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QUARTA-FEIRA, 6 DE MARÇO DE 2019

Introdução ao Retiro Quaresmal de 2019


Retiro Quaresmal para 2019
A liberdade para qual Cristo nos libertou

Mais uma vez, chegado o sagrado Tempo da Quaresma, proponho-me a fazer um


itinerário quaresmal com você, caro Irmão no Senhor. Este ano vou meditar trechos da
Epístola de São Paulo aos gálatas.
Não é fácil afirmar com certeza quem eram estes gálatas, aos quais o Apóstolo
escreveu nem a data em que escreveu. Para alguns, os gálatas seriam os cristãos das
cidades visitadas por São Paulo quando da sua primeira viagem missionária: seriam os
habitantes de Icônio, Listra e Derbe, cidades da Licaônia, que, desde 25 aC, os romanos
consideravam também pertencendo à Província da Galácia (cf. At 18,23). São Paulo
teria, então, escrito a estes irmãos na sua segunda ou terceira viagem missionária, lá
pelo ano 48. Neste caso, esta Epístola seria a primeira epístola de São Paulo e o texto
mais antigo no Novo Testamento. Segundo outros, a maioria, os gálatas a quem o
Apóstolo escreveu seriam cristãos das tribos celtas que teriam chegado à Ásia Menor
no século III aC e foram dominados pelos romanos em 189 aC. São Paulo visitou a
região dessas tribos gálatas na sua segunda viagem; eles habitavam mais a noroeste
(cf. At 16,6), na região onde se encontrava a cidade de Ancira, atual Ancara, capital da
Turquia dos nossos dias. Nesta possibilidade, podemos dizer sem medo que os gálatas
eram cristãos da Ásia Menor, atual Turquia, convertidos por São Paulo do paganismo
durante a sua primeira ou segunda viagem. Neste caso, a Epístola teria sido escrita em
torno do ano 56, em Éfeso.
Mais importante é compreender porque o Apóstolo escreveu aos cristãos da Galácia.
São Paulo havia pregado o Evangelho de Cristo aos gálatas, que não conheciam o Deus
verdadeiro. Eles acreditaram em Cristo Jesus e receberam o Batismo; fizeram a
tremenda experiência de ser de Cristo, de viver uma vida nova, Vida no Espírito do
Senhor. Nesta ocasião, São Paulo não se tinha detido em falar a Lei de Moisés ou do
Antigo Testamento: o importante era conhecer Jesus como Salvador e Senhor e a Ele
converter-se! Ora, posteriormente, passaram pela região da Galácia cristãos
judaizantes, isto é, ligados aos que antes de se converterem tinham sido fariseus, e
defendiam que os cristãos tinham que obedecer inteiramente aos preceitos da Lei de
Moisés. Esses aí disseram aos gálatas que São Paulo não lhes havia pregado o
Evangelho completo e que o Apóstolo nem era um dos Doze, pois havia se convertido
depois. Confusos, os gálatas começaram a desconfiar do Apóstolo e começaram a
pensar que era necessário sim cumprir a Lei de Moisés e os preceitos dos rabinos,
como os judeus faziam.
Quando São Paulo teve conhecimento disto, ficou indignado, pois a questão era séria,
de vida ou morte para o cristianismo:
Quem salva é Cristo ou é a prática de Lei de Moisés?
Se a Lei de Moisés salva, então para que Cristo tinha vindo? Bastaria abraçar o
judaísmo!
O que Cristo Jesus trouxe é algo novo ou os discípulos de Jesus seriam apenas um
puxadinho dentro do judaísmo?
Por isso o Apóstolo escreve: para defender e explicar que toda a salvação vem de
Cristo, nosso Senhor. A Epístola aos Gálatas é uma defesa apaixonada da graça da
salvação trazida por Jesus Cristo, por nós morto e ressuscitado e doador do Espírito!
Quem Nele crê e Nele vive encontra a salvação, a Vida divina em plenitude, sem
precisar recorrer à Lei de Moisés ou ao judaísmo!

Quanto ao nosso caminho quaresmal, eu pretendo tomar trechos da Carta e meditar


sobre eles, fazendo que a Palavra do Senhor ilumine e transfigure em Cristo a nossa
vida neste mundo até a Vida imperecível da Glória.
Que você, que fará comigo este caminho quaresmal, nunca esqueça que a Escritura
Santa não é para simples estudo, mas para que creiamos e, crendo no coração e na
vida, tenhamos a Vida eterna por meio de Jesus nosso Senhor!

Estas meditações irão até o sábado antes da IV semana. Depois, tomaremos os textos
dos evangelhos de cada dia, já preparando para a Semana Santa e, finalmente,
faremos uma leitura contemplativa da Paixão segundo São Lucas, que é o evangelista
deste ano litúrgico. Que o Senhor nos conceda levar adiante este projeto! E você, que
dele se beneficiar, reze por mim, para que eu seja fiel ao ministério que recebi do
Senhor! Amém.
QUINTA-FEIRA, 7 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação I - Quinta-feira depois das Cinzas

Reze o Salmo 118/119,1-8


Leia com atenção Gl 1,1-5

1. Primeiramente, recorde que esta Epístola é Palavra de Deus. Nas palavras de São
Paulo, escritas por ele de modo tão humano, o Senhor Deus nos instrui sobre o Seu
Filho, na luz e na potência, no conhecimento e na profundidade do Santo Espírito.
Procure, portanto, ler e reler este trechinho com o coração aberto; um coração que
escute.
Peça como Salomão: “Dá ao Teu servo um coração que saiba escutar” (1Rs 3,9), que
saiba ouvir a santa Palavra do Senhor como realmente ela é: Palavra de Deus.
Leia 1Ts 2,13.

2. São Paulo começa recordando aos gálatas que ele é apóstolo, isto é, “enviado”;
enviado não por homens, não pelos Doze, não por Pedro, mas pelo próprio Jesus
Cristo, o Enviado de Deus Pai!
Atenção: Paulo não era dos Doze, Paulo não conhecera Jesus neste mundo e, no
entanto, livre e soberanamente, Jesus Cristo o chamou para ser apóstolo. Trata-se de
uma escolha inesperada e graciosa do Senhor, por pura liberalidade.
Leia At 22,1-22. Aí, o próprio Apóstolo conta a sua vocação surpreendente e
absolutamente gratuita por parte do Senhor. Paulo não se considera apóstolo contra
os Doze nem desprezando os Doze, mas sabe que o seu chamado foi diretamente feito
pelo Senhor. Se os pastores da Igreja devem ser sempre respeitados, no entanto não
são os donos do rebanho nem proprietários da fé e da vocação dos discípulos. Só o
Senhor é soberano absoluto da Igreja e ninguém mais: nem um Papa nem um Bispo
nem um padre nem ninguém!

3. A palavra “apóstolo”, na Igreja, indica aquele que é enviado como representante do


Cristo que envia. O apóstolo faz as vezes do próprio Cristo: “Quem vos ouve e Mim
ouve; e quem vos rejeita, a Mim rejeita” (Lc 10,16) de modo que acolhê-lo ou rejeitá-lo
equivale a acolher ou rejeitar o próprio Cristo.
Quem são os apóstolos?

a) Primeiramente e de modo todo especial os Doze primeiros que o Cristo chamou e


enviou em Seu nome.

b) Depois, de modo absolutamente único, Paulo de Tarso, escolhido não por meio de
homens, mas diretamente de Jesus Cristo.

c) Depois ainda homens que receberam dos Doze ou de Paulo, em geral pela imposição
das mãos, isto é, o Sacramento da Ordem, a autoridade de enviados em nome de
Cristo para ensinar e pastorear a Igreja.

d) Finalmente, todos aqueles que pelo Batismo, a Crisma e a Eucaristia são, neste
mundo, sal e luz por ordem do próprio Cristo (cf. Mt 5,13).

4. Reflita:

a) Na Igreja, aqueles que sucedem a Pedro e aos Doze são o Bispo de Roma e os Bispos
e seus cooperadores, os presbíteros. Eles devem ter o respeito e a obediência por
parte dos fieis (cf. 1Cor 3,9; 1Ts 3,2; Hb 13,7) Mas, isto não é absoluto: “O que se exige
do administrador é que cada um seja fiel” (1Cor 4,1s).
Sendo enviados pelo Cristo, os sucessores dos primeiros apóstolos devem ser fieis na
doutrina católica e apostólica, no zelo pelo pastoreio do rebanho segundo o Coração
de Cristo Bom Pastor e na santificação do rebanho pelo exemplo e pela celebração dos
mistérios de Cristo.

b) Além dos pastores da Igreja, todos os batizados e crismados têm um dever de


apostolado na Igreja, comunidade dos discípulos do Senhor Jesus. Atenção: esta
missão não é dada por nenhum ministro ordenado, mas diretamente pelo Cristo, no
Batismo e na Crisma e alimentada em cada Eucaristia! A missão deve ser vivida em
comunhão com os pastores e sob a orientação deles, mas não vem deles! Só Cristo é a
fonte absoluta e o critério absoluto da vida cristã e da missão!

c) Aqui cabe a pergunta: Você é um apóstolo do Senhor, isto é, você é alguém que se
deixa enviar pelo Senhor como testemunha da Sua presença, do Seu amor, da Sua
verdade, da Sua salvação? Leia com atenção Mt 5,13ss. É uma séria advertência do
Senhor!
Recorde que seu primeiro apostolado é no ambiente em que você vive, no estado de
vida em que o Senhor o colocou: família, esposo, pai, mãe, patrão, funcionário,
empregado, namorado, estudante…

Leia Is 6,1-8. Pense rezando: Senhor, onde queres me enviar? Onde desejas que eu
seja sinal de Ti, presença de Ti? Senhor, aqui estou! Ajuda-me a ser Teu apóstolo, Teu
enviado, Teu embaixador nas várias situações e locais deste mundo e desta vida! Faz-
me corajoso, faz-me disponível, faz-me fiel! A Ti a glória, Senhor, pelos séculos sem
fim. Amém.

5. Agora observe: Quem chama Paulo ao apostolado? É Jesus Cristo! É Ele o Enviado do
Pai, é Ele “que Se entregou a Si mesmo pelos nossos pecados a fim de nos livrar do
presente mundo mau, segundo a vontade do nosso Deus e Pai” (v.4) e, tendo-Se
entregado, foi ressuscitado dentre os mortos pelo Pai (cf. v. 1). Aqui há ideias muito
importantes, centrais, para a nossa fé:

(a) Toda a Vida, toda salvação, toda vocação nasce do Pai e nos vem por Jesus Cristo
nosso Senhor. Foi o Pai Quem“amou tanto o mundo, que entregou o Seu Filho único,
para que todo o que Nele crê não pereça, mas tenha a Vida eterna” (Jo 3,16). A obra
da salvação tem seu princípio no Pai, manifesta-se através do Filho feito homem de
morte e ressurreição por toda a humanidade e se efetiva seja em Cristo seja na Igreja
até o fim dos tempos na potência do Santo Espírito que o Ressuscitado derrama
continuamente na Sua Igreja.
(b) A Vida divina que o Pai nos quer dar, a comunhão com Ele, isto é, a salvação, por
vontade livre e soberana do Pai, vem-nos pela Morte e Ressurreição do Seu Filho,
nosso Senhor Jesus Cristo. Ele Se entregou em perfeita obediência e comunhão com o
Pai (cf. Jo 10, 17s) e pelo Pai foi ressuscitado na potência do Espírito Santo, que foi
pelo Ressuscitado derramado sobre nós (cf. Rm 1,3s; At 2,32s).

(c) Esta salvação que o Senhor Jesus Cristo nos trouxe nos separa do “mundo mau”. O
cristão é separado do mundo! O que isto significa? O cristão, iluminado pela luz do
Cristo Jesus, sabe que o mundo foi marcado pelo pecado. Este mundo atual, bom em si
mesmo, é ferido gravemente pelo mistério da iniquidade. Jesus fala de Satanás como
o “Príncipe deste mundo” de pecado (cf. Jo 12,31; 16,11) e deixa claro que a Sua
escolha nos separou do mundo (cf. Jo 17,14-16). São Paulo nos previne claramente de
que aqueles que desejam agradar ao mundo não são amigos de Cristo (cf. Gl 1,10) e
que a lógica da Cruz de Cristo é loucura para o mundo: ele não consegue compreender
porque não tem o Espírito de Cristo (cf. 1Cor 2,14) São afirmações tremendas e de
grande atualidade, sobretudo quando se vê na Igreja muitos que são tentados a
mundanizar a Esposa de Cristo, a prostituí-la ao modo de ver, sentir, pensar e agir do
mundo, inimigo de Cristo! O cristão verdadeiro, que se pauta por Cristo, jamais
aceitará isto, pois vivemos na carne, mas não podemos militar segundo a carne! Leia
com atenção 2Cor 10,3-6.

6. Pensando nos seus próprios sofrimentos, mas sobretudo, pensando na Igreja, novo
Israel, e naqueles que, dentro e for a dela, querem destruí-la ou desfigurá-la, reze o Sl
94/93.
SEXTA-FEIRA, 8 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação II - Sexta-feira depois da cinzas

Reze o Salmo 118/119,9-16


Leia com atenção Gl 1,6-10

1. De modo direto e franco, o Apóstolo queixa-se dos gálatas em tom de repreensão:


eles haviam recebido o Evangelho pela pregação de Paulo. Do Apóstolo aprenderam
que Jesus, o Cristo, fora enviado pelo Pai, que O entregara pelos nossos pecados e O
ressuscitara dentre os mortos, de modo que Nele, o Salvador, estamos livres do
mundo de pecado.
Um belo resumo do Evangelho, isto é, da pregação de Paulo, encontra-se em 1Cor
15,3s. Leia! É este o núcleo duro da nossa fé: Cristo morreu e ressuscitou por nós; Nele
estamos salvos, por graça de Deus que O entregou!

a) Pense bem: A salvação é, fundamentalmente, graça de Deus através de Jesus Cristo.


A Morte e Ressurreição do Senhor são eventos salvíficos, isto é, são gestos, atos
salvadores de Deus. O homem precisa dessa salvação que nos vem pela Páscoa do
Senhor. Sem entrar em contato com a Sua Morte e Ressurreição, é impossível receber
a salvação (cf. At 4,8-12; Rm 8,1-4)

b) O modo ordinário de entrar em contato com a graça salvífica que o Senhor nos
obteve com a Sua Páscoa é a participação nos Seus sacramentos, sobretudo e de modo
especial na Eucaristia, memorial do Seu Sacrifício pascal. Esta consciência era bem
presente e profunda na Igreja primitiva. Basta ver o quanto ela está presente nos
escritos do Novo Testamento como algo já conhecido e praticado. Eis alguns exemplos.
Vale a pena conferir:
1Cor 10,10-22 => o cálice abençoado e o pão repartido, comunhão com o Senhor
ressuscitado;
1Cor 11,23-34 => a Ceia eucarística, memorial da Morte e Ressurreição do Senhor,
sacramento da unidade e da comunhão na Igreja;
1Cor 12,13=> os cristãos, batizados no único Espírito do Cristo para formarem um só
Corpo do Senhor na Eucaristia;
Jo 3,5s; 6,51-58 => O Batismo e a Eucaristia, que dão a Vida no Espírito de Cristo;
1Jo 5,5-13 => Cristo que venceu o mundo e Se faz presente na força do Seu Espírito
pela água do Batismo e o Sangue da Eucaristia.

c) Atenção que estas afirmações são centrais para a nossa fé, fazem parte da essência
mesma do cristianismo! É por isso mesmo que do lado do Cristo pascal saem a água do
Batismo e o Sangue da Eucaristia, que jorram depois que o Senhor Jesus entregou o
Seu Espírito como prenúncio da salvação que seria dada continuamente nos
sacramentos celebrados pela Igreja para a Vida do mundo. Compare Jo 19,31-37 com
1Jo 5,5-8.
Aqui, vale a pena perguntar: Você tem consciência da centralidade da vida sacramental
na nossa vivência cristã? Como vai a sua participação no Sacrifício eucarístico? Como
vai a sua prática do sacramento da Confissão?

d) Pare um pouco. Medite, contemple, reze tão grandes mistérios de amor e salvação!
2. O que fizeram os gálatas? Depois que Paulo pregara o Evangelho e se fora,
apareceram irmãos judeus-cristãos, isto é, cristãos de origem judaica, provavelmente
antigos fariseus, vindos da Judeia, sem mandato dos Apóstolos, dizendo aos gálatas
que Paulo não havia pregado o Evangelho com inteireza: seria preciso para os pagãos
que abraçaram a fé em Jesus que eles também cumprissem a Lei de Moisés, a Torá dos
judeus, a começar pela circuncisão! A questão era seríssima: se os pagãos convertidos
tivessem que cumprir a Lei de Moisés, então, para que Cristo teria vindo? A
humanidade é salva pelo Cristo ou pelas práticas da Lei que o Senhor Deus dera aos
judeus? Quem salva é Cristo com Seu mistério pascal ou as práticas, as obras
determinadas pela Torá?
Os gálatas de deixaram levar por esses irmãos vindos da Judeia! Começaram a duvidar
se Paulo havia ou não pregado inteira e fielmente o Evangelho de Cristo! Daí a
indignação de São Paulo!

3. O Apóstolo acusa esses irmãos de corromperem o Evangelho de Cristo. Atenção, que


não se trata dos quatro escritos que hoje chamamos “evangelhos”, que nem existiam
nesta época. “Evangelho”, aqui, é o anúncio do Cristo morto e ressuscitado para o
perdão dos nossos pecados e nossa salvação!

4. Paremos por aqui. Na próxima meditação, continuaremos ainda a meditar sobre


estes mesmos versículos. Por agora, com fé e devoção, escute o Evangelho e,
novamente, acolha-o na fé: leia Mt 28,16-20; Mc 16,9-20; At 2,29-41; At 5,29-32; At
10,37-44; At 13,26-39.

5. Reze o Sl 96/95. Aí já aparece predito o anúncio da salvação a todos os povos, com o


Evangelho que proclama o Reino de Deus que o Cristo veio anunciar e instaurar: “O
Senhor é Rei” (v. 10).
SÁBADO, 9 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação III - Sábado depois das cinzas

Reze o Salmo 118/119,17-24


Leia novamente com atenção Gl 1,6-10

1. Já vimos que os gálatas, influenciados por cristãos judaizantes, colocaram em dúvida


o Evangelho de Paulo, passando a um outro evangelho, isto é, a uma outra doutrina.
Leia os vv. 6s. Mas, o Apóstolo adverte que não há outro Evangelho, não há outra
doutrina (cf. vv. 8s). Sendo assim, observe que a fé não é simplesmente um ato de
confiança em Jesus nosso Senhor, mas é a adesão à Sua Pessoa e a profissão correta
das verdades a Seu respeito na Comunidade dos discípulos, chamada Igreja. Em outras
palavras, crer exige que se professe a verdadeira doutrina! Para São Paulo, crer
deturpando a doutrina do Evangelho é correr em vão (cf. Gl 2,2).

2. Qual é esta doutrina? Onde ela se encontra? Como reconhecê-la?

a) A doutrina cristã tem sua fonte e raiz na Pessoa, na vida e pregação de Jesus nosso
Senhor: Ele mesmo é o Evangelho, de modo que ouvi-Lo, Nele crer e com Ele caminhar
é acolher o Evangelho. É preciso ouvir a Sua Palavra (cf. Mt 11,28s; 7,24ss; Mc 13,37); é
necessário não somente ouvir, mas pôr em prática a Palavra e imitar o Senhor (cf. 1Cor
11,1), caminhando com Ele e como Ele (cf. Jo 8,12; 1Jo 2,6).

b) Tudo quanto o Senhor Jesus disse, fez e ensinou, Ele entregou aos Doze, com
autoridade, para que eles conservassem e proclamassem aos irmãos e ao mundo:

c) Os Apóstolos desde o princípio tiveram a consciência de serem os primeiros


responsáveis pelo Evangelho, isto é, pelas palavras, gestos, obra do Senhor Jesus Cristo
entregues à Sua Igreja. Veja estes textos seguintes: 1Cor 11,23; 15,1-4; 1Tm 4,6-7.16;
2Tm 1,13s; 2,14s.22-26; 2Tm 3,14-17; 2Tm 4,1-5; Tt 1,9s; 2,1.7.15. Existem ainda
outros textos do Novo Testamento que mostram claramente que a fé em Cristo exige
que se guarde, na Igreja, a reta doutrina do Evangelho de Cristo, sob a supervisão dos
Apóstolos e seus colaboradores, colocados pelo próprio Espírito de Cristo à frente do
rebanho.
Leia com atenção At 20,28-52 e 1Pd 5,1-4. Nestes textos aparece claro como (1) os
pastores da Igreja, chamados presbíteros, isto é, anciãos, são colocados por Deus à
frente do rebanho, (2) devem apascentá-lo com amor, fidelidade, decência e retidão
(3) e o rebanho deve respeito e obediência aos pastores.

2. O Evangelho de Paulo e da Igreja é vivo: é pregado e mantido vivo na força do Santo


Espírito de Cristo. Este Evangelho é o anúncio e a vivência concreta de uma existência
em Cristo feito homem, morto e ressuscitado para a nossa salvação, doador do Santo
Espírito, continuamente derramado na Igreja em virtude dos sacramentos. Este
anúncio é mantido perenemente firme e dinamicamente vivo nos textos das Escrituras
guardadas e interpretadas conforme a constante Tradição da Igreja sob a guia do
Santo Espírito.
Leia Jo 14,26; 16,13. Nunca esqueça: a Igreja de Cristo guarda a verdadeira doutrina
fielmente não porque repete de modo mecânico a doutrina a cada época ou porque
seus estudiosos são espertos em descobrir conexões entre as verdades das Escrituras...
Nada disto! A Igreja guarda a doutrina de modo vivo, crescente, progressivo, porque o
Espírito Santo de Cristo a ilumina, a vivifica, fá-la conhecer cada vez mais
profundamente as insondáveis riquezas do Mistério do Cristo Jesus (cf. Ef 3,3-21). É o
Espírito de Cristo, presente e atuante na Igreja dos modos mais variados (na escuta da
Palavra de Deus, nos sacramentos, na oração do Povo de Deus, na contemplação dos
místicos, na prática do amor e da vida cristã por parte dos fieis, no estudo da teologia,
etc), Quem faz com que a Igreja vá crescendo até “compreender com todos os santos
qual é a largura e o comprimento e a altura e a profundidade, e conhecer o amor de
Cristo que excede todo conhecimento” (Ef 3,18s) e “o pleno conhecimento do Filho de
Deus, o estado do Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef
4,13).
O verdadeiro cristão sabe que Cristo prometeu estar sempre com a Sua Igreja na força
do Seu Espírito, conduzindo-a sempre à verdade plena. Por isso sabe que a Igreja como
um todo não poderá nunca trair a verdade do Evangelho e a reta doutrina. Leia
novamente Jo 8,12; 1Jo 2,6 e também Mt 28,16-20.

3. O Evangelho tal como a Igreja o recebeu, o viveu e o guardou ao longo dos séculos,
de modo progressivo, vivo e sem rupturas, hoje é condensado de modo autoritativo
sobretudo no Catecismo da Igreja Católica. Principalmente as duas primeiras partes – o
Credo e os Sacramentos – são de importância capital para quem deseje guardar de
modo íntegro a doutrina do Evangelho!
Pense um pouco: Você procurado conhecer a doutrina da Igreja? Procura levar a sério
os ensinamentos doutrinais da Igreja? Procura regular sua vida pela doutrina cristã?
Lembre: absolutamente ninguém tem o direito de deturpar esse Depósito da fé
confiado uma vez por todas aos santos de Cristo (cf. Jd 3).
Mais uma vez: Você procura, sinceramente, guardar integralmente a fé católica ou, ao
invés, é católico de conveniência? Lembre-se de que o Senhor nos pedirá contas do
modo com o como guardamos o bom depósito a nós confiado! É a Igreja toda que
deve velar para guardar a fé; a Igreja como um todo e cada membro desse bendito
Corpo de Cristo em particular...

4. Nunca esqueça: na história da Igreja, desde o tempo dos apóstolos, sempre haverá
os que desejam “corromper o Evangelho de Cristo”. Faz-se isto falsificando a doutrina,
desequilibrando-a, isto é, enfatizando-a determinadas verdades em detrimento de
outras, acentuando certos aspectos em prejuízo do todo revelado pelo Senhor.
Somente na Igreja como um todo, sob a ação do Espírito de Cristo, o equilíbrio e a
fidelidade poderão ser mantidos! Nunca esqueçamos a sentença do Apóstolo para os
que deturpam a verdade do Evangelho: estes sejam anátemas (cf. Gl 1,8s), isto é
objeto de maldição, afastados e separados da Comunidade dos discípulos, que é a
Igreja!

5. Finalmente, guarde sempre no coração a constatação do santo Apóstolo: “Se eu


quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo!” (Gl 1,10b) O Evangelho,
quando proclamado fielmente, na sua inteireza, nos colocará sempre em rota de
colisão com o mundo: “Adúlteros! Não sabeis que a amizade com o mundo é inimizade
com Deus? Assim, todo aquele que quer ser amigo do mundo torna-se inimigo de
Deus” (Tg 4,4).

6. Reze o Sl 33/34
SEGUNDA-FEIRA, 11 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação IV - Segunda-feira da I semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,25-32


Agora leia Gl 1,11-24

1. “O Evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, pois eu não o aprendi de
algum homem, mas por revelação de Jesus Cristo”. Afirmação impressionante, esta! O
Evangelho, isto é, o anúncio de Cristo e a doutrina que daí decorre não é segundo a
lógica humana, segundo a medida humana. O Evangelho não é sob medida
para “agradar os homens”.
Pense: Qual a lógica do Evangelho? É a lógica da Cruz de Cristo, Cruz que é sinal de
total obediência amorosa ao Pai e total amor aos irmãos. Esta Cruz é loucura, é falta de
sentido para o mundo. Leia e reze 1Cor 1,17-31.

2. Agora, reflita nos seguintes pontos:

a) O Evangelho não é contra a lógica humana ou a sabedoria humana, mas as


ultrapassa; não se deixa limitar ou julgar por elas. Preste bem atenção: é o Evangelho
que julga o mundo e o transfigura, não é o mundo que julga e rebaixa o Evangelho.
Quem adequa o Evangelho ao mundo “não é amigo de Cristo”.
Responda com sinceridade diante de Cristo e da sua consciência: na sua vida, qual é o
critério: o Evangelho ou o mundo? Seu coração adequa o mundo ao Evangelho para
converter sua vida ou o Evangelho é rebaixado ao mundo?

b) O mundo, simplesmente pela medida da sua lógica, da sua sabedoria, jamais poderá
acolher de verdade a lógica do Evangelho e suas exigências. A sabedoria humana, para
chegar à medida do Cristo, tem que abrir-se verdadeiramente à loucura de Cruz! Isto
exige de todos nós, o tempo todo, conversão! Nunca esqueça: você somente poderá
compreender o pensamento do Senhor Deus se se deixar conduzir pelo Cristo,
deixando-se a você mesmo: seus pensamentos, sua lógica, sua medida, seu cálculo
humano... E isto é um processo que dura a vida toda!

3. É indispensável que compreendamos que o Evangelho, isto é, o anúncio cristão e


suas consequências, não é obra humana, mas vem de Deus e deve ser acolhido
na “obediência da fé” (Rm 1,1-5).Isto: a fé exige a obediência amorosa! Crer é
entregar-se ao Senhor, é deixar-se por Ele conduzir, a Ele convertendo-se
continuamente (cf. Jo 8,12).

4. Nos vv. 13-14, o Apóstolo recorda sua situação passada: era inimigo visceral da
Igreja de Deus! Não esqueçamos: ser inimigo da Igreja de Deus é ser inimigo de
Cristo: “Saulo, Saulo, por que Me persegues?” (At 9,4s)Quando falamos Igreja, o que
queremos dizer? A comunidade dos discípulos do Cristo, na qual se entra pelo Batismo
e na qual se mantém e se cresce pela Eucaristia, sacramentos da comunhão com o
Senhor e os irmãos. Isto é a Igreja, com seus vários carismas e ministérios, seus
pastores legítimos e seus inúmeros profetas, homens e mulheres cheios do Espírito de
Deus, sempre suscitados e sustentados por este mesmo Santo Espírito de Cristo.

