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Evando Nascimento

Cantos profanos

(Contos)

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Copyright © 2014 by Evando Nascimento

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1995).

Editor responsável: Eugenia Ribas-Vieira


Editor assistente: Juliana de Araujo Rodrigues
Editor digital: Erick Santos Cardoso
Preparação: Natalie Araujo Lima
Revisão: Thiago Blumenthal
Diagramação: Negrito Produção Editorial
Capa: Daniel Trench

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

N193c
Nascimento, Evando, 1960-
Cantos profanos / Evando Nascimento. – 1. ed. – São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.

ISBN 978-85-250-5781-5

1. Conto brasileiro. I. Título.

14-12609 CDD: 869.93


CDU: 821.134.3(81)-3

1a edição, 2014

Direitos exclusivos de edição em língua portuguesa, para o Brasil, adquiridos por


EDITORA GLOBO S.A.
Av. Jaguaré, 1485
São Paulo-SP 05346-902
www.globolivros.com.br

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Sumário
Capa
Folha de rosto
Créditos
Dedicatória
Epígrafe 1
Epígrafe 2
I. OS CANTOS
Tentação dos santos
Babel revisitada
Estação terminal
Nada como um dia
Táxi
Altamente confidencial
Terra à vista
II. AS PROFANAÇÕES
Demo
É hoje!
Voo vespertino
Muito prazer,
Noturno
Édipo solar
O banquete
Elos
III. OS VESTÍGIOS
Ce qu’il faut à ce coeur profond comme un abîme
IV. TÁBUA GRATULATÓRIA
1. Das Pessoas
Notas

4
Para Nailsa, irmã

5
All was dark yet splendid — as the ebony.
EDGAR ALLAN POE, The Man Of The Crowd[1]

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Decerto caberia sempre aos leitores inventarem seu próprio livro e descobrirem por onde, como e quando
começar, traçando livremente o percurso em linha reta ou em ziguezague, até a conclusão.
Em contrapartida, caberia ao livro, com alguma sorte, inventar seus leitores, à espreita do mais inesperado
por vir.
A ficção se encontraria entre os dois movimentos de invenção. Impresso ou digital, o volume já se encontra
então aberto:

7
I. OS CANTOS

8
Tentação dos santos

A base de toda religião é a ideia de que a vida é sagrada (o que distingue a religião das seitas).
Radovan Karadzic, poeta, psiquiatra e ex-líder sérvio, responsável pela grande “limpeza étnica” durante a
guerra na ex-Iugoslávia.

CULPA MINHA NÃO FOI, estava em sossego, calado como de hábito, revirou
olhinhos cintilantes na cozinha, a moreninha, se rindo toda, na hora nem
entendi, muito estranhei, faísca chispou todavia, só mais tarde veio o sentido,
num lampejo, ela queria!, não passava dos catorze, pedia sorrindo o que
ofereci em prantos, admirável milagre, juro, Padre, por tudo o que é sagrado,
havia até uma aura em torno, o senhor é novo na paróquia, está me
conhecendo agora, e mais, a putinha queria, nem experiência tinha, exalava
desejo inato, destino de meretriz, creio como na cruz, conheço o pecado,
abaixo do madeiro onde Jesus Cristo, né não?, a tentação da inocência, assim
nomeei a coisa, antes de falar com o senhor, tanto tempo já passado, a
tentação da inocência, embora se chamasse Das Graças, de inocente não tinha
nada, nem Imaculada, Virgem Maria, muito menos minha Sant’Ana, já
nasceu com a sina, cria bastarda da ancestral culpada, Eva, o Mal do mundo,
ovelha pra sacrifício dos homens, fui vítima em vez de carrasco, entenda, não
faça esse ar, imploro, como sabe, José Patrício dos Santos é o nome de meu
soberano batismo, mas me chamam somente de Patrício, os mais íntimos, de
Patri, nascido em 17 de março de 1958, seduzido pelo poço de maldade, em
pureza disfarçado, ela vinha lá bem do interior, de uma rocinha, pros lados da
Água Preta, tinha decerto sorvido turvas fontes, minha cunhada aceitou como
prenda do pai, a escravinha, o senhor percebe a pobreza, entre mato e cidade
sobra a sevícia, nossos brasis, ais imemoriais, Inácia maltratava a guria, o
suplício começou com o pai, segundo depois soube, o velho cobiçava as
filhas, a mais novinha, de doze, e também a mais velha, ela mesma, a de
catorze, se tanto, isso muito acontece nas grotas daquelas bandas, essas
regiões de-dentro, entranhas abandonadas, pai traíra, devora a prole, mas esse
tal, em vez de comer, batia, modo de despejar forte, forte, chegava a sangrar,
o barbarroxa, e ela pra se livrar aceitou trabalho, sem remuneração quase,
apenas quartinho, comida, alguns trocados, a dura serventia, vinte quatro
horas no serviço, nada de muito católico, o velho indagou certo dia a meu

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sobrinho se já havia tentado, o senhor sabe o quê, o garoto ficou pasmo, ver
que o próprio pai pedia, consumasse o que não se deve, homem essa, onde se
viu, quem te vê, depois soube que o sobrinho tinha, sim, tudo feito pra
montar a eguinha, ela rejeitara o novilho porém, peraí, estou cruzando os
bichos errados..., volto ao começo, pois regalou pupilas de gazela pra mim,
seu cio, de noite é que atinei o vício, palpitei, aproveitei a cunhada na missa,
fiquei em pelo, baio de certa idade, mostrei tudo à safadinha, em lugar de
amaciar com mimos, fui reto ao assunto, uns desmesurados centímetros, bem
grosso, rígido, perdoe o despudor, tenho orgulho, ficou sem fôlego, desejando
muito, logo vi, mas, com pavor das primícias, o que não se aguenta de prazer,
fingiu que não queria, e queria, a bandidazinha, pois ansiava, amuou,
comecei a tocar, uma, duas, três, até o ah, ih, oh, um alarido, brava cantoria,
como se muitos de uma só vez, boca não disse palavra, consentia, mudinha,
nem desviava o olhar, tresviu o jato branco, se queria, claro que sim, mas
negaceava, ares de fêmea, adormeci depois dos urros, dia seguinte recomecei
o manejo, aproveitei a feira do sábado, novamente sós, nós, podia tudo ter
contado, lá ela a minha cunhada, mas escondeu, quer dizer, continuava
incitando, tresmalhava assim, vislumbrei o banho num trapinho, me contive,
saiu vestida, baixei a blusa, mamei os limõezinhos, mais pra pequenos
mamões, da fruteira tudo se desfruta, não é mesmo, relutou bastante, podia
ter puxado o zíper da saia, num golpe, contentei chupando o fruto de vez,
escoiceava, Não quero machucar, eu disse, Está me machucando, respondeu,
aí temi que gritasse, a vizinhança acorresse, ai dos escandalosos, soltei a
ferinha, que nem mordeu, nem berrou, boa cabrita, a bichinha, derramei
grosso caldo em segundos, a excitação no auge, subi o monte das goiabeiras,
orei padrenossos, avemarias, tontas rezas, até agora, antes de dormir, venho à
missa duas vezes por semana, ou mais, pequei talvez, Senhor, mas nem
porque pequei de Vossa imensa glória me despeço, passados anos e tanto
remorso, clamo inocência porém, falta nenhuma, toda a culpa foi da reles
cadelinha, voltei pra casa temendo denúncia, nada de nada, bastava uma
palavra, Inácia chamaria delegado, soldados, até prefeito, nadinha,
continuava pedindo, sonsa sabiá, tive pesadelos, consumava o fato, policiais
vinham, batiam até a morte, ocorreu com um estranja, falsa denúncia, Deus
me livre, acordei palpitando de novo, me via já debaixo da terra, no outro dia
era domingo, jornada do senhor descanso, a cunhada foi com o filho pro sítio,
me deixou cuidando da casa até segunda, fiava por demais, eu os pelos
cofiava, a danadinha podia prevenir, continuou calada, estudando tabuada e

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se rindo, vixe, apelei pra todos os santos da Igreja, até pros de fora, quero,
não quero, meu Pai eterno, me valei, tomei banho frio, tentei mais uma vez
com a mão, o tesão, o senhor me perdoe, não passava, revinha pior, mais
caudaloso, agora tem essa história de sacerdotes com meninos, os anjinhos de
Deus, mas não é igual, estava em sossego, já disse, o Satanás atazanou, eu
nada cogitava, veio em forma de cachorrinha, lutei com forças, até as que não
tinha, pensei em pegar ônibus, voltar pra capital, dar um tempo, maturar
ideias, fracassei, a carne é triste, fraquíssima, descontrolada, daí essa
jaculatória, imploro clemência a todos os sãos, Gregório primeiro, depois
meu padroeiro, e o próprio são Clemente, também Santíssimo Antônio, que
tanto padeceu pra resistir às seduções do Demo, são Jorge desconheço se inda
faz parte da corte celestial, já são Paulo me entende, de mesma raça, a feroz
linhagem dos machos, violência, seu nome é virilidade, em pele de cordeiro,
não pronuncio seu sacro nome em vão, meu Espírito Santo, e sei que a Madre
Igreja está perenemente assentada em fundamentos inabaláveis como a fé,
fora dela não há salvação, preciso de muita crença, pra aliviar, bebo de todas
as águas, bicas, rios, cachoeiras, até mar oceano se preciso, nada sacia, sede
infinita, também Deus pai da gente necessita, estou convencido, pra
majestade aumentar, humílimo, vou até o Papa e argumento, fiz o que fiz pra
livrar a pestinha do mal, e não tem mal pior do que a vontade, exorcizei como
antigamente, por volta do meio-dia serviu o almoço, malcomi, só tinha olhos
pras coxas e pros mamõezinhos, a sobremesa, arrastei sem dó nem oh, pra
cama, passei mãos, língua, abri as pernas, a buça, a bussantinha já peludinha,
lutava mas não gritava, nem um pio, queria, sim, tomei tento, queria, fui
rompendo estrada e muro, abri largo caminho, por quanto tempo, a verga, o
negócio, o rijo engenho aplicado com arte, aprendiz não sou, assinalado
varão, já sabe, carne nova, crua, fartei riscando indigestão, enfarte, quanto
mais arredia mais saborosa, a presa, sou vistalonga caçador, agudo faro,
embrenhei em mata espessa, o senhor também é homem e entende, quer
dizer, ao fim gemia, após despertei sobejo, já eram quase horas de Inácia, a
bonequinha partida choramingava no canto, beijei, fiz carinho, quem
mandou?, tremia de febre, banhei, dei chás, todos os que havia, consolei mais
do que fui consolado até de noite, aproveitei de novo, pus pra dormir,
amanheceu doente, tadinha, não resisti, piquei mula, fui embora, sei que teve
prazeres, não tinha como não, sempre tem, todas, qualquer uma vadia, seis
meses então retornei, o mundo girou, lá não mais estava, tinha encontrado
rapaz, raptou com filtros, o encantado príncipe, pra morar com outros, em

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república, cuidar de sala, cozinha e quarto, muito trabalho, fizeram o que
podiam, não podiam, uns cinco ou seis, um maior do que o outro, engravidou
sem pai fixo, juntos temiam, induziram a tirar, ficou louquinha, sonhou ter
filho dos belos, a colossal confraria, adveio braba sezão de novo, foi parar em
enfermaria, falava nomes de homens, todos amantes, só não o meu, primal
sem amor, arranjaram depois um mais velho, quase cinquentão, foi lá morar,
nas cercanias do Bemequer, mal não me queira, não, nunca reencontrei, foi
feliz a infeliz?, certeza quem terá, já, já termino, nunca repeti o ato, apenas
lembro e reteso o membro, as alegrias de setembro, quando o corpo, canibal
não sou, mas devorei, pança cheia, valeu por banquete, supimpa iguaria,
grande degustador, com muito gosto aprecio, não sei se deslize, lascívia,
tresvario, mas careço e mereço perdão, Nosso Senhor há de, delito em
verdade nenhum, foi falta mutuamente consentida, questão de livre-arbítrio,
ela também errou, podia ter clamado, só o pecado redime, primeiro precisa
pecar muito pra depois ser perdoado, até ser beatificado e por fim virar santo,
no inferno não creio, nos céus, sim, pra sempre bendito, fé no Eterno,
louvado seja, não é, Padre?!...
(28.vi.10)

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Babel revisitada

1. INVENTARAM ENTÃO de edificar a Torre infinita. Desconheço de quem foi a


ideia, se inspirada por deus, homem ou outro qualquer vivente. Só sei que
desafiaria terras, mares & céus confundidos. Demasiado alta, indo das
fundações ao além do firmamento, furaria o teto das galáxias e tocaria o que
não há (o princípio do Nada, de onde tudo proveio). Conforme o plano do
arquiteto primordial, seria cilíndrica, inteiriça, porém de uma beleza quase
insustentável, no limite do que não se pode conceber. Infraleve.
2. Decretaram que não precisaria de designação, porque nomes são efêmeros
como seus autores e proprietários. Bem assentada na cidade, nossa
construção seria eterna, sereníssima, imóvel, como nada mais — uma
fortaleza contra ventos, tormentas, maremotos, explosões solares,
bombardeios quânticos. Num só qualificativo, inabalável. Eia!, exultamos e
principiamos a tarefa. E assim quisemos e assim foi feito.
3. Todavia, por um erro de cálculo, no início éramos apenas três vezes três,
entre engenheiro, mestre de obra e operários, de ambos os sexos, embora
predominasse — como é frequente nesse tipo de empreitada — o elemento
viril. Disseram mais tarde os acusadores, de má-fé, que queríamos erguer um
monumento à vaidade, para nos fazermos um nome; ora, como declarei há
pouco, desprezamos denominações, renomes, nomeadas e demais coisas vãs.
4. A meta era outra: o colosso dispensaria finalmente qualquer divindade, boa
ou má, deus, anjo, santo, demônio. Era prodígio exclusivamente nosso,
resultado dos trabalhos & dias. Quem não compreendeu isso veio a ser
dispensado antes da data-limite, segundo o planejado. Queríamos atingir o
que está para além do pensamento e não tem tradução, o ingente portento.
5. O betume serviu de argamassa, a pedra, de tijolo, a cal, de tinta, a prata, de
adorno. E assim fomos laborando através dos tempos em prol do Tempo, que
se tornaria um dia o único Espaço, por meio do qual chegaríamos aos confins.
Mas o problema foi esse, como a obra não tinha hora para terminar,
acabamos findando antes do prazo e precisamos nos reproduzir para garantir

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a continuidade do Projeto. Com o passar dos anos, nos multiplicamos numa
espiral de noventa e nove, depois novecentos, novecentos e noventa, em
seguida mil, mil e um, mil e cem, um milhão, até perdermos a conta. Somos
essencialmente discrepantes.
6. Pois então, ao fim, ao cabo, éramos tão numerosos que a parte da torre-
mastro já construída não suportou o peso de tanto povo, com tantos hábitos
diferentes, tantas línguas, e desabou. A cidade ruiu junto. Algumas
testemunhas, num escarcéu, falaram em catástrofe natural, outras atribuíram
os escombros ao Acaso, outras, por fim, proclamaram a divina intervenção.
Um pequeno punhado de sábios, entretanto, garantiu que tudo não passou de
confusão humana, descuido, pressa ou má inclinação, e que, desde a noite das
eras, nada mais adveio de animado ao mundo além dos bichos, plantas e
micróbios. Vige em torno o vazio. Se me é dado emitir opinião, penso que,
com efeito, afora a própria natureza, quem sempre ergue ou demole são os
homens, figurando as mulheres até recentemente como coadjuvantes.
7. Esta última é a versão mais crível de todas, embora haja crédulos e
mistificadores que continuam reafirmando a vingança de um todo-poderoso
Deus contra nossa desmedida ambição. Se isso é fato, e muitos juram que é, o
Tal sucumbiu junto com o edifício e os séculos. (Ademais, quem propala a
descarga de um raio ignora que, de acordo com estudos, coriscos são
fenômenos eletromagnéticos na verdade ascendentes, e só por ilusão de ótica
imaginamos o contrário; mas, concedo, a matéria é controversa e há muitas
pesquisas em curso.) Já os heréticos radicais proferem que a autêntica
maravilha são os afetos e as paixões, capazes de configurar universos. Para
eles, as verdadeiras torres são internas, as externas são todas factícias.
8. Logo após a derrocada, nos dispersamos sobre a face do minúsculo globo e
voltamos a construir, dessa vez, porém, tendas isoladas, choupanas, abrigos,
chalés, modestas residências, sobrados de no máximo dois, três andares.
Durante milênios, não sobreveio a tentação funesta, e, para os mais
talentosos, a restrição foi liberdade. É mais fácil criar a partir do que tem
limite do que do infindo — um enorme vão:
9. Agora, depois de incontáveis gerações, voltaram rumores, do Oriente ao
Ocidente, sobre gigantescas torres, algumas até geminadas, e já há os que se
preparam para a queda, antes mesmo da conclusão. Puro mito.

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(11.IX.11)

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Estação terminal

SUCEDEU EM TONS LILASES. Chegamos lá no ocaso, e o choque foi horrível. O


morto não estava devidamente morto. Corrijo. O morto não estava mesmo
morto. Não ainda. O passamento só aconteceria dois dias depois, e de
improviso. Adiantaram o relógio em quarenta e oito horas, anunciando um
desenlace que custaria um tanto a vir.
Como assim, indagamos em coro ao diretor do melhor Hospital de
Cuiabá. Nos enviam mensagem expressa. Informam toda a imprensa falada,
televisada, digital, que nosso célebre pai morreu de morte morrida na terapia
intensiva. Nos deslocamos todos de Dourados. Para, ao fim, voltarem atrás e
declararem solenemente que o falecido continua vivo?! Provisória alegria
com recheio amargo.
Desde quando é possível revogar um desfecho, em nome de quem ou do
quê, com que intenções prorrogar um sofrimento? Aí ele protestou engano,
não tinha culpa. Confundiram na enfermaria as fichas do laudo médico (não
devia, mas acontece muito). Quem de fato sucumbiu foi outro, não o
proclamado defunto. Um tipo praticamente de mesma idade se findou em seu
lugar. E isso era bom, ponderou: Já pensou se acontecesse com cada um de
nós, no momento de partir, vem outro passageiro e se instala no assento que
nos era destinado? Um lance de bilhetes trocados, alterando por acidente o
destino?
O argumento não convencia, e o que foi bom para o quase morto se
converteu em desastre para os familiares. Afinal, encomendamos o funeral
completo na data notificada, e não fora do prazo, como acabou acontecendo.
Intransigente, a agência cobrou mais tarde, em dobro, o serviço, sem nenhum
desconto. De que servem as flores, as velas, os licores, os ornamentos, os
choros da antevéspera, se confiável é apenas o minuto da vera viagem, em
trânsito, quando enfim toca o apito e o trem parte?
Ninguém jamais se foi com antecedência, só no instante exato do
ocorrido. Não se vive nem se morre por antecipação, menos ainda com
atraso. Desaparecer tem hora. O prejuízo foi enorme. Ainda mais que, ao
deixar o Hospital, ninguém sabia que o fecho viria efetivamente a ser

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concluído. Mas com efeito retardado, infalível embora imprevisto, em qual
hora e local. Se adivinhássemos, daria para aproveitar algo do luto
precipitado. Porque cedo ou tarde, minha senhora, meu senhor, todos vão,
sendo vão e tolo relutar. Em qualquer tempo, sem anúncio o mecanismo
dispara, o aviso ressoa e o vagão deixa a plataforma sem volta.
Verdade é que a história de nosso pai contradizia a sagrada lei do sem-
retorno. Em poucas palavras, a própria e fria morte. Foi um que
inopinadamente voltou sem ter ido talvez. Seguiu só depois e de acordo com
a agenda pessoal. Quanto mais se explicava, mais o diretor se embaraçava e
aturdia. Nada do que dizia era lógico. Onde já se viu alguém morrer em lugar
de outro... Se a morte é, junto com o nascimento, o único evento que não
aceita permuta?
Findar na vez alheia, nunca se soube. Cada um só sucumbe em seu
minuto e reta final. Para piorar, com o transpasse verdadeiro, sobrevindo logo
adiante, concluído o transe, tivemos que passar por tudo de novo, além do
vexame da farsa. Muitos vizinhos recusaram o convite do segundo velório.
Temiam mais um embuste, o primeiro sequer foi levado a cabo. Quem
garantia que a história não se repetiria, quem atestava que aquele, agora, era o
autêntico nome do morto e não um anônimo qualquer? Essa incerteza
poderia, aliás, contaminar todos os falecimentos. A um ponto tal que mesmo
quem morresse poderia ter dúvidas sobre o próprio triste fim. O defunto mais
acabado levantaria no meio do cortejo fúnebre e perguntaria, sem cerimônia:
Fui eu mesmo quem partiu ou foi outro? Ninguém poderia dar a acertada
resposta.
Nem a promessa feita pelo diretor de ressarcir a família de tanto dano,
inclusive moral, trouxe lenimento. O mal estava feito. Doravante ninguém
tinha segurança de mais nada, bolinhas de cinamomo atiradas ao acaso.
Assim se deu o incontornável incidente, naquele estado. Falecer, até então a
única confiança depositada na vida, se transmutou em matéria de dúvida e
hesitação. Ninguém mais sabia ao certo.
Muitos veem nisso um bem; outros, um tremendo mal. Alguns ainda
oscilam entre o benefício e o mal-estar, diante da inédita indecisão: morrer
sem ter certeza. Tudo por causa do retorno de quem não foi logo. Bastou uma
vez, e pronto. No intervalo da curtíssima melhoria, o velho ainda se riu da
parentalha reunida para selar seu destino, os broncos: Esperem sentados, não
tenho pressa!, berrou. Só vou em horário por mim mesmo combinado.
Quando bem entender.

