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UNIVERSIDADE DO ALGARVE

Faculdade de Ciências Humanas e Sociais

Departamento de Artes e Humanidades

A ELEVAÇÃO DE MONCHIQUE A VILA


Dois séculos de História

Monografia do Curso de Licenciatura em Património Cultural

Ana Rita Santos Mateus


Aluna nº 41770

Orientador: Professor Doutor Luís Oliveira

Gambelas

2013
Índice

Introdução............................................................................................................................ 4

1. O Reino do Algarve: da reconquista à Restauração do Reino Algarve ........................... 7

1.1 - O Reino do Algarve até ao século XVIII ............................................................. 7

1.2 – A Restauração do Reino do Algarve pelo Marquês de Pombal .......................... 10

2. A Elevação de Monchique a Vila - Dois séculos de História ........................................... 15

2.1 - Século XVI: Uma vila adiada ........................................................................... 15

2.2 - Século XVII: Evolução de Monchique enquanto lugar do termo de Silves .............. 24

2.3 - A Autonomia definitiva de Monchique ................................................................... 28

3. A eleição dos Representantes Locais: o processo ............................................................ 38

4. As Freguesias de Monchique: do século XVIII à actualidade .......................................... 42

4.1 - Alferce ................................................................................................................... 42

4.2 – Marmelete ............................................................................................................. 44

4.3 - Mexilhoeira Grande ............................................................................................... 46

4.4 - Nossa Senhora do Verde ........................................................................................ 48

5. O Brasão de Armas Municipais como síntese da História Local ...................................... 50

Conclusão .......................................................................................................................... 55

Anexos .............................................................................................................................. 61

2
Resumo

O projecto de Restauração do Reino do Algarve levado a cabo pelo Marquês de

Pombal na segunda metade do século XVIII conduziu, entre muitas outras coisas, à

elevação de Monchique a vila. Não fosse ela um lugar com relativa importância para

a cidade de Silves, e essa nomeação poderia ter ficado estabelecida dois séculos

antes.

Esta monografia de licenciatura em Património Cultural tem como objectivo

apresentar os factores políticos e sócio-económicos que permitiram a elevação de

Monchique a vila e perceber o que mudou em Monchique após a obtenção desse

estatuto.

Palavras – Chave: Monchique, Vila, Marquês de Pombal, Restauração do

Reino do Algarve, Silves

Abstract

The project of the restoration of Algarve Kingdom feat by Maquês de Pombal,

in the second half of eighteenth century, lead, amongst many other things, the

exaltation of Monchique's town. The importance of Monchique for the city of Silves,

didn't allow that exaltation were established two centuries early.

This monograph of the licenciature of Património Cultural has the objective to

present the political, social and economical constituents wich allowed the exaltation

of Monchique to a town and to know what changed to achieved that statute.

Key – Words: Monchique, Village, Marquês de Pombal, Restoration of

Algarve Kingdom, Silves

3
Introdução

O Algarve encontra-se dividido em três sub-regiões naturais: o litoral, o

barrocal e a serra. É nesta última que se situa a vila de Monchique e o concelho do

qual é sede, com o mesmo nome. A vila situa-se sobre um vale fértil e arborizado

sobre o qual há uma boa visibilidade, entre duas altas montanhas, a Foia a Oeste com

902 metros de altura e a Picota situada a Este com 774 metros. Toda a serra abunda

em nascentes de água, algumas ainda possíveis de encontrar, e que contribuem

também para a valorização desta região.

A estas características não ficaram alheias, desde muito cedo, várias

civilizações que foram ocupando e povoando a região ao longo do tempo e são vários

os estudos arqueológicos que comprovam as diversas fases de desenvolvimento deste

lugar. De época pré e proto-histórica não se conhecem, até aos dias de hoje, qualquer

edifício de vulto, todavia, isso não significa a ausência de gente, devido aos

artefactos encontrados nesta zona. Já na época romana é conhecida uma comprovada

ocupação, tendo as termas de Monchique como o principal reflexo dessa presença,

pois as aplicações terapêuticas daquelas águas terão certamente contribuído para a

valorização da região. Chegado ao período árabe, é na crónica de um cruzado

anónimo que participou na tomada de Silves que temos conhecimento dos castelos

administrados por essa cidade, entre os quais, além do Castelo do Alferce, também se

especula sobre a presença não confirmada do Castelo de Monchique. A maioria das

fontes atribui a Monchique uma longa antiguidade, referindo que o seu nome deriva

da expressão toponímica latina «Mons Cicus», contudo, a denominação terá sofrido

alterações ao longo do tempo devido aos vários momentos civilizacionais, sendo que

durante a ocupação árabe, Monchique seria conhecida por «Munt Saquir», que nos

remete para «montanha sagrada».

4
Como «monchiqueira» e pessoa interessada pela história desta vila, o objecto

de estudo para a monografia de Licenciatura em Património Cultural não podia ser

outro. A falta de um estudo ou trabalho mais aprofundado sobre o tema juntou-se à

necessidade de conhecer aquela que é talvez a situação mais importante de qualquer

lugar, a existência enquanto concelho.

Este trabalho pretende explicar os motivos que levaram à elevação de

Monchique a vila, identificar cronologias e intervenientes e perceber o que mudou na

localidade após a criação do concelho, bem como os efeitos que tal elevação teve

para a sua população e freguesias, concelhos vizinhos e terras mais próximas.

A metodologia adoptada para este trabalho incidiu, em primeiro lugar, na

pesquisa documental sobre a elevação de Monchique a vila e, posteriormente, do

contexto histórico, nomeadamente os reinados de D. Sebastião, no qual se achou

importante perceber os motivos da sua viagem ao Alentejo e Algarve em 1573, e de

D. José I, onde se estudou a Restauração do Reino do Algarve desenvolvida pelo

Marquês de Pombal a partir de 1769.

Não existindo um estudo mais aprofundado sobre o tema, a pesquisa persistiu

em livros sobre a história de Monchique e em jornais locais, cuja informação se

encontra, na sua maioria, dispersa. Por ser difícil o acesso aos documentos régios

citados no texto, esses foram transcritos dos livros consultados sobre a história local,

à excepção do alvará de 16 de Janeiro de 1773 que foi cedido pela Câmara

Municipal.

O primeiro capítulo pretende descrever o Reino do Algarve do ponto de vista

histórico, económico e social, desde a Reconquista Cristã, mas sobretudo durante os

séculos XVI e XVIII, visto ser esse o período que particularmente nos interessa para

5
este trabalho, de modo a perceber a conjuntura da época que permitiu a elevação de

Monchique a vila.

No segundo capítulo aborda-se a elevação de Monchique a vila, uma história

com dois séculos. Entre a decisão de D. Sebastião em 1573 e a emanação do alvará

de 16 de Janeiro de 1773 por D. José I viveram-se duzentos anos, nos quais o lugar

de Monchique reforçou a sua importância social e demográfica, como ponto crucial

para a autonomia definitiva que apenas ocorrera no século XVIII.

No terceiro capítulo é explicado o processo de eleição dos representantes da

câmara municipal, cujo método, por ter de ser fiel às Ordenações Filipinas, era

realizado de forma idêntica à maior parte das câmaras do país.

O quarto capítulo apresenta uma descrição das freguesias que passaram a

constituir a recém-criado concelho de Monchique, desde a instituição da paróquia

(freguesia) até à data da integração no concelho de Monchique. Entendeu-se não

incluir a freguesia de Monchique, uma vez que esta vem sendo descrita ao longo do

trabalho.

Finalmente, o quinto capítulo, embora não se insira cronologicamente no

período estudado, achou-se importante a sua inclusão, partindo do princípio que a

heráldica é um meio imprescindível para perceber a história dos concelhos.

Esta é, assim, a estrutura desta monografia do curso de licenciatura em

Património Cultural sobre a elevação de Monchique a vila.

6
1. O Reino do Algarve: da reconquista à Restauração do Reino Algarve

1.1 - O Reino do Algarve até ao século XVIII

A palavra Algarve deriva do termo árabe «al-gharb», que significa «o

ocidente», ou seja, a terra onde o sol se põe. Era o nome pelo qual os mulçumanos

designavam a província e todo o ocidente da Península Ibérica na altura em que

ocupavam a região, apenas fazendo sentido para quem a olhasse de longe. A

expressão manteve-se mesmo após a Reconquista Cristã e, com ela, conservou-se

uma boa parte da singularidade do Algarve, pois foram aqueles que lhe deram o

nome que acabaram por abandonar a região ou que aqui permaneceram apenas como

habitantes das mourarias ou meros trabalhadores nas hortas dos arredores urbanos e

em antigos povoados.

Todavia, este factor contribuiu para que o Algarve ganhasse uma identidade

política própria, visto que, elevado à condição de reino autónomo em 1250 por

Afonso III, «transformou-se na única região com o direto de figurar ao lado de

Portugal no título dos reis portugueses, desde a sua conquista até à época de D.

Manuel I.»1

Apesar do Algarve viver num reino unido ao de Portugal, tinha a consciência e

o sentimento de pertencer a um mundo completamente diferente. A região passou a

ser olhada com indiferença e até alguma desconfiança e os próprios habitantes eram

considerados como estrangeiros, embora falassem a mesma língua, habitassem o

mesmo espaço político e fossem governados pelo mesmo rei. Este facto estendeu-se

ao Património Construído algarvio, dado que não era reconhecido nem protegido

pelas entidades competentes, que não lhe reconhecerem igual valor em relação aos

outros monumentos portugueses. A acrescentar a isto, junta-se o isolamento a que o

1
José Matosso, Suzanne Daveau, Duarte Belo, «Portugal – O sabor da Terra», vol. Algarve, p, 643

7
Algarve esteve votado até ao princípio do século XX. A descontinuidade criada pela

serra envolve comunicações difíceis e obriga a uma separação entre as zonas baixas

do Algarve e a serra, cuja barreira física dificulta o povoamento, que se encontra, na

sua maioria, no litoral.

Importa também salientar que a Reconquista Portuguesa transformou o

Algarve numa espécie de «ilha», pois as tradicionais ligações com a Andaluzia e

Norte de África foram suspensas, a região não atraia os mais nobres, pois grande

parte dos senhores de maiores posses usufruíam dos seus bens e monopólios à

distância e o rei era uma realidade longínqua, apenas com aparições esporádicas, no

âmbito da renovação de privilégios ou dos órgãos concelhios. 2

No entanto, nos finais da Idade Média, o Algarve passou a servir como

plataforma de apoio para a conquista e posterior socorro das praças do Norte de

África, assim como para o desenvolvimento das navegações e dos descobrimentos

atlânticos, o que veio favorecer a vida económica da região. Nos séculos XV e XVI,

o Algarve manteve o seu dinamismo através do «desenvolvimento da pesca do atum

e da sardinha, os novos contactos com o litoral africano, as ilhas atlânticas, o Brasil e

até as Índias de Castela, ou através da multiplicação dos mercadores estrangeiros


3
estabelecidos no Algarve, como era o caso da colónia flamenga de Tavira.» A

presença da Coroa Portuguesa no Algarve viria a intensificar-se devido à reforma

fiscal dos forais e à redução da autonomia dos concelhos por via da doação de

senhorios a familiares do rei e a membros da nobreza, a par da reorganização

administrativa, que acabou por gerar a criação das comarcas de Lagos e Tavira. 4 O

Reino do Algarve aproximava-se, assim, do Reino de Portugal, devido ao

2
p José Matosso, Suzanne Daveau, Duarte Belo, «Portugal – O sabor da Terra», vol. Algarve, p. 654 -
656
3
Idem, p. 657
4
Idem, pp. 658 - 656

8
desenvolvimento da economia e das ligações marítimas que sempre se mantiveram

importantes, passando mesmo a acompanhar os mais importantes movimentos

culturais europeus.

