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Casas Religiosas

de Setúbal e Azeitão

COORDENAÇÃO CIENTÍFICA albérico afonso costa | antónio cunha bento |


inês gato de pinho | maria joão pereira coutinho

TEXTOS albérico afonso costa ese, ips, ihc/fcsh/nova | ana lúcia barbosa ceris/ist/ul |
andré afonso mnaa, cieba/fbaul, cdass | edite martins alberto cham-fcsh/nova
& uaç | heitor baptista pato gal | inês gato de pinho ceris/ist/ul |
isabel sousa de macedo cms, faul | joana rosário acervo, cdass |
maria joão cândido spa-cms | maria joão pereira coutinho iha/fcsh/nova |
sílvia ferreira iha/fcsh/nova | vítor serrão artis/iha/flul

DESIGN DE COMUNICAÇÃO ddlx - design comunicação lisboa

EDIÇÃO lasa - liga dos amigos de setúbal e azeitão | estuário

IMPRESSÃO europress, lda

APOIOS INSTITUCIONAIS diocese de setúbal | câmara municipal de setúbal |


fundação buehler-brochaus | instituto politécnico de setúbal

PATROCINIOS charneca alumínios | nuno mesquita pires


união das freguesias de setúbal

Depósito Legal: 418202/16


ISBN: 978-972-8017-26-2

Os artigos, imagens e norma ortográfica utilizadas são da responsabilidade dos autores. Os


editores não aceitam qualquer responsabilidade por qualquer uso indevido de texto e imagens.

2016
casas religiosas de setúbal e azeitão

A COMPANHIA DE JESUS EM SETúBAL:


DOIS PROJECTOS EDUCATIVOS E ASSISTENCIAIS

Inês Gato de Pinho1


civil engineering research and innovation
for sustainability do instituto superior técnico da universidade de lisboa

A Companhia de Jesus (CJ), instituto religioso fundado por Inácio de Loyola


em 1540 no contexto da reforma católica, teve uma importância indiscutível
em Portugal. Os primeiros três séculos da instituição inaciana na província
lusitana foram pautados por um enorme crescimento, difundindo as suas ca-
sas por todo o território continental e ultramarino. Foram actores de desen-
volvimento no campo religioso, político, social, educativo e científico, reu-
nindo apoios nas mais altas esferas, criando, no entanto, ódios viscerais nos
círculos político e religioso. Expulsos de Portugal e dos seus domínios ultra-
marinos em 1759, mantiveram o seu projecto assistencial e educativo adorme-
cido, mas não extinto. Em 1829, durante reinado de D. Miguel, fizeram uma
tentativa de reentrada no território português, que foi abortada com o fim do
regime absolutista e a implantação do liberalismo, tendo sido de novo afasta-
dos em 1834 no âmbito do processo que levou à supressão das ordens religio-

1 Este texto insere-se no âmbito dos trabalhos desenvolvidos no nosso doutoramento, intitulado Modo Nos-
tro. A especificidade da Arquitectura dos colégios da Companhia de Jesus na Província Portuguesa. Os séculos XVII e XVIII
(SFRH/BD/110211/2015), desenvolvidos no Civil Engineering Research and Innovation for Sustainability do
Instituto Superior Técnico - Universidade de Lisboa, e apoiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia
com financiamento comparticipado pelo Fundo Social Europeu e por fundos nacionais do Ministério da Edu-
cação e da Ciência.

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sas. A persistência dos jesuítas manteve o projecto vivo, ressuscitado com al-
gum fulgor na segunda metade do século XIX (1858), mas com um modo de
actuação bastante menos efusivo que na primeira fase da sua presença no
território português. O fim da monarquia e a implantação da república, em
1910, marcaram um novo momento de expulsão, engrossando o número de
congregações afectadas pela lei de separação entre a igreja e o estado.
São raras as cidades que contaram com a presença jesuíta nos dois períodos de
maior fulgor (1540-1549 e 1858-1910). Setúbal está entre os poucos casos em
que isto aconteceu. Pretendemos com este artigo documentar a permanência
dos inacianos em Setúbal, em dois períodos díspares, com actuações também
elas distintas.

O 1º grande período – 1542 - 1759


O interesse da CJ por Setúbal é demonstrado logo no primeiro século de ac-
tuação do novo instituto. Em 1575 os inacianos solicitam a D. Sebastião a sua
intervenção, junto das clarissas do Convento de Jesus, para a compra da cape-
la de Nossa Senhora dos Anjos. Situado extramuros da urbe medieval e fron-
teiro à capela mor e claustro da congregação feminina, o templo havia sido
adquirido à Misericórdia pelo convento, com o objectivo de garantir a priva-
cidade necessária à clausura. A não consumação da venda aos jesuitas leva a
que passe algum tempo até encontrarmos nova notícia da sua presença em
Setúbal. Em 1650, deslocavam-se à vila dois padres jesuítas enviados do colé-
gio de Évora, no âmbito das missões populares da CJ2.
Estes missionários, maioritariamente enviados a zonas rurais para dar apoio
espiritual, eram também enviados a cidades ou vilas importantes, resultando
dessas demandas apoio a novas fundações3. Na missiva dirigida ao padre Fran-
cisco Cabral, reitor do colégio do Espírito Santo de Évora, naturalmente mui-
to apologética da acção da CJ, os dois missionários referem o sucesso que o
seu apoio espiritual teve na vila e o interesse que alguns benfeitores demons-
traram em patrocinar a permanência da instituição em Setúbal:
“A benevolencia que deixamos esta Coresma nos moradores da villa de Setu-
val foi muy grande, (…) e fidalgo ouve, que disse a este homem: venhão os Pa-
dres da Companhia para esta terra; e eu lhe dou çem mil de esmola. E não
faltaram outros animos affeiçoados a nossa religião e doutrina, que nos pos-
são ajudar e acodir. (…)”4

