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21 de fevereiro de 2020

DIREITO CIVIL

 Compra e venda (cont.):


(1) Vontade: elemento volitivo. É a intensão que a parte tem de realizar o contrato.
(2) Objeto: esse objeto deve ser:

(2.1) Lícito: a lei deve vedar a comercialização desse objeto.

(2.2) Corpóreo: ele deve ser suscetível de apropriação. Ele deve ter objeto, forma e pode ser
apropriado. Bens imateriais não são objetos de compra e venda (ex. nome – Damásio de Jesus
não vendeu o nome, mas cessão de direitos).

(2.3) Esse objeto deve ter valor econômico: não basta que esse objeto tenha valor estimativo,
mas econômico (mensurado, direcionado) e ter aceitação no mercado.

(2.4) Comercializável:

O CDC já foi mais longe dizendo que numa relação mesmo em que o bem não seja tocável
(uma assinatura do Netflix, por exemplo) se aplica a legislação de consumo. Por essa
classificação clássica, ainda não se resolveu a situação no direito civil.

É possível vender um bem público? Depende. Um particular não pode se apropriar de um bem
público e vender. Não é possível usucapião de bens públicos, em regra.

Bens públicos - bens dominicais: aqueles bens que embora sejam públicos não cumprem com
essa finalidade. Ex. pessoas morando em um prédio público. Tem um julgado do TJ/SP que foi
na contramão dizendo que é possível usucapião de bens públicos sim – o imóvel precisa
respeitar a função social, portanto se não estiver sendo utilizado pelo poder administrativo,
pode ser objeto de usucapião.

Uma corrente minoritária diz que sendo possível a usucapião, caberia a compra e venda de
bens públicos.

(3) Forma: uma das características da compra e venda é que sua forma é livre – não existe
nenhum procedimento pré-estabelecido na lei para compra e venda de bens móveis. A
compra e venda de bens móveis se consolida com a tradição. A bens imóveis, só mediante
escritura pública e aqui a forma não é mais livre.
(4) Preço

(4.1) Dinheiro: negócios jurídicos celebrados a luz da legislação jurídica brasileira, tem como
parâmetro a moeda corrente – o real.

(4.2) Sério: significa que deve ser proporcional, ou seja, o preço dessa venda deve ser
proporcional ao preço do próprio bem. Caso não seja, estamos diante de uma onerosidade
excessiva (para mais) ou uma simulação (para menos).

(4.3) Certo: há certeza de exigibilidade daquilo dos valores acordados. Há liquidez na


exigibilidade daquilo que foi acordado.

(4.4) Determinado ou determinável: o determinado é aquele preço que já é conhecido no


momento da celebração da compra e venda.
O preço determinável é aquele que as partes não sabem no momento da celebração qual será
o valor líquido a ser pago, sendo esse preço liquidado em momento posterior – no ato de
execução do contrato. Ex. compra e venda internacional no cartão de crédito – a compra é
determinável porque não sabemos quanto pagaremos na correção do dólar quando for
fechada a fatura do cartão.

Esse preço não pode ser fixado de forma unilateral. Será nula qualquer fixação de valores de
forma unilateral. Logo, deve haver consenso na fixação de preço pelas partes. Art. 489. Nulo é
o contrato de compra e venda, quando se deixa ao arbítrio exclusivo de uma das partes a
fixação do preço.

Art. 485. A fixação do preço pode ser deixada ao arbítrio de terceiro, que os contratantes logo
designarem ou prometerem designar. Se o terceiro não aceitar a incumbência, ficará sem
efeito o contrato, salvo quando acordarem os contratantes designar outra pessoa.

A fixação de terceiro é muito comum em arbitragem. Esse terceiro vai emitir um laudo acerca
do valor de determinado bem. Esse terceiro tem que ser eleito em consenso entre as partes,
caso não for, caímos na situação de fixação de forma unilateral – NULA.

Art. 488. Convencionada a venda sem fixação de preço ou de critérios para a sua
determinação, se não houver tabelamento oficial, entende-se que as partes se sujeitaram ao
preço corrente nas vendas habituais do vendedor.

