Você está na página 1de 17

Revista Brasileira de Ciências Sociais

ISSN: 0102-6909
anpocs@anpocs.org.br
Associação Nacional de Pós-Graduação e
Pesquisa em Ciências Sociais
Brasil

Mendonça, Ricardo Fabrino; Guimarães Simões, Paula


Enquadramento. Diferentes operacionalizações analíticas de um conceito
Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 27, núm. 79, junio, 2012, pp. 187-201
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais
São Paulo, Brasil

Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=10722948012

Como citar este artigo


Número completo
Sistema de Informação Científica
Mais artigos Rede de Revistas Científicas da América Latina, Caribe , Espanha e Portugal
Home da revista no Redalyc Projeto acadêmico sem fins lucrativos desenvolvido no âmbito da iniciativa Acesso Aberto
ENQUADRAMENTO
Diferentes operacionalizações analíticas
de um conceito*

Ricardo Fabrino Mendonça


Paula Guimarães Simões

Introdução análise de enquadramento, já se estudaram objetos


tão diversos como campanhas políticas, reality sho-
O conceito de enquadramento tem impulsio- ws, grandes eventos públicos, movimentos sociais e
nado investigações empíricas de diversas naturezas conversas informais. Heuristicamente rica e bastan-
no campo das ciências humanas (Weaver, 2007; te maleável, a noção parece se adaptar a diferentes
Reese, 2007; Van Gorp, 2007). Retomado como problemas de pesquisa, embasando abordagens me-
ferramenta teórica apta a captar a dimensão sim- todológicas distintas.
bólico-interpretativa das relações sociais, o conceito É importante perceber, contudo, que essa am-
ganhou projeção em estudos sociológicos, políti- pla utilização do conceito pode gerar duas consequ-
cos, comunicacionais e psicológicos. Por meio da ências perigosas. A primeira é a perda de precisão
conceitual. Na medida em que a definição de um
* Somos gratos à Capes e à Fapemig pelo apoio que
conceito se expande para abarcar fenômenos diferen-
concederam a projetos que possibilitaram a elabora- tes, há prejuízos no que concerne à sua exatidão. Os
ção deste artigo. Também manifestamos nossos agra- limites e contornos do conceito tornam-se dispersos
decimentos ao Gris e ao EME pelas ricas discussões e pouco claros. A segunda consequência potencial-
em torno do conceito de enquadramento ao longo
de tantos anos. Por fim, agradecemos aos pareceristas mente perigosa diz respeito a uma eventual fratura
anônimos de RBCS pela leitura instigante do presente do conceito. Para além da expansão semântica, o
trabalho. conceito passa a ser usado com sentidos diferentes
Artigo recebido em 02/02/2011 e, muitas vezes, conflitantes. Ainda que o termo pa-
Aprovado em 02/03/2012 reça articular estudos diversos, o que se nota é o sur-
RBCS Vol. 27 n° 79 junho/2012

12027_RBCS79_AF3b.indd 187 7/2/12 4:36 PM


188 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 27 N° 79

gimento de um terreno teórico não partilhado; ou ancoram-se em quadros de sentido que moldam as
melhor, a emergência de terrenos teóricos distintos. interpretações e ações dos atores envolvidos.
No caso específico do conceito de enquadra- Para explicar essa questão, Bateson parte de
mento, há indícios de um processo de fratura, como uma distinção de vários níveis presentes na comu-
percebido por Entman (1993). Em nossa perspec- nicação verbal humana. Para ele, toda mensagem
tiva, essa fratura pode ser heuristicamente perigosa, apresenta, para além de um nível denotativo (de
mas ela também é promissora ao insinuar caminhos conteúdo), um nível metalinguístico e um nível
e abordagens que podem se complementar. O ob- metacomunicativo (Bateson, 2002, p. 87). O nível
jetivo do presente artigo é discutir essas questões. metalinguístico diz respeito ao modo como a pró-
Para tanto, iniciamos com uma exploração das ra- pria mensagem repensa a linguagem, por meio de
ízes do conceito de enquadramento nas obras de elementos implícitos e explícitos. O nível meta-
Gregory Bateson e Erving Goffman. Na sequência, comunicativo, por sua vez, envolve elementos que
abordamos três vertentes de investigação calcadas definem a própria relação estabelecida entre os fa-
na noção, explicando diferentes modalidades de lantes. Desse modo, Bateson enfatiza que, mais do
operacionalização da análise de enquadramento. Por que conteúdos, enunciados comportam marcas que
fim, concluímos com uma sucinta discussão sobre balizam a interação estabelecida.
os perigos e as possibilidades que emergem dessa Para perceber esses níveis nos processos de co-
fratura. Advogamos que é preciso cautela com as municação, Bateson parte da observação de ani-
abordagens pautadas pelo individualismo metodo- mais como lontras e macacos, em um zoológico
lógico e pela descontextualização da noção de en- de São Francisco. O objetivo da experiência era
quadramento, na medida em que elas desvirtuam “procurar critérios comportamentais que pudessem
a própria base do conceito. Também defendemos indicar se um dado organismo é ou não capaz de
a possibilidade de combinação de análises de dis- reconhecer que os indícios emitidos por ele mes-
curso atentas à metacomunicação e ao conteúdo mo e por outros membros de sua espécie são sinais”
comunicacional. (Idem, p. 88). A partir disso, seria possível perceber
a existência ou não de mensagens metacomunicati-
vas nas interações entre os animais. Da observação
As bases do conceito de enquadramento de uma brincadeira entre macacos, Bateson chega a
uma primeira definição do enquadre:

Contribuição de Bateson [...] vi dois jovens macacos brincando, isto


é, envolvidos em uma seqüência interativa
A noção de enquadramento (ou enquadre) foi na qual as ações ou sinais, individualmente,
originalmente proposta por Gregory Bateson1 em eram semelhantes, mas não idênticos, aos de
suas reflexões no campo da psicologia. Buscando um combate. Era evidente, mesmo para um
compreender o fenômeno da esquizofrenia, bem observador humano que, para os macacos
como as relações travadas no processo psicoterápi- participantes na atividade, aquilo era “não-
co, o autor dedicou-se vigorosamente ao estudo da -combate”. Ora, esse fenômeno, o da brin-
comunicação, ressaltando as raízes interacionais de cadeira, só poderia ocorrer se os organismos
psicopatologias (Winkin, 1998, pp. 48-49).2 É esse participantes fossem capazes de algum grau de
foco comunicacional que leva Bateson a propor o metacomunicação, isto é, de trocarem sinais
conceito de enquadramento em um texto apresen- que levassem a mensagem “Isto é brincadeira
tado no encontro da Associação Americana de Psi- (Idem, p. 89, grifo do autor).
quiatria, em 1954. Intitulado “A theory of play and
fantasy”, o artigo foi publicado no ano seguinte Essa mensagem metacomunicativa (Isto é
na American Psyciatric Association Research Reports. brincadeira) é o enquadre que permite compreen-
Nele, o autor busca explicar como as interações der o que está acontecendo naquela situação. É ela

