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EDITOR REsPONsA VEL


José NaZllr

CONSELHO EDITORIAL
Bruno Palazzo NaZllr

José Nazar

José Mário Simil Cordeiro

Maria Emflia Lobato Lucindo

Teresa Palazzo Nazar

Ruth Ferreira Bastos

Rio de Janeiro, 2004

FICHA CATALOGRÁFlCA .

V953p
Vorcaro, Angela M. R (Angela Maria Resende)
A criança na clínica psicanalítica / Angela Vorcaro . ­
Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2004.

196 p.; 23 cm

ISBN 85-85717-05-X

1. Psicanálise Infantil. I. Título. 11. Título: A criança


na clínica psicanalítica.

CDD-618.928917

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A CRIANÇA NA CLÍNICA PSICANALtncA

I 1,;( l .( o ~
escuta do analista, Freud põe em relevo a malha da experiência analítica, en­
quanto discurso tecido de um pela escuta de outro. Ac opacidade d o dito torna
a escuta psicanalítica antinômica à analogia da transcrição do registro co~
~ q1A~ permitiria a equivalência d ad a n uma trad~tibilidade
de sentidolOB . ~~
~e~on.§!~u_a~~~~rá~cas que pri~i~giaIl2- a tradu<!.ã o n~.o~a
.. -­
fun_ção analítica.

A constituição subjetiva
y)
"'Ter' e 'ser' na criança . A criança tende a expressar o j'
vínculo ao objeto mediante identificação: 'e1!..§~I!.bJ!-­
1!i.: O '~, volta de contrachoque ao 'ser~
sob a perda do objeto"'. ~\
r-
I ...)

gozo e que a intimam imperativamente a desejar sem que nada o assegure.

Sl}as manifestações estruturam-se como uma linguagem que ordena "esse tão

pouco de realidade que é a nossa: essa do fantasma"2, situando-se aquém da

imediaticidade de sentido a que se oferece e além do que, desta cifragem, pode

ser descrito. Texto, portanto, que, para ser decifrado, ou seja, reescrito em ou­

tro registro, exige pontuação: supor a determinação das constrições do

ciframento que ele desvela.

Assim, a in~stigação conceitual, tributária da urgência da clínica, ~­


lhará agui na persp~~iferenciar as dim.:~s~~ ~ue o ser se constitui
em sujeito, que restitui a di~idade de enigma às cifras que constituem a crian­
ça por seus atos. Nesta p;;sp ectiva, o caráter simbólic~ da teoriai!Ldistlngu~
nodulad ç> ao registro imaginário, que ap resenta sua consistência, ffà
'l m'aterial idade real que o causa. Não se trata, portanto, de privilegiar o simbóli­

l OS A respeito deste tema, cf. Jacques Lacan,"Situation de la psychanalyse et formation du 1 s. Freud (1938), Conc/usiones, ideas, problemas, o. c., vol. XXIII, Buenos Aires, Amorrortu, p . 301 .

psychanaliste en 1956", Écrits, Paris, Seuil, 1966, pp. 459-91. 2 J. Lacan (1973-4), Seminário XXI, Les nons dupes errent, lição de 11 / 06/74, inédito.

t:1f
A CRIANÇA NA ClÍNlCA PSICANAlÍTICA A CONSTITUIÇÃO SUBJETIVA

co como um modelo teórico a ser a12licado na.Erática ~a, ~­ Trata-se de seguir a trilha pela qual a unidade biológica,de um ser (~v~
tar os tr os do impossível de di r e e el e efetua em sentido. A distin­ o ~ugar'de coisa operada P'2!. uma alteridade estruturada, em..E..~1!s~o de su~1:
~ ção dessas três dimensões não as hierarquiza, apenas permite demonstrar gue to estruturado. Responder à questão da fixação de uma estrutura, capaz de
l/V elas só têm vigência enlaçadas. Trata-se da redução da abusividade imaginária permitir a tr~smissão de uma herança simbólica, passa pela consideração da
que recobre as frestas com o sentido, e da redução do real à sua insistência que criança a part~ da inauguração de u~(iüiar de r~ut amarram um or­
faz tropeço, descontinuidade ao sentido, na unicidade diferencial da criança ganismo irredutível, uma posição si~ificante e uma conSistência ideal; t~
~ que aí comparece. Situar a constituição do sujeito, a pa_rtir do estatuto simbQg­ heterogêneos que se deixam ler como uma coincidência que os sobrepõe num
--- _ _ o

co da teoria, é considerar lacunas gue rasgam a ficção de domínio do sentid9, m~onto. Para resgatar o cálculo da especificidade do laço que os aperta,
diferen~o_?~mensões do imaginário e do real. serão distinguidas as urgências constritivas das incisões que permitem que,
C abe, portanto, formalizar a in~idência dos acioentes que permitem que desse enlaçamento inaugural, faça-se um sujeito. A rota deste ponto, mergu­
algo de não efetuado suporte o cenário da etemização do sujeito do desejo, lhado num espaço que lhe impõe alteridade radical, será descrita, consideran­
demarcando as constrições que fazem do processo de estruturação subjetiva do os deslocamentos que intervêm em sua deformação, traçando rupturas e
um ciframento da relação à alteridade. Espera-se, assim, apenas contemplar as continuidades, que marcam o caráter de sua constituição até que uma estrutu­
condições que balizam, sem absolu ta mente bastar, a leitura do texto hieroglífico ra se destaque. Tal destacamento inclui a estrutura da qual partiu, sendo, en­
escrito pela criança em suas manifestações transferenciais, para que seu teste­ tretanto, exclusiva, constituindo um precipitado singular.
munho seja efetivamente passível de recolhimento e de intervenção, na clínica I Considera-se, portanto, que a criança não está só: "Não apenas ela não está
psicanalítica. só, devido ao seu meio biológico, mas e~ainda uma esfera muito mais importante, a
A escrita da ló~~gulaJ itr.e~entável, que reincide inédito na saber, a esfera legal, a ordem simbólica"4. Situar o alcance da distin~o e da_c'linci­
o criança, é ~ten~ão..d.a..in~ncia do incons~e( e só passível de localiza­ dência entre a consistência da criaru;~, seu org9DismQ e uma ordem transmissível
ção e bordeamento. Afinal, o efeito desejo num sujeito é defeito de realizaçã ~J implica considerar o ~.12orte do n2 ~.orromeano, que Lacan nos oferece. Pre­
A emergência do inconsciente é a permanência insisteDte dess~esordem tende-se, portanto, tratar esta formulação, contando com a indicação de que a
~transgressiva do desejo no corjJõãêiaptável de qualquer indivíduo. A sobera­ _'1 f~a "é ~ar conta da constituição do sujeito"5.
nia da tr~feréncia" nãCIÍnic;-, enquan to fÜnção de preservaçã;da relação en­ O nó borromeano estabelece a estrutura daquilo que Freud definiu como
tre o desejo e o ato de um sujeito, cria a exigência ética de uma escrita que realidade psíquica, realidade determinada pela con~trição que suspende uma
subverta o ideal de domínio pleno da criança a que a cientificidade, ao estabe­ condição desejante singular e indestrutível, demarcada por uma constelação
lecer univocidade entre constituição subjetiva e maturação orgânica, conferiu de traços que estruturam a relação ao inconsciente. Diferentemente do que as
transparência. Tal exigência implica a reabertura das hiâncias, recobertas para coordenadas cartesianas propõem, a topologia do nó borromeu mostra outra
ultrapassar a explicação do desejo pela evolução de um sistema de necessida­ maneira de operar com o espaço habitado pelo sujeito, implicando uma geo­
des num corpo tendente à acumulação adaptativa, como é sustentado pelas metria tridimensional, cujos pontos se determinam pela cunhagem de três cír­
teorias do desenvolvimento psíquic03 . culos vazados, enganchados e inseparáveis, destacando a combinatória das
~~, Determinar psicanaliticamente as propriedades específicas do processo relações que presidem a realidade psíquica. E~ta topologia borromeana a~­
6

bt.~ de estruturação que qualificam a condição de criança confere estatuto balizador


\ ao que permite, ou não, sua clínica, pois traz como correlato uma perspectiva
de sua analisabilidade. Discernir as propriedades específicas do diferencial em
4 J. Lacan (1956-7), Seminário IV, A relação de objeto, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995, p. 204.
que a condição de criança se efetua visa situar a incidência deste irredutível,
5 J. Lacan (1964), Seminário Xl, Os quatro conceito, fundamentais da psicanálise, Rio de Janeiro,
distinguindo os traços demarcáveis de suas incisões. Jorge Zahar, 1988, p. 193.
6 Oriento-me aqui pelo RSI (Seminário XXII, inédito, de J. Lacan -1974-5) e pelas fonnulações
que Jean Claude Milner, no artigo "R,S,I", deixa ler com clareza (Les noms indistints, Seuil,
3 J. Lacan (1960-1), Seminário VIII, A transferência, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1992, p. 101. Paris, 1983, pp. 7 e segs.).

r:.r:. r:. 7
A CRIANÇA NA CLlNICA PSICANALtnc A

A
D
CON~TITUIÇÀO SUBJ ETIVA

1 o"
senta a medida comum que homogeniza as três dimensões em que cada uma Estas três dimensões enlaçam-se num nó. Supõe-se que estas dimen­
d~nha a mesma função de te ar' tas as duas outras, a~ mesmo sões sejam incessantes e indestrutíveis . É o que faz, de cada uma delas, um
te!llPo que distingue, na literalidade -& 5, I,~ heterogen~idade destas: círculo: qualquer coisa jamais cessa de existir, qualquer coisa jamais cessa
R - O real é isso em que o inconsciente se sustenta, portanto, a coisa inapreensível, de se escrever e qualquer coisa jamais cessa de se representar. Elas coinci­
este cúmulo de sentido que constitui enigma, o único quinhão de saber que dem num mesmo ponto, numa relação de determinação recíproca que as
s~. En ~~Qi4), é ~bstáculod09ualn~a constringe e as sustenta.
pode ser deduz~o. A incessante impossibilidade de se dizer disso qualquer O nó borromeano é efeito de linguagem. O uso da palavra que permite
coisa faz com que esse existente sustente a repetição do indefinível. enunciá-lo, distinguindo três sentidos definidos conceitualmente, traz à tona o
S - O que faz com que o real possa ser tomado como ponto mergulhado e caráter simbólico do nó borromeano. Entretanto, o nó borromeano não se re­
situável mim lugar do espaço é o simbólico (Há discern Íllfl) . O termo que o duz a uma metáfora. Na própria distinção de três registros, o caráter simbólico
escreve em sua ausência, que lhe confere incidência no campo discursivo,
sem o qual nada se diria, permite a v eiculação cifrada que o envolve, pro­
-
1-______ _ _______ -.r
-
. ,. - . .
de sua enunciação a~onta o limite da substituição de um significante por ou­
~~

tro, já que o sentido de cada termo é elevado ao máximo admissível de seu


~

duzindo o deslizamento significante substitutivo deste inapreensível, co­ d esvio: o ue faz deles t; ês te~os distinto é o im edime t~ d substituição
incidindo com ele, sem equivaler a ele: há um . ~~o. O nó borromeano atinge o limite da metáfora, pois, diferenci­
I - O reflexo dessa coisa, pelo que a representação responde, suspendendo ando as letras R,S,!, mostra a impossibilidade da substituição de uma por ou­
esse deslizamento com uma intuição, com um sentido que toma corpo. tra, resistindo à redução hierárquica . Neste mesmo movimento em que o nó
Trata-se do Imaginário, que, no homem, faz a consistência do que o rodeia, borromeano distingue três especificações, ele impede que essas sejam tomadas
na mesma relação de reificação em que é capturado pela imagem do seu como círculos consistentes que encerram um conteúdo, pois cada círcul~­
corp07. O imaginário é a condição de representação desse ponto e de sua zado pelos outros, o que condena cada um à constrição daCI.ueles que o circun­
circulação, no que ele é "como se fosse x", parecido com outros e, portanto, ~ dam: ele ó c si tem a li ação que têm entre si. -­
dessemelhante a outros: Há semellumça. É o.-9ue lhe atribui uma relação O nó borromeano é apresentá vel como imagem: uma representação pla­
definível, que o liga a outros, consistindo numa rede de semelhança~._~
- -----­ nificada de três sentidos distintos. Mas o caráter imaginário que planifica a
~
-....
dessemelhanças. A realidade d.fste representável é o que lhe permite des­

, l~~ ~ representação em representação, onde refrata o ~i~rnível em
.......... -_ -­ f\ superfície do nó não o reduz a um modelo ou a uma imagem.
~~ Enquanto escreve o que pode ser imaginado do real, o nó borromeano
propriedades de semelhança e de dessemelhança. é um traç,Q que sUf1.Qrta o real da linguagem, ql}e dá ao nó a cQnsis1ê.nci.a
real de uma matriz enodada que sustéml.-ÍJmtos, RSI. A ~a
o furo em ue cada dimensão se su orta. Cada uma das três dimensões é
efeito dessa dupla ligação que a liga e a c~~às_~)Utras du..?s. O re~

""'-------------;..--
nó é esta ex-sistência definível enquanto relação de exterioridade inclusa
----.....-. ....... ~ ~­
de cada imensão, em ..9,ue o fora não é um não-dentro. Enfim, no nó
~~""- ............... ,-~

borromeano, o traço circular de cada dimensão afirma a distinção que faz


R
5 cada uma descontínua em relação à outra. Cada traçado circular delimita
um interior vazado, portanto, um interior em alteridade radical com o tra­
ço circular que o bordeja, impedindo um funcionamento deslizante de um
registro ao outro. Tal como a demonstração dada na manipulação das letras
da linguagem matemática, a unicidade que o nó borromeano escreve impli­
7 J. Lacan, "Conferencia en Ginebra sobre el sintoma" (04 / 10/75),lntervenciones e textos 2, Buenos ca a sustentação de três letras, num modo de atar que põe cada uma das
Aires, Manantial, 1988. três na mesma relação de um impossív el desatamento: "basta que uma não se

t:Q
A CRIANÇA NA C LfNICA PSIC ANALfnCA A CONSTITUIÇÃO SUBJETIVA

sustente para que todas as outras não somente não constituam nada de válido por 3.0. Da precedência simbólica ao sujeito
seu agenciamento, mas se dispersem "8 .
Contando com a indicação de Lacan de que inventar não se reduz a ima­ "Antes de qualquer experiência, antes de qualquer de­
dução individual, [' .. I algo organiza esse campo, nele
ginar ("Muito da consistência, a história já deu provas, é pura imaginação [... J Se inscrevendo linhas de força iniciais. [' .. I Antes ainda
acontece não existir raiz na função de x, nós a inventamos, inventamos a categoria da que se estabeleçam relações que sejam propriamente
raiz imaginária. Este ponto de jlutWlção permite ver que o~ginário nãa quer úmanas, certas relações já estão determinalk!§. Elas se
d~ imaginp"9), realizaremos uma operação de corte sobre os três cír­ prendem a tudo que a natureza possa oferecer como su­
porte, suportes que se dispõem em temas de oposição. A
culos atados no nó borromeano. Esse artifício aqui utilizado para abordar a natll reza fornece, para dizer o termo, sig!lif!c~.ntes.!-e
hipótese da constituição do sujeito, tecendo um nó, é instigado pela afirmação esses si ni 'cantes ar anizam ae modo inaugural as re­
de Lacan: "Para fazer um nó borromeano é preciso fazer seis gestos, e seis gestos I~ões humana§....dão~estrutu ~~.!.!3.!!}
graças a que eles são da mesma ordem, próximo a isso, justamente, nada permite [...1Antes de qualquer formação do sujeito,!.. e~,!:
jeito que pensa, que se szlua ai - isso conta, é ~, E...
reconhecê-los. É bem por isso que é preciso fazer seis, a saber, esgotar a ordem de per­ no contado já está o contador. [... I o jogo operatório ope­
mutações duas a duas e saber antecipadamente que não se pode fazer mais, sem o que a rando em sua espontaneidade, sozinho, de maneira pré­
gente se engana"lO. subjetiva ... "13
Supõe-se, portanto uma trançagem ll que2~faz lia tranza da qual o sujeito
é um determinado particular"'2 . CC!nsldernremos, a seguir, os seis cruzamentos
entre RSI, até seu retomo ao ponto de partida. Na condição de prematuração do neonato humano, a autonomia é mor­
tal: a impotência vital de sua insuficiência adaptativa, o inacabamento
anatômico do sistema piramidal e a carência de coordenação motora e sensori­
al constituem seu drama 14 . Desalojado da situação parasitária em que habitara
o ventre matemo, emerge no que lhe é estrangeiridade radical, abaladora dos
fundamentos do organismo. Cede a este imperativo, constringido pela conste­
lação dos movimentos da áspera aspiração desta alteridade que o infla, na
intrusão de ar, e que arranha sua garganta, no estabelecimento efetivo de seu
funcionamento, como superfície dessa permuta osmótica 1S .
O estado primitivo deste inconstituído manifesta sua insuficiência na ten­
são orgânica que se precipita em descarga: "um esforço [Drang] que se libera pela
J. Lacan (1972-3), Seminário XX, Mais, ainda, Rio de janeiro, Jorge Zahar, 1982, p. 174. via motora. [... 1aqui a primeira via a ser seguilÚl é a que conduz à alteração interior
J. Lacan (1974-5), Seminário XXII, op. cit" lição de 11/02/75. (expressão das emoções, grito, inervação muscular). Mas [... 1, nenhuma descarga desta
10 J. Lacan (1973-4), Seminário XXI, op. cit., lição de 15/01/74. espécie pode produzir resultado de alívio, pois a recepção do estímulo end6geno conti­
Sobre esse ponto, é interessante destacar outra observação de Lacan que permite a hipótese da
11
trança: "Ninguém jamais, no mundo, seguiu uma linha reta . Nem o homem, nem a ameba, nem a nua e se reestabelece a tensãoY"16.
mosca, nem o galho, nada! Pelas últimas notícias, sabe-se que o traço da luz também não a segue, que é Qualquer substituição desta condição é escolha feita por um outro, agen­
inteiramente solidário à curva universal. A reta, nisso tudo, inscreve, de qualquer fonna, alguma coisa. te que tomará ou não, a seus cuidados, o organismo: "Aqui, um cancelamento do
Inscreve a distância, mas a distância (comparem com a via de Newton ) nâo é absolutamente nada sem
um fator efetivo de urna dinámica que chamaremos de cascata, aquela que faz com que tudo o que cai
siga uma parábola. 4$0, não há reta senão escrita, aS!imensura 5OmentuW-c.éu· Ma s existem enquan!Q..
~ ~s, uma ,e~J?!!,!:!UJ!sten lar a reta, são art.1q"tos que habitam somente a)in~~" ( Seminário 13 J. Lacan (1964), Seminário XI, op. cit., pp. 25-6.

V'" VIII, D un discouTS que ne serait pas du semblant, inédito, lição de 12/ 05/71: Lituraterre) . A " J. Lacan (1949), "Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je, telle qu'elle nous

tr~ça, p~tanto, E2ge ser tomada nesse estatuto de artefato da linguagem Rara a formula~ est révélée dans l'experience psychanalitique", Écrits, Paris, Seuil, 1966, p. 97.

d~t::.i5_~o subi~tiva . 15 J. Lacan (1962-3), Seminário X, L'angoisse, inédito.

12 J. Lacan (1973-4), Seminário XXI, op . cit., lição de 11/12/ 73. 16 S. Freud (1895), Proyeto de psicología, op. cit., p. 362.

7n 71
A CKlANÇA NA CLfNICA I'SICANALiTICA
A CONSTffiJlÇÃO SUBJEllVA

estímulo só é possível mediante uma intervenção que elimine por um tempo, no interi­ de valor operado pelo agente matemo, na interpretação. Caracteriza-se o óbi­
or do corpo, o despreendimento [desligamento] de Qn, e ela exige uma alteração no to, a impureza do fluxo de vida.
mundo exterior (provisão de alimento, aproximação do objeto sexual) que, como ação A ~tervenção do a~ente da função materna ~ portanto, a condição de
especifica, só se pode conseguir por vias definidas. O organismo humano é, no começo, possibilidade de seu vir-a-ser. O ato de suprimento das necessidades vitais do
incapaz de levar a cabo a ~ão eSE,ecífica. Esta sobrevém mediant? guxflio alheio; ~ organismo neonato implica a estrutura desejante do único sujeito aí presente: o
descarga sobre ocaminho da alteração interior, um indivíduo experimentado éadverti­ que faz função de agente que suporta a linguagem. O jnJans - em seu puro real
do do e~tado em que se encontra a criança "ü . - - ­ orgânico - é investido pelo agente, noJ ugar de signo de seu desejo. Nesta ope­
Nesse ato incide, portanto, bem mais que o suprimento de necessidades ração metonímica, a condição desejante do agente matemo substitui falta .,Eor
vitais de um ser: "Esta via de descarga exige assim afunção secundária extremamen­ f~, o~ seja.! o ~ente matemo identifica-se com o status do ser em..fuJtG..n eonato,
te importante do entendimento [Vers Uindigung ou 'comunicação'] e a~ \,' so~~eno ser..9~statutQ..de desej~qu~a quali§:a. As­
é a fonte rimordial de tod s m .vos morais " 18 . Ele implica os efeitos do ser sim, o camr o simbóliç~ p recede o neonato recorta sua condi ção de real -ªº.
sobre o agente matemo, em que a especificidade de sua presentificação, no tomá-lo representável no campo do semelhante.
campo experiencial do agente matemo, se articula ao posicionamento deste A imersão deste vivo, onde o ser se situa enquanto real, condiciona, por
ser na rede de sentidos que constituem sua pré-história. Tais efeitos permitem este estatuto mesmo de presença irredutível, a urgência de uma sustentação
~e as manifestações vitais do rom12imento da homeostase orgânica sejam
imaginária no campo subjetivo do agente, capaz de contornar esse real, reves­
marcas a serem lidas como mensagem, a~agadas pela resposta oferecida e tindo-o de significação: "Dada a posição originária da criança com relação à mãe, o
~ b~s po.:. precauções que as evitem. Em suma, a~ que ela pode fazer? Ela está ali para ser objeto de prazer. Portanto, está numa relação
si os, marcas u e re tam u su'eito ara alguém. Esta posição de sujei­ onde é fundamentalmente imaginada, e num estado puramente passivo "20 . O imagi­
to antecipado pelo agente matemo aloca este ser ao nome próprio introduzido náLio matemo sustenta assim a operação simbólica que recorta a plenitude do
pela atividade linguageira que o fisga à estrutura da linguagem que antecede organismo real, es~le~e~o a ~bolizaQ.o que ~ua!9uer sujeito,
sua existência real. anteci ando seu tem o de efetuação estrutural: "é de maneIra puramente passi­
A imposição da alteridade implica perç!,a; é escolha forçada. Se o organis­ va, não pulsional, que o sujeito registra as aüsseren Reize, o que vem do mundo
mo for conduzido meramente pelo fluxo de vida, puro ser, sem sentido, está exterior"21 . Esse tempo só poderá ser tratado, pelo futuro sujeito, miticamente.
excluído da alteridade, e a condição de insuficiência o mata. G~ pelo que O agente matemo investe imaginariamente o infans como o gue satura o
implica a intervenção de uma alteridade que o significa, opera-se a morte do que lhe falta e por isso o deseja, nãs> por uma disposição fisiológica qualquer
puro instinto, qu~ se desfalca de sua plenitude. Escolha, p órtanto, sem-esco­ (não se trata de o agente matemo ter uma falta real), mas r ela relação imaginá­
tha, que sobredetermina sua inser ão no cam o da lin ~ ri~ da mulher com a falta. Nesta, o infans desempenha função de signo - instru­
- uagem, ou seja, seu
fluxo vital, manifesto em grito, ganha os atributos diferenciais que um outro mento do desejo, falo. O agente materno enlaça o infans tomando-o na posição
lhe confere 19 • Afinal, os sentidos determinados inexoravelmente na interpreta­ de desejante e, a~r sobre ele, faz de si mesmo o instrum ento da vivência de
\ão do fgito, posta em ato pelo agente matemo, arrastam o limite e a deriva no satisfação daquele: "Se o indivíduo auxiliador tem operado o trabalho da ação especí­
ato mesmo do contorno araziguador dos cuidados matem-ªis, oQ..de..a..c..Qndi~ fica no mundo exterior no lugar do indivíduo desvalido, este é capaz de consumar, sem
simbolizante se realiza. Tais sentidos têm aí caráter imperativo, são arbitramento mais, no interior de seu corpo, a operação requerida para cancelar oestímulo endógeno.
• O todo constitui, então, uma vivência de satisfação que tem as mais decisivas conse­
qüências para o desenvolvimento das funções no indivíduo " 22 .
•7 lbid., p. 362 .
•8 lbid., p . 363. Cabe lembrar que neste parágrafo Freud insere uma nota de rodapé relativa à
descarga sobre o caminho da alteração interior: "por exemplo, pelo grito da criança".
19 Esta leitura tomou como referência colocações que não desdobram completamente o que está aí 20 J. Lacan (1956-7), Seminário IV, op. cit., p. 249.
posto, mas que podem ser prenunciadas a partir do texto de J. Lacan: "Position de I' inconscient", 2. J. Lacan (1964), Seminário XI, op. cit., p. 18l.

