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O USO DE FEIÇÕES NO CONTROLE

DE QUALIDADE EM CARTOGRAFIA
Comissão Técnica: Cartografia

Mauricio Galo, Aluir Porfírio Dal Poz, France Michel Ferreira(1)


UNESP/FCT - Faculdade de Ciências e Tecnologia
Presidente Prudente SP, Departamento de Cartografia
http://www.prudente.unesp.br/dcartog/
{galo, aluir}@prudente.unesp.br
(1)
Bolsista de Iniciação Científica - CNPq/PIBIC (1999-2000)

RESUMO
Normalmente o controle de qualidade de produtos cartográficos é realizado a partir da análise estatística de
discrepâncias entre as coordenadas de pontos medidos num determinado produto, com as correspondentes
coordenadas de referência. Nos casos em que o número de pontos bem identificáveis sejam insuficientes, ou na qual
a distribuição não seja homogênea, uma alternativa é a utilização de feições, tais como segmentos de reta ou curvas.
Um dos problemas desta abordagem é a não existência de correspondência entre pontos. Neste trabalho pretende-se
abordar alguns aspectos básicos relativos à utilização de feições no controle de qualidade, além de propor uma
modificação a um dos métodos disponíveis na literatura, baseado no uso de splines como uma aproximação para as
feições. Propõe-se utilizar como valor da discrepância, a distância mínima entre os pontos de uma feição à uma
curva paramétrica cúbica (spline), representativa de uma porção da outra feição. Alguns experimentos com dados
simulados e reais são apresentados, sendo feita uma comparação entre o método baseado em splines, o método
sugerido e o método do ponto gerado, na qual se considera que pelo menos um par de pontos correspondentes seja
conhecido. Alguns resultados indicam que a modificação sugerida elimina alguns passos intermediários e evita
alguns problemas, tais como a superestimativa de discrepâncias, em algumas situações.

ABSTRACT
The quality control of cartographic products is usually made by computing the discrepancy between well
defined points present in one cartographic document with the correspondent points observed in the field, using a
technique that guarantees sufficient accuracy for the analysis. Therefore, in some areas where the number of points
are not sufficient or where the distribution is not adequate, the use of generic features (as roads, edges, etc) is a good
option. One problem of this approach is the difficulty in obtaining homologous points in both representations. In this
work we intend to made a brief review of methods and present an extension of one method. In the proposed method,
the discrepancies are obtained by computing the minimum distance from points of one feature to a piecewise
function (splines) that represents locally the homologous feature. Some experiments using simulated and real data
are performed and show that this approach is interesting since it avoids some intermediate steps required in the
original formulation and also avoid an overestimation of discrepancies in some situations.

MORRISON (1995) e BURITY et al. (1999), o que


1 INTRODUÇÃO torna esta análise um tanto quanto complexa.
O controle da qualidade posicional ou
O controle de qualidade de produtos geométrico, é classicamente realizado pela comparação
cartográficos é um tema relevante e amplo. Relevante entre a posição de pontos bem identificáveis na carta [xc
pois embora o país tenha uma legislação específica que yc zc]i, com as respectivas coordenadas de referência
trata do tema, o Decreto no. 88817 de 1984 obtidas por um método de campo [xr yr zr]i, ou por
(INSTRUÇÕES REGULADORAS DAS NORMAS alguma outra fonte confiável, com exatidão suficiente
TÉCNICAS DA CARTOGRAFIA NACIONAL, 1984), para a realização da análise da qualidade. No caso do
nem todos os produtos cartográficos apresentam uso de pontos, pressupõe-se que a correspondência entre
explicitamente um indicador da qualidade. Amplo pois, eles seja conhecida. Uma vez disponíveis estas
a rigor, deve-se avaliar não apenas os aspectos de coordenadas pode-se avaliar as discrepâncias por
acurácia posicional, mas também a acurácia dos (dx i , dy i , dz i ) = ( x ci − x ri , yci − y ri , z ci − z ri ) e obter as
atributos, a consistência lógica, a completeza ou estatísticas
completitude, além de aspectos temporais e de
∑ (dx i − ∆x )
linhagem, como abordado em GUPTILL & 2
( ∆x , σ 2∆x ) = ((1 / n) ∑ dx i , ) (1)
n( n − 1)
GALO, M.; DAL POZ, AA. P.; FERREIRA, F. M. O uso de feições no controle de qualidade em cartografia. In: XIX Congresso
Brasileiro de Cartografia. Porto Alegre – RS. 2001. CD-ROM.
para cada uma das componentes. Pode-se também obter neste trabalho, se refere a uma feição com forma
os valores das discrepâncias em planimetria e altimetria, irregular, tendo, no entanto, um comportamento suave.
sendo os valores médios representados por
2 REVISÃO DE ALGUNS MÉTODOS
( (∑ dxy i ) / n , (∑ dz i ) / n ) com dxy i = dx i 2 + dy i 2 e n
sendo o número de elemento da amostra. Quando se fala na utilização de feições no
De posse destas estatísticas amostrais pode-se, controle de qualidade pressupõe-se que uma dada feição
por exemplo, realizar testes específicos para a avaliação seja digitalizada na carta e que o mesmo trecho seja
de tendência e precisão: observado em campo. Deste modo, não se pode garantir
que haja correspondência entre os pontos e nem que o
Teste de tendência número de pontos seja o mesmo, como ilustra a Figura
1.
Este teste é feito a partir da análise das
discrepâncias médias amostrais. Se as
discrepâncias médias amostrais forem Ponto da feição B
estatisticamente iguais a zero, dentro de um certo
nível de significância, admite-se a não existência
de tendência.

