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MARÇAL, Heitor. “O Ouro-Elemento Civilizador”.

O Observador Econômico e
Financeiro, Rio de Janeiro, ano VIII, n.94, p. 12-16, novembro 1943. Disponível em:
http://bndigital.bn.br/acervo-digital/observador-economico/123021. Acesso em: 23 mar. 2020.
P.12 “[...] Foi Martius quem visionou um aspecto particular em relação ao ouro no Brasil;
nas primeiras centúrias o metal amarelo erigia-se em elemento romântico,
propiciando o aparecimento de copiosa literatura oral e escrita, e o advento de lendas
impregnadas de pitoresco. Nessa fase o ouro era o objeto preferido dos contos
dominados pela ficção: substituía nas terras ultramarinas os racontos fabulosos
povoados de cavalheiros e espectros das regiões européias. Invadido pela fábula a
sua busca era um convite permanente à aventura”. (MARÇAL, 1943, p.12)

“[...] No estágio que abrangia circa de um século a colonização não progredira para o
“hinterland”, nem preenchera sequer tôda a costa. Cingira-se tão somente aos “chãos
do açúcar". Explicaria êsse fato um exame do material humano que se transplantara
de além mar para a nóvel colônia”. (MARÇAL, 1943, p.12).

“[...] Predominava entre os grupos iniciais o judeu. Êste não estimava a agricultura.
No século XV, na Alemanha, levantavam-se vozes pedindo fossem os judeus
compelidos aos serviços da lavoura e ofícios mecânicos, para moderar o flagelo da
usura, com que muito padeciam as classes desvalidas. (Cf. João Lúcio de Azevedo,
"História dos Cristãos Novos Portugueses"). No Concilio de Constanza debatera-se
êsse objeto. Na Espanha, na véspera da inquisição, os inimigos dos hebreus
protestavam contra estes se absterem das fainas agrícolas e das profissões que
exigiam esforço físico”. (MARÇAL, 1943, p.12, apud AZEVEDO, 1921).
P.13 “[...] No médio-evo nas cidades livres imperava o trabalho corporativo dos artezãos e
em tôda a parte o trabalho dos servos: por um lado senhores feudais e servos da
gleba, por outro mestres e oficiais, companheiro se aprendizes. A economia agrária
impunha a valorização da terra, os núcleos autônomos com identidade de produção
forçavam o progressivo desaparecimento da moeda. Quanto aos judeus a proibição
de possuir propriedades obrigava à monetização de todos os bens”. (MARÇAL,
1943, p.13).

“[...] Na península a moeda nascera com o "modio" medida de cereais e assim


permanecera por muito tempo, mesmo depois de cunhadas as moedas. Estas seriam
retidas em grande parte pelos judeus ao tempo impedidos de possuir imóveis. Num
claro espirito de revide a religião judaica recolhia essas proibições e as incluia entre
as praticas defesas aos componentes do povo de Israel. A proibição do exercício da
agricultura pelos judeus de jundo religioso fluía desse movimento de reação. Numa
epoca em que o amanho da terra era a faina nobre impusera-se aos judeus o exercício
do comércio como profissão infamante. E' interessante verificar como o transferiu
nas possessões ultramarinas êsse labéu da mercancia para a lavoura. Aqui rehabilita
o comércio e realiza o movimento agricola o braço servil: reedita o ser da gleba”.
(MARÇAL, 1943, p.13).
P.14 “[...] A característica da economia colonial era a de adquirir o máximo de lucro
financeiro com menor quantidade de produção. Êsse desideratum fluia de uma
contingência: o dispêndio dos transportes (um frete só para duas viagens). Por outro
lado a maneira de obtenção dos produtos, o risco das viagens o legitimava”.
(MARÇAL, 1943, p.14).

“[...] Nesse têrmo a faina agrícola é bem do tipo que obriga a escravização do
homem a um determinado limite: a exígua faixa da marinha. O elemento espacial aí é
de caráter restritivo. O homem se vincula ao menor trato de terra possível. Êsse
reduzido âmbito é imposto por um fator de conjunção: a falta de transportes. O
diminuto trecho ocupado satisfaz bem à sua finalidade: nele cabem as tarefas de cana
para beneficiamento. O domínio do açúcar nesse estreito limite é sólido e estável. E'
vivo, todavia, o isolamento dos núcleos dispersados ao longo da orla litorânea. Não
há interdependência interior, não há concorrência na distribuição para o exterior”.
(MARÇAL, 1943, p.14).