2 As missões populares consistiam na mobilização de padres para assistência espiritual em territórios onde o
instituto religioso não tinha casas ou colégios.
3 Veja-se por exemplo o caso da fixação jesuíta em Portalegre, na qual, após a deslocação a essa cidade de dois
padres da CJ em missão popular, lhes foi doada a ermida de S. Brás e a Igreja de Santa Maria a Grande para a
fundação de um colégio. Inês Pinho, “Genius loci vs Modo Nostro. A influência do espírito do lugar na fundação
dos colégios jesuítas da província lusitana”, comunicação apresentada a 21 de Abril de 2016, no colóquio inter-
nacional Genius Loci: Lugares e significados. 20, 21, 22 de Abril de 2016, Porto, Portugal.
4 BNP, Ms. 30, nº214. “Carta da Missão de Setuval; Pera o Padre Francisco Cabral, da Companhia de Iesus,
Reitor do Collegio, e Universidade do Spirito Santo, em Évora”. 1650.

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casas religiosas de setúbal e azeitão

Não será portando de estranhar que em 1654 se assista à mobilização dos mo-
radores de Setúbal e da edilidade sadina, em torno da fundação de um colégio
da CJ. Em 9 de Janeiro discutia-se em reunião de Câmara a importância de um
colégio jesuíta na vila e, a 21 de Março, determinava-se a doação de um terre-
no na Rua das Amoreiras5 e de 2.000$00 réis de esmola. A 3 de Junho desse
mesmo ano, é emitido um alvará régio, assinado por D. João IV, autorizando a
pretensão requerida pela Câmara de Setúbal e seus moradores.
Só em 1656 encontramos pela primeira vez a referência a um fundador, figura
determinante para a implantação de um colégio jesuíta, uma vez que sem ele
a CJ não autorizaria o novo instituto. À data, tinham casas de morada na vila
André Velho Freire e D. Felipa de Paredes. Donos de uma avultada fortuna,
sem descendentes e admiradores da obra inaciana, decidiram tornar o futuro
colégio de Setúbal seu herdeiro universal. Para isso doaram, ainda em vida, o
suficiente para o aluguer/compra de casas para os padres se instalarem e para
a edificação da igreja e sua ornamentação. Segundo o cronista de setecentos,
Padre António Franco, a oito de Maio de 1656 o padre Diogo de Areda lança a
1ª pedra da igreja do colégio6. Nesta fase inicial os padres residiram em casas
concebidas para laicos, adaptando as suas condições ao programa residencial,
escolar e assistencial. O mesmo cronista ilustra os primeiros momentos do
colégio de Setúbal relatando que nessa época os padres moraram em casas de
aluguer, mas depois passaram para uma casa comprada, situada junto à mura-
lha da então vila, onde se veio a construir o novo edifício do colégio7.
A nova casa seria muito provavelmente um dos edifícios que os fundadores, ainda
em vida, adquiriram para a CJ. Apesar dos esforços empreendidos, só após a mor-
te do casal8 é que os bens a que se referem os testamentos viriam a ser disponibi-
lizados. A prová-lo temos o relato do provincial Francisco Manso em 1660:
“Todos os padres vivem sem o mínimo assomo de desedificação. Todos, até hoje
se sustentam de esmolas, oferecidas de bom grado e generosidade (…). Depois
da morte da fundadora (…) gozará o colégio livremente das suas rendas”9.
Efectivamente, só após a morte de D. Felipa é enviado a Roma o pedido de
autorização de venda dos bens e, em 20 de Agosto de 1680, é emitida a Sen-
tença Apostólica que permite a venda dos bens dos fundadores. Nesse docu-
mento referia-se “que o reitor e mais religiosos do Colégio de S. Francisco
Xavier, de Setúbal, haviam exposto terem alcançado o dito Breve para pode-
rem vender as várias casas que tinham na mesma vila, e a sua importância ser
aplicada à compra de outras fazendas de maior utilidade. Que essas casas que

5 Actual Rua João Eloy do Amaral.


6 “Octavâ Maji posuit P. Didacus Areda primum lapidem templo ad tempus erigendo”. António Franco, Syn-
nopsis Annalium Societatis Iesu, 1726, p. 317.
7 “Cetobricae migratum est ab hospitio in domum emptam prope murum oppidi, ubi erat construendum
Collegium”. António Franco, Synnopsis Annalium Societatis Iesu, 1726, p. 317.
8 André Velho Freire morre em 1657 e Felipa de Paredes em 1663.
9 ARSI, Lus. 84 I, f.9. Tradução do latim patente na obra de Francisco Rodrigues, História da Companhia de Jesus
na Assistência de Portugal, tomo terceiro, vol. 1, Porto, 1944, pp. 33 e 34.

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queriam vender rendiam de aluguéis 24$000 rs. anualmente, mas que então
naqueles anos haviam nelas despendido ainda mais dessa quantia em vários
reparos, (…) e o colégio, que era pobre, não podia gastar essa soma. Que pelas
referidas casas lhes davam 500$000 rs., e assim queriam vendê-las e, comprar
uma herdade no termo de Ferreira do Alentejo (…)”.10
Acreditamos que em 1690 o colégio ainda tinha uma dimensão reduzida, uma
vez que a essa data “não tinha mais que cinco moradores e um professor de
língua latina”11. A 3 de Setembro de 1702, o reitor do colégio apresenta à Câ-
mara um requerimento com vista à ocupação de um terreno para a ampliação
da instalação inicial12; este foi provavelmente o período de tempo necessário
para a venda dos bens dos fundadores e angariação de esmolas. Com verbas
para construir, faltava o espaço para expandir o colégio. Em 3 de Julho de 1703
é emitido um alvará régio ordenando à Câmara a doação do terreno e 10 dias
depois, a edilidade procede à sua marcação:
“A demarcação do terreno foi desde a quina da cerca do Colégio, correndo
dela pelo nascente no espaço de 34 varas e meia (…) até um marco que foi
metido defronte da travessa última de Palhais, que chamavam do «Seabra», e
do dito marco, correndo de norte a sul, até à ponte de S. Sebastião, no espaço
de 103 varas em linha recta, e no qual foram postos três marcos, ficando o úl-
timo junto à dita ponte, e deste correndo de nascente a poente até à porta de
S. Sebastião e muralha velha 26 varas”.13
A marcação dos valores referidos na planta da cidade de 1805 (a primeira
planta de cadastro da vila que se conhece) [Fig.1] coincide com um grande
quarteirão [Fig.2] que envolve quase todo o troço nascente da muralha me-
dieval, e que provavelmente marcaria o limite do complexo do colégio.

