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ASPECTOS COLONIAIS - A OPRESSÃO DO FEMININO 1NA OBRA DESMUNDO, DE

ANA MIRANDA
Cristiano Mello de Oliveira 2

RESUMO: A obra Desmundo (1997) da escritora Ana Miranda enseja algumas características que
contemplam a temática da submissão feminina no ambiente colonial do Brasil no século XVI.O
presente artigo pretende examinar o comportamento opressivo imposto pelo marido Francisco em
relação à vida de Oribela. Primeiramente, iremos tecer alguns pressupostos que descortinarão o
nosso objeto de análise de maneira mais reflexiva, objetivando cumprir um breve preâmbulo da
investigação. Em um segundo momento, iremos destrinchar algumas características da estrutura
romanesca da obra. Em uma terceira parte, iremos esmiuçar os principais fragmentos que
evidenciem melhor a temática opressora sofrida pela jovem órfã portuguesa Oribela. Como
referencial teórico de abordagem, dialogaremos com: Mary Del Priore (1982), Simone Beauvoir
(1980), Simone Pereira Schmidt (2004), entre outros. A contribuição parte de uma maior reflexão
do romance Desmundo sob a luz das teorias de gênero e estudos pós-coloniais.

PALAVRAS CHAVE: Aspectos coloniais; Opressão; gênero; Desmundo; Oribela; Ana Miranda.

1.1 Alguns pressupostos

Em 1996, a autora cearense Ana Miranda publica a primeira edição da obra literária
Desmundo. O romance conquista um grande número de leitores nos anos seguintes e complementa
ainda mais a competência da escritora em realizar grandes obras literárias que mesclem a temática
ficcional e histórica, já conhecida nos seus romances anteriores. Pouco a pouco, Desmundo (1996)
vai ganhando o tônus necessário das leituras acadêmicas, ampliando os horizontes culturais
existentes. A virada capital da romancista se torna marcante após a publicação desse novo e curioso
romance, portanto entrevistas, aparições em suplementos culturais, jornais acadêmicos ganham
espaço na crítica literária brasileira e até mesmo internacional. Segundo o crítico Esteves: “O livro
agradou à critica e ao público e permaneceu por longo tempo na lista dos mais vendidos do País,
sendo traduzido posteriormente para vários idiomas.” (ESTEVES, 2007, p. 116) Em suma, o

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A nosso ver, não é descabido pensar-se que na história da literatura brasileira um rol de obras literárias se encaixa nesse perfil do
romance de opressão à mulher brasileira e constitui um leque variado entre as teorias de representação da crítica feminista – desde os
romances das primeiras décadas até a nossa contemporaneidade – representando o universo feminino nas maturações de alguns
romancistas, especificamente das mulheres negras – mantendo certo grau de parentesco no entrelace Literatura e representação do
estado opressor feminino - exemplifico algumas aqui: Cidade de Deus, os bandidos e as mulheres mulatos (as) e negros (as) de
Paulo Lins, O cortiço, a negra Bertoleza de Aluízio Azevedo, Sítio do Pica Pau Amarelo, de Monteiro Lobato e a escrava Anastácia,
entre outros escritores que se dispuseram a representar de forma opressora e cruel a representação da mulata e da negra através de
suas palavras. Tais obras literárias fortaleceram o eixo cultural entre literatura e questão de gênero e raça, reatualizando novas
maneiras de pensar sobre essa dicotomia tão problemática.
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Doutorando em Literatura – UFSC-Capes – Florianópolis – Brasil

