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Copyright

© KATHERINE LACCOM’T, 2019


Copyright © 3DEA EDITORA, 2019


Editor Patrícia Azevedo
Assistente Editorial Natalia Perruchi
Revisão Maciel Salles

Vinicius Baird

Ilustração Mia Klein
Imagem www.istockphoto.com/532010167

Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990), em vigor
desde 1° de Janeiro de 2009. Os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da
ficção; não se referem a pessoas e fatos, e sobre eles não emitem opinião.
É proibida a reprodução total e parcial desta obra, de qualquer forma ou por qualquer meio eletrônico,
mecânico, inclusive por meio de processos xerográficos, incluindo ainda o uso da internet, sem
permissão expressa da Editora, na pessoa de seu editor (Lei 9.610 de 19/02/1998).

Todos os direitos reservados à 3DEA Editora.
www.3deaeditora.com.br
contato@3deaeditora.com.br



Sumário
Prólogo
Capítulo 01
Capítulo 02
Capítulo 03
Capítulo 04
Capítulo 05
Capítulo 06
Capítulo 07
Capítulo 08
Capítulo 09
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Epílogo
Prólogo
Haniel

— Doutor Saints, o senhor está sendo aguardado em seu consultório.
Doutor Haniel Saints, por favor compareça em seu consultório.
Finalizo a receita do paciente à minha frente. Fui chamado até a
emergência porque o homem solicitou expressamente por mim, e eu sei que
quando isso acontece, devo atender imediatamente, pois pode ser um
protegido Saints ou dos homens de Raffaele.
Entrego o papel ao rapaz.
— Tente não transar com mulheres comprometidas. Não é honroso
parar no hospital por ter sido pego por um marido distraído. E diga a Raffaele
que o vejo no domingo — pisco para a enfermeira que cora enquanto está
finalizando o curativo e saio.
No meu caminho para o consultório no quinto andar, cumprimento
colegas de trabalho, pacientes e algumas enfermeiras novas que são bonitas.
Eu não tenho um tipo específico de mulher, se ela faz o meu pau saltar, é
minha. Logo que saio do elevador, encontro Amber, que passa a língua pelos
lábios em convite para o sexo. A boca dessa mulher me traz boas lembranças,
muito boas lembranças. Ela pode sugar como um aspirador.
— Olá, doutor Haniel.
Me aproximo dela o suficiente para excitá-la e não levantar suspeitas a
quem passa.
— Olá, querida. Assim que terminar o seu turno, espere-me no meu
carro.
Ela solta um risinho irritante. Ainda bem que a boca em torno do meu
pau compensa.
— Doutor Haniel Saints, o médico pervertido do quinto andar.
Fecho os olhos e respiro fundo. Essa voz pertence a mulher que eu
tenho certeza que foi enviada diretamente do inferno para me atormentar.
Viro-me lentamente para encarar o demônio.
— Mairheen MacNamara, a médica de paus mais competente do
quarto andar.
— Haha. Idiota! Ainda pegando as inocentes pelos cantos? Não nega
o sangue Saints mesmo. Famiglia de idiotas.
— Falou a mulher que teve que se formar em urologia para poder ter
um pau nas mãos — respondo sarcástico.
A maldita ri e se aproxima de mim.
— Oh, pobre homem! Me formei em urologia para ajudar homens
como você, que broxam toda vez que veem uma mulher dominadora.
Sorrio.
— Dominadora, hein? Pago para ver — chego em seu ouvido e sinto o
seu corpo tensionar. — Cuide-se, doutora.
Continuo a minha caminhada até chegar em meu consultório. Assim
que abro a porta, dou de cara com o que venho temendo há algum tempo.
Porra! Eu deveria saber que encontrar Mairheen era um mau sinal para o dia.
Sentado na minha cadeira está o meu pai, ao seu lado esquerdo está tio
Gabriel e do outro lado está tio Elemiah. Mas em toda a sala há um ex-
herdeiro, todas as gerações Saints, viva.
— Olá, meu filho.

Capítulo 01
Mairheen

Eu odeio Haniel Saints! ODEIO! Eu nem sou urologista. Não sei de
onde aquele animal tirou isso, mas ele me provoca com essa história há muito
tempo. Haniel é uma DST ambulante, Raffaele é um louco assustador e
Aniella é uma bomba-relógio. Diferente de seus pais, que são o exemplo da
elegância, essa geração Saints é completamente insana. Eles são temidos nos
quatro cantos do país, assim como o clã a que pertenço. Não somos tão
importantes quanto os Saints, mas a máfia irlandesa é temida.
Eu os conheço há anos, não somos próximos, mas depois que houve
um atentado contra os Saints, o clã da América do Norte resolveu fazer uma
ínfima aliança com a família italiana. Por mais que eu odeie carregar o peso
do sobrenome MacNamara, tenho que agir conforme é esperado. Meu pai,
Seamus, é o irmão mais novo de Eoghan MacNamara — nada mais nada
menos do que o atual boss da máfia irlandesa, que comanda clãs de todas as
Américas e parte da Europa.
O meu athair[1], Seamus MacNamara, foi enviado aos Estados Unidos
para vigiar um dos líderes de Nova York quando tinha apenas dezesseis anos.
Poucos anos depois, quando meu daideo[2] faleceu e tio Eoghan se tornou o
boss irlandês, meu pai se tornou um de seus conselheiros internacionais, já
que conheceu minha mãe e eles se apaixonaram. Máthair, Aivlin Gallagher,
apesar de ser descendente de irlandeses, não fazia parte do mundo do meu pai.
Ela vinha de uma família operária simples, e meu athair, do luxo ostentoso do
clã mafioso irlandês.
Desse casamento nasceram Keera, Tarha e eu, a caçula, Mairheen.
Com o passar do tempo, meus pais abriram uma rede de restaurantes de
comida típica. Máthair cozinha muito bem e meus avós sentiam falta de casa.
Ela se dedicou à culinária e os restaurantes deram muito certo. Esperava-se
que meu pai nos desse em casamento logo que completássemos dezoito anos,
pois esta é a tradição do clã. Mas meu pai e tio Eoghan nos deram a liberdade
de presente, sabendo que quando nos casássemos, deveria ser com um
irlandês.
Minha irmã mais velha, Keera, é a administradora do Bialann’s Bistrô.
Ela viaja de um lado para outro gerenciando os restaurantes que estão
espalhados por alguns estados do país. Tarha é professora do ensino
fundamental de uma escola bilíngue, onde ensina inglês e irlandês para as
crianças. E eu me tornei médica cardiologista. Sempre tive desejo de cuidar
do próximo; quando comecei a faculdade de enfermagem, senti que não era o
suficiente e troquei de curso, fui para medicina, onde me encontrei. Hoje
trabalho no Hospital Geral durante a maior parte do dia e no restante do
tempo presto assistência na clínica WellCare, clínica que pertence à família
Saints.
Como vim parar na WellCare que atende principalmente as famílias
protegidas pelos Saints é uma história à parte. Eu estava em um encontro às
cegas quando o senhor Elemiah e a senhora Francesca estavam no mesmo
restaurante. Ela teve uma reação alérgica ao molho que serviram e eu me
encontrava lá para ajudar. Chamei a ambulância enquanto fazia o primeiro
atendimento. O caso dela foi sério, pois sua respiração tornou-se difícil
devido ao choque anafilático que estava instaurando o quadro. No final tudo
deu certo! Quando a ambulância a levou, o susto maior já havia passado.
O senhor Elemiah Saints não parou de me agradecer durante uma
semana. Quando eu já não suportava mais seus presentes de agradecimento, a
senhora Francesca apareceu no hospital e me ofereceu uma vaga no WellCare.
Trabalhar nessa clínica é o sonho de qualquer médico da região. Seus
consultórios extremamente equipados e laboratórios informatizados
transformam o lugar em um estabelecimento referência quando se trata de
saúde. Eu aceitei, mesmo a contragosto do meu pai e do meu tio Eoghan, que
não foram a favor da minha decisão. Afinal, isso era muito mais que uma
questão de clã, tratava-se da minha carreira. E desde então, tenho que
conviver com aquele bastardo do doutor Haniel Idiota Saints.
Voltando à minha família… Não sou tão bonita como as minhas irmãs,
mas tenho minha beleza própria. Adoro os meus óculos coloridos, tenho o
estilo boho chic com vestidos coloridos e calças pantalonas. Minhas irmãs são
alegres, gostam de festas e de flertar, completamente o meu oposto. Gosto do
silêncio e da quietude depois do caos do hospital. Adoro sair com elas. E por
sermos diferentes, nos completamos. A única coisa que me irrita nelas é o
fascínio que ambas alimentam pelo universo Saints.
Não nego que a família é muito boa para todos, mas no fundo, todos
os temem. A história dos Saints é conhecida, são mafiosos redimidos que
fugiram da morte certa. São perigosos, eu não tenho dúvida, mas se fazem
algo ilícito, são muito discretos. Na verdade, eu não acredito que Gabriel,
Raziel e Elemiah Saints são criminosos. Quando os vemos com as suas
mulheres, podemos contemplar a devoção em seus olhos. Nenhum homem
pode simular aquilo e ser cruel.
Antigamente se falava muito deles, o quanto eram devassos, só que
com o passar dos anos a história mudou. A Organização triplicou de tamanho
e não os vemos envolvidos em escândalos. Muito diferente de seus filhos.
Eles são… diferentes. Em seus pais, podemos ver o calor dos olhos, a alegria
de estar onde estão. Os filhos não são assim, e muitos temem a hora em que a
nova geração tome posse das cadeiras da Organização.
Meus pensamentos são interrompidos quando entro no vestiário dos
funcionários e ouço a conversa das enfermeiras.
— O homem tem um pau grande, dependendo do ângulo que estoca,
sinto em meu útero. — A outra suspira, claramente com desejo sobre a
perversão que a amiga conta. — Ele gosta da decadência, da devassidão. O
homem gosta de dar tapa na cara e segurar pelos cabelos enquanto fode a vida
fora da gente.
Eu não sou puritana, longe de mim julgar quem gosta de sexo
hardcore, só não sei se tenho estrutura. Ouço minhas irmãs comentando sobre
suas vidas sexuais, que é tipo isso que a Amber está narrando. Acho um
pouco degradante um homem submeter a mulher aos seus desejos sem dar
nada em troca. Keera, descarada do jeito que é, diz que esse tipo de sexo é
visando o prazer da mulher. Tarha sempre me diz que somos nós que
colocamos o limite em relações sexuais — o que me diz que o limite dela é
bem extenso. Porque a garota é tão suja quanto Keera.
Eu gosto de fazer amor, aconchego… Para ser bem sincera, eu nem
gosto muito de sexo. Nunca estive com um homem que me fizesse gozar sem
eu ter que ajudar me masturbando. Se eu quero um orgasmo, tenho que
produzi-lo. Minhas irmãs dizem que não tenho sorte e que deveria sair mais,
não sei se devo sair mais do que faço. Saio o suficiente para encontrar caras
legais que não me dão um orgasmo com seus paus “iluminados”. Porque é
assim que a maioria dos homens pensam, que são deuses do sexo e que foram
enviados à Terra com os seus paus iluminados para fazer as mulheres felizes.
Pobres coitados.
— Você deixa ele fazer coisas sujas com o seu corpo? — A amiga de
Amber está desesperada para viver pela amiga. E eu me mantenho calada
enquanto mexo em meu armário.
— Faço o que ele quiser. Outro dia, Raffaele entrou no apartamento de
Haniel e nos pegou transando no sofá. Sem cerimônia, ele abriu o zíper da
calça tirando o seu pau para fora e o enfiando em minha boca. Enquanto
Haniel estava em minha bunda, Raffaele, com aquela aura de mau, apertava o
meu seio e puxava o meu cabelo. Foi o orgasmo mais alucinante que já tive
na vida!
Um calafrio percorre o meu corpo quando a imagem da mulher sendo
subjugada por aqueles dois monstros vem à minha mente. O que leva uma
pessoa a se submeter a isso? Eu não acho que alguém é capaz de gozar tendo
um pepino lá trás. Eu acho…
— E o tal Raffaele é tudo aquilo que dizem mesmo?
Naomh Bríd[3]! Essa conversa ainda não terminou?
— O olhar dele tem uma crueza tão pronunciada que dá medo. Ele não
é de falar muito e mal ouvi o seu gemido quando gozou no fundo da minha
garganta. Haniel também tem essa escuridão de vez em quando e dizem que a
tal Aniella também.
— Ele vai te apresentar para a família? — A amiga querendo saber até
onde ela pode ir com Haniel pelas costas da Amber. Incrível que a maioria das
pessoas não enxerga o óbvio.
— Eu sei que sou apenas uma transa fácil para o doutor Haniel, mas
não perco a esperança de um dia ele me ver como algo mais.
Não transando com o primo dele, gata! Posso não ser tão descolada
assim, mas sei que aqueles homens têm limites. Pode não se tratar dos limites
ortodoxos, mas existem. Nesse momento, as coisas que estavam em minha
mão caem e ambas as mulheres se calam. Faço a egípcia, fingindo que acabei
de entrar. Elas sorriem e me cumprimentam antes de saírem.
Amber é muito bonita… bonita mesmo, aquelas mulheres que têm
todo o corpo proporcional. Não me admira que o Haniel Babaca Saints a use
como boneca inflável em suas perversões. Ok, ele pega qualquer uma para
usar e abusar, depois as descarta sem consideração. Minhas irmãs nunca
saíram com os primos Saints, mas me disseram que os caras estão entre suas
fantasias mais quentes. É nessas horas que penso que tenho um defeito, logo
em seguida vejo que o defeito é nelas. Quem em sã consciência fantasia com
homens como aqueles?
Troco de roupa para ir embora depois do plantão. Cansada, passo em
um drive-thru de fast-food, compro qualquer lanche e parto para o meu
apartamento. Meu loft é meu pedacinho do paraíso, uma cobertura em um
prédio antigo de quatro andares entre grandes edifícios de Manhattan. Não foi
muito caro porque estava hipotecado e consegui comprar em um leilão. Levei
dois anos para deixá-lo com a minha cara, não foi fácil, mas consegui. Minha
casa é meu orgulho.
Como o loft é duplex, a parte superior (que na verdade é um
mezanino), transformei na minha suíte. Ali tem um terraço maravilhoso com
decks de madeira, onde coloquei uma mesa redonda com quatro cadeiras e
uma espreguiçadeira, e que mamma encheu com as suas plantas favoritas.
Moro praticamente em meio à mata, mas isso me dá privacidade, e regar as
plantas é quase uma terapia. O apartamento ainda conta com dois banheiros,
uma sala pequena que leva à cozinha e um pequeno corredor que nos leva ao
segundo banheiro e ao cômodo minúsculo que chamo de “escritoteca” ou
seja, escritório mais biblioteca.
Tetos altos, paredes de tijolos expostos, pisos de madeira e janelas
amplas trazendo luz natural de todos os lados dão um charme à parte ao lugar.
Ah, já ia me esquecendo: tanto a sala de estar quanto a suíte têm lareiras que
deixam tudo mais aconchegante nos dias invernais. Tudo foi reformado ou
trocado com a ajuda da minha família. Não somos ricos, mas temos uma vida
muito confortável financeiramente, o que me permite morar aqui.
Tomo um banho rápido, e enrolada em meu roupão velho e felpudo,
me jogo no sofá com a comida nada saudável que eu trouxe. Ligo a televisão
e passo todos os canais; como nada me atrai, entro na Netflix e vejo o que há
de bom. Logo a minha atenção vaga para a conversa que Amber estava tendo
no vestiário com a outra enfermeira. A imagem de Haniel e Raffaele vem à
minha cabeça. Imagino os dois com uma mulher, e o que era para ser nojo
aquece-me como algo desconhecido. Balanço a cabeça.
— Merda! Preciso sair com alguém — falo para o nada.
— Precisa sair mesmo.
Grito assustada, batatas voam juntamente com o hambúrguer e
refrigerante que estavam em meu colo. Coloco a mão no peito para aliviar a
dor do susto. Minha mãe desfila para dentro juntamente com Tarha.
— Jesus Cristo, mãe! Não pode pelo menos bater à porta, ou sei lá,
tocar a campainha como uma pessoa normal? — digo enquanto junto a
bagunça que fiz.
— Máthair está certa, você precisa sair mais e de preferência com um
cara que não precisa de um GPS para encontrar o seu clitóris — minha irmã
fala e ganha uma cara feia da mamãe.
Elas vão para a minha cozinha e despejam as comidas. Você conhece
uma mãe irlandesa? Não? Então deixe-me te contar. Elas não se importam se
você já é grande e saiu de casa, elas invadirão seu lar, te alimentarão e
arrumarão suas coisas à força! Você provavelmente deve estar pensando: Mas
o que há de mal nisso? Ou “Todas as mães são assim!”. Mas eu lhe digo:
deixando elas entrarem em nossas casas, que por sinal não são delas, elas
tomarão conta de nossas vidas. Apresentarão filhos e netos de suas amigas,
caras do supermercado, da oficina, pizzaria, etc., etc., porque alegam que não
viverão para sempre e não querem que fiquemos sozinhas cheias de gato.
A maioria dos pais não vê a hora de seus filhos abrirem as asas e
voarem para longe. Os pais irlandeses constroem uma casa monstruosa
acreditando que seus filhos ficarão mesmo depois de casados, com netos
correndo e gritando pelos corredores. Gerações e gerações compartilhando o
mesmo teto e quintal. Para eles alcançarem os seus objetivos, eles interferem
até como você trata o seu pretendente, quando há um. Quando não há, eles
tratam de arranjar, como demonstrei anteriormente. Mães italianas não pedem
a chave de sua casa, simplesmente as conseguem em um passe de mágica.
— Está sabendo alguma coisa sobre os primos Saints? — minha irmã
pergunta. Balanço a cabeça em negativa. Elas acham que, por trabalhar na
clínica, sei de todas as fofocas. — Dizem que enfim foram chamados para
assumirem as cadeiras — minha irmã completa.
— Todos estão preocupados, dizendo que são instáveis e que
assumiram o lado negro da família. Mas isso são boatos — minha mãe diz. —
Os chefes atuais jamais os chamariam se não tivessem certeza de que eles
serão bons o suficiente.
Minha irmã dá um suspiro.
— Pois eu já espero que sejam maus como dizem — ela olha para
mim e balança a sobrancelhas. — Não me importo em dar um passeio em um
cavalo bravo como Haniel ou Raffaele Saints.
Bufo em escárnio e minha mãe não perde tempo:
— Mae poderia fazer um esforço em conhecê-los melhor. Quem sabe
ela não se associa a um Saints?
— Vai sonhando — resmungo. — Como uma MacNamara se associa
a um Saints?
— Olha o jeito de responder para a sua mãe, mocinha. Teremos sorte
se algum bom homem relevar essa sua língua afiada e se casar com o seu mau
humor. Já foi o tempo de guerra entre as nossas famílias. Os Saints não são
nossos inimigos, são nossos aliados.
Tarha se joga ao meu lado e rimos até começar o novo episódio de
Queer Eye[4].
Capítulo 02
Haniel

— Pai…
— Não.
— Pai…
— Não.
— Por fa…
— Acabou o seu tempo, Haniel. Chegou a hora de assumir o seu lugar.
— E arrumar uma mulher boa para sossegar — minha mãe entra na
conversa.
Não adianta falar nada. Não serei ouvido pelas próximas horas
enquanto sou refém do senhor Raziel e da senhora Lilly Saints. Esse inferno
começou hoje, mais especificamente há algumas horas, quando os chefes
Saints invadiram o meu consultório na WellCare para anunciar minha subida
ao trono. Desde então a palavra paz foi deletada do meu dicionário.
Nós somos a primeira geração que pode ter uma profissão além de ser
herdeiro das Organizações Saints. Eles nos deram isso por causa de nossas
mães, que insistiram que deveríamos ter vida antes de nos dedicar totalmente
ao mundo da família. Fomos treinados, torturados, iniciados, e talvez para
amenizar tudo o que passamos, ganhamos esse pequeno tempo de liberdade.
Tanto Raffaele quanto Aniella ou eu temos nossos próprios demônios.
No meu caso, não só a nossa iniciação, mas o fato de ser adotado. Ainda me
debato sobre isso, não acho que eu mereça herdar a cadeira do meu pai, mas a
família insiste. Eu sou um Saints, cresci sabendo disso. Todos me amam como
se eu fosse seu próprio sangue, mas não sou, então não me acho digno de
estar no trono. Cada vez que tive essa conversa com o meu pai, ele ficou
furioso.
Raziel Saints me criou como filho dele. O homem me ensinou tudo o
que eu sei, cuidou de mim e deu mais do que uma criança possa imaginar.
Quando cada irmão meu nasceu, ele priorizava a mim. Eu fui amado por um
homem que não precisava me dar nada! Fui adicionado a uma família que
nunca questionou o meu gene, afinal, meu progenitor tentou matá-lo duas
vezes. Minha mãe fez questão de que eu sempre soubesse a minha história
para ter noção de quem eu poderia ter sido, para ser grato por quem sou.
Não me revoltei, não tinha motivos para isso. Raziel Saints é o meu
pai e antes dele não houve ninguém. Ele costumava dizer que se fizessem o
teste de DNA, todos veriam que eu sou um Saints. Ele não me adotou apenas
de coração, nos ligamos pela alma. Nunca questionaram a minha
paternidade… Na verdade, aconteceu uma vez, e desde então ninguém mais
ousou questionar.
Eu fui uma criança sortuda. Tive uma mãe que lutava por mim, e em
meio a essa luta encontrou uma família que nos acolheu e um homem que nos
amou. Fui para as melhores escolas, ganhei um carro de luxo quando tirei
minha habilitação, tive conselhos e broncas de um pai preocupado. E mesmo
quando ele estava puto, Raziel me tratou como uma das coisas mais
importantes de sua vida. Ele me ensinou a ser um homem e disse que eu
nunca devi nada a ninguém por me amarem. Ou seja, não devia nada aos
Saints.
Fui mimado por avós e tios que me mostravam a cada dia o quão
importante eu era. Raffaele, Aniella e eu fomos criados juntos porque fomos
os primeiros a nascer, mas a minha responsabilidade era maior porque era
mais velho. Sou privilegiado e agradeço a Deus por isso. Não é todo mundo
que adota uma criança e a ama como se fosse seu próprio sangue. Da mesma
maneira que fui amado, também tive brigas e momentos difíceis. Porque
famílias são assim, estão lá para o bem ou para o mal.
Minha família é descendente da máfia italiana. Desertores que fugiram
da Itália rumo aos Estados Unidos para reconstruir suas vidas longe dos
desmandos da máfia. Em meio a perseguições e à queda do império
criminoso, Giuseppe Luchese partiu clandestinamente em um navio cargueiro
rumo à América. Com ele vieram Narciso Lugharelli e Carlo Vittore, também
com suas esposas e filhos.
Chegando na América do Norte, viu-se acuado pelo chefe da máfia
local. Nesse momento, decidiu que sobreviveria à saída da famiglia e lutaria
para que as futuras gerações dessas famílias desertoras pudessem ter uma vida
lícita e tranquila. Reunidos, Giuseppe e seus primos — Carlo e Narciso —
decidiram mudar de nomes e começar uma empresa de segurança. A ideia era
tornarem-se necessários a tantas pessoas a tal ponto que suas mortes
provocariam uma nova onda de guerra num mundo no qual já estava instalado
o caos.
Eles trabalharam incansavelmente, tornaram-se Anthony Giuseppe
Saints, Paul Narciso Saints e Joseph Carlo Saints, fundando na década de 50 a
Saints Security, que anos depois se tornou Saints Worldwide. Como líderes
destemidos, montaram um império juntamente com as famílias italianas e
descendentes que se aproximaram na esperança de se tornarem membros
desse novo clã.
Antigamente, os que eram aceitos tinham que aderir Saints no meio do
nome, e nunca ao final. Também tinha a regra de enviar um de seus filhos
para ser soldado da Saints Security. Seus negócios recebiam recursos da
empresa, tornando-a sócia de seu estabelecimento. Hoje em dia, não só os
homens devem servir algum tempo na Worldwide, assim como todos têm que
colaborar parte do seu tempo em alguma empresa Saints, como a clínica
WellCare ou a escola RedLife.
Com essas adições, o clã foi se tornando cada vez mais numeroso e
forte, o que despertou o ódio de alguns. Sucessivos ataques contra as famílias
chefes e aos estabelecimentos associados levaram nossos bisavós à frente do
novo Capo di Capos na terra-mãe, para formalizar a deserção. Algo tão raro
que pode ser considerado um milagre divino. Mas quem seria louco o bastante
para matar os Saints, que na época já eram indispensáveis para os russos, os
irlandeses e para a própria máfia italiana nos Estados Unidos?
Não demorou muito para o clã ter suas próprias regras, afinal, muitas
pessoas se agregaram, e essas pessoas geravam mais pessoas. E, para
organizar, vieram as Leis Absolutas:
*A segurança do “Presidente” e da tríade vem acima de qualquer
outra;
*Não chamar a atenção para si e nem para o clã;
*Se mexer com qualquer um do clã, terá que se ver com todos;
*Não mentir para a tríade, caso seja chamado para esclarecimentos;
Não vamos esquecer que mesmo tendo em mãos grandes poderes, os
herdeiros têm que se sacrificar em prol do bem maior:
*Todo herdeiro que não esteja iniciando sua família até os trinta e
três anos de idade tem seus pais como responsáveis pela escolha do cônjuge
para fazer com que a união aconteça;
*Os herdeiros não devem, em hipótese alguma, crescer separados. É
obrigatório que eles convivam próximos por toda a vida;
*Os herdeiros do triunvirato devem passar por treinamentos que os
preparem para sentar em sua cadeira e comandar o clã. Devem também ter
estudo superior compatível com a sua herança. É de responsabilidade
expressa de seus antecessores prepará-los para assumir o que lhes é de
direito;
*É proibido que os herdeiros entrem em confronto iminente que
poderá ocasionar seu óbito.
Essas são algumas das leis estabelecidas pela primeira geração Saints.
A segunda geração é constituída por meu tio-avô Ítalo Saints, meu avô Felipo
Saints e um outro tio-avô, Ândrio Saints. A terceira e atual geração a
encabeçar os Saints são: tio Gabriel, que é o chefe dos chefes, ou o
“Presidente”; meu pai, Raziel, que é conselheiro, ou vice-presidente; e tio
Elemiah, que é conhecido como o Senhor das Armas ou segundo vice-
presidente.
Desde cedo sabíamos qual seria nosso futuro, o que não fazíamos
ideia era que Aniella se juntaria à Tríade Saints. A infeliz nos seguiu para a
Itália quando Raffaele e eu fomos enviados para a nossa iniciação. A garota
era tão franzina, e com aquele cabelinho fininho batendo nos ombros foi
facilmente confundida com um menino. Não foi difícil burlar a segurança que
vovô Cardi, chefe da família Arigliato, colocou para nos treinar. Ninguém
fazia a porra da ideia de que Aniella com doze anos iria se meter no
treinamento dos meninos iniciantes.
Não eram apenas os próximos chefes Saints que seriam treinados:
famílias importantes da Itália enviavam seus filhos para lá para se tornarem
homens. Quando vimos aquele menino pequeno e que cheirava a flores, já era
tarde demais. O capitão responsável pelo nosso treinamento era homem de
confiança de Cardi Arigliato. Não vimos nada de errado quando um dia ele
saiu com os nossos seguranças e voltou com dois de seus soldados.
Achávamos que era apenas para tirar-nos da nossa zona de conforto.
Os primeiros dias foram tranquilos, mas do quinto em diante se tornou
um inferno sobre a terra. Éramos crianças entre onze e quatorze anos de
idade. Passamos fome e sede a ponto de ficarmos desnutridos. Fomos
torturados com a desculpa que eles tinham que arrancar o que era de melhor
dentro de nós. Nos perguntávamos onde estariam os seguranças, homens que
nos conheciam a vida toda, para nos resgatar. Ninguém apareceu por mais alto
que rezássemos!
Raffaele com treze e eu com quatorze anos, não tínhamos forças, e
nossos espíritos estavam quase quebrados pelas constantes torturas
psicológicas. Teve meninos que não tiveram a mesma força que nós e
acabaram sucumbindo. Se tornaram suas próprias torturas, chorando e
apanhando constantemente, já fora de suas mentes. Tentamos a todo custo
esconder a identidade de Aniella— e tivemos êxito até o dia que a viram
fazer xixi sentada. Então, tudo o que já era ruim piorou.
Numa noite fria em meio ao nada na Itália, o capitão bateu de cinto em
um dos menores meninos que haviam ali. Ele estava nu e podíamos ver os
ossos de seu pequeno corpo. Depois da surra, o capitão abriu as calças e disse
que mostraria o que aconteceria a nós se abríssemos a boca ao sair dali.
Afinal, estávamos sendo treinados para suportar o pior do mundo. Aniella,
que até então era muda, gritou e saiu correndo na direção do homem.
Ninguém suportaria ver o monstro estuprar um menino que estava quase
morto.
Dois de seus soldados a agarraram e a seguraram. O maldito capitão
fez o que não deveria, ameaçou um Saints:
— Olha a menininha Saints colocando suas garras de fora. Talvez não
tenha a quebrado como deveria. Mas eu farei assim que terminar com esse
aqui. — Aniella não parava de gritar e se debater. O capitão, sem muita
paciência com a minha prima, foi até ela e a esbofeteou no rosto. Minha
vontade foi de saltar sobre ele e matá-lo, mas se fizéssemos aquilo naquele
momento, ele poderia matar a Aniella e a nós. Segurei Rafe como podia. E a
voz daquele filho da puta ficava mais alto: — Vocês Saints achavam que
podiam abandonar a máfia e ficar tudo bem? Seus velhos acreditavam que
podiam nos tratar como seus empregados idiotas para treinarem os filhinhos
babacas? Eles se arrependerão por tudo o que fizeram!
Os outros meninos estavam com olhar perdido, tão perdido quanto nos
sentíamos cada dia presos ali com aqueles monstros. Cutuquei Raffaele e
apontei para a faca e a arma que estavam na cintura dos soldados que
seguravam Ani. Nós chegamos ao maldito treinamento já sabendo atirar e
trabalhar em luta com facas, estávamos ali apenas para aperfeiçoar nossas
técnicas e espírito. Quão enganados nossos pais estavam.
Quando o capitão baixou sua calça e expôs a porra do seu pau, Rafe e
eu já estávamos sobre os homens que seguravam nossa prima. Não tínhamos
força, mas o ódio nos movia. Aniella aproveitou que o capitão tropeçou em
suas calças que estavam no joelho, arrancou a arma da minha mão e atirou em
sua cabeça. A menina continuou descarregando a munição até que não sobrou
uma bala. Depois disso os outros meninos foram ajudar o que quase foi
abusado.
Depois de constatarmos que os homens estavam mortos, procuramos
entre suas coisas e achamos água e um pouco de comida, que repartimos entre
nós. Entre os pertences, também encontramos um celular. Procuramos entre
os contatos um número conhecido, não queríamos que outro filho da puta
aparecesse, com certeza seria a nossa morte. Encontrei o número de Cardi e
liguei. Quando contei às pressas o que acontecia, o homem urrou do outro
lado da linha. Pediu que nos mantivéssemos escondidos até ouvirmos a sua
voz, e assim fizemos.
Não sabíamos quanto tempo tinha passado, para nós dias e noites já
tinham se perdido há muito. Ouvimos chamarem por nós, mas de longe era
quase impossível reconhecer a voz. Escondi três meninos atrás de uma árvore
grandiosa, disfarçando-os com tecidos de barracas e folhas, me enrolei sobre
os meus primos sob roupas e folhas também. Era o máximo que eu conseguia
fazer ali para protegê-los, para proteger a minha família.
Quando as vozes se aproximaram, Raffaele chamou pelo avô e Ani
começou a chorar. A menina que aguentou dias de tortura sem derramar uma
lágrima permitiu-se esvaziar seus medos. Mesmo sabendo que era o nosso
avô, não pude soltá-los e eles não soltaram a mim. Ali éramos um só. Mais do
que sangue, mais que amizade, mais que parentesco, era instinto fraternal.
Depois que fomos resgatados, tudo passou em um borrão. Voltamos
para a casa da vó Pietra, que nos recebeu com abraços e lágrimas. Nossos pais
chegando em meio ao nosso sono e nos assustando ainda mais com suas
preocupações e euforias. Tivemos que contar uma e outra vez o que
aconteceu, Aniella teve que recontar mais ainda, porque a família estava em
desespero total com o seu desaparecimento do suposto acampamento de
música que ela deveria estar. Fomos levados a psicólogos e psiquiatras que
tentaram com afinco nos fazer contar o que se passou.
Já tínhamos contado para nossos pais tudo o que aconteceu. O que não
contamos foi o quanto aquilo marcou a nossa vida. Por muito tempo tive
pesadelos nos quais Ani e Rafe eram abusados, algumas noites eu não
suportava e chorava. Mas com o passar do tempo, vendo os meus primos
seguirem em frente, apesar dos seus demônios, me deu a força para fazer o
mesmo. Nossas famílias aceitaram que merecíamos o tempo antes de
tomarmos posse da Organização. Eles sabiam que precisávamos ter novas
lembranças e de preferência felizes.
Eu me tornei médico, era o sonho da minha mãe que prontamente
atendi. Também sou o conselheiro de Raffaele, que se formou em Direito,
mas encabeça a máfia italiana desse lado do país e trabalha na Worldwide na
área de investigação. Aniella, bem… Ani é procuradora-geral do Estado e
executora da Famiglia. Sim, nós da quarta geração Saints somos mafiosos
com mãos sujas de sangue, uma longa lista de mortes nas costas e nadamos
em dinheiro ilícito.
Nossos pais sabem o que fazemos, e como somos bons no que
fazemos, as coisas se mantêm equilibradas. Se na geração passada as pessoas
tinham dúvidas se os Saints eram anjos ou demônios, nesta elas não terão.
Não temos nomes e nem qualidades celestes. Somos obscurecidos e
alimentados pela maldade do mundo. As pessoas não terão de nós o que
tiveram de nossos pais. Essa é a porra da nossa história e a contamos como
quisermos.
Capítulo 03
Haniel

Olho para as pastas de pacientes à minha frente sem dar a menor
atenção. Minha cabeça está a milhas daqui. Eu ainda não processei que terei
que abrir mão da minha vida para comandar um império. Estava bem só
tratando do submundo, eu não queria subir na porra de um trono. Mas
tradição é tradição. Família é família. E um herdeiro Saints é um herdeiro
Saints.
Para ser exato, não assumiremos neste exato momento, existe o tempo
de transição que leva meses ou anos. Os chefes Saints estavam calados quanto
a apressar nossa transição. A primeira coisa que veio em minha mente foi que
meu pai ou um dos meus tios estavam à beira da morte. Se fosse isso, uma das
mammas Saints já teria feito um escândalo e morrido antes. Não, não é isso.
Alguém bate à porta e eu peço para entrar. A diretora-geral da
WellCare, Evelyn, entra e senta-se à minha frente. Ela é uma senhora no final
de seus cinquenta anos, mas muito bela. Eu sei o que a traz aqui, ela veio
anunciar quem ocupará o meu consultório. Ela não precisa dizer as palavras
para que eu saiba. Quando os Saints decidem, as coisas acontecem da maneira
que eles querem.
— Doutora Kingley, o que posso fazer por você? — Sorrio e ela cora.
— Você é um rapaz levado, Haniel Saints. Acredito que você já saiba
por que estou aqui.
Solto a caneta que até então estava segurando e recosto-me para trás.
— Sim. E já tem um nome para me substituir?
— Mairheen MacNamara.
— Você está de sacanagem comigo — meu sorriso escorre veneno. —
A médica irlandesa de paus? Para me substituir? Eu sou a porra do melhor
médico que essa clínica tem e você quer pôr MacNamara, a feia em meu
lugar?
A senhora à minha frente arruma o cabelo com toda a paciência de
uma vida.
— Não entendi a parte da médica de paus e vou fingir que não escutei
que você é a porra do melhor. Temos excelentes médicos e você é um deles,
assim como a doutora Mairheen também é. E o mais importante, ela ocupará
o seu consultório assim que você partir. A WellCare está além de qualquer
desentendimento ou conflito que você e a doutora MacNamara venham a ter.
Nossos pacientes vêm em primeiro lugar.
Bufo com escárnio.
— Não acho que ela tenha as qualificações certas…
— A doutora é uma excelente cardiologista, ela é perfeita para ocupar
o seu lugar. Essa clínica foi regida durante muitos anos por homens que a
deixaram no século passado. Agora está na hora de renovar o quadro clínico e
o modo com que as coisas são conduzidas por aqui. Estou me encarregando
disso. Você terá que passar seus pacientes a ela, aos poucos. Teremos trinta
dias de transição.
Aceno e assisto à senhora sair da minha sala antes de lançar a caneta
em minha mão na parede. Eu nem sei por que aquela infeliz me tira do sério.
Mairheen tem esse efeito sobre mim. Talvez seja por pertencer àquela corja
irlandesa que não tem pulso firme com suas mulheres. Não que os Saints
tenham… meu pai pode matar a sangue frio, mas quando chega em casa é o
cachorrinho da minha mãe.
Mairheen é cardiologista? Desde quando? Sempre achei que a maldita
fosse urologista. Logo que chegou aqui, a vi em um consultório examinando
um pau bem de perto. Até pensei que ela poderia estar se divertindo, mas o
seu olhar para o membro me dizia que era puramente profissional. Quem sabe
ela estava vendo um ao vivo e a cores pela primeira vez? Seja o que for. Não
acredito que aquela irlandesa vai ficar no meu lugar.
O que me leva a outro assunto: por que o chamado veio agora? O
combinado era que nos estabeleceríamos daqui a cinco anos, e não agora.
Caso não estivéssemos casados até aquela bendita data, eles arranjariam uma
esposa para nós, também condicionaram que a transição deve começar pelo
menos dezoito meses antes de tomarmos posse. Fechamos o acordo sem
pensar! Queríamos liberdade, a ponto de nem pensar em quaisquer
consequências. Afinal, estamos falando dos Saints. Sempre tem alguma
consequência.
Rafe entra com seu elegante terno e o abre antes de sentar-se. Raffaele
é mais alto do que eu e mais frio também. É como se meu primo anunciasse a
morte por onde passa. Ok, se levar em conta que sou eu quem indica o alvo e
assino o atestado de óbito, pode-se dizer que o emissário da morte sou eu.
Recosto em minha cadeira confortável e espero o meu primo falar:
— Soube que recebeu visitas importantes — uma contração no canto
de sua boca indica que o filho da puta está achando engraçado.
— Não sei o que você está achando divertido. Você é o próximo a
recebê-los.
— Eu sei — ele suspira exasperado. — Tinha esperanças que o meu
avô não aceitaria que eu me sentasse em seu lugar, tendo ligações com a
máfia.
Bufo.
— Todos nós não temos? — Ficamos em silêncio, perdidos em nossos
próprios pensamentos. — Há algo por trás disso.
— Eu sei e por isso estou aqui — ele fala sério.
— Nosso acordo era para ser cumprido anos à frente, mas o modo
como me abordaram hoje…
Rafe acena antes de falar.
— Fico me perguntando se todos nós receberemos a comitiva que
você recebeu. Eles só se dão ao trabalho de se reunir quando é algo
excepcional. Há algo acontecendo e eles não nos dirão. Pelo menos não antes
da transição.
Cruzo as minhas mãos sobre a mesa.
— Mudando de assunto… Sabe alguma coisa sobre Mairheen
MacNamara? — pergunto ao meu primo.
— A médica que irá substituí-lo? — Mostro o dedo do meio e ele ri.
Filho da puta. — Ela é filha de Seamus, sobrinha de Eoghan MacNamara.
Uma coisinha nervosa. Mas as suas irmãs são selvagens. Volta e meia estão
no The Ocult à procura de presas. Ambas são predadoras vorazes.
— Acho que não as conheço — falo enquanto repenso em todos os
rostos irlandeses que poderiam ser parentes de Mairheen. — Talvez esteja na
hora de flertar com uma MacNamara voraz e provocar a irmãzinha irritadiça.
— Isso está me soando infantil e apaixonado — Rafe fala sério.
Eu o encaro.
— Não gosto de Mairheen. Se ela quer ocupar o meu lugar aqui, terá
que passar no meu teste.
— E qual é o seu teste, Hani? Foder a irmã dela sem que a testada em
questão arranque as suas bolas?
Dou de ombros.
— Talvez. Talvez as duas irmãs. Talvez com ela assistindo. A ideia é
que ela surte e deixe a máscara cair. Aquela fachada de boazinha escorregaria
e o lado cadela brotaria. Todos verão o quanto Mairheen é insuportável.
— E isso seria um serviço para a sociedade.
— Para a sociedade eu não sei, mas para essa clínica sim — falo
encerrando o assunto. — Voltando para a família… O que faremos? Vamos
simplesmente aceitar que quebrem o acordo?
Rafe passa uma mão em seu cabelo.
— Não sei. Mas seja o que for que está vindo, é grande e somos peças
essenciais. Aniella deve estar saindo da pele com a notícia de que já estamos
sendo recrutados.
Rimos pensando a mesma coisa: se não fossem os nossos pais, eles já
estariam mortos há muito tempo. Aniella tem dificuldade para se submeter a
alguém ou a alguma coisa. Ela releva os desmandos de Raffaele porque ele é
o capo, caso contrário, nem ele a controlaria. Ani é a verdadeira máquina
mortífera.
Depois que Raffaele saiu, voltei ao trabalho. Pareço arrogante em
relação ao meu trabalho, mas ser médico não é para qualquer um. Dediquei-
me demais a fazer do departamento de emergência que era medíocre um
atendimento de excelência, referência pelo país inteiro. Minha função aqui
não é qualquer função, quem entrar não herda só uma cadeira, mas uma
grande responsabilidade. Não vou permitir que aquela irlandesa e nenhum
outro incompetente acabe com o meu trabalho de anos. Garantirei que quem
venha a ocupar o meu lugar seja coerente e qualificado.

