 1º de abril, dois anos após a morte de Jenson85, nossa progressão era lenta, principalmente
por causa das demolições e dos obstáculos nas estradas. Ainda assim, a 4ª DB achava-se a 6
quilômetros a oeste de Eisenach, enquanto a coluna norte da 11ª DB, também do XII Corpo,
chegava a Oberfeld. Recebemos mensagem do 12º Grupo de Exércitos informando que, se não
conseguíssemos conquistar Weimar até a noite de 1º de abril, deveríamos parar e esperar que os 1º e
9º Exércitos emparelhassem conosco. Entretanto, conseguimos convencer o escalão superior a nos
deixar prosseguir até às 17 horas do dia 2.
Em 2 de abril, o VIII Corpo começou a ocupar o dispositivo entre o XX Corpo, ao norte, e o XII
Corpo, ao sul, e incorporou a 4ª DB. A 80ª Dl, do XX Corpo, retomou o ataque contra Kassel; a
progressão foi muito difícil, mas sempre que atribuíamos uma missão à 80ª Dl podíamos ter certeza
de que o objetivo seria atingido.
Ainda neste dia soubemos da fuga de tropas alemães, posteriormente identificadas como
pertencentes à 2ª Divisão de Montanha, pelas elevações a nordeste de Frankfurt, vagando pela
retaguarda do XII Corpo, estas tropas haviam capturado um hospital, matando um oficial e dois
soldados, e um depósito de munições. Os primeiros relatórios, recebidos durante a noite, davam
notícia de atrocidades pavorosas, inclusive o massacre do pessoal de saúde, violação das
enfermeiras e destruição do depósito de munições. Este caso constitui mais uma prova para o meu
argumento de que não se deve dar muita veracidade aos relatórios sobre fatos ocorridos durante as
horas de escuridão. De modo geral, sempre exageram os acontecimentos.
Neste caso, um oficial e dois soldados morreram no primeiro combate. Depois disto, os alemães
utilizaram-se dos caminhões e ambulâncias como meio de transporte, mas não molestaram os
médicos, enfermeiras e soldados do hospital. Além disto, ao atingirem o depósito de munições,
defendido por uns soldados frouxos que fugiram em pânico, os alemães apressaram-se em esvaziá-
lo e não em dinamitá-lo. Cercamos o inimigo, no dia seguinte, com a 71ª Dl, o 10º RI (Coronel R. P.
Bell) da 5ª Dl e o Batalhão de Reconhecimento (Tenente-Coronel M. W. Frame) da 13ª DB, que nos
fora entregue naquele dia. No total, fizemos uns 800 prisioneiros e matamos uns 500 homens, pois
os nossos soldados ainda acreditavam que os alemães haviam cometido atrocidades.
As perdas do exército naquela jornada somaram 190 homens, entre mortos, feridos e desaparecidos,
o que constitui uma prova concreta da fraqueza do inimigo.
O rio Werra revelou-se um obstáculo mais difícil do que imagináramos; praticamente deteve as 6ª e
4ª Divisões Blindadas e retardou a 11ª DB. Ao tentar transpor o rio, a 6ª DB sofreu fortes ataques
aéreos inimigos.
No dia 3, deslocamos o Posto de Comando para um quartel alemão situado na saída norte de
Frankfurt. Codman e eu viajamos de Oberstein para lá. O vale percorrido pela estrada que leva a
Mainz é muito parecido com o vale do Kaw, em Kansas. As estradas achavam-se em excelente
estado; não havia trânsito de civis alemães, pois todos dedicavam-se à desobstrução das ruas, de
suas cidades. A própria cidade de Mainz achava-se totalmente obstruída. Acredito que, naquela
ocasião, dois terços da área urbana estavam transformados em ruínas. Os alemães haviam demolido
todas as pontes sobre o Reno; felizmente, a destruição da ponte ferroviária ao norte de Oppenheim
criou um obstáculo dentro do rio e impediu que os alemães soltassem minas e barcaças com
explosivo para, levadas pela correnteza, destruírem as pontes que construíramos ao norte da ponte
ferroviária.
No caminho, paramos em Bad Kreuznach para visitar o Coronel Hines, mas sua evacuação ocorrera
duas horas antes da nossa chegada86.
Encontramos com um grupo de prisioneiros americanos recém-libertados, todos em boas condições,
levando-se em conta os campos em que estiveram confinados. Neste grupo existiam seis militares,
inclusive um oficial, — o único que vi — com ferimentos autoprovocados. Fiz para eles a minha
preleção costumeira, que seguia mais ou menos esta sequência:
— “Você matou o inimigo que atirou em você?”
— “Não senhor, eu atirei em mim mesmo”.
— “Você sofreu muito?”
— “Não senhor, meu amigo pensou o ferimento imediatamente”.
— “Sabe que tipo de gente é você?”
— “Não senhor, não sei”.
Neste ponto eu interrompia, dizendo: “Atenção todos os outros soldados”, e descarregava uma série
de palavrões. Explicava, então, que o autoferimento não demonstrava apenas que o homem era um
covarde; além disto, aumentava tanto o perigo como o trabalho para os valentes, que não se
utilizavam de meio escuso para fugir da luta. Concedi ao oficial um “tratamento” todo especial.
Ao chegarmos ao PC verificamos que a 4ª DB achava-se nas vizinhanças de Gotha e que o GT-B da
11ª DB (comandado pelo Coronel W. W. Yale) achava-se 12 quilômetros a sudoeste de Ohrdruf.
Recebemos também uma ordem taxativa do escalão superior para parar na linha Meiningen-
Ohrdruf-Gotha-Muhlhausen e esperar a chegada dos 1º e 9º Exércitos.
No dia 4 de abril, o escalão superior fixou os novos limites entre o nosso exército e os 1º e 7º
Exércitos e marcou uma nova linha de controle, passando por Meiningen-Gotha-Suhl-Langersalz-
Muhlhausen. Após atingir esta linha só poderíamos progredir alguns quilômetros por dia, até que os
1º e 9º Exércitos se alinhassem conosco. Este alinhamento iria demorar muito porque dois dos
quatro corpos do 1º Exército e um corpo do 9º Exército ainda estavam engajados na limpeza dos
alemães cercados no bolsão do Ruhr. Cedemos a 5ª Dl e a 13ª DB para ajudarem Hodges nesta
tarefa.
Por sorte, achava-se presente o General Patch, do 7º Exército, na ocasião em que recebemos os
novos limites e a linha de controle.
Visitei os quartéis-generais dos três corpos. No XX Corpo a 6ª DB conquistara Muhlhausen e a 80ª
Dl vencera a última linha de defesa em Kassel, já ocupando quase a cidade toda. Aí aprisionaram
um general alemão e 400 homens. Este general declarou acreditar que a Alemanha ainda haveria de
vencer. Suas idéias não pareciam coerentes com o seu ato de rendição. Além do mais, tratava-se do
primeiro general inimigo a dizer que julgava que a Alemanha ainda poderia vencer. Todos os outros
diziam que a Alemanha estava derrotada mas que prosseguiam lutando porque recebiam ordem para
isto.
No VIII Corpo apresentaram-me 29 estandartes militares do tempo da Primeira Guerra Mundial e
que haviam sido capturados pelo corpo. Remeti-os todos para o Ajudante-Geral do Exército, em
Washington.
Na noite de 4 de abril recebi dois tenentes que haviam sido libertados do campo de prisioneiros de
Hammelburg87.
No fim da noite, Patch telefonou para dizer que haviam chegado ao seu QG três oficiais libertados
de Hammelburg; segundo eles, o Coronel Waters fora gravemente ferido. Patch informou que faria o
possível para conquistar o campo no dia seguinte.
No dia 5, a 4ª DB controlava completamente as cidades de Gotha, Ohrdruf e Muhlberg. Fiquei
muito feliz com a promoção do General Gay a Major-General, bem com as estrelas ganhas por
Williams, oficial de Artilharia do 3º Exército, e por Conklin, chefe do serviço de Engenharia do 3º
Exército.
Recebemos, para o almoço, os comandantes de corpo e aproveitamos para fixar os limites entre suas
grandes unidades. Sempre que se procede ao estabelecimento de limites registra-se uma disputa
ardorosa entre os interessados em torno das estradas disponíveis; resolvi deixar que os três
comandantes buscassem um consenso, o que foi conseguido após um debate demorado e acirrado.
Eu achava, e creio que os comandantes de corpos concordam comigo, que não existia nada na frente
do 3º Exército capaz de deter qualquer um dos nossos corpos de exército. Logo, não podíamos
concordar com nada que nos impusesse uma parada; entretanto, a fim de ocupar os nossos limites
fixados pelo escalão superior, tivemos praticamente que parar, ou no mínimo diminuir o ritmo da
progressão. Pela primeira vez na história do 3º Exército vimo-nos forçados a realizar o ato de
reagrupar. De qualquer maneira, mesmo durante o reagrupamento, progredimos alguns quilômetros
por dia, a fim de impedir que o inimigo se entrincheirasse.
No dia 6, condecorei com a Medalha de Honra o Soldado Harold A. Garman, da 5ª Dl. Garman era
um enfermeiro dado em reforço a um dos batalhões que forçara a travessia do rio Sauer. Durante a
operação, um bote, remado por dois soldados de Engenharia e conduzindo três feridos que podiam
caminhar e um imobilizado na padiola, partiu da margem inimiga em direção à nossa margem; no
meio do rio, foi colhido pelo fogo de metralhadora alemão. Os engenheiros e um dos feridos
jogaram-se na água, e nadaram até a margem amiga. Os outros dois feridos, também caíram na água
mas não tiveram forças para nadar; agarraram-se ao bote, no qual permanecia o ferido imobilizado
na padiola. Ainda sob rajadas dos tiros alemães, o bote começou a derivar para o lado da margem
inimiga. O Soldado Garman nadou até ao bote e arrastou-o para a nossa margem. Perguntei-lhe por
que fizera isto; respondeu-me surpreso: “Ué, alguém tinha que fazer”.
Depois desta solenidade viajei para Ehrenbreitstein, via Limburg, a fim de comparecer à cerimônia
de hasteamento da bandeira americana no mesmo local em que fora arriada há 26 anos, quando a
retirada da 4ª Dl assinalou o fim da nossa ocupação na Renânia. Também esteve presente o
Secretário-Adjunto da Guerra, senhor McCIoy.
Na condição de reserva do exército, a 13ª DB começou a se aproximar da área de retaguarda do XX
Corpo. Durante a noite Patch telefonou informando que a 14ª DB (comandada pelo Major-General
A. C. Smith) conquistara Hammelburg, onde restavam apenas cerca de 70 prisioneiros americanos
entre os quais o Coronel Waters, gravemente ferido.