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Se a coisa segue tal rumo, a diminuição da mortalidade será drástica
para a espécie. Cada um retardará ao bel-prazer sua morte, fazendo-se passar
por outro e adiando o confronto fatal. Com risco de superpopulação, como,
aliás, já se verifica. Haverá sempre substituto ao alcance da mão para o
último ato, um dublê amador ou profissional, arriscando a tarefa. A um ponto
tal que não se saberá quem sucumbiu, quem permaneceu, quem se fortaleceu
num truque de duplicação. Florescerá grande mercado de óbitos, no atacado e
no varejo. À vista ou a crédito, conforme o desejo do freguês. Uma
desconcertante barafunda.
Cabe salientar que é preciso alguém realmente morrer para que o falso
perecimento ocorra. Em termos, em termos, replicarão os céticos. Segundo
eles, a partir de determinado momento haverá tantos términos dúbios que o
fenômeno de expirar será deturpado de vez. Surgirão duplos reincidentes,
todos se fingindo de mortos, fantasmas. Até que seja impossível descobrir de
quem realmente foi o turno, ou mesmo se. Proliferarão os oportunistas, uns
mortos-vivos, ignorando o revezamento — afinal, alguém tem mesmo que ir
embora, por necessidade de circulação e trânsito. Trombeteiam os
apocalípticos, em algazarra, que o fim finalmente começou. Ou acabou.
(17.V.10)

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Nada como um dia

A TAL. PASSAVA O ANO viajando para conferências no país e no mundo,


navegadora de muitos mares. De repente, sua carreira de pesquisadora-
palestrante deu imenso salto. Os cursos na universidade se tornaram a pausa
entre uma e outra excursão, porque fizera grande descoberta em matéria de
doenças tropicais. Entregava-se aos convites menos por desejo, embora
amasse o contato com o público, do que por uma necessidade de, digamos,
preencher. Chegava, porém, aos quarenta com certo cansaço. Viajar é bom
quando se escolhe o roteiro livremente, rotina é sempre rotina, até mesmo a
das múltiplas destinações em azáfama.
Pensava em diminuir as zonas de turbulência e decidir apenas pelo
prazer, fosse nas metrópoles ou nas cidades menores. Os critérios seriam
desbravar o desconhecido ou então ter algo de realmente novo a dizer,
dependendo da gestação de ideias, sazonal que era. Desta vez, não estava
certa da escolha, vagamente fora dito que se tratava de um campus avançado
no interior do Pará. Dois fatores a precipitaram: primeiro, os lugares mais
carentes chamavam sua atenção, não por caridade, mas por singela abertura
de espírito; remuneração nesse caso não cobrava. Depois, ainda não tinha ido
ao estado, sentindo curiosidade. Seria aula prática de geografia. A Manaus já
fora mais de uma vez, mas não ao Grão-Pará. Então quis, mas esqueceu de
perguntar como se ia, a distância em relação à capital, se existia avião ou
sobre a qualidade da estrada. Bem, esta foi a parte menos pior, como dizem,
adoram assaltar a gramática e atrofiar a lógica. Pois mal, ficava a umas quatro
horas de Belém, sendo preciso atravessar a extensão de carro. Sentiu
desmotivação. Entretanto não cancelou, jamais recuava, decisão posta, e fim.
Tudo muito cansativo, menos as pessoas, gentis, a receberam com
flores, quase cânticos. Essa alegria que só o interior do interior consegue ter,
como ali na antiga Bragança paraense. O hotel, modesto, se conduzia limpo o
bastante. Faço recorte, não dá para contar tudo, isto não é romance, mas caso-
verdade. Passo por cima de quantos roteiros, para chegar ali, no ó da coisa.
Qual? Tal. Calma. Afobação em relato é doce preparado às pressas,
requeimado. Desculpem a metáfora culinária em aula de biologia... Escutem

19
só.
Durante toda a semana, deu minicursos para pós-graduandos e técnicos
da área. Nos intervalos e nas refeições conversava com uns e outros. Quando
estava menos cansada, tomava alguns drinques com alguns colegas no bar da
pracinha. No último dia, saiu do auditório acompanhada por um chefe de
laboratório, preparando-se para retornar ao hotel. Senão quando um raio caiu
do ainda claro azul. Um moço moreno — ali, segundo consta, todo mundo é
meio índio — surgido do nada, Professora!, gritou. Reconheceu de imediato
os traços, mas não o nome. Uma de suas dificuldades era relacionar
fisionomia e desígnio, digo desenho, digo designação, mas nada a ver com
destino... Ele queria dicas sobre currículo. Como encaminhar a formação,
bibliografia, uma boa instituição do Sul, se possível. Ela pouco ouviu das
cândidas palavras, nem carecia, embarcou na fala com afeto, misturando os
assuntos e trocando as bolas. Pronto lhe passou o cartão do hotel. Disse que
ligasse mais tarde, por volta das nove e meia, dez, então conversariam. Num
lapso de segundos.
Pediu ao colega que a levasse direto ao restaurante, queria se preparar
para o melhor. Reforçaria de leve o estômago e regaria as veias a vinho, se
houvesse. Perfeito plano naquela última noite, o dia seguinte seria o do
retorno. Estava em cidade de uns cem mil habitantes, era péssima em cálculo
populacional, sempre fraca na matéria, como na carne, ai dela. Cheia de uma
graça que ainda não sabia de rugas, uma garça pousada às margens daquele
antigo município beira-rio, mas não longe do mar. Águas seguindo o
irreversível curso.
Louca, louca, não era, tinha, porém, repentes e vontades. Conhecia
prazeres com alguns parceiros, mas só um deveras marcou, depois do
casamento fracassado. Tempos difíceis para todos, eles e elas. Ela na
conversa deles não ia, boba não era — eles já não encontravam nela a
submissão de antes. Era mulher que ninguém dobrava, não assim, fácil. Se
não devolvia a desfeita no ato, no dia seguinte, bem, podiam esperar. Nunca
tergiversava. Não era feminista de cordel, mas mulher faceira e feiticeira.
Circe quando aprazia, ou Medeia, a rodada saia. Até Medusa por vezes
travestia, a cabeça cheia de serpentes. Catecismo não rezava, laica e muito
lida.
Só um mesmo se distinguiu, por respeito, aprendizado e sedução.
Viveram oito anos juntos, sem segundo matrimônio; separaram, mas
continuaram a relação. Entendam, cada um em sua casa, durante mais quatro

20
anos. Aí ele morreu, infecção grave, inelutável. Enfermidade tropical? É
possível, em casa de ferreiro, já sabem. Sofreu doída, quase doida de verdade.
Poderia abreviar o decurso nas coisas do amor. Porém, a barca prosseguia,
com ou sem comandante, substantivo comum de dois gêneros. Uma mulher
podia lhe dizer alguma coisa, e uma vez provou, aprovou, repetiu, deliciada.
Mas não tinha inteira vocação, seu chamado era outro.
Regalou-se com algum álcool e o melhor peixe-filhote em moqueca
amazônica, enquanto aguardava o soar da boa hora. Bem antes das dez, meio
eufórica, despachou o agora já amigo e voltou para o hotel. Escovou dentes,
gargarejou, refez os lábios, essa fina louça sem o quê nada — um dos traços
feminis. Aí tocou o telefone, trinta e nove graus de febre, diga, ah. Pediu que
viesse ao hotel, conversariam no saguão sobre todas as coisas. Assim dito,
feito. A orientação geral durou meia hora, pouco mais, menos. Depois veio o
que não entra no relatório oficial, e por isso conto.
Sonegou o porteiro da noite, problema nenhum. Aí veio o boto maroto,
ainda mais belo do que parecera antes, flecha em riste, sobre tons marrons.
Foi uma deslumbrada noite varada adentro, amalgamados. Conhecia
perfeitamente os dois lados da equação. Serva, rainha e, no meio, o sinal de
igualdade. O carro para a volta só sairia depois do meio-dia, lá pelas duas.
Tinha a noite folgada, ao belo prazer de ambos, fada e felino.
Bebeu, foi bebida, sugada até o oh da quase manhã. Adormeceu sabe-se
lá quando. Desnasceu duas vezes, água viva borbulhando na fonte. Nascente
primária, como se jamais. Uma régia vitória na orla da Amazônia, bem ali.
Despertou muito amada, porém seu tanto mal. Uma fina pontada, que nada
diz de imediato. Ele sumira com um par de brincos e uma roupa íntima,
impregnada de perfume, arisco. Mas não tocou em documentos, dinheiro ou
cheques, outras roupas. Apenas o pequeno cachê, uma bobaginha. Mesmo
assim, sobredoía.
Eram nove da manhã, andou ao léu. Em cada rosto viril, a ave em fuga.
Chorava e chorava, como, tão esperta, pudera ser lograda? À polícia só
recorreu para garantir o registro. Nem do nome lembrava direito, do cujo.
Sensação de que aquilo já tinha lhe ocorrido certa feita. Há casos assim que
parecem repetição, muito embora. Voltou para o hotel, aguardando a carona
para o aeroporto. Perguntaria talvez ao colega, caso tivesse coragem — sofria
sobretudo pelos brincos, prenda do outro. Mas aí, quando desesperava
totalmente, encontrou o bilhete sobre a mesinha, sem assinatura: Te amo,
perdão. Entendeu tudo, ou quase, um ingênuo quem sabe. Sorriu seu leve

21
riso. No fundo nada custara a ninguém, o episódio valia pelo que não pesava.
Mero suvenir.
Riu, de novo chorou, mais choraria, contente com o desenlace. Afinal
não passavam de uns brincos, do outro, mil vezes encarnado neste de agora,
rente. Sentiu-se de novo querida, em turbilhão, pura festa. Um dia sucedeu
esta estória, sem final infeliz.
(16.V.11)

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Táxi (Pequena fábula libertina)

“How do you know I’m mad?” said Alice.


“You must be,” said the Cat, “or you wouldn’t have come here.”
Lewis Carroll, Alice’s Adventures in Wonderland

Vaca profana, põe teus cornos


Pra fora e acima da manada.
Caetano Veloso, “Vaca profana”, na voz de Gal Costa

... SOU HOMEM BEM SIMPLES, não deixo rastro nos caminhos que percorro, um
indivíduo público e completamente transparente, muitos que aqui entram nem
reparam em minha figura, só veem o outro lado, sobretudo os ricos, mais um
ano seguindo caminho, 2006 se foi sem que me desse conta, e já estamos em
junho de 2007, depois voarão outros meses, até chegar dezembro e eu
circular novamente com bandeira 2 em qualquer horário, pra garantir o 13º,
são três horas da manhã, já estou próximo de recolher, noite fraca, o
suficiente pra cobrir o combustível, poderia rodar mais um pouco, mas
desconfio que esse ritmo vai continuar ou até piorar ...
... prefiro trabalhar à noite, especialmente de madrugada, mas está
ficando cada vez mais perigoso, com tantos assaltos e assassinatos, os ss
nossos de cada dia, na Zona Norte é ainda mais arriscado, mesmo sendo
longe de onde moro a Zona Sul é mais confiável e o serviço farto, alguns
colegas que trabalham do Centro pra lá se enrolam quando vêm pro lado de
cá do túnel, confundem nomes de ruas, se atrapalham com a circulação do
tráfego, viram matutos no litoral, eu não, desde que comecei com o veículo já
ia em direção a Copacabana e arredores, adoro Copa apesar de nunca ter
morado lá — terra de liberdades e loucuras, um resumo do Rio, onde posso
dar minhas escapadas, e ninguém jamais vai saber, principalmente minha
esposa, que tanto amo, e com quem vivo mais dois filhos em Del Castilho.
Copacabana é mesmo minha praia, nunca me engana ...
... as mulheres dão muito em cima de mim, com elas já tive ótimos
momentos, mas também curto a safadeza masculina, mais crua do que a
feminina, o fato é que gosto do que é bom, o que me acende não consigo
definir, beleza acaba sendo secundária, exercito todas as modalidades, até
com casais já fui, casais homem-homem, homem-mulher, mulher-mulher,

23
gosto que me tratem como rei, serei majestade e também submisso, atuo
conforme o cliente, mas não cobro, sexo pra mim é de graça e de acordo com
meu prazer, muito me protejo, com camisinhas no porta-luvas e sentidos
alertas, o pisca-pisca pra qualquer imprevisto ...
... o tocador de CD quebrou, sou obrigado a ouvir as FMS, o problema não
é tocarem músicas ruins, algumas são até boas, mas serem sempre as
mesmas, com poucas variações, tem uma antiga que volta e meia escuto, bem
chatinha na vozinha de uma cantora angelical, Vou de táxi, cê sabe,/ tava
morrendo de saudade, acho que é versão, basta anotar a programação de hoje,
em qualquer uma das rádios, e comparar daqui a um ano, igualzinha, no
máximo uma canção recém-lançada, meu gosto é variado, adoro coisas
antigas como Lupicínio, uma fera, lobo nada bobo, Que será da luz difusa do
abajur lilás/ se nunca mais vier a iluminar/ outras noites iguais?, ou esta joia
da traição, Ela disse-me assim/ tenha pena de mim/ vá embora/ vais me
prejudicar/ ele pode chegar/ está na hora..., já passei por isso algumas vezes,
querer ficar um pouco mais quando o outro está pra chegar, parece que a
proibição acende as últimas luzes, atiçando a vontade de continuar..., ouço
muita coisa, bossa-nova, rock, pop, até música clássica tipo MEC-FM, mas sou
louco mesmo pelos tropicalistas, desde criança, principalmente Caetano,
minha música preferida é Superbacana, Toda essa gente se engana/ ou então
finge que não vê/ que eu nasci pra ser o superbacana, muitas vezes eu mesmo
canto, em vez de ouvir a bendita programação, detesto o gosto mediano,
prefiro os extremos, ou muito brega ou muito sofisticado, são várias cidades
numa cidade, conheço quase todas desta onde moro, e o rádio é o verdadeiro
meio de transporte pro taxista, em minutos saio da Usina e vou pra Nova
York, passando por Bogotá e Santiago do Chile, o mundo é nosso via
reportagens radiofônicas, nunca vamos lá de verdade, o soldo é pequeno, o
mais longe que cheguei foi Buenos Aires, sozinho, em busca de outra
atmosfera ...
... noite chata, tenho que liberar esses pensamentos pra preencher o
vazio, finalmente mais um, talvez o último da noite, vai pro Leme, ótimo, de
lá só pego outro se for na direção de casa, depois zarpo, que bom, é caladão,
não estou pra conversa, ando cansado de tanto trabalhar, hoje estou me
sentindo um fiasco, nem pra transa serviria, só se fosse pessoa sensacional,
como já aconteceu algumas vezes, altas horas, é um daqueles dias ocos do
calendário, podem ser apagados sem fazer falta, vou ligar o rádio baixinho, se
reclamar, desligo, cada cliente tem sua mania, procuro ser respeitoso, sem

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servidão porém, senhor de meus instintos, muito raciocino, de quando em
quando derrapo, a pista molhada, pouca visibilidade, resolvo voltar pra casa,
às vezes na hora de dormir ficam ressoando na cabeça as músicas que ouvi na
noitada, misturadas com as vozes dos passageiros, uma zoeira ...
... enquanto dirijo e devaneio, absorvo a respiração e o pensamento de
meus passageiros, indivíduos de passagem entre duas paradas, com o
dinheiro da corrida no bolso e algumas fantasias na bagagem, como eu, como
todos, e assim a vida em descompasso, se falam, ouço, comento um pouco, e
me calo, mero condutor de almas, preso no Java das corridas, quer cor mais
estranha do que esse amarelão, prefiro o azul-escuro dos táxis de Niterói,
preciso mudar de lado da baía, a mais linda vista, o taxímetro contabiliza o
tempo, quase doze horas por dia, sem descanso a não ser o do lanche e às
vezes o da missa profana, não sou muito católico, o governo quer regular
nossos horários ...
... pronto, acho até que gostou, percebo pelo retrovisor, tenho faro,
muito boa pinta o sujeito, mas fechado, deve estar com algum problema de
relacionamento, entendo bem esses tais, raramente erro, poderia abrir
consultório de psicólogo, adoram falar dos próprios dramas, quando é assim
fico em silêncio, só dou opinião se me pedem, uma forma de se aliviarem,
não me importo, só quando exageram e destrambelham, querem alugar meu
ouvido, aí dou um corte, o puto não para de me olhar, acho que vou
corresponder pra que ele ataque, quem sabe salvo essa noite fraquíssima...
O senhor é taxista faz muito tempo?
Uns vinte anos.
Gosta? Nunca pensou em fazer outra coisa?
Gosto. Mas, como é cada vez mais comum nesta profissão, tenho nível
superior, me formei em administração. A atividade está saturada, verdade que
o curso de segunda categoria contribuiu pro fracasso.
Um motorista formado em administração não se encontra todo dia! Pode
sempre surgir uma oportunidade...
Com a idade, acho difícil. O meio também não ajuda.
De onde o senhor é?
Nasci no interior de Alagoas, vim morar com a família em Vila Isabel
quando era adolescente, e atualmente vivo em Del Castilho, conhece?
Sim, conheço bem o Rio, mapeei a cidade quando era funcionário da
Light. Hoje só trabalho no escritório, em cargo de chefia, mas já passei em

25
quase todos os bairros. Como o senhor virou motorista de táxi? Posso chamar
o senhor de você?
Claro, Raimundo meu nome —, e o seu?
Sílvio, muito prazer.
O prazer é todo meu. Bem, Sílvio, vendi a casinha que herdei de meus
pais. Comprei um carro, que procuro renovar a cada dois anos. Gosto das
coisas novas, notícias, novidades, menos das novelas. O resto do dinheiro
investi na atual moradia.
Mas fez faculdade antes disso.
Quando o pai era vivo me ajudava bastante. Funcionário público,
homem genial pro meio onde nasceu. Incentivava, comprava livros técnicos,
revistas.
Sente saudades de sua terra?
Sim, ainda mais com esse frio de junho. Lembro bem do São João em
Penedo. Muita fogueira, quentão, milho verde, ah, milho verde. Balões
cortando o céu, estrelas aos montes, licor de jenipapo. Olha pro céu, meu
amor!
Hum, fiquei com vontade de experimentar essas delícias todas... Pensa
em voltar?
Sim, muito. Algum dia volto pra lá. Dizem que nordestino vem morar no
Rio somente pra cantar isso, e nunca volta. Talvez um dia eu volte, quando
der. Gosto de morar aqui, mas também me sinto estrangeiro. Ainda mais
trabalhando em atividade desvalorizada.
Mas você, sem dúvida, é um sujeito de valor. Essa profissão é também
um pouco aventureira...
Depende do que você chama de “aventureira”...
Ah, todo tipo de aventura: surpresas, alegrias, mas também riscos.
Sim, um pouco de tudo nesses anos todos: felicidade, frustração, perigo.
E algumas aventuras sexuais também, suponho...
Sinceramente, sim, mas não muitas.
Você faz um tipo, digamos, atraente, bonito mesmo. Deve chamar a
atenção de mulheres... e de homens também.
Sim, de ambos, mas nem todo mundo me atrai, na verdade bem pouca
gente.
Se atrair você aceita, independente do sexo...
Você é bem direto, né?
Estou errado?

26
Nesse caso, não.
Que tal continuar a conversa tomando um drinque em meu apartamento?
Queria conhecer você melhor.
Rápido assim?, rá!
... ah, se minha Lia descobre, talvez desconfie, taxista todo mundo sabe
que corre riscos, faz parte da profissão, mas procuro ser sexualmente
discreto, vontade mesmo que tenho é de escrever um romance contando
minhas aventuras, desventuras, muito além da imaginação..., porventura
compartilhar com outras pessoas as conversas, trepadas e até os falsos
amores, se eles existem, amores falsos, ou é amor ou não é, mas não sou
escritor, talento nenhum ...
... meu signo mesmo é Leão, felino, afio as garras e dou o pulo do gato,
agosto o mais fogoso dos meses, de meu nascimento, por sinal muito a gosto,
transar é ótimo mas careço de afeto, Lia me dá muito carinho, só que nossa
cama faz tempos enfraqueceu, ela não liga, cuida dos filhos e de mim, parece
feliz, pode ser que tenha outro, não me importo, se for discreta, não gostaria
de passar por tolo, Del Castilho não é Zona Sul, por mal, por bem, o Rio de
Janeiro não é só litoral, temos agora uma relação fraterna, cheia de açúcar,
sal, afeto mas também fel ...
... os males dessa cidade de São Sebastião são: asfalto esburacado,
calçadas idem, placas que mal sinalizam o risco do acidente, não é fácil essa
vida de direção, e os colegas motoristas, principalmente os de ônibus, correm
demais, outro dia um gringo chamou de doentes, frequentemente ultrapassam
o sinal vermelho : : entram pela contramão \\ sobem na calçada —
estacionam em lugar proibido X atropelam pedestres *** batem noutro
veículo !!! e voltam depois pra casa como se nada; no dia seguinte, a correria
recomeça, competição de Fórmula 1 em plena zona urbana, Interlagos deve
ser aqui, ponto final.
... mais uma noite, mais um lance-surpresa, fazia tempos não acontecia,
como são sem-vergonhas esses caras e essas gatas!, a de hoje depois de muita
conversa aceitou tomar um chope num bar perto do prédio dela, em seguida
criou coragem e me convidou pra subir, vive com um sujeito, só que ele
estava oficialmente viajando, a gente já tinha começado o engate, aliás
estupendo, cenário da praia do Arpoador, o mundo aos pés, então o barulho
da chave abrindo a porta do apartamento, o outro que voltava, disse que iria
pra São Paulo, falou pelo celular como se estivesse deixando o Rio e veio pra

27
descobrir se a namorada, quando viu a gente entrando aguardou uns minutos
e depois veio atrás, escândalo!, entrou já dando tapa em luta livre, gritei pra
que não agredisse a guria, não era fraquinha, malhada em academia, mas ele
parecia lutador de jiu-jitsu, pus a roupa e saí discretamente, não tinha nada a
ver nem a dever, pelo barulho a coisa tá feia lá em cima, já derrubaram até
aparelho de som pela janela, acho que é fim de história, a fidelidade não
passa de fantasia, nenhuma novidade, a gente trai até em sonhos, o ser
humano, como a maioria dos bichos, é versátil, pode gostar sinceramente de
mais de um ou de uma — chegou a polícia, vou me mandar, nada ganho, nem
a corrida, eles que se entendam na delegacia, boa sorte aos lindinhos!, só
mais uma volta, pra fechar o ganho, um rolezinho, pelo menos sou meu
patrão, faz muitos anos adquiri a autonomia ...
... não sou colecionador de amantes, apenas quero conhecer na carne,
deitei com alguns pais de família, gente de minha laia, as esposas nem
adivinham, cada um com manias e medos, não existe um genérico masculino,
só uma fina mistura de tendências, sacanagens, tons, inseguranças, paixões,
liberdades, vocações, audácias, meu modo de ser homem é bem diferente de
Joildo, amigão camarada, uma vida inteira de cumplicidades mas também de
zonas de silêncio ...
... pensar não tem porquê nem pra quem, a não ser por qualquer motivo
e pra mim mesmo, digo tudo, até o inimaginável, um fio de pensamento,
luzinha no meio do breu total, sou viajante noturno, como as corujas e os
morcegos, as mariposas, alguns sapos, ratos, até tatus, o para-brisa me
protege, o povo inventa cada palavra, para-brisa, quem será que teve a ideia
de chamar assim, para-brisa, me isola do mundo e ao mesmo tempo me
expõe, por isso alguns usam insulfilm, não gosto, acho luto, o problema do
pensamento é não ter sentido único, quando começa, segue em qualquer
direção, até na contramão, veículo automático, o piloto sumiu ...
... anteontem fui ao Parque Lage com um passageiro e acabei
estacionando, enquanto aguardava pra levar de volta pro escritório, já estava
escurecendo, resolvi dar um giro no bosque em torno do palacete, vi uma
árvore incrível, caída numa tempestade e transformada em escultura natural,
por onde formigas, segui uma trilha em direção à montanha, de repente
levanta voo a poucos passos a borboleta mais azul, iluminando as sombras do
lusco-fusco, deslizava tranquila no meio das folhagens, até desaparecer pra
sempre por entre os galhos, deixando um rastro de alegria ...
... atravessar toda hora esses vales e túneis, chegar ao outro lado e voar

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sobre viadutos, cruzando praças, pontes, monumentos, mirando ora a lagoa,
ora a montanha, a floresta, o mar, no meio de automóveis, buzinas, ruas,
avenidas, calçadões, me confundir com a cidade, unindo as duas bandas, sob
sol, chuva, chuva e sol ao mesmo tempo, ou em pleno temporal, eu não sou
daqui, taxista só, pertenço a lugar nenhum, mas tenho amor, ao som do motor
e dos pneus, minha trilha sonora, e o ruído ao redor, penso corrido e passo
batido por essas vias e veias, quase meio século de vida, quem diria ...
... Lia faz meu prato predileto cedo pela manhã depois que chego ou à
tardinha antes de eu partir, mas farejo a existência de outro, está sempre feliz,
o típico casal da vida urbana, moradores da periferia, se ela também me trai
que fique entre quatro paredes, ah, meu amor, como preciso ser infiel pra
gente seguir junto na mais alta sintonia, por isso é que te amo, te amo, mil
vezes te amo, cidade repartida, você é minha verdadeira esposa, a Lia que me
alinha, assim te perdoo e com toda paixão a gente se atrai eternamente, meu
Rio.
(25.VI.09)

29
Altamente confidencial

Para Ricardo Oiticica, em memória

De: gabrielarcanjo@correios.gov.br
Para: liviaflores@faxmex.com
Em: 14 de setembro de 2012 08:20
Assunto: O ofício de carteiro

Prezada Sra. Lívia Flores,

Meu nome é Gabriel, sou carteiro e não entendo bem por que a agência de pesquisa me pediu para encaminhar
este depoimento a seu endereço eletrônico. Me disseram para ser bastante claro e sincero, é para um estudo de ponta em
recursos humanos, mas que tenho a ver com isso?! Sou homem rude, sem grande instrução, apenas o segundo grau.
Mas gosto muito de ler, fui influenciado por um professor que me queria bem. A ele também me apeguei e ficamos
grandes amigos. Porém hoje quase não nos vemos mais, moramos em bairros distantes um do outro, eu em Marechal
Hermes, ele na Tijuca.
Leio o que me cai nas mãos, livros, revistas, jornais, panfletos. Tudo menos o conteúdo dos envelopes que
entrego, só o sobrescrito. Por isso sou leitor frustrado. Deveria ter o direito de abrir essas correspondências todas,
decifrar e depois liberar para o julgamento da posteridade, mas não estou autorizado. Sinto vontade de roubar um
malote e dizer que fui assaltado, como acontece com colegas, frequentemente, em alguns locais. Mas o risco de ser
descoberto é alto. Teria que inventar uma bela história, forjar alguma agressão, se possível, arranjar falsas testemunhas,
marcas corporais etc., etc.
Não, trabalhar na ECT não é fácil, ainda mais para alguém curioso como eu e encarregado de tantos segredos.
Gostaria de obter informação sobre quase tudo, sobre todo mundo, antes, agora, depois, conhecer os pequenos detalhes.
Mas estou condenado à simples entrega, ainda que seja no fundo a mais bela das tarefas. Serviço de delivery, como diz
o disk-pizza lá perto de casa.
Não sei se me expresso bem, mas sou responsável pela boa destinação das missivas em domicílio. Vivo de
expedir, faço grandes expedições diárias ao redor dos quarteirões. Sem mim, muitos destinos se perderiam, muitas
vidas deixariam de se conectar, sumindo no poço sem fundo do acaso (a senhora deve saber da existência do Escritório
das Cartas Mortas, aquelas que não encontraram destinatário, não é mesmo?). Por vezes me sinto um pequeno deus,
meu trabalho dura cinco ou seis dias da semana. Preciso descansar pelo menos um, para poder levar adiante a criação
do mundo, via postal, carta comum, registrada, sedex simples ou sedex 10, depende da pressa e da segurança de quem
manda.
Todo anjo é mensageiro, mas nem todo mensageiro é anjo... A verdade é que as pessoas desejam receber mais e
mais notícias, mas nunca notícias más, vai saber. Povinho ansioso, alguns me pedem para abrir logo a mochila, quanto
antes melhor. Aí ficam tristes, só faltam xingar, quando a tal carta não veio, atrasou, desviou, só rastreando para ver e
crer. Por esse motivo digo para registrar, a tarifa é baixa. Agora existem esses avanços tecnológicos, emails, tuites,
blogues e sites, redes sociais, onde postam novidades na internet todo dia, toda hora. Será que minha arte de leva-e-traz
vai acabar?!...
Essa gente vive em meio a máquinas, aparelhos, tantos e tontos dispositivos, nem olham mais ao redor. Perdem
a paisagem, os transeuntes, o trânsito, vão acabar atropelados. Não me embriago com a mídia digital, mas também me
comunico a minha maneira. Por exemplo, cara a cara ou pelo antigo telefone, celular só para emergência,
correspondência eletrônica raramente.
Por enquanto meu serviço ainda é expresso e incontornável. Trago o mundo na sacola e não vou lá. Não
controlo jamais a procedência. Muito menos a meta, a causa, o porquê de tantas palavras cruzadas, os hinos de amor ou
as ameaças de morte, os papéis passados, alguns fora de prazo. São cantos do planeta inteiro, escritos com letra
dourada, cinzas ou rastro de sangue. O invólucro já mostra muita coisa, mas não tem como adivinhar o que vai dentro,
aparências disfarçam. O meio é a mensagem? Talvez: o meio faz a mensagem. Quanta verdade tristonha ou mentira
risonha traz uma carta. Assim pensando muita gente rasga o correio pessoal para não sofrer mais. Será mesmo que