5. Observe ainda a situação de Paulo no judaísmo: mesmo com reta intenção e com
zelo, ele estava nas trevas! Havia escamas no olhar do seu coração e, por isso, nos seus
olhos; somente quando a luz de Cristo brilhou para ele, as escamas da cegueira caíram
dos seus olhos e do seu coração. Leia At 9,10-19; 2Cor 3,12-17.
Pense bem: Cristo é necessário a todo homem que vem a este mundo! Anunciá-Lo,
falar Dele, proclamá-Lo sem medo nem meios termos é dever de amor de todo cristão,
pois “não há, debaixo do céu, outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser
salvos” (At 4,12).

6. Releia agora os vv. 15-24. Observe:


a) São Paulo sabe que foi chamado por Deus, o Pai, desde o seio materno. Mais que
chamado: foi separado, consagrado para o Evangelho de Deus (cf. Rm 1,1). Isto é um
trabalho, uma luta e, ao mesmo tempo, uma graça! Também cada cristão, em certo
sentido, de acordo com sua vocação e seu estado de vida, tem um compromisso em
relação ao Evangelho: pode ser testemunhá-lo em família, sobretudo na educação dos
filhos, no trabalho, na paróquia... Qual o seu compromisso com o Evangelho? Você o
tem assumido ou se coloca como alguém por fora?
Leia Jr 1,1,5.

b) Estar comprometido com o Evangelho de Deus leva-nos a fazer da nossa vida um


espaço, um instrumento de revelação do Filho Jesus Cristo. Paulo diz que Deus
quis “revelar em mim o Seu Filho” (v. 16). É uma expressão linda! Peça ao Senhor a
graça de fazer da sua vida – pensamentos, atos, gestos, palavras – uma revelação de
Jesus, nosso Senhor!

c) É sempre muito belo como Paulo conjuga o respeito pelos Doze, aqueles aos quais
Cristo Jesus desde o princípio confiou o pastoreio da Sua Igreja, sobretudo para com
Cefas-Pedro, o primeiro dentre os Doze e, por outro lado, tem consciência que a Igreja
não tem dono e recebeu uma missão diretamente do Senhor ressuscitado, que lhe
aparecera no caminho de Damasco.

d) Também Tiago tem uma vocação similar: ele não era dos Doze. O Senhor o chamou
com uma aparição privilegiada após a Ressurreição (cf. 1Cor 15,7). É muito significativo
que Paulo e Tiago tenham sido chamados após a Ressurreição. Provavelmente, este
Tiago, “irmão do Senhor”, isto é, parente de Jesus, não fazia parte do grupo dos Doze.
E, no entanto, ele foi o chefe da Igreja de Jerusalém. Veja a importância dele no
chamado Concílio de Jerusalém (cf. At 15,5-29. A mensagem é claríssima: o respeito
pelos legítimos pastores e a liberdade dos filhos da Igreja devem caminhar juntos! Que
coisa: Paulo e Tiago, dois grandes apóstolos da Igreja nascente, não eram do grupo dos
Doze! O Senhor é livre e ninguém é dono da Igreja! O Espírito do Senhor suscita uma
incrível diversidade de vocações, carismas e ministérios, que não devem ser sufocados
pelos ministros sagrados e, por outro lado, os que recebem carismas e dons devem
caminhar procurando estar em comunhão com os ministros ordenados. Só o Espírito
de Cristo pode conjugar e harmonizar estas realidades diversas!

e) Uma última coisa: O Apóstolo diz que “por minha causa glorificavam a Deus”.
Pense na sua vida: As pessoas glorificam a Deus por sua causa ou, ao invés, você foi ou
tem sido pedra de tropeço e sofrimento para os irmãos? O que precisa ser mudado na
sua vida para que as pessoas glorifiquem a Deus por sua causa?
7. Pensando na sua Igreja diocesana, na sua paróquia, no seu grupo ou comunidade,
reze com o Senhor Jesus Jo 17,20-26. Reze também o Sl 132/133.
TERÇA-FEIRA, 12 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação V - Terça-feira da I Semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,33-40


Agora leia Gl 2,1-10

1. Esta perícope não é muito fácil de ser explicada. Vamos compreendê-la bem:

a) Quatorze anos após o encontro com Pedro-Cefas (a Pedra), logo após a conversão,
Paulo subiu novamente até Jerusalém com Barnabé, seu companheiro de
evangelização, e Tito, um cristão provindo do paganismo, que foi fiel colaborador de
São Paulo. O Apóstolo foi à Igreja-Mãe para ver membros do grupo dos Doze,
sobretudo Cefas, o primeiro dentre os Doze, João, o Discípulo Amado, e Tiago, o Irmão
do Senhor, Bispo da Igreja de Jerusalém, a Igreja-Mãe.
Aqui temos uma indicação importante: o próprio Espírito do Senhor revela que Paulo
deve ir ver aqueles que são apóstolos antes dele, sobretudo os Doze. Na Igreja há uma
ordem, uma hierarquia, que deve velar pela conservação da unidade na verdade do
Evangelho e na vida de comunhão fraterna.
Observe como Paulo vai a Jerusalém para conferir o Evangelho dele com o testemunho
dos Doze e demais Apóstolos (cf. v. 2). Na Igreja, é indispensável a comunhão
constante na mesma doutrina apostólica!
Observe ainda como os líderes da Igreja estendem a mão a Paulo em sinal de
comunhão na fé e na caridade (cf. v. 9). Na Igreja, é indispensável a comunhão na
disciplina, nos costumes, na vida.
Veja ainda como esta comunhão de fé e amor deve ser concretizada na solidariedade
fraterna e na ajuda aos mais necessitados (cf. v .10). Na Igreja, é indispensável a
comunhão de bens, de partilha material com os que mais necessitam: dioceses mais
favorecidas deveriam ajudar às menos favorecidas, paróquias mais favorecidas
deveriam ajudar às menos favorecidas, comunidades mais carentes deveriam receber
ajuda das mais abastadas, irmãos em dificuldades materiais devereis ser ajudados de
algum modo pelos irmãos na fé!
Pense um pouco: Sua fé e a da sua comunidade ou paróquia é atenta a estes três
aspectos acima mencionados?
b) Em Jerusalém, Paulo se detém mais com Pedro (cita aqui três vezes o seu nome:
Pedro-Pedro-Cefas), Tiago e João. Com eles, o Apóstolo confere o Evangelho que ele
anuncia aos gentios, isto é, aos não judeus, recebendo daqueles que são as colunas a
confirmação da sua pregação.
Atenção: mesmo recebendo o Evangelho diretamente de Cristo (cf. Gl 1,1.15-17) e
com a autoridade de Cristo, Paulo não se coloca acima ou contra os Apóstolos, mas vai
à procura deles, cultivando a comunhão (cf. 2,9) para que o seu trabalho não seja
correr em vão (cf. 2,2).
Será sempre um grande desafio para cada um na Igreja conjugar e conciliar a
autoridade com a espontaneidade e liberdade, frutos do Santo Espírito de Cristo. Nem
a autoridade dos ministros sagrados deve sufocar as iniciativas e dons provindos do
Espírito nem os que são inspirados pelo Espírito devem se colocar à margem da
autoridade dos ministros sagrados... Quando todos procuram compreender que a
Igreja não é propriedade de ninguém, mas pertence unicamente ao Senhor, as coisas
ficam mais fáceis e tudo caminha para a edificação do Corpo de Cristo.
Leia 1Cor 12,12 – 12,13.
Observe que o Apóstolo enumera os carismas e ministérios, colocando em primeiro
lugar os apóstolos (hierarquia, autoridade pela unção do Espírito) e logo em seguida os
profetas (criatividade e liberdade do Espírito): apóstolos e profetas, diversos e
harmonizados no Espírito do Ressuscitado, que dirige e vivifica a Igreja (cf. Ef 4,11)!
Que ninguém se julgue superior, pois “Deus não faz acepção de pessoas” (v. 6b): Ele
chama a quem quer e como quer, para o bem da Igreja e a edificação do Corpo de
Cristo. É péssimo quando qualquer grupo ou classe julga-se superior e autossuficiente
na Igreja!
Pense: Se a Igreja fosse somente hierarquia, disciplina, ordem, seria uma realidade
seca e morta, estática e fossilizada. Se a Igreja fosse somente uma realidade
carismática e de inspirados, seria uma balbúrdia tão desordenada que levaria à
dilacerações e delírios, terminando por destruir a unidade na fé e na caridade! Como o
Corpo de Cristo, a Igreja é visível e ordenada, mas vivificada pela energia dinâmica e
surpreendente do Santo Espírito.

2. Paulo insiste em afirmar que Tito, apesar de batizado, não era circuncidado nem foi
obrigado a sê-lo pela Igreja de Jerusalém. Em outras palavras: os cristãos estão livres
das obras da Lei de Moisés! É Cristo quem salva e não as obras das práticas legais de
Moisés! O cristão está livre dessas práticas do judaísmo!
O Apóstolo defende isto com tanta força, que chama de intrusos e falsos irmãos
àqueles que, sendo cristãos, querem obrigar os demais cristãos a observarem as obras
da Lei de Moisés! Ora, a Antiga Aliança foi superada pela Nova: “o Antigo Testamento
(ou seja, a Antiga Aliança) deu ao Novo (isto é, à Nova Aliança) o seu lugar!”
Pense um pouco em tantos cristãos fundamentalistas que ainda hoje, sob a capa de
piedade e conhecimento das Escrituras lidas de modo fundamentalista, nos querem
fazer voltar à escravidão da Lei de Moisés:
- implicam por causa de imagens sacras,
- implicam por causa do sábado,
- implicam por causa de transfusão de sangue,
- inventam a bizarrice tola do “templo de Salomão”,
- insistem em batizar nas águas,
- vão benzer óleo no Monte Sinai,
- imitam a arca da aliança e vestimentas dos levitas do Antigo Testamento e outras
bizarrices sem pé nem cabeça!
Coitados! Não conseguem compreender que estas coisas não contam mais: a Antiga
Aliança passou! Leia Mt 9,14-17; Cl 2,8.11-12.16-17.

3. Paulo insiste em proclamar e defender “a liberdade que temos em Cristo... para que
a verdade do Evangelho permanecesse entre vós”... Esta liberdade é em relação à
prática das obras e observâncias da Lei de Moisés; a verdade do Evangelho é que
Cristo, fazendo-Se homem, debaixo da lei da natureza humana pecadora e fazendo-Se
judeu, debaixo da Lei de Moisés, nos libertou da lei do pecado humano e da Lei de
Moisés! Leia Rm 8,1-4.

4. Interessante como São Paulo se compreende a si próprio como Apóstolo dos


Gentios, isto é, enviado sobretudo aos não-judeus para anunciar-lhes Jesus Cristo. Ele
faz uma distinção interessante, mais emotiva que realmente sistemática: “A mim fora
confiado o Evangelho dos incircuncisos, como a Pedro o dos circuncisos – pois Aquele
que operava em Pedro para missão dos circuncisos, operou também em mim em favor
dos gentios” (vv. 7s). Lendo somente estas afirmações poderíamos pensar que Paulo e
sua equipe pregariam aos gentios, isto é, aos não-judeus, e Pedro e os demais
Apóstolos pregariam aos judeus. Na verdade, isto nunca foi assim: Pedro foi o primeiro
a introduzir um grupo de pagãos na Igreja.
Leia At 10,1-11,18. O Apóstolo não somente pregou a um grupo de pagãos, como
também os batizou e os introduziu na Igreja. Depois, ainda defendeu sua iniciativa
diante da comunidade de Jerusalém.
Também São Paulo, nunca pregou primeiramente aos pagãos: em qualquer cidade
aonde ia, sempre se dirigia a uma sinagoga e falava primeiro aos judeus. Leia At 13,13-
52. Somente depois ele se dirigia aos gentios, sobretudo àqueles chamados “tementes
a Deus”, isto é, gentios simpatizantes do judaísmo. Muito raramente Paulo pregava
diretamente aos gentios não tementes a Deus. Neste caso, a pregação era muito mais
difícil, como no caso de Atenas (cf. 17,16-34) ou de Listra (cf. At 14,8-20).
Que lição podemos aprender? A Igreja nem é de Pedro nem é de Paulo! A Igreja é de
Cristo; só de Cristo, vivificada, guiada e sustentada pelo Seu Espírito! Os Apóstolos
planejam, agem, mas o Senhor é sempre livre para dirigir a missão, suscitar pessoas
com dons e carismas que levem adiante a obra do Evangelho! Nunca esqueçamos
disto!
Pense um pouco no enorme número de leigos, de jovens, de grupos, de novas
comunidades que o Espírito do Senhor tem suscitado para a evangelização e o
testemunho de Cristo! Às vezes quem mais deveria discernir e apoiar e alegrar-se,
fecha-se, critica reprova, porque não cabe na sua lógica... Outras vezes, estes
“carismáticos” suscitados, suscitados pelo Senhor, querem fazer as coisas prescindindo
da Igreja, como se Cristo não tivesse edificado a Sua Igreja e nela suscitado pastores...
As duas atitudes estão muito erradas e ferem o desígnio do Senhor para a Sua Igreja. 

5. Leia e reze 1Cor 13. Agora reze com devoção e fé o Sl 144/145


QUARTA-FEIRA, 13 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação VI - I Quarta-feira da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,41-48


Agora leia Gl 2,11-14

1. Primeiramente, observemos que Cefas, Barnabé e Paulo estavam em Antioquia,


provavelmente após a Assembleia de Jerusalém (cf. At 15). Certamente, Pedro estava
lá para reforçar os laços fraternos entre essa jovem Igreja cristã e a Igreja Mãe de
Jerusalém. Não esqueçamos o importante papel de Cefas na Igreja: ele foi colocado
por Cristo como cabeça dos Doze e Pedra da Igreja. A ele cabia apascentar todo o
rebanho do Senhor (cf. Jo 21,15-17).
Pense bem: A Igreja é comunhão no Espírito de Cristo: comunhão entre as Igrejas
diocesanas, comunhão entre os irmãos, comunhão de amor em Cristo na fé, nos
sacramentos, no modo de vida, na caridade fraterna. Um cristão e uma comunidade
cristã têm sempre o dever de não se isolar mas permanecerem ativamente inseridos
na Comunhão da Igreja que nasce e reflete a comunhão do Pai e do Filho e do Espírito
Santo. Tal comunhão é sempre precioso dom de Deus (cf. 1Cor 1,3; 2Cor 1,2; Ef 1,2,
etc), mas também trabalho dos irmãos (cf. Fl 2,1-5)

2. Qual foi a atitude de Pedro censurada por Paulo tão duramente? No judaísmo, os
judeus piedosos não comiam à mesma mesa que os pagãos, pois estes não praticavam
os ritos de pureza dos judeus, como a lavagem de mãos e vasilhas; também comiam
alimentos impuros segundo a Lei de Moisés.
Pedro já sabia que em Cristo todas estas distinções haviam sido superadas; ele
aprendera isto do próprio Cristo! Leia, por exemplo, At 10-11.
Por isso mesmo, em Antioquia, o Chefe dos Apóstolos comia normalmente à mesa com
cristãos vindos do paganismo. Não importava quem era judeu de nascimento ou não,
quem era circuncidado ou não, não importava quem guardasse a Lei de Moisés ou não,
quem comesse comida pura ou não! O importante era que ali todos acreditavam em
Cristo e Nele haviam sido batizados e comungavam à Mesa eucarística: “Se alguém
está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas, eis que se fez realidade
nova!” (2Cor 5,17)
Ora, com a chegada em Antioquia de irmãos vindos de Jerusalém, da parte de Tiago,
Irmão do Senhor, membros de um grupo mais rigorista, judeu-cristão, que guardava a
Lei de Moisés, Pedro começou a evitar comer com os cristãos vindos do paganismo
para não melindrar ou escandalizar esses irmãos rigoristas. Paulo tomou isto como
hipocrisia e censurou Pedro diante de todos!
Pense: Pedro é a maior autoridade na Igreja, mas não está acima da Igreja nem acima
da verdade do Evangelho e pode e deve ser corrigido e criticado com caridade e
respeito quando for necessário! Sobretudo aqueles que têm, como ele, autoridade
apostólica, devem ser francos e honestos, respeitosos e diretos na correção fraterna
para o bem da Igreja. Fugir disto é covardia e espírito de conveniência segundo o
mundo! A crítica sincera e caridosa, a correção fraterna, é determinada pelo Senhor na
Sua Igreja e ninguém está isento dela! Leia Mt 18,15-20.

3. Pedro estava realmente errado? Sim e não.


Sua intenção era boa e correta: ele queria evitar tensões e escândalos entre os dois
grupos de cristãos. O próprio Paulo recomendou e fez isto em outras vezes! Veja, por
exemplo:
At 16,3: circuncida Timóteo para evitar complicações com os judeus;
At 21,23-26: leva judeus cristãos com ele ao Templo para deixar claro que ele mesmo
era judeu observante da Lei;
1Cor 8,13: recomenda que os cristãos que não se importam de comer carne sacrificada
aos ídolos, que são nada, não comam diante de cristãos que se escandalizariam com
isto;
Rm 14,20-23: recomenda que os cristãos gentios se abstenham de certos alimentos
para não escandalizarem os cristãos judeus, que não usavam tais alimentos;
1Cor 9,19-23: estabelece a bela regra de se fazer tudo para todos para ganhar para
Cristo o maior número possível!

O erro de Pedro foi no modo de proceder. Ele, de repente mudou o comportamento


em relação aos cristãos gentios, evitando a mesa deles diante dos cristãos judeus. Isto
pareceu mais medo que convicção, mais dissimulação que caridade, mais medo que
busca da paz! Um comportamento que poderia escandalizar gravemente os irmãos
vindos do paganismo, que se sentiriam marginalizados, como cristãos de segunda
classe.
Além do mais, estava em jogo também a Mesa eucarística: se uma separação na mesa
comum fosse correta ou permitida, como ficaria a celebração do Sacramento mesmo
da comunhão, a participação na Mesa do Senhor? Teríamos uma Eucaristia para os
cristãos judeus e outra para os cristãos pagãos? Ora, a Eucaristia é sacramento da
unidade da Igreja! Seria inadmissível duas eucaristias separadas!
Portanto, entre o que Paulo sempre recomendou e o que Pedro fez em Antioquia, a
diferença está no modo: sempre com clareza no agir e na compreensão dos motivos
porque se faz tal coisa e em vista da caridade! Faltou a Pedro a clareza nas suas
intenções, a coragem de proceder com retidão e às claras!

3. Aqui verdade do Evangelho estava em jogo, verdade segundo a qual em Cristo


somos irmãos, independente de quaisquer diferença: “Não há distinção entre judeu e
grego, pois Ele é Senhor de todos, rico para todos que O invocam” (Rm 10,12s); “Aí não
há mais grego ou judeu, circunciso ou incircunciso, bárbaro cita, escravo, livre, mas
Cristo é tudo em todos (Cl 3,11)!É impressionante: o que conta é crer em Cristo e Nele
ser inserido pelo Batismo e Nele viver na comunhão pela Eucaristia! Ainda hoje é difícil
compreender e viver isto! Por isso o grito de Paulo Apóstolo!
Pense: Na Igreja, na Diocese, na paróquia, na comunidade ou grupo: ser de Cristo, está
Nele inserido, ser por Ele apaixonado deveria ser o critério fundamental da nossa
comunhão... É assim para você? E as disputas ideológicas nos mais variados campos de
batalha? Parece que Cristo fica por último! – Perdão, Senhor!

4. Releia o v. 14: Fingir é coisa de quem não conhece a Deus, coisa de pagão; não coisa
de um judeu verdadeiro e muito menos de um cristão! As atitudes na Igreja devem ser
caridosas sempre, mas também sinceras e transparentes! Nada justifica encobrir o
Evangelho seja na doutrina seja no procedimento com desculpas esfarrapadas de
prudência e de manter a unidade a qualquer custo!

5. Note: A correção fraterna é um bem e ninguém dela está isento, nem mesmo Cefas
nem seus sucessores! Não se pode deixá-la em nome da prudência, da unidade ou do
respeito pela autoridade! Respeito não é covardia e omissão e obediência não é
bajulação e medo! O Papa, os Bispos, os padres merecem todo o nosso respeito, mas
não são intocáveis, não são irrepreensíveis sempre e podem e devem ser corrigidos
quando necessário, sobretudo no tocante à doutrina verdadeiramente católica e
apostólica! Na Igreja não há lugar para cortes de bajuladores e aduladores!“Entre vós,
não deverá ser assim!” (Mc 10,41ss)

6. Medite rezando 1Cor 9,16-23. Agora reze o Sl 91/92.


QUINTA-FEIRA, 14 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação VII - Quinta-feira da I semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,49-56


Agora leia Gl 2,15-21

1. Atenção à afirmação de São Paulo: “Nós somos judeus de nascimento e não


pecadores da gentilidade” (v. 15). Paulo nunca negou o privilégio, a graça de ser judeu,
membro do antigo Povo de Deus. Os judeus são o povo querido de Deus (cf. Rm
11,28s); o povo que teve a graça de receber a Lei de Deus (cf. Br 4,4); o próprio Jesus
nosso Senhor foi claro ao dizer que “a salvação vem dos judeus” (Jo 4,22). Então,
compreendamos bem: ser judeu é uma graça, um privilégio, um dom! Enquanto os
povos caminhavam nas trevas, na noite da idolatria, Israel caminhava na luz do Senhor
(cf. Is 60,2).
Pense bem: Deus não é politicamente correto nem trata a todos igualmente! Ele ama;
basta! Ama a quem quer e como quer. Amou Israel mais que a todos e fez dele o Seu
filho primogênito, com ele fez uma aliança de amor, desse povo fez Sua posse, sua
herança (cf. Os 11,1; Is 17,6; Jr 7,3; Ez 8,4;Am 7,8; Is 44,21;Os 2,4).

2. Ao lado de todo este amor de Deus pelo Seu povo, São Paulo afirma que “sabendo
que o homem não se justifica pelas obras da Lei, mas pela fé em Jesus Cristo, nós
também cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas
obras de Lei, porque pelas obras da Lei ninguém é justificado”. 
Esta é uma das afirmações centrais na pregação de São Paulo. Compreendamo-la bem!

a) Os judeus do tempo de Jesus e de São Paulo julgavam-se justos, isto é, piedosos,


amigos de Deus, em dia com Deus, cumprindo todos os preceitos da Lei de Moisés.
Essa Lei era não somente composta pelos cinco primeiros livros da Bíblica, o nosso
Pentateuco, como também pela Lei oral, as tradições dos antigos, as interpretações
inumeráveis que os rabinos foram dando da Lei. O próprio Jesus respeitou e venerou a
Lei de Moisés, mas nunca aceitou que este monte de preceitos fosse a essência da
Aliança entre Deus e os Seu Povo. Para Ele, o coração da Lei era o amor; era o amor a
Deus e ao próximo por amor de Deus que dava sentido a toda a Lei. Leia Mt 22,37-40.
Aqui uma pergunta: Qual a essência do cristianismo? Qual a atitude fundamental que o
Senhor espera do seu discípulo e que faz de nós cristãos de verdade? Leia Mc 1,16-20;
8,34-38; Mt 10,37-39; Jo 13,12-15.35; Rm 13,8-10. Agora confronte com a sua vida!

b) São Paulo havia sido fariseu; colocava na prática da Lei de Moisés seus orgulho, sua
segurança e sua esperança. Tendo sido alcançado por Cristo, ele agora percebe,
descobre com o brilho de um raio, que não é a Lei de Moisés que salva, que não são as
suas práticas que tornam o homem justo, agradável a Deus, mas unicamente crer em
Jesus como o Cristo, o Messias de Deus, acolhendo-O na fé, entrando no Seu
seguimento. Agora há uma outra Lei, a Lei de Cristo, fundada no próprio Espírito de
Amor (cf. Gl 6,2).

c) Para São Paulo, tornar-se cristão não era trair a Lei de Moisés, mas cumpri-la, pois a
Lei anunciava o Messias, a Lei preparava o Messias! Para o santo Apóstolo, a Lei era
apenas uma preparação, um pedagogo que deveria guiar Israel até o Messias. Agora
que o Messias chegara, o pedagogo perdera sua utilidade. Veja Gl 3,23-24. 
Isto vale para a Lei com suas práticas e vale para todo o Antigo Testamento! Imagine
que pensa quando vemos as seitas apegadas ao Antigo Testamento, cavando nele
preceitos e normas caducas e gritando, espumando de raiva e prepotência ignorante:
“Está na Palavra, está na Palavra!”
Mais adiante, vamos ver como e porque o Antigo Testamento continua valendo para
os cristãos.

d) Por agora, é importantíssimo compreender isto: o verdadeiro judeu deve passar da


Lei para Cristo para cumprir o que a própria Lei havia anunciado: uma Aliança nova e
eterna no Espírito do Messias e não mais na letra da Lei de Moisés.
3. Nunca esqueça: ninguém pode se considerar justo diante de Deus simplesmente
pela sua força, pela sua prática religiosa. Leia o Sal 142/143,12. Assim, para São Paulo,
é preciso em Cristo superar a mera prática da Lei de Moisés para cumprir e receber o
que a Lei de Moisés anunciara e prometera! Imagine a confusão que isto daria! Releia
com atenção os vv. 15-16.

3. Agora leia os vv. 17-21! Siga o seguinte raciocínio:

a) Os judeus piedosos, sobretudo os fariseus, esforçavam-se para cumprir


integralmente a Lei escrita e a Lei oral, a tradição dos antigos. Pensando em cumprir
tudo, eles se julgavam justos diante de Deus, merecedores da salvação. A salvação
nem parecia um dom, mas o pagamento obrigatório pelo merecimento da justiça, da
religiosidade dos piedosos. Ora, a questão não é somente cumprir preceitos, mas o
amor com que se os cumpre, o amor a Deus, sem medida, sem cálculo! Esse amor
aparece em Cristo, que se entregou por nós, para nos salvar, já que ninguém cumpre
totalmente os preceitos da Lei! Leia Mt 23. Aí está um bom exemplo do apego exterior
à tradição dos antigos, procurando nelas a justificação, isto é, garantir como direito a
salvação!

b) Um judeu poderia pensar: “Então esse Cristo é ministro do pecado! Esse Cristo
encobre e justifica, acoberta o pecado, o desleixo!” São Paulo responde: Não! Vendo o
amor de Cristo, Nele crendo, Nele sendo batizado, Nele vivendo uma vida nova, vida
no amor a Deus e aos irmãos, somos uma nova criatura! Lembre: “Se alguém está em
Cristo é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas, eis que se fez realidade nova”
(2Cor 5,17). Na verdade, a fé em Cristo, a adesão a Cristo não encobre o pecado: ela
revela o pecado, pois mostra o quanto não amamos o suficiente e o quanto o nosso
pecado é tão profundo a ponto de necessitar da entrega do Salvador. Mais ainda: a fé
em Cristo destrói o pecado no Espírito de Amor de Cristo! Não somos mais escravos do
pecado, mas “escravos” do amor de Cristo e, portanto, livres para amar! Então, passa-
se de uma Lei de preceitos para a Lei do Amor – e este Amor é o Espírito de Cristo em
nós! Veja um belo exemplo de tudo isto em Jo 8,1-11. O perdão exige não mais pecar!

4. O cristão, judeu ou gentio, agora é morto, isto é, livre para a dinâmica da Lei de
Moisés – no caso do judeu – e da Lei do pecado – no caso do gentio -, morto para os
preceitos da Lei, vivo agora para Cristo: a união total com Ele por amor (cf. 1Cor 6,17),
união à Sua Morte e Ressurreição de amor é o cumprimento da Lei:, pois no plano de
Deus, era isto que a Lei deveria preparar: para Cristo, para a união com Ele, tanto dos
judeus quanto dos gentios (cf. Ef 1,3-14)! Nele tudo se realiza e se cumpre em
plenitude; a Lei não é eliminada, mas realizada cumprida superada, realizando no
objetivo final de Deus!

5. Dante disto, fica para São Paulo uma questão: quem salva: os preceitos da Lei de
Moisés ou o Preceito do Amor de Cristo? O judeu deve parar na Lei de Moisés ou ser
fiel ao que a Lei prometera e profetizara e preparara e crer, agora em Jesus como
Messias, abraçando a Lei do Espírito Santo que dá Vida divina? Esta é a questão! Se o
judeu for salvo pela Lei, não é necessário Cristo! Bastariam as obras da Lei! Se a Lei
está em pleno vigor, não seria necessário pregar Cristo aos pagãos; basta fazê-los se
tornar judeus, circuncidando-os e fazendo-os cumprir os preceitos legais dos judeus...
E aí, Cristo e o cristianismo seriam totalmente dispensáveis. Agora releia os vv. 15-21.

