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Psicologia da Educação

Material Teórico
Contribuições da Psicologia da Educação aos Processos Educativos

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Ms. Pascoal Ferrari
Profa. Dra. Rosana Tosi Costa

Revisão Técnica:
Prof. Dr. Renan de Almeida Sargiani

Revisão Textual:
Profa. Dra. Selma Aparecida Cesarin
Contribuições da Psicologia da Educação
aos Processos Educativos

• Introdução
• Diferenciando Educação de Escolarização
• Dificuldades e Distúrbios de Aprendizagem
• Planejamento de Atividades e Avaliação de Aprendizagem
• Alfabetização
• Educação Matemática
• Educação Infantil e Ensino Fundamental
• Educação de Jovens e Adultos
• Diversidade e Necessidades Educativas Especiais
• Fatores Motivacionais nos Processos Educativos
• O Impacto das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) na
Área Educacional
• Considerações Finais

OBJETIVO DE APRENDIZADO
· Discutir as principais contribuições da Psicologia da Educação para
os processos educativos, apresentando subsídios para importantes
tópicos em Educação, tais como: alfabetização; dificuldades e distúr-
bios de aprendizagem; necessidades educativas especiais e Educa-
ção Infantil.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como o seu “momento do estudo”.

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo.

No material de cada Unidade, há leituras indicadas. Entre elas: artigos científicos, livros, vídeos e
sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também
encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua
interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados.

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão,
pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato
com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem.
UNIDADE Contribuições da Psicologia da Educação aos Processos Educativos

Introdução
Dando continuidade ao estudo da Psicologia da Educação, vamos discutir,
nesta Unidade, as principais contribuições da área para tópicos importantes em
Educação. Por essa razão, a unidade funcionará como uma espécie de guia para
que você possa expandir seus estudos de acordo com seus próprios interesses e
necessidades pessoais.

Você encontrará aqui uma síntese das principais contribuições e discussões da


Psicologia da Educação em cada um desses grandes tópicos, com sugestões para
aprofundar seus estudos caso seja um tema que lhe interesse mais.

Nosso objetivo não é esgotar nenhuma temática em profundidade, mas sim, lançar
luz sobre as diferentes possibilidades de campos de atuação da Psicologia da Educação.

Diferenciando Educação de Escolarização


Como você deve se lembrar, nós definimos a Psicologia da Educação como uma
Disciplina-ponte entre a Psicologia e a Educação, que se ocupa do estudo científico
dos processos de ensino e de aprendizagem, seja em ambientes formais (Escola),
seja em ambientes informais (na família, na comunidade etc.). Isso significa que a
Psicologia da Educação não se ocupa só da aprendizagem que ocorre nas escolas.

Assim, para iniciar esta Unidade, nós precisamos fazer uma diferenciação muito
importante entre dois conceitos que parecem ser iguais, mas que na verdade são
bastante diferentes: Educação e Escolarização.

Se você se lembra de nossa discussão na Unidade 1, a Psicologia da Educação


já foi vista como a “rainha das Ciências da Educação”, entendida como uma
“grande salvadora” da Educação, pois, ao utilizar um método científico, poderia
beneficiar significativamente os processos educativos. Contudo, com o passar dos
anos, foi-se percebendo que os fenômenos educativos são muito mais complexos e
demandam abordagens multidisciplinares, não podendo ser esgotados apenas por
uma Disciplina científica.

Da mesma forma, a Educação também tem sido vista, atualmente, como um


“espaço de salvação”, como se tudo pudesse ser resolvido ou melhorado apenas
pela Educação.

Como discute Cortella (2014), isso faz com que as instituições escolares tenham
que cada vez mais dar conta de uma infinidade de Disciplinas e temas considerados
importantes por pais, educadores, cientistas, políticos, e tudo em apenas poucas
horas de aulas diárias.

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Para Cortella (2014), isso é fruto de uma confusão entre os termos Educação
e Escolarização. A Escolarização é apenas uma parte da Educação; refere-se ao
Ensino Escolar que ocorre em ambientes culturalmente escolhidos e determinados
chamados de Escolas, Ginásios, Liceus, Faculdades, Universidades.

A Escolarização depende de métodos e teorias e é pautada por um currículo


planejado, que inclui Disciplinas que são escolhidas por serem importantes para a
formação escolar.

O que é importante de ser ensinado pode variar historicamente, já que o que é


relevante em um determinado momento histórico pode não ser em outro. Pense
por exemplo, na utilidade de se aprender Datilografia nos dias atuais. Será que
seria uma habilidade realmente importante?

Os conteúdos também podem variar regional ou localmente, por exemplo, de


acordo com as decisões, influência e preferências da equipe escolar, dos municípios,
de estados e do país.

Existe uma velha história de que certa vez um grupo de brilhantes jovens
indígenas foi convidado a estudar em uma cidade grande. Quando retornaram, todos
estavam letrados e com formações em Ensino Superior, tais como, Engenheiros e
Advogados. O pajé, então, perguntou a eles se sabiam pescar, caçar e plantar, mas
nenhum deles tinha aprendido essas habilidades. O pajé, então, disse que podiam
ir embora, pois eles não tinham mais utilidade na tribo.

Moral da história: o que é culturalmente valorizado e necessário em um determinado


local – para um grupo de pessoas – pode não ser para outro. Por essa razão, os cur-
rículos e os conteúdos usados na Escolarização sofrem essa influência histórica e social.