12027_RBCS79_AF3b.indd 188 7/2/12 4:36 PM


ENQUADRAMENTO 189

que permite identificar que essa sequência não é Importante salientar, ainda, que os quadros
uma luta. Por conta disso, Bateson afirma que esse não são inventados pelos sujeitos, mas mobiliza-
tipo de mensagem contém uma meta-asserção que dos na interação comunicativa, dependendo, pois,
nega as aparências fornecidas pelo conteúdo mais da existência de sentidos partilhados. Embora
imediato: “Expandida, a asserção ‘Isto é brinca- Bateson não enfoque a ideia de cultura nesse
deira’ parece algo como: ‘Estas ações nas quais trabalho específico, seu conceito implica a exis-
estamos presentemente engajados não denotam tência de uma intersubjetividade fundante que
o que aquelas ações que elas representam denota- permite a partilha do enquadre e a definição da
riam’” (Idem, p. 89, grifos do autor). situação.3 É a atualização situacional de um co-
Com base nessa observação, Bateson propõe a nhecimento comum que permite que os sujeitos
adoção da ideia de enquadre para refletir sobre a co- operem com um conjunto de regras e normas
municação entre terapeuta e paciente no contexto guiando suas ações.
da psicoterapia. Trata-se de um conceito psicológico Tais ideias são trabalhadas com devida cautela
que oferece instruções para que o interlocutor per- pelo sociólogo Erving Goffman, que ficou mais as-
ceba que mensagens estão incluídas e/ou excluídas sociado ao conceito do que o próprio Bateson. É às
em determinada situação. Nesse sentido, na visão formulações do microssociólogo canadense que nos
de Bateson, todo enquadre é metacomunicativo e voltamos na próxima seção.
toda metacomunicação define um enquadre (Idem,
p. 99). Isso significa que todo enquadramento per- A apropriação de Erving Goffman: Frame Analysis
mite indicar o tipo e a natureza da interação en-
tre os interlocutores em determinada situação. Ao Erving Goffman desenvolve o conceito de en-
mesmo tempo, toda mensagem que faça referên- quadramento em diálogo com o pragmatismo de
cia à natureza da relação entre os sujeitos delimita William James, a fenomenologia de Schütz, a et-
um enquadre que permite compreender a situação nometodologia de Garfinkel e a ideia batesoniana
ali delineada, assim como as regras implícitas que de enquadre.4 Em Frame analysis: an essay on the
orientam as ações dos sujeitos. organization of experience (1986), o autor delimita
Ainda que essa discussão sobre os enqua- e aplica o conceito a diversas sequências interati-
dramentos tenha sido desenvolvida para refletir vas, explorando sua vitalidade metodológica para a
sobre fenômenos particulares da psicoterapia, realização de uma microssociologia sistemática. O
ela pode ser apropriada para analisar outros pro- objetivo de Goffman não é o de investigar grandes
cessos comunicativos. Em todo tipo de intera- estruturas e sistemas sociais. Seu foco incide sobre
ção comunicacional expressam-se conteúdos, ao as pequenas interações cotidianas que organizam a
mesmo tempo em que se tematizam a própria experiência dos sujeitos no mundo, os quais se de-
linguagem e a relação entre os interlocutores. param, em toda situação, com a questão: “O que
Essa definição situacional pragmaticamente ela- está acontecendo aqui?”. Para o autor, o enqua-
borada ao longo da interação indica aos sujeitos dramento é justamente o que permite responder a
como devem agir, abrindo-lhes campos de possi- essa indagação.
bilidades e obstruindo-lhes outros veios de ação Na trilha de Bateson, Goffman define frame
imagináveis. Os sujeitos devem estar atentos como o conjunto de princípios de organização que
aos sinais que delimitam ou contextualizam os governam acontecimentos sociais e nosso envolvi-
enquadres, a fim de “fornecer uma resposta ade- mento subjetivo neles (Goffman, 1986, pp. 10-11).
quada à situação presente e melhor corroborar a São esses princípios conformadores dos quadros
construção da comunicação em curso” (Ribeiro que permitem a definição da situação5 pelos sujei-
e Garcez, 2002, p. 86). Sempre presente, o en- tos. Quando um indivíduo se insere em uma situ-
quadramento possibilita identificar as regras e as ação, é preciso compreender qual é o quadro que a
instruções que orientam determinada situação e conforma e, consequentemente, qual o posiciona-
o envolvimento dos atores nela. mento que deve adotar perante ele.

12027_RBCS79_AF3b.indd 189 7/2/12 4:36 PM


190 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 27 N° 79

Goffman (Idem, p. 9) ressalta que, evidente- nosso footing é um outro modo de falar de uma
mente, na maioria das situações, muitas coisas dife- mudança em nosso enquadre dos eventos (Go-
rentes estão acontecendo ao mesmo tempo, ou seja, ffman, 2002, p. 113).
pode haver sobreposição de quadros. Mas, para o
autor, é possível isolar alguns dos quadros básicos Footing é a expressão usada por Goffman para
disponibilizados pela cultura, a fim de compreen- nomear o posicionamento dos sujeitos em determi-
der a organização da experiência. É assim que o so- nada situação. Uma transformação nessa postura
ciólogo parte para uma caracterização dos quadros, implicará alterações no modo como a situação em
começando pelos quadros primários. questão é definida. Assim, os footings e os enqua-
Os quadros primários são entendidos por dramentos são dinâmicos e discursivos e devem ser
Goffman como aqueles cuja aplicação é mais apreendidos e compreendidos a partir da situação
imediata e direta em uma cultura. Eles permitem em que a interlocução entre os sujeitos ocorre.
ao usuário “situar, perceber, identificar e rotular Como explicam Ribeiro e Garcez,
um número quase infinito de ocorrências con-
cretas definidas em seus termos” (Idem, p. 21). [...] os footings são introduzidos, negociados,
É a partir de tais quadros tácitos que se podem ratificados (ou não), co-sustentados e modifi-
identificar e descrever os acontecimentos aos quais cados na interação. Podem sinalizar aspectos
se aplicam, bem como as formas de engajamen- pessoais (uma fala afável, sedutora), papéis
to dos sujeitos diante deles. Ainda que não sejam sociais (um executivo na posição de chefe do
absolutamente fixas, essas molduras também não setor), bem como intricados papéis discursivos
se modificam a partir da criatividade isolada dos (o falante enquanto animador de um discurso
indivíduos. Os quadros primários são construídos alheio) (2008, p. 107).
e modificados social e contextualmente, sendo,
pois, elemento central da existência intersubjetiva Dessa forma, se os enquadramentos identifi-
de uma coletividade (Idem, p. 27). cam os princípios de organização que presidem
Para discutir as transformações nos quadros uma situação e o engajamento dos atores nela,
primários, Goffman introduz os conceitos de key os footings referem-se de modo mais específico ao
(chave) e keeing. A chave diz respeito a um conjun- posicionamento de tais atores em uma interação
to de regras e convenções a partir das quais uma com um enquadramento definido, mas passível
atividade é transformada em outra, partindo de um de transformações. Nesse sentido, frames e footings
quadro primário e atualizando-o (Idem, pp. 43-44). devem ser analisados em articulação nas reflexões
Por meio dessa noção, o autor destaca a possibilida- sobre as interações.
de de transformação e a sobreposição de quadros. Como se nota, em Goffman, os frames não
A preocupação com as mudanças e as sobre- são estratégias simplesmente construídas por ato-
posições de quadros também fica clara na ideia de res sociais para influenciar seus interlocutores.
footing,6 que diz respeito à postura ou ao posicio- Trata-se de uma estrutura de sentido processual-
namento dos interlocutores engajados em uma in- mente delineada por meio do encontro de sujei-
teração. O footing é construído e transformado a tos em uma situação. Para o sociólogo, os atores
partir dos discursos dos participantes de uma inte- não são completamente livres e independentes no
ração e está diretamente ligado aos enquadres dos engajamento interacional. Eles são configurados
acontecimentos: pela situação, que os precede embora eles atuem
sobre ela. A microssociologia de Goffman não
Uma mudança de footing implica uma mudan- é uma apologia das agências individuais, mas o
ça no alinhamento que assumimos para nós reconhecimento de que essas agências se confor-
mesmos e para os outros presentes, expressa na mam no interior de situações concretas e especí-
maneira como conduzimos a produção ou a ficas, ao mesmo tempo em que as transformam.7
recepção de uma elocução. Uma mudança em

