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BIOMECÂNICA

INTERFACES COM
O ESPORTE, SAÚDE E
EXERCÍCIO FÍSICO
Ewertton Bezerra

Rodolfo Dellagrana

Mateus Rossato

BIOMECÂNICA
INTERFACES COM
O ESPORTE, SAÚDE E
EXERCÍCIO FÍSICO
Ewertton de Souza Bezerra
Manaus - 2019
Biomecânica: interfaces com o esporte, saúde e exercício físico Copyright © 2019 by Ewertton
Bezerra, Rodolfo Dellagrana & Mateus Rossato
E-mail: esbezerra@gmail.com

Revisão Ortográfica: Aline Moraes de Oliveira


Capa: Adenilson Mendes de Assis
Projeto Gráfico: Adenilson Mendes de Assis
Contracapa: Adenilson Mendes de Assis
Editor: Ewertton de Souza Bezerra
Fotos: Arquivo pessoal dos autores de capítulo ou com citação de fonte consultada no rodapé da foto.

Todos os direitos reservados.


1.ª edição – 2019

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Agência


Brasileira do ISBN - Bibliotecária Priscila Pena Machado CRB-7/6971

B615 Biomecânica : interfaces com o esporte, saúde e exercício físico [recurso


eletrônico] / Ewertton Bezerra, Rodolfo Dellagrana e Mateus Rossato. —— Manaus : E.
S. Bezerra, 2019. Dados eletrônico (pdf).
Inclui bibliografia. ISBN 978-65-900459-1-1

1. Educação física. 2. Biomecânica. 3. Exercícios físicos. 4. Promoção da saúde. I.


Bezerra, Ewertton. II. Dellagrana, Rodolfo. Rossato, Mateus. IV. Título.

CDD 613.7
Revisores Científicos

João Otacílio Libardoni dos Santos


• Doutor em Educação Física – Universidade do Estado de Santa
Catarina

• Professor da Universidade Federal do Amazonas

Fábio Juner Lanferdini


• Doutor em Ciências do Movimento Humano pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul

• Professor da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das


Missões

Wagner Jorge Ribeiro Domingues


• Doutor em Educação Física – Universidade Estadual de Londrina

• Professor da Universidade Federal do Amazonas


“Com amor a Enzo, Gabriel e Leiliane”
Ewertton Bezerra

“Para toda a minha familia”


Rodolfo Dellagrana

“A aquela que me acompanha, Caren”


Mateus Rossato
AGRADECIMENTOS
Este material foi organizado com o objetivo de servir como uma referência
para estudantes e profissionais das áreas da Educação Física, Fisioterapia e
Medicina. Os temas abordados neste livro foram objeto de estudo de
mestres e doutores que realizaram suas capacitações junto ao Laboratório de
Biomecânica da Universidade Federal de Santa Catarina nos últimos cinco
anos, aos quais gostaríamos de agradecer pelo empenho em dispor de um
tempo para transmitir a futuras gerações um conteúdo rico de informações.
Uma base importante neste processo de construção foi o encontro entre
nós, organizadores desta obra, e todos os nossos colaboradores. Isto só
pôde acontecer devido ao programa de Pós-Graduação em Educação Física
da Universidade Federal de Santa Catarina, aos Grupos de Pesquisa em
Biodinâmica (GPBIO) e ao Grupo de Estudo do Movimento Humano
(GEMH). Desta forma, nosso terno agradecimento, não só por proporcionar
o encontro, mas também pelo suporte na realização dos estudos. Também
registramos o agradecimento ao Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq), a Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Ensino Superior (CAPES) e a Fundação de Amparo a Pesquisa
do Estado de Santa Catarina (FAPESC) e do Amazonas (FAPEAM) pelo
suporte financeiro aos estudos desenvolvidos pelos autores e coautores em
algum momento deste processo.

Ewertton Bezerra
Rodolfo Dellagrana
Mateus Rossato
PREFÁCIO
Façamos um exercício mental. Como era a biomecânica quando você
começou a estudar os temas dessa área, e como ela se apresenta hoje? Há
diferença? Difícil prever o que cada um dos leitores respondeu para essa
última pergunta, mas posso compartilhar o que eu pensei. Sim, existem
muitas diferenças. O passar dos anos e o significativo desenvolvimento
da atuação de cientistas e estudantes brasileiros na área da biomecânica
contribui, e muito, para essa impressão. Com o passar dos anos, o
nosso conhecimento de conceitos básicos da biomecânica avançou para
a abordagem de questões de pesquisa em diferentes temas, projetos de
pesquisa com diversos objetivos, maior aplicabilidade prática, e o
crescimento do interesse e do número de cientistas atuando na área. A
biomecânica ficou pequena para acomodar tantas perguntas de pesquisa.
Mais do que aumento em número, houve um aumento em qualidade
do que se estuda e divulga. Houve aumento na interdisciplinaridade.
Costumo comentar com os estudantes que oriento que já não temos espaço
para uma investigação que considera exclusivamente a biomecânica, pois
os fenômenos precisam de conhecimentos de diversas áreas para uma
melhor explicação e compreensão. Isso significa que não existem mais
fronteiras entre as área? Bem, na minha opinião, sim. As fronteiras estão
totalmente abertas. “Biomecânica: interfaces com o esporte, saúde e
exercício físico” organizado por Ewertton Bezerra, Rodolfo Dellagrana e
Mateus Rossato, com a colaboração de muitos outros cientistas, apresenta
uma nova forma de olhar o conhecimento em biomecânica, promovendo a
interface com outras técnicas de pesquisa e ampliando as aplicações
dos conhecimentos. Se queremos formar um profissional cada vez mais
versátil e dinâmico, precisamos prover aos nossos estudantes um ambiente
com essas características. Este livro tem esse potencial por estimular
o leitor a compreender as relações entre diferentes conceitos e a forma
como conceitos de outras áreas podem ser empregados para o estudo
da biomecânica, nesse caso, da biomecânica do movimento humano. A
leitura de “Biomecânica: interfaces com o esporte, saúde e exercício físico”
convida o leitor a refletir sobre como as áreas de estudo interagem e como
isso é importante para a construção de novos caminhos.

Felipe P. Carpes
Universidade Federal do Pampa
APRESENTAÇÃO
Tradicionalmente as temáticas que envolviam a biomecânica se restrin-
giam ao emprego da cinemática, dinamometria, antropometria e eletro-
miografia ao esporte, ergonomia e a reabilitação. No entanto, nos últimos
anos, observa-se uma expansão das áreas de atuação, podendo a biomecâ-
nica ser encontrada no desenvolvimento de tecnologias assistivas, próte-
ses, exoesqueletos e também no modelamento de elementos finitos. Esse
crescente número de possibilidades do emprego da biomecânica tem atraí-
do profissionais de diferentes áreas do conhecimento como a Educação Fí-
sica, Fisioterapia, Medicina e Engenharias. Nesse sentido, a motivação dos
autores deste livro foi aproveitar os conhecimentos em diversos temas da
biomecânica produzidos por ex-alunos, alunos e professores do Programa
de Pós-Graduação em Educação Física da Universidade Federal de Santa
Catarina, no sentido de abordar esses conteúdos de forma multidiscipli-
nar, e assim lançar o segundo livro envolvendo a biomecânica e seus ten-
dências. Para alcançar esse objetivo, o livro foi dividido em três partes, a
primeira com temas envolvendo novos métodos e técnicas de pesquisa uti-
lizadas na biomecânica como a eletroestimulação neuromuscular, a ultras-
sonografia, a dinamometria isocinética e a terapia com fotobiomodulação.
Na segunda parte, foram enfatizados aspectos da biomecânica voltados à
saúde e ao exercício físico, com foco principalmente em idosos, parkin-
sonianos e usuários de cadeira de rodas. Por fim, a terceira parte do livro
procurou abordar temas que associam a biomecânica a aspectos inerentes a
produção de força, a esportes de combate, ciclismo, voleibol e ginástica.
Por isso, convidamos você a fazer a leitura desta obra que procurou unir
conhecimentos da biomecânica aplicados às técnicas de avaliação, saúde,
exercício físico e, por fim, o esporte.

Boa Leitura
“Nothing can be loved or hated unless it is first understood.”
(“Nada pode ser amado ou odiado a menos que seja entendido pela
primeira vez.”)
Leornardo Da Vinci (1452 – 1519)
Organizadores
Ewertton de Souza Bezerra
• Doutor em Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina
• Professor da Universidade Federal do Amazonas

Rodolfo André Dellagrana


• Doutor em Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina
• Professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul

Mateus Rossato
• Doutor em Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina
• Professor da Universidade Federal do Amazonas

Colaboradores
Antônio Renato Pereira Moro
• Doutor em Ciências do Movimento Humano - Universidade Federal de
Santa Maria
• Professor da Universidade Federal de Santa Catarina

Bruna Barboza Seron


• Doutora em Educação Física - Universidade Estadual de Londrina
• Professora da Universidade Federal de Santa Catarina

Bruno Monteiro de Moura


• Mestre em Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina

Cassio Victora Ruas


• Mestre em Ciências do Movimento Humano - Universidade Federal do
Rio Grande do Sul

Cíntia de la Rocha Freitas


• Doutora em Ciências do Movimento Humano - Universidade Federal
do Rio Grande do Sul
• Professora da Universidade Federal de Santa Catarina

Daiani de Campos
• Graduada de Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina
Daniele Detanico
• Doutora em Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina
• Professora da Universidade Federal de Santa Catarina

Débora Aparecida Knihs


• Mestra em Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina

Fernando Diefenthaeler
• Doutor em Ciências do Movimento Humano - Universidade Federal do
Rio Grande do Sul
• Professor da Universidade Federal de Santa Catarina

Filipe Estácio Costa


• Bacharel em Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina

Grazieli Maria Biduski


• Bacharel em Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina

Haiko Bruno Zimmermann


• Bacharel em Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina

Heiliane Fontana
• Doutora em Ciências do Movimento Humano - UDESC
• Professora do CCB- Universidade Federal de Santa Catarina

Ieda Parra Barbosa-Rinaldi


• Doutora em Educação Física - UNICAMP
• Professora DEF- Universidade Estadual de Maringá

Josefina Bertoli
• Mestra em Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina

Juliana Pizani
• Doutora em Educação Física - Universidade Estadual de Londrina
• Professora da Universidade Federal de Santa Catarina

Juliano Dal Pupo


• Doutor em Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina
• Professor da Universidade Federal de Santa Catarina
Kelly M. M. e Lima
• Doutora em Engenharia Biomédica - Universidade Federal do Rio de
Janeiro
• Professora Universidade Federal de Santa Catarina

Leandro Garcias
• Mestre em Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina

Lucas Bet da Rosa Orssatto


• Mestre em Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina

Lucas Machado de Oliveira


• Bacharel em Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina

Lucas Sampaio
• Bacharel em Educação Física - Universidade Federal do Amazonas

Manoela Vieira Sousa


• Mestra em Educação Física- Universidade Federal de Santa Catarina

Marco Aurélio Cardoso


• Bacharel de Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina

Mariane Eichendorf da Silva


• Bacharel em Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina

Morgana Lunardi
• Mestra na Educação Física - Universidade Federal de Santa Catarina

Rafael Lima Kons


• Mestre em Educação física - Universidade Federal de Santa Catarina

Raphael Luiz Sakugawa


• Mestre em Educação física - Universidade Federal de Santa Catarina

Silas Nery de Oliveira


• Mestre em Educação física - Universidade Federal de Santa Catarina
Sumário

Parte 1 - Métodos e Técnicas na Biomecânica

Capítulo I

Capitúlo II

Capítulo III Capítulo IV Capítulo V Capítulo VI

Terapia com fotobiomodulação aplicada ao


exercício..............................................................................

Avaliação morfológica e das propriedades mecânicas da unidade


miotendinea por meio da
ultrassonografia..................................................................

Dinamometria eletromecânica: aplicações práticas e científicas no esporte e na


saúde........................................

Utilização da eletroestimulação neuromuscular como ferramenta para


avaliação, treinamento e
recuperação....................................................................

Rigidez (stiffness) do membro inferior: conceitos, aplicações e métodos de


medição.......................................

Aumento residual de força no músculo esquelético........


20

43

68

97

120

149

Parte 2 - Exercício Físico e Saúde

Capítulo VII

Monitoramento neuromuscular de idosos:


aplicações clínicas......................................................

180
Capítulo Adaptações neuromusculares decorrentes do
VIII treinamento resistido tradicional e de potência em
idosos.........................................................................
203
Capítulo Treinamento concorrente: efeitos no desempenho
IX cardiorrespiratório, na força muscular e em tarefas
funcionais de idosos....................................................235
Capítulo Comprometimento da produção de força decorrente
X da dor aguda: estratégias para o monitoramento
neuromuscular............................................................
260
Capítulo Doença de Parkinson e o paradigma da dupla
XI tarefa............................................................................281

Capítulo Avaliação biomecânica em usuários de cadeira de


XII rodas: respostas à demanda mecânica dos membros
superiores.................................................................... 308

Parte 3 - Esporte
Capítulo Potencialização pós-ativação no esporte:
XIII mecanismos e fatores
344
intervenientes.....................
Capítulo Especificidade da ação muscular para ganho
XIV de força máxima e 374
rápida............................................
Capítulo Avaliação biomecânica em esportes de 403
XV combate...
Equilíbrio muscular nos rotadores do ombro
Capítulo em atletas de esportes 427
XVI overhead..................................
Capítulo Parâmetros biomecânicos usados como
XVII feedback aumentado no aprendizado da técnica
da 455
pedalada.................................................................
Capítulo Produção científica sobre as ginásticas artística
XVIII e rítmica associadas à 483
biomecânica.......................
Parte 1

Métodos e Técnicas
na Biomecânica
20
CAPÍTULO I
TERAPIA COM FOTOBIOMODULAÇÃO APLICADA AO
EXERCÍCIO

Rodolfo André
Dellagrana Mateus
Rossato Fernando
Diefenthaeler

O que você irá encontrar:

• Como a energia luminosa atua em determinados tecidos


biológi-
cos, especialmente no tecido muscular;
• Quais vias metabólicas são ativadas com o uso da
fotobiomodu-
lação;
• Quais são os principais parâmetros que devem ser
considerados na aplicação da fotobiomodulação;
• A fotobiomodulação como um recurso ergogênico para
atividades aeróbias e de força.

Introdução

Antes de entendermos as propriedades da luz, precisamos compreender


que ela faz parte de um espectro de ondas eletromagnéticas (Figura
1.1). As ondas eletromagnéticas por sua vez são definidas como sendo
pulsos energéticos que se propagam no espaço transportando energia
com de- terminadas características (período, frequência e fase). Além
disso, existe uma relação inversa entre o comprimento das ondas
eletromagnéticas e a frequência de sua propagação19. Por exemplo,
ondas de rádio apresen- tam grandes comprimentos de onda (baixas
frequência) e baixos níveis de energia, por outro lado os raios gama
apresentam pequenos comprimen- tos de onda (alta frequência) e
elevados níveis de energia.
A luz visível é a porção do espectro eletromagnético cuja radiação é
com- posta por fótons capazes de sensibilizar o olho humano. Cada cor
apre- senta um comprimento de onda (Figura 1.1). Nos extremos do
espectro da luz visível estão o violeta (~400 nm) que apresenta uma
maior frequência (790 THz) e, portanto, um menor comprimento de
onda, e o vermelho (~700 nm) que apresenta um maior comprimento
de onda e, por conse- quência, uma menor frequência (400 THz).
Além disso, o espectro visível pode ser subdividido em faixas de
acordo com a cor, sendo que a quantida- de de energia (J) é
proporcional a sua frequência8.
A luz segue alguns princípios ao ser emitida sobre qualquer objeto14.
Es-
ses princípios dizem respeito: a) reflexão; b) absorção; c)
transmissão; d) refração e; e) dispersão. A reflexão dependerá da
superfície com a qual a luz irá incidir. Caso a superfície seja
irregular a reflexão será difusa (em várias direções). Por outro lado,
se a superfície for lisa a reflexão será espe- cular, ou seja, o ângulo
de incidência será igual ao ângulo de reflexão. Na absorção se o
objeto for preto, todos os comprimentos de onda serão ab- sorvidos e
transformados em calor. Todos os objetos opacos, translúcidos ou
mesmo transparentes, absorvem e refletem alguma quantidade de
luz. No entanto, quanto mais ele absorve, mais escuro é o objeto,
quanto mais reflete, mais claro este objeto se apresenta. A
transmissão diz respeito à quantidade de luz que ultrapassa um
objeto. A transmissão da luz por um meio translúcido ocorre de
maneira difusa (diversas direções), em objetos transparentes a
transmissão ocorre de maneira direta. Por fim, se o objeto apresentar
uma cor, todas as demais serão absorvidas sendo transmitido
seletivamente somente o comprimento de onda selecionado, no caso
a cor do objeto. A refração diz respeito ao ângulo de incidência da
luz sobre um objeto. Quanto maior for o ângulo de incidência, maior
será o ângulo de reflexão. A dispersão, com exceção do LASER,
acontece com todos os tipos de luz. Isso ocorre porque a luz ao sair
de uma fonte, tende sempre a se dispersar em todas as direções.

Figura 1.1: Espectro eletromagnético


Fonte:https://pt.wikipedia.org/wiki/Espectro_vis%C3%ADvel
Fotobiomodulação – um pouco da história

Por volta de 1917, Albert Einstein utilizou conceitos da teoria


quântica de Mark Plank da terceira integração da matéria, que é
conhecida como emis- são estimulada de radiação, e desenvolveu a
teoria de energia luminosa amplificada23. A partir disto, o estímulo
celular fornecido por meio da ir- radiação laser ganhou dimensão
com o estudo publicado em 1923, pelo biologista russo Alexander
Gurwitsh, que demonstrou que as células vivas emitem radiação
eletromagnética atérmica (comprimento de ondas simi- lares à
radiação ultravioleta), que por sua vez pode induzir a um processo
biológico semelhante à mitose14. Após esta descoberta, muitos
pesquisado- res desenvolveram estudos sobre a possibilidade da
irradiação luminosa artificial induzir tais processos biológicos14,68.
No início da década de 50 foram desenvolvidos os MASERS
(acrômio para Microwave Amplifiers by the Stimulated Emission of
Radiation ou amplifi- cação de micro-ondas por emissão estimulada
de radiação). Vale ressaltar que a radiação de micro-ondas é formada
por ondas eletromagnéticas com propriedades ópticas que podem ser
refratadas, difratadas e refletidas14. Assim, a extensão deste princípio
aplicado na radiação de micro-ondas foi sugerida na amplificação e
geração na região da radiação visível14. No en- tanto, somente no
ano de 1960 que Theodore Maiman criou o primeiro laser de rubi
com comprimento de onda de 694,3 nm, no qual foi capaz de
justificar o acrômio LASER (light amplification by stimulated
emission radiation, ou amplificação da luz por emissão estimulada
de radiação)14,66. Sendo que, a partir disto, várias fontes de luz foram
desenvolvidas, como por exemplo, apontadores de laser, leitura de
códigos de preço e dispositi- vos militares para sistemas de definição
de alvos11.
Ainda na década de 60, foram desenvolvidos os lasers de Hélio-
neônio (He-Ne) e Neodímio-Ítrio-Alumínio-Granada (Nd-YAG)14.
Atualmente é possível encontrar lasers com variedade de substâncias
empregadas como fonte primária de energia elétrica ou óptica
estimulando o meio ativo do dispositivo de laser, estas substâncias
podem ser um gás (gás carbônico, argon e excimer), líquido (dye),
sólido (rubi, alexandrite e KTP) ou um se- micondutor (diodo)11.
Além disso, os lasers podem ser classificados como de alta (acima
de 1 W) e baixa (abaixo de 1 W) potência. Sendo que, o laser de alta
potência geralmente é utilizado em cirurgias atuando em cortes e
carbonização de proteínas por meio de um efeito fototérmico3,11. Já
para a terapia com fotobiomodulação (TFB), as substâncias
comumente utiliza- das para produzir a radiação incluem hélio-
neônio (He-Ne), Arseneto de
gálio e alumínio (AsGaAl) e Arseneto de gálio (AsGa)8, e são
comumente utilizados na reparação tecidual, alívio de dor, e também
na obtenção de efeitos anti-inflamatórios17.
Considerando os avanços no desenvolvimento de dispositivos de
laser, a TFB teve representatividade clínica no final da década de 60 e
início da dé- cada de 70 com o estudo desenvolvido pelo professor
Endre Mester. Este estudo foi o pioneiro em demonstrar o conceito
de efeito “bioestimulató- rio”56. Em um de seus experimentos, Mester
implantou células tumorais sob a pele de ratos e expôs o tecido à
irradiação de um laser de rubi (base- ado no modelo de Maiman).
Como resultados, as células tumorais não fo- ram eliminadas.
Entretanto, foi observado em muitos casos que as incisões feitas na
pele (para implantar as células tumorais) tiveram regeneração mais
rápida para os ratos que sofreram a aplicação da irradiação laser. Em
estudos subsequentes, Mester confirmou o efeito da irradiação laser
na cicatrização de feridas e regeneração tecidual30.
Ao longo dos anos, muitos estudos foram desenvolvidos sugerindo o
uso da irradiação laser na indução de cicatrização de feridas
cutâneas14,57, re- generação de diversos tipos de tecido, como por
exemplo, tendinoso e muscular24, e também, ação anti-
inflamatória50. Reddy62 comparou dois tipos de dispositivo laser (He-
Ne versus As-Ga) na cicatrização de feridas diabéticas. O autor
observou que as diferenças entre os lasers eram depen- dentes da
resposta fotoquímica das células em cada comprimento de onda.
Desta forma, uma padronização dos parâmetros de tratamento
tornou-se necessária para diferentes patologias que podem ser
tratadas com a irra- diação laser. Baseado em pesquisas científicas, a
Associação Mundial de Laserterapia (WALT - “World Association of
Laser Therapy”) elaborou tabelas normativas com os parâmetros
recomendados para o tratamento de condições inflamatórias75,
porém, diversas condições, sejam profiláti- cas ou ergogênicas, ainda
necessitam da determinação de parâmetros de irradiação ideais.
Fotobiomodulação –parâmetros de irradiação

A aplicação da TFB apresenta parâmetros importantes a serem


controla- dos, como potência, energia, densidade de potência,
densidade de energia, área de irradiação e comprimento de onda25. A
potência pode ser descrita como a quantidade de energia aportada por
unidade de tempo (W ou J/s). Entretanto, não depende da duração do
tratamento para uma área. Reali- zando uma analogia, podemos
considerar que cada fóton é um pacote de
energia, e cada pacote é capaz de estimular uma ou mais células.
Assim, por exemplo, um dispositivo terapêutico de laser com
potência de 1440 mW pode fornecer o mesmo número de pacotes de
energia em tempo mais curto comparado a um dispositivo com
potência de 690 mW39. Em geral, os dispositivos terapêuticos
apresentam potência fixa. A equação 1.2 re- presenta o cálculo da
potência39:

Potência (W) = Energia (J) / Tempo (s), Eq.1.1

A energia (ou dose) irradiada é considerada um dos principais


parâ- metros de controle relacionado a efetividade da TFB36. A
energia irradia- da corresponde à quantidade de energia empregada
durante o tratamento (J), e é calculada pela equação 2.1:

Energia (J) = Potência (W) × Tempo (s), Eq. 2.1

Densidade de potência (ou irradiância) está relacionada à


potência de saída do equipamento pela área de irradiação (W/cm2).
Em outras pala- vras, é a potência (W) por unidade de área do
dispositivo laser (cm2). De acordo com Enwemeka25 a densidade de
potência pode ser calculada pela equação 3.1:

Densidade de Potência (W/cm²) = Potência (W) / Área (cm2),


Eq. 3.1

Já a densidade de energia (ou fluência) é definida como a


quantidade total de energia entregue ao tecido pela área de irradiação
do equipamento (J/cm2). Portanto, equivale a energia transmitida por
unidade de área do dispositivo laser, sendo calculada pela equação
4.125,36.
Densidade de Energia (J/cm²) = Potência (W) × Tempo (s) /
Área (cm2), Eq. 4.1

A área de irradiação é descrita como a área de secção transversa


do spot (aplicador de fibra óptica), podendo ser chamado de área de
irradia- ção efetiva25. Por fim, como se sabe, as partículas de luz
(fótons) se pro- pagam no espaço com forma de onda. Portanto, o
comprimento de onda equivale à distância entre dois picos ou vales
do feixe luminoso. Além do mais, o comprimento de onda e a
frequência da vibração da partícula lumi-
nosa são inversamente proporcionais25. Vale ressaltar que o
comprimento de onda é um parâmetro da irradiação laser de
fundamental importância, uma vez que os tipos de tecido que serão
irradiados e a profundidade de penetração depende deste
parâmetro25,36.

Fotobiomodulação – efeitos ergogênicos

Recentemente diversas pesquisas têm demonstrado efeitos


ergogê- nicos da TFB em modular processos bioquímicos e
fisiológicos associa- dos à melhora do desempenho muscular e
recuperação do exercício fí- sico16,18,40,43,44,49. O primeiro ensaio
clínico randomizado que objetivou analisar os efeitos ergogênicos
da TFB foi publicado em 200843, a partir deste ano muitos estudos
foram realizados utilizando tratamento LASERs e/ou LEDs
empregando luz visível (cor vermelha) e/ou não visível (infra-
vermelho)16,18,40,41,43–48,59.
Em primeiro lugar, quando os músculos ativos de determinado
tipo de
exercício físico são utilizados intensamente, é possível observar um
de- clínio progressivo no desempenho desta musculatura, ou seja,
redução da função contrátil. Este fenômeno é complexo e pode ser
entendido como fadiga muscular2. Em síntese, a contração muscular
inicia no sistema ner- voso central quando o motoneurônio alfa é
ativado, cada motoneurônio ativa um determinado número de fibras,
e juntos eles representam a me- nor unidade do sistema motor, a
unidade motora74. Neste sentido, a fadiga pode ocorrer devido a um
prejuízo na ativação do motoneurônio alfa, e assim chamada de
fadiga central29. Já a chamada fadiga periférica está re- lacionada aos
fatores internos do músculo que podem causar prejuízos na função
contrátil durante exercícios extenuantes74. Estes fatores envolvem
desde o potencial de ação que chega à junção neuromuscular,
mudanças de configuração miofibrilar que permitem a actina se ligar
à miosina (for- mação das pontes cruzadas) para iniciar a contração
muscular até o rela- xamento da musculatura74.
De acordo com evidências científicas, após exercícios físicos
extenu- antes diversas alterações fisiológicas podem ser observadas,
incluindo a redução das quantidades de fosfocreatina, glicogênio
muscular e sensibili- dade de Cálcio (Ca2+) por parte das
miobribrilas, e também, pode ser ob- servado o aumento das
quantidades de fosfato inorgânico (Pi), adenosina difosfato (ADP),
Ca2+, magnésio (Mg2+), íons de hidrogênio (H+), lactato, e por fim,
maior produção e acúmulo de espécies reativas de oxigênio (ERO) e
espécies reativas de nitrogênio (ERN)2,74. No entanto, vale ressaltar
que
as adaptações e alterações fisiológicas podem ocorrer
diferentemente de- pendendo do tipo de exercício. Em geral,
exercícios de alta intensidade de- pendem em grande parte da
energia advinda do metabolismo anaeróbio, e adaptações como os
aumentos na força e ativação muscular são comuns após treinamento
nestes tipos de atividades1. Em contrapartida, a ener- gia recrutada
para exercícios de longa duração e intensidade moderada é
predominantemente entregue pelo sistema aeróbio, com adaptações
de treinamento relacionadas ao aumento na quantidade de
mitocôndrias e enzimas oxidativas13,70.
Os efeitos biológicos relacionados a TFB são mediados por
cromóforos endógenos que são capazes de absorver os fótons e
transformar energia luminosa em energia química62. Portanto, a TFB
apresenta efeitos bioló- gicos tanto na membrana celular quanto na
mitocôndria. No que se refere às modulações na membrana celular,
os cromóforos ligados à membrana agem como fotossensibilizadores
que induzem mudanças na permeabili- dade e mecanismos de
transporte da membrana celular, resultando em alterações
intracelulares no pH, concentração de íons e excitabilidade da
membrana38. Na mitocôndria, os fótons penetram na membrana
celular e são absorvidos por citocromos dentro da mitocôndria,
especialmente o citocromo C oxidase da cadeia transportadora de
elétrons (CTE)37. Este processo vai acarretar respostas fisiológicas
para a produção de ERO, au- mento da taxa de ATP e síntese
proteica37,67.
Além do mais, a TFB parece ser capaz de prevenir efeitos
relacionados a disfunção mitocondrial e de dano muscular mediado
pelos ERO e ERN9,49. Em geral, na célula muscular os efeitos da TFB
estão especialmente ligados à mitocôndria, uma vez que a
mitocôndria apresenta grande sensibilida- de à radiação laser53. Com
a aplicação da TFB podem ocorrer alterações fotoquímicas e
fotofísicas nas mitocôndrias celulares, como o aumento do
potencial de membrana mitocondrial e maior atividade enzimática da
CTE33,36. Com relação às mudanças estruturais, a radiação laser pode
for- mar o que é chamado por alguns pesquisadores de “mitocôndria
gigante”, por meio de fusão com mitocôndrias vizinhas e menores53.
Levando em consideração os possíveis mecanismos abordados
anterior- mente, a aplicação prévia de TFB pode ser vantajosa em
atividades de curta e longa duração. Em eventos de curta duração e
alta intensidade o sistema anaeróbio de energia é predominante2,31,
assim de acordo com Ferraresi et al.26 três mecanismos parecem
estar envolvidos nos efeitos ergogênicos para este tipo de atividade:
• Ressíntese ATP mitocondrial: A TFB pode aumentar a
ativi-
dade mitocondrial, fornecendo maiores níveis de respiração
celular e ressíntese de ATP36,67.
• Ressíntese de fosfocreatina: Atividades de alta intensidade
são dependentes da quantidade de ATP hidrolisado pela
fosfocreati- na, este mecanismo produz um excesso de creatina,
ADP e Pi no sar- coplasma das fibras musculares2,74, fato este
que estimula a síntese de ATP mitocondrial, acarretando na
integração entre sistema aeró- bio e anaeróbio por meio do
sistema de “lançadeira” de fosfocreati- na pela mitocôndria70.
Assim, o aumento da atividade mitocondrial fornecido pela
TFB poderia acarretar na ressíntese de fosfocreatina que ocorre
durante os intervalos do exercício, bem como durante o
exercício de alta intensidade e de curta duração26.
• Aumento na oxidação do lactato pela mitocôndria: Consi-
derando a teoria de Brooks et al.10 a TFB também poderia
auxiliar na oxidação de lactato devido a maior atividade
mitocondrial, uma vez que o piruvato é reduzido em lactato no
final da via glicolítica, e o lactato transportado para a
mitocôndria por meio de transportado- res monocarboxílicos,
em seguida o lactato será oxidado a piruvato por meio da ação
do dinucleótido de nicotinamida e adenina (NAD) e a enzima
lactato desidrogenase mitocondrial. Por fim, o piruvato é
oxidado em acetil coenzima A no ciclo de Krebs para dar
continui- dade na produção de ATP pela CTE26.
Já para as atividades de média e longa duração o metabolismo
aeróbio de energia é predominante31. Portanto, sabe-se que as
mitocôndrias são organelas celulares que podem oxidar energia de
substratos para a síntese de ATP durante contrações musculares, e
que a capacidade oxidativa das fibras musculares é proporcional a
sua densidade mitocondrial70,74. Além do mais, exercícios de média e
longa duração são eficientes em aumentar a biogênese mitocondrial
favorecendo o metabolismo aeróbio e reduzindo a fadiga muscular13.
Desta forma, a aplicação prévia da TFB pode incremen- tar os efeitos
do exercício aeróbio, uma vez que uma mitocôndria gigante
(mudança estrutural) e mais funcional (maior atividade enzimática)
pode fornecer maior respiração celular e ressíntese de ATP durante
este tipo de atividade36,67.
Além do metabolismo enérgico, a contração muscular depende
da ex- citação elétrica das fibras musculares, este processo provoca
então a des- polarização de fibras musculares, que por sua vez
resultam na liberação de Ca2+ para o citoplasma da célula muscular,
gerando assim a contração muscular. Entretanto, repetidas
contrações musculares geram saturação
do sistema de recuperação deste processo e como consequência
resultam na fadiga muscular, devido ao desequilíbrio de Na+ e K+
intra e extracelu- lar no músculo, o qual prejudica a despolarização
da fibra muscular pelo acúmulo de K+ fora da célula2. Este
desequilíbrio é evitado pela bomba de Na+ e K+, que leva K+ para
dentro e Na+ para fora da célula. Considerando que a bomba de Na+
e K+ é ATP dependente, a TFB poderia modular indi- retamente a
bomba de Na+ e K+ com o aumento da síntese de ATP por meio das
mitocôndrias que cercam os túbulos T26,60.
Embora os mecanismos que explicam os efeitos ergogênicos
benéficos da fotobiomodulação não estejam totalmente esclarecidos,
a TFB aplicada como pré-condicionamento para exercícios de curta e
longa duração tem sido amplamente estudada nos últimos
anos6,18,27,49. A TFB tem demonstra- do efetividade para o aumento
do desempenho muscular sendo aplicado com diferentes
equipamentos e parâmetros de aplicação (comprimento de onda e
dose)6,16,18,44,45,47,48. Portanto, nos próximos tópicos serão abordados
os efeitos da TFB em exercícios de curta e longa duração.

Exercícios de curta duração

Na história recente de estudos com seres humanos que


aplicaram TFB previamente a exercícios físicos, a grande maioria
dos estudos analisou os seus efeitos com aplicação em apenas um
grupo muscu- lar4,6,7,16,22,28,32,34,35,42,43–48,51,58,63,64,69,71,72.
O estudo desenvolvido por Leal Junior et al.43 em 2008 foi o
primeiro a
demonstrar os efeitos da TFB em postergar a fadiga. Os autores
avaliaram jogadores de voleibol que realizaram um protocolo de
fadiga isotônico de flexão e extensão do cotovelo em um banco
Scott com carga de 75% da contração isométrica voluntária máxima
(CIVM) nas situações placebo e/ ou com TFB no músculo bíceps
brachii (sessões separadas por 7 dias). Os resultados demonstraram
que com a aplicação prévia da TFB o número de contrações e tempo
total do exercício aumentou em comparação a condi- ção placebo.
Outros dois estudos apresentaram resultados similares, no entanto o
protocolo de fadiga de flexão e extensão do cotovelo foi realizado em
um dinamômetro isocinético, também com carga de 75% da
CIVM45,46. Enquanto Leal Junior et al.45 realizou a aplicação da TFB
utilizando um equipamento com diodos de LEDs (λ = 660 e 850
nm), o outro estudo46 utilizou um equipamento com lasers (λ = 830
nm).
Leal Junior et al.48 realizaram aplicação da TFB (λ = 810 nm) no
bíceps brachii de jogadores profissionais de voleibol, e também
demonstraram
resultados positivos no número de repetições e tempo de exaustão de
um protocolo isotônico de fadiga de flexão e extensão de cotovelo.
Além disso, os autores apresentaram resultados adicionais de
marcadores bioquími- cos relacionados à recuperação muscular. Os
resultados sugerem que com a aplicação da TFB os níveis de
lactato sanguíneo, creatina cinase (CK) e proteína C reativa foram
significativamente menores após protocolo de fadiga quando
comparado com a condição placebo48.
De Almeida et al.16 compararam os efeitos da aplicação prévia
da TFB no espectro visível (vermelho, λ = 660 nm) e não-visível
(infravermelho, λ = 830 nm) da luz aplicados no biceps brachii de
homens saudáveis. Os avaliados realizaram um protocolo
isométrico de fadiga (60% da CIVM) de flexão do cotovelo em
um banco Scott com utilização de uma célula de carga. Os
resultados indicaram que ambos os tratamentos (vermelho e
infravermelho) foram efetivos em retardar o desenvolvimento da
fadiga. Em contrapartida, Higashi et al.35 avaliaram mulheres
saudáveis e obser- varam que a TFB aplicado no bíceps brachii
apresenta efeitos limitados em postergar o processo de fadiga (i.e.,
número de repetições e lactato san- guíneo) após protocolo de
exercício de flexão e extensão do cotovelo em um dinamômetro
isocinético. No entanto, os autores observaram maiores reduções no
“slope” da atividade elétrica muscular para o grupo placebo,
indicando efeito positivo para o grupo que recebeu a TFB na
atividade elé- trica muscular.
Os estudos citados anteriormente analisaram os efeitos da
aplicação prévia da TFB nos membros superiores, de maneira
similar, outros estu- dos foram desenvolvidos buscando analisar os
mesmos efeitos em mem- bros inferiores4,6,7,22,34,51,58,63,69,71,72. Assim,
comparando a TFB aplicada nos músculos do quadríceps (rectus
femoris, vastus lateralis e vastus medialis) com a condição placebo,
foi possível observar menor redução do torque após realização de
um protocolo concêntrico de fadiga de flexão e extensão do joelho
(30 repetições a 180°·s-1) na condição com aplicação da TFB6.
O uso da TFB também foi avaliado durante protocolos
envolvendo contrações excêntricas. Baroni et al.7 observaram que o
grupo que rece- beu a aplicação de TFB em seis pontos do
quadríceps foi capaz de reduzir os efeitos do dano muscular, ou seja,
redução do incremento dos níveis séricos de CK e lactato
desidrogenase (LDH). Da mesma forma, Antonalli et al.4
demonstraram que a TFB com doses de 10, 30 ou 50 J também re-
duziram os efeitos deletérios do dano muscular, assim como a
atividade da enzima CK imediatamente, 1, 24, 48 e 72 horas após a
realização do protocolo excêntrico de fadiga. Além do mais, os
autores concluíram que
a irradiação com dose de 30 J (por ponto de aplicação) de seis
pontos do quadríceps apresentou melhores resultados, quando
comparado ao grupo placebo, 10 e 50 J4. E também, Hemmings et
al.34 aplicou três diferentes doses de energia (41,7 J, 83,4 J e 166,8 J
por ponto) em seis pontos do quadríceps, demonstrando que a dose
de 83,4 e 166,8 J por ponto foram as melhores para aumentar o
desempenho em teste de resistência muscular.
Recentemente Rossato et al.65 buscaram identificar qual o tempo
res- posta da TFB, ou seja, compararam e aplicação da TFB
imediatamente an- tes do exercício (comumente utilizado nos
estudos com TFB) é realmente o melhor momento para aplicação
deste tratamento. Portanto, os autores realizaram aplicações
imediatamente antes, 6 horas antes (baseado em estudo com modelo
animal) e 6 horas antes + imediatamente antes do exercício físico. O
resultado deste estudo demonstrou que as aplicações 6 horas antes +
imediatamente antes, e imediatamente antes foram capazes de
reduzir a fadiga (índice de fadiga) durante exercício de contração
con- cêntrica de extensores do quadríceps.
Alguns estudos testaram os efeitos da TFB em populações espe-
ciais58,63,69. Em pacientes com DPOC, a TFB aplicada no
quadríceps foi efetivo em minimizar em 72% o efeito da fadiga após
protocolo de contra- ção isométrica a 60% da CIVM58. Em
pacientes hemiparéticos espásticos a TFB aplicada no quadríceps
aumentou o pico de torque do teste de con- tração isométrica63. De
maneira similar, Toma et al.69 demonstraram que a TFB aplicada no
quadríceps de mulheres idosas foi capaz de aumentar em
14% o número de repetições em protocolo de fadiga de extensão e
flexão do joelho.
Nos estudos supracitados é possível observar os efeitos da TFB
em postergar a fadiga e reduzir as concentrações de alguns
marcadores bio- químicos para exercícios força isométrica,
concêntrica e excêntrica de um grupamento muscular específico.
Considerando aspectos práticos da atividade esportiva, exercícios de
alta intensidade são realizados com o envolvimento de vários
grupamentos musculares17. Desta forma, dois es- tudos analisaram os
efeitos da TFB em exercício anaeróbio realizado em cicloergomêtro
(teste de Wingate). Os resultados sugerem que a TFB pode aumentar
a remoção de lactato44 e reduzir o dano muscular44,47, entretanto, sem
melhoras no desempenho. De maneira similar, Malta et al.52 obser-
varam o efeito da TFB em protocolo de corrida supra máxima (115
% da vVO2MAX) em esteira. Os autores demonstraram que a TFB
não alterou o déficit máximo acumulado de oxigênio (MAOD) e o
tempo total até exaus- tão. Já Pinto et al.61 observaram que a TFB
aplicada em jogadores de Ru-
gby previamente a um teste de campo (Bangsbo sprint test), foi
efetiva em aumentar o desempenho no teste e reduzir as
concentrações de lactato.
Considerando os efeitos benéficos da TFB sobre o atraso no
surgimen- to da fadiga e aumento do desempenho, especulou-se que
sua ação modu- laria a condução e propagação dos sinais elétricos
oriundos dos centros superiores em direção ao músculo, podendo
assim ser captado por meio da técnica de eletromiografia. Ferraresi
et al.26 afirma que após constan- tes contrações musculares poderia
ocorrer uma falha na bomba de Na+/ K+ responsável por manter a
homeostasia, acarretando acúmulos de Na+ extracelular e K+
intracelular. Tal desequilíbrio estaria na gênese da fadi- ga
neuromuscular. De acordo com os autores a TFB atuaria de maneira
indireta, fornecendo maiores quantidades de ATP necessárias para o
fun- cionamento normal das bombas Na+/ K+ e Ca++. Este ATP seria
fornecido por mitocôndrias localizadas próximas aos túbulos T. Os
autores também afirmaram que a TFB teria condições de modular os
canais de cloro (Cl-), evitando assim a hiperpolarização.
Nos últimos anos vários estudos têm sido realizados na tentativa
de compreender os efeitos da TFB sobre as respostas
eletromiográficas com resultados ainda não conclusivos. Dentre os
parâmetros utilizados, a me- diana da frequência (MF), tem se
destacado como um indicador de fadiga neuromuscular. O processo
de fadiga acarreta a redução nos seus valores, indicando uma fadiga
especialmente nas fibras do tipo II5,12,54,55. No entan- to, é
recomendado a sua utilização em protocolos que envolvem contra-
ções isométricas, devido as características estacionárias do sinal de
EMG. Apesar disso, alguns autores têm utilizado a MF para
avaliação dos efeitos da TFB sobre a fadiga durante contrações
isotônicas51,73. Estudos que in- vestigaram os efeitos da TFB sobre a
MF avaliada durante contrações iso- métricas são ainda
contraditórios. Alguns autores35,64,69, não conseguiram observar
resultados positivos a favor da TFB. Por outro lado, Miranda et
al.58 observaram uma menor inclinação na MF com a aplicação da
TFB em comparação com placebo, quando pacientes com DPOC
foram submetidos a um protocolo de fadiga. Os autores sugeriram
que essa menor fadiga es- taria associada a aumentos no fluxo
sanguíneo local promovido pela TFB.
Em síntese, os estudos que têm avaliado as respostas
eletromiográ- ficas frente a aplicações prévias de TFB têm
encontrado dificuldades em confirmar os achados positivos
observados em parâmetros de desempe- nho musculares.
Acreditamos que o desempenho positivo em atividades de força
provocado pela aplicação da TFB deva-se principalmente pela sua
ação interna ao músculo, e nem tanto pela sua ação na condução e
propa-
gação dos impulsos elétricos. No entanto, análises mais robustas do
sinal de EMG como a transformada wavelet contínua poderá
fornecer informa- ções mais úteis sobre os possíveis mecanismos
envolvendo a TFB e a fadiga neuromuscular.

Exercícios de longa duração

Poucos estudos foram desenvolvidos com exercícios aeróbios ou


de longa duração, como corrida e ciclismo que envolvem vários
grupamentos musculares15,18,20,21,27,40,41,59.
De Marchi et al.18 analisaram o efeito da TFB aplicada no
quadríceps,
isquiotibiales e gastrocnemius de ambas as pernas previamente a um
teste incremental máximo de corrida em esteira. Os autores
observaram que a TFB foi capaz de aumentar o desempenho de
corrida (tempo de exaustão) e o VO2máx (~2%), além de reduzir o
estresse oxidativo, no qual poster- gou o desenvolvimento da fadiga.
Já Da Silva Alves et al.15 avaliaram homens e mulheres que
realizaram um teste incremental máximo no cicloergômetro e os
resultados demonstra- ram que a aplicação prévia da TFB apresentou
efeito positivo no desempe- nho do teste incremental máximo (2%),
uma vez que com a aplicação da TFB os indivíduos atingiram
valores significativamente maiores de VO-
2máx comparado com a aplicação do
placebo.
Ferraresi et al.27 realizaram estudo de caso com um corredor
profis- sional de longa distância e aplicaram a TFB utilizando malhas
de LEDs nos braços (bíceps brachii e tríceps brachii), pernas
(quadríceps, isquio- tibiales, tibialis anterior, gastrocnemius e
soleus), e também na região do tronco (oblíquo externus e latíssimo
do dorso). Os resultados do estudo foram muito interessantes no que
se refere ao desempenho. Os autores observaram que com a
aplicação de TFB o corredor apresentou melhoras na cinética do
VO2máx e tempo do teste incremental máximo em esteira (17%),
redução do dano e fadiga muscular também foram observados.
No ano de 2016, Miranda et al.59 realizaram um estudo com dois
grupos de indivíduos (experimental e controle), sendo que o grupo
experimental realizou a TFB (aplicada previamente ao exercício
físico no quadríceps, isquiotibiales e gastrocnemius). Os avaliados
desempenharam um teste incremental máximo em esteira e o grupo
experimental apresentou maio- res valores na distância percorrida,
tempo de exaustão e ventilação pulmo- nar durante o teste quando
comparado ao grupo controle
Recentemente, Lanferdini et al.40,41 avaliaram ciclistas treinados,
estes
que realizaram testes até a exaustão (no pico de potência) com
aplicação prévia de TFB com diferentes doses de energia (15, 30 e
45 J por ponto de aplicação). Os autores observaram que todas as
doses aumentaram o tem- po de exaustão e a cinética do VO2máx,
entretanto, apenas TFB com dose de 15 J por ponto de aplicação foi
capaz de aumentar a ativação muscular das bandas de alta frequência
durante o teste de exaustão.
Dellagrana et al.21 demonstraram que a TFB com dose de energia
de 15
J por ponto de aplicação foi capaz de aprimorar a economia
neuromuscu- lar de corredores recreacionais durante corrida em
esteira com velocidade submáxima. Os mesmos autores também
demonstraram em outro estudo que a TFB com dose de energia de 30
J por ponto de aplicação (quadríceps, isquitibiais e gastrocnêmio) foi
capaz de aprimorar a economia de corrida e tempo de exaustão
durante teste incremental máximo em esteira de cor- redores
recreacionais20. Vale ressaltar que nestes estudos as aplicações de
TFB foram sempre comparadas com uma condição placebo
(equipamento de TFB desligado).
Contudo, apesar dos estudos citados demonstrarem resultados
pro- missores relacionados à aplicação prévia da TFB em exercícios
físicos de longa duração com predominância do metabolismo aeróbio
de energia, pouco se sabe sobre quais são as características ótimas de
aplicação da TFB (por exemplo, doses de energia), e também, pouco
foi explorado sobre os efeitos da TFB em exercícios realizados fora
do ambiente laboratorial.

Aplicações práticas

Após a leitura desse capítulo o leitor terá a certeza que a


TFB:
• É um método ergogênico interessante uma vez que não viola
as re-
gras de espírito esportivo da WADA (World Anti-Doping
Agency).
• Com o desenvolvimento tecnológico das malhas de LEDs,
que co- brem grande área muscular, poderão ser uma estratégia
para buscar aumento no desempenho durante competições e/ou
treinamentos com um tempo reduzido de aplicação pré
exercício.
• Para indivíduos que realizam exercícios com alta aplicação de
força muscular e exercícios com predominância do
metabolismo aeróbio (corridas, ciclismo e natação, por
exemplo) poderão se beneficiar com este tipo de estratégia
ergogênica.
• Necessita de mais pesquisas sobre os reais mecanismos
envolvidos na aplicação TFB.
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CAPÍTULO II
43

AVALIAÇÃO MORFOLÓGICA E DAS PROPRIEDADES


MECÂNICAS DA UNIDADE MIOTENDINEA POR MEIO DA
ULTRASSONOGRAFIA

Kelly M. M. e Lima

O que você irá encontrar:

• Definição de arquitetura
muscular;
• Definição dos parâmetros da arquitetura muscular, como
ângulo de penação, comprimento do fascículo, espessura
muscular, área de secção transversa anatômica, área de secção
transversa fisiológica;
• Descrição da importância funcional da avaliação dos
parâmetros da arquitetura muscular pela ultrassonografia de
imagem;
• Descrição das técnicas de avaliação das propriedades
mecânicas da unidade miotendínea por meio da ultrassonografia
de imagem, como a estimativa do deslocamento da unidade
miotendínea e elas- tografia;
• Aplicação da avaliação das propriedades mecânicas da unidade
miotendínea por meio da ultrassonografia de imagem.

Introdução

O tecido músculo-esquelético é formado por unidades contráteis


de- nominadas de fibras musculares. Estas são circundadas pelo tecido
con- juntivo formando feixes, que são responsáveis pela proteção do
múscu- lo e propagação da contração muscular até o tendão e o osso. O
epimísio envolve milhares de fascículos musculares, e, cada um deles,
possui um conjunto de fibras musculares envolvidas pelo perimísio. O
endomísio é a camada mais interna do tecido conjuntivo e recobre
cada fibra muscular, que é constituída de milhares de miofibrilas.
Estas últimas, finalmente, possuem milhares de sarcômeros dispostos
em série, regiões importantes de contração muscular.
A arquitetura muscular pode ser definida como “o arranjo das
fibras musculares relativo ao eixo de geração de força do músculo”1. A
organiza- ção dessas fibras ocorre a nível macroscópico e é um
importante fator na determinação das propriedades contráteis do
músculo2. O conhecimento da arquitetura muscular é imprescindível
para o entendimento da função muscular.1
Didaticamente, o músculo pode ser classificado baseando-se na organiza-
ção de suas fibras musculares. Quando as mesmas estão dispostas ao
longo do comprimento muscular, ele é denominado fusiforme e se
destaca por proporcionar velocidade de contração muscular e
amplitude de movimen- to (FIGURA 1.2). Caso haja a formação de
um ângulo entre a linha de ação de força das fibras e a aponeurose
profunda (FIGURA 1.2), o músculo é dito penado.1 Esse ângulo
varia de 0 a 30º em humanos em repouso1 e pode determinar a
quantidade de material contrátil do músculo.2,3

Figura 1.2 - Ilustração de um músculo fusiforme e penado em


repouso e contraído, onde d representa o deslocamento, F, a força do
músculo e (Fd) Fd, a componente efetiva da força.

No entanto, a organização das fibras musculares em humanos


apre- senta uma variação inter e intra-individual. Dessa forma,
apenas adotar a classificação de fusiforme ou penado pode gerar
limitações, pois a maioria dos músculos apresentam medidas
intermediárias dos parâmetros (por exemplo, o músculo adutor
magno apresenta um ângulo de penação apro- ximadamente de 15° e
um comprimento do fascículo de 15 cm).4 Sugere-se uma análise
individual dos parâmetros da arquitetura muscular, como de- talhada
no trabalho de Ward et al.4, descrita a partir de cadáveres.
A arquitetura muscular pode ser determinada em músculos
humanos
in vitro através da dissecação de cadáveres4, método que, por
exigir téc-
nicas de fixação adequadas e ter sido aplicada em cadáveres idosos,
di- ferencia os valores dos parâmetros da arquitetura muscular do
contexto fisiológico real (in vivo). Dentre as técnicas de imagem que
permitem uma avaliação in vivo, destacam-se a ressonância
magnética (RM)5–7, a tomo- grafia computadorizada (TC)8,9 e a
ultrassonografia (US). A US ganhou im- portância por ser
considerada uma técnica de medida confiável e de baixo custo para
aquisição de imagens do tecido muscular, ósseo e adiposo.10–12
Além disso, é uma técnica não invasiva, permite a geração de
imagens em tempo real com alta resolução temporal e não emite
radiação ionizante.13
Sabe-se que a arquitetura muscular possui características
plásticas, podendo se modificar com a aplicação de intervenções,
como o treinamen- to de força14,15 e o alongamento16,17. Nesse
sentido, a US tem sido utilizada para quantificar essas adaptações.
Os principais parâmetros da arquite- tura muscular mensurados
pela ultrassonografia são: ângulo de penação (AP), comprimento do
fascículo (CF), espessura muscular (EM) e área de secção transversa
anatômica (ASTA). A área de secção transversa fisiológi- ca (ASTF),
apesar de não mensurada pela US, também será abordada de- vido à
sua importância funcional. Os parâmetros da arquitetura muscular
serão abordados a seguir.

Ângulo de penação (AP)

O AP refere-se à angulação das fibras em relação à linha de


ação da força de deslocamento do músculo1, como mostra a Figura
2.2 B. O AP representa uma estratégia de economia de espaço em
detrimento da pe- quena redução da componente efetiva da força
(13%). Comparando-se dois músculos com a mesma área de secção
transversa, o mais penado contém um maior número de fibras e
material contrátil2,3, fato que o torna mais apto a produzir força.3,18
Na imagem de ultrassonografia, o AP pode ser mensurado como
o ân- gulo formado entre a aponeurose interna (epimísio) e o
fascículo melhor visualizado.6,17
O AP tem sido bem investigado em estudos de distintas
amostras, como jovens e idosos. Os resultados demonstram uma
redução deste pa- râmetro em músculos dos membros inferiores de
idosos em relação aos jovens19–21, embora não corroborado com
outro estudo semelhante.22 Ti- cinesi et al.23 afirmam que a
ultrassonografia é promissora em identificar os parâmetros da
arquitetura muscular mas estudos de confiabilidade são necessários
já que a técnica é operador dependente. Além disso, o AP é
sensível às mudanças no ângulo articular e grau de contração
muscular, devendo o indivíduo avaliado permanecer em repouso e
em um ângulo articular fixo.23

Figura 2.2 - Acoplamento da sonda de ultrassom (A) para aquisição


da imagem do músculo Vasto Lateral (B) a 50% do comprimento da
coxa. Na imagem, podemos visualizar as medidas de alguns
parâmetros da arquite- tura muscular, como a Espessura Muscular
(EM), Comprimento da Fibra (CF) e Ângulo de Penação (AP).
(Fonte: Labmusc UFRJ)

A B

Já em estudos envolvendo a aplicação de protocolos de


treinamento de força, algumas adaptações estruturais, como o
aumento do AP, foram encontradas6,24–27, apesar de haver variações
nos protocolos e amostras utilizados. Parece que essa adaptação é
dependente do tipo de contração, sendo que a concêntrica promove
um aumento do AP, e a excêntrica, do comprimento do
fascículo6,24,28, indicando acúmulo de sarcômeros em pa- ralelo e em
série, respectivamente. No entanto, mais estudos são necessá- rios
para esclarecimento dessas adaptações morfológicas.

Comprimento do fascículo (CF)

O CF representa o agrupamento dos sarcômeros em série. Este


parâ- metro parece estar relacionado à capacidade de excursão e
velocidade de encurtamento muscular.1–3 Músculos com fibras mais
longas, como o bí- ceps braquial, podem produzir maior amplitude
de movimento e maior capacidade de encurtamento, devido ao maior
número de sarcômeros em série.1
O tamanho do CF aproxima-se do comprimento do músculo
(CM) em músculos fusiformes, o que não ocorre em músculos
penados. Quanto
maior o valor da relação CF/CM, maior a capacidade de amplitude
de mo- vimento e velocidade de encurtamento muscular.1 De acordo
com a relação comprimento-tensão, o músculo varia sua produção de
força (tensão) con- forme seu comprimento e existe um valor de CF
adequado (CF ótimo) em cada músculo capaz de produzir maior
tensão.1
Numa imagem de ultrassonografia, o CF é definido como a
distância entre a aponeurose superficial e a profunda do músculo, na
direção das fibras musculares, podendo ser mensurado em uma
imagem tradicional17, quando o CF é totalmente visualizado no
campo de imagem (FIGURA 2
B), numa imagem panorâmica (extend field of view)29 ou pelas
relações trigonométricas, que permitem uma estimativa desse
parâmetro quando o fascículo extrapola o campo de imagem.16
Infelizmente, a ultrassonografia não apresenta uma resolução
espacial suficiente para afirmar se grandes valores do CF
representam um fascículo alongado ou um maior número de
sarcômeros dispostos em série.13
Alguns indivíduos apresentam maior aptidão a alguns tipos de
esporte devido ao treinamento de habilidades ou, muitas vezes,
devido às caracte- rísticas da arquitetura muscular presentes desde o
nascimento. Estudos envolvendo amostras de corredores
demostraram maiores valores do CF dos músculos vasto lateral e
gastrocnêmios em velocistas do que corre- dores de longas
distâncias.30 No entanto, esses achados não foram confir- mados em
outro estudo envolvendo somente os gastrocnêmios.31 Outras
características como o tipo de fibra muscular (contração lenta ou
rápida) e recrutamento de unidades motoras devem ser consideradas
para elucidar os diferentes níveis de rendimento entre os indivíduos.
Diversos protocolos de alongamento crônico foram aplicados
para in- vestigação das respostas no CF17,32–34, já que estudos
prévios em animais verificaram um aumento desse parâmetro
(possivelmente pelo acréscimo do número de sarcômeros em série
ou aumento do comprimento dos sar- cômeros).35–37 Os resultados
dos estudos em humanos foram conflitantes, mostrando um aumento
do CF em indivíduos saudáveis após oito semanas de exercício33 e em
pacientes neurológicos após um ano de intervenção.34
No entanto, outros estudos não verificaram nenhuma alteração após
qua- tro32 e oito semanas17 de aplicação do alongamento. Esses
achados suge- rem que outras estruturas, como os tendões e o tecido
conjuntivo, bem como fatores neurais e de tolerância também devem
ser investigados em estudos de alongamento.
Espessura muscular (EM)

A espessura muscular (EM) é considerada a distância


perpendicular entre a interface gordura-músculo e músculo-osso. A
EM é uma variável de fácil medição em imagens de US, mostrando
ser útil na estimativa do volume muscular através de equações de
regressão, sendo validadas por outras técnicas de imagem como a
RM.5,11
As medidas da espessura muscular em uma imagem de
ultrassono- grafia podem ser obtidas em aquisições com a sonda
posicionada longi- tudinalmente (FIGURA 2.2 B) ou
transversalmente ao membro (FIGURA
3.2 A). Para aumentar a confiabilidade das medições, recomenda-se
que mais de uma medida seja feita em uma mesma imagem para o
cálculo da média aritmética, já que as aponeuroses nem sempre estão
dispostas pa- ralelamente.38 A medição da EM é, geralmente,
realizada no local de maior ASTA do músculo.2
Assim como a área de secção transversa e AP, uma maior EM
pode representar um aumento da quantidade de material contrátil
advinda do treinamento de força.14,25,26 Em contrapartida, menores
valores de EM po- dem significar uma redução de miofibrilas devido
à sarcopenia provenien- te do envelhecimento ou imobilização.22,39 A
relação espessura muscular anterior / espessura posterior da coxa
poderia ser um biomarcador de sar- copenia23 em indivíduos idosos,
indicando que o músculo reto femoral é precocemente envolvido (se
a relação é menor que um) na perda de massa muscular em relação
ao bíceps femoral.39

Figura 3.2: Acoplamento da sonda de ultrassom (A) para aquisição da


ima- gem dos extensores do joelho (B) mostrando a mensuração da
espessura muscular (EM) do reto femoral, entre as extremidades do
tecido adiposo e músculo vasto intermédio numa profundidade de 85
mm. (Fonte: Lab- musc UFRJ)
A B
Área de secção transversa anatômica (ASTA)

A ASTA é definida como a área de um corte transversal no


músculo (FIGURA 4.2). Comparada a outras variáveis, como a
ASTF e volume mus- cular, esta possui relação com a massa
muscular pela relativa facilidade da medida.40 A ASTA pode ser
medida pelo ultrassom, ressonância magnética e tomografia
computadorizada.
Observa-se que a ASTA é frequentemente analisada em estudos
en- volvendo o treinamento de força10,41,42, mostrando uma boa
relação com a capacidade máxima de produção de força muscular. A
importância funcio- nal de modificações na ASTA de um músculo
pode ser observada na sua contribuição para produção da força total
do mesmo.20 Dessa forma, pode-
-se justificar a importância da medida da ASTA de músculos
esqueléticos.
Estudos envolvendo o treinamento de força em diferentes
protocolos não mostram consenso em relação à especificidade do
treinamento, já que os treinos concêntrico e excêntrico parecem
promover semelhantes res- postas adaptativas de aumento da
ASTA.43 A hipertrofia regional tem sido associada ao tipo de
treinamento6,26, mas ainda necessita-se de maior in- vestigação. De
modo semelhante, apesar de confirmada que a sarcopenia afeta mais
os músculos dos membros inferiores que superiores23, não se sabe se
algumas regiões são mais comprometidas que outras.

Figura 4.2: Imagens de US com e sem a medição da Área de Secção


Trans- versa Anatômica (ASTA) do músculo Reto Femoral a 50% do
comprimento da fibra, onde VI é o Vasto Intermédio. (Fonte:
Labmusc UFRJ)
A ASTF representa o somatório das ASTA de todas as fibras
muscula- res dentro do músculo e é diretamente proporcional à força
máxima que pode ser gerada no músculo. Este parâmetro pode ser
estimado por técni- cas de imagem, como a RM e TC, já que não
pode ser medida diretamente.
Segundo Lieber e Ward13, a magnitude da força isométrica é
determinada pela quantidade de fibras e sua organização dentro do
músculo.13 No en- tanto, é complicado quantificar essas
características no músculo, já que as fibras não percorrem todo o seu
comprimento e apresentam-se angula- das em relação ao eixo de
força. Em razão dessa dificuldade, alguns auto- res46,47, ao
realizarem biópsias de músculos animais, desenvolveram uma
equação (1.2) que permite a estimativa da ASTF através da
aquisição de outras variáveis.1
Na equação acima, AP é o ângulo de penação (º), CF é o
comprimento do fascículo (cm), m é a massa muscular (g) e ρ é a
densidade, assumida como 1,056g/cm3 (músculos de mamíferos).
A estimativa da ASTF tem sido amplamente utilizada em estudos
aplica- dos envolvendo treinamento de resistência48, análise da
distribuição de força entre grupamentos como o tríceps sural49,
avaliação do drive neural e a capacidade de geração de força do
quadríceps50 e correlação com mar- cadores inflamatórios de
obesos.51 No entanto, para tal estimativa, neces- sita-se de imagens
da RM ou TC para mensuração do volume muscular (m
/ ρ) já que a massa de cada músculo varia entre os
indivíduos.

��??��?? =

��×??��?? ????
?? ��??

(Eq. 1.2)

Avaliação das propriedades mecânicas do tecido bio-


lógico
A avaliação das propriedades mecânicas do tecido biológico in
vivo é de suma importância para diagnóstico e prognóstico de
doenças52,53, aná- lise do efeito de intervenções sobre a unidade
miotendínea (UMT)54–56 e caracterização do ponto de vista
biomecânico. 57–59

Esta avaliação pode ser realizada pela palpação, que, apesar de


subjetiva, ainda é bastante utilizada na prática clínica para
identificação de doen- ças, como tumores e fibroses. A mensuração
da amplitude de movimento articular, por meio da goniometria,
auxilia a análise da rigidez tecidual, mas é inespecífica para indicar
se uma possível limitação é decorrente dos elementos contráteis ou
passivos. Outro método consiste na análise da relação torque
passivo-ângulo articular, adquirida no dinamômetro iso- cinético. No
caso do tríceps sural, por exemplo, obtêm-se a relação torque
passivo-ângulo de dorsiflexão do tornozelo e o coeficiente angular
da reta de regressão formada por esta relação, nos últimos graus de
dorsiflexão,
representa o índice de rigidez passiva da
UMT.60
A ultrassonografia é uma técnica que, além de possibilitar a
análise da arquitetura muscular, promoveu avanços importantes na
avaliação das propriedades mecânicas do tecido biológico. O
ultrassom modo-B permite estimar alguns parâmetros mecânicos
como tensão, deformação e módu- lo de Young da UMT, a partir de
medições dos deslocamentos da junção miotendínea (FIGURA 5.2)
ou de uma fibra muscular, durante o repouso e contração ou
mobilização passiva.60–64 Essas medições são feitas adotan- do-se um
ponto de referência e os valores do deslocamento são incluídos em
equações de regressão para as estimativas. Quanto maior o desloca-
mento do tecido, maior a sua complacência.

Figura 5.2: Imagem ecográfica mostrando o deslocamento (linha


amarela) da junção miotendínea do tríceps sural (representada pela
linha branca tracejada) durante a mobilização passiva do tornozelo.
A imagem A se re- fere à plantiflexão, B, posição articular próxima
à neutra e C, dorsiflexão máxima (fonte: Laboratório de
Biomecânica, PEB/UFRJ).

A B C

No entanto, a imagem de ultrassom modo-B não disponibiliza


infor- mações das propriedades mecânicas da UMT em tempo-real65,
uma vez que regiões de níveis distintos de rigidez ou deformação
apresentam se- melhante ecogenicidade.66 Isso ocorre porque a onda
longitudinal, respon- sável pela formação da imagem modo-B, não é
sensível para diferenciar distintos graus de rigidez do meio.
Uma técnica que tem despertado interesse em pesquisadores e
clínicos é a elastografia, já que possibilita a aquisição de valores da
elasticidade do meio de forma não invasiva e em tempo real,
reduzindo os erros de esti- mativa do uso da imagem modo-B e
possibilitando a aquisição de infor- mações clinicamente relevantes.
A elastografia foi desenvolvida há pouco mais de 20 anos e seu
princípio baseia-se na aplicação de uma força gerada
por uma fonte externa ao tecido examinado para induzir uma
distribuição de tensão quase-estática ou dinâmica (transitória).65
Alguns parâmetros como deformação ou módulo de cisalhamento
podem ser obtidos pela elastografia e são relacionados à rigidez, ou
seja, quanto menor a deformação ou maior o valor do módulo de
cisalhamento, mais rígido é o tecido.
A elastografia do tipo quase-estática caracteriza-se pela
produção de uma deformação relativa (strain) longitudinal e
transversal no tecido a partir da aplicação de compressões e
descompressões cíclicas e manuais no mesmo (FIGURA 6.2). Uma
correlação cruzada dos sinais de radiofre- quência é utilizada para
diferenciação do sinal antes e após a compressão do meio analisado.
O elastograma aparece dentro de uma região de in- teresse e contém
um mapeamento em cores representativo de diferentes graus de
complacência.66–70

Figura 6.2: Esquema da elastografia quase-estática mostrando o


desloca- mento do tecido em diferentes graus de elasticidade (mole e
rígida), antes e após a compressão manual. A derivada do
deslocamento gera a imagem de deformação do meio. Na escala de
cores (à direita) da imagem, a cor azul relaciona ao tecido mole e a
cor vermelha, ao meio rígido. (Prado-Costa et al.71, permissão obtida
pela Creative Commons Attribution 4.0 Internatio- nal License).
Adaptado de https://link.springer.com/article/10.1007%-
2Fs13244-018-0642-
1.
A elastografia quase-estática pode ser analisada semi-
quantitativa- mente, por meio da determinação de índices de
deformação entre os teci- dos, como no gorduroso e tendíneo,
utilizado no estudo de Drakonaki et al.67 Esse índice (Figura 7.2) é
calculado a partir da razão entre a deforma- ção de uma região de
interesse e outra de referência.72 No entanto, a maio- ria dos estudos
envolvendo a elastografia quase-estática do tecido biológi- co o
avalia de forma qualitativa, através da visualização da distribuição de
cores correspondentes a deformação em várias regiões dos tecidos.
O elastograma aparece dentro de uma região retangular de
interesse e apresenta-se com as cores sobrepostas à imagem modo-B,
como mostra a Figura 7.2. A escala de cores é arbitrária, apesar de
descrita na literatu- ra variando do vermelho (tecidos de maior
deformação) a azul (tecidos mais rígidos), com o amarelo e verde
representando uma deformação in- termediária.67,69,73 O mapeamento
da deformação tecidual pela elastografia quase-estática impõe
vantagens sobre a ultrassonografia tradicional, visto que são
oferecidas maiores informação sobre as propriedades mecânicas do
tecido, importantes para o diagnóstico precoce de lesões, bem como
análise do comportamento biomecânico, tratando de tecidos músculo-
ten- díneos.68,74
Estudos sobre a confiabiliade da elastografia quase-estática são
des- critos na literatura. De Zordo et al.70 relataram uma excelente
correlação (r=1,00) entre a sonoelastografia estática e
ultrassonografia modo-B ao avaliarem a deformação de tendões
calcaneares sadios e sintomáticos. Drakonaki et al.67, ao analisarem a
deformação de 50 tendões calcaneares sadios, relataram um
coeficiente de correlação intraclasse (CCI) inter-exa- minadores, no
plano longitudinal, variando de 0,51 a 0,78 e um coeficiente de
variação (CV) inter-examinadores, nas medidas do plano
longitudinal, variando de 29,60% a 30,50%.67 Os resultados de
confiabilidade descritos para músculos apresentam melhores
resultados de confiabilidade (CCI=
0,88 a
0,99).75,76
Os métodos elastográficos dinâmicos baseiam-se na propagação de on-
das de cisalhamento para a caracterização de propriedades
mecânicas.77,78
No início deste século, a chamada Supersonic Shear Imaging (SSI)
foi de- senvolvida, gerando avanços na área clínica (oncológica) e
biomecânica. O sistema ultrassônico desta técnica opera em dois
modos, sendo eles o pushing e o imaging. Primeiramente, o sistema
opera no modo pushing, emitindo uma força de radiação acústica,
por meio de um transdutor ul- trassônico focalizado eletronicamente,
em quatro profundidades sucessi- vas. Consequentemente, são
criadas duas frentes de onda de cisalhamento quase planas se
propagando em sentidos opostos no tecido de interesse.
Posteriormente, o sistema opera no modo imaging, o qual detecta a
vi- bração do meio devido à propagação da onda de cisalhamento, a
uma alta frequência de aquisição de imagens (3000 a 6000 imagens
por segundo). Dessa forma, a rigidez (módulo de cisalhamento) pode
ser estimada a par- tir da velocidade de propagação da onda de
cisalhamento, já que essa onda se propaga mais rapidamente em
meios rígidos.65
Figura 7.2: Elastograma (à esquerda da imagem) do músculo vasto
lateral gerado no plano longitudinal. Os gráficos à direita representam
o índice de elasticidade (E) da região de interesse (ROI) superficial
(B, amarela) e pro- funda (A, verde). O gráfico intermediário mostra a
curva da razão do índice de elasticidade (ROI profunda / ROI
superficial) e o último gráfico, a curva de diferença do índice de
elasticidade (ROI profunda – [ROI superficial]). (Fonte: Centro de
Desportos, Laboratório de Biomecânica, UFSC).

Como vantagens, a técnica necessita de menor dependência do


exa- minador e possibilita a aquisição de informações quantitativas,
como o módulo de cisalhamento (µ), medido em kilopascal (kPa)
(FIGURA 8.2).59
Além disso, as ondas de cisalhamento podem ser utilizadas para
originar elastogramas em regiões onde a compressão manual não é
possível ou ine- ficaz para produzir a deformação do tecido.79
Figura 8.2: Imagem elastográfica dos músculos bíceps braquial (BB)
e bra- quial (BR) gerada pela técnica Supersonic Shear Imaging. A
escala de co- res fornece uma informação qualitativa e quantitativa
(0-180 kPa). (Fonte: Laboratório de Biomecânica da UFRJ).

Comparando os dois métodos elastográficos descritos acima, a


elasto- grafia quase-estática disponibiliza dados apenas qualitativos
da deforma- ção relativa, já que o valor do stress manual aplicado é
desconhecido. Além disso, a compressão exercida é operador-
dependente, o que pode gerar li- mitações na confiabilidade da
técnica67 e, finalmente, possibilita avaliações apenas de tecidos
superficiais.65 A vantagem da utilização da elastografia quase-
estática consiste na facilidade de implementação da técnica no equi-
pamento de ultrassom e custo relativamente baixo, o que tem
impulsiona- do a aquisição da técnica por parte dos clínicos.65 A SSI,
por prover dados quantitativos e ser independente do examinador,
tem sido cada vez mais utilizada em estudos envolvendo a análise do
comportamento biomecâ- nico da UMT.58,59,80–82 No entanto, tem o
inconveniente do alto preço do equipamento.
A aplicação da elastografia em tecidos musculoesqueléticos,
especifi- camente músculos e tendões, tem despertado interesse em
pesquisadores e clínicos, visto que possibilita a caracterização da
unidade miotendínea (UMT)59, diagnóstico precoce e
acompanhamento de estágios de lesão ou dor muscular tardia. 83,84

Além disso, a identificação de possíveis alterações


mecânicas da UMT traz contribuições importantes para a
compreensão dos mecanismos envolvidos nas adaptações do sistema
músculoesqueléti- co à intervenções, como o alongamento.56,82,85
De acordo com os estudos, a técnica mostra-se eficaz na
avaliação das propriedades mecânicas do tecido em situações de
repouso86, contração87, estiramento80; após a aplicação de
intervenções como alongamento81,82, fortalecimento88 e liberação
miofascial55 ou condições como a fadiga89 e lesão induzidas.90 Os
resultados dos trabalhos envolvendo o estiramen- to e contrações
estáticas mostraram um aumento do módulo de cisalha- mento à
medida que o músculo ou tendão tornavam-se mais alongados ou
quando o músculo era mais solicitado para produção de força. Os
efeitos do alongamento e liberação miofascial aplicados ao músculo
reduziram o módulo de cisalhamento, enquanto que a indução de
lesão promoveu au- mento dessa variável, comparando-se ao grupo
controle. No entanto, mais trabalhos envolvendo distintas amostras e
diferentes tipos e volumes de intervenções são necessários para
assegurar a confiabilidade e validade da elastografia.91
Espera-se que num futuro próximo, o ultrassom contendo a
elasto- grafia quase-estática possibilite ao examinador um maior
controle de suas variáveis de aquisição e que a elastografia
dinâmica seja mais acessível aos profissionais da saúde. Dessa
forma, espera-se um aprimoramento no diagnóstico, prognóstico e
monitoramento terapêutico de lesões no tecido músculo-tendíneo.
Em suma, a ultrassonografia é uma técnica utilizada há muitos
anos na prática clínica e desde a última década tem se mostrado
promissora para aplicação em biomecânica. Essa técnica possibilita a
avaliação da es- trutura macroscópica da unidade miotendínea
(fascículos), permitindo a identificação da arquitetura muscular. Os
parâmetros da arquitetura mus- cular relacionam-se com a sua função
e apresentam características plásti- cas, podendo se modificar com a
aplicação de estímulos ou em condições fisiológicas. O ângulo de
penação parece reduzir-se com o envelhecimento e aumentar com o
treinamento de força concêntrico. Apesar do aumento do
comprimento do fascículo estar bem documentado em animais após
o alongamento passivo, em músculos humanos ainda não foi bem
elucidado. A área de secção transversa anatômica e espessura
muscular também se modificam após o treinamento de força,
aumentando seus valores devido ao maior acúmulo de material
contrátil. Em contrapartida, com o envelhe- cimento, esses
parâmetros tendem a diminuir devido à sarcopenia.
A avaliação das propriedades mecânicas da unidade miotendínea
por
meio da ultrassonografia também tem despertado o interesse dos
pesqui- sadores, pois permite a análise de estruturas isoladas e muitas
vezes em tempo real (elastografia). Estudos envolvendo a análise de
respostas agu- das e crônicas à aplicação de intervenções e
objetivando a caracterização do tecido músculo-tendíneo em
diferentes populações têm sido desenvol- vidos por meio da
elastografia. A rigidez muscular parece aumentar duran- te o
estiramento e contração e reduzir após a aplicação do alongamento e
liberação miofascial. No entanto, mais estudos são necessários para
confir- marem e esclarecerem a magnitude dessas respostas.

