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SUMÁRIO

Prefácio .............................................................................. 11

I. Maria de Betânia: A mulher para ser lembrada .......... 15


II. Judas Iscariotes: O traidor ......................................... 25
III. Pedro: O fracasso ...................................................... 39
IV. Caifás: O homem que não conseguiria viver com
Jesus .................................................................. 51
V. Pôncio Pilatos: O homem que foi incapaz de
tomar uma decisão ............................................ 59
VI. Barrabás: Por pouco escapou da morte ...................... 65
VII. Simão Cireneu: Carregando a cruz ............................ 73
VIII. Maria Madalena: Enfrentando as trevas .................... 87
IX. O centurião ao pé da cruz: Uma testemunha
acidental ............................................................ 97
X. Nicodemos: Vendo o reino de Deus ......................... 107
XI. O discípulo que Jesus amava: A testemunha da
verdade .............................................................. 119
PÔNCIO PILATOS 59

V
PÔNCIO PILATOS
O homem que foi incapaz de tomar uma decisão
Leituras: Lucas 23:1-25 e João 18:28-19:16

Que tipo de homem era Pilatos? Aparentemente era um homem


poderoso. Como governador da província romana da Judéia ti-
nha à sua disposição um considerável contingente militar e, em tese,
era o mediador do governo de Roma naquele território ocupado.
Formalmente ninguém fazia nada sem sua permissão.
Pilatos era a única pessoa com autoridade para sentenciar Jesus à
morte. Os judeus tinham permissão para aplicar seu tradicional có-
digo de leis, religioso e civil, até determinado nível de autoridade
delegada e apenas dentro de limites claramente definidos. Uma coisa
que não podiam fazer era sentenciar alguém à morte, muito menos
executar a sentença. Roma preferia manter esse poder nas próprias
mãos. Se Caifás quisesse que Jesus fosse executado, precisava persua-
dir Pilatos de que sua execução era do interesse do império ou dele,
Pilatos, – ou de ambos.
Diante disso Pilatos era sem dúvida um homem poderoso e rece-
bia apoio total de Roma. Guardava em suas mãos as chaves da vida e
da morte. Era só dele a mais importante decisão na história da pai-
xão de Jesus. Tudo dependia do julgamento dele.
A ironia no relato dos evangelhos é que Pilatos surge como, tal-
vez, o mais fraco de todos os personagens. Ele é hábil e facilmente
manipulado por Caifás que lhe apresenta Jesus não como blasfemador
(qual o interesse de Roma nos preconceitos religiosos e rixas locais?),
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mas como um pretenso messias, uma ameaça potencial para o gover-


no romano, um rebelde político perigoso. Pilatos pode ser fraco,
mas com certeza não é burro, e até ele é capaz de ver que essa alega-
ção é exagerada. Quase podemos ouvir o tom confuso e incrédulo da
pergunta que dirige a Jesus: — És tu o rei dos judeus? —. Embora os
evangelhos revelem pouco interesse pela aparência física de Jesus, é
razoável supor que ele não era nada parecido com um perigoso líder
guerrilheiro. Segundo a versão de João desses acontecimentos, Jesus
argumenta com Pilatos que seus seguidores ao contrário dos zelotes
não carregam armas, e por isso não houve tumultos nem protestos
por causa de sua prisão. Todos os que estiveram com ele durante três
anos procuraram o disfarce e o anonimato da multidão ao primeiro
sinal de perigo. Não importa o que aquele homem possa ter dito
sobre si mesmo, a ameaça que Jesus representava para a autoridade
romana e para a estabilidade da ordem civil nem merecia registro na
escala de Pilatos.
Entretanto, naquele ponto crucial da trama, a fraqueza pessoal e a
vulnerabilidade política de Pilatos são expostas. — Se tu soltares este
homem, não és amigo do imperador — diz Caifás, com toda a calma.
Com essas palavras ele deixa Pilatos totalmente comprometido.
Como muitos indivíduos que ocupam posições políticas impor-
tantes, Pilatos é um homem com um passado que o persegue, um
calcanhar de Aquiles que vez por outra o obriga a mancar. E Caifás,
ao pronunciar aquelas palavras cuidadosamente escolhidas, fitando-
o nos olhos, faz com que o calcanhar de Aquiles comece a doer.
Houve ocasiões em que Pilatos demonstrou pouco tato em tra-
tar com os judeus, o que lhe custou caro para o perfil político e as
perspectivas de carreira. Ele havia tomado dinheiro do tesouro do
templo para financiar a construção de chafarizes em Jerusalém. De
seu ponto de vista foi uma atitude administrativa sensata: desviar
dinheiro do governo local para pagar uma obra local. Por que o di-
nheiro deveria vir de Roma se os beneficiados seriam os judeus?
Pilatos, porém, como outros antes dele, havia subestimado a sensibi-
lidade judaica em relação ao templo. Houve tumultos. Para acabar
com eles o governador resolveu decretar algumas leis básicas sobre
como a Judéia iria funcionar sob sua jurisdição, e enviou suas tropas
para a cidade a fim de dar uma lição brutal à turba. O banho de
sangue que se seguiu não lhe proporcionou nenhum orgulho. Lucas
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menciona com forte ironia que Pilatos misturou o sangue da multi-