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Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos),Florianópolis, 2013. ISSN2179-510X
romance adquire os foros necessários de reprodução cultural, especificamente com alguns diálogos
com a teoria feminista e colonialista, objeto pouco identificado e que merece melhor destaque aqui
nessa investigação.
Curioso notar que, desde o seu lançamento, em 1996, o romance Desmundo se afirmou
como marco distinto e ousado, colocando na sua escritura, Ana Miranda, entre as melhores
romancistas do Brasil. Afinal, o romance forneceu expressão cultural às questões do conhecimento
da história do Brasil colonial, sobretudo, os aspectos culturais das órfãs, que eram enviadas de
Portugal para o território brasileiro, os quais a sociedade leitora ainda não conhecia ou
simplesmente rotulava através dos livros didáticos de histórica ou do senso-comum. A esse respeito
o estudioso Wander de Melo escreve: “Daí a originalidade do romance na cena brasileira atual, ao
constituir-se como uma versão feminina da colonização e, ao mesmo tempo, superar os limites do
fato histórico a que remete.” (MIRANDA, 2008, p. 03) O rotulamento inconsciente do público
leitor em geral sempre caía nas tentações de enxergar a protagonista Oribela como apenas uma
mulher aventureira, destemida e excessivamente melancólica, sem antes saber que ela possuía toda
uma carga de sentimentos humanistas relacionados à sua própria existência. 3Aliás, a temática
humanística e social, tal como abordada por Ana Miranda, logo se tornou solo fértil para o roteiro
do filme homônimo produzido anos depois.4 Portanto, foi durante o lançamento do filme em
questão que a leitura da obra tornou-se ainda mais instigante, levando a alguns desdobramentos
férteis na academia através de teses, dissertações, monografias e artigos científicos.
Em linhas gerais, o romance Desmundo (1996) narra a história de um grupo de jovens
mulheres órfãs portuguesas que são impulsionadas para o matrimonio arranjado em terras
brasileiras. Oribela vive uma vida restrita, excessivamente controlada e protegida pelo seu tutor e
marido. Apesar da grande proteção de seu marido, Oribela deseja adquirir experiência com a vida lá
fora, mas frequentemente é cercada de dificuldades pelas circunstâncias religiosas e familiares. Os
empecilhos e obstáculos são os mais variados possíveis, inventados pela família que ao mesmo
tempo lhe deseja o bem e se distancia dos seus sentimentos. Num belo dia, Oribela, juntamente com
outras mulheres órfãs acabam sendo enviadas para território brasileiro. Chegando às terras
brasileiras, Oribela é quase obrigada a manter relações amorosas com o mouro Francisco de
Albuquerque. “Encontramos, portanto, na narrativa, contraposto à cena paradisíaca do lócus
amoenus projetado pelos europeus na nova terra, o drama da brutalidade das relações travadas entre

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Sobre tal questão um estudo mais aprofundado poderia ser trabalhado para futuros desdobramentos.
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FRESNOT, Alain. Desmundo. Coumbia TriStar Home Entertainment, 2003. 35280TNW.

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homens e mulheres.” (SCHMIDT, 2007, p. 02) Acontece que esse rude homem compromete toda
sua liberdade e autonomia, julgando Oribela como refém dos seus aconchegos amorosos e
restringindo a ela os afazeres domésticos. Em suma, Oribela, sem novas chances no seu trágico
destino, acaba sendo obrigada a dividir a sua vida com Francisco, que a trata como submissa e
subalterna perante seus afazeres. Durante sua atitude de confiança, a jovem moça acaba sendo
iludida e desprezada.
A estrutura do romance comunga com a ideia de um livro poético escrito com leveza e
intimidade com a linguagem. Isto é, as referências ficcionais descortinam cada capítulo ou parte
dele criando a sensação de uma obra literária bem estruturada e organizada. Pouco mais de
duzentas páginas angariam o horizonte do leitor pouco acostumado a densas narrativas. 5As partes
ilustradas com desenhos que remetem a algo bem trabalhado. Os títulos dos capítulos extremamente
sugestivos – “1. A chegada”, - “2. “A terra” -, “3. “O casamento”, - “4. O fogo”,- “5. A fuga”,- “6.
O desmundo”,- “7. A guerra”, - “8.O mouro”,-“9.O filho”,-“10.O fim”, fornecem ampla reserva
temática: todos mantêm a mescla de desdobramentos das reflexões sobre uma perspectiva mais
espontânea e poética. Romance, além de histórico, tido também como uma narrativa em primeira
pessoa, estabelecida como monólogo, muito semelhante ao modelo cunhado por Gerald Gennete de
narrador autodiegético6, disposta a relatar os episódios e os variados acontecimentos de uma
protagonista pouco comum aos outros romances publicados por Ana Miranda. É sabido que muitos
irão dizer que o romance Desmundo,pela atenção focada na protagonista, mantém a perspectiva de
uma obra que contém aquela característica marcante da obra Clara dos Anjos (1969), do escritor
carioca Lima Barreto.7
É significativo mencionarmos, efetivamente, que o romance carece de uma urdidura dos
episódios, fazendo confundir o leitor mais tradicional e pouco acostumado a predominante