10 Almeida Carvalho, Acontecimentos, lendas e tradições da região setubalense, vol. IV, Conventos de Setúbal, II Parte,
Setúbal, 1972, p. 22.
11 Francisco Rodrigues, História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal, tomo terceiro, vol. 1, Porto, 1944,
p.32.
12 Almeida Carvalho, op. cit., p. 11.
13 Idem, Ibidem.

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casas religiosas de setúbal e azeitão

Fig.1 “Planta da Vila de Setuval, levantada por ordem de


S. A. R., debaxo da inspecção da R. Iunta dos Tres Estados,
por Maximiano Jozé da Serra, Sarg.º Mor. do Real Corpo
de Eng.s, em 1805”. GEAEM/DIE.

Fig.2 Excerto da planta de 1805. Note-se o


quarteirão que corresponderia ao antigo com-
plexo jesuíta, compreendido entre dois edifí-
cios religiosos: a Igreja de Santa Maria da Gra-
ça (S) e a Ermida de S. Sebastião (R).

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A tentativa de compreensão da distribuição espacial do colégio só é possível tendo
por base a formulação de hipóteses. Esta enunciação, de cariz especulativo, tem na
sua base o cruzamento dos poucos documentos existentes com a análise arquitec-
tónica do que resta no complexo. O Sistema de Informação para o Património Ar-
quitectónico (SIPA) atribui a denominação de “Colégio de S. Francisco Xavier” ao
imóvel actualmente conhecido como Palácio Fryxell [Fig.3]. Esta denominação
torna-se redutora, à luz dos estudos mais recentes, uma vez que o complexo jesuíta
se estenderia até à cabeceira da igreja de Santa Maria da Graça, conforme podemos
atestar pela planta levantada em 1804 por Maximiano José da Serra [Fig.2].
Um colégio jesuíta desenvolvia-se em torno de três grandes áreas funcionais: a
zona da comunidade – destinada à congregação –, a zona escolar – destinada a
estudantes laicos – e a zona cultual. Esta separação funcional correspondia, na
maioria dos casos, a uma distribuição espacial igualmente tripartida. As zonas
exclusivas à congregação organizavam-se em torno do pátio da comunidade, as
zonas destinadas aos estudos dispunham-se junto ao pátio dos estudos e a zona
cultual, destinada à comunidade e a laicos, seria a igreja. A destruição do edifí-
cio ao longo dos séculos e a diminuta documentação existente não nos permi-
tem identificar com certeza onde se situavam o polo da comunidade e o polo
escolar, e ainda menos entender a articulação espacial do colégio sadino14.

Fig.3 Fachada principal do Palácio Fryxell.

14 Apesar disso, é possível traçar uma hipotética organização espacial do colégio, articulando a análise do
edifício do actual palácio Fryxell (por si só um documento) com a leitura de documentos textuais e gráficos.
Torna-se no entanto incomportável, no âmbito deste artigo, mostrar a hipotética organização espacial do colé-
gio, por exigir uma explicação longa e detalhada. Para uma melhor compreensão da nossa interpretação, suge-
rimos a leitura da obra De Colégio de S. Francisco Xavier a Palácio Fryxell – História e análise arquitectónica, Setúbal,
2013.

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casas religiosas de setúbal e azeitão

Relativamente ao espaço de culto e apesar de ter desaparecido totalmente, é


possível aferir dados relativos à localização e características formais da igreja
do colégio. O padre António Franco afirma que se usou um dos troços da mu-
ralha da vila para a construção da igreja, reduzindo as despesas da constru-
ção.15 As informações paroquiais de 1758 fazem igualmente referência (ainda
que indirecta) à localização da igreja:
“O bairro da Vila é todo murado de muros antiguos,(…) com dez torres dis-
perças pelo circuito da mencionada muralha,(…) e três portas principais (…)
– a terceira a que chamavam a da Vila para a parte do Norte a qual com a torre
que tinha em sima a demolirão os Padres da Companhia de Jezus para lhe fi-
car mais dezimpedida a entrada da Igreja do seu Colegio”.16
A porta da Vila situava-se junto à cabeceira da igreja de Santa Maria da Graça
e a torre onde se localizava é representada na cartografia até ao final do séc.
XVII. No entanto, na planta levantada em 1805 [Fig.1 e 2], a torre já não apare-
ce, havendo uma interrupção na representação do perímetro defensivo na
zona da actual Rua de Santa Maria. Já no final do século XIX, Alberto Pimentel
reitera a informação relativa ao templo: “Consta que era de boa arquitectura,
e tinha a fachada voltada para o fundo da egreja parochial de Santa Maria”17.
No que se refere ao interior, chegou-nos a informação que “a igreja era regu-
lar, com capela-mor de proporcionado espaço. O tecto não era de abóbada,
mas de madeira e telha”18. Esta descrição ganha consistência se confrontada
com os trabalhos e materiais referidos nos livros de receita e despesa do colé-
gio19, onde se refere uma intervenção no telhado da igreja. Em Julho de 1729
são pagos os honorários a “5 officiais de carpinteiro, (...) 250 officiais ou
aprendizes de carpinteiro, (...) 80 dias aos carpinteiros na igreja, (...) 2 dias ao
pedreiro no telhado da capela, (...) ao servente 2 dias, (...) aos serredores hu
dia, (...) 3 dias e meio aos serradores e a outros homens de cerrar madeira”. No
mesmo mês são adquiridos os seguintes materiais: “90 paos para o tecto da
capela da igreja (…), nove dúzias de ripas, (...) dous lotes de casquinha grossa,
(...) 13 cordas para os andaimes; pregos e telhas”.
A leitura dos mesmos livros permite-nos especular relativamente ao patrimó-
nio integrado no interior da igreja. Em Novembro de 1724 é encomendado “pa-
pel para os riscos do pintor e tachas”. Pensamos que estes materiais (papel e
tachas para o fixar) possam destinar-se ao suporte que o pintor precisaria para
desenhar o estudo prévio (riscos do pintor) da composição que iria realizar. No
mesmo período são compradas “2 arrobas de luva para a pintura da capella, 6