Recebi para o jantar o senhor Elmer Davis, do Serviço de Difusão, e o General McCIure88. Juntou-
se a nós o Coronel Darby, dos Rangers, a quem eu condecorara duas vezes com a Cruz dos Serviços
Relevantes: na Tunísia e na Sicília. Darby foi morto em combate, tempos depois.
A boa nova do dia chegou às 17h05min, quando o General Eddy telefonou para avisar que a 90ª Dl
capturara as reservas alemães de ouro em Merkers, o que justificava a hipótese do General Sibert
sobre a localização do quartel-general alemão. Eu já ouvira tantos boatos que disse a Eddy para não
falar sobre a captura do ouro até realizarmos o levantamento completo daquilo que fora capturado.
No dia 7, Bradley perguntou se eu podia ceder a 13ª DB ao 1º Exército, com a finalidade de limpar
um bolsão que se formara entre aquela grande unidade e o 9º Exército. Durante a realização da
limpeza o General Wogan, comandante da divisão, foi gravemente ferido. Para substituir a 13ª DB,
transferi a 4ª DB do VIII para o XX Corpo, deixando o VIII temporariamente sem divisão blindada;
não havia prejuízo na transferência, uma vez que o VIII Corpo atuava em terreno inadequado para o
emprego de blindados.
Um pelotão de Intendência do 3º Exército teve a honra ímpar, segundo pude apurar, de aprisionar
um General-Tenente alemão, General Hahm, comandante do 82º Corpo, juntamente com um
coronel, um major, um tenente e sete soldados. Parece que os alemães já não desejavam mais
continuar a combater e só esperaram a passagem da tropa americana para se entregarem. Os
soldados pretos do pelotão constituíam os homens mais exultantes dentro do 3º Exército.
Às 15 horas Eddy telefonou comunicando que estivera no local da reserva de ouro e que encontrara
o equivalente a 1 bilhão de dólares em notas de marco; quanto ao ouro, se existisse, deveria estar do
outro lado de uma porta de aço. Ordenei-lhe que arrebentasse a porta. Eddy informou também que
aprisionara dois funcionários do Reichsbank.
Nesta data, o 3º Exército fotografou e interrogou o seu 400.000º prisioneiro de guerra.
Durante a noite recrudesceu o combate na zona de ação do VIII Corpo, quando cerca de 2.000
alemães ficaram comprimidos entre as 89ª e 87ª Divisões de Infantaria. Na mesma ocasião, o XX
Corpo foi atacado no seu flanco norte; repeliu o ataque empregando a 76ª Dl e um GT da 6ª DB.
Na hora do jantar chegou o ajudante-de-ordens do General Giraud trazendo a família do general,
que ele localizara na cidade de Friedrichroda. Alojei-os por aquela noite e enviei-os de avião para
Metz, na manhã seguinte; a viagem aérea era mais rápida e mais segura do que a viagem de carro.
No dia 8 recebemos o senhor McCIoy, acompanhado pelo General Craig89. Ambos participaram da
nossa reunião matinal com o estado-maior. O Secretário mostrou-se extremamente cortês. Estava
ansioso para ir até a linha de frente e observar o combate; por causa da distância que nos separava
da frente e devido ao fato de as estradas andarem infestadas de pequenos grupos de alemães que
alvejavam nossas viaturas isoladas, consegui demovê-lo da visita à frente. No dia 7, o Coronel R. S.
Allen, adjunto do E-2 do 3º Exército, foi gravemente ferido, um homem morreu e três outros foram
aprisionados, de um total de sete militares que ocupavam uma viatura em movimento nas
vizinhanças de Gotha. Discuti com o senhor McCIoy a respeito do bombardeio indiscriminado do
centro das cidades. O Secretário declarou-me que conversara sobre o assunto com Devers e Patch e
que ambos consideravam, como eu, tratar-se de uma forma de guerra inútil e sádica.
O chefe do estado-maior da 90ª Dl difundiu a notícia sobre a captura do ouro, que eu estava
tentando ocultar conforme já declarei. Além do papel-moeda já mencionado, depois de arrebentar a
porta, Eddy encontrou cerca de 4.500 barras de ouro, pesando 15,8 quilos cada, avaliadas em 57,6
milhões de dólares. Em virtude do vulto do material capturado e do fato de haver sido divulgado o
assunto, telefonei imediatamente para o General Bradley esclarecendo julgar que o problema se
tornara mais político do que militar, e solicitando que a 4ª Seção do SHAEF fosse acionada para
tomar conta do caso.
Por iniciativa própria, o senhor McCIoy visitou o Coronel Waters no hospital; acompanhei-o
também na visita às enfermarias e salas de operação. Ouvi dele expressões elogiosas a respeito da
eficiência no funcionamento do hospital. Depois da partida do Secretário regressei ao hospital e
condecorei Waters com a Estrela de Prata e Palma de Folha de Carvalho. Ele não sabia que lhe
haviam sido concedidas as duas condecorações; em termos práticos suas folhas de alteração estavam
há mais de 2 anos sem serem escrituradas, pois tinham sido interrompidas no dia em que ele foi
aprisionado na Tunísia90.
Todos os três corpos que visitei durante a tarde estavam prontos para iniciar a ofensiva limitada
destinada a atingir a linha de controle nº 2091. No caso particular do XX Corpo, expliquei a eles
que, ao atingirem a linha nº 20, se pudessem conquistar Erfurt, um pouco para leste, então
prosseguissem no avanço para conquistá-la através de um desbordamento pelo sul; com isto ficaria
abortada qualquer tentativa de fuga de alemães do alto escalão em direção ao chamado “Reduto” (eu
pessoalmente não acreditava na existência disto). O VIII Corpo, com a 89ª Dl ao norte e 87ª Dl ao
sul, avançou para a linha 20 com ordem para conquistar Arnstadt. O XII Corpo já estava
progredindo em direção à linha de controle, mas eu acreditava que ele se atrasaria pois o seu flanco
direito tinha a missão de conquistar Eisfeld e Coburg.
O objetivo fixado no dia anterior foi atingido no dia 10; deslocamos o quartel-general do exército de
Frankfurt para Hersfeld, viajando pela autoestrada. Quando nos deparamos com as autoestradas pela
primeira vez pensamos que elas tivessem grande valor militar; entretanto, a experiência nos mostrou
que as estradas secundárias eram mais úteis como eixos de progressão, pelo fato de as demolições
poderem destruir facilmente os viadutos das autoestradas sobre as estradas secundárias. Na
realidade, aprisionamos um coronel alemão muito orgulhoso com o seu feito; declarou-nos que
provocara um retardamento de 2 dias no 3º Exército, empregando bombas de aviação de 500 quilos.
Infelizmente, era verdade.
Ao fim de 3 dias em nossa posse, uma autoestrada tornava-se de valor inestimável; neste espaço de
tempo os engenheiros reparavam todos os danos. Aliás, os engenheiros revelaram grande habilidade
nesta tarefa, bem como em outras atividades militares. Como prova do uso que os alemães faziam
da demolição basta dizer que, certa vez, eu e Codman contamos 14 demolições num percurso de 20
quilômetros.
No caminho para o novo Posto de Comando em Hersfeld paramos em Wiesbaden, para almoçar
com Bradley. Parece que o local do novo PC havia sido um local ou de instrução de blindados, ou
de instrução de Intendência. Sua localização era esplêndida e dispunha de cozinha e refeitório
excelentes para as praças; também encontramos alguns galpões, um deles cheio de acessórios para
carroças de tração animal.
Durante a viagem para Hersfeld, encontrei provas de relaxamento no abandono de camburões de
gasolina ao longo da estrada; expedi uma ordem no sentido de que o adjunto do chefe do Serviço de
Intendência do 3º Exército percorresse pessoalmente a estrada, acompanhado por dois caminhões, e
recolhesse todos os camburões encontrados.
Descobri também que quase todos os integrantes do Corpo de Saúde haviam capturado um
automóvel ou uma motocicleta; como consequência, estávamos não só gastando gasolina muito
acima das previsões como atravancando as estradas com veículos que seriam úteis aos civis alemães
na hora de reconstruir o pais. Expedi ordem para a apreensão dos veículos.
Observei ainda o fato da variedade de uniformes usados pelos soldados. Durante o rigor do inverno
houve necessidade e se permitiram certas variações no uniforme; com a aproximação do verão,
expedi ordem no sentido de serem observadas as prescrições do regulamento de uniformes.
Quando cheguei no PC em Hersfeld havia certa confusão por causa do boato sobre o desembarque
de um pequeno grupo de planadoristas alemães com a missão de assassinar-me. Jamais dei crédito a
este boato, mas sempre levei a minha carabina para o meu trailer92 quando me recolhia para dormir.
O General Eisenhower e o General Bradley desceram na pista de aterragem dos aviões de ligação às
9 horas do dia 12 de abril; partimos imediatamente ao encontro do General Eddy e do Coronel
Bernard D. Bernstein93 na mina de sal em Merkes. Encontramo-los acompanhados por diversos
funcionários alemães e descemos no elevador a 600 metros de profundidade. A mina, comumente
chamada de mina de sal, não produzia o sal de cozinha e sim um produto químico muito parecido
com asbesto. Tratava-se de uma instalação enorme, com um total de 580 quilômetros de galerias.
Estas mediam de 9 a 10 metros de largura e de altura.
Além do papel-moeda e das barras de ouro havia também uma grande quantidade de dinheiro
francês, inglês e americano e diversas malas cheias de joias, como cigarreiras, caixas de relógios de
pulso, colheres, garfos, potes e dentes postiços, tudo em ouro e prata. As malas não apresentavam
nenhum selo de identificação, parecendo que os valores guardados haviam sido recolhidos através
de meios escusos. Em tom de brincadeira, o General Eisenhower disse estar triste por não encontrar
uma caixa cheia de diamantes. Nesta mina não encontramos nenhuma pedra preciosa. Examinamos
alguns dos supostos tesouros de arte. Os que vi não valiam mais de dois dólares, na minha opinião, e
eram do tipo dos quadros muito encontrados nos bares americanos.
Saímos da mina a caminho do quartel-general do XII Corpo, em Eisfeld; lá, encontramos com o
General Weyland. Depois do almoço, voamos para o quartel-general do XX Corpo, em Gotha,
hipoteticamente protegidos por aviões que não chegaram a aparecer por haverem se perdido; lá,
encontramos com Middleton e Walker. Por sugestão deste último, viajamos até Ohrdruf e visitamos
o primeiro campo de torturas que vimos em nossa vida. Constituía a cena mais indescritível aquilo
que se desdobrava diante de nossos olhos. O guia confessou ter sido um dos ex-prisioneiros do
campo; em primeiro lugar mostrou-nos o patíbulo onde eram enforcados os homens que tentavam
fugir. O alçapão ficava a cerca de 60 centímetros do solo e a corda utilizada era uma corda musical
de piano, suscetível de um certo grau de distensão; assim, quando o alçapão se abria os dedos dos
pés do enforcado apoiavam-se no chão e a vítima levava quinze minutos em agonia até morrer
sufocada, pois a altura da queda não era suficiente para quebrar-lhe o pescoço. Cabia às duas
próximas vítimas a remoção do morto e a colocação do alçapão no lugar. Alguns alemães presentes
declararam que os generais executados após o atentado a bomba contra a vida de Hitler haviam sido
enforcados da forma acima descrita.
Depois o guia levou-nos até a mesa de açoitamento, cuja altura atingia a virilha de um homem de
estatura média. Com os pés amarrados em estacas fincadas no solo, a vítima era puxada para a
mesa, que tinha um formato ligeiramente curvo, e ficava em decúbito ventral, segura por dois
guardas, enquanto era açoitada nas costas e na altura dos rins. O açoite que diziam ter sido utilizado,
e que apresentava manchas de sangue, era maior do que o cabo de uma picareta. Nosso guia alegou
haver recebido 25 golpes daquele açoite. Mais tarde, descobriu-se que ele fora um dos torturadores,
jamais uma das vítimas. Parece que o General Eisenhower desconfiou disto desde o início, pois
indagou do guia de que modo ele se mantivera tão bem nutrido. No dia seguinte o guia foi
encontrado morto, assassinado por algum dos ex-prisioneiros.
Logo adiante da mesa de açoitamento havia uma pilha de 40 cadáveres, mais ou menos desnudos.
Todos apresentavam ferimento na base do crânio, resultante de disparo de arma de fogo a curta
distância; o chão ainda mostrava poças de sangue congelado.
Em um beliche próximo havia outra pilha de 40 cadáveres completamente nus e descarnados. Os
corpos apresentavam-se ligeiramente cobertos por cal — aparentemente não com a finalidade de
destruí-los, mas sim para diminuir o mau cheiro. A cal é ineficaz como redutora de odores. Pareceu-
me que a capacidade do beliche era de 200 cadáveres. Explicaram-nos que os corpos iam sendo
acumulados até que o beliche ficasse cheio, quando então eram removidos e incinerados. Ex-
prisioneiros declararam que cerca de 3.000 corpos haviam sido removidos do beliche a contar de 1º
de janeiro de 1945.
Em virtude da aproximação das nossas unidades, os alemães iniciaram a remoção das provas de
seus crimes. Para isto, fizeram os prisioneiros exumar os corpos recém-enterrados e construir uma
espécie de grelha gigante, com trilhos de estrada de ferro apoiados em suportes de tijolos. Os corpos
foram empilhados sobre os trilhos, mas a tentativa para incinerá-los fracassou completamente. Na
realidade, não se podia deixar de ter a impressão de um churrasco gigante para antropófagos. O
buraco enorme, onde se construíra a grelha, achava-se parcialmente cheio por uma água esverdeada
e de onde emergiam braços e pernas dos cadáveres.
Muito sabiamente os Generais Walker e Middleton decidiram enviar o maior número possível de
soldados para visitar o local. Daí nasceu a minha idéia de levar os habitantes da região para
visitarem o campo de trabalhos forçados. Apresentei esta sugestão a Walker e descobri que ele já
levara o prefeito da cidade e sua esposa para a visita. O casal suicidou-se na viagem de regresso ao
lar. Posteriormente, fizemos a mesma coisa, levando os habitantes de Weimar a visitarem um
enorme campo de trabalhos forçados (Buchenwald), localizado ao norte daquela cidade.
Dali seguimos para a 80ª Dl, onde o General McBride descreveu a nova técnica que descobrira.
Consistia em disparar um par de granadas cheias de proclamações à população anunciando que a
cidade seria arrasada se não se rendesse no fim de um determinado prazo. Caso a cidade optasse
pela rendição, o prefeito deveria avançar em direção às linhas aliadas, depois de afastar da cidade as
tropas alemãs. Durante o período estipulado na proclamação os caças-bombardeiros do XIX
Comando Aerotático sobrevoavam a cidade; na medida em que o prazo se ia esgotando, o voo
tornava-se cada vez mais rasante. Decorrido o prazo, os aviões recebiam um aviso e descarregavam
as bombas, caso os alemães não houvessem concordado com a rendição. Uma concentração de
Artilharia caía sobre a cidade, sincronizada com o bombardeio aéreo. Como consequência deste
método inúmeras cidades renderam-se sem criar problemas.
Mais tarde, elaboramos um sistema conhecido como “Projeto de Monumentos de Guerra do 3º
Exército”, em cumprimento do qual disparávamos algumas salvas de Artilharia contra cada cidade
ao nosso alcance, mesmo antes de solicitar a sua rendição. A finalidade era permitir que os
habitantes dispusessem de alguma coisa para demonstrar às futuras gerações alemãs que o 3º
Exército passara por ali.
Recolhi-me ao leito já muito tarde; notei, então, que esquecera de dar corda no meu relógio e que o
mesmo parara de funcionar. Liguei o rádio para ouvir a hora certa. Exatamente neste momento o
locutor anunciou o falecimento do Presidente Roosevelt. Informei, imediatamente, os Generais
Eisenhower e Bradley; discutimos sobre o que poderia acontecer. Parecia-nos muito azar ter que
mudar de chefe numa ocasião tão importante da nossa história. Na realidade, os acontecimentos
posteriores demonstraram que nada sofremos com isto.
No dia 13, Bradley pediu-me que deixasse a 65ª Dl em suas posições atuais até o domingo próximo,
a fim de facilitar uma operação desencadeada pelo 1º Exército.
Visitei o Coronel Allen no hospital em que fora encontrado quando conquistamos Weimar. Seu
braço direito fora amputado logo abaixo do cotovelo. Ele forneceu-me alguns dados interessantes. O
cirurgião que o operou ministrou-lhe a última dose de éter que possuía, para anestesiá-lo; a dose foi
insuficiente e, no fim da operação, fizeram-no beber brandy à guisa de anestésico. Allen declarou
que viu pelo menos 80 alemães serem operados sem anestesia, a não ser conhaque; não havia mais
esterilização, nem água ou sabão, e os médicos e enfermeiras andavam praticamente cobertos de
sangue. Muitos homens eram transportados a braço para a sala de operações; havia escassez de
padiolas. O cirurgião que o operou era austríaco e deu informações falsas sobre o estado de saúde de
Allen, durante os poucos dias em que ele permaneceu no hospital, porque os alemães ficaram
ansiosos para interrogá-lo no quartel-general do exército, quando souberam tratar-se de um coronel
americano. Por fim, o cirurgião disse a Allen que o ajudaria a fugir, se a situação piorasse, e o
esconderia nas montanhas até a nossa chegada. Allen era um sujeito muito resistente; o único
pedido que formulou foi para continuar servindo no QG do 3º Exército, no que foi imediatamente
atendido. Até o fim da guerra prestou-nos um excelente serviço.
Graças ao auxílio dos seus blindados, no dia 14 de abril os XX e XII Corpos atingiram a linha de
controle que acompanhava o rio Mulde, desde o nosso limite norte perto de Hochlitz até as
vizinhanças de Zwickau, passava por Plauen e Hof e daí seguia paralela e a leste da autoestrada para
Bayreuth.
O Tenente Graves94 e eu voamos para Mainz a fim de comparecermos, a convite do General
Planck, da Zona de Administração, à inauguração da ponte ferroviária sobre o Reno, construída pelo
meu amigo e antigo colega de turma Coronel Frank Hulen. Encontrei Hulen muito triste por haver
levado 9 dias, 20 horas e 15 minutos para construir a ponte; segundo ele, mais 12 horas do que o
tempo gasto por Cesar para construir uma ponte sobre o Reno. Disse-lhe que Cesar não construíra
uma ponte ferroviária.
Depois da solenidade inicial, solicitaram-me que cortasse uma tira de papel vermelho para inaugurar
a ponte, ao invés da fita vermelha tradicional. Deram-me uma tesoura, mas a minha mania de
grandeza inspirou-me a pedir uma baioneta, com a qual cortei a tira de papel. Em seguida, subimos
em um vagão aberto, ligado ao primeiro trem que atravessou a ponte. Fiquei com medo de que a
ponte caísse, mas com muito mais medo do que costumava sentir em combate. Na volta, Hulen
mostrou-nos o equipamento que fabricara para construir a ponte. Uma das máquinas era um
guindaste enorme, capaz de levantar o vão central da ponte por inteiro; creio que o seu apelido era
“Moby Dick”.
De regresso ao quartel-general, descobri que o General Gay e os Coronéis Codman e
Pfann95 haviam visitado um campo de trabalhos forçados ao norte de Weimar — Buchenwald,
talvez pior do que aquele que visitáramos em Ohrdruf. Telefonei imediatamente para o General
Eisenhower e sugeri-lhe que enviasse fotógrafos e correspondentes de guerra para documentarem os
horrores do campo. Além da imprensa, Eisenhower conseguiu patrocinar também a visita de
parlamentares. Foi neste campo que organizamos a visita de 1.500 habitantes de Weimar, com a
finalidade de proporcionar-lhes uma visão real das barbaridades praticadas por seus governantes.
Acredito honestamente que a maioria deles ignorasse o que se passara dentro dos campos.
Não consegui saber o que ia acontecer depois que chegasse à linha de controle; na opinião do 12º
Grupo de Exércitos eu não disporia de suprimentos que me permitissem prosseguir avançando,
embora eu soubesse perfeitamente que os suprimentos disponíveis possibilitariam a retomada da
progressão.
O escalão superior informou-me que um correspondente de guerra junto ao 3º Exército, chamado
Driscoll96, escrevera um artigo declarando que o 3º Exército fora detido pelo 1º Exército. Parece
que alguém se irritara com o artigo. Uma vez por semana eu concedia entrevista aos
correspondentes; nestas ocasiões, recusava-me a responder a qualquer indagação a respeito dos
outros exércitos ou discutir qualquer aspecto de suas operações; sempre achei que o 3º Exército era
responsável por suas ações e que não precisava desculpar-se com ninguém por causa delas. Chamei
o Major Quirk97 e dei-lhe ordem para que não permitisse a expedição de qualquer matéria
comparando os méritos dos diversos exércitos.
Conforme fora previsto, no dia 15 de abril os três corpos de exército (XII, XX e VIII) achavam-se
praticamente na linha de controle; voei para Weimar e visitei o que imaginava, naquela ocasião,
viria a ser o meu próximo PC. Tratava-se da casa do último gauleiter98 da região, o homem
responsável pelo campo de trabalhos forçados e por toda a sordidez que infestava a área. Na casa, o
General Walker entregou-me um bote de brinquedo, como presente para um dos meus netos; aceitei-
o sem hesitar, pois não tinha dúvida que o objeto fora roubado de alguém por aquele nazista
miserável.
Depois, visitei o campo de trabalhos forçados, Buchenwald, em companhia do General Walker. O
campo situava-se nas vizinhanças de uma fábrica, quase toda dedicada à produção de peças para a
bomba V-1 e viaturas-munição para a Artilharia montada. O local constituía um autêntico
monumento à precisão dos bombardeios da nossa Força Aérea; a fábrica achava-se totalmente
arrasada, mas não caíra uma única bomba no campo de trabalhos forçados.
Além dos escravos que trabalhavam na fábrica, o campo abrigava um grande número de presos
políticos, os quais eram submetidos a uma dieta de 800 calorias por dia; como consequência, morria
uma média de 100 presos por noite. Atravessei dois pavilhões cada um com quatro camadas de
beliches em um dos lados. Os beliches eram perpendiculares ao corredor de passagem e construídos
com uma ligeira inclinação para a frente, de modo que os dejetos dos escravos escorriam por entre
as tábuas, até o chão; quando atravessei o pavilhão, o chão estava coberto por uma camada de
excrementos de 10 centímetros de espessura. Por mais estranho que pareça, o cheiro não era
insuportável; era mais rançoso do que pútrido.
Os escravos pareciam múmias imperceptivelmente vivas e quase privadas de inteligência. Se um
número estipulado de escravos não morresse de inanição ou se, por outros motivos, fosse
conveniente acabar com eles antes que a natureza o fizesse, as vítimas eram lançadas em uma rampa
que terminava em uma sala onde existiam vários ganchos iguais aos de pendurar carne nos
açougues, e que ficavam acerca de 2,5 metros acima do chão. Cada gancho dispunha de uma corda
trançada e com um ilhó de metal em cada extremidade. Um ilhó passava por dentro do outro
formando um laço na corda; o laço era passado em torno do pescoço da vítima, a qual, depois,
ficava pendurada quando o outro ilhó era enfiado no gancho. Assim permanecia o escravo até
morrer sufocado; se a morte tardasse a ocorrer, arrebentavam o crânio da vítima com um porrete
grosso. Este porrete deve ter sido muito utilizado, pois estava até partido em uma das extremidades.
O que havia de mais tenebroso neste campo é que as execuções ficavam a cargo dos próprios
escravos. Um dispositivo regulamentar diabólico obrigava os diferentes grupos a selecionar aqueles
que deveriam morrer. Cada grupo racial era representado por um certo número de homens. A estes
competia escolher os membros do grupo que seriam mortos no local, ou enviados para campos
como o de Ohrdruf, chamados “campos de extermínio”.
Em Buchenwald, a ética profissional de um certo número de médicos — supostamente famosos —
fora tão completamente destruída que eles chegaram a concordar em realizar experiências
criminosas com seus pacientes. Acha-se registrado um caso em que 800 trabalhadores escravos
foram inoculados primeiro com uma vacina antitífica e, depois, com o micróbio do tifo. Do total,
700 pacientes morreram e a experiência foi considerada insatisfatória. O Coronel Odom indagou
desses médicos se poderia fazer alguma coisa por eles. Um respondeu afirmativamente e explicou
que necessitava de pó de carvão, pois realizava uma experiência muito interessante com um cérebro
humano. Parece que o cérebro ainda estava vivo.
Da sala de execuções em Buchenwald saía um elevador, operado manualmente, e que transportava
os cadáveres para um crematório onde existiam 6 incineradores. O cadáver era colocado em uma
padiola, semelhante à utilizada para o carregamento dos obuseiros de 155 mm; ao comando de
“carregar”, a padiola era empurrada de encontro ao batente existente na porta do incinerador e o
cadáver escorregava para a fornalha, onde era rapidamente cremado. O prisioneiro encarregado
desta tarefa esfregou a mão no chão e mostrou-me como era limpo o piso no seu local de trabalho.
Ao regressar ao quartel-general verifiquei que Bradley tentara falar comigo, através do telefone com
misturador; o aparelho estava quebrado e Gay viu-se forçado a dizer a Bradley, em linguagem clara,
que eu o encontraria na manhã seguinte.
Ao voar sobre território alemão a atenção era despertada pelo grande número de piscinas existentes.
Quase todas as cidades, por menores que fossem, dispunham de uma piscina. Creio que isto fazia
parte do programa nacional de higidez.
Também foi interessante observar que, enquanto na França todas as linhas principais de transmissão
de energia elétrica foram completamente destruídas, na Alemanha, e principalmente a leste do Reno,
as linhas não foram destruídas; quando danificadas, a demolição só ocorrera em um ou dois trechos.
No dia 16 de abril voei para Wiesbaden em companhia do Coronel Harkins; lá, encontrei-me com o
General Bradley e, depois, com o General Hodges e seu E-3. Recebemos o novo plano que, na
realidade, implicava na mudança do eixo de progressão para o sul, com a finalidade de atacar o
chamado “Reduto”99. A fim de concretizar tal mudança o VIII Corpo permaneceu na posição em
que se encontrava e foi transferido para o 1º Exército, ao mesmo tempo em que ampliava a frente da
sua zona de ação para o norte e para o sul. Escolhemos o VIII Corpo para efetuar a manobra porque
esta grande unidade poderia executá-la em tempo menor do que o exigido para a colocação de mais
um outro corpo em linha. Para o sul, a ampliação da frente chegou até Hof e para o norte, até o
antigo limite do XX Corpo. Para cumprir a nova missão o VIII Corpo recebeu a 76ª Dl do XX
Corpo, além das 4ª e 6ª Divisões Blindadas.
O QG do XX Corpo, a Artilharia de Corpo de Exército e a 80ª Dl foram retirados da frente e
deslocaram-se para o sul, para a região até então ocupada pelo XV Corpo do 7º Exército; o limite
esquerdo do XX Corpo ficou coincidindo com o limite direito do XII Corpo, o qual cedeu-lhe a 71ª
Dl. Esta divisão deslocou-se mais para a direita e a sua zona de ação acabou sendo ocupada por uma
divisão trazida da retaguarda.
O 3º Exército recebeu o III Corpo, comandado pelo General Van Fleet, além de unidades
provenientes do bolsão do Ruhr. O III Corpo ia ocupar a zona de ação que pertencera ao XXI Corpo
(Major-General F. W. Milburn) do 7º Exército.
Além da 11ª DB, recebemos mais três divisões blindadas: 13ª (Major-General John Millikin), já
experimentada em combate, 16ª (General-de-Brigada J. L. Pierce) e 20ª (Major-General Orlando
Ward), ambas sem experiência de combate. Fiquei satisfeito em receber estas divisões,
principalmente por caber a mim lançá-las em combate, depois de toda a instrução que haviam
recebido, e antes que a guerra acabasse.
O ataque do 3º Exército seria na direção sudeste, paralela à direção da fronteira tcheca; o rio
Danúbio servia como limite entre o XII Corpo, ao norte, e o XX Corpo, no centro do dispositivo. O
7º Exército atacaria direto para o sul, enquanto os 1º e 9º Exércitos permaneceriam na defensiva.
Na viagem de regresso sobrevoamos o quartel-general de von Rundstedt em Ziegenburg, 16
quilômetros a oeste de Bad Nauheim, e que fora bombardeado pelos nossos caças-bombardeiros
pouco antes de atravessarmos o Reno. Os danos provocados pelos bombardeios foram
consideráveis. Jamais deixei de admirar a eficácia dos caças-bombardeiros, principalmente a
capacidade de descobrir e destruir viaturas motorizadas isoladas.
Reunimos os quatro comandantes de corpos e explicamos a nova situação. Todos eles confiam em
suas respectivas capacidades de mudar de posição, alterar a direção do eixo de atuação e executar o
que lhes fosse determinado. O General Weyland, que sempre estava presente quando se tomava
qualquer decisão no 3º Exército, também confiava na sua capacidade de proporcionar apoio a
qualquer atividade em que nos engajássemos. Middleton, como sempre um soldado perfeito, sugeriu
que lhe fosse autorizado estabelecer contato com o General Hodges, a fim de averiguar que posição
ele consideraria mais conveniente para ser ocupada e em que ocasião seriam mais oportunas as
transferências de grandes unidades de um para outro exército. No almoço que se seguiu à reunião,
sentei-me ao lado de Eddy e fiquei um tanto alarmado com a sua apatia aparente, já que ele sempre
fora um tipo alegre e falador.
Já no fim da tarde eu, o General Williams, o Coronel Codman, o Coronel Odom e o Tenente Graves
voamos para Paris; fui ao hospital e conversei longamente com o Coronel Waters, cujo estado geral
de saúde melhorara muito. Voltei a visitá-lo na manhã do dia 18, antes do voo de regresso.
Naquela manhã, durante o café, eu e o General Hughes líamos o The Stars and Stripes cada um com
o seu exemplar. Eu lia a coluna da direita, que relatava as atividades do 3º Exército, quando Hughes
estendeu o braço e apontou para a coluna do centro, onde estava a notícia de que eu acabara de ser
promovido a general “full”. É claro que fiquei satisfeito com a promoção, mas a satisfação não foi
total porque o meu nome não constava no grupo de nomes que compunham o primeiro parágrafo da
notícia; meu nome achava-se entre os que se seguiam à expressão “também foram promovidos”. Ao
ouvir a notícia pelo rádio o Sargento Mecks veio ao meu quarto e disse: “Por Deus, General, estão
tirando de combate todos os combatentes”. Codman conseguiu-me o último par de insígnias com
quatro estrelas existente em Paris; enviei o meu par de três estrelas ao General Keyes, promovido a
Tenente-General na mesma data que eu.
No dia 19, recebemos alguns comentaristas de rádio e uns especialistas do gabinete do Secretário da
Guerra. Estes últimos foram muito interessantes.
O General Canine, chefe do estado-maior do XII Corpo, telefonou com a triste notícia de que o
General Eddy se achava em condições físicas tão ruins que seria melhor afastá-lo do comando e
enviá-lo para os Estados Unidos. Eddy era um excelente comandante de corpo; desgostava-me
deixá-lo partir. Além disto, era meu subordinado quase que desde o desembarque na África; era
provavelmente o general comandante de grande unidade combatente com mais tempo de função do
que qualquer outro general. Eu não podia vê-lo naquele dia porque o General Bradley convocara-me
para uma conferência com o General Eisenhower em Wiesbaden. Por isto ordenei a Canine que
continuasse a orientar o corpo em nome do General Eddy; eu obteria um outro comandante durante
o encontro com Bradley e Eisenhower.

No encontro, sugeri os nomes de Gaffey, Harmon e Irwin100. Decidiu-se que nem Gaffey, nem
Harmon poderiam ser afastados das funções que exerciam na ocasião; a escolha ficou entre Irwin, o
meu candidato, e Wyche, sugerido pelo General Eisenhower. Acho que Eisenhower sugeriu Wyche
não só porque ele era mais antigo, como também porque Irwin era colega de turma e Eisenhower
sempre resistia às sugestões para a promoção de seus colegas de turma. No fim, consegui garantir a
escolha de Irwin baseado no argumento da maior experiência em combate; além de combater
durante todo o período de operações na Europa, ele participara da campanha da Tunísia.
O General Eisenhower confessou-me ansioso para que iniciássemos a progressão na direção de Linz
o mais breve possível; todavia, em virtude do fracasso inglês em realizar um avanço suficiente, o
comandante-chefe via-se forçado a enviar um corpo de exército em reforço aos britânicos.
Eisenhower declarou mais que não desejava ficar com a linha de frente excessivamente estendida
enquanto não se definisse a situação no norte; portanto, cabia-me ficar em condições de avançar,
mas só executar esta ação depois de receber a devida autorização.
No dia 20, enviamos um avião C-47, do Exército, ao quartel-general de Eddy, com a finalidade de
transportá-lo até Paris; fui dizer-lhe adeus, usando um avião Cub como meio de transporte. O
problema de Eddy era hipertensão arterial, mas tão elevada que se considerava o caso como
praticamente fatal101.
Depois de presenciar a partida de Eddy, com grande pesar, voei para o QG do XX Corpo, em
Schloss Weissenstein. Localizava-se o mesmo no edifício mais suntuoso e mais horrendo que eu já
vira na vida. A construção datava de 1700 e era inundada por murais e enormes estátuas de gesso de
mulheres gordas. É verdade que possuía também uma coleção de quadros magníficos. Em uma sala,
os tacos do assoalho eram incrustados de prata. Em uma outra, o chão era de esmalte dourado. O
General Walker tinha uma capacidade extraordinária para escolher postos de comando excelentes. O
estábulo deste castelo foi construído em semicírculo, exatamente em frente da entrada principal. A
sala de arreios, onde as pessoas se reuniam antes de cavalgar, possuía belos murais e era mais
luxuosa e melhor mobiliada do que muitas salas de visita em residências de alta categoria. Além
disto, os estábulos eram bem modernos e estavam em excelente estado de conservação. No total,
havia cerca de 20 baias. Parece que a família Weissenstein foi uma família de caçadores.
Dali voamos para o QG do III Corpo em Reidfeld. Pouco antes de chegarmos lá observei um objeto
aproximando-se pelo lado direito do nosso avião, que mergulhou para o chão exatamente naquele
momento, quase chocando-se com um avião parecido com um Spitfire. Este avião executou uma
segunda passagem, mais uma vez atirando e errando o alvo. A partir daí tive certeza de que
estávamos sendo atacados; como não podia fazer nada, resolvi tentar tirar umas fotografias do
atacante, mas estava tão nervoso que esqueci de tirar o protetor da lente da máquina e o filme saiu
todo preto. Na terceira passagem, o atacante avançou com tanta velocidade e estávamos tão
próximos do solo que o piloto não conseguiu recuperar-se do mergulho; para nossa alegria, o
aparelho espatifou-se no chão. Enquanto Codman e eu nos preocupávamos em voar na mais baixa
altitude possível, quatro outros aviões voavam em círculo acima de nós, sem se engajarem na luta.
O XV Corpo do 7º Exército, que se deslocara da sua zona de ação para a do XXI Corpo do mesmo
exército, estava enfrentando uma dificuldade enorme para desengajar-se da parte da frente atribuída
ao nosso III Corpo, que já cerrara sobre a frente. Determinei ao III Corpo que se infiltrasse através
do XV a fim de ocupar a linha de partida em condições de desencadear o ataque no domingo, dia
23.
Veio passar a noite conosco o General Millikin, que comandara o III Corpo e comandava, agora, a
13ª DB. Seu estado de espírito era excelente; prometi-lhe dirigir a palavra à sua divisão na primeira
oportunidade que aparecesse.
A região entre Nuremberg e Hersfeld era uma das mais bonitas dentre as que sobrevoei. Avistamos
diversas fazendas, sem dúvida de criação de cavalos, pois dispunham de pistas de treinamento atrás
dos estábulos.
No quartel-general do XX Corpo, presenteei o General Walker com os meus distintivos de três
estrelas, pois ele havia sido promovido na mesma data em que eu.
No dia 21, o 3º Exército perdeu o seu chefe do Serviço de Saúde, General-de-Brigada Thomas D.
Hurley, e quase perdeu o chefe do Serviço de Material Bélico, Coronel Nixon, por causa de
problemas estomacais. Huley teve que ser recambiado para os Estados Unidos e Nixon foi operado
no local, mas provavelmente teria morrido se não houvesse sido visitado pelo Coronel Odom, o qual
comunicou o precário estado de saúde em que encontrara Nixon.
Assim terminou a campanha do Reno, que nos custou 17.961 baixas.