***

Depois de um dia longo de trabalho, caminho em direção ao meu carro
e lá encontro Amber à minha espera. Sorrio. Nada como finalizar o dia com
um bom banho e uma gostosa em minha cama. Aproximo-me dela, e antes
que pudesse dizer alguma coisa, a beijo. Assim que me afasto, abro a porta do
carro e indico para que ela entre. Mas antes que o faça, ordeno:
— Tire a calcinha e mantenha a calça aberta.
— Que devasso! — Ela executa a minha ordem ali no estacionamento
escuro.
A vantagem de sair com mulheres como Amber é que elas sabem
exatamente o que as esperam e são obedientes. Sabem que comigo o sexo é
pesado e degradante, mas ainda assim insistem e fazem de tudo para obter o
que querem. Após o que ambos queremos ser atendido e estarmos satisfeitos,
cada um vai para o seu lado. Ou embora do meu apartamento — o que vier a
calhar.
Durante o trajeto ela me conta sobre o seu dia como se eu desse a
mínima importância para isso. Meus pensamentos estão na família e no
motivo que eles vieram me ver. Meu pai honra muito a sua palavra, se ele está
voltando atrás, algo de muito importante está acontecendo. Nessa família,
nada acontece por acaso. Não mesmo. Mudando o meu foco para a sua blusa,
a levanto e acaricio a sua barriga, subo para o seu seio e aperto-o. Seu mamilo
fica duro e então o belisco delicadamente.
— Ofereça-se para mim, gattina.
— Você está dirigindo.
Sorrio.
— Desde quando isso me impede? Agora, ofereça-se para mim como
uma boa troia.
Amber levanta a blusa prendendo-a em algum lugar para me dar livre
acesso. Acaricio seus seios com a mão livre, belisco seus mamilos até que
fiquem em riste. As mulheres são responsivas a mim e isso me satisfaz
grandiosamente. Antes de chegar à sua boceta, que é meu alvo, pergunto:
— Lavou-se antes de deixar o hospital?
Ela cora e vejo irritação chegando.
— Você está me chamando de suja? — Amber me questiona
indignada.
— Mulher, eu sou médico e já vi coisas demais para ir colocando a
mão em qualquer lugar. Se lavou ou não?
— Sua sorte é que adoro foder com você — ela resmunga. — Sim, eu
me lavei. Conheço suas paranoias.
— Ótimo — digo e já dedilho a sua entrada que está úmida, mas não o
suficiente. — Brinque com os seus seios, Amber.
Não demorou muito para pararmos em frente à minha casa. Paro de
tocar a mulher ao meu lado tempo o suficiente para o portão abrir. Por
instinto, olho ao redor à procura de ameaças. Enquanto percorrermos o
caminho de entrada, observo atento o pátio. Não temos tantos seguranças
como nossos pais, mas contamos com um ou dois homens por garantia.
Afinal, somos os herdeiros de uma das maiores fortunas e influências do
mundo. Muitos nos querem mal.
Assim que entro na garagem e aciono o fechamento, saio do carro e
dou a volta para encontrar Amber saindo. Não sou um homem romântico que
dedica beijos extraordinários à sua companheira para mostrar o quanto a
quero. Não, esse não sou eu, e sempre falo que não devem esperar isso de
mim. Simplesmente pego-a pelo cotovelo e a levo para dentro da casa.
Preciso foder rápido e forte para descarregar toda a frustração do dia.
Digito a senha da fechadura e a porta abre com um leve clique, aponto
para Amber entrar antes de mim. Assim que estamos dentro, retiro a sua blusa
e sua calça, jogando tudo de lado juntamente com a sua bolsa. Pressiono-a
contra a porta e a beijo até que Amber gema de puro prazer. Afasto-me,
começo a tirar a roupa, sento-me no sofá e a chamo para se colocar diante de
mim. Sem que eu precise dizer, ela se ajoelha entre as minhas pernas e toma o
meu pau em sua boca.
— Isso, gostosa. Você é uma boa garota, gattina — seguro seu cabelo,
mas permito que ela dite o ritmo. — Toque-se enquanto me chupa. Isso…
Sinto meus músculos tensionarem ao sentir a presença de perigo ao
redor. Antes que eu pudesse reagir, Raffaele sai pela porta da cozinha
comendo uma maçã. Paro Amber, que se assusta ao ver que tinha outra
pessoa, mas quando se dá conta de que é o meu primo, ela se ajoelha e sorri
descaradamente. Amber já brincou conosco ao mesmo tempo, para ela não era
uma novidade.
— Chegou quem faltava — ela fala arrastado.
— Cheguei mesmo — entra o furacão Aniella, cortando a sedução da
menina.
Amber fica envergonhada e a trago para o meu colo. Aniella assusta
homens, imagina se não assustaria uma mulher. Muitos dizem que a minha
prima puxou à tia Micaylah.
— A que devo a honra dessa visita? — pergunto enquanto acaricio a
mulher em meus braços.
Ani senta-se à minha frente e fala:
— Nosso futuro é um bom motivo, não acha?
Respiro fundo e me levanto.
— Nos dê licença ao menos para colocar nossas roupas — falo
entredentes. Meu pau continua duro e agora estou mais tenso que antes.
— Esperamos na cozinha — meu primo pega Ani pelo braço e
caminha em direção ao outro ambiente, não antes de dar uma piscada para
Amber, que se derrete.
Peço para a mulher se vestir e ordeno a um de meus homens que a
leve para casa. Vou em direção ao banheiro para um bom banho frio. Foder é
sempre um modo mais prazeroso de extravasar a frustração, mas exercícios
também o são. Assim que eles saírem, irei para a academia da WellCare.
Não muito tempo depois de enviar Amber para casa e um bom banho,
sento-me na cozinha e me sirvo com a pizza que surgiu de algum lugar. Rafe
observava Ani enquanto a mesma estava no telefone. Cena comum. Raffaele
taciturno analisando Aniella bomba-relógio. Sempre foi assim.
Concentro-me em matar a minha fome enquanto minha prima está no
telefone em uma ligação que parece ser importante. Assim que ela desliga,
vira-se para mim.
— Há alguns dias, Levi Nikolov me falou…
Rafe balança a cabeça.
— Eu sabia.
Ani volta-se para ele com olhar de morte.
— Sabia o quê, Raffaele?
— Você está novamente com Nikolov? — pergunto.
— Não interessa a vocês, esse não é o assunto…
Rafe se levanta e pega mais uma fatia de pizza.
— Por que vocês simplesmente não ficam juntos e nos poupam de
dramas desnecessários? — Ele a pressiona, e pressionar Aniella nunca é uma
boa.
Ela fecha os olhos e claramente conta até dez.
— Levi não é a questão aqui. Voltando ao assunto, ele me relatou que
alguns negócios da Bratva vêm sendo cancelados. Mas não quaisquer
negócios, trata-se de negociações com grandes empresários que são pilares na
estrutura limpa da Bratva. É como se quisessem descredibilizar.
— E isso é estranho por quê? — pergunto.
Ela fala pensativa, andando de um lado para o outro:
— Porque está acontecendo a mesma coisa com os irlandeses.
Por mais que eu tente seguir a linha de pensamento da minha prima,
está difícil. Todos sabem que o mundo corporativo é um tanque cheio de
tubarões prestes a devorar uns aos outros. Com os clãs não seriam diferentes,
pelo menos não com a parte legal das nossas organizações. Rafe interrompe
meus pensamentos:
— Semana passada tivemos uma operação de carga cancelada. Na
hora não achei estranho, mas fiquei irritado pelo fato de que era um de nossos
clientes fixos. A casa noturna teve dois fornecedores que cancelaram o
contrato. Todos na mesma semana. Todos legais — ele encarou Aniella. —
Alguém está mexendo justamente naquilo a que recorremos para lavar
dinheiro.
Tudo começa a fazer sentido. Levanto-me e me coloco ao lado de Ani.
— Estão quebrando uma de nossas pernas para que quando
precisemos correr, não as tenhamos. Mas isso é algo concreto?
— Não, por enquanto é somente uma suposição — minha prima vai
até a caixa de pizza e pega a última fatia. — Agora vamos para o que é
realmente importante.
— O que seria mais importante que isso? — Rafe a corta.
— Eu não me casarei.
Rafe e eu trocamos olhares.
— Ninguém quer — falo. — Mas acredito que seja iminente.
— Eu não me casarei — ela repete.
— Todos sabemos que não existe essa opção, Ani. A nossa opção é
nos casarmos com alguém, seja esse alguém da nossa vontade ou não. Não
perca o seu precioso tempo pensando nisso, porque você se casará de
qualquer maneira — Rafe diz.
Ela nos encara.
— Depois de me casar e assumir o meu lugar na família, poderei ser
viúva?
Estremecemos ante a sua afirmação. Porque nós dois sabemos que ela
matará o seu futuro marido. Aniella é friamente mortal. Simples assim.
Rafe dá de ombros.
— Eu fingirei não ter ouvido e você toma a decisão que achar
necessária — ele olha para mim pedindo apoio e eu assinto. — Por enquanto,
continue a investigar sobre sua teoria e vá me informando conforme as coisas
evoluem, farei o mesmo. E você, Hunny, tente descobrir por que nosso tempo
foi cortado pela metade.
E assim a reunião termina.
Capítulo 04
Haniel

A academia da clínica fica na cobertura para evitar que o barulho que
haja aqui não chegue às alas onde os pacientes estão. Sendo assim, entre a
academia e essas alas há três ou quatro andares. Vou ao vestiário para trocar
de roupa rapidamente e depois vou até o salão principal, onde está o boneco
de treinamento. Quando estou com muita energia acumulada, gosto de treinar
luta, geralmente com o Rafe, mas hoje o boneco serve.
Por Bluetooth, aciono a minha playlist de treinamento, e a música é
reproduzida através do aparelho de som da academia. Alongo os músculos e
aqueço-me para evitar lesões. Já não basta todo o meu mundo estar
desmoronando, não vou adicionar uma lesão a isso. O suor começa a brotar
em minha testa e sei que estou pronto para iniciar os movimentos com o
boneco de treino. As batidas das músicas me movem e me inspiram a manter
o ritmo de ataque.
(…) Em primeiro lugar, eu vou dizer tudo que está na minha cabeça.
Estou irritado e cansado da maneira como as coisas têm andado, do jeito
como as coisas têm andado (…).[5]
Entro em uma linha de ataques que combinam com a batida e sigo
incansavelmente a lutar contra o meu oponente imóvel. A lembrança da visita
da família para falar que o meu tempo esgotou e meus pais insistindo para me
casar. Raiva me faz mais veloz e preciso… raiva é o que eu sinto de mim
mesmo por estar lutando contra um futuro que me foi dado divinamente.
(…) Em segundo lugar, não me diga o que acha que eu poderia me
tornar. Sou eu que estou na vela. Sou o mestre do meu mar (…).
Confusão, dor em meus músculos, choque dolorido de cada golpe,
ansiedade, frustração, todos juntos me movendo para algum lugar
desconhecido, e eu odeio o desconhecido, pois não posso ter controle sobre
aquilo que não posso ver.
De repente a música é desligada e paro para ver quem foi o imbecil
que fez isso. De onde eu estou, ninguém pode me ver: parte a parede me
encobre; parte, o boneco. Quando estico o pescoço para gritar com o intruso,
vejo uma mulher de cabelos longos castanhos procurando algo em seu
telefone. Ela não é alta, tamanho mediano, e sua roupa de ginástica mostra
cada contorno seu.
A mulher é gostosa, com volume certo no lugar certo. Posso ver sua
bunda empinada que não podemos chamar de pequena, não… deve ser aquele
tipo de bunda formato coração. Seus seios também não são pequenos, ou o
sutiã dela está com um bom enchimento. De perfil, a mulher é bonita, e se
está aqui deve trabalhar na clínica. Como na terra eu deixei de pegar ela? Pois
não lembro de comer ninguém como ela.
Uma música sexy começa a tocar e a mulher em questão olha para os
lados a fim de garantir que está sozinha, eu me encolho para assistir oculto o
que ela pretende fazer. Depois de ver que está só, ela passa a mão pelo seu
corpo enquanto rebola como a intérprete da música, Nick Minaj. Enquanto
dança, amarra seu longo cabelo e desce até o chão. Eu fui ao paraíso e não
sabia. A mulher dança de olhos fechados, ignorando totalmente a sua volta.
Junto as mãos e olho para cima. Obrigado, Deus!
(…) Lingerie vermelha. Te espero com lingerie vermelha. Você me
disse que está a caminho. Brinquei, brinquei, excitei você e vou fazer tudo o
que eu disse que faria. Esse corpinho bonito fica melhor com você. Posso ter
que soprar como uma pena em você. Oh, sim, é melhor você vir comigo. Não
me faça esperar até de manhã, tenho uma cama com o seu nome nela. Tenho
um beijo com o seu nome nele. Ame-me bem, me ame pra caramba, não me
abandone. Tenho uma cama com o seu nome nela (…).[6]
Não resisto e caminho até ela, a distância parece uma eternidade.
Quanto mais me aproximo, mais ansioso fico para tocá-la. A mulher é um
espetáculo e eu quero possuí-la por inteiro, consumi-la… Assim que estou
perto o suficiente, ela gira e fica cara a cara comigo. Quando abre os olhos,
nós dois gritamos. Ela de susto e eu de raiva. A mulher que eu achei gostosa e
seria meu escape essa noite é nada mais nada menos que Mairheen
MacNamara.
— O que você está fazendo aqui? — ela questiona.
Eu bufo.
— Eu cheguei primeiro. Você entrou aqui, desligou a minha música e
começou a se remexer como uma cobra — sorrio. — Me diz uma coisa: essa
é a dança do acasalamento das serpentes?
Ela soca o meu braço.
— Você é um idiota sem educação. Não vi que tinha alguém. Que
susto! Por que simplesmente não gritou de longe? — Ela estreitou os olhos.
— Você estava me espionando. Tarado! TARADO!
Seguro-a pelo braço e a giro até que suas costas estão em meu peito,
minha mão fechando a sua boca. A minha mão que segurava o seu braço
acaricia a pele da barriga exposta, pele quente e macia. Mairheen desiste de
lutar e encara-me pelo espelho. Não gosto da reação do meu corpo a ela,
porque detesto-a com todas as forças. Com a mão em sua boca, forço-a a
expor seu pescoço para mim. Posso ver medo em seus olhos, posso ver temor
e gosto disso. Falo em seu ouvido:
— Você ficaria muito feliz se eu fosse um tarado, não é? Porque eu
provavelmente a pegaria assim do jeito que estamos agora, tiraria a sua roupa
e a foderia contra esse espelho. Seria um dia feliz para você. Não estou certo,
MacNamara?
Vejo o medo em seus olhos transformar-se em raiva. Ela morde a
minha mão e pisa o meu pé com força o suficiente para que eu alivie meu
aperto sobre ela. Deixo-a ir sem nenhuma resistência.
— Você é nojento — ela sorri arrogantemente. — Oh, será que o
pobre Hunny Saints está agindo assim porque terá que levantar a sua bunda
inútil da cadeira para passar para mim? Pobre bebê — ela faz beicinho como
uma menina pequena.
— Vai sonhando, MacNamara. — Ela me olha de cima a baixo,
analisando cada ponto do meu corpo. Posso ver que ela gosta do que vê, e
Deus me perdoe, mas gosto do que vejo também. Só que de Mairheen, quero
somente distância. — Pelo jeito gostou do que viu, doutora.
Ela dá de ombros.
— Você é bonito. Mas já estive com melhores. Você não é grande
coisa, Saints, embora eu ache que alguns pesos possam te ajudar. Isso. Tente
os pesos.
Mairheen vai até a sua bolsa e pega o fone que logo coloca em seu
ouvido. Ignorando-me totalmente, ela vai para uma bicicleta e começa o seu
exercício. E eu fico estancado no lugar como um idiota. Penso na primeira
vez que vi Mairheen, trombei com ela pelos corredores em seu primeiro dia.
Seus olhos verdes acinzentados lhe dão ar de inocência e acabei distraído
várias vezes por sua delicadeza. Mas isso era enganação. Mairheen
MacNamara é mal-humorada e uma grande empata-foda.
Dias depois já não tinha mais olhar de inocente, agora ela é chata com
todas as suas regras sociais e tudo mais. Começou a envenenar o corpo
médico feminino contra mim. Admito testar a sua competência mais de uma
vez… tudo bem, mais de dez vezes. Mas lembrem-se: estamos falando de
vidas, era minha obrigação saber se a mulher era uma excelente médica.
Aquela boneca de porcelana linda e delicada do início deu lugar a Anabelle.
Eu não gosto dessa mulher. Parte porque é sobrinha de Eogan
MacNamara e parte porque… porque é ela. Sei que ela não participa das
operações de seu clã, seu tio não tem pulso de ferro o suficiente para obrigar
ninguém de sua família a isso. Admito não gostar de ter um estrangeiro em
nosso meio. A WellCare é muito importante para que qualquer um possa
entrar a qualquer momento e fazer o que quiser. Toda a minha vida e trabalho
estão ali. Se ela é a melhor para ocupar o meu lugar, eu não sei. Não sou
obrigado a aceitar alguém que não confio.
Volto para onde estava para pegar o celular, vou ao vestiário pegar as
minhas coisas para ir embora. Quando estou saindo, ouço ela falar:
— Estou na academia… Não, nada de boates hoje, Keera. Nã… nã…
nã… OK!… Ok. Eu vou. The Ocult em duas horas e meia. Bye.
Enquanto caminho para o elevador, pego o meu celular e ligo para o
primeiro número da discagem rápida, que atende no segundo toque.
— The Ocult em duas horas.
— Te encontro lá, primo.

Capítulo 05
Mairheen

Cheguei quinze minutos atrasada e nenhuma das duas estava mais
aqui. Falei ao segurança que sou irmã de Tarha e Keera MacNamara, mas ele
me olhou de cima a baixo com desdém e me ignorou. Que idiota! Olho para a
minha roupa que parecia ser descolada. Optei por uma blusa azul de renda de
alças e uma calça jeans folgada. Os saltos altos azuis ajudam a levantar minha
bunda que está cada vez maior e meio caída… eu acho. Não me maquiei
porque estava cansada e muito brava com o que aconteceu na academia com
aquele bastardo Saints, maaass isso não significa nada. Ainda sou bastante
pegável…
Meus pensamentos morrem ao ver duas mulheres lindas, tipo modelos,
magras demais, altas demais, loiras demais, passarem por mim, sorrirem para
que o Hulk ali permita a entrada de ambas. Ele voltou a olhar para mim e
acenou para a fila.
— Você é gatinha e tudo o mais, mas as ordens são para deixar passar
as gostosas e famosas. Você se encaixa em alguma dessas categorias,
docinho?
Nem me dou ao trabalho de responder, simplesmente vou para o fim
da fila e gasto o meu tempo me xingando por ter cedido às minhas irmãs.
Tenho obrigações na clínica que estão sugando muito do meu tempo, estou
cansada com os plantões consecutivos e acompanhar a doutora Kingley para
cima e para baixo apontando tudo o que mudaremos com a saída de Haniel.
Haniel Saints vai sair… que ótimo! Melhor do que isso, somente a
notícia que ficarei no lugar dele. É uma grande responsabilidade sim, mas sou
capacitada para o cargo. Sei que muitos italianos não me olham com bons
olhos, mas o mais importante é a minha experiência e dedicação. Superar
Haniel Saints é a minha nova meta de…
— Mairheen? Mairheen MacNamara? — Uma voz feminina chama a
minha atenção. Ao levantar a cabeça, encontro-me com Aniella Saints.
Deus do céu! É só pensar em um que algum deles aparecerão como se
tivéssemos os invocado.
— O-oi, senhorita Saints.
A mulher é linda e acho que ela nem se dá conta disso. O seu sorriso
transforma o seu rosto em algo quase angelical.
— Chame-me de Ani. Por que você está aqui atrás?
— O segurança disse que como não sou rica e nem gostosa, então eu
deveria esperar na fila. Minhas irmãs já devem estar aí dentro, mas estou
pensando seriamente em ir para casa.
A mulher me puxou pelo braço, cruzou com o meu e me carregou até
o Hulk.
— Tino, acabei de saber que você não deixou a doutora Mairheen
MacNamara entrar no The Ocult. Meu pai vai ficar muito chateado, além de
mim, afinal, ela salvou a vida da minha mãe — ela arrancou uma pulseira vip
da mão do homem e colocou em meu pulso. — Você agora é VIP, doutora.
Sempre!
Os Saints conseguem despertar na gente o amor e o ódio. Eles têm
esse efeito sobre as pessoas, e é totalmente incontrolável. Sei do fundo do
meu coração que Aniella realmente é agradecida por ter socorrido a mãe dela,
mas não sou ingênua a ponto de acreditar que ela não me mataria
simplesmente por ter pisado em seu pé sem querer.
Entro no clube logo atrás dela. Assim que percebo que ela está indo
para a área VIP, eu faço um desvio e vou para o bar ver se minhas irmãs estão
lá. Só que não, elas não estão. Ando entre as pessoas que se remexem e se
agarram por todo o lugar, mas não as encontro.
De repente, sinto meu braço ser puxado e logo chuto quem quer que
seja. Ninguém sai encostando em mim assim. Olho para ver um segurança
passando a mão em seu tornozelo. Fiquei apavorada com o olhar que ele me
deu. Tudo bem que o salto pegou onde não deveria e a culpa foi dele, por que
não avisou que queria falar comigo? Mesmo de cara feia, ele acenou para
mim e me pediu para segui-lo. Sem pensar duas vezes, levanto a arma que
está em meu pulso, a bendita pulseira. Tenho que garantir que não irão sumir
com o meu corpo. Dos Saints, podemos esperar tudo.
Ele simplesmente acenou e insistiu que eu o seguisse. Assim o fiz.
Logo que chegamos ao bar, o segurança entrou por uma porta quase oculta…
interessante. Lá estava iluminado, até porque se estivesse escuro eu não
entraria nem por um milhão de dólares. Quando ele fechou a porta atrás de
nós, todo o barulho cessou.
— Para onde você está me levando? — pergunto.
— Você é convidada da ala VIP dos proprietários.
— E? — insisto.
Ele segue em silêncio. Homens são frustrantes e idiotas até em
silêncio. Continuo a segui-lo até que ele abre outra porta e voltamos
novamente ao tumulto do clube, mas agora estamos aos pés da escada que
leva até os camarotes. O gigante que me acompanha acenou para o outro, que
abriu o portãozinho para subirmos. Ele acena para que eu vá na frente e
aponta na direção do camarote que eu estou sendo levada.
Assim que ele abre a porta, encontro minhas irmãs em risos com
Raffaele e Haniel Saints. Era só o que me faltava.
— Mae, você chegou! — Keera grita com os braços esticados para
mim e já com uma bebida não.
Olho ao redor e percebo que não são somente eles, há vários
desconhecidos circulando, conversando e bebendo. O lugar é grande e a
vidraça proporciona uma visão estratégica do piso inferior. Aproximo-me dela
já pronta para ir embora.
— Keera, podemos curtir a noite lá embaixo? — pergunto.
— Enlouqueceu? — ela fala baixo para que somente eu a ouça. — Os
Saints nos dão passe livre com open bar e você quer ir embora? — Ela se
coloca ao meu lado. — Olha quanto homem bonito tem aqui!
Enquanto olhávamos, um homem de pele clara, cabelos escuros e
olhos azuis pisca em nossa direção. O homem é uma maravilha! Alto, bem
constituído, forte e sexy pra cacete. Ele não é estranho, mas não faço ideia de
quem seja.
— Pare de babar por Levi Nikolov. Ele é o homem de Aniella Saints
— minha outra irmã, Tarha, fala ao se aproximar. — Não vai querer caçar
encrenca com ela.
Desvio o meu olhar rapidamente.
— Não, não. Aliás, sou muito grata. Se não fosse por ela, ainda estaria
na fila esperando para entrar — digo.
— Eles barraram você? — Keera, a ruiva escandalosa, fala alto
demais.
Antes que eu possa responder, Haniel se aproxima e coloca o braço na
cintura dela. Olho para os dois que sorriem como se nada estivesse errado,
como se as patas sujas dele não estivessem sobre ela.
— Qual o problema, gattina? — ele fala para minha irmã sem tirar os
olhos de mim.
— Barraram Mairheen na entrada. Nós devíamos esperá-la lá fora
como combinado — ela fala com um tom de tristeza na voz.
Haniel coloca uma mecha de cabelo dela atrás da orelha.
— Agora ela já está aqui. É o que importa, não? — ele fala.
Tarha balança seus longos cachos loiros platinados.
— Somos irmãs mais velhas, temos que ter as costas dela. Sempre! E
Mae não tem a nossa desenvoltura.
— Como assim não tenho a desenvoltura de vocês? Eu sou muito
desenvolta — reclamo.
O olhar de Haniel percorre o meu corpo fazendo-me sentir nua. Odeio
que ele possa me afetar de alguma maneira.
— Ela vai se sair bem, só precisa de uns bons conselhos — ele falou
com arrogância. Eu o detesto!
Nesse momento, Raffaele, primo do idiota Saints se aproxima com
mais dois homens. Ele intermedia as apresentações e eu quero cavar um
buraco e entrar porque as minhas irmãs praticamente se jogaram sobre os
caras. Eles são bonitos, e como Keera fala: eles têm cara de mau. Deus me
ajude a ficar longe dos homens bonitos com cara de mau.
— Doutora Mairheen MacNamara, muito bom vê-la por aqui —
Raffaele está muito próximo, e sua voz grossa olhar penetrante me
desconcertam.
“A tríade” é como a nova geração Saints é conhecida, eles são bonitos
por natureza e mesmo seus defeitos os deixam mais sedutores. Por mais que
eu odeie admitir, consigo visualizar uma mulher entre os primos Saints. Eles
passam a impressão de olhar a nós, meros mortais, de cima. Exalam charme e
sexo com seus olhares intensos e voz de locutor de rádio. Comporte-se,
Mairheen.
— Senhor Saints, como vai? — Mulheres com pouca roupa desfilam
entre as pessoas com bandejas de bebidas. Alcanço uma taça de alguma coisa
assim que uma delas passa por mim.
Raffaele sorri e eu entendo ainda mais por que a enfermeira o deixou
se deitar com ela.
— Senhor não, apenas Raffaele ou Rafe. Tenho ouvido boas coisas
sobre você, doutora.
Fico tensa ao ouvir isso. Os primos são próximos e Haniel deve ter
falado muito de mim e o quanto me detesta, mas coisas boas? Duvido muito.
— Por mais que eu queira acreditar, Rafe, duvido muito que as coisas
foram boas.
Ele ri.
— Hunny só está chateado porque terá que deixar o que ele tanto ama
para assumir seu posto na família. Mas apesar da sua chateação, ele sabe que
você é a pessoa mais recomendada para ocupar a cadeira. — Encaro-o
boquiaberta e ele coloca a mão sob o meu queixo. — Calma, doutora. Eu não
disse que ele gosta de você, só que sabe que você é a melhor para ocupar o
seu lugar.
— E-eu…
Sou interrompida pela minha irmã Keera:
— Vamos descer e dançar. Vamos, Tarha.
Antes de sair do camarote, viro a taça de bebida em um gole só.
Descemos rapidamente e nos misturamos ao caos que é a pista de dança do
The Ocult. O lugar é luxuoso, há plataformas altas em que dançarinos
estimulam os clientes a curtirem mais, tanto dançando quanto consumindo. O
clube é um dos mais disputados da cidade, por causa da música, dos drinques
e principalmente segurança. Todos sabem que não devem cruzar o caminho
dos Saints.
A pista de dança está completamente cheia e nos esprememos entre o
caos até chegarmos perto do DJ. Assim que alcançamos nossos objetivos, a
música Bang Bang, da Jessie J[7], começa a tocar e gritamos como lunáticas.
Quando estamos juntas, fingimos ser Jessie J, Nick Minaj e Ariana Grande.
Sem nos importar com as pessoas ao nosso redor, dançamos e cantamos com
as divas da música pop.
(…) Ela deve ter deixado você segurar a mão dela na escola, mas vou
te mostrar como se graduar. Não, eu não preciso escutar você falar daquele
jeito, apenas venha e me mostre o que sua mãe te deu. Oh, yes. Ouvi dizer que
você tem um grande ssh… querido. Boca, mas não diga nada. Veja, todas
podem ser boas para você, mas precisa de uma garota má para te
surpreender. Bangue-bangue, no quarto (eu sei que você quer). Bangue-
bangue, todinho em você (vou deixar você ter). Espere um minuto, vou te
levar para lá. Espere um minuto, vou te contar: Bangue-bangue, lá vai o seu
coração (eu sei que você quer). No banco de trás do meu carro (vou deixar
você ter isso). Espere um minuto, vou te levar para lá (…).[8]
Minhas irmãs são lindas, sem demora homens se chegam para dançar
conosco. Nós compartilhamos algumas características como cabelos longos e
muitas curvas no corpo. Não somos gordas, apenas gostosas um pouquinho
acima do IMC ideal. Keera e eu somos ruivas, só que enquanto o cabelo dela
é de um vermelho vistoso, o meu é desbotado, quase loiro. Tarha é loira mel,
mas insiste em clarear até ficar platinado. Keera e Tarha são mais altas que eu.
Um arrepio percorre o meu corpo e me sinto observada. Olho ao redor
e no caos das luzes estroboscópicas mal consigo enxergar. Um homem
caminha à minha volta e depois de muito tempo percebo que Haniel Saints se
aproxima de nosso grupo sem tirar os olhos de mim. Isso me incomoda
porque ele tem algum poder sobre mim… não sei se é porque estamos em
constante tensão ou não.
Mas sou obrigada a admitir, o homem é lindo e tem perigo tatuado em
sua testa, o que torna tudo melhor ou pior. Não sei em que momento ele
entrou em meu radar, só sei que ele sempre está lá em algum lugar para me
afrontar. Ele dança com Keera e Tarha, não perdendo tempo em seduzi-las.
Raffaele não é o tipo que dança, apenas fica ali observando o grupo em meio
à pista de dança e com a bebida na mão.
Assisto de longe às minhas irmãs encantarem os homens a nossa volta
e nesse momento eu queria ter esse sex appeal. Como se lesse meus
pensamentos, Tarha se aproxima e me puxa para compartilhar a dança com
elas.
— Solte-se, maninha — Keera grita.
Deixo-me levar pela música e a energia das minhas irmãs. A voz da
Ariana Grande ecoa pelo lugar com a música Side to Side levando muitas
mulheres ao meu redor a gritarem. Com uma coragem que não me pertence,
me aproximo de Haniel Idiota Saints e danço para mostrar que não preciso
que me ensinem desenvoltura alguma.
(…) Estou falando com você. Te vejo ali parado, sinto que quero
arrasar com o seu corpo. E nós não temos que pensar em nada. Estou
chegando em você, pois eu sei que você tem uma reputação ruim. Não
importa, pois você me dá tentação e nós não temos que pensar em nada.
Minhas amigas ficam falando demais, dizendo que eu deveria desistir de
você, mas não consigo ouvi-las, não, pois eu passei a noite toda aqui… passei
o dia todo aqui. E garoto, você me deixou andando desequilibrada (…).
Ele não desviou o olhar, aceitando o desafio. Haniel não se
aproximou, ele não precisava, sua presença enche o lugar tornando tudo
muito… sobrecarregado. Nessa batalha, eu perdi. Fechei os olhos e tentei me
livrar de tudo à minha volta.

Capítulo 06
Mairheen

Meu Deus, parece que fui espancada e encheram a minha boca de
algodão. Volto a fechar os olhos e gemer com a dor lancinante que corta o
meu crânio. Às vezes, esqueço como é sair com as minhas irmãs. Muita
dança, muita curtição, muita, muita bebida e uma ressaca de cão no outro dia.
Graças a Deus não terei que ir para a clínica agora pela manhã, caso contrário
eu estava perdida.
Levanto-me lentamente para que a minha cabeça não lateje mais e
caminho para o banheiro. Só então percebo que estou com a roupa de ontem
ainda. Tiro tudo e entro debaixo da ducha de água quente. Fico ali de olhos
fechados esperando que a água leve todo o cansaço e ressaca. Flashes da noite
anterior vêm em minha mente e sorrio com a lembrança do joguinho
medíocre que fizemos ontem. Cada vez que alguém contava algum fato
picante de sua vida, todos tinham que beber uma dose de tequila independente
se já tivesse feito ou não.
Lembro de Raffaele Saints tomar conta de mim e me trazer para casa,
ele disse algo como que é dever dele cuidar dos colaboradores mais
importantes, ou qualquer coisa parecida. A lembrança do olhar de Haniel faz-
me estremecer. Que droga! Parece que cada vez o detesto mais, e tudo piorou
quando percebi que ele estava flertando com as minhas duas irmãs… as
DUAS! O babaca encantou aquelas inconsequentes na boa e elas nem
perceberam que estavam caindo em sua teia. E depois a ingênua sou eu.
Pelo amor de Deus! Será que só eu me dou conta da imoralidade dele?
Prostituto. O nome do meio de Haniel Saints deveria ser prostituto. E o pior
de tudo é que ele não deixava de me encarar, sei que ele queria me deixar
desconfortável, como de fato fiquei, não consegui disfarçar isso. Recordo-me
do que Raffaele me disse sobre o primo ter que abrir mão do que ama por
causa dos negócios da família, mas não entendo por que o idiota quer
dificultar as coisas para mim. Tudo bem que nós não nos gostamos, mas
profissional é profissional.
Gemo ao lembrar de chamar Raffaele de gostoso algumas vezes. Deus
me ajude! Mas a tequila me deixou completamente sem filtros. Eu acho até
que passei a mão em algum cara desconhecido. Eu não era eu, era a bebida.
Nem me lembro do cara em questão. Meu celular toca de algum lugar,
despertando-me. Só então tomo um verdadeiro banho, lavando os cabelos.
Quando termino, seco e me enrolo em meu roupão felpudo e velho que amo.
Vou à procura do telefone e o encontro sobre a mesinha de entrada,
vejo na tela que há algumas chamadas do meu pai e do meu tio. Preocupo-me
com o que possa ter acontecido e ligo primeiramente para o meu pai, que
atende no segundo toque.
— Bom dia, bebê — meu pai sempre foi extremamente amável
conosco. Não importa o quão feroz ele pode ser com os outros, conosco é
sempre sereno.
— Bom dia, pai.
— Eu fiquei preocupado e acabei ligando para Tarha, que me falou
que provavelmente você estava desmaiada ou curtindo a ressaca. Noite das
meninas?
Tento sorrir, mas até isso é desconfortável.
— Sim, foi isso. Hum… pai, eu tenho ligação do tio Eoghan. Está
tudo bem? — Meu pai não responde de imediato e isso me preocupa. —
Papai?
— Nós teremos um jantar de família hoje à noite e você está
convidada — seu tom de voz deixa bem claro que o convite na verdade é uma
ordem. — Seu tio tem um comunicado a fazer e é imprescindível a sua
presença.
— Tudo bem. Eu vou ver se consigo trocar o meu plantão com…
Ele me interrompe.
— Já está tudo certo, Mairheen. Tomei a liberdade de verificar seus
horários e remanejar da melhor maneira possível.
A coisa é mais séria do que imaginei. Minha família nunca interferiu
assim na minha vida.
— O senhor está me assustando, athair. O que está acontecendo?
— Venha essa noite, bebê. Esperamos você às oito.
Meu pai desliga sem se despedir e eu sei que ele só faz isso quando
quer evitar mais conversa. Sem perder tempo, ligo para Keera. Ela demora
para atender e a cada segundo que passa sinto o frio da minha barriga
aumentar.
— Oi, Mae — seu tom é sério.
— O que está acontecendo, Kee?
Ela respira fundo.
— Ninguém sabe e mamãe apenas desconversa. De uma coisa eu
tenho certeza: ninguém está morrendo.
— Não que você saiba — respondo ironicamente.
— Mae, apenas compareça na hora para desvendarmos esse mistério.
Odeio quando fazem esse tipo de coisa — ela reclama.
—Tarha? — insisto com Keera.
— Não, ela também não sabe de nada e está tão perdida quanto nós.
Nos vemos depois, maninha. Beijos.
— Beijos.
Desligo o telefone mais apreensiva que antes. O que na terra está
levando a minha família a fazer uma reunião hoje? E por que toda a
seriedade? O que tio Eoghan tem a ver com isso?
Passo o restante do dia paranoica. Vários cenários passaram em minha
cabeça, me deixando ainda mais temerosa com o que está por vir nesse jantar.
Não me arrisquei a ligar para o tio porque àquela altura eu já não queria mais
saber de nada. Sei que o meu tio e papai tenta nos preservar de tudo o que
fazem, mas também sei que às vezes isso é impossível e tenho medo que esse
seja um dos momentos em que peçam algo de nós.
Estou tão nervosa que não dirijo, peço um táxi que me deixa em frente
à casa dos meus pais. A casa é enorme e vejo que há mais pessoas do que
deveria ter para ser um jantar de família. Geralmente os seguranças do tio
Eoghan não me surpreendem, só que também geralmente ele anda com dois
ou três. Hoje há muito mais e eles não estão apenas protegendo o chefe.
Chego à porta sem problemas, já que todos parecem saber quem sou.
A porta é aberta por Dara, que é a governanta desde que eu me entendo por
gente. Ela me abraça calorosamente.
— Está muito bela, nossa Mae. Mas tem aparecido muito pouco — ela
me repreende.
— Sei que estou em falta, meus plantões têm sido exaustivos e…
— Ela chegou — tio Eoghan vem até mim e me abraça. — Só faltava
você, querida.
Logo que chego à sala de estar, sou cumprimentada pelos meus pais e
irmãs. Não deixo de perceber que há rostos desconhecidos e mal-encarados, o
que era apreensão passa a ser medo. Eu sei quem são. Eu deveria me manter
calada, mas depois de passar o dia me torturando, simplesmente desabafo:
— O que está acontecendo?
Minha mãe sorri. Analiso atentamente o seu sorriso para ver se via
nervosismo ou qualquer outra coisa, mas não percebi nada mais que diversão
e felicidade. Meu pai se mantém sério e isso pode ser pela sua posição na
Organização ou porque a notícia é algo que não agradará uma de nós. E Deus
sabe que Keera é incontrolável quando fica nervosa.
— Temos boas notícias, menina. Nada mais. Vamos jantar? Estou
faminto.
Todos se movem para a sala de jantar, que fica cheia. Meu tio se senta
à cabeceira por ser o chefe da família, meu pai à sua direita e um
desconhecido à sua esquerda, mostrando que é de alto cargo na Organização.
A comida é servida e quase todos interagem como se nada estivesse
acontecendo, só que Keera e Tarha se sentem como eu, tenho certeza.
Nenhuma delas sorri ou interage, todas perdidas em algum pensamento.
Espalho a comida no prato sem apetite algum. Ajudantes trocam os
pratos e nada me apetece, continuo perdida dentro da minha cabeça tentando
adivinhar qual será o anuncio. Ah, meu Deus! Uma ideia estala em mim: será
que tio Eoghan precisa que uma de nós se case com um deles, já que ele não
tem filhos? O chefe irlandês sempre optou por não ter filhos, ele disse que não
queria tal responsabilidade para seus herdeiros e se fosse possível nem para as
suas sobrinhas.
Olho ao redor e entre os desconhecidos vejo apenas um jovem que
possa ser um eventual pretendente. E com certeza a escolhida não será eu,
meu tio sabe o quanto odeio que ao menos mencionem a Organização, ele não
faria isso. Também não acho que seria Keera, porque ela é louca e mataria o
homem que seria seu noivo. Mas também pode não ser nada disso, e estou
pirando com as possibilidades.
Meu tio chama a atenção de todos ficando de pé.
— O jantar estava maravilhoso, Aivlin. Minha querida esposa
infelizmente não pode estar conosco porque está na Irlanda, mas lhes mandou
um grande abraço. — AMO tia Bree. Ela é uma mulher muito amável e é
superprotetora com as minhas irmãs e comigo. Volto a atenção ao discurso
dele: — Apesar da notícia ser boa, o que nos leva a chegar a ela não é.
Estamos passando por tempos difíceis, pessoas desconhecidas vêm se
movendo em nosso meio tentando nos desestruturar, e sozinhos não teremos
êxito caso houver uma guerra.
— Como isso pode nos levar a uma coisa boa, tio? — Keera
questiona.
— Vamos chegar lá, pequena. Tenha paciência. Como estava falando,
são tempos difíceis…
— Tio, nós não temos nada a ver com a Organização, então vá direto
ao ponto — Tarha o interrompe e todos na mesa ficam paralisados. Ninguém
fala com um MacNamara assim, nem mesmo a família.
— Tarha — meu pai adverte e ela se cala.
— Por mais que vocês não queiram ter nada com a Organização, isso
não significa que não pertencem a ela. Aliás, ninguém jamais disse que vocês
não pertenciam, apenas permitimos que vivam conforme as suas vontades —
seu tom de voz é grave. — Tudo estava em paz entre as famílias, nossos
territórios se tornaram amistosos até que coisas estranhas começaram a
acontecer. Negócios sendo cancelados, perda de clientes e por aí vai… Em
uma reunião com importantes famílias, chegamos a uma excelente solução
para reforçar as nossas alianças.
— Matrimônio — falo sem pensar. — Os mafiosos reforçam seus
laços com casamentos arranjados.
Meu tio faz uma careta.
— Mafiosos, Mae? Isso é tão blasé.
— Mas é o que somos, tio. Você acabou de nos falar que pertencemos
à Organização, e esta, como bem sabemos, é a máfia irlandesa.
— Respeitem Eoghan. Ele é chefe da nossa família e sempre faz o
melhor que pode para manter a todos nós em segurança — meu pai fala. — E
isso não é um pedido.
Meu tio senta-se novamente e volta a falar:
— O que você diz é correto, Mae. E justamente por ser essa mente
brilhante que você é, seu pai e eu demos sua mão em casamento para uma
família de…
— NÃO! NÃO! — Pulo da cadeira e bato na mesa, não me
importando com quem é o chefe. — Não. Eu não me casarei com mafioso
nenhum nem mesmo para salvar as bundas irlandesas de Nova York.
— MAIRHEEN! Sente e cale-se imediatamente — meu pai me
repreende.
— Você é meu pai e teve coragem de me vender a uma outra família
para ter aliados. Me vendeu! Meu próprio pai me vendeu — volto para a
minha mãe. — A senhora sabia disso?
Ela se mantém serena quando não devia.
— Seu tio e seu pai fizeram o que é melhor para todos, o que é melhor
para você. Porque em meio a uma guerra de organizações, quem sofre a
retaliação são as famílias. Tenho certeza de que eles escolheram um excelente
homem para se casar com você, afinal, você é nosso bebê.
— Como podem fazer isso comigo? Por que não escolheram Tarha ou
Keera? — Ambas abrem a boca para falar, mas desistem assim que encontram
o olhar do meu pai.
— Eles não foram muito contundentes quando mencionaram o seu
nome, Mairheen. Gostam de você e sabem que será uma excelente esposa.
Keera limpa a garganta e pergunta gentilmente:
— E quem é ele, tio?
Tio Eoghan sorri e um calafrio percorre o meu corpo.
— Haniel Saints.