"t.crits, Paris, Seuil, 1966, especialmente no que se refere à metáfora do Homelete, pp. 845-8. II S. Freud (1895), Proyeto de Psicología, op. cit., p. 363.

7~
7~
A CHIANÇA NA CLfNICA PSICANALlTICA A CONSTITUiÇÃO SUBJETIVA

Possuindo o infans como atribu~de valência sin necessidade, oferecidos numa certa gratuidade, onde a criança recebe algo que
aPazigua a tensão, permitem à criança alojar-se em uma Rosicão de alienação
ç!> p'lena, onde apenas se inscreve o registro de uma alterD§nçj~ entre dois estados
7 qUE; se recobrem. Interessa notar, no organismo da necessidade, a possibilida­
de de o apaziguamento permitir a cessação do estímulo adverso que provoca
tensão, marcando diferença essencial com o tempo pulsional caracterizado pela
constância da força . É o que permite fazer funcionar a alienação, numa
-7 alternância, antes que seus efeitos engajem o apelo. Afinal, neste nível, a des­
continuidade faz alternância circular, meramente recíproca (não diferencial).
A maternagem 2B , que agencia a eXI2.eriênciª-Àe sQ~-?~ é suporte desse
tempo de estatuto mítico, só posicionável retroativamentel 9,!;!.ando uma falta é
....... - - ---------- -- --..- ~- -t'-~!ó:_'~-e~to, ausência a que o agente respon­ pressentida. É entre o vivo (a que se reduz o sujeito do gozo) e o Outro (a
d :..,com a presença a~~g~ora que extingue a m~ife~t~~o suposta co~o
sujeito. ..... ,­ -. cadeia significante que comanda tudo, tomando, na resposta, a retroação do
grito como apelo passível de apaziguamento) que se presentificará uma condi­
Õ sujeito inconstituído registra passivamente, de modo não pulsional, ~
l-:::!> d}ferença de estados do organismo: a d~~ ~o a~guamento. ção de assujeitamento do ser, na qual aquilo que teria satisfeito a necessidade
sustentará sua condição de não-simbolizável, inassimilável, estranho. O fun­
Tal funcionamento mantém a regulação essencial à manutenção da vida n~
cionamento simbólico acéfalo do organismo faz, assim, o leito estrutural ne­
~is baixa tensão possível - onde o princípio do prazer implica uma espécie
de saber orgânico da subsistência--....:....-
24 • --
.
~- cessário para a entrada em jogo do real. A alienação simbólica é, portanto, 5}

A cri.:....an~ça;.;....:,e.:.s;;.
tá..:.,. .ne..:;
: _ s.;s.:. e~m0;;;,e
. :. ....;:..m : .:n_t:.o.:..
cendo, com este, uma condiçã.g ..Ré!,rasit~a. O seio é, nesse momento, parte da
.: , ..:.e.::.n5ga;:.

criança, tal como o foi a placenta 25 • O seio é aí parte interior do sujeito e não do
~ n;..;c.:..h;.;;a;.d;,:.
--
;, a~s;;.;0,",bc-:.;a..:.vio.;...
~ a.;.d~;c..;
o seio, es tabele­
l:j.to em que se situa a cadeia significante que comanda a p resentificação do
assujeitamento do ser, o lado desse vivo chamado à subjetividade "29 que dispõe do
li

~ f~ncionamento sincopad9, antes de engajar-se na linguagem ou de aí localiz2 r


um semelhante 30 •
corpo da mãe, está pendurado no corpo de quem suga, e não de quem é suga­
do, posto que nada diferencia, para a criança, a alteridade. O caráter de alternân . r la ! o presençaj ausê,ncia, qu~ insta ~

Nesse nível mítico do ser, o agente matemo atribui à~.riímça (e instala), a


r"'>Eosição indetenninávéI <te um s~ eito do gozo26, e~e~
r d~ o~, e~~~queIa27. Os objetos da satisfação da
,.-­ - sincronia estrutural da diferen a sí ica, comp lexifica-se nQS valore~ s],lcessi­
vos que o agente do Outro a tr~i às manifest~sões do ser ao gual responde. Se
o grito é, para o agente, o signo de apelo ao apaziguamento ou à cessação do
apaziguamento, mesmo ao se repetir idêntico, sem diferença fônica, avança na
direção significante, uma vez que muda de valor a cada emissão (apelo à pre­
2J A articulação estrutural dada pela relação presença-ausência é feita aqui a partir das observa­
ções de Marie-Jean Sauret, em seu livro: De /'infanti/e à la structure, op. cit. sença ou à ausência). Entretanto, é a manutenção da alternância pela mãe (que,
24 Cf. Lacan (1969-70j, Seminário XVlI, O avesso da psicanálise, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1992, p. 14. quando presente, torna o grito apelo à ausência da alternância e quando au­
1.5 O feto é parte do conjunto formado, a partir da diferenCiação do ovo, pelo saco gestacional sente torna o grito apelo à presença da mesma) que permite a "relação com a
incrustado no útero materno. Esse saco contém a placenta, que faz interface externa com o
endométrio materno e interface interna em continuidade com a folha ectodérmica da bolsa presença sobre ofundo de ausência e com a ausência na medida em que esta constitui a
amniótica, que envolve o líquido onde o feto flutua. Assim, seus complementos anatômicos
constituem, com ele, uma mesma unidade. O desalojamento do feto, através do corte do cor­
dão umbilical que o separa, é corte interior à unidade individual, já que se dá entre o que vai
tornar-se indivíduo e seus envelopes, que são partes dele mesmo, prolongamentos diretos de 2Jj Esta leitura pode ser feita tomado o Seminário VII (A Ética da Psicanálise) à luz do Seminário XX
seu ectoderma e endoderma. Cf. J. Lacan (1962-3), Seminário X, L'angoisse, inédito. (Mais, ainda).
26 Ibidem, lição de 13/03/63.
,., J. Lacan (1964), Seminário XI, op. cit., p. 194.
27 J. Lacan (1956-7), Seminário IV, op. cit., p. 230.
JO Idem, ibidem.

74 7<:
A CKlANÇA NA CLlNICA PSICANALíTICA A CONSlTfUIÇÂO SUBJETIVA

presença "31 . O caráter dessa primeira relação constitui, na condição de falante necessário à relação entre termos quaisquer, logicamente anteriores às propri­
do agente-suporte-da-linguagem, a função simbólica. Afinal, o campo da ~­ edades dos termos presença e ausência, que não têm nenhum valor determina­
~agem, Outro (A), enquanto espaço aberto de significantes, é cadeia de termos
do, nenhuma significação, mas que se determinam reciprocamente na relação
que reenviam sempre a outros, necessariamente à espera de outros que co~le­ diferencial em que se reenviam um ao outro. É o que sustenta a condição míni­
ma para a possibilidade simbólica estrutural, ou seja, ao que virá a ser um
tem mais e melhor, sendo, portanto, infinita e interminável, e-T que um significante
re~.~sobre o anterior para lhe d~r...sentido, e onde sem--I2re terá cabido mais
sistema que não conhece igualdades.
um. É ~ ~amento da lingua~m, o efeito de des~32 .

3.1. A fissura Real incide no Simbólico

"Pela separação, o sujeito acha, se podemos dizer, o ponto


fraco do casal primitivo da articulação significante, no
que ela é de essência alienante. É no intervalo entre estes
dois significantes que vige o desejo oferecido ao
balizamento do sujeito na experiência do discurso do
Outro, do primeiro Outro com o qual ele tem que lidar,
ponhamos, para ilustrá-lo, a mãe, no caso "34.

S ' a im licação do i l an n a o atestará sua imersão na lin agem. Na


dupla mínima de termos em relação diferencial, a incidência da falta real do
m,2, altendade radical no dispositivo mecânico que manifesta e sacia a necessi­ objeto da satisfação localizará um sistema de pontos singulares, posicionando
dade, tornªçL!.ogicamente possível o deslizamento metonímico. Mas, nesse a impossível automaticidade tensão-apaziguamento, que o apelo registra, as­
tempo da estruturação subjetiva, tem-se a "posição zero do problema, a saber, a sumindo funções antes de ser percebido como tal e antes de se distinguir um
eu e um não-eu. A articulação da criança no registro do apelo irá situá-la entre
oposição, a instituição do símbolo puro de mais e de menos, presença e ausência, que
a noção de um agente que participa da ordem simbólica e o primeiro elemento
nada mais é que uma posição objetivável da premissa do jogo " 33 .
de uma ordem simbólica - o par de termos opostos presença-ausência (mais­
É a relação de mera diferença alternante que se sobrepõe em continuida­
menos). Trata-se do tempo de atualização, na experiência, da estrutura míni­
de recíproca que irá autorizar as propriedades que aí se inscreverão. A diferen­
ma do significante, que agora incidirá no infans, como real, traçando o recalque
ça, posta em jogo de alternância, é renovação onde a possibilidade da ausência
originário. A eslrutura se diferenciará num ponto sin~lar, u artir do qual os
é segurança da presença. Isto não implica existência positiva, consiste no reenvio
efeitos estruturais se d esdobrarão.
Esse enlace que amarra a origem da estruturação subjetiva desnaturalizará
31 J. Lacan(1956-7), Seminário IV; A relação de objeto, op.
cit., p. 186. o ~o. O Eró}2fi.Q efeito do funcionamento ritmado da alternância realiza
Como lembra Contardo Calligaris, "o surgimento do desejo na linguagem não está ligado a uma
32 uma decalagem que se inscreve entre os termos de oposição, fazendo incidir
divisão de um querer com sua significação, mas à subordinação da existência mesma de um significante lacuna, alteridade real, na relação de alternância rítmica . O encontro faltoso
à cadeia que o faz existir [. ..] se na lin lia em encon tramos desejo, nãoj..!J.!}.icamente porque todo
enunciado (e, portanto, todo o querer está s ar o e sua significação, ~, d~­ que marca a exclusão de um dos termos delimita ~s~.~..~~...~ger:!lância,
~ ca"T,'i;õ'rãue um enunciado só é um matma m ua s ara o da deia ue az exist' . [...] O pelo adiamento ou pela precipitação dos termos alternantes, ou seja, o des­
desejo (em suma e o ifeito da divisão operando na linguagem antes que um enunciador situável dote as
palavras de uma presumida intenção". Cf. Hipótese sobre o fantasma, Porto Alegre, Artes Médicas,
1986, p. 23.
34 J. Lacan (1964), Seminãrio XI, op. cit., p. 207.
33 J.Lacan (1956-7), Semirulrio IV, op. cit., p. 133.

71: 77
A CRIANÇA NA CLlNICA PSICANALI'l1CA A CONSTllUIÇAo SUBJETIVA

dobramento temporal (adia e precipita) instaura o processo de diferenciação. trapassa a função fonatória do organismo, é referência invocante, resquício de
Diante desta hiância, o in!ims ocupará essa posição vazia pelo grito, ~e subs­ um objeto indizível, que faz dessa eflÚssão o que não pode se dizer. Assim, o
titui o termo sustentador d_a alternância, que não compareceu em seu I sujeito aparece no que lhe faz alteridade: no que o primeiro significante - o
Assim, a decalagem no funcionamento da alternância estende o grito à posição grito - incide como sentido, significante unário que, por só poder se prestar a
de termo esperado de sustentação da alternância, fazendo-a deslizar para a intimar uma recuperação, não se faz equivaler a ela, apenas traça sua falta.
posição substituta de um dos termos diferenciais. A relação diferencial presen­ O objeto de satisfação, portanto, só se esb.52ça no si~ ~lico ao emergir
ç~a, s~ da alternân_c!,.a _m-'e art~av~ os t~~~1 gu; ~e enquanto falta radical. A~~~ r, ~nte~o uma ~ de~
3S
nomeada autômaton
ser~..,-- , é romp,i=da A hiâns;ia acidental na sustentação da ver~ade erdida, irrecuperável: "Este ponto que comporta o insustentável tem duas
~-- ". ~ ~~
primeira estrutura simbólica, onde falta 2_gue ainda não ~~tá wresentado, faces. No esforço para desen ar seu contorno, somos tentados a esquecê-la, em função
p , p~, tr.2P$~a Tiq uê3~~ndo o ser an..!~~ue ele pos­ mesmo da estrutura que representa esta falta. De onde resulta uma outra verdade, onde
s~~':!.~ ~~~s~p. Instaura-se a situação de priv% i 0 37 , o contorno de nossa experiência repousa sobre [' ..J o que torna possível esta relação ao
~ de o sujeito ser subietivid~de, primeiro passo e "ponto mais central da Outro, ou seja , que este ponto de onde surge que há significante é aquele que, em um
estrü'tura da identificação do sujeito "38. Na condição de privação, algo falta em sentido, não saberia ser significado. É aí o que quer dizer o que eu chamo de ponto de

~
seu lu&ar, "há um nada ali ". A falta, portanto, só é a reensível or intermédio falta de significante. Nada alta que não seja da ordem simbólica. Mas a privação é algo
do .á estru rado de ai o inominado falta na posição esperada. O ,grito, ~~ de real, qualquer coisa de real em torno e que SJ ra meu ilíscurso quando eu tento
p se faz apelp ao retomo da coisa ~It::n~te, é corpo que se oferece ao gue falta r\;> r-;P;;;;ntificar este ponto decisivo que esquecemos sempre: é um-;:;;;:;;ãç'ii-q @' q_~~
na alternância simbólica. Complexifica-se a estrutura inicial. m~nifesta e, como tal, pode ser reduzida ';39. O grito ~cide mo ur ência do retor­
Ea própria condição de falta que demarca o IUKar, num traço que se in­ no à anterioridade, busca de anao-a"'ento rla fii!.lta . O que se introduzira na
~~_.-

troduz no real, perfurando.:9. Es~mento e~.9..~ a cHan~ en~ntra a falta leitura do grito será, doravante, substituto que só se diferenciará por não atin­
num dos termos dª-estrutura simbólica constituídª-!1a ~temância, casal primi­ gir jamais identidade plena, será suporte de uma diferença que marcará o
~t~sign~~te, desconecta a coisad;~eu rito, e~evando-o à arrancamento do sujeito de sua imanência vital, reincidindo no ciclo da repetição.
{,;V'"fu.5.ão de demand a no,.g!i..to-significante-da-coisa (r~resentar!do o...apelo do Assim, em todas as diferenças gualitativas dos objetos. s!;lpstit}lliYos ~.man-
i'3iEns a YQ1. indefinível). O grito enlaçado pelo pequeno como apelo de urgên­ t-'- té~ uma unicidade: reinscrevem seu estatuto diferencial}?ara com a sati~ f9 r;~Q
cia diante da falta opera a primeira substituição do infans, onde a falta faz vV m.ítica que deu origem à série, balizando o contorno desta falta inassimilável.
deslizar o grito de apelo com o que preencheria a hiância. Isto que se despren­ Neste momento de virada da relação primordial, que claudica pela introdução
de como grito, que se separa do infans passando por um orifício do corpo, ul­ do real, insere-se a virtualidade da coisa perdida surgida do nada enquanto
busca de reencontro da coisa.
Portanto, o que oJ~z s!l~ir sujeito ao campo do Outr o é desde já um
35 t Aulômalon e tiquê são termos que Lacan toma do vocabulário de Aristóteles para diferenciar a
insistência do retorno dos signos, comandados pelo princípio do prazer (autômaton), do en­ significante binário, por articulá-lo (52) com o que se constitui aí que o teria
? contro contingente com o real (tiquê), que vige por trás do aulômaton, e arrasta o sujeito no
fisgamento da repetição. Cf. Seminário XI, op. cit., p. 56.

-7 satisfeito (51). É o que irá representá-lo Uá afanisado), para qualquer resposta


36 Ibid., pp. 45-65.

que aí incida, r! sposta que não será senão um significante a mais. O ~


dissimétrico à falta; a resposta do agente é dissimétrica ao apelo. Um intervalo
37 O uso do termo "privação" não tem aqui caráter fugaz. Lacan o articulou conceitualmente em

sua relação à frustração e à castração, especialmente nos Seminários IV (A relação de objeto,


.---------.­
sustenta a margem do recobrimento que nada reverte ou anula. Na borda em
1956-7), V (Formations de J'inconscienle - 1957-8) e IX (L'identification 1961-2). Cabe lembrar que
a, tríade Privação--Frustração-Castra~o refere-se às modalizações Jda falta de obje.!9. A cada que a resposta se efetua enquanto uma não-correspondência inversamente idên­
um dos termos correspondem, respectivamente, um agente real-imaginário-simbólico e um tica ao apelo, o intervalo diferencial mobilizará a repetição, fundando o desejo

~
bjeto simbólico-real-ima.ginário. Portanto, a privaç~o é a falta real de um obieto simbólico, a
f!llstracão é o dano ima~inário de um objeto real e ~' ca;tração é a falta simbólica de um obeo
ima inário.
38 J. Lacan 1961-2), Seminário IX, L'identification, lição de 07 / 03 / 62, inédito. )9 J. Lacan (1962-3), Seminário X, op. cit., lição de 31 / 01 / 63.

7Q 7Q Il
A CRIANÇA NA CLINICA PSICANAWICA A CONSTITUIÇÃO SUBJETNA

(grafado d) que se articula na via da demanda desde que urna resposta qual­ º~. Assim, o sujeito se constitui sob as espécies primeiras do significan­
quer incida aí: "É do silêncio que ele procede, cortando-o; e se ele não é respondido, é te, portanto, situado no lugar do Outro, a que o tesouro de significantes não
ao silêncio que ele retoma; é a resposta que o apelo antecipa e ele só é apelo se é respon­ sabe equivaler.
dido, seja esta resposta vocal, que ela seja um olhar, um gesto ou um carinho. Mas é só · É relativamente a esse tesouro, que lhe é anterior, que ele (sujeito mítico
desta resposta que o apelo toma sentido; é neste retorno que a mensagem invertida, inconstituído, grafado 5) poderá partir para situar-se separado, num resto, ou
como mostrou Lacan, torna-se linguageira "40 • seja, o irredutível do sujeito, nesta operação de divisão inexata do aconteci­
O zumbido do enxame de si~icantes da lín ua m te a d s·a ran­ mento do sujeito no lugar do Outro, onde o objeto a toma sua função: "o..2!fjeito
t~12.0ral do ser. Nessa incidência, o Outro matemo posiciona o fa; esta primeira operação interrogativa em A: quantas vezes 5U.. ·1 aqui aparece dife­
ser numa ordem de significância:"o que é que quer dizer que Há um? Um entre rença entre o A resposta e o A dado, qualquer coisa que é um resto, o irredutível do
outros, e se trata de saber se é qualquer um, se levanta um 51, 51 que soa em francês sujeito. [...10 a enquanto ele é justamente o que representa o 5 de modo real eirredutível,
essaim, um enxame significante, um enxame que zumbe. Esse 51 de cada significante, este a sobre 5 (a;S), é isto quefecha a operação de divisão, porque A é algo que não tem
se eu coloco a questão é deles dois, dos, que eu falo? Eu escreverei primeiro por sua denominador comum, que está fora do denominador comum, entre o a e o S. Se nós
relação com 52. E vocês podem pôr quantos quiserem. É do enxame que falo. queremos fechar a operação, nós colocamos o resto no numerador, a, e no denominador
51 (51 (51 (51~ 52) ) ) o divisor, o 5. É o que equivale a a sobre 5: a/5. Este resto, enquanto é a queda da
~ o enxame, sigrl.ificante mestre, é o que garante a unidade, a unidade de operação subjetiva, nós reconhecemos aí, estruturalmente, numa análise de cálculo, o
copulação do sujeitõ com o saber. [... 1 O significante Um não é um significante qual­ objeto perdido "42. Portanto, ~~~raço Uná;lo,
~ q,uer. Ele é aordem significante, no.que ela se instaura peloenvolvimento pelo qual toda p~ m~s E9r sust~ntar e sublinhar m~emente o
cadeia subsiste. [,.. 1é algo que resta indeciso entre o fonenu~L a r..alavra, afrase, mesmo tr~a.mentg.eng~to diferença.
todo o pensamento. É o de que se trata no que chamo de significante mestre "41 • . A i~entidade ao traço é presença de um resíduo de falta de gozo, i~
.
O initium subjetivo se faz a partir da introdução primeira aesse ; ignificante, t~ ficação primária a esse ponto de partida, que permite que a unicidade do traço,
!:.as.o~nário que está antes do sujeito, esta mais simples singularidade de tra­ que se apresenta como vazio, seja o único termo de referência possível ao traço
ço que entra no real. O Outro, que só pode oferecer significantes, não sabe /tornado significante. Traço que será sempre um traço falso, fracasso do encon­

~
responder-lhe, por faltar-lhe o que seria capaz de prover plenamente, só tem ro, onde outro um, e um e ainda u!J1 serão sempre residuais na sua diferença,
substitutos, mas é, ao mesmo tempo, o único desvio possível ao infans para r"€petindo a própria dlfutença que institui o unário que está na origem do
buscar encontrar aquilo de que se ressente. Disto só resta a margem de um P r~alcamento. "Hf en!9Q, de i!!.,ício, l!!!!-a, o objeto da caça, e um A nQ. interoalo do
nada que marca o vestígio da perda, que só pode receber o nome de uma letra ual o sujeito 5 a arece, com o nascimen1õ do si i ·cante, mas como barrado, como
sem sentido : objeto tl. Deste objeto que resis te à assimilação da fu~o não-sabido como tal. Toda re erenciação ulterior do sujeito repousa sobre a necessidade
significante, man en o-se vestígio de re.9J no simbólico, perdido à significanti­ de uma reconquista desse não-sabido original. Já aparece aí a relação verdadeiramente
zação, dependem o funcionamen~ificante e a_~etição, ql}e é errância radical concernente ao ser a reconquistar deste sujeito, a esta junção do a, do objeto da
~m torn~do vazio, que se depara com a inscrição incessante do ~ue não se caça, com esta primeira aparição do sujeito como não-sabido, o que quer dizer, incons­
escreve, na procura do identicamente idêntico;..-O s elementos significantes distin­ ciente "43 . O tsboço d~ demanda pré-subjetiva se faz no enigma
tos e sucessivos, nos quais a busca do reencontro se atualizará, não esgotarão a do traço unário, t~agado que sempre implica o equívoco que produz
função do Outro, já que faltarão à equivalência, mas se manterão por marca­ deslizamento, já que a resposta à demanda será sempre marginat tal como o
rem possibilidades de equivalência. O..§l!j~Qnstituído se inscreve assim unário primitivo. Os significantes fazem, a artir daí, uma rede de tra o en­
~o Out uocie te a o~o ~ujo resto se g~ndrando o mun~aLO oatros.traços, o sujeito, de trop~o em
~ peço: "Primeiramente o su· ·to constitui a ausência de ai ;;; o (-l). A partir do traço
------
40 Jean Berges, "La Voix Aux Abois", La psychana/yse de I'enfant, n" 3-4, Paris, Editions de
l'Association Freudienne, 1989. 42 J. Lacan (1962-3), Seminário X, L'angoisse, op. cit., lição de 06/03 / 63.

41 J. Lacan (1972-3), Seminário XX, Mais, ainda, op. cit., p. 196. 43 Ibidem, lição de 12/12/ 62.

80 0'
A CRIANÇA NA CL(NICA PSICANALI'ncA A CONSTITUiÇÃO SUBJETIVA

unário como excluído é que sefaz uma classe onde algo não
to inicial da organização do mundo no psiquismo, a partir deste elemento ori­
A partir disso, tudo se ordena nos casos particulares: negativa da presença ou afirma­
ginalmente isolado pelo sujeito como estranho, primeiro exterior, fora-do-sig­
tiva da presença. Hti. ou nija. há, e isto está constituído pela exclusão do traço [...] Pre- .
nificado, portanto insubstituível.