“[...] O "rush” estimulado pelo ouro origina o desequilíbrio demográfico: adensa a


população nas zonas auríferas com evidente prejuízo dos outros núcleos de
povoamento. Êsse deslocamento do material humano é responsável por novos rumos
econômicos”. (MARÇAL, 1943, p.14).
P.15 “[...] A guerra dos "emboabas e a luta pela supremacia de dois caminhos: o
paulistano e o da Baia. O paulista, atiçado pelo desejo de exclusividade, já que a
prioridade da descoberta das minas lhe pertencia. A via paulista para as Gerais
utilizava até Taubaté o caminho comum daí por Pindamonhangaba e Guaratinguetá
até a Mantiqueira. Dêsse ponto em diante a onomástica era um espêlho vivo das
dificuldades impostas: "daqui começam a passar o ribeiro que chamam Passa Vinte
porque vinte vezes se passa" (Antonil-Andreoni). Depois Passa Trinta até Pinheiros
de onde prosseguia caminho pelo rio Verde— Boa Vista — Ubaí — Ingai —Rio
Grande — Rio das Mortes e daí à serra de Itatiaia onde bipartia-se: uma veiga ia para
as minas gerais de Ribeirão do Carmo, a outra para as minas do rio das Velhas.O
caminho da Baía tinha seguintes escalas: Cachoeira —Aldeia de João Amaro. Nesse
termo subdividia-se: à direita buscava o rio das Rãs, à esquerda, pela Tranqueira,
alcançava a nascente do no Verde, atingia o Campo das Graças. Subia o rio até o
arraial de Borba, daí as minas gerais do rio das Velhas”. (MARÇAL, 1943, p.15).

“[...] Por êsse caminho nenhuma outra espécie de comércio era permitida. Era
proibida a passagem de pessoas, por ali, para as minas. Documento de 1701
disciplinava que mercadorias e pessoas para as minas tinham que passar pela entrada
do sul (caminho paulista). "Sem embargo pessoas e gêneros continuavam a entrar
pela Baía e clandestinamente o ouro á sair” refere J. Lúcio de Azevedo in “Épocas de
Portugal Econômico”. Dado os descaminhos de ouro instala-se na fronteira baiana
uma casa dos quintos em 1706. O português Manuel Nunes Viana, potentado do
sertão baiano, alicia homens para transgredir em massa a ordem: recruta cêrca de três
mil que se batem com os paulistas perto do rio das Mortes. Vencidos os paulistas já
em retirada os capitaneados por Manuel Nunes Viana senhoriam-se da região,
subjugando os que tinham ficado na região aurífera, sem tomar parte na refrega. E o
cabeça dos sucessos arvora-se em governador organizando milícia e fazendo
nomeações. Êstes atos atingem o superintendente das minas que é destituído da
função.Inicia-se então um período de represálias contra os paulistas e os próprios
forasteiros que haviam prestado serviços ou assistência aos descobridores das
minas”. (MARÇAL, 1943, p.15).
P.16 “[...] O ouro surgia das catas em tal profusão que de sua quantidade atestavam
visitantes oficiais e inspecionadores: era um cabedal que desafiaria séculos sem se
extinguir. Os cálculos a respeito do ouro não eram aritméticos”. (MARÇAL, 1943,
p.16).

“[...] O "ouro preto" surgira de uma expedição malograda. Um dos componentes da


“entrada" ao alcançar esta o Tripuí "metendo a gamela no rio para tomar água" viu
depois que estavam nela uns granitos cor de aço. Êste diexando a expedição
regressou. E em Taubaté vendeu a Miguel de Souza alguns desses granitos por meia
pataca a oitava. Mandados ao governador Artur de Sá uns desses granitos foram
examinados verificando-se tratar-se de ouro finíssimo. Ouro podre, como ficou
conhecido”. (MARÇAL, 1943, p.16).

“[...] As cidades da faixa litorânea possuíam aspecto particular: uma revivescência


forte dos núcleos humanos encontrados pelo dominador nas regiões pobres da índia.
Recolhe-se às missivas do florentino Sasseti que viajou a índia no século XVI uma
saborosa descrição de onde flue nítida a semelhança indicada. As habitações indianas
eram de um só piso, de duas braças se meia de altura. As paredes eram tecidas de
bambu ligadas por uma argamassa composta de areia (sic) terra e folhagem. O tecto
coberto de folhas de palmeira. Aporta uma simples abertura vedada por uma
travessa. Poucos objetos de uso: caldeira para cozer arroz, terrina de páu por louça,
umas folhas que jogavam fora terminada a refeição. As residências iniciais do litoral
brasileiro traíam essa feição das moradias indianas. O imbê (cipó) substituía o
bambú, a argila era outra contribuição para consolidação da argamassa; o colmo de
palmeira pindoba era lugar comum”. (MARÇAL, 1943, p.16).