Capítulo 07
Haniel

— Não! Nem fodendo! Pode ser qualquer uma das outras
MacNamara.
— O acordo já foi fechado e selado, Hunny. Você se casará com
Mairheen MacNamara e ponto final — meu pai anuncia.
Que porra é essa de ir deitar solteiro e acordar noivo? Noivo de uma
mulher que detesto. Como esse dia pôde ficar tão ruim assim?
Acordei com uma beldade morena na minha cama chupando o meu
pau, depois de uma noite com as MacNamara. Mairheen pode ser uma
empata-foda, mas suas irmãs são legais demais. Elas ficaram bêbadas e a
doutora acabou ficando mais insuportável do que sóbria. Rafe insistiu que eu
devia relaxar, que ela é uma boa pessoa — só não é boa comigo. Não que isso
me importe de qualquer maneira. Depois Aniella se juntou ao grupo e à
brincadeira de beber shots de tequila quando alguém contava alguma
experiência sexual.
Foi legal. Fazia tempo que eu não saía apenas para me divertir, e
desconfio que Rafe também. Poucas vezes vi o meu primo rir desde que
voltamos da iniciação, há quase vinte anos. Ele se tornou introvertido e
calado, o que o tornou um excelente chefe da máfia. Raffaele não tem
problema em matar nem em morrer, o que o transforma em uma máquina
letal. A noite passada foi boa para nós três. Encontrei aquela gostosa depois
que Rafe levou as MacNamara para casa e a trouxe para a minha, transamos
como loucos e fui acordado com o meu pau em sua garganta.
Quando vi várias chamadas da família no celular, soube que estava
acontecendo algo, mas quando se trata dos Saints, uma unha encravada das
mammas pode ser a morte. Por fim, li a mensagem que meu pai me mandou,
avisando que teríamos um jantar de família, o que é comum também. O dia
foi tranquilo, estive na clínica repassando à doutora Kingley tudo o que era
importante e visitei alguns pacientes.
Estava tudo normal até chegar na casa dos meus pais. A frente da casa
estava tomada por carros conhecidos. Equivoquei-me em achar que o jantar
era somente para a família Raziel Saints — o momento foi estendido para
toda a nossa família, era na verdade com toda a família Saints. Nada poderia
vir de bom daquele jantar de última hora. Há dias sentimos que as coisas estão
mudando, a ansiedade de nossos pais não tem passado em branco.
Algo muito sério está acontecendo para que os Saints estejam se
reunindo assim do nada. Geralmente esses eventos são reservados para
grandes momentos. Bem, ao que parece hoje é um deles. O que me preocupa
é saber a quem isso é reservado. Coisas andam acontecendo e isso tem me
deixado cada vez mais inquieto. Meus instintos gritam perigo constantemente
e a minha cabeça não para de trabalhar deixando-me cada vez mais frustrado.
Fico parado dentro do carro por alguns minutos, pensando que seria
uma excelente ideia dar no pé, mas meus planos vão por água abaixo quando
um dos seguranças responsáveis pelos carros se aproxima e abre a porta.
Ainda contra todos os meus instintos, saio do carro e me preparo para o que
vem desse encontro. Caminho até a entrada e encontro Donatella encostada ao
lado da porta olhando para o céu.
Donatella é a caçula e a mais parecida com a nossa mãe. Cabelos
escuros, olhos grandes e claros em um rosto que parece de boneca. A menina
é delicada e sua docilidade a torna ainda mais bonita. Antes dela veio
Salvatore, que é impetuoso e não leva nada a sério. E entre nós dois há Bella,
que é tão linda quanto Donna e Salvatore. Ela é sofisticada e introvertida.
Formamos uma família de personalidades diferentes, o que nos proporciona
bons e alegres debates. Bella, Salvatore e eu somos muito parecidos com o
nosso pai.
— Está tudo bem, Donna?
Ela sorri ao me ver e vem ao meu encontro de braços abertos.
— Oi, irmão. Está tudo bem, eu só não entendo algumas coisas.
— E o que minha irmã mais nova não entende?
Seu sorriso desaparece.
— Não é nada, só coisas da minha cabeça. Estão todos aí e você está
atrasado.
— Tive alguns contratempos — estendo meu braço para ela, que
aceita, e entramos na casa dos nossos pais. — Andiamo, principessa.
Mal entro no hall e sou recebido por Bella.
— Irmão — com carinho, ela vem e me abraça. Muitos acreditam que
Bella é fria, mas na verdade é apenas na dela. A mulher não poupa esforços
com quem ela ama —, papai me disse que você está prestes a vir para a
Worldwide.
Meu pai é mais sagaz do que imaginei. Aos poucos ele solta as
informações por aí, obrigando-me a não voltar atrás de uma palavra que não
foi dada por mim, mas por ele.
— É o que parece — respondo fazendo uma careta. — Terei você para
me passar tudo o que devo saber?
— Terá a nós duas — Donna fala com tanto entusiasmo que por um
momento esqueço de que realmente eu não queria me sentar naquela maldita
cadeira agora. — Papai e os tios permitiram que eu seja sua assistente.
Todos na família que demonstram algum interesse nas Organizações
Saints é recebido com bons olhos entre todos. Os Saints sempre erguem a
bandeira da família em todas as vertentes da vida. Enquanto algumas famílias
desmoronam porque os herdeiros acabam com os legados de seus pais, os
Saints fazem o oposto. E infeliz dos herdeiros que tentarem quebrar isso, as
consequências são realmente sérias.
Sou conduzido para o grande salão onde todos estão reunidos.
Empregados com bandejas recheadas de bebida e petiscos andam entre os
inúmeros Saints que se encontram no ambiente. Observo mais de perto para
ver se encontro algo fora do lugar, mas nada parece estar absolutamente
errado. Que inferno! Odeio quando fico sem saber o que acontecerá a seguir,
isso me deixa desconfortável pra caralho. Para os outros, isso pode parecer
um evento normal de família, mas sou inteligente o suficiente para saber que
está rolando algo mais.
Vou até minha mãe, que está coordenando os empregados, e a beijo.
— Você está atrasado, Hunny.
— Desculpe, ma. Trabalho.
Ela assente e beija o meu rosto, aceitando a minha desculpa. Logo,
cumprimento minhas tias e avós. Quer se manter vivo nessa família? Tenha
respeito por ela, é assim que os Saints são. Cumprimentar os mais velhos com
educação e afabilidade é o mínimo exigido. Isso não é tradição, é educação, e
essa é uma das coisas que me deixam orgulhoso de fazer parte dessa família.
Propositalmente deixo de cumprimentar meu pai e tios, que parecem
estar em uma conversa séria, o que me chama a atenção. Porque negócios são
resolvidos nos escritórios, fora dos encontros de família. Seja o que for que
está marcado para acontecer hoje, é algo grande e tudo em mim grita que eu
sou parte disso. Antes de me aproximar dos atuais chefes, Rafe e Ani se
encontram comigo. Meu primo não faz questão nenhuma de mostrar o seu
descontentamento.
— Que porra está acontecendo? — Rafe fala.
— Não faço ideia, mas digo que tem algo a ver conosco.
Rafe sorri de canto antes de falar:
— Pode ser que essa seja a visita de Aniella. Deus sabe que ela
explodirá quando disserem que ela terá que assumir a cadeira.
— Não — ela o corta. — Explodirei quando me forçarem a casar.
Como se sentissem a nossa presença, nossos pais finalizam a conversa
e vêm nos encontrar.
— Muito bom ver vocês, meninos — meu pai nos cumprimenta.
— Já estava na hora — tio El completa enquanto beija a sua filha mais
velha na testa.
— O que está acontecendo, pai? — Raffaele não perde tempo em
questionar tio Gabe.
Meu tio consegue ser mais enigmático que seu filho e isso é frustrante
demais para quem convive com eles. Para mim e Ani, é fácil desvendar Rafe,
assim como deve ser fácil para o meu pai e tio Elemiah desvendar tio Gabriel.
Só que quando estamos nessa posição, as coisas ficam complicadas, pois
nenhum de nós gosta de ficar por fora dos pensamentos dos outros. São duas
tríades diferentes, duas gerações diferentes, os entendimentos são diferentes
também.
— Logo logo todos saberão, meu filho.
— Não — falo sem pensar. — Estamos fartos de segredos. Há
rumores de que coisas andam acontecendo, e eu tive o prazer de receber a
visita de vocês não há muito tempo. Então nos poupem de suas armações e
abram o jogo.
— Haniel — meu pai adverte.
— Deixe-o, Raze — tio Gabe fala. — Já está na hora desses mimados
sentarem a porra das suas bundas naquelas cadeiras e começarem a trabalhar
pela família. Até agora temos os poupado de tudo para que não tenham que
carregar o mesmo fardo que carregamos desde que nascemos. E olha no que
deu? Depois de gerações de trabalho árduo para nos desligar e manter vivos
longe da máfia, olhe onde paramos hoje. Nossos filhos são tão envolvidos que
precisamos da autorização deles para limparmos as ruas de marginais.
— Esse circo é para isso? Para colocar todo o seu ressentimento para
fora? Vovô logo se juntará a nós? — Raffaele fala entredentes.
— Respeite-me, moleque. Aqui você é meu filho e nada mais! — Tio
Gabe respira fundo e sua raiva aparente desaparece. — Eu amo você com
tudo o que sou, Raffaele, mas não concordo com a vida que você está
levando. Tenho medo de perder você. Todos temos medo de perder vocês.
Mas apesar desse pequeno detalhe, somos orgulhosos de vocês. Mesmo
depois do que passaram, conseguiram seguir em frente e erguer seus próprios
impérios.
— Olha, vocês não são tão diferentes de nós — tio El fala. — Durante
toda a nossa vida mantivemos um pé na linha que separa o legal do ilícito. A
questão é que fizemos isso para proteger toda a família. E de repente, um dia
acordamos com os nossos filhos liderando todo o lado ilegal.
Aniella sorri para o seu pai, que a abraça.
— Admita que tem orgulho por eu ser uma porra de executora.
Ele sorri.
— Eu tenho. Só que isso não ameniza o fato de que sinto medo até os
meus ossos quando ouço que um corpo apareceu. Você é a minha principessa,
Ani.
Meu pai encara-me.
— Nós os amamos e os apoiamos mesmo não concordando. Temos
direito de nos ressentir, ok? Nós já tivemos no mesmo lugar antes e sabemos
que não é fácil, mas a vida é assim e ponto final. Eu queria que meu filho
pudesse ser médico pelo tempo que ele desejasse, só que a vida não é assim,
nossa vida não é assim. Vocês devem se sacrificar para que os seus irmãos e
primos tenham o melhor.
— Nós sabemos que está acontecendo alguma coisa nas ruas e mesmo
no lado limpo. Ninguém sabe ao certo o que é, mas estão todos aturdidos —
Ani fala seriamente. — Então, a nossa herança nos é enfiada goela abaixo do
dia para a noite e agora estamos em um grande encontro de família. Nós não
somos idiotas, zio Gabe.
Tio Gabriel respira fundo e termina sua bebida antes de falar:
— Sim, operações estranhas têm sido feitas e nós não conseguimos
chegar ao fundo disso. Estamos perdendo negócios importantes. Sabíamos
que as famílias têm passado algo parecido nas ruas.
— Disso nós sabemos, pai. O que queremos agora é saber onde nós
três nos encaixamos nisso.
Tio Gabe assente e acena para o seu pai, que está do outro lado da
sala. Sem nenhuma palavra, os homens que são herdeiros saem e nos
fechamos em uma das salas de estar da minha mãe. Os mais velhos tomam os
acentos disponíveis, e meu pai, tio Gabe e tio Elemiah se colocam à frente de
todos. Meu pai é o primeiro a falar:
— Todos aqui sabem que estamos passando por um período estranho,
onde o desconhecido tem tirado o nosso sono. Graças a Raffaele, fomos
capazes de nos inteirar que o mesmo tem acontecido nas ruas também.
— Passamos dias conversando sobre o que poderia estar acontecendo,
se estariam apenas nos boicotando — tio El começou a falar. — Chegamos à
conclusão que é mais que isso. Seja quem for que está por trás dessas
negociações, não quer apenas nos tirar alguns clientes, eles querem acabar
com o poder das famílias.
Tio Gabriel toma a palavra:
— Nós tomamos a liberdade de chamar alguns chefes para uma
conversa amigável, visto que todos estamos no mesmo barco, sendo afligidos
por um inimigo desconhecido. Sentamo-nos com as famílias mais importantes
do Estado, os Nikolav e os MacNamara. — Todos continuam em silêncio à
espera de uma boa explicação. — Seja quem for que esteja atrás de nós, estão
atrás deles. Enquanto somos um clã sólido e com grande influência no
mercado de tecnologia, os russos têm políticos do seu lado que os fazem ser
blindados e os MacNamara comandam o mercado imobiliário.
— Vai logo ao ponto, meu filho — meu avô o interrompe. — Estamos
com um pé na cova, até você terminar esse discurso já estaremos mortos e
enterrados.
Risos ecoam pela sala quebrando um pouco da tensão.
— Nós decidimos unir forças para nos defender e atacar o inimigo
quando chegar a hora. Então, por ora, achamos conveniente firmarmos
alianças com essas famílias — ele se volta para Rafe, Ani e eu. — É onde
vocês entram. Os três comandam a Famiglia com mãos de ferro, achamos por
bem que assumam suas cadeiras agora para que comandem as duas vertentes
do nosso clã. Não há ninguém mais capaz do que vocês para acabar com o
que está por vir.
Um calafrio percorre a minha espinha. Nada de bom sairá disso. Meu
pai volta a falar:
— Nosso último ato como chefes foi firmar as alianças. E para
firmarmos o acordo, haverá um casamento entre nós e os MacNamara. Daqui
a duas semanas, vocês tomarão os nossos assentos. A transição será rápida,
uma vez que Raffaele já está dentro e Aniella nunca parou de se intrometer.
— Ei! — ela reclama. — Eu não sou intrometida, só quero o melhor
para a família.
— E por ser essa boa menina, daqui duas semanas você se sentará no
lugar que lhe é devido — tio Elemiah responde a ela, que faz uma careta.
— Também acertamos o casamento de Haniel para daqui a seis
semanas — meu pai fala e congelo.
— Como é? — questiono. — Acho que não ouvi direito.
Tio Gabriel sorri e olha para os seus parceiros.
— Eu vou adorar isso. Esperei mais de trinta anos para fazer outro
Saints passar por isso. Haniel vai se casar com Mairheen MacNamara daqui a
seis semanas.
— Pai — eu o encaro —, diga alguma coisa.
— Não tem mais nada a ser dito, meu filho. Já está decidido.
— Não! Nem fodendo! Pode ser qualquer uma das outras
MacNamara.
— O acordo já foi fechado e selado, Hunny. Você se casará com
Mairheen MacNamara e ponto final — meu pai anuncia.

Capítulo 08
Haniel

Não, isso não pode estar acontecendo. Não comigo. Não com ela.
— Eu não me casarei com Mairheen. Posso fazer isso com uma de
suas irmãs, não com ela.
— Não faça com ninguém, você não é obrigado — Aniella fala
grosseiramente.
Todos ao nosso redor riem, exceto Rafe, Ani e eu.
— Não é nenhuma novidade que todos têm que se casar em algum
momento — o avô de Rafe fala. — Não sejam covardes, não só a nossa
família conta com vocês, outras também.
Eu bufo.
— O senhor não teve uma esposa imposta…
— Quem disse que não? — ele me corta. — Eu fui maduro o
suficiente para fazê-la uma mulher feliz, calhou que no processo eu comecei a
amá-la.
— Sorte sua — Aniella fala com desgosto. — Eu me recuso a ser
vendida dessa maneira.
Todos riem novamente.
— Forjar alianças não tem nada a ver com venda ou qualquer coisa do
tipo — tio Gabe a repreende. — Você terá uma lista de Nikolav com
pretendentes que estejam à sua altura. Ainda não decidimos quando será o seu
casamento, Aniella. Mas não se equivoque, haverá um.
— Vocês sabem o que é esperado desde que se entendem por gente,
então nos poupem das suas infantilidades — o meu avô fala.
— Nós confiamos em vocês — tio El fala. — Essa geração é forte o
suficiente para combater o que vier em nossa direção.
— Mairheen é meu inimigo desconhecido — murmuro.
— Mairheen é uma excelente mulher e uma médica dedicada — meu
pai fala. — Ela dará uma boa mãe e uma esposa maravilhosa, basta que você
faça a sua parte.
— Sim, faça a sua parte. Tente não matá-la — Rafe fala irônico.
— Por que ele não se casará? — Ani aponta para Raffaele. — Por que
somente Hunny e eu?
Nosso primo sorri abertamente e o soco no braço.
— Pare de sorrir antes que eu o faça engolir seus dentes.
Alguém bate à porta e meu pai abre, mamãe entra e anuncia
animadamente:
— Os nossos visitantes chegaram — ela olha para mim. — Estou
muito orgulhosa de você, meu Hunny. Ela é uma ótima escolha.
Deus! Será que ninguém entende que eu não quero aquela maluca
como esposa? Eu poderia viver com Tarha, que é linda e alegre, mas
Mairheen? Essa é uma empata-foda do caralho. E por que eu tenho que
encabeçar esse grande plano? Se não fosse pelos fatos apresentados por Rafe,
eu até desconfiaria disso tudo.
— Senhores, vamos recebê-los, comermos boa comida e beber os
melhores vinhos para comemorarmos o assento da nova geração Saints.
Todos os homens se levantam e partem sorridentes, deixando para trás
meus primos e eu; sem humor algum seguimos a família para saber quem são
os malditos visitantes. Assim que chegamos ao salão onde parte da família
está, encontramos os convidados, e é aí que eu tenho certeza de que a vida é
uma cadela fria e sem alma. Diante todos os Saints, estão os MacNamara
liderados por Eoghan, chefe da família irlandesa.
Se você procurar informações que duas famílias criminosas de lugares
diferentes estão jantando na mesma mesa, não encontrará nada. Apenas
chefes que se matam em reuniões. Como se estivesse em um universo
paralelo, vejo os clãs que até ontem eram rivais, dividindo a comida na
mesma mesa.
— Eoghan, Seamus, sejam bem-vindos à nossa casa. E, Mairheen, seja
bem-vinda à nossa família — meu pai fala entusiasmado.
Só então me dou conta de que estou com os punhos fechados. Abro a
mão e faço o melhor para não transparecer a emoção. Encontro o olhar da
mulher que será a minha esposa e posso ver ódio brilhando. Ótimo! Eu não
gosto dela e ela me odeia, seremos um bom par, não?
Estou ciente de que tinha que me casar em breve, sempre soube que
isso seria cobrado em algum momento. Só que também acreditei que iriam me
dar a chance de escolha. Sei que sob a fachada de chata, Mairheen é uma boa
mulher, mas isso não significa que será boa esposa. Também nunca ouvi falar
dela envolvida com a sua família, pelo contrário, nós soubemos que o trio de
irmãs são as meninas dos olhos de Eoghan.
Tio Gabe se coloca ao meu lado.
— Vá até eles e faça uma boa impressão com ela. Dio sabe o quanto
você precisa.
— Se um dia eu aparecer morto…
Ele me corta:
— Ok. Ok. Te daremos um enterro digno.
Olho ao redor e vejo que todos estão expectantes com os
acontecimentos. Raramente uma família de fora participa dos eventos Saints,
ainda mais uma família rival. Meu pai se coloca ao lado de Seamus e tio Gabe
ao lado de Eoghan. Antes de andar um passo para seguir adiante, tio El passa
o seu braço pelo meu ombro e me acompanha até onde os outros estão.
— Eu não queria casar com a sua tia Francesca. Eu a achava
escandalosa, irritante, e Deus sabe que eu preferia perder um braço a dar o
meu nome a ela.
— Você ainda a chama de italiana escandalosa, tio, e de vez em
quando o ouço resmungar que ela é irritante — falo sem humor.
Ele sorri.
— Sim, só que agora ela é a minha italiana escandalosa e irritante. O
que quero dizer é que você não teve escolha no início, mas pode escolher
como será o futuro, como será a história de vocês. O meu conselho é adotar o
melhor caminho, fazê-la feliz com sexo e uma boa mesada.
Onde inferno estou me metendo?
Quando me aproximo do meu pai, Seamus puxa a sua filha caçula
entre nós. Tio Gabriel toma a frente e faz o grandioso anúncio:
— Esse não é apenas um simples jantar de família, como vocês podem
ver. Hoje estamos celebrando o início de um novo ciclo, onde nossos filhos
tomam posse de sua herança, que é proteger e zelar por essa família. E
juntamente com eles, quero que vocês recebam Mairheen MacNamara, futura
esposa de Haniel.
Minha mãe vai até ela e a abraça, demonstrando a todos que ela já foi
aceita por uma mamma. E se uma mamma aceita, significa que todos devem
fazer o mesmo.
— Bem-vinda à família, Mairheen. Ficamos extremamente felizes.
A doutora sorri timidamente, mas se vê que é um sorriso verdadeiro.
— Obrigada, senhora Saints.
O sorriso da minha mãe quase rasga o seu rosto e de lado posso
contemplar seus olhos marejados. Por um momento, o pensamento fugaz de
que eu não sobreviverei a esse casamento passa pela minha cabeça. Como
essa merda pode dar certo se não gosto da mulher e meus pais caem de
amores? Se eu a fizer infeliz, terei toda a família MacNamara no meu
pescoço.
Todos ficam em silêncio encarando-me. Bem, acho que é hora de eu
fazer alguma coisa. Haniel Saints, esse é o início do inferno do fim de seus
dias.
— Pode contar com isso — ela fala baixinho e só então percebo que
falei em voz alta.
— Já está afiando as facas? — pergunto sarcástico.
— Não preciso, eu sei usar o bisturi muito bem. Corte firme e reto
sem deixar rastros para detecção — estremeço com a raiva contida em sua
voz.
Todos assistem entretidos como se fôssemos personagens de uma peça
de teatro ou algo assim.
Alcanço a sua mão e a beijo. Fico satisfeito ao ver seu
estremecimento.
— Mairheen MacNamara, você me dá a honra de ser a minha esposa?
Ela não disfarça o seu desagrado e, antes de responder, olha para o seu
tio com tanta raiva que me compadeço. Pergunto-me se o homem realmente
conhece a personalidade forte que as mulheres de sua família têm.
— Será uma honra, doutor Haniel Saints.
Alguém começa a aplaudir e todos se levantam para celebrar um
casamento arranjado, onde ambas as partes mostraram a todos que não se
suportam. Parece um filme, só que não é. É um pesadelo e ninguém parece se
importar. E por que se importariam, não é? Afinal essa é a minha vida e não a
deles.
Ninguém pergunta nada, pois todos sabem como as coisas funcionam,
se os chefes decidem está decidido e ponto final. Não há brechas para
argumentos ou desculpas, todos têm que apenas seguir com a maré
independente de ser boa ou ruim. Essa é a tradição. A regra. A lei dos Saints.
Os empregados caminham entre os convidados servindo champanhe
para que todos possam compartilhar do momento. Enquanto Mairheen e eu
ficamos ali recebendo as felicitações. A mulher ao meu lado não faz questão
nenhuma de sorrir. Chamo a sua atenção e falo em seu ouvido:
— Finja que está feliz, assim como eles estão fingindo que acreditam
na nossa felicidade.
— Por que eu faria uma coisa dessas?
— Querendo ou não, esse é o primeiro dia de nossas vidas juntos. É o
primeiro dia da nossa encenação de casal feliz. Para o nosso próprio bem,
finja como todos.
Sua tentativa de sorriso não é muito diferente da minha, fria e
superficial. Mas de repente, ela abre um sorriso e vejo o quanto essa mulher é
bonita.
— Bem-vindo ao inferno, Haniel Saints.


Capítulo 09
Mairheen

Esse jantar não poderia ser pior. As famílias fazem questão de
comemorar quando o suposto casal, motivo que todos celebram nesse
momento, claramente quer matar um ao outro. Depois que eu soube que era
obrigada a casar, gritei, chorei, esperneei, xinguei o mundo. Minha família me
assistiu e não deu a mínima. Afinal, eu sou o sacrifício para o bem maior.
Seis semanas.
Seis semanas para me casar com um cara que não tenho nenhuma
afinidade, que não foi a minha escolha. Mas nesse momento, isso realmente
não me preocupa. Querendo ou não, estou me casando com um mafioso…
Sim, sou consciente de que a minha família também pertence a esse mundo
violento e criminoso. Mas o que me preocupa é que Haniel vá me obrigar a
deixar o trabalho. Seria uma perfeita vingança.
Sou uma mulher forte e determinada, sei o que quero e luto por aquilo
que acredito, sei qual é o meu lugar, pelo menos que eu sabia. O fato de
crescer longe dessa vida não fez com que eu não ficasse ciente dela. Minha
mãe e minha tia são damas da máfia, seus destinos não pertencem a elas,
mesmo que seus homens morram de amores. Ser esposa da máfia requer
discrição e cuidado.
Se Haniel está assumindo sua cadeira de chefe da família, eles
esperam muito de mim, ser médica e trabalhar em plantões sequentes não é
algo que pode ser bem aceito. Papai e tio Eoghan falaram e falaram sobre um
inimigo desconhecido que está vindo para cima das famílias, mas
sinceramente? Não acredito! Os MacNamara queriam mais poder, e um
casamento com uma família poderosa como os Saints os tornará muito
poderosos, uma frente invencível.
— Sorria, Mae — Tarha se coloca ao meu lado e tira a minha taça
vazia, entregando-me uma cheia. — Eles servem os melhores vinhos e os
melhores homens também. — Olho-a boquiaberta. Afinal, de que lado essa
cadela está jogando? — Dá uma olhada ao redor, maninha, olhe quantos
homens bonitos há. Você se casará com um dos mais bonitos, e se as más
línguas estão certas, faz sexo deliciosamente pervertido.
Engasgo-me com a bebida e logo faço som de desgosto. Não negarei
que Haniel Saints é pecaminosamente bonito. Ele é aquele tipo de cara que
você imagina em seus delírios eróticos, mas é do tipo inalcançável. Ele tem a
mulher que quiser e seu tipo não é meras mortais como eu. Não sou feia,
tenho a minha beleza, mas não o tipo de beleza que aquele tipo de homem
deseja. Eles são visuais, gostam de desfilar com belas mulheres, é isso que os
excita… eu acho.
Nós, mulheres, gostamos de homens bonitos sim, só que não é o
principal. Nada é mais irresistível do que um homem charmoso e elegante,
isso faz com que a beleza seja desnecessária. Um homem com conteúdo, que
tem palavra honrosa, também supera apenas um belo homem. Eu sei que
Haniel é bonito e muito inteligente, seu charme faz com que até a doutora
Kingley dê risadinhas de menina. Também sei que ele não é um tipo
sentimental que se importa com os sentimentos dos outros, fato que me
preocupa. Como viverei com um homem que não liga para mim? Que não se
importa?
— Pare de se torturar, Mae — Tarha chama a minha atenção
novamente.
— Tarha, eu vou me casar com um homem que tem o prazer de me
provocar a cada oportunidade e o homem se tornou insuportável quando
soube que eu ficaria com o seu lugar na clínica. Como isso pode dar certo? Eu
não quero ser infeliz pelo resto da minha vida.
— Então não seja! Se ele te provocar, provoque-o de volta. Se ele a
irritar, irrite-o de volta. E por favor, em nome de todas as mulheres, transe
com ele.
— Jesus Cristo, Tarha. Você só pensa nisso?
— Garota, você está entrando em um casamento que não é da sua
vontade e com isso está sendo obrigada a viver com alguém que não escolheu
para isso, o mínimo que pode fazer por si mesma é foder o homem até que ele
esqueça o próprio nome. Divirta-se da melhor maneira possível.
— Me recuso a isso. Ele é depravado e pega todas as mulheres que
estão em seu caminho. Outro dia mesmo no clube ele estava sobre você e
Keera. A essa altura o pau dele já deve estar verde e prestes a cair. Sabe-se lá
quantas DSTs tem circulando naquele corpo.
— Não foi fácil ouvir seu choro, Mae — minha irmã fala seriamente.
— Doeu vê-la passar por todos os estágios da revolta. Questionei athair,
discuti com tia Bree. Fiquei sem chão quando disseram que não tem volta.
Inferno! Eu me ofereci para casar em seu lugar…
Emociono-me e respiro fundo para conter as lágrimas.
— Obrigada — sussurro.
— Keera tem a sua parcela de participação contra esse matrimônio.
Nada o que fizermos fará com que voltem atrás, querida, e eu sinto muito. —
Um dos empregados passa com uma bandeja de bebidas e Tarha substitui a
minha mais uma vez. — Tenta olhar pelo lado bom, ok?
Bufo.
— Qual o lado bom? Meu futuro marido ser uma DST ambulante e me
detestar e eu não precisar me preocupar em ter que foder com ele?
— Por Naomh Bhríde, Mairheen! O cara não tem nada, e você sabe
muito bem disso. Ele é um Saints, é bonito, tem a mesma profissão que a sua,
use isso a seu favor.
— Eu não quero me casar, Tarha.
Keera escolhe esse momento para sair por uma das portas com um
homem muito bonito, ambos arrumando a roupa, e a vadia com o rosto corado
e lábios inchados. Por que não escolheram ela para isso? No caminho ela pega
uma taça de vinho e se aproxima.
— Do que estamos falando?
— Da sua cara de pau — falo amargurada.
— Estamos sensíveis hoje — ela retruca.
— Eu achei que você estava jogando no meu time, Kee. Não acredito
que até a minha irmã mais velha, que deveria me proteger, se aliaria ao
inimigo.
Keera encara-me.
— Mae, eu jogo no seu time, mas essa situação é batalha perdida. De
todas nós, você foi a que ficou mais afastada, alimentando a ilusão de que não
pertencia à família chefe da máfia irlandesa nos Estados Unidos. Só que agora
as coisas mudaram e a família precisa de uma de nós. É assim que a nossa
vida é. Olhe ao redor, Mairheen. Essas meninas que você vê têm o mesmo
destino; a elas, a Tarha e a mim, será ofertada a escolha entre homens das
nossas famílias.
— Pelo menos terão escolha — retruco.
— Pense por um minuto e veremos se você repetirá essa afirmação.
Muitas de nós teremos que nos casar com quem não gostamos, independente
de escolha ou não. Ele pode não ser a pessoa que você quer, mas poderá te
proteger quando as coisas realmente ficarem ruins.
— O tal do inimigo desconhecido? — Tarha questiona.
Keera assente.
— Eu trabalho com tio Eoghan há algum tempo, pude detectar o
motivo das apreensões que eles têm e posso assegurar: algo está vindo para
cima de nós.
Nesse momento, Haniel se aproximam de nós.
— Estão nos esperando no escritório — ele aponta para a direção por
onde devemos ir e retira a taça da minha mão.
— Ei! Eu não tinha terminado ainda.
— Já deu por hoje. Não precisamos que você esteja de ressaca amanhã
para cuidar dos pacientes da WellCare.
Andamos em silêncio, e antes de entrarmos onde estão nos esperando,
pergunto:
— Por que você não está surtando? Quando disseram que eu ia ficar
em seu lugar na clínica, você só faltou me esquartejar. Agora que estão
impondo que viva comigo pelo resto da vida, você está calmo.
Haniel olha pelo corredor e depois me pressiona contra a parede,
assustando-me. Ele coloca as suas mãos na parede, aprisionando-me. Deus! O
homem é grande. Haniel é muito alto, ele tem que abaixar o rosto para me
olhar. Perco-me em pensamentos, viajando nos traços do rosto do homem.
Seu maxilar tenso e a barba por fazer o deixam mais… viril, másculo. Seu
perfume amadeirado misturado com seu cheiro de homem deixa-me tonta.
— Eu soube da porra desse casamento cinco minutos antes de você e
sua família chegarem. E por mais que eu quisesse matar cada um aqui por me
obrigar a casar, tenho que pensar no bem de todos. O que adianta ficar agindo
como um moleque quando sempre soube qual seria o meu destino? Você foi
só o ônus disso tudo.
Suas palavras me tiram do delírio e fazem meu peito apertar. Pior do
que me casar, é casar com alguém que me considera o seu ônus. Eu desejo
mais para mim, eu mereço mais que isso. Tento empurrá-lo, mas o homem
não se move.
— Eu não quero isso tanto quanto você — falo entredentes. — Então
não me culpe por ter que ficar comigo.
Haniel fica ali apenas me olhando. Seu olhar é inescrutável,
impossibilitando que alguém saiba o que se passa em sua cabeça. Por um
momento, acredito que ele vá me beijar, mas do nada ele se afasta e sua feição
de desgosto me deixa ainda mais com raiva.
— Vamos entrar antes que alguém venha nos buscar.
Ele abre a porta, e dentro do escritório estão nossos pais.
— Finalmente chegaram — o senhor Saints fala. — Sentem-se,
meninos.
Olhamos ao redor e o que sobrou é um sofá de dois lugares que temos
que compartilhar. Que ótimo! Minha mãe analisa-me como só ela pode fazer e
a senhora Lilly Saints sorri como se fôssemos um casal verdadeiramente
apaixonado.
— A demonstração de afeto entre vocês mais cedo é o motivo de
estarmos reunidos aqui — meu pai fala. — Fiquei muito surpreso ao ver que o
menino Saints não nutre muitos sentimentos bons pela minha menina. O que é
ruim. Não entendi por que escolheram Mairheen se claramente ele não a quer.
Oh, oh. Sinto Haniel ficar tenso ao meu lado.
— Mairheen é querida por todos nós — Raziel diz. — Ela trabalha na
WellCare e assumiu o consultório de Haniel. Ambos já conviviam e
trabalhavam juntos, era a escolha mais coerente. Peço desculpas pelo
comportamento do meu filho, nós sabemos o quanto é difícil digerir uma
decisão que nos foi imposta, mais pela imposição do que pelo fato.
Haniel se coloca de pé.
— Não me trate como uma criança, não fale por mim.
— Então não haja como uma! — sua mãe fala seriamente. A Lilly
Saints que conhecemos é doce e sempre de fala suave, essa mulher que
acabou de falar é desconhecida. — Sei que tudo foi rápido demais, que é
difícil entender quando não nos dão saída. Mas vocês já são adultos e têm
consciência da vida que lhes pertencem. Então parem de agir como se
estivessem indo para a forca. Vocês não sabem o que é estar vivendo com
medo o tempo todo do que possa acontecer com quem amamos, então aqui
vai meu conselho: façam disso um casamento pacífico. Escolham ser felizes
ao invés de dois mimados querendo pular na garganta um do outro a cada
passo do caminho, pois os únicos a serem infelizes serão vocês.
— Mãe — Haniel tenta falar, mas ela o corta e volta a sua atenção a
mim.
— Nós criamos esse homem para ser um bom marido e pai. Hunny foi
amado e ensinado a amar, ele foi preparado para proteger a família, acima de
tudo a sua própria família — ela olha para o meu pai. — Você tem permissão
para quebrar a cara dele caso ele faça a sua filha infeliz. Acreditem, nós não
queremos isso, gostamos muito de Mairheen. Mas também irei atrás dela caso
a vida do meu filho esteja sendo um inferno proposital vindo dela.
— Justo — minha mãe responde.
O senhor Raziel se levanta de onde está.
— Haniel providenciará o anel de noivado em breve, e como um bom
consiglieri, passará a notícia de seu casamento para a frente.
Meu pai também se levanta.
— Que assim seja — ele olha para Haniel. — Só porque dei a mão da
minha filha em casamento, mesmo sabendo que ela não deseja, não significa
que não me importo com o seu bem-estar e sua felicidade. Faça-a infeliz e
virei atrás de você.
— E eu estarei esperando, senhor — Haniel responde e de onde estou
pude ver o olhar de aprovação de athair.