15 “Non magno sumptu id factum, quòd oppidi murus suppleverit alterum templi parietem”. António Franco,
Synnopsis Annalium Societatis Iesu, 1726, p. 317.
16 Rogério Peres Claro, Setúbal no século XVIII: as informações paroquiais de 1758, Setúbal, 1993, p. 11.
17 Alberto Pimentel, Memória sobre a história e administração do Município de Setúbal, Setúbal, 1877, p. 200.
18 Almeida Carvalho, Acontecimentos, lendas e tradições da região setubalense, vol. IV - Conventos de Setúbal, II
Parte, Setúbal, 1972, p. 18.
19 ANTT, Armário Jesuítico e Cartório dos Jesuítas, maço 103, caixa 90.

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brochas de pintar, 6 milheiros e meio de tachas para pregar a forra, tintas para a
capela e é pago o trabalho de cozer a lona do espaldar da capela e pregala [com
tachas]”. É também pago ao “pintor a conta da pintura da capela (25$600)”.
Pela quantidade de material adquirido, a pintura sobre tela não se resumiria ao
espaldar da capela. De Janeiro a Março de 1730 são encomendados os seguintes
materiais: “220 varas de lona, 9 varas de brim, 1 arretel de almagre e sabão, 2 ar-
reteis de zarcão, linhas para cozer a lona, tintas e óleo”. No mesmo período são
pagos os trabalhos referentes a 4 dias de olear o tecto da igreja e a 27 homens de
pregar a lona no tecto da mesma. Não só podemos especular que o tecto do
templo era decorado com uma enorme pintura sobre tela, como podemos afe-
rir o nome dos pintores que participaram na sua execução através dos pagamen-
tos efectuados. Assim pagaram “ao pintor Joseph da Costa por ajuste de 79 dias
seos a 480 e outenta e nove de aprendiz a 300; ao pintor António Francisco 81
dias a 600; a Ignácio da Silva pintor 70 dias a 600, ao Joaquim aprendiz 81 dias a
200”. Para além dos acabamentos decorativos, o mesmo livro de receita e despe-
sa permite-nos afirmar que existia um trono na igreja, uma vez que são pagos os
honorários pelo trabalho de “serrar a madeira para o trono”, e um púlpito, ates-
tado pelo pagamento dos trabalhos devidos a “7 dias aos pedreiros na Caza do
púlpito”.20
O testamento de D. Felipa dá-nos a certeza que o fundador já teria sepultura
na igreja do colégio, deixando indicações específicas para a localização do se-
pulcro dos fundadores: “Meu corpo será sepultado na Igreija de Sam Francisco
Xavier do Collegio da Companhia de IESU. E podendo ser na mesma sepultura
em que está meu Marido, Andre Velho Freyre, asy me enterraram. (…) Quero,
e ordeno, que na parede da parte do Evangelho se faça hum arco em que se
ponha a sepultura do meu Marido e minha com hum Letreyro com nossos
nomes declarando como fomos indignos fundadores daquelle Collegio”21.
A igreja, tal como o restante complexo do colégio, terá sido muito destruída
pelo terramoto de 1755, ficando apenas ilesa a capela-mor. Após a expulsão dos
jesuítas, o complexo é doado às freiras bernardas que permitem que o antigo
templo se adeque a um espaço recreativo – o teatro de Santa Maria. Esta função
não se terá perpetuado muito no tempo, uma vez que em 1907 se construía um
novo edifício, civil, mas com uma história ligada à igreja jesuíta. No decorrer da
obra de construção, um periódico setubalense noticiava o seguinte:
“Na demolição d’uma parede da antiga capella que a Companhia de Jesus
possuia ao fundo da Rua do Corpo Santo, n’esta cidade, demolição que o Sr.
José Eduardo Ahrens mandou fazer para a edificação de um prédio, foi en-
contrada uma lápide com a seguinte inscrição: S. DE ANDRE VELHO FREI-
RE COMENDADOR DE CHRISTO E DE D. FELIPA DE PAREDES LASSO

20 Inês Pinho, De Colégio de S. Francisco Xavier a Palácio Fryxell – História e análise arquitectónica, Setúbal, 2013.
21 “Treslado do testamento de Donna Felippa de Paredes”. ARSI, LUS 84 IPT, fólios 3 a 4v.