Educar é um processo mais amplo, que inclui a aquisição de valores, hábitos,


costumes e atitudes de uma comunidade e que vão passando de uma geração
para a outra por meio de situações presenciadas e experienciadas pelos indivíduos
ao longo de sua vida. Por isso a Educação ocorre na Escola também, mas não
majoritariamente, pois acaba sendo papel das famílias. Nem sempre é necessário o
uso de métodos de ensino para Educar; a experiência com as situações concretas
guia a aprendizagem.

Para Cortella (2014), um grande problema atual na Educação é justamente


distinguir o que deve ser ensinado nas escolas e o que não deve ser ensinado, ou
seja, o que é dever das famílias.

Nos últimos 30 anos, a Escola se ocupou cada vez mais de uma série de
ocupações das quais ela não dá conta e nunca dará. Todos os conteúdos parecem
importantes e necessários e por essa razão não é possível dar conta de todos
eles. Fenômeno parecido com o que aconteceu com a Psicologia da Educação na
década de 1950, quando, ao tentar abarcar todos os temas da Educação, acabou
perdendo sua identidade e tendo de se reformular.

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UNIDADE Contribuições da Psicologia da Educação aos Processos Educativos

Cortella aponta que os adultos, nas últimas décadas, passaram a se ausentar da


convivência com as crianças e de sua educação, seja pelo excesso de trabalho, seja
pela distância física, seja pela falta de paciência, delegando cada vez mais à Escola
a responsabilidade pela Educação global das crianças.

A Escola ficou com todas as tarefas de Educação, não sobrando muito espaço
para o que de fato seria a Escolarização. Para Cortella, uma das possíveis soluções
é a família resgatar o seu papel na Educação.
Explor

Assista ao vídeo do filósofo e educador Mario Sérgio Cortella discutindo a diferença entre
Educação e Escolarização para ampliar essa discussão: https://youtu.be/FNEN3eJ8_BU

A Psicologia da Educação contribui nessa discussão, vez que compreende a


Educação e a Escolarização como coisas distintas, mas complementares.

Afinal, em nossas sociedades modernas, todas as crianças passam ora ou outra


por um processo de Escolarização. Assim, a Psicologia da Educação contribui
para a Escolarização com o desenvolvimento de métodos e práticas de ensino,
planejamento de currículos e formação de professores.

Por outro lado, contribui também para a Educação de modo mais amplo, ao
discutir sobre como as pessoas aprendem em ambientes fora da Escola, sobre
a aprendizagem implícita - ou seja, sem a necessidade de ensino, sobre como
valores, atitudes e costumes se modificam histórica e culturalmente e influenciam
a formação completa dos seres humanos, incluindo aspectos físicos, cognitivos,
afetivos e morais, e sobre estilos educativos parentais.

Em Síntese Importante!

O objeto de estudo da Psicologia da Educação é a aprendizagem e o ensino, mas não


apenas a aprendizagem que acontece no processo de Escolarização, ou seja, de ensino
formal nos ambientes escolares, mas sim de toda e qualquer aprendizagem que inclui a
Escola, mas não se limita a ela, como, por exemplo, a Educação familiar.

Dificuldades e Distúrbios de Aprendizagem


Você já deve ter percebido que falamos sobre aprendizagem a todo momento,
nesta Disciplina, mas ainda não definimos esse conceito. O que acontece é que
nós podemos entender o que significa aprendizagem sem saber como defini-la,
justamente porque esse conceito está diluído em nossa vida cotidiana. É o que
chamamos de psicologia do senso comum, ou seja, todo mundo tem uma ideia
geral sobre o que significa aprendizagem, pois já ouvimos sobre isso em diversos
contextos, por exemplo: “aprender a andar”, “dificuldades de aprendizagem”,
“aprender a falar”, “eu aprendi com a vida”, “aprendizagem de matemática”...

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Contudo, aqui estamos falando do conceito de aprendizagem para a Psicologia da
Educação e, assim, precisamos defini-la conceito cientificamente. É necessário que,
nesta Disciplina, nós tenhamos uma definição clara sobre o que é aprendizagem.
O conceito de aprendizagem é tão importante, que diversos teóricos ofereceram
definições, proposições, e evidências distintas sobre a aprendizagem.

Por isso, posteriormente, você irá ver as diferentes concepções teóricas sobre
aprendizagem e suas implicações para os processos educativos. Por hora, daremos
apenas uma definição mais abrangente.

Aprendizagem: é um processo psicológico que produz uma modificação relativamente


Explor

estável no organismo como resultado da experiência. Isso significa que aprender é adquirir,
modificar ou consolidar conhecimentos, comportamentos, habilidades, crenças, valores ou
preferências por meio da interação entre o indivíduo e o meio físico e cultural.

Essas aquisições têm duração em nossas vidas; algumas vezes aprendemos algo
para a vida toda, como o nosso nome, e outras vezes podemos nos esquecer de algo
já aprendido, como um número de telefone que não usamos mais. O importante é que
o que aprendemos é fruto da nossa experiência e tem uma duração em nossas vidas.

Importante! Importante!

Para a Psicologia, os conceitos de aprendizagem, desenvolvimento e maturação são


diferentes teórica e praticamente. Embora todos impliquem mudanças progressivas nas
habilidades e conhecimentos, a aprendizagem depende mais das experiências práticas,
ou seja, da interação com o meio. Enquanto o desenvolvimento é entendido como as
mudanças na complexidade de funções e habilidades de uma pessoa, que dependem
mais do tempo e de sua genética. Por exemplo, embora você possa aprender a pilotar
um avião para voar, jamais irá desenvolver asas; mesmo assim, com o tempo, você irá
desenvolver melhor suas habilidades de piloto. O conceito de maturação é mais atrelado
ao conceito de desenvolvimento e às ideias biológicas de que leva tempo até que se
atinja o máximo potencial de desenvolvimento de estruturas físicas, como o cérebro e
os ossos. Existem várias discussões teóricas sobre esses conceitos, como veremos nas
próximas unidades.

