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Análise Estrutural do Bloco De Fundação do Edifício Magnifique Tower

Structural Analysis of the Pile Cap of The Magnifique Tower Building

Antonio Stramandinoli Jr.; Eliane Lima de Oliveira; Renata Stramandinoli

(1) Engenheiro Civil Msc, KALKULO Projetos Estruturais


(2) Engenheira Civil, KALKULO Projetos Estruturais
(3) Professora Doutora, Departamento de Construção Civil, Universidade Tecnológica Federal do
Paraná
Rua Doutor Goulin, 614, Curitiba-Paraná

Resumo
No presente trabalho apresenta-se a análise estrutural e dimensionamento do bloco de fundação do Edifício
Magnifique Tower, que está sendo construído em Balneário Camboriú, SC. Este edifício possui 48
pavimentos e sua altura é de 148 m. Para edifícios muito esbeltos, muitas vezes torna-se necessário a
utilização de blocos de fundação onde se apóiam todos os pilares da torre, exigindo blocos de grandes
dimensões e diferentes formas, fugindo de blocos padrões utilizados em edifícios convencionais,
necessitando assim de modelos de análise e dimensionamento mais refinados. Para a análise foi
considerada a interação solo-estrutura, que foi realizada em parceria com o engenheiro geotécnico. A
análise estrutural do bloco foi feita por elementos finitos, utilizando-se o programa SAP 2000. O
dimensionamento foi elaborado pelo modelo biela-tirante, com verificação das tensões nas bielas e cálculo
das armaduras.
Palavra-Chave: Bloco de Fundação, Interação Solo Estrutura, Modelo biela-tirante.

Abstract
This paper presents the structural analysis and design of the pile cap of the Magnifique Tower Building,
which is being built in Balneário Camboriú, SC. This building has 48 floors and its height is 148 m. For very
slender buildings, it is often necessary to use pile caps where all the columns of the tower are supported,
requiring pile caps of large dimensions and different shapes, avoiding standard pile caps used in
conventional buildings, thus requiring more refined analysis and design models. For the analysis, the soil-
structure interaction was considered, which was carried out in partnership with the geotechnical engineer.
The structural analysis of the pile cap was made by finite elements, using the SAP 2000 program. The
design was elaborated by Strut-and-Tie model, with checking of the stress in the struts and calculation of the
reinforcements.
Keywords: Pile cap, soil-structure interaction, strut-and-tie model

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1 Introdução
Segundo a NBR 6118/2014, blocos são estruturas de volume usadas para transmitir às
estacas e aos tubulões as cargas de fundação. Os mesmos são considerados elementos
especiais, rígidos ou flexíveis, que devem ser calculados e dimensionados por modelos
teóricos apropriados. São aceitos modelos tridimensionais lineares ou não lineares e
modelos biela-tirante tridimensionais. Embora exista um consenso entre os autores que o
método das bielas e tirantes é o mais indicado para representar o comportamento de
blocos rígidos sobre estacas (BUTTIGNOL, 2011) ainda existem divergências sobre qual
o melhor modelo analítico para o dimensionamento.
Para edifícios muito esbeltos, muitas vezes torna-se necessário à utilização de blocos de
fundação onde se apoiam todos os pilares da torre, exigindo blocos de grandes
dimensões e diferentes formas, fugindo de blocos padrões utilizados em edifícios
convencionais, necessitando assim de modelos de análise e dimensionamento mais
refinados.
Neste contexto, apresenta-se no presente trabalho a análise estrutural do bloco de
fundação do Edifício Magnifique Tower, que está sendo construído em Balneário
Camboriú, SC.