dão com o sangue dos sacrifícios do templo (Lc 13:1). Até mesmo os
soldados não se sentiram gratificados por vencer civis desarmados.
Não houve nada de honroso nisso.
Houve também o problema de seus homens usarem escudos com
a imagem do imperador Tibério. Os judeus viam isso como uma
grande ofensa e reclamaram, explicando que, de acordo com a reli-
gião deles, era sinal de idolatria exibir aquelas imagens nas depen-
dências do templo. Pediram que fossem usados escudos sem imagens.
Pilatos, porém, determinado a deixar sua marca como governador
forte que não tolerava tolices, manteve sua posição. O equipamento
dos soldados romanos era padronizado, e ele não iria modificá-lo
para satisfazer superstições. Desta vez não houve tumultos. Os ju-
deus apelaram diretamente a Tibério César, reclamando que o com-
portamento de seu representante local era exagerado e irracional e
acabaria por prejudicar a imagem do império. Foi uma estratégia
arriscada. Se Tibério estivesse preocupado em apoiar os atos de Pilatos,
humanamente falando, não haveria nenhuma corte de apelação mais
alta, e a situação poderia ficar muito pior para aqueles que haviam
ousado questionar a autoridade romana.
Tibério, no entanto, mostrou-se melhor juiz da realidade políti-
ca do que seu embaixador e obrigou Pilatos a fazer uma mudança
em sua política. Foi uma decisão que enfraqueceu a autoridade do
embaixador dali para a frente. Pilatos sabia, e as autoridades judaicas
também sabiam (e ele sabia que os judeus sabiam!) que Tibério não
iria tolerar outra atitude embaraçosa. A carreira do governador da
Judéia havia atingido o auge: qualquer outro problema sob sua juris-
dição, e estaria tudo acabado!
Diante disso, as palavras de Caifás adquiriam um significado
muito forte. Muitas vezes no jogo do poder o que não se diz é mais
relevante do que aquilo que se diz. — Se tu soltares este homem, não
és amigo do imperador —. Teoricamente, Pilatos tem todo o pode-
roso exército de Roma em suas mãos, todavia elas estão atadas por
seu engano político do passado e pela disposição de Caifás de explorá-
lo. Em tese, Pôncio Pilatos tem toda a liberdade para arruinar os
planos do sumo sacerdote em relação a Jesus. (E como ele gostaria de
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fazer isto!) Mas na prática ele sabe que o homem deve morrer, caso
contrário ele terá de pagar o preço político. A integridade custa caro
e Pilatos não pode arcar com essa despesa.
Embora Pilatos faça o possível para persuadir os judeus a soltar
Jesus, eles insistem no contrário. E, não obstante as exigências de cons-
ciência e de justiça, o governador cede à vontade deles e entrega Jesus.
Sua manobra final é para mostrar que a decisão não foi dele. Tenta
convencer a multidão e a si mesmo de que sua posição é neutra em
relação àquele problema, que não está dando apoio à causa dos que
desejam que Jesus seja condenado à morte. Ele literalmente lava as
mãos naquela circunstância, tentando em vão limpá-las do sangue que
já as encharcou, buscando absolvição de um pecado que não pode
assumir. Políticos de todos os tempos acabaram por descobrir que as
responsabilidades não são descartadas assim com tanta facilidade. Iro-
nia das ironias, o pecado de Pilatos – cumplicidade num assassinato
político – vem sendo publicamente lembrado em algumas liturgias
desde o início do cristianismo: “crucificado sob o governo Pôncio
Pilatos”. Dificilmente um funcionário público gostaria que sua carrei-
ra entrasse para a história dessa maneira.
Não somos às vezes como Pilatos em nosso relacionamento com
Jesus? Deparamos com um encontro inesperado e indesejável com
ele. Face a face, ficamos intrigados com suas reivindicações, reconhe-
cendo que há algo diferente, algo especial a respeito dele que não
conseguimos detectar. Sentimos o poder de sua exigência de nossa
energia, de nosso tempo, de nossa lealdade, de nossa vida. Talvez nos
sintamos compelidos, a despeito de nós mesmos, a tomar posição ao
lado dele contra a multidão e contra o mundo. Mas descobrimos
que o preço dessa atitude é muito alto. E em vez de mandá-lo embora
ou entregá-lo à morte, procuramos encontrar desculpas, nos afastar
da situação, adotar uma neutralidade moralmente descomprometida
mesmo que pouco confortável. Tentamos adiar o momento, deixar a
decisão para mais tarde. Mas não funcionou para Pilatos, e não vai
funcionar para nós.
PÔNCIO PILATOS 63

Para Oração e Reflexão


Pai santo,
tu enviaste teu Filho ao mundo
para ser nosso juiz
e também nosso redentor.
Sua vida de Filho perfeito
expõe a loucura e o desperdício
de nossa recusa contínua
para fugir do teu santo amor.
Preferimos estabelecer nossos próprios padrões,
determinar nossos próprios valores,
projetar um modelo para nossa vida,
ser nosso próprio juiz.
Como Pilatos, confrontados com
o escândalo da fraqueza e a submissão de Jesus,
percebemos o verdadeiro significado de majestade,
mas ainda assim achamos difícil
tomar posição ao lado dele.
As forças do mundo nos atraem.
Ajuda-nos a nunca lavar as mãos em relação a ele,
mas fortalece nosso compromisso com ele,
como ele é firme em seu compromisso conosco.
Amém.

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