6. Lembre: Nós, cristãos, podemos cair na mesma armadilha dos judeus quando
colocamos preceitos, normas, observâncias, tradições no lugar da adesão apaixonada e
amorosa por Cristo! É Cristo doador do Espírito de Amor que nos salva. Tudo quanto
leva a Cristo é bom; tudo quanto toma o lugar de Cristo deve ser descartado! Pense
nisto!
Imagine a aberração de litigar e agredir por causa de Cristo! Por causa de Cristo negar
Cristo!

6. Reze o Sl 65/66
SEXTA-FEIRA, 15 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação VIII - Sexta-feira da I semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,57-64


Agora leia mais uma vez, com atenção, como se fosse a primeira vez, Gl 2,15-21

1. Vamos responder a algumas questões para que fiquem bem claras as ideias de São
Paulo. Atenção, que não se trata aqui de um simples estudo, mas de uma leitura
orante, de uma contemplação da obra salvífica de Deus em favor de mim, de você e de
toda a humanidade! A finalidade deste retiro é fazer-nos rezar, é nos levar a
contemplar a maravilhosa obra do amor salvador de Deus! Então:

2. Qual a vantagem de ser judeu?


Os judeus têm todas as vantagens diante de Deus: são membros do Povo amado, do
Povo escolhido em Abraão, Povo que recebeu a Lei no Sinai e com o qual o Senhor
Deus selou a Aliança. Basta ler estes textos: Is 44,1-5; Is 41,8-2-; Br 3,36 – 4,4; Rm 9,1-
5.
Enquanto Israel conhecia o Deus verdadeiro, os pagãos, caminhavam nas trevas da
idolatria. Leia Dt 4,32-40; 7,6-11; 1Cr 1626s; Sl 113B/115.

2. A que Lei o judeu estava submetido?


Desde a Aliança no Sinai, o Povo de Israel estava submetido à Lei de Moisés, à Torá,
com seus preceitos e suas normas. Da obediência a esta santíssima Lei de Deus e suas
obras dependeria a vida e a morte de Israel. Leia Dt 5,32 – 6,9; Ex 24,1-18; Dt 30,15-20.
Nunca esqueça: a Lei que o Senhor Deus dera ao Seu Povo é santa e é boa! Israel nela
encontrou sempre o caminho, a força, a inspiração para viver com o seu Deus. Mas,
esta Lei é toda baseada, estruturada em preceitos; preceitos e normas que o Povo de
Deus violou muitas vezes. Para completar, os rabinos acrescentaram ainda mais
preceitos e fardos à Lei originária dada por Moisés. Se fosse olhar a prática de Lei,
Israel estaria sujeito à condenação e não à vida!

3. A que Lei o gentio, isto é, o não-judeu, estava submetido?


Também os pagãos, os não-judeus tinham uma lei. Não uma lei escrita e dada
explicitamente por Deus, como Israel! Era uma lei de outra natureza: a lei que Deus
inscrevera no íntimo da consciência, no coração de todo homem que vem a este
mundo. Esta lei dá ao homem de boa vontade uma noção de que existe um Deus bom,
que criou tudo com bondade e sabedoria; essa lei nos impele a fazer o bem e evitar o
mal, nos convida a sermos bons, retos, solidários. Por exemplo: fazer o bem e evitar o
mal; não fazer aos outros o que não quer que nos seja feito, proteger os fracos, buscar
a justiça e a verdade, são preceitos colocados por Deus no íntimo de todo ser humano
que vem a este mundo... Leia Sb 13,1-9; Eclo 17,1-14.

4. Por que judeus e gentios não se salvam, não são justificados diante do Senhor Deus
simplesmente pelas leis a que estão submetidos?
Os judeus falharam no cumprimento da Lei do Senhor: conhecendo o Senhor Deus,
tantas vezes caíram na infidelidade, na injustiça, na imoralidade, na ganância, num
culto somente exterior, na desconfiança e até mesmo na idolatria.
Os gentios, mesmo sem ter uma lei como a de Moisés, tinham a lei da consciência,
inscrita no seu coração. Falharam do mesmo modo: idolatria, injustiça, violência,
imoralidade, etc. O homem, por si só, é um fracasso.
Leia com atenção a situação da humanidade, judeus e gentios, tal como descrita por
São Paulo: a infidelidade e deficiência grave dos gentios, a promiscuidade, as
aberrações, como ainda hoje constatamos, com gritante atualidade! Veja Rm 1,18-32!
Quanto aos judeus, a situação não é melhor! Sendo o Povo escolhido e santo, tendo a
luz e orientação da Lei de Deus, esse Povo foi infiel. É mesmo impressionante o
número de ateus no atual Povo de Israel e a secularização em que vive a maioria dos
judeus! Leia Rm 2,17-29.
E a conclusão do Apóstolo é tremenda. Leia Rm 2,1-16.
Resumo triste: “Todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus!” (Rm
3,23). Em outras palavras: o ser humano somente com suas forças, sua boa intenção e
sua bondade, não alcança a salvação, não é justo diante de Deus! O estrago na
humanidade é tremendo! O ser humano foi criado bom, mas não é bonzinho e nem
merece a salvação. Ponto e basta! Esta é a revelação e a sentença de Deus; e qualquer
outra é falsidade, engano e vã esperança! Cuidado com os cristãos que querem
justificar o pecado e vivem proclamando que o homem é bonzinho! É mentira!
Somente em Cristo somos justificados, Nele crendo e a Ele nos convertendo!
Olhe para você mesmo. Leia Rm 7,14-25. Reze. Reze o Sl 50/51.

5. Quem liberta judeus e gentios do jugo da Lei? Como faz isto?

a) O homem não pode se libertar sozinho do atoleiro do seu pecado. O pecado é uma
realidade profunda, que não eliminou a imagem de Deus no homem, mas o danificou
seriamente.
Leia Gn 6,5-6: de modo poético e trágico o Autor sagrado mostra o desmantelo do
homem e o desgosto de Deus! Nunca esqueça: o pecado não é uma brincadeira. O
mundo de hoje – e até muitos cristãos – não levam a sério esta realidade tremenda
chamada pecado! O pecado mata o corpo e a alma no inferno, o pecado nos traz a
Morte eterna, fazendo-nos perder para sempre a Vida de Deus!

b) Ora, o homem sozinho não pode se libertar desta situação: “Deus amou tanto o
mundo que entregou o Seu Filho para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas
tenha a Vida eterna”, a Vida divina (Jo 3,16). Ao invés das obras da Lei de Moisés, que
preparavam para o Cristo, há agora uma obra só: “A obra de Deus é que creiais
Naquele que Ele enviou!” (Jo 6,29).
Esta será a luta de São Paulo: explicar aos judeus e aos cristãos vindos do judaísmo que
a Lei de Moisés cumprira a sua missão de levar o Povo de Israel a Cristo e que agora é
o acolhimento de Jesus como o Cristo do Pai que traz o perdão dos pecados e a
salvação! E isto vale para os judeus e os gentios! Com Sua Morte e Ressurreição em
amor obediente ao Pai, em nosso nome, o Senhor Jesus eliminou nossa situação de
pecado e nos reconciliou com Deus, o Pai, no Espírito!
Leia com atenção Rm 1,21-31. Reze! Louve e agradeça ao Pai por nos ter dado Jesus, o
Seu Filho! Louve, adore e agradeça ao Senhor Jesus Cristo que por nós e pelo mundo
inteiro Se entregou!

6. Voltemos ao texto de Gálatas. O que São Paulo quer dizer com esta afirmação: “Pela
Lei eu morri para a Lei, a fim de viver para Deus” (v. 19)? Paulo afirma que morreu para
a Lei por dois motivos:

a) Ele morreu para a Lei de Moisés porque a própria Lei de Moisés, Leia da Antiga
Aliança, anunciava uma Nova Aliança e uma Nova Lei, no Espírito de Deus, Espírito do
Messias. Vale a pena ler estes textos, como exemplos: Jr 31,31-34; 3,14-17; Ez 36,25-
38; 37,11-14.21-28; Is 59,21; 55,1-5. Assim, seguindo o que a própria Lei anunciava,
pela Lei, Paulo superou a Lei, morreu para a Lei de Moisés! Em outras palavras: para
cumprir a Lei, que previa a superação da Lei, eu morri para a Lei; em obediência à Lei,
eu superei a Lei!

b) Mas, há mais ainda; muito mais! Crendo em Jesus como Senhor e Messias, o cristão
é Nele batizado, recebendo o Seu Espírito. Assim, é mergulhado em Cristo: ele morre e
ressuscita com Cristo, ele vive realmente com Cristo, pois o Espírito do Cristo morto e
ressuscitado habita realmente nele, fazendo dele uma nova criatura!
Paulo morreu para a letra da Lei, Paulo morreu para os preceitos da Lei; Paulo morreu
para a observância da Lei! A vida de Paulo agora não é mais a vida psicofísica que ele
tinha. Ele agora, no seu corpo e na sua alma, vive da misteriosa e potente Vida divina
de Cristo morto e ressuscitado, vive do próprio Espírito de Cristo. Por isso, pelo
Batismo e a Eucaristia, ele pode dizer: “Fui crucificado com Cristo. Já não sou eu que.
Vivo, mas é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, vivo-a pela fé no
Filho de Deus, que Me amou e Se entregou a Si mesmo por mim”.
Atenção: aqui não se trata de uma experiência psicológica, emocional! Nada disto!
Crendo em Jesus como Senhor e Messias, o cristão é inserido Nele pelo Batismo e
cresce nesta inserção em cada Eucaristia, “batizados num só Espírito para formarmos
um só Corpo” (2Cor 12,13), de modo que, pelo Espírito de Cristo, o cristão vive já
realmente em Cristo Jesus, vida que começa realmente agora e será plena na Glória
celeste, plenitude do Reino de Deus!
Que diferença entre viver dos preceitos da Lei, preceitos exteriores, e viver imerso,
incorporado, mergulhado em Cristo Jesus, em Alguém, no próprio Filho eterno feito
homem, pleno do Espírito de Vida e Ressurreição! Era isto que os gálatas e nós
deveríamos compreender!
Por isso, o desabafo, o desafio final, triunfante e indignado de São Paulo: “Não invalido
a graça de Deus; porque se é pela Lei que vem a justiça, a salvação, então Cristo
morreu em vão!”

7. Pensando no Cristo que Se entregou por nós, reze Is 53


SÁBADO, 16 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação IX - Sábado da I semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,65-72


Agora leia Gl 3,1-5

1. Impressiona o modo como Paulo reprova os gálatas: “Insensatos!” Por que


insensatos? Porque se deixaram fascinar, seduzir por pessoas que, chegando com
novidades doutrinais, com doutrinas estranhas, facilmente afastaram os cristãos da
Galácia da verdade do Evangelho. Ainda hoje vemos isto de modo tão repetido:
qualquer um que passe pelas portas alheias, ensinando doutrinas exóticas, falsas,
novidadeiras, fundamentalistas ou prometendo milagres, benefícios materiais e curas
em programas pagos de televisão, arrasta um sem número de insensatos!
Sim, merecem bem este adjetivo “insensatos” porque são daqueles que “não
suportarão a sã doutrina; pelo contrário, segundo seus próprios desejos, como que
sentindo comichão nos ouvidos, se rodearão de mestres. Desviarão os ouvidos da
verdade, orientando-os para as fábulas” (2Tm 4,3-4).
E você, procura realmente aprofundar seu conhecimento da fé católica e apostólica?
Sabe fundamentar com firmeza a fé católica nas Escrituras Santas, nos Santos Padres
da Igreja antiga e no Catecismo da Igreja? Sabe se manter firme na doutrina perene da
Igreja ou corre atrás de teólogos e mestres novidadeiros, que se afastam e afastam
outros da perene e exigente verdade de Cristo com a desculpa de diálogo com o
mundo, compreensão e caridade e outras armadilhas vazias? Cuidado: “Vede
cuidadosamente como andais: não como tolos, mas como sábios, tirando bom proveito
do período presente, porque os dias são maus. Por isso, não sejais insensatos, mas
procurai conhecer a vontade do Senhor!” (Ef 5,15-17).

2. São Paulo, com zelo, delineou aos gálatas os traços de Jesus Cristo crucificado: Sua
Morte e Ressurreição pelos judeus e pelos gentios, incluindo os gálatas, é o centro da
fé e da esperança dos cristãos: Ele, livre e amorosamente, se entregou pela
humanidade, se entregou por nós até a morte e morte de Cruz (cf. Fl 2,8).
Leia com calma e piedade estes textos: 1Cor 15,1-8; 2Cor 5,14-21; Ef 2,11-22
Jesus nosso Senhor, com Sua Paixão, Morte e Ressurreição salvou a humanidade
inteira! Ele é o sim de Deus ao homem (cf. 2Cor 1,19-20; Ap 3,14) e, feito homem,
tornou-Se o sim do homem a Deus; verdadeiro (cf. 2Cor 1,20), suficiente e único
instrumento da nossa salvação!
Leia ainda: 2Tm 2,8-13. Como puderam os gálatas esquecer toda esta grandeza de
amor, de misericórdia, de doação gratuita e salvífica do Senhor para, deixando de lado
a obra salvadora de Cristo irem se apegar à Lei de Moisés? Por isso a indignação de
Paulo; a mesma que ele sentiria vendo cristãos de Bíblia debaixo do braço, apegados
de modo fundamentalístico ao Antigo Testamento, deturpar a verdade de Cristo, cujos
traços foram-nos delineados pela Igreja nestes dois mil anos de história e
evangelização!

3. Para chamar os gálatas à razão, o Apóstolo recorda a experiência do Espírito que


eles fizeram logo quando abraçaram o Evangelho, resultado da pregação de Paulo.
Fruto imediato da fé em Cristo Jesus é o dom do Espírito, que pode ocorrer de dois
modos: o primeiro é a recepção do próprio Espírito de Cristo que passa a habitar no
discípulo como Vida do próprio Senhor Jesus Cristo, unindo o cristão ao seu Senhor.
Isto se dá ordinariamente com todos os cristãos, sem exceção, nos sacramentos, na
água do Batismo e no Sangue da Eucaristia (cf. Jo 3,6s; 6,56-68.63; 19,19,33ss; 1Jo 5,5-
13; 1Cor 12,13; 2Cor 1,21s), de modo que o cristão fica enxertado em Cristo como a os
ramos à Videira e os membros ao Corpo, numa união vital, dinâmica, real,
transformadora com o Senhor (cf. Jo 15,1-8; 1Cor 12,12-13). Mas, pode acontecer
também de modo livre, extraordinário, inesperado e carismático em várias
experiências visíveis e extáticas provocadas pela presença do Espírito (cf. 1Cor 12-13)
com o objetivo de convencer interiormente os discípulos de que Jesus Cristo é o
Senhor e proclamá-Lo diante do mundo no Seu senhorio de Ressuscitado e glorificado
pelo Pai no Espírito.
Uma pergunta: Você e sua comunidade são abertos à surpreendente ação do Espírito,
que suscita continuamente na Igreja dons e carismas, ministérios e talentos para a
edificação do Corpo de Cristo que é a Igreja e a glorificação do Senhor? Pense bem: é
um pecado grave querer uma Igreja do nosso tamanho, da qual sejamos os donos! Há
tantos que caem neste erro, sobretudo pastores da Igreja...

4. Paulo acusa os gálatas de tendo começado com a experiência do Espírito


terminarem apegados à carne, isto é, aos preceitos legais do Antigo Testamento... Há
muitos que fazem isto: apegam-se ao Antigo Testamento ou de modo
fundamentalístico, para ficar falando em imagens, dietas de alimentos impuros,
proibição de transfusão de sangue e outras insensatezes... Mas, há também aqueles
que ficam presos a uma leitura sócio-política do Antigo Testamento para defender no
cristianismo luta política e social e movimentos revolucionários. No fundo, sonham
com uma teocracia, só que sem Deus, meramente humana e ideologizada! Tudo isto é
volta à carne, é deturpação da Palavra de Deus! No primeiro caso, por ignorância e
ingenuidade; no segundo caso por esperteza e desonestidade intelectual e teológica.
Mas, há ainda um terceiro modo de começar no Espírito e terminar na carne: é
começar a vida cristã inebriados na alegria e na generosidade pelo fervor do Espírito,
procurando uma vida santa, de amor ao Senhor e perseverança na oração, nas
virtudes, nas boas obras, no amor fraterno, na prática dos sacramentos e, aos poucos,
ir se tornando um cristão morno, simplesmente de cumprir o mínimo de suas
obrigações, sem entusiasmo nem amor, muitas vezes até sem romper com os pecados
e vícios...
Façamos um exame de consciência: vivemos realmente na alegria e doçura e
simplicidade do Espírito do Cristo que foi delineado diante de nós com Seus traços de
amor imolado e ressuscitado?

5. Nunca esqueçamos que poderemos tornar vã a obra de Deus, inutilizando-a com


nosso pecado e infidelidade (cf. v. 4; Ef 4,30). Há pessoas que fazem tão bela e
profunda experiência do Espírito, experimentam a presença e ação do Senhor de modo
tão intenso em suas vidas e, depois, por falta de generosidade, por preguiça, por
condescendência para com os antigos vícios e pecados, terminam por perder tudo isto
(cf. Mt 13,18-23). A Escritura tem palavras duras para estes, comparando-os a cães que
voltam ao vômito (cf. 2Pd 2,20-22). Não esqueçamos: nenhum de nós tem a salvação e
a perseverança assegurada! O Reino de Deus sofre violência em nós (cf. Mt 11,12); é
necessário vigiar e lutar pela oração (cf. Mt 26,41), pois somente será salvo quem
perseverar até o fim (cf. Mt 24,13)!

6. Finalmente, o Apóstolo desafia os gálatas com uma questão: o Espírito é dado pela
Lei de Moisés ou pela fé em Cristo Jesus, como já expliquei logo acima? A Lei previu o
tempo da efusão do Espírito (cf. Jr 31,31ss; Ez 37; Jl 3), mas ela mesma não dá o
Espírito! Somente o Ungido com o Espírito, o Cristo, pode dar o Espírito em
abundância, pois “Aquele que Deus enviou... dá o Espírito sem medida” (Jo 3,34).

7. Medite e reze Jl 3. Reze também o Sl 103/104


SEGUNDA-FEIRA, 18 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação X - Segunda-feira da II semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,73-80


Releia a exortação queixosa de São Paulo em Gl 3,1
Releia novamente!

1. O santo Apóstolo repreende duramente os gálatas: “Ó gálatas insensatos, quem vos


fascinou, a vós, ante cujos olhos foram delineados os traços de Jesus Cristo
Crucificado?” É preciso voltar sempre a escutar esta dura e indignada censura de São
Paulo, hoje mais que nunca! Infelizmente, é tentação contínua nossa e é demoníaca
insensatez tirar do centro da nossa fé os escandalosos traços do Cristo crucificado! Não
é por acaso que junto ao Altar de cada Eucaristia, ao centro, não ao lado, deve estar
fincado o crucifixo com o Crucificado nele pendurado. O próprio Apóstolo recordava
aos coríntios tentados ao mundanismo, a concessões ao espírito do mundo, tentados a
uma doutrina e a uma salvação de bem com o pensamento mundano e com as modas
de momento: “Não quis saber de outra coisa entre vós a não ser de Jesus Cristo, e
Jesus Cristo crucificado” (1Cor 2,2).
Cristo! Cristo! Cristo! O único Nome no qual a humanidade encontra o caminho, a
verdade e a Vida (cf. Jo 14,6)!
Cristo, o único Nome no qual está a Luz que dissipa a humana treva (cf. Jo 8,12)!
Cristo, o único Nome no qual podemos ser salvos (cf. At 4,12)!
Cristo, o Salvador do mundo inteiro (cf. Jo 12,32; 1Jo 2,2; Ap 5,9)! O Alfa e o Ômega, o
Princípio e o Fim de tudo quanto existe (cf. Ap 3,14; 22,13)!
E Cristo Jesus não é outro que Aquele que foi rejeitado pelo mundo, pois “veio para o
que era Seu e os Seus não O receberam” (Jo 1,11); Aquele que o mundo não aceita que
reine sobre ele (cf. Jo 19,15; Sl 2,1-3), pois esse mundo já tem o seu príncipe e seu
deus (cf. Jo 16,11; 8,44; 1Jo 3,8-10; 2Cor 4,4). Não deixe de ler estas últimas citações;
elas mostram quem é o deus, quem é o príncipe deste mundo mundano!

2. Mas, podemos perguntar: Por que esta centralidade de Cristo crucificado?


Por que o Seus traços benditos têm que ser continuamente delineados ante nós,
recordados perenemente ao nosso coração, gravados no nosso afeto?
Por que todos nós devemos gloriar-nos na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Gl
6,14)?
Eis, de modo simples e direto a resposta: porque Nele, Homem de dores, esmagado
pelo sofrimento (cf. Is 53,3), o pecado é revelado, é desmascarado e aparece com toda
a sua maldita força e toda a sua horrenda feiura; e, ao mesmo tempo, e de modo ainda
mais forte, neste Homem de dores, consumado pelo sofrimento, o amor e a graça de
Deus nosso Senhor se manifestam com toda a sua potência!
a) Primeiro se manifesta o pecado. Aquele Crucificado, Homem de dores, deformado, é
ícone claro do que o pecado faz: é capaz de matar Deus no coração do homem, de
querer eliminar Deus no coração do mundo e, eliminando Deus, destrói, deforma o
homem, desumanizando-o. Aquele Homem de dores é isto tudo: mostra o perigo, a
força, a feiura do pecado, a sua ameaça letal para o homem! Por isso, a Cruz do Senhor
é dolorosa, é “feia”, fá-Lo “apavorar-Se e angustiar-Se” (Mc 14,33). O pecado é
destrutivo, provoca dor, dilaceração, morte! O pecado é capaz de matar Deus!
Certamente, não O mata em Si mesmo, pois Ele é a Vida, o Vivente e Vivificante, a
perene Fonte da Vida! Mas, mata Deus em nós, no nosso coração, na nossa sociedade,
no nosso mundo, nas nossas instituições... E, assim, nos mata, faz de nós mortos-vivos,
ossos ressequidos, vida inumana. Leia e medite atentamente em Ez 37,11-14 e Br 3,1-
8!

b) Mas, nos traços de Jesus Cristo crucificado delineia-se sobretudo o amor


misericordioso e invencível do Senhor Deus: “Deus amou tanto o mundo que entregou
o Seu Filho para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a Vida eterna.
Pois Deus não enviou o Seu Filho para julgar o mundo, mas para que o mundo seja
salvo por Ele” (Jo 3, 16s). A Cruz do Senhor, Sua ignominiosa Paixão, Sua Morte e
Sepultura revelam até onde Deus está disposto a ir para nos salvar, para procurar o
homem que se perdera e se perde como o filho mais novo da parábola, como a ovelha
perdida (cf. Lc 15).

c) Por tudo isto, os traços feridos de Cristo crucificado nos impedem de tomar o
pecado com leviandade, nos proíbem de pensar num perdãozinho a preço baixo, numa
misericordiazinha festiva e pueril: “Não foi com coisas perecíveis , isto é, com prata ou
com ouro, que fostes resgatados da vida fútil que herdastes de vossos pais, mas pelo
sangue precioso, como de Cordeiro sem defeito e sem mácula, Cristo” (1Pd
1,19). Cravar os olhos nos traços do Cristo crucificado nos impede de falar de uma
falsa misericórdia sem conversão, de uma falsa esperança de perdão sem
arrependimento, de um falso amor sem a entrega da vida nas mãos Daquele que Se
entregou por nós.
Leia Hb 5,7-10 e Rm 12,1-2.

3. No entanto, nunca nos esqueçamos, não sejamos ingênuos: a Cruz de Cristo será
sempre escândalo – também para muitos cristãos, que se portam “como inimigos da
Cruz de Cristo” (cf. Fl 3,18s)! O mistério da Cruz, de um caminho de salvação que passe
pelo concreto da vida, que exija conversão concreta, trabalhosa, que exija sair de si
mesmo, deixar seus vícios e suas próprias medidas, jamais poderá ser compreendido
pelo mundo e pelos cristãos mundanos! Estes querem dobrar o Evangelho à sua
medida mundana, querem reduzir Cristo ao mundo: um Cristo para cada época, um
Cristo para cada gosto, um Cristo para cada freguês, simpático, palatável, aceitável ao
mundo, indolor e inofensivo!
A verdade é que nem o homem carnal nem o homem psíquico podem guardar no
coração “os traços de Jesus crucificado”. Estes desejam um Cristo sem Cruz, um Cristo
deformado, mundano, falseado, inexistente. Leia Mt 16,24ss.

a) Aqui, é preciso ter sempre presente que o homem carnal, isto é, o homem
mundano, fechado para Deus, não poderá nunca compreender a linguagem da Cruz.

b) Mas, atenção: também o homem psíquico, isto é, o homem bom de uma


bondadezinha natural, o homem somente no nível da sua racionalidade, o homem do
politicamente correto e do sorrisinho simpático para o mundo, esse também é incapaz
de acolher a loucura da Cruz! 

c) Somente o homem “espirituado”, isto é, o homem impregnado do Espírito do Cristo


imolado e ressuscitado, pode acolher a linguagem da Cruz e sua loucura! E isto exige
contínuo esforço de conversão! Conversão, é a primeira exigência do Evangelho,
conversão é a atitude fundamental de quem deseja seguir o Cristo de Deus (cf. Mc
1,14s)!

4. Leia com toda atenção 1Cor 2,11-16; 15,45-49.


O homem somente no nível da natureza, da razão deste mundo, da filosofia, não é
nem será nunca capaz de chegar às alturas do Cristo Jesus e da loucura da Sua Cruz.
Leigos, religiosos, ministros ordenados, todos precisamos de contínua conversão à
lógica da Cruz do Senhor! O resto é disfarce e falseamento do Evangelho de Cristo, é
insensatez, como a dos gálatas!

5. É preciso repetir sempre, insistir: somente o homem espiritual, o homem


“espirituado”, isto é, impregnado pelo Espírito de Cristo e por Ele guiado e iluminado,
pode compreender o mistério da Cruz, pode guardar no coração “os traços de Jesus
Cristo crucificado” (Gl 3,1), pode realmente considerar “atentamente Jesus, o Apóstolo
e Sumo Sacerdote da nossa profissão de fé” (Hb 3,1), “que nos dias de Sua vida
terrestre, apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e lágrimas, Àquele que
O podia salvar da morte... E, embora fosse o Filho, aprendeu, contudo, a obediência
pelo sofrimento” (Hb 5,7s)!

6. Leia atentamente Rm 8,12-15.


Somente o homem aberto constantemente à conversão, somente o homem que se
deixa iluminar e conduzir pelo Espírito do Cristo imolado e ressuscitado, pode
compreender e saborear a lógica da Cruz do Senhor.
Leia Ef 4,17-24 e se deixe realmente interpelar por estas palavras da boca de Deus!

7. Concluindo: atenção para o contínuo perigo do “fascínio” sedutor do mundo e suas


ideologias, suas modas, seus raciocínios, suas justificativas, que deixam de lado “os
traços de Jesus Cristo crucificado”...
Cuidado você, Irmão, para não estar infectado!
O antídoto é e sempre foi o mesmo: as Escrituras Sagradas como foram sempre, nestes
dois mil anos, lidas, ouvidas, interpretadas, vividas e ensinadas pela Igreja inteira,
Corpo de Cristo e Templo do Espírito! Este ensinamento está contido nos textos do
Magistério perene da Igreja, sobretudo dos concílios no decorrer dos séculos. Ninguém
é dono da fé do Povo de Deus, ninguém pode adulterar o Evangelho, isto é, a doutrina
e a moral católicas que brotam dos “traços de Jesus Cristo crucificado”! E, como diz o
Apóstolo, quem pregar diferente “seja anátema” (Gl 1,8s)!