No século XVI, Frei João de São José descreveu na sua «Corografia do Reino

do Algarve» (1577) as potencialidades económicas da região; que diz ser uma terra

farta e sem dificuldades, pois apenas carecia de cereais. O autor afirma que «há,

finalmente, neste reino do Algarve muita e boa fruta, como tenho dito, há muito

peixe do melhor que o mar cria, há muito e bom azeite e também haveria muito

vinho, se o lavrassem (…) somente lhe falta pão, que tem pouco, e parece que o

ordenou assim Deus Nosso Senhor pera sua conservação (…).»5 A economia

algarvia não excluía a extensa linha de costa, na qual abundava um diversificado

género piscatório, sendo o atum o peixe «mais proveitoso que no mar se pesca,

porque tudo nele se aproveita.»6 Também nesta altura, o Algarve vivia um elevado

nível de urbanização, sendo Lagos, Vila Nova de Portimão, Faro e Tavira, os

principais centros urbanos, os quais estavam, no entanto, implicados na rede das

relações agrárias, no cultivo de frutas e cereais e na criação de gado. 7 Quer isto dizer

que, as cidades concentram a habitação, mas o modo de vida da grande maioria dos

moradores é rural, dado que «(…) o artesão trata de pequeno figueiral, seu ou

arrendado, o mercador possui e olha pelas suas vinhas e olivais, o padre tem searas e

rebanhos.»8

Mas chegado ao século XVIII, o Algarve conhece um cenário sombrio e com

dificuldades de progresso. Embora Portugal e Espanha ainda fossem detentores de

grandes impérios, ambos viram-se marginalizados, em virtude da conquista e

5
Manuel Viegas Guerreiro e Joaquim Romero Magalhães, «Duas Descrições do Algarve do século
XVI» in Cadernos da Revista de História Económica e Social, nº 3, p. 128
6
Idem, p. 121
7
Joaquim Romero de Magalhães, «O Algarve Económico (1600 – 1773)», p. 103
8
Idem, Ibidem, p. 103

9
retenção da praça de Gibraltar pelos Ingleses. 9 É neste período que começaram a

chegar ao Algarve uma série de empresários catalães, que introduziram a «xávega»

como um importante aparelho para a pesca da sardinha. Monte Gordo iria

desenvolver-se, mas a riqueza criada à volta destas pescarias beneficiava, em parte,

os espanhóis.10 Para complicar ainda mais a situação, a sardinha portuguesa entrava

na Andaluzia em busca de melhores preços, e muitas vezes o peixe era transacionado

ainda no mar por quem o procurava, evitando o pagamento de impostos e alcavalas

que os fiscais dos mercados portuários não perdoavam.

Face a estes acontecimentos, a monarquia portuguesa achou chegado o

momento de resolver os problemas que a economia algarvia então levantava. É assim

que surge uma reforma rigorosamente planificada com o objectivo de alterar o

sistema que o Antigo Regime obrigava, 11 levada a cabo pelo Marquês de Pombal,

Secretário de Estado do Reino durante o governo de D. José I.

1.2 – A Restauração do Reino do Algarve pelo Marquês de Pombal

Na década de 60 do século XVIII, a diminuição da produção de ouro no Brasil,

seguida de uma profunda depressão económica, contribuiu para a crise do comércio,

para o decréscimo da produção e para a diminuição dos rendimentos do Estado.12 A

política de orientação do Marquês de Pombal consistiu no aumento da produção, na

diminuição das importações e no consequente engrossar do Tesouro com a melhoria

da cobrança de impostos. Também os problemas político-militares decorrentes da

invasão espanhola de 1762 e o estado latente de guerra entre Portugal e Espanha,

9
Joaquim Romero de Magalhães, «O Algarve Económico (1600 – 1773)», p. 395
10
Joaquim Romero de Magalhães, «O Algarve Económico (1600 – 1773)», p. 115
11
José Eduardo Hosta Correia, «O Pombalismo e a Restauração do Reino do Algarve», in O Algarve
em Património, p. 268
12
Idem, Ibidem, p. 267

10
condicionaram o modo decisivo como o Marquês de Pombal começou a olhar para as

potencialidades estratégicas, fiscais e económicas do Reino do Algarve.

Na segunda metade do século XVIII, a Coroa Portuguesa encontrou um

território rico, mas com uma economia decadente; a agricultura não era próspera, o

comércio estava nas mãos dos intermediários ingleses e as pescarias serviam

maioritariamente os interesses espanhóis em vez dos portugueses. Segundo José

Horta Correia, a vida urbana, que era «tradicionalmente muito activa à volta dos dois

grandes centros urbanos de Barlavento e de Sotavento, Lagos e Tavira, agora

decadentes, apenas era compensada pela lenta ascensão de Faro, que, desde o início

do século XVII, se afirmava como a principal e mais florescente cidade.»13 À Coroa

Portuguesa também não passou despercebida a posição geográfica do Algarve, cuja

actividade e economia marítima estava preferencialmente relacionada com o Estreito

de Gibraltar. Sentindo a necessidade de reanimar os réditos da Coroa para consolidar

o poder do Estado no quadro do Poder Absoluto, foram realizadas várias inspecções

sobre a arrecadação fiscal. O corregedor de Lagos e funcionário encarregado da

averiguação dos cofres das «Alfândegas, Almadravas, Fortificações e Sisas»

apresentou em 176014 um relatório que testemunhava a importância económica do

Algarve, no qual se lia que «não há Província dos Domínios de V. Majestade no

Continente de Portugal, que abunde de tantas espécies que tenham saída para fora do

Reino, ou se consumam no Reino e sejam necessárias em outras Províncias, o que

poderia enriquecer esta gente e produzir para V. Mejestade um grande lucro nos seus

despachos.» 15

13
José Eduardo Horta Correia, «Vila Real de Santo António – Urbanismo e Poder na Política
Pombalina», 1984, p. 41
14
Idem, Ibidem, p. 41
15
José Eduardo Horta Correia, «O Pombalismo e a Restauração do Reino do Algarve», in O Algarve
em Património, p. 267

11
Entretanto, a colónia catalã estabelecida em Monte Gordo desde o princípio do

século XVIII começa a ficar descontente com a fiscalidade portuguesa. A política de

Carlos III sobre as pescarias era muito semelhante à política pombalina, pois a ambas

as Coroas interessava incrementar a produção, evitar a fuga de divisas e garantir os

direitos da Fazenda.

É a partir desta altura que a monarquia decide intervir no Algarve e resolver os

vários problemas que se manifestavam. Segundo informa José Horta Correia foram

decretadas «reformas sucessivas, todas interligadas, estruturadas coerentemente e

rigorosamente planificadas, que no seu conjunto manifestam duas orientações de

base: continuação de uma persistente acção centralizadora, agora ao serviço de um

Absolutismo Esclarecido e alteração ou mesmo destruição de antigas estruturas do

Portugal velho.»16 Era a Restauração do Reino do Algarve.

Assim, por Decreto de 30 de Dezembro de 1772, mandaram-se unir aos

próprios da Coroa os direitos, rendas, pescarias, foros, marinhas e sapais pertencentes

à Casa da Rainha e do Infantado e, por Alvará do mesmo dia, foram incorporados na

Mesa da Ordem de Cristo, as Alcaidarias-Mores e Comendas de Tavira, Castro

Marim e Santo António de Arenilha. O Marquês de Pombal tinha a intenção de

regular as pescarias, pelo que optou por isentar os produtos secos e salgados da maior

parte dos direitos e proibir a exportação de peixe fresco, assim como baixar o preço

do sal. Ora, no sentido de reforçar as pescarias é criada a «Companhia Geral das

Reais Pescarias do Reino do Algarve», a última das companhias monopolistas

pombalinas que veio substituir a antiga organização das Almadravas.

Tendo em conta que a Restauração do Reino do Algarve não se limitava apenas

à regulamentação das pescarias, outro dos objectivos do Marquês de Pombal

16
José Eduardo Horta Correia, «Vila Real de Santo António – Urbanismo e Poder na Política
Pombalina», 1984, p. 47

12
consistia no «engrossar a subsistência do reino». Nesse sentido, a 16 de Janeiro de

1773, foi emanado um alvará régio que determinava a abolição dos «foros

usurários», aliviando os lavradores de encargos vexatórios e outro a favor da

liberdade dos negros, mulatos e mestiços do Algarve. Dois dias depois foi publicado

um documento que isentava os grãos, farinhas e legumes dos direitos de entrada no

Reino do Algarve, e finalmente, a 4 de Fevereiro do mesmo ano, foi promulgada a lei

que abolia a distinção entre os Reinos do Algarve e de Portugal e regulava os direitos

e contribuições entre os dois reinos. O Algarve mantinha a designação de reino por

dignidade histórica.

Mas a Restauração do Reino do Algarve não esqueceu a reforma

administrativa. Por Decreto de 16 de Janeiro de 1773 e Carta Lei de 18 de Fevereiro,

o lugar de Monchique, que pertencia ao termo de Silves foi elevada a vila e o mesmo

aconteceu com Lagoa, que foi erigida em vila da Casa da Rainha, indo o seu termo

até Ferragudo. A vila de Alvor, pertencente à casa da Rainha, foi extinta devido à sua

proximidade com Vila Nova de Portimão e passou a lugar do termo desta vila. O

mesmo documento alertava ainda para o facto do lugar de Moncarapacho estar

dividido entre os termos de Faro (Casa da Rainha) e Tavira (Coroa), pelo que

promulgou a passagem desse lugar inteiramente para Faro, evitando assim os

conflitos de jurisdição que anteriormente ocorriam. A localização estratégica de

Alcoutim, como ponto de passagem para o Alentejo e Espanha também não foi

esquecida, uma vez que foi criado nessa vila o lugar de Juiz de Fora e Órfão, que não

existia até então.

A Restauração do Reino do Algarve só estaria completa com a nacionalização

das pescarias do Algarve, através da Provisão de 31 de Outubro de 1733, e, depois,

13
com a construção de Vila Real de Santo António, determinada por Carta Régia

passada a 30 de Dezembro de 1773.17

Fig. 1 – Marquês de Pombal - Louis-Michel van Loo e Claude-Joseph Vernet, 1767.

17
José Eduardo Horta Correia, «O Pombalismo e a Restauração do Reino do Algarve», in O Algarve
em Património, p. 270

14
2. A Elevação de Monchique a Vila - Dois séculos de História

2.1 - Século XVI: Uma vila adiada

Até à sua definitiva elevação a vila em 1773, Monchique aparecia sempre

designada como «lugar», o que indicava um pequeno aglomerado urbano, não muito

importante. Mas a sua localização privilegiada, desde cedo, se destacaria em relação

aos outros povoados existentes na serra, tornando-se esta povoação o principal centro

político-administrativo da região.18 Monchique sempre terá feito parte do

extensíssimo território de Silves e chega ao século XVI como o principal lugar

constituído como freguesia do termo dessa cidade.

A primeira referência ao lugar com a denominação actual aparece na crónica de

Garcia de Resende, na qual vem relatada a viagem de D. João II a Monchique em

Outubro de 1495. Através desse documento, citado por José Gascon na Monografia

de Monchique, somos informados que o monarca, antes de partir para as Caldas de

Monchique, local que escolhera para se restabelecer da enfermidade que o debilitava,

passara duas noites nesta localidade. De acordo com o cronista mencionado, D. João

II «veio no sábado 18, dormir a Monchique, onde esteve no domingo folgando com

os lutadores da terra e corte e fez lutar a Aires Teles que ganhou as fogaças»19 e,

antes de seguir viagem para as termas, o «Príncipe Perfeito» ainda doou «ao povo de

Monchique um baldio na Serra da Foia que era então povoado de grandes matas de

sobreiros, carvalheiros e adelfeiras». 20 José Rosa Sampaio confirma as culturas

existentes no terreno e acrescenta que «a população podia utilizá-lo mediante certas

regras comunitárias e consuetudinárias, para apascentar o gado, recolher folhas,

18
Isabel Carneiro, Nuno Campos, «O Concelho de Monchique e as Suas Armas Municipais», p. 30
19
José António Guerreiro Gascon, «Subsídios para a Monografia de Monchique», p. 249
20
Idem, Ibidem, p. 249

15
lenha, pinhas, pinhões, castanhas, cogumelos, frutos silvestres, etc».21 Ora, este facto

leva-nos a considerar que, no final do século XV, já existia algum povoamento na

zona, bem como boas condições de alojamento e apoio logístico aos viajantes que

por aqui circulavam.