1.1 Descrição do Edifício


O edifício é composto por um subsolo, o pavimento térreo, um mezanino, quatro
pavimentos de garagens, dois pavimentos de lazer, um pavimento tipo diferenciado e
trinta e oito pavimentos tipos, totalizando 48 pavimentos; sendo sua altura total de 148
metros.
A estrutura dos pisos tipos foi definida com lajes nervuradas preenchidas com blocos
cerâmicos e apoiadas em vigas periféricas e diretamente nos pilares internos. O núcleo
de rigidez está localizado na região da escada e dos elevadores e é composto por pilares
paredes.
Os pisos de garagem foram projetados com lajes nervuradas de formas plásticas e tipo
cogumelo, com vigas apenas no perímetro, no núcleo de rigidez e nas rampas.
Os demais pisos (subsolo, térreo, mezanino e 1º. pavimento de lazer) foram projetados
com lajes maciças e vigas, com exceção do 2º. pavimento de lazer e do tipo diferenciado
que foram projetados com lajes nervuradas como no tipo.
A figura 1 apresenta um corte esquemático do edifício e a forma do pavimento tipo.
Em função das propriedades geométricas e mecânicas do edifício em estudo, as cargas
de vento foram obtidas através de ensaios em túnel de vento e foi elaborado um estudo
dinâmico, tanto para as análises nos Estados Limites Últimos como para as análises nos
Estados Limites de Serviço.
Para os Estados Limites Últimos foram considerados 12 direções do vento (de 30 em 30
graus), que resultaram em 25 combinações de cargas. Estas combinações foram
definidas de acordo com a NBR 6118.

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(b)

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(a)
Figura 1 – (a) corte esquemático; (b) forma do pavimento tipo

2 Consideração da Interação Solo Estrutura (ISE)

2.1 Definição da Estrutura e Primeira Versão das Cargas dos Pilares ao


Nível da Fundação

A primeira versão da estrutura foi realizada anteriormente aos ensaios no túnel de vento.
Isto porque há necessidade do conhecimento e definição de certas propriedades
mecânicas da mesma, para que os ensaios possam ser realizados.
O cálculo estrutural foi realizado com o auxílio do programa CAD/TQS, no que é definido
como modelo VI (Modelo de pórtico espacial).
Após a conclusão desses ensaios e com a definição das cargas de vento, a estrutura do
edifício foi recalculada, considerando os apoios dos pilares na fundação como
perfeitamente engastados. Alguns elementos estruturais tiveram suas seções transversais
reajustadas para os esforços decorrentes do novo carregamento.
As cargas dos pilares ao nível da fundação, em sua primeira versão, assim como as
formas da estrutura do edifício foram encaminhadas para a empresa que iria executar o
projeto geotécnico de fundação.

2.2 Estudo da Fundação com o Modelo da Interação Solo Estrutura

A análise da fundação foi elaborada com um modelo que considera a estrutura, o bloco de
fundação da torre, as estacas e o solo, sendo este último considerado como um sólido
abrangendo uma região que envolve todas as estacas e vai além do perímetro do edifício.
Este modelo foi analisado com o auxílio do programa Midas GTS NX. Assim foram obtidos
os esforços e recalques em cada estaca e, conseqüentemente, pode-se definir o
comportamento das estacas, para que as mesmas fossem modeladas como molas, no
cálculo da estrutura.
Após essa modelagem, foram repassados à empresa responsável pelo projeto estrutural
os coeficientes de mola que representavam cada uma das estacas, além do projeto do
estaqueamento, com a definição das estacas, ou seja, tipo, diâmetro, comprimento e o
posicionamento, em planta, das estacas no bloco.
A figura 2 apresenta as partes que compõem o modelo no programa Midas GTS NX
(BORN, 2017) e a figura 3 apresenta o projeto do estaqueamento do bloco (BORN e
SALES, 2017).

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Figura 2 – Modelo desenvolvido para análise da fundação, considerando a interação solo estrutura
(solo+bloco e estaca+estrutura)

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Figura 3 – Projeto das estacas do bloco da torre
3 Definição do Bloco de Fundação da Torre

3.1 Modelo adotado nas análises


A geometria em planta do bloco foi definida pelo projeto geotécnico de fundação, assim
como o posicionamento das estacas, conforme mostrado na figura 3.
A altura do bloco foi estabelecida através de tentativas, com o objetivo de se ter um bloco
aproximadamente rígido e que pudesse ser dimensionado pelo método das bielas e
tirantes.
O bloco foi modelado por elementos finitos de placa espessa, os pilares com elementos
de barra e os pilares-paredes com elementos de casca. Já as estacas foram substituídas
por molas com as constantes de rigidez definidas no projeto geotécnico de fundação.
As análises foram realizadas no programa SAP 2000 – versão 18.
Do estudo dos resultados das análises, a altura do bloco ficou definida como sendo de
2,90 m. Com esta altura o bloco demonstrou ser aproximadamente rígido e as bielas mais
críticas ficaram inclinadas com ângulos superiores a 33,7º, limite inferior para o uso do
método das bielas e tirantes (FUSCO, 1995).
É importante observar que esta altura só foi possível graças ao posicionamento adotado
para as estacas em relação a cada pilar da torre.

