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Daniela

Galdino (org.)
Daniela Galdino
(Org.)

Ipiaú-BA, dezembro de 2014


Copyright © Daniela Galdino et alii, 2014
Capa, editoração, arte final: Binho Brill
Foto de capa: Iajima Silena por Eline Luz
Produção: Voo Audiovisual
Assistentes de produção: Cajuh Almeida, Dandara Galdino

FICHA CATALOGRÁFICA

B869

Galdino, Daniela (org.).


Profundanças: antologia literária e fotográfica / Daniela Galdino (org.). 1ª edição.
Ipiáu, BA: Voo Audiovisual, 2014.

ISBN: 978-85-68836-00-2

Esta publicação, sem fins lucrativos, está disponível para download gratuito
a partir do link: vooaudiovisual.com.br
“A vida só é possível reinventada”
Cecília Meireles
Uma palavra para Voo Audiovisual, Idea Livre, Binho Brill, Coletivo Tear,
Espaço em Branco, Walter Gaspar, Dandara Galdino, Cajuh Almeida,
Assentamento União e Luta, Fazenda Progresso, Via Brechó, Léo Moraes:
GRATIDÃO
Sumário
7. Apresentação 74. Márcia Soares
“Viagem ao centro da roda” – por Daniela Galdino “E a minha saudade tem a cor sépia”
78. Márcia Soares por Jéssica Sueli

83. Potira Castro


8. Belisa Parente “Prometo gozar o atraso dos dissabores”
“Olho-me no espelho nua por dentro” 87. Potira Castro por Guigo Amaral
12. Belisa Parente por Pedro Liberal
92. Raquel Galvão
17. Brisa Aziz “sintomas de precipício/ predicados de botequim”
“Fui nomeada no esteio do vento” 97. Raquel Galvão por Augusto Flávio Roque
22. Brisa Aziz por Ana Lee
102. Renailda Cazumbá
27. Calila das Mercês “Tenho tanto medo de deus/ Que até fraquejei com esta caneta”
“Sou eu, ácido, violão sem cordas” 106. Renailda Cazumbá por Luiza Cazumbá
32. Calila das Mercês por May Barros
111. Say Adinkra
37. Celeste Bastos “eu sempre voltarei para o verão dos teus braços”
“Tenho medo dos sussurros das palavras” 115. Say Adinkra por Fafá M. Araújo
41. Celeste Bastos por Ravena Revenster
120. Valquíria Lima
46. Daniela Galdino “Os meus cabelos/ escondem navalhas errantes”
“começo a pender para direções esquecidas...” 124. Valquíria Lima por Martinho Souza
51. Daniela Galdino por Eline Luz

56. Fernanda Limão


“as quinas das portas cortam meus passos” 129. Mini Bio d@s Participantes
61. Fernanda Limão por Amanda Pietra 130. Organizadora
131. Autoras
66. Lorenza Mucida 133. Fotógraf@s
“Há mofo no teto e gotas de chuva nas cortinas” 136. Produção
69. Lorenza Mucida por Andreza Mona e Emanuela Alves
Apresentação
Viagem ao centro da roda
necessidade de inserir o trabalho de jovens fotógraf@s sensíveis às formas de resistência
feminina. Portanto, para cada autora convidada contamos com um/a fotógraf@ que
2014: o ano em que levei a sério os versos do nosso Jorge de Souza Araújo: produziu um ensaio cujo foco é a revelação da presença feminina nos seus espaços de
"preciso tomar uma providência em minha vida/ preciso tomar uma vida em minha origem/atuação. A atmosfera de cada ensaio foi de livre criação d@ fotógraf@
providência.../ preciso tomar uma/ preciso tomar ar".
correspondente.
Resultado: consciente de que não havia escapatória, decidi adiar a publicação do meu
PROFUNDANÇAS, desde a sua gênese, se apresentou como um projeto colaborativo,
terceiro livro de poemas e embarcar, de vez, numa ação coletiva.
sem fins lucrativos. Agora, com a materialização deste livro, digo/dizemos: a principal
Nesses últimos três anos assumi até o talo a condição de migrante pendular.
intenção é conferir visibilidade às produções que encenam outros lugares para os corpos
Acentuaram-se as andanças, os trânsitos e, por consequência, as interações com pessoas
de mulheres, bem como a diversidade nas formas de autorrepresentação.
incríveis, diversas. Mulheres, sobretudo. Mulheres que tem mania de se vestir com
Quem participa de ritual(is) sabe que há o segredo. Aquilo que só pode ser retratado
palavras. Foram incontáveis os encontros inusitados - em locais improváveis. Vez outra era
na memória, no baú de lembranças, pois, sendo parte íntima da ritualística, é
convidada a escutar poemas, trechos de crônicas ou contos. Fosse pelas ondas da
compartilhado por poucos. Há, também, no ritual, o que pode ser dito, dado ao
virtualidade ou no encontro sob um sol abrasante, o certo é que desenvolvi a vontade de
conhecimento a círculos maiores. Respeitando as dinâmicas do segredo PROFUNDANÇAS
alinhavar.
Tantas conversas causaram perturbações. E o incômodo maior era esse: as gavetas
pendula entre o guardado e o transbordado das gavetas dos dias. No intermédio: as 7
expansões dos seres.
engolindo tantos escritos. A cena se repetindo em lugares tão díspares (Recife, Itabuna,
Feira de Santana, Ilhéus, Garanhuns, Brumado, Salvador). Gaveta: vala comum? Dessa SEGREDO, PACIÊNCIA, FLUIDEZ, SINTONIA. APRENDIZADO DA CALMA, DA ESPERA.
perturbação surgiu a ideia de organizar uma antologia literária. TEMPORALIDADE OUTRA. Fiquei pensando nesses elementos....
ainda mais nos contextos de organização virtualística do cotidiano. Em tempos de redes
A primeira coincidência que notei entre essas mulheres: o ativismo na formação de
sociais e marés virtuais o tempo se organiza apressadamente. Há enxurradas de imagens,
leitor@s. Aos poucos ficou perceptível que o interesse pela Literatura ia além e
informações. O tempo do nosso ritual é outro. E, junt@s, estamos desaprendendo,
resguardava experiências íntimas de escrita. Ou seja, essas mulheres, apesar das
reaprendendo. Nem tudo está previsto, mas muita coisa está acontecida.
experiências de leitura e/ou difusão literária, repetiam a cena do engavetamento de textos
e, cada vez mais, eram acentuadas as distâncias com possíveis leitor@s. Façamos uma roda. Vamos dar as mãos. Vamos voltar os nossos olhos para o centro
da roda. De lá emana a energia que se espalha. Na roda não há hierarquia...
Conhecendo de perto a escrita dessas mulheres e com a ânsia de ampliar as
Sabem aqueles rituais de nomeação? A criança vem ao mundo, é dançada, cantada,
possibilidades de interações, passei a levar mais a sério a ideia de organizar uma
mergulhada em águas e as palavras se reorganizam para significar essa existência
antologia que trouxesse à tona o que se chama de “cadeia ininterrupta de insurgências”
nascente.
(C.f. SPIVAK). O lugar ocupado pela literatura na vida dessas “comedoras de proibidos
frutos” é imenso: forma de sobrevivência(s), contragolpes certeiros, antídoto ao O nome, a palavra. É preciso uma temporalidade desaprendida para que a nomeação
desencanto. se faça. Fluidezas trouxeram à tona uma palavra inventada: PROFUNDANÇAS.

Aqui estão autoras inéditas, autoras que já divulgaram seus textos via internet (mas Agô às forças do universo! A criança está entre nós.
que nunca publicaram livro individual) e ainda autoras que publicaram somente 01 livro
individual. E como a literatura sempre se abre a outras possibilidades de diálogo, veio a

Daniela Galdino
Belisa Parente
“Olho-me no espelho nua por dentro”
Sácobra de Cipó Indome
B E L I S A PA R E N T E

Caminhava sozinha Agora sou a Chita


No meio do mato Africana atípica
Temia, corria Predadora escapa
Imaginava os boatos. Não embosco,
corro e ultrapasso.
Serpente matreira
Não pega preá Calda, anéis, esquivo
Não entra na cova No leme a cabeça doura
Mas sabe nadar... Desprendem negras linhas de lágrimas.

Um dia andando Fujo para a Índia, Arábia, Ásia 9


No meio do caminho
Parou assoviando Lambo os meus felinos
Um homem de espinhos. Carrego-os no caminho

Serpente faceira Um piscar de olhos muda a direção inventada.