Na altura em que o monarca visitou Monchique, é muito provável que a

freguesia já existisse, tal como uma pequena igreja, destinada ao culto colectivo,

situada no local onde hoje está levantada a Igreja Matriz. Este edificado parece estar

associado à criação da freguesia, no reinado de D. Manuel, e deve ter sido construído

nas duas primeiras décadas do século XVI.22

Fig. 2 - Portal Principal da Igreja Matriz

21
Este baldio acabou aforado e dividido em courelas pela Câmara Municipal, em 1826. José Rosa
Sampaio, «Os Anos de Ouro da Agricultura Monchiquense – Uma Resenha Histórica», p.5
22
José Gonçalo Duarte, «A Igreja Matriz de Monchique», p.31

16
Nomeado em 1501/1502 para o cargo de Bispo do Algarve, Fernando Coutinho

era conhecido na sua mocidade como um homem que se rendia aos prazeres da

carne, chegando a ter comportamentos pecaminosos com mulheres algarvias. Das

várias filhas que teve, apenas uma não seguiu a vida religiosa, Isabel da Silva. A data

de edificação do morgadio de Santo António dos Casais em Monchique é

desconhecida, mas a razão que levou à sua construção teve a ver com um dote que o

prelado terá concedido a essa filha bastarda, aquando do seu casamento com o seu

primo em segundo grau e alcaide-mor de Silves, Rui Pereira da Silva.23

Nuno Campos acredita que a razão de ser da criação do morgadio de

Monchique prende-se com o facto de este lugar fazer parte do termo de Silves, que

era a sede política e religiosa do Algarve, mas também por representar uma zona

estrategicamente importante nas vertentes económica e militar dessa cidade. Desta

forma, ao criar este Morgadio, o Bispo tinha como objectivo desenvolver uma rede

de influências e poder que se estendia também ao domínio do poder civil e militar

por parte de uma determinada família e, ao mesmo tempo, ligar a Casa dos Silva de

uma forma definitiva ao Algarve.24 Fernando Coutinho faleceu a 16 de Maio de

1538, em Ferragudo, altura em que terminou o seu Bispado, o qual durou,

sensivelmente, 37 anos.

Apesar de ser um lugar do termo de Silves, na segunda metade do século XVI,

Monchique assumia uma grande importância, em relação a outras localidades, por

motivos diversos. A sua localização no conjunto montanhoso da Serra de

Monchique, desde cedo, desempenhou uma função essencial na comunicação geo-

estratégica com o Alentejo, bem como a sua proximidade com a Fóia, que, «em

estremo alta, e em cima muito chã; vê-se dela uma grande parte de terra, e a Torre de
23
Nuno Campos, «O Morgadio de Monchique no Reino do Algarve. A Ascensão de uma família», in
Jornal de Monchique, ed. nº 182, Ano XV, Monchique, 25.11.1999
24
Nuno Campos, «O Morgadio de Monchique…» cit.

17
Beja muito clara»25, permitia uma maior vigilância sobre a costa. Como sítio ameno

e aprazível, em Monchique abundavam madeiras, boas pastagens e muita variedade

de fruta, nomeadamente, a cereja, castanha e laranja. 26

As termas sempre muito procuradas «desde longa antiguidade, adquiriram a

justa fama de altamente benéficas para o tratamento de várias doenças»27 e a

existência de igreja matriz que, do ponto de vista institucional, indicava a presença

de uma paróquia e freguesia, são outras características que não podem ser postas de

parte. Outro facto importante é a existência de Misericórdia, cuja construção remonta

ao primeiro quartel do século XVI, e sustentava diversas dependências, desde o

albergue (hospedaria para viajantes), o hospital e a mercearia (abrigos para idosos). 28

Da mesma forma, a população monchiquense, que neste século não teria mais que

trezentos moradores29 (habitações), ocupava-se de várias actividades económicas,

tais como a agricultura, pecuária, caça, apicultura e tecelagem. Diz Henrique

Fernandes Serrão, por finais do século XVI, que o lugar de Monchique «tem muitas

vinhas, muita criação de gado, muito mel e cera e pão, e frescos bosques, regados de

perenes fontes e saudosas ribeiras, em que estão muitos moinhos, e pisões.»30 Do

ponto de vista social, a localidade de Monchique recebia muitos homens nobres

durante o verão, por ser um local de «tanta frescura.»

Finalmente, acresce ainda o facto de por aqui passar um dos caminhos de

ligação ao Alentejo31. Quando D. João II veio a banhos às Caldas de Monchique em

1495, ao sair de Alcáçovas, seguiu caminho pela antiga estrada romana que faz a

25
Francisco de Sales Loureiro, «Uma Jornada ao Alentejo e Algarve», p. 108
26
João Baptista da Silva Lopes, «Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do
Reino do Algarve», pp. 248 – 250
27
José António Guerreiro Gascon, «Subsídios para a Monografia de Monchique», p. 245
28
José Rosa Sampaio, «Misericórdia de Monchique: quinhentos anos de uma instituição», pp. 13-15
29
Manuel Viegas Guerreiro e Joaquim Romero Magalhães, «Duas Descrições do Algarve do século
XVI» in Cadernos da Revista de História Económica e Social, nº3, p. 154
30
Manuel Viegas Guerreiro, Joaquim Romero Magalhães, «Duas descrições…», cit. p. 154
31
Sandra Rodrigues, «As vias romanas do Algarve», p. 73

18
ligação entre Torrão e Santa Clara-a-Velha32, e dai entrou na estrada secundária que

«atalhava a Monchique, e que descia a Silves, a Portimão e a Alvor (…) tendo por

função principal servir o balneário romano das Caldas de Monchique». 33 Por

Monchique também passou e pernoitou D. Manuel quando veio buscar o corpo de D.

João II a Silves, falecido em Alvor.

Estas características não terão passado despercebidas a D. Sebastião quando

visitou Monchique a 26 de Janeiro de 1573, pois foi nessa data que a elevou a Vila.

Todavia, o monarca viu-se obrigado a voltar atrás com a sua sentença por imposição

das autoridades concelhias de Silves, das quais Monchique estava dependente, facto

que é comprovado pelo cronista João Cascão que acompanhara o rei na sua viagem

pelo Alentejo e Algarve naquele mesmo ano. Diz esse autor que «a Câmara de Silves

o tomou muito mal e vieram contra isso dar as suas razões a El-Rei, que lhas mandou

receber pelo Corregedor da Corte.»34 Como se compreende, tendo em conta as

características de Monchique já mencionadas, é normal que Silves não estivesse

interessada em ver o seu território diminuído, nem muito menos perder o contributo

de uma região tão importante que viesse reforçar a sua redefinição administrativa e

territorial. 35

D. Sebastião esteve no Alentejo e no Algarve entre Janeiro e Fevereiro de

1753. Esta viagem não foi, de todo, em vão, pois o rei vinha com a intenção de

reorganizar o país. As relações de Portugal com o Norte de África, assim como a

defesa das nossas costas, nomeadamente as algarvias, eram assuntos que já vinham

sendo discutidos desde o governo de D. João III. A presença dos Portugueses em

32
«Notas Históricas, Arqueológicas e Etnográficas do Baixo Alentejo», in Arquivo de Beja, vol.
XVII, p. 219
33
Idem ibidem, p. 219
34
Francisco de Sales Loureiro, «Uma Jornada ao Alentejo e ao Algarve», p. 109
35
Isabel Carneiro, Nuno Campos, «O Concelho de Monchique e as suas Armas Municipais», pp. 38-
39

19
África tinha diversas causas, além de razões políticas e económicas, também eram

fundamentais uma série de motivos estratégicos e espirituais. 36 Contudo, o abandono

das praças de Safim, Azamor, Arzila e Alcácer Ceguer vieram pôr a descoberto um

certo número de problemas políticos, sociais e económicos que não só afectaram a

sociedade portuguesa como, em certos casos, a dividiram.

Quando assume o governo, D. Sebastião encaminha a sua política para a

conquista de Marrocos e, a partir de então, o Algarve volta a captar as atenções da

Coroa Portuguesa. É neste contexto que se insere a viagem de D. Sebastião ao

Alentejo e ao Algarve. Durante esta jornada, o monarca observou as fortificações

para a defesa da costa algarvia contra a pirataria magrebina e estudou as condições

geopolíticas e militares que permitissem uma expedição militar em Marrocos, onde

Portugal mantinha Ceuta, Mazagão e Tânger. Já nas Cortes de 1562-1563 era

reforçada a ideia «que no Algarve se fação Fortalezas, onde parecem necessárias.»

Porém, o principal motivo da visita de D. Sebastião a terras alentejanas e algarvias

prendia-se com o facto de verificar in loco o cumprimento do sistemas de

ordenanças, no que respeitava ao treino e serviço militar dos homens que as

constituíam, 37 cuja legislação aprovada em 1569-1570, decretava que cada concelho

devia apresentar uma companhia de ordenanças, sob o comando de um capitão-mor.

Sobre a viagem de D. Sebastião ao Algarve e a elevação de Monchique a Vila,

as principais descrições da região no século XVI fazem-lhe referência, e, embora

apresentem datas diferentes, todas dão conta de Monchique como lugar do termo de

Silves, assim como da oposição desta cidade contra a elevação daquela vila. Sabe-se,

também, que o rei esteve no Algarve pelo menos quatro vezes: em Janeiro de 1573,

36
Francisco de Sales Loureiro, «D. Sebastião e Alcácer Quibir», pp.135 - 137
37
Francisco Sales Loureiro, «D. Sebadtião e Alcácer Quibir», p. 143

20
nos últimos dias de Julho do mesmo ano, a 17 de Agosto de 1574 e a 27 de Junho de

157838, mas é a primeira destas viagens que está efectivamente documentada.

João Cascão acompanhou o «Desejado» nessa expedição e desenvolveu um

relato mais ou menos pormenorizado, a que chamou «Relação da Jornada de El-Rei

D. Sebastião quando partiu da Cidade de Évora». Sendo a fonte mais próxima, é a

partir dela que temos a informação mais verosímil sobre a elevação de Monchique a

vila a 26 de Janeiro de 1753, mas também relativamente aos hábitos e tradições da

época e às características de cada região. O monarca, vestindo um «gibão e roupeta e

calças de raxa côr de rosmaninho e chapeo alto pardo»39, ladeado por D. Duarte e

pelo duque de Aveiro, D. Jorge de Lencastre, ambos vestindo a mesma cor, seguidos

por Álvaro de Meneses, que conduzia o pendão e por uma série de fidalgos, saíram

de Évora a 2 de Janeiro de 1573, precedidos de trombetas, atabales e charamelas. 40 O

percurso que toda a comitiva percorreu foi muito regular, pois saindo de Évora,

seguiram o caminho até Odemira e Odeceixe, e dai ao resto do Algarve, saíndo por

Alcoutim, de onde rumaram a Mértola, para o regresso a Évora.