Capítulo 10
Mairheen

Depois de passar a manhã inteira com a doutora Kingley, volto para o
meu novo consultório para ver a papelada dos pacientes mais graves de
Haniel. Sou obrigada a admitir que o homem é um médico brilhante, os
pacientes sentem sua saída, mas fui muito bem recebida por todos. Isso não
diminui o seu trabalho, ele merecia um prêmio por fazer desse lugar uma
referência em certos tratamentos.
Por várias vezes me perguntei por que não o colocaram como diretor,
até que um dia a doutora disse que a família preferia manter seus herdeiros
como empregados, pois eles precisam ser preparados para o mundo, e ter tudo
nas mãos facilmente não ajudaria nisso. Outra coisa que admiro nos Saints é
que de uns dias para cá comecei a sentir orgulho de fazer parte deles. Fora a
parte de que vão me juntar com o pior da família, o resto me cai muito bem.
Faz mais de uma semana que o anúncio do nosso casamento foi feito e
não vi o idiota desde então. Tive bastante tempo para absorver a coisa toda e
decidi que farei desse matrimônio algo favorável a mim. Conversarei com
Haniel e explicarei o quanto será benéfico para nós se eu continuar a trabalhar
na clínica, com isso ele terá a liberdade de fazer o que bem entender.
Sei que em algum momento nós teremos que nos reproduzir, mas só
me preocuparei quando chegar a hora. Podemos pensar até na hipótese de
uma inseminação artificial, assim não precisaremos passar pelo
constrangimento de fazer amor quando não há amor. Ele vai entender e
concordar, tenho absoluta certeza. Eu não sei se poderia ir para a cama com
alguém que não tenho nenhuma afeição, tendo consciência disso, ele jamais
me obrigará a me deitar com ele. Haniel pode ser um bastardo idiota, mas não
um homem abusador.
Ouço risinhos e ofegos do lado de fora da minha porta. Tento me
concentrar no papel à minha frente, mas os sons não param. Levanto-me, dou
a volta na mesa e abro a porta para dar de cara com a cena da recepcionista
sentada na beirada da mesa de pernas abertas, entre elas está o meu futuro
marido falando alguma coisa em seu ouvido. A coisa persiste e ninguém se dá
conta da minha presença.
— O que diabos está acontecendo aqui? — falo alto.
A moça pula da mesa, tropeça e cai no chão. Faço o meu melhor para
não rir e provavelmente pareço estar tendo uma convulsão. Haniel a ajuda
levantar-se e me encara irritado.
— Isso não foi engraçado.
— De onde eu estava foi — falo dando de ombros. Aponto para a
garota. — Pode ir ao departamento pessoal, você será remanejada.
— O quê? Como assim? E-eu trabalho bem… — ela olha para Haniel.
— Sempre fiz o meu serviço direitinho.
— Eu sei, baby — ele fala para ela, e isso começa a me irritar.
— Vou dar trinta segundos para você sair da minha frente, garota.
Depois disso você não será realocada e sim demitida por justa causa.
Com a demonstração de carinho do homem, a vadia cria coragem para
me desafiar:
— E que causa seria, doutora?
— Por foder com o marido de uma das diretoras — digo. Ela olha
confusa entre Haniel e eu. Ele não se manifesta e eu sou obrigada a acabar
com a festa da putaria. — Você dirá a ela ou eu? Quer saber? Deixe que eu
digo. Haniel e eu estamos noivos e nos casaremos em breve. Então, amada,
fique longe do prostituto… haam, quer dizer… do meu noivo.
— Foi assim que você conseguiu o seu novo cargo? — ela pergunta
debochadamente.
— Não, você está indo longe demais, Deana. Melhor parar antes que
se arrependa — Haniel intervém, mas para mim é tarde demais.
— Não foi assim que eu consegui o meu novo cargo, mas foi assim
que você acaba de ser demitida. Vá, antes que eu chame os seguranças para
tirarem-na daqui à força.
— Doutor…
— Vá, Deana.
Ele me pega pelo cotovelo e me leva para dentro da sala. Haniel me
solta e vai a caminho de sua antiga cadeira… antiga. Agora minha. Corro pelo
outro lado e me sento antes dele, que fica passado com a situação.
— Em que posso ajudá-lo, futuro marido arranjado?
— Para que aquela cena, Mairheen? Está com ciúmes?
— Não vá por esse caminho para não se decepcionar, Haniel. Se
antigamente esse tipo de comportamento era aceito, hoje não é mais. Não vou
permitir que denigram a imagem do hospital por causa de seu descontrole
sexual. Vá pegar putas em outros lugares, não na clínica.
Ele passa a mão pelo cabelo, percebo que está frustrado e suas olheiras
demonstram o seu cansaço. O homem é bonito mesmo com cara de quem não
dorme há dias… Mas isso não me importa.
— Desculpe. Eu vim para convidá-la para sair.
Uma risada amarga sai de mim.
— Está me convidando para sair logo depois de eu te pegar com a
recepcionista? E nesse jantar você me dará joia para compensar o desgosto de
ter me traído? Ridículo!
Ele tira uma pequena caixa de veludo azul e coloca diante de mim.
— Eu queria te dar o anel de noivado. Achei que seria o correto, já
que vamos nos casar em cinco semanas. Mas como sempre, você empata
tudo.
Abro a caixa, retiro o anel e coloco-o em meu dedo anelar direito.
Estendo o braço para olhar o anel de longe. É uma bela peça, admito. Um aro
trabalhado em ouro rose, com pequenos arabescos que o tornam estilo
vintage, pequenos diamantes cravados em torno de uma pedra solitária maior.
É deslumbrante. Fico tão encantada com a peça, e só então percebo que estou
com a mão no peito mostrando o quanto estou emocionada. Limpo a garganta
e me recomponho:
— É lindo. Obrigada.
— É de família.
— Que ótimo! Obrigada — Volto a minha atenção ao papel que estava
tentando ler anteriormente.
— Estou tentando o meu melhor, Mairheen. Só que você também tem
que colaborar.
— Então tente mais não fodendo com todas as mulheres daqui. Eu não
quero ser conhecida como a mulher traída de um Saints. Respeite-me e te
darei o mesmo em troca. Caso contrário…
Ele me corta:
— Caso contrário o quê? Vai foder com outros? — Não percebi que
ele estava perto demais até que a minha cadeira é virada e fico a um fio de seu
rosto. — Ouça bem, doutora, eu não aceito compartilhar.
— A gente não pode compartilhar aquilo que não é nosso, Haniel.
Eu não deveria ter falado isso. Há um limite até para provocações e
acho que fui longe demais. Todos conhecem a fama de possessivos dos
Saints, e Haniel não saiu diferente. Vi em primeira mão a raiva encher os seus
olhos. Temor percorre meu corpo em ondas.
— Que assim seja, MacNamara. Que assim seja — o homem se afasta
e sai da sala como um raio.
No restante do dia, faço o meu melhor para trabalhar sem pensar no
que aconteceu com Haniel. O departamento pessoal rapidamente arranjou
uma substituta para me auxiliar nas tarefas do dia. Peguei-me por diversas
vezes olhando o anel em meu dedo, perguntei-me se ele próprio escolheu —
e se foi, como ele soube o que me agradaria.
No final da tarde, minhas irmãs aparecem na clínica e me arrastam
para um barzinho não muito longe. Não pararam de gritar desde o momento
que viram o anel em meu dedo. Elogios e elogios foram tecidos para aquele
infeliz. Eu simplesmente fico quieta e bebo, aliás, nos últimos dias tenho feito
muito isso, beber.
Enquanto bebíamos, falamos sobre o nosso dia e acabei contando o
que houve. Keera e Tarha me aplaudiram e pediram mais bebidas.
Conversamos sobre vários assuntos até chegarmos no real motivo que as
trouxe até a mim hoje: o casamento.
— No caminho, compramos algumas revistas de noiva para você dar
uma olhada — Tarha diz. — Falei com a mamãe sobre os preparativos do
casamento e ela disse que está resolvendo tudo diretamente com a senhora
Saints. Ela disse que seu vestido deve ser off-white, branco ou marfim, de
preferência que seja estilo princesa com grande saia, grande cauda, essas
coisas.
— Ótimo. Eu não tenho tempo para essas coisas agora. Acabei de
assumir o cargo e tenho que me inteirar de muita coisa ainda. O vestido será
como eu desejar. Se eu quiser me casar de preto, o problema será meu.
— O problema será de todas nós e nossa família passará vergonha
enquanto os Saints tomam isso como afronta — Keera me repreende. —
Então vamos nos contentar com os tons pastéis indo do branco ao rosa, tudo
bem? Pensei que podíamos voar até Paris para encomendar com um grande
estilista ou qualquer coisa do tipo.
— Os melhores estão por aqui — Tarha afirma. — Mas podemos
pensar em uma despedida em Vegas com direito a strip-tease com caras
gostosos.
— Estou dentro — falo empolgadamente. Ambas riem e ficam
responsáveis pela festinha.
Enquanto as duas falavam animadamente sobre a ida a Las Vegas,
penso novamente no que aconteceu mais cedo. Aquela situação me fez
lembrar de todas as mulheres que fizeram parte de sua vida. Algumas delas
tiveram que suportar a traição do marido com babás, secretárias, empregadas;
lembro de uma em específico que teve que criar um filho que não era seu,
mas de seu marido com a babá de seus filhos.
Eu não quero isso para mim. Absolutamente não. Também não sei
como fazer as coisas funcionarem. Não basta só fazermos sexo, temos que ter
algo mais, caso contrário, eu não conseguirei me entregar para uma simples
transa. E como ter mais com um homem que não perde a oportunidade de
enfiar o pau em outro buraco? Deus, o que vou fazer? Como vou controlar
Haniel Saints para que se comporte, já que em nosso mundo quem comanda a
minha vida e a relação é ele? Como não me perderei no caminho?
— Mae?
Volto a atenção às mulheres a minha frente.
— Está tudo bem? — Kee pergunta.
Assinto e termino a minha bebida em um gole só, criando coragem
para pedir conselho a essas malucas.
— Vocês conhecem homens mais do que eu e não quero ser como uma
daquelas esposas que são traídas. Então, eu preciso de ajuda.
Keera grita para o garçom mais próximo repor nossas bebidas porque
a noite será longa. Tarha senta-se ao meu lado e coloca um braço sobre o meu
ombro.
— Nós te diremos tudo o que queira saber, maninha.
— Oh, sim. Tudinho. De como tirar a roupa dele até como fazer ele
gritar o seu nome.
As duas riem e meu estômago revira.
— Não, eu não quero ter relações com ele. Haniel é um prostituto.
— Sabemos disso — Tarha fala com naturalidade. — Sempre falaram
que depravados reformados dão excelentes maridos.
— E você acreditou? — pergunto.
— Querida, se não acreditarmos nisso, seremos viúvas antes mesmo
de deixar o altar — Keera fala rindo.
— Vocês duas são péssimas conselheiras, já me arrependi de pedir
alguma coisa.
— Deixa de ser puritana, Mae. Você se casará com um homem lindo e
sexualmente ativo. Lace o touro pelos chifres e cavalgue-o como uma
cowgirl, garota — ela fala e faz o gesto de estar montada e girando a corda.
Droga! Essas duas não me ajudarão em nada.
Tarha aperta o meu ombro.
— Você tem problemas com sexo, Mairheen?
— NÃO! — respondo rapidamente. — Por que você acha que tenho
problemas?
— Porque você não quer transar com o seu espetáculo de futuro
marido — Keera diz.
— Só porque eu não quero transar com ele, quer dizer que tenho
problemas? — defendo-me.
— Então não entendo — Tarha fala mais para si do que para mim.
— Eu não sou como vocês, ok? Não sou do tipo que transa só porque
quer gozar, saio com alguém quando essa pessoa me toca…
— Eu também só saio com homens que me tocam. De preferência que
seja forte e na bunda — Tarha fala e Keera se junta a ela, concordando.
— Vocês são impossíveis e totalmente fora da linha. Eu preciso de
conexão. Isso não é um problema, nem todo mundo consegue transar sem
sentimentos.
— Não, não é um problema. Problema é confundir sexo com amor e
vice-versa. Podemos transar e não amar, mas entre um casal é importante que
o amor venha acompanhado de sexo.
— Todas as mulheres deveriam fazer sexo por satisfação própria.
Quando isso acontece, o sexo deixa de ser uma espécie de presente para o
parceiro. É errado pensar assim.
— Eu não penso assim — refuto.
— Tudo bem. Ninguém precisa pensar dessa maneira. Olha, você nos
disse que não quer ter nada com ele, mas um dia, quando você estiver cansada
de se masturbar, encontre um homem e resolva se envolver com ele. Se ele for
bom e falar o que você precisa ouvir, as chances de se apaixonar por ele serão
grandes. E então? Como será, Mairheen? Vai trair seu marido? Uma mulher
que não consegue transar sem um tipo de ligação vai suportar trair?
Keera pegou pesado agora.
— Eu não sei… e não posso mudar quem eu sou.
— Então dê o braço a torcer e permita-se se divertir com o seu marido
— Tarha aconselha. — Sexo existe para a satisfação pessoal, Mae.
— Uma mulher bem comida é pura felicidade, sem muitas frustrações,
quase nada de mau humor, e quando essas coisas começarem a aparecer, é
porque ela não está satisfeita como deveria estar — Keera completa. — Toda
mulher deveria saber do poder de um orgasmo, principalmente as médicas.
Capítulo 11
Haniel

— Conseguimos rastrear o negociador — Rafe fala de sua nova
cadeira.
— De onde? — Aniella pergunta.
— As informações nos levaram a uma cidade no leste da Alemanha,
mas os códigos não batiam. Continuamos o rastreio e a decodificar cada
informação e acabamos na Ásia, aí as coisas ficam mais confusas e agora
estamos trabalhando com essas informações.
Coloco em frente a ele os papéis que passei dois dias analisando.
— Tem alguém na nossa cola fazendo as execuções que nós
deveríamos fazer. Há compras canceladas de clientes do sul da África e
América Latina. Nossa equipe entrou em contato para saber o motivo e todos
responderam a mesma coisa: “tivemos oferta melhor e com a mesma
qualidade que vocês oferecem”.
— Continuamos a cavar informações, Rafe. Fique tranquilo em seu
novo trono de ouro, já que nós fizemos o trabalho sujo — Ani o provoca.
— Você está satisfeita com a sua nova gaiola de ouro, Ani? Gostando
de ter homens fazendo a sua segurança 24/7? — Raffaele emenda a conversa.
E isso vai acabar em mais uma discussão. A última semana foi assim:
uma conversa, uma briga. Revolta, frustração e trabalho pesado. Raffaele
gostava do que fazia fora da Worldwide, do dia para a noite se tornou chefe
do clã cercado por segurança que ele mesmo treinou. Ani está cada vez mais
insuportável porque sua liberdade foi extinguida.
Trabalhamos em salas separadas, mas fazemos questão de termos uma
refeição juntos, ao dia. Nossa rotina está intensa, cada um sendo
bombardeado com informações novas a cada minuto. Tivemos que nos afastar
das ruas e dos nossos negócios para dedicarmos exclusivamente a essa nova
jornada.
Herdeiros do trono. Filhos que foram concebidos e criados para
conduzir o império e proteger os membros do clã Saints. Desde pequenos
sendo moldados para lutar e administrar uma das maiores potências mundiais.
O que para muitos é tradição, para nós é lei. Isso sobrecarrega, exige de nós
mais do que imaginam. Assim que nos sentamos nessas cadeiras, perdemos o
direito de morrer.
— Eu preciso de sexo e uma bebida.
Rafe e eu olhamos um para o outro, um pouco incomodados com a
afirmação de Aniella. Falar que gosta de sexo abertamente é coisa da minha
prima, não é isso que vem chamando a nossa atenção. O que nos perturba é o
fato de que Ani pode estar no caminho da autodestruição por conta da
sobrecarga de ser uma herdeira Saints.
— Como andam os preparativos para o casamento? — meu primo
pergunta.
— Não sei — respondo honestamente. — A única coisa que posso
afirmar é que nós temos prova de roupas amanhã.
— Nem me lembra — Ani reclama. — Você tem falado com
Mairheen?
— Não.
O silêncio toma conta do lugar e eu levanto a cabeça para encontrar
meus primos olhando para mim. Eu não tenho mais nada a dar a eles quando
se trata de Mairheen MacNamara.
— Cara, ela é uma boa garota. Você deveria estar seduzindo-a para ter
chances na lua de mel — Ani fala.
— Concordo com ela, Hunny. Acho que você tem que se dedicar mais
ao seu relacionamento. Uma esposa que te odeia pode ser seu pior inimigo.
— Aquela mulher é intragável — resmungo. — Estou cansado,
estamos lidando com problemas milionários, tanto nas empresas quanto nas
ruas. Eu não tenho cabeça para lidar com uma mulher gélida como Mairheen.
— Seduza-a. Toda mulher gosta de ser conquistada, seduzida. Ela não
é diferente — Ani explica com todo o seu conhecimento que já está me
enchendo.
— Está perdendo o jeito, primo? — Raffaele me provoca.
— Quando chegar a sua vez e for lhe imposta uma esposa que é uma
cadela que te desafia a cada vez que a encontra, volte para conversar comigo.
Até então, mantenha-se na sua.
— Em plena sexta-feira às onze e meia da noite, estamos sentados em
um escritório com restos de comida chinesa — Aniella reclama. — Estamos
nisso há dias, precisamos de um tempo… um bom tempo. Vamos ao The
Ocult para distrairmos. Deus sabe o quanto precisamos.
— Vamos! Eu preciso encher a cara e de uma mulher para me ajudar a
diminuir o estresse — Raffaele diz.
Sem perdermos tempo, saímos do conglomerado. Hoje temos que
andar em carros separados, motoristas e seguranças. Desde cedo cada um de
nós conta com um homem ou mulher de confiança, facilitando a transição
com eles organizando detalhes como a logística e segurança de nossas casas.
Diferente de nossos pais, nós optamos por não morar no mesmo
condomínio, tínhamos nossos lugares separados por poucos quilômetros. Mas
agora, morarmos em um mesmo local se tornou imprescindível.
Recentemente adquirimos um imóvel que antigamente era um resort de chalé
e tinha duas casas grandes. O lugar fica a cinquenta minutos da Worlwide nos
melhores dias de trânsito.
Residiremos em um lugar que mais parece um hotel da Califórnia. Há
palmeiras e uma grande piscina que ocupa parte do terreno. Os chalés foram
desconstruídos para se converterem em mansões. Elas ficarão distantes uma
das outras por três ou quatro minutos de caminhada. Nossas mães se
encarregaram de contratar decoradores e tudo mais, bem… menos de Aniella,
que faz questão de fazer por si mesma. Enquanto o carro desliza pelas ruas,
penso o quanto nossas vidas têm mudado… o quanto nós temos mudado.
Quando o carro para na porta dos fundos do clube, desço, e
juntamente com Aniella esperamos Raffaele para entrarmos juntos. Assim que
a comitiva estava completa, entramos e fomos direto para o nosso camarote,
que fica próximo ao escritório. Tiro o terno, a gravata, abro dois botões da
camisa e jogo-me em um dos sofás. Peço uma bebida e por alguns minutos
observo pela vidraça as pessoas se amontoando lá embaixo.
Rafe se senta ao meu lado, não tínhamos percebido a saída de Aniella
até que a avistamos no piso inferior indo direto para a sua presa. Chamamos o
chefe da segurança do clube e começamos a apontar as mulheres que
queríamos. Enquanto isso, assistimos Aniella arrastar a sua presa para uma
das portas invisíveis que levam para os corredores de serviços. Não demorou
muito para que o russo a avistasse e fosse atrás. Os dois eram um caso de
amor e ódio que cansamos de tentar entender.
Não demorou muito para as mulheres entrarem no camarote e logo
estarem no clima. Não tenho tempo para conquistas e nem papo furado. Rafe
manda que bebidas sejam servidas sem limites. Duas mulheres, uma morena e
outra loira, ambas com vestidos justos e curtos que não deixavam nada para a
imaginação, estavam se esfregando uma na outra ao ritmo da música. Um
belo show que deixa o meu pau duro. Assim que elas percebem que captaram
a minha atenção, as coisas ficam mais quentes.
Aceno para que ambas se juntem a mim no sofá e cada uma ocupa um
lado meu. Acaricio suas pernas e subo minha mão pelos seus corpos
alcançando o seio de cada uma. Eu sou tarado por mulheres com bundas e
peitos grandes, gosto de foder ambas as partes. Enrolo uma mão no cabelo da
loira e trago-a para um beijo. Sem demora faço a mesma coisa com a morena.
Hoje eu quero mais.
— Brinquem as duas e me deem um show digno — ordeno.
Elas não perdem tempo e logo estão se beijando. Coloco-me na ponta
oposta do sofá e assisto às mulheres se acariciando, deixando-me cheio de
tesão. Elas colocam as pernas entre elas e roçam a boceta enquanto se beijam.
Passo a mão sobre a calça, esfregando a minha ereção que já está dolorida.
— Chegou a vez de brincarem comigo, gatinhas. — Elas se
aproximam e eu abaixo a alça do vestido de cada uma para expor os seios.
Acaricio-os e belisco cada mamilo até elas gemerem. Beijo a loira enquanto a
morena chupa seus peitos e acaricia a boceta da que me beija. — Façam-me
feliz.
Sem demora, as mulheres se ajoelham diante de mim, abrem a minha
calça e libertam o meu pau duro. Um membro grande e grosso a ponto de vez
em quando ser dolorido para as mulheres que transo. Gosto de meter com
força, segurar a mulher pelo ombro e cavalgá-la forçando-a a me levar todo
em sua boceta ou bunda. Sou um homem que aprecia comer uma bunda,
estocar dentro daquele buraco apertado.
As mulheres aos meus pés alternam em me chupar e se beijarem. Uma
chupa a cabeça enquanto a outra dá tratamento VIP para as minhas bolas.
Seguro ambas pelos cabelos e dito como quero que façam, ora me levando
inteiro na boca até o fundo de suas gargantas, ora lambendo, sempre
deixando-o bem lubrificado com suas salivas.
— Você é gostoso, Saints — a morena fala antes de me abocanhar
novamente. — Não vejo a hora desse pau grande entrar me rasgando.
Seguro seu cabelo mais forte e a trago próxima ao meu rosto.
— Vejo que gosta de selvageria — mordo o seu lábio inferior. — Do
que mais você gosta, querida? — Beijo-a duro. — Gosta de dor? — Belisco
seu mamilo fortemente para que ela sinta uma picada de dor. A mulher geme e
assim sei que gosta. — Gosta de ser xingada enquanto é fodida? Ser uma
putinha descarada que pede mais?
— Sim… oh sim… por favor, me fode — ela implora.
— Tenha paciência. Agora cuide do meu pau enquanto converso com
essa belezinha que tem uma boca preciosa — puxo a morena para cima e a
beijo. Sinto o meu gosto em sua boca e isso me deixa com mais tesão. Desço
minha mão até a sua boceta e vejo que a vadia está sem calcinha e pingando
de excitação. Enfio dois dedos e ela se contorce em meu braço. — E você,
querida, do que gosta?
— Gosto de ser bem fodida.
— Outra putinha, eu vejo.
Ela sorri descaradamente.
— Sim, com muito prazer.
— Prazer é o que virá agora — afasto a loira do meu pau. — Seja uma
boa cadela e chupe sua amiga deixando-a pronta para o meu pau.
A mulher não perde tempo e faz como ordenei. Em seguida, alcanço
um dos preservativos que ficam espalhados pelas mesinhas do camarote,
coloco em meu pau, trago a morena para o meu colo e empalo-a fazendo
gritar. A loira se coloca ao meu lado, beija-me enquanto seus dedos brincam
com o clitóris da amiga. Depois ela se levanta o suficiente para que eu chupe
os seus seios enquanto a morena rebola sobre mim. Isso é prazer puro e cru.
A morena goza gritando para que todos ouçam e cai de lado. Levanto
e coloco a loira de quatro no sofá, empurro sua calcinha de lado e a penetro
sem dar a chance dela pensar. Ambas são apertadas para mim, o que me leva a
estocar mais e mais forte, fazendo-a levar meu pau inteiro. Seguro seus
ombros e estoco duramente fazendo com que o som de carne contra carne
ecoe pelo camarote. Os vidros permitem que quem está dentro assista
nitidamente quem está fora, mas na parte exterior eles enxergam apenas
espelhos.
— Gosta de ser fodida enquanto vê todas aquelas pessoas lá embaixo?
Já imaginou se elas pudessem vê-la assim, de quatro fodendo como uma puta?
— S-sim… oh, meu Deus! Sim…
Enfio dois dedos na boca da morena e ela chupa. Começo a
movimentá-los como se estivesse fodendo a sua boca até que a saliva os
reveste até escorrer. Levo os dedos até a bunda da loira e penetro-os em seu
rabo. Acaricio e vou abrindo os dedos preparando-a para me levar no buraco
apertado. Quando vejo que ela já é capaz de suportar, desço meus dedos em
seu clitóris para deixá-la ainda mais excitada e permitir que a entrada do meu
pau em sua bunda seja menos dolorida e o mais prazerosa possível. Retiro o
meu pau de sua boceta e encaixo na entrada de sua bunda, sem parar de
estimular o seu clitóris. Quando percebo que ela está prestes a gozar, enfio
inteiro nela, que grita e convulsiona em um forte orgasmo.
Tomo o meu tempo metendo e assistindo à morena usar a lubrificação
da sua boceta para preparar a sua bunda. Sorrio com o seu descaramento e
estico o braço para que ela venha até mim. Beijo-a e depois ordeno que ela
beije a loira que está prestes a gozar novamente. Eu já estou quase a ponto de
estourar, então intensifico mais na loira até que ela cai por outro orgasmo.
Deixo-a de lado e pego a morena, que fica de quatro e abre a bunda para mim.
Gosto de mulheres assim, que não têm receio de tomar aquilo que querem.
Entro com mais paciência, ela não está tão estimulada quanto a sua
amiga. De centímetro em centímetro, tomo conta daquele cuzinho que me
ordenha a cada movimento. Acaricio os seus seios e com a outra mão
pressiono o seu clitóris e brinco com a sua entrada molhada. Não demora para
ela se contorcer e gemer alto, apertando-me cada vez mais, mostrando que seu
orgasmo não demorará a chegar. Minha liberação começa a se construir, e
quando isso começa as estocadas ficam mais duras, levo ela a gozar e em
seguida o meu gozo também vem enchendo o preservativo.
Coloco-a de lado com delicadeza e vou até o banheiro para me limpar.
Mesmo depois de uma rodada intensa de sexo, não me sinto satisfeito, eu
quero mais. Ultimamente venho me sentindo descontente com esse desejo de
mais, já considerei a hipótese de ser ninfomaníaco. Pesquisei na internet e vi
que não, não sou viciado. Meu problema é sempre desejar algo mais, uma
maior satisfação, algo que me deixe pleno.
No caminho para o banheiro, passo por Raffaele, que está fodendo a
vida para fora da mulher que está de quatro à sua frente enquanto as outras
duas apenas assistem se masturbando. Assim que entro, retiro o preservativo,
amarro-o e o jogo no lixo. Vou à pia, lavo o meu rosto e depois limpo o meu
pau. Já composto, volto para a sala e peço para que deem água para as
meninas se hidratarem e providencio que sejam levadas embora em
segurança. Posso ser um bastardo que não gosta de aconchego, mas acho
bacana ser gentil logo depois delas trabalharem da maneira que fizeram.

Capítulo 12
Haniel

Sento-me no sofá no qual há pouco transei com as duas beldades e
observo a pista inferior. Vejo um casal se beijando em meio à multidão e isso
capta a minha atenção. Logo ao lado do casal estão duas mulheres altas rindo
e olhando para o casal que observo mais atentamente. Só então vejo que a
mulher que está beijando o cara é Mairheen, as suas irmãs estão do lado,
rindo e comemorando o feito da mulher.
Minha noivinha é cara de pau, não? Vim ao meu clube para foder
outro em meu território é ter muita coragem. Não gosto da cena que vejo, na
verdade detesto, ela poderia ter feito isso em outro lugar. Não serei hipócrita e
a condenarei por estar aproveitando os seus últimos dias de solteira, mas
discrição é o mínimo que ela poderia dar a mim.
Vejo-o puxá-la para o bar e fico admirada ao ver as irmãs
acompanhando-os a uma certa distância. Keera e Tarha são protetoras, algo
bom para a doutora empata-foda. Antes mesmo de pensar, vejo-me saindo do
camarote e indo em direção da minha noiva, que está beijando outro cara com
a minha aliança brilhando em seu dedo. Será que o homem reagirá bem?
Entro no bar e vou na direção em que eles estão esperando para
fazerem seus pedidos. Dispenso o barman que estava prestes a atendê-los e
tomo seu lugar. Assim que as irmãs de Mairheen me veem, elas empalidecem.
Ambas viram para assistir sua irmã caçula aos beijos com um desconhecido.
— Boa noite, senhoritas. Qual bebida posso servir a vocês?
— Huumm… então, e-eu quero uma cerveja? — Tarha gagueja.
— O que você está fazendo aqui, Haniel? Não deveria estar na torre
de marfim administrando o império? — Keera é mais direta, mas não perco a
ponta de insegurança em sua voz.
— Eu estou relaxando assim como vocês — sorrio e olho para
Mairheen, deixando-as mais sem graça. — Vocês não parecem do tipo
cerveja, parecem mais do tipo daqueles drinques cheios de frescura. Vou fazer
para vocês o meu drinque especial, tenho certeza que vão apreciar.
Como sempre administramos nossos negócios de perto, sei exatamente
onde ficam as bebidas e como os bartenders deixam preparado o mise en
place. Alcanço duas coqueteleiras e faço duas misturas diferentes, drinques
que aprendi nas viagens em que fiz. Vários tipos de rum, champanhe, absinto
e alguns sucos podem se tornar letais se forem bem medidos. Preparo as taças,
coloco gelo e derramo ambos os preparos em cada taça.
— Um Zombie para Keera e um Morte à Tarde para Tarha. — Ambas
me olham chocadas. — Vamos, experimentem os drinques do seu futuro
cunhado.
Tarha alcança a taça com a bebida verde-clara e medo transparece em
sua feição. Faço o meu melhor para não rir.
— Diga que aqui não tem veneno, por favor — Keera pede.
— Não, veneno não, principessa. Apenas um presente meu para
vocês.
Nesse momento, Mairheen e seu encontro encostam no balcão,
sorridentes. Como o bar tem uma iluminação melhor para que os funcionários
não errem as bebidas, posso ver o rosto corado da minha futura esposa. Seus
cabelos soltos, cachos revoltos e seus lábios inchados de beijar a deixam sexy.
— Ah, eu quero um drinque também — ela fala como uma menina e
não pude controlar o riso. Ela se vira alegremente para fazer o pedido e
quando me vê tem a mesma reação das suas irmãs.
— Claro, querida. Você não é o tipo de drinque forte — virei para
fazer a sua bebida e minutos depois a sirvo. — Aqui, uma margarita — olho
além de Mairheen e faço questão de tornar conhecido que vejo onde está a
mão do infeliz. Ele nem faz ideia de onde se meteu. — O que posso trazer
para você, cara? — pergunto para o inocente.
— Um refrigerante, por favor.
Olho para Mairheen, que continua boquiaberta.
— Refrigerante? Você está saindo com um cara que pede refrigerante?
Onde você o achou? No jardim de infância perto de casa? — Entrego a bebida
a ele e volto a atenção à minha noiva. — Tome a sua bebida, querida. Quero
ver se gostará.
Todas três experimentam ao mesmo tempo e balançam a cabeça em
aprovação. Sirvo algumas cervejas que outros pediram e volto para onde elas
estão.
— A bebida está deliciosa, Haniel. Obrigada! — Mairheen
praticamente sobe sobre o bar para gritar seu agradecimento.
— Mereço um beijo?
Ela me encara sem saber o que fazer. E, porra, se eu sei o que estou
fazendo. A coisa é: eu apenas quero fazer.
— Cla-claro — ele ergue-se um pouco mais e levo meu rosto de
encontro à sua boca, mas antes que ela pudesse me beijar, viro e seus lábios
pousam nos meus. Eles estão uma mistura de doce e salgado por causa do
drinque. Quando ela ofega, aproveito para aprofundar o beijo e ela responde
prontamente.
— Que porra é essa? — Seu encontro esbraveja atrás dela. O encanto
acaba e ela se afasta de mim. corajosamente, ele se aproxima de mim e grita:
— Eu vou falar com o seu superior, seu filho da puta. Você não pode sair por
aí beijando quem quiser. Ela está acompanhada, não está vendo?
Sorrio.
— Vejo sim, amigo. Peço desculpas por beijar a minha noiva na sua
frente.
Ele me olha confuso. Então puxo o braço de Mairheen até que alcanço
a sua mão direita e falo alto para que o imbecil possa ouvir:
— Quem você acha que deu esse anel para ela? Pergunte para o seu
encontro quanto tempo falta para o casamento — solto a mão dela, que tenta
explicar a situação para o cara, mas não estou nem aí. Puxo um dos
atendentes e falo: — Esse cara quer falar com o seu superior.
O barman responde sem titubear:
— Você é o superior, é o dono daqui, senhor Saints.
O rapaz perde a cor rapidamente e olha entre Mairheen e eu. Todos à
nossa volta nos olham com expectativa do que virá a seguir. Como já falei,
não sou hipócrita, acho que ela tem que aproveitar a sua solteirice mesmo. Só
achei exagero fazer isso no meu lugar e nem sei explicar por que a beijei.
Sendo assim, acabo com o desconforto:
— Mairheen é a minha noiva, mas ainda não me pertence. Então, faça
um favor para nós dois, termine seu encontro em outro lugar. As bebidas são
por conta da casa.
Despeço-me das minhas futuras cunhadas e saio dali. Encontro os
meus homens não muito longe e sinalizo a saída, está na hora de ir para casa e
descansar. O dia foi cheio e tenho que colocar a cabeça no lugar. Amanhã é
dia de visitar a construção que deve estar nos retoques finais, mesmo assim
fizemos questão de vistoriar. Amanhã também é dia de experimentar a roupa
do casamento. Meu casamento.
Já no carro, envio mensagem a Rafe e Ani para dizer que estou a
caminho de casa. Não demora muito para o meu celular notificar as suas
respostas. Repondo as mensagens da minha mãe lembrando-me sobre o
compromisso de amanhã. Isso me faz pensar em Mairheen, mais
especificamente na imagem dela logo que chegou ao bar para fazer o pedido.
Ela estava linda. Ela deveria usar o cabelo solto mais vezes…
Minha cabeça deriva com imagens de Mairheen dançando e rebolando
naquela roupa justa. Mairheen nua, corada e suada sobre a cama. Mairheen
com aqueles lábios inchados de ter chupado o meu pau. Mairheen me
cavalgando fazendo seus grandes seios pularem para o meu prazer. Inferno! Já
estou duro novamente. Atordoado com a linha de pensamento, xingo e ajeito
a minha calça. Essa mulher já está tirando a minha paz antes mesmo de casar.
E tenho a mais absoluta certeza de que Mairheen não facilitará as coisas para
mim… não a doutora empata-foda.

Capítulo 13
Mairheen

Olho para o vestido de noiva que a minha mãe escolheu para que eu
provasse. Um corpete justo cheio de brilho e uma ENORME saia. Sinto-me
como um balão, se colocar ar quente aqui embaixo, sairei voando sem
destino. Não é isso que quero para mim. Estou à procura do vestido de noiva
há mais de três semanas e só faltam mais duas. O desespero já começa a
tomar conta, não sei se é pelo vestido ou pelo casamento.
Há horas que desejo algo delicado, discreto. Em outros momentos já
penso em extravasar e escolher algo chocante, sexy. Já provei mais de dez
vestidos e nenhum deles capturou o meu coração. Minhas irmãs escolheram
vestidos com muita transparência, teve um que a minha tia Bree ameaçou
desmaiar quando me viu. Todos têm uma opinião sobre o que eu deveria
escolher e não tenho dado a menor importância, pois o casamento pode não
ter sido da minha vontade, mas o vestido será.
Enquanto elas andam pela loja discutindo o que ficaria melhor, sento e
descanso. A maratona está ficando exaustiva. Ontem passei a tarde com a
minha mãe e a senhora Saints, experimentando docinhos e bolões. Deus!
Acho que engordei uns dois quilos. De repente, vozes altas vêm da porta da
loja e vejo ninguém menos que Micaylah, Francesca e a senhora Lisabeth
Saints. Assim que me veem, caminham em minha direção.
— Querida — minha futura sogra me abraça —, sua mãe nos ligou
dizendo que você estava com dificuldades em encontrar o seu vestido.
— Viemos em seu socorro — a senhora Francesca fala entusiasmada.
— Basta nos dizer o que você quer e mandaremos fazer em um passe
de mágica — completa a senhora Micaylah.
— Agradeço a todas por terem vindo. Não acho que seja necessário
mágica, senhora Micaylah, mas de qualquer maneira agradeço muito. Eu só
queria um pouco de liberdade para escolher aquilo que eu realmente quero —
acabo desabafando.
— Então assim será — diz a minha futura sogra.
Rapidamente as mammas Saints conversam entre si e saem em busca
das mulheres que estão me acompanhando. Em alguns minutos, as mulheres
estão pela sala conversando, rindo e bebendo champanhe que a loja oferece.
Lilly pisca para mim e acena para que eu saia à procura do que quero.
A loja é gigantesca e exclusiva, daqui saíram vestidos de celebridades
e pessoas importantes que têm dinheiro suficiente para pagar itens tão caros.
O lugar é basicamente branco com móveis em dourado e branco. Há dois
andares repletos de vestidos de todas as cores e modelos que imaginar. Aqui
há somente um item de cada modelo, todos assinados por grandes estilistas.
Olho as araras e os manequins em busca do vestido que capturará o
meu coração. Imagino-me dentro de alguns deles, mas em minha cabeça nada
ficará bom. E estou mais perdida do que nunca. Ando mais e, no canto, quase
que escondido, encontro algo que chama a minha atenção. Aceno para a
atendente que me acompanhava de longe e peço para experimentar. Exposto
da maneira que estava, não dava para ver todos os detalhes, mas a mistura de
renda e tule é delicada e deslumbrante.
Entro em uma das salas de prova e retiro o roupão. Estou
experimentando vestido há horas, não tem cabimento ficar tirando e
colocando a roupa. A loja oferece para as noivas roupão e um chinelinho
felpudo para se sentirem mais confortáveis. A moça me auxilia enquanto
entro no vestido branco. E enquanto ela o ajusta, eu contemplo a verdadeira
obra de arte que ele é.
O vestido é justo, do tipo sereia todo em renda. O corpete tem um
decote frontal profundo, mas é disfarçado com pequenas partes da renda. Ele
segue justo até o joelho, onde começa a abrir. As costas são todas fechadas
em tule e renda com pequenos botões forrados. O meu corpo ficou escultural.
A moça vem com outra peça em mão, achei que era véu, mas era uma capa de
gola alta. Ela fecha o pescoço e se estende ao ombro, todo de renda, dali cai
um tecido bem fininho e transparente que vai até o chão, como um véu.
A atendente pediu licença e saiu, fiquei admirando a beleza que é a
peça que está em mim. Diferente de tudo o que já vi. Parece ter sido feito para
mim. A moça voltou com uma tiara dourada que se encaixa na cabeça ficando
um v na testa. Solto o meu cabelo rapidamente e encaixo a delicada peça. Um
sapato de salto branco encrustado com pequenas pedras o torna uma peça de
conto de fadas.
— Você está linda — a moça fala.
— E eu realmente me sinto assim… linda. Vou mostrar para a minha
comitiva.
Assim que entro no salão onde todas estão, elas ficam em silêncio. A
atendente me leva até uma plataforma de frente para um grande espelho, onde
posso me olhar com mais clareza. Definitivamente é esse. Viro-me para elas e
espero as suas reações.
Todas sorriam e muitos olhos estavam úmidos. Também me emociono
ao estar aqui vestida de noiva. Não imaginava que eu me sentiria tão feliz e
realizada ao provar o vestido de um casamento que não quero. Estendem-me
um lenço e só então me dou conta que lágrimas caíam — eu realmente,
realmente estou emocionada!
Minha mãe vem até mim.
— Você está deslumbrante, meu bebê.
— Oh, mãe. Estou tão feliz! — Ela me abraça, sabendo o quanto isso
está começando a me sobrecarregar.
A senhora Lilly se aproxima, visivelmente emocionada.
— Você é uma das noivas mais lindas que já vi, Mairheen. Estou
muito feliz, você não imagina o quanto. Posso te abraçar?
— Claro. — Ela me abraça com delicadeza, mas intensamente. Seu
filho pode ser um idiota, mas os outros integrantes da família parecem gostar
de mim e se esforçam para demonstrar isso.
Minhas irmãs também se aproximam e logo as outras senhoras Saints
também vêm juntamente com tia Bree. Rio quando a senhora Micaylah Saints
fala que vai me abraçar porque sabe-se Deus se seu filho vai achar alguém
que será tão linda como eu. É um momento feliz e eu estou grata por dividir
com essas mulheres fantásticas.
O valor do vestido é muito mais alto do que imaginei, mas minha mãe
disse que papai não vai economizar no casamento do seu bebê. Depois de
tudo acertado e marcar os ajustes do vestido, saímos da loja para comer.
Minha mãe e tia foram para casa, assim como as senhoras Saints. Minhas
irmãs e eu paramos em um restaurante tailandês que gostamos muito.
Ninguém pede bebida alcoólica mesmo que o dia tenha pedido tal coisa.
Ainda temos trabalho a fazer, e ficar bêbada não está nos planos.
— Falou com o seu noivo depois daquele dia no clube? — Keera
pergunta.
— Não. Ele não tem se mostrado e não faço questão nenhuma de
procurá-lo — respondo.
Na sexta-feira passada, as minhas irmãs resolveram me levar até o
clube para curtir. Elas disseram que os primos Saints não estariam aqui
porque estavam enfurnados na empresa resolvendo os problemas e tomando
posse do novo cargo. Eu estava empolgada e elas me convenceram a dar uma
chance ao rapaz que se aproximou logo que chegamos. Eu sou sensata e não
faço a menor ideia por que me deixei levar por essas malucas, mas o fato é
que deixei.
Não nego que curti o moço, beijei e dancei muito, me diverti como
não fazia em anos. Eu precisava extravasar de alguma maneira a tensão dos
últimos dias. No meio da noite, estávamos no bar e dei de cara com Haniel.
Eu queria morrer, literalmente. Ele foi educado e nos serviu ótimas bebidas
até que me beijou na frente de todos, inclusive do rapaz que eu estava
beijando minutos antes. Ele me beijou e eu correspondi. Aquele beijo foi mais
do que eu esperava… foi intenso e cheio de desejo.
— Achei interessante o modo como ele se comportou aquele dia.
Outro homem teria matado a todas nós lá mesmo. Você se casará com um
bom homem, Mae — Tarha me fala.
— Ele beija bem? — Kee pergunta.
Penso alguns segundos.
— Beija. Céus! Ele beija maravilhosamente bem.
Elas gritam e batem as mãos. Todos ao nosso redor nos olham como
se fôssemos loucas.
— Eu estou adorando meu cunhadinho. Imagina como serão as festas
de família, com aqueles drinques maravilhosos e homens Saints desfilando
pelo lugar — Tarha fala.
— Não, vocês não podem gostar dele, ok? — corto as duas. — Ele
beija bem, mas isso não significa que quero algo com ele. Não quero nada!
Aquela foi uma demonstração tosca de possessividade e não estou a fim de
participar disso.
— Eu achei que você ia ceder… — Kee começa a falar, mas eu a
corto.
— Não. Eu não o desejo e nem nada parecido. Nosso casamento não é
nada mais que negócio de família.
— Pode ser algo mais — Tarha insiste.
— Se não nos matarmos no primeiro ano, já será algo mais —
respondo friamente.
Guardo para mim a imagem daquele homem grande e forte me
segurando pela nuca e beijando-me sobre um balcão de bar. Naquele
momento, Haniel Saints acendeu algo dentro de mim que até outrora era
desconhecido. Só que no meio daquilo, senti cheiro de perfume doce, ou seja,
feminino. Ele estava com alguém lá. Realmente não me importo com isso,
não é como se fôssemos obrigados a ser fiéis antes do casamento. Mas me
incomodou o fato de vir me beijar quando estava com outra pessoa. Homens
assim não merecem confiança.
Então, depois de pensar muito e ponderar como seguirei adiante nessa
relação, cheguei à conclusão de que o sentimento fugaz que senti quando ele
me beijou era apenas desejo de alguém que já tinha bebido mais do que
deveria. Não vou me dar a um homem como ele, que acredita que comanda o
mundo e a mulher. Eu sou livre e assim pretendo permanecer. Apesar de estar
fechada e blindada em regras, terei o meu coração para mim, essa é a
liberdade que falo. Caso caia na besteira de colocar o meu coração para jogo e
entregá-lo a Haniel, estarei aprisionada para sempre.