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Segundo Antonio Roberto Esteves no seu artigo O romance histórico brasileiro no final do século XX: quatro leituras esclarece
que: “Como os capítulos são curtos, tal estilo não prejudica o ritmo da leitura, nem mesmo nos fragmentos dedicados à relação entre
Oribela e Temericô, quando a nativa lhe ensina expressões em sua língua. As palavras em tupi, através da técnica do “ensinar como
se diz”, aparecem sempre ao lado de seu equivalente em português.” (ESTEVES, 2007, p. 115)
6
Sobre tal conceito ver o livro: AGUIAR, Vitor Manuel. A estrutura do romance. Coimbra: Livraria Almedina, 1974, pp. 61. 62
7
Sobre esse aspecto do negro e da condição feminina, que respectivamente aparece no romance Clara dos Anjos pela mulata Clara e
Desmundo pela órfã portuguesa Oribela a crítica Simone de Beavoir afirma que: “Mas a profundas analogias entre a situação das
mulheres e a dos negros: umas e outros emancipam- -se hoje de um mesmo paternalismo e a casta anteriormente dominadora quer
mantê-los "em seu lugar", isto é, no lugar que escolheu para eles; em ambos os casos, ela se expande em elogios mais ou menos
sinceros às virtudes do "bom negro", de alma inconsciente, infantil e alegre, do negro resignado, da mulher "realmente mulher", isto
é, frívola, pueril, irresponsável, submetida ao homem. (BEAVOIR, 1980, p. 17-18)

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ejaculação de frases e sentenças. 8A característica pode ser muito bem evidenciada na dissertação de
mestrado de Cláudia Espíndola Gomes, intitulada Oribela: o uno que se desdobra (2000). Segundo
a autora, a linguagem solta e lexicalizada pode ser aproximada com a tessitura romanesca do
escritor Guimarães Rosa. Para provar tudo isso a autora não hesita em esmiuçar os diversos eixos
semânticos que cada expressão comporta, perfazendo o jogo linguístico como forma de exercício.
“Alguns aspectos presentes na produção literária de Guimarães Rosa surgem na linguagem da
personagem narradora, como a revelar a necessidade de compreender a realidade e o mundo, ambos
muitas vezes incompreensíveis”. (GOMES, 2000, p. 22) Não obstante, a estratégia da falta de
pontuação, mesclada com frases extensas povoam boa parte da narrativa e movimentam os variados
anseios da personagem Oribela. Por esse motivo, Desmundo se afaste cada vez mais do tradicional
modelo dos romances confeccionados nas últimas décadas. A acuidade desse problema, já se
patenteia, embora o leitor menos ousado tente ao máximo superar tais inovações narrativas. Em
suma, o fluir cronológico estabelecido em Desmundo esgarça as possíveis relações entre o narrador
e a própria protagonista Oribela, fazendo fluir uma frenética tessitura onde ambos se mesclam.
O estudioso Ronaldo Vainfas no seu capítulo “Homoerotismo feminino e o santo ofício”,
contido no livro História das mulheres no Brasil (2007), esmiúça de forma acurada alguns
precedentes sobre as precárias condições subalternas que o universo feminino estava submetido no
Brasil, especificamente no século XVI. Extremamente sugestivo o subtítulo do seu capítulo “Das
mulheres em terra brasílica”, que nos faz lembrar uma proximidade das mulheres com os aspectos
da nacionalidade brasileira. Devemos ressaltar que o período estudado pelo autor corresponde
exatamente ao qual Oribela chega às terras brasílicas. Segundo o autor, muitas mulheres que viviam
no Brasil durante essa época estavam condicionadas a ser regidas pelo aprisionamento ou
simplesmente pela obediência cruel dos seus companheiros, ou mesmo da própria religião imposta.
Vainfas discorre da referência do clássico Casa grande e senzala para iniciar o seu estudo,