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casas religiosas de setúbal e azeitão

SUA MULHER FUNDADORES DESTE COLLEGIO. 1663. Debaixo da lápi-


de referida se encontram vestígios d’uma escada que conduz a um carneiro,
cuja exploração ainda não foi possível effectuar por motivo dos materiais ali
accumulados.(…)”.22
Esta notícia permite-nos, devidamente alicerçada no estudo da evolução dos fo-
ros e registos prediais23, definir a localização quase exacta da igreja inaciana. Não
conseguimos até à data definir as dimensões ou proporções do templo, mas po-
demos garantir que pelo menos a capela dos fundadores se localizava onde hoje
se situa o prédio com os números de polícia 20 a 30, na Rua de Santa Maria. No
que se refere à relação espacial da igreja com o restante complexo colegial, não
encontrámos descrições objectivas. No entanto, a leitura de um processo do San-
to Ofício de 1715 permite-nos uma leitura indirecta desta articulação:
“...a capela mor da dita igreja tem duas portas huma da parte do Evangelho
pera uma caza de [ms. imperceptível] e despejos, e tem porta a dita caza para
a cerca, (…). E outra da parte da Epistola que vai para a Sanchristia, a qual não
tem fechadura, e somente pela parte da Sanchristia tem um fecho que estan-
do corrido se não pode abrir da parte da Igreja, (…). Entrando na dita San-
christia vio que tinha outra porta que se não fecha, a qual vai dar para huma
escada comprida que da serventia para o choro, portaria, dormitório, e outras
mais oficinas do dito Collegio (…).24
É curioso constatar a referência à existência de um coro, espaço que havia
sido excluído do programa jesuíta pelo próprio Inácio de Loyola. A constru-
ção desta estrutura deve-se a um pedido da Irmandade de S. Francisco Xavier
que, em 1679, justifica a necessidade de criação do espaço para aumentar a
lotação da igreja, fundamental em dias de grande concorrência de fiéis25. Para
além do coro, o processo da inquisição permite-nos afirmar que a sacristia se
encontrava à direita da igreja (do lado da epístola) e que este era um espaço
que articulava o núcleo cultual com o restante complexo, em especial com as
áreas relacionadas com funções residenciais.
O terramoto de 1755 danificou gravemente o edifício. Setúbal foi das cidades
mais destruídas e o edifício do colégio não foi excepção. Apesar disso, as in-
formações paroquiais atestam que a reconstrução foi imediata:
“(…) a ruina do corpo do colégio se tem reparado e vai reparando com força,
porque na Cerca, e terreno que estava determinado para a nova Igreja cuidarão
logo os Padres em fazerem cubículos para neles se recolherem, e bem assim
cuzinha, refeitorio, dispenças, adega, e lagar de vinho, armazém de azeite, e clá-

22 O Elmano, 29 de Maio de 1907.


23 Para uma melhor compreensão deste estudo, ver a obra De Colégio de S. Francisco Xavier a Palácio Fryxell – His-
tória e análise arquitectónica.
24 ANTT, Tribunal do Santo Oficío, Inquisição de Lisboa, proc. 6450, fólio6, “Devassa do sacrário e desacato que se
cometeu na igreja do Colégio dos Padres dos padres da Companhia da Villa de Setúbal”. Tribunal do Santo Ofício,
Inquisição de Lisboa, proc. 6450, folio 6. ANTT, Lisboa.
25 ARSI, LUS 75, fólios 209 e 209v.

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ses para o encino dos rapázes e estudantes, e as taes clásses, e mais oficinas do
tal Colégio arruinado tem reparado de sorte (…)”26. Os livros de receita e despe-
sa do colégio27 ajudam a ilustrar essa reconstrução. Em Novembro de 1755 são
pagos os honorários de “77 homés e hú meio dia a trabalhar no collegio, ao car-
pinteiro, ao pedreiro Luis da Costa e ao filho, e são gastos 10 moios de cal”. No
mês seguinte, pagava-se o trabalho de «46 homés a desentulhar no Collegio”, 17
dias ao pedreiro e quinze dias ao filho, e ainda 20 dias ao carpinteiro e 16 dias ao
seu filho. Em Janeiro de 1756 pagava-se a “108 homés de trabalho nas ruinas do
Collegio”, a pedreiros, carpinteiros e serradores, e comprava-se material para a
reconstrução (“5 lotes de tabuado”). Este cenário mantém-se por longos meses,
não sendo possível aferir com certeza quais os trabalhos e materiais emprega-
dos no edifício, uma vez que o colégio tinha várias propriedades de casas, quin-
tas e marinhas, na zona afectada pelo terramoto. Podemos, no entanto, afirmar
que em 1759 o colégio ainda não havia recuperado as condições que tinha, já
que o Padre Caeiro refere que” desde a época do terramoto, com o qual a cidade
fora destruída em grande parte, os jesuítas habitavam muito incomodamente
em construções feitas à pressa no quintal»28.
Em 1758, a missa ainda se rezava na capela-mor, conforme se atesta pela res-
posta do prior Manoel de Carvalho no âmbito das memórias paroquiais que
ilustram o estado dos edifícios após o terramoto de 1755: ... na igreja (...) todo
o tecto veio a terra, por cahir sobre elle a parede do corredor dos seos cubicu-
los que estavão para aquella parte que hé a do Norte, ficando só ileza a Capela
mor a qual hoje serve de Igreja com hum limitado acrecentamento que lhe
fizéram com parede de forcado29 (...)”30.
Por esta época, residia no colégio de S. Francisco Xavier de Setúbal o célebre
padre Gabriel Malagrida. Confessor real de D. Maria Ana de Áustria, mãe de D.
José I, o jesuíta italiano tinha grande influência junto da aristocracia da época,
em particular pela forma fervorosa com que dirigia os exercícios espirituais
enunciados por Inácio de Loyola. O manuscrito intitulado “Lembrança dos pa-
dres e irmãos que neste Collegio de Setuval tiverão exercicios de Nosso Padre
Santo Ignacio”31 dá-nos o registo da data em que os diferentes padres que resi-
diam no colégio praticavam os exercícios espirituais e da dificuldade que ti-
nham em fazê-lo dada a condição de ruina da sua igreja. No mesmo documento
se atesta a intervenção do padre Malagrida, referindo que “deo muitas vezes os
exercícios nesta Villa a pessoas seculares, com as quais os tinha juntamente”. As
dificuldades sentidas pelos padres levaram a que Malagrida procurasse outros

26 Rogério Peres Claro, Setúbal no século XVIII: as informações paroquiais de 1758, Setúbal, 1993, p. 34.
27 ANTT, Armário Jesuítico e Cartório dos Jesuítas, maço 103, caixa 90.
28 José Caeiro, História da expulsão da Companhia de Jesus da Província de Portugal (sec. XVIII). Lisboa, 1991, pp.83 e 84.
29 Uma parede de forcado seria uma parede de alvenaria de tijolo. Conforme descrito por Pais da Silva e
Margarida Calado na obra Dicionário de termos de arte e Arquitectura,”forcado” é um tijolo baixo e largo.
30 Rogério Peres Claro, Setúbal no século XVIII: as informações paroquiais de 1758, Setúbal, 1993, p. 34.
31 BNP, Arquivo das Congregações.