8. Conclua esta meditação rezando pela Igreja o comovente texto de Is 63,7 – 64,11.
Recorde sempre: no Senhor está a nossa esperança!
TERÇA-FEIRA, 19 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XI - terça-feira da II semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,81-88


Leia, agora, Gl 3,5-6

1. Em 3,2 São Paulo refere-se ao dom do Espírito que os gálatas receberam. Não se
trata de um dom qualquer, uma experiência qualquer, mas é a grande característica do
ser cristão: viver no Espírito do Cristo imolado e ressuscitado. Esta é a grande distinção
do cristão: ele vive no Espírito de Cristo (cf. Rm 8,1s.9.14). Aquele que creu em Cristo e
por Ele foi resgatado,

=> apesar de ter uma vida biológica, não vive simplesmente neste nível físico, somático
e muito menos vive na carne (carne, aqui no sentido de pecado, de fechamento em si
mesmo, sem relação com Deus, dizendo “a vida é minha, eu faço como eu quero”);
=> apesar de ter uma vida psíquica, racional, consciente, inteligente, não vive
simplesmente no nível da razão e seu critério último não é mais a razão humana;

=> o cristão vive do Espírito e no Espírito: seu critério, sua vida é o Espírito do Cristo!
Este Santo Espírito divino não somente é o princípio da Vida nova do cristão como
também é Ele mesmo, a Lei na Nova Aliança, Lei dada, derramada no Pentecostes (cf.
Rm 8,1s). Explicando melhor: Pentecostes, para os judeus era a festa das primícias da
colheita e também a festa do dom da Lei a Moisés no Sinai. Pois bem, foi exatamente
nesta festa que o Espírito foi dado, foi derramado sobre a Igreja, pois Ele é as
verdadeiras primícias da Vida nova em Cristo, Ele a verdadeira e definitiva Lei da Nova
Aliança. Mas, agora trata-se não de uma lei de preceitos, como a Lei de Moisés, escrita
em tábuas, mas de uma Lei interior, que convence amorosamente, interiormente, a
partir de dentro, do mais íntimo de nós, onde Deus habita (cf. 1Cor 2,10ss)! Desde o
Batismo, o Espírito de amor habita o íntimo de cada cristão e o une a Cristo e lhe
concede a Vida de Cristo, os sentimentos de Cristo, as atitudes de Cristo, a participação
na Cruz e na Ressurreição de Cristo: “O amor de Deus foi derramado nos nossos
corações pelo Espírito anto que nos foi dado” (Rm 5,5).
Leia, novamente, com toda atenção 1Cor 2,1-16! Medite, rumine, interiorize, reze!

2. Como foi dito, esta Lei bendita, própria da Nova Aliança, é uma lei interior. Não mais
se trata de preceitos, mas sim de uma relação viva e amorosa com Cristo, uma Lei de
amor forte, a ponto de São Paulo exclamar: “O Amor de Cristo os impele!” (2Cor 5,14)
Os profetas já haviam anunciado uma Nova Aliança escrita não em tábuas de pedra,
feita não de preceitos exteriores, mas uma Aliança feita de amor, de intimidade com o
Senhor, uma Aliança inscrita no íntimo, no coração do homem, de tal modo que aquele
que entrasse nessa Aliança bendita teria uma conaturalidade com o Senhor,
conheceria e reconheceria o Senhor. 
Leia com atenção Jr 31,34; Hb 8,6-13 e 1Jo 2,27. São textos importantíssimos para a
nossa compreensão do mistério da vida em Cristo! A Unção do Santo é o Espírito de
Cristo, Óleo bendito, Crisma de salvação, que, nos ungindo, habita em nós, dá-nos a
Vida nova, esta conaturalidade com o Senhor Jesus Cristo morto e ressuscitado, a
ponto de São Pedro afirmar que nós realmente participamos da natureza divina (cf 2Pd
1,4), pois, tendo ouvido o Evangelho do Cristo morto e ressuscitado e nele crido,
fomos pelo Batismo, sacramento da fé, gerados de novo, nascidos de novo, agora no
Espírito de Cristo (cf. 1Pd 1,23).
Estas são ideias centrais na nossa fé cristã, são o miolo da nossa vida em Cristo e, no
entanto, quase não temos consciência desta realidade impressionante! É nestas coisas
que São Paulo está pensando, são estas realidades que o Apóstolo está defendendo
com unhas e dentes quando se dirige aos gálatas, agora fascinados pela Lei de Moisés!
O judeu vive na Torá, vive toda a sua vida na Lei de Moisés, feita de preceitos e
interpretada e esmiunçada por normas e prescrições desenvolvidas geração após
geração pelos rabinos de Israel; Lei feita de preceitos (cf. Mc 7,1-13). Certamente a Lei
em si é santa e não é má, mas é totalmente insuficiente: ela é uma regra exterior, ela
consiste em normas; ela não é interior, não dá por si mesma o Espírito de Deus, não é
um princípio de transformação interior. A Lei de Moisés é somente um pedagogo, uma
preparação para o Cristo, o Ungido, Aquele que é pleno do Espírito e que, com Sua
Morte e Ressurreição, unge com o Espírito do Pai (cf. At 2,32s; Gl 3,24)! Nunca
esqueça: sem o inestimável Dom do Espírito, sem o Espírito que é o Dom do Senhor,
não é possível uma Nova Aliança, não existe Vida em Cristo! Sem o Espírito, a Lei de
Cristo seria tão exterior quanto a Lei de Moisés. Somente o Cristo, exultando no
Espírito (cf. Mt 11,25) pode dizer: “Vinde a Mim; tomai o Meu jugo; Meu jugo é
suave!” (Mt 11,28-30). Trata-se, aqui do jugo da Lei de Cristo, na suavidade do
Espírito! Leia o texto todo: Mt 11,25-30! Vale a pena!

3. É necessário ainda recordar sempre o que já expliquei numa anterior meditação:


recebe-se o Espírito crendo em Jesus como o Enviado, o Cristo, o Messias, o Ungido de
Deus e Nele sendo batizado, isto é, mergulhado num só Espírito para formar um só
Corpo na Igreja pelo sacramento da Eucaristia (cf. 1Cor 12,13). É, pois, pela fé que se
entra na amizade com Deus, que se é justificado, isto é, tornado justo, amigo de Deus,
participante da própria Vida divina (cf. 2Pd 1,4)!

4. Vamos adiante na nossa meditação! Em Gl 3,6, o Apóstolo coloca diante dos seus
leitores o exemplo de Abraão, pai do Povo de Israel! Vejamos o que ele quer dizer:

a) Tomando Gn 15,6, Paulo explica que Abraão foi tornado justo, amigo de Deus,
agradável a Deus, pela fé no Senhor. Em outras palavras: Abraão foi justificado pela fé!

b) Mais ainda: Abraão não poderia de modo algum ser justo diante de Deus pelas
obras de Lei porque nem sequer existia ainda o dom da Lei, que somente seria
revelada a Israel através de Moisés séculos depois! Sem a Lei, Abraão não poderia ser
justo em virtude dos preceitos da Lei!

c) Então, os verdadeiros filhos de Abraão, os verdadeiros amigos de Deus como Abraão


são os que creem em Deus como Abraão creu (sem a Lei de Moisés!) e não os que
cumprem os preceitos de uma Lei que foi dada muito tempo depois de Abraão! Os que
creem no Deus que enviou Jesus como Salvador, estes é que são tidos em conta de
justos pelo Senhor Deus, pois estes creem como Abraão! Assim, a justiça do cristão, o
seu ser justo diante de Deus não vem pela prática das obras da Lei de Moisés, mas pela
fé no Deus que entregou o Seu Filho Jesus e derramou em nossos corações o Espírito
do Cristo!

5. Aprofundemos ainda um pouco mais este tema tão importante e surpreendente.


Agora leia com atenção Gn 15,1-6! É preciso ler cuidadosamente este texto! Vamos lá!
Siga o raciocínio seguinte:

a) Aqui, neste texto, a crise de Abraão dizia respeito a uma descendência, a um filho:
nosso Pai na fé havia recebido a promessa de uma descendência e, passados quase
vinte e cinco anos,  Deus não lhe dera ainda o filho prometido (cf. vv. 2s)!

b) Deus, então, renovou a promessa que fizera: aqui também a promessa de Deus diz
respeito a uma descendência, a uma posteridade: “Conta as estelas, se as pode contar!
Assim será a tua posteridade!” (v. 5).

c) Aqui ainda, fé de Abraão em Deus, fé que o justifica, que o faz amigo de Deus (cf.
v.6), diz respeito à fé na promessa de um filho: Abraão creu que Deus poderia lhe dar
esse filho, embora ele já fosse tão idoso e Sara fosse estéril. Abraão creu em Deus e foi
considerado justo (cf. v. 6)!

d) Agora, reflita comigo: quem é este filho? É Isaac! Ora, Isaac é imagem de Cristo, o
Filho desejado e bendito, a verdadeira e definitiva descendência de Abraão por
excelência! Leia com toda atenção Gn 21,1-7 e 22,1-18. Agora, veja a surpreendente
afirmação de Jesus nosso Senhor em Jo 8,56: Ele Se considera o verdadeiro Isaac! O
primeiro Isaac era figura de Cristo (cf. Hb 11,17-19)! O Isaac segundo a carne, o Isaac
que alegrou Abraão era apenas figura do verdadeiro Isaac, Aquele enviado por Deus, o
Seu próprio Filho! Ele sim, é a verdadeira descendência de Abraão, aquele Cordeiro
que Deus providenciou no lugar do Isaac segundo a carne. Leia com atenção Mt 1,1;
Gn 22,8; Gl 3,16 e Hb 11,17-19!

e) Que mistério tremendo e sublime! Deus promete a Abraão um descendente, o


Isaac, o que faz rir! Esse Isaac é imagem de Cristo, o Descendente de Abraão por
excelência; Ele é o Isaac-Cristo! Abraão, crendo em Deus, como que vendo o invisível
(cf. Hb 11,27), creu em Cristo, o Cordeiro que Deus providenciaria! Abraão creu em
Deus, que lhe prometera o Cristo! Assim, a verdadeira descendência de Abraão são os
que creem no Cristo, o verdadeiro Isaac de Deus! Conclusão surpreendente, mistério
admirável da providência divina que tudo predispõe, dispõe e dirige para Cristo!
6. Ainda uma coisa muito importante: Nas Escrituras, crer é uma atitude, uma
dinâmica que envolve a pessoa toda: é abrir-se para Deus, a Ele aderir totalmente
simplesmente porque Ele é Deus! Esta fé envolve sentimento, inteligência, vontade...
Crer supõe e exige uma relação viva, dinâmica, livre, consciente, total... A fé nos joga
totalmente em Deus, faz-nos viver Dele, viver Nele e viver para Ele!
Ora, para um cristão, crer não significa simplesmente afirmar que Deus existe, mas
proclamar plenamente que o Deus de Abraão é fidelíssimo: Ele enviou o Isaac
verdadeiro, Jesus Cristo que, pela humanidade toda morrendo e ressuscitando, fez
dela descendência de Abraão, participante da sua bênção, isto é, da sua salvação,
cumprindo-se, deste modo, a promessa que Deus fez ao velho Patriarca: “Por ti serão
benditos todos os clãs da terra” (Gn 12,3).
Para um cristão, crer é crer na fidelidade amorosa do Deus de Abraão, que não só
enviou o Seu Isaac-Cristo, mas O entregou até a morte e morte amorosa de cruz, não
poupando o Seu Filho para dar o perdão dos pecados e a salvação não somente aos
filhos de Abraão segundo a carne, mas também a todos os que cressem como Abraão
(cf. Rm 8,32)!

7. Agora, com sinceridade, com humildade e gratidão a Deus, pergunte-se:


Sua relação com Deus é viva, é totalizante? Em outras palavras: sua fé no Deus que nos
salvou em Cristo é viva, é total, abrange toda a sua existência em todos os âmbitos?
Recorde fatos que ilustrem isto no seu caminho...
Em que se fundamenta a sua fé: em Cristo, que por nós morreu e ressuscitou ou em
outros motivos?
Lembre:“sem a fé é impossível agradar a Deus!” (Hb 11,6) E aqui se trata da fé no Deus
que nos deu Jesus Cristo! É crendo de verdade no Cristo que o cristão realiza a obra de
Deus (cf. Jo 6,29), é tornado justo, amigo de Deus porque renascido do Espírito de
Cristo e, assim, recebe a salvação!
Pense nestas coisas! Releia toda esta meditação! Interiorize esta realidade!

8. Agora louve e agradeça ao Senhor; reze o Sl 137/138 e o Sl 145/146.


QUARTA-FEIRA, 20 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal: A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XII - quarta-feira da II semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,89-96


Leia, agora, Gl 3,8-9

1. Observando bem vários dos textos importantes de São Paulo, sobretudo na Epístola
aos Romanos e aos Gálatas, o Apóstolo fala em dois modos de fundamentar e viver a
relação com o Senhor Deus, dois amplos horizontes: a fé e o cumprimento dos
preceitos a Lei de Moisés, isto é, as famosas obras da Lei.

2. Ora, nestes dois versículos que estamos meditando, Paulo afirma que Deus
justificaria, isto é, tornaria seus amigos os gentios pela fé. Interessante que, de modo
surpreendente, aparentemente, não diz em quem seria essa fé... “Deus justificaria os
gentios pela fé...” (v. 8a) Mas, se formos atentos ao contexto, aparece claríssimo que
se trata de mesma fé que Abraão teve: fé na promessa de um Descendente, de um
Isaac, que é o próprio Cristo, como eu mostrei na meditação passada. É esta fé que os
gálatas devem sustentar agora, ao invés de se apegaram às obras da Lei de Moisés, à
circuncisão que os cristãos judaizantes desejavam convencê-los a praticar (cf. Gl 1,6).
Por isso mesmo, o Apóstolo cita a promessa feita a Abraão, em Gn 12,3: “Em ti serão
abençoadas todas as nações” (v. 8b). Eis o sentido: na fé de Abraão, que creu na
promessa de Deus de que lhe nasceria um filho, Isaac, seu descendente, estava já
presente verdadeiramente, segundo o desígnio de Deus, a fé que teriam os gentios,
acreditando no verdadeiro Isaac que Deus mandaria: o Filho, Jesus nosso Senhor,
Descendente de Abraão por excelência, como veremos claramente mais adiante (cf. Gl
3,16).

3. Assim, os que são pela fé, sejam gentios ou judeus, são abençoados juntamente com
Abraão, o Crente, o Amigo de Deus (cf. Gn 15,6; 1Mc 2,52; 2Mc 1,2; Eclo 44,19.21), são
verdadeiramente filhos de Abraão segundo a fé!
Aqui, atenção: O judeu, por ser judeu simplesmente, recebe a “bênção” da Lei,
cumprindo os preceitos da Lei. Somente crendo no enviado de Deus, Jesus Cristo, o
novo Isaac, o Descendente de Abraão, o judeu receberá o que a própria Lei prometeu
em Gn 12,3: a bênção de Abraão! A bênção da Lei prepara o judeu para receber em
Cristo, novo Isaac, a bênção definitiva, que é a bênção de Abraão, prometida antes da
bênção da Lei! Deste modo, para São Paulo, seja o judeu que o gentio é justificado
somente pela fé em Cristo, o descendente prometido a Abraão, que creu na promessa
e foi justificado (cf. Gn 15,6)! Isto sim, é uma novidade, uma percepção do mistério de
Deus revelada a Paulo, é como que o “Evangelho de Paulo”. Leia com atenção Ef 3,1-7.
Enquanto Paulo tem este pensamento largo a respeito da bênção que Deus preparou
desde sempre para os gentios, os judeus, debaixo da Lei, de modo geral pensavam que
os gentios poderiam receber as bênçãos prometidas a Abraão, desde que adorassem
ao Deus de Israel e se submetessem à circuncisão, porta de todas as observâncias da
Lei de Moisés. Paulo, indignado, pergunta: Então, para que Cristo? Se é pela Lei, não é
pela fé, pela adesão ao Senhor Jesus Cristo que vem a salvação! Cristo seria inútil, seria
apenas mais um profeta judeu (cf. Gl 2,21).

4. Agora, façamos uma pausa em acompanhar o raciocínio do santo Apóstolo. Vamos


nos deter nesta realidade de que ele fala com tanta paixão, a realidade da fé! O que
significa esta fé que justifica? Sgnifica

=> acolhimento do dom de Deus, isto é, acolhimento Daquele que Ele enviou: Jesus
Cristo (cf. Jo 6,28s).

=> a partir do acolhimento deste dom tão grande e inesperado, Jesus crucificado
delineado diante de nós (cf. Gl 3,1), o reconhecimento de que somos todos
insuficientes, somos pecadores: os judeus diante da Lei; gentios diante da consciência:
todos vemos no Crucificado o quanto somos incapazes sozinhos de nos salvar, já que
somos deficientes diante da Lei da consciência e diante da Lei de Moisés! Somos
necessitados de salvação, de um Salvador! Leia, novamente, com toda atenção Rm
3,21-31.

=> o reconhecimento de que em Cristo, o Senhor nos deu gratuitamente o perdão,


pregando na Cruz os nossos pecados (cf. Rm 3,30; Cl 11,14).

=> o acolhimento da salvação trazida por Jesus, Nele crendo, recebendo o Batismo no
Seu Espírito e vivendo em comunhão com Ele na vida e no Sacramento, Nele
colocando toda a nossa vida e toda a nossa esperança.

5. Assim, pois, que fique bem claro: o centro da vida cristã é a própria Pessoa de Jesus
Cristo: Nele está a salvação; mais ainda: Ele mesmo é a Salvação! No Seu corpo de
carne crucificado e ressuscitado fomos salvos pela fé Nele (cf. Rm 8,1-4)! Cristo, Ele
mesmo é a salvação, é a nossa paz, o nosso shalom com Deus, o Pai: Nele, judeus e
gentios recebem a bênção e formam um só povo, o Novo Povo de Deus, a Igreja.
Leia e reze o estupendo texto de Ef 2,13-22!

6. Ante tudo quanto estamos meditando, procure responder com sinceridade no


coração:
Qual o papel do Cristo Jesus na sua vida?
Como é, realmente, a sua relação com Ele?
Leia e medite rezando 1Pd 2,21-25.
Reze Ap 5,9s, louvando o Cristo, nossa fé, razão da nossa esperança.
QUINTA-FEIRA, 21 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XIII - quinta-feira da II semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,97-104


Leia, agora, Gl 3,8-14

1. Vimos, na meditação passada (cf. Gl 3,8s), que o Apóstolo ensinou que aqueles que
vivem pela fé, como Abraão, recebem a bênção de Abraão e vivem na bênção. Talvez
seja bom reler os tópicos 2 e 3 da meditação anterior.
Agora, no v. 10, São Paulo faz uma afirmação surpreendente: “Os que são pelas obras
da Lei, esses estão debaixo da maldição!” Que significam estas palavras? A Lei de
Deus, Lei santa, dada a Moisés no Sinai, seria fonte de maldição? Certamente, não!
Aqui, Paulo se refere aos judeus que, apegados às obras da Lei, obras
milimetricamente codificadas pela tradição oral, julgavam-se justos e autossuficientes
diante de Deus e esperavam dessas práticas merecer como pagamento a salvação.
Atenção para o que diz o Apóstolo: não diz “os que são pela Lei”, mas “os que são
pelas obras da Lei”, isto é, os que colocam a confiança nessas obras!
Mas, com base em que o Apóstolo afirma tal coisa? Com base na própria Lei, pois está
escrito na Lei: “Maldito todo aquele que não se atém a todas as prescrições que estão
no livro da Lei para serem praticadas” (v. 10b; cf. Dt 27,26). Portanto, a própria Lei
afirma ser maldito quem não cumpre toda a Lei! Assim, com tantas prescrições e quase
reduzida pelos rabinos a prescrições minunciosas - as obras da Lei -, a Torá, a Lei de
Moisés, tornou-se um jugo pesado demais, um jugo insuportável! Como ninguém
conseguiria cumprir sempre e totalmente tantos preceitos, os que colocam sua
esperança de salvação, de justificação, no cumprimento das obras da Lei estão debaixo
da maldição.

2. Pareceria que o raciocínio de Paulo é meio forçado e sua visão sobre as obras da Lei
seria demasiada negativa e exagerada. Não é assim! Primeiro: o Apóstolo faz exegese,
isto é, interpretação das Escrituras como os rabinos daquele tempo faziam, usa o
mesmo método de estudo das Escrituras que eles usavam. Depois, somente para que
você, caro Irmão, possa compreender o que se tornou a Lei no judaísmo, leve em
consideração estes pontos:
a) A palavra Torá (Lei, na tradução da Bíblia grega usada por judeus e cristãos) significa
“ensinamento” e, para os judeus, pode referir-se ao Pentateuco, a todo o Antigo
Testamento ou, ainda, a toda a tradição judaica! Imagine, pois, o volume de preceitos,
de minúncias, de obrigações! Os rabinos judeus contam na Torá 613 mandamentos!
Assim, quem procura a justificação, a salvação pela Torá, deve cumprir todos estes
preceitos sob pena de maldição!

b) Os judeus chegam a afirmar que Deus estuda a Torá no céu; ela existe antes do
mundo existir e foi usada por Deus como planta para a obra da criação! Observe, caro
Irmão, como foi dando uma importância à Lei, foi absolutizando-a de um modo que a
salvação estaria nela e no cumprimento dos seus preceitos! Jesus nunca aceitou isto:
acusava os rabinos de invalidarem a Palavra de Deus, o espírito mesmo da Lei com
essas extrapolações. Leia Mt 15,1-14; Mc 7,1-13. A esta Lei reinterpretada como uma
infinitude de preceitos detalhistas, o Senhor Jesus chama de modo pejorativo
de “vossa lei” (Jo 8,17; 10,34), bem diferente dos “mandamentos”do Pai: “Eu sei que o
Seu mandamento é Vida eterna!” (Jo 12,50). Aí sim! E os mandamentos caminham e se
resumem num só foco, numa só realidade: “Este é o Seu mandamento: crer no Nome
do Seu Filho Jesus Cristo e amar-nos uns aos outros, conforme o mandamento que Ele
nos deu!” (1Jo 3,23) Pois bem, tampouco São Paulo aceitava esta absolutização da Lei
e dos preceitos! A Lei compreendida como prática de preceitos termina em legalismo e
soberba autossuficiência que fecha para Deus; bem diferente da Lei de Deus
compreendida e vivida como participação na sabedoria providente de Deus: esta leva à
confiança humilde no Senhor e à disposição de acolher na fé o Cristo Jesus! Portanto,
todas estas extrapolações, todas estas tradições e práticas que terminaram por
sobrecarregar e obscurecer o sentido genuíno da Lei foram plantadas pelos homens,
pelos rabinos. A sentença do Senhor é clara: “Toda planta que não foi plantada por
Meu Pai celeste será arrancada! Deixai-os! São cegos conduzindo cegos!” (Mt 15,13s)

c) Para os judeus, somente o Messias poderia revelar totalmente o sentido interior da


Torá, isto é, da Lei de Moisés. Os cristãos concordam plenamente com isto! Somente o
Cristo Jesus, que é o Messias, é a plenitude da Lei, pois “a Lei foi dada por meio de
Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17). Efetivamente, as
Escrituras de Israel dão testemunho Dele, do Senhor Jesus Cristo, santo Messias, e
para Ele preparou Israel (cf. Lc 24,27; Jo 5,39; Gl 3,25).

3. Para arrematar e fundamentar o seu raciocínio, Paulo cita as Escrituras, e as cita


com o Antigo Testamento grego (chamado de LXX ou septuaginta), que é o mais longo,
como o dos católicos, ainda hoje usado na Igreja de Cristo: “O justo viverá pela fé” (Gl
3,11; Rm 1,17; cf. Hab 2,4). Ou seja, aquele que é agradável a Deus, aquele que é
justificado, o é pela fé, fé no Deus que deu a Abraão e a nós o verdadeiro Isaac, Jesus
Cristo, nosso Senhor!
Então, enquanto quem coloca sua confiança na Lei espera a Vida e a salvação do
cumprimento de preceitos, aquele que coloca a sua confiança no Deus de Abraão, Nele
crendo, coloca sua esperança em Jesus o Salvador, imolado por nós como Isaac (cf. Gn
22,9-18; Rm 8,32).

4. No v. 13, o Apóstolo faz a proclamação triunfante: “Cristo nos resgatou da maldição


da Lei tornando-Se maldição por nós!” Outra afirmação impressionante! O que quer
dizer? Cristo nos resgatou a todos, judeus e gentios, dos preceitos da Lei de Moisés.
Aos gentios também, porque sem Cristo, o único modo de entrar para a Aliança seria
tornar-se judeu, subjugando-se aos preceitos, às obras da Lei. Não entrando para o
Povo de Israel segundo a carne, viviam sob a lei do pecado provocado por uma
consciência obscurecida e pelas paixões que os escravizavam. Vale muito a pena ler
Rm 1,18-32. Aí se encontra a situação deplorável dos gentios de toda a humanidade de
ontem e de hoje sem Cristo – e até de certos cristãos de nome, que defendem de
modo cego, pagão e sacrílego todo tipo de pecado e torpeza, colocando tudo na conta
da misericórdia, aviltando e fazendo pouco do amor de Deus revelado na Cruz do
Senhor!

5. Demos ainda um passo adiante: Como Cristo nos resgatou da Lei? Ele assumiu o
nosso débito, a nossa incapacidade de suportar o fardo dos preceitos: morrendo
pendurado na Cruz por nós todos, como se fosse um maldito – a própria Lei afirma ser
maldito o que morre pendurado num madeiro (cf. v. 13; Dt 21,23). Certamente, esta
realidade material – a morte pendurado no madeiro – exprime uma profunda
realidade espiritual: fazendo-Se realmente homem, plenamente um de nós, foi
solidário conosco e “tomou sobre Si as nossas dores, carregou-Se com os nosso
pecados, de modo que o castigo que nos dá a paz caiu sobre Ele e por Suas chagas
fomos curados” (cf. Is 53). Assim, assumindo a nossa maldição, Ele, o Bendito do Pai, o
Filho Amado, o Eleito (cf. Mt 3,17; 17,5; Jo 3,35; 5,20), apagou na Cruz todas as nossas
transgressões em relação à Lei e seus preceitos e a todos os nossos pecados (cf. Cl
2,14; Ef 2,1-5), para que a bênção de Abraão, através do Cristo, novo Isaac, se estenda
aos gentios, como fora prometido a Abraão, o crente, pai de todos os que creem (cf.
vv. 13s)! Sim, verdadeiramente o Senhor nosso pode ter compaixão de nós, filhos de
Adão, judeus ou gentios, que gememos debaixo do fardo da Lei de Moisés e da lei do
pecado. Ele pode realmente nos dizer as comoventes palavras de Mt 11,28-30.

6. Finalmente, São Paulo apresenta a finalidade última de fé em Jesus Cristo:


crendo, “pela fé, recebamos o Espírito prometido”... Explicando: crendo em Jesus
nosso Senhor, judeu ou gentio é Nele batizado e, no Batismo, recebe o Seu Espírito
Santo, que impregna interiormente o crente da Vida divina do próprio Cristo imolado e
ressuscitado, dá ao crente os próprios sentimentos do Cristo Jesus, transfigurando
mais e mais o crente, sobretudo pela participação na Eucaristia, até a plena
configuração ao Senhor, ao verdadeiro Filho-Isaac, na Glória eterna (cf. Rm 8,11)! Tudo
isto é realizado pelo Espírito Santo recebido no Batismo, sacramento da fé! E este
Espírito, como já disse anteriormente, é a Lei verdadeira (cf. Rm 8,2), a Lei dinâmica
(cf. Rm 8,14-17), a Lei interior (cf. Rm 8,9), a Lei do amor (cf. Rm 5,5; 13,8-10), não
mais de preceitos pesados e exteriores!

7. Reze o Sl 18/19,8-15. Medite rezando na promessa do Espírito já feita no tempo da


Antiga Lei. Leia Ez 36,26; 37,14; 39,29; Jl 3,1-5. Pense um pouco: sua vida religiosa é
centrada em preceitos exteriores ou na experiência profunda da intimidade exigente,
amorosa e criativa de se deixar impregnar e guiar pelo Espírito do Cristo? Só quem se
deixa guiar pelo Espírito pertence a Cristo...

