Você está na página 1de 211

Sociolinguística

Prof.ª Fabíola Sucupira Ferreira Sell


Prof. Alberto Gonçalves

2011
Copyright © UNIASSELVI 2011

Elaboração:
Prof.ª Fabíola Sucupira Ferreira Sell
Prof. Alberto Gonçalves

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

306.44
S4671s Sell, Fabíola Sucupira Ferreira.
Sociolinguística / Fabíola Sucupira Ferreira
Sell [e] Alberto Gonçalves. Centro
Universitário Leonardo da Vinci –: Indaial, Grupo
UNIASSELVI, 2011.x ; 201.p.: il

Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-7830-317-4

1. Sociolinguística 2. Etnografia – Etnologia Cultural


I. Centro Universitário Leonardo da Vinci
II. Núcleo de Ensino a Distância III. Título
Apresentação
Prezado aluno!

Este Caderno de Estudos traz a você um panorama dos estudos da


Sociolinguística. A questão principal que nos ajudou a organizar a estrutura
deste caderno é como o profissional de Letras pode lidar com a diversidade
linguística. E aqui estamos pensando a diversidade linguística a partir da
variação que se estabelece entre línguas diferentes, bem como a variação que
se percebe dentro de uma mesma língua.

Antes de explicar a você como este Caderno de Estudos está


organizado, gostaríamos de agradecer às professoras Edair Görski e Izete L.
Coelho, da Universidade Federal de Santa Catarina, que deram muitas dicas
e sugestões para a organização deste material.

Nosso Livro de Estudos está, pois, organizado da seguinte forma:


na primeira unidade estudaremos as relações entre língua e sociedade,
viajaremos por uma breve história da Sociolinguística e teremos um
primeiro contato com suas áreas de estudo: a Dialetologia, a Sociolinguística
Variacionista, o Sociointeracionismo, a Análise da Conversação, a Etnografia
da Fala, a Política Linguística e os conceitos de Bilinguismo, Diglossia e
Multilinguismo.

Na segunda unidade estudaremos mais detalhadamente a


Sociolinguística Variacionista, a partir de seus principais conceitos e de um
estudo de caso variacionista. Na terceira unidade vamos estudar questões
atuais em Sociolinguística, as quais levam em conta as definições de língua,
língua padrão e dialeto, comportamentos e atitudes linguísticos, preconceito
linguístico, bem como ensino de línguas e suas possíveis relações com a
Sociolinguística.

Ao final de cada unidade propusemos para você uma atividade de


autoavaliação, que o ajudará a se apropriar dos conteúdos deste campo de
estudo.

Você está convidado a entrar agora neste estudo sobre Sociolinguística.


Boa leitura, bons estudos!

Prof.ª Fabíola Sucupira Ferreira Sell


Prof. Alberto Gonçalves

III
NOTA

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto


para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há
novidades em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é


o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,


apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de


Desempenho de Estudantes – ENADE.
 
Bons estudos!

UNI

Olá acadêmico! Para melhorar a qualidade dos


materiais ofertados a você e dinamizar ainda mais
os seus estudos, a Uniasselvi disponibiliza materiais
que possuem o código QR Code, que é um código
que permite que você acesse um conteúdo interativo
relacionado ao tema que você está estudando. Para
utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos
e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar
mais essa facilidade para aprimorar seus estudos!

IV
V
VI
Sumário
UNIDADE 1 – SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS .................................................... 1

TÓPICO 1 – INTRODUÇÃO À SOCIOLINGUÍSTICA ............................................................... 3


1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 3
2 A RELAÇÃO ENTRE LÍNGUA E SOCIEDADE .......................................................................... 4
3 HISTÓRICO DOS ESTUDOS SOCIOLINGUÍSTICOS ........................................................... 6
RESUMO DO TÓPICO 1 .................................................................................................................... 10
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 11

TÓPICO 2 – ÁREAS DOS ESTUDOS SOCIOLINGUÍSTICOS ................................................ 13


1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 13
2 DIALETOLOGIA ............................................................................................................................... 14
3 SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA ................................................................................... 18
4 SOCIOLINGUÍSTICA INTERACIONAL .................................................................................... 20
4.1 ANÁLISE DA CONVERSAÇÃO .............................................................................................. 23
4.2 ETNOGRAFIA DA COMUNICAÇÃO .................................................................................... 30
RESUMO DO TÓPICO 2 .................................................................................................................... 33
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 34

TÓPICO 3 – BILINGUISMO, MULTILINGUISMO E DIGLOSSIA: AS LÍNGUAS EM


CONTATO ....................................................................................................................... 35
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 35
2 BILINGUISMO E MULTILINGUISMO ....................................................................................... 35
3 LÍNGUAS EM CONTATO ............................................................................................................... 37
RESUMO DO TÓPICO 3 .................................................................................................................... 44
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 45

TÓPICO 4 – POLÍTICA LINGUÍSTICA E O MULTILINGUISMO ........................................... 47


1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 47
2 MULTILINGUISMO ......................................................................................................................... 47
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 50
RESUMO DO TÓPICO 4 .................................................................................................................... 55
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 56

UNIDADE 2 – A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA ....................................................... 57

TÓPICO 1 – TIPOS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA ................................................................... 59


1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 59
2 VARIAÇÃO DIACRÔNICA ............................................................................................................ 60
3 VARIAÇÃO DIATÓPICA ................................................................................................................ 64
4 VARIAÇÃO DIASTRÁTICA ........................................................................................................... 67
5 VARIAÇÃO DIAMÉSICA ............................................................................................................... 72

VII
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 75
RESUMO DO TÓPICO 1 .................................................................................................................... 77
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 78

TÓPICO 2 – VARIAÇÃO LINGUÍSTICA: ASPECTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS .... 79


1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 79
2 A VARIÁVEL E AS VARIANTES LINGUÍSTICAS .................................................................... 79
3 LEVANTAMENTO/COLETA DE DADOS ................................................................................... 83
RESUMO DO TÓPICO 2 .................................................................................................................... 90
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 91

TÓPICO 3 – AS VARIÁVEIS SOCIAIS ............................................................................................ 93


1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 93
2 GÊNERO/SEXO .................................................................................................................................. 93
3 IDADE/FAIXA ETÁRIA ................................................................................................................... 94
4 ESCOLARIDADE .............................................................................................................................. 97
5 CONTEXTO DE INTERAÇÃO SOCIAL ...................................................................................... 99
RESUMO DO TÓPICO 3 .................................................................................................................... 101
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 102

TÓPICO 4 – AS VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS ............................................................................... 103


1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 103
2 AS VARIÁVEIS FONOLÓGICAS E MORFOSSINTÁTICAS ................................................. 103
3 VARIAÇÃO LINGUÍSTICA: EXEMPLO DE ANÁLISE ............................................................ 106
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 121
RESUMO DO TÓPICO 4 .................................................................................................................... 125
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 126

UNIDADE 3 – QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA ............................................... 127

TÓPICO 1 – LÍNGUA E DIALETO ................................................................................................... 129


1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 129
2 LÍNGUA E DIALETO ....................................................................................................................... 130
RESUMO DO TÓPICO 1 .................................................................................................................... 139
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 140

TÓPICO 2 – NORMA PADRÃO, NORMA CULTA, NORMA POPULAR


OU VERNACULAR .............................................................................................................................. 141
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 141
2 NORMA PADRÃO, NORMA CULTA, NORMA POPULAR OU VERNACULAR .............. 141
RESUMO DO TÓPICO 2 .................................................................................................................... 152
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 153

TÓPICO 3 – COMPORTAMENTOS E ATITUDES LINGUÍSTICOS ........................................ 155


1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 155
2 PRECONCEITO LINGUÍSTICO .................................................................................................... 155
3 O CÍRCULO VICIOSO E A DESCONSTRUÇÃO DO PRECONCEITO LINGUÍSTICO .. 161
4 ESTRANGEIRISMOS ....................................................................................................................... 164
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 169
RESUMO DO TÓPICO 3 .................................................................................................................... 173
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 174

VIII
TÓPICO 4 – ENSINO DE LÍNGUA E SOCIOLINGUÍSTICA .................................................... 175
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 175
2 SOCIOLINGUÍSTICA E LÍNGUA MATERNA .......................................................................... 176
3 SOCIOLINGUÍSTICA E ENSINO: TEXTOS PARA REFLEXÃO E DEBATE ....................... 185
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 188
RESUMO DO TÓPICO 4 .................................................................................................................... 194
AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 195

REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................... 197

IX
X
UNIDADE 1

SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS
GERAIS

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir desta unidade, você será capaz de:

• refletir e discutir sobre as relações entre língua e sociedade, a partir dos


estudos sociolinguísticos;

• identificar e discutir os vários campos de investigação dos estudos socio-


linguísticos.

PLANO DE ESTUDOS
Esta primeira unidade está dividida em quatro tópicos. No final de cada
tópico, você encontrará atividades que possibilitarão a apropriação de
conhecimentos na área.

TÓPICO 1 – INTRODUÇÃO À SOCIOLINGUÍSTICA

TÓPICO 2 – ÁREAS DOS ESTUDOS SOCIOLINGUÍSTICOS

TÓPICO 3 – BILINGUISMO, MULTILINGUISMO E DIGLOSSIA:


AS LÍNGUAS EM CONTATO

TÓPICO 4 – POLÍTICA LINGUÍSTICA E O MULTILINGUISMO

Assista ao vídeo
desta unidade.

1
2
UNIDADE 1
TÓPICO 1

INTRODUÇÃO À SOCIOLINGUÍSTICA
“Toda ordem tende a ser ‘desordem’ ou ‘simplicidade’ aos olhos
dos portadores de uma ordem diferente”. (José Carlos Rodrigues,
Antropologia da comunicação: princípios radicais)

1 INTRODUÇÃO
Nesta unidade você tomará contato com os principais conceitos e as
principais correntes da sociolinguística. A primeira pergunta que você deve estar
se fazendo é: o que é a sociolinguística? Vejamos uma definição:

A sociolinguística é uma área que estuda a língua em seu uso real,


levando em consideração as relações entre a estrutura linguística e os
aspectos sociais e culturais da produção linguística. Para esta corrente,
a língua é uma instituição social e, portanto, não pode ser estudada
como uma estrutura autônoma, independente do contexto situacional,
da cultura e da história das pessoas que a utilizam como meio de
comunicação. (CEZARIO; VOTRE, 2009, p. 141).

Em outras palavras, a sociolinguística preocupa-se com a língua falada


em contextos socialmente construídos. Tais contextos estão relacionados com
outro conceito importante para esta área, o conceito de comunidade de fala ou
linguística, a qual pode ser definida como um “[...] conjunto de pessoas que
interagem verbalmente e que compartilham um conjunto de normas com respeito
aos usos linguísticos”. (ALKMIM, 2005, p. 31). Entretanto, isso não significa dizer
que em uma comunidade de fala todos falam da mesma maneira. O que veremos
é que os indivíduos de uma mesma comunidade linguística vão escolhendo,
de acordo com cada situação comunicativa, maneiras diferentes de interagir e
essas escolhas não são aleatórias, elas dependem de fatores sociais e culturais
previamente colocados.

Isso acontece porque as línguas variam em muitos aspectos: as línguas


variam de região para região, as línguas variam de acordo com a idade, o sexo,
e a posição social dos falantes, as línguas variam de acordo com a situação
sociocomunicativa, as línguas variam historicamente. Durante nossos estudos,
faremos um passeio por várias abordagens sociolinguísticas que procuram
mostrar como e por que essas variações ocorrem e os conflitos que podem estar
envolvidos na diversidade linguística.

E para começar nossa conversa, na próxima seção estudaremos um pouco


desta relação entre língua e sociedade que norteia os estudos sociolinguísticos.

3
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

FIGURA 1 – TORRE DE BABEL

FONTE: Disponível em: <http://www.diaadia.pr.gov.br/tvpendrive/arquivos/Image/conteudos/


imagens/portugues/babel.jpg>. Acesso em: 24 jul. 2010.

AUTOATIVIDADE

Você conhece a história da Torre de Babel e sua relação com as línguas


do mundo? Faça uma pesquisa sobre este tema.

2 A RELAÇÃO ENTRE LÍNGUA E SOCIEDADE


A relação existente entre língua e sociedade tem interessado muitos
autores – filósofos e linguistas, uma vez que é a partir dessa relação que a
humanidade vem se constituindo. Segundo Alkmim (2005, p. 21), “[...] a história
da humanidade é a história de seres organizados em sociedade e detentores de
um sistema de comunicação oral, ou seja, uma língua”.

4
TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLINGUÍSTICA

Embora essa relação entre língua e sociedade seja inegável, ela não é tão
óbvia e pode ser compreendida sob diversos pontos de vista. Assim, a maneira
como cada estudo da linguagem vê a relação entre língua e sociedade depende
de diversos fatores sócio-históricos, decorrentes do tempo-espaço em que cada
estudioso se insere.

A constituição das nações do mundo como tal teve como um dos pontos
principais a ideia de uma língua nacional, a qual identifica um determinado povo.
Essa ideia dá origem também à ilusão de que as línguas são uniformes e de cada
nação tem sua única e soberana língua. Ocorre que é só olhar mais demoradamente
para as nações e perceberemos que essa ideia da homogeneidade é apenas uma
abstração. Assim, se pedirmos para você dizer qual é a língua falada no Brasil,
prontamente você responderá: é o português!

Bom, mas sabemos que no Brasil coexistem muitas línguas indígenas,


línguas dos nossos colonizadores e ainda muitas variedades do próprio
português, não é mesmo? É aqui que entra a ideia de dialeto. De modo geral,
para a sociolinguística, as variações regionais são dialetos. No senso comum, esta
palavra expressa uma língua de menor prestígio, se comparada com a língua
oficial da nação. Para a sociolinguística, por outro lado, veremos que não há
língua, ou dialeto, mais importante que o outro.

O que há são variedades diferentes, cada qual com suas características


próprias, que precisam ser descritas e analisadas. É claro que esta questão não é
tão simples assim. Se pensarmos, por exemplo, nos dialetos do Sul e do Norte do
país, teremos diferenças marcantes entre eles que sustentam a classificação em
dois dialetos distintos. Entretanto, pode acontecer de termos falares com menos
diferenças entre regiões contíguas, e aí talvez tenhamos um problema em separar
estes falares em dois dialetos distintos, não é verdade?

Você pode estar se perguntando: mas então qual é a diferença entre uma
língua e um dialeto? Vejamos o que nos diz McCleary (2008, p. 7):

Os dialetos são idênticos às línguas, do ponto de vista linguístico.


Eles têm tudo o que as línguas têm. Não são menores ou mais simples
ou menos perfeitos. Os dialetos, do ponto de vista linguístico, são
línguas. Mas do ponto de vista da sociolinguística, são línguas que não
atingiram a autonomia na imaginação popular.

UNI

Durante nossos estudos de sociolinguística, voltaremos a essas questões


novamente sob vários pontos de vista, como, por exemplo, a questão do preconceito
linguístico envolvido na definição de dialeto e de língua padrão. Na Unidade 3 deste caderno
discutiremos em mais detalhes os conceitos de língua e dialeto.

5
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

AUTOATIVIDADE

Para obter informações sobre as línguas no mundo, acesse o site:


<www.ethnologue.com>. Você pode pesquisar sobre a língua portuguesa
e descobrir que países falam português no mundo. Segundo o Ethnologue,
existem cerca de 6.900 línguas catalogadas no mundo.

3 HISTÓRICO DOS ESTUDOS SOCIOLINGUÍSTICOS


Antes de a sociolinguística se estabelecer como área de estudo da
linguística, já havia pesquisadores preocupados com a questão da diversidade
linguística. Um destes autores foi Antoine Meillet (1866-1936).

FIGURA 2 – ANTOINE MEILLET (1866-1936)

FONTE: Disponível em: <http://titus.uni-frankfurt.de/personal/


galeria/meillet.jpg>. Acesso em: 24 jul. 2010.

Meillet estudou a mudança linguística na França a partir da relação entre a


estrutura social e as relações nas quais a linguagem se desenvolve, afirmando assim
a forte ligação entre língua, cultura e sociedade. Calvet (2002) observa que, embora
Meillet tenha ficado conhecido como discípulo de Saussure, após a publicação
póstuma do Curso de linguística geral deste, os estudos sobre a linguagem feitos
por Meillet podem ser considerados como opostos ao que Saussure propunha
para o entendimento de língua como fato social: “[...] enquanto Saussure busca
elaborar um modelo abstrato de língua, Meillet se vê em conflito com o fato social
e o sistema que tudo contém: para ele não se chega a compreender os fatos da
língua sem fazer referência à diacronia, à história.” (CALVET, 2002, p. 15).

6
TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLINGUÍSTICA

Ainda como precursores da sociolinguística, temos os dialetólogos que


na década de 1930 trabalharam no Atlas Linguístico dos Estados Unidos e do
Canadá, buscando associar informações sociais e geográficas na descrição dos
dialetos. (CEZARIO; VOTRE, 2009). Na próxima seção abordaremos em mais
detalhes a dialetologia como uma subárea da sociolinguística.

De fato a sociolinguística surge como uma área da linguística, e sob tal


termo, em 1964, a partir de um congresso organizado pelo linguista William
Bright (1928-2006), na Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA), em
oposição aos estudos gerativistas de Noam Chomsky, os quais se encontravam
em plena ascensão.

FIGURA 3 – WILLIAM BRIGHT

FONTE: Disponível em: <http://www.ncidc.org/bright/bill.jpg >.


Acesso em: 24 jul. 2010.

Os estudos apresentados nesse congresso foram posteriormente


organizados e publicados em 1966 sob o título Sociolinguistics, no qual consta o
clássico trabalho de Bright intitulado As dimensões da sociolinguística, publicado no
Brasil pela Editora Eldorado, Rio de Janeiro, em 1974, e no qual o autor define e
caracteriza esta nova área de estudo. (ALKMIM, 2005; CALVET, 2002).

7
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

Nesse trabalho clássico e introdutório, Bright procura definir o campo


da sociolinguística, tarefa que ele mesmo considera nada fácil de definir com
precisão (CALVET, 2002), e propõe que o objeto de estudo da sociolinguística
seja a diversidade linguística, devendo demonstrar as variações linguísticas em
uma comunidade e correlacioná-las com as diferenças na estrutura social dessa
mesma comunidade. O conjunto de fatores sociais que podem estar relacionados
com a diversidade linguística são definidos por Bright da seguinte maneira, nas
palavras de Alkmim (2005, p. 28-29):

a) Identidade social do emissor ou do falante – relevante, por exemplo,


em estudos dos dialetos de classes sociais e das diferenças entre falas
femininas e masculinas;
b) identidade social do receptor ou ouvinte – relevante, por exemplo,
no estudo das formas de tratamento, da baby talk (fala utilizada por
adultos para se dirigirem aos bebês);
c) o contexto social – relevante, por exemplo, no estudo das diferenças
entre a forma e a função dos estilos formal e informal, existentes na
grande maioria das línguas;
d) o julgamento social distinto que os falantes fazem do próprio
comportamento linguístico e sobre o dos outros, isto é, as atitudes
linguísticas.

Alkmim (2005) ressalta também que os estudos sociolinguísticos


inaugurados em 1964 são na verdade uma continuação dos estudos tradicionais
da chamada Antropologia Linguística, que teve início no começo do século XX
com pesquisadores como Franz Boas (1911) e seus discípulos Edward Sapir (1921)
e Benjamin Lee Whorf (1941). Esses estudos tradicionais consideram linguagem,
cultura e sociedade como fenômenos inseparáveis, por isso o trabalho conjunto
entre Antropologia e Linguística.

Além disso observa que a sociolinguistica surge, portanto, como uma área
de estudos interdisciplinares, a partir das pesquisas de vários autores que buscavam
explicar as relações existentes entre a linguagem e os aspectos de ordem sociocultural.
Dentre tais pesquisadores, a autora destaca dois: Dell Hathaway Hymes, que, em
1962, propõe em um artigo a Etnografia da Fala, hoje conhecida como Etnografia
da Comunicação; e William Labov que, em meados de 1960, publica suas pesquisas
clássicas em que demonstra o papel decisivo dos fatores sociais como idade, sexo,
ocupação, origem étnica e atitude na diversidade linguística estabelecida em cada
comunidade. A metodologia utilizada por Labov dá origem à sociolinguística
variacionista, a qual veremos em mais detalhes adiante.

O autor lembra também que nesse mesmo ano em que a sociolinguística


surge como uma nova área da linguística, acontece em Bloomington, Indiana, um
outro congresso que reúne linguistas e cientistas sociais os quais debatem sobre
questões relacionadas à dialetologia social, à escolarização de camadas pobres
e de origem estrangeira da sociedade. Dessas pesquisas surgem obras como
Directions in Sociolinguistics: report on a interdisciplinar seminar, de Ferguson (1965),
Explorations in Sociolinguistics, editado por Lieberson (1966), e Social dialects and
language learning, editado por Shuy (1964).

8
TÓPICO 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLINGUÍSTICA

Calvet (2002) observa que, enquanto Bright em seus estudos via a


sociolinguística como subordinada às grandes áreas como a linguística, a
antropologia e a sociologia, para Labov a sociolinguística é a própria linguística,
como mostra o extrato do capítulo 8 de seu livro Sociolinguistic Patterns:

Para nós nosso objeto de estudo é a estrutura e a evolução da linguagem


no seio do contexto social formado pela comunidade linguística. Os
assuntos considerados provêm do campo normalmente chamado
“linguística geral”: fonologia, morfologia, sintaxe e semântica […]. Se
não fosse necessário destacar o contraste entre este trabalho e o estudo
da linguagem fora de todo contexto social,eu diria de bom grado que
se trata simplesmente de linguística. (LABOV citado por CALVET,
2002, p. 32).

ATENCAO

Para saber mais, leia o capítulo 1, intitulado “A luta por uma concepção social da
língua”, da obra Sociolinguística: uma introdução crítica, de Louis-Jean Calvet.

9
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico nós vimos que a Sociolinguística surgiu como uma área
interdisciplinar, levando em conta estudos sociológicos, antropológicos e
linguísticos. Vimos também seus principais expoentes, como Antoine Meillet e
William Bright, que contribuíram para a constituição da área, já delineando as
relações entre língua e sociedade.

No próximo tópico, faremos uma breve exposição das áreas de estudos


sociolinguísticos para que você tenha contato com os fundamentos de cada uma delas.
Chamamos de breve exposição porque cada uma destas áreas tem se desenvolvido
de forma surpreendente, com excelentes trabalhos, e certamente um estudo mais
aprofundado daria um Caderno de Estudos como este para cada uma delas.

10
AUTOATIVIDADE

Escreva um texto de 5 a 10 linhas colocando nele o que você entendeu


sobre a relação entre língua e sociedade.

Assista ao vídeo de
resolução desta questão

11
12
UNIDADE 1
TÓPICO 2

ÁREAS DOS ESTUDOS SOCIOLINGUÍSTICOS

1 INTRODUÇÃO
Os estudos sociolinguísticos podem abordar a diversidade linguística a
partir de uma macroanálise das variedades linguísticas ou ainda a partir de uma
microanálise dessas variedades. Para Calvet esta distinção não é imediatamente
visível e nem tampouco elas são opostas. Isso porque, na verdade, dizer que uma
análise é macro ou micro depende do ponto sob o qual a estamos encarando, já
que não há um binarismo tão evidente entre elas. O que Calvet pretende mostrar
é que a primeira abordagem é inseparável da segunda:

A análise da comunicação em uma família, por exemplo, parece mais


‘macro’ que do idioleto de um falante e mais micro que a de um bairro
ou de uma cidade, que por sua vez é mais ‘micro’ que a análise da
situação sociolinguística de uma região ou de um país. Aqui o que está
posto é o problema da comunidade linguística e sociológica estudada,
mas não se pode esquecer que se, entre a análise de uma conversação
e a de uma cidade, por exemplo, existe uma escala contínua que vai da
atenção dispensada ao pormenor à atenção dispensada aos conjuntos,
essas duas abordagens ainda estão ligadas. (CALVET, 2002, p. 123-124).

TURO S
ESTUDOS FU

Nas próximas seções veremos as principais correntes da sociolinguística:


a dialetologia, a sociolinguística variacionista e o sociointeracionismo, o qual tem como
desdobramento a análise da conversação e a etnografia da comunicação.

13
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

2 DIALETOLOGIA
Uma das áreas dos estudos sociolinguísticos que estuda os efeitos entre
língua e sociedade é a Dialetologia, a qual tem como foco de estudo a variação
linguística que surge em regiões geográficas diferentes.

Já mencionamos que as línguas variam no tempo, ou seja, diacronicamente.


Essas variações acabam por constituir as mudanças linguísticas. Vejamos um
exemplo disso:

No português arcaico (entre os séculos XII e XVI), ocorriam construções


impessoais em que a indeterminação do sujeito era indicada pelo
vocábulo “homem”, com o mesmo sentido que, atualmente, usamos
o pronome “se”. Por exemplo: E pode homem hyr de Santarem a Beia
[Beja] em quatro dias“, que corresponde, modernamente, a “E pode-se
ir da Santarém a Beja em quatro dias”. (ALKMIM, 2005, p. 34).

Além da variação diacrônica, temos a variação sincrônica, a qual pode


ser determinada por diferentes fatores tais como idade, sexo, região geográfica
etc. Esse tipo de variação pode ser descrito diatopicamente, ou seja, de acordo
com a região geográfica em que ocorre, e diastraticamente, isto é, em relação à
variação social, a qual tem relação com um conjunto de fatores que identificam
o falante em uma determinada comunidade de fala: classe social, sexo, idade,
situação ou contexto social.

FIGURA 4 – VARIAÇÃO DIATÓPICA E DIASTRÁTICA

FONTE: Os autores

A dialetologia tem por objetivo principal estudar a variação linguística


diatópica. Se pensarmos nas variações regionais que podemos encontrar num
país de dimensões continentais como o Brasil, podemos ter uma ideia do campo
de estudo que se abre para a dialetologia. Com o intuito de descrever e analisar a
diversidade linguística brasileira é que surgiram tantos estudos dialetológicos no
Brasil, os quais formam o Projeto do Atlas Linguístico Brasileiro (ALiB).

No Brasil, uma das obras que dá início aos estudos dialetais é a publicação
do livro O Dialeto Caipira, de Amadeu Amaral, na década de 1920, bem como O
linguajar carioca, de Antenor Nascentes (1922).
14
TÓPICO 2 | ÁREAS DOS ESTUDOS SOCIOLINGUÍSTICOS

FIGURA 5 – O DIALETO CAIPIRA, DE AMADEU AMARAL (1920),


MARCO DOS ESTUDOS DIALETAIS NO BRASIL

FONTE: Disponível em: <http://www.seboantigo.com.br/


livraria%20site/mostrafoto.php?idfoto=857>. Acesso em: 24
jul. 2010.

FIGURA 6 – AMADEU ATALIBA ARRUDA AMARAL LEITE


PENTEADO (1875-1929)

FONTE: Disponível em: <www.capivari.sp.gov.br/.../amadeu_


amaral.jpg>. Acesso em: 24 jul. 2010.

FIGURA 7 – ANTUNES NASCENTES

Dividi o falar brasileiro em seis subfalares que reuni em


dois grupos a que chamei de norte e sul. O que caracteriza estes
dois grupos é a cadência e a existência de pretônicas abertas
em vocábulos que não sejam diminutivos, nem advérbios em
mente. [...] Eles estão separados por uma zona que ocupa uma
posição mais ou menos equidistante dos extremos setentrional
e meridional do país.

FONTE: O linguajar carioca, 1953, p. 25. Disponível em: <http://www.alib.ufba.br/


grandesnomes.asp>. Acesso em: 1 jun. 2010.

15
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

Há ainda O vocabulário pernambucano, de Pereira da Costa (1937), A língua do


Brasil, de Gladstone Chaves de Melo (1934), dentre outros, trabalhos de abordagem
essencialmente gramaticais, mas que já pesquisavam aspectos lexicais.

No Brasil os estudos dialetológicos têm sido desenvolvidos a partir


do Atlas Linguístico do Brasil – ALiB – coordenado pelos professores: Suzana
Cardoso (UFBA) que preside o Comitê, Jacyra Andrade Mota (UFBA), Maria do
Socorro Silva de Aragão (UFPB), Mário Roberto Lobuglio Zágari (UFJF), Vanderci
de Andrade Aguilera (UEL) e Walter Koch, representando os atlas em andamento:

O Projeto ALiB – Empreendimento de grande amplitude, de caráter


nacional, em desenvolvimento, o Projeto Atlas Linguístico do Brasil
(Projeto ALiB) tem por meta a realização de um atlas geral no Brasil no
que diz respeito à língua portuguesa. Desejo que permeia a atividade
dialetal no Brasil, durante todo o desenvolvimento dos estudos
linguísticos e filológicos, ganha corpo nesse final/começo de milênio,
a partir de iniciativa de um grupo de pesquisadores do Instituto de
Letras. Mais uma vez a UFBA assume atitude pioneira ao empreender
a concretização dessa proposta que se realiza como projeto conjunto
que envolve hoje doze Universidades. (PROJETO ALIB, 2010).

FIGURA 8 – ATLAS LINGUÍSTICO DO BRASIL

FONTE: Disponível em: <http://www.alib.ufba.br/images/Jovens%20


pesquisadores.gif>. Acesso em: 2 jun. 2010.

16
TÓPICO 2 | ÁREAS DOS ESTUDOS SOCIOLINGUÍSTICOS

As pesquisas realizadas pelo ALiB possuem uma metodologia própria, a


qual segue as seguintes orientações, apresentadas em Aragão (2005 apud SOUSA;
CHAVES, 2007, p. 5):

a) perfil dos informantes (faixa etária e sexo): 18 a 30 anos e 45 a 60


anos, homens e mulheres.
b) nível de instrução: no máximo a 4ª série (Ensino Fundamental), e
superior, nas capitais.
c) localidades e número de pontos: Região Norte: 23 pontos; Região
Nordeste: 71 pontos; Região Sudeste: 79 pontos; Região Sul: 41 pontos;
Região Centro-Oeste: 21 pontos.
d) tipos de questionário e quantidade de questões: Semântico-
Lexical, com 15 áreas semânticas e 207 questões; Morfossintático, com
121 questões; Fonético-fonológico, com 159 questões; Pragmático,
com 5 questões; Prosódico, com 4 questões; Temas para discursos
semidirigidos, 4 temas.

Além disso, a pesquisa dialetal deve seguir determinadas etapas de


realização, descritas da seguinte forma:

Etapas principais que devem observadas na pesquisa dialetal:


1) preparação da pesquisa;
2) execução dos inquéritos;
3) exegese e análise dos materiais recolhidos; e
4) divulgação dos resultados obtidos. (FERREIRA; CARDOSO,1994, p.
23-36 apud SOUSA; CHAVES, 2007, p. 8).

Vejamos alguns dos atlas regionais em andamento em várias regiões do


país, sobre os quais você pode conhecer mais no site da ALiB:

• Projeto Atlas Linguístico do Acre - ALAC.

• Atlas Linguístico do Ceará - ALECE.

• Projeto Atlas Linguístico do Maranhão - AliMA.

• Atlas Linguístico do Rio Grande do Norte – AliRN.

• Atlas Linguístico do Estado de São Paulo – ALESPO.

• Atlas Geossociolinguístico do Pará – ALIPA.

• Atlas Linguístico de Mato Grosso – ALiMAT.

• Atlas Linguístico do Espírito Santo – ALES.

• Atlas Linguístico da Rondônia – AliRO.

• Atlas Linguístico contactual das minorias alemãs na Bacia do Prata (ALMA-H):


Hunnsruckisch.

17
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

DICAS

Consultando o site do projeto (http://www.alib.ufba.br/index.asp), você


poderá obter informações sobre o seu funcionamento, seus objetivos, histórico, bem como
terá acesso às publicações relacionadas ao Atlas Linguístico Brasileiro e aos eventos que
acontecem em torno do tema.
Recomendamos também a leitura do Atlas Linguístico-Etnográfico da Região Sul do Brasil
(ALERS), organizado por Walter Koch, Mário Silfredo Klassmann e Cléo Vilson Altenhofen.
Coeditado pelas editoras da UFRGS, UFSC e UFPR e dividido em 2 volumes (Introdução e
Cartas fonéticas e morfossintáticas), o ALERS apresenta a diversidade linguística dos três
estados da Região Sul do Brasil. Para maiores informações sobre o ALERS, consulte: <http://
www.alers.ufsc.br/projeto_alers.htm>.

FIGURA 9 – ALERS

FONTE: Disponível em: <http://www6.ufrgs.br/letras/index.php?option=com_


content&view=article&id=72:alers&catid=43:padrao&Itemid=83>. Acesso em:
24 jun. 2010.

3 SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA
A sociolinguística variacionista, a qual veremos em mais detalhes na
Unidade 2, tem como enfoque o exame da linguagem no contexto social a fim de
encontrar no uso social da linguagem as explicações para as variedades inerentes
aos sistemas linguísticos. Surgiu a partir dos estudos de William Labov, nos
Estados Unidos, a partir da década de 1960.

18
TÓPICO 2 | ÁREAS DOS ESTUDOS SOCIOLINGUÍSTICOS

FIGURA 10 – WILLIAM LABOV

FONTE: Disponível em: <http://1.bp.blogspot.com/__


BgJTIcm_qg/SNAzd-J_GFI/AAAAAAAADrI/rkqHd-nT5mQ/
s200/William+Labov.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2010.

Essa corrente da sociolinguística apresenta uma metodologia específica


de coleta e codificação dos dados que permitem ao pesquisador analisar a
diversidade linguística, aparentemente caótica na comunicação do dia a dia.
Trabalha a partir de dois conceitos principais: variação e mudança. Em termos
gerais, podemos definir variação o conjunto de variantes que coexistem numa
dada comunidade de fala para um mesmo significado. As variantes podem
aparecer nos níveis sintático, morfológico, fonológico, ou ainda pode ter uma
caracterização regional e/ou social: já a mudança linguística está associada à ideia
de que as línguas variam no tempo e no espaço.

Os estudos de Labov sobre a variação fonológica na pronúncia das


semivogais na população da ilha de Martha’s Vineyard, Massachusetts, é que dão
início aos trabalhos voltados para a explicação das variantes. (CALVET, 2002).

Como bem colocam Cezario e Votre (2009, p. 142):

Uma das contribuições da pesquisa sociolinguística [variacionista] foi


a constatação de que muitas formas não-padrão também ocorrem na
fala de pessoas com nível superior, principalmente em momentos mais
informais. Graças à sua metodologia de análise da língua em situação
real de comunicação, a sociolinguística consegue medir o número de
ocorrências de uso em relação a essa variante. Assim, por exemplo,
num estudo sobre a concordância verbal que se iniciou com a fala de
analfabetos adultos do Rio de Janeiro na década de 1970, constatou-
se que, ao lado da variante “As meninas brincam no quintal”, os
analfabetos privilegiaram o uso de “As menina brinca no quintal”.

No Brasil as pesquisas de cunho variacionista começaram a se desenvolver


a partir da década de 1970, com os projetos Mobral Central, o Projeto da Norma
Urbana Culta (NURC) e o Projeto Censo de Variação Linguística no Estado do
Rio de Janeiro (CENSO), coordenados, respectivamente por Miriam Lemle,
Celso Cunha e Anthony Naro. Esses projetos tiveram continuidade em diversas
universidades do Brasil, dando origem ao Programa de Estudos sobre o Uso
(Peul); à continuidade do NURC (UFRJ) e ao projeto Variação Linguística da
Região Sul (Varsul - UFSC/UFRGS) (conforme CEZARIO; VOTRE, 2009).
19
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

Uma das obras de leitura obrigatória no curso de Letras é A Pesquisa


sociolinguística, do linguista Fernando Tarallo, obra que retomaremos na Unidade 2:

FIGURA 11 – A PESQUISA SOCIOLINGUÍSTICA, DE


FERNANDO TARALLO

FONTE: Disponível em: <http://i.s8.com.br/images/books/


cover/img8/50618.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2010.

TURO S
ESTUDOS FU

Caro acadêmico, na Unidade 2 estudaremos em mais detalhes os pressupostos


teóricos e a metodologia própria da sociolinguística variacionista.

4 SOCIOLINGUÍSTICA INTERACIONAL
A sociolinguística interacional foi proposta por Gumperz na década de 1970
e tem uma base interdisciplinar apoiada nas áreas da linguística, da antropologia
e da sociologia. Tem, é claro, como objeto de estudo enunciados produzidos em
situações reais de interação e investiga a relação entre as interações linguístico-
sociais e as interpretações resultantes dessa relação. Oliveira (2003) observa que a
base teórica da sociolinguística interacional foi formulada por John J. Gumperz e
Erving Goffman em seus primeiros trabalhos.

Segundo Figueroa (1994 apud OLIVEIRA; SILVA, 2003, p. 25-26), podemos


definir a teoria de Gumperz por três palavras-chave:

(a) intencionalidade – de natureza racional, baseada em regras e


convenções sociais;
(b) interpretação – relacionada com a negociação de significados, com
a partilha de conhecimento e de intenções entre os falantes;
(c) significado social – pertinente ao sentido da comunicação,
alcançado pelo participante do processo interacional por meio de
seus conhecimentos socioculturais.

20
TÓPICO 2 | ÁREAS DOS ESTUDOS SOCIOLINGUÍSTICOS

Já a noção de contexto aparece nas análises de Gumperz associado às


inferências que os interlocutores fazem quando interpretam os enunciados,
sejam inferências ligadas a traços línguísticos, sejam a traços não-linguísticos,
tais como gestos, expressões faciais, pausas etc. Veja como começa seu clássico
artigo Convenções de contextualização, em que o autor deixa claro como as pistas de
contextualização entram nas análises sociointeracionais:

Tenho defendido a ideia de que a diversidade linguística é mais do


que uma questão de comportamento. (GUMPERZ, 1982, capítulo 1-5).
A diversidade linguística funciona como um recurso comunicativo
nas interações verbais do dia a dia no sentido de que, numa conversa,
os interlocutores – para categorizar os eventos, inferir intenções e
apreender expectativas sobre o que poderá ocorrer em seguida – se
baseiam em conhecimentos e estereótipos relativos às diferentes
maneiras de falar. Esse conjunto de informações internalizadas é crucial
para a manutenção do envolvimento conversacional e para o uso eficaz
de estratégias persuasivas. Apresentando o problema desta maneira,
podemos evitar o dilema inerente às abordagens tradicionais da
sociolinguística, que veem os fenômenos sociais como generalizações a
respeito de grupos precisamente isolados por critérios não-linguísticos,
tais como residência, classe, profissão, etnia e aspectos semelhantes,
e que, então, usam tais fenômenos para explicar comportamentos
individuais. Esperamos poder encontrar um meio de lidar com aquilo
que normalmente se denomina fenômenos sociolinguísticos, um
meio tal que se baseie em evidências empíricas de cooperação social
e não dependa da identificação a priori de categorias sociais. Para
tanto, estenderemos os métodos linguísticos tradicionais, de testagem
criteriosa e recursiva de hipóteses com informantes representativos, à
análise dos processos interativos pelos quais os participantes negociam
as interpretações. (GUMPERZ, 1982, tradução de J. L. Meurer e V.
Heberle apud RIBEIRO; GARCEZ, 2002, p. 150-151).

Repare também que Gumperz aponta nesse trecho para a diferença entre a
análise sociointeracional e as análises sociolinguísticas tradicionais. A esse respeito,
no clássico artigo de Goffman A situação negligenciada, o autor discute a ideia de
que o estudo da situação social no que diz respeito à comunicação face a face tem
sido fator negligenciado pelos estudos sociolinguistas. Neste trabalho, Goffman
define situação social como “[...] um ambiente que proporciona possibilidades
mútuas de monitoramento, qualquer lugar em que um indivíduo se encontra
acessível aos sentidos nus de todos os outros que estão ‘presentes’, e para quem
os outros indivíduos estão acessíveis de forma semelhante”. (GOFFMAN, 1964,
tradução de Pedro Garcez apud RIBEIRO; GARCEZ, 2002, p. 17).

21
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

UNI

Nas próximas seções, veremos desdobramentos destas ideias apresentadas pelos


fundamentos da sociolinguística interacional quando estudarmos a análise da conversação
e a etnografia da comunicação, correntes abrigadas nos pressupostos teóricos dos estudos
sociointeracionistas.

DICAS

Você poderá ler traduções dos textos clássicos Convenções da


contextualização, de Gumperz, e A situação negligenciada, de Goffman, bem como outros
trabalhos escritos entre 1960 e 1980, que apresentam os fundamentos da sociolinguística
interacional, no livro Sociolinguística Interacional, organizado por Bianca T. Ribeiro e Pedro
M. Garcez (2002), Edições Loyola.

FIGURA 12 – SOCIOLINGUÍSTICA INTERACIONAL,


ORGANIZADO POR BIANCA T. RIBEIRO E PEDRO M. GARCEZ
(2002), EDIÇÕES LOYOLA

FONTE: Disponível em: <https://www.livrarialoyola.com.br/


images/produtosg/8515025167.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2010.

Nesta obra você encontrará também um glossário conciso da


sociolinguística interacional, organizado por Pedro Garcez e Ana Cristina
Ostermann. Caso você queira ter acesso a textos clássicos da sociolinguística
interacional em inglês, há o livro intitulado Language and social context,
organizado por Pier Paolo Giglioli (1972). Nessa edição você encontrará o texto
original de Goffman, The negliected situation, bem como trabalhos de outros
autores como Gumperz, Fishman, Hymes, Labov, e outros.
22
TÓPICO 2 | ÁREAS DOS ESTUDOS SOCIOLINGUÍSTICOS

Na próxima seção, veremos dois desdobramentos da sociolinguística


interacional: a análise da conversação e a etnografia da comunicação.

4.1 ANÁLISE DA CONVERSAÇÃO


Dentro dos estudos sociolinguistas há uma área de estudo chamada Análise
da Conversação que parte da constatação de que a língua é nada mais do que um
conjunto que se forma a partir de atos individuais de interação entre falantes/
ouvintes, escritores/leitores que realizam ações individuais e sociais. Essa área
de estudo teve sua origem na década de 1960, a partir de estudos sociológicos de
Harold Garfinkel, Harvey Sacks, Emanuel Schegloff e Gail Jefferson (DIONÍSIO,
2003). O primeiro livro lançado no Brasil sob esta perspectiva foi Análise da
conversação, de Luiz Antônio Marcuschi:

FIGURA 13 – LIVRO ANÁLISE DA CONVERSAÇÃO, DE LUIZ


ANTÔNIO MARCUSCHI

FONTE: Disponível em: <http://www.livrariaresposta.com.


br/tbs/sp/9788508107872.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2010.

FIGURA 14 – PROFESSOR LUIZ ANTÔNIO MARCUSCHI

FONTE: Disponível em: <http://img.submarino.com.br/img/


artistas/88019.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2010.

23
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

Dionísio (2003) observa que o trabalho conjunto de sociólogos e linguistas


parte de duas perguntas básicas: como nós conversamos? e como a linguagem é estruturada
para favorecer a conversação?. A partir dessas questões, sociólogos e linguistas buscam
mostrar o que a conversação pode nos dizer sobre a relação entre língua e sociedade.

Utilizam a Etnometodologia, termo cunhado por Harold Garfinkel


(sociólogo norte-americano, Studies in Ethnomethodology, 1967), e que pode
ser definida como “[...] a abordagem que procura descrever os processos que
caracterizam ou constituem a comunicação interpessoal, analisando o modo como
os indivíduos interagem e se comportam em meio a diferentes situações específicas
da vida cotidiana.” (MORATO, 2004, p. 320). A estrutura conversacional pode ser
estudada a partir de três níveis: o macronível (fases conversacionais, tema central
e subtemas), o nível médio (turnos e sequências conversacionais, atos de fala e
marcadores conversacionais) e o micronível (elementos internos dos atos de fala).

Dionísio (2003) elenca as razões que justificam o estudo da conversação:

1) é a prática social mais comum do ser humano;


2) desempenha um papel privilegiado na construção de identidades
sociais e relações interpessoais;
3) ‘exige uma enorme coordenação de ações que exorbitam em muito
a simples habilidade linguística dos falantes’ (MARCUSCHI, 1996, p.
5) apud DIONÍSIO, 2003, p. 71);
4) permite que se abordem questões envolvendo ‘a sistematicidade da
língua presente em seu uso e a construção das teorias para enfrentar
essas questões’. (MARCUSCHI, 1998, p. 6 apud DIONÍSIO, 2003, p. 71).

A análise da conversação vai trabalhar com a ideia de tópico discursivo,


ou seja, os assuntos que vão se encadeando durante a conversação e que podem
estar relacionados ou não. O encadeamento destes tópicos é que vai constituir
o texto oral. Nesse sentido, Dionísio (2003) nos chama a atenção para o fato de
que a análise da conversação tem como objeto de estudo a conversação natural
que vai acontecendo entre dois ou mais interlocutores em situação de interação.
A autora nos dá dois exemplos que mostram claramente a diferença entre uma
conversação natural e uma conversação artificial. Vejamos os exemplos para
depois delinearmos as diferenças entre ambos:

Exemplo 1: conversação artificial


Josué: Eu vou sozinho.
Dora: Eu já disse que eu vou com você.
Josué: Eu não quero ir com você.
Dora: E por quê?
Josué: Porque eu não gosto de você.
Dora (aflita): E por quê?
Josué: Já te falei. Porque você não vale nada.
Dora: Como é que você vai chegar lá, quer me explicar?
Josué: Deixa um pouco de dinheiro pra eu comer.

FONTE: Central do Brasil (1998, p. 44-45 apud DIONÍSIO, 2003, p. 73)

24
TÓPICO 2 | ÁREAS DOS ESTUDOS SOCIOLINGUÍSTICOS

Exemplo 2: conversação natural


Contexto: Três alunos (duas mulheres (M33 e M34) e um homem (H28))
universitários do Curso de Letras conversando em uma sala, esperando
começar a aula. Sabem da gravação.
01 H28 bora gente...tenho aula... ( ) daqui a ( ) minutos
02 M33 sinceramente... se fosse uma oculta era muito melhor
03 H28 não... isso é besteira... o papo rola... a gente já falou aqui quem
04 é feminista...[M.H.
05 M33 [M.H.... é ((rindo))
06 H28 é você
07 M34 não tem nada a ver
08 H28 [do-minadora
09 M34 [dominadora não... é o seguinte... eu acho que...é um assunto
10 que não se entra em discussão porque são direitos iguais e
11 acabou-se se... então não tem o que discutir...
12 H28 mas... mas eu noto assim...
13 M33 [[mas eu garanto que muita coisa
14 H28 [[eu acho eu acho é a autoridade
15 M33 você você você é a favor do machismo
16 por isso eu digo por isso eu digo que eu sou meio feminista
17 H28 você é uma feminista machista
18 M34 isso não existe
19 H28 é... existe... [você ( ) do homem
20 M33 [pera aí... você acha... pera aí... pera aí
21 H28 você acha machismo do homem... mas você é assim...veja
22 bem... você acha assim o machismo do homem... mas você tem que analisar
23 assim a mulher pode ser machista pelo lado dela [tá entendendo?
24 M34 [lógico... admito
25 ser que a mulher pode machista só que eu tô querendo dizer é o
26 seguinte que [eu não sou feminista
27 M33 [mas ela é contra a mulher machista... sabia?
28 M34 eu sou a favor de direitos iguais... com isso eu não tô querendo
29 é dizer que... é: o homem num deva... num possa ser cavalheiro [porque...
30 M33 [mas
31 M34 isso aí ele tá deixando... tá... não....
32 M33 isso faz parte do machismo...
33 M34 o cavalheirismo num faz parte do machismo

FONTE: Projeto linguagem da mulher. Elisabeth Marcuschi e Judith Hoffnagel (apud DIONÍSIO,
2003, p. 74-75)

25
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

AUTOATIVIDADE

Você reparou na diferença entre as duas conversas do exemplo 1 e


do exemplo 2? Faça uma listinha em suas anotações das diferenças que você
consegue perceber antes de continuar a leitura.

Agora que você já parou para pensar nos dois exemplos, repare que é
justamente para essas diferenças entre as duas conversações que Dionísio (2003)
nos chama a atenção: na conversa do exemplo 1 cada falante fala no seu turno,
não há sobreposição de vozes, o diálogo corre dentro de uma simetria que nem
sempre é obedecida na conversação do exemplo 2. Isso porque o exemplo 1 é uma
conversa montada, é artificial.

NOTA

Turno conversacional é a intervenção que cada um dos interlocutores faz na


conversação. Mais adiante veremos em mais detalhes como os interlocutores podem tomar
o turno conversacional.

Já no exemplo 2, a conversação ocorre de maneira natural entre as pessoas


envolvidas nela e a interação vai sendo planejada a cada momento de acordo com o
rumo que a conversa toma. Você deve ter percebido que nesta conversação natural
houve interrupções, sobreposições de vozes, lacunas não preenchidas nas falas etc.