38
José António Guerreiro Gascon, «Subsídios para a Monografia de Monchique», p.145
39
Augusto da Silva Carvalho, «Memórias das Caldas de Monchique», p. 23
40
Francisco de Sales Loureiro, «D. Sebastião e Alcácer Quibir», p. 146

21
Fig. 3 - Percurso de D. Sebastião na sua viagem ao Alentejo e Algarve em 1573, com partida de Évora
(Adaptado de «Uma Jornada ao Alentejo e ao Algarve» de Francisco Sales Loureiro)

Depois da estadia em Lagos, vila que elevara a cidade, D. Sebastião seguiu

para Vila Nova de Portimão, onde ouviu missa e sermão pelo Bispo do Algarve no

Mosteiro de S. Francisco. No dia seguinte viajou para Alvor para «ver mais as casas

em que El-Rei D. João II morreu, as quais estão tão danificadas que, para El-Rei

subir a uma casa (…) mandou vir uma escada de mão pela qual subiu.»41 Regressado

a Vila Nova, ceou e deitou-se por ter que partir cedo, ao dia seguinte, para

Monchique. El-Rei D. Sebastião partiu de Portimão, «às quatro horas depois da meia

41
Francisco de Sales Loureiro, «Uma Jornada ao Alentejo e ao Algarve», p. 108

22
noite, para Monchique e são cinco léguas de caminho; foi acompanhado somente dos

fidalgos da guarda. No caminho viu os banhos em que muitos doentes acham

remédio a suas enfermidades, Da Vila o vieram receber uma bandeira de soldados, e

alguma gente de cavalo. Ouviu missa na Igreja Matriz. Depois de jantar subiu à serra,

(…) andou El-Rei um pedaço, vendo-a e aonde chamam Foja desceu; esteve bebendo

numa fonte; partiu para Vila Nova, onde chegou já de noite.»42 A referida «bandeira»

que recebeu o soberano, provavelmente seria composta por influentes

monchiquenses, que terão solicitado ao rei a elevação de Monchique a Vila.

Tal elevação a vila foi anunciada por João Cascão como um acto consumado.

De acordo com o cronista, Monchique era um lugar tão fresco, que podia competir

com Sintra e também «aldeia de Silves e porque El-Rei a fez agora Vila a nomeio

por essa».43 No entanto, esta elevação não foi concretizada, porque Silves sentiu-se

diminuída de uma parte do seu território e conseguiu adiar por dois séculos esta

nomeação, razão pela qual surge a 16 de Janeiro de 1773 o alvará de D. José I,

decretando a ascensão de Monchique a vila.

A segunda descrição do século XVI que faz referência a Monchique e à sua

elevação a vila é a «Corografia do Reino do Algarve» da autoria de Frei João de São

José, redigida em 1577. O historiador situa no ano de 1570 a decisão real de elevar

Monchique a vila, apontando como razões as suas belezas e riquezas naturais e

localização distinta, garantindo, que o rei D. Sebastião «foi a este lugar e se satisfez

muito da sua frescura e se tratou de o fazer vila; e el-rei a fizera, sem dúvida, se não

houvera quem disso o remontou por seu interesse.»44 Frei João de São José também

42
Francisco de Sales Loureiro, «Uma Jornada ao Alentejo e ao Algarve», p. 108
43
Idem, Ibidem, p. 109
44
Manuel Viegas Guerreiro e Joaquim Romero Magalhães, «Duas Descrições do Algarve do século
XVI» in Cadernos da Revista de História Económica e Social, nº3, p. 58

23
refere a discórdia quanto à elevação de Monchique, mas em momento algum refere

nomes ou responsáveis por essa decisão.

Finalmente, na «História do Reino do Algarve», Henrique Fernandes Sarrão

confirma a pertença de Monchique no termo de Silves, já no início do século XVII, e

refere, embora vagamente que «a Monchique veo muitas vezes el-rei D. Sebastião, e

lhe chamou Nova Cintra, fazendo-o vila, o que encontrou a cidade de Silves, cujo

termo é.»45

2.2 - Século XVII: Evolução de Monchique enquanto lugar do termo de Silves

Embora administrativamente continuasse a pertencer ao termo de Silves,

durante todo o século XVII, o lugar de Monchique não deixou de reforçar a sua

importância.

Logo no início dessa centúria, D. Filipe I respondia ao pedido dos

Monchiquenses e, por Alvará de 10 de Novembro de 1606, autorizava-os a gastar

parte das suas receitas fiscais para melhorias nos caminhos. Os moradores podiam

«gastar das Rendas do conselho do dito Lugar dez cruzados cada hum nas seruentias

e calçadas delle,»46 isentando-os da aprovação por parte das autoridades de Silves.

Isabel Carneiro e Nuno Campos Inácio acreditam que o facto de existirem algumas

divergências entre esta cidade e Monchique, quanto à distribuição do dinheiro

proveniente dos impostos, deve-se ao desejo da autonomia monchiquense face a

Silves, mas também à satisfação de corresponder ao interesse geo-estratégico das

autoridades centrais e desenvolver uma localidade situada na Serra num dos limites

45
Manuel Viegas Guerreiro e Joaquim Romero Magalhães, «Duas Descrições do Algarve do século
XVI» in Cadernos da Revista de História Económica e Social, nº3p. 155
46
Isabel Carneiro, Nuno Campos, «O Concelho de Monchique e as suas Armas Municipais», p. 39

24
do termo de Silves, pois com cerca de trezentos moradores, Monchique era

certamente um dos mais importantes lugares do termo de Silves. 47

O segundo documento oficial relativo a Monchique deste século é o Alvará de

15 de Abril de 1627, no qual «se manda ao juiz de fora da cidade de Silves, que

todos os anos fosse ao logar de Monchique e posesse a votos a eleição dos juízes

pedaneos, como se fazia em Lagoa, com a declaração de que um dêles seria sempre

morador em Monchique para prover ao que sucedesse e que logo se fizesse ali um

tronco á custa dos moradores, para nêle se meterem os presos até que fossem

remetidos para Silves.»48

Para engrossar esta importância, Pedro da Silva fundou, em 1631, o Convento

de Nossa Senhora do Desterro, entregue à Terceira Ordem Regular da Penitência de

S. Francisco a 20 de Março do ano seguinte. Pedro da Silva era conhecido como «O

Mole» e foi nomeado 45.º governador-geral e o 24.º vice-rei da Índia a 13 de Abril

de 1635, numa altura em que estaria recolhido no convento.

Fig. 4 - Brasão de armas do fundador Pedro da Silva, gravadas sobre o portal de entrada do Convento

47
Isabel Carneiro, Nuno Campos, «O Concelho de Monchique e as suas Armas Municipais», p. 40
48
Augusto da Silva Carvalho, «Memórias das Caldas de Monchique», p.26

25
Joaquim Romero Magalhães refere a ruralização da sociedade algarvia a partir

do século XVII, afirmando que não há crescimento urbano, nem cidades que

avultem, dominem ou atraiam e dinamizem a região, encontrando-se algumas vilas e

cidades despovoadas, ao invés dos campos que tinham cada vez mais gente. No

entanto, o povoamento serrano só se intensificaria em meados da década de 70 do

século XVII, pois de acordo com o autor mencionado, Monchique, assim como

outras localidades exclusivamente serranas, destacavam-se nessa altura, «do grupo de

menor densidade – 0 a 2 fogos por km2 – entrando no imediatamente superior – 2 a

4,5 fogos por km2.»49

Como que a comprovar este aumento populacional, em 1671 foi criado em

Monchique um Partido Médico. Tudo isto porque nesta altura ainda não havia

médico em Monchique, e, sempre que fosse necessário, esse teria que ser chamado

da cidade de Lagos, a uma distância de cinco léguas. Ora, com cerca de 500

vizinhos50, os moradores de Monchique pediam que fosse criado naquele lugar um

Partido Médico, o qual veio a ser atendido pelo Alvará de 28 de Abril de 1671.

Assim, nesse documento régio podia ler-se: «Faço saber aos que este alvará virem

que (…) os moradores do lugar de Monchique termo da cidade de Silves Reino do

Algarve em razão das muitas necessidades que padecem em sua saude por falta de

medico por estar cinco leguas da dita cidade de Lagos donde sucedia mandarem-no

buscar (…) pedindo-me lhe concedesse provisão para se lançar no cabeção das sisas

quarenta mil reis cada ano para se darem a um medico que lhes assiste e tudo o mais

que constou por informação do provedor das comarcas do dito Reino dos Algarves

(…) que o dito lugar de Monchique tem mais de quantos [SIC]51 visinhos e entre eles

o convento de religiosos hei por bem e me apraz que no cabeção das cizas se lance

49
Joaquim Romero Magalhães, «O Algarve Económico (1600-1773)», p. 117
50
Augusto da Silva Carvalho, «Memórias das Caldas de Monchique», p. 29
51
Erro de transcrição. Provavelmente, o autor queria dizer quatrocentos vizinhos.

26
em cada ano vinte mil reis que pedem de partido ao medico que lhes assistir como

pedem.”52

Devido ao isolamento da terra, o primeiro médico que de facto existiu em

Monchique apenas assumiria o cargo no final da primeira metade do século XVIII,

quando a vila já tinha uma população a rondar os 1200 habitantes. 53 E pelas

dificuldades de comunicação com as vilas mais próximas, percebe-se como esta

medida era mais que necessária.

Verifica-se assim, que desde o testemunho de Henrique Fernandes Sarrão, que

atribuía a Monchique uma população de trezentos moradores, se assistiu a um

acentuado aumento demográfico, gerado pelas características naturais e agrícolas da

região, referidas no ponto anterior. Monchique sempre se destacou pela sua

localização privilegiada e continuava a ser um lugar fresco e ameno, com ricas fontes

de água, boas pastagens e hortas abundantes.

As Termas de Monchique não perderam importância e, certamente, também

contribuíram para este aumento populacional. Quando D. Simão da Gama tomou

posse do Bispado do Algarve em 1685, logo reparou na necessidade de se fazerem

melhoramentos nos banhos de Monchique. Com o parecer do médico farense

Lourenço Dias Franco, o Bispo pediu que, a comprovarem-se os benefícios

terapêuticos daquelas águas, deviam esses banhos ser entregues à administração dos

Bispos do Algarve. Mas alguns anos antes, já o Bispo D. Francisco Barreto, eleito

em 1636, se interessara por eles, tendo levado consigo médicos para examinarem as

águas, e terá mesmo mandado construir singelas instalações para quem as

frequentava.54 Este prelado determinou a construção de algumas casas para cobrir as

águas e proteger os utentes quando saíssem dos banhos e ainda estabeleceu quartos

52
Augusto da Silva Carvalho, «Memórias das Caldas de Monchique», p. 29
53
Idem, Ibidem, p. 29
54
José António Guerreiro Gascon, «Subsídios para a Monografia de Monchique», p.251

27
com camas para acomodar os pobres55. Foram, no entanto, as obras de D. Simão da

Gama que tiveram maior impacto no seio deste complexo termal. Os trabalhos foram

iniciados em 1691, nos quais se «reparou as pequenas casas das Caldas de

Monchique, que estavão arruinadas, (…) e mandou fazer uma enfermaria para

recolher maior número de pobres, que para curativo de moléstias demandão estas

agoas tão proveitosas (…) provendo-a de camas e roupas necessarias para tão

piedoso fim e fazendo demais reparar as estradas e caminhos asperos das serras em

que estão estas preciosas agoas.»56

2.3 - A Autonomia definitiva de Monchique

A 23 de Junho de 1747 foi finalmente nomeado um médico para Monchique e

a sua freguesia, o qual, segundo Augusto da Silva Carvalho, terá sido o primeiro

médico das Caldas de Monchique. Pelo documento oficial, percebe-se que os

moradores de Monchique eram obrigados a pagar um ordenado ao médico e, por sua

vez, este devia atender, gratuitamente, as pessoas mais carenciadas da região. Veja-se

então o que dizia o diploma de nomeação: «D. João por graça de Deus, Faço saber

que os moradores nobreza e mais povo do lugar de Monchique e sua freguesia, termo

da cidade de Silves me representarão por sua petição que vivião em grande

necessidade de Medico que lhe assistisse ao curativo nas suas enfermidades por não

haver Medico que se sujeitasse a viver no dito lugar aonde não havia partido em

rasão de ser o mesmo lugar em uma fragosa serra de inverno desabida e distante da

cidade e com Ribeiras que lhes impedia o vir Medico de fóra para o curativo e

porque não duvidava o licenciado João Silvestre de Macedo assistir-lhe ao curativo