Capítulo 14
Mairheen

— Doutora, o paciente das dez já chegou e está esperando.
— Obrigada, Clare.
Entro no consultório e sento na cadeira para atender o meu primeiro
paciente do dia. Não são nem dez da manhã ainda e já estou cansada. Nunca
pensei que fazer um casamento seria tão cansativo, até porque nunca pensei
em me casar. A parte mais pesada ficou para as mães, que estão levando essa
organização a um novo nível. As mulheres são implacáveis. Só sou chamada
para experimentar ou tomar conhecimento de uma coisa ou outra.
O dia está cada vez mais perto e minha ansiedade cada vez maior.
Tenho esperado Haniel me chamar para conversarmos, mas ele se mantém
distante. Vejo que serei eu a tomar a iniciativa de nos encontrarmos para
estabelecer algumas coisas antes de passarmos pelo casamento. Coloco a ideia
de lado e me concentro no trabalho, depois me preocuparei com isso.
Alcanço o telefone e peço para a recepcionista deixar o paciente
entrar. Pego a ficha à minha frente e espero o paciente entrar. Assim que ela
entra, um calafrio percorre o meu corpo. O homem é alto, com traços
asiáticos, todo tatuado, inclusive o seu rosto. Suas roupas são comuns, calça
jeans e camiseta, mas há algo que está fora do lugar e não sei detectar o que é.
Ele é… intimidante. Penso seriamente em pedir para a secretária ficar, pois
sinto algo estranho em relação a ele.
O homem senta-se na cadeira como se fosse dono lugar. Faço o meu
melhor, disfarçando o meu medo, pego a sua ficha para localizar o seu nome.
— Ren Shinobu, como posso lhe ajudar?
— Pode me ajudar enviando um recado para o seu noivo.
— O-oi?
O homem dá a volta rapidamente e se coloca às minhas costas,
fechando a minha boca com sua grande mão.
— Nós sabemos o que eles planejam, e fazer os seus filhotes se
sentarem naquelas cadeiras não salvará os Saints ou os MacNamara. Nós
estamos vindo para tomar tudo o que é deles, inclusive suas mulheres.
Começo a suar frio e meu coração está batendo tão acelerado que
chega a me faltar ar. O medo me paralisa e fico quieta enquanto o estranho
sussurra coisas em meu ouvido. Deus, por favor, não deixe ele me matar. Por
favor… É só o que rola uma e outra vez em minha cabeça. Lágrimas correm
pelo meu rosto, desespero me deixando ainda mais tensionada fazendo o meu
corpo doer.
Ele substitui sua mão por uma fita adesiva para cobrir a minha boca.
Depois ata as minhas mãos e pés juntos para que eu não possa fazer nada. Por
que eu? O que as famílias fizeram para esse cara aparecer aqui e me ameaçar?
— É vergonhoso que seu noivo se preocupe somente com a segurança
dele e não se preocupe com uma coisinha linda como você. Os italianos são
um tipo asqueroso — ele cospe as últimas palavras. — Estou indo. Não ouse
chamar a polícia, nós sabemos onde você e suas irmãs moram, sabemos onde
cada um se localiza. Então, não teste a sorte. Pode deixar que na saída aviso
sua secretária que você não quer ser incomodada.
O homem sai me deixando ali presa e desesperada. Minha cabeça
começa a doer e mais lágrimas caem pelo meu rosto. Ele pode ir atrás das
minhas irmãs, preciso avisar a alguém, fazer alguma coisa. Puxo meus braços
e minhas pernas das restrições, mas o cara sabia o que fazia enquanto me
amarrava com a fita. Rezo para alguém entrar logo para me ajudar antes que o
desespero me sufoque.
Não sei quanto tempo fico ali sem poder me mover. O homem atou
meus pés longe do chão, impossibilitando qualquer movimento. De repente, a
porta se abre e Clare coloca a cabeça para dentro.
— Doutora, eu sei que… — ela arregala os olhos e rapidamente vem
ao meu socorro. — Ah, meu Deus! Por que eu não entrei antes? Eu deveria ter
desconfiado depois que ele deu a entender que vocês estavam…
Ela para assim como meus pensamentos, ele disse o quê?
Ela retira a fita da minha boca e eu sinto cada pelinho ser arrancado
junto. Não sei como pode doer tanto, essa merda. Respiro algumas vezes
antes de falar, e quando falo a voz sai grossa por causa do choro:
— O que ele disse?
Ela continua a tirar as minhas restrições.
— Disse que você queria as próximas horas para se recompor do
encontro. Achei que vo-vocês… — ela vacila.
— Que nós o quê? — insisto.
— Ele deu a entender que vocês dois transaram.
— Ah, meu Deus! Meu deus! Meus Deus! — Tento ficar de pé, mas
estou trêmula demais e minhas pernas fraquejam. Clare ajuda-me a sentar
novamente. — Preciso ligar para o meu pai…
— E para o seu noivo — ela me encara seriamente. — Nós todos
somos Saints, doutora. Nós cuidamos da família e eu falhei na primeira
oportunidade que me deram.
— Nã-não… você me ajudou. E-está tudo bem. Me traz água, por
favor?
Assim que ela sai, pego o meu celular e ligo para o meu pai, mas vai
diretamente para a caixa postal. Tento para o meu tio, só que acontece a
mesma coisa. Não posso ligar para a minha mãe porque ela surtará. Keera…
Kee pode estar com o meu tio. Procuro seu número entre os contatos, tudo
fica difícil quando não paramos de tremer. Que ódio!
O telefone dela toca diversas vezes até que vai para a caixa postal.
Que merda! Onde eles se meteram? Tenho que localizar alguém, mas quem?
Envio mensagem para meu pai, tio Eoghan e Keera. Não tenho resposta de
imediato, como costuma acontecer, e isso me deixa ainda mais temerosa.
Tenho que ligar para Haniel, o problema é que não tenho o seu telefone.
— Aha, o cadastro de funcionários da clínica! Deve conter alguma
coisa dele — falo comigo mesma.
Antes de ter qualquer chance de teclar o seu nome, Clare volta com a
água e um aparelho celular em mãos.
— Sua água — ela estende o copo e em seguida o celular. — Seu
noivo.
Ela sai sem dizer nada. Quando a porta fecha, levo o telefone ao
ouvido.
— A-alô.
— Mairheen — sua voz grossa causa um reboliço confuso em mim e
as lágrimas voltam a cair novamente. — Fale comigo, Mairheen.
— Ha-Haniel, te-teve um homem aqui. E-ele me amordaçou e…
— Respira fundo, piccola. Fique tranquila, estou chegando. Agora
preciso que seque as suas lágrimas, querida. Tome água e se acalme — ao
fundo posso ouvir que ele já está no carro com outras pessoas.
— Estou com medo, Haniel.
Ele resmunga em italiano, mas sei que todas as palavras eram
palavrões. Posso sentir tensão emanar em seu tom de voz.
— Você não precisa mais sentir medo, eu cuidarei de sua segurança.
— Liguei para o meu tio e meu pai, mas eles não atendem. O ho-
homem falou das minhas irmãs…
A ligação foi cortada. Ainda tremendo, tomo a água e respiro fundo
para controlar o medo e o tremor. Não demorou muito para a porta ser aberta
por um Haniel preocupado. Com ele, entram seus primos, que têm o mesmo
olhar em seus rostos. O meu noivo dá a volta na mesa e se aproxima de mim
com cautela.
— Está tudo bem? — ele pergunta. Haniel fica a um passo de
distância de mim, olhando-me se cima a baixo para ver se há algum
machucado aparente.
— Só com o corpo dolorido. A-acho que é devido à tensão — minha
voz quebra. — Estou com medo.
Pelo seu olhar, vejo que ele está dividido, não sabendo se é melhor se
aproximar ou não. Sua dúvida não dura muito, ele se abaixa diante de mim e
segura as minhas mãos, que estão geladas.
— Está tudo bem, piccola. Está tudo bem. Nós precisamos saber o que
exatamente aconteceu, acha que pode contar? Se não se sentir bem, podemos
fazer isso outro…
Eu o corto:
— Não. Não. Estou bem, posso falar — Raffaele e Aniella sentam-se
do outro lado da mesa esperando que eu comece a falar. Haniel aperta a minha
mão mostrando que não há motivos para temer. — Essa é a ficha que chegou
a mim — entrego a Haniel, que olha, depois ele estende para os seus primos.
— Perguntei em que poderia ajudá-lo, então ele disse para entregar um recado
ao meu noivo…
O tremor aumenta e sinto minha pele gelar. Haniel encontra o meu
casaco pendurado atrás da porta e o coloca sobre mim.
— Continue — ele falou gentilmente.
— Ele disse que estão vindo para tomar tudo, até as mulheres, que não
adianta sentar os filhotes na cadeira porque eles sabem o que vocês planejam.
Os Saints e os MacNamara não se salvarão — pisco para tentar conter as
lágrimas, mas é impossível. — Ele disse que não era para chamar a polícia
porque eles sabem onde minhas irmãs e eu moramos — volto a minha atenção
a Haniel. — Minhas irmãs… e-eu preciso.
— Shh. Nós cuidaremos disso.
— Como ele era? — Raffaele pergunta.
— Traços asiáticos. Não sei falar se era japonês, chinês ou coreano,
mas o que me chamou a atenção foram as tatuagens. Não vi bem os desenhos,
mas ocupava tanto os seus braços quanto pescoço e rosto. Costumo ver gente
com bastante tatuagens, mas não daquela maneira.
— Ren Shinobu — Aniella fala. — Esse sobrenome não é estranho, já
o ouvi em algum lugar. Uma coisa é certa, é japonês.
Antes que alguém pudesse falar mais alguma coisa, o consultório é
invadido pelo meu pai e tio, que vêm diretamente para mim. Assim que estou
nos braços de athair, começo a chorar descontroladamente. Tio Eoghan beija
a minha cabeça e pede calma, mas como posso ter calma depois disso, depois
de saber que realmente há uma ameaça lá fora nos aguardando?
Capítulo 15
Haniel

— Leve-as de volta para casa, Seamus. É arriscado deixá-las fora
nesse momento — falo para o meu futuro sogro, do lado de fora do
consultório de Mairheen.
— Farei isso hoje mesmo, mas enquanto não as tenho sob minha
proteção, enviei homens para vigiá-las — o senhor passa a mão pelo rosto em
sinal de exasperação e desespero. — Como conseguiram chegar perto dela
assim?
— Não há ninguém fazendo a segurança de Mairheen ou de suas
irmãs — começo a falar, mas ele me corta:
— Tinha. Mairheen tinha um segurança que olhava de longe, assim
como cada uma das minhas meninas tem. O segurança de Mairheen está
morto a duas ruas daqui — ele olha para o nada durante vários segundos antes
de voltar a falar. — Eu só queria que ela fosse feliz, por isso permiti que se
mantivesse distante.
— Não existe como ficar distante, Seamus. Vocês comandam a máfia
e elas são suas herdeiras, não há como estar distante.
— Parece que não — ele fala e encara-me. — Depois do casamento, a
responsabilidade pela segurança da minha filha estará em suas mãos. Cuide
bem dela.
— Eu farei, não se preocupe — garanto a ele.
Nesse momento, Raffaele, Aniella e Eoghan se juntam a nós. Todos
com expressões sérias e mortais.
— Fazem ideia de quem sejam e do que estão falando? — Eoghan
pergunta.
Raffaele balança a cabeça em negativa.
— Não. Mas saberemos em breve. Recolheremos as imagens das
câmeras de segurança e tentaremos mais informações nas ruas.
— Yakuza — Aniella fala.
— Como? — Seamus questiona.
Ela olha-nos um pouco atordoada.
— Pode ser a Yakuza.
— Eles não saem do território japonês, Ani. Duvido…
Ela corta Rafe:
— Talvez tenham resolvido sair. E se assim for, podemos nos preparar
para o pior. Eles jamais iriam sair das fronteiras asiáticas sem estarem certos
que irão ganhar.
— Acho improvável, mas é uma possibilidade. Nos manteremos de
olhos e ouvidos bem atentos, qualquer coisa repasso a vocês — Eoghan fala.
— Faremos o mesmo — Raffaele diz. — Aumentaremos a segurança
da clínica, principalmente nos andares em que Mairheen está constantemente.
Mairheen sai de sua sala abatida e seu pai a abraça. Eles param de
frente a mim e seus grandes olhos verdes-cinzentos encontram os meus.
— Obrigada por vir — ela fala suavemente. Mulher vulnerável é a
minha criptonita. Culpa da minha mãe que me criou para sentir tais coisas.
— Não me agradeça, Mairheen. É meu dever cuidar de seu bem-estar.
Ela sorri, mas seu sorriso não chega em seus olhos.
— Seu dever, eu sei. Mesmo assim, obrigada.
Meus primos e eu assistimos ela partir com seu pai, tio e um batalhão
de homens atrás deles. Viro para o meu chefe de segurança e ordeno:
— Aronne, fica a seu cargo recrutar homens na Worldwide para
reforçar a segurança da clínica. Oriente para que eles mantenham um olho
mais atento sobre Mairheen.
— Vamos voltar para a Worldwide — Rafe fala já caminhando para o
elevador. — Temos que rever alguns detalhes sobre a segurança do
condomínio.
— O lugar é imenso, dará um trabalho dos infernos! — Ani reclama.
— Eu não consigo deixar de pensar que a Yakuza tem algo a ver com isso.
— Podem ser os Tian[9] — falo.
— Pode ser — Rafe fala. — Mas só teremos certeza quando
capturarmos o cara que veio até Mairheen.

***

Três dias se passaram desde que um desconhecido atacou Mairheen e
ainda não temos pista alguma de quem pode ser. O tal de Ren Shinobu parece
ser um fantasma. As câmeras de segurança nos mostraram quem ele é, mas
ninguém nas ruas ou em qualquer outro lugar o viu ou o conhece. Não há
documentos, impressões digitais, cartões, nada que ajude a encontrá-lo.
Como não sabemos quem “eles” são, andamos constantemente
olhando por cima dos ombros para não sermos pegos pelas costas. A
segurança das mulheres se tornou prioridade visto que há ameaças pairando
no ar. Todos estamos inseguros quanto ao que está por vir, porque agora
sabemos que virá, só não sabemos de onde. Também chegamos à conclusão
de que há infiltrados nas famílias, isso explica algumas coisas, como a
identificação de nossos clientes.
Mairheen me ligou mais cedo e pediu para encontrá-la em um
barzinho hoje à noite. O carro para em frente ao endereço que ela passou e
vejo que o lugar é pequeno e frequentado por pessoas nada elegantes. Agora
tenho que esperar os homens entrarem para fazerem a revista do lugar e
somente depois estou autorizado a entrar. Só permito isso nesse momento
porque Mairheen não chegou ainda. Assim que me dão o ok, entro no
restaurante e me vejo em um ambiente intimista, quase romântico. O cheiro
de boa comida desperta a minha barriga, que reclama da falta de alimento.
Procuro uma mesa desocupada, e assim que acho, sento e peço uma
bebida enquanto espero a minha futura noiva. O casamento está cada vez mais
próximo, meus dias de liberdade chegando ao fim. Meus pensamentos são
interrompidos quando vejo Mairheen se aproximar. Levanto-me para ajudá-la
a tirar o casaco e puxar a cadeira para ela. A mulher está com uma calça jeans
tão justa que parece que foi costurada em seu corpo.
De onde estou, a visão da sua bunda é esplendorosa. A blusa não é
justa, mas tem um decote generoso, posso facilmente baixar a frente e deixar
seus seios à mostra. Seu cheiro delicadamente doce enche as minhas narinas
fazendo com que eu deseje acabar com essa inocência pura que a mulher
representa.
Desfaço-me dos pensamentos, antes que eles fiquem pior e eu perca a
cabeça.
— Obrigada por vir me encontrar, Haniel.
— Como você está? — pergunto.
— Estou bem, o susto já passou — o atendente se aproxima e ela pede
uma bebida. — Chamei-o aqui porque precisamos conversar sobre o
casamento. Faltam menos de duas semanas e acho que deveríamos tirar
algumas coisas do caminho antes de subirmos ao altar.
— E o que são essas coisas? — pergunto.
Mesmo com a luz sendo amena, posso ver seu rosto corar.
— Moraremos na mesma casa, mas acredito que é melhor não
compartilharmos um quarto.
— Sim. E o que mais? — insisto.
O atendente se aproxima com a bebida dela. A mulher vai precisar.
— E-eu não me sinto confortável em fazer sexo com alguém que não
tenho ligação. Entende? Eu sei que sou careta e tal, mas é algo meu — ela
bebe um generoso gole. Provavelmente para criar coragem. — Eu sei que
você sai com muitas, muitas, muitas, muitas mulheres…
— Isso é muito — falo rindo.
Ela bebe o restante e acena para o atendente trazer outra bebida.
— Eu te apelidei de DST ambulante, prostituto, entre outras coisas, e
nem é porque não gosto de você, nãããooo. É porque você come tudo o que se
move.
Rio das suas palavras. Mairheen é engraçada. Assim que trazem sua
bebida, peço que também tragam água e um petisco, já que ela se nega a
escolher uma refeição.
— Tudo o que se move não, delizia mia. Somente as mulheres
gostosas, e caso elas não se moverem, eu movo por nós dois — pisco para ela
enquanto degusto da minha bebida.
— Você é um depravado.
— Sem elogios, querida. Termine de dizer suas preocupações — digo
gentilmente.
— Essa é a principal preocupação. Eu sei que por mais que você seja
pervertido, será um bom marido na medida do possível. Por natureza é
protetor e deve ser um bom provedor também. Sua mãe me mandou fotos da
casa que vocês construíram no condomínio. É linda, e sua mãe tem um
excelente gosto. Não espero fidelidade, mas gostaria de pedir discrição. Não
quero ser conhecida como a mulher traída que se faz de cega e está com o
marido porque ele dá a ela vida boa.
— Entendo perfeitamente sua preocupação — digo verdadeiramente.
Garota esperta.
— Ah! Eu já ia me esquecendo: filhos. Sei que teremos que produzir
herdeiros — ela finaliza a sua segunda bebida e coloco água em sua frente
antes que ela peça mais, acabando bêbada. — Nós podemos fazer
inseminação. Somos médicos e entendemos o procedimento… seu sêmen,
meu óvulo e tal.
Não me contenho e começo a rir sem parar. Ela fica brava e eu rio
ainda mais alto. Ela está de brincadeira. Eu jamais me reproduziria em
laboratório, não quando o meio para chegar a esse fim é prazeroso demais.
— Você só pode estar de brincadeira, mulher. Você está propondo
morarmos na mesma casa e nada de sexo. Proposta indeferida, querida.
— Ma-mas eu não tenho ligação nenhuma com você. Nem gostamos
um do outro. Eu não conseguirei me deitar com você.
O silêncio cai entre nós, cada um submerso em seus próprios
pensamentos. Casar e viver separados morando na mesma casa?
Inseminação? De onde essa mulher tirou essas coisas? Meus filhos serão
concebidos de forma natural, ou seja, sua mãe e eu transando. Não aceito
nada diferente disso.
Mairheen pede licença e vai até o banheiro. Suas palavras continuam a
martelar em minha cabeça sem parar. Entendo os quartos separados no início,
mas sem sexo? Essa mulher merece uma amostra para acabar com essa
besteira. Sigo-a em direção ao banheiro e antes que ela pudesse fechar a porta,
eu a paro. Ela abre a boca, mas a fecho com a mão. Entro no pequeno
cubículo e tranco a porta atrás de mim.
A música Bring the Weight Down, do Fassine, soa mais alto aqui
dentro do que lá fora. Minha noivinha poderá gemer à vontade que ninguém a
escutará direito. Com a mão livre, acaricio a lateral do seu corpo,
despertando-o. Pressiono o seu corpo entre o meu e a pia, fazendo com que
ela sinta minha ereção crescer. Beijo o seu pescoço e mordo o lóbulo de sua
orelha, fazendo-a suspirar.
— Vamos fazer um acordo, delizia mia. Eu irei te mostrar como os
nossos filhos serão concebidos, caso você não goste do meu desempenho…
não, deixe-me colocar de uma maneira melhor. Caso o seu corpo não goste do
meu desempenho, ficamos com inseminação e tudo o mais. Ok?
Seus olhos brilhantes com pura luxúria me encaram e ela assente. Tiro
a mão de sua boca e desço pela frente de seu corpo. Continuo a beijar de
língua o seu pescoço, deixando uma trilha úmida. Seu corpo responde
imediatamente se pressionando ainda mais contra o meu. Sua linda bunda se
esfregando contra o meu pau. Acaricio os seus seios até que seus mamilos
fiquem duros, transparecendo no tecido de sua blusa.
Seu cabelo está amarrado em um coque tradicional, que a deixa mais
velha do que realmente é. Tiro os grampos que o prendem e passo meus dedos
pelos fios sedosos que vão se desenrolando. Quando me sinto satisfeito, enfio
a mão entre as mechas, seguro-as e viro sua cabeça até que posso capturar sua
boca. Com a mão livre, baixo a frente da sua blusa e as taças de seu sutiã
libertando aquelas mamas exuberantes.
Seguro seus seios cheios nas mãos, pesando, acariciando, beliscando
aqueles pequenos brotos rosados. Desço a mão até chegar entre as suas pernas
e começo a esfregá-la. Mairheen liberta a sua boca da minha, mas não se
afasta, pelo contrário, se oferece ainda mais para mim. Rapidamente desfaço
o botão da calça e esfrego um dedo em sua boceta, sobre a pequena peça de
renda. Ela está molhada, sedenta. Inseminação o caralho.
Viro-a para ficar de frente para mim e a beijo novamente. Um beijo
cru e carnal, quase doloroso, exatamente como me sinto. Chupo sua língua e
seus lábios, repetindo toda a dança sedutora em um jogo de bocas. Quero que
ela saiba exatamente o que farei com a sua pequena boceta. Desço pelo seu
pescoço, chupando e lambendo até tomar um de seus mamilos em minha
boca. Chupo seu seio forte, mordo levemente seu pico duro e em seguida
passo a língua para acalmá-lo.
Mairheen geme alto e segura os meus cabelos, puxando-me ainda mais
contra si. Alterno chupando entre um seio e outro, deixando-a louca de
desejo. Levanto a sua blusa e beijo a sua pele branca, tão cremosa quanto o
mais precioso leite. Coloco meu nariz entre a junção das suas pernas e cheiro
a sua excitação, que me deixa mais duro do que já estou. Baixo a calcinha e
dou beijinhos em seu púbis. Olho para cima e vejo Mairheen corada,
encarando-me com desejo e prazer.
Sorrio enquanto abro seus grandes lábios para encontrar sua boceta
rosada e muito molhada. Passo a língua e não contenho um gemido. Seu gosto
é tão refinado quanto um bom vinho. Abro-a mais com meus dois polegares e
começo a lambê-la e chupar seu pequeno clitóris, que vai inchando à medida
que ela fica mais e mais excitada. Penetro-a com um dedo e continuo a
lamber. Sua boceta começa a apertar e vejo que ela está prestes a gozar. Então
fico em pé, viro-a de costas, abro a minha calça baixando o suficiente da
cueca para libertar o meu pau já dolorido.
Puxo seus quadris um pouco para trás e esfrego meu pau em sua
entrada. Sua cabeça tomba para a frente e seu lindo cabelo forma uma cortina
em frente ao seu rosto. Quero que Mairheen me olhe enquanto estou dentro
dela, quero que ela grave esse momento em que seus pensamentos de
vivermos separados caem por terra. Enquanto esfrego o meu pau em sua
boceta, tiro o seu cabelo do rosto colocando-o de lado para que eu possa ter
livre acesso ao seu pescoço. Ela geme como uma gatinha no cio. Totalmente
entregue a mim, às minhas mãos, ao meu pau.
Levo uma mão entre as suas pernas e acaricio seu clitóris, empino sua
bunda mais um pouquinho para que o ângulo da estocada fique perfeito.
Enquanto a estimulo com uma mão, a outra segura o meu pau em sua entrada.
Vou enfiando-o aos poucos para que ela tenha prazer. Mairheen é pequena e
sua boceta é muito apertada, ainda mais com a calça prendendo-a no meio de
suas coxas. Ela tenta acelerar minha entrada, mas a controlo para não se
machucar.
— Mulher gananciosa, boceta gulosa, combinação perfeita para uma
pequena linda como você — falo em seu ouvido. Posso sentir sua pele
arrepiar contra a minha. — Dê-me sua boca, delizia. Gosto de te beijar e
quero beber cada gemido seu enquanto a tomo nesse banheiro sujo.
— Meu Deus, Haniel — é o que ela fala antes de me beijar e meu pau
fazer o caminho completo para dentro dela.
Começo com estocadas lentas e demoradas. Acaricio seus seios e
circulo o seu clitóris ao mesmo tempo, fazendo com que ela tenha uma
sobrecarga de sensações. Meu desejo louco e desenfreado é solto quando ela
começa a jogar seu quadril de encontro ao meu. Seguro seus quadris com as
duas mãos e começo a fodê-la forte. Entrando e saindo… entrando e saindo
daquela boceta doce e encharcada.
— Leva-me nessa boceta gostosa, doutora. Deixe que a sua pequena
boceta engula o meu pau por inteiro — ela geme mais alto e fala o meu nome
como se fosse uma prece. — Sente como sou grande, como a abro inteira
fazendo com que você se sinta cheia?
— S-sim… oh, meu Deus! Acho que vou…
— Olhe-me, Mairheen — nossos olhos se encontram no espelho. —
Você está linda, cara mia. Toda corada, boca inchada, cabelos revoltos e com
cara de quem está sendo bem comida — ela fecha os olhos. — Abra os olhos,
Mairheen. Abra e assista enquanto eu a fodo como uma mulher que deve ser
fodida. Sinta-me dentro de você, cada centímetro do meu pau entrando e
saindo dessa boceta gulosa. Por baixo dessa mulher recatada, há uma
depravada que gosta de foder em banheiros sujos e ouvir coisas mais sujas
ainda.
— Haniel… oh… sim… eu vou… e-eu…
— Goze no meu pau, delizia. Goze e me leve junto — e assim ela fez.
Capítulo 16
Mairheen

— Mae?
— Sim.
— Pode prestar atenção ao que estamos falando? — Tarha fala
irritada.
— Eu estou.
— Não está não — Keera fala sorrindo. — Há dois dias você anda
bem distraída.
— Não ando não — respondo defensivamente.
— Isso tem a ver com a mancha roxa em seu pescoço? — Tarha
pergunta.
Cristo! Elas são intrometidas. Arrumo a gola para tapar a marca que
Haniel deixou em mim. E por falar em Haniel, meu corpo acorda com as
lembranças daquela noite. Eu nunca tinha gozado daquela maneira antes. O
homem pode fazer maravilhas com o corpo de uma mulher.
— Não sei do que estão falando — resmungo.
Minha pele arrepia ao lembrar do toque de seus dedos. Jesus! O que se
passa comigo? Bastou aquele pervertido fazer suas depravações em mim que
meu corpo desperta sozinho, apenas com lembranças. Céus! Seu modo de
falar em meu ouvido, suas palavras sujas… acho que ele me fez gozar
somente com isso.
— Eu aposto cem dólares que ele fodeu o inferno fora dela — volto a
atenção para a conversa das minhas irmãs.
Tarha me encara divertida.
— Não vou apostar nisso não, perderei feio. Ele deve ter dado a ela
um orgasmo devastador.
Desde que fui atacada na clínica, nos mudamos de volta para a casa de
nossos pais. No começo foi legal, juntas novamente na mesma casa, mas
agora já está cansativo. Não há privacidade, principalmente quando se trata da
minha relação com Haniel, ou da minha não relação, que seja.
Mesmo ele tendo feito o que fez naquele banheiro, não muda minha
posição sobre dormirmos em quartos separados e ter filhos por inseminação.
Só porque me deixei levar uma vez, não permitirei outras. Sou controlada e
decidida. Mesmo que o meu corpo anseie por ele, minha cabeça grita
claramente que não. Sou racional e realista. Haniel não se contentará somente
comigo, que não sou uma expertise do sexo. Ele quererá mais e eu não estou
disposta e representar um papel que não desejo a ninguém, sendo mulher da
máfia ou não.
Nesse momento, o meu celular toca tirando-me dos pensamentos
sobre o casamento e Haniel. Olho para o visor e estranho ver o seu nome lá.
Ele nunca entra em contato comigo.
— Oi.
— Olá, noiva. Como você está hoje? — Posso perceber que ele sorri
ao falar. Idiota!
— Estou muito bem, e você?
— Não estou tão bem quanto você, mas acredito que ficará melhor
com o passar do dia.
— Por que está me ligando, Haniel? Ou devo te chamar de Hunny,
como a sua mamãezinha faz? — o provoco.
Ele ri.
— Chame-me do que quiser, querida. Quero convidá-la para conhecer
sua futura casa. A decoradora estará lá dando os retoques finais e acho
interessante que você dê a sua opinião, já que morará lá.
Fico surpresa com o convite.
— Cla-claro. Será um prazer.
— Isso não é prazer, delizia. Prazer foi o que te dei naquele banheiro a
outra noite. Lembra? Lembra como você se sentiu quando eu estava enterrado
dentro de você? — Meu corpo acorda e minha calcinha umedece ao ouvir
aquela voz grave e baixa no telefone me falando essas coisas que beiram a
perversão.
Olho para as minhas irmãs, que estão prestando atenção em mim. Por
mais que eu tente disfarçar, o rubor que está em meu rosto acaba por me
entregar.
— Pode me passar o endereço, por favor? — peço.
— Tem alguém ao seu lado? — ele pergunta.
— Uh… sim.
— Seja sincera, Mairheen, você pensa em inseminação artificial
quando a natural é tão gostosa? Já imaginou como será me ter dentro de você
repetidas vezes, preenchendo-a até que grite?
— Não vamos falar sobre isso — o corto.
O idiota ri.
— Eu vou tê-la novamente, doutora. Vou comer essa sua doce boceta
com a minha boca até que você fique rouca de tanto gritar. Depois a virarei de
quatro, empinarei essa bunda gostosa e a foderei até que seus sentidos a
deixem.
Ele não pode sair me falando essas coisas, ainda mais que outras
pessoas possam ouvir. Haniel tem que esquecer o que aconteceu entre nós. A
minha conversa com ele foi um fracasso. Cheguei lá acreditando que iria
convencê-lo que vivermos separados seria uma ótima ideia, acabei transando
com o infeliz dentro do banheiro sujo. Depois que nos ajeitamos e saímos, ele
não teve a decência de disfarçar. Quando voltamos a sentar, ele falou que os
filhos dele serão concebidos de forma natural. Que é minha escolha dormir
em quarto separado, mas a questão da concepção dos filhos é indiscutível.
— Mairheen, ainda está aí? — ele pergunta.
— Sim. Desculpe, me perdi em pensamentos homicidas — falo
entredentes.
— Você é doce demais para tais pensamentos, principessa. Enviarei
um carro para pegá-la em uma hora.
— Ok. Obrigada.
Nos despedimos e quando vou me levantar para trocar de roupa, vejo
minhas irmãs sorrindo como gatos de Cheshire. Sem falar uma palavra,
caminho para fora da sala, e antes de estar longe demais, ouço elas falarem:
— Aposto duzentos que ele falou coisas sujas para ela no telefone.
Deus! Como são infantis.
Vou para o meu quarto, tomo banho e me arrumo. Enquanto aliso a
saia lápis que vai até abaixo do joelho, penso no convite de ir conhecer a
minha futura casa. Eu achava que no dia da minha mudança, o clima seria
estranho. Afinal, não foi ideia nossa nos casar, foi algo imposto. Assim como
nos foi imposto morar juntos pelo resto de nossas vidas. Achei que ele nem
estaria lá para me receber e que seria uma hóspede na casa que eu deveria
sentir ser minha.
Sua mãe mandou algumas fotos e fiquei deslumbrada com o que vi,
mas era diferente. Os Saints vêm fazendo a sua parte tentando me deixar o
mais à vontade possível. Haniel que sempre se manteve distante. Eu o
entendo, porque sinto a mesma coisa. Também não o culparia caso ele não me
quisesse em sua casa. Cheguei a cogitar que moraríamos em imóveis
separados.
Olho-me no espelho e vejo o quão conservadora tenho me vestido.
Mas desde que a notícia do nosso casamento foi veiculada, a mídia tem ficado
sobre mim. Agora sou obrigada a me arrumar com esmero cada vez que vou
sair, porque sei que terá alguém lá para fotografar. Conversei com a senhora
Lilly Saints sobre isso, ela me disse que ser uma Saints não é fácil, é quase
que pertencer à realeza. E isso resumiu tudo o que eu precisava saber.
Quando fotos minhas, indo para o trabalho de jeans, camiseta e tênis
foram mostradas em um site de revista, encolhi-me interiormente. O título da
matéria era um questionamento sobre a elegância da futura senhora Saints, eu
simplesmente queria morrer. Desde então decidi que me vestiria melhor, e
daquele dia em diante tenho o feito. Haniel anda sempre impecável, nem
sempre de terno e gravata, mas veste-se com esmero. Sendo capaz de colocar
qualquer modelo de passarela para baixo. O mínimo que posso fazer é me
dedicar um pouco mais para não sair com cara de doente em vez de cara de
médica.
Optei pelo estilo conservadora, a coisa de menininha não combina
mais comigo com vinte e nove anos. Um dia fui às compras e apelei para
vestidos elegantes, saias bem ajustadas, camisas de tecidos delicados e
casacos de alta costura. Gosto de andar de saltos, não como Aniella, que é
capaz de correr uma maratona com saltos de quinze centímetros, mas me dou
bem com eles e me deixam mais sexy também.
Hoje escolhi uma camisa verde-esmeralda e saia lápis de cintura alta
marfim. Esse conjunto me deixa mais alta, dá a impressão de alongar a minha
silhueta. Calço saltos nude para completar o quadro. Olho-me mais uma vez e
sorrio com o resultado. Prendo o meu cabelo em um coque frouxo com alguns
fios soltos, para parecer com a idade que realmente tenho e não mais.
Maquiagem discreta para o dia, pequenos brincos e um delicado colar cujo
pingente fica na altura do decote marcando o início dos meus seios.
Logo, minha mãe entra no meu quarto avisando que tem um carro à
minha espera. Não quero deixar ninguém me esperando, é rude. Então me
apresso e logo entro no grande carro que Haniel enviou para mim. No banco
da frente está o motorista e seu chefe de segurança, que me informou que seu
nome é Aronne. Os homens que o meu pai designou para mim me
acompanham em um carro atrás.
O lugar dele é distante, levou mais de uma hora e meia para
chegarmos em frente ao grande portão de ferro. Aronne abriu o vidro, falou
qualquer coisa ao segurança que se aproximou do carro e o portão foi aberto.
O carro anda por um caminho de árvores altas até que se abre em uma
paisagem deslumbrante. Três grandes casas são ladeadas por jardins que
parecem ter saído de um filme e uma piscina gigantesca que mais parece um
lago. Ao redor delas há palmeiras, plantas mais baixas, pedras, tudo dando um
ar de resorts da Califórnia.
Tudo foi muito bem planejado, podemos ver as três casas de
arquitetura moderna com muito vidro. Ao longo do caminho, pode-se ver que
ao longe há chalés que provavelmente são destinados a convidados. Há um
exército de pessoas andando de um lado para outro, alguns até com carrinhos
de golfe transportando materiais. Eles não estão economizando em nada.
O carro para em frente a uma casa de três níveis, fachada
predominantemente de vidro e laterais com cores escuras. Aronne abre a porta
para mim e me acompanha até chegarmos à porta de entrada da casa, onde
Haniel, sua mãe e uma linda morena me esperam. Tudo é grande e
extravagante, fazendo-me sentir pequena. O meu noivo se adianta e beija
minha bochecha assim que se aproxima de mim.
— Você está muito bonita, Mairheen.
— Obrigada — agradeço ao seu elogio que soa verdadeiro.
Haniel aproxima sua boca da minha orelha.
— Mas prefiro o seu cabelo solto. Ele é lindo demais para ficar preso,
delizia — um tremor percorre o meu corpo. Ele sente e sorri. Idiota!
Sua mãe me abraça assim que chegamos no hall de entrada.
— Feliz em vê-la aqui, querida. Espero que goste do trabalho que
Adina e eu fizemos em sua casa.
Não contenho o sorriso de satisfação ao ouvir isso. Não vou mentir,
gosto que eles me aceitem. Não consigo me imaginar convivendo com
pessoas que não gostam de mim, que apenas me suportam. Gosto de me sentir
querida por pessoas que em poucos dias se tornarão a minha família também.
Preciso de aliados para quando eu me sentir sufocar, ajudem-me a correr para
respirar.
— Espero ter feito um bom trabalho, senhorita MacNamara. Mas
qualquer mudança que queira fazer, basta me falar e arrumaremos
rapidamente.
— Obrigada.
Lilly entra comigo mostrando cada detalhe da primeira sala. Por fora,
com toda a modernidade, julguei que por dentro seria parecido, mas tive um
grato engano. Dentro a casa era acolhedora, com móveis claros e cor nas
paredes, decoração ostentosa passando o ar de aconchego.
Olho para trás e vejo Haniel conversando com a mulher alegremente.
Eles riam alto e falavam perto demais um do outro. Meu peito apertou. Não é
ciúme, mas não esperava esse tipo de atitude na minha frente, dentro da nossa
futura casa. Desvio o olhar e continuo a prestar atenção em tudo o que a
senhora Saints fala. De repente ouvimos um gritinho de mulher, e ao virarmos
assustadas, vejo Adina nos braços de Haniel.
Mal-estar desceu sobre mim e tive vontade de sair dali imediatamente.
Não sei se conseguirei tolerar tamanha falta de respeito. Acho que a senhora
Saints sente o mesmo, pois ela faz o caminho até os dois e bate no braço de
seu filho.
— Deixe de ser infantil, Haniel Saints! Você sabe muito bem que ela
não luta quando está de salto. Adina pode se matar com qualquer coisa que
seja mais alta que cinco centímetros.
Fico confusa com as palavras da mulher. O que se passa aqui? Do
nada apareceu uma outra mulher tão elegante quanto Adina. Ela passa por
mim sorrindo, mas vejo que o gesto desaparece assim que chega na frente da
outra.
— Está tudo bem, amore? — ela acaricia o braço de Adina.
— Sim, está. Esse bastardo inútil esbarrou em mim só para me ver
cair.
— Não, não. Não foi assim, Petra. Adina que não sabe andar com
saltos. A mulher é um perigo nisso e ninguém faz nada.
— Eu falei para você não colocar esse salto, Di. Tenho certeza que a
senhorita MacNamara não se importaria se a decoradora não estivesse de
saltos — ela vira-se para mim. — Se importaria?
Mais confusa do que nunca, respondo:
— Nã-não. Não me importaria.
— Claro que não se importaria. Mairheen é simples, não se atenta para
tais banalidades — minha futura sogra aponta. Ela percebe minha confusão e
fica agitada. — Oh, meu Deus! Eu não apresentei vocês como deveria.
Mairheen, essas são Petra e Adina, elas são as responsáveis pelos interiores
das três casas.
Elas se aproximam de mim e apertam a minha mão.
— Muito prazer, senhorita…
Eu as corto:
— Mairheen, podem me chamar de Mairheen.
Elas sorriem e retribuo o gesto. Essas mulheres não parecem ser
casinhos de Haniel, parecem mais ser família, apesar de não terem traços
nenhuns idênticos a ele.
— Adina e Petra são um casal, são amigas de longa data dos meninos
— Lilly explica. — Petra trabalha em uma das nossas construtoras há anos,
foi ela quem coordenou toda a reforma do resort, e Adina é designer de
interiores. Elas abriram um negócio há pouco tempo e esse é o primeiro
grande trabalho de ambas. Ficamos muito felizes por terem escolhido a nossa
obra para inaugurarem seu portfólio.
— Hum… posso tirar esse salto? Está me matando! Acho que estou
perdendo os meus dedos.
— Mulherzinha — Haniel resmunga.
— Pinto mole — Adina devolve.
— Dio! Parem, por favor, parem! — a senhora Saints ordena. Ela
volta-se para mim: — Ignore-os.
Uma onda de alívio toma conta de mim quando observo mais de perto
a interação dos três. Haniel ajuda-a a retirar o salto e a trata com sutileza.
Interessante. Na minha família a figura do homem ainda é muito presente, em
uma reforma dessas, certamente era um homem quem comandaria. Os
homens Saints mostram o quanto se sentem à vontade com essas mulheres em
sua volta, mulheres que comandam.
Capítulo 17
Mairheen