Teste de precisão Ponto da feição A

Neste teste compara-se a variância das Fig. 1 - Exemplo de duas feições homólogas (A e B),
discrepâncias amostrais com os valores pré- obtidas de modo independente, sejam por duas
estabelecidos no Decreto no. 88817 de 1984, de digitalizações, ou uma por digitalização e outra por
modo a verificar qual a classe em que o produto medição direta em campo.
analisado se enquadra.
MASRY et al. (1980) apresentam dois métodos
Estes testes representam apenas uma das que podem ser utilizados na verificação da acurácia
abordagens que pode ser utilizada, como pode ser visto planimétrica de produtos cartográficos: o Método das
em MERCHANT(1982), TOMMASELLI et al. (1988) e Áreas e o Método do Ponto Gerado.
GALO & CAMARGO (1994). No entanto, uma série de
critérios estatísticos podem ser utilizados, como 2.1 Método das Áreas
apresentado em BRITO (1987). A diversidade de
critérios mostra que o assunto precisa ser abordado com Este método é baseado no cálculo da área (A)
grande rigor, pois o uso de diferentes critérios pode entre as feições, dividido pelo comprimento (L) da
conduzir a diferentes classificações, para um mesmo mesma, sendo o estimador do erro em área (ea) dado
produto, como verificado em (NOGUEIRA Jr. & por:
MALDONADO, 2000).
Independente do critério utilizado na análise, um ea = A L . (2)
número mínimo de pontos deve ser definido e, além
disso, os pontos devem possuir uma distribuição Um inconveniente deste método é a necessidade
homogênea sobre o produto a ser analisado, como pode de se dividir os segmentos toda vez que ocorre o
ser visto em MERCHANT(1982). Considerando que em cruzamento das feições. Além disso tem-se o problema
alguns produtos a presença de pontos bem identificáveis de subestimar o erro quando ocorre translação ao longo
e distribuídos de maneira homogênea, sejam da extensão da feição (LUGNANI, 1986). A Figura 2
insuficientes, a análise do produto pode ficar mostra a área entre as feições homólogas, para as duas
prejudicada. Nestas situações uma alternativa seria a situações mencionadas.
utilização de feições, tais como, rodovias e bordas em Para as feições mostradas em 2a tem-se duas
geral. interseções e para a feição em 2b tem-se apenas uma.
Deste modo este trabalho tem os seguintes No caso 2b pode-se notar que existe uma grande
objetivos: fazer uma breve revisão de alguns métodos translação na direção predominante da feição. Apesar
presentes na literatura que tratam deste assunto; desta translação ser acentuada, a estimativa usando o
apresentar a adaptação de um dos métodos de modo a método das áreas será subestimada, pois a área entre as
eliminar algumas etapas intermediárias; e apresentar os feições será pequena quando comparada com a
resultados de alguns experimentos realizados com dados estimativa obtida pelo caso 2a.
sintéticos e reais. Ressalta-se que os métodos são, a
princípio, destinados ao controle de qualidade
posicional de produtos cartográficos, mas no entanto,
podem ser utilizados na comparação de métodos de
digitalização na qual não se consideram pontos isolados,
e sim feições genéricas. O termo "feição genérica",
Uma consideração adicional neste método se
refere à digitalização, que deve ser feita com uma
grande taxa de amostragem e que esteja sujeita apenas a
efeitos aleatórios.