SEXTA-FEIRA, 22 DE MARÇO DE 2019


Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XIV - sexta-feira da II semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,105-112


Leia, agora, Gl 3,15-18

1. São Paulo continua insistindo sobre seu argumento: a fé, que acolhe a promessa de
Deus, é que nos dá a graça da justificação, não as obras de Lei de Moisés. Tome o v. 15:
agora, nesta perícope, o Apóstolo usa a ideia do “testamento”. Em
grego, diathéke significa ao mesmo tempo aliança e testamento. Partindo deste duplo
significado, ele desenvolve o seu raciocínio: Deus fez a Abraão uma promessa, um
testamento em forma de aliança. Leia novamente Gn 15,1-18a. Aí aparecem realmente
a promessa de Deus de dar a Abraão um descendente, o Isaac-Cristo, aparece a fé de
Abraão na promessa divina, fazendo-o justo diante de Deus e, finalmente, a conclusão
do encontro entre o Senhor Deus e Abraão com a aliança selada nos animais mortos e
no braseiro fumegante. Resumindo: Deus selou uma aliança com Abraão, garantindo a
veracidade e validade da promessa que lhe havia feito.
Reflita um momento: o Senhor Deus é bom, o Senhor Deus é generoso, o Senhor Deus
é fiel, é veraz: quando promete não engana nunca! Reze o Sl 32/33

2. Vamos, agora, ao v. 16. Utilizando um raciocínio bem próprio da exegese antiga, o


Apóstolo recorda que Deus fez a promessa “a Abraão e à sua Descendência”. Aqui, ele
aproveita o fato de “descendência” está no singular e concentra toda a descendência
de Abraão, isto é, todo o Povo de Israel, em Cristo! Esta é uma ideia preciosa, muitas
vezes presente nas Escrituras: um que representa e concentra em si os muitos. Por
exemplo: Adão, que concentra em si toda a humanidade; Jacó, que concentra em si
todo o Israel; o Servo Sofredor, que concentra em si todo o Israel e toda a humanidade
pecadora; Cristo, que concentra em Si toda a Igreja.
Ora, Cristo é a razão de ser de Israel, o Povo nascido de Abraão, o Povo prometido ao
nosso pai na fé. Esta ideia aparece também no Evangelho de São João: no Antigo
Testamento, Israel é a vinha de Deus, é Sua videira (cf. Is 5,7; Sl 79/80), videira
provisória, figura da verdadeira e definitiva vinha, que deveria vir. Em Jo 15,1, Jesus
nosso Senhor Se revela como a “Videira verdadeira” isto é, definitiva, da qual a
primeira videira, Israel, era somente imagem, profecia, figura e preparação! Assim,
coincidindo com a visão de São Paulo, o Quarto Evangelho afirma que Jesus é
realmente o verdadeiro Israel, a verdadeira videira e, portanto, verdadeira
Descendência de Abraão, que traz em Si e plenifica o Israel segundo a carne!
Portanto, as promessas do Senhor Deus a Abraão e à sua descendência concretizam-se
em Cristo, “personalidade corporativa” (pessoa única que concentra em si a multidão)
de Israel e, principalmente, da Igreja: o Senhor Jesus Cristo não só é ponto de chegada,
realização e plenitude do Antigo Israel, como é também princípio, origem e realidade
na qual subsiste e encontra o ser e o sentido o Novo Israel, que é a Igreja, Corpo do
qual Cristo é Cabeça (cf. Cl 1,18).

3. Todo este belo raciocínio de São Paulo e do Quarto Evangelho nos convidam a nunca
esquecer que somente em Cristo a Escritura encontra seu sentido último, definitivo,
verdadeiro e pleno! Como vimos na meditação passada, até os judeus afirmam isto
sobre o Messias: somente ele desvelaria o sentido último da Lei de Moisés! Pois bem,
o é nosso Senhor Jesus Cristo! Nele a Escritura e o desígnio do Senhor Deus para a
humanidade e a criação inteira encontra seu foco, seu sentido e sua realização!
Medite na profunda afirmação de Hb 1,1-4! Cristo é a Plenitude de tudo porque vem
de Deus, sendo Ele mesmo divino, superior a toda criatura!

4. Finalmente, os vv. 16s tratam da relação entre a Lei de Moisés e a promessa feita a
Abraão: a promessa como dom gratuito acolhido pela fé em Isaac-Cristo e a Lei como
cumprimento de preceitos, de obras. Primeiro fora feita a promessa, no tempo dos
Patriarcas, quando ainda não existia o Povo de Israel. Somente depois, quando de
Abraão veio Isaac, de Isaac veio Jacó, apelidado de Israel e, deste último, os doze filhos
que originaram as doze tribos do Povo de Israel, é que a Lei fora dada no Sinai.
Baseando-se em Ex 12,40s, Paulo faz um cálculo aproximado de quatrocentos e trinta
anos de diferença entre a promessa a Abraão e o dom da Lei no Sinai por meio de
Moisés. Ele, então, raciocina: uma Lei vinda quatro séculos depois, não pode invalidar
a promessa de Deus! Além do mais, a Lei fora dada a Israel pelo ministério dos anjos
(cf. Gl 3,19), enquanto a promessa fora feita pelo próprio Deus (cf. Gl 3,17). Resultado:
a graça de Deus, Seu dom prometido a Abraão, é Cristo-Isaac, fruto e cumprimento da
promessa e não depende de modo algum das obras de uma Lei dada
posteriormente, “porque se a herança vem pela Lei, já não é pela promessa. Ora, é
pela promessa que Deus agraciou a Abraão” (v. 18) e, através dele a toda a
humanidade na sua Descendência que é Cristo (cf. Gn 12,3)! Portanto, os gálatas não
deviam dar ouvidos aos cristãos judaizantes, que, a ferro e fogo, queriam fazer os
cristãos gentios cumprirem a Lei de Moisés, pois as promessas da Aliança não
dependem do cumprimento das obras da Lei. Estas obras poderiam valer para a
Aliança do Sinai, para o Povo de Israel, como preparação para Cristo, cumprimento das
promessas e plenitude da Lei, mas não para os cristãos fossem vindos da gentilidade
ou do judaísmo! A realidade agora é a fé em Cristo, o verdadeiro Isaac, cumprimento
pleno de todas as promessas do Pai!

5. Leia e medite o texto de Mt 2,1-12. Veja:


a) os pagãos vêm de longe, como Abraão que partiu de sua terra, do Oriente,
procurando o Rei dos Judeus.
b) o Israel segundo a carne, representado por Jerusalém e seus doutores, não crê e
não vai à procura do Menino.
c) os Magos seguem a estrela do Menino, iluminados pela fé.
d) Jerusalém não crê e não encontra o Menino; os Magos pagãos creem e O
encontram e O adoram.
e) Depois, voltam por outro caminho e não mais entram em Jerusalém, no judaísmo...

Agora reze o Sl 116/117, que convida todos os povos a louvar a Deus! Reze também o
Sl 97/98.
SÁBADO, 23 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XV - sábado da II semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,113-120


Leia, agora, Gl 3,19-22

1. Estamos vendo como São Paulo procura colocar a Lei de Moisés no interior de algo
mais amplo e profundo: a Promessa de Deus, Promessa feita a Abraão de que através
da sua Descendência, o Cristo-Isaac, todas as nações da terra seriam abençoadas: esta
bênção é a salvação para todos! Promessa que foi cumprida pelo Senhor graças à fé de
Abraão, de modo que este foi justificado pela fé! Assim, os que crerem no verdadeiro
Isaac, que é Cristo, são justificados pela fé, como Abraão o fora. Nele, toda a
humanidade, sejam judeus sejam gentios, encontra a salvação!
Todo este raciocínio pode, à primeira vista, nos fazer pensar que o Apóstolo
desqualifica a Lei de Moisés, tornando-a quase que inútil e até mesmo má! Mas, não é
esta a sua intenção nem sua doutrina! Como ele poderia considerar má uma realidade
que é dom de Deus? Disto ele trata nos versículos que meditaremos agora.

2. “Por que, então, a Lei?” São Paulo medita sobre este tema nas cartas aos Romanos e
aos Gálatas. Vejamos o que o santo Apóstolo diz...

a) A Lei fora acrescentada à Promessa. Em si, a Promessa já bastava: Deus daria Cristo
à humanidade, a todo aquele que acreditasse Nele e, esses, crendo seriam justificados,
seriam salvos no poder do Seu Espírito Santo (cf. Gl 3,14)! Mas, até que o Descendente
viesse e a Promessa se cumprisse, Deus, na Sua sábia providência, quis dar a Israel a
Torá, a Lei ao Povo do qual nasceria o Cristo. Poderíamos dizer que Israel é o Povo dos
descendentes de Abraão do qual viria o Descendente, Cristo, verdadeiro Isaac!
A grande questão é que Paulo e os cristãos não concordam de modo algum com a
absolutização da Lei de Moisés que o judaísmo cultivava e cultiva! Aqui, entre
judaísmo e cristianismo não há acordo: são duas visões radicalmente diferentes e
opostas! Para um cristão, jamais a Lei será o centro da relação com Deus; o centro é
Cristo, realizador da Promessa! Qual é, então, o papel da Lei? Por que Deus a quis?

b) O Apóstolo já dissera que a Lei fora dada posteriormente à Promessa: esta foi feita a
Abraão; a Lei foi dada a Israel através de Moisés. Então, ela, de modo algum, é
importante como a Promessa (cf. Gl 3,17s). No pensamento paulino, a Lei deve ser
compreendida dentro da Promessa e em função da Promessa; não como algo
absoluto, um valor em si mesmo!

c) De modo surpreendente, São Paulo afirma agora que a Lei “foi acrescentada para
que se manifestassem as transgressões” (v.19). Como compreender tal afirmação? A
Lei, com suas cláusulas, regula, delimita, distingue e, assim, faz com que o homem veja
o pecado, saiba com maior consciência o que é o pecado, o que agrada ou desagrada a
Deus (cf. Br 4,4): tudo quanto está em desacordo com a Lei é pecado! Assim, a Lei faz
com que se manifeste claramente a Israel as transgressões à vontade do Senhor Deus.
Mais ainda: o homem, conhecendo a Lei, vendo o que é o pecado, e desobedecendo,
por malícia ou por fraqueza, acaba por se tornar um transgressor! Assim, a Lei termina
por mostrar a visceral fraqueza do homem, sua impotência para agradar a Deus
somente com suas forças: a Lei mostra o que é a transgressão e revela que o homem é
um transgressor, revela o pecado! Sobre isto, o Apóstolo tem afirmações fortíssimas,
que não convém aprofundar agora, mas que podem ser lidas para compreender o seu
pensamento: Rm 3,20; 4,15; 5,20; 7,7-13; 1Cor 15,56

d) Deste modo, a Lei termina servindo para fazer com que o homem experimente que
não pode sozinho cumprir a vontade de Deus e que necessita da graça de Deus para se
salvar, porque ele, sozinho, não passa de um transgressor! Ora, esta graça de que o
homem precisa, seja ele judeu ou gentio, é dada precisamente pelo Descendente a
todo aquele que crer Nele, que é o prometido a Abraão e à sua descendência formada
agora por todos aqueles que crerem, de todas as nações que, assim, se tornarão
benditas, conforme a Promessa (cf. Gn 12,3). Assim, a Lei termina fazendo o fiel clamar
pelo cumprimento da Promessa, realizada em Cristo!

3. São Paulo utiliza ainda um outro argumento para ilustrar que a Lei é inferior à
Promessa. Trata-se de um argumento baseado numa crença muito presente na
tradição judaica de que a Lei fora dada no Sinai pelo ministério dos anjos. Leia, por
exemplo, At 7,38.53. O Apóstolo usa esta crença para argumentar que a Lei
promulgada por anjos é inferior à Promessa feita pelo próprio Deus diretamente (vv.
19s). Assim, os gálatas são insensatos por se apegarem à Lei de Moisés ao invés de
fundamentarem sua fé na Promessa do próprio Deus!

4. Há, ainda uma outra questão muito séria para o Apóstolo: a Lei em si, com seus
preceitos, dá a norma, indica o caminho, mas não dá a graça, não dá a força para
cumprir os mandamentos! Assim sendo, ela mostra o caminho da Vida e, também
neste sentido ela é boa e louvável, é Vida para Israel, mas ela mesma, em si, não
produz a graça, a força do Espírito que dá Vida divina que nos torna justos diante de
Deus! Releia os vv, 21s. Como já vimos, a Lei mostra onde está o pecado, porque
mostra o caminho de Deus, mas, em si mesma, não dá a força para evitar o pecado e
fazer o bem! Para isto, é necessária a graça de Deus, que nos vem pela fé em Cristo,
Descendente de Abraão, fruto da Promessa, doador do Espírito que dá Vida!

5. A conclusão deste raciocínio está no coração da nossa fé cristã: todos – judeus ou


gentios – estão debaixo do pecado e todos podem ser salvos somente pela fé em Jesus
Cristo, por quem o Senhor Deus cumpriu a Promessa de abençoar toda a humanidade
com a salvação, no Dom do Espírito (cf. Rm 3,21s)!
6. Seria muito bom reler a Epístola aos Gálatas do princípio até 3,22.
Leia agora Jr 7,21-24. Aí, se encontra uma situação parecida com esta da relação entre
a Promessa e a Lei. No caso de Jeremias, é a relação entre os sacrifícios no Templo e a
prática da vontade do Senhor, a escuta da Sua Palavra, contida na Lei e pronunciada
pelos profetas de cada geração.
Quando o Senhor Deus entregara a Israel o Decálogo, que é o coração de toda a Lei,
não prescrevera ali nada de sacrifícios. Mas, ordenara simplesmente que escutasse a
voz do Senhor (cf. Ex 19,5; Dt 5,1). Os sacrifícios cultuais no Templo depois também
foram prescritos pelo Senhor Deus, mas somente teriam sentido se fossem expressão
do cumprimento amoroso, obediente, cheio de amor fiel aos preceitos do Senhor
Deus. No entanto, muitos em Israel – a maioria – parava nos sacrifícios, no culto
externo e descuidava do coração da Lei, que era a escuta amorosa e fiel ao Senhor. Era
a mesma coisa agora, na questão dos judaizantes: eles paravam na Lei e não
compreendiam que a Lei somente tinha sentido em vista da Promessa realizada em
Cristo! É sempre o perigo tão nosso de confundir os meios com o fim, o essencial com
o acessório, o principal com o periférico!
Pense em você mesmo e no seu modo de viver a. religião e a sua relação com Deus e
os irmãos: você trata o essencial como essencial e o menos importante como
secundário?

7. Leia também Ap 7,9-10: fruto da Promessa em Cristo é a salvação da multidão


humana dos que creem!
Agora reze novamente o Sl 97/98

SEGUNDA-FEIRA, 25 DE MARÇO DE 2019


Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XVI - segunda-feira da III semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,121-128


Leia, agora, Gl 3,23-29

1. Paulo continua refletindo sobre o papel, o significado da Lei de Moisés. Ele,


agora, fala como judeu: “antes que chegasse a fé”, isto é, antes que chegasse
o Descendente prometido por Deus a Abraão e no qual Abraão acreditou, ou
seja, antes de Cristo, “nós éramos guardados sob a tutela da Lei para a fé que
haveria de se revelar”. A ideia de São Paulo, aqui, é clara: Deus concedeu a
Lei a Israel como um elemento preparatório, educativo, até que chegasse o
tempo da realização da Promessa que o Senhor Deus fizera a Abraão: um
Descendente através do qual todos os povos da terra seriam abençoados (cf.
Gn 12,3; Gn 15,5s). Aqui aparece claro, mais uma vez, que a Lei foi dada em
função da Promessa, com um caráter provisório e educativo “em vista da fé
que haveria de se revelar”. A conclusão do Apóstolo é bela: usa a imagem do
pedagogo, aquele que, na antiguidade, conduzia a criança até o mestre.
Eis: “Assim, a Lei se tornou nosso pedagogo até Cristo, para que fôssemos
justificados pela fé” (cf. v. 24). No pensamento do Apóstolo, a Lei educou e
conduziu Israel à fé em Cristo. Crendo em Cristo, o Descendente prometido, os
israelitas seriam justificados pela fé, como o Pai Abraão (cf. Gn 15,6). Assim,
cumprida sua missão, a Lei com seus preceitos cede lugar à fé em Cristo, o
Doador do Espírito, nova Lei, conforme anunciado pelos profetas (cf. Ez 36,26;
37,14; 39,29; Jl 3,1-5). Crendo em Cristo, o Prometido, o Descendente de
Abraão, Israel passaria de simples Israel segundo a carne para ser também
Israel segundo o Espírito do Filho Jesus Cristo!
Leia mais uma vez, rezando, Rm 8,1-17.

2. “Chegada a fé, chegado o Cristo, nós judeus, não estamos mais sob o
pedagogo” (v. 25): o verdadeiro judeu, que deseja ser fiel ao plano de Deus,
deveria, agora, acolher o Senhor Jesus pela fé e viver a Vida nova que Ele
concede, dando a todos o perdão pela Sua Cruz e Ressurreição. Quanto aos
que não eram israelitas, os gentios, “vós todos sois filhos de Deus pela fé em
Cristo Jesus…” (v. 26). Eis aqui: judeu ou gentio, crendo em Jesus como o
Cristo, o Descendente prometido, torna-se filho de Deus em Cristo: “pois todos
vós, que fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo. Não há judeu nem
grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós
sois um só em Cristo Jesus” (vv. 27s). Frase estupenda!

a) Os judeus, crendo, devem receber o Batismo no Espírito de Cristo; também


os gentios, crendo, como os judeus, recebem o Batismo, isto é, o mergulho
(“batizar”, em grego, significa mergulhar) no Espírito de Cristo e são revestidos
de Cristo, como o batizado é revestido da água do Espírito (cf. Jo 3,5).

b) Agora, em Cristo, toda diferença de separação é superada: seja judeu ou


gentio, escravo ou livre, homem ou mulher, o importante é crer em Cristo e
Nele ser batizado, recebendo o Seu Espírito e tornando-se Nele e por Ele uma
só coisa, uma só realidade nova, participando daquela bênção que desde o
início Deus prometera através da Descendência de Abraão (cf. Gn 12,3).

c) Aparece, aqui, o impressionante desígnio do Senhor Deus: reunir todas as


coisas em Cristo, concedendo a toda a humanidade e a toda a criação o dom
da salvação, que é a Vida nova no Espírito do Cristo Jesus. Leia com toda
atenção Ef 1,3-14; Cl 1,21-23. Releia, medite, reze!

3. Pronto: agora fica fácil compreender a conclusão de Paulo: “E se vós sois de


Cristo, então sois descendência de Abraão, herdeiros segundo a Promessa” (v.
29). Paulo fala aos gálatas: crendo e tendo sido batizados no Espírito do Cristo,
Descendência de Abraão, eles, que, segundo a carne, estavam for a dessa
descendência, são agora, pelo Batismo no Espírito de Cristo, o Descendente,
descendência de Abraão segundo a fé e, portanto, herdeiros da bênção (cf. Gn
12,3), segundo a Promessa (cf. Gn 15,5s).

4. Com o coração admirado e grato ao Senhor, leia e reze Ef 2,11-18. Agora


reze o Sl 137/138
TERÇA-FEIRA, 26 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
 Meditação XVII - terça-feira da III semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,129-136


Releia, agora, Gl 3,8-29

1. Em todos estes versículos, nas várias meditações que aqui foram apresentadas até
agora, vimos a preocupação do Apóstolo de colocar a Lei de Moisés não como algo
absoluto, mas como uma realidade relativa a algo maior, no interior de algo maior e
mais fundamental! De fato, para um judeu, a Lei é o centro, é a própria fonte da Vida,
a Lei para na Lei, basta a Lei! E a Lei, para o israelita mais estrito é, sobretudo,
preceitos.
Para um cristão, para o Apóstolo, a Lei é um instrumento santo dado por Deus ao Seu
Povo, para ajudá-lo no caminho da realização da Promessa: a salvação de toda a
humanidade (cf. Gn 12,3) através da fé no Descendente de Abraão, que daria a todos
os que cressem a efusão do Seu Espírito (cf. Gl 3,8-15).

2. Pense bem: esta é a diferença central entre judaísmo e cristianismo e, por isso, os
dois são tão próximos e tão inconciliáveis! Para um cristão, seria uma insensatez voltar
à Lei de Moisés (cf. Gl 3,1). Do mesmo modo, é insensatez para um cristão retomar
práticas o Antigo Testamento: óleo da alegria, proibição de imagens, de transfusão de
sangue, batizar nas águas, fazer distinção entre alimentos puros e impuros, guardar o
sábado, retomar costumes israelitas, inventar falso Templo de Salomão, culto à Arca
da Aliança e coisas do gênero... Infelizmente, quando muitos cristãos já não têm ideia
de que Cristo é o centro e o foco e o fim das Escrituras Sagradas, fica muito fácil cair na
armadilha das seitas fundamentalistas: elas leem as Escrituras, mas sem um foco, sem
um princípio unificador e interpretativo, que somente pode ser Jesus nosso Senhor!

3. Outra ideia importante é a da Lei como pedagogo para o Cristo. Se pensarmos que,
para um judeu, a Lei abrange todo o Antigo Testamento, fica, então claríssimo: toda a
história de Israel, todas as Escrituras de Israel caminham para o Cristo: Ele é a razão de
ser, a finalidade de Israel, das Escrituras Santas, de suas personagens e das instituições
judaicas do Antigo Testamento! Assim, com espírito não somente de estudioso, mas
sobretudo com espírito orante e admirado, tomemos alguns exemplos, contemplando
o Cristo Jesus nosso Senhor:

a) Pessoas:

Adão: como o primeiro Adão foi princípio e síntese da antiga humanidade, marcada
pelo pecado, Cristo é o Novo adão, princípio e síntese da nova humanidade nascida no
Espírito para a Vida divina (cf. Rm 5,12-21; 1Cor 45-49; Ef 4,17-24).

Abel: como Abel é o modelo de justo e seu sangue clama a Deus por vingança, Cristo, o
Inocente, é o Novo Abel e Seu sangue clama pela vingança de Deus contra o pecado,
dando a salvação à humanidade (cf. Hb 12,22-24).

Isaac: como Isaac foi o descendente prometido a Abraão, do qual nasceu o antigo Povo
e viria a bênção para todos os povos, Cristo é o Novo Isaac, do qual nasceu o Novo
Povo, constituído pelos crentes de todos os povos da terra; como Isaac, humilde e
manso, deixou-se oferecer em holocausto, assim Cristo, o Filho amado, deixou-Se
oferecer por nós (cf. Rm 8,32; Hb 11,17-19)

Moisés: como Moisés foi o mediador da Antiga Aliança e rejeitado pelo seu povo,
Cristo é o Mediador da Nova e Eterna Aliança, rejeitado por Israel (cf. Jo 1,17; At
7,35.37.38).

Davi: como Davi foi o rei de Israel e agradou ao Senhor Deus, assim Cristo,
descendente de Davi é o Rei eterno, que cumpre todas as promessas do Senhor a Casa
de Davi (cf. 2Sm 7,12-16; Sl 88/89,21-30; Lc 2,31; Mt 21,1-11; Rm 1,1,3s).
b) Eventos

A Arca de Noé (cf. 1Pd 3,18-22)


Os dons e a pessoa de Melquisedec (cf. Hb 7,1-3)
A páscoa de Israel prenuncia a Páscoa de Cristo e da Igreja (cf. Jo 13,1s; 1Cor 5,7)
A travessia do Mar dos Juncos prefigura o Batismo no Espírito de Cristo (cf. 1Cor 10,1-
11)
O maná prenuncia a Eucaristia (cf. Jo 6,32-33)
A água que sai da rocha e sacia o Povo prenuncia o Espírito saído do lado de Cristo e
dado nos sacramentos para saciar a Igreja, Novo Povo (cf. Jo 7,37-37; 19,31-35)
A travessia no deserto prenuncia o caminho da Igreja, Povo fundado em Cristo (cf.
1Cor 10,6-11)
O dom da Lei no Sinai ao Povo reunido no mesmo lugar, entre nuvens, trovões,
ventania, tremor de terra e tempestade, prenuncia o Pentecostes, Festa da Lei,
quando, no Cenáculo, Cristo deu ao Seu Povo a Lei definitiva, que é o Espírito
derramado nos nossos corações (cf. At 2,1-6)

c) Instituições

Israel, Povo de Deus, imagem da Igreja, nascida de Cristo, composta de crentes de


todos os povos da terra (cf. 1Pd 2,4-10)
A Tenda de Reunião, que prenuncia Cristo que armou Sua tenda entre nós (cf. Jo 1,14)
O Templo, imagem do próprio Corpo de Cristo (cf. Jo 2,18-22)
O Cordeiro pascal (cf. Jo 19,36)
Jerusalém, imagem da Igreja de Cristo (cf. Gl 4,26; Ap 21)

4. Agora, reflita: Como tudo se cumpre em Cristo, também a vida de todo homem que
vem a este mundo e, concretamente, a sua vida, somente em Cristo encontra seu
sentido último e seu fundamento. Sem Ele, que sentido tem a vida? “Do que nos
valeria ter nascido se não nos redimisse em Seu amor?” – pergunta a Igreja no
Precônio Pascal!
Procure responder: Cristo é o centro da sua existência? Ele é, realmente, seu Caminho,
sua Verdade e sua Vida? Você consegue interpretar sua existência toda à luz de Cristo?
Coisas sérias para serem pensadas!
4. Para meditar e rezar: 88/89. Lembre: Cristo é o verdadeiro Davi: humilhado na Cruz,
Ele triunfou e sentou-Se para sempre no Seu trono nos Céus!
QUARTA-FEIRA, 27 DE MARÇO DE 2019
Retiro quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XVIII - quarta-feira da III semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,137-144


Não estranhe, mas, nesta meditação e nas seguintes, vamos tomar com atenção e
piedade os seguintes textos: Mt 5,17-48 e Mt 9,14-17 para aprofundar o pensamento
exposto na Epístola aos Gálatas! Assim, leia agora, rezando, Mt 5,17-48.

1. Agora, meditaremos neste primeiro texto para colher nas palavras do próprio
Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador bendito, aquilo que o Apóstolo São Paulo tem nos
ensinado na Epístola aos Gálatas sobre o papel da Lei de Moisés e sua relação com a fé
no Cristo Senhor e a salvação por Ele trazida.

2. Tomemos, pois, Mt 5,17-48. Vamos acompanhar passo a passo o ensinamento de


Cristo:

a) O Senhor aí deixa claro Seu respeito pela Lei de Moisés: o Salvador ensina a
santidade da Lei, também deixa claro sua durabilidade e sua eficácia, sua relação com
o Reino dos Céus (quem é hostil ou desrespeitoso para com a Lei, não herdará o Reino
dos Céus) e a necessidade de observá-la! Veja que, à primeira vista, pareceria que São
Paulo não fora fiel a Nosso Senhor! Mas, vamos compreender as palavras de Cristo!

b) Realmente, o Senhor Jesus não veio revogar a Torá: sendo Palavra do Senhor Deus,
ela não pode ser revogada, pois Deus não muda nem volta atrás no que disse e
prometeu. Como ensinara São Paulo, Deus concedera a Lei a Israel para indicar-lhe o
caminho, para regular sua vida, na perspectiva de uma Plenitude que viria depois: o
cumprimento da Promessa em Jesus Cristo nosso Senhor, que daria a bênção da
salvação a todo aquele que Nele cresse, fosse de que nação fosse, conforme a palavra
do Senhor Deus a Abraão (cf. Gn 12,3)! Neste sentido veja o que diz o Apóstolo em Rm
7,12.14: a Lei é santa, porque vem do Deus santo e a Ele leva; a Lei é espiritual, porque
é dada no Espírito de Deus e somente pode ser cumprida quando o homem é
sustentado pelo Espírito!
c) O Senhor Jesus Cristo afirma ter vindo dar à Lei pleno cumprimento. Aqui está a
chave para compreendermos toda esta questão. “Cumprir”, neste contexto, não
significa obedecer, mas sim realizar, cumprir seu objetivo! Se a Lei foi o pedagogo de
Israel para o Cristo, ela, entregando Israel a Cristo, cumpriu sua missão e Cristo deu
descanso, realização, plenitude à Lei! Cristo, realizando o que a Lei previra, deu
cumprimento e “repouso” à Lei!
Dou dois exemplos para ilustrar esta ideia:

(1) um botão de flor: ele não existe para permanecer botão, mas se cumpre na flor:
quando a flor desabrocha, o botão desaparece: a flor dá-lhe pleno cumprimento. O
botão não foi abolido, mas cumprido, realizado, pleno! Sem ele, a flor não existiria;

(2) os treinos de um time de futebol: a equipe treina, treina, em vista da partida


decisiva e, no momento da partida, os treinos são cumpridos! Sem os treinos, a partida
seria uma tragédia; sem a partida, os treinos seriam inúteis e sem sentido! No
momento da partida, os treinos perdem a utilidade: foram cumpridos e podem passar!