Passeamos por cada cômodo. A cozinha que faz inveja a um chefe, a
sala de jantar que pode receber a rainha de tão elegante que é, o escritório de
Haniel que é enorme e tem uma vista linda para a parte da piscina e jardim.
Todos os ambientes têm cortinas para dar privacidade principalmente onde os
vidros são predominantes. A casa foi muito bem distribuída e decorada. Tudo
é de muito bom gosto, requintado e elegante.
— Quero mostrar os andares acima — Haniel fala. — Vocês se
importam que eu termine o tour com ela?
As mulheres dizem que não. A senhora Saints fala sobre estar atrasada
para um compromisso e as outras duas apontam que devem rever alguns
detalhes nas outras casas. Elas saem nos deixando sozinhos. Haniel coloca a
sua mão na parte inferior das minhas costas e me leva para o piso superior.
No segundo nível tem mais uma sala de estar, uma biblioteca, duas
suítes e um escritório. Ando pelo ambiente que não pode ser chamado de
pequeno, mas é menor do que o escritório dele no piso inferior. Os móveis
parecem ter sido trazidos da antiga Itália, com detalhes em arabescos que
parecem ter sido esculpidos à mão. Os armários seguem o mesmo modelo. No
canto direito há uma chaise branca com detalhes em dourado, duas pequenas
poltronas também brancas que ficam frente à chaise. Entre elas há uma
mesinha de centro em vidro.
A vista é extraordinária, parede toda de vidro que permite ver bastante
da propriedade e principalmente da piscina. As cortinas daqui são diferentes
de outros cômodos, ela segue o estilo europeu com babados e camadas. Tinha
tudo para ser insípido por causa do branco, mas não é. Alguém se importou o
suficiente para encher o lugar com plantas e flores, o transformando em um
ambiente sereno.
— É lindo, Haniel.
— Fico feliz que tenha gostado, porque é seu. Achei que você poderia
apreciar um lugar como esse para organizar sua vida profissional.
— Obrigada — passo a mão sobre a escrivaninha linda quando sinto
ele se colocar atrás de mim.
— Já falei o quanto gosto de seu cabelo? — ele fala enquanto retira o
grampo que o rende. — Você deveria usá-lo solto sempre.
Suas mãos deslizam pelas laterais do meu corpo.
Resista, Mairheen! Resista!
— Nã-não faça isso — meu pedido parece mais um lamento.
Ele se afasta e então eu realmente lamento.
— Venha, quero mostrar os nossos quartos — ele me puxa pela mão
até o piso superior, que tem somente duas suítes.
Ambos os ambientes são imensos. Com móveis minuciosamente
planejados, closets do tamanho de um quarto padrão e banheiros tão luxuosos
como o restante da casa. Faltam as camas e alguns móveis, mas bastante coisa
já está pronta. Notei que a suíte principal fica na parte frontal, ou seja, a
melhor vista. O secundário tem uma bela vista para o jardim da parte de trás.
Enquanto o principal é em tons de marfim e café, deixando o ambiente
aconchegante.
O teto é uma obra de arte em gesso e recortes que não se limitam
apenas ao teto, mas que descem pela parede que tem uma cabeceira já
instalada. O espelho, que já está preso na parede oposta, também é todo
trabalhado em arabescos ao redor. O design é simplesmente fantástico.
— Jesus, Haniel. Essa casa é demais, mas esse quarto é… um sonho.
— Também gostei muito. Adina e Petra fizeram um excelente trabalho
— ele aponta para a parede trabalhada desde o teto. — Aqui ficará uma cama
um pouco maior que o padrão king size, e desse lado — ele aponta para o
espelho —, ficará uma penteadeira.
— A outra suíte é muito elegante, mas não segue o padrão desta —
afirmo.
— Não, não segue. Não parece, mas essa é maior que a outra também.
O quarto de um príncipe deve ser extravagante.
— E o da princesa não? — o questiono.
Ele se aproxima de mim e coloca uma mecha do meu cabelo atrás da
orelha.
— Depende — Haniel dá mais um passo, ficando a um suspiro de
distância. — Se a princesa for casada com o príncipe, ela deve compartilhar
toda a exuberância com ele.
— E-e se ela não quiser? — pergunto em um sussurro.
— Aí ela se contentará com o menos, que não deixa de ser elegante.
Mas como sabemos, não é de um príncipe — ele fala rindo.
— Idiota — resmungo.
Afasto-me dele e caminho em direção à porta. Suas mãos continuam
em mim, acariciando… persuadindo… Ele me puxa até um criado-mudo que
está no canto, senta-se e levanta a minha saia. — Haniel…
— Sente-se no meu colo, Mairheen — ele ordena e eu obedeço. Nem
mesmo resisto a ele. Mairheen estúpida! Ele abre alguns botões da minha
camisa até expor o meu sutiã de renda da cor da camisa. — Seus seios são
lindos… — ele os beija por cima do sutiã fazendo com que os mamilos
endureçam. — Seu corpo me reconhece, doutora. Reconhece ao seu futuro
dono.
— Não… — tento me levantar, mas Haniel impede.
— Sente como estou duro?
— S-sim…
Ele coloca a minha calcinha de lado e esfrega um dedo em minha
entrada. Por mais que eu tente me conter, não consigo. Rebolo em seu colo,
enquanto o seu dedo perverso me provoca.
— Molhada. Perfeita. Isso, delizia, rebola na minha mão — ele segura
o meu cabelo na nuca e sua boca encontra a minha. Ele chupa o meu lábio
inferior e o morde, na intensidade, faço o mesmo com ele, que geme em
minha boca. Logo, outro dedo se junta ao primeiro, invadindo-me. — Garota
gulosa.
Ele ri. Ousadia toma conta de mim e puxo o seu cabelo, irritada
comigo mesma por deixar me levar mais uma vez por esse homem.
— Mais, Haniel… me dê mais. — Em algum lugar da minha mente,
uma voz grita que eu devo fugir dali imediatamente. Mas a minha boca diz o
que meu corpo quer. E nesse momento quero gozar com ele.
Haniel puxa uma das taças do meu sutiã para baixo e toma um seio
meu em sua boca. Ele chupa forte, fazendo com que essa picada de dor
reverbere na minha boceta. Ah, céus! Já estou contaminada pelas suas
palavras sujas. Fuja, Mairheen!
— Você quer meu pau dentro de você, Mairheen? Quer ouvir coisas
imundas enquanto eu fodo essa bocetinha gulosa?
— Oh… sim… isso… você é tão de-depravado — esforço-me para
falar coerentemente, mas é algo quase impossível quando estou à beira de um
orgasmo. — E-eu vou gozar.
— Goze, gostosa. Goza na minha mão, encharcando os meus dedos
com o seu gozo. Depois vou te colocar de quatro e comer essa doce boceta
com o meu pau, você gozará uma e outra vez.
Tudo dentro de mim revira… cada palavra imoral que esse homem
fala me leva mais perto do precipício.
— Nã-não…
No momento em que a palavra sai da minha boca, ele pressiona o meu
clitóris e um orgasmo devastador me leva. Sinto a minha parte inferior se
contrair sem parar e Haniel continua a estimular fazendo com que eu goze
mais uma vez. Caio sobre ele completamente mole. É tão bom ter um
orgasmo que não seja induzido pelos meus dedos.
Haniel me beija, sua língua procurando a minha, chupando, mordendo,
levando-me novamente à loucura.
— Quero estar dentro de você — ele acaricia minhas nádegas e as
aperta, esfregando um dedo na minha entrada traseira. — Essa bunda é
perfeita. Assim como a sua boceta, seu rabo um dia será meu.
Por mais excitada que eu esteja, tensiono. Suas palavras me excitam e
isso me assusta. O sexo sujo dessa maneira me assusta e me deixa desejosa ao
mesmo tempo. E a confusão de sentimentos dá lugar à irritação porque na
minha cabeça louca isso é coisa que se faz com prostitutas, e não sou uma.
— Eu não sou uma das suas vadias, Haniel.
Seus olhos brilham de desejo, posso ver nitidamente.
— Bem que você gostari…
Antes que ele pudesse terminar as suas palavras, eu bato em seu rosto
e saio de seu colo. Me arrependo no mesmo momento, mas já era tarde
demais. Tento arrumar a minha roupa da melhor forma possível enquanto ele
me encara.
— Por que isso, Mairheen? — ele me pergunta e vejo que tenta
controlar a sua raiva. — Por quê?
— Eu não sou o tipo de mulher que gosta de ser tratada dessa maneira.
— Que maneira? — Seu tom é cada vez mais baixo e mais gélido. —
Que porra de maneira, Mairheen?
— A-assim, com palavras assim…
Ele ri com escárnio.
— Não é o que a sua boceta indicava. Quanto mais eu falava, mais
você rebolava, e quando falei da sua bunda, meus dedos estavam dentro de
você tempo o suficiente para umedecê-los.
— Eu não sou uma vadia.
— Ninguém disse que era, doutora. Mas grande parte das mulheres
gostam de ouvir coisas sujas enquanto estão sendo bem comidas, porque é a
porra da natureza. Ser possuída por alguém depravado.
— E-eu não quero isso, Haniel. E não quero te desejar. Porque se eu
tiver, me perderei e não sei se serei capaz de me encontrar novamente.
Ele assente e se afasta. Por algum motivo, as minhas palavras
cortaram minha própria carne. Eu gostei do nosso encontro… dos dois. Gostei
até mesmo da sua boca perversa e suas palavras ruins, mas todos os meus
princípios me afogam; minha educação cristã não permite me deixar levar
assim tão facilmente. Faz-me me sentir suja e eu adorei me sentir assim. Que
confusão!
Saímos da casa e caminhamos em silêncio até a entrada da casa. Em
todo o tempo Haniel mexe em seu celular não dando a menor atenção a mim.
Adina se aproxima de nós e ele se despede dizendo que há coisas para fazer
no escritório, deixando-me a cargo de sua amiga. Adina e eu voltamos para
dentro da casa e conversamos sobre algumas coisas que faltavam chegar. Pedi
a ela para alterar alguns detalhes na suíte secundária, pois será o meu quarto e
quero o deixar o mais aconchegante possível.
Depois de vermos a casa, ela me leva em um tour pela propriedade. Vi
cada uma das casas por dentro e por fora. Petra fez questão de me explicar
que todo o condomínio é sustentável. Desde a energia elétrica até o gás, são
de algum modo resultado de alguma tecnologia sustentável. Fiquei encantada
com todos esses detalhes.
Os chalés realmente são para receber convidados. Elas me levaram
para ver um e fiquei deslumbrada com o cuidado com que tudo foi projetado e
executado. Apesar do terreno ser aberto, eles construíram as casas de modo
que cada uma mantivesse sua privacidade. Em anexo às casas, há uma espécie
de solário, onde a piscina entra e lá ela se torna aquecida. Petra me explicou
que no momento em que a água da piscina grande atinge a entrada do solário,
torna-se aquecida.
Simplesmente fantástico.
Mostraram o solário da casa de Aniella. Parte do anexo tem piso
transparente para que as pessoas tenham a impressão de estarem caminhando
sobre águas. Há um bar no canto, um jardim de inverno com direito a sofás e
tudo. Mesas, cadeiras e espreguiçadeiras foram colocadas em torno do lugar.
Há sauna e uma jacuzzi, entretenimento para todos. Todas as casas são
inteligentes, desde a máquina de lavar ao chuveiro, tem algum tipo de
tecnologia. Fora o quarto do pânico, que é a réplica de uma das suítes do
segundo nível.
Elas ainda me levaram para ver a quadra de tênis, o heliporto e um
pequeno lago que, segundo Adina, será repleto de peixes ornamentais.
Explicaram-me que esse lugar era um hotel e spa, que eles compraram o lugar
para transformar no condomínio já que os herdeiros Saints devem morar
próximos uns dos outros. Não sei se é uma boa ideia ou não, mas o trabalho
que foi feito é digno de revista e premiação.
Eu sou de família rica, dinheiro nunca foi problema para nós. Sei que
meu pai e tio não nos falam o quanto realmente a fortuna da família é
avaliada. Mas os Saints estão muito acima de tudo o que temos, não tenho
dúvidas. Comentei com elas que os pais os amam muito para dar um
condomínio desse para os filhos, Petra riu da minha cara e depois respondeu
que a tríade tem fortuna própria, que não é segredo para ninguém o quanto a
máfia italiana tem lucrado com os jovens no comando. Fora os negócios
legais que eles mantêm.
Capítulo 18
Haniel

Duas horas. Malditas duas horas.
Estamos aqui sentados em uma sala de reunião há duas horas com a
equipe de investigação que não nos trouxe nada, absolutamente nada. Horas
perdidas para ouvir um dos melhores investigadores dizer que se Ren Shinobu
for da Yakuza, provavelmente esse é um nome falso.
— Que ótimo! Voltamos à estaca a zero — falo com desgosto.
— John, continue buscando. Em algum momento eles escorregarão e
nós teremos uma pista. Continue de olho nos suspeitos e nos informe assim
que tiver alguma mudança — Raffaele ordena.
— Não acredito que não temos nada ainda. Se estivéssemos na rua, já
tínhamos arrancando informação de alguém — Aniella reclama.
— Paciência. Vamos aguardar mais um pouco — Rafe tenta amenizar.
— Vamos nos concentrar em outra coisa.
— E o que é? — pergunto.
— Sua despedida de solteiro — ele fala.
— Pensei em fazer a despedida de solteiro de ambos no nosso novo
clube, o Dialeckt. Os camarotes são espetaculares e acho que podemos
concentrar tudo ali, visto que é perigoso sair. Não sabemos o que nos espera
— Ani argumenta.
— Concordo — Rafe afirma. — Não é momento de estarmos fora.
Olho para o meu primo com diversão e aponto para Ani.
— Ela vai?
Ele sorri.
— Acho que não.
Ela bufa.
— Claro que vou. Quem você acha que escolherá as mulheres que
tirarão a roupa e se esfregarão em você?
— Não esqueça de mandar checar cada um que for participar das
festas. Requererá uma boa estrutura e um grande número de seguranças —
falo. — Vamos encerrar por hoje? Temos que passar no Dialeckt e ver se tudo
está correndo bem.
— Temos que trabalhar a segurança do clube — Rafe fala.
Saímos da Worldwide juntos, a caminho dos carros que nos esperavam
logo em frente ao conglomerado. De repente, tudo fica laranja e sou
arremessado para trás chocando com os vidros da fachada. Tento abrir os
olhos, mas eles ardem, tento respirar e não consigo, o cheiro forte de gasolina
quase me sufoca. Chamo pelos meus primos, mas não sei o que acontece, não
ouço a minha própria voz.
Tento abrir os olhos mais uma vez e tenho êxito. Há homens e
mulheres da segurança atordoados, ajudando outros que têm diferentes graus
de queimaduras… acho que vejo um corpo mutilado. Esforço-me para
levantar, e quando o faço, a minha cabeça lateja. Náuseas e olhos embaçados
fazem parte do pacote. Volto a olhar de onde veio a claridade e assisto nossos
três carros serem incendiados, mas ainda é possível ver que o de Raffaele
estava completamente deformado.
De muito longe, posso ouvir sirenes. Consigo focar os olhos e ver
nitidamente. Procuro ao redor e vejo Rafe tentando se levantar, vou até ele e o
ajudo. Ani já estava de pé, com sangue escorrendo pelo seu rosto. Com
dificuldade, vou até ela e tento ler seus lábios, pois não ouço absolutamente
nada do que ela fala. Passo a mão na cabeça e sinto algo molhado, ao olhar a
minha mão vejo sangue.
Dou um passo à frente para ajudar os caídos, mas Zendaya, chefe da
segurança de Ani, impede-me de me mover. Ela está com a roupa suja, cabelo
bagunçado e pequenos cortes. Ela está bem. Temos que socorrer os outros.
Procuro por Aronne e o vejo andando de um lado para o outro juntamente
com Denis, homem de confiança de Raffaele, arrastando corpos e… a
imagem começa a embaçar.
Ani puxa o meu braço e entra no meu campo de visão, mas não escuto
o que ela fala. A dor de cabeça piora e as náuseas também, desespero-me por
não ter controle sobre o que está acontecendo. Vejo Raffaele levantar a mão,
mas tudo está desfocado. O chão sob mim começa a tremer, a dor é
insuportável, calafrios vêm em ondas, e quando penso que a morte é certa…
tentaram nos matar.
Queriam nos matar!
E meu mundo apaga.

***

Ouço sons, mas eles estão muito longe. Acredito que foi isso que me
despertou. Dio! Estou tão cansado…
— Os sinais deles alteraram… chamem a doutora.
Esforço-me para abrir os olhos, só que é um trabalho árduo. O cansaço
é mais forte que eu. Tento mexer a mão ou o pé, mas não sei… não sinto que
eles respondem. Lembranças da explosão, os carros em chamas, o desespero
dos homens e mulheres tentando ajudar uns aos outros.
Raffaele. Onde estão Raffaele e Aniella? Ajudem eles. Tentaram nos
matar. Alguém tem que me ouvir. Tenho certeza de que estou gritando, mas
ninguém me ouve. Tenho que proteger os meus primos.
— Ele está agitado… segurem-no.
Mairheen, sai daqui! Abro a boca para gritar novamente. Ela tem que
sair daqui. Eles a matarão também. Deus, me ajude a levantar. Tenho que
tirar os meus primos e Mairheen daqui.
— Segurem-no!
Seu tom de voz é determinado para uma coisinha daquele tamanho.
Rio do pensamento. A mulher me bateu no rosto, no rosto de um mafioso que
não pensa duas vezes para tirar a vida de alguém. E farei isso assim que sair
deste limbo. Eu vou matar o filho da puta que fez isso.
— Segurem ele, porra! Vamos sedá-lo agora!
Não, não, não. Eu preciso proteger você e suas irmãs. Esses bastardos
irão atrás de vocês e eu tenho que lhes proteger, Mairheen.
— Calma, querido… tudo ficará bem…
Mairheen…

***

— Acorda, meu Hunny. Por favor, acorde.
A voz quebrada da minha mãe traz-me de volta do lugar nebuloso e
sombrio. Abro os olhos devagar e o fato de o quarto estar com luz baixa
facilita o gesto. Olho ao redor e reconheço a unidade de tratamento intensivo
da clínica. Volto a atenção à minha mãe, que está sentada em uma cadeira ao
meu lado.
— Ma…
— Hunny? — Ela se levanta e corre para a parede, a luz é acesa e fere
meus olhos, fazendo com que minha cabeça doa.
— Apaga — falar é uma tarefa árdua. Minha boca está seca e a
garganta, arranhando.
— Ah, meu Deus! Desculpa, querido — ela se aproxima. Mesmo com
a luz baixa posso ver seus olhos inchados. — Bem-vindo de volta, Hunny.
Sorrio.
— Oi, ma. Pode me dar água, por favor?
— Tenho que ver com Mairheen. E-ela disse que…
— Só um pouquinho, ma. Só para que eu confirme que ainda estou
vivo.
Ouço-a fungar enquanto está de costas pegando água. Ela volta e me
ajuda a sorver um pequeno gole. Em seguida, ela aperta o botão chamando
uma das enfermeiras.
— Nós estávamos tão assustados, querido. Você não acordava, e
quando acordou estava tão agitado. Mairheen o levou para fazer exames, tudo
parecia bem, mas você não acordava.
— Eu estou de volta, mãe. Não chore mais, por favor. Isso me mata.
— Não fala essa palavra, Haniel Saints! — ela me repreende.
— Onde estão Ani e Rafe? — pergunto.
— Ambos bem e na sala de espera com parte da família. A outra parte
não pôde entrar porque não coube. Mas todos estiveram aqui por você,
querido.
A porta é aberta e Mairheen entra acompanhada de uma enfermeira.
Ela pede para que a minha mãe saia por alguns segundos para que ela possa
me checar com cuidado. Ela olha os dados de cada máquina e depois se
aproxima de mim.
— Oi, Haniel — Seu rosto sorridente é uma obra de arte. — Você nos
preocupou.
Permito que ela faça todas as checagens e perguntas de praxe quando
um paciente acorda. Perguntas devem ser feitas depois, para tornar o exame
rápido. Mairheen levanta a cama para que eu fique sentado confortavelmente.
Observo como é dedicada e competente. Ela é uma excelente médica. Sorrio
com a lembrança de tê-la apelidado de doutora de paus, estava certo que ela
era urologista.
— Seu sorriso indica que não sente dores?
— Inferno! Não. Tudo em mim dói. Quanto tempo fiquei apagado? —
pergunto.
— Quatro dias. Tinha um inchaço preocupante em sua cabeça e seus
primos relataram que gritavam com você, mas você não respondia. Deve ter
batido a cabeça muito forte, o que causou o inchaço e as implicações como
falta de audição e náuseas. Fizemos todos os exames até estarmos certos de
que estava tudo bem.
Como eu já estava de olhos abertos tempo o suficiente para me
acostumar, a enfermeira foi aumentando a luz gradualmente. Passo a mão pela
cabeça e sinto uma parte inchada e dolorida.
— Estou faminto.
— Vamos esperar por mais algumas horas, ok? Seu pai está quase
saindo da própria pele e seus primos parecem que vão explodir a qualquer
momento. Vou permitir que entrem por alguns minutos, depois enviarei uma
enfermeira para limpá-lo, e se estiver tudo bem, podemos pensar sobre um
caldo bem leve.
Alcanço a sua mão e a seguro.
— Obrigado, doutora.
— Não precisa me agradecer, afinal, eu não queria ficar viúva antes
mesmo de casar.
Capítulo 19
Haniel

— Eu juro por tudo o que é mais sagrado: se você me assustar assim
novamente, eu mesmo me encarregarei de matá-lo.
Ele me abraça forte, nem os fios que me monitoram foi impedimento
para que ele me tivesse em seus braços. Como sempre foi, desde sempre. Ele
sempre me apoiou, cuidou.
— Pai…
— Nada de pai — ele nem tenta conter suas lágrimas. — Morri no
momento que recebi a ligação de Aronne dizendo que o meu filho estava
desacordado no hospital depois da porra de uma bomba explodir.
— Eu estou bem, pai.
Ele segura o meu rosto.
— Está, agora você está — tenho a impressão de que suas palavras
são mais para ele do que para mim. — Eu te amo, meu filho. E vou atrás
desses filhos da puta para arrancar o coração deles e enfiá-los em suas
bundas.
Rio e todo o meu corpo dói. Dio! Não posso nem rir.
— Também te amo, mio vecchio.
— Velho, sua bunda. Me respeita que eu sou seu pai — o duro Raziel
Saints se deixa levar pela emoção sem vergonha alguma. — Você é meu filho,
porra. Você não pode morrer nunca! Entendeu, Haniel Saints? Você entende?
— Sim, pai.
Ele seca suas lágrimas, limpa a garganta e arruma as mangas de sua
camisa. Esse é o seu jeito de se recompor. Nesse instante, Mairheen bate à
porta e entra.
— Com licença. Eu não queria atrapalhar, mas seus sobrinhos estão
impacientes, não posso deixá-los entrar antes que o senhor saia. Logo as
visitas cessarão, Haniel realmente precisa descansar. Espero que o senhor
entenda.
— Claro — ele responde e volta a sua atenção para mim quando
Mairheen sai. — Ela será uma excelente esposa e mãe. Ela correu para cá no
momento que soube o que houve e desde então não arredou o pé daqui.
— Pai… — tento interrompê-lo.
— Faça essa menina feliz, seu idiota. Nós devemos a ela a sua vida —
ele beija a minha testa. — Estaremos aqui fora.
— Obrigado, pai.
Pouco tempo depois que ele saiu, Aniella invade o quarto juntamente
com Raffaele. Ambos vêm diretamente a mim, e minha prima sem cuidado
algum joga seus braços sobre mim.
— Hunny — a seguro contra mim, chorando, e meu primo nos cobre
—, eu estava com tanto medo.
— Está tudo bem, querida.
Ela se afasta.
— Eu vou matar quem quer que seja, Hunny. Vou cortar pedacinho
por pedacinho e ver escorrer a vida fora deles — ela fala entredentes.
Raffaele aperta o meu ombro.
— Você está proibido de se jogar na frente do perigo, Haniel —
assisto à emoção crua do meu primo. — Porra! Você e a porra da mania de
andar na nossa frente para proteger-nos de alguma coisa. Sempre foi assim. E
dessa vez quase morreu por causa dessa mania estúpida — ele anda pelo
quarto. — Mairheen disse algo sobre inchaço e mantê-lo em coma. Inferno!
Ani e eu tivemos alguns arranhões pelos cacos de vidro e…
— Calma, cara — digo. — Guarde essa revolta para quando
encontrarmos os bastardos que fizeram isso. Nesses dias que fiquei apagado,
descobriram algo?
Ani senta-se na cadeira vazia à minha frente.
— A bomba foi plantada no carro de Rafe. A perícia está com o carro
agora, mas tivemos tempo suficiente para fazer a nossa própria investigação.
Estamos esperando os resultados para algumas substâncias, mas já
conseguimos alguma coisa.
— E o que conseguimos? — insisto.
— A porra do artefato é bem parecida como os chineses e japoneses
executam seus jogos. Pode ser um dos dois ou alguém tentando culpá-los —
Rafe fala. — De qualquer maneira, já temos lugares e pessoas sendo
investigadas.
— Aronne, Denis, Zendaya, como estão? Quantos homens perdemos?
Quantos estão hospitalizados? — Com o questionamento, a imagem de corpos
queimados e mutilados voltam à minha cabeça.
— Os três tiveram ferimentos leves, Aronne teve algumas
queimaduras, mas já foi liberado. Tivemos três baixas e cinco com ferimentos
graves — Ani fala.
— Porra! — Fecho os olhos e respiro fundo para afastar a dor de
cabeça que volta a me atormentar.
Com um timing perfeito, Mairheen desfila quarto adentro.
— Acabou o horário de visitas, pessoal — ela vem até a cabeceira da
minha cama e aperta o botão chamando a enfermeira. — Pela palidez que
Haniel apresenta, vejo que ele está com dor.
Raffaele se aproxima.
— Cuide-se e recupere-se para acertarmos as contas com quem nos
deve — ele volta sua atenção à minha noiva e assente.
Aniella me abraça e depois abraça Mairheen.
— Obrigada, Mae. Obrigada por cuidar dele.
— Não fiz mais que a minha obrigação — Mairheen fala sem jeito.
Aniella balança a cabeça.
— Não, você fez muito mais. Você salvou a vida do meu primo.
Eles saem deixando nós dois sozinhos. Mairheen baixa a cama e faz
uma nova checagem em minhas pupilas, cabeça e peito. A enfermeira entra
com uma pequena bandeja, da qual Mairheen tira uma seringa.
— Você acabou de acordar e erroneamente permiti que suas visitas
excedessem o tempo. Darei um remédio para a dor e você apagará em poucos
minutos.
— E meu banho? — pergunto.
— A enfermeira fará enquanto você estiver dormindo.
— Não, ela pode me molestar, e ninguém estará autorizado a entrar
enquanto eu estiver desacordado, de qualquer maneira — falo.
— Ninguém fará nada contra você, Haniel. Você é o queridinho delas
— ela fala divertida.
— Você me garante que a enfermeira designada não me molestará?
A dúvida cruza os seus olhos e logo desaparece.
— Ficará mais tranquilo se um dos seus seguranças monitorar?
— Ficarei tranquilo se você fizer.
Ela arregala aqueles olhos lindos e depois eles brilham mostrando
irritação. Mairheen analisa-me na tentativa de encontrar alguma coisa,
provavelmente a perversão. Mantenho-me sério à espera de sua resposta.
— Ok. Se for para você se sentir melhor, eu o limparei.
— Ótimo! Pode me drogar. A dor está me enlouquecendo — digo
enquanto fecho os olhos.

***

— Seja sincera, você está curtindo essa coisa de me limpar.
— Que susto! — Mairheen coloca a mão no peito e se escora na cama.
— Idiota.
Ela resmunga, me fazendo rir.
Faz dois dias que acordei e ainda não fui autorizado a sair da cama.
Estou ficando impaciente e muito irritado. Infernizei cada enfermeira que
passou por essa porta para me encher o saco. Fui movido da unidade intensiva
para um quarto padrão com a condição de que não sairia da cama até ter
autorização da médica responsável.
Mairheen levou a sério o compromisso de me limpar. Ela só vem
quando tem certeza de que estou adormecido. Então ela remove o lençol e
começa a me esfregar com um pano macio e úmido. Na primeira vez, estava
completamente apagado, mas das duas últimas vezes eu despertei e não
consegui controlar a minha ereção. Ela estava com uma expressão tão
bonitinha quando levantou o lençol e começou a olhá-lo com muito interesse.
Levanto apoiado em meu cotovelo e alcanço o pano que está em sua
mão. Ela assiste atentamente o que faço. Levo o pano até o meu pau duro e
começo a limpá-lo demoradamente. Deito e uso uma das mãos para acariciá-
lo enquanto que com a outra eu passo o pano onde realmente importa.
Quando percebo que capturei a sua atenção, enrolo a mão com o pano na base
do meu pau e movo a mão para cima e para baixo.
Minha noiva assiste atentamente à cena. Vejo-a umedecer os lábios e
seus olhos brilharem. Seus pés trocam de posição, sua pele começa a
ruborizar e sua respiração tem uma leve aceleração. Mairheen está excitada.
Ela está tão apetitosa… e como um balde de água fria, a realidade se infiltra
em minha cabeça. Suas palavras de dias atrás voltam:
Eu não quero isso, Haniel. E não quero te desejar.
Frieza corre pelas minhas veias e me fecho. Ser desprezado por
qualquer um já é ruim o suficiente, ser desprezado pela sua futura esposa é
deprimente. Entrar em um casamento no qual sua esposa está disposta a não
se entregar ao marido é perigoso para ambas as partes. Se não morrerem de
desgosto, obviamente se matarão por ressentimento.
Jogo o pano de lado e me cubro novamente. Seus olhos confusos
encontram os meus.
— Acabou o show, doutora.

Capítulo 20
Mairheen

Eu pareço uma prostituta à procura de clientes. Essa sentença define a
minha roupa para a despedida de solteira. Agora me chuto por ter deixado
aquelas malucas se meterem até em minhas roupas. Deixaram sobre a minha
cama um vestido preto de couro… COURO! Como se isso não bastasse, ele é
frente única, curtíssimo e justo, marcando cada gordurinha que tenho. E olha
que não tenho poucas. Elas não entendem nada de moda? Mulheres com seios
grandes como eu não podem sair com vestidos que desafiam a gravidade.
— Você está gostosa — Keera entra em meu quarto com um par de
botas. — Tome, calce isso.
— Não — respondo efusivamente. Vou ao meu armário e começo a
procurar por um casaco que me deixe menos exposta. Acho um casaquinho de
bolinha curtinho que ficará perfeito. Começo a vesti-lo, mas a vadia da minha
irmã é mais rápida.
— O que pensa que está fazendo?
— Ficando mais recatada? Menos puta? — falo entredentes.
A infeliz ri.
— Não, maninha. Hoje é sua despedida de solteira e você tem que
estar gostosa. Então deixe de ser um bebê e calce as botas. Tarha já está vindo
para fazer a sua maquiagem e cabelo.
— Não — insisto.
Ela bufa.
— Como se neste caso você tivesse escolha. Aniella preparou uma
superfesta no clube Dialeckt. Terá homens tirando roupas em gaiolas! — Ela
fala tão entusiasmada que não contenho o sorriso.
Tarha entra em meu quarto com os braços cheios de coisas. Ao que
parece, minha maquiagem não é o suficiente. Ela me senta em frente ao
espelho e abre algumas paletas. Eu admiro pessoas que têm paciência para se
maquiar, admito que eu não possuo tal coisa. Ela começa com alguma coisa
chamada primer… Isso não é para passar na parede? Quando o pintor esteve
no meu apartamento, ele disse que eu tinha que passar uma camada de prime
antes de pintar.
Keera aparece com uma garrafa de vinho e taças, e nos serve,
enquanto Tarha se concentra em pintar, rebocar e alisar meu rosto com dois
ou mais produtos. Depois do terceiro, parei de contar. Ela se dedica a
contornar e esfumaçar meus olhos, iluminar traços do meu rosto e tingir meus
lábios com um batom vermelho-sangue que adorei. Keera se juntou a ela para
esticar e enrolar o meu cabelo. Deus! Eu não aguentava mais tanto cuidado,
mas estava amando esse momento com elas. Só assim esqueci que o meu
casamento é daqui a dois dias.
Dois dias para a minha vida mudar e eu não sei se será para bom ou
ruim. Fora a tensão que todos estão por causa dos atentados que vêm
ocorrendo. Foram dias difíceis quando Haniel estava no hospital… foi difícil
vê-lo naquele estado. Quando cheguei na clínica, não imaginei que
encontraria a tríade machucada e meu noivo desacordado com um inchaço
preocupante na cabeça.
Com o passar dos dias, deixei de detestá-lo. Ele é engraçado,
inteligente e beija muito bem. Oh, homem! Ele beija extraordinariamente
bem. A ponto de me fazer esquecer o tempo e espaço. Sua boca suja com
palavras carnais mexe com tudo o que há em mim. Eu perdi a compostura ao
assisti-lo se tocando… na verdade, eu perdi a compostura quando fui banhá-lo
pela segunda vez. Haniel estava dormindo pacificamente, mas quanto mais eu
chegava perto de seu membro, mais ereto ele ficava.
Ele é enorme, e relembrei as vezes que ele estava dentro de mim,
fazendo-me ansiar por mais. Imaginei como seria beijá-lo lá. Quando pude me
esconder por alguns minutos no banheiro do meu consultório, procurei um
desses vídeos pornôs em que a mulher chupa o homem. Deixei-me levar por
fantasias que jamais tive, como estar de joelhos diante daquele homem
enorme, com músculos que parecem ser esculpidos, aquela tatuagem pedindo
para ser lambida… gozei fantasiando com meu noivo que estava no quarto se
recuperando de uma explosão.
Haniel despertou algo em mim que eu não conhecia, e isso me
assustou. Nunca nenhum cara falou as coisas perversas que ele falou. Nunca
tinha tido uma experiência em um banheiro de um bar, nem mesmo cogitei
fazer tal coisa. Agora entendo quando as mulheres falam que um homem tem
“pegada forte”, passei dias o sentindo em meus músculos, foi o orgasmo mais
alucinante da minha vida. Quando ele fala italiano, chamando-me de delizia
ou principessa, então… Estou tão perdida!
Não sei mais se resistir a Haniel é uma possibilidade, porque acho que
estou me apaixonando por aquele idiota. Ele não é apenas um médico, o cara
agora é um executivo, e somado a isso tem o fato de ser mafioso. Sabe-se lá
quantas pessoas ele já matou… E por que estou ficando excitada?
— Está pronta para sua penúltima noite de solteira? — Tarha
pergunta.
Olho-me no espelho e não me reconheço. A mulher à minha frente é
sexy e tem um ar de perigosa. Cabelos soltos e revoltos caindo pelos ombros,
olhos verdes que prometem um mundo de prazer e boca desenhada para fazer
um homem pecar. — Esta sou eu?
— É sim — Tarha responde.
— Meu Deus… Eu estou incrível!
— Está mesmo, maninha — Kee me abraça em frente ao espelho. —
Vamos levá-la para sua festa.
Elas me entregam um casaco que encobre o vestido, mas é bem
cinturado. O motorista responsável por nos conduzir ao clube espera-nos na
frente de casa. Segundo Tarha, a ideia é voltarmos bêbadas a ponto de não
lembrarmos o nosso nome. Pedimos para o motorista aumentar o volume do
som que está tocando a música “Señorita”, do Shawn Mendes e da Camila
Cabello. Enquanto elas me arrumavam, esvaziamos duas garrafas de vinho
para sair no clima. E culpamos o álcool por cantarmos com bastante euforia
os “ooh” e “la-la-las”.
— (…) Eu adoro quando você me chama de senhorita. Queria poder
fingir que não precisava de você, mas cada toque é ooh-la-la-la… É verdade
la la la… Ooh, eu deveria estar fugindo. Ooh, você continua me fazendo
voltar por você (…).
— Eu não acredito que a minha irmãzinha vai se casar — Keera fala
emocionada.
— Oh, maninha — abraço-a. — Vou me casar, e não morrer.
Não demorou muito para chegarmos ao clube. Quando descemos do
carro, seguranças já esperavam para nos escoltar. Entramos sem
impedimentos, o que é muito legal. Ao que parece, Aniella fechou o clube
para a festa e eu estou mega ansiosa. Assim que entramos, nossos casacos
foram recolhidos e andamos por um corredor de espelhos que derramam água.
No final do corredor, há uma grande foto de Haniel e minha, com as palavras:
“Festa do Tchau liberdade!”
Não entendi por que a foto de Haniel está ali, já que a festa é para me
despedir da minha liberdade. O lugar não está completamente mergulhado na
escuridão. Há setores com iluminação mais incandescente do que outros, e
isso dá a impressão de estarmos à meia-luz. O clube é muito bonito, com
muitos detalhes em alumínio e dois telões com imagens abstratas em
movimento. Há homens e mulheres em patamares elevados e gaiolas,
dançando em diferentes estados de nudez.
Aniella vem ao nosso encontro. A mulher está com um macacão de
couro cobrindo seu corpo deslumbrante com curvas nos lugares certos. Sinto-
me tão pequena e sem graça ao lado dessa loira fenomenal.
— Priminha! Caramba, mulher! Você está gostosa — ela me abraça.
— A festa será um sucesso. Nos camarotes, poderão ser solicitados quaisquer
dançarinos para fazer um strip-tease e também garçons para servir.
— Obrigada — seguro sua mão fortemente, agradecendo por ela me
receber em sua família.
— Você é bem-vinda.
Um cara alto e muito bonito se aproxima de nós. Já o vi em outras
oportunidades, sei que é russo e tem um dos pares de olhos mais bonitos que
já vi. Acho que Aniella e ele têm alguma coisa não resolvida.
Meus pensamentos são interrompidos quando Raffaele e Haniel se
juntam ao nosso grupo já com bebidas na mão. Haniel acena para um garçom,
que vem até nós com uma bandeja cheia de bebidas variadas. Ele pegou uma
taça de champanhe para mim, e minhas irmãs pegaram a bebida de seu gosto.
— O-o que você está fazendo aqui? — pergunto.
— Na minha festa de despedida de solteiro.
Faço uma careta.
— Não deveria estar em festas e nem bebendo — falo.
— Estou bem. Deixe a doutora lá fora e curta a sua festa — seu olhar
percorre o meu corpo e me sinto exposta. — Você está esplêndida, delizia.
Sinto o meu rosto esquentar.
— Obrigada. Você está muito bem também. — Bem é eufemismo, ele
está o pecado em pessoa, isso sim. Camisa e calça jeans, ambas as peças bem
ajustadas ao seu corpo.
— Sua noiva está linda, Haniel — Rafe dá um passo à frente e beija o
meu rosto.
— Obrigada — falo sem jeito.
Keera se pendura em Raffaele e como um grande polvo passa a mão
em todos os lugares do homem.
— Olá, senhor Saints — Jesus! A mulher não tem jeito.
Tem muita gente que eu não faço ideia, mas também tem o pessoal da
clínica e algumas amigas minhas. A música estava baixa, dando a
oportunidade de todos conversarem, até que Aniella grita para soltar o som, e
então o lugar adquiriu outra vida. Fantástico!
Haniel se coloca ao meu lado e fala em meu ouvido:
— Aproveite sua última noite de liberdade, delizia — sinto uma leve
carícia e minha pele arrepia. Baixo a cabeça para ver a junta de seu dedo
indicador acariciar meu seio.
— Homem mau — falo suspirando.
Ele ri.
— Mulher linda. Beije quantas bocas quiser, Mairheen, porque depois
de hoje, a única que você beijará será a minha — sinto os seus lábios em meu
pescoço e depois morde a minha orelha. — Delizia.
Capítulo 21
Haniel