Aplicações práticas

• A ultrassonografia aplicada à UMT pode permitir:


• O monitoramento de respostas agudas e crônicas após a
execução de exercícios para reabilitação e prevenção;
• Caracterização de diferentes arquiteturas e níveis de rigidez do te-
cido;
• Determinação de protocolos de exercícios mais eficientes;
• Identificação de alterações previamente à instalação de patologias;
• Acompanhamento da recuperação do tecido e
prognóstico, em caso de lesões.

Nota do autor : Os descritores utilizados para busca dos estudos


envol- vendo a temática foram: muscle architecture, ultrasound,
elastography, biomechanics, strength, fiber length, fiber thickness,
cross sectional area, pennation angle.
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68
CAPÍTULO III
DINAMOMETRIA ELETROMECÂNICA: APLICAÇÕES
PRÁTICAS
E CIENTÍFICAS NO ESPORTE E NA SAÚDE

Josefina Bertoli
Cíntia de la Rocha Freitas

O que você irá encontrar:

• Aspectos históricos da dinamometria eletromecânica e sua


utilida-
des na saúde e no
esporte;
• Obtenção e cálculo dos parâmetros musculares obtidos a partir
da dinamometria eletromecânica;
• Escolha da velocidade angular, tipo e número de contrações
mus- culares de acordo com o objetivo do avaliador e
recomendações para aplicações antes e durante um teste no
dinamômetro eletromecâni- co;
• Diferentes cálculos da normalização e correção pela gravidade
do torque;
• Pesquisas científicas e treinamento de força aliados à Ciência
com a dinamometria eletromecânica.

Introdução

No presente capítulo, serão abordados os aspectos históricos e


conceituais da dinamometria eletromecânica, assim como também as
va- riáveis ou parâmetros de utilidade na pesquisa científica e a para a
prática do profissional de Educação Física e Fisioterapia. Investigações
científicas com diversos grupos etários e características específicas,
evidências sobre o uso do dinamômetro eletromecânico como meio de
treinamento de for- ça, também são abordadas. Este capítulo foi
elaborado a partir da busca de artigos científicos, na sua maioria de
cunho internacional, os quais foram adquiridos na base de dados
PubMed.gov e ScienceDirect.com. Já os arti- gos nacionais, foram
obtidos na base de dados Scielo.org.

Introdução à dinamometria eletromecânica

Com o avanço da Ciência na área da Biomecânica e, com o intuito


de melhor entender o funcionamento muscular, diversos instrumentos
de avaliação foram desenvolvidos1–3. Dentre eles, podem ser citados
o dina-
mômetro eletromecânico, que é utilizado com diversos fins. Seja em
pes- quisas transversais ou longitudinais, como por exemplo, na
avaliação do efeito de uma intervenção na produção de força de
diferentes grupos mus- culares em um ou mais grupos específicos,
sejam em crianças4, jovens5, idosos6, pessoas com deficiências7,
atletas e paratletas de distintas moda- lidades⁸. Esse equipamento
também é utilizado na reabilitação de lesões músculo-tendíneas,
assim como para o fortalecimento muscular⁹.
Quanto à sua configuração eletromecânica mecânica, o
dinamômetro possui um sistema servomotor, o qual foi patenteado
em setembro de 1969 por Perrine10 nos Estados Unidos (Figura 1.3).
Segundo Sapega11, na dé- cada de 80, o seu uso foi disseminado
com o objetivo de avaliar a função muscular e a partir daí, o mesmo
tem sido aprimorado constantemente ao longo do tempo,existindo
hoje vários modelos como o Biodex System 3 e 4 (Figuras 2.3 e 3.3,
respectivamente) e CSMI (Figura 4.3).

Figura 1.3.Patente do Dinamômetro Eletromecânico em 1969 nos


Estados

Unidos, fonte
Perrine10.
Atualmente, este dinamômetro é comumente chamado de
dinamôme- tro isocinético, em que isso significa igual e cinético
significa movimen- to, devido à possibilidade de mensurar a força
muscular a partir de con- trações isocinéticas. As contrações
isocinéticas ocorrem quando em uma contração muscular a
velocidade de movimento permanece constante, in-
dependentemente da magnitude da força gerada pelo sujeito
avaliado. A velocidade de contração muscular é medida em
velocidade angular, graus por segundo (º/s)(12). Apesar do termo
dinamômetro isocinético ser mui- to utilizado, contrações
isométricas e isotônicas também são possíveis de
serem mensuradas. Além disso, a amplitude de movimento é
previamente estabelecida pelo avaliador em quaisquer das contrações
musculares aci- ma citadas13.

Figura 2.3 - Dinamômetro eletromecânico


Biodex System 3,
USA. Fonte Manual BIODEX

MULTI-JOINT SYSTEM - PRO

Figura 3.3 - Dinamômetro eletromecânico


Biodex System 4, USA.

Fonte: Manual BIODEX MULTI-JOINT SYSTEM - PRO


Figura 4.3 - Dinamômetro eletromecânico Human Norm,
USA. Fonte: CSMI Medical Solutions Manual.
Parâmetros musculares obtidos por meio da dinamo-
metria eletromecânica

O dinamômetro eletromecânico, seja qual for o modelo


utilizado, per- mite mensurar diferentes parâmetros ou variáveis em
distintos grupos musculares como o torque, a potência, a fadiga e o
trabalho mecânico, des- critos a seguir14.

• Torque: representa a força ou momento que se dá em um


pon- to de aplicação em uma alavanca durante um movimento
rotacio- nal, representado pelo produto da força aplicado em
um ponto pela distância do ponto de aplicação dessa força com
respeito ao centro de rotação do eixo de movimento, Eq 1.3. A
unidade de medida é expressa Newtonmetro (N.m), cujo
resultado pode ser apresentado em valores absolutos ou em
valores normalizados pela massa corpo- ral, e o valor absoluto
é dividido pela massa corporal do avaliado14,15. Mais detalhes
sobre a normalização serão desenvolvidos no tópico seguinte.

Torque (τ) = F. d, Eq. 1.3

onde: F= força d= distância do braço de alavanca.

Na dinamometria isocinética é utilizado o pico de torque, o qual


re- presenta o ponto de maior produção de força na amplitude de
movimento previamente determinada pelo avaliador14. O torque
médio também é for- necido pelo equipamento, entretanto é menos
utilizado. Por outra parte, em contrações concêntricas e excêntricas,
o torque e a velocidade angular são grandezas inversamente
proporcionais, de modo que quanto maior for a velocidade angular,
menor será a produção de torque e, quanto menor a velocidade
angular, maior será o torque gerado15.
• Trabalho mecânico: este parâmetro refere-se à energia
produ- zida em uma contração muscular durante o movimento,
ou seja, o resultado obtido a partir do trabalho mecânico está
estreitamente relacionado com a capacidade de um músculo
ou grupo muscular de produzir força ao longo da amplitude de
movimento, na qual o movimento foi testado. Para que haja
trabalho mecânico, é necessá- rio que ocorra um
deslocamento14,15. Portanto, o dinamômetro ele-
tromecânico somente é capaz de fornecer este parâmetro em
con- trações dinâmicas, sejam elas concêntricas ou excêntricas.
O valor do trabalho mecânico é obtido por meio da área abaixo
da curva de torque de acordo a posição angular, Eq. 2.3. A
unidade de medida é dada em Joules (J), podendo ser expresso
em valores absolutos ou em valores relativos à massa corporal,
onde o trabalho mecânico se divide pela massa corporal do
avaliado. Da mesma forma que o tor- que, o trabalho é
inversamente proporcional à velocidade angular15.

Trabalho (τ) = P.t , Eq. 2.3

onde P = potência vezes o t = tempo.

Diferente dos valores de torque, que se referem a um ponto


específico da amplitude de movimento, o valor do trabalho reflete a
capacidade que a musculatura ou grupo muscular possuem de gerar
força ao longo de toda a amplitude de movimento. O valor do
trabalho é dado pela área sob a curva de torque por posição angular e
é expresso em joules16.

• Potência: refere-se à velocidade com a qual um músculo ou


gru- po muscular é capaz de produzir trabalho mecânico.
Portanto, a po- tência é obtida a partir da divisão do trabalho
pelo tempo expresso em Watt (W), Eq. 3.3. Como a velocidade
angular é diretamente proporcional à potência, diferentemente
do torque e do trabalho mecânico, quanto maior a velocidade
angular, maior será a potência obtida e vice-versa. Assim como
os parâmetros acima descritos, a potência pode ser
representada em valores absolutos e relativos à massa
corporal14,15.
Potência (P) = τ/t, Eq. 3.3

onde τ(tau) = trabalho em Joules dividido o t = tempo.

• Fadiga: o índice de fadiga é obtido no dinamômetro


eletromecâ- nico, representa a resistência dos grupos
musculares e a redução da produção de torque após várias
contrações musculares. De forma prática, para obter o índice
de fadiga, comparam-se as primeiras e as últimas repetições
de determinado movimento ou se avalia a inclinação
descendente da curva relacionada à perda de torque e/ou
trabalho mecânico(15,17,18). De acordo com Terreri14, por
meio do índice de fadiga, pode ser avaliado também o índice
de resistência. Segundo estes autores para poder obter o índice
de fadiga o número de repetições avaliado deve ser iguais ou
maior que seis.
Para o cálculo do índice de fadiga existem diversas fórmulas
adotadas. Com isso, é realizado um cálculo de proporção em
porcentagem, se o resul- tado da segunda metade do teste teve um
valor de 60% quando comparada à primeira metade, a diferença de
40% seria o índice de fadiga da metade final(14). De acordo com
esses autores, tal resultado representa a energia utilizada no
metabolismo anaeróbio. Outros autores19 descrevem o índice de
fadiga obtido no dinamômetro como o trabalho realizado no terço
ini- cial dividido pelo trabalho realizado no terço final. Os dados são
calculados pela queda do percentual, utilizando o valor gerado no
dinamômetro. Para Rossato et al.20 o cálculo é realizado pela equação
4.3:

IF = ([média das últimas 15 contrações


do torque / média das primeiras 15
Fórmula para o cálculo do índice de fadiga (IF) por Rossato et al. (20).

• Razões de torque: muito utilizado como índice de lesões


da musculatura antagonista, as razões de torque fornecem
informa- ção sobre o equilíbrio muscular agonista/antagonista,
identificando déficits musculares, podendo ser mensurado em
grande parte das articulações do corpo humano19,20. Quanto
maiores forem os dese- quilíbrios musculares, maiores as
possibilidades de ocorrência de lesões musculares,
principalmente durante a prática esportiva. Para mensurar o
equilíbrio agonista/antagonista, pode ser utilizado o pico de
torque, o trabalho ou a potência muscular, em que se di- videm
os valores obtidos da musculatura agonista pela antagonis- ta,
cujo resultado é dado em porcentagem representando, assim, a
proporção desses parâmetros entre os grupos musculares
avaliados. Mais especificamente, divide-se o valor obtido dos
músculos flexo- res pelo músculos extensores da musculatura
de interesse. Quando o equilíbrio muscular é mensurado a
partir do trabalho ou do pico de torque, velocidades angulares
lentas são utilizadas, enquanto que velocidades angulares mais
altas são empregadas para a potência (Figura 5). Dentre os
grupos musculares mais avaliados, encon- tram-se os da
articulação do joelho14,15.
Além disso, as razões de torque são comumente classificadas na prática
e na literatura convencional e funcional. A primeira trata-se da
divisão do valor obtido em uma contração concêntrica da
musculatura agonista, pela contração concêntrica do músculo
agonista. Já a razão de torque funcional, é calculada a partir da
divisão do pico de torque da musculatura flexora de uma contração
excêntrica, pelo pico de torque dos músculos extensores de uma
contração concêntrica. Além disso, existem valores normativos para
as razões de torque convencionais nos diferentes grupos musculares,
de acordo com a idade, tipo de prática esportiva e lesões
musculoesqueléticas. Estudos21,22 apontam que as razões de torque
convencional dos flexores/ extensores do joelho encontram-se em
torno de 60%. Desse modo, a di- ferença entre os músculos
extensores, mais fortes, com os flexores, que são mais fracos, é de
40%. Quanto à razão de torque funcional do joelho, considera-se 1
ou 100% ou próximo a esse valor, como o ideal para evitar
incidências de lesões14,15,23.
Quanto à articulação do quadril, a partir de um estudo de
revisão24, ob- servou-se que na posição em supino dorsal, as razões
de torque dos mús- culos flexores-extensores apresentavam valores
entre 37 a 74%, já na po- sição em pé os valores se encontravam
entre 104 a 130%25,26. Estes últimos valores são similares aos
encontrados por Bertoli et al.27 que avaliaram idosas saudáveis
antes e após uma intervenção com Pilates de solo. Castro et al.24, no
seu estudo de revisão, observaram que para a abdução-adução do
quadril, as razões de torque avaliadas na posição deitada, todos os
es- tudos mostravam valores entre 64 a 78%, exceto o de Morcelliet
et al28 que foram de 141%. No entanto, na posição em pé para os
abdutores-adutores do quadril, Castro et al. 26 observaram que os
estudos divergiam, com valo- res de 57 a 172%(29). Estes autores
também encontraram nos estudos, que, para os rotadores internos-
externos na posição sentado com ângulo de 90º da articulação do
quadril entre 155 a 248% e na posição deitada em supino dorsal com
o joelho flexionado a 90º, valores dos rotadores internos-exter- nos
entre 123 a 134%(26). Entretanto, Castro et al.24 salientam que, deve-
se ter cautela com esses achados e não se pode estabelecer valores
norma- tivos para a articulação do quadril, já que foram incluídos
estudos com amostras a partir de 10 participantes, considerando um
tamanho amostral baixo, participantes a partir de 18 anos e sem
acometimento de lesões.
Para as razões de torque convencional dos músculos
dorsiflexores/ plantiflexores do tornozelo, parece que os valores 64
e 63% são os que se encontram dentro da normalidade para as
velocidades angulares de 60 e
120 º/s30 em pessoas saudáveis. Para as razões de torque dos
eversores/
inversores, os valores 93 e 91% nas velocidades angulares de 60 e
120 º/s
foram encontrados30 também em pessoas sem comprometimento
nessa articulação. Quanto às razões de torque dos músculos flexores-
extensores do tronco, um estudo31 mostrou que homens e mulheres
jovens apresenta- ram uma média de 133%.
Além das razões de torque já citadas, o equilíbrio muscular
agonista/ antagonista também pode ser avaliado pela divisão do pico
de torque da musculatura agonista de uma contração excêntrica pelo
pico de torque do antagonista, também de uma contração
excêntrica32. Contudo, poucos são os estudos utilizando este tipo de
razão de torque. Impellizeri et al.32 acha- ram valores de equilíbrio
muscular de 53% em velocidades angulares de
60º/s dos músculos flexores e extensores do joelho, próximos aos
valores para a razão convencional.
A partir dos estudos acima descritos, percebe-se que grupos
musculares que se encontram no tronco, quadril e tornozelo,
pesquisas precisam ser desenvolvidas em populações e faixas etárias
específicas com um tama- nho amostral representativo, para assim
poder obter valores de razões de torque normativos. Além disso, não
todos os grupos musculares tem sido avaliados com respeito a este
parâmetro muscular.

• Tempo de aceleração: segundo Terreri15 é o tempo em


segun- dos, décimos ou centésimos de segundo necessário para
que a velo- cidade angular desejada seja alcançada durante a
contração muscu- lar no início do movimento.

No caso de coleta de dados ou reabilitação utilizando o


dinamômetro eletromecânico, Terreri et al.15 fazem recomendações
importantes. Entre elas, podem ser citadas as seguintes:
Utilizar velocidades angulares altas para tratamentos de recuperação
e re- abilitação, sejam pós cirúrgico ou não, já que exigem menor
produção de força, por conseguinte são menos dolorosas;
Realizar diminuição gradativa da velocidade angular e do número de
re- petições à medida que o paciente progredir na recuperação e não
houver processos inflamatórios;
Para reabilitação e testes, o paciente/participante deverá realizar
aquecimento prévio na bicicleta ergométrica ou esteira por pelo
menos cinco minutos;
• Em ambos os casos, reabilitação ou teste, realizar aquecimento
espe- cífico da articulação de interesse com velocidades
angulares em torno ou acima de 120º/s, entre 10 a 15 repetições
com esforço submáximo;
• Explicar com clareza o protocolo para o
paciente/participante, as- sim como mencionar sobre possíveis
desconfortos que possa vir a sentir;

Para testes, é recomendada uma sessão prévia para familiarização


com o dinamômetro com esforço submáximo. Após não menos de 48
horas, realizar o teste propriamente dito. No caso de a familiarização
ser inviável em dia separado ao teste, podem ser feitas repetições
com esforço submá- ximo para familiarizar com o equipamento e
com o teste, a fim de diminuir os erros de medida. Levando em
consideração a confiabilidade dos testes no dinamômetro
eletromecânico, cujos coeficientes de correlação se en- contram
entre 0,93 e 0,9919.

Figura 5.3. Velocidades angulares e número de repetições de acordo


com o parâmetro avaliado (pico de torque, trabalho mecânico,
potência e índice de fadiga).
Normalização pelo peso corporal e correção pela gra-
vidade
A produção de força muscular, muito estudada em diferentes
populações, é influenciada por diversos fatores como o sexo, a idade,
o nível de atividade física, entre outros. Contudo, a literatura aponta que
a massa corporal é um dos fatores principais que pode alterar o
resultado do torque ou da força muscular (FM)34.Vários estudos têm
sido desenvolvidos para determinar qual seria o pro- cedimento mais
adequado para normalização pela massa corporal do torque e da força, e
assim minimizar o efeito desta variável nas variáveis de interesse34–38. De
acordo com Jaricet al.34, diferentes expoentes devem ser utilizados
depen- dendo se for mensurado o torque ou a FM, já que esta última
depende da área de secção transversa do músculo e o torque depende
da FM multiplicado pelo braço da alavanca, o qual varia de acordo com
o seu comprimento. Assim, o cálculo é realizado por meio de razões
entre a FM e a massa corporal e o torque também é dividido pela massa
corporal, cada um com um expoente diferente de acordo com o grupo
muscular e teste utilizado34.
Dessa forma, autores sugerem a utilização de uma escala
alométrica, onde a normalização é baseada na teoria da similaridade
geométrica que assume a diferença entre o tamanho corporal e
similaridade dos segmen- tos corporais34,38. A escala alométrica é
uma técnica de normalização que divide a FM ou torque pela massa
corporal elevada a uma potência que remove o efeito do tamanho
corporal30. A equação utilizada para normali- zar a força é
Fn = Fm/mb, onde Fm é a força muscular não normalizada, m a
massa corporal, b é o valor alométrico e, Fn é a força dependente da
massa cor- poral26.
Segundo Jaric et al.34, os valores alométricos (valores-b) para o
tor- que(b = 0,41 – 1,01) são maiores do que os obtidos para
normalizar a Fm (b = 0,45 – 0,97). Em ambos os casos, a contração
avaliada foi isométrica, para o torque foi utilizado um dinamômetro
isocinético e para a FM, uma célula de carga. Portanto, o torque e a
força muscular devem ser norma- lizados de forma diferente. Além
disso, parece haver uma variabilidade nos valores alométricos entre
os diferentes testes de força, por exemplo, para a normalização do
torque dos diferentes grupos musculares, Jaric et al.26encontram os
seguintes coeficientes alométricos: para os flexores e extensores do
cotovelo = 1,01 e 0,97, para os flexores e extensores do joe- lho =
1,01 e 1,39 e, para os flexores e extensores do quadril = 1,28 e
0,41, respectivamente. De acordo com esses autores, devido à
média para to-
dos os grupos musculares apresentarem proximidade entre eles,
sugerem o uso do 0,67 para o valor b no método alométrico para a
FM e 1 para o valor b no método de razão standard. Portanto, para o
torque, de acordo com esses fatores, não precisaria da escala
alométrica para normalização, simplesmente utilizar a razão standard
(T/massa corporal).
Por outro lado, Folland38 observou que em contrações
musculares di- nâmicas não houve efeito da velocidade angular no
expoente alométrico, porém a massa corporal teve uma influência
crescente nos índices de força. Com isso, esses autores sugerem que a
força seja normalizada pela massa corporal em populações com
percentual de gordura < 20% com expoentes de 0,66 para a FM e 1
para o torque, já para populações com percentual de gordura >
20%, expoentes de 0,45 para a FM e 0,68 para o torque. No entanto,
Folland38 afirmam que a massa livre de gordura deveria ser o ín- dice
utilizado para a normalização da Fm e do torque, utilizando expoentes
alométricos 0,76 e 1,12 para a FM e o torque respectivamente.
Embora estes estudos tentaram buscar a melhor forma de
diminuir o efeito da massa corporal sobre a produção de torque e FM
para poder comparar resultados entre sujeitos, em grande parte dos
estudos, é obser- vada a utilização da razão standard de
normalização, principalmente para a produção força e torque,
independentemente da contração muscular e grupo muscular
avaliado.
Além da massa corporal, os testes realizados no plano vertical
tam- bém são influenciados pela força da gravidade. De acordo com
Bazett et al.37, o torque mensurado em um dinamômetro é
influenciado pela torque muscular produzido durante uma
determinada contração, mas também pela força da gravidade e os
componentes elásticos passivos de articulação avaliada27. Segundo
estes pesquisadores, a força gravitacional dá-se devido ao peso do
segmento e da alavanca do dinamômetro. Esses fatores podem
ocasionar erros de medida. Portanto, a literatura aponta que devem
ser corrigidos. A força gerada pelos componentes elásticos
passivos, ocor- re devido à deformação dos tecidos que compõem a
articulação, dentre eles, músculos, tendões e ligamentos35. Desta
forma, segundo Anderson35, é necessário determinar os componentes
elásticos passivos intervenien- tes e subtraídos dos resultados
obtidos. Consequentemente, a produção de torque obtido no
dinamômetro não reflete 100% o torque muscular e sim, o torque
gerado devido à resultante da força muscular e da força da gravidade.
Assim sendo, alguns estudos propuseram, a partir de modelos
matemáticos complexos, corrigir o torque muscular pela
gravidade34,35,36,39.
Contudo, as várias pesquisas envolvendo Ciências do Esporte,
Fisiote-
rapia, Educação Física, entre outras áreas, não realizam esta correção
pela gravidade nos resultados obtidos na produção de torque
muscular40–42. Talvez, devido aos procedimentos matemáticos
complexos que implicam este método. Por outro lado, se quisermos
comparar participantes de di- ferentes características, ou mesmos
participantes ao longo do tempo, se mantivermos sempre o mesmo
padrão de avaliação, é possível obter dados confiáveis e válidos para
comparação intra e inter sujeito, se a correção pela gravidade for
inviável para o avaliador.

Evidências prático-científicas no esporte e na saúde

Na Ciências da Saúde e mais especificamente na Biomecânica,


que por sua vez tem estreita relação com a primeira, o dinamômetro
eletromecâni- co é considerado um instrumento de avaliação padrão
ouro43,44. Portanto, pesquisadores têm desenvolvido investigações
com os mais diversos fins e populações diversas, desde crianças4,
adolescentes, jovens45, adultos46, idosos47, atletas48, paratletas8, entre
outros, utilizando os parâmetros aci- ma citados.
Dentre os grupos estudados na área da dinamometria, crianças
com paralisia cerebral (PC) têm sido alvo de diversas investigações.
Em uma pesquisa onde foi utilizado o dinamômetro
eletromecânico49, foi compa- rado o pico de torque e trabalho
mecânico dos músculos flexores e exten- sores do joelho, a relação
entre essas duas variáveis com a área de secção transversa e volume
muscular da coxa entre crianças com desenvolvimen- to normal
comparadas com crianças com PC. Foram avaliados o pico de torque
e o trabalho mecânico dos músculos flexores e extensores do joelho
na contração concêntrica a 60º/s e, o pico de torque isométrico a
90º de flexão do joelho.
Os resultados desta investigação apontaram que as crianças com PC
fo- ram significativamente mais fracas para todas as avaliações de
força. Mais especificamente, crianças com PC apresentaram pico de
torque isomé- trico dos músculos flexores 29% inferior, pico de
torque isocinético 29% inferior e trabalho mecânico 53% menor,
comparadas ao grupo com de- senvolvimento normal. O pico de
torque dos extensores do joelho na con- tração isométrica, o pico de
torque isocinético e o trabalho mecânico foi
26, 20 e 33%, respectivamente, inferior também comparado às
crianças com desenvolvimento normal. Além disso, observou-se que
o grupo com desenvolvimento normal, apresentou uma correlação
significativa e forte entre todas as variáveis de força com o volume
muscular e a área de secção
transversa da coxa. No entanto, as crianças com PC tiveram
correlação fraca para todas as variáveis de força com respeito à área
de secção trans- versa. Não sendo assim para a correlação do volume
muscular e todas as variáveis de força mensuradas nas crianças com
PC, onde foi observada correlação positiva e significante.
Apesar dos resultados de torque e trabalho mecânico terem sido
os esperados em relação à menor produção de força por parte das
crianças com PC, os dados são interessantes, já que futuros estudos
de intervenção podem ser desenvolvidos para melhorar os fatores
associados à produção de força neste grupo, destacando o desafio
que implica trabalhar com pes- soas com PC devido à complexidade
da patologia.
Dentre os grupos em destaque avaliados com dinamometria,
encon- tram-se os idosos, seja em pesquisas transversais ou
longitudinais. Um dos estudos realizados pelo Grupo de Pesquisa em
Biodinâmica (GPBIO), do Laboratório de Biomecânica do Centro de
Desportos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), cujo
grupo de interesse, idosos, foi de- senvolvido por Orssatto et al.50 e
foi comparado o efeito de uma sessão de treinamento de força em
diferentes intensidades sobre a falha concêntrica em 22 idosos
(homens e mulheres), randomizados em dois grupos dife- rentes. O
grupo que treinou em intensidade moderada utilizou uma carga
equivalente a 70% de 5RM, enquanto que no grupo que treinou com
alta intensidade, a carga utilizada foi 95% de 5RM. Todos os
exercícios foram executados em três séries com o maior número de
repetições possíveis, cujas contrações podiam ser de um 1 a 2 s nas
ações concêntricas e/ou excêntricas. A contração voluntária máxima
isométrica foi avaliada no di- namômetro eletromecânico a 70º de
flexão do joelho51 para os músculos extensores desta articulação, cuja
contração teve duração de 5 s, com três repetições. Os resultados
desse estudo mostraram que não houve diferen- ça significativa nos
valores do pico de torque isométrico no “baseline”. As avaliações
pós intervenção foram mensuradas logo após 10 min da sessão, após
24, 48 e 72 horas do mesmo. Observou-se queda significativa do pico
de torque isométrico imediatamente após o treinamento para ambas
as intensidades de treinamento, com maior queda neste parâmetro
para o grupo de moderada intensidade comparado aos valores do
“baseline”. En- tretanto, o grupo de baixa intensidade teve
recuperação significativamente maior após 24, 48 e 72 horas
comparado ao grupo que treinou em alta intensidade. No entanto, o
grupo alta intensidade não conseguiu recuperar a produção de força
após 24, 48 e 72 da sessão, ficando abaixo dos valores do
“baseline”. A partir desta investigação, pode-se inferir que de
acordo
com a intensidade do treinamento de força, o idoso poderá levar
maior ou menor tempo para sua recuperação, fator importante na
prescrição de treinamento para evitar lesões e melhorar o
desempenho nas suas ativida- des da vida diária.
No mesmo grupo de pesquisa e laboratório, outro grupo27
realizou uma investigação com mulheres idosas, sendo utilizado o
Método Pilates na modalidade de solo. Também foi investigada a
influência que esta mo- dalidade exerce sobre o pico de torque e o
trabalho mecânico em diferentes contrações musculares, nos flexores
e extensores do joelho e do quadril, após seis e 12 semanas de
intervenção em mulheres idosas. As contrações musculares foram
realizadas a 60º/s em contrações concêntricas e excên- tricas, a
contração isométrica foi realizada a 70º de flexão do joelho51 para os
extensores do mesmo, 15 e 100º de flexão do quadril para os
flexores e extensores, respectivamente52. Quanto à intervenção,
diferentemente do treinamento de força, a progressão da carga do
Pilates foi realizada por meio do aumento da dificuldade dos
exercícios. Neste estudo, além de uti- lizar a dificuldade na execução
dos exercícios para a progressão da carga, a mesma também foi
incrementada por meio do aumento das repetições ao longo da
intervenção, mantendo três séries durante todo o estudo.
Quanto ao pico de torque, para a articulação do joelho, os
resultados mostraram aumento significativo somente para os
músculos flexores na contração concêntrica e excêntrica, após as 12
semanas de intervenção. O aumento significativo teve ênfase
principalmente na articulação do quadril para os extensores na
contração isométrica, concêntrica e excêntrica, após seis e 12
semanas, bem como para os flexores na contração concêntrica. Já
para os flexores do quadril nas contrações isométrica e excêntrica,
obtive- ram-se melhoras significativas somente após 12 semanas de
intervenção27.
No que se refere ao trabalho mecânico, observaram-se aumentos
sig- nificativos após 12 semanas para os extensores do joelho na
contração excêntrica. O quadril novamente teve ênfase nos
resultados positivos e significativos após 12 semanas na contração
concêntrica para os flexores e extensores e o trabalho mecânico
excêntrico dos músculos flexores me- lhorou após seis e 12 semanas
da intervenção. Esses resultados podem ter ocorrido em função dos
exercícios do Método Pilates concentrar grande parte da produção de
força nos músculos do CORE, composto pelo múscu- los flexores e
extensores da coluna, extensores e flexores do quadril e pelos
músculos do períneo53.
As razões de torque ou também chamadas por alguns autores15 de
equilíbrio muscular agonista/antagonista, que avaliam a
estabilidade da
articulação e tem relação com o índice de lesões14,15, têm sido
estudadas em diversos grupos etários com características
específicas54,55,56. Seguindo esta linha, Hewett56 realizou uma revisão
de literatura, com o objetivo de determinar, a partir dos dados
existentes na literatura, se havia diferenças nas razões de torque da
articulação do joelho (isquiotibiais/quadríceps) de acordo com o
sexo e a velocidade angular. As velocidades angulares dos estudos
avaliados por estes pesquisadores foram de 30 a 360º/s, com uma
média de 52 e 60% nas razões de torque para as mulheres e homens,
respectivamente para todas as velocidades.
Os achados de Hewett56 mostraram que na velocidade angular
mais baixa não se encontrou diferença significativa nas razões de
torque entre ambos os sexos. Porém, houve uma correlação
significativa entre as ra- zões de torque e a velocidade angular nos
homens. Ademais, aumentos significativos nas razões de torque com
incremento na velocidade desde as mais baixas(47% a 30º/s)
comparadas às velocidades mais altas (81,4% a
360°/s) foram observados. Todavia, as mulheres não apresentaram
corre- lação entre as razões de torque e velocidade angular testada,
além de não haver apresentado diferença significativa entre as
velocidades mais baixas e as mais altas, 49,5% a 30°/s e 51% a
360°/s. Por outro lado, a análise de variância mostrou diferença
significativa entre as razões de torque nas ve- locidades 30, 60, 180,
240, 300 e 360°/s, somente entre os homens.
De acordo com Hewett55, esses achados no grupo masculino
podem ter acontecido devido aos aumentos do torque dos
isquiotibiais com relação ao quadríceps para estabilizar a articulação
e proteger assim o ligamento cruzado anterior. Os resultados obtidos
no grupo feminino podem indicar um aumento no risco de lesões do
ligamento cruzado anterior. Entretan- to, considerando os aspectos
metodológicos de uma pesquisa e, de acor- do com estes resultados,
é importante padronizar a velocidade angular na qual se pretende
avaliar o grupo de interesse, seja para comparações inter e intra
grupo.
As razões de torque muito estudadas no esporte também foram
tema de pesquisa no mesmo laboratório acima citado, onde Dal
Pupo56 avaliou o efeito da fadiga sobre as razões de torque do joelho
em jogadores de futsal com média de 17 anos. A fadiga foi induzida
por meio do protocolo reco- mendado para atletas de 15 a 19 anos
que replica uma partida de futsal. As razões de torque convencional e
funcional foram calculadas a partir do pico de torque concêntrico e
excêntrico dos músculos flexores e extensores do jo- elho a 120º/s, os
quais foram mensurados antes, na metade do protocolo de fadiga e no
final do mesmo, entre o quarto e o sexto minuto de recuperação.
Os resultados mostraram uma queda significativa em ambas as
razões de torque, convencional e funcional, somente após o final do
protocolo de fadiga, como consequência da diminuição do pico de
torque concêntrico e excêntrico. Esses achados parecem corroborar
com a literatura, pois se- gundo Dal Pupo56, no futebol o maior
índice de lesão dos músculos isquio- tibiais ocorre nos últimos
estágios de uma partida, onde a capacidade de produzir força se
encontra reduzida, tanto nas fases de aceleração e desa- celeração
que requerem contrações concêntricas e excêntricas.
Além de atletas, paratletas também têm sido alvo de pesquisas.
No Brasil, Silva et al.57 monitoraram o pico de torque dos músculos
extensores e flexores do joelho e as razões de torque desta
articulação de 14 atletas (10 homens e 4 mulheres) com uma média
de 28 anos de idade, sendo que seis deles eram deficientes visuais,
três possuíam deficiência nos membros inferiores e superiores e
cinco eram atletas guias. Todos eles tinham ex- periência em
competições nacionais e internacionais. No que se refere ao tipo de
contração muscular, todas foram feitas no modo concêntrico má-
ximo, com repetições de cinco a 10, com velocidades angulares de
60,180 e 300º/s com um minuto de intervalo entre elas. Não foi
especificado o número de séries executadas. As avaliações foram
realizadas em três mo- mentos distintos durante um ano (etapa
preparatória, na metade do ano e prévio à competição).
Os achados desse estudo mostraram aumentos significativos do
pico de torque na metade do ano e na pré competição para todas as
velocida- des angulares mensuradas, quando comparados aos valores
do “baseline”. Embora os picos de torque obtidos a 300º/s tenham
diminuído na pré competição, não foram observadas diferenças
significativas quando com- parados aos demais momentos. Quanto
aos valores das razões de torque, somente foi observada uma
diminuição significativa na velocidade angular de 300º/s do lado
direito na segunda avaliação e manteve-se próximo ao segundo
valor na pré competição (80; 74,4 e 76,7% respectivamente).
A partir dos estudos acima citados, observa-se uma grande
diversidade na aplicação prático-científica do dinamômetro
eletromecânico em diferen- tes populações. Com isso, este
instrumento de avaliação tem crescido ao longo das últimas décadas
quanto a sua popularidade, podendo não somen- te ser utilizado para
avaliar os parâmetros que ele fornece, desde o torque até índice de
fadiga, mas também pode ser aliado a outras técnicas de ava- liação
enquanto o participante realiza uma determinada contração mus-
cular. Técnicas como eletromiografia, oclusão vascular,
ultrassonografia, eletroestimulação, entre outras, podem ser utilizadas
concomitantemente.
A dinamometria eletromecânica como meio para o
treinamento de força muscular aliada à pesquisa

O treinamento de força tem sido muito estudado por diversos


pesqui- sadores ao longo de várias décadas até os dias atuais como as
mais dis- tintas finalidades (i.e, ganho de força, potência,
reabilitação), envolvendo diferentes grupos etários, sexo, modalidade
esportiva, nível de atividade física, entre outros58–60. Com o
surgimento do dinamômetro eletromecâni- co, desde alguns anos até
o presente momento, pesquisadores têm buscado avaliar o efeito do
treinamento de força muscular utilizando este dinamô- metro, devido
à possiblidade de efetuar contrações musculares de forma
isocinética, fato que não é possível de ser realizado em um
treinamento convencional de força. Além disso, estudos apontam a
segurança que traz este equipamento quando se trata de reabilitação.
Portanto, na sequência deste capítulo, serão apontados diversos
estudos na área do treinamento de força em que o dinamômetro
eletromecânico foi utilizado como instru- mento tanto para
treinamento, como para avaliação.
Uma das vantagens da utilização do dinamômetro, como
mencionado anteriormente, é que a força exercida é
proporcionalmente “devolvida” em forma de resistência isocinética.
Portanto, a força máxima é aplicada du- rante toda a amplitude de
movimento, não sendo para a tensão máxima, já que esta somente
ocorre em determinado ponto da amplitude movimen- to60. Tratando-
se de reabilitação, existem vários estudos que têm utilizado o
treinamento com o dinamômetro eletromecânico. Gur et al.61, por
exem- plo, compararam o efeito de oito semanas de treinamento
concêntrico e combinado concêntrico-excêntrico de forma
isocinética dos músculos fle- xores e extensores do joelho, sobre a
capacidade funcional, sobre diversos sintomas e na produção de força
concêntrica e excêntrica (60, 120 e 180°/s in), em pacientes de 41 a
75 anos que padeciam de osteoartrite em ambos os joelhos.
As sessões eram realizadas três vezes na semana. Para isso,
foram ran- domizados em três grupos de treinamento diferentes. Um
grupo treinou em contrações concêntricas, o segundo grupo realizou
contrações concên- tricas-excêntricas e o terceiro grupo não realizou
nenhum tipo de treina- mento (grupo controle). O grupo um realizou
12 contrações concêntricas de ambos os membros, o segundo grupo
realizou contrações concêntri- cas-excêntricas. As velocidades
angulares utilizadas para o treinamento foram 30, 60, 90, 120, 150 e
180°/seg, com dois minutos de intervalo entre as séries e cinco
minutos entre ambos os membros61.
Os resultados dessa investigação mostraram que ambos os
grupos au- mentaram significativamente a capacidade funcional, o
pico de torque em todas as contrações avaliadas, a área de secção
transversa dos músculos flexores e extensores do joelho e
diminuíram o escore na escala de dor, sendo que o grupo controle
não teve mudanças em nenhumas das variá- veis mensuradas. Mais
especificamente, o grupo que treinou somente nas contrações
concêntricas teve melhores resultados para a escala de dor que o
grupo que treinou concêntrico-excêntrico. Entretanto, este último
teve melhores resultados para todos os testes de capacidade
funcional, não ha- vendo diferenças no resultado na área de secção
transversa para nenhuma das modalidades de treinamento. Quanto ao
pico de torque, o grupo um aumentou significativamente na
contração concêntrica, enquanto que o se- gundo grupo teve
incrementos significativos para a contração excêntrica, o que leva a
conclusão que houve uma adaptação específica ao treinamento.
Um outro estudo62 teve como objetivo investigar o efeito de três
dias de treinamento isocinético concêntrico dos extensores do joelho
do lado não preferido, em velocidades específicas sobre o pico de
torque e o si- nal eletromiográfico em 30 mulheres (19 a 29 anos),
separadas de forma randômica em: treinamento em velocidade lenta
(TVL), treinamento em velocidade rápida (TVR) e grupo controle.
O treinamento foi executado em quatro séries de 10 repetições
máximas, onde o grupo TVL treinou a
30º/s e o grupo TVR a 270º/s nas três visitas respectivamente, com
inter- valo de 48 a 72 horas entre as sessões. O teste no dinamômetro
isocinético consistiu em avaliar as mesmas contrações do
treinamento e no membro que recebeu a intervenção em ambos os
grupos. Observou-se que o grupo controle não teve mudanças
significativas, o grupo TVL aumentou signi- ficativamente em
24,4% e 11,5% o pico de torque, nas velocidades de 30 e
270º/s, respectivamente. Já o grupo TVR não teve aumentos
significativos na velocidade angular de 30º/s, porém, aumentou em
um 40,2% para a velocidade angular de 270º/s. Quanto ao sinal
eletromiográfico normali- zado (frequência de potência média),
somente o vasto medial apresentou aumentos significativos para o
TVR na velocidade 270º/s, fato que pode estar relacionado à
duração do treinamento, que foi de apenas três dias durante uma
semana. Contudo, ganhos na força foram expressivos em um curto
espaço de tempo, e esta informação pode ser de interesse para trei-
nadores e fisioterapeutas62.
Além de intervenções específicas somente com o dinamômetro
iso- cinético, um outro estudo63 investigou o efeito do treinamento
isocinético aliado à oclusão vascular em atletas universitários de
atletismo (19 a 21
anos), os quais eram corredores velocistas. Os mesmos foram
separados em 4 grupos (não randomizados) de acordo com a
velocidade angular de treinamento e oclusão vascular. A intervenção
consistiu em três séries de
10 repetições, com 60 s de descanso entre as séries, duas vezes na
sema- na durante quatro semanas. O grupo A treinou a 300º/seg
com oclusão vascular cuja pressão foi de 200 mmHg, o grupo B
treinou a 90º/s com a mesma oclusão que o grupo A, o grupo C e D
treinaram a 300 e 90º/s, res- pectivamente, sem oclusão vascular.
Contudo, apesar dos autores terem mensurado contrações
concêntricas e excêntricas em velocidades angula- res variando de 60
a 300º/s respectivamente e, isométricas, nos métodos, não se
encontra descrito qual tipo de contração foi utilizada para o treina-
mento.
Os resultados deste estudo mostraram aumentos significativos no
pico de torque para o grupo A em todas as contrações excêntricas e
concêntri- cas, exceto para a contração concêntrica a 180º/s e na
isométrica. O grupo B somente teve melhoras significativas nas
contrações concêntricas nas velocidades 60 e 180º/s
respectivamente, o grupo C teve incrementos sig- nificativos apenas
na contração concêntrica na velocidade 180º/s. O grupo D
incrementou significativamente o pico de torque na contração
concên- trica nas velocidades angulares de 180 e 300º/s. Além da
avaliação da pro- dução de força, Sakuraba et al.63 mensuraram a
área de secção transversa do quadríceps, por meio da ressonância
magnética, somente nos grupos que receberam a oclusão vascular,
contudo não houve aumentos significa- tivos na hipertrofia após a
intervenção, bem como entre os grupos antes e após a mesma.
Um estudo mais recente64 comparou a força muscular, a massa
magra de gordura e o desempenho funcional como resposta a um
treinamento isométrico, isotônico e isocinético no dinamômetro
eletromecânico dos músculos extensores do joelho do lado preferido.
As sessões foram rea- lizadas três vezes na semana, com duração de
oito semanas, em homens universitários (21 a 22 anos de idade) não
treinados em força. Os mesmos foram alocados em três grupos
distintos de acordo com o resultado obtido no teste isométrico
máximo no dinamômetro eletromecânico (75% 1RM), a 70º de
flexão do joelho para os extensores dessa articulação. Desta for- ma,
os participantes foram distribuídos nos grupos isométrico (IM), isotô-
nico (IT) e isocinético (IS). O estudo caracterizou-se por ser duplo
cego, ou seja, os participantes não tinham conhecimento de qual
grupo pertenciam. Os valores obtidos no “baseline” não diferiram
estatisticamente entre os grupos, para a contração voluntária máxima
isométrica.
No que se refere ao treinamento, para todas as contrações, foram
rea- lizadas quatro séries de 10 repetições com um segundo de
intervalo entre as contrações e um minuto de intervalo entre as séries
a 75% 1RM, obtido na contração isométrica no dinamômetro. O
grupo IM treinou nos ângu- los 90, 70, 50 e 30º de flexão do joelho
(randomizados), com duração de
1 s para cada repetição, o grupo IT treinou a uma velocidade de 1 s
para extensão e para flexão, o grupo IS treinou de forma concêntrica
a 90º/s. De modo geral, este estudo mostrou que houve aumento
significativo no pico de torque em todos os grupos para todos os
ângulos avaliados (30, 50,
70 e 90º/s de flexão do joelho), com ênfase no grupo IM. O grupo
IS teve aumento significativo no pico de torque obtido no teste de
uma repetição máxima (1RM), bem como no pico de torque
isocinético em todas as velo- cidades angulares avaliadas 45, 90 e
180º/s. Neste último, diferentemente do esperado, o grupo IT obteve
melhores resultados para as velocidades
40 e 60º/s, quando comparado ao grupo IM e IS, e o grupo IS
apresentou melhores resultados na velocidade 180º/s comparado aos
demais grupos. Quanto à massa magra do membro treinado, o grupo
IM e IT tiveram au- mentos significativos. Por fim, somente o grupo
IS teve ganho significati- vos no salto triplo em distância.
Apesar desse estudo ter encontrado resultados interessantes e ter
ajus- tado a carga do treinamento de acordo com o 1RM no
dinamômetro, fato que não foi realizado nos estudos antes citados,
ainda podem ser aponta- das algumas falhas metodológicas. Dentre
as mesmas, podem ser citadas: a) o tempo de execução da contração
isométrica, o qual foi curto, e neste quesito, alguns estudos6,21,61
apontam tempos de contrações de entre 3 a 5 segundos; b) a
utilização do mesmo tempo de contração para os grupos IT e IS,
sendo que contrações dinâmicas geralmente podem ter uma duração
superior a 1 s. Percebe-se que, além desse estudos, outros
pesquisadores também buscaram avaliar o efeito do treinamento no
dinamômetro iso- cinético em diversos grupos com características
específicas e com resulta- dos positivos na produção de força, o que
se traduz em melhoras na fun- cionalidade e qualidade de vida.
Por fim, duas limitações podem ser apontadas na utilização do
dina- mômetro. Uma delas é o custo elevado do dinamômetro
eletromecânico, o que faz que não seja acessível para a população
em geral a segunda, o fato de não possibilitar a utilização de vários
participantes ao mesmo tem- po. Em contrapartida, centros
esportivos e grupos de pesquisa de diver- sas universidades contam
com o dinamômetro eletromecânico, podendo desta forma, criar
parcerias entre eles, com equipes esportivas, pacientes
e a população em geral que não possuam acesso a esta tecnologia
para usufruir das avaliações e treinamento, gerando dados para
pesquisa e o avanço da ciência na área Biomecânica, Fisiologia e da
Saúde.
Em síntese, a partir do exposto neste capítulo, pode-se
concluir que o dinamômetro eletromecânico tem evoluído
consideravelmente desde a sua criação no fim da década de 60 até a
atualidade. Várias são as áreas que usufruem do dinamômetro para
mensurar parâmetros relacionados com a produção de força (torque,
pico de torque, trabalho mecânico, po- tência, índice de fadiga,
razões de torque e tempo de aceleração), desde a Educação Física,
Fisioterapia, Ciências Médicas, entre outras. Além disso, as
avaliações realizadas precisam ser padronizadas quanto à ADM,
escolha adequada do protocolo de acordo com o objetivo da pesquisa,
treinamento ou reabilitação. Também recomenda-se realizar a
normalização pela mas- sa corporal quando as variáveis de torque,
trabalho mecânico e potência são mensuradas.
Quanto às pesquisas realizadas na área da dinamometria
eletrome- cânica, observa-se um amplo espectro de estudos
utilizando diversos protocolos, sejam em pesquisas transversais e/ou
longitudinais, aliados também a outras técnicas de avaliação. Os
protocolos de treinamento e reabilitação no dinamômetro
eletromecânico também têm sido alvo de pesquisas. Entretanto, a
forma de controlar a carga difere de um estudo para outro, já que não
há um consenso estabelecido na literatura sobre o controle de carga
e/ou periodização quanto ao treinamento da força no dinamômetro
eletromecânico.

Aplicações práticas

• Os parâmetros musculares torque, trabalho mecânico,


potência, índice de fadiga e razões de torque são relevantes
para caracteriza- ção e comparação de diferentes faixas etárias,
o qual também pode ser utilizado para comparar grupos
sedentários, treinados e, ainda comparação entre diferentes
modalidades esportivas. Além de mo- nitorar programas de
intervenção.
• Em contrações musculares dinâmicas, recomenda-se utilizar
velo- cidades angulares de 60º/seg de 3 a 5 repetições para
mensurar a for- ça, 180º/seg de 20 a 30 repetições para o
cálculo do índice de fadiga e acima de 180º/seg até 300º/seg
para obter a potência e o índice de fadiga. Já para as contrações
isométricas, deve-se adotar um ângulo específico de maior
produção de força já estipulado na literatura.
• Sugere-se a normalização do torque por meio a razão
standard (torque/massa corporal), para assim remover o efeito
da massa cor- poral sobre a produção de força.
• Os testes realizados no plano vertical também são
influenciados pela força da gravidade e os componentes
elásticos passivos de ar- ticulação avaliada. Contudo, os
cálculos matemáticos para retirar o efeito da gravidade são
complexos, portanto, poucos são os pesqui- sadores que têm
adotado a correção do torque.
• Pesquisas realizadas com treinamento no dinamômetro
eletro- mecânico, com o fim de aumentar a força muscular
têm apontado resultados positivos, contudo não há um
consenso na literatura de como periodizar, estipular e controlar
a carga do mesmo.

Nota dos autores: As palavras chaves utilizadas foram, no


Inglês:“Biome- chanics,electromechanical dynamometer, isokinetic
dynamometer, his- tory, children, young, adults, older adults,
elderly, deficiencies, athletes, Paralympic, torque, peak torque,
mechanical work, power, fatigue, tor- que ratios, muscular
imbalance, muscle contractions, isometric, concen- tric, eccentric,
isotonic, torque normalization, gravitational correction.” No
Português, as palavras chaves foram: Biomecânica, dinamômetro
ele- tromecânico, dinamômetro isocinético, crianças, jovens, adultos,
idosos, deficientes, atletas, paratletas, torque, pico de torque, fadiga,
razão de torque, desequilíbrio muscular, contrações musculares,
isométrico, con- cêntrico, excêntrico, isotônico, normalização do
torque, correção gravita- cional.
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CAPÍTULO
IV 97

UTILIZAÇÃO DA ELETROESTIMULAÇÃO NEUROMUSCULAR


COMO FERRAMENTA PARA AVALIAÇÃO, TREINAMENTO E
RECUPERAÇÃO

Raphael Luiz
Sakugawa Lucas
Sampaio Fernando
Diefenthaeler

O que você irá encontrar:

• A utilização da eletroestimulação neuromuscular nas áreas de


treinamento e recuperação;
• Serão descritos conceitos da eletrofisiologia da contração muscu-
lar;
• Também será descrito a eletrofisiologia com a
eletroestimulação neuromuscular;
• Os diferentes métodos de eletroestimulação que podem ser utili-
zados e quais as respostas esperadas;
• Serão apresentadas as diferentes aplicações da
eletroestimulação nas áreas de avaliação, recuperação e
treinamento.
Introdução

O movimento humano ocorre a partir da contração muscular e para


que esta ocorra é necessário que um estímulo elétrico chegue ao
músculo. O estímulo elétrico é um evento biofísico-químico
denominado de poten- cial de ação, que inicia nos neurônios e se
propaga até os músculos pelos axônios1,2. Para o estudo dessas
propriedades elétricas em tecidos biológi- cos existe uma área
específica da ciência denominada eletrofisiologia, na qual,
dependendo do tipo de avaliação utilizada, existem diferentes técni-
cas e ferramentas3.
Dentre essas ferramentas, a eletroestimulação destaca-se por
simular um potencial de ação de forma artificial, fornecendo
informações do siste- ma periférico (músculos) e central (medula
espinal). Um dos primeiros re- latos sobre sua utilização foi como
ferramenta na reabilitação entre os sé- culos XVII a XIX na Europa
com o nome de eletroterapia, principalmente visando o tratamento de
paralisia. Porém seu efeito era apenas temporário, o que levou ao
enfraquecimento do uso da eletroterapia até deixar de ser usada para
este tipo de tratamento4. No entanto, sua utilização continuou como
ferramenta de avaliação dos sistemas nervoso central e periférico
pelo pesquisador Luigi Galvani. Sua descoberta de que nervos de
sapos ao serem estimulados por eletricidade geravam fortes
convulsões e ao tocar o mesmo nervo sem essa eletricidade apenas
com um metal não ocorria tal fenômeno¹. Esta descoberta de Galvani
foi um marco para a área dos estu- dos da contração muscular, pois
demonstrava que era necessário um tipo de impulso (eletricidade),
para que ocorresse uma contração1,3.
Com o decorrer dos anos, Du Bois Reymond em 1849 conseguiu
a pri- meira evidência de que os músculos de seres humanos durante a
contração muscular geravam potenciais elétricos5. E a primeira
utilização da eletro- estimulação em humanos ocorreu em 1879
pelo pesquisador Duchenne de Boulogne. Do fim do século XIX ao
início do XX esta técnica foi am- plamente estudada e em 1921 foi
descoberta a corrente diadinâmica e em
1950 a corrente interferencial, ambas largamente utilizadas até hoje
em reabilitação e fisioterapia5.
A utilização desta técnica continuou evoluindo ao longo dos anos
e nos dias de hoje diversas metodologias e formas de utilizar a
eletroestimulação são conhecidas e utilizadas na reabilitação e no
treinamento3,6. Além disso, a eletroestimulação tem sido amplamente
utilizada no campo da pesquisa. Sendo assim, o presente capítulo
trará explicações sobre a eletroestimula- ção, como ela se organiza e
quais são os cuidados metodológicos que de- vem ser tomados para a
sua utilização.

Eletroestimulação neuromuscular e suas aplicações


Existem diferentes tipos de eletroestimulação e elas são
utilizadas con- forme o objetivo pretendido. As mais comuns são a
estimulação elétrica nervosa transcutânea (TENS), a estimulação
elétrica funcional (FES) e a estimulação elétrica neuromuscular
(NMES)3,7.
A TENS é uma técnica analgésica não invasiva usada para aliviar
a dor e acelerar a recuperação. Utiliza-se um gerador de pulsos
elétricos e um eletrodo na superfície da pele. É considerado um
equipamento de baixo custo e baixo risco de malefício. Em alguns
países, é possível realizar a compra de um equipamento sem
prescrição médica e realizar o tratamento em casa8.
Já a FES é uma aplicação da corrente elétrica para recuperar ou
subs- tituir a função neurológica acometida em indivíduos que
sofreram algum tipo de lesão que resulta em perda de inervação
em um músculo devido a acidente vascular encefálico, lesão
medular e/ou cerebral. Essa função pode ser sensorial (auditiva ou
visual) e/ou motora (membro não funcio-
nal)9,10. Esse tipo de técnica pode ser utilizada em neuropróteses,
como por exemplo, implantes cocleares que substituíram a função do
tímpano, estri- bo e cóclea auxiliando a função auditiva11. Ela
também pode ser utilizada para estimular a contração muscular em
determinadas atividades (sentar e levantar de uma cadeira, caminhar,
dentre outros)12 em indivíduos que sofreram uma necrose no tecido
muscular devido a um infarto. Em função disso, a FES possibilita a
execução de tarefas que não seriam possíveis a esses indivíduos ou
que eles teriam muita dificuldade (ficar em pé, cami- nhar, agarrar
objetos dentre outros) e é considerada uma intervenção efe- tiva para
recuperar a função motora do membro afetado9.
Já a NMES normalmente é aplicada com intensidades altas que
pro- duzem contrações musculares visíveis3. Para realizar a
estimulação são utilizados eletrodos na superfície da pele acima de
um nervo ou músculo8. Essa ferramenta vem sendo utilizada em
quatro diferentes áreas: avalia- ção da função neuromuscular, sessões
de treinamento, reabilitação e na recuperação pós-exercício3. Devido
a grande popularidade e versatilidade da aplicação da NMES nessas
áreas, esse capítulo de livro irá focar princi- palmente na NMES.
Para um melhor entendimento da importância dessa ferramenta,
iremos começar explicando um pouco sobre o que ocorre fi-
siologicamente quando utilizamos a NMES, e após, abordaremos os
me- lhores métodos de aplicação da NMES, quais respostas
fisiológicas podem ser observadas. E por fim, abordaremos sobre as
suas aplicações práticas.

Fisiologia da estimulação elétrica neuromuscular


(NMES)

Para abordamos sobre a fisiologia da NMES, primeiramente é


neces- sário compreender como ocorre a contração muscular desde a
geração de um estímulo no cérebro até a sua chegada à fibra
muscular. Nesse tópi- co será apresentado, de forma resumida, como
ocorre todo esse processo. Inicialmente é necessário saber que nosso
sistema nervoso é dividido em duas áreas: central (SNC) e periférica
(SNP)1,2. Esses dois sistemas são os responsáveis pelo controle do
corpo.
O SNC é dividido em encéfalo e medula espinal, e o SNP é
constituído de todos os nervos fora da medula espinal1. Existem tipos
diferentes de nervos e é possível classificá-los de acordo com sua
função: nervos sensi- tivos (via aferente) e nervos motores (via
eferente). Os sensitivos possuem o papel de transmissão e condução
das mensagens dos órgãos receptores (órgãos do sentido como tato,
visão, audição, etc.) para o SNC, enquanto os
motores que conduzem o estímulo do SNC para o órgão efetor
(músculos).
Em suma, utilizamos uma via eferente para que o potencial de
ação saia do SNC e chegue ao SNP (moto neurônio) para realização
da contra- ção muscular. E, como em um sistema de feedback, temos
a via aferente, na qual um estímulo externo (i.e., pressão, dor,
temperatura, etc.), que é captado por sensores na pele, é transmitido
para a medula espinal, reali- zando o caminho inverso ao da via
eferente. Também é possível que ocorra uma resposta motora
previsível em decorrência de um estímulo externo, fenômeno
denominado como reflexo. Um exemplo disso é quando coloca- mos
a mão em uma superfície quente e rapidamente retiramos a mão de
forma involuntária. Os reflexos serão abordados no tópico das
variáveis da eletroestimulação.
Quando o potencial de ação ocorre, ele se propaga por meio do
moto neurônio até chegar à menor unidade funcional do sistema
nervoso, a uni- dade motora (UM). A UM consiste de um moto
neurônio e o grupo de fibras musculares que ele inerva. Caso o
músculo necessite de um controle motor preciso (e.g., músculos da
região dos olhos), este terá mais UMs que um músculo que não
necessite de tanto controle motor (e.g., músculo glúteo máximo). O
recrutamento voluntário das UM segue o princípio do tamanho
proposto por Henneman13 (Figura 1.4): as UMs são recrutadas de
acordo com o seu tamanho, sendo as menores recrutadas primeiro e
as maiores por último. As UMs menores são formadas por
músculos lentos e resistentes a fadiga, enquanto as maiores por
músculos mais rápidos e mais suscetíveis a fadiga.

Figura 1.4 - Representação do princípio de Henneman. (fonte: Autor)

Existe uma diferença na ordem do recrutamento das UMs


quando a contração é realizada de forma voluntária e quando é
realizada de forma artificial (i.e., por meio de um estímulo elétrico
da NMES). Outro fato que
pode influenciar a ordem do recrutamento das UMs é a dependência
do posicionamento dos eletrodos, que por sua vez pode gerar duas
respostas distintas. Podemos posicioná-los em dois locais: sobre o
nervo motor ou no ventre muscular. Quando estimulamos o nervo, as
UMs maiores são ativadas primeiro fazendo com que aconteça uma
inversão no princípio do tamanho, acelerando assim o processo de
fadiga nos músculos. Já quando estimulamos o ventre muscular,
ocorre um recrutamento desordenado das UMs, não importando o
tamanho. Porém as mesmas UMs são recruta- das repetidamente,
acelerando também o processo de fadiga (Figura 2.4). Para uma
melhor compreensão do porque essa diferença de recrutamento
ocorre, primeiro iremos abordar a metodologia da NMES e quais
variáveis podem ser obtidas com o auxílio de diferentes ferramentas.

Figura 2.4 - Representação gráfica do recrutamento das unidades


motoras com diferentes posicionamentos de eletrodos. (fonte: Autor)

● - Estimulo realizado no nervo; ● - Estimulo realizado no ventre do músculo.

Métodos de avaliação na estimulação elétrica neuro-


muscular (NMES)
A NMES pode ser utilizada de diferentes formas: um pulso
simples (twitch), dois pulsos (pulso de 200 μms separados por 10 ms -
doublet) que podem ser sobrepostos durante a contração voluntária
isométrica máxima (CVIM) (superimposed doublet amplitude) ou
realizados pós CVIM (po- tentiated doublet amplitude), oito pulsos
a 300 Hz, também conhecidos
como octetos ou train de estimulação, e uma tetania que pode ser
de 30
Hz durante um período de tempo14. Cada uma dessas formas explica
um processo fisiológico, mas apenas a utilização isolada NMES não
responde muita coisa, por isso é necessário a incorporação de
diferentes ferramentas de avaliação. Os principais estudos que
utilizam a NMES para a avaliação neuromuscular geralmente têm o
objetivo de investigar a fadiga central ou periférica. Normalmente,
utiliza-se alguma medida de força e/ou torque e eletromiografia de
superfície (sEMG). Quando a NMES é utilizada em conjunto com a
força e sEMG é possível extrair importantes informações.
Essas técnicas de forma sincronizada podem verificar se ocorreu
o processo de fadiga, mas cada uma delas também explica um
fenômeno e possuem suas limitações. Por exemplo, quando
utilizamos uma medida de força pode-se verificar o processo de
fadiga durante uma CVIM pré e pós um protocolo de contrações
voluntárias ou involuntárias. Caso ocorra uma redução do valor de
força ou torque máximo, pode-se supor que ocorreu fadiga muscular
(periférica). Porém, uma limitação dessa técnica de ava- liação é que
esta é influenciada por fatores motivacionais do indivíduo3. No
entanto, uma forma de minimizar tal fato é comparar a sEMG
durante a CVIM pré protocolo com a pós protocolo de contrações.
Caso tenha ocor- rido fadiga periférica, geralmente ocorre uma
modificação do sinal eletro- miográfico no domínio do tempo e no
domínio da frequência. O aumento no domínio do tempo, por
exemplo, pode ser identificado pelo aumento do root mean square
(RMS; o nome vem da fórmula raiz quadrada da média dos
quadrados dos valores), que é uma técnica matemática para
identificar valores de amplitude. No domínio da frequência, a
variável relacionada ao processo de fadiga é a mediana do espectro
de frequência, denominada de mediana da frequência, pois divide o
espectro de frequência em duas partes iguais. Para determinar o
espectro de frequência do sinal eletro- miográfico se utiliza a
transformada rápida de Fourier, que separa o sinal em frequências e
amplitudes. Quando ocorre uma redução da mediana da frequência,
significa que as UMs com maior frequência de disparo redu- zem
sua contribuição ou as UMs com menor frequência aumentam sua
contribuição1.
Quando a NMES é utilizada em conjunto com a avaliação de
força e sEMG é possível analisar outros parâmetros
neuromusculares. Quando se utiliza a força de forma sincronizada,
por exemplo, é possível calcular o nível de ativação voluntária
máxima (voluntary activation level). Para tal é utilizada a técnica
twitch interpolation, que consiste de estímulos elétri- cos simples
(superimposed single amplitude) ou duplos (superimposed
doublet amplitude) sobrepostos durante a CVIM, e estímulos simples
em repouso (rest single amplitude) antes da CVIM e potencializados
na mus- culatura relaxada após a CVIM (potentiated doublet
amplitude). Utiliza-se as seguintes equações para verificar o
percentual de ativação voluntária: (1) utilizando pulso simples –
VAL(%) = [1 − (superimposed single ampli- tude/ rest single
amplitude)] x 100 e (2) utilizando pulso duplo – VAL(%)
= [1 − (superimposed doublet amplitude/ potentiated doublet
amplitu- de)] x 100. A Figura 3.4 ilustra como seria realizado um
protocolo com a NMES (equação 2) sincronizada com o
torque/força.

Figura 3.4 - Representação gráfica do cálculo da ativação


voluntária
máxima (fonte:
Autor).

a - Superimposed single/doublet amplitude, b – potentiated doublet amplitude.

Outros parâmetros neuromusculares que podem ser analisados


du- rante a NMES são obtidos por meio da sEMG, sendo estes uma
resposta do sistema periférico e uma resposta do sistema central. A
resposta do siste- ma periférico vem da onda M (M significa
músculo), também denominada como M-wave, que é caracterizada
pela resposta do músculo. A onda M é o potencial de ação que viaja
através do músculo que induz sua contração2 (Figura 4). Já a resposta
do sistema central vem do reflexo H (H é uma homenagem ao
neurologista alemão Johann Hoffmann que descreveu pela primeira
vez esse reflexo). O estímulo evocado viaja pelos nervos senso-
riais (via aferente) até a medula espinal e retorna para o músculo2
(Figura
4.4). Cabe salientar que quanto maior a intensidade da NMES menor
será a amplitude do reflexo H e maior será a amplitude da onda M.
Também existem outros fatores que influenciam no reflexo H, tais
como os recepto- res periféricos (órgão tendinoso de golgi e
receptores mecânicos) e fatores externos que podem alterar sua
amplitude13, podendo não ser o mais reco- mendado para a
verificação da fadiga.

Figura 4.4 - Representação gráfica das respostas fisiológicas da


eletroesti-
mulação. (fonte:
Autor)

Entretanto, o reflexo H pode ser utilizado para verificar as


adaptações da medula espinal em resposta ao treinamento, como
demonstrado por Aagaard et al.15 que realizou 14 semanas de
treinamento de força em 14 jovens sem treinamento prévio e avaliou
o reflexo H no músculo sóleo. Foi analisado o reflexo H em repouso
utilizando 20% da máxima intensidade da onda M, e também durante
uma isometria em rampa (aumento gradual de torque de 0 a 100% de
uma CVIM) e quando o participante alcançasse
90% da CVIM era realizado um estímulo para verificar o reflexo H.
Ao final do treinamento, foram observados aumentos no reflexo H,
que po- dem indicar um aumento da excitabilidade dos
motoneurônios alfa. Esse foi um dos primeiros estudos a avaliar as
adaptações neurais provocadas pelo treinamento de força utilizando
o reflexo H. É possível ainda ava-
liar a eficácia de um tipo de tratamento, como demonstrado no
estudo de Christiansen et al.16, no qual foram investigadas as
mudanças do reflexo H em um grupo de atletas de taekwondo. Após
uma sessão de manipulação espinal (terapia manual que pode alterar
reflexos musculares) não foram encontradas diferenças no reflexo H,
o que indica que apenas uma sessão- dessa terapia não é suficiente
para realizar mudanças no sistema central.
Já quando falamos sobre estudos que investigam o processo de
fadiga, os resultados apontam mudanças de diversos parâmetros, tais
como: pico de torque voluntário, valor RMS, pico de torque
involuntário, VAL e onda M. Um desses estudos é o de Lepers et
al.17, que demonstrou que quando atletas de resistência realizam 5
horas de exercício em cicloergômetro a
55% da potência máxima, ocorre uma queda de torque voluntário e
torque involuntário na primeira hora de exercício. Com relação a
amplitude da onda M, os autores observaram mudanças apenas após
a quarta hora de exercício. Também houve uma redução de 8% da
VAL após essas 5 horas de exercício.
Ainda é possível utilizar o sinal da onda M para normalizar o
sinal eletromiográfico. Essa normalização é bem utilizada, pois a
amplitude da sEMG pode variar por diferentes motivos como
mudança de posição do eletrodo, ruídos no sinal, impedância da
pele, entre outros1. Já a NMES é mais reprodutiva, pois existem
menos fatores intervenientes que pode- riam alterar sua amplitude.
Estudos como o de Lanza et al.18 mostraram a importância de utilizar
o valor RMS normalizado pela onda M máxima em vez do valor
RMS voluntário. O objetivo do estudo foi investigar a influên- cia do
ângulo do joelho no valor RMS absoluto voluntário e normalizado
pela onda M máxima. Para isso, os autores realizaram a
determinação da intensidade máxima da onda M em todos os ângulos
de joelho avaliados (25, 50, 80 e 106º, considerando como 0º a
extensão completa do joelho) e utilizaram tanto o valor RMS
normalizado pela onda M máxima no ângulo correspondente, como o
valor RMS absoluto do ângulo correspondente. Como resultado, os
autores observaram que a produção de torque variou entre os ângulos
avaliados e que existe diferença no valor RMS normali- zado pela
onda M máxima no ângulo correspondente, mas não existe dife-
rença no valor RMS absoluto no ângulo correspondente. Os autores
con- cluem que o posicionamento da articulação pode afetar o sinal
de sEMG, pois ao modificar a posição da articulação isso também
iria mudar o posi- cionamento do eletrodo, fazendo com que as
unidades motoras diferentes sejam registradas.
É necessária certa precaução ao combinar diferentes técnicas com a
NMES, como demonstrado no estudo de Simoneau-Buessinger et
al.19. Os autores utilizaram NMES em conjunto com a
ultrassonografia para inves- tigar se as propriedades estruturais do
músculo sofrem alterações quando são realizadas contrações de
forma voluntária submáxima, voluntária má- xima e involuntária
submáxima. Oito adultos fizeram parte do estudo, no qual foram
familiarizados com o ergômetro de tornozelo e com a NMES em uma
sessão prévia. Foi realizado um aquecimento com contrações isomé-
tricas submáximas e três contrações isométricas máximas de
dorsiflexão e flexão plantar. Em seguida foi realizada a
determinação da intensidade de estimulação elétrica. Para tal foi
realizado um aumento da intensidade da estimulação elétrica até
ocorrer um platô no sinal de torque. Na sequ- ência, foi utilizada
uma intensidade supramáxima de 120%. Imagens de ultrassom
foram obtidas do tibial anterior e gastrocnêmio lateral durante o
repouso, na intensidade supramáxima de 120% de NMES, na
contração voluntária máxima e na contração voluntária submáxima
(mesmo valor de torque a 120% da intensidade da NMES). O
principal achado do estudo foi que quando se utiliza a NMES, a
arquitetura muscular (maior ângulo de penação e menor
comprimento do fascículo) foi diferente da contração voluntária com
a mesma produção de torque. Isso ocorreu sem a alteração do
músculo antagonista, demonstrando que a contração do antagonista
pode não ser um fator determinante para o maior encurtamento dos
fas- cículos do tibial anterior. Os autores sugerem que o menor
comprimento durante a contração com a NMES ocorreu porque a
estimulação elétrica é realizada em uma porção do músculo perto da
área do eletrodo, provo- cando assim um maior encurtamento local.
Outro resultado interessante é a semelhança entre o comprimento do
fascículo durante a NMES e a con- tração voluntária máxima,
mesmo ocorrendo diferenças entre os torques. Isso demonstrou que a
geração de torque não é limitada pelo encurtamen- to das fibras.
Como apresentado neste subtópico, a NMES pode ser utilizada
como forma de avaliação neuromuscular. Sendo assim, o quadro 1.4
apresenta um resumo dos equipamentos, variáveis e quais seus
significados.
Como explicado anteriormente, existem duas limitações para
o uso da NMES: a aceleração do processo de fadiga e o desconforto
gerado pela aplicação do estímulo elétrico sobre a pele. Por isso,
alguns cuidados de- vem ser tomados na utilização dessa ferramenta.
Diversos estudos foram realizados para tentar minimizar esse
processo e identificar os melhores métodos e precauções que devem
ser tomados para aperfeiçoar a sua uti- lização.
Quadro 1.4 - Resumo de todas as variáveis que podem ser
mensuradas com o auxílio da NMES.