55
José de Sousa Costa, «Alguns Elementos para a Elaboração do Programa de Edificação do Hospital
das Caldas de Monchique», p. 16
56
Augusto da Silva Carvalho, «Memórias das Caldas de Monchique», p. 62

28
no dito lugar, constituindo-se-lhe o partido annual de trinta mil reis e os suplicantes

se lho podião segurar no lançamento das cizas que na sua freguesia se fazia a todos,

me pedião que lhes concedesse provisão para o referido effeito por lhe ser assim de

grande utilidade (…) hei por bem que no lançamento das cizas do mesmo lugar e nas

sobras delas possa segurar o sobredito partido de trinta mil reis para o dito Medico

João Silvestre de Macedo lhe assistir no referido lugar e freguesia ao curativo dos

moradores della com a declaração porem que curará aos pobres de graça.»57

Ao contrário do que aconteceu em Lisboa e no Litoral Algarvio, onde os

efeitos do terramoto de 1 de Novembro de 1755 foram devastadores devido ao

maremoto que lhe seguiu, Monchique e o território que hoje constitui o seu concelho

apenas sentiu o embate das ondas sísmicas. Os efeitos provocados pela catástrofe

foram dados a conhecer na Memória Paroquial de 1758, redigida pelo padre António

de Figueiredo Aragão, no âmbito de um levantamento sobre as consequências do

terramoto em todo o Reino do Algarve, por ordem do Marquês de Pombal. No

documento de 3 de Agosto de 1758 consta que «no universal terramoto do primeiro

de Novembro de 1755 ficou a igreja deste lugar bastantemente arruinada, caindo-lhe

a abóbada da Capela-mor a Tribuna e Torre e Sacristia da mesma, e arruinou com a

sua caída muita parte dos seus telhados, mas em parte já se acha reparada, e nela se

fazem já os Ofícios Divinos e só estão para se fazerem a torre e sacristia.»58 A

descrição do pároco não corresponde à realidade, uma vez que a igreja esteve vários

anos fechada ao público e foi a Misericórdia que exerceu as funções de Matriz, visto

não ter sido muito atingida. Além disso, sabe-se que, por altura das obras de

reparação após 1755, apenas ficaram intactas a primitiva capela das Almas e uma

pequena parte da parede do lado norte. A freguesia tinha nesta data 553 fogos e 1557

57
Augusto da Silva Carvalho, «Memórias das Caldas de Monchique», pp. 65-66
58
José António Guerreiro Gascon, «Subsídios para a Monografia de Monchique», p. 64

29
habitantes, vivia sobretudo da agricultura, sendo muito importante o comércio de

madeira de castanho.59

Ao longo de grande parte do século XVIII, a população algarvia tende a

aumentar, tanto na cidade como na serra, a tal ponto que a procura citadina incentiva

o cultivo de hortas para o abastecimento diário dos mercados. A serra continuava a

crescer e, crescem também as freguesias que envolvem as principais cidades. O

aumento populacional de Monchique tende, igualmente, a reforçar-se durante este

período, acompanhando a tendência de aumento demográfico da região algarvia.

Todavia, o comércio algarvio dava cada vez maiores sinais de crise, escapando das

mãos das gentes da região em prol dos vizinhos espanhóis, que, a pouco e pouco, iam

dominando. Já no século anterior, o Reino do Algarve dava indícios de uma fase de

declínio a nível social e económico, devido ao fraco desenvolvimento produtivo, à

concorrência estrangeira e à ineficácia da fiscalidade. A partir de 1769, o Marquês de

Pombal desenvolve um conjunto de medidas que apontam para a reorganização

político-administrativa do Reino do Algarve e, consequentemente, para o seu

desenvolvimento. Nessas medidas, insere-se o alvará de 16 de Janeiro de 1773, que

elevava os lugares de Monchique e Lagoa a vila e redefinia as novas divisões

administrativas do Reino.

De modo a suprir «as causas das ruínas a que se reduziu o Reino do

Algarve»60, o documento régio de 16 de Janeiro de 1773 determinava as alterações

ao estatuto de algumas vilas e lugares algarvios e respondia às dificuldades que

abalavam a região a nível judicial, administrativo e económico, as quais geravam

inúmeras complicações económicas.

59
Augusto da Silva Carvalho, «Memórias das Caldas de Monchique», p. 71
60
Alvará de 16 de Janeiro de 1773

30
Assim:

1. Moncarapacho, dividido entre os termos de Faro e Tavira, passou a

pertencer exclusivamente a Faro e, como tal, à Casa e Estado da Rainha;

2. Alvor perdeu o estatuto de Vila e foi integrado no termo de Vila Nova de

Portimão, passando a pertencer à Coroa;

3. Alte e Boliqueime que faziam parte da Coroa, passaram a integrar a Casa e

Estado da Rainha e foram incluídos no termo e jurisdição da cidade de

Silves;

4. Lagoa foi elevada a Vila, com os mesmos privilégios das outras vilas do

Reino, indo o seu termo até Estômbar e Mexilhoeira da Carregação;

5. Monchique foi elevada a Vila, passando a pertencer à Coroa, com os

mesmos privilégios das vilas e comarcas de Lagos.

31
Divisão Administrativa do Reino do Algarve entre 1600 - 1773

Fig. 5 - (Adaptado de «Para a História de Lagoa no século XVIII» de João Pedro Ferro)

Legenda:

1. Aljezur
2. Vila do Bispo
3. Sagres
4. Lagos
5. Alvor
6. Vila Nova de Portimão
7. Silves
8. Albufeira
9. Loulé
10. Faro
11. Tavira
12. Cacela
13. Castro Marim
14. Alcoutim

32
Alterações na divisão administrativa do Reino do Algarve provocadas pelo Alvará de
16 de Janeiro de 1773

Fig. 6 - (Adaptado de «Para a História de Lagoa no século XVIII» de João Pedro Ferro)

Legenda:

1. Monchique
2. Marmelete
3. Alferce
4. Mexilhoeira Grande
5. Alvor
6. Vila Nova de Portimão
7. Ferragudo
8. Estômbar
9. Lagoa
10. Silves
11. São Marcos da Serra
12. São Bartolomeu de Messines
13. Alte
14. Porches
15. Alcantarilha
16. Pera
17. Algoz
18. Boliqueime
19. Loulé
20. Faro
21. Tavira

33
A criação do concelho de Monchique cumpriu com o objectivo de garantir as

condições e atractivos necessários para o desenvolvimento do lugar e,

consequentemente, acabar com algumas carências locais. No diploma régio são

mencionadas as razões para a elevação de Monchique a Vila, sendo essa necessidade

justificada pelo isolamento em que se encontrava. A nível sócio-económico, a

elevação de Monchique era expressa pela inexistência de vias de comunicação entre

o litoral (Vila Nova de Portimão) e a Serra (Monchique), o que dificultava não só a

circulação de pessoas, como também o tráfego comercial. Se, por um lado, a

aspereza da serra impedia e tornava perigosos «os transitos de mais de mil pessoas,

que anualmente vão buscar ao sobredito Lugar o remedio dos banhos nele

existentes»61, por outro, limitava as comunicações e o comércio «das uteis, e

necessárias Madeiras de Castanho; das abundantes frutas, e das mais produções, em

que he fértil a referida Serra.»62 Sobre as madeiras de Monchique e sua elevação a

vila lê-se na Monografia de Vila Real de Santo António uma curiosa passagem: «(…)

tendo o Marquês de Pombal em 1773 mandado comprar as madeiras necessárias para

a reedificação de Vila Real de Santo António, lhe lembraram que essas madeiras as

poderia ele adquirir em Monchique. (…) Ficou o nobre marquês tão satisfeito com a

qualidade da madeira que em um alvará elevou Monchique a vila (…).»63

Outro motivo referido no documento da elevação de Monchique a vila tinha a

ver com a dificuldade em exercer a administração da justiça neste lugar, em virtude

da longa distância que o separava de Silves. As cinco léguas entre as duas

localidades desenrolavam-se «por caminhos escabrosos, e quasi inaccesssiveis»,

61
Alvará de 16 de janeiro de 1773
62
Idem
63
Francisco Xavier d’Ataíde de Oliveira, «Monografia do concelho de Vila Real de Santo António»,
pp. 242-243

34
deixando «o sobredito Lugar, e Serra delle, sem correição que cohiba as desordens, e

promova as utilidades públicas.»64

Como vimos, o documento insiste na deficiência dos caminhos que fazem a

ligação a Monchique. Desde muito cedo, o principal ponto de comunicação com o

Alentejo era Monchique, que através da estrada que fazia a ligação até Odemira,

rasgava a barreira formada pelas Serras de Monchique e Caldeirão. João Pedro Ferro

aponta o facto de o escoamento de produtos e o abastecimento das principais cidades

e vilas do Algarve Ocidental estarem dependentes da segurança e eficácia desses

caminhos.65 Ora, como o alvará faz referência às deficiências das estradas que ligam

Monchique a Vila Nova de Portimão, percebe-se a importância do porto marítimo

desta vila para a chegada e partida de mercadorias. Logo seis dias após o alvará que

deu sede de concelho a Monchique, acha-se o aviso de 22 de Janeiro de 1773,

dirigida ao Superintendente Geral das Alfandegas das Províncias do Sul e assinado

pelo Marquês de Pombal, ordenando a criação de uma «Carta Topográfica das quatro

léguas entre Monchique e Portimão», com o alinhamento dos caminhos que se

devem abrir para a comunicação de ambas as vilas.

Este aviso expunha as particularidades de Monchique, referindo a quantidade e

excelência das madeiras de castanho, dos frutos e das águas, «que fazem moer

grande numero de moinhos e de pisões»66, bem como a crescente procura dos

banhos, «a que vão buscar os remedios das suas enfermidades mais de mil pessoas

cada ano»67, mas mencionava também os enormes prejuízos que as deficientes vias

de comunicação provocam nas ligações entre Monchique e o porto de Portimão.

Deste modo, acompanhado pelos «Oficiais de Infantaria, com exercício de

64
Alvará de 16 de Janeiro de 1773
65
João Pedro Ferro, “«Para a História no Concelho de Lagoa no século XVIII. A Criação do Concelho
(1773) », p. 28
66
Augusto da Silva Carvalho, «Memórias das Caldas de Monchique», p. 228
67
Idem, Ibidem, p. 228

35
engenheiros», o Superintendente deslocou-se a Portimão com o intuito de concretizar

a referida carta topográfica, na qual estavam incluídos os projectos da abertura de

novos caminhos, da identificação dos locais que necessitavam de conserto e da

elaboração de um orçamento para as respectivas obras. Esta medida pretendia pôr

fim ao isolamento de Monchique, mas principalmente incentivar o desenvolvimento

económico através da possibilidade de escoar os seus produtos para Portimão, mas

também «pela iniciativa de criar uma nova actividade, de prestação de serviços, para

os autóctones – o transporte de mercadorias.»68

Importa salientar que no alvará de 16 de Janeiro de 1773, Monchique foi

tratada de modo especial em relação às outras localidades, uma vez que o documento

não só altera o seu estatuto, como também menciona qual o seu território, define a

sua estrutura administrativa e judicial e estabelece a sua jurisdição. Lagoa é elevada a

vila pelo mesmo despacho, no entanto, só por alvará de 18 de Fevereiro de 1773 é

que aquelas questões seriam para ela estabelecidas.