Sediciosa que só
Abriu um sorriso Sem vacilo
Transformou-se em cipó. Agora sou a Chita.
Louca na Praça do Diário manchar despreocupadamente a sua mesa, a minha. Tentei....
B E L I S A PA R E N T E

encontrar vestígios nos seus escritos beats datilografados,


xerocados, uma sala espaçosa, quadros escuros, o seu quarto
Era o meu dia. E ele começou como todos os dias. Acordar, bagunçado, pão com requeijão, cervejas, pedi mais cervejas. O
sorrir para a minha bebê, colocá-la no berço enquanto tomo seu corpo riscado me pediu, a palavra “divórcio” como síntese
banho e me visto, ouvir chorinhos, deixá-la na casa da mainha do seu livro de Dostoiévisk emprestado, o seu ar agudo meio
com a babá, ir ao trabalho. Mas nesse dia parei no meio do sabático. O seu beijo insolente. O seu beijo insolente...
caminho, bar do passarinho, destino Rua do Progresso. Tudo Seja mais restrita, manda o astro, desmanda. Geminianos. Táxi
vai, tudo fica, a novidade como água viva, o meu desejo por para a PRAÇA! Baby junkie com o seu pé no crime, inconsciente
rua e por casa. Apresso o passo, paro, me derreto no Hotel e instinto, um poema sobre o lugar a ser lembrado e um
Central, de andada no centro da cidade do Recife; ela pulsa monte de gente. Um monte de gente... Descobri que não posso
agitada, mas ainda me é leve. Contemplo a vista dele na minha ver muita gente. Uma música desde cedo ladrilhava, Jean
eterna introspecção... Nicholas sem saber recitar uma poesia de Rimbaud. “Ainda
Dá-me mais um minuto, três, quatro, essa minha necessidade vou querer jogar, tenho muito filme pra queimar e muita ficha 10
de ficar um pouco sozinha, com as emoções mais primitivas. pra apostar”. Era o meu dia. Era o seu dia. E você besta meio
Arê. Um silêncio no dia, uma poesia, choro dócil de alegria. E o bossa vadio, meio tal, meio mal, meio fel – mas eu encontro
gosto pelos rituais, antigos como se despir e se vestir de tudo. tanta poesia em meninos amargos. Louca na Praça do Diário.
Sou eu mesma e também sou mutante. Olho-me no espelho Roger de prova - e prostitutas infiéis pelos cantos de paredes e
nua por dentro, encontro a minha real coragem, me divirto, velhos e bêbados e menininhas e menininhos descolados e
solto o pé no abstrato, espirais nas minhas vísceras gritam, outros babacas, intelectuais, loucos e estagiários. O meu sexto
tento desvendar atritos. Você não gosta do meu cigarro, da sentido apita. Freio brusco para você me pular. Liberdade é
minha nebulosidade, mas somos poucos, não podemos nos bicho bom.
perder ainda.
Você me diz, sem tempo nem direção. Carpe Noche. Implica
cínico comigo, me desafia. Oh, meu Eros de Diotima! A cinza
não caiu pela janela, os livros não foram jogados, nenhum
moleskine foi roubado e o destino da merda da cerveja é
Elogio à Vaidade além dos limites da imaginação, cheinha de si. Sem moral
B E L I S A PA R E N T E

animal, soberba ou desdém, a vaidade às vezes convém. A


vontade de estar bem, de corpo e alma... o ego nos faz zelar
É bela a vaidade das mulheres, os seus queixumezinhos, por nós. O sol penetra suavemente os seus cabelos lânguidos...
preocupações, desesperos. O mentir a idade, passar batom, se ela medita, respira fundo, se olha novamente. Encontra uma
achar gorda, se colorir com anéis, brincos, pulseiras. Ou algo fórmula mágica: a verdade escondida. Já dizia vovô Nietzsche...
que realce a palidez humana. Se olhar no espelho trezentas a verdade é uma mulher sedutora e vaidosa.
mil vezes e tornar a olhar. Ajustar os desvios. O ego precisa
sobrepor o alheamento. Vamos lá, digo para mim. Penteie os
cabelos, pinte os olhos de negro, beba um vinho, escreva um
verso para Dean, troque-o por Jack, dance e cante sem
vergonha para você mesma e quem quiser ouvir.
A vaidade de enxergar belezas e imperfeições e levar o melhor
do estrato, sem bazofiarias. E amar a vida. É. Amar a vida. A 11
vaidade ama a vida. Ela se veste de amor próprio, pinta as
unhas de vermelho, traga de modo contemplativo. A vaidade
também é romantismo. E se masturba quando a noite cai
porque se acha bela – e é. E quando os ruídos da cidade lhe
atordoam, ela liga o som e dança plena, grande e plena, com a
roupa de dormir. .
É belo se sentir ofendida de peito aberto e ficar fora de si
quando o nosso orgulho é ferido. Os espíritos livres sabem
como é engrandecedor sentir a própria dor. Mas na superfície
plana... a vaidade que é a pele, como soprou Nietzsche em
“Menschliches, Allzumenschliches”. É preciso vivenciar além
das abstrações, religiões, de qualquer inteligência emocional.
A vaidade desperta cheia de tesão e vai buscar novos planos,
Belisa Parente
por PEDRO LIBERAL e
CAMILA SININBÚ
Brisa Aziz
“Fui nomeada no esteio do vento”
Chuva Regalo
BRISA AZIZ

Fui nomeada no esteio do vento. Sou de uma estirpe antiga de observadores do tempo.
Estou, sempre que posso, à janela da vida.
Aí é que eu, Sendo assim,
de menina, demorei de falar:
pedia chuva e achava gozava a vivência das linguagens dos outros.
que tinha parte com o tempo.
Preferi chupar o dedo
Fazia um ritual diário: e fruir as significâncias que imprimiam ao mundo.
rede e suco depois do almoço.
Ler, no mesmo passo,
Nutria o meu exercício. foi ligeireza. 18

A chuva? Prazeres maiores que este são poucos:


Às vezes, vinha. o de ver e ouvir e matutar
Se vinha, era a meu contento: o que disseram de caso pensado

Liquefazia meus sonhos, Meu verbo é de observâncias e comunhões estreitas.


Embalava o compasso rangido da rede,
Batia mais de mil dedos no tambor Gosto mesmo do bololô cadenciado
das telhas de sons e ideias que imprimem ritmo à vida.
e da terra.
Cheirava frescor. Gosto da pêga em ouvir minha tia Xana dizendo:
“Tá escrito na bíblia!
O prazer da vida, minha filha, é comer, beber e se regalar...”
E eu regalo, desde sempre, Sangria
BRISA AZIZ

uma existência de percepções.

Somente quando senti Sangro.


a minha hora de abrir a boca, Toda vez que a voz me falta
que disse, em bom português: e o alheio
“Aqui se fala essa língua!” de tão pessoal
me cala.

Sangro.
Gota a gota
devaneios
e venenos destilados
do organismo de terceiros.
19
Sangro partes
de palavras mal trocadas;
Sangro um sal
mouro
trancada num estado de atenção.

Sangro só
mais uma prenhez que explode,
se refaz enquanto ode
de si mesma
à solidão.
SobreViver A Queda
BRISA AZIZ

Retinas afiadas Só o licuri em sua pequenez


em uma pedra de amolar. chega a ser morada
de um bicho (?) assim:
Postura relaxada
que lembra a de um faquir. tão puro de leitoso,
tão delicado de invertebrado,
Ideias concebidas tão sem pé nem cabeça:
de quem sabe omitir um morotó.
seus maus passos,
sua covardia. E eu, de menina,
comia um bocado 20
E eu, sem olhar.
E eu...
E eu? O olho garra nojo
de existências rastejantes,
Eu passarinho às cegas, pulsantes.
(e transpareço)
Mas, qual?
Eu realizo Hoje,
o meu canto rai ai...
final.
Faço qual Besouro Preto que,
na memória do avô de Mestre Alfredo,
com o bucho arreganhado
por uma faca de tucum maldita
segurou as próprias tripas,
chegou ao balcão do bar e disse:
-“Me veja uma caninha!”

E ali eu tomo um trago


e petisco das minhas tripas
até
cair.

21
Brisa Aziz
por ANA LEE
Calila das Mercês
“Sou eu, ácido, violão sem cordas”
No Pé do Ouvido no ar o vento
CALILA DAS MERCÊS

silêncio faz barulho aqui dentro

brinco, não sei de quê no pé do ouvido


prata, ouro, branco talvez furos, canções
corre, esconde, por quê? belas, atrevidas,
sugere uma pista, questiona, sentidas sentimos
o que importa sua insensatez? a triste e dramática ferida

alguém conta, o rio espalha... na noite alta, na casa suja,


tropeça, soluça e disfarça clara, menina brinca

não é farsa, somos carinho também... morena se esconde


de mãos dadas caminhamos a vida não é novela 28
com deslizes e dramas, nada fácil te entrega
e penso no que vó diz: é para os viajantes que aceitam a seca e o frio
males vêm pro bem. a vida é para amantes como eu e ela

Seria bens pro bem, seria


se a vida fosse para sempre

certamente as coisas não andariam


versos pobres propositais como discursos
treinados para impressionar,
o falar firme não enriquece,
voa e paira no ar
Desmanchar a Mancha cheiro no lençol
CALILA DAS MERCÊS

fotografias arrancadas

entrega apaga
amor substitui
mistura lava
dor esconde

posso não resistir diálogos extensos


posso não suportar tensos
posso partir lágrimas doentes
posso silenciar entes

não ver a verdade magnética 29


não lembrar o esquecimento objetivo
não doer o impossível desmanchar
não sangrar a mancha que foi visível

vejo resquícios.
lembro
dói
sangro

vestígios

marcas na parede
palavras aproveitadas
Guarda-Chuva Violão sem cordas
CALILA DAS MERCÊS

nós abraçados sob chuva Mudo os silêncios


sob guarda-chuva O rapaz fecha os olhos
repetimos E dormindo acorda
repetimos os passos Chão de pedra sofrida
saltamos poças Canta na origem d'Angola
pisamos em lama gosto de laranja na boca
rimos dos pés molhados A casa retoma,
sincronia Sem fôlego, sem folga
lembrei-me do dia um frio que toma
frio, chuva, nós Num mudo constatar
guarda-chuva Numa dor profunda, agora. 30
gente muita, Sou eu, ácido, violão sem cordas.
e nós a sós
éramos um.