Você deve ter percebido também que o diálogo do exemplo 2 está transcrito
de maneira diferenciada, não é verdade? Como a análise da conversação analisa
textos orais, de conversações naturais, faz-se necessário utilizar uma metodologia
apropriada de transcrições desses dados que seja capaz de preservar certos
aspectos próprios das situações naturais de interação, procurando ser o mais fiel
possível no que de fato ocorreu durante a interação. Dessa metodologia constam a
gravação ou filmagem dos dados e a posterior transcrição, a partir de um sistema
de transcrição para textos falados, que em geral seguem as orientações do Projeto
de Estudo Coordenado da Norma Urbana Culta (Projeto NURC) (DIONÍSIO,
2003, p. 75). No quadro a seguir, retirado de Dionísio (2003), você encontra uma
síntese dessas regras de transcrição:

26
TÓPICO 2 | ÁREAS DOS ESTUDOS SOCIOLINGUÍSTICOS

QUADRO 1 – NORMAS PARA TRANSCRIÇÃO EM ANÁLISE DA CONVERSAÇÃO

Ocorrências Sinais Exemplificação


H28
Os falantes devem ser
indicados em linhas, M33
1. Indicação dos falantes
com letras ou alguma Doc.
sigla convencional
Inf.
2. Pausas ... Não... isso é besteira...
3. Ênfase MAIÚSCULAS Ela comprou um OSSO
: (pequeno)
Eu não to querendo é dizer que... é: o
4. Aglomeramento de vogal :: (médio)
eu fico :: o: tempo todo
::: (grande)
5. Silabação - do-minadora
6. Interrogação ? Ela é contra a mulher machista... sabia?
( )
7. Segmentos
incompreensíveis ou (ininteligível) Boa gente... tenho aula... ( ) daqui
ininteligíveis

8. Truncamento de palavras
/ eu... pre/ pretendo comprar
ou desvio sintático
9. Comentário do transcritor (( )) M. H.... é ((rindo))
“mai Jandira Ru vô dizê a Anja agora
10. Citações “ ” que ela vai a apanhá a profissão de
madrinha agora mesmo”
H28. É... existe... [você ( ) do homem...
11. Superposição de vozes [ M33. [pera aí... você acha...
pera aí... pera aí
M33. [[mas eu garanto que muita coisa
12. Simultaneidade de vozes [[
H28. [[eu acho eu acho é a autoridade
13. Ortografia tô, tá, vô, ahã, mhm

FONTE: Dionísio (2003, p. 76)

Repare que a transcrição dos dados de fala na análise da conversação


deve levar em conta não somente o que é dito de fato, mas outras nuanças da
comunicação, como gestos, expressões faciais e corporais, as entonações e
inclusive o silêncio. Esses recursos não-verbais podem ser sistematizados da
seguinte maneira, conforme apresentado em Dionísio (2003):

a) paralinguagem: sons emitidos pelo aparelho fonador, mas que não


fazem parte do sistema sonoro na língua usada;
b) cinésica: movimentos do corpo como gestos, postura, expressão
facial, olhar e riso;
c) proxêmica: a distância mantida entre os interlocutores;
d) tacêsica: o uso de toques durante a interação;
e) silêncio: a ausência de construções linguísticas e de recursos de
paralinguagem. (STEINBERG, 1988, p. 3 apud DIONÍSIO, 2003, p. 77).

27
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

Agora voltemos a falar de turnos conversacionais. Marcuschi (1986 apud


DIONÍSIO, 2003, p. 79) define turno como “[...] a produção de um falante enquanto
ele está com a palavra, incluindo a possibilidade de silêncio”, mas exclui desta
definição a intervenção que o ouvinte faz no turno do falante. Dionísio observa
que no exemplo 2, apresentado anteriormente, temos 22 turnos, os quais podem
ser nucleares (turnos 02, 03, 07, 08, 11-15, 17-21), pois dão continuidade ao tópico,
ou inseridos (turnos 04, 05, 06, 09, 10 e 16), pois são intervenções marginais ao
tópico conversacional e podem ser de esclarecimento, de concordância, de
discordância, de avaliação etc.

QUADRO 2 – TURNOS CONVERSACIONAIS


01 H28 bora gente...tenho aula... ( ) daqui a ( ) minutos → turno 01
02 M33 sinceramente... se fosse uma oculta era muito melhor → turno 02
03 H28 não... isso é besteira... o papo rola... a gente já falou aqui quem → turno 03
04 é feminista...[M.H.
05 M33 [M.H.... é ((rindo)) → turno 04
06 H28 é você → turno 05
07 M34 não tem nada a ver → turno 06
08 H28 [do-minadora → turno 07
09 M34 [dominadora não... é o seguinte... eu acho que...é um assunto → turno 08
10 que não se entra em discussão porque são direitos iguais e
11 acabou-se se... então não tem o que discutir...
12 H28 mas... mas eu noto assim... → turno 09
13 M33 [[mas eu garanto que muita coisa → turno 10
14 H28 [[eu acho eu acho é a autoridade → turno 11
15 M33 você você você é a favor do machismo → turno 12
16 por isso eu digo por isso eu digo que eu sou meio feminista
17 H28 você é uma feminista machista → turno 13
18 M34 isso não existe → turno 14
19 H28 é... existe... [você ( ) do homem → turno 15
20 M33 [pera aí... você acha... pera aí... pera aí → turno 16
21 H28 você acha machismo do homem... mas você é assim...veja → turno 17
22 bem... você acha assim o machismo do homem... mas você tem que analisar
23 assim a mulher pode ser machista pelo lado dela [tá entendendo?
24 M34 [lógico... admito → turno 18
25 ser que a mulher pode machista só que eu tô querendo dizer é o
26 seguinte que [eu não sou feminista
27 M33 [mas ela é contra a mulher machista... sabia? → turno 19
28 M34 eu sou a favor de direitos iguais... com isso eu não tô querendo → turno 20
é dizer que... é: o homem num deva... num possa ser cavalheiro
29
[porque...
30 M33 [mas → turno 21
31 M34 isso aí ele tá deixando... tá... não...
32 M33 isso faz parte do machismo...
33 M34 o cavalheirismo num faz parte do machismo → turno 22
FONTE: Dionísio (2003, p. 79-80)

28
TÓPICO 2 | ÁREAS DOS ESTUDOS SOCIOLINGUÍSTICOS

Durante uma conversa, os interlocutores precisam utilizar estratégias de


gestão de turnos, ou seja, precisam de algum modo tomar a palavra para que
a interação se concretize através das trocas de turno e da sustentação da fala.
Dionísio (2003) observa que há duas maneiras de tomar a palavra nas trocas de
turno: passagem de turno e assalto ao turno. Na passagem de turno, pode ou não
haver a indicação à entrega explícita do turno pelo falante: este pode passar o
turno ou simplesmente consentir na passagem.

Já o assalto ao turno acontece quando o ouvinte toma a palavra, invadindo


o turno do falante e desrespeitando, assim, a regra básica da conversação que
implica cada qual falar no seu turno. O assalto ao turno pode se dar com deixa
ou sem deixa. O assalto com deixa ocorre quando o interlocutor invade o turno
nas pausas, hesitações, alongamentos, entonação descendente etc. Você pode
encontrar este tipo de assalto ao turno com deixa em entrevistas no rádio e na
televisão, quando os repórteres invadem o turno do entrevistado a fim de dar
continuidade à entrevista ou para evitar que esse último se alongue demasiado
em sua exposição, por exemplo. Por outro lado, o assalto sem deixa vai se
caracterizar essencialmente pela sobreposição de vozes e pela intervenção brusca.

DICAS

Caro acadêmico: volte ao nosso exemplo 2 e observe que nas linhas 13 e 14 há


assalto de turno sem deixa, com a sobreposição de vozes, transcrita com o símbolo [[.

Dionísio (2003) observa que no assalto sem deixa pode acontecer:

a) de o falante abandonar o turno para o interlocutor assaltante;


b) de o interlocutor assaltado não abandonar o turno e continuar no comando;
c) de o interlocutor perder o turno e recuperá-lo em seguida.

Quanto à segunda estratégia de gestão de turnos, a sustentação da fala, o


interlocutor vai sinalizar de alguma maneira que deseja continuar comandando o
turno. Para isso, utilizará marcadores conversacionais, alongamentos, repetições
e elevação da voz, dentre outros. No final desta seção você encontrará exemplos
de trabalhos realizados no Brasil a partir de abordagens que levam em conta as
estratégias de trocas de turnos.

Os marcadores conversacionais linguísticos, por exemplo, são expressões


estereotipadas, sinalizadoras de conversa, tais como uhm, sabe?, certo?, ok?,
entendeu?, não é?, ahã..., ah sim, mhm, peraí, aí etc. Há também os marcadores
conversacionais paralinguísticos que utilizamos para manter e regular a interação,
tais como gestos, risos, olhares, maneios de cabeça etc.

29
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

AUTOATIVIDADE

Para que você tenha uma ideia mais clara da abordagem utilizada
pela análise da conversação, sugerimos que você grave/filme (pode ser
com o seu celular) ou salve uma conversa pelo MSN e transcreva a partir
do sistema de transcrição apresentado no Quadro 2 anterior. Procure
transcrever a conversa o mais fiel possível e você terá uma ideia mais clara
do quão complexa é uma conversação.

4.2 ETNOGRAFIA DA COMUNICAÇÃO


Em linhas gerais, podemos dizer que a etnografia da comunicação estuda
a linguagem a partir dos comportamentos culturais:

A etnografia da comunicação interessa-se em descrever e analisar as


formas dos ‘eventos de fala’, especificamente, as regras que dirigem
a seleção que o falante opera em função dos dados contextuais
relativamente estáveis, como a relação que ele contrai com o
interlocutor, com o assunto da conversa, e outras circunstâncias do
processo de comunicação, como espaço e tempo e, sobretudo, as regras
que dirigem o modo como cada participante sustenta a interação
verbal em curso. (CAMACHO, 2005, p. 49-50).

Os estudos desta corrente têm início com os trabalhos de Dell Hymes


(sociolinguista e antropólogo), das décadas de 1960 e 1970, inspirados nas
abordagens socioculturais de Edward Sapir, na década de 1930. Boa parte dos
trabalhos de Hymes foram reunidos no livro Foundations in Sociolinguistics: an
Ethnographic Approach, lançado em 1974 (OLIVEIRA E SILVA, 2003).

FIGURA 15 – FOUNDATIONS IN SOCIOLINGUISTICS: AN


ETHNOGRAPHIC APPROACH, DE DELL HYMES

FONTE: Disponível em: <http://www.upenn.edu/pennpress/


img/covers/934.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2010.

30
TÓPICO 2 | ÁREAS DOS ESTUDOS SOCIOLINGUÍSTICOS

FIGURA 16 – DELL HYMES

FONTE: Disponível em: <http://mi-cache.legacy.com/legacy/


images/Cobrands/DailyProgress/Photos/0001673139-01-
1_20091116.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2010.

Oliveira e Silva (2003) observa que a metodologia de pesquisa dos estudos


etnográficos pressupõe que o pesquisado participe intensamente da comunidade
pesquisada, que faça um registro cuidadoso sobre o que acontece a partir de
anotações ou documentação audiovisual, e que proceda na reflexão analítica e na
descrição detalhada sobre os dados coletados, levando em conta ‘os significados
imediatos ou locais das ações sociais do ponto de vista dos interagentes’.
(OLIVEIRA E SILVA, 2003, p. 28).

Como exemplos de estudos sociointeracionistas no Brasil, temos os


trabalhos de Dino Preti, alguns reunidos na obra Estudos de língua oral e escrita (2004).
Nessa obra, há trabalhos do autor com a fala dos idosos em que ele leva em conta
para a análise dos dados fatores psicofísicos decorrentes do processo natural de
envelhecimento e as condições socioculturais em que estes falantes se encontram.
A partir da análise qualitativa de dados de conversação dos idosos, o autor observa,
dentre outras coisas, que as repetições, os gaguejamentos, as autocorreções que
aparecem como características de suas falas podem estar vinculadas à situação
psicofísica dos idosos, bem como a determinadas estratégias interacionais.

Trabalhos de Deborah Tannen, por exemplo, também indicam que a


repetição na conversação pode ser usada como uma estratégia de interação que
cria um envolvimento interpessoal, passando a ideia de que o ritmo conversacional
está sendo compartilhado e estabelecido sem esforço. (BARROS, 2003, p. 45).

31
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

ATENCAO

Caro acadêmico, abordamos brevemente nesta seção alguns dos principais


aspectos dos estudos em sociolinguística interacional. A partir do que vimos aqui, essa é
uma área de estudos que procura explicar a diversidade linguística a partir da análise de
conversações reais, levando em conta aspectos sociais e culturais envolvidos na interação. Se
você se interessou por esta área de estudos sociolinguísticos e deseja continuar conhecendo
mais, poderá começar com as indicações de leitura que demos aqui, que certamente o
levarão a outras e outras leituras.

32
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico vimos as principais correntes da sociolinguística e suas
maneiras particulares em abordar a diversidade linguística: a dialetologia,
a sociolinguística variacionista e o sociointeracionismo, o qual tem como
desdobramento a análise da conversação e a etnografia da comunicação.

A primeira área dos estudos sociolinguísticos que estudamos foi a


Dialetologia, que estuda a variação linguística que surge em regiões geográficas
diferentes, tendo por objetivo principal estudar a variação linguística diatópica.
Vimos também que no Brasil os estudos dialetológicos têm sido desenvolvidos a
partir do Atlas Linguístico do Brasil – ALiB.

Já a sociolinguística variacionista, cujo fundador é o linguista William


Labov, tem como enfoque o exame da linguagem no contexto social a fim de
encontrar no uso social da linguagem as explicações para as variedades inerentes
aos sistemas linguísticos. Voltaremos a estudar em mais detalhes este ramo da
sociolinguística na Unidade 2.

A sociolinguística interacional, proposta por Gumperz na década de 1970,


tem uma base interdisciplinar apoiada nas áreas da linguística, da antropologia
e da sociologia. Seu objeto de estudo são os enunciados produzidos em situações
reais de interação e investiga a relação entre as interações linguístico-sociais e
as interpretações resultantes dessa relação. Como desdobramento dos estudos
sociointeracionistas, vimos a análise da conversação e a etnografia da comunicação.

A análise da conversação parte da constatação de que a língua nada mais


é do que um conjunto que se forma a partir de atos individuais de interação entre
falantes/ouvintes, escritores/leitores que realizam ações individuais e sociais.
Estes estudos partem de duas perguntas básicas: como nós conversamos? e como
a linguagem é estruturada para favorecer a conversação?. A partir dessas questões,
buscam mostrar o que a conversação pode nos dizer sobre a relação entre língua
e sociedade. Já a etnografia da comunicação estuda a linguagem a partir dos
comportamentos culturais.

33
AUTOATIVIDADE

Faça uma pesquisa na internet sobre o método da Etnografia. Você


pode começar dando uma olhada na Wikipédia.

Assista ao vídeo de
resolução desta questão

34
UNIDADE 1
TÓPICO 3

BILINGUISMO, MULTILINGUISMO E DIGLOSSIA:


AS LÍNGUAS EM CONTATO

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico vamos estudar o contato entre línguas a partir dos fenômenos de
bilinguismo/multilinguismo, diglossia e também veremos uma introdução à questão
de política linguística, à qual voltaremos na Unidade 3 deste caderno. Vamos lá!

2 BILINGUISMO E MULTILINGUISMO
O conceito de bilinguismo tem como base a ideia de um indivíduo que
fala duas línguas. No entanto, chamar de bilíngue uma pessoa que fala duas
línguas pode estar associado a diversas situações de aquisição/aprendizagem
dessas duas línguas. Por exemplo, podemos estar falando de uma criança que
adquiriu duas línguas simultaneamente durante a primeira infância; podemos
ainda estar falando de uma pessoa que aprendeu a falar uma segunda língua em
um processo de imigração, ou, ainda, através de ensino formal.

Além disso, quando falamos de bilinguismo também temos que pensar na


questão dos graus de conhecimento que o indivíduo bilíngue tem em cada uma
das línguas que adquiriu/aprendeu, já que são situações diferentes se pensarmos
em um indivíduo que adquiriu duas línguas maternas ou ainda um indivíduo
que aprendeu outra língua depois de adquirir sua língua materna.

Para você ter uma ideia da abrangência que pode alcançar o conceito de
bilinguismo entre os estudiosos, vejamos os conceitos de bilinguismo em vários
autores discutidos em Megale (2005):

‘Ser capaz de falar duas línguas igualmente bem porque as utiliza


desde muito jovem’. Na visão popular, ser bilíngue é o mesmo
que ser capaz de falar duas línguas perfeitamente; esta é também a
definição empregada por Bloomfield que define bilinguismo como
“[...] o controle nativo de duas línguas”. (BLOOMFIELD, 1935 apud
HARMERS e BLANC, 2000, p. 6 apud MEGALE, 2005, p. 27).

35
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

Segundo a autora, esta visão de bilíngue perfeito se opõe à visão de


Macnamara, citada a seguir:

[...] um indivíduo bilíngue é alguém que possui competência mínima


em uma das quatro habilidades linguísticas (falar, ouvir, ler e escrever)
em uma língua diferente de sua língua nativa. (MACNAMARA, 1967
apud HARMERS e BLANC, 2000, p. 6 apud MEGALE, 2005, p. 28).

Repare que os conceitos de bilinguismo vão desde aquele que considera


bilíngue apenas o indivíduo que tem fluência completa em duas línguas, até aquele
em que bilíngue é qualquer pessoa que possua alguma habilidade linguística em
outra língua que não a sua língua materna.

O bilinguismo pode ser individual ou social. O primeiro se refere a


pessoas que falam duas línguas porque aprenderam/adquiriram em condições
individuais e particulares. Por exemplo, quando um brasileiro aprende inglês em
uma escola de idiomas com vistas a fazer uma viagem a um país de língua inglesa
ou ainda por motivos profissionais etc.

Já o bilinguismo social é aquele que envolve uma determinada


comunidade em que duas ou mais línguas estão em contato. Segundo Appel e
Muysken (1996, p. 10), quase todas as sociedades são bilíngues, embora existam
diferenças quanto ao grau ou à forma de bilinguismo. O bilinguismo social pode
ser reconhecido ou não. Por exemplo, há países que têm duas (ou mais) línguas
oficiais, como o Paraguai, por exemplo, onde se fala espanhol e guarani. Por outro
lado, existem comunidades bilíngues que não são reconhecidas oficialmente,
como, por exemplo, as comunidades de imigrantes que falam português/alemão,
português/italiano, português/japonês etc.

Segundo Appel e Muysken (1996, p. 10), é possível distinguir três situações


de bilinguismo social, como mostra o gráfico a seguir:

GRÁFICO 1 – SITUAÇÕES DE BILINGUISMO

FONTE: Appel e Muysken (1996, p. 10)

A partir do gráfico anterior, os autores mostram que na situação I as duas


línguas são faladas por grupos diferentes e cada grupo é monolíngue. Nesse caso,
a comunicação entre os grupos é feita por alguns falantes bilíngues. Na situação II
36
TÓPICO 3 | BILINGUISMO, MULTILINGUISMO E DIGLOSSIA: AS LÍNGUAS EM CONTATO

todos os falantes são bilíngues. Já na situação III um grupo é monolíngue e outro


grupo é bilíngue; em geral este último é o grupo minoritário na comunidade.

DICAS

A Comunidade Surda brasileira é considerada bilíngue (LIBRAS/português) e


muitos surdos têm a LIBRAS como sua primeira língua e o português falado/escrito como sua
segunda língua. Existem ouvintes que também são sinalizantes de LIBRAS, como os familiares
e amigos de surdos e os intérpretes de Língua de Sinais, mas há uma boa parte da população
brasileira que não sinaliza (incluindo ouvintes e surdos). Pensando no gráfico anterior, em qual
situação de bilinguismo social LIBRAS e português se encaixam melhor?

Um outro conceito ligado ao de bilinguismo é o de multilinguismo,


o qual abrange, de modo geral, as pessoas que falam três ou mais línguas. O
multilinguismo pode ser estudado sob vários enfoques, mas é importante destacar
que estamos vivendo o desabrochar de uma consciência acerca do multilinguismo
no mundo e suas consequências. Sobre esta questão, veja o que nos diz Orlandi:

O Brasil é um país multilíngue como acontece com os países em geral.


Também como todo país, o Brasil tem a sua língua oficial, ao lado das
muitas línguas indígenas, falares regionais, línguas de imigração, etc. Isso
porque ao lado da multiplicidade concreta de línguas há, nos Estados, a
necessidade da construção de uma unidade imaginária. A língua oficial é
um dos lugares de representação de nossa unidade e soberania em relação
a outras nações. Isso acontece mesmo em um momento como o atual em
que a questão da mundialização, das nacionalidades e do multilinguismo
está posta enfaticamente. O modo de refletir sobre estas questões é que
pode diferir teórica e politicamente. (ORLANDI, 2007, p. 59).

Voltaremos às questões políticas envolvidas no multilinguismo na


próxima seção. Por ora, nos concentremos no fato de que os fenômenos do
bilinguismo/multilinguismo podem gerar o contato entre as línguas envolvidas,
como veremos na próxima seção.

3 LÍNGUAS EM CONTATO
O contato entre as línguas produzirá, inevitavelmente, empréstimos
e interferências. No livro Languages in contact, Uriel Weinrich (apud CALVET,
2002, p. 35) define interferência como “[...] um remanejamento de estruturas
resultante da introdução de elementos estrangeiros nos campos mais fortemente
estruturados da língua, como o conjunto do sistema fonológico, uma grande
parte da morfologia e da sintaxe e algumas áreas do vocabulário (parentesco, cor,
tempo, etc.)”. (WEINRICH apud CALVET, 2002, p. 35).

37
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

FIGURA 17 – INTERFERÊNCIA LINGUÍSTICA

FONTE: Os autores

Calvet (2002) distingue três tipos de interferência: as interferências


fonológicas, as interferências sintáticas e as interferências lexicais. Um exemplo de
interferência fonológica é a distinção entre o /i:/ longo e o /i/ breve do inglês, em
palavras como ship (navio) e sheep (ovelha), respectivamente, cuja diferenciação
é em geral difícil para brasileiros, uma vez que não há em português essa
distinção longo-breve no sistema vocálico. Não realizar essa distinção pode trazer
problemas de interpretação para os enunciados.

Já as interferências sintáticas consistem em transferir para a língua B


alguma estrutura sintática da língua A. Em geral isso pode acontecer em falantes
aprendendo uma segunda língua. Assim, transfere-se a estrutura da língua
materna para a segunda língua, por desconhecimento da daquela estrutura na
segunda língua. Por exemplo, imaginemos um americano aprendiz de português
brasileiro que queira fazer uma pergunta do tipo Can you help me?; se ele não
souber como produzir essa pergunta em português brasileiro, provavelmente
produzirá uma pergunta como Pode você me ajudar?, ou seja, uma pergunta
com inversão verbo-sujeito, estrutura que não é comum em português, o que
caracteriza a interferência sintática.

Por fim, a interferência lexical ocorre quando transferimos vocábulos da


língua A para a língua B. O caso mais simples, segundo Calvet, são os falsos
cognatos. Por exemplo, você talvez se lembre de uma propaganda que passava
algum tempo atrás de uma escola de idiomas em que havia problemas de
comunicação entre as pessoas porque um brasileiro tentava se expressar em
espanhol e acabava por usar falsos cognatos, como embaraçada/embarazada
(grávida), o que causava confusões e conflitos.

Ainda sobre a interferência lexical, Calvet salienta que ela ocorre


principalmente quando as duas línguas não organizam de modo semelhante a
experiência vivida. Um exemplo dado por Calvet é o caso do francês da África,

38
TÓPICO 3 | BILINGUISMO, MULTILINGUISMO E DIGLOSSIA: AS LÍNGUAS EM CONTATO

que utiliza o verbo gagner numa acepção ampla que inclui o seu uso no sentido
de ter e possuir. Assim, é possível uma sentença como Ma femme a gagné petit,
significando “Minha mulher ganhou/teve nenê” (como em português).

Calvet nos chama a atenção para o fato de que a interferência, levada ao


extremo, se traduz em emprétismo linguístico: “[...] mais que procurar na própria
língua um termo equivalente a um termo de outra língua difícil de encontrar,
utiliza-se diretamente essa palavra adaptando-a à própria pronúncia”. (CALVET,
2002, p. 39). Assim, enquanto a interferência é um fenômeno individual, o
empréstimo é um fenômeno coletivo e comum nas línguas naturais:

Todas as línguas tomaram empréstimos de línguas próximas, por vezes


de forma massiva (é o caso do inglês emprestando ao francês grande
parte de seu vocabulário), a ponto de se poder assistir, em contrapartida,
reações de nacionalismo linguístico, como, por exemplo, no Quebec e, em
certa medida na França e no Brasil, onde se desenvolveu um movimento
oficial de luta contra os empréstimos. (CALVET, 2002, p. 39).

O caso mais recente de reação aos empréstimos linguísticos no Brasil foi o


Projeto de Lei no 1.676/1999, do deputado Aldo Rebelo (PCdoB/SP), o qual suscitou
muitas discussões em torno do tema, tanto da sociedade em geral como de linguistas.

DICAS

Caro acadêmico, você poderá saber mais sobre este assunto lendo O
Estrangeirismo no Português do Brasil: Fator Descaracterizante?, de Gil Roberto Costa
Negreiros, disponível em <http://www.filologia.org.br/revista/artigo/11%2831%2906.htm>.
Recomendamos também a leitura do livro Estrangeirismos: guerra em torno das línguas,
organizado por Carlos Alberto Faraco (Ed. Parábola, 2001).

FIGURA 18 – ESTRANGEIRISMOS: GUERRA EM TORNO


DAS LÍNGUAS

FONTE: Disponível em: <http://i.s8.com.br/images/books/


cover/img8/292728_4.jpg>. Acesso em: 2 jun. 2010.

39
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

O contato entre línguas em indivíduos bilíngues também pode gerar


misturas de línguas (code mixing) ou alternâncias de códigos (code switching),
ou seja, quando o bilíngue ‘pula’ de uma língua para outra em um ponto do
discurso, dentro de uma mesma frase ou ainda entre as sentenças, produzindo,
assim, enunciados bilíngues.

A alternância de códigos pode ser utilizada como uma estratégia discursiva.


Calvet (2002, p. 47-48) apresenta como exemplo disso uma conversa gravada em
um hotel em Creta entre um hóspede que falava francês com sua mulher e se dirige
ao garçom em grego para fazer o pedido. O garçom, por outro lado, responde em
francês e as perguntas e respostas alternam-se entre o grego e o francês, cada um
demonstrando assim que tem competência para falar a língua do outro.

DICAS

Caro acadêmico, no livro de Calvet (2002), Sociolinguística: uma introdução


crítica, você encontra mais exemplos de alternância de código detalhadamente explicados
pelo autor entre as páginas 43 e 51. Vale a pena conferir.

Em situações em que falantes de regiões diferentes precisam interagir,


como em situações comerciais, por exemplo, e que não há língua em comum
entre eles, aparecerão as línguas aproximativas, como o sabir e os pidgins, que
são sistemas linguísticos auxiliares, reduzidos, com fins específicos, e que não
são língua materna de ninguém. Sabir, segundo Calvet (2002, p. 169) “[...] é a
denominação que se dava à língua de contato formada por elementos provenientes
do italiano, árabe, grego, turco e espanhol, desaparecida por volta de 1900, e que
foi utilizada nos portos do Mediterrâneo desde a Idade Média”.

Agora vejamos como Couto (1999, p. 53) define pidgin:

Pidgin é uma língua de contato, que surge quando povos falantes de


línguas mutuamente ininteligíveis entram em contato estreito, ou seja,
quando têm necessidade de se comunicarem uns com os outros, como
ocorreu durante a exploração do mundo pelos europeus.

Calvet (2002) observa que o primeiro exemplo de pidgin é o que surgiu


do contato comercial entre os ingleses e os chineses na costa do mar da China.
Tal pidgin apresentava o vocabulário do inglês e traços da estrutura sintática do
chinês. O termo pidgin vem de uma deformação da pronúncia de business.

40
TÓPICO 3 | BILINGUISMO, MULTILINGUISMO E DIGLOSSIA: AS LÍNGUAS EM CONTATO

Por outro lado, quando uma língua aproximativa passa a ser a língua da
comunidade e torna-se a língua materna dos descendentes dessa comunidade,
ampliando assim o seu uso, teremos uma língua crioula. Conforme o site <http://
pt.wikipedia.org/wiki/Crioulo>: o termo crioulo – espanhol criollo, francês créole,
vem do verbo latino “creare” = “criar”. Essa língua terá características das línguas
que a geraram, mas há controvérsia entre os linguistas sobre até que ponto essa
nova língua é calcada nas línguas que lhe deram origem. Vejamos o que nos diz
Couto sobre as línguas crioulas:

Os crioulos são línguas mistas que surgiram durante o processo


de exploração da África, Ásia, Oceania e América pelas potências
europeias. Dessa perspectiva, as línguas crioulas seriam precedidas de
um outro tipo de língua mista, ou seja, os pidgins. (COUTO, 1999, p. 53).

Existe uma relação entre os povos crioulos e as línguas crioulas. No Brasil,


por exemplo, os negros nascidos aqui, descendentes de escravos africanos, eram
conhecidos como negros crioulos. Assim, a língua que falavam era conhecida
como uma língua crioula. Desse modo, a “[...] língua crioula é um pidgin que foi
adquirido como língua nativa, como preconiza a chamada teoria da nativização.
De acordo com essa concepção, o crioulo é um ex-pidgin, ou seja, um pidgin
que virou língua materna de uma comunidade.” (COUTO, 1999, p. 55). Por
outro lado, Couto salienta também que alguns autores apostam mais na teoria
da comunitarização, ou seja, o principal é tornar-se a língua da comunidade,
passando a dar conta das necessidades linguísticas desta, apresentando uma
expansão em relação à estrutura do pidgin que lhe deu origem.

Na figura a seguir, você poderá ter uma ideia de como se dá a passagem


de um pidgin para uma língua crioula:

FIGURA 19 – DO PIDGIN PARA O CRIOULO

FONTE: Couto (1999, p. 55)

Se anteriormente a noção de língua crioula estava associada à colonização,


o que gerava preconceitos quanto ao seu estatuto como língua, hoje em dia o termo
é utilizado pelos linguistas para tratar de qualquer língua que esteja sob suspeita
de ter passado por crioulização (conforme COUTO, 1999; CALVET, 2002).

41
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

Já uma língua veicular, segundo Calvet, é aquela que é “[...] utilizada para
a comunicação entre grupos que não têm a mesma língua materna”. (CALVET,
2002, p. 57). O autor dá como exemplo o caso da capital do Senegal, em que havia 7
línguas principais ou maternas sendo usadas, conforme mostra o seguinte gráfico:

GRÁFICO 2 – LÍNGUAS FALADAS EM DAKAR EM 1986

FONTE: -(2002, p. 56)

Calvet observa que cada uma destas línguas corresponde a famílias, grupos ou
bairros inteiros. Entretanto, em relações comerciais, pesquisas mostraram que apenas
três línguas são utilizadas: wolof, peul e francês, sendo o wolof a língua dominante,
utilizada pela maioria, até por aqueles que não a têm como língua materna.

Outro conceito ligado a bilinguismo social é o conceito de diglossia.


Esse conceito surgiu nos estudos de Ferguson para se referir a duas variedades
linguísticas na mesma língua, como, por exemplo, uma variedade mais alta
do ponto de vista social e outra variedade mais baixa. Vejamos a definição de
diglossia dada por Ferguson:

Em muitas comunidades linguísticas, as pessoas utilizam duas ou mais


variantes de uma mesma língua em diferentes condições. Talvez o
exemplo mais conhecido seja a língua padrão e o dialeto regional como
são usados, por exemplo, no italiano ou no persa, onde muitas pessoas
falam seu dialeto local em casa ou entre familiares e amigos da mesma
área dialetal, mas usam a língua padrão quando em contato com pessoas
de outros dialetos ou quando falam em público. (FERGUSON, 1974, p. 99).

Cada uma dessas situações de diglossia se caracteriza, segundo Ferguson, por


um conjunto de traços, dentre os quais podemos destacar o uso social e o prestígio
de cada variedade. Assim, a variedade alta apresenta prestígio social, já que é usada
em situações mais formais tais como na escrita de correspondências, nos discursos da
igreja e das universidades, nos cânones da literatura e nas padronizações da língua,
como dicionários e gramáticas. Por outro lado, a variedade baixa tem pouco prestígio
social por estar ligada ao ambiente doméstico e à literatura popular.

42
TÓPICO 3 | BILINGUISMO, MULTILINGUISMO E DIGLOSSIA: AS LÍNGUAS EM CONTATO

Calvet (2002, p. 60) faz notar que esse conceito de diglossia é mais tarde
expandido por Joshua Fishman, segundo o qual pode haver diglossia também
entre mais de dois códigos e que tais códigos podem ser inclusive línguas
diferentes, como, por exemplo, nos casos de colonização em que a língua do
colonizador criava uma situação de diglossia com a língua do colonizado.

Calvet nos mostra também a relação que Fishman estabelece entre a


diglossia e o bilinguismo, como vemos no quadro a seguir:

QUADRO 3 – DIGLOSSIA E BILINGUISMO


DIGLOSSIA
1. Bilinguismo e diglossia 2. Bilinguismo sem diglossia
BILINGUISMO 4. Nem diglossia nem
3. Diglossia sem bilinguismo
bilinguismo
FONTE: Calvet (2002, p. 61)

1. Bilinguismo e diglossia: todos os membros da comunidade conhecem


a forma alta e a forma baixa. É o caso do Paraguai (guarani e espanhol).
2. Bilinguismo sem diglossia: há numerosos indivíduos bilíngues em uma
sociedade, mas não se utilizam das formas linguísticas para usos específicos.
Esse seria o caso de situações instáveis, de situações de transição entre uma
diglossia e uma outra organização da comunidade linguística.
3. Diglossia sem bilinguismo: numa comunidade social há a divisão
funcional de usos entre duas línguas, mas um grupo só fala a forma
alta, enquanto o outro só fala a forma baixa. Fishman cita aqui o caso
da Rússia czarista (a nobreza falava francês, o povo, russo).
4 Nem diglossia nem bilinguismo: há uma só língua. Só se pode imaginar
esta situação em uma comunidade muito pequena. (CALVET, 2002, p. 61-62).

É importante notar a observação feita por Calvet (2002) em relação ao


conceito de diglossia trabalhado por Ferguson e Fishman, uma vez que ambos os
autores atribuíram à diglossia uma suposta situação de estabilidade que esconde
os conflitos envolvidos nas situações de diglossia. Como exemplo, Calvet remonta
ao caso da diglossia grega, utilizado por Ferguson. Vejamos este exemplo nas
palavras de Calvet (2002, p. 62).

O caso da Grécia, que Ferguson tomava como um de seus exemplos,


mostra-se, 30 anos depois, completamente modificado: a variedade
“baixa” de Ferguson, o grego demótico, é hoje língua oficial e a antiga
variedade “alta” será dentro em pouco língua morta. De modo geral, a
história nos mostra que quase sempre o futuro das variedades “baixas”
é vir a ser variedade “alta” (foi esse o caso das línguas românicas,
francês, espanhol, português etc., com relação ao latim).,

Como vimos, a questão do bilinguismo/multilinguismo é bastante complexa


e pode ser vista sob diversos pontos de vista. Aqui uma das questões que nos interessa
no bilinguismo/multilinguismo é refletir sobre a diversidade linguística envolvida
nesse fenômeno, principalmente nos casos de diglossia, em que temos duas variantes
concorrentes na mesma língua e do contato entre línguas, que acabam por gerar
outros fenômenos como novas línguas, de acordo com o que vimos até aqui.

43
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste Tópico 3 estudamos os conceitos de bilinguismo e multiliguismo,
os quais têm como base a ideia de um indivíduo que fala duas ou mais línguas.
Vimos também que o bilinguismo pode ser individual ou social. O primeiro se
refere a pessoas que falam duas línguas porque aprenderam/adquiriram em
condições individuais e particulares. Já o bilinguismo social é aquele que envolve
uma determinada comunidade em que duas ou mais línguas estão em contato.

Vimos, portanto, que tais conceitos podem ser estudados no âmbito mais
restrito, do indivíduo, mas também de uma forma mais ampla, levando em conta
os fatores sociais e culturais envolvidos nestes fenômenos. Um destes fatores é o
contato entre línguas.

O contato entre as línguas produzirá, inevitavelmente, empréstimos e


interferências, os quais podem ser de natureza fonológica, morfológica, lexical
ou sintática. A interferência, segundo Calvet (2002), é um fenômeno individual;
já o empréstimo é um fenômeno coletivo e comum nas línguas naturais. São os
empréstimos linguísticos que dão margem a fenômenos como o estrangeirismo,
que estudaremos em mais detalhes na Unidade 3 deste Caderno de Estudos.

O contato entre línguas provoca ainda o surgimento de línguas


aproximativas, como os pidgins, e, em alguns contextos, provoca o surgimento
das línguas crioulas: línguas aproximativas que passam a ser a língua materna
da comunidade. O contato entre línguas pode também fazer surgir o fenômeno
conhecido como diglossia, quando duas variedades coexistem em uma mesma
língua, podendo gerar conflitos sociais. Neste tópico vimos, portanto, algumas
das questões envolvendo fenômenos como bilinguismo/multilinguismo e o
contato entre línguas. A partir do que estudamos, você poderá enriquecer seus
estudos, buscando ler e pesquisar os materiais que indicamos.

44
AUTOATIVIDADE

Caro acadêmico, agora que você já estudou o Tópico 3, faça um resumo


dos fenômenos que surgem do contato entre línguas.

Assista ao vídeo de
resolução desta questão

45
46
UNIDADE 1
TÓPICO 4

POLÍTICA LINGUÍSTICA E O MULTILINGUISMO

1 INTRODUÇÃO
Segundo Calvet (2002, p. 145), política linguística pode ser definida como
“[...] um conjunto de escolhas referentes às relações entre língua(s) e vida social”;
já planejamento linguístico é “[...] a implementação prática de uma política
linguística, em suma, a passagem ao ato.” O autor observa que qualquer grupo
social (ciganos, surdos, falantes de um determinado idioma) pode se reunir e
decidir uma política linguística. Contudo, o planejamento linguístico cabe
somente ao Estado, pois este é que possui as condições necessárias para colocar
uma política linguística em prática.

ATENCAO

Aqui, Caro acadêmico, voltamos para as questões envolvendo multilinguismo, o


contato entre línguas e a maneira como os indivíduos podem lidar com a diversidade linguística.

2 MULTILINGUISMO
Calvet nos apresenta duas maneiras de encarar o multilinguismo, o
primeiro envolve as práticas sociais e o segundo se dá através da intervenção sobre
estas práticas sociais. O primeiro diz respeito à maneira como as pessoas resolvem
os problemas de comunicação que surgem cotidianamente. São exemplos disso
as línguas aproximativas (pidgins) ou as veiculares, as quais surgem para resolver
problemas de comunicação entre falantes de línguas diferentes. Repare, como
nota Calvet, que tais línguas surgem de maneira espontânea, como produtos da
prática social de uso da linguagem e nada têm a ver com decretos oficiais ou leis.

Essa prática, conforme o autor, resolve também questões menores como


o surgimento de novas palavras (neologia espontânea) para dar nome a objetos/
conceitos que antes não faziam parte da língua. Hoje em dia, por exemplo, temos
uma proliferação de novas palavras ligadas às novas tecnologias que invadem
diariamente a vida da população: i-pods, tablets etc.

47
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

Por outro lado, Calvet observa que as questões que envolvem o


multilinguismo e o neologismo podem ser abordadas sob o ponto de vista da
intervenção ou do poder. Nesse caso, “[...] linguistas analisam as situações e
as línguas, descrevem-nas, constroem hipóteses sobre o futuro das situações,
proposições para regular os problemas; depois os políticos estudam as hipóteses
e as proposições, fazem escolhas, aplicam-nas”. (CALVET, 2002, p. 147-148).

Sumarizando, a estas duas maneiras de ação sobre a língua, Calvet chama de


gestão in vivo e gestão in vitro. A primeira é natural, acontece a partir da intervenção
espontânea dos falantes sobre a língua e da aceitação prática destas intervenções. Já a
segunda é artificial e se dá de maneira oficial, a partir de decretos, de leis, e pode ter
por objetivo a modernização da língua em sua escrita ou seu léxico, com as reformas
ortográficas, ou ainda pode ter um caráter ‘purista’, em defesa do que se acredita ser
uma ‘depuração’ das ‘deformidades’ que vão sendo incorporadas na língua.

Desse último caso, temos exemplos bem marcantes no Brasil, como o


antigalicismo, movimento contra a entrada de palavras francesas na nossa língua,
em meados do século 20, e mais recentemente o já citado no tópico anterior Projeto
de Lei Aldo Rebelo, uma tentativa de ‘limpar’ a língua dos estrangeirismos.

A gestão in vitro pode acontecer também, segundo Calvet, com o objetivo


de padronização da língua. O exemplo dado pelo autor é o caso na Noruega, país
que passou três séculos sob dominação da Dinamarca e depois sob jurisdição da
Suécia antes de se tornar independente, tendo como consequência linguística o
dinamarquês como padrão urbano e diversos dialetos espalhados pelo país. O país
passou, então, por propostas de padronização e sucessivas reformas ortográficas,
cada qual correspondendo a opções políticas diferentes, dentre elas, partidários
de uma língua mais próxima do dinamarquês de um lado e, de outro, partidários
de uma língua mais popular. Como resultado, as duas línguas coexistem até hoje.

Refletindo sobre esse caso da Noruega, Calvet observa que “[...] a política
linguística pode ter uma fusão simbólica e ideológica forte: na Noruega, trata-
se, essencialmente, de apagar na língua os traços da dominação dinamarquesa e
de afirmar pela unificação linguística a existência de uma nação dinamarquesa”.
(CALVET, 2002, p. 153-154).

Calvet nota também que a gestão in vitro pode ainda recuperar uma língua,
como foi o caso do Catalão, que, com a autonomia da Catalunha, houve em 1983
a recuperação de sua língua através do Estatuto de Autonomia da Catalunha,
passando o catalão a ser ensinado nas escolas e utilizado na sociedade como um
todo ao lado do espanhol.

E para finalizar, não podemos deixar de lembrar que a gestão in vitro é


capaz de fazer o reconhecimento de uma língua. A Língua Brasileira de Sinais
(LIBRAS) passou a ser reconhecida como língua da comunidade surda brasileira,
através do Decreto Presidencial nº 5.626, de 22/12/2005 (Regulamenta a Lei nº
10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais –
LIBRAS, e o artigo 18 da Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000):

48
TÓPICO 4 | POLÍTICA LINGUÍSTICA E O MULTILINGUISMO

LEI Nº 10.436, DE 24 DE ABRIL DE 2002


Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS e dá outras providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a


seguinte Lei:

Art. 1º É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais -
LIBRAS e outros recursos de expressão a ela associados.
Parágrafo único. Entende-se como Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS a forma de comunicação e
expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria,
constituem um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de
pessoas surdas do Brasil.

Art. 2º Deve ser garantido, por parte do poder público em geral e empresas concessionárias de serviços
públicos, formas institucionalizadas de apoiar o uso e difusão da Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS
como meio de comunicação objetiva e de utilização corrente das comunidades surdas do Brasil.

Art. 3º As instituições públicas e empresas concessionárias de serviços públicos de assistência à


saúde devem garantir atendimento e tratamento adequado aos portadores de deficiência auditiva, de
acordo com as normas legais em vigor.

Art. 4º O sistema educacional federal e os sistemas educacionais estaduais, municipais e do Distrito


Federal devem garantir a inclusão nos cursos de formação de Educação Especial, de Fonoaudiologia
e de Magistério, em seus níveis médio e superior, do ensino da Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS,
como parte integrante dos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN, conforme legislação vigente.
Parágrafo único. A Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS não poderá substituir a modalidade escrita
da língua portuguesa.

Art. 5º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.


Brasília, 24 de abril de 2002; 181º da Independência e 114º da República.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Paulo Renato Souza

FONTE: Disponível em: <www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/2002/L10436.htm>. Acesso em: 24


jun. 2010.

49
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

A partir dessa regulamentação, outras ações governamentais foram


tomadas no sentido de expandir o uso da LIBRAS na comunidade brasileira,
como, por exemplo, a criação dos cursos de licenciatura e bacharelado em
LIBRAS, oferecido pela Universidade Federal de Santa Catarina juntamente com
outras universidades associadas.

AUTOATIVIDADE

Caro aluno, para obter outras informações sobre políticas linguísticas,


você pode acessar o site do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em
Política Linguística - IPOL (<http://ipol.org.br>).

LEITURA COMPLEMENTAR

O MULTILINGUISMO E O FUNCIONAMENTO DAS LÍNGUAS

Eduardo Guimarães

O Brasil, como de resto a totalidade dos países do mundo, é um país


multilíngue. Um aspecto histórico fundamental do funcionamento das línguas
é que elas funcionam sempre em relação a outras línguas. Ao mesmo tempo, as
línguas são sempre divididas internamente, elas são uma e são muitas, e é por
isso que elas se modificam, se transformam. Esses aspectos têm sido tratados na
história das ciências da linguagem através da linguística histórica, da geografia
linguística, da dialetologia, da sociolinguística, da análise de discurso, dos
estudos enunciativos. Muitos conceitos e noções foram produzidos na busca da
compreensão dessa divisão necessária das línguas em seu funcionamento. Entre
estes temos o próprio conceito de língua, os conceitos e noções de dialeto, falares,
registro, estilo, mudança, variação, diversidade, unidade, heterogeneidade,
contato, substrato, adstrato, superestrato, empréstimo, estrangeirismos etc. [1].

As línguas funcionam segundo o modo de distribuição para seus falantes.


As línguas não são objetos abstratos que um conjunto de pessoas em algum
momento decide usar. Ao contrário, elas são constituídas historicamente e estão
sempre relacionadas àqueles que as falam. Não há língua portuguesa, sem
falantes desta língua, e não é possível pensar a existência de pessoas sem saber
que elas falam tal língua e de tal modo. A maioria dos brasileiros é falante de
português, os gaúchos são falantes de um falar sulista, os nordestinos, de um
falar nordestino etc. É por isso que as línguas são elementos fortes no processo
de identificação social dos grupos humanos. Isto caracteriza o que é para mim o
espaço de enunciação, lugar da atribuição das línguas para seus falantes. E cada
espaço de enunciação tem uma regulação específica, ou seja, distribui as línguas
em relação de um modo particular.

50
TÓPICO 4 | POLÍTICA LINGUÍSTICA E O MULTILINGUISMO

A característica multilíngue dos espaços de enunciação é significada


politicamente pela tensão histórica entre um imaginário de unidade, comum a
um grande número de países contemporâneos, e uma divisão das línguas e de
seus falantes. Este imaginário de unidade é parte da construção das identidades
nacionais modernas. Por outro lado é preciso considerar que as línguas não são
organismos, não são objetos, são sistemas de regularidades históricas de caráter
semiológico, significante. Assim as línguas não são estáveis, faz parte de seu
funcionamento se modificarem, transformarem-se em outras, desaparecerem.
As línguas podem ser estudadas, podem ter sua história descrita e explicada de
algum modo. E de outra parte a relação entre língua e identificação social não é
algo fixo, ao contrário, faz parte do processo político e histórico das sociedades.
Isto não quer dizer que, se um povo tem sua língua modificada, ou mesmo, no
limite, adota outra língua, ele não tem mais identidade. Isto não faz o menor
sentido. A questão é que esse povo vai se identificando de outros modos. Não
se pode, dada a própria natureza do funcionamento das línguas, fixá-las na sua
origem, assim como não faz sentido fixar qualquer sociedade na sua origem. Esse
esforço purista, se realizado, transformaria uma sociedade em caricatura.

Para falar da distribuição das línguas para seus falantes, nos Estados
Nacionais, podemos considerar alguns funcionamentos específicos dessas línguas.
Vou apresentar cinco dessas categorias, com definições que venho usando para
falar dessa questão. Língua materna: é a língua cujos falantes a praticam pelo fato
de a sociedade em que se nasce a pratica; nessa medida ela é, em geral, a língua
que se representa como primeira para seus falantes. Língua franca: é aquela que
é praticada por grupos de falantes de línguas maternas diferentes, e que são
falantes dessa língua para o intercurso comum. Língua nacional: é a língua de um
povo, enquanto língua que o caracteriza, que dá a seus falantes uma relação de
pertencimento a este povo. Língua oficial: é a língua de um Estado, aquela que é
obrigatória nas ações formais do Estado, nos seus atos legais. Língua estrangeira: é
a língua cujos falantes são o povo de uma Nação e Estado diferente daquele dos
falantes considerados como referência.

Nesses funcionamentos a língua materna de um grupo de falantes não é


necessariamente igual à língua nacional, ou oficial desse mesmo grupo. Sequer a
língua nacional é necessariamente igual à língua oficial, como veremos em alguns
exemplos um pouco mais à frente.

Feita essa caracterização, pode-se considerar que o espaço de enunciação


é o modo de distribuir, segundo as definições acima, as línguas em relação.
Uma é oficial e nacional, e materna para certos falantes, as outras são só
maternas, alguma outra pode ser uma língua franca, etc. E esse modo de
distribuição é elemento decisivo do funcionamento das línguas relacionadas.
Essa distribuição das línguas para seus falantes é sempre desigual. Uma língua,
que é materna de um grupo de falantes e nacional de todos, tem uma relação de
proeminência relativamente às outras. O espaço de enunciação é assim político.
Como dissemos, o fato de as línguas se dividirem ao funcionarem faz parte do
modo como se modificam e se tornam outras. Na história dos estudos desses

51
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

resultados das relações de línguas, a linguística passou a considerar dois casos


de modo específico, os pidgins e os crioulos. Os pidgins são línguas resultantes
de uma relação de línguas diferentes e que funcionam entre falantes de línguas
maternas diferentes para as finalidades específicas dos contatos entre eles. Os
crioulos são também línguas resultantes de uma relação de línguas diferentes
e que se estabilizam como língua materna de um grupo específico de falantes.
Desse modo o crioulo passa a ter um funcionamento generalizado que pode
chegar a ser como o das línguas que o produziram [2].