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todas as cartas de amor são ridículas e deveriam ser destruídas?
Dotados de grande poder, desde a mais longínqua antiguidade, nossa função de portadores é na verdade
limitada. Mirando esses selos e carimbos, temos vontade de trocar tudo, embaralhar os remetentes e destinatários,
confundir as coordenadas. Isso também é proibido. Já pensou se os agentes do globo se unissem e fizessem greve geral,
sabotagem completa? Talvez os negócios e amores viessem todos abaixo. Mas nossa classe é desunida, não passamos
de operários sem a consciência do que está em nossas mãos, circulando feito anelzinho. Tantos pacotes maravilhosos,
outros simplesinhos, alguns volumosos, anunciando a preciosa encomenda. Porém a maior parte dos envios é só papel,
letra morta, papelão para quem desconhece o enredo principal. Histórias tenebrosas ou felizes, contadas por esses
anônimos.
De noite, mal chego em casa, pego um volume que retirei na biblioteca do bairro — o livro custa tão caro!
Quero entender o que dizem os escritos, um afã, e quando vejo já devorei as páginas, num relance. Depois passo dias
regurgitando. Primeiro é preciso pastar para depois ruminar, desculpe a comparação, vem de minhas origens rurais, no
Estado do Rio. Me pergunto se os romances e contos que degusto não seriam também uma correspondência, os
escritores se comunicando uns com os outros à distância no tempo, no espaço.
Dentre as histórias que coleciono, algumas são espantosas. Uma vez foi recado musical. Começou a tocar antes
da hora, saí pelas ruas dançando, entre cristais de chuva. Outra foi embrulho com mecanismo de tique-taque, soando
cada vez mais forte. Achando que fosse bomba, corri para o posto policial. Lá convocaram especialistas para investigar
o objeto não identificado. Quando chegaram, destruíram o intruso, um relógio desses de mesa, que começou a
funcionar sozinho. Nesses casos abrem processo para ver se os correios reembolsam o preço da mercadoria. Nem
sempre é possível, muitos usuários não declaram o valor. Eu entendo: como posso, por exemplo, do próprio punho,
estipular quanto vale esta correspondência virtual com a senhora que nem conheço? Se extraviar, o provedor indeniza?
E por qual soma?
Acontece muitas vezes de a pessoa, a quem de direito, não se encontrar mais, me obrigando a marcar com uma
cruz em “mudança de residência”. Ou então o material vem avariado, semiaberto, com número ou logradouro
inexistente. Não logro êxito e assinalo o erro de endereçamento. É preciso atentar a quem, para onde e como se faz a
remessa. Poupa muito esforço inútil, o que foi enviado tem mais chances de chegar. Somos emissários entre povos —
alguém já reconheceu isso? Embora às vezes levemos a guerra, nossa índole é de paz.
Sou retinto, como dizem. Se cruzam comigo à noite, gato negro na penumbra, atravessam a rua, para
supostamente evitar o assalto. Pequenas humilhações, somente quem tem pele escura conhece. Passei no concurso dos
Correios porque tirei ótimas notas em português. Poderia quem sabe obter cargo mais alto, só que prefiro trabalhar na
rua. Prezo a liberdade e o contato humano, apesar ou por causa da sólida solidão. Não é nada fácil, ah, humanidade! Na
área onde atuo sou chamado de Anjo Negro, o emissário dos céus, são Benedito da ECT. Até os cães me respeitam,
quase não ladram quando passo, meus amigos.
Tem gente no bairro que me considera poeta. Verdade que já risquei alguns versos e dei para amigos lerem,
gostaram bastante. Me vejo mais como homem comum, capaz de boa prosa, inspirada no que leio de noite e remastigo
de dia. Em vez de ver televisão, folheio meus livros de cabeceira e sonho.
Tudo o que declarei é estritamente sigiloso e não deve ser compartilhado com mais ninguém. Fica entre o leitor
fracassado que sou e a sábia correspondente que a senhora deve ser, imagino. Detesto confidências, mas a solicitação
para depor me moveu e comoveu bastante. Estou infelizmente condenado a portar a mensagem alheia. Quase nunca
posso enviar as minhas próprias, falta tempo. Esse convite compensou tudo. Registro aqui eternamente a gratidão.
O resto a senhora já conhece pela ficha cadastral: peso, altura, estado civil, foto digital. Nada a acrescentar, só
se for de viva voz.

Atenciosamente,
Gabriel Arcanjo

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Terra à vista

Inspirado no filme Gravidade


e no projeto Mars One para colonizar Marte.

TENTAREI FAZER O RELATÓRIO mais isento possível — não vai ser fácil, isenção e
equilíbrio são as qualidades menos compartilhadas pelo ser dito humano.
“Dito” porque nossa humanidade há muito se desfigurou e assumiu formas
antes inimagináveis, perdendo toda a essência, se é que já teve alguma. Quem
um dia chegar a ler estas linhas não queira nelas captar um tom de reprovação
moral, uma nostalgia do nada. Não acredito em essências, mas em estados, e
o de nosso antigo planeta se encontra para lá de deplorável. Argumentarão
que sempre foi assim, desde que o Homo sapiens pôs os pés na Terra, todas
as outras espécies se viram ameaçadas. Trata-se de um predador universal, de
forma direta (matando e comendo) ou indireta (destruindo vidas por tabela),
coisa jamais vista.
Mas não vou me perder em interpretações metafísicas. Aos fatos. Pois
bem, estamos agora às vésperas do ano 2150, ao contrário do que pregavam
os apocalípticos conseguimos chegar até aqui, mas nada garante que
prosseguiremos, juntos ou separadamente. Sou o derradeiro sobrevivente
deste módulo enviado para cá em 2080 e pertenço à segunda geração de
filhos de migrantes. Formávamos até recentemente a mais importante das
quinze colônias implantadas em solo marciano, numa colaboração
internacional. “Internacional” é modo ultrapassado de dizer, vício de
linguagem que herdei dos bisavós, como consignado nos livros de História.
Segundo consta nos atuais informes, não há mais nações, apenas
conglomerados que tentam administrar os recursos finais do planeta. Escrevo
essas coisas para o caso de, eventualmente, um navegante intergalático um
dia se deparar com as ruínas do que fomos. Perdemos toda a identidade
restante, o canibalismo grassa faz décadas entre os descendentes, numa
guerra sem fim.
Retomo o fio, não posso me desgarrar no vácuo sideral, já estou imerso
na quase ausência de luz há algum tempo, contando com uma única
megabateria para o computador e para lâmpadas agonizantes, além de servir

32
para alimentar o sistema central de homeostase. Lá na Terra, há mais de um
século inventamos a vida artificial. Fomos capazes, quer dizer, eles foram,
meus ancestrais, de sintetizar seres unicelulares inicialmente. Dez anos
depois surgiram os primeiros multicelulares de laboratório, eram anfíbios,
porém viviam melhor em meio aquoso do que no seco. Em seguida, durante
três décadas, os cientistas reconstituíram os grandes estágios da vida,
começando pelas amebas, passando por diversos invertebrados, depois
vertebrados, répteis, mamíferos, tudo em miniatura relativa, imitando de
forma aproximada os fósseis que restaram dos cataclismos milenares.
Um belo dia, miniplantas e minianimais passaram a coexistir com as
espécies preexistentes, num entrecruzamento alentador. O dilema da nutrição
parecia resolvido, a capacidade de produção e de reprodução da vida se
mostrava infinita, por assim dizer a perder de vista. Todavia, ah, todavia, uma
das experiências sintetizadoras engendrou uma bactéria incontrolável, que
destruiu não só todas as formas e gêneros de laboratório, mas também dois
décimos da humanidade. A epidemia foi considerada a nova peste negra,
desde o final da Idade Média, nada igual.
Quando enfim eliminaram a invasora, precisaram recomeçar as
pesquisas do zero, a única vantagem foi a redução populacional. Entretanto,
resumidamente, em duas décadas a população mundial não só se refez mas
explodiu em definitivo, destruindo outras espécies e reduzindo drasticamente,
como se diz, o espaço de habitação. Não há mais lugar desocupado no globo,
das savanas às geleiras, dos arquipélagos mais inóspitos aos desertos mais
áridos, tudo foi apropriado, saqueado, extorquido.
Foi aí que se retomou o plano arcaico de colonizar nosso planeta
vermelho, projetos foram tirados da gaveta, surgiram diversas propostas, a
melhor foi escolhida. Por essa altura, nos continentes da velha Terra se
formaram blocos geopolíticos, a exemplo da pioneira União Europeia do
Leste e do Oeste: as Américas se alinharam em dois territórios
administrativos, do Sul e do Norte; a África, em três (Magrebe, Zona
Subsaariana até a altura da linha do Equador e Zona Austral). Já a Rússia e a
China formaram o maior e mais poderoso bloco mundial, separado do resto
da Ásia, que se aglutinou em torno da Índia, do Japão (hoje uma pequena ilha
deserta, depois de uma série de terremotos e contaminações radioativas, quem
escapou foi morar noutro lugar), do Vietnã, das Coreias enfim apaziguadas e
de outros. O Oriente Médio praticamente desapareceu do mapa, depois da
Terceira Guerra Mundial, com bombardeios nucleares (do Irã até Israel, tudo

33
virou terra devastada e contaminada, proibida para trânsito humano, não
sobrou qualquer etnia outrora habitante da região, somente as residentes no
estrangeiro). A Austrália é o único continente que ainda corresponde a uma
nação, por força de isolamento, mas depois da separação definitiva do
Commonwealth, candidata-se permanentemente a se agrupar a uma das
Américas, apesar da distância. O gelo dos polos derreteu e hoje ambos são
considerados zonas francas, dominadas pela máfia global, por assim dizer
terra de ninguém.
(A vida, esse tecido frágil que tentamos reinventar, dia após dia, aqui e
lá, lá e cá. Ser sobrevivente é um modo de testemunhar sob escombros e à
beira do caos. Narro para me nutrir de minha história e da dos outros,
tentando me apossar de meu passado, porventura da História. Em vão.
Sobram buracos, lacunas, falta substância, matéria concreta — vagueiam
fiapos de energia estendidos sobre um imenso buraco negro, que tudo suga.
Há pouco o sol se pôs e só deve retornar em doze horas, medito no breu
parcial, de olhos bem abertos — nada mais melancólico do que o crepúsculo
nestas planícies desoladas, o céu rosa-plúmbeo através da hipervidraça.
Minha mente, a síntese passiva dos mundos: tudo o que não sou se encontra
dentro de mim neste momento liminar. Me tornei arquivo ambulante e de alto
risco, em solidão compacta.
— Haverá planetas irmãos? Desde que foi descoberto, o nosso tem sido
associado à Terra, como se originários do mesmo ventre, porém não gêmeos.
Desconfio desses parentescos forçados, outro modo disfarçado de resolver o
enigma do abandono de Deus; a figura divina é a maior utopia que
inventamos... Será que darei conta da verdade do que fomos até agora, logo
eu que jamais procriei, desconhecendo intimamente a força da reprodução?
Intuo que os segredos da espécie se dissiparão com o derradeiro de seus
representes. Eu.
A verdade do Universo, seus mais íntimos mecanismos, isso então está
condenado ao aniquilamento absoluto. A não ser que haja inteligências
externas para se incumbirem do que minha narrativa, por razões de limitação,
não conseguirá preservar. Maldita finitude! Vão, tudo tonto e vão, névoa,
nada...)
Sou um autêntico marciano: embora de linhagem terráquea, conheço o
lugar de origem apenas por imagens de vídeo e fotos digitais de altíssima
resolução, quase reais de tão vívidas, espectrais. Para um desterrado, o pior
exílio é jamais ter pisado no solo originário. Ignoro o caso de algum de nós

34
que tenha feito a viagem em sentido contrário, aqui somente se desembarca
para sempre e nunca mais. É claro que aprendi a amar essas paragens de
dióxido de carbono, em tom diurno amarelo-castanha, dentro de perpétua
redoma até recentemente provida de todo conforto, agora no entanto. Temos
acesso a todos os saberes provenientes de lá, apesar de utilizarmos muito
pouco. Nunca nos deram o direito a pesquisa própria, somos antes cobaias em
situações extremas. Miro e admiro todas as noites no telescópio a esfera azul,
a longuíssima distância, sem ter noção concreta de como vivem os outros (o
verdadeiro mundo para mim não passa de fantasmagoria).
Subsisto por enquanto num eterno e provisório presente, tentando unir o
tédio do passado a uma futura energia. Meu único dom é a telepatia, por meio
de um microchip instalado em meu cérebro quando nasci, a que ainda recorro
para me comunicar com o invisível rival. Mas ele não responde, nem sei se
continua vivo ou se o inventei para não endoidecer de vez, metade de minha
lucidez se foi. Os familiares me visitam com frequência, dão conselhos e se
esfumam no ar. Onde estão todos? Decerto dormindo profundamente. O
painel geral só registra dois sinais residuais de vida, o meu é um deles.
O fato é que, até onde conseguimos acompanhar deste canto do
Universo, recentemente foi desencadeada uma Quarta Guerra, em razão da
escassez de recursos e da fome generalizada. Os governos dos agrupamentos
geopolíticos referidos acima e denominados de UNOs, perderam o controle
para movimentos anárquicos, que se apossaram das novíssimas máquinas de
guerra. Como sempre, o mais potente triunfará, malgrado todos os outros
povos. Dizem que, junto com o bloco sino-russo, os sul-americanos são os
mais aptos, hoje, ao combate final. Onde antigamente se situavam os Estados
Unidos restam apenas capitais em ruínas; primeiro foi Detroit, depois Los
Angeles, em seguida Nova York, Boston, Chicago, Miami, umas após outras
destruídas, para não dizer deletadas em definitivo. Os vestígios romanos
tiveram mais sorte...
Acompanhamos tudo isso por meio do material enviado regularmente
até o ano passado nas espaçonaves de manutenção, que quase não chegam
mais. Esse é o drama, das quinze colônias marcianas, apenas duas resistem,
numa me encontro sozinho, o derradeiro companheiro sucumbiu há duas
semanas, prefiro não informar como. Sei que há baterias e víveres escondidos
em algum túnel entre o segundo e o terceiro módulo, mas ainda não encontrei
o roteiro. Pode ser que meu único adversário, o do décimo módulo, lá chegue
antes de mim, preciso continuar, não posso continuar — farei tudo para

35
conquistar as reservas, onde quer que estejam, tenho um corpo de vantagem.
Até propus compartilharmos o que resta, não me respondeu, mau sinal.
Se é homem, mulher ou transgênero, as três formas sexuadas em que
majoritariamente nos dividimos, além de inúmeras outras classificações,
tampouco sei. Aguardo que também chegue a tempo a derradeira carga de
provisões, neste instante a caminho e bem próxima do pouso, se não colidir
com algum asteroide, como de outras vezes. Quem obtiver os mantimentos
sobreviverá, por quanto tempo. Este depoimento é uma mensagem na garrafa
para algum errante navegante decifrar em seu próprio idioma. Não há o que
lamentar, aconteça o que acontecer. Mesmo que estejamos rumando ao Nada,
os humanos terão cumprido sua trajetória como qualquer outra forma de vida,
com começo, meio e FIM.
(18.X.13)

36
II. AS PROFANAÇÕES

37
Demo

Aber lieben? Wen hätte dieser Mann geliebt?


Thomas Mann, Doktor Faustus

Se os nossos adversários que admitem a existência de uma natureza não criada por Deus quisessem
refletir sobre estas considerações tão claras e certas, deixariam de proferir tantas blasfêmias como o é
o atribuir ao sumo mal tantos bens, e a Deus tantos males.
Santo Agostinho, A natureza do Bem

Pleased to meet you,


Hope you guess my name.
Mick Jagger e Keith Richards, Sympathy for the Devil

— PERMITAM QUE ME apresente de uma vez por todas. Não sei por que me
acusam de ser a causa de todo o Mal na Terra. Sou apenas a contraface do
Bem. Sua cara-metade, sem a qual Ele não sobreviveria. A humanidade
precisa de mim, como precisou de um redentor. Trago, portanto, grandes
benefícios, é o que desejo expor neste discurso improvisado. Como todo o
mundo, careço de reconhecimento.
Não por acaso, muitos fizeram comigo um pacto, e suas vidas
melhoraram em seguida. Há grande mistificação acerca de minha figura. Por
isso me consideram o homem dos avessos, a forma acabada do logro. Nego
tudo. Sou, na verdade, muito positivo, a minha maneira.
Dizem também que sou a treva e a mentira; o Obscuro é um de meus
cognomes. Se prefiro os becos ermos, é porque são sujos, tais os depósitos de
lixo, os esgotos a céu aberto, os abatedouros imundos. Tudo faz parte do
desconcerto da Criação. Não adianta me banirem, volto sempre pela porta dos
fundos, assediando crias e afeições. Por isso também me nomeiam o Incriado.
Amo adolescentes inconformados, jovens erradias e até mesmo anciãos
extraviados, que regridem à puberdade. Prefiro presas dóceis: às favas com as
coisas difíceis. Por que procurar o couro resistente, se a carne macia sabe
melhor às delícias dos vícios?
Porque sou radicalmente mau, admito, por pura vocação, espécie de réu
confesso. Só que meu suposto Mal, como afirmei há pouco, complementa
harmoniosamente o Bem, sendo até superior. Desde o pecado original,
quando me disfarcei em serpente, tenho tirado o homem e a mulher do tédio,
a visão contemplativa do vazio. Sou também dadivoso. Mas, em vez de dar a

38
vida, dou a morte, o aniquilamento de que tanto carecem, para enfim
repousar. Venho disseminar a paz dos sepulcros, o gelo eterno, as desérticas
solidões. Querem mais nobre missão?
Não acreditem no reino subjacente do Inferno, pura ficção. O real
tormento está na superfície do globo terrestre, nos flagelos que aqui espalho,
enlouquecendo famílias, grupamentos e multidões. Querer o frio quando faz
calor e o calor depois que se obteve o frio, eis o verdadeiro inferno, a que
singelamente chamam de desejo.
Tudo o que pulsa vive sob meu império arrasador. Tenho inúmeros
espiões e agentes, espalhados nos quatro cantos do opaco. Somos, como
dizem as malditas Escrituras, que os tolos julgam sagradas, somos legião, as
bestas e as fúrias do mundo atual. Porque amamos a modernidade, antiga ou
recente, e suas máquinas de infinitas potências, seus engenhos digitais, sua
alucinada indústria eletrônica, faz quantas décadas. Só detesto as tecnologias
quando são usadas a favor do progresso moral, vade retro!
De outro modo, não, pois a técnica serve a meus propósitos. A
derradeira ferramenta que inventaram foram as pesquisas genéticas. É parte
de meus projetos para o milênio fazer desandar o caldo, produzindo monstros
variados. Por enquanto é segredo, cá entre nós. Sei como sabotar os bons
intentos. Não foi ontem que comecei, perito que sou nas artes da adulteração.
Sob a capa da mais fingida candura, instilo venenos. Adoço o fel e a cicuta,
para que os parvos ingiram o néctar do abatimento. Melancolia já é começo
de sujeição...
Não sou o Anticristo, como muitos pensam, sou o Cristo mesmo em
versão 2.0, fruto da imaginação humana numa caixinha de Pandora. Efetuo o
upgrade divino, deveria ser adorado como o Absoluto, o supremo Ser total.
Meu tempo está por vir; quem sobreviver verá. Aquele que me seguir não se
arrependerá. Prego a universalidade do Mal. Não há ponto do cosmos onde
não compareça, e se houver outras invisíveis dimensões, lá estarei fazendo
furor.
A existência é injusta, e é para reparar essa injustiça que volto
regularmente ao planeta. Sou o cobrador universal, aquele que pede o sangue
das virgens em sacrifício, não para purificar as almas conspurcadas, mas para
fortalecê-las no mau caminho. O único Guia que jamais existiu, o poderoso
Führer, Il Dulce luminoso. Desejo apenas conduzir a todos para o abismo —
do gozo: é nas paragens do sem-fim que o verdadeiro prazer se descortina. A
revelação dos sentidos não estará numa epifania sublime, porém nas

39
trombetas do holocausto hedonista. Tudo um dia acabará em orgia, com
estrepitoso baticum de fundo, tum-e-tum.
Por que se condoer com o martírio alheio, se é tão mais divertido
agravá-lo? Mirem-se no claríssimo exemplo dos judeus ontem, dos palestinos
hoje, dos ameríndios há séculos, entre tantos ofendidos e humilhados.
Insaciavelmente ávido do sacrílego, quero reinar por meio de um horror
simpático.
Tudo em mim se justifica. Os atos mais atrozes podem ser praticados,
muitas vezes sob o disfarce do nome dEle. Dissimular o Mal com as vestes
do supremo Bem, tal é a cilada em que muitos caem, quando se
autoexplodem no meio da multidão inocente. É delicioso ver o sangue verter,
sobretudo o de quem não tem responsabilidade alguma. Sinto frêmitos de
alegria, como criança com o brinquedo de última geração. Acabou de
acontecer, mais uma vez, no Hemisfério Norte...
Exagero por vezes um pouco, mas declaro somente a verdade.
Massacrar é grandioso, torturar antes do homicídio, mais ainda. Refinados
exercícios de alma que os broncos desconhecem. A boa consciência é
efetivamente má, como ensinou o último filósofo, aquele que apregoava o
fim da História, um gênio esse meu arauto. Consciência é fruta peca na
árvore, já podre ao cair no chão. Pois somente existe consciência no Mal,
sempre autociente, o resto é maçante bem-aventurança.
Tenho exército de anjos de pedra a meu favor. Baixei o decreto da
devastação universal. Pretendo desolar a Terra e todos os planetas habitáveis,
tal como já fiz com Marte e muitos outros, nesta e noutras galáxias. O livro
do Apocalipse é conto de fadas perante os descalabros ainda por serem
narrados numa grotesca balbúrdia.
No fundo, no fundo, nunca coincido com meu pretenso nome, espécie de
antibatismo. Por isso desprezo todas as honoráveis designações: o
T’Esconjuro, o Dioniso, o Bode-Preto, o Tição, o Dito, o Malvado, o Mal-
Encarado, o Coisa-Ruim, o Pé-de-Cabra, o Tinhoso, o Não-Sei-Que-Diga, o
Demônio, o Arrenegado, o Rapaz, o Diá, o Hermógenes, o Outro, o Tisnado,
o Mefisto, o Capeta, o Dianho, o Bafafá, o Zarapelho, o Maldito, o Belzebu,
o Nhanguera, o Brucutu!, o Arrenegado, o Quifá, o Malungo, o Barrabás, o
Romãozinho, o Tentador, o Rabudo, o Canhoto, o Malino, o Dragão, o Cão, o
Sapucaio, o Coxo, o O, o Cujo, o Grajaú, o Diacho, o Exu, o Diogo, o
Capiroto, o Beiçudo, o Excomungado, o Gato-Preto, o Jurupari, o Macacão, o
Pé-Cascudo, o Pé de Gancho, o Porco-Sujo, o Diabrete, o Sarnento, o