É, precisamente, neste sentido que Cristo afirma não ter vindo revogar a Lei, mas
cumpri-la!

d) Com Cristo, a Lei alcança sua gloriosa plenitude, porque sendo cumprida em Cristo,
demonstra sua santidade, sua veracidade de pedagogo: o que o Antigo Testamento
prometera realizou-se em Cristo Jesus uma vez por todas! A Lei estará garantida para
sempre no seu cumprimento: nem um iota passará sem que tudo tenha sido cumprido
(cf. Mt 5,18), pois Deus é fiel! Tanto que São Paulo mesmo afirma que Jesus Cristo é o
“Sim” e o “Amém” do Pai (cf. 2Cor 1,19-22), pois tudo quanto o Senhor Deus
prometera e anunciara na Lei, cumpriu-se em Jesus, nosso Senhor!

e) Com Cristo, a Lei foi consagrada para sempre e jamais passará no seu objetivo: o
que ela preanunciara, prometera e preparara realizou-se para sempre no Cristo, agora
imolado e ressuscitado para sempre à Direita do Pai! Assim, o Senhor Jesus Cristo não
aboliu a Lei, mas cumprindo-a, validou-a para sempre, por toda a eternidade!

f) Jesus, nosso Senhor, sempre submeteu-Se a Lei (cf. Lc 2,22; Gl 4,4), era um judeu
observante e praticante. Basta ver como, costumeiramente, ia aos sábados à sinagoga
(cf. Lc 4,16), peregrinava a Jerusalém para as grandes festas judaicas (cf. Jo
2,13;5,1;7,2.14) e tinha respeito pelo Templo (cf. Jo 2,13-17). Além do mais, sempre
recomendou aos judeus Seus contemporâneos que cumprissem a Lei (cf. Mc 10,17-19).
Esta obediência à Lei de Moisés fazia parte do mistério da nossa salvação, pois o
Senhor Se esvaziou de Si próprio, tomando a condição se Servo e fazendo-Se
obediente e pobre. Leia Fl 2,5-8; 2Cor 8,5.

g) Jesus, nosso Senhor, rejeitava a importância e a centralidade que os fariseus davam


à Lei oral (cf. Mc 7,1-8), bem como a absolutização dos preceitos da Lei sem que a
prática brotasse do seu espírito, é que o amor a Deus e ao próximo (cf. Mc 12,28-34).
Aqui já se percebem as raízes dos embates que São Paulo terá com os cristãos
judaizantes, como aparecem na Epístola aos Gálatas!

h) Pela consciência profunda que Nosso Senhor tinha de ser o próprio Filho do Deus
Santo de Israel, Ele sabia que estava acima da Lei e dar-lhe-ia a interpretação plena e
definitiva (cf. Mt 5,21-48). É impressionante quando Ele diz repetidamente: “Ouvistes
o que foi dito... Eu porém vos digo!” Ninguém em Israel, absolutamente, jamais teria
esta ousadia! Somente Deus poderia aperfeiçoar a Lei de Moisés, Lei do próprio Deus!
Por isso mesmo a pergunta dos judeus incrédulos de todos os tempos a Jesus: “Quem
pretendes ser?” (Jo 8,53)

i) Por outro lado, como São Paulo, o Senhor nosso deixou claro aos judeus que eles
deveriam crer Nele, se desejassem, de verdade cumprir as obras da Lei de Moisés! As
muitas obras e práticas da Lei, agora, transformam-se numa obra só: “A obra de Deus
é que creiais Naquele que Ele enviou!” (Jo 6,29) Além do mais, Jesus Cristo exortou os
judeus a serem verdadeiros filhos de Abraão, crendo na Promessa e no Prometido,
Descendente de Abraão: “Se fôsseis filhos de Abraão, praticaríeis as obras de
Abraão”. Qual foi a obra de Abraão? Abraão creu (cf. Gn 15,6). Ao invés, os judeus
procuravam matar o Prometido: “Vós, porém, procurais matar-Me, a Mim, que vos
falei a verdade que ouvi de Deus. Isto Abraão não o fez! Vós fazeis as obras do vosso
pai!” (Jo 8,39-41a). Compreendamos bem o sentido: Abraão creu e é pai de quem crê
em Cristo-Isaac, realização da Promessa na qual Abraão creu (cf. Gn 15,5s); quem
deseja matar Jesus nosso Senhor é filho de outro pai: “Vós sois do Diabo, vosso pai, e
quereis realizar os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio e não
permaneceu na verdade... Não credes em Mim!” (Jo 8,44.45)Assim, com palavras
diferentes, o Senhor Jesus ensinara e proclamara o mesmo que Seu discípulo fiel,
Paulo Apóstolo, gritou aos ouvidos dos gálatas!

3. Paremos por aqui. Na próxima meditação, farei ainda algumas considerações sobre
este texto e passaremos ao segundo: Mt 9,14-17.
4. Agora reze o Sl 104/105, cantando a fidelidade de Deus a Israel. Tudo isto
preparando o cumprimento da Promessa em Cristo!
Infelizmente, Israel foi como uma vinha infiel. Leia Is 5,1-7.
Reze o Sl 79/80: observe que a vinha é Israel; o “Homem da Tua direita, o Filho de
Adão” do v. 18 é o Messias prometido, no qual a vinda de Israel deveria ter acreditado
em peso!
QUINTA-FEIRA, 28 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XIX - quinta-feira da III semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,147-152


Continuando o que vimos na meditação anterior, leia Mt 5,20.

1. Prossigamos agora o que iniciamos na meditação anterior: o modo como o Senhor


Jesus Cristo considerou a Lei de Moisés, a santa Torá dos judeus. Ainda no contexto de
Mt 5,17-48, tomemos o importante v. 20: “Eu vos asseguro que se a vossa justiça não
ultrapassar a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus”. Que significam
tais palavras?

2. Aqui, “justiça” refere-se à prática religiosa, ao modo como viver a relação com Deus,
em outras palavras, à prática da Lei de Moisés. O justo é aquele que vive debaixo da
Torá, aquele que pratica os preceitos da Lei. Basta ver o belíssimo Sl 118/119 que
rezamos no início de cada meditação... Veja, por exemplo os vv. 1-8.

3. A quem Jesus está dirigindo estas palavras? Veja Mt 5,1s: Ele está falando não “aos
judeus”, mas aos “Seus discípulos”! Então, na concepção de nosso Senhor, existe uma
justiça dos escribas e fariseus, isto é, um modo de viver a relação com Deus, um modo
de interpretar a Lei de Moisés e seu papel, próprio daquilo que se tornou o judaísmo
rabínico, e existe um modo de viver a religião, a relação com Deus, um modo de
interpretar a Lei e seu papel, que é próprio dos discípulos de Cristo! E o cristão não é
cristão e não entrará no Reino que Jesus viera inaugurar (cf. Mt 4,23) se não passar da
justiça dos escribas e dos fariseus para a justiça de Cristo, que é a justiça do Reino!
Leia Mt 6,33. Foi isto que São Paulo fez na vida dele: de judeu, fariseu observante,
perdeu tudo e abraçou a fé no Cristo, Descendente de Abraão para receber a bênção
prometida (cf. Gn 15,5s. 12,3).
4. A justiça dos escribas e fariseus é baseada na centralidade absoluta da Lei e na
prática minuciosa dos seus preceitos. A Lei é vista como uma realidade absoluta, a
medida e o fim de tudo. Em situações mais radicais, pode-se mesmo chegar a uma
falta de amor e de misericórdia em nome da Lei, desfigurando a própria Lei, numa
triste hipocrisia.
Leia, por exemplo, Jo 8,1-9 e Mt 23,1-36. É importante meditar seriamente sobre estes
textos! Ainda agora, no cristianismo, uma visão de Cristo e da religião sem a fidelidade
ao Espírito Santo de Cristo, conduz a uma visão dura, exterior e hipócrita da prática
religiosa... Assim, cai-se novamente na justiça dos escribas e dos fariseus!
Aqui, faça uma pausa para um sério exame de consciência! Pode ser que sejamos
cristãos na profissão de fé, na doutrina e escribas e fariseus na prática religiosa!

5. A justiça dos cristãos é baseada não na Lei de Moisés, mas na Pessoa adorável de
Jesus Cristo nosso Senhor: “Vinde a Mim! Aprendei de Mim! Tomai sobre vós o Meu
jugo! O Meu jugo é suave; o Meu fardo é leve!” (Mt 11,28s) O Senhor supera o fardo
dos escribas e dos fariseus e dele liberta com um fardo baseado no amor Dele, no
amor a Ele e, Nele e por Ele, no amor ao Senhor Deus e ao próximo! Assim, Ele não
extingue a Lei, mas a plenifica e a supera.

6. Como o Senhor faz isto? Dando uma nova Lei que interioriza e radicaliza a Lei de
Moisés! Que Lei bendita é esta? Lembre da Festa da Lei para os judeus: era a Festa de
Pentecostes. Foi nesta Festa, depois da Páscoa do ano 30, que Jesus nosso Senhor,
derramou sobre os Seus discípulos o princípio da Nova Lei, da Nova e Eterna Aliança,
como os profetas anunciaram! Esta Lei é o próprio Espírito Santo de Amor.
Leia atentamente Rm 8,1-17:

a) Observe, no v. 2, como São Paulo fala na “Lei do Espírito”: é não mais a Lei de
Moisés, mas a Lei do Espírito de Amor, derramado nos nossos corações (cf. Rm 5,5),
que nos faz ter os sentimentos e atitudes de Cristo Jesus (cf. Fl 2,5; 1Pd 2,21-25).

b) Veja, no v. 3, como o Apóstolo explica que a Lei de Moisés fora enfraquecida pela
fraqueza ( = carne) humana, incapaz de cumpri-la integralmente (cf. Gl 3,21s).

c) Releia o texto indicado de Rm 8,1-17 e veja o que significa viver no Espírito de Cristo,
na Nova Lei, plenitude da Antiga Lei!
7. Paremos aqui. Agora, só nos resta admirar e louvar a Deus por Seu imenso desígnio
de salvação. Reze o Salmo 66/67, que canta a alegria dos que sentem a fecundidade da
obra de Deus! Que a chuva fininha e discreta da água, que é o Espírito, faça dar frutos
a terra do nosso coração!
EXTA-FEIRA, 29 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XX - sexta-feira da III semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,161-168


Leia, agora, Mt 9,14-17

1. Este é o segundo dos dois textos do Evangelho com os quais eu quis ilustrar o
quanto a visão de São Paulo sobre a Lei de Moisés e seu significado coincide com a
própria visão do Senhor Jesus Cristo. O Santo Apóstolo nada mais fez que explicitar e
aplicar na sua pregação, no seu Evangelho (cf. Gl 1,6.8s), o que o Senhor nosso já havia
dito em germe, como fundamento do que deveria ser o comportamento dos Seus
discípulos, sejam provindos do judaísmo sejam provindos da gentilidade.

2. Como se pode perceber, nesta perícope há dois temas, aparentemente


independentes, mas que estão interligados:

a) Primeiro, a questão do jejum, prática importante do judaísmo: os discípulos dos


fariseus e de João Batista praticavam jejuns devocionais. O Senhor Jesus e Seus
discípulos não o faziam. Por quê? O Senhor dá uma resposta surpreendente: Ele Se
considera o Deus-Esposo de Israel. Enquanto Ele estiver presente no mundo, nos dias
de Sua missão, estão se cumprindo as Escrituras que falavam do matrimônio entre
Deus e o Seu Povo Israel: Jesus mesmo é o Deus-Esposo que veio desposar o Israel
(Igreja)-Esposa (cf. Os 2,4-25; Is 54,6-8; Jr 2,2; 31,3; Ez 16,1-43; Jo 2,1-10; 3,28-30; Ef
5,25-32). Ora, os discípulos são as testemunhas, os convidados para a festa de
casamento, são “amigos do Esposo”. Assim, enquanto o Esposo estiver presente,
desposando Sua Esposa, não há lugar para penitência, tristeza e luto, mas somente
para a alegria dos dias do Messias (cf. Is 54,1-10; Sf 3,14-17; Zc 9,9s). Antes, deve jorrar
o vinho da alegria, que é imagem do Espírito Santo derramado na Nova e Eterna
Aliança (cf. Ef 5,18)! Quando Noivo for tirado, dando-Se em sacrifício na Cruz, então,
sim, os discípulos jejuarão. Assim, o Cristo, aqui, estava Se referindo à Nova Aliança
que Ele viera instaurar, substituindo a Antiga.
b) Depois, o Senhor apresenta duas parábolas: não se deve colocar remendo de pano
novo em roupa velha nem vinho novo em odres velhos: o remendo novo repuxaria a
roupa velha e o vinho novo estouraria os odres velhos. O que isto significa?
O pano velho e os odres velhos são a Antiga Aliança, centrada na Lei de Moisés, com
seus preceitos e práticas, como o jejum. O pano novo e o vinho novo são a Nova
Aliança, trazida por Jesus nosso Senhor, Aliança no Vinho novo, que é o Santo Espírito.
O Senhor Jesus está dizendo aqui que não adianta remendar a Antiga Aliança: o
cristianismo não é um puxadinho, um complemento da Antiga Aliança; não cabe nos
parâmetros dos preceitos e práticas do judaísmo, mas é algo totalmente novo. Então,
não adianta querer enquadrar o Novo Testamento no Antigo! Não dá mais: o Antigo foi
definitivamente ultrapassado!

3. Então, o cristianismo radica-se no judaísmo, a Igreja radica-se em Israel, a Nova


Aliança radica-se no Antigo Pacto, a Lei do Espírito que dá Vida radica-se na
prefiguração da Lei de Moisés, mas o que é Novo cumpre e ultrapassa completamente
o Antigo: o Vinho novo do Espírito estoura os limites dos odres velhos dos preceitos e
práticas do Antigo Testamento! O Vinho novo requer uma nova Aliança, não mais
fundada em preceitos, mas no Espírito de Cristo, Espírito de Amor, que faz homens
novos em Cristo Jesus (cf. 2Cor 5,17)! É, isto, precisamente que o Apóstolo desejava
tanto que os gálatas compreendessem para serem fieis à absoluta novidade trazida
pelo Cristo nosso Senhor!

4. Agora leia os seguintes textos:


Is 54,1-17: nos cuidados do Senhor com a Jerusalém restaurada já se pode antever os
carinhos do Cristo-Esposo para com o Israel(Igreja)-esposa.
Is 55,1-13: aqui, aparece de modo belo e evocativo a novidade da Nova Aliança, já
predita pelos profetas.
Reze o Sl 44/45: o Esposo é o Cristo; a Esposa é a Igreja que, deixando o paganismo
que seus filhos abraçavam na gentilidade, entra no palácio real da Nova Aliança,
desposada pelo mais belo dos filhos dos homens.
SÁBADO, 30 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XXI - sábado da III semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,169-176


Retomando o texto da Epístola, releia, agora, Gl 3,23-29
1. Nesta meditação e na próxima, vamos nos deter nos vv. 26-28. São uma
preciosidade, uma fonte de graça, consolo e esperança de salvação!

2. “Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo”. Lembre-se: São Paulo está
escrevendo aos gálatas. Eles eram gentios, “pagãos”, diríamos nós; não conheciam o
Deus verdadeiro, nunca haviam escutado falar de Abraão, de Moisés, dos profetas,
provavelmente, nem sequer sabiam que existia, distante, um povo chamado Israel...
Viviam entregues à idolatria, presos na própria lógica humana, enredados na gaiola
estreita da própria razão humana entregue a si própria, escravos dos próprios desejos
e paixões.
Leia, rezando, dois textos que mostram o que é o homem por si próprio, sem conhecer
a Cristo e o que ele pode se tornar em Cristo. Leia com atenção, vendo o que somos
por nós mesmos e a que somos chamados!

a) Primeiro texto: Ef 2,1-22. Veja que graça: de perdidos, mesmo os pagãos, os gentios,
são agora, pela fé em Cristo, o Prometido de Deus (cf. Gn 12,3; 15,5s), trazidos para
perto do Senhor, são da família de Deus! Contemple, adore, agradeça! Quantos, neste
mundo infiel e apóstata, não têm a graça e a alegria de crer! Você tem essa graça... O
que tem feito com a sua fé?

b) Agora, com o mesmo espírito de oração, com o coração aberto, leia o segundo
texto: Ef 4,17-20. É outra perícope preciosa, comovente mesmo! Mostra-nos, como a
anterior, a lama, o charco, o vazio, a miséria, o potencial de desespero do qual Cristo
nos arrancou! Leia! Deixe que estas palavras penetrem o seu coração! Confronte-as,
diante de Deus, com a sua vida! Faça uma revisão de vida, um exame sério de
consciência!

c) Isto, os gálatas eram, antes de ouvirem a pregação de São Paulo! Isto, nós somos
sem Cristo, longe do Salvador! Isto, o mundo é e será sempre: é só frequentar a
maioria dos seus amigos e colegas, a televisão, a maioria dos sites da internet, o
shopping center, e você verá o vazio, a superficialidade e fugacidade da existência
humana sem Cristo... Agradeça ao Senhor Jesus Cristo, que Se tornou seu Caminho,
sua Verdade, sua Vida!

3. A homens que viviam numa situação de idolatria, paixões, cegueira e escravidão, o


Apóstolo, agora, diz: “sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo”! Tendo ouvido a
pregação do Evangelho, o Evangelho de Paulo sobre Jesus Cristo (cf. Gl 1,6-12), tendo
nele acreditado e confessado Jesus como o Cristo Senhor, esses gálatas receberam o
Batismo (cf. Mt 28,19s; Mc 16,15s; Jo 3,5-8) e, assim, foram lavados, purificados,
unidos a Cristo pela ação do Espírito Santo do Senhor Jesus (cf. Tt 3,3-7). Eles, agora,
são filhos no Filho Jesus, são filhos de Deus segundo a Graça, isto é, segundo o Espírito
Santo; agora são ainda mais que o antigo Israel segundo a carne (cf. Rm 8,14-17)! Esta
é a grande graça que o Cristo nos trouxe: a filiação adotiva no Seu Espírito de Filho!

4. Atenção: este é o único modo de alguém se tornar filho de Deus: a fé em Cristo


seguida do Batismo, recebendo o Santo Espírito! Não há outro caminho! Toda a
criação e todos nós somos criaturas amadas pelo Pai, todos nós e toda a criação somos
amados filialmente pelo Pai através do Filho no Espírito; podemos até, chamar a Deus
de pai, no sentido de que Ele cria, providencia, cuida, ama, protege... Podemos
afirmar, portanto, que há uma filialidade natural da criação em relação a Deus. Mas, a
adoção filial, a plenitude da filiação, de uma qualidade diversa e de uma plenitude
inaudita, somente pelo Batismo no Espírito de Cristo pode ser alcançada. Leia
atentamente Rm 6,3-14. O Batismo, sacramento da fé em Cristo, é a grande porta da
salvação, pois nos dá o Espírito do Senhor Jesus Cristo imolado e ressuscitado, que nos
faz verdadeiramente filhos do Pai. Por isso mesmo, após a Ressurreição Jesus no indica
o quanto agora entramos na relação de filhos com o Seu Deus e Pai (cf. Jo 20,17).
Somos verdadeiramente filhos no Filho (cf. Jo 1,12; 1Jo 3,1; 5,1). O Batismo é
absolutamente indispensável para que alguém receba a filiação adotiva em Cristo!

5. Pense bem: a grande graça do cristão é ser verdadeiramente filho de Deus. E isto
não é somente um dizer, um sentimento, um afeto! Pelo Batismo, o Espírito do Filho
imolado e ressuscitado vem realmente habitar em nós e vai nos filializando mais e
mais, num processo sempre crescente até a Vida eterna, quando seremos como o Filho
é: totalmente glorificados Nele para a glória do Pai (cf. 1Jo 3,1s)! E tudo isto começa no
nosso Batismo.
Procure responder: Qual a data do seu Batismo? Como você celebra, anualmente, este
acontecimento capital, central mesmo para a sua existência neste mundo e na
Eternidade? Vai à Missa nesse dia? Lembre: “fomos todos batizados num só Espírito
para formarmos um só corpo” na Eucaristia (cf. 1Cor 12,13). Você procura viver a Vida
nova em Cristo, própria de um batizado? Você vive, realmente, como cristão?

6. Leia 1Pd 2,1-10: Em Cristo, renascemos! No Batismo, fomos feitos crianças recém-
nascidas...
Reze, agradecido, o Sl 130/131; 144/145. Nunca esqueça: Deus é Bom! Em Cristo, no
Espírito, Ele nos fez verdadeiramente Seus filhos. Leia mais uma vez Rm 8,17.
DOMINGO, 31 DE MARÇO DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XXII - segunda-feira da IV semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,1-8


Retornemos à nossa Epístola. Agora, leia Gl 3,23; 4,1-7

1. Agora, uma outra ilustração de como a Lei é provisória e não dá a Vida. Partindo da
ideia de que a Lei de Moisés tutelou o Povo de Israel até que, em Cristo, viesse o
cumprimento da Promessa, o Apóstolo, agora utiliza outra imagem, comum no direito
judaico e romano: o herdeiro menor de idade, que tem a herança, mas dela não pode
fazer uso até a maioridade, ficando sob um tutor. Este herdeiro era Israel e o tutor era
a Lei. Releia atentamente Gl 4,1-3.

2. Sugiro, aqui, que alarguemos o pensamento da Epístola. Então, quem é este


herdeiro? Certamente, o Povo de Israel, a quem foram feitas primeiramente as
promessas do Senhor (cf. Rm 9,4). Todo o Antigo Testamento era tempo de
preparação, de espera, de levar a “criança”, o herdeiro menor de idade até o Mestre, o
Prometido, Cristo (cf. Lc 16,16; 1Cor 10,1-11; Hb 1,1s). Assim, a Lei de Moisés, santa,
necessária e útil, preparava e conduzia os judeus para Cristo. Mas, agora, chegado o
Senhor Jesus Cristo, os judeus deviam dar o passo de crer e acolher o Prometido,
reinterpretando Nele, através Dele e em relação a Ele toda a história de Israel e todas
as Sagradas Escrituras e as observâncias de Lei de Moisés, que eram apenas figura do
que deveria vir (cf. Jo 5,39; 6,29; Rm 9,4).

3. Mas, esse menor de idade são também os pagãos. Basta pensar no que o Apóstolo
dirá no v. 8, referindo-se aos gálatas, vindos da gentilidade. Para eles também existia a
Promessa, mesmo sem eles saberem. É só reler Gn 12,3! Mas, sem conhecerem o
verdadeiro Deus, viviam debaixo da idolatria, sem verdadeira esperança, debaixo da lei
do pecado, das paixões e dos elementos deste mundo, verdadeiros “filhos da ira” de
Deus (cf. Ef 2,1-3)! Assim, judeus e gentios, “nós”, judeus (v. 3) e “vós”, gentios (v.
8),toda a humanidade era “menor”, era tutelada, à espera do Prometido, do
Descendente, do cumprimento da Promessa do Senhor Deus. Certamente, os judeus
eram conscientes da Promessa; tinham o conhecimento do Deus verdadeiro (cf. Jo
4,22-24), tinham esperança no Senhor e, por isso, eram superiores sim aos gentios
diante de Deus! Israel será sempre o primogênito de Deus (cf. Ex 4,22; Dt 7,6; Am 3,2;
Os 11,1; Rm 11,28). Mas, agora, diante de Cristo, “não há judeu nem grego, escravo
nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl
3,28).
É este pensamento amplo e ousado que está presente nos vv. 1-3 deste capítulo 4.
4. O próximo versículo, o 4, começa com uma adversativa: “Mas, porém...”É a marca
de uma virada, de uma verdadeira revolução, de uma mudança de tempo, de
época: “Porém, quando chegou a plenitude do tempo...” Agora, sim, no plano de Deus,
vai se passar da promessa para o cumprimento, da figura para a realidade, da profecia
para a realização, do tempo de Lei para o tempo da graça no Espírito Santo, tal como
os profetas de Israel haviam prometido! Releia atentamente o v. 4.

a) A plenitude do tempo: o tempo previsto na providência divina. O Senhor Deus tem


um plano de salvação, uma economia da salvação, isto é, uma sequência organizada e
desenvolvida na história, no tempo, segundo Sua sabedoria e providência. A plenitude
do começa com Jesus, nossos Senhor. Leia Mc 1,14s. O próprio Senhor Jesus Cristo
sabia que esta plenitude chegara com Ele!

b) O Filho amado vem da parte do Pai, que o envia. Esse Pai é o Deus santo de Israel.
Não, portanto, oposição entre a Lei que preparou e conduziu para Jesus Cristo e a
Promessa, que é cumprida em Nosso Senhor e marca a realização e plenitude da Lei!
Aliás, o judeu que desejasse realmente cumprir a Lei radicalmente e no seu espírito,
deveria, necessariamente, reconhecer e acolher Jesus pela fé!
Outro aspecto importantíssimo: a iniciativa radical da salvação promana do Pai: “Deus
amou tanto o mundo, que entregou o Seu Filho único, para que todo o que Nele crê
não pereça, mas tenha a Vida eterna” (Jo 3,16). Esta salvação nos vem através do Filho
na potência do Santo Espírito.

c) “Nascido de mulher”. Esta é a primeira referência do Novo Testamento à Virgem


Maria! A Epístola aos Gálatas é mais antiga que os quatro evangelhos. O primeiro a ser
escrito foi o de São Marcos, pelo ano 64. Esta Mulher, aqui, é a Virgem (cf. Jo 2,4;
19,26; Ap 12,1). Observe que não haveria necessidade de dizer que o Filho nasceu de
mulher. Ao dizer, o Apóstolo pensa na Virgem Santíssima. Ela é a Nova Eva (cf. Gn
3,15), que tem um papel primordial no desígnio salvífico de Deus! É muito importante
compreender que nestes versículos que estamos meditando, o Apóstolo resume
admiravelmente o núcleo da história da salvação e, precisamente aí, coloca a
Mulher! Cante, com a Mulher, com a Virgem Maria, a salvação de Deus: Lc 1,46-55.

 d) “Nascido sob a Lei”. Nascido de mulher pelas leis da natureza, o Cristo é também


nascido debaixo da Lei de Moisés como judeu, descendência de Abraão! Assim, Ele,
morrendo e ressuscitando, resgataria a todos, seja da lei da natureza decaída pelo
pecado (cf. Rm 7,14-25), seja da Lei de Moisés com seu fardo pesado de preceitos e
observâncias (cf. 23,4).
5. Por agora, paramos aqui. Ante o que estamos expondo, escute o Senhor. Leia e reze
Mt 11,28-30. Acolha no seu coração o convite do Senhor. Repouse no Coração de
Cristo. Reze a ladainha do Coração de Jesus!
Reze também o Sl 102/103

SEGUNDA-FEIRA, 1 DE ABRIL DE 2019


Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XXIII - terça-feira da IV semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,9-16


Retornemos ao texto que estávamos meditando. Leia Gl 4,1-7

1. “Enviou Deus o Seu Filho!” A bendita Vinda do Filho de Deus entre nós, pelo mistério
da Encarnação, é a chegada da plenitude dos tempos! Deus sempre procurara os
homens, pois nos criou para Ele, Dele sedentos (cf. Sl 62/63). O Senhor Deus veio ao
nosso encontro já quando nos criou, dando-nos sede Dele, depois, falando ao Povo de
Israel, preparando tudo para a plenitude dos tempos, quando Ele mesmo viria,
pessoalmente, no Filho Jesus Cristo.
Leia Hb 1,1s e Mt 21, 33-44: nos dois textos aparece como a vinda do Cristo é de uma
qualidade e de uma importância totalmente diferente do que Deus fizera antes: agora
é o próprio Filho, um com o Pai (cf. Jo 10,30)!
O desenvolvimento do plano da salvação no tempo é o que chamamos de economia da
salvação e ela chega à sua plenitude com a Vinda de Nosso Senhor, como chegará à
sua consumação no Dia de Cristo, no Dia Final, da Glória eterna.

2. São Paulo deseja mostrar aos gálatas que a vinda do Senhor a este mundo inaugura
um tempo novo, um novo e definitivo estágio na economia da salvação: Deus enviou o
próprio Filho! Ele, o Prometido, Ele mesmo, “que é, acima de tudo, Deus bendito pelos
séculos” (Rm 9,5), veio debaixo da Lei, como vimos na meditação passada,
para “resgatar os que estavam sob a Lei” (v. 5), isto é, tanto sob o fardo da Lei de
Moisés (os judeus) quanto sob o fardo da lei do pecado (os gentios). Assim, Cristo é o
salvador, o libertador de todos os homens, de todos os fardos! Leia Lc 4,16-22 e releia
o importantíssimo texto de Rm 3,21-27.
3. Como o Senhor nos resgata do fardo da Lei? Cumprindo tudo quanto as Escrituras
de Israel predisseram da parte do Senhor Deus (cf. Lc 24,25-27; 2Cor 1,18-20; Ap 3,14):
o Filho eterno do Pai, verdadeiro Deus com o Pai e como o Pai, verdadeiramente feito
homem, como homem tomou nossos pecados e, num ato de total obediência ao Pai,
como Isaac (cf. Gn 22,1-2.9-10; Rm 8,32), entregou-Se em sacrifício de amor ao Pai
pelos nossos pecados (cf. Jo 14,31; Gl 2,20), em nosso nome, rasgando “o documento”
que nos acusava (cf. Cl 2,14). Crendo em Cristo e Nele sendo batizados, morremos com
Ele e estamos livres dos preceitos da Lei de Moisés e da tirania da lei do pecado e da
morte, já que, aqueles que morrem ficam livres de quaisquer dívidas ou acusações!
Ainda no Batismo, ressuscitando com Cristo, passamos a viver uma Vida nova, não
mais debaixo do fardo da Lei de Moisés ou da lei do pecado, mas sob o leve e suave
fardo do Espírito do Cristo Jesus, Espírito de amor, que nos faz viver uma Vida nova
que produz frutos novos (cf. Jo 15,1-8; Gl 5,16-24).
Leia atentamente Cl 2,11-14 e Rm 8,1-12. São textos que já foram lidos aqui, mas aos
quais é necessário retornar sempre, descobrindo neles sempre novas perspectivas e
riquezas!