~ervar o nada permite o talvez, a E2s§ibilidade. Êsomente a partir do impossível que o /É o que faz com que as relações com a angústia constitutiva do objeto a

r~r. O que o sujeito busca é este real impossíve , é a exceção, e ~l antecedam logicamente as relações do sujeito (grafado $) com O desejo. A

exjW:, É do enunciado.éo nada....que toda


~ _~
enunciaç{i2
----.r .. parte"44 . Aí, a repetIçao busca o angústia é o corte que se faz letra fechada sobre o sujeito, a partir do qual

reencontro de das Ding45 , a revelação do real pelo significante, fazendo-se pon- todos os fisgamentos são possíveis, reenviando o sujeito a outros traços, cor­

te que permite a presença do significante enquanto sulco no real. Este ponto

lógico será o primeiro assento em tomo do qual uma orientação subjetiva se

desdobrará. O traço unário "designa algo que é radical para esta experiência origi­
nal: é a unicidade como tal da volta na repetição [. .. ] e enquanto uma das voltas da

repetição marcou o sujeito que se põe a repetir, pois que isso nunca será mais que uma

repetição, mas com o desígnio de fazer ressurgir o unário primitivo numa de suas

voltas "46 .
E~ a primeira marca significante, que se institui nessa estrutu!~

ficS!.0' é insígnia a partir da qual o sujeito hipotéticQ, na origem dessa dialética,

I
I-'
contará os demais significantes, constituindo, no a posteriori da repetis.ão do

traço unário,a marca simbólica que suportará a identificação imaginária do

. sujeito com o objeto perdido I'; com o que o apagou: "o ~

entalhe l...]' tat~em !1ue faz com que o su 'eito como tal se dis 'n a do si o, em
~
VV' relação ao ual, de começo, pôde--~
constituir-se como su ·eito"47. Tal significante subs- ­
tituto é rasura, já.,9,ue é sua distinção que lhe dá seu valor de (52): "pois é a
, ~
r, resenta ão de SI ue está rasurada por um S2 ql!!! se apresenta como representand~-
0:;'48 . O significante binário, que é a causa do desaparecimento do sujeito, é, no
'7;1
intervalo que implica, representante representativo do sujeito: "o sujeito, nessa
etapa, não se pode representar senão do significante índice L SI [. ..] 52 é o artesão, ~
medida em que, pela conjunção de dois sixrfJfifE!2l!s, ele é capaz de produzir isso que,
hlPoucocchamei de objeto pequenQJl"49. Inscreve-se ademanda [(D): 51 -452J, na
hiância que a distribuição do investimento significante produz, instaurando o
sujeito do inconsciente, que começa situado no lugar do Outro, no que é lá que
surge o primeiro significante: "isso - que não era senão um sujeito por vir- coagula­
se em significante"so.

'6 Seminário IX, L'Identification, op. cit., lição de 07/03 / 62.


47 Seminário Xl, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, op. cit, p . 135.
48 Sauret, De L'Infantile à la structure, op. cit., 1992, p . 256 .
•9 Seminário XXlll, Le Sinthome, lição de 18/ 11 / 75, inédito.

50 Seminário XI, op. cit., p. 187.

Jl?
, A CRJANÇA NA CUNICA PSICANALtncA
A CONSTITUIÇÃO SUBJETIVA

É O que fixa a unicidade do sujeito no que falta à linguagem para ser objeto. O F:.0nto de falta no Outro o faz desejante e permite que o infans aí se
significado. O sujeito que no grito se produz como significante, numa deman­ aloque: s~ faça ~ ouvir, c~ar - en~ue se ofereça como o que falta à
da que se faz da lacuna do Outro, faz-se Outro, ainda não referenciado, Outro p~e do Outro. Assim, primeiramente, o sujeito preenche a perda cons­
que é lugar de sua causa significante. É o que permite afirmar que o sujeito não tituinte de uma de suas partes. Operando com sua própria perda, retoma ao
é causa de si mesmo e atesta que "um significante é o que representa um sujeito sei.t ponto de partida. O objeto a é resto irredutível à simbolização no lugar do
para outro significante".
Outro, que dele depende para se constituir enquanto precariedade onde ;;e
O sujeito inconstituído é, portanto, exposto ao vel sl da reunião lógica, ~za o desejo "é o princípio que me faz desejar, que me faz o desejante de uma
exclusão que implica escolha forçada: o ser do sujeito é o sentido do Outro. O falta que não é uma falta do sujeito, mas um defeito feito ao gozo que se situa ao nível
sujeito depende do significante, depende do campo do Outro, é cham~ ao do Outro "54.
Outro que o petrifica no mesmo significante com que é chamado a funcionar. I Estas operações implicam a pulsão
Desaparecimento da plenitude do ser, cuja parte decepada é eclipsada em non - ---- (grafada
~ -~
$OD), ou seja, o modo como
a superfície do organismo vem a ordenar esse campo de forças, colocando-se
sense. O significante se faz assim fator letal do ser.
na dialética do sujeito: "a~p'u!;.Q~f2.!25!..92IP-l2..!!sú~de ~. Mas
A indeterminação do sujeito fá-lo nascer engendrado na alienação ao cam­ esse dizer, para que ele ressoe [... 1par.!:!.3!:!:.~que o COT Os!ia sensíl!J;1
P,o do Outro. Esta primeira operação - a operação de alienação - é o que "con­
a-!!..e. E que ele é, é um fato. É....E!!!9~o corpo tem alguns oríJ.ícj ps dO! quai~ o m.illL
r~ dena o su 'eito a só aparecer nessa divisão ue [. ..] se ele a arece de um lado como
importa;!J:te, pO!1]1ie não se podelechar, é a~ ela é acausa disso que resp~
vv- s~, produzi o pelo significante; d~o, ele aparece como afânise"s2. co!J!QJl-isso que cha111fi de voz "55 .
A Q;lusação do sujeito implica ainda a operação lógica que mod~ca O peda~irrecuperável, fora da significantização que se faz objeto perdi­
dialeticamente aquela da alienação. A operação de separafi o, cuja forma lógi­ do de~.!iYlráno.Ji diferentes níveis da eXI2eriência corporal onde se EToduz cor­
ca é dada pela intersecção, comporta o lugar vazio ã o ser o infans e a impos­ ~ O corte faz suporte e substrato autêntico a toda função da causa, implican­
sibilidade de o Outro (tesouro de significantes) recobri-Io com um si&Dificante do o desejo de reencontro de sua parte corporal perdida. Tomada em seu sen­
ualquer. Nessa in tersecção dua falta s portanto, se recobrem. O inJE...ns ocupa tido estrito de despedaçamento, a anatomia faz a animação da relação do ho­
como corpo o vazio no Outro, "onde o sujeito vem a reconhecer no desejo do Outro mem à função desejo, ou seja, enquanto ana-tomia, é o corte do corpo próprio
sua equivalência ao que ele é como sujeito do inconsciente. Por esta via, o sujeito se aí ligado aos momentos eleitos de funcionamento. A separtição, esta partição
realiza na perda em que surgiu como inconsciente, pela falta que ele produz no Ou­ no interior do corpo, incide, desde a origem da pulsão, inscrita no que será
~ t~3. A falta engendrada no tempo precedente responde à falta suscitada no estruturação do desejo. Nesta medida, a Lunção do objeto a se op õe à
tempo seguinte. Os dois sentidos do termo separar, enquanto engendrar-se a si e hierarguização cronológica das pulsões, já .gue se trata de mutações do objeto
enquanto por à parte é o que, no intervalo entre os dois termos (o ser do sujeito n~constituiçª~e acontece em nk,.e.is..Q!stintos, manifesta sem­
e o sentido do 'Outro), faz intersecção: deslizamento metonimico por onde o pre uma mesma função, a saber, o modo como o objeto a está ligado à constitui­
desejo se veiculará - antes que o sujeito possa nomeá-lo desejo ou imaginar seu ção do sJ:!j~iJo~oo.Jugar do Outro e_o representa. Ressalta-se, assim, o caráter
nãod' cr izáveldoobjetoa quesecontrapõeàimp~s
51 As relações assim inscritas referem-se aos diferentes sinais lógicos (I\,v,<, », implicando con­ pulsões uma ordenação ou uma hierarquia.
junção, inclusão (e) e disjunção (ou) de onde Lacan construiu o sinal da punção Oque pode ser Considerar o objeto a como ponto raiz, onde se elabora no sujeito a fun­
lido como /Ia impossível colagem dos heterogêneos " [C. Calligaris (1983)]. Lacan utiliza os termos
poinçon e buril para referir-se a esse sinal; poinçon (punção) significa marca do contraste: buril ção da causa de desejo, marca a sustentação da subsistência da causa en­
é instrumento usado para entalhe que tem a ponta em losango. No latim há duas conjunções quanto hiância entre função mental e seu efeito, ou seja, qualquer coisa de
disjuntivas: aut (ou) e ve/ (excludente; para os lógicos medievais, marca total incompatibilida­
essencialmente não-efetuado. Assim, o ob 'eto a -o é......efeito do.........-...:..::.­
desejo, é a.!t-­
, ~""":"",;.>-'-,:,,,:;-,,"--~ ......::..::.;..;;..~
de entre os elementos que liga), cujo símbolo lógico é v (ou). O símbolo lógico da conjunção
aditiva é 1\.
52 Seminário XI, op. cit., p. 199.
SI Seminário X, op. cit., lição de 03/07/63.
53 J. Lacan (1960), "Subversion du sujet et dialectique du désir dans l'inconscient freudien", op. dt., p. 843.
55 Seminário XXIl/, op. cit., lição de 18/11 /75.

84
, A CRIANÇA NA, CLlNlCA PSICANALlTICA A CONsrrruIÇAo SUBJETIVA

causa 56. Por referenciar a função do desejo, nenhum objeto a pode ser separado dimensão ulsional institui uma li ação com a falta no Outro desejante,
~percussões que um tem sobre os outros', numa solidaridade íntima que onde b' to a se encarna c o su ort~.~riLde jiupja
se exprime num resto em torno do qual gira o drama angustiante do desejo, na " entrada: o objeto a constitui uma entrada elo significante.é..ao.utra. O Outro se
fundação do sujeito no Outro pela via do significantes7 • descompleta ao increver-se num ser, sepf ra-se de sua própria inscrição pois o
A superfície corporal está apoiada sobre as bordas fechadas de zonas ser torna-se especificado do inconsciente, num sentido impossível de dizer que
erógenas, onde o corte anatômico decide a função dos objetos parciais. A
faz o Outro incompleto. O~~u
invaginação no circuito de ida e de volta contorna o que lhe falta, num percur­
co~~~g!Ü~ : promessa de ser pelo que falta ao
so que ultrapassa os limites do organismo. Para a pulsão oral, o plano da sepa­
~ desejo velado do Outro; O significante 60 buscado pelo sujeito é um ele­
ração se passa entre o seio e a mãe, seio enquanto objeto parcial perdido que se \ mento que descompleta a bateria significante, ao mesmo tempo que quer um
faz causa do desejo, seio cortado de algo onde a mais primitiva diferença es­
gozo, "gozo cuja falta faz o Outro inconsistente"61 . Pois o Outro, tesouro dos signi­
trutural se introduz de rupturas, cortes, onde aparece a angústia e se insere a
ficantes, é requerido pelo sujeito a responder à demanda de gozo, onde teria
dialética significante: "não se trata, de modo algum, de alimento, nem de lembrança
conferido seu valor esperado. Mas o Outro só pode resp onder de um lu&~.r
j r..
do alimento, nem de cuidado da mãe, mas de algo que se chama oseio J na sua função
~ye!, onde seu gozo também está interdita~ e lhe escap! . É daí que o
r..
de objeto, de objeto a, causa do desejo Ja pulsão o contorna, [... J, ao mesmo tempo
su'eito e se fazer incidir, oferecer-se corpo, ser onde falta. Portanto, o Outro
um turn, borda em torno da qual se dá a volta, e trick, volta de uma escamoteação "58 .
AlgQ4..a crianç~ desta~, sll.?..PIÍrneira m~a, lu~ onde se d~igna o sujeit.Q. barrado ao gozo incide na dialética do arco da pulsão, onde, no fundamento de
\};l en9uanto-ºbjetQE~!!lli~,Çl!L<2: Esta é a estrutura que permite conceituar a pulsão, movimento circular de vai-e-vem, a reversão fundamental em que ela se estru­
definida como a manifestação do lado do vivo chamado à subjetivação: "É em tura não tem, em seu retorno, a mera reciprocidade da ida. Ao contrário, é na
rodear esses objeto$., para neles recuperar, nelf§~urar sua perda original que se dissimetria que, na volta, um novo sujeito, "que é propriamente outro, aparece no
ue denominamos vulsão "59. que a pulsão pôde fechar seu curso circular. É somente com sua aparição no nível do
outro que pode ser realizado o que é afunção da pulsão"62. O ato de sucção, que é
original na subsistência biológica, faz funcionar os lábios, encarnação do corte,
56 Como diz Lacan, a economia dilfunção do excremmto, além da "constituição mamífera, ofunciona­
borda essencial à estrutura da erogeneidade, e a língua que, funcionando por
mento fálico do órgão copulatón'o, a plasticidade da laringe humana à impressão fonemática , o valor
antecipatório da imagem especular à prematuração neonatal do sistema nervoso, todos estes fatos aspiração, faz sustentação de um vazio, articulável à função fálica, enquanto
anatômicos se conjugam à função de a. Eles mostram como o lugar está disperso sobre a árvore das reviração do interior. A pulsão ig]pli o fechamento o retomo à zona eró ena,
determinações orgânicas, só tomando no homem o valor de destino, que Freud diz, por vir bloquear um
lugar-chave no tabuleiro de xadrez, no qual as casas se estruturam dil constituição subjetivante tal que n~aridade onde "aflS Lha _ q.Y:f..P..!!!.te para 0.E!vo só preenche s
ela resulta na dominância do sujeito que fala sobre o sujeito que compreende (sujeito do insight do qual me,Eida em que dele emana, para ret!!!Jlg.r:..aQ~suje.iJ:.o:'63 .
nós conhecemos, sob aforma de chimpanzé, os limites). [...} 0..!!Ji.cilE.!J~Ki!..9...cclJ.f.ej!º,-gu
seja, elecrê odera rem eroreal . po~nte..$f~~, Essa parte que pode ser tomada e largada da unidade corporal da criança
e~ real. [... A subjetivação de que se trata não é nem psicológica nem desenvolvimental. Ela mostra introduz a surpresa da separação que a confronta ao desamparo da angústia e
isto que conjuga a acidentes do desmvolvimmto - aqueles que eu mumerei relembrando sua lista, as
particularidades anatômicas do que se trata no homem - o que conjuga aos acidentes do desenvolvimen­ permite-lhe ceder uma parte de si mesma. A esta parte cedida, outros objetos
to o efeito de um significante, ao qual, desde mtão, a transcmdência é evidente em re/ação ao dito
desenvolvimmto. Transcendência que não é nem mais nem menos marcada que qualquer outra incidên­
cia do real [...} é a manifestação de um lugar do Outro". SeminiÍrio X, op. cit., lição de 19/ 06 / 63.
57 Na sua incidência fálica, o objeto a assume sua função central, representada essencialmente 60 Como lembra Lacan (na lição de 12/12/62, SeminiÍrio X, L'angoisse): "A dimensão do significante

como uma falta, defeito do falo que constitui a disjunção de desejo ao gozo, tendo posição niio é senão que o animal, na perseguição de seu objeto, é tomado por algo que o conduz sobre um outro
extrema em relação às diversas incidências do objeto a. Os laços entre o objeto a - voz - e objeto campo de traços onde esta perseguição toma, desde então, seu valor introdutón·o. O fantasmll , o $ em
a - seio - com as manipulações primárias do supereu e a posição de retomo, que implicam re/ação a 'a', toma aqui valor significante de entradil de qualquer coisa que vai levá-lo a esta cadeia
correlações extensas com a conexão anal-escópica, impedem qualquer escalonamento infinita de significações que se chama destino. Pode-se-Ihe escapar indefinidammte, o que se trata de
hierarquizável cronologicamente, por mais que a intervenção do Outro encarnado num agen­ reencontrar é justammte a partida, conw ele mtrou neste negócio de significante".
te tenda a uma organização dessa ordem.
61 "Subversion du sujet et dialectique du désir dans ['inconscient freudien" (1960), op. cit., p . 820.
58 Seminán'o XI, op. cit., p . 160.
62 SeminiÍrio XI, op. cit., p . 169.
59 "Position de I'inconscient" (1964), op. cit., p. 849.
63 Ibid., p. 195.

P,fi 0-,
A ClUAl\lÇA NA CLlNICA PSICANAlrnCA A CONSIITUIÇÃO SUBJHIVA

farão suplência, veiculando algo da identidade do corpo que antecede ao dele mas que lhe pertence e do qual se trata de que ele se complete"66. No nível da
corpo mesmo. Este objeto primeiro é um signo de laço com o Outro, mas do pulsão oral, o ponto de angústia está no Outro, ou seja, além do lugar onde se
laço a ser rompido com o Outro, primeira forma que tomará possível a fun­ joga a função, onde se perfila, no agente, a relação de mensagem que acentua a
ção do objeto transicional. Tal cessão fará objetos simbólicos, ou seja, desna­ possibilidade da falta, o esgotamento do seio, distinguindo o que se desenha
turalizados: "Esta dimensão de perda essencial à metonímia, perda da coisa no ob­ além do funcionamento do organismo no fantasma do vampirismo produzido
jeto: aí está o verdadeiro sentido desta temática do objeto, uma vez perdido e jamais pelo agente materno. O p,apel da pulsão oral no inconsciente se fa z pela unida­
recuperado "64. de..t opológica da hiância que, nesse momento, está em jogo. A pulsão faz, as­
I~ A pulsão atinge a satisfação sem atingir aJ9taliz~A..o biológica da função. ~im, o desejo, reproduzindo a relação do sujeito ao objeto PE dido. A3 ti~
....)..'7 Por ser sem re areial e só encontrar o Outro barrado se alvo é esse retorno em
?-V c~tanto, a pulsão oral contorna o objeto a, o seio, que não é sua ori­
t>
pulsion da suc ão é a de se fazer chupar, chu ando o o , anismo da mãe.~
singularidade de seu objeto pulsional é a de não estar jamais à altura da satis­
r
gem. O eio não é o alimento primitivo: é o objeto eternamente faltante que é fação : "esse objeto que confundimos muito freqüentemente com aquilo sobre o que a
, " ';j' ' ) c~ntornado. Esta primeira divisão do Sujeit~é O único recurso face à falta no
~
pulsão se refecha - este objeto, que de fato é apenas a presença de um cavo, de um vazio,
~ reencontro de das Ding: a busca do seu resto e único índice, o objeto a. O caráter ocupável, nos diz Freud, por não importa que objeto, e cuja instância só conhecemos na
da ação especifica, que funda o princípio da repetição cuja finalidade é a repro­ forma de objeto perdido, a minúsculo "67.
dução do estado inicial, é experiência à qual sempre faltará alguma coisa, é A posição do desejo em relação a um sujeito definido pela sua articulação
busca do reencontro. A perda de das Ding funda a possibilidade do aparelho
ao significante é~.!9.Ee ele ~e_rem:E.~!.tan~paç~ A demanda de
psíqui'E' remete ao impensável da origem e à impossibilidade de o gozo se

1
~ e a resposta significante p roduzem desejo ao submeterem as necessida:
dizer 65 • A perda de das Ding desliza para o g~o, n~ corE2 do Outro. É ~
d~ à alienação. A a~redQ.tivelmente a sep araç,ã~eu.t:.e a ~;
d~~~ ~mi~ tom~r a i~lic~o_~o c~~.g~.J transmutada em p ulsão) e ~o (que a demanda cria
d ~mento !;!!etonímiso. Aê2..im, a necessidade subvertida pelo significante, como seu horizonte). O ponto nodal da junção do campo da demanda é o dese­
t::> Pfovoca sua transmutaçã o em puls,ão, f~a a atividade pulsional.
jo, que, apesar de implicar o organismo, interessa-se por outra coisa. A~­
Essa atividade não se estabiliza com o encontro de um objeto adequado,
ç'!.S-ue r~quilo que a dem! nd!,subtrai da;:~o - no que o significante<1 _
mas só se desenvolve a partir do momento em que o objeto está perdido _
é rebelde ao reencontro - é..o..2esei~~~o d~a olj!teração, qye "'-N
insaciedade fundamental que mantém a constância da pulsão, implicando, pois,
substitui essa condição absoluta 68 • Assim, "o desejo se situa na dependência da
a impossibilidade de equivalência entre pulsão e necessidade, que atende ao ~ . -­
demanda - a qual, por se articular em significantes, deixa um resto metonímico que
ritmo vital. Assim, a pulsão oral só aparece como ~ l, disjunta da preservação,
corre debaixo dela, elemento que não é mdetermmado, que é ao mesmo tempo uma
uando se cava um vazio que poderá ser ocupado por qualquer objeto substi­
cor:dição absoluta e impegável, elemento necessariamente em impasse, insati~feito,
~to.Asa· fa -oda ulsã é,assim,par doxal-~~
impossível, desconhecido, elemento que se chama desejo, A função do desejo é resíduo
d~o . A boca não se satisfará pelo alimento, mas p elo prazer de ~

t'~ ~oca,
ou seja, gozo que, arpartir daí, implicará sempre um desvio. O objeto da
último d~ ificante !!(]2ui!ito "69 .
pulsão é indiferente, o que obriga a tomar a funçao do seio como objeto a,
causa do desejo que a pulsão contorna, objeto em cuja borda é dada a volta. ~
~ s~ e!o a, está im..e,licads."a r!!vindicação, pelo su;eito, de algo que está separad,2

" $ -- ­ 64 Semimirio IX, L'idel1/ificalion, op. cit., lição de 14/03/62. ~. ~


~

65 Esta concepção de das Ding está articulada no Semimirio VIl- A Étirn da Psirnnálise, onde Lacan 66 Semimirio Xl, op. cit., p. 184.
refaz o estudo já empreendido no Seminário I, junto a Hippolyte, e procede à releitura das 67 Ibid., 1988, p. 170.

concepções de Freud expostas no Projeto de uma psicologia cientifica (1895), em sua articulação 68 J. Lacan (1958), "La signification du phallus", Écrits, Paris, Seuil, 1966, p. 69l.

à "A Negativa "(1925) e à "Carta 52", endereçada a Fliess. 69 Semimirio XI, op. cit., pp. 146-7.

~
RR IIQ ~
, A CRIANÇA NA CLlNICA PSICANALfTICA
A CONSTITUIÇ ÃO SUBJETIVA

Portanto, o ser vivo, que ftmcionava na economia da tensão mínima do 3.2 O Imaginário recobre a hiância real no simbólico
prazer, é marcado na eventualidade casual pelo desvio do traço lli1ário, onde
todo apaziguamento se contesta pelo gozo apreendido em sua dimensão de
perda. Nesta denotação precisa do traço lli1ário, a rep-etição comemora urna "É a este objeto inacessível ao es elho ue a ima em
irrupção do gozo, onde o erazer é v iolado em sua regra e em seu princípio, especu ar á sua vestiruw.t.a. Presa tomada nas redes
cedendo ao d espra zer: "[. .] ao desprazer que não quer dizer outra coisa senão o da sombra, e que, roubada de seu volume enchendo a
sombra, arma o logro fatigado desta com um ar de pre­
gozo " 70 . Esta busca de identifiq l.ção do gozo, fll;llÇão do traço lli1ário, c!á orige.m sa " 73 .
- ) ao saber como significante, nos termos mais elementares em que um significante
enlaça outro, articulando que um significante represente a visada de gozo para
outro significante, que repete sua perda. Engendra-se aí o radical do S2 que A !:liância real, que faz do grito um significante do a p elo no su.i!it0
repete SI representando a falta em gozar que escande, pelo significante, o sa­ inconstituíç!p e. da resposta um significante que não basta, to~
ber. O &OzO necessita da repetição que se flli1d!..no retomo ao gQ?o, pr~zin­ cl~ ud~ a~, assim, a realidade à significação da coisa, na diversidade
do-se
#
em defeito: "o quer
se repete não poderia estar de outro modo em relação aQJI.ue das objetivações, a serem verificadas, da mesma coisa: o que havia aí, dado
repete,
.-:..-..-
senão -­
em perda "71 . Isso que se repete da ordem do gozo exige trabalho a
prontamente (estava lá e não está mais), não está (um pouco mais ele estava por
mais para ser recuperado, produz a busca de sua compensação: mais-gozar a haver podido estar lá), desaparece como significante. A possibilidade que o tempo
ser recuperado, dimensão do gozo que necessita do trabalho do saber - neces­ verbal imperfeito permite, ao articular simultaneamente dois momentos (instan­
sita da articulação significante, meio do gozo. Esse trabalho espolia o que esta­ te anterior e instante posterior), fixa, no ser, uma falta a buscar significância.
va inscrito como saber orgânico, é imposição a assimilar a perda de sua pró­ Assujeitado à demanda, seu sentido é emitido do lugar do Outro,
pria entrada no campo significante, pela asserção .repetida da hiância a ser formatado em significantes: "O dito primeiro decreta, legifera, aforisa, é oráculo, ele
preenchida pelos objetos a anexados ao mais-gozar, tampões do oco que aí se confere ao outro real sua obscura autoridade"74 - sua mensagem é emitida em sig­
cava. Surge assim a relação primitiva da jlli1ção do gozo ao saber. A relação nificantes. Afinal, todos os instrumentos estão no campo do Outro, têm que ser
com o gozo em falta impõe limite ao campo do saber, gozo absoluto interdita­ recebidos do Outro. Nas voltas da demanda, insinua-se a falta si8!!ificante,
do e sua única possibilidade - aparelhar-se com a linguagem para semi-dizer onde nada equivale à coisa eerdida - não pode se articular na demanda, ao
sua falta a ser. Portanto, produção de trabalho. Sua verdade que é a obscurida­ mesmo tempo que só pode ser manifesta através da demanda e não retoma na
de do desejo indestrutível, falta de esquecimento, impotência que implica o resposta. A demanda se dirige a algo mais do que às satisfações a 'l.ue apela - ~
dizer pela metade, onde o que há de ser, no sentido, é o que escapa à articula­ d~anda do que se situa aquém do que o Outro pode suprir. Assim, "O desejo se
ção significante. Seu meio de gozo é a repetição significante, linguagem, Ou esboça na margem, onde a demanda se destaca da necessidade: esta margem sendo
seja, a inserção no gozo do Outro n . aquela que ademanda, cujo apelo só pode ser incondicional, no lugar do Outro, abre sob
a forma do defeito possível que aí pode trazer a necessidade, por não ter satisfação
universal (o que se chama:angústia). Margem que, por linear que seja, deixa aparecer
sua vertigem, por pouco que ela não seja recoberta pelo pisoteio de elefante do capricho
do Outro. É este capricho, entretanto, que introduz ofantasma da onipotência não do
sujeito, mas do Outro onde se instala sua demanda [. ..] por uma simetria singular, ele
[o desejo] inverte o incondicional da demanda de amor, onde o sujeito permanece na

70Seminário XVII, op. cit., p. 73.