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Há, na obra Desmundo, uma espécie de ruptura necessária com o marco devidamente histórico e cronológico que rege uma obra
literária menos tradicional. Em outras palavras, escolhas vocabulares se mutuam e transitam remetendo a formas frasais
diferenciadas, realizando um completo painel sintático, ousando nos períodos longos, mesclados por uma linguagem solta e
espontânea tão pouco trabalhada por outros escritores na literatura brasileira. “Fui calada. Ruim do calar é que mais se pensa, mais se
lembra e mais se ouve o outro e não a si. Dizia Francisco de Albuquerque [...]” (MIRANDA, 1996, p. 85) A nosso ver, seu romance
acolhe e revela uma espécie de monólogo narrativo que estabelece um profundo diálogo constante com aquilo que cerca as suas
possibilidades de consagração enquanto escritora renomada no cenário nacional. Para chegar ao esboço ficcional, tanto da realidade
do século XVI quanto das circunstâncias historicistas linguísticas que cercaram as falas das personagens, Miranda refaz a trajetória
historiográfica ultramarina de Portugal com o Brasil, tentando ao máximo engrenar todos os episódios. Obviamente ou não, que a
economia textual utilizada por Ana Miranda apresenta oscilações com o fluxo de consciência pregado pelo escritor irlandês James
Joyce. 8Em várias partes do romance a linguagem corre livre e soa como uma espécie de monólogo interno que aparenta algo de
melancólico e retraído. Por essa via de ruptura, o discurso narrativo, ao que tudo indica, revela um posicionamento metafísico por
parte da demasiada sensibilidade do próprio narrador.

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especificamente os desdobramentos das reflexões de Gilberto Freyre acerca da submissão da mulher
ao universo homoerótico. 9“As mulheres índias, essas sim, foram amantes dos portugueses desde o
início e Freyre sugere que o foram até por razões práticas”. (VAINFAS, 2007, p. 88), ressalta o
estudioso. Em suma, linhas adiante, Vainfas recompõe ainda a prática de sodomia por boa parte das
mulheres neste período ainda tão obscuro, seja pelo desconhecimento das repressões monárquicas
ibéricas, seja pelos efeitos moralizantes da Contrarreforma.
Remando no mesmo contexto histórico, especificamente século XVI, período cronológico
estabelecido no romance Demundo, teremos algumas reflexões contidas no clássico livro Segundo
Sexo (1980), da estudiosa Simone de Beauvoir. Aqui não desejamos esmiuçar todos os detalhes em
questão, mas tecer alguns contrapontos que merecem um maior destaque à discussão empreendida.
Beauvoir recria todo um ambiente ensaístico histórico para o exame desses acontecimentos que
cercaram a vida do universo feminino que no futuro privaria a mulher da sua própria liberdade.
Uma passagem faz-se importante destacarmos: “É no século XVI que se codificam as leis que se
perpetuam durante todo o Antigo Regime; nessa época os costumes feudais já desapareceram
totalmente e nada protege a mulher contra as pretensões dos homens que a querem prender ao lar
doméstico”. (BEAUVOIR, 1980, p. 125) Ora, podemos observar que Beauvoir esclarece suas
preocupações históricas em relação ao contexto feminino, buscando evidenciar uma espécie de
surgimento da primeira normalização das leis que foram pregadas logo após os hábitos feudais.
Antes de terminar a autora reflete sobre tal aspecto: “Textos análogos multiplicam- se nessa época.
O interesse deste consiste em que cada acusação destina-se a justificar uma das disposições que o
código estabelece contra as mulheres e a situação inferior em que são mantidas.” (BEAUVOIR,
1980, p. 125) Portanto, em ambos os trechos refletidos corroboram para uma visão regrada daquela
sociedade já desdobrada em terras brasileiras.
Por outro viés, o pesquisador Antônio Roberto Esteves no seu ensaio O romance histórico
brasileiro contemporâneo (1975-2000) discorre de forma acurada sobre o contexto histórico do
romance Desmundo. Estudioso contumaz, Esteves é um dos principais pesquisadores sobre a
temática literária histórica nos meios acadêmicos, estimulando desdobramentos na investigação do