.:.

dia seguinte
acordamos um,
sob o sol
sem guarda.
Raras
CALILA DAS MERCÊS

Beleza
Eu vejo nos olhos
De flores e da chuva.
O que importa
o tempo e a água
que passa e não volta...
que soa, voa e vai?
Quem foi, foi fim
eu finquei aqui
e plantei rosas
Eu fiquei flores e 31
Elas fincaram em mim.
Calila das Mercês
por MAY BARROS
Celeste Bastos
“Tenho medo dos sussurros das palavras”
Casa perdida Começo sem im
CELESTE BASTOS

Janelas que me mostram horizontes Sempre quis o amor


Portas que abriram o meu futuro E não um corpo ao meu lado
Sempre quis o teto das sombras
Casa que acolhera meu corpo débil E não apenas o abrigo para os meus olhos
Para os flagelos da vida
Hoje meus caminhos desviaram-se Sempre quis do sorriso o brilho
E em algum lugar estará uma casa perdida. E não o som das gargalhadas
Não quis o futuro
Apenas o momento, mesmo sendo inseguro.

Não escutei as palavras 38


Mas me bastou só a emoção
Não quis partilhar os desejos
Pois chegaria ao abrigo das minhas ilusões

Eu não quis que julgasse o meu começo


Mas será tarde demais se julgar o meu fim.
A própria morte com medo da vida Parede sem porta
CELESTE BASTOS

Esta arma mata amigos e inimigos Aprisionaram todos os meus sentidos


Destruiu a minha humanidade Aqueles que castram as minhas vontades

Hoje sou nada não, moço Já não sou a árvore que fecunda o fruto
Sou a raiz da fúria Sou o joio do trigo que fecunda espinhos em pedras

Valente homem amargurado Estou paralisada na consciência


Nunca encontrei o bem da flor Sou relato sem vitória

Tenho medo dos sussurros das palavras Compreensão indígena de uma fera
Sorrir é um desafio à minha loucura Construindo quatro paredes 39
Sem portas e janelas
Gargalhadas preenchem um vazio interior
Felicidade não existe! Se não houve luz
Me afoguei na escuridão
Se a vida não tem valor em minhas mãos
Não preenche o meu coração A morte agoniza sem achar a minha alma
Não me conheci!
Quer saber se um dia me senti homem? Por isso não soube viver.
Nas vezes que desejei ser amado

Só o ódio pela minha maldade


Faria eu renascer

Mas sou hoje a própria morte


Com medo de viver.
Pra você, felicidade
CELESTE BASTOS

A minha porta está aberta


Todos os dias eu espero a felicidade

O vento entrou e balançou minha janela


Arrumei-me todos os dias

Para que a felicidade chegasse e me achasse bela


Mas o tempo embranqueceu meus cabelos

Desarrumou meu rosto, deixando-me rugas.


Precisei sentar, era longa a espera. 40

Tudo o que eu guardei não valia mais nada


Felicidade, quando entrar abre uma caixinha dourada.

Nela tem meu coração


Já não estarei a sua espera.
Celeste Bastos
por RAVENA REVENSTER
Daniela Galdino
“começo a pender para direções esquecidas...”
Dilúvio Barco
DANIELA GALDINO

há três dias você descasca


sete horas cenouras
nove minutos para a salada
e onze segundos que não comerei

minhas heterôminas (Villa-Lobos na tv)


estão em assembleia
eu falida de verbos
pauta única: sentada
o que ocorrer à beira da tarde
costurando ruídos 47
nada será deliberado
(Villa-Lobos na tv)
admiro a organização
de Pessoa nesta primavera
de fugas
bendita nossa fome
o resto é tormento
- cena um - distante escolheu cortar o cordão antes dos tempos naturais...
DANIELA GALDINO

esta segunda-feira irreversível acentua a minha descoragem e


a minha descoragem é cúmplice do vital assomo... eu queria
... a casa em petição de desordem aparente... de um lado, a ser uma rima entre o coração de Raimundo e as trompas de
mochila, com a boca aberta, pede esvaziamento... no outro Macabéa...
extremo do quarto uma pequena mala (impaciente) deseja ser
preenchida... já tropecei numa sacola de farmácia - foi óbê pra
todo lado... menos pra dentro de mim... essa metáfora gasta do
partir-chegar-partir (o ineditismo reservo para os ecos
poderosos de Milton Nascimento)... aquele amplo plano inicial
me atrai... sou observadora distante em Pompeia... sou aquela
ânsia e rasgo os céus dos contentamentos... é a hora do
almoço... contra os carros que anunciam eunucos estridentes...
contra a atração pela miséria visual alheia... aqui em casa toca 48
um rock progressivo... talvez os vizinhos me odeiem por isso...
peço licença a Drummond pra dizer que a literatura acentuou
não só as minhas melhores horas de amor... a literatura
acendeu as madrugadas, os dias, os minutos cruciais... estou
toda remendos de lombadas, folhas amarelecidas, anotações
de canto de página (feitas a lápis, por isso passíveis de
desaparecimentos), dedicatórias rasuradas... começo a pender
para direções esquecidas... se eu tivesse a coragem da garota
de Columbia diria muitas dores alheias entranhadas em meu
espírito... arrastaria os mil colchões dos meus terrores até o
fim... mas eu sinto medo de falar: descobri o que se deu
naqueles segundos limítrofes em que uma moça optou pela
fuga total e aquela outra pela parição desenfreada e a mais
- cena dois – (suando a aguardente dos vencidos)... da cama não me
DANIELA GALDINO

levantei... ele amarrou as minhas mãos na cabeceira...


espalhou as minhas pernas... espirrou sangue, suor e aquele
... o quintal era de tarde... no chão batido eu contava, subtraía, imundo sêmen... doze meses assim... cofre com chave perdida
soletrava... eu conjugava sílabas e algarismos... montava o no bolso do esquecimento... mainha falava comigo soprando
álbum de figurinhas dos meus sonhos comprimidos... em palavras por baixo da porta... e eu aprendi... colecionava
rasgos de dezessete horas veio painho falar comigo... “guarde o moedas, dinheiro de papel e ódio encruado... minha prima
meu anelzinho bem guardadinho” – foi o que pensei... (toda semana) parava em frente ao sobrado... eu jogava um
dividindo as minhas mãos rajadas de terra ele depositou um pacote amarado com barbante.... moedas, dinheiro de papel e
anel... disse que eu estava noiva... o casebre dos meus doze ódio encruado compraram a minha fuga... ... maldito seja o
anos e meio, todo com paredes remendadas, estremeceu por meu pai... maldito seja aquele desprovido de tudo... maldito
dentro... dali a sete dias eu estava na cidade... fiz a travessia seja o trabalhador boa paga que honrou a dívida contraída nas
em lombo de carroça... fui calada, diluviando incertezas... ribanceiras do tempo ... maldito seja, na direção dos infernos,
duvidava se painho estava brincando ao gritar, lá do portão: o meu pai – aquele que me ofereceu como paga e me lançou 49
“tu não me traga demanda da tua casa para a minha”... casar nas esquinas do desatino...
eu sabia o que era... remendar as calças do marido, fazer
comida gostosa, cuidar das crianças, deixar tudo limpo para
receber visita domingo sim outro não, dar de comer aos
porcos, às galinhas, coarar as roupas na pedra e, quando de
noite, deitar em cama separada... e casar também era esperar
pelo marido que chegaria só no vindouro da manhã incerta...
dali a sete dias eu estava na cidade... comecei o casamento
sozinha... levei uma tarde, uma noite e a madrugada
trancafiada no sobrado que tinha chão encerado de vermelho...
a fome tranquiliza pensamentos (quando violenta a fome
inebria, amortece a cabeça, dá leseira profunda ... sono bom...
mecanismo de defesa)... invadindo o meu sonho ele chegou
aqui estão as mulheres anfíbias: mariscar...
DANIELA GALDINO

habitam águas antes de o mar riscar areia fina


percorrem matas
entre cavar e catar
conhecem tudo por dentro: sobrepujar a lida
asperezas e amplidões com o que há de profundo

e são muitas nesse ofício de reinventar-se... coarar a roupa do tempo


e são fortes no interstício da realidade... estender
esperanças alvejadas
trabalhar a terra fatigada
plantar entre lavar e louvar
a semente da resistência amansar correntezas
submergir os temores 50
entre levantar e levitar
lavrar as dores nossas varrer o terreiro de silêncios
(de tão suas). inaugurar
delicadas cantilenas
Colher a polpa do tempo
sorver entre cantar e caiar
o sumo da justiça palmear... palmear... palmear...
as mulheres que domam a vida...
entre secar e ensacar “mulheres em domínio público”
ensaiar alvoradas
nas bocas das crianças

mariscar no sopro da aurora


Daniela Galdino
por ELINE LUZ
Fernanda Limão
“as quinas das portas cortam meus passos”
Poema de inverno Bailarina
FERNANDA LIMÃO