O espaço de enunciação do Brasil tem suas particularidades. Nele funcionam


o português, língua oficial e nacional e língua materna da grande maioria dos
brasileiros, línguas indígenas, línguas de imigração, línguas de fronteira, e, mesmo
que precariamente, línguas africanas. Mas essas línguas, ao funcionarem nesse
espaço específico, se modificam em virtude das relações particulares que têm,
em virtude da relação de seus falantes uns com os outros. Entre essas histórias
de relações podemos destacar a do português com as línguas indígenas, a do
português com as línguas africanas, a do português com as línguas de imigração,
e a do português com as línguas de países vizinhos [3].

Para mostrar como essa distribuição pode variar de modo significativo,


tomemos dois exemplos diferentes que envolvem a língua portuguesa fora do
Brasil. Primeiro o caso da Guiné-Bissau. O espaço de enunciação da Guiné inclui
línguas como: português, diola, balanta, manjaco, banhum, beafadas, nalus,
mandigas, gulas e o crioulo português. O português é a língua oficial da Guiné, as
demais línguas são línguas maternas de diversas etnias do país. Por outro lado o
crioulo português é a língua franca da maior parte da população, cada grupo com
sua língua materna. Como segundo exemplo, tomemos o caso de Angola. Seu
espaço de enunciação inclui o português, o ovibundo, o quimbundo, o umbundu,
o kicongo, o congo. O português é a língua oficial de Angola e cada grupo étnico
tem sua língua materna.

No cenário multilíngue brasileiro, o conhecimento sobre a língua portuguesa


teve um papel muito particular na segunda metade do século XIX. Nesse momento,
e principalmente na década de 1880, como parte de um movimento intelectual de
separar o pensamento brasileiro da influência única de Portugal, os estudos sobre
o português no Brasil fizeram parte de um movimento que procurou estabelecer
a diferença do português do Brasil relativamente ao português de Portugal e
teve assim papel decisivo na constituição da nacionalidade brasileira [4]. Esses
estudos tomaram a forma específica de gramáticas e dicionários brasileiros
e, na forma de um conhecimento descritivo e normativo, fizeram parte da
constituição de nosso imaginário de unidade de língua nacional para o Brasil.
Como o português tornou-se a língua oficial e nacional do Brasil, sua relação
com as línguas indígenas e africanas está ligada a um processo caracterizado
por sua proeminência política, de poder, da língua portuguesa relativamente

52
TÓPICO 4 | POLÍTICA LINGUÍSTICA E O MULTILINGUISMO

a esse conjunto de línguas. E nessa medida a língua portuguesa é significada


como língua materna de todos os brasileiros, mesmo que não o seja de fato. Há
brasileiros que não falam português. E esse cenário, que caracteriza o espaço de
enunciação brasileiro, vem se modificando no decorrer dos séculos e faz parte do
embate político da população brasileira, mesmo que sua maioria não tenha disso
nenhuma consciência.

Notas
[1] Sobre estes aspectos ver, por exemplo, História da linguística (CÂMARA, 1956 e
1975). Para maiores detalhes, ver, entre outros, Paul (1880), Saussure (1916), Sapir
(1921), Meillet (1926), Schuchardt (1928), Benveniste (1935), Weinreich (1964),
Hymes (1964), Weinreich, Labov e Herzog (1968).

[2] Para melhor observar o sentido e a história das chamadas línguas pidgins e
crioulas, ver, por exemplo, Tarallo e Alkmim (1987).

[3] Esta questão tem sido objeto de atenção da Enciclopédia das línguas do Brasil,
www.labeurb.unicamp.br/elb.

[4] Sobre isso ver, entre outros, Guimarães e Orlandi (org.) (1996), Orlandi (org.)
(2001), Orlandi e Guimarães (orgs.) (2002), Orlandi (2002) e Guimarães (2004).

Bibliografia citada
Benveniste, E. Origines de la formation des noms en indo-européen. Paris,
Maisonneuve, 1935.
Câmara Jr., J.M (1956). Dicionário de linguística e gramática. Petrópolis, Vozes, 1996.
Câmara Jr., J.M. (1975). História da linguística. Petrópolis, Vozes.
Hymes, D.(org.) (1964). Language in culture and society: a reader in linguistics and
anthropology. New York.
Guimarães, E. (2004). História da semântica. Sujeito, sentido e gramática no Brasil.
Campinas, Pontes.
Guimarães, E. e Orlandi, E. P. (orgs.) (1996). Língua e cidadania. Campinas, Pontes.
Meillet, A. (1926). Linguistique historique et linguistique genérale. Paris, Klincksieck.
Orlandi, E. P. (org.) (2001). História das ideias linguísticas no Brasil. Campinas,
Pontes/ Unemat Editora.
Orlandi, E. P. (2002). Língua e conhecimento linguístico. São Paulo, Cortez.
Orlandi, E. P. e Guimarães, E. (orgs.) (2002). Institucionalização dos estudos da
linguagem. A disciplinarização das ideias linguísticas. Campinas, Pontes.
Paul, H. (1880). Princípios fundamentais da História da Língua. Lisboa, Gulbenkian, 1966.
Sapir, E. (1921). A linguagem. Rio de Janeiro, Acadêmica, 1954.
Saussure, F. (1916). Curso de linguística geral. São Paulo, Cultrix, 1970.
Schuchardt, H. (1928). Hugo Schuchardt Brevier. Org. L. Spitzer, Halle.
Tarallo, F. e Alkminm, T. (1987). Falares crioulos. Línguas em contato. São Paulo, Ática.
Weinreich, U. (1964). Languages in contact. The Hague, Mouton.
Weinreich, U., Labov,W. e Herzog,M. (1968). “Empirical foundations for a
theory of language change”. In: Directions for historical linguistics. Austin,
University of Texas Press.

53
UNIDADE 1 | SOCIOLINGUÍSTICA: ASPECTOS GERAIS

Eduardo Guimarães é professor titular de semântica do Departamento de Linguística e


pesquisador do Laboratório de Estudos Urbanos da Unicamp; é coordenador do Projeto
Capes/Cofecub “Controle Político da Representação: Uma História das Ideias”, e da
Enciclopédia das Línguas do Brasil; é pesquisador 1B do CNPq.
FONTE: Disponível em: <http://www.labjor.unicamp.br/patrimonio/materia.php?id=212>. Acesso
em: 24 jun. 2010.

54
RESUMO DO TÓPICO 4
Este último tópico fecha nossos estudos sobre o contato entre línguas
e alguns dos fenômenos envolvidos. Aqui, começamos a estudar as questões
envolvidas em políticas linguísticas e o multilinguismo. Calvet (2002) aponta duas
maneiras de encarar o multilinguismo: o primeiro envolvendo as práticas sociais
e o segundo através da intervenção sobre estas práticas sociais. No primeiro
caso, são as decisões que as pessoas tomam em seu cotidiano para resolver os
problemas de comunicação que surgem. No segundo caso, existe a intervenção
ou o poder do Estado.

Vimos também que a estas duas maneiras de ação sobre a língua Calvet
chama de gestão in vivo e gestão in vitro. A primeira é natural, acontece a partir
da intervenção espontânea dos falantes sobre a língua e da aceitação prática
destas intervenções. Já a segunda é artificial e se dá de maneira oficial, a partir
de decretos, de leis, e pode ter por objetivo a modernização da língua em sua
escrita ou seu léxico, com as reformas ortográficas, ou ainda pode ter um caráter
‘purista’, em defesa do que se acredita ser uma ‘depuração’ das ‘deformidades’
que vão sendo incorporadas na língua.

Muitos dos aspectos envolvendo língua e sociedade tratados pela sociolinguística


nesta primeira unidade serão retomados nas Unidades 2 e 3, alguns serão
aprofundados, outros serão vistos sob diferentes pontos de vista.

55
AUTOATIVIDADE

Agora que você já leu atentamente a Unidade 1, encontre no caça-


palavras a seguir os principais conceitos estudados pela sociolinguística.

Conceitos: Diglossia – Pidgin – Sabir – Empréstimo linguístico –


Interferência linguística – Bilinguismo – Multilinguismo – Comunidade de
fala – Dialeto – Língua – Crioulo

O  H  G  Z  G  H  U  M  T  W  S  A  B  X  T  T  K  H  V  H  O  L  J  Y
T  R  B  Q  E  W  X  C  E  B  I  L  I  N  G  U  I  S  M  O  M  O  I  O
E  U  J  C  Q  S  T  O  M  S  I  U  G  N  I  L  I  T  L  U  M  B  Y  Z
L  A  R  B  W  C  K  V  K  D  O  Y  Y  Z  M  A  T  O  Y  A  J  N  Z  R
A  N  W  E  S  P  Q  L  U  R  U  W  X  Q  E  Q  W  T  H  D  D  W  K  S
I  Y  B  G  U  J  K  P  K  R  L  H  P  S  K  A  X  E  L  B  K  D  I  P
D  U  K  J  O  V  M  L  I  N  G  U  A  A  T  U  L  Q  I  O  T  T  Z  V
X  Y  Y  F  M  F  N  N  C  U  B  I  C  H  T  W  U  Y  Y  V  Y  B  N  Q
I  N  T  E  R  F  E  R  E  N  C  I  A  L  I  N  G  U  I  S  T  I  C  A
V  O  C  I  T  S  I  U  G  N  I  L  O  M  I  T  S  E  R  P  M  E  X  G
R  A  W  T  T  U  V  D  M  U  J  P  W  N  L  X  C  R  P  L  R  H  B  S
F  E  R  E  G  H  T  S  T  H  L  T  O  K  P  N  F  O  Y  J  N  W  D  C
L  S  P  N  O  O  S  T  N  K  E  Y  P  F  J  I  O  O  L  U  O  I  R  C
J  Z  S  V  L  A  Z  A  L  A  F  E  D  E  D  A  D  I  N  U  M  O  C  O
M  D  T  P  B  Y  E  R  P  Q  X  Q  H  U  N  N  I  G  I  A  S  F  K  S
F  R  E  I  I  X  S  D  A  J  Z  V  N  D  Q  X  P  Q  I  I  D  S  R  D
M  L  R  G  P  K  R  Q  B  Q  M  K  A  X  W  C  B  K  T  N  Q  K  H  A
P  C  Q  T  R  S  H  O  M  Z  I  Y  N  R  E  D  O  V  F  A  B  T  Y  A
K  O  O  S  P  S  J  W  M  A  Z  H  R  R  R  L  K  F  S  D  K  D  Q  E
U  C  E  R  A  A  I  S  S  O  L  G  I  D  T  W  E  V  T  D  X  Q  K  O
Q  H  Q  T  W  B  B  C  G  K  J  R  D  Y  E  R  G  Q  L  E  B  D  T  Z
R  Z  U  O  K  G  E  E  J  F  G  Q  N  P  K  R  K  B  B  B  N  W  R  G
A  N  Z  I  H  L  O  H  X  K  C  V  R  Q  L  G  A  U  H  D  A  O  U  T
T  T  P  K  K  J  X  O  X  G  C  L  B  N  G  N  E  C  F  L  Q  V  P  M

56
UNIDADE 2

A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
Nessa unidade vamos:

• apresentar os tipos de variação linguística;

• apresentar criticamente os fundamentos teórico-metodológicos da socio-


linguística variacionista;

• refletir, investigar e discutir sobre a pertinência das variáveis sociais e lin-


guísticas como condicionadores da variação linguística.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em quatro tópicos. No final de cada tópico, você en-
contrará atividades que possibilitarão a apropriação de conhecimentos na área.

TÓPICO 1 – TIPOS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA

TÓPICO 2 – VARIAÇÃO LINGUÍSTICA: ASPECTOS TEÓRICO-METO-


DOLÓGICOS

TÓPICO 3 – AS VARIÁVEIS SOCIAIS

TÓPICO 4 – AS VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS

Assista ao vídeo
desta unidade.

57
58
UNIDADE 2
TÓPICO 1

TIPOS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA

PRONOMINAIS
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.
(Oswald de Andrade)

1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, nesta Unidade 2 vamos estudar em mais detalhes
a sociolinguística variacionista. Como vimos na Unidade 1, este ramo da
sociolinguística surgiu na década de 1960 a partir dos estudos de William Labov,
nos Estados Unidos, e desde então vem desenvolvendo pesquisas sobre variação e
mudança linguísticas nas mais variadas línguas. Esse modelo de análise linguística
também é conhecido como sociolinguística quantitativa, já que trabalha com o
tratamento estatístico e sistemático dos dados coletados.

Nesta unidade vamos apresentar a você os tipos de variação linguística


bem como a metodologia específica de coleta e codificação dos dados utilizada
pela sociolinguística variacionista, que busca analisar e explicar a diversidade
linguística. Os dois conceitos principais que vamos trabalhar aqui são o de variação
e o de mudança linguísticas e veremos como estes conceitos se relacionam com os
fatos linguísticos e com as questões sociais envolvidas na comunicação humana.

Para começar nossos estudos, vejamos então alguns exemplos de variação


linguística. Podemos considerar, didaticamente, pelo menos quatro tipos de
variação linguística: diacrônica, diatópica, diastrática e diamésica. Vejamos cada
uma delas em maior detalhe.

59
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

2 VARIAÇÃO DIACRÔNICA
Variação diacrônica (do grego dia, ‘através de’, e khrónos, ‘tempo’
(HOUAISS, 2001, p. 1.029) é a variação que ocorre no decorrer do tempo. Ao lermos
textos antigos ou mesmo ouvindo expressões utilizadas por pessoas mais velhas
podemos verificar diferenças tanto de vocabulário como gramaticais. Observe o
exemplo a seguir que mostra a propaganda de um medicamento publicada no
início do século XX. Quais diferenças linguísticas você observa nesse anúncio?

Exemplo 1: Propaganda de Cafiaspirina (Aspirina)

FIGURA 20 – PROPAGANDA DA CAFIASPIRINA

FONTE: Disponível em: <http://farm4.static.flickr.


com/3336/3448086191_a8b415fbf6_o.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2010.

Já o texto a seguir – do poeta, contista e cronista Carlos Drummond de


Andrade (1902-1987) – apresenta uma série de palavras e expressões utilizadas
no passado. Confira!

60
TÓPICO 1 | TIPOS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA

Exemplo 2:

ANTIGAMENTE

Antigamente, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas


mimosas e prendadas. Não faziam ano: completavam primaveras em geral
dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes pé de alferes,
arrastando as asas, mas ficavam longos meses debaixo do balaio. E se levavam
tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia. As
pessoas quando corriam antigamente era para tirar o pai da forca, e não cair
de cavalo magro. Algumas jogavam verde para colher maduro, e sabiam com
quantos paus se faz uma canoa. O que não impedia que, nesse entrementes
esse ou aquele embarcasse em canoa furada. Encontravam alguém que lhes
passava manta e azulava, dando as de Vila Diogo. Os mais idosos depois da
janta, faziam o quilo, saindo para tomar a fresca também tomavam cautela
de não apanhar sereno. Os mais jovens esses iam ao animatógrafo, e mais
tarde ao cinematógrafo, chupando balas de alteia. Ou sonhavam em andar
de aeroplano, os quais, de pouco siso, se metiam em camisa de onze varas, e
até em calças pardas: não admira que dessem com os burros n'água.
[...]
(Carlos Drummond de Andrade)

FONTE: Disponível em: <www.algumapoesia.com.br/.../drummond07.htm>. Acesso em: 24 abr.


2010.

No exemplo 3 a seguir, você lerá duas estrofes de um cordel de meados


do século XIX, que transcreve um dialeto crioulo do português surgido do
contato entre línguas, falado provavelmente nos subúrbios do Rio de Janeiro. O
interessante aqui é você reparar nas semelhanças e diferenças com relação ao
português atual. Observe também que esse tipo de texto procura reproduzir a
língua falada, caracterizando também um caso de variação diamésica, que será
tratada mais adiante.

61
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

Exemplo 3:

Conversação - Cordel da cultura afro-brasileira


Conversação de Pai Manoel com Pai José e um inglez, na estação de Cascadura
sobre a questão Anglo-Brazileira

Ora viva, sinhô Zuzé,


Vossocé vem do cidáre;
Mi conta zi novidáre,
Conta turo cumo é.
Náo é nata, Pay Manoé,
Turo tá accommodáro;
Uma ingrèze renegáro,
Qui si sâma sinhô Crito,
Inventó uma cufrito;
Massi turo tá acabáro.

Voce dize: tá acabáro!


Massi cumo é isso então?
Cuverno compra canhao
Desse qui sâma raiáro;
Qué navio coraçáro,
Pingata de Minié.
Pra qué isso, Pay Zuzé?
Arsená fundido bára,
Tá frutificando o barra.
Turo isso pra que é?

FONTE: DINIZ, Alai Garcia; OLIVEIRA, Gilvan Müller de (Orgs.). Conversação: cordel da cultura
afro-brasileira. Florianópolis: UFSC, 1999.

Outro exemplo que apresentamos é um trecho da Grammatica da Língua


Portuguesa com os Mandamentos da Santa Madre Igreja, do português João de Barros,
publicada em 1540. Observe as diferenças no texto da gramática ilustrado a seguir
com o português atual:

62
TÓPICO 1 | TIPOS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA

FIGURA 21 – GRAMÁTICA
Exemplo 4: Grammatica da Língua Portuguesa com os
Mandamentos da Santa Madre Igreja, João de Barros (1540)

FONTE: Disponível em:


<http://pt.wikipedia.org/wiki/
Ficheiro:Grammatica_joam_de_
barros_2.jpg>. Acesso em: 24 abr.
2010.

Ao lado:
Início do capítulo DA LETERA,
trecho da Gramática de João de
Barros.

Você pode baixar a gramática de


João de Barros neste endereço:
<http://purl.pt/12148/3/>.

FONTE: Disponível em: <http://purl.pt/12148/3/>. Acesso em: 24 abr. 2010.

63
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

3 VARIAÇÃO DIATÓPICA
As diferenças entre a língua portuguesa falada e escrita em diferentes
regiões do mundo e dentro do Brasil são exemplos de variação diatópica (do
grego dia, ‘através de’, e topikós, ‘relativo a lugar’. (HOUAISS, 2001, p. 1.029-1.033).

Nosso primeiro exemplo de variação diatópica – comentado por Marcos


Bagno em seu livro Português ou brasileiro?: um convite à pesquisa (2002) – diz
respeito a diferenças semânticas dos verbos ter e haver entre o português do Brasil
(PB) e o português europeu (PE) – ou português de Portugal, o que pode provocar
alguns mal-entendidos, como mostra o relato a seguir.

Exemplo 1:

Um amigo meu, brasileiro, entrou numa loja em Lisboa e perguntou ao


vendedor: “Tem filme para máquina fotográfica?” O vendedor, muito gentil,
respondeu: “Ter, temos, mas não há”. Meu amigo ficou confuso, e não é para
menos. Ele não sabia que os portugueses não usam o verbo ter com o sentido
impessoal haver, como nós, brasileiros, fazemos (e como eles, portugueses,
na Idade Média). Assim o vendedor entendeu a pergunta como “[Vocês]
têm filme para máquina fotográfica?” Por isso respondeu: “Ter, temos
[normalmente], mas [agora, neste momento] não há [filme na loja para vender]”.

FONTE: BAGNO, Marcos. Português ou brasileiro? um convite à pesquisa. 3. ed. São Paulo:
Parábola, 2002. p. 37.

Ilari e Basso (2006, p. 157-158) apontam uma lista de diferenças entre o PB


e o PE, da qual destacamos as seguintes:

• enfraquecimento na pronúncia de sílabas pré-tônicas no PE: Ma-ria x M’ria;

• o l no final de sílaba é pronunciado como a velar /l/ no PE e como semivogal


/w/ no PB. Ex.: alto PE /alto/ x PB /awto/;

• no PE se emprega com mais frequência os pronomes pessoais clíticos (oblíquos).


Outra diferença é que no PB, mas não no PE, é possível um clítico na primeira
posição absoluta da frase: Me dá um cigarro (exemplo do poema Pronominais,
de Oswald de Andrade, utilizado na epígrafe desta unidade);

• em construções progressivas junto com o verbo estar, no PE é utilizada a


construção a preposição a + infinitivo (estou a cantar), ao passo que o PB utiliza
a construção com o gerúndio (estou cantando);

64
TÓPICO 1 | TIPOS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA

• o PE usa si como anafórico de expressões de tratamento: Senhor Doutor, esta


carta é para si. Já no PB a expressão de tratamento é repetida: Doutor, essa carta é
para o senhor;

• há também algumas diferenças de vocabulário entre o PB e o PE. Citamos


alguns exemplos: chope x cerveja de pressão, moça x rapariga, trem x comboio,
banheiro x casa de banho, AIDS x SIDA etc.

Um exemplo clássico de variação diatópica, que você vai encontrar em


diversos manuais que tratam do assunto, é o caso do que comumente se chama
dialeto caipira, que consideramos como uma das variedades do português brasileiro.
Leia o texto a seguir e procure identificar as características dessa variedade.

FIGURA 22 – CAIPIRA
Exemplo 2:

A kremesse
(Olegário Mariano)

Foi num dia de kremesse


Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nóis se encontrasse
Pra que nóis dois se queresse,
Pra que nóis dois se gostasse.
Um dia, na feira, eu disse
Com voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
“Rosinha, se eu te falasse,
Se eu te beijasse na face...
Tu me dasse um beijo?” – “Dou-se”.

E toda vez que nos vemo


A um só tempo preguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
“Quando é que nóis se casemo, FONTE: Disponível em:<http://www.
Nóis que tanto se queremo, violatropeira.com.br/caipira%20picando
%20fumo1.jpg>.Acesso em: 27 jun. 2010.
Pro que esperemo, pro quê?”

FONTE: Platão e Fiorin (2003, p. 31)

65
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

Você já deve ter lido muitas piadas que circulam pela internet que
retratam a variação nos falares regionais. A seguir temos um exemplo disso
a partir do comportamento linguístico do assaltante de diferentes regiões do
Brasil. Vamos conferir?

Exemplo 3:

Assaltante nordestino
Ei, bichim... Isso é um assalto... Arriba os braços e num se bula nem se cague
e nem faça bagunça...Arrebola o dinheiro no mato e não faça pantim senão
enfio o peixeira no teu bucho e boto teu pra fora!” Perdão meu Padim Ciço,
mas é que eu tô com uma fome de moléstia...

Assaltante mineiro
Ô sô, prestenção... Isso é um assalto, uai... Levanta os braços e fica quetin que
esse trem na minha mão tá cheio de bala... Mió passá logo os troado que eu
num tô bão hoje. Vai andando, uai! Tá esperando o que uai!!

Assaltante gaúcho
Ô guri, ficas atento... Báh, isso é um assalto. Levantas os braços e te quieta,
tchê. Não tentes nada e cuidado que esse facão corta uma barbaridade, tchê.
Passa as pilas pra cá! E te manda a la cria, senão o quarenta e quatro fala.

Assaltante baiano
Ô meu rei... ( longa pausa) Isso é um assalto... (longa pausa) Levanta os
braços, mas não se avexe não... (longa pausa) Se num quiser nem precisa
levantar, pra num ficar cansado... Vai passando a grana, bem devagarinho...
(longa pausa) Num repara se o berro está sem bala, mas é pra não ficar muito
pesado... Não esquenta, meu irmãozinho, (longa pausa)
Vou deixar teus documentos na encruzilhada...

Assaltante paulista
Ôrra, meu... Isso é um assalto, meu... alevanta os braços, meu. Passa a grana
logo, meu... Mais rápido, meu, que eu ainda preciso pegar a bilheteria aberta
pra comprar o ingresso do jogo do Curintia, meu... Pô, se manda, meu...

Assaltante de Brasília
Querido povo brasileiro, estou aqui, no horário nobre da TV para dizer que
no final do mês, aumentaremos as seguintes tarifas: água, energia, esgoto,
gás, passagem de ônibus, IPTU, IPVA, licenciamento de veículos, seguro
obrigatório, gasolina, álcool, imposto de renda, IPI, ICMS, PIS, COFINS.

FONTE: Autor desconhecido. Disponível em: <http://crv.educacao.mg.gov.br/sistema_crv/


escolaintegral/pdf/Oficina3_VariacaoLinguistica.pdf>. Acesso em: 5 jun. 2010.

66
TÓPICO 1 | TIPOS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA

Para finalizar os exemplos de variação diatópica, selecionamos a letra


da canção ABC do Sertão, dos pernambucanos Zé Dantas e Luiz Gonzaga, que
mostra as diferenças entre a maneira de nomear as letras do alfabeto em algumas
regiões do Brasil como o Nordeste, de um lado, e no Sul do Brasil, de outro.

Exemplo 4:

ABC do Sertão
(Luiz Gonzaga - Composição: Zé Dantas/Luiz Gonzaga)

Lá no meu sertão pros caboclo lê


Têm que aprender um outro ABC
O jota é ji, o ele é lê
O esse é si, mas o erre
Tem nome de rê
Até o ypsilon lá é pissilone
O eme é mê, o ene é nê
O efe é fê, o gê chama-se guê
Na escola é engraçado ouvir-se tanto "ê"
A, bê, cê, dê,
Fê, guê, lê, mê,
Nê, pê, quê, rê,
Tê, vê e zê.

FONTE: Disponível em: <http://letras.terra.com.br/luiz-gonzaga/47079/>. Acesso em: 5 jun. 2010.

4 VARIAÇÃO DIASTRÁTICA
A variação diastrática (do grego dia, ‘através de’, e do latim strătum,
‘cama, coberta de cama’, por extensão, ‘camada’ (HOUAISS, 2001, p. 1.029, 1.033),
está relacionada com as diferenças linguísticas nos vários estratos sociais das
comunidades linguísticas. Esses estratos configuram-se de diferentes maneiras,
dentre as quais destacamos: classe social, faixa etária, sexo (gênero), grupos
profissionais ou que compartilham uma atividade específica etc.

No âmbito lexical, o vocabulário adotado por esses grupos sociais é muitas


vezes denominado de gíria ou jargão, este último associado ao léxico empregado
por grupos profissionais. Já no âmbito gramatical, é comum se referir a essas
variedades como “subpadrão” ou “sub-standard”, por serem associadas à língua
falada ou a grupos da população com menos escolarização.

67
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

NOTA

Nesta unidade usaremos indiscriminadamente o termo padrão ou standard


(língua padrão, variedade padrão) como a variedade mais formal da língua. Na próxima
unidade, discutiremos a respeito da padronização da língua e apresentaremos também o
conceito culto (língua culta, variedade culta).

O exemplo a seguir é a transcrição da fala do escritor, ator e diretor Plínio


Marcos (1935-1999) para um vídeo veiculado no final dos anos 1980. O objetivo
do vídeo é persuadir os presidiários a adotar meios de prevenção contra a AIDS.
Para isso, o ator se faz passar como um bandido adotando uma variedade de
português associada àquele grupo social.

AUTOATIVIDADE

Leia o texto a seguir e retire algumas gírias ou expressões utilizadas


por Plínio no intento de convencer os detentos à prevenção das DST.

Exemplo 1:

EI, AMIZADE!

(Vídeo exibido na Casa de Detenção, em São Paulo, realizado pela agência


Adag e pela TV Cultura)

Aqui é Plínio Marcos, bandido também. Atenção, malandragem! Eu


não vou pedir nada, só vou dar um alô. Te liga aí!

Aids é uma praga que rói até os mais fortes. E rói devagarinho, deixa
o corpo sem defesa contra a doença. Quem pega essa praga está ralado de
verde e amarelo, do primeiro ao quinto, sem vaselina. Não tem doutor que dê
jeito. Nem reza brava. Nem choro, nem vela. Nem ‘ai Jesus’. Pegou Aids, foi
pro brejo... Agora, sente o aroma da perpétua: Aids passa pelo esperma e pelo
sangue. Entendeu? Pelo esperma e pelo sangue. Eu não estou te dando este
alô pra te assombrar. Então, se toca! Não é porque tu tá na tranca que virou
anjo. Muito pelo contrário, cana dura deixa o cara ruim. Mas é preciso que
cada um se cuide. Ninguém pode valer pra ninguém esse negócio de Aids.

68
TÓPICO 1 | TIPOS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA

Então, já viu, transar, só de acordo com o parceiro e de camisinha.


Tu aí que é metido a esculachar os outros, metido a ganhar o companheiro
na força bruta, na congesta: para com isso, senão tu vai acabar empesteado.
Aids não toma conhecimento de macheza, pega pra lá e pega pra cá. Pega em
homem, pega em bicha, pega em mulher, pega em roçadeira. Pra essa peste
não tem bom: quem bobeia fica premiado. E fica um tempão sem saber... Daí,
o mais malandro, no dia de visita, recebe mamão com açúcar da família e
manda pra casa o Aids. E não é isso que tu quer, né, vago mestre? Então, te
cuida! Sexo, só com camisinha. Quem descobre que pegou a doença se sente
no prejuízo e quer ir à forra, passando pros outros. Sexo, só com camisinha.
Não tem escolha, transar, só com camisinha.

Quanto a tu, mais chegado ao pico... Estou sabendo que ninguém


corta o vício só por ordem da chefia. Mas escuta bem, vago mestre, a
seringa é o canal pro Aids. No desespero, tu não se toca, não vê, não quer
nem saber. Às vezes, a seringa vem até com um pingo de sangue e tu mete
ela direto em ti. Às vezes ela parece que vem limpona e vem com a praga. E
tu, na afobação, mete ela direto na veia. Aí, tu dança. Tu, que se diz mais tu,
mas não pode aguentar a tranca sem pico, te cuida. A farinha que tu cheira
e a erva que tu barrufa enfraquecem o corpo e deixa tu chué da cabeça e
dos peitos, e aí tu fica moleza pro Aids. Mas o pico é canal direto pra essa
praga que está aí.

Então, malandro, se cobre! Quem gosta de tu é tu mesmo. A saúde é


como liberdade. A gente só dá valor pra ela quando ela já era.

FONTE: Disponível em: <http://www.pliniomarcos.com/teatro/teatro-eiamizade.htm>. Acesso


em: 4 jun. 2010.

Agora vamos ler o texto escrito pelo maestro Júlio Medaglia, que utiliza
gírias de integrantes e ouvintes de grupos de rock. Ao utilizar um registro
diferente do padrão, com vocabulário e construções gramaticais diferentes do
padrão, Medaglia procura convencer a então prefeita de São Paulo e os jovens
roqueiros da necessidade de valorizar a música erudita. Repare que aqui a
variação linguística é utilizada como uma estratégia argumentativa:

69
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

Exemplo 2:

Pô, Erundina, massa! Agora que o maneiro Cazuza virou nome num
pedaço aqui na Sampa, quem sabe tu te anima e acha aí um point pra botá
o nome de Madalena Tagliaferro, Cláudio Santoro, Jaques Klein, Edoardo
de Guarnieri, Guiomar Novaes, João de Souza Lima, Armando Belardi e
Ramamés Gnatalli... Esses caras não foi cruner de banda a la “Trogloditas do
Sucesso”, mas se a tua moçada não manjar quem eles foi, dá um look aí na
Enciclopédia Britânica ou no Groves Internacional e tu vai sacá que o astral
do século 20 musical deve muito a eles.

FONTE: Júlio Medaglia, di-jei do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Painel do leitor, Folha de
São Paulo, 4 out. 1990 apud Abaurre; Possenti. Vestibular Unicamp; língua portuguesa apud
Platão; Fiorin, 2003.

Um outro exemplo de variação diastrática pode ser conferido nas letras


de rap, funk, hip-hop e outros gêneros de música popular urbana na periferia de
grandes cidades e mesmo em muitas cidades afastadas desses grandes centros.
A seguir você encontra a transcrição da letra do rap Eu Dô a Fita, do grupo Trilha
Sonora do Gueto. Verifique as diferenças lexicais e gramaticais entre a variedade
presente na letra do rap e a variedade padrão da língua portuguesa.

Exemplo 3:

Eu Dô A Fita - Trilha Sonora do Gueto


Composição: Trilha Sonora do Gueto

Eu dô a fita
Eu premedito todo uma situação
que envolve engenharia tipo uma construção
nois do gueto a mão de obra a elite que informa
se o gerente tiver dano a fita noi nem se incomoda
e seis achavam que nois era tipo mágico de OZ
que no crime do Banco Central a gente tava sós
adivinha quem que deu, se descobre e me fala
o gerente, tesoureiro, os gravata lá da mala
e ceis se lembra que de tanto a elite nos julgar
hoje ela se igualou e no crime também tá
traficando, assaltando, tá furtando que estrago

70
TÓPICO 1 | TIPOS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA

tá matando e em Brasília praticando peculato


e em 90 roubar banco era coisa de ladrão
hoje é golpe no seguro tá ligado moro jão
nois imboca, pega o guarda, o lobo corre pro cofre
o chanpouco fura-lata faz escolta pro malote
o gerente fica rindo como se tivesse gostando
eu ligeiro fui pensando, qual que era o seu plano
foi então que eu descolei o que mudou de 90
nois da sorte pega 30, ele declara 80

Refrão
Eu dô a fita e você a minha parte
se sujar ocê seguro o B.O. lá no DECAP
eu sou o gerente (eu sou) ou quem sabe o tesoureiro
jamais vão desconfiar que eu informo do dinheiro
eu dô a fita mas com uma condição
você traz uma peteca do barato da fundão
sou o gerente e ninguém vai desconfiar
que com a rapa do cidade alerta
eu gosto de colar

é nois que tá, com a fama de ladrão


várias vezes fui barrado no Bradesco do capão
o guarda saca o revolver e dispara o preconceito
“vira de costa e levanta a camisa aí, suspeito”
deve ser porque sou feio cara de cidade alerta
que o Datena gosta de julgar, aquele boca aberta
nem se liga que a elite já tá tudo desandando
Ryan Gracie, Richthofen não faz parte do seu plano
deve ser que não é viável né só pela influência
ou porque seu rabo é preso e tem medo da consequência
e não é pra esquecer, nois do gueto que tem culpa
que não pega os furador e corta esses filhos da puta
vai correndo na TV, diz que faço apologia
terrorista da caneta, vida loka que num vira
já nasceu revolução em 70 no capão
diferente da elite eu mostro a cara sangue bom

Repete refrão
É NOIS QUE TÁ!

FONTE: Disponível em: <http://letras.terra.com.br/trilha-sonora-do-gueto-musicas/1321000/>.


Acesso em: 24. abr. 2010.

71
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

5 VARIAÇÃO DIAMÉSICA
A variação diamésica, etimologicamente, relaciona-se “[...] ao uso de
diferentes meios ou veículos”. (ILARI; BASSO, 2006, p. 180). Com relação às
línguas, destacam-se as diferenças entre a língua falada e a língua escrita. O
exemplo a seguir, do apresentador Jô Soares, mostra como o autor ironiza a
tendência de minimizar ou mesmo ignorar as diferenças entre as variedades
oral(is) e escrita(s) da língua portuguesa. Confira!

Exemplo 4:

“Pois é. U purtuguêis é muito fáciu di aprender, purqui é uma língua qui a genti
iscrevi ixatamenti cumu si fala. Num é cumu inglêis qui dá até vontadi di ri
quandu a genti discobri cumu é qui si iscrevi algumas palavras. Im portuguêis, é
só prestátenção. U alemão pur exemplu. Qué coisa mais doida? Num bate nada
cum nada. Até nu espanhol qui é parecidu, si iscrevi muito diferenti. Qui bom
qui a minha língua é u purtuguêis. Quem soubé falá, sabi iscrevê.”

FONTE: SOARES, Jô. Veja, 28 nov. 1990, p. 19. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/
acervodigital/home.aspx>. Acesso em: 24 jun. 2010.

Você pode observar que muitas vezes no dia a dia a fala apresenta
diferenças com a escrita: né x não é, vambora x vamos embora, tá x está, além dos
próprios exemplos apresentados no texto anterior e em muitos outros. Além
disso, é importante apontar que as diferenças entre fala e escrita não dizem
respeito apenas à forma das palavras, pois há diferenças profundas entre cada
uma das modalidades.

Faraco e Tezza (2001), nesse sentido, consideram que ao escrever não se


trata apenas de “imitar a fala”; quando escrevemos há a necessidade de reformular
a fala em uma outra gramática. Com o intuito de apresentar as diferenças entre a
gramática da fala e a gramática da escrita, os autores apontam oito (8) diferenças,
que resumimos a seguir:

QUADRO 4 – DIFERENÇAS ENTRE FALA E ESCRITA


Modalidade oral Modalidade escrita
Ampla variedade Modalidade única (“língua padrão”)
Sinais gráficos
Elementos extralinguísticos
Há apenas os sinais gráficos, “desenhos
Gesticulação, expressão facial, riso, sons
num papel branco”
Sinais gráficos
Prosódia e entonação Ponto de exclamação, ponto de
interrogação, reticências, aspas...

72
TÓPICO 1 | TIPOS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA

Frases mais curtas Frases mais longas


Redundância Concisão
Unidade temática: rigidez
Unidade temática: flutuação
Necessidade de coesão entre as partes
Mudança de assunto no meio da conversação é mais
do texto e subordinação à unidade
frequente
global do texto
Interlocutor: ausência
Interlocutor: presença
Na escrita escrevemos para um
Na conversa falamos diante de alguém
interlocutor “virtual”
Aprendizagem “natural” Aprendizagem “artificial”
Aos 2 anos de idade a criança, se exposta aos falantes, A escrita depende de um trabalho
da comunidade linguística, já domina um sistema longo de aprendizagem e é preciso que
linguístico altamente complexo. alguém ensine.

FONTE: Faraco; Tezza (2001, p. 111-115)

A seguir apresentamos como exemplo a transcrição de um bate-papo na


internet, um gênero de discurso em que há uma mescla de oralidade e escrita,
devido às condições em que é produzido: a interlocução se dá praticamente de
forma alternada em tempo real, o que faz com que os usuários tenham pouco
tempo de planejamento e procurem adotar uma variedade próxima da oralidade,
utilizando até mesmo recursos gráficos, abreviações etc.:

Exemplo 5:

Bate-papo na internet
Transcrição do chat com Roman Romancini
[Nath] - Aloha, Roman... bem-vindo!
[Roman] - Olá pessoal...
[ana menina] - olá
[Roman] - Mahalo Nath...
[trilhaseaventuras] - Pessoal... esse é o ROMAN... nosso expedicionário, ehhehe
[Roger] - Aêêê!!!
[Roman] - sem rótulos por favor... melhor de chamar 'nosso amigo'...
[Roman] - :-)
[ana menina] - :-)
[trilhaseaventuras] - hehehehe, foi mal AMIGÃO
[Nath] - *Nath esfregando as mãozinhas...
[trilhaseaventuras] - o que acham de começarmos?
[Roman] - e aí, tudo bem?
[Roger] - BORA!!!
[Nath] - podemos?! ^^
[Roman] - Vamos. Quem é o primeiro?
[Roger] - Roman, em primeiro lugar... Parabéns pela expedição!!!!
[Roger] - FANTÁSTICA!!!

73
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

[Roman] - Obrigado, seguimos os sonhos.


[Roger] - isso é estimulante pra todos nós que partilhamos o gosto pela
aventura e pela liberdade...
[Roman] - Ainda preciso escrever um pouco mais sobre tudo o que aconteceu.
Tem muito pra contar
[Roger] - sem dúvida...
[ana menina] - eu imagino
[Roman] - os "perrengues", as brigas, as risadas, os choros... uma empreitada
dessas vai fundo ... vc acaba passando por uma terapia...
[trilhaseaventuras] - Roman, conta um pouco sobre a preparação de uma
Expedição como esta...
[Roman] - Oba! uma pergunta enfim...
[Roman] - Existem algumas vertentes deste termo preparação. Para uma
expedição deste porte, tem a preparação física, a logística, o planejamento, a
preparação psicológica, a técnica e finalmente a financeira
[Roman] - Quanto à física, treinei duro (2 vezes por dia) por uns 4 a 5 meses
antes da escalada, embora mantivesse um nível de condicionamento
[Roman] - Já vinha estudando esta montanha há mais de um ano... fiz várias
buscas na internet e comprei 4 livros sobre a escalada do Denali...
[Roman] - Quanto à financeira, essa foi a mais difícil... Só consegui apoio
financeiro nos 47 do segundo tempo.
[trilhaseaventuras] - ahhahah, é verdade... sei bem dessa história :S
[Nath] - então não é algo de vc estar em casa, pular do sofá, arrumar o equipo e
resolver ir... até mesmo pra um cara preparado e condicionado como vc, deve
haver uma preparação especial... é isso?!
[Roman] - Isso mesmo Nath... estou escalando alta montanha seriamente desde
2000. Fiz cursos e comecei com montanhas mais baixas e mais "leves"

A íntegra do bate-papo está disponível no seguinte site: <http://www.


trilhaseaventuras.com.brdiariov/iagem/viagem.asp?id=205&id_colunista=11>.

NOTA

Antes de encerrar este tópico, repetimos o que foi comentado no seu início:
os tipos de variação apresentados (diacrônica, diatópica, diastrática e diamésica) encerram
uma visão didática, pois cada uma delas está interligada às outras. Para mostrar os mesmos
tópicos estudados até aqui através de um recorte um pouco diferente, selecionamos a seguir
um texto extraído do livro de Faraco e Tezza (2001). Confira!

74
TÓPICO 1 | TIPOS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA

LEITURA COMPLEMENTAR

DIVERSIDADE LINGUÍSTICA

Carlos Alberto Faraco


Cristovão Tezza

[...] Nós já percebemos que a língua é um imenso conjunto de variedades.


[...] E que fatores determinam essa variedade? Isto é, por que as pessoas falam
mais ou menos diferente umas das outras? Considerando apenas os exemplos
acima, podemos enumerar algumas razões. Veja:

a) A região do falante: Esse aspecto talvez seja o mais imediatamente


compreensível de todos. Isto é, cada região do país tem um conjunto mais
ou menos homogêneo de características fonéticas, um sotaque próprio que dá
traços distintivos ao falante nativo, um sotaque que, em geral, passa a ser a sua
marca mesmo quando ele não vive mais em sua região de origem. A região
determina mais diretamente a pronúncia (leitchi X leite), mas também pode
diferenciar o vocabulário (mandioca X macaxeira) e pela sintaxe (Diga-me, em
Portugal X Me diga, no Brasil).

b) O nível social do falante, sua escolaridade e sua relação com a escrita. Esse é
outro aspecto fundamental na distinção das variedades, e em geral independe
dos sotaques regionais. Aqui as distinções tocam diretamente algumas formas
da língua reproduzidas pela escola e sustentadas na escrita, como alguns
pontos de concordância verbal (nós vamos X nóis vai), emprego de alguns termos
estigmatizados (menos X menas), vocabulário mais ou menos literário, etc.

c) A situação da fala, isto é, todo o conjunto das circunstâncias que cercam o


momento do enunciado. O mesmo falante empregará variedades diferentes da
linguagem, dependendo de onde ele está (na sala de aula, no campo de futebol,
em casa), da pessoa ou pessoas com quem ele está falando (o chefe, a mãe, um
assaltante, o vizinho, um desconhecido no ponto de ônibus), a sua intenção ao
falar (dar uma ordem, convencer alguém, fazer um pedido, recusar um pedido,
pedir alguém em casamento, mentir), a situação específica (um incêndio, um
entardecer à beira do mar, com pressa atravessando a rua) – e as possibilidades
aqui são virtualmente infinitas.

Apesar dessa imensa variedade, parece que, de uma forma ou de outra,


todos (ou quase todos!) costumamos nos entender razoavelmente, pelo menos em
situações básicas de comunicação. Há, ainda, um outro fator bem interessante:
em geral, as variedades linguísticas são capazes de intercomunicação, isto é,
grande parte das variedades conversam entre si. Em alguns casos, umas comentam
as outras, como ocorre quando brincamos com o sotaque de um amigo ou nas
festas juninas em que o falante urbano tenta imitar a fala caipira.

75
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

Nessa conversa entre as variedades, umas podem, inclusive, exercer


certa influência sobre outras, mudando-lhes progressivamente características
mais tradicionais. As pesquisas linguísticas têm mostrado que formas típicas
de variedades menos prestigiadas socialmente estão entrando na língua padrão
(a fala padrão, por exemplo, já admite amplamente a ocorrência de construções
como Esse foi o filme que eu mais gostei em contraste com a construção padrão
clássica Esse foi o filme de que eu mais gostei.)

Por outro lado, é perceptível que o intenso contato nas nossas cidades
entre variedades rurais e urbanas do português brasileiro, decorrente da maciça
migração da população do campo para a cidade, está redundando na substituição
progressiva da pronúncia rural típica de palavras como veia, paia, teia pela urbana
típica (velha, palha, telha).

(FONTE: Faraco; Tezza (2001, p. 12)

DICAS

Para mais exemplos de variação, leia o capítulo “Português do Brasil: a variação


que vemos e a variação que esquecemos de ver”, do livro O português da gente: a língua que
estudamos, a língua que falamos, de Rodolfo Ilari e Renato Basso (2006), da Editora Contexto.

FIGURA 23 – O PORTUGUÊS DA GENTE

FONTE: Disponível em: <http://www.editoracontexto.com.br/


produtos/CAPA_PORT_GENTE.jpg>. Acesso em: 4 jun. 2010.

76
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, estudamos os tipos de variação separando-os didaticamente
e ilustrando-os com textos. Vejamos um resumo de cada variação:

a) Variação diacrônica: (do grego dia, ‘através de’, e khrónos, ‘tempo’ (HOUAISS,
2001, p. 1.029) é a variação que ocorre no decorrer do tempo.

b) Variação diatópica: as diferenças entre a língua portuguesa falada e escrita em


diferentes regiões do mundo e dentro do Brasil.

c) Variação diastrática: (do grego dia, ‘através de’, e do latim strătum, ‘cama,
coberta de cama’, por extensão, ‘camada’ (HOUAISS, 2001, p. 1.029-1.033)
relaciona-se com as diferenças linguísticas nos vários estratos sociais das
comunidades linguísticas.

d) Variação diamésica: etimologicamente, relaciona-se “[...] ao uso de diferentes


meios ou veículos” (ILARI; BASSO, 2006, p. 180). Com relação às línguas,
destacam-se as diferenças entre a língua falada e a língua escrita.

Vimos também que, embora as tenhamos separado por questões didáticas,


cada uma delas está interligada às outras, devido à diversidade linguística. Isso
significa que podemos encontrar num mesmo texto mais de uma destas variedades
e podemos inclusive encontrar dificuldades para distingui-las.

77
AUTOATIVIDADE

Faça uma relação de diferenças lexicais entre PB e PE. Para isso, consulte
o link a seguir: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_diferen%C3%A7as_
lexicais_entre_vers%C3%B5es_da_l%C3%ADngua_portuguesa>. Pesquise
também diferenças lexicais e gramaticais entre as variedades de português
faladas nos países lusófonos, além de Brasil e Portugal, como: Angola, Cabo
Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Assista ao vídeo de
resolução desta questão

78
UNIDADE 2 TÓPICO 2

VARIAÇÃO LINGUÍSTICA: ASPECTOS TEÓRICO-


METODOLÓGICOS

1 INTRODUÇÃO
Justamente por acreditarem que a variação consiste numa espécie de
caos organizado, cujos princípios merecem ser escrutinados, é que
os sociolinguistas voltaram a atenção para seu exame. (CAMACHO,
2005, p. 61).

No tópico anterior nós vimos diferentes exemplos de variação linguística


e que as variações ocorrem devido à combinação de fatores sociais, regionais,
temporais e interacionais. Vejamos agora de maneira mais sistemática a
diversidade linguística, a partir do conceito de variantes linguísticas.

2 A VARIÁVEL E AS VARIANTES LINGUÍSTICAS


Segundo Tarallo (1993, p. 8), variantes linguísticas são “[...] diversas
maneiras de se dizer a mesma coisa em um mesmo contexto, e com o mesmo valor
de verdade. A um conjunto de variantes dá-se o nome de ‘variável linguística’”.

Agora vejamos o que estes conceitos significam a partir do exemplo da


marcação de plural no português brasileiro, apresentado pelo autor. Os sintagmas
nominais no português brasileiro são constituídos de um núcleo obrigatório que
pode vir acompanhado por determinantes e adjetivos. Aqui se tem uma variável
linguística associada a duas variantes “adversárias no campo de batalha da
variação: a variante (1) é a presença do segmento fônico /s/, e a variante (2), em
contrapartida, é a ausência desse segmento, ou seja, a forma ‘zero’”. (TARALLO,
1993, p. 8). Assim, a variável está representada entre parênteses angulares < >, e
as variantes entre colchetes [ ], como vemos a seguir:

79
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

Como o plural no português brasileiro pode aparecer tanto no núcleo


como nos demais elementos do sintagma nominal, teremos as seguintes variantes
para a marcação de plural:

a) oS gatoS pretoS.
b) oS gatoS pretoφ.
c) oS gatoφ pretoφ.

Repare que em (a) a marca de plural aparece em todos os elementos que


compõem o sintagma nominal (determinante, núcleo e adjetivo). Já na variante (b)
a marca de plural aparece no determinante (artigo definido) e no núcleo (gato), mas
não aparece no adjetivo. Por fim, na variante (c) a marca de plural aparece somente
no determinante. Essas três variantes da variável linguística de marcação de plural
no português brasileiro podem aparecer no mesmo contexto de uso e com o mesmo
valor de verdade, ou seja, com o mesmo significado. O que vai determinar onde
cada uma vai aparecer são os fatores sociais, regionais e interacionais.