É importante entender que a Aprendizagem, assim como a Educação, também


não é sinônimo de Escolarização. Quando se fala em Aprendizagem, geralmente
associamos o termo à Escola, mas a Aprendizagem não ocorre apenas nesse
contexto, e sim em todos os ambientes em que estamos inseridos.

Na Escola, ocorre o processo de Escolarização, no qual os professores utilizam


teorias e métodos de ensino para guiar a Aprendizagem dos alunos. O processo
de escolarização promove, essencialmente, a aprendizagem de conteúdos formais
como Ciências, Literatura e Matemática por meio de métodos de ensino; isso é o
que chamamos de Aprendizagem Formal.

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UNIDADE Contribuições da Psicologia da Educação aos Processos Educativos

No entanto, nós aprendemos em todos os lugares e a todos os momentos; por


exemplo, aprendemos o caminho de casa, o nome de pessoas, aprendemos a andar,
aprendemos a atravessar a rua. Quando aprendemos em situações não planejadas
por alguém, chamamos isso de aprendizagem informal, incidental ou espontânea.

Quem aprende, aprende alguma coisa. Por isso é preciso sempre especificar do
que se trata a aprendizagem; por exemplo, não é possível dizer que uma criança
tem dificuldades de aprendizagem de modo geral e inespecífico. É necessário
dizer a que se refere à dificuldade de aprender (por exemplo: aprender conteúdos
escolares, aprender Geografia, aprender a ler), pois todos podemos aprender algo;
algumas coisas com mais facilidades, outras com menos, mas todo mundo é capaz
de aprender, desde que lhe sejam dadas condições apropriadas de ensino!

Uma criança pode ter dificuldades de aprendizagem de conteúdos escolares, mas ter sucesso
Explor

em outras habilidades importantes que não foram aprendidas na Escola, mas sim de outras
formas. No livro Na vida 10 na escola Zero, os autores Carraher, Nunes & Schliemann
(1996) mostram exemplos interessantes sobre como, muitas vezes, entre os alunos que
não aprendem Matemática na aula estão crianças que usam a Matemática na vida diária,
vendendo em feiras ou calculando e repartindo lucros.

As dificuldades de aprendizagem de conteúdos escolares podem, portanto,


indicar problemas de outra ordem, como problemas nos métodos de ensino ou no
ambiente escolar.

Até meados dos anos 1980, houve grande culpabilização das crianças por suas
dificuldades de aprendizagem. A Psicologia teve papel significativo nisso, com o uso
inapropriado de testes psicológicos, que eram apenas traduzidos, sem considerar a
necessidade de adaptação à nossa cultura.

Muitas críticas surgidas desde então fizeram com que a Psicologia da Educação
caminhasse e revisse esses problemas e por isso, hoje, o olhar da Psicologia para
as dificuldades de Aprendizagem não é buscando encontrar problemas na criança,
mas, sim, entender de modo mais completo quais são os componentes das relações
ensino-aprendizagem que podem estar na origem e manutenção das dificuldades
de Aprendizagem.

Importante! Importante!

Atualmente, os testes psicológicos seguem rigorosos procedimentos de adaptação e


validação e são avaliados pelo Conselho Federal de Psicologia para serem utilizados
por psicólogos, sendo portanto, importantes ferramentas que contribuem para o
entendimento das dificuldades de Aprendizagem.

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É sempre importante questionar todos os aspectos envolvidos nos processos
educativos antes de dizer que alguém tem dificuldades de aprendizagem. Não se
deve confundir dificuldades de aprendizagem, que são mais pontuais e temporárias
– geralmente são sanadas mais facilmente mudando-se os métodos de ensino –
com distúrbios de aprendizagem.

Os distúrbios de aprendizagem são problemas mais complexos que afetam


a capacidade geral ou específica da criança de receber, processar, analisar ou
armazenar informações. Assim, os distúrbios são mais duradores e podem dificultar
diversos aspectos da vida das crianças, incluindo a aquisição de habilidades como
leitura, escrita e resolução de problemas matemáticos. Alguns desses distúrbios
mais comuns são a dislexia (de leitura), a disgrafia (de escrita), a discalculia (de
Matemática), o transtorno de atenção e hiperatividade (TDAH).

Importante! Importante!

Os distúrbios ou transtornos de aprendizagem não são tão comuns quanto as pessoas


pensam. É preciso muita investigação e descartar outras hipóteses, principalmente, dos
métodos de ensino, antes de se pensar que uma criança tem algum desses transtornos.
Muitas vezes, trata-se apenas de dificuldades de aprendizagem devido a problemas
pontuais, como os métodos de ensino ou alguma situação de estresse temporária.

Uma professora de Educação Infantil chama um psicólogo da Educação para avaliar a sua
Explor

turma, pois acredita que há muitas crianças com transtorno de atenção e hiperatividade.
Segundo ela, as crianças não “param um minuto, ficam brincando e se mexendo o tempo
todo”. O psicólogo chega até a sala de aula para uma visita e encontra um espaço bastante
colorido, com muitos desenhos da Disney nas paredes, brinquedos espalhados pelo chão e
uma das paredes da sala é toda de vidro “para dar mais sensação de liberdade e claridade para
a sala de aula” segundo a professora. O psicólogo nota que a parede de vidro é na verdade
uma divisória entre a sala de aula e o playground e as crianças tem apenas 4 anos de idade.
O que você acha? As crianças dessa professora têm transtorno de atenção e hiperatividade?
Crianças de 4 anos tem um limiar de atenção menor e o excesso de estímulos pode deixá-las
ainda mais inquietas. Como você responderia para essa professora? Quais seriam as suas
sugestões? Pense também em outras situações educacionais em que você acredita que o
contexto educacional pode influenciar negativamente nos processos educativos.