2.3 Método Baseado na Aproximação por Splines


a)
Neste método considera-se duas seqüências de
pontos, como mostra a Figura 1. O principio deste
método é obter para todos os pontos de uma das feições
(A por exemplo), menos os extremos, o ponto
correspondente na outra feição.
Este método é apresentado com detalhes por
LUGNANI (1988) e algumas hipóteses básicas são
admitidas:
b)
• as digitalizações apresentam o mesmo grau de
Fig. 2 – Área entre duas feições, para o caso de uma generalização;
feição com grande curvatura (a) e para o caso em que a
• todas as discrepâncias entre os pontos das curvas
feição apresenta uma curvatura menor (b).
são consideradas como erros;
• as feições contínuas são suaves;
2.2 Método do Ponto Gerado
• as feições estão representadas no mesmo
referencial; e
Como o número de pontos normalmente é
diferente entre duas digitalizações e/ou entre uma • ambas as seqüências de pontos digitalizados são
livres de erros grosseiros e de grandes erros
digitalização e o levantamento de campo, o
sistemáticos.
espaçamento entre os pontos consecutivos não é
mantido e uma alternativa é gerar um conjunto de
Uma vez descritas estas hipóteses, as seguintes
pontos, nas duas feições, com o mesmo espaçamento.
fases podem ser consideradas:
Esta etapa pode ser feita posteriormente à
digitalização, por um processo de reamostragem.
Admitindo que os pontos iniciais em cada uma das • Dado um ponto genérico ai de A, pesquisar os
feições sejam homólogos, pode-se simplesmente quatro pontos de B mais próximos a ai. Estes pontos
comparar as distâncias entre os pontos gerados, serão designados por bij, onde j∈{1,2,3,4}.
admitindo que eles também sejam correspondentes após • De posse dos pontos bi1, bi2, bi3, e bi4 fazer a busca
a reamostragem, como ilustra a Figura 3. dos dois pontos mais próximos ao ponto ai,
designando-os de b'i1 e b'i2.
• Obter o ângulo (θ) entre o eixo ox e o segmento de
reta que liga os pontos b'í1 e b'12.
Feição B
• Aplicar uma rotação (θ) nos pontos ai, bi1, bi2, bi3, e
bi4, de modo que o eixo ox coincida com a direção
dos pontos b'í1 e b'12, obtendo-se os pontos a"i, b"i1,
b"i2, b"i3, e b"i4.
Feição A • Obter a equação da spline (FS) que passa pelos
quatro pontos b"i1, b"i2, b"i3, e b"i4 de tal modo que a
Reamostragem cada argumento x se obtenha o valor y na curva, ou
seja, y=FS(x).
• Calcular o valor da discrepância para o ponto i por:
Wi = y a"i − FS (x a"i ) , (3)
Pontos iniciais onde (xa"i,ya"i) são as coordenadas cartesianas do
Correspondentes.
ponto a"i, após a rotação.
• Repetir o procedimento para os demais pontos i
da feição A, menos para os extremos.
Pontos das feições A e B
igualmente espaçados
Fig. 3 - Figura ilustrando o princípio do Método do Os valores dos erros de fechamento (Wi)
calculados fornecem uma boa medida para as
Ponto Gerado na qual os pontos sofreram uma
discrepâncias e, segundo LUGNANI (1986), resultados
reamostragem de modo a uniformizar o espaçamento.
compatíveis com os métodos convencionais são obtidos.
A Figura 4 ilustra alguns dos elementos que aparecem Pode-se observar que a discrepância (Wi) tem a
nas etapas descritas. direção da "nova" componente y, ou seja y'. Como
pode-se ver na Figura 4b, o segmento Wi pode ser
a) b)
geometricamente interpretado como sendo a distância,
ao longo de y', entre o ponto a"i até a spline passante
ai a"i pelos quatro pontos da feição homóloga, no referencial
Wi x’y’.
b'i2 Na figura seguinte são mostradas duas situações
b'i1 b"i1 b"i2 na qual o ponto a"i é deslocado em relação ao mostrado
y y' na Figura 4.
x x'
a) b)
Fig. 4 - Ponto ai e os quatro pontos mais próximos em
duas situações: (a) antes da rotação e (b) depois de a"i a"i
rotacionados, no qual os pontos b"i1 e b"i2 apresentam a Wi di
mesma ordenada.
y' y'
2.4 Método dos Retângulos Equivalentes x' x'