12027_RBCS79_AF3b.indd 190 7/2/12 4:36 PM


ENQUADRAMENTO 191

Possibilidades de operacionalização do das operacionalizações da noção de enquadramento


conceito abordará muitos estudos centrados nos media, em-
bora não se restrinja a eles.
Exploradas as bases da noção de enquadra-
mento, faz-se importante discutir, agora, o modo Análise da situação interativa
como ela tem sido operacionalizada em diversas
pesquisas empíricas. Vários autores têm buscado A primeira vertente de investigação a ser men-
classificar distintos tipos de análises de enquadra- cionada parte do conceito de enquadramento para
mento. D’Angelo (2002), por exemplo, explora a a microanálise de interações sociais. Os estudos re-
forma como a noção é empregada por estudos que alizados pelo próprio Goffman inserem-se aqui. O
operam com três paradigmas distintos: cognitivo, autor busca pensar, por exemplo, como situações
construcionista e crítico. A classificação sugerida interacionais distintas moldam as relações ali esta-
por Mauro Porto (2004) enfatiza a existência de belecidas. Ele investiga o modo como nos desloca-
enquadramentos noticiosos e de enquadramentos mos por quadros como “cotidiano”, “ficção”, “sala de
interpretativos. Os primeiros estão centrados no aula” ou “sonho” para dotar o mundo de sentido.
ângulo das notícias, o qual é geralmente construído Keys (chaves), como o faz de conta, as competi-
pelos jornalistas, ao passo que os segundos enfocam ções, as cerimônias e as repetições técnicas, permitem
as avaliações de temas e eventos realizadas por dife- que alteremos quadros primários, entendendo o
rentes atores sociais. Chong e Druckman (2007a e que realmente está acontecendo. Além disso, Go-
b) distinguem frames em pensamento de frames em ffman se interessa particularmente por pequenas
comunicação, separando a compreensão cognitiva ações ordinárias que deslocam os quadros ou evi-
dos indivíduos de sua materialização simbólica. denciam sua fragilidade. Quando disparamos a rir
Neste artigo, estabelecemos uma categorização em uma situação formal ou começamos a brigar de
centrada em três grandes modelos de apropriação fato em uma “brincadeira de mão”, estaríamos pro-
do conceito. O primeiro é composto por estudos movendo essas mudanças de quadro por meio de
que enfocam e analisam a situação comunicativa, nossos próprios posicionamentos.
buscando pensar a maneira como mensagens me- Tendo em vista esses deslocamentos e desajus-
tacomunicativas participam de sua definição. Uma tes de enquadres, Goffman (1986) ressalta a im-
segunda vertente inclui pesquisas que adotam o portância de alinhamentos em diversas interações
enquadramento para realizar análises de conteúdo sociais. Em algumas circunstâncias, é preciso fazer
discursivo, explorando as molduras e as saliências um esforço deliberado de definição de um quadro
produzidas por enunciados. Por fim, a terceira pers- compartilhado para que a interação possa prosse-
pectiva dedica-se ao estudo de frame effects produzi- guir. Essa questão torna-se evidente em algumas
dos pela adoção estratégica de discursos. situações interculturais, quando os participantes
Vale salientar que, em todas as três abordagens, parecem não compreender ao certo as mensagens e
um objeto de pesquisa tem se mostrado alvo privi- metamensagens intercambiadas. Nessas circunstân-
legiado das análises: os discursos midiáticos. Embo- cias, o alinhamento de quadros se faz vital para que
ra as investigações de Bateson e Goffman tenham se a interação não seja incompreensível.
dedicado à comunicação face a face, cresce o núme- A perspectiva adotada por Daniel Cefaï tam-
ro de estudos de enquadramento voltados à análise bém pode ser situada nessa primeira vertente de
das interfaces entre media, sociedade e política. Tal investigação. O pesquisador procura compreender
interesse se deve à percepção de que quadros especí- o legado de Goffman para a sociologia da ação co-
ficos adquirem visibilidade nos media e atravessam letiva e frisa que “a análise das operações de enqua-
outros processos sociais. O cuidadoso levantamen- dramento é indissociável da análise das situações
to produzido por Weaver (2007) demonstra, inclu- em que elas são realizadas” (Cefaï, 2007, p. 550).
sive, que a noção vem ocupando o lugar de outros A ênfase de Cefaï é, portanto, na situação, que deve
conceitos, como o de agenda-setting. Nossa análise ser pensada não apenas como resultado de objetivos

12027_RBCS79_AF3b.indd 191 7/2/12 4:36 PM


192 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 27 N° 79

estratégicos, afinal, “a análise de enquadramento em um quadro que permitia ler a cena desdobrada
diz respeito à organização da experiência na situa- diante das câmeras, além de definir os persona-
ção” (Idem, p. 559). É nesta que podemos perceber gens envolvidos: o sequestrador e a vítima (perso-
“o que está acontecendo” em determinado contex- nagens frágeis e sofredores), bem como o público
to, assim como possíveis mudanças de quadros, a ampliado que assiste à cena pela TV, em um misto
partir do engajamento dos sujeitos. de comoção e indignação (França, 2009). A análi-
Segundo Cefaï, a perspectiva goffmaniana é se revela que o sequestro foi, a princípio, inscrito
muito frutífera para refletir sobre os contextos de em um quadro mais amplo de violência urbana
micromobilização e permite pensar a ação coletiva no Brasil, ao lado de outros casos que envolvem
como “uma configuração de ações situadas” (Idem, p. dramas individuais. A mídia não noticiou o crime
628). Os contextos de micromobilização são a partir do quadro de violência de gênero, que ex-
poria um contexto patriarcal, fortemente assenta-
[...] os acontecimentos práticos e discursivos do em valores machistas.
que ocorrem no mundo vivido dos indivídu- A investigação de Leonardo Pereira (2009) so-
os, as situações que os afetam, convocam-nos a bre o programa Pânico na TV (Rede TV) também
interagir e a se unir em um coletivo. O alinha- é ilustrativa dessa abordagem focada na situação.
mento das operações de enquadramento é, en- O pesquisador adota a análise de enquadramen-
tão, estudado nos lugares e nos momentos de to como procedimento síntese para compreender a
copresença, sem que seja perdida sua dinâmica proposta de interação construída pelo programa
temporal e interacional in situ (Idem, p. 626) com as celebridades que aborda e com o público a
quem se dirige. Segundo o pesquisador, o quadro
A análise de enquadramento com ênfase na si- permite identificar as ações dos sujeitos e seus en-
tuação interativa vem sendo desenvolvida, no Bra- gajamentos e posicionamentos (os footings, no dizer
sil, por um grupo de pesquisadores liderados por de Goffman). A análise de enquadramento possi-
Vera França. Bastante fiel ao viés goffmaniano, o bilita perceber os diferentes graus de força que os
grupo tem operacionalizado o conceito de enqua- interlocutores dispõem para definir as situações e os
dramento para a compreensão de diversos fenôme- quadros que as regem. Além disso, a identificação
nos midiáticos. A própria pesquisadora concluiu re- do quadro permite apreender o contexto em que
centemente uma investigação sobre o sequestro da as interações (dentro do programa e entre este e a
jovem Eloá pelo ex-namorado Lindenberg, que teve audiência) se realizam.
grande repercussão na mídia brasileira em outubro Uma das interações analisadas pelo pes-
de 2008.8 Resgatando a noção de acontecimento de quisador foi a construída entre os repórteres do
Louis Quéré (1995, 2000), França buscou refletir programa e uma aspirante à celebridade (Dona
sobre o modo como o processo de descrição do Matilde). Pereira procura demonstrar a força do
evento o insere em certos quadros de sentido: programa para definir a situação ali delineada e,
consequentemente, o lugar dos interlocutores. O
Os quadros de sentido (ou frames) identificam, quadro proposto pelo Pânico posiciona Dona Ma-
organizam e dão inteligibilidade às interações tilde como uma mulher comum, que sonha em
vividas; eles situam uma ocorrência vivida den- integrar o universo das celebridades e que estaria
tro de um dado contexto normativo, permi- tentando entrar em uma festa sem ser convida-
tindo aos atores identificar a situação, adequar da. Inicialmente, ela tenta rechaçar o quadro, mas
suas expectativas e orientar sua ação (França, acaba por ser subjugada ao frame cômico que lhe
2009, p. 14). é imposto. É alvo da zombaria e do riso dos en-
trevistadores e do público. A análise mostra a assi-
Em face do sequestro de Eloá, marcado por metria dos sujeitos em uma dada situação, sendo
negociações e pelo desfecho trágico, os vários dis- que outras interações analisadas por Pereira reve-
positivos midiáticos inscreveram o acontecimento lam configurações distintas de poder.