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Cramulhão, o Sujo, o Temba, o Malaquias, o Satanás etc., etc., etc., etc.
Também me chamam de lúcido Lúcifer, nome nenhum me define. Sou
trezentos e cinquenta, mil, um milhão. O único codinome que aprecio é o
Grande Negador. Tenho espírito naturalmente contraditório. Por hábito,
revogo o que de benéfico outros fazem, de modo bastante afirmativo, como já
declarei.
Semana passada um casal trucidou uma menina, para grande
estardalhaço da mídia, minha comparsa. Foi a madrasta enciumada quem
orientou o pai para o mau passo. Eu estava por sobre os ombros da megera;
não a julguem precipitadamente, fomentei tudo. As mulheres sempre foram
minhas poderosas missionárias. Sonhem com um trucidamento, um dolo, sem
dúvida alguma existe alma feminina incentivando. Os homens são muito
indecisos, envoltos em dúvidas metafísicas. Elas agem bem pouco, mas são
excelentes conselheiras. Suas palavras, clamorosas ou sussurradas, armam as
piores desgraças, as próprias e as alheias. Umas pestes.
Quando a espécie dos homens desaparecer, infelizmente perecerei junto.
Tenho, porém, graças ao Eterno, longos séculos ainda de entretenimento. Não
os deixarei acabar com tudo num apertar de botão. Levarei a dilaceração ao
limite, com óleo fervente e enxofre. Depois despejarei bálsamos e perfumes
para a roda-viva recomeçar. Gozo com isso, não pensem que vou permitir
que tudo vá para o ralo tão facilmente. O amanhã se anuncia radioso de suor,
urina, chamas, torrentes de lágrimas e incêndios. Já contemplaram diversas
vezes o espetáculo, mas até agora não passou de ensaio. Sentimento
devastador mesmo é jamais acabar de padecer, espojando-se na bílis.
Onde houver felicidade, que Eu leve a angústia. Onde houver harmonia,
que Eu leve a discórdia. Onde houver tranquilidade, que Eu leve o
desassossego. Onde houver esperança, que Eu leve o desespero. Os próprios
homens são o instrumento da impiedade. Vim ao mundo para suscitar o ódio,
a contrafação do amor, o rito sanguinário. Certifiquei-me de que Pilatos
lavasse as mãos, induzindo o Cordeiro ao sacrifício. Agora me delicio em ver
pessoas que se adoram passarem à franca hostilidade. Só se pode odiar quem
muito se ama. O ódio é pregnante e escravizador, suas raízes são profundas,
quase inamovíveis, e nelas resido, ridente com meu tridente. Sou o escritor e
o intérprete de um único volume, o Livro Negro, em que me inspiro para a
abjeção do mundo. Tudo provém do imaginário doente, com que incito o
desatino geral. Escrevo bem torto por linhas incertas.
O mundo tem andado relativamente calmo, com menos guerras. Meu

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último megashow foi no início do milênio, gerando um zum-zum-zum
hediondo. Está na hora de preparar algo de novo, bem grandioso. A sorte é
que, no momento, o dirigente da mais poderosa nação é valoroso aliado,
embora os opositores também estejam a meu favor. Na insânia, os antípodas
se encontram. Para onde quer que me dirija, disponho de gente ansiosa por
dar uma mãozinha. As religiões estão a meu serviço, quase sem exceção,
ajudando a espalhar a assinatura que move os redemoinhos do infortúnio.
Sinistros em geral fazem parte de minha artilharia. Trata-se de empresa com
vasta experiência profissional, bastante qualificada no mercado.
A horda crente é docilmente peçonhenta. Meus inúmeros símbolos estão
em seus corpos, disfarçados ornatos. Arquiteto a demolição e semeio o medo;
a colheita será farta. O método é extrair a desordem da mais estrita ordem, o
belo caos que vem do fundo de mansidão. O fruto apodrece desde dentro,
verminoide devorando a polpa do cosmos. A sanha esterilizante é meu fausto,
que espalho pela rosa dos ventos estelares.
Glória é saber que conto com batalhão de desastrados, como o alemão,
que recentemente trucidou a namoradinha inglesa, tirando fotos do
esquartejamento com o celular. Aí reconheço firma e sinete. São inúmeros os
representantes da arte milenar de nulificação: imperadores, xeiques, xás, reis,
presidentes, primeiros-ministros, papas, tiranos, faraós, comandantes, espiões
e déspotas de matizada plumagem.
(Preciso, entretanto, confessar uma fraqueza. Meu verdadeiro desafiador
é a sensível Razão. Apenas ela poderá um dia me abater em definitivo, mas
como sua força é restrita, dificilmente isso acontecerá.)
Nada de humano ou desumano me é estranho. Ao contrário, encarno a
lógica do pior. Falo muitos idiomas, babélico que sou, neste mundo em curso
de desmantelamento. Zerstörung, destrucción, destruction, destruccionne são
termos que retraduzo na linguagem singular da Morte. A língua dos homens é
um paraíso de víboras, nela alojo meu fichário de atrocidades, maledicências,
injúrias, xingamentos, num alvoroço de vozes em dissonância.
A ignorância de limites favorece meus intentos, por meio da droga e da
violência — a violência é a melhor droga, consumida em altas doses, direto
na veia, em toda parte. Meu parque de lazer são os atos irracionais, as
hecatombes, os pesadelos em carne viva e o sangue quente. Numa palavra, a
voragem do Nada, que em tudo e por tudo vige. Nihil sumus. Nadificar é que
é o Verbo.
Daí meu amor pelas ruínas, os escombros chamejantes, a putrefação.

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Vontade tenho de compor um hino ao extermínio. Cânticos Delituosos
poderia ser o título. O sócio empreendedor que calcinou Roma e o outro que
mandou incendiar Paris entendiam do riscado. A meta é chegar a um Estado
absoluto e dissoluto, com ausência de direitos e pleno vigor dos suplícios,
numa permanente exceção.
O único preceito é saber a humana essência malévola. Qualquer pessoa
traz o pior dentro de si, o Mal do Mal. Todavia, o verniz social encobre o
elemento nocivo, que um dia levará todos ao túmulo. O homem é a ovelha
que o próprio lobo-homem abate. A Natureza é fundamentalmente má e a
Civilização é seu mais acabado produto.
Em verdade, em verdade vos digo: o Mal é mais poderoso que o Bem
porque é ilimitado. Praticamente não há barreiras para o distúrbio global, não
havendo recanto que não alcance. Já a bondade é circunstancial, encontra
muitos obstáculos e facilmente se reverte no contrário. O Mal nunca degenera
porque já representa a iniquidade máxima, enquanto o Bem é em si mesmo
corruptível. Com esse argumento, provo a autenticidade do Mal, que jamais
se extravia de seus intentos, enquanto o Bem, ora.
Em suma, o Mal tem a amplidão dos desertos e das geleiras, embora se
exerça até na ponta de um alfinete. Já o Bem se restringe às situações em que
pode ser praticado. Um transcende, o outro confina; um dilacera e dá a ver, o
outro converte e cega para o abismo à frente. O Mal é, portanto, o verdadeiro
Bem, eis minha tese. Por isso o Mal é o princípio verdadeiramente universal.
Como queria demonstrar.
Mereço todas as reverências, por ser o mais onisciente dos seres, o
onipotente Iluminado, embora originário das trevas. Decaí porque quis, não
porque alguém ordenou. Meu objetivo é claríssimo: dominar quantos
Universos existirem, destronando o velho usurpador. Nada deterá a marcha
em direção à meta fatal. Reinarei até o fim dos tempos, que virá com a
abertura do último selo. A História me dará razão. Proclamo o Novo
Evangelho, capítulo nulo, versículo zero.
Amém, para todos vós.
(19.IV.08)

43
É hoje!

Poupem-me, por favor ou por desprezo,


Se não querem poupar-me por amor.
Carlos Drummond de Andrade, “Apelo a meus dessemelhantes em favor da paz”

CANSEI DE VER MENSAGENS promissoras em toda parte: a fortuna ao alcance de


qualquer um, a pessoa amada de volta em três dias, seu sonho de morar bem,
poupe agora e aproveite depois — de preferência, na hora da morte, com
suntuoso funeral —, compro ouro, uma pechincha. Chega de luminosos
avisos dizendo o que devo ou não devo fazer, ora apertar cintos, ora não
beber, ora silêncio, por gentileza. Quero gritar, ora, ora! Berrar aos quatro
cantos do mundo minha ira contra spams, torpedos de celular, convites
alvissareiros, propostas sem nenhum decoro, aumente seu pênis!, intensifique
seu orgasmo!!, explore seu próprio corpo!!! Desde quando o prazer se mede
pelo uso de aparelhos e acessórios hipersofisticados, pílulas contra disfunção
erétil e outros estimulantes? Isso se assemelha mais a desprazer ou tortura...
Virei bicho, me recuso a decifrar conteúdos sub, supra ou
superliminares, quero a liberdade de olhar por olhar, sem precisar de órgão
superior, entidade metafísica, pai patrão dando ordens. Nunca gostei de ir por
onde querem que eu vá, agora então escaninho não me pega mais, ignoro
etiquetas, fichários, legendas de tradução, regras de bom comportamento.
Não vou mais ao cinema, não leio jornais, não vejo tevê e, sobretudo, não
navego na internet. Voltei à era pré-pré-pré-histórica, quando sequer o
primeiro tacape nem tampouco o machado de última geração tinham sido
inventados. Nunca pude saber como funcionam ipods, iphones, ipads e outras
parafernálias futuristas, ai de mim. Não tenho controle remoto nem próximo.
Aliás, estou bem próximo do descontrole.
Não adianta me convidar para aquela festa punk, techno, havaiana,
heavy metal, brega, hardcore, pois não danço conforme a música. Nunca
frequentei academia, peso-pesado por natureza. Faz anos perdi a carteira de
motorista e desaprendi a dirigir, nem bicicleta sei montar, em cavalos nunca
galopei, me sinto um verdadeiro automóvel, só me locomovo com meus
próprios pés, raramente de ônibus. Se não fosse atentado violento ao pudor,
previsto no código penal, roupas não vestiria, cabelos não cortaria, unhas

44
idem. Leão indômito, urso associal, andorinha sozinha fazendo verão são
minhas fontes inspiradoras.
Principalmente, não me peçam para endossar abaixo-assinado, nem vou
conferir a motivação, não assino embaixo, nem ao lado, nem em cima, em
algum lugar algum. A propósito, esqueci até como se rubrica, quase me
transformo num assassino da novíssima ortografia. Não solicitem fotos,
rasguei as poucas que sobraram da antiga máquina, deletei as digitais, para
vídeo nunca posei, as cartas cortei sem dó em pedacinhos. Se topar com
escritor de autoajuda, não respondo por meus atos, tenho aversão à sabedoria
prêt-à-porter.
Ontem ligaram querendo saber minha opinião sobre a enésima falcatrua
do governo, ou da oposição, não lembro bem — disse que não reconheço
governo, oposição menos ainda, é tudo um monte de fezes, com ou sem o
perdão da má palavra. Se me pedirem voto, declaro que rasguei o título há
tempos, sou um cidadão voluntariamente selvagem, um ator sem falas, um
cantor sem voz.
Nunca dei nem pretendo dar auxílio para o abrigo de velhinhos em
Cingapura (Hello Mr.), de criancinhas em Bonsucesso (Olá, Sr.), de robustos
adultos na Zona Sul (Salve, Brother). Não sou mau, mas desconfio de quem
escreve ou telefona anonimamente pedindo verba, cash, dinheiro vivo,
depósito urgente na conta X da agência Y do banco Z. Operadoras de
telemarketing, não me venham com “O senhor estará recebendo uma
mensagem automática” ou “Vou estar entrando em contato novamente” e
frases tais, desligo na hora. Odeio gerúndios, vivo no pretérito do mais
longínquo passado. Me façam o favor.
Este panfleto é decerto o antimanual que jamais publicarei em meu
nome, fica para sempre anônimo. A Vida, Modo de Desusar e Desabusar,
seria o título do singelo apelo. Não me venham oferecer seus serviços, nem
de graça. Não implorem agasalho, livro, cedê, passagem para os Estados
Unidos a fim de realizar a cirurgia terminal. Nem requisitem uma amante
emprestada, há tempos vivo numa caprichosa solidão. Na caixa do
hipermercado, a mocinha todo santo dia me pergunta se tenho cartão-mais;
replico, infalivelmente, que nem mais nem menos, muito pelo contrário, e ela
ainda acha graça. Para mim, chega de participação inteligente na corrente da
felicidade, uma piada, a bendita felicidade.
Nem sei mais se sobrevivo ou se naufraguei junto com o Titanic e isto
aqui não passa de testemunho apocalíptico, que se autodestruirá em alguns

45
segundos...
(21.XII.12. Dia em que o tal do mundo infelizmente não acabou.)

46
Voo vespertino

Sofrer é outro nome


do ato de viver.
Não há literatura
que dome a onça escura.
Carlos Drummond de Andrade, “Verbos”

Vida é dor, e só enquanto sofremos


é que estamos vivos.
Thomas Mann, A gênese do Doutor Fausto

INDECISÃO ENTRE ESCADA e elevador, no tumulto de fim da tarde, a sofrida


algaravia. Sobe os lentos degraus do edifício-torre, como quem procura ar,
entre sacos de pipoca, gritos infantis, conversas de adulto, corpos
refrigerados, sorvetes, cafés, tortas, brinquedos, roupas suculentas, carnes
fartas. O canibalismo na selva do consumo, vaidosa feira. Na livraria, última
olhada nos volumes, talvez algum traga instruções de voo, para obter, enfim,
o breve brevê da existência. A forma vazada na parede permite a
contemplação do cartão-postal lá fora, em projetado final de tarde. Sobe
então os lances faltantes, a estrutura oscila, de dentro para fora, perdendo
forma, materialidade, consistência, e fazendo a inteira arquitetura dançar. No
máximo, dez minutos para chegar ao terraço, atravessando em definitivo o
salão de bocas, olhos, ouvidos moucos; ninguém compreenderia no meio
daquela tagarelice babélica. De que riem essas pessoas, senão do festival de
micromisérias convertidas em histérica devoração: viver para comer e ser.
Porém, não há moral a extrair, a cada qual sua ânsia, sua dúvida. Seu
impasse. Soluço não tem solução. Não sente mais fome, nem calor, nem frio,
nem propriamente desespero, só a neutralidade de uma inexpressiva vacância.
De fora para dentro, o monstro albino corrói. Afinal, o topo. Contempla nova
e definitivamente a paisagem-clichê, de frente, de lado, de cada ângulo, como
quem fotografa e arquiva. Toda uma vida para convergir aqui, tal incidente
por acaso programado. Todavia, o roteiro é somente seu, rubrica em cada
página destacada. Ninguém no fundo decide a hora de decolar, mas pode-se
esboçar o plano piloto, para que mãos invisíveis autorizem a conclusão do
trajeto. Eis o ponto de hesitação: continuar para quê, não continuar por quê?
Entre não ou sim, sim e não. Revê mentalmente o que restou, algo menos do

47
que nulo, vão — nem filhos, nem amantes, os sobrinhos muito distantes,
nenhuma ramagem. Engole um sopro, gênese ao avesso, sem o divino dedo.
Atenção ao vão entre o trem e a plataforma, lembra, antes de partir, da
mensagem altissonante emergindo em meio ao falatório no metrô, Estação
Botafogo. Agora é quase noite, um silêncio interno, a despeito do trânsito
afogando tudo lá embaixo, num zumbido. Parcas estrelas e as luzes da cidade,
no asfalto, no morro; bólides riscam os céus em cima da hora, com toda
pressa. Aí a história acaba, junto com o mito. Tudo contabilizado, noves fora.
Viajar, ficar, prosseguir, cancelar, tantas opções e nenhuma é válida. N.R.A.,
reza a alternativa de questionário. (E assim não mais o sonho, somente o
sono. Não mais o gozo por espasmos. A vida é pétrea, esfingética, voraz.)
Sobe na murada, respira curto. Súbito, enorme leveza, tudo intensamente
perde o sentido, como se nada. Inclinando o corpo antes que os seguranças
esbocem reação, vacila, abre asas. E voa. Flutua como folha, pluma,
palhinha. 180º de visão do mundo, sem redenção, contudo — salvar a quem,
com que fito? Adentra para sempre o belíssimo cenário, em rota de colisão.
Teria sido longa a existência, mas foi tão curta a arte rumo ao impossível...
Sobra um único traço, menos do que monte, mais do que poça. Fim de
viagem, sem despedidas.
(O serviço de meteorologia prevê mínima de 18º na madrugada no Alto da
Boa Vista e atmosfera com boa visibilidade. Amanhã, máxima de 26º durante
o dia em Bangu, com ventos de fracos a moderados; umidade relativa do ar
de 55%. Nenhuma perspectiva de chuva para os próximos dias. Neste
momento, o aeroporto defronte opera normalmente para pouso e decolagem.)
(01.II.09)

48
Muito prazer,

Rien de plus original, rien de plus soi que de se nourrir des autres. Mais il faut les digérer. Le lion est
fait de mouton assimilé.
Paul Valéry, Tel quel

Revenons à nos moutons.


(Expressão francesa)

HUM-HUM, voltando ao assunto, alguns preferem os brancos, outros os negros,


os amarelos, os de pele vermelha, para o escalpo, outros, finalmente, os
pardos, os mestiços, confesso que gosto de todos, adoro o arco-íris, sem
preconceito, qualquer cor me atiça o paladar; apetece, com efeito, o preparo,
recomendo que o corpo abatido não seja nem muito novo nem muito velho, o
sexo pouco importa, e se estiver magro, que o cevem com a melhor ração
durante um mês ou dois, quanto mais proteína melhor, a carne, que nunca
pode estar enferma, deve ser cozida quase in natura, excesso de condimentos
degenera a natureza, não se prestando ao congelamento, o ideal é ingerir no
máximo em três dias, depois de descansar em suave salmoura na parte baixa
da geladeira, temperatura média, ingredientes básicos, alho a gosto, quanto
baste de sal, finas ervas, algumas gotas de vinagre de maçã para um toque de
pecado, é aconselhável repartir os membros nas junturas e desossar as postas,
deixando apenas os ossos miúdos, onde costuma se concentrar o sumo
delicioso, as sobras se lançam aos cães, os mesmos que vigiaram o
prisioneiro, hum-hum, as partes genitais, além das nádegas, são o filé
mignon, exigindo redobrados cuidados, já o sangue pode servir para o molho
pardo, segundo a inclinação de cada um, todavia, em função do curto tempo
de conserva, não se deve dispor de uma peça inteira sozinho, mas em família
ou num grupo de lautíssimo banquete, o extrafino manjar, há quem afirme
que degustamos os adversários para incorporar suas qualidades morais,
bobagem, a questão é o sabor, que se sabe incomparável, de uma textura
ímpar, o mais é teoria de desocupados, os néscios, além disso, como certos
orientais, nos nutrimos de tudo: cobras, capivaras, mamíferos, insetos, patos,
minhocas, equidnas, macacos, répteis, vacas, ornitorrincos, rãs, cavalos,
lesmas, crustáceos, carneiros, aranhas, cetáceos, macucos, lontras, cães, entre
indivíduos, gêneros e classes, a lista por definição não tem fim, os franceses

49
afirmam que do porco tudo se aproveita, estendemos o provérbio e
consideramos que o que se mexe e tem proteína é comestível, somos
onívoros, nos deliciamos com o que a espécie selecionou para a dieta e ainda
ampliamos o menu, não entendo a náusea de alguns estrangeiros, que vez por
outra nos visitam, servindo ocasionalmente também de cândido petisco, hum-
hum, é preciso escutar os vivos com o coração, concordo, e os mortos com o
estômago, acrescento; desculpem a crueza, sou realista, uso a barriga para
pensar e não vossos miolos moles, que também podem ter outro
aproveitamento (aliás, inteligente mesmo é o tunicado, que, depois de achar
um lugar para se fixar no ambiente marinho, devora o próprio cérebro, um
alto consumidor de energia, sem função na fase adulta, caso incomparável de
autofagia, todos deveriam aprender com esses urocordados), eis a nossa
universalidade, a única que conta, a degustação geral do vivente, apenas
evitamos o que envenena ou é indigesto, mesmo assim fazemos várias
experiências antes de descartar alguma potencial refeição, hum-hum, porém
abominamos carne crua, costumo dizer que o fogo foi um grande progresso
na História da Vida, quem ignora a cocção é um troglodita, nada mais
execrável do que carpaccio, steak tartare, sushi, ceviche e afins, argh!,
existem provas de que nossos remotos ancestrais, há um milhão e oitocentos
mil anos, já utilizavam fogueiras para amolecer os alimentos e disponibilizar
muito mais calorias, imenso passo no exercício do consumo, daí os dentes
menores do que os dos outros primatas, nem o vegetarianismo, nem o cru,
unicamente o bem cozido apreciamos, não temos vergonha dos prazeres
bucais, os mais sublimes de todos quantos, somos educados pela boca,
falamos a mesma língua em qualquer lugar, a da incomparável iguaria, que
nos torna parceiros na voracidade, mal distinguindo entre o gourmand e o
gourmet, a gula é nosso distintivo, somente a devoração nos une, considero a
culinária entre as artes a maior, muito acima da pintura, da poesia, da
escultura, do cinema, da música e, sobretudo, da literatura, quem conhece as
regras do bem cozer pode dominar a Terra, vejam Alexandre, César e
Napoleão, todos perfeitos chefs das almas deste mundo, dizem que
praticamos a ultraviolência, não é verdade, na candura reside nossa força, o
mais é difamação, simplesmente sobressaímos pelo amor carnal, a guerra é
pretexto para um bom festim, a maior diversão, aí ouve-se doce burburinho,
hum-hum, quando somos apresentados a um novilho ou a uma tenra
ovelhinha, vociferamos em uníssono, Muito prazer!, prelibando o gozo
infindo, afinal a vida se nutre da vida, e assim sobrevive ao categórico

50
imperativo da destruição, o grau de civilidade de uma gente deve ser medido
pelo que gostosamente assimila, a requintada absorção, e não pelo que evita;
alguns povos comem para viver, nós de modo prazenteiro vivemos para
comer, esse é o esporte da nação, de que tanto nos orgulhamos, autêntico way
of life, danados que somos, nosso deus é glutão e obeso, sustenta-se com o
que digere, em época de escassez abocanha, como os ursos machos e o
Tempo, os próprios filhos, quer dizer, nós, não nos incomodamos de também
virar repasto, no fundo uma honra, tal é a lei do universo, engolir e ser
engolido, em prol da comilança absoluta, se não forem os companheiros,
cedo ou tarde serão os vermes que nos deglutirão, é bem melhor deleitar um
próximo do que um desconhecido, nem de longe acreditamos que a carne seja
fraca, o desejo, sim, é que é forte, ave, comida!, o sumo Bem, saúde!
hummm...
(12.VIII.11–30.X.12)

51
Noturno (Pequena fantasia musical)

FAZ MEIA HORA QUE nos miramos, quase indiferentes. Que saberá de mim, que
saberei jamais dela? Não a imaginava tão pequena. Talvez a tenha visto uma
ou duas vezes, em algum aviário, nunca na natureza. Nossa grande ignorância
dos vizinhos... No cinema e na televisão parece bem maior, provavelmente
esta é apenas uma espécie. (Mesmo num videoarte rodado em Paris, que revi
durante horas com o mesmo prazer, semelhava uma esfinge de médio porte:
fincada num galho, em frente ao grande obelisco da Place de la Concorde,
trazido do Egito, como tantos artefatos do vastíssimo Louvre nas
redondezas.)
De onde vem ela? Será que teve lugar fixo de nascimento ou brotou
simultaneamente em toda parte? Estrangeira ou nativa, aqui, nesta outra faixa
entre o moderníssimo Museu e a Marina da Glória? Saí do baile de carnaval,
para tomar ares e contemplar arredores, como tanto gosto de fazer em meio
ao tumulto. Numa noite mal inaugurada, ainda se filtram os últimos raios
entre nimbos, com risco de chuva. Foi quando a vi — foi quando me viu.
Estacamos um em frente ao outro, a mais ou menos cinquenta metros, para
talvez contemplar a própria distância entre nós, como se cada um do alto de
sua pirâmide. Distância mais pressentida do que real, nenhuma ameaça no ar,
nem do mar (“galinhas em pânico”), nem da própria terra que pisamos.
Empoleirada numa manilha, dessas que se esquecem após as obras —
prevejo operários retornando para buscar, após o feérico festival —, nada
amaldiçoa. Não tem augúrios de morcego, nem voo torvo de corvo. Por
minha parte, nenhum instinto de caçador. E certamente tampouco nossa gente
onívora a escolheu como presa, talvez por pouca carne em tão frágil corpo.
Ela também não me vê como comida, decerto pela desproporção do tamanho.
Descomunal, amo esse adjetivo, que vai muito além do comum. Imagino-a
devorando ratos e pequenos insetos, num regime milenar.
Parece sempre estar mirando de costas, mesmo se de frente, creio que a
cabeça pode girar 180º. Seguramente se encontra por aqui há bem mais
tempo do que nós. Tenho por vezes a sensação de sermos os últimos
convidados no desfile dos gêneros e espécies, o que não justifica a presunção,

52
ao contrário.
Então o que ela pensa, quando me desafia olho no olho arregalado? Me
assiste em cores ou em preto e branco? Em linhas e volumes compactos ou
reticulados? No todo ou em partes, já que a cada minuto direcionamos a
mirada para novo foco? (Nunca vemos tudo à frente ou em torno ao mesmo
tempo, a não ser por esforço concentrado, e mesmo assim. A visão é por
excelência seletiva. Em frações de segundos, tomamos decisões de direção
baseadas num só vetor. Fomos treinados para ser lineares, enquanto o mundo
se bifurca continuamente.) Mas quem ou o que sou para ela? Uma coisa, um
ser estranho, um obstáculo, uma insignificância? Terá algum som especial
para me designar? Questões em demasia, nosso mal, origem de todos os
conflitos.
Só sei que me clama e que atendemos a um chamado comum, quando
nos fitamos espantados. Há um rumor de fundo que mal decifro, na perigosa
experiência desse face a face. O vento agita algumas penas, e ela não se
move, sem pressa, sede, fome, menos ainda ânsia. Sua sorte é não querer ser,
não dispondo aparentemente de nenhum verbo. Apenas repousa num galho
postiço. Lá dentro a música recrudesce, o suor escorre, a grita ensurdece, a
febre desata. Alá, meu bom Alá — por que carecemos de deuses, se eles não
precisam de nós?
Por efeito de hipnose, caso continue a mirá-la, me tornarei ave. No
mínimo, assumirei suas íntimas sensações, chegando a um pensamento que
me pense diferente de mim. Insólita experiência. O que acontecerá quando a
metamorfose se completar, vestirei para sempre a fantasia? O perigo é me
transformar, mais cedo ou mais tarde, naquilo com que simpatizo. Sem
escapatória, estou condenado a ser outro, outra coisa. Poder nenhum, a não
ser o de virar e me virar como posso, não posso. Mimético, não tenho
personalidade alguma, alguém sem substância real. Quase nada.
Vontade agora de tocar seu corpo em sinuosa carícia, sem rapina, mas
recusaria, num súbito adejar. Decerto quando todos partirmos e a festa
acabar, ela continuará mais um pouco. Até que a esfera refaça sua superfície
e volte a se governar sozinha, paisagem sem figura. Queria apenas trocar
sinais, ficar sob suas asas e penas por um minuto. Captar o que palpita na
leveza desse pouso. Ela aguarda, sem objetivo.
Símbolo de sabedoria? Mas qual? A dela mesma ou a nossa? O que
sabem os bichos de si próprios — o que sabem de nós? Quem disse que
precisam saber? Uma vez me indagaram, se fosse um animal, qual seria.