garoa serena de noite fria A minha bailarina


gota a gota, a noite pinga surrupia a música dos quadros
em sonhos febris rodopia nos balés das tardes vazias
a chuva murmura e desafina na rima do bem-te-vi
verbos escuros e mudos.
a minha bailarina fagueira
mudo, modo, medo salteia as horas ligeiras
não tremas o frio que verdeia asfaltos cinzentos
adormece teus pés, clareia assombramentos e
mãos e tórax. vagalumeia estradas noturnas
57
teus olhos, a minha bailarina menina
vermelhos, saturneia os anéis das cidades
red wine, irrompe em planetas letreiros
queimam. pirueta entre flores de canteiros
e adormece ensolarada
e os verbos crepitam, em brasa no céu das entrelinhas.
enquanto o inverno te permeia
meia palavra morta
cega em tiroteio
ricocheteia a esmo
mesmo mirando em mim
Toma minha cama
FERNANDA LIMÃO

minhas roupas
meus livros
coma meu pão e minhas letras de música
tome meu vinho. meus suspiros
toma. e meu corpo
meus sais
minha cama meus gostos
minhas roupas e me agradeça.
meus livros
engula minhas músicas
e respire delas as letras

tome meu corpo 58


minhas dores
e não se compadeça

ou morra sozinho
com suas lamúrias
sua agonia
sem vida
e sem voz
esperando acender uma luz
que ilumine seu mundo frio

ou coma meu pão


e tome meu vinho
Emudecida passo
FERNANDA LIMÃO

enquanto as paredes gritam


meus olhos emudecem e voam
escrevo-me nas paredes da casa tranquilos
leio-me nos quadros velhos e desgastados
murmuro junto ao farfalhar das folhas secas

o canto das cigarras


tem o tom bêbado dos boêmios de fim de noite
em cada floreio um rabisco mudo que não fiz

salvas nos cantos de cada cômodo


agonias mártires servem-se de pó
e eu, rasgada na cama, 59
fartando-me do sono soberano da fuga

falho nos entremeios dos sonhos


resguardando-me ao direito único de esquecer
ofereço-me a deslembrança
desmembrando memórias fortuitas
do paradoxo de ser ou não ser o que penso que fui

as quinas das portas cortam meus passos,


fadados aos muros instantâneos
erguidos ao longo das horas
invisíveis aos véus que cobrem meus olhos
Ladainha os olhos repetem
FERNANDA LIMÃO

ladainha incansável

a mulher olhava a rua da poça


como quem olha o raso da noite do poste
aceso na morte da lua da pressa
rezando na porta da casa de praxe
o velho ofício de cova rasa da fresta
rascunho de vida
ladainha de todos os dias do raso profundo
espreitando na esquina que olha a mulher
um vacilo qualquer parada na noite
vidrada na rua
no raso da noite 60
uma poça de luz
esgueirando-se pela rua
a mulher olha a morte
atravessada na lua
como quem reza
à espera de um vacilo da vida
ladainha daquele que vive

na porta da noite
pancadas secas
das luzes da rua
que fingem de lua
no noturno da reza
Fernanda Limão
por AMANDA PIETRA
Lorenza Mucida
“Há mofo no teto e gotas de chuva nas cortinas”
Sóis Fevereiro de frevos, de ferver.
LORENZA MUCIDA

Novembro, se é de fora, nada. Se resolve ir, devolve o novelo e


enovela o horizonte em rubor. Fertiliza-me.
Setembro pontualiza-se em minha inauguração de órfã à Abril de espanto, partiu o visgo. Fez-se ir. Sinfonia de ímãs, de
espreita, de civilização escamoteada, de robusta linhagem. irmãs, de brejo. Despedaçado e metabólico caleidoscópio.
Amadureci com os algodoais e com os cantos de sereias. Vulvas em vertigem.
Percebo negativas em primeiro plano e não desejo as suas Agosto, espera.
soluções. Desafios e percalço. Dezembro finda e recupera e inverte a logicidade e supera o
Maio lambe-me de imediato com as varizes das mães e mãos linear e antecede o não visto e folga, amanhã será sempre
de lavadeiras, arruínam-me as grinaldas e os ventos de domingo.
outono. Conto de catálogo, de repente, vertiginoso SOL.
Março ridiculariza-me com as suas águas profundas pela
condição de isento que me anuncia em torrente dos
quinhentos guarda-chuvas comprados e rasgados em sua 67
torneira.
Junho nina-me com a maestria do canto, da saia rodada e do
calor “profundamente” encravado em nossas pernas, nas vozes
dos adultos de outrora e da sensata atitude de programar-se
em meninices.
Julho de César é meu nos rios das fazendas alheias. Alhures,
olhados, folhados, desfolha-me em sintonia.
Outubro dezembrino de lousas vazias e mesas fartas, amigos,
estradas e o meio –mar.
Janeiro de jandaias e jambada, figo com carambola, muita
roupa nas sacolas e poucas no olhar, brisa, serenata e papel
de pão com estrelas, céu de zinco, impossível manter o ato
primeiro. Primazia, primal, primitivo.
Invenções Loba Ciber
LORENZA MUCIDA

Ao meu descauculismo internalizaram-me sonhos, em pétalas Entre o seu prazer e a minha vontade há apenas uma curtida.
e pedreiras. Inventaram o amor pelo avesso e o bem pelo mal, E essa palavra suscita arroubos: curtidas são as carnes em
romperam as fronteiras do Éden, do Egito e da égide. curtumes e as ancas preparadas ao amor. Curtidas as horas
Resumiram a sensatez. Surrupiaram-me as árvores em flor, o curtas. Curtas em metros em rolos e desvirguladas, curtas
projeto de astronauta, mas deixaram-me a regalia do emoções e maquiagens. Ilusões na estrada, somente datas.
mármore, que queima e reluz, encanta, oferece linhagens. O fortuito, o instante, o gozo intenso e a breve passagem.
Consumiram-me os cachimbos e cachecóis, olhos em névoa e Curtas são as indicações para que não se apegue:
a robustez das escamas. 43- não deixar que as suas mãos me corram em banho.
Eu era Maria e pelo dia em saia costumava deitar o amor, o 2-2- abandonar-te, pós ejaculação.
lazarento revia-me em sentença que estava predestinada a 13- fugir-te em memória.
não ficar. Inventaram-me o remédio. 24-“Faxinar” com um analista de plantão. 68
Era Joana e fetichizava o indiscreto abrir de pétalas nos jardins 5- pagar as contas e separar o dinheiro do aluguel.
das senhoras, ardia-me o sol por dentro e a roupa secava toda 69-- entar na sala vazia e deixar djavanear-se, em
no varal. experimento, “o que é o sofrer para mim que estou jurado pra
Era Rebeca e prontuava-me em beijos remexidos, em cores morrer de amor” e sempre lembrar de repetir que não há mais
diferentes, em vestes únicas. amor na prateleira .
Embarcava em Manuela como doce de coco, leite condensado Há pessoas perdidas, com as suas retinas certas e certeiras.
e queijo a escorrer da massa da tapioca. Há gozos intermináveis e carrossel.
Versificava em maçã, ouvia testemunhos e não sabia correr. Há alegria em cada até qualquer hora e obrigada por existir.
Corria de mim em amianto, com luvas de pelica e “blindex”. Há mofo no teto e gotas de chuva nas cortinas.
Calicute era logo ali, no corpo do que te conto: poesia. Nas janelas: adeus
Diálogo. Paredes nós.
Lorenza Mucida
por ANDREZA MONA e
EMANUELA ALVES
Márcia Soares
“E a minha saudade tem a cor sépia”
Tempo nublado Feito Saúvas na lavoura
MÁRCIA SOARES

Mastiguei a chuva O sol se pôs, mas,


que ora saciou a fome dos meus olhos. o homem do campo à sua casa
nunca mais retornou.
O escorrer das águas refrescou
e engordou No quintal
o corpo franzino da minha terra as formigas-cortadeiras se espalharam
maltratada pela seca. e devastaram toda a plantação.
O verde capinzal não resistiu
Voltei à janela da minha infância. e secou com a ausência daquele olhar.
Porque seus olhos
O céu esbranquiçado e cinzento de jabuticabas sorridentes 75
que antes me entristecia, reluziam a alegria e a vivez desse recinto.
agora muito me alegra.
E eu, seu Zé?
Nas paredes de minha casa O que faço com esta saudade?
a saudade está misturada Bem, ela continua me cortando
com os tijolos, o barro e o cimento. feito saúvas na lavoura...

Na estante restou apenas a imagem


imagem que me transcende ao passado
passado que se insiste no presente.

Eu moro lá atrás do morro


atrás do morro mora minha alma
numa terra seca
onde nascem e florescem arvoredos verdinhos.
Saudade envelhecida A Ferraria de vô Tim
MÁRCIA SOARES

É mês de junho, Sentava no barranco à beira da cacimba


e alguns umbuzeiros já começaram a florir. e esperava que o tempo se passasse.
Agora é só esperar pela chuva
Ela tornará seus frutos mais doces. No morro tinha um fole,
vô Tim aquecia as brasas,
Por aqui tudo continua o mesmo batia ferro e amolava ferramentas.
desde a sua partida As cinzas que flutuavam
exceto minha intolerância ao frio misturavam-se ao branco dos seus cabelos.
esse que as cobertas não aquecem.
A tristeza é um ferro
No outono esperando pela hora de ser moldado 76
as folhas caem desnudando as árvores Dizia meu coração olhando o rosto
e atenuando o verão sertanejo. daquele poeta das fornalhas.