73 J.Lacan (1960), "Subversion du sujet et dialectique du désir dans I' inconscient freudien", Écrits,
71Ibid., p. 44.
Paris, Seuil, 1966, p. 818.
n Cf. Jacques Lacan, Seminário XVII, O avesso da psicanálise, op. cit., p. 48.
74 Ibid., p. 808.

90 n,
1\ CRIANÇ A NA CI.fNIC A PSIC ANALíTICA A CONSTITUiÇÃO SUBjEfNA

sujeição do Outro, para levá-lo à potência da condição absoluta (onde o absoluto quer çãO da mãe ao ob 'eto do qual ela está rávida, pois ela parece dar, segundo sua vontade
dizer também despreendimento)"75. - e enfim ao das Ding"78.
O fantasma da onipotência do Outro é o gue situa, na retroação, o ~e~e A relação da criança à m~e abriu-se a elementos que introduzem a com­
d ~ºs_sibilidade de satisfação da demanda como agente da falta da sacie~de . ple_xidad; dialética. Se a mãe tomou-se potência, send~ tomada como o que
O~ tituíc!!?.~fyncio~01ent2-- sim~liz~e.J!9~o não responde ou o que sô responde a seu critério, os objetos, que não se dife­
'!S0ra ÍIIla9..ina~~e, é Outro imaginarizado como O privador da única coi­ renciavam porgue implicavam satisfaç!9, a~~~, li12 ~~apelo,
sa pela qual a demanda seria satisfeita. A contingência faz-se arbitrariedade da to~r dependerem desta potência, d~- são objetos de dom,
r~posta materna e qualifica a toma ~a imaginária do agente matemo como testemunhos do dom, marcas do valor desta potência -, os ~­
.
onipotente, p'ois parece só resJ>onder a seu critério. É o que o focaliza como tam seu ato de dom. ....
- ---- - --
exterior ao apelo. Assim, o que era efeito da resposta ao grito da necessidade ~ dom, enquanto incompleta, renova a demanda, mantendo "
obriga o deslocamento do gozo esperado para a demanda de um dom que o agente matemo como lugar onde o gozo se realizaria, tomando-se o alvo
articula a possibilidade da coisa perdida. O ~o..::.en=-:.;.;~:.:;
te m a;;ot-.;;e..;;r,......~~~,,~=-~ para sempre mirado pela demanda. O processo de substituição metonímica 1
~ co~~ dete~r de d.9m~6. entre
,..
mãe e objeto a permite gue os dons matemos - si~os de amor - e~teiam
)l....~ ~
Esta ficção de complementariedade da criança pelo dom matemo não se numa relação de equilíbrio e de compensação com os objetos a que a necessi­
sobrepõe à reincidência do gap no confrontamento das duas demandas, é ras­ dade se dirige.
Os objetos que visam à satisfação das necessidades tomam valor como
'}
gão que insinua a discordância do fracasso do encontro, conflito que permite
que o desejo transborde a demanda e se faça insaciável. A não-extinção da parte do Outro encarnado na mãe e a pulsão se dirige a eles como partes do
~
~ demanda numa satisfação salvaguarda o desejo. Ao responder com significan­ agente matemo, podendo, portanto, ser substituídos. Aj!!laginarização do agen­ ~.

- -
tes, ou seja, r~ onder seIlL~ntretanto~me_encheL.o-'lpelo da satisfação, o agente
--- ~
te matemo é solidária à tomada de um objeto gualquer como possibilidade
matemo se exclui do significante e este agente, essencial à relação com a satis­
f,!ção:-é-imaginanzad o como o que pode, a casta instante, dar corpo aõõü"tr'"o
significante da coisa, posto gue o significante - que não satisfaz - é significante
de que sua substituição não basta, sustentando a insaciedad~..fundamental em ~
)
real gue não resJ>onde ao apelo: "O segundo tempo deve ser encontrado no fato de
q~e ; dilaceração que vocês faze m dizendo par ou ímpar é uma espécie de demanda pela
qual se situam em posição de serem gratificados ou não pela resposta do outro, mas, parte
"..-- ~
do objeto a demanda ---- -' -
na boca mantém a crian a ligada à mãe e satisfeita. Assume furlção enquanto
- imaginarizado ­na mãe -, toma-se signo do dom ~
como este já tem os dados na mão, não depende mais dele que aquilo que tem nas mãos
de amor quando está lá. É a mãe que é desejada, quando, diante de sua revoga­
ção a criança demanda, referenciando-a. o
1.
satisfaça ou não a demanda de vocês. [... J Vocês vêem, ao mesmo tempo, seu caráter l"';i)'
A substituição da exigência de amor pela busca da satisfação da necessi­
r
absolutamente evanescente e literalmente impossível de satisfação"77 .
Nessa relação imaginária ao agente matemo, a demanda anula a particu­
l> ~é o que toma esta satisfação uma atividade erotizada. A atividade oral
~
põe a crian a em posse do ob'eto-si o, assu'eitando a eces ~­
laridade de tudo o que pode ser dado, ao mesmo tempo que cada significante 111
~. A sa~sfação da necessidade toma-se compensação, substitui a frustra­
oferecido a mais como resposta mantém a unicidade da retroação à expectati­
va de reencontro da coisa, incidindo pois no ressublinhamento do traço unário.
Os objetos subs ~eis, qu~ são inseridos para.satisfazer à demanda incon;!.i­
c~al, fazem-se dom - são EE,0 vas de amor. A mãe recobre aí, ima inariamen­
ção do amor, anulando a decepção do jogo simbólico pela tentativa de captura
do objeto real da satisfação: a busca do gozo da necessidade ensaia aniquilar a
i.Õ5aciedade fundamental da relação simbólica e produz o retomo circular ao

tempo anterior.

1
te, o lu ar do objeto insubstililível, erdido: "Este r cesso concretiza a identi 'ca­
Qu~o, o ~eto muda de valor e a criança entra na

1/ reivindicação, de~andando aquilo que poderia esperar da potência materna.

75 lbid., p. 814.
76 "La signification du phallus" (1958), op. cit., pp. 690-1.
77 J. Lacan (1956-7), Seminário IV; A ,elação de objeto, op . cit., pp. 133-4. 78 M.-J. Sauret, De L'Infantile à la structure, op. cit., p . 257.

Qry
A CRIANÇA NA CL/NICA rsICANALÍ"frCA
A CONSTrIU1ÇÃO SUBJETIVA

79
A recusa dá ao objeto-dom seu caráter de substituto insatisfatório ao
ma de falta que o faz falta no Outro, pois a demanda evoca sua forma transpos­
lugar do suposto gozo pleno: "[... i aí surge o sentimento de impotência da criança
ta segundo uma inversão: a demanda de ser alimentado é resposta ao Outro
(....i o único poder detido pelo sujeito contra a onipotência é dizer não no nível de sua que demanda ao infans deixar::Seãiimentar. Desta interface da mesma super- 1) ~
ação, e introduzir aqui a dimensão do negativismo [... i não é no nível da ação e sob a -...-­
fície, um enigma se distingue nas voltas da demanda, no interrogante o que .'x...
~ forma de negativismo que se elabora a resistência à onipotência da r:lação de dependên­
~ cia, e sim no nível do objeto que apareceu sob o signo do nada. E no nível do obigto
q~ (que se escreve~~ seja, sob a demanda materna [D~<FJ
uma incó~ita [xl: "ela...!!1e dizj ss.o,JIlas o g ~ ela quer?"). O Outro que ga­
~ anulado como s' bólico ue a criança ~h(que a sliBA!J!~q, e, precisa1J.1!!!.­
. " t.&,alimentando~e de na4,a. É ~te sua relação de dependência, fq.-?~,
nha corpo, na equivalência ao agente materno, ocupa posição e confere lugar
ao infans na estrutura. Portanto, "o desejo do homem é o desejo do Outro [... i é
j ,,' PQ~~m!io, o mestre da onipotência ávida de fazê-la viver, ela que dfE.ende da onip.o­
como Outro que ele deseja (o que dá o verdadeiro alcance da paixão humana). Eis
tjncia. A partir daí é ela quem depende, por seu desejo, é ela quem está à sua mercê, à
porque a questão do Outro, que retoma ao sujeito do lugar onde ele espera um orácu­
mercê das manifestações de seu capricho, à mercê da onipotência de si mesma"8iJ. A
lo, sob a forma de um Che vuoi? que queres?, é aquela que conduz melhor ao
recusa do ato matemo de dom, en; gue o infans reverte a direção da demél~,
caminho de seu próprio desejo"84.
d~monstra o caráter ~gnificante do objeto, onde a angústia do desIIlàme não
/ Localizar-se na questão, oferecendo-se ao funcionamento do circuito, é
imJ'lica que o seio falte à necessidade. É o ue ermite à rian a a recu sa da
engajar-se na posição de alguma coisa opaca a que ele se resume, um nada que
satisfa,.ç-ªº dqn.ec~de, n~ga~ar-se alimentar, no~de
se es ~ ___
cif
' 1'ca_
_~_dimensã2 do desej o sl. pontua sua posição de objeto, valor que precede sua subjetivação, constituído
no movimento circular sempre repetido da demanda que atinge o contorno do
~s substituem a mãe e são intercambiáveis por L~esenta­
- --
objeto do desejo. Ao apresentar seu corpo ao Outro desejante, cede na busca do
rem-na. A imaginarização da onipotência materna eleva os objetos ao estatuto
recobrimento do objeto do desejo, mas, sendo sempre distinto, m! ntém-se
simbóüco: "es~~endi!!!..ento é bem sucedido desde seu mais humilde modo, aque­
~ le sob o qual tal psicanalista o entreviu em sua prática da criança, denominando-o:
) O~al (.. .i Digamo-lo: não passa de emblema: o representante da represen­
:::>
significante indeterminado. Sua sub'etivação se faz, ortanto, formatada em
si~ificante do desejo do Outro, significante ao qual não equivalerá. Apagado
r, do' ser pelo simbói"ico, o sujeito ca~Õse tõrn;Cr~gnificante,
--
tação na condição absoluta está em seu lugar no inconsciente, onde ele causa o desejo
segundo a estrutura do fantasma que e e vamos extrair"8Z. excluindo-se do campo da ling~ag;~ue ~o determina como barrado. O
-=---------------~--~--~--------~~~~
O fantasma se introduz com a possibilidade de imaginarizar o Outro,
significante é substituto que não recobre o gozo, sustentando um resto: falta de
sadedade plena, falta de qualquer coisa que instaura um dano imaginário ­
dando-lhe forma, atribuindo-lhe um c~rpo. "O~ o

~

de i~ão. Isto suscita nele uma manobra da fo..ncão ima~in4z:i!! e de um modo

­
objeto de seu desejo . Ele só faz isso mesmo. E mais que um ato de enunciação, é um ato
~~ .---
frustração, que incide sobre isso de que é privada quando esperava receber o
queerãpedido~
~uieito se erenunc~pturado na fa!!.a do Outro~ sem saber que
necessário es~função~la p'resente tão~rece afrustr~ão"83. Nesta reali­

objeto a é para o Outro, e desconhecendo o que ele deseja neste Outro, posto
zação imaginária do Outro matemo o sujeito é fisgado em sua condição mes-

que_este
__-:-O_utro ___nã_
-:-o__
intr,:""o~uz o q_u_e .~sE2!'deria ao seu desejo. O Outro-;ão
re~onde a sua demanda. O ~~s~a~:..s!~tr~on­
de!.- ~J1s· i a natureza do objeto caus do d e'p , objet~, ~m nada es~
dido, do Outro que não ba~ passível 9.:~R!:.e~@.9..i2 ocqual9.uer õ bjeto
tbmado na forma de"õema!}d.ÊJ 0I1de o sujeito reitera, nos circuitos que empre­
.,- ......,..... -------~ .

. 1 ende em sua busca demandante, o contorno deste resto que excede gualquer

~ resposta possível.

... "Subversion du sujet et dialectique du désir dans l'inconscient freudien", op. cit., pp. 814-5.

q4
A CRIANÇA NA CLlNICA PSICANALi'ncA
A CONSTITUIÇÃO SUBJETIVA

Tal ponto radical do encontro faltoso é marca a partir da qual o fantasma com que se experimenta a si mesmo"87. A relação especular se insere na mesma
88
(grafado $~) tecerá a tela que dissimula este primeiro determinante, na r~e­ condição onde o sujeito se constitui no lugar do Outro, na relação significante •

.--".
-
I' tição. A renresent<lrão~iInaoinária
~ -~' ..... ~- ----..~-
aue incide sobre a mãe será, assim, o luo-ar-
~
te~nte gue envelopa e esconde o real que a comanda,_ alienan,ºo~a­
---- ~
I N~~~o em que se assume como totalidade na
~age~especular, a c~Ç2...P~~te que a s~t~~,
que est~ a®s--º~ ença.Q\an4Q..Ç...~emanda-lhe assentimento, homolo­
ções da repetição seuy entido inomináv~L A falta, o real que não responde, não
gação do valor desta imagem. Sit:J.lildo no interior da..dialética do narcisismo,
é~ agente materno. É aquilo que tem, para a criança, o caráter de uma
este investimento da.in:.la~m es.e.ecula!J.~mHo funda~~l ~r:!.aç~~a­
automutilação. É algo que se separa dela, a partir do qual "a ordem da significância
ginária, na medida em que há um limite ao investimento gue passa pela ima­
vai se pôr em perspectiva "85.
O Outro que se revela imaginariamente~ criança é imagem fundadora
-------
g~m especular, u~: a ~.eo~!E.<l3.ue n~p.~ç,e~a­ - ~
g~ "neste lugar, no lugar onde no Outro, no lugar do Outro, autentificado
de seu desejo e dá o sentido e a função da frustração. Se o Outro constituiu, na
pelo o.utro, perfila-se uma imagem somente refletida, mesmo falaciosa, de nós mesmos.
privação, a condição para a origem do desejo da criança, na imaginarização ele
E~um luga~e situa em relação a uma imagem caracterizada 12Q! uma falta,
se configura como identificação a uma imagem tomada na potência totalizadora pelo fato de flue o que é chamado nã~a1!E.ria aí al?E!ecer, está profundamente orientado
que o antecipa, recobrindo sua condição ainda inconstituída. e polarizado à função dessa imagem mesma. O d;gejo está lá, não somente velado, mas
--~
É o que a estrutura especular reflexa do espelho permite, na experiência essen,i,iaLmente osto em relação a uma ausência à po~ibilidade de aeE!ição comanda­
da ilusão de domínio na relação à imagem total, preenchedora, fonte de júbilo d~r uma presença_que está algures ejue coma~ bem ~~. E~s.a_pres_e1lÇE_?J.L4
e fascínio: o filhote de homem, numa idade onde ele é l ..'] superado na inteligência
/I
l~as, onde está, ela é inapreensível para o sujeito, ou seja, o a do objeto quefaz nossa
instrumental pelo chimpanzé, reconhece, entretanto, sua imagem no espelho já como questão, de obi eto na ,fu nÇ.ão 9J!f.weenche no i antasm..f/., no lugp r onde qualquer coisE
sua [, .. 1 Este ato, longe de acabar, como no símio, no controle, uma vez adquirido, da pode aparecer. Eu pus e1'!!~s este si~o -ep, indicando que aqui deve se perfi­
inanidade da imagem, repercute em seguida, na criança, numa série de gestos onde ela lar uma relação com a reseroa libidina f) com este qualquer coisa que não se projeta, com
experimenta ludicamente a relação dos movimentos assumidos da imagem ao seu refleti­ este qualquer coisa que não se investe no nível da imagem especular, pela razão de que
do, e deste complexo virtual à realidade que redobra [. ..] espetáculo marcante de um ele resta investido profundamente, irredutível ao nível do corpo próprio, ao nível do
lactente diante do espelho, que não tem ainda odomínio da marcha, nem sequer da postu­ nan2i~iii.mQ primário, ao nível disso que se chama auto-erotismo, ao nível de um gsgg
ra em pé, mas que, abraçado que esteja por qualquer sustento humano ou artificial [...], autista, alimento em suma restante lá para, eventualmente, interoir como instrumento
supera, num trabalho jubilatório, os entraves deste apoio, para suspender numa postura
mais ou menos inclinada e buscar, para fixá-lo, um aspecto instantâneo da imagem "86.
-
n; relação a; O;;;; ao Outro constituído a partir desta imagem de meu semelhante,
- -- _. - -
A mediacão da totalidade do especular atesta a ficção da possibilida<;!e
d :.!.9uivalência ao Outro imaginário. Essa- transformação que se opera no 87 Ibid., pp. 94-5.

88 "[ ... J não há só a orelha. A ela faz uma concorrência eminente o olhar. More geométrico por causa da

i.!J~ ao assumir uma imagem ortopédica de sua totalidade, recirita o eu forma, cara a Platão, o indivíduo se apresenta como ele é, perdidn, como um corpo. E esse corpo tem uma

(moi) "numa linha de ficção" e atesta o logro que o imaginário comporta, já que capacidade de cativação [' ..J, aforma não libera senão o saco, ou, se vocês quiserem, a bolha. Ela é alguma

coisa que se infla [... J, o saco merece ser conotado do ambíguo de um e de zero, único suporte adequado

essa forma, que "só se l~~ará assintoticament~ ao devir}o S;!!j_eito [. ..], é mais cons­ disso que confina o conjunto vazio [...]. Donde nossa inscrição de S índice 1. Eu preciso que ela se lê assim.

tituinte que constituída, mas onde, sobretudo, aparece num relevo de estrutura que a Ela não faz o um, mas em o indica como podendn não conter nada, ser um saco vazio. Ela não deiXil menos

a ele que um saco vazio pennlinece um saco, seja o um que não é imaginável senão da ex-sistência e da

fisga, e sob uma simetria que a inverte, em oposição à turbulência de movimentos consistência que tem o corpo, de ser um vaso. É preciso tOlná-Ias, essa ex-sistência e essa consistência, por

reais, pois o Real é o que as sustenta. Donde a palavra Begriff que quer dizer isso. O imaginário mastra

aqui sua homogeneidLlde ao real e que ele não sustenta essa homogeneicúufe senão do fato do número, na

medidLl em que ele é binário, um ou zero, ou seja, ele só suporta o dois do fato de que um não seja zero.Que

85 Seminário Xl, op. cit., p. 63.


ele ex-siste ao zero mas não consiste em nadLl. [... J O significado de origem não quer dizer nada, ele não é

86 "Le stade du miroir comme fonnateur de la fonction du Je telle qu'elle nous est révéllée dans
senão o signo de arbitragem entre dois significantes, mas, por isso, não arbitrário para a escolha destes" O·

I'expérience psychanalytique", Écrits, Seuil, Paris,1966, pp. 934.


Lacan (1975-6), Seminário XXIII, Le Sinthome, lição de 18/11 / 75, inédito).

97
A CRIANÇA NA CLfNICA l'SICANALln c '\
A CONSTITUiÇÃO SUBJETIVA

este outro que pe1,fi.Wá, com suas formas e suas normas, a imagem do corpo na sua
~4ãO sedutora sobre agueIe que é o parceiro S~"89 . outro, age~, álibi da reciprocidade almejada entre o olhar e o W.ll;
A aimens.ãQ do sujeito s.lli?~to transparente no seu a to de conhecimento
~nde, aol azer-se ver, constitui um lugar. A criança experimenta aí a apre­
ensão de uma falta possível, ponto cego, do objeto a, falta à imagem especular:
só 5 0.!!1.e,ça quando ~ntr~ em 12go.,! ~j~.~do limite do espelho, do que nã
a imagem é superfície furada que só se mantém em a92, obLeto que perturba as
se~a aI2.reender e que o submete à ilusão de conhecune;!to; e~co que
relações simból~s, por não se dividir, nem ser especulari;ável, precipitando­
preserva o ponto funcional do desejo e ~e, quando entr;evisto, serilêiü"e teiili"a
p~ivo do reconhecime~to, (az~ergg estrangeiridade e angústia.
E, o que faz com ue a ima em detenha o ideal: "o ideal do eu como modelo,
~
- se como causa do desejo. Deve espera r pelo olhar do Outro, subtra ir-lhe seu
oJbM, p.<:ra daí constituir um,a }l0siçffio. Ao ser olhado por um Outro torn~
suj~, u ~~movimen ~-~e para o ~lE9, fã?endo­
o ~~o, [' .. Jcu~~ [' .. Jdevem ser tomadas como suportan­
~e olhar ~o ~ não QQÇte..Y.,eL. Trata-se do movimento pulsional de fazer-se ver,
do. a incerteza e permitindo a retificação, como perpetuando o equívoco de circunscri­
que inclui a demanda do Outro de encontrar ali um sujeito. Mas a busca de
ções diferentes, segundo seus estatutos, mesmo admitindo, em seu complexo, zonas
uma correspondência ponto-a-ponto de duas unidades no espaço, dada pela
evasivas e feudos encravados "90 . 1 í, o oJ:.jeto ~ é o~ oente de uma função que o
imagem, é a armadilha da visão. Imagem alterada que se faz paradigma de
s~bl~~es g~e o sujeito a exerça, ~ãO de índex eley.ado sQbre.uma a.u­
todas as formas de semelhança, imagem que se fixa no ideal do eu, captura
h sên~9-ue está lá, so~stia de desa p ariç~, mascarado,Jlo) majar de um
'fv jogo de imagens. O ~e~fíci
imaginária que mascara sua duplicidade. Na pulsão escópica, o objeto a é o
o elho dando a forma
olhar do que depende "afantasia a que o sujeito está apenso numa vacilação essen­
ilusória em que se constitui como um Outro. E no nível do d..:sejo escópico que
cia["93. Inapreensível e desconhecido, o olhar especifica a satisfação, onde a
a es..!E!:!....tura do desejo encontra sua forma mais desenvolvida em sua alIenação
queda do sujeito fica despercebida, "reduzido, por sua natureza, a uma função
fundam~tal, permitindo o asseguramento à angú ~ tia, p0L!!1ascarar mais P.E..0 ­
punctiforme evanescente, deixando o sujeito na ignorância do que há além da apa­
fundamente o objeto ({o O modelo da i agem faz a transla ão do su'eito aos
~/5~O.A~~o,a~o
rência"94.
Enquanto fundamento de uma identificação do sujeito, o olhar é traço
O~é a anterioridade da borda do espelho que assegura ao sujeito uma posi­
evanescente que se elide, na ilusão de ver vendo-se, onde se obtura "0 que
ção imaginária, de onde constityl o ideal-do-eu e permite-lhe referenciar-se
para obter a miragem do e.u-ideal, está do outro lado, que o sujeito vê perfilar-se o jogo graças ao que ele pode - segundo
a ilusão de [.. .J uma imagem real - acomodar sua própria imagem em torno do que
- A representação de sua totalidade oferece, portanto, um elemento de
aparece, o a minúsculo. É na soma dessas acomodações de imagens que o sujeito deve
splitting essencial, de distinção de si mesmo, onde a criança vislumbra que
aclzar oportunidade de uma integração essencial "95.
algo lhe pode ~r: "o----;;;ntro com a realidade do rJestre... o momento de seu trti7n­
O ? lhar esperado é do Outro, q~, valorado na dialética do de~o, sub­
fo é também o mediador de sua derrota. Quando se encontra em presença dessa totali­
verte o campo da percepção visual, p ~ aI2!,.~j~v.2. d_o 1e~jo que
dade sob a forma do corpo materno, deve constatar ue ela não lhe obedece"9! . Há um
é ~o: I/m~ aeE,t1..ncia não há.. a cgis~m si, há o 0Iha,r,;:96. ~ falta
po~ que falta à imagem, onde o olhar é intragável à função narcísica da
define, na pulsão escópica, o objeto...Et do gual o sujeito se separou, para se
miragem, produzindo o ponto tiquê da pulsão escópica . A demanda da criança
constituir como efeito imaginário do olhar suposto ao Outro, onde vai encon- ­
ao testemunho daquela que ocupa o lugar de Outro integra, de modo
trar-se na identificação à imagem.
de~rminante, o circuito pulsional aí em jogo. O testemunho matemo só apare­
~ha é o oJbar imª&inado por
el'!.12o~ Jacques Lacan, Seminário XXIV, L'insu que sai! de /'une-bévue s'aile à mourre, lição de 17/ 12/74,
92

inédito, retomado por F. Julien, O relomo a Freud de Jacques Lacan , Artes Médicas, Porto Alegre,
p. 141.
89 Seminário X, L'angoisse, op. cit., lição de 05/12 / 62. 93 Seminário Xl, op. cit., p. 83.