3.2 Reanálise da estrutura do edifício considerando a interação solo


estrutura
Com a definição da altura do bloco, a etapa seguinte foi calcular os coeficientes de mola
relativos aos deslocamentos e rotações de cada pilar, em seu apoio no bloco.
Desta maneira, o cálculo da estrutura através do programa TQS foi refeito, considerando
os pilares apoiados em apoios elásticos (molas), com os coeficientes definidos
anteriormente.
Novos valores de carga dos pilares na fundação foram obtidos e encaminhados para o
engenheiro responsável pelo projeto geotécnico da fundação, para possíveis ajustes em
seu projeto.
Pelo fato de ter poucos ajustes, o projeto de fundação foi então concluído e assim, o
projeto estrutural pode ser desenvolvido para a versão executiva.

4 Análise do Bloco para os Vinte e Cinco Casos de Carregamento


Com as cargas definitivas, foi então feita a análise do bloco para os 25 casos de
carregamento, através do programa SAP2000 – v.18.
Na sequencia foram analisados os resultados das cargas nas estacas e momentos
fletores nos blocos para todos os casos de carregamento.
Com estas análises foi possível determinar as cargas máximas e mínimas em cada
estaca além da definição dos momentos fletores máximos e mínimos em cada direção.

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Apresentam-se nas figuras 4 a 7 os diagramas de momentos fletores para alguns casos
de carregamento.

Figura 4 – Momentos M11 – combinação 14 (tfm/m)

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Figura 5 – Momentos M11 – combinação 19 (tfm/m)

Figura 6 – Momentos M22 – combinação 19 (tfm/m)

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Figura 7 – Momentos M22 – combinação 24 (tfm/m)

5 Verificação das Tensões de Compressão nas Bielas mais Críticas


5.1 Verificação nas regiões de apoio das bielas nas estacas
As tensões de compressão resistentes de cálculo foram consideradas as indicadas na
NBR 6118/2014, item 22.3.2:

(Equação 1)
Sendo:
(Equação 2)

As estacas apresentam o diâmetro de 80 cm.


A configuração do encontro da biela com a estaca e o tirante está indicado na figura 8.

Figura 8 – Configuração da biela junto à estaca

Foram verificadas as bielas críticas de acordo com a tabela 1.


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Tabela 1 – Verificação das Bielas nas Estacas.
Biela Fek (tf) Fed (tf) Inclinação FeRd (tf)
crítica da biela (α)
1 421 707 36,15º 730
2 462 776 39,19º 838
3 499 838 48,00º 1159
4 459 771 36,90º 756
5 447 751 34,67º 679

Sendo na tabela 1:
Fek carga na estaca (valor característico)
Fed carga na estaca (valor de cálculo): Fed = 1,4x1,2x Fek
FeRd carga resistente de cálculo na estaca, correspondente à tensão de compressão
resistente de cálculo , na biela.

Analisando os resultados da tabela 1, observa-se que as cargas resistentes de cálculo


são superiores às cargas de cálculo nas estacas, nas bielas 1, 2 e 3; e nas outras duas
bielas, o valores são satisfatórios.

5.2 Verificação das bielas nas regiões de apoio nos pilares


As tensões de compressão resistentes de cálculo foram consideradas as indicadas na
NBR 6118/2014, item 22.3.2:

(Equação 3)

Sendo o mesmo da Equação 2.

A configuração do encontro da biela com a pilar esta indicado na figura 9.

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Figura 9 – Configuração da biela junto ao pilar
Foram verificadas as bielas críticas de acordo com a tabela 2.

Tabela 2 – Verificação das Bielas nos Pilares.


Biela Fpd (tf) Ap,amp (cm²) FpRd (tf)
crítica
1 707 11661,20 909
2 776 10008,92 895
3 838 7097,60 878
4 771 10472,00 845
5 751 11092,00 804

Sendo na tabela 2:
A carga de cálculo transmitida ao pilar por cada biela é a mesma carga na estaca
(Fpd= Fed)
Ap,amp é a área do pilar ampliada referente à biela em estudo.
FpRd carga resistente de cálculo na região do pilar, correspondente à tensão de
compressão resistente de cálculo , na biela.