53
Respondi que já sou bicho-pessoa. Aí insistiram, se trocasse de pele e de
pelo? Repliquei que seria um micróbio. Assim habitaria várias formas de vida
e me tornaria imortal.
Há um ponto quase silencioso em que duas naturezas se tocam, pelo
olhar. Algo emerge e se perde num microssegundo, vibrando. A coisa. O que
foi não é mais. Porém de tudo sobram resquícios, por vezes um traço. Acabou
de acontecer por sobre o estrépito de vozes e instrumentos, desembestados
cantos.
Volto ao salão de mãos abanando, e não é só pelo úmido calor, com a
perspectiva de chuva. Águas vão rolar, ora se vão, quando estala o consolo do
beijo. Caem as máscaras. Ao longe, começo a descortinar. Ouço, enfim,
driblando a estridência um brando sussurro, uma onda infra-auditiva:
| , ; ‘ ´´´~~ — ! ......... ) *** ‘’ ´` ^^ ,,,,,,,,, ¨_____ ¬¬ ~~~~ /// ; ¢ |\|| .... ?
## ´´´´´(( — ¬//” ”= >>
````.........................................................................................................
(31.VIII.10–04.X.12)

54
Édipo solar (Vídeo Experimental)

Les paroles ne coïncident pas toujours avec la pensée. En avance, en retard. La singerie de cette non-
coincidence est affreuse dans les films.
Robert Bresson, Notes sur le cinématographe

Para Eryk Rocha

1º. quadro
Dizem que é a mulher mais bonita daqui de Coaraci, acintosamente
linda, talvez. Tal vez, repousada num corpo a corpo comigo, como se
piedade, piedade, ai de nós, vendo tevê no quarto. Camuflada de loira, a pele-
mármore sob o falso alaranjado em cascata, lábios encarnados, matinais. Em
mim, apenas a ereção tranquila no frescor do dia, um coração pulsando
dentro do short. Feitos um para a outra. Minha lógica, ora, é elementar: se é
bela e todos a querem, por que não eu, que a conheço desde pequeno, a
gostosona. Mania nacional de comparar o sexo à atividade bucal, a mulher
vira comida... A verdade seria o contrário. Se fosse o caso, nós homens
seríamos devorados pela arfante ventosa da boceta e do afamado ânus. Comer
ou virar comida é questão de vontade. Foi uma vez, numa manhã de plantas e
pássaros quase congelados no frio circundante. Cacos de vidro no muro
defronte e céu baixo, a inefável fábula. Como contar sem aumentar nem
diminuir a coisa em si? Era feriado nacional, salve.
(A voz em off, nunca se vê o rosto do narrador. Serão apresentadas
sucessivas imagens de pares de filhos e mães famosos, desde a Antiguidade
greco-romana, passando pela Madona, olhos baixos sempre mirando o
pequeno, até os tempos atuais.)

2º. quadro
Durou três dias em princípio o engate, com largos intervalos, é claro.

55
Depois passou, mas ficaram reflexos, como nos terremotos. Porém, ali só
tremeram os corpos, sob algodão e lã, a alvura estelar de lençóis e cobertor de
inverno. Não namorados, apenas adoráveis concubinos, sem paixão. Se
entregou como uma virgem, tocada pela primeira vez, amém. Me alucinou
feito droga, um feiticeiro filtro. Morri e revivi várias vezes.
O sôfrego tesão viril precisa ser burilado, quase uma arte. Das mulheres
nada posso dizer, visto que às sensações alheias, infelizmente, nunca tenho
acesso direto. Apenas sinto os efeitos, as boas reverberações.
(Círculos na água, uns menores outros maiores, até a total dispersão.
Somente a pedra no meio do lago indica o vero peso do evento. Muitos
símbolos, imagens e outras figuras são válidos nessa galeria de espelhos,
onde face a face se refletem, filho & mãe.)

3º. quadro
Dizem que muito parecidos, tal genitora, qual rebento. Só que ela
bivalva, já eu mulato, em tons paternos, quase crioulo. Os traços de nós dois
todavia praticamente idênticos. Um a versão masculina e jovem da outra,
oferecida. Desgraçada? Não! Bendita seja entre as mulheres, e bendito sou o
fruto desse ventre. Amaldiçoar quem poderia. Quando criança, havia num
povoado vizinho uma jovem mãe que vivia sozinha com o filho rapaz.
Comentários rezavam que sim, outros, que não. Ela tinha um buço, as
sobrancelhas fechadas, os dentes de um branco faiscante. Certo dia sumiram,
ou ele sumiu no sumidouro lá dela, a cornucópia voraz, hum. E foram para
sempre excomungados pelo povinho que nada entende, só sabe falar, já viu.
Mas de nós nada dirão, temos consortes, com muita sorte. Eu, minha Jacinha.
Ela, seu Miranda. Ambos naquele faustoso dia separadamente em viagem.
A ignomínia? Pode ser, o que fizemos não tem mesmo nome que honre
ou desonre. Fui devorado pela quimera ou apenas profanei o templo divino
do amor? Perguntas demais se tornam um problema, escudo de proteção.
Escondem o mel do melhor, o veneno da víbora.
(Comentário paralelo, por um segundo narrador, em letreiro animado: A
felicidade seria escapar à fatalidade do nome. Motivo pelo qual é importante
saber nomear os filhos e os personagens. Batismo acaba ditando o oráculo.)

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4º. quadro
Noites brancas, em claro, fodas longas e breves. Alguém já disse que ao
sonhar somos capazes das maiores façanhas, mesmo as mais abomináveis,
Deus me livre. Apenas acredito nos fantasmas porque assombram vivamente
meu sono. Não tem matéria sonhada que não realize meu profundo desejo,
todas as noites. Isso me fortalece — mas também me mata.
Poderia se chamar Solange. É o sol de minha vida, nas manhãs gélidas
de julho, embora eu não dispense a namoradinha. Protejo nossos nomes por
amor. Mesmo o de Jacinha é inventado, o do padrasto, idem. Mas só fantasio
com o que é real.
(Uma para o outro, inseparáveis. O leite materno redobra o afeto filial,
até os confins da galáxia. Então têm suas noitadas de gala, toda a via láctea.
Projetar a esplêndida visão num painel.)

5º. quadro
A primeira vez valeu por todas. Desdobrou-se feito origami, aquele
joguinho japonês em que qualquer figura ganha forma com o papel. O
universo inteiro dobrado e redobrado na folha lisa. Barquinhos, espaçonaves,
árvores & bichos. De um lado a outro, a dura penetração. Doação de filho
para mãe, a semente fazendo o itinerário inverso, no sentido da montante.
Rio-acima, rumo ao nascedouro. Risco grande seria, aos quarenta e poucos,
ela dar novas crias ao mundo. Me converteria então em irmão e pai dessas
vidas. Nada disso, todavia. O amor se dissolvia após o ato, nenhum produto
derivado ou manufaturado. Ali começava, ali acabava, levemente
intrometidos. Não entendo a proibição, até delito penal. Se a pessoa mais apta
a amar incondicionalmente o ser nove meses gestado é a matriz, motriz de
novos gozos... Toda mãe não é berçário de luzes que ainda hão de brilhar?
Origâmico multiverso.
Minha tinta se derramava dentro e fora, pela pele dela. Branco sobre
branco. E as manhãs enevoadas se espraiavam efervescentes, pois queríamos
sempre mais. Quem sabe desejávamos partir do princípio, começar tudo de
novo. Desde o ovo inicial. Decerto uma loucura, clarividente, porém loucura.
A jaca e o visgo, sabendo a doce de leite. Tudo sem dizer nada, ela não queria
comentar, eu tampouco. O silêncio e os gemidos bastavam no calor das horas.

57
As palavras já vêm repletas de sentido e maledicência azafamada. Éramos o
fulgor da pureza, antes de qualquer queda. De minha parte, afeto filial de fio
a pavio, que ninguém nessa terra entenderia. Conheço bem os senhores da
censura e do desafeto. Os Incompreendidos, tal seria o título da película, se
um dia filmarem.
(Única intervenção do Coro: — Tudo em nome do Pai? — De forma
alguma, o Filho da Mãe! — Homem, essa nem o Santo Espírito salva, nem é
para! — Dois danados, arderão em fogo, em brasa, até as cinzas. — Já ardem,
já ardem...)

6º. quadro
O ente mais perfeito de todo o cosmo deve ser a aranha. Nada mais
exato e calculista do que bicho construindo a casa de si, invadindo o entorno
e aramando emboscada. Ali onde as inocentes vítimas, moscas, besouros,
louva-deuses, tontos insetos pousam e são envolvidos em carapaça de seda e
saliva. A anfitriã suga a seiva, o sumo, o âmago, a medula, até o sêmen, se
houver. Aranha labora o próprio tempo no espaço, com intervalos ( ) A
arquitetura dura uma existência fincada na atmosfera. Quer dizer, um
segundo estendido por toda a eternidade. Procurem décadas, séculos depois, a
marca da teia continuará lá, num canto qualquer da casa abandonada.
Será que continuo a criança sem limites que um dia fui e que mãe
nenhuma conseguia conter, educar, domar? É possível. Mas se fosse assim,
me tornaria poeta, astrólogo, mago, e não vendedor de revistas e livros
usados. Histórias tão antigas e perigosas essas que ponho ao alcance de
qualquer um. De qualquer distraída leitora, que também ama sonhar.
Não será um velho livro o ventre onde mergulhamos e daí saímos
atônitos, porém satisfeitos? Nem posso me imaginar lendo um volume
digital. Não teria o mesmo abrigo, as mesmas carícias, os mesmos tatos,
olfatos, degustações, enfim, todos os sentidos. Só a celulose me dá matéria de
imaginação. Preto no branco: francamente, vida sem papel é uma tragédia.
Cairia na mais tenebrosa tristeza sem esses enredos para ler e vender. A
literatura, boa ou má, é a mãe de todos nós. Ao lermos, copulamos
incestuosamente com suas letras, sílabas e palavras, desde a mais dócil
infância. Não creio que haja inocentes nessa história. Ou todos são ou
ninguém é. Existem tramas bem piores do que meu coração materno.

58
(Toca um tema popular em música instrumental.)

7º. quadro (derradeiro dia?)


É tudo verdade, juro. Não poderão me julgar pelo que não fiz, deixei de
fazer. Nem pelo que fiz, a nefanda tarefa. Fiz como fiz porque quis. Outros
teriam feito diferente, ou não teriam, deixando o ato contrafeito. Mas refiz,
sem culpas. Uma, duas, várias vezes, como relatei. Fome pela maçã ancestral,
rubra, rubra. E eu quase branco, quase negro, cacau. Não é qualquer moral
que bloqueia meus atos. Se mal ou bem, só eu posso julgar. E Deus. Mas,
como Deus não existe, fico eu comigo e a boa consciência do filho que soube
fazer a própria mãe feliz.
Afinal, não matei o pai e não fui ao cinema nem ao teatro, as mãos sujas
de sangue. Um belo dia, fiquei em casa, ao léu. Com a tal da juba leonina, um
tanto devassa, vá lá. O que declaro seria uma carta dirigida a ela, mas de viva
voz. É a única responsável por nossa fortuna ou infortúnio. Quem veio
primeiro? Espero que um dia ela conte esse caso por sua conta e risco.
Decerto dará outra versão.
Lá em casa nunca tivemos religião. Os incréus endemoninhados,
insultam os outros ainda em coro, a quem nada devemos. Só sei que fui o
mais contente dos infantes aos vinte e poucos anos. Até hoje, se duvidam.
(Recomenda-se que este definitivo quadro seja uma pracinha coberta
com basta folhagem. Como numa cidade do interior, pessoas circulam
calmamente. A imagem vai se diluindo de forma gradual, até um borrão
esverdeado. Por fim, branco integral.)
(26.V.12)

59
O banquete

Claire: Je hais les domestiques. J’en hais l’espèce odieuse et vile. Les domestiques n’appartiennent pas
à l’humanité. Ils coulent. Ils sont une exhalaison qui traîne dans nos chambres, dans nos corridors, qui
nous pénètre, nous entre par la bouche, qui nous corrompt. Moi, je vous vomis.
Jean Genet, Les bonnes

17:00 —MADALENA AVIA preparativos, sem tempo de ligar para casa, a alguns
metros do condomínio de altíssimo luxo, em São Conrado. No barraco
próprio, esforço de anos, o caçula arde aos cuidados da sobrinha.
Principalmente hoje não poderia faltar, justo nas bodas de esmeralda dos
patrões, anunciadas por toda a mídia, cabendo-lhe a organização do repasto.
Se tudo der certo, ganhará gorda gratificação, para os medicamentos. A vida
dedicada à família, constituída ao lado de infiel marido. Quando casaram,
eram belos mulatos; com o tempo, ela envelheceu labutando, ele foi ficando
mais e mais musculoso, segurança no Fashion Mall, elegante galã.
Ultimamente, descobriu que ele tinha inúmeras amantes, sob seu nariz, a
separação programada, mas o temor pelos filhos, qual destino, tal vida.
18:00 — Cininha relaxa na banheira, cuidara de tudo, só temia as criadas,
sempre aptas ao desastre, umas incompetentes. Embora Madalena trabalhasse
para ela há anos, tinha que vigiar, nem na governanta Luíza confiava cem por
cento. Por vezes, descobria, indignada, uns restos escondidos na cozinha —
as classes baixas têm outros critérios de limpeza, um horror. O que fazer, se
importar criadagem da Europa atualmente era impossível... No Brasil
colonial, podia-se dispor de preceptora francesa, das boas, por exemplo, para
justamente dar o exemplo. Agora, por mais dinheiro, é preciso contar com a
gentinha da terra. Procura, no entanto, ser generosa, dá presentes em
comemorações, pergunta como vão as crianças, mas nenhuma vontade de
conhecer, teme que seus filhos se contaminem, ignorância pega, e bondade
tem limites, todos sabem, não se pode estender muito a mão.
Madalena tonta, tonta, porém hábil na cozinha, discípula de chef
gabaritado, às custas de Cininha, claro, por isso tolerava os deslizes, sob
vigilância de Luíza, esta, sim, originária de Santa Catarina, bem diferente da
cozinheira nordestina. Não era racista, muito ao contrário, mas a cor da pele

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ajuda ou desajuda, ora se, não sejamos ingênuos, daí o privilégio reservado à
sulista de residir no quarto de empregada, uma pequena suíte dando para o
morro, quase alguém da família. Repassa os componentes da celebração,
entre convidados, comidas, bebidas, flores, copos de cristal, talheres de prata,
nada falta, o mundo perfeito custava muito caro, mas valia: nos próximos
dias, o jantar do ano, estampariam os suplementos e as revistas de
celebridades. Quem sabe dessa vez não fotografariam enfim sua linda
cobertura para tema de capa da Vogue Decoração, o único autêntico
magazine à moda antiga?, está cansada de aparecer como matéria secundária.
Temia somente as bodas de rubi dos Maldonados, dentro de um mês, infeliz
coincidência, porém tinha alto cacife, ótimos contatos, a crônica social,
embora decadente, lhe faria decerto justiça, na comparação. Sai do banho
envolta no drapeado, segue até a varanda do quarto, a seus pés, soberano, o
mar, o azul do azul. E ela, dama flutuando, estátua leve, livre, alvinitente.
Rocinha e São Conrado, a comunidade e o bairro lado a lado, eram
como partes de diferentes cidades numa só cidade. Pessoas como Madalena é
que faziam a ligação, todo dia, entre os extremos, colando as duas bandas da
metrópole fluminense supostamente dividida e intraligada por túneis, a ex-
capital da República. Entre os dois Rios, pairava então uma ponte virtual, que
a pobreza quase invisível da outra se encarregava, com seu fragílimo corpo,
de sustentar.
18:30 — Impera entre empregada e patroa não um silêncio substancial, mas
insinuante, feito de esquecimentos e ignorâncias mútuas. Um silêncio não de
pedra, antes líquido, ou melhor, viscoso. Um vácuo em sigilo, que tudo
consente e cala. Madalena esquece que Cininha existe de carne-e-osso, só
ouvindo as ordens, abstraída; Cininha vê Madalena como irresistente força de
trabalho, em adequado papel, malgrado, bom grado. Ao longo dos anos,
reforçaram-se os laços de fel e ácido, todavia em embalagem sonho de valsa,
sob a mediação da governanta. Feitas uma para a outra, a senhora, a
doméstica, séculos de civilização e rancor, por trás das paredes.
19:00 — Cininha confere com Luiza os últimos detalhes. Em seguida, deita
para repousar mais um pouco antes do grande evento. Até vinte anos atrás,
para ser famoso era preciso ter pedigree, vir ao mundo em berço de ouro,
como bem dizia seu avô, ser um carioca da gema de terceira geração, bem
plantado na Zona Sul. Subúrbio, todo mundo sabe, não tem nenhum valor,
aula de geografia social que aprendeu ainda criança, no contato com os

61
primos da Tijuca, bairro entretanto orgulhoso de seu status, que ninguém do
lado de cá, onde ela vivia, reconhecia.
Saudades do Rio autêntico, dos nobilíssimos Montenegros, Nabucos,
Garavaglias, Barrozos, Canabravas, Gouveias, não essa gentinha ordinária,
que frequenta as colunas de hoje, uns anônimos, outros emergentes, famosos
da hora, arrivistas, arrivistas, falta nível e lídima cobertura jornalística —
onde foram parar os Jacintos, os Zózimos, os Ibrahins, as Danusas, as
Hildinhas de outrora? O high society colunável só aparece agora nos jornais
em matéria de faits divers ou de escândalos, prenderam até um banqueiro de
reputação ilibada!, o pobrezinho, sempre auxiliou os melhores empresários da
nação com excelentes préstimos e empréstimos, uma injustiça, o país anda
muito, muito. Aliás, o mundo está mesmo fora dos eixos, até a grande amiga,
dona da L’Oréal, uma Bettencourt!, foi parar nos jornais por motivos
espúrios, mera invenção para aumentar as vendas de exemplares, só outra
revolução promovida pelos bem-nascidos para destronar os novos-ricos e
aproveitadores da tradição. O marido não cansa de repetir que os militares é
que sabiam mandar, os civis são muito incivilizados, não fazem distinção
entre o aristocrático e o popular, misturando povão, classe média e alta
sociedade. Vontade que tem é de se mudar para a França, onde estão as raízes
de seu lado materno, já o esposo descende de alemães, migrados no pós-
guerra por razões nunca muito esclarecidas — o que nos salva é ter um pé no
Velho Mundo, soa muito bem um sobrenome europeu, não é verdade? Ela e
outros conhecidos há muito já tinham reivindicado cidadania europeia, agora
uma vulgaridade, todo mundo quer ter passaporte italiano, português,
espanhol etc.; a fila para o visto no consulado americano é de dar enjoos, nos
Estados Unidos o casal só vai a Nova York, e mesmo assim. A América em
definitivo não tem distinção. E ela era sem dúvida uma mulher de classe,
talvez a última.
Sessenta e cinco anos, duas lipos, três liftings, o primeiro aos trinta,
depois aos quarenta, cinquenta, em breve o quarto, com retoques de botox,
tudo pela mão do maior cirurgião plástico do mundo, todos conhecem —
motivo pelo qual lhe dão no máximo cinquenta e cinco anos, a felizarda
glamurosa.
20:00 — (O delírio da existência, fazendo da ficção algo quase irrelevante, é
que em todos os pontos do globo, neste momento mesmo, acontece uma
história trágica, alegre, enfadonha, fantástica, sublime, misteriosa, ínfima,

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qualquer adjetivo serve. O fuso difuso da vida não para de fiar, enredando o
esqueleto, do berço à tumba, e o desafio é mesmo cortar o fio, arrematar e
passar a outra trama, interrompendo a intriga arcaica.)
20:30 — Chegam os primeiros convidados, uns de Armani, outras com bolsas
Vuitton, trajes Chanel, perfume Saint-Laurent, scarpins Dior, luxo só.
Drinques e petiscos no salão principal, engalanados garçons, os lustres
rutilando, a nata da elite carioca em deleite. Bailam fragrâncias inefáveis, na
tepidez do fim de estio. São as comemorações de um dos casais mais
cortejados do grand monde tropical. O pianista toca no serão, para pessoas de
estilo nada de música pré-fabricada, o clã dos happy few, a casta dos
merecidamente endinheirados, ser rico nunca foi demérito, só faltava, puro
ressentimento, afinal para o bem da humanidade o capitalismo triunfou, não é
mesmo? A celeuma educada vai num crescendo, com participação até mesmo
do belo canto, num curto recital de soprano, vinda diretamente de Londres. O
repertório incidiu em árias de Verdi e de Puccini, um tapete de texturas
musicais estendido lá do alto, com sofisticadas coloraturas.
22:00 — Fartam-se os convivas, elogiando o jantar e invejando a inigualável
cozinha, encomendada no maior chef francês da cidade. Já tinham passado
pelas entradinhas, vieiras com aspargos, foie gras com confiture de amoras,
lagosta com manteiga trufada, tudo acompanhado de tragos de champanhe e
ócio, brindes, línguas afiadas, o júbilo oral, evoé! Mas o caviar não dá mais
para servir à larga como antigamente, o Beluga está em falta, os russos
predaram desenfreadamente, sem cuidado com a reprodução, apenas o
horrendo Irã continuava exportando, mas a que preço, uns bárbaros, as
importadoras punham então à venda o falsificado, ovas de qualquer peixe,
coisa estranha. Seu pai, um sábio, lhe ensinara a escolher sempre o melhor,
always the best, dizia com legítimo sotaque britânico, filho de diplomata com
anos de estudo na Inglaterra, e Cininha se acostumara a buscar, na vida, na
arte, o nec plus ultra. Contudo preservar as insígnias de estirpe não estava
fácil, tempos duríssimos, um sofrimento, frequentemente se queixava com as
companheiras de infortúnio.
Chega então o prato de resistência, astro da noite, magret de canard, ao
molho levemente ácido de tâmaras, acompanhado de um gratinado couve-flor
com creme da Normandia. Esse acompanhamento, aliás, foi o único item
preparado em casa, Madalena se tornara uma expert nele e o ingrediente
normando dava o toque refinado. Muitos já se deliciam, enxugando o canto

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dos lábios, quando súbito alguém divide a flor-em-couve e de dentro brota
um verme nutrido com as entranhas do vegetal. Kika, melhor amiga de
Cininha solta um gritinho, o marido socorre, afastando enojado o prato, todos
os olhos no penetra da festa, o inenarrável invertebrado de nome mais do que
vulgar na terra de Madalena, imaginem, morotó. Interrompe-se o ruído de
talheres, corpos congelados atrás da vidraça. Algumas horas, dias, séculos
convergem num segundo, e nada se passa dentro da campânula de angústia.
A minúscula grande besta faz espetáculo, em duas partes compactas, nadando
no creme do creme. Um crime.
Por fim, as mais delicadas correm para o lavabo, cheias de ânsias, mas
ninguém fala, nem ri, nem soluça. O mutismo em cena, tudo se comunica de
cérebro a cérebro, mesmo o de quem não tem ou fez implante. Até que, em
busca de solução, Cininha se levanta, sem o apoio do no entanto sempre
solícito Olavo, vai à cozinha e volta, arrastando Madalena, que discretamente
chora, sem nem saber por que, só pensa na cria, febril em casa.
Eis a mulher, indigita a outra, em riste, expondo a infeliz cozinheira para
a alta roda. A pecadora não ergue os olhos aos céus, mira o ponto mais
ínfimo do assoalho, querendo desaparecer pelas frestas da madeira, lixo só.
Todos, sumamente solidários com a dona da casa, comentam a desfeita, caso
de justa causa, impiedosos. Relatam histórias, não há mais criados como
antigamente, uns insubordinados, coitada da Cininha, pagando tão caro para
receber aquilo, em plena cara. Tentando salvar a noite, a pique, a dona da
casa propõe passarem à sobremesa, uma charlotte de framboesa, proveniente
da melhor delicatessen do Leblon, quiçá da cidade, ali no Talho. Larga a mão
de Madalena, ordenando que apronte depressa os pequenos pratos, modo de
se retratar do destrato. A outra nada diz, nem implora, como se arrependida,
cabisbaixa lagartixa, sai de cena.
22:30 — Dois minutos depois, retorna, empunhando ardente a faca para
peixes e carnes em geral. Na outra mão, umas sobras da couve-flor, que enfia
na boca da anfitriã, enquanto a estripa com o instrumento, magistralmente
manejado, em ofício de fé. Cininha nem consegue gritar, atolada até a
garganta, o frio aço remexe-lhe nas vísceras, para todos os lados. Madalena
conclui o ato, aguarda um instante os aplausos, mas, diante da inércia geral,
deixa a outra agonizante na cadeira e se retira, altiva. Os cavalheiros se