Elevada a vila e a sede de concelho com a denominação de Vila Nova de

Monchique, a povoação passou a pertencer à Coroa, bem com a possuir «todos os

Privilegios, de que devem gozar, e gozam as outras Villas da Comarca de Lagos, a

que esta ficará pertencendo, sem differença alguma.»69 No mesmo documento vem

descrito o território do novo concelho, que passava, assim, a ser constituído por cinco

freguesias. Para além de Monchique, também Alferce, Marmelete, Nossa Senhora do

Verde e Mexilhoeira Grande formariam o termo de Monchique. Finalmente, pode

ler-se no mesmo diploma qual o corpo de funcionários criado para o novo concelho

de Monchique: «sou servido crear para o governo da mesma Nova Vila hum juiz de

68
Isabel Carneiro, «A Criação do Concelho de Monchique e o Esboço da Estrutura Administrativa
Municipal na sequência da Reorganização do Reino do Algarve em 1773», in Um Percurso Histórico,
Um Património a Valorizar, II Jornadas de Monchique, 5 e 6 de Outubro de 2001
69
Alvará de 16 de Janeiro de 1773

36
Fóra, e Orfãos; três Vereadores; hum Procurador do Conselho; hum Escrivão da

Camera, que o será também das Sizas, Almotaceria, e Achadas; hum Escrivão do

Publico Judicial, e Notas; hum Escrivão dos Orfãos, todos da Minha Nomeação; e

hum Alcaide, da nomeação da refrida Camera: Para que na sobredita Villa

novamente erecta se possa administrar a Justiça, e promover o bem commum

della.»70

A Elevação de Monchique a Vila estava decidida, mas só um mês e dois dias

depois é que esta vontade apareceria reforçada. A Carta Lei de 18 de Fevereiro de

1773 confirma a elevação de Monchique a Vila e estabelece que «fique erecto em

Villa o sobredito Lugar de Monchique, com a denominação de Vila Nova de

Monchique; e que por tal seja tida, havida, e nomeada, e que haja, e tenha todos os

Privilegios, e Liberdades, de que devem gozar as outras villas destes Reinos (…).»71

Esta Carta Lei obrigava a que ela fosse registada nos Livros da Câmara de Vila Nova

de Monchique e nos da Correição. No entanto, só depois do registo e publicação

deste documento na Chancelaria Mor da Corte e Reino a 4 de Março de 1773, é que

se efectivaria, finalmente, a passagem de Monchique a Vila. 72

70
Alvará de 16 de Janeiro de 1773
71
Nuno Campos e Isabel Carneiro, «O Concelho de Monchique e as suas Armas Municipais», p. 113
72
Idem, Idibem, p. 47

37
3. A eleição dos representantes locais: o processo

Depois da publicação da Carta de Lei, a 4 de Março de 1773, que elevava

Monchique a vila e definia o seu termo, o processo de eleição da câmara seria rápido,

conforme o desejo do poder central. Não se conhecem cronologias relativamente aos

moldes em que o processo se desenrolara, mas sabemos que todos os autos foram

lavrados com a data de 27 de Março de 1773.73

A eleição processou-se conforme o estabelecido pelas «Ordenações Filipinas»

e pelo Regimento de 12 de Novembro de 1611, que regulamenta as eleições para os

órgãos de administração local. De acordo com as «Ordenações Filipinas» de 1603, os

homens escolhidos para governarem os concelhos cumpriam um mandato anual, não

o podendo renovar nos dois anos seguintes. As «Ordenações» determinavam ainda

que «os sorteados não deveriam ser parentes chegados, a fim de evitar uma

administração posta ao serviço de uma família» 74, pois só dessa forma é que as

Câmaras Municipais podiam cumprir as tarefas administrativas e judiciais que lhes

competiam. Deste modo, todo o processo foi conduzido pelo Corregedor da Comarca

de Lagos (à qual Monchique pertencia), o Dr. Salvador Pereira da Costa.75

De acordo com José António Guerreiro Gascon, «em 1773 não era Monchique

uma simples aldeia. Tinha dois juízes eleitos pelo Juiz de Fora de Silves, nobreza e

povo deste lugar, os quais eram almotacés subordinados ao mesmo Juiz de Fora e à

Câmara da mesma cidade.»76 O mesmo autor documenta que, a 22 de Março de

1773, foi nomeado para Monchique o primeiro Juiz de Fora da nova vila. António

Barahona Fragoso tomaria posse na Comarca de Lagos, perante o Corregedor, «por

73
Isabel Carneiro, «A Eleição da Primeira Câmara de Monchique – O processo de Eleição» in Jornal
de Monchique, ed. nº 188, Ano XVI, Monchique, 09.03.2000
74
José Matosso (dir.), «História de Portugal», vol. 3., «No Alvorecer da Modernidade», p.176
75
Isabe, Carneiro, «A Eleição da Primeira Câmara…», cit.
76
José António Guerreiro Gascon, «Subsídios para a Monografia de Monchique», p. 153

38
não haver ainda nesta vila oficiais que tal serviço fizessem.»77 Como «Juiz de Fora e

Órfãos», competia-lhe, além das justiças, presidir à Câmara Municipal, que seria

ainda composta por três vereadores e por um procurador.78

Estando o Juiz de Fora nomeado, seguia-se a eleição dos restantes

representantes locais, os vereadores e o procurador. O Corregedor seguiu à risca o

citado “Regimento” e mandou inquirir por duas pessoas que lhe «constassem serem

das mais ricas e honradas e de que tivessem informação que fossem zelosas de bem

publico, e de sãs consciências», 79 sobre os indivíduos com qualidades e estatuto

social próprio para se ocuparem do governo da vila. Os dois inquiridores foram José

de Almeida Coelho, Sargento-Mor das Ordenanças e Rodrigo Nunes Águas de

Abranches, Capitão das Ordenanças, que apresentaram uma lista com 43 nomes,

constando serem «as pessoas nobres» - tal como vinha designado nos documentos

que formam o processo - e, na sua maioria, naturais de Monchique ou das suas

freguesias, com a indicação à frente dos seus nomes do seu estatuto sócio –

económico.

De seguida, os constituintes da lista foram convocados, através de pregão, para

escolherem entre si, seis homens para eleitores. Estes eram selecionados de entre os

mais velhos, «zelosos do bem publico» e capazes de ser imparciais. O Corregedor

apurou os seis nomes mais votados para servirem como eleitores, sendo eles:

Sargento-Mor José de Almeida Coelho, Capitão Manuel José Águas, Capitão

Francisco Fernandes Águas, Capitão Joaquim de S. José, Capitão Francisco de

Almeida Coelho e Capitão Rodrigo Nunes Águas de Abranches. 80 Todos estavam

77
José António Guerreiro Gascon, «Subsídios para a Monografia de Monchique», p. 153
78
José Rosa Sampaio, «De Lugar do Termo de Silves a Vila Nova de Monchique», p. 4
79
Isabel Carneiro, «A Eleição da Primeira Câmara de Monchique…», cit.
80
Idem

39
obrigados a prestar juramento sobre os Santos Evangelhos antes de procederem à

eleição dos três Vereadores e do Procurador do Concelho.

O passo seguinte consistia no agrupar destes seis homens em duplas

organizadas pelo Corregedor, com o cuidado de não haver parentesco entre eles. As

duplas foram as seguintes: Sargento-Mor José de Almeida Coelho e Capitão

Francisco Fernandes Águas; Capitão Joaquim de S. José e Capitão Manuel José

Águas; Capitão Francisco de Almeida Coelho e Capitão Rodrigo Nunes Águas de

Abranches. Posteriormente, cada grupo ficava responsável pela elaboração de três

listas, onde seriam indicados nove nomes para o cargo de Vereador e três para o de

Procurador, apurando assim os oficiais que ocupariam os respectivos cargos por três

anos, ou seja, três Vereadores e um Procurador em cada um dos três anos em que era

válida a eleição: 1773, 1774 e 1775.81

Depois de conhecido o resultado das votações, o juiz Corregedor elaborava

uma pauta com os nomes das pessoas indicadas naquelas listas, que ocupariam os

dois cargos referidos, e apurava aqueles que lhe pareciam melhor preparados a

exercer as funções em causa, indicando a relação de parentesco existente entre eles.

Para oficializar a nomeação, a pauta devia ser enviado ao Desembargo do Paço para

ser confirmada. A lei determinava que, após a chegada da respectiva autorização, por

Carta Régia, o Corregedor ficava encarregado de fazer os pelouros. Estes consistiam

em bolas de cera, no interior das quais era colocado um papel com o nome de cada

eleito, sendo depois guardadas em sacos, separadas de acordo com os diferentes

cargos e fechadas com segurança numa arca da Câmara. Para garantir a honestidade

do sorteio, os nomes daqueles que deviam servir em cada ano eram extraídos pela

81
Isabel Carneiro, «A Criação do Concelho de Monchique e o Esboço da Estrutura Administrativa
Municipal na Sequência da Reorganização do Reino do Alarve em 1773» in Um Percurso histórico,
Um Património a valorizar, II Jornadas de Monchique, 5 e 6 de Outubro de 2001, p. 197

40
mão de uma criança de sete anos.82 Isabel Carneiro apura que, na realidade, não era

bem assim que as coisas ocorriam em Monchique, uma vez que, no que diz respeito a

esta primeira eleição, era o próprio Desembargo do Paço, «quem, em nome do Rei,

de facto, escolhia de entre todos os votados constantes da pauta, aqueles que

ocupariam os cargos, oficializando as nomeações, das quais eram passados as

respectivas cartas, posteriormente enviadas às câmaras.»83 De qualquer forma, não

nos foi possível apurar os nomes dos representantes que ocuparam os cargos no

primeiro ano e nos dois seguintes.

A Câmara Municipal ficava responsável por nomear o Alcaide, a quem

competia o comando supremo das Companhias de Ordenanças, «chefiadas pelos

capitães e enquadradas por um alferes, um sargento e dez cabos, incorporando todos

os homens válidos que não fizessem parte do Exército, das Milícias ou dos

Auxiliares.»84 Para esse cargo foi eleito o Monchiquense Manuel José Águas, em

meados de Março de 1773, tendo como coadjuvante o sargento-mor José de Almeida

Coelho.85

82
Isabel Carneiro, «A Eleição da Primeira Câmara…», cit.
83
Isabel Carneiro, «A Eleição da Primeira Câmara…», cit.
84
José Rosa Sampaio, “Do Lugar do Termo de Silves a Vila Nova de Monchique”, p. 4
85
Idem, Ibidem, p. 4

41
4. As Freguesias de Monchique: do século XVIII à actualidade

Até à implantação do Liberalismo em 1834, aquilo que hoje entendemos como

Paróquia, foi designado como freguesia. Desse modo, uma freguesia era, segundo

Arnaldo Anica, o conjunto de habitantes de um «determinado e superiormente

delimitado espaço territorial atribuído a um único sacerdote a quem o Bispo dava

poderes para nele dirigir os principais sacramentos da Igreja, como o baptismo, o

casamento e a encomenda dos defuntos.»86 Era frequente que estes actos religiosos

estivessem associados a um Padre-Cura, mais tarde designados por Párocos,

acompanhados por um corpo colegial, constituído por três fregueses anualmente

eleitos, que os auxiliavam na administração dos bens temporais da Freguesia.

Com o alvará de 16 de Janeiro de 1773, ficou o concelho de Monchique com as

cinco freguesias seguintes: Nossa Senhora da Conceição de Monchique, Nossa

Senhora do Verde, Nossa Senhora da Assunção da Mexilhoeira Grande, Nossa

Senhora da Encarnação de Marmelete e São Romão do Alferce. 87

4.1 - Alferce

A área da freguesia de Alferce confina a Norte com a freguesia de Santa Clara

(Sabóia), a Noroeste com a freguesia de São Marcos da Serra (Silves), a Sul com a

freguesia de Silves e a Oeste com a freguesia de Monchique.