12027_RBCS79_AF3b.indd 192 7/2/12 4:36 PM


ENQUADRAMENTO 193

Também merecem menção dois estudos que cativo, promovendo uma definição particular de
articulam a noção de enquadramento à de perfor- um problema, uma interpretação causal, uma ava-
mance na análise de reality shows. Andalécio (2010) liação moral e/ou um tratamento recomendado”
procura compreender o desempenho dos partici- (Entman, 1993, p. 52). Visto que os frames podem
pantes do programa Ídolos, destacando que as per- definir problemas, diagnosticar causas, fazer julga-
formances de tais personagens acionam quadros de mentos morais e sugerir soluções, fica evidente sua
sentido. Meniconi (2005), por sua vez, analisa as dimensão política. Importante destacar, ainda, que
performances de participantes do Big Brother Brasil Entman defende que tais enquadramentos perpas-
III (exibido em 2003), mobilizando o conceito de sam todo o processo comunicativo: eles se situam
frame para mapear as interações possibilitadas pelo nos interlocutores, nos textos e na própria cultura.
programa.9 Ambos os estudos procuram perceber Assim, o poder de enquadrar algo não está em ne-
os valores sociais evidenciados no desempenho dos nhuma dessas instâncias, mas na relação entre elas.
participantes, a partir da análise de enquadramen- Maurice Mouillaud também enfatiza o modo
to. Ao identificar os quadros que orientam distintas como discursos estão baseados em quadros que, si-
situações interativas, investigam-se as formas como multaneamente, salientam determinados elementos
os sujeitos definem situações e agem no interior de- da realidade e produzem regiões de sombra:
las, atualizando valores sociais.
O que se percebe nas pesquisas citadas nesta [...] a moldura opera ao mesmo tempo um corte
seção é que o enquadre se aproxima da ideia de con- e uma focalização: um corte porque separa um
texto,10 ainda que não sejam sinônimos. Os quadros campo e aquilo que o envolve; uma focalização
são vistos como as molduras que permitem identifi- porque, interditando a hemorragia do sentido
car a situação interativa, bem como o envolvimento para além da moldura, intensifica as relações
dos atores ali. Além disso, de alguma forma, eles entre os objetos e os indivíduos que estão com-
revelam valores e traços que constituem o contexto preendidos dentro do campo e os reverbera para
social mais amplo de uma sociedade. um centro (Mouilaud, 2002, p. 61).

Análise de conteúdo discursivo O foco dessa vertente de análise de enquadra-


mento volta-se, pois, para a percepção do modo como
A segunda vertente de estudos pautados pela discursos enquadram o mundo, tornando acessíveis
noção de enquadramento emprega-a como ope- perspectivas específicas de interpretação da realidade.
rador para a realização de análises de conteúdo. A É esse enfoque que transparece no estudo precursor
ideia é analisar enunciados e discursos de natureza de Todd Gitlin (1980) sobre a cobertura jornalísti-
variada, captando o modo como a realidade é en- ca em torno de movimentos pacifistas na guerra do
quadrada por eles. No cerne desse tipo de operacio- Vietnã, bem como na análise de Alessandra Aldé
nalização reside uma preocupação em compreender (2004) acerca do tratamento midiático dado à guerra
o modo como discursos estabelecem molduras de do Iraque. O viés também embasa a ampla pesquisa
sentido, enquadrando o mundo a partir de perspec- realizada por Ferree e colaboradores (2002) em tor-
tivas específicas. Busca-se pensar a maneira como no dos discursos sobre aborto nos Estados Unidos e
o próprio conteúdo discursivo cria um contexto na Alemanha e o estudo de Andrea Azevedo (2009)
de sentido, convocando os interlocutores a seguir sobre o mesmo tema no Brasil. Vale citar, ainda, a
certa trilha interpretativa. Tal abordagem tornou-se existência de interessantes pesquisas sobre o modo
a mais empregada tanto em estudos de jornalismo como a TV enquadra uma eleição presidencial e seus
como naqueles de comunicação e política. candidatos (Porto, 2004; Albuquerque, 1994).
Um importante marco dessa vertente é o tex- O mapeamento de controvérsias públicas por
to de Robert Entman, em que o autor explica que meio da noção de enquadramento mostra-se igual-
“enquadrar é selecionar alguns aspectos da realida- mente assentado nesse viés. Convém mencionar,
de percebida e ressaltá-los em um texto comuni- aqui, o artigo de Simon e Xenos (2000) sobre a

12027_RBCS79_AF3b.indd 193 7/2/12 4:36 PM


194 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 27 N° 79

maneira como diferentes enquadramentos midiáti- políticas industriais e o conflito árabe-israelense)


cos acerca de uma greve fomentaram um processo eram enquadradas nos meios de comunicação e
deliberativo. Os autores apontam que a deliberação em conversações informais. Gamson cita três tipos
é marcada por enquadramentos em competição. essenciais de enquadramento mobilizados em ba-
De modo similar, o grupo de pesquisa liderado por talhas simbólicas. Os frames de injustiça referem-se
Rousiley Maia tem promovido diversas investiga- à indignação moral expressa em palavras, apresen-
ções que operacionalizam o conceito de enqua- tando denúncias e culpados. Os frames de agência
dramento para compreender intercâmbios delibe- são mais propositivos e partem da ideia de que é
rativos (Maia, 2009). Vale citar também a leitura possível superar problemas por meio da ação coleti-
de Ângela Marques (2007) sobre as interpretações va. Por fim, notam-se os frames de identidade, mar-
do Programa Bolsa Família nos media e em con- cados por sucessivas tentativas de definir um “nós”.
versações cotidianas; a análise feita por Mendonça Essa segunda vertente de operacionalização
e Santos (2009) acerca do debate público no refe- da análise de enquadramento, discutida ao longo
rendo brasileiro sobre a comercialização de armas da presente seção, compartilha a ideia goffma-
de fogo; e a investigação de Ana Carolina Vimieiro niana de que enquadramentos são estruturas que
(2010) em torno das transformações de enquadra- orientam a percepção da realidade e a ação dos
mentos sobre a temática da deficiência na imprensa sujeitos sobre ela. Tal como na primeira vertente,
brasileira em um período de 48 anos. investigam-se as molduras de sentido que balizam
Todos esses estudos buscam pensar o modo os comportamentos das pessoas. Diferentemente
pelo qual proferimentos intercambiados em situa- dela, contudo, o foco não está na situação ou no
ções controversas expressam formas alternativas contexto pragmático da interação, mas no próprio
de interpretar uma dada situação. Evitando pros- conteúdo dos discursos. É no conteúdo que se
seguir com uma infindável enumeração de estudos busca o quadro, visto como uma espécie de ângu-
abrigados por essa vertente, interessa-nos ressaltar, lo, que permite compreender uma interpretação
por fim, a influência das pesquisas promovidas por proposta em detrimento de outras.
William Gamson na consolidação desse modelo.
Além da participação no já mencionado projeto
comparativo sobre o aborto em dois países (ver Análise de efeito estratégico
Ferree et al., 2002), Gamson é coautor de um dos
artigos mais citados em estudos de enquadramento: O último tipo de operacionalização da análise
“Media discourse and public opinion on nuclear de enquadramento a ser explorado toma o concei-
power” (Gamson e Modigliani, 1989). Defendendo to como um ângulo discursivo estrategicamente
um enfoque construcionista, os autores propõem mobilizado por determinado ator social para pro-
a noção de pacotes interpretativos para entender as duzir certos efeitos. Há muitos trabalhos situados
interpretações publicamente expressas sobre ener- na zona cinzenta entre a segunda e a terceira ver-
gia nuclear. De acordo com eles: “Um pacote tem tentes. Observam-se, contudo, duas diferenças pri-
uma estrutura interna. Em seu âmago, está uma mordiais: o foco nos efeitos dos enquadramentos
ideia organizadora central, ou frame, para dar sen- (framing effects) e o desenraizamento cultural dos
tido a eventos relevantes, sugerindo o que está em quadros. Nessa vertente, os enquadres não são vistos
questão” (Idem, p. 3). Um pacote oferece símbolos como molduras de sentido partilhadas e discursi-
de condensação, e alguns deles se fazem mais for- vamente mobilizadas. Elas se tornam estratégias de
tes em virtude de seus promotores e da ressonância construção de proferimentos para gerar determina-
com os quadros culturais mais amplos. dos efeitos.
Em 1992, Gamson apresentou os resultados A literatura sobre framing effects está alicerçada
de uma longa investigação em Talking politics. Na em investigações empíricas no campo da psicologia
obra, o autor analisa o modo como diversas ques- cognitiva acerca do modo como a organização de
tões controversas (ação afirmativa, energia nuclear, enunciados influencia a opinião de seus receptores.