precipitam para agarrá-la, a malcriada; Olavo ampara a esposa, cujo corpo.
Uns rastros de sangue bordam a toalha de linho importada, rubro sobre

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castíssimo bianco. Algumas desmaiam, de novo em solidariedade à amiga de
anos, tristemente finda, a linda. A governanta chama inutilmente a
ambulância — o piano solitário pontua a novela, o creme do crime, até
emudecer. Chegam os primeiros representantes da imprensa, clichês! clichês!
clichês!
00:00 — Pairam o breu e o sossego no triplex vazio, sob camadas
esvoaçantes de cortinas. Da área de serviço, pode-se contemplar a Rocinha
em reluzente presépio, reflexos do esplendor. Na quadra do morro, o funk faz
requebrar luxuriosamente, Quer dançar?, quer dançar?
6:00 — O entregador deixa na portaria o jornal com a manchete do dia mal
raiado.
(20.III.10–29.X.12)

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Elos

Mine appetite I never more will grind


On newer proof, to try an older friend,
A god in love, to whom I am confin’d.
William Shakespeare, “Soneto CX”

Valença, 16 de maio de 2013.


QUERIDO LÚCIO,
Me faz bem saber que você continua existindo em minha vida e que agora
posso voltar para nossa casa em Salvador. Me faz bem essa disposição sua
para perdoar, embora nada deva ser esquecido. As pessoas confundem
tremendamente perdão e esquecimento. Nunca lhe pedi anistia, nem sinto
propriamente culpa, apenas enorme responsabilidade pelo que foi ou deixou
de ser, por todo o havido enfim. Não quero, portanto, que você apague nada,
tampouco o farei. Bons, ruins ou medianos, os acontecimentos serão para
sempre parte de nossa história — uns rastros, o único romance que
conseguimos escrever até aqui, mas cujo enredo espero que possamos alterar
com o bico da pena. Todavia, sobretudo não quero prever finais nem
conclusões. Não tenho lições a tirar, nem deveres a cumprir.
Assumo, com sinceridade, cada um dos erros bem fincados em meus
atos. Há relações assim, em que só um, só uma cumpre a infeliz missão de
destruir aquilo que se ergueu junto, essa dura tarefa de conviver e repartir.
Todos os dias, sentir o cheiro do mesmo corpo, como antigamente o de uma
carta sublime que se abria antegozando os prazeres da leitura. Seu corpo por
inteiro, nu, sem perfumes inúteis, sem enfeites, sem vestes, pura pele, puro
pelo, de arrepiar. E o instrumento ereto, meu doce escultor. A nudez mais
lúcida que se pode conceber para alucinar esta que lhe escreve, sua outra,
com tantos gestos firmes, porém delicados, no ponto extremo do sustentável.
Porque até a firmeza e a delicadeza carecem de limites.
Ah, é certo que andei ao léu, uma andorinha à toa, à toa, como bem ou
mal se diz. Vendi barato o quanto me era caro, fazendo de mim uma, como
dizer... uma boba sem recompensas, sozinha com uma plateia de tolos.
Carrasca e vítima de mim, nenhum papel foi desperdiçado e a farsa se

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desenrolou por inteiro. Fiz com novas afeições velhas ofensas, só encarei a
verdade de forma enviesada e mesmo assim quando pude, e decerto foi bem
pouco. Seja como for, os erros me deram vasta experiência, os amores bem-
sucedidos ou malogrados provaram — e que dura prova! — que você é o
melhor, nenhum outro.
Porém, talvez não necessitássemos provar coisa alguma. Se equivocou
quem disse que o inferno são os outros, pois se os maiores demônios habitam
bem dentro aqui... Diabólico mesmo foi não poder contar em muitas noites
com sua presença morena, irradiando luz, calor, confiança, paixão. Sinto
grande falta de sua arte, de seus dedos magistrais, torneando minhas coxas,
meus seios, todos os membros, com um talento que ninguém mais. Artista,
para mim, é quem faz de sua atividade o motor da existência, e você é sem
dúvida grande artista, no ofício e no amor, quero dizer, no ofício do amor.
Peço que compreenda o que tento expressar, em minha trôpega
linguagem de mendiga, uma cadela e uma comediante por certo tempo sem
sossego nem pousada. Vadia? É possível, mas, lhe peço, sem julgamentos
morais, e só no sentido do bicho que por puro instinto precisou vaguear para
depois reencontrar abrigo. Uma abelha que vai, dá muitas voltas no mundo e
retorna à colmeia, num zum. Desejo fabricar novo mel, que
compartilharemos se possível pelo resto dos tempos.
Escute somente: nunca mais degradarei meus apetites, menos ainda
minha afeição, ferindo um velho amigo, um deus no amor, a quem estou
apaixonadamente ligada. Não há outro tesouro, nenhuma terra à vista que eu
pretenda conquistar, se nada tenho senão esse sonho de reconquista, para fruir
nosso bem-querer. O mal feito ou imprevisto já faz parte de nossas contas
passadas, que ora presto. Noves fora, zero. Je repars à zéro, diz a canção, que
tantas vezes ouvimos juntos, adorável Piaf! Nada a lamentar, je ne regrette
rien. Nada de nada.
É grande meu amor por você, porém é ainda maior a incerteza que mais
uma vez nos reunirá, tal é a aposta no acaso feliz. Paira sempre a dúvida que
permanentemente nos atrai e nos separa, quase na mesma medida. Porque
cada começo é só continuação, e o livro de nossos eventos permanece aberto
bem no meio, sem ânsia pelo fim.
Meu sonho é que possamos atingir cada vez mais outro nível de vínculo.
Juntar, separar, reunir são verbos afins, nada incompatíveis. Pois se nenhum
afeto é eterno, estamos sempre oscilando entre opostos: amor, desamor, ódio,
paixão, com ou sem medida.

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A seu modo, você também é livre, mas usou a liberdade para estar e
ficar. Aventuras não combinam com você. Por causa de sua mente
luminosamente aberta, nosso diálogo fluiu a maior parte do tempo. Foi quem
mais compreendeu minha lógica vital. Pareço por vezes me contradizer, mas
sou matemática nas atitudes, e os fracassos fazem parte do cálculo. Até o
delírio, quando ocorre, se encaixa em minhas equações.
Muito conversamos com franqueza, não é mesmo?, sobre nossos
pendores tão distintos. Seu prazer é modelar infinitamente o mesmo corpo, e
mais do que nunca, de preferência o meu: logo estarei de novo em suas mãos.
Quanto a mim, fui até agora uma espécie de camaleoa, passando por vários
estágios e situações, ouvindo cantos de sedução, um coral de múltiplas vozes.
Porém, sei que não há liberdade sem confinamento, nem escolha sem
perda. Sábia não me tornei, mas um tanto aprendi, entre paus & pedras.
Queria somente que confirmasse com ações as palavras ao telefone, como
alvíssaras de hoje, de amanhã e de depois. Me receba com carinho e afeto
renovados, nada mais desejo — as mãos estendidas no escuro:
Tateio com temor e algum tremor. Terei quem sabe direito aos céus,
mesmo à beira do abismo — seu peito, meu leito. Resumindo, para mim você
é uma atmosfera, um ambiente onde sinto vontade de me instalar, ouvir,
degustar, tocar, sentir, admirar a textura física e espiritual, a fragrância
singular. Um homem que desperta tantas sensações, com esse halo a um só
tempo etéreo e prosaico. Você.
A maior parte das coisas findas permanecerá entre nós, ninguém precisa
tocar nessa zona que só nos diz respeito. O maior segredo é aquele de que
nem o portador nem a portadora lembram mais, de tão bem guardado.
Eis assim a mensagem que envio, confirmando a chegada exatamente
em quinze dias, como combinado. Antes de me despedir, queria também
dizer que continuo escrevendo e lhe mostrarei alguns novos poemas. Já tenho
até o título provisório para um volume por vir, “Camuflagens”, espero que
goste. Segue em anexo uma amostra, só um aperitivo. Em breve, com muito
espumante, brindaremos a nós!
Me despeço com todo o amor que houver nesta e em muitas outras
vidas. Mil vezes e sempre sua,
Jandira
COSMÓPOLIS
(ERÓTICA)

hotel st. mark — village

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nós explodindo o sol
ao sul do square
são paulo hotel terminus
praça da república
hélas não existe mais
lençóis & toalhas
do hotel novo mundo
perto da praça paris (rio)
justamente inunda a vista
a place de la concorde
tudo tem ironia
hotel da bahia salvador
onde bieletrizamos
ao romper do meio-dia
roma vezes contínuas
piazza di spagna
visconti flagrou
cada recanto
tocado por encanto
doce canção de corpos
luminosos logradouros:
festas em hospedarias
ainda minhas
(E. N., 05.I.12)

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III. OS VESTÍGIOS

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Ce qu’il faut à ce coeur profond comme un abîme
C’est vous, Lady Macbeth, âme puissante au crime. [...]
Charles Baudelaire, “L’Idéal”, Les fleurs du mal

1. Curta (metragem)
Começou faz cinco anos. A cada três meses ocorre uma eliminação no Istmo.
Nunca se sabe quem será o próximo, muito menos o meio de supressão:
queda em abismo, corda de segurança partida, paraquedas sobressalente que
não abre, enfermidade ignota, amnésia, afogamento, desgosto. Etc. Tudo
varia, menos a periodicidade, daí a suspeita de planejamento. Após a
ocorrência, reinam o temor e a angústia sobre quem será o próximo. Mais
tarde, por distração ou hábito, provavelmente os dois, esquecemos e
prosseguimos em paz.
Durante todo o ano, com curtíssimos intervalos tempestuosos (por vezes
uma, duas horas, por vezes uma noite inteira, nunca além disso), faz tempo
bom, o que torna a coisa ainda mais aleatória e enigmática. Muitos fingem
não tomar conhecimento do jogo fatal, mas todos intuem as regras secretas.
Só se admite que o clima sempre radioso vicia, estimulando os jogadores a se
exporem, alheios ao perigo ou seduzidos por ele. Ninguém ousa migrar para
o continente. Acham até mais arriscado, poderia ser entendido como desafio.
No final das contas, penso que apostamos no crescimento da taxa de
natalidade, de fato em expansão, a crer nas estatísticas oficiais. Enquanto
isso, a brisa, o farol, as cabanas, as falésias, a lua cinematográfica, os barcos
impecáveis. A doçura de viver.
(03.XI.12)

2. Milagre (fiasco)
O último que tentou andar sobre as águas se afogou.

3. Reflexo (reverso)
Cansei de dizer Espelho meu, agora serei para todo o sempre espelho seu.

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4. Blasfêmia (terrena)
Toda vez que ouço acusarem deuses, demônios, anjos, fadas, orixás, gênios
ou santos por nossos erros e acertos, peço para não colocarem divindades
nessa história. Os deuses são imutavelmente felizes porque tudo ignoram,
nada querendo conhecer das intrigas humanas e abstraindo, por completo,
cálculo decimal, geografia, bioquímica, astronomia, física quântica & outras
ciências. Para eles, nossas sábias fabulações não passam de mitologia e se
prestam ao riso. Apenas seres imperfeitos é que necessitam explorar o
Universo e mais além; os perfeitos nem de viver carecem. Intuem que existir
é a maior ilusão e por isso se esvaecem no éter primitivo, ignorando a
História. Felizmente para nós, não é preciso testemunhar sobre o que não
existe, basta esquecer-se de lembrar. Pois já temos a árdua tarefa de provar
que somos quem somos, recorrendo a verbos, substantivos, adjetivos e
advérbios, tais como estar, homem/mulher, excelso e perenemente, sons
vazios que na verdade a coisa alguma de definitivo remetem. Tudo névoa, no
nada.
(10.X.12)

5. Distração (profissional)
O destro fotógrafo adentrou o recinto do tigre, acreditando que ele fosse
apenas um encantado gatinho. Deixou de considerar que o mais adestrado dos
bichos tem seu dia de fera, basta se sentir invadido. Nenhuma diferença,
aliás, do animal dito racional. Além disso, natureza alguma jamais abdica
inteiramente de seu caráter tigrino.
Lembraria ainda, seguindo os passos de William Blake, que a mesma
forja que engendrou o cordeiro engendrou o tigre. E que, tais os ovinos, os
felinos também precisam comer. Diferentemente de Blake, todavia, não
acredito em mão ou olho imortal — os órgãos são tão finitos quanto os seres
a que servem.
(11.XI.12)

6. Adeus (ateus)
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Quem se preocupa com Deus são os ateus e os teólogos. Não tenho tempo
para perder com essa tolice de pensar ou não pensar Deus. Nem creio que o
próprio Deus se pense, senão não seria uma divindade, mas um reles mortal.
Somente os parvos de fato se ocupam da fantasia divina. Só eles passam os
anos sonhando com a existência ou a não existência desse Deus que todos
veneram e detestam ao mesmo tempo. Os teólogos ou teófilos adoram-No,
pois estão convencidos de que Ele existe, mas também no fundo O abominam
por nunca dar sinais inequívocos de Sua existência. Os ateus O execram, de
outro modo não seriam ateus, mas também a seu modo O cultuam, talvez
mais do que os teólogos e os teófilos, por serem apaixonados pela
necessidade imperativa de negá-Lo. (Provar que Deus não existe, vejam que
desmedida tolice!)
Os verdadeiros crentes talvez sejam os que dizem não acreditar no que,
todavia, renegam. Nós outros simplesmente Lhe somos indiferentes. Ou
melhor, somos indiferentes, sem nenhum objeto, direto ou indireto. Razão
pela qual defendo que teólogos e ateus são irmãos em Deus, uns por vias
positivas e outros por vias negativas. E como não me sinto autenticamente
nem um nem outro, sem contudo refutá-los a ambos, isso seria mais uma
estupidez — por tudo isso digo somente adeus, seguindo caminho e
dispensando a companhia de crédulos ou incrédulos.
P. S.: apenas acredito nas formigas, nas marés, nos cervos, nos
jacarandás, nos halos, nas galáxias e nas partículas subatômicas porque,
malgrado as aparências, não decorrem de invenção humana. O resto são fac-
símiles que querem ser mais reais do que todo o real.
(13.XI.12)

7. Piada (sem graça)


Um conhecido me contou que há alguns anos, quando ia a São Paulo, os
paulistas zombavam do Rio, cidade então imersa na violência. Hoje ele ri de
São Paulo, cidade agora tomada pela brutalidade, enquanto a praia carioca
está relativamente pacificada, mas por quanto tempo? Relativamente: assaltos
e assassinatos bem sibilantes ainda ocorrem, porém menos do que antes.
Indagaria apenas — qual é a graça?

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8. Possessão (evangélica)
Nas Alagoas, para “descarregar” os maus espíritos de duas adolescentes, o
Bom Pastor copulou com as possuídas. Foi encontrado pela polícia horas
depois tomando candidamente uma caipirinha à beira da piscina. Um
internauta de nome Silesius sugeriu que, na prisão, o religioso tenha direito
ao mesmo tratamento, recebendo diretamente no corpo uma boa descarga de
líquido pegajoso. Na cadeia onde se encontra hospedado, alguns benévolos
doadores já fazem fila.
Num café do subsolo do Edifício Central, n. 156, da Avenida Rio Branco,
estou há alguns minutos, como Cage, tentando produzir/escutar o silêncio.
Súbito, brota um desconcertante concerto de vozes, quase gritos, uma
barulheira, toques de celular, buzinas, apitos, descargas de carros, freadas e
outras iniquidades sonoras menos identificáveis. Eis que, enfim, a música
silenciosa vibra em mim, atônito e atonal. O silêncio talvez não passe de um
ruído de fundo, quando tudo o mais espantosamente se cala.

9. Ignorância (cinismo)
Na época das grandes navegações, quando partes da azul esfera eram
supostamente desconhecidas — os europeus então supunham que o que não
conheciam era universalmente ignorado —, os cartógrafos viajantes — hoje é
possível sê-lo sem viajar, basta dispor de câmera monitorada por satélite —
chamavam de terra ignota a área do território até então inexplorada.
Atualmente, quando o mundo foi devassado em cada canto, não sobrando
nenhum recanto inatingível, supostamente o planeta inteiro virou “terra
nostra”. Nossa, mas de quem mesmo? E até quando?

10. Balizas (antimensagens)


O pensamento radical, definitivo, que emergiu pouco antes de dormir,
atravessou os sonhos e se esfumou nas brumas do amanhecer. Hoje à noite,
sem sombra de dúvida, recomeço.
Os cães vadios do Campo de Santana, próximo da Central, no Rio de Janeiro,

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foram enviados para um canil. Os gatos, para um gatil. E os humanos?
— Para um abrigo, diriam os inocentes.
— Para um asilo, diriam os benévolos.
— Para uma família, diriam os tradicionalistas.
— Para um hospício, diriam os pragmáticos.
— Para um monastério, diriam os budistas.
— Para um humanil, diriam, por fim, os poetas concretos.
E todos têm, uns menos, outros bem mais, seu tanto de razão e desrazão.
Nas fotos de grupo antigas, há sempre zonas de anonimato, nas quais se
encontram pessoas que passaram por nossas vidas em algum momento, mas
depois desapareceram para sempre. Impossível muitas vezes lembrar o nome
delas, sequer o vínculo que entretecemos ali e então. Talvez tenha sido um
único encontro, um gesto solidário, um beijo furtivo, uma transa casual, um
aperto de mão, uma despedida sem precedentes. Resta a foto para provar que
algo aconteceu, mesmo que esse algo se pareça com praticamente nada.
Seriam simples rostos na multidão, não tivesse o acaso feito com que nossas
órbitas se cruzassem e o fotógrafo da hora registrasse. Até mesmo o
responsável pela foto é hoje ignorado.
Por meio de um cultíssimo amigo francês, conheci um prestigioso pintor
surrealista, provavelmente de origem húngara, cujo nome não consigo
lembrar. Recordo de termos ido à casa do artista e, mais importante, termos
visitado seu ateliê, no mítico Bateau-Lavoir (Barco-Lavanderia), que abrigou
gente do porte de Picasso, Gris, Brancusi e Modigliani, mas incendiou nos
anos 1970 e depois foi reformado. Não tenho foto com esse pintor, mas
lembro de uma tarde inesquecível em que almoçamos em Montmartre e ele
nos falou com intimidade de Breton e de outras figuras históricas. Suas telas
eram magistralmente executadas, uma delas tendo como tema principal um
jovem moreno, pelo qual o artista, bem. Ele se admirou de meu francês, que
nem tão maravilhoso era, mas continha menos sotaque do que o dele, há
décadas morando em Paris. Simplesmente há pessoas mais miméticas do que
outras, e isso nada tem em si de extraordinário, denotando apenas uma maior
plasticidade do cérebro na área de aprendizagem da linguagem verbal ou ao
menos uma boa capacidade de perceber nuanças sonoras.
Falava dos colegas surrealistas com grande intimidade, mas de outros
também. Comentou de passagem que Vieira da Silva tinha uma personalidade
excessivamente altiva. Por fim, teceu algumas considerações sobre sua vida

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sexual pregressa, que muito me fez rir. Vivia num belo apartamento no bairro
dos pintores por excelência, bem próximo de onde Vicente e Theo van Gogh
fizeram pouso. Era um tipo — simpático, sensível, também a seu modo
altivo, mas, ao mesmo tempo, muito hospitaleiro na conversa e nos gestos.
Me senti bem acolhido por aquele franco estrangeiro.
(Acabo de descobrir na internet o nome do pintor. Endre Rozsda,
nascido em 1913, na Hungria, e morto em 1999, em Paris, seis anos depois
que o conheci. Deve ter sido um homem charmoso: ainda conservava traços
do passado, como um esboço por detrás da figura acabada. Nunca atingiu o
renome de Dalí, Miró, Magritte, nem o de Ernst, morrendo quase
desconhecido. Chegou a manifestar o desejo de que meu amigo escrevesse
um ensaio sobre sua obra, o que até hoje nunca aconteceu. Transcrevo, já em
tradução, um de seus pensamentos mais imagéticos: Sonho com um mundo
em que eu pudesse caminhar sobre a dimensão do tempo, para frente, para
trás, para o alto, para baixo; em que pudesse, adulto, caminhar num tempo em
que fui, na realidade, criança. E criança agora que estou velho. Abro as
janelas para ver lá fora. Abro as janelas fechadas para ver aqui dentro.
Embora eu não siga propriamente essa escola, o trecho contém o que
mais admiro na estética surreal: a dimensão do sonho, que abre para tempos e
espaços imperceptíveis à primeira vista ou visita. Trata-se de uma arte da
revisitação. Do real, antes de tudo, com outros olhos, expondo as formas do
invisível. Não deixa de ser também um belo modo de hospitalidade. Amo
igualmente o culto da inverossimilhança que lhe é próprio, principalmente
sob a assinatura Magritte. Penso em particular no enigmaticamente
deslumbrante Império das Luzes.
A pergunta que resta é sempre: por que a história da arte e da cultura em
geral elege alguns poucos nomes, deixando inúmeros outros talentos à
sombra? Até que um dia um crítico dadivoso redescobre as obras-primas
esquecidas...)
(18.XI.12)

11. Geopolítica (estatal)


Candidamente, o prefeito do Rio declarou ontem que as zonas de proteção
ambiental não implicam a impossibilidade de construção, muito ao contrário,
ali mesmo é que a coisa deve ser feita, pois sobra terreno (simbólico e físico).

76
A segunda parte do comentário, claro, é minha, só completei o raciocínio da
digníssima autoridade. Uma megaempresa da rede hoteleira mundial, com
mau gosto bastante certificado, já implantou os primeiros marcos para um
fabuloso resort, num dos poucos lugares preservados entre a Barra e o
Recreio, a dita Reserva. Nada explica que um bem público seja loteado para a
propriedade privada, a não ser o fato de, no Brasil, haver pouca distinção
entre as esferas: o que é nosso, em princípio e por princípio, é “meu” e
poderá ser “seu”, “dele”. Assim, posso vendê-lo, e todos nos beneficiamos
com o negócio. Isso é o que ganha a população ao ver um patrimônio seu
açambarcado pelo representante recém-reeleito. Coletivamente nos
felicitaremos em saber que os milionários do mundo ali encontrarão um oásis
num planeta tumultuado.
Nesse ínterim, com a recente pacificação, os valores do aluguel e da
venda de imóveis sobem astronomicamente na Rocinha e no Vidigal. Em
breve, os pobres serão reconduzidos à periferia, de onde não deveriam ter
saído. Os ricos galgarão o morro enfim conquistado, depois de anos de
cobiça. Lições elementares de geopolítica e de fisiologia urbana.
(Semanas depois, abro o jornal e vejo uma comovente publicidade em
duas páginas, anunciando o magnífico empreendimento Grand Hyatt
Residences, numa foto virtual em que o prédio futurista se insere à perfeição
na paisagem da Reserva. Vou às lágrimas.)
Décadas depois de ter sido enunciado, o imperativo artístico ou antiartístico
do carioca Hélio Oiticica continua válido: caberia, hoje mais do que nunca,
experimentar o experimental. Jamais ceder à acomodação ambiente e menos
ainda à autossatisfação esterilizante. O que não deixa também de constituir
política, coisa da pólis & afins.
Tal como a filmografia de escocês Ken Loach, levada à máxima derrisão
em A Rota Irlandesa, na qual ficção (cinematográfica) e realidade (atual) se
associam, convidando o ex-espectador à reflexão. Ex porque não é mais
possível assistir a isso de maneira passiva, como quem consome pipocas,
embora a diversão não esteja excluída. Um entretenimento que muito faz
pensar. Como um breve ensaio, uma peça sinfônica, uma canção, um poema,
uma instalação. Um recitativo operístico, para reeducar, deleitar, comover.
Assim também, cada livro, uma caixa-preta que contém outras
caixinhas, ao infinito, nas quais importa captar a verossimilhança do mais
inverossímil, e vice-versa. Em outras palavras, a vida é isso que estamos

77
vendo nas artes plásticas, no cinema, na literatura. Se muitas vezes não
parece verdade, a culpa não é do artista. É do real surreal.
(19.XI.12)

12. Ambiência (climas)


