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Comentário acerca de Greenberg

“A pureza da arte consiste na aceitação – voluntária aceitação – das


limitações do meio [medium] de cada arte específica”.

Clement Greenberg, “Rumo a um mais novo Laocoonte”, in Clement Greenberg e o Debate


Crítico, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1996, pág. 53.

Em seu segundo ensaio teórico, seguido de “Vanguarda e Kitsch” (1939)


Clement Greenberg trata sobre as fronteiras da arte e da poesia no contexto artístico
moderno, recuperando ao ensaio “Laocoonte” de Lessing.
Logo no início, o autor reflete sobre as exigências extravagantes dos chamados
“puristas” da arte abstrata, esclarecendo que essas resultam de uma preocupação, uma
inquietude quanto ao futuro da arte, e defende a idéia purista que coloca a arte abstrata
como o ápice das vanguardas modernas, sendo “o que há de melhor nas Artes
Plásticas”.
É essencial ao discursar sobre Greenberg e o Novo Laocoonte falar sobre o
conceito de especificidade do meio, criado para libertar a arte da sua função de
representação. Ao aplicar o conceito, perde-se a preocupação com um “tema” em uma
obra de arte, valorizando mais o ato da transmissão do sentimento do autor para o
público, sendo a obra reduzida a ela mesma e ao meio em que se é criada e não mera
representação pictórica. A especificidade do meio é o que distingue a arte moderna de
todas as anteriores.
É preciso compreender os limites de cada meio. A aceitação e compreensão
deles é consagrada por Clement como a própria pureza da arte. Para compreender
esses limites devemos discutir sobre a tentativa de separar cada forma de arte.
Greenberg supõe a existência de uma forma de arte dominante, quando há uma arte
estabelecida como superior, as subservientes tentam se moldar aos seus padrões, de
modo a alcançar seu efeito, acabando por negar sua própria natureza e causando
confusão no meio das artes.
Todavia, as artes subjugadas teriam sim potencial para atingir os padrões da
arte dominante, apenas quando atinge-se certo grau de domínio técnico, de modo a
anular seu meio em favor da ​ilusão.​ Ainda menciona que a música estaria excluída
deste fenómeno, por não ser sujeita a imitação e exemplifica como artes sujeitas à
imitação a Pintura e a Escultura, que já alcançaram tal grau de ilusão, e a Literatura,
arte que foi bastante sujeitada à imitação durante os séculos XVII e XVIII.
Greenberg compõe todo o panorâmico histórico da confusão entre as artes e os
limites de seus meios. Começando pelo Romantismo, o autor critica as escolas de arte
da época e argumenta um declínio nas artes devido à elas, causando a diminuição na
aparência de novos talentos em relação ao século passado. A Literatura é caracterizada
como arte dominante e os artistas passam a basear suas obras nela, tirando ênfase do
meio e levando ao tema. Não se trata mais sobre representação realista de algo e sim
uma interpretação do autor sobre um tema, neste caso, literário.
Já na revolução do romantismo busca da transmissão dos sentimentos do artista
para o público. O meio é um obstáculo que desvaloriza a intensidade dos sentimentos,
o que levou a acreditar que a poesia seria a forma de arte mais superior, por não
depender de um meio. O período traz também a idealização da arte, que passa a ser
vista como um dom, um talento nato. A junção do realismo com a literatura
sentimental e dramática romântica e o aparecimento do academicismo, tudo isso
contribuindo para a forte interferência da classe burguesa sobre a cultura e os artistas.
Finalmente, o romantismo é esgotado, e em torno de 1848, seria agora papel
das vanguardas, buscar novas formas culturais. O artista passa a rejeitar a hierarquia e
as ordens estabelecidas pela burguesia. A pintura, degenera-se “do pictórico ao
pitoresco”. O tema já não é mais importante em uma obra de arte. A ênfase agora é
sua forma e cabe ao espectador o papel de interpretação. O impressionismo passa a se
sobrepor ao realismo, tentam chegar à sua própria essência, dando mais valor à cor do
que detalhes reais e se afastando de leis da ciência.
Em sua tentativa de se distanciar da literatura consequente da decadência e
aversão ao Romantismo, a Vanguarda ainda não chega à uma “pureza”, e causa ainda
mais confusão entre as artes, pois buscava imitar qualquer outra forma de arte exceto a
Literatura, como com o impressionismo por exemplo, que chegou a alcançar efeitos da
música romântica, ou a poesia, com os parnasianos, e mais tarde, imagistas.
E mais uma vez foi estabelecida uma arte considerada “dominante”, e nesta
cena seria a música moderna. Entra em vantagem em razão de sua natureza absoluta, a
música não poderia ser visualmente descrita como uma pintura, portanto foi
considerada como uma arte abstrata, gerava sensações e era a arte que mais tentavam
imitar. Essa concepção equivocada de que só a música poderia ser uma arte puramente
sensorial, impediu por muito tempo o pensamento de que as outras formas de arte
poderiam obter também a pureza que almejavam, e poderiam também ser
imediatamente sensoriais, como no abstrativismo.
As artes então, voltaram aos seus meios e foram concentradas e isoladas
somente neles, que fez com que as vanguardas então, alcançassem a desejada pureza.
Para Greenberg, a aceitação voluntária das limitações do meio de cada arte, é no que
se consiste a pureza da mesma. A subordinação da arte ao seu médium é imutável e a
pureza está na não-resistência da natureza de seu meio.

Camila Dumas, nº 12825, Arte Multimédia Turno B