9
No livro Sobrados e mocambos (1998), do historiador Gilberto Freyre também teremos uma reflexão aguçada sobre o universo “A
exploração da mulher pelo homem, característica de outros tipos de sociedade ou de organização social, mas notadamente do tipo
patriarcal-agrário-tal-como o que dominou longo tempo no Brasil – convém a extrema especialização ou diferenciação dos sexos. Por
essa diferenciação, exagerada, se justifica o chamado padrão duplo de moralidade, dando ao homem todas as liberdades de gozo
físico do amor e limitando o da mulher a ir para a cama com o marido, toda a santa noite que ele estiver disposto a procriar. Gozo
acompanhado da obrigação, para a mulher, de conceber, parir, ter filho, criar menino.” (FREYRE, 1998, p. 93)

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próprio romance histórico em todo Brasil.10Para montar sua linha de raciocínio, Esteves refaz,
grosso modo, uma espécie de panorama literário onde busca abordar quais foram as principais
características que marcaram o enredo e a tessitura textual do romance de Ana Miranda. “O painel
da sociedade colonial é cuidadosamente reconstituído a partir de textos históricos que tratam do
período. [...] Da mesma forma, a autora tentar recriar o estilo da época a partir de documentos.”
(ESTEVES, 1995, p. 195) Ora, Esteves examina a seriedade de Ana Miranda no trato artístico do
seu romance, criando um ambiente extremamente coerente com o universo ali representado.
Sobretudo, Esteves salienta a importância da criação de “um universo linguístico verossímil”,
buscando ganhar os foros de originalidade e recriação junto a uma espécie de “pastiche” que,
segundo o autor, ajuda a confeccionar o espaço colonial ambientado pela protagonista Oribela.
Não seria ingênuo afirmarmos que Oribela é uma moçaórfã que se sente solitária e ausente
no seio da sociedade colonial portuguesa no século XVI, sente vontade de usufruir de uma vida
melhor e jamais pode realizar. Sente gosto pelas coisas do mundo como toda mulher e nem pode
pensar em fazer, sente paixões inusitadas e nem sequer pode imaginar um amor consistente. Como
nos alerta novamente Simone Schmidt: “Oribela, a protagonista-narradora, sente em sua pele o peso
dessa barbárie, já que em seu corpo ela experimenta todo o peso da violência imposta às mulheres,
dentro e fora do casamento.” (SCHMIDT, 2007, p. 03) Portanto, sua pacata e humilde vida acaba
condicionando um comportamento sedentário e acomodado para com o cotidiano dos
acontecimentos que a cercam. “[...] eu era órfã do mosteiro, murmurei que sim e nada mais que
isso, cheia de tanto amor-próprio e tão sentida feito erva viva, que se arrufa e se quebranta com o
mesmo ímpeto, sem mais mimos nem afagos.” (MIRANDA, 1996, p. 28) É subordinada ao mouro,
por ser totalmente conduzida por ele e pela suposta mãe é condicionada a realizar os afazeres
domésticos e do ofício de costura que tenta ao menos aprender. “Que nos fizéssemos de damas, só
bordar mas guardássemos o pudor, o dinheiro santo do trabalho, o homem por grosso e a mulher por
miúdo”. (MIRANDA, 1996, p. 44) Por último, Oribela acaba tendo um amor não correspondido
pelo próprio mouro quando chega à terras brasileiras e isso a torna um tanto impotente e depressiva
por imaginar um possível relacionamento, mas acaba no fundo entrando em depressão por tudo que
cerca o seu destino tão cruel e trágico.
A presente investigação buscará realizar uma leitura dos principais excertos que identifique
o grau de submissão da personagem Oribela frente aos obstáculos encontrados ao chegar a terras

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Uma produtiva parcela de contribuição pode ser revista na obra ESTEVES, Roberto. O romance histórico brasileiro
contemporâneo (1975-2000). Assis: UNESP. 2010.