O método dos retângulos equivalentes, proposto Fig. 5 - Ponto a"i e os quatro pontos mais próximos,
por FERREIRA & CINTRA (1999), utiliza o conceito após as rotações. Em (a) é mostrada a discrepância Wi,
de área (seção 2.1). No entanto, não é utilizado o como sugerido por LUGNANI(1986), e em (b) a
estimador de erro em área (ea), mas sim o conceito de distância mínima entre a"i e a spline.
retângulos equivalentes.
A partir dos valores do perímetro (2p) e da área Na Figura 5a é mostrada a discrepância (Wi).
(S) do polígono formado pelas duas representações de Neste caso, como a projeção do ponto a"i sobre a spline
uma mesma feição, pode-se admitir que existe um não está entre os dois pontos mais próximos, pode-se
retângulo de lados x1 e x2, que tenha área S e perímetro observar que a estimativa (Wi) é visivelmente maior que
2p. Considerando estas hipóteses pode-se escrever as a menor distância entre o ponto e a spline, como
relações: mostrado em 5b. Deste modo sugere-se que seja
utilizada a distância mínima entre os pontos de uma das
x1.x 2 = S (4)
feições e as respectivas splines, como medida de
discrepância entre as representações.
2x1 + 2 x 2 = 2p . (5) Pode-se ressaltar, como pontos importantes no
uso desta estimativa:
Uma vez calculados S e 2p a partir dos
polígonos, os valores de x1 e x2 podem ser obtidos a
• como a distância é invariante a transformações
partir da solução do sistema formado pelas Equações (4)
rígidas, pode-se trabalhar diretamente com as
e (5), como pode ser visto em FERREIRA & CINTRA
coordenadas (x,y) e não (x`,y`), ou seja, não são
(1999). Deste modo, as dimensões dos retângulos
necessárias as rotações dos pontos;
equivalentes podem ser utilizadas como estimadores das
discrepâncias entre as representações de uma dada • o método não superestima a discrepância, em
situações no qual a projeção de ai sobre a spline se
feição e, segundo os autores, o método fornece bons
localiza fora do intervalo entre os dois pontos mais
resultados com grande rapidez.
próximos; e
3 EXTENSÃO DO MÉTODO BASEADO EM • pode-se fazer a análise das projeções x e y de di,
avaliando-se eventuais tendências nas duas direções.
SPLINES
No método anterior a discrepância Wi tem a direção
y' e caso haja interesse no cálculo de eventuais
O método proposto por LUGNANI (1986) parte
tendências em x e y é necessário fazer uma rotação
do pressuposto que as curvas são suaves, o que é
no vetor Wi e obter as projeções no referencial xy,
bastante coerente. De fato, no caso em que se tenha uma
necessitando-se portanto de uma rotação adicional,
aresta com um vértice pontiagudo, o mais interessante é
para cada uma das discrepâncias Wi.
utilizar este ponto isoladamente e não a feição inteira,
recaindo-se nos métodos convencionais de controle de
Deste modo, o método sugerido pode ser descrito
qualidade baseados em pontos.
pelas seguintes etapas:
No método originalmente proposto por
LUGNANI (1986), descrito na seção 2.3, os pontos ai,
• Dado um ponto genérico ai de A, pesquisar os
bi1, bi2, bi3, e bi4 são rotacionados de modo que os dois
quatro pontos de B mais próximos a ai. Estes pontos
pontos mais próximos a ai (b'i1 e b'i2), tenham a mesma
ordenada, como ilustrado na Figura 4. serão designados por bij, onde j∈{1,2,3,4};
• Obter a equação da spline que passa pelos quatro
pontos ( bi1, bi2, bi3, e bi4 ), na forma de uma curva
paramétrica cúbica, que tem uma equação geral dada
por (ROGERS & ADAMS, 1990):
r r r r r
x( t ) = c0 + c1t + c2 t 2 + c3 t 3 =
 x( t ) c x 0 + c x1t + c x 2 t 2 + c x 3t 3  ; (6)
= =  3
 y( t ) c y 0 + c y1t + c y 2 t + c y 3t 
2