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UNIDADE Contribuições da Psicologia da Educação aos Processos Educativos

Planejamento de Atividades e
Avaliação de Aprendizagem
Diversos teóricos da Psicologia da Educação tem contribuído para o planeja-
mento de atividades, sequências didáticas e currículos e também para a avaliação
de aprendizagem. Algumas das propostas mais gerais seguem a ideia de que nós
devemos sempre organizar o que deve ser ensinado de modo que seja do mais
simples para o mais complexo.

Skinner, por exemplo, chama esse procedimento de modelagem, no qual um


atividade mais simples é apresentada até que o aprendiz consiga dominá-la e possa
passar para uma mais complexa (SKINNER, 2003).

É como quando uma criança está aprendendo a falar e pede água. Primeiro ela
pode falar “aaah” e a mãe atende dando água, mas aos poucos a mãe vai exigindo
mais para dar a água, fazendo com que a criança produza formas mais complexas
como “agaaa” e assim por diante, até que a criança possa falar “eu quero um copo
de água”. Os conteúdos escolares também devem ser planejados em sequências
lógicas e com dificuldade crescente.

Outros autores, como Bruner, propuseram a ideia de currículo em espiral, no


qual os conteúdos que são apresentados inicialmente são mais simples e devem ser
ensinados até que o aprendiz domine esse conteúdo; depois, o mesmo conteúdo é
ensinado em um nível de complexidade maior e com mais informações, permitindo
revisões e reformulações conceituais.

Esse processo é sempre repetido com o aumento no nível de detalhamento, até


que o aprendiz domine o assunto. “Um currículo, à medida que se desenvolve, deve
voltar repetidas vezes a essas ideias básicas, elaborando e reelaborando-as, até
que o aluno tenha captado inteiramente a sua completa formulação sistemática”
(BRUNER, 1973, p.12).

David Ausubel também contribui com as ideias de ancoragem e aprendizagem


significativa. Para ele, os conteúdos devem ser apresentados de acordo com
conhecimentos prévios dos aprendizes, de modo que os novos conteúdos encontrem
um local para fazer uma ancoragem (termo derivado da palavra âncora), ou seja,
para se conectar com esses conhecimentos prévios, tornando a aprendizagem mais
significativa e duradoura (RONCA, 1994).

A avaliação da aprendizagem para a maioria dos Psicólogos Educacionais e


também teóricos da Educação deve ser entendida não como uma forma de punição
do aluno, mas, sim, como um instrumento para o diagnóstico do que e como estão
aprendendo. Em outras palavras, as avaliações devem ser usadas para verificar se
os alunos aprenderam o conteúdo, se conseguem transferir esse conteúdo para
novas situações e quais são as dificuldades que têm, servindo para o professor
como uma amostra do efeito de seu trabalho de ensino, balizando suas práticas ou
exigindo que elas sejam modificadas para atender as necessidades do aluno.

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É preciso planejar as avaliações para que elas sejam compreensivas, não apenas
inquisitivas. Ou seja, não podem ser apenas perguntas que não promovam a
reflexão dos alunos, é preciso que eles possam também aprender com as avaliações
e não apenas serem arguidos.

Alfabetização
A Alfabetização consiste em um tema dos mais importantes e sensíveis
para a Educação. Aprender a ler e a escrever, juntamente com a aquisição de
conhecimentos matemáticos básicos, consiste nas chaves para o sucesso no
processo de escolarização e na vida em sociedades modernas. Assim, fica claro
que os Psicólogos Educacionais se interessam muito pelos temas da alfabetização e
da Educação Matemática e podem contribuir de diferentes maneiras.

No que se refere à alfabetização, existe intenso debate internacional sobre


posições ideológicas, pedagógicas e científicas. As explicações sobre como se
aprende a ler e a escrever são por vezes controversas e é preciso muito cuidado na
hora de interpretar e fazer escolhas.

No Brasil, por exemplo, uma posição amplamente utilizada é a teoria da


Psicogênese da Linguagem Escrita, criada por Emília Ferreiro (FERREIRO;
TEBEROSKY, 1999) na década de 1980, com base na teoria de Piaget.

Essa Teoria propõe que as crianças aprendem a ler e escrever criando hipóteses
sobre como a linguagem escrita funciona e, embora não seja um método de ensino,
é amplamente utilizada nas escolas brasileiras.

Contudo, atualmente, dispomos de conhecimentos muito mais avançados sobre


como o cérebro funciona e como as crianças aprendem a ler e a escrever baseadas
nos estudos da Psicologia Cognitiva e da Neurociência Cognitiva que, juntamente,
com outras áreas compõe o que se chama de Ciência da Leitura (MALUF;
CARDOSO-MARTINS, 2014).

Os conhecimentos da Ciência da Leitura têm fornecido respostas muito mais


precisas e com base em rigorosos estudos científicos sobre como as pessoas
aprendem a ler e escrever. Por essa razão, ela tem sido a base para o desenvolvimento
de políticas públicas de Educação relacionadas à alfabetização em diversos países
como EUA, França, Portugal e Reino Unido. Contudo, ainda encontram muita
resistência em serem utilizadas no Brasil, onde questões ideológica se sobrepõem
às evidências científicas.