Equipamento Variável Significado

Aumento da amplitude:
amplitude. inabilidade do
SNC de enviar sinais para o
músculo. pode indicar fadiga
periférica
Superimposed
doublet amplitude
Célula de carga Redução da amplitude:
ou dinamômetro inabilidade do músculo de
isocinético produzir força. Pode indicar
fadiga central

Decréscimo do VAL:
Voluntary activation inabilidade do SNC de enviar
level sinais ao músculo

Diminuição da amplitude:
Onda M
Pode indicar fadiga
periférica.
Eletromiografia Aumento da amplitude: Pode
indicar aumento da
Reflexo H excitabilidade dos
motoneurônios alfa

Pode alterar o ângulo de


Ângulo de penação penação;
interferindo na análise.
Ultrassom
Pode alterar o comprimento
Comprimento de do fascículo; interferindo na
fascículo análise.
Otimização da aplicação da estimulação elétrica neu-
romuscular (NMES)

Um dos primeiros pontos a serem elucidados buscando essa


otimiza- ção é o posicionamento dos eletrodos. Quando posicionados
sobre o ventre muscular, este pode ser colocado sobre o ponto motor
(local que o nervo se conecta ao músculo) e isso modifica as
respostas físicas da eletroesti- mulação (a distribuição do campo
elétrico é relativa à densidade do tecido muscular e se este é sobre o
nervo motor). Assim, alguns guias comerciais da localização de
pontos motores foram criados para facilitar o posiciona- mento dos
eletrodos.
Entretanto, estudos como de Botter et al.20 demonstraram que
existe uma grande individualidade na localização dos pontos motores
nos mem- bros inferiores. Para isso, os autores identificaram o
ponto motor de 10 músculos do membro inferior preferido de 53
voluntários, de ambos os sexos (28 homens e 25 mulheres), com
diferentes idades (18 – 50 anos). Para realizar a identificação da
localização dos pontos motores foi utiliza- do um eletrodo em forma
de caneta que foi movido pela pele para verificar o local que
produziria o maior valor de torque com uma intensidade fixa. Em
seguida, os autores registraram a distância desse local em relação a
di- ferentes pontos de referência anatômicos para a comparação entre
os indi- víduos. Foi observado que cada indivíduo possuía uma
distância diferente dos pontos de referência anatômicos,
demonstrando que é necessária a re- alização da identificação
individual do ponto motor. As recomendações do estudo foram:
realizar a palpação do músculo, do tendão distal e proximal e
determinação por inspeção visual da produção de torque
involuntária.
Complementando o estudo de Botter et al.20 sobre o
posicionamento do eletrodo, Gobbo et al.21 investigaram se existe
diferença na percepção de dor e na produção de torque quando o
eletrodo é colocado no ponto motor, localizado por meio dos
métodos propostos por Botter et al.20, ou quando se utiliza um guia
comercial da localização do ponto motor. Para tal, 10 sujeitos de
ambos os sexos realizaram duas visitas distintas, com dois diferentes
procedimentos. Em cada visita era avaliado um músculo diferente
(tibial anterior ou vasto lateral). No primeiro procedimento, era
realizada a localização do ponto motor de forma individual seguindo
o pro- posto por Botter et al.20, e no segundo o eletrodo era
posicionado de acordo com um guia comercial. O procedimento de
estimulação foi igual entre as sessões, sendo um protocolo de rampa
de frequência (2 a 50 Hz em 7,5 s), possibilitando retirar
informações de torque de pulsos simples e das con-
trações tetânicas (tetania são diversos estímulos sobrepostos
ocorrendo uma somação de potenciais de ação, isso faz com que o
músculo contraia até permanecer constante). A cada protocolo o
voluntário tinha 3 min de recuperação. No final de cada estimulação
foi solicitada a percepção subje- tiva de desconforto (0 – 10).
Os resultados desse estudo demonstraram que o posicionamento
do ponto motor localizado de forma individualizada consegue gerar
uma maior produção de torque e um menor desconforto em
comparação ao posicionamento dos guias comerciais. Tais resultados
corroboram com o estudo de Botter et al.20, e acrescenta a
possibilidade de realizar uma rea- bilitação mais indolor (podendo
utilizar estímulos elétricos maiores sem desconforto para o
voluntário) e mais efetiva (maior produção de torque, maior estímulo
mecânico gerando maior hipertrofia). Porém, é necessá- ria a
criação de técnicas padronizadas e melhorias nos métodos, para que
profissionais que utilizam a eletroestimulação como tratamento
possam ter resultados mais consistentes e comparáveis entre
diferentes tentativas.
Além do menor desconforto gerado pelos diferentes métodos, é
possí- vel posicionar o eletrodo no nervo ou no ventre muscular.
Estudos como o de Rodriguez-Falces22,23 e Bergquist24,25
investigaram se existem diferenças nas respostas fisiológicas entre
esses dois posicionamentos. Os objetivos desses quatro estudos
foram semelhantes, mas tiveram algumas diferen- ças. Os estudos
de Bergquist24,25 investigaram se o posicionamento afeta o
recrutamento das UMS dos músculos tríceps sural25 e quadríceps
femu- ral24; e os estudos de Rodriguez-Falces investigaram se o
posicionamento afeta o recrutamento das UMS em diferentes
músculos23 e a potencializa- ção22.
Os estudos de Bergquist24,25 foram os primeiros a investigar a
con- tribuição do sistema nervoso periférico e central quando a
estimulação é realizada em diferentes locais (no nervo ou no ventre
dos músculos) e também foi realizado em diferentes músculos
(tríceps sural25 e quadríceps femoral24). Os autores relatam que ao
realizar a NMES é possível ativar os dois tipos de neurônios
(sensoriais e motores) e ao aumentar a con- tribuição do sistema
central (representada pelo reflexo H), gerando uma maior
sincronização das UMS que poderiam aumentar a resistência da fa-
diga provocada pela NMES. Cabe salientar que o motivo da escolha
dos músculos foi devido a eles serem os mais estimulados na
reabilitação com a NMES24,25.
No primeiro estudo de Bergquist25 foi investigado os flexores planta-
res do tornozelo. Os autores relatam que quando a NMES é
aplicada no
nervo tibial, o reflexo H é proeminente no sinal eletromiográfico do
mús- culo sóleo. E quando a NMES é realizada no ventre muscular
do tríceps sural, apenas ondas M aparecem. Porém, isso foi feito com
apenas quatro sujeitos e não foi realizada nenhuma análise
estatística. Por isso, o obje- tivo do estudo foi investigar a
contribuição do sistema central e periférico quando a NMES é
realizada no nervo tibial ou no ventre muscular dos flexores
plantares do tornozelo. O principal resultado do estudo foi que
utilizando a mesma intensidade da NMES para os diferentes locais,
existe uma maior contribuição do sistema central (representado pelo
aumento do reflexo H) quando o nervo é estimulado, e quando a
NMES é realizada no ventre muscular existe uma maior contribuição
do sistema periférico (representado pelo aumento onda M). Os
resultados do segundo estudo de Bergquist24, que analisou os
extensores do joelho, foram similares ao primeiro estudo.
Corroborando os estudos de Bergquist24,25, o primeiro estudo de
Rodri- guez-Falces23 procurou verificar se existiriam diferenças no
recrutamento das UMs caso o eletrodo fosse posicionado no nervo
ou no ventre mus- cular, nas diferentes cabeças do quadríceps e em
diferentes intensidades. O autor acreditava que a estimulação no
nervo iria ativar de forma mais sincronizada as UMS e isso iria
refletir em diferenças na onda M. Para verificar se essa diferença
iria ocorrer, foram recrutados 22 participantes saudáveis, que
realizaram o protocolo experimental que consistiu de pul- sos
simples em diferentes intensidades (submáximas, máximas e supra-
máximas) nas duas configurações (nervo femoral ou ventre do
quadríceps femoral). Para a verificação da onda M foi coletado a
sEMG dos músculos vasto lateral e vasto medial, e para o
desconforto foi realizado uma escala visual de dor.
O autor verificou que em intensidades máximas e
supramáximas não foram observadas diferenças em nenhuma das
configurações. No entanto, quando aplicadas intensidades
submáximas foram observadas diferenças na amplitude da onda M e
no pico de força entre as configurações para o vasto lateral, mas
mínimas mudanças para o vasto medial. Outros resul- tados
interessantes foram que a estimulação no nervo femoral produziu
respostas similares entre os dois músculos analisados e quando
realizado no ventre muscular a resposta dos músculos foi diferente.
Porém para a sensação de desconforto, os valores foram menores
para a condição de es- timulação no ventre muscular.
Esses resultados são importantes para a aplicação prática, pois
mos-
tram que estimulações submáximas no ventre do quadríceps
femoral re-
sultam em diferentes respostas dependendo do músculo e resultam
em um menor desconforto, podendo ser utilizada para a reabilitação
como uma forma mais tolerável do desconforto.
Já no segundo estudo de Rodriguez-Falces22 investigou se o
local de estímulo (nervo ou ventre muscular) poderia afetar a
potencialização (o fenômeno de potencialização possui duas
definições, mas nesse artigo, a potencialização foi definida como o
aumento da onda M). A magnitude da potencialização é
influenciada por diferentes fatores, como o número e tipo de UMS,
tipo de contração e a sincronização das UMS. Quando a esti-
mulação é realizada no nervo femoral, o impulso elétrico é
propagado pelo axônio primário até a musculatura, e quando
realizado no ventre muscular o impulso elétrico ocorre nas
ramificações finais dos axônios, que estariam muito mais próximas
da placa motora. Porém, a velocidade de condução dos axônios
primários é mais rápida do que as ramificações finais e a hipó- tese
dos autores era de que essa diferença de velocidade de condução dos
axônios poderia resultar em uma sincronização de mais fibras,
aumentan- do a amplitude da onda M. Outro fator que os autores
também considera- ram foi que, mesmo os músculos vasto lateral e
vasto medial serem pare- cidos em termos de composição de fibras e
distribuição de UMS, existem especificidades anatômicas e
estruturais que podem variar nas respostas dos diferentes músculos
do quadríceps, por isso também foi investigado as respostas desses
dois músculos.
Participaram do estudo 10 voluntários saudáveis e foi analisada a
força dos extensores de joelho e sEMG do vasto lateral e medial para
analisar a onda M. O protocolo experimental consistiu de avaliações
pré e pós um protocolo de fadiga. Foram realizadas contrações
involuntárias de exten- sores de joelho com a intensidade máxima da
eletroestimulação, pré e pós protocolo. Foram testados três estímulos
pré protocolo, alternando entre nervo e ventre muscular, e pós
protocolo foi realizado um estímulo para cada posicionamento nos
tempos: imediatamente pós, 1, 3, 5, 7 e 9 min. O protocolo de fadiga
consistiu de 48 CVIM de 3 s com 5 s de intervalo, e a cada intervalo
era realizado um estímulo intercalando entre o nervo e no ventre
muscular.
Como resultado mais interessante do estudo foi aceita a hipótese
inicial de que a estimulação no nervo iria resultar em uma maior
potencialização (definida como um aumento da onda M neste
estudo) nos dois músculos em relação a estimulação no ventre
muscular. E que durante e após o pro- tocolo de fadiga, os dois
posicionamentos (nervo e ventre) apresentaram valores de pico de
força idênticos. Essas respostas validam a ideia propos-
ta no estudo anterior de Rodriguez-Falces24, de que é possível utilizar
a NMES no ventre muscular para provocar uma fadiga muscular
como uma forma alternativa que provocaria menor desconforto.
Com relação ao desconforto, o estudo de Cattagni et al.26
investigou possíveis formas para reduzir o desconforto durante a
aplicação da ele- troestimulação. De acordo com os autores, se o
eletrodo fosse posicionado mais próximo do nervo seria necessária
uma menor intensidade de estimu- lação elétrica para alcançar uma
mesma produção de torque e acarretaria em um menor desconforto
para o sujeito. Para tal, os autores compararam se a aplicação de
pressão no eletrodo durante a realização do estímulo po- deria
reduzir o desconforto sentido pelo voluntário e se afetaria a produção
de torque. Doze adultos de ambos os sexos foram selecionados para
fazer parte desse estudo. Os sujeitos foram posicionados em um
dinamômetro isocinético e a articulação escolhida foi a do
tornozelo, sendo realizados os estímulos elétricos no nervo tibial.
Foram realizadas três condições de forma randomizada: a primeira
condição foi a condição controle, na qual não era realizada nenhuma
pressão. Na segunda, era realizada uma pres- são manual constante
sobre o eletrodo, e na última condição foi utilizada uma fita para
aplicar pressão no eletrodo. Os resultados indicam que a qualidade
do sinal não se altera em função da aplicação ou não de pressão
sobre o eletrodo. No entanto, o nível de dor foi menor na condição
com pressão aplicada sobre o eletrodo. No quadro 2.4, é apresentado
todas as recomendações dos artigos citados neste subtópico.

Quadro 2.4 - Resumo de todas as recomendações dos artigos acima


para o uso da eletroestimulação.

Procedimentos Resultado
↑ Produção de torque
↓ Intensidade
Identificação individual do ponto ↓ Desconforto
motor
= Onda M
Aplicação de pressão no eletrodo = Reflexo H
↓ Desconforto
↓ Desconforto
Posicionamento no ventre ↑ Contribuição do sistema periférico
muscular ↑ Onda M
↑ Contribuição do sistema central
Posicionamento no nervo ↑ Reflexo H
Como explicado nos subtópicos anteriores sobre a metodologia e
a oti- mização da utilização, o desconforto gerado por intensidades
mais altas e a rápida fadiga provocada pela NMES restringiam muito
os benefícios da sua aplicação. Porém, alguns métodos já foram
aprimorados e a utilização da NMES para promover o treinamento,
reabilitação e recuperação já são utilizados. A seguir iremos abordar
essas aplicações.

Utilização da eletroestimulação no treinamento, rea-


bilitação e recuperação
O treinamento com a NMES pode auxiliar no ganho de força e
massa muscular de indivíduos saudáveis e atletas. Também é possível
realizar um treinamento e reabilitação em populações especiais como
idosos e indiví- duos que não conseguem realizar uma contração
voluntária (i.e., pessoas que sofreram lesões medulares parciais ou
completas e acamados). Nesse subtópico iremos abordar as
aplicabilidades da NMES em diferentes po- pulações.
A utilização da NMES para atletas e indivíduos saudáveis pode
ser observada, por exemplo, no estudo de Neyroud27 no qual foi
utilizada a NMES em nove indivíduos fisicamente ativos. Nesse
estudo foi investigada a fadiga periférica após duas sessões diferentes
de treinamento. Os indi- víduos realizaram duas sessões de
treinamento com 5 séries de 10 saltos sem contra movimento (um
salto a cada 6 s) com 18 s de intervalo entre as séries, sendo uma
série com e outra sem NMES. Na condição NMES era re- alizado um
estímulo durante a realização da fase concêntrica do salto. Para
comparar qual era o tipo de fadiga provocada (central ou periférica),
foi realizada uma CVIM de extensores de joelho pré e pós protocolo
de fadiga. Foi observado que ao realizar a NMES em conjunto com
saltos, ocorria uma maior queda de força, ou seja, maior fadiga da
musculatura envolvi- da. Os autores concluem que a NMES poderia
ser utilizada como forma de aumento da intensidade de uma sessão
de treinamento, ou que poderia ser utilizada como uma sessão de
treinamento em uma periodização.
Cabe salientar que esses efeitos da NMES ocorrem quando ela é
uti- lizada em conjunto na sessão de treinamento, quando realizada
de forma isolada seus efeitos podem não ser tão expressivos devido
ao desconforto e/ou dor provocada por intensidades mais altas. A
NMES pode ser utiliza- da como uma sessão de treinamento isolada,
pois ela auxilia no aumento de força e massa muscular como
demonstrado na revisão feita por Gondin et al. 28. Porém, necessários
alguns cuidados, Fouré et al. 29 e Nosaka et al.
30 demonstraram que a NMES provoca um grande dano muscular.
Também é possível realizar intervenções para reabilitar
diferentes populações. Essas intervenções proporcionam um
aumento na saúde e qualidade de vida. Esses benefícios podem ser
observados no estudo de Bochkezanian et al. 14, no qual foi realizado
12 semanas de treinamento com NMES em cinco pessoas com
lesão medular. Ocorreu um aumento de força e área de secção
transversa dos músculos do quadríceps, porém os resultados mais
interessantes foram o aumento da razão do colesterol HDL/LDL e
redução da espasticidade (aumento do tônus muscular). Essa melhora
de variáveis neuromusculares é importante nessa população, pois
ocorre uma atrofia muscular devido ao desuso dos músculos, e isso
afeta outros sistemas como o sistema cardiovascular e metabólico.
Além da utilização isolada da NMES como processo de
intervenção na reabilitação, ela pode ser utilizada em conjunto com a
fisioterapia conven- cional, assim como, nas metodologias de
treinamento do esporte que fa- zem a união do treinamento
convencional com a NMES. A validade desta metodologia foi
indicada na revisão de Hauger et al.31, causando maiores aumentos
da força muscular do quadríceps femoral em indivíduos após ci-
rurgia do ligamento cruzado anterior quando comparada com a
utilização apenas da fisioterapia convencional.
Já quando tratamos da recuperação pós a atividade física, a
NMES apresenta efeitos positivos na remoção de lactato e na
atividade da creatina quinase32. Além de apresentar efeitos positivos
para redução da percepção subjetiva de dor muscular após o
exercício. Podendo desta forma melhorar o bem-estar durante os
treinamentos e ajudar os atletas em relação a ati- tude como encaram
seus treinamentos33. No entanto, essas metodologias aplicadas para a
recuperação não possuem uma metodologia única e orga- nizada para
a aplicação, além de que nos dias atuais nenhum dos métodos
tradicionais utilizados (gelo, massagem, etc.) têm apresentado
influência sobre a recuperação do desempenho de atletas. A partir
disto, a utiliza- ção da NMES para a recuperação é válida quando
observamos os efeitos bioquímicos e a percepção da dor ao após o
exercício, mas não apresenta efeitos sobre o desempenho, o que seria
o fator de principal importância quando falamos de recuperação pós
exercício dentro do esporte.
Apesar do corpo de evidências e dos resultados positivos
envolvendo a utilização da eletroestimulação neuromuscular nas
áreas do esporte e da saúde, ainda existem algumas lacunas com
relação aos procedimentos [posicionamento do eletrodo (ventre
muscular ou nervo), intensidade do estímulo (submáximo, máximo
ou supramáximo), nível de desconforto,
etc.] que precisam ser melhor esclarecidas antes da aplicação direta
dessa técnica em programas de treinamento, reabilitação e
recuperação. Quando falamos do processo de avaliação
neuromuscular, fica evidente a necessi- dade da utilização da
eletroestimulação neuromuscular em conjunto com outros métodos
de avaliação, tais como: eletromiografia, dinamometria (célula de
carga ou dinamômetro isocinético) e ultrassonografia. A asso-
ciação da eletroestimulação neuromuscular com estas técnicas de
medida permitirá ampliar o conhecimento sobre diversos processos
fisiológicos [fadiga (periférica e central), inabilidade do SNC e
alterações morfológicas (comprimento do fascículo e ângulo de
penação)] envolvidos no treina- mento, reabilitação e recuperação de
diferentes populações.

Aplicações práticas

• A eletroestimulação neuromuscular pode ser uma


ferramenta para o treinamento de indivíduos que possuem
alguma limitação de movimento;
• O treinamento envolvendo eletroestimulação neuromuscular
pro- porciona hipertrofia muscular, e pode substituir uma
sessão de trei- namento;
• Uma das formas de se avaliar o sistema nervoso periférico
(mús-
culo) é por meio da eletroestimulação
neuromuscular;
• A eletroestimulação neuromuscular pode auxiliar na
identificação das contribuições centrais e periféricas durante o
processo de fadi- ga;
• A eletroestimulação neuromuscular pode ser utilizada como
for-
ma de redução da percepção subjetiva de dor após atividade
física.
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33. Tessitore A, Meeusen R, Pagano R, Benvenuti C, Tiberi M,


Capranica L. Effectiveness of Active Recovery Versus Passive
Recovery after Futsal Games. J Strength Cond Res.
2008;22(5):1402–12.
120
CAPÍTULO V
RIGIDEZ (STIFFNESS) DO MEMBRO INFERIOR:
CONCEITOS, APLICAÇÕES E MÉTODOS DE
MEDIÇÃO

Débora Aparecida Knihs


Juliano Dal Pupo

O que você irá encontrar:

• Definições gerais sobre a rigidez do membro inferior


(stiffness) e seus modelos de representação;
• Informações e estudos acerca da associação entre o
desempenho nos esportes que envolvam o ciclo de alongamento-
encurtamento e a rigidez, bem como o comportamento da
mesma em situações de fadiga;
• Informações e estudos sobre a associação das lesões de
membros inferiores e os níveis de rigidez;
• Os principais instrumentos necessários e as equações mais am-
plamente utilizadas na literatura para a mensuração da rigidez de
membros inferiores;
• As tarefas motoras predominantes utilizadas para a
mensuração da rigidez, bem como as vantagens e desvantagens
do uso de cada uma delas.

Introdução

A rigidez dos membros inferiores tem sido vastamente


investigada, especialmente nas últimas duas décadas. A mesma é
definida, no corpo humano, como a capacidade do corpo, ou partes
dele, de resistir a uma deformação uma vez que uma força é aplicada1.
A rigidez, quando apresen- tada em níveis extremos, (i.e. muito altos
ou muito baixos), parece possuir relação com lesões de membros
inferiores; já em um nível ideal (de acordo com as características
antropométricas, nível de atividade física, ou mes- mo, dependente da
modalidade esportiva), é apontada como um atributo chave para a
melhoria do desempenho2. Ao que tudo indica, esta melho- ria do
desempneho se dá através de uma utilização mais eficiente do ciclo de
alongamento-encurtamento (CAE)2, no qual os músculos armazenam
energia durante a fase excêntrica do movimento, e reutilizando-a na
fase concêntrica do mesmo. Além disso, o comportamento desta
propriedade biomecânica apresenta diferenças dependendo da tarefa e
da situação em
que a mesma está sendo executada. Por fim, em se tratando de
métodos de medição da rigidez, diversas são as equações e tarefas
motoras possíveis de utilização.
Embora literatura sobre este tema esteja disponível, ainda há
contro- versas entre achados relacionados ao mesmo. Em partes, estas
divergências entre achados de diferentes autores podem se dar pelo
não esclarecimento aprofundado sobre a temática, pela utilização
equivocada de nomencla- turas, ou ainda pelo uso indiscriminado de
métodos de medição não ade- quados. Assim, o presente capítulo
tem por objetivo elucidar a temática rigidez dos membros inferiores,
apontando as principais implicações da mesma no que se refere ao
desempenho esportivo e ao risco de lesões, bem como esclarecer o
uso de diferentes métodos de medição da rigidez.
As referências utilizadas para a construção do presente capítulo
foram consultadas nas bases de dados online Pubmed, Scielo e
Google Scholar, e foram pesquisadas através das seguintes palavras
chave: rigidez (stif- fness), membro inferior (lower limb), atletas
(athletes), lesão (injury) e desempenho (performance).

Conceitos gerais

Como elucidado, rigidez (stiffness) pode ser definida como a


modifica- ção física de um objeto em função de uma força que é
aplicada3. O conceito de rigidez vem da Lei de Hooke, e se aplica a
objetos que armazenam ener- gia durante a deformação e a retornam
em forma de energia elástica1, 2, ou seja, objetos que se comportam
como uma mola. A lei de Hooke é determi- nada pela equação F = kx,
onde F é a força necessária para deformar um material, k é uma
constante proporcional e x representa o quanto o objeto é
momentaneamente deformado1,2,4. A constante proporcional k
compete a uma mola constante e, neste sentido, esta equação
descreve a rigidez de um sistema de massa-mola linear ideal1,2.
No contexto humano, a rigidez pode ser determinada como a
capacida- de do corpo, ou dos segmentos corporais, de resistir a uma
flexão quando uma força externa é empregada4-6, como a força de
reação do solo durante a corrida, por exemplo. Em se tratando de um
modelo que represente a rigidez de maneira precisa, deve ser levado
em consideração o somatório dos valores de rigidez dos ossos,
ligamentos, tendões e músculos1,7, além de todas estas estruturas
anatômicas, viscosidade muscular, o atraso no tempo de reflexo
muscular e o controle do sistema nervoso central, entre outros1,4.
Este modelo também deveria ser capaz de contemplar a análise
de vários graus de liberdade de movimento
articular1.
No entanto, um modelo desta complexidade dificulta sua
viabilização e aplicação, pois muitas suposições teriam que ser
realizadas, uma vez que algumas expressões matemáticas necessárias
ainda não foram totalmente desenvolvidas1. Diante disto, um modelo
mais simples, baseado no siste- ma massa-mola, foi criado para
estimar a rigidez. Neste modelo, de nome homônimo, a massa é
representada pela massa corporal e a mola é repre- sentada pelos
membros inferiores4, sendo a rigidez mensurada de forma linear na
direção vertical4 (Figura 1.5 A). Ainda no modelo massa-mola, a
rigidez também pode ser mesurada em movimentos lineares ocorridos
não totalmente na direção vertical, através de um modelo adaptado
que leva em consideração o ângulo de entrada do membro inferior no
solo4 (Figura
1.5 B). No modelo massa-mola, sem aplicação de força sobre a
mola, não haverá armazenamento de energia e, portanto, nenhuma
força será gera- da; porém, se uma força for aplicada, causando uma
deformação temporá- ria na mola, esta armazenará energia durante
sua deformação e parte desta energia retornará de forma a retomar o
formato original da mola2.

Figura 1.5 - Modelo massa-mola para movimentos ocorridos na


direção vertical (a) e não totalmente vertical (b). Legenda: FRS =
força de reação do solo; ∆ = deslocamento; θ = ângulo de entrada do
membro inferior no solo.
Fonte: Autores (2018), adaptado de Butler, Crowell III e Davis1 e Maloney e Fletcher8.

Em se tratando de medidas não lineares da rigidez, um modelo


bastan- te utilizado em pesquisas é o modelo mola-torcional,
proposto por Farley e colaboradores em8. Este modelo separa o
membro inferior em três molas
torcionais, sendo elas o quadril, o joelho e o tornozelo, e permite
determi- nar a contribuição de cada articulação na formação da
rigidez total8. Uma ilustração deste modelo pode ser visualizada na
Figura 2.5.
Ambos os modelos (massa-mola e mola-torcional) possuem
como li- mitação possibilitar a realização de medidas de rigidez
somente em um plano de movimento; assim os modelos são
dependentes, em partes, da capacidade do indivíduo de estabilizar o
movimento em apenas um plano8. Importante ressaltar que os dois
modelos têm sido amplamente utilizados na literatura para a
avaliação da rigidez nas mais diversas atividades que envolvam
CAE5, tendo em vista que em atividades como corrida, caminha- da e
saltos os membros inferiores se comportam como uma mola9.

Figura 2.5 - Modelo mola-torcional. Legenda: θ = descolamento


angular.

Fonte: Autores (2018), adaptado de Maloney e Fletcher8.

A rigidez pode ser determinada em diferentes níveis fisiológicos,


desde o mais interno deles, que é a determinação da rigidez de
uma única fi- bra muscular, passando pela determinação da rigidez
do tecido, rigidez da unidade músculo-tendínea, rigidez da
articulação, rigidez de um membro (inferior) e por fim chegando ao
nível mais global, rigidez do corpo huma- no inteiro1,8. Neste
capítulo daremos ênfase aos três últimos níveis, que são
denominados/classificados na literatura como: rigidez articular
(KjOINt), rigidez dos membros inferiores (KLEG) e rigidez vertical
(KVERt) 1,3.
A mais comumente calculada é a rigidez vertical (KVERt). Esta
pode ser definida como a soma da resistência do corpo humano ao
deslocamen- to vertical após a aplicação de uma força de reação do
solo3, levando em
consideração para seu cálculo o deslocamento do centro de massa do
cor- po. A KVERt é mensurada em movimentos lineares que
ocorrem predomi- nantemente na direção vertical, como os saltos
verticais2, 3 e representa a rigidez do corpo como um todo. KVERt é
considerada a “referência” das medidas de rigidez, assim, os
modelos de medida de KLEG e KjOINt tive- ram seu
desenvolvimento derivado desta3,5. KVERt é um método rápido e
simples, podendo ser calculada com o uso mínimo de equipamentos8.
Deve ser ressaltado, que esta classificação de rigidez não leva em
consi- deração movimentos horizontais, movimentos de tronco e dos
membros superiores, e a contribuição isolada de cada articulação para
a rigidez total, e isto pode ser uma limitação8.
KLEG é definida por Brazier et al.3 como a resistência a
mudança do comprimento do membro inferior quando forças
internas ou externas são aplicadas. Como a definição sugere, esta
retrata a rigidez do membro in- ferior, sendo possível realizar a
mensuração da rigidez de cada membro inferior separadamente1,
permitindo a avaliação, por exemplo, de assime- trias de rigidez entre
os membros. Uma das diferenças entre KVERt e KLEG, é que a
última retrata a rigidez do membro inferior em atividades lineares
não totalmente verticais (por exemplo, uma passada na corrida),
levando em consideração o ângulo de entrada do membro inferior no
solo1-4. Além disso, o cálculo de KLEG exige as medidas de
comprimento do membro in- ferior, tempo de contato com o solo,
velocidade horizontal, força de reação do solo vertical e
deslocamento do centro de massa3,8. Como limitação, o cálculo de
KLEG, assim como de KVERt, não leva em consideração movi-
mentos do tronco e dos membros superiores, e a contribuição isolada
de cada articulação para a rigidez total8.
Por fim, KjOINt retrata a rigidez das articulações e é definida
como a resistência à variação no deslocamento angular para flexão
de cada uma das articulações após a aplicação de momentos
articulares3. Assim como a KLEG, KjOINt também permite a
avaliação da rigidez de forma separada entre os membros, ou no
caso, entre as articulações de cada membro. O KjOINt possui
influência direta em KVERt e KLEG1,3, sendo que, a KjOINt da
articulação do tornozelo é apontada pela maioria dos estudos como a
prin- cipal determinante dos níveis de rigidez total10. KjOINt pode
ser mensura- da tanto em movimentos verticais, como em
movimentos não totalmen- te verticais, assim, pode ser mensurada
tanto em movimentos de saltos e corridas, quanto em movimentos
esportivos específicos que envolvam o CAE. A literatura sugere que
pode-se mensurar a rigidez articular do tornozelo, do joelho e do
quadril, apesar de a rigidez articular do quadril
ainda ser alvo de controversas na literatura quanto a sua aplicação8.
Uma limitação no uso desta classificação é a exigência de um
maior número de equipamentos, e o maior dispêndio de tempo para
a análise nos sinais cinemáticos8.

Comportamento da rigidez em diferentes tarefas e sua


relação com o desempenho esportivo

A unidade músculo-tendínea (UMT) parece sofrer adaptações ou


mo- dulações de acordo com a tarefa e a situação em que a mesma
está sendo executada. A intensidade do exercício e a condição de
fadiga apresentada costumam impactar em um maior ou menor nível
de rigidez. Essas mo- dulações são evidenciadas uma vez que
normalmente o corpo busca es- tratégias para otimizar o desempenho
na tarefa executada. É fortemente sugerido na literatura, que a
rigidez de membros inferiores possua relação com o desempenho
esportivo1-3,8, sendo considerada um atributo chave na melhoria do
desempenho de esportes e atividades que envolvam o CAE, como a
corrida3,4,11,12, os sprints13, os saltos9,14,15 e as mudanças de direção16.
Um nível adequado de rigidez em atividades que envolvam o
CAE é importante, visto que permite melhor absorver as forças de
reação do solo na fase excêntrica do movimento e através disto
armazenar e reutilizar energia elástica na fase concêntrica com
mais eficiência1,7,8,14,15. Esta me- lhor utilização do CAE é
possível, dentre outros fatores, através de me- nores tempos de
contato com o solo, o que por sua vez eleva os níveis de rigidez.
Assim, apesar de não haver um valor ideal de rigidez a ser tomado
como padrão, parece que uma rigidez mais elevada é melhor para
o de- sempenho esportivo em comparação a um nível mais baixo da
mesma1,17.
Brazier et al.17 aponta que um membro inferior mais rígido é
mais ca- paz de resistir a deformações provenientes da aplicação de
forças de rea- ção de solo assim gerando maiores quantidades de
impulso, necessárias, por exemplo, para realizar mudanças de
direção em menores tempos. No entanto, vale ressaltar, que também
é defendido, embora de forma dimi- nuta, que uma UMT mais
compliante (menos rígido) permite uma maior amplitude de
movimento o que aumentaria a velocidade de contração e assim a
potência de membros inferiores2,18. Assim, parece que o nível ideal
de rigidez para maximizar o desempenho depende especificamente
da ta- refa a ser executada2.
Como apontado anteriormente, o nível de rigidez do sistema músculo-
-tendíneo depende, em partes, da tarefa que está sendo executada.
Parece
consenso entre os autores que o nível de rigidez aumenta
concomitante a demanda da tarefa, ou seja, conforme a intensidade
e/ou a velocidade da tarefa se tornam maiores a tendência é que
níveis maiores de rigidez tam- bém sejam verificados2,9. Em se
tratando de saltos, por exemplo, foi obser- vado que um aumento na
frequência (velocidade) de saltos, tanto bilate- rais quanto
unilaterais, acarretou em um aumento da rigidez.9,19-21. Neste tipo de
atividade um nível alto de rigidez é associado a menores tempos de
contato com o solo, maiores frequências de contato com o solo e
maiores forças de reação do solo2. No que diz respeito a corrida,
também há evidên- cias na literatura sobre o aumento da rigidez
simultaneamente ao aumento da velocidade da corrida4,12,15,22. Na
corrida, parece que, maiores níveis de rigidez são associados
também a maiores frequências de passadas e meno- res
comprimentos de passada2, 11.
Um dos motivos apontados para explicar o aumento da rigidez
con- comitante ao aumento da intensidade da atividade, é a
necessidade dos membros inferiores de resistirem a um colapso na
fase de aterrissagem/ impacto, e assim retornar maiores quantidades
de energia elástica na fase propulsiva1,14. Além disso, é sugerido que
quanto maior a quantidade de força aplicada durante a tarefa, maior é
a resistência necessária (rigidez) para manter o controle dos
movimentos1. Corroborando, valores de rigidez relatados em sprints
máximos são maiores do que os relatados durante a corrida em
intensidade menores22. Por fim, a diminuição do deslocamento do
centro de massa, ou da mudança no comprimento do membro
inferior (em função de uma flexão de joelhos), são normalmente
verificadas quan- do há um aumento da intensidade/velocidade da
tarefa20, e como estas são variáveis ligadas diretamente a rigidez,
isto pode ajudar a explicar o aumento da rigidez concomitante ao
aumento da demanda da atividade.
Diante do exposto, não é surpresa que tenha sido relatado que
atletas possuem níveis de rigidez maiores em comparação a sujeitos
destreina- dos23, uma vez que os mesmos necessitam atingir um
melhor desempenho. Também foram observadas diferença nos níveis
de rigidez entre atletas, dependendo do tipo de prova/modalidade
praticada18. Atletas de potência, por exemplo, possuem maior rigidez
dos membros inferiores em compa- ração a atletas de resistência24.
Corredores com arco plantar alto possuem maior rigidez em relação a
corredores com arco plantar baixo; isto se deve, em partes, a menores
flexões de joelho durante a passada verificadas neste grupo25. Em um
teste de mudança de direção, foi verificado que os sujeitos mais
velozes possuíam níveis de rigidez maiores (verificados durante drop
jumps unilaterais) em relação aos sujeitos mais lentos16 e por fim,
durante
uma prova oficial de 100 metros rasos, atletas que possuíam maior
rigidez produziam maior aceleração entre a primeira e a segunda fase
da prova26.
Vale ressaltar que, existem estudos que não encontraram
aumento da rigidez concomitante a demanda da atividade. Wang27,
por exemplo, ve- rificou que quando as cargas de impacto
aumentam de 40cm para 60cm ocorre uma diminuição da rigidez
dos membros inferiores. Na corrida, Morin et al.12 não verificaram
alteração da rigidez (KVERt e KLEG) durante a realização de um
sprint de 100 metros. Parece que uma passada além da amplitude
habitual na corrida permite uma grande amplitude de mo- vimento, o
que causaria uma diminuição nos valores de rigidez1. O uso de
estratégias de controle motor ou mesmo a existência de um drive
neural são sugeridos para explicar a manutenção dos níveis de rigidez
ao longo da tarefa executada1,28.
Quando se trata de tarefas realizadas sob situação de fadiga a
maioria dos estudos aponta para uma diminuição da rigidez em
decorrência da fadiga. No que tange a atividades envolvendo saltos,
foi verificada dimi- nuição de KVERt a partir de 60% de um teste
de 30 segundos de saltos verticais contínuos29, bem como foi
verificada diminuição desta rigidez após a realização de 100 drop
jumps máximos em um instrumento de tre- nó, seguidos de saltos
contínuos até a exaustão30. Um protocolo de fadi- ga intenso
envolvendo 10 séries de 10 saltos máximos também ocasionou
diminuição de KjOINt do joelho em adultos e meninos pré-
púberes31. Em atividades de corrida, parece que, a fadiga provoca
diminuições significa- tivas de KVERt e KLEG, tanto em teste de
sprints repetidos32, quanto em corrida em esteira até exaustão11.
Morin et al.12 verificaram que ao longo da realização de quatro
sprints de 100 metros, embora KLEG não tenha sofrido alterações
significativas, KVERt sofreu uma diminuição de aproxi- madamente
20,6%. Adicionalmente, um estudo buscou verificar os efeitos
agudos e prolongados de um protocolo de fadiga envolvendo o CAE,
na rigidez das articulações do tornozelo e do joelho durante saltos
contínuos e drop jumps; os efeitos da fadiga foram mensurados
imediatamente, 2 ho- ras, 2 e 7 dias após a realização do protocolo.
Houve uma diminuição sig- nificativa de KjOINt em ambas as
articulações, tanto nos saltos contínuos quanto nos drop jumps. Além
disso, exceto pelo valor de KjOINt do joelho nos saltos contínuos,
nenhum dos outros valores de rigidez retornaram aos valores basais
até o 7º dia de testagem33.
Por outro lado, alguns estudos verificaram aumento da rigidez
no de- correr de uma atividade fatigante. Nos saltos verticais, por
exemplo, ve- rificou-se que após a execução de saltos CMJ’s
máximos contínuos tanto
a KLEG, quanto KjOINt do joelho, sofreram um aumento de
~70%28. De- benham et al.34 verificaram que após um protocolo de
fadiga envolvendo exercícios de força para panturrilha, houve um
aumento nos valores de rigidez do membro inferior na tarefa de
saltos contínuos realizados em um instrumento de trenó adaptado.
Da mesma forma, Radzak et al.35 que durante a corrida, após a
realização de um protocolo de fadiga, verificou um aumento
pequeno mas significativo no valor de KVERt em homens fi-
sicamente ativos.
A modulação da rigidez diante da fadiga neuromuscular é
apontada como uma estratégia para manutenção da performance na
tarefa, bem como um possível mecanismo protetor contra lesões36,37.
Além disso, ou- tra justificativa para a modulação da rigidez é o
próprio estresse mecâni- co muscular; por exemplo, foi observado
um aumento no deslocamento do centro de massa ao decorrer de
sprints repetidos, provavelmente em decorrência da fadiga, como o
deslocamento do centro de massa é direta- mente ligado ao cálculo
da rigidez, isto pode ajudar a explicar os menores valores de rigidez
relatados após a fadiga.
Também há estudos que não verificaram modulação da rigidez
em função da fadiga. Conforme observado por Fischer, Storniolo e
Peyré-Tar- taruga38, a fadiga induzida por um protocolo de 60s de
saltos com contra movimento (Teste de Bosco) não provocou
alterações em KVERt, quando esta foi mensurada posteriormente
durante corridas em diferentes veloci- dades (auto selecionada, >
auto selecionada, < auto selecionada). Mudie et al.39 tampouco
observaram modificação nos níveis de rigidez quando a
performance de saltos unilaterais contínuos era mantida em situação
de fadiga. Também, após a realização de um protocolo indutor de
fadiga com- posto por agachamentos submáximos não foram
verificadas alterações em KVERt40. Os estudos que não encontraram
modulação da rigidez em situ- ações de fadiga justificam seus
achados com a sugestão de que estratégias de controle motor ou
mudanças na coordenação motora dos membros in- feriores foram
utilizadas para a manutenção da rigidez39,40, ou mesmo que o
protocolo utilizado para a indução da fadiga não tenha sido
suficiente- mente fatigante.
Por fim, cabe salientar adicionalmente, que a rigidez pode ser
mo- dulada conscientemente a fim de modificar as forças de reação
do solo e o tempo de contato com o solo experienciados na fase de
aterrissagem. Arampatzis, Brüggemann e Klapsing14 realizaram um
estudo onde atletas do sexo feminino realizavam uma série de drop
jumps e eram instruídas verbalmente a modular sua aterrissagem; as
atletas recebiam instruções
para 1) saltar o mais alto possível e 2) saltar o mais rápido possível.
Foi ve- rificado que com instruções verbais as atletas foram capazes
de modular a rigidez. Uma vez que consiga modular a rigidez
apropriadamente, um atle- ta pode realizar uma melhor utilização do
CAE, armazenado mais energia elástica na fase de aterrissagem e
gerando mais força na fase de impulso, o que por sua vez pode levar
a um adiamento da fadiga em atividades como correr e saltar3,25.
Além disso, a rigidez também pode ser modulada a fim de prevenir
lesões, através da diminuição das forças de impacto experi-
mentadas1.
Em suma, parece que há uma tendência de aumento da rigidez
con- comitante a demanda da tarefa, o que está interligado a um
melhor de- sempenho, uma vez que maiores níveis de rigidez
permitem uma melhor utilização do CAE. No entanto, com a
ocorrência da fadiga é verificada uma diminuição dos níveis de
rigidez, que pode ser ocasionada em função de um mecanismo
protetor contra lesões ou mesmo pelo próprio estresse mecânico.

Relação entre rigidez e lesões nos membros inferiores

Como elucidado no subcapítulo anterior, é consenso que


determinado nível de rigidez é necessário para alcançar um melhor
desempenho espor- tivo, devido a uma utilização mais eficiente do
CAE1,3,14,15. Porém, tem sido demonstrado que níveis muito extremos
de rigidez, isto é, níveis muito altos ou muito baixos, parecem
contribuir para a maior incidência de le- sões dos membros
inferiores1,13,27,40,41. Assim, parece haver um nível ideal de rigidez a
ser atingido3, que, além de propiciar eficiência do desempe- nho,
tende a evitar a incidência de lesões. Segundo Watsford et al.42, a
rigi- dez é um dos determinantes primários das características de
absorção de choque de uma unidade musculo-tendão, de uma
articulação ou mesmo de um segmento, portanto, destaca-se a
importância da mensuração da mesma.
Níveis muito elevados de rigidez provocam redução da
amplitude mo- vimento das articulações, acentuação dos picos de
força experienciados, e, por consequência, altas taxas de impacto dos
membros inferiores1,3. Altos níveis de rigidez dos membros
inferiores parecem estar relacionados com maiores incidências de
lesões no tecido ósseo, como fraturas por estresse e osteoartrite1,3,
mas esta também já foi relacionada a lesões de músculos posteriores
de coxa42
A associação ou relação direta entre nível de rigidez e lesão é um tan-
to difícil de ser evidenciada. Contudo, alguns estudos procuraram
mos- trar evidências que permitem realizar alguma inferência. Níveis
elevados de rigidez foram associados a lesões de membros inferiores
no estudo de Watsford et al.42, no qual os autores investigaram a
relação entre a rigidez e lesões musculares de isquiotibiais em
jogadores de futebol profissional. Após uma temporada foi
constatado que 14 atletas, de 136, sofreram lesões de não-contato dos
isquiotibiais, sendo que na pré temporada os mesmos possuíam
valores maiores de KLEG quando comparados aos não lesiona- dos,
bem como, para os atletas lesionados KLEG era maior no membro
le- sionado em relação ao não lesionado. Mais evidências sobre esta
relação foi mostrada por Williams et al.25. Verificaram que
corredores com arco plantar alto apresentavam maiores níveis de
rigidez do membro inferior em comparação aos outros; deste modo,
os autores sugeriram uma rela- ção entre este fato e a maior
incidência de lesões ósseas nesta população, relatada em um estudo
anterior do mesmo grupo de pesquisa43. Por fim, Rodriguez e
colaboradores6 buscaram examinar a relação entre lesões dos
membros inferiores e rigidez dos mesmos em jogadoras de elite e
sub-elite de netball. Embora KVERt não tenha sido
significantemente diferente en- tre o grupo de atletas lesionado e não
lesionado, a rigidez do músculo sóleo e do tendão calcâneo
(mensurada por ultrassonografia), relatada durante a temporada, foi
maior no grupo de atletas lesionadas, assim sugerindo que níveis
elevados de rigidez destes locais são convergentes com maiores
incidências de lesões de não-contato em jogadoras profissionais de
netball. Baseado em tais estudos, parece haver evidências que
sugerem que altos níveis de rigidez não são adequados para preservar
a estrutura articular do membro inferior.
Por outro lado, as estruturas com menor nível de rigidez (i.e.,
mais complacentes) também podem estar associadas a lesões nos
tecidos moles. Baixos níveis rigidez permitem grande amplitude de
movimento, podendo causar, por exemplo, instabilidade articular e
grande sobrecarga aos teci- dos moles, como ligamentos, músculos e
tendões1,3,13,19.
Esta associação entre complacência e lesões pode ser suportada
por alguns estudos como o de Maquirriain13, o qual analisou a rigidez
do mem- bro inferior em atletas com tendinopatia do tendão de
calcâneo e verifi- cou que, dos 51 atletas lesionados testados, 84%
apresentavam rigidez do membro acometido diminuída, sendo
atribuída esta redução da rigidez à complacência demasiada do
tornozelo. Complementarmente, o autor veri- ficou que estes atletas
possuíam assimetrias de rigidez entre os membros, sendo o membro
acometido aquele que apresentava valores de rigidez
mais baixos. Ainda, Williams et al.25, com o objetivo de comparar a
KLEG de corredores com arco plantar alto e baixo, verificaram que
corredores com arco plantar baixo apresentavam maior complacência
do membro in- ferior (menor rigidez) e sugeriram uma associação
entre esta maior com- placência e a maior incidência de lesões nos
tecidos moles deste grupo, já relatada em estudo prévio43. Sugere-se
que os menores níveis de rigidez apresentados pelas mulheres em
relação aos homens podem explicar a maior incidência de lesões
ligamentares relatada nesta população19,37. Ain- da, um estudo
também realizado com jogadores de futebol profissional na Liga
Australiana procurou examinar KLEG e assimetrias de KLEG ao
longo de uma temporada e determinar se estes parâmetros são
relacionados com lesões de tecidos moles dos membros inferiores41.
Os autores verificaram que, embora o valor médio de KLEG não
tenha sido diferente entre os gru- pos (lesionado e não lesionado) ao
longo da temporada, o grupo lesionado apresentou maiores
assimetrias de KLEG entre os membros em relação ao grupo não
lesionado. Assim, os autores concluem que diferenças bilaterais de
KLEG entre os membros parecem estar relacionadas com a
incidência de lesões nos tecidos moles de membros inferiores nesta
população.
Em virtude da relação entre rigidez e lesões de membros
inferiores destaca-se a relevância da mensuração desta variável em
atletas e não-
-atletas10, pois avaliações regulares deste parâmetro poderiam ser
bené- ficas tanto no sentido de prevenir lesões, quanto de garantir
um retorno seguro as atividades esportivas para atletas em
recuperação de lesão13.

Métodos de medição da rigidez

Existem na literatura diversas possibilidades metodológicas para


a mensuração da rigidez, sendo que, diferentes equações vem sendo
utiliza- das para a modelagem de KVERt, KLEG e KjOINt5,8. Além
disso, há uma am- pla gama de tarefas motoras que podem ser
empregadas para a avaliação deste parâmetro5,8. As diversas
possibilidades metodológicas para mensu- ração de rigidez já estão
bastante discutidas na literatura4,5,8, porém, mui- tas vezes resultados
controversos ou incoerentes podem surgir em função da utilização de
métodos não adequados para a avaliação. A seguir, base- ado nos
estudos supracitados são elucidadas as equações mais utilizadas para
a mensuração de cada uma das classificações de rigidez (KVERt,
KLEG, KjOINt), bem como as vantagens e limitações do uso de
cada método.
Principais equações para a mensuração da rigidez
rigidez vertical (KVERt)

A rigidez mais comumente mensurada é a vertical (KVERt), Eq


1.5, uti- lizada para descrever ou avaliar a resistência do corpo ao

deslocamento vertical após a aplicação de uma força1. A equação


utilizada para o cálculo de KVERt é a Equação 1 a seguir, descrita
por McMahon e Cheng44:

??��??��?? =

����Á?? ,��?? 1.5


∆??

Onde: KVERt = rigidez vertical, FMÁX = força máxima de


reação do solo; e ∆y = deslocamento vertical máximo do centro de
massa do corpo. A unidade de medida de KVERt é expressa em
Newton/Metros (Nm).

Outras equações são propostas para o cálculo de KVERt mas,


por não serem amplamente utilizadas, as mesmas não serão
discutidas neste capí- tulo.
Dentre as classificações de rigidez, a KVERt é a mais simples e
rápida de ser mensurada8. O único instrumento necessário para
realizar a mensu- ração é uma plataforma de força, necessária para
fornecer a força vertical de reação do solo. A partir desta, a dupla
integração é realizada para a obtenção deslocamento do centro de
massa do corpo. Segundo Maloney e Fletcher8 é importante ressaltar
que a rigidez não está sendo diretamente mensurada neste método,
pois os membros superiores e o tronco, que po- dem influenciar na
rigidez, não são levados em consideração neste método.
Um método alternativo para a plataforma de força, considerado
um equipamento de médio/alto custo, pode ser utilizado para a
mensuração de KVERt, que é o uso de um tapete de contato. Para a
utilização deste ins- trumento foi criada uma equação (Equação 2.5)
que leva em consideração a massa corporal (M), o tempo de voo
(TF) e o tempo de contato (TC)45. Foram verificadas fortes
correlações entre os métodos plataforma de força e tapete de contato
para as tarefas motoras de saltos continuos submáxi- mos (r=0,94) e
saltos máximos (r=0,98), podendo ser considerado assim um método
válido para estimar a KVERt45, Eq 2.5.

??����??�� =

?? ∗ ?? (��?? + ����)

,��?? 2.5

����2 ��?? + ��??


??

− ��??

4
Vale ressaltar que, levando em consideração o tempo de contato
e o tempo de voo, entre outras variáveis, existem alternativas
também para o cálculo do deslocamento do centro de massa do
corpo (Equações 3.5), e para o cálculo da força de reação do solo
(Equação 4.5), que podem substi- tuir as medidas diretas destas
variáveis, solicitadas no uso da Equação 15.

∆?? =

����Á??����²
?? [��2 ]

+ ??

����²
8

, ��?? 3.5

Onde: ∆y = deslocamento do centro de massa, FMÁX

força de reação

do solo máxima, TC = tempo de contato, m = massa corporal, g = gravi-


dade.

??
����Á?? = ?? ∗ ?? ∗ 2 ∗

��??
+ 1 , ��?? 4.5

��??

Onde: FMÁX = força de reação do solo máxima, m = massa


corporal, g = gravidade, TF = tempo de voo, TC = tempo de
contato.

Diante do exposto pode-se verificar que a mensuração de


KVERt em relação às outras classificações de rigidez (KLEG e
KjOINt) possui como principais vantagens ser um método simples e
rápido e necessitar para mensuração a utilização de um único
instrumento, além de contar com possibilidades alternativas8. No
entanto, algumas limitações devem ser destacadas, como a
mensuração indireta do deslocamento do centro de massa, não
considera movimentos no plano horizontal, não considera os
movimentos realizados pelos membros superiores e/ou tronco, bem
como não considera a contribuição isolada da rigidez de cada uma
das articula- ções na formação da rigidez total8.

Rigidez do membro inferior (KLEG)

A rigidez do membro inferior (KLEG) calcula a capacidade do


membro inferior de resistir a uma força de reação do solo1,3 e não
deve ser confun- dida com a rigidez vertical (KVERt). Enquanto
KVERt representa a com- pressão do centro de massa do corpo
durante uma tarefa, KLEG retrata a compressão do membro
inferior5,8. A equação utilizada para o cálculo de KLEG é a Equação
5.5, descrita por McMahon e Cheng44:
????��?? =

�� ??Á??
∆??

, Eq 5.5

Onde: KLEG = rigidez do membro inferior, FMÁX = força de


reação do solo máxima, ∆L = mudança máxima no comprimento do
membro infe- rior. A unidade de medida de KLEG é o quilonewton
por metro (kNm).

Segundo Serpell et al.5 para realizar a mensuração direta da


mudança máxima no comprimento do membro inferior, o que
permitiria avaliar a rigidez do membro inferior verdadeiramente,
deve-se utilizar técnicas ci- nemáticas (2D ou 3D), mensurando
assim, a distância entre dois pontos pré-definidos do membro
inferior no momento em que o mesmo se en- contra estendido e no
momento de maior flexão durante a tarefa (fase de contato). Um
destes dois pontos é o trocânter do fêmur, enquanto ainda há
controversas para definição do segundo ponto, sendo sugerido a
ponta do pé, o maléolo lateral, o ponto de aplicação de força ou
mesmo o solo5.

Outra forma de mensurar a mudança máxima no comprimento


do membro inferior é através de predição por meio de equações5.
Uma vez que KLEG normalmente é avaliada em tarefas em que o
membro inferior entra em contato não totalmente vertical com o
solo, as equações propos- tas levam algumas variáveis em
consideração. A equação mais usual para predição da mudança no
comprimento do membro inferior é a equação a seguir, que possui
um complementol, Eq. 6.5:
∆?? = ∆?? + ��?? (?? − ���������� ) e ??
= ��??��−?? (

??��??
����??

), Eq 6.5

Onde: ∆L = mudança máxima no comprimento do membro


inferior,
∆y = deslocamento do centro de massa, L0 = comprimento do
membro inferior na posição estendida, θ = metade do ângulo de
entrada do mem- bro inferior no solo, u = velocidade horizontal do
centro de massa e TC = tempo de contato com o solo.
No caso do uso desta equação vale ressaltar que, quando KLEG
é men- surada em movimentos onde a entrada do membro inferior no
solo é to- talmente vertical, como saltos verticais, o ângulo de
entrada do membro inferior no solo pode ser estimado como sendo
zero1. Segundo Maloney e Fletcher8, nestes casos o resultado de
KLEG e KVERt será idêntico, pois L0 (1 – cosθ0) será substituído
por zero, fazendo com que ∆L seja igual a ∆y. Muitos estudos têm
calculado KLEG da mesma forma de calcula-se KVERt (a razão
entre a força de reação do solo e o deslocamento do centro de
massa do corpo). Porém, como já foi ressaltado, esta não é a forma
corre- ta de mensurar KLEG, e assim, a nomenclatura por vezes é
erroneamente empregada. Apesar de, em situações onde KLEG é
mensurada em tarefas totalmente verticais, o resultado da mesma ser
idêntico ao resultado de KVERt, deve-se ter cautela com o uso de
nomenclaturas equivocadas, pois isto pode confundir o leitor e gerar
resultados conflitantes.
Adicionalmente, outras equações para estimativa da mudança
do comprimento do membro inferior são encontradas na literatura,
conforme descritas a seguir (equações 7.5 e 8.5). Contudo, seu uso é
reduzido e não serão aprofundadas neste capítulo.

∆?? = ∆?? + ��?? − ��?? −

², Eq. 7.5
??

Onde: ∆L = mudança no comprimento do membro inferior, ∆y =


des- locamento do centro de massa, L0 = 0,53*altura, s = velocidade
horizontal, TC = tempo de contato com o solo.

∆?? = ��?? − ��?? −

��????
??

??
+ ∆��, Eq. 8.5
Onde: ∆L = mudança no comprimento do membro inferior, L0 =
0,53*altura, s = velocidade horizontal, TC = tempo de contato com o solo,
∆y = deslocamento do centro de massa.

Em termos de instrumentação, para obtenção do KLEG é


necessário o uso de uma plataforma de força para a obtenção do
deslocamento do centro de massa e da força de reação do solo
vertical. Já a mudança no comprimento do membro inferior pode ser
obtida diretamente pelo uso cinemática (2D ou 3D), ou indiretamente
pelo uso de equações de estima- tiva. No entanto, assim como
KVERt, KLEG também possui uma alternativa em termos de uso de
equipamentos. Morin et al.12 propôs um método de “onda senoidal”
que permite a mensuração de KLEG através do uso de me- didas
antropométricas, dados temporais (por exemplo, tempo de contato) e
fotocélulas. Os autores verificaram que este método possui validade
para a mensuração de KVERt e KLEG em pesquisas envolvendo
corrida.
Por fim, destaca-se que as equações mais tradicionais para o
cálculo de KLEG consideram apenas o componente vertical da força
de reação do solo; contudo, tem sido proposto um novo modelo para
o cálculo de KLEG
que leva em consideração também os componentes antero-
posteriores e médio-laterais da força de reação do solo, assim este
modelo é multiplanar e permite uma mensuração mais completa da
rigidez de membros inferio- res8. Parece que com o uso do modelo
multiplanar, a deformação relatada no membro inferior é maior, o
que ocasiona menores níveis de rigidez dos membros inferiores46.
Pode-se verificar, portanto, que a mensuração de KLEG possui
como vantagens: ser mais específica do que a rigidez vertical,
possibilitar a men- suração da rigidez também em movimentos não
totalmente verticais, pos- sibilitar a análise de assimetrias entre os
membros, e poder ser calculada com um uso relativamente mínimo
de equipamentos8. Já como limitações esta classificação de rigidez,
assim como KVERt, não leva em consideração a contribuição dos
membros inferiores e tronco na formação da rigidez total e também
não permite saber a contribuição relativa de cada uma das
articulações na formação da rigidez total8.

Rigidez articular (KjOINt)

A rigidez articular (KjOINt) representa, como o nome indica, a


rigidez de cada uma das articulações individualmente1, assim, em se
tratando do membro inferior, KjOINt pode ser mensurada para a
articulação do qua- dril, a articulação do joelho e a articulação do
tornozelo1. A equação mais utilizada para o cálculo de KjOINt é a
proposta por Farley et al. em 1998, que envolve a razão entre a
mudança no momento articular e a mudança no ângulo articular, Eq
9.5:

??��������?? =

∆??
∆??
, Eq. 9.5

Onde: KjOINt = rigidez articular, ∆M = mudança no momento


articu- lar, ∆θ = mudança no ângulo articular. A unidade de medida é
o Newton/ Metro/Grau (Nmº)

Outra equação disponível para o cálculo de KjOINt, proposta por


Arampatzis et al.14, pode ser visualizada abaixo (equação 10.5). Vale
desta- car que esta equação mensura o momento articular apenas
durante a fase de frenagem da passada.
??��������?? =

��??
∆??

, Eq. 10.5

Onde: KjOINt = rigidez articular, W = trabalho mecânico


negativo da articulação, ∆θ = mudança no ângulo articular.

Vale destacar que o método de determinação do momento


articular ainda não é consenso na literatura, sendo vários os modelos
utilizados5. Esta variação no uso de modelos para determinação de
momentos arti- culares vem ocasionando um grande desvio padrão
no resultado entre os estudos. Nesse sentido, Serpell et al.5 sugerem
que a mensuração desta variável ainda deve ser aprimorada,
contando com o uso, por exemplo, de cinemática 3D, o que permite a
análise do movimento além do plano sagi- tal único obtido na análise
2D.
Para a determinação de KjOINt é necessário o uso de
cinemática, re- alizando-se filmagens com o uso de sistemas de
captura de movimento bi ou tri dimensionais5,8. Uma alterativa que
vem sendo apontada é o uso de smartphones com capacidade de
filmagem ≥ 200Hz, que estão agora disponíveis no mercado, no
entanto a reprodutibilidade desta alternativa ainda não foi testada8.
Por fim, destacam-se como as principais vantagens na
mensuração de KjOINt em relação as outras classificações de
rigidez aqui expostas a mensuração direta da rigidez articular e a
possibilidade de verificação da contribuição relativa de cada
articulação para a formação da rigidez total8. Como limitação, em
geral, este método exige para seu cálculo o uso de um maior número
de equipamentos, além de um dispêndio maior de tempo para análise
de variáveis cinemáticas8.

Principais tarefas motoras para a mensuração da ri-


gidez

Em se tratando de tarefas motoras empregadas para a


mensuração da rigidez, são amplamente utilizadas as que envolvem o
CAE. Assim, tarefas como corrida e saltos são as mais usuais na
literatura para a mensuração deste parâmetro. No entanto, isto não
quer dizer que outras tarefas não possam ser utilizadas. A seguir são
apresentadas e discutidas as princi- pais tarefas motoras empregadas
na mensuração da rigidez (KVERt, KLEG, KjOINt), com base no
estudo de revisão de Maloney e Fletcher8.
• Saltos
Saltos, em geral, são a tarefa motora mais utilizada para a
deter- minação da rigidez8,17. Como os saltos ocorrem principalmente
na direção vertical, com poucas demandas nos planos frontal e
transversal, esta tarefa parece ser ideal para a mensuração de KVERt,
que é de fato o tipo de rigidez mais mensurada durante este tipo de
exercício8. Embora durante os saltos a rigidez mais comumente
mensurada seja KVERt, cabe destacar que KLEG e KjOINt também
podem ser mensuradas, como já elucidado anteriormen- te neste
subcapítulo. Diversos são os protocolos de saltos que podem ser
utilizados, dentre eles o hopping, o drop jump e o countermovement
jump.
O hopping consiste em um salto executado sem a flexão dos
joelhos, ou seja, realiza-se apenas a flexão plantar. Os hoppings
podem ser realizados de forma bilateral19,20,40 ou de forma
unilateral9,21, mas parece que a repro- dutibilidade das medidas de
rigidez diferencia-se entre as situações, sendo que, uma maior
reprodutibilidade parece ser apresentada durante os ho- ppings
bilaterais8. Controversamente, Maloney, Fletcher e Richards47 veri-
ficaram que durante hoppings bilaterais as medidas de rigidez
unilaterais são tão reprodutíveis quanto as medidas de rigidez
bilaterais. Adicional- mente, apesar de a reprodutibilidade de
KVERt, KLEG e KjOINt do tornoze- lo ter sido estabelecida durante
os hoppings, é sugerido que KVERt possua uma reprodutibilidade
maior em comparação a KjOINt8. Ainda assim, Ma- loney e
Fletcher8 sugerem que o mais correto é testar a reprodutibilidade das
medidas de rigidez para cada protocolo de avaliação
especificamente. Uma limitação ao utilizar o hopping como tarefa
para a mensuração da rigidez é que este normalmente é executado de
forma contínua em uma determinada frequência, o que faz com que
a rigidez fique condicionada a esta frequência8. Apesar de o hopping,
num geral, fornecer uma medida re- presentativa da rigidez do
modelo massa-mola, esta tarefa talvez não seja ideal para representar
a rigidez em exercícios acíclicos e máximos8.
Já o drop jump fornece uma medida representativa da rigidez em
tare- fas acíclicas máximas8, sendo que o mesmo consiste em um
salto, com fle- xão dos joelhos, realizado após uma queda de uma
superfície (normalmen- te uma caixa). Entre os saltos que utilizam
flexão dos joelhos, o drop jump é o mais comumente utilizado para a
mensuração da rigidez, e assim como o hopping, pode ser realizado
de forma bilateral ou unilateral. Maloney, Richards e Fletcher48
verificaram que, embora drop jumps bilaterais e uni- laterais
forneçam medidas semelhantes de rigidez, os drop jumps unilate-
rais apresentam maior reprodutibilidade. Vale destacar que a técnica
de execução do drop jump possui influência na mensuração da
rigidez, assim,
o contato do calcanhar com o solo durante a fase de contato com o
solo, por exemplo, deve ser evitado, pois pode gerar um “pico
duplo” na curva de força8. Um exemplo de estudo que utilizou o drop
jump para a mensuração da rigidez foi o estudo recente de Lazaridis
et al.31, que realizou a mensu- ração da rigidez durante drop jumps
antes e a pós um protocolo de fadiga.
Por fim, o countermovement jump (CMJ) consiste em um salto
má- ximo precedido de um agachamento. Apesar de alguns autores
desenco- rajarem o uso do CMJ para a mensuração da rigidez, por
sugerirem que a rigidez deve ser mensurada em tarefas onde uma
fase inicial de impacto esteja presente (hopping contínuo ou drop
jump, por exemplo)8,17, é pos- sível realizar a mensuração da rigidez
em CMJ’s sem grandes limitações. O CMJ representa a ação
esportiva do salto vertical presente em diversos esportes, e neste
sentido é uma tarefa com grande especificidade. Além disso, o CMJ
também pode ser realizado de forma bilateral e unilateral e
adicionalmente, de forma contínua. Rodacki et al.28 utilizaram para a
men- suração da rigidez (KLEG, KjOINt) o CMJ. Adicionalmente,
Dal Pupo et al.29 realizaram a mensuração de KVERt durante um
teste de 30s de CMJ’s contínuos.
Maloney, Fletcher e Richards49 realizaram um estudo para
comparar três tarefas para a determinação de assimetrias de rigidez.
As tarefas eram: hopping bilateral, drop jump bilateral e drop jump
unilateral. Todas as três tarefas foram capazes de identificar
assimetrias de rigidez entre os membros, porém foram verificadas
diferenças nos valores encontrados para cada uma das tarefas,
sendo que para o hopping bilateral do valor de assimetria
verificado foi de 5,3%, enquanto para o drop jump bilateral e para o
drop jump unilateral os valores foram 21,8% e 15,1%, respectiva-
mente. Assim, os autores concluem que, embora todas as tarefas
tenham sido eficientes para o diagnóstico de assimetrias de rigidez
entre os mem- bros, o drop jump é a tarefa mais sensível para
detecção.
Além disso, outra tarefa que pode ser utilizada para a
mensuração da rigidez, que embora não seja um salto, é uma parte do
mesmo, é a aterris- sagem. Levando em consideração que a rigidez
pode ser mensurada em qualquer movimento que envolva uma
deformação por alongamento da unidade músculo-tendínea8, fica
evidente a possibilidade de uso das ater- rissagens como tarefa
motora para a mensuração da rigidez. Wang27, por exemplo, utilizou
aterrissagens de 40, 60 e 80cm para a mensuração da rigidez.
Os saltos, e a aterrissagem, podem ser realizados sobre
plataformas de força29, que é considerado o padrão ouro para a
mensuração da rigidez,
mas como alternativa pode ser utilizado também um tapete de
contato45,
com o uso extra ou não de câmeras de vídeo8,17.

• Corrida
A corrida, seja de longa ou curta distância, é uma das atividades
mais praticadas na atualidade, sendo um dos exercícios mais
clássicos quando se trata do envolvimento do CAE. Não
surpreendentemente, é uma das tarefas motoras mais utilizadas para
a mensuração da rigidez. Na corrida é possível aferir os três tipos de
rigidez: vertical, do membro inferior e articular1,4. Enquanto KVERt
fornece uma medida mais simples de rigidez, estimando a rigidez do
corpo como um todo, KLEG e KjOINt podem ser melhor
exploradas quando mensuradas durante a corrida, pois fornecem o
valor de rigidez de cada um dos membros/articulações
separadamente, permitindo inclusive a comparação entre os
mesmos32. Indiscutivelmente, KLEG é o tipo de rigidez mais
extensivamente mensurada durante a corri- da.
Maloney e Fletcher8 apontam em seu estudo de revisão, que
tanto KVERt quanto KLEG apresentam medidas fidedignas durante
corridas em diferentes velocidades, porém perdendo um pouco a
confiabilidade em velocidades muito baixas. Embora ambas, KLEG
e KVERt mensuradas du- rante a corrida, tenham demonstrado
relação com o desempenho, parece que KVERt é uma medida mais
sensível em relação a KLEG quando se trata de investigar a relação
da rigidez com o desempenho de corridas de curta duração; e o
contrário quando se trata de corridas de longa duração, sendo KLEG
mais sensível que KVERt neste caso8.
As diferenças entre valores de KLEG e KVERt verificados na
corrida, podem ser explicadas pelo fato de que, como visto
anteriormente, para o cálculo de KLEG é levada em consideração a
mudança na velocidade ho- rizontal, enquanto para KVERt o
componente horizontal não é levado em consideração8.
A rigidez pode ser avaliada durante a corrida em esteira e
durante a corrida “em campo”. Apesar de a corrida em esteira
possuir uma menor validade ecológica, esta permite a mensuração
direta das forças de reação do solo, durante cada passo, através do
uso de uma esteira instrumentada com plataformas de força8,11,32. No
entanto, outros métodos mais simples também podem ser
empregados para a mensuração da rigidez “no cam- po”, como o uso
de acelerômetros, câmeras, fotocélulas e tapetes de con- tato12,25,26,38,
o que possibilita a medida da rigidez em uma situação mais
próxima da real.
Assim, as principais vantagens de utilizar a corrida como tarefa
mo- tora para a mensuração da rigidez são: a especificidade da
tarefa motora para corredores e a possibilidade de seleção da
velocidade durante a exe- cução da tarefa8. Enquanto a principal
limitação é a necessidade de estabe- lecimento da reprodutibilidade
de KVERt durante corridas “de campo” e de KjOINt em ambos os
tipos de corrida, de campo e de esteira.

• Mudança de direção
Por fim, outra atividade onde a rigidez vem sendo avaliada
mais re- centemente são as tarefas que envolvem mudança de
direção8,17. Serpell et al.50, por exemplo, utilizaram como tarefa
envolvendo mudança de di- reção, para avaliação de KVERt, a
realização de um hopping unilateral (em um ângulo de 45°),
aterrissando com a perna ipsilateral, seguido imedia- tamente de um
novo hopping, com aterrissagem da mesma perna. A re-
produtibilidade desta tarefa foi verificada pelos autores para
distâncias de
1m, 1,2m e 1,5m, através do erro típico de medida, que se apresentou
baixo para as situações testadas.
As principais vantagens de se utilizar tarefas de mudança de
direção para a avaliação da rigidez são: grande validade ecológica,
permitindo a mensuração da rigidez durante movimentos atléticos
específicos, e a pos- sibilidade de modulação do ângulo e da
velocidade em que a tarefa é exe- cutada8. Como limitações, esta
tarefa ocorre de forma multiplanar, assim modelos de mensuração de
rigidez uniplanares (como modelo massa-mo- la), apesar de
fornecerem certa informação sobre a força-deformação da UMT, são
limitados. Além disso, por ser uma tarefa que somente recente-
mente vem sendo utilizada, ainda são limitadas as informações sobre
a re- lação entre a mesma e o desempenho, e a influência de
diferentes ângulos e velocidades da tarefa sobre o resultado final da
pesquisa8.
Um método alternativo utilizado para a avaliação da rigidez,
que não é uma tarefa motora, mas sim um instrumento onde tarefas
motoras são performadas, é o instrumento de trenó8. O instrumento
de trenó é um ins- trumento com inclinação de aproximadamente 30°,
onde o avaliado encon- tra-se sentado30; e que permite a realização de
hoppings e drop jumps8,30,33, com a vantagem de minimizar
movimentos multiplanares, além de isolar a influência dos membros
superiores e do membro contralateral (em tare- fas unilaterais)8. A
reprodutibilidade de tarefas motoras realizadas neste instrumento já
foi demonstrada e adicionalmente, todos os três tipos de rigidez
(KVERt, KLEG e KjOINt) podem ser mensurados neste instrumen-
to8,30,33. A grande limitação deste instrumento, é que o mesmo não
possui
grande validade ecológica, assim o mesmo não é capaz de reproduzir
como a UMT é de fato carregada durante desempenho atlético8.
Como pode ser notado, diversas são as tarefas motoras que
podem ser utilizadas para a mensuração da rigidez. Assim, cabe ao
pesquisador es- colher aquela tarefa que melhor se enquadra a sua
realidade: aquela que mensure aquilo que se quer mensurar, com os
recursos disponíveis.
Em síntese, a partir das principais informações apresentadas
neste ca- pítulo pode-se verificar que, em suma, a rigidez é a
capacidade do corpo, ou partes dele, de resistir a uma deformação
quando forças são aplicadas e pode ser mensurada, durante o
movimento, através de dois modelos, o modelo massa-mola e o
modelo mola-torcional. Estes modelos fornecem medidas dos três
principais tipos de rigidez mensurados durante movi- mentos
humanos: a rigidez vertical (referente a corpo todo), a rigidez dos
membros inferiores (referente somente ao membro inferior) e a
rigidez articular (referente a cada uma das articulações do membro
inferior). Um nível adequado de rigidez é importante para o
desempenho esportivo, uma vez que permite melhor absorver as
forças de reação do solo e assim utili- zar de forma mais eficiente o
CAE. Apesar de não haver um valor de refe- rência, é sugerido que
valores mais elevados de rigidez estejam associados a melhores
performances.
Em relação ao comportamento dos níveis de rigidez no decorrer
de ta- refas motoras, parece que há uma tendência de aumento dos
valores con- comitante ao aumento da demanda da atividade, assim,
atividades realiza- das em maiores velocidades, por exemplo,
apresentam maiores níveis de rigidez. No entanto, sob condições de
fadiga é apontada uma diminuição nos níveis da mesma, sendo
sugerido que isto ocorra como um mecanismo protetor ou em função
do estresse mecânico. Adicionalmente, apesar de certo nível de
rigidez se mostrar necessário para o desempenho, é sugerido que
níveis muito altos ou muito baixos da mesma possuam relação com
le- sões de membros inferiores, seja pela alta carga de impacto
ocasionada em níveis muito elevados de rigidez, ou pela grande
amplitude de movimento permitida em níveis muito baixos de
rigidez. Por fim, diversas equações e tarefas motoras podem ser
empregadas para a mensuração da rigidez, cabendo ao
pesquisador/treinador selecionar a opção mais adequada e vi- ável
para sua realidade.
Aplicações práticas

• As informações do presente capítulo fornecerão um


importante referencial teórico para pesquisadores que buscam
entender os con- ceitos e aplicações da rigidez do membro
inferior;
• O conhecimento sobre a rigidez do membro inferior, frente a
dife- rentes situações, pode ajudar a entender a etiologia e as
causas das lesões, conforme destacou-se neste capítulo;
• Níveis mais elevados de rigidez parecem estar associados
com a performance esportiva, assim, treinadores devem
preocupar-se com o monitoramento desta variável para
aperfeiçoar a rotina de treina- mento e como consequência o
desempenho de atletas;
• É possível calcular a rigidez em diferentes movimentos,
conside-
rando a especificidade das tarefas
esportivas;
• Pode-se utilizar diferentes equipamentos para a mensuração
da rigidez, desde equipamentos mais sofisticados como
plataformas de força, até equipamentos mais simples como
uma câmera de vídeo.
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CAPÍTULO VI
AUMENTO RESIDUAL DE FORÇA NO MÚSCULO ESQUELÉTICO

149

Daiani de Campos

Heiliane Fontana

O que você irá encontrar:

• Breve introdução sobre estrutura muscular e propriedades


mecâ-
nicas
musculares;
• Definição das propriedades histórico-dependentes: aumento
resi- dual de força e depressão de força;
• Mecanismos e teorias acerca do aumento residual de força: a
não uniformidade dos sarcômeros, pontes cruzadas e a teoria dos
três filamentos;
• Aumento residual de força em contrações in vivo em
humanos.
Introdução

Os músculos são estruturas biológicas altamente organizadas e


espe- cializadas para a produção de força, sendo eles os responsáveis
por ace- lerar e desacelerar os segmentos durante o movimento
humano. São di- versos os fatores que influenciam o potencial de
geração de força de um músculo. Dentre eles, podemos destacar três
que são reconhecidos como propriedades mecânicas musculares: a
relação força-comprimento, a rela- ção força-velocidade e as
propriedades histórico-dependentes.
O comprimento ótimo para a produção de força no músculo é
aque- le que permite uma sobreposição efetiva máxima entre os
miofilamentos contráteis presentes dentro da célula muscular, de modo
que contrações realizadas em comprimentos mais curtos ou mais
longos que esse apresen- tam uma perda do potencial de geração de
força. Em relação a velocidade, é sabido que o potencial de geração de
força diminui com o aumento da velocidade de encurtamento das
fibras. Para contrações excêntricas, onde o músculo produz força
durante um alongamento ativo, o potencial de pro- dução de força é
maior do que o observado para contrações isométricas
– velocidade nula.
As relações de dependência entre a força muscular e a velocidade
ou o comprimento nos quais a contração ocorre são provavelmente os
fatores mais discutidos na literatura1–5 e têm como base estudos
clássicos6,7 que balizaram e colocaram em evidência a teoria de
produção de força muscu-
lar mais aceita atualmente: a Teoria das Pontes Cruzadas.
Neste capítulo, focaremos nas propriedades histórico-
dependentes e mais especificamente, na propriedade histórico
dependente chamada au- mento residual de força (ARF). O interesse
nessa propriedade é crescente e advém principalmente do fato desta
determinar que, após uma contração excêntrica, o potencial de
geração de força de um músculo tende a exceder aquele previsto com
base no comprimento e velocidade da contração. Esse
comportamento do músculo não é explicável pela teoria das pontes
cruza- das, a menos que alterações substanciais em sua formulação
sejam feitas.
Antes de definirmos o conceito de aumento residual de força,
abor- daremos alguns aspectos fundamentais da estrutura muscular.
Esses são necessários para a compreensão dos mecanismos
associados ao aumento residual de força no músculo.