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casas religiosas de setúbal e azeitão

locais para as práticas espirituais inacianas. Segundo Daniel Pires32 “havia um


lugar particularmente belo e ameno na vila, que a população elegera para a de-
voção e para usufruir com maior acuidade do seu ócio. Seria, considerou o pa-
dre Malagrida, o lugar ideal para receber a nobreza (...). Era a ermida do Senhor
do Bonfim (...)”. O mesmo autor trouxe à estampa um manuscrito inédito que
demonstra a mobilização dos habitantes de Setúbal para a concretização do in-
teresse de Malagrida. Trata-se de uma petição, entregue à Câmara Municipal
em 1755, registada por Gregório de Freitas no manuscrito Memórias Geográficas e
Históricas da Província da Estremadura:
“Expõe a vossa Majestade os moradores desta vila o desejo de estabelecerem
uma casa de Exercicios Espirituais, debaixo da direcção dos Religiosos da
Companhia de Jesus, na ermida do Senhor do Bonfim33, onde já muitos devo-
tos tiveram abundancia de consolação pelos [sic] receberem do reverendíssi-
mo padre missionário Gabriel Malagrida da mesma Companhia; cujo ardente
e incansável zelo os comoveu, reduziu e convenceu da inescusável necessida-
de que deles tinham; por cujo motivo pretendem formar edificio com oficinas
convenientes na ermida referida e suas casas (...)”.34 No entanto, a resposta da
edilidade foi negativa. Apesar de ver frustrado o objectivo de levar a espiritu-
alidade inaciana àquele templo, Malagrida conseguiu outro espaço para o cul-
to: o recolhimento de Nossa Senhora da Saúde35. Fundado em 1746 pela ir-
mandade do mesmo nome, o instituto tornou-se num dos locais de eleição de
Malagrida para a prática dos exercícios espirituais. Mais do que deixar a marca
inaciana, o jesuíta deixou a sua marca pessoal nos azulejos da portaria do re-
colhimento, fazendo-se representar de diferentes formas em três painéis:
“ … pregando no pulpito com multiplicidades de figuras, que representão o
povo de Setuval, que lhe assistia ouvindo-o. Em outra acção de estar com o
Santíssimo Sacramento nas mãos voltadas para o povo, que também está figu-
rado no azulejo destas partes: em terceira, paramentado debaixo do palio com
a custódia do Sacramento nas mãos seguindo le adiante varias insignias, povo,
a communidade religiosa, Irmandades (...).36
A Carta Régia de 3 de Setembro de 1759 determinou a expulsão dos inacianos
do Reino de Portugal e respectivos Domínios Ultramarinos e os padres que
viviam no colégio de Setúbal foram obrigados a abandoná-lo:
“O desembargador Jerónimo de Lemos Monteiro, encarregado de coman-

32 Daniel Pires, O Marquês de Pombal, o terramoto de 1755 em Setúbal e o Padre Malagrida, Setúbal, 2013.
33 Para uma melhor compreensão deste edifício, leia-se o artigo de Maria João Pereira Coutinho, Sílvia Ferrei-
ra e Inês Pinho, “A devoção do Senhor Jesus do Bonfim – origem, culto e disseminações” in, Santuários: Cultura,
Arte, Romarias Peregrinações, Paisagens e Pessoas, Nº1, vol.1, Janeiro - Junho 2014.
34 Gregório de Freitas, Memorias Geographicas e Historicas da Provincia da Estremadura, citado por Daniel Pires, op.
cit., pp.52 e 53.
35 A propósito deste recolhimento, muito pouco estudado, veja-se o artigo de Maria João Pereira Coutinho,
“Ianua Coeli: Os portais da Época Moderna dos espaços cultuais de Setúbal”, patente na presente obra.
36 ANTT, Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 8064. Os azulejos terão sido destruídos, uma vez
que no mesmo documento se refere que se mandaram retirar, picar as paredes, reduzir a pó e atirar ao rio todas
as representações de Malagrida.

149
dar as sentinelas, sujeitou a hasta pública, na portaria do edifício, o que ha-
via dentro do colégio, destinado à alimentação e às bebidas. Proibiu a cele-
bração da novena de S. Francisco Xavier; expulsou os fiéis da igreja; se
alguém quisesse assistir à missa ou rezar, tinha de o fazer permanecendo no
adro. (…) O quarto de Malagrida foi pesquisado com grande diligência; to-
dos os manuscritos se enviaram a Carvalho; o ouro e as pedras preciosas,
com que habitualmente se adornava a imagem de Nossa Senhora, chamada
das Missões, foram confiscados e entregues à administração pública. O ir-
mão coadjutor Bernardo da Silva foi levado da herdade que administrava
para o colégio por um oficial e soldados. Por último, alugadas as proprieda-
des e executado tudo o mais como Carvalho mandara, quatro padres (…) e
três coadjutores (…) partindo de manhã do colégio de Setúbal, na tarde do
mesmo dia chegaram à Casa Professa de Lisboa (…)”37.