O que a sociolinguística variacionista vai fazer, portanto, com a variação


linguística é sistematizá-la. Essa sistematização consiste, nas palavras de Tarallo, em:

1) um levantamento exaustivo de dados de língua falada, para fins de análise,


dados estes que refletem mais fielmente o vernáculo da comunidade;

2) descrição detalhada da variável, acompanhada de um perfil completo das


variantes que a constituem;

3) análise dos possíveis fatores condicionantes (linguísticos e não-linguísticos)


que favorecem o uso de uma variante sobre a(s) outra(s);

4) encaixamento da variável no sistema linguístico e social da comunidade: em


que nível linguístico e social da comunidade a variável pode ser colocada;

5) projeção histórica da variável no sistema linguístico da comunidade. A


variação não implica necessariamente mudança linguística (ou seja, a relação
de contemporização entre as variantes). A mudança, ao contrário, pressupõe
a evidência de estado de variação anterior, com resolução de morte para uma
das variantes.” (TARALLO, 1993, p. 10-11).

80
TÓPICO 2 | VARIAÇÃO LINGUÍSTICA: ASPECTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

A partir dessa sistematização e posterior análise dos dados, o que teremos


é uma sistematização estruturada do aparente caos que dominava a diversidade
linguística. Com a sistematização das variantes que constituem cada variável
da língua, é possível então formular regras gramaticais do comportamento da
variação em um determinado momento da língua. Essas regras, como nota Tarallo
(1993), não podem ser obrigatórias nem rígidas, pois poderão sofrer alterações
decorrentes de fatores linguísticos e não-linguísticos, já que as variantes estão em
constante concorrência no uso da língua.

NOTA

Aqui é importante chamar sua atenção para o Princípio da Regularidade. Veja o


que Faraco e Tezza (2001, p. 14-15) comentam a seu respeito:
O princípio fundamental de todas as gramáticas, tanto a da língua padrão como as das
variedades não padrões, é a regularidade. Isto é, todas as variedades da língua se organizam,
em todos os seus aspectos estruturais (sintáticos, morfológicos, fonéticos) de uma forma
regular e reiterável (isto é, as formas são recorrentes). Em outras palavras, por trás de todas
as frases efetivamente proferidas pelos falantes da língua existe uma organização; existe
uma gramática.
Ninguém inventa regras por conta própria; mesmo o mais miserável dos falantes, que
jamais entrou numa escola e jamais conviveu com falantes de outras variáveis sociais,
domina todo o conjunto de regras que comanda a sua variedade nativa, um conjunto que
começa a se consolidar a partir dos dois anos de idade. (grifos dos autores).

Ainda quanto à concorrência entre variantes, Tarallo chama a atenção para


o fato de que as variantes de uma variável linguística receberão uma valoração
diferente, podendo ser classificadas em padrão vs. não-padrão; inovadoras vs.
conservadoras; de prestígio vs. estigmatizadas. Segundo Tarallo, “[...] a variante
considerada padrão é, ao mesmo tempo, conservadora e aquela que goza do
prestígio sociolinguístico da sociedade. As variantes inovadoras, por outro lado,
são quase sempre não-padrão e estigmatizadas pelos membros da comunidade.”
(TARALLO, 1993, p. 12).

Voltemos aos exemplos das variantes da marcação de plural que vimos


anteriormente: a variante os gatos pretos é a padrão, conservadora e de prestígio. Já
as variantes os gatos preto e os gato preto são as variantes inovadoras, estigmatizadas
e não-padrão, consideradas como “erro” pelas pessoas em geral.

Entretanto, nem sempre essa relação acontece assim, coincidindo padrão/


prestígio/conservadora de um lado e inovadora/estigmatizada/não-padrão de
outro. Veja, por exemplo, o caso das construções a seguir, apresentado por Ilari e
Basso (2006, p. 158):

81
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

(a) Se eu sabia, eu vinha.

Repare que no português brasileiro esta construção será considerada


inovadora, estigmatizada e não-padrão. Entretanto, segundo os autores esta é a
forma padrão que o português europeu utiliza para exprimir condição, usando o
indicativo em vez do subjuntivo como o faz o português brasileiro (Se eu soubesse,
eu viria/vinha).

Mais um exemplo é o caso do uso do lhe, que, embora seja preconizado


pelo uso padrão como um pronome com função de objeto indireto, tem aparecido
mais recentemente ocupando a posição de objeto direto na língua culta, próprias
das formas “o, a, os, as”, como observa Possenti:

Já faz um bom tempo que em convites de casamento, formatura e que


tais, o “lhe” aparece na posição que, segundo as gramáticas, deveria
ser do “o”. Queiramos ou não, gostemos ou não, as formas “o, a, os, as”
e suas variantes posicionais desapareceram. […] já que as formas “o,
a, os, as” caíram em desuso, a tendência seria usar “ele” como objeto
direto. Como a reação contra essa construção ainda é forte, quando os
falantes se cuidam e tentam evitar esta forma de pouco prestígio, usam
“lhe” ao invés de “ele”, na certeza de que estão abafando. (POSSENTI,
2002, p. 30-31).

Note que a construção com “lhe” no lugar do objeto direto pode aparecer
no português brasileiro culto como uma tentativa de usar uma variante padrão e
de prestígio, embora seja uma construção tão inovadora quanto a variante com o
“ele” ocupando a posição de objeto direto. Resumindo, teremos então as seguintes
variantes para a posição de objeto direto com referência à segunda pessoa do
discurso:

a) Eu lhe conheço.
b) Eu te conheço.
c) Eu conheço você.

Já no caso de fazermos referência à terceira pessoa em posição de objeto


direto do verbo, teremos a variante padrão no exemplo (a) a seguir, com o pronome
o, e a variante estigmatizada com o pronome ele, como no seguinte exemplo em (b):

a) Eu o conheço.
b) Eu conheço ele.

Quanto à relação entre variação e mudança, é preciso ressaltar que, embora


a língua seja um conjunto de variedades, nem toda variação necessariamente leva
à mudança linguística, como bem explica Tarallo: “[...] nem tudo que varia sofre
mudança; toda mudança linguística, no entanto, pressupõe variação. Variação,
portanto, não implica mudança; mudança, sim, implica sempre variação.
Mudança é variação!” (TARALLO, 1993, p. 63).

82
TÓPICO 2 | VARIAÇÃO LINGUÍSTICA: ASPECTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

O autor observa também que os resultados de análises de variantes podem


apontar para duas situações distintas. Na primeira situação, tem-se a estabilidade
das variantes adversárias, as quais subsistem e/ou coexistem. Por exemplo, esse é o
caso da referência à primeira pessoa do plural, para a qual coexistem as formas nós
e a gente. Já na segunda situação temos a mudança em progresso, a qual reflete a
morte de uma variante em relação a outra(s). Um exemplo disso é o caso da segunda
pessoa do plural, vós, substituída no português brasileiro atual pela variante vocês.

3 LEVANTAMENTO/COLETA DE DADOS
A esta altura, caro acadêmico, você já deve ter percebido que o modelo
teórico-metodológico da sociolinguística variacionista, assim como as outras áreas
da sociolinguística, trabalha com o dado linguístico bruto, da maneira como ele se
encontra. Isso significa dizer que o objeto de estudo da sociolinguística variacionista
é a língua falada, a qual pode ser definida como “[...] o veículo de comunicação
usado em situações naturais de interação social, do tipo comunicação face a face.”
(TARALLO, 1993, p. 19). A língua falada, portanto, é o vernáculo, é a enunciação do
dia a dia capaz de expressar fatos, ideias, proposições, etc., sem a preocupação com
o como será dito, mas com o que será dito. (TARALLO, 1993).

Como o que se pretende com o método variacionista é uma análise


quantitativa do fenômeno, e uma vez que os dados linguísticos utilizados devem
ser dados da língua falada em situações naturais de interação, faz-se necessária a
coleta de um corpus que sirva de objeto de estudo para o fenômeno que se pretende
estudar. No entanto, como bem lembra Tarallo, “[...] de um lado, o pesquisador
necessita de grande quantidade de dados que somente podem ser coletados
através de sua participação direta na interação com os falantes; de outro, essa
participação direta pode perturbar a naturalidade do evento. Como solucionar
este problema?” (TARALLO, 1993, p. 21).

A solução que a sociolinguística variacionista adotou foi o método de


entrevista sociolinguística. Assim, o pesquisador poderá coletar os dados com
um gravador de voz ou câmera em situações naturais, em grande quantidade e
com boa qualidade sonora.

Você pode estar se perguntando: mas se eu aparecer com um aparelho para


gravar a conversa das pessoas, isso não vai atrapalhar a naturalidade da interação, o
que vai comprometer os dados? Bom, o que os sociolinguistas recomendam é que
o pesquisador tente neutralizar sua presença, se mostrando interessado no
conteúdo das conversas, sem deixar transparecer que seu real interesse são os
dados linguísticos. Vejamos o conselho de Tarallo:

Tal neutralidade pode ser alcançada no momento em que o


pesquisador se decide a representar o papel de aprendiz-interessado
na comunidade de falantes e em seus problemas e peculiaridades. Seu
objetivo central será, portanto, aprender tudo sobre a comunidade e
sobre os informantes que a compõem. A palavra ‘língua’ deverá ser
evitada a qualquer preço, pois o objetivo é que o informante não preste
atenção à sua própria maneira de falar. (1993, p. 21).

83
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

A fim de alcançar a neutralidade e a homogeneidade dos dados linguísticos


que comporão o corpus (ou seja, o material usado para a análise variacionista), o
pesquisador poderá utilizar também um questionário-guia de entrevista. Estes
roteiros podem ter por objetivo provocar narrativas pessoais, as quais apresentam
um forte envolvimento emocional do informante com o que é narrado, fazendo-o
deixar de lado o como relata os fatos.

Um exemplo disso são os dados coletados pelo projeto NURC entre a


década de 70 e 90, e que utilizou três metodologias de coleta:

a) elocuções formais: palestras, aulas, conferências etc.;

b) diálogos entre informante e documentador: entrevistas sobre diferentes


temas feitas diretamente entre entrevistador/entrevistado;

c) diálogos entre dois informantes: gravação de um diálogo (conversa) entre


dois entrevistados com a presença de um documentador.

FONTE: Disponível em: <www.letras.ufrl.br/nurc-rj>. Acesso em: 24 abr. 2010.

A seguir você lerá um trecho de um inquérito coletado pelo projeto NURC


do Rio de Janeiro. Repare na interação entre o entrevistador e o entrevistado,
principalmente com relação às estratégias que o primeiro utiliza para obter as
narrativas espontâneas do segundo.

PROJETO NURC-RJ
RECONTATO:
Inquérito 071 (masculino/80 anos) - (Nº 24 - Amostra Complementar)
Tema: Família, ciclo de vida, saúde
LOCAL/DATA: Rio de Janeiro, 17 de julho de 1996
TIPO DE INQUÉRITO: Diálogo entre informante e documentador
DOCUMENTADOR: Y L

DOC. - O senhor estava me contando que a sua senhora não esta passando muito
bem. Tá fazendo uma fisioterapia, né. O senhor podia nos contar isso?
LOC. - Pois não. Ela teve um problema... Tem um problema neurológico. De forma
que... com isso... a fala... dela, ficou muito difícil. E além disso a letra, que era uma
letra bonita. Ela foi professora primária. Formou-se na escola normal, aqui do Rio.
E a letra dela hoje, no instante depois de... escrever, nem ela própria, consegue ler.
Quer dizer, a letra ficou muito pequenininha. Além disso, tem, tinha uns problemas
também de queda. Que ela já melhorou. Queda assim de desequilíbrio, né. E... isso ela
está felizmente melhor. E uns probleminhas aí, ligados ao quadro, que é um quadro,
que não é de doença de Parkison, mas é de uma doença... mais ou menos, da mesma
área, da doença de Parkison.
DOC. - Você me parece que está muito bem. Que não faz tratamento nenhum, não é?
LOC. - É. Eu, felizmente, estou a caminho dos oitenta anos. Farei oitenta anos no ano que
vem. E naturalmente tenho... faço um certo controle médico. Tomo uns remedinhos aí,
mas nada de importante, graças a Deus. A minha saúde... posso considerar... excelente.
O próprio médico que me atende tem confirmado isso. De modo que eu espero, enfim,

84
TÓPICO 2 | VARIAÇÃO LINGUÍSTICA: ASPECTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

acho que já vivi muito, porque... eu fui... fiquei órfão, aos... cinco anos, de minha
mãe, e aos sete, de meu pai. De modo que a partir dos sete anos, eu fui educado por
um casal de tios-avós. E eu sempre comento, que eu já vivi muito mais, que meu
pai e minha minha mãe juntos. Minha mãe viveu trinta e dois anos, e meu pai viveu
trinta e três. Então eles dois juntos viveram sessenta e cinco. Eu já estou com setenta e
nove, então, eu já estou com com um mocado de lucro nesta vida, mas, cada um tem
o seu destino. Eu fui filho único. E cada um tem o seu destino, de modo que a gente
tem... eu não... acho que já vivi bastante, mas... tem que viver, paciência, a gente tem
que viver enquanto... Deus quer. De forma que... vai se levando a vida um pouco
sem... agora um pouco... sem objetivo mais, mas, trabalhei, praticamente até... até mil
novecentos e oitenta e nove, agora que estou, tá... tá... de lá pra cá, e que fiquei meio na
malandragem. Quer dizer, trabalhei realmente cinquenta e um anos... da minha vida,
eu trabalhei, de modo que...acho que... foi o bastante.
DOC. - O senhor é advogado, não é? E tinha escritório de advocacia ou não?
LOC. - Não. A minha... a minha atividade... profissional... foi como procurador. Eu
fui procurador, inicialmente, do antigo IAPI, que era o instituto dos industriários,
e depois da fusão foi incorporado pelo INPS, que é o... o atual INSS. Mas, além
disso, eu trabalhei em atividade de consultoria, de forma... já... no final da minha
carreira, eu trabalhei na CEPLAN, trabalhei no Ministério da... da... Reforma... simpli,
simplificação da reforma administrativa, com o Ministério Beltrão. E boa parte... deste
meu tempo, eu trabalhei em Brasília. Eu estive em Brasília de mil novecentos e setenta
e quatro, a mil novecentos e... final de mil novecentos e oitenta e oito. Mas, escritório
eu tive uma atividade muito pequena, muito, assim... de pouca duração, um escritório
com outro amigo, mas, nunca, realmente advogado, no sentido... correto, do termo,
eu nunca fui. Fui... um consultor, um assistente jurídico, um procurador.
DOC. - O senhor tendo sido consultor e tudo... feito esse trabalho de consultoria, o
senhor não acha que seria possível, assim, ainda hoje, é... fazer consultoria... para... no
seu campo de trabalho, ou o senhor não está mais interessado, quer mais gozar, ir à
praia de Copacabana, Copacabana que é muito divertida?
LOC. - Não. A rigor eu sinto falta, e me arrependo até, de quando voltei de Brasília,
quando parei realmente de trabalhar, em oitenta e nove, não ter... tive até amigos
meus e colegas de meu filho, gente mais moça, que queria até que eu ficasse, assim,
no escritório, com eles, assim, fazendo uma atividade mais de consultoria. Mas eu
na época não aceitei, de modo que agora, eu acho já... já está um pouquinho tarde
pra isso. Então, não sei se já me habituei, mais, essa vida de malandragem, que eu
vivo atualmente, e... faço os meus passeios, procuro não ficar muito enclausurado,
né, então tenho... tenho assim grupos de... de amigos, com quem eu me encontro
de vez em quando, né, pra um ... um almoço semanal, pelo menos, mas, atividade,
propriamente, eu acho que nessa altura já... não daria mais. Às vezes eu colaboro,
né, não é que eu não colabore, eu tenho um amigo, que tem mais ou menos... tem a
minha idade. E esse está em plena, (...), está em plena atividade, produz até muito,
e... me honra até com... e me pede assim pra colaborar, pra rever uns trabalhos dele.
De modo que um trabalhinho ainda faço, um pouco, dentro da minha especialidade, da
minha formação. Eu faço isso, mas, faço em casa, de modo que... atividade assim de... de
horário, e tudo não tenho mais nenhuma. E agora com esse problema de minha mulher,
a coisa ficou mais difícil, porque eu tenho que dar um... um pouco de assistência a
ela, e também a minha cunhada, que tá bem fisicamente, mas tá começando a ratear
na parte... na parte de cabeça. De modo que... então, eu, dos três, sou o que estou em
melhores condições, de modo que eu tenho, também esta tarefa de... de ajudá-las um
pouco, é... a tocar a vida para frente até... que... as nossas vidas terminem.

85
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

DOC. - O senhor tem filhos... ou... tem netos... tem tudo isso, né, né? Tem tudo isso...
LOC. - Tenho sim, nós... nós tivemos, eu e minha mulher, quatro filhos, graças a
Deus, são todos vivos. São três homens, e uma mulher. E eu costumo dizer que são...
nós tivemos, assim, muito espaçados, né, do primeiro, do mais velho, que nasceu,
realmente, um ano depois de nós estarmos casados, um ano e pouco, aí tivemos um
intervalo de... quatro anos... nasceu o segundo filho, aí tev... houve um um intervalo
de oito anos, nasceu a nossa filha, e... houve um intervalo grande, que eu até perdi
a conta, nasceu o nosso caçula, que é outro homem. Então, são... quatro filhos, todos
eles casados, e... todos eles com filhos. De modo que eu tenho quatro filhos e... tenho
dez netos. Desses dez netos, tenho sete homens, e três mulheres. E eu costumo dizer
que... esses netos... eu tenho dois segmentos de netos. Quer dizer, eu tenho... um
primeiro segmento, que são os netos, dos meus dois filhos mais velhos, que vai de
um... o meu neto mais velho, que fez vinte nove anos, agora, no dia doze deste mês
de julho, até a minha neta, que é do meu segundo filho, que vai fazer vinte e dois
em novembro, então, esse é o meu primeiro segmento: de vinte nove a vinte dois.
Depois vem um segundo segmento, que começa com... o filho mais velho de minha
filha, fez quatorze anos, e vai até o filho mais moço dela, e o filho mais moço, do
meu filho mais moço, que... estão com... estão fazendo dez anos. Então são... são dois
grupos assim, bem diferenciados, né. Agora... para mim o que eu sinto falta é que...
aqui no Rio de Janeiro, está morando apenas o meu filho mais moço. Eu até, a guisa
de blague, eu digo a ele que... ele para mim não mora mais no Rio, para mim ele já tá
num outro município, porque ele se mudou recentemente para Barra da Tijuca. Eu
considero a Barra como se fosse Petrópolis, Teresópolis, você tá num outro município.
Antigamente, eu dizia que tinha um filho no Rio, agora eu já não posso mais dizer
isso, porque o meu filho mais velho é diplomata, de modo que está sempre no
exterior, no momento tá no Chile; o meu segundo filho... foi trabalhar em São Paulo,
há mais de vinte cinco anos, erradicou-se, e ficou por lá; e minha filha, casou-se com
um engenheiro da Telebrás, que é de um centro de pesquisas, e documentação da... da
Telebrás em Campinas. Então , ela casou-se... foi pra Campinas, e tá lá há quinze anos.
De forma que... tem assim um filho em cada lugar. Isso me... me deixa um pouco...
triste, assim, de não poder tê-los mais... frequentemente comigo. E, para reunir, então,
muito mais difícil. Nós agora até fizemos uma reunião, em maio, que o aniversário de
minha mulher, coincidiu com o dia das mães, né, foi... por coincidência, meu filho...
diplomata estava no Rio nesse dia, de modo que foi fácil trazer. Minha filha veio de
Campinas. Meu filho de São Paulo veio. E aí fizemos então, no aniversário dela, no
dia das mães, fizemos um almoço aqui com... com todos os netos, menos um. Que
tem um, dos meus netos, que está trabalhando nos Estados Unidos. Fez Marketing,
e... de modo que fez uma escola muito conceituada lá... formou-se em Filadélfia, e a
escola dele é muito conceituada, então recebeu uma proposta e, não que ele quisesse
ou fizesse questão de trabalhar lá, mas, recebeu uma boa proposta, de uma empresa
de consultoria e no momento trabalha em Washington. De modo que o único neto que
não pode... estar presente, foi uma reunião familiar quase completa, mas é... isso hoje
em dia, para nós, é muito difícil acontecer. [...]

FONTE: Disponível em: <http://www.letras.ufrj.br/nurc-rj/>. Acesso em: 3 jun. 2010.

86
TÓPICO 2 | VARIAÇÃO LINGUÍSTICA: ASPECTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

O próximo passo que o pesquisador deve tomar é escolher a comunidade


de fala que irá estudar e selecionar os informantes. Como já mencionamos, o
pesquisador deve apresentar uma neutralidade em relação à comunidade de fala
escolhida. Para isso, a literatura sobre o assunto apresenta uma série de conselhos
que podem ser seguidos a fim de melhorar a qualidade dos dados obtidos.

Oliveira e Silva (2003) salienta, baseada em Labov (1972 apud OLIVEIRA


E SILVA, 2003, p. 118), que o pesquisador deve se apresentar à comunidade de
fala de maneira simples, sem mencionar que vem com a intenção de coletar
dados linguísticos. Além disso, Tarallo observa que o pesquisador deve procurar
entrar na comunidade através de um terceiro que o apresente aos membros
desta comunidade, procurando minimizar os efeitos negativos de sua presença
acomodando seu comportamento social e linguístico ao da comunidade estudada.

Quanto à seleção dos informantes, o pesquisador deve ter em mente que


a amostra selecionada vai representar toda a população estudada dentro daquela
comunidade, pois o objetivo final é fazer generalizações acerca do comportamento
linguístico da comunidade como um todo, certo?. Isso significa que é preciso
tomar alguns cuidados na escolha da amostragem.

A primeira questão é definir o número de informantes que a amostragem


vai ter. Isso vai depender, conforme observa Oliveira e Silva (2003), de vários
fatores, tais como a homogeneidade da população, do número de variáveis
pesquisadas, do fenômeno linguístico a ser pesquisado, pois alguns requerem uma
amostragem maior e outros não, como, por exemplo, a realização do fonema /s/
comparada à realização do fonema /i/ em português, para as quais a amostragem
de realização do fonema /s/ deve ser maior, uma vez que este apresenta mais
variantes nessa língua do que o fonema /i/.

A segunda questão é a seleção dos informantes, que pode ser feita de


maneira aleatória simples ou aleatória estratificada. Segundo Tarallo, “[...] a
amostragem aleatória lhe dará a certeza de que você ao menos tenha dado a
chance a todos os membros da comunidade de serem entrevistados.” (TARALLO,
1993, p. 27). Por outro lado, deve-se ter o cuidado de ser criterioso com a seleção
dos informantes; assim, é preciso estabelecer parâmetros tais como entrevistar
somente aqueles indivíduos que nasceram na comunidade ou que moram lá
desde antes dos 5 anos de idade.

Já na seleção aleatória estratificada, é necessário dividir a população em


células ou estratos. Cada célula será composta por indivíduos com as mesmas
características sociais e será preenchida com a quantidade de informantes
estipulada na pesquisa. Vejamos o exemplo apresentado em Tarallo (1993,
p. 28-29). Supondo que a pesquisa tenha como objetivo estudar dois grupos
socioeconômicos juntamente com o sexo em relação a certas variantes, isso dará
duas células da variável grupo socioeconômico e duas da variável sexo:

87
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

Grupo socioeconômico: A e B (2 células)


Sexo: Masculino e Feminino (2 células)

Isso dará 4 combinações diferentes:

Masculino A
Masculino B
Feminino A
Feminino B

Se, além dessas duas variáveis, acrescentarmos uma terceira, como faixa
etária, nossa combinação dará não mais 4, mas 12 células, como vemos a seguir:

QUADRO 5 – VARIÁVEIS COM FAIXA ETÁRIA E SEXO


Sexo Classe Idade
1 Masculino A 15 a 29 anos
2 Masculino A 30 a 45 anos
3 Masculino A 46 a 60 anos
4 Masculino B 15 a 29 anos
5 Masculino B 30 a 45 anos
6 Masculino B 46 a 60 anos
7 Feminino A 15 a 29 anos
8 Feminino A 30 a 45 anos
9 Feminino A 46 a 60 anos
10 Feminino B 15 a 29 anos
11 Feminino B 30 a 45 anos
12 Feminino B 46 a 60 anos

FONTE: Os autores

Para cada célula, recomenda-se ter um número de 5 informantes, o que


dará, no total, 60 informantes para serem entrevistados.

Outros cuidados que o pesquisador deve tomar é com a diagramação


das entrevistas, a qual vai separar os dados naturais daqueles não-naturais,
como por exemplo, narrativas espontâneas vs. narrativas provocadas; dados
espontâneos do entrevistado vs. dados-resposta à pergunta do entrevistador.
Essa distinção se refletirá em resultados mais fidedignos com a realidade
linguística da comunidade estudada.

88
TÓPICO 2 | VARIAÇÃO LINGUÍSTICA: ASPECTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

DICAS

Para saber mais sobre a coleta dos dados para a análise sociolinguística, você
poderá ler o capítulo ”Coleta de dados”, de Giselle de Oliveira e Silva, que você encontra no
livro Introdução à sociolinguística, o tratamento da variação, de Maria Cecília Mollica e Maria
Luiza Braga (2003).

FIGURA 24 – INTRODUÇÃO À SOCIOLINGUÍSTICA: O


TRATAMENTO DA VARIAÇÃO

FONTE: Disponível em: <http://www.editoracontexto.com.br/


produtos/intro-a-sociolinguistica_gd.jpg>. Acesso em: 24 abr. 2010.

89
RESUMO DO TÓPICO 2
Este Tópico abordamos questões teórico-metodológicas da sociolinguística
variacionista. Estudamos dois conceitos importantes, os conceitos de variante e
de variáveis, os quais retomamos aqui: segundo Tarallo, variantes linguísticas são
“[...] diversas maneiras de se dizer a mesma coisa em um mesmo contexto, e com
o mesmo valor de verdade. A um conjunto de variantes dá-se o nome de ‘variável
linguística’”. (1993, p. 8).

Estudamos também que o objeto de estudo da sociolinguística variacionista


é a língua falada, definida como “[...] o veículo de comunicação usado em situações
naturais de interação social, do tipo comunicação face a face.” (TARALLO, 1993,
p. 19). A língua falada, portanto, é o vernáculo, é a enunciação do dia a dia capaz
de expressar fatos, ideias, proposições, etc., sem a preocupação com o como será
dito, mas com o que será dito. (TARALLO, 1993, p. 19).

Vimos ainda que os dados linguísticos à primeira vista parecem ser


caóticos e desordenados. Contudo, a sistematização e a análise dos dados nos
mostra que o aparente caos que dominava a diversidade linguística na verdade
tem uma estrutura própria. Depois de feita esta sistematização das variantes que
constituem cada variável da língua, podemos então formular regras gramaticais
do comportamento da variação em um determinado momento da língua. Estamos
falando em regras formuladas para determinado momento da língua porque como
as variantes podem passar por mudanças decorrentes de fatores linguísticos e não-
linguísticos, tais regras não podem ser rígidas e imutáveis, não é mesmo?

Além disso, também pudemos perceber, a partir dos estudos variacionistas,


o princípio da regularidade, segundo o qual “[...] todas as variedades da língua
se organizam, em todos os seus aspectos estruturais (sintáticos, morfológicos,
fonéticos) de uma forma regular e reiterável”. (FARACO; TEZZA, 2001, p. 14-15).

Vimos também que, além de as variáveis estarem em constante


concorrência umas com as outras, as variantes de uma variável linguística
receberão uma valoração diferente, podendo ser classificadas em padrão vs. não-
padrão; inovadoras vs. conservadoras; de prestígio vs. estigmatizadas. A questão
da valoração das variedades será retomada na terceira unidade.

Metodologicamente, a sociolinguística variacionista trabalha com o


método de entrevista sociolinguística, que permite que o pesquisador trabalhe
com dados de fala, ou seja, o vernáculo, em situações reais/naturais de interação.

90
AUTOATIVIDADE

Caro acadêmico, pesquise mais sobre os dados coletados pelo projeto


NURC do Rio de Janeiro nos seguintes sites: <www.letras.ufrl.br/nurc-rj> e
<www.fflch.usp.br/dlcv/nurc/index.html>.

91
92
UNIDADE 2 TÓPICO 3

AS VARIÁVEIS SOCIAIS

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico vamos estudar os fatores externos que motivam a diversidade
linguística no âmbito social, ou seja, veremos os principais fatores que se
relacionam com a variação social e que remetem à organização sociocultural da
comunidade de fala. Estes fatores são: gênero/sexo, idade, escolaridade e contexto
de interação social.

2 GÊNERO/SEXO
O primeiro fator que veremos é a variável gênero/sexo. Estudos
sociolinguistas têm demonstrado que a relação gênero/sexo do falante e a
construção social dos papéis feminino e masculino influenciam na variação
linguística. Por exemplo, Paiva cita o estudo realizado por Scherre (1996, p. 196
apud PAIVA, 2003), segundo o qual existe uma correlação entre a variável gênero/
sexo e a concordância entre elementos do sintagma nominal, conforme mostra o
quadro a seguir:

QUADRO 6 – ATUAÇÃO DE GÊNERO/SEXO NA CONCORDÂNCIA NOMINAL

Gênero/sexo Frequência PR

Masculino 1763/3953 = 45% .42

Feminino 2556/4080 = 63% .58

FONTE: Scherre (1996, p. 196 apud PAIVA, 2003, p. 34)

Repare que o quadro mostra que as mulheres (63%) utilizam mais as marcas
de plural em todo o sintagma nominal do que os homens (45%), podendo-se concluir
com isso que elas utilizam mais a variante padrão se comparadas aos dados deles.

93
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

Os estudos de Chambers (1995) e Labov (1972), ambos citados por Severo


(2006), chegam às seguintes conclusões em relação à influência do fator gênero/
sexo nas variantes linguísticas:

a) As mulheres utilizam menos variantes estigmatizadas do que os


homens do mesmo grupo social e sob as mesmas circunstâncias; elas
usam mais as variantes de prestígio do que os homens.
b) As mulheres se adaptam linguisticamente melhor do que os homens
a uma variada gama de situações sociolinguísticas.
As explicações comuns para essas conclusões incluem:
a) Conservadorismo – as mulheres (classe média) tendem a ser mais
conservadoras do que os homens e a inovar menos do que eles.
b) Status – as mulheres tentam, ao utilizarem as formas de prestígio,
alcançar status social: elas possuem mais consciência/sensibilidade em
relação ao status social do que os homens em virtude da posição social
insegura que elas ocupam.
c) Solidariedade – as mulheres, em suas redes sociais, não sofrem as
mesmas pressões do que os homens para utilizarem as normas do
vernáculo, uma vez que os homens tendem a participar de redes mais
densas e múltiplas do que as mulheres. (SEVERO, 2006, p. 1).

É importante ressaltar, como bem fazem notar Paiva (2003) e Severo (2006),
que a análise das variedades linguísticas em relação ao fator gênero/sexo precisa
levar em conta as relações sociais e culturais que se estabelecem nas comunidades
de fala estudadas. Assim, segundo Paiva (2003, p. 35), “A consistência do padrão
que aponta o conservadorismo linguístico das mulheres emerge da análise de
variações em comunidades de fala ocidentais, que partilham diversos aspectos da
organização sociocultural”.

Estudos sociolinguísticos baseados no fator gênero/sexo feitos em


comunidades muçulmanas, por exemplo, mostram que as variantes prestigiadas
estão ligadas à fala dos homens, enquanto as mulheres aparecem associadas
a formas de menor prestígio social. (HAERI, 1987 apud PAIVA, 2003, p. 35). É
importante ressaltar, então que “[...] qualquer explicação acerca do efeito da
variável gênero/sexo requer uma certa cautela, vistas as peculiaridades na
organização social de cada comunidade linguística e as transformações sofridas
por diversas sociedades no que se refere à definição dos papéis feminino e
masculino.” (PAIVA, 2003, p. 41).

3 IDADE/FAIXA ETÁRIA
Passemos agora para o fator Idade ou faixa etária. É fácil perceber que
existe uma variação ligada à faixa etária, não é mesmo? À primeira vista, essa
variação aparece, por exemplo, de um lado no uso de gírias por grupos sociais
mais jovens, e, de outro, no uso de uma linguagem com formas mais antigas por
grupos sociais mais velhos. Essas formas mais antigas podem incluir também
gírias mais antigas que, de certa forma, acabam por ‘denunciar’ a geração a que
o falante pertence.

94
TÓPICO 3 | AS VARIÁVEIS SOCIAIS

Preti (2006) observa que estudos mais recentes têm mostrado que a gíria,
por ser um fenômeno tipicamente sociolinguístico, pode ser abordada sob duas
perspectivas. Na primeira, conhecida como gíria de grupo, é entendida como “[...]
um vocabulário de grupos sociais restritos, cujo comportamento se afasta da
maioria, seja pelo inusitado, seja pelo conflito que estabelecem com a sociedade”.
(PRETI, 2006, p. 66). O autor está se referindo, por exemplo, a grupos ligados à
música, à universidade ou aos esportes, no primeiro caso, e a grupos ligados ao
tráfico, a facções criminosas ou a ambientes de prisão, no segundo caso.

A gíria, neste caso, servirá como uma ‘linguagem secreta’, dominada


apenas por aquele grupo, como uma espécie de código secreto de segurança, e
que dará identidade a este. Veja o exemplo a seguir retirado de Preti:

- Oi, meu!
- Oi! Que que há? Alguma lança quente pra nós?
- Tenho duas, basta ficar na campana. O que falta é as turbinas pra render os
loques.
- Máquina é fácil de arrumar. Basta pular no gogó de um mico e pronto:
estamos maquinados.
- Nada de micos, vamos de mão grande num napo de firma. Eles sempre têm
fogo na cinta.
- Escute, meu: a lança é caxanga, espianto ou mão grande. Precisa ver se o
serviço é limpo e não dá tira ou se a barra é suja.
- É mole, meu, só tem paruana e mina na jogada.

FONTE: Preti, 2006, p. 90

Você entendeu o texto? Difícil, não é mesmo? Esta interação acontece entre
dois detentos da Casa de Detenção de São Paulo. Vejamos o que alguns termos
significam: lança (furto); campana (observação); turbina, máquina (revólver); loque,
paruana (trouxa); gogó (garanta); mico (policial); mão grande (assalto); napo de firma
(guarda particular); caxanga (casa); espianto (furto). (PRETI, 2006, p. 91).

A segunda maneira de estudar as gírias é aquela que estuda a vulgarização


do fenômeno, a chamada gíria comum, ou seja, “[...] o momento em que, pelo
contato dos grupos restritos com a sociedade, essa linguagem se divulga,
torna-se conhecida, passa a fazer parte do vocabulário popular, perdendo sua
identificação inicial”. (PRETI, 2006, p. 66). O exemplo que Preti dá é do termo
baratinado, que significa hoje preocupado, perturbado por algum problema, mas
que surgiu na gíria dos toxicômanos e que acabou sendo vulgarizada para a
linguagem comum a partir do contato.

95
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

Muitas das gírias que passaram por este processo às vezes nem sequer
são percebidas como tais, principalmente por grupos de falantes mais jovens, que
vieram depois da incorporação destes termos no vocabulário comum. Isso é um
bom exemplo de que as línguas mudam com o tempo. Essa mudança, é claro, não
é mecânica e regular em curto prazo. Se pensarmos no estado real de uma língua,
notaremos que formas em diversos estágios de evolução coexistem. Por exemplo,
podemos ter o mesmo termo sendo usado como gíria de grupo em determinadas
situações de interação e também sendo usado já como gíria comum em outras
situações de interação social. Em longo prazo, no entanto, a mudança linguística
acaba afetando todos os itens e todas as estruturas de um determinado tipo, o que
em geral cobre o espaço entre várias gerações de falantes.

DICAS

Caro acadêmico, como leitura complementar você poderá ler o artigo de Vera
Lúcia Paredes Silva, intitulado O retorno do pronome tu à fala carioca, no qual as variáveis
gênero/sexo e idade são considerados fatores condicionantes de relevância para a análise
proposta. Você encontrará este artigo no livro Português Brasileiro: contato linguístico,
heterogeneidade e história (2003), organizado por Cláudia Rocarati e Jussara Abraçado.

Cabe ainda ressaltar que existem duas maneiras metodológicas de analisar


a mudança linguística: a mudança em tempo real e a mudança em tempo aparente.
O tempo real, conforme explicam Cezario e Votre (2009),

[...] é observado através da pesquisa de duas ou mais épocas, sendo


ideal o estudo de dois momentos que se distanciam no mínimo em 12
anos e no máximo em 50 anos. O linguista pode gravar informantes
e revisitá-los anos mais tarde para ver como é o comportamento de
determinadas variáveis, como concordância nominal, concordância
verbal, uso de pronomes, pronúncia do /r/ final etc. Pode também
comparar gravações de entrevistas atuais com entrevistas dadas em
rádio há várias décadas. Pode comparar dados de textos antigos,
observar atlas linguísticos, estudar as descrições feitas por outros
linguistas ou gramáticos. Ele terá, assim, diversos meios de verificar
se duas formas estão em variação ou se são um caso de mudança.
(CEZARIO; VOTRE, 2009, p. 151).

Um exemplo de análise de mudança em tempo real é o estudo realizado


por Menon et al. (2003) sobre a alternância nós/a gente em histórias em quadrinhos
publicadas a partir de 1950. A análise dos resultados demonstrou um aumento do
uso de a gente em relação ao uso de nós, como podemos observar no quadro a seguir:

96
TÓPICO 3 | AS VARIÁVEIS SOCIAIS

QUADRO 7 – DISTRIBUIÇÃO DAS VARIANTES NÓS/A GENTE EM PESO RELATIVO, POR DÉCADA

Pronome 1950 1959 1969 1979 1989 1999


A gente .10 .48 .34 .83 .90 .82
Nós .90 .52 .66 .17 .10 .18

FONTE: Menon et al. (2003, p. 102)

Já na técnica do tempo aparente, “[...] o linguista grava amostras de


informantes de diferentes faixas etárias para observar se uma dada forma ocorre
mais na fala de crianças e jovens do que na de adultos e idosos. Um uso muito
elevado de ocorrências da forma nova na fala de jovens pode indicar mudança
em curso.” (CEZARIO; VOTRE, 2009, p. 151-152).

DICAS

Para saber mais sobre a relação entre faixa etária e mudança linguística,
recomendamos a leitura do capítulo “O Dinamismo das Línguas”, de Anthony Julius Naro,
que você encontra no livro Introdução à Sociolinguística, o tratamento da variação, de Maria
Cecília Mollica e Maria Luiza Braga (2003).

4 ESCOLARIDADE
Os efeitos da escolarização nas variáveis linguísticas serão primordialmente
aqueles ligados à padronização da língua e à preservação de formas de prestígio.
Todos sabemos que a escolarização exerce um efeito no modo de falar e de escrever
das pessoas, e que quanto mais forem os anos de escolarização, maior será este
efeito em direção ao uso de variantes padrões ou próximas disso. Obviamente,
como veremos mais adiante, o uso de qualquer variável, padrão ou não-padrão,
estará condicionado à situação de interação social. Contudo, isso não tira da
escolarização o efeito do acesso à padronização da língua e a eventual mudança
na variante do indivíduo. Como observa Votre (2003, p. 56):

Cabe destacar e atribuir à escola um mérito nada desprezível: o de ser


responsável por uma parcela relevante da tarefa socializadora que o
uso de uma língua nacional, de prestígio, requer. A escola, sozinha,
não faz a mudança, mas mudança alguma se faz sem o concurso da
escola. Se tal truísmo se aplica aos processos revolucionários em geral,
aplica-se também nas situações de ensino e aprendizagem da língua
materna, no nível padrão.

97
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

Um exemplo de análise que leva em conta o fator escolaridade dos


falantes, associado ao fator idade, é o estudo de Simone Queiroz Mendonça sobre
a sequência de informações na fala de Natal – RN, a partir do uso dos conectores
E, Aí e ENTÃO.

Para realizar a pesquisa, a autora coletou 1.037 dados dos conectores E, AÍ


e ENTÃO em 8 narrativas de experiência pessoal e 8 relatos de opinião orais e suas
versões escritas, no Corpus Discurso & Gramática – a língua falada e escrita na
cidade do Natal. (CUNHA, 1998 apud MENDONÇA, 2010). Dos três conectores,
AÍ é considerado o de menor prestígio social. Portanto, as expectativas da
pesquisa eram de que quanto menos o grau de escolaridade, maior a frequência
do conector AÍ. Por outro lado, quanto maior o grau de escolaridade, menor seria
a frequência de AÍ em relação ao uso dos outros dois conectores, o que parece ser
confirmado na pesquisa, como mostra o quadro a seguir:

QUADRO 8 – PORCENTAGEM DE DISTRIBUIÇÃO DE E, AÍ E ENTÃO QUANTO À ESCOLARIDADE


E IDADE DOS NATALENSES
ESCOLARIDADE/IDADE E AÍ ENTÃO
8ª Série/13-16 anos 27% 71% 3%
Sup./+ de 23 anos 77% 14% 10%
TOTAL 54% 39% 6%

FONTE: Mendonça (2010, p. 31)

Vejamos alguns dos resultados nas palavras da autora:

Constatou-se haver uma forte inclinação para que AÍ ocorra entre pessoas
da oitava série e de 13 a 16 anos, paralelamente ao desfavorecimento a
seu emprego entre pessoas de escolaridade superior e menor faixa etária.
Verificou-se, portanto, que a escola e a idade influenciam o uso de AÍ,
que tem sua recorrência bastante retraída com o avanço da escolarização
e o aumento da faixa etária. Quanto aos outros dois conectores, tinha-
se por hipótese que E e ENTÃO seriam mais recorrentes junto a
informantes de nível de escolaridade superior e com mais de 23 anos de
idade, como alternativas não estigmatizadas de sequenciar informações,
o que é confirmado pelos resultados que foram obtidos: os conectores
em questão aparecem bastante entre pessoas de maior escolaridade e
mais idade. (MENDONÇA, 2010, p. 32).

DICAS

Caro acadêmico, se você quiser ler na íntegra o artigo de Simone Queiroz


Mendonça, intitulado Parâmetros sociolinguísticos do português de Natal, poderá encontrá-
lo em <http://www.uff.br/periodicoshumanas/index.php/ensaios/article/viewFile/334/408>.

98
TÓPICO 3 | AS VARIÁVEIS SOCIAIS

5 CONTEXTO DE INTERAÇÃO SOCIAL


Você já deve ter percebido que não fala (e nem escreve) da mesma maneira
em todas as situações de interação social de que participa, não é mesmo? Por
exemplo, a forma como fala com amigos num bar é diferente da forma como
fala com seu chefe, no trabalho, que é diferente da forma como fala com o taxista
ou ainda da forma como fala com seus familiares. Isto significa, portanto, que
nós variamos a nossa fala a partir do contexto social em que nos encontramos,
incluindo nisso a situação mais ou menos formal, a pessoa ou pessoas com
quem interagimos e o assunto tratado na interação. Todos estes fatores irão, de
alguma forma, influenciar na escolha da variedade linguística a ser usada numa
determinada situação de interação social.

Podemos definir situação ou contexto social “[...] pela ocorrência de dois


(ou mais) interlocutores mutuamente relacionados de uma maneira determinada,
comunicando sobre um determinado tópico, num contexto determinado”.
(FISHMAN, 1972 apud ALKMIM, 2005, p. 36-37). Ou seja, em cada contexto de
interação social, o falante vai escolher a variedade mais adequada para o momento,
levando em conta seu interlocutor e o assunto a ser tratado. Se pensarmos nas
ideias de um contínuo de situações, teremos de um lado situações mais informais
e, de outro, situações mais formais. A escolha da variedade adequada para
uma determinada situação de interação estará em algum ponto deste contínuo,
podendo apresentar um grau de formalidade maior ou menor. Para ilustrar o que
acabamos de dizer, vejamos o cartum de Angeli reproduzido a seguir, em que a
situação de interação requer uma variedade mais formal e respeitosa, e a graça
da piada é justamente a mudança para uma variedade mais informal e agressiva.

FIGURA 25 – CARTUM DE ANGELI - NA CPI

FONTE: Platão; Fiorin (2003, p. 113)

99
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

Macedo (2003) afirma que o primeiro estudo sobre o português brasileiro


que leva em conta o fator grau de formalidade no uso da língua foi realizado por
Naro e Lemle (1977), sobre a variação na concordância nominal do tipo eles bebem
X eles bebe. Este estudo, realizado com estudantes dos cursos de alfabetização
Mobral do Rio de Janeiro, classificou os ambientes de coleta das entrevistas quanto
ao discurso, quanto ao contexto e quanto à situação. Os ambientes das entrevistas
foram a casa do informante, o local de trabalho e a casa dos entrevistados. Como
resultado, os dados coletados mostraram que, em locais mais descontraídos, os
informantes utilizam com menor frequência a marca de terceira pessoa nos verbos.

Em um estudo posterior de Scherre (1978), sobre a concordância nominal


(aqueles lençóis X aqueles lençol), no qual utiliza os mesmos dados, a autora faz
uma comparação entre as entrevistas em que o informante sabia que estava
sendo gravado (gravação tensa) e as entrevistas em que o informante não sabia
que estava sendo gravado (gravação distensa). Os resultados mostraram que em
situações tensas, ou seja, quando o informante está mais consciente de sua fala, a
concordância nominal foi mais frequente.

Além disso, os dados foram comparados com outros dados de informantes


de classe média do Rio de Janeiro, também em situações tensas e distensas. Nesse
caso, com a inclusão do fator classe social, os resultados foram semelhantes, em que
podemos notar que em situações distensas a frequência do uso da concordância
nominal é menor para ambos os grupos, como mostra o seguinte quadro:

QUADRO 9 – USO DA MARCA DE PLURAL

Situação tensa Situação distensa


Classe média 85.86% .64 71.35% .38
Classe baixa 47,37% .59 38.59% .41

FONTE: Macedo (2003, p. 61)

Como vimos brevemente, o contexto de interação terá uma influência


decisiva na fala do indivíduo e a escolha pela variedade adequada por parte deste
será adquirida ao longo de sua vida, a partir das interações sociais nas quais
estiver envolvido. Ou seja,

Os falantes aprendem quando podem falar e quando devem


permanecer em silêncio, se podem usar a forma imperativa para dar
uma ordem ou se devem se valer de uma expressão modalizada, como
em saiam daqui já ou por favor, dirijam-se à saída; se é oportuno dizer
tô fora ou ainda não vai ser possível; ou ainda, a gente não sabia ou não
sabíamos, ou ainda desconhecíamos. (ALKMIM, 2005, p. 37-38).

100
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico estudamos os fatores externos que motivam a diversidade
linguística. Vimos que os principais fatores que se relacionam com a variação social
são gênero/sexo, idade, escolaridade e contexto de interação social. Estes fatores
remetem à organização sociocultural da comunidade de fala. Alguns estudos
sociolinguísticos mostram, por exemplo, que o fator gênero/sexo pode influenciar
na variedade usada pelo falante. Já o fator idade está relacionado com as linguagens
de grupo, como as gírias e os jargões. Os efeitos da escolarização nas variáveis
linguísticas serão primordialmente aqueles ligados à padronização da língua e
à preservação de formas de prestígio. Por fim, o contexto social de interação vai
influenciar na escolha da variedade adequada para cada momento de interação.

101
AUTOATIVIDADE

1 Releia os textos que demos como exemplos de variação no início desta


unidade e encontre exemplos de gírias de grupo.

Assista ao vídeo de
resolução desta questão

102
UNIDADE 2
TÓPICO 4

AS VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS

1 INTRODUÇÃO
Durante esta segunda unidade, você pôde entrar em contato com a
variação a que a língua está implicada a partir da leitura de diferentes textos.
Nestes textos, procuramos mostrar que a variação é uma característica essencial
da língua justamente pela relação que se estabelece entre língua e sociedade.
Neste tópico nós vamos estudar mais detalhadamente as variáveis linguísticas
com exemplos pontuais nos níveis fonológico e morfossintático.

2 AS VARIÁVEIS FONOLÓGICAS E MORFOSSINTÁTICAS


Como exemplo de variação linguística fonológica, podemos citar os
seguintes, retirados de A língua de Eulália, de Marcos Bagno (1997):

1) Assimilação de nd em n e de mb em m:

falando → falano
também → tamém

2) Redução de ditongo ou em o:

pouco → poco
louro → loro
roupa →ropa

3) Redução de ditongo ei em e:

beijo →bejo
peixe →pêxe
queijo →quejo

103
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

4) Redução de e e o átonos pretônicos:

bolacha → bulacha
morcego → murcego

5) Contração de proparoxítonas em paroxítonas:

árvore → arvre
córrego → corgo
música → musga
tábua → tauba

6) Rotacização do l nos encontros consonantais

flauta → frauta
flecha → frecha
inglês → ingrês
público → pubrico

7) Transformação do lh em i

abelha → abêia
alho → aio
trabalhar → trabaiá
falha → faia

Vejamos agora alguns exemplos de variação morfossintática:

1) Eliminação de marcas de plural redundante: um exemplo disso é o que


demos no início desta unidade, em que a marca de plural aparece apenas no
determinante: os gato preto.

2) Simplificação das conjunções verbais:

eu amo
tu/você
ele
nós ama
a gente
eles

3) Função da partícula se como verdadeiro sujeito da oração:

Aceitam-se roupas novas. → Aceita-se roupas novas.

104
TÓPICO 4 | AS VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS

4) Uso do pronome mim como sujeito de infinitivos:

É pra eu responder. → É pra mim responder.

DICAS

Recomendamos a leitura do livro A língua de Eulália: novela sociolinguística,


de Marcos Bagno, que traz uma narrativa em que os personagens debatem sobre a variação
linguística do português. Vale a pena conferir!