90 J. Lacan (1960), "Remarque sur le rapport de Daniel Lagache", Écrils, Paris,Seuil, 1966, pp. 672-3. •• Ibid., p . 83.
91 Seminário IV, A relação de objeto, op. cit., p. 190. '5 Ibid., p. 151.
96 Ibid., p. 101.

98
, A CRJANÇA NA CLfNICA PSICANALtncA
A CONSTITUlÇAO SUBJETIVA

sig!\ificante do desejo do Outro, e na condição de significante onde nãoJ'oj e


Nessa identificação, a função da miragem inclui o sujeito desde o pri­
significar a si mesmo. Esta estrutura mínima do sujeito, dada na condição lógi­
meiro funcionamento do olho, posto que o olho é, de início, espelho que impli­
ca negativa da enunciação do fantasma ($Oa), é fragmento ausente de uma
ca o fundamento de um espaço constituído que exclui sua própria função, ce­
série significante em que o sujeito que a suporta está dividido entre saber e
dendo--a, para apreender, na fascinação, um campo do mundo. Afinal, o espa­
gozo, separação do objeto que não encontra nenhuma forma de resolução. É
ço só tem uso supondo a descontinuidade, onde uma unidade aparece em dois
o que o torna dependente de um Outro, a quem apela, obrigando-o à repre­
pontos ao mesmo tempo. Por isso, naquilo que é destinado a fundar a função
sentação simbólica, negativa em relação à coisa (esvaziada de referência à
eu-ideal! ideal-do-eu, ou seja, a imagem especular que é presença do sujeito
coisa no significante), onde é preciso saber, já que não há garantia de gozo. O
em A, o resto é evanescente, é uma mancha. Nela predomina a boa forma
fantasma sustenta, assim, um certo recorte do reaL faz sutura das bordas por
gestáltica que a faz ilusória. Mas uma mancha liga a ponta do desejo, onde a
onde se tenta agarrar o real, suprimindo-o, para que se possa, com ele, fazer
está reduzido a zero, já que o desejo visual mascara a angústia do que coman­
alguma coisa j(lO.
da o sujeito, fazendo-se o suporte mais satisfatório da função do fantasma,
sempre ligado a modelos visuais. Tal circuito manterá sua incidência desarmônica, pois o Outro imaginá­
rio, modalizado no agente matemo, retoma, na espiral da repetição da deman­
O fascínio onde a substância subjetiva se absorve ao mundo é o correlativo
da, como não garantindo nada, sendo ao mesmo tempo sem poder e não-sem
da função de/objeto a no fantas~)ponto zero da contemplação que faz apazi­
poder, forma de negação que materializa uma negação-ligação, onde a
guamento: frágil susRe!:!2?o da dilaceração do desejo, sempre prestes a des­
discordância relativa à imagem emerge, sempre que o sujeito se destaca dela,
mascarar a castração qu~scorule.:~ " O campo contemplativo onde o desejo poderia
pois " 0 olho institui a relação do desejável no que ele tende afazer desconhecer, em sua
se suportar de uma anulação puntiforme ao seu ponto central, de uma identificação a a,
com este ponto zero entre os dois olhos, aí, o ponto do desejo coincide com o ponto da relação ao Outro, que, sob este desejável, há um desejante. O desejável mais repousante,
angústia, mas eles não se confundem. Eles deixam aberta, para nós, a inquietude que em sua forma mais apaziguante, é a estátua, que só é divina . O que há de mais
ünheimlich é vê-la animar-se, podendo mostrar-se desejante"lOl. É no circuito do
resta em nossa relação ao mundo, neste ponto zero que impede de encontrar, na fórmula
objeto à demanda e da demanda ao objeto que emerge a carência de harmonia
do desejo-ilusão, o último termo da experiência, rebatendo eternamente a dialética de
ideal: "o o~ é o efeito da impossibilidade de o Outro responder
nossa apreensão do mundo. Este desejo, que se resume aqui à nulificação de seu objeto
à demanda "102.
central, não está sem este outro objeto que se chama an= 9 7. _
Pela falta em seu gozo, o Outro, situado no lug ar de mestre e garantia,
Nas voltas da demanda em tomo desse círculo vazio, o Outro imaginário
to~c~te. O Q..utro, pressentido em fa.!!.a, ret~ à criança ~
da frustração vem se superpor, fazendo-se metáfora do traço unário: "0.2El!.2.
t~to interrogativo sobre um desejo velado: "O1J.!I&-9!:!j;J:.,o Ou.!!! de mi'!J ? "103. Tal
é ,9- p"rincíltio de ocultaçflo do Jygar..J11.ewo_do_d~io ei. aqu..i que o objeto vai pôr-se
interrogação, onde situa que isso lhe diz respeito, prenuncia o fantasma e é
col?!r!o [. ..] ngEg~.....lQ, sap'p i l!stamente o que ele esconde, que ele recobre alg!.!:!!!fl
posta em ato, já que está exposta na experiência à falta no Outro. Seu único
t' coisa que é este objeto} estt:.objeto qne n@ ~ ainda tai72ez, uma vez flue ele vai tornar.-se
---
o objeto do desejo "98.
­ recurso é exe erimentar a interro~~o "pc;1:! ele p.~d~ ? " l(}4, numa torção
-
que o s~ arar-§.e faz ~tomo à alienação em que se constitui como perda:
Enquanto significante, a criança terá que redobrar seu efeito para desig­ - ~-----
nar-se a si mesma, não sendo nem o que é designado nem o que designa. O
l~ tO aEarece assim no fantasffiª=($Oa)99 que suporta o desejo, enquanto
100 A estrutura mínima para qualquer sujeito, seja ele modalizado na estrutura neurótica, psicótica
ou perversa (exceto Q autist,,), é a estrutura do fantasma, conforme esclarecido por Alfredo
97 Seminário X, op. cit., lição de 22 / 05 / 63.
Jerusalinsky, noSeminário de Psicose, em São Paulo, março de 1996.
101 SeminárÚJ X, L'angoisse, op. cit., lição de 05 / 06 / 63.
98 Seminário IX, op. cit., lição de 21 / 03/ 62.

102 SeminárÚJ IX, L'identificatíon, op. cit., lição de 14 / 03 / 62.


99 "LI A verdadeira verbalização desta fomUl O, buril, desejo, que une o $ ao a em $Oa, esse pequeno
103 "Subversion du sujet et dialectique du désir dans l'inconscient freud ien", op . cit., p . 818.
quadrilátero, deve ser lido: o sujeito enquanto marcado pelo significante é, propriamente, no fantasma ,
104 "Position de l'inconscient", op. cit., p . 844.
corte de a". Seminário IX, L'identification, lição de 16/05 / 62.

101
A C RIAN ÇA NA CLiNIC A I'SICA NALfTICA
, A cONsnTUlçÃo SUBJETIVA

"O que ele vai aí colocar é sua própria falta, sob a forma da falta que produziria no
3.3. A demarcação Simbólica do Imaginário
Outro por seu próprio desaparecimento. Desaparecimento que ele tem, se podemos dizê­
lo, sob a mão, da parte de si próprio que lhe retoma de sua alienação primeira "105.
Tal cobertura mantém portanto o seu o resto, o objeto a, que o sujeito só
poderá abordar pela via do impasse fantasmático onde, e~ busca do 00 0­
to do desejo, ele encontra a imagem do o~~ to (i(alJ "à ~
~!!$5flB.~rê~que tem diante de si sua imagem "1 06. A dialébca transitiva especular
evidencia o interesse humano pelo semelhante, na forma de reciprocidade. A
e~valência d.f.~~a identificação com o outro imaginário, que recobre o objeto
-
do desei.9J i(a)],
~ .. -
faz desteObjeto o lugãr de ex-sis~a necessário à ordem
, ­
p.E0priamente simbólica. Aojiejltificar-se imagin~iamen ~~gem de um
cQ~E:1.0log~..J2gt-lJ.mDutrQ, a criança ençQrlt@. a origem e a matriz do
se~u (moi). As iden tificações se inau~am no desconhecimen to que faz c,gm
Como real, a criança permanece irredutível, apesar de assumir, para a
q ue~ sujei~ó..E0ssa articJ.tlar-se como metonímia de Sua signiiicação. Afinal,
mãe, a função simbólica de um imperativo imaginário. A _çrianç'!_JL~!!Qsti!:!-!.t9
o equívoco da transparência, em que o eu se vê, forma-se às custas da opacida­
~CD (do~amor pelo pai) o~ metonímico (do seu desejo de falo), cQ!!l­
de do traço unário que o determina, onde a consciência vem cobrir a falta de
significação que a inaugura. \~ pensação ao que falta essencialmente à mulher. Para o impasse de seu desejo,
ela tentará conformá-lo ao que, na demanda da criança, localiza um sujeito
desejante que, assim, sanciona, sustenta o desejo matemo: neste tempo, ~­
m~ de um é o desejo do outro.
Há, n st r la - m du lo engodo. A condição opaca de falta esca
c ~ nça, que não pode senão eng ';l jar-s.e, oferecer-se com seu ser numa
mobilização de ensaios de resposta a essa questão, onde se tece o fantasma de
...,
fl<. I1 f" ....
/l/f IM~crL""- -' ~ c.' -<; ser o campo de gozo para o agente matemo, insistindo em comparecer masca­

\ ~/J ? -R- cu., f dJ1M ra~a de Outro absoluto daquele, tal como insiste em supor o Outro todo em
potência: "No estágio escópico que é aquele do fantasma, isto que nós implicamos ao

p~ ~ v·é .~ I -'VI jA -~ O J. II dtA d-t ?


i nível de a é a potência do Outro, esta potência no Outro que é a miragem do desejo
humano, que nos condenamos - no que, para ele, é aforma dominante maior de toda
Ipossessão, a possessão contemplativa - a desconhecer aquilo do que se trata, uma
' miragem de potência"lJO. A opacidade do que a criança encontra no lugar do
Outro como desejo é sobreposição determinada à opacidade da própria per­
da que a divide. Op~ rand o com sua p róp ria perda, para preencher-se no que
~e u:.torna ao responder, e~g~ja-se a si mesma enguanto objeto gue poderia
faltar ao Outro.

107 Jacques Lacan, Semindrio li, Les f ormations de /'inconscienl, op. cit., lição de 22/01/58.
lOS Idem, ibidem.
l OS Smrindrio IV, A relação de objeto, op. cit., p. 230.
106 SmrinArio IX, L'idenfi~lion, op. cit., lição de 13/ 06 / 62.
11)9 " La signification du phallus" (1958), op. cit., pp. 692-3.

11 0 Smrindrio X, L'angoisse, op. cit., lição de 12/ 06/63.

102 1fl~
A CRIANÇA NA CL!NICA PSICANALITICA A cONsrmnçAo SUBJETIVA

A ~sição de falo imaginário, a q!!e buscará aderir ao camuflar sua pró­ Em todo o período pré-edipiano trata-se, para a criança, de um jogo onde
pria hiância, é o oJ2erador q~e produz o objeto a n~ furo que imppe ao sujeito o l o falo é fundamental como significante, onde a criança metonímica se propõe a
corte, fazendo-o rej!it@po fragmento irredutível do seu ser. É ogue intro­ ser o objeto que preenche a falta materna, ensaiando ocupar e assumir a rela­
('
duz a criança no enigma do agente matemo, colocando-se alienadaao agente
-_.~ '­
como meio de assegurar-se do que este deseja. Ao mesmo temRo, é aí que o moi
ção àquilo que é o falo para a mãe 111 , situando-se ao mesmo tempo como
despossuída de algo que exige da mãe, e apreendendo que o que é amado é a
.... encontra sua estabilidade. - ­
;-. \'\ imagem fálica a que tenta aderir.
O desejo da criança passa pelo estado da demanda, endereçando-se de
~Ó~. ~ça te!l1. ~~o fa!,p, qye transmuta um
.~ modo articulado a seu objeto primordial, onde submete seu desejo à lei do objeto em o~eto de desejo, sig:tificante do desejo do Outro ~~só aparece
desejo da mãe. Por outro lado, a criança enquanto falo para a mãe tem um v~lado e que se ..!!np~ ãOsujeito reconhecer. ?e a criança apreendeu de início
estatuto metonímico - o além do seu desejo também lhe é inacessível. Ela já que a mãe continha o falo, ao erlcãrnar nela o horizonte de sua demanda de
tem simbolizada a demanda que endereça à mãe, fazendo-se valer diante do
amor parasitado por um desejo inominado, a criança, diante da falta pressen­
objeto matemo. O ~u da criança, que emerge latente nas suas articulações de tida na mãe, engaja-se em ser o.falo desejado: "A crian a se a resenta à mãe...El!!!E
fala, ainda em formac,ªo, de.e.ende da articulação significante produzida pe.§
Ih! oferecendo o falo nela mesma, em.Jraus e posições diversos tE p~de se identificar
mãe. Afinal, não há coextensividadeex-ata, simultaneidade do desejo, enquan­
c?.m a m~§e ident ificar com.ofalo",ou apresentar-K CQJJ12 pQrtadQra de falo. E~í
t; ;le ;e manifesta, e d.o signific~nte, que lhe responde. Isto jamais acontece,
porque é da natureza e do efeito do significante a transformação do desejo, sua
refração, que faz com que o desejo seja encurraladQ, chegando com sigtlificado
,
I
um grau elevado não de abstração, mas de generalizaç"ão da r!JEção im~ginária filie
chamo de tapeaflora, pel,a q!!a~qjança atestª à tnãe.._~o.d.!J.atistazê-Iª, não somente
co!!,o.sri'!:!!fa, ~s também quanto ao deseio e, ~ara dizer tudo, quanto àquilo que l~e
diferente do que tinha na partid~.
falta "112.
No intervalo da passagem do desejo pela cadeia signific~nte, ~e.

lação numa cadeia significante. E, daí que a criança recebe, ---


uma mudança essencial, que faz a dialética do desejo depender de sua articu­
~ sob a forma de uma
mensagem, aquilo que é a mensagem bruta do desejo da mãe. Recebe, assim,
Mas o significante do desejo matemo mantém sua obscuridade. Para sa­
tisfazer sua demanda de amor, a criança tenta realizar-se como o que poderia
satisfazer o desejo da mãe, mas o significante do desejo matemo lhe é estra­
nho. P,ais sígnico que o falo possa ser na criançil, e~ opera na sua dim~­
em nível metonímico sua identificação ao objeto da mãe. A criança assume, na _
s~ significan~, ialt~-lhe sempre ser identicame!}te idêntico: "O falo é funda­
re~lidade do discurso materno, o desejo da mãe e, por tomar ~
mental como significante, fundamental neste imaginário da mãe a quem trata de se
Ida mãe, encontra-se assujeitada à lei da mãe. Mas essa lei da mã~, para a crian­
ç~ste momento, uma le~ontroláv~: hi l ina medida em qu~ qualquer
r coisa de seu desejo é~pletãrnente dependente do ~i! se articula cOE1o~a
....~..... - ­ -----
unir/ já que o e/j da criança rroousa sohre a onipotência da mãe. Trata-se de ver onde
está e onde não está "IlJ. A criança exp~iffi~hl;';"O desejo do Outro, a divisão
imanente ao desejo, antes que possa, disso, se dar conta \14.
ordem da lei - m~situa completame.E.t~no sujeito#<l.u~ s~orta:
"\ nas nuances d.o guergr ou não guerercta mãe. Apreendendo o Outro encarnado no agente como em falta, desconhece,
É onde incide a vacilação, pois, pelo reviramento pulsional, ela encontra,
ao mesmo tempo, essa apreensão: algyma coisa é desejada pela mãe al~m dela
no retomo da precipitação identificatória, discordância de si mesma para com ~a, de~eio que..!.9"iarr.ça..eng~ a-se em realizar sobre si mesma: "O que a

o apetite do olho do Outro, que se trata, nessa identificação, de alimentar. criança podefazer de melhor nessa situação em que está aprisionada na captura imagi­
Esta alienação ao desejo matemo não a impede de tropeçar na problema­
tização de sua essência, sustentando o desconhecimento de seu próprio desejo ' 111 'Todas as,~~/põem sempre em jogo, por algum lado, este objeto significante, na medida em que ele
sem entretanto ignorar que o que quer aparece sob a forma que não quer. Efe­ não é... um ver ira significante, isto é, algo que não pode, de Ttwdo algum, ser tomado em seu valor
ti~~~ lon-oé om letamenteredutível
- 0.i!:J.t!!."!!' n~a. Ap~rece~r@nto,_a diplopi "!, giyisão.J!o objeto dese­
jado. Ne~erocesso, enfim, o ~sejo da mãe comporta '=!.-m além ainda sem
t 112
aparente. Q~ndo..Je o apreende, quando se o encontra e seJixa...!!.ele.depnitivarrumte, como é o caso na
perversào das peroersões, que chamamos ofetichismo - é ela realmente que Ttwstra não apenas onde de fato
ele está, mas o que ele é -, o objeto é""exatariiente nada" (T. Lacan, A relação de objeto, op. cit., pp. 197-8)
&minJrio Tv, A reTãÇãó de óbjeto, op. cit., p. 230.
Ibid., p. 197.

mediação. 113

11' "La signification du phallus", op. cit., p. 693.

104 1n~
, A CRIANÇA NA CLlNICA PSICANALtnCA A cONsrrrulçÃo SUBjETrvA

nária, nessa armadilha onde ela se introduz para ser o objeto de sua mãe, é passar além coincidência, é sempre falha e insatisfação, funciona no nível da falta (- cp) : "o
e se dar conta [. ..] daquilo que ela realmente é. Ela é fmaginada, portanto, o que se pode s0!i.!!!.Y!!p~ e ~~~ quer
fazer de melhor éimaginar-se tal como éimaginada "115. A criança se en2"aja na dialética
. -------~~
}, ver"119.
r---­
S!1QJ.~~ 90 :9-god ~ na via de_satisfazer o desejo insaciável ~e. O desejo É nessas circunstâncias, em que o infans pode supor o Outro em f9 lta e
do_Outro se endereça a um ~ esperado, e, ~ara que o Outro aí se reencontre, apresentar-se como re;Posta, que ;&manda à ~e se inverte claramente numa
\S::v sOQcita que o eu presente se perca, se anule: "o desejo do Outro não me reconhece, d~~anda ~_g}ãj pela ~a do objeto~xc!!'!penáaJ, que dá às funções excretórias
ele me põe em causa, me interroga na raiz mesma de meu desejo, a mim como a, como
causa desse desejo, e não como objeto; é por isto que é lá que ele visa, numa relação de
--
uma amplíação vasta do campo simbólico e da demarcação do desejo.
- O objeto anaP20, com tudo o que chega a representar '
de dom e de valor de
antecedência, numa relação temporal em que eu não posso fazer nada para romper esta objeto a, é resíduo que designará o lugar vazio onde virá se situar uma série de
tomada, senão me engajar "116. outros objetos, por ser ponto raiz onde se elabora no sujeito a função da causa
Of~E9:?~~~ge~ ~, a criª!l_ça responde com seu eu do desejo. A demanda educativa é demanda do Outro, eleva o excremento à
(~. E~ to~~ matemo insa.9áv~7,_a..çQans~scala os aminho função de operador, que entra na subjWli.çª'º-.Rela via do resto da demanda
do~o, aí ~Eresentado no agente mate~ . Es~ objeto a qu~eI!)~s~r
­
d 9_narcisismo,fazendo-se~n.g@ador. Sua constituição, à imagem do
, -
eu-ideal fálico, onde seria desejada, destaca-se do fundo do defeito fálico: "é n
O!!!Jo0J.g u~~o se~titui-como ~ que ele L 7.O~ ~ m~1 ~~~I w ... ~ lO v v
~~ -------- -
onde a demanda domina, enquanto cobertura do desejo no Outro,~~to
'-­
d~mandado . O objeto anal, causa do desejo, vem se relacionar com a demanda

vem como eu, ou o eu ideal - que não é ideal do eu - q1ier..sJÉ.er, a se constituir em sua que o requer. A especificidade desse objeto a anal é E.~mitir, pela primJili"a v~z, \\
realidade imagÍnária [' ..J ali.onde o sujeito se vê, tEto é, ond~eforja.!..s.E: ~ real o reconhecimentõao prôprio s,!!jeito em algo em torno do 9.:lal gira a dem~nda •
e invertida de seu pióprio corp.Q, que é dado no esquem~,eu, não...04..fk.onde ele se do Outro (enquanto as relações do sujeito aos demais objetos a são modos de
olha. Mas, certamente, é no espaço do Outro (A) que elese vê, e o ponto de onde ele se sustentar relações com o Outro: ter relações com a é r ela õe com A). O
olha também está nesse espaço. Ora, é bem aqui também que está o ponto de onde ele co~andamento à criança de reter o excremento p~I2osteriormente ter g~
fala, pois, no que ele fala, é no lugar do Outro (A) que ele começa a constituir essa cedê-lo, sob
-"
demanda,
.
constitui o funcionam.ento esfincteriano, que não é es­
~ . "---­
mentira verídica pela qual tem começo aquilo que participa do desejo no nível do in­
consciente " 118. Ao mostrar-se como aquilo_~~~ã.2...é, a cr!ança constrói o Eercur­
pontâneo, e esboça, na articulação destes dois tempos (guarde/s_oite), a intro­
d l!,<;.ã o do domínio do ertencimento d~ uma p~:!e_do cor,go. N'L,a dmiraç!Q
-- -- ~

s0...2!lde o eu.assume sua estabilidag e, na ambigüidad~ se fazer de objeto (d~' /indaeQfQ.J e no desmentido de seu dejeto (e do "não m!E..13i.ss( ), efetuados
pelo agente materno, opera:se o reconhecimento disso 9.~-ª0 ,!!lesmo tempo,
para enganar. Diferentemente do logro imediato da exibição sexual no sentido
é
.
o sujeito e -..,.
não é Osujeito" pois
.,...
-
"' ....-..trata-se"""'--'-_.
de uma.,..,.

cessão subjetiva... .-- ._
sob a deman­
­
etológico, onde as aparências cativam o parceiro, a criança supõe, na mãe, um ... -.-.. ~ ...­
da, que faz su·e·to emergir de odo dividid a · va~nte: o 2b~to anal ....,
desejo, e o jogo de sedução que encena, através de sua mos tração, é uma tenta­
tiva de capturá-lo. Es~~_e...a~o~é metaforiza o dom essencial à rela ão com o Outro, e o sujeito aí aparece como
efeito, constituindo-se como metonímia . A demanda torna-se parte
e~turan..k. O sujeito do desejo ?e demarca da c-ª..I2t:!J.ra imaginária por !lli.o ....--
determinante ---­
do processo de reter-desprender, destinada a valorizar esta coisa
est~0E!.lmêJ te preso a ela e, portanto, jog~ com a máscara na med~ão de
que, ao ser reconhecida, é elevada à função de parte, valorizada no que dá
-.l
sua relação com o Outro. Por _
isso tenta nersuadi-Io
:?""'.... -- -....::.:.::;..r~
rle Que oode comoletá-Io e
""' ~ _~
satisfação à demanda do Outro, ao mesmo tempo que implica uma atenção
1 r:) é tapeando q!le fa.? surgir a.dimensão do amor. Nessa dialética do amor não há
erogeneizante do Outro (farejamento, aprovação, limpeza), onde a passagem
do objeto ao registro do repugnante se inscreve como efeito integrante da dis­
115 Seminário IV, op. cit., p. 250.
ciplina que está em jogo nessa demanda do agente materno.
116 Seminário X, L'angoisse, op. cit., lição de 27/ 02/63.
117 "Esta mãe insaciável, insatisfeita r. .. }é alguém real, ela está ali, e, como todos os saes insaciados, ela
procura o que devorar r. .. } o que a pr6pria criança encontrou outrora para anular sua insaciedade
simb61ica vai reencontrar possivelmente diante de si como uma boca escancarada " (A relação de objeto, \1 9 Ibid ., p . 102.
op. ci!., p. 199).
\20 A construção deste ponto foi realizad a a partir das posições de Lacan, nas lições de 12112 / 62,
11 8 Seminário Xl, op. cit., p. 137.
08 / 05 / 63, 12/ 06 / 63, 26 / 06 / 63, 03/ 07 / 63, Seminário X, L'angoisse.