• Fazer a busca do valor de t no qual a distância do


ponto ai à spline seja mínima, ou seja
r r
t min = {t | d i = min x( t ) − a i , ∀t ∈ [0,1]} ; (7) Fig. 6 – Comportamento das funções de mistura ou
funções de blending no intervalo [0,1].
• Calcular a posição do ponto "homólogo" por
(x(tmin),y(t min)); e Como pode-se notar pela Figura 6, para t=0 a
• Calcular as discrepâncias e repetir o r
curva é apenas influenciada pelo ponto inicial x (0) e
procedimento para os demais pontos de A (menos os r
para t=1, apenas por x (1) . Para os demais pontos, todos
extremos). r r r r
os elementos ( x (0) , x (1) , x ' (0) e x ' (1) ) tem uma certa
r
Neste caso continuam valendo as mesmas influência sobre x ( t ) .
hipóteses admitidas no método original. O inconveniente de utilizar a representação dada
pela Equação 8 é justamente na obtenção da direção dos
3.1 Determinação da spline vetores tangentes nas extremidades, uma vez que no
problema colocado se utilizam quatro pontos para se
No cálculo da curva paramétrica cúbica determinar a spline. Neste caso uma alternativa seria
pressupõe-se que o parâmetro t na Equação 6 esteja no escrever um conjunto de equações para cada segmento e
intervalo 0 a 1, ou seja, para t=0 têm-se o ponto b'i1 e aplicar restrições de modo que os vetores tangentes
para t=1 o ponto b'i4. sejam iguais nos pontos de ligação, a fim de que a
O cálculo da spline pode ser feito de diversas suavidade seja mantida. Uma outra opção seria
maneiras, dependendo das condições de contorno considerar que cada ponto dá origem a duas equações
utilizadas. Uma das maneiras seria considerar como do tipo 6 (no caso do plano) e considerar a solução de
dados "iniciais" as posições de dois pontos e os vetores um sistema de equações na qual os coeficientes sejam as
tangentes nestes mesmos pontos, chegando-se a uma incógnitas.
representação na qual se utilizam as funções de mistura Considerando a Equação 6 e o fato de que n
(blending functions) ou funções de ponderação. Nesta pontos que compõem a curva sejam conhecidos, ou seja,
representação a equação para um segmento de spline que se tenha disponível as coordenadas (x1,y1),...,(xn,yn),
cúbica (ROGERS & ADAMS, 1990) pode ser escrita do pode-se escrever o seguinte sistema de equações:
seguinte modo:
r r r r r x1 = x( t1 ) = c x 0 + c x1 t1 + c x 2 t12 + c x 3 t13
x( t ) = f1 ( t ) x(0) + f 2 ( t ) x (1) + f 3 ( t ) x ' (0) + f 4 ( t ) x' (1) , (8)
y1 = y( t1 ) = c y 0 + c y1t 1 + c y 2 t12 + c y 3 t13
onde fi, com i∈{1,...,4}, são as funções de Blending,
dadas por (MORTENSON, 1985; TOZZI, 1986): M (10)
x n = x( t n ) = c x 0 + c x1 t n + c x 2 t 2n + c x 3 t 3n
f1 ( t ) = 2t 3 − 3t 2 + 1 f 2 ( t ) = −2t 3 + 3t 2
. (9) y n = y( t n ) = c y 0 + c y1t n + c y 2 t 2n + c y 3 t 3n
f 3 (t) = t 3 − 2t 2 + t f 4 (t) = t 3 − t 2
Como neste sistema os coeficientes de x e de y
Na Equação 8 pode-se notar que cada um dos
são independentes, pode-se separar a solução em dois
coeficientes geométricos são ponderados por uma
r sistemas lineares de menor dimensão, sendo um para x e
função de blending e a posição x ( t ) depende das
r r outro para y.
coordenadas dos pontos terminais ( x (0) e x (1) ) e Uma observação relevante se refere ao valor de t.
r Quando se assume que para t=0 e t=1 se tem os pontos
também das derivadas primeiras nestes pontos ( x ' (0) e
r inicial e final, respectivamente, pode-se assumir que o
x ' (1) ). O comportamento das Equações 9 pode ser visto
parâmetro independente t se refere ao comprimento de
na Figura 6. arco normalizado. Para um ponto qualquer localizado
perto do ponto inicial, o valor de t correspondente
deverá ser próximo de 0, e para outro próximo do ponto
final este valor será próximo de 1 (um). Assim, uma
aproximação para a obtenção dos valores de t para um
ponto qualquer, seria a razão entre a distância do ponto As implementações foram realizadas na
inicial ao ponto considerado, pela distância total entre linguagem IDL 5.1, como pode-se ver em
os extremos, distâncias estas contadas sobre as cordas. FERREIRA(2000).
Assim, os valores t1, t2, ...tn, podem ser obtidos a partir
das razões acima. 4.1 EXPERIMENTOS COM DADOS SINTÉTICOS
Com os valores de t para todos os pontos e
separadas as equações do sistema 10, pode-se escrever Com a finalidade de avaliar as três
os seguintes sistemas lineares: implementações foram gerados nove pares de feições.
Algumas delas foram submetidas à translação, outras à
1 t 1 t 12 t 13  c x 0   x ( t 1 )  rotação e outras não sofreram nenhuma modificação.
    