Analisando os resultados da tabela 2, observa-se que as cargas resistentes de cálculo


são superiores às cargas de cálculo nos pilares, em todas as bielas, portanto as
condições de segurança estão satisfeitas.
A forma do bloco pode ser observada na figura 10.

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Figura 10 – Forma do bloco

6 Cálculo das armaduras do bloco

De acordo com a NBR6118/2014, item 17.3.5.2.1, a armadura mínima calculada é:

Md,mín= 534 tf/m


As,mín=64,6 cm²/m – 2 camadas de 1  32 c/24

6.1 Armaduras principais


As armaduras principais foram calculadas para momentos médios em cada direção, e nas
faces superiores e inferiores. Os resultados estão apresentados na tabela 3.
Tabela 3 – Armaduras principais.
Armaduras inferiores Armaduras superirores
Direção x Direção y Direção x Direção y
Md11= 563 tfm/m Md22= 893 tfm/m Md11= 522 tfm/m Md22= 329 tfm/m
Asx=68,1 cm²/m Asy=108,0cm²/m Asx= As,mín=64,6 cm²/m Asy= As,mín=64,6 cm²/m
2 camadas de 1  32 2 camadas de 1  32 2 camadas de 1  32 2 camadas de 1  32
c/23 c/13 c/24 c/24

6.2 Armadura de face


Adotou-se As =10,0 cm²/m –1  16 c/20

6.3 Armadura de suspensão de carga


As armaduras de suspensão foram calculadas conforme proposto por Leonhardt e
Mönning (1978).
Esta armadura é indicada nos espaços entre estacas, onde a distância livre entre estacas
for superior a três vezes o diâmetro delas.
O objetivo desta armadura é suspender as cargas das bielas secundárias que possam se
apoiar na face inferior do bloco, nos espaço entre estacas.
O cálculo da armadura de suspensão é feito em função da carga que a estaca absorve.
No projeto do bloco esta armadura resultou em ferros  16, na forma de “U”.
A planta das armaduras pode ser observada na figura 11.

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Figura 11 – Planta das armaduras

7 Conclusão
Com a análise efetuada, o bloco pode ser projetado com uma altura de 2,90 m. Com esta
altura, o mesmo consegue transmitir cargas para as estacas como se fosse
aproximadamente rígido.
Além disso, graças à eficiente distribuição das estacas, relativamente à posição de cada
pilar que se apoia no bloco, foi possível utilizar o Método das Bielas e Tirantes no projeto.
O trabalho em parceria entre o engenheiro responsável pelo projeto geotécnico de
fundação com o engenheiro responsável pelo projeto estrutural foi fundamental para o
bom resultado alcançado.

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Os recalques do bloco serão medidos nas diversas etapas de construção e, também,
após a conclusão da obra, durante um certo período. Com os resultados destas medições
poderão ser feitos estudos comparativos entre os recalques calculados e os obtidos no
local, o que servirá para calibração do processo de cálculo, visando o aprimoramento para
o uso nos próximos projetos.

8 Agradecimentos
Os autores agradecem ao engenheiro geotécnico Ricardo Born pela sua contribuição para
o desenvolvimento deste trabalho.

9 Referências
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6118: Projeto de
Estruturas de Concreto – Procedimento. Rio de Janeiro, 2014.

BORN, R. B. Soil Structure Interaction analysis of Skyscraper in Brazil. Midas Elite


Series - Webinar, 2017.

BORN, R. B.; SALES, L. F. P. Projeto Geotécnico de Fundação do Edifício Magnifique


Tower. BornSales Engenharia, 2017, Camboriú, SC.

BUTTIGNOL, T. E. T. Análise Computacional De Blocos Sobre Estacas. Dissertação


(Mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2011.

COMPUTERS AND STRUCTURES, Inc. SAP2000 18 Plus International, California,


USA, 2016.

FUSCO, P., B. Técnica de Armar as Estruturas de Concreto. São Paulo, Editora Pini
Ltda., 1995.

LEONHARDT, F.; MÖNNIG, E.. Construções de Concreto, vol. 3. Rio de Janeiro,


Editora Interciência Ltda., 1978.

TQS INFORMÁTICA Ltda. Sistemas CAD/TQS para Windows – versão 17, São Paulo,
2015.

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