1nh 107
A
, CRIANÇA NA CLlNICA PSICANALtncA
A CONSTITUIÇÃO SUBJETIVA

y- -(
o. 0l1.eto a excreIllencial'é parte da qual o sujeito tem alguma apreensão a o. ~.ldg~gozP, sitpado na mãe, te!ll-cQmo ~o....a~nar a cnançUo
fazer. EkEr~h~ f~ção _~~ obj~to tra~, sob a formulação da de­ desejo pressuposto: resRosta à dem!!flda da mãe onde tenta satisfazê-la, saII1­
manda do Qutro, fazendo-se primego2!!l2.Q!.te da su.!jetiv~ão na relação ao p; de engodo on_de ª- crian~ n.i!9 enÇQI1t.nLsaída. A criança, ao circular como
Quq.o, nisto p~!o...sll!e 0_s.l!~ito é req~rido pelo Qutro a manifestª!:se como falo que preencheria o que falta à completude do Outro, esgota os desdobra­
s.ld.jeito, que tem a dar o que ele é, ou seja, o irredutível em relação a isso que lhe mentos imaginários nos quais se aliena como significante, sem saída. Aí o su­
é imposto pela impressão simbólica. T~ resto, a 5.l;le ele está ap'enso, ~ jeito se oferece recobrindo o que vê e o que não pode ver: que não pode ser o
_.
identificá-lo ao desejo de reter, onde esta primeira forma evolutiva do desejo,
- ' ------~­
em sua ocultação estrutural, ap'ar:.nt~~e ~a in~o, inl.!2içaão da rnn­
objeto do desejo matemo e que a mãe é privada.
No temário imaginário (mãe-criança-falo) e~...9.ue depende do desejo
çã~ natural de desprendimento das fezes, pel,2. seu desy iQ ao desejo d~ ~n­
çá,o. o. ato de ceder tal objeto primordial manifesta o desejo que teria estado em
ação para inibi-lo. A relação entre inibição e desejo se constitui no ato, nessa
-
matemo, a criança encontra a simb~lização primordial materna. A relação de
\ equivalência da criança ao falo é essencial, por ser, enquanto falo, o objeto que
satisfaz o desejo da mãe. Afinal, pela via desta dependência efetiva do desejo
insistência, no real, de uma açã.~..9ue se inscreve ce;mo manifestação significante matemo, a que a criança se identifica e tenta se moldar no engodo imaginário,
c~stitutiva do desvjc:c}ueé desejo. Aí o desejo aparece opondo-se ao ato que encontra-se um nível primitivo de simbolização, que faz com que o sujeito
introduz sua originalidade: a função do objeto anal, como causa de desejo, deseje - não apenas apelando a cuidados, contato ou presença, mas apelando
manifesta-se no contraponto da função excretória. \ao desejo, afirmando seu desejo de ser o desejo do Qutro: ela é, ela própria, o
o. gbjeto de troca, o excrenH;g,!0' só p02e~'posto à disposição da de­ .I 0b jeto fálico. N _ o , a criança é fisgada pela complica­
~anda ~ Qutro PE r ter si~ precedido do tempo em que o sujeito estava intei­ ~ ção de haver alg~virtualmen,!.e, posto ue a mãe dese' a outra coisa. Esse dese­
­
ramente à mercê do ~outro, como falo. o. ob'eto anal faz-se resto de tal
.
simbo 'za -oe constituicomoresto náde ~nd~ciac~~:~s~o. Tal
jo ~aterno de outra coisa insere-se, do modo confuso e virtual pelo qual a
criança o apreende, nessa relação de miragem especular onde se emoldura,
alçamento é o que o faz IrredutíveL Assim, o objeto àIlã1é recortado e bordeado

-
mas que, sem um pouco mais de simbolização, não pode ser constituído.
pelo significante, intervindo no reviramento da demanda do Qutro. Ele evi­
.
de~cia o h:gar estrutural em que é a criança que oferece um dom - as lez?§,
elemento separáv 1 e s a fun ão de objeto a, present ofe tado no u ar do
p f~ 0~2e d~J>0r nã~r, o}ec~dar 2}!tra coi~at d~
p ~ outr~.
Portanto, homologamente à relação do eu com a imagem especular, em Tentando assegurar-se de que em algum lugar haja gozo, a criança esgota
que o reconhecimento da criança é função do desconhecimento da dissimetria as demandas até se perder no labirinto das significações do Qutro, onde o
entre si mesma e a imagem, o desejo repete o mesmo percurso que faz a de­ significante falta forçosamente . É aí que ela tropeça na relação em que, en­
manda e o objeto, no sujeito, fundamentalmente dissimétricos em relação à quanto <1>, pode cristalizar-se em objeto a matemo. A criança situa-se assujeitaç!?
demanda e ao objeto, no Qutro. O~s.e estrutura como incapturável,~ ao capricho disso de que ela d~ende, d~munid; de qualquer outra coisa.

.. ­
-
se acrescer da simetria invertida dos desconhecimentos fundadores do eu e da
imagem. Nesta possibilidade estruturante da equivalência cruzada, o sujeito se
~.~~t~~, onde emerge a falta de seu dominio: oferecer-se
c? mo fé!lo é .pg der-se como dese~e, é s~bmeter-se!. e.osi~eto do
faz desejante no mesmo movimento em que constitui o Qutro como desejante: d~ ~o Q~ro. ~ança nã.U.2pe se_~osjc!Qnar, a de2,Peito ~e es~ a
"possibilidade estruturante radical de identificar sua demanda com o objeto de desejo incidêncIado simbóli.s...o.
do Outro ou indentificar seu objeto com a demanda do Outro "121. Afinill.. a mãe está submetida ao simbólico, é sustentadora dessa incidên­
da. É o---~ ~-----------------------­
que implica que a criança a localize como instância da lei. o. falo é
iI:Dag inário, o obieto é metonímico. A jnterd~está..-Y.ló!lada, mas a metáfora
121 Semimirio IX, L'identifiCiltion, op. cit., lição de 30/06/62.
pa1:~I1J.a. . ~ ~~do~olo, dQ.Silsc~rso ~i.

708
A cON~,rruIÇÃO SUBJETIVA
, A CRIANÇA NA CLfNICA f'SI CANAUTICA

Neste momento, agente paterno é a denominação signiiicante na cadeia 3.4. A fissura real da equivalência simbólica criança: falo
do discurso matemo, que não necessita absolutamente ser referida a um pai
concreto, posto que os efeitos desse agente são os de permitir essa referência ao
mais além inapreensível da lei materna. Afinal, a mãe não está fora da lei,~
a lei es~~aQ s!:!j~f~e, que a situa na sua subordinação a.Q..Querer capri­
choso do Outro matemo. O perfil da estrutura simbólica comparece, na medi­
\
da em que a criança pressente o falo constituindo uma falta na mãe, que o
(\
sujeito não consegue recobrir, mas quer, anseia, teme e pode supor ser.
O que a criança tem para apresentar é apassivado l22 , ela está sujeita àquilo
que O parceiro lhe indica como suficiência ou insuficiência, entregue ao olhar
do outro, presa das significações do outro l23 . A experiência do desejo do Outro
é decisiva, porque permite tomar, mesmo desconhecendo, a apreensão da falta
na mãe para além de a criança ser posta em posição de falo. J
Esta é a experiência sobre a qual o complexo de castração será vivido,
terá efeito e será a saída para a situação de angústia que está instalada . O
t\ complexo de castração retomará o que está em jogo, na experiência com o A experiência de desejQ.Para o sujeito encontra a limitação do Outro, que
-f
falo. resP.9-!1Q~.9-l!~ª9_ª .isig.,uIO, res~sta _que carrega a mensagemda impo~a
enra~.noJmp_o~ssív~L A distinção das demandas entre o pequeno sujeito e
~ o Outro encarnado no agente sustenta-se na impossibilidade de esse Outro
saber o que lhe falta. É o que define o desejo como a intersecção do que escapa
à formulação nas duas demandas não confundidas: "O3~~i,
an~o, por sua natureza, co~~~2..P~~u­
ri!; é l!!11-impossível ao Outro que se torna o desejo do sujeito. O ~
c~q ~ d demanda ue está escondida ao Outro, esse outro que não garante nada

i
\S
122 "A partir do nwmento em que o jogo fica sério, e em que, ao mesmo tempo, não passa de um jogo de
tapeaçiio, a criança é totalmente sujeita àquilo que o parceiro lhe indica. Todas as manifestações do
parceiro se tornam, para ela, sanções de sua suficiência ou insuficiência. [...}a criança se vê na situação
justamente enquanto O~o, enquanto nó da palavra, é aqui que ele toma sua incidên­
cia edificante. Torna-se o véu, a SQbertum , o T!!incípio de ocultação do lugar mesmo do
muito particular de estar inteiramente entregue ao olho e ao olhar do Outro" (Seminário IV, op. cit., p. deseio, e 1...EJI1.ILque o obj-d,o vai pôr-se coberto "126.
, 233). Uma nova hiância que sempre esteve incidente é reaberta, porque so­
J 123 "a angústia , nesta relação tão extraordinariamente evanescente por onde nos aparece, surge, a cada vez brevém a descoberta do gen~al, que introduz a masturbação e a entrada em
.~ que o sujeito é, por menos sensivelmente que seja, descolado de sua existência, e onde ele se percebe como
CIo estando prestes a ser capturado por algumil coisa [ } A ~s tia Uão é G.l1led~ um objeto. A ~ jOg9 de Q!!Lgozo mal ass~ o, entrevisto, p~sível de ser suposto por.J~ r
~ é o con fr2.!l/o diu.uj&iJQ com a ausência de objeto ond~!le é apanha;iP, onde se perde, e.E....que tudo ~ b~rado pelo Outro. Isto impõe à criança o impedimento de imaginarizar-se
f' ~ p';(eríwl, itJc1usillfJ.w;jar-o..ma~ho e menos objetai dos objetos, o de ~ O caráter irreal
como é imaginarizada, porque se faz existir como real, fundamentalmente
do medo em questão é justamente manifestado, se soubermos vê-lo, pela sua forma: é o medo de uma
ausência, quero dizer, desse objeto qu e se acaba de lhe designar. O pequeno Hans tem medo de sua diferente e ainda sob o risco de ser rejeitada pelo que é, fazendo diplopia à
ausência, a ser entendida como na anorexia mental [...}, não que a criança não come, mas que come imagem a que buscara aderir. Ro~ o paraíso do engodo, onde a criança
nada. Aqui o pequeno Hans tem medo da ausência do pai, ausência que está ali e que ele começa a
simbolizar [...} A , gú." tia enJ,.j~rno~m lugar vazio, fuJado, representado ~ai na confi~urllção
do pequeno Hans, busca seu WROrte na fo~ia/ na ~nr.1sJla_dial1 ~Ai!fjgH ra dct~ Nvnedida em gue
sepôde suscitar, ainda,.que /?lU esta40ae exigência, de postulado, uma angústia dia!!Je do pai, '!. angústia 12. Jacques Lacan, St?I1linário X, L'angoisse, 29/05 e 19/06/63.
em to~ai é descarregada . O sujeito pode, enfim, ter uma angústia diante de alguma 125 Idem, lição de 12/06/63.

c~ (Semillário IV, op~0s3, 355). 126 SenJinário IX, L'identification, op. cit., !iÇa0 de 21/03/62.

111
A CONSTITUIÇAO SUBJETIVA
, A CRIANÇA NA CLlNIC.o\ PSICANALtnCA

se molda para a mãe, pela interven~o do genital, qu~ e!!çurrala a criança. As A criança angustia-se p~e é pre~~ c!2..0utro_im~ginário: n~~
rel.ações com o corpo próprio, engajadas pela relação especular, são transfor­ m~gem fálica ima inária e, mais ainda ... iss~lica p er­
madas e põem significantes em jogo. No material que se oferece em relação der tudo o ~J.. Mesmo que seja propriamente insuficiência, sustentar tal
ao seu próprio corpo, a criança encontra o real para alimentar o simbólico: "a engajamento é apagar-se ao que sabe não ser. O falo aparece agora onde ele
P({1j~-1JJJU11l~a~s~l, n~ mais escolhi!:. É~ está real.mente, é falta, é -~~
q~ela v~ s.f imaginar como ,~ talmente diferente dEBuilo 1J1!!. é desejado e, Portanto, a c~ça que circulava no jogo do engodo, em que se experi­
cpmo tal, rejeitada no camf!.o imaSÉ!ário"J27. N~~s.ã~l, mentou significante fálico, para sustentar sua ilusão de complementariedade
equivalente ao valor imaginário que lhe era conferido pelo agente matemo, "
ap?re~_0_~sSQJ~~~...Q~ r~3~~ d~a,que
a ~ uspende ~m tempo em_~ão sabe mais onde está, p.~ e tropeça na constatação desta possibilidade - à ~ãe
fal.!.a . E ainda isso implica ~
discordâncias ue a confrontam à hiância que e~~e satisfaze.L.!!illa um risco, pois a mãe pode ser insaciável. O simbólico demarca a posição da .J J
criança em re~ em que poderá lidar com a falt a 131 , e o J
- --
imagem e o real que pode apresentar, que é miserável e de~nh-ªdo. É desta
,­ p~rsp.:.cti~ajl~s~onto
.. ---------­
~al ~~~ base da ~ngústi~de
encurramento que lhe é correlato. Nesta medida, as estaCãS"d õ curral p or onde
a criança circula s ã _ (onde a angústia de devoração
7~~
-r.!
\ ca.2tração - a c;pr~são!
no real, da ausência de pênis na mulher, ap...Qio efic-ª.,z
ol!..d~duç~o ° ~? !
par;:.
7
a....:r...:e.::a.::=
diferença sexual.
liz::a:.r-=q!;u e:..:.,:
h::á:...u
=m::.:a:....r,.
p,.::a:.te
r.:.;:...,:
d:.;;o.:s...;h~;;;mano
u =;;;;~;.;s~q.;:u::e:...e:.
' .::astrada
c.::.:; e estabe
_____
Iece r a
produz o sigpificante f<í,bico) do falo (que significante fetichis-
ta substitui), dem arcando os pólos opostos do trânsito possível. N~ois
p on-
tos extremos do estiramento da rede e e~m toda sua extensão, o s..llieito produz
J .~ ~
à \}
..

Essa constatação de que a ~ãe é privada de falo implicará o bordeamento


metonimicamente o simbólicQ.
do objeto no real: ind~, supõe s~.~resenç~p'ossível,
A criançil- tem aí ins!!umentos para questionar sua identificação fálica
~ p:,rfurand_o, assim, a ordem simbólica com o reap28. A~mã~~le ~ap.re­
im~g~ ri~, que implica renunciar a ser o obj;tõdo desejo materno, pois per­

---
endida como marcada por essa falta fundamental, que a criança já preenchia
-
com seu ser antes de poder formular o que completava e que, mesmo se desco­
mite problematizar-se quanto ao seu lugar "To be or not to bel ". O desejo do

Outro toma aí valor de sinal, que se ilumina no lugar que se p ode chamar de

nhecendo, esperava também completar-se. t; ic!iC}1}_Ç!l _~~if!rencia os sex~~


eu do suje,l!:o, mas concerne ao ser pondo-o em questão, anulando-o ao real,

ag~ despossuída da imagem fálica que realizou e constata a distância que a


interrogando a criança desejante: "o desejo do Outro não me reconhece, el~ põe

s~para da imagem amada q~~ até então su~unha ser. Alguma coisa é desejada
em causa, me interro~a na raiz mesma de meu desejp, a n:im como a, como causa

pela mãe, algo a que a criança sabe não coincidir: há na mãe um desejo outro,
~ d~ste de~jo"l32. A a,!}gJ!stia ~ castração se increve~ relação a esse ciclo p ro­

h~n~e ue a criança é inconveniente e istQ...Pasta para


gressivo da demanda, n c;..q!-.1e ~~cOI!!P}eta a ~gre~~~iu

mostrar à criança qu~ o que ela antes sup~a ser é insuficiente e discordante: e ~ta. O sinal da angústia se liga a esse põnto de estranheza situado

"as primeiras vezes onde o sujeito faz estado de seu instrumento, e mesmo o exibe, no Outro, além da imagem que representa a ausência onde o sujeito é: "o

oferece-o à mãe, os bons ofícios, não temos nenhuma necessidade aqui, do pai. [...] o que essencial deste tempo -<p central [... ] o momento de avanço do gozo d~o c0,!!lP!:!.­
se passa habitualmente que é qualquer coisa de muito próxima da identificação imagi­ ta a constituição da castração como caução desse reencontro "133. A ~....,#
angústia se re­
- .".

nária, a saber, que o sujeito se mostra à mãe, lhe faz ofertas, na maior parte do tempo o vela c0,E00 H!.~~~s..9ue faz desse l~!! ausência. Ela se assenhora da

que se passa é qualquer coisa que se passa sob o plano da comparação, da depreciação wagem especular que a suporta e a substitui pela estrangeiridade radical,

imaginária. A mãe basta para mostrar à criança que oque ela oferece é insuficiente, ela revelando ao sujeito desejo no Outro, no seu lugar reduzido a objeto do
°
basta para fazer a interdição do uso do novo instrumento "129. desejo do Outro, onde o sujeito pode se dar conta da proximidade do fantas­

127 Seminário IV, op. cit., p. 250. 130 Seminário X, L'angoisse, lição de 22/05/63.
128 O desenvolvimento do tema foi feito a partir das lições de Lacan em 08/15/22/29 de Janeiro 131 É como Lacan concebe fobia e fetiche no Seminário /V, op. cit..

de 1958, no Seminário V, Les formations de rinconscient, op. cit.. 132 Seminário X, op. cit., lição de 27/02/63.

129 Ibid., liçao de 22/01 / 58. 133 Ibid., lição de 19/06/63.

ln
, A CRIANÇA NA CLlNICA I'SICANALtrrcA A CONSlTIUlÇÃO SUBJETIVA

ma, em que "o Outro se dissipa, desfalece, diria eu, diante deste objeto que eu sou, É deste lugar que o sujeito opera o fantasma, sustentando-se no nível de
dedução feita disso que eu me vejo "134. seu desejo evanescente, onde se coloca como diretor de cena de toda a captura
A angústia, sinal do defeito do apoio à falta, é vivida como o desejo d a imaginária, ou seja, para além do que o manteria como um fantoche vivo, pre­
so às cordas que outro manipula 138 .
Na constatação da privação na mãe, a criança situa que há interdição q~e
as_ faz,
_ a- ambas,
- - afetadas
___ pela falta do falo. Isto que a mãe
r;io'" não tem vem à luz

- -­
.,r "7 ."", ...""..

aí.
~~ -
proietag,o em símbolo. A cri~ça .!e!U~e aÇfit?J', regis..!!Fr, siq}polizar, enfim,
-
...---
d~ si~icante ~sa é~ãO_d!.,que ,!-ml e test~m~a st:.r obj.eto. Para além
ele mesmo, engajado nesse engodo e sob o risco de dessubjetivação qu~ do desejo matemo, a falta incidente é situada inicialmente a partir daquilo que
en~odo implica. priva a mãe do objeto fálico de seu desejo. Onde a potência materna fura, aponta
POLisso a angústia de castraç!Q..p-ode ser chamada de desejo de castra­ a falta na crianÇ..ª. E~mãe~~adas por falta. ­
ão. Dissipar-se é o custo a pagar caso insista em ser esse objeto, preenchendo
esse vazio: é o preço de dessubjetivar-se para oferecer-se como lugar do gozo

O progresso da situação com a mãe consistirá em descobrir o que, para
além da mãe, é desejado por ela.
do Outro, em que se destroçaria como desejante. A ;mgústia é o perigo articu­
lado ao caráter de cessã2-imé caga no momento consti~tivo do objeto a: Esta U

junção do a que, no nível do desejo genital, se simboliza analogicamente à dominância,


à pregnância do a na economia do desejo, simboliza-se ao nível do desejo genital pelo­
que aparece aqui como resíduo subjetivo; ao nível da copulação, que nos mostra que
(j>,
ela só une faltando onde ela seria copulatória "135. A manutenção do equívoco que
f~ linha de fratura da 4:!!E9s~iQ!Ed~ºe~de equiy'a~~~i!..do sujeito à demanda
.. d2,.Outro ($00) é .vazLo !;~*eI!Çi,!.1, b~rreira d~ ~sso à~oisa que f~z.sio f~ta.s­
~. ma o sueorte do ~Lo~o falo a forma d! uma falta~r.:;I utí~ 1. ~a
d~?~ "A importância da alta é ue, arater
~t m alo ara poder se servir dele, é preciso não sê-lo " 136. E~, o p.r~ iro passo
\ . dado ara . ue a criança d si e seu ser é barrar o ue ela si ~a, é encontrar
I {ju s~ificante 0.2,. recalcamento do falo, o que se faz pelo acesso à falta no
p utro, significante fálico que é razão do desejo do Outro e que a criança tem
Iq ue reconhecer no que ela pE5>eria é dividida 137. A c!i.'>-&~(
sustenta o traço de falta no.Qutro.
~

134 Ibid., lição de 05 / 12/62.

1'15 Ibid., lição de 26/06 / 63.


138 J.Lacan (1958), " La direction de la cure et les princi pes de son pouvoir", Écrits, Seuil, Paris,
136 Seminário X, L'angoisse, lição de 16/01/63.
1966, p. 637. Interessa notar que fantoche tem o mesmo radical de infante, do latim, fari (falar),
137 "La signification du phallus", op. cit., pp. 693-4.
no italiano fantoccio, boneco que fala.
, A CRIANÇA NA CLfNICA PSICANALfnCA A CONSTITUIÇÃO SUBJHfVA

3.5. O recobrimento imaginário da interdição real construídos sobre o pai, considerado como o que priva a mãe deste objeto: ué
preciso que o pai real jogue verdadeiramente o i9g~. É p~ecis.2...Eue ele assuma sua fun­
"A posição do pai real tal como Freud a articula, ou ção de pai castrador, a fun ção de pai sob sua forma correta, empírica, diria quase dege­
seja, como um impossível, é o quefaz com que o pai seja Iterada, sonhando com o personagem do pai primordial e a forma tirânica e mais ou
imaginado, necessariamente, como privador. Não são
vocês, nem ele, nem eu, que imaginamos, isso vem da menos horripilante sob a qual o mito freudiano a apresen tou para nós. É 1'!E. medida em
próprÚl posição. De modo algum é surpreendente que que o pai, tal como existe, preenche sua função imaginária." naquilo que esta tem de
reencontremos sem cessar o pai imaginário. Fi, ~e­ empiricamente intolerável, e mesmo de revoltante, quando ele faz sentir sua incidência
pendência necessária, est!2!.!urol, de algo q};!e justamente como castradora, e unicamente sob este ângulo - que o com lexo de castra ão é vi i­
nos escapa, o pai real. E ~ai real, está estritamente
fora de questão dêfíi1i-lo de uma maneira segura, que 4íL!.40. O pai toma caráter imaginário enquanto terrificante - priva-a de ser o
não seja como o agente da castrafff..o. [...] A castração é a que falta à mãe: privação real de um objeto simbólico.
operação real introduzida pela incidência do significante, Nessa escalada do processo do imaginário ao simbólico a criança per­

siia efeTuai IM,;; relação do sexo. Ê óbvio que ela corre uma série de transições míticas, onde confronta o esboço do sistema sim­

determina o pai como esse real impossível que disse­


mos "J39. bólico, que estruturava sua relação anterior, até a fixação de uma constelação

estável, que implica o simbólico. Percorre circuitos em que a função de

simbolização do imaginário seja atingida: produz fomentações míticas onde os

0J2riy'a~~ja mãe se p~ila atrás da relaÇ.ªº..9a !!lãe com o objeto de seu


elementos representativos têm funções relativas, permitindo integrar ao siste­

d~ - trata-se do algo 9ye priva a mãe. A partir de ago~lo queestãva ma algo que antes do percurso era irredutível. Movimento giratório do

fora do sujeito vai intervir e;;'quanto um personagem mitificado. ~ significante, onde, numa combinatória, os elementos capturados imaginaria­

al?ree~ãQ da c~~ç~te!!la ~ o r-aj im~ginjxi.Q...Ç..b.t~ à cria~, ~ mente se articulam, remanejando o campo, agora repolarizado, reconstituído,

fato de que ele pode portar uma interdição, numa posição portanto maciça, para completar as hiâncias de uma significação perdida, na função de criar a

bruta, porque ele é o que interdita a mãe e a criánça ~omo obje!g, eEão é sim-
P~lesmente uma assombração: o ~ desejo da mãe é de um Outro. Tornª-=se, p~r­
,; "

tanto, um~islador que faz obstáculo entre a crianç~mãe. A criança, que


.,.",-.. - -­
verdade que está em causa .