1 t 2 t 22 t 32   c x1   x (t 2 ) Nas Figuras 7 e 8 são mostradas apenas algumas delas.
= , (11)
M M M M  c x 2   M 
    
1 t n t 2n t 3n   c x 3   x (t n )

1 t 1 t 12 t 13  c y 0   y( t 1 ) 
    
1 t 2 t 22 t 32   c y1   y( t 2 ) 
= . (12)
M M M M  c y 2   M 
     
1 t n t 2n t 3n   c y 3   y(t n )

Deste modo, com 4 pontos tem-se um sistema de a)


4 equações a 4 incógnitas para os coeficientes de x (cx0,
cx1, cx2, cx3) e outro para y (cy0, cy1, cy2, cy3). Para o caso
de n pontos pode-se obter os coeficientes por:
−1
c x 0  n ∑ t i ∑ t 2i ∑ t 3i   ∑ x( t i ) 
c     ∑ t x(t ) 
 x1  =  ∑ t 2i ∑ t 3i ∑ t i4   i i  , (13)
c x 2   ∑ t 4i ∑ t 5i   ∑ t 2i x ( t i )
     3 
c x 3  S ∑ t 6i   ∑ t i x ( t i ) b)
Fig. 7 – Em (a) são mostradas três feições iguais. Em
−1 (b) as feições aparecem em três situações diferentes:
c y 0  n ∑ t i ∑ t 2i ∑ t 3i   ∑ y( t i ) 
c     ∑ t y( t )  sem modificação (I), submetida a uma translação
 y1  =  ∑ t i ∑ t 3i ∑ t i4 
2
 i i  . (14) (dx,dy) e submetida a uma rotação por um ângulo A.
c y 2   ∑ t 4i ∑ t 5i   ∑ t 2i y( t i )
     3 
 c y 3  S ∑ t 6i   ∑ t i y( t i ) 
sendo S o símbolo utilizado para indicar simetria.
Obtidos estes coeficientes, para se calcular as
coordenadas (x(t),y(t)) de um ponto da spline, basta
atribuir um valor de t à Equação 6. Além disso pode-se
obter o valor tmin, correspondente a di, como mostra a
Equação 7. Para detalhes adicionais sobre modelagem
geométrica sugere-se MORTENSON (1985); TOZZI Fig. 8 - A esquerda é mostrado um trecho de uma certa
(1986); e ROGERS & ADAMS (1990). feição e a direita a mesma feição após uma pequena
rotação.
4 EXPERIMENTOS
Nas Figuras 7 e 8 são mostrados apenas quatro
Para fazer a comparação de alguns dos métodos pares de feições. Gerados os noves pares de feições,
apresentados foram realizadas três implementações, todas foram submetidas à digitalização manual, por um
designadas por M1, M2 e M3, como descritas abaixo: mesmo operador, sendo obtidos para cada uma das
feições uma lista de coordenadas no mesmo referencial.
M1 - O método baseado em splines; Das feições digitalizadas, aquelas que não sofreram
M2 - O procedimento modificado no qual se nenhuma modificação, e que estão sujeitas apenas à
utiliza a distância mínima à curva paramétrica, influência do operador foram rotuladas com a letra O.
como sugerido na seção 3; e De modo análogo todas foram rotuladas, como mostra a
M3 - O Método do Ponto Gerado relação abaixo:
Símbolo Efeito(s) rotação e o método que apresentou a maior discrepância
O Operador foi o M3.
OT Operador e Translação Pode-se observar que os resultados dos métodos
OR Operador e Rotação M1 e M2 são bem semelhantes e que em algumas
ORT Operador, Rotação e Translação situações o método M2 subestima as discrepâncias,
comparando-se com o método M1.
A todos estes nove pares de feições foram
aplicados os três métodos (M1, M2 e M3). Para cada
um dos pares foram calculados a discrepância média, 4.2 Experimentos com dados reais
bem como o desvio-padrão, como ilustram os gráficos
da Figura 9. Nos experimentos com dados reais utilizou-se
uma imagem no qual foram aplicadas duas técnicas de
extração automática de rodovias, como pode ser visto
em DAL POZ et al. (2000). Os métodos de extração
automática aplicados são Programação Dinâmica e
Método das Bordas, sendo designados por:

ME1 – Programação Dinâmica; e


ME2 – Método das Bordas.