12027_RBCS79_AF3b.indd 194 7/2/12 4:36 PM


ENQUADRAMENTO 195

Os estudos de Kahneman e Tversky na década de Mass Communication Research norte-americana


1980 forneceram ilustrações claras da maneira pela desde o início do século XX. Tanto que a noção
qual proposições com implicações idênticas pode- de frame é reduzida à de agendamento; conceito
riam levar a posicionamentos díspares por parte dos que refina, sem descartar, uma ideia linear de co-
receptores. Como explicam Chong e Druckman, municação (Schudson, 2002, p. 265). As pesquisas
framing effects “ocorrem quando (geralmente pe- dessa vertente estudam como a comunicação pode
quenas) mudanças na apresentação de uma questão ser enviesada de modo a influenciar as pessoas ou
ou de um evento produzem (às vezes grandes) mu- que tipos de constrangimentos podem limitar esses
danças de opinião” (2007a, p. 104). efeitos diretos. Frames são, aqui, um viés construí-
No campo da comunicação política, essa ver- do pelo enunciador.
tente de pesquisas está associada aos estudos de
agenda setting e priming. Como demonstra o cui-
dadoso levantamento feito por Weaver (2007), a Quadros como construções culturais
noção de enquadramento foi usada por muitos
estudos como sinônimo da definição midiática Uma vez abordadas as três supramencionadas
da agenda, vindo a suplantar o uso dos conceitos vertentes de análise, é preciso, agora, refletir sobre
alternativos, sobretudo, a partir da segunda meta- suas contribuições e possíveis riscos. Com isso, não
de dos anos de 1990. Nesses estudos, frames são se busca simplesmente eleger a perspectiva mais fide-
vistos como instrumentos empregados para influir digna às origens do conceito ou aquela que seria cor-
sobre os rumos da opinião pública. Eles estão di- reta. Nosso intuito é refletir sobre a riqueza da no-
retamente ligados às intenções daquele que en- ção de enquadramento, sendo que tal proficuidade
quadra, configurando-se como estratégia política envolve sua adaptabilidade a diferentes problemas,
(Reese, 2007). desenhos e objetos de pesquisa. A fratura do concei-
Assim, investiga-se a maneira pela qual atores to diagnosticada por Entman (1993) não é, pois, in-
sociais adotam frames taticamente diante de outros teiramente maléfica e pode conduzir a leituras mais
atores (McAdam, 1996; Levin, 2005).11 Estuda-se complexas, como percebe D’Angelo (2002). Isso
a competição entre elites políticas, bem como en- não quer dizer, contudo, que as abordagens de todas
tre elas e os atores dos media, na construção das as vertentes sejam desprovidas de riscos.
notícias (Callaghan e Schnell, 2001). Analisa-se Nesse sentido, a primeira vertente revela-se
o modo como pequenas alterações na forma de particularmente rica para a compreensão da estru-
apresentar os fatos podem determinar a apreensão tura da experiência e das interações sociais. O olhar
das massas acerca de um fenômeno (Druckman, focado na situação interativa e a atenção a diferen-
2004). Critica-se o perigo de os enquadramentos tes planos da interação permitem perceber o modo
midiáticos cercearem um debate realmente denso como diversos atores sociais mobilizam enquadra-
e complexo (Bohman, 2007) e buscam-se soluções mentos e se posicionam diante deles. A abordagem
para “evitar” os framing effects. Mede-se a susce- é bastante interessante para estudos microssocioló-
tibilidade das pessoas aos frames em diversas cir- gicos, mostrando-se útil, por exemplo, na análise
cunstâncias e propõem-se fatores que podem res- de conversação de pequenas sequências interativas.
tringir o impacto dos frames (Druckman e Nelson, Ao elucidar o modo pelo qual diferentes atores se
2003). E é com certa consternação que se constata posicionam em face dos outros, tal vertente pos-
que os cientistas sociais ainda não foram capazes sibilita investigar o permanente trabalho de cris-
de definir qual dos enquadramentos deveria mol- talização, atualização e transformação das regras e
dar a opinião pública em uma situação controver- convenções que balizam as interações, atualizando
sa (Chong e Druckman, 2007b, p. 100). valores e normas sociais.
Fica patente que essas análises apenas desen- Apesar dessas ricas contribuições, esse tipo de
volvem, com o rigor quantitativo da era dos com- análise também pode incorrer em alguns riscos.
putadores, o paradigma comunicativo que marca a O primeiro diz respeito ao perigo de negligenciar

12027_RBCS79_AF3b.indd 195 7/2/12 4:36 PM


196 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 27 N° 79

a questão do poder na consolidação e na trans- pretações de mundo, sua natureza enfatiza o plano
formação dos enquadramentos. Frequentemente, denotativo da linguagem, sem que se esclareça a
os frames são pensados como esquemas interpre- estrutura relacional moldada pelo quadro. O se-
tativos no interior dos quais os atores circulam, gundo risco emerge da própria forma de operacio-
construindo e alterando sentidos. Reconhece-se nalização desse tipo de análise. Frequentemente,
a força da cultura, mas, em alguns casos, não se a análise de conteúdo reduz enquadramentos a
problematiza o modo como diferentes atores ten- temas facilmente delineáveis e quantificáveis. Em
tam impor determinados enquadramentos e as di- outros casos, análises computadorizadas baseadas
ficuldades vivenciadas por atores fracos em suas na fragmentação de componentes dos enquadra-
tentativas de alterar as “chaves interpretativas”. mentos podem transformar frames em ficções esta-
Ao colocar uma frutífera lupa sobre microrrela- tísticas, enfeixando-os em grupos que, a rigor, não
ções sociais, essa primeira vertente descortina um se configuram como enquadramentos, mas como
mundo frequentemente incapturado pelas ciên- conjuntos de proferimentos.13 Por fim, convém ci-
cias sociais, correndo o risco de deixar escapar, por tar um terceiro risco: o de que os quadros deixem
sua vez, estruturas e organizações mais amplas que de ser pensados como estruturas complexas para
enquadram os próprios quadros.12 se tornarem interpretações puramente estratégicas
O segundo aspecto a ser apontado diz respei- advogadas por atores específicos. Esse último risco
to a certa subvalorização da dimensão denotativa nos conduz à terceira vertente analisada.
do discurso. Ao concentrar esforços na percepção Os estudos de frame effects buscam oferecer
das regras interativas e dos elementos metacomu- duas modalidades de contribuição. A primeira é
nicativos, algo apregoado por Bateson e Goffman, a percepção de que enquadramentos só se tornam
essa vertente tende a desconsiderar o caráter revela- manifestos quando expressos por atores sociais que,
dor de análises de conteúdo. Se o conteúdo deno- nesse sentido, mobilizam-nos estrategicamente. A
tativo de proferimentos não parece dar contar da segunda seria a compreensão das consequências in-
compreensão do enquadramento como um todo, dividuais e sociais da predominância de determi-
seu papel não pode ser reduzido. A estrutura inter- nados quadros. Trata-se de objetivos consonantes
pretativa provida pelo enquadramento mostra-se com o mainstream da pesquisa em ciência política,
também nos temas e nos ângulos discursivamente voltada para o estudo de causas e efeitos políticos
mobilizados pelos atores sociais. das ações estratégicas de atores sociais. No entanto,
É justamente neste ponto que a contribui- é preciso perceber que essa vertente se encontra em
ção da segunda vertente fica clara. Ao focalizar os claro atrito com algumas das premissas da própria
ângulos discursivos e as interpretações apresenta- noção de enquadramento.
das, a abordagem centrada no conteúdo permite Bateson e Goffman buscam superar o indivi-
ver como os quadros se manifestam. Tal tipo de dualismo metodológico que coloca a construção
análise é fundamental para a compreensão de con- dos frames sob controle de indivíduos isolados.
trovérsias públicas e de processos diacrônicos de Em ambos os autores, os enquadramentos não
alteração de quadros. Isso porque o enfoque per- são pensados como estratégias ou ângulos mobi-
mite mapear enquadramentos que ultrapassam o lizados para produzir certos efeitos. Exatamen-
nível das microssequências interativas. As análises te por isso autores com Steinberg (1998) e Van
de conteúdo guiadas pela noção de enquadramen- Gorp (2007) têm criticado a negligência da no-
to possibilitam operar com bases empíricas mais ção de cultura em diversas pesquisas que adotam
amplas e complexas. a análise de enquadramento.
Ainda que esse foco na análise de conteúdo Steinberg (1998, p. 849) questiona explicita-
possa ser rico e iluminador, ele também envolve mente as abordagens que consideram o enquadra-
riscos. O primeiro é retirar o peso da metacomu- mento uma questão da cognição individual. Ele se
nicação, que é um elemento fundamental da pro- volta para a obra de Bakhtin para destacar que os
posta de Bateson. Ao pensar os frames como inter- frames são produzidos social e discursivamente. En-