João Baptista da Silva Lopes descreve o Alferce como uma «aldeia situada na

cumeada que forma a serra, e a uma legua da villa, com outra aldeia perto chamada o

povo de baixo; rodeada de vinhas, e com os mesmos fructos que Monchique, não

86
Arnaldo Casimiro Anica, «Freguesias, Vilas e Cidades do Algarve (sua antiguidade e população)»,
p.13
87
José Rosa Sampaio, «Freguesia de Alferce (Concelho de Monchique): Estudo Monográfico», p. 16

42
podendo igualmente exportar a madeira dos castanheiros, que alli se crião, por falta

de estradas não só geraes, mas nem particulares de comunicação com os povos

vizinhos.»88 Na Monografia de Monchique em referência ao relatório do Dr. D. José

Gascon, consta a seguinte informação sobre o povoado de Alferce: «No começo

oriental da grande Serra da Picota, uma légua ao nascente da Vila de Monchique,

está situada a aldeia do Alferce, composta de dois «povos», (…) distando um do

outro um tiro de espingarda, pouco mais ou menos, tendo o Povo de Cima 33 fogos

achando-se nele colocada a Igreja Matriz, e o Povo de Baixo 20 fogos. Pela parte sul

(…) está um cerro bastante elevado, chamado o «Cerro do Castelo dos Mouros»,

aonde se encontram vestígios de edifício antigo.»89

De facto, o povoamento do território da freguesia é anterior ao século XIII.

Apesar dos poucos textos medievais que lhe fazem referência, a verdade é que a

aldeia sempre esteve em íntima ligação com a cidade de Silves desde a Reconquista.

O castelo islâmico do «Cerro do Castelo dos Mouros» da Herdade da Pedra Branca,

no Alferce, hoje reduzido a ruínas, vem mencionado na crónica da conquista de

Silves, em 1189 com o nome de «Montagut», como um dos castelos limítrofes

subordinados à metrópole do Barlavento algarvio. 90

Não se sabe qual a data exacta da fundação da paróquia, cujo orago é S.

Romão, mas vários autores apontam a sua origem para o século XVI, à semelhança

de outras paróquias que foram então criadas no Algarve nesta altura. Em 1491, por

doação de D. João II à Rainha D. Leonor, em carta datada de 24 de Abril desse ano,

88
João Baptista da Silva Lopes, «Corografia ou memória económica, estatística e topográfica do Reino
do Algarve», 1º volume, pp. 257-258
89
José António Guerreiro Gascon, «Subsídios para a Monografia de Monchique», p. 291
90
Jorge de Matos, «A Serra de Monchique e o Reino de Silves. Messianismo e teocracia no Algarve
Islâmico», in Um Percurso Histórico, um Património a Valorizar, I Jornadas de Monchique, 29 e 30
de Abril de 2000, p. 77

43
o lugar do Alferce entra juntamente com o termo de Silves na Casa das Rainhas de

Portugal, mantendo-se assim até à criação do concelho de Monchique em 1773. 91

Nos séculos XVI e XVII aparecem as primeiras referências ao Alferce. Frei

João de S. José, contudo, não o menciona em nenhuma passagem da sua corografia,

embora realce a Serra de Monchique. Mas na «História do Reino do Algarve» de

Henrique Fernandes Serrão, consta que o Alferce tinha 60 fogos e era um local fresco

e rico em pão, cera e mel. 92 Finalmente, a «Memória Paroquial» de 1734, redigida

pelo Padre Cardoso, cura da freguesia de São Romão atribui ao lugar de Alferce uma

população distribuída por 101 fogos.93

Em 1773, a freguesia de Alferce foi integrada no então criado Concelho de

Monchique, entrando no património da Coroa e gozando de todas as regalias e

justiças das vilas da comarca de Lagos.

4.2 – Marmelete

A área da freguesia de Marmelete confina a Norte com a freguesia de São

Teotónio (Odemira), a Oeste com as freguesias de Odeceixe, Aljezur e

Bensafrim, a Este pela freguesia de Monchique e a Sul com a freguesia da

Mexilhoeira Grande.

Pelas descrições de José António Guerreiro Gascon e de João Baptista da

Silva Lopes, percebemos que as freguesias de Marmelete e Alferce tinham uma

estrutura semelhante, pois como se lê na Monografia de Monchique, a aldeia

estava «dividida em dois «povos»: o «de cima», em que fica situada a igreja

matriz e, a uns 150 metros aproximadamente, para o lado do poente, o «de

91
José Rosa Sampaio, «Freguesia de Alferce (Concelho de Monchique):Estudo Monográfico», p. 13
92
Manuel Viegas Guerreiro e Joaquim Romero Magalhães, «Duas Descrições do Algarve do século
XVI» in Cadernos da Revista de História Económica e Social, nº 3, p. 154
93
José António Guerreiro Gascon, «Subsídios para a Monografia de Monchique», p. 292

44
94
baixo», que é o mais importante.» A vinha e a madeira de castanho também

aqui eram abundantes, porém, a deficiência dos caminhos impedia a exportação

destes produtos.95

Sobre a fundação ou instituição da freguesia, com base na criação da sua

paróquia, pouco se sabe. Marmelete, a par das outras freguesias que compunham

o concelho de Monchique, muito provavelmente, já existiria desde a época

medieval. Seja como for, em 1642 já igreja e freguesia tinham a denominação

que hoje conhecemos. 96

Por carta régia passada por D. Pedro I a 5 de Outubro de 1361, Lagos é

desanexada do extenso território de Silves e criada como concelho, conforme

vem registado na Chancelaria de D. Fernando, com «todallas outras aldeas e

casaaes que stam de o cabo de sam vicente ataa a dicta vila de Lagos.»97 Nessa

altura, o lugar de Marmelete aparecia integrado no termo e justiças de Lagos.

Os principais estudos sobre o Reino do Algarve nos séculos XVI e XVII

confirmam a integração de Marmelete no termo de Lagos. Henrique Fernandes

Serrão no capítulo III da sua «História do Reino do Algarve» expõe a divisão do

Reino em cidades, vilas e lugares. A cidade de Lagos contava com 15 lugares,

nos quais Marmelete aparecia incluída. O historiador acrescenta que o lugar teria

vinte e cinco moradores, isto é, habitações. 98 O crescimento da freguesia não

passou despercebido a Alexandre Massai (1621), que atribui a Marmelete uma

94
José António Guerreiro Gascon, «Subsídios para a Monografia de Monchique», p.299
95
João Baptista da Silva Lopes, “Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do
Reino do Algarve”, p. 257
96
José António Guerreiro Gascon, “Subsídios para a Monografia de Monchique”, p. 299
97
José Rosa Sampaio, «A Freguesia de Marmelete do Concelho de Lagos», in Jornal de Monchique,
ed. nº 216, Ano XVI, Monchique, 11.05.2001
98
Manuel Viegas Guerreiro e Joaquim Romero Magalhães, «Duas Descrições do Algarve do século
XVI» in Cadernos da Revista de História Económica e Social, nº 3, p. 146

45
força militar de 19 ordenanças, contabilizando para todo o termo de Lagos cerca

de 1371 elementos infantaria e de cavalaria. 99

A 16 de Janeiro de 1773, a freguesia de Marmelete foi integrada no recém-

criado concelho de Monchique. Esta deliberação gerou muita controvérsia por

parte dos moradores de Lagos, que logo protestaram contra o facto de uma das

suas freguesias ter sido integrada num município rural e serrano, cujas

acessibilidades com a sede do concelho eram escassas. Naquela altura,

Marmelete era um local bastante próspero, pois fornecia a cidade de Lagos dos

produtos que ela carecia, quer para consumo próprio, quer para o abastecimento

das naus que frequentemente aportavam no seu porto marítimo. Seja como for,

Marmelete manteve-se como freguesia do Concelho de Monchique até aos dias

de hoje.

4.3 - Mexilhoeira Grande

A freguesia da Mexilhoeira Grande limita a Norte com a freguesia de

Monchique e a Noroeste com Marmelete, a Este com Portimão, a Oeste com

Bensafrim e Odiáxere e a Sul e com a freguesia de Alvor.

João Baptista da Silva Lopes descreve a Mexilhoeira como uma «aldeia situada

na charneca em logar elevado, que se descobre do mar a distância de 12 a 15 milhas,

na estrada que vai de Lagos para Portimão sem passar a barca, entre as ribeiras do

Farello e Arão (…) as quaes vão desaguar no rio d’ Alvor.»100 Acrescenta que é uma

aldeia grande e rica, mas com ruas «incommodas por causa do máo pizo».

A instituição da freguesia remonta ao século XVI, altura em que foi edificada a

Igreja Matriz, embora no final da primeira metade do século XV já fosse um

99
José Rosa Sampaio, «Marmelete: Estudo Manográfico», p. 15
100
João Baptista da Silva Lopes, «Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do
Reino do Algarve», pp. 273-274

46
povoado importante, uma vez que recebeu a visita do Infante D. Henrique no ano de

1446.101

Na descrição de Frei João de São José, a Mexilhoeira Grande surge integrada

no termo de Silves; também a «História do Reino do Algarve» de Henrique

Fernandes Serrão, informa que a aldeia tinha trezentos e cinquenta fogos, e era «fértil

de pão, tem muitos pomares, vinhas, figueiras, e outras fazendas.»102 Em 1758 a

Memória Paroquial anunciava um decréscimo populacional, uma vez que destacava

para esta freguesia uma população de 709 pessoas distribuídas por 224 fogos.103

A freguesia da Mexilhoeira Grande foi anexada ao concelho de Monchique

pelo alvará de 16 de Janeiro de 1773. Um dos documentos onde essa integração

aparece referenciada são as Posturas Municipais de 1793. Entre vários artigos pode

ler-se no capítulo 4, sob o assunto «Alagar o Linho», acerca da coima de 500 réis que

é estabelecida para todos aqueles que «alagarem linho na Freguesia da Amexelhoeira

Grande do moinho velho para sima e da ponte pequena para baxo e do moinho da

Torrinha para sima e na Ribeira do samarrão em toda a Ribeira poderão alagar sem

pena.»104

As Posturas Municipais eram usadas pelas forças concelhias como forma de

controlar e impor o seu poder às populações que delas dependiam e tentavam

resolver os problemas dos concelhos com áreas demasiado grandes e freguesias

isoladas. Isso acontecia, por exemplo, com Monchique, onde as freguesias de Nossa

101
Rosa Sampaio, «A Freguesia da Mexilhoeira Grande do Concelho de Monchique (1773-1834)», p.
9
102
Henrique Fernandes Serrão, «História do Reino do Algarve”, in Manuel Viegas Guerreiro e
Joaquim Romero Magalhães», Duas Descrições do Reino do Algarve do século XVI, Cadernos da
Revista de História Económica e Social, nº 3, p. 136
103
José Rosa Sampaio, «A Freguesia da Mexilhoeira Grande do Concelho de Monchique (1773-
1834)», p.10
104
José António Guerreiro Gascon, «Subsídios para a Monografia de Monchique», p. 181

47
Senhora do Verde e Mexilhoeira Grande tinham dificuldade em receber a

administração.105

Ora, com o objectivo de ver o seu território alargado, a Câmara de Portimão

alegou, em 1792, como «o povo da Amexolhoeira Grande que ficava na distância de

uma Légua para a parte do Norte, é do território da Vila de Monxique aonde os

moradores daquele Povo vão responder na distância de quatro léguas transitando por

uma serraria escabrosa, quando lhes hera muito cómodo terem o seu recurso nesta

Vila.»106 Assim, em sessão de Câmara Municipal de Portimão, lavrada a 4 de Junho

de 1834, a freguesia da Mexilhoeira Grande foi anexada definitivamente ao concelho

de Portimão, conforme se lê na acta da referida sessão: «Recebeu-se uma ordem do

perfeito da Província para se proceder à eleição da Câmara Constitucional nos termos

do decreto de 9 de Janeiro do corrente ano, declarando-se na mesma que as

freguesias da Mexilhoeira Grande e Senhora do Verde, deviam ser consideradas

pertencentes a este termo.»107

4.4 - Nossa Senhora do Verde

A freguesia de Nossa Senhora do Verde foi extinta e a sua área foi dividida

pelas freguesias vizinhas. No entanto, a data da sua extinção levanta dúvidas e vários

autores apontam diferentes cronologias. Enquanto Ataíde Oliveira apresenta a data

de 24 de Janeiro de 1793 para a provisão que pôs fim à freguesia, o Padre José

Gonçalves Vieira explica na «Memória Monográfica de Vila Nova de Portimão» que

a extinção da freguesia de Nossa Senhora do Verde ocorrera a 1834 e que a sua área