Meu sertão tem a cor amarela Hoje me lembrei de quando ele chegava em casa
Como as folhas no outono O tempo, meu amor, pode ser uma dada sentença,
E a minha saudade tem a cor sépia mas a lembrança agora
Como numa fotografia é meu alívio chegado.
uma saudade assim
envelhecida. Eu moraria por um instante num abraço seu,
E esse seria (com certeza) o gostinho da eternidade.
The end
MÁRCIA SOARES

As princesas não podem


fazer sexo
por isso suas histórias logo se findam.

Eu queria que você me amasse


além da minha vulva,
mas as tuas promessas secaram
como o vinho daquelas taças...

E esse foi o nosso final feliz:


A cópula. 77
Márcia Soares
por JÉSSICA SUELI
Potira Castro
“Prometo gozar o atraso dos dissabores”
Baile do Desamor Campo de extermínio do tempo (o encontro)
POTIRA CASTRO

Foi um beijo de aborto Já estou a sentir o frio do vento


Entre uma flor criada em estufa e um homem da guerra que enche a barriga da gente de sei lá o que.

O silêncio despencava como almas encarnadas Assim que eu tomar o último gole, eu prometo.
A despedida dedilhava suas notas de amargura Prometo gozar o atraso dos dissabores.
Logo o bastante para que o tempo não nos roube.
Chovia lágrimas da doce dama
Daquele olhar cheio de estrelas E nem tão cedo,
E do cavalheiro de fel Para que os ácidos da imaturidade não desafinem nossos
Ecoava um céu todo vazio acordes.
De uma história que não tinha teto e nunca vai ter chão 84
Na hora do estardalhaço de olhares,
Era uma vez, O tempo vai sucumbir.
A dama e o Cavalheiro, na valsa sem música, do baile do
desamor É o extermínio dos holocaustos.

Vai ser o vexame das compensações.

O exercício do vício, sem o enclausuro.

Porque sei, e como sei.


Que o meu grito entalado na garganta
Já está com a ampulheta virada.
Meliantes Não tem mais bandido nem vítima
POTIRA CASTRO

Nessa cena, só o corpo e o delito:


É confissão e revelia.
Corro, acerto o alvo, viro o jogo Meliantes.
Dessas cartas que você blefou
(Eu quero você pra mim)

Perco, ganho, confesso, viro a mesa


Todas as regras que você burlou
(Eu sou é muito mulher)

O calor, a febre, eu viro o olho


Sede que consome, me furtou
(Eu quero você pra mim) 85

Grito, rodo, giro, viro outras


Meus crimes que você flagrou
(Eu sou é muito mulher)

Na medida certa pra você


vivemos fortuitos, ilícitos

A cada dose um calafrio


o veneno virou a cura

Evadidos, ocupados, baixemos nossas armas


Quando você chegar Bem-vinda
POTIRA CASTRO

O bule avisa o ferver da água. Desabotoou sua camisa, desatou sua presilha, já era hora
O cheiro do cozer das flores passeia pela casa. daquele vendaval que faz doer, que embaraça. Segurou em
A xícara recebe o chá e o preparo. brasa, entrou num rio com pedras no bolso, abriu as portas,
O corpo se altera para um estado interessante de graça e tomou veneno. Mergulhou na sua criação de precipício. Foi
açúcar. fundo e foi alto. Agora ela está desencarcerada, agora ela
É um redemoinho que se esvai de mim e aponta para o céu. respira, transpira. Chegou o dia que sou bem vinda.
É sinal de fumaça. Você está nua. Vulcanizou, meu bem, vazou, não tem mais
É a certeza do incêndio. volta. Não se intimide. Agora sou eu, sou bem-vinda, não corro,
Quando você chegar. não fujo. Não tem mais jeito: sou a pirraça do seu devaneio.
Pulei a cancela que você criou, tirei a tua mordaça. Queimei os
nós de sua garganta. Cheguei e vim pra ficar. 86

Nem exorcismo vai me abalar


Não tem mandinga pra me derrubar

Sou o seu quebrante, sou o seu remédio,


sou o seu perfume, sua oração

Todos os unguentos vão me abençoar


Não tem bruxaria pra me amarrar

Sou a sua cura, sou sua tempestade,


sou sua pólvora, seu tom.
Potira Castro
por GUIGO AMARAL
Raquel Galvão
“sintomas de precipício/ predicados de botequim”
No disaster falta apetite.
R AQ U E L G A LVÃO

E agora?
planejar, ou quase isso, sumir.
ressaca no retrovisor
No sítio, um futuro verde-azul-amarelado
chuviscos deitada, em retalhos,
não molham os retratos de ontem piquenique às 10 da manhã.

gritos vivos, recados moldados, One Art, One Art


uma armadilha fora de controle Badala:
cheira à controle. artifício de estar
além-mar.
o mar.
93
Perder é uma arte
mais que Bishop, um exercício zen-bud-eso árduo e possível.

Ganhar é chorar no quarto


convencida
estragando tudo desde

depois de ouvir, alto e grave


som do trinômio que agride
censurados

ah, viver é mesmo uma arte


também para os que não são artistas
Não vou passar Amor,
R AQ U E L G A LVÃO

imune ao meu querer uma visão profética.


imune, um coração é noite,
parasita que dispara ouço motor.
quando, seus olhos, sem vontade, acelero
à revelia.
ar.
Tensão,
eu, imune, a superar sensação iminente que
ausências ou dores de rejeição. já é madruga.
ou só o peso do encontro Amor,
que camuflou a poesia. frio
na barriga.

94
Procuro corpos,
vou pagar,
Amor,
pela primeira vez
não
não posso.

Ser covarde,
Amor,
Na 101,
Homens em corpos de mulheres
Mulheres em corpos de meninas
Doses cavalares de ilusões.
Quer dizer, Os olhos na mala
R AQ U E L G A LVÃO

Amor,
quero dizer,
poderia ser vai
o fim do mundo. que o ato é realmente sério
Mas é só o começo. sintomas de precipício
predicados de botequim.
Passo a quinta.
ao encontro
fuga, na rota, mil curvas
silêncio, fala mórbida,
rebeldia que cala.

três ou quatro motes: 95


amor, com requintes de crueldade;
vida, recortes de choro;
devaneios a conta-gotas.

Mulher
que resseca o tempo
e guarda os olhos
dentro da mala.
o centro
R AQ U E L G A LVÃO

avesso
a versos
aparentes.

o centro
lar dos diversos
infinito
infinitos…

no entulho
do centro
cotidiano
sujo 96
revejo
remonto
re-tudo
para adiante.

crio,
no centro,
meu próprio país
das maravilhas…
Raquel Galvão
por AUGUSTO FLÁVIO ROQUE
Renailda Cazumbá
“Tenho tanto medo de deus/ Que até fraquejei com esta caneta”
Convite poético Dois bois
RENAILDA CAZUMBÁ

A poesia acordou de manhã. Dois bois.


Fez cara de desentendida O andar e a cabeça de um se curvam.
E jeito de inexistente. No outro a vergonha de estar amarrado ao primeiro.
Me acordou. E o mundo deu razão a Descartes.
Rezou por mim.
Disse às pessoas que sou fraca
Que sofro
Que me perdi, no mundo.
Depois mexeu em meus livros.
– Não sei quem a ordenou!
Leu, leu, leu. 103
Olhou para mim
E disse, com seu temperamento difícil
E seus métodos indóceis:
– Me amas. Entrega-te. Que eu já estou aqui há muito.
Rainha Amor
RENAILDA CAZUMBÁ

Dona Dainda, rainha dos kalungas O amor nos faz calçar botas
Reina em Vão das Almas Quando o que queremos é sentir os pés na terra.
Num castelo de barro e palha Licor que traz a sensação de desgraça e redenção.
Corta o chão de rudia na cabeça. Repetitivo em castelos de areia
Alveja as panelas de alumínio – E vento atroz.
Tece no tear, sonha com uma cozinha Venho e sento-me para seu banquete.
E canta para não chorar. Prazer e morte comparecem
Pisando em chão de barro, a rainha roda a saia e dita sua sina: E fazem desse momento
- Eu sou assim, gente, gosto de ser alegre! Em que escrevo e sofro poético e caótico
Dona Dainda, a rainha dos kalungas. A catarse do amor é tão complexa, não se resolve
Dança e roda com saia floreada O que é expulso cresce 104
E de coroa de flores, é cantadeira: E, bumerangue, volta
–Tá caino fulô, Entranha-se de novo
Ê tá caino fulô. Sorri cínico e tristonho
Cai do céu, cai da terra - dentro de quem o expurgou.
Ê, tá caino fulô!
Medita em sofá de pedra
E não demora, a rainha chora
Um pranto alegre-triste na televisão.
Medo de deus
RENAILDA CAZUMBÁ

Tenho tanto medo de deus


Que até fraquejei com esta caneta.
A cara feroz de deus encarando os inocentes
Com vergonha de mim, pergunto
E depois daqui
Depois do muro
O que há?
Eu, me encontrando
Toda perdida, suja...
Sem deus, sem deus.
- Que medo de ser tão corajosa! 105
Renailda Cazumbá
por LUIZA CAZUMBÁ
Say Adinkra
“eu sempre voltarei para o verão dos teus braços”
Vulnerabilidade Sexo frágil
S AY A D I N K R A

Pior que sua fatal ausência Morre de medo de sangrar,


É conviver com a presença funda de quem sangra,
da memória de nós aqui dentro do abismo que derrama
das hemorragias na alma
Pior que essa sua fulminante ausência da fundura de viver
É a presença embriagada E ainda chora pouco!
dos cheiros de você Ah! Homem... Sexo frágil!
espalhados na paisagem

Pior, pior, muito pior...