Estrutura muscular

Três tipos de tecido muscular compõem corpo humano: o tecido


mus- cular estriado esquelético, o tecido muscular estriado cardíaco e
o tecido muscular liso. Enquanto que o tecido muscular estriado
cardíaco e o liso são controlados involuntariamente pelo sistema
nervoso autônomo, o músculo estriado esquelético tem seu controle
dado pelo sistema nervoso somático e gera, portanto, ações motoras
voluntárias. Apesar de alguns mecanismos de produção de força
serem comuns aos diferentes tipos de músculos, há aspectos que os
diferem substancialmente 8.
No caso da manifestação do aumento residual de força, as fibras
mus- culares esqueléticas apresentam um comportamento mais
consistente do que o observado para as fibras do miocárdio, sendo
que para esse último as evidências disponíveis na literatura são
escassas. Nesse capítulo, em con- sonância com a área de estudo do
movimento humano e com a literatura acerca do aumento residual de
força, direcionaremos o foco ao músculo estriado esquelético.
Os músculos estriados esqueléticos conectam-se aos ossos
através de tendões e/ou aponeuroses. A parte central e avermelhada
do músculo é o ventre muscular, estrutura constituída por fascículos
musculares e reves- tida por uma camada de tecido conjuntivo, o
epimísio. Cada fascículo, por sua vez, é revestido externamente por
uma bainha de tecido conjuntivo fibroso, o perimísio, e constituído
por diversas fibras musculares. As fibras musculares são células
longas multinucleadas e cilíndricas que detêm ca- pacidade contrátil
e estão envoltas individualmente por uma membrana
de tecido conjuntivo chamada endomísio, Figura 1.6. Essa intricada
orga- nização de estruturas não contráteis no músculo – o epimísio,
perimísio e o endomísio – constitui a matriz extracelular, a qual
exerce importante função na transmissão das forças geradas pelas
fibras musculares aos ten- dões e aponeuroses.
No interior da fibra muscular encontramos um grande número de
mio- fibrilas, Figura 1.6, que se organizam paralelamente ao eixo
longitudinal da célula. As miofibrilas são organelas compostas por
proteínas contráteis, estruturais e regulatórias. Dentre essas,
destacaremos a actina, a miosina e a titina, as quais são de suma
importância para o entendimento dos meca- nismos e hipóteses
acerca do aumento residual de força discutidos na atu- alidade (para
uma descrição de outras proteínas estruturais e regulatórias, como a
nebulina, a troponina e a tropomiosina, sugere-se outras fontes,
como Nigg e Herzog8 e Lieber9.

Figura 1.6 - Ilustração da estrutura muscular. Fonte: Autor.


Adaptado de
Nigg e
Herzog8:
Ao microscópio, o arranjo sistemático dos miofilamentos
proteicos nas miofibrilas confere o padrão estriado ao músculo
esquelético, formando bandas anisotrópicas (bandas A,
caracterizadas pela presença de filamen- tos de miosina) e bandas
isotrópicas (bandas I, caracterizadas pela presen- ça de filamentos de
actina). No centro de cada banda I é observado uma linha Z e a
distância entre duas linhas Z determina a unidade do sarcô- mero.
Cada miofibrila, portanto, é composta por numerosos sarcômeros
posicionados em série. A Figura 2.6 mostra parte da estrutura
complexa de um sarcômero, o qual pode ser observado um corte
transversal (topo da Figura) ou longitudinalmente.
Durante a contração, os miofilamentos de actina deslizam em
direção ao centro da banda A, chamado de linha M, resultando em
aumento da sobreposição dos miofilamentos e uma consequente
redução da banda I (note que aqui estamos nos referindo a
contrações que envolvem um en- curtamento das fibras musculares,
ou seja, contrações concêntricas). Esse deslizamento se dá através da
formação cíclica de pontes cruzadas entre os miofilamentos de
miosina e actina.
A Titina é uma proteína presente em abundância nas
miofibrilas e é a estrutura primária para fornecer forças passivas em
sarcômeros e mio- fibrilas10. Ela parte da linha Z até a linha M,
conferindo elasticidade ao sarcômero e estabilidade à miosina junto
a região central dos sarcômeros (Figura 2.6). Além desse clássico
papel atribuído à titina, há evidências que sugerem que ela esteja
envolvida na produção de força extra nos mús- culos durante
contrações excêntricas e no aumento residual de força11–13.
Enquanto que a porção da titina conectada a miosina junto à
banda A apresenta alta rigidez, a estrutura da titina que se estende na
banda I per- mite amplo alongamento e produção de força passiva –
comportamento esse comparável ao de uma mola. Um pouco antes
de se inserir na linha Z, a titina se conecta a actina, estabelecendo
dessa forma uma constan- te ponte entre a actina e a miosina. Essa
ponte está, mecanicamente, em paralelo com as pontes cruzadas
formadas entre os filamentos durante a contração e, em série com os
miofilamentos quando o músculo se encontra em estado passivo. É
estimado que exista um filamento de titina para cada miofilamento de
actina no músculo esquelético de vertebrados, totalizan- do 6
filamentos de titina por “meio sarcômero”.
Figura 2.6. Esquema de um sarcômero mostrando as bandas A e I, as
li- nhas Z e M, os miofilamentos de actina, miosina e a titina. A
porção da titina destacada, que se estende da extremidade da miosina
à linha Z, apre- senta um comportamento elástico. Em cima,
observamos a ilustração da organização dos miofilamentos de actina
e miosina em corte transversal. Pode-se observar nesse tipo de
visualização que, na área de sobreposição, cada miofilamento de
miosina é cercado por seis miofilamentos de actina. Adaptado
Herzog14

Propriedades histórico-dependentes

Dentre as propriedades mecânicas musculares, as mais


estudadas e discutidas em variados níveis de organização muscular
são as relações força-comprimento e força-velocidade. Essas são
tipicamente determina- das para contrações isométricas, isotônicas
ou isocinéticas, sem específica consideração quanto ao histórico de
contração do músculo. No entanto, é sabido que o potencial de
geração de força de um músculo não depende exclusivamente de
condições cinemáticas momentâneas. A história prévia
da contração, ou seja, se o músculo realizou uma contração
concêntrica ou excêntrica irá influenciar o seu potencial de geração
de força. Esse conjun- to de manifestações constitui as propriedades
histórico-dependentes.
Observemos por exemplo uma contração isométrica realizada na
por- ção descendente da curva força-comprimento (Figura 3, curva
pontilhada preta). Essa é a forma clássica de determinar a relação
força comprimen- to: a miofibrila/ fibra muscular/ músculo é
conduzida passivamente até um comprimento de referência e ativada
isometricamente. O potencial de geração de força está relacionado ao
grau de sobreposição efetiva dos mio- filamentos, em consonância
com a relação força-comprimento.
Imaginemos agora uma condição onde a fibra muscular é
conduzida a esse mesmo comprimento a partir de um alongamento
ativo, ou seja, a partir de uma contração excêntrica. Embora o grau
de sobreposição dos miofilamentos no comprimento final seja,
presumivelmente, o mesmo da contração puramente isométrica, a
fibra muscular que sofreu um alon- gamento ativo prévio
apresentará um aumento residual de força (ARF, Figura 3.6).
O encurtamento ativo muscular prévio, ou seja, uma contração
con- cêntrica, apresenta o efeito contrário: o potencial de gerar força
é reduzi- do após um encurtamento ativo. (Figura 3.6, caracterizado
por DF). Essa propriedade histórico-dependente é chamada de
Depressão de força (DF). Maiores taxas de DF são observadas para
maiores magnitudes de encur- tamento ativo15,16, para maiores níveis
de ativação do encurtamento e para menores velocidades durante o
encurtamento17.
A magnitude do ARF varia amplamente dependendo da
contração rea- lizada. A literatura relata valores que variam de 10% a
400% da força pura- mente isométrica18. Dentre os fatores que
parecem influenciar na magnitu- de do ARF, o comprimento do
alongamento ativo recebe destaque: quanto maior a amplitude do
alongamento, maior é o ganho residual de força. Em contraste, o
ARF independe da velocidade do alongamento ativo 19–21. A Figura
4.6 apresenta a magnitude do ARF para alongamentos ativos de
diferentes amplitudes. Note ainda a presença de um aumento
residual de força passiva.
Após a desativação de um músculo ativamente alongado, a força
pas- siva é maior do que a força produzida após um alongamento
puramente passivo ou após a desativação de uma contração
puramente isométrica em mesmo comprimento20,22. Esse fenômeno,
chamado de aumento residual de força passiva, já foi relatado em
diversos modelos, desde miofibrilas isoladas23 até contrações em
humanos24.
Figura 3.6. Aumento residual de força (ARF) e Depressão de força
(DF) são propriedades histórico dependentes do músculo. A linha
pontilhada preta se refere a contração de referência, puramente
isométrica. A linhas pontilhadas cinzas se referem, respectivamente,
a contração isométrica precedida por alongamento e por
encurtamento ativo. Observe que o com- primento final é o mesmo
entre as condições, mas, após o alongamento ativo (curva superior)
ocorre um ARF e após o encurtamento ativo (curva inferior) ocorre
uma DF.

Assim como o ARF, o ARF passivo parece depender da


amplitude do alongamento: quanto maior o alongamento que precede
a contração iso- métrica, maiores são os níveis de ARF passivo
observados. Esse fenômeno parece ser independente da velocidade
do alongamento e apresentar-se por longa duração, sendo observado
em até 25 segundos após o final da contração20,22.
Figura 4.6. Aumento residual de força no músculo sóleo em gatos
para diferentes amplitudes de alongamento ativo (3, 6 e 9 mm,
conforme indi- cado). Note que a força isométrica próxima aos 10 s
é maior para as con- trações precedidas por maiores amplitudes de
alongamento do que para a contração isométrica pura (iso). Observe
ainda a presença do aumento residual de força passiva após a
desativação do músculo (~12 a 15 s). A força passiva é maior para as
contrações precedidas por alongamento ativo quando comparada a
contração isométrica pura (iso) ou ao alongamento passivo (p)
Adaptado de Herzog et al.201211
Teorias e hipóteses

Apesar do aumento residual de força ser uma propriedade


reconhe- cida na literatura, os mecanismos responsáveis pela sua
ocorrência não estão ainda bem estabelecidos. Numerosas teorias têm
sido sugeridas para
explicar o ARF. Essas se encaixam basicamente em três categorias: a
não uniformidade, a cinética das pontes cruzadas e o envolvimento
de elemen- tos passivos. Faremos aqui uma introdução a essas
teorias e uma leitura aprofundada dos artigos originais e das revisões
disponíveis na literatura é indicada ao leitor mais interessado.

• Instabilidade e não uniformidade dos sarcômeros


A teoria da não uniformidade do comprimento dos
sarcômeros constitui os primeiros mecanismos propostos para o
aumento do poten- cial de geração de força do musculo após um
alongamento ativo. Segundo essa teoria, devido a uma suposta
instabilidade dos sarcômeros na porção descendente da curva força-
comprimento, o alongamento dos sarcômeros durante a contração
excêntrica do músculo seria não-uniforme, de modo que no final da
contração alguns sarcômeros se alongariam em excesso enquanto
outros teriam seu comprimento encurtado em relação ao valor
inicial25–27.
Especificamente, a hipótese levantada é de que parte dos
sarcômeros seria capaz de se alongar até ser “capturada” por forças
passivas, enquanto que a outra parte não sofreria o alongamento,
podendo até mesmo se en- curtar a ponto de atingir o platô ou a
porção ascendente da relação força-
-comprimento. Defende-se que essa instabilidade seja causada pelo
fato de alguns sarcômeros estarem “enfraquecidos” uma vez que na
porção des- cendente da curva, aos olhos da relação força-
comprimento, quanto mais alongado um sarcômero se apresenta,
mais “fraco” ele é. Essa instabilida- de faria com que maior parte do
alongamento fosse inicialmente absorvido por sarcômeros mais
alongados – e, portanto, mais fracos – enquanto que os sarcômeros
inicialmente curtos e fortes, não sofreriam alongamento (Figura 5.6).
Dessa forma, a partir dessa não uniformidade, o potencial de
geração de força do músculo após alongamento seria o resultado do
equilíbrio en- tre o potencial de geração de força ativa dos
sarcômeros mais encurtados e a resistência passiva encontrada pelos
sarcômeros hiper-alongados28. Esse potencial é superior ao predito
para uma contração puramente iso- métrica no comprimento final, a
qual, segundo a teoria, teria sarcômeros mais uniformes.
Figura 5.6 - Aumento residual de força segundo a teoria da não
uniformi- dade dos sarcômeros. Quando um músculo é alongado na
porção descen- dente da curva força-comprimento (a partir do
comprimento representa- do pelo círculo em branco), é hipotetizado
que alguns sarcômeros sofrem um hiperalongamento (círculo preto à
direita) enquanto que outros são minimamente alongados (círculo
preto à esquerda). Como resultado, o potencial de geração de força
torna-se maior que aquele observado para uma contração isométrica
pura no comprimento final (círculo em cinza). Observe que o
comprimento médio dos sarcômeros em preto e cinza é o mesmo e,
portanto, o comprimento das fibras e miofibrilas também é o
mesmo.

Essa não uniformidade do comprimento do sarcômero tem sido


con- siderada um dos principais mecanismos responsáveis pela
expressão de ARF. Todavia, essa teoria possui ao menos duas
predições testáveis: (i) não há manifestação de ARF na porção
ascendente da relação força com- primento e (ii) ARF não excede a
força isométrica máxima no comprimen- to ótimo do sarcômero.
Essas predições já foram previamente testadas e não parecem se
sustentar. Há grande evidência na literatura de que o ARF é
observado em todas as regiões da curva força-comprimento e sua
magnitude não é limitada ao potencial de geração de força do
músculo em comprimento ótimo22,28,29. Além disso, há evidência na
literatura de que embora a não uniformidade dos sarcômeros seja
uma característica do músculo em contração, ela está presente tanto
em contrações isométricas puras quanto em contrações precedidas
por alongamento. O grau de não
uniformidade dos sarcômeros não apresentou qualquer associação
com a magnitude do ARF nos achados reportados por Kaleena et
al30.
Na Figura 6.6, é apresentado o comportamento de um sarcômero
iso- lado frente a um alongamento ativo. Mesmo em sarcômeros
isolados, onde a não uniformidade é um conceito limitado, pode-se
observar a manifes- tação do ARF.

Figura 6.6 - Aumento residual de força observado em sarcômeros


isolados. Adaptado de Leonard201031, com permissão.

• Aumento do número de pontes cruzadas


Durante o alongamento ativo do músculo, há um aumento de
força. Esse aumento da capacidade de produção de força durante a
contração excêntrica pode ser potencialmente explicado pela teoria
das pontes cru- zadas através de um maior armazenamento de
energia elástica junto as pontes cruzadas. À medida que o músculo se
alonga, a distância média das pontes cruzadas em relação aos seus
pontos de equilíbrio aumenta, o que por sua vez resulta em aumento
da força média produzida pelas pontes cruzadas e também do
número de pontes cruzadas conectadas. A predição de que mais
pontes cruzadas são formadas durante a contração excêntrica
é suportada por evidências experimentais que demonstram um
aumento da rigidez do músculo (fibras, miofibrilas) durante o
alongamento ativo. Essa manifestação é o “aumento de força”
característico do alongamento ativo.
No entanto, o aumento residual de força, aquele que permanece
após a contração excêntrica, quando o músculo atinge um estado de
contração estável, não é explicado pela teoria das pontes cruzadas – a
menos que mu- danças substanciais sejam incorporadas no modelo
ou que suas premissas sejam violadas32.
O relativamente rápido movimento cíclico das pontes cruzadas
ao se ligar e desligar da actina cria uma limitação fundamental
quanto a capa- cidade da teoria das pontes cruzadas de explicar o
ARF. O curto tamanho
das pontes cruzadas (˜5.5 nm com uma braçada de 12–18 nm), o
curto tempo de ligação à actina, e a alta frequência com que se
desligam con-
trastam com uma manifestação como o ARF, a qual ocorre após
longas alterações de comprimento e persiste por muitos segundos ou
até minutos.
Apesar das limitações citadas, uma variedade de mecanismos
relacio- nados às pontes cruzadas tem sido proposta para explicar o
fenômeno. Esses mecanismos incluem alteração no espaçamento
entre os miofila- mentos após o alongamento ativo, aumento da força
das pontes cruzadas, uma desordem na estrutura de miofilamentos,
um aumento na duração da ligação entre actina e miosina ou a
fosforilação induzida por alongamento de cadeias leves de
miosina10,33,34. Achados quanto a possíveis alterações da rigidez
muscular entre a condição isométrica pura de referência e a isomé-
trica pós-alongamento, que pudessem sugerir uma mudança na
cinética das pontes cruzadas, não são conclusivos.

• Titina (modulação da rigidez)


Além dos mecanismos relacionados a não uniformidade do
sarcômero e aqueles relacionados a alterações na cinética das pontes
cruzadas, a mo- dulação da resistência oferecida por elementos
historicamente reconheci- dos como passivos no sarcômero tem sido
proposta como explicação para o ARF. Um dos achados que
impulsionou essa proposição foi a permanên- cia de um aumento
residual de força mesmo vários segundos após o mús- culo ser
desativado: o aumento residual de força passivo – já apresentado
nesse capítulo.
A titina estende-se das bandas Z até a linha M e tem a função de
centra- lizar os filamentos de miosina no sarcômero e fornecer
resistência passiva durante o alongamento35,36. Na teoria dos três
filamentos (nome dado em contraste aos dois filamentos envolvidos
na teoria das pontes cruzadas),
é proposto que, além dessa função passiva, a titina seja responsável
por produzir parte da força ativa do músculo durante a contração
excêntrica e por prover o ARF.
Quando alongadas ativamente até comprimentos onde não há
sobre- posição de actina e miosina, as miofibrilas produzem força
significativa- mente maior do que a observada durante o
alongamento passivo (Figura
7.6). Acredita-se que tal resistência seja oriunda da titina, uma
vez que não há formação de pontes cruzadas sem que se tenha
sobreposição dos miofilamentos. Dessa forma, a resistência da titina
parece ser modulada pela ativação.

Figura 7.6. Força das miofibrilas em função do comprimento do


sarcôme- ro durante alongamentos ativos para comprimentos onde
não há sobre- posição dos filamentos de actina e miosina
(comprimentos maiores que
3.8 µm, área branca do gráfico). Ativo se refere a miofibrilas
alongadas enquanto completamente ativadas. Ativo Metade se refere
a miofibrilas que foram ativadas a um comprimento próximo a
extremidade da porção descendente da curva força-comprimento
(~3.4 μm, onde as forças ativas são substancialmente menores em
função da perda (~70%) de sobrepo- sição dos miofilamentos).
Passivo se refere a miofibrilas que foram alon- gadas passivamente.
Titina depletada, se refere a miofibrilas que tiveram a titina
eliminada por curta exposição a tripsina. Note que em “ativo” as
miofibrilas apresentam maior força, inclusive na ausência de
formação de pontes cruzadas entre a actina e a miosina (área branca,
sem sobreposição dos miofilamentos). Note ainda que na condição
onde a função da titina foi eliminada, não foi possível produzir força
ativa ou passiva.
As proposições que defendem um papel ativo da titina na
produção de força extra durante a contração excêntrica e na
manutenção de um aumen- to residual da força após o alongamento
ativo apresentam basicamente dois eventos para tal: a modulação da
rigidez inerente da titina, e/ou o encurtamento do seu comprimento
inicial. Em analogia a uma mola, am- bos os eventos contribuem
para um aumento da resistência da titina ao alongamento.
Durante a contração muscular, o cálcio é liberado do retículo
sarco- plasmático para o interior das fibras musculares, permitindo a
ligação das moléculas de actina e miosina com subsequente
produção de força. Exis- tem evidências de que a titina também se
liga ao cálcio durante a contração ativa, fazendo com que sua rigidez
aumente e mais força seja produzida durante o alongamento
ativo35,36.
Também tem sido sugerido que, a “mola livre” da molécula de
titina, mais especificamente a região próxima à linha Z, se liga aos
miofilamentos de actina durante a contração, alterando o
comprimento da sua porção distensível. Sabendo que o comprimento
livre da mola vai determinar sua resistência a uma condição de
alongamento, essa seria uma alternativa viável para modulação da
força da titina no músculo ativamente contraí- do11,36. A Figura 8.6
ilustra os mecanismos pelos quais a titina modula sua resistência
segundo a teoria dos três filamentos.
Outra forma pela qual é sugerida uma interação da titina com a
acti- na durante a contração é a chamada hipótese do enrolamento da
titina. Segundo essa hipótese, além de uma ligação da titina à actina
durante a contração, ocorreria um enrolamento da titina na actina. As
pontes cruza- das não serviriam somente para puxar os filamentos de
actina em direção a linha M mas também como motores para rodar os
filamentos da actina sob o seu eixo, causando o enrolamento da titina
ao longo da actina13.
O leitor deve ter em mente que as hipóteses/teorias aqui
apresentadas acerca da não uniformidade, das pontes cruzadas e da
titina como meca- nismos para o ARF estão sendo continuamente
testadas e que o grau de evidência difere entre elas e está sob
construção. É possível que o ARF seja provocado por uma
combinação desses mecanismos, em graus variados.
Figura 8.6 - Ilustração esquemática da titina em condição passiva
(A), e ativa (B e C). Esquema baseado no estudo de Duvall et al37 e
adaptado com permissão. (A) Alongamento passivo da molécula de
titina. (B) A rigidez da titina aumentada pela presença do cálcio no
espaço contrátil, resultan- do em maior37 força comparada à condição
passiva. (C) Ligação de uma parte da titina na actina após ativação
(aumento de cálcio) e alongamento, reduzindo o comprimento de
mola livre e aumentando a resistência da ti- tina alongamento. O
aumento da rigidez em decorrência da diminuição do comprimento
de mola livre pode variar de acordo com o comprimento do
sarcômero onde ocorre a contração (observar Figura 7, “Ativo
Metade”).

Aumento residual de força in vivo

O ARF tem sido observado em miofibrilas, fibras musculares,


fascí- culos, músculos isolados e em contrações musculares in-vivo
em huma- nos e animais. Embora essa seja uma propriedade com
ampla evidência em modelos animais e em preparações isoladas, os
estudos quanto a sua ocorrência em contrações in-vivo em humanos
são mais recentes e diver-
sas dúvidas ainda permanecem. No contexto das contrações
voluntárias in-vivo, as quais mais se aproximam do contexto
funcional do movimento humano, inúmeros fatores e interações
apresentam potencial de alterar a expressão do ARF.
Deve-se ter em mente, por exemplo, que a relação entre a
cinemática angular da articulação e as alterações de comprimento da
unidade múscu- lo-tendínea (comprimento, velocidade de contração)
são dependentes do braço de alavanca, o qual se modifica em função
do ângulo articular e até mesmo do nível de produção força do
músculo. Ainda, ao se avançar no nível de organização do
componente contrátil do músculo, fatores como a arquitetura
muscular e os componentes elásticos em série com o ventre
muscular, como tendões e aponeuroses, são determinantes para a
relação entre a cinemática angular e as alterações de comprimento
da fibra mus- cular.
Sendo assim, são frequentes as dissociações entre o movimento
que ocorre no nível da articulação e as alterações de comprimento da
fibra muscular. Desse modo, uma contração excêntrica do ponto de
vista arti- cular não necessariamente vai ser acompanhada por um
alongamento das fibras musculares. Uma vez que o ARF é uma
propriedade atribuída ao componente contrátil, essa dissociação
durante gestos funcionais dificulta a compreensão do efeito do ARF
em contrações in vivo e de sua relevância no contexto do movimento
humano.
Além dessa questão, a interação do sistema nervoso em
contrações vo- luntárias impõe um controle intricado e complexo do
nível de ativação de cada fibra muscular durante contrações
voluntárias. É mais difícil atingir ativação máxima do músculo
durante contrações excêntricas do que em contrações concêntricas ou
isométricas.
Desse modo, o torque alcançável durante alongamentos ativos in
vivo é somente uma fração daquele que seria possível se mecanismos
regulató- rios neurais não limitassem o recrutamento e disparo das
unidades moto- ras38,39. Já que se acredita que os mecanismos de
aumento residual ocor- rem durante o alongamento ativo e dependem
do grau de ativação e nível de esforço, a dificuldade em alcançar uma
força excêntrica verdadeiramen- te máxima pode limitar o ARF em
contrações voluntárias.
Os estudos in vivo focam na seguinte questão: qual o efeito da
contra- ção excêntrica prévia no potencial de geração de torque/força
em contra- ções in vivo em humanos? Embora, como vimos, a
observação ou não de efeito nesse nível seja dependente de outros
fatores que não diretamente o ARF como propriedade contrátil, a
pergunta é genuína e inúmeros estudos
têm sido realizados para melhor compreender a relevância e
impacto do
aumento residual de força no contexto do movimento
humano.
Abaixo são descritas as características da manifestação do ARF para
i) contrações evocadas por estimulação elétrica em humanos e ii)
contrações voluntárias. De modo geral, quando comparadas às
contrações voluntá- rias, as manifestações de ARF frente a
contrações evocadas por eletroesti- mulação melhor se assemelham
aos achados em preparações musculares isoladas.

Contrações evocadas por estimulação elétrica

A eletroestimulação muscular consiste em uma corrente elétrica


alter- nada capaz de induzir a contração muscular artificialmente40.
Essa pode ser aplicada no ventre muscular ou no nervo que compõe
as unidades mo- toras do músculo alvo. Em especial, a estimulação
do nervo tem sido uma das formas utilizadas para a investigação do
ARF em humanos.
ARF é constantemente observado para contrações evocadas por
ele- troestimulação41. Em média, os estudos apontam para um ARF
que varia entre 7 a 30% para contrações precedidas por
alongamento ativo24,42,43. A presença de ARF através da
eletroestimulação já foi confirmada em mús- culos como flexores
plantares42, adutor do polegar24 e interósseo dorsal43.
Quando as contrações são evocadas por eletroestimulação, a
resposta do ARF a diferentes amplitudes de alongamento é
semelhante a observa- da para amostras isoladas de músculo: quanto
maior o alongamento ativo que precede a contração isométrica,
maior a magnitude de ARF (Figura
9.6). Além disso, a velocidade do alongamento ativo que precede a
contra-
ção isométrica parece não influenciar a magnitude do
ARF24.
A magnitude de ARF parece ser maior em contrações evocadas
por eletroestimulação quando comparada a observada em contrações
voluntá- rias. Ainda, há evidências que sugerem que essa diferença
entre os méto- dos é mais expressiva quanto maior for a amplitude
do alongamento ativo utilizado24.
Figura 9.6 - Aumento residual de força e aumento residual de força
pas- sivo obtidos a partir de diferentes amplitudes de alongamento
ativo em contrações evocadas por eletroestimulação no músculo
adutor do polegar. Note que quanto maior a amplitude do
alongamento, maiores os níveis de ARF e ARF passivo. Adaptado de
Lee & Herzog24.

Contrações voluntárias

Aumento residual de força também é observado em contrações


volun- tárias24,42,44–46. No entanto, sua magnitude parece menos
expressiva e os resultados apresentam uma grande variação quando
comparada a obser- vada em modelos in vitro/in situ e/ou em
contrações evocadas por eletro- estimulação.
A magnitude do ARF é dependente da amplitude do alongamento
ati-
vo: quanto maior a amplitude do alongamento, maior é o ganho
residu-
al de força19,20. Todavia, em contrações voluntárias, parece não haver
um efeito sistemático da amplitude da contração excêntrica na
presença e/ou magnitude de ARF24,47,48. O tamanho do alongamento
ativo que antecede a contração parece não influenciar diretamente o
potencial máximo de pro- dução de força isométrica. Além disso,
diferentes velocidades angulares de alongamento também parecem
não influenciar a manifestação de ARF em contrações voluntárias47.
A relevância do ARF para contrações in vivo parece estar
relacionada a uma melhora da eficiência neuromuscular pós
contração excêntrica e não necessariamente a um aumento na
capacidade de produção de força do músculo, uma vez que este nem
sempre é observado. O custo metabólico para a produção de um
determinado nível de força muscular pode ser re- duzido em cerca de
17% quando a contração é precedida por alongamento ativo49. Em
contrações voluntárias em humanos a melhora da eficiência
neuromuscular pós alongamento ativo é estimável através de um
aumento da razão entre o torque e a atividade
eletromiográfica1,24,45,50. Para os fle- xores de cotovelo, por exemplo,
um aumento da eficiência neuromuscular em aproximadamente 20%
foi observado para contrações precedidas por alongamento ativo 48.
Os mecanismos possíveis para o aumento da capacidade de
produção de força por unidade de "ativação muscular" em contrações
precedidas por alongamento ativo estão provavelmente relacionados
à participação de elementos elásticos, os quais estariam contribuindo
de maneira mais efe- tiva para produção de força na condição pós
alongamento. Em condições isométricas e de produção de força
constante, como tipicamente avaliado para o ARF, a participação dos
elementos elásticos externos ao componen- te contrátil pode ser
entendida como desprezível51.
A grande variabilidade observada entre sujeitos na manifestação
do ARF leva alguns autores a agrupar os sujeitos em “responders”
(sujeitos que respondem ao alongamento ativo com um aumento
significativo de torque) e “non-responders” (sujeitos que não
respondem com um aumen- to significativo de torque)41,44,46. A
probabilidade de um sujeito apresen- tar ARF parece ser
dependente do nível de ativação. Em um estudo, 36% dos
participantes apresentaram ARF à 10% da CVM, e mais da metade,
à
30% da CVM. Quando o nível de ativação foi elevado a 60% da
CVM, 73% dos sujeitos apresentaram o fenômeno e, em contração
máxima (100% da MVC), todos responderam com ARF52.
Além disso, assim como nas contrações evocadas por
eletroestimulação, a magnitude de ARF em contrações voluntárias é
maior com o aumento do
nível de ativação. A Figura 10.6 ilustra o efeito da ativação na
magnitude do aumento residual de força.

Figura 10.6 - Aumento residual de força (em Newtons) e redução da


ati- vação muscular (em Volts) à 10, 30 e 60% da CVM (contração
voluntária máxima). Observe que, com o aumento da ativação
muscular, maiores são os níveis de ARF e de redução na ativação.
Adaptado de Oskouei & Herzog,
200652.

Parece, portanto, que existe um limite mínimo na intensidade da


con- tração que precisa ser atingido para que o ARF seja possa ser
observado, e, ainda, que esse limite varia entre os sujeitos. As
características individuais que podem ou não favorecer a
manifestação de ARF durante contrações voluntárias não são
conhecidas, mas fatores como tipo de fibra muscular, faixa etária
avaliada, capacidade de realizar trabalho excêntrico e nível de
atividade física têm sido levantados46,48,50,52.
Há evidências na literatura que sugerem que o ARF em
contrações vo- luntárias é dependente do ângulo articular onde as
contrações são realiza- das. Em flexores de cotovelo, um
achatamento da curva torque ângulo foi observado para contrações
precedidas por alongamento. Embora não tenha sido observado um
aumento significativo do torque, o efeito do alongamen- to ativo foi
dependente da região da curva força-comprimento onde a con- tração
foi realizada. Contrações isométricas precedidas por alongamento
ativo parecem reduzir a magnitude da diferença em capacidade de
produ- ção de torque entre as regiões da curva força-comprimento,
Figura 11.6.
Figura 11.6 - Relação torque-comprimento dos músculos flexores do
coto- velo para contrações puramente isométricas e para contrações
isométri- cas precedidas por alongamento CVIM = contração
voluntária isométrica máxima. Adaptado de De Brito Fontana; de
Campos; Sakugawa, 201848, com permissão. Note que na região do
platô as contrações precedidas por alongamento apresentaram um
menor potencial de geração de torque. No entanto, em virtude da
inibição muscular presente pós alongamento (da- dos não
apresentados aqui), a eficiência neuromuscular foi em média 16%
maior nas contrações precedidas por alongamento.

Efeitos semelhantes parecem ser observados em outros


músculos. Em flexores e extensores de joelho, o ARF se manifesta
em maior magnitude em comprimentos musculares longos, o que
caracteriza a região descen- dente de produção de força53. Parece,
portanto, que ARF apresenta efeito no “achatamento” da curva
torque ângulo muscular em diferentes múscu- los/grupos musculares.
Vimos que ARF é uma propriedade muscular presente em todos
os níveis estruturais e em contrações máximas e submáximas,
voluntárias ou evocadas artificialmente. Há evidência também de
ARF em ações multi-ar- ticulares, ou seja, atividades que requerem o
uso concomitante de diferen- tes articulações. Esses achados
enfatizam a potencial relevância do ARF no contexto do movimento
humano. Apesar desse avanço, esse é um campo ativo de
investigação e certamente requer a realização de futuros estudos.
O ARF é uma propriedade não explicada pelo paradigma vigente
da contração muscular e o entendimento dos mecanismos
responsáveis pela sua ocorrência possibilitará a compreensão de
outras manifestações mus- culares relacionadas, como o relativo
baixo custo das contrações excêntri- cas e a “não-instabilidade” do
músculo na porção descendente da curva força-comprimento. Essas
manifestações são características importantes do músculo que o
tornam extremamente especializado para execução das funções
diárias e robusto na prevenção de lesões.

Aplicações práticas

• À medida que se deseja analisar as causas e determinantes


do movimento humano, o conhecimento das propriedades
mecânicas musculares se torna essencial. O músculo é o motor
da alavanca biológica e conhecer suas propriedades mecânicas
auxilia na com- preensão das adaptações frente a variadas
intervenções ou ainda no entendimento do seu comportamento
frente às disfunções do movi- mento. A relevância do ARF
para o desempenho e capacidade fun- cional em humanos é um
assunto ainda em exploração.
• Frente aos achados, pode-se destacar ao menos dois
potenciais papéis para ARF: i) aumento da capacidade de
produção de força em situações onde os músculos são
submetidos a alta carga ou em comprimentos musculares onde
há pouca sobreposição entre os miofilamentos e ii) aumento da
eficiência neuromuscular ou da eco- nomia das contrações.
• Em determinadas condições enfrentadas na reabilitação e
no treinamento atlético a combinação de um aumento de força
e uma maior eficiência neuromuscular e metabólica durante e
após o alongamento ativo pode ser uma vantagem a ser
explorada. Há um crescente corpo na literatura investigando
o papel do ARF no ci- clo alongamento-encurtamento, na
manutenção da força excêntrica durante o envelhecimento, na
melhora da eficiência das contrações excêntricas41,54–58 e na
prevenção de lesões.
• As adaptações musculares ao treinamento capazes de
influenciar o ARF, como na expressão de isoformas de titina,
também foram ava- liadas. O envolvimento da titina na
produção de força do músculo traz algumas consequências
interessantes para a função muscular: os elementos passivos do
músculo seriam complacentes e suaves no alongamento
passivo mas rígidos e resistentes durante o alonga-
mento ativo, ofereceriam força adicional a um custo energético
re- duzido e poderiam exercer função em condições onde a
capacidade de interação entre a actina e miosina está reduzida:
a força da titina aumenta quando a capacidade de produção de
força da actina e mio- sina reduz. É esperado que futuros
estudos investiguem a relevância desses mecanismos para a
prevenção de lesões e para o desempenho funcional.
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Parte 2
Exercício Físico e Saúde
180
CAPÍTULO VII
MONITORAMENTO NEUROMUSCULAR DE
IDOSOS: APLICAÇÕES CLÍNICAS.

Lucas Bet da Rosa


Orssatto Ewertton de
Souza Bezerra Fernando
Diefenthaeler

O que você irá encontrar:

• Descrição dos fatores envolvidos no desempenho


neuromuscular que acarretam em redução de força com o
envelhecimento;
• Impacto da redução de força na qualidade de vida, atividades
da vida diária e risco de quedas do idoso;
• Estratégias que podem ser utilizadas por profissionais de
diferen- tes áreas para combater as reduções do desempenho
neuromuscu- lar;
• Importância do monitoramento neuromuscular de idosos na
prá-
tica
clínica;
• Métodos clínicos de monitoramento neuromuscular em
idosos, como especial atenção para força máxima, potência,
força explosiva, equilíbrio e capacidade funcional.

Introdução

A população de idosos, que consiste de pessoas com mais de 65


anos em países desenvolvidos e 60 anos em países em
desenvolvimento1, cres- ce continuamente com projeções de dobrar
para 1,6 bilhões por volta de
20502. O envelhecimento leva a alterações biológicas estruturais e
fun- cionais inevitáveis do organismo como um todo3. Dentre estas
mudanças, podemos destacar as que ocorrem nos sistemas neural e
muscular, que afetam diretamente a capacidade motora e produção de
força durante o envelhecimento4.
O sistema nervoso central coordena e modula as ações do sistema
musculoesquelético⁵, o qual recebe tais informações por meio do
sistema nervoso periférico4. O sistema muscular, apesar de ser
diretamente depen- dente do nervoso, após sua ativação depende de
fatores intrínsecos [e.g., área de secção transversa, tipos de fibras
musculares, capacidade contrátil (força e velocidade de deslizamento
da interação actina-miosina) que são determinantes para a velocidade
e magnitude da produção de força⁶. Du-
rante o envelhecimento, tanto o sistema nervoso central, quanto o
perifé- rico sofrem alterações morfológicas e funcionais que
comprometem a mo- dulação, coordenação, intensidade e velocidade
de transmissão dos pulsos nervosos para o sistema
musculoesquelético⁴. Além disso, a conexão entre o sistema nervoso
e o muscular (i.e., junção neuromuscular) também tem sua
transmissão comprometida7,8. Já o sistema muscular, experimenta re-
duções da área de secção transversa (i.e., menor número de
sarcômeros em paralelo), menor número de fibras tipo II e também
uma ligação enfra- quecida entre as pontes cruzadas de actina e
miosina 4,9.
Os comprometimentos observados sobre o sistema
neuromuscular im- pactam em grande magnitude na capacidade de
produção de força máxi- ma, na potência e na força rápida (i.e., taxa
de desenvolvimento de força). Tais reduções se iniciam após os 30
anos de idade, sendo que as mudanças mais impactantes são
observadas após os 50. Comparado com adultos en- tre 20 e 30 anos,
idosos entre 70 e 80 anos apresentam aproximadamente uma redução
de 45-50% para a força máxima, 44-52% para a potência e
74% para a taxa de desenvolvimento de força10–12. Em idosos, a
perda de força muscular é um indicador de fragilidade13 e conteúdo
mineral ósseo14 além de ser um preditor de incapacidade,
hospitalização15 e de mortalida- de por causa-específica16,17.
Muitas atividades do dia a dia dependem do desempenho do
sistema neuromuscular, tais como deslocamento (e.g., andar, subir e
descer esca- das), atividades caseiras (e.g., varrer, limpar, carregar
objetos), realizar compras (e.g., carregar sacolas de supermercados) e
até atividades labo- rais, uma vez que é esperado que os idosos do
mundo todo permaneçam no mercado de trabalho mesmo com o
avançar da idade18. Dessa maneira, subentendesse que os
comprometimentos no sistema neuromuscular rela- cionados ao
envelhecimento irão impactar em grande magnitude a capaci- dade
funcional dos idosos.
Além dos comprometimentos relacionados à capacidade
funcional, o sistema neuromuscular acometido gera desequilíbrio
dinâmico e estáti- co19,20, o que prejudica a recuperação em situações
de desequilíbrio induzi- dos por distúrbios externos20, resultando em
uma maior propensão a que- das21. Em especial para esta população,
devido à sua fragilidade, as quedas podem levar a fraturas ou outros
tipos de lesões, que podem acarretar em acamamento e/ou
hospitalizações22. O acamamento ou a reduzida atividade física
decorrente de lesões e fraturas leva à atrofia por desuso, exacerbando
a atrofia muscular e reduções de força23,24. Além disso, pode-se
ressaltar o aumento de gastos particular e públicos com os sistemas
de saúde 25.
Em função das evidências acerca dos comprometimentos
neuromus- culares e suas consequências, diversas estratégias clínicas
envolvendo exercício físico, fisioterapia, nutrição e medicamentos
foram desenvolvi- das com o objetivo de atenuar/atrasar a perda da
capacidade de produção de força máxima, potência, força explosiva,
resistência muscular localiza- da, do equilíbrio e da capacidade
funcional de idosos. Para adaptações de força máxima, o treinamento
resistido tem demonstrado grande eficácia, além de ser considerado
por muitos autores como a estratégia mais eficaz para esse
objetivo26–30. Além disso, estratégias nutricionais31–33 e reposi- ção
hormonal (e.g., testosterona)34–36 também são estratégias que podem
resultar em manutenção ou aumento de força máxima. Em relação
ao au- mento de potência e força explosiva, evidências apontam a
eficácia do trei- namento resistido que adota altas intensidades37,38,
em especial aqueles que envolvem rápida velocidade de
contração39,40. Já em relação ao equilí- brio, diversas intervenções
envolvendo exercício físico, tais como o treina- mento específico de
equilíbrio/desequilíbrio41, o treinamento resistido 41, exergames (i.e.
jogos de videogame com movimentos corporais)42, pilates43 e
também a facilitação neuromuscular proprioceptiva44 têm
demonstrado efeitos positivos. Adicionalmente, há uma grande gama
de estratégias efi- cazes na melhora e manutenção da capacidade
funcional de idosos, tais como o treinamento resistido 40,45, o
treinamento de potência39,40, o pilates
46 e exergames 42, além de estratégias nutricionais 47,48.

Sabendo que há uma grande variedade de estratégias clínicas


para a manutenção da capacidade de produção de força pelo sistema
neuromus- cular, os profissionais das diversas áreas ligadas à
gerontologia, devem es- colher a mais adequada para cada caso
específico. Entretanto, as respostas para as intervenções adotadas
devem ser monitoradas para acompanha- mento da evolução do
paciente e para alterações de estratégias em casos de insucesso (i.e.,
não responsividade a tratamentos específicos) 49, garantindo assim
uma melhor prescrição. Os métodos mais robustos de avaliação re-
portados na literatura científica apresentam elevada precisão para
avaliar o que se propõe. Por exemplo, o dinamômetro isocinético
pode avaliar com alta precisão e reprodutibilidade tanto a força
máxima, potência e a taxa de desenvolvimento de força, realizadas
com contrações concêntricas, excên- tricas ou isométricas38,50. Por sua
vez, uma plataforma de força que mensure a força em três sentidos,
pode fornecer tanto informações de potência mus- cular em saltos,
quanto o deslocamento do centro de pressão, fornecendo informações
relevantes sobre o equilíbrio dinâmico e estático 1,52. Apesar disso,
estes equipamentos considerados como padrão ouro para a pesqui-
sa, usualmente apresentam um elevado custo, o que os afasta do
ambiente clínico. Apesar disso, existem métodos menos robustos, de
menor custo, que são validados e apresentam precisão e
reprodutibilidade aceitável para monitoramento da força máxima,
potência, força explosiva, equilí- brio e capacidade funcional. Dessa
maneira, o objetivo do presente capí- tulo é descrever métodos de
avaliação que podem ser utilizados na prática clínica para
monitoramento da capacidade neuromuscular de idosos.

Métodos de avaliação

• Força máxima
A força máxima pode ser definida de acordo com o contexto de
avalia- ção. Por exemplo, a força máxima é a maior capacidade do
sistema neuro- muscular de produzir força (quando medida por meio
de célula de carga ou plataforma de força), ou torque (quando o
próprio é medido por, e.g., dinamômetro isocinético)53 ou até a maior
capacidade de movimentar uma massa específica em uma dada
tarefa (quando medida por meio de testes de carga máxima)54. É
importante ressaltar, que a força máxima independe do tempo
despendido para a execução da tarefa proposta em si.
No ambiente da pesquisa, o dinamômetro isocinético é utilizado
com grande frequência com o intuito de se obter uma maior
reprodutibilidade e exatidão das medidas. Além de fornecer
informações mais específicas na capacidade de produção de torque
em diferentes ângulos de articula- ções específicas, ou então de ações
específicas (i.e., concêntrica, excêntrica ou isométrica)53. Este
equipamento possui um custo elevado, o que o tor- na menos
acessível para a utilização na prática clínica. Entretanto, uma
alternativa de menor custo, mas que também é comumente utilizada
em pesquisa científica, é o teste de carga máxima (e.g., uma repetição
máxima
– 1-
RM)54.
Os testes de carga máxima são uma alternativa extremamente
válida para monitoramento da força máxima em exercícios
específicos, mesmo que a intervenção realizada na prática clínica não
tenha adotado tais exer- cícios. Para a sua execução, deve-se eleger
exercícios de acordo com os gru- pos musculares recrutados no
mesmo. Por exemplo, para avaliar a força muscular dos músculos
extensores do joelho (i.e., quadríceps) pode se es- colher um
exercício uni articular, como a cadeira extensora. Mas também,
pode-se escolher um exercício multi articular de cadeia cinética
fechada, como o leg press ou o agachamento. Nestes casos, é
preciso ficar claro que além dos extensores de joelho, também estão
envolvidos os flexores de
joelho e extensores de quadril. Após a escolha do exercício, alguns
procedi- mentos devem ser adotados antes de iniciar o teste: 1)
aquecimento geral e específico; 2) familiarização ao exercício
proposto; e 3) utilização de cargas submáximas com progressão
gradativa da carga em cada uma das tentati- vas. Quando o avaliado
estiver pronto para realizar a tentativa de levantar o máximo de
carga, o mesmo deve ser orientado a realizar o deslocamento da
carga em duas repetições. Tal orientação é necessária para que o
avalia- dor tenha certeza de que a carga sugerida realmente seja a
carga máxima, pois se for, o avaliado não conseguirá completar a
segunda repetição. Caso o avaliado não consiga realizar nenhuma
repetição, a carga deve ser redu- zida para a próxima tentativa. Caso
contrário, o avaliado realize duas repe- tições, para a próxima
tentativa a carga deverá ser aumentada. Sugere-se um intervalo de
cinco minutos entre tentativas e no máximo três a quatro tentativas
por dia54.
O teste de 1-RM pode ter algumas limitações que dificultam
sua exe- cução. Por exemplo, em exercícios multi articulares, é
possível elevar uma maior carga quando comparado aos exercícios
uni articulares. Dessa for- ma, ao realizar testes com cargas próximas
do máximo (podendo ser su- pra máximas caso a carga tenha sido
superestimada), o avaliado pode não suportar o peso levantado,
havendo a necessidade de o avaliador dar um suporte de segurança.
Além disso, em alguns exercícios, como o leg press
45º, agachamento ou o supino reto, pode haver a necessidade de
mais de um avaliador auxiliar no suporte a carga, dificultando a
logística de ava- liações e expondo o avaliado a riscos54. Dessa
maneira, pesquisadores de- senvolveram equações preditivas da
carga do teste de 1-RM, baseado no máximo de repetições
executadas com uma carga submáxima54–56, ou ba- seado na relação
entre força e velocidade57,58. Uma equação de predição do
1-RM clássica é a de Brzycki 56, Eq. 1.7, na qual deve-se utilizar uma
carga e realizar o máximo de repetições possíveis até a falha
concêntrica momen- tânea. Quando o número de repetições for mais
próximo de um, menor é o erro da predição.

1-RM = peso levantado / 1,0278 – 0,0278*número de repetições


realizado, Eq 1.7

Outra forma de se avaliar força máxima na prática clínica é por


meio de dinamômetros manuais. Esse tipo de dinamômetro pode ser
utilizado para avaliação da força isométrica máxima de diferentes
articulações59,60. O avaliador deve posicionar o dinamômetro no
sentido contrário em que
a força será realizada e mantê-lo imóvel enquanto o avaliado exerce
o má- ximo de força que é capaz contra o equipamento. Um cuidado
primordial que deve ser tomado é manter o dinamômetro imóvel,
pois caso ocorra qualquer tipo de deslocamento do mesmo a força
medida pelo mesmo será reduzida, em especial ao avaliar idosos e
grupos musculares mais fortes. Para isso, mantê-lo em contato com
superfícies imóveis (e.g., parede, ban- co ou mesas) e seguir
procedimentos padronizados pode aumentar a exati- dão das
medidas. Uma estratégia para garantir a qualidade dos resultados
obtidos é realizar pelo menos três tentativas, sendo que a diferença
entre as duas melhores deve ser ≤6%61.

• Potência
A potência muscular pode ser definida como o produto da força
pela velocidade (Potência = força x velocidade). Dessa maneira,
pressupõe-se que a mesma está relacionada com a curva de força e
velocidade62. Ou seja, alterações de desempenho tanto na força
máxima, quanto na velocidade podem acarretar em melhorias de
potência. Em situações laboratoriais a potência muscular tem sido
avaliada de diferentes maneiras, sendo que as mais comuns por meio
do dinamômetro isocinético, plataforma de força (e.g., salto vertical
ou exercícios de treinamento resistido) e até em ergô- metros (e.g.,
bicicleta ou power rig). Mas também pode ser estimado uti- lizando
acelerômetros para medir a velocidade exercícios de musculação.
Para a prática clínica, há distintas maneiras de se estimar a
potência muscular. A altura do salto vertical está intimamente
relacionada com a potência de membros inferiores. Para avaliar a
altura do salto pode-se uti- lizar a cinemática (com uma câmera
filmadora calibrada), considerado o padrão ouro, plataforma de salto
ou força, tapete de salto ou aplicativos de smartphones que são
validados para se obter tais informações, além de se- rem alternativas
de fácil utilização, as últimas citadas podem ser conside- radas de
baixo custo63–65. Para se avaliar o salto, pode-se optar por realizar o
salto agachado (sem a influência do ciclo alongamento-
encurtamento) ou o salto com contra movimento (com a influência
do ciclo alongamento-
-encurtamento). Esta segunda opção pode ser considerada mais
adequada, por se assemelhar a situações da vida diária e também por
ser um bom parâmetro para monitoramento neuromuscular66.
Durante o salto contra movimento, o avaliado deve realizar o salto
precedido pelo agachamento, sendo que a transição entre a fase
excêntrica para a concêntrica deve ser o mais rápido possível. Alguns
cuidados devem ser tomados para garantir a qualidade dos dados: 1)
o avaliado deve ser familiarizado para evitar que
as melhoras observadas sejam decorrentes do aprendizado; 2) o salto
deve ser realizado com as mãos apoiadas na cintura durante todo o
movimento; e 3) devem ser realizados de 3 a 5 saltos, para garantir a
reprodutibilidade dos dados.
Outra alternativa para o ambiente da prática, é realizar as
avaliações de potência em exercícios de treinamento resistido. Para
tanto, é necessá- rio a informação da carga levantada pelo sujeito
que deverá ser combina- da com a velocidade de execução do
movimento completo. Para se avaliar a velocidade, existem
diferentes métodos, como a utilização de filmagem (cinemática),
acelerômetro, transdutores lineares e também aplicativos de
smartphones57,58,67. Para tal, sugere-se avaliar exercícios multi
articulares que estejam relacionados com as atividades da vida diária
de idosos, como o agachamento ou leg press. Para garantir a
reprodutibilidade dos dados, sugere-se realizar pelo menos três
repetições para cada exercício. Adicionalmente, apesar de ser um
método menos robusto, com algumas informações do teste de
sentar e levantar de 30 s (ver mais detalhes no tópico 2.5.1.) é
possível predizer a potência pico e média do sujeito, con- forme as
seguintes equações (Eq 2.7, R2=0,784, p<0,01; Eq 3.7, R2=0,811,
p<0,01) 68:

Potência média (W) = -504.845 + (10.793 x massa corporal em


kg) + (21.603 x número de levantadas em 20 s), Eq. 2.7

Potência de pico (W) = −715,218 + (13,915 x massa corporal em


kg) + (33,425 x número de levantadas em 20 s), Eq 3.7

• Força explosiva
A força explosiva, também chamada de força rápida, pode ser
definida como a habilidade de produzir elevados níveis de força no
início da con- tração em um curto intervalo de tempo69.
Diferentemente de potência, a força explosiva não requer velocidade
de contração para sua mensuração, e sim que o aumento da força
ocorra no menor tempo possível. Usualmen- te, a força explosiva é
mensurada por meio da taxa de desenvolvimento de força (inclinação
da curva de força) ou pelo próprio torque em intervalos de tempo até
300 ms após o início da contração69,70. É recomendado que a força
explosiva seja medida com contrações isométricas, para que as pro-
priedades mecânicas do músculo (relações torque-ângulo e torque–
veloci- dade) não interfiram na capacidade de produzir força rápida
em si69.
No âmbito da pesquisa, a taxa de desenvolvimento de força é
avaliada
com dinamômetro isocinético na função de contração isométrica ou
com células de carga, desde que tenham uma frequência de aquisição
de pelo menos 1000 Hz. Após a avaliação, ainda é necessário realizar
o tratamento do sinal obtido e o processamento matemático para a
obtenção dos resul- tados finais69. Infelizmente, na prática clínica
ainda não há equipamentos de baixo custo e de fácil processamento,
sendo a célula de carga o sistema mais acessível em termos de custo
e facilidade de uso.
A célula de carga pode ser fixada em cabos de equipamentos de
trei- namento resistido, avaliando então exercícios uni ou multi
articulares de maneira isométrica, ou então fixado diretamente em
membros específicos para avaliar articulações isoladas. Durante a
avaliação, alguns cuidados devem ser tomados para garantir a
qualidade dos dados: 1) o avaliado deve receber a orientação de
realizar o máximo de força o mais rápido possível em uma contração
de aproximadamente 1 s; 2) a produção de força deve partir do zero,
sem nenhuma tensão prévia dos músculos agonistas ou an-
tagonistas; 3) entre cada tentativa o avaliado deve ser orientado a
contrair mais forte e mais rápido; e 4) podem ser realizadas 10
tentativas com pelo menos 20 s de intervalo entre elas 69.
Após a aquisição dos dados, estes podem ser analisados em
ambien- te matemático (e.g., software Matlab) ou então em
planilha do Excel®. Na prática clínica, torna-se mais acessível a
utilização da segunda opção. Após exportado, a linha de base
(momento em que não está sendo produ- zido força) deve ser
identificada. Em seguida, o início da produção de força deve ser
encontrado e determinado como ponto zero (onset da produção de
força). Após a determinação do onset, o torque em diferentes
momen- tos de tempo (e.g., 25, 50, 75, 100, 150, 200 e 250 ms)
representam a força explosiva da respectiva contração. Essa análise
deve ser realizada entre as
10 tentativas, sendo que para ser considerada válida, estas devem ter
atin- gido ao menos 80% da força máxima e também seguir os
critérios de con- trole de qualidade citados anteriormente. As três
tentativas válidas com maior valor de torque são selecionadas e uma
média entre elas é reportada para cada intervalo de tempo. Dessa
maneira é possível realizar o monito- ramento de força rápida dos
pacientes em clínicas, hospitais e academias.

• Equilíbrio
O equilíbrio é basicamente a capacidade de manter seu centro de
gra- vidade dentro de sua base de apoio, mantendo sua posição
estável em si- tuações estáticas ou dinâmicas52. Esta capacidade
física é de grande im- portância para a saúde do idoso, pois ao
perder equilíbrio podem ocorrer
quedas22. No ambiente laboratorial o equilíbrio é usualmente
avaliado por meio da plataforma de força (desde que seja capaz de
avaliar a força nos eixos anteroposterior e laterolateral). Com este
equipamento, é possível avaliar a variabilidade de posicionamento do
centro de pressão, sendo que menores variabilidades representam
maior equilíbrio52. O centro de pres- são pode ser avaliado tanto em
ações estáticas como dinâmicas, além de situações que envolvam
perturbação externa, relacionando com tarefas do dia a dia.
Como na prática clínica, a utilização de plataforma que avalia a
força em três sentidos pode não ser acessível, há alternativas sem
custos para o avaliador, como o Berg balance test 44,71. Este teste
utiliza uma escala de 14 tarefas comuns que envolvam o equilíbrio
estático e dinâmico: 1) levantar da posição sentada para a posição em
pé, 2) permanecer em pé, sem apoio, por 2 min, 3) permanecer
sentado sem apoio nas costas, mas com os pés apoiados no chão ou
em um banquinho, 4) sentar-se a partir da posição em pé, 5)
transferência de uma cadeira para outra com ação de pivô, 6) per-
manecer em pé (afastados na largura do ombro), sem apoio, com os
olhos fechados por 10 s, 7) permanecer em pé, sem apoio e com os
pés juntos, com os olhos fechados por 10 s, 8) alcançar a frente com
o braço estendido e em pé, 9) Pegar um objeto no chão na posição
em pé, 10) virar-se e olhar para trás por cima dos ombros direito e
esquerdo enquanto permanece em pé, 11) girar 360 graus, 12)
posicionar os pés alternadamente no degrau ou banquinho enquanto
permanece em pé sem apoio, 13) permanecer em pé sem apoio com
um pé à frente, e 14) permanecer em pé sobre uma perna. Cada
tarefa recebe uma pontuação que vai de 0 (incapaz de realizar a ta-
refa) até 4 (realiza a tarefa independentemente). Estes escores
somados darão um valor total entre 0 e 56 pontos, sendo que escores
menores que
45 são preditivos de baixo equilíbrio, e alto risco de
quedas71.
• Capacidade funcional
A capacidade funcional de idosos pode ser definida como a
habilidade de realizar atividades motoras da vida diária. Podemos
destacar as ações de sentar e levantar, andar, subir e descer escadas,
carregar objetos e lim- par a casa. Além disso, pode-se ressaltar as
atividades laborais que exigem ações motoras 72. O envelhecimento
resulta em reduções marcantes da ca- pacidade funcional que
acompanham os comprometimentos neuromus- culares 4. A
capacidade funcional está relacionada com a força máxima 38,
potência 39 e força explosiva 38.
Os testes utilizados com maior frequência para monitoramento da
ca-
pacidade funcional em idosos podem ser considerados de baixo
custo, en- tretanto há uma grande variedade de opções que podem ser
escolhidas de acordo com seu objetivo. Os testes podem ser divididos
esquematicamente em dois tipos de acordo com a cronometragem: 1)
realizar o máximo de ações em um intervalo de tempo de tempo pré-
determinado, ou 2) realizar uma ação pré-determinada em um menor
tempo possível.
Os testes funcionais cronometrados requerem apenas o uso de
itens presentes no dia a dia relacionados ao que o teste se propõe a
medir e tam- bém o uso do cronômetro. Por serem cronometrados os
testes dependem do tempo de reação do avaliador ou do avaliado
dependendo do critério de início e fim dos testes. Por exemplo, se o
avaliador realiza o comando de início e aciona o cronômetro, o
tempo estará contando durante o proces- samento da informação e
início do movimento pelo idoso 73. Caso a ação motora do idoso
determine o início do teste, o acionamento do cronômetro dependerá
da velocidade de reação do avaliador. Estas limitações podem ser
consideradas erros de medidas, sendo que em testes de curta
duração, esse erro pode reduzir a exatidão de medida dos testes
realizados. Além disso, a magnitude do erro de medida pode variar
entre diferentes avalia- dores 73. Dessa maneira, para redução dos
erros de medida intra e inter-a- valiadores, sugere-se a utilização de
câmera filmadora (e.g., smartphones) no lugar de cronômetros,
possibilitando que o tempo do teste seja anali- sado off-line com
softwares especializados 73. Adicionalmente, repetir um mesmo teste
pelo menos três vezes, permitirá obter o melhor desempenho do
avaliado.
A seguir serão descritos os objetivos, procedimentos e critérios
de pon- tuação de testes funcionais comumente utilizados no
ambiente laborato- rial de pesquisa científica, mas que também são
viáveis para aplicação na prática clínica.

Sentar e levantar (cinco vezes ou durante 30


s)
O teste de sentar e levantar possui variações que influenciam
direta- mente seus objetivos de medição. Por exemplo, este pode ser
realizado cronometrando o tempo necessário para o avaliado sentar e
levantar cinco vezes, ou então contando o número de repetições
realizadas no intervalo de tempo de 30 s. O teste de cinco repetições
possui características rela- cionadas a força e potência de membros
inferiores, já o de 30 s de força e resistência muscular. Ao realizar
a filmagem do mesmo, para posterior avaliação, é possível obter o
resultado para ambos os testes de maneira integrada. Para isso, o
sujeito deve ser orientado a realizar o máximo de
repetições possíveis no intervalo de 30 s. Com a filmagem, o
avaliador po- derá monitorar o tempo gasto para realizar 5 repetições
completas e tam- bém fazer a contagem de repetições realizadas no
tempo total de 30 s73–76.
Para controle de qualidade do teste, alguns procedimentos
devem ser adotados: 1) a mesma cadeira deve ser utilizada em
todas as avaliações, ou pelo menos, que elas tenham dimensões
semelhantes; 2) o movimento realizado deve ser completo ao ficar
em pé em extensão completa e ao sen- tar as costas devem tocar por
completo o encosto da cadeira; 3) os braços devem permanecer
cruzados para evitar auxílio aos membros inferiores durante o
movimento; e 4) a câmera filmadora deve ser posicionada para
filmar o plano sagital (lateral) 73.

Timed up and
go
O teste timed up and go, também chamado de levantar, ir,
voltar e sentar cronometrado é um dos mais utilizados na pesquisa
científica por sua capacidade de em um mesmo teste avaliar a
habilidade de levantar da cadeira, velocidade, agilidade, equilíbrio
dinâmico e sentar. Para esse teste, são necessários uma cadeira sem
acento inclinado (usualmente com
45 cm de altura do acento até o chão) e um cone (ou qualquer outro
objeto que possa servir como referência), que será posicionado a
uma distância pré-determinada da cadeira. As distâncias mais
utilizadas são de 2,44 ou
3 m. O avaliado deverá levantar da cadeira, se deslocar até o cone,
dar a volta, retornar para a cadeira e sentar no menor intervalo de
tempo possí- vel73–76. Para controle de qualidade do teste, alguns
procedimentos devem ser adotados: 1) a mesma cadeira deve ser
utilizada em todas as avaliações, ou pelo menos, que elas tenham
dimensões semelhantes; 2) a distância entre a cadeira e o cone deve
ser repetida em todas as situações de ava- liação; 3) o movimento
realizado deve ser completo ao ficar em pé em ex- tensão completa
(no início do teste) e ao sentar as costas devem tocar por completo o
encosto da cadeira (no final do teste); 4) as ações de levantar e
sentar devem ser realizadas sem o auxílio dos membros superiores;
5) a câmera filmadora deve ser posicionada para filmar o plano
sagital ao lado da cadeira, pois é o ponto de partida e de fim do teste
73–76.

Velocidade de
caminhada
Este teste necessita apenas de marcações no solo, do ponto
inicial, o ponto de encerramento da cronometragem e um terceiro
ponto no qual o avaliado deve parar de caminhar. Este terceiro ponto
é utilizado como referência de distância a ser percorrida pelo
avaliado para evitar a desace-
leração. A distância usual entre o início do teste e o fim da
cronometragem é de 8 m. Entretanto, em idosos com boa capacidade
funcional o teste pode ficar muito curto, aumentando assim o erro
de medida caso seja utiliza- do cronômetro manual ao invés de
cronometragem por vídeo73. Portanto, distâncias variadas podem ser
adotadas, desde que a mesma seja manti- da em todas as avaliações
subsequentes. O avaliado deve ser orientado a percorrer a distância
entre a primeira e terceira marcação no menor tem- po possível
apenas caminhando, sem correr. A câmera filmadora deve ser
mantida em uma posição onde seja possível perceber o momento em
que o primeiro pé perde contato com o solo (início do teste) e o
momento em que o avaliado ultrapassa a segunda marcação de
distância (fim do teste)73–76.

Subir e descer
escadas
O teste de subir e descer escadas está relacionado com a força e
potên- cia de membros inferiores. Este teste possui algumas
variações, como a cronometragem do tempo total conjunta ou
separada de subida e descida e com a quantidade de degraus
envolvidos. Sugere-se a cronometragem separada, pois são
atividades motoras distintas e em idosos frágeis pode aumentar o
risco de quedas durante a mudança de direção. Usualmen- te, são
adotados oito degraus (recomenda-se degraus com padronização da
Associação Brasileira de Normas Técnicas, ABNT) para a realização
da tarefa. Entretanto, esta questão pode ser adaptada de acordo com
o lan- ce de degraus disponíveis na academia, clínicas ou hospitais
em questão, desde que seja mantido o mesmo padrão nas avaliações
subsequentes73–76. Alguns procedimentos devem ser adotados para
controle de qualidade e segurança do teste: 1) a câmera filmadora
deve ser posicionada para filmar o plano frontal, onde seja possível
detectar o primeiro pé perdendo contato com o solo (início do teste) e
o segundo pé tocando o último degrau (fim do teste); 2) o avaliado
deve manter contato com o corrimão, sem utilizar do seu auxílio,
apenas como segurança para situações de desequilíbrio 73–76.

Teste de levantar e
transportar
O teste de levantar e transportar tem como objetivo avaliar a
combi- nação de ações dos membros inferiores, como deslocamento,
agilidade e equilíbrio com ações dos membros superiores,
envolvendo o carregamento de objeto. Inicialmente este teste foi
criado para que o avaliado pudesse percorrer uma distância de 2,7 m
para pegar um objeto com peso de 4,5 kg de uma prateleira baixa,
percorrer um novo percurso de 8,7 m dando uma volta em um cone,
e por fim colocar o objeto em uma prateleira mais alta.
Contudo, nada impede que ocorram adaptações no teste para se
adequar aos equipamentos disponíveis na clínica, hospital ou
academia (desde que o padrão seja mantido nas avaliações
subsequentes). O avaliado deve ser orientado a percorrer o percurso
no menor tempo possível, sem correr. Além disso, posicionar a
câmera em um local que seja possível detectar o primeiro pé
perdendo contato com o solo (início do teste) e o momento em que o
objeto é apoiado na estante (final do teste)73–76.
Sendo assim, podemos sumarizar nossas informações com
algumas observações, as alterações neuromusculares durante o
envelhecimento resultam em reduções da capacidade de produção de
força máxima, po- tência, força explosiva, equilíbrio e capacidade
funcional. Dessa maneira, as estratégias clínicas adotadas para
contrapor estes comprometimentos devem ter como objetivo
melhorar ou atenuar as reduções de todas essas capacidades.
Paralelamente a isso, os testes sugeridos no presente capí- tulo
devem ser aplicados para monitoramento da eficácia das estratégias
clínicas adotadas em todas as capacidades discutidas, devido à
individual importância de cada uma delas.
A frequência em que os testes serão aplicados não segue uma
regra específica. Sugere-se que os testes de maior complexidade de
execução ou processamento de dado (e.g., 1-RM e taxa de
desenvolvimento de força) sejam realizados com menor frequência.
Já as avaliações de menor com- plexidade, fácil aplicabilidade e
análise dos resultados, como os testes de potência (e.g., altura do
salto vertical), equilíbrio (e.g., Berg balance test) e capacidade
funcional (e.g., sentar e levantar, timed up and go, subir e descer
escadas, velocidade de caminhada, e levantar e transportar) podem
ser realizados com maior frequência.
Realizar os testes propostos no presente capítulo permite que os
pro- fissionais da área clínica, como fisioterapeutas, profissionais de
educação física, terapeutas ocupacionais e geriatras, possam ter
informações rele- vantes acerca do estado neuromuscular dos idosos.
Dessa forma, será pos- sível escolher de maneira mais adequada as
estratégias clínicas e otimizar a prescrição para melhora da
performance neuromuscular de idosos.

Aplicações práticas

O presente capítulo traz importantes informações que implicam


dire- tamente na prática clínica de profissionais que trabalham
diretamente com a população de idosos (e.g., profissionais de
educação física, fisioterapeu- tas, terapeutas ocupacionais, geriatras e
nutricionistas) proporcionando tratamentos mais eficazes para a
melhora do desempenho neuromuscular.
Pode-se destacar as seguintes aplicações práticas:

• Conhecer a importância de cada uma das capacidades físicas


neu- romusculares e os parâmetros gerais e específicos que
afetam dire- tamente a qualidade de vida do idoso;
• Além disso, entender a influência neuromuscular sobre a
capaci- dade motora do idoso para proporcionar uma maior
chance de acer- to na escolha do tratamento mais adequado por
parte dos profissio- nais;
• Identificar as deficiências do paciente idoso em
características neuromusculares específicas, é determinante
para uma prescrição individualizada.
• Apesar de os testes laboratoriais serem considerados padrão
ouro, existem diversos testes de campo que são capazes de
fornecer infor- mações válidas com baixo custo e alta validade
ecológica;
• Combinar diferentes testes que englobem diferentes
característi- cas neuromusculares e que fornecam um
panorama geral e comple- to sobre o status neuromuscular do
idoso.
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2009;6(1):31. doi:10.1186/1743-0003-
6-31
CAPÍTULO VIII
ADAPTAÇÕES NEUROMUSCULARES DECORRENTES DO
TREINAMENTO RESISTIDO TRADICIONAL E DE POTÊNCIA EM
IDOSOS

203

Mariane Eichendorf da
Silva Lucas Bet da Rosa
Orssatto Cíntia de la
Rocha Freitas

O que você irá encontrar:

• Aspectos demográficos e biológicos (neuromusculares) do


Enve-
lhecimento;
• Declínio Funcional decorrente das diversas alterações
neuromus-
culares em
idosos;
• O Treinamento resistido como uma forma eficaz para atenuar
o declínio do desempenho neuromuscular decorrente do
envelheci- mento;
• Características do treinamento de potência e força explosiva
em idosos para otimizar adaptações neuromusculares no
envelheci- mento;
• Efeitos agudos do treinamento resistido tradicional e de
potência e cuidados com a população idosa.

Introdução

Este capítulo aborda os aspectos biológicos do


envelhecimento hu- mano, destacando as implicações neuromusculares
decorrentes do treina- mento resistido (caracterizado pelo exercício
contra resistência, utilizan- do de sobrecargas e velocidade
controladas, trazendo diversos benefícios, como na força, resistência e
potência muscular) e explosivo (caracterizado pelo exercício contra
resistência realizado em alta velocidade, atingindo valores elevados de
força), a curto (agudo) e a longo prazo (crônico)1, jun- tamente aos
efeitos colaterais observados nas diversas valências físicas (i.e., força,
velocidade, resistência, flexibilidade, coordenação, dentre ou- tras)2 e
na capacidade funcional (capacidade do indivíduo em realizar suas
atividades da vida diária com independência e sua relação multidimen-
sional com a saúde física e mental, interação social, suporte
econômico e familiar)3, assim como dano muscular (prejuízos
atribuídos às estruturas das fibras musculares após o exercício), fadiga
(redução da capacidade de
produção de força induzida pela execução de um determinado
exercício) e recuperação muscular (recuperação da homeostase de
todos os sistemas orgânicos, super compensação e estabilização do
corpo humano) em ido- sos1.

Transição demográfica

Pesquisas sobre o processo de envelhecimento vem avançando


no Bra- sil e no mundo nas últimas décadas4. Esse aumento no
número de pes- quisas tem sido motivado pela transição
demográfica atual e pelas proje- ções para os anos de 2025 e 2080,
caracterizadas pelo grande número de pessoas idosas5. Na
atualidade, estudos demográficos têm observado um aumento
elevado no número de pessoas idosas, acarretando no envelheci-
mento da população mundial⁶.
Dentre os países mais populosos, o Brasil apresenta um dos
maiores e mais acelerados processos de envelhecimento
demográfico, com uma ex- pectativa de vida de 71,9 anos em 20057.
Até o século XX, o percentual de crescimento populacional total foi
de 1,64% ao ano, já o aumento no núme- ro de idosos cresceu muito
mais, cerca de 3,47% ao ano, crescimento que continua aumentando,
podendo levar o Brasil, em 2025, ao quarto lugar no ranking de
países em desenvolvimento com o maior número de idosos.
Projeções da população total indicam que em 2050, o Brasil poderá
chegar a 22% de idosos no número total da população com cerca de
13,7 milhões de pessoas com 80 anos ou mais7,8, e um índice de
envelhecimento da po- pulação de 105,6, como observado na Figura
1.8.
A Organização Mundial de Saúde tem como preocupação esse
aumen- to da expectativa de vida da população no Brasil e no
mundo9, Figura 2.8, pois este compreende aspectos biológicos,
psicológicos e sociais geralmen- te acompanhados de diversas
incapacidades físicas, que podem ocorrer de- vido ao sedentarismo
e/ou envelhecimento, afetando diretamente na qua- lidade de vida da
população idosa e impactando gradualmente os serviços de
assistência à saúde, tendo como consequência o aumento nos custos
com a saúde pública no Brasil10.
Figura 1.8 - Evolução do índice de envelhecimento da população do
Brasil a cada 5 anos. De 1980 a 2050. O Índice do envelhecimento
consiste na relação entre a população idosa (>65 anos) com a
população infantil e ju- venil (até 15 anos de idade); quanto maior o
índice, maior é o número de idosos.

Fonte: Oliveira, Albuquerque, Lins, 2004.8 IBGE. Diretoria de Pesquisas – DPE.


Coordena- ção de População e Indicadores Sociais – COPIS. PROJEÇÃO DA
POPULAÇÃO DO BRASIL POR SEXO E IDADE PARA O PERÍODO 1980-2050.
Revisão 2004.