-
estava encurralada na relação com o desejo da mãe, em que supor-se desejo de
desejo era risco de sua perda, situa a intervenção, junto à mãe do testemunho do
grande Outro, produzindo a presença de um termo que até então não estava em
r
jogo - alguém que pode responder em qualquer situação que o trunfo maior, o
falo verdadeiro, é ele quem é. A~.da_Q_Qai como m~d00L<l.~~ ?
~oisa que está além...dela->-~ seP..!ichos, a lei c~o taL
E~~, demonstrado como limite insuperável;
~I invadindo, do exterior, o campo onde os significantes são metonímicos, jogam
1­ a relação imaginária. O caráter de pai real da interdição, que o faz perdido,
iJ, á
)' -", será reencontrado imaginariamente, ao assumir, para a criança, a ersonagem
do_pai imaginário em sua onipotência terrificante, erigida sob o símbolo a
') pa!e~idade. Esta erso a e in od zir' no su'eito a sibilidade de s~
~ \> bolizar
~
a perda, através da constituição
.
do imaginário. Trata-se dos mitos

139 J. Lacan, Seminário XVII, op. cit., p. 121. 140 J. Lacan, Seminário IV, op. cit., 1995, p. 374 .

.,.,/:
A CONSTI1UlÇÃO SUBJETIVA
A CRIANÇA NA CLINlCA PSICANAlrnCA

Não é de surpreender que o temor à castração, que aí se promove, seja o 3.6. O laço da metáfora
retorno da agressão dirigida ao agente da interdição. Na agressividade ma­ _ O Simbólico incide no Imaginário
nifestada pela criança, em relação aQ..2.&ente paterno, e ~ ~
q~e lhe interdita..a mãe é~te!2-o~ criança I?rgjeta imaginariamente suas
tV - intenç~ag~~s.ivas. ALinal, o temor diante do pai é centrífugo, tem seu cen­
- -- - -- , - , - - ­
tro no sujeito.
- A c on;tatação da castração materna é a intervenção por onde poderá vir
a ser introduzida efetivamente a ordem simbólica, onde o reino da Lei mostra­
rá à criança que ela não tem chances de ganhar. Não se trata portanto de meta­
morfose natural, mas de uma necessidade de estrutura - a Lei que dá sentido e \

que em todo o exercício do jogo esteve latente: "Supõe-se evidentemente que o


outro lhe sugira a todo instante uma regularidade, [...], uma lei, que ao mesmo tempo
ele se esforça por lhe furtar. A instituição de uma lei ou de uma regularidade concebida
como possível, aquela que propõe a parte oculta do jogo, escamoteia-a, a cada instante,
do outro, ao mesmo tempo que sugere a ele o seu nascimento. É nesse momento que se
estabelece oque estáfundamentalmente no jogo, eque lhe dá seu sentido intersubjetivo,
situando-o numa relação não mais dual, esim ternária. [...] é necessário introduzir três
termos para que se possa começar a articular algo semelhante a uma lei "141.
Nesta situação de angústia onde o real de sua perda o convoca, o,sujeito
o p_
está inserido numa estrutura simbólica com sua estrutura imaginária: "não é ele
-- --
~ quem puxa as cordas do simbólico; a ~ ~ea~~el{'142. A lei, a ser
------ posição, a criança
...
o, operado na frustração coE:!. a introdução d
c!emanda materna, situava a crian~a como ~s~ ~ ~º~. Dessa
instaurava sua significação no único IUgill:.p'J:lssível: metonímia
~.....",.... -
ainda representada, incide, apesar de não poder ser localizada pela criança:
d9 falg!,fla~Q, na equivalência e".l..9.ue sugunha ser o oI2~Q imaginário..do
"sob aforma velada onde, enquanto não apareceu ainda, mas pai existente na realidade
desei~te01O. A constatação da interdição dessa e!,lllivalênda imP-ossívelcri­
mundana, quero dizer, no mundo, do fato de que, no mundo reina a lei do símbolo, já a
ança : f~~ localiza o obieto de desejo matemo numa posição de exterioridade
questão do falo é colocada além da mãe, onde a criança deve referenciá-Ia "143. Por trás
com relé!.ǪQ à criança. Essa aRfeensão foi imaginarizada nasonstruçã~~
q,a mãe se p~rf!.La a 9E!.e!!1 slmbQ!!.ça e .2 objet.o da ordem simbó!ica - 0É!2­
s~o - ainda por ser constituído. Ay-osição do sig!!ificante do pai projeta
t do~rível e nec~io interditor, demarcando assim a ex~riência da pe.;.2.a. E

-7 o plano simbólico.
possível agora tomar o W
em~.~çã~ verdadt:;.i ~a - o ,9.~e une o d~sej2..à lei.
O ~ado como ~simJ:?.ólipo.
Isso indica a aniquilação da alienação na qual a criança estava engajada e
a conquista do caminho por onde nela se deposita a inscrição metafórica: na
passagem do (_ep) (pequeno phO da imagem fálica de um lado a outro da equação do
imaginário ao simbólico, positiva-o em todo caso, mesmo se ele vem preencher uma
falta. Por mais suporte que ele seja do (-1) ele toma-se <1> (grande phi), ofalo simbólico
145
impossível de negativizar, significante do gozo • 11

141Seminário IV, op. cit., p. 134.

142Seminário V, Les formations de j'inconscient, op. cit., lição de 22/01/58.


144 J. Lacan, Seminário V, op. cit., lição de 22/01/58.

145 "Subversion du sujet et dialectique du désir dans l'inconscient freudien", op. cit., p. 823.

'" Idem, ibidem.

119
A
, CRIANÇA NA cL!NrcA psrCANALtncA A CONsrnurçAO SUBJETIVA

Aol omentar os desdQbramentos do mito, a criança !!-ca s~-'::>?!lm)d~ com relação à mãe, M. É na medida em que algo se terá produzido e constituído a
f~o~amento estrutural da interdição, pogendo portAntQ_12rescindir de qual- metáfora paterna que se poderá situar esse elemento significante, essencial em todo
r ~ __ ---- - - - - .---- ~ ­

(, quer consistência concreta do pai, para


~ - que se est~beleça
. _.
o padrão de medida desenvolvimento individual, que se chama o complexo de castração, e isso tanto para o
dos ::bjetos~ homem quanto para a mulher. Temos portanto que formular a seguinte equação:
Uma constituição simbólica é, portanto, conferida ao falo: "E porque este
'\"
obieto é portado à função de significante? Justamente para preench~e lug.ar [. ..] que
­

é simbólico. Que lugar é esse? Pois bem, é justamente o lugar do ponto morto ocupado
(~) M- ~ +S148)
pelo pai, na medida em que, já morto. [...], este é o ponto onde tudo o que se enuncia '-- ..------.- ­
torna a passar por zero, entre o sim e o não. [...] Nl~ma palavra, fI lei. para se instalaJ É o que pode ser lido como: a substituição pela qual o pai (P) ocupa
t:> c0!!!!!.!5. necessita, como antecedenle, a ~JlJi:ele qH! ~orte~ 46. o lugar da criança (x) na relação à mãe (M) liga (-) a metáfora paterna à foice
(~) da castração, somada à significação (s) onde o x encontra sua solução.
!~
,-....
Um significante faz-se causa e instrumento do desejo, tomando, por isso,
o lugar metafórico do significante metonímico em que a criança consistia, ves­
tida de significante metonímico do desejo da mãe: "A castração é idêntica àquilo
a que chamarei a constituição do sujeito do desejo como tal- não do sujeito da necessi­
dade, não do sujeito frustrado, mas do sujeito do desejo. [... J a castração é idêntica
Fixa-se, portanto, um dado irredutível: o ~~.
àquelefenômeno quefaz com que o objeto de sua falta , do desejo - já que o desejo éfalta ,
tr~l~.l~~!i~.~..s!~J~§~ca, é traço que elide a posição que até então referenciav
sQ:!, en'rnossa experiência, idêntifo_ao próprigj[l strumetllj)~o.JiJ:.s.e.jo, o/f~ O objeto
~,...a çrianç~, alocando-a numa significação a ser ~~cifr~a, u_m ~ qu~lhe..EerlPite
de_suafalta, do desejo [...JdElE! para ser caracterizado como objeto do desejo e não dessa
interrogar-se sobre sua significação, fazendo-se efetivamen te d!:?ejame. A cas­
ou daquela necessidadefrustrada, a..dvir ao mesmo lugar simbólicoEue vempreencher o
tração substitui, assim, m~p;;spectiva mais fecunda e dialétic~ (a(;"""p ai pode­
pr2E.rio !.!:!2!.!.I-!!!!E:! to do desejo, oJ alo! isto é, este instrumento, na medida em que é
se rivalizar, assassinar, identificar), a alienação materna que a antecede.A portado à função de significante"149.
negativização do falo, no lugar imaginário em gue a criança o situava ~
A mo:...s:...t_ra_çã
-'-....;_real
o _________
d a exce~ã
ç-1?, a consistência imaginária do interditor ~ ~
assume função simbólica e inaugura o campo onde a castração tem vigênCia, po~ão simbólica de onde a mãe nomeia seu desejo pe~o
1~00rizando a ~~sagem da inscrição da falta no sujeito (~o). Ao N~i, onde o vácuo de seu significado é repetido em significante, ~s­
representar a lei, a criança torna o pai o elemento mediador do mundo simbó­ ~ criSão d ª-Eerda.Que a efeJya. A criança se situa, agora, com referência à função
lico e de sua estruturação, a simbolização da lei: "A f~e "
do pai. A J2..osse do falº-P-ê2.P ai confronta a criança com a falta_Simbólica do
Éi!iE!!J-ser um significante substituído ao significante, isto é, ao primeiro significante oljeto imaginário: operação real da castra ão onde não ser' nem ter o fãIOéO
introduzido na simbolização, o significante materno [...] su!8!!.. segundo a fónn ula [. ..] qUE} perm~ çria~~es.ejá-~~ no lug~nde ele é ~~o: "a castração é o
da metáfora, s~!ge no lugar da.J11iie [...] da 11J..ãe que já e~ava ligada a algo que era x, ultrapassamento (a pacificação) da angústia de castração"'50.
quer dizer, algo que era o significado na relação da criança com a mãe "147. O talu.t promovido sob a forma de uma falta irredutível, que interdita a
A ~ubstituição, pela qual o pai ocupa o lugar da criança na relação à eq....~lência cr:.@nça-falo, co~tituindo a disjunção que une a susteni?çãodo
-
mãe, é a castração simbólica em que a criança enconJra sua soluç.!llr "Temos, no
,..--
d~i9 na impossibilidade do gozo. Diferentemente da identificação primária

-
CompJexo de Édi12Q.,~.11dgar x, aqJJeLe onde está a criança, com todos os seus problemas
-_ ... --­ do traço unário, não se trata mais" da assunção, pelo sujeito, das insígnias do outro,

148 Seminário IV, op. cit., p. 390.


I...Seminário Vlll, op. cit., p . 289.
1,9 Seminário VIII, op. cit., p. 288.
I·" Seminário V, op. cit., lição de 15/ 01 / 58.
J50 M.-I. Sauret., De l'infanlile à la slruclure, op. cit., p. 281.

nn
A CRIANÇA NA CLÍNICA l'SICANALtncA A CONSTITUlÇÃO SUBJETIVA
,

mas desta condição que o sujeito tem de encontrar, da estrutura constituinte de seu
desejo da mãe
desejo, na mesma hiância aberta pelo efeito dos significantes daqueles que vêm, para
ele, representar o Outro, pelo tanto que sua demanda lhes é assujeitada "151. ~ significado ,d~d sujeito
proibido a quem é su'eito à li e se funda sobre essa interdição. O sujeito
<~ -----
'F/afllarra aJeLa..2.-g~ - o gozo comporta a marca de sua interdição, -­ aEonta a o pai simbólico vem, através do significante Nome-do-pai, operar a substitui­
f<tita no sign!tiqmi e. O o 'amais é leno ara uele ue fala só pode ser ção do desejo da mãe:
meio dito, pois o significante do sujeito é traço que não se pode contar na bate­
N ome-do-Pai
ria de significantes do Outro, mas sem o qual nenhum significante representa
nada para outro significante. ~enhuma palavra pode agarrar o deseLo, jL~ desejo da mãe
e~e se funda naj mp_Qssibilidade mesma da palavra. Afinal, o 9>~~
vr d~ enunci~ção m~s não cabe no ~unciado. ­ ue o vazio da sümificacão do pai real se instaura,
A .E,osiçãO do g,ai, enquanto o.....9.ue ~ o falo, desliza a criança para pe.rmitindo à q iança mobilizar seu desejo de sujeito.

--
uma posição terceira, aI m lugar entre o desejo de sua mãe o falo, valor
~
J A função paterna é experiência de ordem metafórica, enquanto substi­
simbólico, em posse do pai, o que sempre ganha, o que está mais além da tuição que mantém ao mesmo tempo o que é substituído, tensão entre o que é
mãe: "Não é por nada que, no mito freudiano, o pai intervém no modo o mais eviden­ abolido e o que o substitui. As~ a metáfOIa...ap.Qn@..Que Q NO~B.é!i (mar­
temente mítico, como sendo aquele no qual o desejo submerge, esmaga, se impõe a c~ é y-tn si&!.!ificante substituído ao primeiro significante introduzi~a
todos os outros. Não há aí uma contradição evidente com este fato, dado pela experi­ siQlbolizaç!g (<1>, o significantefálico), mqntendo, na susbtitui@o (qL{e A, enqypn­
ência, de que, por sua via, é toda uma outra coisa que se opera, a saber, a normaliza­ to.tesouro ~g?1ificantes marca), o q:ue foi abolido:
ção do desejo nas vias da lei? [... ] A necessidade da manutenção do mito não atrai
nossa atenção sobre outra coisa, sobre a necessidade de articulação, de apoio, da ma­
nutenção de uma função que é esta, que o pai, na manifestação de seu desejo, sabe a 5(~J
qual a seu desejo se refere? O pai não é causa sui, segundo o mito religioso, é sujeito
quefoi bastante longe na realização de seu desejo para reintegrá-lo à sua causa, qual­ Na operação metafórica, o Nome-do-Pai que faz surgir o sujeito como
quer que seja ela, a isto que há de irredutível nesta função do a [ ... ] Ora, esta relação significação e como criação metafórica; a ~gnificação está sob a dependência
e~tdesconhecimento do a é alguma coisa que deixa sempre uma p'orta aberta . ['.LO
d~ dos s!~icantes possíveis (represe~tada por A, o tesouro dos signi­

ficantes), que só se sustentam ao manter enlaçado o gue é abolido, o traço ~e
mantém o significante simbólico d o desejo (<1». O que equivale a:

(5 (.f.))

Ou seja, a cadeia significante representada por 5 só vale em relação a !t:


(Outro barrado), ou seja, enquanto..tesouro d~ significantes menos um, que é a ~
maJ.ca do sig~o~d~s~ejpdQ. s~iwp ·
Portanto, a escrita da metáfora paterna aponta a existência de um laço na
cadeia significante e inscreve a estrutura do sujeito que se coloca sob a cadeia:
151 "La Direction de la cure et les principes de son pouvoir", op. cit., 1966, p. 628.
152 Seminário X, op. cit., lição de 03/07/63. Nome-do-Pai ~ (A 1"(s(A))
153 Lacan, J. (1963), "Os nomes do pai", Seminário de 20/11/63, Che r.rnoi?, ano 1, n" 2, Porto SigniliCadop SujeitO --> 5 01>
Alegre, Cooperativa Cultural Jacques Lacan, 1986, p. 26. ~
177 ,.,,
, A CRIANÇA NA CLÍNICA PSIcANALtncA A CONSTITUIÇAo SUBJETIVA

A metáforayatema é çonstituída d~ ~!!la _$ilTIPJ)Ji~ação, substituição do jeito como já suportando a castração, encontra uma instância onde se realiza­
pai, enquanto significante, no lugar do desejo a mãe. A~ o uma instância que tem o falo, o sujeito pode interiorizar o ideal-do-eu. O pai
aparece aí como ato de dom, ele é ~or do gue falta à mãe. O ideal-do-eu-:-que
-
n~vo m~otQLessencial é o "r!Q.JpgaL de", mola mestra do progresso, que peJ:=.
-
m~ , efetivamente, si~ar-se, inserindo-se numa posição no campo assims e articula, permite que_a c..di~nças.!lpe!e o complexo, te~do o título vir­
o ~_ . • -~­

simbólico. tual de Eoder ter um dia o que ~pai ~em: Na metáfora paterna joga aí o papel que se
Trata-se de recal5We: a perda simbólica de um objeto imaginário aliena, pode esperar de uma metáfora: atingir a instituição de qualquer coisa que está lá, que é
por meio da metá~ pa~ma~ o sigrÜficante do desejo à linguag~m. A~esej9 da ordem do significante, que está lá em reserva "1 56.,
de ser, a criança substitui o desejo de ter. As substituições implicadas nos des­ O ~~i~~fica a9 p~(ü-ª-m~d9 e o !ut.2. do Q~ip.Qt€!nte privador
~ ---~--­
dobramentos de sua demanda mantêm a insistência do desejo - que não cessa re ~!.na~ssimetria que a partir daí se apresenta E:!}tre o me­
de não se inscrever na repetição. Cativo à lingua~, o s~jeito só Il-ode mani- /. nino e a men~afin~entQ.Çi e qu~n~ tem o falo ~ rmi­
fe~tar seu desejo recalcado no limite do significaIJ,te, 0I2..d e as substituições te qu~~o to~e, e~quanto mulher, àE~~a de ter um filho, para o
significantes metonimizam o ser do sujeito (real), através da demand~ ~~­ meI1in,Q, a identificação ao pai comporá o ideal graças ao qual ele poderá, um
~ li5 a) dos objetos substitutos que poderiam realizá-lo (imaginário).
< -
dia, tornar-se pai.
-' ------:-:-~­
---~

Se a resolução aqui implicada retirou a criança da alienação ao desejo AfinaP57, o recal.9 ue prim~ é o fato d ~es!;}!.tura3 m,...9.~~3-!'e~ç~ do
matemo, a castração torna-a sujeito desejante, permitindo que possa transitar sujei!2_a~er é dem-ªrcada p:!2. e,:í!l,o do sa,ber..9!!-e o determina. E o que o
para além do empuxo imaginário, numa superação da atenuação imaginária falo implica: "o mistério que nenhum saber poderia desvendar". O)alo ocu~
onde se implicava. Esta é a operação de alienação do de.§ejo à linguagem, <ll! . lugar de uma ausência de saber, mistério sem nome, eni~~ínfiniW. Na des­
seja, o sujeito se constitui atrave$sado pela barra que constrange seu s~ó coberta
r da castração do Outro, fica sem resposta a questão
------­do ser que conviria

aparecer representado pelo sigqificante. Tal estrutura divic!e O sui!i!o, em par­ a seu gozo, mas na passagem do falo para a potência paterna, que delimita e

r te, num eu (moi) do enunciadoi em outra parte, num eu V'e) da ~.n,lfficia~o ~~

-
o sujeito do inconsciente suporta o enunciado. Assim, a ordem simbólica
--- - ' -~
mediª-tiz~a.rgla ão ima inária do su'eito com O real. O desejo do sujeito passa
vetorializa esse saber, estanca-se o saber que até então era infinito. Enfim, o
s~jeito sai da posição objetaI indeterminada da demanda do Outro, pelo recur­
so ao e,ai, aquele que supostamente sabe determinar o que isso quer, gU~P2de
pela demanda do que o substitui imaginariamente. O falo simbólico, destina­ ter o domínio da demanda materna: "[ ... J este saber transforma aquilo que era
do a simbolizar os efeitos do significante no sujeito, suporta evidentemente a D~an.da indeter:!:i':!!!..da do Outro .:!!!-~a:dq;;lÍnad~ ~ do
falta a ser que o significante introduz: "isso deixa uma imensa latitude nos modos PEi. [.. .] Se ~ saber suposto ao pai pode domina r: a demanda, que era indetermin::da,
e meios nos quais isto pode se realizar"154. O ~alo simbólico permite o tempo de então essa demanda torna-se determinada, tal como o saber do pai pode dominá-la.
identificação e do~or. Co,!! essa demanda vamos poder jogar, jogar naP!ilo que chamamos habitualmente
O declínio do complexo de Édipo marca a dialética do amor e da identi­
fa!!!!!!!!!3' Va!]1Q~J2'pder nos situar como objeto determinado face a essa Demanda, não
ficação, termos que são aí absolutamente indissociáveis. Disso depende efeti­
ar;j..scando nada, por ue ela é determinada elo saber~eosto ao pai, ~aber que dela nos
p~gf. Ent~mente,~ão!!.!!EiS a eemanda indeter­
vamente a saída do complexo de ÉdiQo. N.:;ste ponto em q!.:le o falo é restaura­
mi~.!L~,.g.p-04iEJ:1g.s_absorver'' l58 .
do como o ~~jeto desejado da mã~, o pai s.!Mge, nã2,E1ais com2..P_~ivador, mas
A criança toma a referência paterna, colocando-se no lugar do pai, o por­
como capaz de dar à mãe o que ela deseja: "É pelo tanto que o pai pode dar à mãe
tador do nome: assina seus atos com tal nome: "o sujeito não pode ser consciente
isso que ela deseja, pode lhe dar porque ele o tem [...] quiàíd~ific;çq;;"issa Í1~cia
______ n _

pa!E:,.na ~r_s.: "155. O pai é revelado enquanto inteIYém como o 9 ~


- --- --
efetivamente Q. falo . Na medida em que a mãe, imaginarizada ao nível do su­ 156
157
Idem, ibidem.
Seguiremos, nesse parágrafo, as posições de Gerard Pommier, A neurose infantil da psicanálise,
Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1992, pp. 86-96.
ISoI Seminário V, op. cit., lição de 22 / 01 / 58. 158 C. Calligaris, "A questão do fantasma na clínica psicanalítica", Seminário realizado em Salva­
155 Idem, Ibidem. dor (1986) e difundido pela Cooperativa Cultural Jacques Lacan, pp. 27-8

'1<:
A CRIANÇA NA CLÍNICA PSICANALtncA A CONSTITUIÇÃO SUB]EIlVA

,i'
~
o
~ de suas próprias candições de acessa à patência fálica, que sãa as da ternária edipiana. te ela alteridade de um agente, cunha-se uma regularidade de alternância,
Uma tal incansciência é qualitativamente distinta daquela provacada pela angústia de onde o diferencial que opõe tensão e al2à~Jguamento é articulado numa expe­
castraçãa da Outra. Agora sãa as candições e a .objetiva da recalque que serãa incansci­ riência de satisfação, on~senç.a e ausênciaintercal~a automaticidade
.....
" entes. Com!!)!.oderia 02Ujei10 saber que, aginda, pracura obter uma potência equivalen­
te,à da rqi, e assim tomar s~.É!gar, "matá-la"? Ele vai ig,norá-Ia, tanto mais que a que
pracura atingi~_graças a essa potência, é perdida, matematicamente, a cada tentativa. há, de sujeito, nesse momento mítico: uma matriz ~bQlica acéfala que permi­
'Qefaf..a, se ele quer a p.Qtêncill , é precisa imi~ai, eesse último só é recanhecido coma te a alternância tensão e apaziguamento aP22xima o organismo à consistência
'i-. tal se já passui a mãe. Assim, a pot.ê!!,çia será adquirida em pura perda. É preciso que a ~aginária que lhe é suposta pela subj~ividade ma~. Dis!~gu~ oz
~( ' ~ p~rtida já esteja decidida' para que se passa jagar, e dessa contradiçãa incampreensível ganismo como algo de real ra a mãe~a ~c~tre os ~os (t~ e
:: a sujeita nãa paderÚl ser consciente, nem da meia - a assassinato - nem de seu fim - a apaziguamento) q~ simbólica ~ ~n­
.:/ canquista da mãe"'59. tidos em ue o a ente matemo inter reta o ~ 12m: encarnar-se, qual
J O pai tem, portanto, duas funções, a despeito de jamais estar plenamen­ falo, como i~ia. Foi o que nos permitiu planificar R, S, I como três linhas
~ te Lal~_~ operação gue ele implic~ijEn uanto potência fálica , o pai é o ~as e mãTeávcis, que sofrerão deformações contínuas.
.~ imbatível com que a criança rivaliza para a posse do falo ~Enquanto transmite j ) Diante dessas incidências, o organismo pode ser caracterizado como um