Fico imaginando o que seria hoje o Rio se nosso barão de Haussmann tivesse
realizado o bota-abaixo no século XIX, como em Paris, e não no início do
século XX. Decerto uma bela cidade europeia, mas com cores locais e quiçá
algum respeito em relação à população pobre, que habitava próximo do
Centro (em parte habita ainda, ao menos por enquanto). Sou inteiramente a
favor da higienização das cidades, desde que não signifique torná-las meros
cenários para desfile da classe-média ou rica. Busco nos lugares que visito a
ambiência, o pictórico, não a mera fachada, nem o soft pitoresco. O clima
urbano, à diferença até certo ponto do rural, é feito da mistura de classes, em
que o empresário circula ao lado do operário, a professora ao lado do músico,
a bailarina ao lado do vendedor de rua. Tudo atravessado por múltiplas
sonoridades e impressões visuais, táteis, plurissensoriais, de modo que nunca
consigo dar conta do conjunto do espetáculo, mas sinto intenso prazer em
conviver com todos em total anonimato. Concretamente, em casa.
A chave do viver urbano, para mim, é a coabitação. Daí achar
insuportáveis bairros como o lindíssimo São Conrado ou a antes bela e hoje
triste Barra da Tijuca, com seus muitos edifícios isolados e condomínios
fechados, tendo como área de convivência apenas shoppings e a praia no final
de semana. Meu sonho feliz de cidade para o século XXI seria a antiBarra e a
antiBrasília, cidade de horrenda beleza, monumental, elitista, desde as
fundações, contudo hoje assediada por inúmeras construções não previstas no
plano piloto. Um dos maiores PIBs do Brasil, fundado quase exclusivamente
na “renda” administrativa e nos serviços, dando grande contribuição para
afundar a renda nacional.
Amo o pequeno comércio de proximidade, as salas de cinema de rua, em
vias de desaparecimento, a luz dos parques, os jardins, os becos onde a gente
comum passa, os bulevares e belvederes, ali onde é mais bela a vista, como
no Mirante do Pasmado, no Rio. Urbanistas, jardineiros, paisagistas do
mundo inteiro, uni-vos contra arquitetos e engenheiros megalômanos! Um
destes, de sombria memória, antes de ser lastimável prefeito da capital

78
fluminense, fez o projeto de um dos prédios mais escabrosos da urbe, onde
funciona a importante Universidade do Estado do Rio de Janeiro e aonde
muitos vão para se jogar do alto. Uma de suas histórias mais dramático-líricas
foi a de um jovem que subiu até o 12º. andar e de lá se atirou com um guarda-
chuva. Como uma criança que sonhasse ser possível voar usando a capa de
Super-Homem, ou um Mary Poppins tropical.
O que dá a verdadeira ambiência de uma cidade são o bom
funcionamento do transporte público, as zonas de respiração aliadas ao valor
de proximidade, a segurança coletiva e a ausência de contrastes sociais
violentos. O que me assombrou a primeira vez em que fui a Nova York,
metrópole que felizmente tenta se humanizar cada vez mais, com novos
parques e áreas para pedestres — foram as pessoas morando na rua. Não
podia conceber que, num país rico, a bem maldita maior potência do planeta,
houvesse homeless, sem luz, sem ar, sem razão. Tal como não concebo
nossos sem-teto com tantos prédios desocupados. O mesmo ocorre em
diversas capitais europeias, de Madri a Paris, de Roma a Berlim, sendo a
Alemanha o mais rico país europeu.
Não ter um teto todo seu não é a carência básica somente do escritor ou
da escritora, como bem reivindicava Virginia Woolf, mas de todo vivente
humano, ou de todo vivente simplesmente: que são as tocas, os ninhos, as
barragens, os pastos, as florestas, os ocos dos paus senão tetos onde os bichos
se protegem do pior? Que são os pântanos, lagos, matas, reservas, jardins,
parques, canteiros e vasos senão lugares para os vegetais habitarem com um
máximo de conforto, o luxo exuberante do natural? E pensar que, no Rio, já
há pessoas de terceira ou quarta geração que jamais conheceram uma casa,
um barraco no morro, um buraco todo seu..., no máximo, um vão livre sob
viaduto.
Uma cidade realmente plural deveria ser o resultado de muitos
cruzamentos, combinações, convergências e divergências também. Nada pior
do que bairros homogeneizados, excluindo pessoas “diferenciadas”, como
qualificou faz pouco tempo parte da elite paulista os cidadãos que não queria
ver circulando em suas ruas, no bairro de Higienópolis, por exemplo. O que
eu mais desejo é encontrar, para dialogar ou simplesmente ver, pessoas
diferenciadas, sem aspas. A hegemonia homogênea me entedia, na vida como
na arte.
Cada vez que retorno a Paris me surpreendo com a variedade de tons de
peles na antes ultraburguesa avenida dos Champs Elysées, também por

79
exemplo. Este ano, admirando por horas O mais belo passeio do mundo,
como gostam de dizer, por trás da vidraça de um simples café, tal como o
narrador de O Homem da Multidão, de Poe, tive a impressão inequívoca de
que o francês de cepa era minoria, ou seja, foi decepado. Estava em casa,
como no Centro do Rio ou em algum ponto da avenida Sete, em Salvador,
mas não exatamente na Barra da Tijuca ou em São Conrado, onde a mistura é
pequena.
Acabo de ler no jornal que as obras do metrô de São Paulo expulsam
famílias inteiras para a periferia. No local das antigas residências, constroem-
se tenebrosos espigões: caixotes sem estilo algum, cinzentos ou coloridos
com pastilhinhas de gosto muitíssimo duvidoso, todos espetados, formando
um mar de alfinetes, palitos ou de espinhos, conforme a metáfora que se
prefira... Bem, alguns replicarão, isso também é um teto todo seu. Decerto,
decerto, todavia e contudo.
O que vale para as cidades vale para a gente. Cada pessoa é um clima,
uma atmosfera, que pode se alterar durante as horas, os dias, os anos. Cada
uma resume um recanto de tormenta ou de paz, um lugar exclusivo para
pousar e habitar por algum tempo, que pode se estender por décadas. As
pessoas são na verdade moradas, amplas ou estreitas habitações, conforme a
generosidade do proprietário. Com portas e janelas para o exterior e para o
interior (lembrar Rozsda), a vida pública e a intimidade: uma real ambiência,
lugar de concretude e sonho. Pessoa jamais é pura abstração, antes, concreta
poesia.
Transcrevo trecho do email enviado a três amigos, a pretexto do filme O Som
ao Redor, de Kleber Mendonça Filho.
Em: Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2013 10:13
Assunto: Sonoridades filmadas

[...]
Adorei a trilha sonora, que eu rebatizaria de “ruídos”: vozerios, latidos, mar quebrando, carros, zoada, queda
d’água, até música incidental... Perpassando tudo, um grande silêncio. Isso reforça a estrutura narrativa fragmentária e
tensa. Porém, a tensão é interrompida o tempo todo com o humor — D., que me acompanhou, riu muitas vezes do
nonsense encenado. Achei o filme mais comédia do que de suspense. Mas também é uma tragédia, mostrando com
sutileza a mentalidade escravagista da classe-média (e rica) brasileira. Os tremores da câmera acentuam certa
instabilidade do enredo (?), realçando uma atmosfera de expectativas que só se resolvem, em parte, no final. A
explosão imobiliária em Recife é um tema capital, ilustrando a situação de praticamente todas as nossas metrópoles. E
as grades, os pseudosseguranças, as pequenas e repetidas falcatruas. Sem cartão-postal. O que mais amei foi a
redescoberta do sotaque pernambucano, em todas as nuanças e musicalidades. Não era exatamente o filme que
esperava, não chega a ser uma obra-prima, mas aprendi muito com certos jogos experimentais. Corrijo: a película é
uma magnífica antiobra-prima. Me interessa hoje nas artes justamente essa capacidade de ainda narrar algo, ou quase,
mas reinventando as linguagens, os dispositivos, as formas de contato, de acolhida, de sensação. Trata-se de cinema

80
multissensorial, em síntese. Claro, essa é uma simples opinião de leigo e não uma análise crítica. Etc.
[...]

(20.XI.12)

13. As cidades (as garças negras)


No Centro de Belém, me flagro admirando urubus, próximo ao cais do Ver-o-
Peso, onde embarcações. Eles me estranham mais do que os estranho. São
aves domesticáveis? Espero que não; têm o porte grave de quem exerce alta
função, como se portassem paletó e gravata. Ao lado disso, o lixo, os barcos-
morada, a feira, as marés e a hospitalidade. Como num quadro de Monet, o
passeio no dia seguinte pelo rio confirma todas as impressões de passagem. A
expressão “garças negras” é da guia. Retorno ao Rio entre extático e
melancólico.
A capital do Grão-Pará é uma síntese do melhor e do pior do Brasil.
Belíssima e lastimável, sórdida até, diz um amigo francês radicado no Rio —
isoladamente, qualquer adjetivo fracassa. É sempre fácil criticar os problemas
de alheias terras, as falhas menores ou gigantescas das nossas se tornam
invisíveis com o (mau) hábito. Há três dias mesmo fui a Niterói e vi uma
moradora de rua grávida de uns seis meses ou mais deitada, junto com seus
colegas não grávidos, diretamente no chão, sob o sol das catorze horas, bem
ao lado de um dos monumentos do afamado Caminho de Niemeyer...
Construtivismo e miséria radicalmente combinados.
Todavia, e por outro lado, é bastante válido o estranho estrangeiro
sinalizar o que viu e o que deixou de ver, mas com toda a delicadeza.
Sobretudo quando é acolhido com tanto calor humano e atenção inteligente.
(04.XII.12)

14. Solidão (errância)


Astrônomos europeus acabaram de descobrir um planeta solitário, espécie de
barco ébrio ou navio fantasma no espaço. Não é a primeira vez que isso
acontece, mas nunca antes tão perto de nós, a apenas cerca de cem anos-luz
do sistema solar. Sofro com essa orfandade cósmica de um corpo celeste, sem
estrela para girar em torno, nem sistema para se apoiar. Trata-se de autêntico

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astro vagabundo, ninguém sabe mesmo aonde vai parar. Como nós, errantes
navegantes. Se fosse Baudelaire, decerto o compararia ao poeta.

15. Performance (poética)


Poesia = Silêncio (John Cage)[2]
(12.XII.12)

16. Dobras (duplos)


Imagino um volume em que, por inveja mortal da arte de Matisse, tudo venha
aos pares e em série. Cada história teria outra que a refletiria, modificando e
acrescentando algo de singular, com ressonâncias internas e externas (janelas
que dão para dentro e para fora, ainda Rozsda). De modo que o conjunto
perfaria caleidoscópio, sem todavia se fechar numa só imagem, ao contrário,
tendendo a se desdobrar mais e mais. Uma maneira de praticar a antiquíssima
arte da emulação: copiar para rivalizar, antes de tudo de si para comigo. O
próprio autor seria, finalmente, seu maior rival. Jamais satisfeito com o
resultado, intentaria a cada etapa reiniciar desde o princípio, imitando-se.
A natureza é brutal; a civilização também. É preciso a arte para depurar a
ambas, sabendo, entretanto, que a insatisfação é o que movimenta o festival
das espécies, inclusive a humana. Tal seria a poética bastante artificial,
precisa e inspirada de Baudelaire, cujos efeitos até hoje.
O deserto, o mar e a floresta são minhas paixões do extenso. Formas que a
vista nunca alcança de todo, conteúdos que nem mesmo o sonho pode
compreender: delimitar, colonizar, entender. Tudo fundido num corpo a
corpo com o quase Nada, a ausência final da Voz.
Só as caveiras riem por último, fazendo claque-claque, numa zoadeira
infernal.
(16.XII.12)

Copio, colo, assino embaixo e ainda suplemento o que Goethe disse a


propósito do Fausto, obra de toda uma vida, já respondendo a críticas de seus

82
contemporâneos e antecipando as dos pósteros: Na poesia não há
contradições. Estas existem apenas no mundo real, não no mundo da poesia.
Aquilo que o poeta cria tem de ser aceito tal como ele o criou. O seu mundo é
exatamente como foi feito. Aquilo que o espírito poético gerou precisa ser
acolhido pela sensibilidade poética. A análise fria destrói a poesia e não
produz nenhuma realidade. Restam apenas destroços, que não servem para
nada e apenas estorvam. Um artista deveria ser sempre medido por sua
própria verossimilhança, com que atinge camadas insuspeitas do real. Nada
pior do que o realismo pobre. Pobre não porque trate de pobreza, pois
Graciliano, o neorrealismo italiano e Glauber, por exemplo, produziram obras
esplêndidas com conteúdo escasso; mas porque justamente não consegue
desenvolver a forma para reinventar a mísera realidade. Nada mais inócuo do
que o realismo chão, sem voo experimental. À escassez da realidade deveria
sempre corresponder a raridade de uma linguagem que indaga ferozmente as
coisas do mundo, como bem assinalou um crítico escritor. Difícil saber se a
pior censura é a estética, que exige o aprisionamento às normas do banal
verossímil — ou a de conteúdo, que obriga sempre aos mesmos temas.
(11.VIII.13)

17. Retratos (desnaturais)


É porque ele nunca deve ter visto um macaco, dizia Buffon um século depois,
em resposta ao argumento de Descartes de que os bichos são desprovidos de
alma. No zoo ilógico de Berlim, nenhum outro animal me deu tanta
impressão de desamparo aprisionado quanto os chimpanzés e os gorilas —
mal conseguia mirá-los nos olhos. Mas tudo pode não ter passado de minha
projeção humana. Vi turistas zombando de suas patéticas brincadeiras, que
eram apenas um modo de chamar nossa flutuante e bisonha atenção.
Assim que penetrei no imenso parque, um homem muito bem vestido,
de seus trinta e tantos anos, talvez quarenta, puxando uma maleta com
rodinhas, me abordou a pretexto de qualquer coisa. Depois de ter se
declarado curdo em bom alemão, me indagou se não gostaria de acompanhá-
lo na visita ao local. Lamentei muito, mas disse que daria uma volta às
pressas, pois teria que pegar o avião logo mais. Com efeito, adoraria ter
passeado por entre tão dolorosas grades e fossos na companhia de alguém,
como eu, vindo de longe, ainda mais nos comunicando em uma língua que

83
não era a de nenhum de nós dois. Ele certamente pensou o mesmo. Há desses
encontros desencontrados. Aparentemente, pelos gestos, aparência e
suavidade no falar, tinha tudo de um belo espécime humano, mas não o
abateria jamais, não tenho instinto de caçador, quando muito de esteta,
incapaz de devorar ou então taxidermizar para conservar.
Buffon dizia que A natureza é racional e revelará seus segredos àqueles que
aprenderem a ler e a entender sua linguagem. Outra coisa não penso sobre
primatas, bovinos e cetáceos, mas também sobre vírus e bactérias. O que vive
pulsa e, portanto, a seu modo pensa e se comunica. A essência da natureza é
ser tanto racional quanto irracionalmente pensante, quer dizer, muito bem
“falante”, dotada de uma linguagem toda própria. Basta escutar para ouvir,
mirar para ler e ver.
Por uma desrazão que ignoro, os astrofísicos insistem em procurar vida,
sobretudo inteligente, fora da Terra. Como acabei de sugerir, vida, seja qual
for, é sempre de algum modo inteligente. Basta observar o design básico de
um grande felino: uma máquina possante, composta por garras retráteis,
orelhas que giram para melhor captar os sons emitidos pelas possíveis presas,
olhos sete vezes mais potentes do que os humanos para bem enxergar no
escuro, um faro aguçado que nenhum de nós, bigodes-sensores para
identificar tudo o que se move à distância, um rugido de longuíssimo alcance,
intimidando eventuais invasores de território, e assim por diante. Alguém
haveria de duvidar da sofisticada genialidade de tal maquinário?... Desde a
explosão cambriana, com a eclosão das espécies multicelulares, a vida se
tornou uma usina de inteligência, na qual aperfeiçoa o desenho de seus
inventos ao infinito. Sem Criador por detrás.
(08.VI.13)

18. Autocídio (imaginário)


Em seu último aniversário em outubro, um grande amigo falou na iminência
da morte como uma possibilidade concreta. Não que o tema fosse totalmente
inédito entre nós. A diferença é que, dessa vez, ele expressou certo cansaço e
o desejo real de partir o quanto antes. Fiquei bastante impressionado, e ele
desde então voltou umas três vezes ao assunto, a derradeira foi no sábado

84
passado, quando saímos com um pequeno grupo para jantar. Depois de
algumas taças de vinho, falou no suicídio como algo que pode se tornar
necessário, ao que retorqui com argumentos em defesa da vida. Não sou um
vitalista, mas, em caso de dúvida, acho sempre melhor preferir a vida. O
aborto pode ser uma exceção, mas dependerá sempre do caso e dos
envolvidos, a saber, os pretensos pais e o embrião. Sou igualmente a favor da
eutanásia, a dita boa morte, quando já não há solução. No mais, disse-lhe o
quanto sou apaixonado pela vida, embora também a ache frequentemente
pavorosa, quase insustentável.
Falamos do suicídio de Lady Macbeth e da amaríssima fala de seu
marido quando recebe a notícia. O amigo conhecia o trecho da peça de cor
em inglês, apenas buscou pelo celular na internet para se lembrar do início, o
resto veio fácil.
Amo essa fala e a peça como um todo, que coloco lado a lado do
assombroso Hamlet, mas não subscreveria suas teses, explícitas ou
insinuadas. Jamais cultivaria o mal pelo mal e a destruição como uma
fatalidade, menos ainda como um imperativo. No máximo, como um
incidente que, em circunstâncias específicas, não há como evitar, embora
dificilmente se deva desejar. A fala de Macbeth é a única citação que me
recuso a traduzir, aqui ou noutro lugar, em respeito à poesia que emana do
ritmo de uma tal prosa. Assim, na Cena V do Ato V, como num poema-
narrativa-ensaio-drama, o ultracélebre trecho:
Macbeth —
She should have died hereafter;
There would have been a time for such a word.
To-morrow, and to-morrow, and to-morrow,
Creeps in this petty pace from day to day
To the last syllable of recorded time,
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life’s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.
Pois bem, o querido camarada postou ontem mesmo na internet uma

85
frase em que Nietzsche defende a hipótese do suicídio como um consolo para
noites sombrias. Fiquei definitivamente chocado: como pode um
ultrarracionalista bastante afirmativo, como a pessoa em causa, crer que a
ideia do suicídio consola? Não consigo inserir tal fomentação no diálogo que
até hoje ele desenvolveu comigo: como imaginar Descartes, Kant e Hegel
admirando os suicidas? Aí lembrei que ele aprecia imensamente Cioran,
pensador que nunca me disse nada. E não dá mesmo para colocar o filósofo
romeno ao lado dos três grandes da Razão. Cioran sobra no sistema do amigo
como uma peça que não se encaixa no jogo que, segundo penso, ele passou a
vida montando. Ou talvez se encaixe perfeitamente e eu seja o grande
equivocado.
De qualquer modo, para não acordá-lo, enviei ontem mesmo mensagem
por volta da meia-noite (ao som do supremo Miles Davis, Round about
Midnight), dizendo o quanto estava preocupado e como não conseguia
perceber a relação entre o pensamento dele e a decisão suicida. Embora não
possua opinião fechada, muito menos um julgamento moral a respeito —
nada tenho a ver com a moral e tudo a ver com a ética —, continuo
preferindo a vida que, como Aristóteles, julgo tão esplêndida quanto horrível,
ainda que tenda a pesar a balança para o primeiro lado: vejo mais o esplendor
do mundo do que suas sombras abissais.
Como lhe disse naquela mensagem notívaga, sinto um gozo físico em
estar vivo e diversas vezes acordo dando bom dia ao mundo e agradecendo a
dádiva de viver. A quem me dirijo, não sei, talvez ao Nada, só que por
enquanto essa entidade vacante para mim tem a cara da Vida. Nem a de Deus
— nem a do Demônio, aqui unidos por travessão. Restou a dúvida: será que
ele tem um motivo concreto para se matar? Torço para que não, não posso
sequer conceber que um amigo se vá voluntariamente, me deixando
impotente em meio ao sublime caos.
Esse tema se tornou ultimamente uma estática em nossos contatos, uma
interferência em nosso canal (bastante aberto) de comunicação. Se ele, cedo
ou tarde, assim decidir, saberei respeitar, embora esteja muito longe de
entender, sobretudo porque nada nesses anos de conhecimento faria prever tal
arremate de males. Um poema que escreveu sobre o desejo de se lançar do
alto de um edifício no Centro do Rio me pareceu bem adequado ao momento
dilacerador da passagem para a vida adulta, como um mal pequeno e
necessário, bem distinto da presente solução final. Simplesmente o suicídio,
uma vez realizado, não tem solução nem saída, rasgando para sempre uma

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biografia. Lembro, de passagem, um lindíssimo poema de Drummond,
evocando mas também esconjurando os espíritos dos que tiveram a coragem
(?) de pôr o ponto final no texto de suas vidas com as próprias inábeis mãos.
Lady Macbeth, a ópera de Verdi, encenada por Bob Wilson, no Teatro
Municipal de São Paulo, é obra de tirar o fôlego, indizível, inenarrável e
muitos outros “ins”. Na realidade, a obra de arte total não seria aquela que
reúne o máximo de recursos (hoje algo tão fácil em tempos hipermidiáticos),
mas a que gera no espectador um máximo de sensações sem que ele
compreenda por quê. Absolutely Wilson.
A ópera tem sempre algo de canto coral, com todas as vozes de baixos,
contraltos, tenores, sopranos e barítonos, que se alternam em timbres e
nuanças, performando basta algaravia. O coro, que eventualmente se insere
entre as falas recitadas ou cantadas em monólogos e diálogos, apenas reforça
esse componente multivocal, ressoando por alguns dias depois da audiência.
A prova de força de um trabalho artístico sem dúvida depende dessa
capacidade de ressonância na mente, no corpo e mais além. Importa não mais
a Grande Obra, mas as obras intensas, capazes de levar a assistência a outras
esferas, com os pés no chão, como igualmente por vezes acontece num
transcendental cinema.
(18.XII.12)

19. Risada (O Anticristo)


Os deuses, mas sobretudo Deus, são imortais e, portanto, indestrutíveis. Além
do simples esquecimento, outro modo de reduzir seu poder seria rir deles, tal
como propunha Nietzsche. Ídolos eternos não suportam o riso, a derrisão, a
ironia e outras malícias. Os mais poderosos acabam também por morrer de
tanto rir. — Meu caro, mas de que Nietzsche você fala: do filósofo, do poeta
ou do transmetafísico? São tantas as máscaras sob o nome próprio...
Akenaton, também nomeado Amenófis, esposo da arquifamosa Nefertiti,
entrou para a História como o inventor de um protomonoteísmo. Suprimiu
todos os deuses do panteão egípcio e alçou Aton, o Sol, como única
divindade real. Com isso, retirou o poder dos sacerdotes, sobretudo os ligados
a Amon-Rá, até então a divindade máxima. A partir daí, o único mediador

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entre o Deus e os homens seria o próprio faraó. Após sua morte, o filho
Tutankamon restituiu o poder de Amon-Rá, ressuscitando ao mesmo tempo
todo o cortejo divino, e Akenaton teve sua memória apagada das inscrições
murais e sobre papiro, engendrando talvez a primeira amnésia oficial de que
se tem registro. Séculos mais tarde, infelizmente, os povos semíticos
resgataram a ideia do Deus único e soberano, porém como invenções suas,
apagando, mais uma vez, a memória de seu real criador. É comum na
História, em nome dos deuses, um indivíduo morrer diversas vezes. Mais
comum ainda é os homens acabarem acreditando em suas próprias
fabulações, esquecendo que se trata de mitos convertidos em fé religiosa. E