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UNIDADE Contribuições da Psicologia da Educação aos Processos Educativos

Explor
A Profa. Dra. Maria Regina Maluf é uma das maiores especialistas em Psicologia da Educação,
Ciência da Leitura e Alfabetização no Brasil. Veja alguns vídeos dela falando sobre as con-
tribuições da Ciência da Leitura para a Alfabetização nos links:
https://youtu.be/UyljKPdD3Ag;
https://youtu.be/aqgnnqrAhf4;
https://youtu.be/NVZpgF5CHt4;
https://youtu.be/hSW2RVbPJ6U.

Entre as principais contribuições da Ciência da Leitura, destaca-se que para


aprender a ler e a escrever as crianças precisam ser explicitamente ensinadas sobre
como funcionam os sistemas de escrita. Isso pode parecer óbvio, mas não é.

Alguns teóricos, como Emília Ferreiro, acreditam que as crianças aprendem por
estarem expostas a ambientes letrados, o que não é verdade.
Explor

Pense: será que analfabetos, então, têm algum tipo de distúrbio, já que estão em ambientes
letrados e não conseguem aprender a ler? Claro que não!

O que acontece é que ao longo da história da evolução humana, nosso cérebro


foi capacitado a aprender a falar; por isso aprendemos a falar com facilidade,
sem precisar de escolas, mas ler e escrever são invenções recentes na História
da Humanidade. Dessa forma, nosso cérebro precisa se adaptar para essa
aprendizagem, o que requer ser ensinado explicitamente (DEHAENE, 2012).

Assim, para aprender a ler e a escrever, é preciso entender como letras


representam sistematicamente os sons das palavras. Para isso, dois componentes
são muito importantes: o conhecimento de letras e a consciência fonêmica. O
Conhecimento de letras significa que as crianças precisam aprender os nomes,
formas e sons das letras, ou seja, devem ser ensinadas sobre isso. Os sons das
letras são, na realidade, os fonemas que as letras representam. A palavra bala,
por exemplo, tem quatro letras e quatro fonemas, um som para cada letra; mas a
palavra chuva, tem cinco letras e quatro fonemas, já que o dígrafo ch representa o
fonema /x/.

Com essa explicação, introduzimos, também, o conceito de consciência


fonêmica, que se refere ao conhecimento explícito e à habilidade de manipular
intencionalmente os menores sons das palavras, ou seja, os fonemas.

Quando as crianças aprendem a falar, elas não prestam atenção em como as


frases são compostas por unidades menores, que são as palavras que, por sua vez,
são compostas por unidades menores, que são as sílabas que, por sua vez, são
compostas por unidades ainda menores, chamadas de fonemas.

Por isso, quando aprendem a escrever, é comum que escrevam uma frase
inteira sem separar as palavras (por exemplo: Hojefuinacasadaminhavó). É preciso
ensinar a separar as palavras na oralidade, o que pode ser feito com atividades de
consciência fonológica, desde a pré-escola.

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A habilidade de manipular unidades fonológicas de quaisquer tamanhos é cha-
mada de consciência fonológica, incluindo frases, sílabas, rimas e fonemas. Toda-
via, o crucial para aprender a ler e a escrever é aprender a consciência dos fone-
mas, já que, em nosso sistema alfabético, as letras representam os fonemas.

Saiba mais sobre a Ciência da Leitura e a Alfabetização lendo o livro Criar Leitores: para
Explor

professores e educadores, de José Morais, Editora Manole. José Morais é um dos maiores
especialistas no mundo em Alfabetização, e esse livro é um bela e clara introdução.

Educação Matemática
A Psicologia da Educação também oferece muitas contribuições importantes
para o entendimento dos processo mentais envolvidos na solução de problemas
matemáticos e também para a melhoria do ensino de Matemática escolar.

Durante muito tempo se pensou mais nos aspectos psicológicos envolvidos


na aprendizagem da Matemática, como no desenvolvimento do pensamento
lógico formal, o último estágio do desenvolvimento na Teoria Piagetiana, e que
seria necessário para que se pudesse pensar de forma lógica e abstrata, o que é
fundamental para a aprendizagem da Matemática.

Contudo, atualmente, sabemos que existem diferentes níveis de abstrações e


de habilidades matemáticas e que até mesmo bebês podem aprender alguns níveis
elementares de raciocínio lógico (SIEGLER, 1996).

Bruner (1973), por exemplo, postulava que se pode ensinar qualquer coisa a
qualquer criança em qualquer estágio do desenvolvimento, desde que se adapte
esse conteúdo de forma honesta. Por isso, ele recomendava que na Educação
Matemática era possível utilizar blocos e moedas que pudessem ser manipulados
concretamente para ensinar Álgebra.

Depois que o aprendiz pudesse manipular os objetos, ele seria encorajado a


construir representações visuais, como desenhos ou diagramas. Por fim, ele
seria ensinado sobre os símbolos associados e o que eles representam, podendo
aprender, por exemplo, que o sinal (+) significa adicionar dois números, enquanto
(-) significa subtrair.

Nas palavras de Bruner:


[...] tomando um exemplo (de estrutura) da matemática, a álgebra é um
modo de dispor, em equações, elementos conhecidos e desconhecidos, de
modo que os desconhecidos se tornem conhecíveis. As três propriedades
implicadas no trabalho com essas equações são comutação, distribuição
e associação. Uma vez que um aluno capte as ideias contidas nessas três
propriedades, está em condições de reconhecer em que casos “novas”
equações a resolver não são de modo algum novas, mas apenas variações
sobre um tema familiar (BRUNER, 1973, p.7).

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UNIDADE Contribuições da Psicologia da Educação aos Processos Educativos

Dessa forma, entende-se que os mecanismos cognitivos com implicações na


solução de problemas matemáticos são os mesmos da resolução de problemas
gerais. Solução de problemas é entendida como uma forma complexa de combinar
mecanismos cognitivos e conhecimentos que uma pessoa já possui para resolver
problemas novos quando se depara com eles.