FIGURA 26 – A LÍNGUA DE EULÁLIA

FONTE: Disponível em: <http://www.editoracontexto.com.br/


produtos.asp?cod=363&p=op>. Acesso em: 24 abr. 2010.

Existem outras variáveis linguísticas, como a semântica e a discursiva,


às quais faremos referência por meio de estudo realizado por Gonçalves (1998),
disponível para você ler mais adiante nesta unidade.

UNI

Para um tratamento mais detalhado das variáveis semântica e discursiva,


recomendamos também a leitura dos capítulos “A interferência das variáveis semânticas”,
de Helena Gryner e Nelize Pires de Omena, e “Variáveis discursivas sob a perspectiva da
variação”, de Maria Luiza Braga, que você encontra no livro Introdução à sociolinguística, o
tratamento da variação, de Maria Cecília Mollica e Maria Luiza Braga (2003).

105
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

3 VARIAÇÃO LINGUÍSTICA: EXEMPLO DE ANÁLISE


Neste tópico você terá acesso a um exemplo de análise variacionista
desenvolvida pelo professor Alberto Gonçalves, coautor deste Caderno de
Estudos. Esta análise trata do preenchimento do sujeito pronominal de 3ª
pessoa. (GONÇALVES, 1998). Aqui você terá uma ideia mais ampla de como se
desenvolve uma análise sociolinguística laboviana. Boa leitura!

PREENCHIMENTO DO SUJEITO PRONOMINAL DE 3ª PESSOA NO


FALAR DE FLORIANÓPOLIS

a) Introdução

Este trabalho estuda a variável preenchimento do sujeito pronominal


de 3ª pessoa na fala espontânea de pessoas nascidas em Florianópolis. Foram
selecionadas seis entrevistas do projeto Varsul, de informantes de três faixas
etárias (mais de 50 anos, de 25 a 50 anos e menos de 25 anos), de ambos os
sexos e com o colegial completo. A pesquisa procura investigar se há indícios
de mudança em tempo aparente em favor da variante realização plena do
sujeito. As hipóteses levantadas apontam para a perda da riqueza funcional
do paradigma verbal também na fala florianopolitana, apesar do uso da forma
tu, porém sem concordância, além do crescente número de a gente; sendo que a
flexão parece não mais licenciar a categoria vazia pro na posição sujeito. Além
disso, serão analisados nos dados contextos em que a utilização da forma nula
é praticamente categórica em línguas pro-drop românicas autênticas, como a
correferência em subordinadas e o traço [-animado] do referente. Caso nesses
contextos se mostre um número reduzido de não preenchimento, haverá outro
indício de que o falar de Florianópolis também está perdendo sua característica
de língua que licencia sujeito nulo.

O trabalho apresenta-se dividido em cinco seções. Na primeira,


introduzem-se os pressupostos teóricos relacionados à teoria gerativa e o modelo
de princípios e parâmetros, enfatizando-se as características do parâmetro
pro-drop. Nessa seção, também são propostas as hipóteses desta pesquisa.
No item 2, é apresentada a metodologia de análise, ou seja, a sociolinguística
variacionista quantitativa. Já na terceira seção, a amostra utilizada, a seleção
dos dados utilizados e os fatores condicionantes considerados importantes
para a análise do estudo em questão são apresentados. Na quarta parte, há
a discussão dos resultados, levando-se em conta as hipóteses propostas na
primeira seção. Finalmente, na quinta parte, são apresentadas as conclusões
desta pesquisa.

106
TÓPICO 4 | AS VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS

b) O parâmetro pro-drop e hipóteses

A partir dos anos 80, a teoria chomskiana passou a postular a existência


de propriedades comuns a todas as línguas naturais, sendo que algumas
dessas propriedades ficavam em aberto e seriam acionadas pela criança na
sua interação com os dados linguísticos primários. As propriedades comuns
passaram a ser chamadas de princípios e as opções em aberto, responsáveis
pelas variações entre as línguas, parâmetros. Um exemplo clássico de princípio
seria o Princípio da Projeção Estendida, segundo o qual, grosso modo, todas
as línguas naturais teriam sujeito. Entretanto, em alguns casos, esses sujeitos
deveriam obrigatoriamente apresentar matriz fonética, i.e. ser pronunciáveis
(inglês, francês), ao passo que, em outras línguas, essa opção seria facultativa,
postulando-se que uma categoria vazia pro, licenciada pelo núcleo funcional
agreement (concordância), estaria substituindo o pronome pleno (espanhol,
português europeu (PE), português brasileiro (PB) até os anos 30 (cf.
DUARTE, 1995)): tal característica passaria a ser conhecida como parâmetro
pro-drop. Em línguas como o PE, o parâmetro seria marcado positivamente,
ou seja, estruturas mesmo com sujeito não expresso seriam gramaticais.
Outra característica dessas línguas seria a obediência a um princípio (“evite
pronome”) formulado por Chomsky (1981), segundo o qual as línguas, na
medida do possível, deveriam evitar o uso de pronomes em favor de categorias
vazias. Nessas línguas, os usos de pronomes e categorias vazias estariam em
distribuição complementar, ou seja, os falantes usariam os pronomes apenas em
contextos específicos, como focalização ou contraste. Outro fator essencial à
caracterização de uma língua como pro-drop seria a riqueza funcional de seu
paradigma verbal, o que licenciaria as categorias vazias pro na posição sujeito.
Por riqueza funcional entenda-se ou um paradigma verbal composto apenas de
formas não derivadas (como no chinês) ou derivadas (mesmo com pelo menos
uma desinência zero e um sincretismo, que pode ser a própria desinência zero,
como no francês antigo, cf. ROBERTS, 1993).

Em estudos sobre o PB (DUARTE, 1993, 1995; PAREDES SILVA, 1991),


tem-se mostrado que essa língua vem perdendo seu estatuto de língua pro-
drop. Mesmo ainda havendo gramaticalidade em sentenças sem o sujeito
expresso, essa opção, contudo, tem se mostrado cada vez menos usual na
fala espontânea dos corpora analisados pelas pesquisas variacionistas. Formas
plenas e nulas já não se encontram mais em distribuição complementar.
Estudos indicam também que o paradigma verbal do PB carioca (DUARTE,
1995) e florianopolitano, decorrente da redução de suas formas verbais (do
paradigma 1 para o 2, ver abaixo) perdeu também sua riqueza funcional, i.e.
não é mais possível identificar uma categoria vazia na posição sujeito pela
flexão do verbo.

Paradigma 1: eu canto, tu cantas, ela/e canta, nós cantamos, vós cantais, elas/
es cantam;
Paradigma 2: eu canto, tu canta, ele/a – você – a gente canta, elas/es cantam.

107
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

Observações: Segundo Valle et al. (1998), em Florianópolis, as


ocorrências da opção tu superam as de você; contudo, a primeira opção
geralmente se apresenta sem concordância, principalmente nas faixas mais
jovens. Já Seara (1997) mostra que a forma a gente, cuja concordância verbal
possui sincretismo com a 3ª pessoa do singular, parece estar competindo,
apresentando uma considerável margem de superação, com a forma nós, no
falar florianopolitano.

Dado o contexto acima, este trabalho pretende investigar o


preenchimento do sujeito pronominal de 3ª pessoa, na fala espontânea de
florianopolitanos. As hipóteses de trabalho são as seguintes:

(1) Como o paradigma verbal do PB falado em Florianópolis vem também


perdendo sua riqueza morfológica e, provavelmente, funcional, apesar
da utilização da segunda pessoa do singular direta, mas sem marca de
concordância (ver nota 2), além do uso de a gente em sincretismo com a forma
verbal da 3ª pessoa do singular (ver nota 3), espera-se verificar uma redução
em tempo aparente das formas não-preenchidas de sujeitos de 3ª pessoa.

(2) Em línguas pro-drop românicas autênticas, como o italiano, há contextos em que


o uso de sujeito nulo é praticamente categórico: sujeitos cujo referente possui
traço [- animado] e subordinadas com sujeitos correferentes (o preenchimento
implicando leitura disjunta). Desobediência a essas expectativas apontam para
uma perda da característica pro-drop também no falar florianopolitano.

c) Metodologia

A metodologia utilizada para a investigação do fenômeno aqui


analisado, ou seja, o preenchimento do sujeito pronominal de 3ª pessoa
segue as premissas da análise sociolinguística variacionista quantitativa de
Labov (1972). Segundo ele, a língua é vista como um sistema heterogêneo,
ou seja, a variação é inerente ao sistema linguístico. Contudo, essa variação
é condicionada tanto por fatores de ordem interna (linguísticos), quanto por
fatores de ordem social, tais como sexo, idade e escolaridade.

Os primeiros estudos variacionistas levavam em conta níveis


morfofonológicos, em que a variação é menos problemática de ser estudada
devido ao caráter arbitrário de suas unidades, à grande quantidade de
ocorrências e à clareza de definitude contextual (cf. PAREDES SILVA, 1992).
Em estudos morfossintáticos, entretanto, mostrou-se que a análise era mais
complexa. Labov (1978) – em resposta a Lavandera (1978), que questionava
a manutenção do significado em variantes morfossintáticas – definiu que,
em estudos para além da morfofonologia, também era possível adotar a
metodologia quantitativa, sendo que duas ou mais formas eram variantes se
apresentassem o mesmo sentido representacional ou “estado de coisas” (state

108
TÓPICO 4 | AS VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS

of affairs): se dizemos que existe uma maneira mais formal de se dizer x, “x”
é o sentido representacional. Dessa forma, o estudo realizado neste trabalho
pode ser também considerado passível de análise variacionista quantitativa,
uma vez que as formas plenas e nulas dos sujeitos de 3ª pessoa apresentam o
mesmo sentido representacional.

Estritamente ligada à questão do sentido, a noção de contexto é outro


ingrediente importante nas análises variacionistas; pois, para que formas
variantes sejam atribuídas a uma mesma variável, devem ocorrer num mesmo
contexto (cf. PAREDES SILVA op. cit.). Como citado acima, com elementos
morfofonológicos, os contextos possuem maior clareza na delimitação, nesses
casos sendo questionados como variação, por exemplo, condicionamentos
fonológicos categorizando uma das opções, como a ausência de variação
entre a oclusiva [t] e a africada [tš] diante de vogais que não sejam [i] e
[iN]. Entretanto, para além desse nível, deve-se também ter bem definidos
os contextos em que ocorrem as formas variantes. Se se quiser considerar a
ordem sujeito-verbo como variável, o contexto para as formas variantes deve
ser alargado para o nível da sentença; se houver opção, por outro lado, pelo
estudo da posição de subordinadas adverbiais em relação à sentença matriz,
o contexto deve ser o período inteiro. Na análise realizada aqui, as variantes
sujeito nulo e sujeito preenchido podem ser consideradas como estando num
mesmo contexto: a posição sujeito em uma determinada sentença. Entretanto,
existem alguns casos em que essas duas variantes não são intercambiáveis,
havendo categorização na escolha de uma ou de outra (ver seleção dos dados
na seção 3 abaixo), apontando assim para a existência de condicionamentos
que eliminam a possibilidade de variação.

Uma vez definido o envelope de variação: o processo a ser analisado


(a variável dependente) e suas possíveis variantes (com o mesmo sentido
representacional e no mesmo contexto), além dos possíveis fatores linguísticos
e sociais condicionantes, é feita a coleta de dados. Os dados geralmente são
entrevistas (realizadas na casa/local de trabalho do informante ou veiculadas
pela imprensa) em que as pessoas narram suas atividades, experiências,
lembranças, expectativas etc. Nessas entrevistas, há uma centralidade em
“o que” se diz e não em “como” se diz, desviando assim a preocupação do
falante de questões de ordem gramatical, por exemplo. Finalmente, após a
coleta de uma considerável quantidade de dados, roda-se no computador
um pacote estatístico (nesta pesquisa será utilizado o programa Varbrul) em
que são escolhidos pelos programas do pacote os fatores mais significativos,
bem como os pesos relativos para cada item dos fatores selecionados. Itens
categóricos e não significativos são descartados, embora algumas vezes
apontem para interpretações relevantes, como o caso do duplo sujeito (contexto
em que o pronome pleno é categórico), que pode ser visto como resultado do
encaixamento da implementação da variante pelo preenchimento do sujeito
com pronome pleno no PB, cf. Duarte (1995). Devido à restrição numérica de
duplos sujeitos no corpus analisado, esse tópico não será abordado aqui.

109
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

Como o trabalho aqui desenvolvido lida com questões não só de


variação, mas também de mudança, convém acrescentar algumas informações
relevantes. Para a teoria laboviana, só há mudança quando há variação,
embora nem sempre variação implique mudança: o segundo caso é conhecido
como variação estável. Em casos de estudos de possíveis mudanças, há duas
possibilidades metodológicas: mudança em tempo real (os dados de uma
determinada comunidade são coletados em épocas diferentes) ou mudança em
tempo aparente (há coleta de dados de diferentes faixas etárias numa mesma
época). Nesta pesquisa, por exemplo, os dados serão analisados a partir da
possibilidade de mudança em tempo aparente, i.e. serão estudados dados de
três diferentes faixas etárias, de entrevistas realizadas na primeira metade da
década de 90.

d) Amostra utilizada, seleção dos dados e fatores condicionantes

A amostra utilizada corresponde a seis entrevistas do corpus do Projeto


Varsul/Florianópolis. As gravações foram feitas em 1990, 1991 (faixas etárias
1 e 2) e 1994 (faixa 3), com seis informantes naturais de Florianópolis, sendo
que seus pais nasceram na região da Grande Florianópolis. Como o objetivo
central do trabalho é verificar a mudança em tempo aparente no predomínio
da variante do sujeito pronominal pleno sobre o nulo, foram selecionadas três
faixas etárias: mais de 50, entre 25 e 50, e menos de 25 anos, sendo um informante
de cada sexo para cada faixa etária. Todos os entrevistados possuem colegial
(ensino médio) completo.

Neste trabalho, também serão feitas algumas seleções dos dados


analisados, seguindo-se basicamente os mesmos critérios utilizados por Duarte
(op. cit.). Desse modo, só serão investigadas sentenças finitas (as infinitivas
mereceriam um tratamento à parte). Sujeitos com referência definida e arbitrária
ou genérica (no último caso, pronomes ele/s vs. estruturas com pro + verbo na
3ª pessoa com ou sem o clítico se) também serão foco de estudo; expletivos, por
sua vez, serão eliminados. Quanto aos sujeitos com referência definida, serão
excluídos os casos de sujeito nulo categórico em respostas afirmativas: sujeito
nulo + verbo (“Ele sabe...?” “Sabe.”), bem como as coordenadas não iniciais
com sujeitos correferentes (contexto em que há omissão de sujeitos mesmo em
línguas não pro-drop).

Para o estudo da variável preenchimento do sujeito pronominal de 3ª


pessoa, serão considerados os fatores condicionantes abaixo:

• Fatores Linguísticos:
(1) número da 3ª pessoa;
(2) presença de flexão de número na 3ª pessoa do plural;
(3) tempo dos verbos;
(4) tipo de oração (relativas/adjetivas e interrogativas; completivas e adjuntas;
principais e independentes);

110
TÓPICO 4 | AS VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS

(5) correferência: em estruturas subordinadas e em contextos iniciais com o


referente bem estabelecido fora da sentença;
(6) traço do referente de 3ª pessoa.
• Fatores Sociais:
(7) faixa etária;
(8) sexo.

e) Resultados e discussão

O pacote estatístico da série Varbrul computou 383 dados, dos quais


231 (60%) eram sujeitos com referência definida. Dentre estes, havia 96 (42%)
sujeitos nulos e 135 (58%) preenchidos. Por outro lado, foram computados
152 (40%) de sujeitos com referência arbitrária/genérica, dos quais 106 (70%)
eram sujeitos nulos (zero ou zero + se) e 46 (30%) preenchidos (ele/s). A tabela
1 sintetiza esses dados:

TABELA 1 – VALORES TOTAIS PARA A VARIÁVEL PREENCHIMENTO DO SUJEITO DE 3ª PESSOA


Referência/Preenchimento do Sujeito nulos plenos total % nulos
Referência Definida 96 135 231 42
Referência Genérica/Arbitrária 106 46 152 70
Total 202 181 383 53

Devido ao grande número de sujeitos genéricos, bem como a maior


incidência de sujeitos nulos nesse caso (70%), optou-se por fazer três rodadas
para discernir melhor os fatores envolvidos com relação à variável aqui
estudada. As rodadas, portanto, foram as seguintes: (1) rodada geral (definidos
e genéricos), (2) rodada só genéricos e (3) rodada só definidos.

Foram recusados os fatores relacionados abaixo:

• Rodada Definidos e Genéricos: flexão de número da 3ª pessoa, tipo de oração


e sexo.
• Rodada Só Genéricos: flexão de número da 3ª pessoa, tipo de oração e faixa
etária (traço semântico do referente foi um fator eliminado por razões óbvias
nessa rodada).
• Rodada Só Definidos: flexão de número da 3ª pessoa, número da 3ª pessoa,
correferência, tempo verbal, tipo de oração e sexo.

A seguir serão discutidos os resultados para cada grupo de fatores


considerados significativos no conjunto das rodadas realizadas pelo pacote
estatístico, a saber:

111
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

• Fatores Linguísticos: traço semântico do referente, correferência, número da


3ª pessoa e tempo verbal.
• Fatores Sociais: faixa etária e sexo.

e.1 Fatores Linguísticos

e.1.1 Traço Semântico do Referente

O fator traço semântico do referente foi o mais significativo tanto na rodada


geral, quanto na rodada só definidos. Os valores estão sintetizados na tabela 2:

TABELA 2 – FATOR TRAÇO SEMÂNTICO DO REFERENTE


Rodada Definidos e Genéricos PR nulos total %
[- animado] .74 54 67 81
[+ animado/+ genérico] .64 106 152 70
[+ animado] .27 42 164 26
Rodada Só Definidos PR nulos total %
[- animado] .80 54 67 81
[+ animado] .36 42 164 26

Pelos dados, [- animado] mostrou-se como o traço em que há maior


índices de emprego do sujeito nulo, com pesos relativos .74 e .80 para as rodadas
geral e só definidos, respectivamente. Contudo, em línguas pro-drop românicas
autênticas, como o italiano, nesse contexto as taxas de nulos aproximam-se de
100%; o que indica que, mesmo com valores de nulos bastante altos, há indícios
de que uma mudança em relação à variável preenchimento do sujeito está sendo
implementada em favor da variante plena, como atestam os exemplos a seguir
[as referências entre parênteses junto aos exemplos indicam: faixa etária (1, 2
ou 3); sexo (feminino ou masculino) e os números das linhas nas entrevistas de
onde os dados foram retirados. Trechos inseridos aparecem entre colchetes]:

(1) Porque o vício tira a liberdade da pessoa. Ele leva até a última, né? (2f L.
1323-4)

(2) “E, quando começaste, ele [o colégio] era igual ou mudou alguma coisa?”
“Não, teve uma reforma agora quando ele completou cinquenta anos.” (3m
L. 826-9)

Se o traço for [+ animado/+ genérico] também há preferência pelo sujeito


não realizado: peso relativo .64 (exemplo(3)). Contudo, se o traço for [+ animado],
predomina a forma plena (74% dos casos), como mostra (4):

112
TÓPICO 4 | AS VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS

(3) Eu acho, assim, que está faltando muito aquelas festas que pro faziam
antigamente no Doze, no Lira. (1f L. 940-2)

(4) Aí veio Floriano que descobriu aqui a ilha [...] Aí ele foi, parece, governador
daqui. (2m L. 942-5)

Os dados aqui são um pouco diferentes dos encontrados em Duarte


(op. cit.): em seu trabalho, o traço [+ animado/+ genérico] apresentou maior
peso relativo de nulos (.71), enquanto que o traço [- animado] ficou com .61.
Já o peso relativo para o traço [+ animado] em sua pesquisa foi superior: .41.

e.1.2 Correferência

O fator correferência foi o terceiro mais significativo na rodada geral e o


primeiro, na rodada só genéricos. Na rodada só definidos, não foi considerado
significativo. Os resultados aparecem na tabela 3 a seguir:

TABELA 3 – FATOR CORREFERÊNCIA

Rodada Definidos e Genéricos PR nulos total %


não .80 81 94 86
sim, com antecedente fora da sentença .42 77 175 44
sim, em estruturas subordinadas .35 44 109 40
Rodada Só Genéricos PR nulos total %
não .80 78 90 87
sim, com antecedente fora da sentença .18 16 32 50
sim, em estruturas subordinadas .07 12 29 41

Em relação aos sujeitos genéricos, constata-se que o alto nível de


incidência de sujeitos nulos sem correferência (.80) e a redução do uso da
variante pro + clítico se (nos dados analisados, o uso de pro + o clítico se chega
a 26 ocorrências na faixa 1, diminuindo para 10 casos na faixa 2, até apresentar
nenhuma ocorrência na fala do grupo mais jovem) apontam para o uso de uma
estratégia em que “a falta de um referente claro leva à interpretação [+ arbitrária]
de um sujeito nulo” (DUARTE, 1995:10), como mostra o exemplo a seguir:

(5) Então isso eu passei, fui passando otimamente bem, até que na altura pro
me barraram. (3f L. 1227-9)

113
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

Apesar de os dados sobre correferência não terem sido significativos para


a rodada só definidos, os números indicam que em estruturas subordinadas,
contexto em que o uso de nulos seria obrigatório e o preenchimento implicaria
referência disjunta, o percentual de nulos atingiu apenas 40%, o que sugere
que o PB no falar florianopolitano também está perdendo sua permeabilidade
à “anaforicidade” (cf. DUARTE op. cit.), ou seja, não está mais se comportando
como uma língua pro-drop românica autêntica. Os exemplos a seguir atestam isso:

(6) O negro, ele tem pouca introdução em sociedade, né? tem pouca. Se ele
não tiver, ele é sempre marginalizado, né? (2f L. 1080-3)

(7) Eles vêm aqui, nós vamos lá, porque eles moram ali na Costeira, né? (3m L.
1220-2)

e 1.3 Número da 3ª pessoa

Como a correferência, o fator número da 3ª pessoa mostrou-se relevante


apenas para as rodadas geral (4º lugar) e só genéricos (2º lugar). Os números
pertinentes são apresentados pela tabela 4:

TABELA 4: FATOR NÚMERO DA 3ª PESSOA


Rodada Definidos e Genéricos PR nulos total %
singular .56 167 305 55
plural .28 35 78 45
Rodada Só Genéricos PR nulos total %
singular .80 80 102 78
plural .06 26 50 52

Pelos dados (peso relativo .80 de 3ª pessoa do singular contra apenas .06
do plural), verifica-se que o uso de pro (sem o clítico se) + verbo na 3ª pessoa do
singular, de um lado, como mostra o exemplo (8), e da forma plena eles, por outro
(exemplo (9)), parecem ser as preferidas para sujeitos com interpretação arbitrária.

(8) Meu Deus, por fim eu não aguentava mais porque só pro falava no racha na
Beira-Mar. (3f L. 1326-8)

(9) Então a gente ia no cinema, eles tinham sessão das moças ... (2m L. 1093-4)

Entretanto, devido à ambiguidade das formas verbais utilizadas para


tu, ele, você e a gente (e no exemplo (8) com a 1ª pessoa do singular eu), há casos
em que nem sempre é possível identificar apenas com a flexão a pessoa verbal:
se de 1ª, 2ª ou 3ª, como (10) abaixo:

114
TÓPICO 4 | AS VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS

(10) ... sempre saímos de casa às oito e quinze, a não ser que pro more no lado
de lá da ponte... (1fL.1364-5)

Uma solução seria considerar que todas essas formas, com leitura
genérica, são de 3ª pessoa, pois fazem referência a outras pessoas que não o
falante e seu(s) interlocutor(es); muito embora também possam estar incluídos
na generalização em alguns casos.

Tanto os números desse fator quanto do fator correferência indicam


que os sujeitos com traço [+ genérico] possuem um comportamento à parte em
relação à variável dependente preenchimento do sujeito.

e.1.4 Tempo verbal

A tabela 5 a seguir mostra os valores referentes ao fator tempo verbal,


significativo nas rodadas geral em 5º lugar e só genéricos em 3º lugar. Como
nos dois itens acima, esse fator não foi considerado significativo na rodada só
genéricos.

TABELA 5: FATOR TEMPO VERBAL

Rodada Definidos e Genéricos PR nulos total %


pretérito imperfeito .61 70 108 65
pretérito perfeito .61 37 70 53
futuro .51 6 13 46
subjuntivo .44 9 21 43
presente .38 79 170 46
Rodada Só Genéricos PR nulos total %
pretérito perfeito .95 22 24 92
futuro .94 2 3 67
pretérito imperfeito .56 31 34 91
subjuntivo .40 4 7 57
presente .27 47 84 56

Em ambas as rodadas, o pretérito perfeito teve altos índices de não


preenchimento (.61 na rodada geral e .95 nos genéricos), o que aproxima esses
resultados daqueles de Duarte (op. cit.), no qual se constata que, nesse caso,
deve haver um condicionamento prosódico influenciando na maior resistência
ao avanço da forma plena.

e.2 Fatores Sociais

e.2.1 Faixa Etária

115
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

Faixa etária apresentou-se como o segundo fator mais significativo nas


rodadas geral e só definidos. Curiosamente, na rodada só genéricos, o fator
foi excluído, mas os valores percentuais indicam uma queda (pelo menos da
primeira faixa em relação às duas mais jovens) no uso da forma nula: 94%, 58%
e 57%, para as faixas 1, 2 e 3, respectivamente. A tabela 6 abaixo e o gráfico na
página seguinte mostram os valores considerados significativos.

TABELA 6: FATOR FAIXA ETÁRIA

Rodada Definidos e Genéricos PR nulos total %


Faixa 1: mais de 50 anos .69 102 129 79
Faixa 2: de 25 a 50 anos .44 61 125 49
Faixa 3: menos de 25 anos .36 39 129 30
Rodada Só Definidos PR nulos total %
Faixa 1: mais de 50 anos .69 54 78 69
Faixa 2: de 25 a 50 anos .53 27 66 41
Faixa 3: menos de 25 anos .31 15 87 17

Pela tabela e pelo gráfico, observa-se que há uma queda bastante


acentuada de sujeitos nulos de 3ª pessoa nos dados analisados, muito mais
do que aqueles encontrados em Duarte (op. cit.), que não trabalhou com faixa
etária inferior a 25 anos. A partir desses fatos, constata-se que uma mudança
está em curso também no falar florianopolitano, apontado para um “sim” como
resposta à hipótese (cf. seção 1 acima) de que a redução do paradigma verbal
provocou a perda de sua riqueza funcional, impedindo o licenciamento de
sujeitos nulos, o que pode ser observado como a redução em tempo aparente
da variante não realizada: nas três faixas etárias, queda dos pesos relativos de
.69, .44 a .36 e .69, .53 a .31, nas rodadas geral e só definidos, respectivamente.

GRÁFICO: OCORRÊNCIA DE SUJEITOS NULOS DE 3ª PESSOA


DEFINIDOS E GENÉRICOS E SÓ DEFINIDOS, POR FAIXA ETÁRIA (%)

116
TÓPICO 4 | AS VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS

Se a curva do gráfico mantiver a mesma inclinação, a expectativa é de que


o número de sujeitos nulos que a criança daqui a algumas gerações irá receber
nos seus dados linguísticos primários será tão restrito, que ela poderá não mais
acionar o valor positivo ao parâmetro pro-drop, em situação similar ao que
aconteceu com o francês (ROBERTS, 1993), ficando a opção sem preenchimento
restrita a certas expressões residuais, como sugere Duarte (op. cit.).

e.2.2 Sexo

O fator sexo mostrou-se significativo apenas na rodada só genéricos (4ª


colocação). Os números para esse fator são apresentados na tabela 7:

TABELA 7: FATOR SEXO

Rodada Só Genéricos PR nulos total %


masculino .63 64 85 75
feminino .34 42 67 63

Pela tabela, constata-se que os homens parecem preferir a forma nula (.63
contra .34 para as mulheres) em contextos nos quais o sujeito têm interpretação
arbitrária. Como nos itens acima, esse foi mais um fator em que sujeitos com traço
[+ genérico] comportaram-se de forma diferenciada em comparação aos sujeitos
de referência definida, no que diz respeito à variável preenchimento do sujeito,
com destaque a os fatores correferência e faixa etária (cf. itens 4.1.2 e 4.2.1 acima).

f) Conclusão

Os dados analisados indicam que, também no falar florianopolitano,


a distribuição complementar entre formas nulas e preenchidas parece não
mais existir, sendo que há uma preferência pela segunda, no que diz respeito
à variável preenchimento do sujeito de 3ª pessoa. Dos fatores mais relevantes,
o que mais se destacou foi o traço semântico do referente, que – com relação
ao traço [- animado], apesar da alta taxa de nulos – parece mostrar que a
fala de florianopolitanos está se distanciando de línguas pro-drop românicas
autênticas, nas quais o emprego de sujeitos nulos nesse contexto é obrigatório.
A mesma observação pode ser feita para estruturas subordinadas em que há
correferência dos sujeitos da matriz e da encaixada: nos dados analisados há
um uso maior da forma plena num contexto em que seriam encontrados apenas
nulos em línguas pro-drop, sendo que o preenchimento implicaria referência
disjunta. Outro fator relevante, principalmente no sentido de apontar para
a confirmação da primeira hipótese desta pesquisa, foi a faixa etária: os
índices de nulos mostraram acentuada queda em tempo aparente, revelando
provavelmente que o paradigma verbal da comunidade em estudo também
perdeu sua riqueza funcional, o que passaria a impedir o licenciamento da
categoria vazia pro na posição sujeito.

117
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

Como sugere Duarte (op. cit.), a mudança que aponta para a vitória
da variante pronominal plena não foi integralmente implementada. Há
ainda contextos com grande resistência ao avanço da forma realizada, o caso
mais notável o dos sujeitos genéricos, tanto que receberam um tratamento
estatístico à parte, apontando fatores significativos diferentes dos sujeitos de
referência definida, como correferência, número de 3ª pessoa, tempo verbal,
sexo, culminando com a não seleção da faixa etária.

Um estudo complementar desta pesquisa seria importante a fim de


investigar com maior riqueza de detalhes o comportamento das variantes aqui
estudadas, não apenas com uma maior quantidade de dados, mas também
com as outras pessoas do discurso, em especial com relação às formas tu (sem
concordância), você, nós e a gente, que parecem interferir na interpretação de
sujeitos de 3ª pessoa, pois adotam a mesma forma verbal desta. Além disso,
outros fatores condicionantes poderiam ser levados em consideração (e.g.
grau de conexão com o discurso e escolaridade), mostrando assim um quadro
mais completo e apurado da investigação do parâmetro pro-drop no PB, em
especial no falar de Florianópolis.

REFERÊNCIAS

CHOMSKY, N . Lectures on Government and Binding. Dordrecht: Foris,


1981.

DUARTE, M.E.L. Do pronome nulo ao pronome pleno: a trajetória do Sujeito


no Português do Brasil”. In: ROBERTS, I.; KATO, M. A. (org.) Português
Brasileiro: uma viagem diacrônica. Campinas: Ed. Unicamp, 1993, p. 107-28.

DUARTE, M.E.L. A Perda do Princípio “Evite Pronome” no Português


Brasileiro, ms. 1995.

LABOV, W. Sociolinguistic patterns. Philadelphia: Philadelphia Univ. Press,


1972.

LABOV, W. Where does the linguistic variable stop? A response to Beatriz


Lavandera. Working papers in sociolinguistics, Austin, Texas, n. 44, 1978.

LAVANDERA, B. Where does the sociolinguistic variable stop? Language


society, 7. Printed in Great Britain, 1978, p. 151-182.

PAREDES SILVA, V. L. Por trás das frequências. Organon, v. 5, n. 17. Porto


Alegre: Ufrgs, 1991, p. 23-36.

PAREDES SILVA, V. L. A relevância dos fatores internos. In: Mollica, M. C.


(org.). Introdução à sociolinguística variacionista. Cadernos didáticos UFRJ,
n. 4, Rio de Janeiro, 1992, p. 33-37.

118
TÓPICO 4 | AS VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS

ROBERTS, I. Verbs and diachronic syntax. Dordrecht: Kluwer, 1993.

SEARA, I. C. Expressão variável do sujeito nós e a gente na fala de


informantes florianopolitanos: variáveis linguísticas e sociais. ms.,
Florianópolis, UFSC, 1997.

VALLE, C. R. M. et al. Tu e você: ocorrência e concordância no Brasil


meridional. Trabalho de conclusão da disciplina História da Língua.
Florianópolis, UFSC, 1998.

Apêndice: Fatores em ordem decrescente de significação para a ocorrência do sujeito


nulo nas três rodadas

I) Rodada Definidos e Genéricos PR nulos total %

1º) Traço semântico do referente


[- animado] .74 54 67 81
[+ animado/+genérico] .64 106 152 70
[+ animado] .27 42 164 26

2º) Faixa etária


mais de 50 anos .69 102 129 79
de 25 a 50 anos .44 61 125 49
menos de 25 anos .36 39 129 30

3º) Correferência
não .80 81 94 86
sim, com antecedente fora da sentença .42 77 175 44
sim, em estruturas subordinadas .35 44 109 40

4º) Número da 3ª pessoa


singular .56 167 305 55
plural .28 35 78 45

5º) Tempo verbal


pretérito imperfeito .61 70 108 65
pretérito perfeito .61 37 70 53
futuro .51 6 13 46
subjuntivo .44 9 21 43
presente .38 79 170 46

II) Rodada Só Genéricos PR nulos total %

119
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

1º) Correferência
não .80 78 90 87
sim, com antecedente fora da sentença .18 16 32 50
sim, em estruturas subordinadas .07 12 29 41

2º) Número da 3ª pessoa


singular .80 80 102 78
plural .06 26 50 52

3º) Tempo verbal


pretérito perfeito .95 22 24 92
futuro .94 2 3 67
pretérito imperfeito .56 31 34 91
subjuntivo .40 4 7 57
presente .27 47 84 56

4º) Sexo
masculino .63 64 85 75
feminino .34 42 67 63

III) Rodada Só Definidos PR nulos total %

1º) Traço semântico do referente


[- animado] .80 54 67 81
[+ animado] .36 42 164 26

2º) Faixa etária


mais de 50 anos .69 54 78 69
de 25 a 50 anos .53 27 66 41
menos de 25 anos .31 15 87 17

Leia agora como texto complementar alguns trechos da Introdução do


livro Padrões Sociolinguísticos, publicado originalmente em 1972, do linguista
William Labov, cuja página pessoal (em inglês) na internet pode ser acessada no
endereço: <http://www.ling.upenn.edu/~wlabov/>.

120
TÓPICO 4 | AS VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS

FIGURA 27 – PADRÕES SOCIOLINGUÍSTICOS, DE WILLIAM


LABOV

FONTE: Disponível em: <https://www.livrarialoyola.com.br/


images/produtosg/251702.jpg>. Acesso em: 7 jun. 2010.

LEITURA COMPLEMENTAR

INTRODUÇÃO [ao livro Padrões Sociolinguísticos]

William Labov

Por vários anos, resisti ao termo sociolinguística, já que ele implica que
pode haver uma teoria ou prática linguística bem-sucedida que não é social.
Quando publiquei pela primeira vez os estudos sobre Martha’s Vineyard e Nova
York, que compõem a base da primeira parte deste livro, pareceu necessário
reafirmar esse ponto repetidas vezes. Apesar de um considerável volume de
atividade sociolinguística, uma linguística socialmente realista parecia uma
perspectiva remota nos anos 1960. A grande maioria dos linguistas tinha se
voltado resolutamente para a contemplação de seus próprios idioletos. Ainda não
emergimos da sombra de nossas intuições, mas não parece mais ser necessário
brigar sobre o que é ou não é linguística. Existe uma crescente percepção de que
a base do conhecimento intersubjetivo na linguística tem de ser encontrada na
fala — a língua tal como usada na vida diária por membros da ordem social,
este veículo de comunicação com que as pessoas discutem com seus cônjuges,
brincam com seus amigos e ludibriam seus inimigos.

Quando me iniciei na linguística, como estudante, em 1961, era minha


intenção coletar dados no mundo secular. Os primeiros projetos que concebi
eram “ensaios em linguística experimental”, levados a cabo em ambientes sociais
corriqueiros. Meu objetivo era evitar a inevitável obscuridade dos textos, a inibição
das elicitações formais e o autoengano da introspecção. Uma década de trabalho
fora da universidade como químico industrial tinha me convencido de que o
mundo cotidiano era rebelde, mas consistentemente rebelde, desconcertante no

121
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

início, mas recompensador em longo prazo para aqueles que se apegavam a seu
caráter racional. Uma simples revisão da literatura me convenceria de que tais
princípios empíricos não tinham lugar na linguística: existiam diversas barreiras
ideológicas para o estudo da língua na vida diária. Primeiramente, Saussure tinha
enunciado o princípio de que os sistemas estruturais do presente e as mudanças
históricas do passado tinham de ser estudados separadamente (1949: 124). Esse
princípio tinha sido consistentemente erodido por Martinet (1955) e outros, que
encontraram estrutura nas mudanças passadas, mas pouco progresso fora feito na
localização da mudança nas estruturas presentes. A segunda barreira ideológica
afirmava explicitamente que a mudança sonora não podia, em princípio, ser
observada diretamente. Bloomfield defendia a regularidade da mudança sonora
contra a evidência irregular do presente declarando (1933: 364) que quaisquer
flutuações que pudéssemos observar seriam apenas casos de empréstimo dialetal.
Em seguida, Hockett observou que, embora a mudança sonora fosse lenta demais
para ser observada, a mudança estrutural era rápida demais (1958: 457). O estudo
empírico da mudança linguística estava, portanto, eliminado do programa da
linguística do século XX.

Uma terceira restrição era, talvez, a mais importante: a variação livre


não podia, em princípio, ser condicionada. O postulado básico da linguística
(BLOOMFIELD, 1933: 76) declarava que alguns enunciados eram o mesmo. Por
conseguinte, eles estavam em variação livre, e se considerava linguisticamente
insignificante saber se um ou outro ocorria num momento particular. Relações de
mais ou menos, portanto, eram descartadas do raciocínio linguístico: uma forma
ou regra só podia ocorrer sempre, opcionalmente ou nunca. A estrutura interna
da variação ficava, portanto, removida dos estudos linguísticos e, com ela, o
estudo da mudança em progresso.

Também se sustentava que os sentimentos acerca da língua eram


inacessíveis e estavam fora do escopo do linguista. (BLOCH; TRAGER, 1942). A
avaliação social das variantes linguísticas estava, portanto, fora de consideração.
Esse é simplesmente um aspecto da afirmação mais geral de que o linguista
não devia usar dados não-linguísticos para explicar a mudança linguística (cf.
a primeira seção do capítulo 9). Ao longo dessas discussões, vemos diversas
referências àquilo que o linguista pode ou não pode fazer enquanto linguista.

Eu poderia de fato ter desconsiderado todas essas restrições graças à


minha própria inclinação e resistência à autoridade. Mas tive a sorte de encontrar
na Columbia University um professor pouco mais velho do que eu, cuja intuição,
imaginação e força criativa há muito tempo já tinham ultrapassado tais restrições.
É impossível para mim avaliar a contribuição de Uriel Weinreich aos estudos
relatados aqui. Aprendi com ele em cursos sobre sintaxe, semântica, dialetologia
e história da linguística; ele orientou meu trabalho sobre Martha’s Vineyard
(capítulo 1), que foi minha dissertação de mestrado, e o estudo sobre Nova York
(capítulo 2), que foi minha tese de doutorado. No entanto, naquilo tudo ele não
impôs sua própria visão ou sugestão direta acerca de que caminho tomar. Mas
com cautela, moderação e exemplos, ajudou a dirigir meus próprios projetos para

122
TÓPICO 4 | AS VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS

os canais mais propícios. Weinreich tinha um extraordinário senso de direção


em linguística; raramente dava um passo em falso em seus próprios projetos de
pesquisa, e todos nós tiramos proveito de suas intuições. Recentemente tive a
oportunidade de ler alguns dos esboços e projetos inéditos de Weinreich para o
estudo do multilinguismo e da variação social na comunidade de fala. Descobri
que seu pensamento tinha se antecipado ao meu em vários anos e, sem dúvida,
desempenhado um papel muito maior nos resultados oferecidos aqui do que
pode transparecer nas referências explícitas. Mais do que qualquer outra coisa,
me beneficiei da calma convicção de Weinreich de que estávamos nos movendo
no rumo que uma linguística racional e realista inevitavelmente deveria tomar.

Em 1966, Weinreich propôs a Marvin Herzog e a mim que escrevêssemos


juntos um ensaio sobre os Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança
linguística [WEINREICH; HERZOG; LABOV, 1968 (2006)], para uma conferência
na Universidade do Texas. Tal como o finalizamos, aquele artigo incorporou os
resultados do meu próprio trabalho em Nova York e em Martha’s Vineyard, as
descobertas de Herzog sobre a dialetologia do iídiche no norte da Polônia e a
visão global de Weinreich, que criou o Atlas linguístico e cultural dos judeus
asquenazes. Tudo isso foi encaixado numa visão mais ampla da história da
linguística, que foi produto exclusivo da erudição de Weinreich. Na primavera
de 1967, quando se deu conta de que lhe restava pouco tempo de vida, Weinreich
se dedicou com grande energia à revisão final daquele ensaio. Em suas duas
últimas semanas de vida, Weinreich reelaborou a introdução ao ensaio de um
modo que capta claramente sua visão geral da natureza da linguagem e a relação
da linguagem com a sociedade. Tal introdução postula o tema principal deste
volume melhor do que qualquer passagem de minha própria autoria:

Os fatos da heterogeneidade, até agora, não se harmonizaram bem


com a abordagem estrutural da língua. [...] Pois quanto mais os
linguistas têm ficado impressionados com a existência da estrutura
da língua, e quanto mais eles têm apoiado essa observação com
argumentos dedutivos sobre as vantagens funcionais da estrutura,
mais misteriosa tem se tornado a transição de uma língua de um
estado para outro. Afinal, se uma língua tem de ser estruturada, a
fim de funcionar eficientemente, como é que as pessoas continuam a
falar enquanto a língua muda, isto é, enquanto passa por períodos de
menor sistematicidade? [...] A solução, argumentaremos, se encontra
no rompimento da identificação de estruturalidade [structuredness]
com homogeneidade. A chave para uma concepção racional da
mudança linguística — e mais, da própria língua — é a possibilidade
de descrever a diferenciação ordenada numa língua que serve a uma
comunidade. Argumentaremos que o domínio de um falante nativo
[nativelike command] de estruturas heterogêneas não tem a ver com
multidialetalismo nem com o “mero” desempenho, mas é parte da
competência linguística monolíngue. Um dos corolários de nossa
abordagem é que numa língua que serve a uma comunidade complexa
(i.e., real), a ausência de heterogeneidade estruturada é que seria
disfuncional [WEINREICH; LABOV; HERZOG, 1968 (2006) p. 100-1].

[...]

123
UNIDADE 2 | A SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA

Ao longo destas páginas, ficará óbvio que minha dívida mais profunda
é para com os muitos falantes de inglês que me convidaram às suas casas,
compartilharam comigo suas varandas, suas esquinas de rua e seus bancos
de praça, que se desviaram de outros afazeres para conversar, transformando
suas próprias experiências em linguagem para o meu benefício. Somente uma
pequena parte do que aprendi com eles pode ser encontrada aqui. Mas espero que
este trabalho reflita a infinita variedade da vida cotidiana e a grande satisfação
de encontrar e gravar os usuários da língua. Aqueles que têm se servido dos
recursos reais da comunidade de fala descobrem que o trabalho de campo é uma
rica fonte que nunca se esgota. Descobri que não existe prazer maior do que viajar
como um estrangeiro privilegiado a todas as partes do mundo, ser recebido com
gentileza e cortesia por homens e mulheres em todos os lugares e compartilhar
com eles o conhecimento e a experiência tal como reaparecem em sua linguagem.
O linguista que entra no mundo só pode concluir que o ser humano é o herdeiro
legítimo da estrutura incrivelmente complexa que nós agora estamos tentando
analisar e compreender.

FONTE: LABOV, William. Padrões sociolinguísticos. Tradução de Marcos Bagno, Maria Marta
Pereira Scherre, Caroline Rodrigues Cardoso. São Paulo: Parábola Editorial, 2008. p. 13-18.
Disponível em: <http://www.parabolaeditorial.com.br/padroes3-18.pdf>. Acesso em: 2 jun. 2010.

124
RESUMO DO TÓPICO 4
Neste tópico, você pôde estudar as variáveis linguísticas fonológicas
e morfossintáticas a partir de vários exemplos. Vimos essas variáveis
isoladamente dos fatores de variação externa ou sociais, assunto tratado no
tópico anterior. É claro que na língua viva os fatores de variação externa (ou
sociais) e interna (ou linguísticos) se misturam, passando para o leigo a ideia do
caos linguístico. É a análise sistemática com que a sociolinguística variacionista
trabalha que nos permite separar e entender a diversidade linguística. Por isso,
você teve oportunidade de ler o trabalho variacionista do professor Alberto
Gonçalves, coautor deste Caderno de Estudos. Por fim, você teve acesso, como
leitura complementar, a um texto de William Labov, considerado o pai da
sociolinguística variacionista.

125
AUTOATIVIDADE

Grave com um celular ou filme com máquina fotográfica uma conversa


sua com um amigo e em seguida faça uma lista das variáveis fonológicas e
morfossintáticas que você percebe em cada fala.

Assista ao vídeo de
resolução desta questão

126
UNIDADE 3

QUESTÕES ATUAIS EM
SOCIOLINGUÍSTICA

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir desta unidade você será capaz de:

• refletir e discutir os conceitos de língua, língua padrão e dialeto e suas


implicações nas diferentes concepções e ações referentes às questões sobre
língua e sociedade;

• refletir e diferenciar questões concernentes aos comportamentos e atitudes


linguísticos com relação às variações linguísticas, enfatizando-se os deba-
tes a respeito do preconceito linguístico e dos estrangeirismos.

• refletir e discutir as contribuições dos estudos sociolinguísticos para o en-


sino de línguas em geral e de língua materna em particular.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em quatro tópicos. No final de cada tópico, você en-
contrará atividades que possibilitarão a apropriação de conhecimentos na área.

TÓPICO 1 – LÍNGUA E DIALETO

TÓPICO 2 – NORMA PADRÃO, NORMA CULTA, NORMA POPULAR OU


VERNACULAR

TÓPICO 3 – COMPORTAMENTOS E ATITUDES LINGUÍSTICOS

TÓPICO 4 – ENSINO DE LÍNGUA E SOCIOLINGUÍSTICA

Assista ao vídeo
desta unidade.

127
128
UNIDADE 3
TÓPICO 1

LÍNGUA E DIALETO

1 INTRODUÇÃO
Prezado acadêmico!

Nesta unidade iremos apresentar e discutir algumas questões atuais em


Sociolinguística. Inicialmente apresentaremos os conceitos de língua e dialeto
e veremos que as distinções entre ambos não são tão óbvias, pois envolvem
fatores não apenas linguísticos, mas principalmente sociais, políticos e históricos.
Também serão objetos de investigação os conceitos de norma padrão, norma culta e
norma popular ou vernacular, bem como a noção de “erro” linguístico. Em seguida,
apresentaremos duas questões relacionadas às atitudes e representações que
os falantes têm a respeito da língua: o preconceito linguístico e os estrangeirismos.
Finalmente, encerramos a Unidade tecendo algumas considerações sobre a
relação entre Sociolinguística e o ensino de línguas.

AUTOATIVIDADE

Antes de iniciar a leitura do tópico, convidamos você, prezado


acadêmico, a fazer uma pesquisa consultando livros, apostilas, revistas,
dicionários e sites sobre esses dois conceitos: língua e dialeto.

Assista ao vídeo de
resolução desta questão

Discutiremos neste tópico que, ao contrário do que comumente se imagina,


a distinção entre língua e dialeto não é tão simples e clara, dependendo de vários
fatores e da linha teórica de quem analisa. Vejamos!

129
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

2 LÍNGUA E DIALETO
A primeira questão que apresentaremos nesta unidade diz respeito
à distinção entre língua e dialeto. Dando prosseguimento a essa discussão,
transcrevemos a seguir algumas acepções que consideramos importantes, com
relação às entradas língua e dialeto encontradas no Dicionário Aurélio Século XXI
(FERREIRA, 1999):

Definições de língua e dialeto

língua. [Do lat. lingua.] S.f. 3. O conjunto das palavras e expressões usadas por
um povo, por uma nação, e o conjunto de regras da sua gramática; idioma. 4.
A língua vernácula. 7. E. Ling. [Estudos da Linguagem] Sistema de signos (v.
signo [4]) que permite a comunicação entre os indivíduos de uma comunidade
linguística. [Sin. nesta acepç: langue (fr.), código, linguagem articulada. Cf., nesta
acepç., discurso (4)] 8. E. Ling. Sistema linguístico que resulta da aquisição (4).
[Cf., nesta acepç. gramática (6).] 9. E. Ling. Contínuo de variedades linguísticas
que, por razões culturais, políticas, históricas, geográficas, é considerado como
entidade única que delimita uma comunidade linguística. [p. 1.217]

dialeto. [Do gr. diálektos, pelo lat. dialectu.] S.m. E. Ling. 1. Variedade subpadrão
ou não-padrão de uma língua, associada a grupos que não contam com prestígio
social. [Sin.: linguajar (2).] 2. Variedade regional de uma língua que conta com
forte tradição literária. 3. Variedade linguística regional que não tem escrita;
patoá. 4. Cada uma das subdivisões que se podem aplicar a determinada
língua, utilizando como critério básico a região geográfica ou a camada social
a que pertence o falante; variedade. [V. falar (28)]. [p. 676]

FONTE: FERREIRA, Aurélio B. de H. Novo Aurélio século XXI: o dicionário da língua portuguesa.
3. ed. rev. amp. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

A princípio, podemos observar que há uma distinção hierárquica entre ambos


os conceitos: o dialeto é considerado uma variedade da língua. Semanticamente,
pode-se também afirmar que língua é um hiperônimo, isto é, possui um sentido
mais abrangente, enquanto dialeto seria seu hipônimo, ou seja, apresentaria um
sentido mais restrito, subordinado ao de língua. Observe também que dessa relação
hierárquica decorre que podemos dizer que D é um dialeto de uma língua L, mas o
seu contrário – L é uma língua do dialeto D – soaria estranho ou mesmo sem sentido.
Como exemplo, seria possível afirmar que o português é uma língua, ao passo que
a variedade regional conhecida como caipira é um dialeto do português.

