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O caso da Naja que picou estudante: Entenda como funciona

o cruel e lucrativo mercado de tráfico de animais


em.com.br/app/noticia/nacional/2020/07/15/interna_nacional,1167016/caso-naja-entenda-como-funciona-
mercado-trafico-animais.shtml

Darcianne Diogo - Correio Braziliense 15 de julho de 2020

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Fiscais do Ibram fizeram novas apreensões de animais silvestres no Distrito Federal


nessa terça-feira (14)
(foto: Ibram/Divulgação)

O mistério que envolve o caso do jovem picado por uma cobra naja
kaouthia continua. O caso desencadeou uma investigação sobre um suposto
esquema de tráfico nacional e internacional de animais silvestres e
exóticos — uma prática que movimenta até US$ 20 bilhões em todo o país, segundo a
Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres, no Brasil (Renctas).

Devido à repercussão, a Promotoria de Defesa do Meio Ambiente do Ministério Público


do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) informou nessa terça-feira (14) que
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acompanhará, de perto, o desdobramento da apuração policial. O estudante de
medicina veterinária Pedro Henrique Krambeck Lehmkuhl segue em recuperação no
apartamento onde mora com a família, no Guará 2, e pode prestar depoimento esta
semana, em casa.
O tráfico de animais é a terceira atividade clandestina mais lucrativa do mundo,
ficando atrás do tráfico de drogas e do de armas. No DF, somente entre janeiro e
julho deste ano, 1.408 animais silvestres foram resgatados. No mesmo período de 2019,
o número foi de 1.463, de acordo com dados do Batalhão de Polícia Militar Ambiental
(BPMA). Aves, saruês e serpentes estão entre os bichos mais capturados.

Na avaliação de Líria Queiroz Hirano, professora de animais silvestres da Faculdade


de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília (UnB), o tráfico de
animais é mais do que ganhar dinheiro. Envolve, segundo ela, uma questão cultural.
“Muitas pessoas sabem que algumas espécies peçonhentas, por exemplo, são proibidas
no Brasil, mas, por acharem bonitas, por hobbie ou por exibicionismo, acabam aderindo
a essa atividade ilegal”, frisou.

O crime de venda de animais silvestres está amparado na Lei 9.605 de Crimes


Ambientais. A pena é detenção de seis meses a um ano, além de multa. Essa mesma
penalidade vale para quem impede a procriação da fauna sem autorização, quem muda
ou destrói o criadouro natural ou quem expõe ou vende espécies da fauna silvestre. A
professora Líria Queiroz questiona. “Nossa lei é educativa e é mais branda, de maneira
que todos conseguem pagar. Contudo, ela educa apenas o cidadão comum. Para os
traficantes, que receberam penalização por mais de uma vez e continua a insistir no
erro, por exemplo, deveria ser mais rígida”, afirmou.

O biólogo e superintendente de educação do Zoológico de Brasília, Alberto Brito,


considera que muitos dos animais exóticos encontrados em solo brasileiro nascem no
próprio país. “Vamos usar como exemplo a naja que picou o jovem. Ela e outros animais
podem ter nascido aqui, em cativeiro, e se reproduzido. Entretanto, isso gera enormes
consequências ao meio ambiente, como a questão de saúde e o surgimento de novos
vírus e bactérias, uma vez que esses animais são de outros países. Outra coisa que pode
ocorrer é a extinção das espécies nativas”, explicou.

Mais apreensões

Equipes de fiscais do Instituto Brasília Ambiental (Ibram) e do Instituto Brasileiro do


Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) apreenderam, ontem, uma
cobra jiboia, uma tartaruga-tigre d’água e um jabuti. Os animais estavam sendo
criados de forma ilegal, em uma casa, no Grande Colorado, em Sobradinho. Desde a
semana passada, mais de 30 serpentes e outros animais exóticos, como os três tubarões
encontrados em uma chácara na Colônia Agrícola Samambaia, em Taguatinga, foram
resgatados no DF. O Ibama está à procura de um aquário próximo a Brasília para
abrigar os peixes.

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Segundo informações da Superintendência de Fiscalização do Instituto (Sufam), os
répteis apreendidos ontem são nativos da fauna brasileira. A residência pertencia à
mãe de uma médica veterinária, que recebeu o auto de infração e uma multa no valor de
R$ 10.500. Os três animais foram retirados do local e encaminhados ao Centro de
Triagem de Animais Silvestres (Cetas), do Ibama.

Dados mais recentes do Ibram mostram que, em 2019, foram realizadas 668
fiscalizações relacionadas à fauna. Dessas, 148 resultaram em autuação administrativa
(com lavratura de auto de infração ambiental) e 514 sem constatação de infração
ambiental. Quanto aos animais ou produtos de fauna apreendidos, 562 animais foram
resgatados da fauna silvestre, sendo 80% composto de aves passeriformes e três
subprodutos da fauna (o que também não é permitido, pela legislação vigente): um
casco de tartaruga verde, um crânio com chifre de cervo do pantanal e uma carcaça de
tatu peba.

“O tráfico de animais é altamente lucrativo, porque isso ocorre pelo baixo custo de
aquisição. A captura, geralmente, é feita em locais de grande biodiversidade e pobres,
do ponto de vista social e econômico, como em estados do Nordeste, do Norte e no
Pantanal. Então, a pessoa vê isso como uma fonte de renda”, argumentou Victor Santos,
diretor de fiscalização de fauna do Ibram.

Segundo ele, os dados não conseguem traduzir o volume real do tráfico de animais
silvestres. “Os números que temos refletem uma parcela mínima. Infelizmente, esse
ainda é um problema invisível aos olhos dos órgãos. Por isso, é tão importante o cidadão
denunciar”, destacou.

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