O 2º grande período - 1858 - 1910


Conforme já referimos, em 1829, durante o reinado de D. Miguel, a CJ volta
ao território português. No entanto, este período foi pouco expressivo uma
vez que em 1834 o instituto é novamente afastado, no âmbito do processo
de extinção das ordens religiosas. Será em 1858, pela mão do jesuíta Carlos
Rademaker, que a CJ volta a prestar assistência em Portugal. Rademaker
funda inicialmente a Missão Portuguesa (1858) e, anos mais tarde, é de novo
instituída a Província Portuguesa (1880). A reentrada revelou-se tímida e
cautelosa, ainda sob a sombra da propaganda anti jesuíta que remontava ao
período de Pombal.
A função educativa é novamente direccionada para a formação de estudan-
tes laicos, casos do colégio de Campolide (Lisboa – 1858) e de São Fiel (Lou-
riçal do Campo – 1863), e para a formação dos próprios quadros da CJ 38. No
colégio de Nossa Senhora dos Anjos, fundado no Barro (Torres Vedras) em
1860, funcionava o noviciado, onde os jesuítas recebiam os dois primeiros
anos da sua formação. No colégio de São Francisco, fundado em Setúbal
em 1876, ministravam-se os três anos seguintes de formação jesuíta – o fi-
losofado.
Os esforços para a implantação de um novo colégio em Setúbal remontam
a 1874, momento em que os padres jesuítas Joaquim António Machado,
José Monteiro e Carlos Gouveia, se deslocam a Setúbal para negociar com
Francisco José Pereira – proprietário do edifício do antigo colégio de S.
Francisco Xavier – a aquisição do edifício. Recuando aos anos que se se-

37 José Caeiro, História da expulsão da Companhia de Jesus da Província de Portugal (sec. XVIII), Lisboa, 1991, pp.83 e
84.
38 No que se refere ao ensino jesuíta deste período, recomendamos a leitura da tese de doutoramento de
Francisco Malta Romeiras, intitulada Das ciências naturais à genética: a divulgação científica na revista Brotéria (1902-
2002) e o ensino científico da Companhia de Jesus nos séculos XIX e XX em Portugal.

150
casas religiosas de setúbal e azeitão

guiram à expulsão jesuíta de 1759, o edifício do extinto colégio transitou


directamente para a posse e administração do Estado. Em 1769 D. José I
doa-o às freiras bernardas do destruído convento de Nossa Senhora da
Nazaré do Mocambo (Lisboa), às quais se juntam as freiras do convento de
Nossa Senhora da Assunção de Tabosa (Viseu), fundando o Real Mosteiro
de Nossa Senhora da Nazaré de Setúbal. Durante pouco mais de uma dé-
cada operaram-se obras de adaptação à clausura feminina que desvirtua-
ram o edifício jesuíta, iniciando-se mesmo um irreversível e fatal desmem-
bramento da propriedade. Regressadas as freiras aos seus locais de origem
pouco tempo depois, o complexo edificado de Setúbal transformou-se
numa fonte de rendimento, desmembrado em diferentes parcelas, o que
permitiu transformações de fundo para adaptação de programas tão dís-
pares como um teatro, edifícios habitacionais, fábricas de cortiça e de
conservas alimentícias.39 A zona do antigo colégio que se desenvolvia na
vertente nascente/sul da cerca estava na posse de Francisco José Pereira
Júnior, filho do homómino Francisco José Pereira, industrial galego que aí
havia instalado uma fábrica de cortiça. Homem profundamente devoto às
causas da igreja, Francisco José Pereira Júnior compra em 1874 o convento
de São Francisco e vende-o aos jesuítas para, na impossibilidade de volta-
rem a ocupar o antigo colégio, poderem fundar novo estabelecimento es-
colar em Setúbal. O convento de S. Francisco é o mais antigo cenóbio da
cidade, tendo sido fundado por franciscanos em 1410 e alvo de muitas
transformações e reedificações, pouco ou nada restando da fundação pri-
mitiva. Em 1834 os franciscanos são expulsos e o edifício incorporado nos
bens próprios nacionais e arrematado em hasta pública por Joaquim
O’Neill. Em 1840 João Torlades O’Neill mandou destruir grande parte do
edifício e em 1874 Francisco José Pereira Júnior adquire-o, para em 1875 o
vender aos padres da CJ que o adaptaram a colégio. Segundo Manuel En-
via “o visitador das obras era o Sr. Francisco José Pereira, que, todos os dias
subia a ladeira de S. Francisco patriarcalmente montado numa burrinha
branca”40. Segundo o mesmo autor, trabalharam na obra do edifício “os
melhores operários da cidade: o velho Gomes carpinteiro, o mestre Antó-
nio da Lipia; mestre Ramos e o hábil Agostinho Moura”. Em 1877 o colé-
gio foi aberto e iniciado o curso de filosofado. Seguindo a tradição educa-
tiva da primeira fase da CJ, o ensino das ciências foi repescado, sendo
leccionadas no filosofado disciplinas como matemática, física, química e
história natural.

39 Para uma melhor compreensão destas transformações veja-se a obra De Colégio de S. Francisco Xavier a Palácio
Fryxell – História e análise arquitectónica.
40 Manuel Envia, Prosas regionais, Setúbal, 1947.

151
Fig. 4 Convento de S.Francisco, Fig. 5 Estudantes do 2º ano de filosofia
adaptado a colégio. no colégio de S. Francisco, 1892-1893.

Fig. 6 António Oliveira Pinto, S.J. no Fig.7 Estudantes jesuítas a observar um


gabinete de física do colégio. eclipse solar (ca. 1890).

Fotografias gentilmente cedidas pelo Sr. Padre António Júlio Trigueiros.