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brasileiras.11Embora haja uma fortuna crítica sobre esta obra, nenhuma se dispõe a analisá-la sob
este prisma tão original e prolífico. 12Para tanto, focalizamos aqui algumas questões pertinentes que
irão permear a nossa evolução ensaística ao longo desse breve trabalho: como se condiciona o
comportamento opressor sofrido pela jovem portuguesa Oribela? Por que a jovem aceita ficar
subordinada ao marido Francisco de Albuquerque? Se fôssemos imaginar/pensar em situações pós-
coloniais, qual seria o lugar da enunciação do discurso da escritora Ana Miranda ao falar e opinar
através do seu narrador sobre a posição subalterna de Oribela frente aos desafios da vida? Por que
Oribela aceita o regime imposto pelo seu marido Francisco de Albuquerque? Por que a jovem moça
sentia-se reprimida e fechada para as coisas da vida? Por que Oribela não se mostrava indignada
com suas colegas diante de um comportamento tão reprimido imposto pelo próprio marido? São
essas algumas questões fundamentais que desejaríamos elucidar e são através delas que iremos tecer
as nossas considerações e permearemos o nosso progresso ensaístico. 13

1.2- ANA MIRANDA E O SISTEMA DO COMPORTAMENTO OPRESSOR DE


ORIBELA NO ROMANCE DESMUNDO

Sempre em constante movimento, perambulando numa geografia romanesca duvidosa e ao


mesmo tempo sinuosa, o movimento narrativo de Ana Miranda na obra Desmundo é a viagem numa
tessitura obtusa em que muitos limites são abolidos. Ou seja, horizontes temporais são
problematizados por trajetos complexos que cruzam o território literário tradicional sem atingir uma
definição coerente. Sobre esse aspecto a pesquisadora Priscila Reis Franz no seu artigoA viagem de
Oribela em Desmundo (2008), remonta essa questão, especulando formas de representação das
viagens exercidas por Oribela no interior do romance.“A obra apresenta a viagem exterior e interior
da protagonista, demonstrando toda a sua visão sobre o Desmundo, isto é, o Brasil, com todas as

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É sobre o contexto paralelo dessa ilusão imposto por Francisco de Albuquerque que iremos guiar o nosso mote investigatório de
escrita desse breve trabalho. Nessa manobra, iremos perquirir os principais fragmentos que abordam a temática da opressão feminina
exercida não somente por Francisco, mas pelos fanáticos religiosos que se aglomeram nas páginas desse genuíno romance. Devemos
lembrar que não iremos destacar os fragmentos que mais evidenciam a sua tristeza ou melancolia em si, mas aqueles que mais
retratam o “comportamento opressor” sofrido por Oribela frente aos desafios da vida imposta. Percebemos que a devida leitura desse
romance, através do recorte da dualidade entre gênero e supostamente o colonialismo recente de Portugal, pode suscitar novas
especulações, postulando, dessa forma, novas maneiras de explorar outras ficções que remam na mesma linhagem de enredo. Em
suma, a contribuição desse breve artigo visa instigar novos ensaios e rumos para a crítica de gênero aplicada aos textos literários,
especificamente esse que recai sobre a representação opressora da jovem portuguesa Oribela.
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Os principais estudos (Teses, dissertações e artigos) serão pincelados ao longo de nosso raciocínio ensaístico. Portanto, ao
pesquisador interessado, ver referências no fim do trabalho.
13
Simone Pereira Schmidt acentua no seu artigo “Como e por que somos feministas?” que: “Um modo feminista de ler e interpretar o
mundo, e de produzir discursos que interfiram nos contextos em que atuamos, parece ser a mais fundamental forma de luta política
contemporânea. Esta nossa prática interpretativa e teórica deve constantemente rever e subverter lugares de poder, dentro e fora do
feminismo.” (SCHMIDT, 2004, p. 02)