Perdas relacionadas até o dia 21 de abril


8. TRANSPONDO O DANÚBIO E PENETRANDO NA
TCHECO-ESLOVÁQUIA E ÁUSTRIA

22 de abril a 9 de maio de 1945


A data de 22 de abril assinalou o princípio do fim. Em 8 de novembro de 1942, o General Patton
desembarcara as primeiras unidades americanas na África; em 9 de maio de 1945, o seu 3º Exército
concluiu a luta na Europa.
Durante três anos de operações bem sucedidas, Patton comandou as tropas americanas contra o
inimigo. Em nenhum momento expediu uma ordem de operações defensivas. Sua teoria — atacar,
atacar, atacar e, em caso de dúvida, atacar outra vez — encurtou a guerra, jamais concedendo ao
inimigo a oportunidade de se organizar, ou reorganizar, o suficiente para desfechar contra ele um
ataque concatenado.
O fim das hostilidades e a linha limite do avanço, imposta pelo escalão superior, deteve o 3º
Exército no dia 9 de maio. Mais do que qualquer outro exército na história americana, coube ao 3º
Exército realizar a progressão mais extensa, fazer o maior número de prisioneiros, transpor mais
rios, libertar maior área de território amigo e conquistar maior superfície de solo inimigo.
No final da campanha, o 3º Exército desviou o seu eixo de progressão para sudeste, limpou a
Baviera, varreu o “Reduto”, penetrou na Tchecoslováquia, atravessou os Alpes e estabeleceu
contato com os russos na Áustria, a leste de Linz.
No norte, ingleses e americanos estabeleceram contato com os russos no rio Elba e em Berlim. O 7º
Exército americano e o 1º Exército francês limparam os Alpes em suas respectivas zonas de ação e
estabeleceram contato com o 5º Exército americano na Itália.’
No Pacífico, os ingleses conquistaram Rangum e todos os esforços se concentraram no
estabelecimento de bases para uma invasão do Japão propriamente dito.
Em todos os teatros de operações as forças aéreas e a Marinha bombardearam o inimigo.
P. D. H.

A SÍNTESE FINAL

Por volta de 22 de abril, eu não tinha mais dúvida que o fim da guerra estava bem próximo, mas
ainda existiam aqueles que insistiam na hipótese de uma grande concentração alemã no sul, no
chamado “Reduto”.
Deslocamos o nosso Posto de Comando de Hersfeld para Erlangen. Choveu durante a viagem que
fiz em companhia de Codman; nevou um pouco quando atravessamos as montanhas, numa altitude
de 1.200 metros. As condições de trânsito entre Bamberg e Erlangen estavam péssimas, porque
todas as pontes só davam passagem para uma viatura de cada vez; nenhum oficial, exceto eu e o
General Maddox, teve iniciativa suficiente para sair da viatura e colocar em ordem a confusão que
se formara.
Erlangen é uma cidade universitária, construída na época da perseguição aos huguenotes. Fiquei
surpreso ao descobrir que os telhados de lados verticais datavam daquele período; sempre pensei
que datavam de 1870.
A 11ª DB e as 71ª e 65ª Divisões de Infantaria atuaram muito bem. Combinei com o General
Bradley não só manter a 70ª Dl em missão de ocupação, nas vizinhanças, de Frankfurt, como
também aumentar o seu efetivo com os recompletamentos que não estavam sendo utilizados, por
causa do nosso baixo índice de perdas. Na realidade, durante certo tempo, esta divisão ficou com o
efetivo equivalente ao de uma divisão e meia.
No dia 23, visitei os quartéis-generais dos XII e XX Corpos. Desfrutava-se de uma paisagem linda
na viagem pela auto- estrada de Erlangen até Bayreuth, onde se localizava o QG do XII Corpo; a
mesma paisagem repetia-se de Bayreuth até Bamberg, embora a estrada, do ponto de vista militar,
fosse mais sinuosa e difícil.
Quando regressei ao meu QG recebi um telefonema do General Patch solicitando-me a troca da 14ª
pela 20ª DB. A primeira ainda estava combatendo nas vizinhanças de Munique, e na zona de ação
do III Corpo, enquanto a 20ª encontrava-se nas vizinhanças de Würzburg e poderia ser colocada
mais facilmente na zona de ação do 7º Exército. Concordei imediatamente.
Conforme prometera, falei para oficiais e praças da 13ª DB, de Millikin, no dia 24.
Às 4 horas da manhã de 23, o 3º Regimento de Reconhecimento atingiu o Danúbio, nas
proximidades de Regensburg. Graças à incomparável liderança de Van Fleet, o III Corpo começou a
progredir rapidamente; era engraçado verificar como, de repente, a 14ª DB conseguira pôr em fuga a
17ª Divisão SS Panzer Grenadier (comandada pelo SS Oberführer Bochmann) pois, antes da
chegada de Van Fleet, levara muito tempo lutando contra esta divisão SS sem conseguir nenhum
sucesso.
O 25 de abril foi um dia muito interessante. Ficamos sabendo que os 5.000 soldados inimigos que
haviam estabelecido contato com a 26ª DI na tarde do dia anterior, e manifestado o desejo de depor
as armas, eram russos brancos, que lutavam do lado dos alemães contra os soviéticos. Daí surgiu a
dúvida se deveriam ser considerados como prisioneiros de guerra ou aliados. Afinal, decidimos que
eram prisioneiros de guerra e os tratamos como tal. Na minha opinião, a situação deles é crítica; não
tenho dúvida de que serão fuzilados se caírem na mão dos russos.
O XIX Comando Aerotático informou sobre a existência de grande quantidade de tropas, de
nacionalidade ignorada, deslocando-se por ambas as margens e em direção às nascentes do
Danúbio; havia um certo número de blindados misturados com grande quantidade de viaturas
hipomóveis e canhões. Não podíamos saber se se tratava de uma força soviética, ou se de alemães
fugindo do avanço russo, mas imaginamos que resolveríamos a dúvida se nos lançássemos para a
frente com decisão.
Ao meio-dia, Bradley telefonou sugerindo que o 1º Exército ampliasse a sua zona de ação para o
sul, incluindo nela o traçado da fronteira tcheca até um ponto próximo da junção desta fronteira com
a da Áustria; esta ampliação seria executada através da entrada em linha dos corpos de exército
liberados, na medida em que se tranquilizava a situação no norte. A proposta atendia aos nossos
interesses, uma vez que estávamos com um extenso flanco aberto ao longo da fronteira.
A 14ª DB atingiu o rio Altmuhl em posição central no setor do III Corpo, enquanto o regimento-
vanguarda da 86ª Dl, do mesmo corpo, chegou ao rio no limite direito do setor, em Eichstatt. Van
Fleet garantiu-me que atravessaria aquele rio e chegaria ao Danúbio naquela noite. Tratava-se de um
homem decidido e de um grande soldado.
O reconhecimento aéreo vinha nos fornecendo informes sobre o deslocamento de tropas pelo vale
do Danúbio, por ambas as margens do rio; como a 11ª DB havia transposto o rio Naade e progredido
8 quilômetros para sudeste, achamos que a divisão seria a primeira a encontrar as tropas
mencionadas nos informes. Os grupamentos táticos “A” (comandado pelo General-de-Brigada W.
A. Holbrook) e “B” (comandado pelo Coronel W. W. Vale) achavam-se, então, a 10 quilômetros ao
sul de Regensburg; ali, haviam travado um combate violento, mas, após a ruptura da linha inimiga,
o restante da progressão não passara de uma simples marcha motorizada.
Nos dois dias anteriores, as perdas em combate do 3º Exército não ultrapassaram de cem por dia; as
perdas fora de combate foram igualmente reduzidas.
Para se ter uma idéia de como a luta se tornara pouco dispendiosa, convém lembrar que naquela
ocasião o 3º Exército dispunha de 14 divisões em combate, além das unidades orgânicas de corpo de
exército e de exército. Para se ter uma avaliação aproximada do efetivo, basta multiplicar o número
de divisões por 30.000; o resultado incluirá o efetivo das unidades orgânicas de divisão, corpo de
exército e exército.
No dia 26, em Schwabach, condecorei Van Fleet com a Medalha de Serviços Relevantes,
inspecionei a 90ª Dl e a 14ª DB. Nem eu, nem Van Fleet, ficamos satisfeitos com o que vimos no
comando destas duas grandes unidades.
A 86ª Dl, do III Corpo, atingiu Ingolstadt e já lutava nas orlas da cidade.
De regresso ao QG verifiquei que as 65ª e 71ª Divisões de Infantaria, do XX Corpo, haviam
atravessado o Danúbio, uma a leste e a outra a oeste de Regensburg. Enfrentavam uma resistência
moderada por parte de tropas inimigas que não dispunham de apoio de Artilharia; por isto, as duas
divisões progrediam com rapidez.
No setor do XII Corpo, a 11ª DB achava-se a 10 quilômetros da fronteira da Áustria. Um batalhão
da 90ª Dl convergia sobre Cham, com a finalidade de cobrir a passagem por esta cidade na
retaguarda da 11ª DB; recebemos alguns informes revelando que a 11ª Divisão Panzer estaria
prestes a atacara cidade.
Um oficial alemão entrou em contato com a 26ª DI e comunicou ao General Paul a existência de
cinco barcaças ancoradas no Danúbio e que, se bombardeadas por nós, poderiam causar a morte de
todos os seres humanos num raio de 30 quilômetros. Paul ordenou-lhe que colocasse uma guarda
em torno das barcaças e aguardasse a nossa chegada. Em seguida, alertou a Força Aérea para que
não efetuasse bombardeio indiscriminado contra barcaças no rio. Na verdade, as barcaças
transportavam gás venenoso.
Isto me faz lembrar uma história recém-contada por um prisioneiro alemão. Parece que cerca de 200
integrantes das SS, todos ex-membros da Juventude Hitlerista, frequentaram um curso especial
sobre navegação aérea e bombardeio. Em seguida, explicaram a eles que lhes caberia lançar um
novo tipo de bomba que produzia uma poeira de chumbo, — o que interpretamos como sendo
referência à bomba atômica — com a finalidade de destruir a vida humana na Alemanha. Ao
tomarem conhecimento deste plano magnífico 80 rapazes recusaram-se a participar dele e foram
eliminados — pelo menos foi o que revelaram aos restantes. Os demais integrantes do grupo foram
conduzidos a um ponto elevado para assistirem a uma experiência. Um avião sobrevoou a região,
em baixa altura, e lançou a bomba, que produziu algo que os assistentes julgaram parecido com
ondas de ar. Depois, com os olhos vendados, os rapazes viajaram de caminhão durante uma hora;
pararam, apearam, retiraram a venda dos olhos e receberam ordem para examinar o terreno onde se
encontravam. O local estivera coberto pela neve, mas acontecera algo que derretera a neve,
pulverizara as pedras pequenas, partira as grandes e arrancara todas as árvores. Entretanto, o fato
estranho é que o fenômeno não danificara nada situado do outro lado da colina. O mesmo
prisioneiro declarou que existia, nas proximidades de Salzburg, um hangar subterrâneo com 180
aviões, cada um com uma bomba do novo tipo.
A história continha dois pontos discutíveis. Por exemplo, o General Doolittle chamou a atenção para
o fato de que um avião jamais voaria a baixa altura para lançar uma bomba deste tipo. Em segundo
lugar, o prisioneiro parecia demasiadamente inteligente. Posteriormente, quando ocupamos
Salzburg, não conseguimos encontrar o menor indício do hangar, nem dos 180 aviões.
Naquela data visitei, pela primeira vez, o centro da cidade de Nuremberg; a cena era lamentável. A
velha cidade murada, que fora tão bonita, achava-se completamente destruída — creio que mais
destruída do que qualquer outra destruição que eu haja visto antes. A culpa não cabia inteiramente à
Força Aérea, porque o XV Corpo, do 7º Exército, fora obrigado a empregar toda a sua Artilharia
para convencer os alemães a abandonarem a cidade.
No dia 27 eu e Codman voamos para Pittersberg, onde se achava o QG do XX Corpo, e realizamos
a solenidade de colocação do distintivo de três estrelas na farda do General Walker. Ele relutara em
usar o novo distintivo do posto até tomar conhecimento da sua confirmação pelo Senado. Brinquei
com Walker, dizendo que ele deveria ter algum peso na consciência. Eu, pessoalmente, sempre
coloquei o distintivo do novo posto tão logo recebia a notícia de que o Presidente assinara a
promoção e a encaminhara ao Senado.
Dirigi-me a um local a leste de Regensburg, em companhia de Walker, e atravessamos o Danúbio
em uma passadeira. O rio não me causou nenhuma impressão especial. Perto da passadeira vi
diversas barcaças carregadas com partes de um submarino destruído.
Voei até o QG do XII Corpo e conversei com o General Irwin. A 11ª DB atravessara a fronteira da
Áustria e as 90ª e 26ª Divisões de Infantaria aproximavam-se dela. Irwin ainda estava um tanto
preocupado com o seu flanco aberto, hão completamente coberto enquanto não chegasse o V
Corpo102, do 1º Exército, de acordo com o que ficara acertado com o General Bradley. Autorizei
Irwin a deter a 11ª DB durante dois dias, para fins de manutenção; a divisão só estivera fora de
combate durante 4 dos últimos 30 dias.
No III Corpo, as 86ª e 99ª Divisões de Infantaria já haviam atravessado o Danúbio, e a 14ª DB
estava transpondo o rio.
Era evidente que se realizava uma verdadeira corrida entre os III e XX Corpos, ambos comandados
por oficiais eficientes e impetuosos.
O XII Corpo não podia participar da corrida porque as estradas da sua zona de ação eram tão ruins
que só permitiam a progressão em coluna de divisões, e, assim mesmo, com grande dificuldade.