12027_RBCS79_AF3b.indd 196 7/2/12 4:36 PM


ENQUADRAMENTO 197

quadramentos são produto da interação, já que o gumentos de ordem epistemológica que não foram
discurso é mais propriamente “interdiscurso, visto trabalhados no presente artigo. Nosso argumento,
que o sentido sempre reside entre e no interior da contudo, é o de que esse viés contradiz premissas
confluência de vozes que compõe a comunicação” da noção de enquadramento. Além disso, a própria
(Idem, p. 853). Quadros não são sinônimo de ân- noção de frame não parece oferecer contribuições
gulos estratégicos, mas uma maneira de entender as significativas a essa agenda de pesquisa, cujo poder
molduras partilhadas de sentido que envolvem os explicativo já estava bem contemplado pelas teorias
discursos ao mesmo tempo em que são atualizadas dos efeitos e pela noção de agenda setting.
e (eventualmente) modificadas por eles. Em contrapartida, argumentamos que as
Van Gorp (2007), por sua vez, retoma a duas primeiras vertentes exploradas neste artigo
obra de Goffman para defender a relevância da são compatíveis com a noção de enquadramen-
noção de frames na ligação entre a cognição e a to. Cada uma delas adéqua-se a um tipo de in-
cultura. De acordo com ele, frames não são ge- vestigação empírica, respondendo a problemas
rados individualmente, nem utilizados de modo de pesquisa distintos. Assinalamos, ainda, que
puramente estratégico. Eles estão disponíveis na os potenciais riscos e falhas de cada uma dessas
trama intersubjetiva que liga os sujeitos, sendo duas vertentes são endereçados pela outra. Assim,
que as construções comunicativas estão invaria- apontamos para a proficuidade de uma aborda-
velmente imersas em tais quadros. Os frames são gem que busque combinar as contribuições da
constitutivos da comunicação. primeira e da segunda vertentes.
De acordo com Van Gorp, há sempre vários Essa abordagem deve ressaltar a dimensão
frames possíveis nas tramas culturais, sendo que a pragmática da linguagem, atentando para o con-
mobilização de um enquadramento específico é texto de produção dos discursos e para os ele-
fruto de uma complexa teia de variáveis que só mentos metacomunicativos que estão dados pela
se manifesta situacionalmente. Isso posto, um fra- própria situação interativa. Além disso, o viés
me revela uma estrutura interpretativa que atra- enfatiza que quadros são construções culturais
vessa todo o processo comunicativo, orientando profundas que não estão à disposição dos atores
a produção de formas simbólicas e sua leitura. Ao sociais, embora tais atores façam parte de con-
analisar o processo por meio do qual os media en- tínuos jogos de forças para alterar os rumos das
quadram um determinado fenômeno, Van Gorp interpretações de certos fenômenos. As interpre-
destaca que a essência da produção do enquadra- tações e a própria estrutura dos quadros são vistas
mento é a interação social: como produtos de interações sociais, sendo que a
admissão desse enfoque não implica aceitar que
[...] enquadrar envolve um jogo que ocorre todos os atores se situem em condição de igualda-
entre o nível textual (frames empregados pe- de nesse processo. É preciso ter sempre em mente
los media), o nível cognitivo (esquemas da o pano de fundo sociocultural mais amplo que
audiência e dos profissionais dos media), o envolve a mobilização dos enquadramentos e as
nível extramidiático (o discurso dos defen- lutas políticas em torno de quadros.
sores de certos frames [...]) e, finalmente, o Por fim, salienta-se que tal abordagem deve
estoque de frames disponível em uma dada reconhecer o profundo imbricamento entre as di-
cultura (Van Gorp, 2007, p. 64). mensões denotativa e metacomunicativa da lin-
guagem, como advogado por Bateson. A atenção
Esses apontamentos indicam a inadequação ao conteúdo não significa a redução do enquadra-
da terceira vertente em relação ao conceito de en- mento ao tema do discurso, embora este tampouco
quadramento. Não desejamos, com isso, negar a possa ser desconsiderado como fonte de elementos
importância de qualquer tipo de estudo de efeito metacomunicativos. Análises sistemáticas de conte-
ou mesmo de abordagens pautadas pelo individua- údo não se configuram, pois, como um desvirtua-
lismo metodológico. Tal contestação requereria ar- mento do conceito de frame.

12027_RBCS79_AF3b.indd 197 7/2/12 4:36 PM


198 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 27 N° 79

Considerações finais juntas na conformação de padrões interpretativos


que marcam a inserção dos sujeitos no mundo.
Este artigo buscou discutir diferentes aborda- Uma análise de conteúdo que ultrapasse aquilo que
gens do conceito de enquadramento. Inicialmente, é dito textualmente e explore a situação em que os
expuseram-se as ideias fundamentais de Bateson e sentidos se manifestam permite compreender a na-
Goffman, que propeliram o crescente número de tureza e a complexidade dos quadros habitados e
pesquisas guiadas pela noção. Em seguida, discuti- transformados pelos indivíduos em suas interações.
ram-se três vertentes diferentes de investigação em- Observar as formas de articulação dessas dimensões
pírica: 1) os estudos microssociológicos centrados na é, portanto, essencial para aqueles que se interessam
análise da situação interativa; 2) as análises de con- pela análise de enquadramento.
teúdo discursivo; e 3) as análises de framing effects. É fundamental, contudo, evitar tratar como
É preciso deixar claro que essas três verten- análise de enquadramento algo que contradiz pre-
tes não são exaustivas. Há outras abordagens nas missas fundamentais dessa matriz conceitual. Mui-
ciências sociais, como a de Luc Boltanski e Lau- tos estudos de framing effects descaracterizam a no-
rent Thévenot (2006). A sociologia pragmática ção de enquadramento na medida em que a tratam
desenvolvida por esses autores enfatiza a análise da como produtos forjados estrategicamente por atores
situação e nos “convida a investigar os momentos sociais para produzir determinados efeitos. Quadros
de prova, nos quais é tornada sensível a complexi- não são simplesmente perspectivas ou opiniões, mas
dade dos contextos de experiência e de ação” (Ce- laços intersubjetivos que atravessam relações huma-
faï, 2009, p.13). Entretanto, uma discussão mais nas e as estruturam. Sem desconsiderar que possam
aprofundada acerca da contribuição desses autores ser mobilizados estrategicamente, é preciso ter em
abriria uma nova frente de investigação, dada a mente que quadros são estruturas simbólicas que
especificidade de suas análises e o caráter singular vinculam atores sociais e são por eles transformadas.
das referências que fazem ao conceito. Tal discussão Qualquer definição que se afaste desse ponto básico
escapa aos objetivos do presente artigo, mas seria seria mais bem atendida por outro conceito.
frutífero comparar, em outro estudo, as ideias de
Boltanski e Thévenot às vertentes aqui enfocadas.
Neste texto, partiu-se das mencionadas três Notas
vertentes para argumentar que, ao operacionalizar
a ideia de enquadramento de maneiras distintas, 1 Gregory Bateson apresenta formação interdisciplinar:
elas oferecem contribuições e riscos diferentes. Nes- ele parte da zoologia, passa à antropologia e acaba por
se sentido, advogou-se que a primeira e a segun- se dedicar a estudos no campo da psicologia e da psi-
quiatria. Nascido na Inglaterra, Bateson estabeleceu-
da vertente não são excludentes. Elas podem tanto
-se nos Estados Unidos, integrando a Escola de Palo
orientar agendas de pesquisa distintas como serem
Alto. Para uma biografia do autor, ver Lipset (1980).
articuladas em um enfoque pragmático atento ao
2 Essa ideia está na base da Escola de Palo Alto, o que
microcontexto situacional e ao contexto sociocul-
fica evidente em A pragmática da comunicação (Wat-
tural mais amplo. Tal abordagem não descarta a re- zlawick, Beavin e Jackson, 2002).
levância da análise de conteúdo, mas busca situá-la
3 O interesse pela cultura é central no pensamento
no pano de fundo mais amplo em que ocorrem as de Bateson, que se volta para tribos e povos espe-
interlocuções, além de atentar para o uso efetivo da cíficos, como nos trabalhos desenvolvidos em Bali
linguagem nessas interlocuções. (Bateson e Mead, 1942) e Nova Guiné (2008). Seu
Com isso, sugerimos a riqueza da complemen- objetivo é “construir uma teoria da cultura que su-
taridade entre a microanálise pragmática e a análise pera em muito o quadro da sociedade estudada”
de conteúdo. É essa a riqueza dos insights originais (Winkin, 1998, p. 37).
de Bateson, que explora o entrelaçamento entre os 4 Sobre a obra de Goffman, ver os diferentes artigos que
planos denotativo e metacomunicativo da intera- compõem um dossiê especial sobre o sociólogo publi-
ção humana. Pragmática e semântica caminham cado em RBCS em outubro de 2008 (vol. 23, n. 68).