Envelhecimento neuromuscular

Dentre os diversos fatores que estão associados às incapacidades,


como os aspectos sociais, psicológicos e funcionais11, há também a
influência de fatores como a hereditariedade, doenças crônico-
degenerativas, e hábitos como estilo de vida, nutrição e a prática de
atividade física12.
Figura 2.8 - Pirâmide etária absoluta do Brasil em 2050, para
homens e mulheres. Verifica-se a tendência de inversão da pirâmide
representativa da população total, ou seja, menor número de crianças
e jovens em com- paração com idosos.

Fonte: Fonte: Oliveira, Albuquerque, Lins, 2004.8 IBGE. Diretoria de Pesquisas – DPE.
Co- ordenação de População e Indicadores Sociais – COPIS. PROJEÇÃO DA
POPULAÇÃO DO BRASIL POR SEXO E IDADE PARA O PERÍODO 1980-2050.
Revisão 2004.

A incapacidade, que envolve condições físicas, mentais e


emocionais, conceitua-se, de forma mais complexa, pelo grau de
dificuldade de execu- ção do indivíduo em realizar as tarefas
cotidianas, básicas ou complexas, indispensáveis para independência
do idoso13. A incapacidade física pode ser avaliada pela auto
declaração de dificuldade ou necessidade de auxílio para a realização
das atividades do dia a dia. Podemos encontrar ainda, de- finições
mais específicas que subdividem as atividades da vida diária em14:
• Atividades Básicas da Vida Diária – Atividades mais simples
e de menor complexidade, porém fundamentais para viver
socialmente como por exemplo vestir-se, tomar banho e
alimentar-se.
• Atividades Instrumentais da Vida Diária – Atividades mais
com-
plexas, no entanto importantes para se ter independência, como
a realização de trabalhos domésticos, compras e deslocamentos
em geral.
Com o passar da idade, surgem as comorbidades, que aumentam
a di- ficuldade da realização das atividades cotidianas. Uma forma
de se obser- var essas dificuldades é por meio da avaliação de
mobilidade, que faz parte da avaliação funcional, realizada em
populações especiais, como idosos15. A mobilidade também pode ser
avaliada pela auto declaração, relatando desde tarefas simples de
mobilidade (i.e.: transferência de uma cama até uma cadeira), até
tarefas moderadas como caminhar e subir escadas16.
Já a capacidade funcional ou funcionalidade é definida como a
capa- cidade do indivíduo para realizar as tarefas do seu dia a dia
com indepen- dência e autonomia17. Existem testes para avaliar a
capacidade funcional, usualmente aplicados em indivíduos que
podem ter esta capacidade pre- judicada (como no envelhecimento),
associados ao alto número de quedas nesta população18 e ao
desenvolvimento de doenças crônico-degenerati- vas14. Segundo a
Organização Mundial da Saúde, as quedas são um dos principais
motivos de hospitalização, principalmente no público idoso. Em
termos percentuais, idosos acima de 65 anos de idade têm incidência
de algum episódio de queda de 28% a 35% a cada ano, tornando-se
ainda maior em idosos acima de 70 anos de idade (cerca de 32% a
42% do total de idosos). Quanto às doenças crônicas de maior
incidência em idosos no mundo, estão: Doenças cardiovasculares
(tais como doença coronariana), Hipertensão, Derrame, Diabete,
Câncer, Doença pulmonar obstrutiva crô- nica, doenças
musculoesqueléticas (como artrite e osteoporose), doenças mentais
(principalmente demência e depressão), cegueira e diminuição da
visão.
Por outro lado, a prática regular de atividades físicas leves e/ou
mo- deradas é extremamente benéfica e pode retardar e/ou evitar
declínios funcionais, e também o aparecimento de doenças crônicas e
degenerati- vas no público idoso19. Um idoso com melhor
capacidade funcional tem maior independência para realizar as
atividades da vida diária e melhores condições de saúde e qualidade
de vida20–22. Para que ocorram melhorias na capacidade funcional,
são necessárias, por exemplo, melhorias na força máxima, potência,
força explosiva e na massa muscular esquelética23, ten- do em vista
que benefícios encontrados nos testes de capacidade funcional foram
observados em diversos estudos24, com treinamento resistido25 (au-
mentos em menor magnitude) e treinamento de potência26 (maior
magni- tude de aumento).
Desta forma, o envelhecimento biológico é definido como um
proces- so lento e gradativo, inevitável ao corpo humano, que leva a
uma perda progressiva de diversas funções orgânicas, advindas do
desequilíbrio e das agressões sofridas no decorrer do tempo, as quais
tornam seu organismo vulnerável, impactando na capacidade de
manutenção de suas funções27–31. As alterações decorrentes do
sistema locomotor fazem parte das alterações naturais deletérias do
processo de envelhecimento; uma vez que este siste- ma controla a
interação entre os sistemas muscular, nervoso e esquelético, sendo
responsável pela redução da capacidade do idoso de se locomover e
pelo aumento do risco de quedas, fraturas e lesões. Estes aspectos
são acompanhados de reduzida capacidade funcional e podem refletir
também em alterações psicológicas e sociais6,32.
Dentre os principais comprometimentos observados no sistema
lo- comotor, decorrentes do envelhecimento, pode-se destacar as
alterações funcionais e as morfológicas que ocorrem no sistema
nervoso central e periférico33–36, como por exemplo, ausência de
motoneurônios e unidades motoras, perdas da função sensorial e
motora, redução do volume cortical, diminuição no comprimento dos
axônios mielinizados, alterações nos cir- cuitos espinhais (i.e.,
Inibição recíproca, dentre outras). Destacam-se ain- da, as alterações
musculoesqueléticas que ocorrem no aparelho muscular e
esquelético37, como redução na área de secção transversa (anatômica
e fisiológica), no volume, no cumprimento do fascículo, no ângulo
de pena- ção38 das fibras musculares e perda de massa óssea e
espessura dos ossos. Destaca-se que o sistema nervoso central
coordena e modula as ações mo- toras do sistema
musculoesquelético por meio de comandos excitatórios e inibitórios,
e juntos são responsáveis pela produção de força voluntária2.
Como consequência dessas alterações, ocorrem reduções no
desem- penho motor; aumento no tempo de reação, redução na força
muscular (i.e., máxima, explosiva e potência) e massa muscular
(sarcopenia), velo- cidade de encurtamento do músculo, diminuição
da capacidade funcional e mobilidade reduzida. Todas estas
alterações contribuem, de forma geral, para a diminuição da força
muscular (dinapenia) em idosos de ambos os sexos. Não só a
quantidade de massa magra influencia no processo de ge- ração de
força muscular, mas também a capacidade de recrutamento e co-
ordenação de unidades motoras, tipos de fibras musculares, área de
secção transversa, arquitetura muscular e a habilidade do sistema
nervoso central de ativar os músculos após os ajustes do comando
central sobre a respos- ta reflexa integrada espinhal36,39. De forma
geral, pode-se perceber que o declínio da força, decorrente do
processo de envelhecimento, é atribuído
principalmente à redução no número de fibras musculares do tipo II,
que se contraem mais rapidamente e produzem mais força do que as
fibras do tipo I, contribuindo diretamente na redução da força
máxima, principal- mente na diminuição de potência (verificada
através da redução da taxa de desenvolvimento de força/torque), e no
aumento de tecido não contrátil (i.e., aumento de gordura no
músculo)40,41.
• Sarcopenia: refere-se à perda progressiva de massa
muscular, tanto na quantidade, quanto na qualidade dessas
fibras musculares. Há uma maior diminuição de fibras do tipo
II, específicas para ge- ração de força36,42. Em idosos com 70-
80 anos, esta diminuição da força muscular pode variar de 20%
a 40%; já em idosos com 90 anos ou mais, essa taxa agrava-se,
acarretando em reduções de até 50% de força muscular.
• Dinapenia: refere-se à perda progressiva de força máxima,
força explosiva e potência muscular, especificamente. Ou
seja, as redu- ções de massa muscular ocorrem de maneira
mais lenta do que a perda da capacidade de produção de
força21,43.

As capacidades de força e potência muscular diminuem cerca de


30% após os 50 anos de idade, sendo essas perdas aceleradas a cada
década44. Estudos indicam perdas na contração voluntária máxima e
na velocidade de contração por volta dos 40 anos de idade45. Estas
reduções compor- tam-se com distinção ao comparar as perdas em
diferentes velocidades de contração e diferentes grupos musculares;
estudos indicam uma perda precoce e em maior magnitude na
capacidade de produção de força duran- te as contrações rápidas, ou
seja, força explosiva e potência muscular, em comparação às
contrações lentas25.
Já aos 80 anos de idade, as reduções na massa muscular podem
chegar a cerca de 40%, decorrentes da perda e atrofia das fibras,
redução da área da secção transversa do músculo. Estas reduções são
observadas princi- palmente nas fibras de características rápidas e
de potência, sendo elas, as que contêm miosina do tipo II (ou seja,
fibras do tipo II), comparadas às fibras com características lentas,
que contêm miosina do tipo I (ou seja, fibras do tipo I).
Consequentemente, essa perda preferencial de massa nas fibras do
tipo II explica, em parte, o déficit aumentado na geração de po-
tência em relação à perda de massa muscular40.
Hughes et al.46 encontraram, em um estudo longitudinal de 10 anos,
que a diminuição da força de preensão manual é de 3% em homens,
já nas mulheres chega a 5%, estes com idade a partir de 45 anos.
Assim como a
torque concêntrico dos extensores do joelho, que reduz em torno de
14% e dos flexores do joelho, 16% a cada dez anos, para homens e
mulheres. Todas essas reduções levam, consequentemente a outras
perdas como do equilíbrio e da flexibilidade, gerando cada vez mais,
a incapacidade física do idoso47. Dessa forma, aumentam
consideravelmente as chances de que- das nesta população16 e, por
consequência, cresce o número de pesquisas que buscam avaliar o
efeito de diversos tipos de atividades físicas no en- velhecimento,
com o objetivo de, cada vez mais, chegar à senescência com
qualidade de vida e saúde48.
De acordo com Hughes et al.46, a redução da força dos membros
inferio- res, em ambos os sexos, é a mais acentuada em idosos,
quando comparada com membros superiores; devido ao grande
déficit e atrofia musculares, observados por meio do decréscimo de
tensão, reduções na arquitetura muscular e aumentos de material não-
contrátil na fibra muscular49,50. Com base nesses pressupostos, a força
do quadríceps pode ser considerado o grupo muscular mais
importante para o idoso, devido às evidentes redu- ções de força e
potência muscular com o avançar da idade, podendo chegar a um
estado muito avançado, levando à incapacidade física do idoso. A
força de extensores e flexores do joelho é primordial para a
realização de atividades básicas da vida diária, locomoção e
equilíbrio corporal. Ativida- des consideradas simples para jovens e
adultos, podem se tornar de grande dificuldade na velhice, devido à
insuficiência de força para caminhar, sen- tar ou levantar-se de uma
cadeira, por exemplo; sendo assim, esta redução de força é
evidenciada como um dos fatores de risco de maior relevância para a
ocorrência de quedas e institucionalização do idoso18,46,51.
Deste modo, torna-se inevitável a redução da mobilidade e o
aumen- to de incidência de quedas na população idosa, decorrentes
do déficit na potência muscular. A busca pela manutenção e/ou
melhoria da função muscular, particularmente as fibras do tipo IIx
(tipo de fibra de contração mais rápida do corpo humano)2, torna-se
cada vez mais importante com o avançar da idade52. Por
consequência, existem diversas intervenções com o intuito de
minimizar ou reverter essas perdas em idosos, pois há um reco-
nhecimento cada vez maior da importância da integridade e da
função do sistema muscular esquelético dos idosos, permanecendo
assim indepen- dentes nas suas tarefas diárias. O treinamento
resistido é uma das muitas opções que têm sido exploradas, com
fortes evidências sobre os seus be- nefícios na funcionalidade, saúde
e qualidade de vida, principalmente em idosos53.
Treinamento resistido

O treinamento resistido consiste na utilização de uma carga ou


resis- tência externa para a realização de um encurtamento dos
músculos esque- léticos contra uma determinada resistência no
intuito de induzir a contra- ção muscular (que pode ser concêntrica,
excêntrica e isométrica), variando de acordo com a capacidade de
geração de força dos músculos envolvidos. Estas contrações, com
sobrecarga, quando realizadas repetidamente e em séries são capazes
de provocar diversas alterações estruturais e funcionais no sistema
neuromuscular. Estas adaptações podem ser agudas, que ocor- rem
imediatamente após o treinamento, ou crônicas, que são resultados de
um período contínuo de treinamento54.
A característica principal do treinamento resistido consiste no
desen- volvimento da capacidade de geração de força do indivíduo.
Explicada através dos conceitos básicos de força e resistência
muscular, a força refe- re-se à capacidade de exercer tensão por meio
de uma contração muscular, produzida por um músculo ou grupo
muscular sobre uma determinada resistência, vencendo-a numa
velocidade e exercício predeterminado1. A mesma é dependente de
fatores neurais (i.e., recrutamento e frequência das unidades motoras,
coordenação inter e intramuscular) e morfológicos (i.e., tipo de
fibras, arquitetura muscular e propriedades elásticas e área de secção
transversa do músculo)55,56.
O treinamento resistido tornou-se umas das práticas mais
realizadas para a melhora da aptidão física de pessoas de todas as
idades, bem como um método de treinamento para redução de
desequilíbrios musculares ou fortalecimento muscular específico
para atletas de distintas modalidades esportivas57. O desempenho da
força depende não só da quantidade e qua- lidade dos músculos
envolvidos, mas também da capacidade do sistema nervoso de ativar
adequadamente os músculos58. Dentre as adaptações a longo prazo
do treinamento resistido estão, aumento do drive neural, ati- vação
voluntária, maior taxa de disparo da unidade motora, e por conse-
quência, aumenta a taxa de desenvolvimento de força59, hipertrofia
mus- cular60, força máxima61, e potência muscular62.
A maior parte dos estudos relacionados às adaptações no
treinamento resistido são realizados, em sua maioria, no público
mais jovem63,64. Po- rém, os estudos desenvolvidos com idosos vêm
obtendo grande avanço nos últimos anos. Os diversos fatores que
podem ter influenciado este avanço, vão desde as alterações
demográficas que acarretaram em um aumento no número de idosos
da população mundial, até os cuidados e atenção neces-
sárias a esta população, devido às grandes alterações biológicas
observadas com a idade e os bons resultados observados com o
treinamento4,65. O trei- namento resistido tornou-se parte
fundamental do programa de atividade física dirigido ao idoso, pois
este contribui diretamente para a manutenção e melhora da
capacidade física e funcional, que é parte fundamental para execução
das atividades cotidianas com segurança e autonomia48,66.
Com base nesse pressuposto, estudos têm utilizado o
treinamento resistido como estratégia para atenuar ou atrasar os
efeitos decorrentes do processo de envelhecimento sobre a massa
muscular, força máxima e explosiva67–69, sendo indicado como
alternativa não farmacológica na pre- venção de quedas e
manutenção de uma capacidade funcional adequa- da70,71. Pesquisas
comprovam os benefícios encontrados com o treinamen- to resistido
como por exemplo, o aumento ou manutenção da massa magra e o
ganho de força máxima, força explosiva, potência muscular e
redução da gordura corporal72,73.
Dentre os principais estudos relacionados ao treinamento
resistido em idosos, são investigadas as adaptações relacionadas a
diversas variáveis como força, massa muscular, capacidade
funcional, mobilidade, dentre outras74,75. As adaptações no
treinamento resistido estão focadas no de- senvolvimento e
manutenção da unidade neuromuscular necessários para a produção
da força. Estudos que utilizaram a técnica da eletromiografia
(ativação elétrica dos músculos) forneceram evidências mais diretas,
in- dicando que o aumento do pico de força e a taxa de
desenvolvimento de torque estão associados à maior ativação dos
músculos motores primários envolvidos nos movimentos58. A taxa de
desenvolvimento de torque/força diz respeito a relação entre o
aumento da produção de torque e tempo de contração sobre a
capacidade de produção de força explosiva no músculo (i.e., força
rápida). Já o sinal eletromiográfico refere-se à atividade elétrica de
um músculo ou grupo muscular durante uma contração, decorrente
de processos fisiológicos76.
Há ainda, destaques na literatura ligados à funcionalidade e ao
treino resistido, referentes à manutenção ou melhora da massa óssea
em mulhe- res mais velhas77,78, que, em geral, podem ter uma
redução anual de até 2% após a menopausa, possibilitando, com o
treinamento resistido, reduzir pela metade essa perda de massa óssea,
diminuindo o risco de quedas e fraturas79.
O treinamento resistido é composto por um período contínuo e
pro- gressivo, no intuito de gerar os diversos benefícios a curto e
longo prazo, já citados anteriormente. Estudos avaliam comumente,
4-24 semanas de
treinamento resistido progressivo, ou seja, as cargas são
progressivamente aumentadas à medida em que o treinamento
avança, de modo a manter a porcentagem da intensidade pré-
determinada, e a velocidade de encurta- mento dos músculos;
possibilitando aumentos da área de secção transver- sa do músculo,
força máxima isométrica e potência pico 80–82.
Mais especificamente, o Colégio Americano de Medicina do
Esporte recomenda que o treinamento resistido deva ocorrer de
forma individuali- zada, sendo progressivo e realizado para os
principais grupos musculares. Destaca-se que a fase inicial de
treinamento deverá ser de familiarização, sobretudo em um público
que necessita de maiores cuidados, especifica- mente na segurança
e execução dos exercícios; abordando intensidades e frequências
mais baixas para, depois, serem introduzidos os aumentos no volume
de treinamento83. É recomendada, também, uma frequência de
treinamento entre 2 e 3 dias por semana, realizando 8 a 10
exercícios, de
2 a 3 séries com 8 a 12 repetições cada. A sessão de treinamento no
início de um programa, não deverá ultrapassar o tempo de 60
minutos de dura- ção, devido a altas taxas de abandono84,85. O
treinamento resistido pode ser realizado em intensidade elevada
(acima de 80% de 1RM), moderada (50 - 60% de 1RM) ou baixa (≤
40% de 1RM). A melhora na força e na ca- pacidade funcional em
idosos pode ser observada já nas intensidades mais baixas e de
menores volumes. Todos os exercícios devem ser executados de
maneira lenta, com movimento e respiração controlada e amplitude
de execução máxima, de modo a se obter melhores resultados
possíveis86.
Diversos estudos têm demonstrado que há reduções ainda mais
sig- nificativas que ocorrem na potência muscular do idoso;
diminuindo cerca de 4% ao ano, praticamente o dobro de redução da
taxa de força muscular e ainda mais rapidamente62,79,87. Com isso,
tem-se reconhecido a impor- tância em manter ou melhorar a
capacidade de geração de potência por meio de estudos nos quais
movimentos de alta velocidade são empregados durante o
treinamento resistido progressivo em indivíduos mais velhos,
trazendo resultados que corroboram com o método, encontrando
melho- res benefícios para o aumento da potência de grupos
musculares88–90.
Soma-se ainda, o fato de que muitos estudos verificaram o
efeito de diversos fatores associados ao treinamento resistido, como
por exemplo, volume e intensidade do treino75,91. Porém, poucos
estudos verificaram o efeito de atividades de alta velocidade e
treinamento de potência em ido- sos62,89,92. Outro ponto importante a
ser ressaltado é em relação aos estudos reportarem apenas as
adaptações crônicas com o treinamento, deixando de lado as
adaptações agudas, principalmente na população idosa, que
podem ser vistas como momentaneamente prejudiciais ao organismo
do idoso; em especial aos indivíduos desacostumados com o treino,
ou seja, aqueles que estão iniciando a prática do treinamento
resistido75. No pró- ximo tópico, será abordado o treinamento de
potência e força explosiva e seus benefícios no envelhecimento.

Treinamento de potência e força explosiva

A potência pode ser explicada, de forma clássica, como a


capacidade do músculo de produzir força rápida, ou seja, é o produto
entre a força muscular e a velocidade de encurtamento muscular.
Outro termo utiliza- do, na mecânica, a potência refere-se à taxa de
produção de trabalho mus- cular realizado ao longo do tempo
(potência = trabalho / variação do tem- po). Em atividades como
arremessos, saltos e corridas, que requerem força e velocidade
muscular, a potência é de extrema importância, para que o atleta
atinja um bom desempenho1; sendo necessária para atividades que
envolvam movimento de forma geral; vem se observando também,
muita relação com testes funcionais, de extrema importância no
envelhecimen- to71, devido à sua grande influência na função
física93. O treinamento de potência caracteriza-se pela intenção de
contrair o mais rápido possível na fase concêntrica do movimento e
com contrações excêntricas variadas, po- dendo ser rápidas (por
exemplo, quando o objetivo é envolver o ciclo alon- gamento-
encurtamento) ou lentas de aproximadamente 2 a 3 segundos37.
Tem sido observado nas pesquisas, de maneira geral, que o
exercício resistido com alta velocidade e baixa carga (treinamento de
potência) ou baixa velocidade e alta carga (treinamento resistido
tradicional) provocam respostas similares na força muscular92,94,95.
Mais recentemente, estudos têm demonstrado que o treinamento de
velocidade rápida com uma carga leve a moderada (30–60% de
1RM) mostra-se mais eficaz do que o treina- mento de velocidade
lenta na melhora da resposta de potência37,48,62,96, ou seja, diversos
estudos observaram que as adaptações na potência muscular são
observadas em maior efeito, quando realizadas velocidades de
contra- ção mais rápidas de variadas intensidades (30-85% de 1RM),
comparadas às contrações lentas37,97–102.
A intensidade de treinamento de potência divide-se em baixa
(<60%
de 1RM), baixo / moderada (60-69% de 1RM), moderada / alta (70-
79% de
1RM) e alta (>80% de 1RM). Para adultos mais velhos, o Colégio
America- no de Medicina do Esporte recomenda carga moderada e
treinamento de velocidade lenta a moderada para aumento da força
muscular e da massa
muscular61. Porém, diversos estudos vêm mostrando os benefícios de
se treinar alta velocidade e baixa carga com idosos, pois a potência
muscular tem uma relação mais forte com o status funcional do que a
força muscu- lar103. Já se tem conhecimento de que até mesmo
indivíduos muito idosos (> 80 anos) ainda devem realizar exercícios
resistidos de forma explosiva (75% a 80% de 1RM), com intuito de
melhorar a potência muscular104.
O treinamento resistido de alta velocidade tem grande
influência na melhoria de potência em idosos, obtendo melhoras
tanto da força máxima, taxa de desenvolvimento de força, quanto da
velocidade de ativação e de encurtamento dos músculos105,106. Já está
clara a diferença existente entre os protocolos de contração rápida e
lenta na potência muscular. No entan- to, em relação ao treinamento
resistido de alta velocidade, as diferentes intensidades, sejam elas
baixas ou altas, acabam por fornecer aumentos similares na potência
do músculo107. Nota-se que há um amplo conheci- mento sobre os
benefícios do exercício resistido sobre a saúde do idoso, porém
pesquisas adicionais são necessárias para esclarecer e compreender
melhor quais métodos de treino resistido são mais benéficos para
popu- lação idosa53,90,108. Além disso, estudos demonstram que a
diminuição da potência em idosos afeta diretamente a sua
funcionalidade e qualidade de vida62,109,110. Dessa maneira, torna-se
importante a realização de métodos de treinamento que acarretem
significativos ganhos de potência e que, si- multaneamente, possam
levar a um menor dano muscular33,62.
Em relação a força explosiva, definida pela capacidade de
realizar con- trações o mais rápido possível, é uma variável que
depende da força e da velocidade, além da capacidade de explosão
do músculo que está sendo recrutado (a força explosiva é
determinada pela maior quantidade de força produzida pelo músculo
em um pequeno intervalo de tempo) 76,111. A força explosiva pode
ser avaliada por meio da taxa de desenvolvimento de tor-
que/força63,112. Idosos com reduzida taxa de desenvolvimento de
torque/ força estão mais susceptíveis a implicações agudas em
relação ao sistema locomotor, aumentando o risco de quedas113,114.
Dentre os poucos estudos realizados em idosos, que avaliaram o
treinamento resistido tradicional, ou seja, de velocidade lenta,
mostram que a força explosiva quase não me- lhorou após o
treinamento96, já o treinamento resistido realizado de forma rápida
acarreta em grandes aumentos de força explosiva, sendo até mes-
mo, maiores do que os aumentos na potência, em idosos109,115.
Claflin et al.92 buscaram determinar se a alta velocidade de
treinamen- to resistido progressivo resultaria em maiores ganhos na
força e potência muscular, em comparação com o treinamento
resistido progressivo de bai-
xa velocidade, em indivíduos jovens e idosos do sexo masculino e
feminino por meio de biópsia muscular antes e após um período de
treinamento de
14 semanas. Em relação ao treinamento, um grupo (metade dos
sujeitos) realizou um protocolo tradicional de treinamento resistido
progressivo, que envolvia encurtamento das contrações em baixas
velocidades contra altas cargas, enquanto o outro grupo realizou um
protocolo de treinamen- to resistido progressivo de contrações com
velocidade 3.5 vezes maior e cargas reduzidas. Foi concluído que
tanto o treinamento resistido progres- sivo de baixa velocidade,
quanto o treinamento resistido realizado com maiores velocidades e
cargas reduzidas foram igualmente eficazes para in- duzir uma
resposta adaptativa em fibras do tipo II do músculo esquelético,
independentemente da idade e sexo do indivíduo.
Tschopp et al.95 por meio de uma revisão sistemática, buscaram
com- parar os efeitos do treinamento de potência (alta velocidade)
com o trei- namento resistido tradicional (baixa velocidade) nos
resultados funcio- nais em idosos. Foram identificados 11 estudos
envolvendo 377 sujeitos que mostraram que o treinamento de
potência foi mais benéfico para pessoas idosas do que o treinamento
resistido convencional, em relação aos resultados funcionais. Os
desfechos primários obtidos foram os testes funcionais; já os
desfechos secundários foram equilíbrio, marcha, força, potência,
volume muscular e efeitos adversos. Como resultados principais, o
tamanho do efeito, em relação aos resultados funcionais, foi de 0,32 a
fa- vor do treinamento de potência (IC 95% 0,06 a 0,57) e 0,38 (IC
95% -0,51 a
1,28). O efeito combinado de três estudos para a função referida foi
de 0,16 a favor do treinamento de potência (95% IC −0,17 a 0,49),
indicando que o treinamento de potência é viável para pessoas idosas
e tem uma pequena vantagem sobre o treinamento de força, no que
diz respeito aos resultados funcionais.
Todo esse processo de início do treinamento vem acompanhado
da dor muscular de início tardio e de reduções na capacidade de
gerar força, em um período imediato, acarretando dano muscular,
que tem maior impacto em idosos, que, por sua vez, necessitam
também de um maior tempo de recuperação116,117. Levando em conta
as limitações já existentes na funcio- nalidade do indivíduo mais
velho, em concomitante com as demais altera- ções agudas
resultantes do treinamento, o momento pós treino torna-se um
período de risco aumentado para a realização das atividades da vida
diária e outras tarefas cotidianas, comumente realizadas por
indivíduos fisicamente ativos, como por exemplo, a volta da
academia até em casa a pé e o trabalho e afazeres nos dias
subsequentes ao treino75.
Efeitos neuromusculares agudos

Apesar de o treinamento resistido acarretar em adaptações


crônicas benéficas para o desempenho neuromuscular, em relação à
célula mus- cular, algumas adaptações agudas podem comprometer
esse desempenho momentaneamente até que ocorra a
supercompensação. O treinamento de força desacostumado gera uma
sobrecarga mecânica devido às suas ações concêntricas e
excêntricas, danificando as proteínas responsáveis pela contração
e seus filamentos e tecidos que envolvem as fibras musculares91. O
processo inflamatório gera dano e dor muscular de início tardio,
fadiga, aumento da rigidez e edema muscular, comprometem a
função neuromus- cular, afetando a produção de força máxima e
explosiva, potência, flexibi- lidade e capacidade funcional117.
Todo esse processo ocorre, em maior magnitude, em indivíduos
idosos que precisam ainda, de um maior tempo para recuperação, em
comparação com pessoas mais jovens116. Nesse sentido, é de
fundamental importância estudos que verifiquem o efeito agudo de
diferentes tipos de treinamento, e em diferentes populações,
buscando o conhecimento das principais alte- rações subsequentes,
como no treinamento resistido, por exemplo62.
Até hoje, existem diversos estudos que examinam o efeito de
diferen- tes tipos de exercícios e em diferentes públicos alvo como
por exemplo, em adultos mais velhos durante o exercício
aeróbio118,119, ou durante o exercí- cio resistido90,120. Dentre os
estudos que abordam o exercício resistido, há tradicionais linhas de
investigação mais enfocadas nos efeitos agudos da ordem e
sequência dos exercícios durante o treinamento resistido, como
aqueles que investigam principalmente os efeitos no desempenho e
ava- liação muscular121.
O estudo de Richardson et al.90 analisou as respostas perceptivas
agu- das ao exercício resistido de alta velocidade, baixa carga
(HVLL), e baixa velocidade e alta carga (LVHL) sobre a percepção
de idosos. Os resultados revelaram que idosos percebem que o
HVLL pareado por carga de volume é menos exaustivo que a LVHL.
Isso apoia a ideia de que os profissionais da área da saúde devem
considerar a preferência individual do aluno ao prescrever programas
de exercícios resistidos. Essas variáveis podem afe- tar as adaptações
ao exercício. Portanto, além do aluno/cliente/paciente realizar o que
de fato trará resultados efetivos, não se pode esquecer que a
motivação e adesão ao exercício são fatores essenciais na prescrição
de exercícios.
De maneira mais intrínseca, a sobrecarga mecânica produzida pela
ação muscular (especialmente ações excêntricas) durante o
treinamento de resistência desacostumado danifica as proteínas
contráteis, os filamen- tos intermediários e o tecido conectivo que
envolve as fibras musculares, dando início a um processo
inflamatório que resulta em dor muscular de início tardio, aumento
da rigidez e inchaço muscular91 e redução na ca- pacidade de
produção de força máxima e explosiva voluntária, afetando
diretamente capacidades como a potência muscular, flexibilidade e o
equi- líbrio37,117.
Para o público idoso, é recomendado que profissionais da área
da saúde iniciem programas de treinamento resistido pensando nos
efeitos agudos do treinamento, pois eles experimentam maior dano
muscular116 e precisam de mais tempo para recuperação, em
comparação com o público jovem117. Além disso, deve-se considerar
que o idoso já se apresenta mais fragilizado em função das reduções
físicas decorrentes do envelhecimento, levando a consequências
determinantes para a realização das atividades de vida diária e
capacidade para o trabalho.
O estudo de Orssatto et al.75 objetivou comparar os efeitos de
diferentes intensidades de programas de treinamento resistido até
falha concêntrica momentânea na força máxima e explosiva dos
membros inferiores, além do comprometimento da capacidade
funcional e tempo de recuperação em idosos, visando compreender a
influência da intensidade, para evitar re- duções na função física
durante os dias após o treinamento. Participaram do estudo vinte e
dois idosos, randomizados em dois grupos [70% (G70) e 95%
(G95) de cinco repetições máximas], os quais foram testados pré
intervenção, imediatamente pós sessão, 24, 48 e 72h após. Foram
medidas a capacidade de contração isométrica voluntária máxima
(pico de torque e taxa de desenvolvimento de torque - TDT), salto
contra-movimento e capacidade funcional (time up and go, subida e
descida da escada). Ambos os grupos realizaram três séries até a
falha concêntrica momentânea com dois minutos de intervalo entre
exercícios e séries para o leg press horizon- tal e para a cadeira
flexora. Os resultados demonstraram que o movimento do dia a dia
(como subir e descer escadas) são reduzidos imediatamente após a
sessão, podendo durar por até dois dias, sendo que maiores intensi-
dades resultam em maiores comprometimentos agudos75.
Deste modo, pode-se concluir que para a prescrição de
exercícios em idosos, deve-se realizar uma periodização bem
elaborada, aumentando a intensidade gradualmente, durante os
primeiros meses de treinamento re- sistido. Pensando-se ainda na
atualidade, com a expectativa de vida alta, em que os idosos
cumprem maior tempo de trabalho e compromissos no
mesmo dia ou nos dias seguintes ao treinamento de força. Pesquisas a
res- peito do assunto são necessárias para elucidar melhor esta
temática, tendo em vista que o estudo de Orssatto et al.75 foi o
primeiro a examinar a re- cuperação do curso de tempo da força
voluntária máxima, força explosiva, potência e capacidade funcional,
após uma única sessão de treinamento de força desacostumado em
pessoas idosas.
Pode-se considerar, em resumo, que o envelhecimento é
composto por um comprometimento, gradual e inevitável do sistema
neuromuscular, tendo como principais alterações a atrofia das fibras
musculares e as redu- ções na força máxima, potência muscular e
força explosiva. Como forma de prevenir e/ou retardar estas
alterações, a atividade física regular torna-
-se, cada vez mais, uma grande aliada. O treinamento resistido e o
treina- mento de potência são muito importantes, uma vez que
melhoram a massa muscular em idosos. Comparando essas duas
formas de exercício, a litera- tura vem indicando que o treinamento
resistido de alta velocidade, fornece melhorias mais notórias na força
máxima, potência e força explosiva de idosos destreinados,
resultando, consequentemente, em maior desenvol- vimento da
capacidade funcional, mostrando-se ainda mais benéfico do que o
treinamento resistido de baixa velocidade. Dessa forma, métodos de
treinos de potência devem ser priorizados para que o idoso tenha os
maio- res benefícios possíveis, com menores danos e riscos.

Aplicações práticas

• As considerações observadas são muito relevantes para a


melhora da qualidade de vida de idosos, fornecendo
embasamento para que os profissionais de Educação Física
possam atuar com segurança e direcionamento na busca por
protocolos adequados às necessidades de indivíduos idosos.
• O treinamento resistido de forma geral, é um grande aliado
contra o sedentarismo e incapacidade física, tornando-se cada
vez mais, uma opção para o público idoso. Trazendo não
apenas benefícios neuromusculares, mas também psicossociais
e emocionais.
• A utilização de protocolos de treinamento de potência
combina- dos, inicialmente com baixa a moderada resistência,
e com aumento da intensidade no decorrer do período de
treinamento, mostram-se como a melhor opção na busca de
benefícios para a funcionalidade de idosos não treinados.
• Maiores benefícios poderão ser observados ao se realizar
esses
protocolos de exercícios resistidos com maior volume semanal
(duas a três vezes por semana), para maximizar o desempenho
funcional e os ganhos de força em adultos mais velhos.
• Uma dose mínima de treino pode ser utilizada, com baixa
intensi- dade de exercício resistido e volume de treino, cujo
protocolo tam- bém resultará em ganhos e melhorias
neuromusculares concomi- tante com um menor efeito
subsequente, progredindo através da manipulação de volume e
/ ou carga gradualmente.

Nota dos autores: A busca por artigos foi realizada nas bases de
dados Pubmed, Scielo e Science Direct por meio de uma pesquisa
avançada com os termos e palavras chave: ("elderly"[Title/Abstract])
OR "aged"[MeSH Terms]) OR "senior"[Title/Abstract]) AND
"resistance training"[MeSH Terms]) OR "strength training"
[Title/Abstract]) OR "power training"[Tit- le/Abstract]) AND
"functional capacity"[Title/Abstract]. Foram encontra- dos 149
títulos, dos quais foram lidos os títulos e abstracts, e selecionados
aqueles que estavam de acordo com a os objetivos do presente
capítulo (34 artigos foram selecionados). Quando necessário, outras
fontes de pesquisa também foram utilizadas como livros, teses ou
dissertações, obtidos em repositórios de teses e dissertações on-line
e/ou banco de teses da CAPES. Também foram lidas as listas de
referências dos principais artigos com objetivo de encontrar outros
estudos similares.
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CAPÍTULO IX
TREINAMENTO CONCORRENTE: EFEITOS NO DESEMPENHO
CARDIORRESPIRATÓRIO, NA FORÇA MUSCULAR E EM TAREFAS
FUNCIONAIS DE IDOSOS

235

Silas Nery de Oliveira


Antônio Renato Pereira Moro

O que você irá encontrar:

• A importância da prática do exercício físico na redução dos


efeitos deletérios inerentes ao processo de envelhecimento;
• Adaptações físicas provenientes de diferentes execuções do Trei-
namento Concorrente;
• Diferentes métodos de aplicação do Treinamento Concorrente
para a população idosa;
• Comparação entre diferentes métodos de treinamento quanto
as adaptações neuromusculares, cardiorrespiratórios e
funcionais;
• Eficiência do Treinamento Concorrente na melhoria de
aspectos morfofuncionais em idosos..

Introdução

A população idosa vem crescendo notadamente em todos os


países, o que significa que a população mundial está envelhecendo e
esse fenômeno pode trazer implicações para quase todos os setores da
sociedade, espe- cialmente o econômico e o demográfico1. As pessoas
estão vivendo mais, mas isso não significa necessariamente que elas
estão vivendo saudáveis.
O envelhecimento é um processo biológico multifatorial,
constituído de um conjunto de modificações funcionais, estruturais e
morfológicas que são observadas no ser humano desde o seu
nascimento até a sua morte
2. Segundo a Organização das Nações Unidas1, em 2017 a quantidade

de idosos na população mundial foi de 962 milhões de pessoas, mais


que o dobro do número dessa população em 1980, quando havia 382
milhões de idosos, e espera-se que até 2050 o número de idosos
duplique chegando a quase 2,1 bilhões de pessoas. O envelhecimento
da população mundial apresenta muitas oportunidades e também
vários desafios de saúde pú- blica, é preciso entender melhor o curso
de suas implicações, em especial, seus efeitos na capacidade física.
À medida que ocorre esse processo de envelhecimento da sociedade, a
in-
cidência na limitação do desempenho físico também aumentará3. Fato
esse que pode ser ressaltado em um estudo4 que avaliou mais de
5.000 idosos e mostrou que cerca de 55,6% desses idosos relataram
ter dificuldade em subir uma escada com 10 degraus, 40% tinham
dificuldade de deitar-se e levantar-se da cama, 25% relataram ter
dificuldades em realizar qualquer tipo de atividade doméstica e 19%
de preparar sua própria comida. Esses resultados mostram o quanto a
incapacidade física acompanha o processo de envelhecimento, sendo
o desenvolvimento progressivo dessa incapaci- dade associado com a
perda de força dos membros superiores e inferiores, velocidade da
marcha e baixo nível de atividade física5.
Essas insuficiências de capacidades físicas podem trazer
consequências muito nocivas à saúde do idoso, pois aumentam o
risco de quedas, a ne- cessidade de hospitalizações ou recorrentes
internações, desenvolvimento de comorbidade e o aumento no risco
de morte3. O impacto significativo dessas consequências exige
intervenções que visem reduzir a incapacidade física, proporcionar
uma maior independência funcional aos idosos e assim melhorar a
qualidade de vida dessa população. A prática do exercício físico pode
trazer benefícios para a redução dos efeitos negativos do comporta-
mento sedentário em pessoas idosas, desenvolvendo e mantendo o
desem- penho físico considerado essencial para ajudar na melhora da
funcionalida- de e o desempenho de atividades da vida diária dos
idosos 6.
Embora nenhum exercício físico possa interromper o processo
de en- velhecimento biológico, este capítulo tem como objetivo,
trazer evidências sobre como a prática do exercício físico pode
minimizar os efeitos deleté- rios advindos do processo de
envelhecimento, aumentando a expectativa de vida ativa e limitando
o desenvolvimento e a progressão de doenças crônicas e condições
incapacitantes indesejáveis7.

O processo de envelhecimento e suas implicações nos


aspectos cardiorrespiratórios e neuromusculares
O envelhecimento está associado a reduções cardiorrespiratórias
e neuromusculares, como redução do consumo máximo de
oxigênio (VO-
2MAX), capacidade pulmonar 8, perda gradual de massa muscular
9, força

10 e potência muscular 11. O VO2MAX, definido como a maior taxa

na qual o oxigênio pode ser absorvido e utilizado pelo corpo durante


exercícios, é uma das principais variáveis no campo da fisiologia do
exercício e é fre- quentemente utilizada para indicar a aptidão
cardiorrespiratória de um indivíduo 12, VO2MAX diminui cerca de
5 mL.kg.min1 por década, de 25
a 65 anos de idade, sendo essa redução ainda mais proeminente
após os
70 anos de idade 13, logo, a perda da função cardiorrespiratória
máxima pode, eventualmente, contribuir para a perda de
independência, aumento da incidência de incapacidades e redução da
qualidade de vida em idosos14.
No caso do músculo esquelético, nota-se reduções estruturais,
com per- da de 0,47% da massa muscular em homens e 0,37% em
mulheres a cada ano de vida, e a partir de 75 anos essa perda passa a
ser de 0,80 a 0,98% em homens e 0,64 a 0,70% em mulheres15. Essa
redução da massa muscular é chamada de Sarcopenia, uma síndrome
caracterizada pela perda progres- siva e generalizada de massa
muscular e está estritamente correlacionada com incapacidade física,
má qualidade de vida e morte principalmente na população idosa 16.
O envelhecimento também afeta a força muscular, com reduções
cerca de 2 a 5 vezes maiores que a da massa muscular. Estima-se que
aos 75 anos, ocorra a perda da força em uma taxa de 3 a 4% ao ano
em homens e 2,5 a 3%, em mulheres15. Esse processo é chamado de
Dinapenia, caracterizado pela perda de força muscular associada à
idade não prove- niente de fatores como doenças neurológicas ou
musculares, expondo os idosos a um risco maior de desenvolver
limitações funcionais e contribuir para o aumento na taxa de
mortalidade dessa população 17.
Contudo, embora a perda de força muscular tenha relação com o
sur- gimento de limitações funcionais em idosos, tem sido observado
que a potência muscular é perdida mais rapidamente que a força
muscular no processo de envelhecimento18 e isso ocorre por vários
fatores como o sur- gimento da sarcopenia, alterações na composição
de unidades motoras, qualidade muscular, propriedades contráteis
das fibras musculares e al- terações na função neuromuscular18,19. A
redução na potência muscular de idosos é um fator muito influente
no desempenho físico de tarefas diárias e, além disso, a redução da
potência muscular principalmente nos mem- bros inferiores tem uma
grande associação com o aumento no risco de quedas19,20.
A prevenção ou adiamento das limitações ou incapacidades
físicas é de grande importância para a saúde pública21, a dificuldade
de realizar ta- refas físicas como andar22, subir um lance de escadas23
ou levantar-se de uma cadeira5, são indicativas de um declínio
acentuado na saúde funcio- nal e, com o envelhecimento da
população mundial, o conhecimento e de- senvolvimento de
intervenções através da prática do exercício físico, com enfoque
aeróbio e muscular, são necessários para preservar a mobilidade e
independência funcional dos idosos, um exemplo, é a contribuição do
treinamento aeróbio e de força, na mesma sessão, na redução da
fraqueza
muscular de idosos, como pode ser visto na Figura 1.9, adaptada do
estudo de Seene e Kaasik 24.

Figura 1.9 - Efeitos do treinamento na redução da fraqueza muscular


para melhorar a qualidade de vida de idosos. Adptado de Seene e
Kaasik (2012).

Treinamento concorrente e o envelhecimento

Frente aos benefícios proporcionados pela prática isolada do


treina- mento aeróbio e o treinamento de força para idosos, o
Colégio Americano de Medicina do Esporte7 recomenda que o
treinamento aeróbio deve ser realizado de 3 a 5 dias por semana,
entre 30 a 60 minutos por dia, com- plementados pelo treinamento
de força 2 a 3 vezes por semana, a fim de promover
simultaneamente benefícios cardiorrespiratórios e neuromus- cular.
A combinação entre o treinamento aeróbio e o treinamento de força é
chamado de treinamento concorrente ou treinamento combinado25,26,
podendo ser realizado em uma mesma sessão de treinamento11 ou em
dias alternados27. Em uma breve pesquisa na plataforma PubMed,
em julho de
2018, usando os descritores elderly and “combined training” or
“concur- rent training”, foram encontrados 271 estudos com seres
humanos, dos quais foram selecionados apenas ensaios clínicos
randomizados que serão apresentados ao longo deste capítulo.
Efeito da ordem do treinamento concorrente em ido- sos

A prática do Treinamento Concorrente (TC) pode ser considerada


uma possível estratégia para retardar ou combater as reduções
musculares e cardiorrespiratórias, a fim de reduzir o
comprometimento das atividades de vida diária, todavia, como visto
anteriormente, o treinamento aeróbio (TA) e de força (TF) levam a
adaptações específicas de natureza oposta que podem proporcionar
adaptações inferiores no TC, quando comparada a execução isolada
desses treinamentos. A esse comprometimento das adap- tações no
TC dá-se o nome de efeito de interferência.
Nessa perspectiva, Cadore et al.28 investigaram os efeitos da
ordem do TC nas adaptações neuromusculares de vinte e seis homens
idosos treina- dos (64,7± 4,1anos), divididos em dois grupos: TF
seguido de TA (TF+TA, n=13) ou a sua ordem inversa (TA+TF,
n=13), submetidos a 3 sessões se- manais, ao longo de 12 semanas.
O TF consistiu de 9 exercícios, realizados entre 2-3 séries, com 6-20
repetições, a 40-93% 1RM e, TA realizado em cicloergômetro
durante 20-30 minutos a 80-95% da frequência cardíaca (FC) no
segundo limiar ventilatório (LV2), finalizando as duas últimas se-
manas com 6 séries de 4 minutos em intensidade máxima (a 100%
da FC no LV2).
Os participantes foram avaliados quanto a força máxima, obtida
atra- vés de teste de 1RM para flexão bilateral de cotovelo e
extensão de joe- lho, pico de torque isométrico para extensão do
joelho avaliado através de dinamômetro isocinético, excitação
eletromiográfica dos músculos vasto lateral (VL), reto femoral (RF)
e cabeça longa do bíceps femoral, e espes- sura muscular do
quadríceps. Após o treinamento foi observada redução significativa
do percentual de massa gorda (TF+TA: 1,7% e TA+TF: 1,3%),
houve aumento dos valores de força muscular de 1RM para flexão
do co- tovelo (TF+TA: 15% e TA+TF: 11%) e extensão do joelho
(TF+TA: 35% e TA+TF: 30%), e aumento nos valores de pico de
torque isométrico para fle- xão (TF+TA: 8% e TA+TF: 8%) e
extensão do joelho (TF+TA: 8% e TA+TF:
6%), espessura muscular dos membros superiores (TF+TA: 7% e
TA+TF:
5%), espessura muscular dos membros inferiores (TF+TA: 5% e
TA+TF:
3%), excitação eletromiográfica do VL (TF+TA: 17% e TA+TF:
18%) e RF (TF+TA: 22% e TA+TF: 14%) para ambos os grupos,
sem diferença entre eles.
Para os autores do estudo, a partir dos maiores valores
observados na sequência TF+TA em relação a sua ordem inversa, a
prescrição do TC para
idosos deve levar em consideração a execução do TF antes do TA,
contu- do, os autores não conseguiram explicar quais as possíveis
causas para a ocorrência dessas melhorias. No estudo, especula-se
que os fatores neurais podem explicar os maiores valores de força
muscular observados na sequ- ência TF+TA, pois as adaptações
morfológicas da musculatura ocorreram em ambos os grupos sem
diferença entre eles, e a sequência TF+TA apre- sentou economia
neuromuscular do reto femoral, o que sugere que houve um menor
recrutamento de unidades motoras para resistir a uma mesma carga
avaliada antes e após o treinamento. E, possivelmente, a execução do
TA antes do TF pode resultar em fadiga muscular que interfere nos
ganhos de força.
Esses resultados sobre a influência da ordem dos treinamentos,
já ha- via sido reportado por Cadore et al.29, em um estudo que
investigou os efeitos da ordem do TC sobre adaptações não somente
neuromusculares como cardiorrespiratórias em idosos ativos. Dois
grupos experimentais com diferentes ordens de execução do TC
(TF+TA e TA+TF), submetidos ao mesmo programa de treinamento,
frequência semanal e período de in- tervenção do estudo anterior28,
foram avaliados com o objetivo de determi- nar o consumo pico de
oxigênio (VO2 pico), a potência máxima alcançada em teste
incremental (Wmáx) em cicloergômetro e a Wmáx alcançada nos
limiares ventilatórios, além da qualidade muscular, avaliada através
do quociente entre força máxima alcançada através de 1RM para
extensão de joelho, e a espessura muscular do quadríceps.
Foram observados aumento da Wmáx no primeiro limiar
ventilatório apenas para o grupo TF+TA (27%), com aumento na
Wmáx (TF+TA: 20% e TA+TF: 24%), Wmáx no segundo limiar
ventilatório (TF+TA: 21% e TA+TF:
22%), e VO2 pico (TF+TA: 8% e TA+TF: 9%) para ambos os
grupos, sem diferença entre eles. Houve aumento da espessura do
quadríceps (TF+- TA: 9% e TA+TF: 9%) em ambos os grupos,
assim como, aumento da for- ça muscular. Contudo, neste caso, os
valores alcançados no teste de 1RM para o grupo TF+TA (35%)
foram significativamente maiores que aqueles alcançados pelo
grupo TA+TF (22%). Para qualidade muscular, ambos os grupos
apresentaram melhora dos valores obtidos, mas o grupo TF+- TA
(27%) apresentou aumento significativo em relação ao grupo
TA+TF (15%).
Os participantes, independente da ordem de execução do TC,
foram
capazes de sustentar maiores cargas de trabalho nos limiares
ventilatórios
1 e 2, sem alteração significativa do consumo de oxigênio nesses
mesmos limiares e, para os autores, esse resultado pode ser em
decorrência de ajus-
tes neuromusculares, pois pessoas idosas podem utilizar um
percentual de força menor, recrutando poucas fibras do Tipo II, e
usando preferencial- mente fibras de metabolismo oxidativo no
desempenho de esforços sub- máximos, assim como as atividades de
vida diária 29,30.
Essa mesma hipótese foi abordada para as adaptações
neuromuscu- lares, pois ambos os grupos tiverem melhoras na
qualidade muscular e espessura do quadríceps, sugerindo que as
adaptações neurais influencia- ram nos maiores ganhos de força para
a sequência TF+TA em relação a sua ordem oposta. De um ponto de
vista prático o TF seguido do TA parece ser a sequência mais
indicada para melhorar a capacidade funcional de idosos, através de
adaptações neurais que levam a maiores desempenhos em esforços
submáximos, sem grandes custos cardiorrespiratórios, além do ganho
de força muscular de membros inferiores, importantes para pre-
venção de quedas, melhora da marcha e execução das atividades de
vida diária.
Achados similares foram obtidos em um estudo mais recente31,
onde foram investigados os efeitos da ordem do TC no
desempenho aeróbio e de força em homens idosos sedentários
(64,7± 4,1 anos). Os participantes foram alocados em três grupos:
controle, TF+TA e sua ordem inversa, sen- do estes dois últimos
grupos submetidos a 3 sessões semanais, ao longo de
12 semanas, seguindo o protocolo de treinamento mencionado
anterior- mente28. Os participantes foram avaliados quanto ao VO2
pico, segundo limiar ventilatório, Wmáx e economia metabólica,
representada pelo VO2 mensurado nos esforços a 25, 50, 75 e 100
Watts no cicloergômetro. Após o período de intervenção, os autores
observaram aumento similar nos dois protocolos de treinamento para
o VO2pico (TF+TA: 8% e TA+TF: 9%) e Wmáx (TF+TA: 19% e
TA+TF: 24%) e economia metabólica com redução do VO2 a 100
Watts no cicloergômetro, sem diferença entre os dois protocolos de
treinamento.
Os autores apresentam que o TC pode melhorar a potência
aeróbica máxima de idosos, independente da ordem de execução do
treinamento, e que possíveis explicações para a redução do VO2
encontrados no estu- do, podem estar relacionados com ganhos de
força muscular dos partici- pantes, levando a um maior recrutamento
de fibras do tipo I para uma a mesma carga avaliada antes e após o
período de treinamento, assim como ajustes na frequência de
estímulos das unidades motoras pelo sistema ner- voso, ou melhor
coordenação muscular, sendo esses fatores responsáveis pela melhor
eficiência mecânica que reduz o consumo de oxigênio para uma
mesma intensidade avaliada30,32,33.
Compreendendo melhor o programa de treinamento dos estudos
su- pracitados, pode-se perceber que a manipulação da intensidade
do treina- mento se dá pela progressão da carga ao longo das
semanas de interven- ção, porém a prescrição com base no tipo de
intensidade (leve, moderada ou alta) ainda é pouco explorada. Nesse
contexto, um estudo recente34 avaliou o efeito da ordem do TC com
diferentes intensidades do TF no de- sempenho funcional e de força
muscular em idosas saudáveis ao longo de
10 semanas, com 2 sessões semanais. As participantes foram
divididas em cinco grupos: Grupo controle, TA+TF com intensidade
moderada, TA+TF com intensidade leve, TF com intensidade
moderada +TA, e TF com inten- sidade leve +TA.
Todos os grupos experimentais realizaram o mesmo TA, que
consistiu de exercício em cicloergômetro por 20 minutos, entre 50-55
repetições por minuto (rpm), a 60% FC de reserva ou entre 12-14 na
escala de Borg. O TF consistiu de 5 exercícios, executados em 3
séries, sendo as participantes do grupo com intensidade leve,
realizando de 10-15 repetições a 40-50%
1RM, e as participantes no grupo com intensidade moderada,
realizando de 8-12 repetições a 70-80% 1RM. As participantes foram
avaliadas quan- to velocidade da marcha em 10 metros, capacidade
de equilíbrio dinâmico, flexibilidade de MMII, e teste de 1 RM em
5 exercícios para os grandes grupos musculares.
Para a capacidade funcional os autores observaram redução do
tempo para execução da marcha em 10 metros para todos os grupos
de treina- mento sem diferença entre eles tanto em relação a ordem
de execução do TC. Todavia, em relação ao equilíbrio dinâmico
houve melhora significa- tiva para os grupos TA+TF com
intensidade moderada (12%) e sua ordem inversa (13%). Nos testes
de 1RM, foram observados ganhos de força mus- cular nos 5
exercícios avaliados, sem diferenças significativas entre os gru- pos,
seja por intensidade do TF ou ordem de execução do TC.
Com base nos resultados, os autores sugerem que embora o TC
de bai- xa intensidade possa melhorar a habilidade da marcha, o TC
de intensi- dade moderada melhora a habilidade da marcha e o
equilíbrio dinâmico, sendo este mais eficiente para prevenir
incidentes como o risco de queda na população idosa. Essa diferença
entre os protocolos do TF, quando re- alizado em intensidade leve e
moderada, podem influenciar na magnitude dos ganhos força e
refletir em melhoras da capacidade funcional. Lasevi- cius et al.35
investigaram os efeitos de diferentes intensidades do TF nas
respostas do teste de 1RM para os exercícios de flexão do cotovelo e
leg press, e observaram que o TF realizado em intensidades entre
60-80%
1RM podem promover maiores efeitos no recrutamento de unidades
mo- toras, frequência de disparo de unidades motoras e/ou alterações
nas ra- zões de co-excitação agonista-antagonista comparado ao
treinamento em intensidades mais baixas.
Logo, observando o estudo de Shiotsu e Yanagita34, podemos
inferir que não há um efeito da ordem de treinamento sobre o
desempenho fun- cional e força muscular em idosas, mas um efeito
da intensidade do treina- mento que é aplicado no TC para melhoria
desses aspectos. Similarmente a este estudo, Wilhelm et al.36
investigaram o efeito da ordem do TC sobre os aspectos musculares e
funcionais de homens idosos, porém o TF a ser executado no TC foi
adaptado para que se assemelhasse a rotina de um treinamento de
potência muscular. Participaram do estudo 36 idosos se- dentários,
divididos em três grupos: Grupo Controle, TA+TF e sua ordem
inversa, submetidos a um período de 12 semanas, com sessões de
treina- mento para os grupos experimentais realizadas duas vezes por
semana. O TA consistiu de exercício em cicloergômetro entre 20-
40 minutos, entre
80-90 rpm, a 85-90% FC no segundo limiar ventilatório, enquanto
o TF consistiu de 8 exercícios, executados em 3 séries, entre 8-12
repetições, onde a fase concêntrica foi realizada da forma mais rápida
possível.
Os participantes foram avaliados quanto a espessura do
quadríceps, eco-intensidade do reto femoral, força muscular de 1RM
para extensão de joelho, potência muscular obtida a 60% de 1RM
durante a extensão de jo- elho, excitação eletromiográfica do
músculo vasto lateral durante o teste
1RM, e teste de resistência muscular localizada de sentar e levantar
em 30 segundos (30s). Comparando o período pré em relação ao
período pós-
-treinamento, foi observado para TA+TF e sua ordem inversa,
aumento da força (16% e 14%, respectivamente) e potência muscular
(23% e 22%, res- pectivamente) na extensão de joelho, espessura
muscular do quadríceps (9% e 9%, respectivamente), excitação
eletromiográfica do vasto lateral (24% e 24%, respectivamente),
número de repetições no teste de 30s (15% e 13%, respectivamente) e
redução da eco-intensidade do reto femoral (6% e 6%,
respectivamente), sem diferença entre os grupos.
O estudo mostrou como o TC, independente da sua ordem de
execu- ção, pode intervir sobre os efeitos deletérios do
envelhecimento, através dos ganhos de força e potência muscular de
idosos, que influenciam di- retamente no desempenho funcional
dessa população. Além disso, o pro- grama de treinamento utilizado
no estudo de Wilhelm et al.36, parece ser capaz de gerar adaptações
morfológicas da musculatura, avaliados atra- vés da eco-intensidade,
e em parte explicaria os ganhos de força muscu-
lar observados no teste de 1RM. A eco-intensidade é um instrumento
que consegue avaliar a quantidade de tecido contrátil e não contrátil
presentes na musculatura, e tem associação com o desempenho
funcional, a força e potência muscular36, em outras palavras, a
melhora da eco-intensidade de um músculo pode refletir na redução
de elementos não contráteis e au- mento da participação de tecido
contrátil para desempenhar uma determi- nada tarefa, gerando assim
maior produção de força e consequentemente um melhor
desempenho funcional.

Variações do treinamento de força no treinamento


concorrente
A inclusão periódica de diferentes estímulos para o
desenvolvimento da força muscular, através de diferentes tipos de
treinamento de força, é bastante recomendada para o ganho da força
e suas variantes na popula- ção idosa37. Nesse contexto, vários
estudos têm buscado compreender os efeitos da variação do TF
inserido no TC. Dois estudos de um mesmo gru- po de pesquisa,
avaliaram os efeitos do TC realizado com diferentes varia- ções do
TF, em parâmetros neuromusculares38, fisiológicos e funcionais39 em
52 homens idosos saudáveis (66,2 ± 5,2 anos) divididos em 3
grupos: TF realizado até a falha concêntrica +TA (G1); TF sem
falha concêntrica
+TA (G2); e TF sem falha concêntrica com volume total de
treinamento equalizado +TA (G3).
O programa de treinamento consistiu de duas sessões semanais
ao longo de 12 semanas de intervenção, onde o TA foi realizado em
esteira durante 20-30 minutos, a 60-75% da FC máxima e o TF
consistiu de 7 exercícios, sendo 5 deles realizados em 2-3 séries,
entre 8-20 repetições, enquanto 2 exercícios (extensão de joelho e
leg press) tiveram uma pro- gressão de volume e intensidade de
forma particular, onde o G1 realizou cada série até a falha
concêntrica, e os grupos 2 e 3 realizaram séries entre
65-75% 1RM com número de repetições definidas, ou seja, não
realizados até a falha concêntrica. Contudo, o G2 realizou o mesmo
número de séries que o G1, enquanto G3 realizou o dobro do
número de séries realizadas por G1, com seu volume total equalizado
pelo volume total de treinamento do G1.
No estudo de Silva et al.38 foi avaliada a força muscular nos
exercícios extensão de joelho e leg press no teste de 1 RM, pico de
torque isométrico e taxa de desenvolvimento de força a 0-50, 0-100
e 0-250 milissegundos para extensão de joelho, atividade
eletromiográfica do vasto lateral e reto
femoral durante teste isométrico, espessura muscular e qualidade
mus- cular do quadríceps, e desempenho em salto agachado e salto
com contra movimento. Após o período de intervenção, houve
aumento da força má- xima no exercício de extensão de joelho (G1:
25%; G2: 23%; G3: 31%) e leg press (G1: 45%; G2: 41%; G3: 45%),
pico de torque isométrico (G1: 11%; G2: 10%; G3: 5%), melhora no
salto agachado (G1: 12%; G2: 5%; G3: 12%) e com contra
movimento (G1: 7%; G2: 8%; G3: 7%), qualidade muscular (G1:
17%; G2: 20%; G3: 21%), melhora da taxa de desenvolvimento de
for- ça em todas os intervalos avaliados, e maior excitação do vasto
lateral (G1:
14%; G2: 7%; G3: 15%), sendo todas essas melhoras obtidas para
todos os grupos sem diferença entre eles. Apenas para a qualidade
muscular foram observadas melhoras de 10% para o G1 e 8% para o
G3, sem mudanças observadas no G2.
No estudo de Cadore et al.39 foi avaliada a capacidade funcional
através do desempenho no teste Time up and Go (TUG) e teste de
sentar e levan- tar, potência muscular dos membros inferiores por
meio do desempenho em salto agachado e salto com contra
movimento, capacidade cardiorres- piratória através do VO2 pico,
além das concentrações séricas de glicose e lipídios sanguíneos e
pressão arterial. Os autores observaram melhorara no desempenho do
teste de sentar e levantar cerca de 1,5%, melhora no salto agachado
(G1: 12%; G2: 5%; G3: 12%) e com contra movimento (G1:
7%; G2: 8%; G3: 7%), aumentaram o VO2 pico (G1: 8%; G2: 1%;
G3: 5%) e as concentrações de colesterol de alta intensidade (G1:
11%; G2: 15%; G3:
10%), em todos os três grupos sem diferença entre eles, enquanto
para as demais avaliações realizadas, não foram observadas
mudanças significa- tivas.
De um ponto de vista prático, os estudos38,39 apontam que a
execu- ção do TF até a falha concêntrica no TC não é necessária para
propor- cionar melhorias adicionais no desempenho
neuromuscular, funcional ou cardiorrespiratório em homens idosos
saudáveis, e que a execução de séries submáximas, ou seja, não
realizadas até a falha concêntrica podem ser uma alternativa eficiente
para melhorar a função neuromuscular e a hipertrofia muscular em
idosos, respostas estas importantes e de grande relevância para um
envelhecimento saudável. Um exemplo está na melho- ria da força e
potência muscular, e na taxa de desenvolvimento de força que são
fortemente associadas com a capacidade de realizar atividades de
vida diária na população idosa, como no teste de sentar e levantar. Os
au- tores dos estudos Silva et al.38 sugerem que essas melhorias
podem estar associadas com maior recrutamento de unidades
motoras, que podem ser
observadas por meio dos resultados da eletromiografia, além de um
possí- vel aumento na frequência de disparo neural para essas
unidades motoras e uma maior participação de tecido contrátil
observada pela melhora da qualidade muscular.
Partindo do pressuposto que a realização do TF de baixa
intensidade (20% 1RM) induzem ganhos similares de força e massa
muscular compa- rado ao TF convencional (80% 1RM) 40, e que os
idosos deveriam se exer- citar em baixas intensidades no TF por se
aproximarem das intensidades exigidas nas atividades cotidianas,
Libardi et al.27 investigaram os efeitos de dois tipos de TC na aptidão
aeróbia, massa e força muscular em idosos (64,7 ± 4,1 anos) ao
longo de 12 semanas de intervenção com 4 sessões semanais. Os
participantes foram alocados em 3 grupos: TA+TF conven- cional;
TA+TF com restrição de fluxo sanguíneo; e Grupo controle. O pri-
meiro grupo realizou no TA caminhada de 40-50 minutos em uma
pista de
400 metros, com intensidade variando entre 60-85% do VO2 pico,
enquanto o TF consistiu de em 4 séries de 10 repetições entre 70-
80% 1RM no exer-
cício leg press. O segundo grupo realizou o mesmo TA mencionado
ante- riormente e o TF consistiu em uma série de 30 repetições,
progredindo para 3 de 15 repetições a 20% 1RM, associadas à
restrição parcial do fluxo sanguíneo, no exercício leg press.
Os participantes foram avaliados quanto ao VO2pico, força máxima
ava-
liada através de 1 RM no exercício leg press e área de secção
transversa do quadríceps. Os autores observaram que ambos os tipos
de TC, conven- cional e com restrição de fluxo sanguíneo, foram
capazes de aumentar o VO2pico (9,5% e 10,3%, respectivamente),
força muscular (38,1% e 35,4%, respectivamente) e área secção
transversa do quadríceps (7,3% e 7,6%, res- petivamente), sem
diferença significativa entre os grupos. Para os autores o aumento da
força muscular no grupo de TC pode ter ocorrido devido ao grande
volume de treinamento aplicado. Enquanto no grupo com restrição de
fluxo sanguíneo, essa melhora pode ter ocorrido por causa da fadiga
muscular que levou a um maior recrutamento de fibras do tipo II e,
essa melhora na força de ambos os grupos pode possivelmente ter
influenciado no aumento da área de secção transversa do quadríceps.
Assim, os autores afirmam que ambos os tipos de TC aplicados no
estudo são eficientes para melhorar a aptidão aeróbia, massa e força
muscular em idosos, ajudando na manutenção das atividades de vida
diária dessa população sem risco de quedas causadas por fadiga ou
fraqueza muscular.
Comparação entre o treinamento concorrente e ou- tros
tipos de treinamento

Na busca para compreender como os diversos tipos de


treinamento auxiliam na melhora cardiorrespiratória e
neuromuscular, algumas pes- quisas têm investigado os efeitos do TF
e do TA quando realizados de for- ma isolada e comparando esses
efeitos em relação aos obtidos pelo TC. Cadore et al.41 investigaram
os efeitos de 3 tipos de treinamento na capaci- dade aeróbia e
economia neuromuscular em 23 homens idosos saudáveis (65 ± 4
anos), submetidos a 12 semanas de treinamento. Os participantes
foram divididos em: TA, TF e TF+TA. O programa para o TA foi
realizado entre 20-30 minutos em ciclo ergômetro, a 80-95% da FC
no LV2 e nas duas últimas semanas de treinamento foram realizadas
6 séries de 4 mi- nutos a 100% da FC no segundo limiar, enquanto o
TF foi realizado com 9 exercícios, de 2-3 séries, entre 12-20 RMs. O
grupo TF+TA realizou ambos os programas de treinamento
anteriores.
Foram realizadas avaliações para determinar a Wmáx, o VO2pico, e exci-
tação eletromiográfica do VL, RF, cabeça longa do bíceps femoral
(BF) e porção lateral do gastrocnêmio (GL) durante teste em ciclo
ergômetro. Os autores observaram que após o período de intervenção
houve aumento do VO2 pico para o TA (20%) e TF+TA (22%),
aumento da Wmáx para TF+TA (20%) e TA (22%), e redução da
atividade eletromiográfica do RF para os
3 grupos e do VL para TF+TA e TA. Com base nesses achados, os
autores descrevem que as possíveis melhoras no VO2 pico pode estar
associada à melhora de componentes centrais, como o aumento da
difusão pulmonar de oxigênio e débito cardíaco, além de
componentes periféricos como den- sidade e volume mitocondrial e
maior capilarização.
Para a Wmáx, os autores sugerem que a melhoria pode estar relaciona-
da com maior recrutamento de fibras do tipo I para a mesma
intensidade submáxima e melhor coordenação muscular, o que
ocasionou uma melhor eficiência mecânica, influenciando também
em uma redução do VO2 em intensidades submáximas. Além disso,
possivelmente, com esse aumento da Wmáx, as intensidades
submáximas exigem um menor recrutamento de unidades motoras,
assim como um maior recrutamento de fibras do tipo I que
apresentam um limiar de recrutamento mais baixo, e assim resultan-
do em um menor sinal eletromiográfico.
No estudo realizado por Lee et al. 42 foram avaliados os efeitos
de 8 semanas de treinamento sobre a composição corporal, força
muscular ava- liada através de aparelho isocinético e risco
cardiovascular de 40 mulheres
idosas divididas em 2 grupos: TA+TF e TA. O grupo de TA+TF
realizou TA em esteira durante 40 minutos, a 40-70% da FC de
reserva, seguido de TF com 13 exercícios, realizados em 2 séries de
15-20 repetições. O grupo TA realizou treinamento em esteira
durante 40 minutos a 40-70% da FC de reserva.
As participantes foram avaliadas quanto à composição corporal,
tor- que isocinético da articulação do joelho, além de coleta
sanguínea. Após o período de intervenção, foi observada redução do
percentual de gordu- ra (TA+TF: 7% e TA: 1%), aumento
significativo da massa muscular para TA+TF (2%) em relação a TA
(que apresentou redução de 1%), aumento do pico de torque para
flexão do joelho esquerdo e direito para TA+TF (15% e 13%,
respectivamente) sem mudanças para TA, e redução da proteína C
reativa (TA+TF: 75% e TA: 36%). Os autores afirmam que a síntese
de pro- teína muscular estimulada pelo TF no TC foi o responsável
pela melhora da massa muscular e, que isso pode ter auxiliado na
melhora do pico de torque, uma vez que este, que pode ser
influenciado pela área de secção transversa muscular e pelo aumento
no número de unidades motoras.
Para Cadore et al.41 independetemente do tipo de treinamento
(força, aeróbio ou concorrente), os idosos podem melhorar a
economia de mo- vimento e potência aeróbia. Enquanto para Lee et
al.42, o TC aumenta a massa e força muscular e reduz o fator de risco
cardiovascular de idosos, mostranto assim a eficiência do TC frente
aos demais tipos de treinamento na melhoria cardiorrespiratória e
neuromusucular importantes para um envelhecimento saudável e
redução no desenvolvimento de comorbidades.
Outro estudo43 considerou que o treinamento intervalado de alta
in- tensidade pode ser uma ótima estratégia para otimizar o tempo de
trei- namento, além de servir como tratamento não medicamentosos
para o Diabetes tipo 2, uma condição muito comum em pessoas
idosas. Todavia, como várias entidades recomendam a prática do TC
para a população ido- sa, Martins et al.43 avaliaram se o treinamento
intervalado de alta intensi- dade utilizando o próprio peso corporal,
era uma boa estratégia para me- lhorar a composição corporal,
muscular e funcional de idosas diabéticas, quando comparado ao TC.
Para isso, foram recrutadas 16 idosas com alto risco de Diabetes tipo
II para participar do estudo, sendo estas divididas em 2 grupos:
treinamento intervalado de alta intensidade (TI) e TC, sub- metidas a
12 semanas de intervenção.
O TI consistiu de 4-10 séries de 30 segundos de execução no
exercício de subir e descer do step, seguido de 30 segundos de
agachamento com o próprio peso corporal, todos os exercícios
foram realizados a 85% FC
máxima ou entre 7-8 na escala de Borg. O TC consistiu de 15-30
minutos de caminhada a 70% da FC máxima seguido de 5 exercícios
de força, rea- lizados em 1-3 séries, entre 8-12 repetições, a 70%
1RM. As participantes foram avaliadas quanto a massa muscular,
percentual de massa gorda, força muscular avaliada através do teste
de 1RM para extensão do joelho, velocidade de marcha e amostras
sanguíneas. Após o período de interven- ção, os autores observaram
aumento da massa muscular (TC: 3% e TI: 3%) e melhora na
velocidade de marcha (TC: 9% e TI: 4%), redução da insulina (TC:
13% e TI: 18%), glicose (TC: 2% e TI: 7%), hemoglobina glicada
(TC:
6% e TI: 5%) em ambos os grupos sem diferença entre eles, e
aumento significativo da força muscular apenas para o grupo que
realizou TC (34%).
Os autores apresentam que embora TF realizado acima de 70%
1RM seja o recomendado para induzir aumento do volume
muscular7 em ido- sos, o estudo apresentou que o protocolo de TF
utilizado também propor- cionou ganhos hipertróficos com
intensidades menores. Intensidades es- tas mais próximas daquelas
realizadas nas atividades de vida diária. Além disso, ambos os grupos
melhoraram a capacidade de marcha, que é um forte marcador de
desempenho associado com quedas, hospitalizações e doenças
cardiorrespiratórias44,45. Com uma amostra de diabéticas, o estu- do
também conseguiu observar que ambos os treinamentos são
eficientes para melhorar marcadores bioquímicos associados a
diabetes, mostrando que o TI é comparável ao TC na melhoria de
massa magra, velocidade de marcha e marcadores bioquímicos,
porém não induz maiores ganhos de força muscular.
Um estudo envolvendo apenas aspectos relacionados a
capacidade funcional foi realizado por Sousa et al.46 que avaliaram
os efeitos de dife- rentes tipos de treinamento nas respostas de
capacidade funcional em 59 homens idosos (69,1 ± 5 anos) divididas
em 3 grupos: TA; TA+TF e, Grupo Controle, os quais, realizaram 3
sessões semanais de treinamento ao longo de 9 meses. O grupo de
TA realizou 2 dias de caminhada por 30 minutos, seguido de 10
minutos de exercícios de resistência muscular localizada, e um dia
de treinamento em ambiente aquático com atividades diversas. O
grupo de TC realizou o mesmo TA do grupo anterior, seguido de TF,
que consistiu de 7 exercícios, realizados com 3 séries, entre 8-12
repetições, a
65-75%
1RM.
Os participantes foram avaliados quanto à composição corporal,
teste de sentar e levantar, flexão de cotovelo, flexibilidade de
membros inferio- res e superiores, velocidade de marcha e o teste
TUG. Decorridos 9 meses de intervenção, foi observado que ambos
os grupos de intervenção melho-
raram em todas as condições avaliadas em relação ao GC. Embora o
grupo TA+TF tenha obtido maiores ganhos em relação a TA no
teste de sentar e levantar (TA+TF: 15%; TA: 12%), flexão de
cotovelo (TA+TF: 19%; TA:
12%), flexibilidade de membros inferiores (TA+TF: 88%; TA: 55%)
e supe- riores (TA+TF: 51%; TA: 29%), TUG (TA+TF: 10%; TA:
8%), exceto para velocidade de marcha (TA+TF: 4%, TA: 5%). Em
resumo, os autores apre- sentam que o TC é um programa, um
treinamento eficiente para melhorar todos os componentes funcionais
e relacionados com as atividades de vida diária, e mesmo não tendo
sido avaliadas variáveis relacionadas com adap- tações
neuromusculares em ambos os grupos, através dos demais estudos
apresentados ao longo desse capítulo pode-se inferir os possíveis
fatores que contribuíram para essa melhora.