Recebemos, outra vez, a 5ª Dl sob o comando do General “Burfey” Brown103. Prometemos que a
5ª Dl iria para a linha de frente, substituindo a 97ª Dl, que não tinha experiência de combate.
Vieram para o almoço os Generais Spaatz, Doolittle e Vandenberg; mandei formar uma guarda de
honra para Spaatz e Vandenberg, pois ambos ainda não haviam recebido tal homenagem, após a
última promoção.
A BBC, de Londres, noticiou que Himmler encaminhara uma proposta de rendição incondicional
aos Estados Unidos e Inglaterra, mas recebera a resposta de que nada poderia ser resolvido sem que
a União Soviética recebesse proposta idêntica.
No dia 29, o Tenente Graves e eu voamos para Viechtach, 25 quilômetros a sudeste de Cham, mas
não conseguimos aterrar; tivemos que regressar a Cham e seguir de automóvel para Viechtach, onde
localizava-se o QG do XII Corpo. O corpo progredia para Linz; sugeri um desvio para a direita, para
conquistar, ou ameaçar conquistar, Passau, com a finalidade de capturar as pontes sobre os rios Inn e
Danúbio, que confluíam naquela cidade, ou forçar os alemães a dinamitar tais pontes. Qualquer das
duas soluções nos era favorável, pois o objetivo de dominar as pontes era impedir que os alemães
deslocassem unidades para a margem sul do Danúbio para, depois, encaminhá-las para a região do
“Reduto”.
Em seguida voamos para o XX Corpo em Regensburg, onde encontramos o General Walker alojado
no palácio do Príncipe Thurn und Taxis. Tratava-se de um prédio enorme, ocupando os quatro lados
de uma praça da cidade e englobando um teatro, uma biblioteca, um arsenal e três igrejas, isto sem
mencionar o parque e um local reservado para piquenique. Posteriormente, eu próprio ocupei o
palácio; logo, não posso criticar Walker pela escolha feita. Aliás, tal escolha foi uma prova de bom
gosto. Os príncipes Thurn und Taxis tinham o monopólio do serviço postal na Baviera, há 300 anos,
e foram os inventores do selo postal. Como consequência, a família é riquíssima.
O total de prisioneiros feitos no dia 29 atingiu 28.000 homens.
O mês terminou sem grandes alterações na situação do 3º Exército, com exceção da 26ª DI, que já
estava quase em Passau, e da 11ª DB, aproximando-se de Linz. Por intermédio do General Bradley,
trocamos a 16ª DB, sem experiência de combate, pela 4ª DB. A idéia era empregar a 4ª DB e a 5ª Dl
num ataque para sudoeste, pelo vale do rio Traun, contra Salzburg, combinado com o ataque para
noroeste executado pelos XX e III Corpos. Nesta fase da guerra o terreno era mais importante do
que o inimigo e a estrada de Linz para Salzburg era melhor do que as estradas que vinham sendo
utilizadas pelos corpos. Se conseguíssemos conquistar Passau, em tempo, a 4ª DB e a 5ª Dl
poderiam avançar a partir dali porque, além da estrada já mencionada de Linz para Salzburg,
também havia uma outra partindo de Passau, pela margem sul do rio Inn, e que poderia ser utilizada
caso conquistássemos as pontes existentes naquela cidade. Assim, na realidade, o plano
proporcionava duas cordas para o meu arco.
Fomos informados de que, no dia 29, o XIX Comando Aerotático conseguira excelente resultado
num ataque contra uma concentração de blindados ao norte de Cham; mais tarde, verificamos tratar-
se de elementos da 11ª Divisão Panzer.
Como prova de que todos achavam que a guerra chegara ao fim, recebi ordem para gravar um
discurso de dois minutos de duração, para ser transmitido no dia da vitória na Europa.
No dia 1º de maio, eu, o General Lee e seu ajudante-de-ordens, Major H. D. Rothrock, e o Coronel
Codman decolamos em aviões Cub do aeroporto de Nuremberg para o QG do III Corpo, em
Mainburg. Dali viajamos até o rio Isar, que estava sendo transposto pela 86ª Dl em Freising;
seguimos rio abaixo, para Moosberg. No meio da viagem encontramos a 14ª DB realizando a
transposição do curso de água; observei que todos os carros de combate estavam cobertos por sacos
de areia. Nunca vi coisa tão idiota. Em primeiro lugar, levava os soldados a pensarem que os carros
de combate podem ser danificados; em segundo lugar, sobrecarregava os motores; em terceiro lugar,
não proporcionava nenhuma proteção adicional. Ordenei a imediata remoção dos sacos de areia.
Enquanto ainda me achava junto à ponte, apareceu um funcionário da Cruz Vermelha Internacional,
acompanhado por uma moça que se dizia sua esposa, e um grupo de ingleses embriagados; tentaram
atravessar o rio junto com os soldados, mas não obtiveram autorização.
Dirigimo-nos para o campo de prisioneiros de guerra aliados em Moosberg, onde cerca de 30.000
prisioneiros, na maioria oficiais, ainda aguardavam repatriamento por via aérea. O chefe dos
prisioneiros era um coronel-aviador da RAF, com quem eu jantara em Londres, em 1942. O
subchefe era o Coronel P. R. Goode, do Exército dos Estados Unidos, cujo precário estado de saúde
durante o deslocamento da Polônia para o sul da Alemanha impedira o Coronel Waters de tentar a
fuga. Waters achou que se abandonasse Goode, este provavelmente morreria. Ninguém sabia que eu
estava chegando; os aplausos que recebi foram espontâneos, Havia muita disciplina entre os
prisioneiros e todos estavam limpos.
Visitei diversos alojamentos e dependências onde se cozinhavam alimentos; encontrei aí inúmeros
fogões improvisados, alguns deles concebidos e construídos por membros da Força Aérea do
Exército dos Estados Unidos. Baseavam-se no princípio das forjas dos ferreiros e queimavam
praticamente qualquer coisa, mas produziam a fumaça mais densa e malcheirosa que já vi. Estes
fogões serviam para preparar os alimentos fartos e selecionados que a Cruz Vermelha
Americana104 fornecia. Durante os últimos meses em Moosberg os prisioneiros alimentaram-se
exclusivamente com os fornecimentos da Cruz Vermelha, pois os alemães deixaram de entregar os
suprimentos de que eles próprios já não dispunham. É de justiça declarar que os alemães não se
apropriaram da mercadoria entregue pela Cruz Vermelha.
Dali seguimos para Landshut, onde a 90ª Dl atravessava o rio Isar. Foi em Landshut, no castelo
situado na margem sul do rio, que o Coronel Codman esteve preso na Primeira Guerra Mundial, e
de onde conseguiu fugir. Tirei uma fotografia do castelo e outra de Charley, com o castelo no fundo.
Durante a viagem passamos por uma fábrica de doces onde, no dia anterior, o General Van Fleet
presenciara o saque praticado por uma multidão de alemães. Se não fosse a intervenção pessoal do
General Van Fleet e seu motorista, provavelmente o valioso estoque de açúcar, chocolate e farinha
da fábrica teria sido totalmente destruído. Ainda assim, caminhei por corredores cujo piso estava
coberto de açúcar e chocolate. Parece que a oportunidade de conseguir artigos rigorosamente
racionados transtornou a cabeça dos alemães sempre disciplinados.
Quando voltei ao QG, descobri que se estava articulando um movimento destinado a atribuir ao 7º
Exército a limpeza do “Reduto”. Lembrei-me de que poderia abortar o movimento no nascedouro se
conseguisse conquistar um local de travessia no rio Inn, em Wasserburg, de modo a reter o controle
da estrada de Wassrburg para Altenmarkt e Salzburg.
Telefonei para Van Fleet e pedi-lhe que fizesse o impossível mas conquistasse as pontes em
Wasserburg, além de realizar a travessia do Inn com outras unidades e dentro da sua zona de ação.
Ele organizou uma força-tarefa e conquistou as pontes em Wasserburg antes do amanhecer; foi uma
das operações mais rápidas e ousadas de toda a guerra.
Íamos deslocar o nosso Posto de Comando de Erlangen para Regensburg ou Ratisbona no dia 2 de
maio. Esta última localidade era famosa pela batalha travada por Napoleão e na qual se inspirara o
poema que começa assim: “Como você sabe, nós, os franceses, conquistamos Ratisbona; acerca de
dois quilômetros de distância, sobre uma pequena elevação, lá estava Napoleão”, etc. Parece que
naquela época os comandantes de exército não se aproximavam tanto da frente de combate como
agora.
Não pude me afastar do PC até às 13 horas, pois tive que esperar pelo General Bradley para saber se
prosseguiríamos no ataque contra o “Reduto”, ou passaríamos a missão para o 7º Exército. Às
13h30min Bradley deu-me um novo limite que resolvia a questão: a missão ficou para o 7º Exército.
O limite era o seguinte: o antigo limite do 3º Exército e do III Corpo a noroeste de Freising; daí, na
direção geral de leste até Muhldorf, depois pelo rio Inn até a confluência deste com o Salzach; daí
seguia até Strasswalchen e, depois, numa direção paralela ao rio Enns até a confluência deste com o
Danúbio em Mauthausen, dez quilômetros a leste de Linz. Os russos encontravam-se na outra
margem do Enns. Ao norte do Danúbio, o limite provisório entre os americanos e os russos era o
leito da estrada de ferro que corria para o norte, a partir da confluência do Enns com o Danúbio. A
consequência deste limite era espremer o III Corpo e estabelecer uma linha de limite de progressão
para o 3º Exército.
Como a minha esperança não conhecia limites, ordenei ao III Corpo que parasse em Wasserburg e
conquistasse qualquer ponte que encontrasse intata sobre o rio Inn.
O 7º Exército pediu-nos que recebêssemos a 4ª Dl (Major-General H. W. Blakeley) por troca com a
nossa 86ª Dl em Wasserburg. Como não havia outra solução, concordei. Todavia, conseguimos
recuperar o 23º Esquadrão de Reconhecimento (comandado pelo Tenente-Coronel R. C. Adkinson),
da 16ª DB, que reforçava a 86ª Dl; da mesma forma, recuperamos duas companhias da 14ª DB que
atuavam junto com a 86ª Dl.
Telefonei para o III Corpo e comuniquei as alterações que se processariam, mas disse-lhe que
continuasse a progredir dentro da zona de ação reduzida que lhe restara.
A minha idéia era deixar que o XII Corpo utilizasse o local de travessia conquistado em Passau pela
65ª Dl do XX Corpo, a fim de avançar rapidamente sobre Linz, pela estrada Scharding-Linz. O
General Gay e o General Maddox convenceram-me do contrário, porque haviam avaliado, melhor
do que eu, a fraca resistência existente na frente do XX Corpo. Acredito que eles também hajam
percebido, naquela ocasião, a possibilidade de avançar para nordeste com o XII Corpo. Toda vez
que o 3º Exército mudava a localização do seu Posto de Comando, no curso de uma operação,
ocorria uma estranha coincidência: ou recebíamos ordem para alterar a direção do eixo de
progressão, ou mudavam a nossa missão.
Ouvimos no rádio, no dia 3 de maio, a notícia da rendição incondicional das tropas alemãs na Itália.
A 65ª Dl, do XX Corpo, e a 11ª DB, do XII Corpo, atravessaram os rios que as haviam detido e
avançaram rapidamente para Linz. Decidi enviar a 4ª Dl para Nuremberg, para proteger a linha de
comunicação, e dar ao III Corpo uma divisão do XII ou XX Corpo, caso se empreendesse uma
operação na Tcheco- Eslováquia.
Em seguida visitei o QG do XX Corpo, localizado em uma casa de campo muito bonita e onde
existia uma magnífica coleção de armas de fogo antigas. Parece que os ancestrais do proprietário
foram coronéis, donos de um regimento de Infantaria.
Na viagem de volta ao QG do 3º Exército passamos por uma grande quantidade de húngaros, que
pareciam muito bem alimentados e marchavam conduzidos por um soldado americano para cada
1.000 prisioneiros.
Quase fomos mortos por um carro de bois que surgiu, inopinadamente, de uma rua secundária; a
lança do carro não nos atingiu por poucos centímetros. O soldado americano é absolutamente
incapaz de obrigar os civis a se manterem fora das estradas no curso das operações. O bom coração
dos americanos realmente é uma virtude, mas tenho certeza de que sofremos muitas perdas por
causa desta virtude. O tempo é vital durante a guerra e os carros de bois provocam perda de tempo
e, portanto, mortes.
Se eu tivesse que combater em outra guerra, faria cumprir rigorosamente a proibição de trânsito de
viatura civil em estradas principais, fosse ela tracionada por cavalo, boi ou motor; esta proibição
seria imposta através da matança dos animais ou da destruição dos veículos motorizados. Fiz isto na
Sicília e fui criticado por um jornalista ignorante, que achou muita brutalidade empurrar algumas
mulas para fora das pontes, mas esqueceu que foi por isto que conseguimos conquistar Palermo em
um dia e com poucas baixas. Durante a campanha do Sarre, e através da cooperação das autoridades
locais, conservamos todas as estradas principais desimpedidas e exclusivamente para nosso uso,
inclusive até as ruas de Nancy.
No dia 4 de maio, a 11ª DB ultrapassou a linha norte-sul em Linz e estava prestes a encontrar-se
com os russos. Graças à iniciativa do General Irwin, a 90ª Dl, a 5ª Dl e o 2º Regimento de
Reconhecimento (comandado pelo Coronel C. H. Reed) conquistaram pontos de passagem nas
montanhas para o interior da Tchecoslováquia; se tivéssemos que atacar Praga, atravessaríamos os
passos antes que alguém nos atacasse.
O V Corpo do 1º Exército, comandado pelo General Huebner, foi transferido para o 3º Exército. Isto
nos deu o maior exército de que se tem notícia: 18 divisões, correspondendo a pouco mais de
540.000 homens.
Meu velho amigo de 1912 na Escola de Cavalaria em Saumur, na França, General-de-Exército Jean
Houdemon, prometeu visitar-me no dia 4. Oficial de Cavalaria na Primeira Guerra Mundial,
Houdemon tornou-se aviador e lutou pela França na Segunda Guerra Mundial até que, como ele
mesmo dizia, “le vieux Pétain m’a renvoyé” (o velho Pétain demitiu-me). Na ocasião, ele era o
piloto mais velho no Exército Francês, com 64 anos de idade. Houdemon retornou ao lar em Pont-à-
Mousson, onde foi prefeito e manteve um hospital em sua residência, durante a ocupação alemã.
Com o pretexto de negociar alguma forma de armistício para evacuar os doentes sob seus cuidados,
Houdemon e sua filha Catherine, uma enfermeira, atravessaram o Mosela sob fogo e vieram até o
meu quartel-general. Durante os exercícios que realizara como tenente de Cavalaria aprendeu a
conhecer todas as passagens a vau no rio Mosela; o objetivo da sua vinda ao QG era indicá-las para
mim. Infelizmente eu achava-me ausente; o oficial que o recebeu não acreditou que ele estivesse
dizendo a verdade e ordenou-lhe que cruzasse o rio e voltasse para casa. Entretanto, Houdemon
insistiu em deixar um bilhete para mim, junto com um desenho indicando os vaus e uma informação
de que o castelo medieval de Mousson, em uma colina íngreme atrás da cidade, era um Posto de
Observação importante dos alemães. O desenho com os vaus foi utilizado por nós quando, mais
tarde, atravessamos o Mosela. Dois dias depois desta visita ao meu QG, Houdemon foi evacuado
pelos alemães; empreendemos uma busca prolongada para encontrá-lo e, durante algum tempo,
pensei que ele estivesse morto. Mais tarde, arranjei um avião para levá-lo a Paris, onde ele exercera
o comando da força aérea do sul da França, antes da vitória alemã. Houdemon era um tipo agradável
e tinha uma conversa muito interessante. Sua filha foi condecorada com a Croix de Guerre por
serviços prestados, inclusive o salvamento heróico de dois soldados feridos que boiavam no rio
Mosela.
Às 19h30min, o General Bradley telefonou para dizer que fora dada luz verde para o ataque contra a
Tchecoslováquia e para saber em que data eu poderia desencadeá-lo. Respondi que na manhã do dia
seguinte. Pareceu-me um tanto incrédulo diante da minha resposta, mas como nos conhecíamos
bem, acreditou em mim.
Telefonei imediatamente para o V Corpo e dei ordem para o início do movimento com a 1º Dl
(então comandada pelo Major-General Clift Andrus), a 2ª DI105 e a 16ª DB. Determinei também
que o XII Corpo atacasse como fora planejado. O General Gay, que possuía um sexto sentido,
alertara a 16ª DB, durante a tarde, porque sentira que alguma coisa ia acontecer. Estávamos ansiosos
por lançar a 16ª em combate, antes que a guerra acabasse; a divisão também estava ansiosa para
entrar em combate.
Na manhã do dia 5, entre 8 e 10 horas, os dois corpos desencadearam o ataque, o V Corpo com as
97ª e 2ª Divisões de Infantaria e parte da 16ª DB. A partir do dia 6 também participariam do ataque
a 1ª Dl e parte da 9ª DB.
Transmiti aos corpos as instruções recebidas de Bradley: as grandes unidades não poderiam
ultrapassar uma linha no sentido noroeste — sudeste e que cortava Pilsen, mas podiam, e deviam,
realizar reconhecimentos em força na direção de Praga.
O XII Corpo atacou com as 90ª e 5ª Divisões de Infantaria e também conquistou Linz com a 11ª DB
e a 26ª DI, que havia sido liberada do combate no norte pela 65ª Dl do XX Corpo.
Durante esta ofensiva lembro-me de uma conversa com o General Paul, comandante da 26ª DI; ele
recordou-me de que eu lhe havia dito, quando a sua divisão entrou em combate pela primeira vez,
no dia 7 de outubro, que seus soldados constituíam uma equipe de amadores que ia jogar numa liga
de equipes profissionais. Era preciso que dessem o máximo de si mesmos para se igualarem aos
profissionais. A divisão, segundo Paul, voltara a enfrentar a mesma situação no último ataque contra
Linz; por causa do desgaste em combate e das baixas, a maior parte do efetivo se constituía de
soldados sem experiência de combate. Entretanto, há uma diferença muito grande entre uma divisão
nova e uma divisão antiga, independentemente da situação dos efetivos que a compõem. A guerra
cria a alma de uma unidade combatente; mesmo que lhe restem poucos veteranos, eles transmitem
esta alma aos recrutas rapidamente. Muita gente vai achar graça ao me ver dizer que bastam uns
poucos veteranos para transformar uma divisão recompletada em recrutas.
É uma desgraça o fato de que só poucos comandantes, e nenhum político, conseguem perceber a
individualidade das unidades, bem como a necessidade de se valer dos sentimentos humanos. Ao
abordar este tema, recordo-me que o mesmo Paul certa vez revelou-me, com absoluta sinceridade,
que o maior momento da sua vida ocorrera durante a Batalha do Bolsão, quando coloquei minha
mão sobre o seu ombro e indaguei: “Como vai, hoje, este baixinho…?” Esta pergunta tão
descontraída restituiu-lhe o ânimo e o seu comportamento contagiou a divisão inteira; é bem
provável que tudo isto haja ocorrido.
Huebner advertiu-me de que, caso me encontrasse com os russos, estivesse preparado para uma
troca de medalhas, flâmulas e objetos pessoais; por isto, seria melhor não usar as minhas pistolas,
nem o meu excelente relógio de pulso, pois, numa troca, dificilmente os russos dar-me-iam coisas
de valor equivalente. Telefonei imediatamente para o General Bradley e indaguei até que ponto ia a
minha autoridade para distribuir condecorações. Estabelecemos uma lista de comum acordo: uma
divisão poderia conceder 6 medalhas de Legião do Mérito, no grau mais baixo, e 6 estrelas de
Bronze para a divisão russa com a qual estabelecesse contato. O corpo de exército poderia conceder
ao seu correspondente russo 9 Legiões do Mérito e 3 Estrelas de Bronze; neste caso, 4 medalhas de
Legião do Mérito seriam no grau de Oficial106. O exército poderia conceder 12 Legiões do Mérito,
inclusive no grau de Comandante, e algumas Estrelas de Bronze, se houvesse necessidade.
Passamos imediatamente à ação e requisitamos um estoque de medalhas.
O rádio noticiava que os cidadãos tchecos haviam se apossado de Praga, o que me deixou ansioso
para prosseguir no avanço a fim de ajudá-los; a permissão que solicitei a Bradley me foi negada.
Todavia, na realidade, os elementos de reconhecimento do 3º Exército já se achavam nas
vizinhanças de Praga; com isto, assinalaram o maior avanço para leste de qualquer exército
ocidental. Também coube ao 3º Exército o privilégio de ser o último exército ocidental a
desencadear uma ofensiva.
No dia 6, ficou estabelecido definitivamente que não poderíamos ultrapassar a linha-limite que
passava por Pilsen de uma distância maior do que a necessária para o reconhecimento de segurança
— até 8 quilômetros. Fiquei muito magoado, pois achei, e ainda acho, que deveríamos ter avançado
até o rio Moldau; se os russos não gostassem disto, que fossem para o inferno. Só muitas semanas
mais tarde é que vim a saber dos motivos, todos justos, que levaram o General Eisenhower a nos
deter na linha em que paramos.
Também recebemos ordem para encerrar o nosso avanço para sudeste, no vale do Danúbio, e manter
as posições até que os russos estabelecessem contato conosco. Até às 11 horas o GT que fazia a
vanguarda da 16ª DB (comandado pelo Coronel C. H. Noble) entrou em Pilsen. Deslocamos o III
Corpo para as proximidades de Nuremberg, para iniciar a ocupação da Baviera de acordo com o
chamado Plano Eclipse107.
Fomos informados de que 100.000 russos brancos tentavam render-se. Evidentemente, esta gente
estava em má situação; havia mulheres e crianças entre eles. Os soldados foram tratados como
prisioneiros de guerra e as mulheres e crianças como pessoas deslocadas.
No dia 7, soubemos que a guerra terminaria à meia-noite de 8 para 9 de maio. Bradley mandou um
coronel-general russo, através do V Corpo, ir a Praga e comunicar ao comandante do grupo de
exércitos alemães, General Sthoerner, as condições da rendição.
O General Gay teve o cuidado de mandar o chefe do Serviço de Saúde do 3º Exército inspecionar,
pessoalmente, o campo de Moosberg e verificar se os prisioneiros aliados estavam recebendo os
devidos cuidados médicos e alimentação necessária.
O senhor Patterson, Subsecretário da Guerra, passou conosco a noite de 6 para 7 de maio; no dia 7
voamos para o XX Corpo em dois aviões Cub. Neste dia atravessamos os rios Enns e Isar; em um
lugar vimos pelo menos cem locomotivas intatas, em um desvio de estrada de ferro.
Ao chegarmos ao QG de Walker descobrimos que o XX Corpo apreendera, intata, toda a Real
Academia espanhola de Equitação, que fugira de Viena diante da aproximação dos russos. Esta
Academia funcionava em Viena desde a época de Carlos V, da Espanha.
No começo, o adestramento dos cavalos tivera interesse militar. Assim, a courbette tinha a
finalidade de fazer o cavalo curvar-se quando o cavaleiro girava a espada, o que dava mais força à
arma; a volta, ou meia-volta, servia para evitar o ataque; o salto no ar, escoiceando com os
dianteiros e posteriores, servia para livrar o cavaleiro de um contato muito cerrado com o inimigo, e
assim por diante. Com o correr dos anos e as transformações introduzidas na arte da guerra,
abandonou-se aquela finalidade do adestramento e os movimentos passaram a ter valor por si
próprios. Em outras palavras, como em várias artes, o povo começou a glorificar os meios ao invés
dos fins, para os quais os meios deveriam contribuir.
Depois do almoço, o General Walker providenciou a realização de uma demonstração para nós; o
espetáculo foi muito interessante e executado de forma magnífica. Todavia, achei o fato muito
estranho; no meio de uma guerra mundial, cerca de vinte jovens e homens de meia-idade, todos em
excelentes condições físicas, juntamente com uns trinta cavalariços haviam passado o tempo todo
ensinando a um grupo de cavalos a sacudir as ancas e a levantar as patas, mediante sinais
transmitidos pelos calcanhares dos cavaleiros ou pelas rédeas. Por outro lado, talvez fosse um erro
permitir que qualquer forma de arte, ainda que supérflua, viesse a ser eliminada da face da terra — a
superfluidade de uma arte depende do ponto de vista de cada um. Para mim, por exemplo, um
cavalo de alta escola era mais interessante do que a pintura ou a música.
Depois de deixarmos o XX Corpo, eu e o subsecretário sobrevoamos Linz; a cidade achava-se mais
destruída do que eu imaginara. Aterramos no QG do XII Corpo, onde fomos recebidos pelo General
Irwin. Dali regressamos ao nosso QG, onde chegamos às 20 horas.
O Subsecretário tinha uma capacidade extraordinária para guardar nomes de pessoas; conseguia
dizer aos oficiais que lhes eram apresentados em que local os vira pela última vez. Revelou-se um
profundo conhecedor da história da Guerra da Secessão; conversamos muito sobre o assunto. Creio
que ele era o único membro do governo que possuía a Cruz dos Serviços Relevantes, conquistada
como infante na Primeira Guerra Mundial.
No dia 8, depois da partida do subsecretário, Bradley e Allen vieram almoçar comigo; discutimos
vários aspectos que precisavam ser esclarecidos a respeito da zona que iríamos ocupar. Entretanto,
como o SHAEF ainda não chagara a uma decisão, só pudemos fazer estimativas sobre o que iria
acontecer.
Na manhã do dia 8, durante a reunião do estado-maior, dirigi-me aos oficiais declarando que aquela
seria a nossa última reunião na Europa; fiz questão de ressaltar a palavra “Europa”. Acredito que
eles perceberam que eu esperava realizar alguma reunião na Ásia. Agradeci a cada oficial do estado-
maior pelo trabalho realizado e garanti-lhes que nenhum homem sozinho podia conduzir um
exército, mas que o sucesso de qualquer exército dependia do trabalho harmonioso do seu estado-
maior e da magnífica capacidade de oficiais e soldados combatentes. Sem este trabalho em equipe,
nenhuma guerra pode ser conduzida com sucesso.
O dia 8 de maio assinalava exatamente dois anos e meio do nosso desembarque na África. Durante
todo este tempo, até a meia-noite de 8 para 9, estivéramos praticamente em combate contínuo;
quando não em combate, estivemos sob a tensão da crítica que, acredito, seja mais difícil de
suportar.
Depois de uma breve reunião, disse adeus aos correspondentes de guerra às 11h30min; na
oportunidade, um dos correspondentes indagou: “General, por que não tomamos Praga?” Respondi:
“Posso dizer-lhe exatamente o porquê”, e todos eles sacaram os blocos de anotações, em grande
expectativa. Acrescentei: “Exatamente porque não recebi ordem para isto”; embora desapontados,
todos riram. De modo geral, os correspondentes junto ao 3º Exército realizaram um trabalho leal e
excelente, conseguindo transmitir ao nosso povo um quadro bastante acurado da nossa luta na
guerra108.
Recebi a seguinte carta de congratulações do Secretário da Guerra, Stimson:

“Envio cumprimentos ao senhor e aos bravos soldados do 3º Exército. Elogio-o pelas vitórias
fulminantes e espetaculares que tiveram grande influência para que chegássemos a este dia glorioso.
Os feitos do 3º Exército corresponderam às mais altas tradições dos exércitos que já defenderam a
América no curso da sua história. O senhor e seus bravos homens bem merecem as homenagens de
toda a nação.”
Acho que esta carta assinalou perfeitamente o fim da guerra e, receio, da minha última guerra.
Posso dizer que durante toda a campanha da Europa não cometi, conscientemente, nenhum erro,
salvo o de deixar de enviar um grupamento tático para conquistar Hammelburg. Por isto, na minha
opinião, minhas operações foram completamente satisfatórias. Em todo caso, praticamente durante
toda a campanha fui contido pelo escalão superior. Talvez isto haja sido bom, porque sou muito
impetuoso. Entretanto, não me comportei assim e acho que se me tivessem dado mais liberdade a
guerra teria terminado mais cedo, e mais vidas teriam sido salvas. Esta consideração aplica-se
particularmente à época em que fui detido nos primeiros dias de setembro, por causa do desejo, ou
necessidade, do General Eisenhower de apoiar o movimento de Montgomery para o norte. Naquela
ocasião, não tive a menor dúvida de que poderíamos realizar uma penetração e transpor o Reno em
cerca de dez dias. Isto teria salvo milhares de vidas.
(Como diz a Igreja, “aqui termina a segunda lição”)

109
PARTE 3 - RETROSPECTO

Provavelmente não haverá nada de original naquilo que eu vou


escrever, porque a guerra é um assunto muito antigo e eu, um
homem idoso, estudei-a e pratiquei-a durante mais de 40 anos.
Logo, o que me parece uma idéia original pode ser apenas uma
lembrança guardada no subconsciente.

1. A RESPEITO DO SOLDADO
O soldado é o exército. Nenhum exército é melhor do que os
seus soldados. O soldado também é um cidadão. Na realidade,
o maior dever e o mais alto privilégio da cidadania é empunhar
armas pelo país. Portanto, constitui enorme privilégio ser
soldado — um bom soldado. Qualquer pessoa, em qualquer
ramo de atividade, que se contenta com a mediocridade
engana-se a si própria e renega a tradição americana. Para ser
um bom soldado um homem deve ser disciplinado, respeitar-
se, ter amor à sua unidade e ao seu país, possuir um elevado
sentimento de obrigação e devotamento aos seus camaradas e
aos seus superiores e autoconfiança gerada por sua
comprovada competência.
Sempre se falou, e se fala muito, sobre disciplina; mas pouca
gente, dentro e fora do exército, sabe o que é ela, ou porque é
necessária.
Quando um homem se incorpora ao exército normalmente está
saindo de casa pela primeira vez; com isto, deixa para trás as
imposições decorrentes do respeito que tem pela opinião de
seus pais ou de seus amigos. Sem que ele soubesse, tais
imposições orientavam grande parte da sua existência. Quando
ele se incorpora a uma unidade e não encontra esta influência
corretiva, criam-se condições para que cometa desvios morais,
para que relaxe os hábitos de higiene e para que se deixe levar
pela preguiça. A disciplina militar deve substituir as
imposições ausentes.
Todos os seres humanos possuem uma resistência inata à
obediência. A disciplina remove esta resistência e, através da
repetição constante, torna a obediência habitual e
subconsciente. O que seria de um time de futebol
indisciplinado? Os jogadores reagem subconscientemente na
execução das jogadas ensaiadas. Devem proceder assim,
porque, se parassem para pensar, o adversário teria tempo para
reagir.
O combate é muito mais exigente do que o futebol. Nenhum
homem são deixa de ter medo em combate, mas a disciplina
produz nele uma espécie de coragem cultivada que a natureza
humana transforma em vitória. A apresentação individual
depende diretamente da disciplina. Há um ditado muito certo
no exército: “Quem já viu um soldado sujo ganhar medalha?”
Por sua vez, a dignidade deriva da apresentação pessoal e da
consciência de que o soldado é um americano. O sentimento
de obrigação e devotamento aos seus camaradas e superiores
origina-se do reconhecimento das obrigações mútuas e da
participação no mesmo estilo de vida. A autoconfiança, a
maior virtude militar, resulta da competência comprovada,
decorrente não só da posse das qualidades já mencionadas
como da prática do manejo das armas.
Constitui uma desgraça, e para mim um fato trágico, havermos
ensinado o nosso povo a menosprezar as virtudes heróicas do
soldado por causa das nossas tentativas de evitar a guerra.
Nossa gente não percebe que, conforme disse Shakespeare, a
busca da “reputação ideal, mesmo que seja na boca do canhão”
não só é uma das boas características militares, como também
ajuda muito o jovem no momento em que as balas e as
granadas sibilam em volta dele. Poder-se-ia conseguir muito
mais se as mulheres da América exaltassem seus heróis e se os
jornais divulgassem, nas cidades natais, as citações recebidas
pelos soldados da região; e muito mais se conseguiria se os
motivos de segurança idiotamente invocados não
transformassem as citações em frases irreais. Os soldados que
voltam desta guerra talvez possam corrigir esta situação.
Um dos poemas de Kipling começa assim:

Quando o pobre recruta vai para o oriente,


Age como uma criança e bebe como um animal,
E fica sem saber por que está sempre doente