Por essa razão, como discute Brito (2011), a solução de problemas depende
fortemente dos conceitos e princípios anteriormente aprendidos e que devem ser
disponibilizados na memória de forma a serem combinados e levar à solução de
problemas, sejam novos, sejam já conhecidos.

A solução de problemas matemáticos envolve não só o conteúdo específico


da Matemática, mas também outros processos cognitivos superiores como a
percepção, a representação, a imaginação e a formação de imagens mentais, a
retenção e a recuperação de informações contidas na memória.

Além disso, uma das principais contribuições da Psicologia da Educação para a


Educação Matemática é justamente a de entender as questões afetivas envolvidas
na aprendizagem de Matemática.

Como bem relembra Brito (2011), há muitos estudos que indicam que as crenças
influenciam nas habilidades matemáticas. Em nossa cultura, as mulheres são tidas
como tendo menores aptidões matemáticas, o que influencia significativamente na
forma como elas também lidam com essa área, geralmente, optando por estudos
de Ciências Humanas, que não tenham nada a ver com Matemática. Diante de
problemas matemáticos, essas crenças também geram ansiedade e resistência em
muitas crianças que sentem que não serão capazes de resolver tais problemas.

É importante que essas crenças de autoeficácia negativas e esses sentimentos


sejam considerados no ensino de Matemática para evitar que os alunos se sintam
impedidos de aprender.

Em uma pesquisa clássica, os pesquisadores criaram dois testes de Matemática


equivalentes em conteúdo e dificuldades, cuja única diferença foi a forma de
administração. Eles aplicaram o primeiro teste para um grupo de homens e mulheres
dizendo que se tratava de uma prova típica de Matemática. Como resultado, as
mulheres obtiveram médias inferiores a dos homens.

Todavia, logo após eles aplicaram o segundo teste, dizendo que dessa vez se
tratava de uma prova planejada especialmente para eliminar as influências de
gênero, ou seja, homens e mulheres teriam condições iguais de acertar. O resultado
surpreendente foi que as mulheres tiveram notas idênticas as dos homens,
demonstrando que não se tratava de uma questão de conhecimento, mas sim de
crença de autoeficácia (SPENCER, STEELE & QUINN, 1999).

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Explor
Saiba mais sobre Psicologia da Educação Matemática lendo o seguinte artigo: BRITO, Márcia
Regina Ferreira de. Psicologia da educação matemática: um ponto de vista, Educ. rev.,
Curitiba, n.1, p.29-45, 2011.
https://goo.gl/8dGB5x

Educação Infantil e Ensino Fundamental


A Psicologia da Educação, com base na Psicologia do Desenvolvimento, realiza
muitas contribuições para os primeiros anos de Escolarização, ou seja, a Educação
Infantil e o Ensino Fundamental.

A Psicologia do Desenvolvimento é uma área de conhecimento da Psicologia


que investiga as mudanças que ocorrem ao longo da nossa vida a respeito do
desenvolvimento motor, cognitivo e afetivo. Essa investigação permite entendimento
melhor acerca das fases do desenvolvimento infantil e melhor compreensão sobre
a aprendizagem e como ela se concretiza.

Vejamos o que Davis e Oliveira (1994) argumentam sobre as pretensões da


Psicologia do Desenvolvimento:
A Psicologia do Desenvolvimento pretende estudar como nascem e
como se desenvolvem as funções psicológicas que distinguem o homem
de outras espécies. Ela estuda a evolução da capacidade perceptual e
motora, das funções intelectuais, da sociabilidade e da afetividade do ser
humano. Descreve como essas capacidades se modificam e busca explicar
tais modificações. Por intermédio da Psicologia do Desenvolvimento é
possível constatar que as manifestações complexas das atividades psíquicas
no adulto são frutos de uma longa caminhada. Daí a importância desta
disciplina para a Pedagogia: subsidiar a organização das condições para a
aprendizagem infantil, de modo que se possa ativar, na criança, processos
internos de desenvolvimento, os quais, por sua vez, serão transformados
em aquisições individuais (DAVIS & OLIVEIRA, 1994, p.17).

As autoras nos oferecem, assim, a dimensão da importância da Psicologia do


Desenvolvimento para a Educação Infantil e para o Ensino Fundamental.

Essa ciência construiu e sistematizou conhecimentos fundamentais sobre as


fases do desenvolvimento humano, permitindo, dessa forma, maior adequação
das atividades pedagógicas realizadas nessas modalidades de ensino. Conhecendo
melhor o desenvolvimento infantil, a Escola poderá planejar, de forma mais ajustada,
as sequências didáticas aplicadas à sala de aula.

Entre os principais teóricos do desenvolvimento humano, podemos destacar três


importantes autores: Jean Piaget (1896-1980), Henri Wallon (1879-1962) e Lev
Vygotsky (1896-1934).

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UNIDADE Contribuições da Psicologia da Educação aos Processos Educativos

Suas ideias revolucionaram a forma de ver as crianças e tiveram grande impacto


nas práticas de ensino para elas. Eles demostraram que a criança passa por etapas
em seu desenvolvimento e que essas etapas devem ser respeitadas.

Esses pensadores ampliaram nossa visão sobre os indivíduos e como aprendem


ou como constroem conhecimento, influenciados por fatores genéticos, cognitivos,
afetivos e sociais.

Falaremos mais detalhadamente sobre eles e suas teorias na Unidade 3, na


qual será possível discutir melhor as contribuições dessas Teorias para as primeiras
etapas da Educação Básica.