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lendas e crendices próprias da concepção cristã portuguesa do Novo Mundo”. (FRANZ, 2008, p.
02) Com extrema argúcia, Ana Miranda cria algumas nuances psicológicas. No rol desses
acontecimentos que virão adiante é compreensível depreendermos uma realidade psicológica que
enseja o pensamento de submissão de Oribela. Ao metabolizar o aspecto psíquico de Oribela, a
autora acaba permanecendo partícipe de suas próprias angústias. Em suma, Miranda maneja
características psicológicas que fertilizam alguns desencadeamentos nos anseios da própria
protagonista, ressoando nas articulações dos demais episódios.
No livro Ao Sul do corpo (1993), a autora Mary Del Priore versa questões de imposição da
Igreja Católica no tratamento das mulheres em submissão aos homens. Seu ensaio recria um
verdadeiro painel dos aspectos coloniais evocando o casamento como valor importante para as
sociedades dos séculos XVI, XVII e XVIII. A autora postula que o casamento estava associado à
expansão familiar que junto favorecia o povoamento das primeiras capitanias implantadas em
território brasileiro. É a partir daí, segundo a autora, que o universo feminino começa a permanecer
preso às ordens do chefe familiar, ou seja, a mulher passa a realizar os afazeres domésticos e
mantém o sexo de forma utilitária. Navegando seus horizontes especulativos sobre o universo
feminino em terras coloniais, baseada em forte pesquisa documental, especificamente, a partir do
contexto histórico do Concílio de Trento, Priore enfatiza que os desdobramentos escravagistas
percorreram também os anseios das mulheres fazendo com que elas se tornassem serventia do chefe
familiar. “A Igreja apropriou-se também da mentalidade androcêntrica presente no caráter colonial
e explorou as relações de dominação que presidiam o encontro de homem e mulher, incentivando a
última a ser exemplarmente obediente e submissa.” (DEL PRIORE, 1993, p. 29)
Para o leitor mais experiente é fácil perceber essas inclinações e desdobramentos de
comportamento submisso em relação ao universo masculino e colonial como um todo,
especificamente o casamento ajeitado. Obviamente que esse manancial aqui apontado no parágrafo
anterior pela estudiosa Del Priore remete a pensarmos numa possibilidade frutífera de leitura e
especulação investigativa. Igualmente as reflexões teorizadas pela estudiosa francesa Simone de
Beauvoir no clássico estudo já apontado.Não obstante, várias passagens iluminam o denso estágio
de melancolia que perpassa o cotidiano da protagonista Oribela. Conjuga-se, nesse universo de
tristeza, uma forma de desabafo e estranheza ao encontro com o universo cultural distinto do
continente latino-americano. Nessa manobra, tal perspectiva anunciada pela protagonista acaba
perfazendo temas de seu sofrimento interno e provocando uma espécie de introspecção. Nesse
sentido, Oribela cria um jogo retórico frutífero de possibilidades de diálogo, que vistas em conjunto,

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corrobora para uma possível análise subjetivada do seu próprio pensamento, construindo uma
cadeia de ideias sobre tal perspectiva. Em suma, Oribela retoma meditações permeadas de
engrandecimentos figurativos que acabam direcionando um olhar mais contemplativo sobre tal
aspecto.
O fragmento extraído adiante representa a descrição das impurezas masculinas na primeira
viagem, daí se constrói a primeira hipótese de submissão da protagonista. Vejamos os detalhes:

Tudo era flutuar. Minhas perdições, o sangue dos meus costumes, o cheiro de entre minhas
pernas, as histórias dos corsários que se serviam de mulheres nas naus apresadas que os
perros contavam rindo no convés [...] (MIRANDA, 1996, p. 06)

Através do excerto extraído é possível conjugarmos um olhar de natureza íntima para o


desabafo de Oribela. Igualmente, ao utilizar a frase “sangue dos meus costumes”, subentende-se e
sugere que a escritora cearense desejava realizar uma comparação edificadora da psicologia da
jovem.Nesse cenário exposto, a infelicidade é escamoteada diante das incertezas do mundo visitado
recentemente, tudo parece exuberante e sensível. Frente aos possíveis obstáculos sofridos, a
protagonista revela o absurdo de sua existência diante de tanta impureza e insatisfação pessoal. Ao
que tudo indica, a inflexão, de natureza densamente poética, causa espanto no leitor menos
prevenido a tais devaneios. A carga das frases distribuída pelos períodos longos, separados por
vírgulas, perpassa o imaginário narratológico da personagem e interage com uma perspectiva um
pouco mais desafiadora no novo ambiente geográfico a que está diretamente submetida. Em suma, a
descrição acima delineia e segue como uma conjuntura pictórica e enérgica que se locomove com
bastante rigor, recompondo à medida que o leitor avança durante o fio da narrativa.
Em linhas gerais e à guisa de conclusão, percebemos que todas as citações e fragmentos
abrem discussões para questionarmos e problematizarmos a preferência da escritora cearense em
relação às mulheres brasileiras. No entanto importa realçar que na esteira dessas discussões teóricas
sobre a questão da submissão feminina, enquanto fator de análise ao qual realizamos aqui, tentamos
perfazer brevemente uma reflexão que não distanciasse dos olhares estéticos da leitura do próprio
romance. Assim, com base na reflexão psicológica de sua personagem Oribela, podemos dizer que
"ser submissa" perante o universo masculino apenas reforça a tese de que tal perspectiva precisa ser
desmontada e desconfigurada se desejarmos atingir uma nação mais democrática. De todo modo, a
preciosidade poética trabalhada quase que artesanalmente no seu texto revela uma preocupação de
conhecimento literário que consegue atingir a escritora Ana Miranda. Fechando nosso raciocínio,
durante a leitura desses fragmentos, verificamos que Miranda não evidenciou a raça, nível de