Ou mesmo se tem condições para ser soldado …1

Todos os nossos soldados não bebem como animais. Na


verdade, é notável a não distribuição de bebida alcóolica
dentro do exército. Entretanto, muitos soldados agem como
crianças. Segue-se uma tentativa de apresentação de algumas
sugestões que deram resultado na prática.
Não cave abrigos individuais embaixo de árvores, sempre que
puder evitá-las; quando uma granada atinge uma árvore
funciona como se estivesse com espoleta de tempo. Os
estilhaços vêm do alto e o abrigo cavado não tem a menor
utilidade, exceto como cova a ser usada pelo Pelotão de
Sepultamento.
Os abrigos individuais para as guarnições das armas devem
ficar próximos das mesmas, para que os serventes não percam
muito tempo percorrendo o espaço entre a arma e o abrigo.
Além disto, durante a corrida até o abrigo o servente tem a
mesma probabilidade de ser atingido do que ficando junto à
arma. Finalmente, uma arma que não atira é uma arma inútil e
sua guarnição comete traição para com os soldados que se
acham na frente, a quem a arma deveria estar fornecendo
apoio.
A expressão “cavar ou morrer” é usada demais e é mal
interpretada. A defensiva não conduz à vitória. Cavar é um
procedimento basicamente defensivo. A única ocasião
adequada para um soldado cavar é após conquistar o seu
objetivo final em um ataque ou durante um bivaque em que há
perigo de ataque aéreo ou fogo da artilharia inimiga.
Pessoalmente, sou contra cavar, mesmo nestas duas situações
de bivaque; a probabilidade de ser morto enquanto dormindo
normalmente no chão é muito remota e deixando-se de cavar
os abrigos individuais, evita-se a fadiga decorrente do
trabalho. Além disto, é mau o efeito psicológico sobre o
soldado; ao se ver obrigado a cavar, o soldado é levado a
pensar que o inimigo é perigoso, o que normalmente não é
verdade.
“Mergulhe no chão” é uma outra expressão que tem
contribuído para aumentar as nossas baixas. Na luta contra os
alemães, e provavelmente contra outras forças na próxima
guerra, descobriremos que eles tiram proveito do nosso hábito
de mergulhar no chão. O que fazem é esperar que cheguemos a
uma área escolhida com antecedência e sobre a qual já
regularam os foguetes, morteiros ou Artilharia; neste momento
eles desencadeiam um fogo violento de metralhadoras —
frequentemente atirando para o ar. Obcecado com a idéia de
mergulhar no chão, o soldado deixa-se ficar deitado como um
imbecil, esperando pela chegada das granadas de morteiro,
pelos foguetes, etc. E, normalmente, não espera muito.
A única ocasião adequada para o soldado mergulhar no chão é
quando for alvejado por fogo concentrado de armas
individuais a curta distância — a menos de 250 metros. Ainda
assim, não deve lançar-se ao solo e permanecer como um
idiota. Cabe-lhe logo disparar sua arma contra o inimigo, ou
na direção do inimigo. O que disse Farragut na Guerra da
Secessão ainda é verdade: “A melhor blindagem (e a melhor
defesa) é um fogo rápido e certeiro”. Nossas tropas merecem
ser criticadas pela frequência com que recebemos informes de
que tal ou qual unidade está detida pelo fogo e, depois, de que
está recuando.
Quando os soldados são apanhados por uma barragem de
morteiros, foguetes ou Artilharia, o melhor meio de escapar é
avançar com a máxima rapidez, pois o inimigo
invariavelmente aumenta o alcance dos tiros das suas armas,
ao invés de diminuí-lo.
Na época em que a maior parte do fogo de armas portáteis que
incidia sobre o campo de batalha era disparado pelos fuzis,
justificava-se a progressão por lanços, a fim de ampliar a linha
de atiradores. Hoje, quando a maior parte dos fogos ofensivos
no campo de batalha, bem como dos fogos de neutralização,
são desencadeados por metralhadoras, morteiros e Artilharia,
não há vantagem em progredir por lanços porque, enquanto
não se chegar a 250 metros de distância, o tiro das armas
portáteis têm pouca eficácia, ao passo que enquanto se
permanece deitado, entre os lanços, há grande exposição ao
efeito dos estilhaços. Quando se chega a 250 metros de
distância, nossas próprias armas portáteis, que são superiores a
tudo o que existe atualmente, neutralizarão o fogo das armas
portáteis inimigas, de modo que não se precisa progredir por
lanços. Digo isto com perfeito conhecimento de causa porque
vi, diversas vezes em manobras e em combate, tropas
avançarem por lanços quando estavam desenfiadas por colinas
e poderiam avançar em automóveis, em perfeita segurança.
Fogo em movimento: a forma adequada para progredir,
particularmente para tropas armadas com esta arma magnífica,
o fuzil M-1, é empregar o fogo em movimento e continuar
avançando. Os tiros podem ser disparados com a arma apoiada
no ombro, mas obtém-se a mesma eficácia disparando com a
arma apoiada um pouco acima do cinto. Deve-se disparar um
tiro a cada dois ou três passos. O zumbido dos projéteis, o
silvo do ricochete, o pó levantado do chão, os gravetos e
ramos derrubados das árvores produzem um tal efeito sobre o
inimigo que o tiro de suas armas portáteis torna-se desprezível.
Enquanto isto, empregando tiros com trajetórias curvas, nossas
forças à retaguarda silenciam os morteiros e a Artilharia do
inimigo. Conforme já disse, ainda que não conseguíssemos
silenciar os morteiros e a Artilharia inimiga, a maior loucura
do mundo seria parar de baixo de seus fogos. Continue
caminhando para a frente. Além do mais, o fato de se estar
atirando aumenta a autoconfiança, porque a pessoa sente que
está fazendo alguma coisa, ao invés de estar parada como um
alvo fixo para os tiros inimigos.
No fogo em movimento todas as armas devem ser
empregadas. As metralhadoras leves atiram em movimento —
um homem carregando a fita de munição e o outro a arma. O
mesmo se aplica ao fuzil automático Browning e, conforme já
disse, ao fuzil M-1. Procedendo mais ou menos da mesma
forma, os morteiros de 60 mm deslocam-se por seções. O
morteiro de 81 mm normalmente executa o apoio a partir de
uma posição fixa.
Se consideramos que “o fogo é o rei da batalha”, então
devemos parar de discutir quem é mais importante dentre as
Armas ou os Serviços e encarar a verdade. As batalhas são
ganhas pelo fogo e pelo movimento. A finalidade do
movimento é colocar o fogo na melhor posição para atingir o
inimigo. Seja contra a retaguarda, seja contra o flanco.
Cada soldado precisa compreender que as baixas em combate
são provocadas por dois motivos: primeiro, a eficácia do fogo
inimigo; segundo, o tempo durante o qual o soldado se expõe a
este fogo. A eficácia do fogo inimigo é reduzida pelo nosso
fogo ou pelos ataques noturnos. O tempo de exposição ao fogo
inimigo é reduzido pela rapidez com que se avança.
Bravura e coragem. Se adotarmos o conceito generalizado de
bravura, como sendo a virtude de quem não tem medo, posso
dizer que nunca vi um homem bravo. Todos os homens têm
medo. Quanto mais inteligentes, mais medo sentem. Corajoso
é o homem que prossegue no cumprimento do dever, apesar do
medo. A disciplina, o respeito próprio, a autoconfiança, a
dignidade e o amor à glória são atributos que darão coragem a
um homem, mesmo que ele sinta medo.
O ridículo é a melhor arma contra a chamada “fadiga de
combate”. Os soldados teriam menos condescendência com
ela se pudessem compreender que a maioria dos que se dizem
com fadiga de combate estão realmente procurando um
caminho fácil para fugir do cumprimento do dever. Qualquer
homem que se diz com fadiga de combate está fugindo do
perigo e obrigando os outros, mais fortes, a enfrentá-lo. Se os
soldados zombassem daqueles que começam a revelar fadiga
de combate, evitariam não só impedindo que o mal se
espalhasse, como também salvando o homem que procura se
enganar por este meio de uma vida futura cheia de humilhação
e remorso.
Pé-de-trincheira: os soldados devem cuidar-se, principalmente
em épocas de tempo frio ou chuvoso. Antes de tudo devem se
precaver contra o pé-de-trincheira, o qual pode ser evitado,
com a ajuda do escalão superior, desde que o soldado se dê ao
trabalho de massagear os pés e calçar meias secas. Não lhes
cabem as providências para receber meias secas, mas, desde
que elas lhes sejam fornecidas, cabe-lhes a responsabilidade de
usá-las.
O mesmo se aplica às doenças venéreas. Os soldados não
contrairão a doença se utilizarem os preventivos fornecidos
pelo exército. Quando contraem a doença estão praticando
uma deslealdade para com os companheiros, pois alguém terá
que desempenhar suas funções enquanto eles convalescem.

TÁTICA DAS PEQUENAS UNIDADES


Por vezes há necessidade de desmembrar um grupo de
combate. Quando isto ocorrer, é preciso assegurar que o
elemento destacado seja capaz, no mínimo de prover apoio
mútuo. Isto quer dizer que o elemento destacado de um GC
não pode ter efetivo inferior a três homens. Na sua
constituição, o GC possui as armas necessárias para montar
uma base de fogos e um elemento de manobra. Isto caracteriza
sua forma tradicional de ataque; o comandante do GC não
deve perder tempo pensando em uma forma de envolver o
inimigo, pois pode sofrer baixas que teriam sido evitadas se
ele houvesse atacado imediatamente.
Nas pequenas operações, assim como nas grandes, a
velocidade é o elemento essencial para o sucesso. Se a
vantagem de um flanco, que permite um desbordamento sobre
o outro, é tão pequena a ponto de exigir um estudo de situação,
o tempo perdido nesse estudo está sendo mal empregado.
Lembre-se que a vida do grupo de combate de Infantaria
depende da sua capacidade de tiro. É preciso atirar.
Em um ataque, quando uma pequena unidade dispõe tanto de
morteiros 60 como de morteiros 81, os morteiros de 60 mm
devem atirar contra a parte da frente da resistência encontrada,
enquanto os de 81 mm atiram em profundidade e contra as
armas pesadas de apoio.
Combate dentro do bosque: a melhor forma de a Infantaria
atravessar um bosque, durante o dia, é avançando com os
pelotões em linha, na direção de um ponto nítido distante, ou
seguindo um azimute quando não houver ponto notável. Na
formação em linha, os intervalos devem ser reduzidos, a
progressão deve ser feita em linha reta para a frente e
utilizando o fogo em movimento. Quando se atua desta forma
verifica-se, com surpresa, como é pequena a resistência
oferecida pelo inimigo; porque, se o inimigo atirar nas árvores,
os projetis dos seus fuzis, sempre menos eficazes do que os
nossos, não atravessarão os caules, ao passo que os nossos
projetis atravessarão e provocarão baixas entre os defensores.
Os bosques europeus são cortados por alamedas distanciadas
entre si de 1.000 metros; ao combater nestes bosques não se
deve progredir pelas alamedas e é preciso muito cuidado ao
atravessá-las — fazê-lo correndo — porque normalmente o
inimigo mantém as alamedas enfiadas por tiros de
metralhadora.
Ataque noturno em bosque: não há necessidade, nem é
aconselhável, atacar através de bosques durante a noite. Em
primeiro lugar, os bosques proporcionam a mesma cobertura
oferecida pela escuridão em campo aberto. Em segundo lugar,
é quase impossível deslocar-se através de bosques, durante a
noite, a não ser em coluna por um.
Carros de combate e Infantaria: quem determina se o ataque
será liderado por Infantaria ou carros de combate é o tipo do
terreno e o tipo da resistência inimiga. Os carros de combate
devem liderar o ataque sempre que o terreno permita-lhes a
progressão rápida, mesmo havendo certeza de algumas perdas
em campos de mina. A Infantaria lidera o ataque através de
bosques densos, contra posições preparadas ou contra canhões
anticarro não localizados, acompanhada de perto pelos carros,
que atuam como Artilharia de apoio direto. Todavia,
independentemente de qualquer consideração, alguns carros de
combate devem acompanhar a Infantaria quando ela atingir o
objetivo. A finalidade destes carros é destruir as armas
inimigas que aparecerem depois da passagem dos carros de
combate que vão na vanguarda.
Casamatas: os grupos especializados constituem a melhor
forma de atacar as casamatas. Um bom grupo compreenderá
dois fuzis-automáticos Browning, um lança-rojão, uma
metralhadora leve, de dois a quatro fuzileiros e dois homens
com cargas de demolição. Trinta quilos de TNT é mais do que
suficiente. Antes de iniciar um ataque contra uma região de
casamatas é preciso realizar um reconhecimento para
determinar quais as casamatas que se apoiam mutuamente.
Estas devem ser atacadas simultaneamente. O melhor
resultado será obtido através de uma ação noturna silenciosa,
que coloque os grupos de assalto perto das respectivas
casamatas ao alvorecer. O tiro contra as janelas de visada
devem silenciar a casamata. Assim que isto acontecer, a
metralhadora leve e os fuzileiros protegem a colocação da
carga de demolição na porta de saída da casamata, o estopim é
acionado e os homens recuam para a parte da retaguarda. Após
a explosão, os fuzileiros atiram granadas de mão para o
interior — de preferência granadas de fósforo. Qualquer
inimigo que saia é morto ou aprisionado, conforme o estado de
espírito do inimigo.
Quando as circunstâncias impedirem a realização da ação
noturna, pode-se obter um resultado semelhante, mas com
maiores perdas, avançando no rastro de uma concentração de
Artilharia.
Se a situação permitir a sua utilização, uma excelente ajuda
será proporcionada por um canhão de 155mm autopropulsado.
A curta distância, sua eficácia é bastante satisfatória.
Combate de rua: o combate de rua é mera variante da luta
contra casamatas. Um grupo semelhante, reforçado por mais
fuzileiros, é bastante eficaz. Os fuzileiros adicionais são
repartidos pelos dois lados da rua a fim de atirar contra o
pessoal inimigo que surgir nos andares superiores dos edifícios
localizados do lado oposto ao que se encontrar o fuzileiro.
Quando surgir resistência em uma casa, as janelas serão
silenciadas pelos tiros, como no caso das casamatas;
aproveitando esta proteção, um lança-rojão dispara um ou dois
rojões contra um canto da casa e 1 metro acima do nível da
rua. Aberto um buraco na parede, lançam-se granadas de mão,
explosivas ou de fósforo, no andar térreo e no porão, para
desencorajar o inimigo que ocupar estas dependências. A
carga de demolição, indispensável contra as casamatas, não é
necessária no combate de rua.
É absolutamente essencial evitara pressa no combate de rua.
Normalmente, um grupo como acima descrito pode limpar
uma quarteirão em 12 horas. Quando há disponibilidade de
carros de combate, eles substituem os lança-rojões no papel de
abrir o buraco na parede do andar térreo. Entretanto, as
escotilhas devem estar fechadas, para evitar os efeitos das
granadas de mão atiradas dos andares superiores, e os carros
devem contar com a proteção de fuzileiros, a fim de afastar o
inimigo das janelas. Os canhões autopropulsados de 155mm
são extremamente úteis em cidades cujas edificações têm
paredes com espessura normal.
Disparada com um ângulo de incidência obtuso, a granada
com espoleta de retardo romperá todas as casas do mesmo
lado de um quarteirão.
Fogo e movimento no ataque: sempre que possível, a partir do
grupo de combate, usar uma base de fogos e um elemento de
manobra. O elemento de manobra deve ter efetivo maior do
que a base de fogos e iniciar seu ataque atrás da linha de
contato. Deve alcançar um ponto bastante afastado atrás do
flanco inimigo, para poder atacá-lo partindo da sua retaguarda.
Assim que este ataque partindo da retaguarda inimiga
aproximar-se o suficiente para obrigar o adversário a reagir, a
base de fogos transforma-se em um ataque frontal, orientado
no sentido do primitivo eixo de progressão da unidade.
Travessia de curso de água: na travessia de curso de água ou
assalto com desembarque, há grande probabilidade de que as
embarcações, transportando uma companhia, ou mesmo um
pelotão, não cheguem ao mesmo local em terra. Por isto, cada
embarcação deve ter o efetivo embarcado constituindo uma
equipe dotada de meios para formar uma base de fogos e um
elemento de envolvimento. Esta equipe deve exercitar-se no
terreno, antes de embarcar, e cada equipe de embarcação da
vaga de assalto deve saber qual o acidente do terreno que lhe
compete alcançar. Este ponto notável, de preferência uma
rodovia ou uma ferrovia, deve estar suficientemente afastado
da orla da água a ponto de impedir que as armas portáteis
atirem diretamente contra os locais de desembarque. Nenhuma
cabeça-de-ponte pode ser considerada segura, enquanto o seu
perímetro não estiver no mínimo a 800 metros da orla da água,
e/ou terem sido ocupados os acidentes capitais que dominam a
região. Em um desembarque noturno não deve ser poupado
esforço para atingir aquela distância antes do alvorecer.
Combate em elevações: no curso do combate em terreno
dobrado ou ondulado os pelotões ficam demasiadamente
afastados. O melhor método para os grupos de combate de
apoio e de reserva de um pelotão atacante é desbordar pelo
lado íngreme. Uma vez conquistada uma crista ou uma
cumeada, não se pode perder altura. Jamais ataque pelo fundo
de um vale, exceto quando estiver de posse das elevações de
ambos os lados do vale. Dentro de todos os vales existem
acidentes geográficos que se constituem em obstáculo para um
avanço direto e submetem os que estão no fundo do vale aos
fogos observados dos que estão nas elevações.
Campo aberto: em campo aberto onde existam grupos isolados
de árvores, evite ficar embaixo das árvores porque elas sem
dúvida serão atacadas pela Artilharia e Aviação inimigas. Em
terreno deste tipo, disperse-se pelo campo. É possível
aproveitar a vegetação como isca para trair o fogo inimigo;
basta montar uma camuflagem mal feita na orla da vegetação.
De qualquer maneira, não penetre nela.
Pela mesma razão, não escolha a única casa existente em uma
elevação para instalar o seu Posto de Comando, como já vi
fazerem muitas vezes. Também não instale o seu PC, como vi
fazerem, junto de um monumento assinalado no mapa, e que
possa ser avistado a quilômetros de distância.
As antenas de rádio muito grandes não devem ficar próximas
de um PC, nem próximas de outras antenas. Tais instalações
de comunicações devem ficar distanciadas entre si, camufladas
e usarem o telefone para se comunicarem entre si. Caso
contrário, a aviação inimiga encontrará um alvo visível e ainda
atingirá o PC.
Fogo em áreas infestadas de inimigos: por causa da perniciosa
tradição da nossa reconhecida capacidade de realizar bom tiro
ao alvo, somos propensos a não atirar enquanto não avistamos
o alvo. Ora, em combate, raramente vemos os alvos. Quando
qualquer grupo de soldados acha-se sob o fogo de armas
portáteis, é evidente que está sendo visto pelo inimigo; a
recíproca não é verdadeira, isto é, raramente conseguimos ver
o inimigo. Em uma situação como esta, deve-se atirar contra
as partes do terreno na posse do inimigo que apresentem maior
probabilidade de ocultar as armas portáteis hostis. Sei, por
experiência própria, que tal procedimento sempre dá resultado
e geralmente faz cessar o fogo inimigo. É preciso lembrar que
é melhor gastar munição do que vidas humanas. Leva-se no
mínimo 18 anos para produzir um soldado, mas apenas poucos
meses para produzir munição.
Rendição: qualquer soldado que se rende com a arma na mão
não está cumprindo o seu dever para com a pátria, além de
menosprezar-se a si próprio, porque as condições de vida em
um campo de prisioneiros de guerra são extremamente más.
Por outro lado, o prisioneiro de guerra arrisca-se a se
transformar em vítima involuntária do nosso bombardeio aéreo
ou de Artilharia.
Se o inimigo revelar desejo de render-se, faça-o aproximar-se
de você com as mãos levantadas. Não avance em direção a ele
e não pare de atirar até que ele o faça e se entregue. Depois
que o inimigo se render, cumpre tratá-lo de acordo com as
regras da guerra terrestre.

“MACETES” DE COMBATE
Pontes: nas travessias de curso de água até que a situação
esteja garantida para nós, todas as pontes só devem permitir
movimento em uma única direção — em direção ao inimigo.
Enquanto a situação não estiver firme, feridos e viaturas de
transporte vazias voltarão à margem amiga em botes e
portadas.
Ao construir uma ponte de assalto sobre um rio de correnteza
forte deve-se colocar o cabo de amarração o mais alto possível
— pelo menos 3 metros acima do nível da água. Isto evitará a
submersão dos flutuadores.
Minas e arame farpado: não utilize minas e arame na
defensiva, exceto sob a forma de armadilhas a fim de
denunciar alguma infiltração inimiga. Minar e cercar uma
posição produz um efeito péssimo sobre o moral das nossas
tropas. Entretanto, como simulação, as minas e as cercas são
úteis. Por exemplo, podemos colocar uma cerca de arame
farpado sumária em um campo de minas simulado em uma
parte da frente, pela qual pretendemos atacar, e deixar o
restante da frente ostensivamente sem cerca; quando começar
o ataque, não precisaremos nos preocupar com o campo de
minas simulado e poderemos nos livrar da cerca rapidamente.
Métodos de ataque: no caso de uma divisão, se o ataque não
estiver correndo bem quatro horas depois de iniciado, é
necessário realizar um reconhecimento pessoal minucioso para
verificar se é preciso alterar o esforço; isto porque quatro
horas de combate devem produzir resultados substanciais; não
quero dizer que um homem deva vacilar diante da incerteza da
vitória, mas sim que se deve saber, após quatro horas de luta,
se a operação está progredindo ou não; em caso negativo,
trata-se de atenuar o ímpeto do ataque na direção original e
transferi-lo para uma outra direção.
Ataques frontais: não tente um ataque frontal de surpresa,
diurno ou noturno, contra um inimigo entrincheirado e que já
esteja há alguns dias na sua frente. Ele disporá de um
repertório vasto de tiros preparados. Antes de mais nada, será
preciso amaciá-lo com bombardeios aéreos e de Artilharia
antes de atacar. Isto não se aplica ao caso de uma linha de
casamatas. Se o inimigo estiver ocupando as casamatas, ao
invés das trincheiras externas, o procedimento correto é atacar
de surpresa, com o objetivo de colocar os atacantes junto das
casamatas antes do amanhecer. Se o inimigo estiver ocupando
as trincheiras do lado de fora das casamatas, será preciso
bombardeá-lo intensamente para que ele procure abrigo dentro
das casamatas, onde se torna menos perigoso do que do lado
de fora.
Utilização das comunicações com fio: em todos os ataques
faça a máxima utilização das redes de comunicações com fio e
realize o máximo de esforço para que ela acompanhe a
progressão das unidades. Embora teoricamente eficiente, o
rádio não é tão bom quanto o fio e deve ser considerado como
meio de comunicação secundário. Na verdade, certa vez
desencadeamos um ataque de carros de combate, com um
considerável número de carros, utilizando uma rede de
comunicações com 30 quilômetros de fios.
Local do ataque: jamais ataque onde o inimigo espera que
você deva fazê-lo. É muito melhor atacar por um terreno
difícil, onde você não é esperado, do que por um terreno bom
e onde estão à sua espera. Esta observação aplica-se a todos os
escalões até divisão. Abre-se uma exceção para corpo de
exército e escalões superiores, por que essas grandes unidades
devem conquistar terreno onde as rodovias e ferrovias
permitam o estabelecimento de linhas de suprimento.
Provavelmente tais vias estarão defendidas. O que desejo
ressaltar é que a divisão deve conquistá-las atacando através
de terreno difícil, e não acompanhando o leito da estrada ou da
ferrovia.
Fogo e movimento: a norma de segurar o inimigo pelo nariz,
através do fogo, e chutar-lhe o traseiro, por meio do
movimento, continua tão verdadeiro como o era quando
escrevi isto pela primeira vez, há vinte anos atrás; e, naquela
época, já se constituía em verdade desde que começaram as
guerras. Reduzida à sua expressão mais simples, qualquer
operação consiste em deslocar-se pela estrada até chocar-se
contra o inimigo. Pode ser por uma única ou por várias
estradas. Ao encontrar o inimigo, fixe-o no ponto de contato
empregando o fogo de um terço do seu efetivo. Desloque o
restante em um desbordamento amplo, para poder atacá-lo
pelo flanco. O ataque com a força desbordante deve começar
primeiro. O ataque frontal só deve ser desfechado depois que o
inimigo começar a reagir adequadamente contra o ataque
desbordante. Aí então o ataque direto poderá avançar rápido e
com facilidade.
Tiro de tempo: o fogo tanto com espoleta de tempo variável
como com espoleta normal de tempo é muito eficaz na
cobertura de um ataque de carros de combate; normalmente,
impedirá que o inimigo guarneça seus canhões anticarro. Os
carros de combate nada sofrem quando se deslocam sob tiros
de tempo de granadas de 105 ou 155 mm. As espoletas de
tempo variável são ineficazes em regiões boscosas porque a
granada explode acima do topo das árvores mais altas e os
estilhaços são absorvidos pela folhagem antes de atingirem o
solo, onde afetariam o inimigo.
Para produzir baixas em regiões boscosas, deve-se empregar a
espoleta com retardo; a granada só explodirá quando atingir
um galho mais forte ou o tronco da árvore.
Envolvimentos: para fins táticos, o envolvimento, vertical ou
horizontal, não deve ir muito a fundo, nem ser muito amplo.
Obtêm-se os melhores resultados quando o envolvimento
atinge as posições de Artilharia inimiga ou a retaguarda dela.
Neste ponto consegue-se desbaratar o sistema de suprimento, a
rede de comunicações e a artilharia do inimigo, ao mesmo
tempo em que se permanece suficientemente próximo das
forças que avançam pelo eixo de progressão, a ponto de
garantir o estabelecimento do contato em um espaço de tempo
razoável.
Cemitérios: não situe os cemitérios militares em locais onde
possam ser vistos pelos recompletamentos que se dirigem para
a frente de combate. Isto produz um efeito pernicioso sobre o
moral, embora possa causar transtorno ao serviço de
sepultamento.
Pressa e rapidez: há uma grande diferença entre estas duas
palavras. A pressa ocorre quando as unidades são engajadas
sem reconhecimento adequado, sem a preparação do apoio do
fogo necessário e antes da chegada ao local de combate do
efetivo completo das unidades. O resultado de um ataque
nestas condições implicará no emprego prematuro das
unidades e a operação só se completará com alguma lentidão.
Consegue-se a rapidez através da realização do
reconhecimento necessário, da preparação do apoio de
Artilharia e de outros meios, inclusive o aéreo, do
aprestamento de todos os homens e do desencadeamento do
ataque de acordo com um plano, o que reduzirá ao mínimo o
tempo de permanência sob o fogo inimigo. No escalão
batalhão, quatro horas de preparação para um ataque
provavelmente assegurará um tempo de permanência sob fogo
não superior a trinta minutos. A preparação de um ataque em
apenas uma hora com toda certeza implicará na permanência
sob fogo durante várias horas, com perdas sangrentas.
Destacamentos de cobertura: utilize ao máximo o
reconhecimento blindado ou mecanizado e os destacamentos
de cobertura. Na guerra real, as duas coisas se confundem. De
modo geral, o destacamento consistirá de uma tropa de
reconhecimento reforçada, no mínimo por um pelotão de
carros de combate médios transportando infantes.
Utilização máxima de viaturas: em uma divisão de Infantaria
moderna, se forem utilizados todos os veículos disponíveis —
carros de combate, viaturas blindadas, viaturas tratoras de
canhões e caminhões — nenhum soldado precisará caminhar
até o momento em que realmente entrar no combate. A visão
de uma divisão deslocando-se desta forma causa repulsa aos
militares impregnados por instintos conservadores, mas
proporciona rapidez no avanço, com o mínimo de fadiga. As
unidades que estiverem sendo transportadas desta forma
apearão ao encontrarem uma tabuleta, ou mesmo uma flâmula,
colocada na margem da estrada e indicando o ponto de apear.