Educação de Jovens e Adultos


A Psicologia Científica sempre se ocupou mais do estudo das crianças do que de
jovens e adultos. As principais teorias clássicas do desenvolvimento, como as teorias
de Piaget e Wallon, referem-se ao desenvolvimento de crianças até a adolescência.
Essa concepção começou a mudar a partir dos anos 1970, com o desenvolvimento
da noção de desenvolvimento ao longo do ciclo vital.

Essa concepção de que as pessoas se desenvolvem a vida toda e, portanto,


modificam-se ao longo da vida e não só na infância, foi crucial para o desenvolvimento
de teorias mais abrangentes e do surgimento de estudos que buscassem entender se
jovens e adultos aprendiam de modos diferentes e como a Psicologia da Educação
poderia contribuir para os processos educativos dessa população.

A Psicologia da Educação de jovens e adultos tem seu início juntamente com


o surgimento da Andragogia, nos anos 1970, que se refere à arte ou à ciência de
orientar a aprendizagem de adultos, em oposição à Pedagogia, voltada para crianças.

Surgem, assim, as ideias de que adultos e adolescentes têm estilos de aprendi-


zagem e interesses diferentes e que, portanto requerem outros métodos de ensino.
Esse é um campo muito rico e novo, que inclui também a educação de adolescentes
(Ensino Médio), a Educação Superior e a EJA.

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) tem sido uma modalidade de ensino


atual, destinada a jovens e adultos, com idade mínima de quinze anos, que não
puderam concluir os estudos regulares na idade prevista. Devido às características
particulares e específicas dessa situação, é preciso reavaliar uma série de propostas
educacionais, já que nesses espaços destacam-se os aspectos afetivos e emocionais.

A noção de fracasso permeia o ambiente educacional dessas pessoas, as crenças


de incapacidade e a baixa autoestima dificultam e são desafios para os educadores,
para além do ensino dos conteúdos. A Psicologia tem muito a contribuir com essa
área, que é ainda muito recente.

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Explor
RODRIGUES, Gabrielli Tochetto et al. Psicologia e educação de jovens e adultos: um
desafio em construção. Psicol. Esc. Educ., Maringá , v. 18, n. 1, p.181-184, jun. 2014.
https://goo.gl/WKx8nX

Diversidade e Necessidades Educativas Especiais


A diversidade é uma realidade na Educação. Professores tem de lidar com
diferenças individuais o tempo todo e é preciso incluir todos, tanto aqueles com
desenvolvimento típico, quanto os com desenvolvimento atípico.

Com inúmeros estudos e pesquisas a respeito das síndromes e necessidades


especiais que as crianças podem apresentar, a Psicologia contribui muito para
uma Educação mais inclusiva, no sentido de reunir conhecimento acerca desses
fenômenos e oferecendo pistas e reflexões para os encaminhamentos educativos
mais adequados à realidade de cada criança. Além disso, a Psicologia fornece
subsídios para o desenvolvimento e a elaboração do planejamento curricular da
educação formal que inclua essas crianças no universo escolar.

As Necessidades Educativas Especiais (NEEs) são inúmeras. Podemos pensar


em necessidades cognitivas, como crianças intelectualmente superiores ou mais
lentas em sua aprendizagem; necessidades sensoriais, como dificuldades auditivas
ou visuais; desajustes comportamentais advindos de distúrbios emocionais ou
afetivos; síndromes e distúrbios genéticos, como autismo, dislexia etc.; ou, ainda,
dificuldades múltiplas. Certamente, todas as crianças têm direito à Educação de
qualidade, e a Psicologia busca contribuir para que elas tenham essa qualidade.

Os avanços observados em relação ao atendimento das NEEs pelas Escolas se


concretizam, determinados, em primeiro lugar, por documentos internacionais,
como a Declaração de Salamanca (1994) e a Legislação Educacional vigente, que
garante direitos básicos, como a inclusão desses alunos no Sistema Educacional e, em
segundo lugar, as novas concepções psicológicas e pedagógicas que compreendem
que a aprendizagem favorece o desenvolvimento dos indivíduos.

Com essa nova visão sobre os limites de aprendizagem de pessoas com NEEs, a
Escola pode redimensionar esses limites, ampliando-os e criando novos horizontes.
A Escola, como espaço de aprendizagem, é de fundamental importância para o
desenvolvimento cognitivo/afetivo desses indivíduos.

O papel do professor é fundamental no ensino de alunos que possuem NEEs;


é um trabalho personalizado, pois cada criança tem formas específicas de
aprender. Além de atuar como propositor de sequências didáticas, o professor
deverá desenvolver, também, processos de avaliação pedagógica a fim de saber
quais serão as próximas sequências didáticas a serem administradas para o pleno
desenvolvimento da criança com NEEs.

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UNIDADE Contribuições da Psicologia da Educação aos Processos Educativos

O professor, munido do conhecimento construído por esse foco de estudo da


Psicologia acerca das NEEs pode melhor atuar em sua profissão. A formação do
professor é fator essencial para melhor entender e atuar com essa problemática.

Fatores Motivacionais nos Processos Educativos


A Motivação é um componente fundamental para que ocorra a aprendizagem.
Estar motivado significa querer aprender, estar interessado em conhecer; portanto,
podemos dizer que a motivação é a mola propulsora de qualquer aprendizagem.

Uma importante contribuição acerca da motivação foi dada pelo psicólogo


Abraham Maslow, que criou a chamada hierarquia de necessidades, também
conhecida como Pirâmide de Maslow. Para ele, as pessoas realizam as coisas
seguindo uma hierarquia de necessidades, que vão desde necessidades fisiológicas
básicas até a necessidade de autorrealização.