12027_RBCS79_AF3b.indd 198 7/2/12 4:36 PM


ENQUADRAMENTO 199

5 Esse conceito é discutido por Goffman a partir do tra- BIBLIOGRAFIA


balho de William Thomas (1966), para quem “a in-
teração e seu desenvolvimento dependem [...] de um ALBUQUERQUE, Afonso. (1994), “A campanha
compartilhamento e/ou cumplicidade” (Velho, 2008,
presidencial no Jornal Nacional: observações pre-
p. 146), ou seja, de uma boa definição da situação pe-
liminares”. Comunicação & Política, 1 (1): 23-40.
los atores sociais ali engajados.
ALDÉ, Alessandra. (2004), “Mídia e guerra: en-
6 Esse conceito é introduzido por Goffman em Frame
quadramentos do Iraque”. Trabalho apresenta-
analysis (1986), mas explorado especificamente em
texto posterior, publicado pela primeira vez em 1979.
do no XIII Encontro Anual da Associação de
Programas de Pós-Graduação em Comunica-
7 Essa questão é poeticamente expressa por Goffman
(1967, p. 3), quando ele afirma que sua metodologia
ção (Compós), São Bernardo do Campo, SP.
busca apreender os momentos e seus homens. A frase evi- ANDALÉCIO, Marina Lopes. (2010), Em busca
dencia que os seres humanos são produzidos ao longo da fama: performances e representações no pro-
das situações, não lhes cabendo a prerrogativa de de- grama Ídolos. Belo Horizonte, dissertação de
terminar a forma e o desdobramento das interações. mestrado, Faculdade de Filosofia e Ciências
8 Uma análise desse caso, comparando-o ao assassinato Humanas da Universidade Federal de Minas
de Ângela Diniz, ocorrido em 1977, foi realizada por Gerais (datilo.).
Lana (2010). AZEVEDO, Andrea. (2009), “Os debates sobre
9 Meniconi (2005, p. 67) enfoca interações: 1) entre os o aborto na mídia brasileira: enquadramentos
próprios participantes que estão na casa; 2) entre eles e midiáticos e conseqüências políticas”. Trabalho
a produção do BBB; e 3) entre eles e o público. apresentado no XVIII Encontro Anual da As-
10 Esta aproximação entre enquadre e contexto é sugeri- sociação de Programas de Pós-Graduação em
da por Gilberto Velho (2008). Comunicação (Compós), Belo Horizonte.
11 Defendendo uma perspectiva baseada na teoria da BATESON, Gregory. (2000), “A theory of play
escolha racional, Levin (2005) destaca que, em um and fantasy”, in . Steps to an ecology
ambiente competitivo e dependendo da estrutura de of mind, Chicago, University of Chicago Press.
oportunidades políticas, organizações sociais podem . (2002), “Uma teoria sobre brincadei-
adotar quatro táticas diferentes: 1) negar os frames dos ra e fantasia”, in B. T. Ribeiro e P. M. Garcez
adversários; 2) incorporá-los; 3) inovar; 4) silenciar-se. (orgs.), Sociolingüística interacional, 2. ed., São
12 Importante mencionar, aqui, o modo como o supra- Paulo, Loyola.
mencionado estudo de França (2009) sobre o assassi- . (2008), Naven. São Paulo, Edusp.
nato de Eloá consegue superar esse risco: ao identificar
BATESON, Gregory & MEAD, Margareth.
como a mídia poderia ter discutido o caso a partir da
questão da violência de gênero, a autora chama a aten-
(1942), Balinese caracter: a photographic analy-
ção para as relações de poder que conformam a visão sis. Nova York, New York Academic Sciences.
sobre homens e mulheres em nossa sociedade. BOHMAN, James. (2007), “Political communica-
13 A crítica, aqui, volta-se ao interessante trabalho rea- tion and the epistemic value of diversity: deli-
lizado por Vimieiro (2010). A pesquisadora fez um beration and legitimation in media societies”.
louvável e inovador esforço de decompor os enqua- Communication Theory, 17 (4): 348-355.
dramentos em subelementos, enfeixando-os através BOLTANSKI, Luc & THÉVENOT, Laurent.
de um software especializado em cluster analysis. No (2006), On justification: economies of worth.
entanto, quando se presta atenção aos tipos de catego- New Jersey, Princeton University Press.
rias produzidas, nota-se que os enquadramentos en- CALLAGHAM, Karen & SCHNELL, Frauke,
contrados não apenas se sobrepõem, mas que os feixes (2001), “Assessing the democratic debate: how
produzidos trabalham os subelementos de maneiras
the news media frame elite policy discourse”.
variadas. Tanto que a maioria dos grupos não envol-
Political Communication, 18 (2): 183-213.
ve todos os elementos apontados pela pesquisadora
como importantes na composição de um frame. Nesse CEFAÏ, Daniel. (2007), “Pourquoi se mobilise-t-
sentido, os enquadramentos encontrados configuram- -on? Lês thérories de l’action collective”. Paris,
-se mais como grupos de notícias. La Découverte/M.A.U.S.S.