OBSERVAÇÕES DIVERSAS
Durante operações móveis é melhor utilizar as estradas
secundárias para eixo de progressão do que as estradas
principais. Primeiro, porque as estradas secundárias são menos
adequadas para serem totalmente protegidas; segundo, porque
conterão menor número de demolições. As estradas principais
devem ser reparadas o mais rapidamente possível, para trás da
linha de contato, para construírem linhas de suprimento
eficientes.
Quando não estão defendidos, os obstáculos e demolições são
de pouco valor. Não é preciso ficar junto de um obstáculo ou
demolição para defendê-lo, porque o inimigo concentrará
fogos sobre ele. O melhor é defendê-lo situando-se a algumas
centenas de metros de distância, dentro do alcance das armas
portáteis, e cobri-lo com os fogos de Artilharia de apoio.
O estado disciplinar da unidade reflete a sua capacidade de
combate. O comandante que não conseguir impor disciplina
regulamentar será incapaz de conduzir sua tropa em combate.
Através de uma inspeção sumária do estado disciplinar da
unidade, um oficial experimentado poderá fazer um juízo
correto sobre o comandante da mesma.
Quanto mais graduado o oficial, maior será a sua
disponibilidade de tempo. Portanto, o mais antigo deve ir à
frente para visitar o mais moderno, ao invés de convocá-lo
para vir à retaguarda. A exceção ocorre quando há necessidade
de reunir vários comandantes para formular um plano
coordenado. Neste caso, os mais modernos devem se
apresentar no quartel-general do superior.
Há um perigo enorme na realização de movimento retrógrado
durante a noite, mesmo quando tal movimento enquadra-se no
contexto do prosseguimento de uma ação ofensiva tática; as
unidades não envolvidas podem vir a saber do movimento, ou
testemunhá-lo, e a ignorância do fato pode até provocar
pânico. Quando uma unidade tiver que recuar, deve-se
providenciar para que todos os soldados postados ao longo da
linha de recuo sejam esclarecidos a respeito do motivo da
operação e informados sobre a ocasião da sua execução.
Os hospitais devem ser localizados em áreas limpas, a fim de
impedir que o inimigo pense que são outra coisa e não
hospitais. Não devem situar-se nas proximidades de depósitos,
nem de pistas de pouso.
Nunca pare na margem amiga de um rio, ou no sopé de uma
cadeia de elevações. Estabeleça uma cabeça-de-ponte, porque,
mesmo que não se pretenda aproveitar a travessia, a posse de
uma cabeça-de-ponte do lado oposto reduz as possibilidades
do inimigo.
Uma divisão de Infantaria ou blindada necessita
imperiosamente de substituição, ou de recompletamentos
urgentes, quando as baixas entre seus fuzileiros atingirem 75
por cento.
Conquiste imediatamente o ponto mais elevado do terreno, na
sua vizinhança, e não perca esta posição.
As companhias de guarda de prisioneiros de guerra devem
chegar o mais perto possível da linha de combate para
receberem os prisioneiros; as tropas engajadas em combate são
deficientes na guarda de prisioneiros. Qualquer tentativa de
roubar ou saquear prisioneiros de guerra deve ser punida com
rigor.
Quando qualquer oficial entrar no recinto, os prisioneiros
devem tomar a posição de sentido.

COMANDO
Emprego de código: é fácil decidir-se pela transmissão de
mensagens em texto claro ou cifradas. Basta seguir esta regra:
se o período de duração da ação é inferior ao tempo necessário
para a reação, transmitir em texto claro: caso contrário,
empregar o código. Por exemplo, se você vai ordenar a um
grupamento tático que ataque às 10 horas e sua experiência
revela que o inimigo só poderá reagir a esta informação às 11
horas, mande a mensagem em texto claro; o mesmo se aplica
aos escalões superiores.
Avaliação de relatórios: quando você receber relatórios sobre
contra-ataques, trate de averiguar quem os enviou — isto é,
qual o tipo da unidade que o produziu. Um grupo de combate
em posição relatará a aproximação de um pelotão inimigo
como sendo um contra-ataque; tal ação não provocará nenhum
efeito em uma divisão ou corpo de exército.
Ataques noturnos: os soldados devem receber instrução para
marchar e atacar durante a noite. Esta instrução torna-se cada
vez mais imperativa, mas não significa que se deva realizar
uma marcha de aproximação noturna. Significa que as
operações letais devem ser realizadas no escuro. Para isto, há
necessidade de reconhecimento meticuloso à luz do dia e que
os ataques tenham objetivos limitados. Além da reserva
normal que acompanha o ataque noturno, há necessidade de
ter à mão uma outra reserva, em condições de ser empregada
durante o dia, em caso de contra-ataque inimigo.
Idéias oportunas sobre suprimentos: o estudo cuidadoso e a
consulta ao calendário evitarão situações em que, por falta de
previsão, uniformes de inverno, etc., não foram solicitados em
tempo hábil.
Do mesmo modo, o acompanhamento da situação tática
assegurará a requisição oportuna da gasolina e munição
necessárias. As unidades combatentes são responsáveis pelo
atraso nos pedidos de suprimentos, e não as unidades
logísticas.
No período de chuvas é vital que os soldados recebam meias
secas diariamente, com a distribuição da alimentação. As
meias devem ser de lã ou de outro tecido grosso, e não devem
encolher.
Na era do transporte motorizado quase ilimitado, é loucura
sobrecarregar os soldados com cobertores, etc. Isto é mais
verdadeiro ainda em tempo de chuva e frio. A solução consiste
em enviar as camas-rolos para o ponto de distribuição de
munição, antes do escurecer; ali serão apanhadas pelas
unidades, utilizadas durante a noite, enroladas pelos soldados e
deixadas para serem recolhidas pelas unidades de retaguarda.
Esta solução pode parecer um desperdício, já que ninguém fica
responsável pelo controle das camas, mas é mais barata do que
o tratamento da pneumonia.
Em combate, o soldado não deve transportar nada, a não ser
uniforme, armamento, munição, rações e artigos de higiene
individual. Ao voltar, para a retaguarda, o combatente deve
receber tudo novo: uniforme, roupa de baixo, etc.
O sistema de dois sacos de bagagem (saco “A” e saco “B”),
utilizados desde o início da guerra, constitui uma rematada
estupidez porque quando as unidades recebem os sacos “B”,
muitos dos seus proprietários já se tornaram perdas em
combate.
Nas operações anfíbias e nas de travessia de curso de água,
quando os uniformes ficam muito estragados ou
completamente molhados, o segundo escalão de desembarque
deve trazer uniformes completos, de vários tamanhos,
inclusive capacetes, cintos, coturnos e roupa de baixo, para
20% do efetivo engajado na operação. Isto permitirá o
reequipamento imediato dos que perderem seus uniformes,
sem congestionar as linhas de suprimentos.
A finalidade principal dos estados-maiores geral e especial é
assegurar o atendimento das necessidades das unidades.
Durante o combate, os soldados tornam-se temperamentais e
solicitam coisas de que realmente não necessitam. Todavia,
quando for humanamente possível, é preciso atendê-los, por
mais esquisitos que sejam os pedidos.
Os comandantes combatentes esquecem-se frequentemente das
instalações e unidades administrativas e logísticas. Para elevar-
lhes o moral e a eficiência, é indispensável que o general mais
graduado da grande unidade combatente inspecione as
unidades de apoio.
Duração do ataque: as unidades de Infantaria podem atacar
ininterruptamente durante 60 horas. Obedecendo-se a esta
limitação, economiza-se tempo e muito sofrimento. Além de
60 horas tudo é desperdício, porque a privação do sono
provoca excesso de fadiga.
Marcha noturna: não é vantajoso executar marcha noturna nas
proximidades do inimigo. É melhor fazer alto duas horas antes
do crepúsculo, servir uma refeição, distribuir meias secas em
caso de chuva, realizar manutenção das viaturas e preparar-se
para reiniciar a marcha no dia seguinte. Retomar o movimento
ao alvorecer. Ataques noturnos com blindados também não são
vantajosos, a não ser em terreno excepcionalmente favorável e
depois da realização de minucioso reconhecimento diurno.
Observe, antes de mudar: no tempo em que a Marinha ainda
usava velas, havia uma tradição que impunha ao oficial que
iniciava o seu quarto de serviço não alterar a disposição das
velas durante a primeira meia hora, isto é, até um toque de
sino após a assunção do serviço. Bem que se poderia aplicar a
mesma regra para os comandantes e os oficiais de estado-
maior que assumem funções durante a guerra. Deveriam
esperar pelo menos uma semana antes de efetuar qualquer
alteração radical, a não ser que hajam sido colocados na
função com a finalidade de corrigir uma situação crítica.
Não atrase: o perfeito é inimigo do bom. Isto significa que
mais vale um plano bem executado com ímpeto já, do que um
plano perfeito para ser executado na semana que vem. A
guerra é uma coisa muito simples e suas características
marcantes são a autoconfiança, a rapidez e a audácia.
Nenhuma delas jamais poderá ser perfeita, mas pode chegar a
ser boa.
Relatórios: na guerra, nada é tão ruim, ou tão bom, conforme
consta do relatório enviado ao escalão superior. Qualquer
relatório produzido por uma unidade depois do entardecer —
isto é, com dados obtidos após o escurecimento — deve ser
encarado com muitas restrições pelo escalão imediatamente
superior. Dados fornecidos pelos feridos são sempre
exagerados em favor do inimigo.
Identificação: os distintivos das unidades, ostensivamente
visíveis, são mais valiosos do que perigosos, e devem ser
colocados em lugares em que possam ser vistos.
Exercícios no caixão de areia: com estados-maiores de corpo
de exército e de exército, mesmo em caixões de areia
rudimentares, são muito úteis antes de um ataque.
Oficiais-generais: existem mais comandantes de divisão
cansados do que divisões cansadas. Oficiais fatigados são
sempre pessimistas. Lembre-se disto na hora de avaliar os
relatórios. Generais jamais devem revelar dúvida, desânimo ou
fadiga. Os generais devem se fixar em um tipo de uniforme
para serem reconhecidos pelos soldados. Devem andar
impecavelmente uniformizados.
Durante a época do frio, os oficiais-generais devem tomar o
cuidado de não parecerem mais agasalhados do que seus
soldados.
Os comandantes e seus estados-maiores devem visitar
unidades de efetivo até dois escalões abaixo dos seus, e seus
mapas devem obedecer a esta regra para localização do
dispositivo. Assim, os comandantes de corpos e seus estados-
maiores devem visitar postos de comando de divisão e
regimento; os comandantes de divisões devem visitar postos
de comando de regimento e batalhão; é claro que tais visitas
visam a aperfeiçoar os canais de comando. As visitas por
assim dizer “estimulantes” devem baixar muito mais de
escalão. Quando mais graduado o oficial que visitar uma
pequena unidade na frente, melhor o efeito sobre os soldados.
Se a realização da visita envolve perigo, seu valor aumenta
mais ainda.
Quando falar com um oficial subalterno a respeito do inimigo
que ele tem pela frente, subestime-lhe o efetivo. Faça isto
porque a pessoa em contato com o inimigo superestima-lhe o
efetivo invariavelmente; ao ouvir você subestimar o valor do
inimigo, provavelmente o subalterno formará uma idéia mais
aproximada da realidade sobre o efetivo do inimigo, e você
terá também contribuído para aumentara autoconfiança do
oficial.
Todos os oficiais, e particularmente os oficiais-generais,
devem se interessar profundamente por tudo aquilo que
interesse os soldados. Em geral, lucra-se muito com o simples
fato de estar interessado em uma coisa, mas, mesmo que não
haja nada a ganhar, a simples demonstração de interesse tem
um elevado efeito moral sobre o soldado.
A minha experiência ensina que todos os bons comandantes
são indivíduos especiais, e devem ser tratados como tal.
Alguns precisam ser solicitados, outros necessitam apenas de
sugestões; pouquíssimos precisam ser contidos.
Obterá sucesso extraordinário o oficial-general que assumir,
invariavelmente, a responsabilidade pelo fracasso, quer lhe
caiba ou não a culpa, e atribuir aos outros o crédito pelos bons
resultados, quer eles mereçam ou não.
Em qualquer caso, os elogios e as ordens do dia que revelem à
grande unidade a glória e a magnitude de seus feitos terão uma
grande influência sobre o moral.
Os comandantes de corpo de exército e de exército devem
considerar como ponto de honra o fato de poderem ser vistos
pelo maior número possível de subordinados e, evidentemente,
por todos os soldados combatentes. Para isto, o melhor
processo é dirigir algumas palavras às divisões concentradas,
como um todo ou por partes, nas zonas de reunião.
Quando uma unidade for transferida é importante publicar um
elogio, desde que o seu desempenho justifique a medida.
No curso do combate, é muito importante visitar
frequentemente os feridos recém-baixados aos hospitais.
Todavia, antes de ser iniciada a visita, o diretor do hospital
deve alertar o general visitante sobre as enfermarias onde se
acham os baixados cuja conduta não mereça elogios.
Os generais e os principais oficiais do estado-maior devem
escrever diários.
Evite-se o costume condenável de citar o escalão
imediatamente superior como autor de qualquer crítica adversa
e de atribuir a si próprio a origem de todos os elogios.
Inspeções: depois de avisar a uma unidade a ocasião em que
irá inspecioná-la, jamais cancele o ato e realize uma inspeção
minuciosa. Além disto, não deixe ninguém esperando muito
tempo pela inspeção. Depois de executarem os preparativos
para ela, os soldados merecem a honra da presença da
autoridade inspecionadora. Se a unidade apresentar-se bem,
não se deve esquecer de manifestar esta opinião,
ostensivamente, ao comandante da unidade. Se a unidade não
se sair bem, deve-se comunicar o fato, reservadamente, ao seu
comandante, e em termos que não deixem margem a dúvidas.
Jamais esqueça de falar pessoalmente com todos os soldados
possuidores de condecorações ou feridos em combate; indague
o que fizeram para ser condecorados, ou em que circunstâncias
foram feridos.
Divisões de Infantaria e blindadas: a principal diferença entre
divisões de Infantaria dotadas de carros de combate e divisões
blindadas é que nas primeiras os carros destinam-se a auxiliar
a progressão dos infantes. Na divisão blindada a função da
Infantaria é auxiliar a penetração dos carros de combate. Na
divisão de Infantaria os carros utilizam seus canhões para
facilitar o avanço dos homens a pé. Na divisão blindada os
canhões abrem caminho para que os carros cheguem a
distância de emprego eficaz de suas metralhadoras. Por isto, é
de vital importância a colocação de duas metralhadoras
coaxiais, ao invés de uma única, nos carros de combate.
Cooperação ar-terra: ainda é muito rudimentar a eficácia da
cooperação ar-terra. Os comandantes terrestres e aéreos devem
procurar constantemente imaginar e empregar novos métodos
de cooperação.
Potência de fogo: jamais existirá excesso de projetis em uma
batalha. Não importa se são disparados por canhão, foguetes
ou armas sem recuo. A finalidade das armas é a mesma:
inundar o inimigo com fogo. Também não é necessário que os
projetis sejam disparados contra o solo.
Expedição de ordens: o melhor meio de dar uma ordem é um
general falar pessoalmente com o outro. Na impossibilidade do
encontro pessoal, o melhor é a conversa telefônica, que deve
ser registrada em cada extremidade da linha. Todavia, a fim de
preservar um documento contendo as ordens expedidas
verbalmente, sempre deverá ser elaborada uma ordem escrita,
que não precisa ser redigida no momento exato em que for
expedida a ordem verbal, mas que deve chegar ao escalão
subordinado antes que ele inicie a execução das operações
ordenadas. Com isto, caso o subordinado haja esquecido algo,
sua memória será reavivada pela ordem escrita; além do mais,
o documento demonstra ao subordinado que o seu superior
assumiu a responsabilidade pela operação ordenada
verbalmente.
Na minha opinião, as ordens, no Exército, não deveriam
ultrapassar uma folha e meia de papel com texto datilografado;
eu próprio obedeço a este limite. Normalmente um lado da
folha serve para datilografar a ordem e o outro lado para
desenhar um esboço da operação.
Os comandantes devem se lembrar de que a expedição de uma
ordem, ou a concepção de um plano, representa apenas cinco
por cento da ação de comando. Os noventa e cinco por cento
restantes compreendem a verificação do cumprimento da
ordem, seja por observação pessoal, seja por meio dos oficiais
do estado- maior. As ordens devem ser expedidas com a
antecedência necessária para a sua difusão completa.
Jamais diga aos outros como fazer as coisas. Diga-lhes o que
fazer e eles o surpreenderão com a criatividade que possuem.
Evite ao máximo a expedição de ordens inócuas, ordens que só
servem para fins de arquivo. O oficial que expede tais ordens
demonstra fraqueza, imediatamente percebida por aqueles que
leem as ordens.
Ao planejar qualquer operação é indispensável lembrar de
duas coisas, e repeti-las constantemente para si próprio: “se
você usar a audácia, nada será impossível na guerra” e “não se
deixe guiar por seus temores”. Dispondo de unidades como as
americanas, a vitória será certa se estes dois princípios forem
seguidos.
Mapas: na minha opinião, os oficiais mais graduados se
prejudicam quando utilizam cartas em escala grande, porque
ficam emaranhados nos pormenores do terreno.
De um modo geral os comandantes de corpos e de exércitos
não devem se preocupar muito em como derrotar o inimigo
sob o aspecto tático; devem interessar-se por onde derrotá-lo.
O onde é encontrado através do estudo meticuloso de mapas
rodoviários, ferroviários e fluviais. Evidentemente, as cartas
em escala grande servem para o estudo dos meios táticos a
serem usados pelas divisões para conquistar estradas de
rodagem, estradas de ferro e cabeças-de-ponte. Entretanto, a
escala da carta não aumenta na proporção que vai diminuindo
o efetivo da unidade que a utiliza. No escalão regimento, uma
carta deve ser suficientemente precisa e em escala que permita
ao comandante escolher os Postos de Observação e de
Comando, além das vias de acesso. Para as demais
necessidades do regimento o comandante deve recorrer ao
reconhecimento pessoal do terreno. Do escalão batalhão para
baixo não há necessidade de cartas; aliás, nestes escalões, a
sua utilização pode acarretar graves perigos. Jamais vi um
bom comandante de batalhão dirigir a sua unidade por meio da
carta, mas vi maus comandantes utilizarem este processo
condenável de comando.
Organização do estado-maior: os quartéis-generais das grandes
unidades — particularmente corpo de exército e exército —
devem ser organizados em escalões e seções da seguinte
forma: escalão avançado, compreendendo o general
comandante, o chefe do estado-maior, o subchefe do estado-
maior, as 1ª, 2ª e 3ª seções, as seções de Artilharia de
Campanha, Artilharia Antiaérea, Engenharia de Combate,
Comunicações e Ligação Aérea, além de subseções da Polícia
do Exército, das Unidades Especiais e da Companhia de
Comando do QG; neste escalão estarão incluídos
representantes das 4ª e 5ª seções e dos serviços de Material
Bélico e de Intendência. Em caso de necessidade este escalão
avançado poderá destacar um QG Avançado Tático,
compreendendo o general comandante, o chefe do estado-
maior do escalão avançado e elementos operacionais das 2ª e
3ª seções, da Artilharia de Campanha, da Engenharia de
Combate e das Comunicações; é desejável, mas não
imperativa, a presença de um grupo de ligação da 4ª seção.
O escalão recuado deve ficar sob a chefia do E-4 e
compreender: a 5ª Seção, a Seção de Guerra Química, os
serviços de Saúde, Finanças, Intendência, Material Bélico,
Engenharia, Comunicações, Ajudância Geral, Inspetoria Geral,
Justiça e Religioso.
Quando a situação e as instalações o permitirem, todos os
escalões devem ficar juntos. O escalão recuado localiza-se a
uma distância do escalão avançado nunca superior a três horas
de viagem motorizada. Deve ser instalada a melhor rede de
comunicações possível entre os dois escalões.
Desdobramento do quartel-general: todos os quartéis-
generais, de regimento até exército, devem obedecer a um
esquema geral de desdobramento padronizado, de modo que
qualquer visitante que chegue ao Centro de Mensagens saiba a
direção a seguir para encaminhar-se a qualquer seção.
O alojamento do general e dos chefes de seção em caminhões
adaptados para dormitório economiza tempo e aumenta a
eficiência do QG. Além disto, devem existir três carros-
reboques no escalão avançado: um para o general comandante
e o chefe do estado-maior, um para os chefes de seção do
estado-maior geral e um para o subchefe do estado-maior e
burocratas, a fim de que a rotina burocrática e o planejamento
tenham curso normal em condições meteorológicas
desfavoráveis.
Um prédio, mesmo em mau estado, é melhor do que barracas
para a instalação das repartições, da cozinha e dos refeitórios.
Em qualquer sala do estado-maior, ou em carro-reboque, o
telefone deve ficar perto da carta de situação, de modo que o
oficial possa falar ao telefone enquanto localiza ou procura
coisas na carta. Parece incrível, mas o 3º Exército colocou
cartas e telefones em lados opostos da sala quando instalou o
Posto de Comando pela 23ª vez.
Na minha opinião, durante o dia, os generais — ou pelo menos
o general-comandante — deveriam atender seus próprios
telefones. Isto não constitui uma tarefa fatigante porque pouca
gente telefona para um general, salvo em situações de
emergência; aqueles que telefonam gostam de ser atendidos
pelo general. Durante a noite, o telefone deve ser atendido por
um ajudante-de-ordens, que deve dispor de meios para chamar
o general ou o chefe do estado-maior, dependendo de qual
deles seja o destinatário da chamada. É importante manter um
estenógrafo de serviço, a fim de que o general-comandante ou
o chefe do estado-maior disponham de um registro escrito de
qualquer conversação telefônica. O estenógrafo cresce de
importância quando eles recebem ou transmitem ordens pelo
telefone. O registro deve conter a data, a hora, o local e o
nome dos interlocutores. Este procedimento evitará muitos
equívocos e inúmeras discussões.
No curso das vinte e quatro horas do dia qualquer tipo de QG
enfrenta duas fases de atividade máxima. Nestas ocasiões,
todos os oficiais e praças devem estar presentes em seus
respectivos locais de trabalho. Durante as fases de pouca
atividade o maior número possível de oficiais e praças deve
realizar outras coisas, como comer, dormir ou praticar
exercícios. Sei de muitos oficiais que prejudicaram a própria
capacidade de trabalho por ficarem presos às respectivas
seções durante uma campanha inteira. Os oficiais devem ser
obrigados a praticar educação física.
Uma subchefia de estado-maior, dirigida por um subchefe
competente, constitui um órgão de importância vital para
evitar que as seções dos estados-maiores geral e especial se
tornem excessivamente independentes e elaborem ordens
contraditórias. O subchefe do estado-maior representa o ponto
de estrangulamento por onde devem passar todas as ordens.
Nos níveis exército, corpo e divisão, o escalão avançado deve
realizar uma reunião diária, tão logo o QG respectivo esteja de
posse dos informes do dia. Na minha opinião, a oportunidade
para a realização desta reunião é a seguinte: divisão — uma
hora depois do alvorecer; corpo de exército — duas horas após
o alvorecer; exército — três horas após o alvorecer.
Diariamente, um oficial de cada seção de estado-maior de
corpo e de exército deve visitar a frente de combate e
encontrar- se com o seu correspondente no escalão
imediatamente inferior. Entretanto, nada impede que ele
obtenha outros informes não relacionados diretamente com a
sua seção. Qualquer coisa de importância vital que chegue ao
seu conhecimento será relatada imediatamente ao chefe do
estado-maior, após o regresso do oficial ao seu QG. Se o dado
não for vital, cabe ao oficial relatá-lo na reunião do dia
seguinte. Depois desta reunião o general comandante ou o
chefe do estado-maior devem visitar alguma parte da frente de
combate.
O general-comandante, ou o chefe do estado-maior, de um
comando aerotático, atuando com um exército, deve
comparecer a todas as reuniões de estado-maior e de
planejamento. Este é o único processo capaz de proporcionar a
cooperação máxima desta poderosa arma. O A-3 deve
trabalhar em contato com o E-3, assim como o A-2 com o E-2.
Em que pese à capacidade de trabalho de cada um, devem ser
dispensados da função os oficiais de estado-maior que não
conseguem trabalhar em equipe. Um estado-maior não
funciona adequadamente se não for unido como uma família.
Condecorações: é vital para o moral da tropa que as
condecorações sejam concedidas rapidamente e em bases
equitativas. Em cada estado-maior de exército e de corpo de
exército deve haver um oficial da 1ª Seção encarregado de
cobrar as citações meritórias das divisões e das unidades
adidas. A ele caberá também assegurar-se de que sejam
redigidas de forma correta. Quando o tempo permitir, oficiais
da 1ª Seção de divisão, corpo e exército deverão participar de
cursos sobre redação de citações.
Relatório de perdas: do mesmo modo, devem ser ministrados
cursos sobre administração, nos quais seja dada especial
atenção aos relatórios de perdas. É preciso manter atualizados
dois tipos de relatórios, seja sobre perdas nossas, seja sobre
perdas inimigas; assim obter-se-á um acompanhamento
constante da situação. Um dos relatórios sobre as nossas
perdas baseia-se em fatos concretos e o outro em estimativas;
o primeiro fica decalado de duas a três semanas no tempo, em
relação ao segundo. Entretanto, quando realizado
adequadamente, o relatório estimado conterá dados superiores
em 2 ou 3 por cento aos dados do relatório corrente.
Equanimidade nas punições: os juízes-auditores e os
inspetores gerais devem verificar e assegurar que as unidades
subordinadas apliquem punições semelhantes para crimes e
transgressões idênticas, a fim de estabelecer uma
equanimidade nas punições dentro do mesmo exército.