É a tua presença, tombada 112
No patrimônio histórico de mim.
Cura Transmutação
S AY A D I N K R A

Minha cura... “A lagarta, presa em seu casulo, ignorante de seu futuro, vive
Está no verso incensado de um canto de jurema como se não fosse virar borboleta”
Venta como o rodar de uma saia
Brilha como o vermelho intenso Escondo, na parte de dentro,
que me cobre as unhas em ritual Do estampado florido de minhas saias
Brinca com a receita desenhada Um respiro calmo no altar de mim.
e colorida por um guri.
Me pareço cada dia mais com meu filho Que convive com o sangue vermelho vivo da Frida
E quero me curar em voz alta Que reinvento,
dançando no dourado de uma fogueira. Cultivo,
Celebro 113

Longos anos vivendo o extremo duro de paixões que pesaram


feito chumbo em águas...

(suspiro)

Trago, enfim, no dourado de lenços sobre meus ombros


O adubo e o mistério
De borboletas que me brotam

Enfim! Enfim!
Carta para meu ilho
S AY A D I N K R A

Deixe os meus pés descalços trilharem os chãos de liberdade


que me cabem...
Um dia será chegada a tua hora. Peço-te como prece,
ajoelhada aos pés de nosso amor, que nos preserve o colo na
rede da varanda, sempre que eu volte.
Me balance, meu menino, me encante suas histórias e depois
me cirande. Faz, do seu jeito, que o teu abraço desfile
primaveras sob os caminhos por onde eu passo, perfumando a
saudade que levo, sempre que parto sem ti.
Mas não te esqueças nem duvides: eu sempre voltarei para o
verão dos teus braços. 114
Say Adinkra
por FAFÁ M. ARAÚJO
Valquíria Lima
“Os meus cabelos/ escondem navalhas errantes”
Yeha! Desacelerar de relógios
VA L Q U Í R I A L I M A

A minha pele Chega um tempo que é de partida


guarda histórias vibrantes Exalam fins.
de antepassados que chegam Frutas doces caem... e apodrecem.
e não pedem licença Papéis amarelos rasgam, desgastados.
porque são meus buracos Um velho licor açucara
e meus preenchimentos. e o som do telefone emudece.

Os meus cabelos Nasce um dia em que flores despetalam


escondem navalhas errantes e sementes novas vem nos encontrar.
de quem esteve sempre a postos Os barcos nossos desmoronam
No cintilar dos dias de dores, todos os dias. 121
no esquadrinhar das palavras de negação. Mas, a busca não é de barco
É de mar!
E os meus olhos
Ah! Estes protegem a luta
de quem nunca pode cansar, calar, quedar.
Neste lugar de quem escreve
a vida com o próprio sangue.

Espada em punho
porque são nossas as mãos
que desenham novas linhas
e desconstroem as pedras postas
pelos que se pensam donos da humanidade.
A Flâmula e o Mastro... Espadas nossas...
VA L Q U Í R I A L I M A

Gosto quando chegas, O mundo em mim não quer mornidades


em silêncio, nem tampouco brevidades.
falando apenas com as mãos. O mundo em mim é intenso,
Pleno de olhos. pulsa.
Farto de durezas...
… que não estão no coração. E a espada que me move
não se nutre de talvez,
nem de conformidades.

Empunho o que sou,


porque o ser que me habita 122
não quer o que esfria,
ao contrário,
pede o que borbulha.
Movendo-se...
VA L Q U Í R I A L I M A

Como o vento,
assim meus pensamentos.
Como a brisa,
sempre precisa.
Como a tempestade,
baila o meu corpo.
Como os raios,
Explodo.
E de mim eu saio,
ensaio
e volto sempre. 123
Na dança da minha cabeça
No bailar dos meus olhos.
No balançar da noite
e no movimento dos dias...
Valquíria Lima
por MARTINHO SOUZA
Mini Bio d@s participantes
Organizadora / Autoras / Fotógraf@s / Produção
Organizadora

Daniela Galdino. Poeta, quase sempre Performer, às vezes Produtora Cultural. Nascida em terras grapiúnas (Itabuna, Bahia,
Brasil), costuma espalhar-se pelo mundo (em trânsitos constantes). Professora de Literatura na UNEB, desenvolve projetos de
formação em artes integradas. Graduada em Letras pela UESC, Mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS, Doutoranda
em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. Em 2013 participou, como escritora e performer, de eventos acadêmicos e literários na
Alemanha. Integra a antologia trilíngue “Autores Baianos: um panorama” organizada pela SECULT-BA para divulgar a literatura baiana
em diversos países. Publicou Inúmera (Mondrongo, 2011). Em 2009 e 2010, respectivamente, participou da 1ª e 2ª edições da
antologia “Diálogos: panorama da nova poesia grapiúna” (Editus/Via Litterarum). Em 2005 publicou “Vinte poemas CaleiDORcópicos”
(Via Litterarum). Organizou os livros: “Tessitura Azeviche: diálogos entre as literaturas africanas de língua portuguesa e a literatura
afro-brasileira” (Editus), financiado pelo Programa Uniafro (MEC); e “Levando a raça a sério: ação afirmativa e universidade” (DP&A),
financiado pela Fundação Ford.
Blog: www.operariadasruinas2.blogspot.com.br

130
Autoras

Belisa Parente nasceu em 29 de maio de 1985 no coração do Recife, filha de viveu até os 18 anos. Atualmente vive em Brumado, Bahia. Mulher simples, de
dois cearenses bem pernambucanos, viveu dos 13 aos 16 no Crato, volta garra, baiana vendedora de acarajé, estudou apenas até sexta série e acabou
sempre ao Cariri e vai muito ao Exu, onde os seus avôs fincaram raízes. Na interrompendo seus estudos para trabalhar e ajudar a família. Hoje Celeste se
infância Belisa escrevia sentimentos em diários e correspondência, na considera observadora de sentimentos diversos sentimentos, a partir dos
adolescência se viu poetisa, sonhou ser escritora e virou jornalista, hoje é quais faz poemas capazes de tocar a alma de qualquer pessoa que tenha um
também cronista e há rumores de um romance por aí. mínimo de sensibilidade. E esse dom veio surgindo através da sua experiência
de vida, de tristezas e alegrias, histórias simples do dia a dia que apenas uma
Brisa Aziz - Nascida na capital baiana e criada no mundo, Brisa chegou às verdadeira observadora pode escrever.
terras grapiúnas para cursar Direito e foi no meio universitário que descobriu
seu forte talento como cantora e compositora. Passou a apresentar suas Fernanda Limão é poeta, produtora cultural, professora, pesquisadora e
canções em Festivais e estreitou os laços com uma paixão antiga: a Literatura. brincante de cultura popular. Natural de São Paulo, mas pernambucana por
Poemas musicados e declamados são uma constante no seu fazer artístico. É escolha, mora em Garanhuns desde 2000, onde experimentou das belezas
vocalista da Banda Manzuá e arranha a pena quando o fardo é demasiado ou culturais do estado pela primeira vez. É Produtora Executiva no Boi da Macuca
a vontade grande demais para ser contida. (Correntes) e integrante do Coletivo Tear (Garanhuns). Publica suas poesias 131
(via internet) desde 2010, mas escreve desde que aprendeu a fazer os
Calila das Mercês (Conceição do Jacuípe/Berimbau - Bahia). Arteira, primeiros rabiscos. Gosta de ocupar os espaços com poesia. Becos, ruas,
sonhadora, gente de muita fé. Tem gratidão no nome. Negra, viajante, mulher. paredes, calçadas. A poesia anda feito gente e é mais viva do que muitos.
Não para, avança, não fica. Vai. Muda, fala, desarruma, arruma e segue... Calila
que tanto significa. Do árabe amiga confiável, íntima, amável... Do grego, bela Lorenza Mucida é a menina que não quer crescer. A mulher das Gerais,
aquela. De Berimbau, pois foi de lá que a sede de fazer e saber começou. Pois modelada em vários Estados brasileiros e com múltiplas linguagens compõem
de tanto caminhar, devagar a perguntar... pelo sertão e pelo mar é que aqui o seu mundo. Arteira, atleta, poeta, atriz. Atrás do horizonte derrama sonhos,
chegou... e continua a trilhar, a sonhar e sentir. Sinta. É ela. Passou. rosas e preza sempre por felicidade. Energiza-se com o natural formador de si
Comunicóloga, jornalista, consultora de comunicação e escritora. | Mestranda e se assusta, ainda, com os relâmpagos humanos. Habita Itabuna-Ba no tempo
em Literatura e Diversidade Cultural/Estudos literários pela UEFS. Bacharel em atual, mas está sempre em busca dos ares que a vivificam. Sorri para todas as
Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal possibilidades e arranja-se por entre elas. Pressente mudanças pelo faro e
do Recôncavo da Bahia. rompe-se por completo quando é chamada à metamorfose. Brincante, amiga,
mãe e amante, não antes, filha, irmã, professora... Contém o que não está
Celeste Bastos (Maria Celeste Bastos) nasceu em 14 de junho em 1960, na contido e transfigura-se nas vazantes. Lua é caminho para ela que não foge do
cidade de Rio de Janeiro, comunidade Rocinha. Residiu na capital fluminense sol e palavras são teias para essas mãos abrasadoras de vontades.
durante seus primeiros três anos de idade até se mudar para Brasília onde
Márcia Soares nasceu em Brumado, Território do Sertão Produtivo, Bahia. Renailda Cazumbá nasceu em São Gonçalo dos Campos, cidade do
AUTORAS