Para a realização das comparações considera-se


que a referência é o método manual e que serão
avaliadas as discrepâncias entre os métodos ME1 e
ME2, com relação ao procedimento manual. Estas
discrepâncias são obtidas pelos três procedimentos
implementados (M1, M2 e M3) e descritos nas seções
2.2, 2.3 e 3. Ressalta-se que neste trabalho não se
discute os métodos de extração e para mais detalhes
sugere-se DAL POZ et al. (2000).
A Figura 10 apresenta o resultado da extração
semi-automática de rodovias, usando o método de
Programação Dinâmica, no qual pode-se ver nesta
imagem o eixo da rodovia.

Fig. 9 – Discrepâncias médias e desvios-padrão para as


nove (9) feições utilizadas. Os valores atribuídos à
feição 10 consideram todas as feições simultaneamente.

Analisando a Figura 9 pode-se observar que para


as feições 1, 4 e 8, que não sofreram nem rotação e nem
translação, os resultados são bem semelhantes para os
três métodos. As feições 2 e 5 sofreram apenas
translações, e as feições 3, 6 e 7 apenas rotações. A
feição 10 dos gráficos representa as estatísticas
estimadas considerando todas as feições
simultaneamente e representam portanto os valores
globais para todas as feições.
As maiores discrepâncias são observadas nas
feições 2, 5 e 7. Nas feições 2 e 5 tem-se apenas o efeito
da translação. Como as translações resultantes, nestes
casos, são da ordem de 18 e 21 pixels, pode-se Fig. 10 – Resultado da extração do eixo da rodovia
considerar que uma das hipóteses básicas para a usando o método de Programação Dinâmica.
aplicação dos métodos M1 e M2 foi violada, ou seja, de
que não se tenha grandes erros sistemáticos. Utilizando os procedimentos descritos nas seções
Independente deste problema os métodos mostram que 2.2, 2.3 e 3, os métodos de Programação Dinâmica e
existe uma certa discrepância. No caso da feição 7 Análise de Bordas foram comparados com o método
(mostrada na Figura 8) tem-se apenas o efeito de uma
manual, sendo obtidos os resultados mostrados na métodos para a obtenção das splines (com um numero
Tabela 1. maior de pontos e diferentes condições de contorno); e a
extensão para o caso 3D.
Tabela 1 – Discrepâncias médias e desvios-padrão para
os Métodos de Extração ME1 e ME2 usando os AGRADECIMENTOS
Métodos de Análise M1, M2 e M3 (Spline, Spline
Modificado e Método do Ponto Gerado). Os valores Os autores agradecem ao CNPq pela concessão
estão na unidade pixel. da bolsa de IC - Iniciação Científica (programa
Método de Método de Método de PIBIC/CNPq), durante o período 1999-2000 e à
Análise Análise Análise FAPESP (Processo 98/15553-3).
M1 M2 M3
Métodos de ∆
P1
σ ∆ P1 ∆ P2 σ ∆P2 ∆ P3 σ ∆ P3 Referências Bibliográficas
Extração
ME1 – Prog.
Dinâmica 1.43 1.36 1.42 1.35 2.55 0.76 BRITO, J. L. N. e S., 1987. Proposta de Metodologia
ME2 –Análise para a Classificação de Documentos Cartográficos,
Bordas 2.29 2.17 2.26 2.08 2.78 1.62 Revista Brasileira de Cartografia no 41, pp. 27- 42.