Apesar de se continuar a veicular a informação de o colégio ser exclusivo para


os quadros da CJ, podemos atestar que o ensino também se destinava a laicos.
Um anúncio, assinado pelo reitor do colégio, padre Bento Rodrigues, e publi-
cado na Gazeta Setubalense a 18 de Julho de 1881, mostra que se ministrava o
ensino primário e secundário a laicos:
“Este collegio conta apenas cinco annos de existência, e os alumnos, que nos
ultimos tres deu por habilitados para fazerem exame no lyceu nacional, tanto de
instrução primaria, como secundaria, tem ficado approvados. (...) Ainda assim o
colégio não tem progredido muito, em razão da sua distância do centro da po-
voação. Pois muitos pais de familia manifestam o desejo de mandar seus filhos
a cursarem as aulas do dito colegio, allegam porém a difficuldade da distancia.
Vamos, pois, tratar de remover essa dificuldade pela fórma seguinte:
Se houver mais alguns pais de familia, que estejam no mesmo caso, estabe-
lece-se um meio de transporte seguro, decente e commodo, para conduzir
os alumnos com toda a regularidade de suas casas ao collegio e vice-versa,

152
casas religiosas de setúbal e azeitão

assim de manhã, como de tarde, pagando cada um, além da mensalidade das
aulas, a modica pensão de 600 réis mensaes. D’esta maneira os meninos
aproveitam tempo, livram-se de varios perigos, e poupam em fato e calçado,
que costumam romper pelo caminho e em brinquedos, muito mais da im-
portancia do transporte.
Havendo sufficiente numero de alumnos, que queiram utilizar-se d’este meio,
o collegio obriga-se a ensinar desde já todas as materias do 1º, 2º e pelo menos
parte do 3º ano do curso dos lyceus; e conforme o adiantamento e numero dos
alumnos irá augmentando as disciplinas até completar o quadro dos estudos,
segundo o novo programma, approvado pela carta de lei de 14 de Junho de
1880. (...) Para todos aqueles que se aproveitarem do indicado meio de trans-
porte ficará reduzida a mensalidade das aulas (...). Continua dando-se aos me-
ninos pobres instrução primária gratuita, e aqueles que se distinguirem por
seu comportamento civil, moral e religioso, serão igualmente admitidos gra-
tis a todas as disciplinas de instrução secundária”.
Para além de um colégio, a CJ fixou em Setúbal uma residência: a igreja e resi-
dência do Sagrado Coração de Jesus. Em 1880 os jesuítas compraram a antiga
igreja paroquial de Nossa Senhora da Anunciada e parte do edifício do antigo
hospital da confraria da Anunciada. A igreja, muito destruída pelos sismos que
assolaram Setúbal (1755 e 1858) foi, segundo Manuel Envia41, comprada em 1871
por António Albino e “o coro foi convertido parte em habitação e parte em ar-
mazém, conservando-se porém as janelas, as quatro capelas e o arco cruzeiro
intactos, bem como a frontaria. Segundo o mesmo autor, “os padres de São
Francisco” [que seriam os jesuítas do colégio de São Francisco] “compraram
esta igreja em 1895 por 3.000$000 (três contos) e trataram de a completar fa-
zendo-lhe o tecto e sobrado e ornamentando-a interiormente. O trabalho de
pintura foi dado a Francisco Augusto Flamengo por 700$000 reis».
Quinze anos depois de fixarem novamente residência em Setúbal, nova con-
vulsão afecta os jesuítas. A 4 de Outubro de 1910 os apoiantes da república
tomaram a igreja, destruindo-a:
“Quebraram as portas, as janellas, as tribunas, os altares, o côro, os confes-
sionários, o harmónio, as cadeiras (ouvi que até arrancaram o ladrilho e o
soalho da igreja à força de picareta). [A igreja] tinha no camarim do altar-
-mor, uma estatua grande do mesmo Sagrado Coração de Jesus. Os assaltan-
tes (…) pricipitaram-na (…) quebrando-a em mil pedaços. (…) a imagem do
Senhor Morto, foi como as outras, arrastada, mutilada e cuspida. Contaram-
-me que a esta imagem cortaram a cabeça. Depois, com blasfema irrisão fo-
ram levar “aquelle homem”, como diziam, ao hospital da Misericórdia, para
que o tratassem as irmãs”42.

41 Manuel Envia, op. cit.


42 Gonzaga Azevedo, S.J. , Proscristos -Notícias circunstanciadas do qeu passara os religiosos da Companhia de Jesus na
revolução de Portugal de 1910, Valladolid, 1911.

153
nota final
Primeiramente expulsos por Pombal em 1759, abrangidos no processo de ex-
tinção das ordens religiosas em 1834, os jesuítas foram novamente afectados
pela convulsão política de 1910, através do Decreto de 8 de Outubro da Repú-
blica Portuguesa que determinou uma nova extinção e expulsão das ordens
religiosas. Segundo Francisco Malta Romeiras as medidas dos republicanos
que “terminaram na prisão e posterior exílio dos jesuítas portugueses, repre-
sentam o culminar do anticlericalismo oitocentista português em que os jesu-
ítas eram acusados de promover a destruição da família e de serem decaden-
tes, manipuladores e os principais responsáveis pelo atraso científico e
educativo no nosso país.”43
Com um projecto assistencial e educativo que se distanciava dos restantes
institutos religiosos, a CJ demonstrou o desejo de se fixar em Setúbal nos pri-
mórdios da sua fixação em território luso. Fundando um colégio em 1656 in-
fluenciou a espiritualidade e formação dos sadinos até 1910, com um interreg-
no entre 1759 e 1876. A sua memória em Setúbal persiste, no culto do
padroeiro da cidade – S. Francisco Xavier –, mas também nos edifícios que
construíram, reconstruíram e adaptaram. Fica muito por investigar relativa-
mente à história desse património construído, pelo que esperamos que este
artigo sirva para alertar para a necessidade de estudos mais profundos em tor-
no desses edifícios.

BIBLIOGRAFIA

FONTES PRIMáRIAS

ARQUIVO NACIONAL TORRE DO TOMBO, LISBOA


Armário Jesuítico e Cartório dos Jesuítas, maço 103, caixa 90.
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 6450.
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 8064.

ARCHIVUM ROMANUM SOCIETATIS IESU, ROMA


LUS84IPT.
LUS75.

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Ms. 30, nº214.

43 Francisco Malta Romeiras, Das ciências naturais à genética: a divulgação científica na revista Brotéria (1902-2002) e
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casas religiosas de setúbal e azeitão

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