Mudou-se aos 12 anos de idade para a Fazenda Lagoa do Arroz (no mesmo recôncavo da Bahia conhecida pelos seus belos jardins e cultivo das tradições
município), onde reside até os dias de hoje. Graduada em Letras pela religiosas afrobrasileiras. Reside em Feira de Santana, onde vive com a família.
Universidade do Estado da Bahia (UNEB). É Intérprete de Libras (Língua Sua paixão pela literatura mobilizou-a cursar Letras na UEFS. Essa formação
Brasileira de Sinais) no Colégio Estadual de Brumado (CEB). Participa da contribuiu para a atuação como professora na área de língua portuguesa e
Comunidade surda de sua cidade, onde já interpretou alguns de seus poemas literatura, sobretudo, em escolas e espaços da rede pública de ensino, em que
em Língua de Sinais. também tem atuado como mediadora de leitura. A ação como educadora
possibilitou à autora diversos deslocamentos e trânsitos geográficos e
Potira Castro é natural de Itabuna- BA, atualmente vive em Campinas-SP, é existenciais, de forma que desenvolveu pesquisas sobre as culturas do sertão
Engenheira Agrônoma, tem um pé no teatro outro na música, é mãe, mulher, representadas na arte, no Mestrado e, agora, no voo que intenta alçar no
cantadeira, cozinheira, professora, alquimista. Gosta do sabor das palavras, Doutorado. Atualmente é professora na UNEB, campus de Brumado.
das notas musicais, do despertar e do despetalar. Sua alma é terreno fértil, ela
semeia poemas pra colher músicas. Sua essência é cachoeira, é doce e azeda, Say Adinkra é natural de Ilhéus, onde viveu a maior parte da sua vida. Tem
feiticeira, geminiana, é uma relação íntima com Itacaré, onde morou por 6 anos e construiu uma
vendaval, é fogueira, ela é cio de laranjeira. caminhada com a militância negra e quilombola. Licenciada em História pela
UESC e Mestra em Gestão Social e Desenvolvimento Territorial pela UFBA. É
Raquel Galvão (por Augusto Flávio Roque). Aquela que é baiana com sotaque canceriana. Filha de Socorro e Beto. Filha do Mar... de Iemanjá Ogunté. É Mãe
mineiro, mas não das Gerais, um pouco mais para trás, nascida na cidade onde de Uil, um menino negro de Omolú. Atua como mobilizadora e articuladora 132
todas atendem pelo gentílico de: teixeirense. Há um falo masculino no social nas áreas de educação antirracista, ações afirmativas, agroecologia e
gentílico dela. Aquela que balança a Balança e gosta de balançar a pança desenvolvimento comunitário. Recentemente, ingressou na escola Cais do
quando dança, é uma criança que gosta de pintar garatujas e palavras; ela as Parto, onde inicia aprendizados sobre parto natural na tradição ancestral.
usa em papel, para evitar evocá-las em vão, multidão lhe deixa sem ar; o ar da
Balança, que a faz pender de um lado para o outro: da Poesia para a gestão Valquíria Lima. Chamada desde cedo pelas trilhas da literatura, com prosas
cultural; da utopia do Cinema, para a disciplina da “academia”. Aquela que e versos, Valquíria Lima apaixonou-se ainda adolescente pela dança das
ouvive (Ar)to Lindsay e o procura entres os becos de Salvador, de Feira, e de palavras. Das estradas de Tucano-BA para o mundo, cresceu entre o cheiro de
tanto chão da Bahia porque o Ar, não se governa. São dela uma par de atentos mato da roça da avó, o bem querer do sertão e o coração em direção ao
olhos para o mundo, sempre na órbita dos lances mais humanos à procura de mundo. Graduou-se em Letras Vernáculas, é especialista em Estudos Literários
fotografar suas palavras em movimento. Aquela que embalança “Ela”, Aquela: e Mestre em Literatura e Diversidade Cultural, pela UEFS. Doutoranda em
Raquel. Literatura e Cultura pela UFBA, onde desenvolve pesquisa sobre cultura,
---------------------------------------------------------------------------------------- literatura e cinema contemporâneos, com destaque para as narrativas das
Raquel Galvão é Mestranda em Literatura e Diversidade Cultural/Estudos literários pela margens. É docente do IFBA. Atualmente mora em Feira de Santana e
UEFS. Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade desenvolve trabalhos junto a associações e movimentos populares, com
Federal do Espírito Santo. enfoque na produção cultural, criação literária e artes em geral.
Fotógraf@s

Recebeu o nome de Amanda Pietra, uma pedra digna de ser amada. Nascida Augusto Flávio Roque (por Raquel Galvão)
e criada em um estado que não falta inspiração: Pernambuco. Vive no interior Augusto ou Flávio. Rock!
do nordeste, numa cidade onde não falta frio: Garanhuns. Tem 17 anos e Avant Guarde Ancestral.
fotografa desde os 14. Essa arte acentua a sua necessidade de enxergar além Música para perceber.
do que vê, de perceber outras perspectivas (aquilo que parece tão Artes para navegar.
insignificante...). Com a fotografia Amanda externa parte de si (o que não Fotografando o que há de ser.
precisa de compreensão). A fotografia acompanha o seu amadurecimento. Pensando o que nunca será.
Flickr: www.flickr.com/photos/amandapietrac Contradizendo o amanhecer.
Clichê da MPB? Como tentar explicar?
Bacamarteiro ancorado no Além Mar.
Ana Lee, 30 anos, é baiana de Ilhéus. Formada em Comunicação Social pela E além Bahia: nos universos estéticos onde Augusto e Flávio orbitam!
Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Na universidade se encontrou ----------------------------------------------------------------------------------------
com a câmera, mas só depois de muito tempo entendeu que sua fotografia é Augusto Flávio Roque é Graduado em Pedagogia pela Universidade Estadual da Bahia,
sobre gente, artes, histórias e estradas. Desde 2008 trabalha em coberturas de trabalha com pesquisa, gestão cultural e projetos multimídia e de educomunicação.
133
Cantor e compositor da banda Órbita Móbile.
festivais e projetos de arte e cultura, além de se dedicar a retratos pessoais.
Fez-se fotógrafa para brincar com o tempo e a memória.
Facebook: Ana Lee Fotografia
Eline Luz. Desde muito cedo descobriu que não apreenderia o mundo através
das palavras. As inquietação produzida levou-a ao mundo da fotografia, de
onde nunca se afastou. Eline Luz se graduou em Comunicação Social pela
Andreza Mona. Essa soteropolitana, que já se esquentou na região sisaleira e
UESC. Atualmente cursa a especialização em “Cultura e meios de
atualmente se metamorfoseia no litoral sul baiano, quer ter o mundo como
comunicação”, da PUC-SP. Compôs a direção de fotografia dos videoclipes
quintal de si. Com 22 outonos, quase invernos, ama o vento, mas morre de frio
“Bem-me-leve”, da Banda Apanhador Só, produzido por Karine Fênix, e “Carta
quando ele sopra mais forte. Estudante de Comunicação Social (UESC), essa
de demissão”, da Banda Instiga, produzido por Filipe Brito. Acredita em uma
insistente, que tem o verbo solto, acredita na produção como forma de
educação libertadora, defende o empoderamento das mulheres e evita
contribuir para boas mudanças e usurpa a capacidade de preservação da
discussões profundas sobre a origem da vida.
fotografia para capturar essências do que nem sempre é lembrado.
Facebook: Eline Luz Fotografia
Redescobriu a beleza do encontro com suas raízes ancestrais e crê que seus
cachinhos uma forma são forma de proteção. Atuou na produção do Festival
de Cinema Baiano (FECIBA) e do Projeto Pirilampo.
Emanuela Alves, 27 anos, nascida em Guanambi, sudoeste baiano, formou-se
a levou até o curso escolhido, onde aperfeiçoou a antiga paixão e se de Contas e Brumado, Bahia. Como Fotógrafa, pelo INEC, registrou as etapas da
FOTÓGRAF@S

apaixonou pelo cinema. Encontrou na fotografia um modo de construir e reforma do casarão onde passaria a funcionar o Espaço Nordeste em Rio de
contar histórias, assim iniciou seus trabalhos em 2012, com cobertura de Contas (Chapada Diamantina). Realizou a cobertura fotográfica do Festival Rua
eventos e fotografias pessoais. Encanta-se com o simples, o natural, o dos Inventos. Atuou como colaboradora do Projeto Tessituras III (UNEB). No
espontâneo... O belo. momento está compondo um projeto pessoal de registros da cena Rock do
Facebook: Manu Alves - Fotografia Alto Sertão Baiano.