Volume semanal do treinamento concorrente

Alguns estudos têm observado que diferentes volumes semanais


do TF podem induzir ganhos similares de força muscular em
idosos. Um estu- do realizado por DiFrancisco-Donoghue, Werner e
Douris47 observou que uma sessão de TF por semana foi suficiente
para gerar ganhos de força muscular equivalentes a duas sessões
semanais de TF. Essa efetividade em termos de tempo, despertou o
interesse do quanto o volume semanal de TC pode contribuir na
melhora da prescrição desse tipo de treinamento para idosos. Assim,
Ferrari et al.48 compararam o efeito de diferentes volu- mes semanais
de TC nas adaptações neuromusculares e cardiovasculares de vinte e
quatro homens idosos (65 ± 4 anos) previamente treinados, os quais
foram divididos dois grupos de TC: TF+TA com 2 sessões semanais
(G2) e TF+TA com 3 sessões semanais (G3), todos submetidos 12
semanas de treinamento. O TF consistiu de 9 exercícios, realizados
em 3 séries, com
6-10 repetições, e TA realizado em cicloergômetro durante 30
minutos a
85-95% da FC no
LV2.
Os participantes foram avaliados quanto à força máxima, obtida
atra- vés de teste de 1RM para flexão bilateral de cotovelo e
extensão de joelho, pico de torque isométrico para extensão do
joelho avaliado através de di- namômetro isocinético, excitação
eletromiográfica dos músculos VL e RF, espessura muscular do
quadríceps, VO2pico, Wmáx, e limiares ventilatórios 1 e 2. Após o
treinamento foi observado aumento nos valores de força mus- cular
de 1RM para flexão do cotovelo (G2: 10% e G3: 7%) e extensão
do joelho (G2: 22% e G3: 20%), espessura muscular dos membros
superiores (G2: 6% e G3: 6%), espessura muscular dos membros
inferiores (G2: 4%
e G3: 5%), VO2 pico (G2: 22% e G3: 14%), VO2 nos limiares
ventilatórios
1 (G2: 18% e G3: 6%) e 2 (G2: 14% e G3: 5%) para ambos os
grupos, sem diferença entre eles. Para o pico de torque isométrico e
excitação eletro- miográfica dos músculos VL e RF não foram
observadas mudanças sig- nificativas para ambos os grupos
enquanto para a Wmáx foi observado aumento apenas para o G3
(18%).
Os autores sugerem que a realização de baixos volumes
semanais de TC, ou seja, realização de duas sessões semanais, podem
melhorar a apti- dão física geral de homens idosos previamente
treinados assim como a re- alização de três sessões semanais, o que
do ponto vista prático significa que pode ser uma otimização do
tempo para a prescrição de um treinamento cujo objetivo seja
melhorar aspectos cardiorrespiratórios e neuromuscu- lares. Além
disso, os autores apresentam que a ausência de alterações na
excitação eletromiográfica dos músculos VL e RF observada em
ambos os grupos pode ser explicada pelo fato de que tais alterações
refletem as adap- tações neurais, geralmente observadas nas fases
iniciais do treinamento, as quais não puderam ser observadas em
decorrência do nível de condicio- namento prévio dos participantes.
Similarmente, outro estudo49 avaliou os efeitos de duas e três
sessões semanais de TC em vinte e quatro homens idosos (65 ± 4
anos) subme- tidos a 10 semanas de intervenção. Os participantes
foram divididos em TF seguido de TA com 2 sessões semanais (G2)
e TF seguido de TA com 3 sessões semanais (G3), seguindo o
programa de treinamento citado ante- riormente48. Foram realizadas
as avaliações de potência muscular através do salto com contra
movimento, piso de torque isocinético a 60 e 180°s, e qualidade
muscular dos extensores do joelho. Os autores observaram que após
o período de intervenção, ambos os grupos obtiveram aumento da
qualidade muscular (G2: 67% e G3: 25%) e potência muscular (G2:
6% e G3: 10%), pico de torque isocinético a 60°s (G2: 4% e G3: 2%)
e 180°s (G2:
7% e G3: 1%), sem diferença significativa entre
eles.
O estudo demonstrou que através do TC, realizado em diferentes
volu- mes (duas ou três vezes por semana), possibilita a melhora
tanto no salto com contra movimento quanto no pico de torque
isocinético realizado em velocidade rápida (60°s), os quais são
considerados dois métodos impor- tantes para avaliar a potência
muscular de membros inferiores em idosos. Também sabe-se que o
envelhecimento está associado a reduções da força por unidade de
massa muscular (qualidade muscular) e nesse estudo49 pode-se
observar que o TC melhora significativamente a qualidade mus-
cular com 2 ou 3 sessões semanais. Assim, o estudo demonstrou que
o TC
pode retardar ou reduzir os efeitos deletérios do processo de
envelheci- mento no sistema neuromuscular de idosos e que este
resultado pode ser alcançado com baixos volumes semanais de
exercício.
Em suma, ao longo deste capítulo foi apresentado como o
envelheci- mento influencia de forma negativa no consumo de
oxigênio, força e potên- cia muscular, e que esse processo pode ter
seus efeitos reduzidos ou atenu- ados através da prática combinada
do treinamento aeróbio e treinamento de força, ou seja, o
treinamento concorrente. Esse tipo de treinamento é recomendado
pelas entidades internacionais para promover simultane- amente
melhoras cardiorrespiratórios e neuromusculares, importantes para
idosos principalmente em se tratando da capacidade funcional dessa
população. Por se tratar de uma associação entre dois tipos de
treinamen- to, alguns estudos trazem a influência da ordem desses
treinamentos sobre os componentes cardiorrespiratórios e
neuromusculares, e através da lite- ratura apresentada, pudemos
observar que as melhorias para a população idosa são obtidas
independentemente da ordem de execução, mas que por
apresentarem maiores valores, a ordem de execução treinamento de
força seguido de treinamento aeróbio parece ser a mais indicada para
idosos.
Além disso, pode-se observar que dentro do treinamento
concorrente há variadas formas de realizar o treinamento de força
afim de otimizar o tempo ou alcançar melhorias sem altas cargas e
intensidade, assim como, o volume semanal desse tipo de
treinamento que também pode ser reali- zado com um número
mínimo de sessões sem reduzir significativamente as melhorias
alcançadas pela população idosa quando comparado com fre-
quências semanais maiores. O treinamento concorrente também pode
ser eficiente em relação a outros tipos de treinamento e pode ser
considerado um programa eficiente para melhorar componentes
funcionais e aqueles relacionados com as atividades de vida diária.
Enfim, o treinamento con- corrente permite a melhora da aptidão
cardiorrespiratória e neuromuscu- lar, assim como alguns
marcadores metabólicos de idosos, que são impor- tantes para
garantir melhorias na capacidade funcional, saúde e qualidade de
vida da população idosa.
Aplicações práticas

• O Treinamento de Força seguido do Treinamento Aeróbio


parece ser a sequência mais indicada para proporcionar
melhoras neuro- musculares e de capacidade funcional de
idosos.
• A aplicação da intensidade moderada no Treinamento
Concorren- te pode gerar maiores ganhos neuromusculares e de
desempenho funcional.
• Em casos de pouca disponibilidade de tempo, o Treinamento
de Força presente no Treinamento Concorrente não precisa ser
reali- zado até a falha concêntrica e, com a ajuda de
profissional com do- mínio adequado da técnica, outra
alternativa pode ser a aplicação da técnica de restrição de fluxo
sanguíneo.
• Baixos volumes semanais de Treinamento Concorrente
também são eficientes para melhorar aspectos
cardiorrespiratórios e neuro- musculares de idosos.
• Idosos com baixa capacidade funcional ou que apresentem
fator de risco cardiovascular podem realizar o Treinamento
Concorrente.
• Com prescrição adequada o Treinamento Concorrente pode
ser considerado um eficiente programa de treinamento para
gerar me- lhorias próximas àquelas alcançadas pelo
Treinamento Aeróbio e de Força quando realizados de forma
isolada.
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260
CAPÍTULO X
COMPROMETIMENTO DA PRODUÇÃO DE FORÇA
DECORRENTE DA DOR AGUDA: ESTRATÉGIAS PARA O
MONITORAMENTO NEUROMUSCULAR

Manoela Vieira Sousa


Lucas Bet da Rosa Orssatto

O que você irá encontrar:

• As alterações na atividade motora que são provocadas na


condição de dor musculoesquelética por mecanismos periféricos
e centrais;
• As mudanças que a dor muscular podem provocar nos
movimen-
tos do controle
motor;
• Em situação controlada, como a Dor Experimental Induzida,
as tarefas podem ser executadas com melhor precisão do que na
au- sência de dor;
• A técnica da Eletromiografia, na condição de dor, pode
contribuir para verificar a capacidade de produzir força sem a
dependência do sistema nervoso central;
• Por meio da Estimulação Elétrica concomitante com as contra-
ções involuntárias, é possível entender a influência na
capacidade de produção de força pelas propriedades contráteis
sem qualquer dependência de fatores neurais.

Introdução

A capacidade de produção de força é de extrema importância1-3,


seja nas atividades diárias ou no desempenho de atletas em modalidades
esportivas1, sendo considerada um componente fundamental tanto para
saúde como para o rendimento, seja para realização de atividades
motoras ou preven- ção de doenças2. Dentre as diversas formas de
avaliar a produção de força (e.g., trabalho, potência, força explosiva,
etc.), a mais comumente utilizada envolve a força máxima4,5,
caracterizada como o potencial máximo que o in- divíduo pode gerar
durante uma contração voluntária máxima. Em adição, a força
explosiva tem sido uma variável amplamente utilizada, por estar in-
timamente relacionada à grande produção de força em curtos intervalos
de tempo1,4. Sua relação está ligada com a realização de movimentos
rápidos, em modalidades esportivas6 (e.g., sprints e chutes), atividades
motoras de idosos, na capacidade funcional e no equilíbrio dinâmico e
estático3,7.
A capacidade de produção de força máxima e explosiva são
resultados do desempenho e combinação sincronizada dos sistemas
nervosos central e periférico. Pode-se destacar como características
do sistema nervoso central a velocidade do drive eferente, frequência
e intensidade dos dis- paros das unidades motoras8. Já para o
periférico, a intensidade e veloci- dade da contração muscular, além
da transmissão de força para o sistema esquelético, a qual é
influenciada por fatores intrínsecos contráteis (e.g., tipagem de fibras
musculares e velocidade e força de contração das cabeças de miosina)
e morfológicos (e.g., quantidade de fibras musculares, área de secção
transversa e rigidez musculotendínea)8. Diversos mecanismos po-
dem alterar a capacidade de produção de força. Dentre alguns, por
exem- plo, é a dor, a qual acarreta em alterações na atividade
motora9-11.
Segundo a International Association for the Study of Pain (IASP
- Associação Internacional para Estudo da Dor), a dor é uma
experiência sensorial e emocional associada com danos reais ou
potenciais, ou mesmo descrita em tais termos. Verifica-se que
aproximadamente um terço da po- pulação mundial é afetada pela dor
(WORLD HEALTH ORGANIZATION,
2012). Em adição, esse fenômeno pode ser causado por diversos
fatores, afetando negativamente a qualidade de vida.
Especificamente, a dor mus- culoesquelética tem uma prevalência
alta, atingindo indivíduos de todas as idades12,13. Assim, devido a dor
causar expressivo impacto socioeconômico na população mundial e
por potencialmente alterar a execução de movi- mentos em
condições laborais, de treinamento esportivo e de reabilita- ção14,15, a
literatura tem buscado investigar essa temática associada com o
controle do movimento11,14,16-22.
Acredita-se, então, que indivíduos praticantes de atividade física
te- nham alteração na percepção de dor23, especificamente atletas,
os quais têm elevada tolerância à dor em comparação a outros
grupos. Portanto, sugere-se que atletas apresentem mecanismos de
modulação e percepção de dor diferentes23. As adaptações motoras
decorrentes da dor estão rela- cionadas com a tarefa executada24,25.
Especificamente, para contrações vo- luntárias isométricas máximas,
a literatura10,19,26,27 tem verificado reduções na capacidade de
produção de força. Para força explosiva, especula-se que tenha uma
redução decorrente do sistema nervoso sobre o recrutamento das
unidades motoras, no entanto, ainda não há estudos específicos nesta
temática10.
Nesse sentido, uma melhor compreensão durante a contração
mus- cular (voluntária involuntária) pode fornecer elementos para o
direciona- mento para a melhora do desempenho em modalidades
esportivas e de
práticas preventivas na presença da dor de forma a contemplar as
inte- rações sensório-motoras. Dessa forma, este capítulo tem como
objetivo apresentar os mecanismos neurais e musculotendíneos que
são afetados pela dor e que por consequência interferem na
capacidade de produção de força. Para um melhor entendimento, o
presente capítulo foi estruturado nos seguintes tópicos: a) sistema
nervoso e dor; b) produção de força vs. dor experimental induzida:
monitoramento neuromuscular por meio de eletromiografia e
estimulação elétrica.

Sistema nervoso e dor

Anatomicamente, o sistema nervoso é dividido em: sistema


nervo- so central (SNC) e sistema nervoso periférico (SNP). O SNC
é composto pelo encéfalo e a medula espinal e o SNP consiste nas
células nervosas localizados fora do SNC28 (Figura 1.10). Dessa
forma, o sistema nervoso é responsável por compreender e
responder por “eventos” que ocorrem nos ambientes internos e
externos, sendo os receptores responsáveis por identificar os
estímulos (toque, dor, temperatura) e levar a informação ao
SNC28,29. O SNP é responsável pela transmissão das “mensagens”
prove- nientes do SNC para as fibras musculares28,29 e também da
periferia para o SNC.

Figura 1.10 - Divisões do Sistema


Nervosos
Fonte: Adaptado de Connors; Bear; Paradiso, 2002.
Para tal, a célula responsável pela função básica de receber,
processar e enviar as informações do sistema nervoso é chamada de
neurônio. Portan- to, os neurônios são considerados células
especificas, tendo como funções responder às alterações
físicas/químicas do ambiente29,30. Especificamen- te, para o SNP, a
porção motora somática é responsável pela “mensagem” da medula
espinal para as fibras musculares, assim, o neurônio somático que se
conecta com as fibras musculares é definido como neurônio motor. O
conjunto de cada neurônio motor e todas as fibras musculares que é
inervado é denominado unidade motora.
Ademais, sabe-se que os neurônios se conectam entre si por
meio de sinapses, e, dessa forma transmitem informações entre os
mesmos ou para o músculo através de potenciais de ação. Quando a
transmissão do estí- mulo da medula espinal vai até as fibras
musculares (e.g., potenciais de ação) através da excitação de um
neurônio motor, todas as fibras inervadas por ele são estimuladas a
contrair, gerando assim, uma contração muscu- lar28-30.
Resumidamente, a contração ocorre como um resultado de esforço
originário do cérebro, que envia sinais para o sistema nervoso e para
o neurônio motor que inerva as fibras musculares31.
Em relação a dor por vias nociceptivas, considera-se uma reação
noci- ceptiva e transmitida por receptores chamados de
nociceptores29, ou seja, a sensação de dor é captada por estímulos
recebidos através dos recepto- res. Assim, o impulso da dor é
recebido e transformado em potencial de ação, em seguida, o impulso
é conduzido até a medula espinal. Na medula, o impulso é modulado,
onde há basicamente duas vias ascendentes que “levam a dor” até o
cérebro. Havendo a detecção da dor pelo cérebro, as informações
nociceptivas são conduzidas para a medula que por sua vez levam os
impulsos sensoriais para os neurônios que “projetam” e regu- lam a
informação, levando por diferentes vias ascendentes para estruturas e
assim sendo percebido com dor (Figura 2.10). Em síntese: (1) o
nervo sensorial (receptores) envia um impulso nervoso à medula
espinal; (2) neurônios da medula espinal são excitados e por
conseguinte, estimulam os neurônios motores; (3) os neurônios
excitados provocam despolariza- ções dos neurônios motores
específicos da ação29, 30,32.
Primeiramente, a dor pode ser considerada um evento complexo,
sub- jetivo e de difícil definição. Seu significado varia não somente
entre os indivíduos, mas por tradições culturais desde a antiguidade
aos tempos modernos [Sociedade Brasileira para Estudo da Dor
(SBED); IASP]. Ba- sicamente, existem dois tipos de dor: aguda e
crônica, diferenciando-se do ponto de vista da fisiopatologia,
causas e o tratamento (IASP). A dor
crônica é definida como a que persiste além do tempo da cura
tecidual (duração acima de 3 meses). Ela age tanto no SNC, quanto
no SNP, sendo muitas vezes de “causa desconhecida” e, portanto, de
difícil diagnóstico (IASP). A etiologia da dor crônica ocorre por
meio de nervos que levam a informação, de forma lenta, por fibras
não mielinizadas para várias áreas do cérebro (SBED).

Figura 2.10 - Etapas da dor por vias


sensitivas

Fonte: Adaptado de Gottschalk et al (2001).

A dor aguda tem duração de poucos dias chegando a 3 meses,


poden- do a sua origem ser somática (pele, músculos e osso),
visceral ou nervosa (IASP). A dor aguda pode ser considerada
como uma resposta fisiológi- ca de que algo no organismo não está
bem33, portanto, esse tipo de dor é visto como sinônimo de proteção.
Diferentemente da dor crônica, na dor aguda as fibras que levam as
informações de dor ao cérebro são predomi- nantemente
mielinizadas33,34, e por isso, levam a informação com maior
rapidez34.
A percepção da dor é modulada (diminui ou aumenta) por
mecanis- mos ascendentes de origem periférica ou por mecanismos
descendentes, originários do SNC. Os periféricos estão relacionados
aos diferentes diâ- metros e velocidades de condução das fibras
nervosas, através de meca- nismos de inibição lateral da fibra A
beta. E os centrais estão envolvidos
com as estruturas encefálicas do aqueduto do mesencéfalo e de
núcleos localizados no bulbo29,30,32.
A avaliação da dor é fundamental para conhecer a sua origem e
carac- terísticas. Ao se avaliar um paciente, os clínicos procuram
obter informa- ções sobre quando e em que condições a dor teve
início, que movimentos ou posturas influenciam na percepção da
dor, além de realizaram testes passivos e ativos com o intuito de
reproduzi-la e assim, melhor compre- ender o quadro clínico. Para
auxiliar a quantificação deste fenômeno com- plexo e subjetivo, faz-
se uso de escalas de avaliação numéricas, verbais, digitais ou
analógicas, tanto em ambientes clínicos quanto de laboratório de
pesquisa35,36.
A dor, seja ela aguda ou crônica, tem efeitos multidimensionais,
envol- vendo fatores emocionais, motivacionais e culturais37.
Contudo, a possibi- lidade de se induzir, de forma controlada, a dor
aguda em humanos torna possível um melhor entendimento de como
esta tem influência sobre as variáveis de controle motor19,20,26. Nas
últimas duas décadas, tem havido aumento do número de
laboratórios de pesquisa dedicados ao entendi- mento das interações
sensório-motoras, especificamente relacionadas à influência da dor
em tarefas de controle postural ou do movimento hu- mano.

Produção de força vs. dor experimental induzida:


monitoramento neuromuscular por meio de eletro-
miografia e estimulação elétrica.
A dor muscular tem a maior prevalência na população mundial,
afe- tando diferentes partes do corpo, diferentes níveis de intensidade
e faixas etárias. No Brasil, verifica-se que 63% da população sofreu
com dor mus- cular pelo menos uma vez a cada três meses, e dados
mundiais revelam que 95% população já foi afetada com alguma dor
no corpo e que mais da metade sofre com dores musculares
regularmente (SBED; IASP, MOVI- MENTO PORTUGAL SEM
DOR). Em situações de dor muscular, sabe-se que as fibras nervosas
aferentes do grupo III e IV estão envolvidas, e que não apenas as
fibras musculares são atingidas, mas um conjunto de tecidos
próximos35. Portanto, na presença de dor, é importante compreender
as funções envolvidas durante a realização de atividade diárias e/ou
físicas, visto que a dor muscular pode impactar negativamente na
qualidade de vida.
Contudo, devido a sua alta complexidade para avaliação, tem-se utili-
zado a indução a dor em indivíduos saudáveis como forma de
garantir a presença da dor durante avaliações9-11,14-21. Para isso,
comumente são utili- zadas injeções endógenas e exógenas, como as
salinas hipertônicas10,14-22,26. A injeção é um modelo que causa dor
tecidual profunda, comparada à dor muscular aguda com duração de
poucos minutos36,38. A injeção tem efeito direto nas terminações
nervosas e é reativa a atividade neural, levando à ativação de vias
nociceptivas. Por conseguinte, leva ao aumento da percep- ção de dor
no local e reduz a sensibilidade a estímulos mecânicos39.
É reportado na literatura10,18,24 que a dor leva a alterações no
controle motor, no entanto, as alterações dependerão da ação
realizada (i.e., ação muscular, carga, intensidade, fadiga)14. Todavia,
acredita-se que em gran- de parte das atividades realizadas na
presença de dor, os músculos agonis- tas, antagonistas e sinergistas
serão inibidos durante a ação25. Para tanto, o comprometimento no
controle motor está relacionado com os músculos envolvidos no
movimento18 e, é atribuído a inibição dos nociceptores do drive
central, bem como na percepção de dor de cada indivíduo10. Na pre-
sença de dor muscular induzida as adaptações musculares ocorrem
como uma forma de reduzir e/ou prevenir mais danos teciduais11,25.
As altera- ções no controle motor dependerão dos músculos estarem
em repouso, em contração isométrica ou dinâmica9. Portanto, as
alterações nas atividades motoras observadas como aumento ou
diminuição da excitação muscular dos grupos musculares, dependerá
da contração muscular avaliada9.
Dessa forma, uma maneira de avaliar o comprometimento da
produ- ção de força, na condição de dor, é por meio de contrações
musculares voluntárias e induzidas. Frente a isso, tem sido utilizada a
estimulação elé- trica para verificar a influência na capacidade de
produção de força pelas propriedades contráteis sem qualquer
dependência de fatores neurais23,25. Como a dor induzida não afeta as
propriedades contráteis das fibras mus- culares22,26, acredita-se que o
comprometimento da força se dá devido à redução da frequência dos
disparos dos motoneurônios envolvidos.

Estimulação elétrica
neuromuscular
A estimulação elétrica neuromuscular é uma técnica que produz
pulsos de corrente elétrica sobre a pele, por meio de eletrodos, e que
estimulam músculos, nervos e tecidos com o objetivo de induzir a
contrações muscu- lares involuntárias ou avaliar o desempenho do
sistema nervoso periférico [quando associado à técnica de
eletromiografia de superfície (sEMG)]40,41. A contração muscular
induzida por meio da estimulação elétrica neuro- muscular não é
influenciada pelo desempenho do SNC, sendo produzida
diretamente (i.e., despolarização dos motoneurônios) ou
indiretamente (i.e., despolarização das fibras nervosas aferentes
sensoriais e que irão ge- rar potenciais de ação e assim, causando a
contração muscular)40. Dessa forma, o princípio da estimulação
elétrica simula um impulso nervoso, re- sultando em uma contração
sem a participação do sistema nervoso, assim, a contração
involuntária parece ser semelhante ao estímulo enviado pelo SNC.
Em síntese, os fundamentos básicos nas respostas dos músculos
e te- cidos ao estímulo elétrico são: passagem de corrente elétrica
pelo corpo, modulação, amplitude e frequência da corrente elétrica42,
para então, pos- sibilitar a contração e assim, o músculo executar a
ação. Primeiramente, ao aplicar os pulsos elétricos através da pele, as
unidades motoras serão recrutadas simultaneamente (que estiverem
na área dos eletrodos). A quantidade de unidades motoras
recrutadas é influenciada pelo tamanho, localização e superfície dos
eletrodos, sendo, preferencialmente, os mús- culos abaixo dos
eletrodos estimulados, e diferenciando na ativação sinér- gica e
estabilizadora comparado as contrações voluntárias41. A interação da
intensidade e frequência da estimulação está diretamente relacionada
à produção de força42, ou seja, quanto maior a intensidade e/ou
frequência da estimulação maior a força produzida.
Por base, aumentando gradualmente a intensidade da
estimulação, tem-se a produção de uma resposta sensitiva,
normalmente sem gerar in- cômodo. Aumentando a intensidade,
ocorre também um aumento da res- posta sensitiva até que tenha o
limiar de excitação dos motoneurônios, e assim, uma resposta
motora é produzida. Por sua vez, quanto maior o número de fibras
motoras ativadas, maior é também a produção de força durante a
contração, quando o limiar motor é ultrapassado, um pequeno
aumento na intensidade provocará grandes incrementos da produção
de força, até o ponto de sensação de dor ser atingida42,43. Para
estimulação do músculo o posicionamento dos eletrodos ocorre no
ventre muscular ou no nervo que chega até o músculo44.
Basicamente, a aplicação no ventre, são recrutadas fibras mais
superficiais, diferentemente, da aplicação no ner- vo, onde são
estimulados todos os músculos de um grupamento muscular
inervados pelo nervo estimulado 44.
A contração muscular voluntária e a gerada pela estimulação
elétrica neuromuscular possuem distintos mecanismos de ativação
das unidades motoras. Na voluntária, o recrutamento das unidades
motoras é orde- nado e seletivo, sendo provocada primeiramente pela
ativação das fibras nervosas de menor diâmetro (i.e., contração
lenta) e gradativamente são
recrutadas as de maior diâmetro (i.e., contração rápida) de acordo
com a intensidade da execução (Princípio do tamanho de Henneman).
Diferen- temente, na contração induzida pela estimulação elétrica
neuromuscular, a literatura demonstra que o recrutamento ocorre de
maneira inversa, pri- meiramente a ativação das fibras nervosas de
maior diâmetro (mais excitá- veis e mais rapidamente fatigáveis)45,46.
Outros autores47,48 observaram que por meio da estimulação elétrica
neuromuscular o recrutamento é randô- mico e não padronizado, e
que essa ação ocorre devido à proximidade dos eletrodos com as
terminações nervosas adjacentes e, dessa forma, ocor- rendo um
recrutamento dos axônios motores mais superficiais, explicando esse
fato, que in vivo a distribuição da corrente elétrica é inversamente a
profundidade alcançada. Em suma, por meio da estimulação elétrica
neu- romuscular, é possível quantizar e qualificar a contração
muscular, sen- do os seus efeitos dependentes da intensidade da
corrente, percurso da corrente elétrica, duração do estímulo, forma
do pulso, área e pressão do contato e fatores interindividuais.
Dessa forma, a literatura tem reportado alguns estudos por meio
da estimulação elétrica na condição de dor. No estudo de Rice et
al.,50 foi exa- minada a força submáxima na presença de dor
experimental nos exten- sores do joelho em contrações isométricas e
dinâmicas. Especificamente, durante as contrações dinâmicas, foram
encontradas diminuições de força do quadríceps e, dessa forma,
afetando o desempenho motor. Os autores sugerem que os
mecanismos estão relacionados ao aumento das taxas de
recrutamento e disparo das unidades motoras, ativação dos músculos
sinérgicos e antagonistas, além de alterações nas informações
propriocep- tivas. Portanto, o entendimento e interpretação entre a
interação entre a dor muscular e contrações dinâmicas, é considerada
complexa.
Com relação às contrações voluntàrias isométricas máximas
(CVIM) e dor muscular, a literatura tem demonstrado uma redução
da força9,25. Acredita-se que essa redução de força seja benéfica, ou
seja, essas altera- ções estão relacionadas com uma estratégia de
proteção muscular, evitan- do então o aumento do dano9,11,25. No
entanto, Salomini et al10 ressaltam que é difícil isolar a relação entre
a dor muscular e a redução de força du- ração a CVIM devido a
envolvimento de outros fatores.
Em um estudo de Graven-Nielsen et al26 que avaliaram a CVIM
duran- te a dor experimental, observaram uma redução no torque
(7%) nos exten- sores do joelho e não encontraram diferenças nas
propriedades contráteis, indicando que a redução da força está
relacionada ao SNC. Corroborando, Salomini et al10 encontraram
uma redução de 9,3% na CVIM e uma me-
nor ativação eletromiográfica nos músculos agonistas e antagonistas
dos extensores do joelho causada pela redução dos estímulos
voluntários do SNC. Khan et al50 encontraram uma redução nas
CVIM dos flexores do co- tovelo e para as contrações submáximas
não encontraram interação entre a dor e o torque, bem como o
comprometimento nas contrações máximas por meio da estimulação
elétrica. Em síntese, mesmo frente às evidências mencionadas, o
entendimento e a interpretação da produção de força na condição da
dor precisam ser melhores elucidadas com objetivo de trata- mento, e
prevenção nas áreas da reabilitação e do treinamento esportivo.
Sabe-se que a capacidade de produzir força explosiva depende
da capacidade de produzir força máxima e da velocidade de
contração51. A capacidade de produzir força máxima está relacionada
à quantidade de sarcômeros ativos em paralelo, e velocidade de
contração está relaciona- da aos sarcômeros ativos em séries51. Dessa
forma, para gerar a produção de força, alguns fatores precisam estar
sincronizados, tais como: neurais (i.e., velocidade de condução do
estímulo neural, frequência e intensidade do disparo das unidades
motoras)52,53 morfológicos (i.e., comprimento do fascículo e área da
secção transversa)54,55; mecanismos musculotendíne- aos; tipos de
fibras musculares, músculos envolvidos na ação muscular;
bioquímicos e histoquímicos54,55.

Eletromiografia de
superfície
Como forma de verificar a excitação do músculo durante a
produção de força em um curto período de tempo um dos métodos
utilizados é por meio da eletromiografia27,55. Concomitante o método
da estimulação elé- trica também está associado para verificar a
capacidade de produzir força, ou seja, identificar a influência do
SNP na capacidade de produzir força sem depender do SNC54,55.
Dessa forma, como mencionado, na presença de dor, ocorrem
alterações na atividade motora tanto por mecanismos perifé- ricos
como centrais9,11. Acredita-se que ocorram alterações na capacidade
de gerar força, uma vez que, considera-se que haja uma redução da
mesma devido à inibição das unidades motoras de contração rápida.
Contudo, os estudos sobre essa temática são reduzidos e, portanto,
existe a necessidade de investigar sobre as possíveis causas do
comprometimento da produção de força na presença de dor, para
poder trazer subsídios que expliquem tais efeitos.
A eletromiografia de superfície (sEMG) é uma técnica de
monitora- mento eletrofisiológico amplamente utilizada em ciências
do movimento e do esporte56,57. Ela permite, de maneira não invasiva,
a detecção dos poten-
ciais de ação elétricos da corrente transmembrana das fibras
musculares durante a produção de força58. Especificamente na
biomecânica, a sEMG é aplicada para se identificar excitação
muscular, relação entre força e ex- citação do músculo, bem como a
presença de fadiga59. Através da sEMG é possível analisar
parâmetros relacionados à frequência, tempo e a ampli- tude dos
potenciais elétricos das fibras musculares de um grupo ou de um
determinado feixe muscular60. Ou seja, a sEMG pode indicar qual
músculo é excitado pelo SNC em uma atividade específica, além de
mostrar o quan- to os músculos estão eletricamente ativos58.
A relação entre força/sEMG, torna-se de extrema relevância na
pes- quisa, com fins da compreensão da aplicação de força entre
músculos/liga- mentos/articulação, além do entendimento das
adaptações neuromuscu- lares61. No entanto, essa relação pode sofrer
a influência de vários fatores, como fisiológicos, anatômicos e
técnicos, durante a captação dos sinais eletromiográficos, seja na
velocidade de encurtamento e/ou alongamento dos músculos, fadiga
e amplitude articular, o que dessa forma, pode acar- retar em uma
interpretação equivocada62. Além de sofrer alterações devido ao nível
de treinamento, individualidade dos sujeitos e dos músculos63 e,
portanto, sendo difícil a comparação entre indivíduos e músculos58.
A relação entre o sinal sEMG e produção de força durante a
contra- ção muscular isométrica, deve ser entendida como, quanto
mais longa a duração do potencial de ação da unidade motora
(distância entre as fi- bras musculares em cada unidade motora),
maior será a porcentagem de aumento na amplitude eletromiográfica
causada na sincronização58. Para Ervilha64, em termos qualitativos, a
relação entre o sinal sEMG e força iso- métrica é diretamente
proporcional, ou seja, a medida que a atividade do sinal sEMG
aumenta, a produção de força também aumenta, mas ressal- ta-se que
essa relação não é sempre linear. A literatura65-68 verificou uma
tendência linear entre o sinal da sEMG e a produção de força
isométrica. Entretanto essa relação não é assumida para todas as
forças (concêntrica e excêntrica) e nem para todos os músculos.
Portanto, acredita-se que essa relação é altamente dependente do
músculo analisado64,69.
Para músculos maiores, em exemplo o quadríceps, devido a
distribui- ção irregular e aos diferentes tipos de recrutamento das
unidades motoras, a captação do sinal elétrico do músculo, pode
não representar a ativida- de elétrica precisa do músculo58. Como
a produção de força mensurada é o resultado da ativação de
diversas fibras musculares em sinergia. O si- nal captado pela sEMG
é somente local, ou seja, o eletrodo não consegue captar todo o sinal
gerado no volume muscular. Outro fator que se deve
considerar é o grau de ação sinérgica de outros grupos musculares e
as diferentes quantidades de co-contração de músculos antagonistas
em re- lação ao músculo analisado. Esses fatores devem ser
considerados, devido a distribuição da força no músculo, visto que
pode haver uma alteração em razão desta distribuição62.
No que diz respeito as ações musculares, para as contrações
isométri- cas, a relação força/sEMG, é descrita como sendo músculo-
dependente, ou seja, está intimamente interligada com o
recrutamento e a frequência de disparo das unidades motoras, com o
recrutamento das fibras de contra- ção rápida e lenta e a interferência
dos músculos interligados que compõe o músculo avaliado58. Para
Basmajian e De Luca63, nas contrações isomé- tricas, para os
músculos pequenos a relação é apresentada como quase linear, e não-
linear para os músculos maiores. Portanto, como menciona- do, em
condições isométricas, é bem reportado na literatura58,63,67-69, que a
magnitude do sinal sEMG representa uma aceitável estimativa da
produ- ção de força realizada pelo músculo58.
Para as contrações dinâmicas, a relação força/sEMG é
apresentada sendo mais complexa, causada pelas características do
movimento. Al- terações na produção de força, tanto no
comprimento do músculo como na localização do eletrodo em
relação às fibras musculares ativas durante a contração, podem
resultar em atividades elétricas novas, próximas ao músculo
analisado e, portanto, comprometendo a relação de força e do si- nal
sEMG58,63. Assim, a sEMG é um método não invasivo e muito
utilizado para avaliação da função neuromuscular durante a análise
da relação de produção de força em contrações isométricas e
complexa para contrações dinâmicas.
Na condição de dor, em contrações dinâmicas, acontecem
mudanças adaptativas na coordenação e na ativação muscular70.
Ervilha64 encontrou um aumento do sinal do EMG em músculos
agonistas e uma redução na atividade muscular nos antagonistas,
confirmando a teoria da adaptação da dor de Lund et al71, observa-se
aumento no sinal do EMG durante a fase de execução do movimento,
onde normalmente há pouca atividade elétrica e, contrapondo,
diminuição do sinal em fases em que a atividade elétrica encontra-se
alta64,72. Em suma, o modelo de adaptação a dor pode estar
relacionado ao fato de que o músculo agonista é inibido e o
antagonista facilitador como uma forma de proteger o tecido e
prevenir novas lesões9.
No estudo de Salomini et al10, na condição de dor (induzida
experi- mentalmente), foram encontradas reduções da produção de
força (CVIM) correlacionada a uma redução da atividade muscular
dos agonistas e an-
tagonistas, e sugerem que essas diferenças são explicadas por
déficits no impulso voluntário. Ademais, os autores encontraram
uma relação posi- tiva entre a força (CVIM) e uma redução da EMG
e do RMS (root mean square – técnica que avalia o nível do sinal
EMG) dos músculos agonistas e antagonistas e sem alteração na
relação agonistas/antagonistas de RMS na condição de dor (Figura
3.10).
Acredita-se, que ocorram alterações na capacidade de gerar força
na presença de dor. No entanto, a literatura explica que as alterações
de força e na excitação muscular não acontecem em todos os
participantes, e que fatores podem interferir, como a intensidade,
tipo de fibra, sexo e idade. Portanto, existe a necessidade de
investigar sobre as possíveis causas do comprometimento da
produção de força na presença de dor, com a finali- dade de trazer
subsídios que expliquem tais efeitos.

Figura 3.10 - Produção de força e ativação muscular na condição


de dor.
Em síntese, como verificado, a capacidade de produção de força
está envolvida nas mais diversas atividades. Em adição, a dor é um
fenômeno que acomete ou acometeu grande parte da população e por
isso, tem um grande impacto socioeconômico, portanto essa
interação entre a dor e a produção de força tem sido bastante
evidenciada pela literatura. Ainda não foram encontradas todas as
possíveis interações entre a dor e produção de força, mas, sabe-se
que existe uma forte relação com a ação executada. Além do mais,
acredita-se que a dor provoca reduções de força para CVIM,
e também inibições nos músculos agonistas e antagonistas. As
possíveis reduções na produção de força podem estar relacionadas
como uma es- tratégia de proteção, uma forma de evitar maiores
danos. Contudo, esse comportamento não é considerado absoluto,
variando entre os indivíduos. O entendimento dos efeitos do
fenômeno da dor concomitante a produção de força é de extrema
importância e pode ajudar tanto na elaboração de exercícios tanto no
treinamento esportivo como na reabilitação. Assim, é necessário
compreender os efeitos neurais e neuromusculares da dor para a
população em geral e em atletas. Ainda existem poucos estudos
sobre a temática da produção de força explosiva na presença de dor,
dessa forma, o conhecimento acerca do tema é de fundamental
importância a fim de trazer novas informações e gerar novas
pesquisas na tentativa de entender tais mecanismos.

Aplicações práticas

• A médio e longo prazo, e em condições de dor, podem


ocorrerem alterações no padrão de movimento, que dessa
forma, podem levar a mudanças na execução da tarefa, sendo
realizadas repetidamente, é possível ocasionar lesões, portanto,
o entendimento das alterações dos movimentos executados
podem contribuir na prevenção de le- sões;
• Contribuições no Esporte: compreender os efeitos da dor em
atle- tas e assim, detectar desequilíbrios musculares
relacionados a le- sões, uma vez que atletas estão envolvidos
em movimentos explosi- vos, produção de força e condição de
dor;
• Atletas de alto nível apresentam mecanismos de modulação
e percepção diferentes, tornando-se difícil avaliar o impacto da
dor. Torna-se fundamental verificar as alterações dos
movimentos em programas de treinamento, como forma de
diminuir potenciais da- nos no desempenho de atletas;
• Devido ao grande impacto socioeconômico que está
emoldurado junto com a dor, e assim, afetando na qualidade de
vida, é necessá- rio entender os efeitos da dor no movimento
motor, uma vez que que o mesmo tem forte dependência da
tarefa executada, podendo dessa forma, contribuir em
programas de reabilitação.
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CAPÍTULO XI
DOENÇA DE PARKINSON E O PARADIGMA DA DUPLA TAREFA

281

Morgana
Lunardi Marco Aurélio
Cardoso Cíntia de la
Rocha Freitas

O que você irá encontrar:

• Elucidação sobre o paradigma dupla


tarefa;
• Resumo das teorias de neuropsicologia que foram propostas
para explicar por que existem custos de tarefas duplas em outras
situa- ções;
• Questões pertinentes acerca da biomecânica em indivíduos
com doença de Parkinson;
• Informações relacionadas às implicações neurológicas e
motoras causadas pela doença de Parkinson;
• Breve apanhado de estudos com informações tocantes ao efeito
do treinamento com dupla tarefa na doença de Parkinson.
Introdução

A dupla tarefa envolve a execução de tarefas simultâneas, sendo


que uma delas é prioritária, enquanto a outra é secundária1.
Aparentemente, a dupla tarefa aumenta o risco de quedas em idosos
frágeis ou que sofrem de alguma patologia como a doença de
Parkinson. Em decorrência disso, durante as últimas duas décadas,
muitos estudos têm investigado a relação entre a execução de uma
tarefa motora associada a tarefas cognitivas e/ou motoras2,3. Segundo
relatado por Fernandes et al.4, do ponto de vista neu- rofisiológico, a
redução da ativação dos músculos dos membros inferiores, durante
ajustes posturais antecipatórios na iniciação da marcha, pode ser
explicada por uma desregulamentação das vias neurais entre os
gânglios basais e o núcleo pedunculopontino (neurônios corticais) e
maior uso de estratégias de nível cortical.
A redução do controle atencional, ou seja, da capacidade de alocar
adequadamente recursos cognitivos finitos para tarefas de
processamen- to de informações juntamente com a marcha está
associada a um risco aumentado de queda em pessoas mais velhas5.
Uma vez que se entende que a locomoção seja regulada
principalmente por processos subcorticais (processos cognitivos), uma
dupla tarefa ao se locomover sobrecarrega os
recursos corticais, resultando em déficits na tarefa cognitiva, na
estabilida- de da marcha ou em ambos6,7. A questão dos recursos
corticais limitados é preocupante, principalmente na população
idosa, uma vez que o com- prometimento cognitivo tem sido
associado à mobilidade reduzida e ao aumento do risco de quedas8.
Muitas atividades diárias exigem desempenho de múltiplas
tarefas e envolvem a integração de habilidades cognitivas e motoras9.
O custo da ta- refa dupla pode ser observado de forma mais
consistente em adultos mais velhos, no qual há uma redução da
velocidade de deslocamento e do de- sempenho cognitivo10. Esta
redução do desempenho cognitivo e físico em condições de dupla
tarefa é considerada como resultado da priorização da estabilidade da
marcha sobre a tarefa cognitiva para compensar a dimi- nuição do
controle postural em adultos mais velhos2,8,11. Yogev et al.2 rela-
taram que as tarefas duplas ativam o córtex pré-frontal, que
desempenha um papel importante nas funções executivas, como
atenção e multitarefa, e ele está menos ativo em indivíduos mais
velhos quando comparados a indivíduos mais jovens, fazendo com
que haja uma forte associação com aumento do risco de quedas nos
idosos.
Estudos têm sido realizados com população ativa e saudável,
mas es- pecula-se que a redução do desempenho da locomoção com
dupla tarefa seja ainda mais prejudicada em indivíduos com história
de acidente vas- cular cerebral, lesão cerebral traumática ou doenças
neurodegenerativas, como, por exemplo, a doença de Parkinson6.
Com base nisso, o objetivo do presente capítulo é revisar a literatura
sobre o paradigma da dupla tarefa, sua influência nos sistemas
cognitivo e motor bem como os efeitos do trei- namento motor e
cognitivo em indivíduos com doença de Parkinson.

Paradigma da dupla tarefa

Em nossa vida diária, executamos diversas tarefas e em muitas


situ- ações do cotidiano, faz-se necessário executar mais de uma ao
mesmo tempo. Essa competência é considerada vantajosa e um pré-
requisito para uma vida mais saudável e segura3,12. A dupla tarefa
(tarefas simultâneas) envolve a execução de uma tarefa primária, que
é o foco principal da aten- ção, enquanto a outra é executada
secundariamente1,12 (Figura 1.11). Quan- do executadas ao mesmo
tempo, as tarefas exigem uma alta demanda de processamento de
informação, implicando na redução do desempenho em uma das
tarefas, ou em ambas3. As alterações observadas no controle mo- tor
durante uma dupla tarefa, pode ser utilizada como indício do
estado
funcional em que se encontra o indivíduo12.
Muitas atividades diárias exigem desempenho de múltiplas
tarefas e envolvem a integração de habilidades cognitivas e motoras,
das quais de- pende o resultado do desempenho. A capacidade de
realizar uma segunda tarefa enquanto estamos fazendo uma primeira
é crucial na maioria das atividades diárias, especialmente quando
algum ato motor está envolvido, por exemplo ao andar e conversar
simultaneamente, ou mover um objeto de um lugar para outro,
enquanto monitora o entorno meio ambiente. O paradigma atual da
interferência de tarefa dupla afirma que a introdução de uma
segunda tarefa durante um desempenho cognitivo ou motor leva a
uma possível competição entre os recursos atencionais disponíveis,
resul- tando em uma diminuição do desempenho em qualquer das
tarefas9. As demandas de atenção de uma tarefa e os efeitos de
interferência de tarefas concorrentes podem ser influenciados por
vários fatores, como a idade do sujeito, o nível de habilidade e a
natureza das tarefas envolvidas9.
Quando os indivíduos estão envolvidos em uma tarefa que exige
aten- ção ao caminhar (por exemplo, falando no celular), os recursos
corticais necessários para a locomoção segura podem ficar
sobrecarregados, resul- tando em déficits na tarefa cognitiva, na
estabilidade da marcha ou em ambos. A questão dos recursos
limitados é particularmente preocupante na população idosa, uma
vez que o comprometimento cognitivo tem sido associado à
mobilidade reduzida e ao aumento do risco de queda13. Srygley et
al.6 citam que um número crescente de estudos recentes, têm
demons- trado que os fatores cognitivos podem influenciar a
regulação da marcha e mostraram que a marcha não é apenas uma
tarefa motora, especialmente entre idosos.

Figura 1.11 - Dupla tarefa


Fonte: Autor.
Os autores6 apontam que a partir dos seus resultados, é possível
con- cluir que: 1) O desempenho cognitivo durante a caminhada não
só afeta as características espaciais-temporais da marcha, mas o
inverso também é verdadeiro, mesmo entre jovens saudáveis, sendo
que ato de andar altera o desempenho cognitivo; 2) O efeito da
caminhada sobre o desempenho cognitivo é muito maior entre os
idosos e depende da tarefa que está sendo realizada; e por fim, 3) As
mudanças associadas à idade na função executi- va podem explicar
as dificuldades no desempenho de tarefas cognitivas ao caminhar
entre pessoas idosas. Esses fatos podem ser justificados através da
teoria da partilha de capacidade, na qual, propõe-se que a tentativa
de realizar simultaneamente duas tarefas exigentes da atenção fará
com que o desempenho de uma ou ambas as tarefas sofram devido ao
processamento limitado de informações14.
Com o passar do tempo e o consequente aumento da idade, o
desem- penho da dupla tarefa sofre um decréscimo em seu
desempenho esperado, podendo em um dado período sofrer uma
redução no repertório motor e aumento no número de falhas durante
a execução. Este cenário pode culminar na impossibilidade de
execução da tarefa15. Tal fato pode estar diretamente relacionado
com a “teoria do gargalo”. Esta sugere que quan- do duas tarefas são
executadas simultaneamente e envolvem processos neurais, ocorre
um atraso na execução de uma das tarefas e esta será exe- cutada
apenas quando os processos neurais estiverem disponíveis e pu-
derem ser recrutados novamente16. Porém, uma vez que a tarefa
primária é automatizada, não se faz necessário direcionar a atenção a
movimentos primários, possibilitando que tarefas secundárias sejam
executadas de for- ma conjunta às demandas motora e cognitiva17.
A marcha é de suma importância nas atividades diárias e é
alterada em muitas condições clínicas. Portanto, é uma das tarefas
motoras mais utilizadas em estudos que avaliam a influência da
dupla-tarefa, enquanto que há uma grande variação na escolha da
tarefa cognitiva associada7. Os testes de dupla tarefa podem revelar
anormalidades sutis relacionadas à idade e doença no controle da
marcha, não evidentes em testes de tarefa motora única, o que
justifica o interesse pelas aplicações clínicas desses testes. Simoni et
al.9 avaliaram idosos com 70 anos ou mais e observa- ram que
durante a caminhada livre com dupla tarefa, houve redução da
velocidade (23%), da cadência (15%) e do comprimento do passo
(6,6%), enquanto a variabilidade do tempo de passo aumentou 82%,
quando com- parado a tarefa motora simples. Além disso, o
desempenho cognitivo dimi- nuiu substancialmente na condição de
dupla tarefa, havendo 27% a menos
de respostas corretas por segundo. Este estudo mostra que, em
indivíduos mais velhos, a combinação de tarefas motoras e
cognitivas resulta em um desempenho significativamente pior em
ambos os domínios.
Em um estudo recente realizado por Lo et al.18, foi investigada a
as- sociação entre a co-contração da musculatura do membro inferior
e as características da marcha quando realizada em uma única e
dupla tare- fa. Participaram do estudo 56 idosos (85,4 ± 5,9 anos)
submetidos a duas condições que consistiram em realizar apenas a
marcha e, realizar a mar- cha enquanto verbalizavam uma sequência
de cinco subtrações. Maiores níveis de co-contração dos músculos
tibial anterior e gastrocnêmio foram associados com redução no
tamanho da passada e maior tempo em conta- to com o solo na fase
de duplo apoio durante a marcha, durante a condição de dupla tarefa.
Sendo assim, os autores sugerem que a co-contração de membros
inferiores pode ser um dos fatores que explica a deficiência da
marcha associada à condição de dupla tarefa.
Gregory et al.19 realizaram um treinamento de 26 semanas com
ido- sos envolvendo atividades de dupla tarefa e concluíram que os
exercícios combinados com a dupla tarefa podem melhorar o
desempenho da mar- cha. Targino et al.20 também observaram que os
idosos, ao realizarem um treinamento de quatro semanas andando na
esteira com estímulos visuais (dupla tarefa), melhoraram o equilíbrio
estático. Reafirmando a importân- cia do treinamento em dupla
tarefa, Voos et al.21 verificaram que o treina- mento com tarefa
motora e cognitiva associadas, melhora o desempenho tanto motor
(aumento do número de passos por segundo) quanto cogniti- vo
(número de erros na tarefa visual). Dentro desta mesma linha, Silva
et al.15 compararam o desempenho em tarefas funcionais com dupla
tarefa após 26 semanas de fisioterapia, e observaram que ambos os
grupos apre- sentaram redução na capacidade funcional quanto maior
a complexidade da tarefa, menor foi o desempenho dos idosos
avaliados.
Hallal et al.22 submeteram 16 idosas entre 60 e 80 anos a oito
sema- nas de treinamento de equilíbrio, um grupo utilizando haste
vibratória e o outro não. Os grupos foram submetidos a três
situações distintas para avaliação da marcha (todos com velocidade
auto selecionada e duração de 3 minutos), sendo a primeira, marcha
normal, a segunda marcha com medo de cair (com protocolo de voz,
no qual a pessoa era orientada sempre a esperar pelo surgimento de
um obstáculo que, na verdade, não existia) e a terceira, utilizando
estímulo luminoso (deveriam informar a cor da lâm- pada que se
ascendia), ambas com dupla tarefa de demanda atencional. Os autores
constataram que a haste vibratória pode atuar como um instru-
mento para potencializar os efeitos do treinamento de equilíbrio
sobre va- riáveis biomecânicas que são indicadoras de aumento do
risco de quedas em idosos. O grupo que utilizou a haste vibratória
apresentou um aumento do comprimento do passo em todas as
condições propostas.
Deficiências na mobilidade incluindo limitações na marcha são
obser- vadas com frequência em pessoas idosas, antes mesmo de
haver um diag- nóstico de comprometimento cognitivo, e ainda pode
ser um indicador precoce deste tipo de comprometimento19. A dupla
tarefa, conforme citado anteriormente, está vinculada também a um
déficit em atividades cogniti- vas. Isto é nitidamente percebido
quando se observam funções executivas básicas que demandam mais
atenção, memória e estão relacionadas tam- bém à incidência de
depressão12. Ao incluir uma tarefa cognitiva a uma tarefa simples,
ocorre uma redução no desempenho da tarefa primária15, tendo em
vista que declínios no desempenho estão fortemente relaciona- dos
ao avanço da idade e redução da função cognitiva23.
O teste Timed Up & Go (TUG) ou levantar, andar e sentar
(Figura 2.11) tem sido frequentemente utilizado para fazer as
avaliações indiretas de equilíbrio e mobilidade funcional de idosos.
Shumway-Cook et al.24 mos- tram que ao realizarem esse teste, os
idosos podem ser classificados de acordo com o tempo de realização
do mesmo: ≤ 10 segundos - idosos que não apresentam alterações de
equilíbrio e nem dependências físicas; ≤ 20 segundos - idosos
independentes nas transferências básicas; e > 20 segun- dos idosos
com mobilidade prejudicada e dependência em dupla tarefa e
mobilidade funcional para as atividades de vida diária. Os idosos que
tem um tempo de execução do teste superior a 20 segundos, são os
que têm um maior risco de sofrer quedas. Com base nisso, Fatori et
al.25 avaliaram com esse mesmo teste, idosos nas condições de tarefa
simples e dupla ta- refa com atividade manual e/ou cognitiva, e ao
realizar tarefas associadas observou-se um maior tempo de execução
do teste, independente do tipo de dupla-tarefa realizada.
Figura 2.11 - Teste Timed Up and Go (TUG) com dupla tarefa.

Fonte: Autor.

Dupla tarefa é o método mais popular para testar se a marcha


requer atenção, afinal, isso envolve desafiar as capacidades de
atenção, especifi- camente a capacidade de dividir a atenção. A
priori, se a marcha é auto- mática e não requer atenção, a execução
simultânea de uma tarefa adicio- nal não deve afetar a marcha ou o
desempenho da outra tarefa2. Assim, o paradigma da dupla tarefa
têm sido um dos métodos utilizados com o objetivo de estudar a
automação, o locus hemisférico e a independência estrutural dos
processos, que hipoteticamente, são a base para a obten- ção de uma
boa performance26. Fatori et al.25 expõem que a dupla tarefa (motora
ou cognitiva) ocorre em nível cortical e isso permite que haja uma
intervenção de uma sobre a outra. Algumas tarefas são
simultaneamente executadas no dia a dia com certa facilidade, porém
a integralidade de sua ação demanda um alto processamento neural.
Em alguns casos, ao exceder a capacidade do sistema cognitivo em
função da dupla tarefa, ou quando, ambas utilizam simultaneamente
os circuitos neurais específicos às ações, a tarefa pode ser
prejudicada25.
As teorias de neuropsicologia foram propostas para explicar por
que existem custos de tarefas duplas em outras situações. Três
modelos teóri- cos foram desenvolvidos a fim de explicar a
interferência na dupla tarefa:
• A teoria da capacidade - ou teoria do compartilhamento de
recur- sos (the capacity model), baseia-se no pressuposto de
que os re- cursos atencionais são limitados, levando ao
prejuízo na execução de uma ou das duas tarefas quando a
capacidade de processamento é excedida. Quando o tempo
entre a apresentação de dois ou mais estímulos é reduzido, o
tempo de processamento será aumentado devido às limitações
da capacidade compartilhada. Essa teoria pres- supõe que é
possível alocar voluntariamente capacidade para uma tarefa
específica, mesmo quando ambas as tarefas são aprendidas em
excesso e amplamente automáticas2.
• A teoria da comunicação cruzada (the cross-talk model)
explica que tarefas semelhantes utilizam as mesmas vias,
diminuindo assim o risco de interferência na dupla tarefa. Uma
dessas teorias afirma que se duas tarefas não compartilharem
recursos comuns, a interfe- rência de dupla tarefa não ocorrerá.
Por outro lado, a teoria do cros- s-talk postula que, se ambas as
tarefas são de um domínio similar e usam as mesmas
populações neuronais, elas não perturbam umas às outras2.
• A teoria do gargalo (the bottleneck model), em contraposição
à te- oria anterior, afirma que tarefas semelhantes competem
pelas mes- mas vias de processamento, gerando prejuízo na
realização de uma ou das duas tarefas27. Se duas tarefas são
processadas pela mesma via neural ou redes, um gargalo é
criado no processamento da infor- mação. O processamento da
segunda tarefa será atrasado até que o processador esteja livre
de processar a primeira tarefa. Isso explica atrasos nos tempos
de reação da segunda tarefa em função do inter- valo temporal
na apresentação dos dois estímulos. Alguns pesqui- sadores
sugerem que um atraso pode ocorrer apenas no estágio de
seleção de resposta2.

Atualmente, não há consenso sobre a teoria que melhor explica o


pro- cessamento de informações humanas e os custos de tarefas
duplas. Em pessoas com patologias neurológicas, os principais
modelos teóricos res- ponsáveis pela interferência de dupla tarefa são
o modelo de capacidade e o modelo de gargalo28. O modelo de
capacidade baseia-se no pressuposto de que os recursos de atenção
são limitados. Portanto, quando as pessoas
executam simultaneamente duas tarefas, a atenção deve ser dividida
entre as tarefas. A interferência de tarefa dupla ocorrerá somente se a
capaci- dade de recursos disponível for excedida, resultando em um
declínio no desempenho em uma ou ambas as tarefas. De acordo com
o modelo de gar- galo, tarefas semelhantes executadas
simultaneamente causam uma inter- ferência de “gargalo”, uma vez
que competem pelo uso das mesmas vias.
Outro ponto importante que deve ser levado em consideração
são os efeitos das diferentes tarefas cognitivas impostas durante a
dupla tarefa. Os efeitos globais da interferência da dupla tarefa
mudam dependendo da tarefa cognitiva específica aplicada29 e,
consequentemente, estudos de neuroimagem mostraram que tarefas
verbais, aritméticas ou visuoespa- ciais induzem ativação de
memória de trabalho diferente e demanda de atenção espacial30–32.
Além disso, tarefas pertencentes ao mesmo domí- nio cognitivo, mas
de crescente dificuldade, têm efeitos progressivamente maiores nos
testes de dupla tarefa33. De acordo com Al-Yahya et al.34, para
avaliar as tarefas cognitivas, cinco domínios gerais foram definidos,
onde cada um é plausivelmente distinto dos outros domínios, em
relação com- portamental e /ou cognitivo:
• Tarefas de tempo de reação: tarefas que envolvem medir o
tempo decorrido entre um estímulo sensorial e uma resposta
comporta- mental, costumam ser usadas para medir a
velocidade de processa- mento, onde um processamento lento
pode estar subjacente a um déficit de atenção34;
• Tarefas de discriminação e tomada de decisão: tarefas que
exigem atenção seletiva a um estímulo ou recurso específico e
respondam em conformidade; costumam ser usadas para
examinar a atenção e a inibição da resposta, como o paradigma
Stroop 34;
• Tarefas de rastreamento mental: tarefas que exigem a
manuten- ção de informações na mente ao executar um
processo mental, cos- tumam ser usadas para examinar a
atenção sustentada e a velocida- de de processamento da
informação34;
• Tarefas de memória de trabalho: tarefas que exigem a
manuten- ção de informações na mente que está disponível
para processa- mento, a diferenciação entre a memória de
trabalho e as tarefas de rastreamento mental foi adaptada a
partir de estudos de imagem cerebral. As tarefas que exigem a
manutenção de informações ape- nas foram classificadas em
tarefas de memória de trabalho, enquan- to que aquelas que
requerem informações de retenção associadas à manipulação
pertencem à categoria de rastreamento mental34;
• Tarefas de fluência verbal: referem-se a tarefas que exigem a
pro- dução de palavras espontaneamente e em condições de
pesquisa pré-especificadas, que recentemente foram usadas
para examinar funções executivas34.
As tarefas cognitivas que envolvem fatores de interferência
internos (por exemplo, rastreamento mental) parecem perturbar mais
o desempe- nho da marcha do que aquelas que envolvem fatores
interferentes exter- nos (por exemplo, tempo de reação). É provável
que tarefas cognitivas, como rastreamento mental e fluência verbal,
compartilhem redes neurais complexas conectando diferentes
regiões cerebrais, que estão interligadas com as do controle da
marcha e a demanda por tarefas cognitivas pode ser suficiente para
interferir nessas redes e, portanto, atrapalhar a marcha. Em
contraste, as tarefas cognitivas que envolvem fatores de interferência
externa (por exemplo, tarefas de tempo de reação) compartilham
redes de ordem inferior “impulsionadas por estímulo” com aquelas
do controle de marcha e, portanto, menos interferência em
comparação com redes com- partilhadas de alta ordem34.

Avaliações biomecânicas e dupla tarefa na doença de


parkinson

Evidências apontam que mais de 4 milhões de pessoas dentre


toda a população mundial estão acometidos pela doença de
Parkinson e este va- lor tende a dobrar nos próximos doze anos12.
Aproximadamente, 1% da população com mais de 65 anos é
acometida pela doença. O Parkinson caracteriza-se como uma
doença degenerativa que atinge o sistema ner- voso central e tem
caráter progressivo. Acomete os gânglios da base, local onde se
verifica o maior decréscimo progressivo de neurônios da porção
mais compacta da substância negra3. A etiologia da doença não é
específi- ca. Diversos fatores são relacionados com sua ocorrência,
como exemplo, é possível citar fatores genéticos, aterosclerose,
fatores ambientais dentre outros35. Ademais, outra consequência do
surgimento da doença está dire- tamente relacionada com a redução
acentuada de neurônios dopaminérgi- cos desta região16, haja vista
que 80% das células morrem antes mesmo do surgimento dos
primeiros sinais da doença de Parkinson36. As decorrentes alterações
no controle motor tornam-se notáveis e resultam em tremor de
repouso, rigidez, bradicinesia, alterações posturais e distúrbios do
equilí- brio e marcha, dentre outros sintomas37. Devido à
variabilidade com que a doença de Parkinson evolui, Hoehn e
Yahr38 desenvolveram uma clas-
sificação de cinco estágios que caracterizam o grau de
dependência dos pacientes e essa escala vem sendo utilizada até
hoje.
Sabe-se que os pacientes com Parkinson podem gerar padrões de
mo- vimentos normais quando se focalizam no desempenho, ou seja,
quando pensam para executar os movimentos39. Desse modo, eles
são capazes de ativar a região do córtex pré-motor, que está intacto,
sem recorrer ao cir- cuito dos núcleos da base que se encontram
deficitários, e isso auxilia na execução dos movimentos. Em
situações de dupla tarefa, a utilização des- ses recursos corticais para
a realização de tarefas motoras pode compro- meter o desempenho
de ambas. Grande parte das pessoas acometidas pela doença de
Parkinson apresentam alterações e comprometimentos (i.e.
dificuldades de interação entre os sistemas responsáveis pelo
equilíbrio corporal) que fatidicamente pode culminar em quedas36.
Alguns testes de dupla tarefa tentam mimetizar situações reais na
vida de pessoas com Parkinson. No estudo de Fernandes et al.40, por
exemplo, foi avaliada a estabilidade de controle postural, através do
deslocamento do centro de pressão, em nove indivíduos saudáveis
(63,89 ± 8,09 anos) e nove indivíduos com Parkinson (66 ± 8,22
anos), ao realizarem uma única tarefa (teste de sentar, levantar e
sentar) e um teste de dupla tarefa, que consistiu no teste de sentar,
levantar e sentar, associado ao teste de Stroop de cores e palavras, o
qual resume-se em nomear a cor em vez de ler a pa- lavra que é
apresentada ao avaliado. Após o protocolo experimental, os au- tores
observaram que os indivíduos com Parkinson despendiam um tempo
maior na realização do teste na condição de dupla tarefa, em relação
aos indivíduos saudáveis, além dos deslocamentos do centro de
pressão ante- roposterior e mediolateral serem maiores nos
indivíduos com Parkinson, comparados aos indivíduos saudáveis e
na condição de dupla tarefa. Os autores do estudo afirmam que
indivíduos com Parkinson apresentaram redução da estabilidade do
controle postural em uma tarefa de vida diária costumeira, como
sentar e levantar, especialmente sob uma condição de dupla tarefa40.
Outro estudo que investigou os efeitos de uma tarefa cognitiva
sobre a ocorrência de quedas e congelamento da marcha em resposta
a uma per- turbação postural foi realizado por Jacobs et al.41. Os
autores submeteram dez indivíduos com Parkinson e dez indivíduos
saudáveis a um teste de deslocamento para trás que poderia estar
associado ou não a uma segun- da tarefa, a qual consistia em listar
verbalmente itens de uma categoria definida pelos avaliadores. Após
o protocolo experimental, os autores ob- servaram que o
deslocamento, quando associado com a tarefa cognitiva,
aumentou significativamente a incidência de quedas no grupo com
Parkin- son, sem relato desse evento no grupo de indivíduos
saudáveis, concluindo que para prevenir quedas, pessoas com
Parkinson devem evitar a realiza- ção da marcha em condições de
dupla tarefa.
Em estudo realizado por Fuller et al.42, foi investigado se a
marcha es- tava associada a deficiências e comprometimentos
decorrentes da doença de Parkinson. Participaram do estudo 154
pacientes com Parkinson (64,3
± 9,4 anos), classificados com incapacidade de leve a moderada pela
escala de Hoehn e Yahr, que foram submetidos a um teste motor
(marcha), teste cognitivo (verbalização do maior número de palavras
que inicia com a letra sorteada) e, a execução simultânea do teste
motor e teste cognitivo. Os au- tores observaram que o desempenho
da marcha foi prejudicado em condi- ções de dupla tarefa (motor +
cognitivo) e que o grau de comprometimento e severidade da doença
têm correlação com a diminuição do desempenho, ou seja, quanto
maior o grau de severidade da doença, pior foi o desempe- nho do
indivíduo. Assim, os autores sugeriram que o teste de dupla tarefa,
envolvendo uma tarefa motora (marcha) e uma tarefa cognitiva de
fluência verbal, pode ser um instrumento sensível para detecção
precoce de incapa- cidades relacionadas à doença de Parkinson e que
pessoas com essa doen- ça, em seu dia a dia, devem priorizar a
marcha e não a tarefa cognitiva, em condições de dupla tarefa42.
Nesse sentido, Fok et al.43 examinaram os efeitos de uma
estratégia de priorização da marcha em pessoas com doença de
Parkinson, divididos em grupo experimental (n= 6; 66,8 ± 9 anos) e
grupo controle (n= 6; 55,7
± 12,3 anos). O grupo experimental recebeu uma intervenção
terapêutica de 30 minutos, em que foram instruídos a priorizar a
tarefa de marcha enquanto realizavam uma sequência de três
subtrações, e o grupo controle não recebeu nenhuma intervenção. Os
resultados do estudo indicaram que o tamanho da passada e a
velocidade de marcha aumentaram significati- vamente no grupo
experimental em relação ao grupo controle, mostrando que para
pessoas com Parkinson melhorarem a execução, devem priorizar a
marcha como tarefa principal. Esses achados vão de encontro ao
obser- vado por Canning44, que submeteu 12 indivíduos com
Parkinson (65,4 ±
10,4 anos) a 4 condições: 1) caminhar com as mãos livres; 2)
caminhar se- gurando uma bandeja com taças; 3) caminhar com
atenção voltada à tarefa de marcha e; 4) caminhar segurando uma
bandeja com taças, porém com atenção voltada à tarefa de marcha.
Após a aplicação dos testes, foi obser- vado que quando os
indivíduos foram instruídos a dirigir a atenção para a marcha, eles
conseguiam caminhar mais rápido e com passadas mais
longas, tanto na condição de uma única, quanto em dupla
tarefa.
Com uma proposta metodológica similar, o estudo de Rochester
et al.45 avaliou os efeitos de interferência na marcha em situações de
vida diárias sob condições de uma única e dupla tarefa. Vinte
indivíduos com Parkin- son (64,6 ± 7,96 anos) e dez indivíduos
saudáveis (63,5 ± 7,03 anos) foram avaliados em 4 condições: 1)
realizar a marcha; 2) realizar a marcha e pe- gar uma bandeja com
duas xícaras, voltar ao ponto de partida, repousar a bandeja e sentar;
3) realizar a condição anterior e verbalizar ao avaliador uma situação
vivenciada similar ao teste e; 4) realizar a marcha e verbalizar apenas
uma situação vivenciada similar ao teste. Ao final do experimento,
foi observada uma redução da velocidade de marcha e do
comprimento da passada nos indivíduos com Parkinson nas
condições 3 e 4, ou seja, nas condições de multitarefa e dupla tarefa
(motora + cognitiva).
Já no estudo de Heinzel et al.46, foi observado o efeito de dois
tipos de dupla tarefa, cognitiva e motora, como instrumento preditivo
de futuras quedas em indivíduos com Parkinson. Quarenta
participantes foram sub- metidos a 3 condições: 1) caminhar 20
metros o mais rápido possível, 2) realizar a caminhada enquanto
assinala 32 itens em uma prancheta com a mão dominante e, 3)
caminhar ao mesmo tempo que realiza 10 subtrações verbalizando o
resultado ao avaliador. Os participantes foram questiona- dos quanto
a eventos de quedas previamente à aplicação do estudo e após o
protocolo experimental, e foi observado que o teste de caminhar
enquan- to assinala itens teve 71,4% de sensibilidade e 77,3% de
especificidade em identificar esses indivíduos, mostrando que duplas
tarefas motoras podem ser ótimos instrumentos na predição de
quedas em pessoas com Parkin- son.
Assim como uma dupla tarefa motora ou uma dupla tarefa
envolvendo atividade motora e cognição, há estudos que relacionam
a atividade moto- ra e distúrbios externos como o som. Isso pode ser
observado no estudo de Brown et al.47, que investigaram o efeito da
música como tarefa concorren- te a marcha em 10 indivíduos com
Parkinson (67 ± 7 anos) e 10 indivíduos saudáveis (65 ± 6 anos). Os
participantes foram submetidos a 4 diferentes condições: 1) realizar
a marcha; 2) realizar a marcha escutando música;
3) realizar a marcha e verbalizando uma sequência de 3 subtrações e;
4) realizar a marcha, escutando música e verbalizando uma
sequência de 3 subtrações. O resultado da pesquisa indicou que a
marcha dos indivíduos com Parkinson foi prejudicada nas condições
com música, observada atra- vés da diminuição da velocidade da
marcha e tamanho da passada, o que não ocorreu com o grupo de
indivíduos saudáveis.
Outro estudo interessante de Teixeira e Alouche3 analisou o
desem- penho de dez indivíduos com Parkinson e dez indivíduos
saudáveis, na realização de uma única e dupla tarefa. Foi
solicitado aos participantes que vestissem uma camisa de botões o
mais rápido possível como uma única tarefa e que executassem essa
mesma tarefa enquanto verbalizavam nomes próprios femininos, ou
seja, uma dupla tarefa. Após a execução dos testes, foi observado que
os indivíduos com Parkinson levaram mais tem- po para completar
ambas as tarefas e que tanto eles quanto os indivíduos saudáveis
cometeram mais erros na dupla tarefa.
As avaliações que envolvem dupla tarefa, assim como avaliações
da marcha e equilíbrio possuem uma relevância clínica no auxílio de
pro- fissionais ligados à reabilitação de pessoas com doença de
Parkinson, a fim de identificar diferentes distúrbios e garantir
referências para reabi- litação48. Por meio desse compilado de
estudos, pode-se observar que a marcha, quando realizada em
condições de dupla ou multitarefas, é pre- judicada e pode dificultar
as atividades cotidianas de pessoas com Parkin- son. Esse fato
corrobora com a sugestão de Canning44, o qual cita que o
desempenho nas situações de vida diárias em pessoas com Parkinson
que envolvem dupla tarefa pode ser melhorado a partir da
manipulação de ins- truções específicas, deve-se focar a atenção na
atividade prioritária, em específico na marcha, evitando-se assim
eventos de queda ou congelamen- to da marcha. Os paradigmas de
tarefa dupla fornecem suporte adicional no controle automático da
marcha, levando a uma maior variabilidade ao caminhar. Este
aumento do custo da dupla tarefa em pessoas com doença de
Parkinson sugere que a marcha requer mais atenção e controle
voluntá- rio do que em indivíduos saudáveis, resultando em maior
variabilidade de desempenho dessa tarefa.
Baker et al.49 compararam a influência de diferentes estímulos
duran- te a realização do teste funcional com e sem dupla tarefa em
indivíduos com Parkinson e grupo controle. O teste funcional de
levantar e andar foi realizado sob duas condições distintas: 1) tarefa
simples (andar sozinho), e 2) tarefa dupla (andar e carregar uma
bandeja com duas xícaras). Os estímulos utilizados durante o teste
foram: 1) Auditivo Rítmico (caminhar no tempo da batida do
metrônomo); 2) Atenção (dar grandes passos); 3) Combinada (dar
grandes passos no ritmo do metrônomo). A estratégia de atenção e a
combinada resultaram em grandes melhorias tanto na veloci- dade da
marcha (~10% / 1,03 cm/s) quanto na amplitude do passo (~15%
/ 2 cm). O estímulo auditivo rítmico, quando sozinho e a 10%
abaixo da frequência de passos preferida, melhorou a amplitude do
passo, mas a me-
lhora não foi significativa.
Corroborando, Nieuwboer et al.50 demonstraram em sua revisão
de literatura, que o uso de informações sensoriais adicionais pode
otimizar o aprendizado motor na doença de Parkinson. Há evidências
abundantes de que as pistas ajudam a obter melhor desempenho de
movimento e que esses efeitos são mantidos mesmo após a retirada,
possivelmente indican- do os primeiros sinais de consolidação.
Apesar dos benefícios de adotar métodos explícitos de aprendizado,
informações sensoriais e dicas, parti- cularmente nos estágios mais
avançados, há um risco de desenvolvimento de dependência de
pistas. Isso implica que os profissionais precisam cons- truir um
estágio de dissociação da aprendizagem à informação sensorial
aumentada ou fornecer pontos de referência permanentes e dicas para
ex- plorar os incrementos de aprendizado.
Penko et al.51 ao avaliarem a marcha de indivíduos com
doença de Parkinson com e sem a dupla tarefa observaram que a
marcha declina em todos os parâmetros espaço-temporais, com
exceção da variabilidade da largura do passo e da variabilidade do
tempo da passada. Esse fato su- gere que indivíduos com a doença
em nível leve a moderado apresentam uma piora generalizada dos
parâmetros espaço-temporais da marcha, in- dependentemente do
grau de dificuldade da tarefa. Independentemente do tipo de tarefa
executada simultaneamente (i.e., tarefas de memória, processamento
de informação, memória viso espacial ou verbal), ocorrem
decréscimos no desempenho de marcha, enquanto o desempenho
cogni- tivo é preservado. Outro achado importante é que a
velocidade da marcha mudou de uma média de ~1,24 m/s durante a
tarefa única para ~1,10 m/s durante todas as condições de dupla
tarefa. Essa redução substancial na velocidade da marcha ao passar
de condições de tarefa única para tarefa dupla, preservando o
desempenho cognitivo, indica que, em indivíduos com doença de
Parkinson, os gânglios da base são incapazes de processar
adequadamente as demandas motoras e cognitivas em condições de
dupla tarefa, aumentando o risco de queda.
Na doença de Parkinson, a degeneração nos gânglios da base
afeta tan- to o trato motor quanto o cognitivo. A hipótese dos
recursos limitados aju- da a explicar os déficits de dupla tarefa
observados no estudo de Penko51 e colaboradores. Essa hipótese
sugere que, como a cognição e a função motora têm redes neurais
paralelas e sobrepostas dentro do sistema ner- voso central, há uma
competição pelos mesmos recursos limitados. Quan- do uma tarefa
requer uma demanda ou recursos maiores, o desempenho em uma ou
ambas as tarefas, é reduzido. Como a marcha se deteriorou sob
todas as condições de tarefa dupla, pode-se concluir que todos os
aspectos da cognição desempenham um papel na execução da
marcha, com atenção e resolução de problemas, talvez exigindo mais
recursos cognitivos desses indivíduos51.
Déficits cognitivos são comuns na doença de Parkinson e
exacerbam as limitações funcionais impostas pelos sintomas motores
marcantes da doença, incluindo deficiências na marcha. Salazar et
al.52 tiveram como ob- jetivo investigar a relação entre marcha e
função executiva. A dupla tarefa teve um efeito significativo na
cognição (redução na mudança de atenção) e na caminhada
(velocidade, comprimento da passada), tanto para o gru- po com
Parkinson quanto para os saudáveis, e na frequência de passada
apenas para grupo com Parkinson. Os resultados sugerem que a
avaliação e o tratamento da doença de Parkinson devem considerar
os componentes cognitivos e de marcha dos déficits relacionados à
doença em condições de dupla tarefa.
O’Shea et al.39 determinaram a gravidade da interferência de
dupla tarefa. Para tal fim, os autores utilizaram o teste de marcha (1)
a uma ve- locidade auto selecionada, (2) enquanto realizava
simultaneamente uma tarefa motora (transferência de moeda), e (3)
enquanto realizava simul- taneamente uma tarefa cognitiva
(subtração de dígitos). Pode-se observar que durante a tarefa
simples o comprimento médio da passada (1,29 m
- 1,51m), a velocidade média da marcha (71,47 m/min - 87,29
m/min) e a cadência média (110,79 passos/min - 115,81 passos/min)
foram menores no grupo com Parkinson quando comparado ao
grupo controle. Ambos os grupos reduziram o comprimento e a
velocidade do passo, quando tive- ram que mudar de desempenho
não prioritário para desempenho de tarefa dupla e para o grupo com a
doença, a cadência também diminuiu. Para ambos os grupos, o tipo
de tarefa secundária teve um efeito insignificante no decréscimo de
desempenho, o que nos leva a crer que o tipo de tarefa secundária
não é um dos principais determinantes da gravidade da inter-
ferência de dupla tarefa.
Na fase prodrômica (período de tempo entre os primeiros
sintomas da doença e o início dos sinais ou sintomas com base nos
quais o diagnóstico pode ser estabelecido) da doença de Parkinson, o
paradigma da dupla tare- fa é usado para esgotar as estratégias de
compensação que visam preservar a função motora quando o sistema
dos gânglios da base é alterado53. Os autores expõem que a doença
de Parkinson possui uma fase pré-diagnós- tica longa na qual o
controle da marcha sob condições de dupla tarefa já é alterado
(observado no quadro 1.11). O paradigma da marcha com dupla
tarefa mostrou benefício: para explorar o envolvimento do nível
cortical no controle da marcha, permitindo avaliar se o controle da
atenção execu- tiva está ou não anormalmente comprometido; nas
estratégias de compen- sação de escape visando à preservação da
função motora quando o sistema ganglionar basal está alterado, como
na doença de Parkinson prodrômica. Desta forma, em conjunto, é
compreensível que a marcha com dupla tare- fa possa ser uma
ferramenta útil para revelar déficits invisíveis durante a marcha em
uma única tarefa e, portanto, ser um preditor particularmente
sensível da doença de Parkinson.