essa mitologia pode sobreviver aos séculos, tanto quanto as pirâmides e os
rochedos, até que outra quimera venha substituí-la.
(24.XII.12, 23:30)

20. Comédia (profana)


Não interessa tanto ser religioso ou antirreligioso, pois isso constitui
argumento insuficiente e questão ultrapassada. Valeria pensar que o sagrado
não pertence mais às divindades, as quais se esvaziaram e/ou descarrilharam.
O sagrado, se existe, diz respeito à vida, que nunca é totalmente sagrada nem
consagrada, quer dizer, colocada à parte, isolada do resto do Universo. No
fundo, ela não se separa da não vida, a dita matéria inerte, bem como da hoje
investigada matéria escura. Assim, o último reduto do sacro — muito além
do uno ou múltiplo divino —, quer dizer, a vida, coincide com o não sacro, o
supostamente inerte, o inorgânico, sua outra e mesma face. Cada vez mais se
compreende, racional ou intuitivamente, que vida e não vida se entrelaçam, a
começar pelo globo que habitamos, ele mesmo uma esfera completamente
alterada pela vida pulsante que abriga.
No Universo, dizem, a vida é rara, quem sabe exclusiva da Terra, mas
essa raridade a torna ainda mais preciosa e uma espécie de súmula do que
existe. Como se toda matéria, visível ou invisível, até agora conhecida fosse
feita para resultar nessa coisa exuberante e frágil que se nomeia em latim vita.
Ao afirmarmos o fluxo vital em consonância com seu oposto, afugentamos os
últimos deuses, que já foram tarde, esquecidos e mortos de rir de si mesmos.
Tal seria a antiga Divina Comédia, transformada depois na Comédia Humana
e, por fim, na Comédia da Vida e da Morte, inseparavelmente. Eis o

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novíssimo sagrado, que se funda não na separação, mas na inseparabilidade
das esferas. Todo um evidente segredo por descobrir acerca dessa ficção
vital.
(26.XII.12)

21. Bazar (de tudo)


Quando era criança, havia, e talvez haja ainda (há!), em minha cidade natal
uma loja que se chamava A Miscelânea Franco. Pode ser que existam
lojinhas de nomes parecidos em outras cidades, porém desconheço. A
diferença em relação ao armarinho de miudezas, por exemplo, estaria em que
a miscelânea era um pouco maior; por isso vendia também objetos maiores, e
não apenas instrumentos para corte, costura & afins. Lembro sobretudo de
coisas de plástico, brinquedos, utensílios domésticos etc. O etc. é decerto um
dos objetos mais encontráveis nesse tipo de comércio. Há um equivalente um
pouco mais sofisticado hoje no Rio, chamado de Multicoisas, título
eloquentemente autoexplicativo — mas não é exatamente a mesma coisa.
O Houaiss diz que a miscellanea latina era originalmente a alimentação
dos gladiadores. Fico imaginando a multiplicidade de bebidas, legumes e
carnes que os guerreiros romanos precisavam ingerir para poder matar ou
serem mortos..., uma ração bem feroz. Atualmente, a palavra é quase
sinônima de coletânea de escritos de um mesmo ou de diversos autores, mas
também pode ser uma compilação de textos em homenagem a uma pessoa ou
a uma instituição. Detém ainda o sentido de mixórdia e confusão.
Há um traço babélico, multilinguístico, multirracial e multicoisal, que
muito me encanta no vocábulo, a despeito e por causa de sua semântica
também negativa. A miscelânea seria um gênero pouco nobre na literatura e
nas artes, de certo modo como as colagens, os assemblages e até mesmo
como as hoje bem-sucedidas instalações em certa época o foram. Um tipo
meio vira-lata, feito de múltiplos cruzamentos, fontes e origens. Um legítimo
bastardo. Franco (nada a ver com o ditador!) era decerto o sobrenome do
proprietário da lojinha. A qualificação reforça a bastardia da Miscelânea,
aquela que não tem medo de pronunciar, francamente, seu próprio nome.
(Passados alguns dias, a irmã confirma a persistência da loja e de seu
proprietário, tantos anos depois.)

89
(20-29.XII.12)

22. Matança (ancestral)


Já é coisa bem assentada em nossa modernidade tardia que o esquecimento é
uma função essencial da memória e não simplesmente uma falha em seu
funcionamento. Tendo a pensar, mais radicalmente, que a memória é uma
simples função no esquecimento geral. Esquecimento este que sustenta a vida
e a não vida, ambas entrelaçadas. Esquecemos o tempo todo e todo o tempo
fingimos nos lembrar, de acordo com essa ou aquela conveniência. Até
pequenos esquecimentos são fingidos em proveito do Grande Esquecimento.
Agora mesmo fingimos que tribos inteiras do Mato Grosso do Sul foram
esquecidas nos pequenos espaços de confinamento, em proveito de posseiros
e latifundiários. Fingimos esquecer que são vidas ali instaladas há séculos,
com suas especificidades, pois queremos que sejam simples mendigos
civilizados, porém travestidos de índios. Se confirmados em sua
mendicância, os guarani-kaiowás (até a Carta Capital denunciou as condições
em que sobrevivem atualmente...) poderão ser para sempre esquecidos, pois
quem jamais se lembrou neste país, quiçá neste mundo, dos pobres
mendigos? São estes os maiores olvidados da Terra, a quem de vez em
quando se oferece abrigo temporário, roupa e comida, para não morrerem
logo de frio ou fome.
Em Barcelona é assim, em Buenos Aires idem, em Berlim, nas capitais
brasileiras nem se fala, em Bangladesh, em Casablanca: na rua, dirigimos-
lhes um mesmo e indiferente olhar, como se invisíveis. Caso os assim
chamados índios (designação genérica decerto abusiva) em todo o território
nacional ascendam à condição de indigentes, aí se terá completado o processo
geral de apagamento, e a memória residual não passará de eventual surto de
arrependimento; como todo surto, igualmente destinado a gerar maior
invisibilidade posterior. Porque, como bem disse o poeta-cantor, se a
memória não falha, é preciso riscar os índios e nada esperar dos pretos.
Entenda-se a crua ironia.
O caso mais duramente emblemático de nosso descaso com as culturas
autóctones e com a história do país é a tentativa — ainda não efetuada
enquanto escrevo — de expulsar representantes de etnias indígenas do antigo
Museu do Índio, nas cercanias do Estádio do Maracanã. Abandonado, o

90
palacete do século XIX foi legitimamente ocupado por índios sem-terra e sem-
teto, mas a lógica lucrativa da indústria da Copa do Mundo necessita demolir
o patrimônio cultural para bem triunfar. Essa é, sem dúvida, a pior forma de
pertencer ao Ocidente e tentar ser pós-pós-moderno.
Depois de uma liminar da justiça e de um impasse com o governo
federal, o senhor governador geral do estado do Rio de Janeiro decidiu que o
prédio histórico não será mais demolido, mas sim tombado e transformado
em Museu das Olimpíadas (!). Num país com uma tradição olímpica
fabulosa, a decisão se distingue por competência e humildade. Os índios,
contudo, se mantêm irredutíveis, recusando apitos, pulseirinhas, espelhos e
outras quinquilharias — só querem habitar. Curiosamente, nesse meio tempo,
dois operários que trabalhavam nas obras do Maracanã pularam o muro para
conversar com os índios e prestar solidariedade. Foram, claro, demitidos pela
empreiteira por injusta causa.
(30.XII.12–15.I.2013. Nota: depois de inúmeros protestos e conflitos, o governo estadual recuou e resolver
preservar o Museu do Índio.)

23. Anti (safári)


Na Namíbia, os leões por vezes comem mato ralo, que não faz parte do
regime nutricional deles, para se livrar dos vermes. Nos Andes, os
mergulhões carregam os filhotes nas costas, desafiando as corredeiras;
alimentam as crias com pequenos peixes, mas, para evitar o engasgo, de vez
em quando também lhes dão algumas penas — estas criam pelotas, que
protegem contra as espinhas no momento de regurgitar. De onde viria tanta
inteligência senão da própria vida e seus mecanismos de adaptação para a
sobrevivência?
Até alcançar o lago Surpresa, dentro do vulcão Aniakchak, no Alasca, uma
espécie de salmão deve seguir seu instinto no oceano em busca de água doce.
Ao chegar à foz do rio, ele se encontra com outra espécie nativa,
geneticamente diferente, e seguem juntos para a reprodução, na direção da
montante. A corrida de obstáculos inclui garças gulosas, leito fluvial em
forma de escadaria, corredor polonês de ursos famintos se preparando para
hibernar e, por fim, águias certeiras — isso é o que singelamente se poderia
chamar de cadeia alimentar. Mas não basta a água doce, é preciso que seja

91
parada, a fim de ocorrer a desova. Esta só é de fato realizável dentro do lago
vulcânico. Uma vez lá chegando, não por acaso, o animal é rebatizado como
salmão surpresa. Com efeito, surpreende sua capacidade de resistir às mil
provações e dar continuidade à vida.
Um gatinho de estimação foi pego em flagrante levando serras, celulares,
cartões de memória e fones de ouvido, colados com fita adesiva nas costas,
para os queridos gatunos de um presídio nas Alagoas. Apesar de ser
declarado inocente, não se sabe ainda se o bichano passará por processo e
levará alguns anos atrás das grades. As sociedades protetoras dos animais já
se manifestaram contra o abuso de poder. De qualquer modo, é possível que a
pena dos próprios presidiários seja agravada, a despeito do fracasso da
operação. Falta encontrar o responsável pelo preparo do animal, bem como os
destinatários da encomenda dentro do vasto edifício. Recompensa-se quem
fornecer informações. O disque-denúncia recebeu várias chamadas nesse
sentido, mas infelizmente a maioria são trotes e comentários gaiatos.
(26.V.12)

24. Resistência (destino)


Em Brasília, um bicho-preguiça, ou simplesmente uma preguiça, se agarrou à
porta de um carro e, irredutível, se recusou a desgrudar. Não e não e não e
não. A maciez cinza-azulada da pelagem animal contrastava com a força das
garras e esta, por sua vez, com a preguiça que supostamente lhe dá nome.
Não é preguiçosa, apenas sabe o que quer e não perde tempo com bobagens.
Não perde. Usa-o a seu favor, usufruindo-o como quem devora lentamente
uma suculenta maçã ou admira, extática mas contida, uma breve paisagem.
Pode ser que o desejo de continuar presa ao automóvel resultasse da vontade
de viajar sem se mexer, de contemplar quadros e mais quadros se
desdobrando, porém estática.
Os bombeiros vieram e salvaram a ordem dos homens. Como sempre, a
preguiça ou, antes, o ócio inventivo que nos faz respirar, foi que perdeu. O
repórter deu o triste desfecho com um arzinho de satisfação, as autoridades
mal ocultaram o alívio, o dono do veículo partiu à toda, enfim livre daquele
estorvo, ufa! Apesar disso, o mundo, pela primeira vez em sua longuíssima
história, pareceu girar ao contrário ou ao menos interromper seu curso — mas

92
só por alguns minutos, depois, um solavanco, e quase ninguém percebeu.
(27.I.13)

25. Atestados (idoneidade)


Silas Santoro, um famoso afinador de piano residente em Paris, já bastante
idoso e rico, adquiriu certa feita um verdadeiro falso Rembrandt, a um preço
que não foi baixo. Com o mesmo dinheiro, compraria qualquer obra de um
artista internacional de peso, um Soulages dos anos 1950, por exemplo. Ele
sabia que a tela do pintor holandês era pura trapaça, e alguns de seus
próximos também. Isso não retirava em nada o valor da cópia, exposta como
preciosidade numa arca, bem emoldurada, com destaque na sala, iluminação
especial.
O trabalho era tão mais fascinante porque nunca Rembrandt fizera nada
parecido: uma cena do Gênesis, em que o Criador ocupa metade do quadro,
de perfil montanhoso, no momento de separação entre luzes e trevas. Era uma
cópia no puro estilo do mestre de Amsterdam, mas sem o original de
referência; valiosa por si mesma, embora realizada em pleno século XX. O
falsário conseguiu até reconstituir os pigmentos originais, hoje inexistentes,
por meio de apurado estudo químico. Tinha gênio para a ciência.
Decerto muitos visitantes da alta burguesia parisiense admiraram a obra-
prima convictos de sua autenticidade. Mas quem haveria de negá-la, se o
trabalho revelava o mesmo engenho, por exemplo, do Moisés prestes a
quebrar as Tábuas da Lei, com seu dourado contraste de sombra e luz, que
ninguém mais? Essa verdade subterrânea profana o sagrado artístico,
liberando o olho e a mão para a aventura criativa: uma estética da emulação.
O nome do verdadeiramente falso autor jamais foi revelado. Alguns
suspeitam que o próprio Silas seria pintor em segredo. Afinador fora uma
imposição paterna, para dar continuidade à linhagem profissional da família,
de que também herdara o talento e parte da fortuna, ambos passados de
geração em geração, desde as origens na Itália. Seu único filho, agora adulto,
segue pelo mesmo caminho, embora haja quem duvide da paternidade;
porém, isso é outra história.
A partir da epígrafe um livro inteiro pode ser lido.
(13.I.13)

93
26. Direito (fugitivo)
Antes de me recolher em Diamantina, para retoques neste livro em progresso,
mas também para a simples mudança de ares, assisto ao filme dos irmãos
Paolo e Vittorio Taviani, baseado no Júlio César, de Shakespeare, e encenado
com presidiários em Roma, César Deve Morrer. Sou arrastado de imediato
para o que acontece na tela: a peça do dramaturgo elisabetano filmada por
dois italianos, com atores amadores dentro de um presídio. Assistirei a dois
filmes simultaneamente. Primeiro o que se passa diante de meus olhos, em
cores e, a maior parte do tempo, num preto-e- branco inspiradamente
neorrealista. Mas há outro filme que não consigo deixar de ver, o de uma
conversa luminosa com um amigo antes de partir; toda a viagem será
marcada por um projeto auspicioso.
O filme dos Taviani detém tantas qualidades que só outro filme para dar
conta. Refinamento das imagens, delicadeza da mistura de realidade e ficção,
poesia shakespeariana levada à enésima potência, conjunção multiétnica dos
presídios do mundo (sim, existe um cosmopolitismo do crime: por exemplo, a
máfia internacional) e, sobretudo, mistura dos sotaques, que darão a cor local
da peça filmada. Prezo muitíssimo essa convergência de falares: romano,
siciliano e napolitano, mas também argentino, visto que há um prisioneiro do
país vizinho ao nosso, todos sobrepondo-se ao idioma do bardo inglês.
O grande personagem, para mim, das duas histórias (do filme e da peça)
não seria nem César nem Marco Antônio, mas Brutus. É ele que, quase
hamletianamente, pende para os dois lados da disputa e acaba por sucumbir
em razão de suas próprias dubiedades. Nada mais estranho do que
condenados interpretando um texto que fala de poder, tirania e liberdade,
numa trama duplamente romana. No final, tem-se a ficha com o destino de
cada um, sendo que dois deles escreveram livros. Arte e política se unem
intensamente, sem nenhum panfletarismo nem ingênuo humanismo
subliminar. Todo o pensamento emerge desse atrito da mais dura
circunstância presidiária com a ficção dramatúrgica, como também com a
história imperial latina, tão mitificada pela literatura e pelo cinema. Não foi a
primeira vez que se fez esse tipo de experiência, mas o que importa é a
delicada magistralidade da encenação by Taviani e das atuações dos
prisioneiros.
Corte.
Já em Diamantina, encontro por acaso o protagonista do conto

94
Altamente Confidencial, o carteiro e missivista Gabriel Arcanjo. Neste
primeiro dia, perambulo pelas vias da antiga Vila do Tijuco, em busca tanto
dos monumentos históricos quanto, e principalmente, das ruínas. A cidade
contém ambos em excelente quantidade. Após fotografar um prédio
semiarruinado e algumas plantas numa espécie de pracinha, sou abordado por
um senhor com mais de setenta anos, em trajes dominicais, embora seja
sábado: sapato e meia social, calça de fino algodão, pulôver de lã apesar de
não estar exatamente frio. Indaga de onde venho e se gosto muito de
fotografar.
Depois de algum tempo, como bom personagem ficcional, começa a
contar sua história. Diz que trabalhou num local próximo, onde funcionava
uma agência de correios. Loquaz, fala de todos os serviços que costumava
prestar aos usuários, inclusive sedex e sedex 10, perguntando se os conheço...
Seu nome é, digamos, Deneval, assim como o meu é Raimundo; indica o
sobrado onde mora e diz que ficava nos fundos de uma prisão, ora desativada.
Pergunto se viu alguns presos fugirem. Ele diz que sim, mas que nunca fez
denúncia, pois (reproduzo infielmente suas palavras) O preso tem o direito de
fugir, e quem sou eu para tolher sua liberdade? Outros habitantes das
redondezas o teriam feito, porém ele jamais.
Surpreende a singeleza do raciocínio, que nem mesmo a um Pasolini
ocorreria: a fuga é um direito e como tal deve ser respeitada... Somente às
autoridades compete a restrição da liberdade, não ao pacato cidadão. Conta
ainda que tem quatro filhos, todos residindo fora, com outros filhos, que
também já procriaram, numa ampla cadeia reprodutiva. Olho esse portentoso
senhor de cabelos brancos e vejo nele a imagem da dádiva, como alguém que
tivesse exercitado todos os seus instintos e vontades. Admiração nada
invejosa, como quem aprecia imensamente um quadro, que, todavia, jamais
assinaria. Eis a fábula real do agente dos correios, antecipando muitas outras
surpresas diamantinas. Retrato de um Brasil que, com efeito, amo.
(De volta ao Rio: Diamantina é exemplo de uma das melhores
possibilidades de cidade brasileira, com belíssimo patrimônio bem
preservado, ruas limpas, pessoas gentis, serviços eficientes, boa comida, e
uma região extasiante, que até de desenhos pré-históricos dispõe. Fiquei
particularmente impressionado com a pintura construtivista das casas
coloniais. Tudo isso a despeito de estar sem prefeito, deposto por
corrupção...)
(Pousada dos Cristais, 02.III.13)

95
27. Pós (escritos)
Desejaria apreender a loucura da razão e depreender a razão da loucura. Os
loucos são muito lógicos em seus delírios e os sábios, muito delirantes em
suas convicções. Os racionalistas se embriagam com uma visão para lá de
geométrica do mundo, em que nada está fora do lugar, tudo atendendo a leis
universalmente válidas e reconhecíveis por qualquer ser pensante. Muitas
vezes a loucura faz a cultura e a cultura depois retorna como devaneio
estruturado.
Talvez a Verdade seja a mais louca invenção dos filósofos, aqueles que,
como nos conta Kafka, querem prender e analisar o movimento do pião na
palma da mão. Quando conseguem, o brinquedo se imobiliza e eles se
desinteressam do mecanismo. Motivo pelo qual giram e giram em busca do
dispositivo perfeito, que dê conta do funcionamento do Universo. Até o
presente momento, sem sucesso. Com efeito, são giros.
(05.XII.12–14.IX.13)

96
IV. TÁBUA GRATULATÓRIA

97
1. Das Pessoas
Agradeço a Sérgio Sant’Anna, que, desconhecendo inteiramente o autor, se
encantou com meu livro anterior Cantos do mundo. Depois disso, leu e
comentou os originais destes Cantos profanos.
Agradeço igualmente a Luciana Villas-Boas pela amizade e confiança, que já
nos levaram a realizar diversas parcerias.

2. Das Epígrafes
Nas citações abaixo, sempre que não houver indicação, as traduções são
minhas:
Na “Abertura”:
“Tudo era escuro, todavia esplêndido — como o ébano”, Edgar Allan
Poe, The Man of the Crowd [O homem da multidão]. Nova York:
BookSurge, 2004.
Em “Tentação dos santos”: declaração em entrevista de Radovan Karadzic,
poeta, psiquiatra e ex-líder sérvio, responsável pela grande “limpeza
étnica” durante a guerra na ex-Iugoslávia. Condenado por crimes contra a
humanidade, encontra-se foragido.
Em “Táxi”: “‘Como sabe que sou louca?’, disse Alice.
‘Só pode ser’, disse o Gato, ‘ou não teria vindo parar aqui’”, Lewis
Carroll, Alice’s Adventures in Wonderland e Alice through the Looking
Glass [As aventuras de Alice no País das Maravilhas e Alice através do
espelho]. Nova York, Londres: Penguin, 2000, p. 65.
Caetano Veloso, “Vaca profana”, na voz de Gal Costa, em Profana. Rio
de Janeiro: RCA, 1984.
Em “Demo”: “Mas amar? Quem esse homem teria amado?”, Thomas Mann,
Doktor Faustus. Frankfurt am Main: Fischer Verlag, 2008, p. 10-11.
Santo Agostinho, A natureza do Bem. Tradução Carlos Ancêde Nougué.
Rio de Janeiro: Sétimo Selo, 2005, p. 15.
“Prazer em conhecê-lo,/ Espero que adivinhe meu nome”, Mick Jagger,
“Simpathy for the Devil” [Simpatia pelo diabo]. É a faixa de abertura do
sétimo álbum de estúdio dos Rolling Stones, Beggars Banquet. Londres:

98
Decca Records, 1968.
Em “É hoje!”: Carlos Drummond de Andrade, “Apelo a meus
dessemelhantes em favor da paz”, em Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, 1979, p. 715-717.
Em “Voo vespertino”: Carlos Drummond de Andrade, “Verbos”, em
Farewell. Rio de Janeiro: 1996, Record, p. 102.
Thomas Mann, A gênese do Doutor Fausto: romance sobre um romance.
Tradução Ricardo F. Henrique. São Paulo: Mandarim, 2001.
Em “Muito prazer,”: “Nada mais original, nada mais individual do que se
nutrir dos outros. Mas é preciso digeri-los. O leão é feito de carneiro
assimilado.” Paul Valéry, “Tel quel” [Tal qual], em Oeuvres II. Paris: NRF
Gallimard, 1969, p. 478. (Pléiade.)
“Voltemos a nossos carneiros”, expressão francesa equivalente a nossa
“voltemos à vaca-fria”.
Em “Édipo solar”: “As palavras nem sempre coincidem com o pensamento.
Adiantadas, atrasadas. Nos filmes, a comicidade dessa não coincidência é
terrível”, Robert Bresson, Notes sur le cinématographe [Notas sobre o
cinematógrafo]. Paris: Gallimard, 2007, p. 102. (Folio.)
Em “O banquete”: “Claire: Odeio os empregados. Odeio essa espécie
detestável e vil. Os empregados não pertencem à humanidade. Eles
escorrem. São a exalação que se arrasta nos quartos, nos corredores,
penetrando-nos, entrando pela boca e nos corrompendo. Vocês me dão
nojo”. Jean Genet, Les bonnes [As criadas]. Paris: Folio, 1996.
Em “Elos”:
“Meus apetites nunca mais degrado
A novas provas contra um velho amigo,
Um deus no amor, a quem estou ligado.”
William Shakespeare, “Soneto CX”, em 50 sonetos. Tradução Ivo
Barroso. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012, p. 94-95.
O poema de Jandira “cosmópolis (erótica)” faz parte de uma coletânea
minha de poesia, intitulada justamente Camuflagens, inédita.
Em “III. Os vestígios”: “O que me falta ao coração e o que redime/ Sois vós, ó
Lady Macbeth, alma afeita ao crime ...”, Charles Baudelaire, “O ideal”, em
As flores do mal. Edição bilíngue. Tradução Ivan Junqueira. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2012, p. 164-165. (“L’idéal”. Les fleurs du mal.)
Algumas transgressões às normas editoriais no corpo do texto são de inteira

99
responsabilidade do autor. (N.E.)

100
[1]. As traduções para o português dos textos escolhidos para epígrafes encontram-se ao final do livro, em “IV. Tábua
gratulatória, 2. Das epígrafes” (N.E.).
[2]. Ao menos por meia hora, o performista deve ficar em total silêncio, sentado numa cadeira, contemplando o vazio,
enquanto o público simplesmente assiste, de preferência sem se mexer. Depois, o a(u)tor pega seu assento, põe
debaixo do braço e vai embora sem dizer palavra.

101
Índice
Capa 2
Folha de rosto 2
Créditos 3
Dedicatória 5
Epígrafe 1 6
Epígrafe 2 7
I. OS CANTOS 8
Tentação dos santos 9
Babel revisitada 13
Estação terminal 16
Nada como um dia 19
Táxi 23
Altamente confidencial 30
Terra à vista 32
II. AS PROFANAÇÕES 37
Demo 38
É hoje! 44
Voo vespertino 47
Muito prazer, 49
Noturno 52
Édipo solar 55
O banquete 60
Elos 66
III. OS VESTÍGIOS 70
Ce qu’il faut à ce coeur profond comme un abîme 71
IV. TÁBUA GRATULATÓRIA 97
1. Das Pessoas 98

102
Notas 101

103