GENERALIDADES
Um dos grandes defeitos da nossa organização militar é prever
penas leves para as violações da lei. A finalidade da legislação
militar é mais administrativa do que legal. Os franceses
costumavam dizer que as penas leves estimulam novos
transgressores. Por uma questão de justiça para com os outros,
estou convencido de que os soldados que dormem em serviço,
que se ausentam do combate por um período de tempo
injustificável e que fogem da luta deveriam ser fuzilados; além
disto, acho que os combatentes de exércitos e de corpos
deveriam ter autoridade para sancionar as condenações à
morte. A maior tolice do mundo é achar que os oficiais-
generais podem dar ordens que acabam implicando na morte
de milhares de homens valentes e destemidos, mas não podem
condenar à morte um patife miserável.
Uniformes: a finalidade do uniforme é dar ao soldado um traje
igual ao dos demais companheiros e que seja fresco ou quente,
conforme as circunstâncias. Na minha opinião, o uniforme
adequado para o soldado americano compreende o capacete
com jugular, camisa e calça verde-oliva — a calça com a boca
um pouco estreita — e coturnos. No outono, quando o tempo
começar a esfriar, o tecido da camisa e da calça tem que ser a
lã. Nesta ocasião deve-se distribuir roupa de baixo e meias de
lã grossa, além de um cachecol de lã, que pode ser usado
também enrolado na cabeça durante a noite, ou envolvendo a
barriga.
Quando a temperatura chegar a zero grau, ou abaixo de zero,
os soldados devem receber um capote com forro, mas sem
cinto; na frente de combate, deve-se distribuir um regalo para
cobrir as mãos, de modo que o homem possa retirar a mão do
seu interior e acionar o gatilho da arma, sem precisar
descalçaras luvas.
Emprego da alça de mira: a alça de mira em forma de janela
não se presta para uso na guerra, pois é ineficiente no escuro,
ou em locais com pouca luz. Das centenas de oficiais
interrogados, três ou quatro declararam ter visto um soldado
regular a alça de mira durante o combate. Logo, nossos fuzis
deveriam ser dotados de alça com duas graduações: uma para
a distância de 100 metros e outra para 300 metros. Isto
permitiria que o soldado fizesse uma única correção quando
percebesse que estava atirando curto; na agitação da batalha, é
difícil regular corretamente a alça de mira.
Bandoleiras: os mesmos oficiais interrogados a respeito da
alça de mira declararam-se jamais terem visto alguém utilizar
a bandoleira do fuzil para ajudar o tiro, com exceção de dois
franco-atiradores. Logo, a bandoleira de couro, dispendiosa e
pesada, deveria ser substituída por uma de pano, destinada
apenas a ajudar a transportar a arma.
Morteiros: os morteiros da Infantaria deveriam dispor de
granadas iluminativas para o combate noturno.
Distintivos da Cruz Vermelha: as ambulâncias deveriam ser
totalmente pintadas na cor branca, com a cruz vermelha
pintada dos lados, no teto, na traseira e na frente da viatura.
O pessoal de saúde das unidades engajadas deveria usar uma
blusa branca, sem mangas, cobrindo o peito e as costas até a
altura da cintura. A cruz vermelha seria aplicada sobre a blusa,
na frente e nas costas. Durante a marcha de aproximação, e
considerando que a cor branca é facilmente identificável do ar,
a blusa seria usada pelo avesso, e a parte das costas teria a cor
verde-oliva.
Ataques aéreos: conhecemos os efeitos dos nossos ataques
sobre as redes de comunicações, as ferrovias e as rodovias do
inimigo. Portanto, deveríamos admitir os mesmos ataques
contra nós e imaginar formas de prosseguir na luta com as
nossas comunicações, ferrovias e rodovias destruídas ou
danificadas.
Sempre que for possível, é melhor solicitar à Força Aérea que
interrompa as ferrovias em pontos afastados das cidades; o
ataque deverá ser desfechado contra três pontos do leito da
estrada de ferro, a fim de dificultar o acesso ao ponto central
para o socorro enviado de qualquer direção da linha férrea.
Além disto, esta técnica obriga as equipes de reparação a
percorrerem grandes distâncias e a trabalharem em regiões
onde podem ser facilmente atacadas do ar; no campo aberto,
em geral não existe defesa antiaérea montada.
Relatórios de atividade: tão logo se inicie uma operação, um
grupo integrado por oficiais das 2ª e 3ª seções do estado-maior
deverá começar a elaboração do Relatório de Atividades. Este
relatório é organizado obedecendo aos meses do ano civil, isto
é, cada mês constitui uma entidade completa. Quando
terminarem as hostilidades, os dados catalogados por mês
podem ser transformados em relatório por campanha realizada.
Os relatórios de atividades devem conter cópias de ordens, de
calcos, de croquis, de notas de instrução, etc.
Proteção dos trens: as composições ferroviárias que
transportam rações, combustível ou outros artigos capazes de
serem comercializados no mercado negro, precisam ser
protegidas por guardas; qualquer pessoa que tentar roubar tais
artigos deve ser fuzilada na hora, e o fato difundido
ostensivamente.
Perdas por morte e ferimento: há necessidade de se obter
maiores informações do que as obtidas atualmente a respeito
das perdas; só assim se poderá avaliar corretamente a eficácia
do fogo inimigo. No momento, conhecemos apenas o número
de baixas e o tipo de ferimento daqueles que chegam aos
hospitais, mas não sabemos, nem mesmo no caso dos feridos,
em que parte do campo de batalha ocorreu o ferimento.
Desconhecemos como, ou onde, ocorreram as mortes em
combate. Deveria haver um método de recolhimento de feridos
que indicasse a ocorrência do fato nas proximidades de tal ou
qual ponto. O pessoal de sepulta- mento deveria declarar o tipo
de projétil que provocou a morte do homem a ser sepultado. A
finalidade da obtenção de tais informes é adotar providências
para combater os motivos que provocam nossas perdas.
Proteção superior: na próxima guerra, é certo que o inimigo
disporá de espoletas de tempo variável. Portanto, precisamos
pensar na necessidade de colocar uma chapa de proteção
superior em todo o armamento motorizado, inclusive nas peças
de Artilharia.
Recompletamentos: quando a atual divisão de Infantaria perde
4.000 homens, seu valor ofensivo torna-se nulo, porque 92%
deste total correspondem a fuzileiros e há menos de 4.000
fuzileiros em uma divisão. Com menor ênfase, a mesma
situação ocorre com as divisões blindadas. Logo, toda divisão
deve ter um batalhão de recompletamento orgânico. Numa
divisão de Infantaria este batalhão deveria abrigar 15% do
efetivo de fuzileiros da divisão e 5% do efetivo das demais
qualificações militares, incluindo-se aí os recompletamentos
para oficiais de companhia de Infantaria. Assim, o batalhão
deveria ter uma companhia de recompletamento para cada
regimento de Infantaria e uma companhia de recompletamento
para as demais unidades.
O batalhão de recompletamento de uma divisão blindada
deveria abrigar 10% do efetivo de fuzileiros da Infantaria
blindada, 10% do efetivo do pessoal dos batalhões de carros de
combate e 5% do efetivo das demais qualificações militares,
inclusive o recompletamento para os oficiais das companhias.
No curso de uma campanha, o regresso dos baixados por
ferimento poderá dar lugar a uma situação temporária em que
o efetivo do batalhão de recompletamento ultrapasse as
percentagens recomendadas acima. Esta situação será
corrigida ao cabo de um ou dois dias de combate. Para manter
o moral elevado é indispensável que os feridos recuperados
retornem às respectivas unidades de origem, sem perda das
graduações que ostentavam.
Habilidade americana: como raça, os americanos são os
melhores operadores de máquinas do mundo. Como nação, os
Estados Unidos possuem a maior capacidade do mundo para a
produção em massa de máquinas. Logo, compete a nós a
criação de formas de guerra que aproveitem a nossa
capacidade inata. Devemos empreender a guerra, dentro da
nossa capacitação máxima, com máquinas operando em terra e
no ar, principalmente considerando que as duas raças contra as
quais poderemos vir a lutar são constituídas por operadores de
máquinas medíocres, mas que dispõem de enorme potencial
humano. Embora também contemos com vasto potencial
humano, ele é valioso demais para ser desperdiçado.
Lealdade: fala-se muito da lealdade do subordinado para com
o superior. A lealdade do superior para com o subordinado é
muito mais necessária, porém muito menos usual.
Ao concluir estas observações, é triste lembrar que quando
alguém chega a dominar a arte de comandar, normalmente esta
arte deixa de ser necessária; ou por causa da conclusão das
hostilidades, ou por causa da idade avançada do comandante.

2. FAZENDO JUS AO MEU SOLDO


As responsabilidades de um oficial guardam alguma
semelhança com as de um policial ou de um bombeiro. Quanto
melhor desempenha suas tarefas cotidianas, menos tem que
agir diretamente.
Olhando para trás, para a minha carreira militar um tanto
longa, surpreendi-me ao verificar que poucas vezes fiz jus, por
assim dizer, ao meu soldo. Por outro lado, o fato de ter sido
obrigado a tomar atitudes drásticas tão poucas vezes talvez
sirva como prova de que eu realmente cumpria o meu dever.
Os episódios que se seguem representam, para mim, as
ocasiões em que a minha intervenção pessoal revestiu-se de
algum valor.
Algumas vezes os cadetes da Academia Militar se atribuíam a
tarefa discutível de criticarem os oficiais, manifestando tal
crítica através daquilo que era conhecido como “gelo”. O ato
era praticado no “rancho” da Academia, na hora em que nele
entrava o oficial considerado em erro. Todos os cadetes
conservavam-se imóveis nas mesas e não falavam enquanto o
oficial permanecesse no refeitório. Sempre fui contra atitudes
deste tipo, que se me afiguravam quase como amotinação.
Certa ocasião, estando eu no comando, conduzi o Batalhão de
Cadetes para o almoço; o oficial-de-dia entrou no refeitório e
eu percebi os indícios de que ia ocorrer o “gelo”. Senti que os
cadetes estavam mal informados sobre aquele oficial, mas, de
qualquer maneira, eu era contra o “gelo”. Portanto, comandei
“sentido” e “sem cadência, marche”, e retirei os cadetes do
“rancho”. O oficial-de-dia, um tanto jovem e inexperiente,
criticou a minha atitude, até que lhe expliquei o porquê.

No verão de 1914, eu era o único oficial-de-dia em toda a área


do Fort Riley, em Kansas, quando um soldado negro foi
acusado de violentar uma moça branca, em uma cidade
vizinha. Corria o boato de que os moradores da localidade
pretendiam linchar o soldado. Evidentemente, condeno o
atentado sexual. Entretanto, considerei meu dever de oficial
diligenciar para que um soldado do Exército dos Estados
Unidos não fosse linchado. Assim, informei aos cabeças do
movimento popular de que a tentativa de linchamento só
poderia se efetuar se eles passassem por cima do meu cadáver.
Como consequência da minha atitude o soldado conservou-se
vivo e, posteriormente, ficou provado que era inocente.
Durante os incidentes na fronteira, em 1916, eu comandava
um pelotão de 20 homens em Hot Wells, no Texas. Minha
missão era proteger, contra os ataques dos villistas, cerca de 55
quilômetros da Estrada de Ferro Southern Pacific, por onde
trafegavam os trens carranzistas. Hot Wells ficava no centro do
meu setor. Enviei, para oeste, um sargento com a metade do
efetivo do pelotão e dirigi-me com o restante para leste, depois
de telefonar para o comandante do 13º Regimento de
Cavalaria e avisar que iria assumir o controle de determinada
ponte. Ao nos aproximarmos desta ponte, no escuro, o homem
que fazia a ponta da tropa procurou-me para comunicar que
ouvira vozes sobre a ponte, e de gente falando espanhol.
Imaginei que os villistas estivessem minando a ponte. Sempre
acreditei na eficácia de um ataque de surpresa. Portanto,
organizei minha tropa em linha, mandei que todos sacassem as
pistolas e avançassem. Quando chegamos quase embaixo da
ponte deparamo-nos com uma cerca de arame e tivemos que
parar. Ao mesmo tempo, surgiram alguns fuzis em cima da
ponte a apontaram para nós. Gritei alguns palavrões e indaguei
quem estava lá em cima; imaginem o meu alívio quando uma
voz respondeu: “Patrulha do 13º de Cavalaria”. Eles haviam se
perdido e invadido a minha zona de ação.
Este exemplo convenceu-me da importância de agir de acordo
com um plano.

Durante as operações da Expedição Punitiva Americana no


México, em 1916-17, o PC avançado do General Pershing,
num lugar chamado El Cobre, compreendia o próprio general,
o Maior Ryan, eu e mais quatro soldados. No fim de uma certa
tarde o General Pershing ditou uma ordem para o Major Ryan
e incumbiu- me de levá-la a um esquadrão do 13º RC em Saca
Grande. A ordem determinava que o esquadrão se deslocasse
para as vizinhanças de um rancho chamado Providência e
reconhecesse as montanhas a oeste. Ao ditar a ordem o
General Pershing estava olhando para as montanhas a oeste, as
quais eu tinha certeza moral o general desejava que fossem
reconhecidas.
Para entregar a ordem seria preciso viajar durante uma hora e
meia em um carro Ford em mau estado, com os faróis acesos e
através do campo, em uma região infestada de villistas. Preferi
ir a cavalo; cheguei ao esquadrão depois de cavalgar a noite
inteira sob chuva, granizo e neve. Quando atingimos
Providência, o major começou a dar ordens para o
reconhecimento das montanhas a oeste de Providência. Ora, o
rancho situava-se em um vale com montanhas em ambos os
lados, mas o PC do General Pershing ficava a leste das
montanhas localizadas a leste de Providência. Portanto, o que
era oeste para o general, era leste para o rancho. Disse ao
comandante do esquadrão que ele deveria reconhecer as
montanhas a leste de Providência. O major mostrou-me a
ordem e indagou: “Você está querendo dizer que devo
transgredir uma ordem escrita?” Respondi-lhe: “Sim senhor”.
O major disse-me alguns desaforos, mas resolveu proceder de
acordo com a minha orientação. O reconhecimento durou o dia
inteiro e não encontrou nada.
O major chamou-me e cavalgamos até o PC do general, onde
ele declarou: “Este rapaz idiota fez com que eu fracassasse na
missão”. O General Pershing retrucou: “O que quer que o
Tenente Patton haja dito corresponde às minhas ordens”. E
dirigindo-se a mim, indagou: “Qual foi a ordem que você
deu?” Relatei o que fizera e o general disse: “Você estava
absolutamente certo”.
Naquele tempo a distância entre um 2º tenente e um major era
muito maior do que a que existe hoje entre um 2º tenente e um
general. Na minha opinião, o ato que pratiquei exigiu grande
coragem moral, foi acertado e contribuiu para elevar a
confiança em mim mesmo.

Pouco tempo depois do acontecimento acima, o General


Pershing designou-me para levar uma mensagem ao General
Howze. O único informe disponível sobre a localização de
Howze ora que ele havia passado pelo rancho Providência.
Cheguei ao rancho ao escurecer, viajando de automóvel, e tive
a sorte de lá encontrar um comboio de cargueiros do 1º
Regimento de Cavalaria. O chefe do comboio cedeu-me dois
soldados e três cavalos e comecei a procurar o General Howze.
A luminosidade ainda me permitia seguir as pegadas do
esquadrão. Havíamos percorrido uma distância curta quando
nos encontramos com uma patrulha do 10º RC; pediram-me
que não fosse adiante porque a região matosa estava cheia de
villistas. Continuei a minha busca, e, por volta da meia-noite,
cheguei à linha de crista do vale que acabara de atravessar;
dali abriam-se dois vales. Era preciso tomar uma decisão.
Olhando para o horizonte julguei perceber, nas nuvens, um
ligeiro reflexo de luzes sobre o vale mais a leste. Segui por
este vale e encontrei uma patrulha do 7º RC, comandada pelo
Major Fechet, mais tarde general; Fechet solicitou-me que não
prosseguisse, porque o vale estava cheio de villistas e não
sabia se o General Howze passara por ali, embora acreditasse
que não. Apesar disto, continuamos pelo vale e encontramos o
General Howze.
Esta operação não envolveu nenhuma ameaça, mas sim
inúmeros riscos que deixarei de citar.

Certa vez, quando eu era instrutor em Fort Riley, realizei em


minha casa uma festa só para homens e oferecida aos
integrantes da turma do segundo ano. Evidentemente fizemos
muito barulho, mas ninguém se portou como bêbado, nem
mesmo de forma descontrolada. No dia seguinte fui chamado
pelo comandante, um homem que vivia dominado pela esposa;
declarou-me haver recebido um informe verdadeiro, a respeito
de um tenente que comparecera à minha festa e que se tornara
inconvenientemente embriagado. O comandante desejava
saber o nome do oficial. Respondi-lhe que não denunciaria
ninguém. Disse-me ele: “Daqui a um mês e meio terminará o
seu tempo de instrutor; se o senhor não responder à minha
pergunta, desligá-lo-ei imediatamente e prejudicarei a sua
folha de serviços, até agora excelente”. Menti, declarando que
estava tão embriagado, na festa, que não notara o estado dos
outros oficiais. O comandante não fez nada contra mim.

No verão de 1918, eu observava o exercício de tiro real com


canhão de 37 mm, realizado por um grupo de soldados da 301ª
Brigada de Carros de Combate, então sob o meu comando.
Uma granada defeituosa explodiu na boca do canhão, ferindo
dois ou três homens. O tiro seguinte explodiu na culatra,
decepando a cabeça de um dos serventes. Os soldados
hesitaram em disparar o tiro seguinte, de modo que cabia a
mim fazê-lo, por ser o oficial mais graduado entre os
presentes; na realidade, disparei três tiros sem qualquer
incidente. Isto restabeleceu a confiança dos homens na arma.
Devo confessar que em toda a minha vida nunca relutei tanto
em puxar um gatilho.
Durante a ofensiva do Mosa — Argonne, as tripulações dos
carros de combate da companhia do Capitão Matt English, da
301ª Brigada, estavam cavando uma brecha através das
trincheiras alemãs quando caíram sob fogo direto de
metralhadora, disparado de 300 metros de distância. Os
homens procuraram abrigo e pararam de trabalhar; a fim de
restaurar-lhes a confiança, o Capitão English e eu ficamos de
pé sobre o parapeito. Isto persuadiu os homens a continuarem
a cavar. Por incrível que pareça, alguns homens foram feridos,
mas nós dois nada sofremos. Fizemos passar cinco carros de
combate pela brecha cavada; eles avançaram contra as
metralhadoras alemãs, que logo pararam de atirar.
Acompanhei a pé os carros de combate e passei por cerca de
uns 300 infantes totalmente desorganizados; achavam-se do
outro lado da colina e submetidos a um fogo cerrado de
metralhadoras situadas a grande distância e de Artilharia.
Havia necessidade de que a Infantaria acompanhasse os carros,
a fim de aproveitar o êxito da ruptura. Mandei que os infantes
avançassem, mas não obtive resultado. Solicitei voluntários;
seis homens, inclusive o meu próprio ordenança, Joseph
Ângelo, apresentaram-se para me seguir. Caminhamos para a
frente; com isto, os demais pararam de caminhar para trás.
Nesta operação, 4 voluntários foram mortos e eu ferido. Com a
chegada de mais carros de combate os infantes avançaram e a
operação foi um sucesso. Fui condecorado com a Cruz de
Serviços Relevantes.

Depois que fui ferido no combate de St. Mihiel, sofri forte


hemorragia e permaneci cerca de uma hora deitado em uma
cratera de granada, a uns trinta metros das linhas alemãs;
durante esse tempo o local foi alvejado por tiros de
metralhadora e morteiro. Como nunca havia sido ferido,
julguei-me em mau estado, e, na verdade, pensei que ia
morrer. Apesar de tudo, contrariando a prescrição médica,
insisti em ser levado ao QG da 35ª Dl, a qual minha unidade
prestava apoio na ocasião, a fim de fazer um relatório exato da
situação na linha de frente; só depois consenti em ser levado
até o hospital. Na realidade o meu ferimento não era grave,
mas sofri os efeitos do temor mental, que é tão grande quanto
o físico.

Na manhã de 9 de novembro de 1942, desembarquei na praia,


em Fedala, acompanhado pelo meu ajudante-de-ordens,
Tenente Stiller. Deparamo-nos com uma situação muito ruim.
As embarcações chegavam à praia e não retornavam ao mar
depois de descarregadas. Explodiam granadas e os aviadores
franceses metralhavam a praia. Os tiros franceses passavam
longe das embarcações, mas nosso pessoal corria para os
abrigos, o que retardava a operação de descarga; o maior
prejuízo ocorria na descarga de munição, suprimento de
necessidade vital em face do combate travado a 1.500 metros
ao sul da praia.
Com a minha permanência na praia, com a interferência
pessoal no despacho, para o mar, das embarcações
descarregadas e não me abrigando quando os aviões inimigos
sobrevoavam a área, creio que contribuí para acalmar os
nervos do pessoal e para transformar em sucesso o
desembarque inicial. Permaneci na praia cerca de dezoito
horas, e com o uniforme molhado durante o tempo todo.
Dizem que este comportamento não é próprio para um
comandante de exército. A minha opinião é que um
comandante de exército faz o que for necessário para cumprir
sua missão, e quase oitenta por cento desta missão consiste em
elevar o moral de seus homens.