% o nome, o E.,ai permIte-à criança que o porta preten&r possuir sua potência e, funcionamento simbólico pre~ o ~l~ al ternância que articula t~ e

IJ
J

~
portanto,amá-lo.A~~~~~­

saber, ;;;;;;q;;
--
' S\,I • mada, mas a impossibilidade de usar essa potência E~a o gozo matemo. "En­
., ~--- ......--- ­
~ f tre a abertura e a fechamenta da incansczente, a recalque erimardial exclui a carpa do
secundário sex;;Uza--e;;;;~clusãa nast etm--;;;;;;;;amplexa de Édipo..e
apaziguam~o. Desde que a alternância não compareça nesse funciona­

m~to, ele é afetado ela descontinuidade. A essa hiância nomeamos inci­


-7 dê~cia do real no simbólicç. Nesse esgarçamento da alternância }2resença­

a,-!sên<ia, qu! perfura a matriz simbólica, situamos o primeiro movimento

rl ~ do retarno do recalcado, atra;és de sua cansistência imaginária: ca~J, quando é


si~tamática, 1i,!erar na~ sa!}ha e na 19p.so, dando a ler uma perda de g;; na recalque"'60.
dagança, em ql:le o real incide no simbólico. Pela retroação da incidência

d; metáfora pãterna, pode-se distinguir aí a c~ndiçã; d; p~s~ibilidade d <;!

reS~ag!El~·
I 2 j A superação desse esgarçamento exigirá o retomo da equivalência à situa­
ção de plenitude anterior, a partir do que permite a substituição de cada
objeto concreto oferecido para a satisfação, mas estes não possibilitam o
reencontro do gozo pleno supostamente havido. A criança situa o aS!.I!te da
privação sofrida na alteridade materna e, .P9rt'!!lto,loc21iza nela ~'possibj­
lidade de satisfação, sUEondo nela o ·saber sobre seu gozo. Assim, a falta ~
--~......---- ..-.. -- ~
->;- real no simbólico é recoberta com a ima inarização do a ente matemo. Os
objetos oferecidos à satisfaç"ão tomam-se signos, simbolizam a ~ginada
onipotência mate~. Sob a sustentação desse campo simbólico bem mais
... vasto, o imaO'inário recobre a falta real. Temos assim o segundo movimento
~. _'----­
da trança.
0 A Plãe imaginada onipotente deixa pressentir-se afetada em sua E..9J.ênçia,
por demandar à criança o que, àprópria criansa, é~preensível. Duas fal­
tas se recobrem sem reciprocidade. À demanda do Outro, a cr.@nça tenta
,5'1 G. Pommier, A neurose infantil da psicanálise, op. cit., p. 93. determinar o desej9...9lle a sustém e se posiciona como te~o que o contem­
IW Idem, ibidem, p. 96. pT;,_ocupando o lugar fálico a que pode supor equivaler. Seu recurso é dar
-- - -- - -
, A CRIANÇA NA CLfNICA PSICANALÍTICA A CONSlTIUlÇÃO SUBJE1lYA

~~e tem. A ~ciência do ~o é ~eito d~são s~a _ que ber ao pai, aquele que é caEaz de dar ~ P!ª~_Q_9...I!e. _~a desej?, a .cr~.~I1S~~
sustenta o desejo, por meio dos deslizamentos, na busca do que falta à mãe situa no lugar em que ao menos um sabe o que ela quer. A criança encontra o
- e da falta, na~esmo que é dado pela mãe. o. perfil da estrutura termo simbólico que faz barragem à posição de equivalência fálica e cria
simbólica está traçado porque a criança pressente o falo constituindo uII!a algo mais: o título virtual que sustentará a sua identificação ao elemento
) fa;.ta na mãe, que ela não conse~e recobrir, ma~~l~r mediador do campo simbólico que estrutura a orientação da relação à
-~omo significação. Efetua-~ o recak amento originário. Enquanto ima­ alteridade. o. sexto movimento, portanto, faz reincidir no simbólico o 9~e,
- ....- - - .
gem negativa, é simbólica, porque é falta que poderia existir, ou seja, incide no terceiro mo~ to, tev.e caráter imaginário.
COmo significante no imaginário. Nos modos de a criança lidar com a falta, O~s~::~.~~Àss · o percurso em ue su'eito se inscreve no simbólico
o simbólico demarca a posição da criança em relação ao desejo. Esse movi­ ~e. Afinal, do investimento fálico da alteridade na criança, tra

mento se sustenta do que atinge a mãe: a insuficiência que a mantém ça-se a incidência da ordem significante na dinâmica que se instaura a partir
desejante. Portanto, ne~rceiro movimento, o simbólico recobre o ima.8:i­ da função imaginária do falo, promotora da operação metafórica do Nome­
~ário: a ~P..!:..opõe-se como falo, ~entando determinar seu desejo, do-pai, que p~rmite ao sujeito evocar a significação do falo 161. Desta forma, o
encarnand~-se como termo simbólico que equaciona a falta pressen~a sujeito carrega o verso da causa que o fende J62 , causa que é o significante que
mãe. Mas o pilar é frágil e sem saída. o.f~.~o mA­ lhe permite inscrição pela perda, que só existe depois que essa simbolização
ter!}o~Le~omo deseÍill}te. lhe indica o lugar l63 . En.tre a experiê~ atribuição fá liça e a sua significa­
( 4 } ssa posição de signo não Se sustenta. P~ue a criança se dê, ela não é
-
ção temos, portanto, o lapso que a trança percorre, lapso não apenas enquanto
--­
o falo materno. E se pode Supor-se ser, el~ão_tem como defender-se, ~
~
con..!.ingê~. ci~Je~poral como também enquanto formação do inconsciente, ~
engolida e anulada. Por esta via, a criança precisa buscar algo que a defenda estrutura temporal re vefSívae~ue ~ração retroage ao recal~amento ori­
do des:i ~o. É ..2-qu:3-.0b~ar-se com um existente real ue
0
P~~rdita a ~e. A <2lança constata que há um constrangimento gue --
ginari0..Rara e con enr slgni lcância, no apres-coup que promove a articulação
- mas não--...recíproca.
circular -----­
incide nelas, obs~ulo intr~ponível entre criança e mãe, o ~
~ tro do outro. Nesse quarto movim~o, realiz~e p ortanto, o.3s g arçamento
r~l do sUuQ<.2,lico qu~, na trama complexificada, o E!imeiro movimen­ ""'1
t$ e, a~da,.integra todos os outros, na ordem ~~umeração fecha.
;). o. obstáculo intransP2nível ent~riança e mãe será transformado pela cri­
ança n.9 m.J.!o d~oniEQtêl}~Eaterna. o. caráter d;Pai real que o faz perdi­
do é reenco~o i~&....inariamente, personific'!f!o e~o, Portanto, se essa trança ordena a estruturalidade de um sujeito cons­
mitificado em sua onipotência que, apesar de terrível, defende-o da voraci­ trangido pelas dimensões R eal, Simbólico e Imaginário, seus movimentos n~
da.!:!e materna ilimitada. Toda a transição mítica que articula a idealização, se~ uperam, eles se mantêm na constrição que os enlaça. o. que foi considera­

o temor e a agressividade é aí produzida. Nesse quinto movimento, cuja do no trançam; nto como linhas implica a retroação que lhe confere sua con­
\\ estrut~ra rep~te co.m, ~utro elemento o segundo movimento, perlªz~se_o dição circular.

e rec~ento unagmano d.Q -p ai real.


A exaustão combinatóda~~,ticu1ação forrn~s @p~S:ibilidade
das da
se! o falo materno es ota a ermutação da rela ao una mana da cnança
de
,., CF. Nina Leite, "História e estrutura", Dizer, n" 7, Revista da Escola Lacaniana de Psicanálise,
cOEl o re~. Produz-se a metáfora paterna, o sexto movimento da trança, em 1993.
,.2 Jacques Lacan (1960), Intervenção no Congresso de Bonneval, mimeo.
'7 que o s.imbólico recobre o imaginário. o. falo imaginário é d~pado, posto
163 J. Lacan (1966), "Da estrutura como intromistura de uma alteridade, prévia a qualquer que

fora de jogo e sU~o por uma unidade de medida que regula as rela­ seja o sujeito", Congresso de Baltimore, A controvérsia estruturalista, R. Macksey e Donato E.
ções entre desejo e lei, conferindo-lhes uma lógica. ~p<;)(; ___ . .......
(orgs.), São Paulo, Cultrix, 1976.

1?R 129
A CRLANÇA NA CLlNICA rSICANALfTI CA A CONSTITUIÇÃO SUBJETIVA

R s

Afinal, as três dimensões se repetem, são incessantes e indestrutíveis, fa­ o oEjeto a, cujo lugar é indispensável marcar, é o cerne d--º...gozo q~
zem coincidir lei e desejo numa determinação recíproca que constringe e sus­ su~tenta.50m ° nó borromeano. É º,objeto~~e
tenta, no sintoma e no fantasma, as condições de gozo de um sujeito, ou seja, se~el~~.!~~.~~_~~~~.J2.~~iO~ id~.::tificáveis corpora!Tente como
sua realidade psíquica, orientada pela versão paterna. ma..!2!.fes~ões do co~o: "o /?3rcei!5!. J§~ que é o sujeítà, sUjeito de qualquerfrase
de pedido, é, não o Outro, mas o que vem se substituir a ele na forma da causa do d9 °
Por isso, o nó borromeu não é a norma para a relação de três funções ..!S,
_ que eu diversifiquei em quatJ~o, no que ela se constitui diversamente, segundo a des­
~,I s~~dem ..QYJI.Lexer:çicioJifterminado pela versão da n o ina ~a,
~.:) ou seja, o nó ~ orr9meanQ...é...~ ~o. A ~ão 9!:.e os mantém
coberta freudian ; , em objeto dd~cçiilb objeto da excreçãó) o'ol§!) aB É !l.nquanto cC>
V" li~ados é seÍnE e eni~..tica.
EsgJ~o, tracionada pela relação que a :;ustém, aloca 0.E0nto cen­
t.!:.!!J, on~curralam os cruzamentos de R, 5, J. D~arca-se aí a causa vazia
-
substitutos do Outro que esses objetos são reclamados e se fazem causa do desejo "165. A
insuficiência que qualquer gozo, que venha em suplência, implica é constrição
imposta pelo objeto a enquanto o inatingido gozo a mais (mais-gozar), alocado
no exterior mais central da escrita do nó borromeano.
da realidade psíquica de um sujeito desejante: O obieto, que Vlfla satisfazer seu O [19 ~screve as condições de gozo e permi ~tar ~ e ~es.!2..uos.
--~ ,.-­
gozo, ma!'ltém-~ irredutivelm~t.~. .ª-Il\Ur~s, é um objeto insensato, do qual não Ca ~a J,l~~ rsec0es entre o~ta as r~ificaçõ!s....92 gozo, Eor
há idéia. Atribui-se a tal objeto uma letra: "Não há nada no inconsciente, se ele é faÍta do gozo pleno que não há, onde o trabalho de qperar as relasões com o a
~ feito tal como eu enuncio a vocês, q~ com ~ ;;;;; f;;;;;;cordo. O ~e.! s~!Dst~~ : "Ã JC.alid...a~ 0-; aT!Erelhos_~o g~zo. [.. .] aP!Jrelho, não há
qgcordante. O É1fPr~jp.J!!j..5}JJ!:!!,,1Z.QrlaJ.Ej, 4~rmj&.E.~jeito enquanto ser, mas ser outro senão a liJ]g.uagem. E assim que, no serfalante, o gozo é aparelhado. [...] Isto quer
.... ~,---- - - ~
. a se riscar desta metonímia cujo desejo eu suporto, já que, para todo sempre, impossível dizer que o g~e"166.
~J
I
de dizer como tal. Se j igo que tl. pequeno i! é cauSi! do.Jl.~eio, isto quer dizer que ele não
é dela o objeto. N~o é o complemento direto ou indireto, mas apenas essa causa que, \.
......
para briucfll..f0'!!3Y-ªJavri,Lcomo fiz no meu primeiro discurso de Roma, essa causa
\ ' que causa sempr~. O sujeito é causado por um objeto que só é notável por uma ~
J e é assim que um passo é dado na teoria. O ~~a­ lCS
~ g~~~a, é a paixão do corpo. Mas da linguagem é
V v inscritível, é notável naquilo em que a lingua~feito. Abstração radical R
5
escrita com a figura de escritura a da qual nada é pensável. T!!!!..o que é sujeito, sujeito
ckP-ensamento que se fJ:pag.ina~er~ éÉ..!.erminado pelo a "164.
<t>

('
'''' J. Lacan (1974-5), Semimirio XXll, RSI, lição de 21/01/75. 165 Semillário XX , Mais, ainda, op. cit., p. 171.
166 Ibid., p. 75. \.

130 U1
'r .9~v',\fOÚ,) 1'" ~.l>('
A CRIANÇA NA CÚNICA PSICANALtncA A CONSTITUIÇÃO SUBJETIVA
, r..e'"
,~ o campo do gozo fálico (G<t» incide na experiência da apropriação dessa dizer, um laço que ultrapassa a mera jaculação de termos deslizantes um a um:
significância fálica: "U~a. Isso só se oza ar se co orizar de "na medida em que o Inconsciente se sustenta nesta alguma coisa que é por mim defi­
i)
m~"167. O ser se perde em sujeito por um significante e para nida, estruturada como o Simbólico, é do equívoco fundamental com esta coisa que se
~ t;;:T um outro significante, inscrevendo o desejo nesta contingência corporal su­ trata, sob o termo Simbólico. [... 1 O equívoco não é o sentido. O -~
sentido é aQuilo por
Y'-~ .___ ~
portada pela função fálica. A relaçã~ntre_dois si~cantes faz surgir um q~de, é ~ico, e-Eta alguma coisa, não há
s0eito na sua configuração, algo se sub!!:..a i e o significante é disso o substitu­ meios de suportá-la senão a partir do Imaginário "In. O sentido, somos red.!!~dos
r ,.---­

to, tomado ao próprio gozo fático. Este significante-mestre é a ordem a imaginá-lo.


-- ~
1\ si nificante ue permite a ubsistên ia de toda a cadeia 'm Ó ica, onde a Em seu parentesco com a boa forma, o sentido é o efeito desse funciona­
(\ ~ sig~cância fálica diferen.-:!a-se do....e.feito de sentido p<?! desigIli!La relação mento significante em que o imaginário lhe dá continuidade de substância: "o
do simbólico com o real.
- - homem e sa com a a 'uda das alavras. E é no enc ntro entre estas alavra e seu
Em sua modulação privilegiada, o gozo fálico se impõe a toda modula­
ção da experiência: "a relação [do simbólico com o real1 é o suporte de um certo
p- ~~$..~a]go §..~e.sbQ(il [, .. 1ali se coloca o sentido "!73. O s~o, a g~
do ciframento nas manipulações do ens ~.z. g,ennitem a metáfora e a
~ número de hiâncias; ele [o goz01 constitui os objetos que o ocupam. [, .. 1É por isso que, I1!etonírnia: "Não há trinta e seis sentidos que se descubram no extremo do inconsciente:
c-Ç­
no s0~e s~P..9~a:2er, no sentido de que está aí o que eu designo como é o sentido sexual, quer dizer muito precisamente o non-sens [ .. .] este sentido sexual só
ínconsciente - e (ne~a~l!!!....que o gozo fálico se inscreve - h1 o Roder, o poder, em se!!!fine por não poder se inscrever. [... 1E a linguagem é feita assim. É a!~'!.Çoisa q!:!!
~ suma, chamado, suportado, o pÇ!!!er d!.,.!:eunir isso que é de um certo gozo que, do fato o ma~gfliJ1{e..uacês.,uWv..arem o.E[ramento não che&aráj~ a abandonar o..!J$. é
" ;)
dessa própria palavra, reúne um gozo experimf ntado, experimentado do jato do [ala­ d~o, por:g::e ele está lá ,:!:ste lugar. É ~~ossa
ser, como um gozo parasitário e que é aquele dito dqjalo "!68. O s~, a~ conjugar o sCj?.s..crever... "174. Oeq~~~tej~amcon!Ea
.\

r tv n~9-.0zo ~ sua Eroiblç.ão, cor~onde à funçã~patema, é efeito do simbólico


real que ~oliza ~.2..0z~o e I?rote~ c~ o des~ejo do Outro!69.
L0.9-lizado ~~.!!São do imawário com o si~ e suportado p~a
es~o de sentido que a linguagem também permite.
A opacidade do sentido se ~\l~a suª 1!wçª-9~de ?ll.Qstituição ~ fal~a e,
nesta medida de suplência, o sentido resRonde pelo real, "o p~ .-'

e~~l, está o vago gozo do sentido, do_corpo que fala: "se que aí se nomeia alguma coisa e isso faz surgir a diz-mansão, a diz-mansão dessa coisa II\/l e l }"
pensarmos que não há o Outro do Outro, pelo menos não gozo do Outro do Outro, é ~ -----
V va~a que ~ e que tomam seu....Essento 119_RÇEj "175. N~
bom que façamos a sutura em alguma parte. [. ..] tudo isso para fazer sentido"170. O eS~Q fu~ im~Sinário elJl_q,ue~ '2.....5~ido se toma uma
funcionamento significante, enquanto reduzido à dimensão pura do simbóli­ e~eriorid~-º-S.orp~ .
co, é o registro do equívoco, já que é encadeamento de termos envergáveis em ;; O ~(~, localizado na intersecção do Real com o Imaginá­
todos os sentidos. Na cadeia simbólica, os Uns" são todos feitos da mesma manei­ r~o, refe~-se22. gQm...Éara ~lém d~o, gozo~ gina~ ~ieito como
ra, de não serem outra coisa senão Um"!7!. Este funcionamento só é operante na p~rte~ente ao Outro, p0i'to que nada confere a~ al ao gozo do corpo do Ou.!E0.
interpolação do imaginário, que neles encontra equivalências, reciprocidades Um solitário que se conta sem ser, que não se soma a nenhum Outro numa
e dessemelhanças, produzindo valores designativos e assim permitindo, ao relação de pleno gozo. É o que implica que a função do Outro só possa ser
situada como uma diferença que participa do Um sem adicioná-lo a si, ou seja
o Outro é o U
---~ ~

In Seminário XXII, RSI, op. cit., lição de 10/12/74.

173 "Conferencia en Ginebra sobre el Sintoma" (04/10/75), Inleroenciones e lextos 2, Buenos Aires,

Manantial, 1988.

174 Seminário XXI, Les nons-dupes errenl, op. cit., lição de 20/11/73.

175 Seminário XXII, RSI, op. cit., lição de 11/03/75.

A CRIANÇA NA CLÍNICA PSICANALtnc A

A impossibilidade real que extorque o gozo fálico é suposta pelo sujeito


como parasita que faz prevalecer o obstáculo que irrompe na plenitude do
gozo fálico, onde se distingue uma referência de gozo como pertencente ao
Outro: "ao se marcar de que distância ele [o gozo] falta, aquele de que se trataria se
fosse isso, ele não somente supõe aquele que seria isso, ele suporta supor, com isso, um
outro "176. A~1.. E9rtanto, ao W Ofálico, o~o~_o q~~~es,
t / gozo do Outro, o~seja, gozo que~está ~.,go, s~JldoAn~J..el.!l.FJ~a­
19. "O OutrQ.ÉE. Outro real, ou seja, impossível, é a idéia que temos do artifício, na
medida em que ele é um fazer, F-a-i-r-e , não escrevam f-e-r, um fazer que nos escapa. A psicanálise de crianças
Ou seja, ~!!!...saber que transborda muito o gozo que pode~r" 177. N)l.,a~
in~~aç~ (~.....YJ.!Loutro gozo,.9.ue o invade iIpaginari­
a}l1ente reduz o suLeit~ a ser s~u~~o. "A coincidência de investigação e tratamento no traba­
lho analítico é sem dúvida um dos títulos de glória des­
As estruturas subjetivas são orientadas singulannente pela especifici­
te último. Entretanto, a técnica que serve ao segundo

~
dade da nominação paterna com a qual o sujeito se sustém: "vocês são todos e contrapõe-se, até certo ponto, à da primeira " 1.
cada um de vocês tão inconsistentes quanto os seus pais, mas é justamente pelo fato
de tanto estarem inteiramente suspensos neles que vocês estão no estado presente"178.
O~jeito~..ede constituir invenções para o atamento borromeano, ~ Desde a simples afirmação de que a criança, individualidade empírica
I1)t nto \1"OS pontos de fracasso do enodamento, pontos em que a fu~~ observável, é afetada por um inconsciente, a psicanálise concebe um sujeito
• metáfora paterna não teve incidência, nas versões (pe~e-~ersions) _qu~_~r­ que, a despeito de coincidir com a individualidade, lhe é radicalmente hetero­
ram RSI para suport~ r a modalização subjetiva 179 . C0!!lº-1-e~temunham o gêneo. Essa imparidade em que o sujeito do inconsciente distingue-se do indi­
-
tran amento borr m
-
autismo, as psicoses ou a debilidade, contin!Yências do percurso do
~=~
o explicitam modalidades ue escapam à condição
v~ implica uma concepção de clínica que não se reduz ao estabelecime~to
d~~aldades que os métodos de ob~rvação ~dem identificar. ~
borromeana c!il~ estrutura.
mente do indivíduo, o inconsciente escapa à correspondência da codificação
generalizável e à imQJ.l.tação de sentidos intuídos.
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A criança, este enigma de Freud, que conduziu seu biógraf0 2 a atribuir-
lhe uma inibição impeditiva de aproximar-se dela, a despeito de ter explorado
176 Seminário XX, Mais, ainda, op. cit., p. 152.
sua mente como jamais teria sido possível antes dele, sustenta ainda hoje difi­
m Seminário XXIII, Le Sinthome, op. ci!., lição de 13/ 01/76.
culdades difratadas num amplo espectro, muitas vezes.tratadas no que elas se
176 Seminário XXII, RSI, op. cit., lição de 11 / 02/75.

relacionam a uma adaptação da técnica. O obstáculo que angula essa difração


179 As interrogações de ~can sobre a necessidade de estabelecer um quarto elo (o sintho~scri­

to na ortografia antiga) distinto de R, S, I, que suportasse a nominação paterna, persistiu até o parece realizar a presença insistente e preponderante de um registro irredu tivel
final de seus seminários, deixando indecidido se o.guarto el ~ seria possib!lidade de sup~cia na constituição do sujeito. Desta perspectiva, o ~ se desvela na sobredeter­
à_e~r.u.~~ a ou con9]<>:ª,o.de estruturação. O quarto elo capaz de promover o enodamento
borromeano seria, nesta via, contingência de toda modalização neurótica capaz de sustentar minação dos tropeços, em que a psicanálise encontra a cria~ça, é _qu~~
uma estruturação subjetiva. Assim, por exemplo, Ch~e._B.!.a ~ ge~~de causª_um sujeito é heterogeneidade reincidente ao representável. Seguramen­
Jo'y~, fe1.@..p.or Lac_an, e considera que o si.!!}h.E.me é o mod(lJ~ articular de inscri}.iio da função
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do Nome, reparação de ~p~t2)racõda estrutura em qual9!:!.er sujel!ç (Cf. " Haverá um
irredutível do Sintoma?", em: Do sintoma... ao sinthoma:Río de Janeiro, Letra Freudiana, ano
XV, n" 17-8, pp. 168-175). Cabe ressaltar que, independentemente desta generalização propos­ S. Freud (1912), Cosejos ai médico sobre e/ tratamento psicoanalítico, O. c., vol. XII, Buenos Aires,
ta pela a autora, a concepção de sinthome abre uma importante via para o tratamento das Amorrortu, 1992, p. 114.

psicoses e, especialmente, para o tratamento das psicoses não decididas da infância. Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, Rio de Janeiro, Imago, 1989.

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