4. Vamos adiante! O Filho foi enviado por Deus, o Pai, nascido de mulher
(verdadeiramente humano), nascido sob a Lei de Moisés (verdadeiramente judeu) – cf.
Lc 3,23.34.38 –, para resgatar a todos “a fim de que recebêssemos a adoção filial” (v.
5)! Eis o motivo da Vinda do Filho: dá a todos a graça de serem tornados
verdadeiramente filhos do Deus e Pai de Jesus Cristo, o verdadeiro Isaac! Atenção, que
esta afirmação é central no cristianismo! Aprofundemo-la um pouco...

a) Por natureza, somos criaturas de Deus, por Ele amados. Como já expus numa
anterior meditação, já que tudo foi criado pelo Pai através do Filho e para o Filho no
Espírito (cf. Jo 1,3; Cl 1,15s; 1Cor 8,6) certamente toda a criação é continuamente
sustentada pelo Espírito do Pai e toda ela tem algo de filial, tem o que poderíamos
chamar de filialidade. Assim sendo, toda a criação é, de certo modo, naturalmente,
filha de Deus, pois Ele é criador, sustentador, provedor, cuidador, protetor... Neste
sentido, todo homem e toda criatura é “filha de Deus” e Deus é pai (com minúscula) de
toda a criação e de toda a humanidade. Mas, não é disto nem é neste sentido que o
Novo Testamento fala em filiação divina; não no sentido de filialidade! Convém notar
ainda que as Escrituras não apreciam muito esta ideia de Deus ser pai da criação para
não dar a entender que Deus Se mistura com o mundo ou que o mundo seja divino,
seja da natureza de Deus.

b) Também é importante ressaltar que a humanidade, criada em filialidade, por causa


do pecado, está debaixo da ruptura com Deus, a ponto de São Paulo afirmar sem
meias palavras: “Vós estáveis mortos em vossos delitos e pecados. Nele vivíeis outrora,
conforme a índole deste mundo, conforme o Príncipe do poder do ar, o espírito que
agora opera nos filhos da desobediência. Com eles, nós também andávamos outrora
nos desejos de nossa carne, satisfazendo as vontades da carne e os seus impulsos, e
éramos por natureza como os demais, filhos da ira” (Ef 2,1-3). Aqui, é necessário ser
sério e fiel à Palavra de Deus: o ser humano, por si só, por natureza, tornou-se “filho da
ira” e não tem a filiação por adoção em Cristo! Esta é e será sempre a nossa fé! A
filiação somente nos é dada pela adesão a Jesus Cristo e o Batismo no Seu Espírito!
Não há outro meio: “Todos pecaram e todos estão privados da Glória de Deus e são
justificados gratuitamente, por Sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo
Jesus” (Rm 3,23s). Por isso mesmo a urgência missionária de proclamar o Nome de
Jesus Cristo, fazendo discípulos Seus em todas as nações (cf. Mt 28,18-20; Mc 16,15;
1Cor 9,16; 1Jo 1,1-4). Esta ordem a Igreja recebeu do Senhor e jamais poderá
transcurá-la sob pena gravíssima de pecado, de infidelidade, de perder sua razão de
ser! A Igreja a ninguém poderá negar ou omitir jamais e sob hipótese alguma o
anúncio do Nome de Jesus como Cristo de Deus e único Salvador da humanidade (cf.
At 4,12)!

c) O Deus Uno e Trino criou o homem para muito mais que uma relação de filialidade.
O destino de todo o ser humano é receber no seu íntimo o Espírito do Filho Jesus
Cristo feito homem, imolado e ressuscitado, tornando-se realmente filho de Deus, por
graça absoluta da salvação obtida pelo Filho, e não só pela própria graça da criação. É
disto que se trata no Novo Testamento quando se fala em adoção filial. Esta adoção é
real, eficaz, fazendo-nos realmente participantes da natureza divina! E isto somente se
obtém pela fé em Jesus Cristo e o Batismo no Seu Espírito de Filho. Leia At 2,37-41;
4,10-12; 15,13-18; 17,22-31; 26,17-18.

d) É importante compreender a palavra adoção como São Paulo a imagina: não como
uma filiação postiça, mas uma filiação real (cf. 1Jo 3,1), que dá ao que foi adotado o
nome daquele que o adotou e todos os direitos legais de herança e demais aspectos de
um filho natural! Somente assim, o homem atinge o fim para o qual fora criado: chegar
à plena comunhão com o Deus Uno e Trino, tornando-se filho do Pai através do Filho
Unigênito, feito Primogênito de muitos irmãos, no Espírito Santo que Ele, imolado e
ressuscitado derramou e derramará sempre sobre os que Nele crerem quando do
Sacramento do Batismo (cf. Ef 1,3-5.13-14; Tt 3,4-7). Por isso mesmo a afirmação
exultante do Apóstolo: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as
coisas antigas; eis que se fez realidade nova. Tudo isto vem de Deus, que nos
reconciliou Consigo por Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação. Pois era Deus
que em Cristo reconciliava o mundo consigo, não imputando aos homens e pondo em
nós a palavra da reconciliação” (2Cor 5,17-19).
5. Como eu já expliquei várias vezes, é no Espírito Santo do Filho que somos tornados
filhos no Filho. Este Espírito é derramado no Batismo (cf. Jo 3,5s; Tt 3,4-7). É o que diz
o santo Apóstolo aos gálatas: “Porque sois filhos– isto é, para que sejais filhos –, enviou
Deus aos nossos corações o Espírito do Seu Filho, que clama: Abbá, Pai!” (v. 6). É o
mesmo pensamento expresso em Rm 8,15-16. Por favor, leia atentamente este texto
antes de seguir adiante!
É impressionante que tanto na Carta aos Gálatas como na Epístola aos Romanos, o
Apóstolo, ao falar da filiação, utilize a palavra aramaica Abbá para referir-se ao Pai de
Jesus Cristo. Ora, Abbá era o mesmíssimo modo com que o Senhor Jesus, nos dias de
Sua vida entre nós, referia-Se ao Seu Pai do Céu (cf. Mc 14,36). O significado é
profundo: batizado no Santo Espírito de Cristo, o discípulo entra realmente na relação
filial que Jesus Cristo nosso Senhor tem com o Seu Pai. A filiação divina que somente o
Senhor Jesus Cristo tem por natureza, nós temos verdadeiramente por graça. Por isso,
após a Ressurreição, o Senhor nos chama de irmãos (cf. Mt 28,10; Jo 20,17) e, de
Unigênito do Pai (cf. Jo 1,14.18; 3,16.18; 1Jo 4,9), torna-Se “o Primogênito de muitos
irmãos” (Rm 8,29s)!

6. Finalmente, a bela, emocionante, consoladora e intensa conclusão: “De modo que já


não és escravo, mas filho. E se és filho, és também herdeiro, graças a Deus!” (v.
7) Aquele que crê em Jesus como o Cristo de Deus recebe o Batismo no Espírito do
Filho e deixa de estar sob a Lei de Moisés e sob a lei do pecado (cf. Rm 8,2)! Agora, já
não é escravo e, tendo recebido a adoção filial é tornado, realmente, filho no Filho (cf.
Rm 8,14s)! Sendo Filho, está livre das observâncias da Lei de Moisés e de ser escravo
das paixões pecaminosas dos pagãos, que não conhecem a Deus (cf. Cl 3,5-11)! Sendo
Filho é herdeiro com Cristo, herdeiro da Vida divina, herdeiro da plenitude do Reino de
Deus, herdeiro do Céu! É isto! O que poderia o homem esperar mais que isto: ter a
Vida mesma de Deus em plenitude e por toda a eternidade? (cf. Rm 6,20-23; 8,11; Ef
2,5-10) E tudo isto por pura graça de Deus e não em virtude das observâncias legais os
preceitos da Lei de Moisés!

7. Basta, por agora! Procure reler e meditar e rezar... Se desejar, reze o Sl 137/138.
TERÇA-FEIRA, 2 DE ABRIL DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XXIV - quarta-feira da IV semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,17-24


Leia Gl 4,8-11
1. Neste ponto, o Apóstolo volta a interpelar diretamente os gálatas: quando eles eram
ainda pagãos, não conheciam o Deus verdadeiro, o Deus de Israel, o Deus e Pai de
nosso Senhor Jesus Cristo; serviam aos ídolos, a falsos deuses, frutos da saudade que o
homem tem do Infinito, mas também das paixões enganos humanos (cf. Rm 1,18-25).
Isto vale plenamente ainda hoje para os pagãos dos nossos dias: não conhecem a
Deus, vivem na ilusão de ideologias e paixões e, mesmo os que têm boa vontade, caem
nas armadilhas de uma racionalidade presa nas suas próprias medidas. Os pagãos
todos são homens carnais ou, na melhor das hipóteses, homens psíquicos. Somente
em Cristo, sendo batizados e se deixando guiar pelo Espírito de Cristo, tornam-se
homens espirituados ou espirituais (cf. 1Cor 2,12-15; Gl 5,16-21)! É triste, mas aqueles
que não servem ao Deus verdadeiro, servem à mentira e à ilusão! Que fique bem claro:
o respeito profundo que devemos a todas as pessoas e às suas convicções religiosas,
filosóficas e de consciência não devem obscurecer em nós a clareza da verdade e da
unicidade do Deus vivo e verdadeiro, revelado por Jesus nosso Senhor na força do Seu
Espírito (cf. 1Cor 8,5s)!

2. No v. 9, São Paulo coloca um “mas agora”...Os gálatas conheceram o Cristo pelo


Evangelho de Paulo; converteram-se ao Senhor; tudo mudou: “Todo aquele que está
em Cristo é uma nova criatura!” (2Cor 5,17) Em Cristo, os gálatas conheceram o Deus
verdadeiro (cf. Jo 4,22; 1Ts 1,9); mais ainda: foram conhecidos por Ele! Em outras
palavras: antes mesmo que eles acolhessem a pregação, Deus os procurou. Leia Jo
6,44-47; 12,31s... Aparece aqui, de modo belo a gratuidade do Senhor que vem a nós
por pura iniciativa de graça e nos atrai a Si (cf. Ef 2,1-10).
Pense um pouco: se cremos, é por graça de Deus; Ele nos atraiu a Si, Ele nos concedeu
o maravilhoso dom da fé! Reze, agradeça, peça ao Senhor que sustente e aumente a
sua fé. Reze o Sl 118/119,169-176... Reze também o Sl 138/139.

3. “Como é possível voltardes novamente a esses fracos e miseráveis elementos aos


quais vos quereis escravizar outra vez? Observais cuidadosamente dias, meses,
estações, anos!” (vv. 9b-10). São Paulo se escandaliza com os gálatas! Eles nem judeus
eram – nunca o foram! Como, então, depois de terem conhecido a Cristo, depois de
terem recebido o Espírito de Cristo no Batismo, depois de terem experimentado a
força e os dons do Espírito, como podem agarrar-se à Lei de Moisés (cf. Gl 3,3-5)?
Como podem, depois de experimentarem o Espírito do Cristo colocarem-se debaixo de
uma Lei dada por anjos, como já vimos anteriormente na meditação XV, tópico 3 (cf. Gl
3,19-21)? Como podem dar valor às observâncias judaicas: guardar o sábado, o Dia da
Expiação, as luas novas mensais, as festas judaicas, a distinção entre alimentos puros e
impuros, as proibições da Lei de Moisés? Tudo isto passou! Leia atentamente Cl 2,16-
23.
Atenção: no cristianismo, existem sim práticas de piedade, mas nada é absoluto em si:
tudo somente tem valor se remeter a Cristo e a salvação por Ele trazida! O cristão está
totalmente livre das práticas de Lei de Moisés. É um lamentável engano e um sinal de
supina ignorância a volta ao Antigo Testamento e a certas práticas que vemos em
tantas seitas pentecostais. E se vangloriam disto gritando: “É bíblico! É bíblico!” Não! É
somente volta a práticas totalmente superadas em Cristo Jesus! Como já afirmei tantas
vezes, o Antigo Testamento somente pode ser compreendido no seu valor e no seu
limite se for lido e interpretado à luz do Cristo!

4. Por fim, o Apóstolo desabafa: “Receio ter-me afadigado em vão por vós!” (v. 11) É o
grito amoroso de um pai na fé que sofre por ver seus filhos em Cristo se desviarem por
doutrinas erradas e enganosas, por novidades que não condizem com a pregação
apostólica (cf. 2Tm 4,1-4). Quanto disto nós vemos hoje em dia: séculos depois de
pregação apostólica ininterrupta, as interpretações arbitrárias, rasas e
fundamentalistas das Escrituras levando tantos insensatos a erros grosseiros... Deixam
de lado a fé apostólica, o ensinamento dos Santos Padres da Igreja dos primeiros
séculos, a segura e firme doutrina espiritual dos grandes místicos cristãos de todos os
séculos, o magistério constante da Igreja, tudo isto selado pelo sangue de tantos
mártires, para irem atrás de qualquer pregador de qualquer doutrina exótica,
agarrados à letra da Escritura e perdendo de vista o Espírito de Cristo que a inspirou a
guia a Igreja na sua interpretação! Como vale aqui aquela palavra da própria
Escritura: “Foi Ele quem nos tornou aptos para sermos ministros de uma Aliança nova,
não da letra, mas sim do Espírito, pois a letra mata, mas o Espírito comunica a Vida”
(1Cor 3,6).

5. Reze o texto de Is 49,1-4. Este texto refere-se primeiramente ao Servo Sofredor, que
é o Cristo; mas, pode ser aplicado a todos os que, unidos ao Cristo, servem ao Reino de
Deus. Os vv. 1-4 exprimem bem o trabalho e desilusões do Apóstolo São Paulo.
Pensando nos pagãos, que seguem sua própria medida de racionalidade, medite e reze
Sb 9,13-18.

QUINTA-FEIRA, 4 DE ABRIL DE 2019


Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XXV - quinta-feira da IV semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,25-32


Leia Gl 4,12-20
1. Esta perícope tem um sabor bem afetivo, marcado por recordações pessoais: o
Apóstolo tenta reconquistar os gálatas para o Evangelho genuíno. No v. 12, ele afirma
que se tornou como os gálatas, que eram gentios e não tinham a Lei de Moisés: São
Paulo, judeu, fariseu estudado e zeloso da Lei e das tradições judaicas, deixou tudo,
tudo considerou perda por causa de Cristo. Agora ele vive sem a Lei de Moisés, livre
das observâncias minuciosas que sempre praticara quando vivia como fariseu. É difícil,
para nós imaginar isto, mas Cristo foi, realmente, uma revolução na vida do Apóstolo.
Por causa do Senhor, ele mudou totalmente seu modo de viver, colocando-se, agora,
totalmente a serviço do Evangelho. Não deixa de ser comovente o testemunho do
Apóstolo!
Leia o comovente e apaixonado texto de Fl 3,2-16. Como Cristo transformou Paulo,
como a adesão a Cristo o colocou em crise! Como o Apóstolo correspondeu de modo
generoso e total à graça que recebeu! E você? O que mudou por Cristo? O que
perdeu? O que está disposto a mudar? Não se pode ser cristão sem mudar de vida por
cristo! Não se pode dizer que ama a Cristo sem perder nada por Ele? Você O ama?
Mesmo?!
Veja também 1Cor 9,19-23. Procure refletir sobre este dom que São Paulo recebeu: a
capacidade de sair de si, de fazer-se tudo para todos por causa de Cristo!

2. Paulo, de modo emotivo, quase que implorando, convida os gálatas a deixarem para
trás o apego à letra da Lei de Moisés, como ele próprio deixara: “Que vos torneis como
eu, pois eu também me tornei como vós!” (v. 12). O Apóstolo não mais procurou
segurança na observância da Lei de Moisés, no fato de ser judeu ou fariseu, mas
somente em Cristo! Caminhar com Cristo é apoiar-se somente Nele, somente Nele
procurando a segurança e Dele somente fazendo o tesouro de sua própria vida. Leia
Rm 10,1-13.

3. Uma outra realidade admirável aqui é o coração de pastor que São Paulo tem: como
sabe sair de si pelo bem do rebanho, como sabe esquecer-se dos seus interesses e
comodidades para ganhar o rebanho para o Cristo continuamente. Não é o rebanho
que o serve, mas ele que serve o rebanho, como o Senhor! Leia Mt 20,24-28; Jo 13,1-
17; 2Cor 12,14b-15.
Os gálatas foram ingratos e cruéis com Paulo e, no entanto, o santo Apóstolo não leva
as coisas para o lado pessoal, para uma questão de honra: “Em nada vós me
ofendestes!” (v. 12b). Ele não está sentido porque fora traído pelos gálatas, que
esqueceram do que ele lhes ensinara, desconfiaram da verdade da sua pregação e
rapidinho se bandearam para outros mestres que chegaram ensinando doutrinas
contrárias a de Paulo e desfazendo do trabalho do Apóstolo... A questão, para o
Apóstolo, não é pessoal; trata-se, antes de mais nada, da integridade do Evangelho de
Cristo e do bem espiritual dos gálatas!
4. Nos vv. 13-15, Paulo recorda as vezes em que esteve na Galácia, como fora bem
recebido na primeira vez que lá estivera, apesar da situação difícil e talvez repugnante
em que se encontrava, causada por uma doença. Os gálatas receberam-no bem, como
a um anjo de Deus; fizeram o possível e o impossível por ele. Entre o Apóstolo e os fieis
gálatas nascera o belo afeto que devia haver entre o pastor e o rebanho. E agora, de
repente, suas ovelhas, seus gálatas, dão-lhe as coisas e vão atrás de mestres estranhos,
que não queriam outra coisa que o prestígio de ter a quem manipular, de ter plateia!
Paulo sofre!
Pense um pouco: na Igreja, quantas vezes experimentamos crises de relacionamento,
ingratidões, injustiças... Recorde as decepções que você já teve com a Igreja e na
Igreja... E, no entanto, o amor de Cristo fez Paulo permanecer e deverá também fazer
você permanecer! É por causa de Cristo, é em Cristo, é com Cristo!“Senhor, a quem
iremos? Só Tu tens palavras de Vida eterna!” (Jo 6,68)

5. Agora, a exclamação que é uma belíssima explosão de afeto do coração de um


verdadeiro pastor: “Meus filhos, por quem sofro de novo as dores do parto até que
Cristo seja formado em vós” (v. 19) Eis aqui: ser verdadeiramente pastor, condutor fiel
do rebanho de Cristo e “administrador dos mistérios de Cristo” (1Cor 4,1) tem um
custo alto! O verdadeiro pastor não é frio, distante; não é um mercenário que não se
incomoda pelas ovelhas! Ele tem entranhas de misericórdia, ele, conhece as ovelhas,
sofre por elas, com elas se envolve porque são de Cristo, o Bom Pastor, e, como Ele,
tudo quanto o pastor fiel deseja é poder dizer: “Não perdi nenhum dos que me deste!”
(Jo 18,9)
Reze pelos pastores da Igreja! Reze! Que, nestes tempos tão difíceis, eles sejam fieis a
Cristo, fieis ao rebanho, fieis no ensino da verdadeira e perene doutrina católica,
capazes de apascentar guiados pelo Evangelho e não por ideologias mundanas nem
pelos próprios interesses! Que o Senhor dê à Sua Igreja pastores que não
escandalizem, não dividam, não se coloquem acima do rebanho ou, pior ainda, contra
o rebanho! Que o Senhor nos dê pastores segundo o Seu Coração (cf. Jr 3,15).

6. Por fim, todo o sofrimento e perplexidade de Paulo com os gálatas aparecem em


duas frases dele: “Então, dizendo-vos a verdade, tornei-me vosso inimigo?” (v.16) O
verdadeiro pastor não é um “cão mudo”,não cala a verdade de Cristo, mesmo que doa,
mesmo que isto lhe traga dificuldades e incompreensões. O verdadeiro pastor não
procura os seus interesses, mas os de Jesus Cristo! Leia Is 56,10 – 57,2.
Finalmente, o desabafo sofrido, quase no limite das possibilidades: “Não sei que
atitude tomar a vosso respeito” (v. 20).Quantas vezes no ministério de pastor e na vida
de todos nós encontramo-nos em situações assim: não saber que caminho seguir. Qual
a solução? Rezar, colocar nossa causa diante do Senhor! Muitas vezes o Apóstolo rezou
pelos fieis que lhe foram confiados (cf. Fl 1,3; Ef 1,16; Fm 4-5). E você, nos momentos
difíceis e incertos, o que faz? Sabe derramar o coração diante de Deus? Reza? Confia?
Espera no Senhor? Pense nisto!

7. Reze o Sl 22/23. Coloque no Senhor a sua confiança!


QUINTA-FEIRA, 4 DE ABRIL DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XXVI - sexta-feira da IV semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,33-40


Leia Gl 4,21-31

1. O Apóstolo, na ânsia de salvar os seus queridos gálatas, volta à carga! Todos os


argumentos que estiverem ao seu alcance, ele os utiliza para tirar os irmãos na fé das
mãos dos cristãos judaizantes que estavam envenenando a Igreja da Galácia! Mais do
que a lógica, aqui, é o coração que fala! Por isso, após exclamar, quase desolado, que
não sabia que atitude tomar a respeito dos gálatas, São Paulo volta à carga com todo o
vigor!

2. O que o Apóstolo deseja aqui é reforçar que a Lei, os preceitos e normas exteriores
dos rabinos, o judaísmo, a descendência de Abraão simplesmente segundo a carne não
garantem a bênção de viver na amizade com o Senhor Deus, não garante ter parte na
Aliança e na Promessa! Para exortar os gálatas a não regredirem para o judaísmo, o
Apóstolo utiliza várias imagens e argumentos do livro do Gênesis, que hoje nos
parecem estranhos e até artificiais, mas, naquela época, tinham pleno sentido e força
persuasiva.

a) Agora é necessário ler Gn 16,1-4; 21,9-10.

b) Paulo comprara Sara e Agar às duas alianças: Sara é livre, simboliza a Nova Aliança
em Cristo, pois gera Isaac, o filho de Promessa; Agar é escrava e simboliza a Aliança do
Sinai, pois este Monte ficaria próximo da terra dos ismaelitas, descendentes de Ismael,
filho de Agar.
c) Os judeus, rejeitando o Cristo e apegando-se à Lei dada no Sinai, valorizam a
Jerusalém de pedra, com seu Templo, seu apego à Lei de Moisés e os inúmeros
preceitos dos rabinos. São escravos de um pesado fardo, como a escrava Agar.

d) Os cristãos, crendo em Jesus, o Cristo, novo Isaac, são livres, pois descendem da
livre, de Sara, que personifica a verdadeira Jerusalém, a do Alto, a glória do céu,
consumação do Reino de Deus! Leia Hb 11, 14-16.

3. Podemos, agora compreender a afirmação do Apóstolo: “Vós, irmãos, como Isaac,


sois filhos da Promessa!” (v. 28). Por quê? Porque cremos e fomos batizados Naquele
Cristo, novo Isaac, nascido de Sara e prometido a Abraão, que creu e se tornou pai de
todos os crentes!

4. Dito isto, o Apóstolo sugere, com força aos gálatas, que cumpram o que a Lei de
Moisés narra no Gênesis: “Expulsa a serva e o filho dela, pois o filho da serva não
herdará com o filho da livre” (v. 30). Em outras palavras: os gálatas cumpram o que a
Lei de Moisés sugere e expulsem esses judaizantes, cristãos falsos, filhos da Lei de
Moisés, filhos da serva, que estão perturbando a Igreja da Galácia! Eles não podem
herdar a promessa reservada aos cristãos que, em Jesus Cristo, são livres do fardo
imenso da Lei de Moisés como os rabinos judeus a interpretam e impõem ao Povo de
Israel e os judaizantes querem impor aos cristão, filhos da Jerusalém do Alto, que é a
Igreja, que peregrina na terra e será plena no céu!

5. Leia Mt 23, 37-39. Veja também este texto tremendo: Jo 5,39-47. Leia também e
reze Ap 21. Por fim, reze Lm 1: o pranto por Jerusalém, castigada por sua infidelidade!
Ela caiu sob os romanos liderados por Tito, no ano 70 dC. Reze também pela Nova
Jerusalém, a Igreja, ferida e sofrida pela infidelidade de tantos dos seus filhos, que se
rendem ao mundo e suas ideologias e modas...
SEXTA-FEIRA, 5 DE ABRIL DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XXVII - sábado da IV semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,41-48


Leia Gl 5,1-12

1. Este bloco de versículos é importantíssimo! Trata-se de uma dura e apaixonada


advertência do Apóstolo aos seus amados filhos gálatas, que ele gerou para o Cristo
sofrendo dores de parto (cf. Gl 4,19). Vamos seguir de perto as palavras de São Paulo,
refletindo sobre elas... Hoje, ficaremos somente no v. 1! Vamos a ele!

2. Numa bela frase de efeito, o Apóstolo recorda aos gálatas: “É para a liberdade que
Cristo nos libertou” (v. 1). Libertou-nos do quê? Aos judeus, libertou do peso das
observâncias da Lei de Moisés e aos gentios, libertou das correntes da lei do pecado. Já
vimos nas meditações passadas que, sem Cristo, todos os homens estão debaixo do
fardo de uma pesada lei: a de Moisés ou a do pecado! O próprio Cristo afirmou que
somente Ele nos poderia libertar. Leia com atenção Jo 8,31-45. Releia, medite,
contemple... Suplique ao Filho que o liberte de suas estreitezas e infidelidades, que o
liberte dos seus pecados... “Se o Filho vos libertar, sereis, realmente, livres!” (v. 36)

3. Libertou-nos para quê? O Apóstolo responde ousadamente: “para a liberdade” (Gl


5,1). Aqui, não se trata de uma liberdade qualquer, mas a liberdade para servir a Deus
como filhos no Filho, impelidos pela doçura amorosa do Espírito do Filho que clama em
nós Abbá, Pai (cf. Gl 4,4-7). A liberdade, aqui, não é liberdade para se fazer o que quer,
não é liberdade para viver para si próprio, mas “para Aquele que morreu e ressuscitou
por eles” (cf. 2Cor 5,14s). É a mesmíssima dinâmica do Êxodo: Deus liberta Israel não
para fazer o que deseja, não para viver para si. Isto não seria liberdade! O Senhor
liberta o Seu Povo para que O sirva e, servindo-O, seja verdadeiramente livre (cf. Ex
5,1; 7,16).
Pense um pouco: a liberdade para a qual Cristo nos libertou, prende-nos a Ele, faz-nos
“escravos” do Seu amor. Leia com atenção o importante texto de Rm 6,15-23. Medite
como é falso uma ideia de cristianismo que acha normal e natural que os cristãos
pensem, falem, ajam e vivam como o mundo! Lembre do que disse o Senhor em Jo
15,18-21; 17,14-16! Como podem tantos cristãos, hoje em dia, viverem na ilusão de
serem compreendidos, aceitos e aplaudidos pelo mundo e acharem que o mundo vai
amar de verdade a Igreja e acolhê-la? Que tola ilusão! A Igreja e os cristãos nunca
devem esperar serem amados pelo mundo por causa deles próprios, mas somente por
causa de Cristo! Se o mundo quiser nos amar, que seja pelo Cristo que pregamos e
testemunhamos, sem descontos, abatimentos nem concessões! Caso contrário, o
amor e aplauso do mundo não devem nunca nos iludir e anestesiar ou alegrar! Pelo
contrário: deve-nos pôr de sobreaviso, pois “a amizade com o mundo é inimizade com
Deus... Assim, todo aquele que quer ser amigo do mundo torna-se inimigo de Deus” (Tg
4,4).