Assisto Mairheen dançar com abandono, no piso inferior. Ela e suas
irmãs rebolam, descem, sobem e bebem. Homens se aproximam delas, e
enquanto suas irmãs brincam de flertar, Mairheen se mantém à parte,
dançando com um ou outro de longe. Ela será minha esposa, mas não será
minha realmente.
Tenho tido esse debate interno ao longo dos últimos dias. Eu quero
que ela me pertença, mas também quero que ela queira me pertencer. As
coisas ficaram confusas depois do atentado com a bomba. Sentimentos que
antes não estavam aqui agora sondam os meus pensamentos. A possessividade
que não existia passou a ser uma companheira assídua. Fantasias com aquela
mulher de cabelos avermelhados e sorriso doce preenchem parte do meu dia.
Eu não queria sentir, porque sentir é uma porta de entrada para a dor
emocional, que talvez seja uma das maiores dores que existem. Os meus
planos eram encontrar uma mulher agradável e pacífica que deseja ser uma
boa mãe. Estava tudo certo, tudo planejado, até Mairheen cruzar o meu
caminho, por livre e espontânea pressão. Nós não queríamos e hoje não sei se
posso suportar não tê-la.
A mulher veio vestida para fazer um santo pecar. Vestido de couro,
curto demais para os seus próprios padrões; botas de saltos altos, que se
estendem até suas coxas. Aqueles seios perfeitos, bunda apetitosa, curvas
exuberantes e um sorriso que desarma qualquer um. Eu a desejo. Desejo
possuir Mairheen por inteiro, corpo alma e coração. Não quero metades, nem
condições, eu a quero por inteiro.
— Ela é linda. Parabéns.
Não preciso olhar para saber quem é. Levi Nikolov, um amigo russo
de longa data.
— Obrigado. Estou sabendo que seu nome foi riscado da lista que foi
entregue à Aniella — debocho.
Ele ri e responde com seu forte sotaque russo:
— Ela rasgou a lista, mas antes tinha riscado o meu nome.
— Vocês acabarão juntos — falo.
— Não. Cansei de ficar nesse joguinho com Ania.
Pela primeira vez na noite, desvio a minha atenção do piso inferior
para encarar o olhar frio do russo. Ele não está brincando.
— Nunca pensei que ouviria isso, Levi.
— Já escolhi uma esposa. Nadejda nasceu e foi criada na Rússia,
preparada para ser esposa de um czar. Preciso de tranquilidade, coisa que
Ania não sabe como me dar.
— Aniella vai atrás dessa mulher assim que souber da existência dela,
Levi. Minha prima acha que você a pertence.
Ele dá de ombros.
— Ela se conformará…
— Quem se conformará? — Rafe se junta a nós.
— O russo aqui está importando uma esposa diretamente da Rússia —
falo.
Meu primo arqueia a sobrancelha.
— Ani não gostará nada disso.
— Ania perdeu o direito de qualquer coisa em relação a mim.
Sorrio.
— Isso será interessante.
Raffaele mantém a carranca.
— Isso será um inferno. Aniella não mede esforços para conseguir o
que quer, para o bem ou para o mal.
Levi aponta para fora.
— Alguém está conquistando a sua futura esposa.
Olho para baixo e vejo um cara dançando colado à Mairheen. O
sorriso no rosto dela mostra o quanto ela está gostando. Ela passa seus braços
pelo pescoço dele com intimidade. Juntos, dançam ao ritmo da música latina
que ecoa pelo clube. Meu primeiro pensamento é descer e esmurrar o homem
até que ele peça misericórdia, depois arrastar Mairheen de lá. Mas eu falei que
essa é a sua última noite, e levarei a minha palavra até onde der.
— Ela está aproveitando sua última noite — acompanho o casal entre
muitos corpos agitados na pista de dança.
— Você está levando isso muito bem — Levi fala. — Eu não sei se eu
seria capaz de não matar o homem que está passando a mão na minha mulher.
— Você não pode falar nada, russo. Não quando está escondendo sua
mulher na Rússia, longe de Ani — debocho.
— Conseguiu alguma coisa nas ruas, Levi? — Rafe pergunta.
— Não. Nada. Mas dois homens meus foram mortos essa noite,
decapitados. Ao que tudo indica foi um golpe com lâmina.
— Espada — falo.
Rafe e eu nos olhamos.
— Essa coisa está se espalhando rapidamente — Levi fala seriamente.
— Eles vieram atrás de vocês sem piedade.
— Eles estão ficando corajosos — Rafe fala.
— Estão vindo em todas as direções. Enfraquecendo-nos em vendas
nos negócios, em operações milionárias nas corporações, matando homens
nas ruas e agora os chefes. A ideia de ser a Yakuza é cada vez mais correta.
Porque os Tian não se dariam ao trabalho de vir atrás das altas patentes —
argumento.
— Pensei que eles não deixassem a Ásia — Levi fala.
Raffaele resmunga qualquer coisa e eu volto a minha atenção para
Mairheen. Percebo que eles não estão no lugar de antes e rastreio-os entre a
multidão. Vejo que estão dançando em um canto, o bastardo está levando-a
para um dos corredores escuros que foram projetados para casais que querem
se pegar sem ter tanta gente os empurrando.
Sem pensar, largo a minha bebida de lado e desço rapidamente.
Percorro o caminho pela lateral da pista, onde há menos pessoas, e posso
chegar à Mairheen mais rápido. Assim que avisto eles, diminuo os meus
passos até parar alguns metros antes. Por um momento, debato comigo
mesmo se devo ou não ir até eles, porque uma vez lá, não aceitarei que o
homem tenha suas patas sobre ela.
Assisto-o se aproximar para beijar, e no último momento Mairheen
desvia o seu rosto. Ela não quer, e isso me dá uma estranha satisfação. A
mulher pode não assumir que é minha, mas com certeza seu subconsciente
grita que estar com outro que não seja eu, é errado. Mairheen é leal demais
consigo mesma para sair se entregando aos outros, e eu tenho apreciado isso
nos últimos dias.
Aproximo-me dos dois e me coloco atrás dela, sinto o seu corpo
tensionar.
— Você está dispensado — digo ao rapaz.
O corpo de Mairheen relaxa quase que imediatamente ao ouvir a
minha voz.
— Ela está comigo, idiota. Cai fora! — O homem tem coragem, isso
temos que admitir.
Alcanço a mão de Mairheen que está com o anel de noivado, trago até
meus lábios e a beijo.
— Ela só estava se divertindo em sua despedida de solteira. Não viu o
cartaz com as nossas fotos nele? — pergunto e dou um passo à frente. — Faça
um favor a nós dois, amigo: saia de perto da minha noiva e tenha respeito
pelo anfitrião da festa.
Vejo o momento que o cara entende com quem ele está falando e com
quem estava dançando. Tenho certeza de que ele entendeu que estava em uma
linha bem tênue aqui.
— Ela não falou nada.
— E eu diria alguma coisa por quê? É minha festa e queria dançar,
você estava ali querendo dançar também, não é? Ou queria algo mais?
Consternado, tentou argumentar mais uma vez:
— Ela queria…
Dou um passo à frente, ficando nariz a nariz com ele.
— Ela queria o quê?
Ele dá um passo para trás com as mãos levantadas. Sem dizer mais
nada, ele se afasta. Volto a minha atenção para Mairheen, que me olhava com
aqueles grandes olhos. Encaramo-nos por algum tempo até que ela se joga em
meus braços e toma a minha boca. Arrasto-a para o corredor e a pressiono
contra uma parede. A batida da música ao fundo torna tudo mais excitante.
(…) Eu tenho brincado com meus demônios, causando problemas
para mim. E estes dias estão longe de acabar. Você sabe que eu não posso me
ajudar. Eu adoro vir para você, baby. E isso está me matando por dentro,
tenho morrido por você, baby, quase todas as noites. Esqueça as palavras
que estou dizendo, eu sei o que faço, oro pela paz. Diga-me por que não fazê-
lo? Ore por mim, baby. Oh, eu oro. Eu sei que tenho sido cruel, eu sei que o
que faço [10](…).
Minhas mãos correm pelo corpo de Mairheen até alcançarem seu
cabelo e segurarem a sua nuca. O beijo é puramente carnal, é sexo com a
língua. Beijo o seu pescoço, o seu ombro nu, passo a língua pela sua orelha.
Ela se entrega, esfregando o seu corpo no meu, puxando-me para si. Coloco
uma perna entre as dela e isso faz com que o seu vestido curto suba ainda
mais. Seguro sua linda bunda, impulsionando-a a se esfregar mais em minha
perna.
Levo uma mão entre as suas pernas e meus dedos sentem a umidade
em sua calcinha. Ela olha para mim, mordendo o lábio inferior, esperando
ansiosamente por algum sinal de que está tudo bem. Continuo a encará-la
porque quero registrar esse momento em minha memória. Inferno! Ela
merecia uma foto assim, como está agora.
Acaricio o seu rosto e ela fecha os olhos deitando o seu rosto em
minha mão. Como poderia viver com essa mulher sem ter sua doçura ao meu
redor? Minha vida foi dominada pelos meus demônios da rejeição e
desapontamento. E do dia para a noite, essa pequena mulher me deu mais para
pensar, para tirar-me de dentro da minha cabeça. Deu-me motivos para querer
mais, desejar mais, viver mais.
Aproximo de sua orelha.
— Eu quero levar você daqui.
Continuamos a olhar um ao outro até que ela percebeu que eu estava à
espera de sua aceitação. Ela morde seu lábio novamente e assente. Sem dar
tempo para ela mudar de ideia, arrasto-a para fora do clube pela porta de trás.
Aronne estava de prontidão porque era certo que eu sairia antes que todos.
Assim que ele nos viu, abriu a porta do carro, espero Mairheen entrar e vou
depois dela. Digo para nos levar ao condomínio, para a nossa casa. Ao
acariciar a sua perna, sinto a sua pele arrepiada. Esqueci completamente de
seu casaco. Retiro a minha camisa e lhe dou.
Coloco-a em meu colo com as pernas sobre o banco e tomo a sua boca
em um beijo carnal. Ela abre a sua para mim e nossas línguas se encontram
em uma dança sexual, chupo seu lábio inferior enquanto ela morde o meu
superior. Mairheen é apaixonada e exigente, sua boca gulosa faz com que eu
imagine como seria ter meu pau dentro dela.
Quando chegamos ao nosso destino, ordenei aos homens que ficassem
fora da casa. Não vou correr o risco de um deles ver Mairheen nua ou
gemendo. Ajudo-a a sair do carro e vamos em direção à porta, digito a senha
destravando-a. O lugar estava completamente escuro, bati palma e a casa
ganhou vida.
— Bem-vinda à sua casa, delizia.
Ela olhou em volta, vendo tudo terminado e decorado.
— Está mais linda do que antes, Haniel.
Viro-a para ficar de frente para mim e a beijo. Eu trouxe Mairheen
para me aproveitar dela, a casa pode ficar para depois. Traço os seus lábios
com a língua e em resposta ela se abre para mim. Nos beijamos até ficarmos
sem ar.
— Você é tão doce, tão linda.
Ela dá um passo para trás, afastando-se de mim.
— Eu não quero ser doce, não essa noite, Haniel — ela tira a camisa
que a cobre —, quero ser uma garota má — seus olhos brilhando de
excitação. — Quero que você me transforme em uma garota má, que fale
palavras sujas enquanto me fode.
Inferno! Ela conseguiu me deixar mais duro do que antes.
— Mairheen, você me deu um tapa na cara porque falei que iria foder
a sua bunda. Você surtou, ficou ofendida…
Ela me interrompe.
— Era novo para mim, ok? Admito ter ficado excitada e isso me
apavorou. Fiquei me perguntando como poderia ter me excitado enquanto
você me degradava. Porra, Haniel! Eu gostei de me sentir imoral.
Ela volta a se aproximar e dessa vez se ajoelha diante de mim, levando
as mãos nas minhas calças, e eu a paro.
— Mairheen…
A mulher me olha determinada.
— Eu quero saber se esse poder que falam que as mulheres têm sobre
os homens realmente existe. Minhas irmãs vivem dizendo que se sentem
poderosas quando chupam seus parceiros. Eu quero isso, Hunny. Eu quero
tudo de você, as palavras, as pegadas, as promessas.
Acaricio seu cabelo.
— Você não sabe o que está pedindo, carino.
— Então me mostre.
Não precisou pedir duas vezes. Permiti que ela abrisse a minha calça e
libertasse o meu pau que já está dolorido de tão duro. Ela o olha como se
fosse seu brinquedo preferido. Pelo jeito que ela o segura, posso ver que não
tem desenvoltura experiente. Mas aplaudo sua valentia. Insegura, Mairheen
passa a língua sobre a cabeça do meu pau, fazendo-me gemer.
— Já fez isso antes, delizia? — ela balança a cabeça em negativo.
Então, coloco a minha mão sobre a sua que segura a base do meu pau. —
Aperta mais um pouquinho e mexa para cima e para baixo. Assim… isso…
— Passo o polegar pelo seu lábio inferior. — Linda Mairheen, vamos deixar a
brincadeira melhor. Levante-se.
Ela faz como ordenei e a beijo enquanto junto o tecido do seu vestido
frente única, deixando-o amontoado entre seus seios expostos. Acaricio-os
com força, belisco seus mamilos incitando o seu prazer. Desço a boca em um
deles e o chupo. Sua mão segura o meu cabelo, puxando-me mais contra si.
Sugo com mais força e mordo de leve, sinto seu bico endurecer em minha
boca, então dou atenção ao outro. Quando deixo seus seios inchados e
pesados pela excitação, afasto-me.
— Agora ajoelhe-se, abra essa boca e me foda, Mairheen. — Ela faz
como ordeno, ainda insegura, mas lembrando de como eu disse que gosto de
ser tocado. Mairheen abre a boca para levá-lo, e quando o faz, meu mundo
estremece. — Assim, delizia… assim… — Seguro seu cabelo para ditar o
ritmo. — Abre mais a boca, coloque a língua para fora… — Começo a foder
a sua boca lentamente. Dentro, fora. Dentro, fora… — Agora respire pelo
nariz e engula.
Assim que ela o faz, entro quase inteiramente, batendo no fundo de
sua garganta. Mairheen engasga em torno do meu pau, arrancando mais um
gemido meu. Retiro-me de sua boca, espero-a respirar antes de me enfiar nela
novamente.
— Mais uma vez, carino.
— Não. Nada de carinho. Mostra-me o modo depravado — ela fala
roucamente.
Vê-la ajoelhada com seus lábios vermelhos e inchados por me chupar
a faz ainda mais linda, mais apetitosa. Ela não sabe o quanto uma mulher tem
poder sobre um homem quando está assim. Damos o mundo para aquelas que
sabem o que querem, não tendo medo de pegar o que desejam. Colocar-se em
seus joelhos para chupar um homem não as degrada, pelo contrário, as torna
donas de nós.
— Abra a boca e leve-me, troia. — Seus olhos brilham com desejo.
Seguro o seu cabelo e enfio-me dentro de sua boca, fodendo-a com
força. Seus engasgos só fazem com que eu a deseje ainda mais, colocando-me
à beiro do precipício. Saliva escorre pelas laterais da sua boca e pelo meu pau.
Boa garota. Valente. Não pode levá-lo inteiro, mas está aprendendo a fazer
um bom trabalho com o que consegue.
— Minha noivinha é uma cadelinha de boca gulosa. — Ela geme com
o meu pau enterrado em sua garganta. — Gosta de ser xingada, doutora?
Ela assente. Sem demora, retiro-me dela e a levanto. Beijo-a tão duro
que chega a ser doloroso. Desço as minhas mãos em sua bunda, levanto o seu
vestido, pressionando-a contra mim, meu pau duro e molhado de sua boca
ficando entre as suas pernas. Seus grandes seios deslizando pelo meu peito
nu, atrito de pele com pele, fazendo-nos ainda mais loucos.
— Hunny… eu sou apaixonada pelo seu pau. — Dou risada e estapeio
a sua bunda.
— Bastardo sortudo — digo rindo. — Vamos conhecer o meu
escritório.
Deixo-a ir em minha frente para ter uma das vistas mais maravilhosas
da vida. Uma mulher com curvas exuberantes, cintura fina e uma bunda
devastadora. Mairheen caminha seminua sentindo-se confortável.
Ao chegar no nosso destino, abro as cortinas e deixo a luz da lua
clarear o lugar. Antes de sentar-me, retiro a calça e a cueca. Então, viro a
cadeira para a vidraça que tem vista para a piscina. Um ou outro segurança
caminha pelo lugar. Eles não podem nos ver porque está escuro, mas se
pararem e prestarem muita atenção, enxergarão o que acontece aqui.
— Vem aqui, delizia. Ajoelhe-se e me mostre o quanto você é
apaixonada pelo meu pau.
Mairheen desfila até mim e se ajoelha. A mulher está aprendendo
rapidamente a me provocar. Ela toma o meu pau em sua boca e o chupa
avidamente. Retiro-me de sua boca e a coloco sobre a mesa. Abro suas pernas
e passo minha mão entre as suas pernas, sentindo a pequena peça de renda
úmida. Retiro a sua calcinha, coloco seus pés sobre a mesa, abrindo-a mais
para o meu prazer.
Traço sua boceta com um dedo e assisto Mairheen jogar a cabeça para
trás. Linda. Penetro o dedo e movimento-o para dentro e para fora, sempre
olhando a mulher à minha frente se deliciar.
— Coloque-se sobre seus cotovelos, delizia, e assista eu te comer.
Com o indicador e o polegar, abro a sua boceta expondo seu clitóris.
Passo a língua por toda a sua boceta, deixando-a molhada. Acaricio em torno
de seu clitóris ignorando o pequeno nervo sensível. Mairheen começa a se
contorcer e a seguro no lugar.
— Ha-Haniel… Hunny… p-por favor.
Enfio dois dedos e ela grita.
— Quer que eu examine sua bocetinha, doutora?
— Quero que você faça qualquer coisa — ela fala ofegante.
Intensifico a carícia ao redor de seu clitóris e ela geme alto, tentando
movimentar o quadril. Penetro-a com minha língua enquanto seguro sua
boceta bem aberta para mim. Substituo a língua por dois dedos e assopro sua
entrada molhada e quente. Mairheen geme cada vez mais alto e goza gritando
quando chupo seu clitóris.
Trago-a para o meu colo e giro a cadeira para a vidraça. Ela fica tensa,
mas permite que eu continue a comandar a cena. Abro as suas pernas,
colocando uma em cada lado meu. Acaricio os seus seios e os aperto juntos,
rolo seus mamilos entre os dedos e Mairheen começa a se contorcer
novamente. Seus seios são sensíveis. Bom saber. Desço uma mão para
acariciar sua boceta e já a encontro molhada. Dou um tapa em sua entrada e
ela pula gemendo.
— Porra, Hunny! — Sua voz é rouca e seus gemidos são o meu
combustível para continuar a devorá-la.
Levanto-a e coloco o meu pau em sua entrada, Mairheen desce
devagar sentindo cada centímetro meu entrando nela. Ela desce as suas
pernas, coloca as mãos em meus joelhos e começa a rebolar.
— Puta que pariu, Mairheen. Assim você acaba comigo, mulher.
Ela vira o suficiente para que eu veja seu sorriso perverso. Ela contrai
sua boceta apertada e quase gozo. Pelo vidro, posso vê-la brincar com seus
mamilos.
— Adoro como me sinto quando você está dentro de mim.
— Vai adorar ainda mais, minha putinha. Olhe para fora, olhe para os
seguranças, eles podem vê-la aqui cavalgando meu pau.
— Oh, meu Deus! — Ela congela por alguns segundos, mas depois
continua em seu ritmo. — Eu sou sua putinha, Haniel Saints. Faça-me sentir
suja e depravada.
Trago-a para trás e coloco os seus pés sobre os meus joelhos,
deixando-a completamente exposta para quem estiver passando lá fora.
Seguro o seu quadril, levanto-a e a faço descer ritmicamente. Quando ela faz
isso sozinha, concentro-me em acariciar o seu clitóris e seus seios.
— Bocetinha gulosa, leva meu pau inteiro sem reclamar. Foda-me,
delizia. Foda-me. Mostre para o meu pessoal como você satisfaz seu noivo,
como você o fode.
— Aaahh… meu Deus! Oh… vou gozar, Haniel. Vou go-gozar…
Pressiono o seu clitóris e belisco um mamilo. Mairheen grita com o
orgasmo, e para prolongar esse momento, penetro-a com mais força e
mantenho o seu clitóris pressionado. Ondas e mais ondas de prazer tomam
conta dela, até que seus gritos se tornam choramingo.
— Agora é a minha vez, doutora.
Rapidamente levanto e coloco suas mãos no vidro, seguro-a pelos
quadris e a penetro. Seguro seus seios para trazê-la para mim com força. O
barulho da penetração e do atrito de pele com pele ecoa pelo lugar. Bato em
sua bunda e a ouço gemer. Então, umedeço meu polegar e enfio em sua
bunda, e ao contrário do que imagino, a mulher leva muito bem. Seguro o seu
cabelo em um rabo-de-cavalo e o puxo. Umedeço dois dedos e levo em sua
bunda. Hoje é apenas uma amostra do que virá depois.
— Vo-vou gozar… oooh… — ela geme.
Falo em seu ouvido:
— Gosta de saber que podem te ver, não é? Você é uma menina suja,
Mairheen MacNamara.
Ela goza me levando juntamente com ela, e pela segunda vez,
transamos sem preservativo. Isso está longe de ser esquecimento, isso é para
garantir que meus filhos sejam concebidos de forma natural. Pego-a no colo e
a levo para o nosso quarto, onde passaremos todos os dias de nossas vidas a
partir de amanhã, visto que já passamos da meia-noite.
Capítulo 22
Mairheen

Estou na beira da piscina aquecida, tomando café e olhando Haniel
nadar, com todos aqueles músculos definidos à mostra para que eu babe ainda
mais. Estremeço com as lembranças das últimas horas que passamos juntos.
Lembrando de como ele me devorou, me fez sentir perversa e ao mesmo
tempo protegida.
Quando fomos para o quarto, ele encheu a banheira para que eu
pudesse ter um banho relaxante. Quando terminei, ele estava lá com uma
toalha felpuda que cada vez que roçava em meus mamilos, fazia-me gemer.
Ao voltar para o quarto, estava crente de que iríamos dormir, mas o homem
tinha outros planos. Ele se sentou na cama de costas para a cabeceira e me
levou em seu colo. Seu pau já estava endurecendo novamente.
— Gostou da experiência, delizia? Se sentiu poderosa quando estava
me chupando?
Meu rosto corou porque a vergonha sempre está à espreita quando se
trata de mim, mas a verdade deve ser preservada entre um casal.
— Me senti ousada e muito dona de mim ao ouvi-lo gemer.
Ele colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha.
— Você nunca deve sentir vergonha por querer experimentar coisas
novas, isso não fará de você mais ou menos mulher. O que degrada a mulher
são humilhações, rejeição e quando ela faz qualquer coisa apenas para o bem
do outro. O sexo é satisfação pessoal, carinho. Se você quer tentar algo novo e
eu puder te ajudar, estarei aqui a postos apenas para te servir.
— Eu gostei quando você me chamou de putinha, senti-me ousada por
estar ali te satisfazendo.
— Estou duro só de ouvir essas palavras, principessa — ele percebe
que quero continuar a falar, mas insegura se é certo ou não.
— Eu não quero que me ache esquisita ou nada parecido. Eu quero
experimentar coisas novas, como ser dominada, ter sexo mais duro… essas
coisas.
— Você não é esquisita e nem nada parecido, é uma mulher saudável
que percebeu que quer mais na cama. Seja o que for, carino, eu estarei aqui
para satisfazê-la.
— Mesmo que eu peça para ser chamada por nomes… extravagantes?
Ele me observa com aqueles olhos intensos. Incomodada e com
vergonha, tento sair de seu colo, com o meu rosto em chamas.
— Que tipo de palavras extravagantes? — ele pergunta. Baixa a
cabeça e passa o dedo indicador sobre a tatuagem em seu peito. Haniel se
mantém em silêncio à espera que eu continue. Então, ele insiste: — Diga-me,
querida.
— E-eu gostei de ser chamada de putinha… ma-mas talvez na
próxima podemos tentar outras? Eu andei um pouco viciada em filmes pornôs
e aquilo meio que subiu à minha cabeça. Quero saber se me sentirei
humilhada ou gostarei tanto quanto elas fingem gostar.
Ele sorri e segura o meu cabelo na nuca, puxando para ter melhor
acesso ao meu pescoço.
— Uns criam monstros e eu crio uma garota má. Entre nós, e somente
entre nós, os jogos são válidos, ok? — Assinto. Ele puxa meu cabelo com
mais força dessa vez e morde entre o meu pescoço e ombro. — Coloque-se de
joelhos aqui ao meu lado, tome o meu pau em sua boca e empina sua bunda
para que eu brinque com a sua boceta — ele dá um tapa na lateral da minha
coxa fazendo-me chiar. — Vamos, vadia.
Prontamente, faço o que me foi ordenado, mais excitada que nunca.
Confio em Haniel para me dar o que quero. E ele não me decepcionou. Haniel
acendeu cada ponto erótico em meu corpo, fez-me pedir… me arrepio só de
lembrar da sua voz rouca em meu ouvido:
— Implora para que eu brinque com a sua bunda, gostosa. Implore.
Peça-me para foder esse rabo gostoso.
Deus me perdoe, mas eu fiz, implorei sem pensar duas vezes. Ele não
me penetrou com o seu pau, disse que requer mais tempo de preparação
porque ele é grande demais. Mas eu estava no jogo, se ele quisesse, eu apenas
empinaria a minha bunda. Ele brincou com meus seios, chupando e mordendo
até me fazer gozar. No meio da noite, acordei com ele chupando a minha
boceta. Outra coisa que mudou em mim: as palavras pau, buceta, rabo,
caralho, puta que pariu, foram muito fáceis de dizer, e depois que comecei
não parei mais.
Amei cada puxão de cabelo, cada tapa na minha bunda, sua estocadas
fortes enquanto puxava meus cabelos. Adorei quando fodia a minha boceta e
me chamava de sua puta. Quando tirava da minha boceta e ordenava para que
eu o chupasse, alternando entre um e outro. Fiquei completamente extasiada
quando gozou em meus peitos. O homem tem tara por seios e bunda. Fico
excitada com a imagem dele esfregando o seu pau entre as minhas nádegas e
uma vez ou outra espiando o meu ânus.
Me apaixonei por Haniel quando toda a nossa luxúria diminuiu, e ele
me deixou sobre ele, sem parar de fazer carícias e dizendo o quanto me
admirava por expor e confiar meus desejos a ele. Senti-me estimada, desejada
e amada. Dormimos quando o dia já estava amanhecendo. Exaustos, apenas
ficamos na posição que estávamos, meu corpo sobre o dele e seu pau dentro
de mim.
Uma mão quente toca o meu rosto, levanto os olhos para encontrar o
homem mais bonito que já vi e amanhã ele será todo meu.
— Um beijo por seus pensamentos — ele fala e logo a sua boca está
sobre a minha. — No que estava pensando, principessa?
— A noite… nossa noite.
Ele sorri.
— Quer brincar mais uma vez antes de eu te levar para casa? Por falar
em casa, ligue para as suas irmãs, elas estão desesperadas e irritadas.
Reviro os olhos.
— Elas são dramáticas — falo sorrindo.
Sei que é tarde, sei que já deveria estar me arrumando, mas não tenho
a menor vontade de sair. Quero o seu pau grande e grosso, minha mão mal
consegue fechar em torno de sua base. Coloco a caneca de café de lado e me
sento na espreguiçadeira para baixar sua sunga, mas antes que eu pudesse ter
algum êxito, ouvimos um barulho vindo da porta e pessoas gritando.
Haniel se enrola em seu roupão e puxa-me para ele. Ele aciona um
repartimento no bar da piscina e de lá tira uma arma. Meu coração acelera e a
adrenalina dispara, meu corpo começa a tremer. Quando chegamos à porta de
ligação entre a casa e a piscina, ele me coloca atrás de si e coloca um dedo na
boca sinalizando silêncio. Haniel dá um passo para dentro e gritos de
mulheres quase nos deixam surdos.
Entro na casa para ver o que estava acontecendo e a cena era meu
futuro noivo apontando a arma para minhas duas irmãs e Aniella, que também
apontava uma arma para ele. Balanço a cabeça em descrença. Entro na frente
de Haniel e coloco a mão na cintura.
— O que vocês estão fazendo aqui? — questiono.
— Seu noivo pode baixar a arma? Acho que fiz xixi na calça — Tarha
fala e no mesmo momento Haniel baixa a arma e pede desculpas. Por que ele
está pedindo desculpas? Elas invadiram o nosso espaço com a doida da sua
prima armada.
— Viemos te resgatar, garota — Aniella fala com a arma apontada
para o seu primo. — Você não devolveu a noiva na hora certa e viemos buscá-
la.
Ele sorri e passa o seu braço pela minha cintura.
— Mairheen queria conhecer a sua casa. A mudança dela chegará a
qualquer momento.
— O casamento é no final da tarde e estamos perto do meio-dia —
Keera fala com gentileza, percebendo o que tenho em meus pensamentos. —
Precisamos ir, maninha. Todos estão esperando e a organizadora está tendo
um filho cor-de-rosa porque a noiva sumiu.
Haniel vira-me para que eu fique de frente para ele. Suas mãos
emolduram meu rosto e ele beija os meus lábios docemente.
— Vá, delizia. Nos veremos mais tarde. Depois disso ninguém mais
tira você de mim.
— Promete? — peço.
— Para sempre — ele diz e eu acredito.
Subo as escadas e junto as minhas coisas, desço para encontrar minhas
irmãs e Aniella conversando alegremente com Haniel. Essas mulheres são
loucas… LOUCAS! Mas morreria por cada uma delas, até mesmo Ani, que
tem parte do meu coração conquistado.
Os sorrisos terminaram quando ele soube que a sua prima e minhas
irmãs estavam sem motorista e segurança. Ele foi atrás de seu celular e latiu
ordens para Aronne providenciar a nossa ida para casa. E não partimos até
Haniel ter dado sua palestra de irresponsabilidade de sua prima andando com
duas MacNamara sem segurança alguma.
Depois de algum tempo, partimos em direção à casa dos meus pais.
No caminho, minhas irmãs queriam saber tudo o que aconteceu entre nós, e
Aniella gritando que prefere ficar surda antes de ouvir qualquer coisa sobre o
seu primo e a esposa. Ri demais e nesse momento tive a mais absoluta certeza
de que tudo daria certo.
Quando chegamos em casa, Aniella pegou seu carro e foi embora.
Minhas irmãs me enfiaram debaixo do chuveiro, e quando saí do banho minha
mãe tinha se juntado às minhas irmãs. Elas me esperavam com champanhe e
frutas. Depois que brindamos, nos entregamos aos cuidados de cabeleireiros e
maquiadores e até ganhei uma massagem relaxante maravilhosa.
Enquanto me depilavam, arrancavam minhas cutículas e os pelos do
meu rosto, eu só pensava nas coisas perversas que Hunny e eu fizemos
durante a noite inteira. Acho que estava apaixonada por aquele idiota muito
antes do que imaginei. Porque a sua aprovação é mais importante para mim
do que imaginei. Por semanas pensei que esse casamento seria um inferno,
morando com um cara que sai com todas as mulheres que cruzam seu
caminho, e eu a esposa que se dedica apenas ao trabalho, pois não tem vida
conjugal só restando o trabalho e a infelicidade.
Chegou a hora de colocar o vestido e a costureira do ateliê veio para
me ajudar a vesti-lo. O cabeleireiro dá os últimos retoques, assim como o
maquiador. Olho-me no espelho e sorrio com a imagem que reflete. Eu sou a
Mairheen doce, mas nada de recatada e isso me satisfaz de uma maneira
grandiosa. Estou absolutamente maravilhosa nesse vestido e com essa
maquiagem escura. Combinou perfeitamente o recatado com o pecado.
Saímos todos juntos de casa, em carros separados. Fui sozinha em um
com um segurança e o motorista. Minhas irmãs foram em outro também com
seguranças e motorista. Minha mãe e meu pai já tinham saído minutos antes
juntamente com tio Eoghan e tia Bree… para o meu casamento…
Para o meu casamento com Haniel Saints. Sorrio com o pensamento.
Há semanas eu o detestava, agora estou à beira da loucura por aquele ho…
Meus pensamentos são interrompidos quando um carro bate na lateral
do nosso fazendo com que o veículo dance na pista. O segurança que estava
no lado do passageiro grita para que abaixe e segundos depois o vidro é
estourado por tiros. Começo a gritar desesperada quando vejo que o motorista
foi atingido e o outro tentando controlar o carro que está sem controle. Vamos
morrer! Foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça quando outra
rajada de tiros veio, agora da lateral. Não precisou de muito para saber que o
segurança estava morto e o carro ainda em ata velocidade. Tive a brilhante
ideia de colocar o cinto de segurança e quando o fiz, o carro subiu em algo e
capotou. Meu mundo girou uma… duas… três vezes, até que tudo parou.
Sei que bati a minha cabeça e meu braço, cacos de vidros espalhados
por todos os lugares mostram que não sobrou muita coisa do carro. Chorando,
desato o cinto e rezo para que os assassinos tivessem indo embora. Eu não
quero morrer, não no dia do meu casamento. Antes que eu pudesse terminar
qualquer pensamento, um rosto familiar aparece em frente ao meu. Eu vou
morrer! Ren Shinobu me retira do carro e meu mundo se apaga.
Capítulo 23
Haniel

Depois que Mairheen saiu com Aniella e suas irmãs, troquei de roupa
e logo o caminhão com as suas coisas encostou. Supervisionei o
descarregamento e orientei onde deveriam colocar as caixas. Vou convencer
Mairheen a contratar uma assistente pessoal para que mantenha sua vida
organizada. A direção vai mantê-la bem ocupada na clínica. Teremos um
número de empregados, mas quero que durmam em suas casas, não na minha.
Tenho planos para possuir Mairheen em cada cômodo deste lugar.
Meu celular toca e vejo o nome do meu primo no visor.
— Primo — falo.
— Onde você está? — ele pergunta sem mesmo me cumprimentar.
— Em casa, no condomínio — respondo.
— Vai para Worldwide agora. Enquanto isso vou tentando falar com
Aniella.
Ele desliga sem ao menos se despedir. Deixo ordens para um dos
homens fechar a casa quando os caras da mudança saírem. Aronne já está
com a porta do carro aberta para que eu entre, assim que faço, o motorista
arranca em alta velocidade. Aronne, ao meu lado, entrega-me um tablet com
informações que Denis enviou a ele.
O arquivo contém fotos de homens que circularam pela clínica, pelo
condomínio, pelo prédio de Mairheen, pela Worldwide e outros lugares.
Olhando por cima, eles são como qualquer outra pessoa, mas quando se olha
atentamente, procurando por algo, percebe-se que os sujeitos são muito
estranhos. Abaixo de cada foto há um nome, todos japoneses. Uma pequena
gangue que está agindo em nome da Yakuza.
Os problemas poderiam dar folga pelo menos no dia do meu
casamento. Envio mensagem para Mairheen, que responde dizendo que está
bem e já está em casa. Respiro aliviado, porque a essa altura todo cuidado é
pouco. Converso com Aronne sobre os homens que estão no arquivo e quais
informações adicionais foram repassadas às equipes.
Assim que o carro para na garagem, abrem a porta para mim e saímos
em direção ao elevador. Subimos até o último andar e quando abrem a porta,
encontro Rafe com o celular na orelha gritando com alguém. Quando ele me
vê, desliga na cara de quem quer que fosse.
— O que está acontecendo? — pergunto.
Rafe caminha em direção à sua sala.
— Onde está Aniella? Falei com ela muito antes de você e a bastarda
não apareceu ainda. Viu o arquivo que foi repassado a Aronne? — ele
pergunta e eu assinto. — Aqueles homens não são quaisquer homens, não são
simplesmente uma ganguezinha de rua que está cometendo barbaridades em
nome da Yakuza. Eles foram recrutados pela porra da máfia japonesa para
limpar o terreno e nos enfraquecer.
Olho para o relógio e vejo que estamos no meio da tarde, em poucas
horas é o meu casamento. Geralmente quem chega atrasado é a noiva e não o
noivo.
— Não podemos resolver isso amanhã? — pergunto irritado. — Hoje
é a porra do meu casamento.
Seus olhos disparam punhais em minha direção.
— Se eu pudesse deixar isso para outro dia, eu faria essa merda outro
dia — ele fala entredentes.
Aniella entra no escritório deslumbrante já pronta para o casamento.
Atrás dela vêm Zendaya, sua chefe de segurança e dois homens com sacos e
bolsas no braço.
— Depois que vi o arquivo, passei na casa de ambos e peguei suas
coisas. Afinal, temos um casamento daqui a pouco. Tomei a liberdade de
trazer um cabeleireiro para ajeitar a ambos.
— Você enlouqueceu, Aniella? Não pode andar sozinha por aí. Não.
Pode. Estar. Sozinha. Em. Lugar. Algum. Entendeu, Aniella? Ou serei
obrigado a amarrar Zendaya na sua bunda?
— Wow! Estamos irritados hoje. Eu só fui ao condomínio, nada de
mais aconteceria. E outra, eu sei muito bem me defender. Sou a porra de uma
executora, não me tornei frágil porque assumi um conglomerado.
Raffaele esfrega a sua testa.
— Só tenha em mente que você não pode se colocar em risco, porque
se você morrer, eu vou pessoalmente ao inferno te matar novamente.
— Vamos acalmar os ânimos — interrompo ambos. — Faltam poucas
horas para a cerimônia.
Eles concordam e se sentam. Rafe aponta para Denis, Aronne,
Zendaya e John, que é investigador da Worldwide.
— Coloquem todo mundo para fora e fiquem somente vocês três, que
são importantes para essa conversa. Não posso me dar ao luxo de informações
vazarem.
Assim que todos saem, ele liga a tela que fica no fundo da sua sala e
um vídeo de homens invadindo um lugar começa a rodar. Vemos alguns
pontos luminosos atravessarem a câmera, reconheço o pessoal que sai da casa,
são alguns de nossos homens. Eles retiram dois corpos, jogam em uma das
camionetes e partem rapidamente.
Raffaele desliga a tela.
— Essa é uma casa no bairro chinês.
Começo a rir da ironia.
— Os japoneses foram se esconder em meio aos chineses? Estranho
— falo.
— Eles alugaram essa casa não faz muito tempo, John apurou algumas
informações. Como falei, a casa foi alugada recentemente. Os vizinhos
notaram que entravam e saíam mais ou menos cinco pessoas. Identificamos os
cinco, são aqueles que estão no arquivo. Na casa foram pegos dois, um estava
vivo e outro morto, mas quando estavam o tirando do carro, ele atacou o
homem que o segurava, tomou sua arma e se matou.
— Três estão soltos — Aniella confirma. — Conseguiram rastrear os
outros três?
— Conseguimos digitais que estão sendo analisadas neste momento,
alguns papéis estavam espalhados, juntamos todos e levamos para análise
também — John fala. — Mas antes de um dos suspeitos se matar, ele falou:
“Nós estamos chegando”. Inagawa-kai. Fizemos uma rápida busca e
descobrimos que Inagawa-kai é a segunda família mais importante da Yakuza
e a única a operar no Ocidente.
— Porra! — Bato na mesa. Minha ira alcançando níveis elevados. —
Não sabemos há quanto tempo estão operando sob os panos, o que sabemos é
o que está vindo à tona agora. Como não nos demos conta? Quantos mais
teriam que morrer para descobrirmos que a Yakuza quer limpar a casa para
tomar conta?
As perguntas ficam no ar, todos mergulhados em seus
questionamentos e pesando o quanto temos a perder com essa ofensiva
japonesa. Se as coisas estão ruins, sempre podemos contar com a vida para
piorar. Isso é um fato.
— O que faremos? — Aniella pergunta.
— Assim que John tiver alguma informação concreta, ele entrará em
contato e depois vemos o que será feito. Peço que tenham cuidado, estejam
vigilantes… — Rafe olha para Ani. — Haniel estará por duas noites curtindo
sua noiva e temos que protegê-los — ele volta a sua atenção a mim. —
Infelizmente ninguém está autorizado a deixar a cidade, primo. Você terá que
ser criativo e fazer da sua lua de mel a melhor possível, em casa.
Sorrio.
— Isso não será um problema.
Aniella se levanta e bate palmas.
— Reunião terminada, agora vão cada um para os seus banheiros e
tomem um banho. Junto com os smokings, vieram nécessaires com os itens de
beleza de vocês. Quando terminarem, terá alguém para arrumar os cabelos e
dar um jeito nessas barbas.
Dez minutos depois, entro na sala de reunião onde um cara está
terminando de maquiar Aniella. Coloco o casaco e a camisa sobre a mesa e
me sento em uma cadeira vazia, esperando o bendito cabeleireiro que a minha
prima trouxe. Não muito tempo depois, Raffaele entra da mesma maneira,
sem camisa. O cara que está arrumando Aniella começa a se abanar.
— Algum problema? Está se sentindo bem? — pergunto.
— Morri e fui para a terra das pistolas iluminadas!
A sua afirmação acaba quebrando a tensão que sentíamos e
começamos a rir. Meu primo aperta o meu ombro e coloca a mão sobre a
tatuagem no peito que compartilhamos.
— Seja feliz, primo. Prometa que você fará de tudo para ser feliz —
ele pede. — Era para este casamento ser meu, não sei por que escolheram
você, então eu só tenho a te agradecer por me livrar de mais essa.
Rimos juntos mais uma vez e logo ficamos sérios.
— Eu farei o meu melhor para não ser infeliz e nem fazer Mairheen
infeliz — falo. — Já é um começo.
O cabeleireiro coloca uma capa preta sobre mim e por alguns muitos
minutos me mantenho quieto enquanto o homem trabalha. Penso em
Mairheen e na noite que tivemos, penso em suas palavras e seus pedidos. Por
baixo daquela fachada de boa moça, acabou se revelando uma grande fera.
A mulher tem o corpo constituído para o pecado, desejos de uma
menina pura que quer se sujar, um sorriso que desarma qualquer um que não
tenha coração. Posso ouvir seus gemidos e lamentos, seus pedidos de mais.
Lembro de como me senti enquanto estava dentro dela, como seu corpo se
submetia ao meu desejo.
— Pronto, noivinho — o cabeleireiro tira a capa de mim e me dá um
espelho para olhar.
Barba bem aparada, cabelo todo penteado para trás com muito fixador.
Aniella me arrastou até a sua sala, onde há um enorme espelho. Só a minha
prima para ter um espelho em frente à sua mesa. Então, coloco a camisa,
amarro a gravata borboleta e coloco o casaco. Traje completo e pronto para o
meu casamento… meu casamento com Mairheen MacNamara.
Olho para o relógio e vejo que estamos atrasados para sair.
Rapidamente nos organizamos e partimos em direção à Catedral São Patrício.
Enquanto estava mexendo no celular, já dentro do carro, sinto meu peito
apertar a ponto de me faltar ar. Aronne começa a rir dizendo que ainda dá
tempo para fugir, mas não consigo rir porque o que era aperto acaba por se
tornar dor.
Não demorou muito para o carro parar em frente à igreja e tive
dificuldade de sair. Não sei o que se passa, apenas que estou com falta de ar e
dor no peito. Sou levado para uma sala dentro da igreja e o médico da família,
que é um dos convidados, foi chamado para me examinar. Tudo ok. Foi o que
ele me disse e eu acreditei.
— Uma crise de ansiedade. Geralmente é mais comum em noivas,
mas também se passam com alguns noivos, principalmente aqueles que não
queriam abrir mão da liberdade.
Dentro da sala estavam meu pai, meus tios e Raffaele. Todos fazendo
piada para me tirar da angústia que eu estava. Não era por me casar, disso eu
tinha a mais absoluta certeza. Enfim chegou a hora e já estou atrasado para
me colocar no altar. Respiro fundo algumas vezes e tomo uma dose de uísque
que Raffaele tirou de algum lugar. Não duvido que ele tenha roubado do
padre.
Ajeito-me mais uma vez e caminho para o altar, ladeado pelas
principais figuras masculinas da minha vida. Cumprimento Eoghan e Seamus,
que não escondem a felicidade por sua menina. Nos colocamos no altar e ali
esperamos uma noiva que nunca chegou.
Capítulo 24
Mairheen