130
TÓPICO 1 | LÍNGUA E DIALETO

Outro exemplo relacionado à questão que estamos aqui discutindo está


presente em regiões de colonização de imigrantes no Brasil, onde é comum ouvir
que as comunidades dessas regiões falam um dialeto da língua do país de origem do
imigrante. Por exemplo: numa cidade como Pomerode (SC), onde grande parte dos
munícipes é de origem alemã, é comum ouvir, dos próprios integrantes das famílias
descendentes de alemães, que eles falam um dialeto do alemão, o pomerano – o
Pommerisch (além de outro dialeto alemão, o Hunsruckisch) – em vez da língua alemã.

FIGURA 28 – MUNICÍPIO DE POMERODE (SC)

FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/a5/SantaCatarina_


Municip_Pomerode.svg>. Acesso em: 7 jun. 2010.

AUTOATIVIDADE

No local onde você mora, estuda e/ou trabalha é feita a distinção entre
língua e dialeto? Se a resposta for afirmativa, procure elucidar quais fatores
são usados para justificar a distinção.

Podemos agora nos perguntar, a partir desses exemplos apresentados, o


que diferencia língua (portuguesa, alemã etc.), de um lado, e o dialeto (caipira,
Pommerisch, Hunsruckisch etc.), do outro?. Vamos, então, rever as definições
apresentadas anteriormente e procurar relacioná-las com os exemplos apresentados.

131
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

Comecemos pelas definições de dialeto. Se você observar bem, verá que


as definições coincidem com as definições da variedade diastrática (relacionada
com as diferenças linguísticas nos vários estratos sociais das comunidades
linguísticas) e diatópica (relacionada com as diferenças linguísticas nas diferentes
regiões onde se encontram as comunidades linguísticas), conforme apresentado
na Unidade 2, lembra? No quadro a seguir, repetimos as definições de dialeto e
indicamos o tipo de variedade correspondente:

QUADRO 10 – DEFINIÇÕES DE DIALETO


Definição de dialeto Variedade
1. Variedade subpadrão ou não-padrão de uma língua, associada a grupos
diastrática
que não contam com prestígio social
2. Variedade regional de uma língua que conta com forte tradição literária diatópica
3. Variedade linguística regional que não tem escrita; patoá diatópica
4. Cada uma das subdivisões que se podem aplicar a determinada língua,
diatópica ou
utilizando como critério básico a região geográfica ou a camada social a
diastrática
que pertence o falante; variedade
FONTE: Ferreira (1999)

A acepção 1 está mais próxima do senso comum segundo o qual a


variedade de prestígio de uma língua, isto é, sua forma padrão é considerada
como sinônimo de língua, ao passo que as variedades estigmatizadas, isto é,
as variedades consideradas subpadrão, ou não-padrão, são consideradas como
dialeto. Nesse sentido, também poderíamos dizer que a língua é um dialeto com
prestígio e o dialeto é uma língua sem prestígio. O dialeto caipira nesse contexto
é exemplar. Já a variedade de prestígio é identificada como língua portuguesa.
O mesmo raciocínio é válido para o contexto das comunidades de imigração.
A variedade padrão do alemão é reconhecida como língua alemã, ao passo que
as variedades subpadrões das comunidades de imigração em Pomerode-SC são
consideradas dialetos do alemão: o Pommerisch e o Hunsruckisch.

As definições 2 e 3 são complementares e estão relacionadas ao contexto


francês (MARTINET, 1964 apud HAUGEN, 2001, p. 100), onde havia diferentes
variedades linguísticas regionais, cada uma com sua norma escrita, até que a
variedade escrita parisiense, depois do século XIV, se tornou a forma padrão
única e as formas regionais gradualmente deixaram de ser escritas, limitando-
se à modalidade falada, denominada patois – o que também denota uma atitude
pejorativa. Observe que a forma aportuguesada patoá aparece como sinônimo na
acepção 3 do dicionário. Assim, na acepção 2, a variedade regional possui forte
tradição literária, sendo entendida aqui como uma norma linguística escrita usada
para fins literários e, portanto, oficiais (HAUGEN, 2001, p. 100). Já na acepção
3, a variedade regional se restringe aos usos de língua falada em situações mais
informais. Uma última consideração diz respeito ao entendimento de tradição
literária. Embora não enunciada na acepção 2, é deduzível na acepção seguinte: trata-
se de literatura escrita, o que parece ser a regra nos países europeus, em especial a
França, que usualmente colocam em segundo plano a riqueza das literaturas orais.
132
TÓPICO 1 | LÍNGUA E DIALETO

Finalmente a acepção 4 está mais próxima ao conceito da tradição de


língua inglesa para dialeto. Ainda segundo Haugen, “[e]scritores mais antigos,
citados no OED [Oxford English Dicitionary], frequentemente usaram o termo
para qualquer variedade linguística especializada, por exemplo, ‘o dialeto
do advogado’” (p. 100-101). No caso da definição 4, corresponderiam então as
variedades tanto geográficas quanto sociais, ou seja, diatópicas e diastráticas.

Discutiremos agora as acepções de língua apresentadas no dicionário.


Transcrevemos a seguir a primeira (acepção 3):

3) O conjunto das palavras e expressões usadas por um povo, por uma nação, e o conjunto
de regras da sua gramática; idioma.

Nessa definição a língua é constituída de um léxico (palavras e expressões)


e de uma gramática (conjunto de suas regras), sendo usada por um povo ou
nação. Entretanto, podemos nos perguntar: mas essa definição também não pode
ser aplicada a dialeto? Os dialetos também são constituídos de um léxico e uma
gramática. Por outro lado, podemos dizer, do ponto de vista sociolinguístico, que
um dialeto (e também uma língua) é usado por uma comunidade linguística.
Como apresentamos no início da Unidade 1, uma comunidade linguística
(ou de fala) é um “[...] conjunto de pessoas que interagem verbalmente e que
compartilham um conjunto de normas com respeito aos usos linguísticos”.
(ALKMIM, 2005, p. 31).

A questão então passa a ser: pode o conceito de povo e o conceito de


nação ser associado ao de comunidade linguística ou de fala? Talvez seja possível
pensar que um determinado povo (um grupo étnico de um determinado país,
por exemplo) fale um dialeto. Já em relação a uma nação falar um dialeto, talvez
faça sentido se pensarmos o termo nação associado ao conceito de povo, mas se
associado ao conceito de um país (Estado-Nação) talvez fique realmente estranho.
Por exemplo, parece que ninguém ou quase ninguém diria que no Brasil se fala
o dialeto brasileiro (da língua portuguesa) e que nos Estados Unidos, o dialeto
americano (da língua inglesa).

NOTA

Essa última informação captura um dado importante: a estreita ligação entre o


conceito de língua e o de Estado-Nação. Discutiremos esse tópico mais adiante.

133
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

Vejamos agora a acepção seguinte:

4) A língua vernácula.

Conforme apresentamos na Unidade 2, do ponto de vista sociovariacionista,


o vernáculo é a língua falada, a enunciação do dia a dia capaz de expressar fatos,
ideias, proposições etc., sem a preocupação com o como será dito, mas com o que
será dito (TARALLO, 1993, p. 19). Mas aqui nos perguntamos novamente: essa
definição também não pode ser usada para dialeto, em sua modalidade oral?

Acepção: 7. E. Ling. [Estudos da Linguagem] Sistema de signos (v. signo [4])


que permite a comunicação entre os indivíduos de uma comunidade linguística. [Sin.
nesta acepç: langue (fr.), código, linguagem articulada. Cf., nesta acepç., discurso (4)]

Aqui nos parece que essa definição também não consegue fazer uma
distinção nítida entre língua e dialeto, já que podemos considerar que ambos são
constituídos de signos que permitem a comunicação entre os indivíduos de uma
mesma comunidade linguística.

Acepção: 8. E. Ling. Sistema linguístico que resulta da aquisição (4). [Cf., nesta
acepç. gramática (6).]

Aqui podemos afirmar que tanto uma língua quanto um dialeto são
sistemas linguísticos resultantes da aquisição da linguagem. Em outras palavras:
continuamos sem ter uma separação nítida entre língua e dialeto.

E finalmente a última acepção:

9) E. Ling. Contínuo de variedades linguísticas que, por razões culturais, políticas, históricas,
geográficas, é considerado como entidade única que delimita uma comunidade linguística.

Aqui também a definição serve tanto para língua quanto para dialeto:
ambos os conceitos são um contínuo de variedades linguísticas e são considerados
como uma entidade única que delimita uma comunidade linguística. E isso se dá,
em ambos os casos, por razões culturais, políticas, históricas e geográficas.

UNI

Você deve estar se perguntando: então a distinção entre língua e dialeto não é
clara, não é nítida, não é óbvia?

134
TÓPICO 1 | LÍNGUA E DIALETO

Se considerarmos as definições de língua citadas anteriormente, parece


que não há uma nítida fronteira entre o que seja uma língua e um dialeto. Essa
constatação se deve pelo fato de que a relação dos dois conceitos é de dependência,
como já mencionamos, hierárquica, lembra-se? Língua é o hiperônimo e dialeto é o
hipônimo. Em outras palavras: todo dialeto é uma língua, mas nem toda língua é um
dialeto. Ou seja, todas as definições de língua citadas valem para dialeto. Entretanto,
fizemos uma ressalva com relação à primeira acepção, pois lá foi indicado que há
uma especialização do termo língua em relação ao de Estado-Nação: parece não ser
habitual se dizer que no Brasil se fala o dialeto brasileiro (da língua portuguesa).

De fato, a relação “uma nação, uma língua” tem sido uma das tônicas
dos movimentos nacionalistas de vários países. No Brasil, podemos citar como
exemplo a campanha de nacionalização articulada pelo Estado Novo na década
de 1940, ilustrativa da política linguística do governo do então presidente Getúlio
Vargas que se empenhou em proibir no território brasileiro o uso das línguas
diferentes das do português.

DICAS

Faça uma pesquisa sobre o nacionalismo, suas características, considerações


históricas, os elementos ou signos utilizados para representar a nação (bandeira, hino,
tradições, história oficial, língua oficial etc.), dentre outras características.
Sobre este assunto, indicamos a leitura do livro Comunidades imaginadas: reflexões sobre a
origem e difusão do nacionalismo, de Benedict Anderson (Cia. das Letras).

FIGURA 29 – COMUNIDADES IMAGINADAS

FONTE: Disponível em: <http://www.livrariaresposta.com.br/fotos/


cia_letras_comu_imaginadas230.jpg>. Acesso em: 16 jun. 2010.

135
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

DICAS

Há vários estudos sobre a campanha de nacionalização do Estado Novo


brasileiro e seu impacto nas comunidades de imigração, principalmente no sul do país. Você
pode consultar os acervos digitais de teses e dissertações de universidades como a USP,
Unicamp, UFPR, UFSC, UDESC, UFRGS, dentre tantas outras.

O que também nos parece importante apontar nessa relação entre língua,
dialeto e nação é o fato de uma variedade ou um dialeto poder ser alçado à categoria
de língua. Já havíamos apresentado na discussão das diferentes acepções de
dialeto que a variedade escrita parisiense, depois do século XIV, se tornou a forma
padrão única na França, isto é, a língua francesa. Outro exemplo é apresentado por
Signorini (2002, p. 97, nota 1): a antiga Iugoslávia, cuja implosão nos anos de 1990
desencadeou uma série de estratégias de revitalização e emancipação de línguas
minoritárias orientadas pela lógica do nacionalismo. A esse respeito, a autora
escreve que os falantes até então vinham sendo convencidos de que falavam uma
mesma língua com suas variações, o servo-croata. Este foi então desmembrado em
três línguas distintas: o sérvio, o croata e o bósnio. Assim, a cada Estado-Nação
etnoculturalmente homogêneo e territorialmente distinto passou a corresponder
uma língua diferente. Signorini também comenta as diferentes ações político-
linguísticas nacionalistas implementadas por cada uma das três novas nações:

Nesse sentido, o processo de purificação e homogenização linguística é


estratégico para os movimentos nacionalistas da Sérvia, da Croácia e da Bósnia,
que buscam identificar e reforçar o maior número possível de diferenças entre
as línguas. São várias as ações de grande impacto empreendidas pelas políticas
linguísticas de cada movimento, com destaque para a adoção de um alfabeto não
romano para o croata (cirílico) e a arabização e turquização do bósnio.

FIGURA 30 – MAPA DA ANTIGA IUGOSLÁVIA COM SUAS


REPÚBLICAS E PROVÍNCIAS

FONTE: Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/


images/mapa-bosnia_iugoslavia.gif>. Acesso em: 24 jun. 2010.

136
TÓPICO 1 | LÍNGUA E DIALETO

Entretanto, nem sempre a mudança de status de um dialeto em língua


está relacionada à criação de novos estados-nações. No Brasil, podemos também
considerar um exemplo de dialeto que está passando por um processo de
reconhecimento e oficialização como língua: a língua pomerana em Santa Maria
de Jetibá (ES). A seguir transcrevemos o texto da lei municipal que cooficializa a
língua pomerana naquela cidade:

Prefeitura Municipal de Santa Maria de Jetibá


ESTADO DO ESPÍRITO SANTO
 
LEI nº 1136/2009
DISPÕE SOBRE A CO-OFICIALIZAÇÃO DA LÍNGUA POMERANA NO
MUNICÍPIO DE SANTA MARIA DE JETIBÁ, ESTADO DO ESPÍRITO SANTO.

O Prefeito Municipal de Santa Maria de Jetibá, Estado do Espírito Santo.


Faço saber que a Câmara Municipal aprovou e eu sanciono a seguinte lei:
Art. 1°. A língua portuguesa é o idioma oficial da República Federativa do Brasil
e no município de Santa Maria de Jetibá, fica co-oficializada a língua pomerana.
Art. 2°. A co-oficialização da língua pomerana obriga o município a:
I – manter os atendimentos ao público, nos órgãos da administração municipal,
na língua oficial e na língua co-oficializada;
II – produzir a documentação pública, as campanhas publicitárias, institucionais,
os avisos, as placas indicativas de ruas, praças e prédios públicos e as comunicações de
interesse público, na língua oficial e na língua co-oficializada;
III – incentivar o aprendizado e o uso da língua pomerana, nas escolas e nos
meios de comunicação.
Art. 3°. São válidos e eficazes, todos os atos da administração pública, editados
na língua pomerana.
Art. 4°. O uso da língua pomerana não será motivo de discriminação, no exercício
dos direitos de cidadania, assegurados pela Constituição Federal.
Art. 5°. As pessoas jurídicas estabelecidos no município de Santa Maria de
Jetibá deverão adotar atendimento e mensagens ao público, no idioma oficial e naquele
co-oficializado por esta Lei.
Art. 6°. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 7°. Revogam-se as disposições em contrário.

Registre-se. Publique-se. Cumpra-se.


Santa Maria de Jetibá-ES, 26 de Junho de 2009.
HILÁRIO ROEPKE
Prefeito Municipal

FONTE: Disponível em: <www.ipol.org.br>. Acesso em: 24 jun. 2010.

137
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

FIGURA 31 – SANTA MARIA DE JETIBÁ (ES)

FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/


Ficheiro:EspiritoSanto_Municip_SantaMariadeJetiba.svg>. Acesso em:
24 jun. 2010.

138
RESUMO DO TÓPICO 1

O objetivo deste tópico foi discutir os conceitos de língua e dialeto e


mostrar que a distinção entre ambos não é tão óbvia como pode parecer, pois
depende de vários fatores e da linha teórica de quem analisa. O que fizemos,
então, foi analisar as acepções de língua e dialeto encontradas no Dicionário
Aurélio Século XXI (FERREIRA, 1999). A partir desta análise, chegamos a algumas
conclusões. Vejamos:

• Há uma distinção hierárquica entre ambos os conceitos: o dialeto é considerado


uma variedade da língua.

• Do ponto de vista semântico, podemos também afirmar que língua é um


hiperônimo, isto é, possui um sentido mais abrangente, enquanto dialeto seria
seu hipônimo, ou seja, apresentaria um sentido mais restrito, subordinado ao
de língua.

• Dessa relação hierárquica decorre que podemos dizer que D é um dialeto de uma
língua L, mas o seu contrário – L é uma língua do dialeto D – soaria estranho ou
mesmo sem sentido.

• Considerando as definições de língua citadas acima, parece que não há uma


nítida fronteira entre o que seja uma língua e um dialeto, pois há uma relação
de dependência entre os dois conceitos: língua é o hiperônimo e dialeto é o
hipônimo.

• Assim, todo dialeto é uma língua, mas nem toda língua é um dialeto. Ou seja,
todas as definições de língua citadas acima valem para dialeto. Com exceção da
primeira acepção, em que há uma especialização do termo língua em relação
ao de Estado-Nação.

• É importante apontar nessa relação entre língua, dialeto e nação o fato de uma
variedade ou um dialeto poder ser alçado à categoria de língua.

139
AUTOATIVIDADE

1 Como você interpreta a frase “Uma língua é um dialeto com um exército”,


atribuída ao linguista Max Weinreich? Veja também: <http://es.wikipedia.
org/wiki/Una_lengua_es_un_dialecto_con_un_ej%C3%A9rcito>.

2 Sobre a língua pomerana no Espírito Santo, leia a reportagem A Pátria Renascida,


publicada na Revista Globo Rural, que pode ser acessada no link: <http://
revistagloborural.globo.com/GloboRural/0,6993,EEC1671261-1641-1,00.html>.

3 Pesquise os conceitos de socioleto, etnoleto, cronoleto e idioleto e trace as


diferenças entre eles.

Assista ao vídeo de Assista ao vídeo de


resolução da questão 1 resolução da questão 3

140
UNIDADE 3
TÓPICO 2

NORMA PADRÃO, NORMA CULTA, NORMA POPULAR OU


VERNACULAR

1 INTRODUÇÃO
Até agora você deve ter percebido que nós praticamente utilizamos apenas
a oposição entre língua padrão e língua não-padrão para tratar das mais diversas
questões evidenciadas na variação linguística, certo? Sabemos, entretanto, que
apenas essa dicotomia padrão vs. não-padrão não dá conta de questões envolvidas
na diversidade linguística que vivenciamos todos os dias. Por isso, nessa seção
vamos discutir em mais detalhes os conceitos de norma padrão, norma culta e
norma popular ou vernacular.

2 NORMA PADRÃO, NORMA CULTA, NORMA POPULAR OU


VERNACULAR
Faraco (2002) observa que cada grupo social terá sua identidade delimitada
pelos usos linguísticos característicos e próprios, os quais comporão as normas
linguísticas particulares destes grupos. Ou seja, uma sociedade diversificada
terá inúmeras normas linguísticas, as quais agregam não somente um conjunto
de formas linguísticas, mas também, e principalmente, um conjunto de valores
socioculturais correlacionados. Quando falamos em norma, estamos tratando,
portanto, de um conjunto de formas linguísticas vinculado a um conjunto de
valores socioculturais:

141
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

FIGURA 32 – NORMA LINGUÍSTICA

FONTE: Os autores

Repare, então, que, seguindo Faraco (2002), o termo norma culta será
utilizado para designar os fatos linguísticos do grupo social que mais diretamente
lidam com a cultura escrita e com situações formais tanto de fala como de escrita.
Faraco observa, contudo, que

[...] há na designação norma culta um emaranhado de pressupostos


nem sempre claramente discerníveis. O qualificativo ‘culto’, por
exemplo, tomado em sentido absoluto pode sugerir que esta norma se
opõe a normas ‘incultas’, que seriam faladas por grupos desprovidos
de cultura. […] Contudo, não há grupo humano sem cultura, como
bem demonstram os estudos antropológicos. Por isso, é preciso
trabalhar criticamente o sentido do qualificativo culta, apontando seu
efetivo limite: ele diz respeito, especificamente, a uma certa dimensão
da cultura, isto é, a cultura escrita. (FARACO, 2002, p. 39-40).

Bagno (2002), procurando evitar a ambiguidade do termo norma culta,


opta, de um lado, pelo emprego do termo norma padrão para “[...] o ideal abstrato
de língua ‘certa’ da tradição normativo-descritiva” (BAGNO, 2002, p. 179),
e de outro, pelo emprego do termo variedades cultas “[...] para os conjuntos de
regularidades detectáveis no uso efetivo da língua por parte dos ‘falantes cultos’
– cidadãos com escolaridade superior completa – em suas interações sociais”.
(BAGNO, 2002, p. 179).

Bagno (2001) observa que o termo variedades cultas no plural deve refletir o
fato de que existe uma variação aqui regional, social, etária, interacional etc. Veja
um exemplo:

[...] também os modos de falar dos brasileiros cultos vão apresentar


diferenças entre si. Um brasileiro culto nascido e criado no Recife, por
exemplo, não vai falar exatamente igual a um brasileiro culto nascido e
criado em Porto Alegre. E, além desta diferença geográfica, se levarmos
em conta também a diferença de faixa etária, mais características
distintivas vamos encontrar. (BAGNO, 2001, p. 42).

142
TÓPICO 2 | NORMA PADRÃO, NORMA CULTA, NORMA POPULAR OU VERNACULAR

Fica claro, portanto, que podemos chamar estas variedades de variedades


cultas porque, embora apresentem algumas diferenças, elas têm muitos traços em
comum. No entanto, você deve ter reparado que o autor não foge do principal
problema que é o termo culto, certo? Em um trabalho posterior (BAGNO, 2007),
é que o autor propõe substituir o termo norma culta por variedades prestigiadas e
chamar a norma popular (baseado em LUCCHESI, 2002) ou vernacular de variedades
estigmatizadas, levando em consideração para isso os valores e juízos sociais que
se fazem de quem utiliza cada uma dessas variedades.

NOTA

Caro aluno, lembre-se de que na Unidade 2 deste Caderno de Estudos nós


já havíamos nos referido ao vernáculo como compreendendo a língua falada, ou seja,
como a enunciação do dia a dia é capaz de expressar fatos, ideias, proposições etc., sem a
preocupação com o como será dito, mas com o que será dito. (TARALLO, 1993, p. 19).

As variedades linguísticas poderão, portanto, ser representadas a partir


de um contínuo em que de um lado teremos as variedades mais estigmatizadas
e de outro as de maior prestígio social, evidenciando, assim, o caráter valorativo
envolvido na questão das variedades e que é imposto socialmente, como mostra
a figura a seguir, retirada de Bagno:

FIGURA 33 – VARIEDADES: ESTIGMA/PRESTÍGIO

FONTE: Bagno (2007, p. 77)

O que esta figura procura mostrar é que as variedades linguísticas faladas


pelas classes menos favorecidas social e economicamente (menos escolarizadas
e com menor renda e, ainda, que moram no meio rural) são justamente as mais
estigmatizadas, enquanto as variedades faladas pelas classes mais favorecidas
(que moram no meio urbano e que, portanto, têm acesso a mais anos de
escolaridade e, em princípio, a melhores condições de renda) são as variedades
de maior prestígio, justamente por estarem ligadas à cultura escrita.

143
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

ATENCAO

Repare que é dessa valoração das variedades linguísticas que nasce a noção
de erro, ou seja, a ideia de que existe o certo e o errado na língua, tema de que trataremos
mais adiante.

Como vimos anteriormente, o termo norma padrão está associado a um


modelo ideal de língua que não representa o uso efetivo e real da língua por
nenhuma comunidade linguística. Nas palavras de Bagno:

[...] a norma-padrão não faz parte da língua, não corresponde a nenhum


uso real da língua, constituindo-se muito mais como um modelo,
uma entidade abstrata, um discurso sobre a língua, uma ideologia
linguística, que exerce evidentemente um grande poder simbólico
sobre o imaginário dos falantes em geral, mas principalmente sobre os
falantes urbanos mais escolarizados. (BAGNO, 2007, p. 106).

Repare, portanto, que vimos até aqui três conceitos distintos: norma
padrão, variedades de prestígio (norma culta) e variedades estigmatizadas (norma
popular ou vernacular), as quais podem ser representadas na figura a seguir,
retirada de Bagno, que leva em conta as questões sociais envolvidas nos juízos e
valores que o senso comum estabelece em relação às variedades linguísticas.

FIGURA 34 – VARIEDADES PRESTIGIADAS X ESTIGMATIZADAS

FONTE: Bagno (2007, p. 106)

144
TÓPICO 2 | NORMA PADRÃO, NORMA CULTA, NORMA POPULAR OU VERNACULAR

DICAS

Para saber mais sobre as questões tratadas até aqui em relação aos conceitos
de norma padrão, norma culta e norma popular ou vernacular, sugerimos a leitura dos livros A
norma oculta: língua & poder na sociedade brasileira (2003) e Nada na língua é por acaso: por
uma pedagogia da variação linguística (2007), ambos de Marcos Bagno, da editora Parábola.

FIGURA 35 – A NORMA OCULTA: LÍNGUA & PODER NA


SOCIEDADE BRASILEIRA (2003)

FONTE: Disponível em: <http://i.s8.com.br/images/books/


cover/img4/292704_4.jpg>. Acesso em: 15 jun. 2010.

FIGURA 36 – NADA NA LÍNGUA É POR ACASO: POR UMA


PEDAGOGIA DA VARIAÇÃO LINGUÍSTICA (2007)

FONTE: Disponível em: <http://i.s8.com.br/images/books/


cover/img5/1933945_4.jpg>. Acesso em: 15 jun. 2010.

145
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

Vamos nos deter agora um pouco mais na norma popular ou vernáculo.


No vernáculo, como já comentamos, são encontrados os usos da fala espontânea,
sem monitoramento. Bagno (2007, p. 142) faz uma distinção entre os traços
linguísticos usados pelos falantes das variedades mais estigmatizadas e os traços
usados pelos falantes urbanos escolarizados, traços estes também constituintes
do repertório dos falantes das variedades mais estigmatizadas. Assim, temos:

a) traços graduais: são aqueles presentes na fala de todos os brasileiros, mesmo de


origem social, regional etc. distintas;

b) traços descontínuos: são aqueles presentes principalmente na fala dos


brasileiros de origem social mais humilde, com pouca ou nenhuma escolaridade,
de origem rural etc.

FIGURA 37 – TRAÇOS GRADUAIS E DESCONTÍNUOS

FONTE: Bagno (2007, p. 143)

Os traços descontínuos são aqueles fenômenos linguísticos mais


discriminados e, não raro, alvos do preconceito linguístico, que discutiremos
na próxima seção. A respeito das características das variedades estigmatizadas,
o autor escreve que elas têm sido objeto de investigação e descrição de muitos
pesquisadores e acrescenta o seguinte:

Como nada na língua é por acaso, elas têm uma lógica linguística
perfeitamente demonstrável, não surgiram por causa da “ignorância”
nem da “preguiça” de seus usuários [...]. No entanto, por razões de
ordem exclusivamente social e cultural [...], essas características da
fala “popular” são vistas como a forma mais “errada” possível de falar
a língua. (BAGNO, 2007, p. 143, grifos do autor).

Bagno (2007) também faz uma lista de 14 desses traços e apresenta alguns
comentários sobre cada um deles. A maioria dos fenômenos linguísticos comentados
são os mesmos que apresentamos na Unidade 2 como exemplos de variação linguística
fonológica e morfossintática. A seguir apresentamos outros exemplos do autor:

146
TÓPICO 2 | NORMA PADRÃO, NORMA CULTA, NORMA POPULAR OU VERNACULAR

QUADRO 11 – TRAÇOS DESCONTÍNUOS

TRAÇOS DESCONTÍNUOS COMENTÁRIO

[...]

2. Não-nasalização de sílabas Outra tendência antiga na história da língua; até hoje os


postônicas: homem ~ home; ontem ~ dicionários registram pares como ABDÔMEN / ABDOME,
onte, fizeram ~ fizero etc. REGÍMEN / REGIME, [...], em que a variação sem nasalização
final é a mais amplamente usada. Outras muitas palavras,
como LUME, EXAME, NOME, CIÚME, provêm de palavras
latinas em que existia um - N final postônico.

[...]

11. Formação analógica do verbo Processos analógicos semelhantes também operam nas
PONHAR a partir da primeira variedades urbanas. A grande maioria dos brasileiros,
pessoa PONHO: EU JÁ PONHEI inclusive os mais letrados, pronuncia “vim” o infinitivo
A MESA DO JANTAR. de VIR, muito provavelmente por influência analógica das
formas conjugadas em que aparece nasalidade: VENHO,
VIM, VINHA etc.
[...]

14. Léxico característico variável A maioria dos vocábulos representa sobrevivências de fases
de região para região> FRUITA, anteriores da língua e pode ser encontrada na literatura
LUITA, OITUBRO, CUNZINHA, medieval e clássica.
DRUMI, PERCURÁ, DESPOIS,
ANTONCE, ARRESPONDÊ,
ALEMBRAR, DEREITO,
MENHÃ, VOSMECÊ etc.

FONTE: Bagno (2007, p. 144-146)

Quanto aos traços graduais, ou seja, os fenômenos linguísticos mais


característicos do vernáculo geral brasileiro, Bagno ainda apresenta uma lista,
não exaustiva, com quarenta exemplos. Para o autor, o vernáculo brasileiro
possui uma força tão poderosa que seus traços característicos podem também
ser encontrados até mesmo em gêneros de textos mais monitorados. Destacamos
aqui os seguintes traços para exemplificação:

QUADRO 12 – TRAÇOS GRADUAIS

TRAÇOS GRADUAIS DO
VERNÁCULO GERAL COMENTÁRIOS
BRASILEIRO
1. Redução dos ditongos /ey/ a /e/ e / A convenção ortográfica leva a pronúncias forçadas,
ay/ a /a/ diante de consoantes palatais artificiais, que não correspondem à realidade falada
ou da vibrante simples: BEIJO [‘bêjo’], pela imensa maioria dos brasileiros de todas as regiões.
CHEIRO [‘chêro’], PEIXE [‘pêxe’], Esse fenômeno interfere no processo de alfabetização,
CAIXA [caxa’] etc. uma vez que a tendência do aprendiz é escrever a vogal
simples e não o ditongo. Também é responsável por casos
de hipercorreção, como as escritas CARANGUEIJO,
BANDEIJA, PRAZEIROSO etc.

147
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

[...]
8. Uso do reflexivo SE para formar o Como não existe forma de imperativo para o pronome A
imperativo com a 1ª pessoa do plural GENTE, usa-se o VAMO[S] com o reflexivo correspondente
(NÓS): VAMO SE VÊ QUALQUER a A GENTE: A GENTE SE VÊ VAMO SE VÊ.
DIA DESSES! VAMO SE FALÁ MAIS
TARDE!

[...]
17. Desaparecimento do pronome A norma-padrão só admite a construção clássica, com
relativo CUJO, substituído por outras CUJO: A MENINA CUJO PAI É EMBAIXADOR.
construções com o pronome relativo
QUE: (1) A MENINA QUE O PAI
EMBAIXADOR (cortadora); (2)
A MENINA QUE O PAI DELA É
EMBAIXADOR (copiadora).

[...]
35. Redução do par de demonstrativos As gramáticas normativas trazem uma série de regras para
ESTE/ESSE (e flexões) a ESSE (e flexões), o uso de ESTE e ESSE, enfatizando que ESTE se refere
acompanhado de um advérbio: ESSE ao que está mais próximo da pessoa que fala, e ESSE,
AQUI – ESSE AÍ. mais próximo da pessoa com que se fala. Essa distinção
desapareceu no vernáculo.
[...]
40. Estruturas de tópico-comentário: Ao contrário do que afirmam os puristas, não se trata aqui
ESSE CARRO, ELE É MUITO de um “sujeito duplo”, mas de um outro tipo de estrutura
ECONÔMICO MESMO; A sintática, presente em diversas línguas do mundo. O
MARGARIDA, ELA SABE MUITO português brasileiro falado apresenta alto índice de
BEM O QUE ESTÁ FAZENDO etc. construções com tópico.

FONTE: Bagno (2007 p. 147-156)

É também necessário fazermos aqui algumas considerações sobre a noção


de “erro”. Na nossa sociedade, como aponta Bagno (2007, p. 61-63), rotulações
de “certo” e “errado” estão relacionadas a crenças sociais e culturais, visões de
mundo e juízos de valor que as pessoas têm. Tais rotulações podem mudar com o
tempo, como as relações sociais e culturais entre homens e mulheres, ou as crenças
religiosas e raciais, dentre tantas outras – apropriando-se da nomenclatura usada
pelo autor – invenções humanas de “certo” e “errado” que ele menciona em seu
livro. Com relação ao “erro” linguístico, Bagno (2007, p. 63-64) apresenta uma
origem para essa invenção no mundo ocidental: a necessidade de normatizar a
língua grega do grande império formado após as conquistas de Alexandre Magno
(ou “o Grande”), (356-323 a.C.).

148
TÓPICO 2 | NORMA PADRÃO, NORMA CULTA, NORMA POPULAR OU VERNACULAR

FIGURA 38 – DETALHE DO CHAMADO “MOSAICO DE ALEXANDRE”, ORIGINALMENTE NA


CASA DO FAUNO EM POMPEIA (C. 100 A.C.), REPRESENTANDO ALEXANDRE EM SEU CAVALO,
BUCÉFALO (MUSEU NACIONAL ARQUEOLÓGICO DE NÁPOLES)

FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:BattleofIssus333BC-mosaic-detail1.


jpg>. Acesso em: 25 jul. 2010.

Por normatizar uma língua o autor entende como criar um padrão


linguístico uniforme e homogêneo – um padrão de correção –, acima das
variedades regionais, como instrumento de unificação linguística e cultural
do império grego, tarefa realizada pelos filólogos (”amantes da palavra”) que
trabalhavam na Biblioteca de Alexandria. É a partir daí, século III a.C., que se
constituiu uma instituição ocidental que perdura até nossos dias, aquilo que os
estudos linguísticos chamam de Gramática Tradicional. Segundo Bagno (p. 63), a
Gramática Tradicional, por apresentar uma abordagem não-científica (no sentido
que entendemos ciência hoje), associava instituições filosóficas e preconceitos
sociais e, como aponta o autor (p. 67), foi o produto intelectual da sociedade
da época, fortemente hierarquizada, aristocrática, oligárquica, machista e
escravagista. Bagno (p. 67) acrescenta que:

[...] a Gramática Tradicional adotou como modelo de “língua


exemplar” o uso característico de um grupo restrito de falantes:
- do sexo masculino;
- livres (não-escravos);
- membros da elite cultural (letrados);
- cidadãos (eleitores e elegíveis);
- membros da aristocracia política;
- detentores da riqueza econômica.

149
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

Bagno (2007, p. 69) apresenta então as características dos estudos


linguísticos baseados na ótica da Gramática Tradicional, e que perduram até hoje,
dois mil anos depois:

[...]
- desprezo pela língua falada e supervalorização da língua escrita literária;
- depreciação das variedades não-urbanas, não-letradas, usadas por
falantes excluídos das camadas sociais de prestígio (exclusão que
atingia todas as mulheres);
- criação de um modelo idealizado de língua, distante da fala real
contemporânea, baseado em opções já obsoletas extraídas da literatura
do passado) e transmitido apenas a um grupo restrito de falantes, os
que tinham acesso à escolarização formal.
Em consequência disso, passa a ser visto como erro:
- todo e qualquer uso que escape desse modelo idealizado, toda e
qualquer opção que esteja distante da linguagem literária consagrada;
- toda pronúncia, todo vocabulário e toda sintaxe que revelem a
origem social desprestigiada do falante;
- tudo o que conste dos usos das classes sociais letradas urbanas com
acesso à escolarização formal e à cultura legitimada.

DICAS

Se você ficou interessado(a) em saber mais a respeito da história da tradição


gramatical no mundo ocidental e como seus efeitos podem ser observados até hoje,
recomendamos a leitura dos livros A Vertente Grega da Gramática Tradicional: uma visão
do pensamento grego sobre a linguagem (2005), de Maria Helena Moura Neves (Ed. Unesp)
e Tradição Gramatical e Gramática Tradicional (1989), de Rosa Mattos e Silva (Ed. Contexto).

FIGURA 39 – A VERTENTE GREGA DA GRAMÁTICA


TRADICIONAL: UMA VISÃO DO PENSAMENTO GREGO
SOBRE A LINGUAGEM (2005)

FONTE: Disponível em: <http://www.editoraunesp.


com.br/thumb.asp?Imagem=8571395810.
jpg&width=157&height=400>. Acesso em: 24 abr. 2010.

150
TÓPICO 2 | NORMA PADRÃO, NORMA CULTA, NORMA POPULAR OU VERNACULAR

FIGURA 40 – TRADIÇÃO GRAMATICAL E GRAMÁTICA


TRADICIONAL (1989)

FONTE: Disponível em: <http://www.editoracontexto.com.br/


produtos/TRADICAO-GRAMATICAL.jpg>. Acesso em: 24 abr. 2010.

Assim, como escreve Bagno (2007, p. 71-72), podemos afirmar que um


dos efeitos do processo de normatização ou padronização de uma língua e a
consequente invenção do “erro” linguístico, principalmente em bases pouco ou
nada democráticas, como aconteceu na Grécia no século III a.C., consiste em
subtrair da língua sua realidade social, complexa e dinâmica, tornando-a uma
entidade autônoma, independente dos seres humanos que interagem por meio
dela. A esse respeito, acrescenta o autor que:

[i]sso torna possível falar de “atentado contra o idioma”, de “pecado


contra a língua”, de “atropelar a gramática” ou “tropeçar no
português”. Todo esse discurso dá a entender (enganosamente) que a
língua está fora de nós, que ela é um objeto externo, alguma coisa que
não nos pertence e que, para piorar, é de difícil acesso – uma espécie
de saber esotérico que só alguns pouco iluminados conseguem atingir.
(BAGNO, 2007, p. 72).

As considerações acima nos levam à conclusão de que a noção de “erro”


linguístico, principalmente alicerçada em muitos dos preconceitos na nossa
sociedade, é mais uma criação social e cultural cujos efeitos tem sido a exclusão
de grande parte da população e também a manutenção de sua baixa autoestima
linguística: a frase “eu não sei português”, infelizmente, parece ter se tornado
lugar-comum no imaginário coletivo da maioria da população brasileira.

151
RESUMO DO TÓPICO 2

Neste tópico, vimos a partir dos estudos de Marcos Bagno e de outros autores
alguns conceitos importantes para entendermos as relações entre língua e sociedade:

• Norma padrão para “[...] o ideal abstrato de língua ‘certa’ da tradição normativo-
descritiva”. (BAGNO, 2002, p. 179).

• Variedades cultas “[...] para os conjuntos de regularidades detectáveis no uso


efetivo da língua por parte dos ‘falantes cultos’ – cidadãos com escolaridade
superior completa – em suas interações sociais”. (BAGNO, 2002, p. 179).

• Variedades estigmatizadas: norma popular ou vernacular.

Vimos também que a valoração das variedades linguísticas é que faz


surgir a noção de “erro”, ou seja, a ideia de que existe o certo e o errado na língua.
Assim, o termo norma padrão está associado a um modelo ideal de língua que não
representa o uso efetivo e real da língua por nenhuma comunidade linguística e
que é tomada pelos leigos como a “língua certa”, o padrão a ser seguido tanto
na fala como na escrita. Contudo, estudamos que tais rotulações de “certo” e
“errado” estão relacionadas a crenças sociais e culturais, visões de mundo e juízos
de valor que as pessoas têm. Tais rotulações podem mudar com o tempo, como
as relações sociais e culturais entre homens e mulheres, ou as crenças religiosas
e raciais, dentre tantas outras. A consequência desta normatização e de seu uso
como padrão de “língua correta”, representada pela Gramática Tradicional, é o
preconceito linguístico, tema que abordaremos no próximo tópico.

Para fechar este tópico, podemos afirmar que os pressupostos teóricos e


metodológicos das várias linhas de investigação sociolinguística apresentados
neste Caderno de Estudos (bem como nos demais estudos linguísticos que você
terá acesso nos outros módulos de seu curso de graduação em Letras) mostram
que existem caminhos alternativos possíveis – além dos estudos da tradição
da Gramática Tradicional – para a orientação de sua prática de investigação e
construção de conhecimento linguísticos na sua formação como profissional de
Letras. Vamos, então, ao próximo tópico.

152
AUTOATIVIDADE

Sobre a história do processo de normalização da língua portuguesa no


Brasil recomendamos a leitura do livro O português da gente: a língua que estudamos
a língua que falamos (2006), de Rodolfo Ilari e Renato Basso (Ed. Contexto) e vários
artigos do livro Linguística da Norma (2002), organizado por Marcos Bagno (Edições
Loyola). A esse respeito, selecionamos a seguir alguns textos que se relacionam
com uma questão polêmica dessa história: qual o nome da língua falada pela
maioria dos brasileiros: português ou brasileiro? Leia os textos, discuta com os
colegas e apresente argumentos a favor e contra cada uma das possibilidades.

TEXTO 1: O DIREITO DE ESCREVER BRASILEIRO, SEGUNDO JOSÉ


DE ALENCAR
Uns certos profundíssimos filólogos negam-nos, a nós brasileiros, o
direito de legislar sobre a língua que falamos. Parece que os cânones desse idioma
ficaram de uma vez decretados em algum concílio celebrado aí pelo século XV.

Esses cânones só têm o direito de infringi-los quem nasce da outra


banda, e goza a fortuna de escrever nas ribas históricas do Tejo e Douro ou
nos amenos prados do Lima e do Mondego. Nós, os brasileiros, apesar de
orçarmos já por mais de dez milhões de habitantes, havemos de receber a
senha de nossos irmãos, que não passam de um terço daquele algarismo. Nossa
imaginação americana, por força terá de acomodar-se aos moldes europeus,
sem que lhe seja permitido revestir suas formas originais.

Sem nos emaranharmos agora em abstrusas investigações filológicas,


podemos afirmar que é este o caso em que a realidade insurge-se contra a
teoria. O fato existe, como há poucos dias escreveu o meu distinto colega em
uma apreciação por demais benévola.

É vã, senão ridícula, a pretensão de o aniquilar. Não se junge a possante


individualidade de um povo jovem a expandir-se ao influxo da civilização,
com as teias de umas regrinhas mofentas. Desde a primeira ocupação que os
povoadores do Brasil, e após eles seus descendentes, estão criando por todo
este vasto império um vocabulário novo, à proporção das necessidades de sua
vida americana, tão outra da vida europeia.

Nós, os escritores nacionais, se quisermos ser entendidos de nosso


povo, havemos de falar-lhe em sua língua, com os termos ou locuções que
ele entende, e que lhe traduzem os usos e sentimentos. Não é somente no
vocabulário, mas também na sintaxe da língua, que o nosso povo exerce o seu
inauferível direito de imprimir o cunho de sua individualidade, abrasileirando
o instrumento das ideias. [...]

FONTE: ALENCAR, J. O nosso cancioneiro. Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1960. v.
4, p. 965-966 apud Ilari e Basso (2006, p. 215-216).

153
TEXTO 2: EXISTE UMA “LÍNGUA BRASILEIRA?” PROF. SÉRGIO
NOGUEIRA DUARTE

Vou tentar responder objetivamente e com a maior simplicidade possível.


Aqui no Brasil, nós ainda falamos a língua portuguesa. Temos, na minha opinião,
um falar brasileiro, que seria um modo brasileiro de usar a língua portuguesa.

É importante lembrar o que afirmaram alguns estudiosos: o professor


Antenor Nascentes não falava em língua brasileira, e sim em “idioma
nacional”; o mestre Gladstone Chaves de Melo falava em língua comum e
variantes regionais; e o grande filólogo Serafim da Silva Neto afirmou que o
português culto do Brasil é quase igual ao português culto de Portugal. Isso
significa, portanto, que as diferenças maiores estão na linguagem do dia a dia.

O jornalista Barbosa Lima Sobrinho, no livro A língua portuguesa e


a unidade do Brasil, resume bem: “Em poucas palavras, existe unidade na
variedade de normas e de usos linguísticos. E isso porque, se os morfemas
gramaticais permanecem os mesmos, a língua não mudou, a despeito de
qualquer variação de pronúncia, de vocabulário ou mesmo de sintaxe.”

O que existe na verdade são variantes linguísticas:

- variantes geográficas: nacionais (Brasil, Portugal, Angola...) e regionais


(falar gaúcho, mineiro, baiano, pernambucano...);

- variantes socioeconômicas (vulgar, popular, coloquial, culta...);

- variantes expressivas (linguagem da prosa, linguagem poética). [...]

FONTE: Jornal do Brasil, 25 jun. 2000. Disponível em: <http://www.nlnp.net/lin-br.htm>.


Acesso em: 24 jun. 2010.

TEXTO 3: NÃO TEM TRADUÇÃO, DE NOEL ROSA – ANOS 1930

[...]
Tudo aquilo que o malandro pronuncia
Com voz macia é brasileiro
Já passou de português
[...]

FONTE: Disponível em: <recantodaspalavras.wordpress.com/.../nao-tem-traducao/>. Acesso


em: 24 abr. 2010.

TEXTO 4: VÔ IMBOLÁ, DE ZECA BALEIRO, 1999

[...]
Foi falando brasileiro
Que aprendi a imbolá
[...]
FONTE: Disponível em: <letras.terra.com.br › Z › Zeca Baleiro/>. Acesso em: 24 abr. 2010.

154
UNIDADE 3
TÓPICO 3

COMPORTAMENTOS E ATITUDES LINGUÍSTICOS

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico discutiremos a relação entre língua e os comportamentos
e atitudes a ela atribuídos pelas comunidades linguísticas. A esse respeito,
daremos destaque a duas questões: a do preconceito linguístico e a polêmica dos
estrangeirismos na língua portuguesa. Confira a seguir.

2 PRECONCEITO LINGUÍSTICO
No tópico anterior já levamos em consideração alguns aspectos do
preconceito linguístico, lembra? Apresentamos, por exemplo, o preconceito na
nossa sociedade com os falantes cuja variedade linguística é caracterizada também
por traços descontínuos, ou seja, geralmente associada a populações rurais,
pouco assalariadas e de baixa escolaridade. Também mencionamos o preconceito
social e, consequentemente linguístico, com relação ao processo de normatização
(ou padronização) da língua grega na Grécia macedônica, cuja sociedade então
fortemente hierarquizada excluiu boa parte dos falantes ao considerar como
“erro” as variedades de língua usadas pelos grupos considerados subalternos.
Infelizmente, apesar de vivermos, nos dias de hoje, num estado brasileiro que
se diz democrático, ainda presenciamos uma situação não muito diferente da
Grécia de 2 mil anos atrás. O preconceito linguístico perdura em várias situações
cotidianas, e acreditamos que cabe a todos nós denunciá-lo.

Bagno (2000) apresenta oito desses mitos sobre a língua portuguesa


no Brasil em seu livro Preconceito linguístico: o que é como se faz. Esses mitos são
apresentados a seguir. Confira!

Mito número 1: “A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma


unidade surpreendente.”

155
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

Esse é o maior e mais sério dos mitos. Preste atenção, caro acadêmico, no
seguinte trecho, comentado por Bagno (2000, p. 15):

É de assinalar que, apesar de feitos pela fusão de matrizes tão diferenciadas,


os brasileiros são, hoje, um dos povos mais homogêneos linguística e
culturalmente e também um dos mais integrados socialmente da Terra.
Falam uma mesma língua sem dialetos. [Folha de S. Paulo, 1995].

Você poderia tentar adivinhar quem é o autor desse trecho? O autor desse
trecho é o renomado Darcy Ribeiro. Como você pode perceber, até intelectuais
respeitados e talentosos acreditam nesse mito. Porém, essa unidade linguística
é um preconceito irreal que prejudica a língua brasileira por não reconhecer a
diversidade estrondosa que ela possui. São 160 milhões de brasileiros, distribuídos
num grande extensão territorial, e muito diferentes entre si. Sendo assim, é
possível uma unidade linguística em relação à língua falada brasileira?

Embora a língua falada no Brasil seja, convencionalmente, o português,


é inegável que a diversidade da oralidade brasileira é tamanha que, muitas
vezes, a comunicação entre dois brasileiros nativos de regiões diferentes, como
Sul e Nordeste, por exemplo, ocorre permeada de significativas dificuldades de
compreensão. Porém, além da diversidade regional e cultural, essa variabilidade
da língua brasileira ocorre e se intensifica pelas desigualdades sociais. Nem todos
têm acesso ao dito padrão culto da língua e, embora brasileiros marginalizados –
quanto ao domínio da norma culta – também falem o português, suas gramáticas
e linguagens não são reconhecidas como válidas. Ao contrário, suas gramáticas
e linguagens são alvos de chacotas e escárnios. Por isso, quando a escola impõe
uma normatividade da língua portuguesa sem reconhecer essa vasta diversidade e
variabilidade, ela contribui para a discriminação e ridicularizarão da variedade do
português não-padrão. E esse desprestígio aumenta ainda mais a exclusão daqueles
que Marcos Bagno chama de “os sem-língua”, uma vez que, muitas vezes, falantes
de variedades não-padrão não têm acesso aos serviços públicos porque estes são
escritos na dita língua padrão, acessível a apenas uma parcela da população.