4. Ainda neste mesmo versículo 1, o Apóstolo exorta aos gálatas: “Permanecei firmes e


não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão”. Os cristãos da Galácia, agora
libertos da escravidão do pecado da vida de pagãos, não deveriam deixar a liberdade
do Espírito de Cristo para voltar à escravidão, desta vez aos preceitos da Lei de Moisés
com os inúmeros mandamentos e normas da interpretação rabínica! Neste sentido, é
triste ver como muitas seitas cristãs judaízam, voltando ao Israel segundo a carne! Já
falamos sobre isto em meditações passadas! “Sois tão insensatos que, tendo
começado com o Espírito, agora acabais na carne?” (Gl 3,3) Isto é o que dá ler as
Escrituras fora da comunhão com a Igreja e distante da Tradição apostólica e da fé
entregue uma vez por todas aos santos (cf. Jd 3) e maturada, geração após geração na
vida da Igreja, guiada e guardada pelo Espírito Santo de Cristo (cf. Mt 28,19s; Jo 16,12-
15)!

5. Reze o Sl 29/30. Louve e adore o Deus que, em Cristo, nos libertou da lei do pecado
e da morte!

SEGUNDA-FEIRA, 8 DE ABRIL DE 2019


Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XXVIII - segunda-feira da V semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,49-56


Leia Gl 5,1-12

1. Vamos, agora, ao v. 2: “Atenção! Eu, Paulo, vos digo: se vos fizerdes circuncidar,
Cristo de nada vos servirá! Grave, esta exortação do Apóstolo. E não é exagero. O
centro da fé dos cristãos, o âmago da sua esperança é o fato de Cristo nos ter salvo do
afastamento de Deus, da escravidão e do desequilíbrio nos quais a lei do pecado
colocou a todos nós. Toda a humanidade encontra-se debaixo desta triste situação.
Nem mesmo os judeus estão livres dela, pois a Lei de Moisés, que é santa, dá
consciência do pecado, mostra como viver para evita-lo, mas não dá força para tanto.
Sobre isto já falamos nas meditações anteriores. Leia Rm 7,14-25. Pois bem, é Cristo
que nos liberta! Ora, se os gálatas se deixassem se circuncidar, entravam no judaísmo,
colocando sua esperança não em Cristo, que nos libertou (cf. Gl 5,1), mas no
cumprimento dos preceitos da Lei de Moisés tal como os rabinos judeus a
interpretavam. Deste modo, colocando-se sob a Lei de Moisés, estariam obrigados a
cumprir todos os preceitos da Lei, tornando-se judeus. Leia o v. 3. Eles estariam
debaixo da “maldição da Lei” (cf. Gl 3,10s). Assim, para que Cristo? É necessário
recordar sempre que o homem sozinho não pode se salvar nem mesmo pode cumprir
da Lei de Moisés de modo satisfatório. O próprio Senhor Jesus já dizia isto aos judeus
(cf. Jo 7,19)! Somente Cristo nos salva com a Sua Cruz e Ressurreição e o dom do Seu
Espírito (cf. Rm 3,23ss). Por isso doutrinas que proclamem outro princípio salvífico são
incompatíveis com a esperança cristã. Por exemplo:
- o judaísmo, que coloca na prática de Lei o princípio de salvação. Para que Cristo, se já
se tem a Lei de Moisés?

- o islamismo, que coloca a entrada no paraíso na prática do Corão. Para que a morte e
ressurreição de Cristo? Bastaria seguir o Corão à risca!

- o espiritismo e todas as doutrinas reencarnacionistas, que colocam a plenitude


humana na reencarnação: reencarnando-se, a pessoa se purifica das suas faltas e
imperfeições, limpando o seu “carma”... Para que a morte de Cristo e o Seu perdão?
Basta se reencarnar continuamente e praticar obras de filantropia, limpando o carma
continuamente...

Ora, o Cristo Jesus é o único meio de acesso ao Pai (cf. Jo 14,6; 8,36), porque por nós
Se fez homem, morreu e e ressuscitou; ressuscitando, deu-nos o Seu Espírito, que nos
cura do pecado e nos faz participantes da própria Vida divina! Leia At 4,12; 2Pd 1,4; Ap
4,9s. O grande serviço que o Cristo Jesus nos prestou foi nos salvar: se nós não
aceitarmos o Seu serviço de morrer e ressuscitar por nós em amor, não poderemos ter
parte com Ele. Leia Mc 10,45; Jo 13,2-8.

2. São Paulo previne aos gálatas de modo dramático: “Rompestes com Cristo, vós que
buscais a justiça na Lei; caístes fora da graça!” (v. 4) Esta é uma ideia central na nossa
fé: a salvação é graça de Deus, é dom gratuito, abundante, misericordioso, imerecido!
Leia atentamente Tt 2,11-14.
As obras do cristão não têm nada a ver com as obras da Lei de Moisés. Certamente, a
fé exige que o cristão dê frutos (cf. Jo 18,1-8) de boas obras (cf. Tg 2,14-26). Mas, essas
obras nascem da fé em Cristo e exprimem nossa adesão concreta a Ele. Sem as obras
nascidas da fé, essa mesma fé seria uma ilusão, uma ficção, uma mentira (cf. Lc 6,46-
49; Mt 7,21-27; 25,31-46)! A fé age pela caridade, manifesta-se pelo amor fecundo em
obras em Cristo! As obras do cristão são obras em Cristo, fruto da correspondência à
graça, da docilidade fecunda ao Espírito de Cristo (cf. Tt 3,4-7; Gl 5,6). Tudo isto é bem
diferente das obras da Lei de Moisés: aí trata-se de preceitos do rabinismo, isto é, da
interpretação da Lei de Moisés dada pelos rabinos de Israel como meios suficientes de
alguém ser justo, santo, diante de Deus! Isto um cristão não aceita! Nossa justiça, isto
é, nossa santidade diante de Deus, nossa amizade com Ele, em uma palavra, nossa
salvação, somente pode ser alcançada em Cristo Jesus nosso Senhor que,
gratuitamente, com Sua Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição, nos salvou do
pecado e da morte! Leia Rm 5,1-11.
3. “Nós, com efeito, aguardamos, no Espírito, a esperança da justiça que vem da fé” (v.
5) importantíssima, esta afirmação de São Paulo, esta referência ao Espírito Santo.
Vamos lá: Cristo morreu e ressuscitou por obra do Pai, que sobre Ele derramou a
plenitude do Santo Espírito. Este Espírito é a própria Vida divina, que nos queima os
pecados e nos recria como novas criaturas em Cristo, já que é Espírito de Cristo,
Espírito dado pelo próprio Cristo! Ressuscitado, o Cristo Senhor derramou sobre nós
esse Espírito, que é dado nos sacramentos, sobretudo no Batismo e na Eucaristia: no
Batismo, Ele é dado como remissão dos pecados, como justificação, pois nos faz filhos
de Deus no Filho Jesus Cristo; é-nos dado como nova Vida em Cristo; na Eucaristia, Ele
impregna o pão e o vinho, transformando-os em Corpo e Sangue do Senhor imolado e
ressuscitado, fazendo crescer e a amadurecer mais e mais a Vida divina em nós,
dando-nos a graça de participar, na nossa vida, da Morte e Ressureição do Senhor, até
sermos configurados com Ele na Glória eterna! Daí a necessidade absoluta do Batismo:
quem crê, deve, necessariamente, ser batizado, recebendo o Espírito Santo, que nos
dá a justificação na remissão dos pecados! Nunca esqueçamos: fé e Batismo são
inseparáveis (cf. Mc 16,15s).
Leia

4. No v. 6, o Apóstolo insiste no que já havia acenado antes: em Cristo, não é mais


decisivo ser judeu ou gentio (cf. Rm 10,12s)! Esta diferença fazia sentido no tempo da
pedagogia do Antigo Testamento, quando Deus, através da Lei de Moisés, preparava
Israel para o cumprimento da Promessa com a vinda do Messias. Mas, agora, seja
Israel sejam os gentios, são chamados à fé em Jesus Cristo (cf. At 20,20s; Ef 2,12-18).
Nele crendo e no Seu Nome sendo batizados, recebem o Santo Espírito de amor, de
modo a serem todos no Senhor Jesus Cristo novas criaturas, membros de uma nova
humanidade (cf. Rm 5,5). 
Pense um pouco: você tem consciência de que o Sacramento do Batismo marcou
radicalmente a sua vida: você é de Cristo, vive em Cristo, inundado na Vida do Cristo,
que é o Seu Santo Espírito? Você tem o pensamento de Cristo ou o pensamento do
mundo? Qual o seu fundamental critério de vida?

5. Releia os vv. 7-12:

a) Nos vv. 7-10, o Apóstolo chama atenção dos gálatas que elementos estranhos à
comunidade chegaram para envenenar a paz em Cristo na qual eles viviam. Compara-
os ao fermento que penetra a massa, levedando-a toda. Aqui, como um fermento
ruim, esses judaizantes, impregnaram toda a comunidade cristã dos gálatas
perturbando a fé serena no Evangelho que lhes tinha sido anunciado. Esses serão
condenados pelo Senhor, pois maculam a verdadeira doutrina, afasta os fieis da
verdade e geram divisão! Ainda hoje, infelizmente, esse tipo de comportamento está
presente em todos os níveis da vida eclesial...

b) O v. 11 é um pouco obscuro. Releia-o. Talvez os judaizantes que perturbaram os


gálatas tenham dito que São Paulo também praticava a circuncisão, como fez com
Timóteo (cf. At 16,3; 1Cor 9,20). Se utilizavam mesmo tal argumento, esses judaizantes
eram muito maldosos! Paulo responde com um argumento bem prático: se ele
pregasse a circuncisão, os judeus e os judaizantes não seriam contra ele! Mas, aí o
escândalo da Cruz, isto é, a novidade de Cristo que ultrapassa e supera a prática de Lei
de Moisés, estaria eliminado!

c) O v. 12 é ironia pura: que esses que pregam a circuncisão se mutilem – a circuncisão


comporta uma pequena mutilação... Aliás, os gálatas pagãos conheciam bem a
castração dos sacerdotes da deusa Cibele. Se esses judaizantes sentem prazer nisto,
então que se castrem logo de vez! A dureza na ironia do Apóstolo é decorrência da
importância do que está em jogo: a pureza do Evangelho e a liberdade em Cristo. Isto
nunca será de pouca importância... Também hoje, mesmo com toda a onda de
relativismo, de irenismo e bomocismo, presentes na Igreja, ameaçando a novidade
cristã, a vitalidade do Evangelho, e especificidade e originalidade da experiência cristã
e a radicalidade da vida em Cristo!

6. Reze o Sl 139/140.
TERÇA-FEIRA, 9 DE ABRIL DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XXIX - terça-feira da V semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,57-64


Leia Gl 5,13- 26

1. Todo este bloco explicita de modo admirável o que significa, concretamente, na vida
do cristão, a liberdade para a qual Cristo nos libertou. Vamos destrinchá-lo pouco a
pouco, nesta e nas próximas meditações, porque ele é muito importante.

2. Releia o v. 13. Hoje, é moda apregoar um cristianismo domesticado, desfigurado


pelo relativismo doutrinal e moral, com o pretexto de amor e misericórdia! Nada mais
maquiado e falso! Primeiro que tudo, Cristo nos libertou a todos do peso da lei: os
gentios, da lei do pecado; os judeus da Lei de Moisés com os preceitos rabínicos.
Então, os cristãos não teriam lei alguma? Será que Cristo deixou que cada discípulo Seu
seja sua própria lei, fazendo o que bem quer e entende, bastando apelar para a sua
liberdade e a sua consciência? De modo algum! É disto que o Apóstolo trata agora! Ele
deseja precaver os gálatas e os cristãos de todos os tempos contra o relativismo moral
e a libertinagem, dele derivada.

3. Sim, o cristão é chamado à liberdade, mas à liberdade em Cristo, doador do Espírito.


Leia novamente Rm 8,1-13; Gl 4,6s; 5,5. Crendo no Senhor Jesus Cristo e Nele sendo
batizado, o cristão recebe o Seu Espírito Santo (cf. Rm 5,5). Esse Espírito é Espírito de
Amor que se imola. Foi neste Espírito Santo e Bendito, Deus verdadeiro com o Pai e o
Filho, que o Cristo Jesus Se ofereceu na Cruz ao Pai (cf. Hb 9,14). Este mesmo Espírito
que nos liberta da lei prende-nos à uma outra Lei: à Lei do Amor! E como é Espírito de
Cristo, dá-nos o amor de Cristo. Por isso, o Senhor nos dá a nova Lei: “Amai como Eu
vos amei!” (cf. Jo 13,1-17). Nos capítulos 13 – 16 do Evangelho segundo São João, o
Cristo liga todo o tempo o amor ao cumprimento dos Seus mandamentos. Não se trata
mais aqui de prescrições legais minuciosas, mas de uma vida vivida em união amorosa
com o Senhor e de imitação profunda da Sua atitude de amar o Pai e os irmãos por
amor ao Pai! É o Espírito de amor quem produz tal amor em nós (cf. Rm 5,5). Por isso
os mandamentos do Cristo não são pesados, como o fardo dos preceitos da Lei de
Moisés, porque quem crê no Senhor e Nele é batizado, recebe o Seu Espírito, nascendo
de Deus, tornando-se filho no Filho e, assim, o Espírito impele o fiel de Cristo a partir
de dentro, do seu interior, jogando-o na dinâmica do amor por amor do Cristo. Leia
com atenção 1Jo 5,1-4.

4. Assim sendo, a liberdade do cristão nada tem a ver com o fechar-se na carne, isto é,
numa vida egoísta, entregue às próprias satisfações, aos próprios instintos, às próprias
medidas da razão humana com suas razões muitas vezes degeneradas pelo pecado!
Por isso, o Apóstolo adverte que a liberdade não deve servir de pretexto para a carne
(cf. Gl 5,13). Infelizmente, isto está tão presente entre tantos cristãos, em todos os
níveis! A verdadeira liberdade nasce do amor de Cristo, colocando-nos a serviço uns
dos outros no amor como o Senhor por causa do Senhor. Leia 2Cor 5,14-21. Neste
texto profundo e comovente aparece claro de que amor, de que liberdade o Apóstolo
fala! Nada a ver com o mundo e sua liberdade falsa, que não passa de sujeição ao
pecado! “A liberdade não sirva de pretexto para a carne!” (Gl 5,13b). Como vemos isto
hoje, proclamado com orgulho! E por cristãos, inclusive por ministros sagrados que,
por arte e engano perverso do Pai da Mentira, tornam-se ministros do pecado! E tudo
com aparência de sabedoria, que não passa de loucura e vazio da humana soberba!
Leia Rm 1,16-32. Medite, Reze. Tema a Deus com amor! Adira ardentemente à Sua
santa Palavra, pois nela – e só nela – encontra-se o caminho para a Vida! Que nada
nem ninguém a pretexto algum nos separe do amor de Cristo. Leia e reze Rm 8,35-39.
5. Interessante que, aqui, São Paulo se refira à Lei: “Toda a Lei está contida numa só
palavra: Amarás a teu próximo como a ti mesmo” (v. 14). Façamos algumas
observações:

a) O Apóstolo não se refere ao amor a Deus, mas somente ao amor ao próximo. É que,
como o Senhor Jesus Cristo no diálogo com o homem rico que desejava entrar na vida,
ele toma o amor ao próximo como medida da verdade e efetividade do amor a Deus
(cf. Mc 10,19; 1Jo 4,7-8).

b) O Apóstolo deseja explicar aos gálatas que a Lei de Moisés se cumpre


verdadeiramente não em preceitos dos rabinos, mas no amor efetivo. Aliás, amor que
os judaizantes não demonstraram ao chegar na Galácia semeando discórdia e
desconfiança em relação ao Apóstolo. De nada vale o apego aos preceitos sem que se
cumpra o único preceito que realmente conta: o amor! Leia 1Cor 13!

c) Quanto à Lei de Moisés, ela obrigava ao amor ao próximo, referindo-se aos


membros do Povo de Israel. Leia Lv 19,17-18: aí, o próximo é o compatriota israelita;
agora, o próximo é toda a humanidade, mas sobretudo os irmãos na fé, isto é, os
membros do Novo Israel, que é a Igreja (cf. Gl 6,9s).

d) É mais fácil falar em amar a humanidade toda do que, na prática, suportar com
amor aquele que está ao nosso lado, sobretudo na vida concreta da Igreja, da minha
comunidade concreta. Por isso, a advertência do Apóstolo no v. 15. Leia-a e reflita
seriamente sobre o seu comportamento concreto, sobre as suas atitudes com os
irmãos na fé em casa, no seu grupo ou comunidade, na sua paróquia...

6. Reze os Salmos 132/133 e 133/134. Leia, rezando, Jo 15,1-17.


QUARTA-FEIRA, 10 DE ABRIL DE 2019
Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou
Meditação XXX - quarta-feira da V semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,65-72


Releia Gl 5,16- 26

1. Todo este bloco de versículos é pautado pela oposição entre carne e espírito. Logo
de saída, é necessário que fique bem claro que carne e espírito não têm nada a ver
com corpo e alma! Carne é o homem todo enquanto fechado para Deus; o homem
todo enquanto vive fechado em si mesmo, como se a vida fosse dele de modo
absoluto. Espírito, aqui, é o homem todo enquanto é todo aberto à ação do Espírito do
Cristo imolado e ressuscitado. Esse homem, guiado pelo Espírito de Cristo, é cheio da
Vida do Cristo ressuscitado, tem os mesmos sentimentos do Cristo Jesus, vive sua vida
deixando-se configurar ao Cristo Jesus, com Ele morrendo para com Ele ressuscitar. O
cristão, crendo no Senhor Jesus Cristo e sendo batizado no Seu Espírito, dado na água
batismal, deve viver não mais segundo a Lei de Moisés ou segundo a lei do pecado,
mas segundo o Espírito, que é a verdadeira lei da Nova e Eterna Aliança! Releia e
medite o v. 16. Você vive segundo a carne ou segundo o Espírito do Cristo? Procure
pensar no seu modo de viver e nos seus atos e atitudes concretas...

2. Releia os vv. 17s. Aqui, aparece claro que ser cristão não é fácil: é uma luta, um
combate diuturno! Mesmo renovados em Cristo, mesmo sendo novas criaturas (cf.
2Cor 5,17), o combate entre o velho e o novo homem continuarão enquanto vivermos
neste mundo. O pecado original, no qual nascemos como “filhos da ira” (Ef 2,3), e que,
no Batismo, em nós foi destruído como força que nos dominava, mesmo eliminado,
deixa suas marcas: a concupiscência, o desequilíbrio que nos faz pender para o mal.
Releia com atenção e seriedade Rm 7,14-25! O cristão deve combater o combate
espiritual, o combate da fé, de modo a deixar-se guiar pelo Espírito Santo de Cristo que
habita nele desde o Batismo.
Faça agora uma pausa! Leia com piedade, atenção e com um coração que escuta, Ef
4,17 – 5,13. Leia também Ef 6,10-20.
Assim, combatendo, o cristão viverá segundo Cristo e produzirá frutos segundo Cristo,
frutos do homem espirituado, do homem à imagem de Cristo, obras boas, não as da
Lei de Moisés, mas as obras em Cristo Jesus (cf. Jo 15,1-6). Veja a relação das obras da
carne nos vv. 19-21. Atenção que esta relação não é exaustiva: há muitas outras obras
da carne! Observe também que as obras da carne não são necessariamente ligadas ao
corpo! Mais uma vez: não confunda carne com corpo!

3. No v. 21, o Apóstolo é taxativo: os que vivem segundo a carne, os que praticam as


obras da carne “não herdarão o Reino de Deus”. O Reino está onde reina o Espírito do
Cristo – dizer “Venha o Teu Reino” é o mesmo que dizer “venha o Teu Espírito”. Assim
aparece no Pai-nosso segundo Lucas em vários antigos manuscritos –, que em tudo fez
a vontade do Pai, a ponto de fazer-Se obediente até a morte e morte de Cruz (cf. Fl
2,8)! Então, que ninguém se iluda: o Inferno existe, um Inferno é a perda da Vida divina
para sempre, é a exclusão da Vida em Deus, é a danação eterna e é uma possibilidade
concreta para todo aquele que vive segundo a carne! Não entrará no Reino quem não
permite que Deus Pai reine em si, através do Seu Cristo, no Espírito! Somente entrará
no Reino quem, nesta vida, permite que o Reino entre em si e formate a sua vida,
vivendo segundo o Espírito de Cristo e produzindo os frutos do Espírito.
O Apóstolo dá alguns exemplos dos frutos do Espírito de Cristo em nós. Leia com
atenção os vv. 22-24. Aqui, não se trata de dizer: “Eu vou realizar tais obras!” Nada
disto! Trata-se, antes, de unir-se de tal modo a Cristo, de tal modo deixar-se guiar pelo
Seu Espírito, que vai aflorando no discípulo os sentimentos, as atitudes do próprio
Cristo Jesus, a ponto de o cristão poder exclamar: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo
que vive em mim” (Gl 2,20). Observe que o Apóstolo diz claramente que “contra estas
coisas não existe Lei!”: nem a Lei de Moisés nem a lei do pecado. A única Lei do cristão
é a Lei do Santo Espírito, com o Seu suave e forte impulso de liberdade no amor, como
o vento, que sopra onde quer (cf. Jo 3,8)! Imagine a diferença do cristão livre em Cristo
e do judeu, preso aos minuciosos preceitos e regras exteriores advindos de uma
interpretação rabínica da Lei de Moisés com o seu fardo!
Os vv. 25s concluem o raciocínio de São Paulo com uma exortação prática e lógica:
devemos pautar a nossa vida pelo Espírito de Cristo... Pense bem: sua vida é segundo o
Espírito de Cristo ou segundo o mundo? Cuidado com a resposta! Os fatos falarão...

4. Reze o Sl 29/30

SÁBADO, 13 DE ABRIL DE 2019


Retiro Quaresmal - A liberdade para a qual Cristo nos libertou (conclusão)
Meditação XXXIII - sábado da V semana da Quaresma

Reze o Salmo 118/119,89-96


Leia Gl 6,11-18

1. Para que você saiba, havia três modos que São Paulo poderia utilizar para escrever
suas cartas: ele próprio escrevê-la toda de seu próprio punho, ele ditá-la enquanto
outro escrevia e, finalmente, ele fornecer as ideias e outro escrevê-la em seu nome.
Parece que a Epístola aos Gálatas foi ditada e, agora, terminando a Epístola, o Apóstolo
escreveu de próprio punho, assinando-a e autenticando-a. Fá-lo com letras grandes
para sublinhar a ideia central que procurou incutir nos seus irmãos gálatas: eles não
devem se deixar circuncidar; devem buscar sua glória em Nosso Senhor Jesus Cristo,
que os libertou do jugo de toda Lei!

2. Mais uma vez, São Paulo acusa de interesseira a atitude dos cristãos judaizantes que
perturbaram a paz dos cristãos da Galácia: esses desejam “fazer boa figura na
carne”, isto é, sendo provavelmente de raça judaica, desejam passar-se por superiores
diante dos cristãos provindos do paganismo! Ora, em Cristo, já não há diferença entre
judeu ou não-judeu (cf. Rm 10,12; Gl 3,28)!
Pregando a circuncisão, esses imaginam o cristianismo não como uma novidade, mas
talvez como mais um grupo dentro do judaísmo. Por que não? Já havia fariseus,
saduceus, essênios... Por que não haveria lugar para os nazarenos, seguidores do Rabi
Jesus de Nazaré? Ainda hoje há judeus assim: os judeus messiânicos! Mas, assim,
estaria eliminado o escândalo da Cruz, a novidade do Cristo! O vinho novo do
Evangelho seria aprisionado nos odres velhos do judaísmo (cf. Mt 9,17) Esses judeus
fariam boa figura junto aos demais judeus e não sofreriam “perseguição por causa da
Cruz de Cristo” (v. 12). Neste caso, a salvação não viria de Cristo, mas da Lei de Moisés
com suas práticas, como a circuncisão! Jesus seria mais um profeta, talvez o maior de
todos, mas não mais que isto! Ora, esta não é a nossa fé, esta não é a novidade do
Evangelho!
Mais uma vez, então, o Apóstolo recorda aos gálatas o fardo da Lei e enfatiza que nem
os judeus nem os judaizantes cumprem a Lei integralmente (cf. v. 13). Recorde você
que todos estes temas já foram tratados no decorrer das nossas meditações...

3. Releia agora o v. 14. É de grande força emotiva e teológica! O Apóstolo declara com
entusiasmo e emoção qual o seu motivo de glória: não é ser judeu, não é ser
circuncidado, não é ter sido fariseu... Leia, rezando e admirando, Fl 3,2-14! A glória
deste santo Apóstolo do Senhor é a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, fonte de
perdão, de justificação, de salvação! Mas, esta Cruz nos crucifica porque nos separa de
toda procura de justificarmo-nos em nós mesmos ou em nossas práticas da Lei, para
colocar nossa esperança e nossa vida somente Naquele que por nós morreu e
ressuscitou! É muito forte a afirmação do Apóstolo: “Nosso Senhor Jesus Cristo, por
quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (v. 14) .Não há acordo
entre o cristão e tudo aquilo que é contra Cristo ou fora de Cristo! Um cristianismo de
moda, um cristianismo mundano é falso, é um engodo! A escolha de Cristo nos separa
do mundo de pecado, nos separa das modas passageiras e prestigiadas pelos que não
conhecem a Deus e não agem inspirados no Cristo Jesus (cf. Jo 17,14)! O cristão,
crendo no Senhor Jesus e sendo batizado no Seu Espírito, é uma nova criatura, vive
numa Vida nova e encontra na Cruz e Ressurreição do Senhor a sua esperança e o seu
critério de vida (cf. 2Cor 5,17)!
Pense em você; pense na sua vida: como você vive? Qual o seu critério?
O cristão sabe que já não há vantagem alguma em ser circuncidado ou viver os
preceitos rabínicos da Lei de Moisés! O que importa agora é estar em Cristo e, Nele,
ser uma criatura nova! De Cristo, verdadeiro Isaac, verdadeira descendência de
Abraão, nasce continuamente nas águas do Batismo, alimentado pelo maná da
Eucaristia, um novo Povo, o Israel definitivo, o “Israel de Deus” (v. 16), em
contraposição ao velho Povo, o Israel segundo a carne, sujeito à Lei com seus preceitos
e normas. Leia 1Pd 2,9-10.
Aqui, estejamos muito atentos: sempre que se fala em Povo de Deus, não se trata do
povão, do povo brasileiro ou de qualquer outro grupo! Povo de Deus é sempre e
somente os batizados em Cristo, membros desse Povo que é a Igreja! Como no Antigo
Testamento entrava-se no antigo Povo pela circuncisão – e ainda hoje é assim entre os
judeus –, no Novo Testamento entra-se no novo Povo pelo Batismo!

4. O Apóstolo termina dando um basta em toda a sua exposição: já dissera tudo


quanto tinha para ser dito! “Doravante ninguém mais me moleste”, ninguém mais diga
que ele não pregou o Evangelho fielmente, ninguém mais diga que seu Evangelho não
é o dos demais Apóstolos ou é diferente daquele dos Doze, que ninguém mais diga que
ele prega uma coisa num lugar e outra noutro! Ele traz em si as provas do seu amor e
da sua fidelidade ao Cristo: traz em seu corpo “as marcas de Jesus”, isto é, as cicatrizes
das agressões sofridas tantas vezes e de tantos modos por causa de Nosso Senhor
Jesus Cristo (cf. At 14,19s; 16,19-24; 2Cor 4,10; 6,4s; 11,23-28; Cl 1,24)! Essa é sua
maior glória, sua maior honra, o maior atestado do seu profundo amor e do seu
compromisso com Cristo, com a inteira Igreja do Senhor e com cada comunidade que
ele evangelizou!
Para terminar, Paulo deseja, como uma bênção, o mais que pode desejar aos gálatas: a
graça salvadora de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus bendito pelos séculos dos
séculos (cf. v. 18; Rm 9,5)! Amém.
Que esta mesma bênção, que esta mesma graça, que esta mesma salvação repouse
sobre você, que me acompanhou nestas meditações quaresmais sobre a Epístola aos
Gálatas! Que neste Ano da Graça de 2019, celebrando o Tríduo Pascal, você recorde o
quanto foram fecundas a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo:
por Seu Sacrifício pascal fomos salvos e libertos no poder do Seu o Seu Espírito Santo,
para a verdadeira liberdade dos filhos de Deus! “Ao Rei dos séculos, ao Deus
incorruptível, invisível e único, honra e glória,” por Nosso Senhor Jesus Cristo, na
unidade do Espírito Santo,“pelos séculos dos séculos. Amém” (1Tm 1,17).

5. Agradecendo este caminho feito neste tempo quaresmal, reze os Salmos 148, 149 e
150.

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