Minha cabeça dói.
Meu corpo dói.
Abro os olhos e gemo com a dor que isso causa. Tento levar a mão
para esfregar em minha testa, mas está presa. Eu estou presa, amarrada em
uma cadeira. Olho ao redor e vejo que estou em um quarto luxuoso todo em
preto e detalhes em alumínio. Não posso me virar muito, mas o que vejo é de
bom gosto.
Os acontecimentos voltam e soluço com o desespero que começa a
brotar dentro de mim. O carro sendo atingido. O motorista morto. O
segurança morto. O carro girando diversas vezes. A sensação de morte
iminente. Olho para baixo e parte do meu vestido está rasgado, sujo de preto e
vermelho. Pela dor de cabeça que sinto, o vermelho deve ser meu sangue.
Ren Shinobu caminha fora do quarto, andando de um lado para o
outro, enquanto fala no celular… em japonês. Ele olha para mim, gesticula e
ouve o que o interlocutor lhe diz. Medo escorre por cada poro meu. Mais um
jovem se juntou a ele, agora estão parados na porta à minha frente. Quando
Ren desligou o telefone, começou a conversar em inglês. O jovem estava
claramente ansioso.
— Se não der certo…
O mais velho, Ren, o corta:
— Dará certo. Eles identificarão o lugar logo que virem o vídeo.
Mataremos todos de uma vez só. Aqueles italianos idiotas costumam andar
em bandos.
Eles vêm em minha direção e Ren segura o meu queixo com força, a
ponto de machucar. Ele dá tapinhas em meu rosto no intuito de me subjugar,
mas as palavras que Haniel me disse essa noite voltam: Ninguém pode lhe
subjugar se você não permitir. Ninguém pode possuí-la se você não quiser se
entregar. Ninguém pode te humilhar se você não der esse poder a ele. As
pessoas falam e fazem o que querem contra o outro, mas o poder está na mão
do outro, ele decide como agir quando recebe tais atos ou palavras. Não
permita que ninguém faça isso com você, nunca!
Mesmo com a boca amordaçada, levanto o queixo e o encaro. Ele
pode até me destruir, mas morro de cabeça erguida. Por dentro estou
morrendo, acabei de ouvir que estão esperando que os Saints venham juntos
para serem mortos. Tento conter as lágrimas rebeldes que caem sem a minha
permissão, mas é difícil.
Tudo começou com um anúncio de última hora de que Haniel Saints e
eu, que nos detestávamos e nem sabíamos o motivo, íamos nos casar em seis
semanas. Não queríamos, a tensão entre nós piorou vertiginosamente até o dia
que ele mostrou que poderia ser encantador e depois ele de fato foi
encantador. Haniel fez coisas más para o meu corpo e me fez desejar ser tão
perversa como ele. Então, o casamento que seria um incômodo passou a ser
um bom arranjo, evoluiu e agora se tornou um casamento desejado. Por ele e
por mim. Agora estamos aqui, eu amarrada, meu vestido de noiva rasgado e
sujo, esperando que o noivo que eu amo venha para a sua morte.
Eu o amo sim. Deus me ajude, mas amo cada parte daquele homem
inteligente e bonito. Amo estar em seus braços, amo foder, falar palavras
sujas, amo quem eu sou quando estou com ele. E agora todos morreremos.
Por mais que a minha mente procure soluções, meu coração sabe que não
adianta, estou muito bem amarrada sem chance alguma de conseguir fazer
algo.
Nesse momento, uma das mulheres mais bonitas que já vi na vida
aparece no quarto. Ela não está com uma expressão nada boa. A mulher
começa a falar com Ren, que também não está com muita paciência para
tratar com ela. O mais jovem sai deixando os dois ali à minha frente
discutindo sobre sei lá o quê, já que estão falando japonês.
As mulheres japonesas têm a constituição mais esguia, mas essa
mulher à minha frente possui belas curvas. Seu corpo está muito mais
parecido com as latinas, sua pele não é branca e sim dourada. Seus traços
japoneses são acentuados com o bronzeado de seu corpo. Seu cabelo é longo
preto e repicado. Ela está apenas com uma blusa justa e jeans, mas nada disso
a deixa feia. Ela é linda!
Ren sai e ela fica olhando para o nada com uma expressão triste. Será
que é a namorada dele? Talvez ela esteja triste porque ele é um idiota suicida.
Homens são idiotas por natureza, mas alguns competem para ganhar o troféu
da idiotice do ano. Ela volta sua atenção a mim e se aproxima.
— Eu não estou aqui para te machucar. Se eu tirar a fita da sua boca,
promete não gritar? Porque se você fizer isso, ele machucará a nós duas. —
Penso em suas palavras e a observo. Assinto quando percebo que não tenho
nada a perder. Ela dá mais um passo e retira a fita da minha boca.
Amordaçada com fita pela segunda vez, pelo menos agora nem tem algum
pelo que possa doer. — Eu não deveria estar aqui e muito menos interagir
com você — a mulher fala mais para si do que para mim. — Só que não
concordo com o que Ren está fazendo, isso não acabará bem.
— P-por que eles querem… — engulo em seco. — Por que querem
matar os Saints?
Ela olha-me desconfiada e em seguida baixa a cabeça.
— Ele está seguindo ordens da família.
A mulher bonita parece tão desalentada que meu coração aperta.
— Qual o seu nome? — pergunto.
— Sayuri. Sayuri Inogawa. E o seu?
— Mairheen MacNamara — sussurro. Outra lágrima rebelde cai. —
Hoje eu me tornaria Mairheen Saints.
Os pequenos olhos dela brilham.
— Saints de Raffaele Saints? Esses Saints? É com ele que você se
casaria? — o verbo foi conjugado no tempo “esqueça, você vai morrer e não
se casar, vadia!”. Também notei uma nota de tristeza. Essa mulher é um
mistério.
Fungo antes de perguntar. Afinal, a bonitona falou que vou morrer de
qualquer jeito.
— Não. Eu me casaria com o seu primo Haniel. Vo-você o conhece?
Ela sorri, mas seu sorriso não chega aos seus olhos.
— Raffaele e eu fizemos faculdade juntos. Fomos parceiros em alguns
projetos.
— Eu só queria ser feliz com Haniel, eu acabei de descobrir que o
amo e quando ele chegar aqui, morreremos — desabafo em desespero. —
Pode me dizer onde estamos?
Sayuri foi pega de surpresa pela minha declaração, mas pelos seus
olhos vejo que ela me compreende.
— Se eu pudesse fazer alguma coisa, Mairheen, eu faria. Eu acho que
estamos no apartamento de seu noivo — seus olhos encontram os meus e
agora há raiva em seu olhar. — Eu sou tão prisioneira quanto você — ela ri
amargamente. — Qualquer coisa que eu faça contra o meu irmão, a
organização dará fim à minha família. Eu não tenho mais ninguém além do
meu irmão Ren.
— Os Saints e os MacNamara podem te proteger — falo com um fio
de esperança.
Mas ela arrebenta o fio logo em seguida:
— Ninguém pode me proteger, sou prometida ao próximo chefe da
Yakuza. — Gelo escorre por minhas veias. Eu fui sequestrada pela porra da
Yakuza. — Minha mãe morreu porque fugiu do Japão com meu irmão e eu
ainda pequenos. Meu pai acertou o meu casamento quando eu tinha apenas
três anos.
Engasgo-me com um riso amargo.
— E eu reclamando que arranjaram o meu casamento quando estou
perto dos trinta.
Ela sorri e continua a sua história:
— Meu pai foi morto porque a organização julgou que ele não cuidou
do bem geral. Crescemos aqui nos Estados Unidos como crianças comuns,
minha haha[11] fez de tudo para que tivéssemos uma infância feliz, e tivemos.
Quando eu estava no último ano da faculdade, meu irmão, que é dois anos
mais novo do que eu, descobriu que nossos nomes eram falsos e exigiu que
haha lhe dissesse quem na verdade éramos. Ela fez, e foi seu erro. Não
demorou muito para Ren entrar em contato com a organização se
identificando. Quando nossos parentes chegaram, Ren já estava ligado à ideia
de quem era e que logo se tornaria chefe da família. Para que ele tivesse a sua
entrada permitida, determinaram que ele deveria matar a nossa mãe, e ele o
fez na frente de todos…
Uma lágrima solitária corre por seu rosto e mais uma vez meu coração
é puxado.
— Sayuri…
Ela limpa a lágrima e sorri.
— Já faz muito tempo. Nos levaram para o Japão e ficamos alguns
anos por lá aprendendo sobre a organização. A ideia era desenvolver a
lealdade japonesa para com a família, a minha mãe foi considerada uma
traidora e meu pai um covarde. Desde então, Ren anda cegamente pelas leis
da Yakuza. E eu sou seu fardo para carregar. Para subir e ocupar o seu lugar
de direito, ele tem que garantir que eu chegue intocada e viva ao casamento.
— Você é virgem? — nem acredito que isso sai da minha boca. A
mulher acabou de dizer que a mãe foi morta pelo próprio filho e eu me apego
ao detalhe mais esdrúxulo da história. Ela me olha divertida. — Desculpe, é
desespero pré-morte.
— Eu me senti assim ao longo dos últimos anos. Não posso me matar,
levaria parte da família que me acolheu no Japão para o túmulo comigo. Suas
memórias serão desonradas por causa de uma escolha egoísta minha. Também
não posso fugir, porque eles me encontrarão e não me matarão. Eles farão
com que eu assista à morte de todos primeiro, uma morte lenta e torturada,
leva-se dias para alguém morrer.
— Por Naomh Bríd! Lamento, Sayuri. Quando você entrou por aquela
porta, meu primeiro pensamento foi “que mulher linda”, e agora vejo que não
é só linda, é forte e corajosa também. Eu entrei nesse casamento não por
vontade própria, mas ninguém sofreria retaliação caso eu fugisse.
— Eu torço para que ele não demore a encontrar outras mulheres logo
após o casamento. Eu sou sua primeira e única esposa, serei a primeira dama
de uma das organizações criminosas mais poderosas do mundo. Se seu puder
respirar, já será um bônus.
— Que triste — lamento.
Ela abre a boca para me falar algo, mas antes que tivesse chance, Ren
entra no quarto e atinge a sua irmã no rosto. Meu reflexo foi pular na frente
dela, porém, mais uma vez me dou conta que estou presa. Ele fala em
japonês, mas não preciso entender para que soe grosseiramente. Sayuri
mantém a cabeça baixa e assente. Ele volta a sua raiva para mim e me soca no
olho fazendo com que a minha cabeça ricocheteie para trás.
Sayuri entra no meio, fazendo com que seu irmão dê um passo para
trás.
— Bata nela novamente e eu enviarei fotos das marcas que você deixa
em mim para Yamaguchi. Ele não gostará de saber que você me trouxe para
uma missão. Se você me der a sua palavra que não a machucará mais, eu saio
daqui.
Seu irmão xinga.
— Tudo bem. Eu dou a minha palavra que não a machucarei. Agora
vá, Sayuri. Saia.
Ela olha para mim e acena, eu lhe dou o meu melhor sorriso. Quem
diria que eu faria uma amiga na hora da morte? Assim que ele ouve o barulho
da porta ser fechada, ele grita chamando alguém. Não demora muito para que
o jovem que estava aqui antes entre no quarto. Ele aponta para mim.
— Dei a minha palavra para Sayuri de que não a machucarei, mas ela
precisa ser maquiada um pouco mais para fazermos a transmissão. Deixe-a
um pouco mais dolorida e rasgada. Não detone o seu rosto, precisamos que
eles a reconheçam. Talvez mais um soco no queixo, um ou dois cortes no
braço… é isso. Temos pouco tempo até que eles percebam que o atraso da
noiva não é casual. Assim que terminar, me chame para filmarmos a garota.
Começo a tremer. Pânico e desespero me fazem gritar e o idiota enfia
algo em minha boca para abafar os gritos. E então a minha maquiagem para o
meu último filme começa.

Capítulo 25
Haniel

Olho para o relógio pela quinta ou sexta vez. Há muito tempo não
sentia tanta ansiedade como agora. Aquela dor no peito se transformou em um
pressentimento angustioso. Observo ao redor e vejo que algumas pessoas
também estão ficando impacientes. As irmãs de Mairheen estão na sala que eu
estava anteriormente, segundo elas é para dar os últimos retoques. Mas
retoques só podem ser feitos quando há alguém para se retocar. Dio, quanta
repetição.
Raffaele tira o celular do bolso e suas sobrancelhas franzem ao ler a
mensagem. Aproximo-me dele porque preciso de distração.
— Acabei de ser informado que houve um acidente não muito longe
daqui…
Parei de ouvir o meu primo logo que ele disse acidente não muito
longe daqui. Meus pensamentos vão direto a Mairheen e de alguma maneira
eu sei que isso tem a ver com ela. Nesse instante, vários celulares tocam,
inclusive o meu, que vibra no bolso. Retiro o aparelho e vejo que recebi uma
mensagem do celular de Mairheen, rapidamente abro, mas antes que eu
pudesse realmente ver, ouço Eoghan gritar.
A mensagem é um vídeo de Mairheen muito machucada com alguém
segurando o seu cabelo para trás. Lágrimas caem do rosto da minha mulher e
ódio começa vir à tona. Então comecei a prestar atenção ao que ela dizia:
— Haniel, p-por favor não ve… — Alguém bate em seu rosto. Faço o
meu melhor para não arremessar o telefone no chão e saio correndo para
buscá-la.
O tal Shinobu entra em foco:
— Sua noivinha te espera, Saints. Venha buscá-la antes que eu a mate.
O vídeo é interrompido e Raffaele já está falando com Denis para
rastrear o celular de Mairheen, mas eu o interrompo:
— Ela está no meu apartamento, mais especificamente em meu
quarto.
Gelo é o que corre pelas minhas veias. Pegaram a minha mulher e a
machucaram, eles estão pedindo para ser mortos e darei exatamente o que
querem. Alguém ao meu redor fala que é armadilha e que devemos pensar
antes de tomar qualquer decisão. Olho para o homem da minha família, um
primo distante e o soco. Minha mulher está em risco e querem que eu pense?
Vão se foder! Podem ficar aqui pensando enquanto vou buscá-la.
Olho para onde Rafe está e ao lado dele Aniella está altiva, ambos
esperando a minha ordem. Arrumo a minha gravata, as mangas do smoking e
falo:
— Vamos buscar a minha mulher.
Os dois assentem e caminham juntamente comigo para fora da igreja.
Nossos pais, o pai e o tio de Mairheen nos seguem para fora enquanto outros
gritam alguma coisa como ficar a postos e pedir reforços. No caminho,
Aronne me passa duas pistolas para se juntarem àquela que está no meu
coldre sob o smoking, também arma o pai e o tio de Mairheen, que estão no
carro comigo. Nos mantemos em silêncio enquanto percorremos em alta
velocidade até o meu antigo apartamento.
Os carros param uma quadra antes do prédio e nos juntamos em um
beco para não chamarmos a atenção dos transeuntes. Sabemos que há alguém
passando informação, eles sabem que estamos a caminho. Não somos tão
ingênuos assim. Aronne segura seu tablet, que é seu companheiro inseparável,
e abre a planta do apartamento. Ele aponta as diversas maneiras que uma
parte do grupo pode entrar sem ser detectada.
Em seguida, ele liga as câmeras e vemos que só há dois homens no
apartamento, como não há câmera na suíte que era minha, acreditamos que o
tal Ren e Mairheen estejam lá. O plano foi grosseiramente traçado, já que não
temos tempo a perder, a vida de Mairheen está em risco. Coletes à prova de
balas foram colocados e tivemos o cuidado de esconder uma arma, já que
provavelmente as outras serão retiradas de nós. Somos distribuídos em carros
diferentemente de como costumamos andar. Mudar nosso modus operandi
agora não é uma boa saída, mas teremos ótimas chances de sairmos vivos.
Voltamos para os carros e seguimos novamente em direção ao prédio,
assim que os carros param, Raffaele, Aniella e eu, juntamente com nossos
seguranças, saímos deles e entramos no prédio. Pegamos o elevador até a
cobertura e assim que as portas se abrem, somos recebidos com armas
apontadas para as nossas cabeças. Levantamos as mãos e saímos
aparentemente não representando risco algum.
Os homens que nos recebem são relativamente jovens, não passando
de seus vinte e quatro ou vinte e cinco anos. Eles sorriem de maneira
arrogante, o que acende um alerta em nós. Quando somos muito jovens,
queremos que o mundo saiba que temos poder e isso faz com que cometamos
erros primários, como um sorriso arrogante fora de hora. Com a maturidade,
sabemos que manter nossas emoções guardadas aumentam as chances do
plano sair conforme o esperado.
— Retirem suas armas e as coloquem no chão — um dos jovens fala.
— Qualquer movimento impulsivo pode custar a vida da mocinha lá dentro.
Retiramos as armas e as colocamos no chão. Um dos homens afasta
elas com o pé e o outro baixa a arma para poder nos revistar. Eles não se
importam com o colete à prova de balas e isso acende outro alerta. Se eles não
se importam, ou são idiotas, ingênuos ou sabem que ninguém sairá daqui vivo
com ou sem colete.
Somos permitidos entrar no apartamento e um dos rapazes nos
acompanha. Estão só em três e acham que têm mãos o suficiente para lidar
conosco, um trio de assassinos profissionais. Ele nos leva até o quarto
principal, onde vejo Mairheen amarrada a uma poltrona, sua maquiagem
borrada, seu rosto machucado, meus pensamentos voltaram para aqueles dias
fatídicos na Itália quando aqueles filhos da puta seguraram Aniella. Minha
mente começa a escurecer com as lembranças dolorosas.
Volto a olhar para a minha noiva que está em prantos e seus olhos
mostram o desespero dela. Eu vou matar esses filhos da puta, cortando pedaço
por pedaço de cada um. No meio do planejamento da minha vingança, algo
chama a minha atenção. Um dispositivo retangular com alguns fios muito
finos fixados com fitas na pele de Mairheen. Nunca tinha visto tal coisa antes.
Uma bomba. Uma bomba conectada a Mairheen. Então veio a realização e a
confirmação do que pensei anteriormente. Aqueles idiotas tinham o trunfo da
bomba.
Dou um passo à frente, mas o idiota que está atrás dela puxa seu
cabelo fazendo-a gritar de dor. Levanto as mãos parando no lugar.
— Calma, eu já parei — falo baixo.
— Sentem-se na cama — Ren ordena e nós o fazemos. — Amarrem
as mãos deles.
O jovem se aproxima e nos ata sem resistirmos. Passamos por coisas
demais em nossas vidas para sabermos quando lutar. Essa não é a hora certa.
Eles são imaturos, o que torna toda a situação ainda pior, porque qualquer
movimento impensado pode resultar na morte de todos nós.
— Sua noivinha tem um presente para você, Hunny — Ren cospe o
meu apelido e aponta para a bomba. — Um presente para todos vocês,
enviado pela Yakuza.
Aniella fala sedutoramente, algo que encanta a maioria dos homens.
Ela sabe que com esse tipo de tensão a libido pode ser triplicada, e a mulher
usa isso a seu favor.
— E por que estamos sendo honrados com esse presente, hansamu?
— Porque vocês são um empecilho para nós nos instalarmos aqui. As
outras famílias, basta minarmos seus negócios nas ruas, mas os malditos
Saints não. Vocês sempre aparecem quando não são solicitados. Então,
decidimos eliminar a parte mais importante dos italianos, consequentemente
enfraquecendo e destruindo todas as outras famílias ligadas a vocês.
— Você nos queria, agora já nos tem. Solte a moça, você não precisa
dela — Rafe fala.
O homem ri alto.
— É de conhecimento geral que vocês, Saints, se deixam levar pelas
bocetas da família. Uma fraqueza desnecessária, tenho que dizer. Morrerão
todos…
— Eu vou te matar — falo entre dentes. — Arrancarei cada parte sua
conforme o tanto de lágrimas que você causou a ela.
O idiota ri. Neste momento, uma mulher bonita esbarra no jovem que
está guardando a porta do quarto. Antes que nos demos conta, ela pega a arma
dele e atinge Ren no ombro. Foi a distração necessária para que um de nós se
jogasse sobre o rapaz e da moça, que grita sem parar sobre seu irmão e
Mairheen. Não demorou muito para nossos pais e chefes de segurança
chegaram ao cômodo.
Aronne tira a moça do chão, tapa a sua boca e coloca uma arma na
cabeça dela. O jovem acaba morrendo ali mesmo quando tentou reagir, não
entendia que era tarde demais. Raffaele, já com as mãos desatadas, segura
Ren exatamente onde o tiro o pegou. Todos nos colocamos em torno de
Mairheen. Meu pai anuncia que um esquadrão antibombas já estava a
caminho. Mas todos ali sabíamos o óbvio, esse tipo de artefato é raro aqui no
Ocidente. Não somos treinados para isso… nem nós e nem ninguém.
Me ajoelho diante de Mairheen, que grita para largarem a moça.
Seguro o seu rosto entre minhas mãos com toda a delicadeza que há em mim.
— Está tudo bem, piccola. Está tudo bem. Logo tiraremos isso de
vo…
Sua voz já rouca de tanto gritar e chorar se torna um sussurro:
— Você ainda não entendeu que eu não vou sobreviver? Essa coisa vai
explodir de qualquer maneira. Cada vez que vocês mexerem em um fio, eu
levarei choque e há tantos fios que é capaz de não resistir por muito tempo.
Qualquer fio errado e esse lugar explodirá. Entende por que nada vai me
salvar? — Lágrimas caem em abundância de seus olhos. — Isso não importa
agora. Vocês têm que sair daqui rápido. Salvem-se!
— Não, eu não vou te deixar, Mairheen — olho para o homem que fez
isso e minha vontade é enfiar os fios em seu rabo.
Quando volto a olhar minha mulher, ela sorri. Linda.
— Meu lindo Haniel, eu preciso que você vá e seja feliz. Eu não
suporto a ideia de te levar para o mundo dos mortos comigo. Amo você
demais para isso, mio príncipe.
Meus olhos ardem.
— Eu também te amo, doutora. E vou tirá-la daqui com vida — digo
com a voz embargada.
— Pode fazer um último favor para mim? — Seu pedido quebra cada
parte de meu coração.
— Não será o último — afirmo.
Ela apenas assente.
— Solte Sayuri e prometa levá-la para longe. Ela merece viver cada
minuto de sua vida — seus olhos tão cheios de amor encontram os meus. —
Ela salvou as suas vidas, o mínimo que posso fazer é salvar a dela.
— Soltem-na — ordeno.
— Haniel, faltam oito minutos para a bomba explodir — Raffaele fala.
— Vão. Podem ir. Deixem-me com Mairheen. — Todos gritam e
contestam. Seu pai e tio estão em prantos recitando todas as maneiras que eles
farão os membros da máfia japonesa sofrerem. Minha atenção volta a ela. —
Se ela não viver, não há motivos para que eu continue.
— Não, Haniel. Não — Mairheen chora. Mas a decisão já foi tomada.
Sinto uma mão em meu ombro e olho para cima. Encontro a mulher
que atirou em Ren.
— Eu posso desarmar a bomba, senhor Saints. Enquanto estava no
Japão, pude acompanhar as lições que alguns membros tinham sobre esses
artefatos. Não sei montar, mas com certeza sei desarmar. Não podemos tirar
nenhum fio dela, caso contrário o dispositivo detonará, temos que mexer nos
fios que estão conectados ao dispositivo. Ela se machucará, mas acredito que
sobreviverá. Ela é guerreira.
Esperança começa a renascer.
— Sua puta! Você não fará isso ou será morta — Ren grita. — Os
americanos não se importam conosco, sua idiota. Eles a matarão no segundo
que você tirar a puta deles daí.
— Eu já perdi tudo, irmão. Perder a minha vida não é nada comparado
a isso.
— Sayuri — Mairheen a chama. — Salve-se e seja feliz por nós duas.
Raffaele joga o homem que segurava para o seu chefe de segurança e
se aproxima da mulher.
— Kin? Kin Shimizu?
Ela o olha com apreensão enquanto assente.
— Oi, Raffaele.
— Eu sabia que ela não era estranha. Kin Shimizu, fizemos literatura
inglesa juntas por dois semestres. Raffaele e ela ficavam naquela época.
Lembranças do tempo da faculdade voltam e o rosto à minha frente se
torna familiar. Ela foi a algumas festas na companhia de Rafe.
— Eu a procurei antes, mas nas não iria encontrar nenhuma Kin
Shimizu, não é? Afinal ela não existe — ele fala com amargura.
— Esse livro é meu, essa história é minha. Deixe para contar a sua
quando for a sua hora — falo enquanto arrasto Kin, Sayuri ou quem quer que
ela seja para ajudar Mairheen. — Essa mulher é a minha vida, moça. Ajude-
me a ficar com ela.
— Se você colocar a mão nisso, nós seremos mortos, Sayuri — Ren
grita em sua última tentativa para manter seu plano em curso.
Sua irmã apenas balança a cabeça.
— Espero que você encontre descanso aonde quer que vá.
Derrotado, ele olha ao redor e um brilho de satisfação alcança seus
olhos.
— Se pensam que as coisas acabam por aqui, estão muito enganados.
O jogo só está começando, seus idiotas.
Rapidamente o tiraram dali e Sayuri se ajoelhou diante de Mairheen,
pediu que alguém conseguisse para ela uma pinça ou um pequeno alicate.
Disse para que eu me distanciasse não quisesse levar um choque, porque
infelizmente Mairheen sofreria com eles no processo. Teimoso, mantive
minha mão em seus ombros, já que era melhor mantê-la amarrada para não se
mexer e acabar colocando tudo a perder.
Não sei quanto tempo fiquei ali ereto sentindo parte do choque elétrico
ao qual Mairheen era submetida de vez em quando. Ao olhar ao redor, vi que
boa parte da nossa equipe já não estava mais ali, ficando somente os parentes
e alguém do esquadrão antibombas que chegou em algum momento. Todos
apreensivos assistindo Sayuri remover todos os fios com cautela para chegar
no principal. A mulher é mais inteligente do que demos crédito.
Quando ela chegou ao pequeno fio verde que estava em meio àquele
emaranhado de fios maiores, todos prendemos a respiração. Sabemos que
aquele é o momento em que a bomba pode ser desarmada ou detonada.
Ninguém saiu, ninguém se mexeu. Todos confiantes de que aquela mulher,
antes desconhecida, salvaria Mairheen. Assim que ela removeu o pequeno fio,
o dispositivo deu um clique e se apagou.
Sayuri retirou o primeiro fio da pele de Mairheen e perguntou se ela
ainda sentia alguma corrente elétrica. Quase desfalecida, minha menina
respondeu que não e sorriu.
— Obrigada, Sayuri. Obrigada — sua voz não passava de um
sussurro.
Então, depois de trinta anos, eu chorei. Chorei de alívio e de emoção.
O agente antibombas pegou o artefato que Sayuri removeu, colocou
dentro da sua maleta e rapidamente saiu do prédio. Enquanto eu desatava
Mairheen, uma equipe de paramédicos já estava a postos ao meu lado. E no
meio do tumulto, vi Aniella saindo com Sayuri sem olhar para trás. Não pude
agradecer, mas tenho certeza de que minha prima fará por nós.
Minha maior preocupação agora é Mairheen, que está recebendo os
primeiros socorros e sendo levada para a clínica. Acompanho todo o
procedimento e entro na ambulância com eles. Todo o resto pode esperar; a
minha pequena guerreira, não.
Capítulo 26
Mairheen
Duas semanas depois…

— Eu quero, Haniel.
— Não.
— Por favor.
— Não, Mairheen.
— Só um pouquinho.
— Por Deus, mulher! Já disse que não vou transar com você,
Mairheen — ele fala irritado.
— Não estava falando de sexo, eu só quero sorvete — falo com cara
de inocente.
— Desculpe, nos últimos dias você tem me deixado bravo com sua
insistência em fazer sexo. Quer sorvete de quê?
— Morango — assisto o meu marido ir em direção à cozinha, e antes
que ele pudesse ir mais longe, o chamo. — E sobre o sexo?
Dou risada quando ele vira as costas xingando em italiano. Meu lindo
mafioso italiano que cuida de mim como se eu fosse uma boneca de porcelana
desde que saí do hospital há duas semanas.
Logo que me tiraram do apartamento, levaram-me diretamente à
clínica e a doutora Kingley cuidou de mim pessoalmente. Haniel estava ao
meu lado em todos os momentos. A ficha demorou a cair depois que tudo
aconteceu e fiquei por algumas horas em estado de choque. Haniel não saiu
do meu lado por um minuto sequer e eu o amei mais a cada momento.
Fiquei apenas dois dias, não tinha nada fraturado, apenas cortes
superficiais, arranhões e os roxos de dois socos bem dados. Foram feitos
vários exames, e como estava tudo bem me liberaram no outro dia, depois de
ficar uma noite em observação. Meus pais queriam me levar para a casa deles,
mas Haniel deu a palavra final: eu estava indo para a nossa casa com ele.
Durante aquela primeira semana, recebi muitas visitas, tanto da minha
quanto da sua família. Fomos enchidos de carinhos e mimos por eles. Quando
a semana chegou ao fim, já estávamos a ponto de não permitir mais a entrada
de ninguém. Raffaele e Aniella acharam melhor se mudarem para o
condomínio, assim eles estariam à nossa disposição sempre que
precisássemos.
No início dessa semana, Haniel trouxe seus primos e um juiz de paz.
Nos casamos enquanto eu estava de moletom e tênis, na nossa sala de estar.
Não houve anúncio, festa, jantar ou qualquer outra coisa. Eu estava pronto
para uma noite alucinante de sexo selvagem com o meu marido, mas naquela
noite fui recebida no nosso quarto com um bom banho de banheira, massagem
e carinho. Só carinho. Nada mais que carinho. Subi em seu colo, tentei tirar a
sua blusa e fazer com que o homem me possuísse, mas só tive mais carinho.
Desde então venho insistindo um dia após o outro sobre ter sexo, dizendo o
quanto preciso disso para me recuperar, mas o homem está irredutível.
Meu celular toca, tirando-me de meus pensamentos.
— Alô.
— Mairheen — eu posso reconhecer essa voz em qualquer lugar. Ela
pertence à mulher que me permitiu viver.
— Sayuri — falo baixinho para que ninguém ouça. — Está tudo bem?
— Sim, está. Como está indo a operação sexo com um mafioso? —
ela pergunta, divertida.
— Frustrada constantemente — respondo.
— Você conseguirá, querida. Se alguém pode tirar alguma coisa desse
homem, esse alguém é você. É só uma ligação de rotina, Mae. Nos falamos
outro dia. Beijos.
Despeço-me da minha amiga que está escondida em algum lugar que
não fazemos ideia. Ani atendeu ao meu pedido e fez os arranjos necessários
para que Sayuri pudesse vier a sua vida sem ser rastreada. Nós três nos
tornamos grandes amigas. Jamais esquecerei que ela abriu mão de sua família
e de seu futuro por mim. Ela não precisava fazer isso, mesmo assim o fez de
coração.
Uma ideia surge em minha cabeça. Subo as escadas rapidamente e
procuro a camisola que comprei para a lua de mel. Vou ao banheiro e dou
uma olhada em meu rosto. Um olho ainda está meio inchado, os machucados
já não estão roxos como estavam antes. Tento melhorar a minha aparência
com alguma maquiagem. O resultado final não ficou grande coisa, mas já me
ajuda.
Passo hidratante pelo restante do meu corpo, solto o cabelo e visto a
camisola curta de renda preta. Assim que ouço Haniel se aproximar do quarto
me chamando, baixo as cortinas, aciono a luz ambiente e sento-me em uma
das poltronas que ficam no canto. Abro as pernas e começo a me tocar. Céus!
Eu ando tão excitada que dois toques já me deixam completamente molhada.
Quando o meu marido entra, ele para ao ver a cena. Ele assiste por
alguns segundos e percebo que sua respiração está acelerada. Enfio dois
dedos na minha boceta e jogo a cabeça para trás. Não demorará para que eu
goze. Haniel diminui a distância entre nós e sua ereção fica muito evidente.
— O que é isso, Mairheen?
— Estou tão excitada, marido. Sou uma vadia muito excitada — baixo
uma alça da camisola expondo um dos meus seios. Eu o acaricio, puxo o
mamilo entre os dedos até que ele endureça. — Estou encharcada,
imaginando como seria ter seu pau em mim, na minha boca, entre os meus
seios, na minha boceta.
— Mairheen — ele geme.
— Às vezes venho para o banheiro só para me masturbar, fantasiando
com você segurando o meu cabelo e me fodendo com força, falando coisas
sujas e penetrando a minha bunda com seus grandes dedos. Não vejo a hora
de você foder a minha bunda, Haniel.
— Eu te machucaria — sua voz é rouca de desejo.
— Não, não machucaria. Eu sentiria uma queimação que passaria
assim que seus dedos estivessem na minha boceta. Eu cavalgaria o meu lindo
marido enquanto ele me preencheria a ponto de me regaçar. Ah, eu desejo
tanto isso — levanto os meus dedos que estavam dentro de mim, permitindo
que ele visse o quanto estou excitada. — Vê? Vê que só a fantasia já me deixa
à beira do orgasmo?
Haniel se ajoelha diante de mim, abre mais as minhas pernas e passa a
sua língua de cima a baixo na minha entrada. Ele beija a minha boceta como
se estivesse fazendo com a minha boca. Sua língua entra em mim e gemo de
prazer. Ele leva sua boca para o meu seio e seus dedos continuam a esfregar a
minha boceta, fazendo-me ir à loucura. Ele chupa meu mamilo como um
esfomeado. Volta para a minha boceta e me fode com a sua língua novamente.
— Ha-Haniel…
— É isso que você queria, não é? — ele me pergunta com gravidade e
isso me faz ainda mais excitada.
— Sim…
Ele fica de pé, tira a camiseta e abre a sua calça jeans, libertando o seu
pau glorioso. Ele está tão duro quanto uma barra de ferro, quente.
— Chupe o meu pau, delizia. Quero me lembrar como é foder essa
boca que é tão gulosa quanto a sua boceta. — Sem perda de tempo, baixo
minhas pernas e me aproximo dele. Tomo o seu pau em minha boca,
lambendo aquela grande veia em todo o seu comprimento e fazendo o meu
homem estremecer de desejo. — Você é uma mulher má, Mairheen. Comece a
chupar e me tire desse tormento.
Faço o que ele pede e o chupo com vigor. Alternando entre chupar,
lamber e passar a língua no buraco da sua glande. Haniel geme alto e
intensifico o meu trabalho. Mais excitada do que nunca, começo a tocar a
minha boceta. Haniel perdeu o controle por um segundo e fodeu a minha boca
fazendo-me engasgar. Ele se retira de mim e me coloca de quatro sobre a
poltrona, segura o meu cabelo e me puxa até que minhas costas encostem em
seu peito. Haniel morde a minha orelha e fala:
— Vou te comer aqui até que a sua boceta esteja se contraindo,
ordenhando o meu pau. Depois a levarei para a cama, brincarei com meus
dedos nesse rabo gostoso, então os trocarei pelo meu pau.
— Sim! S-sim… por favor, Hunny.
Oh, homem! Ele fez… ele fez exatamente o que disse. Afundou seu
pau em mim sem misericórdia e estocou tão forte que pude senti-lo
profundamente. O nosso quarto foi embalado pelos sons de suas estocadas e
dos nossos gemidos. Haniel me comeu da sua maneira, da maneira que gosto,
com força. Quando comecei a sentir o meu orgasmo chegar, Haniel
simplesmente parou tudo. Eu já estava prestes a reclamar quando ele me
ergueu e gentilmente me colocou no meio da cama.
Ele foi ao banheiro e voltou com um vidro que deve ser lubrificante.
Ele foi ao closet e de lá saiu com um item que já vi em filmes pornôs, um
plug anal. Estremeci com a excitação e antecipação do que virá. Haniel deixa
os itens de lado e se deita sobre mim, tomando a minha boca em um beijo
ardente. O homem deve ter feito um curso para saber como enlouquecer as
mulheres apenas com um beijo. Seus lábios macios contrastam com seus
beijos duros, intensos.
Então, ele retira a minha camisola e segura os meus seios juntos. Ele
os aperta enquanto chupa um e outro mamilo, deixando ambos doloridos. Sua
língua perversa desce pelo meu corpo, deixando uma trilha úmida pelo
caminho. Haniel abre as minhas pernas e desce a sua boca na minha boceta
mais uma vez, o homem só se afasta quando engasgo com meus próprios
gritos.
— De quatro, delizia — ele pede e eu faço.
Ele segura o meu quadril e coloca a sua mão nas minhas costas,
fazendo-me baixar ainda mais pressionando os meus seios na cama e minha
bunda ficando no ar. Sinto o líquido gelado cair em minha pele quente.
— Você é a visão do paraíso quando está assim, toda aberta para mim
— seus dedos sondam a entrada da minha bunda, mas não entram. Haniel não
economiza o lubrificante, despejando em mim e me acariciando ao mesmo
tempo.
Sua carícia que começa na minha bunda e termina na boceta começa a
ser demais para mim. Sinto um dedo entrar no meu ânus ao mesmo tempo que
a sua língua varre a minha boceta. Grito com toda a força que há mim, porque
é bom demais. Onde tinha um dedo, agora há dois e sinto uma pequena
queimação que me deixa ainda mais desejosa.
— Mais, Hunny… eu quero mais… por favor — imploro, indo ao
encontro dos seus dedos e sua boca.
Ele tira os seus dedos, coloca mais lubrificante e gentilmente começa
a introduzir o plug de metal na minha bunda. O infeliz sem coração começa a
me foder com o maldito plug. Ele não entende que essa merda já não é o
suficiente para mim. Eu quero seu pau e a queimação que sua entrada
promete.
— Sua excitação está escorrendo pelas suas coxas, delizia.
Haniel enfia seu pau na minha boceta e fode em sintonia com o plug
em minha bunda. Um tapa na coxa me dá a picada de dor que preciso para
meu orgasmo voltar a se construir. Haniel retira o plug e logo sinto o seu pau
na entrada da minha bunda.
— Se for demais, avise-me e eu paro.
— Ok. Agora me fode, amor. Dê-me o que quero — peço.
Sinto a queimação de ser penetrada por um grande pau. Seus dedos
não param de brincar com o meu clitóris. A queimação na minha bunda
começa a ficar demais, mas a excitação também, deixando-me confusa. Não
sei se fico parada até me acostumar ou mexo para gozar de uma vez.
Enquanto isso, Haniel continua me penetrando e deixando-me à beira do
orgasmo. Seguro o lençol abaixo de mim e esfrego meus mamilos à procura
de atrito. Não suportando mais a gama de sensações, empurro-me para trás,
me empalando em seu pau. Isso dói.
— Puta que pariu, Mairheen. Calma, delizia. Tenha calma.
Seus dedos entram e saem da minha boceta enquanto esfrego meus
mamilos contra o lençol. Haniel perde o pouco controle que tem e começa a
entrar e sair de mim. Dor, prazer, queimação, excitação tudo misturado
sobrecarregando o meu corpo.
— V-vou gozar, Hunny. Aaahh… céus… mais forte.
Ele me puxa pelos cabelos até as minhas costas encontrarem o seu
peito forte. Uma de suas mãos continua me torturando entre as minhas pernas
e a outra vai para os meus seios.
— Dê-me sua boca, gostosa.
Viro até que a sua boca encontre a minha. Suas estocadas ficam mais
fortes e seu aperto também. Entrego-me aos braços da luxúria, gozando
desesperadamente e levando Haniel juntamente comigo. Posso sentir seus
jatos quentes dentro da minha bunda, e como ele está ainda maior dentro de
mim, acabo tendo mais um orgasmo.
Caímos na cama exaustos e completamente satisfeitos. Haniel nos
coloca de lado se mantendo ainda dentro de mim. Ele beija o meu pescoço e
acaricia o meu seio. O homem é completamente tarado por seios. Ficamos
assim conectados e quietos por um bom tempo. Já estava quase pegando no
sono quando Haniel falou:
— Eu te amo, Mairheen Saints. Amo você com cada fibra do meu ser.
Viro-me para ficar de frente para ele.
— Amo você, Haniel Saints. Te amarei para sempre.

Epílogo
Haniel
Três semanas depois…

— Eu não vou me casar com ninguém dessa lista ridícula, Raffaele.
— Você se casará com alguém, então escolha um maldito russo de
uma vez.
Sentados no sofá da nossa casa, assistindo a essa discussão há quase
uma hora, Mairheen se aconchega em meu colo como uma pequena gatinha.
— Nós teremos que ser testemunhas disso até quando? — ela me
pergunta.
— Não sei, querida.
— Por que eles vieram discutir isso aqui?
Respondo divertido:
— Porque você insiste em alimentar ambos. Já falei para
simplesmente jogar a comida para fora, mas você insiste em colocar um lugar
para cada um na nossa mesa.
Ela me bate no braço, sorrindo.
— Não fale assim. Eles são família.
— Então curta a discussão, querida. É isso que as famílias Saints
fazem.
Aniella estava lendo a lista pela terceira vez? Não sei. Mas só se deu
conta de um fato importante agora.
— Por que o nome de Levi não está aqui?
Ela olha para mim e para Raffaele.
— Porque você riscou — Mairheen responde. — E porque ele disse
aos seus primos que cansou dos joguinhos, então… — fecho a boca de
Mairheen com a mão.
— Do que ela está falando? — Ela olha para minha esposa com um
olhar de morte que faz Mairheen se encolher. — Mairheen?
Sei que a minha prima deu tudo de si para se controlar e não pular
sobre minha esposa para obter as suas respostas. Raffaele interfere para o bem
de todos.
— Levi se retirou da lista.
— Ele não pode fazer isso — sua voz é quebrada. — Não pode.
Mairheen saiu do meu colo e abraçou Aniella.
— Levi é um idiota bonito e gostoso, mas burro — ela leva Aniella até
um sofá e senta-se ao lado dela.
Minha prima olha sorrindo para a minha esposa.
— Ele é lindo mesmo e gostoso — seu sorriso cai. — Mas pelo jeito
ele não quer mais saber de mim.
— Então faça o que Aniella Saints faz de melhor — Mairheen fala.
— E o que ela de faz de melhor? — pergunto.
Ambas as mulheres olham para mim com cara feia.
— Ela vai mostrar a ele o que está perdendo e socar a cara da vadia
que estiver com o homem dela — minha esposa responde.
— Acho melhor não — Raffaele fala inseguro. — É melhor você se
contentar com um dessa lista.
Aniella fica de pé e Mairheen a segue. Minha prima coloca as mãos no
quadril e sei que está vindo mais uma discussão.
— Eu não vou me contentar.
— É, ela não vai se contentar — Mairheen repete.
— Nem deveria ter uma lista, Rafe.
— É, nem deveria ter lista… Raffaele — minha esposa fala o nome do
meu primo arrastadamente.
— Eu sou a porra de uma herdeira Saints, pela lógica divina, devo me
casar com Levi Nikolav, que é Chefe da Bratva, e não um qualquer.
— Isso mesmo, não qualquer um… — Mairheen continua. —
Raffaeeele…
Meu primo olha para minha esposa e toda a diversão de seu rosto
evapora. Deus! Estou cansado dessas conversas, para mim já chega. Levanto
e falo alto:
— Estamos grávidos! — Todos olham para mim boquiabertos. —
Graças a Deus alguma coisa calou a boca de vocês — puxo Mairheen para o
meu lado. — Estamos grávidos e vocês serão tios.
Meus primos abrem a boca para falarem alguma coisa, mas nossa
atenção é desviada para a porta.
— Eu vou ser vovô? — meus pais vêm até nós. — Seremos avós?
Sorrindo, Mairheen assente. Meus pais a abraçam e meus primos se
juntam à festa. Eu ganho o sorriso mais bonito do mundo. Eu me apaixono
por essa mulher todos os dias e a cada sorriso. Enquanto ela é espremida entre
eles, Mairheen fala:
— Isso é família.
— A sua família — falo.
— Nossa. Para sempre.
Sorrio.
— Para sempre.

FIM.

[1] Papai em irlandês.

[2] Vovô em irlandês.

[3] Naomh Bhríde (Pt. Santa Brígida) – Brígida de Kildare, foi uma religiosa católica irlandesa, freira,
abadessa e fundadora de diversos conventos. É venerada como santa e considerada uma das santas
padroeiras da Irlanda.
[4] Queer Eye é uma série americana da Netflix, lançada em 7 de fevereiro de 2018.

[5] Believer, Imagine Dragons. Evolve, 2017.

[6] Bed, Nicki Minaj. Queen, 2018.

[7] Cantora e compositora britânica.

[8] Bang Bang, Jessie J (com Ariana Grande e Nicki Minaj). Sweet Talker, 2014.
[9] Tian Di Hui — Máfia chinesa.

[10] Pray, JRY. Fifty Shades Darker, 2017.

[11] Mãe em japonês.