Portanto, é necessário que todas as instituições voltadas para educação e


cultura reconheçam esse alto grau de variabilidade e diversidade da língua portuguesa
para que, a partir disso, seja possível a formulação de políticas de inclusão voltadas
para os falantes das variedades não-padrão do português brasileiro.

Mito número 2: “Brasileiro não sabe português” ou que “Só em Portugal


se fala bem o português.”

Segundo Bagno (2000, p. 20), embora muitas pessoas acreditem nesse


mito, trata-se de uma “análise preconceituosa e desinformada” e, ainda, “reflete
o complexo de inferioridade” por termos sido colonizados. Ora, a língua é
resultado das modificações do povo que a fala. Assim, quanto mais misturas,
avanços, progressos e mudanças nos paradigmas sociais, culturais e morais de
um povo, mais a sua língua muda. Portanto, é natural e totalmente explicável
que o brasileiro fale um português diferente do português de Portugal, qual seja,

156
TÓPICO 3 | COMPORTAMENTOS E ATITUDES LINGUÍSTICOS

o português brasileiro. Ao longo dos anos, como toda língua falada, o português
de Portugal também se modificou. Porém, sofrendo influências e intervenções
diferentes das nossas nos seus paradigmas culturais, sociais e morais, as mudanças
na língua de Portugal tomaram direções diferentes das mudanças ocorridas no
nosso português brasileiro. Assim, como Bagno (2000, p. 23-24) observa: “O
brasileiro sabe português, sim. O que acontece é que nosso português é diferente
do português falado em Portugal. Quando dizemos que no Brasil se fala português,
usamos esse nome simplesmente por comodidade e por uma razão histórica [...].

Portanto o português brasileiro – como os cientistas da linguagem


preferem chamar a nossa língua – e o português de Portugal são duas línguas
diferentes. E tais diferenças não estão apenas na língua falada, as quais são tão
significativas que a comunicação oral entre um brasileiro e um português é de
difícil compreensão. Essas diferenças são encontradas principalmente nas regras
de funcionamento de cada língua. O português brasileiro possui uma gramática
própria, que é diferente da gramática do português de Portugal. Alem disso,
os vocabulários são semanticamente diferentes: uma mesma palavra pode ter
significados bem diferentes no Brasil e em Portugal; e a estrutura fonética é
completamente outra.

Se ainda há alguma semelhança ou algum ponto passível de comparação


entre essas duas línguas, esse ponto diz respeito à ortografia. Na língua escrita
formal há muito pouca diferença, o que resulta num grande problema quanto ao
ensino de português no Brasil. Muitos autores respeitados, revistas importantes
e parâmetros curriculares tratam a língua de Portugal como “ditadora” de regras
absolutamente corretas. Assim o ensino do português no Brasil ainda se dá sob
as regras gramaticais consideradas corretas pelo fato de refletirem a língua falada
em Portugal! Porém, assim como nós, brasileiros, contrariamos a nossa gramática
na nossa fala cotidiana, eles, os portugueses, também o fazem. Podemos, então,
concluir que nenhuma das duas línguas é melhor ou mais certa do que a outra:
são apenas diferentes. Portanto, não faz sentido dizer que o brasileiro não sabe
português, pois o brasileiro sabe sim o “seu” português, a sua língua materna que
é o português do Brasil.

Mito número 3: “Português é muito difícil.”

Toda pessoa é capaz de aprender com facilidade a sua língua materna.


Toda criança com quatro ou cinco anos, mesmo analfabeta, já domina as regras
gramaticais de funcionamento da língua que aprendeu desde os primeiros meses
de vida. E esse fenômeno ocorre em todas as línguas, inclusive no português
brasileiro. Entretanto, o português ensinado na escola está, em muitos aspectos,
distante da língua falada e escrita cotidianamente no Brasil. Assim, quando temos
que decorar regras e conceitos que têm pouco significado para nós, tendemos a
pensar que “português é muito difícil”.

157
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

Nesse sentido, Marcos Bagno apresenta um exemplo bem interessante


e ilustrativo quanto à regência verbal do verbo ‘assistir’. Por mais que um
aluno aprenda na escola que o certo é “assisti ao filme”, quando sair da escola
ele certamente dirá “assisti o filme”. Ou ainda por mais que algumas pessoas
falem “assisti ao jogo”, porque a determinação da gramática tradicional é o uso
da preposição a, essas mesmas pessoas vão acabar intuitivamente falando ou
escrevendo “o jogo foi assistido por...” Isso porque, ainda segundo Bagno (2000,
p. 36) “[...] a gramática brasileira não sente a necessidade da preposição a, [...]
exigida há cem anos atrás, e ainda em vigor no português falado em Portugal, a
dez mil quilômetros daqui!”

No ensino da língua portuguesa brasileira, existem muitos arcaísmos,


determinações gramaticais que já caíram em desuso há muito tempo, que são,
segundo Sírio Possenti, os dinossauros linguísticos. Hoje em dia, por exemplo,
crianças do quarto ano aprendem as conjugações verbais para o pronome vós!
Você, caro acadêmico, já tentou explicar para uma criança de sete ou oito anos o
que significa o vós, e qual a lógica gramatical dele? É uma tarefa árdua! Pois assim
como outros dinossauros linguísticos, o pronome vós só aparece na vida das pessoas
na hora que elas tentam “aprender” português, e assim, esses pronomes fazem
sentido! O triste resultado disso é que muitas pessoas terminam seus estudos
fundamentais achando que não sabem português, e concluindo indevidamente
que “português é muito difícil”.

Portanto, devemos concordar com o Bagno (2000, p. 35) quando ele


afirma: “No dia em que o ensino de português se concentrar no uso real, vivo e
verdadeiro da língua portuguesa do Brasil, é bem provável que ninguém mais
continue a repetir essa bobagem”.

Além disso, acreditar que “português é muito difícil” contribui ainda mais
para a segregação entre os que dominam a dita norma culta e os falantes das
outras variedades linguísticas do português brasileiro. Contribui, ainda, para
que o acesso ao domínio da língua padrão seja mais um instrumento de poder
e dominação, pois através dessa ideia, os gramáticos normativos tradicionais
sustentam as dificuldades da língua portuguesa e, assim, se tornam indispensáveis.

Mito número 4: “As pessoas sem instrução falam tudo errado.”

Atrelado ao mito número 1, de que só existe uma única língua no Brasil,


está o preconceito de que “As pessoas sem instrução falam tudo errado”. Esse é o
mito número 4, e tem como pressuposto a ideia de que a única língua que pode
ser chamada de língua portuguesa é aquela que se insere dentro do triângulo
“escola-gramática-dicionário”. Pense bem, mesmo que determinado termo seja
cotidianamente falado e escrito sistematicamente no cotidiano brasileiro, se não
estiver de acordo com o ensinado nas salas de aula, sob as regras da gramática
tradicional e catalogado nos dicionários, não é português?

158
TÓPICO 3 | COMPORTAMENTOS E ATITUDES LINGUÍSTICOS

E o mais triste é que esse preconceito incide mais sobre a fala de


determinadas classes sociais ou de certas regiões do Brasil. Por que muitas
pessoas consideram certo falar “leite” com a pronúncia de “tchi” no final e
consideram ridículo quanto um nordestino fala “oitcho” ao invés de “oito”? Esse
fenômeno, tratado pelos cientistas da língua de palatização, torna-se certo na boca
de uns e errado na boca de outros por pura discriminação social. Por outro lado,
é pertinente afirmar que pessoas com menos acesso à educação não falam (ou
falam “errado”) o português pelo simples fato de falarem um português diferente
da língua ensinada na escola? Portanto, essa ideia, ou melhor, esse preconceito, é
só mais uma forma de marginalização e exclusão.

Mito número 5: “O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o


Maranhão.”

Segundo Marcos Bagno, não há qualquer fundamentação científica nesse


mito. Trata-se de um preconceito linguístico intrinsecamente ligado à ideia de que
o português “mais certo” é aquele falado em Portugal. Sabe-se que o Maranhão
teve uma forte ocupação portuguesa, e alguns resquícios dessa ocupação ainda
se refletem na língua falada dos maranhenses através do emprego do pronome
tu. Sabe-se que, na maior parte do Brasil, houve uma reorganização pronominal
através da qual o pronome tu foi substancialmente substituído pelo você – ou pelo
menos, quando usado, o verbo assume a forma da terceira pessoa só singular. E,
principalmente por causa do uso sistemático do tu na fala do maranhense, é que
muitas pessoas acreditam que o lugar onde melhor se fala o português é o Maranhão.

Porém, assim como nos outros estados brasileiros, no Maranhão também


existem variações que contrariam a normatividade da gramática tradicional. Por
exemplo, os maranhenses falam “essa é uma boa escola pra ti estudar” (ao invés
de “pra tu estudares”); ou ainda, “pra mim escrever vou precisar ler” (ao invés de
“para eu escrever). Então, pense bem: existe algum critério linguisticamente lógico
para as variações usadas no Maranhão serem mais “corretas” ou mais “bonitas” do
que as variações usadas no resto do Brasil? Parece que não. Segundo Bagno (2000,
p. 47) “[...] toda variedade linguística atende às necessidades da comunidade de
seres humanos que a empregam. Quando deixar de atender, ela inevitavelmente
sofrerá transformações [...]”. Além disso, como toda transformação na língua
é resultado de um processo histórico, e como cada região tem suas influências
culturais próprias, é impossível eleger em qual região do país se fala melhor o
português. E qualquer afirmação nesse sentido é uma falácia. Se existe alguma
diferença entre brasileiros que têm mais domínio da norma culta e brasileiros
cuja fala se distancia dessa língua dita como padrão, essa diferença não acontece
por critérios regionais. Isso porque em qualquer lugar do Brasil as pessoas com
maior escolaridade, mais leitura e mais acesso à cultura dominam melhor a norma
culta do que as pessoas das classes não-cultas. Portanto, não existe um único local
ou comunidade onde a fala é “melhor” ou “pior”, o que existe são diferentes
variedades da língua, que precisam ser igualmente respeitadas.

159
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

Mito número 6: “O certo é falar assim porque se escreve assim.”

Com relação ao mito número 6, o que precisamos entender, primeiramente,


é a diferença fundamental entre a língua escrita e a língua falada. Nenhuma língua
no mundo reflete ou refletiu a língua escrita na fala. Isso é impossível. A língua
escrita é uma tentativa de representação da língua falada. É um instrumento
artificial que, embora seja necessária para que todos entendam uma mesma língua,
não é capaz de refletir as intenções e flexões pretendidas pelos comunicadores.
Comunicar-se é uma necessidade básica do ser humano e, por isso, a língua
falada é um meio de sobrevivência, uma vez que é aprendida pelo falante desde
os primeiros meses de vida e é fundamental para a comunicação desse falante
com a comunidade em que vive. Assim, como a língua escrita é uma tentativa
de representação da língua falada, ela vai ser interpretada por cada falante de
um jeito diferente. As várias pronúncias existentes para um mesmo termo escrito
estão igualmente corretas, pois são apenas variações e nenhuma dessas formas
deve ser desprezada. Nenhuma língua é igualmente falada em todos os lugares. E
é justamente através dessas variações que ocorrem as incessantes mudanças que
historicamente transformam as línguas.

Mito número 7: “É preciso saber gramática para falar e escrever bem.”

Talvez esse seja o mito mais aceito como verdade. A grande maioria das
pessoas acredita ou acreditou um dia nessa ideia. Algumas gramáticas tradicionais
trazem expressa essa crença nas suas primeiras páginas. Muitos pais cobram das
instituições escolares o ensino da gramática. Mas, como diz Mário Perini (1999, p.
50 apud BAGNO, 2000, p. 62) em Sofrendo a Gramática, “[...] não existe um grão de
evidência em favor disso, toda a evidência disponível é em contrário”. Você, por
exemplo, conhece algum grande escritor que é um especialista em regras gramaticais?

Segundo Perini, esse mito de que é preciso saber gramática para escrever
bem é apenas uma “propaganda enganosa”. Sabemos que muitos grandes
escritores se autointitulam como desconhecedores de gramática. E mesmo assim
são grandes escritores!

Além disso, você já parou para pensar o que surgiu primeiro, se foi a
língua ou a gramática? Pois bem, as primeiras gramáticas do Ocidente só foram
criadas depois que muita literatura importante para a cultura da humanidade
já tinha sido escrita. E a criação das gramáticas foi feita com a finalidade de
descrever as manifestações linguísticas e, a partir dessa descrição, fixar como
regras as manifestações mais usadas pelos escritores mais renomados. Portanto,
como afirma Bagno (2000, p. 64), “[...] a gramática normativa é decorrência da
língua, é subordinada a ela, dependente dela.” E essa “superioridade” dogmática
das normas gramaticais tradicionais é uma inversão histórica, resultado do uso
da gramática como instrumento de poder.

160
TÓPICO 3 | COMPORTAMENTOS E ATITUDES LINGUÍSTICOS

Mito número 8: “O domínio da norma culta é um instrumento de


ascensão social.”

Tão ligado a questões sociais quanto ao mito número 1, esse mito serve a
algumas pessoas como argumento para que a gramática tradicional, com todos os
seus dinossauros linguísticos, seja ensinada nas escolas. Porém, se o domínio da norma
culta fosse, realmente, um instrumento de ascensão social, não haveria professores
de português morando de aluguel e nem fazendeiros ricos analfabetos funcionais.

Segundo Marcos Bagno, o círculo vicioso do preconceito linguístico é irmão


gêmeo do círculo vicioso da injustiça social. Por mais que o acesso ao domínio da
norma culta seja importante para a diminuição da exclusão social, ele não é por si só
um grande milagre que vai fazer pessoas marginalizadas por não terem moradia,
saúde, saneamento básico etc. ocuparem a mesma classe social que a filha dos seus
patrões. Por isso, para que milhões de brasileiros saiam da linha da miséria, ou
migrem das classes C e D para as classes B e A, é necessário muito mais do que o
domínio da norma culta por parte desses indivíduos. É necessário que profundas
transformações sociais aconteçam na sociedade como um todo.

3 O CÍRCULO VICIOSO E A DESCONSTRUÇÃO DO


PRECONCEITO LINGUÍSTICO
Segundo Marcos Bagno (2000), o preconceito linguístico possui um círculo
vicioso formado por três elementos: gramática tradicional, que fomenta o ensino
tradicional, o qual provoca a produção de livros didáticos, cujos autores recorrem à
gramática tradicional, fechando assim o círculo.

Felizmente esse círculo já está começando a ser rompido. Os Parâmetros


Curriculares Nacionais (PCN), por exemplo, reconhecem a existência dos preconceitos:

[...] muito preconceito decorrente do valor atribuído às variedades


padrão e ao estigma associado às variedades não-padrão, consideradas
inferiores ou erradas pela gramática. Essas diferenças não são
imediatamente reconhecidas e, quando são, são objeto de avaliação
negativa.
Para cumprir bem a função de ensinar a escrita e a língua padrão, a
escola precisa livrar-se de vários mitos: o de que existe uma forma
“correta” de falar, o de que a fala de uma região é melhor do que a de
outras, o de que a fala “correta” é a que se aproxima da língua escrita,
o de que o brasileiro fala mal o português, o de que o português é uma
língua difícil, o de que é preciso “consertar” a fala do aluno para evitar
que ele escreva errado. (BRASIL, 1998, p. 31 apud BAGNO, 2000, p. 74).

Além disso, muitos professores já não recorrem à gramática tradicional


como única fonte para explicação e aprendizado da língua. Porém, embora alguns
livros didáticos também estejam sendo produzidos dentro dessa nova concepção
de ensino da língua, o material didático nesse sentido ainda é muito pouco.

161
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

Mas, vale ressaltar que essa mitologia de que falamos “errado” está
arraigada na nossa cultura e, por isso, o mais importante é um persistente
trabalho de conscientização e transformação da mentalidade preconceituosa que
prepondera quando o assunto é a nossa língua.

Porém, apesar de muitos esforços de sociolinguistas, professores, educadores


e dirigentes de instituições oficiais de ensino como, por exemplo, o MEC, esse ciclo
ainda subsiste e as discriminações e exclusões ainda continuam. Por que isso?
Segundo Bagno (2000, p. 76), existe um quarto elemento ainda não institucionalizado,
o qual ele chama de comandos paragramaticais: “[...] todo arsenal de livros, manuais
de redação de empresas jornalísticas, programas de rádio e de televisão, colunas de
jornal e de revista, CD-ROMs, ‘consultórios gramaticais’ por telefone...” Ou seja, são
recursos midiáticos e de informática, orientados pelos preconceitos linguísticos, que
contribuem para a canonização dos dinossauros linguísticos e para a implementação
da mentalidade que fundamenta a mitologia do preconceito linguístico. Ainda
segundo ele, todos esses recursos poderiam ser muito melhor utilizados se fossem
direcionados para construção de paradigmas culturais e de ensino da nossa língua
que aceitem e valorizem a grande variabilidade e diversidade do português brasileiro.

Mas então, quais as possibilidades que temos para que esse ciclo seja rompido?

Em primeiro lugar, é preciso aumentar o acesso à educação, e,


consequentemente, garantir o direito de todos ao domínio das variedades
prestigiadas – que até hoje têm sido privilégio de poucos. As maiores vítimas
do preconceito linguístico são principalmente aqueles que Bagno chama de os
sem-língua, pelo pouco acesso que têm ao domínio das variedades de prestígio.
Portanto, é preciso esforços de toda a sociedade, bem como políticas públicas que
garantam a diminuição do analfabetismo no Brasil e que, sobretudo, diminuam
também os índices de analfabetos funcionais.

Segundo, é preciso uma mudança significativa nos modos de ensino de


português nas instituições escolares. Hoje, a maioria do ensino de português se dá
por meios corretivos e punitivos, o que atrapalha o fluxo comunicativo do aluno e
gera nele o sentimento de incapacidade para dominar sua língua materna. Sendo
assim, o ensino de português deve ocorrer tendo como pressuposto a capacidade
do aluno de lidar com a língua que foi seu instrumento de sobrevivência até
então, ou seja, sua língua materna. A livre escrita, a livre expressão e as diversas
manifestações de comunicação devem ser amplamente permitidas.

Em terceiro lugar, para Bagno (2000), a chamada norma culta da língua


brasileira deve se adequar à língua realmente falada e escrita no Brasil. Para os
prescritivistas conservadores e para os comandos paragramaticais, o padrão culto
da língua é aquele padrão retrógrado e tradicional, que se baseia em normas
que há muito tempo já caíram em desuso na fala e na escrita do brasileiro.
Lembramos, entretanto, como comentado no tópico anterior, que Bagno (2007)
em uma publicação mais recente abandonará a expressão norma culta em favor da
expressão variedades prestigiadas, estas sim efetivamente usadas por vários setores
da sociedade como os órgãos públicos, a imprensa, a academia etc.

162
TÓPICO 3 | COMPORTAMENTOS E ATITUDES LINGUÍSTICOS

Além dessas três ações apresentadas, as quais nos exigem paciência e


persistência, pois fazem parte de um processo de transformação social complexo
e demorado, precisamos individualmente nos empenhar numa mudança de atitude.
Devemos manter o senso crítico diante dos dogmas gramaticais emanados das
estruturas prescritivistas tradicionais e combater as ideias autoritárias, intolerantes
e preconceituosas em relação à nossa língua. Devemos, principalmente, valorizar
a diversidade e o alto grau de variabilidade do português brasileiro como um dos
nossos tesouros. Devemos também entender que a língua é uma entidade viva, que
se transforma inevitável e incessantemente. E que essa transformação contínua deve
ser objeto de reflexão para que as gramáticas não sejam mais instrumentos de poder,
ou seja, para que as gramáticas sejam meios de descrição e garantia da funcionalidade
da língua realmente culta (aquela usada sistematicamente por brasileiros cultos).

TURO S
ESTUDOS FU

Caro acadêmico, mais adiante retomaremos algumas destas questões quando


tratarmos do ensino de língua e a Sociolinguística.

DICAS

Para maiores informações a respeito do preconceito linguístico, recomendamos


a leitura do livro Preconceito linguístico: o que é como se faz (2000), de Marcos Bagno (Ed.
Loyola) e O direito à fala: a questão do preconceito linguístico (2000), coletânea de artigos
organizada por Fábio Lopes da Silva e Heronides Moura (Ed. Insular).

FIGURA 41 – PRECONCEITO LINGUÍSTICO: O QUE É,


COMO SE FAZ

FONTE: Disponível em: <http://i.s8.com.br/images/books/


cover/img4/132214_4.jpg>. Acesso em: 23 jun. 2010.

163
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

FIGURA 42 – O DIREITO À FALA: A QUESTÃO DO


PRECONCEITO LINGUÍSTICO

FONTE: Disponível em: <http://i.s8.com.br/images/books/


cover/img7/283087_4.jpg>. Acesso em: 23 jun. 2010.

4 ESTRANGEIRISMOS
Outra questão associada às atitudes e às representações que os falantes
têm a respeito da língua – e também relacionada ao preconceito social e linguístico
–, diz respeito à entrada, numa dada comunidade linguística, de palavras
e expressões consideradas estrangeiras, ou seja, de uma outra comunidade
linguística: os estrangeirismos.

No caso do Brasil, um debate que fez correr muita tinta na imprensa a


esse respeito foi o Projeto de Lei nº 1.676, de 1999, proposto pelo deputado Aldo
Rebelo (PCdoB-SP), que dispunha “[...] sobre a promoção, a proteção, a defesa e
o uso da língua portuguesa e dá outras providências”. (REBELO, 1999). O texto
do Projeto propõe a obrigatoriedade da língua portuguesa em vários âmbitos de
uso, conforme dispõe seu artigo 3º:

Art. 3º É obrigatório o uso da língua portuguesa por brasileiros natos


e naturalizados, e pelos estrangeiros residentes no País há mais de 1
(um) ano, nos seguintes domínios socioculturais:
I- no ensino e na aprendizagem;
II- no trabalho;
III- nas relações jurídicas;
IV- na expressão oral, escrita, audiovisual e eletrônica oficial;
V- na expressão oral, escrita, audiovisual e eletrônica em eventos
públicos nacionais;
VI- nos meios de comunicação de massa;
VII- na produção e no consumo de bens, produtos e serviços;
VIII- na publicidade de bens, produtos e serviços. (REBELO, 1999).

164
TÓPICO 3 | COMPORTAMENTOS E ATITUDES LINGUÍSTICOS

Além dessa medida coercitiva, o mesmo Projeto prevê punições a quem


fizer uso de expressão ou palavra estrangeira, como atesta o texto do artigo 4º
transcrito a seguir:
Art. 4º Todo e qualquer uso de palavra ou expressão em língua
estrangeira, ressalvados os casos excepcionados nesta lei e na sua
regulamentação, será considerado lesivo ao patrimônio cultural
brasileiro, punível na forma da lei.
Parágrafo único. Para efeito do que dispõe o caput deste artigo,
considerar-se-á:
I- prática abusiva, se a palavra ou expressão em língua estrangeira
tiver equivalente em língua portuguesa;
II- prática enganosa, se a palavra ou expressão em língua estrangeira
puder induzir qualquer pessoa, física ou jurídica, a erro ou ilusão de
qualquer espécie;
III- prática danosa ao patrimônio cultural, se a palavra ou expressão
em língua estrangeira puder, de algum modo, descaracterizar qualquer
elemento da cultura brasileira. (REBELO, 1999).

Na justificativa que segue o texto do Projeto, Rebelo apresenta suas


considerações a respeito da dominação de um povo sobre outro através da
imposição da língua. Cita que há ocorrências dessa dominação “no antigo
oriente, no mundo greco-romano e na época dos grandes descobrimentos” até
chegar na nossa época com a globalização. A partir daí enumera vários exemplos
de estrangeirismos, que têm descaracterizado a língua portuguesa, segundo seu
ponto de vista. É interessante observar que todos os estrangeirismos citados são
anglicismos, ou seja, empréstimos da língua inglesa: “holding”, “recall”, “franchise”,
“coffee-break”, “self-service”, “on sale”, “clipping”, “newsletter”, “personal banking”.

A partir de então vários linguistas passaram a discutir esse tema


procurando mostrar a insensatez da proposta de obstrução da entrada de palavras
estrangeiras, bem como da punição pelo seu uso.

Um dos argumentos diz respeito à concepção de língua e seu funcionamento


pressuposta no projeto: uma língua única, imutável, sem variedades, congelada
no tempo, avessa a mudanças e... empréstimos. Entretanto, já podemos verificar
em várias discussões apresentadas neste Caderno de Estudos que as relações entre
língua e sociedade são tão complexas, que o modelo de língua pressuposto no
Projeto de Lei é bastante limitado e retrógrado, além de representar uma atitude
social e linguística extremamente autoritária: “[...] o que se quer mesmo é controlar
a linguagem dos outros”. (FARACO; TEZZA, 2001, p. 34, grifos dos autores).

A “caça às bruxas” dos estrangeirismos não vem de hoje. No século


XIX, muitos artigos da imprensa brasileira da época também eram veementes
na empreitada de banir os galicismos, isto é, os empréstimos de língua francesa,
cuja importância social, política e cultural na época correspondiam à dos Estados
Unidos hoje. Mesmo assim, palavras de origem francesa como batom, conhaque,
matinê, purê etc. fazem parte da língua portuguesa atual.

165
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

Faraco e Tezza (2001) também exemplificam o empréstimo de palavras


inglesas em situações em que novas tecnologias, especialmente na informática,
ou mesmo em novos bens culturais, como foi o caso do futebol, não encontram
equivalentes na língua portuguesa. No último caso, football, goal, goal-keeper,
corner, center-half, back, offside em poucas décadas, entretanto, naturalmente se
transformaram em futebol, gol, goleiro, escanteio, meio-campo, zagueiro, impedimento.
Para Faraco e Tezza (2001, p. 33), “[...] esse exemplo deixa bem claro que o
próprio uso vai depurando o processo, isto é, que vocábulos estrangeiros vão ser
definitivamente incorporados (alguns poucos) e quais, depois de certa flutuação
serão abandonados (a maioria).” (p. 33).

Do ponto de vista histórico, Faraco e Tezza argumentam que as línguas


sempre se enriqueceram através do contato mútuo, não havendo nenhum caso
de uma língua ter sido “descaracterizada” pelo contato com outra; o que há é
enriquecimento.

Outro ponto que Faraco e Tezza (2001, p. 35) destacam é o fato de que,
apesar das línguas estarem sempre abertas aos empréstimos de vocabulário
em constante enriquecimento mútuo, a língua tem sua estrutura gramatical
praticamente fechada, sendo muito raramente modificada devido a esses
empréstimos. Os autores admitem que a organização gramatical das línguas vai
se modificando com o passar do tempo, mas isso se dá por uma lógica interna da
própria língua e não devido à estrutura gramatical de línguas estrangeiras.

Um terceiro e último argumento apresentado por Faraco e Tezza é que o


caminho que uma língua vai tomar será determinado por seus falantes e não por
uma legislação (como o Projeto de Lei de Aldo Rebelo):

De forma simples podemos dizer que quem faz a língua são seus
falantes (nesse sentido, a história mostra que qualquer tentativa de
legislação é sempre absolutamente inócua; é como se quiséssemos
legislar sobre a direção dos ventos e o movimento dos oceanos).
(FARACO; TEZZA, 2001, p. 35).

ATENCAO

No dia 13 de julho de 2009, a Assembleia Legislativa do Estado do Paraná


aprovou, em primeira discussão, o Projeto de Lei Nº 272/09, do governador Roberto Requião
(PMDB) que torna obrigatória a tradução para o português de palavras de outros idiomas
que forem colocadas em qualquer propaganda exposta no Estado. Imediatamente após
a aprovação, houve várias reações de repúdio à medida. Destacamos a seguir o artigo do
professor Carlos Alberto Faraco publicado na mesma semana da aprovação e que procura
alertar contra o autoritarismo contido na iniciativa da Assembleia. Confira!

166
TÓPICO 3 | COMPORTAMENTOS E ATITUDES LINGUÍSTICOS

DEIXEMOS A LÍNGUA EM PAZ!

Publicado em 17/07/2009 | Carlos Alberto Faraco

Quando uma autoridade apresenta projetos de regulação do uso social


da língua, eu logo me assusto. E me assusto, em primeiro lugar, como cidadão.
Hoje, a autoridade quer determinar como devo usar as palavras. Amanhã vai
querer dizer que livros poderei ler. Depois, que músicas poderei ouvir. E, por
fim, que ideias e crenças estarei autorizado a ter.

Não há como deixar de sentir nestes projetos um forte cheiro de


autoritarismo. E essa sensação se agrava – e muito – quando observamos a
história do século 20: os governantes que quiseram controlar o uso da língua
constituem um time de credenciais nada recomendáveis (Hitler, por exemplo,
queria, em nome da defesa da língua pátria, “purificar” o alemão de palavras
do iídiche). Sempre me pergunto se este padrão histórico é mero acaso.

Mas, além de reagir como cidadão, reajo também como técnico no


assunto. Há uns 40 anos me dedico ao estudo científico das línguas e, por isso,
não posso evitar dizer que, subjacente a estes projetos, há um preocupante
desconhecimento de como as línguas funcionam.

As línguas ampliam continuamente seu vocabulário. Pelos cálculos de


Antônio Houaiss, o português tinha 40 mil palavras no século 16 e tem hoje
aproximadamente 400 mil. A história dos últimos 500 anos explica por que
nosso léxico teve de aumentar dez vezes. E isso se deu por dois processos:
a criação de novas palavras (os chamados neologismos) e a incorporação de
palavras de outros idiomas (os chamados empréstimos).

É preciso que se diga que o segundo processo foi, nesse meio milênio,
muito mais produtivo que o primeiro. Calcula-se que aproximadamente 35%
do nosso vocabulário são de palavras de outros idiomas. Nesse total, estão
desde palavras das línguas dos povos que habitavam a Península Ibérica antes
da ocupação romana até as do inglês incorporadas nos últimos cem anos,
passando por aquelas que foram (e continuam sendo) importadas de inúmeras
outras línguas americanas, africanas, europeias e asiáticas.

Assim, o uso e eventual absorção de palavras de outros idiomas


constituem uma solução e jamais um problema. São um fator de enriquecimento
e não de empobrecimento das línguas. Temos, portanto, bons motivos para
deixar a língua e seus falantes em paz.

E acrescente-se a isso um outro fato a que poucos atentam: os falantes,


na própria dinâmica da vida social, usam palavras de outros idiomas, absorvem
algumas e, o mais

167
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

importante, descartam a maioria, sem que haja a necessidade de intervenções


legiferantes. Exemplo próximo nosso é o vocabulário do futebol. Quando o
“esporte bretão” chegou aqui, praticamente a totalidade das palavras era do
inglês. Hoje, sobraram não mais que duas (gol e pênalti). O mesmo processo
estamos assistindo agora com o vocabulário da informática: mais de dois
terços das palavras do inglês já foram descartados. Felizmente, para horror
dos que querem tudo regular, a própria sociedade regula o funcionamento da
língua. E o faz com mais inteligência e propriedade do que os que se metem a
rabequista.

Apesar de tudo isso, a Assembleia aprovou um estapafúrdio projeto


de iniciativa do Executivo que obriga que sejam traduzidas palavras de outros
idiomas que ocorram em propagandas expostas no estado, estipulando multa
de R$ 5 mil para o seu descumprimento.

Como será ele aplicado? O primeiro problema será definir o que são
“palavras de outros idiomas”. Pode parecer simples. Mas, considerando que
35% do nosso vocabulário é composto de “palavras de outros idiomas”, como
saberemos quais devem ser “traduzidas”? Pizza, show e internet, por exemplo,
vão precisar de tradução? E o que é exatamente traduzir? Tecnologia bluetooth
deverá ser tecnologia dente azul? O que precisamente se estará resolvendo
com isso? E, por fim, quem serão os fiscais aplicadores das multas, se nem os
especialistas (os lexicólogos) sabem como estabelecer com precisão quando
um estrangeirismo passa a ser um empréstimo? E um empréstimo deixa de ser
uma “palavra de outro idioma”?

Carlos Alberto Faraco, professor titular (aposentado) de Linguística e


Língua Portuguesa da UFPR, é organizador do livro Estrangeirismos: guerras em
torno da língua (Editora Parábola).
FONTE: Disponível em: <http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&i
d=906103&tit=Deixemos-a-lingua-em-paz>. Acesso em: 19 jun. 2010.

DICAS

Recomendamos a leitura do livro Estrangeirismos: guerras em torno da língua,


coletânea de artigos organizada por Carlos Alberto Faraco (Ed. Parábola).

168
TÓPICO 3 | COMPORTAMENTOS E ATITUDES LINGUÍSTICOS

FIGURA 43 – ESTRANGEIRISMOS: GUERRAS EM TORNO DA


LÍNGUA

FONTE: Disponível em: <http://i.s8.com.br/images/books/


cover/img8/292728_4.jpg>. Acesso em: 12 jun. 2010.

Como leitura complementar, selecionamos o texto de José Ribamar


Bessa Freire que satiriza a atitude do deputado Aldo Rebelo de querer proibir os
estrangeirismos.

LEITURA COMPLEMENTAR

UMA PIADA DE PORTUGUÊS

José Ribamar Bessa Freire

Quinta-feira, 13 de dezembro. Hora do almoço. ‘Malandro Carioca’, chofer


da camionete chapa branca, para na garagem do hotel. Desce o deputado Aldo
Rebelo (PCdoB-SP), trajando paletó azul e gravata vermelha. Encontra seu irmão
caçula no restaurante. O garçom traz o menu. Alisando seu bigode, Aldo pede bife
de filé no capricho, com purê de batata e, de entrada, salada de maionese com tomate
e azeitona. Enquanto come, discute a guerra da CPMF e a crise política. No final,
com um brinde, festeja a aprovação do projeto de lei contra os estrangeirismos.

O projeto de sua autoria proíbe o uso nos documentos oficiais de palavras


estrangeiras importadas, sem especificar o momento histórico da importação.
Obriga mídia e outdoors (perdão, painéis) a traduzir, para o português, vocábulos
de outras línguas. Determina que especialistas inventem palavras novas em
português equivalentes a expressões estrangeiras usadas em áreas de inovação
tecnológica. Os infratores serão punidos, mas ainda não se sabe como. Aprovado
pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o projeto volta agora ao Plenário
da Câmara para votação final.

169
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

O deputado Aldo Rebelo vai transformar o cotidiano dos brasileiros num


inferno, se o seu projeto for mesmo levado a sério. Ele próprio – coitado! – não vai
mais poder andar de carro, comer, falar, beber, se vestir, ou alisar seus bigodes
impunemente, porque o português está repleto até o tucupi de estrangeirismos,
a maioria dos quais o falante comum nem imagina quando e de onde vem. Uma
análise superficial do parágrafo inicial mostra que 95% do relato do almoço de
Aldo fica proibido. Quer ver? Olha só!

As palavras restaurante, garçom, menu, filé, maionese e purê foram


roubadas do francês que, como todo mundo sabe, adora comer e beber e,
além disso, exportou para nós milhares de galicismos como chofer, camionete,
garagem, hotel, paletó, conhaque e champanhe. Aldo não pode comer nada disso,
muito menos a batata cultivada em chácara, duas palavras quéchuas. Salada de
tomate, nem pensar, é vocábulo nahuátl do México, tanto quanto chocolate. Bife
é inglês e, se for no capricho, é coisa de italiano. Azeitona é árabe. Nem suco de
abacaxi ou caju - palavras tupis – ele poderá beber.

O deputado, já faminto e com sede, encontra também dificuldades em


se vestir. Coerente com a defesa da língua portuguesa, tira o paletó, mas não
pode substituí-lo por short, jeans e tênis comprados no shopping, porque são
anglicismos. Não pode ficar de camisa, porque se trata de uma palavra celta.
A gravata vermelha está proibida: vermelho foi importado em 1380 do Oriente
Médio por marinheiros catalães. E gravata vem de crovatta, denominação dada
pelos italianos aos croatas, inventores da dita cuja.

Desesperado, Aldo procura uma roupa alternativa costurada


artesanalmente, mas descobre que alfaiate é estrangeirismo, um empréstimo do
árabe, de onde também vem a cor azul do seu terno e vocábulos como almofada,
xadrez, tarefa, laranja, guitarra e tantos outros. O deputado, então, só tem uma
saída para manter sua fidelidade à pureza da língua portuguesa: ficar nuzão
como os índios Tupi.

Nu, faminto, desesperado e com sede, Aldo tenta conversar com o irmão,
mas omite sua condição de caçula, estrangeirismo proveniente de língua africana
igual a milhares de outros como vatapá, samba, cafuné, bagunça, moleque, bunda.
Não pode discutir política, nem expor sua tese sobre a crise, porque são três termos
gregos. Não pode falar da guerra (werra), nem mesmo fazer um brinde (bring dir´s -
eu te ofereço), que são germanismos. Aldo, então, é obrigado a ficar mudo como o
ex-deputado amazonense Lupércio Ramos ficou durante todo seu mandato.

Mudo, nu, faminto e com sede, o autor do projeto, contrariando a doutrina


social que professa, demite seu motorista, por não poder chamá-lo pelo apelido:
Malandro é um italianismo como festejar e carnaval. Já a palavra Carioca, de
origem tupi, foi incorporada com milhares de outras ao português do Brasil.
Aldo, finalmente, cofia o bigode, mas é advertido que alisar é um termo de língua
celta e bigode vem do alemão (bei got - por Deus). Por Deus, Aldo raspa seu
bigode. Tudo pela pureza do português!

170
TÓPICO 3 | COMPORTAMENTOS E ATITUDES LINGUÍSTICOS

Desbigotado, nu, mudo, faminto e com sede, Aldo Rebelo só pode ser
salvo pelos especialistas que vão criar palavras novas e puras, em português
legítimo e autêntico. Sua última esperança morre, no entanto, quando lê o relatório
produzido por eles sobre o Campeonato Brasileiro de Pé na bola, o esporte
nacional, que inclusive exporta pebolistas. No campeonato de 2007, Romário
enfiou a redonda na baliza, por baixo das pernas do guarda-valas, fazendo mil
objetivos, muitos dos quais de tiro-livre.

O deputado Aldo Rebelo, parlamentar combativo e honesto, pertence a


um Partido de luta. No entanto, está mal assessorado nessa questão. Sua intenção
é boa, mas a proposta é xenófoba, inoportuna e inexequível, três palavras
horrorosas, banidas de sua cartilha. O português, como qualquer língua viva,
tem uma história de contato com dezenas de outras línguas. Emprestou e tomou
emprestado milhares de palavras, sem pagar ou cobrar juros e sem ter de pagar
os serviços da dívida.

Não existe nenhuma língua do mundo sem influência estrangeira. Mais


de 50% das palavras em inglês, por exemplo, vieram do francês. Tudo bem, é
ridículo o Berinho, Secretário Estadual de Cultura do Amazonas, colocar títulos
em inglês ao festival de cinema que realiza com o dinheiro do contribuinte. Mas
não é isso que enfraquece a língua portuguesa, que não precisa de defesa. Se esses
estrangeirismos se impuserem pelo uso e forem incorporados ao português, qual
é o problema? A língua não vai deixar de ser portuguesa, por causa de palavras
importadas. Ela pertence aos falantes e eles fazem com ela o que bem entendem.

O que se deve defender é outra coisa. No mesmo dia e hora em que a CCJ
aprovava o tal projeto, a Comissão de Educação e Cultura, indo num sentido
contrário, se reunia em outro corredor da Câmara de Deputados, em Brasília, para
discutir relatório sobre a Diversidade Linguística do Brasil, onde são falados mais de
200 idiomas. Tive a sorte de estar presente. Fiquei emocionado, com a sensação de
estar testemunhando momento importante na história do país. O deputado Carlos
Abicalil (PT/MT), assessorado por técnicos do IPHAN e linguistas, fez trabalho tão
brilhante, que pensei em mudar meu domicílio eleitoral só para votar nele.

O relatório considera que a diversidade linguística é um patrimônio da


humanidade, que deve ser – esse sim – defendido com unhas e dentes. No Brasil,
essa riqueza toda é representada pelas línguas indígenas, pelas línguas das
comunidades afro-brasileiras e dos imigrantes estrangeiros, pela Língua de Sinais
(LIBRAS), mas também pelas variedades dialetais da língua portuguesa. O IPHAN,
que vai fazer um inventário desses falares, propôs a criação do Livro de Registro
das Línguas para garantir o direito dos falantes e a diversidade linguística do país.

171
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

Durante o evento, a representante da UNESCO, Jurema Machado,


anunciou que aquela instituição havia escolhido 2008 para ser o ano da diversidade
linguística, enquanto era distribuída cópia do Diário Oficial da União, de 12 de
dezembro, contendo texto do acordo de cooperação entre a FUNAI e a OPIPAM
– Organização do Povo Indígena Parintintin do Amazonas. O documento foi
publicado em português e em língua Kagwahiva. É a primeira vez que isso ocorre
na história do Brasil. Policarpo Quaresma, com “seu eterno sonhar, sua ternura e
sua candura de donzela romântica”, não estava doido. Agora, ninguém mais vai
rir dos ofícios que ele escreveu em tupi. P.S. – Agradeço Joan Corominas, autor do
Dicionário Etimológico, pelas informações sobre a origem das palavras.

(Publicado originalmente no Diário do Amazonas, em 16.12.2007.)


FONTE: Disponível em: <http://e-educador.com/index.php/artigos-mainmenu-100/462-guerra-
em-torno-das-luas>. Acesso em: 15 jun. 2010.

172
RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico discutimos a relação entre língua e os comportamentos e


atitudes a ela atribuídos pelas comunidades linguísticas, dando destaque a duas
questões: a do preconceito linguístico e a polêmica dos estrangeirismos na língua
portuguesa.

Em relação ao preconceito linguístico, estudamos os 8 mitos tratados em


Bagno (2000), os quais recuperamos aqui, resumidamente:

Mito 1: “A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente.”


Mito 2: “Brasileiro não sabe português” ou que “Só em Portugal se fala bem o português.”
Mito 3: “Português é muito difícil.”
Mito 4: “As pessoas sem instrução falam tudo errado.”
Mito 5: “O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão.”
Mito 6: “O certo é falar assim porque se escreve assim.”
Mito 7: “É preciso saber gramática para falar e escrever bem.”
Mito 8: “O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social.”

Vimos também que o círculo vicioso do preconceito, discutido por Bagno,


está sendo quebrado aos poucos com ações como os PCN, que preconizam o
ensino das variedades linguísticas, como veremos no próximo tópico.

Em relação aos estrangeirismos, vimos que a entrada de novas palavras e


estruturas na língua, vindas/emprestadas de outras línguas e consideradas como
palavras e expressões estrangeiras, pode gerar preconceitos linguísticos e sociais.
Um exemplo disso foi o projeto de Lei nº 1.676, de 1999, proposto pelo deputado
Aldo Rebelo, que propunha a obrigatoriedade da língua portuguesa em vários
âmbitos de uso, prevendo punições a quem fizer uso de expressão ou palavra
estrangeira. Vimos neste tópico que vários linguistas passaram a discutir esse
tema procurando mostrar a insensatez da proposta de obstrução da entrada de
palavras estrangeiras, bem como da punição pelo seu uso.

173
AUTOATIVIDADE

1 Pesquise como as gramáticas escolares têm apresentado os estrangeirismos.


Elas compartilham com a visão de enriquecimento apresentada?

2 Faça um levantamento a respeito da origem das palavras constantes no


vocabulário corrente do português. Citamos algumas possíveis origens,
além do inglês (o “grande vilão” do momento) e do francês (o “grande
vilão” do final do século XIX e início do XX), já mencionados: latim, grego,
árabe, italiano, castelhano, alemão, línguas ameríndias, línguas africanas,
línguas asiáticas etc. Verifique também se há uma data específica ou épocas
distintas de entrada dos empréstimos para cada língua e se as palavras
estão associadas a uma mesma área (economia, política, arte, história,
ciência etc.).

174
UNIDADE 3
TÓPICO 4

ENSINO DE LÍNGUA E SOCIOLINGUÍSTICA

1 INTRODUÇÃO
O objetivo deste tópico é refletir e discutir as contribuições dos estudos
sociolinguísticos para o ensino de línguas em geral. Comecemos a pensar na
questão da língua materna, entendida aqui como a primeira língua que o indivíduo
adquire de maneira natural, ou seja, a partir da interação social. Se a língua materna
é adquirida naturalmente, então ela não precisa ser aprendida, o que quer dizer que
os indivíduos não vão à escola para aprender sua língua materna; os indivíduos vão
à escola para aprender a variedade prestigiada da língua, bem como para aprender
outras línguas. O indivíduo vai à escola, portanto, para tomar contato com outra(s)
variedade(s) da língua, diferentes da(s) que ele adquiriu como língua(s) materna(s).
Vejamos o que nos dizem Naro e Scherre (2006, p. 237) a esse respeito:

Queremos enfatizar que a língua materna, aqui entendida como


primeira língua ou como língua vernácula, não pode e nem precisa
ser ensinada, tendo em vista que todos os falantes de uma dada
comunidade têm completo e perfeito domínio de sua ou de suas línguas
maternas, adquiridas sem ensino formal. O que pode ser ensinado
é um sistema que a comunidade não possui, a saber, uma segunda
língua, um dialeto, uma variedade padrão, a gramática normativa ou
uma língua estrangeira.

E
IMPORTANT

Neste tópico, você tomará contato com algumas questões envolvendo os


estudos sobre línguas e a Sociolinguística, bem como a interface destes com as diretrizes
de ensino-aprendizagem de língua portuguesa propostas pelos Parâmetros Curriculares
Nacionais (PCN). Aqui, você encontrará reflexões e indicações de leituras que o levarão a
conhecer e aprofundar seus estudos neste campo de conhecimento.

175
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

2 SOCIOLINGUÍSTICA E LÍNGUA MATERNA


A partir da leitura dos PCN, você perceberá a importância dada ao
domínio da linguagem como meio de interação social e construção da cidadania,
como mostra o excerto a seguir:

O domínio da linguagem, como atividade discursiva e cognitiva, e o


domínio da língua, como sistema simbólico utilizado por uma comunidade
linguística, são condições de possibilidade de plena participação social.
Pela linguagem os homens e as mulheres se comunicam, têm acesso
à informação, expressam e defendem pontos de vista, partilham ou
constroem visões de mundo, produzem cultura. Assim, um projeto
educativo comprometido com a democratização social e cultural atribui
à escola a função e a responsabilidade de contribuir para garantir a todos
os alunos o acesso aos saberes linguísticos necessários para o exercício da
cidadania. (BRASIL, 1998, p. 19).

Além disso, como mostra o trecho seguinte, os PCN preveem também o


trabalho com a diversidade linguística, a partir de textos orais e escritos, a fim de
ampliar a competência discursiva do aluno, entendida esta como

[...] um sistema de contratos semânticos, responsável por uma espécie


de filtragem que opera os conteúdos em dois domínios interligados
que caracterizam o dizível: o universo intertextual e os dispositivos
estilísticos acessíveis à enunciação dos diversos discursos. (BRASIL,
1998, p. 26; nota 6).
Tomando-se a linguagem como atividade discursiva, o texto
como unidade de ensino e a noção de gramática como relativa ao
conhecimento que o falante tem de sua linguagem, as atividades
curriculares em Língua Portuguesa correspondem, principalmente, a
atividades discursivas: uma prática constante de escuta de textos orais
e leitura de textos escritos e de produção de textos orais e escritos,
que devem permitir, por meio da análise e reflexão sobre os múltiplos
aspectos envolvidos, a expansão e construção de instrumentos que
permitam ao aluno, progressivamente, ampliar sua competência
discursiva. (BRASIL, 1998, p. 27).

Os PCN comentam também a questão das escolhas interacionais que o aluno


fará pela variante mais adequada para cada situação social, descartando assim a
ideia de ‘erro’ na fala, tão difundida pelo senso comum, e enfatizando a ideia de que
o aluno deve tomar contato com a diversidade linguística, justamente para poder
entendê-la e utilizá-la de maneira adequada, como é exposto no trecho a seguir:

No ensino-aprendizagem de diferentes padrões de fala e escrita, o


que se almeja não é levar os alunos a falar certo, mas permitir-lhes
a escolha da forma de fala a utilizar, considerando as características
e condições do contexto de produção, ou seja, é saber adequar os
recursos expressivos, a variedade de língua e o estilo às diferentes
situações comunicativas: saber coordenar satisfatoriamente o que
fala ou escreve e como fazê-lo; saber que modo de expressão é
pertinente em função de sua intenção enunciativa, dado o contexto
e os interlocutores a quem o texto se dirige. A questão não é de erro,
mas de adequação às circunstâncias de uso, de utilização adequada da
linguagem. (BRASIL, 1998, p. 31).

176
TÓPICO 4 | ENSINO DE LÍNGUA E SOCIOLINGUÍSTICA

Se dermos uma rápida olhada no sumário dos Parâmetros Curriculares


Nacionais (PCN), já ali podemos notar que a contribuição mais evidente é em
relação à importância dos estudos sobre as variedades linguísticas, não é mesmo? O
reconhecimento da diversidade linguística nos mostra que a língua varia de acordo
com fatores regionais, etários, socioeconômicos, de gênero/sexo e interacionais. Com
isso, temos que reconhecer também que a língua escrita apresenta características
diferentes da língua oral e que, portanto, ninguém fala como escreve.