«foi dividida pelas freguesias de Mexilhoeira Grande, Alvor e Portimão, cabendo a

105
José Rosa Sampaio, «A Freguesia da Mexilhoeira Grande do Concelho de Monchique (1773-
1834)», p.13
106
Idem, Ibidem, p. 13
107
José António Guerreiro Gascon, «Subsídios para a Monografia de Monchique», p. 152

48
esta com parte do morgado de Reguengos, os sítios das Casas Velhas, Portela dos

Meninos, João Afonso, Monte Alto, Torrinha e Rasmalho.»108

108
José António Guerreiro Gascon, «Subsídios para a Monografia de Monchique», p. 151

49
5. O Brasão de Armas Municipais como síntese da História Local

A 28 de Fevereiro de 1926, José António Guerreiro Gascon escrevia à

Associação dos Arqueólogos Portugueses pedindo ajuda científica para a elaboração

dos brasões de Monchique e Alcoutim, por «não dispor nem da competência nem do

tempo precisos e desejar que esse trabalho ficasse tão perfeito quanto possível e

revestido da autoridade que só aquela douta agremiação poderia dar-lhe.»109 Junto da

carta, seguiam dois projectos acompanhados de dois desenhos, segundo Gascon,

bastante imperfeitos, mas que davam uma ideia do seu objectivo para as armas de

ambos os concelhos. Pedia àquela associação que os seus projectos fossem

analisados e corrigidos os seus erros, de modo a ficarem o mais correctos possível.

Justificando a razão de todos os símbolos que incluíra, o desenho de José

Gascon propunha para o brasão e selo do concelho de Monchique um escudo pintado

de verde-esmeralda, dividido em dois por uma barra vertical em vermelho-carmim.

Esta barra era interrompida ao centro por um escudo de quinas, que representavam as

armas nacionais. O escudo do lado esquerdo, pintado de branco, não tinha qualquer

desenho, enquanto no lado direito, sobre um fundo de azul claro, estava desenhado

um castelo de três torres, o qual José Gascon associava ao castelo que teria existido

no lugar de «Munchite», justificando a sua existência pela «História de Portugal» de

Alexandre Herculano. Por cima deste, estavam três estrelas dispostas em arco, que

representavam as três freguesias do concelho, sendo a maior, ao centro, atribuída à

freguesia de Monchique. Finalmente, uma coroa mural de cinco torres, representando

a categoria de vila, finalizava o escudo. Lia-se ainda a palavra «Mons Cicus», na

parte inferior do escudo, como símbolo da antiguidade de Monchique. O estandarte

109
José António Guerreiro Gascon, «Subsídios para a Monografia de Monchique», p. 178

50
era esquartelado de branco e vermelho-carmim, cores que Gascon justificava como

as antigas armas do Algarve.110

Fig. 7- Proposta de José Gascon para o Brasão e Estandarte do Concelho de Monchique


(Fonte: Isabel Carneiro, Nuno Campos «O Concelho de Monchique e as suas Armas Municipais»,
2003)

José Gascon obteve resposta do Secretariado da Associação dos Arqueólogos

Portugueses a 18 de Março de 1926 a informá-lo que seria Affonso de Dornelas,

membro da Secção de Heráldica do mesmo organismo, o responsável pela

elaboração de um parecer para as armas do concelho de Monchique.

O estudo de Affonso de Dornelas só foi aprovado pela Associação dos

Arqueólogos Portugueses a 23 de Junho de 1927, mas o seu parecer chamava a

atenção para o facto da proposta de José Gascon conter algumas irregularidades

heráldicas. Uma delas era a ausência de elementos identificativos do concelho, do

ponto de vista histórico, geográfico ou económico, como por exemplo, a água,

considerada como o maior valor monumental de Monchique. Para justificar essa

inclusão, podia ler-se no aviso que «Monchique é conhecida principalmente pelas

110
Nuno Campos, Isabel Carneiro, «O Concelho de Monchique e as suas Armas Municipais», pp. 83-
86

51
águas das suas Caldas, que desde tempos muito remotos lembram a existência desta

vila e são as principais do Algarve (…) Deve ser este valor monumental de

Monchique que se deve representar no selo e, portanto, no estandarte (…).»111

Além desta, foram apresentadas outras razões justificando a recusa da proposta

de José Gascon. O brasão não podia, em nenhuma situação, ser partido, cortado ou

esquartelado, mas sim absolutamente simétrico e regular. As três estrelas que Gascon

desenhou para simbolizar as três freguesias do concelho não tinham, segundo

Affonso de Dornelas, qualquer tipo de valor do território administrativo, sendo

simplesmente associadas a «vitórias alcançadas contra os mouros, de noite.» Do

mesmo modo, a coroa mural de cinco torres estava errada, uma vez que esse número

representa as cidades e não as vilas, para as quais devem ser utilizadas quatro torres.

Deste modo, Affonso de Dornelas propôs a constituição das armas de

Monchique da seguinte forma: «De verde com uma fonte de prata repuchando do

mesmo metal. Em chefe, uma cabeça de carnação branca coroada d’ouro e outra de

carnação negra com um turbante de prata. Corôa mural de prata de quatro torres.

Bandeira branca de um metro por lado. Por debaixo das armas, uma fita vermelha

com os dizeres “Vila de Monchique” a branco.»112

111
José António Guerreiro Gascon, «Subsídios para a Monografia de Monchique», p. 179
112
Nuno Campos, Isabel Carneiro, «O Concelho de Monchique e as suas Armas Municipais», p. 89

52
Fig. 8 – Parecer de Affonso de Dornelas para o brasão de Monchique (Fonte: http://www.cm-
monchique.pt)

1. Campo Verde: na terminologia heráldica, o verde tem o valor de água

fluvial;

2. Cabeça de Rei Cristão e Rei Mouro: por tradição, as antigas armas do

Algarve tinham estas duas faces representadas, devendo a mesma ser

respeitada;

3. Fonte a jorrar água: considerada a peça principal das armas de

Monchique, representava a característica medicinal das águas, bem como a

existência histórica das termas;

4. Coroa Mural: com quatro torres, tinha o valor atributivo de vila.

Representa ainda as muralhas defensivas de Monchique, podendo estas ser

identificadas com o castelo de Alferce.

53
Passados poucos dias após ter recebido o parecer de Affonso de Dornelas a 23

de Junho de 1927, José Gascon reencaminhou o mesmo documento para os membros

da Comissão Administrativa da Câmara Municipal. Estes, em Sessão de Câmara

Extraordinária de 29 de Setembro desse ano, aprovaram «por unanimidade, adoptar,

desde já, o brazão de armas tal como consta da proposta contida na parte final do

parecer.»113 Decidia-se também, a aquisição de uma bandeira e uma lápide com o

novo brasão, para ser colocada na fachada da Câmara Municipal, assim como o envio

de uma cópia autenticada da acta de aceitação das novas armas para o Arquivo da

Torre do Tombo. Nesta reunião foi, igualmente lançado, um louvor público a José

Gascon pelo seu impulso na criação de um brasão para o concelho de Monchique.

113
Nuno Campos, Isabel Carneiro, «O Concelho de Monchique e as suas Armas Municipais» p. 74

54
Conclusão

Por todas as particularidades que Monchique já apresentava no século XVI,

não é difícil perceber o que levou D. Sebastião a querer instituir a autarquia em

Janeiro de 1573. Embora fosse um lugar do extenso território de Silves e dele

estivesse dependente a nível politico-administrativo, na segunda metade do século

XVI já Monchique assumia uma grande importância, em relação a outros povoados

do Algarve, por motivos diversos. A sua beleza e condição aprazível, a abundância

de madeiras de castanho e boas pastagens, a existência de umas termas e a sua

condição de local de passagem e paragem para muitas pessoas que se deslocavam

pela região algarvia, constituíram importantes factores para o aumento populacional

e desenvolvimento económico desta localidade ao longo do tempo.

Poucas horas depois de ter estado em Monchique, D. Sebastião foi obrigado a

voltar atrás com a sua decisão em elevar o lugar a vila, e Monchique apenas viu ser-

lhe criado o concelho em 1773. A decisão de criar o município partiu do Marquês de

Pombal, que no âmbito do seu projecto de Restauração do Reino do Algarve, acabou

respondendo aos principais problemas económicos e político-administrativos que já

se faziam sentir na região, desde meados do século XVII.

Monchique foi elevada a vila através do Alvará de 16 de janeiro de 1773, no

qual vinham mencionadas as razões sociais e económicas que deviam ser tidas em

conta para a obtenção desse estatuto. O documento régio abordava a riqueza e a

fertilidade da terra, que permitia a abundância de muita fruta e boas pastagens, bem

como de madeira de castanho, a qual era exportada para outras localidades, mas não

esquecia as dificuldades que existiam no exercício da administração e do comércio,

55
não só devido à distância entre Monchique e Silves, mas também pelo mau estado

dos caminhos que faziam a ligação entre a serra e o litoral.

Assim, conclui-se que a vila de Monchique foi criada numa conjuntura de

reforma e dinamização do Reino do Algarve, com vista a desenvolver e permitir a

segurança num dos principais pontos de comunicação com Alentejo, por onde

circulavam viajantes, negociantes, mercadorias e muitas pessoas que se deslocavam

até às terras próximas. A criação do concelho de Monchique (e também de Lagoa)

visava combater o centralismo concelhio que se verificava na zona, onde o extenso

território de Silves impedia a realização de uma eficiente administração da justiça,

assim como do saneamento dos locais mais ermos e de difícil acesso, como era o

caso de Monchique.

Todavia, o procedimento de criação de um concelho novo é burocrático e não

bastava a ordem assinada pelo rei, pois houve todo um processo de nomeações,

novos cargos e interesses em ocupá-los. Não havendo, logo de início, um edifício de

câmara definido, as reuniões dos seus funcionários realizavam-se em casas

particulares. No século XIX, Monchique viu-se diminuída do seu território

inicialmente proposto, pois perdeu as freguesias de Nossa Senhora do Verde e

Mexilhoeira Grande, mas a autonomia enquanto concelho manteve-se.

Passados duzentos e quarenta e dois anos após a criação do concelho,

Monchique ainda mantém a importância nos planos regional e nacional, devido à sua

privilegiada localização em plena Serra de Monchique, mas também porque as suas

características naturais e agrícolas, tal como as Caldas, não perderam relevância e,

continuam hoje a ser muito procuradas. A par de outras localidades do interior,

também Monchique sofre com a desertificação face aos centros urbanos do litoral

que oferece mais e melhores oportunidades, perdendo-se a identidade, a memória e

56
as raízes culturais que marcam esta vila. Com esta monografia espera-se recuperar

muitos desses valores e, sobretudo transmitir às gerações futuras a importância de

valorizar uma região rica em história e tradição.

57
Bibliografia

Jornais:

Jornal de Monchique, nºs 182 (25.11.1999), 188 (09.03.2000), 216 (11.05.2001),


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de Mestrado em História da Arte, Universidade do Algarve, Faro, 2012;

60
Anexos

61
Alvará de 16 de Janeiro de 1773, pelo qual são criadas as vilas de Monchique e

Lagoa, são integrados os lugares de Moncarapacho no termo de Faro e os de Alte e

Boliqueime no termo de Silves e é abolida a vila de Alvor.

Carta Régia de 18 de Fevereiro de 1773 oficializando a elevação de Monchique a

vila, estabelecendo-lhe o direito de gozo de todas as regalias de localidade da mesma

categoria e definindo-lhe o registo da mesma nos Livros da Câmara de Vila Nova de

Monchique e nos da Correição.

62