Assim, a necessidade de aprender pode se estabelecer por inúmeros motivos:


seja para satisfazer a sua necessidade básica biológica, seja para ser estimulado por
conquistar um novo status social ou pessoal, passar em uma prova de concurso ou
escolar, ou pode se tratar de um novo desafio, como aprender uma nova profissão,
por exemplo. Podemos ter inúmeros motivos para aprender; certamente, aprender
é uma necessidade humana.

Estar motivado para aprender é uma condição essencial para que se construa
conhecimento. Dessa forma, a motivação torna-se preocupação central da
Educação e a falta de motivação significa queda na qualidade da aprendizagem.

Ao professor, cabe o desafio de investigar as causas que levam à falta de


motivação do aluno para a aprendizagem e, em seguida, elaborar novas estratégias
para fomentar a motivação de seus alunos.

As ações educativas do professor devem levar os alunos a um estado permanente


de curiosidade, preservando o prazer em construir conhecimento.

É necessário refletir, ainda, que a motivação deve estar presente no professor


também. Para que os processos educacionais alcancem sucesso, é necessário, de
um lado, o professor motivado a ensinar e, do outro, um aluno motivado a aprender.

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O Impacto das Tecnologias da Informação e
da Comunicação (TICs) na Área Educacional
As Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) são um desafio adicional
para a Educação no século XXI. Como discute Cortella (2014), as escolas são
seduzidas constantemente pelas Tecnologias mais recentes e é preciso cautela na
assimilação dessas Tecnologias.

Evidentemente, não podemos permanecer apenas com o que foi do passado,


pois o que era ensinado e utilizado no passado tinha a ver com outros objetivos de
formação e era para outras pessoas, que viviam em outros contextos. Atualmente,
as escolas devem manter o que é necessário do passado, mas incluir, também, o
presente e olhar para o futuro.

É impensável imaginar que as crianças de hoje em dia não possam ter contato
com computadores e Internet. Isso já faz parte de nossos cotidianos e promove
mudanças significativas em nossos modos de agir e pensar. Mesmo crianças muito
pequenas já brincam com tablets e smartphones e as tecnologias digitais ganham
cada vez mais espaço em nossas vidas.

A advertência de Cortella (2014) é para os limites da incorporação dessas


tecnologias à Educação. Pense, por exemplo, em incluir como objetivo de aula
algo que use apenas o Orkut como ferramenta. Essa aula já não funcionaria hoje
em dia. Entretanto, uma aula que possibilite a reflexão sobre a segurança pessoal
em ambientes virtuais poderia e seria muito proveitosa.

Outro desafio das novas Tecnologias é justamente o ensino na modalidade


virtual. Existem estudiosos que se dedicam a isso e que propõem características das
aulas em ambientes virtuais.

Lalueza, Crespo & Camps (2010), por exemplo, discutem sobre como o ensino
nesses ambientes está muito mais centrado nos interesses dos alunos, que têm
a liberdade e a possibilidade de ditar o ritmo da aprendizagem e buscar outras
informações complementares sempre que necessário, tornando-se muito mais
ativos e participativos. Embora, por outro lado, também se tornem mais solitários,
já que não compartilham dúvidas com outros alunos, a não ser por fóruns e
encontros presenciais.

Tudo isso acaba sendo um desafio para educadores e pesquisadores que


precisam, ainda, de mais pesquisas para compreender esses desafios da Educação
na Era Digital.

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UNIDADE Contribuições da Psicologia da Educação aos Processos Educativos

Considerações Finais
Finalizamos essa Unidade, certos de que a Psicologia da Educação é muito
importante para compreendermos melhor os diferentes processos educativos.
Suas contribuições, como a de outras Ciências, podem nos oferecer um olhar
mais ampliado sobre a Educação. Com seus focos de estudo como a Psicologia do
Desenvolvimento, a Psicologia voltada às NEEs, e os estudos sobre a motivação
da aprendizagem, a Psicologia nos fornece informações fundamentais para melhor
compreendermos o ser que aprende.

Como uma Disciplina de estudo, a Psicologia é também fundamental para a


formação do professor; com os conhecimentos construídos por essa Ciência,
podemos ter uma atuação profissional mais assertiva e coerente com a realidade
de nossos alunos.

Nesta Unidade, nós apenas iniciamos a discussão sobre diferentes tópicos da


Educação. Nas próximas, iremos aprofundar mais as contribuições de teóricos da
Psicologia da Educação com vistas a complementar as discussões iniciadas aqui.

24
Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

Sites
Radar da Primeira Infância
https://goo.gl/6vufZ9

Livros
Psicologia da Educação Virtual: Aprender e Ensinar com as Tecnologias da Informação e da Comunicação
LALUEZA, J. L.; CRESPO I.; CAMPS, S. As tecnologias da informação e da comunicação e os processos
de desenvolvimento e socialização. In: COLL, C.; MONEREO, C. (org.). Psicologia da Educação Vir-
tual: Aprender e Ensinar com as Tecnologias da Informação e da Comunicação. Porto Alegre: Artmed,
2010, p. 47-65

Vídeos
Conferência do Professor José Morais: “Alfabetização e Democracia”
https://youtu.be/fv0S3RtZzh4

Leitura
Cortella: “A escola passou a ser vista como um espaço de salvação”
Entrevista de Mário Sérgio Cortella para o jornal o Estadão.
https://goo.gl/i8gKc4

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UNIDADE Contribuições da Psicologia da Educação aos Processos Educativos

Referências
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Paulo: Cortez, 2014. 126p.

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ler. Porto Alegre: Penso, 2012.

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Artmed, 1999.

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Janeiro: Guanabara Dois, 1981.

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