Às 2h30min da madrugada de 11 de novembro de 1942 fui


despertado pelo Coronel Harkins, com a informação de que
chegara um oficial francês, vindo de Rabat, trazendo uma
ordem para que os franceses de Casablanca se rendessem.
Fornecemos uma escolta para levar o oficial até Casablanca.
Surgiu então a dúvida se valia a pena ou não suspender o
ataque, a ser iniciado através de um bombardeio aéreo às 7
horas da manhã. Muitos oficiais de grande valor
aconselharam-me a suspender o ataque. A sugestão não me
agradou, pois eu acreditava que os franceses se renderiam,
com toda a certeza, caso continuássemos a aumentar a pressão;
ao contrário, se revelássemos disposição para discutir com
eles, era possível que não se rendessem. O tempo era o
elemento vital, pois os efetivos franceses superavam os nossos
na proporção de dois para um. Assim, mantive a ordem de
ataque. Às 6h45min recebemos o oferecimento de rendição de
Casablanca. Passamos uns oito minutos atribulados,
transmitindo mensagens radiofônicas para os aviões, que
deveriam iniciar o bombardeio às 7 horas, e para a Marinha
que abriria fogo às 7h16min. Faltava um minuto e quinze
segundos para a hora H quando os aviões confirmaram o
recebimento de nossa mensagem de cancelamento do
bombardeio.

Às 13h30min do dia 11 de novembro de 1942 chegaram ao


Hotel Miramar, em Fedala, para a rendição, o Almirante
Michelier, Comandante Supremo francês na África Ocidental,
o General Noguès, Residente-Geral, e seus respectivos
estados-maiores. Quando saí de Washington, forneceram-me
dois documentos com as condições de rendição, sendo que um
mais brando do que o outro. Durante a travessia marítima li-os
várias vezes, mas a falta de conhecimento da região só me
permitiu compreender, depois da chegada dos franceses, que
as condições destinavam-se à Argélia, que é um departamento
Francês, enquanto o Marrocos é um protetorado (onde o
prestígio do Exército Francês é o único fator que mantém a
paz entre os árabes). Diante disto, percebi que nenhum dos
dois documentos se aplicava à situação em curso.
Aliás, a situação complicava-se ainda mais não só porque eu
não tinha como me comunicar com o General Eisenhower,
mas também porque não sabia o que se passava com os outros
ataques desfechados na África. Cabia-me tomar uma decisão e
era meu dever conservar o Marrocos como porta de entrada
dos americanos na África. Ora, esta porta de entrada seria
inútil caso ocorresse uma soblevação dos árabes. Logo, era
preciso manter o prestígio do Exército Francês.
Fiquei de pé e declarei, no meu francês um tanto deficiente,
que havia frequentado a Escola de Cavalaria, na França, que
servira com os franceses na Primeira Guerra Mundial, durante
dois anos, e que respeitava muito e acreditava totalmente na
palavra de honra de um oficial francês. Portanto, se os oficiais
presentes dessem a palavra de honra de que não atirariam
contra as tropas e os navios americanos, poderiam continuar
de posse dos seus armamentos, continuar a guarnecer as
fortificações costeiras e desempenhar todas as missões que
lhes haviam sido atribuídas — desde que acatassem minhas
ordens.
Jamais tive qualquer motivo para arrepender-me desta decisão.
Se eu tivesse decidido de outra forma, tenho certeza de que
60.000 homens teriam sido empregados só na ocupação do
Marrocos. Ora, isto nos privaria de um efetivo indispensável
para o cumprimento da missão, com forças por si só
inadequadas.

Por volta das 22 horas da noite de 5 de março de 1943 recebi


um telefonema do General Walker B. Smith, chefe do estado-
maior do General Eisenhower, solicitando o meu
comparecimento ao aeroporto Maison Blanche, em Argel, na
manhã do dia 6, em companhia de um chefe de estado-maior
interino e de dois ou três oficiais de estado-maior, e em
condições de sermos designados para uma nova missão. Na
ocasião, todos os oficiais do meu estado-maior achavam-se
empenhados no planejamento da operação contra a Sicília.
Levei comigo os dois ajudantes-de-ordens, Capitão Jenson e
Tenente Stiller, meu ordenança, Sargento Mecks, o General
Gaffey, da 2ª DB e escolhido como chefe de estado-maior
interino, o Coronel Kent Lambert, meu E-3 (deixei Maddox
como substituto), e o Coronel Koch, meu E-2. Aterramos em
Maison Blanche pouco depois do meio-dia de 6 de março e fui
recebido pelo General Eisenhower e pelo General Smith.
Informaram que iam demitir o General Fredendall e que eu
deveria ir ao seu QG e assumir o comando do II Corpo de
Exército, a fim de dirigir o ataque do dia 14; os planos já
tinham sido elaborados e aprovados. Indaguei qual seria a
minha justificativa para chegar a substituir o General
Fredendall. O General Eisenhower revelou-me que já
conversara com Fredendall pelo telefone e ali mesmo no
aeroporto, em um pedaço de papel, escreveu um bilhete para
Fredendall dizendo-lhe que ficasse comigo até a oficialização
da substituição.
Dali voamos para Constantine, onde pernoitei e travei
conhecimento com o General Alexander, comandante do
Grupo de Exércitos ao qual estava adido o II Corpo. O General
Alexander revelou-me que o II Corpo seria desligado do
comando inglês, após o dia 10 de março, e seria tratado como
um exército em campanha, embora conservasse o nome do
corpo.
Voei para Tebessa de manhã cedo, no dia 7, e cheguei ao
quartel-general do II Corpo por volta das 9 horas; encontrei a
maior parte dos oficiais ainda na cama. A situação era
nitidamente deplorável. Das quatro divisões, três tinham sido
muito mal comandadas e sofriam de complexo de
inferioridade. A outra tivera pouca experiência em combate e
só se destacava em uma coisa a ignorância. A disciplina
praticamente não existia; cada oficial do estado-maior dava
ordens diretas a qualquer um, a ponto de o I-3 mandar a uma
divisão a ordem de enviar um pelotão reforçado para uma
determinada elevação.
No espaço de tempo entre a manhã do dia 7 e o fim de tarde do
dia 13, falei pessoalmente com cada um dos batalhões das
quatro divisões e restabeleci a disciplina. Foi uma tarefa
realmente árdua, creio que a mais difícil dentre as que
executei. Entretanto, tivemos a sorte de obter uma vitória
completa no nosso PRImeiro ataque contra Gafsa, na manhã
do dia 14 Isto apagou definitivamente os males gerados pela
falta de confiança; dai em diante, o II Corpo lutou de forma
exemplar.

Ficamos sujeitos a uma orientação cerrada dos ingleses


durante a nossa operação na Tunísia; havia um General-de-
Brigada inglês no meu quartel-general. No começo da segunda
semana de abril eu realizava um esforço enorme para
conquistar uma montanha chamada Djebel Berda. Certa noite,
depois do jantar, o General Eddy, comandante da 9ª Dl que
executava a operação, veio ao meu QG e declarou, na presença
do General-de-Brigada inglês, que prosseguiria no ataque em
cumprimento das minhas ordens, mas que julgava a operação
fadada ao insucesso porque os regimentos de Infantaria já
haviam experimentado 26% de perdas.
Vi-me diante da necessidade de tomar uma decisão: ou
prosseguir com um ataque sem esperanças, ou perder prestígio
diante do inglês, além de violar um dos meus princípios de
guerra se concordasse em suspender o ataque. Devido às
circunstâncias, achei que não havia motivo para impor mais
sacrifícios. Assim, determinei que Eddy interrompesse o
ataque. Creio ter sido uma das decisões mais difíceis dentre as
que tive de tomar.
Por felicidade, no dia seguinte, do outro lado do vale, a 1ª Dl
conquistou um Posto de Observação que nos permitia lançar
uma concentração eficaz de Artilharia sobre a parte da
montanha que vínhamos tentando conquistar. Apontamos a
Artilharia Divisionária de duas divisões e toda a Artilharia de
Corpo de Exército sobre o objetivo; ao romper da aurora cada
canhão disparou, em cadência rápida, 25 granadas de fósforo
branco, com a finalidade de convencer o inimigo de que
iríamos desencadear um ataque e com a esperança de que ele
ocupasse as trincheiras. Deixamos passar 10 minutos e cada
canhão voltou a disparar 25 granadas de alto explosivo. Graças
a esta operação, conquistamos o objetivo sem baixas, a não ser
as sofridas pelos alemães.

No início da manhã de 10 de julho de 1943, o General Gay, o


Coronel Odom, o Capitão Stiller e eu desembarcamos em
Gela, na Sicília. A praia de desembarque achava-se sob fogo
inimigo, mas a maioria dos projetis caíam na água, afastados
10 metros da orla do mar, onde não causavam nenhum dano.
Havia uma confusão enorme na praia e ninguém trabalhava.
Durante algum tempo andei de um lado para o outro da praia,
acompanhado pela minha comitiva, e restabelecemos a
confiança do pessoal, principalmente quando permanecemos
imperturbáveis enquanto aviões alemães metralhavam a praia.
Depois, entramos na cidade de Gela e lá permanecemos
durante um intenso bombardeio de morteiros e Artilharia.
Pudemos ver, à nossa esquerda, uma brigada de Infantaria
italiana atacando a nossa tênue linha de defesa (duas
companhias de Rangers) e, à nossa direita, 12 carros de
combate que haviam realizado uma penetração e se achavam a
menos de 400 metros da praia.
Para chegar ao General Terry Allen era preciso viajar por uma
estrada situada entre estes carros de combate e a 1ª Dl.
Tratava-se de uma operação arriscada, uma vez que
correspondia a passar pelo meio de dois exércitos engajados
em combate (os alemães tinham desencadeado contra nós um
contra-ataque com cerca de 60 carros de combate). Apesar de
tudo, encontramo-nos com o General Allen e ajustamos os
planos para o prosseguimento do ataque na manhã seguinte.
Esta reunião ficou gravada na minha memória porque as
granadas explodiam à nossa volta durante todo o tempo. Como
consequência, foi uma das mais rápidas reuniões de estado-
maior em toda a história. Por esta ação, fui condecorado com a
Palma de Folhas de Carvalho para a minha Cruz de Serviços
Relevantes; acho que não fiz jus a ela, uma vez que só cumpri
com o meu dever, além da situação não ter sido tão perigosa
assim. É verdade que uma granada caiu a poucos metros do
local em que me achava, junto com o General Gay, e uma
outra explodiu na margem da estrada oposta àquela em que
nos encontrávamos.

Na noite de julho de 1943 a minha opinião era de que o contra-


ataque alemão dos dias 11 e 12 representara o último grande
esforço do inimigo. Baseado nesta hipótese refiz os meus
planos para o restante da operação na Sicília. Se me tivesse
deixado guiar pelo receio, ou se houvesse acreditado no que
dizia o E-2, a campanha teria durado mais tempo e o sucesso
obtido seria menor.
Pode parecer fácil tomar tal decisão; a verdade é exatamente o
contrário: trata-se de uma decisão difícil de ser tomada.

No dia 14 de julho recebi mensagem do General Alexander,


determinando que eu organizasse uma posição defensiva nas
vizinhanças de Caltanissetta, para cobrir a esquerda da
retaguarda do 8º Exército inglês. O cumprimento desta ordem
implicaria em deslealdade para com o Exército Americano.
Com a ajuda dos Generais Keyes, Wedemeyer e Gay, redigi
uma ordem para um ataque de envolvimento contra Palermo,
via Agrigento e Castelvetrano.
Depois, em companhia do General Wedemeyer, voei para a
África e apresentei esta ordem ao General Alexander,
declarando ser aquilo o que ele desejava que eu fizesse, ao
invés de adotar uma postura defensiva. Pedi-lhe que colocasse
o seu visto na ordem. Alexander rubricou-a, mas declarou-me
que eu não poderia atacar Agrigento; no máximo poderia
realizar um reconhecimento em força. Executei o
reconhecimento em força empregando todas as unidades
disponíveis — 3ª Dl, parte da 82ª DAet., dois batalhões de
Rangers e uma força-tarefa da 2ª DB. Se eu fracassasse, na
certa teria sido demitido. Conquistamos Palermo no dia 22.

No curso da progressão para Messina, ao longo da estrada do


norte da Sicília, realizamos uma operação anfíbia de
envolvimento com absoluto sucesso; estávamos prestes a
executar uma segunda operação idêntica quando, logo depois
do jantar, recebi um telefonema do General Keyes, que se
achava na 3ª Dl. Segundo ele, o General Bradley, comandante
do II Corpo, ao qual pertencia a 3ª Dl, e o General Truscott,
comandante da 3ª Dl, estavam convencidos de que esta
segunda operação anfíbia era excessivamente perigosa; em
consequência, solicitavam autorização para adiá-la. Disse a
Keyes que informasse aos dois generais que a operação não
seria adiada e que eu iria até eles imediatamente.
Levei comigo o General Gay e deixei-o na praia onde as
unidades da manobra anfíbia estavam embarcando; suas
ordens eram no sentido de garantir que as unidades se
pusessem em movimento. Em seguida dirigi-me ao QG da 3ª
Dl, ainda alvo de granadas esparsas, e encontrei o General
Truscott, um oficial dos mais arrojados, tão esgotado
fisicamente que se convencera de que a operação não poderia
ter sucesso. Determinei-lhe que executasse a operação,
declarando que ele teria todo o crédito em caso de sucesso e
que eu assumiria toda a culpa em caso de fracasso. Telefonei
para o General Bradley e disse-lhe a mesma coisa. Declarei a
ambos que ia regressar ao meu QG porque confiava neles; se
permanecesse ali, estaria dando prova de falta de confiança.
Passei uma noite intranquila; o inimigo atirava contra o nosso
QG, mas não conseguia atingir o alvo. Pouco depois da
alvorada recebi um telefonema do Coronel Harkins, que era o
oficial de permanência, avisando que a operação anfíbia fora
muito bem sucedida.
É muito difícil ordenar a dois oficiais, nos quais você deposita
grande confiança, que executem uma operação que nenhum
dos dois julga viável.

No decorrer do ataque contra Troina, dirigi-me, em companhia


do General Lucas, ao quartel-general do General Bradley, que
comandava a operação. Pouco antes de chegar lá, avistamos
um hospital de campanha instalado em um vale e paramos
para inspecioná-lo. Havia cerca de 350 feridos, em estado
grave, internados no hospital; todos eles suportavam
heroicamente o sofrimento e todos mostraram-se interessados
pelo sucesso da operação.
Quando me retirava do hospital, vi um soldado sentado em um
caixote, perto do posto de primeiros socorros. Parei e indaguei:
“O que é que há com você, rapaz?” Respondeu-me: “Nada;
não aguento mais isto”. Perguntei o que ele queria dizer com o
“isto”. “Não aguento mais os tiros do inimigo”. Retruquei:
“Quer dizer que você está aqui fingindo-se de doente?” O
rapaz desatou a chorar e vi, imediatamente, que se tratava de
um histérico. Golpeei-o na face com a minha luva e ordenei-
lhe que se levantasse, voltasse à sua unidade e se portasse
como homem — no que me obedeceu. Na realidade, naquela
ocasião o soldado achava-se incluído na relação dos ausentes
da unidade.
Estou absolutamente convencido da correção da minha atitude
neste caso; se os outros oficiais tivessem a coragem de
proceder assim, acho que ficaria bastante reduzida a utilização
vergonhosa da “fadiga de combate” para justificara covardia.
No dia 28 de julho de 1944, o General Bradley informou-me
que o 3º Exército tornar-se-ia operacional ao meio-dia de 10
de agosto e que, neste ínterim, eu assumiria o controle dos
VIII e XV Corpos de Exército — porém sem ficar
oficialmente vinculado às operações em curso. Na tarde do dia
29, ao sul de Coutances, encontrei uma divisão blindada
parada na estrada; seu estado-maior realizava um estudo na
carta sobre a possibilidade de transpor o rio Sienne, a fim de
avançar para Granville pela estrada do litoral. Ao olhar a carta,
verifiquei que o rio situava-se poucos quilômetros adiante;
avancei e reconheci-o. Verifiquei que o mesmo tinha só 60
centímetros de profundidade e que, por experiência pessoal,
era defendido por uma única metralhadora (dispararam contra
mim, mas erraram o alvo por muito). De posse destes dados
regressei à origem e indaguei do comandante da divisão o
motivo pelo qual não atravessara o rio. Respondeu-me que não
sabia se a maré era enchente ou vazante e que achava que o rio
era fortemente defendido. Contei-lhe, rispidamente, o
resultado do meu reconhecimento e ordenei-lhe que se
movimentasse — o que foi feito. Daí em diante esta divisão
tornou-se uma das mais ousadas do 3ª Exército. Este episódio
marcou a sua entrada em combate e a minha interferência
representou o toque de que a divisão necessitava para revelar
suas verdadeiras aptidões.

Depois do jantar, no dia 31 de julho de 1944, o General


Gaffey, o Coronel Harkins e eu dirigimo-nos ao quartel-
general do VIII Corpo. Revelei ao General Middleton,
comandante do corpo, que eu estaria no comando a partir da
manhã do dia seguinte. Middleton declarou-se satisfeito com a
minha chegada porque podia anunciar-me que atingira o
objetivo que lhe fora dado: o rio Selune. Indaguei se ele
transpusera o rio e a resposta foi negativa. Disse-lhe que a
história registrava inúmeras campanhas perdidas por
comandantes que haviam parado na margem errada de um rio;
ordenei-lhe a execução de uma transposição imediata.
Middleton argumentou que a ponte a jusante de Avranches
fora destruída. Enquanto discutíamos a execução da operação
de travessia de curso de água, recebemos uma mensagem
telefônica informando que a ponte se achava em condições de
uso, embora um tanto danificada; além disto, a 4ª DB
conquistara uma represa a leste de Avranches, a qual poderia
ser utilizada para a travessia do rio. Determinei que o VIII
Corpo atravessasse o rio naquela noite — o que foi feito. Não
vai aqui nenhuma crítica ao General Middleton, um militar
excepcional; registro apenas que um pequeno estímulo pode
ser muito útil em um momento decisivo. Se não tivéssemos
conquistado uma cabeça-de-ponte naquela noite a nossa
operação teria ficado sujeita a um grande risco.

A passagem do 3º Exército pelo corredor de Avranches foi


uma operação impossível. Duas estradas conduziam a
Avranches, mas só saía uma única estrada daquela cidade e,
ainda por cima, atravessando uma ponte. Fizemos passar por
este corredor duas divisões de Infantaria e duas divisões
blindadas, em menos de vinte e quatro horas. Não havia plano,
porque era impossível elaborar um plano. Simplesmente
coloquei os comandantes de corpos e de divisões nos pontos
críticos e mandei que as unidades iniciassem o deslocamento.
Foi uma operação arriscada; por vários quilômetros estendiam-
se as unidades, à testa de uma cerrada sobre a cauda da outra,
mas não havia outro jeito de conseguir a rapidez desejada. O
sucesso da operação deveu-se a três fatores: capacidade de
comando dos oficiais generais, particularmente Middleton,
Wood, Haislip, Gaffey e Gay — excepcional capacidade do
estado-maior do 3º Exército para improvisar em caso de
necessidade e, finalmente, a ajuda de Deus.

Durante a progressão do 3º Exército, de Avranches até o rio


Mosela, surgiram inúmeras ocasiões em que foi preciso usar
de muita persuasão para permitir que o avanço se realizasse
sem interrupção; naturalmente, aceitou-se o risco, caso
fracassasse esta progressão espetacular.
Um dos riscos mais sérios com que nos deparamos foi o de
deixar completamente aberto o flanco direito do 3º Exército,
desde St. Nazaire até um ponto nas vizinhanças de Troyes.
Esta decisão baseou-se na minha convicção não só de que os
alemães não dispunham de mobilidade para executar golpes
rápidos, embora dispusessem de forças consideráveis, como na
certeza de que o XIX Comando Aerotático descobriria
qualquer concentração de unidades inimigas que se
dispusessem a nos atacar; além disto, este Comando
Aerotático seria capaz de conter o inimigo o tempo suficiente
para permitir que a nossa imensa mobilidade colocasse na luta
as unidades americanas de que necessitássemos.
O resultado obtido atestou o acerto da minha decisão.

Por volta de 5 de setembro percebemos que íamos ficar sem


gasolina. Ordenei aos dois corpos, o XX e XII, que
continuassem progredindo até que os tanques das viaturas
secassem e que, daí em diante, avançassem a pé. A minha
ordem foi literalmente cumprida; graças a isto conquistamos
uma cabeça-de-ponte no rio Mosela. Houve muita resistência
por parte dos comandantes de corpos contra o que lhes parecia
uma operação desnecessariamente perigosa. Mais uma vez o
sucesso demonstrou que a operação não era tão perigosa.

No dia 13 de setembro de 1944, durante a visita ao quartel-


general do XII Corpo, em Nancy, fui informado que dois
grupamentos táticos da 35ª Dl sofriam um ataque violento em
uma colina a leste do rio Mosela. As minhas ordens eram no
sentido de não ceder nenhum terreno; determinei ao
comandante do corpo que empregasse a sua reserva restante —
parte da 6ª DB — para preservar a posse da colina. No dia
seguinte mandei que o meu chefe de estado-maior, na ocasião
o General Gaffey, fosse averiguar como andava a situação.
Gaffey telefonou-me às 14 horas para avisar que acabara de
ser ordenado o recuo dos dois grupamentos táticos da 35ª Dl.
Disse-lhe que expedisse uma contraordem e reunisse o
comandante do corpo e os comandantes da 35ª Dl e 6ª DB no
Posto de Comando da 6ª DB, onde eu chegaria imediatamente
por via aérea.
Ao chegar lá verifiquei que os três comandantes se achavam
um tanto afobados e que haviam considerado e expedido
ordens para recuo. Ordenei o cancelamento imediato de tais
ordens e determinei o emprego da 6ª DB na manhã do dia
seguinte. Argumentaram que esta divisão blindada era tudo o
que nos restava. Retruquei que a divisão existia para lutar e
não para ser considerada como unidade disponível.
No dia seguinte, o ataque da 6ª DB e da 35ª Dl obteve um
sucesso completo; contamos mais de 800 alemães mortos no
campo de batalha. Os oficiais generais envolvidos neste
episódio eram excelentes combatentes, mas achavam-se muito
cansados; conforme já declarei, a fadiga gera pessimismo.

Durante a luta a leste do Mosela e a leste de Metz em outubro,


o General Walker, comandante do XX Corpo, sugeriu que
tentássemos conquistar Fort Driant. O ataque foi
desencadeado; apesar do sucesso inicial, verificamos que o seu
prosseguimento provocaria um número injustificado de baixas.
Portanto, tratava-se de contrariar o meu princípio, segundo o
qual não se deve recuar de uma decisão e determinar a
suspensão de um ataque. Apesar de tudo, dei ordem para
suspender o ataque. Foi uma decisão extremamente difícil.
Todavia, esta decisão poupou muitas vidas e conquistamos
Metz, no dia 25 de novembro; com poucas perdas
relativamente.

Em 1º de novembro, o 3º Exército já dispunha de gasolina,


munição e recompletamentos suficientes para o reinicio do
ataque destinado a romper a Linha Siegfried e conquistar uma
cabeça-de-ponte no rio Reno, nas vizinhanças de Mainz. O
ataque ia ser desencadeado às 4h30min do dia 8 de novembro.
As condições meteorológicas apresentavam-se extremamente
ruins e o nível do rio subira assustadoramente. Às 20 horas da
noite de 7 de novembro entraram na casa em que eu me
alojava um comandante de corpo e um de divisão e
manifestaram a opinião de que não teriam condições para
atacar na manhã seguinte. O cancelamento de um ataque
produz efeitos negativos sobre o moral da tropa; além disto,
devido ao adiantado da hora e às dificuldades de
comunicações, tornava-se quase que fisicamente impossível
cancelar a operação. Assim, indaguei dos generais que nomes
indicavam para substituí-los nos respectivos comandos;
declarei-lhes que efetuaria quantas substituições se fizessem
necessárias até encontrar quem comandasse o ataque.
Afirmaram, então, que comandariam a operação, já que eu
colocava o assunto naqueles termos.
Apesar das péssimas condições meteorológicas, o ataque
obte