Quadro 1.11 - Alterações da marcha relacionadas à dupla tarefa nas


fases prodrômica e clínica.

Domínios de Fase Clínica Fase


Marcha Prodrômica
↓ velocidade de marcha ↓ velocidade de
↓ comprimento da passada marcha
Ritmo de ↑ variabilidade do tempo de ↑ variabilidade
desempenho passada do
↑ variabilidade do tempo de tempo de passada
oscilação
↑ cadência
Ritmo ↓ tempo de balanço
(parâmetros ↑ tempo de apoio -
temporais) ↑ tempo de passada
Fase
(parâmetros ↑ tempo de duplo suporte -
temporofásicos)
Assimetria ↑ assimetria tempo passada -
Variabilidade ↑ variabilidade do
(parâmetros do ciclo comprimento da passada -
da marcha) ↑ variabilidade da largura da
passada
Controle Postural ↑ largura do passo
(base de suporte) ↑ assimetria comprimento da -
passada
↓ amplitude do
balanço do braço
↓ amplitude do balanço do ↑ assimetria do
Parâmetros do braço balanço do braço
balanço ↑ assimetria do balanço do ↑ variabilidade
do braço braço do balanço do
↑ variabilidade do balanço do braço
braço

Fonte: Adaptado de Belghali et al.53


Conforme já citado anteriormente neste capítulo, atividades que
en- volvem dupla-tarefa permeiam o desempenho das funções
humanas em seu dia a dia. De acordo com o tipo de atividades
desempenhadas, a dupla tarefa pode ser motora, cognitiva ou
cognitivo-motora. Uma estratégia de reabilitação cada vez mais
utilizada é o treinamento de dupla tarefa, que visa facilitar, por meio
da realização de atividades funcionais simultâneas, a alocação de
recursos atencionais, diminuindo assim a interferência na dupla
tarefa.

Efeitos do treinamento com dupla tarefa na doença de


parkinson

Nos últimos anos, tem aumentado consideravelmente a


quantidade de pesquisas desenvolvidas utilizando dupla tarefa em
variadas situações e com diferentes populações. Como resultado, tais
investigações têm evi- denciado que o treinamento utilizando dupla
tarefa representa uma estra- tégia de tratamento ou melhora da
capacidade funcional. O treinamento com dupla tarefa pode ser
utilizado como uma estratégia de reabilitação, levando em
consideração que o objetivo principal é fazer o uso de ativi- dades
funcionais executadas de forma simultânea, para realocar recursos
atencionais e diminuir a interferência na execução da dupla tarefa27.
A priorização da marcha em situação de dupla tarefa, apresenta-
se como um outro cenário de treinamento possível visando prover
melho- ria na performance da marcha. Recomendações anteriores
sugerem que seja evitado o uso de dupla tarefa com estratégia de
atenção em pessoas com doença de Parkinson de leve a moderada e
sem comprometimento cognitivo. Porém, isso não se aplica a todos
os indivíduos, pois em alguns, o treinamento com priorização foi
capaz de prover ganhos imediatos na marcha, podendo ainda ser
inserido em programas de reabilitação visando alcançar efeitos
crônicos43.
Corroborando, em uma revisão sistemática realizada por Santos
et al.16, os autores constataram que diferentes tipos de treinamento
utilizan- do dupla tarefa (estímulos sonoros, visuais,
somatossensoriais) são capa- zes de provocar a ocorrência de
melhorias em vários aspectos, que estão relacionadas à marcha. Os
principais benefícios estão relacionados com a melhora da
velocidade, tempo de passada, cadência e comprimento do passo.
Adicionalmente, os estudos identificaram que estímulos externos
desempenham um papel importantíssimo no treinamento com
marcha, utilizando dupla tarefa, pois esse tipo de estímulo parece
diminuir a inter-
ferência de tarefas adicionais na melhoria do padrão de
marcha.
Brauer e Morris54 realizaram um estudo com indivíduos com
doença de Parkinson que foram submetidos à avaliação da marcha de
forma simples sob uma passarela eletrônica e em outras seis situações
diferentes de dupla tarefa (por atividades de manipulação, posturais,
visuais, cálculos, lingua- gem, dentre outros), antes e imediatamente
após uma sessão de treino de
20 minutos com foco na melhoria da duração do passo, ao mesmo
tempo executando tarefas de linguagem de memória - geração e
associação de palavras - e de contagem - direta e reversa de dois e
cinco segundos - com respostas verbais. A ordem dos testes foi
proposta de forma randomiza- da para cada participante. A
especificidade do treinamento de caminhada foi evidente e
melhorias foram específicas no comprimento do passo. A
velocidade de caminhada e a cadência não foram treinadas e menos
me- lhorias nesses parâmetros ocorreram após o treinamento. Além
disso, a descoberta de que pessoas com a doença têm o potencial de
adaptação de habilidades motoras no curto prazo sugere que, em
pessoas com grau leve da doença, pode ser útil desenvolver
programas de treinamento de marcha que as ensinem a andar
enquanto realizam tarefas simultâneas, ao invés de ensiná-las a evitar
tarefas duplas. De modo geral, o estudo evidenciou que a prática
permite que pessoas com doença de Parkinson deem pas- sos
maiores enquanto executam uma tarefa adicional ou seja, conforme
já exposto anteriormente ao enfatizar a variável da marcha no
treinamento de dupla tarefa, observa-se uma maior transferência de
habilidade para execução destas tarefas no cotidiano54.
Seguindo nesta linha de treinamento utilizando a marcha, foi
desen- volvido um estudo piloto11 que utilizou uma estratégia com
dupla tarefa em pacientes com doença de Parkinson. Os participantes
foram subme- tidos a um protocolo com seis situações diferentes,
onde a primeira foi apenas marcha simples no ritmo em que eles
costumavam andar diaria- mente e nas demais, além da marcha foi
utilizado fluência verbal, cálculos e tarefas cognitivas. Para a
intervenção, foi adotado um modelo de trei- no chamado Task-
specific training, que consiste em desenvolver o treino
especificamente voltado para a função que se pretende trabalhar
(dupla tarefa e marcha, neste caso). A partir deste treinamento
aplicado, o estu- do encontrou resultados que apontam que houve
melhorias significativas na velocidade da marcha, superando
resultados anteriores. Resultado este que indica reprodutibilidade
deste método de treino para pessoas com do- ença de Parkinson no
ambiente clínico11.
Visando identificar qual a melhor estratégia para o treinamento,
Strouwen et al.55 compararam a eficiência de dois modelos
diferentes de treino com dupla tarefa e avaliaram os riscos de queda
de cada método. Os pacientes foram submetidos a seis semanas de
treinamento, utilizando de forma randômica um método onde se
treinava marcha e tarefas cognitivas de forma separada e o outro
grupo realizava as tarefas de forma simultâ- nea. O risco de queda
foi avaliado semanalmente por telefone durante 24 semanas. Os
resultados encontrados apontam que não houve mudanças no risco
de quedas ao longo do estudo, porém em contraponto, foram en-
contradas melhorias na velocidade da marcha com dupla tarefa
embora não tenham sido verificadas diferenças entre os dois modelos
de treino.
Geroin et al.56 submeteram 121 pacientes com doença de
Parkinson a treinamento, onde 1) tarefas cognitivas e a marcha
foram treinadas sepa- radamente, e 2) tarefas cognitivas e a marcha
foram treinadas simultane- amente. Ambos os grupos receberam 24
sessões de fisioterapia em casa por seis semanas consecutivas.
Previamente ao período de treinamento, duas medições de linha de
base foram realizadas, para serem utilizadas como período controle
(seis semanas). A marcha foi avaliada sob três di- ferentes condições
1) não treinada, 2) tarefa simples, e 3) dupla tarefa. Ambas as
modalidades de treinamento tiveram um efeito comparável nos
parâmetros espaço-temporais da marcha. Houve aumento pós-treino
no comprimento da passada e na cadência nas condições de tarefa
única e du- pla. Nenhuma mudança significativa foi encontrada para
a variabilidade da marcha em condições de tarefa única e dupla.
Ambos os treinamentos, integrados ou não, são seguros e eficazes na
melhoria de vários parâme- tros espaço-temporais da marcha em
condições de tarefa simples s dupla tarefa.
Fok et al.57 examinaram os efeitos da divisão da atenção entre a
ca- minhada e o desempenho de uma tarefa cognitiva secundária em
pessoas com doença de Parkinson leve a moderada. Os participantes
do grupo de treinamento receberam 30 minutos de treinamento de
atenção dividida (deviam dar grandes passos enquanto
simultaneamente realizavam três subtrações em série). Os autores
observaram uma melhora imediata no comprimento da passada e na
velocidade da marcha, quando a instrução foi dada aos participantes
para prestarem igual atenção à marcha e sub- trações em comparação
com a marcha simples (linha de base). A melhora de curto prazo nas
variáveis da marcha também foram encontradas após o treinamento,
quando comparada aos controles. No entanto, não houve di- ferenças
na taxa de enumeração precisa. Com base nos achados, é possível
concluir que a atenção dividida pode ser usada como uma estratégia
para
melhorar a marcha lenta e curta em condições de dupla tarefa. A
atenção dividida também pode ser usada no treinamento de marcha
para o com- primento da passada e melhora da velocidade da
marcha.
Algumas conclusões podem ser destacadas, ocomprometimento
do desempenho de dupla tarefa durante a marcha tem consequências
inca- pacitantes para as atividades da vida diária. De fato, o
desempenho pre- judicado da tarefa dupla tem se mostrado
correlacionado com um risco aumentado de quedas, redução das
habilidades funcionais e diminuição da qualidade de vida. Desta
forma, ressalta-se a importância de futuras intervenções buscando
maiores evidências sobre quais parâmetros são alterados com
utilização da dupla tarefa, assim como, maiores pesquisas
evidenciando qual das teorias da neuropsicologia melhor explica os
acha- dos sobre as alterações na marcha, quando executada em
concomitância com outra tarefa. Fica o questionamento para futuros
estudos: Além da marcha, outras tarefas são influenciadas quando
feitas simultaneamente a outra, seja ela cognitiva ou motora?.

Aplicações práticas

• Avaliações utilizando dupla tarefa mostram-se


importantes no sentido de quantificar o comprometimento
motor, bem como, con- tribuir com o trabalho de profissionais
que atuam na reabilitação de pessoas com Parkinson;
• Atividades motoras executadas com dupla tarefa implicam
em alta demanda de processamento de informações, e a
utilização ocasiona a redução do desempenho (geralmente a
tarefa motora é priorizada) em uma das tarefas;
• A dupla tarefa aumenta o risco de quedas em idosos frágeis
ou que sofrem de alguma patologia como a doença de
Parkinson;
• O treinamento com tarefa motora e cognitiva associadas,
melhora o desempenho tanto motor (aumento do número de
passos por se- gundo) quanto cognitivo (número de erros na
tarefa visual).
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308
CAPÍTULO XII
AVALIAÇÃO BIOMECÂNICA EM USUÁRIOS DE
CADEIRA DE RODAS: RESPOSTAS À DEMANDA
MECÂNICA DOS MEMBROS SUPERIORES

Grazieli Maria
Biduski Bruna Barboza
Seron Cíntia de la Rocha
Freitas

O que você irá encontrar:

• Contextualização geral de quem são os usuários de cadeira de


ro- das, bem como os tipos de deficiências que podem levar a
essa con- dição e demais aspectos relacionados a saúde e
qualidade de vida;
• A importância dos membros superiores para a manutenção da
in- dependência das atividades diárias para a pessoa que utiliza
cadeira de rodas;
• Possíveis lesões nos usuários de cadeira de rodas em
decorrência da alta demanda do membro superior ao realizar as
tarefas diárias;
• Análises biomecânicas em usuários de cadeira de rodas:
medidas de cinemática, cinética, eletromiografia e de
eletroestimulação;
• Conjunto de estudos que trazem evidências da importância das
avaliações biomecânicas para a melhora da qualidade de vida,
pre- venção de lesões e para o desempenho nos usuários de
cadeira de rodas.

Introdução

A cadeira de rodas é, para muitas pessoas, a melhor maneira de


garan- tir a mobilidade e a independência das atividades da vida diária
(AVD’s)1. É considerado usuário de cadeira de rodas toda e qualquer
pessoa com diferentes deficiências neuromusculoesqueléticas que
estão impossibilita- das de deambular2. Com a prática diária de
propulsão, os usuários acabam desenvolvendo um padrão propulsivo
único. Frequentemente, esses mo- vimentos não são econômicos e
acarretam em altas demandas mecânicas aos membros superiores,
resultando em lesões pelo uso repetitivo da ca- deira de rodas3.
Por outro lado, o movimento propulsivo contribui para que a força
muscular do membro superior seja preservada3 auxiliando-o na
manuten- ção do condicionamento físico como parte das atividades
cotidianas4. Com
a capacidade física melhorada, é possível trabalhar, estudar e
participar de diferentes atividades, porém, sem o uso de cadeira de
rodas, as pessoas poderiam ficar condicionadas a uma vida
totalmente sedentária e propen- sas a desenvolver diversas
complicações secundárias agravando o estado de saúde5.
Não somente os prejuízos nas condições físicas, mas também nas
con- dições psicológicas têm colaborado para um estado deletério da
saúde de pessoas com diferentes deficiências. Estudos recentes
demonstram que a depressão está fortemente presente nessa
população6,7 atingindo cerca de
30% em pessoas com amputação ou lesão medular. Essa situação é
ainda mais crítica no primeiro ano após o trauma, que revela que
parte destes indivíduos (15%) pensaram em suicídio.
Usar os membros superiores, ao invés dos inferiores, causa uma
gran- de mudança na vida das pessoas, provocando uma série de
adaptações motoras8, fisiológicas9, biomecânicas10 e psicológicas7.
Conhecer essas adaptações são importantes para traçar estratégias
tanto para melhorar a qualidade de vida e saúde, quanto o
desempenho esportivo. Portanto, pes- quisas científicas são
fundamentais para a elaboração de novas estratégias que possam
contribuir e modificar de forma positiva a vida de usuários de cadeira
de rodas.
Sendo assim, ao longo deste capítulo serão abordadas pesquisas
na área da biomecânica com foco para os usuários de cadeiras de
rodas. Ini- cialmente para melhor compreensão, será apresentada
uma contextuali- zação geral dessa população, a fim de caracterizá-
la. Em seguida, serão discutidas as possíveis lesões nos membros
superiores que podem ocorrer devido à mobilidade de cadeira de
rodas e às tarefas diárias. Ao final deste capítulo, serão apresentados
diferentes métodos de avaliação em biomecâ- nica referenciados pela
literatura nacional e internacional, a fim de trazer uma ideia das
pesquisas voltadas para as pessoas com alguma deficiência que
utilizam de cadeira de rodas para manter sua independência.
Usuários em cadeiras de rodas: quem são?

Estima-se que no mundo mais de 70 milhões de pessoas


necessitam utilizar a cadeira de rodas, no entanto, apenas 5 a 15%
possuem acesso a uma2. Esses dados são extremamente
preocupantes, pois a cadeira de rodas pode ser o principal meio de
mobilidade para quem possui prejuízo na condição motora11.
A mobilidade refere-se a qualquer movimento realizado pelo indiví-
duo, com ou sem recursos de assistência, que leva a uma mudança de
po- sição, ou seja, trata-se da capacidade de deslocamento12. Dessa
forma, a mobilidade torna-se um importante componente da função
física, já que se constitui como um pré-requisito para a execução das
atividades básicas de vida diária (AVDs), que estão relacionadas ao
autocuidado, e das ati- vidades instrumentais da vida diária (AIVDs)
que englobam tarefas mais complexas ligadas à participação
social13,14,15.
O uso da cadeira de rodas pode favorecer o empoderamento, a
digni- dade e o bem-estar geral, pois pode permitir que um usuário
de cadeira de rodas seja independente, participe e tenha
oportunidades iguais; tenha ainda acesso à educação, ao trabalho, à
assistência médica, podendo parti- cipar da vida familiar e
comunitária2.
Prejuízos na mobilidade são causados, de maneira geral, por
distúr- bios ortopédicos ou neurológicos relacionados a doenças ou
deficiências. As características desses prejuízos incluem perda de
força muscular, au- sência de membros, hipertonia, atetose, ataxia,
distúrbios posturais e, em alguns casos, dor. Existe uma ampla gama
de condições que compõe essa categoria. Dentre as mais comuns
estão: lesão medular, paralisia cerebral, amputação bilateral,
esclerose múltipla, distrofia muscular e acidente vas- cular
encefálico16.
Além de proporcionar mobilidade, uma cadeira de rodas
apropriada traz benefícios para a saúde física e qualidade de vida do
usuário17. Uma cadeira de rodas apropriada deve permitir que o
usuário faça com mais facilidade e segurança as principais ações
exigidas na locomoção de ca- deira de rodas, que são: transferir-se da
cadeira de rodas, impulsioná-la, dobrar e armazenar a cadeira para
transporte e realizar suas atividades cotidianas.
O tipo certo de cadeira de rodas pode facilitar todas as
demandas17 e é dependente do perfil físico e social do usuário.
Várias são as partes da cadeira (Figura 1.12) que merecem atenção,
mas de maneira geral é impor- tante preocupar-se com a altura do
encosto, posição da roda traseira, com- primento da estrutura da
cadeira de rodas, apoio para os braços, distância entre eixos das
rodas dianteiras e traseiras, tamanho e largura das rodas, tamanho e
material do assento, tipo de almofadas e ajuste do tamanho do apoio
dos pés.
Algumas deficiências possuem cuidados específicos que
merecem atenção na utilização da cadeira de rodas. Alguns desses
cuidados des- critos no documento denominado de Pacote de
Treinamento em Serviços para Cadeiras de Rodas produzido pela
OMS (2012)17 são delineados nos
parágrafos a seguir.
Por exemplo, pessoas com lesão medular têm grande
probabilidade de desenvolver úlceras/feridas. Por isso é importante
atentar-se para almofa- da para alívio da pressão. Já a paralisia
cerebral afeta as pessoas de forma diferente e muitas delas podem
precisar de suporte postural adicional na cadeira de rodas. Pessoas
com poliomielite podem ter fraqueza ou flaci- dez em partes do
corpo, os músculos e ossos ficam mais frágeis e um dos membros
inferiores não cresce tão rápido, e uma almofada mais alta pode
proporcionar uma posição mais confortável para impulsionar a
cadeira.

Figura 1.12 - Configuração de uma cadeira de rodas.

Fonte: Pacote de Treinamento em Serviços para Cadeiras de Rodas (OMS, 2012)

Pessoas que tiveram um acidente vascular encefálico


(AVE)/trombo- se cerebral geralmente têm um lado do corpo
afetado. Isso significa que podem pender para um lado na cadeira de
rodas. Às vezes são capazes de transferir-se da cadeira de rodas
ficando em pé, portanto essas podem pre- ferir uma cadeira de rodas
com apoio para os pés removível ou móvel para poder fazer
transferências em pé. Pessoas com amputação dupla não têm
o peso das pernas para impedir a cadeira de rodas de cair para trás,
dessa forma é importante verificar a necessidade de mover a roda
traseira para trás para dar mais estabilidade.
Todos os cuidados mencionados anteriormente são fundamentais
para que a cadeira se torne apropriada às necessidades dos usuários.
Uma ca- deira de rodas inadequada pode exigir que os usuários
exerçam maior força ou resultem em posições desajeitadas que
podem causar tensão desneces- sária nos membros superiores. A
combinação de movimentos repetitivos, maiores forças de pico e
grandes deflexões articulares podem resultar em problemas
musculoesqueléticos ou lesões18.
Por outro lado, uma cadeira apropriada diminui problemas de
saúde comuns, como úlceras de pressão, a progressão de
deformidades ou con- traturas e outras condições secundárias,
resultando, assim, na redução de despesas com a saúde. Além disso,
facilita a respiração, digestão e uma melhor postura. Todos esses
resultados levam a um aumento dos níveis de atividade e uma melhor
qualidade de vida17.
Promover níveis adequados de saúde nessa população tem sido
uma preocupação mundial pois, comparada às pessoas sem
deficiência, pessoas com deficiência são três vezes mais propensas a
possuírem certas doenças, como doenças cardíacas, AVE, diabetes e
algumas formas de câncer19. Des- sa forma, a prática de atividades
físicas torna-se um caminho para dimi- nuição do risco de
desenvolvimento dessas doenças.
Contudo, o número de pessoas com deficiência fisicamente
ativas aponta para uma realidade ainda negativa do engajamento
dessas com a prática de atividade física. Uma importante publicação
do President’s Cou- ncil on Physical Fitness and Sports e Rimmer20
expôs os dados do Beha- vioral Risk Factor Surveillance System
(BRFSS) entre 2001 e 2003, que mostrou que 37% das pessoas com
deficiência, em comparação a 8% de pessoas sem deficiência,
percebem sua saúde pobre. Além disso, 22,4% das pessoas com
deficiência eram inativas fisicamente comparadas a 17,8% das
pessoas sem deficiência.
No Brasil, dados de 2013 da Pesquisa Nacional de Saúde,
realizada pelo Ministério da Saúde em parceria com o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)21, demonstraram que
apenas 13,6% entre aqueles com deficiência motora ou física são
fisicamente ativos em comparação a 54% de pessoas sem
deficiência.
Diversas são as barreiras apontadas pelas pessoas com
deficiência mo- tora para a prática de atividades físicas. No entanto,
destacam-se as limi- tações físicas e também as dores entre os
principais dificultadores dessa
prática22. Este fato reforça novamente a importância do olhar atento
para que a pessoa com deficiência motora tenha uma cadeira de
rodas apro- priada, fato que pode contribuir para a diminuição da
percepção dessas barreiras apontadas.
O envolvimento em esportes ou exercícios físicos também
contribui para o bem-estar psicológico de pessoas que utilizam
cadeira de rodas. Es- tudos têm mostrado melhores índices de tensão,
disposição, depressão, aceitação e autonomia em quem realiza
atividades em comparação aos in- divíduos sedentários ou aos que
não estão envolvidos em práticas espor- tivas23,24,25.
De maneira geral, a prática de atividades físicas e/ou esportes traz
inúmeros benefícios físicos, sociais e emocionais aos usuários de
cadeira de rodas. No entanto, outros tantos fatores, como falta de
acessibilidade, falta de disposição, falta de habilidades físicas ou
prejudicada percepção de competência sobre as habilidades na
cadeira, dores, lesões musculares e articulares são fatores que
dificultam a participação destes indivíduos em atividades26,27,28,29.
Para finalizar, a Figura 2.12 exibe as contribuições e relações diretas ou
indiretas da biomecânica da propulsão na qualidade de vida de
usuários de cadeira de rodas.

Figura 2.12 - Possibilidades de contribuição da biomecânica na


qualidade de vida em usuários de cadeira de rodas.
Fonte: (Adaptada de John e Charles, 2011)30
Em suma, a participação social dos usuários de cadeiras de rodas
é complexa. É influenciada por todas as estruturas e funções do
corpo e fa- tores ambientais e pessoais28. No entanto, a
acessibilidade e as especifici- dades da cadeira de rodas são fatores
que interferem de maneira direta à adesão e à manutenção de um
estilo de vida ativo por parte daqueles que utilizam cadeira de rodas
para sua locomoção.
Dessa forma, parece importante que profissionais da área da
saúde, em geral, compreendam de maneira mais detalhada os
principais fatores físicos limitantes em relação ao uso da cadeira de
rodas. O conhecimento sobre as principais lesões e formas de
identificar e avaliar aspectos mus- culares e articulares que podem
otimizar o desempenho no uso da cadeira certamente favorecendo o
aumento da participação em atividades físicas ou esportivas.

Lesões habituais nos membros superiores em usuá- rios


de cadeira de rodas

Após lesão medular ou qualquer outro comprometimento motor


dos membros inferiores que as impossibilitem de deambular, as
pessoas pas- sam a fazer uso da cadeira de rodas como forma de
mobilidade. Ao utilizar os membros superiores para realizar as
AVD’s, como por exemplo, trans- ferência da cadeira de rodas para
diferentes lugares (carro, cama, cadei- ra de banho, etc), suspensões
e locomoção, essa demanda pode acarretar em lesões no membro
superior devido ao uso excessivo dessas regiões. Os membros
superiores acabam tendo de suprir o trabalho, uma vez realizado
pelos membros inferiores, muitas vezes não estando preparados para
tal sobrecarga8.
Um estudo demonstrou que em apenas uma hora de atividade na
ca- deira de rodas, o usuário pode realizar 1.800 impulsos bi-
manuais, ge- rando uma força de compressão nas articulações do
ombro de até 40 N (newtons). Acrescenta-se a isso, em média 15
elevações ou transferências da cadeira de rodas, gerando uma
compreensão da articulação de até 110
N. Situação mais preocupante é para as pessoas com lesão medular
com maior comprometimento, como nos tetraplégicos, tendo em
vista que a força gerada para as tarefas pode ser aumentada em mais
de 550 N31,32. As pessoas com tetraplegia apresentam reduzidos
níveis de força muscular no tríceps braquial, nos músculos que
atravessam as articulações do punho e mãos, em decorrência do alto
nível da lesão medular33.
Segundo Arnet et al.34, pessoas que utilizam a cadeira de rodas
recla-
mam de dor três vezes mais do que a população em geral. As
patologias mais relacionadas com a alta demanda física dos
membros superiores são as tendinites na cabeça longa do bíceps
braquial, lesões nos músculos que constituem o manguito rotador,
síndrome do impacto subacromial, osteoartrite glenoumeral, além de
lesões dos punhos, cotovelos e mãos35. Estudos elencam o ombro e o
punho, seguidos do cotovelo, como as arti- culações mais afetadas
por lesões em decorrência do estresse acumulati- vo36,37. Por
consequência do movimento repetitivo e cíclico da propulsão na
cadeira de rodas, lesões nos membros superiores são frequentemente
observadas38,39,40,41,42.
As mulheres por sua vez apresentam maiores comprometimentos nos
ombros do que os homens. Essa ocorrência deve-se aos
desalinhamentos anatômicos, hiperelasticidade das articulações e aos
fatores hormonais. Outro fator pode estar relacionado à configuração
da cadeira de rodas, haja vista que na maioria das vezes a cadeira é
projetada para suportar cargas acima de 70 kg, tornando-se mais
pesada. Acredita-se também que as mu- lheres prestem menos
atenção a esses fatores e regulagens da cadeira de rodas, o que de
fato pode aumentar a demanda muscular nos membros superiores 43.
Estudos epidemiológicos antigos já demonstraram que 31% a
73% das pessoas que utilizam a cadeira de rodas relataram sentir
dores nos ombros44, e de 49% a 73% apontaram o punho como local
de dor e, por conta disso, desenvolveram síndrome do túnel do
carpo45. Torna-se funda- mental, no âmbito da prevenção de lesões,
entender os fatores que podem contribuir para o aumento das
mesmas. Segundo Van Drongelen2, quanto maior o tempo de uso da
cadeira de rodas, as chances de desenvolvimento de
comprometimentos graves nos membros superiores aumentam em
tor- no de 50% a 70%.
A preocupação em torno das lesões pelo uso repetitivo está
diretamen- te relacionada com a capacidade de realizar as atividades
cotidianas. De- pendendo da lesão musculoesquelética, os usuários
de cadeira de rodas podem ficar afastados do treinamento por longos
períodos ou ficar restri- tos à realização (quando possível) das
atividades diárias e isso acarretaria na diminuição do nível de
atividade física. Além do mais, níveis baixos de atividade física
aumentam as doenças metabólicas e cardiovasculares, con- tribuindo
para o risco de mortalidade46.
Minimizar os riscos de lesões e maximizar o desempenho nessa
popu- lação em específico são fundamentais, uma vez que passam o
maior tempo do dia realizando as tarefas na cadeira. Nesse sentido,
cresce a necessidade
pela busca de alternativas para melhorar a qualidade de vida
incentivando a prática de exercícios físicos para a melhoria da saúde
em geral, ofertando programas de treinamento que favoreçam tanto o
condicionamento car- diorrespiratório, quanto o fortalecimento da
musculatura dos membros superiores.

Análises biomecânicas em usuários de cadeira de ro- das

A biomecânica é a área de conhecimento na qual são


identificados pa- râmetros mecânicos capazes de influenciar tanto
programas voltados para a saúde, como ao treinamento esportivo47.
Os princípios da biomecânica são aplicados por profissionais de
diversas áreas para resolver problemas relacionados ao aparelho
locomotor. O conhecimento na área é essencial para as áreas da
educação física, fisioterapia e medicina do esporte48. Para as
avaliações biomecânicas do aparelho locomotor, alguns instrumentos
são utilizados como métodos de medida. Nesse tópico serão
abordadas avaliações cinemáticas47, cinéticas49 e
neuromusculares50,51 que são méto- dos que vêm sendo utilizados
para avaliar as pessoas de cadeira de rodas.

Avaliação
isocinética
Quantificar a produção de força produzida por um determinado
gru- po muscular depende dos padrões de ativação das unidades
motoras, das propriedades mecânicas das fibras musculares e da
unidade musculoten- dínea52. Para avaliar estes parâmetros
neuromusculares tem sido utilizada a avaliação isocinética. Esta
avaliação vem sendo de grande auxílio para os pesquisadores, haja
vista ser um método capaz de determinar diferen- tes parâmetros
neuromusculares, como por exemplo, pico de torque (PT), trabalho
(J), potência (W) e, a partir dessas variáveis, podem ser determi-
nados o equilíbrio muscular, índice de resistência e a taxa de
produção de torque (TPT)49,53.
Embora sejam fortes as evidências de como o torque muscular
cola- bora para a predição do desempenho, a relação Torque-Ângulo
(T-A), a TPT e equilíbrio muscular também se tornam importantes
variáveis para caracterizar, tanto aspectos neuromusculares das
modalidades esportivas, como aqueles relacionados à saúde54,49,55.
Portanto, o dinamômetro isocinético é considerado um teste
“padrão ouro” para avaliar os parâmetros neuromusculares, sendo
uma ferramenta atraente, adequada, segura, não invasiva, objetiva
e reprodutível49,56. As
avaliações podem ser realizadas em distintas contrações musculares,
ou seja, a musculatura pode produzir torque por meio de contrações
isométri- cas, isotônicas (concêntrica e excêntrica) ou isocinéticas,
máximas e sub- máximas, em todos os pontos articulares do arco do
movimento57.
As contrações isométricas (estáticas) podem ser avaliadas em
diferen- tes ângulos articulares. As contrações isotônicas, por sua
vez, podem ser avaliadas nas velocidades angulares que variam
entre 30°/seg. e 300°/ seg., sendo classificadas como lentas
(<180°/seg.), intermediárias (180°/ seg.) e rápidas (>180°/seg.),
permitindo realizar o movimento em toda amplitude articular e a
resistência oferecida pelo aparelho pode ser variá- vel, conforme a
força aplicada49.
A partir dos valores de torque muscular, podem ser analisados os
dese- quilíbrios musculares. O conceito de equilíbrio funcional
musculotendíneo revela-se um parâmetro importante a ser avaliado
principalmente na prá- tica esportiva49. Essas informações podem
indicar fraqueza em determina- dos grupos musculares, com base na
razão de torque agonista/antagonista no mesmo membro ou entre
membro dominante/não dominante53. Como os membros superiores
tornam-se fundamentais para a deambulação na cadeira de rodas,
dependendo da modalidade esportiva ou tarefa realiza- da, os
músculos podem desenvolver assimetria, podendo acarretar em le-
sões musculoesqueléticas.
Com a visibilidade dos jogos Paralímpicos, as pessoas com deficiên-
cia estão procurando locais para a prática esportiva a fim de
tornarem-
-se atletas ou como forma de melhorar seu condicionamento físico.
Com a evidente inserção dessa população no esporte, os
pesquisadores estão cada vez mais utilizando as avaliações
neuromusculares para monitorar a capacidade física, desempenho,
reabilitação e também como forma de pre- venir ou recuperar lesões
musculoesqueléticas39,41,58,55. As medidas neuro- musculares obtidas
por meio do dinamômetro isocinético consiste numa ferramenta
utilizada para avaliar distintas populações, desde crianças até idosos,
de ambos os sexos ou indivíduos com alguma patologia e atletas
em diferentes níveis competitivos59,60,61,62,63.
Com a finalidade de deixar mais clara a utilização e aplicação
de ava- liações isocinéticas em usuários de cadeira de rodas, a seguir
será apresen- tada uma síntese de alguns estudos evidenciados pela
literatura científica (Quadro – 1.12).
rodas.
Quadro 1.12 - Sínteses de estudos com a utilização de
avaliações isocinéticas em usuários de cadeira de rodas. (Continuação)
Freitas et al.41 Comparar 36 homens com LM O pico de torque, trabalho e
(2017) os divididos em potência muscular dos atletas de
Análise p a r â m et r dois grupos (atletas e não BCR foram significativamente
isocinética o s atletas). maiores que os do grupo não
da musculatura isocinéticos Foi realizada uma atleta. Não houve diferença
do dos avaliação estatística ao comparar o
manguito rotador rotadores dos isocinética para quantificar membro dominante entre os
de usuários de ombros de o pico de torque, potência e grupos. Os rotadores internos
cadeiras de rodas atletas de BCR trabalho nos rotadores do eram mais fortes que os
sedentários e com paraplégicos ombro. Os testes foram rotadores externos, tanto para
atletas de não atletas. CON com 5 repetições a atletas quanto para os não
basquetebol com 60, 180 e atletas.
lesão medular. 300°/s, bilateralmente, com
um intervalo de um minuto
entre cada série.

Moon et al.55 Investigar 12 homens jogadores de O torque dos músculos Ext dos
(2013) as tênis em ombros foram
significativamente maiores do
Características do cadeira de rodas (10 que os Flex, enquanto que o
características do pessoas com cotovelo apresentou maiores
membro na torque muscular LM, 1 amputada e outra valores de torque muscular para
superior do deficiência). os Flex em relação aos Ext.
força de membro Utilizaram-se Essas diferenças entre as
muscular superior avaliações articulações dos ombros e
jogadores de de medindo o isocinéticas nas cotovelos mostradas na relação
tênis torque velocidades de equilíbrio encontradas nesse
cadeira de isocinético angulares de 60 e 180°/s. estudo, parece ter sido
rodas. das As observada pela especificidade
articulações do variáveis neuromusculares da prática esportiva do tênis em
foram cadeira de rodas.
ombro e cotovelo de pico de torque dos Ext/Flex
jogadores de dos ombros e cotovelo no
tênis de cadeira de membro dominante e não
rodas para fornecer dominante.
dados para
programas de
prevenção de lesões
esportivas.
rodas. (Continuação)
superiores nas AVD’s. Tetraplégicos,
de

Legenda: Ext: extensores; Flex: flexores; PSE: percepção subjetiva de esforço; °/s: graus por segundo;
BCR: basquete de cadeira de ro-
das; CON: concêntrico; EXC: excêntrico; LM: lesão medular; CVMI: contrações voluntárias
máximas isométricas; GC: grupo controle.
São vários os protocolos encontrados na síntese de estudos
apresenta- dos no Quadro 1. Os diferentes desfechos entre os estudos
podem estar re- lacionados a diferentes fatores, como por exemplo:
as especificidades das modalidades esportivas, tempo de prática,
nível de lesão, tempo de lesão e nível de condicionamento físico.
Usuários de cadeira de rodas são um grupo muito heterogêneo e
todas essas individualidades devem ser leva- das em consideração
quando se propõem a desenvolver estudos para esta população. Por
outro lado, ainda são vistos estudos fazendo comparações com
pessoas sem deficiência, isso se deve ao fato de que ainda não se
têm explorado as avaliações em dinamometria isocinética do membro
superior dos usuários de cadeira de rodas, como é visto nos membros
inferiores nas pessoas sem deficiência.
Mensurar as mudanças neuromusculares em indivíduos que
utilizam cadeira de rodas permite acompanhar a eficiência de
intervenções, sejam elas para área da reabilitação, condicionamento
físico ou no desempenho esportivo. No entanto, avaliações
isocinéticas nos membros superiores em usuários de cadeira de rodas
ainda são limitadas, carecendo de mais pes- quisas que avaliem os
demais parâmetros musculares. Tais informações podem contribuir
para que os profissionais envolvidos com essa população consigam
desenvolver programas de intervenções com a finalidade de me-
lhorar a qualidade de vida e o desempenho das pessoas que vivem
sobre uma cadeira de rodas.

Avaliação Eletromiográfica
A eletromiografia de superfície (EMG) tem sido utilizada para
estudar a função neuromuscular, como um meio de fornecer
informações sobre quais músculos ou grupos musculares produzem
tensão e quais movi- mentos extraem maior ou menor tensão66, ou
seja, a EMG tem sido usada pelos cientistas como uma técnica para
estudar como as unidades moto- ras respondem aos estímulos do
sistema nervoso central48,51. A EMG é um voltímetro muito sensível
que detecta a despolarização e hiperpolarização que ocorre dentro do
sarcolema antes da contração muscular, em outras palavras, é o
aumento e a diminuição dos potenciais de ação que ocorrem dentro
da fibra muscular66. O uso da EMG é uma importante ferramenta
para avaliar a velocidade de condução nervosa, vinda do sistema
nervoso central (SNC)48, fornecendo uma medida apropriada da
mudança na exci- tação muscular durante as contrações67.
A amplitude do sinal eletromiográfico aumenta linearmente até apro-
ximadamente 40% da capacidade de produção de força, assim
indicando que pode não haver uma correlação linear entre a
amplitude da EMG e a força muscular, ou seja, a excitação muscular
refere-se ao estado do mús- culo, desconsiderando os componentes
passivos da força, sendo apenas um fator de escala, a qual não é
afetada pelo comprimento e pela veloci- dade da fibra. Por outro
lado, a força é altamente influenciada pela velo- cidade e
comprimento da fibra muscular. Em outras palavras, a ativação está
relacionada com o número de fibras ativas e não com a capacidade
de geração de força dessas fibras66.
Para a técnica de registro da atividade elétrica produzida por um
mús- culo ou grupo muscular são utilizados eletrodos que
conseguem captar a ativação muscular durante uma dada contração
do músculo51,68. Estes ele- trodos são pequenos discos de material
condutor que são posicionados na pele do indivíduo sobre o músculo
que se deseja avaliar69. Os eletrodos podem ser de superfície
(comumente utilizados na biomecânica) ou de profundidade (agulha
ou fio que é posicionado diretamente no músculo e são utilizados
para músculos profundos ou pequenos). São utilizados os eletrodos
monopolares (um eletrodo é posicionado sobre o músculo e o se-
gundo eletrodo em uma área eletricamente neutra) e os eletrodos
bipola- res (consistem em dois eletrodos colocados sobre o músculo
separados em
1,5 e 2 cm de distância e o terceiro eletrodo sobre uma área
eletricamente neutra)51.
Diferentemente do tipo de eletrodo utilizado, alguns cuidados
são comuns a todas avaliações, como por exemplo, não devem ser
colocados sobre uma área tendínea ou sobre o ponto motor e devem
ser posiciona- dos de acordo com a arquitetura muscular (paralelo às
fibras musculares). Porém, anterior a este processo, deve ser
realizada a tricotomia através da raspagem da pele e uma limpeza
na área com álcool para melhorar a captação do sinal elétrico51. A
fim de minimizar os efeitos de ruídos e para que sejam minimizadas
as interferências do sinal, algumas padronizações são realizadas por
meio de recomendações internacionais definidas pela Seniam70.
Estudos que utilizam a EMG buscam compreender como
acontece o recrutamento muscular, e como essa fibra excitada pode
ter relação com a produção de força muscular, para compreender as
adaptações e os ca- minhos pelos quais elas acontecem66. Esse
conhecimento pode auxiliar na compreensão entre a intensidade de
recrutamento muscular e a capaci- dade de contração. O uso desse
método pode auxiliar os profissionais a compreender, por exemplo,
quanto uma musculatura ou grupo muscular
é afetado pela demanda mecânica, assim estratégias para prevenção,
por exemplo, de lesões musculoesqueléticas relacionadas ao uso
prolongado de cadeiras de rodas podem ser úteis71.
Nessa perspectiva, Silva et al.71 investigaram a demanda
muscular so- bre músculos (peitoral maior, deltoide anterior, tríceps,
bíceps), em dife- rentes tarefas de mobilidade na cadeira de rodas,
em quatro sujeitos sem deficiência. Os resultados indicaram que a
tarefa de descer a rampa foi a que exigiu menor esforço dos
músculos, enquanto que a locomoção em linha reta com aceleração,
apresentou maior excitação muscular.
Em recente estudo, Bertolaccini et al.72 também realizaram dois
testes e utilizaram a EMG para observar as possíveis mudanças do
comporta- mento dos músculos bíceps braquial, tríceps braquial,
deltoide anterior e peitoral maior. Participaram do estudo 11
indivíduos sem deficiência, em quatro diferentes configurações da
cadeira de rodas. Também foram uti- lizadas as cadeiras com o uso
de acessórios (apoio para os braços e pro- tetor de roupa) e sem
acessórios, tendo em vista que com a retirada dos acessórios houve
uma diminuição de 1,95 kg do peso total da cadeira. Os testes
utilizados para observar a influência da configuração foram: Sprint
(aceleração em linha reta por 15 m) e slalom (nove cones separados
por distâncias decrescentes).
Os autores do estudo observaram que a ativação muscular
diminuiu para ambos os testes quando o eixo das rodas traseiras da
cadeira de rodas foi movido para frente na configuração padrão da
cadeira (sem a retirada dos acessórios). Os autores, por sua vez,
sugerem que em futuros estudos não sejam utilizadas pessoas sem
deficiência, mas sim usuários de cadeira de rodas para que se possa
compreender a excitação muscular da popula- ção em questão. Outra
sugestão é que seja definida uma velocidade padrão a todos
participantes e que seja utilizada a escala de percepção subjetiva de
esforço (PSE), pois esta ferramenta poderia demonstrar se as
modificações na configuração e no design da cadeira eram
percebidas pelos participan- tes72.
O ajuste mecânico entre a cadeira de rodas e o usuário é muito
im- portante e deve ser visto como uma estratégia para diminuir as
cargas impostas aos membros superiores, melhorando, assim, a
mobilidade e a independência dos usuários. Medidas de excitação
muscular usando a EMG podem ser utilizadas para entender como os
músculos se comportam durante a ação propulsiva da locomoção de
cadeira de rodas, a partir do monitoramento da musculatura ativa na
ação de propulsão73.
No entanto, é comum observarmos estudos voltados para usuários de
cadeira de rodas sendo realizados com participantes sem deficiência.
Esses estudos são importantes, porém não refletem a locomoção de
uma pes- soa com comprometimento, como aqueles que utilizam
cadeira de rodas no dia a dia e nem como a musculatura envolvida se
comporta durante a tarefa exigida. No entanto, entende-se que a
baixa participação dos usuá- rios de cadeira de rodas influencia na
escolha de pessoas sem deficiência como um ponto de partida para
os estudos. Modificar esse contexto é mui- to importante para que os
estudos reflitam a realidade e que os resultados cheguem de forma
mais objetiva aos profissionais e pesquisadores interes- sados na
temática.

Avaliação
cinemática
Uma forma de mensurar e avaliar o padrão de movimento
realizado pelo usuário na cadeira de rodas é através de análises
cinemáticas, que po- dem ser obtidas por meio de acelerômetros,
imagens capturadas por vídeo de alta velocidade ou opticoelétrica, as
quais registram as posições dos seg- mentos corporais em relação ao
tempo68. Para análise desses movimentos, podem ser utilizadas tanto
as avaliações cinemáticas lineares, quanto as angulares. A cinemática
linear estuda a sequência do movimento em re- lação ao tempo,
incluindo as grandezas escalares de distância, velocidade e
aceleração. Enquanto que a angular, como o nome diz, estuda o
movi- mento a partir do ângulo relativo formado pelos eixos
longitudinais dos segmentos corporais em relação a uma linha de
referência48.
Na área da educação física adaptada, os biomecânicos
conseguem, por meio da cinemática, caracterizar os padrões de
distúrbios motores e de locomoção nas diferentes patologias, como
por exemplo, em pessoas que tiveram AVE, paralisia cerebral ou
naquelas com síndrome de Down69. A partir da análise cinemática,
podemos avaliar a posição do tronco e das ar- ticulações dos ombros,
cotovelos e mãos dos usuários de cadeira de rodas para compreender
as cargas mecânicas durante a propulsão.
A utilização da cadeira de rodas para a locomoção, como já foi
abor- dado, é uma forma eficaz de mobilidade para indivíduos com
problemas na medula espinhal ou nos membros inferiores,
permitindo com que as pessoas sejam mais independentes. Com isso,
o conhecimento das técnicas de propulsão de cadeira de rodas
baseado em evidências pode orientar os profissionais sobre qual a
melhor forma de ensino da locomoção na fase ainda de
reabilitação4.
A propulsão da cadeira de rodas manual envolve ações cíclicas
dos membros superiores, uma vez que as mãos fazem o contato com
a cadeira
de rodas, aplicando força para realizar o movimento. Segundo
Hamill e Knutzen68, existem duas fases nesse movimento de
empurrar a cadeira de rodas: a fase cíclica que envolve uma fase
propulsiva, com as mãos empur- rando a borda ou arco, e a fase
não propulsiva, em que as mãos deixam de ter contato e voltam
para o início de uma nova fase propulsiva (Figu- ra-3.12). A fase não
propulsiva, por sua vez, é descrita por três ações: a primeira ocorre
quando a mão solta a borda, a segunda é seguida da recu- peração,
quando a mão realiza o movimento de retorno à borda e a última
ação dá-se ao tocar com a mão novamente na borda da roda. Todos
esses movimentos completam o ciclo de uma propulsão68.

Figura 3.12 - Fases cíclicas da propulsão na cadeira de


rodas.

Fonte: Kwarciak et al.74

Essa habilidade de “tocar” a cadeira de rodas pode variar entre os


usu- ários, como foi observado por Sanderson e Sommer75. Os
autores foram pioneiros ao descrever as características cinemáticas
da propulsão da ca- deira de rodas de atletas velocistas de nível
mundial com paraplegia. A partir de imagens de vídeo, com uma
única câmera, os autores encontra- ram dois estilos de propulsões
diferentes: a técnica de bombeamento (mo- vimento para trás e para
frente na horizontal) e uma técnica denominada circular (em que as
mãos se movimentam de forma circular).
A partir de mais estudos cinemáticos, posteriormente foram
identifi- cados três padrões distintos de propulsão: semicircular,
propulsão de ciclo único e propulsão de duplo ciclo (Figura 4.12)76.
Figura 4.12 - Três padrões distintos das fases cíclicas de propulsão
de ca-
deira de rodas.

Legenda: Semicircular (a); Propulsão de ciclo único (b); Propulsão de duplo ciclo
(c).Fonte: Shimada et al.76

Além do padrão de propulsão, as avaliações cinemáticas podem


for- necer medidas que incluem parâmetros de velocidade média,
tempo e fre- quência de braçada, distância percorrida, porcentagens
de impulsos e re- cuperação e ângulos de contato com o aro da
cadeira. Também podem ser avaliadas as características do ciclo de
propulsão, amplitudes articulares de movimento do tronco e dos
demais segmentos corporais durante todas as fases, bem como
trajetória da mão durante um ciclo de braçada77.
Segundo Kwarciak et al.74, existe a necessidade de estabelecer
um ci- clo propulsivo para usuários de cadeira de rodas, da
mesma forma que foi estabelecido na deambulação, durante o ciclo
da marcha para pessoas sem deficiência. No entanto, até então, não
se têm definido um padrão de propulsão. Apesar dos estudos nessa
área e das novas tecnologias é difícil desenvolver um padrão, isso
porque a grande maioria dos usuários não recebem uma cadeira
levando em consideração as suas medidas antropo- métricas, além do
mais as pessoas com lesão medular apresentam níveis diferentes de
força muscular, dependendo do nível da lesão, o que dificulta ainda
mais identificar um padrão propulsivo.
Com base no exposto, essa definição de uma melhor forma de
locomo- ção torna-se difícil pelos diversos fatores já elencados.
Porém a melhora da propulsão pode estar relacionada com a inserção
de exercícios físicos diá- rios. Um estudo de revisão sistemática
investigou quais programas de trei- namento físicos seriam mais
eficazes para melhorar a capacidade de pro- pulsão na cadeira de
rodas. Com base em 21 estudos os autores apontaram que o
treinamento físico de modo geral melhora a capacidade propulsiva
na cadeira de rodas, porém o treinamento que parece ser mais
promissor foi o treinamento intervalado78.
No entanto, os efeitos na força muscular e sua relação com a
propul- são na cadeira de rodas pode auxiliar e determinar as
mudanças ocorridas a longo prazo, assim pesquisas longitudinais que
comparem avaliações cinemáticas com cinéticas poderiam ajudar a
identificar tais mudanças e apontar possíveis impactos
neuromusculares com o uso da cadeira de rodas79. Contudo, são
necessárias mais pesquisas sobre os benefícios do treinamento físico
para a propulsão na cadeira de rodas a fim de entender quanto que a
melhora da capacidade aeróbia, muscular ou anaeróbia po- deriam de
fato influenciar na melhora da técnica da propulsão.

Avaliação muscular por estimulação elétrica artificial


A implementação de novas tecnologias assistivas, possibilitou
que a bioengenharia tenha criado dispositivos elétricos capazes de
gerar corren- te elétrica e propagar assim estímulos elétricos através
da pele até as cé- lulas nervosas, que por sua vez auxiliam ou
substituem o comando neural muscular de pacientes com a
finalidade de gerar contrações musculares e assim controlar ou
restaurar funções corporais anormais80. A estimulação elétrica
artificial, nome dado a este dispositivo, pode ser utilizada em dife-
rentes contextos, como por exemplo, para a estimulação elétrica
nervosa transcutânea (TENS), estimulação elétrica funcional (FES) e
estimulação elétrica neuromuscular (NMES)81.
A FES possibilita a realização de várias atividades motoras
funcionais, como por exemplo, deambulação, transferências, ficar
em pé, pedalar, re- alizar habilidades com as mãos, entre outros,
melhorando as atividades cotidianas80,82. A NMES, por sua vez, é
aplicada no músculo em condições estáticas, porém com
intensidades de corrente suficientemente altas para provocar
contrações musculares visíveis81. A estimulação elétrica muscu- lar
tornou-se uma ferramenta que pode ser aplicada para o treinamento
de força, recuperação pós exercício, função neural e para a
reabilitação em diferentes populações81. Na reabilitação, é uma
importante aliada, uma vez que o uso da estimulação elétrica, de
forma crônica, pode aumentar o recrutamento muscular e contribuir
para produção de força muscular, principalmente em pessoas com
perda das funções motoras83.
O treinamento para ganho de força muscular representa um
desafio ainda maior para pessoas com lesão medular, uma vez que
ocorre uma redução ou perda total da ativação voluntária de
músculos abaixo do nível da lesão, prejudicando a função física e
comprometendo a saúde dessa po-
pulação84. A NMES como treinamento para ganho de força pode
estimular a hipertrofia, melhorar a capacidade oxidativa, massa
magra e preservar as adaptações ósseas em pessoas com lesão
medular, porém são poucas evidências sobre seu uso na prática
clínica82,85,86,87,88.
No que diz respeito ao treinamento dos membros superiores, as
pes- soas com lesão medular, não teriam a necessidade de um
programa de treinamento com NMES, haja vista que a área não
afetada responde de forma igual a de pessoas sem deficiência. O
programa de treinamento deve levar em consideração a mesma
progressão dos princípios de treinamento para todas as pessoas,
ainda mais que o membro superior necessita ser fortalecido, visando
a melhora da capacidade de realizar as atividades co- tidianas87.
Um ensaio clínico envolvendo 80 participantes com lesão
medular mostrou que o treinamento para ganho de força, quando
desenvolvido para o membro superior, promoveu aumento da força
muscular e, como consequência, foi observada melhora da qualidade
de vida relacionada à saúde89. No entanto, em relação aos membros
inferiores de lesados me- dulares, o treinamento convencional pode
não ser capaz de ativar de for- ma eficaz os músculos para gerar
força necessária durante o treinamento. Por conta disso, a
eletroestimulação tem sido utilizada para minimizar a fraqueza
muscular, melhorando a força e a qualidade muscular, trazendo,
assim, benefícios à saúde em geral88,90.
Bochkezanian et al.86 avaliaram cinco indivíduos com lesão
medular a partir de NMES de alta intensidade nos músculos do
quadríceps. Os auto- res realizaram um protocolo de treinamento de
cinco séries de 10 repeti- ções duas vezes na semana, durante 12
semanas. Para avaliar o efeito das sessões de treinamento, os sujeitos
foram submetidos à avaliação isociné- tica a partir do torque dos
extensores do joelho e a área de secção trans- versa do quadríceps
foi mensurada por meio da ultrassonografia. Após a intervenção,
observou-se que o torque muscular dos extensores do joelho
aumentou em torno de 35% e a área de secção transversa teve
aumento de 47%. Além disso, os participantes relataram diminuição
da espastici- dade muscular. Esses resultados são muito importantes,
haja vista que as pessoas muitas vezes relatam que a espasticidade
afeta negativamente a qualidade de vida.
A estimulação elétrica foi utilizada anteriormente por Gorgey et
al. , em estudo piloto, com participação de nove homens com lesão
85

medular, divididos em dois grupos. Um dos grupos realizou


treinamento com esti- mulação elétrica associado à dieta e o outro
grupo realizou apenas a dieta.
O treinamento foi realizado duas vezes na semana, durante dois anos
com exercícios de flexão e extensão do joelho, com carga no
tornozelo. Após a intervenção, foi observado que o treinamento mais
dieta resultou em hi- pertrofia muscular dos flexores e extensores do
joelho, redução do tecido adiposo do tronco e diminuição da gordura
intramuscular, bem como me- lhora tanto no perfil lipídico, quanto
de insulina em relação ao grupo que apenas controlou a dieta.
Assim como nos estudos anteriores, o treinamento com NMES
duran- te dois anos foi capaz de preservar as propriedades
musculoesqueléticas de pessoas com lesão medular85. Nesse estudo,
foi realizado um treinamento de flexores plantares por meio de
NMES, após seis semanas de trauma raquimedular. O treinamento
foi realizado unilateralmente tendo como controle o membro
contralateral. Após a intervenção, o membro treinado apresentou
melhora em todos os parâmetros neuromusculares avaliados e, por
meio da tomografia computadorizada, observou-se melhora da den-
sidade mineral óssea da tíbia em 31%, em comparação com o
segmento não treinado91. Mais uma vez, parece que a utilização da
eletroestimulação pode preservar as propriedades
musculoesqueléticas e as demais variáveis relacionadas à saúde em
indivíduos com lesão medular, contribuindo para a melhora da
qualidade de vida.
Apesar de ser indicada para a preservação das propriedades
neuro- musculares dos membros inferiores, a estimulação elétrica
pode ser usada nos membros superiores principalmente para
melhorar a funcionalidade de pessoas com lesão medular com
maiores níveis de comprometimen- to. Os tetraplégicos, por sua
vez, podem apresentar paralisia nas mãos e braços reduzindo sua
habilidade para realizar as AVD’s. A utilização da NMES em
pessoas com tetraplegia pode melhorar a qualidade de vida, uma vez
que pode restaurar um certo grau de movimento das mãos80.
A estimulação elétrica de superfície também foi utilizada para
estimu- lar a musculatura do tronco. Yang et al.92 investigaram o
efeito do méto- do durante um teste de propulsão na cadeira de rodas
em esteira rolante. Participaram do estudo 11 pessoas com lesão
medular, que realizaram um teste de propulsão de cadeira de rodas,
na velocidade de 1,3 m/s. Durante o teste, foi utilizado um dos três
níveis de estimulação (alto, baixo e desli- gado), de forma aleatória,
aos grupos musculares abdominal e dorsal. Os resultados mostraram
que, com alta estimulação elétrica, os participantes aumentaram sua
eficiência mecânica durante o teste de propulsão na ca- deira de
rodas. Assim, a FES aplicada na musculatura do tronco mostrou-
-se eficaz para potencializar a tarefa de propulsão na cadeira de
rodas.
Aplicações com estímulos elétricos têm demonstrado ser de
grande va- lor clínico para os vários níveis de lesão medular, uma
vez que as pessoas com tetraplegia (C5-C6) tornaram-se capazes de
abrir as mãos, agarrar, segurar e soltar objetos. O mesmo ocorre
naqueles indivíduos com para- plegia (T1-T12), os quais foram
capazes de se levantar, pisar no chão e até realizar alguns
passos80,92,85,86. A NMES, como treinamento físico, tem sido
apontada como uma alternativa viável para melhorar diferentes
compo- nentes relacionados à saúde em pessoas com
comprometimento motor.
Por fim, como foi observado no decorrer deste capítulo, os
usuários de cadeiras de rodas estão propensos a desenvolver lesões
musculoesqueléti- cas em decorrência da demanda muscular no
membro superior devido a movimentos repetitivos da propulsão e
pelas atividades diárias. Por outro lado, observa-se que essas
atividades proporcionam mobilidade e muitas vezes são as únicas
atividades realizadas por eles. Ainda é preciso ponde- rar que as
pessoas que fazem uso da cadeira de rodas no dia a dia e que são
fisicamente ativas ou praticam esporte apresentam níveis de força
de membros superiores adequados e semelhantes, comparados
àqueles que não têm deficiência.
Apesar da consciência de que a cadeira de rodas na vida dessas
pesso- as é fundamental, sua utilização ainda apresenta várias
limitações, como por exemplo, por não apresentar uma ergonomia
adequada a cada usuário. Esse fato deve ser encarado com muita
atenção para minimizar as conse- quências negativas de uma
configuração inadequada.
De um modo geral, percebe-se que há poucos estudos na área da
bio- mecânica para essa população em comparação com pessoas sem
deficiên- cia. Enquanto que, para população sem deficiência novas
metodologias, equipamentos e instrumentos são desenvolvidos, para
as pessoas com de- ficiência ainda se caminha a passos lentos.
No entanto, os estudos encontrados na literatura já apresentam
um norte para a aplicação de diferentes avaliações e protocolos, bem
como quais intervenções são mais adequadas e como podem ser
utilizadas. De forma geral, esse capítulo abordou aspectos gerais dos
usuários de cadeira de rodas e apresenta as principais avaliações
biomecânicas utilizadas pela literatura científica, não abordando
especificamente a biomecânica do es- porte. Por fim, espera-se que
os profissionais interessados nessa temática percebam que há muito
trabalho a ser feito e que sejam motivados a reali- zar novas
pesquisas em prol da melhor qualidade de vida dessa população.
Aplicações práticas

• Conhecer as principais ações exigidas na locomoção na


cadeira de rodas e identificar se as configurações da cadeira
proporcionam fa- cilidades e segurança para a realização
dessas ações;
• Utilizar avaliações musculares para detectar possíveis
déficits musculares e minimizar o risco de lesões que podem
limitar tem- porariamente as atividades diárias, contribuindo
para redução da qualidade de vida;
• Considerar a estimulação elétrica como
tratamento/treinamento alternativo para minimizar as perdas na
função motora;
• Realizar estudos que avaliem os parâmetros neuromusculares
e que relacionem seus achados às caraterísticas das pessoas,
como por exemplo, nível de lesão, tempo de lesão e tipo de
deficiência para que se tenha clareza sobre os achados e de que
forma essas variáveis secundárias afetariam a longo prazo as
funções musculo- esqueléticas;
• Buscar alternativas para introduzir, no treinamento específico
das modalidades esportivas, programas que visem suprir os
desequilí- brios musculares para não afastar os atletas do
treinamento e para melhorar sua performance;
• Desenvolver programas de treinamento de força,
flexibilidade, potência, agilidade, velocidade, capacidade
aeróbia são fundamen- tais para melhorar a qualidade de vidas
dos usuários de cadeira de rodas. Essas avaliações periódicas
são importantes, sejam nas aca- demias, centro de reabilitações
ou durante os programas de treina- mento esportivo.
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Parte 3
344
CAPÍTULO XIII
POTENCIALIZAÇÃO PÓS-ATIVAÇÃO NO ESPORTE:
MECANISMOS E FATORES INTERVENIENTES

Haiko Bruno Zimmermann


Filipe Estácio Costa
Juliano Dal Pupo

O que você irá encontrar:

• Explicações dos mecanismos que podem induzir um estado de


po-
tencialização
muscular;
• Descrições dos fatores neurais e intramusculares da
potencializa- ção pós-ativação em atividades voluntárias e com
eletroestimula- ção;
• Diferentes tipos de contração e suas influências na
potencialização pós-ativação;
• Influência da fadiga e do tempo de recuperação na
potencialização pós-ativação;
• Associações de força e potência para a potencialização pós-
ativa-
ção: como funciona o “complex-
training”.
Introdução

Na busca da maximização da performance esportiva, treinadores e


es- pecialistas em condicionamento físico costumam utilizar
exercícios com fins de aquecimento, objetivando otimizar ao máximo
o desempenho de seus atletas para o evento atlético realizado na
sequência1,2. O aquecimen- to, que é composto eminentemente com
ações de baixa intensidade é uma prática amplamente utilizada e
considerado essencial para a competição ou parte principal do
treinamento, estando seus mecanismos principal- mente relacionados
ao aumento da temperatura corporal3. Adicionalmen- te, tem sido
discutido que para atletas competidores em provas de potência e
velocidade, a adição de exercícios de maior intensidade (e.g.,
exercícios de força) na sessão de aquecimento parece ser uma
alternativa eficiente de preparação prévia.
Sabe-se que o histórico de contração determina parcialmente as
res- postas contráteis do músculo esquelético4–7. Uma das
consequências des- se histórico, isto é, da ativação muscular prévia, é
uma resposta contrátil subsequente aumentada8 devido a uma
“memória molecular” transitória9,
sendo isso referido como potencialização pós-ativação (PPA) ou
potenciali- zação pós-tetânica (PPT). Quando realizado com o intuito
de gerar aumen- to agudo no desempenho, a ativação muscular
prévia é conhecida como atividade condicionante (AC) ou contração
condicionante (CC), podendo ser induzida voluntariamente,
normalmente utilizando exercícios de força (curta duração e alta
intensidade), ou involuntariamente via estimulação elétrica10. Dessa
forma, contrações condicionantes podem ser empregadas para
aperfeiçoar o aquecimento utilizando-se dos efeitos positivos dessa
ativação. Contudo, a atividade realizada terá geração de fadiga como
um efeito inevitável, o que pode afetar o desempenho
negativamente4, levan- do a reduções na força, velocidade, trabalho e
potência muscular9. Assim, para haver eficiência de uma atividade
condicionante, a PPA deve sempre superar os efeitos da fadiga.
A PPA foi inicialmente denominada como a resposta aumentada
a um estímulo elétrico único (twitch) supra máximo realizado no
nervo motor ou diretamente no músculo após a realização de uma
contração muscular8. Assim, o termo PPA foi inserido no contexto
das propriedades contráteis isoladas11,12 descrito como o aumento no
torque de um twitch evocado ele- tricamente4,12–15, devido
especificamente a mecanismos atuando em nível de sarcômero,
como a fosforilação da miosina regulatória de cadeia leve (RCL),
que aumenta a sensibilidade do aparelho contrátil ao cálcio9. O pri-
meiro estudo que demonstrou essa correlação entre fosforilação da
miosi- na RCL e aumento do torque no twitch foi o de Manning e
Stull16.
Com o início dos estudos envolvendo atividades voluntárias, o
termo PPA continuou sendo utilizado para descrever o aumento do
desempenho, porém, segundo Cuenca-Fernandes et al.17, de forma
imprecisa, pois não são medidas as propriedades contráteis isoladas e
sim o desempenho em uma atividade voluntária. O principal
problema neste caso é que a influ- ência de vários fatores não
relacionados a fosforilação da miosina RCL, como aumento da
temperatura3, aumento da excitabilidade dos moto- neurônios18, de
recrutamento de unidades motoras10, mudanças agudas no ângulo
de penação19, aumento agudo na rigidez do membro inferior20,
elevações agudas no nível de catecolaminas plasmáticas e
potencialização beta-adrenérgica21 também afetam o desempenho.
Embora nesse capítulo não serão discutidas essas últimas
possibilidades, suas influências não po- dem ser desconsideradas.
Adicionalmente, deve-se ter cuidado ao analisar estudos inferindo
participação do fenômeno PPA quando a performance voluntária é
acessada sem informações acerca das propriedades contrá- teis via
eletroestimulação, pois neste caso, apenas pode-se especular que
houve de fato PPA7. Alguns autores inclusive sugerem o termo
performan- ce pós-ativação (PAPE)17 para referir-se a esses casos.
Nesse capítulo será utilizado somente o termo PPA, porém quando
relacionado a atividades voluntárias será devidamente explicitado.
Independente do termo correto, visto que o fenômeno PPA pode
oti- mizar a função contrátil de forma aguda, confirmada pelos
estudos com eletroestimulação, a comunidade científica vem
demonstrando considerá- vel interesse em sua aplicabilidade na
performance de atividades esporti- vas. Dessa forma, a inclusão de
contrações condicionantes como parte do aquecimento antes de uma
atividade voluntária visando potencialização vem sendo amplamente
estudada dentro da literatura, de modo que pes- quisadores buscam
identificar um estímulo que consiga melhorar de forma aguda a
performance22. Porém, existe uma grande diferença na magnitude dos
aumentos relacionados e na temporalidade que ocorrem, dependendo
da forma que a performance é avaliada17. Os estudos analisando a
respos- ta contrátil através de eletroestimulação reportam melhoras
substanciais no torque de um twitch imediatamente após uma
contração13,23. Aumentos positivos em performances voluntárias
acontecem em intervalos mais lon- gos e bem distintos, entre 5 e 12
min24,25, em um momento em que a po- tencialização das
propriedades contráteis verificada na eletroestimulação é muito
pequena.
Nessa perspectiva, pesquisas são conduzidas para encontrar uma
ati- vidade condicionante ideal para induzir aumentos no
desempenho26. Su- gere-se que essa atividade deva ser a mais
próxima do padrão motor da atividade desempenhada
posteriormente, para que o drive neural possa se propagar pelas
mesmas vias27 e para que todas as fibras utilizadas pos- teriormente
sejam ativadas28 beneficiando-se dos mecanismos intramus- culares
e neurais relacionados ao aumento da performance em atividades
voluntárias. Também é descrito que ações musculares distintas
desenca- deiam diferentes níveis de PPA na atividade a ser
desempenhada29. Além disso, parece que existe um tempo de
recuperação ideal individualizado após uma atividade condicionante
que possibilita que os efeitos da fadiga diminuam e os da
potencialização predominem7,30–32, estando esse tempo intimamente
relacionado com características individuais do sujeito ava- liado6,10.
Sendo assim, nesse capítulo será discutido a aplicabilidade dos
efeitos desse fenômeno em atividades voluntárias com foco na
potência de mem- bros inferiores, trazendo informações sobre
possíveis mecanismos respon- sáveis pela potencialização, bem
como variáveis relacionados à escolha do
protocolo de exercícios condicionantes que podem influenciar a
eficiência da PPA.
Para elaboração desta revisão, efetuou-se uma busca eletrônica
para identificar artigos científicos relevantes ao propósito do
presente capítu- lo, baseada na consulta das bases de dados
PubMed e Scopus utilizando os descritores (na língua inglesa): post-
activation potentiation, sprint, sprintting, jump e performance.
Foram incluídos no capítulo artigos que tivessem por objetivo avaliar
a PPA através do uso de eletroestimulação visando descrever as
propriedades contráteis isoladas e artigos buscan- do aumentos de
performance em atividades voluntárias posteriores en- volvendo
potência de membros inferiores, publicados entre 2000 e 2018.
Além disso, artigos fundamentais fora dessa temporalidade, mas que
fo- mentassem a discussão, foram incluídos.

Possíveis mecanismos indutores de um estado “po-


tencializado”
Aspectos intramusculares e neurais relacionados a PPA na
eletroestimu- lação e em atividades voluntárias
O mecanismo fisiológico mais aceito explicando o aumento no
torque de um twitch após uma contração prévia é o da fosforilação da
miosina regulatória de cadeia leve (RLC)9. Sua ação pode implicar
na otimização da interação entre actina e miosina10 devido a uma
maior sensibilidade do aparelho contrátil ao cálcio liberado pelo
retículo sarcoplasmático33. O aumento da sensibilidade ao cálcio é
maior quando as concentrações desse íon são baixas, como acontece
em um twitch4. Em altas concentrações de cálcio esse aumento da
sensibilidade parece ter pouco efeito, como visto em contrações
tetânicas4. Assim, pode ser hipotetizado que um progressi- vo
aumento na concentração de cálcio citosólico progressivamente
limita a magnitude da PPA, por reduzir o efeito positivo da
fosforilação da miosina RCL, o que é suportado pela diminuição da
potencialização com o aumen- to da frequência de estimulação34. A
ligação com o fosfato (fosforilação) conduziria a uma taxa
melhorada em que as pontes cruzadas se movem, induzindo um
aumento na transição de um estado de “não geração de for- ça” para
um estado de “geração de força” das pontes cruzadas34. Embora
muito especulativo, isso resultaria em uma ativação contrátil
muscular vo- luntária otimizada, possibilitando teoricamente, que a
produção de potên- cia35 e força36 na atividade desempenhada
posteriormente seja aumentada.
Recrutar todas as fibras durante a atividade condicionante é importan-
te para obter a potencialização máxima, pois somente as fibras
recrutadas durante a contração podem ser fosforiladas28. Além disso,
a atividade deve ser intensa o suficiente para ativar um número
substancial de unidades motoras do tipo II18, pois essas apresentam
maior capacidade de fosforila- ção14. Dessa forma, ajustar a
intensidade da contração em um nível que seja suficiente para recrutar
todas as fibras musculares pode ser uma estratégia para aumentar a
performance28. Nessa perspectiva, foi verificado que uma contração
submáxima pode evocar PPA em músculos onde a maioria das fibras
musculares são recrutadas em intensidades submáximas28. No refe-
rido estudo, os autores verificaram que a magnitude da PPA na
adução do polegar foi aumentando até 60% da contração voluntária
máxima (CVM), não sendo observado aumentos acima desses
valores. Já a magnitude da PPA na flexão plantar aumentou até 80%
da CVM, porém não aumentou entre 80% e 100% da CVM,
demonstrado que quando fibras são recrutadas em intensidades
abaixo da máxima, um ajuste pode ser realizado, levando em conta o
percentual da CVM que recrute todas as fibras presentes.
Além dos mecanismos associados às propriedades contráteis, a
melho- ra da performance voluntária também tem sido atribuída a
fatores neu- rais. Destes, especula-se o aumento de recrutamento de
unidades motoras, aumento na excitabilidade dos motoneurônios alfa
previamente ativados e possivelmente um aumento na eficiência
sináptica entre neurônios aferen- tes do tipo Ia e motoneurônios alfa
na medula espinal10,37.
Os efeitos ou alterações no sistema nervoso oriundos de uma
contra- ção condicionante ainda não estão totalmente elucidados. A
maioria dos estudos não exploram os mecanismos otimizadores
usando medidas de excitabilidade neural, como por exemplo, o
reflexo-H. Um aumento desse reflexo após uma atividade pode ser
um indicativo de redução na falha de transmissão de potenciais de
ação nas junções sinápticas e no subsequen- te aumento de
recrutamento de unidades motoras maiores38. Atletas de esportes que
necessitam força e potência muscular teriam maior ativação da
musculatura envolvida, afetando esse reflexo, o que provocaria
aumen- to da ativação muscular39. Dessa forma, a magnitude do
reflexo-H é pro- porcional a magnitude da ativação muscular,
podendo então, uma maior ativação encontrada nesses atletas,
resultar em melhor desempenho39. Poucos estudos avaliaram tal
reflexo de forma aguda, sendo que alguns deles encontraram
aumentos40,41 enquanto outros não verificaram mudan- ças42. Além
do reflexo-H, outra medida de excitabilidade neural utilizada em
estudos é a razão onda V/onda M. Essa razão aumenta caso
ocorra um aumento da eficiência sináptica entre neurônios aferentes
Ia e moto-
neurônios alfa na medula43, sinalizando, possivelmente, o
recrutamento de unidades motoras maiores29,38. Como consequência,
o output motoneu- ronal é elevado, refletido pelo tráfego total
aumentado dos potenciais de ação pelos axônios dos motoneurônios
alfa no momento da mensuração43. Atividades condicionantes
podem, então, oferecer um método simples de induzir um estado
neural melhorado44 em comparação com um aqueci- mento
tradicional, devido ao trabalho muscular adicional possivelmente
aumentar o potencial de excitação do músculo, aumentando a
performan- ce subsequente45.
Em resumo, a respeito das propriedades intramusculares, cada
mio- sina RCL tem um local específico para incorporação de uma
molécula de fosfato10 e essa incorporação acontece quando uma
contração muscular é iniciada. Quanto mais intensa a contração,
mais fibras são recrutadas e maior o nível de fosforilação, o que
auxilia na interação entre as proteínas contráteis. Durante o tempo
em que a molécula de fosfato está incorpo- rada, o torque de um
twitch é aumentado16 e isso está associado a uma maior sensibilidade
ao cálcio, principalmente quando as concentrações desses estão
baixas. Além disso, fibras do tipo II aparentemente apresen- tam
maior fosforilação e demonstram maior nível de PPA. Do ponto de
vista neural, uma maior transmissão de potenciais excitatórios
através da junção sináptica na medula poderia ocorrer após uma
atividade condicio- nante, resultando em otimização sináptica e
aumento de excitabilidade, fazendo com que os motoneurônios,
principalmente de grande calibre, atinjam mais facilmente o limiar
para iniciar um potencial de ação e con- trair as fibras musculares
por ele inervadas10.