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estudos, classe social, para diagnosticar a feminilidade da mulher brasileira através da personagem
Oribela, ou seja, não agiu com preconceitos e sim buscando chamar atenção para outras
especificidades menos radicais. Sobretudo, a escritora desvencilha o provincianismo acomodado à
brasileira que perpetuou durante décadas e que, sobretudo, iria diante dessas passagens “abrir
cortinas” para novos horizontes.

1.3 – CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sem ter construído propriamente uma teoria do feminismo ou da subalternidade feminina na


obra Desmundo, Ana Miranda forjou suas principais noções teóricas sobre o assunto no embate
crítico com a obra de grandes ensaístas, como Simone Schmidt, Mary Del Priore, Simone de
Beauvoir, cada qual ao seu modo. Observadora cultural privilegiada das novas configurações no
Brasil, especificamente durante o contexto do fim do século XX, Miranda acompanhou de perto as
mudanças históricas de seu tempo, o que talvez explique, ao menos em parte, o sucesso atingido com
a obra Desmundo no seu lançamento em 1996. Sem exagerar, podemos postular que a autora
inaugurou com seu romance através da protagonista Oribela uma valiosa metáfora de todas aquelas
mulheres oprimidas no Brasil. Via de regra, a âncora dessa conjuntura é a hipótese recorrente de
muitas investigações a serem descobertas e serem postas para o público pesquisador. Em termos
práticos, seu romance alimenta uma lacuna que antes já tinha sido problematizada por Lima Barreto,
no seu clássico, Clara dos Anjos, como abordamos no início do artigo. No que diz respeito a essa
frutífera possibilidade de comparação literária ao investigador mais curioso, em que direção a
14
balança se inclinará? Oribela continuará sendo a órfã domesticada pelo marido Francisco ou a
protagonista Clara será novamente iludida pelo malandro Cassi Jones? O problema suscitado
permanece, porém, irresolvido. Em suma, são direções de leitura que pode angariar, como já dito,
outros ensaios e artigos científicos.

REFERÊNCIAS

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BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1980.
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Tive a oportunidade de explorar isso no artigo publicado: OLIVEIRA, Cristiano Mello. Estudos de gênero - A opressão do
feminino na obra Clara dos Anjos de Lima Barreto. Revista Scripta. Curitiba: Universidade Campus de Andrade, 2011.

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Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos),Florianópolis, 2013. ISSN2179-510X
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ASPECTS OFCOLONIAL-OPPRESSIONOFTHEFEMALEWORKDESMUNDO, DE
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Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos),Florianópolis, 2013. ISSN2179-510X
ABSTRACT:The workDesmundo(1997) the writerAnaMirandaentailssome features thatcome
withthe theme offemale submissionin the environmentcolonialBrazilin the sixteenth century. This
article seeks toexamine the behaviorimposed byoppressivehusbandFranciscoregardinglifeOribela.
First, we willmake someassumptions thatshowourobject of analysisin a morereflective, aiming to
fulfilla briefpreamble to theinvestigation.In a second step, we willtease outsome characteristicsof
thenovelstructureof the work. Ina thirdpart, we willscrutinizethe mainfragmentsthat
demonstratebestthe themeof oppressionsuffered byyoung orphanPortugueseOribela. The
theoreticalapproach, withdialogaremos: MaryDelPriore(1982), SimoneBeauvoir(1980),
ThomasBonnici(2009), SimonePereiraSchmidt(2004), among others. The contributionpart of agreater
reflectionof the novelDesmundoin light oftheoriesof gender andpostcolonial studies.

KEY WORDS: Colonialaspects, Oppression, gender, Desmundo; Oribela; AnaMiranda

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