Pode-se notar que para um dado método de BURITY, E. F.; BRITO, J. L. N. E S., PHILIPS, J.,
extração de rodovias, as discrepâncias médias entre os 1999. Qualidade de dados para o mapeamento,
métodos M1 e M2 são semelhantes entre si e menores Congresso Brasileiro de Cartografia, Recife PE.
que o obtido por M3. Além disso pode-se notar que DAL POZ, A. P.; GYFTAKIS, S.; AGOURIS, P., 2000.
nestes três casos o desvio padrão obtido pelo método Semi-automated road extraction: comparison of
M3 foi menor que nos demais. Isto indica que as methodologies and experiments. In.: DC 2000 ASPRS
discrepâncias obtidas pelo método M3 são menos Annual Conference, Washington-DC, EUA, CD-ROM.
dispersas, no entanto é relevante lembrar que o método
M3 tem a restrição de se ter um ponto correspondente (o FERREIRA, L. F.; CINTRA, J. P., 1999. Quantificação
ponto inicial), o que não acontece com os demais. de discrepâncias entre feições lineares por retângulos
equivalentes, Revista Brasileira de Cartografia, no 51,
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Maio, pp. 1-8.
FERREIRA, F. M., 2000. Estimativa de precisão de
Neste trabalho discutiu-se alguns métodos de feições cartográficas; Relatório de pesquisa de Iniciação
controle de qualidade geométrico, a partir do uso de Científica - PIBIC / CNPq, UNESP - Departamento de
feições genéricas. Os métodos discutidos foram o Cartografia, Presidente Prudente - SP.
método do ponto gerado e o método proposto por
LUGNANI(1988), baseado no uso de splines. Além GALO, M., CAMARGO, P. de O., 1994. Utilização do
destes dois métodos estudados sugeriu-se um método, GPS no Controle de Qualidade de Cartas, In: 1o
baseado em algumas modificações sobre o método das COBRAC, Florianópolis SC, Tomo II, pp. 41-48.
splines. GUPTILL, S. C.; MORRISON, J. L., 1995. (Editors)
A sugestão da modificação do método das Elements of spatial data quality, Elsevier Science ltd.
splines se baseia na utilização da distância mínima entre
um ponto e a spline, sem a realização das rotações do INSTRUÇÕES REGULADORAS DAS NORMAS
referencial, como sugerido no procedimento original. TÉCNICAS DA CARTOGRAFIA NACIONAL, 1984.
Pode-se observar que embora seja necessária a busca do Diário Oficial da União, 22 de junho.
ponto mais próximo na solução proposta, não é LUGNANI, J. B., 1986. Estimativa de qualidade de
necessária a rotação dos pontos, como descrito na seção feições digitalizadas - Um novo método, Revista
2.3. Além disso pode-se notar que em algumas situações Brasileira de Cartografia, no 39, Janeiro, pp. 26-29.
este método não superestima as discrepâncias.
Finalizando, o trabalho apresenta mais uma MASRY, S. E.; GAUTHIER, J. R. R.; LEE, Y. C.,
alternativa de procedimento que pode ser utilizada na 1980. Accuracy and time comparisons of digital maps -
determinação de discrepâncias entre feições, com An international test, 14th Congress of The
aplicações no controle de qualidade em cartografia e International Society of Photogrammetry, Hamburg,
mesmo na comparação de procedimentos de extração de Vol. 48, 11, pp. 494-514.
feições em imagens digitais, sejam eles manuais, semi- MERCHANT, D.C., 1982. Spatial Accuracy Standards
automáticos ou automáticos. for Large Scale Line Maps, Technical Papers of the
Os resultados mostrados são baseados nos American Congress on Surveying and Mapping (1),
experimentos descritos e como estudos adicionais, 222-231.
alguns inclusive em andamento, sugere-se: avaliar o
tempo de processamento entre os métodos; fazer a MORTENSON, M. E., 1985. Geometric Modelling,
comparação de todos os procedimentos com os métodos John Wiley & Son, Canada.
tradicionais baseados em pontos; usar diferentes
NOGUEIRA Jr., J. B.; MALDONADO, V. C., 2000.
Controle de qualidade posicional em cartografia, um
estudo de caso: município de Paulínia – SP, Trabalho
de Graduação do Curso de Engenharia Cartográfica,
UNESP, Faculdade de Ciências e Tecnologia,
Presidente Prudente, SP, 99 p.
ROGERS, D. F.; ADAMS, J. A., 1990. Mathematical
elements for computer graphics, McGraw-Hill
International Edition, 611 p.
TOMMASELLI, A.M.G. e MONICO, J.F.G.
CAMARGO, P. O., 1988. Análise da Exatidão
Cartográfica da Carta Imagem de "São Paulo", Anais
do V Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto,
Natal - RN, Brasil, vol.1, pp. 253-257.
TOZZI, C. L., 1986. PAC: Projeto Auxiliado por
Computador, Editora da Unicamp / Editora Papirus,
Campinas - SP.