12027_RBCS79_AF3b.indd 199 7/2/12 4:36 PM


200 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 27 N° 79

. (2009), “Como nos mobilizamos? A . (1986), Frame analysis: an essay on the


contribuição de uma abordagem pragmatista organization of experience. Boston, Northeas-
para a sociologia da ação coletiva”. Dilemas, 2 tern University Press.
(4): 11-48. . (2002), “Footing”, in B. T. Ribeiro e P.
CHONG, Dennis & DRUCKMAN, James N. M. Garcez, (orgs.), Sociolingüística interacional,
(2007a), “Framing Theory”. Annual Review of 2. ed., São Paulo, Loyola.
Political Science, 10 (1): 103-126. LANA, Cecília. (2010), “Acontecimento midiáti-
. (2007B), “A theory of framing and opi- co e ressonâncias pragmáticas: a produção de
nion formation in competitive elites environ- sentido em torno de crimes passionais”. Mo-
ments”. Journal of Communication, 57 (1): 99-118. nografia de graduação, Faculdade de Filosofia e
D’ANGELO, Paul. (2002), “News framing as a Ciências Humanas da Universidade Federal de
multiparadigmatic research program: a respon- Minas Gerais, Belo Horizonte (datilo.).
se to Entman”. Journal of Communication, 52 LEVIN, David. (2005), “Framing peace policies:
(4): 870-888. the competition for resonant themes”. Political
DRUCKMAN, James N. (2004), “Political pre- Communication, 22 (1): 83-108.
ference formation: competition, deliberation LIPSET, David. (1980), Gregory Bateson: the
and the (Ir)relevance of framing effects”. Ame- legacy of a scientist. Englewood Cliffs, NJ,
rican Political Science Review, 98 (4): 671-686. Prentice-Hall.
DRUCKMAN, James N. & NELSON, Kjersten R. MCADAM, Doug. (1996), “The framing func-
(2003), “Framing and deliberation: how citi- tion of movement tactics: strategic dramatur-
zens’ conversations limit elite influence”. Ameri- gy in the American civil rights movement”, in
can Journal of Political Science, 47 (4): 729-745. D. McAdam, J. D. McCarthy e M. N. Zald,
ENTMAN, Robert M. (1993), “Framing: toward Comparative perspectives on social movements:
a clarification of a fractured paradigm”. Journal political opportunities, mobilizing structures and
of Communication, 43 (4): 51-58. cultural framings, Cambridge, Cambridge Uni-
FERREE, Myra Marx et al. (2002), Shaping abor- versity Press.
tion discourse: democracy and the public sphere MAIA, Rousiley C. M. (2009), “Debates públicos
in Germany and the United States. Cambridge, na mídia: enquadramentos e troca pública de
Cambridge University Press. razões”. Revista Brasileira de Ciência Política, 2:
FRANÇA, Vera R. V. (2009), “O crime e o tra- 303-340.
balho de individuação do acontecimento no MARQUES, Ângela. (2007), O processo deliberati-
espaço midiático”. Trabalho apresentado no VI vo a partir das margens: o programa Bolsa-Fa-
SOPCOM, Lisboa. mília na mídia e na fala das beneficiárias. Belo
GAMSON, William. (1992), Talking politics. Horizonte, tese de doutorado, Faculdade de
Cambridge/Nova York/Melbourne, Cambrid- Filosofia e Ciências Humanas da Universidade
ge University Press. Federal de Minas Gerais (datilo.).
GAMSON, William & MODIGLIANI, André. MENDONÇA, Ricardo F. & SANTOS, Débora
(1989), “Media discourse and public opinion B. (2009), “A cooperação na deliberação públi-
on nuclear power: a constructionist approach”. ca: um estudo de caso sobre o referendo acerca
American Journal of Sociology, 95 (1): 1-37. da proibição da comercialização de armas de
GITLIN, Todd. (1980), The whole world is wa- fogo no Brasil”. Dados, 52 (2): 507-542.
tching: mass media in the making and unmaking MENICONI, Joana de Almeida. (2005), De olho
of the new left. Berkeley/Los Angeles/Londres, no Big Brother Brasil: a performance media-
University of California Press. da pela TV. Belo Horizonte, dissertação de
GOFFMAN, Erving. (1967), Interaction ritual: es- mestrado, Faculdade de Filosofia e Ciências
says on face-to-face behavior. Nova York, Pan- Humanas da Universidade Federal de Minas
theon Books. Gerais (datilo.).

12027_RBCS79_AF3b.indd 200 7/2/12 4:36 PM


ENQUADRAMENTO 201

MOUILLAUD, Maurice. (2002), O jornal: da for- VIMIEIRO, Ana Carolina Soares Costa. (2010),
ma ao sentido. 2. ed. Brasília, Editora da UnB. Cultura pública e aprendizado social: a trajetória
PEREIRA, Leonardo Gomes. (2009), A TV em dos enquadramentos sobre a temática da defici-
pânico: o enquadramento das celebridades pelo ência na imprensa brasileira (1960-2008). Belo
programa Pânico na TV. Belo Horizonte, dis- Horizonte, dissertação de mestrado, Faculdade
sertação de mestrado, Faculdade de Filosofia e de Filosofia e Ciências Humanas da Universi-
Ciências Humanas da Universidade Federal de dade Federal de Minas Gerais (datilo.).
Minas Gerais (datilo.). WATZLAWICK, Paul; BEAVIN, Janet H. & JA-
PORTO, Mauro. (2004), “Enquadramentos da CKSON, Don D. (2002), Pragmática da Co-
mídia e política”, in A. A. C. Rubim (org.), municação Humana. 13. ed. São Paulo, Cultrix.
Comunicação e política: conceitos e aborda- WEAVER, David. (2007), “Thoughts on agenda
gens, Salvador/São Paulo, Edufba/Editora da setting, framing and priming”. Journal of Com-
Unesp. munication, 57 (1): 142-147.
QUÉRÉ, Louis. (1995), “L’espace public comme WINKIN, Yves. (1998), A nova comunicação: da teo-
forme et comme événement”, in I. Joseph ria ao trabalho de campo. Campinas, SP, Papirus.
(org.), Prendre place: espace public et culture
dramatique. Paris, Recherches.
. (2000), “L’individualisation des événe-
ments dans le cadre de l’expérience publique”,
in P. Bourdon (org.), Processus du sens, Paris,
L’Harmmatan.
REESE, Stephen D. (2007), “The framing project:
a bridging model for media research revisited”.
Journal of Communication, 57 (1): 148-154.
RIBEIRO, Branca Telles & GARCEZ, Pedro M.
(orgs.). (2002), Sociolingüística interacional. 2.
ed. São Paulo, Loyola.
SCHUDSON, Michael. (2002), “The news media
as political institutions”. Annual Review of Po-
litical Science. 5: 249-269.
SIMON, Adam & XENOS, Michael. (2000),
“Media framing and effective deliberation”.
Political Communication, 17 (4): 363-376.
STEINBERG, Marc W. (1998), “Tilting the fra-
me: considerations on collective action fra-
ming from a discursive turn”. Theory and So-
ciety, 27 (6): 845-872.
THOMAS, William. (1966), On social organiza-
tion and social personality. Selected papers. Chi-
cago, The University of Chicago Press.
VAN GORP, Baldwin. (2007), “The construc-
tionist approach to framing: bringing culture
back in”. Journal of Communication, 57 (1):
60-78.
VELHO, Gilberto. (2008), “Goffman, mal-enten-
didos e riscos interacionais”. RBCS, 23 (68):
145-148.

12027_RBCS79_AF3b.indd 201 7/2/12 4:36 PM


RESUMOS / ABSTRACTS / RESUMÉS 235

ENQUADRAMENTO: DIFERENTES FRAMING: DIFFERENT ANALYTIC ENCADREMENT: DIFFÉRENTES


OPERACIONALIZAÇÕES APPROACHES TO A CONCEPT OPÉRATIONALISATIONS
ANALÍTICAS DE UM CONCEITO ANALYTIQUES D’UN CONCEPT

Ricardo Fabrino Mendonça Ricardo Fabrino Mendonça Ricardo Fabrino Mendonça


e Paula Guimarães Simões and Paula Guimarães Simões et Paula Guimarães Simões

Palavras-chave: Enquadramento; Erving Keywords: Framing; Erving Goffman; Mots-clés: Encadrement; Erving Goff-
Goffman; Metodologia qualitativa. Qualitative methodology. man; Méthodologie qualitative.

O artigo discute o conceito de enqua- The article discusses the concept of L’article discute le concept d’encadre-
dramento e algumas de suas operacio- frame and some of its analytic opera- ment et certaines de ses opérationnali-
nalizações analíticas. Partimos de uma tionalizations. Starting with a reflection sations analytiques. Nous partons d’une
reflexão acerca das raízes da noção de about the roots of the notion of frame réflexion sur les racines de la notion de
frame no pensamento de Gregory Bate- in the works of Gregory Bateson and frame suivant la pensée de Gregory Bate-
son e Erving Goffman, explorando três Erving Goffman, three investigative ap- son et Erving Goffman, en explorant
vertentes de investigação dela derivadas: proaches deriving from it are subjected ses trois axes de recherche: 1) les études
1) estudos microssociológicos centra- to analysis: (1) micro-sociological stud- microsociologiques centrées sur l’analyse
dos na análise da situação interativa; ies centered in the analysis of interactive de la situation interactive; 2) les analyses
2) análises de conteúdo discursivo; e 3) situations; (2) discursive content analy- de contenu discursif; et 3) les analyses
análises de framing effects. Para concluir, sis; and (3) framing effects analysis. To de framing effects. Pour conclure, nous
abordamos alguns riscos e possibilidades conclude, the article discusses some risks abordons quelques risques et possibilités
que emergem desse panorama diversifi- and possibilities emerging from this di- qui émergent de ce panorama diversifié.
cado. Salienta-se a necessidade de enfo- versified set of approaches. It is empha- Nous soulignons le besoin de points de
ques atentos à dimensão intersubjetiva e sized the need of perspectives attentively vue qui considèrent la dimension inter-
social dos enquadramentos. concerned with the inter-subjective and subjective et sociale des encadrements.
social dimension of framings.

12027_RBCS79_AF4.indd 235 11/07/12 14:53