Parágrafo único. Na falta de acordo, por ter havido diversidade de preço, prevalecerá o termo
médio.

Segundo a redação desse dispositivo, há consagração do princípio da conservação dos


contratos. Esse princípio é base da teoria geral dos contratos. Logo, não tendo as partes
condição de fixar valores da compra e venda e não havendo tabelamento oficial para isso,
deverá o juiz ter como parâmetro os valores médios do vendedor. Caso contrário, a média será
fixada pelo próprio juiz.

Uma questão polêmica é a relacionada à venda por aquele que não é dono. Ou seja, pode uma
pessoa que não é dona de determinado bem celebrar um contrato de compra e venda? Existe
um primeiro posicionamento minoritário que diz que pode por dois motivos: (a) porque a lei
não veda e (b) porque a compra e venda é separada em 2 momentos (1º da celebração, 2º da
execução). No momento de celebração é possível esse terceiro venha a celebrar. No momento
da execução não é possível que esse terceiro transfira o bem que não lhe pertença.

Cuidado: isso não é relacionado ao curador. A venda “non domínio” é relacionada às demais
situações.

Um segundo posicionamento majoritário (julgado do STJ, inclusive) é a vedação da venda por


aquele que não é dono, sendo caso de ineficácia do negócio jurídico. Motivos: (a)
impropriedade do bem da relação e (b) se fosse celebrado um negócio desses, haveria
ineficácia tendo a vista a falta de titularidade do bem.

A compra e venda relacionada a incapazes e a compra e venda relacionada às pessoas casadas:

Capacidade é um requisito genérico. Legitimidade é um requisito específico. É possível que a


pessoa tenha capacidade para praticar determinado ato, mas não tem legitimidade, uma vez
que para ter legitimidade é necessário que haja poderes específicos, pertinência para
realização daquele negócio jurídico. Ex. uma compra e venda pode ser efetuada por terceiros
desde que esse tenha uma procuração para tanto – essa pessoa tem legitimidade para tanto.

 Compra e venda envolvendo incapazes:

Na redação original do CC/02, a pessoa com deficiência era colocada como incapaz. Ser pessoa
com deficiência era sinônimo de ser incapaz, logo, todos os atos da vida civil deveriam ser
praticados pela pessoa com deficiência com seu curador.

Hoje, os atos existenciais podem ser praticados pela pessoa com deficiência sem um curador
(ela é legítima). O regulamento antigo protegia o patrimônio, não a pessoa com deficiência.

O que existe é:

Art. 3º São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores
de 16 (dezesseis) anos.

Art. 4º São incapazes, relativamente a certos atos ou à maneira de os exercer: (Redação dada
pela Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência)

I - os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos;

II - os ébrios habituais, os viciados em tóxicos, e os que, por deficiência mental, tenham o


discernimento reduzido;

III - os excepcionais, sem desenvolvimento mental completo;

II - os ébrios habituais e os viciados em tóxico; (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015)
(Vigência)

III - aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade;
(Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência)

IV - os pródigos.

Parágrafo único. A capacidade dos índios será regulada por legislação especial.

Compra e venda celebrada por incapaz: pode, mas com o curador ou através do mecanismo de
tomada de decisão apoiada. Essa deficiência deve ser no sentido de impossibilitar essa compra
e venda. Se for uma deficiência física, não há impedimento algum.

Segundo a redação do art. 6º da Lei 13.146/15, a deficiência não afeta a plena capacidade civil
da pessoa, podendo ela se casar, exercer direitos sexuais e reprodutivos, ou seja, direitos
relacionados à família.

Neste sentido, a curatela atingirá apenas os atos relacionados ao direito patrimonial e negocial
(art. 85), não atingindo privacidade, intimidade, educação, trabalho etc.

Para Maria Helena Diniz, o comprador deve ter capacidade de disposição patrimonial. Sendo
assim, os absolutamente e relativamente incapazes só poderão contratar se representados ou
assistidos sob pena de nulidade do negócio jurídico.