Outro ponto importante do reconhecimento e do estudo da diversidade


linguística tem levado ao reconhecimento de que existe também uma variedade nas
‘gramáticas’ da língua. Ou seja, a variedade que eu escolho usar em determinada
situação de comunicação está vinculada a um determinado tipo de estrutura
gramatical, que pode ser mais ou menos formal em relação à variedade prestigiada
da língua. Além disso, essas ‘gramáticas’ vão estar associadas a julgamentos de
valor por parte dos falantes, conforme comentamos anteriormente quando tratamos
das questões em torno do erro e para a qual retornaremos mais adiante.

Além disso, o tratamento da diversidade linguística pode ser usado para


sensibilizar o aluno para as variedades linguísticas que aparecerão nos diferentes
gêneros. Ou seja, o trabalho com os gêneros textuais, justamente devido às
características intrínsecas deles, é que vão ajudar o aluno a perceber as variedades
linguísticas, tanto dos textos orais como dos escritos e a adequação destes a cada
contexto interacional em particular.

Por isso, é interessante recuperarmos o porquê de trabalharmos com


gêneros textuais, numa perspectiva de língua como interação; ou seja, que a
escolha da variedade linguística utilizada, tanto em textos orais como em textos
escritos, depende do contexto de produção. Barbosa (2001, p. 158) observa que a
adoção de gêneros discursivos no ensino de língua materna se sustenta devido às
seguintes razões:

[...]
- os gêneros do discurso permitem capturar, para além dos aspectos
estruturais presentes no texto, também aspectos sócio-históricos e
culturais, cuja consciência é fundamental para favorecer os processos
de compreensão e produção de textos;
- os gêneros do discurso nos permitem concretizar um pouco mais a que
forma de dizer em circulação social estamos nos referindo, permitindo
que o aluno tenha parâmetros mais claros para compreender ou
produzir textos, além de possibilitar que o professor possa ter critérios
mais claros para intervir eficazmente no processo de compreensão e
produção de seus alunos;
- os gêneros do discurso (e possivelmente agrupamentos) fornecem-
nos instrumentos para pensarmos mais detalhadamente as sequências
e simultaneidades curriculares nas práticas de uso da linguagem,
(compreensão e produção de textos orais e escritos).

Isto é, o trabalho com gêneros textuais nos possibilita trabalhar a língua


no seu uso concreto, como prática social, e com objetivos claros de interação entre
sujeitos e texto.

177
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

Outra questão que Barbosa (2001) coloca em relação aos gêneros discursivos
como objeto de ensino-aprendizagem é quanto a que gêneros selecionar. Como bem
nota a autora, os PCN já nos dão pistas de que nesta escolha devem-se levar em
conta as necessidades dos alunos e suas possibilidades de aprendizagem. Assim,
os PCN priorizam os gêneros de ordem pública e oferecem uma listagem destes, os
quais devem priorizar as práticas sociais de escuta, fala, leitura e escritura.

Barbosa (2001) mostra, contudo, que classificar os gêneros a partir de


critérios coerentes com os pressupostos adotados nesta perspectiva de ensino de
língua materna é importante tanto para a prática escolar, bem como para que
o professor possa ter parâmetros claros no momento de considerar diferentes
capacidades de linguagem em diferentes esferas de comunicação. Trabalhar com
uma classificação criteriosa dos gêneros evita, segundo a autora, que se trabalhe
ainda na perspectiva da tipologia textual, em que se começava com a narração,
depois com a descrição e por fim com a argumentação, como se houvesse a
necessidade de uma gradação lógica entre estes tipos textuais.

Barbosa propõe, então, baseada em Dolz e Schneuwly (1996, citados


por Barbosa, 2001) um agrupamento de gêneros que supõe a aprendizagem
de capacidades e operações diferenciadas por parte dos alunos, a partir dos
seguintes critérios:

1) o domínio social da comunicação a que o gênero pertence;


2) as capacidades de linguagem envolvidas na produção e compreensão
deste gêneros;
3) sua tipologia geral. (BARBOSA, 2001, p. 170).

No quadro a seguir, você pode ver os 5 grupos que se estabeleceram a


partir da aplicação dos critérios anteriormente mencionados:

QUADRO 13 – AGRUPAMENTO DE GÊNEROS DISCURSIVOS


Grupos
Domínio da comunicação social Capacidades desenvolvidas Exemplário

Contos de fadas,
É o da cultura literária ficcional, lendas, fábulas,
Capacidade de mimesis da
Gêneros da como manifestação estética e narrativas de
ação através da criação de
ordem do ideológica, que necessita de aventura, narrativas
uma intriga no domínio do
narrar instrumentos específicos para sua de ficção científica,
verossímil.
compreensão e apreciação. romance policial,
crônica literária, etc.
Relato de experiência
vivida, diários,
testemunhos,
Gêneros da É o da memória e o da Representação pelo discurso de
autobiografias,
ordem do documentação das experiências experiências vividas e situadas
notícia, reportagem,
relatar humanas vivenciadas. no tempo.
crônicas jornalísticas,
relato histórico,
biografia, etc.

178
TÓPICO 4 | ENSINO DE LÍNGUA E SOCIOLINGUÍSTICA

Textos de
opinião, diálogo
argumentativo, carta
do leitor, carta de
Discussão de assuntos sociais
Gêneros da reclamação, carta de
controversos, visando um Capacidades de sustentar,
ordem do solicitação, debate
entendimento e um posicionamento refutar e negociar posições.
argumentar regrado, editorial,
perante eles.
requerimento,
ensaio, resenhas
críticas, artigo
assinado, etc.
Seminário,
conferência, verbetes
de enciclopédia, texto
Veiculam o conhecimento mais
Gêneros da Capacidade de apresentação explicativo, tomada
sistematizado que é transmitido
ordem do textual de diferentes formas de notas, resumos de
culturalmente – conhecimento
expor dos saberes. textos explicativos
científico e afins.
ou expositivos,
resenhas, relato de
experiência científica.
Receitas, instruções
de uso ou de
Gêneros
Englobam textos variados de montagem, bulas,
da ordem
instrução, regras e normas e que Exigem a regulação mútua de regulamentos,
do instruir
pretendem a prescrição ou a comportamentos. regimentos,
ou do
regulação de ações. estatutos,
prescrever
constituições, regras
de jogos, etc.

FONTE: Baseado em: Barbosa (2001, p. 170-171)

Barbosa observa que esta não é a única possibilidade de agrupamento


dos gêneros textuais, mas pode ser utilizada como parâmetro para o professor
nas aulas de língua materna, já que tal classificação tematiza o contexto social
e histórico dos gêneros, assim como considera as capacidades de ensino-
aprendizagem envolvidas.

Você percebeu a importância do trabalho com os gêneros textuais no


ensino de língua materna, conforme proposto pelos PCN? É a partir dos gêneros
textuais que o aluno terá contato com a diversidade linguística no que diz respeito
aos usos que fazemos da língua em cada contexto de produção. O trabalho com
gêneros possibilitará também mostrar ao aluno que existe um contínuo entre
os gêneros mais ligados a situações de fala até aqueles mais ligados a contextos
escritos, como bem mostra o gráfico de Marcuschi reproduzido a seguir:

179
FIGURA 44 – REPRESENTAÇÃO DO CONTÍNUO DOS GÊNEROS TEXTUAIS NA FALA E NA ESCRITA
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

180
FONTE: Marcuschi (2008, p. 41), Bagno (2007, p. 183)
TÓPICO 4 | ENSINO DE LÍNGUA E SOCIOLINGUÍSTICA

E para fechar esta reflexão, vejamos a posição de Bagno em relação ao


ensino de língua materna e ao uso dos gêneros textuais como suporte para a
sensibilização relacionada às variedades linguísticas:

[A] escola deve dar espaço ao maior número possível de manifestações


linguísticas, concretizadas no maior número possível de gêneros
textuais e de variedades de língua: rurais, urbanas, orais, escritas,
formais, informais, cultas, não-cultas, etc. Assim como Mattos e Silva
(1995, p. 37), também proponho “uma pedagogia voltada para o todo
da língua e não para algumas de suas formas”. (BAGNO, 2002, p. 58).

Voltemos agora à questão do erro. Um dos assuntos com os quais a


Sociolinguística, principalmente a variacionista, tem contribuído em relação ao ensino
é a questão do erro, tanto na oralidade como na escrita. Muitos trabalhos têm surgido
na perspectiva de demonstrar que o que habitualmente o senso comum chama de
“erro de português” na fala nada mais é que mais uma das variedades da língua.

Além disso, como já discutimos anteriormente, é muito comum ouvirmos


as pessoas comentarem por aí sobre erros de ortografia, dando-lhes, inclusive,
uma valoração excessiva, uma vez que há nesta perspectiva do erro a ideia de
que a representação escrita é que é a língua de fato, em detrimento da fala, a qual
deve ter como parâmetro o que é escrito. Isso, como vimos, está associado aos
julgamentos que fazemos das modalidades da língua e, em consequência, aos
preconceitos linguísticos.

Para ilustrar os trabalhos que têm surgido sobre esta temática, escolhemos
o artigo de Bortoni-Ricardo (2006), o qual veremos na sequência e que você
encontra no livro Sociolinguística e ensino, organizado por Gorski e Coelho (2006).
Nesta obra você encontrará outros textos muito interessantes:

FIGURA 45 – SOCIOLINGUÍSTICA E ENSINO: CONTRIBUIÇÕES


PARA A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LÍNGUA

FONTE: Disponível em: <https://www.livrarialoyola.com.br/


images/produtosg/228882.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2010.

181
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

Bortoni-Ricardo (2006), ao falar sobre os erros de ortografia, propõe


a distinção entre os erros decorrentes da influência da oralidade na língua
escrita e os erros decorrentes da falta de familiaridade do alfabetizando com as
convenções ortográficas.

Vejamos fragmentos do trabalho da autora no Projeto PRALER <www.


fundescola.mec.gov.br> e, com isso, o teor da análise textual que ela faz numa
perspectiva sociolinguística para suas atividades de professores alfabetizadores.

FRAGMENTO I:

Todos sabemos que nossos alunos, quando chegam à escola, já são


capazes de falar com muita competência o português, que é a língua materna
da grande maioria dos brasileiros. Você não precisa se preocupar em ensiná-
los a se comunicar usando a língua portuguesa em tarefas mais simples do
dia a dia, que já fazem parte da sua competência comunicativa. Todos nós
começamos a dominar essas tarefas comunicativas desde os nossos primeiros
meses de vida. À medida que a criança cresce vai ampliando essas habilidades.

No entanto, é nossa tarefa na escola ajudar os alunos a refletir sobre


sua língua materna. Essa reflexão torna mais fácil para eles desenvolver sua
competência e ampliar o número e a natureza das tarefas comunicativas que
já são capazes de realizar, primeiramente na língua oral e, depois, também,
por meio da língua escrita. A reflexão sobre a língua que usam torna-se
especialmente crucial quando nossos alunos começam a conviver com a
modalidade escrita da língua.

FONTE: Bortoni-Ricardo (2006, p. 267-268)

FRAGMENTO II:

No texto seguinte encontramos vários problemas na ortografia que são


decorrentes da influência da fala na escrita e também problemas que não se
explicam pela pronúncia, mas sim pelo fato de que a jovem autora do texto
ainda tem pouca familiaridade com as convenções da língua escrita.

“O Paiz
Meu sonho é ser feliz
é conhecê novos lugares
e conhecê o mundo
Meu sonho é ter muintos mais amigos

182
TÓPICO 4 | ENSINO DE LÍNGUA E SOCIOLINGUÍSTICA

Meu sonho era que o mundo foce um paraizo


tudo moderno
mais tudo em paiz
cada um no seu lugá”

Nota: a autora é uma menina de 9 anos do Distrito Federal.


Vamos começar a analisar o texto pelos problemas que resultam de
interferência da fala na escrita.

Em “conhecê”, a autora do texto não escreveu o “r” no final. De fato,


no português brasileiro, há uma forte tendência para suprimirmos o /r/ final
nos infinitivos verbais. Veja que em “ser”, o “r” apareceu. É que essa regra
de supressão do “r” é uma regra variável. Ora suprimimos o /r/final na nossa
pronúncia, ora o realizamos. Tendemos a suprimi-lo mais frequentemente
nos infinitivos e nas formas verbais do futuro do subjuntivo e em palavras
com mais de uma sílaba.

FONTE: Bortoni-Ricardo (2006, p. 269-270)

Depois dessa análise sobre os erros de ortografia, você deve estar se


perguntando: por que se fala tanto em erros na escrita enquanto os erros na
oralidade não são tão evidenciados? Pois bem, na primeira unidade deste
Caderno de Estudos vimos que, para a Sociolinguística, todo falante nativo tem
competência comunicativa para sua língua materna, ou seja, ele não comete
erros na língua com a qual se comunica desde bebê. Assim, o “erro” na língua
oral é um fato social, já que não existe uma transgressão a um conjunto fixo de
normas vigentes. O que ocorre, na verdade, é apenas a inadequação da forma
utilizada pelo falante, num contexto de uma comunidade em que as normas e
crenças vigentes, nessa comunidade de fala, acabam fazendo com que a variante
ali empregada seja rejeitada pela cultura dominante, que a tratará como um erro.

O “erro” na língua falada é, nesse sentido, uma variante, uma entre diferentes
e possíveis maneiras de se dizer a mesma coisa. E a inadequação de certas formas
de uso decorre dos papéis sociais desempenhados pelo falante e pelo ouvinte e
do que os interlocutores esperam um do outro. Assim, como vimos até aqui em
diversas discussões que fizemos, quando a Sociolinguística trata do erro da língua
falada como uma variação da forma de se dizer a mesma coisa, ela relativiza o erro
e combate o estigma associado a variantes de pouco prestígio social.

Entretanto, na opinião da autora, embora o conceito tradicional de erro


não seja produtivo para a Sociolinguística quando esta trata da língua falada, ele
é exclusivamente pertinente para a língua escrita. Se para a língua falada os erros
não constituem transgressões a uma normatização convencionada, para a língua
escrita, essa transgressão existe. Nesse sentido, pela diferença de natureza entre
os erros da língua escrita e os da língua falada, pode-se dizer que os estatutos do
erro de cada uma dessas modalidades da língua são diferentes entre si.

183
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

Como a funcionalidade da escrita é garantida pela uniformidade proveniente


da codificação da língua, a transgressão a essa codificação pode ser considerada erro
e deve ser corrigida pelos professores, de modo a incentivar o aluno ao domínio
da modalidade escrita da língua. Porém, o professor deve ter clareza de que esse
domínio da modalidade escrita da língua, ou seja, da ortografia, é lento e exige
muito contato do aluno com a grafia normatizada, tratando-se, principalmente, de
um trabalho para toda a vida do indivíduo. Além disso, a apreensão da ortografia
é um trabalho de raciocínio, uma vez que, para tentar escrever de maneira correta,
o aluno busca subsídios na oralidade e em tudo aquilo que ele já aprendeu sobre
a língua escrita. Assim, o erro ortográfico permite a percepção da reflexão dos
elementos orais da fala do aluno na sua escrita.

A partir disso, Bortoni-Ricardo (2006) afirma que um professor pode,


sem problema algum, intervir na fala do aluno para apresentar-lhe uma variante
diferente daquela que ele está usando, mas essa intervenção deve ser no sentido
de evidenciar o seguinte: as variações na língua falada são fundamentais para que
o falante marque seu papel social e adéque sua fala à função que esta desempenha
na interação. Por outro lado, o erro na língua escrita deve ser sempre corrigido. E
o objetivo dessa correção deve ser sempre o de ajudar o aluno no seu processo de
domínio da ortografia, o qual é essencial para a funcionalidade da língua escrita.

Repare, portanto, que o estatuto que a autora confere ao erro na oralidade


e na escrita nos levam à conclusão de que o tratamento pedagógico dado a cada
um deles é muito diferente. No primeiro caso, os chamados ‘erros’ de fala na
verdade são variações que o próprio falante em geral vai escolher de acordo
com a situação interacional em que se encontra. Já os chamados erros da escrita
devem ser vistos como hipóteses que o aluno vai construindo na tentativa de
registrar a língua. A correção dos erros de ortografia deve acontecer na medida
em que a variedade exigida para aquele determinado contexto de produção for
a variedade prestigiada (ou culta) da língua. Isso significa dizer que, a depender
do gênero textual em questão, a variedade linguística a ele associada poderá ser
a de prestígio. Neste caso, então, se seguirmos o raciocínio da autora, a correção
ortográfica será legitimada.

Isso pode ser estendido também para as estruturas gramaticais, não é


mesmo? Por exemplo, quanto mais formal for o gênero textual, mais próximas da
variedade de prestígio estarão as estruturas gramaticais utilizadas nele.

184
TÓPICO 4 | ENSINO DE LÍNGUA E SOCIOLINGUÍSTICA

DICAS

Sugerimos que você entre na página da professora Stella Maris Bortoni-


Ricardo <www.stellabortoni.com.br> e pesquise os estudos desta autora sobre ensino de
língua e sociolinguística.
Para ampliar seus estudos, sugerimos também a leitura do artigo Variação linguística e ensino
de gramática, de Edair Gorski e Izete L. Coelho (2009), que você encontra disponível em:
<http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/workingpapers/article/view/10749/12022>.

3 SOCIOLINGUÍSTICA E ENSINO: TEXTOS PARA REFLEXÃO


E DEBATE
Caro acadêmico, até aqui você deve ter percebido que as contribuições
da Sociolinguística para o ensino de língua são muitas. Existem muitos trabalhos
nesta linha, tanto na Sociolinguística Variacionista como na Dialetologia, na
Análise da Conversação, na Sociolinguística Interacional etc., que poderão
contribuir fortemente para sua prática docente como professor de língua. Você
verá agora mais algumas destas contribuições a partir da leitura e da reflexão dos
materiais que seguem. Vamos lá?

Bagno (2007) propõe uma reeducação sociolinguista baseada na


reorganização dos saberes linguísticos. Essa reorganização não está relacionada à
“correção” ou na substituição de uma maneira de falar por outra. Em vez disso,
o autor propõe que:

A reeducação sociolinguística tem que partir daquilo que as pessoas


já sabem e sabem bem: falar sua língua materna com desenvoltura e
eficiência. E é uma reeducação sociolinguística porque é através dela
que o aprendiz conhecerá os juízos de valores sociais que pesam sobre
cada uso da língua. (BAGNO, 2007, p. 83-84, grifos do autor).

A partir dessas considerações, Bagno (2007, p. 84-85) apresenta seis


implicações do trabalho da reeducação sociolinguista ao/à professor/a. Vejamos:

[...]
- fazer o/a aluno/a reconhecer que é possuidor/a de plenas capacidades
de expressão, de comunicação, isto é, possuidor/a de uma língua plena e
funcional, de uma língua que é um instrumento eficaz de interação social e de
autoconhecimento individual – em outras palavras, promover a autoestima
linguística dos alunos e das alunas, dizer-lhes que eles sabem português e que
a escola vai ajudar a desenvolver ainda mais esse saber;

185
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

- levar o/a aluno/a a tomar consciência da escala de valores que existe na


sociedade com relação aos usos da língua: algumas variedades linguísticas
são consideradas mais “bonitas” e “certas” que outras; alguns sotaques são
valorizados, outros são ridicularizados; os usos escritos são mais prestigiados
que os usos orais etc. – mas atenção: tomar consciência não significa aceitar essa
situação de discriminação nem submeter-se a ela!;

- garantir o acesso dos alunos e das alunas a outras formas de falar e de


escrever, isto é, permitir que aprendam e apreendam variantes linguísticas
diferentes das que eles/elas já dominam – isso significa ampliar o repertório
comunicativo, ter à sua disposição um número maior de opções, que poderão
ser empregadas de acordo com as necessidades de interação;

- conscientizar o alunado de que a língua é usada como elemento de promoção


social e também de repressão e discriminação – comparar o preconceito
linguístico com as outras formas de preconceito que vigoram na sociedade;
desconstruir o preconceito linguístico com argumentos bem fundados e
alertar alunos e alunas contra suas próprias práticas de discriminação por
meio da linguagem;

- trabalhar para a inserção plena dos alunos e das alunas na cultura letrada,
por meio de práticas ininterruptas da escrita e da leitura, isto é, práticas
de letramento – promover o conhecimento ativo das convenções dos muitos
gêneros textuais que circulam na sociedade, sobretudo dos gêneros escritos
mais monitorados; promover a formação do leitor literário autônomo;

- promover o reconhecimento da diversidade linguística como uma riqueza da


nossa cultura, da nossa sociedade, ao lado de outras diversidades culturais
e até mesmo da biodiversidade natural – muitos estudiosos falam de uma
ecologia linguística, em que a diversidade das línguas e das variedades
linguísticas deve ser valorizada e preservada como bem inestimável da
espécie humana.

DICAS

Com relação à valorização e preservação da diversidade linguística, sugerimos


uma visita aos sites da UNESCO:
<http://www.unesco.org/new/es/unesco/> e <http://www.unesco.org/pt/brasilia>.

186
TÓPICO 4 | ENSINO DE LÍNGUA E SOCIOLINGUÍSTICA

Bagno (2007, p. 125-140) propõe também um roteiro composto de 10


questões para avaliar a adequação do tratamento que os livros didáticos dão aos
fenômenos da variação e da mudança linguísticas:

1) O livro didático trata da variação linguística?


2) O livro didático menciona de algum modo a pluralidade de línguas que
existe no Brasil?
3) O tratamento se limita às variedades rurais e/ou regionais?
4) O livro didático apresenta variantes características das variedades
prestigiadas (falantes urbanos, escolarizados)?
5) O livro didático separa norma-padrão da norma culta (variedades
prestigiadas) ou continua confundindo a norma-padrão com uma variedade
real da língua?
6) O tratamento da variação no livro didático fica limitado ao sotaque e ao
léxico, ou também aborda fenômenos gramaticais?
7) O livro didático mostra coerência entre o que diz nos capítulos dedicados
à variação e o tratamento que dá aos fatos de gramática? Ou continua, nas
seções, a tratar do “certo” e do “errado”?
8) O livro didático explicita que também existe variação entre fala e escrita, ou
apresenta a escrita como homogênea e a fala como lugar de erro?
9) O livro didático aborda o fenômeno da mudança linguística? Como?
10) O livro didático apresenta a variação linguística somente para dizer que o
que vale mesmo, no fim das contas, é a norma-padrão?

ATENCAO

Para finalizar esta seção, antes de entrarmos nos textos complementares,


indicamos a leitura do livro Linguagem e escola – uma perspectiva social, da professora
Magda Soares, no qual a autora comenta e reflete sobre a questão do fracasso escolar
baseada no que ela chama de ideologia do dom, ideologia da deficiência cultural e ideologia
das diferenças culturais.

187
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

FIGURA 46 – LINGUAGEM E ESCOLA: UMA PERSPECTIVA


SOCIAL, DE MAGDA SOARES

FONTE: Disponível em: <http://4.bp.blogspot.com/_


KvAGPbBIayI/SfBh-xFODTI/AAAAAAAAAnM/-J7XrJYdn_c/s320/
MAGDA+SOARES.jpg>. Acesso em: 24 abr. 2010.

LEITURA COMPLEMENTAR

O MATERIAL DE TRABALHO DO PROFESSOR DE LÍNGUA MATERNA: A


COMPETÊNCIA LINGUÍSTICA DOS ALUNOS

Rodolfo Ilari
Renato Basso

A maioria das perguntas que o jovem professor se faz no início da carreira


toca em aspectos particulares de uma questão mais geral: qual é o papel do
professor de língua materna?

A linguística moderna mostra de maneira convincente que qualquer


criança normal chega aos 5 anos dominando a sintaxe de sua língua. Materna; a
essa altura, a criança já dispõe de um vocabulário de alguns milhares de palavras.
Além disso, ela já é capaz de atuar com sucesso em situações bastante diversificadas
(lúdicas, narrativas, práticas regulatórias etc.) que constituem outras tantas formas
de interação comunicativa. Tem-se lembrado, a propósito de tudo isso, que, até
ir à escola, a criança aprende sua língua materna de maneira tão natural como
desenvolve a dentição ou como aprende a caminhar. Se é assim, não faz sentido
atribuir ao professor de língua materna a função de iniciar os alunos na prática da
língua: nesse ponto, ele tem uma função diferente da dos professores de matemática
ou ciências, que, nas primeiras séries, respondem por uma verdadeira iniciação.

Parece razoável supor que as várias formas de competência com que a


criança chega à escola são a matéria-prima com que o professor deverá trabalhar.
Idealmente, essa matéria-prima precisa ser trabalhada de modo que a criança
possa usá-la para realizar da maneira mais eficaz possível todas as funções
próprias da língua: expressar sua personalidade, comunicar-se de maneira eficaz
188
TÓPICO 4 | ENSINO DE LÍNGUA E SOCIOLINGUÍSTICA

com os outros, elaborar conceitos que permitam organizar a percepção do mundo,


fazer da linguagem um instrumento do raciocínio e um objeto de fruição estética.
Para que tudo isso seja possível, a criança precisa aprender a usar de maneira
compartilhada, com vários tipos de interlocutores, objetos linguísticos de tipo
textual, mais frequentemente textos, que se expressam em formatos/gêneros/
variedades linguísticas determinadas.

A esses objetivos, a escola tem anteposto outro: o da correção.

Na prática, a escola não tem trabalhado a partir de um plano voltado


para enriquecer sistematicamente a competência linguística do aluno;
tem-se preocupado em criar no aluno uma outra competência que,
supostamente, coincide com a competência linguística das classes mais
cultas. Para isso, tem trabalhado principalmente no sentido de acostumar
os educandos a monitorar de maneira consciente seu próprio desempenho
linguístico, investindo em duas estratégias principais: a sistematização
gramatical, que na maioria dos casos se confunde com o ensino de uma
nomenclatura, e a análise (particularmente, sintática) de sentenças mais
ou menos descontextualizadas. (ILARI; BASSO, 2006, p. 231).

A força com que o objetivo da correção sobrepuja os outros objetivos


formativos que poderiam orientar o ensino da língua é tão grande que o professor
do Ensino Fundamental e Médio tende a desqualificar como ruim toda e qualquer
produção do aluno que cometa deslizes contra a sintaxe, a ortografia ou mesmo
a disposição de página próprias do português culto, negando-lhes inclusive o
caráter de texto.

Essa maneira de hierarquizar os objetivos do ensino de português, típica


da escola de nível fundamental e médio, tem a seu favor alguns argumentos fortes,
mas no final das contas é míope e ineficaz. É sem dúvida importante que o maior
número possível de pessoas domine o português culto, porque é nessa variedade
que foi escrita a maior parte dos textos que todos precisam conhecer para
desempenhar de forma plena seu papel de cidadão. Por isso mesmo, abrir mão
de ensinar o português culto seria um crime, ou no mínimo uma grave omissão,
que resultaria em reforçar as situações de exclusão de que sofre secularmente o
país. Entretanto, expressar-se em português padrão é muito mais do que uma
decisão pessoal e livre por parte do aluno. Há cinco décadas, o linguista Mattoso
Câmara Jr. (1957) já chamava a atenção para o fato de que os “erros de escolares”
são, na maioria das vezes, manifestações de uma mudança ou de uma tendência
da língua. Hoje podemos ir mais longe, dizendo que muitos “erros” nada mais
são do que a manifestação, ou a irrupção, no texto que se produz para a escola,
de uma variedade linguística que a escola continua fingindo que não existe. Se
o aluno escreve “eu se lavei”, é provavelmente porque ele fala uma variedade
de língua em que o pronome se é o único reflexivo; se ele escreve “o pineu estava
furado mas nós não preocupamos, porque tinha um borracheiro perto” (em vez de “o
pneu estava furado, mas nós não nos preocupamos porque havia um borracheiro
por perto”) é mais provavelmente porque na variedade de língua própria de
sua região e de sua camada social: 1) não existe para a palavra pneu a pronúncia
[pnew], sem o /i/ epentético; 2) a presença do pronome reflexivo não é necessária

189
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

com certos verbos psicológicos; 3) o verbo existencial é ter e não haver. Se o aluno
fala uma língua diferente, o melhor caminho para chegar à forma culta não é o
autocontrole por meio da gramática, mas o exemplo do professor, a leitura, a
impregnação paulatina pela variante culta.

Para muitos de nossos alunos, o que está em jogo não é usar com mais cuidado
uma variedade linguística familiar, ou mesmo perceber a existência de “outra língua”
que não lhe é familiar (o aluno sabe mais do que ninguém que essa variedade existe),
mas sim estar positivamente motivado para usá-la: para isso, não basta dizer ao
aluno que o português culto é a língua da escola, é preciso fazer com que ele queira
usar a língua da escola. E aqui entram problemas como a própria imagem da escola e
a fidelidade à língua que o aluno aprendeu vernacularmente, na família e no bairro.
O vernáculo (que para muitas pessoas é o português substandard) é um forte fator
de identidade, e seria surpreendente que a criança se dispusesse a trocá-la por outro
modo de falar (ou escrever) sem ter profundas motivações para tanto. A criança tem
toda uma vida fora da escola (ainda bem que é assim!), e nessa outra vida as formas
cultas são tratadas às vezes com uma discriminação igualmente forte.

A esse propósito, vale a pena refletir sobre um relato que recolhemos há vários
anos, durante um curso de treinamento de professores de Ensino Fundamental e
Médio, que nos parece interessante destacar como capítulo de nossa antologia,
embora sejamos obrigados a reconstituí-lo de memória (não há um texto escrito):
a história do menino que pedia para ir ao banheiro. A história se passa num bairro
rural de uma cidade do interior de São Paulo e foi contada durante o treinamento
por uma das professoras participantes [Mílvia de Almeida Rossi, então professora
efetiva no Instituto de Educação “Jundiaí”, na cidade paulista de mesmo nome].

ANTOLOGIA
História do menino que pedia para ir ao banheiro
Primeiro quadro: durante a aula, o menino pede licença para ir ao
banheiro, usando a expressão “Dona, posso ir mijar?”. A dona (isto é, a
professora – dona era o vocativo reservado às professoras na região em
questão do estado de São Paulo) autoriza a saída, mas recomenda que,
na próxima vez ele fale, mais educadamente, “posso ir ao banheiro”
ou “posso fazer xixi”. (Esse primeiro quadro se repete várias vezes,
por vários dias. O aluno continua a fazer a pergunta à sua maneira e
a professora continua a corrigi-lo, até convencer-se de que a pergunta
do aluno é uma provocação proposital.)
Segundo quadro: o menino faz o mesmo pedido de sempre; a
professora o obriga a repetir seu pedido “com educação”. O menino
pede para “fazer xixi”. (Esse segundo quadro também se repete,
algumas vezes.)
Terceiro quadro: o menino começa a faltar; a professora fica sabendo
que o pai bateu nele por causa de um incidente ocorrido na escola e,
finalmente, o “tirou da escola”. Em conversa com o diretor da escola,
descobre que o incidente foi com ela mesma e resolve chamar o pai
para uma conversa.
Quarto quadro: na conversa, a professora procura convencer o pai a
mandar o menino de volta para a escola. O pai explica que tirou o
filho da escola, depois de várias surras, porque o menino, em casa,
teimava em falar que ia fazer xixi. Para o pai, homem mija, quem faz
xixi é mulher ou é maricas.

190
TÓPICO 4 | ENSINO DE LÍNGUA E SOCIOLINGUÍSTICA

Somos tão ingênuos como essa jovem educadora quando confiamos que
nossos alunos eliminarão as construções “erradas” depois de um trabalho bem-
intencionado em que entram a explicação das regras gramaticais, e algumas sessões
de análise sintática (é a esse método da autocorreção que se recorre quando se tenta
conseguir a concordância “correta” do verbo com o sujeito posposto, “chegaram minhas
tias” em vez de “chegou minhas tia(s)”, explicando que tias é o sujeito e cobrando que
o verbo vá para o plural). Quando essa estratégia de ensino da concordância falha
(por exemplo, porque o aluno começa a produzir coisas como” tinham duas pessoas na
sala”), a explicação fácil consiste em culpá-lo, mas o problema é outro: a interferência
da variedade de língua falada pelo próprio aluno, na qual a concordância com o
sujeito posposto não é feita. A propósito de tudo isso, aliás, cabe lembrar que nossa
produção de enunciados é sempre, em grande parte, automática. Mal comparando,
ensinar automatismos linguísticos a partir de um raciocínio explícito parece tão
ineficaz quanto ensinar a nadar explicando o princípio de Arquimedes. Por sorte, as
concordâncias “erradas” não provocam afogamento.

A preocupação de expor a nomenclatura gramatical e de sistematizar os


conhecimentos de gramática merece um comentário à parte. É certamente oportuno
que, chegando ao final do Ensino Médio, os nossos alunos tenham uma visão
clara do tipo de informações que podem encontrar nos compêndios de gramática,
nos dicionários e em outros materiais de consulta, e para isso um conhecimento
sistemático de gramática pode ser útil. O problema é que só faz sentido sistematizar
aquilo que já se conhece. Ora, em nossa escola, a “sistematização” começa na quinta
série do ensino básico (ou mesmo antes e continua, por inércia, até as vésperas do
vestibular. Ao leitor que achou que esta é uma afirmação exagerada, sugerimos
que faça a conta de quantas vezes, no ensino básico e médio, passou por uma lição
sobre sujeito e predicado, a lição que se dá no início de todas as séries. Deve haver
alguma coisa de profundamente errado com essa aula sobre sujeito e predicado, se
é necessário repeti-la tantas vezes.

A GRAMÁTICA E A AUTOIMAGEM DO PROFESSOR

Visto do “ponto de observação” que acabamos de construir, o ensino de


língua materna que se faz entre nós aparece pesado, ineficaz e sobrecarregado de
gramática. Por que é assim? Uma parte da resposta já foi dada: o ensino “gramatical”
é, na prática, a única solução que a escola tem dado à necessidade de ensinar a norma
culta, num contexto linguístico em que a norma culta se afasta do uso corrente.

Dizemos que isso é “uma parte da resposta” porque nos parece que, na
importância atribuída à gramática, entra um outro fator, mais difícil de perceber,
mas não menos importante. A escola passa à sociedade a ideia de que escrever
bem é escrever correto, e a sociedade cobra da escola que ensine a escrever correto,
num movimento circular que é raramente quebrado. Nesse círculo, o professor
aparece como a instância que detém o conhecimento das formas corretas, e isso o
investe de autoridade do ponto de vista social, ao mesmo tempo que, do ponto de
vista pessoal, dá uma resposta aparentemente perfeita à questão, que levantamos
anteriormente na seção “Algumas palavras sobre gramática, linguística e ensino”,
sobre seu papel profissional.
191
UNIDADE 3 | QUESTÕES ATUAIS EM SOCIOLINGUÍSTICA

É essa a representação que fazem de si próprios muitos professores. A


capacidade de manusear e interpretar os compêndios de gramática (ou os livros
didáticos, que são versões dosadas dos primeiros) tem dado a muitos uma
autoridade e uma segurança que, outrora, seriam buscadas no conhecimento das
origens da língua (e no conhecimento da língua mãe, o latim), na familiaridade
com os clássicos que o cidadão comum desconhece, ou mesmo na continuada
leitura de obras literárias que ninguém já procura por prazer e entretenimento.
Esse modo de justificar a própria autoridade tem bons fundamentos? A esta
altura não será surpresa se dissermos “não”. Em passagens anteriores deste
livro, procuramos mostrar que o tratamento que a gramática dá à língua é um
tratamento pobre; por isso gostaríamos que o professor de língua materna não
fizesse do conhecimento gramatical o único fundamento de sua autoridade.
Existem outros fundamentos possíveis?

Sim, existem. O professor de língua materna é alguém que optou por


conhecer sua própria língua tanto na teoria como na prática, e por compartilhar
esse conhecimento com indivíduos em formação. Conhecer na teoria: existe,
hoje, uma vasta bibliografia que trata do português brasileiro não só do ponto
de vista de sua estrutura (em diferentes níveis: fonética e fonologia, morfologia,
sintaxe, semântica, texto, diferentes gêneros), mas também de sua história e de
sua diversidade (inclusive no continente americano). Não se concebe que o curso
de Letras passe ao largo desses conhecimentos, ou que eles sejam simplesmente
“apagados” no momento em que o licenciado em Letras pisa pela primeira vez
como professor numa sala de aula. Conhecer na prática: o professor de língua
materna deveria ser, por definição, alguém que redige de maneira satisfatória
(isto é, com bom controle sobre a correção, a coesão textual, a coerência, e sobre
as qualidades do texto que possam ser contextualmente relevantes – concisão,
clareza, expressividade... ); alguém que interpreta, buscando no texto as
informações que importam; alguém que sabe esclarecer a língua dos textos (não
apenas a sintaxe das sentenças, e não qualquer coisa na língua de um texto, de
preferência as coisas que fazem diferença); alguém que sabe e gosta de narrar,
descrever e argumentar. Se nos for permitida a analogia, um professor de língua
materna tem de ser como um professor de música que... toca.

Tudo isso que acabamos de dizer vale para qualquer professor de língua
materna, em qualquer país, mas se esse professor de língua materna for brasileiro
há muito mais coisas diante das quais ele não pode comportar-se ingenuamente.
Num país como o Brasil, a prática da língua traduz-se muitas vezes na capacidade
de tomar partido diante das representações correntes dos fenômenos linguísticos,
denunciando o preconceito e trabalhando no sentido de entender e resolver
problemas que envolvam o uso da linguagem. Das representações da língua que
circulam na sociedade, muitas são versões modernas de um antigo preconceito,
de que já falamos algumas vezes neste livro, que consistia em representar quem

192
TÓPICO 4 | ENSINO DE LÍNGUA E SOCIOLINGUÍSTICA

fala outra língua como um deficiente físico (lembre-se: os gregos inventaram a


palavra bárbaro como uma onomatopeia que significava “gago”); outras tendem
a nos convencer de que falar direito não é para qualquer um (como a afirmação
perversa e no fundo estúpida de que “a língua portuguesa é difícil”); um professor
de língua materna é por definição alguém que percebe a carga ideológica presente
nessas crenças e entende a importância de denunciá-las.

Por cima de tudo isso, ele terá a difícil tarefa de ajudar seus alunos a
superar o hiato que se criou, historicamente, entre a fala da maioria da população
e uma norma culta construída, parcialmente, à revelia do uso. Evidentemente, o
que se espera do professor de português é que trabalhe esse hiato no sentido da
inclusão, e não da discriminação.

FONTE: ILARI, Rodolfo; BASSO, Renato. O português da gente: a língua que estudamos a língua
que falamos. São Paulo: Contexto, 2006. p. 230-235.

193
RESUMO DO TÓPICO 4

Neste tópico você teve contato com alguns estudos que demonstram a
contribuição da Sociolinguística para o ensino de línguas. Aqui, enfatizamos a
interface sociolinguística e ensino de língua materna, embora haja muitos estudos
sociolinguistas voltados para questões envolvendo o ensino de língua estrangeira
e/ou de segunda língua.

Em relação ao ensino de língua materna, uma das contribuições importantes


que tivemos foi o reconhecimento da diversidade linguística, o qual nos mostra
que a língua varia de acordo com fatores regionais, etários, socioeconômicos, de
gênero/sexo e interacionais. Como consequência disso, temos as reflexões sobre
as diferenças entre língua falada e escrita, as questões em torno do “erro” e a ideia
da adequação da variedade linguística à situação de comunicação, materializados
na noção de gêneros textuais.

194
AUTOATIVIDADE

Faça um levantamento de vários livros didáticos, tanto de língua


portuguesa quanto de línguas estrangeiras – inclusive este Caderno de Estudos
de Sociolinguística – e verifique sua adequação aos fenômenos de variação
e mudança linguísticas a partir do roteiro proposto por Bagno transcrito
anteriormente. Como autores, também propomos a você que acrescente ao
roteiro outras questões que considerar importantes para sua análise.

195
196
REFERÊNCIAS
ALKMIM, Tânia. Sociolinguística - parte I. In: MUSSALIN, Fernanda; BENTES,
Anna Christina (Org.). Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. 5. ed.
São Paulo: Cortez, 2005. v. 1.

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e


difusão do nacionalismo. São Paulo: Cia. das Letras, 1983.

APPEL, René; MUYSKEN, Pieter. Bilinguismo y contacto de lenguas.


Barcelona: Editorial Ariel S.A., 1996.

BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: novela sociolinguística. São Paulo:


Contexto, 1997.

______. A norma oculta: língua & poder na sociedade brasileira. São Paulo:
Parábola, 2003.

______. Linguística da norma. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

______. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística.
São Paulo: Parábola, 2007.

______. Norma linguística. São Paulo: Edições Loyola, 2001.

______. Português ou brasileiro? um convite à pesquisa. 3. ed. São Paulo:


Parábola, 2002.

______. Preconceito linguístico: o Que é Como se Faz. São Paulo: Edições


Loyola, 2000.

BARBOSA, Jacqueline Peixoto. Do professor suposto pelos PCN ao professor


real de língua portuguesa: são os PCN praticáveis?. In: ROJO, Roxane (Org.). A
prática de linguagem em sala de aula: praticando os PCN. Campinas: Mercado
de Letras, 2001.

BARROS, Diana L. P. de. A comunicação humana. In: FIORIN, José Luiz (Org.).
Introdução à linguística: objetos teóricos. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2003.

BORTONI-RICARDO, Stella Maris. O estatuto do erro na língua oral e na língua


escrita. In: GORSKI, Edair; COELHO, Izete L. (Orgs.). Sociolinguística e ensino:
contribuições para a formação do professor de língua. Florianópolis: UFSC, 2006.

197
BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação
Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais terceiro e quarto ciclos do
ensino fundamental: Língua portuguesa. Brasília: MEC/SEF, 1998.

CALVET, Louis-Jean. Sociolinguística: uma introdução crítica. São Paulo:


Parábola, 2002.

CAMACHO, Roberto G. Sociolinguística - parte I. In: MUSSALIN, Fernanda;


BENTES, Anna Christina (Org.). Introdução à linguística: domínios e fronteiras.
5. ed. São Paulo: Cortez, 2005. v. 1.

CEZARIO, Maria Maura; VOTRE, Sebastião. Sociolinguística. In: Manual de


linguística. São Paulo: Contexto, 2009.

COUTO, H. Hildo. A questão da gramaticalização nos estudos crioulos.


Boletim, Londrina, v. 36, p. 53-84, 1999. Disponível em: <http://www.didinho.
org/a%20questao%20da%20gramaticalizacao%20nos%20estudos%20crioulos.
htm>. Acesso em: 1 jun. 2010.

DIONÍSIO, Ângela Paiva. Análise da conversação. In: MUSSALIN, Fernanda;


BENTES, Anna Christina (Org.). Introdução à linguística: domínios e fronteiras.
3. ed. São Paulo: Cortez, 2003. v. 2.

FARACO, Carlos Alberto. Norma-padrão brasileira: desembaraçando alguns


nós. In: BAGNO, Marcos (Org.). Linguística da norma. São Paulo: Edições
Loyola, 2002.

______. Estrangeirismos: guerras em torno da língua. São Paulo: Parábola, 2001.

FARACO, Carlos Alberto; TEZZA, Cristovão. Prática de texto para estudantes


universitários. 13. ed. Petrópolis: Vozes, 2001.

FERGUSON, C. A. Diglossia. In: FONSECA, M. S. V.; NEVES, M. F.


Sociolinguística. Trad. Maria da Glória Ribeiro da Silva. Rio de Janeiro:
Eldorado, 1974.

FERREIRA, Aurélio B. H. Novo Aurélio século XXI: o Dicionário da Língua


Portuguesa. 3. ed. tot. rev. amp. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

FISHMAN, J. A. A sociologia da linguagem. In: FONSECA, M. S. V.; NEVES,


M. F. Sociolinguística. Trad. Maria da Glória Ribeiro da Silva. Rio de Janeiro:
Eldorado, 1972.

GONÇALVES. Alberto. Preenchimento do sujeito pronominal de 3ª pessoa no


falar de Florianópolis. Florianópolis, 1998, ms.

198
HAUGEN, E. Dialeto, língua, nação. In: BAGNO, Marcos (Org.). Norma
linguística. São Paulo: Edições Loyola, 2001.

HOUAISS, A. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora


Objetiva, 2001.

ILARI, Rodolfo; BASSO, Renato. O português da gente: a língua que


estudamos, a língua que falamos. São Paulo: Contexto, 2006.

LUCCHESI, Dante. Norma linguística e realidade social. In: BAGNO, Marcos.


(Org.) Linguística da norma. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

MACEDO, Alzira V. T. Linguagem e contexto. In: MOLLICA, Maria Cecília;


BRAGA, Maria Luiza. Introdução à Sociolinguística: o tratamento da variação.
São Paulo: Contexto, 2003.

MARCURSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita: atividades de


retextualização. 9. ed. São Paulo: Cortez, 2008.

MATTOS E SILVA, Rosa. Tradição gramatical e gramática tradicional. São


Paulo: Contexto, 1989.

McCLEARY, Leland. Sociolinguística. Campinas: LANTEC, 2008.

MEGALE, Antonieta Heyden. Bilinguismo e educação bilíngue – discutindo


conceitos. Revista Virtual de Estudos da Linguagem – ReVEL. v. 3, n. 5, agosto
de 2005. Disponível em: <www.revel.inf.br>. Acesso em: 2 jun. 2010.

MENDONÇA, Simone. Parâmetros sociolinguísticos do português de Natal.


Revista Ensaios, Niterói, v. 2, n. 3, set./dez. 2010. p. 27-33. Disponível
em: <http://www.uff.br/periodicoshumanas/index.php/ensaios/article/
view/334/408>. Acesso em: 16 jul. 2010.

MENON, Odete P. da Silva et al. Alternância nós/a gente nos quadrinhos:


análise em tempo real. In: RONCARATI, Cláudia; ABRAÇADO, Jussara (orgs.).
Português brasileiro: contato linguístico, heterogeneidade e história. Rio de
janeiro: 7Letras, 2003.

MOLLICA, Maria Cecília; BRAGA, Maria Luiza (Org.). Introdução à


sociolinguística: o tratamento da variação. São Paulo: Contexto, 2003.

MORATO, Edwiges. O interacionismo no campo linguístico. In: MUSSALIN,


Fernanda; BENTES, Anna Christina (Org.). Introdução à linguística:
fundamentos epistemológicos. São Paulo: Cortez, 2004. v. 3.

199
NARO, Anthony; SCHERRE, Maria Marta Pereira. Variação linguística,
expressividade e tradição gramatical. In: GORSKI, Edair; COELHO, Izete L.
(Org.). Sociolinguística e ensino: contribuições para a formação do professor de
língua. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2006.

NEVES, Maria Helena Moura. A vertente grega da gramática tradicional: uma


visão do pensamento grego sobre a linguagem. São Paulo: Ed. Unesp, 2005.

OLIVEIRA E SILVA, G. M. de. In: MOLLICA, Maria Cecília; BRAGA, Maria


Luiza. Introdução à sociolinguística: o tratamento da variação. São Paulo:
Contexto, 2003.

ORLANDI, Eni. P. (Org.). Política linguística no Brasil. Campinas: Pontes


Editores, 2007.

PAIVA, Maria da Conceição de. A variável gênero/sexo. In: MOLLICA,


Maria Cecília; BRAGA, Maria Luiza (Org.). Introdução à sociolinguística: o
tratamento da variação. São Paulo: Contexto, 2003.

PLATÃO, Francisco; FIORIN, José Luiz. Lições de texto: leitura e redação. São
Paulo: Ática, 2003 (Livro-texto e Suplemento do professor).

POSSENTI, Sírio.  Mal comportadas línguas.  2. ed. São Paulo: Parábola


Editorial, 2002.

PRETI, Dino. Estudos de língua oral e escrita. Rio de Janeiro: Lucerna, 2006.

PROJETO ALIB. Disponível em: <http://www.alib.ufba.br/historico.asp>. Acesso


em: 2 jun. 2010.

REBELO, Aldo. Projeto de Lei nº 1.676, de 1999. Disponível em: <http://www.


partes.com.br/ed14/PROJETO%20DE%20LEI%20Aldo%20Rabelo.doc>. Acesso
em: 10 jun. 2010.

RIBEIRO, Branca Telles; GARCEZ, Pedro M. (orgs.). Sociolinguística


interacional. São Paulo: Loyola, 2002.

SEVERO, Cristine G. O papel do gênero/sexo nos estudos sociolinguísticos de


variação/mudança. Revista de Letras, Curitiba, v. 8, p. 1-8, 2006.

SIGNORINI, Inês. Por uma Teoria da Desregulamentação Linguística. In:


BAGNO, Marcos (Org.). Linguística da norma. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

SILVA, Fábio Lopes da; MOURA, Heronides. O direito à fala: a questão do


preconceito linguístico. Florianópolis: Insular, 2000.

200
SOARES, Magda. Linguagem e escola: uma perspectiva social. São Paulo: Ática,
1986.

SOUSA, Alexandre M. de; CHAVES, Lindinalva M. do N. Metodologia da


pesquisa dialetológica. 2007. Disponível em: <http://www.filologia.org.br/
iijnlflp/textos/Metodologia_da_pesquisa_dialetol%C3%B3gica_ALEXANDRE.
pdf>. Acesso em: 14 maio 2010.

TARALLO, Fernando. A pesquisa sociolinguística. São Paulo, Ática: 1993.

VOTRE, Sebastião Josué. Relevância da variável escolaridade. In: MOLLICA,


Maria Cecília; BRAGA, Maria Luiza (Org.). Introdução à sociolinguística: o
tratamento da variação. São Paulo: Contexto, 2003.

201