Efeitos da
temperatura
O aumento da temperatura muscular após uma atividade
condicionan- te pode explicar uma parte do aumento da performance
voluntária29. Os mecanismos envolvidos incluem melhora da
condução do impulso nervo- so, alteração na relação força-
velocidade e aumento do fornecimento de energia anaeróbia, que
pode beneficiar a performance de curto e médio prazo3. Algumas
evidências foram apontadas, a exemplo do estudo de Fle- tcher18,
mostrando que a altura do salto foi significativamente aumentada
(2,4% em média) quando um aquecimento ativo foi utilizado com
conco- mitante aumento da atividade eletromiográfica (EMG),
indicando mudan- ças positivas na ativação muscular relacionadas a
esse mecanismo18.
Importante destacar que a maioria dos estudos não avaliou o
efeito do aquecimento na performance testada, focando somente
no efeito da
atividade condicionante. Segundo Fletcher18, isso pode ser um
equívoco, pois, geralmente, os atletas realizam um aquecimento
ativo, alongamen- to dinâmico e somente após isso o protocolo de
PPA. Nessa perspectiva, foi verificado em um estudo do mesmo
autor18 que um aquecimento ativo e o uso de alongamento dinâmico
antes de uma atividade condicionante aumentaram a intensidade da
preparação, o que pode ter levado ao au- mento da frequência
cardíaca e da temperatura corporal para um nível mais próximo do
ótimo, causando maior estimulação nervosa e resultan- do em
aumento significativo do sinal EMG18. O aquecimento pode então
permitir que a tarefa subsequente comece com uma cinética de
consumo de oxigênio elevada, se o tempo de intervalo entre eles
forem curtos. Uma economia da capacidade anaeróbia pode
aumentar o tempo até a exaus- tão e melhorar a performance em
tarefas que requeiram uma contribuição anaeróbia significativa3.
Em resumo, principalmente na avaliação de performance
voluntária, seria interessante monitorar a temperatura corporal para
evitar possível viés nos resultados, uma vez que, qualquer aumento
da temperatura após uma contração máxima poderia aumentar o
desempenho subsequente sem nenhuma relação direta com o
mecanismo de fosforilação associado ao PPA.

Potencialização pós-ativação na eletroestimulação

O twitch muscular ou “pulso simples” é um importante meio para


ana- lisar as propriedades contráteis isoladas46 e tem sido utilizado
para de- monstrar a ocorrência da PPA13. Mudanças ocorridas nas
propriedades de um twitch após uma atividade condicionante
indicam se houve ou não potencialização13. Como já mencionado, a
falta de registro da potencializa- ção utilizando-se de
eletroestimulação é uma limitação de muitos estudos, pois sem esse
registro não é possível determinar se o aumento da perfor- mance é
resultado da PPA ou apenas devido a um aumento na temperatu- ra
ou outro mecanismo associado ao aquecimento7,13.
O torque produzido pela musculatura em resposta a esse
estímulo elétrico supra máximo (twitch) é aumentado
transitoriamente após uma contração “artificial involuntária”, e
representa a capacidade contrátil de geração de força36. Tem sido
evidenciado que as melhoras nessa capaci- dade intrínseca de gerar
força após contrações condicionantes, associada à PPA, podem se
traduzir em aumentos da performance voluntária43. Po- rém, para se
poder atribuir uma melhora em um exercício subsequente aos
efeitos do fenômeno PPA, o torque no twitch deve ser avaliado concomi-
tantemente a performance voluntária36.
A potencialização do torque em um twitch é máxima
imediatamen- te após a contração condicionante13,15,47–49 voltando
aos seus valores de base após aproximadamente 10
minutos14,15,23,37,49,53. Essa potencialização é maior para ações
concêntricas, embora também presentes para ações isométricas e
excêntricas46. A intensidade da contração condicionante também
afeta a magnitude do aumento do torque em um twitch, sendo ele
significativamente maior para contrações utilizando-se de cargas
ele- vadas36,51. Também verificou-se que mulheres treinadas em
potência apre- sentam maior potencialização do torque do que
mulheres treinadas em en- durance48, o que indiretamente corrobora
com os estudos demonstrando que fibras do tipo II são mais
beneficiadas por esse mecanismo.
A origem da potencialização do torque também tem sido
investigada, podendo-se assim inferir se é advinda de mecanismos
centrais ou perifé- ricos. Uma forma de se avaliar essa origem é
através da mensuração da onda-M. A falta de modificações dessa
onda indica que a potencialização está relacionada a mecanismos
intramusculares13, como, por exemplo, a intensificação do
acoplamento excitação-contração52. Em vários estudos o torque e sua
taxa máxima de produção foram aumentados sem modifi- cações na
onda-M13,23,28,36,49,50,52,53, sendo essa onda monitorada tanto para
diferentes tipos de contração (concêntrica, excêntrica e isométrica
máxi- mas)50 quanto para contrações tetânicas induzidas
eletricamente e volun- tárias máximas13.
Um aspecto importante proposto inicialmente por Cuenca-
Fernán- dez et al.17 é a possibilidade de se adotar uma terminologia
que diferencie claramente a melhora da performance de atividades
voluntárias (saltos, sprints, arremessos) da potencialização vista em
contrações evocadas ele- tricamente (twitch). Segundo Gago et al.46
essa diferenciação seria inte- ressante, já que grande confusão é
observada na literatura atual, em que vários estudos atribuem de
forma equivocada a melhora da performance voluntária após uma
contração muscular condicionante ao fenômeno PPA sem a
confirmação do mesmo via eletroestimulação. Cuenca-Fernández et
al.17 propõe então o termo performance pós-ativação (PAPE) para
referir-
-se à melhora de atividades voluntárias, o qual poderia ser adotado
para melhor diferenciação das respostas.
Tendo em vista os aspectos observados, a potencialização do
torque de um twitch é um fenômeno bem conhecido e reprodutível,
com estudos inicias relacionados à temática realizados no início do
século passado54. O
tempo de potencialização do torque nesse caso, correlaciona-se
positiva- mente com a fosforilação da miosina RCL16 e à medida que
essa se dissipa, ele também diminui, o que parece acontecer em 10
minutos. A importância funcional disso ainda está sendo
determinada, porém alguns estudos que monitoraram
concomitantemente a performance voluntária e as respostas
contráteis, reportaram relação entre melhoras da performance e nível
de PPA43,47,49,53, enquanto outros não55,56. Sendo assim, mais
pesquisas neces- sitam ser realizadas para total esclarecimento dessa
relação.

Influência do tipo de ação muscular e do modo de


exercício na eficiência da potencialização pós-ativa- ção

O modo de exercício utilizado como AC, bem como a


especificidade de sua ação muscular, são fatores que podem exercer
um papel importante na modulação dos efeitos da potencialização em
atividades voluntárias44. Sa- be-se que a eficiência da atividade
prévia está relacionada com a duração do seu efeito potencializador,
estando esse intimamente conectado com as implicações práticas26.
Inúmeras possibilidades de exercícios têm sido testadas como
AC, va- riando desde exercícios gerais de força, saltos verticais,
sprints, dentre ou- tras possibilidades. De modo geral, tem sido
preconizado que o exercício condicionante utilizado seja o mais
próximo do padrão motor do movi- mento da performance
subsequente, seguindo assim, o princípio da es- pecificidade. Nesse
contexto, é proposto que atividades dinâmicas em sua natureza
sejam precedidas por AC também dinâmicas60. Fletcher18 afirma, por
exemplo, que se a tarefa principal incluir o ciclo alongamento encur-
tamento (CAE), que é um tipo de ação muscular que ocorre na
maioria das atividades esportivas, a AC também deve possuir um
padrão similar, dada a importância do CAE no auxílio da taxa de
produção de força em es- portes que envolvam potência. O exercício
de agachamento tem sido uma das principais formas de AC utilizado
para melhorar a performance57,58. A principal vantagem desta AC é a
praticidade, uma vez que praticamente todas as instalações possuem
o equipamento básico para realizar o agacha- mento58. A falta de
especificidade entre o estímulo e o exercício principal oferece uma
possível explicação para variabilidade nas respostas entre di- ferentes
tarefas testadas59, sendo assim mais aceitável que o agachamento
potencialize mais um exercício com padrão similar biomecânico (um
salto
vertical, por exemplo) do que um exercício como um sprint, com
padrão não tão semelhante58.
Utilizando-se dessa AC, Bevan et al.32 verificaram melhora na
perfor- mance de sprints quando as respostas ao protocolo
condicionante foram avaliadas individualmente. Isso demonstra que
os atletas podem se bene- ficiar dessa estratégia, desde que seja
provida recuperação adequada in- dividualizada63 entre o estímulo e
a atividade principal. Da mesma forma, Chatzopoulos at al.64
utilizaram o agachamento como AC e observaram aumentos da
performance do sprint (redução do tempo) 5 minutos após a
realização do protocolo. Resultados semelhantes foram observados
no estudo de Evetovich, Conley e McCawley65 que também
verificaram me- lhoras no tempo do sprint de atletas após protocolo
prévio condicionan- te com agachamento. Observa-se dessa forma
que a literatura ainda não está clara sobre esse aspecto e o
agachamento parece auxiliar também em sprints. Pode-se especular
com base nesses resultados que a especificidade dos grupos
musculares envolvidos tem maior impacto nos resultados do que o
padrão motor em si, embora mais pesquisas são necessárias para
esclarecer esse fato.
A profundidade do agachamento é outro fator que pode
influenciar na eficiência da AC25. Tem sido sugerido que quanto
mais profundo o aga- chamento, o que aumenta a ativação do glúteo
e o trabalho produzido em comparação a posições menos agachadas,
melhor será desempenho em atividade principais subsequentes,
como no salto vertical45. É especula- do então que a contribuição
da parte excêntrica do movimento exerça um efeito importante na
potencialização muscular, em função de resultar em aumentada
descarga aferente na medula espinhal devido à atividade dos fusos
musculares que possibilitam uma diminuição na falha de transmis-
são das fibras aferentes Ia para o motoneurônio alfa adjacente38.
Conforme dados de um estudo anterior, intensidades supra máximas
de exercício ex- cêntrico (130% 1RM) foram capazes de aumentar o
desempenho em atletas bem treinados66. Contrastando a esses
achados, uma meta-análise recente verificou que um agachamento
mais profundo causou menores efeitos do que agachamentos
parciais na manifestação dos efeitos da PPA25. Desse modo, parece
que ainda não está claro se a profundidade do agachamento é um
fator interveniente nesse processo, sendo necessário mais pesquisas
relacionadas à temática.
Atividades pliométricas também têm sido testadas como AC
prévias para fins de PPA em atividades envolvendo potência de
membros inferio- res67–69. Uma recente meta-análise mostrou que
exercícios pliométricos
podem ser até mais benéficos na manifestação de PPA do que
exercícios dinâmicos tradicionais de alta e moderada intensidade e
isométricos máxi- mos25. Pliometria neste capítulo será definida
como atividades que envol- vam o CAE, que é caracterizado por
uma transição entre a fase excêntrica e concêntrica, no qual parte da
energia pode ser reaproveitada caso essa transição seja rápida70.
Utilizando esse tipo de atividade, Bergmann, Kra- mer e Gruber43
testaram a eficácia de um protocolo composto por 10 saltos verticais
máximos como AC na potencialização da altura de drop jumps (DJ)
subsequentes. Os resultados mostraram que 30 segundos após AC
houve aumento no pico de torque no twitch de 32%±8, caindo para
6%±5 após 5 min, bem como verificou-se melhora de 12% na altura
do DJ. Foi encontrada correlação positiva, porém baixa, entre a
altura do salto no DJ e o pico de torque no twitch, indicando que o
aumento da performance foi parcialmente devido ao PPA. Não
houve mudanças na EMG e na onda V/onda M, sugerindo que os
mecanismos causadores do PPA no estudo foram intramusculares e
não neurais.
Ainda se tratando de atividades pliométricas, quando utilizado o
DJ como AC em atletas treinados, Bridgeman et al.30 observaram
efeitos po- sitivos no CMJ subsequente, bem como Chen et al.31, que
verificaram me- lhoras no salto após a utilização desse tipo de AC,
em jogadores de vôlei. Ainda, Bogdanis, Tsoukos e Veligekas71
verificaram que a inclusão de um exercício pliométrico 3 minutos
antes de um salto em distância pode au- mentar de forma
significativa a performance. No estudo, houve um pro- gressivo
aumento na performance do salto da terceira tentativa em diante com
os valores pico atingidos nas últimas duas (3,0 a 4,8%,
respectivamen- te). Como a AC foi repetida antes dos saltos
subsequentes ficou evidente um efeito cumulativo, resultando em
melhora progressiva na performance do salto em distância.
Outro aspecto importante a ser considerado é a intensidade das
con- trações realizadas na AC. Tem sido observado que com
aumentos da in- tensidade da AC, melhoras na performance
voluntária acontecem72, vai ao encontro dos estudos com
eletroestimulação, onde maiores intensi- dades estão relacionadas a
maior fosforilação da miosina RCL e conse- quentemente, maior
torque no twitch28,49. Em uma meta-análise recente, foi constatado
que usar cargas com repetições máximas é mais vantajoso para
expressar PPA do que cargas submáximas, embora isso tenha ocor-
rido apenas para indivíduos treinados, enquanto que cargas
submáximas são mais indicadas para indivíduos sem experiência em
treinamento de força25. Em outra meta-análise24, a potencialização
foi maior após séries
múltiplas realizadas em intensidades moderadas (60-84% de 1 RM),
sendo que em intensidades acima dessa faixa, diminuição dos efeitos
positivos foram observados24. Isso demonstra que respostas diferem
em alguns as- pectos, estando possivelmente relacionado às
características individuais dos sujeitos, assunto discutido no tópico
seguinte.
Já é consenso que o tipo de contração muscular gera diferentes
res- postas em termos de fadiga29, podendo assim exercer uma
influência no desempenho de um movimento subsequente38. A
respeito disso, Bogdanis et al.29 utilizaram protocolos isométrico,
excêntrico e concêntrico como AC e um dos principais resultados foi
o de que apenas o grupo que executou o protocolo isométrico obteve
aumento significativo do salto (3,0±1,2%). Em outro estudo,
imediatamente após uma AC de 3 séries de 3 segundos de ex- tensão
isométrica de joelhos, foram encontrados aumentos significativos na
altura do DJ e na extensão de joelho isocinética, levando os autores a
apontar efeitos benéficos para exercícios que requeiram rápidas
taxas de produção de força44.
Ainda em relação ao tipo de contração, porém avaliando as
proprie- dades contráteis através de eletroestimulação, Baudry e
Duchateau50 en- contraram níveis semelhantes de potencialização do
torque no twitch após contração muscular isométrica, concêntrica e
excêntrica de 6 segundos. Nesse estudo, imediatamente após cada
tipo de contração voluntária má- xima o torque no twitch e a taxa
máxima de produção de torque foram significativamente
potencializados, variando de 150 a 180%, sem nenhuma mudança no
tempo de contração e sem modificação na onda-M. Segun- do os
autores, a presença de PPA na ausência de mudanças na ativação
muscular no estudo sugere que o mecanismo de excitação-contração
foi intensificado, da mesma forma, a ausência de potencialização no
tempo de contração sugere que o acoplamento excitação-contração
não é prolonga- do, mas sim intensificado após as contrações
condicionantes. Os resulta- dos do estudo de Baudry e Duchateau50
sugerem que o PPA e seu declínio não estão relacionados com a tipo
de contração, quando levado em conta apenas as propriedades do
twitch. Tais resultados diferem dos estudos ci- tados anteriormente,
em que foi avaliada a performance voluntária em um movimento
complexo, na qual, diferentes tipos de contração causaram diferentes
resultados, provavelmente devido a fadigas distintas geradas.
Outro aspecto importante a ser considerado é o tipo de contração
da atividade principal subsequente usada para testar o efeito da AC73.
É re- portado que a potencialização é diferente durante
encurtamento, alon- gamento e isometria, sendo as propriedades
contráteis durante o encur-
tamento muscular mais beneficiadas46. Da mesma forma, no
estudo de Babault, Maffiuletti e Pousson52 foi encontrada PPA maior
para a condição de encurtamento rápido (51,9%±21,1), do que para
encurtamento lento (34,6%±13,2), demonstrado que a velocidade na
atividade voluntária tes- tada, além do tipo de contração, influência
nas respostas.
Diante dessas informações, pode-se verificar que o tipo de
exercício influencia na eficiência da PPA. A AC deve recrutar os
mesmos grupos musculares da atividade principal testada para
melhor eficiência da PPA. Possivelmente isso aconteça devido a
fosforilação da miosina RCL ser específica às fibras recrutadas
fazendo com que as fibras posteriormente utilizadas estejam em um
estado potencializado. É descrito também que uma contração
isométrica máxima ativa mais fibras musculares. O que pode
resultar em maior fosforilação e que contrações dinâmicas ativam
mecanismos neurais relacionados a melhora do desempenho10.
Parece que a parte excêntrica de uma contração dinâmica ativa o
disparo dos fusos musculares e isso pode aumentar o tráfego aferente
para a medula espinal fazendo com que menos falha na transmissão
entre fibras aferentes Ia e motoneurônios alfa ocorra, resultando em
aumento na ativação de unida- des motoras maiores durante a
atividade subsequente10. Uma resposta re- flexa otimizada após uma
AC poderia, em teoria, aumentar a efetividade da ativação voluntária
pela otimização da contribuição reflexa no drive neu- ral6. Talvez
devido a esse aspecto somado a especificidade da ação muscu- lar,
atividades pliométricas estejam sendo recentemente utilizadas como
AC, com melhoras na performance observados. Além disso,
possivelmente a especificidade do CAE desempenhe algum efeito na
modulação dos efei- tos positivos, porém, mais pesquisas são
necessárias utilizando-se desse tipo de atividade. Em suma,
analisando a literatura atual, a utilização de diferentes atividades e
contrações distintas provavelmente seja uma das causas da
inconsistência de resultados, visto que diferentes atividades e tipos
de contração desencadeiam fadigas distintas, o que vai influenciar
diretamente nos resultados.

A relação fadiga vs. potencialização e a influência do


tempo de recuperação

Em atividades voluntárias, a observação de melhora na


performance após aplicação de uma AC depende da relação entre
potencialização e fadi- ga43. Ambas podem coexistir após uma AC74,75
devido a habilidade da fosfo-
rilação da miosina RCL seletivamente aumentar a força de um twitch
en- quanto que força tetânica é reduzida9. Isso está relacionado à
sensibilidade ao cálcio que é afetada pela concentração desse na
fibra, ou seja, quando a concentração dele é alta a sensibilidade é
baixa e vice versa4. Assim, em uma estimulação elétrica (twitch), a
sensibilidade ao cálcio aumentada devido a fosforilação da miosina
RCL faz com que, mesmo em um múscu- lo fadigado, ainda se
observe potencialização. No entanto, em atividades voluntárias, a
concentração de cálcio é alta e a sensibilidade ao mesmo é menor,
fazendo com que a fadiga seja predominante sobre a PPA. O estado
potencializado de um twitch alcança sua expressão máxima
imediatamen- te após a contração condicionante e decai
exponencialmente voltando aos valores basais em aproximadamente
10 minutos13,23,34,50,76. Em atividades voluntárias, à medida que a
fadiga se dissipa em um momento na recupe- ração, a melhora final
da performance voluntária é observada39, indicando que o balanço
entre eles é primordial32,43. Essa forte relação entre fadiga e PPA é
uma das causas das respostas individuais aos protocolos condicio-
nantes77, os quais necessitam evitar a indução de fadiga demasiada26.
O volume e a intensidade da atividade condicionante afetam
direta- mente os níveis de PPA e de fadiga gerados, estando eles
conectados com a manifestação dos efeitos observados. Contrações
condicionantes longas necessitam de períodos maiores de
recuperação para que os efeitos positi- vos sejam demonstrados e
para que a fadiga se dissipe26,38,51. Desta forma, o tempo após a
atividade condicionante necessita ser ajustado18,78 indivi-
dualmente32,51,66,79,80, pois se for curto demais, a fadiga impede
melhoras da performance e, se for muito longo, o estado
potencializado será perdi- do18,31,38.
O tempo de recuperação ideal tende a diferir muito nos estudos ana-
lisados, devido principalmente às diferentes modalidades praticadas
e ao nível de treinamento dos sujeitos. Por exemplo, para atletas de
rúgbi pro- fissionais, utilizando-se de 3 repetições de agachamento
dinâmico a 91% de 1RM como AC, verificou-se grande
variabilidade no tempo ideal para potencialização, com a maioria
dos atletas potencializando aos 8 minu- tos32. Já para sujeitos ativos,
5 minutos são suficientes para observar-se melhoras64 após AC
envolvendo 10 repetições a 90% de 1RM, porém com
3 minutos de intervalo entre cada repetição. Uma importante
informação também foi mostrada por Boullosa et al.77, que
verificaram que o intervalo de recuperação ótimo depende da
configuração da AC, sendo que quando houve intervalos entre as
repetições do protocolo, os sujeitos tiveram me- lhor desempenho no
1º minuto da recuperação, enquanto que uma série
de AC sem intervalos gerou potencialização somente após 9
minutos. Isso demonstra que uma atividade condicionante que gere
pouca fadiga conse- gue expressar os efeitos positivos mais
rapidamente na recuperação.
Como explicitado acima, o nível de treinamento dos indivíduos
pare- ce influenciar na manifestação dos efeitos positivos da
potencialização39,78, possivelmente devido ao nível de força máxima
elevar com o aumento do tempo de treinamento, sendo que essa
pode influenciar na relação poten- cialização e fadiga81.
Teoricamente, além de maior potencialização, atletas com maior
nível de treino e de força podem também apresentar menor fadiga
após a execução de uma AC, comparado a sedentários39, obtendo
maior vantagem. De fato, os potenciais benefícios que esses
aumentos agu- dos na performance trazem, são mais interessantes
especialmente para atletas de elite44, devido ao nível de performance
e treinamento semelhan- tes entre esses atletas. Em alguns estudos
somente é observado melhora do desempenho após protocolos
prévios quando os sujeitos são separados em grupos diferenciados
pelo nível de força,32,39 de modo que a PPA parece ser viável para
aumentar agudamente a performance em atletas, mas não em sujeitos
ativos39,78. Tais resultados então sugerem que um nível míni- mo de
força81 e treinamento é necessário para ocorrer a potencialização7.
Dessa forma, é importante avaliar cada atleta individualmente para
de- terminar se a implementação de protocolos de AC durante
aquecimento para competições é benéfica, pois a efetividade dos
protocolos prévios é altamente dependente da modalidade praticada
pelo atleta que está reali- zando a atividade e das características do
sujeito22,65.
De modo geral, contrações mais intensas e prolongadas ativam
em maior magnitude os efeitos do PPA, porém, também produzem
maior fa- diga. Em um primeiro momento, a fadiga é predominante e
consequente- mente a performance voluntária é diminuída ou
inalterada10. Em algum momento na recuperação, devido à fadiga
dissipar mais rapidamente que a PPA, melhoras no desempenho
podem ser observadas. Além disso, gran- des volumes e intensidades
na AC geram respostas e necessidades diferen- tes de intervalo de
recuperação para expressar os efeitos positivos. Quanto maior a
fadiga gerada, maior o intervalo necessário. Esse intervalo tam- bém
vai depender da capacidade do indivíduo de resistir a fadiga e das ca-
racterísticas individuais do mesmo, como sua distribuição de fibras,
nível de treinamento e de força máxima. Isso pode acontecer devido
a fosforila- ção ser maior em fibras tipo II e ao maior recrutamento de
motoneurônios de grande calibre, pois sujeitos com essas
características possuem maior proporção de fibras tipo II6. Esses
indivíduos poderiam então se beneficiar
dos aspectos intramusculares e neurais relacionados à melhora do desem-
penho levando a expressão dos efeitos positivos de forma otimizada.
Devido à natureza prolongada dos efeitos da PPA, ela oferece,
teori- camente, uma estratégia para otimizar a produção de força e
potência, além do padrão de performance alcançado sem a utilização
de uma carga prévia44, sendo que um aumento na performance
voluntária pode ser ob- tido somente quando a fadiga é dissipada28,81.
Utilizar um alto volume e uma alta intensidade na AC pode gerar
muita fadiga e suprimir os efeitos positivos da potencialização38,
sendo isso possivelmente a causa da falta de melhoras82. Dessa
forma, os treinadores devem estar cientes de que respostas
individuais podem existir62,63,80,83 em termos de tempo ideal de
recuperação e caso possível e viável, identificar individualmente os
sujei- tos responsivos e seus respectivos intervalos ótimos65,75.
Assim, é vital que treinadores entendam os efeitos da fadiga nos
aquecimentos utilizando-se de atividades prévias visando PPA para
que possam se beneficiar comple- tamente na estruturação de
programas de treinamento utilizando-se desse mecanismo.
Em uma recente meta-análise foi verificado que indivíduos com
maio- res níveis de força exibem maior PPA em comparação com
sujeitos mais fracos e que, quanto mais tempo o indivíduo tem de
experiência em trei- namento, maiores são os efeitos positivos24,25.
Na meta-análise de Seitz et al.25 foi mostrado que indivíduos mais
fortes demonstraram maior PPA após série única e utilizando-se de
cargas máximas na AC, enquanto que indivíduos mais fracos se
beneficiam mais de séries múltiplas com cargas submáximas. Isso
demonstra que a relação entre PPA e fadiga difere en- tre sujeitos
com níveis de força distintos. Além disso, foi verificado que o
maior nível de PPA foi observado entre 0,3-4min após uma
atividade pliométrica, demonstrando que a relação fadiga-
potencialização e tempo de recuperação é diferente para esse tipo de
atividade, talvez devido a me- nor produção de fadiga nesse tipo de
exercício25. Isso vai de encontro aos estudos de Bridgeman et al.30 e
Chen et al.31 onde DJ como AC causaram maiores aumentos da
performance do CMJ aos 2 minutos de recuperação.
Com relação ao intervalo de recuperação ótimo, indivíduos mais
fortes parecem conseguir expressar a PPA com menor intervalo após
o estímulo (5-10min)84, o que vai de encontro aos resultados da
meta-análise de Seitz et al.25, em que indivíduos mais fortes
demonstraram maior PPA após 5-7 min de recuperação, enquanto
que indivíduos fracos demonstraram maior PPA após 8 min ou
mais25. Já na meta-análise de Wilson et al.24 verifi- cou-se que o
tempo ótimo foi entre 7 e 10 minutos após séries múltiplas
em intensidades moderadas (60-84% de 1RM)24, o que se assemelha
aos resultados da meta-análise de Gouvêa et al.85, em que verificou-
se que in- tervalos de 8 a 12 minutos tiveram mais impacto benéfico
na altura do salto vertical.
Em suma, observa-se que várias características do sujeito e do
exercí- cio podem afetar a relação entre potencialização e fadiga. Em
função disso, diferentes resultados são encontrados na literatura com
relação ao tempo de intervalo ótimo, mostrando que as respostas são
bastante individuais. Cada sujeito terá um momento ideal
individualizado em que essa relação se mostre favorável à PPA, ao
menos tratando-se de atividades voluntárias subsequentes.

Complex-training: aplicação do PPA em longo prazo no


treinamento
A aplicação mais intuitiva dos efeitos da PPA e seu aumento
agudo do potencial contrátil é visando a competição86. Porém, além
dessas respostas agudas obtidas com protocolos de atividades
condicionantes, o conceito de complex-training incorpora os
princípios do PPA83 para gerar adapta- ções neuromusculares em
longo prazo, a exemplo do aumento da taxa de produção de força em
movimentos dinâmicos6. Como a fadiga se dissipa mais rapidamente
que os efeitos da potencialização, é possível criar um “complexo”
força-potência de treinamento que tire proveito dos efeitos positivos
gerados38. Esse complexo é exemplificado pela aplicação de um
exercício prévio, como um agachamento com alta carga, seguido de
uma atividade com velocidade, como um salto18, sendo isso
conhecido como “complex-training”35. Esses protocolos de
treinamento se beneficiam das características positivas do PPA35 e
podem auxiliar uma ampla gama das populações atléticas44, sendo
considerados superiores a outros métodos de treinamento para
melhorar a performance atlética envolvendo movi- mentos com
padrões explosivos87,7. Uma vez que a capacidade é melhorada
agudamente, a performance no treinamento pode ser otimizada,
aumen- tando a eficiência da sessão36. Caso os estímulos sejam
usados dentro de uma periodização, maiores adaptações em longo
prazo podem beneficiar a performance do indivíduo88.
O complex-training é um método viável para combinar força e
po- tência na mesma sessão, sendo mais eficiente35 e benéfico para
exercícios que necessitam altas taxas de aplicação de força em um
exercício biome- canicamente similar35, imitando a tarefa principal o
máximo possível18. As
sequências de “complex training” têm o potencial de promover um
estado neural melhorado associado ao PPA44, sendo utilizadas dentro
de uma pe- riodização de treinamento de força35 até mesmo em
atletas treinados onde aumentos valiosos na performance podem ser
observados44.
Os métodos “complex training” demandam tempo e esforço que
os técnicos devem considerar65 e as melhoras são sensíveis à
estrutura da se- quência utilizada no complex-training44. Protocolos
com agachamentos podem ser vantajosos para atletas se a
performance de salto é um aspecto importante da sua modalidade
esportiva57. Assim, um exemplo seria em- purrar ou puxar um objeto
pesado visando induzir PPA sem a necessidade de equipamentos
sofisticados44. É importante ressaltar que uma carga pré- via pode ter
efeito não apenas em uma série, mas em múltiplas, realizadas após a
intervenção88, sendo então essa relação ainda mais complexa.
O complex-training tem seu lado positivo, porém suas
limitações de- vem ser consideradas. Várias séries com várias
repetições de pliometria e exercícios com alta carga produzem um
grande estresse no sistema neu- romuscular e, se realizado por muito
tempo, podem resultar em overrea- ching ou overtraining88. Dessa
forma, quando implementado esse tipo de treinamento, a técnica e a
potência não devem ser afetadas pela fadiga35, e sim auxiliar na
manutenção de força muscular para possibilitar que o atle- ta foque
na técnica de execução da habilidade61. Caso respeitado os limites
individuais, até mesmo o treino de velocidade pode ser combinado
com treinamento com altas cargas na mesma sessão64, porém, deve-
se levar em conta os efeitos ao longo de um microciclo e
mesociclo35.
Nesse capítulo, foram analisados e discutidos fatores que
possivel- mente afetam a manifestação do fenômeno de PPA. É
importante notar que, embora a maioria dos estudos atribuem uma
possível melhora da performance aos efeitos positivos do histórico
de contração, poucos deles efetivamente mensuraram se as
propriedades neuromusculares estavam de fato potencializadas,
através do torque em um twitch (PPA) ou análise do reflexo-H, o
qual reflete aumento na excitabilidade dos motoneurônios. Além
disso, mesmo com a confirmação de PPA com eletroestimulação,
existe pouca evidência de que, de fato, o torque no twitch aumentado
após uma contração condicionante melhora a performance de uma
atividade voluntária complexa. Deve-se ter cuidado ao extrapolar
resultados e assu- mir que um músculo em estado potencializado
apresentará desempenho voluntário superior. Embora muitos
autores especularem que esse esta- do “potencializado” possa ser
benéfico para a produção de potência em atividades onde essa é
decisiva, sua real relação com a performance final
é muito mais complexa, não tão linear e pouco compreendida até o
mo- mento. Padrões complexos de movimento também podem não
responder tão linearmente a melhoras gerais na potência muscular,
devido a outros fatores como coordenação, sinergismos musculares e
mudanças na tem- peratura muscular.
Por outro lado, mesmo sem a identificação exata dos
mecanismos que levam a uma performance aumentada, o resultado
final em si é impor- tante e necessita atenção especial. Vários
estudos nessa perspectiva foram conduzidos e observaram
performance superior após o uso de uma AC. Na estruturação
dessas atividades vários fatores devem ser considerados: a
intensidade, o volume, o tipo de atividade, o tipo de contração
muscular presente e as características da tarefa principal que se
deseja otimizar são decisivas na manifestação ou não de um
desempenho final otimizado. Um padrão cinesiológico similar entre a
AC e o exercício posterior parece tam- bém ser importante e deve ser
considerado por treinadores que queiram incorpor tais atividades em
seu treinamento ou utilizar tais atividades em competições.
A variabilidade das respostas em diferentes indivíduos está
associada a relação PPA e fadiga, podendo variar de acordo com
diferentes níveis de treinamento, força e distribuição de fibras. Isso
dificulta a padronização de protocolos sendo então necessário
determinar individualmente o tempo de intervalo entre a AC e a
performance principal através de tentativa e erro. Embora para
grupos homogêneos respostas semelhantes tendem a acontecer,
sendo que aparentemente sujeitos treinados respondem mais
positivamente aos protocolos. Maiores volumes e intensidades
induzem maiores níveis de fadiga e também de PPA. Devido a
diferentes taxas em que os dois se desenvolvem e dissipam, o balanço
final entre os dois irá de- terminar uma possível melhora da
performance voluntária. Dessa forma, o tempo de recuperação ideal
entre a AC vai depender diretamente dessas características e será
altamente individual. Aparentemente, quanto mais fibras são
recrutadas e fosforiladas na AC, maior o valor de PPA estando isso
relacionado a possíveis melhoras no desempenho voluntário.
Embora altamente especulativo, uma tentativa de utilizar-se
dessa “memória molecular” associada a fosforilação da miosina RCL
é altamente difundida na literatura, através do complex- training,
embora no âmbito do treinamento, até mesmo os que se utilizem dela
não compreendam sua total significância. Nesse método, o possível
estado “potencializado” indu- zido por uma contração prévia é
utilizado acreditando-se que a atividade principal realizada nesse
estado consiga também ser realizada de forma
otimizada. A adaptação neuromuscular a esse método em longo
prazo ain- da não foi testada, dessa forma, necessita-se cuidado ao
extrapolar efeitos agudos para adaptações crônicas.

Aplicações práticas

• Aumento da capacidade contrátil causada pela PPA podendo


gerar melhor desempenho em competições;
• Possibilidade de maiores adaptações neuromusculares em
longo prazo através do uso do complex-training;
• Melhora em desempenho de sprints e saltos através do uso de pro-
tocolos de PPA específicos;
• Maior eficiência na sessão de treino devido aos mecanismos otimi-
zadores associados a PPA.
• Facilidade do uso de saltos para gerar PPA em espaços reduzidos.
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Training Ses- sion. J Strength Cond Res . 2006 Feb;20(1):162.
374
CAPÍTULO XIV
ESPECIFICIDADE DA AÇÃO MUSCULAR PARA GANHO DE
FORÇA MÁXIMA E RÁPIDA

Bruno Monteiro de Moura


Fernando Diefenthaeler

O que você irá encontrar:

• Contexto histórico do treinamento de força;


• Exercício com cargas constantes e variáveis;
• Exercício isocinético;
• Exercício isométrico;
• Treinamento de força e ganho de força máxima;
• Treinamento de força e ganho de força rápida.

Introdução

Nos capítulos anteriores foram abordadas as estruturas


microscópicas do sistema musculoesquelético e os métodos de
avaliação de parâmetros biomecânicos desde o esporte à área
terapêutica. O conhecimento ad- quirido anteriormente servirá como
arcabouço para um melhor entendi- mento do porque, como e o que
treinar para incrementar a capacidade de produção de força máxima e
rápida. Desde os primórdios em que Max Sick promoveu o que seria o
treinamento isométrico, passando pela então “tensão dinâmica” de
Charles Atlas, pelo “Sargent jump test” proposto por Dudley Allen
Sargent, os irmãos Ben e Jon Weider que consistentemente
promoviam o exercício por meio das suas revistas, TL Delorme que
revo- lucionou cientificamente a todos reabilitando militares
lesionados durante a 2ª guerra mundial, para não falar de tantos
outros, o exercício resistido ganhou popularidade40. Desde então
(metade do século XX e ao longo do século XXI) houve uma
preocupação também em entender os mecanismos que permeiam o
exercício resistido, seja ele utilizando a metodologia do levantamento
olímpico, do fisiculturismo ou do levantamento básico (do inglês
power lifting)53.
Há pouco tempo, acreditava-se que o treinamento de força
deixaria o indivíduo mais lento, a criança teria sua janela
maturacional antecipada e reduzida e até que prejudicaria a saúde de
idosos. No entanto, desde a década de 80 houve um crescente
número de estudos para responder e até retirar certos dogmas até
então aceitos e perpetuados pela sociedade
vigente. De lá para cá houve uma grande evolução generalizada53.
Enquan- to os aparelhos de exercício resistido melhoraram a
ergonomia, para as- sim aprimorar a transmissão de força do
equipamento para o grupamento muscular, os métodos de avaliação
em acompanhar o melhoramento dos componentes neuromusculares
(e.g., frequência de disparos, recrutamen- to de unidades motoras e
coativação muscular) e morfológicos (e.g., hiper- trofia, aumento do
comprimento do fascículo e rigidez da unidade muscu- lo-tendínea)
receberam maior atenção por parte dos pesquisadores1,2.
O acompanhamento com técnicas mais robustas da evolução as
di- ferentes maneiras de treinamento de força, possibilitou avanços
consi- deráveis no âmbito esportivo, paradesportivo e clínico.
Entender como, quando e porque cada método de treinamento de
força possibilitará o pla- nejamento do treinamento mais adequado
desde o campo terapêutico até o alto nível competitivo se faz
necessário.

Bases da força muscular

Conhecer os princípios básicos do treinamento de força servirá


como alicerce para aprimorar o conhecimento de quais tipos de
treinamento de força pode ser aplicado para alcançar o objetivo alvo.
O treinamento de força consiste de ações voluntárias isométricas,
concêntricas e excêntricas. Por definição a ação muscular excêntrica
é representada pelo alongamen- to muscular quando a força do
grupamento muscular é excedida devido a maior carga externa. Em
contrapartida, a ação muscular concêntrica é representada pelo
encurtamento muscular, pois a força do grupamento muscular é
maior do que a carga externa. As ações musculares concêntri- cas e
excêntricas então constituem num desfecho dinâmico, ou seja, ocorre
movimento. Já durante a ação isométrica, não ocorre movimento,
pois a força da ação muscular é equivalente à carga externa52. Na
maioria dos movimentos que constituem a movimentação do ser
humano as três ações musculares ocorrem em conjunto (Figura 1.14).
De acordo com Fleck e Kraemer33, a força muscular máxima é a
quan- tidade máxima de força que o músculo ou grupo muscular
pode gerar du- rante um determinado movimento a uma dada
velocidade. Já para Knut- tgen e Komi52, a força máxima é
caracterizada pela maior força que pode ser produzida pelos
músculos para realizar um determinado movimento isométrico ou
dinâmico, porém o tempo para alcançá-la é relativamente lento. De
forma mais sucinta, pode-se dizer que força muscular é a com-
binação de fatores fisiológicos e biomecânicos da máxima
capacidade de
o músculo gerar tensão para vencer ou suportar uma determinada
carga a uma dada velocidade.

Figura 1.14 - Possíveis desfechos dada a tensão muscular (adaptado


de
Fry e Newton39).

O objetivo central do treinamento de força é aumentar a força


muscu-
lar e suas diferentes formas de manifestação, como a hipertrofia
muscular.
A hipertrofia pode ser considerada como o aumento miofibrilar e
com isso ocorre o aumento do diâmetro das fibras musculares59.
Sendo assim, como conceito, hipertrofia é o aumento da secção
transversa do músculo e, por conseguinte aumento do ângulo de
penação musculoesquelético1. Segundo Ploutz et al.71, na fase inicial
do treinamento há um ganho muito maior de força muscular em
detrimento de ganho do volume muscular propriamen- te dito. Esse
ganho, segundo a literatura, tem relação com as adaptações neurais,
previamente às mudanças morfológicas no músculo esquelético, que
ocorrem no início do treinamento de força.
A ação muscular ocorre mediante o controle neural, e aqui
começa uma importante consideração a despeito do treinamento de
força. O controle neural é mediado pela unidade motora (UM) e para
uma melhor compres- são do que é a adaptação neural, faz-se
necessária uma breve compreensão conceitual. A UM é um
neurônio motor alfa e todas as fibras que estão por ele inervadas.
As UMs podem ser classificadas em pequenas (quando inerva uma,
duas ou três fibras musculares) ou grandes (quando inerva mais de
1000 fibras musculares)32. A UM é considerada a junção do siste-
ma nervoso central (SNC) até a fibra muscular32. De acordo com
Badillo e Gorostiaga9, apesar das evidências que sugerem um papel
significativo para os mecanismos neurais nas adaptações do
treinamento de força, os fatores neurais para aumento de força são:
1) número de UMs recrutadas;
2) tamanho das UMs recrutadas; 3) frequência de disparo em cada
UMs;
4) inibição dos órgãos tendinosos de Golgi (OTG) e estimulação dos
fusos musculares (reflexos medulares); e 5) redução da co-ativação
muscular.
A produção da força muscular é regulada por fatores neurais
(aumento nos níveis de ativação neural). O aumento na força
muscular é regulado pela taxa de frequência de disparo e/ou pela
quantidade de UMs recruta- das17. É importante ressaltar que a UM
sofre remodelações por toda a vida do indivíduo72. As adaptações
neurais podem ocorrer devido ao aumento da ativação dos músculos
agonistas e/ou sinergistas, assim como pela re- dução da coativação
dos antagonistas. A ativação dos músculos agonistas pode melhorar
tanto devido a um maior recrutamento das UMs ou pelo aumento na
frequência de disparos em função do maior aporte de inputs de drives
neurais dos centros supraespinais, maior sincronização das UMs,
maior excitabilidade dos motoneurônios supraespinais e/ou redução
na inibição dos inputs neurais4. Sendo assim, a possibilidade de
ocorrer um maior disparo de UMs de com limiar excitatório mais
elevado em função de diferentes tipos de treinamento de força é a
grande senão maior chave para aumentar a força máxima, rápida e
potência muscular47.
Já não é novidade que a melhora inicial na produção de força
pode ser creditada pelas adaptações neurais adquiridas após
aproximadamente
4 semanas de treinamento61,62. Aumentos na força de contração
muscular em decorrência do aumento da amplitude do sinal
eletromiográfico (EMG) têm sido observados após período de
treinamento utilizando contrações isométricas12, concêntricas48 e
excêntricas81. Tal mudança ocorre em res- posta aos mais diferentes
tipos de treinamento de força, seja ele com foco hipertrófico82, força
máxima5 e rápida12. Isto indica um maior drive neural para as fibras
musculares2,3,29,45. Esses resultados são frutos de observações nas
mais variadas populações e com boa função neural, como jovens não
treinados, jovens bem treinados e idosos fisicamente ativos. Isto
indica que há plasticidade neural (i.e., melhoramento neural) mesmo
em indiví- duos altamente treinados em força e em idosos4,45.
Em nível celular e molecular, o músculo esquelético pode ser
subdi- vidido e classificado baseado nas características isofórmicas
da miosina [miosinas de cadeias pesadas (myosin heavy chain –
MHC) MHC I, MHC IIa e IIb]. Estas geram três tipos de fibras (I,
IIa e IIb) com tipos híbridos que expressam múltiplos fenótipos entre
as isoformas “tradicionais”64. As fibras tipo I, IIa e IIb possuem
grandes diferenças com relação as suas propriedades contráteis e
energéticas. Além disso, sua distribuição entre os músculos são
conhecidas para modular suas propriedades funcionais in vivo25.
Após período de intervenção com foco hipertrófico (e.g. intensi-
dade média e volume alto) e força (e.g., alta intensidade e baixo
volume), também ocorrem mudanças no tamanho da área da fibra
muscular tanto em jovens, quanto em idosos, porém com maior
incremento para os jo- vens5,8,59.
Concomitantemente, os incrementos na capacidade de produção
da
força máxima e rápida, amplitude do sinal EMG e hipertrofia das
fibras musculares ocorrem mudanças nas características
morfológicas da estru- tura musculoesquelética, ou seja, em toda
arquitetura muscular em decor- rência do treinamento de força37,38.
De maneira geral, ocorrem mudanças no arranjo dos sarcômeros em
série e em paralelo. Enquanto que o aumen- to do número de
sarcômero em paralelo culmina na hipertrofia muscular e no aumento
do ângulo de penação, a adição de sarcômero em séries (sar-
comerogênese) aumenta o comprimento do fascículo muscular38.
Dessa forma, o incremento de sarcômeros em paralelo culmina no
aumento da produção máxima da força muscular. Enquanto que o
efeito em série dos sarcômeros, no aumento da velocidade de
encurtamento muscular56.
Dado o contexto sobre as bases da força muscular, o
profissional da
saúde deverá levar em consideração os conceitos básicos da física,
como por exemplo, a segunda lei de Newton (F = m * a). De acordo
com a segun- da lei de Newton, a aceleração de um objeto é
proporcional à magnitude da força na mesma direção e sentido,
porém inversamente proporcional a sua massa, ou seja, a = F/m.
Dessa maneira, a massa (m) é tida como uma representação numérica
da inércia do objeto estudado. Com isso, para al- terar, aumentar ou
diminuir a velocidade de um objeto, um impulso pro- porcional deve
ser gerado. Nesse sentido, pesquisadores da área de treina- mento
físico têm sugerido que além de conhecer modelos de treinamento, é
preciso ter noções básicas do tipo de resistência que máquinas e
exercício fornecem ao indivíduo40.

Tipos de exercício

O treinamento de força pode ser realizado em aparelhos


isocinéticos, com a própria massa corporal e com pesos livres.
Porém, os exercícios re- sistidos em máquinas de placas (i.e., weight
stack machines)34 são mais utilizados por serem mais seguros e
permitirem maior controle na exe- cução de movimentos
monoarticulares e multiarticulares, permitindo que toda amplitude de
movimento seja alcançada, utilizando respiração apro- priada6.
Dados os conceitos de força previamente definidos, as curvas de
produção de força variam em função do ângulo articular estudado, já
que o braço de momento articular afeta a transferência do torque pela
arti- culação55. Por exemplo, as curvas de força dos extensores do
joelho são ascendentes-descendentes e são explicadas pelos
experimentos propostos por de Gordon et al.43. As máquinas de placa
foram as que mais sofreram evoluções com o passar dos anos. Dentre
as diversas fabricantes, existem máquinas de resistência variável e de
resistência constante. As máquinas mais modernas já contam com
uma resistência variável, dessa forma as empresas investiram nas
polias assimétricas denominadas CAM (constant arm movement –
braço de momento constante)34 (Figura 2.14):
• Máquina de resistência constante – a carga não reduz ou
aumenta durante todo o curso do movimento articular;
• Máquina de resistência variável – a carga reduz ou aumenta
de acordo com o braço de momento articular para equiparar
com o ân- gulo articular.
Figura 2.14 - Exemplo de polia de resistência constante (a) e polia de
resis-
tência variável
(b).

As máquinas com resistência constante têm uma estrutura física


rígida e com presença de placas ou lugar para acoplar anilhas,
com guias, ca- bos ou correias. A polia desta máquina apresenta um
eixo central (Figura
2.14 a). Devido a esta configuração, o seu raio não se modifica
durante a rotação, e em conseguinte, o braço de momento da polia é
constante sem oferecer uma vantagem mecânica articular com o
movimento articular. Já os aparelhos com resistência variável têm
estrutura similar aos de resis- tência constante, a diferença está na
polia, pois a CAM proporciona uma resistência variável, gerando
assim uma vantagem mecânica para a articu- lação. Essa
variabilidade ocorre devido a presença do fulcro do eixo fora do
centro (Figura 2b), este fato faz com que haja mudanças no braço de
momento articular. Dessa maneira, a ideia seria que a relação ângulo-
força dos aparelhos com polia CAM seria mais reta em comparação
com a rela- ção ângulo-torque humano34 (Figura 3.14).
Exercício de resistência dinâmica variável e
constante
Convencionalmente, os aparelhos com placas e polias são os
mais ven- didos e utilizados dentro das academias de musculação e
clubes de futebol. Estes aparelhos são chamados de equipamentos de
resistência dinâmica, os quais podem ser de característica variável ou
constante, pois depende do tipo de polia utilizada. Os mais
modernos equipamentos de resistên-
cia dinâmica podem ser constituídos de polia simétrica ou
assimétrica, também chamada de CAM (do inglês constant arm
lever). Os exercícios de resistência dinâmica são os mais populares
também dentro da prática científica dentre as mais variadas idades
(e.g., crianças, atletas, idosos e até muito idosos)21 e limitações
(e.g., fibromialgicos e dislipidêmicos)6.

Figura 3.14 - (a) Média e DP da relação torque-ângulo relativo dos


exten- sores de joelho; (b) relação torque-ângulo relativo para oito
aparelhos de extensão do joelho que utilizam a polia com resistência
variável (CAM) . Adaptado de Folland e Morris34.
Constantemente a força dinâmica máxima é mensurada por teste
de força dinâmica máxima (uma repetição máxima - 1-RM) e/ou
contração isométrica voluntária máxima (CIVM)22. No teste de 1-
RM, o individuo é instruído a erguer de forma dinâmica a maior
quantidade de carga por uma amplitude de movimento pré-definida.
Já durante o teste de CIVM, o individuo é instruído a exercer a maior
força durante 3-5 s no ângulo óti- mo de produção de força para a
articulação pré-estabelecida. Os testes de força máxima estão
relacionados com habilidade de caminhar, empurrar e mover objetos
do local, porém o tempo para produção dessa força é de-
masiadamente lenta. Já a força rápida é frequentemente avaliada pela
taxa de desenvolvimento de força (TDF)2 durante contrações
isométricas. Neste teste, o voluntário comumente recebe a instrução
de exercer durante 3-5 s “o mais rápido e mais forte” uma contração
isométrica máxima. A força rápida é crucial tanto para atletas44
quanto para idosos63,80, pois também tem papel fundamental no
retorno ao equilíbrio estático e dinâmico50.
Os exercícios de resistência dinâmica variável (ERDV) têm
demons- trado melhoras na produção de força máxima18, enquanto
exercícios de resistência dinâmica constante (ERDC) parecem
melhorar a capacida- de de força rápida em jovens82. Em
contrapartida, embora os resultados para melhora na produção de
força máxima sejam equivalentes em ido- sos19,63,82,84 os resultados a
despeito da capacidade de produção de força rápida são
contraditórios. Enquanto, alguns trabalhos utilizando aparelho ERDC
apresentam resultados positivos para melhora da força rápida45,63,65,
outros que utilizaram ERDV não observaram o mesmo
comportamento85. Dessa maneira, a escolha do aparelho a ser
utilizado durante o treinamen- to é de grande importância para um
maior incremento no desfecho final (e.g., força máxima ou rápida).
Já que ocorre uma mudança no formato da curva torque-ângulo
de exercícios monoarticulares utilizando aparelho de carga constante
e o de carga variável34, pode-se imaginar que o mesmo ocorre com
aparelhos multiarticulares. Pensando nisso, Walker et al.83
investigaram padrões cinéticos e eletromiográficos entre quatro
diferentes configurações de apa- relhos multiarticulares que serão
melhor explicados na sequência. Os au- tores utilizaram um aparelho
modificado de leg press horizontal (David M16 - David SportsLtd.,
Helsinki, Finlândia), sendo que os voluntários co- meçavam a
execução do exercício a 60º de flexão do joelho e deveriam es-
tender completamente os membros inferiores para finalizar a tarefa
(180º
= extensão completa dos joelhos). As configurações de resistência
foram: (1) resistência constante; (2) resistência variável com
pequenos aumentos
de força (classificada como CAM conservadora); (3) resistência
variável com exacerbado incremento de força (classificada como
CAM exponen- cial) e (4) resistência variável com redução de força
(classificada como drop off CAM).
Foram recrutados nove adultos jovens praticantes regulares de
treina- mento de força. Os voluntários foram avaliados em duas
sessões (≥ 2 dias de intervalo) entre os testes. Foram avaliadas força
concêntrica, velocida- de, potência muscular e atividade elétrica dos
músculos vasto lateral, reto femoral, vasto medial e bíceps femoral
executando o exercício de extensão de joelhos no aparelho de leg
press horizontal modificado. A partir dos testes de 1-RM, foram
avaliados testes a 40, 60 e 80% de 1-RM, que pos- teriormente
avaliou duas diferentes técnicas de contração (1) a 2-s de fase
concêntrica controlada por metrônomo (contrações com pace) e (2)
fase concêntrica executada o “mais rápido possível” (contrações
rápidas) para cada carga. Estes parâmetros foram auferidos a cada
20º da amplitude de movimento (~60-180º; 180º = extensão
completa do joelho). Em suma, houve maior ativação muscular dos
extensores do joelho ((VL+VM)/2) du- rante as contrações com pace.
No entanto, os autores observaram diferen- ças significantes na
produção de potência muscular nos últimos ângulos do movimento
120-140º e 140-160º utilizando 80% de 1-RM e em con- junto com
esses resultados, os autores revelaram uma maior velocidade
produzida também nos últimos graus de extensão do joelho (e.g.,
120-140º e 140-160º).
Em conseguinte a isto, a literatura vigente ainda não é consistente
com relação às respostas de força máxima (1-RM ou CIVM) e rápida
(TDF) em resposta ao treinamento de força. Alguns autores
defendem a premissa que executar o movimento dinâmico rápido
seria mais benéfico para in- cremento da força rápida24,73 em
comparação com movimento dinâmico cadenciado. No entanto,
alguns autores já observaram aumento da TDF com execução de
movimento dinâmico cadenciado, seja em adultos sau- dáveis7 e/ou
idosos2,63. Em contrapartida, outros autores não observaram aumento
da TDF executando movimento dinâmico rápido26.
Dessa maneira, pode-se especular que modificar a forma e a
configuração da polia (constante ou CAM) afetaria características
cinéticas e eletromio- gráficas podendo levar a distintas adaptações
(e.g., força máxima e rápida) ao longo do período de intervenção de
treinamento de força. Sendo assim, é possível sugerir que aparelhos
que tenham um controle maior da veloci- dade do começo ao fim do
movimento articular possam promover adapta- ções desde força
máxima até a rápida. Exercício isocinético
O termo isocinéticos advém do grego e é divida em duas
palavras “iso” que se refere a igualdade e “cinético” de “kinetiós” de
movimento ou mó- vel, ou seja, movimento igual. Desde 1967
quando Helen J. Hislop com o auxílio do engenheiro James J.
Perrine desenvolveram o primeiro apare- lho isocinético, este vem
sendo utilizado na área clínica para diagnóstico16, treinamento23,75 e
reabilitação79. Para os autores, a especificidade do trei- namento
refere-se a criação de exercícios físicos mais próximos à realidade de
uma dada tarefa. Com isso, a força muscular bem como o torque que
é gerado em uma articulação ocorre devido a uma tensão
previamente ge- rada48.
Uma contração isocinética é o refinamento do conceito de
controle da amplitude de movimento e da sua velocidade angular.
Para tal, a contração isocinética é dinâmica e controlada por um
servo-motor. Desse modo, a re- sistência é uma taxa direta da
variação aplicada por todo o curso do movi- mento49. No entanto, o
aparelho isocinético apresenta limitações, pois este apresenta
momentos de aceleração (fase inicial da curva torque-ângulo),
momento isocinético de fato (fase do meio da curva torque-ângulo) e
fase de desaceleração (fase final da curva torque-ângulo)49 (Figura
4.14).

Figura 4.14 - Modelo hipotético de torque do braço de alavanca


durante o exercício isocinético. Nos extremos da curva, a vantagem
mecânica é me- nor e assim a resistência é menor. Para o meio do
movimento, a vantagem mecânica é maior, sendo assim, a resistência
aumenta proporcionalmente.
Além da área terapêutica, os aparelhos isocinéticos também são
lar- gamente utilizados para treinamento por conta da precisão,
confiabili- dade e reprodutibilidade para treinamento30. Por isso, os
dinamômetros isocinéticos têm uma grande importância na área
esportiva e da fisiotera- pia13-16,23,41,74-76. Comercialmente, são
inúmeras as opções de aparelhos com características isocinéticas.
Podemos citar Cybex®, Biodex®, Kin-com®, Humac norm®, David®
para não falar de tantas outras no mercado com as mais distintas
soluções. Com isso, a depender do modelo e marca do isocinético,
existe um grande espectro de velocidades isocinéticas concên- tricas
e excêntricas. Por exemplo, podemos citar o modelo da marca Bio-
dex® que alcança velocidades lentas (i.e., 5º·s-1) até as mais rápidas
(i.e.,
500º·s-1). Dessa forma, há trabalhos na literatura que focaram em
inter- venções para aumento da força máxima e rápida. Podemos citar
o trabalho de Baroni et al.13, que investigou o efeito do tipo de ação
muscular (con- cêntrica vs excêntrica) na força muscular, trabalho e
índice de fadiga entre jogadores de futebol. Os voluntários foram
randomizados entre grupo con- cêntrico (n = 8) e excêntrico (n = 9)
e realizaram 10 séries de contrações isocinéticas máximas a 90º·s-1
com intervalos de 30-s-1.
Os autores reportaram maior valor de trabalho para o grupo
excêntrico (19.475 J) em comparação ao grupo concêntrico (15.758
J), enquanto que para o índice de fadiga foi maior (36%) no grupo
concêntrico em compara- ção com o grupo excêntrico (18%).
Levando a conclusão que o exercício ex- cêntrico promoveria maior
sobrecarga pela sua maior produção de torque e conseguinte menor
índice de fadiga induzida devido ao exercício. Já no estudo
conduzido por Cadore et al.23, os autores investigaram os efeitos de
ações musculares isocinéticas concêntricas (CON) e excêntricas
(EXC) a
90º·s-1 em dois grupos de jovens. Os jovens foram conduzidos a 6
semanas de treinamento 2x/semana. Os autores avaliaram além da
CIVM e TDF, a velocidade de condução elétrica muscular, atividade
muscular, espessura muscular do vasto lateral e intensidade do ECO
via ultrassom para tentar explicar o fenômeno. Em ambos os grupos
pode-se observar aumentos na CIVM (CON: 15% e EXC: 15%), na
TDF máxima (CON: 77% e EXC: 55%), no sinal EMG do músculo
vasto lateral (CON: 15% e EXC: 45%), na espes- sura muscular
(CON: 11% e EXC: 12%), na velocidade de condução elétrica do
músculo (CON: 22% e EXC: 27%) e redução de na intensidade do
ECO (CON: -6% e EXC: -8%).
O estudo demonstrou que apesar do maior trabalho executado
pelo grupo EXC (75.767 J vs 53.423 J CON), esta variável não
influenciou no ganho de força máxima e, por conseguinte na
hipertrofia muscular (i.e.,
espessura muscular). O que vai de encontro do especulado por
Baroni et al.13. Outrossim, um resultado pouco esperado foi o
aumento da TDF uti- lizando uma velocidade contração com foco em
ganho de força (90º·s-1). No entanto, pode-se ressaltar que a grande
variação do ganho da TDF em ambos os grupos tem que ser
observada com cautela para uma generaliza- ção do estudo23.

Exercício isométrico

Já o treinamento isométrico consiste no exercício sem


movimento apa- rente, pois a carga aplicada pelo aparelho é a mesma
aplicada pelo sistema musculoesquelético. De acordo com Folland et
al.34, o exercício isométrico produz ganhos tanto para força máxima
quanto hipertróficos, porém essas adaptações são dependentes do
ângulo de execução. O que isso quer di- zer? Se algum indivíduo
realizar oito semanas de treinamento de extensão de joelhos a 70º (0º
= extensão completa do joelho), as adaptações serão peculiares a
esta amplitude articular51. Apesar dessas limitações, diversos estudos
relatam aumentos significantes de força máxima em um curto pra- zo
de treinamento20,54,66.
No estudo de Kubo e colaboradores54 foram realizados dois
tipos de exercícios isométricos em nove adultos saudáveis 4x/semana
durante três meses. No desenho experimental desse estudo, um
membro inferior trei- nou em um menor comprimento muscular (50º;
sendo a posição 0º consi- derada extensão completa) e o membro
contralateral treinou em um maior comprimento muscular (100º).
Ambos treinaram a 70% da força isométri- ca máxima e o protocolo
consistiu de seis séries de 15-s com 30-s de inter- valo. Os autores
avaliaram o ganho de força isométrica máxima ao longo de oito
ângulos (i.e., 40, 50, 60, 70, 80, 90 e 100º), avaliaram as mudanças
estruturais da unidade musculotendínea e área de secção transversa
(AST) por meio de ultrassom e ativação elétrica dos músculos da
coxa (vasto la- teral [VL], vasto medial [VM], reto femoral [RF],
vasto intermédio [VI] e bíceps femoral [BF]).
Foram observados aumentos significantes entre 49-44% de
força iso- métrica e 10-11% da AST, em ambos os grupos (50 e
100º, respectivamen- te) sem diferenças entre os mesmos. Além
disso, houve aumento signifi- cante do sinal EMG absoluto dos
músculos VL, VM e RF (~35, 34 e 31%, respectivamente) para
ambos os grupos. Apesar de não ter ocorrido dife- renças nos
volumes musculares e pico de força isométrica entre os grupos,
houve aumento significante de 40% da rigidez tendínea somente no
grupo
que treinou no maior comprimento (100º). Na análise de força
isométrica realizada ângulo a ângulo, observou-se que houve um
aumento de força no ângulo específico ao treinamento e em
ângulos adjacentes do grupo que treinou no menor comprimento
(50º). No entanto, essa peculiaridade do aumento da força tornou-se
menos específica no grupo que treinou no maior comprimento.
Talvez esse aumento possa ser atribuído ao aumento da rigidez
tendínea e, por conseguinte contribuição no aumento do pico de
torque em ângulos menores.
Estudos com os mais variados tipos de exercícios de força (e.g.,
isotô- nico, isocinético e isométrico) demonstram um grande
aumento de força máxima e estrutural. Isso implica que entre esses
tipos de exercício o es- tresse mecânico também é suficiente para
causar alterações estruturais no corpo humano. No entanto, o tipo de
estímulo estressor deverá ser bem conhecido para a elaboração de um
plano de treino com foco em força má- xima ou rápida.

Treinamento de força máxima

Para aumentar a força máxima, o treinamento de força é


frequente- mente empregado em jovens57, atletas36 e idosos21. No
entanto, até o mo- mento não se sabe ao certo como os componentes
(e.g., frequência, volu- me, intensidade e intervalo entre as séries)
que fazem parte da elaboração de uma rotina de treinamento podem
inibir o melhoramento da força máxima. Apesar de que a frequência
de treinamento seja uma das chaves para aumento da força
muscular10, o acúmulo excessivo de fadiga sessão a sessão poderá
inibir o aperfeiçoamento da capacidade de gerar força má- xima. A
fadiga induzida devido ao trabalho muscular é decorrente da car- ga,
intensidade, tipagem de fibra do tipo rápido e histórico do sujeito.
De acordo com Enoka e Duchateau31, fadiga é um sintoma
incapacitante no qual o desempenho motor é limitado por interações
entre percepções de fadiga e fatigabilidade. Além disso, o estado
transitório de fadiga ocorre naturalmente em decorrência do estresse
relacionado desde o cotidiano até a sessão aguda do treinamento.
Desde 1936, quando o endocrinologis- ta austro-hungaro Hans
Selye78 estudou de maneira mais contundente a sintomatologia do
estresse os modelos de treinamento são organizados78. Para o autor o
organismo seria infligido em três distintas fases (1) alarme, (2)
resistência e (3) exaustão (Figura 5.14).
Figura 5.14 - Modelo mecanístico da síndrome da adaptação geral
(SAG) o qual engloba as três distintas fases (1) alarme, (2)
resistência e (3) exaustão (Adaptado de Cunanan et al.28).

Qualquer exercício físico é dependente da então liberação de energia


como combustível para ocorrer. Dessa forma, o treinamento de
força, devido a constante contração muscular, depende da quebra da
adenosina trifosfato (ATP) para então ocorrer a liberação de energia
para o sistema musculo- esquelético (2):

����??

����??����??

��??�� + ??�� + ??��??������?? →


��������??��çã?? ��������������??

Sendo assim, para manutenção da contração muscular o ATP


precisa ser regenerado a depender da demanda energética que o tipo
de treino re- sistido será planejado para seu cliente, atleta e/ou
paciente. De posse des- sa informação básica, três sistemas
energéticos que subsidiam o trabalho mecânico são apresentados: (1)
sistema fosfocreatina (PCr); (2) sistema anaeróbio glicolítico e (3)
sistema de formação oxidativa de ATP. Esses três sistemas básicos
podem trabalhar de maneira individual ou conco- mitantemente11,42.
De maneira genérica, os sistemas PCr e glicólitico não envolvem a
utilização da molécula de O2 e são denominadas metabolismo
anaeróbios. Já o sistema de formação oxidativa de ATP, envolve o
consu- mo de O2. Além disso, devido a característica única que o
tecido muscular possui, os três sistemas energéticos possuem
diferentes taxas de forneci-
mento de energia, recuperação e estão associados para contribuir na
ins-
tauração do período de fadiga devido ao estimulo fornecido42 (Figura
6.14).

Figura 6.14 - Modelo de interação dos distintos sistemas energéticos


e as taxas de regeneração de ATP durante exercício intenso levado a
fadiga. Adaptado de Baker et al.11.

De posse do conhecimento dos substratos energéticos inerentes


ao de- senvolvimento das distintas valências físicas (e.g., força
máxima, rápida, hipertrofia e resistência muscular localizada), há um
consenso na literatu- ra sobre como estruturar o volume (i.e., séries x
repetições) do treinamento com foco em força máxima. Em linhas
gerais, recomendam-se repetições curtas (1 a 3 reps), séries que
envolvam certo nível de fadiga (8 a 20 séries) e alta intensidade (80
a 100% de 1-RM). Além disso, devido ao esforço despendido em
cada repetição preconizam-se intervalos de 2 a 3 min para ressíntese
dos substratos energéticos e recuperação das UMs fadigadas46.
Adicionalmente, exercícios dinâmicos (com carga constante ou
variável), isométricos e isocinéticos parecem promover aumentos
semelhantes da valência força máxima. Porém, a elaboração do
programa de treinamen- to deve ser realizada com cautela, pois para
cada tipo de resistência há uma limitação. Enquanto exercícios
isométricos parecem promover me- nor fadiga em comparação com
os dinâmicos, irá ocorrer ganho de força
no ângulo específico ao treinado. Dessa maneira, há uma
necessidade de treinar em vários ângulos articulares para evitar o
efeito de especifidade do ganho articular. Por outro lado, os
exercícios dinâmicos resultaram numa margem de ganho de força
máxima maior em comparação com exercícios isométricos. Já
durante exercícios isocinéticos, evidências demonstraram que há uma
restrição ao ganho de força específica a velocidade treinada.

Treinamento de força rápida

Diferente da força máxima, se entende que a força rápida seria o


quão um segmento articular parte do estado de pleno repouso para
uma contra- ção no menor tempo possível3,7,12. O treinamento de
força rápida é um tipo exclusivo de exercício resistido cujo desfecho
central de melhora é especi- ficamente determinado por adaptações
neurais, enquanto que as adapta- ções morfológicas (e.g., hipertrofia
muscular) são menores em comparação com o sugerido pelo treino
para força máxima12,58,68. Sendo assim, durante exercício com
característica muito rápida especula-se que a fadiga ocorra mais
devido a mecanismos centrais do que por acúmulo de metabólitos,
pois durante tarefas dinâmicas, que produzem muita potência
muscular, os aportes energéticos de via glicolítica devem ser mais
pronunciados em comparação com o sistema oxidativo11,68.
O estudo de Balshaw e colaboradores12 foi realizado 12 semanas
de trei- no de força, 3x/semana com jovens fisicamente ativos. Os
participantes foram subdivididos em grupo de contração rápida
(balísticas), 1-s de platô a 80% do pico de torque isométrico máximo
(n = 13); contração em rampa (não balísticas), 3-s de platô a 75% do
pico de torque isométrico máximo (n
= 16) e grupo controle (n = 14). Os autores avaliaram variáveis
neuromus- culares (e.g. força, pico de torque, TDF, amplitude do
sinal EMG e M-wa- ve) e morfológicas (i.e., volume muscular por
ressonância magnética). Os autores verificaram maiores aumentos
para o pico de torque isométrico máximo no grupo 3-s (23%) em
comparação com o de 1-s (17%) e maior aumento de volume do
quadríceps para o grupo 3-s (8.1%). No entanto, o grupo 1-s
aumentou a TDF em todos os intervalos avaliados (17-34%) por
conta de maior input neural (17-28%).
Sendo assim, os autores sugerem que há uma diferença no
padrão de ativação quando o treinamento é realizado com velocidade
de contração mais rápida e por menos tempo. Enquanto, durante
velocidades rápidas parece que ocorre uma transição da potência do
espectro de frequência para maiores frequências. De acordo com os
autores, tal fato pode ter ocor-
rido em função de uma maior ativação de UMs de maior taxa de
disparo em comparação com contrações fortes e sustentadas por um
período mais longo. Igualmente, os autores do estudo anteriormente
mencionado su- gerem que este tipo de abordagem de treinamento
não só para indivíduos não-treinados e atletas, mas também para
idosos e pessoas com problemas articulares como artrites.
O desenvolvimento da força rápida está intrinsicamente
relacionado com o nível inicial da força máxima de um indivíduo. O
aumento dessa valência pode ser adquirido utilizando treino de
característica balística12, levantamento básico27 ou pliométrico68.
Dessa maneira, há uma premissa na literatura: para que ocorra a
melhora da força rápida é necessário que seja utilizada baixa
intensidade (0 a 50% de 1-RM ou 80% da CIVM) para exercícios
balísticos ou 50 a 90% de 1-RM durante exercícios dinâmicos27. Os
movimentos devem ser realizados na mais alta velocidade ou na
inten- ção de mover o implemento o mais rápido possível. A fim de
promover aumento da força rápida, no momento da elaboração do
programa de trei- namento de força, o profissional da área deverá
levar em conta o padrão do movimento, carga e velocidade que o
aluno e/ou atleta realiza durante o dia a dia.
Algumas considerações finais podem ajudar, o profissional de
educa- ção física, bem como outros profissionais da área da saúde,
deve ter diver- sas ferramentas de trabalhos e métodos. Para isso,
deve conhecer e levar em consideração não só as premissas do
treinamento físico, mas também as variáveis agudas e crônicas que
flutuam dentro do programa de trei- namento físico como as suas
ferramentas de trabalho. Adicionalmente, o profissional deverá levar
em consideração o estado inicial do seu aluno e/ ou atleta. Pois, o
nível físico do seu aluno e/ou atleta é altamente influen- ciado pela
frequência do treinamento e o volume de uma única sessão de
treinamento de força, já que influencia diretamente as adaptações
orgâ- nicas. Além disso, os treinamentos com ações dinâmicas em
aparelhos de polia (constante e variável), isocinéticos e isométricos
promovem ganhos similares na questão de força máxima. No
entanto, parece que ainda não há um consenso na literatura se os
resultados de aumento de força rápida ocorrem de maneira similar.
Uma das premissas do treinamento físico é a da individualidade
biológica. Dessa maneira, estratégias de monitoramen- to semanal de
treinamento para uma possível individualização do mesmo estão em
voga70,71. Com isso, devemos reforçar que adaptações a força má-
xima e rápida podem ocorrer desde que a heterogeneidade biológica
seja respeitada e monitorada.
Aplicações práticas

• O profissional deverá fazer uma análise prévia das


necessidades do seu aluno e/ou atleta;
• Verificar qual substrato energético deverá ser melhorado no
seu aluno e/ou atleta;
• Identificar qual musculatura deverá ser trabalhada com
maior foco de maneira a evitar possíveis lesões;
• Estar atento às variáveis agudas que envolvem o programa de
trei-
namento de força;
• Fazer devidas manipulações das variáveis agudas durante o
pro-
cesso de treinamento de força (i.e., periodização).
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