Josafá Araújo, ou Fafá M. Araújo, como é mais conhecido, nasceu em Luiza Cazumbá Pereira é jornalista e fotógrafa. Nasceu em São Gonçalo dos
Salvador - Bahia. Formado em Pedagogia pela UCSAL, desenvolve atividades na Campos, Bahia, em janeiro de 1984. Viveu a infância e parte da juventude em
área da Educação Infantil. Sua paixão pela fotografia começou em 2009, São Gonçalo, onde participou do Grupo de Teatro Beiju em Cena e na ONG Pé
buscando sempre uma harmonia entre as realidades fotografadas. Nesse de Arte, Cultura e Educação, projetos nos quais desenvolveu atividades ligadas
mesmo período iniciou o projeto “Foto do Dia”, que teve como ponto de ao âmbito social à cultura. Cursou Comunicação Social - Jornalismo na
partida o compartilhamento de suas fotografias e poesias através de e-mail. Universidade Federal de Sergipe. Atualmente atua como Assessora de
Durante um ano mais de 300 imagens foram enviadas, permitindo, assim, o Comunicação em uma empresa privada de Aracaju. Cultiva a fotografia como
aprimoramento de técnicas e decodificação de um olhar atento e crítico. Para uma de suas paixões.
Fafá, é a poesia que apresenta a forma como se fotografar. E é através da
poesia que se pode entender o mundo. 134
Facebook: Fafá M. Araújo - Fotografia Martinho Souza é um artífice do olhar. Costuma ver e sentir para, assim,
voltar a ver, compondo, em sua vida, um ciclo contínuo de trabalho,
observação e reinvenção com os traços, as figuras e as imagens. Veio ao
Guigo Amaral. Fotógrafo há 16 anos, músico e produtor cultural. Proprietário mundo pelas mãos de uma parteira e mora, até hoje, na mesma casa, no
da Casa Dell'Arte - Centro de Cultura e Desenvolvimento, em Campinas - SP. Nordeste de Amaralina, em Salvador-BA. Licenciou-se em educação artística
Com a Casa Dell'Arte tem o objetivo de divulgar a cultura e a arte na cidade e, pela UCSal e, atualmente, é professor de desenho do IFBA-Campus Feira de
para tanto, promove atividades musicais, artes plásticas, literatura. No mesmo Santana. Possui larga experiência docente em escolas técnicas e
espaço mantém o estúdio PHOKASA. Faz ensaios fotográficos em todas as universidades, como ETEBA e UFBA. É ainda fotógrafo, desenhista e
áreas, infantis, gestantes, artísticos, modelos, sensuais e sênior. programador visual. Desenvolve trabalhos de “criação, arte e finalização de
logomarcas”, “desenhista de histórias em quadrinhos”, “ensaios fotográficos
para peças teatrais, filmes, formaturas, capas de CD e livro”. E assim, o artista
Jessica Sueli nasceu em Brumado-BA no dia 11/08/1989. Certificada pela ABES se reafirma entre o educar e olhar através das lentes.
– Ceará em Gestão de Resíduos Sólidos Industriais, trabalha nessa área e
também em GRS Urbanos desde 2009, além de ser Produtora Individual de GRS
em eventos. Formada desde 2011 em Permacultura, pelo Instituto de May Barros (Cruz das Almas - Bahia). Museóloga, curiosa, decoradora,
Permacultura da Bahia, foi facilitadora em 2 imersões que aconteceram em Rio produtora cultural, artista. Menina-boy, corajosa, menina... Sarar é o verbo
infinito de sua vida. Não conjuga outro em terceira pessoa do singular! Gosta
FOTÓGRAF@S

de recortar mais que retratos, quer fatos, cores, quadros. Criticar o certo ou
errado? Mentiras e verdades. Contrários. Do contrário. Constato. Enquanto
cresce, a menina-passarinho continuará a voar. Deixando rastros de cores por
onde “pássara”. | Bacharel em Museologia pela Universidade Federal do
Recôncavo da Bahia.

Pedro&Cami (Recife – PE) - O fotógrafo Pedro Liberal passou pelas artes


cênicas e pela música. Tem vivências na dança popular, frevo e caboclinho
principalmente. Aventurou-se nas ciências da computação e fez desta o seu
ofício por alguns anos até largar tudo e dar vazão à paixão pela fotografia.
Lançou sua empresa de multimídia e desenvolve, no âmbito pessoal, projetos
de nú artístico e outros experimentos como este, fotografar uma mulher
arredia mesmo a conhecendo há 13 anos. Camila Sinimbú sempre foi a
queridinha das Américas e é amiga dos dois desde a adolescência. Cami é uma
garota descolada, comunicativa, doida, cativante. Se formou em publicidade,
trabalhou em campanhas políticas, na produção de festas e eventos. Adora 135
arriscar-se em projetos, por isso pela primeira vez atua como produtora
fotográfica.
Site: www.tramelamultimidia.com.br

Ravena Revenster, nascida na cidade de Salvador, Bahia, em 29 de maio de


1980, mudou-se com a família para Petrolina-PE ainda pequena. Aos os cinco
anos de mudou-se para Brumado, cidade do interior da Bahia, onde vive até
hoje. Atualmente, além de exercer sua função como funcionária pública
municipal, desenvolve trabalhos como maquiadora. No entanto, sua principal
paixão é a Fotografia, descoberta depois de um curso básico, a partir do qual
passou a enxergar um mundo de possibilidades através das lentes de sua
câmera.
Facebook: Ravena Revenster Fotografia
Produção

Edson Bastos (Produção) – Especialista em Audiovisual pela UESC – do Sul, como Melhor Diretor, Melhor Roteiro e Melhor Curta Universitário.
Universidade Estadual de Santa Cruz em Ilhéus-Ba e Graduado em Possui experiência em longas de documentário, web-série, série de TV e
Comunicação Social com habilitação em Cinema e Vídeo pela FTC – Faculdade videoclipes. Foi estagiário no circuito interno de TV, a TV UESC, como vídeo
de Tecnologia e Ciências de Salvador-Ba. Como diretor e roteirista dirigiu os repórter e como diretor geral da série de ficção Encena.
curtas “Joelma”, curta-metragem selecionado pelo edital de Cultura LGBT do
Governo do Estado da Bahia, promovido pela Fundação Pedro Calmon e
Melhor curta-metragem eleito pelo público no Festival Mix Brasil de 2011; Cajuh Almeida (Assistente de Produção) – nasceu no dia 14 de setembro de
“Veras”, Menção Honrosa no XII Festival Nacional de Vídeo – Imagem em 05 1990, em Brumado - Ba. Aos seis anos mudou-se para Canavieiras e, em
minutos e “É proibido menino calçado entrar na escola”, Prêmio ABCV Melhor seguida, para Ilhéus, onde viveu por dez anos. Em 2009 a saudade do sertão
Filme do XVI Festival Nacional 5 Minutos Expandido. Atua também como falou mais alto e retornou a Brumado para cursar Letras Vernáculas no
Produtor Executivo e Curador do FECIBA – Festival de Cinema Baiano que Campus XX da Universidade do Estado da Bahia. Participou de diversas
acontece em Ilhéus há 04 anos. É Produtor Executivo dos curta-metragens “O atividades na universidade, dentre elas o Programa Nacional de Incentivo à
filme de Carlinhos” e “O velho e os três meninos” ambos dirigidos por Leitura (PROLER). Mesmo tendo concluído o curso de Letras, segue como
Henrique Filho. Atualmente foca no próximo curta-metragem “Astrogildo e a voluntária do PROLER, atuando na produção cultural. 136
Astronave” e no seu primeiro projeto em ficção no formato de longa-
metragem, baseado no livro “Os Magros”, do escritor grapiúna Euclides Neto.
No Teatro, dirigiu “Joelma”, juntamente com Fábio Vidal. É sócio diretor da Voo Dandara Galdino (Assistente de Produção) – nasceu em Itabuna, Bahia, no
Audiovisual. dia 20/06/2001. A geminiana desde pequena vive no mundo das artes, sua
mãe, Daniela Galdino, a educou, desde o útero, com o hábito de ouvir música.
E assim, o bebê, que era maior por dentro, já nasceu com a vontade de dançar
Henrique Filho (Produção) – Graduado em Comunicação Social com por toda a vida. Virou bailarina. Atualmente Dandara cursa o 8º ano na Escola
habilitação em Rádio e TV na UESC - Universidade Estadual de Santa Cruz, em Curumim. Vez por outra se insere em produções culturais, como observadora
Ilhéus-BA. É Coordenador de Comunicação do FECIBA - Festival de Cinema atenta ou colaboradora voluntária. Vive de música, de brisa, de sonhos (parece
Baiano e da MUSA - Mostra Universitária Sulamericana de Audiovisual. Dirigiu que tem "disfunção lírica").
curtas de ficção, dentre eles o mais recente "O filme de Carlinhos" (2014), “Cine
Éden” (2013), “É proibido menino calçado entrar na escola” (2013) - premiado
como Melhor Filme pelo Júri ABCV no "Festival 5' Minutos", “O velho e os três Binho Brill (Designer) - nasceu em Brumado, 1983. Amador em tudo o que faz,
meninos” (2012) e o premiado “A fórmula” (2011), com o Troféu Tatu de Prata labuta com design, intuitivamente, desde 2007. Trabalha na Idea Livre
“Prêmio Revelação” na 38ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia, em 2011 Comunicação. Nas horas vagas faz ilustrações e filantropia cultural, além de
e vencedor de 03 prêmios do Festival Manoel Padeiro, em Pelotas, Rio Grande trocar serviços por discos, livros, entre outros entorpecentes.
A P O I O C U LT U R A L